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CARLO GOLDONI

ARLEQUIM, SERVIDOR DE DOIS AMOS


Ou

ARLEQUIM E SEUS DOIS PATRÕES

PERSONAGENS

PANTALEÃO

CLARISSE, filha de PANTALEÃO

SILVIO (filho do DOUTOR)

BEATRIZ, de Turim, em traje de homem, sob o nome de Frederico Rasponi

FLORINDO, de Turim, noivo de BEATRIZ

BRIGUELA / FRANCESCA / FRANCESCA, hoteleiro(a)

ESMERALDINA, criada de CLARISSE

ARLEQUIM, servidor de BEATRIZ e de FLORINDO

CRIADOS do hotel de BRIGUELA / FRANCESCA / FRANCESCA

GON DOLEIRO

A comédia se passa em Veneza.

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CENA I
Noivado em casa de PANTALEAO...

(Música)

PANTALEAO, DOUTOR, CLARISSE, SILVIO, BRIGUELA / FRANCESCA / FRANCESCA, EMERALDINHA.

PANTALEAO Um brinde!

TODOS Saúde!

PANTALEAO Felicidades aos noivos!

TODOS Felicidades!

PANTALEAO (para Clarisse e Sílvio): Clarice, minha filha, estenda as mãos para Silvio. Assim ficam noivos logo.

(Ouve-se bater na porta. Esmeraldina sai imediatamente para atender.)

ESMERALDINA (voltando): Senhor, senhor, senhor! Tem aí fora o empregado de um forasteiro, que traz um recado.
Insiste em falar com o senhor.

PANTALEAO: Manda entrar.

ESMERALDINA: Sim, senhor. (Corre anunciá-lo)

(Música)

CENA II
Primeira entrada de Arlequim...

Os mesmos, mais ARLEQUIM e Esmeraldina.

ARLEQUIM: As minhas humildes reverências a todos os senhores. (Percebendo ESMERALDINA) Quem é esta linda
senhora?

ESMERALDINA: (Antecipando-se) Sou a camareira, senhor.

ARLEQUIM: (À parte) Camareira? (para Esmeraldina.) Meus cumprimentos!

PANTALEAO: Vamos, deixe de cerimônias e diga logo quem é!

ARLEQUIM: Sou o criado do meu patrão! (Virando-se de novo para Esmeraldina).

PANTALEAO: E quem é o seu patrão?

ARLEQUIM (para PANTALEAO): É um forasteiro que gostaria muito de falar com o senhor. (Virando-se de novo
para Esmeraldina)

PANTALEAO: Que forasteiro? Como se chama?

ARLEQUIM: Meu patrão é o senhor Frederico Rasponi, da cidade de Turim.

TODOS – OH!

ARLEQUIM: Acabou de desembarcar aqui em Veneza.

TODOS – OH!

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ARLEQUIM – Ele está lá fora, mandou anunciá-lo e aguarda a resposta. (Todos fazem gestos de que vão fazer o OH!
Mas estão mudos... ARLEQUIM vira-se de novo para Esmeraldina) A respeito do...

PANTALEAO: Venha cá. Que foi que você disse?

ARLEQUIM: O senhor quer saber quem sou? Sou Arlequim Bardalo. (faz reverência)

PANTALEAO: Não me interessa quem é você. Quero que repita o nome do seu patrão.

ARLEQUIM: Coitado do velho! Deve ser meio surdo.

PANTALEAO: Heim?

ARLEQUIM: Meu patrão é o senhor Fre-de-ri-co Ras-po-ni de Turim!

PANTALEAO: Fora daqui! Frederico Rasponi de Turim morreu.

ARLEQUIM: Morreu?

PANTALEAO: Morreu.

ARLEQUIM (Chora dramaticamente.) Pobre do meu patrão! Será que pegou uma doença de repente? (Para todos)
Com licença. (Sai).

ESMERALDINA: (à parte) Achei tão simpático esse moreninho.

PANTALEAO: Esmeraldina, sossega o facho.

CLARISSE: Meu Deus! E se for verdade, papai?

PANTALEAO (para CLARISSE): Clama, filha! Ele morreu mesmo. Você não leu as cartas?

SILVIO: Mesmo que estiver vivo... chegou tarde demais.

ARLEQUIM (voltando): Senhores, estou chocado. Os senhores me disseram que meu patrão morreu.

PANTALEAO: E é verdade.

ARLEQUIM: Não é. Ele está perfeitamente vivo. Encontra-se lá fora e deseja apresentar-lhes os seus cumprimentos.

PANTALEAO: Você está doido. Vá pro hospício!

ARLEQUIM: Oh, raios! O meu patrão está vivo, já disse.

PANTALEAO: Chega! Agora é demais. Vou te quebrar a cara.

BRIGUELA / FRANCESCA / FRANCESCA: Calma, senhor Pantaleão. Calma. Mande entrar o tal do morto
ressuscitado.

(Música)

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CENA III
Primeira entrada de Beatriz...

Os mesmos, mais BEATRIZ, em traje de homem, sob o nome de Frederico

BEATRIZ: Senhor Pantaleão, o senhor me deixa esperando lá fora por meia hora.

PANTALEAO: Queira desculpar... mas quem é o senhor ?

BEATRIZ: Frederico Rasponi, de Turim.

TODOS – Oh!

BRIGUELA / FRANCESCA (para a platéia): Que negocio é esse? Esse aí não é o Frederico. É Beatriz a irmã dele
disfarçada. Eu trabalhei para ele há mais de dez anos em Turim. Vamos ver até que ponto ela quer chegar.

PANTALEAO: (À parte) Ainda não acredito no que estou vendo. (para BEATRIZ) Mas fico contente que esteja vivo.
Por aqui, chegaram noticias meio desagradáveis...

TODOS – Ééééé...

BEATRIZ: Sei. Falaram que fui morto durante um assalto. Mas, graças a Deus, só fui ferido. Logo que fiquei bom,
resolvi vir até Veneza, como havia prometido ao senhor.

PANTALEAO: Não sei o que dizer.

BRIGUELA / FRANCESCA: Ei, senhor...

BEATRIZ (para si própria, ao se aperceber de BRIGUELA / FRANCESCA): Ai de mim! Briguela / Francesca aqui!
Será que ele(a) vai me reconhecer... (Em voz alta, para BRIGUELA / FRANCESCA). Sim...

BRIGUELA / FRANCESCA: Então...! Não se lembra? Sou eu Briguela / Francesca? Bri-gue-la / Fran-ces-ca...
aquele(a) de Turim.

BEATRIZ (aproximando-se de BRIGUELA / FRANCESCA) Ah! Sim. Agora o reconheço. Mas, o que está fazendo
aqui em Veneza? (Depois, baixinho) Pelo amor de Deus, não me delate.

BRIGUELA / FRANCESCA (baixinho): Fique tranquila. (Depois, em voz alta) Tenho um hotel aqui em Veneza.

BEATRIZ: Que coincidência! Então vou me hospedar no seu hotel.

BRIGUELA / FRANCESCA: Será uma honra para mim. (Para Pantaleão). Senhor Pantaleão, aqui está o senhor
Briguela / Francesca, trabalhou anos para mim, ele sabe quem sou...

BRIGUELA / FRANCESCA: Meu caro compadre/Senhor Pantaleão... É ele mesmo.

PANTALEAO: Bem, já que o senhor é mesmo Frederico Rasponi, peço desculpas pelas dúvidas.

(Música)

CLARISSE: Ai de mim, infeliz! (Para SILVIO) O que será de nós?

SILVIO (baixinho, para CLARISSE): Fica tranqüila, ficaremos juntos.

BEATRIZ (para PANTALEAO): Senhor Pantaleão, é esta formosa dama que esta prometida como esposa?

PANTALEAO: Sim, é ela.

SILVIO: Quem tentar me roubar Clarisse, (tira a espada) terá de enfrentar esta espada.

PANTALEAO: Calma. Calma. Depois eu lhe explico tudo. Clarisse será sua. Vou cumprir com a minha palavra. (para
SILVIO) Sílvio, desculpa ta!

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BEATRIZ: E você, minha futura esposa, não diz nada?

(Música)

CLARISSE: Digo que o senhor só veio aqui para me fazer infeliz! (Sai chorando).

(Sílvio sai atrás dela. Esmeraldina sai também...)

CENA IV
Beatriz pede dinheiro...

PANTALEAO, BEATRIZ, BRIGUELA / FRANCESCA.

PANTALEAO (correndo atrás de CLARISSE): Desobediente! Como se atreve...

BEATRIZ: Pare, senhor Pantaleão. Eu compreendo perfeitamente. Não precisa brigar com ela. Com o tempo ela se
acostuma. Vamos mudar de assunto. Eu gostaria de olhar as minhas contas, pois foi também pra isso que vim a Veneza.

PANTALEAO: O senhor tem muito dinheiro aplicado aqui no meu banco e pode ver o saldo... (À parte.) Apenas ver.
(Voltando.) Quando quiser.

BEATRIZ: Ótimo. Agora, com sua licença. Gostaria de sair com Briguela / Francesca, pois ele(a) conhece bem a
cidade.

PANTALEAO: Precisando de alguma coisa, é só dizer.

BEATRIZ: Dinheiro.

PANTALEAO: Oh, boca maldita!

BEATRIZ: Preciso de algum dinheiro.

PANTALEAO: Assim que meu funcionário abrir o caixa, eu pessoalmente levarei o seu dinheiro ao hotel de Briguela /
Francesca. Não é lá que vai se hospedar?

BEATRIZ: Sim, é lá. Pode entregar ao meu criado. Ele é de inteira confiança.

PANTALEAO: Ótimo.

BEATRIZ: Até logo, senhor Pantaleão.

PANTALEAO: Até logo.

BRIGUELA / FRANCESCA: Até logo.

CENA V
Beatriz colaboração a Briguela / Francesca...

BEATRIZ e BRIGUELA / FRANCESCA

BRIGUELA / FRANCESCA: Senhora Beatriz, que negócio é este?

(Música)

BEATRIZ: Pelo amor de Deus, não me delate. Meu irmão está mesmo morto. Foi assassinado durante um assalto.
Naquele momento, meu namorado Florindo Aretusi estava por perto. Você se lembra que meu irmão era contra o meu
namoro com Florindo? Então. Foi fácil acusá-lo como assassino de meu irmão. Mas ele é inocente. Agora, Frederico
morreu e Florindo fugiu para não ser preso. E eu voltei à Veneza disfarçada de homem para tratar dos negócios de meu
irmão. Pelo amor de Deus senhor Briguela / dona Francesca, o(a) senhor(a) é o(a) único(a) que pode me ajudar!

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BRIGUELA / FRANCESCA: Está bem. Eu só não quero que, por minha causa, Pantaleão lhe dê o dinheiro e depois
descubra que foi enganado.

BEATRIZ: Enganado por quê? Sou sua irmã, única herdeira dele.

BRIGUELA / FRANCESCA: Isto é verdade. Mas, então, por que não revela a sua verdadeira identidade?

BEATRIZ: Não posso. Pantaleão ia querer ser meu tutor. E eu quero a minha liberdade.

BRIGUELA / FRANCESCA: A senhora sempre foi decidida e independente. Pode contar comigo...

BEATRIZ: E agora vamos.

BRIGUELA / FRANCESCA: Eu vou lhe mostrar a cidade... (Saem).

(Música)

CENA VI
A fome de Arlequim...

Rua onde fica o hotel de BRIGUELA / FRANCESCA.

ARLEQUIM (sozinho): Ufa! Estou cansado de esperar. Estou sem nenhum tostão e meu estômago ta roncando.

CENA VII
Arlequim carrega baú de Florindo...

ARLEQUIM, FLORINDO chegando de viagem e um Gondoleiro.

FLORINDO: Enfim, Veneza!

ARLEQUIM (à parte.): Olha só! Vou ver se ganho um dinheirinho extra! (para FLORINDO) Posso ser útil?

FLORINDO: Coloque este baú no hotel, meu bom rapaz.

ARLEQUIM: É pra já, senhor. (obedece)

FLORINDO: Então, é esse o hotel...

ARLEQUIM: Muitíssimo bom, senhor. Boas camas e ótima comida.

FLORINDO: Qual a sua profissão, rapaz?

ARLEQUIM: Sou criado, senhor.

FLORINDO: Neste momento está trabalhando pra alguém?

ARLEQUIM: Neste momento...para dizer a verdade...não. Não tenho patrão. (À parte) Eh!, não estou mentindo. Agora
meu patrão não está.

FLORINDO: Então, será meu criado. Te pagarei um salário mínimo. E a primeira coisa que quero que faça que vá ao
correio e verifique se há carta de Turim para Florindo Aretusi. Se tiver, me traz logo.

ARLEQUIM: Sim, senhor! Ah! Enquanto eu vou, o senhor podia encomendar o almoço... (sai)

FLORINDO: É uma excelente idéia, meu bom rapaz! (Entra no hotel)

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CENA VIII
Arlequim precisa pegar baú e ir ao Correio...

ARLEQUIM, BEATRIZ, em traje de homem, e BRIGUELA / FRANCESCA.

ARLEQUIM (sozinho): Dois salários! (Ao sair, esbarra em BEATRIZ)

BEATRIZ: Arlequim! O que está fazendo?

ARLEQUIM: Só fui dar uma volta para ver se esquecia da fome.

BEATRIZ: Vamos! De pressa! Pega o meu baú no barco e leve-o para o hotel do senhor Briguela / dona Francesca.

ARLEQUIM (à parte): Ó raios! O mesmo hotel do outro.

BEATRIZ: Aproveita e vai ao correio ver se tem carta pra mim ou para Beatriz Rasponi... minha irmã! Rápido!

ARLEQUIM Sim, senhor!

CENA IX
Silvio pede p/ Arlequim chamar o patrão...

ARLEQUIM e SILVIO

ARLEQUIM: Mas essa é boa! Tanta gente sem emprego, e eu com dois... Dois patrões! Agora eu vou ao correio...
para os dois!

SILVIO (para si mesmo, entrando): Mas esse aí é o criado de Frederico Rasponi! (para ARLEQUIM) Rapaz!

ARLEQUIM: Meu senhor.

SILVIO: Onde está seu patrão?

ARLEQUIM: Está aí, nesse hotel.

SILVIO: (irritado) Vá chamar seu patrão. Ou vem imediatamente ou me vingo dele.

ARLEQUIM: Mas, qual?

SILVIO: Rápido. Vai!

ARLEQUIM: Está bem.(À parte) Vou mandar o primeiro que encontrar.(Entra no hotel)

CENA X
Silvio quer Frederico, mas vem Florindo...

SILVIO, FLORINDO e ARLEQUIM.

SILVIO: Ou Frederico desiste de Clarisse ou terá que se haver comigo... (Retira-se para o lado oposto.)

ARLEQUIM (saindo do hotel com Florindo e indicando Sílvio) Lá está, patrão. É aquele cavalheiro cuspindo fogo.
Mas agora, com licença! Porque estou indo ao correio pro senhor. (À parte) Eu não me meto (Sai)

SILVIO (para si mesmo) E Frederico que não vem...

FLORINDO: (Para SILVIO) O senhor que está me procurando?

SILVIO: Eu? Eu, não. Eu estou esperando por Frederico Rasponi.

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FLORINDO: (Estranhando.) O que? Deve haver algum, pois infelizmente Frederico Ras...

SILVIO: Ele quer roubar a minha noiva, só porque o pai dela assumiu um compromisso com ele.

FLORINDO: Impossível! Frederico morreu. E era justamente o que eu estava tentando te falar.

SILVIO: Era o que todos nós pensávamos, mas hoje ele apareceu aqui em Veneza, e bem vivinho!

FLORINDO: Frederico não morreu?

SILVIO: Ou ele ou eu! Um de nós terá que renunciar a Clarisse ou à vida. Se o encontrar, procure convencê-lo a
desistir desse casamento. O meu nome é Sílvio. Tive muita honra...

CENA XI
Reflexões de FLORINDO, só...

FLORINDO: Será possível? Eu vi os ladrões cravarem a espada na barriga dele. Eu o vi cair morto. Bem... Mas se
Frederico está aqui em Veneza, eu volto a Turim para rever a minha amada Beatriz.

CENA XII
Primeira troca de cartas...

ARLEQUIM: (Entregando-lhe flores.) Eu vou falar com meu patrãozinho!

ESMERALDINA: E eu vou falar com minha, patroazinha!

FLORINDO. ARLEQUIM., mais um Carregador trazendo às costas o baú de BEATRIZ

FLORINDO: (Percebendo a presença de Arlequim.) Arlequim!

(O casal se assusta. Arlequim derruba as cartas. Esmeraldina lhe entrega um embrulho de pão.)

ESMERALDINA sai de cena.

ARLEQUIM: Aqui estou, patrão...

FLORINDO: Você foi ao correio?

ARLEQUIM: Sim, senhor.

ARLEQUIM: Estão aqui, senhor. (À parte) Ó raios! Misturei as cartas e não sei ler.

FLORINDO: Dê-me as cartas.

ARLEQUIM: Sabe o que é, patrão... É que...senhor, é que...tenho três e não são todas do senhor. Encontrei um colega
meu... e ele me pediu para pegar as cartas do patrão dele. Só que acabei misturando as cartas e agora não sei qual é a do
senhor e qual é a dele.

FLORINDO: Dê-me as cartas, Arlequim!

ARLEQUIM: Pode pegar.

FLORINDO (À parte): Uma carta a Beatriz? Aqui? Em Veneza?

ARLEQUIM: O senhor já encontrou a carta do meu colega?

FLORINDO: Qual o nome de?

ARLEQUIM: O nome? É... É... Pa... Pascoal.

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FLORINDO: Pascoal? Eu vou abrir esta carta.

ARLEQUIM: Não faça isso! Isso é crime!

FLORINDO: Esta carta pertence à mulher que amo. (abre e lê a carta)

ARLEQUIM (à parte): Puxa, abriu mesmo!

(Música)

FLORINDO (lendo): “Senhora Patroa, Aqui em Turim, todos já sabem que a senhora está em Veneza, procurando seu
namorado Florindo. A polícia daqui já sabe que a senhora fugiu disfarçada de homem e quer prendê-la. Seu humilde e
fiel criado, Tonino.”
(à parte): O quê?! Será que li certo? Beatriz aqui em Veneza? (para ARLEQUIM) Ah, Arlequim! Arlequim, meu
querido, trate de encontrar seu amigo Pascoal. Procure saber se o patrão dele é homem ou mulher.

ARLEQUIM: Então me dê a carta.

FLORINDO: Tome. (Arlequim entra em desespero.) O que foi?

ARLEQUIM: A carta está aberta.

FLORINDO: Diga que foi um engano.

ARLEQUIM: Ta bom!

FLORINDO: (à parte) Beatriz aqui em Veneza. Ah... Que beleza! (Sai)

CENA XIII
Colando o envelope da carta com miolo...

ARLEQUIM, sozinho, depois o Carregador com o baú

ARLEQUIM: Engano? (tenta fechá-la várias vezes, porém não consegue) Preciso colar esta carta. Ah! Minha avó
costumava usar o miolo de pão para colar as cartas. É isso!

(Música)

ARLEQUIM: (tira do bolso um pedacinho de pão, põe na boca, para umedecer, porém não resiste à tentação de
engoli-lo. Faz o mesmo três vezes. Acaba-se o pão.) A carta! (Afinal, com grande esforço, tira um miolo da boca e
fecha com ele a carta.) Ufa!

CRIADO (carregando o baú): Onde é que vamos colocar o baú?

ARLEQUIM: Nos fundo do hotel.

CENA XIV
Beatriz fica brava: a carta foi aberta...

BEATRIZ, saindo do hotel, ARLEQUIM, Carregador

BEATRIZ: É esse o meu baú?

ARLEQUIM: É, sim senhor.

BEATRIZ (para o Criado): Leva-o para o meu quarto. (para ARLEQUIM) E você foi ao correio?

ARLEQUIM: Fui, sim senhor.

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BEATRIZ: Havia cartas para mim?

ARLEQUIM: Aqui está a carta da irmã do senhor. (entrega a carta)

BEATRIZ: Esta carta foi aberta e depois colada com pão! (Arlequim cospe um pouco do miolo que mastigava.)
Arlequim, quem abriu a carta?

ARLEQUIM: Foi aquela fulana ali!

BEATRIZ: Não sabe, heim? (Pega o bastão do Arlequim e lhe dá um safanões) Quem foi que abriu a carta?

ARLEQUIM: Tá bom, chega! Não foi a fulana não, coitada. Fui eu! Sabe que é, eu fui no correio e tinha uma carta
para mim. Eu sei ler muito pouco. Aí eu abri a carta do patrão, pensando que fosse a minha... Desculpa, patrão.

BEATRIZ: Ta bem... Você leu a carta?

ARLEQUIM: Eu não sei ler essa letra.

BEATRIZ (comentando para si mesma): Tonino é um empregado fiel! (para ARLEQUIM) Arlequim, eu vou tratar de
um negócio. Aproveite, pegue o meu baú e pendure minhas roupas. Rápido!

CENA XV
Pantaleão entrega bolsa a Arlequim...

ARLEQUIM e PANTALEAO

ARLEQUIM: Desta vez me saí bem! Sujeito inteligente está aqui.

(entra Pantaleão)

PANTALEAO: Ei, rapaz!

ARLEQUIM: Senhor.

PANTALEAO: Seu patrão está no hotel?

ARLEQUIM: Acho que não.

PANTALEAO: Vai voltar para o almoço?

ARLEQUIM: Acho que sim.

PANTALEAO: Vai demorar?

ARLEQUIM: Acho que não.

PANTALEAO: Poderia entregar este saco à ele?

ARLEQUIM: Acho que sim, né.

PANTALEAO: Então, entregue este saco de dinheiro pra ele que eu não posso esperar, pois estou com muita pressa. E
agora já estou sem saco! (Sai)

ARLEQUIM: Espere! Ele nem me disse a qual dos dois patrões tenho que entregar o saco. (Sai.)

(Música)

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CENA XVI
Beatriz entra no quarto de Clarisse...

CLARISSE e Esmeraldina.
BEATRIZ, em traje de homem, e PANTALEAO

CLARISSE: O que será de mim e do meu querido Silvio? Que tormento! (começa a chorar)

ESMERALDINA: Que tem a minha patroazinha? Não gostou do “seu” Frederico? Ui! Quem me dera esta sorte!

PANTALEAO: (Entrando.) Recebeu o saco de dinheiro?

BEATRIZ: Não, ainda não.

PANTALEAO: Entreguei há pouco ao seu criado. O senhor disse que ele era de confiança.

BEATRIZ: Certamente, ele vai me entregar quando eu voltar. (Clarisse chora. Baixinho, para Pantaleão) Por que
Clarisse está chorando?

PANTALEAO: Meu caro Frederico, é preciso compreender. O senhor ressuscitou do nada... Bem... Com o tempo ela
se acostuma. Tenho certeza.

BEATRIZ (sempre baixinho para Pantaleão): Por favor, deixe-nos a sós.

PANTALEAO: Pois não. À vontade. (Em voz alta, para Clarisse) Minha filha, faça companhia a seu noivo. (Empurra
a filha em direção de Frederico.) Esmeraldina!

ESMERALDINA: Sim, senhor. (Ela se aproxima. Saem.)

(Música)

CENA XVII
Beatriz revela o segredo a Clarisse...

BEATRIZ e CLARISSE

BEATRIZ: Clarisse...

CLARISSE: Me deixe em paz.

BEATRIZ: É assim que trata seu futuro marido?

CLARISSE: Eu detesto o senhor.

BEATRIZ: Eu sei. Mas eu posso contribuir para a sua felicidade...

CLARISSE: Pára de me atormentar! (chora)

BEATRIZ: Clarisse, vou lhe confiar um segredo.

CLARISSE: O que?

BEATRIZ: Se você não me quer, saiba que eu também não a quero.

CLARISSE: Está querendo me enganar?

BEATRIZ: Não. Promete não contar a ninguém?

CLARISSE: Prometo.

BEATRIZ: Eu não sou Frederico Rasponi, sou Beatriz, a irmã dele.

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CLARISSE: Quê? Mulher?

BEATRIZ: Sim, mulher. Você acha que eu iria querer me casar com você?

CLARISSE: Acho que não. É... Mas... E o seu irmão?

BEATRIZ: Morreu mesmo.

CLARISSE: Morreu! Ele morreu! Ele morreu! (Deparando com a gafe cometida.) Morreu? Meus sentimentos.
(Mudando o assunto.) Posso contar só pro Sílvio?

BEATRIZ: Não, Clarisse! Claro que não. (Silvio surge repentinamente, volta e se esconde.)

CLARISSE: Está bem, juro que não digo nada. Pode contar comigo!

BEATRIZ: Eu confio em você, heim! (Despedem-se.)

CENA XVIII
O Ciúme de Sílvio...

(Música)

SILVIO: Pérfida! Mentirosa! E eu? Noivo enganado, ridicularizado?...

CLARISSE: Sílvio, eu não mereço essas palavras. Sempre fui fiel.

SILVIO: Fiel?...Falas de fidelidade e vais casar com outro?

CLARISSE: Querido! Perdoa-me, mas não posso explicar...

SILVIO: A quem prometeste silêncio?

CLARISSE: A Bea... A Frederico.

SILVIO: E dizes que me ama!

CLARISSE: Eu te amo com todo o meu coração.

SILVIO: E eu te odeio com toda a minha alma.

CLARISSE: Se não acreditas no meu amor, me mato! (Aponta a espada para o peito)

CENA XIX
Esmeraldina impede suicídio...

SILVIO, Esmeraldina e CLARISSE

ESMERALDINA (entrando e logo tirando a espada das mãos de CLARISSE) Pare! Pare!

CLARISSE: Eu quero morrer! Me deixa morrer! Eu preciso morrer!

ESMERALDINA (entrando e logo tirando a espada das mãos de CLARISSE) Pare! Pelo amor de Deus, pare! (Dá-lhe
um tapa. Para SILVIO) O que é isso! E o senhor ia deixá-la morrer? (Para CLARISSE) Dona Clarisse, a senhora é
muito boba! Ele não a quer mais? Mande-o plantar batatas. Existem muitos homens por aí. Se a senhora quiser, eu lhe
arranjo uma dúzia de maridos.

CLARISSE (chorando): Ingrato! Não deu nem um suspiro pela minha morte! Um dia saberás que sou inocente e aí...
será tarde demais. Tarde demais. (Sai)

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(CLARISSE e Esmeraldina saem)

ESMERALDINA (Para Silvio) Tarde... Tarde demais! (Ao sair bate com a cara no cenário.)

SILVIO: Não há dúvida! Clarisse é infiel. O pior é que ela está de segredinhos com aquele fresquinho. (Sai).

CENA XX
Arlequim espera pelo almoço...

ARLEQUIM

ARLEQUIM: Mas que falta de sorte a minha! Tenho dois patrões e nenhum deles pede o almoço.

CENA XXI
Florindo passa a chave do baú...

ARLEQUIM e FLORINDO

FLORINDO: Arlequim! Então, encontrou esse Pascoal?

ARLEQUIM: Eu ia procurar o Pascoal depois do almoço!

FLORINDO: Han-han!

ARLEQUIM: Saco vazio não para em pé, patrão. Aliás, eu tenho um saco pro senhor.

FLORINDO Que saco?

ARLEQUIM: O meu! Não! Digo, o seu. Pediram pra entregar... pro senhor?

FLORINDO: Ah, sim! Eu estava esperando de um mercador.

ARLEQUIM: (À parte.) Ufa!

FLORINDO Então, pegue este saco e coloque no meu baú.

ARLEQUIM: Sim, senhor.

FLORINDO: Espere-me no hotel. (Sai).

CENA XXII
BEATRIZ pega a bolsa de dinheiro...

ARLEQUIM e BEATRIZ, esta com um envelope na mão.

ARLEQUIM: Eu preciso comer!

(Entra Beatriz.)

BEATRIZ: Arlequim!

ARLEQUIM (à parte, baixinho): Oh! Céus...

BEATRIZ: O senhor Pantaleão, por acaso, não lhe deu um saco de dinheiro?

ARLEQUIM: Deu sim, senhor.

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BEATRIZ: Por que não me entregou?

ARLEQUIM: Mas era para o senhor?

BEATRIZ: Como assim? Que foi que ele lhe disse quando entregou o saco?

ARLEQUIM: Disse que a devia entregar ao meu patrão.

BEATRIZ: E quem é o seu patrão, Arlequim?

ARLEQUIM: Ééééé... O senhor.

BEATRIZ: Então por que pergunta se o saco é meu?

ARLEQUIM: Então, o saco é seu.

BEATRIZ: Onde está o saco?

ARLEQUIM: Achou! (Entrega o saco.)

BEATRIZ: Então, me dê que estou sem saco! (Arlequim entrega o saco.) Vamos, arrume o meu baú. Depressa!

ARLEQUIM: Preciso arrumar logo estes baús.

CENA XXIII
Arrastando os baús pra sala...

Sala no hotel de BRIGUELA / FRANCESCA


ARLEQUIM e um CRIADO

ARLEQUIM (Chama) Ei! Companheiro!

CRIADO (surge empurrando os báus.) Ai, ai, ai...

ARLEQUIM: Vou cuidar de tudo com muita calma.

(Música)

ARLEQUIM: Veja, um diário!

O Criado joga para trás uma peça de roupa. Arlequim acredita ser uma provocação e retribui com a mesma ação.
Desta vez o Criado joga de forma provocativa. Arlequim repete a ação, porém o Criado abaixa-se para pegar o retrato
e escapa da agressão.

CRIADO Olhe, um retrato!

ARLEQUIM: E parece com meu segundo patrão!

CENA XXIV
Florindo e o retrato...

FLORINDO, em seu quarto, e ARLEQUIM

FLORINDO (chamando de dentro do quarto): Arlequim!

ARLEQUIM: Ó raios! Já acordou! Coloque tudo no lugar. (Começa a pôr as roupas nos baús.)

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FLORINDO: Arlequim, quer que eu vá te buscar com o bastão?

ARLEQUIM (respondendo em voz alta): Não precisa. (Coloca o diário, confusamente, no baú errado e os fecha.
Criado sai.)

FLORINDO (saindo do quarto): Que raios está fazendo?

ARLEQUIM: O senhor não me mandou cuidar das roupas?

FLORINDO: E este baú, de quem é?

ARLEQUIM: É de um forasteiro que acabou de chegar.

FLORINDO: Quero a minha capa preta.

ARLEQUIM: Sim, senhor. Uh... Um pretinho básico sempre cai bem!

FLORINDO Rápido!

ARLEQUIM (Percebendo algo errado com a capa.) Patrãozinho, a capa não entrar. O bobe não deixa.

FLORINDO Rápido, Arlequim!

(Arlequim tira a peruca. Florindo a pega de volta. Em seguida Arlequim tenta se desfazer do retrato. Florindo
percebe.)

FLORINDO: O que é isso, Arlequim?

ARLEQUIM Bolacha!

FLORINDO Me dê isso aqui!(Tira o objeto de Arlequim. À parte): Mas este é o meu retrato! O retrato que eu dei a
Beatriz! (Para ARLEQUIM) Como é que esse retrato foi parar na sua mão?

ARLEQUIM: Eu herdei.

FLORINDO: Herdou?

ARLEQUIM: Sim, senhor. Eu estive a serviço de um senhor que, quando morreu, me deixou umas coisas sem valor
que vendi. Mas este retrato eu guardei.

FLORINDO: E qual era o nome desse seu patrão?

ARLEQUIM: O nome? É... Incógnito.

FLORINDO: (para si próprio) Incógnito?

ARLEQUIM (à parte): Ele acredita em tudo que eu digo.

FLORINDO (com afã): Escuta, era jovem esse seu patrão?

ARLEQUIM: Sim, era jovem.

FLORINDO: E por acaso ele era de Turim?

ARLEQUIM: De Turim.

FLORINDO: Ele tinha barba?

ARLEQUIM: Não, não tinha barba.

FLORINDO (para si próprio): Só pode ser ela! (para ARLEQUIM) Você tem certeza, Arlequim que ele morreu?

15
ARLEQUIM: Tenho certeza. Morreu.

FLORINDO: De que doença?

ARLEQUIM: De... repente! (para si próprio)

(Música)

FLORINDO De repente? (Entrando no quarto, para si próprio): Ai de mim! Beatriz morreu. Eu quero morrer
também... Beatriz! Bia!

CENA XXV
Beatriz, o livro e a mulher...

ARLEQUIM, BEATRIZ, PANTALEAO

ARLEQUIM: Que embrulhada é essa? Só falei aquilo pra não apanhar. Agora ele vai... Melhor guardar os baús para
não dar mais confusão. (Vê Beatriz chegar com Pantaleão e esconde o retrato.)

BEATRIZ: Senhor Pantaleão, o saldo não confere.

PANTALEAO: Sete mais sete, quinze... Talvez haja algum engano.

BEATRIZ: Podemos conferir agora?

PANTALEAO: Sim, claro.

BEATRIZ: Arlequim!

ARLEQUIM: Patrão!...

BEATRIZ: O que é que meu baú esta fazendo aqui fora?

ARLEQUIM: É para arejar as roupas.

BEATRIZ: Já terminou?

ARLEQUIM: Já.

BEATRIZ: Então abra... (Interrompendo-se) E este outro de quem é?

ARLEQUIM: Deve ser de um forasteiro que chegou hoje.

BEATRIZ: Bem...Pegue o meu livro de contas.

ARLEQUIM: Sim senhor. (Para si próprio) Que Deus me ajude!

PANTALEAO: Admito que possa ter havido um engano no seu saldo. Mas a gente logo conserta.

ARLEQUIM (entrega um livro a Beatriz): É este aqui, patrão?

BEATRIZ (pega no livro e o abre): Deixe-me ver. Não, não é este...(Folheando)

ARLEQUIM: Ai...errei!

BEATRIZ (para si própria): Meu Deus, o diário de Florindo. Acho que vou desmaiar...

PANTALEAO: Senhor Frederico! (Beatriz desmaia. Pantaleão ao socorrê-la percebe o volume dos seus seios.)
Ehhh... Quê que isso?

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BEATRIZ: A ombreira quer desceu! (Para ARLEQUIM, baixinho) Como foi que este livro veio parar no meu baú?

ARLEQUIM: Eu... Herdei de um patrão que morreu.

BEATRIZ: Há quanto tempo?

ARLEQUIM: Há... dez ou doze dias, mais ou menos.

BEATRIZ (à parte): Ai de mim! (Para Arlequim) O nome do seu amo era, por acaso, Florindo?

ARLEQUIM: Isso! Florindo.

BEATRIZ: Aretusi?

ARLEQUIM: Exatamente, Aretusi.

BEATRIZ: E de que morreu? Onde está sepultado?

ARLEQUIM: Caiu no canal, afogou-se e nunca mais ninguém viu.

(Música)

BEATRIZ: Florindo morreu... Morreu o meu único amor!

PANTALEAO: Eh! Quê que é isso?

BEATRIZ: Ai de mim. (tira o chapéu e aparecem os cabelos... tira outros disfarces de homem) Quero encontrá-lo no
céu... (Sai desesperada e entra em seu quarto.) Florindo... Lindo...

PANTALEAO (depois de ouvir com espanto a tirada de BEATRIZ, para ARLEQUIM): Arlequim!

ARLEQUIM: Senhor Pantaleão.

PANTALEAO: Mulher?!...

ARLEQUIM: Mulher! Fêmea!

PANTALEAO: Que coisa!

ARLEQUIM: Que gata!

PANTALEAO: Preciso avisar a minha filha Clarisse. (Sai)

ARLEQUIM: Agora já não sou servidor de dois patões! Sou servidor de um patrão e de...uma patroa. (Sai).

CENA XXVI
Pantaleão conta a Silvio que Beatriz é mulher...

PANTALEAO e SILVIO

PANTALEAO (andando pela rua): Preciso avisar também o Silvio, o noivo dela.

SILVIO (à parte): Senhor Pantaleão! Se eu te pego eu enfio esta espada no meio da sua... barriga!

PANTALEAO: Queria lhe dar uma noticia, se me deixar falar!

SILVIO: Fale.

PANTALEAO: O matrimônio de minha filha com o senhor Frederico foi por água abaixo. Arebita! Arebita! Arebita!

SILVIO: Verdade? Não está tentando me enganar?

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PANTALEAO: É a pura verdade. Se ainda tem as mesmas intenções, minha filha está disposta a casar com o senhor.
Para, para, para! Acabou a rua... Pitbull!

SILVIO: Oh! Céus! Isso é uma maravilha!

PANTALEAO: Não me parece tão burro.

SILVIO: Espere! Por que mudaram de idéia?

PANTALEAO: É que... Frederico Rasponi mudou de sexo. Virou Beatriz, irmã dele.

SILVIO: Como? Não entendi nada!

PANTALEAO: Procure entender e não seja um jumento. Frederico não é Frederico...é Beatriz, irmã dele.

SILVIO: Em traje de homem?

PANTALEAO: Disfarçada de homem.

SILVIO: Agora entendi!...

PANTALEAO: Finalmente! Vamos contar tudo a Clarisse.

SILVIO: Vamos... (falando enquanto sai) Meu coração transborda felicidade! (Sai com Pantaleão)

PANTALEAO: Uh... esse pitbull é Lassie!

(Música)

CENA XXVII
Beatriz e Florindo: suicídio e reconhecimento...

BEATRIZ e FLORINDO surgem em lado opostos, com uma espada na mão, dispostos a se suicidarem. Avançam de
maneira a não se poderem ver um ao outro. BEATRIZ é amparada por BRIGUELA / FRANCESCA. Em seguida
ESMERALDINA impede FLORINDO de uma tragédia.

BEATRIZ (Gritando.) Ahh!

BRIGUELA / FRANCESCA (procurando segurar a mão de BEATRIZ): Não faça isso.

BEATRIZ (querendo esquivar-se): Deixe-me. Quero morrer!

CRIADO (segurando FLORINDO): Não!

FLORINDO (livrando-se do CRIADO): Largue-me! Eu me mato.

BEATRIZ (livrando-se de BRIGUELA / FRANCESCA): Ninguém pode me impedir de...(Os dois avançam, decididos a
suicidar-se. De repente os dois se defrontam e se reconhecem. Ficam algum tempo parados e admirados)

BEATRIZ: Florindo!

FLORINDO: Beatriz!

BEATRIZ: Vivo?! (Solta a faca.)

FLORINDO: Viva?! (Solta a faca e acerta esmeraldina. Improviso. Ela desmaia.)

BEATRIZ: Oh! Que sorte!

FLORINDO: Meu amor! (Abraçam-se. Briguela / Francesca e Esmeraldina pegam as armas e saem.)

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CENA XXVIII
Obra dos criados...

BEATRIZ, FLORINDO e BRIGUELA / FRANCESCA

FLORINDO: Meu amor, o que foi que te causou este desespero?

BEATRIZ: A notícia da tua morte.

FLORINDO: Mas quem te deu essa noticia?

BEATRIZ: O meu criado.

FLORINDO: O meu criado também me falou a mesma coisa. Onde estarão nossos criados?

BEATRIZ: Sumiram!

FLORINDO: Precisamos desvendar essa história.

OS DOIS: Briguela / Francesca, traga o meu criado.

CENA XXIX
Pressionando Arlequim...

ARLEQUIM, levado à força por BRIGUELA / FRANCESCA e pelo CRIADO; FLORINDO e BEATRIZ

BEATRIZ: Aqui está ele, senhores.

FLORINDO: Arlequim, como é que você e aquele seu amigo inventaram a história da carta e do retrato?

ARLEQUIM (pede silêncio a ambos com um gesto): Com licença, senhora! Papo de homem!

BEATRIZ: Hã?

ARLEQUIM A senhora não é mais! (Para FLORINDO, afastando-o de BEATRIZ.) Senhor, lembra do Pascoal?
Então, o Pascoal é criado daquela senhora. (Aponta discretamente para BEATRIZ) Ele é muito meu amigo, mas se
meteu numa enrascada. Daí pra ajudá-lo, acabei inventando essa história do retrato. Só não imagina que o senhor iria
sofrer tanto com essa história.

FLORINDO (baixinho, para ARLEQUIM): Então o homem que lhe pediu para ir ao correio buscar a carta era o criado
de Dona Beatriz?

ARLEQUIM (baixo, para FLORINDO): Sim, o Pascoal.

FLORINDO (baixinho): Devia bater em você e em Pascoal ao mesmo tempo.

ARLEQUIM (à parte): Ai de mim! Agora vou apanhar pelos dois...

BEATRIZ: Arlequim!

(Afasta-se de FLORINDO e vai em direção a BEATRIZ)

FLORINDO (para si próprio): No fundo ele é bom caráter.

ARLEQUIM (aproximando-se de BEATRIZ): Aqui estou, minha senhora.

BEATRIZ (baixo, para ARLEQUIM): Quem foi que trocou as roupas do baú?

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ARLEQUIM (respondendo em voz baixa): O Pascoal. O Pascoal é criado daquele senhor. Foi ele quem fez toda essa
confusão... E como ele tinha medo do patrão dele, eu arranjei aquela desculpa do livro, do patrão morto, afogado, etc...

FLORINDO (à parte): A explicação nunca mais acaba!

BEATRIZ (baixo, para ARLEQUIM): Você e o Pascoal são dois pilantras. Eu devia bater em vocês dois!

FLORINDO: Para, para, para! Vamos parar! Nossos criados merecem ser castigados, mas para celebrar a nossa
felicidade devemos perdoá-los, meu amor.

BEATRIZ: Está bem! Agora se me dá licença... preciso ir à casa do senhor Pantaleão. (para FLORINDO) Queres vir
comigo, amor?

FLORINDO: Estou esperando um banqueiro. Irei mais tarde, se não se importar.

BEATRIZ: Então, até logo!

FLORINDO: Até logo!

Antes de sair Beatriz envia um beijo à distancia para Florindo. Arlequim imita a patroa e é advertido por Florindo.

CENA XXX
Arlequim ajuda Florindo...

FLORINDO e ARLEQUIM

ARLEQUIM: Ah eh, Florindão, heim! (Imita o beijo do casal.)

ARLEQUIM: Patrãozinho, o senhor vai à casa do senhor Pantaleão, não vai?

FLORINDO: Vou.

ARLEQUIM: Eu queria pedir um favor.

FLORINDO: Peça, Arlequim.

ARLEQUIM: É que...é que eu também estou apaixonado. Pela criada do senhor Pantaleão... O senhor podia falar com
ele a meu favor?

FLORINDO: Está bem, eu falarei! Mas vê se cria juízo. (Sai.)

ARLEQUIM: (À parte.) Voa borboleta, voa! (Tempo.) Se não criar juízo agora... eu não crio é nunca! (Sai atrás de
FLORINDO)

(Música)

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CENA XXXI
O Perdão para Sílvio...

Sala em casa de PANTALEÃO

PANTALEAO, DOUTOR, CLARISSE, SILVIO, Esmeraldina

PANTALEAO: Vamos, Clarisse, não seja tão severa. Silvio está arrependido. Se ele fez algumas tolices, só foi porque
estava apaixonado.

SILVIO: Clarisse, meu amor, perdão

ESMERALDINA: Perdoe, dona Clarisse. Os homens são todos iguais! É melhor casar logo e pronto!

SILVIO: Clarisse, meu bem... não sai uma palavra dos teus lábios? Eis-me aos teus pés. (Ajoelha-se)

CLARISSE (suspirando para SILVIO): Cruel!

SILVIO: Clarisse, por piedade...

CLARISSE Ingrato!

SILVIO: Querida.

CLARISSE Desumano!

SILVIO: Minha alma...

CLARISSE Crápula!

SILVIO: Meu amor!...

CLARISSE Cão! (suspira)

PANTALEAO Cedeu! (a SILVIO): Vamos, levante-se daí, Silvio... Cachorrão! (Pega mão dele e, depois, para
CLARISSE) E você também, Clarisse! (Pega a mão de CLARISSE). Deem as mãos... e que o céu os abençoe! (Une as
mãos de ambos) Pronto. Tudo feito.

CENA XXXII
Quem vai casar com Esmeraldina?

Entram Briguela / Francesca e BEATRIZ. Arlequim e Florindo. Continuam os mesmos...

BEATRIZ: Com licença, senhores! Vim pedir desculpas, já que, tanto mal causei...

(Música)

ARLEQUIM (entrando): Saudações a todos! (Avistando Esmeraldina.) Oi, belezoca!

ESMERALDINA (baixo, para ARLEQUIM): Oi, moreninho!

FLORINDO: Boa noite à todos! (Todos o cumprimentam.)

PANTALEAO (a BEATRIZ): É este o seu namorado?

BEATRIZ: Sim, é ele.

PANTALEAO: Que sapato horrível!

ARLEQUIM (baixo, para Esmeraldina): E aquele nosso assunto?

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ESMERALDINA Deixa comigo! (para CLARISSE): Dona Clarisse! Dona Clarisse! Dona Clarisse,
queria pedir um favor.

CLARISSE (afastando-se para ouvi-la): Que queres?

ESMERALDINA: Eu também quero me casar. O empregado de Dona Beatriz gosta muito de mim. A senhora vai
ajudar?

CLARISSE (baixo, para Esmeraldina): Vou falar com Beatriz. (Volta para o meio dos outros)

ULTIMA CENA

FLORINDO: Senhor Pantaleão, Beatriz e eu vamos nos casar. Gostaria de nos dar a honra de ser o nosso padrinho?

PANTALEAO: Será uma honra. Bem, tudo foi consertado; tudo acabou bem.

ARLEQUIM: Um momento! (a FLORINDO, arrastando-o do meio dos outros, baixinho): Ei, senhor! Esqueceu do
que me prometeu?

FLORINDO (baixo, para ARLEQUIM): Ah, sim, claro!

ARLEQUIM: Então, agita lá!

FLORINDO: O quê?

ARLEQUIM: Vai nessa, vai dentro, vai fundo... Ehhh!

FLORINDO: Senhor Pantaleão, o meu criado deseja se casar com a sua empregada. O senhor está de acordo?

ESMERALDINA (à parte): Outro? Quem será?

PANTALEAO: Por mim tudo bem. (À Esmeraldina) E por você?

ESMERALDINA: Casando...

PANTALEAO: Safada.

CLARISSE: Ai! Eu ia propor o casamento da minha empregada com o empregado de Dona Beatriz. Mas agora o
senhor Florindo pediu para o seu, paciência.

(Música)

FLORINDO: Não, não. Fique à vontade. Eu retiro o meu pedido.

CLARISSE: Nunca. O senhor pediu primeiro.

FLORINDO: Eu jamais faria uma tal ofensa a Dona Clarisse.

CLARISSE: Nem eu tão pouco ao senhor Florindo.

PANTALEAO: Decidam: ou vai para um ou vai para outro.

ARLEQUIM (à parte): Ora essa. Eles fazem cerimônias, e eu fico sem mulher!

ESMERALDINA (à parte): Eram dois e fico sem nenhum!

FLORINDO: Fica o dito por não dito. Retiro o pedido. Aliás, eu nem recomendo muito esse casamento.

CLARISSE: Se não casa com o seu, também não casa com o dela...

ARLEQUIM: Com licença, senhores!

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Para a música...

ARLEQUIM: Eu resolvo o caso. Senhor Florindo... O senhor Florindo não pediu Esmeraldina para o seu empregado?

FLORINDO: Claro! Não ouviste?

ARLEQUIM: E Dona Clarisse está de acordo que Esmeraldina se case com o empregado de Dona Beatriz?

CLARISSE: Sim, mas...

ARLEQUIM (à Esmeraldina): Esmeraldina, me dá a mão.

PANTALEAO (a ARLEQUIM): Por que Esmeraldina deve te dar a mão?

ARLEQUIM: Porque eu sou empregado senhor Florindo e de Dona Beatriz.

TODOS: Oh!

FLORINDO: O quê?

BEATRIZ: O que está dizendo?

ARLEQUIM: Calma, um pouquinho de calma.

FLORINDO: Beatriz, onde está o teu empregado?

BEATRIZ: Está aqui. Arlequim!

FLORINDO: Mas Arlequim é o meu criado.

(Música)

BEATRIZ (para ARLEQUIM): Ah... Patife!

FLORINDO (para ARLEQUIM): Farsante!

(ARLEQUIM pede perdão, com muitos salamaleques)

FLORINDO: Ah! Tratante!

BEATRIZ: Ah! Patife!

FLORINDO: Você serviu a dois amos ao mesmo tempo?

Para a música...

ARLEQUIM: Sim, eu fiz essa proeza. Comecei sem pensar e acabei gostando. Eu cai, levantei, errei, acertei. Não
almocei... Mas por esse feito eu peço a todos que me perdoem, sim?

TODOS: Sim!

ARLEQUIM: Sim?

TODOS: Sim, sim, sim!

ARLEQUIM: Eu acho que vocês não teriam descoberto nada se eu não tivesse me apaixonado por Esmeraldina!

Música / dança / festa.


FIM DA COMÉDIA

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