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Estado Puerperal

Luiz Henrique Mazzonetto Mestieri1 , Renata Ipólito Meneguette1, Cícero Meneguette2

INTRODUÇÃO
1. Pós-parto imediato
O infanticídio - “lato sensu” - entendido como o Encontra-se regressão manifesta do epitélio va-
assassinato de crianças nos primeiros anos de vida, ginal, idêntico nas lactantes e nas que não amamen-
é praticado em todos os continentes e por pessoas tam, tenha a secreção sido espontânea ou inibida no
com diferentes níveis de complexidade cultural des- ultimo casos por fortes doses de estrogênio.
de a antiguidade. Existe ampla evidência histórica
para documentar a impressionante propensão de al- 2. Pós-parto Tardio
guns pais a matarem seus próprios filhos sob a pres- Cumpre estatuir distinção entre a presença do
são de condições estressantes. fenômeno galactogênico e sua ausência, natural ou
O relato bíblico no livro do Gênesis a respeito artificial, subordinados, todos os eventos, a essa
do sacrifício de Isaac, filho de Abraão é uma das preliminar separação. Durante a lactação, regride
primeiras referências históricas. No Império Roma- a genitália até as proximidades do 25º dia, com o
no e entre algumas tribos bárbaras o infanticídio era epitélio reduzido a células pequenas e estratificado
uma prática aceita. Como a oferta de comida era pe- em poucas camadas. Nos últimos 20 dias do período
quena, uma das formas de se combater a fome era poe-se o epitélio a proliferar e se torna muitas ve-
restringir o número de crianças. Ainda se a criança zes mais espesso, com as camadas superficiais em
fosse malformada, ou mesmo se o pai tivesse algum plena maturação, à semelhança do sucedido na fase
outro motivo, a criança seria abandonada para mor- proliferativa estrogênica, e indicando a retomada da
rer por falta de cuidados básicos. Se uma criança menstruação. Se foi a lactação inibida,encontra-se
não era aceita era como se ela não tivesse nascido. atrofia imediata, menos nítida, e a proliferação epi-
Assim o infanticídio não era encarado como um as- telial surge ao 10º dia; na parida que não amamentou
sassinato. espontaneamente, é a regeneração do epitélio mais
Estes antecedentes históricos revelam alguns as- acelerada que durante a lactação embora deferida,
pectos importantes do infanticídio, e transportam ao quando comparada à das puérperas que tiveram a
tempo atual algumas de suas causas latentes. secreção sustada pelos estrogênios.
O estado puerperal é uma perturbação psicológi-
ca que a mãe sofre entre o deslocamento e expulsão 3. Pós-parto Remoto
da placenta e à volta do organismo materno às con- O epitélio da vagina se transforma diversamente
dições normais. se é ou não a paciente nutriz. Nas lactantes, a dimi-
É considerado um período cronologicamente nuição de atividade estrogênica impõe a parada e o
variável, de âmbito impreciso. Tem como início o retrocesso do amadurecimento celular; nas que não
momento da cessação definitiva da atividade endó- aleitam, ao revés, a evolução da mucosa é compará-
crina do ovo, ocorrido após a dequitadura e a expul- vel à do ciclo menstrual fisiológico.
são da placenta, ou em segmento da morte do ovo, A primeira e a segunda horas após o delivramen-
indefinidamente retido. O puerpério tem seu térmi- to devem ser passadas no centro obstétrico ou sala
no imprevisto, pois enquanto a mulher amamentar de pós-parto, pois neste período podem ocorrer he-
ela estará sofrendo modificações da gestação (lac- morragias. Corresponde ao chamado quarto perío-
tância), não retornando seus ciclos menstruais com- do do parto. Passado este período inicial, estando
pletamente à normalidade. Na verdade não há uma equilibrada hemodinamicamente e formado o globo
comprovação científica de alteração real da capaci- de segurança de Pinard (útero ao nível da cicatriz
dade de discernimento, sendo apenas uma ficção ju- umbilical e firmemente contraído), poderá ser enca-
rídica para apenar menos severamente o homicídio minhada ao alojamento conjunto, após serem seus
praticado nessas condições. sinais vitais avaliados e anotados.
Pode-se didaticamente dividir o puerpério em:
1.Imediato ⇒ 1º ao 10º dia Rev. Fac. Ciênc. Méd. Sorocaba, v.7, n.1. p. 5 - 10, 2005
1 - Acadêmico(a) do curso de Medicina - CCMB/PUC-SP
2.Tardio ⇒ 11º ao 42º dia
2 - Professor do Departamento de Morfologia da Faculdade de
3.Remoto ⇒ a partir do 43º dia Medicina de Catanduva - SP
Recebido em 14/03/2005. Aceito para publicação em 18/04/2005.

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ATUALIZAÇÃO
As transformações que se iniciam no puerpério, representam uma fase crítica e de extrema necessi-
com a finalidade de restabelecer o organismo da mu- dade de vigilância médica.
lher à situação não-gravídica, ocorrem não somente O padrão respiratório é restabelecido, passando
nos aspectos endócrino e genital, mas no seu todo. o diafragma a exercer funções que haviam sido li-
A mulher neste momento, como em todos os outros, mitadas pelo aumento do volume abdominal. A vol-
deve ser vista como um ser integral, não excluindo ta das vísceras abdominais à sua situação original,
seu componente psíquico. além da descompressão do estômago, promove um
Ao examinar uma mulher no puerpério, deve-se melhor esvaziamento gástrico. Os esforços despren-
inicialmente, se sua situação clínica permitir, fazer didos no período expulsivo agravam as condições
uma breve avaliação do seu estado psíquico, e en- de hemorróidas já existentes. Esta situação causa
tender o que representa para ela a chegada de uma desconforto e impede o bom esvaziamento intesti-
nova criança. O estabelecimento de uma adequada nal. Nas mulheres que partiram por cesárea, soma-
empatia entre o examinador e sua cliente proporcio- se ainda o íleo paralítico pela manipulação da cavi-
nará uma melhor compreensão dos sintomas e si- dade abdominal.
nais apresentados. É comum que nestes momentos Traumas podem ocorrer à uretra, ocasionando
a mulher experimente sentimentos contraditórios e desconforto à micção e até mesmo retenção uriná-
sinta-se insegura. Cabe à equipe de saúde estar dis- ria, situação atenuada pelo aumento da capacidade
ponível para perceber a necessidade de cada mulher vesical que ocorre normalmente neste período. A
de ser ouvida com a devida atenção. puérpera pode experimentar nos primeiros dias pós-
ALTERAÇÕES ANATÔMICAS E FISIOLÓGICAS NO parto um aumento do volume urinário, pela redistri-
PUERPÉRIO buição dos líquidos corporais.
A leucocitose no puerpério é esperada, poden-
O estado geral, no pós-parto é decorrência das
do atingir 20.000 leucócitos/mm3. A quantidade de
condições da gravidez e da parturição. Havida essa,
plaquetas está aumentada nas primeiras semanas,
o comportamento da paciente revela alívio e tran-
assim como o nível de fibrinogênio, razão para se
qüilidade, ao lado manifesta exaustão física que,
preocupar com a imobilização prolongada no leito,
não raro, conduz prontamente ao sono.
situação que facilita o aparecimento de complica-
A puérpera pode apresentar ligeiro aumento da
ções tromboembólicas.
temperatura axilar (36,8ºC-37,9ºC) nas primeiras 24
O útero atinge a cicatriz umbilical após o parto e
horas, sem necessariamente ter um quadro infeccio-
posteriormente regride em torno de um centímetro
so instalado. Podem ocorrer calafrios, logo após o
ao dia, de forma irregular. A recuperação do endo-
parto, associados tanto a hipotermia como a tem-
métrio inicia-se a partir do 25º pós-parto. O colo do
peraturas subfebris. São os tremores atribuídos por
útero apresenta-se edemaciado e pode apresentar la-
alguns eventos de fundo nervoso, manifestações de
cerações, e se fechará em torno do 10º dia. A vagina
bacteremia por absorção maciça de germes ou pro-
apresenta-se edemaciada, congesta e atrófica, ini-
dutos tóxicos pela ferida placentária.
ciando-se sua recuperação no 25º dia (esta recupe-
Dores ou paresias nos membros inferiores e na
ração é mais tardia nas mulheres que amamentam).
região sacra são anotadas, nos primeiros dias do
No sistema endócrino, ocorre desaparecimento
puerpério, e originárias, de compressões regionais,
rápido dos níveis de gonadotrofina coriônica, en-
vícios de postura que as mesas de parir provocam;
quanto as hipofisárias passam a excretar-se pela uri-
sensação de queimadura na vulva e na região peri-
na em níveis muito elevados, superiores para mu-
neal, parestesias, e dor anal nas pacientes de hemor-
lheres não-gravídicas. Os estrogênios se apresentam
róidas.
em queda súbita, ligada ao termino da atividade pla-
A sede é manifestação compreensível em face da
centária. Porém os níveis fisiológicos são mantidos,
desidratação e das perdas sanguíneas experimenta-
sugerindo atividade ovariana.
das durante o parto.
O pregnandiol apresenta comportamento oscila-
O sistema cardiovascular experimenta, nas pri-
tório. Ocorre diminuição dos esteróides do córtex
meiras horas pós-parto, um aumento do volume
renal, mantendo uma proporcionalidade entre os nú-
circulante, que pode se traduzir pela presença de
meros antes e depois do parto. A função do córtex
sopro sistólico de hiperfluxo. Nas puérperas com
supra-renal é independente do metabolismo da pla-
cardiopatia, em especial naquelas que apresentam
centa. Os níveis estão exacerbados durante a gravi-
comprometimento da válvula mitral, o período ex-
dez sem modificações instantâneas, volta ao normal
pulsivo e as primeiras horas após o delivramento

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Estado Puerperal

não-gravídico. mática influência do estado puerperal no psiquismo


A pele perde seu aspecto acetinado e suculento da parturiente.
no decurso da primeira semana. Os edemas desapa- ETIOPATOGENIA E PERÍCIA MÉDICO-LEGAL
recem em 24 horas. As estriações perdem a cor ver-
Como apresentado no conceito, o infanticídio se
melho-arroxeada e ficam pálidas, transformando-se
dá em período de puerpério imediato. O puerpério
dentro de duas semanas em branco-nacaradas.
é o período de tempo entre a dequitação placentá-
A perda, de peso logo depois do parto varia entre
ria e o retorno do organismo materno às condições
5,35 Kg e 5,8 Kg, havendo queda adicional de 0,85
pré-gravídicas, tendo duração média de 6 semanas.
Kg a 2,30 Kg nos primeiros dez dias do puerpério.
Já o chamado estado puerperal seria uma alteração
Entre os fenômenos de ordem psíquica na pri-
temporária em mulher previamente sã, com colapso
míparas completa-se importante modificação da
do senso moral e diminuição da capacidade de en-
personalidade, iniciada na gravidez. As alterações
tendimento seguida de liberação de instintos, culmi-
psicológicas são individuais – psicoses puerperais
nando com a agressão ao próprio filho.
– desencadeadas por eventos do ciclo gestatório.
A discussão que se impõe é se tal estado puerpe-
LEGISLAÇÃO
ral realmente poderia acontecer ou como diz Fran-
O crime de infanticídio encontra-se descrito no ça, trata-se de mera ficção jurídica. O mesmo autor
art. 123 do Código Penal (CP): “Matar, sob a influ- afirma, textualmente: “nada mais fantasioso que o
ência do estado puerperal, o próprio filho, durante o chamado estado puerperal, pois nem sequer tem um
parto ou logo após.” limite de duração definido (...) o que acontece no
A legislação penal brasileira, através dos estatu- infanticídio é que numa gravidez ilegítima, mantida
tos repressivos de 1830, 1890 e 1940, tem concei- em sobressaltos e cuidadosa reserva, pensa a mu-
tuado o crime de infanticídio de formas diversas. O lher dia e noite em como se livrar do fruto de suas
Código Penal de 1890 definia o crime com a seguin- relações clandestinas (...) e como maneira de solu-
te proposição: “Matar recém-nascido, isto é infan- cionarem seu problema praticam o crime devida-
te, nos sete primeiros dias de seu nascimento, quer mente premeditado em todas as suas linhas, tendo
empregando meios diretos e ativos, quer recusando o cuidado, entre outras coisas, de esconder o filho
à vítima os cuidados necessários à manutenção da morto, dissimular o parto, tudo isso com frieza de
vida e a impedir a sua morte”. O parágrafo único co- cálculo, ausência de emoção, e, às vezes, requintes
minava pena mais branda “se o crime for perpetrado de crueldade”.
pela mãe, para ocultar a desonra própria”. Já para Maranhão, o chamado estado puerperal
O Código Penal de 1940 adotou critério diverso, constitui uma situação sui generis, pois não se trata
ao estabelecer em seu artigo 123: “Matar, sob a in- de uma alienação, nem de uma semi-alienação, mas
fluência do estado puerperal, o próprio filho, duran- também não se pode dizer que seja uma situação
te ou logo após o parto”. normal. Seria “um estado transitório, incompleto,
A legislação vigente adotou como atenuante no caracterizado por defeituosa atenção, deficiente
crime de infanticídio o conceito biopsíquico do “es- senso-percepção e que confunde o objetivo com o
tado puerperal” , como configurado na exposição de subjetivo”. E ainda, segundo Alcântara “é uma ob-
motivos do Código Penal, que justifica o infanticí- nubilação mental seguinte ao desprendimento fetal
dio como delictum exceptum, praticado pela partu- que só se manifesta na parturiente que não rece-
riente sob influência daquele tal estado puerperal. be assistência, conforto ou solidariedade, e é um
Assim, como nos lembra Damásio de Jesus, trata-se quadro mais jurídico do que médico, embora haja
de crime próprio, pois só pode ser cometido pela algumas explicações etiopatogênicas”.
mãe contra o próprio filho. A doutrina médico-legal tradicional, como se vê,
Percebe-se portanto, que houve alteração radical não é consensual. E essa tem seguido ainda um ca-
do conceito do crime, quando em vez de, segundo minho paralelo à Psiquiatria, especialidade médica
a lei anterior, adotar o sistema psicológico, fundado em que dever-se-ia ancorar. O fato é que o infanticí-
no motivo de honra (honoris causa), que é o temor dio tem sido negligenciado como campo de estudo,
à vergonha da maternidade ilegítima, optou o legis- desde o trabalho pioneiro de Resnick, há cerca de 30
lador pelo sistema biopsíquico ou fisiopsicológico, anos. Relatos de caso bem documentados de infan-
apoiado no estado puerperal. Esta orientação tem ticídio, raros, descrevem um quadro de negação da
merecido críticas e é motivo de controvérsia, muito gestação, sintomas dissociativos ou mesmo psicose.
por se entender não comprovada a suposta proble- Todavia, não há muitos estudos de investigação sis-

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ATUALIZAÇÃO
temática usando critérios Tabela 1. Síndromes de Humor Pós-Parto
de diagnóstico contem-
porâneos. Síndrome Sintomas Clínicos Curso
Mendlowicz e cols.
Melancolia da • Choro 3-10 Dias após o parto
avaliaram 53 casos de maternidade • Irritabilidade
infanticídio no Rio de • Euforia
Janeiro, observando
que 88,2% das mulhe- Depressão • Melancolia Duração: 6-9 meses
pós-parto • Neurastenia
res eram solteiras, usu- • Insônia
almente mantinham a
gravidez em segredo Psicose • Transtornos do humor Duração: 2-3 meses
(94,1%) e tiveram par- pós-parto • Mania
• Ausência de sintomas esquizofrêni-
to não assistido (100%), cos essenciais
além de maior neces- • Delirium, confusão
sidade de atendimento
psiquiátrico. Spinelli em
uma investigação sistemática de 16 casos de infanti- ciativa. A perturbação dura pelo menos dois dias e
cídio nos Estados Unidos da América observou que não persiste além de quatro semanas após o evento
todas as mulheres apresentavam negação da gesta- traumático. Os sintomas não se devem aos efeitos
ção e parto não assistido e em segredo. Nesse mes- fisiológicos diretos de uma substância (droga de
mo estudo, entrevistas psiquiátricas revelaram que abuso, medicamento), ou a uma condição médica
todas as mulheres relatavam que “se visualizaram” geral; não são mais bem explicados por um Trans-
durante o parto. Doze (75%) delas experimentaram torno Psicótico Breve; nem representam uma mera
alucinações dissociativas com comentários críticos exacerbação de um transtorno mental preexistente.
internos e vozes argumentativas. Catorze (87,5%) Constata-se, dessa forma, que o sintoma carac-
experimentaram breve amnésia. terístico desse transtorno é uma alteração súbita e
É fato biológico bem estabelecido que a par- geralmente temporária nas funções normalmente
turição desencadeia uma súbita queda em níveis integradas de consciência, identidade e comporta-
hormonais e alterações em bioquímicas no sistema mento motor, de modo que uma ou duas dessas dei-
nervoso central. A disfunção ocorreria no eixo Hi- xa de ocorrer em harmonia com as outras. Os relatos
potálamo-Hipófise-Ovariano, e promoveria estímu- de Mendlowicz e Spinelli supracitados demonstram
los psíquicos com subseqüente alteração emocional. de forma taxativa a presença de alguns destes sin-
Em situações especiais, como nas gestações condu- tomas nas autoras de infanticídio. A amnésia, as
zidas em segredo, não assistidas e com parto em alucinações auditivas e o transtorno de despersona-
condições extremas, uma resposta típica de trans- lização são quase que regra. No transtorno de des-
torno dissociativo da personalidade e com desinte- personalização ocorre uma alteração na percepção
gração temporária do ego poderiam ocorrer. de si mesmo, a um grau em que o senso da própria
A Associação Americana de Psiquiatria, em seu realidade é temporariamente perdido. Os pacientes
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos com transtorno de despersonalização podem sentir-
Mentais (DSM-IV), estabelece os critérios diag- se mecânicos, autômatos, que estão em um sonho,
nósticos para uma entidade nosológica denominada ou distanciados do próprio corpo.
Transtorno de Estresse Agudo (TEA). A caracterís- Diante dessa evidente superposição de caracte-
tica essencial do TEA é o desenvolvimento de uma rísticas epidemiológicas e clínicas, poder-se-ia ad-
ansiedade característica, sintomas dissociativos e mitir que o chamado “estado puerperal” oriundo
outros, que ocorrem dentro de até um mês após a de nosso Código Penal, trata-se de uma modalidade
exposição a um agente estressor externo. Enquanto do “Transtorno de Estresse Agudo” estabelecido na
vivencia o evento traumático ou logo após, o indi- DSM-IV da Academia Americana de Psiquiatria.
víduo tem pelo menos três dos seguintes sintomas Em decorrência desse fato a perícia médico-legal
dissociativos: um sentimento subjetivo de anestesia; disporia de elementos para a comprovação material
distanciamento ou ausência de resposta emocional; do estado puerperal. Contudo, a curta duração dos
redução da consciência sobre aquilo que o cerca; sintomas, o caráter transitório dessa perturbação, e
desrealização; despersonalização ou amnésia disso- a ausência de distúrbio mental prévio, fazem des-

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Estado Puerperal

se diagnóstico pericial um verdadeiro desafio, pois Melancolia da Maternidade


muitas vezes, ao realizar o exame, os sintomas já Não é considerada um transtorno; não prejudica
desvaneceram. Ao examinar uma puérpera o legista o funcionamento e ocorre na maioria das mulheres.
nem sempre disporá de elementos para concluir pela Ë caracterizada por choro, irritabilidade, mudanças
realidade de um estado puerperal. rápidas de humor e até mesmo euforia, geralmente
SÍNDROMES PSIQUIÁTRICAS PÓS-PARTO aparece após o terceiro dia pós-parto e se resolve
espontaneamente em uma semana.
São doenças mentais que ocorrem primariamente
CONCLUSÃO
como transtornos do humor psicóticos e não psicóti-
cos. Tem início no primeiro ano após o nascimento A mudança no conceito do crime de infanticídio
da criança. Possuem muitas qualidades únicas que contextualizada no Código Penal de 1940 transferiu
as distinguem de outras doenças psiquiátricas. Entre à perícia médico-legal a responsabilidade pela com-
as síndromes psiquiátricas pós-parto destacam-se: provação material desse delito. A definição e a exis-
Depressão pós-parto tência do chamado estado puerperal têm sido moti-
Obstetras precisam estar familiarizados com o vo de controvérsia, tanto do ponto de vista jurídico
diagnóstico e o tratamento da depressão pós-parto quanto médico-legal. Os recentes avanços científi-
(DPP), já que eles são os primeiros médicos a entrar cos no campo da psicobiologia, com maior escla-
em contato com a maioria das mulheres deprimidas recimento da dinâmica dos eventos fisiológicos no
em pós-parto. DPP é particularmente crítica para se período pós-parto contribuem decisivamente para
tratar, já que existe um impacto importante para a o estabelecimento de novos critérios diagnósticos.
mãe, a criança e a família, se não for tratada. Mé- A categorização dos distúrbios mentais transitórios
dicos devem estar aptos a identificar os fatores de em resposta a eventos traumáticos como o Trans-
risco para depressão em mulheres pós-parto. Ques- torno de Estresse Agudo (DSM-IV) e os estudos
tionários podem ser usados para detectar sintomas sistemáticos de casos de infanticídio possibilitam
depressivos em novas mães, especialmente no am- uma nova visão sobre tão difícil situação. Apesar
biente não psiquiátrico, para facilitar o diagnóstico desses avanços, a avaliação pericial ainda reveste-se
de DPP. Apesar dos sintomas de DPP não serem sig- de grande dificuldade, graças à transitoriedade dos
nificativamente diferentes de um episódio depressi- sintomas nesses transtornos.
vo comum, os médicos precisam notar que os sinais Sob o ponto de vista jurídico, a condição de es-
neurovegetativos da depressão podem ser confundi- tado puerperal ou Transtorno de Estresse Agudo, le-
dos com mudanças fisiológicas normais associadas vanta uma outra questão. Frente a esses elementos
ao período puerperal. Assumir o risco de suicídio todos, qual a capacidade de imputação da examinan-
é essencial, apesar deste período ter baixo risco de da? Não será plena, por certo. Uma personalidade
auto-agressão. O encaminhamento a um psiquiatra é transitoriamente desarmônica, reagindo a emoções
obrigatório nos casos em que há suspeita de suicídio primárias e tendo uma acentuada deficiência de crí-
ou infanticídio. A presença de sintomas maníacos tica, não poderá ser completamente responsável por
ou psicóticos também implica em encaminhamento seu ou seus delitos. Se a emoção sobrepuja a crítica,
ao psiquiatra, já que eles podem ser uma manifes- se o impulso primário se efetiva sem a contenção
tação de psicose pós-parto ou transtorno bipolar. A de fatores éticos; se a impulsividade é evidente,
DPP deve ser tratada como qualquer outro episódio como se falar em plena capacidade de imputação?
depressivo importante. A DDP não-tratada tem um Concluir-se-ia ser ela inexistente? Se o agente não
impacto significante na criança, incluindo efeitos praticou o delito em estado crepuscular, se ele tem
adversos no desenvolvimento cognitivo, emocional do mesmo memória ou noção de certo modo acei-
e social da criança, além de uma união desfavorável táveis; se a privação de sentidos não foi integral,
entre a mãe e a criança. restará uma parcela de responsabilidade por parte
Psicose Pós Parto do agente criminoso. Trata-se, então, de uma delin-
Desenvolve-se entre o terceiro e o décimo quarto qüente semi-imputável, e que deve ser penalizada
dia pós-parto. O transtorno começa com confusão, pela ordem jurídica.
despersonalização, e insônia, passando para deli- A autoridade judiciária ao interpelar o perito,
rium com alucinações proeminentes e delírios tran- com respeito à suposta autora de infanticídio, geral-
sitórios. Depois de semanas ou meses, o transtorno mente elabora o seguinte quesito: Ela encontrava-
pode resolver-se. se em estado puerperal quando cometeu o delito ?
Como podemos concluir da discussão apresentada,

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ATUALIZAÇÃO
ao perito caberá duas possibilidades de resposta, a Nesses casos, acarreta uma redução da capacidade
saber: sim, quando ficar patente o diagnóstico psi- penal, sendo uma das espécies de semi-imputabili-
codinâmico de Transtorno de Estresse Agudo, ou dade previstas no art. 26, parágrafo único do CP.
sem elementos quando da impossibilidade de se es- Trata-se de crime próprio, uma vez que somente
tabelecer esse diagnóstico. a mãe pode ser sujeito ativo principal. Essa qualifi-
Para a caracterização do infanticídio é necessá- cação doutrinária, porém, não afasta a possibilidade
rio que a conduta matar seja durante o parto, ou seja, da concorrência delituosa.
a partir da dilatação do colo do útero até a expulsão A solução, entretanto, nunca foi pacífica. O cen-
da placenta ou, logo após. Para o perito legista o tro da discussão situa-se na questão da comunicabi-
logo após é quando a criança ainda está coberta de lidade da elementar “influência do estado puerpe-
sangue e o cordão umbilical ligado à placenta. Para ral”, nos termos do art. 30 (antigo art. 26 do CP):
o jurista este conceito é mitigado para ampliar os “Não se comunicam as circunstâncias e as condi-
casos de incidência do privilégio. ções de caráter pessoal, salvo quando elementares
Desta forma, por questões de política criminal, do crime”. Transmitindo-se o elemento típico ao
previu-se o tipo penal do infanticídio, que nada mais terceiro, responde por infanticídio; caso contrário,
é do que um homicídio privilegiado. O preceito pri- por homicídio.
mário consistindo em matar o próprio filho, sob BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA
influência do estado puerperal, durante o parto ou
1. Alcântara HR. Perícia médica judicial. Rio de Janeiro: Gua-
logo após, e estando previsto no art. 123 do CP com nabara; 1982. p. 115-6.
pena de detenção de dois a seis anos. Por outro lado, 2. Calmon BS. Breves anotações sobre o infanticídio. [on line]
o crime de homicídio, previsto no art. 121 do CP, a Disponível em: < http://www.policiacivil.rj.gov.br/artigos/AR-
pena com reclusão de seis a vinte anos a conduta de TIGOS/Infanticidio.htm > (14 dez 2004).
matar alguém, ou seja, pune mais severamente. 3. DSM-IV manual diagnóstico e estatístico de transtornos
mentais. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 1995. p.409-11.
Um dos exames periciais utilizados para dirimir
4. França GV. Medicina legal. 5ªed. Rio de Janeiro: Guanabara
a dúvida entre o nascimento com vida e posterior
Koogan; 1998. p.240.
morte do recém-nascido e, a “morte” dentro do útero
5. Guimarães R. O crime de infanticídio e a perícia médico-le-
é a Docimásia Pulmonar Hidroestática de Galeno. gal. Uma análise crítica. [on line] Disponível em < http://www1.
Este exame consiste, basicamente, em colocar jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=4066 > (14 dez 2004).
em um recipiente com água o pulmão do feto ou 6. Jesus D. Nélson Hungria e o concurso de pessoas no crime de
recém-nascido examinado. Se o examinado nasceu infanticídio. São Paulo: Complexo Jurídico Damásio de Jesus,
dez. 2000. Disponível em: < http://www.damasio.com.br/novo/
com vida, ou seja, respirou, seu pulmão irá flutuar
html/artigos/art_54.htm > (14 dez 2004).
uma vez que os alvéolos pulmonares estão cheios de
7. Jesus DE. Direito penal. São Paulo: Saraiva; 2001. p.105-
ar. Caso afunde significa que o mesmo não nasceu 10.
com vida, sendo sujeito passivo do crime de abor- 8. Maranhão OR. Curso básico de medicina legal. 8ªed. São
to. É, preciso ressaltar que são necessários exames Paulo: Malheiros; 2004. p. 202.
complementares uma vez que o resultado pode ser 9. Mendlowicz MV. Neonaticide in the city of Rio de Janeiro:
mascarado pela aspiração de secreções vaginais fa- forensic and psycholegal perspectives. J Forensic Sci 1999;
44(4):741-5.
zendo com que o pulmão do recém-nascido afunde
10. Resnick PJ. Child murder by parents: a psychiatric review
e, também, o do feto pode flutuar devido aos gases
of filicide. Am J Psychiatry 1969; 126:325-34.
do processo de putrefação. Nesses casos, seria ade-
11. Spinelli MG. A systematic investigation of 16 cases of neo-
quado um exame de Docimásia microscópica que naticide. Am J Psychiatry 2001; 158:811-3.
consiste em examinar os alvéolos uma vez que estes 12. Wisner KL, Stowe ZN. Psyschobiology of postpartum mood
só abrem com a efetiva respiração. disorders. Semin Reprod Endocrinol 1997; 15:77-89.
Para concluir, vale ressaltar que algumas mulhe-
res têm uma real alteração do psiquismo. Ocorreria,
por ocasião do parto, o desenvolvimento de uma
personalidade psicopática. Esta psicose-puerperal
seria uma verdadeira perturbação da saúde mental.

10 Rev. Fac. de Ciênc. Méd. Sorocaba v. 7, n.1 p. 5 - 10, 2005