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V JEEM

Junho de 2013

A CONSTRUÇÃO DE SENTIDO E VALOR DA MÚSICA NO PROCESSO DE


APRECIAÇÃO MUSICAL

Cassiano de Almeida Barros, UNIMEP, cassianobarros@hotmail.com


Rebeca Barbosa de Oliveira, UNIMEP,rebecaoliveira02@gmail.com

Resumo: Este trabalho, desenvolvido no âmbito da Iniciação Científica, tem como objetivo investigar, de
acordo com o Modelo Espiral do Desenvolvimento Musical de Keith Swanwick (1988), os processos de
construção de sentido e valor da música nos processos de apreciação musical desenvolvidos no contexto do
Ensino Superior. Especificamente, pretende-se observar as experiências de apreciação dos estudantes da
disciplina História da Música dos Cursos de Música da Universidade de São Paulo – USP, campus São Paulo,
considerando o estudo dos aspectos históricos, sociológicos, estilísticos e biográficos, bem como a validade do
Modelo Espiral como critério de avaliação da apreciação musical nesse nível de formação. Para isso, está sendo
realizada uma pesquisa qualitativa, baseada na observação e coleta de dados, por meio da aplicação de
entrevistas estruturadas que têm como foco a vivência dos sujeitos. O estudo inicial dos dados coletados
evidencia perfis diversos de formação dos entrevistados e níveis diferentes de conhecimento da música e sobre
a música. Além disso, aponta uma compartimentação do conhecimento musical, a dificuldade em articular os
diferentes conhecimentos para a construção de sentido do repertório apreciado e uma noção de valor baseada
em parâmetros tradicionalmente instituídos e às vezes pouco fundamentada na experiência real de apreciação,
tais como a autoria e o estilo. Esta pesquisa justifica-se pela necessidade de conhecer os processos de
construção do conhecimento musical, buscando contribuir para formulação e adoção de estratégias de ensino
mais eficientes e conformes aos processos de aprendizagem.

Palavras-chave: Educação Musical; Apreciação Musical; Percepção Musical; Ensino Superior.

Introdução

De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Graduação em Música


(MEC, 2004, p.02), esses cursos devem ensejar, como perfil desejado do formando,
“capacitação para apropriação (...) da sensibilidade estética através do conhecimento de
estilos, repertórios, obras e outras criações musicais” (...).
No cumprimento desse objetivo, os Cursos de Graduação em Música existentes no país, em
sua maioria, articulam a disciplina de História da Música com as demais disciplinas de suas
matrizes curriculares para que, por meio dela, se promova o conhecimento “de estilos,
repertórios, obras e outras criações musicais”.
A construção desse conhecimento pode ocorrer de diversas maneiras, seja por meio
exclusivamente teórico, ou exclusivamente prático, ou ainda articulando teoria e prática nas
mais diversas proporções entre si.
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de apreciação musical. In: JORNADA DE ESTUDOS EM EDUCAÇÃO MUSICAL, 5., 2013. São Carlos. Anais.... São
Carlos: UFSCar, 2013. p.15-24.
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No Curso de Música-Licenciatura da Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP, por


exemplo, os conteúdos relativos à disciplina de História da Música são abarcados pela
disciplina de Apreciação Musical, uma disciplina de natureza teórica, de quatro créditos (68
horas/aula), atualmente alocada nos três últimos semestres do Curso. A cada semestre, os
conteúdos estipulados, em termos gerais de estilo, são especificados no próprio nome da
disciplina, à maneira de um subtítulo, a saber: Apreciação Musical: Antiguidade ao Barroco;
Apreciação Musical: Classicismo e Romantismo; Apreciação Musical: Contemporânea e
Brasileira.
Já nos Cursos de Música da Universidade de São Paulo - USP, campus São Paulo, a disciplina
História da Música está organizada em quatro níveis, alocados respectivamente do primeiro
ao quarto semestre dos Cursos. Cada nível possui 3 créditos (45 horas/aula) de natureza
teórica e o conteúdo é organizado cronologicamente, abordando o repertório desde a Idade
Média até a Contemporaneidade.
Apesar dos estudos históricos serem predominantemente de natureza teórica, a apreciação
musical não é, segundo autores como Swanwick, Tillman, Hentschke, França e Del Ben, uma
atividade de natureza teórica, mas sim prática. Pode ser definida como o exercício da
percepção musical que, de acordo com França (2005, p. 633), “ultrapassa o âmbito da
discriminação auditiva e contempla o dinâmico processo da percepção e da experiência
musicais”. Nesses termos, a apreciação musical caracteriza-se como o estudo aplicado da
história da música, isto é, o estudo da dimensão histórica do próprio fazer musical e dos
diversos elementos que lhe são relativos insere-se no contexto da prática dos alunos de ouvir,
fazer e compreender música.
Essa abordagem fundamenta-se na teoria sobre o conhecimento musical desenvolvida e
proposta por Keith Swanwick, em sua extensa literatura sobre o tema. Esse músico inglês
propõe (1979, pp. 42-43) que a experiência musical direta, particularmente por meio da
composição, da execução e/ou da apreciação - atividades que propiciam o envolvimento
direto do indivíduo com a música mediante sua ação - resulte eficientemente na construção do
conhecimento musical. Além dessas atividades, consideradas essencialmente musicais,
existem outras que Swanwick considera como complementares à experiência musical. Essas
últimas, segundo Del Ben (1997, p. 28), têm como função fundamentar e capacitar a
experiência direta e o desenvolvimento do conhecimento musical. Agrupam-se em duas
categorias:

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• aquisição de habilidades - compreende o controle técnico vocal e instrumental, o


desenvolvimento da percepção aural e da leitura e notação;
• estudo de literatura da música e sobre a música - abrange estudos históricos e
musicológicos.
De acordo com essa perspectiva, a apreciação musical consiste numa experiência musical
direta, ao passo que os estudos históricos e musicológicos fundamentam e capacitam essa
experiência.
Swanwick (1994, p.13-14) reconhece dois estratos na experiência e no conhecimento musical,
a saber: 1. o pessoal - que concerne a relação do indivíduo com a música e, por seu caráter
idiossincrático, muitas vezes é incomunicável; e 2. o coletivo: que se traduz objetivamente em
uma série de conceitos e ideias que podem ser compartilhados e possibilitam a crítica musical.
Neste último, aponta diferentes formas de responder à música e falar sobre a experiência
musical, que ele chama de dimensões da crítica musical. São elas:
1. Material: trata de aspectos relativos às qualidades do som, sua manipulação e controle
dos instrumentos e vozes;
2. Expressão: trata de aspectos relativos à identidade expressiva da música;
3. Forma: trata dos meios pelos quais os gestos musicais se relacionam e são
desenvolvidos, definindo um sentido de direção e estrutura à música;
4. Valor: diz respeito ao sentido que se atribui à experiência musical. Pode ser
influenciado pela idade do indivíduo, gênero, contexto social, disposição da personalidade e
educação, mas depende principalmente da experiência musical anterior. Segundo Swanwick
(1994, p. 20), o valor que se atribui a uma experiência ou obra musical é consequência do
“desenvolvimento da sensibilidade e das habilidades em lidar com os materiais sonoros e da
capacidade de identificar a expressão e compreender a forma musical”. Em síntese, o valor
resulta de um juízo que relaciona as dimensões críticas anteriores à vivência musical
pregressa para a construção de um sentido que pode oscilar entre os extremos bom e mal e
condicionam o comprometimento e o grau de interesse do indivíduo em relação à experiência
julgada.
Segundo Swanwick (apud. Del Ben, 1997, p.28), “todo comentário crítico sobre qualquer
objeto ou evento musical pode ser categorizado a partir dessas dimensões”. Embora formem
um todo único na experiência musical direta, as quatro dimensões de crítica musical podem
ser isoladas sob o propósito da análise ou do ensino. Swanwick reconhece ainda uma outra

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dimensão da crítica, que aborda o contexto social e histórico da obra, do compositor ou do


intérprete, aspectos da vida pessoal dos músicos, a construção dos instrumentos, entre outros.
Embora reconheça o valor desse tipo de crítica, o autor (1991a, p.140) argumenta que esse
discurso não se refere à resposta musical em si, pertencendo a uma classe lógica diferente das
dimensões anteriormente citadas.
De fato, muitas vezes, numa situação de ensino-aprendizagem da música, a resposta a uma
experiência de apreciação musical não se caracteriza como um produto musical em si, pois o
aluno não se expressa através da própria música, mas sim através de meios verbais ou de
outro recurso de representação dos processos presentes nessa atividade para comunicar sua
percepção e concepção da coisa experienciada. Se essa experiência da apreciação não resulta
num produto musical observável, por seu estrato pessoal e caráter idiossincrático, ela pode
não ser comunicável pelo aluno e tornar-se inacessível ao professor. Assim, segundo Del Ben
(1997, p.02), “para que o professor possa compreender a experiência de apreciar música do
aluno e diagnosticar seu nível de compreensão musical, torna-se necessário que esta
experiência particular ou subjetiva seja traduzida de modo objetivo”.
As dimensões críticas do material, expressão e forma musical, em geral, são mais facilmente
percebidas, concebidas e comunicadas pelos estudantes de música de nível superior em
função do conhecimento musical que já possuem e estágio de desenvolvimento em que se
encontram, quando são introduzidos no estudo da apreciação e história da música. A
dimensão de valor, por outro lado, é pouco explorada e desenvolvida no relato desses alunos,
em parte, pela falta de consciência dos processos envolvidos na experiência musical, ou ainda
pela dificuldade em sintetizar e articular as dimensões anteriores entre si, ou de articular todos
esses aspectos com a vivência musical pregressa e informações extramusicais que contribuam
para a construção de sentido da música e sua compreensão.
Swanwick (apud Del Ben, 1997, p. 35) argumenta que o desenvolvimento de toda
compreensão depende dos processos complementares e interativos de assimilação e
acomodação, isto é, da capacidade de “relacionar dados da experiência aos sistemas internos
de significado” (assimilação) e, ao mesmo tempo, da capacidade de “modificar estes sistemas
quando eles não mais são adequados para interpretar a experiência e sustentar a coerência
(acomodação)” (Swanwick, 1994 p. 86).
Objetivo

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Este trabalho tem como objetivo investigar, de acordo com o Modelo Espiral do
Desenvolvimento Musical de Keith Swanwick (1988), os processos de construção de sentido
e valor da música no contexto do Ensino Superior. Especificamente, pretende-se observar as
experiências de apreciação dos estudantes da disciplina História da Música II dos Cursos de
Música da USP - campus São Paulo, considerando o estudo dos aspectos históricos,
sociológicos, estilísticos e biográficos, bem como a validade do Modelo Espiral como critério
de avaliação da apreciação musical nesse nível de formação.

Materiais e Métodos
Com foco no estudo dos processos vivenciados pelos sujeitos, este projeto propõe uma
pesquisa qualitativa, baseada na observação e na coleta de dados, por meio da aplicação de
entrevistas estruturadas. As entrevistas ocorreram em duas aulas da disciplina História da
Música II, durante o segundo período letivo de 2012, como atividade da disciplina.
Foram recrutados para esta pesquisa 21 alunos voluntários dentre os matriculados na
disciplina. Todos esses alunos, no início da fase de coleta de dados, receberam um Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, consentindo em participar da pesquisa.
A elaboração dos roteiros de entrevistas e protocolos de observação foi baseada nos critérios
de avaliação da atividade de apreciação musical propostos por K. Swanwick. Esses critérios
baseiam-se nos quatro estágios de desenvolvimento musical e nas duas fases que dividem
cada estágio, como segue:
Estágio 1: Materiais
Fase 1 - Sensorial: o estudante reconhece com clareza diferentes níveis de intensidade;
diferenças amplas de altura; mudanças evidentes de timbre e textura. Nada disso é
tecnicamente analisado, não considerando o caráter expressivo ou relações estruturais.
Fase 2 - Manipulativa: o estudante identifica mas não analisa formas de manipulação do
material musical, por exemplo: trinados, tremolos, padrões escalares, glissandi, pulso
constante ou oscilante, efeitos estereofônicos ou espaciais; sons instrumentais semelhantes ou
diferentes.
Estágio 2: Expressão
Fase 3 - Expressão Pessoal: o estudante descreve a atmosfera geral, o humor ou caráter da
passagem e reconhece mudanças no nível expressivo, sem prestar atenção a relações

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estruturais. A música pode ser descrita em termos de incidentes dramáticos, histórias,


associações pessoais e imagens visuais ou qualidades de sentimentos.
Fase 4 - Vernáculo: O estudante reconhece procedimentos musicais comuns e pode identificar
certos elementos como metro, forma e extensões de frases, repetições, sequências, síncopes,
bordões, ostinados. Há alguma análise técnica.
Estágio 3: Forma
Fase 5 - Especulativa: O estudante identifica o que não é usual ou é inesperado no contexto de
determinada obra e é capaz de prestar atenção em mudanças de caráter com referência a
timbre vocal ou instrumental, altura, intensidade, ritmo, discurso e extensão de frases; o grau
e frequência de mudanças e a medida em que estas são graduais ou repentinas.
Fase 6 - Idiomática: O estudante situa a música em um contexto estilístico e demonstra
consciência de recursos técnicos e procedimentos estruturais que caracterizam um idioma
particular, tais como transformação por variação, ornamentação e contraste de seções
intermediárias, harmonias distintas e inflexões rítmicas, produção de sons instrumentais
específicos ou melisma vocal.
Estágio 4: Valor
Fase 7 - Simbólica: Além de satisfazer os critérios das fases anteriores, o estudante demostra
evidência de exploração e comprometimento pessoal através da escolha de uma área de
investigação musical. Haverá evidência de insights individuais e engajamento continuado com
determinadas obras, interpretes ou compositores.
Fase 8 – Sistemática: Revela-se uma profunda compreensão do valor da música devido à uma
sensibilidade desenvolvida com materiais sonoros, à habilidade de identificar expressões ou
compreender a forma musical. Existe um compromisso sistemático com a música como uma
forma significativa de discurso simbólico. (Swanwick, 2003, p. 93-94)
Para a coleta de dados da pesquisa, foram desenvolvidos dois questionários, intitulados A e B,
que foram aplicados em momentos distintos ao longo do período letivo, no contexto das aulas
da disciplina História da Música II. A escolha desses momentos considerou a rotina das aulas,
conforme relatada pela professora da disciplina: As aulas seguem, normalmente, o roteiro
estabelecido no plano de ensino da disciplina. Cada aula é dedicada a um estilo musical ou
tema específico, geralmente organizados cronologicamente. Em geral, as aulas são expositivas
e tratam de aspectos teóricos, estilísticos, históricos e sociológicos que compõem a prática
musical das diferentes épocas e lugares. No caso da disciplina História da Música II, tratamos

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da música europeia dos séculos XVII e XVIII. Eventualmente, as aulas expositivas são
substituídas por palestras realizadas por professores e pesquisadores convidados. Além da
exposição oral ou palestra, cada aula possui um momento prático de apreciação musical
orientada, no qual os alunos são estimulados a perceber no repertório escolhido a aplicação
dos elementos teóricos e estilísticos estudados. Além das obras abordadas em aula, é
disponibilizada, via ambiente virtual de aprendizagem - Moodle, uma quantidade extra de
repertório, a fim de orientar e facilitar o estudo complementar dos alunos.
Considerando este relato e o fato do questionário A tratar de aspectos gerais da rotina de
apreciação musical do voluntário e o questionário B tratar de uma experiência específica de
apreciação, optou-se por aplicar o questionário A no início do processo de coleta de dados,
que ocorreu no início do mês de outubro/2012. O questionário B foi aplicado duas vezes em
duas aulas diferentes: uma vez no início da aula e outra vez no final da aula, considerando, a
cada aula, o processo de apreciação da mesma obra musical. A opção de aplicar o
questionário B no início e no final da aula foi feita a fim de permitir comparar duas
experiências distintas de apreciação musical de uma mesma obra: uma realizada antes da aula
expositiva sobre os aspectos históricos, estilísticos, teóricos relativos ao repertório estudado e
outra depois da aula expositiva, de maneira que se pudesse verificar, por meio do relato dos
voluntários, o processo de construção de sentido e valor da obra musical estudada e apreciada.
O questionário A foi composto por 7 questões abertas sobre aspectos gerais da rotina de
apreciação musical do voluntário, considerando que esses voluntários sejam alunos de um
curso de graduação em música e que a apreciação musical seja uma prática regular em seu
dia-a-dia, pelo menos no contexto da disciplina História da Música II.
O questionário B foi composto por 5 questões abertas, direcionadas a verificar de que maneira
o voluntário contemplava os diferentes aspectos relativos a cada estágio do processo de
apreciação musical.
O questionário B foi aplicado na aula do dia 07/11/12, que tratou sobre as tendências musicais
por volta de 1750, e na aula do dia 21/11/12, que tratou sobre a música instrumental vienense
produzida entre 1750 e 1780. As obras musicais selecionadas pela professora para essas aulas
e que foram consideradas pelos voluntários na resposta do questionário B foram as seguintes:
o primeiro movimento (Allegro di molto) da Sinfonia no. 01, em sol maior, de Carl Philipp
Emanuel Bach (1714-1788), para o dia 07/11/12, e o primeiro movimento (Vivace assai) do

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Quarteto de Cordas Opus 33 no. 5, em sol maior, de Joseph Haydn (1732-1809), para o dia
21/11/2012.
A coleta de dados foi feita de duas maneiras: a aplicação do questionário A e do questionário
B no dia 07/11/2012 foi feita à distância, com o apoio do ambiente virtual de aprendizagem
Moodle, sistematicamente utilizado por professora e alunos no contexto da disciplina História
da Música II; a aplicação do questionário B no dia 21/11/2012 foi feita presencialmente pela
bolsista do projeto.

Resultados Parciais e Discussão


Após a aplicação dos questionários, começamos o trabalho de leitura, interpretação e estudo
das respostas, de acordo com os critérios estabelecidos na Teoria de Desenvolvimento
Musical.
Primeiramente, verificamos se os estágios e níveis contemplados nas questões do questionário
B foram satisfatoriamente contemplados nas respostas. Curiosamente, embora as questões
fossem objetivamente redigidas e direcionadas especificamente aos aspectos relativos a esses
estágios e níveis de apreciação musical, algumas respostas traziam mais informações do que
as solicitadas, permitindo observar um nível mais elevado de apreciação do voluntário, e
outras respostas eram incompletas ou não traziam exatamente as informações que eram
solicitadas, permitindo constatar uma dificuldade no processo de apreciação, ou com o
instrumento de coleta de dados, ou um descompromisso com o trabalho de pesquisa.
Como exemplo, pode-se observar a resposta do Voluntário no. 01 à questão 01 do
Questionário B aplicado no dia 21/11/12:
QUESTÃO 1: Que material é utilizado na música? Em sua resposta descreva o tipo de
compasso, tonalidade, modo, série, conjunto, tipos de instrumentos, texturas, motivos, ideias,
etc. Por fim, destaque aquilo que mais lhe chamou a atenção nessa música (obra de referência:
primeiro movimento do quarteto de cordas opus 33, número cinco de Joseph Haydn).
Resposta: Conjunto de cordas (quarteto), momentos de diálogo entre os instrumentos,
tonalidade maior.
Segundo a resposta, o aluno conseguiu identificar os sons instrumentais da música (quarteto
de cordas), comentou sobre a textura (momentos de diálogos entre os instrumentos) e
reconheceu a tonalidade maior. Todas esses elementos caracterizam o estágio material (níveis

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1 e 2) de Apreciação. Neste caso, a resposta é considerada satisfatória e evidencia a


apropriação do estágio de desenvolvimento musical pelo voluntário.
Pudemos perceber que depois de da intervenção da professora, algumas respostas mudaram de
nível, e que houve uma influência da explicação e exposição da aula na segunda coleta de
dados, o que sugere um incremento no sentido atribuído à música apreciada ou mesmo uma
mudança de sentido, em alguns casos.
O estudo inicial dos dados coletados evidencia perfis diversos de formação dos entrevistados
e níveis diferentes de conhecimento da música e sobre a música. Além disso, aponta uma
compartimentação do conhecimento musical, a dificuldade em articular os diferentes
conhecimentos para a construção de sentido do repertório apreciado e uma noção de valor
baseada em parâmetros tradicionalmente instituídos e às vezes pouco fundamentada na
experiência real de apreciação, tais como a autoria e o estilo.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de graduação
em Música. Brasília: 2004.

DEL BEN, Luciana M. A Utilização do Modelo Espiral de Desenvolvimento Musical como


Critério de Avaliação da Apreciação Musical em um Contexto Educacional Brasileiro.
Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Artes.
Porto Alegre: 1997.

FRANÇA, Cecília Cavalieri. Apreciação Musical como Indicador da Compreensão Musical no


Vestibular da UFMG. Anais do XV Congresso da ANPPOM. pp. 632-641. 2005.

GOHN, Daniel. Educação a Distância: como desenvolver a apreciação musical? Anais do XV


Congresso da ANPPOM. pp. 616-625. 2005.

HENTSCHKE, Liane. Musical Development: testing a model in the audience-listening setting.


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