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Chegamos, então, à parte mais importante: de dar graças Àquele sem o qual nada

seríamos. Neste ano ocorreram muitas coisas, algumas boas, outras difíceis de lidar. Claro,
antes de tudo devemos recordar, como na Salve Rainha rezamos, que vivemos num Vale
de Lágrimas e por isso ainda tanto sofremos. Porém, tanto por conta das lágrimas de
alegria, tanto por conta das lágrimas de tristeza, devemos dar graças a Deus. Sobre isto o
grande São Francisco de Sales assim falava:

“O Santo Jó nos fornece um exemplo a este respeito; porque sempre cantou no mesmo tom
quando Deus lhe multiplicava os bens, lhe dava filhos e lhe concedia tudo o que nesta vida
podia desejar. Então dizia ele: ‘Seja bendito o nome do Senhor!’ Era um cântico de amor
que entoava sempre. Mas vede-o reduzido à maior aflição: que faz? Entoa o seu cântico de
lamentação no mesmo tom em que cantava no tempo da alegria: ‘Recebemos os bens da
mão de Deus, porque não recebemos os males? O Senhor tinha-me dado os filhos e os
bens; o mesmo Senhor mos tirou; seja sempre louvado o seu nome!’ Não tinha outro
cântico em todos os tempos, senão este: ‘Seja bendito o nome do Senhor.’ Oh! Esta alma
santa assemelhava-se à pomba, que sempre canta no mesmo tom! Façamo-lo nós assim, e
recebamos sempre os bens, os males, as consolações, as aflições, da mão do Senhor,
cantando sempre o mesmo amabilíssimo cântico: ‘Seja bendito o nome do Senhor!’”

Ao contrário do que muitos dizem, a vida é sim um mar de rosas! As pessoas se esquecem
porém, que as rosas possuem espinhos. E tanto pelo adocicado perfume, quanto pelos
dolorosos espinhos devemos dar graças a Deus no mesmo tom. Pois ao contrário do que
muitos pensam, a mesma delicada mão que criou as macias pétalas e o suave perfume,
foram as mãos que deram forma aos espinhos. Quando olhamos somente para os
espinhos, diz o mesmo São Francisco de Sales, sem levarmos em conta que se trata da
mesma mão que nos envia consolações, sentimos medo, porém, isto deveria ser motivo de
doce consolação. Por qual motivo senão pelo bem um pai tão amoroso faria o filho sentir o
amargor do remédio? De modo semelhante ocorre na relação de Deus para conosco, ainda
que as razões escapem de nossa capacidade pois como diz o salmista: “Ó Deus, como são
insondáveis para mim vossos desígnios!” (Sl 138, 17) e outro autor sagrado: “Que homem,
pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor?
Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções; porque o
corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de
cuidados. Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o
que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu?”
(Sb 9:13-16).