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Da konbini para o mundo padrão

Se você for a quase qualquer cidade grande do mundo, em quase qualquer país
ocidental ou oriental, verá uma certa rede de restaurantes vermelho-amarela vendendo
produtos oriundos de tubérculos que têm precisamente o mesmo gosto do que aqueles
vendidos do outro lado do globo. Se você observar um casal médio na Europa e sua
contrapartida no México, verá que seus planos, desejos, ambições e objetivos são, em sua
maioria, similares: um emprego, companheirismo, uma prole, a morte. Se você observar
um adolescente na Turquia, cantando suas músicas em turco e também em inglês, e
compará-lo com um jovem brasileiro da mesma faixa etária, verá que, em grande parte,
as músicas serão similares, os trajes parecidos, os trejeitos semelhante, e as ambições
também.

Há na literatura especializada diversas explicações para tanto, com maior ou


menor grau de sucesso, ligando tal similaridade de comportamentos e hábitos a aspectos
de dominação econômica por parte de um centro irradiador (vermelho-amarelo, em
metonímia) de cultura popular, de dominação social mediante a reiteração incessante de
alguns poucos tipos de comportamento (valores de grupo, moda, exposição social,
espetacularização), entre outras explicações. Fala-se aqui de um padrão que é construído
socialmente (as explicações também são variegadas: tome-se a chamada indústria
cultural) e, mediante essa reiteração, muitas vezes levada a cabo pela “mídia” (esse
monstro...) travestida de curtidas em redes sociais, imposta cada uma para um
determinado setor demográfico. Esses padrões são introjetados na mente, servindo a dois
propósitos, ao menos: primeiro, como uma maneira de criar uma expectativa em relação
ao outro que não leve a maiores espantos e possibilite uma reação programada diante da
normalidade alheia; e, segundo, uma forma de manutenção dos costumes e hábitos que
uma sociedade qualquer reputa como basilares para o funcionamento sem maiores
entraves da engrenagem social já estabelecida.

O grau de penetração desses padrões varia, é claro, de sociedade para sociedade.


Há aquelas mais “livres” das amarras da força padronizadora, as quais permitem uma
maior criatividade na proposição de novos costumes e hábitos. Há outras, no entanto, que
se agarram à suposta tradição, que é um conjunto de normas ágrafas, e veem como ameaça
aquilo que é novo, especialmente se é importado de outras comunidades. O Brasil atual
tem se defrontado com a passagem de uma maior criatividade a um maior
conservadorismo de costumes, que leva também a um engessamento do pensamento e um
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apego à padronização, ainda que esta esteja revestida de uma aura de criação. Dou um
exemplo: há um grande incentivo para o empreendedorismo disruptivo (um desses termos
importados que dizem pouco ou nada sobre a atividade em si), que fomenta a invenção
de novas ideias; no entanto, no momento atual, o próprio pensamento de ser disruptivo
está se tornando um padrão aceito de qualidade pessoal segundo esse que é o novo mito
do século XXI.

Outras tradições incorporam a padronização social nas próprias bases de


funcionamento das relações humanas mais simples, não somente na exposição pública da
pessoa, mas também nos momentos solitários, em que, supostamente, ela deveria estar
apartada dos grilhões das máscaras que usa todo dia em público. Nesse contexto se insere
o breve, mas impactante, romance de Sayaka Murata, Querida konbini, em tradução
brasileira feita por Rita Kohl, publicado em 2018 pela editora Estação Liberdade.

Longe de ser um romance distópico, pois que traça um panorama da sociedade


japonesa atual, presta-se também como um alerta contra os malefícios decorrentes da
padronização de comportamentos e do binarismo existente entre o normal e o anormal.

O romance em primeira pessoa trata da vida de Keiko Furukura, uma mulher de


trinta e seis anos que trabalha em uma loja de conveniência (konbini) há dezoito anos.
Essa espécie de trabalho, temporário e horista, é destinada a estudantes universitários,
desempregados, donas de casa entediadas, pobres e pessoas não qualificadas para o
mercado de trabalho “verdadeiro”. Keiko é uma mulher que, apesar de não se enquadrar
totalmente nesse espectro social, nunca se propôs a alterar seu modo de vida, contentando-
se com a rotina diária, repetitiva e simples da konbini.

Essa rotina havia se tornado precisamente o fundamento de sua existência como


organismo humano, entranhado em uma “engrenagem social” que torna as pessoas
simples máquinas, embotando a existência subjetiva individual: “Não me lembro com
clareza de como era minha vida antes de eu renascer como funcionária da loja de
conveniência” (p. 13). Essa sentença (em seu duplo sentido) dá tom a todo o texto, no
qual as memórias de infância da narradora (aliada a eventos traumáticos de silenciamento
em tenra idade: Keiko era tomada como uma criança que pensava diferente das demais)
não podem ser interpretadas por ela sem ter em vista a konbini, condição primordial de
sua existência.

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Keiko respira, acorda, esforça-se, cuida-se, come e dorme em função da konbini.
A loja, porque definidora de sua existência, torna-se parte de seu corpo de maneira literal,
a ponto de ela não saber ou decidir fazer qualquer coisa que não seja em função da
“caixa”, como ela chama a konbini: “Sabendo que quase todo o meu corpo é composto
por comidas e bebidas da konbini, sinto que também sou parte dela, como os produtos da
papelaria dispostos nas prateleiras ou a máquina de café” (p. 30); ou “Depois de desligar
o telefone, vi por acaso minha imagem no espelho. Eu tinha envelhecido desde que
nascera como funcionária” (p. 76; apesar de nesse caso não ocorrer, por vezes a narradora
utiliza “funcionária” com letra maiúscula).

A rotina da konbini é tumultuada quando Shiraha, um funcionário recém-chegado


na loja, oferece uma alternativa de pensamento para Keiko, fazendo-a modificar de
maneira diminutíssima alguns de seus hábitos. Na realidade, Shiraha é um ser frustrado,
ressentido com a sociedade porque não conseguiu, ou não teve força suficiente, para se
adequar a ela. Passa o tempo vociferando contra uma suposta animalização do ser humano
no que tange a relações sociais e acaba por se tornar um parasita de Keiko, quando ele
decide viver na casa dela para fugir das dívidas contraídas.

Keiko enfrenta outra batalha social, ainda que seu embotamento mental não lha
permita tomar conta disso completamente. A posição de Keiko junto à família é de
dubiedade: a família, ainda que simpatize superficialmente com ela e sua condição,
condena-a por continuar a ser “estranha” (termo utilizado no romance), ou seja, virgem
aos trinta e seis anos, sem nunca ter tido um relacionamento amoroso, em um emprego
temporário destinado ao estrato social mais inferior, sem qualquer ambição de mudança
e deixando os familiares perplexos por não ter qualquer consciência disso. Ela é a imagem
daqueles que estão fora dos padrões, que ou não têm ambições ou têm propostas de vida
diferentes da maciça maioria que compõe a engrenagem japonesa. Quando ela conta para
a família que mora com um homem, ela entende que é aceita pelo círculo familiar por
causa dessa aparência de normalidade, esse servir ao comum e ao esperado pela sociedade
que a envolve.

A certo ponto, Keiko resolve, após pressões que ela não aguenta, tentar um
emprego em outro lugar que não seja em konbinis. No meio tempo, Keiko se vê liberta
da vida programada que levava na loja, e não consegue fruir da “liberdade” de não estar
presa às rotinas cotidianas de funcionária. Descuida-se da aparência, pois somente no se
apresentar aos clientes ela vê sentido em se embelezar, seu ciclo de sono se altera, seus
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pensamentos escapam à mente e, no lugar, adentra um vazio perturbador, como se
houvesse morrido para o mundo ao sair do emprego. Nesse ponto, e somente nesse ponto,
ela toma uma pequena consciência do parasitismo de Shiraha e das amarras que a família
e a sociedade lhe impõem. No entanto, preenchida totalmente pela aura da konbini, ela
nega as pressões e se propõe a retornar a esse mundo do qual brevemente se afastara.

Querida konbini pode ser compreendido como um romance que retrata a vida
social japonesa e suas prisões, tais como emprego, sucesso, aparências, máscaras e as
pressões familiares exercidas desde a infância até a morte, conforme a narradora atesta
diversas vezes ao longo de todo romance. Trata-se de um retrato de um problema social
atual que, em última análise, levará à ascensão geométrica do hikikomori, essa figura
reclusa que já atinge um estado de preocupação alarmante não somente na sociedade
japonesa, mas também em alguns pontos do Ocidente.

A pressão social intensa exercida por absolutamente todo o entorno social da


protagonista leva ao completo esvaziamento individual de sentido, de voz e de desejos,
tanto em âmbito pessoal quanto sexual e relacional, e ao apagamento das volições em
todos os sentidos. Vive-se somente para a sociedade, em nome dela; no entanto, é uma
vida ficcional e fabricada (e as metáforas industriais são constantes), pois, apesar de toda
a propaganda para o coletivo, o que se observa é uma sociedade de cansaço na qual a
subserviência às relações monetárias são o substrato para a relação pessoal. Essa
subserviência, aliada à pressão pela normalização do indivíduo (lembro aqui cartuns
sobre humanos sendo produzidos por grandes máquinas: todos são iguais), faz com que
até mesmo as palavras que a narradora usa com os demais personagens e, em última
análise, até com o próprio escrever da narrativa, sejam diretas, objetivas, como em uma
relação mercadológica pura. Palavras para agradar o cliente.

Em segunda análise, o romance trata sobre o pária, um sujeito desajustado às


normas daquilo que foi elevado à categoria de normal e aceito. É um problema a ser
lidado de forma agressiva; no romance, essa agressividade é transmitida pelas palavras
de Shiraha (“Sinceramente, você é a personificação da ralé. Seu útero já deve ter passado
da validade, e, com uma aparência dessas, você não serve nem para aliviar o desejo de
ninguém. [...] Sinceramente, você é só um peso para a aldeia, um lixo humano”, p. 100)
e o discurso inconscientemente animalizante da irmã de Keiko (“Quando você vai se
curar, Keiko? [...] O que podemos fazer para você ficar boa?”, p. 121). O discurso animal,
apagando a civilização, é constante na obra e é utilizado na boca de todos os personagens
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(vale lembrar que é um discurso crescente na política, como o analisa Byung-chul Han).
Keiko é, portanto, uma outsider (na categoria do crítico alemão Hans Mayer) da sociedade
japonesa, uma criatura que não tem propósito e pode ser facilmente substituída; ainda
assim, constitui um peso para os demais, que não sabem como lidar com uma espécie de
paralisia do pensamento, ou até mesmo a não existência dele.

Querida konbini é um livro atualíssimo, um alerta impressionante sobre os rumos


que as sociedades estão tomando frente às redes sociais, ao consumismo desenfreado e à
sociedade de ostentação e aparência. Leitura obrigatória.