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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTORIA

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

PEREIRA DA COSTA E A HISTORIOGRAFIA PERNAMBUCANA

Recife
2012
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
PEREIRA DA COSTA E A HISTORIOGRAFIA PERNAMBUCANA

Dissertação de mestrado apresentada ao Curso de


Historia da Universidade Federal de Pernambuco como
requisito para obtenção do título de mestre.

Orientador:XXXXXXXXXXXXXXXXXX

Recife
2012
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
PEREIRA DA COSTA E A HISTORIOGRAFIA PERNAMBUCANA

Dissertação de mestrado apresentada ao Curso de


Historia da Universidade Federal de Pernambuco como
requisito para obtenção do título de mestre.

Orientador: XXXXXXXXXXXXXXXXXX

Aprovado em: ___/___/___


Conceito: ______________

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________
Orientador: XXXXXXXXXXXXXXX

______________________________________________
1º Examinador

______________________________________________
2º Examinador

Recife
2012
DEDICATORIA
AGRADECIMENTOS
“Antes que te formasse no ventre
materno te conheci, e antes que
saísses da madre, te consagrei.”
(Jeremias 1:5)
RESUMO
ABSTRACT
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
SUMÁRIO
11

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho apresentado tem como objetivo estudar o Folclore


pernambucano desde o seu inicio como elemento constituinte de uma identidade cultural,
abordando especificamente a importância de Francisco Pereira da Costa na instituição das
obras e registros culturais.
12

1.1 Aspectos Históricos, Econômicos e Sociais do Período

No século XV e XVI as grandes potências eram Portugal e Espanha e em


conseqüência de seu poder, disputavam5as conquistas que ocorriam através da expansão
marítima. A intenção destes países era encontrar produtos valiosos que pudessem ser
comercializados na Europa, a exemplo das especiarias indianas. A razão por que o Brasil foi
descoberto foi, portanto, comercial.
Porém, o motivo para o povoamento foi outro. Era necessário proteger o território
brasileiro das constantes invasões e espoliações francesas, que desejavam mais terras e
buscavam metais preciosos.
Em 1930 Portugal decidiu pela colonização. Inicialmente, os portugueses
desembarcam em solo brasileiro; posteriormente, europeus de diversos países vêm em busca
de riqueza.
O povoamento foi iniciado no litoral. Caravanas portuguesas foram enviadas e as
atividades agrícolas relacionadas à produção de açúcar foram escolhidas para fazer a terra
gerar lucro. A esse respeito, FURTADO (2005, p. 10) ensina:

Um conjunto de fatores favoráveis tornou possível o êxito dessa


primeira grande empresa colonial agrícola européia. Os portugueses
haviam já iniciado há algumas dezenas de anos a produção, em
escala relativamente grande, nas ilhas do Atlântico, de uma das
especiarias mais apreciadas no mercado europeu: o Açúcar. Essa
experiência permitiu a solução dos problemas técnicos relacionados
com a produção do açúcar, fomentou o desenvolvimento em
Portugal da indústria de equipamentos para os engenhos açucareiros.
Se tem em conta as dificuldades que se enfrentavam na época para
conhecer qualquer técnica de produção e as proibições que havia
para exportação dos equipamentos.

Desta forma, foi iniciada a produção açucareira brasileira com técnicas


anteriormente conhecidas e um clima semelhante à produção antilhana, que era considerada
bem-sucedida.
HOLANDA (1990, p.02) aborda a questão da tentativa de impor a cultura
européia aos brasileiros, explicando que o povo brasileiro é, até hoje, um povo desterrado. A
intenção de imposição de uma cultura é um dos fatores comuns em qualquer colonização e,
portanto, a perda da identidade também pode ser considerada uma característica.
13

Deve-se ter em mente que a formação da sociedade brasileira na colonização, logo


após o fim do período medieval e, portanto, que até então vivera sob-rígidas regras
hierárquicas numa sociedade patriarcal e profundamente religiosa.
Todos estes aspectos influenciaram na formação da sociedade da época, o que, no
entanto, também resultou em alguns traços deste modelo até a atualidade.
HOLANDA (1990) explica que a hierarquia da corte portuguesa, que influenciou
a formação da sociedade brasileira, era constituída essencialmente de privilégios, o que, no
Brasil, tornou-se uma política comum e persevera ao longo dos anos.
FREYRE (1977, p.109):

Tomando em conta tais antagonismos de cultura, a flexibilidade, a


indecisão, o equilíbrio ou a desarmonia deles resultantes, é que bem
se compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização do
Brasil, a formação sui generis da sociedade brasileira, igualmente
equilibrada nos seus começos e ainda hoje sobre antagonismos.

O autor explica que a colonização - uma vez que é imposta aos nativos – suscitou
dúvidas a respeito da legitimidade portuguesa para tal domínio o que, no século XVI não
consistia num aspecto que poderia ser discutido, assim como uma grande potência da
atualidade não espera a aprovação dos demais países para realizar uma invasão.
O auxílio dos flamengos na produção de açúcar também influenciou no
povoamento brasileiro, já que trouxe mais imigrantes para o território, principalmente
nordestino. Seu auxílio da produção de cana foi fundamental para o sucesso desta empresa. A
colonização é sempre um fato histórico controverso, que levanta dúvidas e repreensões e com
o Brasil não seria diferente.
Das quatorze capitanias hereditárias (o Brasil foi divido em lotes e dado à
quatorze representantes da coroa para fazê-los produtivos, com a condição de pagar impostos
e enviar parte da produção para Portugal), apenas duas prosperaram: São-Vicente e
Pernambuco.
HOLANDA (1990, p.32) explica, ainda:

A abundância de terras férteis e ainda mal desbravadas fez com que


a grande propriedade rural se tornasse, aqui, a verdadeira unidade de
produção. Cumpria apenas resolver o problema do trabalho. E
verificou-se, frustradas as primeiras tentativas de emprego do braço
indígena, que o recurso mais fácil estaria na introdução de escravos
africanos.. Pode dizer-se que a presença do negro representou
14

sempre fator obrigatório no desenvolvimento dos latifúndios


coloniais.

Assim, a presença do negro no povoamento brasileiro ocorreu em função da


necessidade de mãos fortes e incansáveis (principalmente se motivadas pelas chibatadas) na
agricultura.
O índio cooperou em todo o processo demonstrando aos colonizadores técnicas de
caça e pesca. Sua liberdade gerava conflitos em que se submetiam, muitas vezes,
exteriormente sem, no entanto, aderir ao ideal mercantilista e colonialista (HOLANDA,
1990).
Numericamente, para se ter uma idéia do povoamento do Brasil, quase dois
milhões de negros foram trazidos para o território brasileiro até a promulgação da Lei Eusébio
de Queiroz, que proibia o tráfico de escravos, assim como mais de duzentos mil portugueses,
além de outros oitocentos mil europeus e asiáticos, apenas no Brasil colônia (PRADO, 2000).
FURTADO (2005, p. 24) explica a respeito do fim do período colonial:

A partir da segunda metade do séc. XVII será profundamente


marcada pelo novo rumo que toma Portugal como potência colonial.
Na época que esteve ligada a Espanha, perdeu esse país o melhor de
seus entrepostos orientais, ao mesmo tempo em que a melhor parte
da colônia americana era ocupada pelos holandeses. Ao recuperar a
independência Portugal encontrou-se em posição extremamente
débil, pois a ameaça da Espanha - que por mais de um quarto de
século não reconheceu essa independência - pesava
permanentemente sobre o território metropolitano. Por outro lado, o
pequeno reino, perdido o comércio oriental e desorganizado o
comércio do açúcar, não dispunha de meios para defender o que lhe
sobrará das colônias numa época de crescente atividade imperialista.
A neutralidade em face das grandes potências era impraticável.
Portugal compreendeu, assim, que para sobreviver como metrópole
colonial deveria ligar o seu destino a uma grande potência, o que
significaria necessariamente alienar parte de sua soberania. Os
acordos concluídos com a Inglaterra em 1642-54-61 estruturam essa
aliança que marcará profundamente a vida política e econômica de
Portugal e do Brasil durante os dois séculos seguintes.

A relação entre Portugal e Inglaterra tem como uma de suas conseqüências, a


obrigatoriedade da mudança da corte portuguesa para o Brasil, o que também acentuou o
crescimento da população.
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Após o período da colônia, houve também uma intensa imigração asiática e


italiana, esta última, para substituir os escravos na lavoura. O Brasil teceu sua teia de
diversidades culturais e, através do tempo, mantém essa tradição.
Compreendida essa primeira fase da colonização, essencial para o estudo das
raízes culturais e políticas brasileiras, passemos a analisar a realidade em que se inseria
Pereira da Costa e outros intelectuais e historiadores de sua época.
Sobre isso, Viotti (1999) ensina:

Em 1822, as elites optaram por um regime monárquico, mas, uma


vez conquistada a Independência, competiram com o imperador pelo
controle da nação, cuja liderança assumiram em 1831, quando
levaram D. Pedro I a abdicar. Nos anos que se seguiram, os grupos
no poder sofreram a oposição de liberais radicais que se insurgiram
em vários pontos do país. Ressentiam-se uns da excessiva
centralização e pleiteavam um regime federativo; outros propunham
a abolição gradual da escravidão, demandavam a nacionalização do
comércio, chegando a sugerir a expropriação dos latifúndios
improdutivos.

Figura 1 – Imagem do Brasil Colônia

É uma época de consideráveis transformações no cenário político e social do país.


A economia açucareira e criação de gado no nordeste sofriam quedas na produção. A
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economia mineira, por outro lado, representava economicamente uma solução de maior
impacto do que a economia açucareira (FUTADO, 2005, p.80).
A população brasileira do século XIX era formada por uma elite de produtores e
exportadores de açúcar e os exploradores de ouro. No nordeste, com a queda da economia
açucareira, houve um retrocesso no desenvolvimento. As regiões norte e sudeste passaram a
dominar economicamente.

Neste caso, como no da economia pecuária do nordeste, a expansão


demográfiCa se prolongará num processo de atrofiamento da
economia monetária. Dessa forma, uma região cujo povoamento se
fizera dentro de um sistema de alta produtividade, e em que a mão-
de-obra fora um fator extremamente escasso, involuiu numa massa
de população totalmente desarticulada, trabalhando com baixíssima
produtividade numa agricultura de subsistência. Em nenhuma parte
do continente americano houve um caso de involução tão rápida e
tão completa de um sistema econômico constituído por população
principalmente de origem européia. (FURTADO, 2005, p.90).

Todos estes acontecimentos econômicos influenciaram nas mudanças sociais,


criando, especialmente num nordeste antes próspero, transformações profundas que marcaram
seu povo. Este é o berço de Pereira da Costa.
A economia açucareira, no final do século XVIII, continuava em queda. Alguns
núcleos da Companhia de Jesus ainda prosperavam (FURTADO, 2005, p. 96).
Com a vinda do Marquês de Pombal, porém, muitos deles também começaram o
processo de decadência. Inicialmente, apenas o Maranhão subsistia economicamente forte. O
restante da economia colonial estava prostrada diante da estagnação geral que assolava o país
(FURTADO, 2005, p. 97).
Entre os fatores externos que influenciam a economia brasileira no início do
século XIX estão a ocupação de Portugal pelas tropas francesas, que interferiu na política de
exportações da colônia. A abertura dos portos e o tratado de 1810, que favorecia a Inglaterra,
também causaram impactos sobre a economia local. Houve disputas entre a agricultura
brasileira e inglesa, o que só evidenciava a necessidade de independência. (FURTADO, 2005,
p. 99).

[...] as províncias do norte - Bahia, Pernambuco e Maranhão -


atravessam um momento de sérias dificuldades econômicas. Os
preços do açúcar caem persistentemente na primeira metade do
século e os do algodão ainda mais acentuadamente. Na Bahia e em
17

Pernambuco, e ainda mais no Maranhão, a renda per capita deve


haver declinado substancialmente durante esse período. Na região
sul do país as dificuldades econômicas se acumularam como reflexo
da decadência da economia do ouro, principal mercado para o gado
produzido no sul. As inúmeras rebeliões armadas do norte e a
prolongada guerra civil do extremo sul são o reflexo desse processo
de empobrecimento e dificuldades. (FURTADO, 2005, p.102).

Figura 2 – População do Brasil Colonial em 1819

Em meio a essa realidade, o café volta a prosperar. A solução, no inicio do século


XIX, era a industrialização e a busca por mercados externos, principalmente para os produtos
já existentes e produzidos em território nacional.
18

Figura 3 – A marcha do Povoamento e a Urbanização – Século XVIII

Do norte ao nordeste, a existência das roças e pequenas propriedades rurais de


subsistência revelava um país de economia fragilizada a grandes desigualdades sociais.
A abolição da escravatura trouxa para as ruas do país centenas de negros
desempregados, pouco capacitados, que necessitavam buscar uma atividade econômica para
sobreviverem. Não houve qualquer política de inclusão desta população, que até então vivia
sob os tetos das grandes propriedades.

A incapacidade do governo imperial para dotar o país de um sistema


monetário adequado, bem como sua inaptidão
para encaminhar com firmeza e positivamente a solução do
problema da mão-de-obra refletem em boa medida
divergências crescentes de interesses entre distintas regiões do país.
Nas etapas anteriores, mesmo que fossem reduzidas
as relações econômicas entre essas regiões, nenhuma divergência de
interesses fundamentais as separava. No norte e no
sul as formas de organização social eram as mesmas, as classes
dirigentes falavam a mesma linguagem e estavam unidas
19

em questões fundamentais, como fora o caso da luta pela


manutenção do tráfico de escravos. Nos últimos decênios do
século as divergências começam a aprofundar-se. A organização
social do sul transformou-se rapidamente, sob a
influencia do trabalho assalariado nas plantações de café e nos
centros urbanos, e da pequena propriedade agrícola na
região de colonizacão das províncias meridionais.” (FURTADO,
2005, p. 175).

Esse era o cenário econômico e social da metade para o final do século XIX. A
tabela abaixo demonstra a taxa de crescimento da população comparada à renda per capita, de
acordo com o senso de 1872:

Tabela 1 – Taxa de crescimento da população comparada á renda per capita

Observe-se a taxa de crescimento da renda per capita no nordeste e pode-se ter uma
idéia da transformação gradual que ocorrera desde sua época mais prospera.

1.2 Formação da Elite Intelectual do Período

Os intelectuais do século XIX eram formados pela elite e por uma nova classe,
que se destacavam destes primeiros, e que constituía uma categoria de assalariados
provenientes de famílias menos abastadas que, através de um curso de graduação ou do
jornalismo, ascendiam á posição intelectual na sociedade.
A respeito da elite intelectual presente na sociedade do século XIX, Viotti (1999)
ensina:
20

Exemplo do processo de cooptação dos indivíduos mais talentosos,


pertencentes à pequena burguesia e às classes populares, é a
ascensão do bacharel. Ligado às elites por laços de família, amizade
ou clientela, tornou-se freqüentemente porta-voz dos grupos
dominantes. A expansão do mercado interno, no entanto, permitiu-
lhe almejar uma relativa independência em relação às lealdades
tradicionais que o aprisionavam. Arvorou-se então em patrono do
“povo”. Aceitou com entusiasmo idéias nova, apoiou movimentos
políticos dissidentes e se fez emissário do progresso – mas de um
progresso que pretendia fosse filtrado pela tradição. De maneira
geral, no entanto, o bacharel, ao contrário do que se tem afirmado,
não se opôs ao patriarca, apenas conciliou. Quando ousou se opuser,
sua atuação foi freada por falta de bases sociais que pudessem tornar
efetivas suas reivindicações mais radicais, até que estas se perderam
numa retórica vazia.

Os grupos de intelectuais, segundo a autora, que poderiam ter se insurgido contra


o sistema naquele momento, especialmente os proeminentes das classes industriais foram, em
sua maioria, engolidos pelo sistema. Deixaram, portanto, de desenvolver uma política
independente.
Quanto às questões raciais, conseqüências da abolição, a autora explica que não
foi necessário que a sociedade brasileira recorresse à formas explícitas de discriminação:

Análogo fenômeno de cooptação ocorreu em relação aos poucos


mulatos e pretos que, graças a seus talentos, conseguiram tornarem-
se famosos advogados, escritores, jornalistas, engenheiros ou
políticos de renome mediante o sistema de patronagem. Segura de
suas posições, controlando a mobilidade social e imbuída de uma
concepção hierárquica do mundo, que ratificava as desigualdades
sociais e postulava obrigações recíprocas, a elite brasileira não
precisou recorrer a formas explícitas de discriminação racial.”
(VIOTTI, 1999).

Através do sistema de clientela, alguns mulatos e negros foram incorporados à


elite, adquirindo o status semelhando ao do branco, tal como Machado de Assis e Cruz e
Souza (VIOTTI, 1999).
O desenvolvimento econômico do período, potencializado pela necessidade de
produtos tropicais e pela facilidade da exportação criou uma sociedade divida em classes,
cisão que aumentou ainda mais com o enriquecimento de alguns e o empobrecimento ou a
estagnação de outros.
A abolição e produção do café eram assuntos contraditórios que geravam conflitos
permanentes entre as elites intelectuais do país:
21

Os setores mais tradicionais, apoiados por alguns intelectuais


europeizados que se identificavam com o pensamento ilustrado,
defendiam uma política colonizadora baseada na distribuição de
pequenos lotes aos imigrantes, aos quais encaravam não como
substitutos dos escravos, mas como agentes civilizados.” (VIOTTI,
1999).

A transição entre o sistema escravagista e a abolição gerou abalos econômicos e


conflitos sociais. Alguns fazendeiros continuavam a procurar escravos, provenientes de
regiões decadentes do país.
De acordo com Salles (2011):

Ainda em 1875, no interior das províncias de Minas Gerais, Rio de


Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Rio
Grande do Norte, Paraíba e Ceará, uma nova lei que visava a
modernização do sistema de recrutamento militar, que passaria a ser
feito por sorteio e que reduzia as condições de isenções até então
vigentes, motivou uma série de revoltas populares. Multidões
atacaram as juntas recrutadoras, rasgando suas listas e demais
documentos. Em diferentes ocasiões, a justificativa era que a nova
lei reduzia as pessoas livres pobres à condição semelhante à dos
cativos. Do ponto de vista mais estritamente político e intelectual,
um sem-número de publicações veio à luz, tratando dos mais
variados assuntos e expressando diferentes pontos de vista. Não por
acaso, toda uma plêiade de intelectuais que aparecia naquele
momento passou a ser conhecida como a Geração de 1870.

Pereira da Costa, tendo iniciado sua carreira jornalística em 1871, fazia parte de
um sem número de vozes que lutava pela igualdade social, buscando a valorização da cultura
brasileira.
O momento era de efervescência cultural. Principalmente nos centros urbanos e
sob o respaldo de leis emancipacionistas, parte da população começou a se mobilizar em
conjunto com os escravos. “Promovida por brancos e por mulatos e pretos que tinham sido
assimilados pelas elites, a abolição liberou os brancos do peso da escravidão e abandonou os
ex-escravos à sua própria sorte.” (VIOTTI, 1999). A elite intelectual, porém, acostumou-se a
falar para o povo, percebendo que seria ouvida.
Salles explica a diferença entre a elite intelectual imperial e republicana:

No Brasil imperial, a classe senhorial, até 1860, tinha praticamente o


monopólio dos intelectuais e do campo intelectual. Este não era
infenso à escravidão e aos escravos, mas tanto a escravidão quanto
os escravos tinham impacto sobre o campo intelectual de forma
indireta: pela via da pressão antiescravista e pela presença ostensiva
dos cativos na vida social. O fato de a escravidão ter espaço no seio
da própria camada intelectual, bem como a dependência direta desta
22

camada do Estado e dos senhores contribuíam decisivamente para


este fato. A partir de 1860, esta situação começa a mudar. A camada
intelectual se diversifica, diminuindo sua dependência direta do
Estado e dos senhores. Mas o fato decisivo é o afastamento efetivo
da camada intelectual da escravidão. O enrijecimento da escravidão
elástica, que se caracterizava pela produção de uma camada de
libertos na sociedade que antes era absorvida pelo e no mundo
escravista, dificultando a absorção desta camada no seio das relações
escravistas, foi decisivo para o afastamento de crescentes camadas
de intelectuais do bloco intelectual escravista. (SALLES, 2011).

O autor explica, ainda, que os intelectuais deste período utilizaram a abolição


como catalisador para todos os problemas sociais e políticos, manifestando-se a respeito
sempre que houvesse oportunidade. Uma das maiores heranças desse momento histórico foi o
surgimento de uma camada de intelectuais que se aproximou ainda mais dos movimentos
populares, incluindo os próprios negros.
No Ceará, em 25 de março de 1884, foi organizada uma parada abolicionista que
ficou para sempre marcada em sua história. A festa preencheu a cidade, e até mesmo telégrafo
foi utilizado, enviando à província do Rio de Janeiro a mensagem de contentamento em razão
da abolição do Ceará:

O dia culminou com a celebração ao ar livre no principal jardim do


centro da cidade. Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923),
o cronista e historiador do século XIX, notou que pelas cinco da
tarde a praça verdejante já transbordava de gente — hora e meia
antes da anunciada para o início das festividades. Lampiões a gás em
postes improvisados e a decoração floral do palanque chamaram sua
atenção, tal como uns cartõezinhos distribuídos pela comissão
organizadora com um C e um L entrelaçados, que ali estavam por
"Ceará Livre". "Esses detalhes podem parecer de pouca
importância", escreveu ele, "mas o simbolismo do C e do L nos
lembravam o lema 'Independência ou Morte' dos nossos
antepassados nas lutas por nossa emancipação política". A
capacidade de ligar os eventos que diziam respeito ao Ceará à
história pernambucana indicava como os sentidos locais do 25 de
março podiam ser amoldados. Ao sintetizar os acontecimentos do
dia, as observações de Pereira da Costa evocavam a importância
dupla, local e regional, que essa data assumia: ‘Foi uma celebração
esplêndida, faustosa e retumbante, quer pela ocasião, quer pelo fato
em si’. (CASTILHO, 2011).

Pereira da Costa, que integrava o movimento abolicionista intelectual da época,


manifestou suas opiniões em diversas publicações, principalmente no livro “Pernambuco ao
Ceará”.
Ainda sobre o dia 25 de março, Castilho (2011) ensina:
23

A celebração antiescravista que só seria ultrapassada em escala pela


euforia do de maio de 1888 (Dia da Abolição), as festividades de 25
de março, bem como o livro de Pereira da Costa sobre os fatos —
Pernambuco ao Ceará —, fomentaram um repensar da política
antiescravista no Recife. Como acentua o antropólogo Frank
Manning acerca das celebrações, elas "são parte distintiva do
repertório cultural, pela qual as pessoas se dão conta da situação em
que estão,... e não só representam como também promovem
processos políticos dinâmicos..." O livro de Pereira da Costa, de
fato, investiu o discurso abolicionista de uma dimensão "histórica".
Em seu prefácio, ele invoca as revoltas de 1800, 1817 e 1824, que
tinham tido a independência em mente, para ilustrar a genealogia
pernambucana de lutas pela liberdade. Pereira da Costa reitera
particularmente que os líderes da revolta de 1817 apoiavam a
abolição gradual da escravidão, convicção antiescravista que sempre
foi atenuada por historiadores, embora seja discurso que permaneceu
popular no imaginário local durante o fim do século.

O autor explica que Pereira da Costa também narra à cena de 1869, em que Pedro
de Araújo Beltrão “libertou os filhos não nascidos dos escravos dele e de sua família” durante
um discurso na Assembléia de Pernambuco. Pereira da Costa, juntamente com outros
intelectuais da época, transformaram Pernambuco na imagem de um estado antiescravagista.
Ainda sobre os intelectuais do século XIX, Santos (1992) ensina que havia duas
correntes: uma delas ia dos literatos para o povo e a outra, no sentido inverso. Esta última se
caracterizava por pessoas de classes baixas, como operários, que ascendiam através do
jornalismo ou de produções literárias.

Aliás, no trânsito do povo para a literatura, determinadas figuras


ganhavam um valor emblemático e personificava a conversão
através da cultura cultivada, caso de Gomes de Amorim, designado
em jovem como o poeta-operário. Entre urna e outra das duas
correntes tecia-se uma complexa rede de relações e identificações
por onde passavam os investimentos na implementação do circuito
literário popular. Por tudo isto, não é fácil delinear o perfil dos
intelectuais que protagonizavam o empenho na produção e difusão
de uma «literatura para o povo». Todavia, se nos circunscrevermos
aos meados de oitocentos, quando crescia o entusiasmo pelo
associativismo operário, é possível caracterizar um conjunto de
intelectuais que participavam desse entusiasmo e estavam
diretamente envolvidos nos esforços de alargamento do público
leitor. Tratava-se, em regra, de intelectuais com origens sociais
modestas ou em situação de mobilidade descendente, com posições
pouco sólidas tanto no campo literário como no político, não raro
vivendo quase exclusivamente das letras, muito dependentes da
carreira jornalística, podendo ocupar cargos secundários na
burocracia e tendo, por vezes, formação escolar pouco elevada ou
sendo autodidatas. (SANTOS, 1992).
24

Há muitos exemplos destes intelectuais autodidatas que se destacaram na


sociedade brasileira. Um dos maiores exemplos é Machado de Assis, escritor, poeta, crítico
literário, viveu na transição do Império para a República, de origem humilde e autodidata por
excelência.
Publicou diversas obras de todos os gêneros e, embora nunca tenha freqüentado
uma universidade, é considerado um dos maiores escritores da cultura nacional.
Pereira da Costa, objeto deste estudo, também constitui um exemplo de intelectual
do século XIX, com quase 200 trabalho publicados voltados especialmente para a cultura
pernambucana.

1.1.1 Pernambuco na História do Brasil

Além dos fatos relacionados à colonização, já estudados anteriormente, a história


de Pernambuco, berço de Pereira da Costa, possui peculiaridades, que serão analisadas a
seguir.
A principal característica da história pernambucana que a distingue das demais
províncias são as invasões holandesas. De acordo com Silva (2005) a periodização desse
momento da história pernambucana possui três fases principais:

[...] a do “nativismo nobiliárquico” — cuja duração segue da década


final da guerra de restauração contra o domínio flamengo (1650) até
a repressão aos nobres envolvidos na Guerra dos Mascates (1715). A
segunda fase, chamada de “nativismo de transação”, é aquela na
qual nobres e mascates se unem em torno dos mesmos topoi da
restauração — aspecto visível ao longo de todo século XVIII.
Finalmente, a terceira fase — a que mais interessa nesta análise — é
representada pelo “nativismo radical” posterior à conspiração dos
Suassunas (1801), e nitidamente presente nos movimentos políticos
de 1817 e, secundariamente, de 1824. (SILVA, 2005).

O autor discorda dos movimentos nativistas que acreditam que a restauração


pernambucana seja a base para a formação da nação brasileira e comenta que, tanto
“revolucionários quanto defensores da monarquia” se fundaram nessa idéia, uma vez que nos
documentos deste período impressos pelo governo insurrecional de 1817 pode-se ler a
inscrição “Na oficina tipográfica da República de Pernambuco, 2ª vez restaurada”.
25

As duas restaurações, conforme o autor ocorreu no século XVII, contra os


holandeses e, posteriormente, no século XIX, no final do domínio da coroa portuguesa.

Ao mesmo tempo, documentos manuscritos produzidos pelo próprio


governo eram datados da “segunda era da liberdade pernambucana”.
Por sua vez, o jovem poeta mulato José da Natividade Saldanha19
evocou o panteão restaurador, ao compor versos, com o objetivo de
emular os ‘Jovens Brasileiros’ a se alistarem nos exércitos
revolucionários da República de Pernambuco:

‘Filhos da Pátria, Jovens Brasileiros,


Que as bandeiras seguis do Márcio Nume,
Lembrem-vos Guararapes, e esse cume,
Onde brilharam Dias e Negreiros.
Lembrem-vos esses golpes tão certeiros,
Que às mais cultas Nações deram ciúme;
Seu exemplo segui, segue seu lume,
Filhos da Pátria, Jovens Brasileiros. (SILVA, 2005).

Silva (2005) explica que a evocação do mito da restauração deveria estimular ao


povo a adesão aos movimentos sociais realizados pelos negros libertos, ou seja, infundir um
senso de responsabilidade regional:

A esse respeito, são sintomáticos os versos compostos pelo ouvidor


geral da Comarca do Sertão, José da Cruz Ferreira, nessa ocasião:

‘Nós pretos, pardos e brancos


Cidadãos somos unidos,
E à pátria oferecemos
Mulheres, filhos queridos.
Nós, bravos pernambucanos
Exemplos demos primeiros;
Ás armas, corramos todos,
Valorosos brasileiros. (SILVA, 2005).

Vale ressaltar que o autor retirou o verso dos Anais Pernambucanos de Francisco
Augusto Pereira da Costa. (Vol VII. Recife: Arquivo Público Estadual, 1958, p. 426). Isso
demonstra que, para Pereira da Costa, como historiador, o mito da restauração era importante
para a história de Pernambuco, ao mesmo tempo que permite delinear, de forma preliminar, o
perfil de Pereira da Costa como historiador.

O autor explica, ainda, que esse mito da restauração constituiu um importante


instrumento ideológico de luta contra a coroa portuguesa, em 1817.

Assim sendo, aspectos administrativos, econômicos e tributários


concorreram, então, para justificar a ruptura. Mas tais aspectos
26

subordinavam-se ao sistema de representações mentais forjado pela


restauração contra o domínio holandês, o qual ocupava posição
central na visão dos revolucionários.
[...] Contudo, nas lutas políticas posteriores, notadamente em 1824,
o sentimento nativista tomara peso e direção diferentes. Em primeiro
lugar, não mais se fazia necessário dessacralizar o poder ancestral
dos reis, porque o constitucionalismo já havia criado as bases para a
disseminação de novo tipo de pacto entre governantes e governados.
Retomar a velha tese, assentada no mito da restauração, portanto, era
algo fora de moda. Em segundo lugar, o que se colocava, depois de
dezembro de 1822, era a discussão em torno da instauração de um
Estado de tipo novo, isto é, constitucional, bem como de uma nova
nação — a brasileira. (SILVA, 2005).

Assim, o autor explica que a restauração motivou o movimento que acabou por
resultar na Confederação do Equador e sua importância estava fundada na necessidade de um
mito como identidade, de importância essencial no estudo da história.
No que se refere às invasões holandesas, relacionam-se com a atração da Holanda
pelo Brasil e especialmente pelo nordeste em razão da produção açucareira. Esse era o
objetivo principal dos holandeses. Em Pernambuco, iniciaram-se em 1630, quando Olinda foi
conquistada (FAUSTO, 1995, p. 85).
A guerra teve três períodos: entre 1630 a 1637, ocorreu a guerra de resistência,
cujo final foi o fortalecimento do poder holandês sobre a região entre Ceará e Rio São
Francisco (FAUSTO, 1995, p. 85).
O segundo período, entre 1637 e 1644, foi de paz sob o governo de Mauricio de
Nassau, que implantou reformas administrativas diversas, além do fomento da cultura e da
tentativa de levantar economicamente o cenário pernambucano.
O terceiro período, entre 1645 e 1654, foi o da reconquista:

O principal centro da revolta contra a presença holandesa localizou-


se em Pernambuco, onde se destacou as figuras de André Vidal de
Negreiros e João Fernandes Vieira, este último um dos mais ricos
proprietários da região. A eles se juntaram o negro Henrique Dias e o
índio Filipe Camarão. Depois de alguns êxitos iniciais dos luso-
brasileiros, a guerra entrou em um impasse, prolongando-se por
vários anos. Enquanto os revoltosos dominavam o interior, Recife
permanecia em mãos holandesas. O impasse foi quebrado nas duas
Batalhas de Guararapes, com a vitória dos insurretos (1648 e 1649).
Além disso, uma série de circunstâncias complicou a situação dos
invasores. A Companhia das índias Ocidentais entrara em crise e
ninguém queria mais investir nela seus recursos. Existia na Holanda
um grupo favorável à paz com Portugal, sob a alegação de que o
comércio do sal de Setúbal era básico para a indústria pesqueira
holandesa e de maior importância econômica do que os lucros
duvidosos da colônia ultramarina. (FAUSTO, 1995, p. 86).
27

Fausto (1995, p.86) ensina, ainda que com o começo da guerra ocorrida entre
Holanda e Inglaterra, em 1652, os recursos antes usados em operações militares necessitaram
ser usados para outro fim. Em 1653 Recife foi cercada por mar, por uma esquadra portuguesa,
o que marcou o fim da dominação holandesa.
Os holandeses tiveram como objetivo no nordeste o controle da produção
açucareira e, tão logo a tenham conseguido, foi a hora de aumentar o suprimento de escravos
africanos (FAUSTO, 1995, p.87).

Na verdade, houve duas frentes de combate, muito distantes


geograficamente, mas interligadas. Vários pontos da Costa da Mina
foram ocupados em 1637. Uma trégua estabelecida entre Portugal c
Holanda, logo após a Restauração, foi rompida por Nassau com a
ocupação de Luanda e Benguela, em Angola (1641). Foram tropas
luso-brasileiras, sob o comando de Salvador Correia de Sá, as
responsáveis pela retomada de Angola em 1648. Não por acaso,
homens como João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros
estiveram à frente da administração portuguesa naquela colônia
africana. (FAUSTO, 1995, p.88)

De acordo com o autor, os recursos gastos na guerra do nordeste somam dois


terços dos gastos na fase de resistência da guerra de reconquista. A primeira fase era
predominante as tropas formadas por portugueses, na segunda fase, por outro lado, os
“soldados da terra”, principalmente pernambucanos.
Fausto (1995, p.90) comenta, ainda, que muitos nativos da terra, senhores de
engenho, lavradores, cristão novos, negros escravos, índios tapuias e mestiços. A expulsão dos
holandeses, da forma como ocorreu, impulsionou o sentimento nativista do pernambucano.

Ao longo de duzentos anos, até a Revolução Praieira (1848),


Pernambuco tornou-se um centro de manifestações de autonomia, de
independência e de aberta revolta. Até a Independência, o alvo
principal das rebeliões era a Metrópole portuguesa; depois dela,
preponderou a afirmação de autonomia da província em relação ao
governo central, muitas vezes colorida com tintas dc reivindicação
social. O nativismo de Pernambuco teve conteúdos variados, ao
longo dos anos, de acordo com as situações históricas específicas e
os grupos sociais envolvidos, mas manteve-se como referência
básica no imaginário pernambucano. FAUSTO, 1995, p.91).

Ao autor discorre, ainda, sobre a questão polêmica de como seria a Brasil se


tivesse ficado nas mãos da Holanda e explica que não existe uma resposta específica, já que
não há como prever as nuance de algo que nunca aconteceu.
28

Por outro lado, analisando-se o governo de Nassau e suas realizações, pode-se


imaginar que seria uma situação positiva. Uma conclusão certa, no entanto é que teria sido
muito diferente da forma com que ocorreu (FAUSTO, 1999, p.105)
De acordo com Fausto (1999, p.127), um dos grandes problemas e o que causou a
revolução pernambucana de 1817 foi o favorecimento da corte portuguesa a seus interesses,
uma vez que não deixaram de ser portugueses, ou seja, não assumiram um compromisso
verdadeiro com as necessidades brasileiras.
Além disso, as desigualdades regionais também contribuíram, já que a capital fora
transferida de Lisboa para o Rio de Janeiro. Ora, o nordeste se desenvolveu de forma plena
num primeiro momento da colonização.
Algumas das grandes forças econômicas estavam concentradas nas terras
nordestinas. Ao perceberem que a capital fora transferida para o Rio de Janeiro, os
pernambucanos sentiram-se preteridos, mais uma vez, em suas necessidades (FAUSTO, 1999,
p.128).

[...] a revolução que estourou em Pernambuco em março de 1817


fundiu esse sentimento com vários descontentamentos resultantes
das condições econômicas e dos privilégios concedidos aos
portugueses. Ela abrangeu amplas camadas da população: militares,
proprietários rurais, juízes artesãos, comerciantes, e um grande
número de sacerdotes a ponto de ficar conhecida como ‘a revolução
dos padres’. Chama a atenção a presença de grandes comerciantes
brasileiros ligados ao comercio externo, os quais começavam a
concorrer com os portugueses em uma área até então controlada, em
grande medida, por estes. (FAUSTO, 1999, p.128).

Além disso, a revolução estendeu-se por boa parte do sertão. Todos buscavam no
ideal de independência a igualdade. Os grandes proprietários de terras desejavam o fim da
centralização imposta pela coroa portuguesa. Em paralelo, muitos dos movimentos
abolicionistas, contraditoriamente, tinham à sua frente proprietários de terras (FAUSTO,
1999, p. 129).

[...] os revolucionários tomaram o Recife e implantaram um governo provisório


baseado em uma ‘lei orgânica’ que proclamou a República e estabeleceu a igualdade
de direitos e a tolerância religiosa, mas não tocou no problema da escravidão.
[...] As lutas se desenrolaram no interior, revelando o despreparo e as desavenças
entre os revolucionários. Afinal, as tropas portuguesas ocuparam Recife, em maio de
1817. Seguiram-se as prisões e execuções dos lideres da rebelião. O movimento
durara mais de dois meses e deixou uma profunda marca no nordeste. (FAUSTO,
1999, p. 129).
29

Estas marcas viriam a se manifestar alguns anos mais tarde. Após a dissolução da
Assembléia Constituinte e a outorga da Constituição de 1824, a imposição de poder por parte
do imperador voltou a acender as fagulhas de 1817 (FAUSTO, 1999, p. 152).
Cipriano Barata foi um dos responsáveis pela disseminação das idéias
republicanas, antiportuguesas e federativas. Logo após a dissolução da Constituinte, porém,
Cipriano Barata fora preso e enviado ao Rio de Janeiro (FAUSTO, 1999, p. 153).
Seu lugar foi tomado por Frei Caneca, que participara da insurreição de 1817.
Humilde, mas de idéias liberais e intelectual, converteu-se em homem de ação neste processo
(FAUSTO, 1999, p. 153).
O estopim para a proclamação da Confederação do Equador fora a decretação de
um governador não desejado na província. Manuel de Carvalho, o chefe do movimento,
proclamou a Confederação em 2 de julho de 1824. A intenção era a reunião de Pernambuco,
Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e, talvez, Piauí e Pará (FAUSTO, 1999, p. 153).

[...] o levante teve conteúdo acentuadamente urbano e popular, diferenciando-se da


ampla frente regional com a liderança de proprietários rurais e alguns comerciantes,
que caracterizava a revolução de 1817. Apesar de seu conteúdo nacionalista,
diríamos melhor, antilusitano, a rebelião contou com a presença de vários
estrangeiros. (FAUSTO, 1999, p. 153).

Mais uma vez, a Confederação do Equador não resistiu às forças militares


enviadas pelo governo, tendo sido derrotada em novembro de 1824.
As punições aos líderes do movimento, severas até mesmo aos olhares dos
próprios portugueses, foram levadas á cabo com o fuzilamento de Frei Caneca, ante a recusa
do próprio carrasco em enforcá-lo (FAUSTO, 1999, p. 154).
As insatisfações da população nordestina ainda se manifestariam muitas outras
vezes, em revoltas. Da mesma forma que com o movimento de 1817, ainda dormitava no
peito nordestino a necessidade de busca pela igualdade e por melhores condições de vida.
Entre 1832 e 1835, em Pernambuco, ocorreu a Guerra dos Cabanos, de caráter
essencialmente rural:

[...] os cabanos reuniam pequenos proprietários, trabalhadores do campo, índios,


escravos e, no inicio, alguns senhores de engenho. Sob alguns aspectos constituíram
uma antecipação do que seria a revolta sertaneja de Canudos, no inicio da
República. Lutaram em nome da religião pelo retorno do imperador contra os
chamados ‘carbonários jacobinos’, em uma referência feita por seus lideres aos
revolucionários franceses e às sociedades secretas liberais européias do século XIX.
(FAUSTO, 1999, p. 165).
30

Os cabanos obtiveram o apoio de comerciantes portugueses e políticos com


intenções de restauração. O mesmo Manuel de Carvalho que proclamou a Confederação do
Equador derrotou os rebeldes, eis que se tornara presidente da província (FAUSTO, p. 165).

Após o Ato Adicional de 1834, ocorreram a Cabanagem, no Pará


(1835-1840), a Sabinada na Bahia (1837-1838), a Balaiada, no
Maranhão (1838-1840), e a Farroupilha, no Rio Grande do Sul
(1836-1845) (FAUSTO, p. 165).

Em 1848, já durante o segundo reinado, uma nova revolução eclode em


Pernambuco: a Revolução Praieira:

Não imaginemos, porém, que a Praieira tenha sido uma revolução


socialista. Precedida por manifestações contra os portugueses, com
várias mortes, no Recife, ela teve como base, no campo, senhores de
engenho ligados ao Partido Liberal.
[...] O núcleo urbano dos praieiros sustentou um programa favorável
ao federalismo, à abolição do Poder Moderador, à expulsão dos
portugueses e à nacionalização do comércio a varejo, controlado em
grande parte por eles. Como novidade, aparece a defesa do sufrágio
universal, ou seja, do direito de voto para todos os brasileiros.
(FAUSTO, 1999, p. 178)

Esta foi à última das revoluções da província.

1.3 Identidade Nacional

Identidade nacional é um conceito relacionado à união. É um sentimento que une


os membros de uma nação.
Andrade e Geller (2010) expõem dois conceitos de autores diferentes:

[...] um fundo compartilhado de idéias, noções teorias, crenças e


preconceitos, permitindo a troca de palavras, argumentos e opiniões
sobre uma comunidade política efetiva “(BRESCIANI, 2007:31).

[...] realidade tão profunda que “envolve as mais vicerais paixões de


um indivíduo. Foi essa fraternidade construída, que segundo
Anderson, tornou possível nestes dois séculos, tantos milhões de
pessoas tenham-se dado não tanto a matar, mas, sobretudo a morrer
por criações imaginárias limitadas” (ANDERSON, 2008:334).
31

A identidade nacional mistura-se, em parte, com a identidade individual de cada


cidadão e com o próprio conceito de cidadania de cada individuo dentro da sociedade.
A história é parte da identidade nacional, quando traz para a atualidade os fatos
que caracterizam o povo e embasam a sua realidade atual. O historiador, como contador da
história, é o personagem que auxilia na construção da identidade nacional. Suas impressões, a
forma como relata o fato histórico e os sentimentos que desperta naqueles que estudam as
suas obras.

O termo identidade Nacional tem gerado várias divergências entre os


estudiosos da área, alguns advogarão a sua objetividade, ou seja,
para eles, identidade nacional seria um elemento imutável,
integrador, para outros, identidade nacional seria algo subjetivo,
sendo assim, construído, transformado, podendo um mesmo
indivíduo se sentir fazendo parte de diversas identidades e a
qualquer momento se desvincular de uma delas; é por esta
concepção subjetiva de identidade, que podemos situá-la como uma
representação. A concepção objetiva da identidade mostra-se
demasiadamente fechada, primeiro porque vários foram os modelos
de identidades presentes em um mesmo país, isso demonstra
transformação de idéias e não imutabilidade, segundo porque não
existe nada que nos tornem iguais, por isso mesmo, tal
homogeneização tem que ser construída. Estes são alguns dos
problemas que encontramos ao conceituar Identidade Nacional de
modo restrito, a identidade nacional seria então uma comunidade
imaginada, uma representação, um discurso construído.
(ANDRADE; GELLNER, 2010).

O conceito de que a identidade nacional é invariável impossibilita as influências


causadas pelos acontecimentos históricos. Se analisarmos a história brasileira e os diversos
momentos pelo qual passou, pode-se observar a construção de várias identidades. Assim, a
identidade que unia os cidadãos na época colonial certamente é diversa daquela existente na
república.
Essa identidade também pode se alterar com o tempo, tendo elementos ou
sentimentos agregados de acordo com a situação econômico-político-social do país.
Mais uma vez fazendo uma referência com o Brasil - colônia pode-se analisar que
muitos cidadãos identificavam-se com o ideal da monarquia. Com o passar do tempo e as
mudanças sociais ocorridas, no entanto, esses mesmos cidadãos passaram a cultivar idéias de
independência.
Esse exemplo é citado também por Andrade e Geller (2010):
32

[...] (Oliveira Vianna) em seu manifesto político de 1922, O


idealismo na evolução política do Império e da República,
desenvolve uma concepção voluntarista de integração nacional na
proposta de ser mediante conhecimento do povo, sua estrutura, sua
economia íntima e sua psique que se projetaria o modelo político
adequado a forjar essa unidade pela ação centralizada no estado
autoritário (BRESCIANI, 2007:45).

Se analisarmos o objeto deste estudo, Pernambuco do século XIX imaginemos a


identidade nacional caracterizada pelo descontentamento com a política da época. Os
movimentos sociais intensos, a busca pela autonomia, por parte de alguns e pela igualdade,
por parte de outros, criava em todos um sentimento de reação contra as forças atuantes.

O Estado será um daqueles que monopolizará este poder simbólico,


para isso cooptará intelectuais para que criem modelos de
identificação nacional, muitas vezes apelando para o
sentimentalismo, patriotismo, preconceitos, xenofobias...
Segundo Hobsbawn, (2008:110-111) ‘[...] o nacionalismo poderia se
tornar um instrumento enormemente poderoso para o governo, caso
conseguisse ser integrado no patriotismo estatal, para torna-se seu
componente emocional centra.
De acordo com Hobsbawn era necessário criar no povo um
sentimento de lealdade em relação ao Estado e ao sistema dirigente.
Se anteriormente a lealdade ao Estado não era exigida aos homens
comuns, (seja porque era assegurada pelos dogmas religiosos que
pregavam obediência à hierarquia, seja porque o povo tinha seus
direitos muito limitados e por isso não ofereciam perigo aos
governantes), no último terço do século XIX, com a democratização,
essa situação se modificou muito.” (ANDRADE; GELLNER, 2010)

Para Hobsbawn, o conceito de identidade nacional e o Estado estão


intrinsecamente relacionados e o nacionalismo e o patriotismo são armas de que se podem
utilizar o Estado para a formação de uma identidade nacional. A liberdade e a democracia
trazem aos cidadãos a responsabilidade de pensarem por si próprios, adquirindo consciência
de suas necessidades e da busca por seus direitos.

Pressupondo que as identidades são imagens construídas, cada nação criará seus
modelos de identidade buscando homogeneizar culturas, línguas e passado histórico,
muita vezes diferentes. Criar esse sentimento de união no povo era necessário, e foi
utilizado como recurso importantíssimo durante a formação das nações. Segundo
Hobsbawn não foram às nações que precederam o nacionalismo e sim o contrário,
fora o nacionalismo que precedera as nações, visto que era preciso criar um
sentimento de pertencimento no povo que os homogeneizassem que os fizessem
amar e lutar por algo que considerasse importante, mesmo que muitas vezes esse
33

sentimento gerasse pelo outro, considerado agora diferente, ódio, xenofobia e


preconceitos. (ANDRADE; GELLNER, 2010)

Para Hobsbawn, nos períodos mais conturbados surge a identidade nacional,


pontuada pela necessidade de união, de um objetivo em comum. Isso ocorreu no período pós-
abolição (ANDRADE; GELLNER, 2010). Outro exemplo fornecido pelo autor é a identidade
nacional com base na raça, presente no final do século XIX.
Por outro lado, Debrun (1990) traz um questionamento acerca da homogeneidade
da identidade nacional diante de tantas desigualdades, presentes no Brasil desde a
colonização. Como criar uma unidade se o desequilíbrio econômico é tão flagrante e estes são
conceitos opostos?
Respondendo a tal questão, Debrun (1990) explica:

As diferenças ou oposições de classe ou etnias, regiões, etc.


invocadas para demonstrar a impossibilidade de tal consenso não
devem nos fazer esquecer que a invenção da Nação, das primeiras
nações, se deve precisamente à necessidade de criar um liame forte
— portanto não artificial não redutível a uma ideologia do liame ou
a um discurso sobre o liame — entre elementos muito heterogêneos.
Nações homogêneas, como a atual Polônia — composta quase
unicamente de elementos ao mesmo tempo poloneses e católicos —,
são a exceção, não a regra. Mais exatamente a Nação originou-se do
descompasso entre duas categorias de fenômenos, a partir do século
XVI:
• Grande complexidade das sociedades ocidentais em termos de
regiões, etnias, estamentos e classes (incipientes).
• Paralelamente a unidade infraestrutura crescente dessas sociedades,
pela generalização da economia capitalista e pela articulação de
todos com todos através da divisão do trabalho (a solidariedade
orgânica de Durkheim). Cria-se um espaço econômico unificado,
progressivamente despojado de barreiras e limitações corporativas.

Se observarmos a citação acima, percebemos que as desigualdades são constantes


em todas as nações e que isso não impede que exista uma identidade nacional comum a todos
os cidadãos ainda que isso desafie a lógica, ao pensarmos num país com tantos contrastes.
Mas a identidade nacional está acima da classe social, é como uma sinergia entre os membros
de um grupo que, no fim das contas, têm os mesmos anseios, desejos e medos.
Assim, o que se pode concluir a respeito da identidade nacional é que ela não é
perene, nem mesmo imutável. Pelo contrário, constitui o conjunto de sentimentos que unem
os membros de uma nação e se altera de acordo com os acontecimentos externos, unindo ou
separando grupos dentro de sua própria essência, mas sempre exteriorizando a realidade
histórica do país.
34

1.4 Folclore

De acordo com a Carta do Folclore Brasileiro, aprovada pelo Congresso Nacional


em 1951:

Folclore é o conjunto das criações culturais de uma comunidade,


baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente,
representativo de sua identidade social. Constituem-se fatores de
identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva,
tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade. Ressaltamos que
entendemos folclore e cultura popular como equivalentes, em
sintonia com o que preconiza a UNESCO. A expressão cultura
popular manter-se-á no singular, embora se entendendo que existem
tantas culturas quantos sejam os grupos que as produzem em
contextos naturais e econômicos específicos.

De acordo com o documento acima, o folclore é parte da cultura nacional e


equiparado a qualquer outra manifestação cultural. A diferença principal entre o folclore e a
cultura é que o folclore é uma manifestação cultural de características tradicionais.
Lima (1990) explica:

Por muito tempo o folclore foi considerado matéria “morta”,


arqueológica, histórica, passível de observação indireta. O interesse
dos fenômenos folclóricos dependia da antiguidade, de suas, cada
vez, mais longínquas origens. E, como disciplina, parecia fadado a ir
por campo de estudo as “sobrevivências do passado”. Não tem outro
sentido o texto da carta de William John Thoms, publicada em 22 de
agosto de 1846, na revista londrina The Atheneum, propondo a
expressão Folk-Lore, então empregada pela primeira vez, para
designar precisamente as “antiguidades populares”.
Surgem freqüentemente, na sociedade, novas “expressões”
folclóricas, enquanto outras desaparecem ou se transformam. A
sociedade moderna, baseada na ciência e na tecnologia acelera
intensamente a dinâmica social. Sobre o fato folclórico recaem as
influências mais diversas, submetendo-o a certos processos
dinâmicos em que “a cada ação corresponde determinada reação”. O
folclore permeia toda a vida social, que participa da sua criação e
manutenção.
O fenômeno folclórico participa de um processo geral que envolve,
permanentemente, mecanismos internos, aquisitivos, desagregativos
e de recomposição, recombinação e movimentos externos, que
35

tomam forma agressiva ou acomodatícia, que, por sua vez,


ocasionam novos processos internos, portanto, o folclore é dinâmico
na sua essência, estando em constante transformação, nos
fornecendo a idéia de “matéria viva.

2. HISTORIA HISTORIOGRAFIA E O HISTORIADOR


36

A história pode ser definida como a ciência que estuda os acontecimentos


relacionados ao homem. Desnecessários discorrer sobre a importância da historia, tendo em
vista que sua relação com o ser humano é indissociável, ou seja, o homem é historia.
Impossível avaliar o homem sob qualquer aspecto, sem a abordagem histórica.
Historiografia, por sua vez, constitui a tradução escrita da história, os documentos
analisados, a produção de conhecimento criada, ou seja, o que permite a difusão e o estudo da
história.
Estudar a historia de uma região ou de um povo é compreender a sua cultura, suas
raízes, as razões pela qual se tornou o que é na atualidade. Estudar a história possibilita
penetrar na teia de acontecimentos, sentimentos e sensações que criaram o ambiente de
desenvolvimento de uma identidade.
Novaes (p.9) questiona “pode uma cultura falar do tempo sem recorrer às diversas
formas de elaborar suas tradições e de narrar a História?”. O autor questiona, ainda, como
trabalhar com a idéia de tempo absoluto sem relacionar aspectos históricos, culturais e
sociais?
A história, através da historiografia, é a soma dos fragmentos de tempo e de fatos
que transformam um povo ou uma região em protagonista único, com características ímpares,
essencial para a compreensão de todos os outros povos, únicos em sua essência.
De acordo com Teixeira (2011):

A Historiografia, nestes termos, é compreendida como um


conhecimento produzido sobre outro conhecimento, ou seja, como
uma avaliação de um conhecimento histórico produzido a partir de
determinadas circunstâncias.
Do que foi dito, não posso compreender a Historiografia como um
conhecimento de “segunda mão”, mas como condição primeira para
existência do próprio conhecimento histórico. Daí a afirmação
correta de que quanto mais desenvolvida é a Historiografia, maior o
grau de amadurecimento da produção histórica de um povo, de uma
região, de um país, de uma academia.

Teixeira (2011), citando Francisco Iglesias traz, ainda o conceito de historiografia:


“elaboração racional e reflexiva sobre as realidades humanas.” Para Martins (p.115), história e
historiografia são dois níveis distintos. “A história existe independentemente da existência dos
historiadores.” A historiografia, por sua vez, é um produto do estudo, é a produção dos
historiadores, mas não consiste unicamente na descrição dos acontecimentos históricos, já que
37

traz em seu bojo a reflexão filosófica a respeito das ocorrências fáticas. O terceiro nível seria
a “reflexão sobre a atividade dos historiadores” (MARTINS, p.116) ou a meta-historiografia.
Araújo e Nicolazzi (2009) citando Hulmboldt explicam:

A escrita da história opera, portanto, no jogo entre o singular e o


geral, entre os planos do visível e do invisível: “a verdade de tudo o
que aconteceu repousa sobre a reunião da parte que em cada fato
permanece invisível; o historiador deve conseqüentemente, realizar
esta reunião”. Dessa maneira, um nexo intrínseco é estabelecido
entre história e poesia, mesmo se estando ciente dos perigos de uma
tal aproximação. “Pois o historiador que, depois do que precede,
alcança na sua exposição a verdade do que aconteceu ao completar e
religar as peças e os fragmentos oferecidos pela observação
imediata, não pode fazer isso, como o poeta, senão pela imaginação.

O autor cita a relação entre história, historiografia e historiador na exposição de


fatos que busca a tradução da verdade e a criação da historiografia. Nota-se, no entanto, que o
uso da linguagem pelo historiador é também enriquecido com sua imaginação.
Nesse contexto, o autor cita a linguagem como fator de extrema importância, já
que a língua será o transmissor do conhecimento. A língua não é imutável, assim como o
comportamento e realidade humana não o é. A relação entre a variação lingüística e a
aprendizagem da história é totalmente pertinente, já que a mutação lingüística refletirá
certamente na sua transmissão pelos historiadores.
A variação lingüística está presente na pesquisa histórica, tendo em vista a análise
de documentos e produções historiográficas de diversos autores, de locais e épocas variados.
A língua é considerada um fator social e deve atender à sua função de
comunicação entre os indivíduos. Em razão disso, deve possuir uma uniformidade, sem a qual
não seria possível a comunicação, mas, ao mesmo tempo, deve evoluir e transformar-se de
acordo com as necessidades humanas, advindas de fatores regionais e sociais (BARRERA;
MALUF, 2004).
A esse respeito, PRETI (2003, p.12) ensina que entre a sociedade e a língua não
há uma relação de mera causalidade. A língua permite a realização da comunicação, desde a
tenra idade, em que as primeiras palavras são ensaiadas, até a idade adulta, em que há a
comunicação constante. A dinâmica social é baseada na comunicação, na linguagem e,
portanto, na língua e em razão disso tem-se a grande importância da compreensão das
variações lingüísticas.
38

Historicamente a linguagem era apenas o meio de comunicação. Na sociedade


burguesa, porém, há uma divisão entre a língua considerada correta, produzida pela elite, e
aquela utilizada de forma vulgar, por classes socialmente inferiores.
Nesse contexto, PRETI (2003, p.14) ensina que o enfoque das relações
sociedade/língua, conduz ao estudo do pensamento de algumas comunidades, à forma como
se articula linguisticamente sua realidade relacionada à cultura e meio de vida. O autor
explica, porém, que não se devem condicionar as características da linguagem apenas a
fatores culturais e raciais, já que se trata de uma abordagem e a formação da linguagem
engloba muitas outras possibilidades.
O Além da questão da influência da linguagem, Teixeira (2011) aborda a união
entre a poesia e a escrita da história, já que a imaginação torna-se o elo entre o fato e a sua
exposição e complementa:

Humboldt transita entre a necessidade da erudição, da investigação


dos fatos, e a demanda por um sentido filosófico para a história, o
que aproximaria as atividades do historiador e do poeta,
transformando a dispersão em uma totalidade inteligível. Nas suas
palavras, “a inteligência integral do particular supõe sempre o
conhecimento do geral no qual ela está contida”. O dado que cabe
salientar é que o autor não sucumbe aos determinismos
generalizantes do que define como “história filosófica”. Daí a razão
de ser da analogia com a poesia. “De fato, a fidelidade histórica é
tanto mais ameaçada por um tratamento filosófico do que por um
tratamento poético, uma vez que este último está ao menos
acostumado a deixar ao material a sua liberdade. (TEIXEIRA,
2011).

A autora continua, ainda, a expor o pensamento de Humboldt 1, em que o


historiador não deve se colecionar fatos, apenas, devendo tornar-se o realizador da história.
Vainfas (2009) fala do paralelo entre cultura e historiografia:

Mas, antes de prosseguir, é preciso reconhecer que a problemática


relacionada à cultura em nossa historiografia, seja qual for o
significado que se empreste ao termo cultura, há muito ocupa a
nossa historiografia, para não falar dos memorialistas ou folcloristas
do século XIX. Couto de Magalhães, Silvio Romero, Mello Moraes
Filho, só para citar alguns, embora preocupados com as dificuldades

1
Referente à exposição realizada por Wilhelm Von Humboldt na Conferência de Berlim, em 1821.
39

do Brasil em erigir uma verdadeira civilização nos trópicos, além de


desconfiados de nosso povo mestiço, deram contribuição
inestimável para o resgate da poesia e festas populares de várias
regiões.

A autora traça, ainda, uma evolução histórica das fases da historiografia nacional,
salientando que em sua primeira fase a maior parte dos autores realizou estudos sobre as
comunidades indígenas.
Pouco a pouco a autora demonstra a evolução da historiografia brasileira em suas
fases distintas, mas sempre com a característica do resgate da cultura e das raízes do povo.
Catarin. (2008) discorre a respeito da historiografia e sua transformação com o
passar do tempo. Para diversos autores, restringir a importância da historiografia e,
conseqüentemente, da história, ao passado:

Para o historiador Marc Bloch o passado deve ser abordado de outra


maneira, valorizando outros elementos que compõe a história. O
homem é um personagem histórico que não é imutável e sim
dinâmico em seu tempo. A história positivista não considera
relevante o contexto histórico inserido em diferentes personagens e
representações do fato e sim numa única versão ou única ‘verdade.

O autor cita, ainda, Hobsbawn, quanto este responsabiliza o historiador por


ensinar o “sentido do passado”, em que todos os serem humanos encontram-se enraizados. O
ser humano deve, portanto, buscar sua essência humana no passado com a consciência de que
passado, presente e futuro constituem um continuo.
A respeito do historiador, Viotti (1999) explica, ainda:

Uma das tarefas mais difíceis do ofício de historiador é a crítica dos


testemunhos. Ao descrever o momento que estão vivendo, os
homens traçam freqüentemente uma imagem superficial e
deformada dos fatos. O grau de comprometimento do observador, a
qualidade e a quantidade das informações de que dispõe sua maior
ou menor capacidade de análise, a maneira pela qual se deixa
empolgar por paixões e sentimentos refletem-se no seu depoimento.
É regra elementar de a pesquisa histórica submeter a documentação
a uma crítica rigorosa e, no entanto, essa regra tão elementar é
extremamente difícil de ser posta em prática e, principalmente, de
ser bem-sucedida quando se trata de criticar o depoimento
40

testemunhal. A dificuldade é maior quando se estudam as reformas


políticas, econômicas ou sociais e os processos revolucionários.

A autora explica que alguns temas criam controvérsias, e conseqüentemente,


opiniões contrárias, gerando uma historiografia confusa. Cada grupo tem uma tendência a
explicar sua realidade sob seu ponto de vista, o que pode causar contradições (VIOTTI, 1999).
Não basta confrontar as idéias ou optar por uma delas, o historiador deve ir além,
buscando documentos diversos, novas fontes, utilizando a complexidade da própria história
como fundamento, estudando os acontecimentos do período e tudo o que possa ter motivado o
objeto de análise (VIOTTI, 1999).

É preciso familiarizar-se com as idéias em voga. Não basta conhecer


os homens e os episódios, nem mesmo é suficiente saber quais suas
opiniões e idéias, qual a sua forma de participação. Não basta
conhecer as razões que os contemporâneos invocam, uns para
justificar o movimento, outros para criticá-lo ou detê-lo. Ao estudar
um golpe de Estado ou uma revolução é necessário que o historiador
procure além dos atos aparentes as razões de ordem estrutural que o
motivaram, e que freqüentemente escapam à consciência dos
contemporâneos. É preciso indagar quais os grupos sociais que se
associam para dar o golpe ou fazer uma revolução, contra quem e
contra que se dirige o movimento e em favor de quem e de que, e
ainda quais as forças que se aglutinam na resistência.

A autora continua sua exposição a respeito do papel do historiador, ensinando que,


não basta, ainda, analisar o fato em si. Deve-se realizar um acompanhamento de suas
repercussões e as alterações sociais e econômicas que decorreram desta situação (VIOTTI,
1999).
É fundamental, para a compreensão do processo histórico, o conhecimento das
ocorrências anteriores e posteriores e, ainda, as camadas realmente veneficiadas ou
prejudicadas da população. Deve-se questionar: a que anseios esse movimento correspondeu?
Seus objetivos foram alcançados? (VIOTTI, 1999).
Por isso, estudar a importância de um personagem como Pereira da Costa para a
historiografia pernambucana é compreender a dinâmica da história de Pernambuco sob os
mais diversificados aspectos e sua transformação no povo pernambucano contemporâneo.
Mas, além disso, é penetrar nas centenas de vidas e pequenas histórias que foram
41

influenciadas por este personagem, do momento em que passou a ser atuante na sociedade até
os dias de hoje.

3 BREVE BIOGRAFIA DE PEREIRA DA COSTA

João Cabral de Melo Neto definiu Pereira da Costa em um poema dedicado a ele:
42

Quando no barco a linha da água era baixa, quase naufrágio, ele foi
quem mais ajudou o Pernambuco necessário, porque com sua
aplicação, não de artista, mas de operário, foi reunindo tudo,
salvando tanto o perdido quanto o achado. Sem o sotaque de escritor,
nem o demônio do missionário, só quis de pernambucana, ser
simples professor primário.

Pereira da Costa como personagem essencial da historiografia pernambucana,


pode ser estudado sob os diversos aspectos que compuseram sua trajetória.
Historiador, escritor, político e, acima de tudo, um eterno investigador das
características regionais pernambucanas, tanto com relação ao homem, quanto com relação
aos aspectos da terra e da paisagem.
Sua contribuição foi extensa, pois se deu de diversas formas. Estudou o folclore
pernambucano, contribuiu politicamente em suas opiniões e atuou no como Deputado
Estadual em Pernambuco.
Nascido em Recife no ano de 1851, onde passou a maior parte de sua vida,
dedicando-se à ao homem pernambucano. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do
Recife e dedicou-se ao jornalismo e à política por boa parte de sua vida.
Para que se possa compreender a eminência desta personalidade, basta verificar a
relação de suas obras (TEIXEIRA, 2011):

 Modesto monumento à memória de Demétrio Acácio de Albuquerque Melo

 Escorço biográfico do desembargador Nunes Machado

 Dicionário biográfico de pernambucanos célebres

 Comarcas da província de Pernambuco

 Mosaico pernambucano

 Pernambuco ao Ceará

 Notícia sobre as comarcas da província do Piauí

 Relatório sobre as bibliotecas dos conventos do Recife e de Olinda

 Cronologia histórica do estado do Piauí


43

 A ilha de Fernando de Noronha

 Enciclopédia brasileira

 A ideia abolicionista em Pernambuco

 Bispos de Olinda

 Viaturas coloniais

 Ruas do Recife

 Teatro Santa Isabel

 Em prol da integridade do território de Pernambuco

 Seleta pernambucana

 Notícia histórico-topográfica da povoação do Poço da Panela

 Memória justificativa do direito que assiste à municipalidade do Recife sobre o


edifício em que funciona o foro da capital

 Quarto centenário do descobrimento de Pernambuco

 Carta de Pero Vaz de Caminha

 Pernambuco nas lutas emancipacionistas da Bahia

 Notícia histórica sobre a igreja de Nossa Senhora do Rosário da Boa Vista

 A verdadeira naturalidade de dom Antônio Felipe Camarão

 Origens históricas da indústria açucareira em Pernambuco

 Contradita às pretensões do município baiano de Curaçá sobre a Passagem da Boa


Vista no rio São Francisco

 Notícia biográfica do doutor Antônio Morais e Silva, autor do primeiro dicionário da


língua portuguesa

 João Fernandes Vieira à luz da história e da crítica


44

 Dom Antônio Felipe Camarão - última verba

 Homenagem à Benemérita Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Anais do


XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH Pernambuco do Liceu de Artes e
Ofícios no dia do 50º aniversário da sua instalação

 Sinopse dos trabalhos legislativos da Câmara dos Deputados do Estado de


Pernambuco na sessão ordinária de 1892

 Folclore pernambucano

 O algodão em Pernambuco

 Eleições em Pernambuco

 Restos mortais de João Fernandes Vieira

 Estabelecimento e desenvolvimento da imprensa em Pernambuco

 Bento Teixeira Pinto

 As portas do Recife e o arco da capela do Bom Jesus

 Relatório sobre os arquivos públicos de Olinda

 História do teatro em Pernambuco

 A Inquisição em Pernambuco

 Donatários, capitães-mores e governadores de Pernambuco

 Pedro Álvares Cabral

 As artes em Pernambuco

 Primeiras observações meteorológicas no Brasil

 O passo do fidalgo

 Duas instituições inglesas em Pernambuco

 O governo holandês
45

 O governo republicano de 1817

 Confederação do Equador

 Governo de Pernambuco de 1821 a 1889

 Investigações sobre a mineralogia, flora e fauna de Pernambuco

 A poesia na revolução de 1817

 Causas eficientes da emancipação de Alagoas

 Vocábulos Pernambucanos

 Enciclopédia Brasileira

 Dicionário Biográfico de Pernambucanos Célebres

 Anais Pernambucanos de 1493 a 18503

Constata-se que sua extensa produção literária traduz sua transversalidade e seu
profundo interesse pela historia brasileira, especialmente a pernambucana. Pereira da Costa,
através de seus livros, deixou uma preciosa herança sobre as mais diversas características do
homem pernambucano. Discorreu sobre cultura, política, costumes, arte, história, poesia,
características naturais e regionais e religião com propriedade de um especialista.
Hélio (2001), no entanto, ressalta que Pereira da Costa ainda permanece
desconhecido diante de sua importância:

Pra que tanta ênfase num historiador que a maioria desconhece (a


maioria desconhece todos os historiadores)? Melhor responder
usando os versos feitos prosa de João Cabral de Melo Neto: “Ele foi
quem mais ajudou o Pernambuco necessário, porque com sua
aplicação, não de artista, mas de operário foi reunindo tudo,
salvando tanto o perdido quanto o achado”. Os versos feitos prosa de
João Cabral de Melo Neto dizem-no bem de que modo compôs a sua
história: “Sem o sotaque do escritor nem o demônio do missionário,
só quis de pernambucano ser simples professor primário”.
46

Hélio critica com veemência a falta de conhecimento dos brasileiros sobre o tão
importante historiador que deixou a considerável herança de toda uma produção literária rica
em cultura, história e política.
No ano de 1908, Pereira da Costa viajou até o Rio de Janeiro para receber uma
homenagem do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB - fundado a 21 de
outubro de 1838, é a mais antiga e tradicional entidade de fomento da pesquisa e preservação
histórico-geográfica, cultural e de Ciências Sociais do Brasil) em sessão presidida pelo Barão
do Rio Branco.
Atualmente em 2001, o IHGB realizou um simpósio intitulado "Lembrando
Historiadores Jornalistas" que homenageou três historiadores, entre eles Francisco Augusto
Pereira da Costa com uma palestra intitulada “150 anos de Francisco Augusto Pereira da
Costa” através de seus expositores Luiz de Castro Souza e Miridan Britto Falci.
Durante os seus setenta e dois anos de vida, Pereira da Costa se filiou a várias
instituições importantes no estado de Pernambuco, entre elas a Academia Pernambucana de
Letras (APL - fundada em 26 de janeiro de 1901, no Recife, por Carneiro Vilela e outros
escritores pernambucanos da época) onde permaneceu durante os anos de 1901 – 1923, fez
parte também da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco onde fora Deputado
Estadual durante 20 anos subseqüentes (1901-1923) e por fim, porém não menos importante
fez parte do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco (IAHGP), onde se
tornou sócio no ano de 1886 e chegou a dirigi-lo durante oito mandatos.
Dada sua importância para os registros culturais do Estado de Pernambuco, faz-se
pertinente uma explanação acerca do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de
Pernambuco (IAHGP).

O Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano,


associação fundada em 1862, é uma das mais antigas e atuantes
instituições culturais do país. É o Instituto Histórico estadual mais
antigo, sendo superado em primazia apenas pelo Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro. Foi à instituição pioneira na sistematização
dos estudos sobre a história de Pernambuco e dos estados vizinhos,
bem como na preservação das fontes e dos fundos bibliográficos de
interesse para nossa história.

Francisco Augusto Pereira da Costa desde cedo delineava sua trajetória de


sabedoria, aos dezesseis anos começou a trabalhar numa livraria em Recife, posteriormente
aos dezenove anos e já alfabetizada começou a trabalhar no Diário de Pernambuco como
47

jornalista, sendo essa a profissão que abriu-lhe as postas para seus escritos durante anos de
trabalho.
Sobre o enfoque das suas projeções jornalísticas estava o estudo das expressões
populares, análises sobre as autoridades políticas de Pernambuco, o cotidiano, entre outros.
As escolhas dos temas discorridos por Pereira da Costa em toda sua carreira
jornalística objetivavam a criação de uma identidade tanto política quanto cultural para o seu
estado. Além de escrever a notícia ele ia mais a fundo buscando registros, outras notícias,
depoimentos, coisas extrínsecas que dessem veracidade aos seus registros.
Mas indubitavelmente o assunto mais adotado por Pereira da Costa, talvez por ter
sido membro do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano era escrever sobre a
ocupação holandesa.
Assim como Pereira da Costa, grande parte dos estudiosos do folclore analisou o
tema do ponto de vista etnográfico e antropológico, apresentando coletas de cantos e contos,
bem como análises raciais, lingüísticas e dos costumes do povo, nas províncias do Norte.
48

4 FOLCLORE : O FOLCLORE PERNAMBUCANO

Dentre todas as obras de Pereira da Costa é difícil escolher qual seria a mais
importante, porém a obra “O Folclore Pernambucano” traz em seu bojo uma inovação
metodológica, o uso da linguagem oralizada do povo como elemento constitutivo da obra.
Um dos motivos da grande importância desse livro encontra-se por trazer nas
suas entre linhas elementos de nacionalidade e de identidade nacionais. Além disso, por ter
sido publicado em revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro Pereira da Costa
trouxe o folclore como elemento formador da identidade cultural do seu estado.
Dessa forma, essa obra encontra-se como uma das mais importantes produções
historiográficas do período. Teve um número reservado de publicações, o que torna muito
difícil a sua aquisição nos tempos atuais.
A própria narrativa historiográfica assim produzida entre o século XIX e início do
XX era essencialmente uma “narrativa linear” (não dialógica, e não complexa), a organização
dessa narrativa era sempre o do poder instituído, e produção tinha uma tendência a ser quase
sempre institucionalizada. Neste modo historiográfico é que os historiadores estavam
habitualmente mergulhados, e os temas que selecionavam para suas pesquisas e reflexões aí
se inscreviam de maneira imperiosa.
Durante o século XIX, a grande questão era a constituição das identidades
nacionais, e no Brasil a responsável por esse delineamento cultural foi o IHGB que com a
ajuda dos seus membros se consolidaria como o lugar privilegiado da produção
historiográfica no Brasil.

Para se ter a idéia da importância do Instituto para o crescimento do folclore, em


1838, a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, na Corte Imperial, sinaliza as
bases de pesquisa da cultura. Constituído por intelectuais e homens de letras, sob apoio
49

financeiro e pessoal de D. Pedro II, o Instituto estabelece um elo entre o Estado e a inteligência
e se propõe a investigar e traçar a gênese da nacionalidade, através da produção de
historiografia e literatura por brasileiros.

Dessa forma, Guimarães assevera que a intenção da associação nacional era se


constituir como um espaço centralizador das informações colhidas em diferentes regiões do
Império, para concentrar no Instituto Brasileiro os dados relevantes da sua identidade
enquanto país.

As semelhanças com o modelo francês parecem evidentes: da


mesma forma que as academias literárias e científicas provinciais
francesas do século XVIII articulavam-se na teia mais ampla do
processo de centralização levado a cabo pelo Estado, sediado em
Paris, do Rio de Janeiro as luzes deveriam expandir-se para as
províncias, integrando-as ao projeto de centralização do Estado e
criando os suportes necessários para a Construção da Nação
brasileira.

Por ser membro do IHGB, suas obras ganharam grande repercussão nessa busca
por uma identidade, não pelo seu volume ou pela sua grandeza de publicações, mas pelo seu
conteúdo, pois em todos os trabalhos atuais, em todas as teses de doutorado é difícil não
encontrar pelo menos uma menção aos Anais Pernambucanos.

Ocorre que existia naquela época os chamados “profissionais da história”, que


eram formados por homens eruditos que circulavam por um amplo espaço de produção, que
envolvia saberes etnológicos, geográficos, literários, lingüísticos e históricos. Juntos, formavam
documentalmente registros históricos na qual sem esses documentos não haveria, portanto, a
possibilidade de acesso ao passado nacional.

Pode-se destacar o papel de Pereira da Costa no IHGB, pois, ele foi o responsável
pela coleta de documentos que estavam espalhados, tanto dentro do Brasil (esquecidos nas
províncias ou nas mãos de particulares), quanto fora do país. Nesse ponto faz-se uma crítica pois
segundo Raimundo Arrais, Pereira da Costa só teria compilado esses registros, não teria dado a
exegese necessária para suas obras e portanto não poderia ser considerado responsável por todas
essas obras que ele produzira.

Ao contrário de outros analistas da escrita histórica, não suponho


que a subestrutura “meta-histórica” do trabalho histórico consista
nos conceitos teóricos explicitamente utilizados pelo historiador para
50

dar a suas narrativas o aspecto de uma “explicação”. Acredito que


tais conceitos compreendem o nível manifesto do trabalho, visto que
aparecem na “superfície” do texto e podem comumente serem
identificados com relativa facilidade.

5 O FOLCLORE NO PERIODO

Com o advento da Revolução Industrial no Brasil passou-se a dar importância a


algo que normalmente não era percebido, como por exemplo, à cultura popular que de certa
forma serviu como escopo a uma nova realidade. Como preleciona CÁSCIA FRADE:

Segundo historiadores do período medieval, o que existia antes era a


cultura da maioria, transmitida informalmente nos mercados, nas
praças, nas feiras e nas igrejas, aberta, portanto a todos. Tanto a
nobreza quanto a aristocracia participavam do carnaval e de outras
festividades, juntamente com os "não nobres". Também o clero
adotava procedimentos pouco ortodoxos, na celebração das festas de
Santos, usando máscaras, dançando, cantando, tocando instrumentos
no interior das igrejas.

Outro aspecto interessante desse período era a assimetria do folclore. Ocorre que a
elite aceitava livros populares, festa e etc, não associava essas práticas ao povo. Para ela
tratava-se de uma cultura pura e simplesmente erudita.
Foi em fins do século XVIII e início do XIX que ocorreu a descoberta da cultura
popular através da maioria, sendo definida por oposição à erudita, que era das elites.

Definida por oposição à cultura legitimada, a cultura popular foi


sendo demarcada a partir de três critérios: o da verdade
(conhecimento falso X conhecimento verdadeiro); o da
racionalidade (contraposição de práticas aceitáveis e coerentes na
51

sociedade estabelecida); o da convenção (código social


determinando o que era legítimo ou não).

A transformação da cultura erudita na era do Iluminismo provocou a concepção de


cultura como algo “exótico e interessante”.
Com o advento do movimento positivista, surgiu o interesse no passado da cultura
popular, pois só descobrindo os substratos do passado se daria coerência a atividade e à
histórias humanas.
Foi com a figura do folclore que a cultura popular começou a ser esquematizada e
a receber delimitação de acordo com suas fronteiras.
Segundo CÁSCIA FRADE, quando o folclore surgiu e começou a ser estudado,
ele surgiu como várias formas, entre elas através dos contos, das lendas, canções e etc.

Com a participação de Thoms, funda, em 1978, a "Folklore Society",


associação científica que objetivou discutir a abrangência do termo.
Concluíram com algumas proposições: I - narrativas tradicionais
(contos, baladas, canções, lendas); II - costumes tradicionais (jogos,
festas e ritos consuetudinais); III - superstições e crenças (bruxarias,
astrologia, práticas de feitiçarias); IV - linguagem popular
(nomenclatura, provérbios, advinha, refrões, ditos).

O folclore deixa de ser uma figura regionalista para se afirmar como uma forma
eficaz para se chegar à identidade de um país. Dessa forma, o movimento europeu chega aos
Estados Unidos, onde é criada a “American Folklore Society”, fundada por Franz Boas. Nas
palavras de CÁSCIA FRADE:

Contextualizada num país com população eticamente diversificada,


a sociedade americana propôs uma adequação da área de interesse
dos estudos de folclore, estabelecendo quatro categorias principais:
a) cantos, crenças, dialetos, etc., cuja importância a escola européia
já apontara; b) o acervo literário de oralidade dos negros localizados
nos Estados Unidos; c) os usos e costumes presentes entre as
populações do México e do Canadá francês; d) contos e mitologia
dos índios norte-americanos (Almeida, 1979).
52

Antes ainda da repercussão do ideário cientificista em torno do folclore e sua


importância para a identidade nacional, o indianismo romântico esboça o despertar das
atenções para uma associação entre o sentimento nativista e as tradições populares, sugerida
pelas propostas de resgate da cultura indígena.
Especialmente a partir dos anos 70 oitocentista torna-se mais evidente um
relevante movimento da intelectualidade brasileira sobre as raízes da nacionalidade: a
tentativa de se definir e estudar a cultura popular, antes inventada na Europa sob o conceito de
folk-lore.
Até este momento, o tema era difundido através da associação indianista com um
passado europeizado do Brasil e em ocasionais descrições literárias de costumes, crenças e
cantigas populares.
Ainda preocupados com a urgência de encontrar e expor elementos que
representassem a nação em detrimento do influxo político e cultural português, os intelectuais
do período criam uma idéia de popular, sobretudo apoiada na do romantismo alemão9, que
traz uma acepção de "espontaneidade ingênua" e anonimato, característicos de uma
coletividade homogênea e una que se poderia considerar a alma nacional.

Apesar da iniciativa de superação dos métodos românticos de afirmação da


nacionalidade e embora os adeptos dos conceitos positivistas procurem tratar a cultura
popular de maneira neutra e científica, não se afastam muito dos paradigmas que desejam
combater, na medida em que adotam semelhante movimento de idealização nacional e
distanciamento elitizado do povo.
53

6 HISTORIA DO FOLCLORE NO BRASIL

A história do folclore no Brasil se inicia na segunda metade do século XIX. Os


primeiros estudos aqui foram voltados inicialmente para a poesia popular.

As novas preocupações com o hastear da nacionalidade se acrescenta um desafio.


Como lidar com a dificuldade de encontrar no povo brasileiro um segmento expressivo do
imaginário folclórico, como o representado pelos camponeses, na Europa?

Os fundamentos da cultura popular européia explicavam-se pela idéia do


afastamento das cidades, como impedimento geográfico da corrupção dos costumes pelos
hábitos urbanos e cosmopolitas.

Mas a realidade social, política, econômica e física do Brasil era completamente


outra. O país e a própria Corte era predominantemente rural e o principal tipo de mão-de-obra
era a escrava.

O problema se agrava, na medida em que o negro representa ao mesmo tempo a


maior fatia da população e um elemento a ser omitido pelos movimentos intelectuais
nacionalistas.

Diante de olhares estrangeiros escandalizados com a manutenção da escravidão no


Brasil e a patente mistura racial entre brancos e negros, fazia-se recomendável evitar o
africano como componente do cadinho da formação nacional. Familiarizados com os avanços
54

da economia industrial, os julgamentos estrangeiros eram perplexos e contrários a um modelo


econômico ainda baseado na escravidão.

No início essas pesquisas baseavam-se na linha da psicologia alemã de


(Völkerpsychologie), mas posteriormente Renato Almeida reagiu às interpretações
psicológicas e propôs um novo método de pesquisa, se utilizando agora da Etnologia ou a
Antropologia Cultural.
Nesse novo método, seria objeto de pesquisa outros aspectos da vida social, além
da literatura, materiais e concretos, como exemplo os artesanatos, os instrumentos musicais,
as festas, as coreografias e etc.
Nesse sentido, CÁSCIA FRADE esclarece que:

Percebe-se então que, na concepção de Renato Almeida, no


entendimento do folclore deve-se considerar "o comportamento do
grupo social onde existe e as formas que revestem o fato", conforme
escreveu no seu "A inteligência do folclore" (1974).

Quem também apoiou esse método foi Mário de Andrade, que buscou uma
interlocução com as ciências sociais e humanas e até estruturou um curso de folclorista para
orientar as pessoas que gostariam de atuar nesses trabalhos. Criou também a Sociedade de
Etnografia e Folclore e propôs diretrizes para equipar museus de folclore.
O folclore passa então a assumir papéis cada vez maiores no nosso país, como nos
esclarece CÁSCIA FRADE:

Renato Almeida criou então, em 1946, a Comissão Nacional de


Folclore (cnf) como Comissão Nacional da própria unesco e, a partir
de 1947, liderou um grande movimento em todo o território
brasileiro. O ideário desse movimento encontra-se na Carta do
Folclore Brasileiro, documento produzido em 1951. Nele se registra
a definição de fato folclórica, conceito este estabelecido a partir de
uma posição consensual dos folcloristas brasileiros.
Em decorrência das grandes transformações sociais e do avanço das
ciências nos últimos decênios, estudiosos da cultura popular
brasileira propuseram uma releitura da Carta de 1951, o que se
realizou em Salvador, BA, no ano de 1995, no VIII Congresso
Brasileiro de Folclore.
55

7 A IMPORTÂNCIA DO FOLCLORISTA SILVIO ROMERO E DE SUAS OBRAS

Sílvio Romero (S. Vasconcelos da Silveira Ramos R.), crítico, ensaísta, folclorista,
polemista, professor e historiador da literatura brasileira, nasceu em Lagarto, SE, em 21 de
abril de 1851, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 18 de julho de 1914. Convidado a
comparecer à sessão de instalação da Academia Brasileira de Letras, em 28 de janeiro de
1827, fundou a Cadeira n. 17, escolhendo como patrono Hipólito da Costa.

Estava no 2o ano de Direito quando começou a sua atuação jornalística na


imprensa pernambucana, desde então, manteve a colaboração, ora como ensaísta e crítico, ora
como poeta, nas folhas recifenses, entre elas A Crença, que ele próprio dirigia juntamente com
Celso de Magalhães, o Americano, o Correio de Pernambucano, o Diário de Pernambuco, o
Movimento, o Jornal do Recife, a República e o Liberal.

Quando se mudou para o Rio de Janeiro, começou a colaborar em O Repórter, de


Lopes Trovão. Ali publicou a sua famosa série de perfis políticos.

Na imprensa,Sílvio Romero tornou-se literariamente poderoso. além disso,


manteve, durante algum tempo, uma certa má vontade para com a obra de Machado de Assis.
Sua crítica injusta motivou Lafayette Rodrigues Pereira a escrever a defesa de Machado de
Assis, sob o título Vindiciae.
56

Sua força estava nas idéias de âmbito geral e no profundo sentido de brasilidade
que imprimia em tudo que escrevia. A sua contribuição à historiografia literária brasileira é
uma das mais importantes de seu tempo.

Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sócio correspondente


da Academia das Ciências de Lisboa e de diversas outras associações literárias.

Romero, uma das grandes referências dos estudos folclóricos e literários do


período, acredita que o erigir da literatura original repousaria no mestiço, o amálgama das
culturas das três raças componentes do brasileiro. Repositório da fusão de elementos culturais
distintos e sua transformação em criações populares próprias, o mestiço torna-se o foco das
investigações de Romero sobre o folclore e a nacionalidade.

Diante da irrevogável proposta científica de recolha e registro da cultura popular,


o autor opõe-se aos métodos de coleta com intervenções no conteúdo original. Assim, valoriza
as "análises etnológicas", em detrimento das "divagações estéticas":

Um ou outro escritor nosso, que por acaso, houvesse colhido alguma quadrinha
em uma festa de aldeia, para logo expandia-se aos fulgores líricos e supra-humanos da musa
popular.

Fazia-se mais retórica do que psicologia, mais divagações estéticas do que


análises etnológicas. Estamos fartos de apologias poéticas e de cismares românticos; mais
gravidade de pensamento e menos zigue-zagues de linguagem.
Neste excerto, Sílvio Romero refere-se aos escritores românticos do Rio de
Janeiro. Considerados passivos perante o influxo estrangeiro na Corte e os ditames literários
do romantismo, tais escritores ainda não estariam suficientemente maduros para adotar os
métodos etnológicos de apreensão dos elementos nacionais. Especialmente os do Norte:

[...] desde muito tínhamos compreendido lá fora nas províncias do


norte, longe do contato dos grandes mestres da corte, dramaturgos,
romancistas e poetas de arlequinada inspiração e que pretendem,
coitados!... ditar a lei à literatura do país! Mas deixemo-los com sua
vaidade e com a sua inópia...

No interior de um debate a respeito dos procedimentos de coleta e análise do


folclore nortista, seu estudo científico e suas relações com a nacionalidade, torna-se evidente a
abertura de uma nova possibilidade de afirmação da identidade literária.
57

Como resultado de pesquisas sobre o folclore brasileiro escreveu O elemento


popular na literatura do Brasil e Cantos populares do Brasil, tendo realizado para este, em
1883, uma viagem para Lisboa a fim de publicá-lo. Em 1888, houve a publicação da História
da Literatura Brasileira em dois volumes.
A obra de Sílvio Romero, desde os primeiros ensaios publicados em periódicos do
Recife, na década de 1870, situa-se sob o signo do embate e da polêmica, e estende-se desde a
poesia, crítica, teoria e história literária, folclore, etnografia, até estudos políticos e
sociológicos.
Entre as suas obras, estão:

1. Etnologia selvagem; estudo sobre a memória “Região e raças selvagens do Brasil”.


Cantos populares do Brasil, volume I e volume II. Introdução e notas Theofilo Braga.

2. Lucros e perdas; crônica mensal dos acontecimentos.

3. Contos Populares do Brasil.

4. Uma esperteza: os cantos e contos populares do Brasil e o Sr. Theophilo Braga.


5. Estudos sobre a poesia popular do Brasil.

6. Estudos sobre a poesia popular do Brasil. 2. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1977. 273
p. (Coleção Dimensão do Brasil, 8).

7. Etnografia brasileira; estudos críticos sobre Couto de Magalhães, Barbosa Rodrigues;


Theophilo Braga e Ladislao Netto.

8. Introdução à história da literatura brasileira.

9. O naturalismo em literatura.

10. História da literatura brasileira, vol. I e volume II. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1888.

• História da literatura brasileira. 2. ed. melhorada pelo autor. Rio de Janeiro: H.


Garnier, 1902. 2 v.
58

• História da literatura brasileira. 3. ed. melhorada. Rio de Janeiro: Livraria José


Olympio Editora, 1943. 5 v.
• História da literatura brasileira. 5. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora,
1953. 5 v.
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