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Sebenta DR - Resumo Direito Romano

Direito Romano (Universidade de Coimbra)

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Baixado por Catarina Fernandes (scatarinabarbosa12@gmail.com)
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Direito Romano 2017/2018

Direito Romano (Ius Romanum)

1. Ius Romanum (= Direito Romano em sentido estrito)


Noção: conjunto de normas jurídicas, de preceitos e de outros meios de regulação de
comportamentos das pessoas (pareceres de juristas, ações concedias por certos
magistrados, nomeadamente pelo pretor-urbano) que tiveram aplicação em Roma e
nos territórios que lhe pertenceram (ou tinham pertencido), desde a fundação da
cidade (753 a.C.?) até à morte do imperador Justiniano, em 565.
Ius (Direito)
Significa direito, mas a palavra direito não deriva etimologicamente de ius. Ius é o
que a deusa Iustitia diz – origem genética de ius (Iustitia é a geradora do ius).
Direito provém de directum (ou derectum)
Romanum (Romano)
De Roma e dos seus territórios, mas também do império romano do oriente, até
565.
Outras aceções da expressão Direito Romano:
Direito Romano em sentido amplo: tradição romanista (continuidade, aplicação
prática do Direito Romano, depois da sua compilação por determinação Justiniano)
– remissão.
Direito Romano em sentido muito amplo: Direito Romano em sentido estrito e
tradição romanista.

2. Épocas históricas do Ius Romanum


Tendo o DR passado por profundas e inevitáveis alterações para poder corresponder
às transformações sociais nos catorze séculos da sua vigência, é necessário estudá-lo
nas sucessivas fases por que passou.

Critério político: tem por base a história política de Roma,


envolvendo as seguintes épocas: monárquica (753 – 510 aC);
republicana (510 – 27 aC); imperial (27 aC – 284); absolutista
(284 – 565).
Crítica: a evolução do DR não depende só das transformações
políticas e nem sempre estas a determinaram.

Critério normativo: atende aos modos de formação ou


Critérios usados
revelação das normas jurídicas. Épocas do DR
para estabelecer
consuetudinário, legítimo ou legislativo, jurisprudencial e
a periodização do
constitucional ou absolutista.
DR
Critério jurídico externo: atende à circunstância de se
aplicar só aos cidadãos romanos (cives romani) ou também
para os não-cidadãos (peregrinos ou estrangeiros); de ter
carácter local ou universal; de permanecer romano ou receber
influencias orientais (sobretudo gregas). Épocas nacionalista
ou quiritária, universalista ou do ius gentium, e oriental ou
helénica.

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Críticas: O critério normativo e jurídico externo não permitem


cumprir o objetivo de estudar as instituições do Direito
Romano Privado, devido à sua exterioridade.

Critério jurídico interno: atende ao valor intrínseco do DR,


à maior ou menor perfeição das suas instituições jurídicas. É
o critério usado, uma vez que só ele nos pode dar uma visão
propriamente jurídica do DR.

Critério jurídico interno


Épocas: Arcaica (753 aC – 130 aC); Clássica (130 aC - 230); Pós-Clássica (230 –
530); justinianeia (530 – 565)

Época Arcaica (formação): vai desde a fundação de Roma (753 aC) até 130 a.C.
Trata-se de uma época caracterizada pela imprecisão, sendo deficientemente
documentada, assinalada pela mistura do jurídico com o religioso e o moral e
constituída por instituições jurídicas rudimentares. É subdividida em duas etapas:
1ª etapa: até 252 aC, o DR foi aplicado exclusivamente nas relações inter cives
romanos;  Época do DR nacionalista ou quiritário ou do ius civile
2ª etapa: após 252 aC, com a criação do pretor peregrino, passou a regulamentar
relações entre cives romani e peregrini e entre estes últimos.  Época do ius gentium
ou do DR universalista.

Época Clássica (apogeu): iniciando a sua vigência em 130 aC, termina em 230, com
a substituição do processo das formulas pela cognitio extraordinaria e o esgotamento
da jurisprudência. Caracteriza-se pela sua perfeição e subdivide-se em três etapas:
1ª. Época pré-clássica/ clássica inicial: De 130 aC a 30 aC; é caracterizada por
um desenvolvimento ascensional muito significativo da jurisprudência.
2ª. Época clássica central: de 30 aC a 130, é caracterizada pelo esplendor da
jurisprudência, visível na perfeição e na sábia estilização da casuística: pelo equilíbrio
entre o fecundo casuísmo, os princípios doutrinais e as regras jurídicas; e pela criação
de novas actiones que integraram e modernizaram o ius civile.
3ª. Época clássica tardia: de 130 a 250, assinala o inicio da decadência da
jurisprudência, esgotada nas suas forças e preocupada com exposições monográficas
do ius civile. A iurisprudentia burocratizou-se e voltou-se para o ius publicum, com
destaque para os direitos administrativo, militar, fiscal, penal e processual civil.

Época Pós-Clássica (decadência): entre os anos 250 e 530 (quando Justiniano


encarregou Triboniano de elaborar os Digesta seu Pandectae). Caracterizada pela
confusão, compreende duas etapas:
1ª: de 230 a 395 (ano em que o imperador Teodósio dividiu definitivamente o
Império Romano em duas partes – ocidente e oriente – pelos seus filhos Honório e
Arcádio). É uma época marcada pela confusão (de terminologia, conceitos e
instituições) e pelo advento da Escola que substituiu a iurisprudentia e se dedica à

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elaboração de glosas, de glossemas e de resumos de textos que revelam uma ciência


simplista e elementar.
2ª: de 395 a 530. É caracterizada:
a) No Ocidente: pela vulgarização do DR: simplificação de conceitos,
confusão de noções clássicas, predomínio do aspeto prático sem atenção
pelas categorias lógicas, desordem na exposição das matérias.
b) No Oriente: pela reação antivulgarista (classicismo) que conseguiu travar
a expansão dos fenómenos vulgarísticos e impedir que estes se tornassem
dominantes; pela helenização: tendência para sublimar a terminologia e
certas construções jurídicas, informando-as de princípios e de ideias
filosóficas gregas.

Época justinianeia (compilação): de 530 a 565 (ano em que Justiniano faleceu), é


caracterizada pelo classicismo e pela helenização e a sua especificidade deriva da
maior compilação jurídica jamais feita: o Corpus Iuris Civilis, que atualizou o Direito
Romano e transmitiu o conhecimento às gerações vindouras.
3. Preceitos jurídicos (Iuris Praecepta)
Enumeração no Digesto (em D.1,1,10,1):
«Iuris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique
tribuere»
«Os princípios fundamentais do direito são: não abusar dos seus direitos, não
prejudicar ninguém, atribuir a cada um o que é seu»
A hierarquização dos preceitos, por ordem decrescente de importância:
1. HONESTE VIVERE (não abusar dos seus direitos)
Razão da tradução de Honeste vivere por “não abusar dos seus direitos” (e não por
“viver honestamente”): o texto qualifica os preceitos como jurídicos (iuris praecepta)
e não como morais (moralis praecepta) ou como morais e jurídicos (moralis et
praecepta).
Este é o primeiro e mais importante porque aquilo que as normas jurídicas deviam,
antes de mais, proscrever era o abuso do direito (pois não constitui um uso ou
exercício legitimo do mesmo).
2. ALTERUM NON LAEDERE (não prejudicar ninguém)
Conjuntamente com o terceiro, constitui a base da vida em sociedade. Significa que o
uso dos direitos próprios tem que coexistir com os direitos dos outros (limite ao uso
dos próprios direitos).
3. SUUM CUIQUE TRIBUERE (atribuir a cada um o que é seu)
Determina o respeito absoluto pelos direitos alheios.
Sentido genérico de atribuir: só dar (dare = transferir a propriedade; ato de
transferência de propriedade = datio), só entregar (tradere = transferir a posse; ato de
transferência da posse = traditio), dar e entregar (dare et tradere). Assim, não se deve
traduzir «suum cuique tribuere» por “dar a cada um o que é seu” (isso constitui uma
corrupção do conceito clássico de dare, que ocorreu na época pós-clássica – na qual
passou a empregar-se dare com o sentido que na época clássica era o de dar, de
entregar ou de dar e entregar.

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4. Direito Civil (Ius Civile) e Direito Honorário (Ius Honorarium)


Ius Civile
Direito próprio dos cidadãos romanos (cives romani;
primitivamente, quirites  direito quiritário). Provém do
costume, das leis comerciais, plebiscitos, senatusconsultos,
constituições imperiais e iurisprudentia. Era um direito
formalista e rígido, as suas normas regulavam sobretudo
relações jurídicas em que intervinham os poderes pessoais do
paterfamilias

Ius Honorarium Ius Praetorium


Direito criado por certos Direito criado pelo pretor
magistrados (pretor urbano, urbano, com a finalidade de
Direito Romano
pretor peregrino, edis curuis, interpretar, integrar e corrigir o
governadores das direito civil, por motivo de
províncias). É, portanto, todo utilidade pública. Direito
o ius não civile. elástico, sem grandes
formalidades, amplo e flexível.
Ius só surge com a criação da
respetiva actio.

Ius criado por outros


magistrados
Pretor peregrino, edis curuis,
governadores das províncias.
Nota: Ius praetorium não era o direito criado pelo pretor urbano e pelo pretor
peregrino; mas sim somente pelo pretor urbano.
Quando se diz (como em D.1,1,7,1) que o ius praetorium era o direito introduzido na
«experiência jurídica» romana pelos pretores, isso significa que era criado pelos
sucessivos pretores urbanos (cada um deles exercia o seu cargo durante um ano).

Noções Fundamentais
O que distingue direito privado romano dos outros direitos?
- Desinteresse pela codificação (escasso relevo das fontes escritas)
- Prioridade da ação sobre o direito: a iurisprudentia preocupou-se fundamentalmente
com a resolução de problemas práticos
- Simplicidade das soluções e ausência de sistema
- Diferenciação de conceitos (separação do jurídico dos usos sociais e das regras
morais. No direito: isolou o direito divino, o direito humano, o direito privado, o
direito público, o direito civil, o direito pretório, o direito das gentes…

Reconhecimento de valores que os jurisconsultos romanos introduziram no


campo do direito, conferindo a este uma dimensão ética e humana:
- Fides: cumprimento fiel da palavra (fidelidade)

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- Officium: dever que se cumpre desinteressadamente (ofício)


- Humanitas: manifesta-se no respeito e na valorização da pessoa humana
(humanitarismo)
- Amicitia: inspira o regime jurídico do depósito, comodato, mandato, … (amizade 
confiança)

Distinções
Ius vs Fas: inicialmente, significavam o que era lícito, o que a vontade divina permitia.
Posteriormente, o ius conheceu um processo de lenta secularização e o fas passou a
identificar-se como o ius divinum (conjunto das normas que estabelecem o que é
permitido pelos deuses e cuja inobservância é sancionada com penas religiosas).
Justiça vs Equidade: Justiça = vontade constante e perpetua de atribuir a cada um o
seu direito. Constituída pela proporcionalidade e a igualdade (tratamento igual dos
casos iguais e desigual dos casos diferentes). Equidade = (justiça do caso concreto)
cumpre a função de adequar a norma geral e abstrata ao caso sub iudice.

a) Direito Público (ius publicum) e Direito Privado (ius privatum) – D.1,1,1,2


Distinção pode ser feita através do critério dos sujeitos (ius publicum = direito que se
refere à civitas e com os seus próprios súbditos; ius privatum = disciplina relações
entre particulares  insatisfatório porque há relações entre o Estado e os cidadãos
submetidas ao direito privado) ou critério da utilitas (ius publicum = interesses da
comunidade social; ius privatum = normas satisfazem as necessidades dos
particulares  insatisfatório porque os interesses da sociedade e dos particulares não
se contrapõem). Porém o primeiro critério permite uma melhor distinção.

b) Direito das gentes (ius gentium) e Direito natural (ius naturale)


Ius gentium: Segundo Gaius, é um direito que se fundamenta na naturalis ratio que,
na filosofia grega, significa a ordem natural das coisas. É também um direito para os
romanos e, por isso, incorpora-se no seu próprio ius civile, embora tendo um campo
de aplicação diferente. É constituído por instituições e princípios jurídicos que se
foram formando em todos os povos.
Ius naturale: com base no facto de a razão natural ser o alicerce do direito das gentes,
o direito natural é aquele que tem a sua origem na razão natural. No direito justinianeu,
recebe um conteúdo teológico, trata-se assim de um sistema ideal de normas que
contêm exigências abstratas à justiça: transcende o direito positivo.
 A escravatura vê-se excluída do direito natural, sendo meramente coberta pelo
direito das gentes.

O ius gentium não impediu os diferentes povos de se regerem pelos seus próprios
direitos civis. Foram escassas as instituições jurídicas tipicamente romanas a que os
peregrinos tiveram acesso.
A distinção entre ius gentium e ius civile perdeu a importância quando, em 212,
Carcala estendeu a cidadania romana a todos os habitantes do império romano.

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Direito Romano 2017/2018

Generalizou-se a ideia de que o direito das gentes se funda na razão natural, o que
levou a que se apelidasse direito natural às normas e instituições em cuja origem vêm
a razão natural. A base comum aproximava o direito das gentes do direito natural –
contudo, o direito natural recebeu no direito justinianeu uma base teológica,
afirmando-se que estes direitos eram estabelecidos por providência divina,
permanecendo firmes e imutáveis. É um direito que contém exigências abstratas de
justiça, que transcende o direito positivo. Esta foi a visão que levou à separação
daqueles direitos.

Direito Comum e Direito Singular. Beneficio e Privilégio


Direito Comum: um conjunto de normas jurídicas que têm carácter geral (aplicam-se
a uma série ilimitada de casos abstratamente fixados). Exemplos: doações; faculdade
de qualquer pessoa garantir uma dívida alheia
Direito Singular: o direito que, por virtude de uma particular ratio, se afasta do ius
commune, aplicando-se a uma categoria especial de pessoas ou coisas. Exemplos:
proibição das doações entre marido e mulher; proibição das mulheres de intercederam
a favor de qualquer homem.

c) Direito novo (ius novum/extraordinarium) e Direito velho (ius


vetus/ordinarium)
Ius Novum
As constituições imperiais tornaram-se sucessivamente a fonte predominante e única
do direito romano, com a absorção crescente das funções dos magistrados pelos
Imperadores.
Com elas surgiram normas jurídicas que se designaram direito novo, em oposição de
direito velho (ius vetus).
Contudo, nem sempre estamos perante um ordenamento jurídico novo, oposto ao
direito civil e ao direito honorário, porque muitas constituições imperiais limitaram-
se a interpretar o direito civil.

d) Direito objetivo e Direito subjetivo


Direito objetivo: consiste no conjunto de normas jurídicas que disciplinam a vida em
determinada comunidade; disciplinam a conduta humana na sua vivência em
sociedade.
Direito subjetivo: poder de exigir de outrem certo comportamento positivo ou
negativo. Ou de invadir a esfera jurídica alheia, impondo-lhe irresistivelmente
determinados efeitos jurídicos. Nas fontes romanas:
«Nemo plus iuris ad alium transferre potest quaim ipsi haberet»
 Ninguém pode transferir para outrem mais direito do que ele próprio teria.
Nota: Trata-se do princípio fundamental da aquisição derivada translativa de direitos
(o direito do adquirente depende não só da existência do direito do transmitente, como
da sua extensão, pois é o que já existe na esfera jurídica do transmitente, passando
inalterado para a do adquirente).
O DR não oferece uma definição de direito subjetivo, embora a jurisprudência tenha
utilizado frequentemente o termo ius num sentido equivalente.

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«nullus vindetur dolo facere, qui suo iure utitur»


 Parece que ninguém, que faça uso do seu direito, atua com dolo.
Quando, no uso da sua autonomia e nos limites reconhecidos pelo direito objetivo, um
indivíduo dita normas que ordenam a sua conduta e mesmo a conduta alheia, estas
normas são leges privatae e adquirem uma função semelhante às definidas pelos
órgãos do Estado.
Organização Política de Roma

Considerações preliminares: Direito e política em Roma


O Direito Romano é, de algum modo, expressão do poderio político de Roma (apesar
de a sua evolução não ser determinada, essencialmente, pelas transformações
políticas).
O período áureo do Ius Romanum (a época clássica central) coincide com o auge do
poderio político romano (séc. I a.C. a fins do séc. II d.C.).
A decadência do Direito Romano verifica-se na época pós-clássica, período em que
se assistiu a uma grave crise política de Roma (ainda que não se deva exclusivamente
a esse fator).
O ressurgimento do Direito Romano no Oriente (a partir de 395 e, sobretudo, na época
justinianeia) também se deve à força do império oriental.
Por isso, o estudo do direito romano não prescinde de uma referencia à organização
politica dos romanos.

1. Regimes políticos da história de Roma (matéria facultativa)


Órgãos
Rei – Chefe supremo, com carácter vitalício, mas não hereditário;
podia designar sucessor, mas este só era investido nas suas funções
pelo povo, reunido nos comícios (lex curiata de imperio).
Senado – Assembleia aristocrática, inicialmente constituída só por
patrícios [só na República, a partir da lex Ovinia, do ano 312 aC, os
Monarquia plebeus passaram a ter acesso a esse órgão, de forma definitiva];
(753 aC a aconselhava o Rei; nomeava o interrex. Está no poder enquanto
510 aC) ocorrem eleições para o rei
Comícios (comitia) – primeiro, os comícios das cúrias; depois, os
comícios das centúrias; finalmente os comícios das tribos.
Constituíam as assembleias populares; reuniam em determinados
dias e sempre que fossem convocados por quem tinha competência
para o efeito.
Magistrados – Inicialmente, havia apenas dois cônsules, que
exerciam o poder supremo – antes pertencente ao Rei –, mas somente
durante um ano. Depois, foram sendo criadas outras magistraturas.
República Senado – Órgão político (constituído pelas pessoas mais influentes
(510 aC a da civitas, continua a ter caráter aristocrático – primeiro só patrícios;
27 aC) a partir da lex Ovinia, do ano 312 aC, os plebeus passaram a ter acesso
a esse órgão de forma definitiva); nas relações internacionais de
Roma aparece em primeiro lugar (Senatus Populesque Romanus).
Tinha a auctoritas (prestígio socialmente reconhecido). No âmbito
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jurídico, concedia (ou não) a auctoritas patrum às leis comiciais


(primeiramente, só depois da votação proposta pelos comitia); os
senatusconsultos eram, neste período, simples pareceres dados aos
magistrados que consultavam o Senado.
Comícios – Continuavam a ser assembleias populares. Elegiam
certos magistradis (os comitia centuriata elegiam os cônsules, os
pretores o ditador e os censores; cabia-lhes ainda a aprovação das
leis, cujas propostas eram apresentadas por determinados
magistrados); e (de inicio apenas em Roma – a partir do séc. II aC
também fora) e podiam ser chamados a intervir, em ultimo recurso,
pelos cidadãos, através da provocatio ad populum (contra as decisões
tomadas pelos magistrados, com exceção do ditador). [Remissão]
Conselhos da plebe (concilia plebis) – Eram assembleias de plebeus;
de inicio, as suas deliberações, denominadas plebiscitos (plebiscita),
não tinham carácter jurídico. [Remissão]
Princeps – Era a figura principal da nova constituição politica. Em
23 aC (depois de renunciar ao consulado), Augusto recebeu a
tribunicia potestas (com caracter vitalício – direitos dos tribunos da
plebe) e o imperium proconsulare maius (por dez anos, mas foi
Principado prorrogado, tornando-se vitalício); as magistraturas republicanas
(27 aC a passaram a estar subordinadas ao imperador.
284) Senado – Apesar de ter passado a criar direito diretamente
(senatusconsultos), perde a sua antiga competência política, que
passa para o princeps. [Remissão]
Comícios - Formalmente, mantiveram-se; mas acabaram por perder
as funções que antes lhes estavam atribuídas.
Surge com Diocleciano (em 284) e tem essa designação porque o
Dominado imperador se proclama dominus (= senhor único); além disso,
(284 a 476) intitula-se deus (sendo, portanto, dominus et deus).
Em 476 dá-se a queda do Império Romano do Ocidente.

2. As magistraturas republicanas, os poderes dos magistrados e as suas


limitações
Magistrados Romanos - eram os detentores de cargos públicos «de governo».
Inicialmente, eram os detentores do imperium (poder de soberania, poder absoluto que
antes pertencia aos reis).
O caráter absoluto do imperium era (ou passou a ser) limitado por três circunstâncias:
- a temporalidade: os magistrados, normalmente, exerciam funções durante um ano.
- a pluralidade: com o decurso do tempo, deixou de haver apenas uma magistratura
(a dos cônsules), passando a existir várias.
- a colegialidade: dentro de cada magistratura havia mais do que um magistrado (por
exemplo, havia dois cônsules); cada um deles tinha o direito de vetar as decisões do
colega (ius intercessionis), direito que também cabia aos magistrados de ordem
superior em relação aos da inferior.

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Direito Romano 2017/2018

As magistraturas podiam ser ordinárias (que estavam integradas numa certa ordem
hierárquica, o chamado cursos honorum – segundo a sua dignidade e não de acordo
com os respetivos poderes) ou extraordinárias.
As magistraturas ordinárias mais importantes, por ordem decrescente eram as
seguintes: a dos censores (censores – 443 aC), a dos cônsules (cônsules – 510 aC), a
dos pretores (praetores, urbano – 367 aC; peregrino – 242 aC), a dos edis curuis
(aediles curules – 367 aC) e a dos questores (quaestores – 450 aC).

As magistraturas extraordinárias (porque não faziam parte do cursus honorum)


eram o tribunado da plebe e da ditadura (esta tinha, ainda, caráter excecional, pois não
fazia parte da vida política normal de Roma; era criada em períodos de crise política
interna ou externa).
Os tribunos da plebe (que os plebeus passaram a ter o direito de eleger, reconhecido
pelo Senado, na sequencia da secessão ocorrida em 494 aC) tinham a tribunicia
potestas e o direito de veto (ius intercessionis) em relação às decisões de qualquer
magistrado ordinário; e, ainda, o privilegio da inviolabilidade.

Nota
Do ponto de vista jurídico, a magistratura mais importante era a dos pretores (pois
estes tinham os três poderes abaixo mencionados)

Potestas - poder de representar o populus Romanus (comum a todos


os magistrados)

Imperium - poder de soberania, que englobava as seguintes


faculdades: comandar os exércitos; convocar o Senado; convocar os
comícios; administrar a justiça (a partir da criação do pretor urbano,
Poderes dos
de forma extraordinária). Pertencia somente aos cônsules, aos
magistrados
pretores (que estavam sujeitos ao direito de veto dos cônsules – ius
intercessionis) e ao ditator.

Iurisdictio (jurisdição) – poder de administrar a justiça de forma


normal ou corrente. Tinham esse poder os pretores, os edis curuis e
os questores.

Fontes do Direito Civil (Ius Civile)


Considerações preliminares
“Fontes” de direito = metáfora: uma fonte é um local onde algo nos aparece: se vê e
se pode facilmente recolher.
«Fontes de direito» podem ser de várias espécies:
- fontes existendi: são os órgãos criadores das normas jurídicas. Assim, o populus, os
comitia, os concilia plebis, o Senatus, alguns magistrados, o imperador e os
iurisprudentes;
- fontes manifestandi: são os modos de formação ou revelação das normas jurídicas.
Como o costume (mores maiorum, consuetudo), a lei comicial (lex rogata), o
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Direito Romano 2017/2018

plebiscito (plebescitum), o senatusconsulto (senatusconsultum), o edictum, a


constituição imperial (constitutivo principis), jurisprudência (iurisprudentia) e o
responsum;
- fontes cognoscendi: são os textos que contêm as normas jurídicas e que nos
permitem conhecer o Direito Romano. Exemplos: Corpus Iuris Civilis, Institutiones
de Gaius…

Até finais da época clássica coexistem, com igual eficácia, várias fontes manifestandi.
Depois, assiste-se a um processo de centralização que teve o seu epílogo na época
justinianeia, com a afirmação do imperador como a única fons existendi do direito.
O Corpus Iuris Civilis não deixa de referir as fontes precedentes; porém, a sua eficácia
é dada pelas constituitiones imperiais que promulgaram as suas partes. É conhecida a
evolução: o populus atribuiu a competência legislativa aos comitia; estes perderam-
na para o Senado; e o imperador acabou por esvaziá-lo, transformando a «legislação
senatorial» numa forma de o princeps legislar. Em consequência, os mores maiorum
foram substancialmente incorporados na Lei das XII Tábuas; as leges foram
substituídas por senatusconsulta; e estes, por constituitiones imperiais.
Observar-se-á que o Corpus Iuris Civilis não deixa de referir as fontes precedentes;
porém, a sua eficácia é dada pelas constitutiones imperiais que promulgaram as suas
partes

1. Costume
Mores – eram regras jurídico-religiosas que insensivelmente engrossavam o
património de valores e de crenças a antiga sociedade romana, qua a tradição
conservava.
Mores maiorum: tradição de uma comprovada moralidade, que a interpretatio
jurisprudencial desenvolveu e adaptou às novas exigências de vida. A fonte existendi
dos mores maiorum é o populus. Até à Lei das XII Tábuas, estes constituíram a única
fonte de direito; após esta, subsistiram com autonomia fora do âmbito de aplicação
dessa lei, nomeadamente no âmbito do direito público, perdendo autonomia na época
clássica – com a integração noutras fontes.
Consuetudo: surge muito posteriormente ao conceito de mores maiorum, a afirmar
uma regra estritamente jurídica. É uma prática constante e uniforme, observada
durante um largo período de tempo, pela generalidade de quantos habitualmente
participam numa determinada relação. com a convicção de obrigatoriedade com
mesma força da lei.
Elementos do consuetudo:
- Elemento material: «corpus», traduzido na referida prática;
- Elemento espiritual ou psicológico: «animus», constituído pela convicção de
obrigatoriedade jurídica - «opinio iuris vel necessitatis».
Este, apesar de mencionado em textos atribuídos a juristas clássicos, apenas assumiu
importância significativa na época clássica. Importância de que se revestiu no Baixo
Império (secs. IV-VI), como “corretivo” das constituições imperiais;

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Segundo a constituição imperial de Constantino (ano 319), o costume de longa


duração – apesar de a sua autoridade não dever ser desprezada – não podia valer até
ao ponto de prevalecer sobre a razão ou sobre a lei.
O usus trata-se de um simples hábito de agir sem qualquer obrigação: não sendo,
portanto, um verdadeiro costume. Apenas aparece como fonte de direito na mesma
constitutio de Constantino, confusão que se explica devido a estarmos na época Pós-
Clássica (marcada pela vulgarização do DR).

2. Lei (lex rogata)


Noção: Declaração solene com valor normativo. Era uma lei pública (lex publica) que
se traduzia numa declaração solene, com valor normativo, feito pelo povo romano
(populus romanus), mediante a aprovação, nos comícios, da proposta apresentada por
certo(s) magistrado(s).
Lex privata: convenção que acompanha e se propõe a disciplinar um acordo entre
particulares.

Processo de formação:
1. Promulgatio: afixação da lei em lugar público para ser conhecido (três semanas);
2. Contiones: reuniões informais, na praça pública, para discussão da proposta de lei;
3. Rogatio: pedido de aprovação da proposta, dirigido aos comícios pelo magistrado
proponente;
4. Votação pelos comícios: primeiro, voto oral; a partir de 131 aC (lex Papira
Tabellaria), voto escrito e secreto (sempre por agrupamentos);
5. Aprovação pelo Senado: (conceção da auctoritas patrum) – de inicio tinha lugar
depois da votação pelos comícios; a partir de 339 aC (lex Publilia Philonis) passou
a ser dada antes da votação pelos comitia;
6. Afixação no Forum (em tábuas de madeira ou de bronze): para tornar público o
teor da lei aprovada.

Partes da Lex rogata


- Praescriptio – prefácio, no qual se indicam os nomes dos magistrados proponentes,
o lugar e a data de votação, o nome da cúria, centúria ou tribo que votou em primeiro
lugar;
- Rogatio – conteúdo (parte dispositiva) da lei;
- Sanctio – fixa os termos da sua eficácia.
Segundo uma classificação muito discutida, as leges podem dividir-se em:
a) Perfectae, quando declaram nulos os atos contrários às suas disposições
b) Minus quam perfectae, quando impõe penas aos transgressores, mas os actos por
eles praticados são válidos;
c) Imperfectae, se não estabelecerem qualquer sanção.
3. Plebiscitum (plebiscito)
Noção: era uma deliberação tomada pela plebe que, reunida em assembleia (concilium
plebis), aprova uma proposta de um tribuno da plebe (tribunus plebis).
Evolução: inicialmente, não tinha força vinculativa; Posteriormente, a lex Valeria
Horatia de plebiscitis (ano 449 aC) atribuiu força vinculativa entre os plebeus; e no

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ano de 287 aC, a lex Hortensia de plebiscitis determinou a sua aplicação também aos
patrícios (ficando, assim, os plebiscitos equiparados às leis comiciais – aexequatio
legibus)

4. Senatusconsultum (senatusconsulto)
Noção: enquanto fonte do direito civil (ius civil), era uma decisão com valor
normativo tomada pelo Senado, sob proposta do imperador.
Evolução: de início, até ao século I aC, os senatusconsultos não tinham força
normativa, eram meros pareceres do Senado; A partir do início do século I aC,
passaram a ser fonte mediata de direito, sobretudo através do edicto do pretor; apenas
se tornaram fonte imediata de direito (ius civile) no inicio do Principado; e
mantiveram a sua autonomia (como autênticas decisões do Senado) até ao fim do séc.
I dC.
A partir de Adriano, princípios do sec. II, já não era o Senado que estabelecia as
normas, mas o imperador, que apresentava a «proposta» através de um discurso feito
perante o Senado, denominado oratio principis (deixaram de ser a expressão da
vontade autónoma e independente do Senado). Em finais do sec. II, a oratio do
imperador perdeu a natureza de proposta, para adquirir o carácter de verdadeira
decisão.

5. Constitutio principis (constituição imperial)


Noção: a constituição imperial era uma lei (a partir do sec. III) criada unilateralmente
pelo imperador; correspondia à sua vontade.
Evolução: No sec. I, tinha o valor de ordem prática, devido à autoridade do imperador;
no sec. II, passou a ter força de lei, mas ainda não era considerada lei; no sec. III, foi
reconhecida como lei; no sec. IV, tornou-se a única forma de lei e a única fonte de
direito (início do absolutismo da lei).
Espécies de constituições imperiais (nos séculos I-IV)
a) Edicta (éditos): eram constituições imperiais de carácter geral (por ex., o edito de
Caracala ou constituição antoniana, de 212 dC, que concedeu a cidadania a todos
os habitantes livres do império);
b) Decreta (decretos): decisões de natureza judicial proferidas nos litígios que eram
submetidos à apreciação do imperador; são as sentenças do imperador nos
processos extra ordinem julgados em primeira instância e em apelação; vinculam
no caso sub iudice, mas foram aplicados a situações iguais e análogas («é lei não
só para aquela causa para que foi produzida, mas também para todas as análogas»).
c) Rescripta (rescritos): respostas dadas (por escrito) pelo imperador às questões que
lhe eram postas por magistrados ou particulares;
d) Mandata (mandatos): ordens ou instruções administrativas dadas, pelo imperador,
a funcionários ou aos governadores das províncias.
No século IV, a constituição imperial tornou-se a única forma de lei e na única fonte
de direito (Direito = lei do imperador). Surge a contraposição entre essas leis,
designadas por leges (ou ius novum), e o direito anterior (qualquer que fosse a sua
fonte), denominado ius (ou ius vetus).

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As constituições imperiais têm particular importância no desenvolvimento do DR:


contêm as bases de vários institutos e princípios que se afirmam na época justinianeia
e passaram ao direito moderno.

6. Iurisprudentia (jurisprudência)
Noção: em Roma, era a ciência do Direito, cuja função era a de interpretar,
desenvolver e adaptar o direito à realidade social de cada época; tinha, por isso, um
papel criador.
Funções dos iurisprudentes:
i. respondere: resolver casos práticos, através de pareceres (responsa) dados a
particulares ou a magistrados. É a função mais importante;
ii. cavere: aconselhar os particulares sobre como deviam realizar os seus negócios
jurídicos (v.g., as palavras a proferir, as cláusulas a introduzir)
iii. agere: aconselhar os particulares em matéria processual (v.g., a fórmula a utilizar,
as palavras a proferir, os prazos a respeitar, etc).
Evolução: nos primeiros tempos, a atividade da jurisprudência foi confiada a
pontífices que se tornaram os guardas e os intérpretes dos costumes (mores). Todavia,
no ano 330 aC, a jurisprudência começa a laicizar-se. Como etapa inicial sugere-se a
publicação da compilação de fórmulas.
A iurisprudentia romana não procura a verdade absoluta; preocupa-se com a
determinação do justo e do injusto segundo a consciência social.
Na época republicana, é eminentemente criadora e tem por suporte uma autorictas
(saber socialmente reconhecido), com carácter social (que deriva da sua condição
aristocrática).
No Principado, até aos começos do século II, tem a autorictas de natureza política
(em virtude de Augusto ter concedido a alguns dos juristas mais notáveis o ius
respondendi ex auctoritate principis);
A partir de Adriano, a auctoritas de natureza burocrática, devido à sua integração na
burocracia imperial. Adriano, através de um rescriptum, determinou que os pareceres
dos jurisconsultos aos quais era permitido interpretar o Direito tivessem força de lei
se fossem coincidentes; se houvesse discordância entre eles, o juiz podia escolher
livremente.

Corpus Iuris Civilis


O Corpus Iuris Civilis é uma coletânea de ius (fragmentos de obras de juristas
clássicos) e de leges (constituições imperiais) mandada elaborar pelo imperador
Justiniano no século VI. Trata-se da principal fonte cognoscendi (de conhecimento)
do Direito Romano.
a) Elaboração
Plano inicial de Justiniano: elaboração de uma coletânea de leges, para substituir o
Código Teodosiano (de Teodósio II, imperador do Oriente – 438), que continha as
constituições imperiais de caráter geral, desde Constantino, ainda em vigor
 Resultado: Código de 529 (atualização e adaptação das constituições imperiais
anteriores)

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Plano posterior: elaboração de uma compilação de ius e de leges (que viria a ser
designada por Corpus Iuris Civilis no século XVI – em 1583, por Dionísio Godofredo).

b) Finalidades da compilação justinianeia


Legislativa – constituir uma compilação autorizada, com força de lei, de todo o direito
em vigor;
Didática – ser texto único a estudar nas escolas;

c) Partes
Institutiones (Instituições): aprovadas em 21 de novembro de 533, com entrada em
vigor a 30 de dezembro, constituem um manual elementar de direito (DR) destinado
aos estudantes que iniciam o estudo, que serve de introdução elementar às outras
partes (em especial, à segunda); dividem-se sem 4 livros, que se dividem em títulos,
que se dividem em parágrafos (o 1º é o principium).
Digesta ou Pandectae (Digesto): promulgado em 16 de dezembro de 533, com
entrada em vigor a 30 de dezembro, é uma coletânea de fragmentos de obras de juristas
clássicos (ius); divide-se em 50 livros, que se dividem em títulos (exceto os liv. 30-
32), que se dividem em fragmentos, que se dividem em parágrafos (o 1º é o principium)
Codex (Código): aprovado em 17 de novembro de 534, entrada em vigor a 29 de
dezembro, é uma compilação de constituições imperiais (leges); divide-se em 12
livros, que se dividem em títulos que se dividem em constituições, e estas em
parágrafos.
Novellae (Novelas): são constituições imperiais novas (leges novas), promulgadas
depois do Codex (entre 535 e 565) e que não foram recolhidas em qualquer coletânea
oficial. Constituídas pelo prefácio, parte dispositiva (dividida em capítulos, e estes em
parágrafos) e epílogo.

O Direito Romano depois do Corpus Iuris Civilis (opcional)

No Oriente
Apesar de Justiniano ter proibido a realização de comentários à sua obra compilatória,
as necessidades da vida prática impuseram que essa proibição não fosse acatada.
Assim, foram redigidos vários comentários, denominados Paráfrases.
No Ocidente
A invasão dos diversos povos germânicos nas regiões romanizadas criou o problema
da coexistência do Direito Romano com os direitos dos invasores de bases
fundamentalmente consuetudinárias. Confrontaram-se os princípios de personalidade
e territorialidade. Através das compilações existentes, o Direito Romano manteve-se
vigente, embora vulgarizado, entre os séculos VI e XII.

Defesa dos Direitos


No DR, embora o ius civile sugira que o direito subjetivo (que se concretiza nos
diferentes poderes reconhecidos ao paterfamilias) é anterior às actiones que

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protegiam o seu exercício, ainda na época clássica surge primeiro a actio e, em


consequência, o poder jurídico que caracteriza um direito subjetivo.
As faculdades que um direito subjetivo contém destinam-se a ser exercidas na vida
prática (v.g., o proprietário pode usar, desfrutar e dispor da res que lhe pertence; o
credor aspira receber o seu crédito; o herdeiro desejará apoderar-se dos bens
hereditários), ainda que o estas não dependam apenas da vontade dos seus titulares
(v.g., o proprietário de uma res poder-se-á ver impedido de exercer o seu direito por
um terceiro que a subtrai; o credor não pode receber o seu crédito sem a vontade do
devedor de cumprir a sua obrigação; o herdeiro dependerá da vontade dos possuidores
de lhe entregarem os bens da herança).

1) A ação (actio) e o direito (ius)


No direito romano da época clássica, as actiones são, em regra, anteriores aos iura.
Nos primeiros tempos era como que um sistema de autodefesa ou autotutela – recurso
à força para obter a satisfação que o direito violado devia proporcionar. Contudo, a
tutela privada era injusta porque os mais fracos perdem perante a maior força do
agressor ou podem cair na injusta desproporção. Daí que, desde cedo, houve a
preocupação em fixar limites ao livre exercício da vingança privada

Do ponto de vista meramente formal, atualmente, pode definir-se actio como o


primeiro ato que assinala o início de um processo.
Em sentido material, é o instrumento jurídico que permite uma pessoa obter a tutela
de um direito subjetivo previamente reconhecido pelo ordenamento jurídico (ação
civil = actio civilis ou in ius concepta) ou de uma situação de facto que o magistrado
prometeu proteger no seu edictum (ação pretória = actio praetoria). Constitui,
portanto, um meio que protege um direito subjetivo pré-existente reconhecido pelo
ordenamento jurídico (actio civilis), ou uma situação de facto que o magistrado
considerou merecedora de proteção jurídica (actio praetoria).
No campo das obrigações, o direito do credor só surge quando se reconhece uma ação
através da qual a responsabilidade do devedor se torna efetiva.

2) O sistema das fórmulas (agere por formulas)


Nota: Processo Civil
Conta com dois períodos:
1º: épocas arcaica e clássica.
A administração da justiça não é assumida totalmente pelo Estado, que se limita a
afastar a vingança privada. Tem por objetivo que os cidadãos submetam os seus
litígios ao conhecimento do magistrado que se limita a declarar se o demandante tem
direito e a ordenar a um juiz privado, escolhido pelas partes ou nomeado pelo pretor,
que aprecie a prova e profira a sentença.
Duas espécies: legis actiones (ações da lei) e pelo processo das fórmulas (agere per
formulas).
Duas fases destes processos:
in iure – é presidida pelo magistrado que, depois de ouvir as alegações das partes,
concede ou denega a ação solicitada pelo demandante;

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apud iudicem – é presidida pelo juiz privado a quem incumbe emitir uma opinião
sobre o litigio depois de provados ou não provados os factos alegados.

Sistema das fórmulas


Fórmula: ordem que, por escrito, o pretor dirige ao juiz para condenar ou absolver o
demandado se provarem ou não determinado facto. Fixa os termos do litígio e
determina a atuação do juiz no julgamento do caso litigioso, em forma hipotética e
condicional.
Ex: “Se resulta (de prova feita) que Afonso deve dar dez ml sestércios a João, tu, juiz,
condenas Afonso a dar dez mil sestércios a João. Se não resulta, absolve”.
Cognitio extra ordinem
É um processo romano que, inicialmente, decorria junto do magistrado que, em
situações excecionais, conhecia a questão litigiosa, fazia a prova dos factos e decidia
através de um decretum.
Posteriormente, este processo difunde-se quando o Imperador, baseado na sua
autorictas, protege juridicamente algumas instituições que antes só possuíam sanção
moral e consagrou-se a possibilidade de qualquer cidadão apelar ao imperador em
relação a sentenças proferidas no processo das fórmulas.
Desde o século III este processo tornou-se o único.
Características:
- Decorre perante o magistrado que conhece e decide a questão litigiosa mediante a
sentença;
- Predomínio do papel do magistrado sobre o das partes, que apenas dão início ao
processo;
- Converte-se a administração da justiça numa função estatal, daí ser admitido a
appelatio da sentença para um funcionamento superior.
- O magistrado-juiz desempenha a sua função com grande margem de liberdade.

Em suma,
Ordo iudiciorum privatorum
 o magistrado declara se o demandante tem um direito, concedendo ou denegando a
actio – fase in iure
 um juiz privado aprecia a prova e profere a sentença – fase apud iudicem
 1. Leges Actiones (até 1300 Ac)
 2. Agere per formulas (até 230)

2º: A partir da época pós-clássica (230) surge outro processo:


Sistema cognitio extra ordinem: surge no inicio do Principado e acabou na época
pós-clássica por substituir definitivamente o sistema anterior.
A administração da justiça passa a tarefa exclusiva do Estado e às partes só pertence
iniciativa da instauração dos processos.
Desaparecem as duas fases anteriores, cabendo ao novo magistrado o desempenho de
funções anteriormente atribuídas a um magistrado e a um juiz privado.

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Autodefesa Ordo
ou autotutela  iudiciorum
privatorum
 Cognitio extra
ordinem

 O direito de punir é uma prerrogativa exclusiva do Estado.


 Os particulares apenas podem dar início ao processo para protegerem os seus
direitos.
 O magistrado acumula as funções do juiz privado.

3. Classificação das ações

Ação civil outorgadas pelo ius civile

Ação honorária concedidas pelos magistrados:


 ações do pretor, ações pretórias – actiones praetoriae;
 ações edilícias – actiones aediliciae, exemplos: ação redibitória
que responsabiliza o vendedor pelos vícios ou defeitos da coisa
vendida e permite que o comprador rescinda contrato; ação
estimatória, que concede ao comprador a possibilidade de exigir
a diminuição do preço.

Ação real Protege os direitos sobre coisas, faculdades que derivam de


relações familiares e direitos acessórios. Afirmação categórica e
absoluta de um direito, podendo ser intentada contra qualquer
pessoa que o lese.
 Ex: ação de reivindicação: permite ao proprietário recuperar a
posse da coisa que lhe pertence.
 Ex: ação negatória: permite ao proprietário contestar (ex: não
existe servidão de passagem)
 Ex: ação confessória: permite reconhecer (ex: existe servidão
de passagem)
 Ex: ação de petição de herança: permite ao herdeiro reclamar
bens hereditários

Ação pessoal Afirma-se uma obrigação assumida pelo demandado e, por isso
permitem apenas obrigar, por contrato ou delito, a dar (dare); a
fazer (facere), a não fazer (non facere) ou a prestar (praestare)

Ação mista São reais, porque podem ser intentadas contra pessoas
inicialmente indeterminadas; e pessoais, enquanto deduzem uma
obrigação do demandado
 Ex: ação de partilha de herança
 Ex: divisão de coisa comum

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Ação Reivindica-se uma coisa


reipersecutória Rei = coisa; persecutória = perseguir

Ação penal Reclama-se uma pena;


São ações
 intransmissíveis: só podem ser intentadas por quem sofreu o
delito e contra o seu autor
 noxais: quando o ato ilícito é praticado por escravos ou pessoa
sujeita à potestas do paterfamilias, este tem a faculdade de se
desobrigar, entregando o autor do delito ao demandante.
 cumulativas: se o ato ilícito for cometido por várias pessoas,
cada uma é obrigada a reparar o agravo cometido. Se um pagar
os outros não ficam desobrigados.

Ação mista Perseguem o valor a coisa e estabelecem uma indemnização do


dano sofrido que excede aquele valor.
 Ex: actio legis Aquiliae

Ação e boa fé Tutela um contrato de boa fé e permite ao juiz a apreciação, na


(Actio bonae determinação o conteúdo da obrigação, das circunstâncias
fidei) concretas que se verificam e considerar o que exigem, a cada uma
das partes, a lealdade, a honorabilidade e a fidelidade à palavra.
Ex: contratos de sociedade; fidúcia, compra e venda…
Ação de direito Protege contratos de direito estrito, ou seja, contratos que geram
estrito obrigações com um conteúdo bem determinado, cujo
cumprimento importa observar rigorosamente. O juiz deve
observar o que foi acordado sem considerar alguma circunstância
que possa ter influenciado o conteúdo da obrigação.

Ação direta É uma actio in personam que surge de um contrato


(actio directa)

Ação contrária É também uma ação pessoal, outorgada contra uma das partes
(Actio por obrigações que não surgem inicialmente, mas podem
contraria) eventualmente surgir mais tarde.
 Ex: Actio depositi/actio depositi contraria; actio
commodati/actio commodati contraria

4. Proteção jurídica extraprocessual


Nem sempre a atividade do magistrado se traduzia na concessão e na denegação da
actio (fase in iure) e na inspeção e fiscalização dos atos processuais (fase apud iudice).
Por vezes, com base na cognitio, este intervinha para facilitar o desenvolvimento do
processo ordinário – quer para instaurar a pax durante a tramitação processual e
mesmo, se possível, para evitar um verdadeiro litígio.
O pretor fazia uma apreciação prévia dos factos (causae cognitio) e depois decidia.
Se as partes não cumprissem as suas decisões, podia impor multas, autorizar alguém

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a apoderar-se de bens alheios (missio in possessionem), constituir pignoris capiones


e até recorrer à força pública (manu militari).
Meios de proteção extraprocessual:

STIPULATIO É um contrato solene, oral, formal e abstrato (stipulatio) imposto


PRAETORIA pelo pretor com base na sua cognitio.
Produz uma obrigação para o devedor e uma actio ex stipulatu para
o credor.
Visa proteger um interesse digno de tutela ou reparar um possível
prejuízo futuro.
Ex: stipulatio usurarum – contrati em que o pretor concedia o
stipulatio, o pretor obriga-se com o credor de pagar juros.

Restitutio in É um expediente utilizado pelo magistrado titular do poder de


Integrum imperium (pretor) que declara não reconhecer os efeitos a um facto
ou ato jurídico válido e eficaz segundo o direito civil, por motivos
de equidade
Nota: Fora do processo, o pretor corrige. Por motivos de equidade, o pretor
desconsidera-o.
Requisitos: para o pretor poder conceder um restitutio in integrum
- Existência de um dano
- Existência de uma causa justificativa
- Inexistência de meios jurídicos (acto, interdictum, …) que
permitam reparar o prejuízo sofrido.
O edictum do pretor apresenta as seguintes causas:
- Idade: menores de 25 anos em relação a atos lesivos.
- Ausência: é concedida a quem sofreu um prejuízo por se encontrar
ausente por motivos justificados  prometo algo, mas fico doente; não
posso comparecer para cumprir a promessa; o comprador vai comprar a outro
- Erro: concedida contra quem tenha cometido erro essencial em
matéria negocial ou processual  na minha cabeça, o cavalo parece X,
e depois apercebo-me que se trata de Y.
- Coação: beneficia quem tenha praticado um ato jurídico por ter
sido gravemente ameaçado (fisicamente ou mentalmente).
- Dolo: é concedida a quem realizou um ato jurídico em
consequência de um engano que viciou a sua vontade  pessoa
levada a acreditar em algo por terceiros
- Fraude a credores: beneficia os credores prejudicados por atos que
o devedor praticou com a intenção de fraudulentamente criar ou
aumentar a sua insolvência (= ficar sem bens)  meter a casa em nome
de outra pessoa para que desta forma não satisfaça o crédito

Missio in É o expediente em que um magistrado investido de imperium


possessionem autoriza uma pessoa a apoderar-se dos bens de outra.
Em regra, funciona como meio coativo provisório concedido em
casos muito diferentes.
Pode conter a faculdade de vender os bens a que se refere (missio
in possessionem cum venditione) ou limitar-se a conceder ao
interessado a custódia, a simples administração ou a posse dos bens.

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Interdictum Ordem sumária de caráter administrativo que um magistrado,


investido de imperium, dirige a uma pessoa para fazer ou não
determinada coisa.
Se for cumprido, o litígio fica momentaneamente resolvido, sem
prejuízo de a parte que o acata poder recorrer ao processo judicial
ordinário.
Se não for respeitado, quem o solicitou e obteve ver-se-á na
necessidade de intentar um processo ordinário onde deve provar a
desobediência e procurar que seja cumprido.
Proibitórios: proíbem determinado comportamento
Restitutórios: ordenam que uma coisa seja restituída a determinada
pessoa
Exibitórios: ordenam que uma pessoa ou coisa seja exibida ou
apresentada a uma pessoa

Direito das Obrigações

Em 27 de setembro de 105, Otacilius, paterfamilias, deu em locação a


sua escrava Eunice a Salonius, pela quantia de 100 sestércios semanais.
Convencionaram expressamente que Salonius poderia usar a escrava,
mas apenas como companheira sexual. Eunice implorou a Otacilius que
a não entregasse, que acedeu ao seu pedido. Salonius, perante tal recusa,
recorreu ao pretor para efetivar os seus direitos.
Quid iuris?
Este contrato gerou a obrigação de o primeiro entregar a escrava ao segundo.
1. Obrigação (obligatio) é um vinculo jurídico por força do qual estamos adstritos a
pagar alguma coisa a alguém, segundo os direitos da nossa cidade.
«A essência das obrigações não consiste em que alguém faça nossa uma coisa ou uma
servidão, mas em constranger alguém a dar, fazer ou prestar alguma”.
A obligatio clássica é um vínculo jurídico (e já não um vinculo da pessoa, um
apoderamento da pessoa vinculada pelo credor, como sucedia na época arcaica, pelo
menos até ao séc. IV a.C.) um vinculum iuris, que tem a especifica função de
constranger o devedor à realização da prestação, não constituindo, por isso, um fim
em si mesmo.
2. Objeto da obrigação:
- dare: constituir ou transferir um direito real
- facere: realizar uma atividade que não se traduza num dare. Pode consistir também
numa abstenção (non facere).
- praestare: identifica-se com dare e facere, mas designa especialmente a assunção
de garantia de uma obrigação.
O devedor está adstrito a dar, fazer ou prestar algo.
A realização dessa prestação é um ato conforme ao ius (ou iura) populi romani, ao
direito próprio do povo romano, que é denominado ius civile, precisamente por ser o
ius proprium civitatis, e se contrapõe (como vimos) ao ius gentium.

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Diferença em face ao direito real: mesmo quando o seu objeto (mediato) é uma coisa,
esta só é obtida pelo credor em consequência do comportamento adotado pelo devedor;
aquele não tem um direito sobre a coisa.

Artigo 397º CC: Obrigação é o vinculo jurídico por virtude do qual uma
pessoa fica adstrita para com a outra à realização de uma prestação.

3. Requisitos de validade da prestação:


 Possibilidade (física e jurídica): a obrigação com o objeto impossível era nula; o
contrato de que nascia a obrigação era considerado inútil.
 O comportamento do sujeito passivo deve ser possível física e juridicamente.
Ex: Promessa de dar um escravo que tenha falecido – impossibilidade física
Ex: Promessa de dar uma coisa divina ou não apropriável por um particular –
impossibilidade jurídica.
 Licitude: o objeto da obrigação tinha de ser conforme ao direito (e à moral) ou não
ser contrário àquele ou a esta; se fosse ilícito a obrigação seria nula.
 Ex: Promessa de vender um escravo que não me pertence.
 Determinabilidade: o objeto da obrigação devia estar determinado ou, pelo menos,
ser determinável (segundo critérios definidos).
 é necessário saber em que consiste o comportamento ou os critérios para o
determinar.
 Patrimonialidade: o objeto da obrigação devia ter valor patrimonial, isto é, ser
suscetível de avaliação em dinheiro (ter uma utilidade económica)

Fontes das Obrigações


1. Noção
São os factos de que provêm as obrigações (dos quais nascem as obrigações). No
direito clássico denominavam-se tipicidade de factos.

2. Classificação
- Contrato/delito;
Inst. De Gaio III,88: «Passamos agora às obrigações. A sua principal divisão
faz-se em duas espécies: pois toda a obrigação nasce de contrato ou de delito.”
- Contrato/malefício (delito)/várias figuras de causas;
D.44,7,1pr: «As obrigações nascem de contrato, de malefício (=delito) ou por
certo direito próprio segundo as várias figuras de causas.»
- Contrato/delito/quase contrato/quase delito
l.13,13,2: «A divisão seguinte (das obrigações) faz-se em quatro espécies: pois
elas provêm de contrato, ou de quase contrato, de delito ou de quase delito»

3. O contrato (contractus) como fonte das obrigações


Noção: em sentido amplo, é um acordo de duas ou mais pessoas, dirigido à produção
de efeitos jurídicos. Em sentido mais restrito, é uma convenção de que nascem
obrigações (para uma ou ambas as partes) e os correspondentes direitos de crédito.

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Ademais, na base dos contratos como fontes das obrigações está uma longa evolução.
Depois desta evolução, é possível definir contrato como o acordo de vontades de duas
ou mais pessoas que, obedecendo a esquemas fixados pelo direito civil, visa constituir
uma relação jurídica obrigacional.

Os contratos são constituídos pelos seguintes elementos:


a) causa: é o fim que o direito civil reconhece como social e economicamente
digno de proteção;
b) conventio (ou consensus): é o acordo das partes, cujas vontades convergem
para o fim que constitui a causa fixada pelo direito civil ao contrato utilizado.
Contraposição entre o contrato e o pacto (pactum) – que não produz qualquer
obrigação (só exceção – a exceptio), nem ação (actio); tem eficácia meramente
negativa.
Modos de assegurar o seu conteúdo: exceptio pacti e actiones bonae fidei

Classificação romana dos contratos


- Reais (obligationes re contractae)
- Consensuais (obligationes consensu contractae)
- Verbais-orais (obligationes verbis contractae)
- Literais (obligationes litteris contractae)

Contratos Caracterizam-se pelo facto de só uma das partes se obrigar a fazer


unilaterais uma prestação. Constituem exemplos o mútuo (mutuum)

Contratos Também chamados Perfeitos: havia obrigações para ambas


bilaterais sinalagmáticos, cada as partes desde a realização do contrato
uma das partes obri-
ga-se, em relação à Imperfeitos: os contratos em que a
outra, a realizar a sua obrigação de uma das partes não surge
prestação. São exem- inicialmente, mas pode surgir durante a
plos a compra e venda sua vigência. Constituem exemplos o
(emptio-venditio); a comodato; o deposito; o penhor; o
locação (locatio-con- mandato.
ductio)
Em relação aos contratos bilaterais aplica-se o princípio de que quem não satisfaz a
sua prestação não pode exigir que a outra parte satisfaça a sua = este princípio está na
base da doutrina moderna exceptio non adimpleti contractus.

Contrato de boa São protegidos por ações de boa fé (actiones bonae fidei).
fé Portanto, o juiz deve apreciar todas as circunstâncias que tenham
ocorrido e considerar tudo o que é exigível entre pessoas jusras e
leais. São exemplos a compra e venda, a locação, a sociedade, o
deposito, etc.

Contrato de di- São tutelados por ações de direito estrito (actiones stricti iuris) e,
reito estrito portanto, o juiz deve observar rigorosamente o que foi acordado
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sem atender a qualquer circunstância que tenha influenciado o


conteúdo da obrigação. Serve de exemplo a stipulatio.

Contratos Criam, para ambas as partes, obrigações que se equivalem ou


onerosos equilibram: à perda patrimonial que uma sofre na realização da
sua prestação corresponde a perda patrimonial da outra. São
exemplos a compra e venda e a locação.

Contratos Só criam para uma das partes uma perda patrimonial em


gratuitos beneficio da outra. Constituem exemplos a doação e o depósito.

Contratos Reais
1. Noções gerais
Contrato real é aquele a cuja perfeição não basta o acordo (conventio) entre as partes
para produzir efeitos jurídicos: é também necessária a prática de certo ato material
(datio ou traditio) em relação à coisa que se refere.

Observa-se, no entanto, uma importante diferença nas institutiones de Gaius e do


Imperador Justiniano: enquanto naquelas ao contrato real é essencial a transferência
de propriedade (datio) da coisa, nestas caracteriza-se pela transferência ou da
propriedade (datio) ou da posse (traditio) ou da simples detenção de uma coisa para
uma finalidade que pode ser o consumo (mutuum), a custódia (depositum), o uso
(commodatum) ou a garantia duma obrigação (pygnus).

2. Mútuo (mutuum)
Noção: contrato real e unilateral através do qual uma pessoa, que recebe de outra a
propriedade de determinada pecunia ou de outras coisas fungíveis, se obriga a restituir
igual quantidade do mesmo género e qualidade (tantudem).

Elementos essenciais:
 Datio rei: transferência da propriedade de determinada pecunia ou de outras coisas
igualmente fungíveis (transferência da propriedade cas coisas);
 Conventio: é o acordo das partes cujo objeto consiste na restituição da pecunia ou
de coisas da mesma natureza, qualidade e quantidade.

O mútuo é um contrato gratuito (regra):


Por isso, não produz juros; o mútuo não deve restituir mais do que recebeu. A eventual
obrigação de pagar juros não resulta do mútuo, mas de outra relação inicialmente
criada por um contrato formal (stipulatio usurarum) e, provavelmente a partir da
época clássica, por um contrato literal.

Exceções à natureza gratuita do mútuo (ou seja, casos em que o mútuo era oneroso)
1. mútuo de mercadorias
2. mútuo concedido por cidades
3. mútuo realizado por bancos

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4. Foenus nauticum: também designado por pecunia traiecticia, é o empréstimo,


muito frequente nas populações mediterrânicas, feito a armadores ou comerciantes
para que, enfrentando o risco da navegação, realizem operações comerciais em
territórios situados na outra margem do mar. O devedor obriga-se a restituir a pecunia
mutuada depois da chegada das mercadorias ao destino; o risco onera o mutuante e,
por isso, os juros acordados são, em regra, elevados; e as mercadorias transportadas
ou o próprio navio garantem a dívida.

Tutela – quanto às ações que tutelam as partes, ano existe uma actio particular.
Mutuante:
- actio certae creditae pecuniae: se o mútuo consistisse em dinheiro
- condictio certae rei: se o objeto do mutuum fosse outra coisa fungível

Em suma,
 Elementos essenciais:
1. Datio Rei (transferência de propriedade)
2. Conventio (acordo das partes)
 Características:
 Real, unilateral e gratuito
 A eventual obrigação de pagar juros terá de decorrer de uma Stipulatio
Usurarum
 Exceções à gratuidade do mútuo:
 Mútuo de mercadorias
 Mútuo concedido por cidade
 Mútuo concedido por bacos
 Foenus nauticum
 Meios de tutela:
 actio certae creditae pecuniae, se o objeto do mutuo fosse dinheiro
 condictio certae rei, se o objeto do mútuo fosse outra coisa fungível

3. Fidúcia
Noção: contrato em que uma pessoa (fiduciante), utilizando um negócio jurídico
formal (mancipatio ou in iure cessio), transfere a propriedade de uma coisa para outra
pessoa (fiduciário), que se obriga a restituí-la depois de realizado o fim definido num
acordo não formal designado pacto de fidúcia (pactum fiduciae)

Criação e desaparecimento: criada provavelmente no século IV a.C, desapareceu


formalmente no direito justinianeu – foi suprimida dos textos conservados no Digesto
que a ela se referiam, os quais passaram a referir-se ao penhor, ao comodato, etc.)

Espécies: a fidúcia foi aplicada para a satisfação de várias finalidades:


1. Fiducia cum creditore – destinava-se a garantir uma obrigação. O garante
(fiduciante) transferia a propriedade de uma coisa ao credor (fiduciário) que se
obrigava a restituir depois da satisfação do seu crédito.

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2. Fiducia cum amico: realizada com um amigo, para alcançar diversas finalidades,
nomeadamente, a que viria a ser a do comodato, quando foi criado (= transferia a
propriedade de uma coisa a uma pessoa leal, com vista à prossecução de diversos fins)

Tutela das partes:


- Fiduciante - no caso de o fiduciário não cumprir a obrigação de restituir a
propriedade da coisa: actio fiduciae (que era uma ação pessoal);
- Fiduciário – quanto às despesas efetuadas com a coisa e aos danos eventualmente
produzidos por ela: actio fiduciae contraria.

Destacamos:
1. A constituição de deposito (depositum): antes do reconhecimento deste contrato, o
fiduciante transferia a propriedade de uma coisa ao fiduciário para guardar e restituir
decorrido o prazo determinado ou a pedido do fiduciante;
2. Constituição de comodato (commodatum): antes de este contrato ser reconhecido,
o fiduciante transferia a propriedade de uma coisa ao fiduciário, para usar e restituir
decorrido o prazo ficado ou depois da utilização prevista.

Como referimos, o fiduciante era protegido pela actio fiduciae (dita directa) e o
fiduciário pela actio fiduciae (dita contraria), através da qual podia reclamar os gastos
feitos na res e ressarcir-se dos danos eventualmente causados.

4. Depósito
Noção: (na época clássica) é um contrato bilateral imperfeito e de boa fé, em que uma
pessoa (depositante) entrega a outra (depositário) uma coisa móvel para que a guarde
e restitua num determinado prazo ou quando o depositante pedir.
Nota: na época justinianeia admitiu-se que o depositante se obrigasse a pagar uma quantia módica
pela guarda da coisa (nesse caso, o contrato era oneroso e bilateral perfeito).
A gratuidade é um elemento essencial. Se houver uma retribuição atribuída ao
depositário pela custodia da coisa passa a ser, por exemplo, uma locação.

Posição jurídica do depositário: O depositário como mero detentor. O depositário tem


a simples detenção da coisa que só lhe é confiada para custódia. Portanto, não a pode
usar sob pena de cometer um furto de uso (furtum usus), e deve restituí-la nas mesmas
condições em que a recebeu com todos o frutos e acessões. Se se apropriar da coisa
incorre no furtum nec manifestum, punível com uma ação na qual será condenado no
dobro do seu valor.
Para recuperar a coisa depositada, o depositante é tutelado pela actio depositi (directa).
Por sua vez, o depositário goza da actio depositi (contraria) que lhe permite ser
indemnizado dos gastos feitos com a conservação da coisa depositada e dos danos que
lhe causou. Acresce o direito de retenção (ius retentionis – permite ao depositário não
restituir a res enquanto não fosse reembolsado) enquanto não for ressarcido.

A responsabilidade do depositário por perda ou deterioração da coisa depositada


depende:

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a) na época clássica, somente de dolo, por se entender que deposito, sendo gratuito,
nenhuma utilidade lhe oferecia. No entanto, responde se não observou a diligencia
que o homem médio teria observado naquelas circunstâncias (fala-se de culpa levis
ou in abstracto), nas seguintes hipóteses: se se assumiu esta responsabilidade num
pacto especial; se se ofereceu para guardar a coisa; ou se o depósito foi feito no seu
interesse exclusivo.
b) na época justinianeia, basta que atue com negligencia excessiva, ou seja, sem a
observância da mais elementar prudência que todos estamos sujeitos (fala-se de culpa
lata)

Obrigações do depositário:
- Obrigação de guardar a coisa sem a deteriorar;
- Obrigação de a restituir nas condições em que a tinha recebido, com todos os frutos
e acessões.

Eventuais obrigações do depositante:


- Obrigação de reembolsar ao depositário as despesas por este feitas com a
conservação da coisa;
- Obrigação de ressarcir (indemnizar) os danos (prejuízos) que lhe fossem causados
pela coisa.

Tutela do depositante e do depositário:


O depositante (no caso de o depositário não cumprir a obrigação de restituir a coisa
cuja guarda lhe tinha sido confiada, ou de a ter deteriorado) gozava de actio depositi
(directa), que era uma ação de boa fé.
O depositário (quando realizasse despesas com a conservação da coisa depositada ou
que esta lhe causasse prejuízos) era tutelado com a actio depositi contraria; e tinha o
direito de retenção da coisa (ius retentionis), enquanto o depositante não procedesse
ao devido reembolso.

Figuras especiais:
Depósito necessário: mais tarde dito miserável, é o deposito feito em situações
excecionais que não permitem que o depositante escolha livremente o depositário.
Ocorre, v.g., quando há um incendio, um naufrágio, uma sublevação, etc. Se o
depositário recusar restituir a coisa depositada, a sua responsabilidade é agravada: o
depositante dispõe duma actio depositi, na qual aquele será condenado o dobro do seu
valor.
Sequestro: sequestrum, é o deposito de uma coisa litigiosa feito entre vários litigantes
e um terceiro (sequester) da sua confiança, que se obriga a guardar e a entregar a quem
vence o litigio ou vier a encontrar-se nas condições estabelecidas pelos depositantes.
O depositário é considerado possuidor (não simples detentor, como no deposito
regular) e, portanto, goza da proteção que lhe é dada pelos interdicta possessórios.
Depósito irregular: é o deposito que se traduz na transferência da propriedade de
coisas fungíveis, obrigando-se o depositário a restituir outro tanto do mesmo género
e qualidade a pedido do depositante. Durante muito tempo, a iurisprudentia romana

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considerou estes contratos mútuos. Todavia, quiçá por influencia da pratica oriental e
para ultrapassar as dificuldades que o mutuo, porque gratuito, causava às exigências
comerciais, acabou por configurá-los como depósitos, estendendo-lhes a sua tutela
judicial e a vantagem de o depositante poder exigir juros mesmo não estipulados.

5. Comodato
O comodato é um contrato bilateral imperfeito e de boa fé, em que uma pessoa
(comodante) entrega uma coisa móvel ou imóvel a outra pessoa (comodatário) para
que a use gratuitamente, durante certo tempo e segundo o modo acordado, e a restitua.
Como sucede no depósito regular, o comodatário é simples detentor – a propriedade
e a posse pertencem ao comodante.
Tratando-se de empréstimo de uso, o comodato tem por objeto coisas não consumíveis
(isto é, coisas que não deixam de existir com o seu uso), embora não se afaste a
possibilidade de incidir sobre coisas consumíveis se intervierem como específicas,
v.g., para que, no caso de moedas, seja objeto de estudo e posterior restituição.
O comodante é protegido com a actio commodati.
Obrigações do comodatário: o comodatário obriga-se a:
- usar a coisa segundo o que for acordado ( furto de uso)
- não deteriorar a coisa
- restitui-la nas mesmas condições em que a recebeu
Quanto à responsabilidade do comodatário importa distinguir:
a) Na época clássica, rem por base a custodia e, por isso, a coisa se for roubada,
responde perante o comodante e, em consequência, pode demandar o ladrão
com a ação de furto.
b) Na época justinianeia, só responde se não observar a diligencia que o homem
medio teria observado naquelas circunstâncias (culpa levis)
ou
Se o comodato fosse realizado no interesse exclusivo do comodante – a
responsabilidade depende de dolo ou para satisfazer um interesse comum – responde
se no observar a diligencia que habitualmente observa e, portanto, lhe é próprio (fala-
se de culpa in concreto)

Quanto ao comodante:
 é obrigado a reembolsar os gastos necessários que o comodatário tenha feito para
conservar a coisa
 é obrigado a indemnizar o comodatário dos danos eventualmente causados
Por isso, o comodatário goza da actio commodati contraria e à pretensão do
comodante pode opor o direito de retenção (ius retentionis)

6. Penhor
 contrato bilateral imperfeito, em que uma pessoa entrega a outra uma coisa para
garantir uma obrigação própria ou alheia.
O credor da obrigação garantida (aqui devedor) torna-se detentor, mas em nome do
devedor a obrigação principal (aqui credor) que mantém o dominium sobre a res, logo
aquele não podia adquirir a coisa por usucapião.

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A perfeição deste contrato depende da entrega da coisa (traditio rei).


Produz duas relações distintas:
1. Um direito sobre a coisa (ius pignoris) a favor do credor da obrigação que se
pretende garantir;
2. A obrigação do credor da obrigação principal de conservar e restituir a coisa
depois da extinção da obrigação garantida.
No caso de a coisa ser vendida por incumprimento da obrigação, o credor deve
restituir o excedente do preço.
O garante obriga-se a ressarcir os danos e as despesas feitas na conservação da coisa
empenhada.
Na época clássica, o credor da obrigação principal respondia por custodia = atividade
de uma pessoa particularmente diligente.
Na época justinianeia, a sua responsabilidade depende de culpa levis: inobservância
da diligencia que o homem médio teria observado naquelas circunstâncias.
O devedor da obrigação principal goza contra o garantido (credor da obrigação
garantida) = actio pigneraticia, se o credor se recusasse a restituir a coisa penhorada,
o que lhe permitia obter o valor da coisa mas não a sua restituição, visto ser uma action
in personam.
O Garantido (credor da obrigação garantida) = dispunha de uma actio pigneraticia
contraria + ius retentionis. Para recuperar a res de que um terceiro se tenha apoderado
= actio pigneraticia in rem.

Situação jurídica do credor penhoratício:


 Tornava-se um titular de um direito real, um direito sobre a coisa que lhe era
entregue;
 Recaíam sobre ele as obrigações de conservação da coisa – objeto do contrato – e
de proceder à sua restituição com os devidos frutos e acessões, no caso de o devedor
cumprir a obrigação garantida.
 Na eventualidade de a obrigação garantida não ser cumprida pelo devedor, o credor
penhoratício podia obter a satisfação do seu rédito com a própria coisa empenhada (a
partir de determinada altura, através da venda dessa coisa, tendo de dar ao garante
parte do valor obtido que excedesse a divida garantida – superfluum ou hiperocha)
Eventuais obrigações do garante:
 obrigação de reembolsar ao credor penhoratício as despesas por este feitas com a
conservação da coisa;
 obrigação de ressarcir (indemnizar) os danos (prejuízos) que fossem causados ao
credor penhoratício pela coisa (e pelo próprio garante)
Tutela das partes
 O pretor concedia ao garante uma actio in factum, denominada actio pigneraticia
in personam contra o credor penhoratício, se este não cumprisse a obrigação de
restituir a res (também no caso de não lhe dar o superfluum)
 Para responsabilizar o garante que não efetuasse o reembolso das despesas feitas
pelo credor penhoratício, nem ressarcisse os danos por estes sofridos, o credor
penhoratício gozava da actio pigneraticia contraria (também in personam) e do
direito de retenção.

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 Se, porventura, um terceiro privasse o credor penhoratício da posse da res, este


dispunha da actio pigneratcia in rem (real), para recuperar a coisa (a fim de a poder
restituir ao garante), e dos interditos possessórios.

Contratos Consensuais
Noção: caracterizam-se pelo facto de a sua perfeição depender unicamente do acordo
das partes, que pode manifestar-se de qualquer modo; portanto, não é necessária uma
forma determinada, como nos contratos verbais e literais, nem a entrega da coisa,
como nos contratos reais.
Origem provável: no direito das gentes, ius gentium
Modos de conclusão: entre presentes ou, estando ausentes os contraentes,
representados por um núncio (nuntius) ou através de carta (per epistulam)
Rescisão: também mediante acordo, em sentido contrário (contrarius consensus)
Enumeração:
 1. A compra e venda (emptio-venditio)
 2. A locação (locatio-conductio)
 3. A sociedade (societas)
 4. Mandato (mandatum)

1. Compra e Venda (emptio-vendittio)


Noção: na época clássica, era um contrato consensual, bilateral perfeito (ou
sinalagmático) e de boa fé pelo qual uma pessoa (o vendedor) se obrigava a transferir
para outra (o comprador) a posso pacifica de uma coisa (obrigação de entregar),
enquanto este se obrigava a dar àquela uma determinada quantia em dinheiro,
designada preço (pretium).
Na época pós-clássica (a partir do sec. IV) admitiu-se a possibilidade de operar
imediatamente a transferência da propriedade da coisa vendida, desde que o preço
fosse efetivamente pago.
Na época justinianeia, obriga-se o vendedor a transferir a propriedade da coisa
vendida (e não a posse) e, ao comprador, a pagar o preço. Para a propriedade se
transmitir ao comprador, é necessário que este pague o preço correspondente.
Efeitos:
 Na época clássica (como resulta da noção dada), a compra e venda apenas tinha
efeitos obrigacionais (dela nasciam obrigações para ambas as partes, desde o
momento da realização do contrato);
 Na época pós-clássica (a partir do sec. IV) houve um período em que se admitiu a
transferência da propriedade da coisa como efeito imediato desse contrato (eficácia
real);
 Na época justinianeia, porventura devido ao classicismo de justiniano, a compra e
venda voltou a ter efeitos meramente obrigacionais (produzia somente obrigações,
não operando a transmissão da propriedade).

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Transferência da propriedade vendida


Na época clássica Na época justinianeia
Tratando-se de res mancipi, a Devido ao desaparecimento da distinção
propriedade era transmitida (adquitida) entre res mancipi e res nec mancipi e dos
mediante mancipatio ou in iure cessio; negócios solenes referidos, a
Quanto às res nec mancipi, exigia-se a transferência da propriedade efetuava-se
traditio (entrega), precedida de uma mediante a realização da compra e venda
justa causa (iusta causa), que era, (que era a iusta causa) e da entrega
nomeadamente, a compra e venda. (traditio), ficando sujeita à condição
 Só a conjugação da justa causa e da jurídica do pagamento do preço.
entrega operava a transmissão da
propriedade
Na transmissão da propriedade de res nec mancipi no direito clássico e na transmissão de
qualquer coisa no direito justinianeu tem a usa origem o «sistema do titulo e do modo», que se
contrapõe ao «sistema do título» e ao «sistema do modo»

Elementos essenciais (do contrato) da compra e venda:


 Conventio (convenção, acordo de vontade das partes): que era suficiente para que
o contrato produzisse os seus efeitos
 Res (coisa que era objeto do contrato e cuja posse pacifica o vendedor se obrigava
a transferir para o comprador): a compra e venda pode incidir sobre coisas corpóreas
e não corpóreas, presentes e futuras. No caso de coisas futuras, se o vendedor não
estiver em condições de transferir a propriedade, incorre na obrigação de ressarcir o
comprador.
 Pretium (preço, quantia de dinheiro que o comprador se obrigava a dar ao
vendedor): para os sabinianos, podia ser constituído por qualquer coisa; para os
Proculeianos (opinião que prevaleceu) “o preço deve consistir em numerata pecunia,
caso contrário estaremos perante uma permuta. O preço deve também ser certo, ou
seja, determinado no momento do acordo ou determinável perante circunstancias
objetivas.
 Na época justinianeia, deve ser justo e, em consequência, se um imóvel for
vendido por preço inferior a metade do seu justo valor, o vendedor pode pedir a
rescisão da venda, a menos que o comprador prefira pagar a diferença que falte para
o pretium iustum.

Obrigações do vendedor
 Transferir a posse live e pacífica da res (que se deve encontrar livre de vícios e não
ser precária), é a obrigação fundamental do vendedor.
 Responde por evicção: depois de transferir a posse livre e pacifica para o comprador,
o vendedor respondia por evicção sofrida pelo comprador em consequência de uma
sentença que reconhecesse a um terceiro o direito sobre a coisa, privando o comprador
da posse.
 Comprador demandado devia exigir a presença do vendedor no processo para o
defender. Se se recusasse ou não evitasse uma sentença desfavorável o comprador
podia demanda-lo com a actio auctoritatis (=condenação no dobro do preço pago).

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 Cuidar da coisa vendida até à sua entrega, embora se exija que observe a diligencia
de um homem normal, ou seja, só responde se atuar com culpa levis (ou in abstrato)
 Contudo, se a res fosse destruída ou deteriorada por caso fortuito ou força maior,
o comprador mantinha a sua obrigação de pagar o pretium e, em contrapartida, tinha
direito às acessões e frutos desde a conclusão do contrato até à entrega da res.
 Responder por vícios ocultos da coisa vendida. Se os defeitos não declarados se
manifestarem depois da compra e venda, o comprador pode demandar o vendedor
(mesmo que este não tenha atuado com dolo) com ações ditas edilícias (actiones
aediliciae), se estiver em causa vícios ocultos de escravos e animais estas ações são
concedidas pelo edil curul:
 A actio redhibitoria: produz a resolução da compra e venda e a condenação do
vendedor no pagamento do dobro do preço recebido, a menos eu queira restituir o
preço com juros, caso em que seria condenado apenas o preço. Esta actio deve ser
intentada no prazo de dois meses a partir do momento em que o direito se revele.
 A actio aestimatoria (ou quanti minoris): permite que o comprador obtenha a
diminuição do preço proporcionalmente ao valor menor que a coisa tem em
consequência do vicio que a afeta. Deve ser instaurada no prazo de seis meses a partir
do momento em que o defeito se revele. Se o vendedor tivesse garantido a inexistência
de vícios, o prazo era de um ano útil, a contar da realização do contrato.

Obrigações do comprador:
 Obrigação de pagar o preço convencionado, está obrigado ao pagamento de juros
se não pagar o preço no prazo acordado, contados desde a entrega da res.
 Obrigação de receber a coisa a pedido do vendedor, se se recusar tem de ressarcir
os danos causados pelo atraso.
 Obrigação de reembolsar o vendedor pelos gastos feitos para conservar a coisa.
 Obrigação de responder pelo risco, embora não seja ainda proprietário, se a coisa
vendida, ainda em poder do vendedor, fosse destruída ou se deteriorasse por caso
fortuito ou foça maior, o comprador mantinha a sua obrigação de pagar o preço. O
vendedor era então obrigado a entregar ao comprador o que restasse da res =
periculum est emptoris.

Relação de interdependência entre as obrigações do vendedor e do comprador


Na falta de um termo para o cumprimento das obrigações, qualquer contraente não
pode exigir do outro a execução da obrigação que lhe corresponde sem, ao mesmo
tempo, se disponibilizar a cumprir a sua  exceptio non adimpleti contractus

Tutela das partes (ações de boa fé)


 Comprador:
 Actio empti
 Actiones aediliciae (para vícios ocultos)
 Actio auctoritatis (responder por evicção)
 Vendedor
 Actio venditi

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2. Locação (locatio-conductio)
Noção: era um contrato consensual pelo qual uma pessoa se obrigava a proporcionar
a outra o gozo temporário de uma coisa, a prestar-lhe determinados serviços ou a
realizar uma obra, mediante o pagamento de uma remuneração (merces).
 Locação de coisa (locatio conductio rei)
 Locação de trabalho (locatio-conductio operarum)
 Locação de obra (locatio-conductio operis)

Elementos essenciais
 Consensus (consenso, acordo) das partes;
 Objeto: pode ser uma res que o locatário deve usar segundo o modo acordado
durante um certo tempo; uma atividade laboral, que o locador deve realizar no tempo
acordado; ou uma res que o locador entrega ao locatário para fazer uma determinada
obra.
 Merces: é a contraprestação devida pelo uso da res, trabalho ou obra realizada.
 Tempo: fixado ou, no aso da locação de obra, resultante do tipo de obra a realizar).

Locação de coisa
Contrato consensual pelo qual uma pessoa (locador) se obrigava a proporcionar a
outra (locatário) o gozo temporário de uma coisa mediante o pagamento de uma
retribuição (merces).
Obrigações do locador:
 Proporcionar ao locatário (conductor) o gozo livre da coisa locada, durante o tempo
e nas condições acordadas;
 Fazer as reparações necessárias para evitar a deterioração ou destruição da coisa;
 Reembolsar ao locatário os gastos em despesas feitas com reparações necessárias.
Obrigações do locatário:
 Pagar a renda convencionada;
 Restituir a coisa findo o prazo estabelecido;
 Ressarcir o locador dos danos causados na coisa locada.

Notas:
A responsabilidade das partes depende de culpa levis (ou in abstrato)
O risco onera o locador.
Tratando-se de prédio agrícola, se os frutos forem destruídos ou gravemente
afetados por força maior (vis maior), o arrendatário pode obter a liberação ou
diminuição da renda.

Legitimidade para realizar o contrato de locação:


 Proprietário da coisa
 Usufrutuário;
 Possuidor;
 Locatário – na sublocação.

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Posição do locatário quando o locador não fosse proprietário: como mero detentor, o
locatário estava sujeito a ser provado do gozo da coisa, se esta fosse reivindicada pelo
dominus. Nessa eventualidade, o locatário apenas podia obter uma indemnização do
locador (pelos prejuízos sofridos).

Efeito da venda da coisa locada em relação ao contrato de locação: o principio emptio


tollit locatum (a compra suprime a locação)
Referencia ao princípio oposto: emptio non tollit locatum

Causas da caducidade da locação:


 Destruição material da coisa locada;
 Cumprimento do prazo estabelecido;
 Extinção do usufruto.

Causas de resolução do contrato de locação pelo locador:


Falta de pagamento da renda pelo locatário durante dois anos;
 Abuso ou deterioração da coisa locada pelo locatário;
 Necessidade (por parte do locador) de habitar a casa ou desejo de a reformar
Causas de resolução do contrato de locação pelo locatário:
 Atraso na entrega da coisa locada por parte do locador;
 Existência de defeitos da coisa que impedissem, limitassem ou dificultassem a sua
utilização;
 Receio fundado de um perigo (por ex., de ruína da casa).
Critério geral: se uma das partes não cumpre as suas obrigações, à outra é permitido
resolver o contrato.

Locação de trabalho
Noção: o locador obrigava-se a pôr a sua atividade laboral ao dispor do locatário
durante determinado tempo (normalmente, durante certo número de dias), mediante o
pagamento da merces.
 Extinção da locatio-conductio operarum com a morte do locador.
 Dispensa de prestação das operae pelo locador em caso de doença (sem obrigação
de pagamento da merces por parte do locatário).

Locação de obra
 O locatário obrigava-se a realizar a obra acordada com o locador e a proceder à sua
entrega ao locador no prazo fixado (ou naquele que fosse exigido pela natureza dela);
 Era o locador que tinha a obrigação de pagar uma retribuição (merces) ao locatário
– além da obrigação de entregar a res a este, para a realização da obra.
 A possibilidade de a obra ser realizada por operários (no caso de o contrato não ter
sido celebrado em atenção às qualidades do locatário).

Tutela das partes na locação (ações de boa fé)


 Actio locati, concedida ao locador;
 Actio conducti, concdida ao locatário.

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3. Sociedade (societas)
Noção: era o contrato consensual e de boa fé pelo qual duas ou mais pessoas (os sócios
– socii) se obrigavam a pôr em comum determinados bens ou o seu trabalho, com
vista à prossecução de um fim patrimonial comum. Inspira-se a fraternidade que
justifica a incomunicabilidade da sociedade; revogabilidade por qualquer socio;
extinção por morte de um sócio.

Elementos essenciais
 Consenso – não bastava que o consenso existisse no momento da conclusão do
contrato; a vontade de ser sócio (affectio societatis) tinha de ser permanente; a sua
falta determinava a extinção da sociedade.
 Objeto – coisas (res), atividade laboral, manual ou intelectual (operae), ou coisas
e atividade laboral (remissão).
 Finalidade – interesse que os sócios visavam prosseguir em comum (remissão).

Objeto da sociedade e tipos desta:


 Coisas (por ex., um armazém para guardar cereais, veículo para os transportar, etc.):
sociedade de coisas (societas rerum);
 Atividade laboral (manual ou intelectual) dos sócios – sociedade de trabalho
(societas operarum);
 Coisas (de algum ou alguns dos sócios) e atividade laboral (de outro ou outros) –
sociedade mista (societas mixtae).

Finalidade e suas características:


 a finalidade era a realização de um interesse comum aos sócios; devia ser lícita (não
podendo ser contrária ao direito e à moral) e traduzir-se numa utilidade ou vantagem
patrimonial para todos os sócios.

A proibição da societas leonina (cfr. D.17,2,29,1) – «pacto leonino», na terminologia


atual: não era permitido que o ganho (lucro) revertesse só para algum ou alguns dos
sócios e as perdas só para outro ou outros; a «sociedade leonina» era nula.
A possibilidade de repartição desigual dos ganhos e das perdas – por ex., dois terços
dos ganhos e um terço das perdas, para um determinado sócio. A favor esteve Servius
Sulpicius Rufus – ainda que somente em determinados termos; contra, manifestou-se
Quintus Mucius Scaevola).
Proibição do pacto leonino: artigo 994º CC

Obrigações de cada um dos sócios:


 Contribuir com a(s) coisa(s) ou trabalho, nos termos convencionados;
 Responder por evicção e pelos vícios ocultos da(s) coisa(s) entregues;
 Gerir os negócios sociais de acordo com os fins da sociedade;
 Participar nas perdas.

A responsabilidade dos sócios depende de culpa in concreto: deve empregar a


diligencia que lhe é própria.

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Direitos de cada um dos sócios:


 Direito ao reembolso das despesas feitas e ao ressarcimento dos danos resultantes
da sua gestão;
 Participação nos ganhos (por igual, independentemente da contribuição de cada um,
exceto se fosse convencionada diferente repartição).

Sociedade e terceiros
 como o contrato de sociedade não criava uma pessoa jurídica diferente dos sócios,
não havia relações jurídicas entre a sociedade e terceiros (isto é, pessoas diferentes
dos sócios), mas somente relações obrigacionais entre cada um dos sócios e os
terceiros (ações são concedidas a cada um daqueles e cada um destes); no direito
justinianeu admitiu-se, porém, que o terceiro demandasse outros sócios, desde que
tivessem obtido um enriquecimento.

Causas de extinção do contrato de sociedade:


 Decurso do prazo estabelecido;
 Realização do fim determinante da sua celebração;
 Perda do património social ou colocação fora do comércio das coisas que o
integram;
 Acordo de todos os sócios;
 Renúncia de um dos sócios;
 Morte ou capitis deminutio de um dos sócios;
 Exercício da actio pro socio (um sócio intenta esta ação contra outro sócio)
Com a extinção da sociedade, o condomínio dissolve-se, seguindo a liquidação e
divisão dos bens sociais.

Tutela dos sócios: cada um dos sócios dispunha da actio pro socio (de boa fé) para
responsabilizar os sócios que não cumprissem as obrigações estabelecidas no contrato.

4. Mandato (mandatum)
Noção: era o contrato consensual, bilateral imperfeito e de boa fé pelo qual uma
pessoa (o mandante) encarregava outra (o mandatário) de realizar uma certa atividade
no interesse do mandante, de um terceiro ou de qualquer deles e do mandatário, que
se obrigava a realizar essa atividade gratuitamente.

Finalidade: satisfação de um interesse do mandante, de um interesse de um terceiro


(pessoa diferente do mandante e do mandatário) ou de um deles e do mandatário (não
havendo mandato, mas simples conselho, se a atividade aproveitasse exclusivamente
ao mandatário).

Características da atividade que o mandatário se obrigava a realizar:


 Lícita;
 Determinada (podendo ser um ato jurídico ou determinados serviços – atos
materiais).

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 Não é necessário que consista num negócio jurídico: qualquer serviço pode ser
objeto de mandato, desde que gratuito.

Obrigações do mandatário (inicialmente só ele as tinha):


 Obrigação de cumprir o encargo de acordo com as instruções do mandante (ou, se
não fossem dadas, segundo a natureza da atividade a realizar), não podendo ser
substituído por outras pessoas se não tivesse havido acordo nesse sentido ou se a
natureza do ato a realizar o impedisse;
 Obrigação de prestar contas da sua «gestão» ao mandante – cedendo a este as ações
que tivesse contra terceiros.

Obrigações do mandante (que eventualmente surgiram):


 Obrigação de reembolsar ao mandatário as despesas por este feitas na realização
da atividade de que foi encarregado;
 Obrigação de indemnizar os prejuízos sofridos pelo mandatário (na execução do
mandato).

Relação entre os terceiros com quem o mandatário estabelecesse relações


obrigacionais e as partes no contrato de mandato:
 o princípio civil da exclusão da representação direta (os direitos e as obrigações
eram do mandatário – só este podia demandar o terceiro ou ser demandado por ele)
 o seu progressivo afastamento pelo pretor (mediante a concessão de ações úteis ao
mandante e ao terceiro, contra este e contra aquele, respetivamente).

Causas de extinção do mandato:


 Realização da atividade de que o mandatário fora incumbido ou impossibilidade
(material ou jurídica) de a efetivar;
 Decurso do prazo fixado (sem haver renovação);
 Acordo das partes;
 Revogação pelo mandante;
 Renúncia pelo mandatário;
 Morte ou capitis diminutio de alguma das partes.

Tutela das partes:


 Actio mandati (directa), concedida ao mandante;
 Actio mandati contraria, concedida ao mandatário.

Contratos Formais
Os negócios formais (solenes) são aqueles cuja existência depende da observância de
uma forma prescrita pelo ordenamento jurídico.
Gaius distingue duas espécies de negócios formais:
 Verbais: a vontade manifesta-se através das palavras solenes fixadas pelo direito
civil
 Literais: as obrigações nascem de acordo redigido por escrito.

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Stipulatio
É um contrato formal que os Romanos celebravam com muita frequência para
satisfazer fins muito diferentes. E o próprio pretor utilizava-a para proteger
judicialmente relações não tuteladas pelo direito civil.
Dentro da variedade de fins que justificam o recurso à stipulatio, destacamos:
 garantir obrigações:
 assegurar o uso normal de um direito real sobre coisa alheia;
 proteger danos futuros, etc.

Negócio solene = na sua celebração invocam-se os deuses.


Sujeito a uma formula = composta por certas palavras fixadas pelo ius civile.
Inicialmente, tinha que ser oral, excluindo, assim, ausentes, mudos, surdos, crianças
menores de sete anos.

Formalmente, a sua estrutura consiste:


 Na pergunta oral de uma das partes (stipulator) que era dirigida a outra (promissor,
que vai prometer).
 Em resposta imediata, o promissor promete dar uma quantia determinada ou
determinável de dinheiro (pecunia), uma coisa, ou realizar (facere) ou não (non facere)
determinada atividade.
 Do encontro da pergunta e da resposta resultam uma obrigação para com o devedor
(promissor) e a actio ex stipulatu para o credor (stipulator)

Negocio jurídico abstrato = a causa não é um elemento essencial. Pode ser utilizado
para vários fins.
Não é preciso determinar a causa do contrato para que este produzisse efeitos.
Muito utilizada porque permitia acautelar as situações não previstas nas categorias
contratuais plasmadas no direito civil (atualmente há liberdade de criação e fixação
do conteúdo dos contratos – art. 405º CC)

Contratos inominados

Designação «contratos inominados»: baseia-se em fragmentos do Digesto nos quais


os juristas (Papinianus, Celsus e Iulianus) aludem a relações obrigacionais sem
denominação própria, que viriam a ser recolhidas pelos compiladores justinianeus
numa categoria distinta e que estes tutelaram, fundamentalmente, com a actio
praescriptis verbis (acção de palavras prescritas) – Digesto, Livro 19.º, Título 5.º.

Surgimento do vínculo jurídico (em que a obrigação se traduz): quando uma pessoa
já realizou uma determinada prestação – podendo, assim, exigir à outra a prestação a
que se obrigou.
Espécies de acordos:
 do ut des (dou para que dês);  facio ut des (faço para que dês);
 do ut facias (dou para que faças);  facio ut facias (faço para que faças).

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A atribuição de denominação própria a algumas dessas relações: preferência, por


isso, pela designação «contratos atípicos».
Enumeração dos principais «contratos atípicos»:
 Permuta (permutatio);
 Contrato estimatório (aestimatum);
 Precário (precarium);
 Transação (transactio).

Permuta (permutatio)
Noção: era o contrato atípico (inominado) pelo qual uma pessoa dava uma coisa
determinada a outra para que esta lhe desse outra coisa (relação do tipo do ut des) –
autonomizado da compra e venda pelos proculeianos (tutela com actio in factum).
Características que distinguem a permuta da compra e venda:
 A permuta era um contrato real (quanto à constituição), por ficar perfeita com a
primeira datio, enquanto a compra e venda era um contrato consensual;
 Na permuta, como uma das partes tinha de realizar a transferência da propriedade
(datio) de uma coisa e a outra ficava com a obrigação de transferir a propriedade de
outra, as duas coisas deviam ser propriedade delas.
 Na permuta, respondiam por evicção (e pelos vícios ocultos da coisa) as duas partes
(se ambas tivessem cumprido a obrigação de dare), enquanto na compra e venda só
respondia o vendedor;
 Na permuta, a parte que deu primeiro uma coisa podia pedir a restituição até que a
outra cumprisse a sua obrigação, enquanto na compra e venda se admitiu, na época
justinianeia, a «lesão enorme» (o vendedor podia pedir a rescisão da venda se fosse
efetuada por preço inferior a metade do seu justo valor).

Contrato estimatório (aestimatum)


Noção: era o contrato atípico («inominado») pelo qual uma pessoa entregava a outra
certa coisa ou determinada mercadoria para que a vendesse pelo valor mínimo
acordado, comprometendo-se esta a dar àquela o referido valor ou a devolver as coisas,
no caso de não serem vendidas.
Vantagem patrimonial do accipiens, no caso de proceder à venda: fazia sua a
diferença entre o preço (superior) pelo qual vendesse as coisas e o valor que tinha sido
fixado.

Precário (precarium)
Noção: era, desde a época pós-clássica, o contrato atípico («inominado») pelo qual
uma pessoa (precario dans) concedia a outra (precario accipiens), gratuitamente, a
pedido desta, o uso de uma coisa ou o exercício de um direito, com a faculdade de
revogar a concessão a todo o tempo.
Distinção entre o precário e o comodato: o precário proporcionava um gozo mais
amplo ao precarista (na medida em que o uso concedido não estava pré-definido) e
permitia ao precario dans que revogasse livremente a concessão; não assim no
comodato, pois o comodatário só podia usar a coisa nos termos e para o fim
convencionados.

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O precarista como mero detentor: o precario dans podia recuperar a posse através
do interdictum quod precario.

Transação (transactio)
Noção: era, desde a época pós-clássica, o contrato atípico («inominado») pelo qual as
partes evitavam ou punham termo a um litígio mediante concessões recíprocas.
Casos em que não era admitida: por ex., depois de proferida a sentença; quando a
dívida objeto do litígio respeitasse a alimentos estabelecidos num testamento.

Delitos
Noção de delito (delictum): era um acto ilícito punido com uma pena.
Espécies de delitos:
 públicos (= crimina) – representavam uma ofensa à comunidade romana (ao
populus) e eram punidos com penas públicas (corpóreas ou pecuniárias)
 privados (delicta ou maleficia) – ofendiam o indivíduo e eram punidos com penas
privadas (pecuniárias).

Delitos privados, segundo o ius civile:


 Furto (furtum);
 Rapina ou roubo (rapina);
 Injúria (iniuria);
 Dano causado com injúria (damnum iniuria datum).

Características iniciais das obligationes ex delicto e das actiones concedidas


contra o autor do delictum:
 Intransmissibilidade (passiva) da obligatio aos herdeiros do autor do delito;
 Intransmissibilidade (ativa) das acções penais aos herdeiros da vítima;
 Carácter noxal das actiones ex delicto;
 Acumulação das actiones ex delicto – responsabilidade cumulativa dos diferentes
coautores do delito («solidariedade cumulativa»).

Furto
Noção: era definido (em D.47,2,1,3 - PAULUS) como «o apoderamento fraudulento,
com vista à obtenção de um lucro, de uma coisa, do seu uso ou da sua posse».

Atos em que podia traduzir-se o furto (elemento objetivo do furto contrectatio rei):
 subtração (ablatio) de uma coisa corpórea e móvel (normalmente, em prejuízo do
seu proprietário; mas também de quem tinha a sua custódia, como sucedia com o
comodatário ou o credor penhoratício);
 uso ilícito de uma coisa alheia – furto de uso (furtum usus), que se verificava, por
ex., no caso de o depositário fazer uso da coisa cuja guarda lhe havia sido confiada ou
no de o comodatário usar a coisa para fim diferente do acordado (ou do que era
normal);
 privação indevida da posse de uma coisa – furto da posse (furtum possessionis),
que ocorria, nomeadamente, quando aquele que tinha transferido a posse de uma coisa
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para garantir o cumprimento de uma obrigação (penhor) se apoderava da coisa


empenhada antes de ter lugar o cumprimento ou quando o proprietário de uma res se
apoderava da coisa sobre a qual o credor tinha um direito de retenção.

Elemento subjetivo do furto: intenção de lesar outra pessoa (animus furandi ou


affectio furandi) – na época clássica, o dolo.

Modalidades do furto:
 Furto manifesto (furtum manifestum), em que o autor do furto era surpreendido a
praticar o delito (em flagrante) ou imediatamente a seguir, com a coisa em seu poder;
 Furto não manifesto (furtum nec manifestum), definido pela negativa, no qual,
por conseguinte, o autor não era encontrado em qualquer das situações que
configuravam furto manifesto.

Penas aplicáveis a cada uma das modalidades de furto (na época clássica), com a
actio furti:
 pena pecuniária igual ao quádruplo do valor da coisa furtada, no furto manifesto;
 pena pecuniária igual ao dobro do valor da coisa furtada, no furto não manifesto
(já era assim desde a Lei das XII Tábuas).

Cumulação da actio furti com outras ações: com a rei vindicatio (ação de
reivindicação) e com a condictio furtiva (concedida ao proprietário, contra o autor do
furto ou os seus herdeiros, quando não se verificasse a restituição voluntária da coisa
furtada, com a condenação pecuniária do(s) demandado(s), mesmo que a coisa já
tivesse perecido por caso fortuito, em virtude de o autor do furto ficar constituído em
mora, quanto à obrigação de restituição, desde que cometia o delito).

Rapina ou roubo (rapina, bona vi rapta)  FACULTATIVA


Noção: era o delito que consistia na subtração de uma coisa alheia com recurso à
violência.
Pena aplicável ao autor do delito (na actio vi bonorum raptorum, criada pelo pretor):
o quádruplo do valor da coisa, se a actio fosse instaurada no prazo de um ano a
contar da sua prática; o valor singelo da coisa, se a ação fosse instaurada para além
desse prazo.
Cumulação da actio vi bonorum raptorum com outras ações: com a rei vindicatio
(ação de reivindicação) e com a condictio furtiva (o que deverá ao facto de a rapina
ter sido considerada um furto qualificado – cfr. GAIUS III,209: quem subtrai mais
uma coisa alheia contra a vontade do dono do que aquele que rouba?).

Injúria (iniuria)  FACULTATIVA


Noção: como delito, consistia numa ofensa à integridade física ou moral de uma
pessoa.
Ação (de carácter geral) concedida contra o autor do delito: actio iniuriarum – com
avaliação da ofensa pela vítima (com a possibilidade de o juiz condenar segundo a

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equidade) ou, nos casos de ofensa grave (iniuria atrox), pelo pretor (com aceitação
normal pelo juiz).
A criminalização de certos tipos de injúrias (com a lex Cornelia de iniuriis, de Sila
– 81 a.C.?): as que consistissem em golpear (a pulsatio) ou em açoitar alguém (a
verberatio), ou em violar o seu domicílio.

Dano causado com injúria (damnum iniuria datum)


Noção: era um delito que consistia na produção de um dano numa coisa alheia,
mediante um comportamento culposo.
A disciplina: na Lei das XII Tábuas, concessão de acções em determinadas hipóteses;
com a lex Aquilia de damno, de 287 a.C. (ou 286 a.C.), disciplina do damnum geral.
Capítulos I e III da lex Aquilia (cfr. GAIUS III,210-219):
1.º - Previa o caso de alguém matar (com injúria, ou seja, contra o direito) um escravo
ou um animal quadrúpede alheio, pertencente ao gado doméstico do dono, e obrigava
o autor do facto ilícito a dar ao lesado o valor máximo que a coisa tinha atingido no
ano que antecedeu a morte.
Nota: ao gado doméstico pertenciam as ovelhas, as cabras, os bois, os cavalos, as
mulas e os asnos. Labeo entendia que os porcos também faziam parte (cfr. D.9,2,2,2).
Estavam, assim, excluídos os cães e os animais ferozes, como os ursos, os leões e as
panteras (D.9,2,2,2).
3.º - Referia-se a todos os danos em coisas alheias não previstos no capítulo 1.º
(ferimento de um escravo ou animal doméstico, qualquer dano em animal não
pertencente ao gado doméstico ou em alguma coisa inanimada), que consistissem em
queimar, fraturar (quebrar ou partir) ou, de qualquer modo, destruir ou deteriorar a
coisa, e o autor do facto danoso ficava obrigado a dar ao lesado o valor mais elevado
que a coisa tivesse tido nos últimos trinta dias.

Pressupostos de que dependia a obrigação de indemnizar o dano:


 comportamento anti-jurídico (iniuria);
 dano produzido diretamente pelo agente na coisa (através de um contacto material
– corpore et corpori), embora mediante a utilização, por ex., de uma espada, de uma
vara ou de um pau;
 dolo ou negligência (quanto a esta, falta de cuidado ou falta de perícia).

Ação concedida contra quem causasse o dano – actio legis Aquiliae:


 Só podia ser concedida ao proprietário da coisa destruída ou danificada;
 A condenação era no valor da coisa (in simplum), se o lesante confessasse a prática
do facto danoso, ou no dobro desse valor (in duplum), se o lesante negasse ter
cometido o ato ilícito.

Alargamento do âmbito de proteção da lex Aquilia, graças à sugestão feita pela


iurisprudentia ao pretor dos instrumentos que o permitiram (actiones in factum ou
actiones utiles), nos seguintes casos:
 danos não causados diretamente na coisa (non corpore) – concessão de actiones in
factum conceptae;

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 danos causados a quem não era proprietário da res (por ex., usufrutuário, credor
penhoratício, possuidor de boa fé) – concessão de actiones utiles (fictícias), exceto
quando o demandado fosse o proprietário;
 danos resultantes de lesões corporais em pessoas livres – concessão de actiones in
factum conceptae.

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