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17/11/2019 Marxismo Cultural: uma visão histórica

Revolução e Marxismo Cultural

Marxismo Cultural: uma visão histórica


Em 1989, a queda do muro de Berlim parecia indicar, ao lado do fim do
"socialismo real", a vitória do capitalismo e dos valores do Ocidente —
representados pela aliança entre o então presidente dos Estados Unidos,
Ronald Reagan, e o Papa João Paulo II.

Acontece que, enquanto os EUA venciam a corrida armamentista da Guerra


Fria, os comunistas já se tinham dirigido, há muito tempo, para outro campo
de batalha.

Em 1989, houve um acontecimento que mudou a história recente da humanidade: a queda do


muro de Berlim. O que aconteceu, na prática, foi o suposto desaparecimento do comunismo
real diante daquilo que parecia uma vitória do capitalismo ou uma vitória de dois homens
específicos: o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, anticomunista ferrenho, e o papa
João Paulo II, vítima do comunismo na Polônia.

Dois anos antes da queda do muro de Berlim, em 1987, Ronald Reagan, diante do portão de
Brandemburgo, em Berlim, falando a respeito do secretário geral do partido comunista
Mikhail Gorbachev, pediu aquilo que todos os homens de boa vontade do Ocidente
desejavam: "Mr. Gorbachev, open this gate. Mr. Gorbachev, tear down this wall!"[1]

Então, em 1989, diante da queda do muro, o capitalismo, os valores do ocidente e o Papa João
Paulo II pareciam ter triunfado.

Porém, na ocasião da viagem de João Paulo II a Cuba, um jornalista perguntou a Fidel Castro
como o líder cubano se sentia ao receber a visita do homem que havia derrubado o
comunismo. Fidel respondeu: “eu não desprezaria assim Mikhail Gorbachev". Hoje, cada vez
mais, se percebe que tudo aconteceu de caso pensado. Declarações do próprio Gorbachev e
de alguns comunistas já previam a necessidade de se promover uma aparente morte do
comunismo, para que o espírito e o ideal do comunismo se alastrassem no Ocidente. Os
próprios comunistas compreendiam que havia uma espécie de queda de braço na guerra fria
e que estavam perdendo a disputa. A guerra indicava uma vitória dos EUA, que estavam
muito melhor que os soviéticos. Quando os EUA estavam vencendo a batalha militar, os
comunistas se dirigiram para outro campo de batalha. Já há décadas haviam percebido que
o caminho da vitória sobre o capitalismo não era o militar, mas o cultural.

Mas, como aconteceu o triunfo da linha marxista cultural, que parecia originalmente
heterodoxa? No século XIX, Karl Marx defendia a ideia de que a sociedade era injusta porque
explorava o trabalhador. Era necessário que através de um método revolucionário (armado),

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a classe trabalhadora tomasse posse do governo, implantando uma ditadura do proletariado,


controlando os meios de produção. E essa ditadura seria uma ponte para uma sociedade que,
ao final, seria justa, sem classes, sem governo.

Em suma, o ideal de Marx era a implantação de um paraíso terrestre, de uma sociedade


justa, perfeita, através do poder criativo do mal. Marx, porém, não é a origem de tal
pensamento, mas somente um porta-voz. Afirmar a força criativa do mal, do negativo, que
da destruição faz surgir algo de bom é um princípio da filosofia Hegeliana. De uma antítese
forte, segundo Hegel, surge uma síntese superior. Hegel identifica uma espécie de injustiça
com o mal, com o negativo, que foi demonizado, exorcizado, criando imobilismo e falta de
vitalidade. Hegel traz para a filosofia algo que já era enxergado e defendido pela arte, pelo
romance[2].

“Dê asas à maldade e acontecerá algo de bom". Foi o que Hegel propôs com a sua dialética.
Marx levou tal conceito à prática. No caso de Marx e da revolução armada, a luta seria
suprassumida, levada para cima. Matar, destruir, hostilizar a civilização, trazer abaixo a
ordem foi o caminho adotado (ou proposto) por ele para a produção de uma ordem superior.
E esse mesmo princípio é o que governa a vida de muitos sacerdotes e muitos bispos, dentro
da própria Igreja hoje. Muitos fazem automaticamente coisas que não sabem de onde
vêm[3] .

É preciso que desde o início estas realidades fiquem claras, para que se consiga distinguir
claramente qual o papel que cada personagem desempenha na Igreja. Uma pessoa só pode
ser julgada a partir das coisas que combate. Se alguém diz que é a favor dos pobres, dizendo
que ama a justiça social, o único critério para verificar se está dizendo a verdade ou não é
analisar o que irá combater: se combate tudo o que há de sagrado, como a liturgia do Missal,
a disciplina do Código de Direito Canônico e a doutrina do Catecismo da Igreja Católica,
percebe-se, claramente, uma realidade diversa daquela que é apresentada costumeiramente.
Uma coisa é a propaganda que é feita de si mesmo, outra é o verdadeiro intento de cada
pessoa em seu agir cotidiano.

Um exemplo pode ser encontrado numa pessoa que declara seu amor à verdadeira tradição
da Igreja e não à “tradição engessada" de Trento; que afirma amar os santos, mas somente os
que são “comprometidos"; que diz amar a liturgia, mas a liturgia “inculturada", capaz de
“falar" ao povo. Na realidade, em todos os casos citados, é necessário entender que existe um
princípio de ação marxista, que permeia todos os comportamentos: é o princípio do negativo,
do destruidor, que busca por abaixo toda a estrutura vigente para que uma “melhor" seja
erigida[4].

O papa Bento XVI recentemente esteve na Alemanha, no Congresso Nacional (Bundestag) e


dirigiu uma palestra aos parlamentares de seu país. Foi aplaudido efusivamente de pé por
quase todos os congressistas, exceto por um pequeno número de pessoas, de um
determinado partido. Em suas palavras conclusivas o papa disse:

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"A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do


encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos Gregos e o pensamento
jurídico de Roma. Este tríplice encontro forma a identidade íntima da Europa. Na
consciência da responsabilidade do homem diante de Deus e no reconhecimento da
dignidade inviolável do homem, de cada homem, este encontro fixou critérios do
direito, cuja defesa é nossa tarefa neste momento histórico"[5].

Segundo Bento XVI, é necessário defender a fé cristã, o direito romano, a filosofia grega
porque existe um movimento revolucionário que está derrubando (ou já derrubou) estas três
colunas da civilização ocidental. O papa professa publicamente que é necessário reerguê-las.
É preciso, porém, deixar claro quem quer e por que quer destruir estas colunas.

Hegel e Marx, como já apresentando, colocam a realidade do trabalho do negativo. Marx, por
exemplo, quer, através de um trabalho de destruição, trazer abaixo uma ordem e um sistema
que, segundo ele, oprimia o trabalhador. Marx profetizou uma sociedade justa, sem classes,
sem governo, dizendo que isso aconteceria por uma revolução dos trabalhadores. Previa que
os trabalhadores iriam sofrer tanto debaixo da pressão dos capitalistas que, mais cedo ou
mais tarde, haveria tanto conflito a ponto de estourar uma revolta [6].

Sua obra O manifesto do partido comunista termina com um convite para a união dos
proletários. Imaginava que os trabalhadores dos diversos países da Europa iriam se unir
contra os capitalistas, impondo uma ditadura do proletariado. Isso, porém, nunca aconteceu.
Apesar de ter acontecido uma guerra (I Guerra Mundial), os trabalhadores não se uniram
para lutar contra os proletariados, mas para lutar contra outros trabalhadores.

Depois da I Guerra Mundial, o marxismo estava em plena crise teórica: como foi possível a
união dos trabalhadores para matar outros trabalhadores, buscando defender os interesses
de seus patrões? Quem os alienou?

Marx, de certa forma, já havia encontrado a “solução" em uma de suas frases mais
conhecidas: a religião é o ópio do povo [7]. Marx havia entendido que havia um fator cultural que
alienava o povo. Porém, não conseguiu elaborar tal pensamento de forma adequada.

Tal elaboração será feita por dois filósofos, de forma independente, um húngaro, Georg
Lukács e o outro italiano, Antonio Gramsci (que teve seu método acolhido pelos marxistas
culturais). Quando terminou a I Guerra, diante da grande crise teórica do marxismo, para
Gramsci e para os marxistas culturais, o grande adversário a ser derrubado mostrou a sua
face: a ética judaico-cristã, a filosofia grega, o direito romano, eram como que uma espécie de
veneno que alienava as pessoas, impedindo os trabalhadores de lutarem de forma
revolucionária.

Gramsci esteve na URSS, durante a década de 20. Presenciou a tentativa de Lênin de


estabelecer as bases do estado soviético. Viu também quando Stálin tomou as rédeas do

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partido, matando vários dissidentes comunistas (Trotsky, por exemplo). Viu que o
comportamento de Stálin era a aplicação prática da filosofia de Hegel. Gramsci pôde
compreender que era necessário destruir, trazer abaixo a cultura ocidental, mas que não
haveria solução pelo caminho stalinista. Era preciso implodir as três colunas do Ocidente,
lentamente, anonimamente, gradualmente. Na técnica gramsciana, nada pode ser ostensivo,
tudo deve ser feito disfarçadamente, com o veneno sendo ministrado ao paciente como se
fosse um remédio, como se fosse o medicamento de sua salvação. Em outras palavras, é
necessário destruir a cultura ocidental em nome da dignidade e da liberdade do homem. Em
nome da liberdade, cria-se a ditadura. Em nome dos Direitos Humanos, cerceiam-se os
direitos do homem.

Uma coisa é aquilo que o marxismo cultural alardeia, outra coisa é o que ele
verdadeiramente busca fazer. Em nosso país, um exemplo disso é a aprovação do
“casamento" homossexual. Tudo foi feito em nome da dignidade humana, pois os
homossexuais não podem ser oprimidos, têm direitos, não podem ser vítimas de um olhar
preconceituoso.

O objetivo, na realidade, é a destruição da família, pois para o pensamento marxista a família


é um valor burguês, uma desgraça que precisa ser extinta, já que está baseada em elementos
que impedem a revolução: a propriedade privada (bens passados para herdeiros, perpetuação
da propriedade privada), a opressão patriarcal (o homem é maior do que a mulher, não há
igualdade) e a ética sexual burguesa. Só como exemplo, numa relação homossexual existe
uma clara afronta à ética sexual cristã, uma violação ao patriarcalismo ocidental, não há
herdeiros. A propaganda é a defesa dos direitos dos homossexuais, mas o interesse
verdadeiro é a destruição da família. Como o povo está alienado, com um pensamento
cristão muito arraigado, é necessário entrar em sua consciência e arrancar à força os valores
“burgueses" que impedem a revolução. Mais uma vez, o caminho é olhar para o que é
combatido, não para aquilo que pretensamente é defendido.

Esta introdução buscou colocar uma visão panorâmica do que é marxismo cultural. Marx
quis implantar uma sociedade nova aqui na terra. Gramsci mostrou que os meios para tal
empreendimento são os culturais, já que os métodos armados não deram certo. O que
Gramsci propõe é a mudança do interior das pessoas, pois somente assim acontecerá
verdadeiramente o início da nova sociedade. É necessário aculturar as pessoas, acabar com
a cultura de cada uma delas.

Referências

1. “Senhor Gorbachev, abra este portão! Senhor Gorbachev, derrube este muro!".
Discurso proferido diante do portão de Brandemburgo no dia 12 de junho de 1987. O
vídeo pode ser conferido em: http://www.youtube.com/watch?v=5MDFX-dNtsM.

2. Isso pode ser conferido no romance Fausto, de Goethe,


Goe no momento em que
Me stófeles, o demônio, apresenta-se ao protagonista: “Fausto: Pois então, quem és

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tu? Me stófeles: Eu sou uma parte dessa força que deseja sempre o mal e sempre cria
o bem". (GOETHE.
GOE Fausto. Quadro IV, Cena II. Segundo o original: Fausto: Nun gut, wer
bist du denn? Mephistopheles: “Ich bin ein Teil von jener Kraft, die stets das Böse will
und stets das Gute scha t".)

3. Nesta série de palestras, será necessário tomar uma decisão: ser um teólogo da
Libertação competente, buscando fazer um trabalho de destruição dentro da própria
Igreja; ser alguém el à Igreja, à Tradição e ao papa. Este material pode ser utilizado
para o bem, sabendo o que se deve fazer para evitar o mal; ou então, ser utilizado para
o mal, conscientemente usado para destruir a Igreja.

4. Infelizmente, o princípio da destruição parece estar presente dentro da Igreja. Muitas


pessoas creem que quanto mais forem devassas, quanto mais destruírem a moral
tradicional, mais promoverão o amor; quanto mais caluniarem, quanto mais destruírem
a vida dos outros, tanto mais implantarão o reino de Deus; creem que quanto mais
criarem desordem e profanarem o sagrado, tanto mais servirão à causa de Deus.
Vivem, portanto, de acordo com o princípio da destruição.

5. Bento XVI, Discurso na visita ao Parlamento Federal no Palácio do Reichstag de


Berlim, proferido no dia 22 de setembro de 2011. O discurso está disponível em
http://www.vatican.va/holy_father...

6. Para dar maior fundamento às suas teorias, Marx consultou dados relativos aos
trabalhadores nos “Blue books" ingleses, forjando, porém, os dados coletados.

7. Numa época em que havia grandes di culdades para se amenizar uma dor lancinante,
o ópio era uma possibilidade alucinógena para fugir da dor.

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