Você está na página 1de 95

10 Aulas de Sedução

Escrita por: Má Marche


Betada por: Gabriella

Uno

- Hey! Sam! – Chamou alto na porta da sua pacata casa amarela.


- Ah, oi, Hadassa. Eu tenho que... – Começou o garoto andando de costas em direção à bicicleta
vermelha que o levava para todos os lados que precisasse.
- Minha nossa, que saudades de você! Me diz: Você sentiu minha falta? – Cortou, afobada, carente,
e ainda falando alto demais.
- Eu, bem... Claro. Escuta, eu tenho mesmo que ir. – Repuxou os lábios apontando com o polegar
para trás.
- Mas já? Não nos vemos há semanas! – Fez um bico infantil antes de um pensamento cruzar sua
mente – Ahn... Vai sair com a Maddison de novo?
- Sim! – O sorriso do garoto quase não cabia na face. Sua alegria era perceptível de longe. A
miserabilidade da garota, também. – Que bom que você entende, Dassa. Então eu vou indo nessa.
Digo a ela que você mandou um beijo. Tchau!

Hadassa Guímel era uma garota comum como qualquer outra. Embora fosse toda certinha, com
notas impecáveis e vida social negativa, do tipo que nunca faz algo minimamente fora da curva.
Hadassa tinha um único amigo: Samuel Luscenti.
Sam era loiro, tinha cativantes olhos castanhos, um sorriso largo e quente, era bondoso com todos,
gentil e simpático na medida certa. Ele e a garota eram amigos desde pequenos por fruto da
amizade entre seus pais. Estavam sempre juntos, sentavam-se juntos, comiam na mesma mesa,
moravam na mesma rua. Hadassa não sentia que precisava de mais do que aquela singela
companhia em seus dias.
Mas Sam não concordava muito. Justamente por ser tão simpático, ele fazia amizades com
facilidade, era bastante convidado a ir a festas e cumprimentava uma pessoa ou outra nos
corredores. Ele era bem na dele, é verdade, mas não se comparava com Hadassa, que tinha
praticamente um casulo a sua volta, protegendo-se dos outros mortais.
Mesmo assim, a amizade dos dois não sofreu abalos durante muito tempo, e a cada dia a garota
descobria nele uma nova qualidade para admirar, mais alguma característica que ela própria não
possuía, mas achava encantador que ele tivesse.
Chegou um ponto em que, sendo a única pessoa que ela tinha realmente deixado aproximar-se,
cada mínimo detalhe dele lhe era sabido, desde o contorno de seu sorriso, até os diversos tons que
sua voz adquiria conforme mudavam seus sentimentos. A companhia agradável e o riso fácil do
garoto cativando-a a cada nova hora passada lado a lado com o loiro.
E ela bem que quis, mas não pode evitar se apaixonar por ele.
Foram tantos momentos especiais, tantas coisas inéditas que vivenciou ao lado dele, que lhe atribuir
mais um primeiro lugar - no caso, em seu coração - parecia simplesmente certo. Certo demais para
que sua racionalidade sempre tão reclusa se pusesse contra.
Levava bem essa paixão secreta até o segundo colegial, quando Sam arrumou uma namorada.
Maddison, também conhecida como a loira-perfeita-gostosa-vadia-e-burra que todos os caras do
colégio queriam ter na cama uma vez na vida pelo menos.
É passageiro, ela pensou. Ele logo se cansa dela e pronto, eu sequer vou precisar sofrer por isso.
Então, um dia, ele vai saber que eu sou a pessoa perfeita para ele. Ele vai reparar em mim, e vai
ficar tudo bem.
Exceto que não ficou. O namoro dos dois progrediu por meses a fio, e a cada novo passo que
davam, Hadassa sentia seu coração morrer um pouquinho mais. Alianças de compromisso, viagens
em família, apelidos fofos, etc. etc. A garota cada vez perdia mais a esperança ao passo que sua
amizade com Sam ficava também cada dia mais desgastada. Ele só tinha olhos para a namorada
agora, e perder tempo com a amiga nerd chata não estava em seus planos. Ainda mais
considerando o fato de que ela estaria sempre ali, na espreita, esperando que ele retornasse. Sua
linda namorada não tinha a mesma disponibilidade e entrega, disputada como era, e por isso era
essencial que concentrasse seu tempo e esforços em estar com ela.
A garota estava cansada de disputar a atenção do amigo. Ela devia ser o bastante, e ele devia saber
disso, devia ser a pessoa que via suas qualidades escondidas e que abraçava seus defeitos. Mas Sam
não era aquela pessoa, e isso a esgotava; Esperar que ele fosse essa pessoa, torcer, iludir-se disso
era cansativo.

Estava sentada à sua mesa de sempre no refeitório: no fundo e debaixo de uma falha na iluminação,
de forma que aquele costumava ser o melhor lugar para ela comer sem se preocupar - tanto - com
as pessoas ao seu redor. Hadassa achava que o que fazia aquele lugar tão ideal eram seus atributos
de localização, mas especialmente naquele dia, depois de sentar-se ali sozinha, percebeu que o que
tornava a mesa tão aconchegante era a presença incandescente do melhor amigo.
E ela só teve a chance de perceber isso porque ele não estava ali.
Por que ele não estava ali?
Ele havia prometido! "Não se preocupe, Dassa, eu fico com você no almoço, não vai precisar encarar
toda aquela gente sozinha", ele disse no início do ano letivo, quando descobriram que haveriam
aulas a tarde, e que, portanto teriam que almoçar na escola. E, no entanto, não havia sinal de sua
cabeleira loira em nenhum canto do lugar.
Será que algo havia acontecido com ele?
Um acidente no laboratório de química, um tropeço em educação física, uma intoxicação alimentar
por algo comido de manhã...?
Antes que pudesse começar a se desesperar, uma risada familiar tomou conta de seus ouvidos. Sam
entrava no refeitório rodeado por pessoas desconhecidas e com um outro ser loiro pendurado em
seu pescoço.
Eles todos se dirigiram para uma das mesas centrais do lugar, e sentaram por ali, Maddison
acomodando-se no joelho do namorado mesmo com a infinidade de cadeiras disponíveis.
Hadassa esperou pacientemente o momento em que ele pediria licença a toda aquela gente para vir
acompanhá-la em seu refúgio solitário, mas minutos se passaram e nenhuma atitude foi percebida
por parte do garoto. Ela resolveu então sacar o celular e investigar se ele estaria bravo com ela, pois
essa lhe parecia a única desculpa plausível para a falta de interesse dele com seus desejos e
receios.
"Eu fiz alguma coisa errada?", digitou rapidamente, observando ele mexer-se desconfortável dois
segundos depois e retirar seu próprio aparelho do bolso com as sobrancelhas franzidas.
"O que? Não, por que pergunta?"
"Você não veio sentar comigo..."
"Ah, desculpe. Estamos fazendo seis meses de namoro, então vamos ficar juntos hoje. Você não se
importa, não é?"
Sim, ela se importava. Se importava até demais, mas não podia dizer-lhe isso pura e simplesmente.
Sentia um gosto amargo tomar-lhe a boca por isso.
"Ah, parabéns. E, bem, eu não gosto muito de ficar sozinha, você sabe."
Hadassa assistiu Sam abrir a mensagem de longe, e logo ser agarrado pela nuca pelo ser siliconado
do seu lado, e então o celular foi tirado de suas mãos e isolado no canto oposto da mesa, em uma
brincadeira infantil e mesquinha da qual ela não achou a menor graça.
Sam, por outro lado, pareceu achar agradabilíssimo, pois logo gargalhava com a namorada e lhe
dava beijos, esquecendo completamente a mensagem parcialmente lida da melhor amiga.

Mais uma vez trocada. Mais uma vez deixada de lado por quem não valia a pena. Aquela era a, o
quê, quarta vez na semana? Por quanto tempo mais aquilo iria continuar? Ela aguentaria esse tempo
inteira? Ou, quando chegasse sua hora, estaria despedaçada demais para conseguir assumir seu
amor de direito?
Hadassa resolveu que algo deveria ser feito a respeito. Aquela situação estava insustentável, e por
mais boazinha que fosse, não aguentaria mais um minuto naquele estado semi-depressivo e recluso,
sofrendo a cada vez que Sam a jogava mais para escanteio. Pesou suas alternativas para sair
daquele poço sem fundo. Assassinar a dita cuja namorada parecia-lhe muito extremo; mudar-se de
cidade, muito covarde; e enfrentá-lo cara-a-cara era mais do que sua coragem aguentava.
Precisava pensar em uma alternativa, um meio de fazê-lo perceber que ela estava ali todo aquele
tempo, e que era melhor do que qualquer outra alternativa que ele pudesse ter.
Se bem que... Ela era?
Era desengonçada, envergonhada além da conta e feia. Ou, pelo menos, achava que sim. Enquanto
a namorada do cara era praticamente a Barbie Malibu. Como competir com isso?
Só se ela se transformasse em outra pessoa.
Da cabine em que estava enfiada há alguns minutos desde ter seu grito de socorro ignorado, ela
pôde ouvir algumas meninas entrarem no banheiro. Elas pararam na frente do grande espelho que
ali havia, provavelmente para retocar a maquiagem exagerada para o dia-a-dia.
Hadassa encolheu as pernas para cima e fez silêncio, não querendo chamar-lhes a atenção.
- Ai, Clara, eu não aguento mais esse mesmo look, essa mesma cara. Tá na hora de me renovar,
sabe? Vou ver se arrumo hora pra ir no Philippo hoje pra dar uma mudada. O que você acha? - Uma
delas exclamou na voz enjoada que era esperado que tivesse.
- Eu acho que nada ruim vem da mudança. É sempre bom se reinventar.
Reinventar. Era isso. Era disso que Hadassa precisava na sua vida.
Estava tão irritada e magoada com o melhor amigo, que a cada nova batida em seu peito uma lasca
do seu ser parecia ser descamada, e com ela uma vontade crescente de mudar se fazia presente.
Mas ela não fazia a menor ideia de como fazê-lo. Sempre havia se vestido da mesma forma, usado o
mesmo corte de cabelo, se portado de certa maneira. Não saberia fazer nada diferente daquilo, e se
sentiria ridícula e mais insegura ainda se o fizesse.
Em um suspiro dolorido, assumiu que precisava de ajuda. Mas quem poderia prestar-lhe essa
assistência? A gama de amigos era, agora, inexistente, os pais não serviriam para o trabalho, a
internet podia ser traiçoeira. Ela precisava de alguém de fora, alguém em todos os sentidos diferente
dela, alguém com experiência no ramo amoroso, e alcançável.
Pensou por um momento em todas as pessoas que conhecia. Seus vizinhos, primos, colegas de sala,
pessoas do colégio, até mesmo professores e celebridades. Pensou em todas as pessoas que
conhecia, tentando encontrar quem melhor faria o papel.
- Ai, você não sabe! - A segunda voz voltou a se pronunciar, interrompendo seus pensamentos. -
Sabe na sala de quem eu vou passar a ter aula no segundo período? Do tesão do Harry Styles!
- Ai, mentira! Nossa, que inveja branca de você, amiga. Esse menino sabe das coisas, viu... Além de
ser maravilhoso, é claro.
- É claro. Mas nossa, ele é sensacional. Você acredita que ele conseguiu fazer a professora adiar a
prova só de conversar com ela?
- Ah, mas é o charme, né?! Não tem nada que aquele garoto peça que eu não faça na hora.
- Não precisa nem pedir, né, querida. É um olhar e a gente já fica toda saidinha! - As duas
continuaram a rir e a elogiar as qualidades e habilidades do garoto, mas novamente Hadassa estava
imersa em seus próprios pensamentos.
Harry Styles era o veterano mais desejado de sua escola. Ele era o epítome da sensualidade, o ás da
conquista, o rei da pegação. Toda e qualquer garota na sua escola não pensaria duas vezes se
pudesse doar um rim para estar na sua cama. Ela sabia muito bem daquilo, despercebida, como
sempre passava, acabava ouvindo sempre mais do que gostaria, e não estaria exagerando se
dissesse que pelo menos metade de todas as fofocas exclamadas em intensa admiração eram
direcionadas àquele único ser. A outra metade da população feminina lamentava que ele estivesse
no último ano, pois isso significava que em breve ele estaria fora de vista, em alguma faculdade
cheia de garotas lindas, e consequentemente, não perderia mais tempo com elas. E, por fim, haviam
os homens, que guardavam resmungos de inveja e incredulidade a cada novo feito deHarry. De
qualquer forma, era unânime a excelência do garoto no quesito sedução.
E... Não era exatamente de alguém assim que Hadassa precisava? Alguém que soubesse as regras
da conquista e que pudesse ensiná-la?
Ah, mas ele era simplesmente perfeito para o papel. Seu nome parecia piscar em letras rosa neon
com glitter na mente da garota.
Olhou para o celular mais uma vez. "Nenhuma nova mensagem", ele dizia. Faziam quarenta minutos
que ela havia mandado o último suplício para Sam, e ele tivera a capacidade de esquecer-se dela por
todo aquele tempo.
Ele não merecia seu sofrimento, ele não deveria ser a pessoa que o causasse. Se era preciso ser a
Barbie Malibu para conquistá-lo, ela acharia um jeito de sê-lo.
Estava decidido então. Ela ia juntar toda a fibra que coubesse em si e falar com Harry Styles.
Naquele mesmo instante, sem falta, sem adiar.
“Ele vai me ajudar”, pensou, “vai sanar meus problemas e me ensinar tudo aquilo que eu preciso
fazer pra inverter os papéis e ter meu amado Sam na palma das minhas mãos como sempre deveria
ter sido”.
Pressionando a descarga para disfarçar a permanência, Hadassa deixou a cabine para trás e rumou
para fora de seu casulo em direção ao seu novo eu, em direção à sua chance de ser feliz de uma vez
por todas.

Due

Se.du.ção. Sf (lat seductione) 1 Ato de seduzir ou ser seduzido 2 Atrativo que é difícil ou impossível
resistir 3 Aquilo que provoca encanto, atração, fascínio 4 Dom que induz a corrupção de postura ou
ações do outro.

Harry caminhava tranquilamente pelos corredores como se nada no seu dia tivesse a capacidade de
surpreendê-lo. Ele tinha um ar confiante e o corpo malhado, tudo parte da grande áurea de sedução
que dele emanava.
Hadassa estava escondida na lateral do bloco de armários, observando-o e tentando maquinar qual
seria a melhor maneira de falar com ele. Ainda não acreditava que a ideia tivesse permanecido na
sua cabeça, que ainda não tivesse desistido daquela loucura. Era completamente atípico de sua
personalidade ainda não ter colocado o rabo entre as pernas e voltado pra casa assustada e
insatisfeita.
Mas ali estava ela. Miúda em sua insignificância, e esperançosa em seu coração. Tinha estado tão
infinitamente farta daquela situação amorosa mal resolvida que estava se arriscando além dos
limites que seu conforto traçou para ter uma chance de resolvê-la.
Mas, novamente, sua inexperiência social era uma barreira. Como falar com ele? "Oi, tudo bem?
Escuta, será que você pode me dar umas dicas de como ser mais... Você?", não parecia uma boa
ideia. Suspirou. Podia sentir a certeza começar a se esvair. O que estava fazendo ali? Se sequer
tinha coragem de falar na cara do melhor amigo como se sentia, como podia achar que conseguiria
admitir um de seus maiores defeitos para o cara mais gostoso da face da Terra e ainda convencê-lo,
persuadi-lo a lhe ajudar? Aquilo era impraticável.
Perdeu Harry de vista a partir do momento que sua insegurança começou a bater mais forte. Ela
tinha a cabeça apoiada na lateral do armário em que se escorava, os olhos fechados, e milhões de
autocríticas na cabeça. E foi assim que não percebeu quando o seu suposto salvador da pátria ia em
sua direção.
O armário de Harry era o de número 100, seu número da sorte. E ele simplesmente adorava isso,
exceto pelo fato de isso significar que ele era o último da sua fileira. Sempre tinha um casal se
pegando ali do lado, achando que ninguém nunca veria, e ele achava isso patético. Amasso em
público era, pra ele, sinônimo de entrada na puberdade. Em outras palavras, aqueles que não
tinham a capacidade de fazer o clima surgir em lugares apropriados precisavam se contentar com o
tesão momentâneo e expor-se dessa forma. Era triste, até.
Mas dessa vez não eram preliminares ao vivo que ele contemplou a caminho de pegar seu livro
gordo de química. Aquela garota pequena que estudava em sua escola desde sempre estava ali com
uma cara de particular sofrimento. Tinha quase certeza que seu nome era Hadassa, mas nunca
tinham conversado de verdade para confirmar. Ele abriu seu armário, assustando a mais nova, que
rapidamente saiu de seu estado de torpor e encarou-o com os olhos bem abertos.
- Oi? - Ele tentou, visto que ela não parecia nem tão perto de conseguir se comunicar.
- Olá. - Respondeu baixo ao que passou a pressionar os lábios um contra o outro. Veja bem, ela
parecia precisar conversar, e ele não estava fazendo nada.
- Você tá bem, anjo? Precisa de alguma coisa? - Ele indagou solícito, percebendo então do que tinha
lhe chamado sem querer. Bem, ela realmente se enquadrava no retrato de um anjo. Era bastante
branca, carinha de inocente e tinha grandes olhos transparentes. Ficou satisfeito com o apelido
acidental.
- Eu... Sim, tô bem. - Respondeu, optando pela sentença mais fácil. - Seu nome é Hadassa, certo? -
Ela acenou positivamente em silêncio - Onde está aquele garoto loiro que anda sempre com você?
- Ah, não sei... Com a namoradinha, talvez. - Ela disse em meio a uma careta fofa de desagrado.
- Ouch! Sinto um romance mal resolvido no ar. - Harry brincou, ao que ela entreabriu os lábios e
ainda mais os olhos, em completo choque pela fala descontraída e certeira do mais velho. Ele
percebeu. - Olha, foi mal me meter, não precisava ficar tão sem graça. - Repuxou os lábios, como
quem sente muito. - Eu já estou indo de qualquer maneira. - Desculpou-se vendo a falta de reação
dela e já virando para se retirar.
- Não! - Ela disse alto em um sobressalto, chamando de volta sua atenção - Eu... Precisava falar com
você. E, bem... É sobre esse assunto mesmo. - Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado. O que ela
poderia possivelmente querer de um homem que mal conhecia e ainda por cima relacionado ao cara
de quem gostava? Divertiu-se com a ideia de ela pedir-lhe que fosse seu namorado de mentira, para
fazer ciúmes. Não ia topar, mas o pensamento era engraçado. Gesticulou que ela continuasse. Ela
olhou para os dois lados do corredor, respirou fundo e puxou o garoto para a sala desocupada que
havia há alguns passos dali.
Ele foi, curioso e complacente com o nervosismo que a menor aparentava sofrer. Ela pôs-se de
frente a ele torcendo os dedos das mãos, incomodada. Tinha o olhar de um cão assustado, e
buscava qualquer intimidade com o rosto familiar a sua frente para que pudesse colocar para fora as
palavras impulsivas e pouco ensaiadas que tinha em mente. Ele lhe franziu a testa, amigável,
incitando-a a falar.
- Olha, Harry, eu preciso que você prometa que não vai rir de mim e que vai me deixar terminar. O
que eu vou te dizer agora é muito difícil pra mim e eu espero que você aja com toda a maturidade
que você parece ter nesse assunto. - Ela começou com a voz desafinada de nervosismo. Tentava
repetir o tempo todo na cabeça que aquela era uma boa ideia, e que se tinha alguém capaz de
ajudá-la, esse alguém era o moreno.
- Hadassa, relaxa. Eu não sou esses babacas cheios de hormônio que saem rindo de qualquer
besteira. Eu mal te conheço, mas posso ver que você está bastante atônita com algo, então só me
diz de uma vez o que é para que a gente veja como resolver e possamos voltar para as nossas
vidas. - Ele garantiu, agora com receio de que ela fosse se dizer apaixonada por ele. Perdeu a conta
de quantas vezes tinha escutado aquilo já, mas nunca ficava mais corriqueiro.
- Tá bem, lá vai. - Respirou fundo e apertou os olhos fechados - Eu gosto do Sam. - Ela despejou em
uma só respirada, parabenizando a si mesma por ter, enfim, dito em voz alta. No entanto, sentiu a
necessidade de explicar melhor ao ver a cara de desentendido do garoto. - O loiro que vive comigo.
- Gesticulou - Ele está namorando agora e por isso eu fui meio jogada de escanteio. E, bem, eu tô
cansada de ser o plano B. Os homens nunca reparam em mim, eu sou sempre a última opção, eu
não chamo atenção como as líderes de torcida por aí, e mesmo que eu chamasse, eu não saberia
levar uma conversa normal sem gaguejar e falar qualquer porcaria que me deixasse extremamente
encabulada, e eu...
- Hadassa! - Ele sentiu a necessidade de interromper o falatório desenfreado e claramente nervoso
que ela tinha engatado. - Garota, respira. - Sugeriu, segurando-a pelos ombros. Então, passou a
mão na testa, confuso com tudo o que tinha absorvido até ali. - Deixa eu ver se entendi: Você é afim
do loiro, ele não retribui, e você quer conquistar ele?
- Bom, simplificando muito mesmo tudo que eu acabei de dizer... É. - E onde eu entro nessa
história?
- Ah, Harry, você sabe. - Fez um gesto com a mão, fazendo o pouco caso que não sentia realmente.
- Não, anjo, eu não sei. Coloque em palavras. - Pediu.
- Você... - Ela começou, engolindo em seco e deixando novamente as palavras impulsivas
dominarem a fala - Ah, você é todo confiante, anda por ai como se fosse a última bolacha do pacote,
e eu já tô cansada de ouvir no banheiro feminino garotas suspirando por um mísero olhar seu. Eu
queria, não sei, ser um pouco assim? Aprender com você como ser sedutora ou algo do tipo.
- Você quer aulas de como seduzir um homem, é isso?
- Err... Você falando desse jeito parece muito errado, -Defendeu-se, logo recebendo um olhar
contido de impaciência - mas é, acho que é isso aí que eu quero. - Afirmou por fim, ficando rosada
nas bochechas.
O garoto ficou em silêncio analisando minuciosamente o rosto da mais nova. Se sentia em um
universo paralelo com um pedido daqueles, a coisa toda era surreal demais, e absurdamente
inesperada para um dia tão ordinário como aquele tinha sido até então. Sentia-se honestamente
curioso com o que poderia fazer por ela, com a possibilidade de mudar uma vida daquela maneira, e
de ter uma pequena bonequinha a quem pudesse moldar ao seu bel prazer até que estivesse
perfeita para ser solta no mundo. Mas... Infelizmente a realidade o arrebatou. Harry largou os
ombros com a perspectiva de ter que dizer não àqueles olhinhos sinceros que gritavam por ajuda.
- Olha, anjo, mesmo que eu estivesse disposto a te ajudar nessa saga amorosa agora, eu não tenho
tempo. Os vestibulares estão aí e eu preciso passar em uma boa faculdade, coisa que não está nem
perto de acontecer, então... Fica pra próxima. - Ele concluiu vendo a menina murchar diante de sua
negativa. Achava que seria divertido dizer a ela como se portar para fisgar o amiguinho, mas sua
vida pessoal já estava ferrada demais para que se comprometesse com mais uma atividade sem
propósito. Sua coleção de notas vermelhas, fruto de muito foco em coisas externas à escola, e as
constantes discussões inflamadas com seu padrasto sobre seu futuro e ambições eram boas
recordações daquele fato infeliz. - De qualquer forma, te desejo boa sorte. - Ele disse por cima do
ombro enquanto levava seu corpo para fora da sala escura, deixando para trás uma Hadassa
desiludida sem qualquer chance de reerguer-se tão cedo.

Tre

Harry caminhava tranquilamente em direção ao refeitório. Em suas mãos carregava dezenas de


cartões de estudo, nenhum que ele já tivesse decorado, sequer perto disso. Cada dia que passava,
sentia-se mais desmotivado a continuar com aquela missão impossível. Não encontrava em seu ser a
dedicação necessária para passar na faculdade chique na qual esperavam que ele estudasse no ano
seguinte. Nada daquilo era seu sonho, estava longe de ser.
Embora imerso em suas divagações, pode notar um alvoroço acontecendo no centro da lanchonete.
Enquanto todas as pessoas pareciam segurar a respiração - fosse para ouvir melhor o barraco ou
para forçar-se a não dar risada - duas garotas disputavam sua atenção no meio de todo o círculo.
Uma delas parecia coberta de café, as roupas todas manchadas, e estava vermelha de fúria. A outra
tinha um copo vazio em mãos e lágrimas correndo pelo rosto livremente. Reconheceu a segunda
como sendo Hadassa, a garota que havia lhe pedido ajuda há alguns dias, a qual ele prudentemente
negou.
- Escuta aqui, sua nerdzinha infeliz! A próxima vez que você "acidentalmente" derrubar qualquer
coisa em mim, eu te juro... - Respirou fundo, mordendo os lábios pintados. - Eu não quero saber se
seu coraçãozinho adolescente bate mais forte pelo meu namorado. É comigo que ele está, e é
comigo que ele vai continuar! Se você não teve a competência de ser boa o suficiente pra ele,
encolha seu rabinho entre as pernas e saia da minha frente.
- Mas eu juro que foi sem querer, Maddison...
- Uma ova! Garota, todo mundo nessa escola sabe a inveja que você tem de mim. E quer saber de
uma coisa? Enquanto você estiver chorando no banheiro por se sentir inútil de não ter conseguido
sair por cima nem jogando sua bebida em mim, eu vou estar abraçada no Sam toda molhada
dizendo como você é uma pessoinha nojenta! E sabe em quem ele vai acreditar? Em mim, porque
ele também está cansado de saber que você arrasta um bonde por ele, e porque ele vai estar muito
ocupado olhando a minha blusa molhada colada nos meus peitos! Então parabéns, querida, você só
conseguiu ser mais ridícula do que todos aqui já sabiam que você era!
E então, Maddison virou-se batendo os cabelos loiros exuberantes no rosto da menor e saiu
marchando por um corredor que se abriu com diversas pessoas aplaudindo-a. Hadassa engoliu as
ofensas dolorosamente e agachou-se para apanhar sua mochila e sair correndo dali, provavelmente
para o banheiro feminino chorar como Maddison havia previsto que ela faria.
Harry ficou por alguns segundos sem saber o que fazer. Não costumava se meter naquele tipo de
briga, mas por algum motivo sentia-se responsável por aquilo. Talvez ter negado ajuda a Hadassa
tivesse fazendo seu subconsciente pesar, uma vez que ele poderia ter prevenido aquele
acontecimento. Ou talvez fosse o fato de já ter estado com Maddison no ano anterior, e a amargura
que ela tinha demonstrado tenha feito seu pau se contorcer em desgosto pelos lugares dela em que
ele já havia passeado.
Em um suspiro derrotado, deu meia volta e foi para a biblioteca, mais especificamente para o
banheiro feminino de lá, onde tinha certeza que encontraria uma garota pequena e chorosa
tentando se reestabelecer.
Abriu a porta encostada com esmero, procurando não fazer barulho e certificar-se de que quem
procurava fosse a ocupante. Ouviu os resmungos enérgicos de Hadassa falando consigo mesma, e
tranquilizou-se sobre seu pequeno delito. Até ouvir o teor das frases ditas.
- Burra, burra, burra! Péssima hora para me aventurar a tomar café... Eu sou mesmo uma idiota sem
noção, e...
- Parece que autoestima não é o seu forte. Vou ter mais trabalho do que imaginei. - Harry cortou o
monólogo derrotista da mais nova, apoiando o quadril na pia de mármore gelado enquanto a
observava com cinco lenços entre os dedos ocupados em secar a enxurrada de lágrimas grossas que
continuavam caindo sem freio pelo rosto pálido.
- Harry? O...O que está fazendo aqui? - Perguntou, os lábios ainda tremendo, inconsolável.
- Eu acabei testemunhando a ceninha no refeitório. Você jogou mesmo café na loira gostosa? -
Provocou, por mais que soubesse que ela seria incapaz daquilo.
- É claro que não, eu sou muito desajeitada, tropecei em meus próprios pés e quando fui ver... O
destino parece gostar de pregar peças em mim, pois poderia ser qualquer outra pessoa, mas ele
escolheu que fosse justamente a única que saberia me humilhar da forma mais cruel possível. -
Desabafou soluçando ao final da frase. Harry tinha dó em seus olhos e compaixão em sua alma, e
não pode evitar revirar os olhos e puxar a garota miúda para seu abraço. Ela encostou a cabeça em
seu peito e deixou o choro doído tomar conta, sendo este o único som do banheiro abafado por
minutos a fio. Eles não tinham intimidade para aquilo, e tampouco se importavam. Ela precisava de
alguém, e ele era simplesmente humano demais para negar-lhe aquele carinho.
- Escuta, anjo - Chamou, ao que ela cessou a molhadeira que fazia em sua camisa para olhá-lo nos
olhos - Eu vou te ajudar.
- J-jura? - Confirmou em expectativa.
- Sim, parece que você realmente precisa de ajuda, e sabendo que posso fazer algo a respeito, eu
não vou conseguir te negar isso. Mas você vai ter que fazer tudo que eu mandar e ter em mente que
o meu tempo é muito corrido, então você vai precisar andar comigo bastante se quiser absorver uma
dica ou outra durante os meus intervalos entre tarefas. - A garota acenou em concordância com um
sorriso singelo de agradecimento. Ainda estava chateada com a humilhação no refeitório, mas
parecia haver uma luz no fim do túnel agora. Seja lá o que tenha feito Harry ajudá-la, se o fez por
bom coração ou por pena da situação em que se encontrava: ela seria eternamente grata.
Olhou para baixo, envergonhada e sem saber como retribuir. Notou que ele ainda segurava os
cartões de estudo na mão esquerda, e estendeu os dedos curiosos para ele, pedindo para vê-los.
Eram matérias que ela já havia visto. O último ano da sua escola passava basicamente revisões, o
que significava que todo o conteúdo ela já tinha tido, estando apenas um período abaixo do dele.
Lembrou-se, então, da primeira recusa do garoto, dizendo que precisava focar no vestibular. Ele
estava estudando então, isso que estava ocupando de tal forma o seu tempo. Uma ideia lhe
acometeu: com algum esforço, talvez pudesse ajudá-lo também.
- Eu acho que sei como posso te agradecer, Harry. - Disse, esperançosa. - Posso tentar te ajudar a
estudar. Fui quadro de honra pelos últimos 5 anos, em alguma coisa eu posso lhe ser útil. Você está
tentando alguma faculdade muito concorrida?
- Só a pior delas. - Deu de ombros, fazendo pouco caso tanto da sua ambição quanto dos méritos
dela. Não era nada que ele já não esperasse. - Tem certeza que pode estudar comigo? Talvez uma
nerd... - Interrompeu-se vendo a mágoa e a chateação voltarem aos olhos dela, mesmo que não
intencionasse que o adjetivo fosse maldoso. - Quero dizer, uma pessoa tão inteligente, me faça
entender uma coisa ou outra. - A garota abriu um pequeno sorriso solícito. - Mas, anjo, isso não
significa que possa me contrariar. Você entente, Hadassa? Se quer realmente aprender a conquistar
um cara, vai ter que seguir à risca tudo que eu disser porque, como eu já disse, eu preciso do meu
foco em outras coisas nesse momento, e estou abrindo uma exceção porque vejo que você
realmente precisa de mim. - Ela acenou positivamente freneticamente.
- Sim, senhor! - Clamou batendo a lateral do indicador na testa fazendo-o soltar uma risada
espontânea da animação da pequena. - Então... Quando começamos as aulas de sedução? -
Perguntou ansiosa, ao que Harry apenas riu mais a abraçando pelo pescoço e levando-a para fora do
banheiro e da áurea depressiva que ainda podia sentir por ali.
- Ai, anjo... - "Isso será muito engraçado" pensou consigo. - Tudo bem. Esteja amanhã às 17h no
Shopping do centro da cidade. E não se atrase! - Ameaçou apontando em seu rosto, e então
bagunçando os cabelos compridos dela antes de caminhar despojadamente para a saída da
biblioteca.

Quattro

Hadassa estava pontualmente às 17h no grande Shopping da cidade. Tinha um frio curioso no
estômago, mãos geladas e uma sensação avassaladora de que não deveria estar ali. A insegurança
estava batendo forte, e os cinco minutos que levou da sua chegada até a aparição de Harry foram
tortura chinesa para a garota miúda. Mal sabia ela que o verdadeiro pesadelo começaria só a partir
dali, quando o mais velho a jogou em um salão chique no segundo andar cheio de predadores
loucos para fazer estrago em suas madeixas e unhas.
- A sua primeira aula é sobre como chamar a atenção de um homem... Fisicamente, por assim dizer.
Cada um tem um gosto, é verdade, mas existem algumas coisas que você pode fazer pela sua
aparência para valorizar seus pontos positivos e esconder o que não deve ser mostrado. Além disso,
o modo como você se mostra diz muito sobre você, e sobre o que um cara pode esperar quando
estiverem sozinhos ou já em um relacionamento. O ideal é que não pareça muito trabalhada, pois
todo homem sabe que isso significa que você é alguém completamente diferente sem todos os
artifícios cosméticos, mas ao mesmo tempo um pouco de cuidado e vaidade mostram que você se
valoriza, e nós gostamos disso.
- Então... Eu não posso me arrumar nem demais e nem de menos? - Perguntou, confusa. O sexo
masculino era exigente como ela não esperava que fosse. Harry acenou positivamente, satisfeito que
ela tivesse entendido o principal da aula. Então, se virou para a equipe do salão que aguardava suas
ordens.
- Preciso um corte que chame atenção para os olhos dela, talvez um repicado a partir da linha do
sorriso, mas o comprimento fica. – Ditou o garoto para a equipe que a observava atentamente, já
devidamente munidos com tesouras e escovas dos tipos mais variados, provando que sabia mais do
assunto do que gostaria, de todas as vezes que sua mãe ou alguma namorada o haviam arrastado
para aquele lugar.
- Podemos dar uma iluminada na cor? É bonita, mas apagada do jeito que ela está qualquer tom fica
morto. – Uma das pessoas ali perguntou, recebendo um aceno positivo em resposta.
- Depois eu queria que a Rosa desse umas dicas pra ela de maquiagem e penteado. Diga a ela que
eu lhe pago o dobro na próxima vinda da minha mãe. - A assistente morena e peituda logo garantiu
a Harry que todos os seus desejos seriam realizados com apreço, enquanto lhe tocava sutilmente o
braço malhado. Ele retribuiu com um olhar baixo, o lábio inferior preso entre os dentes, uma
promessa de que os desejos dela também teriam vez. Hadassa ficou sem graça, mas tão logo pode
notar o flerte acontecendo atrás dela, Harry já estava de volta, dando um tapinha no encosto da
cadeira onde ela estava e dizendo: - Te vejo em duas horas. Faça tudo que te mandarem, preste
bem atenção no que te disserem, e diga que quer esmalte escuro. E se foi, deixando-a para os cães
fazerem a festa.

Harry já tinha vagado por quase o shopping inteiro, comido qualquer coisa e comprado um relógio
novo, antes de ir resgatar a garota no salão.
Esperou nos sofás confortáveis da entrada até ela aparecer, rodeada por pelo menos cinco pessoas e
completamente melhorada. Ele abriu um sorriso confiante, parabenizando o trabalho dos
profissionais, e estendeu a mão para a menor, que a segurou apressada, louca para dar o fora
daquele lugar.
- Aprendeu bastante? - Ele perguntou, ao que se dirigiam para o próximo andar, onde haviam
centenas de lojas de roupas femininas.
- Ah... Sim. Não entendi metade das palavras que eles falavam, mas acho que uma coisa ou outra
deu pra guardar. - Ele riu da simplicidade dela, e continuou caminhando em silêncio, observando as
pessoas ao redor. - Você... Não vai me dizer o que achou? - Ela perguntou, novamente insegura. Ele
a mirou nos olhos, provocando-a a dizer as palavras certas, explicitamente o que queria saber. -
Quero dizer... Estou bonita? - Indagou mais baixo, tendo dificuldade de aguentar qualquer
resposta. Harry sorriu em aprovação, e cessou os passos que ambos davam, segurando-a pelos
ombros e aproximando suas faces.
- Você é bonita, Hadassa. Nada disso teria surtido efeito se você não fosse. Mas você está sempre se
escondendo e pouco se cuida, então fica difícil para os meros mortais notarem isso. Pedi para
valorizarem seus olhos porque eles são muito expressivos, para cortar seu cabelo a partir da boca
porque seu sorriso é encantador, e para deixá-lo comprido porque ele te dá sensualidade, assim
como as unhas escuras. Você entende? - Ela acenou devagar, ainda com dificuldades de acreditar
nas palavras do mentor. - Olhe em volta, anjo. Noventa por cento do Shopping está te olhando
nesse momento. Você sabe por que?
- Porque eu estou com você?
- Não, Hadassa. Porque você é bonita e chama atenção por si própria. - Ela o olhou em
desconfiança. - E porque está comigo. - Ele completou, revirando os olhos. - Vamos ter que dar um
jeito nessa sua autoestima... - Resmungou para si mesmo, voltando a andar e já entrando em uma
grande loja de departamento que havia no final do corredor, sendo seguido de perto pela mais
nova.

- Aqui. - Harry disse ao entregar nas pequenas mãos de Hadassa uma pilha de roupas de todos os
tipos e cores e já a empurrando para entrar no provador. Ela bem que tentou protestar, mas ele
estava irredutível, então logo ela saía de trás das cortinas azuladas com combinações aleatórias, as
quais ele julgava com atenção, sendo preciso para isso que ela desse algumas voltinhas, que a
matavam de vergonha. - Essa vai com certeza, mas você vai precisar usar sem sutiã, anjo. -
Exemplificou puxando a alça do modelo sem graça que atrapalhava o decote mais cavado da blusa.
- O que? Mas, Harry, olha pra isso, dá pra praticamente ver os meus órgãos nessa coisa! Eu não
quero ser vulgar para conquistar ninguém.
- Me escuta, Hadassa. Isso não é vulgar, é sensual. E você não sabe a diferença porque esteve
muito ocupada a vida inteira escondida embaixo de camisetas e cardigãs dois números maiores que
você. O decote dessa blusa é provocador, não mostra demais e nem esconde uma parte...
Especialmente tentadora do seu corpo, e a transparência nos lugares certos deixa seu contorno mais
"violão". - Ela tentou fortemente controlar as bochechas coradas e a vontade de tapar o corpo inteiro
para que ele não a analisasse daquela forma tão carnal. Mas sabia que levaria uma bronca, seguida
de um "o que eu disse sobre não me questionar?", então optou por desviar a atenção dele com uma
pergunta.
- Como você sabe tudo isso? Quero dizer, você é homem, não devia estar insistindo que eu saísse de
roupa íntima por aí?
- Justamente por ser homem eu sei o que eu valorizo em uma mulher, e por isso sei como eu quero
te ver dentro de cada roupa. E além disso, quem mostra demais costuma ter pouco a oferecer em
outros aspectos. Mas não fique ansiosa sobre roupas íntimas, anjo, pois será a nossa próxima
parada depois daqui de qualquer maneira.
- Nós vamos juntos comprar calcinhas? - Indagou horrorizada de vergonha.
- Sim, pequena. Não te adianta de nada conquistar o cara se na hora que ele estiver se animando
tiver um vislumbre do seu sutiã bege de avó. - Ele levantou uma sobrancelha desafiando-a a
retrucar, o que obviamente não aconteceu. - Mas não precisa ficar molhada agora, nas lojas de
lingerie eles não permitem homens e mulheres dentro do mesmo vestiário, então é uma vendedora
que vai ter que fazer o serviço por mim e ver como você fica em cada peça que eu escolher. Agora
vamos. Troque-se de volta, pegue todas as roupas para as quais eu disse sim e me encontre no
caixa.

Harry era simplesmente o cara mais maduro e sexualmente resolvido da face da Terra, era o
que Hadassa achava ao não notar a menor mudança nas feições do garoto quando segurava uma
cinta-liga vermelha rendada nas mãos. Para começo de conversa, ela tinha acabado de descobrir
que deveria chamar "calcinha" de "lingerie" a partir de agora, e que o que a sua vida toda achou ser
"sutiã de prostituta", era, para Harry, "roupa íntima fina e elegante". O que já era informação
demais, não bastasse ele querer que ela usasse aquele tipo de coisa.
Os dois entraram em uma discussão interminável sobre o assunto, onde a cada meia dúzia de
palavras dele, ela sentia vontade de se esconder atrás do manequim, e onde a cada fraquejo de voz
dela, ele sentia vontade de ir embora e desistir daquelas aulas imbecis. Mas nenhum deles fez o que
queria, e apenas permaneceram com os sussurros enérgicos sobre a peça rendada e chamativa nas
mãos do mais velho.
Por fim, chegaram a um consenso. Vermelho era demais, cinta-liga era de menos. Ou algo assim. O
que importa é que eles conseguiram colocar um bom tanto de modelos na sacola, modelos mais
discretos, e ainda assim incrivelmente sensuais; modelos que brincavam com a inocência da garota,
mas não deixavam de ser feitos de tecidos luxuosos. E então, Hadassa foi para o provador
novamente.
Estava completamente esgotada de tantas provações, e tudo que queria era colocar o cabelo para
cima, um pijama velho e os pés sob uma almofada e relaxar pela próxima semana. De preferência,
em um local ondeHarry não pudesse vê-la para ditar como deveria se comportar, ou lembrá-la de
que homem nenhum - especialmente seu Sam - gostaria de tê-la naquelas condições. Se moldar às
expectativas dos outros era muito cansativo. Em compensação, tinha que admitir que o garoto
mostrara-se melhor que o esperado. Ele estava levando a tarefa a sério, pegando realmente o
problema para si. Fosse por faltar envolvimento em sua vida ou apenas por diversão, Harry estava
de fato tendo bons momentos moldando a pequena boneca como achava melhor. Além do que, suas
personalidades eram tão contrastantes que lhe era até mesmo curioso ver como alguém
como Hadassa pensava sobre certas coisas que sempre lhe pareceram tão naturais.
- E então? - Ele perguntou ao vê-la sair detrás da cortina pesada, avermelhada nas bochechas e
pressionando os lábios um contra o outro. Ele estava ansioso, queria ter participado melhor dessa
etapa tão crucial das compras do dia, mas as estúpidas regras da loja não permitiam.
- Tudo bem. Quase tudo serviu, a não ser essas duas peças aqui. - Ela disse, ainda de cabeça
levemente abaixada por tudo que tinha visto de seu corpo no espelho do local.
- E o que teve de errado com elas? - Ele perguntou analisando duas de suas peças favoritas com as
sobrancelhas franzidas.
- O sutiã estava apertado demais, e a calcinha não coube... Na minha parte traseira.
- Em outras palavras seus seios são maiores do que isso, e a calcinha é fio dental. - Ele disse
revirando os olhos com um sorriso de canto, divertido. - Mas, jura? Eu realmente te subestimei por
causa das camisetas largas e tops, então. - Continuou claramente comparando o corpete com os
seios da garota, que arregalou os olhos para depois fechá-los apertados e não ter que presenciar a
inevitável desconfiança que acreditava que ele demonstraria.
Realmente, sua autoestima estava com severas mutilações não cicatrizadas. Mas, por algum motivo,
naquela noite, depois de deixar todas as sacolas espalhadas pela cama, Hadassa se sentiu bem. A
cada nova coisa que tirava de dentro das embalagens para guardar, uma lembrança de um
comentário gentil de Harry vinha a sua mente. Um sorriso, um olhar mais vidrado, o tom de voz
macio e aconchegante. Se tinha alguém certo para o trabalho de lhe ensinar a ser mais mulher, mais
confiante, mais sedutora, esse alguém era ele. E pensando em todos aqueles elementos constantes
do seu dia, a garota não conseguiu se arrepender do pedido de ajuda.
Pelo contrário: naquela noite dormiu abraçada consigo mesma, em um gesto raro de auto aprovação
por ter falado com ele para começo de conversa.

Cinque

Passou pelos corredores como normalmente fazia: invisível e na dela. Tinha um sobretudo por cima
das roupas que Harry tinha lhe comprado, a cabeça baixa e as bochechas queimando de vergonha
só em cogitar a possibilidade de alguém reparar nela por mais de dois segundos e perceber todas as
mudanças pelas quais havia passado nas últimas 24 horas.
Ia em direção ao seu armário como fazia em todas as manhãs letivas, separar os livros didáticos do
dia e também escolher qual romance utópico pegaria emprestado da biblioteca a seguir. Então,
deixaria o local para sentar-se na sala vazia novamente desapercebida como lhe era costumeiro.
O que não fazia parte daquele cenário era o monte de músculos charmoso e despreocupado que
estava escorado na porta do seu armário.
Hadassa já podia sentir os olhos intensos do garoto queimando nela a cada novo passo dado. Sabia
que ele estava falando sério quando disse que eles agora deveriam andar juntos, mas esperava uma
bronca no fim da semana por isso não ter ocorrido, e não que ele viesse ao seu encontro.
- Ou você tira esse sobretudo agora, ou eu desisto de te ensinar qualquer coisa. - Rosnou com cara
de poucos amigos para o grande casaco que escondia sua obra prima.
- Bom dia pra você também, professor. - Ela murmurou contrariada se livrando do tecido pesado de
costas para o corredor, para que pudesse esconder a vermelhidão do rosto dos olhares enxeridos
que questionavam o que Harry Styles fazia conversando com Hadassa Guímel.
Ok, isso era uma mentira. Eles perguntavam o que ele fazia conversando com essazinha. Saberem
seu nome já era demais.
Ele parecia concentrado demais em avaliar o trabalho do dia anterior - vulgo o caimento das roupas
e cabelos novos - para perceber o que acontecia nas rodinhas de fofoca ao seu redor.
Mas não deixou passar o apelido acidental que ela havia usado para se referir a ele. Era ingênuo e
honesto, e ecoava devidamente nas paredes de sua cabeça.
- Professor, huh? Taí... Gostei. Tá permitida de me chamar assim mais vezes. - Disse, convencido,
ainda a assistindo lutar com as mangas do sobretudo. Hadassa congelou um segundo, antes de
xingar a própria boca por manifestar as raízes de sua nerdice, e se resignar com o uso do vocativo,
que se tornaria constante sem dúvidas. Enfim conseguiu se libertar de vez do que lhe escondia do
julgo alheio. - Assim está bem melhor. - Ele garantiu com um sorriso confortante. Mas Hadassa
ainda estava envergonhada demais para levantar o rosto e retribuí-lo. Harry bufou e voltou a falar
grosso. - Eu já tenho tudo em mente pra sua próxima lição, mas preciso sentir que você está
realmente empenhada, Hadassa.
- Eu tô, professor, eu juro. Só é tudo muito novo pra mim, e eu acho que talvez leve um tempo pra
me acostumar com essas coisas. - Indicou a roupa que usava como exemplo.
- Não temos esse tempo, meu anjo. Seu amiguinho está por aí com a namorada sem perder tempo
algum. - Disse sugestivamente.
- Tá bem, você está certo. – Suspirou, resignada. - Vou tentar me esforçar mais. - Ela prometeu,
repuxando os lábios em conformidade. - E então quando vai ser a próxima aula? Hoje?
- Não, criança. Hoje eu preciso estudar, tenho prova de física amanhã. - Revirou os olhos. Odiava a
matéria, para variar.
- Física? - Perguntou alto demais, afobada e com os olhos brilhando.
- Não me diga que é a sua...
- É a minha matéria preferida! - Completou, para o desgosto de Harry. - Eu posso te ajudar!
- É, acho que eu posso usar um pouco desse entusiasmo nos estudos hoje. - O mais velho respirou
fundo e balançou a cabeça como se dissesse "o que eu faço com você?". Acabou passando o braço
pelos ombros dela e puxando-a pela passagem enquanto ditava o horário que ela devia aparecer no
estacionamento mais tarde, onde ele estaria esperando-a dentro do carro para irem à sua residência
estudar.

Hadassa dava passos curtos e apressados em direção ao estacionamento da escola. Atrasou-se sem
querer, sempre tão acostumada a deixar a grande massa de alunos que ali se concentrava após o
último sinal ir embora antes de dar as caras, acabou perdendo a noção do tempo. Mesmo assim,
conseguiu chegar enquanto o local ainda estava abarrotado, o que, claro, a fez se esconder atrás
dos cabelos para procurar Harry entre os carros estacionados.
O garoto estava apoiado em seu carro moderno, um joelho dobrado e os braços cruzados,
observando-a. Ela aproximou-se rapidamente, mordendo o interior da bochecha, grata que
pudessem ir embora logo.
- Vamos? - Harry não se mexeu de sua posição quando ela chegou a sua frente.
- Arruma a postura e joga o cabelo de lado. - Ele ditou em tom de ordem. Ela obedeceu.
- Tudo bem, agora vamos? - Perguntou afobada como sempre.
- Espera. Deixa eles te olharem mais um pouquinho. - Ele olhava por cima do ombro da menina para
cada uma das pessoas residentes no lugar.
- C-como assim?
- Vamos dar a chance aos homens dessa escola de babarem na minha criação. - Silêncio. Hadassa
queria mais do que tudo abrir um buraco para se enfiar. Sentiu a respiração acelerar e esforçou-se
para que as bochechas não corassem. - Seu amiguinho também está olhando. - Comentou.
- Sam está aqui? - Ele acenou positivamente. - Reparando em mim? - Havia esperança em sua voz e
gratidão em seus olhos. Harry sorriu para a garota, orgulhoso. Então voltou a encarar sutilmente o
loiro e murmurou conspiratório.
- Ah, sim. Isso, meu querido, aprecia o que você está perdendo. - Em uma risada, se deu por
satisfeito e entrou no carro chamando Hadassa para se juntar a ele.

- Uau, você mora aqui? - A menor perguntou admirada com a elegância e imponência do lugar.
- Não. - Ele disse, sincero. Ela o questionou com os olhos. - Minha mãe e meu padrasto moram aqui.
Eu moro nos fundos, na casa da piscina.
- Sem querer me intrometer... Mas porque não mora com os seus pais, Harry? - Hadassa era curiosa
na mesma medida que era tímida. Ele não pôde evitar um sorriso carinhoso para o cuidado que ela
tinha em se meter na sua vida. Entraram na casinha modesta de madeira e deixaram suas coisas no
sofá da pequena sala. Harry ia em direção a cozinha e a chamou para se juntar a ele antes de
respondê-la.
- Aqui eu posso ser eu mesmo. - Ele deu de ombros. - Tenho meu espaço, e... - Ele indicou com a
cabeça a porta que dava para o quintal, e ao abri-la Hadassa tomou um susto com o tamanho do
cachorro que apareceu pulando em felicidade extrema. - Esse é Whisky. Ele é um Bernese
Montanhês de três anos, e é toda a família que eu preciso. - Sorriu com os olhos apertados. - Bom,
sinta-se em casa. Eu vou fazer nosso almoço.
- Minha nossa, você é mil e uma utilidades mesmo! - Ela riu, descontraída. Estava se sentindo cada
vez mais à vontade na presença do garoto, e mostrando sua personalidade. Harry achava incrível
que a menina miúda da qual ninguém tivesse notícias na escola, estivesse se desabrochando em sua
frente.

A comida estava pronta e a mesa estava posta, e Harry tinha feito tudo sozinho porque Hadassa e
Whisky haviam sumido há mais de quarenta minutos, e ele não fazia ideia de onde tinham se
metido. Foi procurá-los pelos poucos cômodos da casa, e, assim que se deparou com todos vazios,
também pelo quintal. Encontrou Hadassa com um sorriso aberto, descabelada, de roupas
amassadas, e com Whisky em cima dela, quase a derrubando na piscina.
- Para, Whisky! Seu grandalhão fofo, você tá me babando toda! - Ela gritava entre risadas
espontâneas. - Ok, ok. Eu prometo não roubar mais sua bola!
Whisky deu dois passos para trás, livrando-a de suas enormes patas. Ela colocou a mão para trás do
corpo revelando a bola laranja favorita do cachorro e então jogando-a longe para que ele fosse em
uma corrida desenfreada buscar. Harry riu com a cena.
- Anjo, o almoço está pronto. - Chamou.
- Ai, Harry, me desculpa! Eu sequer te ajudei, me distrai aqui brincando com o seu cachorro.
- Não faz mal. Só venha comer antes que esfrie.
Foram para dentro novamente, com Whisky de volta após recuperar a bolinha, trançando as pernas
de Hadassa pedindo para brincar mais. Harry precisou trancar o cão no quintal novamente para que
ele deixasse a visita em paz.
- Parece que você gosta muito de cachorros. - Comentou no almoço. - Você não é assim espontânea
com as pessoas.
- Cachorros te aceitam como você é, e, se te machucam, é realmente sem querer. Eles não guardam
rancor, não te culpam por nada, nem exigem de você mais do que você pode dar. Só querem brincar
e lamber seu rosto, se possível. - Ela explicou, dando de ombros, e Harry imediatamente entendeu
que havia um passado turbulento ali, que explicava o fato de Hadassa ser tão retraída com as
pessoas.
- Quem foi?
- Quem foi o quê?
- Que te estragou, que te fez ter tanto receio da humanidade.
- Ah... Eu não gosto muito de falar sobre isso, Harry.
- Eu só quero te entender. - Pediu, a voz morna.
- Vamos fazer assim: Você me conta algo da sua vida e eu conto algo da minha. Assim ficamos
quites e eu não preciso sair daqui para me esconder de vergonha debaixo das minhas cobertas. -
Hadassa sugeriu.
- Parece justo. – Ponderou. - Eu começo então. - Respirou fundo. - Meu pais se separaram há alguns
anos. Meu pai sumiu e minha mãe se casou com outro cara. Eu resolvi ir morar com o meu avô. Ele
era demais, o tipo de figura que todo mundo deveria ter na família, mas já estava velho e debilitado,
e com isso eu tive que aprender a me virar. Aprendi a cozinhar, lavar, passar, limpar e lidar com
dinheiro por causa dele. Ele me ensinou tudo o que eu sei.
- O que aconteceu? - Perguntou, observando os pontos vermelhos que tomavam o rosto do garoto
com a memória da pessoa que mais amou no mundo.
- Ele faleceu. E eu fui obrigado por lei a voltar a morar com a minha mãe. Mas eu não aguento o
clima daquela casa e principalmente não aguento meu padrasto, então arrumei um jeito de reformar
isso aqui para que eu pudesse ter ao menos um pouco de paz. - Terminou, dando de ombros.
- Você fala com tanta assertividade. É forte e independente. - Hadassa elogiou, encantada com as
qualidades e história de vida do rapaz.
- Obrigado, meu anjo. - Agradeceu com um sorriso leve. - Sua vez.
- Meus pais também se separaram há algum tempo. A diferença é que eu não tive pra onde correr, e
tive que enfrentar as acusações da minha mãe sobre ter sido minha culpa. - Suspirou entre uma
garfada e outra com a lembrança desagradável. - Meu pai estava depressivo e tinha essa aura negra
acompanhando-o o tempo todo. Eu era pequena, só queria ver meu pai feliz. Então, eu sugeri que
ele fosse arrumar novos amigos para brincar, porque era isso que eu fazia para me animar. E, bem...
Digamos que ele achou uma amiguinha bastante especial disposta a brincar com ele.
- Ele traiu sua mãe? - Indagou, as sobrancelhas levantadas em choque.
- Sim. E ela me responsabiliza por isso. Pelo fim do casamento deles. Porque eu estava feliz pelo
meu pai ter encontrado alguém que o fizesse feliz. Eu não tinha a menor noção do que traição era,
sequer que meu pai, meu ídolo, o estava fazendo. Enfim... É por isso que eu prefiro os cachorros. As
pessoas não são confiáveis.

Depois da sessão desabafo, Harry e Hadassa decidiram que precisavam se distrair, e que portanto
era uma boa hora pra pegar nos estudos. Eles limparam a mesa e arrumaram os livros e cadernos
em cima do grande tapete felpudo que tinha na sala e ficaram por lá mesmo, debruçados em
exercícios e mais exercícios.
Apesar de todas as probabilidades, estava sendo uma tarde agradável. Hadassa era engraçada sem
querer, e fazia analogias inesperadas que realmente ajudavam o garoto a entender uma coisa ou
outra da matéria. Em determinado momento, ele já resolvia os problemas sem qualquer ajuda dela,
mostrando-se muito mais capaz intelectualmente do que a menor esperava.
- Você não é tão ruim nisso como eu tinha imaginado. - Ela comentou dobrando os lábios, depois de
terem resolvido dar um basta pelo dia. - Qual o motivo então de todas as notas vermelhas?
- Eu só não vejo ponto em nada disso, em aprender essas coisas. Não me esforço. - Levantou um
ombro, conformado.
- Mas, Harry, você não me disse que quer entrar em uma faculdade muito boa? Esse é o ponto de
estudar.
- Aí é que está, anjo: Eu não quero. Esse é o desejo do meu padrasto. Não o meu. Ele só quer que
eu seja um advogado rico que livre a cara de seus amigos corruptos. - Hadassa tinha uma grande
interrogação no rosto, e curiosidade transbordando dos olhos transparentes.
- E qual é o seu sonho? - Harry respirou fundo e afastou a cadeira, decidido a contar mesmo que
tivesse que lidar depois com o preconceito que ela provavelmente demonstraria, como todas as
outras pessoas.
- Eu quero fazer a diferença e ajudar quem precisa. Meu sonho é me formar em psicologia e me
juntar a estes grupos de doutores que ajudam os necessitados na África. Eu acho importante cuidar
não só da saúde orgânica dessas pessoas, mas também da familiar. Quero dizer... Se eu, que tenho
todas as condições, dinheiro, saúde, e educação já sofri tanto com a morte de alguém querido e com
a base desestruturada de família que tenho, imagina essas pessoas, que não têm ninguém ou que
não sabem se vão sobreviver ao dia seguinte? Elas precisam de amparo, precisam que alguém as
ajude a ter força para lidar com todas essas dificuldades. E eu quero ser essa pessoa. - Terminou
emocionado como sempre ficava quando falava do assunto. Levantou o rosto quente para Hadassa,
apenas para perceber que ela mesma tinha lágrimas nos olhos e feição de admiração.
- Harry... Isso é lindo! - Exclamou encantada. - Você quer se juntar aos Médicos Sem Fronteiras?
- Bem, sim. Mas eles não são a única organização que promove esse tipo de trabalho, e
francamente... Eu só quero ser útil. Independente de como eu chegue lá.
- Nossa... Uau. Juro, acho que não vou conseguir te olhar da mesma forma nunca mais. - Ela sorriu
alcançando a mão dele em apoio. Harry gostou do agrado e ficou muito grato pela reação tão fora
do padrão da mais nova às suas ambições, por isso apertou a mão dela de volta. – Mas pense assim:
Para fazer a faculdade de psicologia você também precisa aprender essas coisas. Então não está
necessariamente perdendo tempo.
- Meu plano é começar a cursar o que ele quer até eu ser maior de idade para poder me livrar
dessas amarras e viver minha vida. Mas acho que você tem razão. Eu não vou conseguir me livrar de
física tão cedo. – Eles riram juntos, descontraídos e esperançosos por um futuro melhor. -
Sabe, Hadassa, você é uma garota bem legal. Tenho certeza que o loiro vai ver isso um dia. Embora
eu espere que já seja tarde demais e você perceba até lá que, se ele preferiu alguém fútil e sem
cérebro a você, ele não te merece.
- O que você está dizendo, Harry?
- Nada, anjo. - Ele balançou a cabeça, sabendo que ela era ingênua demais para entender que
mudar por alguém não a faria feliz. - Vamos, já está escurecendo, vou te levar pra casa.

Sei

Já era sexta-feira.
Entre tomar mais um fora de Sam, pedir ajuda a Harry, passar por uma transformação total, estudar
física e dividir aspectos bastante particulares de sua vida, a semana passou voando para Hadassa.
Aquele dia em especial, no entanto, estava demorando a acabar.
Harry grudou nela a partir do momento que atravessou os portões de ferro da escola, e estava ao
seu lado a cada passo que dava, sempre a conduzindo com uma mão. E isso lhe era muito
incômodo.
Não a presença do garoto, de forma alguma, mas sim os olhares que recebia de toda a escola por
estar em sua companhia.
O pior é que, como agora não passava mais despercebida, não conseguia escutar as fofocas do
corredor, e portanto não sabia o que estavam achando daquilo. Não sabia se achavam suas roupas
ridículas ou maravilhosas, idem com o cabelo e as unhas, e não sabia o que achavam que Harry
fazia ao seu lado. Será que achavam que eles eram amigos? Mais do que isso? Namorados talvez?
Ele dizia para ela não se preocupar. Toda vez que a flagrava tensa por ter captado algum olhar,
entoava o mesmo discurso para que se acalmasse e deixasse fluir. Claro, ele podia estar tão
tranquilo assim porque não tinha o que temer - não havia nada que fizesse que diminuísse a
admiração que aquele colégio tinha por ele - mas não era esse o motivo de tanta serenidade. Harry
sabia o que estavam falando.
Diziam que ela era linda e se perguntavam onde estava escondida todo esse tempo. Elogiavam e
invejavam sua forma física. E especulavam sobre um suposto relacionamento entre os dois.
Essa parte era sacada. Ia acontecer inevitavelmente, mas Harry até tinha previsto como uma boa
vantagem no plano da garota de conquistar o amiguinho: ele ficaria com ciúmes, e iria atrás dela.
E isso era o que ela mais queria, embora ele ainda achasse uma má ideia.
Apesar da aparência de Hadassa ter melhorado radicalmente, a postura frente ao assédio que agora
sofria ainda era pífia. Ela ou corava, ou se escondia, ou corava e se escondia. E, sabendo
disso, Harry não podia mais adiar a próxima aula. Marcaram no dia seguinte, sábado, na casa dele.
Seu "QG" da missão como Hadassa resolveu apelidar.
Ele explicou que a aula seria demorada, que provavelmente tomaria o dia todo, pois passaria a ela o
básico sobre como se comportar para fazer os caras a quererem, e sabia que mesmo o básico seria
complicado para ela entender.

Não eram nem nove da manhã do sábado e eles já estavam reunidos na sala do garoto, prontos
para começar a segunda lição. Harry havia feito questão de ir buscá-la em sua casa, pois Hadassa
não tinha carro e ele não queria que ela dependesse de transporte público para chegar ali. Estaria
cansada de fugir das roçadas de velhos nojentos no ônibus e com isso não aguentaria o pique da
aula que ele tinha planejado.
- Vamos começar. A primeira coisa que eu vou te ensinar hoje é sobre postura. Eu vou encenar pra
você o andar de três pessoas, e você vai me dizer o nome de alguém com quem elas se pareçam. -
Hadassa achou engraçada a metodologia do mais velho, mas concordou com a brincadeira.
O primeiro personagem que interpretou andava com o quadril balançando de um lado para o outro,
o queixo para cima e o peito estufado. Praticamente cruzava os pés um na frente do outro, como em
um verdadeiro desfile. Bianco precisou gargalhar, ver um homem daquele tamanho andando daquela
forma era, no mínimo, hilário.
- Maddison! - Ela gritou como em um jogo de mímica.
- Muito bem. – parabenizou. - Segunda pessoa agora.
Agora o andar de Harry era normal, despreocupado e elegante, como se tivesse todas as respostas
da vida nas mãos, a postura ereta, mas a linha dos olhos no mesmo patamar da cabeça, nem para
cima, nem para baixo. Era um andar familiar demais, e logo a menina soube:
- Harry. - Ela entregou, sabendo que era daquela forma mesmo que ele próprio caminhava.
- Boa menina. Ok, a última.
Muito diferente dos personagens até então, este tinha os ombros curvados, o rosto baixo e olhar
preso no chão. Dava passos curtos e apressados, como se estivesse louco para sair daquele lugar ou
com muita pressa.Hadassa teve mais dificuldade nessa. Foi preciso três passadas entre uma
extremidade da sala e outra para que ela se desse conta.
- Sou... Eu? - Indagou, temerosa. Era horrível pensar que poderia ser tão enclausurada daquela
forma.
- Sim. E você percebe qual a diferença entre Maddison, eu e você? A postura do seu andar diz muito
sobre quem você é, Hadassa. - Ela acenou devagar absorvendo enquanto ele se sentava do seu lado
no sofá. - O que você me diz de me deixar te ensinar como andar sem se esconder?
- Eu não vou precisar parecer a Maddison, vou?
- Acho que um meio termo entre ela e você já está de bom tamanho. - Ele ria de sua
desgraça. Harry se levantou e ofereceu a mão para que ela também o fizesse. - Primeiro vamos
arrumar essa postura. Aqui - Encostou a mão no centro das costas de Hadassa e fez pressão até que
elas estivessem levemente arqueadas para frente. Então, puxou com delicadeza os ombros dela para
trás e fez o mesmo com seu quadril. Só o suficiente para que parecesse natural.
- Isso dói! - Reclamou.
- É porque você não está acostumada. Dois ou três dias segurando essa posição serão o suficiente
para ela te ser corriqueira.
- Se você diz... - Murmurou começando a andar com a posição travada.
- Não, anjo! Você precisa de um pouco mais de leveza e gingado ao andar. Aqui, deixa eu te ajudar.
- Harry parou um passo atrás dela e apoiou as mãos em seu quadril quebrando-os para um lado e
depois para o outro a cada novo passo. Hadassa riu, se sentindo uma boneca de pano. - Dê passos
maiores, Hadassa. Você é uma mulher linda e confiante agora, aja como tal. - Ele ditou ao pé do seu
ouvido, mas a menina estava acostumada demais com os passos de passarinho para conseguir fazê-
lo sem se desequilibrar e depender das mãos de Harry para ampará-la.
- É, acho que vou dar mais trabalho do que você esperava. - Ela se desculpou risonha pela falta de
jeito. Ele negou com a cabeça, já esperava que seria uma tarefa complicada e explicou que não
havia vergonha alguma em não conseguir de primeira.
- Não se assuste, eu só quero ajudar. - Ele adiantou antes de dar um passo para frente e colar seus
corpos. Ela ficou tensa com a proximidade, mas o carinho modesto que Harry fez com o polegar no
seu quadril a acalmou. - Eu vou empurrar com o meu joelho a sua perna, e você vai andar seguindo
esse comando. Tudo bem? - Ela fez que sim com a cabeça, e então ele pressionou com a própria
perna direita a dela, que continuou o movimento dando um passo longo e certeiro. As mãos dele
novamente lhe auxiliaram na quebra do quadril e logo ela estava andando por toda a sala rebolando
na medida certa.
A lição estava sendo aprendida com êxito, ainda que o colar de seus corpos fosse desconcertante
para os dois. O leve rebolar de Hadassa no colo do garoto o fazia se animar sem querer e com que
ela perdesse o ar, e as instruções sendo murmuradas diretamente no seu ouvido não ajudavam.
Quando ela tropeçou nos próprios pés de nervosismo e ele sentiu uma gota escorrer pela nuca,
acharam melhor afastar-se para que ela tentasse sozinha.
Mais vinte minutos depois estavam os dois cansados de tanta andança e dando aquela parte da lição
como encerrada. Ele estava sentado no sofá com os antebraços apoiados nas coxas, levemente
inclinado, e ela se jogou ao seu lado esticando as pernas e cruzando os tornozelos. Harry passou a
mão pela testa, percebendo que também teria que ensiná-la a sentar.
- Última coisa e então vamos almoçar. - Ele indicou. - Você vai se sentar sempre que puder com as
pernas cruzadas e as mãos no colo. Não vai brincar com seus dedos, não vai cruzar os braços e não
vai se inclinar para trás. - Hadassa suspirou. Queria se levantar, achar Sam e gritar na sua cara que
ela não merecia ter que passar por tudo aquilo por ele. Fez o que Harry havia ditado, sendo mais
fácil, depois de tanto treino, manter a postura. - Muito bem. Se seu olhar se cruzar com algum cara
com quem queira flertar, você descruza e cruza as pernas novamente para o outro lado.
- Entendi, mas e como eu sei que o cara também quer flertar comigo?
- Acho que esse é um dos seus maiores problemas, anjo, não saber nos interpretar. Vou te ensinar a
fazer isso hoje também. Mas antes, vamos encher essa barriguinha. - Brincou dando um apertão em
sua cintura. Levantaram-se e foram rumo à cozinha apreciar novamente os dotes culinários do
garoto.

- Ok, segunda parte dos ensinamentos do dia. - Disse pomposo arrancando uma gargalhada
de Hadassa. - Como saber se um cara está flertando com você? Uma ou outra ação entregam. Ele
pode olhar no fundo dos seus olhos e não desviar o olhar por mais de três segundos. Isso significa
que não foi acidental, e ele está realmente interessado. Então, cruzou o olhar? Segura e conta. Deu
mais de três? Ele tá na sua.
- Não sei se eu consigo segurar o olhar por três segundos.
- Então vamos ao segundo sinal. Ele vai se inclinar na sua direção. Principalmente a cabeça, o que
significa que pode ser que ele te olhe de baixo.
- Tá. E o que mais?
- Ele vai arranjar qualquer desculpa para te tocar. Principalmente na base da coluna. É como
fazemos para vocês sentirem nosso amparo e calor, e ainda tem o bônus da desculpa de estar te
guiando quando na verdade estamos "mijando no poste" e dizendo para quem estiver por perto que
vocês estão conosco.
"Agora, se estiverem conversando, tem mais alguns sinais de interesse, como as pupilas dilatarem,
as sobrancelhas levantarem, e inquietação. Se os pés dele não pararem de se mexer é ruim, porque
significa que você não está conseguindo prender a atenção dele realmente, e tudo que ele quer é
pular a parte da conversa e ir fazer outra coisa, mas se ele mexer com as mãos ou a boca é porque
está ansioso para te beijar ou te tocar, e isso sim é bom.
- Uau, você é bom nisso. Vocês fazem essas coisas conscientemente?
- Não, anjo. É tudo natural, e vai ser para você também em algum tempo.
- Bom, tudo bem, agora eu sei que ele ta interessado, mas como eu faço pra flertar de volta?
- Simples, também tem alguns movimentos clássicos que você pode performar. Um deles é retribuir
o olhar rapidamente, então olhar para qualquer outro lugar com um sorriso discreto, e voltar a olhá-
lo. É como se dissesse "te notei, tentei disfarçar, mas não deu". Isso nos deixa loucos. Outra coisa
clássica é mexer com o cabelo, ou, como eu já disse hoje, descruzar e cruzar as pernas.
- E se estivermos conversando já?
- Daí você precisa se mostrar interessada no que ele fala, fazendo comentários esporádicos, sorrir
constantemente, e a cartada final: apertar alguma parte do corpo dele. O mais comum é o bíceps, se
estiverem conversando em pé. Se for sentado pode ser o antebraço ou mesmo o fim da coxa. Mas é
necessário um apertão.
- Nossa, isso tudo é muito complexo, acho que vou precisar anotar. - Ela disse ingenuamente
fazendo Harry rir.
- A gente vai treinar enquanto eu te falo um pouco sobre as conversas em si, não se preocupe.
- Então fala que eu já to curiosa!
- Tá, digamos que o cara de aproximou, ou qualquer cenário que seja, o que importa é que vocês
vão ter um contato mais direto, vão conversar. Vamos fazer de conta que eu sou o cara. Você vai
precisar saber a deixa de quando falar sobre si e quando me deixar falar, quando interromper, sorrir,
fazer caretas, ser misteriosa. Acho que fica mais claro se a gente for por exemplos. - Ele fez um
gesto explicando que começaria. - Se eu disser que te acho gostosa, o que você faz?
- Eu me escondo. - disse astuta sabendo que levaria uma bronca.
- Não, Hadassa. O que você acha que deveria fazer?
- Rir?
- Não, sua pequena pilantra. Você me olha séria por dois segundos, abre um sorriso de canto, e
desvia a atenção para a pista de dança ou o lugar mais agitado próximo e faz um comentário
misterioso. Isso vai me manter interessado sem te achar vulgar.
- Que tipo de comentário?
- Qualquer coisa que desvie a conversa e não me faça rir.
- Tá... Entendi. O que mais?
- E se eu elogiar as roupas que você está usando?
- Isso não faria sentido algum, foi você que as comprou para mim.
- Finja que eu não sou eu.
- Bom, eu falo obrigada e conto a loja na qual elas foram compradas?
- Para um amigo gay, talvez, - ele maneou a cabeça - mas para um homem hétero você tem que
entender que o elogio não é para a sua roupa, é para o seu corpo. E agora, que você faz?
- Eu o olho séria por dois segundos com um sorriso de canto, então desvio o olhar e faço um
comentário misterioso.
- Isso, minha garota! - Ele a chacoalhou pelos ombros, orgulhoso - Mas veja bem, o cara foi mais
sutil dessa vez, então você pode agradecer antes de tudo.
- Sim, senhor.
- E se eu te ofereço uma bebida?
- Eu não bebo nada de estranhos.
- Você é impossível, menina! Está me provocando. - Ela tinha um sorriso arteiro nos lábios e ele
diversão no olhar. - Tudo bem, vamos tentar um cenário mais próximo da sua realidade. Se o loiro
bate na sua porta dizendo que brigou com a namorada, o que você faz?
- Ofereço uma bebida.
- Isso! Um whisky, por exemplo. - Indicou o cão dormindo tranquilo no canto da sala.
- Ah, eu tinha pensado mais em um chocolate quente, mas pode ser.
- Não, anjo, você oferece uma bebida alcoólica, escuta o desabafo dele, e inflama seu ego um pouco
para então dar a cartada final.
- Que seria...?
- Lembrá-lo de que você é melhor do que ela.

Eles ainda ficaram horas praticando diversos tipos de situação para que ela pegasse o jeito da coisa,
mas o trabalho valeu a pena quando o teste final, que seria um diálogo livre e não hipotético, teve
vez. Hadassa se saiu bem e seguiu de perto a cartilha, e o resultado na vida real haveria de ter sido
positivo. Resolveram parar novamente a lição enquanto comiam sorvete direto do pote e assistiam
qualquer série que passava na televisão.
Era um episódio que Harry já tinha visto, então teve a chance de repassar as dificuldades do dia
para saber onde poderia ajudá-la em seguida.
Todos os tropeços da menina no quesito sedução acabavam apontando para um mesmo problema, o
da baixa autoestima. Hadassa não se amava, não se achava sexy e não estava confortável com o
próprio corpo, e por isso tinha tanta dificuldade em passar isso para as pessoas: para ela, era
equivalente a contar uma mentira.
Ele sabia como podia contornar isso, mas tinha quase certeza que Hadassa teria algumas pedras na
mão e uma grande barreira para aceitar a próxima aula. Teria que preparar bem o terreno, porque
aquilo não podia ser adiado.
Olhou para o lado onde a garota estava sentada com a postura perfeita apesar da áurea que ela
emanava deixando claro que preferia estar abraçando as pernas em cima do sofá. Suspirou
desgostoso, novamente lhe incomodando o fato de ela querer tanto se moldar para atender às
expectativas de alguém que não seria bom para ela.
Passou um braço ao redor de seus ombros e a puxou para recostar em seu peito, o que ela fez de
bom grado, já conseguindo encarar melhor a presença dele com a intimidade que estavam criando.
Ele sentia uma vontade irracional de acolhê-la em seus braços, para protegê-la do mundo preto e
branco que existia ao seu redor. Ela podia beirar os dezessete, mas ainda era uma menina ingênua e
muito machucada pela vida que não merecia a discriminação que sofria. "O que eu faço com você,
anjo?", pensou. Ela estava trazendo luz para sua vida, animação e esperança, e o que ele trazia para
a dela eram regras e imposições de uma sociedade quadrada.
Não queria que tivesse que ser assim.

Sette

Naquela segunda-feira à tarde, depois do período de aulas, Harry e Hadassa foram embora juntos
direto para a casa do mais velho. Ele disse a ela que a terceira aula teria que ser naquele dia, pois
não podiam mais adiar lidar com aquele obstáculo.
Ela, como sempre, acatou, embora não fizesse ideia do que ele estava falando.
Mas o jeito como Harry estava, tão agitado e nervoso, a fez ficar assustada. Ele não parava de
repuxar os lábios e os cabelos já normalmente bagunçados, estavam caóticos de tantas vezes que
ele passava as mãos tensas por eles.
- Por que você parece tão nervoso hoje? Aconteceu alguma coisa? Eu fiz algo errado? - Perguntou,
já não aguentando mais o estado do garoto sem saber o motivo daquilo.
- Não, nada disso. Eu só sei que você não vai gostar nada do que eu tenho preparado pra hoje.
- E o que é que você tem? - Hadassa estava curiosa, e se não fosse a confiança que havia
desenvolvido nele, naquele momento estaria tencionando sair dali correndo.
- Bom... Sabe como o seu maior problema é de autoestima, certo? - Gesticulou com as sobrancelhas
levantadas.
- É, você está sempre falando isso. Que eu preciso me amar antes das outras pessoas poderem.
Mas, você sabe, não é tão fácil quanto falar.
- Eu sei. Mas talvez a gente precise ser mais... Literal nessa coisa de se amar.
- Como assim?
- Nas nossas primeiras aulas, eu podia ver a vergonha que você tinha de si mesma. A falta de
confiança na sua aparência e o desmerecimento quando falava sobre você. Era como se você
estivesse fazendo tudo isso, todo esse esforço... mas achasse que estava aprendendo a enganar os
homens e não a deixá-los ver o melhor de você. Isso é porque você não acredita no seu potencial,
nas suas qualidades, não se ama. E então eu acho que você precisa conhecer melhor você mesma,
conhecer melhor o seu corpo. Explorá-lo, acariciá-lo, amá-lo. - Ela ainda parecia confusa. - Tudo
bem, o que eu to dizendo é que eu acho que você precisa fazer amor consigo mesma para que os
outros queiram fazer amor com você. - Os olhos dela imediatamente se arregalaram, talvez estivesse
enfim entendendo aonde Harry queria chegar.
- Nesse nível de literalidade?
- É, nesse nível. Hadassa... - Suspirou. Ia precisar falar as palavras. - Eu to falando de masturbação.
- Ai, meu deus, eu não to ouvindo isso. - Ela se levantou começando um caminhar nervoso em
círculos pela sala.
- Você disse que ia fazer tudo que eu mandasse. - Lembrou.
- Você não pode estar sinceramente mandando eu me tocar! - Queria parecer ultrajada, mas a falha
na voz entregou que ela estava apenas muito nervosa.
- Bom, pois eu estou. - Ele bateu o pé, sabendo que seria complicado convencê-la. Depois, percebeu
que falar grosso com a garota nem sempre funcionava, e preferiu tirar a máscara de carrasco. -
Anjo... - Começou, levantando-se e pegando as mãos dela entre as suas. - Eu sei que é estranho.
Ainda mais por ter um cara falando isso pra você. Mas eu realmente acho que esse é o melhor
caminho. Porque não importa o trabalho que façamos pra você se aceitar, vai ser tudo superficial, se
chegar na hora H e você estiver sem roupa eu tenho certeza que a timidez e a vergonha de si
mesma vão voltar com força total. Você precisa estar confortável consigo mesma desde debaixo da
pele, confortável com o seu prazer egoísta, com o que quer, com o que precisa. Aí sim vai poder se
concentrar em pedir isso aos outros e dar a eles também. Você entende?
- M-mas... Por mais que eu entenda o que você tá falando... Harry, eu não faço nem ideia de como
fazer isso. Por onde começar. - Ele engoliu em seco. Tinha alguma noção da inexperiência da garota
no quesito sexualidade, mas achava que ao menos nesse aspecto tão íntimo ela soubesse se
orientar.
- Não se preocupa... eu te ajudo.
- A-ajuda?
- É. Eu vou te dizendo o que fazer. Como em uma aula normal.
- Não tem nada de normal nisso.
- Eu sei. Eu sei, mas é o que temos para o momento. - Ele deu de ombros, mas os olhos estavam
analíticos em cima dela como se ainda esperasse algumas objeções.
- O que? É pra começar agora?
- Vamos fazer assim: A gente vai pro meu quarto, senta na minha cama confortáveis, e eu te explico
melhor tudo que puder. Daí a gente vê como fazer de lá. Tá bem? - Ele podia dizer que ela estava
tensa e desconfortável com toda a perspectiva dos próximos minutos, mas tinha esperança de que
dar um passo de cada vez fosse ajudá-la a relaxar.

Uma vez sentados na cama de casal do garoto um de frente para o outro e de pernas de índio, Harry
começou a explicar a parte teórica da masturbação, para tentar sanar as dúvidas que ela tivesse
antes de colocar em ação.
- Antes de mais nada, anjo, você precisa se excitar. Não é um processo mecânico e automático,
então você vai precisar desse gatilho inicial. Então, pode acariciar diversas partes sensíveis do seu
corpo, fazendo um carinho em si mesma. Não tem necessidade de ir direto ao ponto. Na verdade,
existem pelo menos outros cinco lugares com zonas erógenas que você pode explorar, e milhares de
terminações nervosas espalhadas que ajudam nesse objetivo. Tudo bem?
- Quais são as cinco? - Perguntou, como sempre envergonhada e curiosa na mesma medida.
- Eu vou te mostrar já, já. - Harry garantiu, logo continuando a explicação. - Depois disso que eu
falei, você deve se sentir molhada lá. É normal e esperado que se sinta escorregadia. Saberemos se
está no ponto certo se, ao esfregar as coxas uma contra a outra, puder sentir algum alívio
momentâneo.
- Tá, entendi.
- Então você pode começar a se massagear. Primeiro por cima da calcinha, pois o atrito com o
algodão deve ser gostoso, e depois dentro. E é exatamente isso que é: uma massagem. Você só
precisa encontrar o ponto onde a pressão é mais agradável e investir nele. Você vai sentir calor e
alguns calafrios, e isso é extremamente normal. Se sentir vontade de fechar as pernas e parar tudo,
é justamente quando você mais deve continuar. Você tem alguma pergunta? - Indagou vendo os
olhos da pequena mais abertos que o natural.
- Ahm... Você não precisa, você sabe, colocar algo ali dentro?
- Só se você quiser. A maioria das mulheres prefere fazer como eu disse só, sem penetração. Mas se
você sentir vontade, pode escorregar um ou dois dedos para dentro de si. Você pode curvá-los dessa
forma - Ele exemplificou com os seus - e seguir o ritmo que te fizer confortável. É tudo uma questão
de ler seu próprio corpo e seguir seus instintos.
- Bom, tudo bem. Mas e como eu... Me excito?
- Você pode fechar os olhos e imaginar algum cenário sensual que você tenha visto em filmes, livros,
ou que gostaria que acontecesse na vida real. Para nós, homens, imaginar uma mulher muito...
Bonita - Escolheu -, já é suficiente. Mas acredito que para vocês seja um pouco mais complexo do
que isso.
Harry assistiu, intrigado, Hadassa fechar os olhos bem ali a sua frente e franzir a testa, tentando
imaginar alguma coisa. Ele quis dizer que ela podia esperar ele sair do quarto, mas achou
encantadora a feição de esforço que ela fazia.
- Não to conseguindo pensar em nada, Harry. - Ela decretou depois de quase um minuto daquela
forma, com os olhos novamente abertos.
- Eu posso te ajudar nisso também. Mas antes, venha aqui. - Chamou parando na frente do espelho
de corpo inteiro que ele tinha no quarto. Ela se levantou e foi até ele, sendo direcionada até ficar a
sua frente, o corpo miúdo ainda menor em comparação com o do garoto atrás de si. - Aqui, Hadassa
- Harry começou, encaixando suas mãos por detrás das dela e as guiando para cima. - Essa é a
primeira das cinco áreas que eu te indiquei. - Ele fez a ponta dos dedos dela tocarem
superficialmente seu próprio lábio inferior. - Por isso que normalmente as pessoas se animam tanto
com um beijo. Você pode mordê-lo o quanto quiser na sua preparação. - Em seguida, carregou as
mãos dela até que elas passeassem calmamente pelo pescoço alvo chegando quase no limite da
blusa de alça. - Esse é o segundo lugar. Você pode sentir vontade de esfregá-lo ou de arranhar.
Todas as opções vão fazer você se arrepiar, e arrepio é bom. - Ela acenou devagar, os olhos
cravados no espelho e em cada movimento de Harry. As quatro mãos unidas desceram e se
encaixaram nas laterais dos seios médios da menina em formato de concha. O mais velho empurrou
as próprias contra as dela, fazendo os dois montes de carne apertarem-se um contra o outro,
cavando o decote da blusa. Mais tarde se o perguntassem, não saberia dizer se o fez para mostrar
a Hadassa como lidar com aquela parte de seu corpo ou se por vontade própria. - Essa parte aqui
em especial é muito importante de se ser explorada. Da forma como achar melhor, suave ou rude, o
toque aqui é bastante importante. - A seguir, ele levantou brevemente a barra da regata que ela
usava, expondo, ainda que minimamente, sua barriga. Deu suaves batidinhas com os dedos ali, bem
próximo do ventre, fazendo um ou outro deslizar, e assistiu o ar esvair-se dos pulmões de Hadassa.
- Nossa, isso é bom! - Ela exclamou, ansiosa. Ele riu, modesto.
- Exatamente, e essa é a quarta área. Me dê suas mãos de novo. - Ela o fez, e ele as levou mais
para baixo e obrigou-as a apertar o interior das próprias coxas quentes. - Esse é o último. Tem
muitos outros lugares, mas que você consiga explorar sozinha acho que esses estão de bom
tamanho. Ela repuxou os lábios e murmurou em concordância, um pouco decepcionada que ele
estivesse voltando para a cama, mesmo sem saber o porquê. - Sente-se aqui no meio, vou te ajudar
a criar um cenário. Só até você pegar o jeito, e aí eu saio do quarto e te dou privacidade. - Hadassa
abriu os olhos, o nervosismo voltando a dar as caras. - Não se preocupe, eu vou estar no corredor se
precisar de mim. - Garantiu, confortando-a. - Vem.
A mais nova subiu na cama novamente e sentou-se no meio das pernas do mentor, de costas para
ele. Ele a ajeitou e manuseou, até que ela tivesse as pernas esticadas e o tronco descansando em
seu peito, em uma posição confortável e entregue. Daquela forma, as palavras fantasiosas de Harry
podiam ser sussurradas diretamente no ouvido da menor, tendo um efeito mais direto.
- Feche os olhos e deixa a mente em branco. - Pediu, sendo obedecido imediatamente. - Agora
imagine-se em um lugar que te traga paz, com clima ameno e uma vista bonita. Onde você
está, Hadassa?
- Em uma cabana de madeira escura dentro de um bosque claro e lotado de árvores floridas.
- Ótimo. Agora imagine que você não está sozinha. Tem um homem muito bonito, malhado e suado
com você. Ele acaba de chegar na cabana com algumas peças de lenha para aquecer vocês quando
escurecesse.
- Um lenhador? - Ela perguntou, animada. Ele agradeceu ter acertado no fetiche improvável.
- Sim, um lenhador. Ele prepara tudo para que você aproveite o fim de tarde da melhor maneira
possível. Tem vinho esperando na cômoda ao lado da cama. Os lençóis são claros e sedosos, e é
para baixo deles que vocês vão. - Ela se remexeu em seu peito, realmente vivenciando a
história. Harry sorriu e acariciou seus braços em conforto, continuando. - Ele acaricia seu rosto e te
lembra o quanto te acha linda. Diz que você é tudo o que precisa e inclina-se para te beijar. -
Hadassa subiu uma mão para a boca e esfregou um dedo contra ela, como se para deixá-la
dormente. - Vocês estão com gosto de vinho na boca e apreciam o ritmo do contato. Ele se coloca
em cima de você, e te abraça apertado, correndo os dedos em seu entorno. O calor da fogueira e do
corpo dele te fazem ficar ofegante. - O peito dela se movimentou com mais rapidez, espelhando as
palavras do garoto. - Você sente que quer mais contato. Espalma as mãos nas costas dele e percebe
que ele está sem a camisa. Na verdade, vocês dois não tem praticamente roupas no corpo, e a
última peça ele lhe tirava agora enquanto esbarrava a boca pela sua barriga. - A menina encolheu o
ventre e suspirou, se escorando mais contra o professor. - Você se arrepia e entranha os dedos nos
cabelos macios dele, o puxando para cima, onde ele distribui mordidas no contorno do seu pescoço
e ombros. - Harry tinha o hálito quente, e vez ou outra deixava beijos por conta própria na nuca da
garota, onde também passeava o nariz gelado. Apoiou as palmas da mãos contra as coxas dela, e
continuou o relato quente por mais alguns minutos, até perceber os movimentos inquietos do quadril
dela ajeitando-se freneticamente no colchão sem achar posição. Sabia que ela estava pronta, e com
muito custo, obrigou-se a sair de trás dela e deitá-la nos travesseiros. Ela ainda tinha os olhos
fechados e os lábios entreabertos, e ele precisou molhar os seus próprios, de repente tão secos,
antes de lhe sussurrar que ela estava pronta e deixar o quarto, deixando a porta encostada. Ele
encostou as costas na parede e se permitiu deslizar até o chão, quando constatou que sua
respiração estava igualmente acelerada.
No quarto, Hadassa deu continuidade à fantasia que Harry havia criado. Seguia instintivamente os
movimentos que ele tinha lhe ensinado, contornando de leve os seios e esfregando os bicos, então
passeando pelo interior das coxas e se aventurando no calor molhado entre as pernas. Por algum
motivo desconhecido, os olhos que ela imaginava sobre si eram claros e os cabelos escuros, uma
inversão interessante do Sam inicial que tinha projetado. Ele também tinha mais músculos do que o
usual, os quais ela fazia questão de explorar milímetro por milímetro, enquanto encontrava um ponto
interessante de sua intimidade que a fazia pular e perder a linha do raciocínio a cada novo toque.
Harry escutou o primeiro gemido surpreso escapar pelas frestas da porta, e em uma tortura
silenciosa olhou para baixo, deparando-se com seu amigo bastante animado para entrar pra festa a
que não foi convidado. Ele suspirou incomodado, ouvindo outros sons seguirem o primeiro, e
entranhou dos dedos nos cabelos impedindo-se de se aliviar. Os grunhidos de Hadassa ficavam cada
vez mais longos e apelativos, e ele precisou puxar as madeixas escuras pela raiz para tentar se
distrair. Culpava o sexo masculino pela incapacidade de se controlar, embora no fundo soubesse que
aquilo não tinha nada a ver com inevitabilidade, e era mérito único e exclusivo da menina
inocentemente sensual que aproximava-se do êxtase aliviado sobre sua própria cama.
Dormir ali nunca mais seria a mesma coisa.
Harry odiou-se por um momento, enquanto pegava-se rastejando para a abertura da porta, para
espiar a visão proibida da garota em seu quarto. Hadassa tinha as pernas abertas, a cabeça contra o
travesseiro, as costas arqueadas, e as mãos alternando-se entre um movimento frenético no ponto
inchado no topo de sua intimidade, e um entra e sai coordenado mais abaixo. Chegou a tempo
apenas de vê-la ranger os dentes e contrair os dedos do pé em liberação, jogando-se em seguida
contra os lençóis para aproveitar os últimos espasmos deliciosos.
Balançando a cabeça rapidamente, ele se levantou e rumou para o banheiro, afim de tirar aquela
imagem da cabeça.
Um pouco de água fria no rosto ajudaria.
Ou talvez não.
Ou talvez nada ajudasse.
A não ser... Não. A água lhe teria que servir.

Otto

Depois de dignar-se a uma ducha rápida no banheiro da suíte, usar a toalha de Harry e colocar as
mesmas roupas por falta de uma troca, Hadassa foi encontrá-lo sentado pensativo na sala. Ela
tentou ser discreta ao entrar no cômodo, mas assim que o garoto ouviu o menor sinal de sua
presença ele se levantou sorrindo orgulhoso, e abriu os braços para que ela se encaixasse ali em um
abraço caloroso.
- Essa é a minha garota! - Dizia enquanto a apertava e balançava, tirando risos espontâneos da
menor. - Meus parabéns, anjo.
Hadassa ainda se sentia mole e carregava um sorriso satisfeito no rosto pequeno, que se abriu mais
em um realizado ao ouvir a congratulação de seu mentor.
Os dois se sentaram no sofá e Harry pegou uma das mãos dela entre as suas, onde fazia um carinho
modesto como se não tocá-la fosse inviável.
- E então? Como você se sente? - Ele perguntou sereno embora estivesse ansioso pelo relato
completo, para saber do sucesso daquela primeira parte da aula.
- Nossa, incrível! É como se eu tivesse me libertado de amarras que eu nem sabia que existiam. - Ela
explicou, levantando-se do sofá apesar do cansaço e dando algumas piruetas no tapete. - É como se
eu pudesse conquistar o mundo! - Exclamou com os braços levantados. Harry ria e a olhava com
carinho, feliz pelo seu momento.
- Meu anjo, quando eu terminar com você, não vai haver pessoa do sexo masculino que não deseje
justamente isso. - Ele piscou, garantindo. - Bom, agora essa aula é sobre ser confiante com seu
corpo e atitudes que o envolvam. O primeiro grande passo foi muito bem cumprido pelo que eu
posso ver. Eu só vou, então, te ensinar mais algumas sutilezas, alguns movimentos que devem
ajudar a passar essa sensualidade recém descoberta.
- Ai, Harry, faça o que quiser. Depois de hoje eu definitivamente não te questiono mais. - Disse,
entregue, arrancando risos dos dois.
- Ótimo, ao trabalho então.

Harry foi até o aparelho de som da sala e mexeu ali alguns minutos até que uma música envolvente
e sensual dos Arctic Monkeys saísse dos amplificadores. Hadassa levantou uma sobrancelha,
indagando-se o que aquilo significava, mas não pôde fazer a pergunta em voz alta antes que o
garoto a puxasse pela mão e chocasse seus corpos. A outra mão de Harry pousou em sua cintura e
ela, sem saber o que fazer com o braço livre, o descansou no ombro forte do mentor.
- Eu vou te ensinar a dançar. - Ele explicou, mais próximo do que o recomendável do rosto dela para
que ambos não perdessem os sentidos.
- Dançar? - Hadassa confirmou, feliz por não ter gaguejado.
- Sim. É importante que você saiba se mover com graciosidade e sensualidade, sem passos
ensaiados. É uma etapa importante da conquista se ela envolver uma festa ou balada. - Harry
continuava dizendo tudo com serenidade e perto demais da face da menor, que apenas engoliu em
seco e gesticulou que tinha entendido. Ele colou seus troncos e aproximou a boca de seu ouvido. -
Siga o movimento do meu corpo. Se deixe conduzir, se deixe levar. Vai perceber que isso é mais fácil
do que parece.
Sem pensar no teor das palavras do mais velho, Hadassa fechou os olhos e deixou que todas as
partes do seu corpo que escoravam a superfície rígida que era o dele se entregassem. Eles tinham
as bochechas coladas e balançavam-se sutilmente ao ritmo da música, o quadril dele incitando o
movimento do dela. Até que com um impulso um pouco maior, eles começaram a dar passos
modestos e requebradas mais acentuadas. Para frente e para trás, para um lado e para o outro,
dançaram por todo o tapete com graciosidade e informalidade.
Todos os gestos que Harry incitava com seus ombros ou pernas, faziam Hadassa completar o
movimento, de forma que ao final da música ela já quase conseguia prever o próximo passo dele e
agir de acordo.
- Muito bem. Dançar em dupla você aprendeu bem, mas essa não é a modalidade mais comum nas
festas pra gente da nossa idade. Então agora vamos ver como você se vira sozinha. Aqui. - Disse,
indo para trás deHadassa e novamente apoiando as mãos em sua cintura, como haviam feito na
segunda aula, a da postura. Ele a ajudou a começar a rebolar, e logo ela assumiu o controle. A
forçou a dar pequenas abaixadas curvando os joelhos, para que a dança ficasse mais sensual. E,
assim como no quarto, segurou as mãos dela, mostrando o que fazer com as mesmas.
Fez ela passeá-las pelos cabelos, traçarem a curva do pescoço e da cintura, e desenharem desenhos
abstratos nas coxas. Tudo devagar, com calma e sensualidade. - Você pode deixar os lábios
entreabertos e olhar por cima do ombro. - Ensinou, e ela reproduziu imediatamente, de forma que o
nariz e a boca do rapaz encostavam-se à sua bochecha na virada, perto do ouvido. - Isso. Continue
assim. - Pediu, a voz rouca e baixa acabou por incentivá-la a movimentar mais o quadril encaixado
no dele. Harry suspirou pelo contato, fechando os olhos apertados, e optou por se afastar para
sentar-se no sofá de frente a ela. - Vamos ver se você aprendeu. Dança pra mim, Hadassa.
A garota parou o que fazia estática no centro da sala. Tinha um par de olhos sobre si e a ordem do
professor ecoava nos confins de sua mente, como uma daquelas fórmulas que você precisa muito
decodificar em uma prova importante, mas nada no mundo te ajuda a fazê-lo. Ele abriu as pernas e
apoiou os antebraços nas coxas, fazendo um gesto com a mão para que ela começasse. Só assim ela
saiu do transe, forçando os pés a saírem do lugar sem destino certo, e, embora em seus olhos ainda
transparecessem o receio e a vergonha, tentou manter o corpo se movendo ao ritmo mais devagar
da nova música ao fundo, lembrando-se de como era mais fácil com Harry ao seu redor.
Ouviu-se um barulho de estalar de dedos no cômodo e foi então que ela levantou os olhos de seus
pés e encontrou o olhar do mais velho. E, alguma conexão estranha se estabeleceu, de forma que
todos os flashes de elogios e dicas que ele havia lhe dado até ali a atingiram em um piscar de olhos.
E ela entendeu que ele não era qualquer um. Era Harry naquele sofá, e eles já tinham estabelecido
vínculo suficiente para que ela pudesse se dignar a ao menos... Tentar com propriedade.
Fechou os olhos apertados e soltou o pescoço, deixando o corpo livre para acompanhar as batidas.
O quadril foi o primeiro a sair da inércia, quebrando de um lado para o outro, enquanto os ombros
ainda continuavam duros. Sentiu um calor tocar-lhe a coxa esquerda e abriu os olhos vendo a mão
de Harry ali. Ele a estava puxando mais para frente, quase para o meio de suas pernas. Ela foi com
os lábios entre os dentes, dessa vez arriscando passear as mãos pelo pescoço e cintura, como ele
tinha instruído.
Harry se recostou no sofá, deixando que ela se habituasse à situação. Ainda lhe parecia pouco
confortável, mas a cada descida que os olhos dele davam pelo seu corpo, um novo passo parecia ser
dado para que a dança ficasse mais natural. Ele tocou dois dedos no joelho, indicando-a para dobrá-
los, e jogou a cabeça de um lado para o outro, como se a avisasse para brincar com os cabelos
também. E dessa forma, o conjunto de movimentos foi ganhando jeito, e desinibição.
- Vire-se. - Ordenou mais uma vez, fazendo-a ficar de costas para o sofá. Hadassa continuou a
dançar, agora recobrando traços de timidez com a suspeita de ter a bunda observada, ao passo
que Harry molhava os lábios e puxava o tecido da calça jeans, desconfortável com a visão
tentadoramente mais apurada. Ele subiu uma mão pela lateral do quadril dela, em uma tortura
silenciosa do local que queria realmente tocar, e a alcançou nos cabelos sedosos caídos pelas costas
até podê-los puxar levemente, para que ela voltasse a relaxar o pescoço. - Curve-se e olhe pra mim
por cima do ombro. - Inesperadamente, apesar da posição sugestiva, o ar de inocência que Hadassa
exalava apenas era um afrodisíaco a mais em todo o showzinho particular. Como se quanto mais
inexperiente ela soasse, mais traria o gosto de corrupção e sensual inevitabilidade. - Agora venha
aqui.
Estando novamente cara-a-cara com Harry, ela tinha uma interrogação nos olhos perante a nova
ordem, que só agravou quando ele deu dois tapinhas no jeans, e a ajudou a sentar-se em seu colo
de frente, as pernas abertas onde encaixava-se o quadril dele, e o traseiro firme e posicionado no
início das coxas musculosas sobre si.
- Apoie-se nos joelhos e ondule o seu corpo. Brinque com o cabelo. Entenda que eu sou quem você
quer conquistar e não um mero professor. - Ela seguiu, frase-a-frase, cada uma das orientações
dele, aproveitando para enlaçar os braços ao redor de seu pescoço e encostar suas testas de forma
que tivesse mais apoio e em busca do pouco de coragem que a intimidade deles sempre a incitava.
O corpo dela inclinou-se para frente e para trás, unindo virilhas, barrigas e peitos, sempre chocando
a maciez e suavidade dela com a rigidez dele. Aprovado o movimento, Harry apertou-lhe a cintura
indicando que ela estava indo bem. O incentivo a fez ir além, voltando a dançar no colo dele, o
rebolado em pequenos círculos atiçando-o aos poucos. - Isso... Muito bem, anjo. - elogiou subindo o
rosto do ponto em que se encontravam para novamente olhá-la nos olhos, e assim diminuindo o
ângulo de contato das faces, aproximando suas bocas. Tão perto, que Hadassa diminuiu a
intensidade do movimentar com medo de esbarrar seus lábios nos dele acidentalmente.
Ela tinha a respiração dele batendo no rosto, o hálito provocando como seria seu sabor e o calor
sempre presente a envolvendo. Harry não sabia onde pousar os olhos, que ficavam vagando entre
os lábios vermelhos entreabertos de Hadassa e os olhos transparentes e vidrados.
Bem, o que se seguiria àquele momento, normalmente, seria um beijo.
E ele queria.
Pensava que aquela não era uma vontade momentânea; Estava crescendo em seu ser já há algum
tempo. Mas ainda não tinha decidido se era a curiosidade, o acesso fácil ou a simples beleza discreta
dela chamando.
O que sabia, era que não devia fazê-lo.
Aquela garota precisava dele, gostava de outro, e era frágil demais para servir-lhe como cardápio do
dia. Até mesmo merecia mais do que ter a cabeça confusa sem propósito. Ele sabia melhor do que
se meter com ela. Então engoliu o gosto doce do quase beijo em seco e afastou a cabeça tentando
pensar com clareza.
- Está ficando tarde e você deve estar cansada. Por que não continuamos essa aula amanhã? -
Sugeriu, precisando criar força para aguentar a feição decepcionada que inevitavelmente cruzaria a
face da menor. Ele acariciou sua cintura em um consolo mudo. Sabia que ela também queria,
embora não tivesse consciência disso. E aquela vontade demoraria a passar, - como se tivesse fome,
mas não houvesse comida disponível por um longo tempo - até que, eventualmente, se acalmaria e
conseguiria levar as aulas normalmente. Ou assim acreditava que seria. E quanto a Hadassa... Bom,
o encantamento também passaria. Ela se habituaria a ele, à sua experiência e charme, e conseguiria
focar exclusivamente no amado melhor amigo, ainda que esse também não merecesse.

"Traga roupa de banho" dizia a mensagem de Harry que ela recebeu na manhã do próximo dia de
aula, uma terça-feira de feriado sem escola. Estranhou o pedido, mesmo que o sol estivesse a pino e
ele desfrutasse de um exemplar de piscina quase olímpica na casa dos pais. Afinal, eles não iam
continuar a aula do dia anterior?
Por algum motivo desconhecido, Hadassa estava animada com aquela lição. Fosse pelos bons
momentos que ela já tinha lhe propiciado, ou pela previsão do que ainda lhe traria, ela queria
terminá-la. Mas, não podia contrariar o mentor, e por isso foi até o quarto da mãe e lhe roubou um
biquíni simples e pequeno, pois sabia que os que tinha Harry não aprovaria.
Tocou a campainha da casa enorme ansiosas três vezes, antes de dar de cara com o peitoral
definido do garoto exposto, uma vez que ele usava apenas uma bermuda azul. Hadassa engoliu em
seco, contendo a vontade de esticar um dedo e cutucar o monte de músculos desenhados, checando
se eram reais.
Ele a analisou sistematicamente de cima a baixo, parando para dar um puxão de leve na alça do
biquíni em volta do pescoço, que aparecia apesar da roupa que ela tinha por cima.
Foram para o quintal, onde espreguiçadeiras e toalhas estavam dispostas, junto com uma mesa
repleta de comida.
- Harry, a gente não vai continuar a aula? - Hadassa perguntou, já bastante confusa com o cenário.
- Vamos, meu anjo. Isso tudo faz parte dela. Mas não existe motivo para não aproveitarmos o
feriado também, certo? - Perguntou, um sorriso no rosto.
Como um passe de mágica, toda a tensão que dominava o corpo dela esvaneceu. Não porque a aula
teria continuidade de fato, ou porque soubesse o que Harry tinha preparado para o dia.
Não, Hadassa sentia-se serena naquele momento porque o mentor havia lhe dito nas entrelinhas
que gostaria de passar seu dia livre com ela.
Um dia que ele podia usar para fazer basicamente o que quisesse, sair a bares para pegar meninas,
estudar, praticar esportes com os diversos amigos, viajar. E ele estava ali; pura e simplesmente
desfrutando de um dia de piscina com uma garota sem sal que havia acabado de conhecer. Aquilo a
fez sentir especial, querida, como há muito tempo não se sentia. A fez sentir como se tivesse alguém
ao seu lado, para variar.
Por isso, Hadassa não pôde se frear quando caminhou até o garoto e passou os braços por seu
pescoço em um abraço desajeitado de gratidão. Não importavam os motivos que haviam unido os
dois. Ela só era grata de não se sentir mais sozinha.
Tho retribuiu o abraço, como sempre sabendo o que se passava na cabeça da menor. Parecia-lhe
um crime que ela tivesse sido tão judiada pelas pessoas, pois era uma garota incrível, meiga e gentil
que só queria um pouco de carinho e amparo. Apertou os braços em sua cintura e depositou um
beijo em seus cabelos cheirando a jasmim.
- Vamos cair na piscina ou o quê? - ela perguntou animada saindo do abraço com as bochechas
coradas para variar.
- Vamos sim. Mas você acha que o chato do seu professor vai perder a oportunidade de te ensinar
alguma coisa antes disso? - Harry levantou as sobrancelhas, arrancando um riso da mais nova.
- Você não é chato. - Elogiou com o sorriso preso entre os lábios.
- Vamos ver por quanto tempo mais você continua achando isso. - Ele apostou, risonho, então
batendo as mãos indicando que estava assumindo a pose de mentor. - Calor é um bom motivo para
as pessoas flertarem. As roupas são menores e mais inexistentes, os programas envolvem mais
contato, e os hormônios ficam à flor da pele. Por isso mesmo, piscina é um cenário que a gente
pode explorar.
- O que eu vou precisar fazer?
- Vai tirar a roupa que cobre seu biquíni devagar e pacientemente, e então eu vou te ensinar a sair
da piscina com graciosidade. Pode começar. - Com um gesto dele, Hadassa começou a tirar a blusa,
segurando a barra nas laterais com os braços cruzados e puxando para cima com lentidão. Harry
aprovou, e balançou a cabeça indicando que ela jogasse os cabelos como quando dançava. Então,
as mãos pequenas dela se dirigiram para a saia jeans que ele havia lhe comprado, a qual ela
desabotoou e ia começar a descer de qualquer jeito quando ele a parou com um toque, indicando
que ela deveria se curvar levemente e balançar os quadris para fazê-lo. Uma vez que a saia passou
pelos pés, Harry entregou um tubo de protetor solar para ela, que logo começou a espalhar pelos
braços e barriga. - Tome mais tempo para passar nas pernas, e sempre as apoie, uma de cada vez,
em um local mais elevado. Você deve se curvar sobre a perna e se concentrar no seu trabalho, sem
olhar em volta. - Ela o fez, e então teve ajuda para se empinar toda para espalhar o creme branco
no traseiro. - Você pode pedir para a pessoa em quem está interessada passar o protetor nas suas
costas, embora isso fique óbvio até demais. Mas, se o fizer e ele aceitar e tiver interesse em você, é
assim que ele deve fazer. - Harry indicou que ela se virasse e tomou o tubo das mãos dela. Afastado
o cabelo e os fios do biquíni, ele colocou um tanto de creme na mão e começou a passar devagar
pelas omoplatas, passando por dentro do limite da peça de banho e continuando em direção a
lombar. Passou algum tempo ali, entre apertadas sutis de sua cintura e contornos tentadores da
calcinha presa no quadril. Então subiu as mãos novamente, aproximou a respiração quente do
ouvido dela, e massageou ombros, pescoço e braços com o que sobrou de protetor nas mãos. -
Entendeu? - Sussurrou no ouvido de Hadassa, que se arrepiou sem querer e acenou positivamente. -
Muito bem, na hora de tomar sol, tanto faz se é de frente ou de costas, de qualquer jeito é
interessante para nós. Agora sim - Ele disse com um sorriso caloroso - vamos cair na água.
Entre empurrões idiotas de implicância eles iam para a grande banheira azul mais à frente. E um
segundo antes de chegarem à borda, Harry passou um braço pelas pernas de Hadassa e outro pelas
costas, içando-a no colo e levando-a com ele em um mergulho abrupto, sem sequer sentirem a
temperatura da água antes.
Quando submergiram, ele tinha um tom arteiro no rosto e ela tossia o pouco de água que tinha
engolido contra sua vontade.

Quase uma hora havia se passado, e apesar dos dedos enrugados, a dupla não dava sinais de que
sairia dali tão cedo. Naquele momento, Harry apoiava a cabeça e o alto das pernas da garota, que
boiava tranquilamente enquanto era conduzida de um lado ao outro do imenso retângulo de água. O
silêncio havia recaído entre os dois naquele instante de calmaria, mas daquela forma não
permaneceria muito tempo.
- Você já se inscreveu pra faculdade que seu padrasto quer? - Ela começou, ainda flutuando de
olhos fechados.
- Contra vontade, mas sim. Ele o fez por mim.
- E na que você quer?
- Ah... Não. Não sei se deveria. Depois se eu passar não vou saber dizer não e vou precisar enfrentar
mais um quebra-pau aqui em casa onde eu vou sair perdendo no final.
- Meu tio é advogado.
- Bem...?
- Ele é especializado nessas coisas de família. Não sei bem o nome. Divórcio, herança, emancipação
de menor, ele cuida dessas coisas.
- Você está sugerindo o que eu acho?
- Eu podia ligar pra ele. A gente sentava pra tomar um sorvete e contava sua situação. Ouvir o que
ele tem a dizer... Não pode fazer mal, certo? - Hadassa enfim abriu os olhos e estudou o rosto do
garoto. Ele parecia brilhar em admiração e a fez afundar até estar em pé a sua frente. Segurou seu
rosto entre as palmas das mãos e puxou para si, deixando um beijo estalado e molhado na testa
dela.
- Desse jeito vai me fazer louco por você. - Ele disse com um sorriso, e a abraçou novamente.
Estavam dando muitos abraços ultimamente, mas ali, molhados e com pouquíssimo pano entre eles,
a intimidade e conexão que agora tinham parecia gritar aos sete ventos.
Gritava que eles não sabiam mais viver sem o outro.

Sentados na mesa rodeados de comidas frescas de todos os tipos, Harry e Hadassa ainda riam da
última comparação que ela havia feito. Enquanto ele a ensinava a deixar a piscina com
sensualidade, Hadassa deixou escapar toda uma analogia hilária onde ela era Ariel, Maddison era
Úrsula, Sam, o príncipe, e para Harry restou dividir os papéis entre Seu Sebastião e Linguado.
Segundo ela, ele podia ser ranzinza e mandão como o siri, mas amável e bobo como o peixe
amarelo, e por isso ela estava decidida a costurar garras e pintar de vermelho as nadadeiras do
bicho de pelúcia que tinha que imitava o melhor amigo da pequena sereia e dá-lo de presente ao
garoto.
Depois da brincadeira, eles resolveram comer. Harry tinha preparado tudo com bastante cuidado,
principalmente a sobremesa, que seria usada para mais uma parte daquela aula. Eles comeram tudo
com Hadassa a todo momento dizendo o quão bom ele era na cozinha. Então, tirado o pano que
cobria a cesta com os doces, ele começou a ensinar.
- Você me disse que quer aprender a seduzir. Bem, tem um jeito bastante clássico e gostoso de
fazer isso que é brincando com a comida. Não tem quase nada que deixe um cara mais louco do que
ver uma mulher comendo do jeito certo. Aqui, pegue um morango, Hadassa. - A menor esticou o
braço segurando pelo cabinho a fruta gorda e avermelhada. - Agora passe ele no chocolate, até a
metade. Isso, leve à boca devagar e morda com os lábios soltos de forma que eles descansem sobre
o morango. - Hadassa mordeu a ponta melada de chocolate e sentiu que fazia biquinho sem querer
ao seguir as instruções do garoto. Por estar muito fresca e suculenta, a mordida na fruta fez um
filete de suco e chocolate escorrer de sua boca. Harry a parou antes que limpasse e esperou ela
terminar de mastigar para explicar o porquê. - Agora você passa um dedo pela trajetória que a gota
escorreu e chupa o dedo quase inteiro para limpar. Pode fazer isso? - Ela reproduziu, sendo precisa
nos movimentos. - E se não escorrer você só limpa a boca com a ponta da língua, novamente,
devagar.
- Entendi. É assim que se come qualquer coisa? Parece complexo.
- Não, anjo. É só uma coisa ou outra, algumas comidas mais afrodisíacas como morango com
chocolate.
- Tudo bem então. - Ela concordou com a cabeça, fazendo uma nota mental de mais tarde pesquisar
quais comidas se encaixariam naquelas condições. - Bom, já que você teve o trabalho de cozinhar
tudo isso, eu faço questão de lavar a louça.
- Não precisa, linda.
- Harry, por favor. Eu já estou fazendo pouco demais comparado com o que você tem feito por mim.
Me deixa fazer essa gentileza.
- Tá bem, mas eu não prometo te deixar em paz enquanto faz isso. - Prometeu.
- Não achei que deixaria.

- Acho que a minha cozinha nunca ficou tão bem servida. - Ele brincava, trazendo as últimas peças
de louça para colocar dentro da pia enquanto Hadassa, ainda de biquíni, já estava ensaboando prato
a prato.
- Para, seu bobo. - Reclamou, tentando se concentrar em não quebrar nada, desastrada que era.
- Mas eu mal comecei! - Harry foi para trás da garota, usando as mãos para liberar um dos lados de
seu pescoço, e ali depositou um beijo simplório, que a fez rir levemente. Passou então os braços ao
redor da cintura dela, e ficou ali, a abraçando apertado com a cabeça pousando em seu ombro, até
que ela se acostumasse com a presença e o calor e continuasse os movimentos da esponja sem
espirrar mais água que o necessário.
- A aula três acabou?
- Eu só vou te ensinar a jogar cartas quando acabar aqui, e finito.
- Essa foi longa.
- Bem, a primeira parte dela era a mais necessária. O restante foi para te habituar com a confiança
no seu corpo em situações diversas.
- Sabe, eu gostei dessa mais do que das outras.
- Você é uma safada, só não sabe disso ainda.
- Harry! - Reclamou, alarmada. Ele ria.
- Eu to brincando, calma. Mas olha, você pode reproduzir todas as coisas que treinamos mais vezes,
viu? Pra pegar o jeito e tudo mais.
- Você quer dizer me tocar de novo?
- Também, sempre que possível. Não tem nada melhor pro corpo do que um orgasmo, e a mudança
que essa única vez causou em você foi muito positiva. - Ela virou brevemente o rosto em direção ao
ombro onde o dele estava com um sorriso envergonhado. Recebeu um beijo na bochecha e um
tapinha na bunda e se virou apenas a tempo de ver Harry voltando para a sala caçando um baralho,
e de sentir a parte de trás formigar no local onde antes havia um corpo másculo e tentador
encostado.

Nove

Depois de uma semana puxada de trabalhos e relatórios na escola, Harry e Hadassa não puderam
dar continuidade às aulas. Os poucos momentos em que se viam eram nos intervalos e saída, onde
trocavam abraços saudosos e desculpas por mais um dia atarefado.
Não havia sido até aquela sexta-feira que conseguiram marcar mais uma reunião em seu QG.
Logo, Harry a esperava apoiado no carro que dirigia apesar de menor de idade. Aquilo era comum
por ali, os pais daqueles adolescentes abastados preferiam lidar com a possibilidade remota de
receberem multas do que perder o conforto de eles terem sua própria forma de locomoção e a
possibilidade de se expor dando carros de luxo aos filhos.
Hadassa não se atrasou de propósito daquela vez, agora estava mais à vontade de falar com o
garoto em público, apesar dos olhares que sempre os seguiam quando isso acontecia. Apesar disso,
um olhar em específico pareceu subitamente interessado demais nos passos e vida social da garota
miúda: Sam.
Ele, claro, não havia largado a namorada ainda nem um segundo, mas havia algum tempo que
vigiava a proximidade da melhor amiga com o gostosão do colégio. Ele estranhava muito aquela
amizade, a achava improvável e tentava não ouvir os rumores que diziam que estavam juntos.
Harry não ficaria com alguém como Hadassa... Ficaria?
Quer dizer, com tantas garotas lindas como Maddison se jogando aos pés dele, não era possível que
ele tivesse escolhido justo aquela. Não que ela fosse feia, apenas não se encaixava no padrão, não
se destacava, não era festeira e atirada como as garotas com as quais ele era visto normalmente.
Ainda que depois de ela ter aparecido bastante mudada na escola essa distância tivesse diminuído
significativamente. Mas ele a conhecia bem, e sabia que por mais que por fora ela tentasse se
arrumar como as garotas normais, nunca passaria de uma criança assustada e carente que precisa
só de colo de vez em quando, e não de um namorado.
Bem, aquilo não era da sua conta. Mas mesmo assim, por algum motivo, não conseguia deixar de
encará-los e indagar os motivos daquela união.
Harry por outro lado havia, aos poucos, parado de avisar Hadassa sobre os olhares de Sam. Não que
eles tivessem ficado menos frequentes, pelo contrário, mas cada vez que via a menor interromper
sua tagarelice e se retesar inteira por conta daquilo, sentia ter mencionado qualquer coisa. Ela
estava fazendo grandes avanços, mas parecia que a pessoa que desencadeou a mudança não ia
colher os frutos dela tão cedo.
Além disso, aquela história de ela ter escolhido fazer tudo aquilo por aquele imbecil ainda não lhe
descia. Harry entendia que ela se dizia apaixonada e, portanto, disposta ao que fosse necessário,
mas ele preferia não se lembrar disso, porque o loiro simplesmente não a merecia. Quer dizer, eles
podiam ser melhores amigos, mas quem estava com Hadassa todos os dias nas últimas duas
semanas? Quem havia cozinhado para ela, conversado sobre seus medos, ambições e sobre sua
família? Quem a havia feito rir? Quem tinha despertado seu lado sensual? A resposta pra todas
aquelas perguntas não continham sequer uma vez o nome do amiguinho precioso. Então, é, por
mais que ele estivesse lhe dando aulas para conquistar supostamente Sam, ele optava por deixar
essa informação de lado em sua cabeça, e, preferencialmente, da dela também.

Sentados novamente no sofá da sala de Harry, eles assistiam à primeira série que encontraram
passando na TV enquanto comiam seus sanduíches de almoço. Era Once Upon A Time que passava,
e uma das cenas era um diálogo sobre um cara com pose de malvado que tinha se apaixonado por
uma loirinha gata com apenas um beijo.
Por mais desinteressado que Harry estivesse na história, já que ele não acompanhava o seriado,
aquela passagem em particular chamou sua atenção.
Até então, estava ensinando à Hadassa coisas teóricas sobre comportamento, fala, postura,
autoestima. Ele estava falando de flerte e sedução, de conquista e caça. Mas ela queria aprender
como fazer um homem se apaixonar. Veio até ele se queixando de sua vida amorosa, e nada daquilo
lhe traria o coração de um cara. Ao menos, não se o arsenal dela de situações aprendidas com ele
acabasse.
Precisava então ensinar pra ela as coisas essenciais sobre a passagem do "estamos só saindo como
amigos" para o "temos um relacionamento". E, na sua opinião, a primeira coisa que fazia um cara
não largar uma garota ou colocá-la na friendzone era a química, a pegação, o que rola com as luzes
apagadas, o que os deixava esperando por mais.
Por fim, por mais que soubesse que aquilo seria complicado e potencialmente a deixasse confusa,
havia uma coisa ou outra que ele não ia ter como escapar se quisesse ser um bom professor, se
quisesse que aquela empreitada toda dela valesse de alguma coisa.

Depois de almoçar e escovar os dentes, tudo que a dupla queria era um pouco de descanso. A
semana havia sido realmente pesada, e embora ainda tivessem a quarta aula para acontecer, eles
tinham resolvido que não custava nada esperar mais um pouco e abstrair.
Hadassa ficou curiosa quando viu todas as seleções de jogos de videogame que ele tinha empilhados
no móvel da TV, e acabou que a opção escolhida para matar aquele tempo seria jogando um pouco.
Não que ela soubesse jogar, mas aprendia rápido e seria divertido de qualquer maneira, mesmo
perdendo de lavada.
Eles se posicionaram confortavelmente no sofá, ele sentado normal com os pés sob a mesa de
centro e ela de lado, as pernas jogadas em cima das dele. Depois de aprender que botão fazia o quê
e de ter convencidoHarry a jogar um jogo menos violento - no caso, Super Mario -, eles se
compenetraram no que acontecia na tela e no movimento de seus dedos por um longo espaço de
tempo. Fase após fase, com a garota dando gritinhos contidos cada vez que alguma coisa surgia
para atacá-los ou quando era necessário pular rápido de uma plataforma para a outra, e o mais
velho dando risada das habilidades inexistentes dela com o controle.
Até Hadassa resolver que salvar a princesa era um objetivo menos digno do que tirar Harry do sério.
Ela passou a atrapalhar o caminho dele, a sempre que possível fazê-lo cair em algum buraco ou lidar
com algum monstrinho sozinho. Dava risadas longas sempre que conseguia fazê-lo rosnar um
palavrão, e sorrisos arteiros quando não conseguia e por isso preferia tentar fazer-lhe cócegas na
barriga com a ponta dos pés.
Chegou um momento que Harry desistiu de tentar chegar até a bandeira sozinho, largou o controle e
segurou a perna dela na altura dos dentes, onde distribuiu mordidas ardidas que a faziam se
balançar toda e chorar durante a risada.
Foi durante aquele contexto que o celular de Hadassa escolheu tocar. Ela atendeu ainda com a voz
desafinada dos gritos e gargalhadas e conversou com a outra pessoa na linha por alguns segundos
antes de reclamar com Harry do volume da televisão - a musiquinha de Mario não a deixava ouvir
muita coisa - e colocar no viva-voz assim que esta foi desligada.
- Querida, está me ouvindo agora?
- Oi, padrinho. Estou sim, desculpe por aquilo. Harry não queria colaborar. - Alfinetou com um meio
sorriso provocador nos lábios, e recebeu um apertão na barriga que a fez soltar um gritinho.
- É por isso mesmo que eu estou ligando. Tenho um tempinho pra conversar com você e seu
namorado hoje mais tarde. Podemos nos encontrar na sorveteria do centro, o que acha? - Harry
tinha a testa enrugada e um meio sorriso atravessado no rosto, ao que a menina corava
violentamente.
- Ahn, tudo bem. - Depois de concordar, eles marcaram o horário direitinho e se despediram.
- Namorado, huh? - Harry provocou. - Eu sabia que você queria o meu corpo nu.
- Cala a boca! - Ela pediu ainda corada. - Ele deve ter entendido errado - Sentiu a necessidade de
justificar, para que a vergonha a deixasse em paz um pouco. - Ele que é que é o advogado que te
disse. Meu tio e padrinho.
- Legal, vamos conversar com ele então e ver se dá em alguma coisa. Mas como é só mais tarde,
acho que agora a gente pode começar a aula, o que acha?
- É, parece uma boa hora. O que vou aprender hoje?
- Bom, digamos que você conseguiu fazer o cara ficar interessado. - Começou, gesticulando. - Agora
você precisa realmente atiçá-lo, fazer com que ele tente um passo mais ousado, escolha você entre
todas as presas que ele listou para a noite.
- Certo... E como eu faço isso?
- Vai precisar aprender a beijar de verdade, anjo.
- O... quê? Eu sei beijar, Harry. Não sou tão perdida assim.
- Ah, pode saber como movimentar sua boca quando em contato com a de um desconhecido. Mas
vai precisar aprender a deixá-lo duro com o menor sinal do seu hálito quente. E isso não se aprende
com os imbecis que devem ter enfiado a língua na sua boca até agora.
- Então como é que eu aprendo essa sua macumba doida?
- Não é óbvio? Eu vou ter que te ensinar, anjo. - Ele levantou, puxando-a pela mão para que fizesse
o mesmo e então estavam parados sobre o tapete, frente-a-frente. - A primeira coisa que você
precisa saber é que não existe nada nesse mundo mais gostoso do que o momento que precede o
beijo. A proximidade, o olhar, o contato mínimo e intenso. - Harry deu um passo e puxou Hadassa
pela cintura, até que seus corpos estivessem grudados e ela precisasse passar os braços pelo
pescoço dele. Aproximou os rostos, olhando fundo nos olhos dela. Ao perceber que eles
transbordavam nervosismo, abriu um sorriso tranquilizador e beijou demoradamente sua bochecha,
em seguida passeando a ponta do nariz por ali, aproveitando para inspirar com vontade o cheiro
fresco de sua pele. Uma das pernas dela falhou, mas com o aperto que tinha na cintura acabou
conseguindo manter-se de pé.
Harry esfregou o princípio de barba por fazer levemente no rosto da menor, enquanto seu caminho
seguia pelo maxilar e então pescoço dela. Molhou os lábios e os arrastou na pele sensível, por vezes
aprisionando uma pequena parte dela entre os dentes. A respiração alcançou o ouvido de Hadassa, e
era solta ali devagar e levemente ruidosa, fazendo-a sentir o calor de seu hálito. Ela então procurou
alguma forma de recuperar a estabilidade, agarrando os cabelos da nuca do garoto e deixando uma
das pernas dele entre as suas.
- Sua vez. - Ele sussurrou, e ela precisou lembrar-se de que aquilo era uma aula para descer o rosto
contra o pescoço de Harry e beijá-lo com apreço, mais apressada e faminta do que ele havia sido,
mas conseguindo igual resultado quando ele o jogou para o lado oposto do que ela explorava em
uma exclamação de alívio. Era como se tivesse passado anos querendo sentir aquela sensação e
enfim o momento havia chegado. Depois de deixar rastros molhados e formigando por ali, subiu
para a orelha fazendo o mesmo que ele tinha lhe mostrado, embora sua respiração não tivesse nem
de longe tão controlada quanto a dele. - Aqui. - Ele disse, virando o rosto para ela. - Faça isso contra
a minha boca. - E da mesma forma como respirava forte no ouvido de Harry ela fez entre os lábios
semi abertos dele, enquanto tinha os narizes se provocando, e recebia um carinho simples porém
tentador na base das costas.
Hadassa tentou avançar, não aguentando mais a provocação, mas Harry recuou brevemente, como
se explicasse que ainda não era a hora. Irritada e ansiosa, ela colocou a língua para fora e provou o
gosto do lábio inferior dele, em uma lambida deliciosa. O garoto trancou o maxilar e engoliu em
seco, e soube que não teria tanto trabalho quanto esperado quando pressionou contra o corpo
miúdo dela a reação imediata de seu corpo: a ereção que lhe explodia as calças.
- Siga a minha velocidade e procure fazer com a língua os mesmos movimentos. Não queremos
saliva nem demais nem de menos. - Murmurou por fim, respirando fundo e agarrando os cabelos
dela para controlar o movimento de sua cabeça.
Nenhuma das dicas foi necessária no fim das contas.
A partir do momento que chocaram as bocas e lábios se entreabriram engolindo uns aos outros e
línguas se provavam sem pudor ou recato, nem Harry nem Hadassa se lembraram de que se tratava
de uma aula e algo deveria ser ensinado ou aprendido ali.
A força com que se beijavam era tanta que os lábios roxos estariam garantidos pelos próximos dias,
e eles mergulhavam tanto na boca um do outro que não haveria enxaguante bucal que os livrasse
do gosto de suas salivas misturadas.
Era muito melhor do que se imaginava. Pareciam se conhecer tanto que velocidade e inclinação
eram quase instintivos, as sugadas e mordidas sincronizadas, e o caminho percorrido pelas mãos
encomendado.
As respirações ficaram altas e ofegantes, cabelos já totalmente bagunçados, roupas amassadas e
palmas suando. Hadassa se obrigou a segurar o rosto quadrado dele entre as mãos, os polegares
pousados nas bochechas quase coradas, e afastá-lo para poder recuperar as batidas de seu
coração.
Eles se olharam em contemplamento por quase um minuto sem dizer nada, a vontade de pelo
menos encerrar com mais algumas encostadas de lábios pairando no ar. Harry limpou a garganta,
mas sua voz ainda saiu inevitavelmente rouca e falha quando disse:
- Muito bem. É... Desse jeito mesmo que deve fazer. Estou orgulhoso, Hadassa. - Ela tinha as
bochechas queimando e mordia o interior da boca compulsivamente sem achar forças para rebater
nada ainda. Ele lhe estendeu a mão parecendo quase recuperado. - Vamos, seu tio deve estar nos
esperando agora.

- A maioridade completa nesse país é a partir dos dezoito anos. No entanto, até os 21 existe uma ou
outra coisa que ainda muda. Em primeiro lugar as sentenças criminais podem ser mais leves, e
também podem existir algumas burocracias a mais para a abertura de empresas, contas em banco, e
afins, que podem demandar a assinatura de pais ou responsáveis, embora, pela lei, isso não esteja
certo. O que acontece é que ainda existe muito protocolo baseado na Constituição prévia a 2002,
que continha ainda diferenças significativas entre os poderes de uma pessoa de dezoito e uma de
vinte e um. Sobre emancipação, é muito comum adolescentes serem emancipados com dezesseis ou
dezessete anos quando existe alguma dependência de herança, principalmente. Assim, é como se
para o Estado eles tivessem vinte e um anos, e portanto têm plenos poderes para fazer tudo
sozinhos.
- E como eu faço para me emancipar? - Harry perguntou, sentado ao lado de Hadassa na mesa da
sorveteria de frente ao advogado/padrinho/tio da garota.
- Você pode dar entrada no processo, mas não consegue se emancipar sozinho. É preciso que pelo
menos o seu pai ou a sua mãe assine o documento.
- Minha mãe nunca vai concordar em assinar e eu sequer sei onde meu pai está. Não gostaria de ir
atrás dele, muito menos com esse motivo. - A garota sentia a tensão do mentor e segurou sua mão
entre as dela para passar conforto. O carinho que fazia ali fez ele se acalmar, ainda que muito
pouco.
- Nesse caso, você tem algumas outras opções, como provar sua capacidade de se auto sustentar, o
que significa que precisaria de renda própria ou carteira assinada.
- Eu to no colégio ainda, e é semi integral. Não tenho como ir atrás de um emprego bom por
enquanto. E mesmo na faculdade acho difícil eu ter tempo para fazer alguma coisa.
- Só resta mais uma alternativa pela lei que seria se casar.
- Casar? - Indagou alarmado, trocando um olhar desconfortável com Hadassa, que tinha os olhos
igualmente arregalados.
- É. Mas, escute, Harry. Eu não acho que apressar um casamento seja sua melhor alternativa. Nós
até poderíamos entrar com um processo judicial dizendo que seus pais são negligentes e tentando
antecipar sua maioridade sem precisar da assinatura deles, mas você acha que toda essa dor de
cabeça é a melhor forma de fazer a faculdade que quer?
- Eu já tentei conversar de todas as formas possíveis... Não vejo saída.
- Olha, eu estou cansado de ver famílias se afastarem e perderem os laços por conta de processos
legais. Sei que está com raiva da sua mãe e que gostaria de fazer algo a respeito, mas no fim das
contas você ainda a ama, certo? Não vai querer perdê-la.
- É, acho que não. - Ponderou.
- Então, garoto. E por mais que esteja disposto a correr esse risco, você teria que largar sua
faculdade para conseguir um emprego se isso acontecesse, pois não teria mais o sustento que eles
te dão hoje. Pense melhor nisso, estude suas opções. - Aconselhou. - Se precisar de mim
novamente, Hadassa tem meu telefone.

Permaneceram na sorveteria ainda algum tempo, pois Hadassa não podia cogitar a ideia de ir
embora com o padrinho sem saber como o garoto estava se sentindo sobre tudo aquilo.
- Vou precisar desistir do meu sonho. - Ele disse com a voz fraca e conformada.
- Não diga isso! Você mesmo me disse um tempo atrás que iria fazer por um tempo a faculdade que
eles queriam para depois seguir suas vontades quando tivesse idade. - Ela lembrou.
- É, mas vai ser tempo demais sendo infeliz para não perder as esperanças.
- São apenas alguns meses! Você já vai fazer dezoito e...
- Você ouviu seu tio. Mesmo que eu tenha dezoito, não vai me adiantar de nada bater o pé. Eu ainda
vou precisar deles pra pelo menos me sustentar enquanto faço a faculdade. Em qualquer das opções
eu não tenho escolha.
- Harry, não. Não desista. Tente conversar com eles ao menos mais uma vez. Eu vou com você! A
gente dá um jeito. Só não quero que você perca esse brilho no olhar tão lindo quando fala do seu
futuro.
- Se é que há um futuro dessa vez... - Hadassa o censurou com o olhar, pedindo que não
continuasse a falar daquela maneira. Doía nela ver a pessoa de melhor coração que conhecia tão
desolada por uma injustiça daquelas. Ele corrigiu a postura e mais uma vez tinha cada mão
segurando uma dela com força, em busca de amparo. - Eu não prometo nada... Mas vou tentar.
- Promete sim. Pelas criancinhas que precisam de você, por você mesmo e por mim. Promete que
não vai parar de lutar pelo seu sonho. - Por ela... Não tinha como negar.
- Eu prometo, meu anjo. Se tiver você ao meu lado, eu prometo qualquer coisa.

Dieci

Ela ainda torcia as mãos, enquanto esperava atenderem a porta. Ia estudar novamente com Harry, e
apesar de tudo que já haviam passado juntos, dessa vez ela estava nervosa e ansiosa, como se algo
grande estivesse para acontecer quando fosse vê-lo.
No entanto, diferente de como sempre acontecia, a pessoa que atendeu a porta no hall de entrada
não era Harry. Era uma mulher, beirando os quarenta e tantos anos, de traços expressivos e
bastante parecida com seu mentor. Estava extremamente arrumada, denunciando todas as roupas
caras e diversas idas ao salão de cabelereiro, ostentava joias pesadas e um batom chamativo.
- Hm, olá, você deve ser a mãe do Harry. - Hadassa forçou-se a dizer, estendendo uma mão gelada
para ela que apertou fraco, por não saber quem era a garota miúda fazendo suposições a sua porta.
- Olá. Sim, e você é...?
- Sou Hadassa. Nós somos... Amigos. Eu vim ajudá-lo a estudar.
- Ah! Pois bem, Hadassa, entre. Aquele garoto precisa mesmo de alguém que o ajude a manter a
cabeça nos nossos objetivos ambiciosos.
- Seus. - Corrigiu, impulsiva, sem querer.
- Meus o que? - A mulher questionou, os olhos claros muito parecidos com os do filho, por mais
penetrantes que fossem, não a assustavam mais.
- Seus objetivos ambiciosos. Os dele são, na verdade, bastante humildes. - Explicou, sentindo o
gosto amargo da verdade na boca.
- Ora, mas trabalho voluntário não dá dinheiro. Ele precisa entender que eu só quero o melhor pra
ele.
- E a senhora, entende que o melhor pra ele é ser feliz?
- Menina, estamos falando do meu filho. É claro que eu quero que ele seja feliz. - Exasperou-se
levantando os braços e elevando a voz.
- E porque quer fadar ele a uma vida tão diferente de tudo que ele sonha?
- Você não acha que está sendo abusada demais? - O tom era perigoso e Hadassa teria realmente se
assustado se já não tivesse ido realmente longe demais. No entanto, para defender Harry e nunca
mais vê-lo com o ar desistente que tinha apresentado depois da conversa com seu padrinho, ela
estava disposta a fazer uma coisa ou outra, como enfrentar sua mãe.
- Me desculpe, eu sei que é a sua família e eu sou uma ninguém para me meter. Mas entenda,
senhora Styles, seu filho quer mudar o mundo, fazer a diferença, fazer o bem. Ele é um garoto
incrível com um coração imenso e está se tornando amargurado sendo aprisionado debaixo das suas
asas. Ele pode ser feliz, mas não é defendendo criminosos que ele vai sê-lo.
- Já chega. Se veio estudar com o Harry ele está lá nos fundos. Mas eu não vou aguentar mais essas
acusações. Passar bem, Hadassa. - A senhora se retirou, subindo as escadas imponentes no fim do
hall onde discutiam. Hadassa suspirou, impotente, e contornou o lugar para encontrar o professor.

Optou por não mencionar a discussão que tivera com a senhora Styles para o garoto. Sabia que
aquilo o deixaria agitado, sem ação e que o lembraria da sua impotência sobre o assunto que estava
tentando esquecer. Então, Hadassa simplesmente entrou na casinha de madeira, e, sem jeito,
cumprimentou o amigo com um abraço infinitamente mais íntimo do que deveria ter sido, e logo
foram se sentar para estudar.
Havia um grande problema, no entanto.
Não havia fórmula algébrica no mundo que lhes tirasse da cabeça o maldito beijo.
A dupla havia subestimado o que o breve contato trocado no abraço despertaria. O encostar a
princípio suave das bocas e então o encontro fervoroso de gostos e saliva era mais distrativo do que
qualquer livro didático que tivessem ao alcance. Principalmente, se o coprotagonista dessas
memórias estivesse sentado ao seu lado, há míseros centímetros de distância, sendo tão tentador a
cada nova mordida que dava nos próprios lábios.
Era tortura para os dois.
Focar em números e fórmulas parecia uma tarefa muito aquém do permitido pelas mentes ocupadas
demais naquele tipo de pensamento pecaminoso e incerto.
Mas eles se esforçaram mesmo assim, obrigando-se a fazer exercício após exercício, a conversar e
trocar olhares de duração passável, independente do quanto queriam prolongá-los.
Hadassa sentia-se um ratinho assustado. Achava-se patética por estar tão encantada, embora
sentisse que o trabalho do mentor não estivesse sendo em vão, pois a pouca autoestima que tinha
ganho a impedia de ter crises de insegurança sobre o beijo da aula anterior. Ela se lembrava dos
parabéns dele, de como disse estar orgulhoso dela, e do carinho e intimidade que trocaram
momentos depois, e sentia-se bem, como se aquilo fosse certo e ela tivesse motivos para se sentir
acuada. Mais do que isso, permitia-se até mesmo fantasiar que ele tivesse gostado do seu beijo, que
ele também quisesse outro.
Mas então lembrava-se também de Sam, de seu objetivo inicial, e da fama do professor, e a
confusão a dominava, incerteza e curiosidade disputando lugar com suas vontades momentâneas.
Era certo aquilo? Querer beijá-lo novamente? Quer dizer... Tinha sido apenas uma aula, certo? Então
não havia o que questionar. E não era novidade a excelência do garoto no quesito sedução, então
admitir que ter vontade de beijá-lo novamente era até mesmo esperado.
Como a inexperiência jogava a seu lado, preferia deixar as decisões por conta dele. Se fosse para se
beijarem novamente, ele diria assim. E pronto. Quanto aos exercícios matemáticos... Esses não se
fariam sozinhos.
Para Harry, a situação desenvolvia-se de forma diferente. Ele estava, antes de mais nada, intrigado.
Queria entender como uma garota simples e pequena como Hadassa conseguia dominar seus
pensamentos daquela forma. Claro, toda a situação de submissão em que ela se encontrava com
relação a ele era tentadora por si só, mas havia mais. A intimidade também não ajudava, saber que
ela era a única pessoa que ficara ao seu lado na busca de um sonho bastante inalcançável. Por fim,
a ingenuidade e doçura contidos no beijo da menina, faziam seu estômago contorcer-se
desconfortável até agora, aquela sendo uma novidade que ele não havia provado até então, mas
que muito tinha gostado.

Embora distraídos pelo mesmo motivo, havia uma diferença crucial nos pensamentos de cada.
Enquanto Hadassa encontrava-se em um estado mais contemplativo e esperançoso, Harry tinha
certezas e tomava decisões. Ficar naquela tortura silenciosa não fazia seu feitio. Precisava de
distração melhor.
- Qual a sua cor favorita? - Perguntou, interrompendo o raciocínio matemático da menina.
- Laranja, por que?
- Porque eu quero saber. - Ele deu de ombros. - A gente tem passado tanto tempo juntos, quero
saber mais sobre você, anjo. - Em um suspiro aliviado, Hadassa largou a lapiseira sobre a mesa e
virou-se completamente na direção dele, agradecida pela chance de mudar o rumo de seus
pensamentos de forma mais efetiva.
- É laranja. – Repetiu. - É a cor de pôr do sol, e eu adoro pôr do sol.
- Que romântica. - Ele provocou, recebendo a língua da menor.
- Vai, seu insensível, vai dizer que pôr do sol não é lindo?
- É, mas eu prefiro o depois, quando já está de noite e toda a claridade depende das estrelas.
- Quem é romântico agora? - Ela rebateu, recebendo cócegas vingativas por alguns segundos. -
Deixa eu adivinhar, sua cor favorita é preto? - Tentou, em uma careta.
- Não. Azul escuro.
- Ah, Harry, você é muito menininho.
- Menina! Olha como fala comigo. – Reclamou, beliscando de leve sua cintura.
- Tá, tá. – Fez pouco caso, como uma criança levada.
- Vai, sua vez de perguntar alguma coisa.
- Isso é um jogo por acaso?
- Agora é. – Deu de ombros.
- Tudo bem, vamos ver... – Bateu um dedo no queixo, pensativa - Você tem um hobbie preferido?
- Transar. - Ela revirou os olhos para a piadinha.
- Um esporte preferido então.
- Transar. - Ele disse, novamente, embora carregasse um sorriso de canto provocador.
- Harry, assim não vale! A pergunta é séria.- Ralhou.
- Ué, mas a resposta também é. Você quer que eu seja honesto, ou o quê? - Ela rosnou qualquer
xingamento, e recebeu um sorriso maroto de volta. - Tá bem, meu hobbie favorito é te ensinar a ser
sedutora, e meu esporte favorito é futebol. Emburradinha. - Brincou, apertando as bochechas
de Hadassa em provocação. - Minha vez. Você já sabe o que quer fazer de faculdade?
- Ainda não. Penso em ou veterinária ou jornalismo, mas não é nada certo.
- Qualquer coisa pra fugir de contato humano, huh? Ou se esconde atrás de letras em um
computador, ou atrás de animais.
- Você já pode parar de me analisar, obrigada. - Reclamou, incomodada, embora não tivesse
sucesso em esconder o riso por muito tempo. - E séries, você assiste?
- Já dei uma chance pra maioria dessas famosinhas, mas só consigo me prender em uma ou outra.
Dexter, House, Game of Thrones. E você?
- Eu gosto quando tem algum romance. - Ela deu de ombros, fazendo pouco caso. - Você sabe, a
maioria das pessoas assiste séries porque se identifica com um ou outro personagem. Acontece mais
ou menos o mesmo processo de quando lemos um livro de ficção. – Não pôde deixar de comentar,
em contemplação a seu jeito nerd.
- É? E quem eu seria nessas séries água com açúcar? O galã? - Ele alfinetou, rindo.
- Você podia ser sem dúvidas o Mark Sloan de Grey's Anatomy ou o Capitão Gancho de Once Upon a
Time. - Hadassa respondeu, rindo também. - Os dois são teimosos e convencidos. Qualquer
semelhança não é mera coincidência.
- Você tá a cada dia mais saidinha, dona Guímel.
- A culpa é sua. Vem com essas ideias malucas de me dar confiança e intimidade. Dá nisso! – Disse
gargalhando.
- Tudo bem, essa culpa eu assumo com gosto. - Olhou para ela com carinho, sentindo-a tão menos
retraída do que era no primeiro dia que pisou naquela mesma casa. - Acho que é a minha vez de
novo. - Ele constatou, apesar de ninguém estar prestando atenção à ordem das perguntas. Pensou
um instante e resolveu tirar da frente algo que tinha muita curiosidade de saber. - Por que você
gosta do loiro? – Hadassa mordeu o lábio e olhou para baixo, pesando a melhor maneira de
explicar.
- Sam é... Especial. Ele é gentil, simpático, me quis quando ninguém mais me queria, ficou do meu
lado quando tudo que eu queria era sumir, e me fez companhia quando eu não tinha ninguém. Além
de ser lindo.
- Mas seguindo esses motivos é por mim que você devia estar apaixonada! - Harry brincou, um
gosto amargo na boca incomodando. Então era realmente carência. A garota não gostava realmente
do amiguinho, ele acreditava, apenas achava que devia se sentir assim pela pessoa que a tirou da
solidão. Era o que o universo ensinava para garotas ingênuas como Hadassa: o príncipe encantado
da modernidade disfarçava-se de melhor amigo atencioso. E isso bastava para que elas não
olhassem mais ao redor e consequentemente não vissem toda a destruição que os defeitos egoístas
desses mesmos caras causavam nelas.
Hadassa sorriu sem graça, deixando um tapa fraco na perna dele. Fez mais uma pergunta, e o jogo
teve continuidade por mais alguns minutos, em que eles se permitiram conhecer-se melhor. Então,
precisaram voltar aos estudos, para que aquela tarde escolar não tivesse sido em vão, e voltaram a
mergulhar no livro chato e confuso de matemática, mesmo aquela sendo a última vontade que
tinham.

Harry olhava para todos os lados possíveis, entediado com a falta de objetividade daquela matéria
em particular.
Seus olhos claros acabaram pousando na concentração irreparável da menor, que mordia a ponta da
lapiseira rosa bebê e vez ou outra fazia biquinho para alguma parte do enunciado que lia. Ela tinha
os cabelos presos atrás da orelha, deixando todo o rosto inocente e sem falhas a mostra, de forma
que ele pôde encarar os movimentos que ela fazia com a boca sem dificuldades.
Ele se lembrava muito bem da sensação de ter aquela boca na sua.
E então, no silêncio abafado da sala de estar, novamente o clima pesava.
Era aquela vontade irrefreável batendo às portas. Aquele desejo desgraçado que fazia formigar os
lábios e coçar as palmas das mãos. E dessa vez não tinha mais jogo de perguntas pra distraí-lo, de
forma que o pedido que gritava na cabeça de Harry não tinha freio.
Ele precisava beijá-la.
Ele precisava beijá-la.
E algo tinha que ser feito quanto aquilo imediatamente.
Nunca fora uma pessoa acostumada a se barrar de qualquer maneira. Ele pesou uma ou outra
consequência, e não encontrando nenhum motivo bom o suficiente para deter-se, fechou o livro
pesado com as mãos grandes e virou-se para Hadassa que o encarava sem expressão com os lábios
entreabertos, surpresa.
- Sabe? Acho que a gente devia praticar mais um pouco.
Não esperou resposta antes de segurá-la pela nuca e trazer seus lábios para si.
E o gosto maravilhosamente doce e delicado desfez-se em sua boca, diferente em gênero, número e
grau dos das garotas com quem já estivesse estado. Não tinha nada a ver com o sabor do brilho
labial, ou da pasta de dente, era de Hadassa mesmo. Era o aroma suave que exalava de sua pele e
o toque gentil de suas mãos agarrando-lhe o tecido da camisa. Era a entrega mais absoluta e a
dedicação completa em querer sentir e agradar, a perda dos sentidos e a falha da respiração a cada
novo movimento que a agraciava.
Beijar Hadassa era sentir todas as propriedades de sua personalidade entre encontros de boca e
línguas.
E lhe causava um tesão tão cru e instantâneo que era difícil de acreditar.
Harry jogou as pernas da garota por cima das suas, apenas para que pudesse estar mais colado à
ela. Então a abraçou pela cintura e aprofundou o beijo, eventualmente sugando sua língua ou
mordendo seus lábios. Ela o copiava a medida que aprovava alguma sensação causada. Era a
fórmula perfeita: ela via que era bom e queria que ele sentisse também.
Tudo isso ao passo que caminhava as pontas das unhas pintadas pela pele do garoto,
inocentemente lhe causando arrepios. Para Hadassa, beijar era sinônimo de fazer carinho. Desde
afagar o rosto dele com o nariz ou os dedos, até massagear com calma e cuidado os ombros de
músculos tensos, ela fazia tudo que pudesse. E ele apreciava muito o gesto tão puro de cuidado e
adoração.
Assim como quando beijava outras mulheres, ele tinha vontade de lhe arrancar a roupa e foder
pesado. Mas mais do que isso, tinha vontade de despi-la devagar, deitá-la na cama e cobrir seu
corpo com o dele.Hadassa incitava isso nele, essa ambiguidade, a pressa e a paciência.
Ao passo que ela não sabia por onde começar a descrever suas sensações. Sentia um calor
interminável, que só parecia aliviar ao passear das mãos de Harry pelo local, antes de arder em
brasa novamente. Por algum motivo, tinha certeza de que se fosse necessário ficar em pé naquele
momento, ela cairia pateticamente, sem a firmeza necessária nas pernas molengas com as carícias
do professor.
O beijo molhado que trocavam lhe dava fome, sede, ânsia por um "mais" que ela não compreendia.
Tinha que se segurar ou logo estaria mordendo Harry inteiro sem controle, como se precisasse disso
para ter um pedaço dele consigo. E o tocar suave da pele dele ou dos cabelos sedosos entre seus
dedos pareciam deixar a vontade mais urgente.
Podiam passar a vida inteira ali, naquele beijo, sem que ninguém ouvisse um reclamar.
Mas só tinham aquele final de tarde.
E ele foi bem aproveitado, em outros beijos semelhantes, que oscilavam entre o rápido e intenso e o
tranquilo e carinhoso. Nas cadeiras da mesa de jantar, no sofá, na bancada da pia, no tapete, na
porta, no gramado. Em cada lugar que aventuraram estar durante aquele dia, aquela cena se
repetiu. Sem que para isso fosse necessário qualquer questionamento ou permissão.
Era como se uma folga tivesse sido tirada da vida, e nada mais importava a não ser aquela
brincadeira de tocar e sentir. E qualquer dúvida ou consequência tivesse ficado para o dia seguinte,
um futuro distante e desimportante, que lhes parecia tão menos tentador do que o presente gostoso
e agradável que estavam tendo, afogados no gosto um do outro.

Undici

As pessoas sempre fogem quando não sabem o que fazer.


É o natural do ser humano, ele quer evitar situações desconcertantes, possíveis mágoas e
humilhações, e por isso foge.
Algumas pessoas agem como se nada tivesse acontecido. Outras viajam. Outras preferem não falar
mais com a pessoa que as lembram do ocorrido.
Hadassa estava obviamente fazendo esse último.
Desde que colocou os pés na escola, teve oportunidades diversas de conversar com Harry, mas ao
invés disso se encolheu como o ratinho que costumava ser e perambulou pelos corredores pelos
cantos, tentando não ser notada.
Quer dizer... Os diversos beijos trocados na tarde anterior poderiam ser interpretados como
continuação da aula quatro. E podiam não ser. Podiam ser espontâneos e fruto de desejo e vontade
apenas.
E com relação a essa possibilidade ela não sabia lidar.
Era Harry Styles, pelo amor de Deus. Ele não podia escolher ela entre todas as opções que pulavam
aos seus olhos na escola para beijar. Não fazia o menor sentido! E, no entanto..., era o que ela
estava mais tentada a acreditar. Porque aquilo não tinha sido uma aula, estava longe de ter algum
ensinamento, alguma racionalidade.
Harry, por outro lado, estava tranquilo. Já tinha tido mais tempo do que a garota para avaliar o que
queria e mais experiência também com beijos imprevistos. Para ele, aquele assunto era
infinitamente mais natural, e não lhe causava nem de longe a mesma preocupação que causava à
sua aprendiz.
Ele entendia que tinha um peso maior do que a primeira vez. Mas não via alarde nesse fato: Eles
eram adolescentes cheios de hormônios, trocando confissões e segredos, e passando tanto tempo
juntos quanto possível. Era o tipo de coisa que estava quase fadada a acontecer, se parasse para
pensar.
Assim, alheio ao desespero da menor, Harry caminhava pelos corredores como sempre fazia, sem
um músculo mais tenso que o normal. Isso é, até avistar Hadassa espremida contra uma parede
sendo quase completamente ocultada pelo amiguinho, com quem conversava.
Ela apertava dois ou três livros em um abraço e repuxava o interior da bochecha em claros sinais de
nervosismo, apesar do sempre presente falatório ininterrupto. Era assim: bastava um pouco de
intimidade e ela tinha a boca aberta por onde vomitava informações aleatórias, em uma busca
desesperada de entreter seu interlocutor. Em certo ponto, era até mesmo adorável, uma
demonstração de afeto que ela fazia sem se dar conta.
Sam tinha as mãos nos bolsos, em uma posição de descaso forçado que não condizia com o brilho
de seus olhos abertos demais. Mordia os lábios toda vez que precisava conter um sorriso, e quando
isso não bastava ele logo olhava por cima dos ombros para os lados, como se estivesse preocupado
se alguém teria visto.
Era o retrato do pau mandado. A namorada teria dito em alto e bom tom que a menina à sua frente
estava apaixonada por ele, e ele agora achava que precisava se conter para não demonstrar o
mesmo, ou não lhe dar esperanças.
Se soubesse um pouco que fosse sobre ela, teria certeza que aquilo era inútil. Hadassa não
precisava ser incentivada, ela nutria a paixão por conta própria independente de qualquer atitude da
parte dele. Mas ele não a conhecia; não realmente. Tinha estado ao seu lado durante praticamente
toda a infância: é verdade. Mas isso só o fazia mais cego que o esperado. Podia reconhecer um ou
outro trejeito e saber os medos que ela verbalizava, mas qualquer coisa que estivesse mais abaixo
do que a extrema superfície da garota ele não fazia questão de saber.
Isso irritava bastante a Harry. Apesar de saber que o loiro não fazia de propósito, o desinteresse que
ele demonstrava pelo seu pequeno anjinho agitava suas entranhas e amargava o gosto de sua
saliva.
Mas é dele que ela gosta, idiota, sussurrou uma voz chata na sua cabeça. Suspirou e deu de ombros,
continuando a caminhada que não devia ter parado até seu armário, onde um grupo de garotos o
esperavam.
Eram quase todos da sua sala, uns mais bombados que outros, mas todos corpulentos, jogadores de
futebol ou membros do time de natação. Harry estava acostumado a andar com eles, e a estar
rodeado de garotas líderes de torcida e afins, antes de começar toda aquela história de aulas de
sedução. Não que não falasse mais com aquelas pessoas - apenas não era nem de longe com a
mesma frequência. Ele suspeitava que eles não fossem entender o que fazia em companhia
de Hadassa, então se esquivava das perguntas com tom definitivo e ninguém ousava lhe questionar
duas vezes. Ele nunca precisou se provar, ou se explicar, e mostrava que não pretendia começar
agora. Aos poucos, as conversas a respeito cessaram, e só o que ficou no lugar foram boatos não
confirmados, e algumas provocações ingênuas, e com aquilo era fácil lidar.
- E aí, Harry! - Um deles disse alto, cortando o assunto anterior com a chegada do moreno. - Prova
fudida, hein? Acho que dessa vez eu não escapo da reprovação.
- Eu até que mandei bem. - Deu de ombros abrindo caminho para deixar o livro de física dentro do
armário. A porcaria quase não cabia na sua mala, estava louco para se livrar dele.
- Mérito próprio, ou a nerdzinha te deu uma mão? - Perguntou um outro garoto, em uma curiosidade
ingênua.
- Hadassa - corrigiu, em tom irritado - tem me ajudado, sim.
- E isso acabou agora ou esse relacionamento estranho de vocês é aberto? - Harry uniu as
sobrancelhas, não entendendo a pergunta, e sentiu baterem em seu peito de leve antes de
apontarem para onde ela estava - ainda - conversando com Sam.
- É, cara, olha lá ela toda se engraçando com o loiro do basquete! - Outro menino clamou, como se
tivesse pego a garota no flagra. Harry quase rugiu "não temos um relacionamento", mas em troca
preferiu apenas rosnar que aquilo não era da conta de nenhum deles, e o assunto foi trocado mais
uma vez.

- Eu só quero entender, Dassa. Você sabe que eu me preocupo. - Sam dizia, as sobrancelhas unidas
em contestação, mas na cabeça da garota só repetia a mesma pergunta, vez atrás da outra: "Eu
sei...?"
- Olha, Sam, não tem nada pra entender. A gente ficou amigo por obra do destino. Foi meio... Sem
querer. - Ela sentia a mentira coçar sua garganta, e arriscou alguns olhares tímidos a Harry, que
conversava com alguns brutamontes do outro lado do corredor. Tentava suplicar por telepatia que
ele fizesse uma speed class sobre como mentir, pois estava precisando.
- Tá, tá. Mas vocês são só amigos mesmo? Porque se esse garoto quebrar seu coração... - A
promessa ficou no ar, tão vazia para ela quanto era para ele. Se tinha alguém quebrando o coração
de Hadassa era justamente aquele que queria prometer vingá-la. Era tão irônico, que chegava a ser
engraçado, e os dois não contiveram o riso vago. A sacralidade do momento era garantida pelo
clichê, e não houve clima ruim por conta disso.
- Eu vou ficar bem, eu juro.
- Bem, eu até acho que vai te fazer bem sair um pouco debaixo das minhas asas, conhecer pessoas
novas, lugares novos... Até seu visual mudou! - "Fazer bem?", Hadassa se perguntou. Não conseguia
entender qual o benefício que ele achava que lhe faria estar afastada do mesmo. Engoliu a vontade
de bater com os livros que segurava em sua cabeça e chamá-lo de estúpido quando seu cérebro
decodificou o elogio disfarçado em sua fala. Era impressão ou ele tinha dito que ela estava
bonita...?

- Olha, cara, já deu pra sacar que você não gosta de falar nisso. Por isso eu juro que é a última vez
que eu comento algo a respeito. - Derek tinha ficado para trás quando o grupo de garotos começou
a se mover para o refeitório, especificamente para conseguir falar com Harry, que fechava seu
armário antes de acompanhá-los. Era o mais próximo do moreno dali, e se deu a liberdade de voltar
ao assunto Hadassa apesar de todos os avisos para não fazê-lo. - Mas se vocês estão ficando, velho,
você não tem porque se envergonhar. A menina é bonitinha, até, ou pelo menos ela está agora. Não
me lembro como ela era antes, mas se nunca a notei não devia ser grandes coisas. - Ele balançou a
cabeça freneticamente, percebendo que havia se perdido no discurso. - O que eu quero dizer é que
a gente não se importa se você tiver com ela. Você sempre tomou suas decisões sem ligar pro que
achamos de qualquer forma. Mas se esse é o caso, Harry, se você tá pegando a novinha, talvez seja
uma boa você mostrar isso pro resto do colégio. Porque boatos e suposições não vão impedir que as
líderes de torcida deem mole pra você e nem vão impedir aquele cara de dar em cima dela. Por
enquanto, vocês são território neutro, sacou? - Harry estreitou os olhos pro amigo, claramente não
gostando de ter que falar sobre isso novamente, e menos ainda do teor do assunto em questão.
Infelizmente, ele tinha acabado de acender uma luz em sua mente, e ele seria obrigado a colocar em
prática aquilo. Antes, no entanto, precisava se livrar de Derek.
- Você tem razão, cara. - Disse, dando tapinhas mais fortes do que o aconselhável nas costas do
mais baixo. - Eu não ligo pro que vocês acham. - Então, em um sorriso irônico e deixando um leve
beliscão na bochecha do outro em provocação, ele posicionou melhor a mochila no ombro e
marchou para onde Hadassa estava, do outro lado do corredor. Sam já se despedia com um aceno
comedido e ia como um pato atrás do rabo de saia que era sua namorada aguada.
Harry não gostava de falar daquela forma com quem quer que fosse, mesmo que já tivesse deixado
cristalino que não queria tocar mais no tema "ele e Hadassa". Mas, quando Derek soubesse que ele
fizera exatamente o que aconselhou, ele perdoaria a grosseria momentânea e tudo ficaria bem de
novo, então não havia porque se preocupar.
Chegou perto da menina sem ela perceber, não dando assim o tempo que ela gostaria para se
preparar melhor para aquela conversa. Não que qualquer preparação pudesse ajudá-la para o que
viria a seguir.
O mais velho a encurralou na parede, um braço dobrado ao redor de sua cabeça e o outro
estendido, por onde se apoiava com a mão. Ele aproximou seus rostos tanto quanto podia sem que
seus narizes se encostassem, e ficou quieto, apenas mirando-a no fundo dos olhos transparentes
com intensidade.
- O-Oi? - Ela gaguejou, nervosa com a energia que emanava dele. Harry mordeu os lábios e expirou
com força, então tirando uma das mãos da parede para enlaçá-la pela cintura.
- Nossa próxima aula é hoje depois do último período. Eu vou querer saber o que o loiro queria com
você e vou te punir por ter se escondido hoje a manhã inteira. - Disse assertivo, fazendo-a
concordar depressa.
- T-Tudo bem.
- Mais uma coisa, Hadassa. A partir de agora, e para todos os efeitos até nossas aulas acabarem no
mínimo, nós estamos juntos.
- Juntos? Como em um... Relacionamento?
- Isso. Namorando, transando casualmente, ou só ficando. Você quem sabe. - Deu de ombros. - Mas
estamos juntos. - Reafirmou.
- Eu... - Hadassa tentou questionar.
- Não, anjo. Não é uma opção. Mais tarde eu te explico o motivo disso, mas saiba que tem a ver
com você laçar seu precioso amiguinho. Ciúmes pode ser a melhor forma de ele te notar. - Piscou,
roçou seus lábios com voracidade, o que a fez trancar a respiração, e partiu, finalmente, para o
refeitório, puxando-a atrás de si pela mão.
- Linda, vamos? - Harry perguntou alto, ao avistar a garota passando pelos portões de ferro do
colégio, chamando a atenção de algumas pessoas ao redor.
- Linda? - Ela parecia confusa ao se aproximar dele, tentando arduamente ignorar o incômodo que
os olhares ainda a causavam.
- Estamos juntos, lembra? - Ele sussurrou, lembrando-a da conversa que tiveram espremidos contra
a parede do corredor. - E não deixa de ser uma verdade. - Murmurou como quem conta um
segredo, colocando uma mecha de seus cabelos atrás da orelha.
- Ah. Tudo bem então... Lindo.
- Isso. Agora vem cá. - Ele a puxou pela cintura, e ela automaticamente passou os braços ao redor
do pescoço perfumado do garoto. Um segundo de espera e tinham um a boca pressionada a do
outro. Hadassa suspirou com o gosto e textura dos lábios do rapaz, como se sua lembrança não
fosse suficiente ou não fizesse jus, e ele aproveitou que ela soltava o ar e encaixou melhor suas
bocas, logo a acariciando com sua língua. Mordidas aqui e mais suspiros lá, eles conseguiram se
separar. Harry afastou-se da menor, descolando a testa da dela, e a olhou nos olhos entre uma
respirada mais profunda e um sorriso. Entraram no carro, e foram mais uma vez para o agitado QG,
vulgo a casa do garoto.

Dodici

- Vai ser assim agora? Vamos nos beijar a cada cinco minutos? Porque eu não sei se meu coração
aguenta passar por isso toda hora sem nenhum piripaque. - Hadassa disse, caminhando agitada de
um lado para o outro na pequena sala do lugar enquanto Harry a observava tranquilo do sofá.
- Aguenta sim. É necessário, anjo. Ciúmes é a maneira mais rápida e eficaz do loiro prestar atenção
em você. Ele vai desejar estar no meu lugar, isso vai causar uma série de reflexões do porque ele
deseja isso, e então, através de uma epifania, ele vai notar que é porque gosta de você. - Quanto
mais falava do assunto, mais Harry sentia que aquela decisão não tinha sido pautada tanto assim
nos objetivos da menina. Não estava mentindo: O ciúmes seria realmente uma carta na manga ideal
para abrir os olhos do loiro, mas sentia como se houvesse um motivo oculto dentro de sua mente
confusa, um que fizesse referência a uma certa tarde de beijos roubados e vontade incontrolável de
repetição.
- Fácil assim?
- Não tem nada de fácil quando se trata de relacionamentos. – Disse, tanto para si mesmo quanto
para ela. - Mas é, esse é o melhor caminho.
- Bom... Então tudo bem. Mas a gente tá namorando, então, porque eu não sei lidar bem com esses
compromissos casuais que você sugeriu.
- Sem problema, namorada. - Ele deu uma piscadinha, então batendo no sofá ao seu lado indicando
que ela se sentasse, agora que parecia mais calma. Ela o fez.
- E qual é a aula de hoje? Como ser uma boa namorada?
- Algo assim. - Ele deu de ombros com um sorriso nos lábios, virando-se para ela. - Eu te ensinei
como se portar, agir, falar, e até mesmo andar. O que significa que você já sabe, na teoria, como
fazer um cara ficar interessado em você. Apesar de às vezes teimar em não aplicar os meus
ensinamentos. - Harry beliscou de leve a barriga da garota, provocando-a no que dizia respeito aos
resquícios de timidez que ela vez ou outra deixava aparecer a superfície. Ela riu como uma criança
que foi pega fazendo arte. - Então, eu te ensinei a beijar. - Nada no mundo seria capaz de explicar
racionalmente o porquê dos dois sentirem o sangue subindo as bochechas com a mera menção do
fato. - Porque é uma evolução natural do flerte que você precisava saber responder a altura para
que ele não se decepcionasse. - Ela acenou positivamente, mostrando que estava acompanhando a
linha de pensamento do mais velho. - E, agora, eu acredito ser prudente te ensinar a evolução
natural a isso também.
- Que seria...?
- Sexo, Hadassa. - Harry disse com os lábios pressionados, direto ao ponto, mesmo sabendo que a
reação dela não seria tranquila nem de longe. Como tudo o mais que havia ensinado até ali, ela teria
uma barreira grande para superar naquela aspecto, que para ele era tão comum e ordinário. Ele era
resolvido e queria que ela fosse também. Não via motivos no alarde todo que a maioria das
mulheres fazia quando o assunto envolvia falta de roupas e esforço físico.
- Não. - Decidiu. - Olha, professor, não é necessário. Eu juro! Podemos pular essa etapa? - Ela
suplicava, os lábios mordidos até esbranquiçarem.
- Não, minha linda, nós não podemos. - Rebateu, paciente com o jeito afobado dela, a voz baixa e
grossa, em uma tentativa de tranquilizá-la. - Antes de tudo, se acalme. Sou eu, você me conhece,
sabe que eu não vou te obrigar a nada. - Fez um carinho modesto no rosto dela, que tinha a forma
de um filhote de cão pedinte e encurralado, mas não hesitou em deitar o mesmo na palma quente
da mão dele. - Mas... Realmente acho que essa é uma etapa muito importante que você precisa
passar. Afinal, anjo, você acha que o quê? Que vai aprender sozinha com vídeos pornográficos e
contos eróticos? Acredite em mim, menina, se o garoto está animado, tenta alguma coisa com você
e vezes seguidas é frustrado na tentativa, ele desiste. É uma merda, egoísta e escroto, mas eu sei
de mais de um cara que fez isso com a namorada de anos porque ela se recusava a lhe abrir as
pernas. Para nós, homens, o contato físico é tão importante quanto são as palavras para as
mulheres. Na verdade, sexo é um elemento muito importante de qualquer relacionamento. Inclusive
é o pilar onde muitos se sustentam.
- Mas... Como algo assim pode ser tão importante? - Hadassa tinha as mãos tremendo e os olhos
arregalados, estava apavorada como era de se esperar. Felizmente, o garoto já estava preparado
para essa reação, uma vez que acreditava fielmente que ela fosse virgem e a inexperiência a
deixasse ainda mais insegura no assunto.
- Olha, eu entendo. Você é virgem e está assustada. Mas não precisa, eu estou aqui. - Antes que
pudesse emendar qualquer discurso confortante para acalmá-la, Hadassa o cortou.
- Eu não... - Pigarreou, tentando dizer as palavras direito. - Eu não sou mais virgem.
- Não?! - Harry alarmou-se, sem entender. Tímida daquela forma e sem nenhum jeito com os
homens, como...?
- Não. - Ela engoliu em seco, e ajeitou-se no sofá até estar confortavelmente apoiada de lado no
encosto e de frente para o mentor. Começou o relato que não havia dito mais do que uma vez, e
apenas para sua própria ginecologista. - Era uma sexta à noite. A gente tava comemorando o fato
do Sam ter sido aceito no time de basquete da escola. Bem, ele estava muito feliz, e comprou um
vinho pra brindarmos. Eu nunca fui fã de bebida alcóolica, e ele achava um desperdício deixar a
garrafa aberta, então uma coisa levou a outra e ele a bebeu inteira sozinho. - Harry franziu as
sobrancelhas, não gostando muito do rumo que o relato tomava, mas colocou uma mão no joelho
de Hadassa passando confiança para que ela colocasse tudo pra fora. - Ele estava tão, tão feliz. E eu
já gostava dele, óbvio, então vê-lo daquela forma me deixava meio grogue também. Eu não sei bem
como aconteceu... Mas em determinado momento ele me falava coisas de forma meio enrolada
sobre eu estar sempre ao lado dele, fazendo tudo que ele queria, me elogiando por ser tão
disponível... E aí ele me beijou. - Ela deu de ombros, repuxando os lábios com a lembrança. -
Quando eu fui ver a gente estava na cama da minha mãe, e já quase não tinham roupas entre nós.
Eu fiquei meio apavorada... Acho que é normal, né? E tentei parar e racionalizar o momento. Ele não
deixou, me disse que era infantil parar naquela hora. E aí... Aconteceu.
- Você perdeu sua virgindade com o Sam?
- É. Doeu como o inferno, e eu fiquei roxa durante semanas, mas só de lembrar da cara de
felicidade dele... Eu quase acho que é isso que move o meu coração, sabe? E, por mais que no dia
seguinte ele não se lembrasse de nada... Alguma coisa em mim mudou naquela noite, e foi aí que eu
percebi que estava apaixonada.
Harry estava, em uma palavra, transtornado. O imbecil tinha feito ser ruim pra ela, tinha a
machucado e magoado, tinha esquecido de um dos dias mais importantes de sua existência! E ela
estava ali, inocentemente achando que aquilo era normal, e se permitindo sentir algo pelo filho da
puta. Porque Hadassa não conhecia nada diferente daquilo. Não conhecia carinho, apreço, amor de
verdade, e só se achava merecedora daquele tipo de afeto egoísta e carnal que o melhor amigo
podia oferecer. Por algum motivo, o coração do garoto doía.
- Hadassa... O que aconteceu nessa noite, eu posso te garantir que não teve nada a ver com sexo. -
"Foi violência, isso sim", pensou apesar de não verbalizar. - Sexo é bom, eu prometo pra você. Não é
feito pra doer e machucar, é feito para dar prazer, trocar intimidade e carinho. - Ele esfregou a mão
na testa com força, tentando clarear os pensamentos e parar de ver vermelho. - Lembra quando
você se tocou no meu quarto? - Ele perguntou, tentando uma abordagem diferente. A menina
levantou os olhos das mãos e esperou que ele continuasse. - Foi bom, certo? - Ela acenou que sim,
fraquinho, constrangida. - Imagina que sexo é pelo menos três vezes melhor do que aquilo.
- Nossa! Você... Tem certeza?
- Claro que sim, anjo. E eu vou te provar.

Depois de pegar uma água para Hadassa, que aos poucos voltava ao estado normal com a premissa
da aula ser tão menos pior do que ela imaginava, Harry se sentou novamente ao seu lado no sofá.
Ele estava ainda levemente embasbacado de ter descoberto que toda a paixão que Hadassa clamava
sentir pelo melhor amigo tinha raízes mais profundas. A expressão "amor de pica" que tantas vezes
ouviu no colégio quando estava para completar dezesseis anos, por algum motivo, fazia sentido
agora. Diziam-se apaixonadas as garotas da sua sala da época por aqueles que lhes tiravam a
virgindade, por aquela ser a primeira grande expressão de intimidade que elas tinham, e isso as
deslumbrava a esse ponto. Hadassa podia estar sofrendo dessa doença terminal. Mas
independentemente do que justificava o amor errado que ela dizia bater em seu peito, o que mais o
impressionava era a confiança que ela parecia depositar nele próprio. Harry quase se via como um
leão de peito inflado e orgulhoso quando percebia a sua capacidade de acalmar a pequena garota
com qualquer simples combinação de palavras. Era um dos melhores elogios que lhe podia fazer.
- Como a gente vai fazer isso? Você vai ditar orientações como naquela vez no seu quarto,
ou...Vamos... Direto... Ao ponto?
- Eu não sei se tem como ensinar isso sem ser na prática, pequena. Mas a gente começa devagar.
Tudo bem? Você claramente não tem experiência e eu não quero que se assuste.
- Devagar... Quanto?
- Paramos quando você deixar de se sentir confortável e só vamos continuar outra hora, quando
você estiver calma novamente.
- Tudo bem... Acho que eu posso fazer isso. - Harry sorriu, sentindo a curiosidade perpassar a voz
da garota, e sua sempre notável ansiedade transparecer a cada vez que ela insistia em molhar os
lábios.
Se inclinou devagar para ela, apoiando-se no encosto do sofá e usando uma mão para afastar os
cabelos pesados de seu colo. Observou Hadassa fechar os olhos apertados ao depositar um selinho
simples em sua bochecha, os lábios em seguida escorregando para o maxilar e então o pescoço
alvo. Sua respiração tocou a pele sensível, causando arrepio imediato.
A primeira mordida veio, e com ela foi-se o resto de autocontrole dos dois. Hadassa agarrou o tecido
da blusa de Harry, puxando-o para si, para sentir seu calor a envolvendo. Ao mesmo tempo, ele
envolvia sua cintura, o braço forte quase dando a volta inteira. Não sabia se era o sabor de sua pele
ou o perfume de seus cabelos que o deixava tão sem ar tão depressa.
Hadassa afastou-se o suficiente para que o rosto do professor focalizasse em sua visão novamente,
e logo tinha seus olhos fortemente fechados enquanto chocava seus lábios. Não houve espaço para
justificativa antes que eles se abrissem, e línguas se massageassem como velhas conhecidas com
saudades.
Um beijo tão gostoso, de encaixe tão certo, que sentiam como se tivessem feito aquilo a vida inteira.
O virar dos rostos, o puxar dos lábios inferior e então superior, as sugadas e os suspiros quase
sincronizados. Era quase como se álcool estivesse embebido na saliva trocada, no gosto de cada um
que deixava o outro severamente embriagado.
E com o porre, vinha também a luxúria.
A mão grande de Harry percorreu cada vértebra singular do corpo da menor, deixando choques e
espasmos por onde passava, até alcançar o quadril e então encher os dedos na bunda. Apertou e
massageou como desejava fazer desde sua segunda aula, quando teve ela se esfregando
inocentemente contra ele ao que lhe ensinava a postura correta de como andar. Hadassa não ficou
atrás, cravava as unhas médias nas omoplatas repletas de músculos das costas dele, e sem saber
porque insistia em empurrar o joelho contra a perna dele.
Mas Harry sabia ler o corpo de uma garota. E por isso, não demorou a puxá-la para si até que
estivesse ajeitada no sofá, deitada de costas com ele por cima, a um passo de encaixar-se no meio
de suas pernas.
Deixou a língua no lábio inferior, desconcentrado, ao acompanhar o movimento que suas mãos
faziam novamente pelo corpo miúdo. Ainda levemente sentado sobre o próprio calcanhar esquerdo,
tinha a visão perfeita do contorno sinuoso dos quadril, e então da cintura fina e brevemente exposta
pelo levantar sutil da camiseta, e por fim o colo avermelhado e arfante, por onde a respiração
entrecortada dela se manifestava.
Hipnotizado, Harry estava a um passo de enfim deitar-se para desfrutar de tudo que seus olhos
acompanhavam, se não tivesse caído nas graças de procurar os transparentes de Hadassa e não
encontrá-los.
Ela os tinha fechados com força, e não da forma como se espera. Não estavam fechados para que
ela se concentrasse melhor nas sensações ou ainda por estar imaginando outras coisas, e sim por
receio e medo.
Era como se estivesse dizendo para si mesma que se não visse o que estava prestes a acontecer,
poderia fingir que não era real.
E aquilo era tudo que ele precisava para entender que não ia acontecer.
- Hadassa, abra os olhos. - Sussurrou, contido. A dor no seu tom de voz era genuína e ela logo o
obedeceu. - Eu estou te machucando? - Ela mordeu os lábios, os olhos cristalinos preocupados de
ver o garoto daquela maneira, e negou fortemente com a cabeça.
- Não. - Harry respirou fundo, a testa vincada, e acariciou com suavidade o contorno do rosto dela.
- Você confia em mim?
- Sim. - Respondeu, resoluta. Não precisava pensar sequer para ter certeza.
- Então confia que eu não vá te machucar?
Silêncio.
As marcas do passado falavam mais alto que suas resoluções. Não importava que fosse Harry, por
mais que ela gostasse de pensar assim. Continuava sendo algo que suas memórias gritavam como
ruim.
- Eu vou parar agora. - Explicou devagar. - E seu corpo vai formigar pedindo por mais. - Acariciou
com leveza os braços arrepiados dela, como se para demonstrar um ponto. - E eu não vou te dar
mais até amanhã. E então, se você continuar sem uma resposta afirmativa pra essa pergunta, eu
vou parar de novo. E vamos continuar nessa dança até você conseguir se acalmar e confiar em mim
o suficiente pra irmos até o fim. - Ela tinha os olhos presos nele, uma conexão forte, praticamente
inquebrável, que aguardava o fim daquela sequência que descrevia. - E aí... Algo me diz que você
não vai querer parar nunca mais.

Tredici

- Bem, e o que o seu amiguinho queria ontem? - Harry perguntou enquanto ele e Hadassa
perambulavam pelos corredores vazios depois de um acidente no laboratório de química ter
coincidentemente liberado os dois de suas salas até o próximo período.
- Eu não entendi muito bem. Ele veio me perguntar sobre você e dizer que se preocupa, que estaria
cuidando de mim caso algo acontecesse ou algo do tipo.
- Ele já estava com ciúmes, então. Mesmo antes de assumirmos um relacionamento.
- É... Pode ser. - Murmurou distraída pelo som do celular do garoto avisando o recebimento de uma
nova mensagem. Curiosa, ela se inclinou para ler junto com ele, que o permitiu; não haviam motivos
para esconder o que fosse de seu anjo.
"A escola ligou para avisar que você foi dispensado da aula. Mas nem pense em matar o restante do
dia! Pelo seu horário, hoje tem as matérias que você tem tido piores notas e não queremos ter que
adiar a faculdade que tanto sonhamos."
Harry estalou os lábios, já conformado com a atitude ditatorial do padrasto e entrou em uma sala
qualquer, vazia pelo horário e de luzes apagadas. Hadassa foi atrás, preocupada, embora soubesse
que ele precisava de distração e não conversar sobre o assunto.
Encostado em uma mesa no escuro, o mais velho tinha os olhos cravados no chão e o rosto
tensionado, que não combinava com ele. A garota se aproximou, segurando suas mãos grandes com
força, mostrando que estava ali com ele, que apoiava sua causa e entendia como ele se sentia.
- Ele é um babaca que não te conhece como eu conheço. Ignora, Harry, deixa isso pra lá. - Ela
disse, em conforto, sem perceber que ele abria então um pequeno sorriso repuxando o canto dos
lábios. - O que foi? -Hadassa não estava entendendo a mudança de feição.
- É engraçado te ouvir xingar alguém; nada demais. - Ela revirou os olhos.
- Bobo. Eu aqui tentando te consolar e...
- Sabe o que me consolaria? - Ele interrompeu, esperto. Hadassa questionou com os olhos que ele
terminasse o raciocínio, e em resposta o mentor deu dois toques na própria boca, indicando o que
queria. Ela revirou os olhos, tentando parecer indignada, mas o sorriso mal contido entregava que
aquela espontaneidade dele a agradava e muito.
Passou os braços em torno do garoto, que a abraçou firme pela cintura. Era um sentimento
estranho. Ao mesmo tempo que sentiam que já houvessem feito aquilo por toda as suas vidas,
tamanha a familiaridade, era como se não fossem vezes suficientes. Não importava a frequência,
cansar-se do gosto do outro era uma opção inimaginável.
O beijo que começaram tinha ritmo próprio. Ele ia de calmo e sensual a forte e ofegante em
segundos e de volta sem que fosse preciso mais do que um puxar de cabelos ou suspiro. Harry
sentia a respiração doce da garota em seu rosto, e dedilhava suas costas por cima da blusa e por
baixo dela, sempre sutil o bastante para que ela não se alarmasse. E Hadassa deliciava-se com o
aperto do mais velho, com a maneira com que ele parecia capaz de branquear seus pensamentos e
calar os sons ao redor.
Alguns minutos embebidos na entrega do momento, Harry desencostou-se da mesa em que se
apoiava e trocou as posições, puxando-a para que se sentasse ali e permitisse a passagem do corpo
forte dele entre suas pernas. Hadassa se deixou manusear, aprovando o fato de terem as alturas
equiparadas e um lugar para apertar suas coxas, que pareciam ansiar por aquilo irracionalmente.
Com uma panturrilha em cada lado do traseiro do garoto, ela puxou-o para si, ao passo que ele
desistia de brincar com a barra de sua camiseta erguida até o umbigo para apertar com entusiasmo
as coxas parcialmente descobertas.
Bagunçou completamente os cabelos curtos dele e suspirava constantemente, quando ele decidiu
desgrudar suas bocas dormentes e investir os beijos contra o pescoço alvo e maxilar. O hálito
quente dele soprando ali se provava uma das fraquezas de Hadassa, que estremecia e mordia a
língua tentando segurar as reações exageradas para si.
Harry passou os braços pelo quadril dela, puxando-o para a beirada da mesa e encaixando o seu
próprio ali com mais propriedade, e seus beijos desceram para o limite da blusa de gola em "V", que
mostrava o princípio do formato arredondado de seus seios arrebitados. Cobriu toda a região com
seus lábios, as mãos posicionadas sem receio na bunda da garota, e antes de dar o próximo passo,
levantou os olhos para ela que o olhava por detrás das pálpebras pesadas, a boca entreaberta e
inchada de tantas mordidas. Ele sorriu malicioso e com cuidado puxou o tecido para o lado,
revelando um sutiã desconhecido cinza com uma renda branca inocente e sexy.
- Esse eu comprei por conta própria. - Ela explicou envergonhada com o olhar dele.
- Vou te dizer que foi uma ótima surpresa. - Ele congratulou, orgulhoso, antes de lamber a nova
área exposta e engolir em chupões generosos a pele perfumada. Hadassa fechou os olhos e jogou a
cabeça para trás, empurrando-se na direção do professor e pensando que, de fato, não conseguia
imaginar que aquilo pudesse ser tão... Bom. Gostoso. Excitante. Se amassar com Harry em uma sala
escura em pleno horário de aulas era surpreendentemente ideal. E por falar naquilo...
O sinal tocou, indicando que o novo período de aulas tomaria frente nos próximos dois minutos. E,
consequentemente, que haviam grandes chances daquela mesma sala ser utilizada.
O garoto bufou, dando-se conta daquele fato lastimável, e encostou a testa brevemente na clavícula
dela, tentando recuperar a respiração alterada. Um momento depois, afastou-se e gesticulou com as
duas mãos apontando a porta que ela tinha a passagem para sair primeiro. Com um sorriso
conformado e um carinho singelo no ombro do maior, ela se levantou, ajeitou as roupas, e desfilou
para fora da sala, precisamente da maneira que ele tinha lhe ensinado, com quadris para um lado e
para o outro, em um rebolado impossível, e ombros para trás, confiante.
Harry sorriu genuinamente e balançou a cabeça, chacoalhando os cabelos, antes de segui-la,
soberbo.

A caminho do QG e conversando amenidades, Hadassa se lembrou que havia esquecido algo em sua
própria casa. Um algo especial que queria muito mostrar a Harry naquele dia em particular, sem
esperar pelo dia seguinte. Então, com um pouco de persuasão, conseguiu convencer o garoto a dar
meia volta no carro e pegar o caminho que os levaria até lá.
Não houve muita reclamação da parte dele. Pelo contrário, estava até animado com a perspectiva de
conhecer o quarto da menor, o qual ele jurava que seria repleto de pôsters de boybands e paredes
rosas. Não perdeu a oportunidade de perturbá-la, ameaçando jogar as roupas antigas, que ele tinha
certeza que ainda tinham um lugar no armário, no lixo, e dar um fim em potenciais bichinhos de
pelúcia que lotassem a cama, que deveria ser o "ninho de amor" dela e não um lembrete de sua
infância e meninice. Hadassa revirava os olhos a cada nova suposição estereotipada que ele proferia,
e ria de suas soluções para resolver o problema.
Enfim chegaram à pacata casa amarela.
Por força do hábito, Hadassa arriscou um olhar para outra casa da rua, a de Sam, tentando ver se
ele estaria em casa, e, se sim, se estava acompanhado. Harry bloqueou sua visão sem saber o que
estava fazendo. Ele parecia estranhamente empertigado, ereto demais e linhas de expressão
denunciavam sua seriedade.
- Sua mãe está em casa? - Perguntou, e todo o mistério se diluiu.
- Não, pastor Styles, acalme-se. - Ela brincou, assistindo-o desmontar a armadura a sua frente. -
Está trabalhando e só volta quando o dia vira noite.
Entraram, e Hadassa logo apontou a porta que escondia seu quarto, para onde ele andou sem
frescuras, esfregando as mãos, ansioso pelo que encontraria.
O quarto era normal. Até mesmo impessoal demais. As paredes eram todas brancas, a escrivaninha
abaixo da janela tinha poucos objetos pessoais e a cama parecia estranhamente vazia. Harry não
sabia se aquilo seria um sinal de que ela não se sentia confortável em sua própria casa ou se era
apenas uma pessoa minimalista. Ele andou devagar até o criado mudo, pegando um porta-retrato
que estava ali, virado, servindo de apoio de copo como se estivesse daquela forma há bastante
tempo. Tinha um senhor beirando os quarenta anos com um sorriso honesto e contagiante de olhos
apertados e abraçado com uma Hadassa alguns anos mais nova.
- É o meu pai. - Ela explicou, vendo a interrogação na face do outro. - Eu esqueço de guardar e
acabou ficando aí. - Deu de ombros, como se não fosse grandes coisas, embora ele soubesse que
aquele devia ser o discurso decorado que ela entoava todas as manhãs para a mãe, em justificativa
ao apego completamente compreensível que ainda tivesse pelo progenitor. Ela resolveu que ele já
estava suficientemente à vontade no cômodo e foi em direção ao armário, pegar o que havia
objetivado no fim das coisas.
Harry se sentou na cama, esperando, mas seu tornozelo brevemente descoberto pela calça lhe
deixou sentir o roçar de algo peludo e sintético contra sua pele. Ele se levantou rapidamente, e sem
fazer alarde puxou o edredom para que pudesse ver o que tinha debaixo da cama. Uma pata depois
da outra, descobriu todo um arsenal de bichinhos de pelúcia escondidos por ali. Antes que pudesse
questionar a garota, observou as portas do armário abertas e ela atracada ali no meio, procurando
em sua bagunça particular o que queria. Haviam centenas de livros ao seu redor. Ele temia,
inclusive, que se ela se mexesse demais alguns deles pudessem despencar sobre sua cabeça frágil.
Também, nas portas internas do mesmo móvel, fotos, desenhos e rabiscos estavam pregados.
Toda a intimidade meticulosamente escondida de um espectador menos atento.
E foi então que o atingiu: Assim também era a personalidade de Hadassa. Fechada e simples à
primeira vista, e incrivelmente fascinante se você olhasse de perto.
- Achei! - Ela disse mais alto, trazendo a atenção dele de volta ao que acontecia no quarto. A
pequena garota se jogou ao lado dele na cama, e se ajeitou com as pernas em cima do colchão,
dobradas graciosamente ao seu redor. Estendeu as mãos e entregou para ele uma porção de
panfletos sobre as mais variadas faculdades, incluindo a que o padrasto o obrigava a prestar.
- E o que eu faço com isso, anjo?
- Eu tava pensando: Não existem motivos pra você não conseguir realizar seu sonho apesar das
limitações da sua família. Tem outras dezenas de faculdades que podem conciliar os dois, na
verdade.
- Mas... Como?
- São várias as opções. Uma delas é a dupla graduação. Embora sejam cursos muito diferentes,
fazer direito e psicologia ao mesmo tempo ou um seguido do outro é uma possibilidade bastante
palpável. Você pode até mesmo diminuir os anos de graduação em um deles por ter feito as
matérias básicas no outro. - Ela explicou apontando algumas das universidades que ofereciam
aquele tipo de recurso, e ele observou intrigado as imagens daqueles panfletos em específico. - Tem
mais. Eu dei uma pesquisada, e existe uma congregação de advogados que prestam assistência
exclusivamente para causas sociais. Alguns trabalham em escritórios normais e na congregação ao
mesmo tempo, é verdade, mas outros conseguem seu sustento só disso, só revisando contratos e
defendendo ONGs, abrigos e afins perante a lei. Daí eu imaginei que mesmo que você não fizesse
psicologia, ainda tem um jeito legal de você fazer a diferença. Todas as universidades daqui exigem
que o aluno faça matérias eletivas, isso é, que ele escolhe, nos últimos semestres. E se você entrar
pra uma grande, pode ter a opção de eleger matérias de psicologia ou qualquer outro curso, na
verdade. - Continuou, o brilho nos olhos transparentes puxando o sorriso do professor, que já não
sabia se acompanhava o que ela falava pelos informativos que lhe dera, ou se a admirava sendo tão
preocupada e solícita com um problema que era só dele. - E, por fim, tem as entidades. Sabe como
sempre escutamos falar de Empresas Júnior, Diretório Acadêmico e Atlética de faculdades, né? Bom,
esses não são os únicos tipos de entidades, e mesmo eles têm milhares de opções e áreas para
explorar. Aqui, eu descobri o nome de uma que chama Aiesec. Eu não li muito a respeito, mas
parece que ela foi fundada por um grupo de estudantes pós-guerra para garantir o intercâmbio de
culturas e experiências entre os países. Ela tá em quase todas essas universidades que eu to te
mostrando, e tem esse programa deles muito legal que chama intercâmbio social. O aluno paga pra
eles uma taxa administrativa super baixa e passa as férias fazendo trabalho voluntário no país de
escolha. E,Harry, tem vários países da África participantes e vários tipos de programa diferentes,
desde cuidar de crianças e doentes, até ensinar inglês e fazer pesquisa de gênero. É uma atividade
extracurricular que, independente do curso que você faça, já te coloca um passo mais perto dos
seus objetivos, percebe? E mesmo que você não queira nada disso, eu encontrei relatos de pessoas
que faziam duas faculdades ao mesmo tempo, uma de dia e uma de noite, e todos disseram que é
perfeitamente possível conciliar os dois com um pouco de disposição e planejamento. As três últimas
que você tá segurando, inclusive, oferecem curso de noite e gratuito, e a relação de vagas não é tão
impossível; eu realmente acredito que no seu ritmo de estudo atual você conseguiria com o pé nas
costas! - Quando finalmente parou de tagarelar, Hadassa estava praticamente pendurada no garoto,
tamanha era sua animação, e não percebeu o olhar com que ele a encarava. Harry tinha um sorriso
fixo estampado, como se alguém o tivesse tatuado ali, e uma quantidade de carinho e afeto tão
grande transbordando dos olhos claros que qualquer um podia quase se sentir abraçado só de olhar
para eles. - O que... Eu fiz? - Ela perguntou, receosa com a feição desconhecida.
- Eu não acredito que você fez tudo isso por mim. - Ele murmurou, balançando a cabeça em
negativa desviando os olhos para os papéis em mãos, o sorriso crescendo exponencialmente. - O
que eu faço com você,Hadassa? Vou precisar te agradecer para sempre ou algo assim. - Riu, feliz
como ela não o havia visto até então. - E, quer saber? Acho que vou começar agora. Hoje de manhã
você me beijou para me consolar. Agora eu retribuo a gentileza para te agradecer. - Inclinou-se para
ela com o sorriso espero, mas não encontrou barreiras na face serena da aprendiz.
Tomou a boca na sua com gosto, como se há milênios não o fizesse, e sugou o gosto para si,
sentindo fome de agradá-la tanto quanto pudesse depois do enorme gesto de carinho que essa tinha
lhe feito.
Com uma mão segurando firme o rosto dela - o dedão na bochecha e os demais dedos em algum
lugar entre detrás da orelha e entranhados no couro cabeludo farto -, a outra espalmou a cintura até
conseguir girá-la, encostando suas costas na cama macia. Ele adorava o controle de ficar por cima,
mas mais do que aquilo, era louco pela possibilidade de ficar entre as coxas quentes dela,
encaixados como se estivessem no ato.Hadassa, embora sem muita liberdade de movimento daquela
forma, não podia reclamar das sensações que tinha ao senti-lo bem ali, sobre ela, todas as partes do
corpo grudadas e o calor que aquecia todo o seu ser.
Era um beijo profundo marcado da mais absoluta intimidade e entrega. Devoravam os lábios um do
outro, em tentativas frustradas de tomar aquele pequeno pedaço tentador de carne para si, as
línguas apenas atiçando encontros breves, que rastejavam resquícios do sabor alheio. Harry
percorria todo o corpo da menor, conhecendo cada mínima curva, onde a pele se arrepiava, onde se
retraía, todos os lugares que alcançasse com ou sem esforço, nada sendo negligenciado pelo tato
astuto. Ela, por sua vez, percorria com as pontas dos dedos os relevos de músculos sobre a roupa,
sentindo como eles trabalhavam maravilhosamente esforçados a cada novo movimento, e apenas
imaginando ou lembrando de como eles eram sem camadas de tecido por cima.
O calor agradável do início passou a ser incômodo quando a velocidade do beijo aumentou e o
fôlego não podia mais acompanhar. Foi preciso que descolassem os tórax para recuperar o ar, e
levado pela busca de maior conforto, Harry não hesitou a fazer menção de arrancar a própria blusa,
antes de lembrar que se tratava de uma garota tímida ali com ele, e que não podia ser tão
impulsivo. Ainda assim, com as mãos congeladas na barra da camiseta, foi notado por ela, que
apenas umedeceu os lábios, ansiosa pela concretização do ato, e o incentivou a passar o tecido pela
cabeça e jogá-lo em qualquer canto desconhecido do quarto.
Maravilhosamente nu da cintura para cima, Harry abaixou-se novamente, pronto para começar um
novo beijo frenético, sentindo as mãos curiosas dela espalharem-se por suas costas. Cada nova
nuance descoberta com o tato provocava um salivar mais intenso em Hadassa, que preferiu
interromper o beijo ao qual não conseguia dar total atenção.
Ele aproveitou-se, achando interessante a entrega óbvia, para beijar-lhe o pescoço, como fizera na
sala escura do colégio. Mordia, lambia, arrastava os lábios pela pele perfumada, sentindo-a se
remexer desconfortável por baixo. O dançar incontrolável do quadril de Hadassa acabava por
esfregar a ereção em crescimento de Harry, que inconscientemente a segurou pelas coxas, seus pés
agora cruzados sem questionamento atrás do corpo dele, direcionando o movimento de forma que
fosse agradável para os dois.
Na primeira investida lenta que ele fez contra a calcinha ligeiramente umedecida de Hadassa, uma
vez que a saia já tinha se levantado há muito, os dedos finos dela agarraram os cabelos curtos dele
pela raiz, achando toda aquela sensação mais do que conseguia aguentar. Mas então novas vieram,
e apesar da gota de suor frio que escorreu pela nuca da garota e do nó deliciosamente incômodo
que sentiu formar atrás do estômago, não houve como segurar o soluço de prazer. Ele estava
massageando a parte simplesmente certa dela, aquela que fora tocada com afinco algumas aulas
atrás, mas que não se comparava à maneira que era esfregada agora, com precisão e vontade, em
uma promessa de melhora silenciosa.
Os rosnados de Harry em seu ouvido não ajudavam. Nem tampouco a mão ousada que segurava
seu seio como se fosse um prêmio do qual ele não poderia se desfazer nem se quisesse.
Subiu novamente para beijar-lhe a boca, lamber os lábios, morder queixo e maxilar, tentando calar
os gemidos, tentando transformá-los em meros suspiros profundos. Sem sucesso. Aquela transa
vestida apenas a fazia imaginar todas as promessas que ele tinha feito sendo cumpridas, e isso não
ajudava a organizar os pensamentos ou controlar o corpo fervente.
A respiração de Harry soprou em sua boca, e ela perdeu o controle. A mão livre caminhou com
desespero para a bunda do garoto, e a empurrou para si, forçando-o a investir o quadril contra o
seu mais uma vez, com força. Ele revirou os olhos, achando a inesperada ousadia da garota inocente
muito mais sensual do que qualquer obscenidade que outras já lhe tivessem dito, e abriu caminho
entre seus corpos grudados para pousar uma mão na virilha dela.
Hadassa abriu os olhos repentinamente alarmada e recebeu um selinho confortante.
- Eu só quero te fazer carinho. - Sussurrou contra os lábios vermelhos e inchados de seus beijos. -
Posso? Você promete que relaxa? - Hadassa estava prestes a ceder, o corpo implorando por alívio,
quando bateu os olhos sem querer no relógio do criado mudo e viu que horas eram.
Puta. Merda.
Empurrando Harry de cima de si até que ele caísse de costas ao seu lado na cama - ainda com o
peitoral e abdómen gloriosamente expostos - ela ajeitou a saia e os cabelos, levantando-se
correndo.
- Harry! Minha mãe! Está para chegar a qualquer minuto! - Engasgou afobada alcançando a blusa
amassada dele. - Você precisa dar o fora daqui! Dolorosamente frustrado, o mais velho se vestiu e
pegou as chaves do carro. Compreendia o alarde da menor, mas isso não fazia mais fácil de aceitar
e nem mais rápido de sua ereção latente baixar. Engolindo em seco e chupando uma última vez os
lábios de Hadassa, ele foi para sua casa, onde teria que cuidar do problema sozinho.
Mais uma vez.

Quattordici

- Harry, acho que você perdeu a entrada... - Hadassa comentou ao assistir o garoto continuar reto
na curva que deveria fazer para chegarem em sua casa.
- Não, eu estou exatamente onde deveria estar. - Ele respondeu com um sorriso enigmático que a
manteve calada e desconfiada pelos próximos minutos, até que o carro embicou no portão aberto de
um paredão grande e discreto ornamentado com algumas poucas árvores e luzes, onde podia-se ler
em um letreiro colorido "Colonial Palace Motel".
- T-Harry? O que a gente tá fazendo aqui?
- Calma, linda. - Disse, pousando uma mão firme e quente na coxa coberta dela. - Só confia em
mim.
Pararam na cabine de entrada, onde uma senhora pediu para Harry selecionar em um painel digital
a suíte que desejava e o tempo de permanência. Ele passou o dedo reto por todas as opções,
pousando no último quadrado que dizia "Tenho uma reserva". Hadassa sentiu a boca secar, sem
saber o que a aguardava adiante.
- Documentos, por favor. - A moça pediu, e ele alcançou a mão dentro do porta luvas, de onde tirou
dois RGs que definitivamente não eram seus originais. Motéis não deveriam aceitar menores de
idade, mas costumavam fazer vista grossa para a veracidade do que lhes era apresentado, assim
como muitas boates e baladas. A mulher pescou uma chave grande com um chaveiro que trazia o
número dezoito e depositou nas mãos dele, ficando com os documentos para devolução na saída. -
O seu quarto é no primeiro corredor à direita, senhor. Aproveitem sua estadia.
Harry dirigiu entre as casinhas idênticas até achar a de número dezoito. A garagem estava aberta,
como a de todas as casas vagas, e ele estacionou o carro ali sem maiores problemas. Desceu,
fechou o portão e foi para a escada de pedra no fundo, incentivando Hadassa a acompanhá-lo.
Ela foi, tímida e receosa, segurando o tecido da camisa dele entre os dedos nervosos. Ao final de
todos os degraus tinha a porta na qual ele deveria usar a chave que lhe foi dada. Em uma
pausa, Harry respirou fundo e olhou para a garota com expectativa, gesticulando para que ela
entrasse primeiro.
O quarto era espaçoso e arejado. Tinha uma mesa quadrada de pedra polida perto da entrada com
duas cadeiras, um box e uma grande pia de mármore, ambos duplos à esquerda, um solarium com
teto retrátil e cadeiras almofadadas de recostar perto do qual podia-se notar um ofurô de tamanho
médio, e ao fundo uma imponente cama de casal das maiores que já tinha visto em uma espécie de
palco, ornamentado com luzes e alguns outros botões e visores que controlavam de onde saía a
televisão e o som.
Absolutamente todo o espaço, da porta até a cama e mesmo em cima desta, estava coberto de
pétalas de rosa. Havia um ou outro arranjo espalhado pelo cômodo também, e mais alguns pedaços
de flor na hidromassagem, que além de tudo estava repleta de sais de banho. Na mesa, havia uma
grande garrafa de champanhe, duas taças, dois roupões com os dizeres "ele" e "ela" e uma grande
bandeja cheia de frutas. A música ambiente ajudava a completar o clima, e idem com as luzes neon
que iluminavam a cama de uma maneira exótica e sensual.
Hadassa perdeu o ar ao ver tudo aquilo. Sentia seus dedos do pé se contorcerem mais a cada novo
detalhe que reparava, de tudo que parecia ter sido metodicamente pensado e organizado para que
ela tivesse a melhor das surpresas, ainda que o lugar em si a assustasse.
Harry estava logo atrás dela, fechando a porta com cuidado, e pareceu satisfeito com a arrumação
que havia encomendado.
- Hadassa... - Chamou, fazendo-a voltar a atenção, os olhos ainda brilhando, para sua explicação. -
Eu não sou fã de nada disso, porque para mim o mais importante no sexo é se ter vontade e estar
pronto e não todos esses romancetes superestimados... Mas eu imaginei que, como você teve sua
primeira vez às pressas, e eu te garanti que a próxima seria melhor... Você merecesse que eu fizesse
as coisas direito. Nem que seja para você perceber o quão tosco é, ou para contar para os seus
filhos. - Ele completou com um riso fácil, que puxou o admirado dela.
- Você não precisava... Mas eu adorei. Você sabe que eu posso ser bem menininha de conto de
fadas às vezes...
- Às vezes? Anjo... - Ele levou um tapa fraco no ombro. - Ok, mulherão. - Riu. - Você gostou
mesmo?
- Sim! É desse jeito que eu gostaria que tivesse acontecido... Lá atrás. - Bom, agora você pode ter.
- Mas, Harry... - Chamou, temerosa. - Por maiores que tenham sido os nossos avanços, eu não sei
se vou conseguir... Você sabe... Hoje. Pronta eu estou, mas eu ainda fico insegura de que seja
realmente bom.
- Não tem problema, minha linda. Você sabe que não tem problema. Não quero que se sinta
pressionada de maneira alguma. Mas, isso - Indicou com os braços todos os elementos ao redor - É
algo que eu queria fazer pra você de qualquer jeito. Com ou sem sexo, é uma experiência que
queria que tivesse. - Deu de ombros, simplório, e Hadassa precisou conter o sorriso ao vê-lo ser tão
fofo. Só com ela.
- Bem, príncipe encantado... Por onde a gente começa?

Devagar, o casal experimentou de todos os elementos que o quarto oferecia. Ficaram levemente
alegres com o champanhe, deram frutas na boca um do outro como viram fazer em tantos filmes,
aumentaram a música para dançar um pouco e descontrair, entraram no ofurô com as roupas de
baixo, sopraram bolhas para cima, assistiram o pôr do sol juntos, e Hadassa ligou para a secretária
eletrônica de sua casa, avisando que dormiria na casa de uma amiga, para que pudessem aproveitar
o pernoite do quarto, como ele tinha planejado.
Ainda molhados e com espuma saindo de seus poros, Harry e Hadassa resolveram tomar um bom
banho antes de experimentarem a cama. Não que a hidromassagem não servisse com aquele
propósito também - mas um pequeno acidente com a garrafa de espumante garantiu que ficassem
melados do jeito ruim.
Entraram no chuveiro duplo ainda com as roupas de baixo, dizendo a si mesmos que aquilo era
normal e nada além do que se estivessem de biquíni e sunga, embora os olhares nada discretos de
contemplação não cessassem, qualquer que fosse a desculpa.
O jato quente da água era relaxante e massageava os músculos tensos de suas costas, deixando-os
mais leves e descontraídos com o que quer que os esperasse mais tarde. Havia uma esponja,
shampoo e condicionador em um pequeno embrulho no canto do box, e eles abriram para poder se
banhar propriamente.
Foi Harry quem começou a pirraça. Afastando as mãos de Hadassa, ele fez questão de pegar um
bom bocado de creme nas suas para esfregar com gentileza os cabelos cumpridos dela. O fez com a
menor de costas para si, os corpos brevemente encostados, mais quentes do que a temperatura da
água. Depois repetiu o procedimento, e ela se animou, resolvendo fazer o mesmo com as madeixas
escuras dele. Riam como bobos com a espuma e o sorriso perpetuava no rosto com os carinhos.
Até a esponja aparecer repleta de sabão, não tinham imaginado que as coisas fossem evoluir
daquela forma. Um braço de cada vez Harry ensaboou, a garota quieta e ansiosa esperando. Depois
foram os ombros, e as alças do sutiã foram abaixadas. O princípio das costas, passando pelo meio
do fecho, que se soltou quase sem querer. A lombar e o virar do corpo, enquanto a peça caía aos
seus pés, a começar pela barriga encolhida para chegar enfim aos seios arrebitados. Ele os
contornou, deixou espuma nos bicos e tentou os arredores, antes de finalmente abandonar a
esponja e pegá-los nas próprias mãos.
Não precisou de mais do que alguns apertões e mordidas de lábio para ambos perceberem que a
excitação já estava insuportável.
Terminaram o banho em questão de segundos, ansiosos para cair na cama, o que fizeram, ainda
levemente molhados. Os cabelos de Hadassa se espalharam em aglomerados de fios unidos pela
água pelo travesseiro, ao que ela se deitou de barriga para cima, com Harry ajoelhado na altura de
seus joelhos.
Ele se permitiu dobrar sobre o corpo dela, para tomar sua boca para si, iniciando um beijo suave e
molhado, provocante na medida certa. Então, desceu os beijos pelo pescoço, colo e barriga, até
arrepiar o local com mordidas na barra da calcinha quase transparente. Ela juntou os próprios seios
em mãos, tentando respirar corretamente enquanto a lingerie lhe era retirada, passando por seus
pés.
Harry fez com que ela dobrasse os joelhos e separou as pernas devagar para não assustá-la.
Resolveu fazer o caminho oposto, começando os beijos pelo tornozelo e panturrilha, passando os
lábios de leve pela dobra da perna e usando a língua e dentes ao atingir a parte interior das
coxas. Hadassa se remexeu inquieta, engolindo a saliva sobressalente que parecia não parar de
produzir.
Ele esfregou o nariz pela nudez dela, na parte do triângulo, deixando a respiração quente bater por
ali. Os lábios entreabertos eram constantemente umedecidos, em uma tentativa de autocontrole
forçada cada vez que seu olhar recaía no rosto corado da mais nova.
Enfim, resolveu não perpetuar a provocação, e com a ajuda dos dedos para abri-la, afastando os
grandes lábios, pôde cair de boca na intimidade pulsante de Hadassa.
A garota soluçou em surpresa e agrado, ao que ele a abocanhava inteira, antes de distribuir chupões
concentrados no clitóris e lambidas generalizadas em busca de saborear melhor o suco que garantia
sua lubrificação.
Ela mal conseguia olhar para baixo sem gritar. Nunca nada que tivesse sentido se comparava àquela
sensação única de ter a língua e os lábios de Harry a acariciando daquela forma. E ele o fazia como
se estivesse faminto, louco para devorá-la inteira, sem vontade sequer de parar para respirar. Ela
achava que devia se sentir envergonhada, que devia querer que ele parasse ou que devia estar
achando ruim, mas tudo que seu corpo berrava era para que a cabeça se calasse e prestasse
atenção no argumento que se colocava que a boca do garoto devia ser considerada uma das sete
maravilhas.
Não haveria historiador que discordasse, em seu lugar.
Pousando a língua em cima do ponto mais sensível da menina, Harry passou a fazê-la vibrar,
enviando ondas de prazer por todo o seu corpo e tornando os gemidos altos e apelativos. Ela
rosnava pedidos interrompidos pelo nome dele e sílabas aleatórias, até apostar nas vogais
ininterruptas, e cada novo som que saia de sua boca estimulava mais as ações dele, e, também, o
tamanho de sua ereção já gigantesca que lhe rasgava a boxer colada do banho.
- Hadassa... - Ele murmurou ainda contra sua intimidade. - Eu posso continuar e te levar ao paraíso
assim em dois minutos... - Ele se interrompeu, precisando dar mais uma lambida entusiasmada no
líquido que brilhava as paredes interiores da garota. - Ou eu posso transar com você e te mostrar
que isso também pode ser muito bom. - Sugeriu, alisando as coxas dela, incapaz de manter as mãos
longe por muito tempo.
- Eu... Acho que não pode ficar melhor... Mas gostaria de sentir seu corpo contra o meu. - Ela
balbuciou não mais envergonhada com tantas mini explosões ocupando seu pensamento.
Acenando uma vez positivamente, ele içou o próprio corpo pra cima, cobrindo o dela com seu peso e
calor. A boca instintivamente procurou a da menor, animada por dividir o gosto único que dominava
suas papilas gustativas, e foi recebida com igual vontade, como se houvesse grande saudade para se
matar.
Se beijaram longamente, os sexos procurando um ao outro como lembrete de que aquele momento
não poderia ser adiado. Em meio ao roçar delicioso do tecido da boxer contra a feminilidade sensível
de Hadassa,Harry alcançou no criado mudo a cartela de camisinhas que na certa estaria ali, e rasgou
uma com pressa. Tentou ser rápido ao baixar a roupa de baixo e se vestir com o plástico
escorregadio, mas não foi o suficiente para que ela deixasse de notar seu tamanho, o que provocou
um arregalar de olhos que o deixou singelamente orgulhoso.
Uma vez que a ponta da camisinha havia sido espremida e ela estava já desenrolada em seu
mastro, Harry se abaixou novamente para unir seus corpos e dar um beijo e um ligeiro chupão no
peito da garota, antes de unir seus lábios e sussurrar abafado para que ela relaxasse.
Ainda passeou a cabeça do pau de um lado a outro da intimidade de Hadassa, afim de molhar ainda
mais a ereção e de provocá-la, para então posicionar-se na entrada e aos poucos forçar seu caminho
para dentro. Afundou centímetro por centímetro na carne apertada, tirando o fôlego de ambos a
cada novo espaço conquistado. Chegou ao fim, completamente enterrado dentro dela, e parou ali,
sentindo o calor e a conexão de sua junção íntima, dando tempo para que ela se acostumasse com
as coisas feitas com calma.
Unindo as testas e os olhares, começaram a se mover, primeiro devagar e gostoso e depois
deliciosamente rápido, onde cada extensão sensível era devidamente estimulada, dando a ambos a
vontade de ficar para sempre naquele vai e vem.
Harry já havia transado com dezenas de garotas, de todos os tipos, personalidades, e cores de
cabelo. Algumas mais experientes e saidinhas, outras mais quietas e tímidas, mas nenhuma,
absolutamente nenhuma, se comparava à Hadassa. Não era que ela sabia fazer o que outras não
sabiam, não era que fosse mais gostosa ou bonita. Era o fato de ela o conhecer como ninguém. Era
o fato de se preocupar com seus problemas de família e saber quando precisava de um abraço. Era
a inocência e a entrega de ter colocado a vida nas suas mãos, e de acatar tudo que lhe dissesse. Era
a intimidade, a incrível e arrebatadora intimidade, que os unia e fazia todo o contato ser tão mais
intenso e poderoso do que normalmente era. Estar dentro dela já era o paraíso. Porque estava mais
dentro dela do que já esteve em qualquer mulher, mesmo as que se diziam apaixonadas. Porque
sabia que o significado de tudo aquilo era tão maior do que só sexo, e porque a sensação ia muito
além de uma mera aula.
Segurou-a pela cintura e investiu com necessidade, aproximando-se do clímax. Hadassa estava
muito perto de amolecer e lacrimejar por todos os lados em um orgasmo arrebatador de alívio, e ele
não suportava a ideia de não segui-la de perto. Ela aprendia rápido, rebolando o quadril e apostando
na fricção e contato dos seus corpos, e aquilo o enlouquecia em todos os sentidos. As mãos dela,
então, não se preocupavam em excitá-lo ainda mais, como outras fariam, apenas se agarravam a
tudo que tivessem ao alcance em novas ondas de prazer, e distribuíam carinhos adoráveis com único
intento de afago pelos cabelos já praticamente secos. E todo aquele cuidado e afeto eram apenas
um afrodisíaco a mais dentre todos os outros.
Um gemido falho e o desfazer do nó em seu ventre, indicaram que Hadassa havia chego lá. Ela
parou de sentir o suor escorrer e a respiração de Harry na sua, e passou a ser só estremecimento e
calor. Sua visão nublou e os ouvidos tamparam, era só prazer, prazer, prazer e prazer.
Os músculos internos apertaram-se sem controle contra o membro do garoto, que, já muito
estimulado pela passagem apertada, acabou derramando-se enfim. Todos os músculos descansaram
involuntariamente e a consciência se perdeu por alguns instantes.
Para não esmagá-la, Harry rolou para o lado na grande cama, e ficaram os dois encarando o teto
colorido de luzes e espelhos sem realmente ver nada, indagando-se, embora ainda fosse cedo, da
única dúvida existencial que parecia ter forças para se manifestar em um momento sublime como
aquele:
Aquilo poderia se repetir?
E, se sim, quando?, Hadassa perguntou-se. Seria "agora" precipitado demais?

Quindici

Hadassa havia acabado de chegar em casa, depois de uma noite animada que a deixou leve e...
Feliz. Ela não sabia realmente explicar o porquê, mas algo havia mudado em si, como se uma das
suas várias barreiras tivesse sido quebrada e com ela tivesse levado um peso desnecessário e
incômodo que ela não fazia ideia que carregava consigo até tê-lo perdido.
Harry estava excessivamente quieto no carro a caminho da casa amarela, mas ela não estranhou,
muito imersa nos próprios pensamentos e lembranças para se incomodar com a falta de assunto. Era
normal, não era? Depois de tanta intimidade trocada, era no mínimo natural que o silêncio
confortável tivesse espaço para se manifestar entre eles.
Ela pisou com cuidado o caminho para o seu quarto, ciente de que sua mãe estaria muito
provavelmente em casa, visto que era sábado de manhã, e não queria ter que lidar com seu mal
humor constante naquele ponto alto do seu dia. Abriu a porta do quarto com os olhos apertados,
lamentando o ranger inevitável das dobradiças, apenas para se deparar com a luz acesa e sua
progenitora sentada na ponta da cama com cara de poucos amigos. Ela ainda tentou abrir um
sorriso amarelo, para amenizar um pouco que fosse o motivo daquela visita desagradável.
- Hadassa... Você acha que eu sou idiota? - Começou, a voz morna e baixa, contradizendo o rosto
rígido e repleto de marcas de expressão severas.
- Eu... Não, mãe. Só não queria te acordar. – Rebateu, temerosa, metaforicamente pisando sobre
cacos de vidro.
- Acordar? Eu não estou falando da ceninha patética de você andando nas pontas dos pés como uma
fugitiva. Estou falando da mensagem de voz que você deixou no telefone dizendo que iria dormir na
casa de uma "amiga". – Simbolizou as aspas com as mãos para enfatizar a descrença da palavra.
- Mas e... Qual o problema? – Perguntou, ainda confusa sobre o teor do questionamento regado a
ironia. No entanto, indagar qualquer coisa, ela logo percebeu, era pior. Sua mãe se levantou com os
olhos em frestas, e inspirou todo o ar do cômodo para, enfim, abandonar a compostura de vez e
elevar o tom de voz.
- O problema, sua vadiazinha, é que a tal amiga tem um pênis entre as pernas! – Disse com o dedo
em riste apontando para todos os lados. - Já passei por isso antes com o seu pai, garota, e não vou
aturar suas mentiras enquanto você farreia por aí, dando para qualquer um que se dê ao trabalho de
olhar duas vezes para essa cara sofrida!
Longos minutos se seguiram, com Hadassa tentando arduamente segurar o choro incontrolável e a
mãe proferindo todo tipo de ofensa baseadas em uma única suposição e na desconfiança que
carregava consigo há muitos anos.
A garota se trancou no quarto arrasada depois que a progenitora saiu batendo a porta, se encolheu
como um feto na cama e se desmanchou em lágrimas doídas de injustiça. O braço latejava onde a
mais velha a segurou com força, sacudindo e rosnando todas as variações da palavra "puta" em que
pudesse pensar. Detestava quando a mãe resolvia despejar os problemas nela, mas, mais do que
isso, odiava ter que passar por aquilo sozinha.
Sozinha.
Se ao menos o pai estivesse ali...
Ou Harry.
Harry a abraçaria apertado, beijaria seus cabelos e sussurraria palavras reconfortantes que a fariam
levantar-se confiante para lidar com aquela briga da maneira que gostaria.
Alcançou o celular abandonado ao fim da cama e discou os números que já sabia de cor. Queria pelo
menos ouvir a voz grossa dele a chamando de "anjo" e lhe pedindo calma, da forma com que já
estava ridiculamente acostumada e, arriscaria dizer, dependente.
Mas... A mensagem automática lhe informava que isso não seria possível. O celular do garoto estava
desligado.

E permaneceu desligado pelo restante do final de semana, apesar das ligações insistentes dela e das
mensagens perguntando se havia algo errado.
Incomunicável, e sem precedentes de ser culpa do aparelho ou da operadora, visto que o facebook e
o twitter pareciam formas igualmente ineficazes para alcançar o moreno.
A preocupação a fez roer toda a cutícula, caçar excessivamente as pontas duplas agora inexistentes
do cabelo, e cometer um ou outro acidente ao perambular nervosa pelo quarto, batendo-se nos
móveis até colecionar meia porção de pequenos roxos claros pelo corpo.
Não queria pensar. Não iria pensar. E ainda assim, precisava deixar o racional falar mais alto do que
suas emoções, que espaçavam-se por todos os cantos, fazendo com que tivesse vontade de chorar,
gritar e rir compulsivamente. De preferência, ao mesmo tempo.
Por fim, quase onze horas da noite do domingo, ele respondeu dizendo que precisavam conversar na
manhã seguinte.

Milhões de teorias inundavam a cabeça de Hadassa desde então. Ela tentava se convencer de que
algo havia acontecido com ele, com a mãe ou o padrasto, até mesmo com o pai desaparecido ou o
babão do Whisky, por pior que aquilo pudesse soar. Um acidente, uma emergência médica, brigas
ou reconciliações, viagens inesperadas, visitas desagradáveis, qualquer coisa.
Ainda era melhor do que a alternativa: o problema era ela.
O silêncio excessivo do garoto no carro, levando-a para casa depois de uma das melhores noites da
sua vida, agora ficava perpassando seus pensamentos, rindo na cara da sua confiança.
Era ela, não era?
"Ele odiou. Percebeu que não vale a pena perder o tempo comigo. Percebeu que não tem como
ajudar um ser tão sem jeito.", pensou. “Eu não devia estar surpresa. Quem em sã consciência ia
querer algo comigo depois disso? Eu devo ter sido um lixo, devo ser o pior ser humano do mundo na
cama, feia, pequena demais, sem graça demais. Como ele sequer me aturou nesse tempo todo? Ele
devia receber uma medalha por isso.”
Era sempre assim. Não importava o quanto mudasse por fora, o quanto suas atitudes fossem
moldadas, era só dar espaço e sua insegurança entrava a toda, cuspindo na cara do amor próprio.
Seu pilar de sustentação era Harry, e sem ele o processo era ainda mais rápido. Cada fisgada em
seu natural jeito de ser era confortável demais, e ela logo engatinhava para o buraco negro de sua
timidez e se enchia de desesperança.
E ela estava cansada daquilo, como tudo em sua vida, definir quem ela deveria ser.
Parou em frente ao espelho do quarto e olhou a imagem refletida por longos segundos. Cada
milímetro de pele exposta, cada mínima curva sinuosa, os poros arrepiados com o vento que entrada
da janela.
Uma mexa de cabelo caiu na frente do rosto, e ela a capturou, colocando detrás da orelha
novamente. Quantas vezes Harry não tinha feito exatamente aquilo para poder olhar com
propriedade para o seu rosto? Quantas vezes ele não tinha lhe dito que era bonita, sorrido para ela e
feito sua alma se aquecer? Quantas vezes reclamou da quantidade de vezes que já tinha feito aquele
elogio sem que ela acreditasse? Sinceridade. Se tinha algo em que ela apostaria nessa vida era na
honestidade contida atrás daquelas palavras, por mais teimosa que sua mente fosse de deixa-las
entrar.
Lembrava-se das mãos grandes dele percorrendo seu corpo carinhosamente, e agarrava-se ao
desejo que lembrava ter visto brilhar nos olhos claros. Todos os beijos correspondidos com
entusiasmo, e os grunhidos de prazer aliviados quando sua pele encostava a dela. O menor toque
simplório na mão ou no ombro do garoto, parecia fazer um bem tão imenso para ele, que era irreal
imaginar que ele pudesse querer se livrar daquilo.
Abraçou a própria cintura, tentando colocar na cabeça que estava tudo bem. Tentando se amar, já
que outra pessoa não o faria naquele momento.
Respirando fundo, preparou um suco de maracujá com muito açúcar. Teria que se manter calma até
realmente descobrir o que estava acontecendo.
Aí sim se daria ao luxo de surtar.

A manhã estava contraditoriamente ensolarada. Hadassa arrastava os pés em direção ao ponto de


encontro de sempre dela com o mentor, no cantinho ao lado do armário de número 100. Ao mesmo
tempo que queria descobrir de uma vez o teor da conversa, temia que saber fosse pior do que a
ansiedade que sentia.
Chegou não mais que dois minutos atrasada, mas ele já estava lá. A mão direita massageava com
entusiasmo o próprio pescoço dobrando-se sobre o braço forte e marcado de veias de preocupação.
Ela imediatamente ficou alerta, praticamente prevendo a seriedade daquela conversa, e como
consequência quase tropeçou nos próprios sapatos.
- Harry...? – Engasgou, recuperando o equilíbrio e parando a sua frente.
- Ah, você chegou. - Comentou, distraído e tão imerso em seus próprios pensamentos quanto
possível. O coração da garota doeu por qualquer motivo profundo que ela não soube explicar.
- É. - Respondeu baixinho, olhando para baixo. Os pés nunca pareceram tão interessantes, mesmo
que já estivesse cansada das sapatilhas vermelhas – compradas por ele, inclusive.
Com dois dedos, Harry tocou seu queixo até que a face delicada da menina novamente o encarasse.
Balançou a cabeça com pesar, sabendo que se ela estava se fechando como fazia no início de tudo
aquilo, era culpa dele. Respirando fundo, decidiu por puxá-la para a mesma sala vazia em que
conversaram pela primeira vez. A familiaridade não era tão confortante. Aquele era o mesmo lugar
em que ele havia lhe dito “não” para o pedido que desencadeou mudanças tão significativas na vida
de ambos.
- Eu vou direto ao ponto, Hadassa. - Estralou os dedos, preparando-se, e o som ricocheteou pelas
paredes do ambiente mal iluminado, deixando ambos mais atentos. - Eu errei muito com você. –
Decretou como quem tira um band-aid. - Passei dos limites. Usei sua inocência para os meus
próprios motivos egoístas. – Os olhos estavam apertados como se a dor do curativo ainda não
tivesse se esvaído. E fosse demorar para passar.
- O que você está dizendo...? – Perguntou, confusa, mentalmente e emocionalmente cansada
demais para tentar adivinhar o teor das palavras do mais velho.
- Estou dizendo que eu não devia ter feito aquilo. – Disse, rápido demais e com a face cada vez mais
contraída. - Estou dizendo que... Merda... Que acredito que as aulas devem parar.
- Parar? - Esganiçou, tão desentendida quanto possível.
- Sim. – Acenou, para enfatizar a decisão que, ele acreditada, estava tomada sem chance de
questionamentos. - Eu te manipulei, te persuadi a aceitar transar comigo, e te fiz acreditar que era
uma escolha sua. Eu fui um imbecil! – Exaltou-se jogando as mãos para os altos. - Peguei uma
garota tão inocente e me aproveitei como se fosse qualquer uma. Como se fosse um brinquedo que
eu tinha na palma da mão para fazer o que bem entendesse. E você, definitivamente, não merece
isso. Não merece que mais alguém se aproveite da sua bondade. - Por uma fresta iluminada na
cortina que cobria a janela da sala, ela agora podia notar as olheiras pesadas e os lábios secos do
garoto. Ele parecia doente, perturbado, decepcionado. E, agora ela entendia, era consigo mesmo.
- Harry, você está enganado. Olha o quanto eu já melhorei! – Sinalizou a si mesma, sob o olhar
descrente dele. - Eu não sinto mais dor nas costas porque não ando mais curvada; minhas roupas
agora são tão bonitas que sinto como se tivesse assaltado o guarda-roupa de uma modelo, e meu
cabelo - eu quase não o odeio mais! E quando você me olha durante as aulas... É quase como se eu
fosse uma Maddison da vida, querida, desejada, e normal, com amigos... Pode não ter sido o
objetivo inicial disso tudo e eu posso estar falando besteira, que vai só te afastar mais, mas... Eu
não me sinto mais sozinha. Você não faz ideia de como isso muda as coisas para mim! Eu me sinto
outra pessoa, uma que eu gosto de ser, uma que eu admiro e tenho orgulho, que não vê motivos
para se esconder e que luta contra qualquer pensamento que a coloque para baixo! – Ofegou em
meio ao discurso apaixonado, parando de gesticular tão depressa. - Isso tudo é mérito seu. Por
favor, não abandone o barco agora. – Pediu, a voz ainda trêmula.
- Anjo, não. - Apesar da negativa, o apelido aqueceu o interior da menor como um cobertor quente
em meio de inverno. - Você conseguiria essas coisas sozinha, é linda e forte por conta própria. Tudo
que eu fiz foi me aproveitar de você. – Harry tinha a cabeça baixa sem querer encarar tudo de que
achava precisar abrir mão.
- Você transou comigo porque sexo é um elemento muito importante de qualquer relacionamento e
não adiantava nada eu aprender a estar em um e ele acabar porque eu sou péssima na cama. – Ela
entoou, sabendo que aquele era o cerne da loucura.
- Isso foi o que EU disse para você, para justificar meus atos. Não significa que seja verdade! Tá
cheio de cara por aí que é homem de verdade e sabe lidar com ficar sem sexo quando a garota vale
a pena, o que obviamente é o seu caso. – Apontou para ela, enfim subindo o olhar para o rosto claro
que parecia quase tão pálido quanto o seu próprio.
- Mesmo assim. Eu tinha medo, Harry! Tinha um bloqueio horrível quando se tratava de algo que é
bom, e muito! Você me ajudou a superar essa barreira independente do que nos levou a isso. E eu
não me arrependo disso nem um segundo. - Ela via que as coisas que dizia não estavam exatamente
convencendo o garoto, que permanecia com a aparência sofrida. Ele se sentia um canalha, alguém
que não queria ser, e isso estava acabando consigo. - Olha, eu sei que você acha que eu sou super
inocente e que não questiono nada do que você faz, mas eu não sou tão idiota assim e sei cuidar de
mim. Cuidei de mim todo esse tempo sozinha, mesmo que precariamente. Então, se eu tô te falando
que tá tudo bem, que eu gostei e que quero continuar com as aulas, você deve acreditar em mim. –
Hadassa havia colocado todas as suas fichas naquela cartada final, e implorava aos céus para essa
ser suficiente.
Um sorriso de canto iluminou brevemente o rosto do mais velho, que se sentia orgulhoso de ouvi-la
falando daquela maneira. A pequena Hadassa rugia em face de perder o que vinha animando sua
vida dia após dia nas últimas semanas, e lutaria contra a sua decisão com unhas e dentes, se assim
fosse preciso. E tudo aquilo apenas para mantê-lo em sua vida... Ele respirou profundamente,
tentando achar formas de voltar a argumentar, mas um breve olhar ao relógio o fez ver que não
seria possível.
- Eu tenho aula agora e você também. A gente continua essa conversa no fim do período. Tudo
bem?

O último sinal bateu e Harry colocou pé ante pé rumo ao portão de entrada do colégio, onde a
encontraria. Pessoas lhe davam tapas fracos nas costas em cumprimento, mas ele não se obrigava a
virar para acenar de volta; estava se dando um dia de folga. A conversa que teve via Whatsapp com
Breno pouco antes de levar Hadassa em casa depois da noite luxuosa no motel não saia de sua
cabeça. O garoto tinha lhe chamado para uma festa - nada de excepcional até aí. Porém, quando ele
negou o convite e, tranquilo como estava enquanto esperava a menor terminar de se recompor para
poderem ir, acabou dizendo que estava sem pique e que teria que levar Hadassa para casa, o amigo
somou dois mais dois e logo o parabenizou por conseguir "entrar nas calças da nerd".
Harry não pensou duas vezes antes de defendê-la, mas não foi rápido o suficiente, e então a frase
"Sabia que tinha que ser isso que você queria com ela desde o começo. Boa jogada, cara!" apareceu
em um balão branco na tela do seu celular.
A partir daí, tudo desandou. Uma coisa horrível aconteceu: Ele começou a pensar.
Pensar em tudo que tinha passado com Hadassa e duvidar da reciprocidade dela nas aulas, duvidar
que ela realmente quisesse aquilo e duvidar que ele fosse um bom professor. Uma boa pessoa.
Passou o final de semana recluso sem atender as ligações da menina, e por mais que fizesse força
não conseguia lembrar de um momento em que tivesse de fato pensado o pior, que tivesse
planejado uma aula pensando em si mesmo e não nela aprendendo o máximo possível, ou que
tivesse seguido qualquer plano sem os devidos sinais de reciprocidade dela.
Mas sua mente não descansou. Só porque não se lembrava não queria dizer que não tivesse
acontecido, certo? Talvez até mesmo em um nível subconsciente...
E por estar tão acostumado em confiar em si mesmo e orgulhar-se de ser alguém íntegro, aquilo
pareceu mexer com seus neurônios de uma maneira surreal. Achou por bem, então, cortar o "mal"
pela raiz, conversar com ela e parar com as aulas.
Mas... O jeito meigo da menina defendendo com unhas e dentes ele de si mesmo, novamente, o
confundiu. Ela não poderia ter tantos argumentos para cima dele se não estivesse gostando das
aulas, se não estivesse satisfeita com ele. Por melhor que pudesse ser seu poder de persuasão.
Chegando ao estacionamento, varreu o local com os olhos a procura da figura miúda e delicada que
deveria estar esperando-o. A encontrou caminhando em direção ao seu carro, quando observou
outro ser alto e loiro interceptá-la no caminho.
Sam a segurou pelos ombros com um sorriso certeiro, e disparou a falar sobre qualquer coisa
que Harry não podia ouvir entusiasmadamente. Hadassa acompanhava na medida do possível, com
curtas interjeições quando tinha espaço, um tom rosado acentuando as bochechas erguidas em um
riso contido.
O suposto melhor amigo ergueu uma das mãos para colocar uma mecha de cabelo dela caída atrás
da orelha e Hadassa acabou por soltar, sem querer, a pasta que segurava depois do gesto, a qual foi
rapidamente recuperada por um Sam estranhamente solícito.
Claro que ele estava atraído por ela. Suas qualidades estavam à mostra, sua postura lapidada, a
atitude menos afobada... E ela continuava tão doce, tão carinhosa quanto sempre.
Quem não estaria?
Harry sentia algo ardendo em seu interior. Como um monstro verde e feio que comia suas entranhas
e obrigava suas mãos a se cerrarem em punhos. Dessa vez, no entanto, não era mero ódio, já que o
loiro abusado não a tinha trocado ou magoado, não era seu instinto protetor.
Era posse. A noção de que ela o pertencia - já que ele a fez desabrochar daquela maneira - e
qualquer coisa que perturbasse esse cenário o incomodava. Era ciúmes. Puro, simples, flamejante.
Vê-la conversando com Sam tinha despertado um sentimento que ele não estava acostumado a
sentir. De fato, não tinha recordações de qualquer tipo de relacionamento que já tivesse causado
aquela reação nele.
Parecia que não era só Hadassa que tinha primeiras vezes por ali.
Sem perceber, seus pés se moveram sozinhos e logo ele tinha uma mão rodeando a cintura da
menina que o encarava confusa.
- Vamos embora, linda? - Perguntou logo cravando os olhos em quem o ameaçava, e puxando-a
consigo pelo caminho de asfalto liso até o carro imponente. A resposta nunca veio, mas não era
necessária para nenhum dos dois. Havia mais com o que se preocupar.
- Hm... Isso quer dizer que você reconsiderou? - Ela indagou, tentando desfazer a nuvem de
perguntas que embaçavam sua mente. Harry não precisou pensar muito. Ela queria aquilo, havia
deixado claro, e ele não poderia mais se dar ao luxo de ouvir aos outros quando estava na corda
bamba para perder seu anjo a qualquer momento para o cara mais retardado da face da Terra. Se
as aulas acabassem afastando-a dele no fim quando ela decidisse usar os conhecimentos no tal do
loiro, ele teria que se conformar. Mas por burrada de mérito exclusivo dele isso não aconteceria. No
mínimo, aproveitaria mais um pouco a companhia exclusiva da garota, e, com alguma sorte, as aulas
a deixariam tão perfeita, que até ela notaria ser boa demais para o jogador de basquete.
- Sim, meu anjo. Vamos voltar com as aulas, se é o que você quer.
- Eu quero! - Acenou freneticamente com a cabeça, provando seu ponto.
- Então tudo bem. Desculpe a confusão, Hadassa. Eu perdi a cabeça por um minuto e quase
estraguei tudo.
- Não se preocupe com isso, Harry. É o cara mais incrível que eu conheço, se fosse sempre centrado
eu começaria a duvidar da sua existência. - Com um sorriso admirado no rosto, ele a abraçou de
lado, apoiando a cabeça nos cabelos sedosos dela e inalando o odor de jasmim que dali emanava.
- Você nunca vai parar de me surpreender com tanta meiguice, linda. Me prometa que se houver
uma próxima vez que eu tente te afastar você vai me lembrar desse exato momento?
- Eu prometo, professor.
- Ótimo. Agora vamos, menina. O babão do seu professor tá doido de saudades para passar uma
tarde tranquila com seu anjo.
- E o Whisky. - Ela lembrou.
- Ah, sim. E aquele outro babão também.

Sedici

A caminho para a casa de Harry, o garoto não parava de listar todas as coisas que faria por Hadassa
quando eles chegassem, a fazendo ter crises de risos espontâneos uma atrás da outra. Ele brincava
que andaria atrás dela com a bolinha de Whisky na boca como um perfeito cachorro, que cozinharia
todas as comidas preferidas dela por dias, que assistiria todos os filmes mela-cueca que ela tivesse
vontade, tudo para agradá-la e compensar a súbita crise de consciência que os afastou por não mais
que alguns dias.
A verdade é que ele se sentia culpado. Toda a conexão com a garota, a intimidade trocada, os
segredos relevados... Ele não podia estragar esse relacionamento por nada no mundo. Nunca tinha
se apegado tanto a alguém como tinha acontecido com a menina, e só de pensar que qualquer ação
impensada sua poderia afastá-la dele de volta para os braços do amiguinho babaca o fazia perder a
cabeça.
Ele queria ser tão bom para ela que a busca pela perfeição acabou mexendo com a sua cabeça e
nublando suas memórias, deixando os comentários ácidos de Breno fazerem algum sentido e
trazendo à tona toda uma culpa infundada.
Ele não a estava manipulando. Nunca fora do seu feitio fazer isso, e não seria essa a primeira vez
que enganaria uma mulher para levá-la para a cama. Ainda mais alguém tão doce como Hadassa:
Ele nunca encontraria a cara de pau no seu ser para fazer qualquer maldade com aquele anjo que
entrou na sua vida.
O que significava que todas as bobagens que cozinhou na cabeça durante o final de semana foram
nada mais do que uma momentânea crise de identidade já irremediavelmente superada. Harry havia
colocado uma pedra naquele assunto, que considerava agora irrelevante, incabível, superado e
enterrado.
Entraram na simpática casa de madeira e o garoto foi logo soltar o grande cachorro que correu para
trançar as pernas de Hadassa, mostrando saudades. Ela riu e apertou as bochechas do animal, que
pareceu fazer uma careta conformada e lhe lambeu os dedos finos.
Sentaram-se no sofá, Harry com a cabeça no colo de Hadassa que acariciava seus cabelos rebeldes,
e Whisky aos pés da menina, rapidamente engatando um sono profundo. Os garotos daquela casa
pareciam gostar dela um bocado, e a cercavam como se fosse fugir a qualquer instante.
- Me conta, linda. Você sentiu alguma dor no final de semana? - Ele perguntou, preocupado com o
bem estar dela após os momentos maravilhosos que tiveram no motel luxuoso, embora soubesse
que ela não era mais virgem. Sabia que a dor do rompimento do hímen era a pior, mas que haviam
certos incômodos que poderiam dar as caras nas relações que se seguissem a primeira, dependendo
do quão apertada a garota fosse e da intensidade das próximas transas.
- Não, Harry. Foi até uma surpresa ótima... Eu achava que não fosse conseguir sentar no dia
seguinte, já que... Bom... Você é grande e tudo mais. - Hadassa respondeu, adquirindo certa
vermelhidão no rosto envergonhado. E ficar tímida de fazer tal elogio não significava retrocesso na
sua autoconfiança. Pelo contrário: há algumas semanas ela apenas responderia que não e se calaria.
Ao menos agora gaguejava e corava, mas dizia tudo o que queria dizer.
Harry inflou o peito e sorriu largo com o comentário da menor. Sentiu-se orgulhoso por diversos
motivos: Por ela ter reconhecido seu tamanho pura e simplesmente, por muito provavelmente ser
comparativamente maior do que o loiro infeliz, e por ouvi-la dizer algo tão descarado, impensável no
começo de tudo aquilo.
- Isso é ótimo, meu anjo. E obrigado. - Ela retribuiu seu sorriso já da cor normal, e ele preparou-se
para fechar brevemente os olhos e aproveitar a delicadeza do carinho que recebia na cabeça quando
deparou-se com uma grande mancha arroxeada no braço dela. - Hadassa, isso fui eu quem fiz? - Ele
perguntou alarmado enquanto impulsionava para se sentar direito ao lado dela e indicava com a
cabeça o hematoma.
- Ah... Não. Não, Harry, claro que não foi você. - Ela negou enfaticamente, instintivamente cobrindo
o machucado com a mão, como se o fato de não poderem vê-lo fosse dispensar novas perguntas a
respeito.
- Bem, então quem foi? - Ele perguntou preocupado, a testa severamente franzida. Podia ver que ela
relutava a dizer e aquilo só o deixava mais inquieto.
- Foi a minha mãe... A gente acabou brigando quando eu cheguei em casa sábado de manhã. Mas
olha... Nem dói, não há nada a se preocupar.
- Meu amor... – Entoou, morno de carinho e afeto. - Não me importa que não doa agora, na hora
deve ter doído! Porque você não... - Ele se interrompeu. Sabia muito bem porque Hadassa não havia
lhe contado nada e era culpa dele. Estava tão imerso duvidando de si mesmo que não pensou que
todas as ligações da menina poderiam significar mais do que simplesmente querer conversar com
ele. Ela brigou com a mãe, ganhou um roxo feio no braço... E ele não estava ao seu lado para
ampará-la. Deixou-a sozinha para lidar com os seus problemas, sozinha como sempre havia estado.
Uma grande onda de auto aversão tomou conta dele. -Hadassa, eu... Me desculpe. Eu devia ter
estado com você. - Sussurrou sentido, segurando as mãos dela nas suas. - Me conta, linda, qual foi
o motivo da briga?
Ela relatou o que aconteceu tentando poupar todos os detalhes mais insignificantes como como se
sentiu e o quanto chorou. E mesmo assim, não conseguiu conter as lágrimas quando o garoto a
abraçou apertado e ela pôde sentir-se amparada dentro dos braços quentes do mentor novamente.
Era a primeira vez que realmente sentia que alguém se importava com o que acontecia com ela, e
apenas a constatação daquele fato fez com que a intensidade do choro aumentasse. Então lembrou-
se também de toda a tensão que havia dividido espaço com a tristeza dentro de si durante o final de
semana, quando ele não a respondia, e passou a soluçar de encontro ao pescoço cheiroso do mais
velho.
Harry sabia que o choro doído de Hadassa englobava mais do que apenas a briga horrível com a
mãe, e a apertava contra seu peito como se pudesse protegê-la de todo o mal do mundo - inclusive
dele próprio. Sussurrava pedidos de desculpa de dez em dez segundos, intercalando com palavras
suaves sobre ela ser forte, corajosa e sobre tudo ficar bem no final.
Aos poucos, Hadassa foi se acalmando e sentindo-se muito melhor por ter colocado para fora todo o
sofrimento que havia engolido. Sorriu fechado para Harry, enquanto ele secava seu rosto cheio de
rastros de lágrimas com cuidado.
- Eu já devia estar acostumada com os pitis dela, mas nunca deixa de machucar quando ela projeta
em mim seus problemas e me xinga de todas as variações de "vagabunda" que você possa imaginar.
- Disse, dando de ombros.
- Ela é sua mãe, eu imagino que seja dolorido mesmo. – Ponderou o garoto. O silêncio confortável
recaiu no cômodo, em meio a trocas de olhares solidários, da parte dele, e agradecidos da parte
dela. Harry refletia sobre a dinâmica familiar complicada da menina, e pareceu lembrar-se de um
pensamento especialmente insistente que havia ficado em sua mente desde a primeira vez que
conversaram sobre o assunto. Arriscando, resolveu colocá-lo em palavras. - Hadassa... Você ainda
fala com o seu pai?
- Ah, não. – Negou, fungando o fim de choro. - Depois que ele saiu de casa para ir morar com a
nova namorada minha mãe disse que ele não teria mais paciência para mim. E, como eu não ouvi
dele nos últimos dois anos, acho que ela estava certa. – Deu de ombros, dolorosamente conformada
com o abandono do pai. Mas, para Harry, aquela história parecia errada. Claramente a mãe
de Hadassa tinha problemas com o ex, mas nada na história que ela havia lhe contado indicava que
pudesse ressentir a filha por qualquer motivo. Muito pelo contrário; apesar de pequena na
época, Hadassa tinha sido a única pessoa que de fato ficara ao lado dele quando incitava tomar
alguma atitude sobre a miserabilidade em que se encontrava dentro do casamento. E, justamente
por ser tão nova ainda, não tomaria atitudes bruscas para afastá-lo depois de sair de casa, pois
ainda precisava do progenitor em sua vida, e o pai dela deveria saber disso, assim como ele
sabia. Harry não sabia se estava sendo paranoico apenas, ou esperançoso demais, mas havia uma
grande falha de nexo causal naquela narrativa e ele estava determinado a encontrar a fonte.
- Você já tentou ligar para ele? – Perguntou, acariciando as mexas compridas do cabelo dela entre
os dedos longos.
- Eu não tenho o número, já que ele nunca me ligou. Só sei onde ele mora porque ouvi minha mãe
falando com alguma empresa que as cobranças deveriam ir para um endereço diferente. – A fala da
menor era carregada de ressentimento, mas nem por isso menos verdadeira.
- Já tentou aparecer por lá? – Continuou, ainda mais desconfiado e no limbo entre realmente tecer
uma teoria válida e mais suposições.
- Para quê, Harry? Se ele não quer me ver, porque eu vou impor a minha presença? - Ela disse
parecendo levemente irritada de cavar um assunto que lhe trazia mágoa.
- Anjo... – Disse morno, como quem se desculpa antes de jogar uma bomba. - Existe alguma
possibilidade da sua mãe ter interceptado as ligações que seu pai te fazia, ou mesmo alguma carta
ou visita que tenha tido como objetivo te alcançar? - Falou devagar, tentando não alarmá-la demais
com as suas suspeitas.
- Bom, sim, eu nunca atendo o telefone de casa nem a porta quando minha mãe está, as cartas
também não são minha responsabilidade, e eu ganhei o celular só depois que eles já eram
separados... – Ela respondeu mecanicamente, tentando entender qual a lógica por trás do raciocínio
do professor.
- Hadassa, - molhou os lábios, pronto para colocar as cartas coringa na mesa - eu acho que existe
alguma chance da sua mãe ter tentado afastar vocês porque ela estava machucada. - Harry
concluiu, apertando amigavelmente o joelho da menor.
- Mas... Será? Você acha que ele ainda se importa comigo? - Indagou, o rosto lívido e as mãos
nervosas apertando umas às outras.
- Eu não vejo porque ele não se importaria. Nada do que aconteceu no casamento dele foi culpa
sua, e vocês nunca chegaram a brigar. Não tem qualquer motivo que explique esse sumiço, e
mesmo que tenha, você claramente foi privada da explicação. Talvez devêssemos fazer uma visita
ao seu pai, minha linda.
- Harry... Se isso for verdade, eu não vou acreditar! - Ela deu um breve pulo no sofá, os olhos
brilhando de expectativa. Mesmo sabendo que havia alguma chance de ela se decepcionar, de o pai
estar estabelecido com outra família, filhos, e que tenha basicamente se esquecido dela sim, ele não
quis manter seus pés no chão. Ela merecia um pouco de esperança para variar. - Você iria comigo?
- Eu vou aonde você estiver, anjo. - Garantiu, e logo eles estavam novamente apertados em um
abraço caloroso cheio de carinho e amparo.

- E hoje? Não tem aula? - Ela perguntou depois que o assunto diluiu e eles combinaram de levar a
Operação Pai com calma.
- Não. As lições podem esperar um pouco para que eu curta a minha menina que teve alguns dias
ruins. - Ele sorriu saudoso, fazendo um carinho singelo na nuca de Hadassa.
- Achei que você fazia o tipo ditador que não perde tempo. - Ralhou, mordendo os lábios para não
sorrir.
- Te mimar e passar tempo com você nunca é perda de tempo. - Piscou levantando-se e colocando a
carteira no bolso da calça. - Vamos, vou te pagar um sorvete e depois vamos fazer o que você tiver
vontade.
- Pelo resto da tarde? - Ela perguntou, e recebeu um aceno positivo de resposta. - E eu escolho? -
Novamente, Harry sibilou um "sim". - Você tá ferrado. Vou te enfiar em todos os programas nerds
que me der na telha e você vai fazê-los com um sorriso no rosto. - Ela brincou rindo para o garoto.
- Se você estiver sorrindo, com certeza vai valer a pena. - Ele disse passando um braço ao seu redor
e recebendo um selinho tímido e doce em retorno.

Aquele foi um dia turbulento emocional e fisicamente para a dupla. Harry se ocupou de fazer
realmente todas as vontades da garota, comprou uma mão cheia de livros para ela na maior livraria
da cidade, visitaram o aquário onde ela revelou em um suspiro estar inclinada a cursar biologia ao
invés das opções que considerava anteriormente, e ainda assistiram uma peça de romance clássico
no palco improvisado montado ao ar livre em um parque cheio de árvores floridas. O sorriso rasgava
o rosto de Hadassa, que praticamente pedia em pensamentos pela próxima vez que o professor se
sentisse em dívida com ela para mimá-la daquela maneira novamente.
No dia seguinte só poderiam ir para o seu QG consideravelmente tarde, pois era dia de aulas
vespertinas. O colégio tinha uma política estranha de horários: em uma semana os alunos teriam
período integral de segunda e quarta, e na outra semana seria de terça e quinta.
De qualquer maneira, naquela terça feira teriam que almoçar na escola, e Harry e Hadassa foram
juntos para o refeitório como já lhes era de praxe. Hadassa não sabia dizer se o burburinho a
respeito deles havia parado ou se a recém adquirida confiança a ajudava a ignorar, mas não se
sentia mais desconfortavelmente observada como antes. Mesmo agora que fingiam ser namorados,
que Harry estava sempre com as mãos nela quando andavam, fosse em sua cintura, em seus
ombros ou mesmo segurando as suas. O comportamento não era diferente quando estavam
parados, ele fazia o tipo carinhoso e sempre acariciava seus cabelos, suas costas, seu rosto... Os
beijos também. Variavam de selinhos de cumprimento a puxadas de lábio, e um ocasional encontro
forte entre bocas saudosas.
Novamente, Hadassa não sabia se ele estava engatado no automático, mas, quando estavam
sozinhos, sem ninguém que pudesse ver a ambos, as ações do mais velho não se alteravam em
nada. Ela quase começava a se sentir verdadeiramente a namorada de Harry Styles, e preferia não
pensar nisso demais para não ter um "ataque de esquilo". Era assim que ela chamava quando
garotas se reuniam para falar de um homem bonito e esganiçavam, davam pequenos gritinhos e
giravam no lugar. Nunca teve uma amiga que tivesse o ataque com ela, mas quando o observava
sendo feito de longe era assim que lhe parecia.
Assim que entraram no refeitório, Harry pegou a bandeja de comida com ela, mas assim que eles
estavam estabelecidos na mesa - que não era a favorita de Hadassa, sob a falha de iluminação e
isolada, pois Harry se recusava a sentar ali e escondê-la da vista dos outros - ele pareceu ver alguém
entrar e pediu licença para resolver uma coisa rapidamente.
Ela balbuciou um "tudo bem" contido, odiava ficar sozinha na hora do almoço mais que tudo, mas
sabia que se ele precisava realmente fazer algo era porque era importante. Concentrou-se no seu
creme de milho com o qual ficou brincando ao arrastar os grãos até que compusessem formas
engraçadas, se perguntando se deveria esperá-lo para começar a comer como mandava a
educação.
Então, todos os alunos no refeitório ecoaram um grito mudo em coro, e ela precisou se virar para
saber o motivo de todos estarem impressionados daquela forma. No centro do lugar, uma rodinha
expressiva começava a se formar. Devido a sua estatura baixa, Hadassa não conseguia ver muito
bem o que estava se passando ali no meio, mas considerando o sorriso sádico no rosto dos
jogadores de futebol que espreitavam, deveria ser uma briga.
Por algum motivo, seu coração acelerou e ela passou a buscar com os olhos pelo mentor nos
arredores. Encontrou o olhar de Sam a observando intrigado, mas não podia ligar menos para aquilo
no momento. Harry não estava em nenhum lugar, o que só podia significar que ele estava... No
centro da briga.
Hadassa se levantou correndo, derrubando a cadeira no processo e avançou abaixada por entre os
braços e quadris das pessoas a sua frente, até que pudesse ver o que estava acontecendo ali no
meio da multidão.
Harry segurava Breno pela camiseta de forma que seus pés não tocavam o chão. Por ser maior e
mais forte que o outro, aquela não era exatamente uma tarefa difícil.
- Repete, seu infeliz! Fala mais uma vez assim dela pra você ver se eu penso duas vezes antes de te
quebrar a cara! - Harry rugiu na face do até então amigo, que engoliu em seco e pareceu enfim
assumir uma postura arrependida.
- Cara, calma... - Ele esganiçou sem conseguir respirar direito, gesticulando para que o
soltasse. Harry parecia impassível. As pessoas começaram a entoar o famoso grito de "Briga! Briga!
Briga!" e se movimentar ansiosas, o que acabou empurrando a menina franzina mais para frente. Ela
interpretou aquilo como um sinal, e, cuidadosamente e de maneira temerosa, pousou uma mão no
braço contraído e cheio de veias saltadas de Harry, para que ele olhasse para ela.
A feição inegavelmente irritada do garoto se transformou quando a viu parada ali no meio de tanta
gente, com os olhos transparentes arregalados de preocupação pelo motivo que pudesse ter levado
o professor até àquela situação. Com os traços mais relaxados só de vê-la a sua frente, Harry
pareceu decidir por mudar o curso de suas ações.
- Sabe o que você vai fazer? Vai se desculpar com ela. - Harry ditou, soltando Breno no chão e
puxando a garota para seus braços, segurando-a de frente ao outro pelos ombros. Ele ainda olhou
em volta pesando suas opções e aquela pareceu, de fato, a melhor saída, de forma que falou baixo
encarando os pés um "sinto muito, Hadassa".
Ela não fazia ideia do que estava acontecendo. A multidão pareceu perceber que mais nada
aconteceria de bom por ali e começou a se dispersar. Harry puxou Hadassa pela mão para longe e
voltaram a se sentar na mesa com suas bandejas já quase frias.
- Harry, o que foi isso? Por que você...? E ele...? - Hadassa era só perguntas, e ele precisou respirar
fundo e segurar as mãos dela nas suas para poder explicar.
- Calma, anjo. Aconteceu o seguinte... - Começou devagar, procurando acalmar os nervos dele e
dela. - O Breno me mandou uma mensagem na noite que passamos juntos me chamando para uma
festa... - Ele contou a história e sobre como a frase do amigo tinha sido o gatilho de toda a confusão
que dominou sua cabeça no final de semana. - Eu só ia explicar as coisas para ele, dizer que eu
gostava de você e que não era tudo parte de um plano, para que ele parasse de tirar conclusões
precipitadas... E aí, ele me deu alguns tapas nas costas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa e
me cumprimentou alto na frente do resto dos caras por ter... Transado com você. Mas digamos que
as palavras que ele usou para se referir a isso não foram das mais agradáveis e eu acabei perdendo
a cabeça. - Deu de ombros repuxando os lábios. Queria fazer pouco caso, não alarmá-la, pois o
comportamento agressivo que tinha assumido não lhe era padrão.
- Meu herói. - Hadassa zombou com um sorriso carinhoso nos lábios. Nunca tinha se sentido tão
protegida por alguém e a sensação era... Única. Harry sorriu de volta e se inclinou para depositar um
selinho apertado e gostoso contra a boca da menor. Eles foram enfim comer, sob o olhar atento e
estranhamente incomodado de um certo melhor amigo loiro.

Mais um dia de estudos compenetrados se seguiu. Harry já estava praticamente recuperado em


todas as matérias, e agora arriscava fazer simulados das universidades mais difíceis da região,
embora nesses ainda não obtivesse os resultados desejados. Hadassa aproveitou para se inscrever a
alguns vestibulares como traineira para incentivar mais o garoto e já pegar o "jeito da coisa".
Naquela tarde, o segmento escolhido para estudo era Humanas, longe da preferência de qualquer
um dos dois - Harry gostava mais de Biológicas e Hadassa de Exatas. Foram horas pesadas para
ambos, enquantoHarry via tudo que teria que passar para se tornar advogado como a mãe e o
padrasto queriam, e Hadassa decidia que Jornalismo não era mais uma opção para si.
Decidiram fazer uma pausa após finalizarem a última questão aberta do simulado. Harry levantou-se
para pegar algo para eles beberem, enquanto deixava para Hadassa a incumbência de escolher algo
para assistirem na TV.
Ela revirou as estantes do professor, passeando os olhos e mãos curiosas por todos os títulos em
DVD ou Blue-Ray, perguntando a ele, que ainda estava na cozinha fazendo milk-shakes, vez ou
outra se o exemplar era legal ou não. Mas estava indecisa demais e ainda acreditava encontrar algo
que saltasse os seus olhos o suficiente para que todas as outras opções parassem de ser
consideradas.
Bufando, sentou no chão e abriu a última gaveta do móvel, que tinha uma camiseta velha por cima
dos objetos. Ela riu do que achou ser uma prova do quão bagunceiro o mentor era no fundo, e
puxou o tecido da frente, revelando...
Toda a coleção de filmes pornô de Harry.
Alarmada, quase se desequilibrou para trás. O som de surpresa que a menina emitiu chamou a
atenção do garoto, que vinha se juntar a ela com as bebidas em mãos. Quando viu o motivo do
alarde, Harry deu risada. - Acho que esses não são bem os tipos de filme que você procurava, anjo.
- Ele brincou, só então observando com a atenção os olhos da menor vidrados nos títulos e capas
gráficas demais.
Estaria ela... Curiosa?, perguntou-se.
Mas é claro que sim. Hadassa tinha interesse em tudo que dissesse respeito a sua recentemente
descoberta sexualidade, apesar de fazer questão de disfarçar, ainda que mal e porcamente. Como se
as bochechas coradas e as mãos em fendas em frente aos olhos fossem o bastante para
convencer Harry de que ela não estava absurdamente intrigada.
Ele via por baixo de toda a timidez. Os olhos brilhando, as mordidas nervosas na boca. Tinha certeza
que ela nunca havia visto sequer um vídeo, quanto mais um filme. Ele sorriu olhando para cima.
Aquela garota não podia existir!
- Vamos, pegue um. - Incentivou, indicando com a cabeça a gaveta aberta.
- Mas... - Procurou protestar, logo sendo interrompida pelo professor.
- Mas nada, Hadassa. Anda, eu sei que você está curiosa. - Abanou com as mãos, apressando-a.
- Harry! - Reclamou.
- Não adianta fazer a ultrajada. Posso ver o sorriso arteiro querendo se abrir no canto da sua boca. -
Ele cruzou os braços em tom definitivo, e Hadassa, embora ainda relutante, mordeu o interior da
bochecha decidindo o que fazer. Fechou os olhos com força e passeou a mão por cima dos DVDs
enfim puxando um qualquer da pilha.
- "Pirates II: Stagnetti's Revenge" - Ela leu em voz alta repuxando os lábios em desgosto. - É
sequência, melhor deixar pra lá.
- Não, anjo. Não tem a menor necessidade de ter visto o primeiro, e se foi esse que você sorteou, é
esse que assistiremos. Além disso, a Jesse Jane é muito boa, e o segundo filme tem a Sasha Grey
ainda. - Comentou, alheio à cara de incredulidade com que ela o olhava.
- Você sabe o nome das atrizes? - Esganiçou, a cada minuto mais descrente.
- Mas é claro! - Exclamou, rindo da feição dela. - Me diz uma coisa: quando você assistiu Titanic, o
que achou da atuação do Leonardo Dicaprio? - Perguntou em tom zombeteiro.
- Ué, muito boa. - Deu de ombros meramente.
- Tá, e a partir daquele filme, quando viu que ele estrelava mais algum, não teve vontade de
assistir?
- Bem, sim, mas... - Foi cortada novamente.
- É a mesma coisa nesse caso. O gênero do filme pode mudar, mas a avaliação dos atores e a
escolha de novos títulos é quase igual. - Explicou. Ela ainda parecia desconfiada, mas tinha desistido
dos questionamentos. - Pode colocar no aparelho. Quero muito ver sua reação assistindo. - Harry
bateu as palmas e esfregou, como se antecipasse grandes momentos de diversão.
Ela colocou o CD no compartimento, e levantou-se correndo para se atirar ao lado do garoto. Puxou
uma almofada grande para o colo e se abraçou a ela, escondendo boa parte do rosto pequeno que
tinha os olhos cravados nas chamadas iniciais do filme.
Os primeiros minutos correram bem. Uma historinha boba e efeitos ruins era de fato o máximo que
se podia esperar, mesmo a produção daquele título em específico tendo sido bem pensada. Harry
não sabia se ria da apreensão de Hadassa por qualquer cena erótica que pudesse começar sem
justificativa ou do personagem principal, o capitão Edward, que era tão convencido e caricato quanto
possível.
E então, em um instante, haviam dois homens espremendo uma mulher seminua entre eles.
Hadassa sugou todo o ar até inflar as bochechas que, vermelhas, só a deixavam mais fofa. Harry riu
discreto e continuou observando a cadeia de reações que tomavam o corpo da menor, que se
encolhia e chegou a tapar os olhos de vez quando o primeiro boquete da história tomava forma na
tela.
- Como você vai assistir ao filme assim, menina? Precisa tirar as mãos da frente. - Harry provocou,
recebendo um enfático balançar de cabeça em negação. Ver aquelas cenas tão, tão explícitas com
ele ali do lado soava todos os alarmes da cabeça dela, e faziam seu corpo entrar em combustão. -
Hadassa...! - Chamou, a fala quebrando devido à risada.
Puxou a almofada que a escondia e jogou longe. Ela se encolheu toda com os braços em frente ao
rosto, ameaçando uma risada de nervosismo, e ele a pegou pelo cotovelo e a manuseou até que
estivesse sentada entre suas pernas com os braços firmemente presos para trás.
Harry havia encontrado um jeito de colocá-la em frente à TV e ao mesmo tempo de segurá-la para
que não pudesse fugir das imagens. Estava se divertindo às custas de sua vergonha, e ela também,
embora mais discretamente, com o jeito brincalhão do menino.
Com os braços imobilizados e os gemidos escandalosos de pano de fundo, Hadassa reclamou com
um sorriso:
- Me solta, seu chato! Não quero assistir as suas imundices!
- Se eu bem me lembro, você que escolheu o filme, senhorita hipócrita.
- Mas eu não sabia que eles iam... Uau. - Ela se interrompeu ao olhar de relance para a tela e
assistir o corpo molhado da mulher subir e descer com rapidez no mastro duro de um homem de
corpo escultural. Calou-se imediatamente, engolindo o excesso de saliva e torcendo para a pausa
não ser desconfortável. Pelo contrário, Harry estava adorando que ela estivesse finalmente cedendo
à sua curiosidade e observando os movimentos de corpos delineados transando bonito.
Cansada de lutar contra os braços obviamente mais fortes de Harry, Hadassa se permitiu deitar a
cabeça no peitoral duro dele, relaxando o corpo para enfim assistir ao que tinha se proposto. Ainda
ficava incomodada com tamanha explicitude, e isso a fazia remexer no lugar como se não achasse
posição, mas precisava admitir que era estranhamente gostoso assistir aquilo. Libertador, até.
Harry largou seus braços, percebendo que ela não ia mais fugir, e passou os próprios ao redor da
garota, abraçando-a. Por mais experiente que pudesse ser em assuntos íntimos, assistir a um filme
pornô com uma garota era algo que ele não havia riscado de sua lista ainda, e, por algum motivo,
queria explorar o momento o quanto fosse possível.
A respiração de Hadassa se acelerava entre uma posição e outra performada na tela, e ele achava
aquilo único e bizarramente fofo. Ele podia ver os poucos pelinhos claros do braço dela se eriçarem,
e sorria com o pensamento de que ela estivesse de fato se entregando a ponto de ficar excitada,
ainda que minimamente. Aproximou a boca do ouvido dela, jogando seu hálito quente por ali.
- Você pode se tocar, se quiser. - Sussurrou maroto, a fazendo entreabrir os lábios e olhar em
dúvida para ele por cima do ombro, os olhos muito abertos. - Eu não vou me importar, e além do
mais... É o que as pessoas normalmente fazem ao assistirem filmes assim. - Explicou com calma, e
ela se moveu mais uma vez, inquieta, aproximando-se mais de Harry, que lhe acalmava. Não
esperava, no entanto, esbarrar em seu membro ereto.
- Você está...? - Esganiçou, sem ar.
- Shhh, calma... - Ele murmurou calmamente, a apertando mais contra si em conforto, a ereção
alojada estrategicamente entre as nádegas dela. - Você também está. - Disse com simplicidade,
levantando um pouco a saia dela e encaminhando a mão pequena da mesma até sua calcinha, cujo
fundo encontrava-se molhado. Hadassa trancou a respiração em um breve soluço no momento que
seus dedos encostaram o tecido fino da roupa íntima. Tinha tanta adrenalina correndo seu corpo que
ela sentia como se pudesse apagar a qualquer momento.
- Harry...? - Sussurrou, temerosa do que tudo aquilo pudesse significar. Ele distribuiu um carinho
lento em sua cintura, lembrando-a de relaxar os ombros.
- Anjo, pare de se privar, de racionalizar cada sensação. Pornô é muito mais do que imagem, é som,
é toque, é clima, é deixar o corpo livre para se arrepiar e esquentar. - Harry murmurou ainda ao seu
ouvido. - Você teve interesse de assistir... Agora que tal vivenciar a experiência por completo?
Hadassa não tinha certeza se todas as aulas tinham culminado naquele momento, se sua recém
adquirida confiança era a grande propulsora das suas próximas ações, ou se era apenas Harry e sua
voz morna e gostosa mexendo com seus hormônios em fúria, mas entre um e outro suspiro de
prazer da mulher na tela, ela jogou qualquer pudor para trás e pressionou a própria bunda contra o
colo excitado do professor.
A reação foi imediata. Harry mergulhou o rosto no pescoço quente da menina em uma lufada
aliviada, e distribuiu beijos empolgados pela pele alva na medida que a mão forte obrigava a
delicada dela a massagear o ponto mais alto de sua intimidade pulsante ainda por sobre o tecido
fino da roupa íntima.
Soltando todo o ar preso dolorosamente nos pulmões, a pequena resolveu finalmente relaxar,
girando o quadril de acordo com os espasmos de prazer que sentia, e inevitavelmente massageando
o próprio mastro do rapaz por tabela. Não podia negar mais a si mesma que queria as mãos
de Harry em si pelo máximo de tempo possível, por mais distorcido que aquele sentimento pudesse
ser. Ela queria desesperadamente sentir de novo todos os arrepios e choques que conheceu alguns
dias antes, e por mais que soubesse que Harry não era necessariamente detentor de exclusividade
na arte de lhe prover aquilo, não queria que nenhum outro o fizesse.
Nem mesmo Sam...
Não. Não podia pensar aquilo. Uma experiência ruim com ele não poderia definir tudo o que pensava
do loiro. Assim como uma experiência boa com Harry não podia direcionar todos os seus
pensamentos para....
Ah, sim. Isso, professor, mais forte.
É, talvez pudesse.
Ele subiu uma das mãos por entre o decote da blusa de Hadassa para puxá-la para os lados e
revelar o contorno dos seios perfeitos. Envolveu um com a mão, sentindo cada poro eriçado e a
maneira como parecia caber perfeitamente em sua palma. O mamilo rosado ergueu-se quase que
imediatamente como se houvesse sido chamado, e esfregou-se contra o tecido fino do sutiã sem
bojo em uma tentativa de liberdade.
Grunhindo e com água na boca, Harry afastou o toque da mão da garota apenas um segundo para
puxar a calcinha de lado e expor sua intimidade quente e pulsante a toques mais precisos. Ia
segurar a mão dela novamente para guiá-la, naquela dança sensual que haviam assumido,
mas Hadassa parecia ter outros planos. Estrategicamente impedindo o entrelace breve de dedos, ela
deixou que Harry assumisse sozinho o carinho enfático em sua feminilidade e arrastou o braço para
o espaço em que seus corpos se chocavam. Acariciou o abdômen definido e as entradas perfeitas de
sua barriga, até atingir o cós da bermuda e então a imponente protuberância que se espremia mais
abaixo.
Envolveu-o com os dedos por cima do tecido e sentiu o calor e a dureza daquilo que já esteve um
dia dentro de si. E mesmo sem movimentar a mão, provocou em Harry um aliviado suspiro de
deleite, que a fez sentir-se novamente poderosa e capaz de tudo, como na noite no motel.
Completamente alheios ao que a televisão projetava, o casal trocou carícias e gemidos, chegando ao
ponto dele inserir dois dedos em sua entrada, e de ela puxar seu membro para fora das roupas.
Por mais divertida que a brincadeira estivesse, Harry não aguentava mais um segundo sem sentir o
sabor de Hadassa percorrendo sua língua ou olhar em seus olhos translúcidos.
Por isso, largou tudo que estava fazendo e puxou sua cintura por cima da perna, até deitá-la no sofá
macio e escalou seu corpo como um morto de sede no deserto arrasta-se para um oásis.
Hadassa o recebeu de braços - e pernas - abertos, as mãos pequenas encaixando-se nos cabelos
escuros da nuca do rapaz, levantou o pescoço em sua direção e capturou os lábios nos seus.
Era quase como se fizessem milênios, e, ainda assim, não haviam esquecido o êxtase e a voracidade
que o encontro de bocas, línguas e saliva trazia.
Enquanto se devoravam, as intimidades nuas se procuravam, ficando entre um roçar gostoso e um
desejo de se aprofundar. Rapidamente ele alcançou a carteira no bolso de trás do short, e procurou
às cegas o pacote quadrado que continha o que o separava de seu paraíso particular.
Quis falar para ela colocar, mas não sabia se estava em condições de explicar como fazê-
lo. Hadassa, para sua sorte, compartilhava da mesma vontade, e em um impulso tirou a camisinha
de suas mãos e rasgou o plástico com cuidado, para não perfurar a borracha.
Tinham os olhos conectados e as respirações igualmente arfantes, mas a pausa estava longe de ser
incômoda. Pelo contrário - só deixava a adrenalina mais pulsante.
- Coloca na cabeça e espreme a pontinha. - Ele sussurrou contra os lábios molhados dela.
- A-assim? - Indagou após obedecer, as mãos trêmulas tocando com suavidade a masculinidade do
professor que parecia a ponto de explodir.
- Isso, anjo. Agora desenrola. - Ele soltava o ar em lufadas quentes a cada novo centímetro coberto,
e teve vontade de pedir que ela tirasse e colocasse de novo infinitas vezes até ele gozar.
Mas não o fez, e, uma vez pronto, pôde finalmente posicionar-se para se enterrar no aperto, calor e
umidez que Hadassa carregava entre as pernas. A glande forçou o caminho estreito e estava quase
cedendo a passagem, quando ele se lembrou de uma coisa.
- Hadassa? - Procurou seus olhos, fortemente fechados com a expectativa, e recebeu um sussurro
incerto em resposta. - Você quer isso, certo? Eu não estou te forçando a...
- Ai, Harry, só cala a boca e faz amor comigo logo, que eu não aguento mais! - Esganiçou,
desesperada, para o divertimento do mais velho.
- Como quiser, vossa alteza. - Ele brincou e mordeu os lábios antes de penetrá-la com toda a sua
virilidade, como deveria ter feito antes e por todos os dias de sua vida.
Os grunhidos idênticos não pararam a movimentação, que logo se tornava sincronizada e ideal para
que ambos atingissem seus orgasmos o mais depressa possível.
Harry entrelaçou seus dedos nos de Hadassa acima de sua cabeça, e usava o outro braço para puxá-
la pela cintura para mais perto de seu corpo escorrendo prazer. Investia com necessidade e com
carinho, e, de alguma forma, o fazia simultaneamente.
Soluço após soluço, Hadassa apertou as pernas em volta do quadril do moreno com força e relaxou
o corpo de uma vez em tremeliques espontâneos que indicavam a intensidade de seu orgasmo, e foi
seguida de perto pelo garoto, que tinha o abdômen contraído involuntariamente e uma gota de suor
manchando o rosto bonito.
Alguns minutos depois, desfazendo-se da proteção usada com um nó, ele puxou a menina para os
seus braços, e, depositando-a na cama de casal que habitava seu quarto, a abraçou apertado até
que ambos estivessem no mais absoluto sono profundo.

Diciassette

- Hadassa Guímel! - Sam gritou do fim do corredor, vindo em sua direção como se nada no caminho
tivesse a capacidade de pará-lo. - Desde quando você está namorando o queridinho da galera? E
porquê raios eu fui o último a saber? - Continuava gritando, embora agora o fizesse a centímetros do
rosto impressionado da garota.
- Ah... É que... Bem, é. - Ela murmurou, atordoada, sem saber ao certo que resposta ele esperava
receber.
- Você só pode estar de brincadeira com a minha cara! - Grunhiu, frustrado, batendo as mãos na
parede. - Eu me recordo muito bem de você me dizendo que vocês eram apenas amigos. Que
palhaçada é essa agora?
- Olha, não precisa se exaltar, Sam. - Apaziguou, as mãos à frente do corpo. - Desculpa por não ter
te contado, eu só não achei que você se importaria. - Rebateu, esperta, sem se deixar levar pelo
jeito agressivo do menino. Já estava preparada para uma reação incoerente como aquela, Harry a
havia preparado.
- Não me importaria? Eu sou ou não sou seu melhor amigo? Você ao menos me considera parte da
sua vida ainda? - Espremeu os olhos, jogando pelo emocional, mas estava longe de ser a mesma
menina ingênua que cairia neste tipo de cena.
- Ah, não. Não venha colocar a culpa em mim. Se alguém aqui se afastou quando começou a
namorar foi você, eu só segui os limites que você impôs. - Deu de ombros, indiferente, embora o
coração ainda despontasse uma dorzinha chata por lembrar o que havia passado.
- Dassa! - Reclamou, ultrajado. - O que você está dizendo? Ele já está te envenenando contra mim?
- Tinha as sobrancelhas muito unidas e as mãos nos quadris, na defensiva.
- Sam, só para. Eu estou feliz, está bem? Se você é meu amigo mesmo, deveria estar feliz por mim
também. - Ela disse, cansada de todo o tom melodramático dado à conversa. Então, percebeu que
sua fala estava definitiva demais, e preocupou-se de não afastar o loiro mais do que já havia feito. -
Quer dizer... A não ser que tenha algum motivo que te impeça de aceitar meu relacionamento. -
Jogou verde, simultaneamente dando abertura para que ele revelasse um suposto sentimento que
nutria por ela, e deixando claro que não haviam reais motivos para ele se opor ao seu namoro.
- Não, não... - Murmurou, contrariado. - Eu só não acho ele a melhor pessoa para você. Por que,
convenhamos, vocês não têm nada em comum, e até algumas semanas atrás ele sequer sabia quem
você era. - "Bem, você sabia, e isso não te fez me dar mais carinho e atenção, não é mesmo?", ela
pensou.
- Temos mais em comum do que você imagina. Olha, não quero ficar discutindo os pormenores
disso. Só... Aceite que dói menos. - Disparou acenando graciosamente e saindo rebolando levemente
após depositar um suave beijo cálido na bochecha do amigo em direção ao outro extremo do
corredor, deixando-o incrédulo e sem saber que trem o atropelou.

Entrou no carro como um furacão e debruçou-se sobre o garoto até ter a boca dele na sua.
Não havia qualquer explicação racional que justificasse as atitudes de Hadassa para cima do
professor, mas ela se sentia poderosa e amaciada como nunca, e queria agradecê-lo por aquilo de
alguma maneira.
Talvez aquilo tivesse algo a ver com as reclamações injuriadas de um certo melhor amigo sobre um
relacionamento de mentirinha que parecia dia após dia mais real. Talvez seguisse a linha do carinho
sem precedentes trocado entre eles a todo momento, e da luxúria fervorosa que batia às portas
quando estavam juntos. Ou talvez ela só quisesse beijá-lo até o entardecer e nenhum outro motivo
precisasse se apresentar por trás.Harry não hesitava em responder à altura, também não lhe
importando as motivações da menina.
E assim os minutos se passaram, ele segurando seu rosto delicado nas mãos grandes enquanto os
cabelos de Hadassa faziam um carinho engraçado no antebraço descoberto do garoto. Só se
separaram quando o ar acabou, os lábios estavam dormentes e sorrisos bobos acompanhados de
olhares ternos eram trocados.
Hadassa sentou direito em seu lugar, colocaram os cintos e foram para o QG.

- O que a gente vai almoçar hoje, Harry? - Perguntou, enfiando a cabeça dentro da geladeira
enquanto o outro ainda se ocupava de esvaziar os bolsos da calça na bancada.
- Vou te dar alguns minutos para perceber sozinha que está me escravizando pela barriga. - Ele
comentou, distraído, a fazendo dar risada.
- A culpa não é minha se você é todo prendado quando eu queimo até água. - Rebateu, como quem
não quer nada, entortando o pé de forma inocente.
- É, peste, mas hoje você quem vai cozinhar pra mim. - Harry apertou seu nariz, passando pela
garota para alcançar um avental listrado de verde e branco, o qual ele logo passou pelo pescoço
dela, amarrando nas costas e finalizando com um tapinha singelo na bunda.
- Você não estava aqui há um segundo atrás? Eu não sei cozinhar, Harry. - Explicou com obviedade.
- E eu não sei Física, mas aprendi mesmo assim. Anda, pode pegar o pote de tampa azul, a
abobrinha, e o tomate na geladeira, e vamos começar. - Ele começou a ditar, assistindo-a agir
conforme sua fala, embora ainda sem entender muita coisa.
- O que nós vamos fazer? - Perguntou, equilibrando os ingredientes nos braços finos, exigindo um
pequeno malabarismo que já era complicado demais sem levar em conta sua afinidade com o
desastre.
- Começamos com uma omelete incrementada e eu vou te dar lição de casa. Quero ver chegar o dia
em que eu vou ficar sentadinho ali na bancada, como você sempre faz, só observando você balançar
essa bunda de um lado pro outro na minha cozinha. - Ele sorriu descarado, ajudando-a a colocar
tudo na pia e aproveitando para pegar uma grande frigideira e uma espátula de plástico que não
esquentaria as mãos da menor.
- Mas é um folgado... - Ela reclamou de brincadeira, fazendo-se de emburrada.
- Folgado? Menina, olha como fala comigo... - Apertou sua barriga, fazendo cócegas.
- Tudo bem, então! - Ela deu de ombros, se esquivando depois da risada espontânea. - Você vai ver,
vou te conquistar pelo estômago. Depois não reclame! - Avisou, as sobrancelhas erguidas e os lábios
repuxados, como se dissesse "é inevitável".
- Estômago... - Harry murmurou com deboche. - Como se eu já não estivesse fisgado por todo o
resto...
O comentário foi impensado e tão baixo que quase não se podia ouvi-lo. Mas isso não mudou o peso
que as palavras causaram no ambiente. O garoto franziu o rosto, como se tivesse ouvido outra
pessoa falando e estranhasse a junção de sílabas, que lhe pareciam chinês. Hadassa olhou
imediatamente para ele, que não correspondeu o olhar, com a boca entreaberta no meio do caminho
entre completamente impressionada e risonha, em duas versões de si mesma que poderiam
interpretar aquilo como uma gracinha, uma piada carinhosa, ou a mais absoluta demonstração de
afeto que já havia ouvido na vida.
Motivada pela força da gravidade, a espátula, antes apoiada precariamente na caixa de ovos, cedeu
e caiu ao fundo da pia. O barulho forçou uma reação do casal, que saiu do transe momentâneo, e ali
um pacto foi feito silenciosamente de não tocar mais no assunto. Pelo menos, não naquele dia.

Bateu as mãos e as esfregou ansioso pela aula que daria a seguir. Harry tinha pego gosto pela coisa,
não só pela aluna exemplar que tinha, mas por que se divertia em pensar meticulosamente cada
ensinamento e pesar cada parâmetro de relacionamentos diversos que pudessem elevar a qualidade
de suas falas e atividades propostas.
Havia ensinado Hadassa a cozinhar já como uma preview daquela sexta aula, e tinha se animado
bastante depois de toda a movimentação envolvida em um simples auxílio que prestou a ela na hora
de virar a bendita omelete. Hadassa temia estraçalhar a massa de ovos sozinha, e ele precisou se
aproximar por trás dela para ajudar com o manuseio da espátula. O mero encostar de seus corpos,
próximos ao calor do fogão e tão sincronizados para poder executar corretamente a virada, já o
havia preparado para mais uma sessão de flerte e excitação, que era consequência óbvia e natural à
o que aquela aula em específico tinha guardado.
Estavam sentados à beira da piscina no que parecia ser um dia quente demais para se enfurnar na
casa de madeira, e Whisky encolhia-se em uma sombra minúscula perto da palmeira, os observando
por entre os montes de pelo e olhos castanhos em fendas, desejando finalmente se fechar.
- Sexta aula, huh? - Ela começou. - E eu já tive mais tarefa e dificuldade nesse "curso" do que em
um ano de matemática. - Observou, sinalizando as aspas com os dedos.
- Algumas matérias são mais difíceis pra uns, mais fáceis para outros... - Outch! - Harry reclamou
quando ela lhe deu um tapa solto no braço enquanto ria.
- Pode parar de me zuar, engraçadinho. - Avisou, o dedo em riste. - Eu ainda vou ser pós-graduada
nesse assunto. - Empinou a cabeça, fazendo a metida.
- Não duvido. - Harry levantou as mãos em rendição, ainda carregando um sorriso mole no rosto
bonito.
- Sei. - Espremeu os olhos, deixando claro que o jeito engraçadinho do professor não a enganava. -
E sobre o que é a aula hoje? - Perguntou, não mais enrolando no assunto. Ele logo endireitou a
postura e molhou os lábios, preparado para começar o monólogo explicativo.
- Bom... As pessoas se traem o tempo inteiro. Seja com o desconhecido na rua com quem você tem
um pensamento caliente mais tarde, seja naquele suspiro de cobiça vendo um casal de dar inveja
passar perto de você, seja em um sonho incontrolável, ou mesmo fisicamente com outra pessoa. -
Introduziu, exemplificando ao máximo, pois queria deixar claro que seu foco não era a simples
infidelidade. - A aula de hoje é sobre como manter um cara contigo. Eu vou te ensinar como ser o
centro dos pensamentos desse cara, como você pode se inserir em todos os âmbitos da vida dele de
forma que seja impensável para ele olhar para o lado ou querer se livrar de você. Vamos tornar sua
companhia tão absolutamente necessária e deliciosa que sua falta será sentida a todo momento, de
forma que qualquer vontade que surja na cabeça do sujeito orbite em torno de estar perto de você
novamente.
- Uau! - Assobiou, impressionada. - Não sabia que isso era possível ou sequer "ensinável". Você tem
mesmo talento pra coisa, devia ser essas tias donas de site de relacionamento em uma vida
passada. - Comentou, achando graça.
- É? E o que eu tô fazendo, juntando minha cliente Hadassa com seu par perfeito, Sam? Porque eu
vejo várias falhas nesse sistema, a começar pelo critério de união dos casais. O capeta e o anjo,
juntos? As variáveis estão todas alteradas com certeza! - Arregalou os olhos, como se fosse um
problema grave. Hadassa deu uma risada contida, puxando a barra da camiseta dele em um aviso
mudo de que queria desfocar do assunto.
- Tá, Querubim, e como eu consigo um A+ nesse módulo?
- Não é óbvio? - Perguntou, se fazendo de sonso. Estava especialmente cômico naquela tarde. -
Como se consegue tudo nessa vida: Dormindo com o superior! - Levantou os braços, enfatizando
seu ponto. Hadassa engasgou em um riso contínuo que fez seus músculos da barriga doerem
pedindo descanso. - No caso, eu. Se não tiver ficado claro. - Piscou, malandro, e ela balançou a
cabeça como se não acreditasse em sua audácia. - Ok, agora falando sério. Para conseguir tudo isso,
você precisa se tornar um desafio constante. Ser provocativa, indisponível, misteriosa, mandar
alguns sexts...
- Como assim?
- Responder a pessoa na hora, atender o telefone no primeiro toque, disponibilizar muito tempo para
estar com ela, como se não tivesse outros compromissos, são gentilezas das quais muitos abrem
mão para passar a mensagem de "eu não preciso de você, então, se quiser, corra atrás de mim".
Não ser grudenta e parecer disputada são dois adjetivos que movem montanhas no que diz respeito
ao interesse do sexo oposto.
- Eu preciso não tornar a pessoa minha prioridade, é isso?
- Exatamente. O mesmo se aplica quando for dar informações sobre você. É melhor deixá-lo sempre
que possível no escuro, tentando descobrir mais, tentando te desvendar, te entender, do que
simplesmente dar tudo de mão beijada, fácil demais. Como eu disse, precisa ser um desafio,
inconstante, volátil, até. Mas é tudo uma questão de feeling. Não é para ser sempre indisponível.
Funciona mais ou menos como pescaria: Você dá corda quando precisa, e puxa o anzol quando
sente que é a hora. Então, você dá uma leve esnobada no alvo, e quando sentir que ele está a dois
passos de reclamar ou desistir, mostra-se completamente na dele, embora por um curto período de
tempo. Isso vai mostrá-lo que precisa se dedicar para te ter ao seu lado, entende?
- Acho que sim. Mas, seguindo essa lógica, eu não estou sendo muito grudenta com você?
- Linda, nós somos diferentes. Não existe nada de convencional que se aplique ao nosso
relacionamento, e você não deve se preocupar com ele. - A menina preferiu não demonstrar, mas a
palavra "relacionamento" saindo da boca de Harry para se referir ao que tinham, a fazia sentir-se
muito, muito bem. Por mais que não houvesse tanto significado por trás da mesma no dicionário...
Ainda significava que eles tinham alguma coisa. Paralelamente, Harry se alegrava com a noção de
que ela se preocupava em perdê-lo, e que estava direcionando seus ensinamentos não apenas para
o abstrato ou para o loiro aguado, mas para a dinâmica entre eles dois também.
- Tudo bem, então. E o que é essa última palavra que você mencionou? Sexts...?
- São mensagens com teor sensual ou sexual. É um curto conjunto de frases que deixam algo no ar
ou provocam sensações em quem receber, normalmente rondando quatro bases: o que você quer
fazer com a pessoa, o que quer que ela faça com você, o que vai fazer consigo mesma, e o que quer
que ela faça consigo mesma. São normalmente ações, que brincam com o inesperado, e que podem
ser exploradas muito bem pelo ar inocente que você passa.
- Acho que eu não tô conseguindo entender muito bem, Harry.
- Vou te dar um exemplo, mas antes você vai ler um artigo muito bom a respeito no
acessorestrito.com sobre sexting para entender melhor, pode ser?
- Mais lição de casa? - Ergueu as sobrancelhas, tentando conter o sorrido arteiro pela provocação.
- Não finja que não adora praticar o que eu mando em casa. É o ponto alto do seu dia que eu sei! -
Ele provocou segurando o rosto de Hadassa pelo queixo e balançando um pouco.
- Tá, tá. Convencido. - Ralhou fugindo o aperto dele. - É pra eu pegar meu celular?
- Não, menina. Já disse que sexting trabalha com o inesperado. Vou te mandar alguns só quando
não estiver esperando.
- Mas agora que me avisou eu vou estar esperando. - Comentou com obviedade. - Hadassa! Para de
pirraça, garota. - Ele riu com a teimosia da menor e ela repuxou os lábios como se confirmasse que
não tinha solução. - Tudo bem, voltando à aula então. Outra coisa que é importante é você se tornar
o escape do cara. Então quando ele está estressado, teve um dia intenso e quer espairecer, você ser
o refúgio para onde ele corre. Isso o manterá do seu lado por mais tempo, te fará essencial. É um
paradoxo: Ao mesmo tempo que você precisa ser a fonte de loucura dele, a pessoa que o tirará o
sono, que o desafiará, deverá ser o apoio onde ele se estabiliza, a droga da qual é dependente.
- Entendi, mas como eu ajudo ele a desestressar?
- Você escuta seus problemas e arranja uma forma de amenizá-los. Às vezes é legal fazer o prato
favorito, uma piada, uma massagem. Coisas simples que podem fazer toda a diferença.
- Eu não sei fazer massagem, Harry. Sou horrível nisso!
- Bom, então eu vou ter que te ensinar, não é mesmo? - Piscou, cheio de más intenções.
Deitada de bruços sobre grandes almofadas no chão da sala de móveis afastados, Hadassa esperava
o professor voltar do quarto, onde tinha ido buscar algum óleo com essência relaxante comprado
especificamente para massagem. Pensava em sobre como não podia reclamar da vida. Tudo bem, o
cara por quem era apaixonada não lhe retribuía, mas ela estava prestes a receber uma massagem
profissional do cara mais gostoso do colégio e uma coisa tinha que anular a outra... Certo?
- Não, senhora. Pode ir tirando a roupa, se ela chegar em casa toda lambuzada de creme a sua mãe
vai ter uma síncope e já estamos fartos dos surtos dela por um bom tempo. - Harry disse, ranzinza,
ao observar a garota com apenas a blusa erguida até as omoplatas. Aquilo não bastaria, e além do
mais ele queria performar uma massagem de corpo inteiro. - Aqui, se cubra com essa toalha e volte
a deitar de bruços. Eu vou escolher uma música para tocar enquanto isso.
Theo foi até a estante e fuçou entre as centenas de vinis que colecionava, tentando achar algum que
contribuísse pro clima relaxante que estava tentando criar, enquanto Hadassa despia-se
timidamente. Ela confiava que ele não fosse olhar, mas não sabia se isso era gratificante ou
decepcionante.
- Como eu coloco a toalha pra ela não atrapalhar também? - Perguntou, sem saber se amarrava no
busto ou nos quadris.
- Você deita primeiro e coloca a toalha por cima, como um cobertor. Eu dobro ela até estar fora do
caminho. - Ele ditou, a cabeça levemente de lado para que a voz se sobressaísse por cima do
ombro. Hadassa concordou e ia fazer o que foi instruída, e ele ia voltar a cruel escolha musical, não
fosse os seus olhos se encontrando pelo reflexo da televisão.
Não durou mais que alguns segundos, enquanto ela o olhava com os lábios entreabertos em
expectativa e apreensão, e ele se punia mentalmente por passear a visão pelo corpo esbelto e
exposto da menor. Logo, voltavam às suas atividades como se nada tivesse acontecido, já
acostumados demais com os momentos íntimos avassaladores para se manifestar com qualquer
objeção.
- Pronta? - Indagou ao ouvir o som da garota se acomodando nas imensas almofadas. A música já
tomava o ambiente de forma tranquilizadora e eletrizante ao mesmo tempo.
- Acho que sim. - Hadassa respondeu, e logo Harry estava ao seu lado, observando as costas
parcialmente nuas, que tinham apenas uma toalha branca e felpuda cobrindo do meio até a parte de
trás dos joelhos.
Com as pontas dos dedos, Harry segurou a borda da toalha e dobrou uma e outra vez, até que esta
não fosse mais do que uma curta faixa branca escondendo a bunda da garota. Era tanta pele à
disposição agora, que lhe parecia difícil concentrar-se nos movimentos que devia fazer nos músculos
tensos da menina.
Jogou uma boa porção de óleo pelo cumprimento da coluna, e o espalhou com os dedos pelos
ombros e pela lombar, pressionando devagar e gentilmente um ou outro ponto. Passou a desenhar o
contorno da cintura e circular cada vértebra de forma a obrigar o corpo pequeno a se soltar e
receber o carinho propriamente. Hadassa, que tinha a cabeça de lado apoiada nos braços e o cabelo
preso para não cair no creme, fechou os olhos para sentir tudo melhor.
Apertou e empurrou os ombros dela até senti-los mais largados macios, segurou o nervo do pescoço
com o mesmo propósito, e passeou as mãos quentes e suaves por toda a extensão das costas da
garota por tanto tempo quanto o necessário para ver os poros dela todos arrepiados.
Então, deu-se por vencido e resolveu descer a massagem para as pernas dela.
Mais uma boa quantia de óleo foi espalhada por ali, entre cócegas na sola do pé e apertões de
palma inteira na batata da perna e coxa inferior. Harry, que sempre achou relativamente chato fazer
massagem nos outros, se divertia com as reações da pequena e com a possibilidade de ter seu corpo
sedoso nas mãos sem restrições.
Chegou à altura do ciático, entre o topo das coxas e a parte superior do quadril, e o percebeu muito
tensionado, provavelmente pela força que ela estava fazendo ultimamente para manter a postura
correta que ele havia lhe ensinado. Quis seguir o caminho do nervo com os polegares, afim de
relaxá-lo, e aquilo exigia percorrer a região coberta pela toalha. Sem pensar duas vezes, a retirou da
frente para fazer o trabalho direito.
Hadassa sobressaltou-se brevemente, sentindo a bunda exposta demais, mas logo os dedos quentes
e gostosos de Harry estavam ali, massageando cada centímetro da carne dolorida, soando tão bons
que parecia impossível fazer algo a respeito da recuperação da toalha perdida. Ela, portanto, relaxou
para sentir melhor cada segundo daquela aula maravilhosa.
Uma vez tendo amaciado o ciático abusado, as mãos de Harry pareceram criar vida própria e
passear pela região desimpedidas, segurando porções generosas da bunda da garota, e afastando as
nádegas uma da outra, permitindo um olhar mais cuidadoso sobre sua feminilidade lisa e rosada. O
professor sentiu seu próprio sexo se manifestar com a imagem, pressionando os tecidos da calça de
moletom como se também quisesse massageá-la com a cabeça. Ele puxou as costuras para frente
discretamente, tentando dar mais espaço ao amigo, que só reclamou mais da atenção insuficiente
que estava ganhando.
Colocou as mãos no interior das coxas fartas de Hadassa e em movimentos repetitivos massageou a
área, cada vez mais afastando uma perna da outra sem querer e dando mais visibilidade para o que
havia ali no meio. A provocação, sem intenção, proporcionou longas ondas de prazer para a menina,
que, sem se privar, emitiu um gemidinho suplicante em direção ao braço dobrado que agora
escondia sua cabeça.
Harry lambeu os lábios, tentado, e já ia dar a massagem como encerrada quando observou um
brilho característico de umidez reluzir da intimidade da menor, e a percepção de sua correspondente
excitação bastou para que enfiasse a mão ali sem rodeios.
Encaixou o indicador e o mindinho no cumprimento da virilha dela, o pulso apoiado na bunda, e a
penetrou com os dedos do meio e anelar. Bianca arqueou as costas, sem ar, e se apoiou nos
antebraços para recuperar-se.
O movimento de vai-e-vem teve início, no qual Harry só se preocupava em aumentar a velocidade e
em passear a outra mão por todos os lugares que lhe dava vontade, desde os cabelos macios
de Hadassa, seu seio agora acessível, a nádega contraída de prazer ou mesmo o próprio membro,
cada vez mais ansioso por sair das roupas que lhe escondiam.
Os dedos entravam fortes e saíam embebidos no seu líquido, lubrificados e quentes, e tão logo
estavam na superfície, já emergiam dentro dela novamente, em pancadas constantes que
arrancavam suspiros e soluços irrefreáveis de Hadassa.
Inundada de prazer, a menina se jogou novamente nas almofadas, dessa vez esticando o braço para
trás até segurar o cós elástico da calça de Harry. Puxou para baixo com os dedos fracos, e acariciou
o mastro ereto por cima da boxer, em retribuição ao que estava sentindo.
Em um rugido, ele afastou sua mão e cessou os movimentos que fazia, ajeitando seu quadril mais
alto, forçando ela a se apoiar nos joelhos. Então, revirou a carteira sobre a mesa atrás de um
preservativo, e subiu ele próprio nas almofadas. Uma vez protegido e com as calças arriadas de
vez, Harry inspirou fundo, segurou uma nádega em cada mão e se enterrou no calor e umidade que
a menina trazia entre as pernas.
Não houveram perguntas dessa vez, uma vez que os gemidos e arranhões à capa das almofadas já
lhe diziam tudo que precisava saber.
Hadassa queria tanto quanto ele, mesmo em uma posição tão safada quanto aquela por trás, e o
mergulho no mundo de prazer parecia inevitável.
Transaram fundo e gostoso, até o fôlego lhes faltar e o orgasmo bater à porta. E dormiram
ofegantes embolados entre almofadas, toalhas e muito óleo corporal, ao som calmo de algum álbum
antigo do Oasis.

Diciotto

Harry sentia que ia morrer.


Era praticamente incontestável para ele que, se tédio matasse, ele estaria com os minutos contados
a caminho de algum espaço celestial alternativo. Alternativo, pois era necessário ter acesso aos
prazeres da carne e àHadassa, que era um anjo, portanto céu e inferno juntos. Isso se ele
acreditasse em toda essa história.
Mas a morte iminente não era questão de credo. Ele quase podia ver a luz.
Afinal, não existia nada no mundo mais chato do que aquelas palestras que o diretor inventava de
dar para todos os alunos do colegial de vez em quando.
De "saúde sexual" a filmes sobre o Steve Jobs, o tema das palestras variava absurdamente, sempre
motivadas por algum artigo besta que alguém da coordenação havia lido sobre pedagogia.
Era tão bizarramente inútil, que metade dos alunos considerava cortar os pulsos, enquanto a outra
metade fingia doenças terminais para pelo menos matar algum tempo na enfermaria.
Theo quase acreditava que nenhum fingimento seria necessário, se continuasse ouvindo a voz
estridente da senhora Maple discorrer sobre as diferentes variações e significados da palavra "bem-
sucedido".
Percorreu os olhos pelas incontáveis fileiras de cadeiras do auditório, procurando achar uma em
especial.
Hadassa parecia tão alheia ao assunto tratado quanto ele próprio, sentada com sua sala do segundo
ano conforme ordenado, enquanto brincava com os lábios, esboçando caretas e biquinhos que,
como tudo nela, só a deixavam mais adorável.
Harry se pegou sorrindo sem querer, só de observá-la, e uma ideia cruzou seu pensamento.
Discretamente, pegou o celular do bolso da calça e diminuiu o brilho da tela até que a luz dele aceso
passasse desapercebida. Então, achou Hadassa no Whastapp, com sua foto de perfil espontânea e
sorridente tirada por ele próprio, e resolveu brincar com o juízo da menina.
"Se continuar mexendo os lábios assim, não terá nada que me impeça de ir até aí tomar eles pra
mim.", mandou, observando quando o celular dela tremeu em seu colo, onde estava, e sua face
ruborizada quando leu a mensagem.
"Na verdade, pensando melhor, acho que só te pegar na frente de todas essas pessoas não é
suficiente. Vou precisar te arrastar pra um canto e arrancar suas roupas uma por uma.", enviou em
seguida, ainda de olho na menor, que pareceu segurar o ar.
"Você tá falando sério?", ela respondeu, e ele teve que conter uma risada pela inocência da garota.
"Tão sério quanto a noite passada. Ainda sinto seu cheio no meu corpo. Você pensou em mim antes
de dormir?". Hadassa se revirou na cadeira, parecendo inquieta, e mordeu o lábio inferior que
parecia teimar em ficar escancarado.
"Como se eu tivesse a opção de não pensar.", Hadassa respondeu, e ele quase se levantou para ir
abraçá-la.
"É? E o que você fez quando pensou em mim?", provocou, maroto.
"O que eu sempre faço. Minhas mãos parecem criar vida própria e escorregam cada vez mais para
baixo...". A garota não podia estar mais vermelha nem se quisesse. Harry sabia que falar sacanagem
não era a coisa mais fácil do mundo pra ela, mas a julgar pelas reações que estava causando nele,
parecia estar se saindo muito bem.
"Minha menina safada se tocou pensando no professor? Já perdi a conta de quantas vezes o
contrário aconteceu.". Hadassa engoliu em seco e olhou em volta antes de responder.
"Harry, para. Não vou conseguir prestar atenção na palestra desse jeito."
"Por que, anjo? Vai estar muito ocupada pensando no pau do seu professor dentro de você?"
"Para, por favor. Eu já to ficando molhada.". O gosto de vitória se espalhou pela boca do mais velho,
que teve que fincar os pés no chão para não levantar e ir atrás dela naquele mesmo instante.
"Ótimo, porque eu já to duro feito aço pela sua bocetinha. Quando a gente sair daqui você não me
escapa."
"O que você vai fazer comigo?". Ah, Hadassa, o que eu não vou fazer com você?, ele se perguntou,
a visão borrada de possibilidades.
"Vou enfiar a mão no meio das tuas pernas e esfregar até te ouvir gritar. Você vai ficar tão
encharcada que ela vai sair pingando. E aí, sabe o que eu vou fazer?"
"... O que?"
"Te comer como se não houvesse amanhã. Até você ficar marcada e eu não conseguir mais andar."
"Harry, eu não to conseguindo respirar."
"Bem-vinda ao sexting, linda."

- Harry Styles! Aquilo não se faz! - Ralhou, com sua estatura mínima e as mãos em punhos na
cintura, mostrando o quão brava ela estava.
- Desculpa, anjo... Mas eu não me arrependo nem por um segundo de ter te deixado excitada e
envergonhada na frente de todo mundo. - Ele disse, displicente, rindo da cara da menor.
- Você é impossível! - Ela rosnou desafinado, pressionando os lábios. Tinha vontade de dar risada da
situação como um todo, e só não o fazia para não perder a pose.
- Tá, tá, tá. - Harry fez pouco caso, passando os braços em volta dela e a conduzindo para o carro. A
palestra havia acabado finalmente e eles tinham aquela tarde livre para terminar os trabalhos finais,
cujos deadlines de entrega se aproximavam. - Você quer que eu te deixe na casa da menina lá pra
fazer o trabalho de literatura?
- A menina lá tem nome, espertinho. - Cerrou os olhos, teimosa. - E sim.
- Ai, senhorita correta, a menina lá nunca olhou na sua cara nem falou comigo antes de ser
designada para esse trabalho com você, então eu não tenho a obrigação de decorar o nome da
sujeita.
- Eu só não vou dizer que você é impossível de novo, porque já gastei minha cota de reclamação do
dia.
- Ainda bem que você sabe. - Exclamou, rindo, enquanto Hadassa revirava os olhos com o jeito
moleque do professor. - E que horas eu te busco?
- Eu tô me sentindo com chofer particular. - Comentou, apenas para provocar a carranca óbvia na
face do menino. - A gente se fala, Jarbas.

Depois de deixar Hadassa na casa da colega que, mesmo se esforçando, ele não conseguia lembrar
o nome, Harry foi para a sua própria, matar o resto do tempo. Por estar no terceiro colegial, os
professores aliviavam bem a cota de trabalhos e lições de casa para que os alunos tivessem tempo
para estudar para o vestibular.
Vestibular esse pro qual ele tinha que se inscrever logo, se ao menos conseguisse decidir quais
prestar.
Abriu o notebook e olhou a url em branco do navegador esperando que uma intervenção divina lhe
dissesse em qual site entrar primeiro. Sabia que precisava se inscrever para a faculdade que a mãe e
o padrasto tanto queriam. E agora a ideia não lhe parecia mais tão odiável depois de saber das mil
possibilidades que teria de fazer a diferença mesmo ali, mostradas a ele por Bianca e seus infinitos
panfletos. Direito, no fim das contas, não precisava ser um curso direcionado a absolver bandidos.
Se ele manejasse direito suas escolhas, poderia usar sua cota pró-bono e fazer serviços gratuitos a
todo tipo de gente injustiçada por grandes empresas ou pelo próprio governo.
Mas ainda havia uma pequena faísca de esperança em seu ser que lhe dizia que a faculdade dos
sonhos de psicologia não precisava ser deixada de lado.
Abriu o site da grande universidade e preencheu os dados conforme o pedido. Na hora de escolha do
curso, descobriu que poderia colocar duas opções. As instruções lhe davam como exemplo colocar o
mesmo curso em períodos diferentes, medicina diurno e medicina vespertino, no caso. Mas ele tinha
outros planos. Selecionou Direito Diurno na primeira caixa, e reservou a segunda para Psicologia
Noturno. Se não passasse no primeiro curso, lidaria com isso depois.
Então, procurou se inscrever em outros dois vestibulares, em uma faculdade cara que permitia dupla
graduação, e em outra pública com horários de curso reduzidos, que lhe permitissem fazer
voluntariado junto, no mínimo.
Satisfeito com suas decisões, imprimiu todos os três boletos e atravessou o jardim para a casa
grande, em busca da progenitora ou seu marido.
Os encontrou no escritório, trabalhando, como sempre, em cima de pilhas e mais pilhas de extratos
financeiros e cada um em um telefone diferente rosnando ordens pouco educadas para quem quer
que estivesse do outro lado da linha. Quando o viram parado no batente, desligaram sem mais do
que um "já te retorno", e esperaram o filho falar o que o havia trazido até ali.
- Eu tô com os boletos dos vestibulares pra vocês pagarem. Me inscrevi em três, e acho que vocês
vão aprovar as instituições, são todas renomadas. - O padrasto pegou os papéis das mãos do
enteado, e abriu um sorriso ao identificar o curso de direito em todos eles.
- Finalmente você nos escutou, filho. Você dará um excelente advogado, e terá uma gama de
oportunidades ímpar para seguir carreira com os contatos que temos.
- É, eu acabei indo no curso que vocês queriam... Mas não quero nenhuma ajuda. Quero que
prometam me deixar fazer isso do meu jeito. Eu já cedi demais... Já abri mão dos meus sonhos para
perseguir o que vocês acham ser melhor para mim. Agora eu quero ter o direito de conquistar meu
caminho sozinho, sem empurrões.
- Mas, Harry...
- Sem mais. Eu sei que vocês querem o melhor pra mim. Tá? Eu entendo isso. Mas eu também
quero ser feliz, e não vou conseguir sê-lo se tiver tirando bandidos da cadeia e defendendo
corruptos no cartório. E sei que se for pelos contatos de vocês, é isso que eu vou acabar fazendo. -
O padrasto já estava levantado, pronto para argumentar e reclamar, fazer o enteado ouvir até que
deixasse a sala fazendo exatamente o que ele queria, mas a senhora Styles tinha outros planos.
Escutou o discurso do filho como um espelho da revolta que tinha ouvido da boca de Hadassa há
semanas, e a consciência pesou seu instinto materno. Não podia obrigar o menino a ser como ela,
não podia fazê-lo abrir mão do coração enorme com o qual nasceu, mesmo que ela própria tivesse
princípios tão diferentes. Querendo ou não, ele havia sido criado pelo avô, e tinha ambições que ela
não compreendia. Via em todos os seus atos - morar sozinho na casa dos fundos, quase nunca falar
com ela ou com o padrasto, as notas baixas e a insatisfação pesando os ombros fortes - um grito de
ajuda por se sentir enclausurado na própria vida, sem poder fazer suas próprias escolhas. Já tinha
estragado um casamento... Não podia estragar o filho também.
Por mais que odiasse admitir, o discurso apaixonado da amiga do filho tinha ecoado em sua cabeça
por noites a fio. Era a hora de mostrar que estava do lado dele, que o apoiaria. Estava mais do que
na hora de ser sua mãe.
- Tudo bem, Harry. Como você quiser. - Ela se adiantou, falando por cima das interjeições do
marido. - Se você precisar de ajuda, vai falar com a gente, certo? - Harry parecia confuso e ser norte
pelo apoio inesperado da mãe. Estava preparado para argumentar mais um bom tanto de horas,
mas precisou se contentar com um gaguejar positivo, e se retirou do escritório ainda sem saber o
que infernos tinha acontecido.
"Acho que a minha mãe está com alguma doença terminal. Ela acabou de concordar com algo que
eu falei sobre o meu futuro.", mandou para Hadassa, voltando para a casa de madeira. Whisky
dormia encostado no sofá e só se deu ao trabalho de levantar a cabeça, antes do dono se jogar na
poltrona a sua diagonal.
"Ela mudou de ideia então? Fico feliz. Ela não tinha reagido bem da vez que conversamos.", a
resposta veio quase imediata, e desencadeou uma série de dúvidas na cabeça do mais velho.
"Que vez? Por que eu não estou sabendo disso?". Hadassa se deu um tapa na testa ao lembrar que
não havia contado ao professor do encontro explosivo que teve com a mãe dele. Estava tão
acostumada a ele saber todos os detalhes do seu dia-a-dia que a informação acabou escapando nas
mensagens.
"Ah... Uma vez que eu fui aí estudar com você, acabei encontrando com ela. Não foi nada de mais.".
O texto gritava aos dois que havia sido algo "de mais" sim. E Harry só pode se sentir agraciado de
saber que ela provavelmente tinha o defendido para a mãe, e que, consequentemente, em algum
nível, era a responsável pela mudança positiva nas atitudes da progenitora.
Sentiu a necessidade de retribuir imediatamente a gentileza, e já sabia exatamente como fazê-lo.
Mandou mais uma mensagem para Hadassa perguntando, como quem não quer nada, onde o pai
dela estava morando atualmente. Muito distraída com o trabalho que fazia e que estava em fase de
finalização, ela o respondeu sem fazer maiores questionamentos, e Harry pegou o carro rumo ao
endereço obtido.
Com o óculos escuros no rosto e escondido dentro do carro de insufilme, Harry estacionou a alguns
metros da bonita casa com portões de ferro e ficou observando, de tocaia, o movimento. Havia um
carro tipicamente feminino estacionado na garagem, e ele conseguiu escutar vozes, embora sem
distinguir precisamente o que era dito ou quantas eram.
Não foi até 50 minutos depois que conseguiu observar, pela janela ao lado da porta dupla, uma
garota alguns anos mais velha que ele dando comida a um simpático menininho que não podia ter
mais de três anos. Por um momento, achou estar na casa errada. O pai de Hadassa não podia ter
uma filha mais velha que ela, mesmo que tivesse se casado novamente, a não ser que tenha traído
a mãe dela desde muito antes. Também não poderia estar casado com alguém tão novo. Se uma
dessas duas possibilidades era a certa, ele não devia merecer ter Hadassa novamente em sua vida.
Estava a um passo de desistir daquela empreitada, quando viu, ao fundo da cena de alimentação,
uma senhora de uns 40 anos falando ao telefone, enquanto olhava com carinho para a mesa de
jantar. "Bingo", pensou, "aquela deve ser a nova esposa".
A visão ficou prejudicada pela aparição de uma Mercedes prata adentrando a garagem. "Papai
chegou", ele imaginou. Saiu do carro rapidamente e foi a largas passadas em direção aos portões de
ferro. Queria dar uma olhada mais de perto no homem que havia abandonado sua menina.
Esgueirou-se em volta das trepadeiras que ocupavam os muros do vizinho bem a tempo de vê-lo
grisalho saindo de dentro do carro luxuoso com uma pasta de couro em mãos. O senhor tinha um
sorriso frouxo no rosto e uma mão já soltando a gravata do pescoço, saindo do nó apertado que
aguentou o dia todo. Mesmo assim, não se virou para o garoto, que deixou a curiosidade tomar
conta até demais, e acabou tropeçando em uma elevação da calçada na ânsia por chegar mais
perto.
Sendo um bairro tranquilo até demais e os portões vazados, o homem percebeu sua presença
superinteressada e virou-se em sua direção.
- Posso ajudar, garoto? - Perguntou, franzindo a testa, mas com ares ainda amigáveis. Harry não era
mal apessoado, não passava insegurança ou ameaça.
- Ah, eu... Você é o senhor Guímel? - Resolveu perguntar de uma vez, mesmo estando claro agora
para ele a incrível semelhança entre as feições do mais velho e de seu anjo.
- Sim, eu te conheço de algum lugar?
- Não, não... Eu só sou amigo de uma pessoa que costumava lhe conhecer. - Ele abanou o ar,
tornando aquilo menos importante do que era de fato. O senhor pareceu estudar por alguns
segundos o jeito do menino em busca de alguma dica que denunciasse sua procedência. Encontrou
o que queria entre os indícios de sua idade.
- Você é amigo da Hadassa? - Perguntou, afobado, dando vários passos para se aproximar de Harry,
que se impressionou com o imediato interesse demonstrado.
- É, sou sim.
- Como ela está? Ela fala de mim? Veio com você? - A armadura que Harry tinha vestido para
conversar com o homem imediatamente se desfez ao perceber o óbvio desespero dele ao tocar no
nome da filha. Estava na cara que ele tinha vontade de se comunicar com ela, e algo ou alguém o
tinha impedido de fazê-lo por todos aqueles anos. Com um sorriso conformado ao perceber
que Harry estava sendo encurralado por suas perguntas, e notando que a filha claramente não
estava por perto, o pai de Hadassa respirou fundo e olhou para baixo, se recompondo. - Me
desculpe, eu não estou acostumado a ter notícias dela. Gostaria de entrar para um café?
Harry foi apresentado a toda a nova família de Augusto, como o senhor Guímel preferia ser
chamado, desde a esposa Bethani, a filha dela de outro casamento, Sarah, e o pequeno Bernardo, o
meio-irmão que Hadassa ainda não conhecia. Todos o receberam com muita simpatia, e logo ele e
Augusto estavam sentados na sala de estar para conversar sobre a menina.
- Eu acho que devo começar com uma explicação, certo? - O mais velho perguntou,
preocupado. Harry deu de ombros, sinalizando para que continuasse. - Bem, eu me separei da mãe
de Hadassa há alguns anos. Nosso casamento já tinha ido para o espaço há um bom tempo, mas foi
só nos últimos meses que eu conheci Bethani. Nosso relacionamento foi completamente platônico,
porque eu não me permitia realmente trair fisicamente a mãe da Hadassa, mas conforme eu me vi
apaixonado por ela, precisei pedir a separação.
- E desde então não tentou se comunicar com a sua filha?
- No início, eu ia todos os dias tentar vê-la, ligava, mandava cartas, flores, chocolates. Mas nunca
conseguia falar com ela pessoalmente, e minha ex-mulher dizia que era porque ela estava brava
comigo, me ressentia por ter deixado elas, e não queria me ver. Tentei respeitar seu espaço, mas a
falta de notícias foi me deixando cada vez mais aflito. Nem meus telefonemas ela atendia! Com o
tempo... Acho que eu cansei de me torturar e resolvi deixar nas mãos dela nosso reencontro.
- Não passou pela sua cabeça que talvez a mãe dela estivesse interceptando seu contato?
- Não... Eu sei que ela ficou com muita raiva de mim, mas ela não descontaria na Hadassa. Quando
a gente se separou ela lutou com unhas e dentes comigo para que a filha morasse com ela, então eu
não vejo como... - Augusto se interrompeu, parecendo notar que seu discurso era muito mais
decorado, uma desculpa repetida um milhão de vezes, do que de fato uma explicação satisfatória do
porquê a ex-mulher não faria aquilo. - Você acha que ela seria capaz?
- Eu não acho nada, senhor Augusto. O que eu sei é que sua filha acha que você não quer saber
dela, que se esqueceu da sua existência, e que, mesmo assim, ela te ama demais.
- Ai meu deus... É claro que não! - Ele parecia arrasado, desolado, e as rugas de seu rosto estavam
tão fundas quanto possíveis, só de pensar no que a filha estava passando. - Garoto, eu amo a minha
filha. - Sentiu a necessidade de explicitar. - Quero estar com ela sim, sempre. Qualquer motivo que
tenha a convencido do contrário... Está equivocado. - Respirou fundo, vendo que Harry o olhava com
pena, comprando sua fala como verdadeira. Lhe ocorreu que aquela era a sua melhor chance de
consertar as coisas. - Você pode arranjar um encontro entre nós dois, certo? Pode fazer isso? -
Suplicou, no mesmo momento que o celular de Harry vibrava com a chegada de uma nova
mensagem, coincidentemente do alvo daquela conversa, pedindo que ele fosse buscá-la.
- Considere feito.

Diciannove
- Você está oficialmente estranho. - Hadassa observou, enquanto reparava nos tiques de ansiedade
que o menino não conseguiria disfarçar nem se quisesse.
- Claro que não, é coisa da sua cabeça. - Ele dispersou, caminhando lado a lado com ela pelo jardim
que levava ao QG.
- Harry. - Ela reclamou, virando ele para si pelos ombros e inspecionando o rosto bonito atrás de
qualquer indício do motivo de tanta inquietude. - Fala comigo. O que tá acontecendo?
O garoto bufou o trocou o peso de perna, olhando para ela insatisfeito. O encontro arranjado com o
pai era naquele dia, e ele queria manter a ciosa toda como surpresa, para que ela fosse livre de
expectativas e rancores. Mas não contava que fosse ser tão impossível guardar um segredo da sua
menina.
- Você vai saber ainda hoje, tudo bem? Só vou te deixar no escuro por mais algumas horas, eu
prometo. - Hadassa ainda estava desconfiada, mas vendo que ele havia se acalmado só de ter
revelado a ela que de fato existia um motivo para deixá-lo tão agitado, deu-se por satisfeita. A
curiosidade sem limites gritava na cabeça, mas era abafada pela própria ansiedade, que não via a
hora de eles terem a aula do dia, a qual Harry havia frisado ser bem importante.
Era um bonito sábado ensolarado, mas o tempo ameno não o tornava propício ao banho de piscina,
uma vez que a dos Styles não era aquecida. Mesmo assim, não viam motivos para se enfurnar
dentro da casa de madeira com um dia tão bonito passando do lado de fora.
Harry tinha ido buscar a menina em casa logo pela manhã, e se surpreendeu quando ela apareceu
com uma cesta em mãos, pronta para um piquenique desses de filme. Ela explicou que estava com
vontade de fazer aquilo há algum tempo, visto o enorme gramado fofo que habitava a casa do
garoto, e se desculpou por tê-lo pego de surpresa com um programa "romântico além da conta".
Mas ele logo a livrou de suas preocupações, garantindo que não havia nada que ele quisesse fazer
mais naquele dia do que exatamente aquilo.
Então, ela estendeu a toalha tipicamente quadriculada que havia trazido sob o jardim e espalhou os
potinhos de frutas frescas pãezinhos pela sua extensão, enquanto o garoto ia até a geladeira da casa
buscar uma belíssima garrafa de vinho branco, perfeita para a ocasião. Eles se acomodaram sobre a
claridade do sol das 10 horas, ela com as costas apoiadas sobre o peitoral dele, e conversaram
amenidades por quase duas horas, conhecendo e deixando conhecer mais sobre gostos e
preferências musicais e de leitura, ao mesmo tempo que desfrutavam dos comes e bebes sem
restrição.
Riram muito com a interpretação de Hadassa de uma música nova da Taylor Swift cujo clipe tinha
uma cena muito parecida com a que estavam vivendo, Blank Space, na qual ela balançava os
cabelos com intensidade e dublava a voz da cantora que saía do celular. Riram mais ainda
quando Harry resolveu dar um show de Air Guitar, sob o single de mesmo nome do McBusted, e
quase derrubou o pouco que restava da garrada de vinho no processo.
Com o tempo e as brincadeiras - e o doce teor de álcool percorrendo suas veias -, ambos
conseguiram se esquecer dos motivos de agitação que perturbavam suas cabeças no começo do dia.
De alguma forma, aquela parecia ser uma constante: Se estavam juntos, não havia problema no
mundo que merecesse muita importância.
Até mesmo Whisky resolveu dar as caras depois de algum tempo, mesmo ainda sendo
indiscutivelmente cedo demais para o peludo estar acordado, levando em conta o quão preguiçoso
normalmente era. O potencial carinho que receberia de Hadassa parecia ser motivo o suficiente para
tirá-lo da cama antes do habitual, e os pães frescos que conseguiu roubar quando o casal se distraía,
mais ainda.
Uma sequência de nuvens apareceu eventualmente para tornar o piquenique menos interessante.
Ainda estava longe de chover, mas, sem o sol, o vento resolveu dar as caras e o interior da casa de
madeira pareceu subitamente irrecusável.
Entraram os três então, e se jogaram no conhecido sofá da sala - Whisky desceu depois de alguns
gritos de Harry, e se recolheu no quarto, chateado de não poder participar da "farra", sob os risos do
dono pela sua cara de "cachorro que caiu da mudança" e dos protestos de Hadassa, que defendia o
amigo canino com unhas e dentes.
- Hoje você vai me dar a sétima aula? - Hadassa perguntou depois que os risos cessaram e o silêncio
tomou conta dos dois. Ela tinha a cabeça deitada no ombro do professor, que acariciava seu quadril
com o braço por volta dela.
- Ainda não. Não acabei a sexta. - Ele explicou, repuxando os lábios.
- Não? Mas achei que o sexting era o ensinamento final. - Hadassa se afastou para que pudesse
olhá-lo de frente, e Harry suspirou, notando a curiosidade da menina, e se acomodou direito para
poder dizer o que tinha em mente.
- A sexta aula é sobre como manter o cara com você, certo? - Perguntou retoricamente, vendo-a
acenar positivamente. - Bem, eu te ensinei como agradá-lo no dia-a-dia, cozinhando, fazendo
massagem, ajudando com os problemas, etc. Mas é importante também saber como agradá-lo à
noite. Como desestressar ele entre quatro paredes.
- Mas isso é meio óbvio. - Ela deu de ombros, curiosamente à vontade com o assunto. - A aula de
sexo já foi, Harry.
- Existe mais de uma modalidade, cabeção. E uma especialmente importante são as preliminares.
- Preliminares?
- É. Strip-tease, handjob, sexo oral, entre outras. Eu não vou entrar em detalhes sobre as primeiras
duas porque acho que a aula de dança já ajuda bastante nesse quesito e porque já vi que você não
tem grandes dificuldades com punheta na noite que assistimos o filme pornô. - Ele mencionou,
assistindo-a perder a pose de bem-resolvida que carregava para manchar as bochechas de rosado.
Aquela característica de sua personalidade tímida nunca perderia a graça. - Então me resta te
ensinar a pagar um boquete.
- Tudo bem, hora da verdade... - Disse com as mãos a frente do corpo e os olhos fechados como
quem conta um segredo muito vergonhoso. - Eu meio que sempre quis aprender isso. Mas tinha um
pouco de... Nojo? Não sei. E medo de fazer tudo errado e machucar o cara. Sabe?
- É pra isso que seu professor está aqui. - Piscou, sagaz.
- Então... Como a gente começa?
- Ansiedade podia ser seu nome do meio, sabia? - Ele riu, acariciando o rosto pequeno e rabugento
dela. - Vem aqui me beijar primeiro, antes de ocupar essa boquinha linda com o meu pau. - Puxou a
menina pelo queixo, que se apoiou nos joelhos em cima do sofá e engatinhou para ele, selando seus
lábios. Contornou eles com a língua e chupou o inferior, deixando ali seu gosto único. - Hm... Eu
nunca vou me cansar disso.
Harry passou o braço pela cintura da menina e a puxou no susto para se sentar em seu colo, uma
perna de cada lado do quadril, e ela emitiu um gritinho assustado com o movimento. Então, ele
enfiou a mão entre os cabelos da nuca dela e segurou firme sua cabeça para iniciar um beijo
alucinado e apaixonado, obrigando-a a abrir a boca e corresponder com igual fervorosidade.
Hadassa acariciava o peitoral do garoto por cima da camiseta de algodão fina, sentindo os músculos
se tencionarem com o seu toque, e se deliciava com o quão gostoso era o homem entre as suas
pernas. Ela tinha vontade de lambê-lo inteiro, músculo por músculo, cada mínimo pedaço de pele,
protuberância ou curva.
Não que ele ficasse atrás, agora enterrando a boca no pescoço perfumado dela, engolindo em goles
generosos a pele sensível, mordendo, chupando, beijando. Hadassa fechava os olhos e inclinava a
cabeça, já sentindo o acúmulo de saliva e o deslizar característico de umidez em sua virilha.
Instintivamente, agarrou os cabelos curtos do garoto e ordenou ao quadril que rebolasse, alojando a
agora aparente ereção de Harry no lugar mais certo possível.
Sentindo o estímulo, Harry cessou o ataque que descia o colo em chamas da menor para olhá-la nos
olhos e constatar aquilo que ambos já sabiam:
- Desse jeito não vai ter aula nenhuma porque eu não vou conseguir não te comer, Anjo. - Soprou
contra os lábios inchados dela, já quase desistindo de tudo e levantando com ela para a cama.
- Não! Não, não, não... - Ela repetia, tentando se lembrar o que estava tão determinada a negar. -
Eu quero aprender. - Ela engoliu, quase convencida de que precisava se afastar. - Me ensina! Daí
mais tarde você faz o que quiser comigo. - Sob a perspectiva de que aquilo teria continuidade e
lembrando-se da vontade iminente de se derramar na boca da garota, o professor concordou uma
vez com a cabeça, ajudando-a a desmontar de cima de si e voltar para a posição ajoelhada no sofá
ao seu lado.
- Tá, é... Deixa eu me concentrar um segundo. - Tossiu, clareando um pouco que fosse os
pensamentos, e fechou os olhos com força, procurando por seu auto-controle. Os abriu subitamente
ao sentir as mãos pequenas dela lhe abrindo o botão e zíper da bermuda cargo preta. Suspirou,
conformado, se sentindo mais duro ainda com a iniciativa dela. - E depois eu sou o impossível... -
Reclamou, ajudando a abaixar de vez as vestes e libertar seu amigo do aperto. Pôde ver Hadassa
engolindo em seco ao observar tão sem filtros o tamanho que já a tinha preenchido outras vezes.
Sorriu discreto, se inclinando para buscar a carteira na mesa de centro, mas um toque delicado em
seu braço o impediu.
- É muito necessária a camisinha nesse caso? Eu meio que queria sentir... O seu gosto, sabe? E não
o de borracha. - Disse, tímida, temendo estar falando uma grande baboseira.
- O ideal é usar camisinha sim, para evitar transmissão de doenças como herpes, que são cutâneas,
e para não fazer sujeira quando acabar. Mas como eu não tenho nada e você quer... Não vejo
porquê não, linda. - Sorriu, acariciando os cabelos sedosos dela com carinho. Hadassa molhou os
lábios e se acomodou de forma a poder debruçar sobre ele propriamente. Olhou para o professor
uma última vez buscando apoio, e tendo o obtido, segurou seu mastro bela base com uma das
mãos, deslizando o polegar de cima a baixo devagar, em agrado.
- E como eu começo?
- Primeiro você cria um clima, morde as entradas, lambe a virilha... Para preparar o cara. Como
nesse caso é obviamente desnecessário já que eu tô mais do que pronto - Indicou a dureza de seu
sexo e a gota de suor já descendo sua testa. -, seu primeiro passo vai ser molhar ele todo. Lamba
desde a cabeça até a base e mais abaixo se quiser. - Com um aceno de entendimento, Hadassa
estendeu a língua para fora e passeou a mesma por toda a extensão de pele disponível, caprichando
bastante em movimentos circulares na cabecinha e usando um pouco os lábios no comprimento,
como se o beijasse. Desceu um pouco mais a cabeça quando se deu por satisfeita e chupou a pele
do saco escrotal. Achou aquilo estranho, no entanto, e preferiu voltar para cima, onde deixava sua
saliva escorrer e ajudava a espalhá-la com a mão. Harry tinha as narinas infladas e a mão apertada
nos cabelos da menor, tentando a todo momento se lembrar de que tinha que lhe dar instruções
ainda. Com o pau suficientemente molhado, ele encontrou voz para falar. - Ótimo, linda. Agora você
vai colocar ele na boca, tudo bem? Usa seus lábios para proteger os dentes, pois eles podem
machucar, e tenta sugar as bochechas quando estiver subindo. A sucção é ainda mais prazerosa.
Cobre a parte que você não conseguir alcançar com a mão e a movimenta junto com a sua boca. -
Um a um, Hadassa obedeceu todos os passos, abocanhando o membro de Harry até mais da
metade, com muita fome. O conteúdo acabou sendo demais, e ela engasgou, tirando ele da boca em
uma tossida. - Calma, anjo, calma... - Ele a acalmou, acariciando os cabelos. - Não precisa por tudo.
E relaxa a garganta, eu não vou te forçar contra mim. - Recuperada e com novas
instruções, Hadassa tentou de novo, dessa vez colocando um pouco menos na boca, apenas o
suficiente para arrancar um grunhido do professor e permiti-la sentir o gosto único que ele tinha.
Com a ajuda da mão, começou a subir e descer em um movimento vai-e-vem, alcançando novas
porções de carne a cada nova abocanhada. Se atreveu a sugar e percebendo não ser tão difícil,
tornou aquele movimento constante. Harry jogou a cabeça para trás, respirando com dificuldade,
achando inacreditável que uma boca tão inexperiente estivesse o levando a loucura daquela
maneira.
Mas era ela... E nada era conforme o esperado quando se tratava daquela menina.
Colocou a mão livre em cima da dela para mostrar que ela devia torcer o pulso ao subir e descer a
mão no handjob, e usar mais do dedo indicador e polegar como em um anel. Quando percebeu que
ela pegou o jeito, se afastou e se permitiu aproveitar a carícia íntima de uma vez.
Hadassa continuou engolindo tanto do membro do professor quanto conseguia, e embora por vezes
o ar lhe faltasse, os gemidos roucos e completamente sensuais que Harry deixava escapar a
estimulavam a continuar.
Ela logo percebeu o porquê de tanto interesse naquela modalidade do sexo em particular: Era o
poder. Hadassa se sentia poderosa, capaz de qualquer coisa, responsável diretamente pelo prazer do
parceiro e com a decisão de parar ou continuar pairando única e exclusivamente nas suas mãos. Era
inebriante.
Quando se aproximou perigosamente do êxtase, Harry acariciou de forma diferente os cabelos da
menor indicando que ela parasse. Ainda assim, teimosa, ela lhe deu mais duas longas chupadas
deliciosas que tornaram quase impossível de segurar o gozo, que veio em seguida, quente e
irrefreável, sendo contido pelos dedos de Harry pressionando firmemente a cabeça como quem
segura o jato de uma mangueira. Alguns tremores e suspiros de alívio depois, todos os músculos do
corpo de Harry relaxaram e ele fechou os olhos aproveitando os últimos segundos do ápice de sua
luxúria.
Hadassa esperava pacientemente enquanto ele se recuperava, não podendo, no entanto, conter a
vontade de passar os dedos pela única gota de suco que escapou a prisão atenta do garoto, e a
levando imediatamente aos lábios. O líquido branco era pastoso e engraçado, não chegando a ser
bom ou ruim, mas a experiência serviu para matar sua curiosidade.
- Hadassa... - Harry chamou, uma vez que o ar passou a entrar e sair ordenadamente de seus
pulmões novamente. - Você foi perfeita. Se saiu muito bem com pouca ou nenhuma instrução. Por
incrível que pareça, acho que esse foi potencialmente o melhor boquete que eu já recebi na vida!
- Uau! Tô me sentindo agora. - Ela riu, orgulhosa.
- Sua peste. Vou te sequestrar e prender no meu quarto, e você só vai poder sair mediante o
pagamento integral de um blowjob por dia. - Brincou, puxando a menina para se escorar nele, agora
que já tinha se recomposto e puxado a bermuda de volta para o lugar.
- Com todos esses elogios eu acho que sou até capaz de abaixar as calças do Sam e chupar ele na
frente da namoradinha nojenta! - Hadassa riu, achando a maior graça ao pensar na cara azeda de
Milena assistindo a cena, ainda mais por ela ter certeza que a garota devia ser uma das inúmeras
que já haviam feito o agrado a Harry em tempos passados, mas o professor não compartilhou do
riso contínuo. Pelo contrário, se incomodou muito com a imagem mental de Hadassa de joelhos em
um momento tão íntimo como o que acabara de dividir com ele com o loiro aguado. A ânsia de
vômito lhe foi inevitável, e logo ele estava em pé, tentando desesperadamente mudar de assunto
para um que ao menos não lhe revirasse o estômago daquela forma tão peculiar.
- Enfim... Tem um lugar onde eu quero te levar hoje. Uma pessoa que quero que conheça. - Disse,
caminhando para o banheiro a fim de se limpar, deixando uma Hadassa levemente confusa pela
seriedade súbita dada à conversa.
- É? Quem é? - Ela perguntou, ainda sentada e pensativa, ao passo que Harry já estava com os
pertences no bolso pronto para sair.
- Levanta essa bunda gostosa daí que você descobre.

Era uma cafeteria extremamente simpática, em um lado da cidade que ela não estava acostumada a
frequentar, com cadeiras forradas em estampas alegres e uma estante com grandes títulos nacionais
ao fim, para usufruto dos clientes que desejassem ler alguma coisa. Hadassa imediatamente se
afeiçoou pelo lugar, e parecia uma criança em parque de diversões enquanto observava o cardápio
extenso de batidas cafeinadas e doces gordurosos quando Harry lhe perguntou o que queria.
Respondeu impulsivamente e foi obrigada a corrigir o pedido com o caixa mais duas vezes até se dar
por satisfeita, só então cortando o encanto excessivo com que tratava o local para reparar na tensão
óbvia que acompanhava as atitudes do professor. Ele parecia correto demais, ereto demais, educado
demais. Não havia feito nenhuma piadinha suja ainda, nem apertado sua barriga ou bagunçado seus
cabelos, e a bermuda estava, pela primeira vez na vida, no lugar certo, sem deixar a mostra a curta
faixa da boxer tentadora como sempre costumava ficar. Os famosos alarmes soaram na cabeça da
menina.
- Harry, tá tudo bem? Você parece... Nervoso. - Escolheu, dentre todas as palavras que poderia usar
para descrever o comportamento dele. Harry a olhou nos olhos e abriu a boca para responder
alguma coisa, mas os pedidos sendo colocados à sua frente no balcão foram a perfeita desculpa
para que permanecesse quieto. Ele segurou a embalagem com os cafés e a sacola parda com as
gordices de Hadassa em uma só mão, e com a outra entrelaçou a dela para conduzi-la pelas mesas.
Passaram por duas perfeitas para duas pessoas, como era o caso deles, e Harry mesmo assim
continuou caminhando até os fundos do lugar, perto da estante com os livros e, agora Hadassa
podia ver, jornais da semana.
Ali, na última mesa, haviam 4 cadeiras, e uma delas estava ocupada. Era um senhor meio grisalho,
de costas para os dois, que parecia metade entretido no livro que tinha em mãos e metade ansioso
por algo, pois balançava freneticamente o pé dobrado sobre o joelho e checava as horas de segundo
em segundo.
- Harry, tá ocupado, vamos... - Ela tentou argumentar, apontando com o polegar para trás, mas foi
impiedosamente interrompida. O homem virou-se para ela, e Harry logo tratou de fazer as
apresentações, que não eram, de fato, necessárias.
- Hadassa... Essa é a pessoa que eu queria que conhecesse. Augusto Guímel. Seu...
- Pai. - Ela completou. - O que...? Você... E ele...? - Ela balbuciou sem conseguir se situar naquele
encontro tão inesperado, e Harry imediatamente abandonou as coisas que segurava na mesa para
poder abraçá-la de lado, dando o apoio que ela precisava.
- Calma, minha linda... Senta aqui, vamos conversar. - Com a ajuda sempre solícita do maior, ela o
fez na cadeira mais próxima e observou ele fazê-lo ao seu lado e seu pai se acomodar temeroso na
que tinha à sua frente. - Ontem, quando eu descobri que você tinha conversado com a minha mãe
sobre os meus sonhos, fiquei com vontade de fazer algo por você também. Então eu fui até o
endereço que você me passou, ver se descobria alguma coisa sobre seu pai sem que você precisasse
passar por surpresas demais. - Explicou devagar, segurando as mãos frias dela entre as
suas. Hadassa, que nunca desviava o olhar dele quando estava falando, tinha os olhos cravados no
pai, as íris transparentes amedrontadas e os lábios entreabertos em expectativa. - Mas aí... Eu
acabei não me aguentando e conversando com o Sr. Augusto, porque queria entender, queria saber
o que raios tinha acontecido para vocês não terem mais contato. E qual não foi a minha surpresa em
descobrir que ele tinha sido privado disso tanto quanto você? - Imediatamente, a menina virou o
rosto para o mentor como se lhe perguntasse silenciosamente se aquilo era verdade. Se podia
confiar no que seus olhos e ouvidos testemunhavam. Com um sorriso carinhoso, Harry fez questão
de mostrar a ela que sim; que estava mais do que na hora. - Seu pai tentou falar com você por eras,
anjo... Mas as ligações e visitas foram todas interceptadas. Te diziam que seu pai não tinha
procurado por você, e diziam a ele que você não tinha qualquer interesse em vê-lo. Sua mãe,
magoada, deve ter achado que estava te protegendo dessa maneira...
- Mas ela não tem o direito de fazer isso. Eu tenho que poder escolher se quero conversar com o
meu pai ou não! - Hadassa se exaltou, as lágrimas rapidamente preenchendo os olhos, entre um
desejo de cair e o orgulho teimoso de não demonstrar fraqueza.
- Ninguém está discordando de você, principessa. - Augusto interferiu, chamando-a do apelido que
usava quando ela ainda era pequena, que significava "princesa" em italiano. Olhou para Harry como
se pedindo licença para falar, e esta lhe foi concedida. - Olha, querida... Eu nunca me afastaria de
você sem mais nem menos. Se criei a coragem para sair de um relacionamento que me fazia infeliz e
me permiti tentar novamente é só porque você me deu o empurrão inicial. E eu jamais me
esqueceria disso. Além do mais... Você é minha filha. Sangue do meu sangue. E pode parecer
estranho ouvir isso depois de tantos anos, mas... Eu amo você. Incondicionalmente. - Hadassa
finalmente se permitiu explodir em um choro doído de alívio e injustiça, caindo no peito de Harry
que lhe abraçou instintivamente. Era no mínimo complexo ter que encarar uma realidade tão
diferente daquela apresentada por tanto tempo, e todo mundo ali entendia que a garota precisaria
de um tempo para processar tudo.
- Isso quer dizer que você...? E eu...? - Ela murmurava, sentida, morta de saudades do pai e de tudo
que significava tê-lo novamente em sua vida.
- Shhh, meu amor... Tá tudo bem agora. Vai ficar tudo bem. - O mais velho sussurrava, alcançando
a mão da filha e a apertando entre as suas tão maiores, beijando as pontas dos dedos para provocar
cócegas.
- Como você pode saber disso, pai? - Ela perguntou com o choro mais controlado, olhando-o por
entre cílios colados de água salgada.
- Porque no final tudo fica bem. E se ainda não tá tudo bem... É porque ainda não chegou o fim. - A
menina conseguiu abrir um sorriso, lembrando-se de todas as vezes que ele lhe recitava aquela
mesma frase quando ela se indignava com algum acontecimento no meio de um livro de histórias,
lido para ela antes de dormir. Aquilo sempre conseguia acalmá-la, e aquela vez não foi diferente. -
Escuta, filha... Eu sei que é muita coisa para absorver de uma vez só. Mas eu gostaria muito que
você fosse em casa um dia, conhecer a minha esposa, a Sarah, seu irmãozinho... Todos eles tão
loucos pra saber um pouco mais de você e eu tenho certeza que vocês vão se dar muito bem. -
Convidou baixinho, sempre olhando para Harry em aprovação como se ele fosse um guarda costas
muito bravo que atacasse a qualquer passo em falso.
- Claro, pai... Eu vou adorar. - Fungou, limpando sem jeito os rastros de lágrima do rosto.
- E ai, querida, se você quiser, e só se você quiser... Eu prometo lutar pela sua guarda na justiça e
você vem morar comigo. O que você acha? - Perguntou, os olhos brilhando de expectativa e até
mesmo esperança.
- Acho legal que, pela primeira vez em tanto tempo, tenham me dado finalmente o direito de optar.

Venti

O restante do final de semana passou sem maiores emoções, visto que Harry entendia que a garota
precisava de um pouco de espaço para pensar sobre toda aquela dinâmica familiar complicada e a
proposta que o pai fez, tão impulsiva quanto ela mesma era.
Era sim horrível morar com a mãe, conviver com suas cobranças e acessos de raiva infundados, mas
ao mesmo tempo ela não sabia se seria melhor passar seus dias com a nova família do progenitor, a
quem não via há tantos anos. Haveria alguma chance de reestabelecerem o vínculo e criarem
intimidade, mesmo depois de todas as barreiras que o tempo e a mãe colocaram entre eles?
Se sim, se alguma prova da veracidade dessas afirmações pudesse lhe ser dada, ela aceitaria sem
pensar duas vezes. De pequena, sempre tinha sido mais próxima do pai, mais parecida com ele,
mais apegada à sua presença, enquanto com a mãe a relação sempre tinha sido fria e distante,
ainda mais depois dela ter se tornado uma mulher tão amarga.
A escolha parecia óbvia.
Mas os fantasmas da sua solidão não pensavam assim. Eles a obrigavam a pensar e recriar
circunstâncias, para ter certeza de que tomaria a decisão que mais garantiria conforto e amparo
familiar, a forçavam a pesar todos os riscos, possíveis ganhos e perdas. Vez após outra.

A segunda-feira chegou, entre aulas entediantes das matérias de humanas que Hadassa abominava
e centenas de exercícios gratificantes de matemática. As exatas, diferentemente da vida real,
sempre tinham uma resposta correta no gabarito para conferir, e aquilo a acalmava.
No intervalo, todos saíram correndo de suas salas para colocar a fofoca do final de semana em dia.
Ela caminhou com a multidão pronta para ser parada a qualquer momento por um par de braços
quentes e conhecidos, como Harry sempre fazia, e passar alguns minutos no aperto de seu abraço
perfumado antes de retomar a tortura escolar com a apresentação do trabalho de literatura.
Entretanto, antes que o moreno tivesse a chance de fazê-lo, alguém puxou o elástico que prendia
sua trança lateral em brincadeira, o que fez com que a mesma se desfizesse inteira, fino como era o
cabelo dela.
- Ei! - Ela reclamou, virando-se para tentar recuperar o elástico de quem quer que o tivesse pego.
Deparou-se com um Sam risonho a menos centímetros do que o recomendável.
- Oi, estranha. - Soprou com a voz alguns tons mais baixa. Hadassa estranhou, ele nunca falava
daquela maneira tão... Sensual. Ou algo assim.
- Estranha?
- É modo de dizer. - Deu de ombros. - Sabe... Será que a gente pode conversar? - Perguntou com
um quê de apreensão forjada que por algum motivo amoleceu o coração da garota, que até então
havia aprendido a se blindar contra os estímulos que ele desse.
- Claro. - Suspirou, sem ter como negar. Harry não estava por perto - provavelmente a esperava no
armário 100, mas isso era longe dali - então não tinha nenhuma desculpa boa o suficiente para
negar. E, se quisesse ser sincera consigo mesma, não queria ter. A perigosa junção de sua
curiosidade com um pedido sigiloso de conversa era mais do que ela podia ignorar. - Sobre o quê? -
Sam olhou para os lados, provavelmente à procura do namorado da amiga, e acabou por indicar
com a cabeça que fossem para outro lugar. Ela deu de ombros mentalmente, perguntando-se "por
que não?" e o seguiu até o pátio da escola, onde algumas árvores bem grandes abrigavam dezenas
de casais e alguns dorminhocos. Ele foi até uma vazia e se sentou nas raízes, sob a sombra bem-
vinda do dia abafado.
- Então... - Ele começou sem parecer saber como continuar. Olhava para qualquer lugar menos a
garota, inquieto e estranhamente disperso.
- Então...? - Ela estimulou, sem paciência para esperar a boa vontade dele de saciar sua curiosidade
de uma vez.
- Eu pensei bastante no que você me disse semana passada. Você sabe, sobre eu ser o culpado pelo
nosso afastamento. E... Acho que você está certa. - Disse de uma vez, como se dessa forma fosse
acabar logo. Orgulho era seu nome do meio, e falar aquele tipo de coisa quase lhe causava dor
física, mas entendia que era necessário.
- Eu estou? - Hadassa levantou as sobrancelhas, impressionada.
- Sim. E eu me sinto bem culpado por isso.
- Sente? – Hadassa se viu como um daqueles papagaios treinados que só sabiam repetir o que lhes
era dito, mas não podia evitar a ausência de raciocínio próprio em um diálogo tão irreal.
- É. E eu quero consertar isso. Então o que você me diz de passarmos o dia juntos hoje? Você vem
assistir o meu treino de basquete e depois a gente sai pra tomar um sorvete ou algo assim. Topa? -
Hadassa se sentia em um universo paralelo, como se de repente ela virasse um personagem fictício
e tivesse alguma alma mentalmente desequilibrada escrevendo os próximos passos de sua vida
incoerente. Ainda assim, acabou balbuciando um "s-sim" assustado. - Ótimo! Você vai ver, vai ser
como antigamente, Dassa.
- ...Yey?
- Agora me conta, o que você tem aprontado? - Sam estava demonstrando, em uma conversa, mais
interesse em escutar suas respostas do que em toda a história de sua amizade, e aquilo era
perturbador. Tinha se virado em direção a ela, encostando-se de lado no tronco da árvore que
compartilhavam para poder olhar para o seu rosto.
- Não sei o que você quer escutar, Sam. - Deu de ombros, sem vontade de desembestar a falar
sobre qualquer assunto, como normalmente fazia. Não sentia ter mais intimidade com o loiro para
isso.
- Pode começar me dizendo como você acabou namorando o bambambã do colégio. - Ele sugeriu,
ao passo que o celular dela apitou com uma nova mensagem de Harry onde se lia "Julieta, ó Julieta!
Onde estás, minha bela dama? Romeu está triste e desolado com a falta de sua inebriante presença
aqui na Alameda dos Rouxinóis, armário 100." Hadassa instintivamente deu risada do tom pomposo
usado pelo professor e Sam olhou de lado, claramente infeliz com a reação espontânea dela a algo
que não havia sido ele o autor.
- Bem... - Ela começou o relato, interrompendo-se brevemente para responder a mensagem
de Harry: "Estou resolvendo uma coisa, Romeu. Vá para o intervalo sem mim e não beba nenhum
veneno. Mais tarde eu te compenso. Beijos". - Eu tive um dia ruim há alguns meses, e o Harry me
encontrou e consolou mesmo sem me conhecer. Acabamos conversando, nos dando bem e... Acho
que uma coisa levou à outra. - Aquela era a versão mais verdadeira que Hadassa podia dar omitindo
o amigo da equação e ela se prometeu permanecer fiel àquele discurso.
- Ele te chamou para sair sem mais nem menos? - Investigou como se soubesse que havia um
motivo maior por trás.
- Não. Ele me disse que estava com dificuldades nas matérias e eu me ofereci para ajudar. Em uma
tarde de estudos rolou um clima e a gente se beijou. Desde então nós só... Não paramos. - A garota
percebeu o quanto aquilo era verdade. Por mais que estivessem quase sempre motivados por
alguma aula, ela e o moreno não se desgrudavam, nem se continham, independente do lugar ou
contexto. Claro que ela já tinha diagnosticado aquilo como costume, achava que Harry só não saía
do papel quando estavam no particular, mas não podia ser só isso. Estava mais do que na hora de
admitir que de "fake" aquele relacionamento não tinha nada. E, por incrível que pudesse parecer, a
constatação daquele fato só provocou uma onda quente pelo corpo miúdo de Hadassa, como se
fosse algo natural e esperado pelo que ela tivesse almejando há tempos.
- Então não houve um pedido oficial? - O loiro parecia determinado a tentar pegá-la no pulo. Ela
lembrou-se da forma abrupta com a qual Harry lhe disse que "para todos os efeitos" agora eles
estavam namorando, após vê-la conversando com Sam. Riu sozinha mais uma vez da cara de
alucinado que ele trazia naquela hora, e da forma como não deixou espaço para que ela negasse,
para variar.
- Foi mais uma ordem. - Contou, ainda risonha e a testa do melhor amigo se enrugou inteira em
incompreensão. Hadassa não se deu ao trabalho de explicar. - Vamos mudar de assunto?
- Ah... Claro! - Sam balançou a cabeça, em uma tentativa de se conformar que não podia insistir no
tema ou seria indelicado.
- E você e a Milena, como estão? - Hadassa perguntou, mais por educação do que qualquer outra
coisa.
- Pra falar a verdade... Não muito bem. Ela meio que me cansa. Dá muito trabalho namorar. -
Confidenciou em um suspiro, esperando concordância da menor.
- Engraçado... Pode ser porque eu e o Harry estamos juntos há pouco tempo, mas para mim
namorar é tão natural... - Comentou, repuxando os lábios e olhando em volta, inconscientemente
procurando pelo professor, que não estava no seu campo de visão.
- Vai ver isso é mérito seu, Dassa. Você torna tudo mais fácil. - Sam se aproximou ainda mais e
olhou no fundo dos seus olhos ao dizer aquilo, como se fosse o elogio mais grandioso que pudesse
fazer a alguém.Hadassa só podia se lembrar da última aula e de como Harry dizia que ela precisava
ser o motivo de loucura e também de apoio da pessoa amada, e se perguntar se aquilo significava
que ela estava fazendo as coisas absolutamente certas ou notoriamente erradas.
- ... Obrigada? - O loiro sorriu abertamente e a puxou para um abraço apertado, esfregando seus
cabelos com mais força do que o desejado.
- Eu senti sua falta, garota.

Voltando para a sala de aula ao final do intervalo, Hadassa encontrou Harry escorado na parede ao
lado da porta. Sam tinha ficado para trás, pois era de uma sala diferente de Hadassa apesar de
também ser do segundo colegial. Quando Harry a avistou se aproximando, abriu um meio-sorriso
preocupado.
- Você tá bem? Aconteceu alguma coisa? - Perguntou, correndo os olhos pelo corpo dela como se
buscasse algum machucado visível. Ela não era de querer passar o intervalo sozinha, então o fato de
não ter estado com ele alarmava que algo ruim poderia ter se passado.
- Tá tudo bem, Harry. Eu só fui arrastada para o pátio pelo Sam. Ele queria conversar.
- Sobre o quê? - A sobrancelha franzida indicava sua desconfiança no seu em questão.
- Tudo e nada ao mesmo tempo... Perguntou de você, contou da Milena, disse sentir a minha falta e
acabou me chamando para tomar sorvete depois do treino. - Ela suspirou, repassando rapidamente
todos os assuntos abordados nos 30 minutos de conversa. Harry parecia surpreso e perdido, os
bonitos olhos claros alternando-se freneticamente entre os transparentes dela em busca de
respostas.
- E você vai?
- Ah, vou. Eu acho que ele me chamou como amigo, porque estamos os dois namorando
teoricamente, mas não custa nada sentir onde eu to pisando. ... Certo?
O professor de química chegou e apressou a menina para dentro, e ela o foi sem nunca ter escutado
uma resposta.

Se fosse ser sincera consigo mesma, Hadassa teria que dizer que não tinha a menor vontade de
tomar chá de cadeira - ou arquibancada, no caso - por uma hora só por um mísero sorvete depois e
mais um interrogatório sobre o seu namoro. Ela preferia muito mais ir com Harry para casa e passar
o final de tarde assistindo algum filme deitada no colo dele e fazendo carinho em Whisky. Mas algo
dentro dela a obrigava a não levantar a bunda dali, a passar por aquele dia, minuto após minuto, e
aproveitar toda a súbita atenção que Sam a estava oferecendo. Sentia que devia isso à Hadassa de
alguns meses atrás, com todo seu amor infundado e choros incontroláveis nos reservados dos
banheiros da escola, de pelo menos ir tomar um maldito sorvete com o cara por quem era
apaixonada.
Mesmo que agora achasse ele chato e infantil. Mesmo que seu coração não agisse com o mesmo
desespero enlouquecedor quando ele estava por perto. Mesmo que estivesse louca para
segurar Harry pela gola da camiseta e perguntar o que, afinal de contas, os dois tinham. Ela só
estava em um dia ruim, com coisas demais na cabeça devido ao fim do ano letivo, e confusa quanto
às suas prioridades.
Afinal, quem em sã consciência negaria um encontro informal com o jogador alto e atlético do time
de basquete, tão fofo em sua regata gigante do uniforme, correndo de um lado para outro na
quadra, fazendo seus cabelos loiros pularem? Só uma garota idiota. Ela, certamente, não queria esse
título.

- Vamos, Dassa? - Perguntou, uma toalha em volta do pescoço molhado e um sorriso frouxo no
rosto levemente avermelhado.
- Aham. - Ela se levantou, passando a bolsa no ombro e caminhando com ele para fora do colégio,
em direção a sorveteria que ficava alguns quarteirões adiante.
- E aí, gostou do treino? - Sam tinha uma pose levemente convencida, como se soubesse - ou
achasse saber - que ela havia babado nele durante os 60 minutos que o jogo durou.
- É, você manda bem. - Disse simplesmente, não dando muita atenção. O loiro a olhou de lado,
intrigado, tentando buscar na mente algo que pudesse impressioná-la.
- Sabe... Eu acho que finalmente decidi o que quero fazer quando sair do colégio.
- Jura? O quê? - Sam olhou para os lados como se estivesse sendo espionado, e puxou Hadassa pela
mão até um beco entre dois prédios, de forma a ficarem mais escondidos. Ela riu, achando ele doido
das ideias.
- Atenção que é segredo, hein! - Disse com um dedo em riste sinalizando que ela ficasse calada. -
Meu pai conseguiu um passe para que eu assista um treino da seleção de basquete nacional. Meu
plano é me infiltrar lá de algum jeito até virar gandula, e daí para assistente do técnico, e então
alguém mais importante. O próprio técnico talvez, ou um comentarista, ou é capaz até mesmo de
me contratarem pro time! Não é o máximo? -Hadassa o encarou atônita, assistindo toda a sua
animação no auge da infantilidade, o achando a pessoa mais imatura do mundo. Suas aspirações se
resumiam àquilo? Usar os contatos do pai e crescer de forma irreal e ilusória? Sem sequer fazer
faculdade? Não pôde evitar pensar em comparação, em como os objetivos de Harry eram tão mais
dignos. Mudar o mundo um passo por vez, fazer sua parte na sociedade, ajudar as pessoas. Isso
eram sonhos de um homem! Um homem maduro, consciente, responsável. Inconscientemente,
desbloqueou a tela do celular para ver se havia alguma mensagem não lida dele, mas o aparelho
não denunciava nada.
- Que bom pra você, Sam. Boa sorte nessa empreitada. - Murmurou mecanicamente para o amigo
confiante e sorridente. - Podemos tomar o sorvete agora de uma vez?

Entediada. Essa era a definição do estado de espírito no qual se encontrava Hadassa depois de já ter
tomado tudo o que interessava do sorvete e escutar Samuel Luscenti falando sem parar sobre
festas, os amigos babacas, o time imbecil, e suas noções mais que equivocadas sobre a vida,
política, arte e cultura por quase 50 minutos. Os restos de calda e massa derretida no pote não eram
interessantes o suficiente para distraí-la do monólogo incessante do garoto sobre todos os assuntos
fúteis e sem profundidade existentes na face da Terra. Ela empurrava a cereja de um lado para o
outro torcendo para que ela se transformasse em um dragão e comesse a cabeça do loiro para que
pudesse levantar e ir embora de uma vez como se nada tivesse acontecido. Mas então, se lembrava
de que, se ele conseguia ter assuntos tão inúteis e desinteressantes por tanto tempo, era porque
não usava a cabeça de fato, e portanto perdê-la não faria a menor diferença.
Suspirando, lembrava-se das aulas de Harry novamente, dele dizendo que ela precisava fingir
interesse no que o alvo dizia para conquistá-lo, e do quanto ela não queria fazer aquele esforço no
momento. Tudo bem, ter Sam na palma das suas mãos era praticamente questão de princípio agora,
mas seduzi-lo teria que ficar para outro dia, pois naquele, em específico, ela não podia ter menos
vontade de fazê-lo.
De todo o blá blá blá do loiro, só uma coisa havia lhe prendido a atenção, e ela estava louca para
ligar para o professor e contar a notícia, para saber o que ele diria a respeito. Ao perceber que sua
educação já tinha passado longe, ela interrompeu qualquer frase que ele dizia no meio e pediu
licença para usar o toalete, onde pretendia contatar, enfim, o moreno.
Levantou-se e se encaminhou para os fundos da sorveteria, onde ficavam os banheiros privativos,
que funcionavam mais ou menos como lavabos, o que era suficiente considerando o porte do
estabelecimento. Abriu a porta do feminino, que nada mais era que um corredor pequeno com uma
pia arrumadinha e um único vaso ao fundo, e já estava sacando o celular quando uma mão impediu
a porta de se fechar. Hadassa teria se assustado, não fosse a porta se abrindo de novo e revelando
o professor com uma careta determinada.
Harry se enfiou no cubículo com ela e girou a tranca atrás de si.
- Harry! O que você tá fazendo aqui? - Esganiçou baixinho, com medo de que alguém do lado de
fora os escutasse.
- Digamos que bateu a saudades e eu não podia esperar. - Ele piscou, já colocando as mãos grandes
uma de cada lado da cintura de Hadassa e puxando-a para si, chocando seus corpos.
- Eu preciso te contar uma coisa. - Tentou dizer, enquanto ele já tinha a cabeça enterrada no
pescoço perfumado dela, distribuindo generosos chupões e beijos lânguidos, que, sem mais nem
menos, amoleciam as pernas da garota sem autorização.
- Depois. - Rugiu, levantando a blusa dela até a cintura e já a colocando sentada na pia, as pernas
abertas onde seu corpo se encaixava perfeitamente. Segurou as coxas fartas firmemente e obrigou
as pernas a se cruzarem atrás do seu quadril, os beijos descendo pelo colo já arfante da menina,
que tinha seus cabelos entre os dedos.
- Se eu demorar, o Sam vai estranhar. - Soprou, sem muita força para negar aquele momento
proibido e roubado, simultaneamente descendo as mãos pelo peitoral forte do mais velho até brincar
com a abertura de seus jeans.
- Ele supera. - Não podendo dar menos importância àquele fato, Harry arrancou sem cerimônias a
calça de Hadassa e a própria camiseta, antes de chocar com brutalidade e fome os lábios com os
dela. Apertou e bolinou um seio enquanto o quadril se empurrava por conta própria contra o fundo
já bastante úmido da calcinha de algodão que ela usava.
Rosnando fora de controle, Harry rompeu o beijo alucinado e se abaixou em frente a ela para
colocar a calcinha de lado e distribuir entusiasmadas lambidas por toda a intimidade rosa e mordidas
no clitóris.
Hadassa mordia os próprios dedos, tentando se manter silenciosa, quando tudo que queria era gritar
de tesão e gemer como uma vadia no cio, surpreendendo-se com o quanto aquele amasso estava
sendo sensacional.
Vagamente ciente da pressa que a situação exigia, Harry entregou uma camisinha para Hadassa
abrir enquanto se livrava das próprias calças e boxer, ficando gloriosamente nú. Trêmula de
ansiedade, ela conseguiu vesti-lo com propriedade, e logo ele estava dentro dela. Suspiros de alívio
idênticos foram emitidos, e maiores manifestações foram abafadas na boca alheia ao partilharem
outro beijo molhado e gostoso, que acompanhava com perfeição o ritmo frenético que o choque
entre quadris seguia.
Nenhum dos dois conseguiu segurar muito tempo, bêbados de adrenalina e desejo, e se derramaram
ao mesmo tempo em um êxtase longo, aliviado e cheio de incuráveis saudades.
Ofegando no colo de Hadassa, Harry murmurou um "até amanhã, linda", se vestiu na velocidade da
luz e deixou o reservado com um selinho e um beijo na testa da garota.
Levemente recomposta, Hadassa imitou o professor, detendo-se uns segundos a mais para colocar
os cabelos no lugar, e voltou para a mesa, vendo um Sam preocupado perguntar ao caixa do lugar
se tinha visto uma garota com as suas qualidades saindo da sorveteria abruptamente. Ao vê-la se
sentar de volta no lugar onde estavam, ele voou para a cadeira na sua frente, perguntando o que
diabos tinha acontecido para atrasá-la 20 minutos em uma simples ida ao banheiro. Contendo um
sorriso arteiro com o olhar na porta, Hadassa disse que só tinha recebido um chamado inadiável.
- Mas está tudo bem? - Ele perguntou, provavelmente entendendo que era uma ligação de sua mãe
ou algo similar.
- Agora tá tudo perfeito. - Ela respondeu, arrumando a camiseta amassada com prazer.

Ventuno

O mundo estava caindo em uma típica chuva de verão. Rápida e devastadora, ela obrigava os alunos
a entrarem na escola correndo e a partilharem guarda-chuvas pequenos demais para o número de
pessoas que normalmente protegiam.
Harry esperou impaciente a chegada de Hadassa, que veio segurando o fichário sob a cabeça e mais
gelada que um esquimó. Imediatamente ele colocou a própria jaqueta em cima dos ombros dela, e a
acompanhou para sua sala, sem dizer sequer uma palavra. O casal parou à porta e trocou um longo
olhar, seguido de um sorriso ameno por parte da garota. Harry esticou a mão e acariciou seu rosto
delicado, ainda olhando seriamente para cada detalhe do mesmo.
- Você vai lá pra casa hoje, né? - Perguntou baixinho, parecendo hipnotizado.
- Óbvio. Achou que ia se livrar de mim tão fácil? - Hadassa riu arteira, conseguindo arrancar um riso
curto do mais velho.
- Tá bem, passo aqui no final do período. - Ela concordou em um aceno e eles tomaram rumos
diferentes.
Harry se sentia um pouco contraditório. Como se tivesse engolido uma bola de pelos ou algo
igualmente desagradável, que mastigava seu peito e o deixava com uma sensação estranha de
incompletude.
Apesar de ter sido incrível e muito gostoso, ele se sentia mal pela aventura no banheiro da
sorveteria, pois tinha a sensação de ter aparecido ali por todos os motivos errados. Não era
necessariamente saudades deHadassa, embora sua presença sempre lhe fizesse falta. Não era tesão,
pois ele já não era mais um pré-adolescente no cio que não sabia se controlar. Era algo diferente,
algo que se relacionava não ao fato de que sua menina não estava consigo, mas sim ao fato de que
ela estava ali com ele.
E assim ele tinha dado nome ao seu problema. Sam. Até quando precisaria se sentir preterido com
relação àquele idiota? Ele era melhor em tudo, mais bonito, charmoso, inteligente, simpático. Não
havia um único motivo que colocasse o estúpido do loiro à sua frente para que ficasse tão
incomodado.
Exceto pela mais importante das características: Era ele quem tinha a Hadassa.
Então era isso? Tinha se resumido a um infeliz garotinho assustado e com ciúmes?
Arg. Só o pensamento lhe causava repulsa. Ciúmes era o sentimento mais vil e sem fundamentos
que o ser humano poderia sentir. Ele sabia bem disso, já tinha lidado com inúmeras crises das
garotas com quem estava costumado a sair.
E agora o jogo tinha virado contra ele.

Entraram na casa de madeira correndo para fugir da chuva e de um Whisky encharcado, louco para
pular em suas roupas com as patas lamacentas. Hadassa ria abertamente, lembrando da face do
cachorro querendo brincar e pulando em poças de água como se fosse carnaval, espirrando a
mesma para todos os lados. Ele até mesmo chegava a morder as gotas que caiam do céu em uma
piada só sua. Aquele grandalhão era mesmo único.
Uma vez dentro da segurança do teto que os cobria e já recuperados da correria, Harry e Hadassa
se jogaram no sofá em frente à televisão desligada e descansaram as cabeças no encosto, se
olhando.
- Eu acho que eu te devo desculpas, anjo. - Harry disse, repuxando os lábios.
- Desculpas? Pelo quê? - Indagou com as sobrancelhas franzidas em confusão.
- Por ter aparecido ontem no seu encontro com o loiro sem ser chamado. - Ele deu de ombros,
simplório.
- Mas... Eu gostei de você ter aparecido. - Disse com as bochechas adoravelmente vermelhas.
- Eu sei que sim, sua safada. - Brincou apertando a barriga dela como de costume. - Mas não foi
certo ainda assim.
- Se você diz, senhor correto, eu acredito. Mas não se preocupe, está desculpado.
- Obrigado, linda.
- Disponha, professor.
- Por falar em professor... Acho que posso te passar a sétima aula já.
- Eba! Sobre o que é? - Bateu palminhas, animada.
- Sobre inovar. - Pontuou, misterioso. Eles sentaram corretamente. - Rotina é algo maravilhoso para
disciplinar crianças, mas letal para muitos relacionamentos. É importante sempre o casal achar uma
forma de quebrar a inércia e se colocar em situações diferentes, que lidem com o inesperado e
tragam alguma experiência nova. Isso vale para tudo, então é importante inovar no programa dos
encontros, variar os restaurantes, os motéis, as posições na cama, tudo. Principalmente no sexo,
que como já expliquei, é um alicerce importantíssimo no qual muitos namoros se baseiam, fazer
coisas diferentes mantém a dinâmica do casal interessante e excitante. Afinal de contas, ninguém
aguenta fazer papai-e-mamãe para sempre. - Revirou os olhos com obviedade.
- Deixa eu adivinhar: Minha lição de casa vai ser ler o Kama Sutra? - Desconfiou, espremendo os
olhos.
- Não, linda. O Kama Sutra é um livro arcaico, criado por um indiano machista para descrever o que
suas várias esposas deveriam fazer para lhe dar prazer. Em um momento ele enaltece a mulher e no
outro está dizendo que sexo oral é coisa de prostituta. É sem noção e eu sou bem contra ele. Pelo
menos o original... Esses manuais de posições que tem em lojas de conveniência levam o nome de
"Kama Sutra" levianamente.
- Então o que eu vou ter que fazer? - Franziu as sobrancelhas, sem entender.
- Dessa vez, nada. Você já cumpriu sua lição, de certa forma.
- Hã?
- Seguinte, quando os casais querem quebrar a rotina além das posições, normalmente eles
procuram casas de swing, amigos interessados em ménage a trois, dildos e vibradores, artigos de
BDSM, cursos de massagem tailandesa, tentam sexo anal, voyerismo, exibicionismo... Tem uma
série de alternativas. Uma delas é o sexo em público, que foi basicamente o que fizemos ontem,
com todo o perigo e adrenalina que correu nossas veias, deixando tudo melhor.
- Uau! A gente praticou antes da aula? Isso que é gabaritar uma prova. - Hadassa riu, puxando o
garoto para acompanhá-la.
- Exatamente! E outra coisa que também dá sempre uma apimentada no relacionamento é ir para a
cama com diferentes sentimentos, diferentes emoções. Ao invés da tradicional paixão e luxúria, usar
a raiva do trabalho, a melancolia do dia chuvoso, a ansiedade pelo resultado de um exame. Se
afogar realmente no parceiro. Novamente, nós fizemos isso ontem. Eu estava um pouco irritado... -
"me mordendo de ciúmes, na verdade", completou em sua cabeça. - E você estava feliz, arrisco
dizer, pelo seu encontro. - "feliz... Mais para morta de tédio", foi a vez de Hadassa dizer
mentalmente.
- Entendi. Então quanto mais diferente for cada transa, melhor.
- Sim, senhora. - Harry parabenizou, dando por finalizada mais aquela aula. Estava chegando ao
ponto de não ter mais muito o que ensinar para a garota, que já estava pegando as orientações dele
com muito mais facilidade e desinibição. De fato, aquela Hadassa era uma pessoa completamente
diferente daquela que havia estado em seu sofá pela primeira vez, uns dois meses e meio antes.
- Ah, deixa eu te falar! Acho que eu decidi o que fazer com relação ao meu pai. - Ela interrompeu
seus pensamentos contemplativos, e mesmo assim ele não pode evitar olhá-la com carinho e um
sorriso cúmplice no rosto bonito.
- É? Quando isso aconteceu? Você agora toma decisões sem falar comigo antes? - Hadassa deu um
tapa estalado no braço do mais velho, rindo com seu exagero premeditado.
- Sim, ó todo poderoso, eu consigo andar com os meus próprios pés. - Mostrou a língua, birrenta.
- Bem, eu estou orgulhoso então. Me diz, o que você decidiu?
- Bom... Meu pai me ligou ontem. No celular, claro, porque em casa minha mãe não passaria a
ligação. -Revirou os olhos, irritada. Aquele fato não deixaria de emburrá-la tão cedo. - E a gente
conversou um monte, por quase duas horas. Ele me contou um pouquinho da vida dele depois que
saiu de casa e algumas histórias engraçadas sobre a nova família e eu me senti... Acolhida, sabe? E
aí eu decidi dar uma chance e tentar morar com ele, nem que só durante as férias para ver como é
que é.
- Mas e a sua mãe? - Harry lembrou, preocupado que se as coisas não corressem como ela pensava,
fosse perder a moradia na qual habitava atualmente.
- Então, essa é a parte mais legal. - Hadassa se sentou com pernas de índio, como costumava fazer
quando tinha algo muito interessante para falar ou escutar. - Meu pai apareceu no trabalho dela e
disse tudo, que já sabia que ela estava impedindo nossa comunicação, e que, se ela não colaborasse
com quaisquer escolhas que eu fizesse, ele ia na justiça me tirar dela. E, aparentemente, apesar de
todas as patadas que ela me dá, ela valoriza a minha presença na casa dela o suficiente para
aguentar calada.
- Que demais, Hadassa! Fico feliz por você, anjo. De verdade. - Harry puxou a mão dela para si,
apertando com força para mostrar que estava ao seu lado, o sorriso rasgando a face ao ver a dela
iluminada. - Aliás, lembrei agora que eu não te deixei falar no banheiro. O que você queria me
contar?
- Ai, é! Você não vai acreditar! Ontem, na sorveteria, o Sam me disse que tinha pensado bem
durante o dia, e que naquela mesma noite ele ia terminar com a Milena! - Abriu os braços na maior
novidade que recebeu durante aquele ano, animada e incrédula como poucas vezes Harry havia
visto. O garoto recebeu a notícia congelado, com os olhos levemente arregalados e sem conseguir
esboçar reação. Devia parecer feliz por ela? Porque agora... Hadassa tinha o caminho livre, certo? O
que poderia impedí-la de ficar com o melhor amigo? ... Ele?
E se sim... Com que direito faria isso?
- Interrompo alguma coisa? - Uma voz feminina falou vinda de trás do casal. Ambos viraram a
cabeça para deparar-se com uma garota encharcada de calça cargo, botas de combate e top
cropped, deixando a barriga sarada a mostra. Ela era esbelta, alta, com todas as curvas certas no
lugar, extremamente bronzeada, e seus longos cabelos castanhos cacheados e descoloridos nas
pontas pingavam, contribuindo para deixar a meia blusa branca transparente. A garota era a
definição de exótica, e Hadassa podia apostar que não havia um homem no mundo que a julgaria
como algo menos do que maravilhosa.
- Sophia? - Harry perguntou baixinho, como se visse uma miragem.
- Vem me dar um abraço, seu gostoso! - Ela gritou, com um sorriso contagiante no rosto, e logo
estavam os dois enroscados em um abraço mais que apertado, a menina desconhecida pulando no
colo dele, passando as pernas a sua volta.
Hadassa se sentiu uma intrusa na ceia de natal. Havia uma intimidade tão palpável ali que ela
chegava a ficar constrangida e incomodada, e de repente tudo que queria era estar do lado de fora
brincando com Whisky para não ter que observar a cena.
- Desde quando você voltou? - Harry perguntou quando ela já tinha descido de seu colo.
- Vim direto do aeroporto. Minhas malas estão no carro, até! Pra você ver o quanto eu te amo,
peste.
- Garota, que saudades que eu estava de você! Essa cidade não é a mesma coisa sem essa sua
bunda magra balançando de um lado para o outro.
- Olha, você me respeita que aqui tem carne o suficiente pra levar qualquer um à loucura e eu não
sou obrigada a lidar com o seu recalque. - Brincou, dando um beijo no próprio ombro. Harry deu
risada e se virou para o sofá de volta, parecendo só então se lembrar da presença de Hadassa ali no
cômodo.
- Que cabeça a minha, Hadassa! Essa é Sophia. Ela é minha melhor amiga que estava fazendo
intercâmbio no Vietnã pelos últimos seis meses. - Apresentou, não tirando os olhos saudosos da
amiga.
- Prazer em te conhecer. - Disse, polida, excessivamente educada e formal.
- Menina, você é muito travada! Não vai nem me chamar de doida de ter ido pra um país tão
aleatório e ter aparecido aqui assim, toda destrambelhada? - Zombou, a sinceridade além da conta
enfatizando seu jeito despojado.
- Ahm... Desculpe?
- De onde você raptou esse anjinho, Styles? - Sophia se virou para o moreno, as mãos na cintura
como se o tivesse pego fazendo arte.
- Ela quem me achou, por incrível que pareça. - Ele deu de ombros, com um sorriso de canto.
- Ainda vou decidir se acredito em você. Anda, vamos sentar que eu to aqui há dois minutos e você
já cansou a minha beleza. - Ela se jogou no sofá sem convite, Hadassa apenas dobrou os joelhos
voltando para a mesma posição, e Harry se apoiou no braço da poltrona para ficar de frente à
amiga.
- Mas e aí, como foi lá no fim de mundo? - Perguntou, curioso e implicante.
- Você tá brincando com o fogo, bonito. - Avisou, em tom de brincadeira. - Ah, foi tudo que eu
esperava! Eu vivi uma vida de típica vietnamita, aprendi muito sobre a cultura deles e principalmente
sobre as dificuldades que o turismo tem no país.
- Conseguiu mudar o mundo?
- Um passo de cada vez, como sempre. - Deu de ombros em falsa modéstia. - E vocês dois? É uma
foda casual ou vocês foram encoleirados? - Soltou, sem filtro, fazendo Hadassa ficar mais vermelha
que maçã e Harry tossir em meio a uma risada.
- Eu to ajudando a Hadassa com... - Harry começou a explicar, sendo brutalmente interrompido por
um latido de Hadassa.
- Estamos namorando. Firme. - Ela disse em tom definitivo olhando para ele, lembrando-o de que
ninguém devia saber da suposta farsa. Mesmo estando brava na superfície, por dentro a menina
estava arrasada por ele não ter sequer tentado ficar ao seu lado naquela história, sem fazê-la
parecer mais inferior à Sophia do que o óbvio. Mas a morena era a melhor amiga dele, e não haviam
filtros entre os dois, logo, Harry não o fez por mal.
- Olha só, a baixinha tem garras! Arrasou, amiga! - Sophia riu divertida, sendo novamente
brutalmente sincera e simpática em um nível que não podia ser saudável.
- E você, maluca, tá presa? - Harry perguntou e Hadassa não pode deixar de indagar se tinha
interesse próprio por trás daquela inocente fala.
- Eu sou do mundo, Harry, você sabe disso. - Abanou o ar, fazendo pouco caso.
- Piranhando como sempre então. - Ele concluiu, com um sorriso zombeteiro ladino.
- Eu faço o que posso. - Piscou, então se levantando e batendo na calça para tirar a poeira
inexistente. - Bom, crianças, eu tenho que ver a velha ainda. Mas nos encontramos no reformatório
juvenil amanhã, muito provavelmente. - Sophia deu um beijo estalado na bochecha de Harry e um
apertão na bochecha de Hadassa, a qual também teve os cabelos bagunçados.
- Reformatório juvenil? - Hadassa perguntou baixinho com os olhos arregalados após a saída da
outra.
- Ela quis dizer a escola. - Harry riu, voltando a se jogar no sofá, cansado como se tivesse corrido
uma maratona. Era o efeito Sophia: ela o enlouquecia tanto, com suas frases de efeito e
molecagens, que quando ela se afastava ele tinha vontade de nunca mais levantar. - Como ela
trancou o ano letivo no meio pra fazer o intercâmbio, ela provavelmente vai cursar o terceiro com
você.
- Ah, maravilha. - Hadassa resmungou. Não tinha nada diretamente contra a garota, mas a presença
dela a incomodava por algum motivo desconhecido. Para começo de conversa, por que cazzo ela
nunca havia ouvido falar dessa menina antes? - Eu não lembro dela ter estudado na nossa escola.
- Isso é porque ela nunca ia nas aulas. Ficava no pátio atrás das árvores falando com todo tipo de
pessoa aleatória. Ela conseguia ter segredos das mais diversas naturezas com as pessoas do colégio,
e ninguém nunca ficava sabendo.
- Ela parece ser uma pessoa única. - Hadassa tinha certeza que vista de fora, ela se assemelhava a
um robôzinho, treinado para não transmitir emoções. Porque, se alguém visse como ela estava se
sentindo naquele momento, se protegeria com armaduras pesadas, pois seu humor estava a ponto
de explodir.
- Única? A Soph é completamente pirada! Teve uma época que eu chegava em casa e ela tinha
aberto a porta com clips e tava dormindo no meu tapete sem avisar. Outra que ela pegou o técnico
do time de futebol e prometeu que eu ia entrar pro time quando eu nem tava interessado na
peneira. E antes dela ir pro intercâmbio, apareceu abraçada com uma garota se dizendo lésbica
quando era tudo um plano pra enlouquecer a mãe até ela pagar o boleto da viagem. Resumindo:
Convencional não é uma palavra que se aplica àquele caso perdido. - Contou, fazendo longas pausas
para rir das estripulias da amiga perfeita.
- Você fala dela com muito carinho. Devem ter uma história e tanto... - As unhas de Hadassa
estavam excessivamente interessantes naquele momento, mesmo que as cutículas estivessem no
lugar e o esmalte inteiro. Ela estava decidida a dar continuidade àquela conversa com naturalidade,
mas ver o brilho no olhar do professor ao se referir a outra garota já era pedir demais.
- Acho que se pode dizer isso. A gente se pegou há uns três anos e no dia seguinte ela armou uma
cena, ao colocar um lenço na cabeça, dizendo que era islâmica e que seu marido ia me matar. Eu
praticamente enfartei até ela cair na risada, bater na minha bunda e dizer que ia me fazer uma
vitamina porque eu estava "muito tenso". Foi ali que a gente ficou amigo. - Sorriu, saudoso. No
entanto, a confirmação de que eles haviam ficado juntos em algum tempo remoto só piorou toda
aquela bolha de insatisfação e revolta dentro de Hadassa, que, não aguentando mais, resolveu fazer
uma proposta ousada.
- Legal... Escuta, Harry, eu ainda não to muito segura se aprendi direito a aula do sexo oral e queria
praticar um pouco mais. - Jogou, como quem não quer nada, inocente do pau oco.
- Isso é sério? - Ele levantou as sobrancelhas, admirado.
- Você não quer? - Fez pouco caso, os olhos em fendas.
- Anjo... Existe algum cenário em que você me imagina dizendo "não" pra essa boquinha
enlouquecedora?
- Talvez... – Murmurou, pensando que havia uma possibilidade de não ser a boca dela que ele
almejava.
- Bom, então nós vamos precisar ir pro quarto para que eu te convença, não é mesmo?

Harry pegou a menina no colo em meio a reclamações e interjeições sobre poder andar sozinha e a
soltou na cama de casal, fazendo seu corpo quicar uma ou duas vezes. Então, rastejou sobre ela até
colocar o lóbulo de sua orelha na boca e sugar como se sua vida dependesse daquilo. Hadassa
sentiu o corpo estremecer sem permissão, e escolheu por colocar as preocupações de lado para pelo
menos explorar as costas do rapaz com as unhas médias, sentindo cada contorno maravilhosamente
esculpido, os músculos tensionados por estar segurando seu peso para não jogá-lo inteiro na garota.
Apesar de ser muito bom sentí-los assim, saltados, Hadassa enlaçou as pernas no quadril de Harry e
o puxou para si, demonstrando o quanto o contato entre seus corpos era bem-vindo. Rosnando, ele
subiu a boca na direção da sua, já enfiando a língua na garganta da menor e sugando sua saliva.
Beijaram-se alternando velocidade e quem puxaria o lábio de quem entre os dentes, até que a
temperatura do quarto estivesse perceptivelmente elevada.
Harry tomou a iniciativa de tirar as roupas do caminho, puxando de uma vez só a própria camiseta e
o vestidinho de Hadassa, e ela o ajudou a desabotoar a calça e a empurrou com os pés para longe.
Em questão de segundos, estavam nus e prontos para se enterrar um no corpo do outro.
O mais velho apertava entre os dedos o mamilo sensível e rosado de Hadassa, enquanto ela se
aventurava a dar chupões que na certa deixariam marcas no pescoço perfumado dele. Já se
preparava para abrir a boca e gemer, quando Harry se jogou para o lado, saindo de cima dela.
Confusa, ela o olhou, sorridente e ofegante.
- Você não disse que queria praticar? Aí a sua chance. - Levemente frustrada, Hadassa se ajoelhou
do lado do quadril do moreno, colocando os cabelos de lado para não atrapalharem o trabalho.
Apesar de inegavelmente divertido assistir todas as reações em cadeia que aquilo causava no corpo
dele, ela também estava excitada e ansiosa por sentir prazer. Mas, não ia reclamar, pois ela própria
havia pedido por aquilo. Mas antes que pudesse descer a boca morna sobre o mastro
irremediavelmente duro do rapaz, Harry a interrompeu. - Não, linda. Você se senta aqui e aí faz o
que tem que fazer. - Ele explicou, batendo no próprio peito. Sem entender nada, Hadassa o olhou
com as sobrancelhas franzidas.
- Mas aí o seu rosto vai ficar... Ah. - Apesar de inexperiente, ela logo entendeu que Harry havia
achado uma forma de lhe agraciar simultaneamente ao que recebia o boquete. Eles fariam o famoso
69.
Envergonhada de uma forma adorável, Hadassa passou a perna para o outro lado do corpo dele,
ficando com a intimidade timidamente molhada bem ao alcance da boca do professor. Estava
decidindo se conseguiria ficar confortável com aquele nível de exposição, quando Harry caiu
literalmente de boca na boceta rosada, engolindo de uma vez sua lubrificação e chupando o clitóris
já sensível.
Soluçando em surpresa com o prazer arrebatador que sentiu sem precedentes, ela se animou para
enfiar o pau de Harry quase todo na boca. Tirou em seguida e cuspiu para umedecê-lo de uma vez,
já tornando a abocanhá-lo novamente. Subia e descia a cabeça na mesma velocidade que sua
respiração desenfreada, sufocando gemidos e gritos pelas maravilhas que o garoto performava com
ela.
Harry chegou a pousar a língua no grelinho dela e fazê-la vibrar, como um maldito pau à pilha,
enviando choques desesperados pelo seu corpo em busca de alívio. Em outro momento, a penetrava
com a língua molhada, em uma sensação indescritível que beirava a satisfação insana e a vontade
irracional por algo maior e mais duro.
De alguma forma, quanto mais prazer recebia, mais prazer Hadassa se dignava a dar, sugando as
bochechas e chupando com força a cabecinha, até ter Harry urrando no mesmo volume em que ela
própria. Ele aproveitava ainda para deixar a marca de seus dedos cristalizada nas nádegas dela,
onde também deixou um tapinha quando o elogio "gostosa" escapou de seus lábios, e ela descobriu
que fazia sim o tipo que se excitava com isso.
Seu orgasmo veio, a atingindo em ondas contínuas por quase 60 segundos, o mais longo que já
teve, e ela fez questão de recebê-lo com o pau de Harry na garganta, o grito de prazer tremendo as
cordas vocais e estimulando-o com igual força para que também alcançasse seu ápice.
Dessa vez, Hadassa não deixou que ele a afastasse e engoliu gota a gota a liberação do garoto no
que marcou uma das noites mais intensas de seu relacionamento nada convencional.

Ventidue

Sophia marchou pelos corredores do colégio com seus jeans surrados, as botas do dia anterior e
mais uma camiseta cropped, dessa vez de alguma banda de rock, cumprimentando vez ou outra
algum aluno fantasma, dos integrantes do coral aos jogadores de truco compulsivos. Ela parecia
incapaz de ter um amigo simples; todas as pessoas com quem falava eram peculiares em sua
própria forma. Quando avistou Breno perto do bebedouro, escondeu-se sorrateira atrás de uma
porta aberta e pulou dali abruptamente, fazendo o outro dar um grito de susto.
Rindo até a barriga doer e vendo o grandalhão afastar-se aos resmungos, ela procurou o melhor
amigo com o olhar, encontrando-o um pouco mais a frente. Acenou um beijo espalhafatoso que fez
algumas pessoas ao redor encararem com diversão no olhar.
Harry se afastou da roda de amigos com quem conversava para se aproximar da garota,
gargalhando.
- Ele vai achar que eu te mandei fazer isso. - Constatou ainda dando risada.
- Que? Quem? - Soph perguntou, não fazendo ideia sobre o que ele falava.
- O Breno. A gente brigou um tempo atrás, e ele sabe que você é minha amiga.
- Ah. Bom, sinto muito por ele, mas eu não podia ligar menos nem se eu quisesse. – Deu de ombros,
displicente.
- E não é sempre assim com você? - Harry passou um braço ao redor do pescoço da morena e
caminhou com ela meio sem rumo. - Você vai à aula hoje? – Incrédula, Sophia encarou o amigo
como se questionasse a saúde mental dele.
- Querido, eu só vim fazer a matrícula, mas mesmo se tivesse aulas para frequentar, você sabe que
eu não iria. – Ela enfatizou, fingindo um arrepio por considerar a ideia.
- Não sei nem porquê eu perguntei... - Harry revirou os olhos, um sorriso de canto.
- Anda, vamos comigo pro pátio. Faz tempo que a gente não conversa direito e eu quero ficar por
dentro das fofocas. – Piscou, puxando-o consigo sem esperar resposta.

- Então, fofoqueira, o que você quer saber? - Harry perguntou, implicante, após estarem os dois
sentados atrás de uma árvore grande, longe da vista de alunos curiosos. Ele deveria estar na aula de
matemática, mas, sendo sua melhor matéria, achou por bem faltar para passar um tempo de
qualidade com a amiga.
- Eu quero saber de você, seu insuportável. – Deu um tapinha no joelho de Harry. - Como tão as
coisas com os seus pais?
- Ah, com meu padrasto é o de sempre. Ele não consegue aceitar nada do que eu digo e a recíproca
é verdadeira, então a gente se evita o quanto der. Mas a minha mãe... - Parou por um segundo,
buscando as palavras que descrevessem o quanto ela havia mudado. - Parece uma nova mulher. Ela
fica me incentivando em tudo que eu faço agora, como se fosse minha própria equipe de torcida. É
francamente assustador. – Arregalou os olhos, dramático.
- Nossa! E que raio caiu na cabeça dela pra causar essa mudança? - Sophia brincou, virando na boca
a garrafinha de água que carregava na bolsa.
- Eu diria que o raio leva o nome de Hadassa. Elas conversaram um dia brevemente, e não sei se a
senhora minha mãe estava tão desacostumada a ouvir verdades que aquilo a impactou, mas desde
então ela tem sido assim, mais... Materna. - Deu de ombros, como se dissesse "não sei o motivo,
mas continuando assim, tá tudo bem!".
- Bom, é uma ótima notícia! - Sorriu.
- E a sua família, como está?
- Doidos da vida preocupados com o que eu quero fazer da vida depois desse intercâmbio. Acho que
estão começando a perceber que eu não vou ter futuro em um lugar fixo, com marido e filhos como
eles esperavam. - Revirou os olhos, cansada do conservadorismo que a sociedade impunha em
garotas de sua idade para seguirem aquele destino.
- Já contou à eles sobre a entrevista de emprego na companhia aérea? - Harry perguntou,
lembrando-se da mensagem que recebeu naquela manhã, que só continha o print de um e-mail
marcando um encontro profissional.
- Ainda não. Mas algo me diz que não vai ser tão surpresa assim. Trabalhar em um lugar que me
proporcione viajar para todos os lados é...
- A sua cara. - Ele completou.
- Exatamente. - Concordou, repuxando os lábios. - Assim como a sua é tratar famílias de refugiados
na África. Você acha que agora que sua mãe tá mansa isso pode rolar? - Levantou as sobrancelhas,
francamente esperançosa por ele.
- Ainda não sei, e prefiro deixar nas mãos do destino. - Maneou a cabeça, esmagando uma folha
seca nas mãos apenas porque sim.
- É justo. - Ponderou. - Agora, vai! Já fingi ser uma boa amiga por tempo demais. Você vai precisar
me contar da sua namoradinha. - Bateu palmas, animada. Harry suspirou, sabendo que aquele era o
cerne no interesse da amiga naquela conversa desde o princípio.
- Não tem nada pra contar, Soph. A Hadassa só... Aconteceu. - Disfarçou, louco para fugir do
interrogatório.
- Harry, não me enrola que eu não sou teus beck! - Sophia disse alto, enfurecida, e arrancou risos
do garoto pela expressão peculiar usada. - Qual é a história dessa menina? Anda, desembucha.
- Você sabe que não é normal, certo? - Conferiu, só para ter certeza.
- Styles... - Avisou, ameaçatória.
- Tá, tá. - Se rendeu. - Ela não queria que eu te contasse, então você vai ter que ficar de boca
fechada. - Sophia cruzou os dedos em um "x" e beijou-os duas vezes, sinalizando que aquilo não
seria problema. - Bom... Ela veio até mim um tempo atrás pedindo ajuda pra conquistar o melhor
amigo. Ela era bem tímida e simplória, então o imbecil não prestava atenção nela e acabou
preferindo uma outra gostosa sem cérebro. - Explicou, passando rápido por aquela parte final, que
ainda lhe dava raiva. - Bom, eu relutei no começo, mas acabei aceitando ajudar, e dei verdadeiras
aulas pra ela sobre sedução, flerte e relacionamentos. Algumas dessas aulas passaram um pouco do
nível e a gente acabou se beijando e transando, até. E, com o tempo gasto juntos, criamos muita
intimidade e cumplicidade. O namoro foi mais uma jogada para causar ciúme no amiguinho, mas
parece a cada dia mais real. - Constatou, só então percebendo aquele fato em específico. Ele
e Hadassa realmente agiam como namorados 24/7, sem pausas, e era engraçado de se pensar que
não precisariam. Nem passava pela sua cabeça a ideia de mudar aquilo.
- Sei. E como ela é? Digo, com você?
- Ela é um anjo, Soph. Juro, todos os meus dramas de faculdade e familiares ela escuta e entende e
ainda se mete a resolver, trazer soluções. Chegou a me entregar um bilhão de folhetos sobre
voluntariado e dupla graduação, e me levou para conversar com o tio advogado sobre emancipação.
E ela é carinhosa, e engraçada, e toda vez que eu consigo tirá-la do sério ou deixá-la envergonhada
eu sinto como se tivesse ganhado na loteria de tão adorável que ela fica. E mesmo com todo esse
jeito de menina, toda essa doçura... Na cama é como se ela pegasse fogo e libertasse a mulher
dentro dela. Ela é impossivelmente sexy, de um jeito único e suave, que me deixa louco. - Harry
fechou os olhos brevemente e bagunçou os cabelos, como se os efeitos da menina tivessem
implicações mesmo ali, só de falar nela. Sophia estava intrigada com o relato do rapaz, por toda a
devoção contida ali em exemplificações da mais absoluta entrega.
- Entendi... E quando você descobriu que tava apaixonado por ela? - Perguntou, simplesmente.
- QUE? - Harry engasgou com a água que ele tomava, surpreso pela pergunta completamente
inesperada.
- Quer dizer, eu sei que você é bem cabeça dura, por isso deve ter demorado, mas ainda assim, faz
tempo? - Explicou, só causando mais indignação com o questionamento que Harry julgava
descabido.
- Eu não estou apaixonado pela Hadassa, Sophia! Você tá doida?
- Sempre, mas aparentemente você também. - Gesticulou para ele, sem entender como era capaz
de não ter sequer considerado aquela opção até então.
- Olha, você passou tempo demais vivendo imersa em uma cultura diferente e não tá mais
acostumada com o mundo como ele é... - Começou, tentando achar um jeito de invalidar qualquer
argumento que estivesse para vir.
- Pra quê criar tantas desculpas, amigo? Sua teimosia não conhece limites? - Franziu as
sobrancelhas, francamente desacreditada de tamanha cegueira.
- Não é questão de desculpa, Soph, eu to falando sério. Eu não penso nela dessa maneira, ela
sequer gosta de mim, só se aproximou pelo amigo. - Tentou se racional, percebendo que ela não
desistiria daquela ideia com facilidade.
- Você não pensa nela dessa maneira porque acha que ela não corresponde, saquei. - Sophia fingiu
dar o assunto por acabado, ao pegar um cabinho e fazer desenhos abstratos no chão, mas sabia que
tinha acabado de atingir um ponto sensível dentro do garoto e que se queria ajudá-lo a
compreender a extensão de suas emoções, precisaria explorá-lo com sensatez.
- Não foi isso que eu disse! - Defendeu-se. - Eu não penso nela assim e ponto final. Ela é
completamente diferente de todas as garotas com quem eu estou acostumado a sair, não teria nada
a ver. - Sinalizou com a mão, em um gesto blassé, fazendo pouco caso. Sophia revirou os olhos.
- Não vê o que está bem na sua frente? É justamente por ela ser tão diferente que você tá
apaixonado. Mais do mesmo não atrai ninguém, cabeçudo. - Ela tinha vontade de bater com a
cabeça dele em uma parede para ver se acordava os neurônios aparentemente adormecidos.
- Mas isso não pode ser verdade! Me apaixonar pela Hadassa só tornaria tudo mais complicado.
Toda a integridade das aulas, toda a caça pela perfeição, por atrair o infeliz do loiro aguado, tudo
seria questionado. - Ele rebateu, soando no princípio do desespero.
- Só porque as coisas se complicariam, não torna o sentimento inexistente. - Constatou o óbvio.
- Como você pode saber o que eu tô sentindo? Não nos falamos há eras! - Harry era assim. Ele se
sentia acuado em um canto e começava a ficar na defensiva. Sempre absurdamente reacionário e
intempestivo.
- E eu sinto muito por isso, amigo. Mas eu te conheço e sei quando você está em negação. -
Percebendo que precisaria de mais do que aquilo para conseguir fisgá-lo no seu raciocínio, ela
preferiu jogar pelo emocional. - Por mais distante que seja, foi exatamente assim que você ficou
quando seu avô faleceu. Você não queria aceitar porque sabia que teria que lidar com a dor, com o
olhar de pena dos outros, com todos os sentimentos que você aprendeu tão bem a trancar dentro de
si por tantos anos, se afogando em corpos desconhecidos que não invadissem sua zona de conforto.
- Sophia, uma coisa não se compara com a outra! - Ele avisou, meio vermelho de irritação pela
lembrança.
- Olha, eu sei. - Apaziguou, as mãos estendidas a frente do corpo. - Mas a forma como você tá
agindo, fugindo de uma verdade inevitável para não correr o risco dela preferir o amigo, me lembra
daquela época. Independente das escolhas que essa menina fizer, Harry, você precisa ser honesto
com os seus próprios sentimentos. - Ele olhava o horizonte, sem querer mais enfrentá-la. Aquela
ladainha estava se saindo plausível demais para o seu gosto. - Me diz, o que você sente quando tá
com ela? - Ele respirou profundamente, sentindo um sorriso de canto tomar seu rosto sem
permissão.
- Eu me sinto em casa. Aquela música do John Meyer, A Face To Call Home, de repente faz todo
sentido, e isso me irrita. - Sophia, percebendo a luta interna que ele travava então, o abraçou de
lado pelos ombros, diminuindo a voz para um tom morno, que o acalmasse.
- Não precisa ser assim. Ela ainda pode escolher você.
- Não, não pode. Eu concordei em dar essas aulas com um propósito e seria no mínimo injusto com
ela obrigá-la a tomar uma decisão porque eu me envolvi. Não foi pra isso que ela veio até mim, para
começo de conversa. - O sorriso do garoto agora havia adquirido um quê de sádico, e ele negou com
a cabeça enfaticamente.
- Então nós passamos para a fase de aceitação? - Sophia perguntou, sentindo uma grande mudança
na fala do maior. Ele a encarou durante alguns segundos, temeroso. Então, pressionou os lábios um
contra o outro.
- É, acho que tá na hora de admitir... - Suspirou, fechando os olhos como se em dor física. - Eu tô
apaixonado pela Hadassa.
- Ai, que amorzão! - Sophia gritou, achando aquilo a coisa mais linda do mundo. - Vem aqui me dar
um abraço, seu cabeça oca. O que você faria sem mim?
- Viveria cego pelos meus medos, aparentemente. - Resmungou contra os cabelos cacheados da
amiga, ainda agarrada a sua cintura.
- Não se sente melhor de ter colocado isso pra fora?
- Vou me sentir melhor no dia em que eu já estiver recuperado do coração estilhaçado. Até lá, você
vai ter que me aguentar mais rabugento que o normal.
- Olha, se tem uma coisa que eu não sou nessa vida é obrigada. Mas, tudo bem! Eu escolhi te aturar
três anos atrás, e não é agora que vou me arrepender dessa decisão. - Sorriu para ele, olhando
fundo em seus olhos claros parecidos com a estação. - Você está se tornando um homem muito
decente, meu amigo. Estou orgulhosa de você.
- Quem é o amorzão agora? - Harry levantou uma sobrancelha, aproveitando-se para encerrar o
assunto e iniciar um ataque de cócegas na morena, que ria estridente dando alguma leveza ao seu
ser sombreado.

- Dassa! - Sam gritou ao vê-la caminhar para fora da sala apressada. Tinha escutado um grupinho
de meninas fofocando sobre o Harry ter sido visto matando aula com a Miss Vietnã, e aquilo tinha
incomodado. Não porque eles estavam juntos, afinal eram amigos, e sim porque ele não podia
perder aulas para passar no vestibular...
Ok, era porque eles estavam juntos.
Ah, qual é, alguém poderia culpá-la? A menina era maravilhosa, super despojada e simpática. Como
ela poderia competir com aquilo? Seu namoro já não estava mais em terras firmes, o burburinho de
que talvez tivesses terminado já estava percorrendo os corredores. E ela precisava de Harry para
fazer ciúmes no Sam.
Não precisava?
- Oi, Sam. - Respondeu apática, preocupada e ansiosa para puxar Harry pelas orelhas e jogá-lo em
alguma sala escura para que voltasse a focar nela.
- Você chegou a receber minha mensagem? Eu não recebi resposta... - Ele disse com carinha de
cachorro que caiu da mudança. Hadassa não se lembrava de ter lido nada com o ID do garoto.
- Não, desculpe. O que dizia?
- Ah, nada de mais... Só que eu gostei da nossa saída. A gente podia repetir, né? - Os olhos do loiro
brilhavam no decote modesto da menina, mas ela não percebia, ainda distraída demais com onde
quer que Harry estivesse.
- É...
- Quando você tá livre? - Só então Hadassa percebeu que Sam a estava chamando para sair
novamente. O encontro na sorveteria não havia sido o mais divertido do mundo, mas a companhia
do amigo não era de todo ruim, quando ele a deixava falar. Mas entre organizar seus estudos e as
aulas de Harry, as próximas duas semanas seriam uma loucura e ela sabia.
- Agora eu entro em vestibular, que eu vou prestar de treineiro, e ainda tenho um ou outro trabalho
pra entregar... Tá bem complicado. Até a formatura eu acho que não vou ter muito tempo livre,
Sam. - Respondeu com tom apologético, e o loiro repuxou os lábios em desgosto.
- Bom, se não vamos poder nos ver direito até a formatura, acho que eu vou precisar fazer isso
agora. - Motivado pela cena que viu mais cedo do suposto namorado de Hadassa fazendo cócegas
em outra garota, puxou a mão dela entre as suas e mirou fundo em seus olhos transparentes. -
Hadassa Guímel, você aceita ser meu par na festa de formatura? - Hadassa ficou pálida. Seu ser se
dividiu entre a mais absoluta animação por ter enfim, comprovadamente, captado a atenção do
amigo por quem se disse apaixonada, e murcha pela incerteza sobre se Harry gostaria de levá-la ou
não.
Era relativamente cedo para decidir quem acompanharia - mesmo nunca tendo imaginado que
aquela seria uma preocupação, pois achava que não teria nem sequer uma opção, quanto mais duas
-, mas o loiro estava a sua frente esperando uma resposta e ela não poderia dizer que precisava "ver
com o namorado" primeiro. Ele certamente só estava convidando porque tinha ouvido os boatos do
término.
Ainda assim, não se sentia nem remotamente tentada a aceitar. Sam era legal e tudo mais... Mas ele
parecia melhor quando era inalcançável, quando ela o idealizava e não tinha parâmetros de
comparação com outros caras. Agora, conhecendo Harry e sabendo tudo que o amigo tinha feito já
de errado com ela... O sonho tinha se perdido.
Mas... Se Harry já tivesse planos para a festa, ela não gostaria de ir sozinha, observar ele com outra
se divertindo a noite toda. Só que ele não faria isso, faria? Ainda mais cedo assim, ele não podia já
ter compromisso com a Sophia, por exemplo. Dava tempo ainda de sondá-lo a respeito e garantir
uma noite muito melhor do que a que teria com o loiro. Abriu a boca para dar uma desculpa
qualquer, quando uma voz grossa e conhecida respondeu por ela.
- Ela aceita. - Hadassa e Sam se viraram imediatamente para observar um Harry melancólico com
olhos fundos, parado ali perto. Obviamente, tinha escutado uma parte da conversa, e vendo a
relutância da menina em responder, o que ele rapidamente julgou ser por vergonha ou timidez,
resolveu interceder e dar a resposta que ele tinha certeza que sairia eventualmente dos lábios dela.
Hadassa ficou paralisada olhando para ele, sem acreditar que tivesse tomado essa decisão por ela,
e, mais do que isso, sem acreditar que tinha simplesmente a entregado de bandeja quando ela tinha
considerado tanto ele para optar pelo sim ou pelo não.
Seria possível que ele estivesse tão desesperado para se livrar dela como possível acompanhante
que teria a embrulhado em papel de presente e jogado nos braços do amigo?
Sophia apareceu atrás do moreno, e colocou uma mão em seu ombro como apoio. Ele se virou para
ela e trocaram um olhar acalorado, cheio de significados. Ela sabia o quanto tinha doído para ele
fazer aquilo, o quão altruísta sua ação era, e se compadecia com sua dor, oferecendo abrigo.
Hadassa observou em silêncio toda a comprovação de seus pensamentos até então paranoicos. Ele
estava mesmo a dispensando pela vietnamita, por ela, mais uma vez, não ser boa o suficiente.
Voltando a olhar para o casal a sua frente, Harry resolveu tirar o band-aid de uma vez e resolver a
situação como um homem.
- Hadassa, sei que terminou comigo hoje cedo, mas eu continuo querendo seu bem e acho que se
divertir com o Sam pode ser uma forma de fazê-lo. Você quebrou meu coração, mas tudo que eu
quero é que seja feliz. Aproveitem a noite de vocês. - O teatro crucial para taxar Hadassa como
disponível, mas poderosa, era tudo que o loiro precisava para abrir um sorriso de orelha a orelha e
alugar ela para falar sobre detalhes fúteis como a cor do vestido dela para que ele pudesse combinar
o lenço do terno, e que horas deveriam chegar a festa. Harry e Hadassa continuavam se olhando,
um mais machucado que o outro, até terem o contato quebrado por uma série de alunos que
passaram no meio, a caminho da próxima aula que já estava para começar.
E eles fizeram o mesmo, cada um seguindo seu rumo, cada vez mais distante do do outro.

Ventitré

Procurando se distrair dos pensamentos conflituosos que ocupavam sua mente desde a intervenção
de Harry no dia anterior, Hadassa foi mais que grata ao telefonema do pai. O mais velho se ofereceu
para levá-la a comprar artigos de decoração para seu quarto novo em sua casa, e ela prontamente
aceitou, mesmo um pouco apreensiva ao saber que toda a família também iria, aquela sendo a
primeira vez que os conheceria de verdade.
Contrariando seus medos, todos a receberam muito bem. Bernardo inclusive não desgrudou da irmã
desde o momento em que ela ganhou sua confiança, ao cantar com o rádio a mais nova música da
Galinha Pintadinha. Foi um divisor de águas para o pequeno, que estava relutante em aceitá-la no
início, e depois não ousou soltar sua mão no passeio pelo shopping.
Bethani, a madrasta, era um amor. Elogiava seus cabelos e suas roupas, ria de suas piadas sem
graças, e não se cansava de narrar como seria tê-la em sua moradia pelos próximos dois meses. Ela
fez questão de convencer o marido a comprar cada um dos enfeites nos quais Hadassa se demorava
mais de um minuto olhando, sumindo na hora de pagarem para voltar com um pacote de luzinhas
de natal nas mãos, alegando ter visto no Tumblr que adolescentes gostavam daquilo. Hadassa, que
sempre sonhou em ter um quarto personalizado daquela forma, mas que nunca teve coragem o
suficiente, estava realizada e ansiosa para ver o resultado final.
Quando ficou sabendo da festa de formatura, Bethani fez questão de arrastar a família para uma loja
de vestidos de gala para que a menor escolhesse o seu. Depois, se sentiu culpada e fez todo um
discurso sobre não querer comprar seu afeto, mas estar animada com a presença da filha
postiça. Hadassa ficou emocionada com todo o carinho, e acabou dando um abraço caloroso na
madrasta, que puxou os filhos e o marido para acompanhar, em um gesto brega, mas muito lindo,
de amor.
Abraços grupais a parte, Hadassa acabou escolhendo um branco lindo, com aplicações de pedras nos
lugares certos e que realçava suas curvas como nada mais no mundo. Se sentiu poderosa no
modelito e entregou para a vendedora cobrar com um sorriso no rosto.
Sorriso esse que não durou muito, ao que ela lembrou de todo o drama relacionado ao seu par.
Subitamente cabisbaixa, ela deu qualquer desculpa para esperar do lado de fora enquanto seu pai
escolhia um terno para um evento de final de ano no escritório. Sentou-se em um banquinho de
madeira e ficou ali, remoendo suas infelicidades, até perceber pela visão periférica, alguém juntar-se
a ela.
Era Sarah, a filha mais velha do casamento passado de Bethani. Ela tinha alguns anos a mais
que Hadassa - já estava terminando a faculdade de Relações Internacionais -, e era bonita de uma
forma muito minimalista. Tinha sido a mais retraída da família até então, não sendo intensa e
espalhafatosa como a mãe, nem apegada como o irmão, mas nem por isso tinha sido rude
com Hadassa. Ela só era mais na dela, e Hadassa não a julgaria por isso.
- Eu consigo ver que você tá morta de vontade de chorar. - Constatou apoiando os cotovelos nos
joelhos e assistindo Bernardo correndo de um lado para o outro dentro da loja através da vitrine. -
Quer conversar?
- Imagina... Não precisa, Sarah. Mas obrigada. - Hadassa disfarçou, sem querer incomodar.
- Cara, se a gente vai ser irmã, eu quero poder te ajudar. Não precisa sofrer em silêncio. - Garantiu,
solícita. Sempre foi o sonho de Hadassa ter uma irmã mais velha, e ela realmente precisava
desabafar, então o pequeno discurso de Sarah foi o suficiente para convencê-la a colocar o que
estava incomodando para fora.
Então ela contou tudo. Desde o primeiro momento em que achava ser apaixonada por Sam, até o
pedido de ajuda a Harry, as aulas, o namoro falso, o súbito interesse do loiro e sobre Harry ter
aceitado o convite da formatura por ela. Disse como se sentiu em cada momento, como estava se
sentindo agora, e qual era o seu horizonte de emoções caso tudo continuasse daquela forma.
Sarah ouviu tudo pacientemente, fazendo interjeições engraçadas por vezes, e perguntas quando
não entendia alguma coisa. E só o fato de Hadassa ter falado com alguém sobre tudo aquilo já a fez
imensamente bem. Ela já se sentia mais leve, mesmo não tendo chegado a uma conclusão do que
fazer ainda. E mesmo que esse não fosse o caso, a conexão que conseguiu ter com filha da
madrasta valeria a pena o relato doloroso.
- Olha, Dassa, eu não sou a melhor pessoa do mundo com conselhos amorosos... Mas me parece
que você precisa conversar com o Harry. Pelo menos isso, sabe? Perguntar porque ele fez o que fez
ao invés de tentar adivinhar. - Deu de ombros, tendo noção que a sugestão não ia mudar
montanhas, mas que talvez ajudasse um pouco. Não conhecia as pessoas da história, então não se
sentia muito segura para dizer o que a irmã mais nova devia fazer.
- Eu acho que você tá certa. Vou falar com ele amanhã.
- Boa, vai fazer bem pra você. Me conta como foi por mensagem depois. - Bem no momento que o
assunto acabou, Bethani apareceu com um adormecido Bernardo no colo, cansado depois de brincar
no pula-pula que ficava ao lado da praça de alimentação onde todos jantaram. Augusto deixou a
filha em casa antes de ir para a sua própria, prometendo ir buscá-la novamente com as malas no
final daquela semana.

No dia seguinte, Hadassa se esquivou de falar com qualquer pessoa que cruzasse seu caminho,
mesmo evitando os eventuais "com licença" que naturalmente diria para abrir espaço e continuar
seu andar. Ela queria guardar sua voz para dizer tudo que estava entalado para Harry, e tinha medo
de abrir a boca e esganiçar em um grito agudo antes que tirasse o que queria a limpo.
Quando chegou próximo do armário de número 100, o garoto já estava ali, alheio à conversa de
seus amigos ao redor e, para a surpresa de Hadassa, longe de Sophia, que conversava com um nerd
da sua sala mais à frente. Não teve tempo nem paciência de se perguntar o que aquilo podia
significar. Ela chegou até o meio da roda e disse para ele ainda de costas.
- Posso falar com você? - Harry se virou, reconhecendo instantaneamente a voz da garota e, sob os
olhares atentos do resto dos brutamontes, acenou positivamente e indicou com a mão que ela fosse
na frente.
Hadassa passou por eles todos e marchou corredor adentro, só parando quando já estava longe da
vista dos conhecidos, e entrando em uma sala vazia pelo horário. Harry a seguiu, colocando sua
mochila no chão assim que a porta foi fechada.
- Por que você fez aquilo, Harry? Porque tomou a decisão por mim sem me consultar? Eu sou
perfeitamente capaz de usar minha própria boca para responder qualquer convite que me seja feito,
e para opinar no que é melhor para mim. Você passou o dia inteiro com a sua amiga e nem sabia o
que eu estava pensando já que nós mal conversamos sobre o Samuel depois da sorveteria, e mesmo
assim se sentiu no direito de invadir a minha privacidade e me empurrar para os braços dele. Qual é
o seu problema? - Disparou a falar, colocando em palavras toda a sua frustração pelo ocorrido. A
única parte que Hadassa não se sentia à vontade de verbalizar era, infelizmente, o cerne de tudo
aquilo: O fato de ela querer que ele a levasse na festa, e não o imbecil do amigo que a menosprezou
por anos a fio, e ele não parecia disposto a fazer justamente isso.
- Meu problema... É que você, claramente, não precisa mais de mim. E eu ainda não aprendi a lidar
com isso. - Ele disse baixo, com pesar. Podia ver que ela estava brava, mas em meio a tanta dor só
pode se limitar a achá-la adorável naquele estado.
- O que você quer dizer?
- Quero dizer que eu estou te libertando. - Deu de ombros, no caminho para a aceitação de que ele
tinha feito a sua parte, e por mais maravilhosa que ela tenha sido... Havia acabado. Hadassa estava
pronta para alçar voo rumo ao seu objetivo inicial. Sua esperança de que ela um dia percebesse que
Sam não era bom o suficiente para merecê-la já havia ficado para trás. - Aqui, essa é a minha última
aula. - Abriu a mochila em um instante, e estendeu uma folha sulfite enrolada para ela, selada por
uma fita azul com um pingente no centro. Era um par de asas de prata. - Boa festa, Anjo. - Harry
deu um longo beijo na testa de uma Hadassa atônita, abrindo e fechando a boca como se tivesse
algo para dizer, mas não achasse as palavras, e saiu da sala com ares de despedida.
Ouvindo o som da porta se fechando, a garota despertou de seu limbo, olhando para o bastão de
folha intrigada. Ela desfez o laço com cuidado, guardando o pingente imediatamente em um bolso
adjacente de sua bolsa, e desenrolou o papel, deparando-se com uma carta escrita na letra
caprichada do professor, onde se lia:

"Hadassa,
Foi um longo caminho para chegarmos até aqui.
Enfrentamos demônios e superamos dificuldades, objetivando uma vida mais fácil, que, quem sabe,
nos proporcionasse felicidade. Fizemos isso juntos, com a sensação de que nunca fôssemos chegar
lá. A cada novo passo, nos deparávamos com mais uma pedra, mais um desafio a ser perpassado. E,
se por ventura chegássemos onde queríamos, saberíamos que o mérito era de nossa impremeditada
e peculiar convivência.
Acho seguro dizer que, embora eu fosse a pessoa dando as aulas, aprendi muito com você. Uma
nova lição todo dia, sendo ensinada pela sua espontaneidade, seu coração enorme e sua bondade
infinita. Aprendi a perseguir os meus sonhos, a não julgar um livro pela capa, a abraçar as
diferenças e o inesperado, e aprendi o que é ser feliz. E, por isso, eu te sou muito grato.
Garanto que não tinha conhecimento de que a minha vida estava tão nebulosa até você aparecer,
com seu jeito único e seu carinho incomparável. Me empurrando na direção de um futuro promissor
e jogando um pano quente no passado doloroso. Explorando as minhas habilidades e perdoando
meus defeitos. Com suas asas de anjo, me levando mais próximo do paraíso a que eu não me
achava merecedor.
Fez por mim muito mais do que eu me propus a fazer por você. Sendo tão naturalmente cativante,
sempre esteve próxima demais do seu objetivo, apenas mirando equivocadamente. Apesar dos meus
esforços, o alvo permaneceu o mesmo, e eu precisei me adaptar para te ajudar a alcançar o seu
círculo de cem pontos. Naquela altura da jornada, faria o que precisasse para selar suas feridas e
colocar um sorriso no seu rosto, não importasse os meios ou o que eu achasse. E, no fim das contas,
você precisou de bem menos instrução do que o esperado.
Durante nossa caminhada, demos muitas risadas e passamos por momentos do mais absoluto prazer
e entrega. Passamos por situações inimagináveis, conversas profundas e animadas, e roubamos
confissões e suspiros. Construímos uma intimidade avassaladora, e criamos cumplicidade e confiança
um no outro. Encontramos um no outro um porto seguro, um ponto de apoio, um cúmplice valioso,
um aliado essencial, um par inexorável.
Tudo isso contribuiu para esse momento. O momento em que eu te diria: Parabéns, você se formou.
Não na escola, não no vestibular, mas na arte da sedução. Você agora tem o dom de fazer os
homens se ajoelharem aos seus pés, de enlouquecer quem bem entender, de se fazer indispensável
e irrecusável. Tem o poder de mudar emoções e manipular cabeças usando apenas da sua fala e do
seu corpo. Tem o dever de escolher a dedo quem será digno o suficiente para se manter por perto,
e o trabalho de dispensar aqueles cuja companhia não te interessa. Tem o direito de dizer "sim" e a
opção de dizer "não".
E, justamente por ter a aluna tão habilmente superado o professor, eu não posso mais ficar no seu
caminho para exercer todo esse potencial.
Por isso, eu te escrevo agora a sua última aula, e então você estará livre para bater suas asas e voar
para onde a brisa te levar.

Aula 8: Como fazê-lo se apaixonar.


1. Seja uma boa ouvinte. Pergunte e comente as histórias que ele contar e ofereça o ombro para os
desabafos. Não o interrompa com casos seus: cada qual deve ter seu momento.
2. Tenha assuntos interessantes para conversar. Procure temas que captem a atenção dele, e não
necessariamente aqueles que mais lhe agradam. No entanto, estabeleça um ponto de encontro, pois
se informar sobre algo que você também não domina vai levar a conversa a um fim rapidamente.
3. Se preocupe em saber mais sobre ele. Seu dia, o resultado de uma prova, como se dá com a
família, quais os hobbies e os gostos.
4. Divida preocupações com o futuro. Se ele aspira algo, esteja ao seu lado, o apoie.
5. Faça-o rir.

Sem lição de casa. Essa aula você já concluiu com êxito.


Vou sentir sua falta.
Do seu eterno,
Harry."

Quando acabou a leitura, seus olhos se derramavam em lágrimas de injustiça. Talvez devesse estar
feliz por todos os elogios contidos no contexto, mas o tom de despedida da carta era mais gritante,
deixando-a ser ar.
Não importando a família que tinha ganhado, o interesse de Sam, ou a sua recente não-exclusão no
colégio, Hadassa se sentia, naquele momento, irremediavelmente sozinha.
Não tinha como ser diferente: Uma parte do seu ser tinha acabado de lhe dar adeus.

- Você entregou a carta? – Sophia perguntou abruptamente, adentrando a casa de madeira sem ser
convidada e encontrando Harry sentado pensativo em sua poltrona, uma dose de whisky recém-
colocada banhando o gelo no copo em sua mão. O cachorro de mesmo nome estava deitado por
perto, como se sentisse que o dono precisava de companhia naquele momento, embora carregasse
a mesma expressão de luto que o humano.
- Sim. – Murmurou entredentes, dando um gole do líquido âmbar.
- Eu não vou dizer que você vai se arrepender só para não ser uma vadia insuportável. – A morena
disse, sentando-se no braço do sofá, de frente para ele. - Mas você vai.
- Sophia... – Avisou, sem paciência para julgamentos naquele momento. Ele só queria encontrar paz
de uma vez.
- Não, Harry, eu não consigo ficar calada. – Exaltou-se. Sempre odiou ser silenciada. - Dois dias
atrás, quando você me disse que não importavam os seus sentimentos porque ela gostava de outro,
eu não te questionei. Você tinha dado um passo bem grande ao assumir suas emoções e eu achei
por bem deixar aquilo como estava. Mas não é possível que você tenha que ser esse altruísta pé no
saco que nem sequer vai lutar pela garota! – Jogou as mãos para cima, gesticulando brutalmente.
Estava muito tentada a segurar a cabeça dele pelas orelhas e chacoalhar até que a razão voltasse a
habitá-lo.
- Eu só quero poupar ela da confusão e avançar para a fase em que eu tento superar essa história
toda. Me desculpe por facilitar as coisas. – Reclamou, ranzinza. Sophia balançou a própria cabeça
em negação, desacreditada do discurso do amigo.
- Você é um covarde. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas é a verdade. – Cuspiu, repuxando os
lábios. Conseguiu finalmente a atenção do garoto, que levantou o olhar vidrado do tapete para
encará-la com a testa franzida.
- De que lado você está? – Rosnou, irritado.’
- Do lado que não se conforma que você tenha abraçado a infelicidade dessa maneira. – Ela
respondeu, igualmente nervosa. Então, respirou fundo procurando argumentos mais concisos. - Me
escuta, um ano atrás você estava vivendo sob o teto de um senhor doente, batalhando para se virar
e ainda assim perseguir um sonho distante de continuar cuidando das pessoas. Era um rapaz forte e
determinado que não pararia por nada no mundo. – Fez uma pausa. - O que aconteceu?
- Você pode não concordar, mas aquela carta exigiu de mim mais força e determinação do que
qualquer outra coisa na vida. – Suspirou, cansado do assunto. - Esse pode não ser o final feliz que
nós esperávamos para essa história, Sophia, mas é o melhor que eu vou conseguir.
- Melhor pra quem, meu amigo? – Uniu as sobrancelhas, sofrendo com ele.
- Para todo mundo. Dessa forma, pelo menos ela vai estar feliz, e isso já é o suficiente para mim. –
Deu de ombros, embora o ato parecesse friamente calculado, sem sinceridade. - Eu vou ficar ok. –
Disse, tanto para acalmar a amiga como para si. Precisaria repetir aquela frase algumas muitas
vezes ainda para fazê-la valer.
Sophia observou o moreno em silêncio, indignada com a sua força de vontade em manter tudo mais
confortável para a menina. O conhecia há tempo demais e o amava muito para aceitar sua decisão
sem buscar dar-lhe uma alternativa melhor. Então, naquele momento, jurou que faria algo a
respeito. “Ok” não era o bastante quando se tratava do estado de espírito do seu melhor amigo. E
ela faria o possível e o impossível para mudar aquele status.

Ventiquattro

Era sexta-feira. O dia que antecedia a famosa festa de formatura do terceiro ano. Todos os alunos
da escola queriam um ingresso, mas só os do colegial podiam comprá-lo. Era uma espécie de
peneira para garantir o nível alto da mesma, que era basicamente uma super balada, com um
camarote para os formandos regado a bebidas alcoólicas contrabandeadas. Todas as histórias que
percorriam os corredores ao longo do ano eram feitas majoritariamente ali, em momentos únicos de
desapego da escola, onde lendas nasciam e mitos eram criados.
Mas não no dia anterior. Na sexta-feira, todos colocavam a cara de santos e se comportavam em
frente aos pais, pois a escola organizava a colação de grau. Isto é, os formandos vestiam suas becas
cafonas e aqueles chapéus quadradões com um cordão pendurado, e ficavam sentados ouvindo
discursos e assistindo vídeos emocionantes sobre o tempo que passou. Um desses discursos era,
inclusive, do orador da turma que, como esperado, era ninguém menos do que Harry Styles.
Por ser querido pela grande maioria dos colegas, ele era a escolha certa para celebrar a união de
sua série, seu jeito com as palavras sendo muito bem utilizado durante a fala emotiva. Aclamado por
todos ao subir no palco, Harry leu suas cinco páginas cheias de boas memórias e saudades,
arrancando risos e assobios, e não deixando um único olho seco ao terminar.
A cerimônia era feita no ginásio do colégio durante o período que simbolizaria o último dia de aula, e
era organizada de tal forma que pais e alunos de outras séries se sentavam nas arquibancadas e os
alunos terceiranistas tinham cadeiras espalhadas pela quadra, onde também ficava um palanque
grande com a mesa dos professores convidados. O gran finale ficava por conta do paraninfo, que
assumia o microfone e chamava um a um o nome dos alunos formados para entregar o canudo com
o diploma e anunciar quais seriam os planos futuros de cada.
Em ordem alfabética, foram todos sendo chamados, cada um tendo uma reação diferente de
comemoração - uns choravam, outros pulavam, e alguns faziam gracinhas constrangedoras -, e o
mesmo acontecia com o informe, que ia das faculdades prestadas, até esperanças de viagem e
trabalho, e algumas zoações como "Filipe quer viver intensamente e morrer ainda novo como Kurt
Cobain, e pediu calma para a mãe, garantindo que ele não vai usar drogas no processo".
Quando chegou a vez de Harry, Hadassa trancou sem querer a respiração, assim como seus pais e
uma ansiosa Sophia.
"Harry Styles espera poder ser duplo graduado em direito e psicologia, e trabalhar no auxílio de
famílias refugiadas e na soltura de presos de guerra. Está se aplicando com honra para as maiores
faculdades do país."
Harry recebeu o canudo e passou o cordão do chapéu para o outro lado, apenas para virar-se para a
plateia e oferecer o diploma na direção de Hadassa com um meio sorriso. A menina tinha lágrimas
nos olhos, orgulhosa de sua decisão e grata por todas as tardes de estudo ao seu lado,
independente dos outros sentimentos conflituosos que agora dividia a seu respeito.
Perto dela, a senhora Styles se levantou, apressando os passos para falar com o filho antes de ele se
juntar ao amontoado de formandos mais à frente. Ela colocou uma mão em seu ombro para chamar-
lhe a atenção e ele se virou esperando um sermão que nunca veio. Ao contrário, a mãe o colocou
nos braços em um abraço apertado.
- Eu quero que você seja feliz, meu filho. - Murmurou contra os cabelos dele, ainda preso no abraço
apertado. - Só quero o seu bem, eu prometo. Desculpa se eu tentei te privar do seu sonho, mas
aquele lugar é perigoso e psicologia é um futuro incerto, e eu não quis que você passasse qualquer
dificuldade na vida. - Ela estava chorando, o que fazia sua voz falhar e Harry sentiu um incômodo no
peito por vê-la pela primeira vez daquela maneira.
- Eu sei me cuidar, mãe. - Garantiu, acariciando suas costas por cima da blusa de seda cara.
- Eu sei que sim, meu amor. E por isso você vai poder fazer as duas faculdades. Mas terá que me
manter por perto para acalmar meu coração. – Disse, agora segurando-o pelos ombros para poder
olhar em seus olhos. Sua maquiagem estava um pouco borrada, mas para o moreno a mãe nunca
tinha parecido tão bonita.
- O que você quer dizer? - Harry sentia o coração acelerar com a possibilidade de ter finalmente se
libertado das amarras que travavam suas ambições.
- Que eu vou te apoiar, seja fisicamente ou investindo na organização que você escolher trabalhar
para. Só assim vou ficar tranquila enquanto você toma as suas próprias decisões. - A mulher ditou
sendo então esmagada em mais um abraço, dessa vez iniciado pelo filho, comovido com a mudança
de postura da mãe. Ele ainda teria que fazer direito, mas agora aquilo não parecia nem de longe tão
ruim e ele sabia a quem devia aquela sensação de plenitude. Com os olhos molhados, focou
em Hadassa na arquibancada e respirou fundo, a agradecendo ainda que mentalmente.

O sábado de festa enfim chegou. Os preparativos estavam à toda, com a Comissão de Formatura,
formada basicamente pelas patricinhas da escola e um ou outro cara mas festeiro, correndo de um
lado para o outro para garantir que tudo ficasse perfeito, o Grêmio da escola auxiliando na
contratação de seguranças, DJ, barmen e equipe de limpeza, e alguns brutamontes do time de rugby
ajudando a pendurar as decorações nos pontos mais altos do salão. Finalmente, as sete horas da
noite, todos deram o trabalho como feito e foram para as suas casas tomar banho e se arrumar para
a comemoração que viria a seguir.
Augusto levou a família para jantar antes de Bethani e Sarah se trancarem com Hadassa em seu
mais novo quarto para ajudá-la a se arrumar. Bernardo ficou carrancudo por não poder ser o par da
irmã e chiou em birra até as nove horas, quando seu horário de dormir chegou e ele não resistiu, se
entregando a Morpheu. Só então a menina relaxou o coração apertado de ver o pequeno chateado e
se permitiu aproveitar todas as preparações que a madrasta e sua filha tinham reservado. Elas
pintaram suas unhas, e fizeram seu cabelo e maquiagem, a todo tempo contando histórias divertidas
de quando elas passaram pelo mesmo ritual.
Hadassa entrou no vestido e pegou a bolsa pontualmente às dez horas, no mesmo momento em que
Sam buzinou do lado de fora da casa. Calçou seus sapatos de salto alto com pressa e deu um beijo
nos familiares saindo pela porta com votos de "divirta-se" e avisos de "comporte-se".
Sam estava impecável em seu smoking preto, e beijou sua mão ao ajudá-la a entrar no carro pelo
lado do passageiro. Muito embora ela não estivesse com grandes expectativas para aquele encontro
em particular, esperava conseguir se divertir dignamente na festa mais esperada do ano.
O lugar estava primoroso. Tudo perfeitamente pensado para garantir uma noite inesquecível e já
bastante tumultuado de alunos chegando em vestimentas luxuosas com seus pares-troféu a tira
colo. Hadassa e Sam não ficavam atrás, misturando-se à população e adentrando o salão após
deixarem seus ingressos com um responsável na porta.
A música era alta no lugar semi-iluminado, que já contava com alguns casais dançando
animadamente, enquanto outros ainda conversavam nos arredores da pista e alguns poucos já
trocavam beijos entusiasmados nos sofás que contornavam as paredes como se não houvesse
amanhã. Sam murmurou para Hadassa que o esperasse ali enquanto ele tentaria conseguir algo
para beberem. Ela não perguntou se ele ia dar um jeito de surrupiar algumas bebidas mais fortes do
camarote dos formandos ou se ia se contentar com algum drink sem álcool do bar a que tinham
acesso, apenas acenou positivamente e continuou a observar os arredores.
Foi aí que ela viu.
Harry ria abertamente, excessivamente alegre, com Sophia a tiracolo pendurada em seu braço e
mais alguns amigos os rodeando. Todos foram direto da entrada para o elevado reservado aos
terceiranistas (Sophia por ser par de Harry, pois não era formanda) e pareciam destoar do clima
ainda não tão alucinado da festa. Logo Hadassa concluiu que eles tivessem feito um "esquenta" e já
estivessem um pouco bêbados.
O moreno estava maravilhoso em um terno cinza chumbo que realçava os músculos de seu corpo
maduro demais para um menino daquela idade, e tinha os cabelos bagunçados mais atraentes que o
normal. Ao passo que Sophia modelava com um colado vestido azul, moderno e despojado, de uma
forma que só ela teria estilo o suficiente para bancar. Hadassa estava hipnotizada olhando para os
dois.
- Aqui, Dassa. – Sam chamou, detendo novamente sua atenção. Ele estendia um copo com um
líquido coral bonito que ela não fazia ideia do que continha. Agradeceu e deu um gole, sentindo o
sabor doce se espalhar pela sua boca e a acidez da vodca descer sua garganta. Vendo a face da
garota de surpresa pelo conteúdo da bebida, o loiro tratou de se explicar. – Peguei um pouco de
vodca com um veterano do basquete. Se não gostar a gente pega um refrigerante pra você. –
Hadassa apreciou o gesto raro de preocupação do amigo, mas bastou uma última olhada para
um Harry alterado sendo erguido pelos amigos no camarote para que ela negasse.
- Não, hoje eu vou abrir uma exceção.

O tempo passou rapidamente ao som das batidas mais badaladas da rádio e conversas pra lá de
engraçadas entre bêbados bem humorados. A pegação nesse ponto já era generalizada, sendo
praticamente impossível achar um lugar vazio para se sentar nos sofás ou mesmo uma parede
deserta. Vários casais da escola se revelaram, alguns improváveis, outros surpreendentemente
homossexuais, e outros héteros ainda mais inesperados. E, motivadas pelos shots a mais, algumas
pessoas faziam questão de passar o relato a todos que encontravam, de forma que nenhuma fofoca
teria o poder de permanecer na festa. Havia inclusive um telão que, a mando de alguém da
Comissão de Formatura, passava tweets bombásticos postados sobre a hashtag #bafodaformatura.
Naquela altura da madrugada já era difícil encontrar quem não estivesse pelo menos cativado pelo
cheio embriagante no ar, dançando até se acabar na pista ou dando brutalmente em cima de
alguém. Por isso, não era de se surpreender que Harry estivesse sem camisa em cima de um
elevado sensualizando com a plateia de garotas desesperadas. Ele conseguia ficar sério se
movimentando de forma a deixar a imaginação correr solta, mas era só alguém gritar um elogio
descarado para que ele caísse na risada.
Sophia, que tinha desaparecido com o capitão do time de xadrez há meia hora, voltou para perto do
amigo com a boca inchada e descabelada, e não perdeu tempo em esticar as mãos para que ele a
içasse para dançar com ele. Percebeu, no entanto, que ele não estaria em condições e que ela não
conseguiria sozinha, então só assobiou para os gêmeos zagueiros do futebol e eles seguraram cada
um um braço dela e conseguiram colocá-la ao lado do moreno no palquinho improvisado.
A plateia mudou consideravelmente, dobrando de tamanho pela junção dos homens, também
animados por ver Sophia dançar. Ela e Harry deram mais uma longa risada e juntaram as mãos para
fazer graça descendo até o chão. Era impossível dizer quem rebolava mais, mas Harry ganhou mais
assobios pelo detalhe do dedo na boca.
Continuaram dançando juntos, cada vez mais descarados, Sophia fazendo muito mais por diversão
e Harry porque estava embriagado. Eles se esfregavam um do corpo do outro, sendo obscenos para
o agrado da multidão que assistia, embora seus movimentos não tivessem qualquer maldade para
eles mesmos, que se viam como irmãos. Sophia descia as mãos pelo peitoral e abdómen do amigo,
fazendo inveja nas recalcadas aos seus pés, e ele lhe dava tapas generosos na bunda, que faziam
brilhar os olhos dos marmanjos.
Hadassa assistia à cena vidrada. O álcool funcionava diferente em seu corpo, já tendo passado há
muito a fase da desinibição e alcançando rapidamente a melancolia. Quando o casal estrela decidiu
deixar o elevado, ela já tinha as mãos de Sam entre as suas e marchava para o centro da pista,
decidia a se divertir nem que à força.
Sam foi obediente e de corpo mole, e ficou quase que parado enquanto Hadassa se esforçava em
dançar provocante e animada, tentando despertar alguma chama em si mesma. Ela se virava de
costas, rebolando, ou se apertava a ele de frente, sempre no ritmo da música.
Harry acabou colocando os olhos nela por uma fatalidade, enquanto esperava seu próximo shot. Ela
fazia exatamente como ele tinha ensinado, e apesar de esperar sentir raiva, Harry só conseguia se
sentir vazio.
Sam pareceu voltar à vida, criando controle sobre as próprias mãos apenas para colocá-las em todos
os lugares inapropriados de se tocar em público e apertá-la em um abraço até aproximar a boca da
dela. Hadassa ficou confusa do que deveria fazer, mas não teve tempo de pensar, já que o loiro
avançou de repente aprisionando-a em um beijo molhado demais. Ele mexia a língua mais rápido do
que ela conseguia acompanhar, colocando-a inteira na boca da menor, que sentia algum nível de
nojo. Não se lembrava dele beijar desse jeito, mas procurou culpar o álcool pela performance pífia
do amigo, que agora descia os lábios para o seu pescoço, deixando o caminho babado demais e
mordendo a pele delicada de uma maneira nada prazerosa.
Hadassa inconscientemente procurou pelo ex-professor, queria saber se ele estava presenciando
aquela cena, e na hora que o encontrou se sentiu um lixo.
Por que ela estava se dignando a passar por isso? Fazer esse tipo de vingancinha? Seria possível
que Harry merecesse tamanho desprezo a ponto de ela se colocar naquela situação deplorável para
se sentir melhor?
Empurrando Sam pelos ombros com força e assistindo-o cambalear para trás, ela correu para o
banheiro feminino. Tinha lágrimas nos olhos e tamanho desgosto por si mesma que só passaria
depois de ela, no mínimo, lavar o rosto e ter uma boa noite de sono.
Se apoiou na pia encarando o reflexo, tentando se reconhecer enquanto deixava as lágrimas
continuarem a cair livremente, cansada de se privar do que quer que estivesse sentindo. A porta se
abriu e ela estava pronta para xingar quem quer que fosse a bêbada desagradável que tivesse ido ali
vomitar, quando se deparou com Sophia.
A morena tinha um olhar complacente, entendedor, e Hadassa suspirou profundamente ao vê-la.
- Veio esfregar na minha cara o quão patético é chorar em uma festa? – Perguntou, arisca. Diziam
que o ataque é a melhor defesa...
- Eu não sei com quem você tem andado menina, mas eu não sou tão vadia mor assim. Eu vim ver
se você está bem. – Sophia rebateu, aproximando-se da pia onde a outra se encostava.
- Ah, claro que eu estou. Estou ótima! Eu acabei de beijar o cara por quem eu era apaixonada, foi
uma bosta, e o Harry viu ainda por cima e me olhou com uma cara tão... – Faltaram-lhe as palavras,
enquanto cuspia todo o cinismo guardado por uma vida, a raiva de si mesma novamente dando as
caras. A morena suspirou, paciente.
- Escuta, você obviamente precisa de uma amiga e por um acaso do destino eu estou disponível.
Modéstia à parte, eu faço o trabalho muito bem. Então venha aqui. – Sophia puxou Hadassa pela
mão até um sofázinho contido no banheiro, provavelmente para apoio de bolsas e afins. Elas se
sentaram viradas uma para a outra e Hadassa limpou os rastros de lágrima com violência, dividida
entre o incômodo de não ter ninguém melhor com quem partilhar seus problemas, e a sensação
sufocante de tê-los guardados por tanto tempo. Sarah tinha ajudado, há duas semanas, mas Sophia
conhecia Harry. O tipo de discurso necessário era infinitamente diferente. – Põe pra fora, Hadassa.
Me conta o que você tá sentindo. – Incentivou.
- Eu sinto como se fosse explodir. Ainda não superei que Harry tenha me afastado sem mais nem
menos e agora tudo que eu tinha no meu horizonte também ruiu, porque o Sam é um pé no saco e
beija mal. – Sophia não conteve uma risadinha por ouvi-la com toda aquela cara de anjo falar de
maneira tão chula.
- Querida, você já se perguntou o porquê de te incomodar tanto que o Harry tenha te afastado ou o
porquê de não estar sendo tão bom com o seu amigo? – Perguntou, tentando chegar no cerne de
tudo aquilo.
- Porque eu sou uma idiota dependente da opinião dos outros...? – Tentou, sabendo que mesmo que
aquilo pudesse ser minimamente verdade, não se aplicava ao caso.
- Acho que não, Dassa. Presta atenção em todos os sinais. O que você sentiu quando Harry se
despediu? – Sophia se sentia fazendo o mesmo interrogatório de duas semanas antes e achou graça
sozinha do quanto a menina à sua frente e seu melhor amigo eram parecidos. Ambos cegos e
atrapalhados.
- Não sei, acho que eu ressenti muito mais a mim mesma do que a ele. Eu tô com esse pensamento
constante sobre não ser boa o suficiente, e...
- Opa, pera aí que acho que temos um vencedor! – Sophia interrompeu, imitando o sinal da buzina
que soa nas máquinas de blackjack quando se consegue três sacos com cifrão na mesma rodada. -
Porque te incomoda que ele talvez não te ache boa o suficiente?
- Ah, porque dessa forma ele vai precisar procurar alguém que seja. Quer dizer, eu não bastaria. Ele
teria que ir atrás de alguém como você, o que obviamente já está acontecendo. – Resmungou,
insatisfeita.
- Menina, escuta muito bem porque eu não sou de dar satisfação então esse é o tipo de coisa que só
vai acontecer uma vez na vida. – Ela tinha um indicador em riste, chamando a atenção da menor. -
Eu e o Harry? Nunca vai rolar.
- Por que não? Vocês são perfeitos um pro outro. – Murmurou com desgosto, mesmo acreditando
piamente ser verdade.
- E você lá quer que role pra estar me empurrando pra ele dessa forma? – Sophia tinha as mãos na
cintura, como se lhe desse um sermão. - Acredita em mim, a gente não tem nada a ver junto.
Somos amigos porque somos parecidos demais e por isso é como conversar com o espelho. Mas em
um relacionamento? Isso seria nossa ruína. Relacionamentos são feitos de pessoas diferentes, que
se complementam, que acrescentam algo uma para a outra. Eu e o Harry só sabemos encher a cara,
subir em mesas e tirar a roupa. – Hadassa deu risada, achando graça no discurso enfático da
morena sobre a não-funcionalidade de um enlace entre os dois.
- Ele também acha isso? – Resolveu se assegurar, embora já tivesse bastante tentada a crer na fala
da garota.
- A gente chegou nessa conclusão juntos. – Deu de ombros, sabendo que aquela era a prova final
para tirar aquilo da cabeça da outra. – Agora voltando ao que interessa. – Bateu as mãos, se
concentrando no principal. - Você disse que não quer que ele tenha que procurar em outras
pessoaso que pode ter com você. E o que seria isso?
- Ah, sei lá... O que ele quisesse. – Hadassa respondeu, subitamente tímida.
- Hadassa, o que você quer? – Aquela pergunta era tão simples e ao mesmo tempo tão importante
para Hadassa, que ela sentiu como se, pela primeira vez na vida, tivesse uma amiga. Alguém que se
importasse com o que ela queria ao invés de indagar meramente suas ações e resultados.
- Sinceramente? – Perguntou, vendo a outra revirar os olhos e acenar positivamente. - Acho que eu
gostaria de que tudo voltasse ao que era. Quando a gente se via todo dia e namorava de
mentirinha.
- Mas não era de mentira pra você, era? – Sophia tinha um sorriso de lado, sabendo que tinha
chegado ao centro do problema.
- Ah... Eu...
- Querida, você consegue ser mais atrapalhada que ele. Qual a dificuldade de admitir? – Levantou-
se, arrumando o cabelo pelo reflexo do espelho, relaxada agora que o assunto estava dominado.
- Admitir o quê? – Hadassa estava acostumada a ser taxada como inteligente, mas ali, naquela
conversa, estava se sentindo um patinho assustado e ignorante, conversando com um ganso
imponente e com todas as respostas, em uma língua que ela não compreendia completamente.
Sophia se virou para a menor e sorriu como se tivesse descoberto a cura da Aids.
- Você gosta dele. Quer que ele seja seu namorado, que só fique com você, que durma ao seu lado,
que se preocupe. – Hadassa arregalou os olhos, negando freneticamente com a cabeça.
- Que? Não, Sophia, você está enganada.
- Ah, é? Então me diz, por que foi tão ruim ficar com o seu amigo? – Novamente, ela tinha uma mão
na cintura e as sobrancelhas erguidas, como se lidasse com uma criança especialmente teimosa.
- Não sei, ele babava demais, era muito chato, não tava dando certo...
- Ele não era a pessoa que você queria estar beijando. – Sugeriu.
- É, e ele não... – Hadassa se interrompeu no mesmo momento em que percebeu ter concordado
com a morena, arregalando mais ainda os olhos transparentes.
- Viu? – Sophia lhe ofereceu um sorriso complacente.
- Ai, meu deus. – Cobriu a boca com as mãos, como se pudesse frear o processo de percepção. - Eu
gosto dele. – Sussurrou, a voz abafada.
- Eu iria mais longe e diria que você está apaixonada. – Deu de ombros, agora consertando a
maquiagem.
- Sophia! – Esganiçou, desesperada. - O que eu vou fazer?
- Ué, você vai ganhá-lo de volta. – Comentou em tom de obviedade.
- E como eu vou fazer isso?
- Eu ouvi dizer que você era formada na “arte da sedução”. Me disseram errado? – Piscou para a
outra, e ambas trocaram sorrisos cúmplices, já sabendo o que Harry tinha guardado pela frente.

Venticinque

Agora que todo mundo estava de férias e a única preocupação deles era com os resultados dos
vestibulares, que só sairiam em janeiro, Hadassa conseguiu um tempo para se centrar e decidir
quais seriam suas ações para conquistar o objetivo mais enredado de sua vida: Harry.
Ficou sabendo por Sophia que o mais velho tinha planos de ir desanuviar a cabeça na praia durante
o ano novo, o que significava que ela só teria mais alguns dias até perdê-lo para a família no natal e
para o mar aberto na virada. Por isso, correu para o cabelereiro o mais rápido que pôde, passando
de quebra em lojas conhecidas para comprar algumas mudas de roupas extraordinárias.
Em resumo, Hadassa passou por uma revitalizada geral. Se tinha alguma coisa que tinha aprendido
na Aula 1 era justamente que mudar sempre fazia bem, ainda mais se refletisse uma mudança
interna.
Se sentindo nova em folha, Hadassa pegou um taxi e rumou para a casa de Harry. Sophia havia lhe
garantido que ele não estaria lá até a hora combinada, de forma que ela poderia lhe fazer surpresa.
Logo, bateu na porta, que foi atendida pela empregada simpática que já estava mais que
acostumada a vê-la por ali. A mesma alertou sobre Harry não estar em casa, mas Hadassa lhe
confidenciou que queria fazer uma surpresa e a senhora a deixou entrar, achando adorável o
romance adolescente.
Então Hadassa percorreu a passagem até a casa de madeira, encontrando um Whisky cheio de
saudades no caminho. Brincou com o cachorro por alguns minutos, também tendo sentido a falta
dele, e depois foi para o quarto de Harry se preparar. Ela trocou as roupas pelas que trazia na
sacola, o que consistia em um mini vestido preto que a deixava particularmente sexy, saltos, e um
lingerie vermelho, especialmente escolhido para a situação. Finalizou a preparação com uma
maquiagem mais forte, com delineador preto e um batom da mesma cor da roupa íntima. Satisfeita
com o resultado, Hadassa também tirou da sacola uma porção de velas aromáticas e as espalhou
pelo quarto, acendendo uma a uma.
Estava tudo saindo como planejado, até ela escutar o som longínquo do carro de Harry estacionando
na garagem. Apressou-se para a sala, onde se sentou na poltrona com toda a graça e postura
aprendidas na Aula 2. Esperou, iluminada apenas pela luz do abajur ao seu lado, que o dono da
casa entrasse.
E ele o fez, alheio ao que poderia estar acontecendo, o que levou Hadassa a crer que a empregada
não havia estragado a surpresa. Ele abriu a porta da cozinha assobiando a última música que tinha
ouvido na rádio, e esvaziou os bolsos na bancada antes de finalmente se virar para a abertura da
sala e encontrar Hadassa ali, sentada toda sedutora, apenas esperando-o pacientemente.
Sua boca foi ao chão na mesma hora. Não haviam palavras que descrevessem tudo que ele sentiu
quando a viu, tão suntuosamente maravilhosa e novamente dentro da sua casa, onde tantas
memórias já haviam tido espaço. Os olhos de Harry percorriam seu corpo dos pés à cabeça,
desacreditados que ela pudesse realmente estar ali, depois que já havia se convencido de que o
discreto “adeus” contido na carta teria sido definitivo.
- Hadassa... – Disse baixinho, quase como se não quisesse perturbar o ambiente demais, para que a
fantasia de desfizesse. Ela se levantou, com calma e graciosidade, e com os olhos cravados nos dele,
suspirou:
- Harry. – Ele adorava a forma como seu nome soava na voz da garota, e fechou os olhos
brevemente para sentir o som reverberar. Agora que a miragem falava, ela lhe parecia mais real,
mais alcançável.
- A que devo a honra da sua presença? – Ele tinha um sorriso de canto, intrigado do que tudo aquilo
poderia significar, mas ao mesmo tempo gostava demais do ar misterioso para quebrar tudo com
informalidades. Ela apontou para o sofá, sugerindo que ele se sentasse, e fez o mesmo bem ao seu
lado.
- Você estava errado. – Sussurrou. - Eu ainda tenho mais uma aula para aprender.
- É? E sobre o que ela fala? – Hadassa sorriu fechado, reservada, e ele entendeu que aquela não era
a hora de ela lhe revelar.
“Se seu olhar se cruzar com algum cara com quem queira flertar, você descruza e cruza as pernas
novamente para o outro lado.”
Lembrando-se novamente dos ensinamentos do garoto, ela fez o que havia aprendido, logo depois
conectando novamente seus olhares. Harry estava hipnotizado pelo cumprimento do vestido e
mordeu os lábios instintivamente com a visão dele se levantando brevemente com o movimento de
suas pernas.
- Você tá muito gostosa. – Constatou, não se freando de dizer aquilo que era a mais absoluta
verdade, que dançava no ar como um elogio necessário. Hadassa sorriu mais uma vez, e olhou para
a janela aberta, que mostrava um fim de tarde ameno e cheio de nuvens.
- O tempo está nublado. Você não adora tempo nublado? – Perguntou, desviando o assunto com a
sutileza de uma dama.
- Eu deveria? – Indagou, apertando os olhos em curiosidade de onde ela queria chegar.
- É bom para tomar decisões. – Deu de ombros delicadamente. - Você não se sente pressionado pela
positividade do sol, nem amuado pela melancolia da chuva. Qualquer um dos dois pode ser
igualmente provável. – Explicou, e o mais velho rapidamente pegou a linha de raciocínio.
- Ou o sol aparece ou a chuva cai. – Acenou em compreensão. - Qual decisão você tomou?
- Você é um garoto grande... – Hadassa soprou, pousando uma mão suavemente no fim da coxa do
moreno e apertando ao umedecer os lábios. Todos gestos que exigiam muita autoconfiança, coisa
que ela conseguiu também a partir de uma aula. No caso, a Aula 3:
“Você precisa estar confortável consigo mesma desde debaixo da pele, confortável com o seu prazer
egoísta, com o que quer, com o que precisa.”
O que ela precisava era dele. E estava ali para justamente para mostrá-lo.
- Tenho certeza que pode descobrir sozinho. – Embora sua fala contivesse um desafio implícito, nada
era mais claro do que a conexão feita entre seus olhares, que dizia basicamente tudo que era
necessário ao garoto saber.
Respirando fundo e cansado de vê-la tão longe sentindo-a tão perto, Harry enlaçou uma mão na
nuca de Hadassa, e puxou-a pelos cabelos direto para sua boca.
Testa contra testa, seus hálitos se misturavam, quentes e saudosos, em um roçar vigoroso que
provocava arrepios pela coluna. Os pelos eriçados e os narizes se encontrando, apenas
premeditando a hora que alguém fosse partir os lábios de uma vez.
Ela tomou a iniciativa.
Harry nem ousou não retribuir, sentindo-a colocando seu corpo e alma no movimento, entregando-
se como planejava fazer desde o início, dando seu coração em uma bandeja de prata.
Seus lábios se moveram em conjunto, como se lembrassem um do outro, e tivessem sentido falta de
seu gosto e maciez. Diferente de qualquer outra experiência, uma estranha corrente de eletricidade
percorreu seus corpos, derretendo cada nervo tensionado. Tinham feito aquilo tantas vezes, e ainda
assim parecia ter sido em uma fantasia ou sonho distante, no melhor tipo de déja vu possível.
Era como na Aula 4, quando se beijaram pela primeira vez, e todos os encaminhamentos de Harry
se provaram desnecessários. Eles não poderiam dizer que tinham aprendido a lidar perfeitamente
com o ritmo um do outro, que tinham decorado os tipos de agrados que o outro preferia, pois seria
mentira. Afinal, ficou claro desde o começo que tinham nascido com aquele dom.
Quando o beijo começou a ficar bom demais para a sanidade de ambos falar mais alto, Hadassa se
levantou do sofá, puxando Harry pelas mãos para acompanhá-la, os olhos sempre conectados. Ele
ficou em pé também, logo segurando-a com força pela cintura e dando impulso, de forma que a
garota enlaçasse as pernas ao seu redor. Assim, com ela no colo, ele se dirigiu para o quarto, outro
ambiente de memórias indescritíveis, visando o espaço e conforto provido pela cama.
O moreno ficou impressionado ao ver todas as pequenas velas que iluminavam o lugar, deixando um
aroma característico no ar e uma sensação gostosa de acolhimento. Sorrindo para ela e acariciando
sua bochecha quente, Harry aproximou-se do colchão, colocando primeiro o próprio joelho e só
então a depositando de costas com toda a gentileza do mundo.
Ao passo que voltaram a unir seus lábios e gostos, as roupas foram desaparecendo, uma a uma
sendo jogadas no chão, enquanto mãos ansiosas exploravam a pele descoberta, tocando, apertando,
pressionando. Eles não conseguiam evitar.
Hadassa sentia-se molhada só de sentir o tronco nu do professor sobre ela, com todos os músculos
nos lugares certos, o odor mais maravilhosamente másculo que já tinha sentido, em uma maciez
infinita que lhe dava água da boca. Tinha descoberto aquela sensação com ele, tendo entendido o
significado da palavra tesão pela primeira vez só quando ouviu seus sussurros libidinosos ao pé do
ouvido ou visto o olhar pecaminoso dele lhe analisando as curvas. Cada uma daquelas ações era
capaz de fazê-la entortar os dedos dos pés e ansiar por uma pressão mais enfática sobre si e um
quadril duro entre as coxas. E tudo aquilo era novo. Aquele anseio por sexo só surgiu na Aula 5,
quando ele pacientemente lhe provou que o que era capaz de fazer entre quatro paredes era mais
do que gratificante, quebrando todos os seus estigmas anteriores.
Como agora, que ele beijava seus seios com uma fome a que era impossível não se entregar,
arqueando a coluna para empurrá-los mais dentro da boca dele. Harry fazia cada mínimo agrado
parecer surreal, e Hadassa revirava os olhos, enlouquecida e perturbada pela enxurrada de
sentimentos e pela inquietude que se estabelecia no seu baixo ventre. Era tão absurdo, que ela tinha
vontade de jogá-lo do outro lado da cama para comandá-lo ao seu ritmo, com a sua pressa.
E foi o que ela fez. Arranjou um jeito de girar com o mais velho pelos lençóis até as posições
inverterem, e arrancou a última peça de roupa dele como se sua vida dependesse daquilo. E então,
antes que pudesse parar para pensar no que estava fazendo, tinha o pau dele enfiado até a
garganta.
A vontade de colocá-lo na boca estava insuportável, ela percebeu. Adorava sentir ele estremecer por
sua causa, deixá-lo mais duro do que achava capaz, e vê-lo espelhando todos os desesperos dos
quais ela sofria quando ele a provocava. Adorava lembrar do rosto dele de sofrimento e do mais
absoluto êxtase quando a ensinou aqueles movimentos na Aula 6. Fazia ela se sentir poderosa e
ainda mais excitada, se aquilo era possível.
Harry a puxou pelos cabelos, mostrando que era o suficiente, e que ele queria tê-la naquele
instante. A guiou até tê-la sentada em seu quadril, o mastro entre as coxas da garota, onde ela se
esfregava sem se conter. A posição era nova para ela, mas ele tinha certeza que seus gritos seriam
passíveis de se ouvir a quilômetros quando se acostumasse.
Ele se protegeu rapidamente e segurou Hadassa pela bunda, levantando-a até estar encaixada na
cabeça de seu membro. Segurando em seus ombros fortes, ela desceu centímetro por centímetro,
sentindo-o preenchê-la por inteiro, em um ângulo diferente do usual que a obrigava a girar os olhos
nas órbitas. Apesar de ser claramente um esforço descomunal para Harry ir devagar naquele
momento, ele aguentou, mordendo os lábios com os olhos vidrados no lugar onde se tornavam um
só. Hadassa notou o cuidado com ela, a paciência em esperar que se movesse quando se sentisse
pronta. E ela adorava quando o garoto era bruto e sexy, mas tamanho carinho e conexão podiam
ser até mesmo melhores em dadas situações.
Tinha um sentimento alarmante impregnado no ar, um pouco de saudade misturada com alívio e,
arriscaria dizer, até mesmo uma porção de amor. E toda aquela áurea, unida com a posição nova e
desafiante, tornavam tudo espetacularmente melhor, assim como Harry havia explicado na Aula 7:
“É importante sempre o casal achar uma forma de quebrar a inércia e se colocar em situações
diferentes, que lidem com o inesperado e tragam alguma experiência nova.”
Respirando fundo e já perto demais de um final inevitavelmente bom, Hadassa começou a se mover,
subindo e descendo com graça e em seu próprio ritmo. Harry a forçava a rebolar de vez em quando,
quando estava inteiro dentro dela, e ambos arfavam com a sensação. Ele estava hipnotizado no
movimento que os seios dela faziam com o vai-e-vem, enquanto ela tinha os olhos baixos, incapazes
de permanecerem abertos propriamente, mirando o peitoral e abdômen do moreno tensionados pelo
gozo postergado.
Juntos, abraçaram-se em um aperto gostoso quando tudo aquilo se tornou insuportável, e se
entregaram a um orgasmo elétrico e relaxante, gemendo na boca um do outro.

Agora, deitados lado a lado ainda levemente ofegantes, Hadassa percebeu como tinha passado em
poucas horas por todas as 7 aulas ministradas pelo mais velho. Com um sorriso sofrido, percebeu
que a única que ela achava não ter cumprido com méritos, era justamente a oitava. Fazê-lo se
apaixonar... Aquele era todo o objetivo. Teria ela sido bem sucedida?
Simultaneamente, Harry avaliava a loucura que havia sido aquele par de horas. Encontrar Hadassa
em sua casa, tão absurdamente tentadora, dizendo todas as coisas certas e agindo como uma
mulher de verdade... Era de tirar o fôlego. Mesmo assim, o elemento que mais jogava a favor de
toda a sedução da menina era justamente o fato de ela ser quem era, com sua meiguice à flor da
pele e os olhares intimistas que sempre carregava nas íris transparentes. Apesar desses elementos
sempre presentes em suas atitudes, até mesmo inconscientemente, ele percebia agora que ela
estava sim agindo diferente, como se seguisse um manual de regras.
Em um clique, Harry percebeu, extremamente surpreso, que Hadassa estava colocando em prática
as aulas que ele tinha lhe dado. Uma a uma, estavam todas presentes ali, exceto... A Aula 8. Era
isso que Hadassa objetivava? Ela queria conquistá-lo?
- Você sabe... Eu percebi o que você fez. – Comentou, trazendo a atenção da menina para si. – E
você foi perfeita como sempre.
- Mas? – Hadassa disse com um sorriso penoso de canto. Se ele estava lhe dizendo aquilo, era
porque tinha entendido onde ela queria chegar. E, mesmo assim, ele não tinha dito aquilo em um
tom apaixonado. Ele virou-se para ela com dúvida no olhar.
- Mas nada disso é necessário. Muito menos a oitava aula. – Ele deu de ombros, ruborizado. Falar de
seus sentimentos nunca deixaria de ser estranho.
- Por que eu nunca vou surtir efeito em você, né? – Ela completou, cabisbaixa. Harry franziu o
cenho, não entendendo sua reação.
- Pelo contrário, menina... Você não vai me conquistar por causa dessas aulas. – Sentindo-se boba,
ela continuava a mirar as próprias pernas. - Você já me conquistou... Apesar delas. – Hadassa subiu
o rosto para mirá-lo imediatamente, tentando fazer sentido das palavras que se embaralhavam em
seu cérebro.
- O que isso quer dizer? – Sussurrou, tímida e confusa. Harry coçou a nuca, desconfortável de
colocar em palavras aquilo novamente, mas sabendo ser necessário.
- Quer dizer que eu sou completamente apaixonado por você, Anjo. – Ele brincava com os dedos
dela para não precisar encará-la. - E não é de agora. – Surpresa e sem se conter, Hadassa ficou
imediatamente de joelhos e se jogou nos braços de Harry, chocando os corpos com violência,
abraçando-o pelo pescoço com força e forçando os lábios contra os dele em um selinho apertado.
Ele exclamou, surpreso, segurando-a com cuidado pela cintura em equilíbrio.
- Você tá falando sério? Não é brincadeira? Não é nenhuma lição a mais que você quer me dar sobre
coração partido nem nada assim, é? – Rindo de seu jeito eternamente afobado, Harry também se
sentou encostado à cabeceira com ela ainda apoiada em si, e decidiu colocar tudo em panos limpos.
Ela já tinha demonstrado que não ia fugir... Pelo menos ele colocaria aquilo para fora.
- Eu não tinha percebido, você sabe, sou muito cabeça dura. Mas aí a Sophia começou a me fazer
um monte de perguntas a seu respeito... E eu fui notando que meu ciúmes e necessidade de contato
não eram a coisa mais normal do mundo para quem não sente nada além de amizade pela pessoa.
Daí eu me senti super mal de estar ficando no seu caminho para chegar até o loiro aguado, porque
aquele era seu objetivo desde o começo e eu não estava sendo muito condescendente com isso.
Então eu resolvi me afastar e te deixar ter a chance que você merecia com ele, mesmo que fosse
para perceber que ele não te merecia. – Explicou para uma Hadassa boquiaberta.
- Você fez tudo isso por mim? – Hadassa tinha os olhos marejados, finalmente compreendendo
todos os motivos por trás de atitudes que a tinham magoado tanto. Na verdade, agora ela se sentia
extremamente importante, comovida pelo altruísmo dele.
- Sempre por você, Anjo. – Harry acariciou seu rosto, e ela viu, enfim, o jeito como ele a olhava. Em
algum lugar entre o carinho e a admiração, fervia um sentimento. E aquilo era paixão, com toda a
certeza.
- Eu fiquei tão brava com você... – Comentou risonha, negando com a cabeça.
- Brava? O que eu fiz? – Harry franzia as sobrancelhas, confuso, e ao mesmo tempo sorria, não
podendo evitar a imagem mental de uma Hadassa muito fofa nervosa.
- Sim, brava! Por ter me afastado, por ter me jogado no colo do idiota do Samuel. – Revirou os
olhos, sem saco de tocar naquele nome. - Também morri de ciúmes da Soph...
- Espera, espera, espera. – Harry interrompeu, confuso. - O que você tá dizendo? – Hadassa o olhou
como se não tivesse solução.
- Que eu gosto de você também, Harry. Achei que isso tava na cara depois de tudo isso. – Ela abriu
os braços, mostrando os arredores simbolizando seus preparativos, e Harry ponderou por alguns
instantes, repassando cada mínimo detalhe desde sua chegada na casa, por fim se achando imbecil.
– Eu decidi encarar tudo como mais uma aula, para ter coragem o suficiente para fazer tudo que
precisava ser feito. – De fato, quando Harry colocava os termos de algum ensinamento, Hadassa
assumia uma postura diferenciada, como se ter o passo-a-passo tornasse tudo menos assustador.
Aquela havia sido, portanto, a tática que encontrou de não se atrapalhar em seu próprio plano.
- E dessa vez você foi a professora? – Perguntou com um sorriso de canto, maravilhado.
- É. Aula 9: Como não deixar o cara que você ama escapar. – Disse em um tom pomposo que o fez
rir com gosto e apertar sua barriga.
- Eu gosto de como isso soa... – Comentou, o nariz passeando pelo rosto da garota, em uma carícia
gostosa que arrepiava seus poros. Afastou-se contendo a vontade de interromper o assunto e
começar tudo de novo o que tinha acontecido ali há pouco. – Desculpe não ter percebido antes.
Acho que eu não penso direito quando se trata de você.
- Acho que eu posso te perdoar com uma condição. – Piscou os cílios com inocência, e ele logo
soube que ela estava tramando alguma.
- É? Qual condição? – A menina sorriu, batendo com dois dedos na própria boca, sinalizando que
queria um beijo. – Hm. Acho que essa penitência eu vou pagar com vontade. – Sorriu, conformando-
se que sua garota era tão safada quanto ele próprio.
Com um gritinho agudo, Hadassa foi deitada na cama novamente, e se embolou com Harry para
baixo dos lençóis, onde ficaram pelo resto da tarde.
E por muitas tardes, manhãs e noites, pelo resto dos dias.

Epilogue

- Anjo? - Harry gritou ao bater a porta do apartamento. Tinha acabado de chegar da faculdade de
psicologia que fazia durante a noite, e apesar de extremamente cansado, uma única olhada no rosto
da namorada fazia com que ele se sentisse refrescado. Isso não mudou em dois anos e meio de
relacionamento, e o mesmo ocorria com o apelido que ele insistia em usar para se referir a ela.
- Oi, amor. - Hadassa disse, aparecendo no fundo do corredor depois de alguns segundos, com os
braços abertos para recepcioná-lo, Whisky no seu encalço, também ansioso por recepcionar o dono -
embora o traidor tivesse se afeiçoado demais pela nova mamãe -, e a nova membra da família,
Tequila, uma Shitsu de oito meses, ocupada demais em morder os calcanhares do cachorrão.
Hadassa tinha demorado pois estava distraída com as novas fotos enviadas por Sophia do último
lugar maluco em que estava de visita. A morena tinha se provado a amiga que Hadassa sempre quis
ter, e nunca falhava em mandar recordações e imagens dos lugares por onde passava como gerente
de aeroporto, e dos gatos from abroad com quem tinha affairs. O jeito independente da garota
nunca falhava em entreter o casal, que adorava fazer skypes de quase uma hora com o cupido que
os uniu. - Como foi hoje? - Eles trocaram um abraço apertado e um selinho, inspirando o perfume
um do outro, como faziam todos os dias.
- O de sempre. To dando graças a deus que semestre que vem essa loucura melhora. - Cursar duas
faculdades ao mesmo tempo exigia muito do moreno, mas ele não trocaria aquilo por nada. Apesar
de tudo, passou a gostar muito de direito, o que o fez perceber que talvez toda a sua birra fosse
fruto do preconceito que tinha quanto as escolhas do padrasto e da mãe. Já psicologia era tudo o
que ele podia esperar, sem tirar nem por. Mas, ainda que estivesse realizado no âmbito profissional,
todo o tempo que as faculdades exigiam o faziam ficar esgotado e sem pique para aproveitar a
namorada.
Isso foi motivo de um grande abalo no relacionamento durante um tempo, até ele ter a brilhante
ideia de morarem juntos. O que se concretizou alguns meses atrás, perto do campus, e garantia que
eles pelo menos pudessem dormir juntos todo dia, o que ajudava a matar a saudade que a rotina
enlouquecida dele criava. Além disso, no semestre seguinte, o garoto que criaria sua própria grade
de horários, pois teria que escolher suas matérias eletivas, e com isso o ritmo deveria diminuir
também. Ambos ansiavam muito por esse momento.
Morar juntos foi, inclusive, uma boa alternativa para o problema familiar que Hadassa estava
enfrentando. Agora que tinha decidido morar de vez com o pai, a mãe tinha ficado louca, perdido o
emprego e chorado diversas vezes na porta da casa de Augusto. Hadassa levou a mulher a um
psicólogo, onde foi constatado tudo que todo mundo já suspeitava: Ela estava depressiva. Para
ajudar a mãe e apaziguar a situação, Hadassa achou por bem sair da casa do pai, e o convite
de Harry acabou sendo muito bem-vindo. Agora, sua mãe estava sendo medicada, novamente em
um emprego estável, e bem mais calma por falar com a filha todo dia e não sentir que a estava
perdendo para o ex-marido. Augusto também compreendeu a situação completamente, e só fazia
questão que Hadassa os visitasse sempre que possível.
- Eu também. Não aguento mais te ver tão abatido. - Acariciou o rosto do mais velho, sempre tão
meiga apesar de todo o crescimento. Hadassa deu a sorte de passar na mesma faculdade que Harry,
um ano depois que o próprio, no curso de jornalismo. Encontrou em sua profissão uma forma de
exercitar a recém adquirida confiança, começando um site onde postava textos sobre os
ensinamentos do namorado e suas próprias experiências, que acabou surpreendentemente fazendo
muito sucesso, sendo até a fonte de renda deles, ao que grandes empresas a procuravam para
colocar anúncios lá.
- Eu sei, amor. Você já jantou? - Harry perguntou, acariciando o rosto delicado da garota. Se
perguntava se algum dia enjoaria daqueles traços.
- Estava te esperando. - Ela respondeu, reprimindo um sorriso arteiro, sendo ainda assim pega pela
pessoa que mais a conhecia no mundo.
- Safada, quem você quer enganar? Queria que eu fizesse a comida, isso sim. - Harry estreitou os
olhos, tentando se passar por bravo, mas seus lábios brincavam de se levantar nos cantos, provando
que ele estava mais que acostumado com as estripulias da namorada, que sempre se aproveitava
dos dons dele na cozinha.
- Eu prometo te recompensar direitinho depois... - Soprou, entortando um pé e abaixando a cabeça
em falsa inocência. Harry não se aguentou ao vê-la daquela forma e a tomou em seus braços em um
aperto forte, aproveitando para canibalizar sua bochecha, deixando a marca dos dentes alinhados
ali.
- Eu te amo, sabia? - Murmurou a centímetros de seu rosto, a face contorcida na expressão favorita,
que gritava "você é impossível".
- É? Eu nem suspeitava... - Harry apertou a barriga da menina, que ria um sorriso provocativo,
arrancando a confissão. - Eu também te amo, professor. Agora mova essa bunda linda pro fogão
que eu estou com fome! - Ordenou, deixando um tapinha na nádega dura do mais velho e
mordendo os lábios, sabendo que ele reclamaria.
- Eu sabia que devia ter me alongado mais na aula que eu te ensinei a cozinhar... - Sempre
resmungão, Harry arrastou os pés para o cômodo de piso ladrilhado. Apesar da birra, adorava
cozinhar e até preferia fazê-lo se isso significasse ver o sorriso da namorada tão agradecido como
costumava ser. Deixou para trás apenas milhões de lembranças de um tempo divertido e único,
dividido no colegial por duas pessoas que descobriram ser o complemento perfeito para um amor
sem precedentes.
Hadassa ficou na sala, ainda sorrindo, dando-se conta de toda a sorte que possuía. Antes de seguir
o namorado, planejando provocá-lo mais até que desse altas gargalhadas ao seu lado como
normalmente fazia, ela pousou os olhos no quadro emoldurado que enfeitava sua sala de estar.
Branco no preto, o escrito simbolizava tudo que eles gostariam de dizer para os jovens de todo o
mundo. Uma última aula a ser adicionada à lista para fechar os ensinamentos e memórias com
chave de ouro:

Aula 10: Seguir todas as regras pode te fazer conquistar qualquer um.
Ser você mesmo pode te fazer conquistar a pessoa certa.

FIM
http://fanficobsession.com.br/ffobs/number/10aulasdeseducao.html#26