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NEOLIBERAIS E INTERVENCIONISTAS: O EMBATE ECONÔMICO AO LONGO

DO TEMPO

1. INTRODUÇÃO

Trata-se de ensaio acadêmico que demonstrará o embate entre dois movimentos


econômicos, os liberais, representados recentemente pelos neoliberais, e os apoiados de um
maior intervencionismo do Estado na economia, típicos idealizadores dos pensamentos
Keynesiano.
Ao longo do artigo, serão destacados os argumentos favoráveis dos neoliberais,
assim como os motivos pelos quais tal modelo foi amplamente utilizado na atualidade pelos
países desenvolvidos e em desenvolvimento, como o Brasil, por exemplo, com a recente
edição da Medida Provisória nº 881/2019, que trata da Declaração de Direitos de Liberdade
Econômica.
Também serão destacados os pontos positivos da Escola Keynesiana, os quais se
confrontam com as tendências neoliberiais.
Por fim, é demonstrada a posição que o presente estudo defende, onde foram
utilizados argumentos saciais para defender uma intervenção estatal frente às ganâncias do
Setor Privado, dominado pelas grandes corporações.

2. FUNDAMENTAÇÃO

Sabemos que o Estado Democrático de Direito evoluiu desde a sua eclosão, no fim
do século XV, com o fim do absolutismo. Desde então, tem-se que as liberdades individuais,
dentre elas a liberdade econômica, avançam a cada dia, sempre se conformando com uma
menor ou maior intervenção do Estado, na forma de um ciclo. Segundo Bresser Pereira,
(1989), “a intervenção estatal é habitualmente adotada como critério para distinguir os
economistas conservadores (neoliberais, neoclássicos, monetaristas, defensores do mercado
livre) dos progressistas (Keynesianos, “liberais” no sentido norte-americano, estruturalistas,
neomarxistas)”. Aqueles, amplamente adotado nos países mais desenvolvidos, defendem um
livre mercado, longe das mãos do Estado. Já estes, que prevaleceram nos Estados em
desenvolvimento, defendem a intervenção do Estado, sobretudo para controlar a crescente
desigualdade social.

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Desta feita, esses dois movimentos econômicos antagônicos sempre se gradearam ao
longo do tempo. Visto que o fenômeno da maior ou menor intervenção estatal é cíclico, o
embate entre liberais e intervencionistas de longe apresentará um vencedor.
Na história recente do Brasil, há uma predominância da economia liberal, típica da
Escola de Chicago de Econômica, que rejeita a participação do Estado na formação do
mercado. Essa tendência é facilmente identificada através da recente publicação da Medida
Provisória nº 881/2019, que trata da Declaração de Direitos de Liberdade Econômica.
Dentre seus diversos dispositivos, se destaca o Art. 4º, inciso VI, cuja redação
apresento abaixo:
Art. 4º É dever da administração pública e dos demais entes que se vinculam ao
disposto nesta Medida Provisória, no exercício de regulamentação de norma pública
pertencente à legislação sobre a qual esta Medida Provisória versa, exceto se em
estrito cumprimento a previsão explícita em lei, evitar o abuso do poder regulatório
de maneira a, indevidamente:
VI - aumentar os custos de transação sem demonstração de benefícios;

Percebe-se que o dispositivo prega a intervenção estatal como exceção, pois o Estado
somente poderá intervir no domínio econômico quando apresentar benefícios para tanto.
Argumental que a livre iniciativa privada deve ser valorizada, pois presume a boa-fé na
atuação do particular. A intervenção estatal deve ser a mínima possível e, sempre que
possível, deve ocorrer em um momento posterior, com o fim de corrigir alguma
anormalidade. Também encontra argumentos no sistema burocrático estatal que acaba por
onerar o mercado econômico.
No entanto, a regulação do mercado pelo Estado é importante para garantir os
direitos mínimos das minorias, especialmente do consumidor. Já dizia Thomas Hobbes
(1651), “o homem é o lobo do homem”. Desta feita, ignorar a atuação Estatal em defesa dos
desfavorecidos é privilegiar a desigualdade social.
Assim, em que pese um ganho em eficiência e menor custo nas transações
comerciais que podem ocorrer numa economia liberal em relação à intervencionista, a
segurança jurídica das relações comerciais e o desenvolvimento social devem prevalecer em
um Estado Democrático de Direito.
Desta maneira, Gérard Duménil e Dominique Lévy (2013), citando o melhor
exemplo onde se preferiu a eficiência e lucratividade em detrimento da segurança das relações
jurídicas, abordaram o colapso no mercado imobiliário ocorrido nos EUA em 2008. Naquele
cenário, o mercado econômico financeiro, principalmente o imobiliário, prosperava a mercê
da regulação estatal, com suas próprias regras. Devido à falta de regras, os empréstimos eram

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concedidos sem garantia, formando fundos de investimento negociados em bolsa de valores.
Em razão do inadimplemento hipotecário, houve uma “quebra” nas bolsas de valores. Diante
da situação, contrariando à lógica neoliberal, o Estado teve que intervir, na tentativa de
garantir a segurança jurídica e estancar o crescimento do desemprego.
Ocorre que, a globalização esta intimamente ligara a uma orientação neoliberal
(CANO, 2000). Diante disso, houve uma preferência das economias mundiais adotarem uma
tendência neoliberal, principalmente depois das recomendações ocorridas no Consenso de
Washington, em 1989 (conselho de Washington citar autor), onde foi elaborado
recomendações de condutas a serem tomadas com o objetivo de combater as misérias das
nações subdesenvolvidas e gerar progresso econômico (BATISTA, 1994). Mas, ao mesmo
tempo em que promove o progresso econômico, o neoliberalismo como uma orientação
política reinante na década de 90, tanto nos países centrais, quanto nos periféricos, é um
péssimo distribuidor de riqueza e péssimo gerador de emprego Dowbor (1998).
Deixar o progresso econômico e social unicamente nas mãos dos principais atores
econômicos, como grandes corporações, é demasiadamente prejudicial ao desenvolvimento
social e diminuição das desigualdades sociais. É uma utopia pura pensar que o mercado é
auto-regulável, capaz de atingir, como decorrência natural da liberdade econômica, as
reformas sociais historicamente pleiteadas.
Com isso, é fácil perceber que a melhor forma econômica é permitir certa dose de
intervenção do Estado no mercado econômico, visando o desenvolvimento social, diminuição
das desigualdades e a correção dos equívocos provocados pela ganância das grandes
corporações. Mister se faz a intervenção estatal livre dos exageros burocráticos da atuação
estatal do passado, buscando, neste modelo, a participação da sociedade civil organizada
como fonte de consulta para a tomada das decisões.
Esse modelo foi observado no início dos anos 2000, através dos instrumentos da
participação popular nos conselhos econômicos. Tais experiências demonstraram que a
sociedade civil organizada pode qualificar a gestão e incidir nos processos decisórios,
principalmente econômicos, contribuindo para o desenvolvimento social e econômico (DOS
SANTOS e GUGLIANO, 2015).

3. CONCLUSÃO

O embate entre os modelos liberais, recentemente representados pelos neoliberais,


ferrenhos defensores da liberdade econômica, e os movimentos Keynesianos, que buscam, de

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certa forma, a intervenção estatal na regulamentação do mercado econômico, de longe
atingirá um fim.
De certa forma, há argumentos favoráveis para as políticas liberais, tais como o
excesso de burocracia estatal e a eficiência apresentada pelo Setor Privado. No entanto, deixar
para um segundo plano temas como educação, saúde, segurança e desigualdade social é negar
a essência do Estado Democrático de Direito.
Em que pese à forte tendência da globalização, que forçou a onda neoliberal,
especialmente através das pressões das nações desenvolvidas, as nações em desenvolvimento,
sobretudo na América Latina, devem pender mais para uma idéia intervencionista, pois
somente assim, através das mãos estatais regulando o mercado, as discrepâncias entre as
grandes corporações e as minorias serão reequilibradas, buscando o desenvolvimento
econômico sustentável.

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BIBLIOGRAFIA

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Latino-Americanos. In: BATISTA, Paulo Nogueira: pensando o Brasil: ensaios e palestras /
Paulo Nogueira Batista Jr, organizador. - Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2009.

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Direitos de Liberdade Econômica, estabelece garantias de livre mercado, análise de impacto
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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/Mpv/mpv881.htm>. Acesso em:
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CANO, W. Soberania e Política Econômica na América Latina. São Paulo. Editora UNESP,
2000.

DOWBOR, L. Capitalismo: novas dinâmicas, outros conceitos. Revista São Paulo em


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participativas no governo brasileiro: o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. In:
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http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782015000400003. Acesso
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DUMÉNIL, Gérard; LÉVY, Dominique. A Crise do Neoliberaismo. São Paulo: Boitempo,


2014.

HOBBES, Thomas. Leviatã. Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil.


(Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva). 3. ed. São Paulo:
AbrilCultural, 1983. Col. Os Pensadores.