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PANTALEÃO PATINHO OU O CAMINHO DO MAR

O mar estava calmo como um espelho. O marujo Pantaleão Patinho, de Miragaia, olhava de cima da
amurada para o plaino azul e pensava que, apesar de divididas assim as águas de cima e de baixo, o
mundo era um só, cerúleo e côncavo. Nele estava contido o tempo, como uma canção redonda numa caixa
de música.
Em alto mar, os acordes eram dados pelo vento, que ora soprava rijo ora de feição. Agora navegavam
à bolina, por ser a viração contrária à rota traçada. E a proa ia cortando a imensidão, riscando nela uma
divisória que reproduzia a do Génesis, quando Deus cindira as águas. Mas o sulco do navio era uma
separação horizontal e móvel, dividindo o mundo entre estibordo e bombordo, entre o mal e o bem. O
marujo Pantaleão não tinha propriamente a arte da metáfora, mas intuía sem esforço esta simbologia
cósmica. A dualidade do universo é a mensagem aberta do mar. Quando subia à gávea para ver mais longe,
essa dicotomia ainda lhe parecia mais clara. No formigueiro ruidoso dos homens, com seus cantos e seus
contos, seus jogos e jogadas, seus tratos e maus-tratos, era evidente que as ações de um e de outro
acarretavam sempre consequências que, por sua vez, se repercutiam naqueles que as tinham perpetrado,
como ondas gerando outras ondas, anterógradas e retrógradas por causa da finitude da Terra. Se habitasse
o infinito, o homem poderia exercer o seu poder sem quaisquer interferências, os seus atos expandir-se-
iam eternamente e nada o afetaria. Mas, dada a sua finitude, os seres eram sempre apanhados nos laços
das suas próprias condutas.
Por vezes, nas suas cogitações, Pantaleão Patinho interrogava-se se haveria simetria nessa dinâmica
de ação-reação, isto é, se o que os homens faziam uns aos outros lhes era devolvido por igual medida. Era
a velha questão da justiça e da retaliação. Quantos tratados, que ele nunca lera, não debateram já o tema!
Quantos casos de crime e castigo não tinham sido julgados na barra dos tribunais porque o homem não
confiava nas leis da natureza e queria sentenciar segundo as suas próprias leis. O ser humano é um bicho
desconfiado e revoltoso, sedento de uma autodeterminação que não cabe no cosmos. Percorrendo assim
os mares, o marujo de Miragaia ia também em busca de uma resposta para esta incógnita, a de saber se
o universo se rege por uma ordem retributiva. Via os homens a bordo do navio da mesma forma que
contemplava as nuvens ou as estrelas, procurando compreender como se atraíam uns aos outros, como
as suas boas e más tenções se combinavam num jogo de cartas, num ato de sodomia ou numa manobra
ao sol-posto, resultando em boa ou em má sorte. Depois de maus vinhos, costumavam vir as rixas e as
cutiladas, mas também amizades súbitas, perdões inesperados. Na pior das intempéries, um cobardolas
revelava-se inopinadamente um grande herói e parecia que aquela tempestade não servira senão o
propósito de proporcionar ao grumete de Massarelos o seu momento de glória. Mas também podia
acontecer que um mestre muito estimado e sagaz sucumbisse ao tifo sem ter chegado a ver a terra
prometida. E quanto aos corsários e capitães de maus fígados que ele já servira, como João de Mondragão,
que matavam e pilhavam e continuavam a fazer carreira sem que a mão da justiça se abatesse sobre eles?
Estar-lhes-ia reservado ainda um papel chave na História que justificava a sua longevidade? Havia santos
de breves vidas e facínoras de longa data. Que Parca misteriosa decidia o seu destino? Em que momento
e com que bitola se fazia a contagem dos pecados e se determinava o merecimento das almas? À hora da
morte? E se houvesse outras vidas, como acreditavam os brâmanes da Índia, viriam elas saldar contas
antigas?
Certas noites, na sua tarimba, entre o repouso e a inquietação de um dia de eventos, Pantaleão
imaginava-se no cimo do mastro da gávea com os pratos de uma balança virtual pendendo de cada braço,
pesando o tempo, pesando a sua própria experiência de vida. Voltava a Miragaia, à sua infância e ao regaço
materno, e perguntava-se se teria sido a mãe que lhe tivera maior amor ou ele, o filho, que mais a adorara,
esperando tudo dela numa idade em que esperar é tudo. Quem poderia saber? Mesmo que um dia, no seu
regresso, pousasse de novo a cabeça no seu colo e lhe perguntasse, poderia ela responder a verdade ou
as suas palavras já não espelhavam o que fora mas somente o que era: o coração de uma mãe abandonada
por um filho que se dispusera a correr mundo? E quanto aos irmãos, cada um com sua vida, uns mais
próximos, outros menos, acordando nele simpatias e revoltas que lembravam as velhas brincadeiras de
meninos? O marujo pasmava de pensar que aquelas quatro pessoas, que tinham sido o seu mundo fechado,
moravam em paragens distantes e eram seres estranhos como antípodas, embora continuassem a ser do
seu sangue. Por uma courela de terra, por uma bolsa de valores talvez se esgatanhassem e atraiçoassem
como nos antigos jogos de crianças, agora com a agravante de terem um mundo de permeio. Então o que
era isso do sangue, um líquido tão fluido como o mar, com seus leviatãs também, rubros e medonhos, que
geravam tantas ondas e depredações? Onde estavam a justiça e a reciprocidade no seio familiar?
Ali entre marinheiros vivia como entre lobos do mar, alcateia de intrigas e alianças torpes, cujo fiel
oscilava mais do que a gávea na tempestade. Os que morriam de doença ou de acidente, não compreendia
Pantaleão se o mereciam como castigo ou como salvação de um mundo cão, em que o sofrimento
sobrepujava o prazer. Ou estariam presentes em medidas iguais? Ah, cômputo de vida tão difícil de
estabelecer! Para onde pendes mais, balança do coração? Para a esquerda ou para a direita, para o bem
ou para o mal? A satisfação é tão volátil, no amor, por exemplo, e os tédios e os ajustes de contas tão
constantes. Por um impulso de gozo carnal, às vezes uma vida de sacrifícios e de privações.
Então onde estava a justiça? Os homens, pensava Pantaleão Patinho, têm uma certa tendência para
se verem mais como injustiçados do que como injustos. Será isso fruto da sua ignorância e inconsciência,
por não acharem meios de pesar devidamente os atos da sua vida? Haverá uma divina lei que sempre
equilibre, mais cedo ou mais tarde, os dois pratos da balança? Talvez, pensava o marujo, a grande
sabedoria do mar seja o seu sinuoso caminho para, fugindo a esta egoísta tendência, conseguir ver-se ao
espelho nas vicissitudes da vida. Caminho cheio de perigos, mas cheio também de descobertas.

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