Você está na página 1de 12

4127

Dialogia do riso: um novo conceito que introduz alegria

ARTIGO ARTICLE
para a promoção da saúde apoiando-se no diálogo,
no riso, na alegria e na arte da palhaçaria.

Dialogy of Laughter: a new concept introducing joy for health


promotion based on dialogue, laughter, joy and the art of the clown

Marcus Vinicius Campos Matraca 1


Gert Wimmer 2
Tania Cremonini de Araújo-Jorge 1

Abstract The Dialogy of Laughter – a concept Resumo Apresentamos e debatemos a Dialogia do


based upon the praxis of general health education Riso, um conceito baseado na prática da educação
performed with joy – is presented and discussed. popular em saúde desenvolvida com alegria. Saúde
Health is seen as a resource for life rather than a entendida como um recurso para a vida e não como
goal in life and promotion of health is a positive um objetivo de viver; promoção da saúde como
reaction leading to a broader, integrated and com- uma reação positiva que leva a uma percepção
plex perception linking the environment, educa- ampliada, integrada, complexa e intersetorial: ar-
tion, people, quality and style of life. Laughter ticula ambiente, educação, pessoas, estilo e quali-
can then be incorporated as a tool in health pro- dade de vida. O riso pode então ser incorporado
motion as defended here. Considerations on dia- como ferramenta de promoção da saúde, tese que
logue, laughter, joy and the clown giving rise to defendemos. Para isso apresentamos considerações
the Dialogy of Laughter concept are presented. sobre o diálogo, o riso, a alegria e o palhaço, con-
Dialogue, namely an exchange between two or ceituando a Dialogia do Riso. O diálogo, fala entre
more persons for the comprehension and transfer duas ou mais pessoas para entendimento de algu-
of ideas, is a methodology for joint thinking to ma ideia mediada pela comunicação, é uma meto-
produce new ideas and to share meaning, which dologia de reflexão conjunta, que visa melhorar a
is the essence of communication. Laughter is a produção de novas ideias e compartilhar signifi-
universal phenomenon linked to aspects of cul- cados, essência da comunicação. O riso é um fenô-
ture, philosophy, history and health. It is dialog- meno universal, condicionado a aspectos da cul-
ic, since through humor the comedy and the wit tura, da filosofia, da história e da saúde; é dialógi-
1
Laboratório de Inovações contained in each laugh, which is a communica- co, porque, através do humor nos deparamos com
em Terapias, Ensino e tion code inherent to human nature, are revealed. a comédia e o escárnio que existe por traz de cada
Bioprodutos, Instituto
Joy as a strategy for health promotion is high- riso, um código de comunicação inerente à natu-
Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Av. Brasil 4365, lighted and the art of the clown, using this art as reza humana. Arrolamos argumentos para defen-
Manguinhos. 21040-360 an educational tool that can be integrated as a der a alegria como estratégia para a promoção da
Rio de Janeiro RJ.
social technology, are adopted. saúde, e adotamos o palhaço, e usamos sua arte
matraca@ioc.fiocruz.br
2
Gerente da Clinica Saúde da Key words Dialogy of laughter, Promotion of como ferramenta educacional que pode ser inte-
Família Cantagalo, Pavão e health, Joy, Clown grada como tecnologia social.
Pavãozinho, Secretária
Palavras-chave Dialogia do riso, Promoção da
Municipal de Saude e Defesa
Civil do Estado do Rio de saúde, Alegria, Palhaço
Janeiro - SMSDC/RJ
4128
Matraca MVC et al.

Introdução Saúde, premissa que buscamos sustentar teori-


camente neste trabalho.
Dizia o poeta Vinicius de Moraes1: a vida é a arte O Sistema Único de Saúde (SUS) nasce em
do encontro, apesar de tanto desencanto e de- meados dos anos 70, em meio à consciência revo-
sencontro. Diversas redes sociais e movimentos lucionária dos pesquisadores, militantes sociais,
virtuais promovem encontros para dialogar e políticos, artistas e representantes comunitários.
compartilhar experiências no campo da saúde, Seus preceitos demonstram a preocupação com
construindo estratégias e articulando questões uma ética social traduzida pela universalidade,
referentes à qualidade de vida. Essa prática po- equidade, integralidade, descentralização – mu-
tencializa virtudes como a solidariedade humana nicipalização, regionalização – hierarquização e
e supera gradualmente o modelo biomédico as- participação popular. Segundo Rodrigues e San-
sistencialista e privatista, para uma efetiva pro- tos11, o SUS, em menos de duas décadas, trans-
moção da saúde coletiva. Dentre estas estratégi- formou-se no maior projeto público de inclusão
as, observam-se movimentos de valorização do social do mundo, no qual 110 milhões de pessoas
riso no campo da saúde, tendo como principal são atendidas por agentes comunitários de saúde
referência os palhaços de hospital2,3. em 95% dos municípios do Brasil, e 87 milhões
O sorriso é a distância mais curta entre duas são atendidos por 27 mil equipes de saúde da fa-
pessoas, nos afirma a frase de Borge na charge mília por todo o país. A concepção de saúde como
que ilustra o trabalho do Ministério da Saúde direito social encontra-se na Constituição Fede-
sobre Educação Popular4. Entretanto, para Valia- ral de 198812, Art. 196: “A saúde é direito de todos
te e Tozzi3, o riso como ferramenta dialógica é e dever do Estado, garantido mediante políticas
pouco difundido entre os profissionais e os usu- sociais e econômicas que visem à redução do ris-
ários dos serviços de saúde. Ele é importante para co de doenças e de outros agravos e ao acesso
a construção de vínculos com a população nos universal e igualitário às ações e serviços para sua
serviços de saúde, pois desarma, aproxima, que- promoção, proteção e recuperação”.
bra barreiras e estimula a capacidade de reflexão. O processo dialógico - ou simplesmente o diá-
Temos desenvolvido trabalhos com a arte da logo - entre o indivíduo e as coletividades é indis-
palhaçaria, promovendo saúde por meio do riso5. pensável nos espaços de atuação do SUS, potenci-
Práticas realizadas pelo Palhaço Matraca foram alizando uma práxis em saúde que não valoriza
documentadas nos curtas metragens Matraca e o apenas a manutenção ou a recuperação do esta-
Povo Invisível6 e Na Pista7, nos quais a palhaçaria do de saúde, posto que este é dinâmico: ao enve-
subverte e promove uma divertida interação com lhecer não se tem mais nem menos saúde, mas
a população de rua e com profissionais do sexo. uma saúde diferente. A saúde, portanto, não é
Em nossa publicação sobre essas experiências5 ausência de doença e, deste modo, amplia-se o
relatamos que o riso é libertador, subverte e burla olhar da saúde sobre as condições de vida da po-
a ordem das coisas, para que o expectador ador- pulação, quando se deseja ir além da prestação de
ne-se com a arte de rir da sua própria condição, serviços clínico-assistenciais. Neste contexto, nos
transmutando assim sua realidade. unimos a Sicoli e Nascimento13 na proposição de
Desse modo, o riso ajuda a contrapor a ideia ações inter-setoriais que envolvam tecnologias
de saúde como simples ausência de doença ou educativas e sociais, construídas dialogicamente.
um completo bem-estar, tese defendida inicial- As dimensões éticas e culturais são essenciais
mente como conceito universal da saúde pela para o cuidado da saúde dos indivíduos e dos
OMS desde 19468. Em 1986, a Carta de Ottawa9 grupos populacionais. A adoção do universo lú-
firmou-se como um marco na construção do dico como instrumental para a promoção da
conceito de Promoção da Saúde. Neste documen- saúde é uma tecnologia inovadora que está sen-
to, saúde é entendida como um recurso para a do investigada no meio acadêmico, tal como vem
vida e não como um objetivo de viver. Desta for- ocorrendo com o projeto Saúde e Brincar14, um
ma, a Promoção da Saúde para Lefevre10, é uma programa de atenção integral à criança hospita-
reação “positiva” (positivo de positividade e não lizada que, desde 1994, desenvolve atividades lú-
de positivismo), que conduz para uma percep- dicas nas enfermarias e ambulatórios do Institu-
ção ampliada, integrada, complexa, intersetori- to Fernandes Figueira/Fiocruz. O programa tem
al, relacionando saúde com ambiente, educação, caráter interdisciplinar e funciona nas áreas de
pessoas, estilo e qualidade de vida, dentre outros. assistência, ensino e pesquisa, atuando nas en-
Neste sentido, o riso é um elemento que pode ser fermarias e nos ambulatórios. Crianças e seus
incorporado como ferramenta de Promoção da acompanhantes são convidados a brincar, favo-
4129

Ciência & Saúde Coletiva, 16(10):4127-4138, 2011


recendo as relações entre os usuários e a equipe vencedor. O diálogo é uma metodologia de refle-
de saúde. xão conjunta, que visa melhorar a produção de
Dentre centenas de exemplos, encontram-se novas ideias e compartilhar significados.
trabalhos sobre o “capital social” das crianças15, Nesta perspectiva ao afirmarem que “o cami-
a prescrição de música para tratamento de ansi- nho se faz caminhando” Myles Horton e Paulo
edade crônica16, brincar e aprender17, saúde de Freire22, defendem a construção da práxis dialó-
pessoas em situação de rua18, e o projeto Saúde e gica usando como ponto de partida a realidade
Alegria19 . Visto que o campo da saúde é muito observada. Esta práxis deve ser híbrida, agregan-
mais amplo do que o da doença, propomos e do diversos olhares e saberes, tendo como bússo-
defendemos neste trabalho o conceito de Dialo- la metodológica a promoção de encontros e diá-
gia do Riso como ferramenta de interação e gera- logos. Horton afirmou que custou a compreen-
ção de conhecimento, entendendo que a prática der que não precisava saber, mas sim ter visão, ou
da saúde pode acontecer em qualquer espaço apenas deixar as situações se desenvolverem utili-
social. Promover saúde com alegria fortalece o zando sempre o conhecimento acumulado e dis-
exercício da cidadania: compartilhando conheci- ponível na construção coletiva do saber. Cami-
mento, brincando e harmonizando-se com seu nhando é possível acreditar na realização de en-
semelhante, pois na “na saúde ou na doença” contros e na construção de uma práxis dialógica
somos todos um. em prol da vida humana. Segundo Deleuze23, o
imaginário humano jamais seria capaz de conta-
Interlude bilizar as possibilidades geradas pelo encontro.
Segundo Paulo Freire24, o diálogo não impõe,
De inicio cabe esclarecer que não é a proposta não maneja e não domestica. Portanto, através
deste artigo – e nem temos a pretensão de – dis- do diálogo cria-se uma importante ferramenta
correr longamente sobre o surgimento dos con- de vínculo, fluxos, sentidos e informações neces-
ceitos que serão apresentados. Queremos apre- sárias que colaboram nas ações de promoção da
sentar pontos importantes sobre o diálogo, o riso, saúde. Esta tarefa não se limita à esfera de poder
a alegria e o palhaço, que consideramos essenci- do Estado, centros de pesquisa, empresas médi-
ais para a reflexão conceitual da Dialogia do Riso. cas e organizações comunitárias. A práxis da pro-
moção da saúde depende da participação coletiva
O diálogo e de estratégias que envolvam micro-políticas lo-
cais, sem perder de vista a necessidade de se man-
Segundo o dicionário Houaiss20, a palavra ter em rede25. E a geração de encontros facilita a
“diálogo” do grego dialogos, significa fala entre construção compartilhada de conhecimentos no
duas ou mais pessoas na busca do entendimento trabalho em saúde26.
de alguma ideia mediada pela comunicação, ob- Na pedagogia de Paulo Freire o diálogo é abor-
jetivando a solução de problemas e sua harmo- dado como uma ação essencialmente humana,
nia. O diálogo é a essência da comunicação hu- um ato de amor, coragem, liberdade e confiança
mana, sempre com um locutor, que apresenta no próximo. Freire define que o pensamento crí-
um tema discursivo, e um interlocutor, que per- tico se constitui a partir do diálogo e molda o
cebe, reage, responde e constrói sentidos com o conceito de “dialogia”. Na pedagogia do oprimi-
discurso emitido. do24, o diálogo apresenta-se como a horizontali-
O diálogo também pode ser uma atividade zação da relação entre A e B, gerando uma matriz
de reflexão e observação da experiência vivida. crítica e comunicativa. Na relação inversa encon-
Imaginemos que a práxis dialógica seja um jogo tramos a antidialogia, onde a relação entre A e B
com normas iniciais e sua continuidade dependa ocorre de forma vertical, gerando o comunicado
apenas dos participantes. Mariotti21 ressalta que e não a comunicação. Freire nos afirma que a
não devemos confundir normas operacionais sustentabilidade da teoria antidialógica se alimen-
com receitas, bem como o uso exagerado de téc- ta da conquista e dominação do outro, da manu-
nicas e métodos com normas operacionais. A tenção e divisão das classes sociais, onde o opri-
temperança que o autor nos apresenta para a mido é imerso em uma realidade de manipulação
prática dialógica é: a) ouvir para aprender algo e padrões sociais que freiam sua criatividade ini-
de novo e não para conferir com crenças prévias; bindo a sua expansão. Ele acentuou a necessidade
b) respeitar as diferenças e a diversidade; c) refle- de uma revolução no processo pedagógico para
tir sem julgar; d) ter sempre em mente que o efetivamente rompermos com a educação bancá-
objetivo é criar e aprender, e não “ter razão” e sair ria que forma os seres em série, para pactuarmos
4130
Matraca MVC et al.

com a pedagogia da liberdade, que potencializa a interesse do filósofo Platão, defensor da tese de
prática da autonomia do ser e do diálogo. que quando rimos experimentamos um falso
Mikhail Bakhtin27,28 defende que a comuni- prazer nos afastando da verdade e do bem.
cação só existe na reciprocidade do diálogo, sen- No clássico “O nome da rosa”, Umberto Eco30
do fator fundamental na produção comunicati- ilustra o riso como o oposto da verdade, um sig-
va, ou seja, só é possível com prática. O pensa- no da loucura, um ato irracional, segundo a lógi-
dor russo afirma que em primeiro lugar está a ca de vigiar e punir. Nesta trama o monge Jorge é
linguagem direta, a linguagem patética, a lingua- o protagonista principal na ocultação do conhe-
gem no sentido próprio, aquela que é utilizada cimento e, na sua cegueira e fanatismo, envenena
sem distanciamento, sem refração, sem consci- as páginas da segunda parte da poética de Aristó-
ência linguística explícita, utilizada por figuras teles, que é justamente dedicada à comédia. Ironi-
sólidas como os bufões27. Para Bakhtin, a dialo- camente todos os que entram em contato com os
gia ocorre quando a interação entre os sujeitos segredos do cômico falecem. As estórias e as fic-
favorece a construção coletiva do saber, constru- ções são caricaturas das histórias do cotidiano
indo uma relação horizontal. Em suas palavras: humano, permeado pela manipulação ideológi-
“O diálogo inconcluso é a única forma adequa- ca. Na compreensão deste processo dialético o
da de expressão verbal de uma vida autêntica”28. riso aparece como uma ferramenta que desarti-
O indivíduo é percebido como sujeito coletivo cula o poder, a autoridade e o intocável, pois toda
que, por intermédio do diálogo, atua no mundo, forma de rigidez possui comicidade.
relacionando suas informações anteriores com Frequentemente na sua construção histórica,
suas experiências, dialogando e contextualizan- o riso é provocado por pessoas que apresentam
do sua realidade com seus pares. Para este artigo algum estigma ou posição de inferioridade frente
adotamos o conceito de dialogia, que para o au- ao seu grupo social. Esta teoria é defendida por
tor russo é tratado enquanto diálogo entre inter- Tomas Hobbes, tal como descrito em Skinner31,
locutores através da interação comunicativa. destacando que o riso se assemelha ao sarcásti-
Neste sentido, a criação de mecanismos de co, à soberba, à honra, à uma efêmera sensação
diálogo e encontros favorece a mediação de sa- de superioridade (sudden glory). Quem ri sem-
beres entre agentes de promoção da saúde e a pre vê o objeto do riso de cima e, por algum
população. Trabalhados em diálogos coletivos, padrão, julga o outro inferior. Uma das causas
os saberes científicos e populares sobre saúde e deste tipo de comportamento é o que chamare-
doença se hibridizam e poderão embasar a cons- mos aqui de ideologia da seriedade.
trução de políticas públicas comprometidas com Para Neves32, a “ideologia da seriedade”, como
os direitos sociais e humanos. qualquer ideologia, não é ingênua nem seus efei-
tos são benéficos a todos; impõe um antagonis-
O riso mo absoluto entre seriedade e comicidade, à
medida que qualifica positivamente a primeira e
O riso, é um fenômeno universal que desper- desqualifica a segunda, colocando-a em oposi-
ta interesse por ser transversal e dialógico. Trans- ção ao saber. Esta mesma ideologia evoca para si
versal por ser condicionado a aspectos da cultu- o status de teoria científica e, portanto, genérica e
ra, da filosofia, da história, da saúde, entre ou- verdadeira. Enuncia: “O saber sou eu”, mas não
tros. Dialógico porque, ao trilharmos os sentidos nos revela as condições que tornaram possível
do humor, nos deparamos com a comédia e o tal afirmação, não denunciando o controle social
escárnio que existe por traz de cada riso, um códi- do saber, nem seus laços institucionais e políti-
go de comunicação inerente à natureza humana. cos. Tal saber atende aos interesses de quais for-
O riso e o humor são mutantes, assim como os ças sociais? Confunde arrogância e sisudez com
costumes e as correntes de pensamento. seriedade e responsabilidade para melhor recal-
Todos sabem que o ser humano nasce cho- car o poder libertador e corrosivo que a comici-
rando, mas algumas horas após o rito de passa- dade traz. Neste contexto o riso e o cômico são
gem do nascimento, depois de adormecer e des- manipulados e distribuídos em conceitos como
cansar, logo começa a sorrir. Talvez por um ins- a inconsequência, a irresponsabilidade, a irrele-
tinto natural, ou um código de defesa, que desde vância, o revés da seriedade. Mas para o Palhaço
a infância o acompanhará na construção da sua russo Karandash33: “O riso não é um objetivo, é
história de vida. Mas o que é o riso? Para Alber- um meio que leva a ideia até o entendimento”.
ti29 é um enigma no pensamento ocidental. En- Em sua obra “História do Riso e Escárnio”,
contrar a essência do que nos faz rir despertou o Georges Minois34 nos diz que o riso é um caso
4131

Ciência & Saúde Coletiva, 16(10):4127-4138, 2011


muito sério para ser deixado apenas nas mãos ensão deste fenômeno natural que, apesar de tan-
dos cômicos. A ideologia da seriedade, que por ta investigação, vive um antagonismo em relação
meio da coação permite que riamos do que é ao assunto. O riso está em todos os lugares, nos
inofensivo ou descontraído, sem mensagem ou programas humorísticos, livros de autoajuda,
negação, elege o humor da moda, apresentado blogs virtuais, bem como na vida cotidiana; po-
nas mais variadas mídias, para que em seguida rém, rimos cada vez menos apesar da chancela
nos esqueçamos de quem somos, exercendo de científica sobre as vantagens de uma boa garga-
fato, uma opressão sobre as formas mais ou lhada. Para ilustrar este paradoxo, de acordo com
menos veladas de análise e de crítica social. a pesquisa elaborada pela Organização Mundial
Vamos destacar também a “ironia”, presente de Saúde39, diariamente três mil pessoas come-
na obra de Reali35 sobre a história da filosofia. tem suicídio no mundo, somando 1,1 milhão de
No pensamento de Friedrich Schlegel, a ironia é suicidas a cada ano, sendo a depressão um dos
central para a indagação do infinito, no qual se fatores predisponentes (com o cuidado para não
chega com a filosofia ou com a arte. Em ambos confundir depressão com tristeza: a primeira é
os campos lidamos com meios finitos e o desafio um estado patológico que provoca sintomas
é encontrar o canal para o infinito com os meios como desânimo e falta de interesse por qualquer
finitos. A “ironia”, para o autor, indica uma ati- atividade; a segunda é um fenômeno normal que
tude espiritual que tende a superar e a dissolver faz parte da vida psicológica de todos, e que não
progressivamente a inadequação em relação à nos impede de reagir com alegria se algum estí-
infinitude de todo ato ou fato do espírito huma- mulo agradável surgir). Esta pesquisa concluiu
no, e nele tem um papel decisivo como elemento que o suicídio não pode continuar sendo um fe-
“espirituoso” ou brincalhão do humor35. Assim, nômeno-tabu, ou um resultado aceitável de cri-
a ironia se coloca como possibilidade dialética de ses pessoais ou sociais, mas sim uma questão de
lidar com a limitação de recursos e capacidades saúde pública. O suicídio é um reflexo de uma
humanas de forma leve, estimulando o riso so- sociedade tolhida de sonhos, uma sociedade rígi-
bre si mesmo. da, onde assumimos o papel de engrenagem na
A partir da segunda metade do século XIX e máquina do capital, os tempos modernos anun-
inicio do XX o conceito do riso ganhou forte pro- ciados por Charles Chaplin.
jeção na produção acadêmica, principalmente no Na comédia A Vida é Bela40, Roberto Benigni
campo da psicologia, com investigações volta- protagoniza o personagem judeu italiano Guido,
das para a descrição e a fisiologia do riso. No que na segunda guerra mundial é encaminhado
mesmo período Henri Bérgson36 lança um dos para um campo de concentração junto com seu
mais completos estudos sobre o riso. Para ele o pequeno filho Josué. Guido é um homem brin-
riso é um fenômeno puramente social e os gru- calhão, afetuoso, inteligente e com suas brinca-
pos que partilham este fenômeno necessitam de deiras consegue burlar a rigidez da ideologia da
afeto e celebração, sendo que qualquer movimen- seriedade. Para proteger e poupar Josué do holo-
to de controle social rígido, age negativamente causto nazista Guido cria uma realidade parale-
para a sociedade gerando uma reação coercitiva. la, uma gincana no campo de concentração onde
O riso opera de forma dialética na superação do ambos participavam. As regras do jogo para os
opressor, atuando no íntimo de cada sujeito co- judeus eram as seguintes: esconder-se, manter-
letivo. O autor nos deixa claro que o riso é uma se em silêncio e não pedir por comida, somando
fonte de prazer inesgotável; entretanto, é tam- assim, um determinado número de pontos para
bém uma prática de poder, sendo utilizado inclu- ganhar o prêmio - um tanque de guerra. Em con-
sive para manipulação de pessoas enquanto ma- fluência com a poesia desta estória, o psicólogo
rionetes, processo este consagrado pela expres- Viktor FrankI41 relata que sabia de antemão quem
são “pão e circo”36. conseguiria sobreviver no campo de concentra-
Quase um século depois o conceito volta ao ção, pela simples observação da capacidade de
cenário científico e intelectual. Grupos multidis- cada um de rir diante daquele horror. Frankl de-
ciplinares publicam revistas especializadas, tais fendia o riso como sinônimo da arte de viver.
como o Corhum na França, que edita semestral- Nas charges da Bienal Internacional de Humor42,
mente o Humoresques37. O periódico Internati- que expõem trabalhos produzidos para provo-
onal Journal of Humor Research38 é publicado car o riso, também há um claro convite à refle-
trimestralmente nos Estados Unidos, com índice xão e à tomada de atitude em relação à AIDS e a
de impacto já apurado em 0,41 e com conteúdo outras doenças sexualmente transmissíveis e a
“on line” há oito anos. Todos buscam a compre- políticas públicas.
4132
Matraca MVC et al.

Para comprovar fisiologicamente que o riso siste o gozo que ela frui do bem que as impres-
faz bem para a saúde, Berk43 investigou as mo- sões do cérebro lhe representam como seu [...]; a
dulações neuroimunológicas durante e depois alegria é uma paixão que chega a alma pela exclu-
dos pacientes terem sido submetidos a progra- siva ação da alma”46. E para a carne: “o que exci-
mas associados ao riso. Experiências hilárias fo- tou na alma a paixão da alegria e fez, ao mesmo
ram monitoradas para entender o que acontece tempo, com que os orifícios do coração se abris-
no corpo, no coração, na musculatura e no cére- sem mais do que de costume e que os espíritos
bro de uma pessoa que ri. Conclui-se que o riso corressem, abundantemente”46. No art. 104 diz:
e o bom humor têm efeitos benéficos para a saú- na alegria não são tantos os nervos do baço, do
de, e no final das contas uma coisa é certa: pro- fígado, do estômago ou dos intestinos que atu-
move saúde com alegria. Defendemos o riso am, mas os que existem em todo o corpo, e par-
como ferramenta dialógica, numa postura de ticularmente aquele que fica em torno do cora-
pactuação cotidiana frente à vida. A saúde que ção46. As reflexões que Descartes realizou no sec.
desejamos trabalha com a ideia de alegria. XVI não se distanciam daquelas, apresentadas
anteriormente sobre os benefícios do riso e ale-
A alegria gria no corpo humano agora já no sec. XXI. No
último artigo46 (art. 121) da sua tese, Descartes
Para muitos filósofos a alegria foi considera- relata que a sabedoria é a senhora de todas as
da uma das paixões da alma, podendo levar qual- paixões, e que saber manejá-las com destreza é
quer mortal para o “céu e inferno”. Como disse o uma arte para suportar a existência; ele conclui
compositor Caetano Veloso44: “cada um sabe a que no final o que vale mesmo é tirar uma certa
dor e a delícia de ser o que é”. Ferrater Mora45 alegria de todas as situações.
abre sua argumentação sobre esse conceito na Por outro ângulo, a alegria foi também um
seguinte lógica: a alegria se contrapõe à tristeza, tema do trabalho do filósofo holandês Baruch
porém, não necessariamente à dor, como a tris- de Espinosa47, um jovem de origem judaica, que
teza se contrapõe à alegria, mas não necessaria- desde cedo chamava atenção por seus dotes inte-
mente ao prazer. Muitos pensadores relaciona- lectuais e intuitivos, sendo iniciado precocemen-
ram a alegria como a posse de alguma coisa, um te no universo da cabala e filosofia. Seu momen-
bem material ou sua representação; outros como to mais difícil na vida, excomungado pela sina-
um êxtase, um relaxamento, um estado ético, o goga, abandonado pela família, polindo e fabri-
nirvana. Sabemos que a alegria pode ser concebi- cando lentes para obter sua renda, é o marco da
da de maneiras muito distintas e, sendo assim, sua generosa produção intelectual. Para o filóso-
ficamos com a do poeta1 que recita: é melhor ser fo, o ser humano se relaciona com três formas
alegre que ser triste. centrais de paixões que não são boas nem más,
Na obra “As Paixões da Alma”, René Descar- são naturais e originais: a alegria, a tristeza e o
tes investiga os sentidos das paixões, incluindo a desejo; as demais derivam desta matriz. Da ale-
alegria e a tristeza, considerando que há um bem gria nascem: o amor, a esperança, a ética, o con-
presente que excita em nós a alegria, e o mal a tentamento; da tristeza: o ódio, a inveja, o orgu-
tristeza, quando é um bem ou um mal que nos é lho, o medo; no caso do desejo podemos ter as
representado como nosso46. Apesar de estarmos paixões tristes que geram a crueldade, a ambição
condenados a sentir as memórias e as fraquezas e a avareza, ou a alegria promovendo a gratidão,
da pele, o filósofo alerta que podemos ter con- a pacificação e a ética48. Na proposição XXI da
trole e domínio, sendo tudo uma questão de Ética - III, o autor afirma que aquele que imagina
método, pois o que é para alma uma paixão, que ama afetado de alegria ou de tristeza será
para o corpo é uma ação. Em suas reflexões Des- igualmente afetado de alegria ou de tristeza; e
cartes define a tristeza como “um langor desa- ambas essas afeições serão maiores ou menores
gradável no qual consiste a incomodidade que a naquele que ama, conforme o forem na coisa
alma recebe do mal, ou do defeito que as impres- amada48 e, a alegria não é diretamente má, mas
sões do cérebro lhe apresenta como lhe perten- sim boa; a tristeza, pelo contrario é diretamente
cendo”46. E no corpo age da seguinte forma: ‘o má48. Espinosa pontua que uma paixão triste nos
pulso é fraco e lento, e sentimos em torno do enfraquece e nos deixa cada vez mais passivos,
coração como laços, que apertam, e pedaços de diferente da paixão alegre que potencializa e for-
gelo que o gelam e comunica a fragilidade do talece nossa capacidade de agir e ser.
corpo”46. No caso da alegria o autor define como: Descartes estava interessado no desenvolvi-
“uma agradável emoção da alma, na qual con- mento ou descoberta de um método racional
4133

Ciência & Saúde Coletiva, 16(10):4127-4138, 2011


para o domínio das paixões, ao contrário de Es- original, sendo sinônimo de desenvolvimento,
pinosa, que direcionava suas investigações para educação e participação comunitária. O projeto
a compreensão de como viver bem, dando ale- utiliza a linguagem circense para envolver todos
gria e sentido à existência humana. Apesar de os segmentos e faixas etárias, lideranças comuni-
analisarem o mesmo conceito de formas e vivên- tárias, produtores rurais, agentes de saúde, par-
cias distintas, ambos concordam que a promo- teiras tradicionais, mulheres, professores, jovens
ção da alegria melhora a qualidade de vida hu- e crianças, capacitando-os como multiplicado-
mana – portanto, a saúde, e suas relações soci- res e estimulando a autogestão.
ais. Segundo Boff49, na oração de São Francisco Partindo desta discussão, propomos mais
de Assis há a seguinte afirmação: Onde houver ações promotoras de saúde, que trabalhem com
tristeza, que eu leve alegria. Não estamos falando a arte, ciência e cultura para o exercício do diálo-
da alegria fetichista, fruto de uma sociedade in- go. Desejamos compartilhar com nossos inter-
dividualista que vende a mercadoria da moda, o locutores saberes e novas experiências para a
produto sintético, o botox envolto por vícios e construção de uma agenda política propositiva,
paixões que iludem o ser humano na roda do embasada na ética da alegria, na participação
consumo e do descarte, mas da alegria criativa, autônoma, crítica e coletiva para o fortalecendo
do compartilhamento, da construção coletiva, o Sistema Único de Saúde. Nesta lógica, acredi-
dos esportes, da cultura, das artes, das relações, tando que não há saúde sem celebração e mani-
enfim, das paixões alegres. festação de identidades culturais, o Coletivo Hu-
Uma das marcas da alegria é seu caráter tota- maniza SUS/MS53 promoveu o espaço cultural
litário, do tudo ou nada onde, não há alegria na 13ª Conferência Nacional de Saúde em 2007,
senão total ou nula, pois o seu êxtase é geral per- com objetivo de promover momentos de refle-
mitindo o ser humano ficar alegre pelo simples xão, diálogo e alegria. Portanto, a Dialogia do
fato de ser. Clemente Rosset50, fala da “alegria Riso é um conceito plenamente aplicável à Políti-
com todas as alegrias” que não se distingue, de ca de Humanização do SUS53, assim como as tec-
modo algum, da alegria de viver, do simples pra- nologias educacionais e sociais associadas a esse
zer de existir50. Para ele, a alegria de viver consiste conceito.
em uma comoção à vida, pela qual ela renuncia a
qualquer pretensão de duração, em contraparti- E o palhaço o que é?
da das alegrias efêmeras que se pode obter da
existência50. Mesma alegria que Paulo Freire re- Para Lecoc54 é uma profissão de fé, uma to-
lata a Moacir Gadotti51, quando nos seus 67 anos mada de posição perante a sociedade, um estado
de idade, de que continuava engajado numa pe- de aceitação, é mostrar-se tal como realmente é.
dagogia boêmia, tropical, uma pedagogia do riso, Sentimos um vivo interesse naquilo que o Palha-
da pergunta, da curiosidade, uma pedagogia da ço não sabe fazer ou não faz direito, lá onde seus
alegria, do amanhã pelo hoje, focada na promo- estigmas são ridicularizados. Sua indumentária
ção de encontros e diálogos. potencializa o imaginário coletivo sobre o que
Um exemplo prático do que falamos é o pro- tenta esconder. Quem nunca riu dos seus sapa-
jeto Saúde e Alegria19, que atua no baixo Amazo- tos? São grandes por que não teve dinheiro para
nas desde 1987, em comunidades extrativistas dos comprar o seu número; Quem nunca riu do na-
rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns, localizadas riz? É vermelho por que toda hora se esfrega para
na zona rural do município de Santarém e agre- esquentar do frio, da cachaça ou da poeira.
gados. Sua equipe interdisciplinar pesquisa e apli- Quem nunca riu dos seus adereços? Chapéu fu-
ca tecnologias sociais52. Partindo da realidade rado, calça remendada ou cueca rasgada. E quem
local, das necessidades mais prementes, e da con- nunca chorou quando o Palhaço é maltratado,
trapartida dos “mocorongos”, buscam-se solu- segregado ou perde sua bailarina? Estamos fa-
ções simples e adaptadas que tragam benefícios lando do nariz vermelho, um código de liberta-
à população e que sirvam como referências de ção do espírito.
tecnologias sociais apropriadas, demonstrativas Na sua longa tradição, os trabalhadores da
e replicáveis, sobretudo através das políticas pú- milenar arte da palhaçaria são conhecidos em di-
blicas. Quem nasce em Santarém é “mocoron- versos grupos sociais do planeta, tais como Ho-
go”, palavra indígena que significa gente humilde txuá (índios Krahô/ Brasil), Vidusaka (India),
e receptiva, bem diferente do sentido pejorativo Bufão (Itália), Danga (Egito), dentre tantos no-
que toma em outras regiões do país. A escolha mes e projeções personificados ao longo da sua
do nome foi proposital, valorizando seu sentido construção histórica. No ocidente este profissio-
4134
Matraca MVC et al.

nal é conhecido também como “clown” (palavra em vila, de cidade em cidade, de reino em reino,
inglesa) que quer dizer rústico, rude, torpe, quem estando disponível ao encontro e aprendizado
com artificiosa torpeza faz o público rir. Palhaço da cultura com a qual entra em contato. Sua
vem do italiano paglia (palha), material usado no matéria básica para criar são os costumes locais,
revestimento de colchões e sua indumentária era o idioma, como os principais traços folclóricos e
um tecido listrado e grosso, afofado com palha culturais, construindo o maior espetáculo da terra,
nas partes mais salientes do corpo, fazendo do que geralmente denuncia as diferenças e desigual-
cômico um verdadeiro colchão ambulante55. Exis- dades do local visitado. Esta é a visão de palhaça-
tem grupos como o Lume56 e o Grupo Tempo57, ria adotada para este trabalho, identificada por
que realizam pesquisas sobre a diferença prática e nós também em trabalhos como os de Palhaços
conceitual entre o clown e o palhaço. Em nossas Patch Adams (EUA), Hugo Possolo (Brasil) e Léo
investigações optamos por trabalhar com o Pa- Bassi (Espanha), dentre outros.
lhaço, tão popular na cultura brasileira5-7. O Palhaço tem a capacidade de inverter o sen-
Os palhaços estão em todos os lugares de- tido das representações. O cômico ri das suas
nunciando os mandos e desmandos de qualquer fraquezas. Transculturando sua realidade, ultra-
regime totalitário, como o Bobo da Corte, um passa os limites da sua condição social por um
paradoxo no contexto social, pois se trata de um instinto de sobrevivência e tira sabiamente pro-
ser grotesco, muitas vezes com deformações físi- veito da tragédia. Com seu porte atlético invisí-
cas, mas alguém que fala verdades como falou o vel, num topete conversível, ele prepara o ser-
Zaratrustra de Nietzche58: uma luz se acendeu mão, pra tratar do mundo cão, colocando a vida
para mim, não é ao povo que deve falar Zara- em perigo, por amor à profissão59. O Palhaço é
trusta, mas a companheiros! Não deve Zaratrusta este ser que estremece as barreiras entre sonhos e
tornar-se pastor e cão de um rebanho. Verdades realidades, desmascarando assim o opressor por
que não podem ser ditas por qualquer mortal, meio do riso.
mas por alguém que possua uma subjetividade No jogo da palhaçaria temos duas figuras
descentrada, que não tenha pátria, seja digno de clássicas: o Branco e o Augusto. Para Burnier60 o
riso e repulsa, alguém estranho à corte. Branco é a elegância, a inteligência, a lucidez, a
O Bobo da Corte, como não faz parte da moral, as divindades indiscutíveis. Eis que em
aristocracia e nem mais do seu grupo de origem seguida surge o aspecto negativo da questão: o
social, vive como um coringa dentro da estrutu- Augusto, a criança que faz sujeira, se revolta ante
ra. No baralho o coringa pode entrar em quase tanta perfeição, se embebeda, rola no chão e na
todos os jogos, pode ocupar quase todas as po- alma, numa rebeldia perpétua. Esta dupla pode
sições desde que não rompa a hierarquia, na qual ser o gordo e o magro, o professor e o aluno, o
não se situa, mas faz parte. Pode ser descartado santo e o demônio, o rico e o pobre, o médico e o
do jogo a qualquer momento sem impedir sua paciente, o homem e a mulher, o normal e o pa-
continuidade; porém, é de extrema importância tológico, Apolo e Dionísio, como um jogo em
quando se faz presente. Para Neves32 o Bobo da que quanto mais autoritária for a intenção, mais
corte é um louco guerreiro lúcido palhaço, ines- o outro se mostrará reticente e desajeitado. Um
perado e alegre, amoral porque exibe a morali- jogo de verdades e mentiras como disse Nietzs-
dade, integrado e outsider, crítico e bajulador, che58: como aceitar uma verdade cuja enunciação
subversivo e enquadrado, irônico e reformador, (Palhaço Branco) não se fez acompanhar de ne-
sem estirpe e vivendo em palácios. Como está nhuma risada (Palhaço Augusto)?
solto, o Palhaço não porta o sectarismo social No filme Clowns, Fellini61 exalta o Palhaço
podendo denunciar antagonismos e rivalidades como uma criatura fantástica, sem pudor, o lado
mais ou menos veladas, mas latentes, na vida irracional do homem, a parte do instinto, o re-
dos palácios. Apesar de muitos Palhaços terem belde a contestar a ordem superior que há em
sido decapitados neste jogo, o ofício sempre teve cada um de nós. No documentário, enquanto
adeptos, talvez por proporcionar ser ator e co- entrevista e filma os melhores palhaços da Euro-
diretor de um espetáculo que denuncia a cristali- pa, apresenta também um jogo cênico entre o
zação repressiva de qualquer época ou reino. Branco, sempre com o traje mais luxuoso na luta
O Palhaço é um agente secreto social pronto dos figurinos e o Augusto, um tipo único que
para a revolução, tendo como estratégias o riso e não muda nem pode mudar de roupa, como o
a alegria. Sua história é a de um herói às avessas mendigo, o menino de rua ou o esfarrapado. Sua
que, de forma criativa, encontra sempre solu- beleza está na total falta de seriedade, incluindo o
ções para sua arte, indo onde o povo está, de vila próprio Diretor, no papel de um pretensioso di-
4135

Ciência & Saúde Coletiva, 16(10):4127-4138, 2011


retor que com sua equipe, tenta fazer um docu- Estamos falando de uma arte que vai para a
mentário sobre a relação dos palhaços Branco e rua, para o hospital, para o circo, cooperando
Augusto com personagens da vida cotidiana. pró-ativamente nas mudanças de realidades,
Questionado se era palhaço, Fellini61 responde: como uma pedagogia profana. Não ao contrá-
...creio que sou um Augusto. Mas também um rio de sagrado, mas uma pedagogia do humor
clown Branco ou, talvez, o diretor do circo. O que questiona o caráter moral e moralista do
médico de loucos que, por sua vez, enlouqueceu. discurso pedagógico. Segundo Larrosa62, a aus-
Larrosa62 afirma que o Palhaço é um absur- teridade dos museus impede o riso contrapon-
do, um personagem irreal, claramente fora do do-se ao que pretende enquanto uma “Cultura”
lugar. Mas às vezes, por um momento, é a pró- com “C” maiúsculo. O palhaço polemiza e, entra
pria estabilidade da situação dialógica, a solidez e em contato com o sério, a partir do riso. O riso
seriedade do real cenário que ele denuncia, como desmascara uma linguagem canonizada e aceita,
o coringa que pode assumir diversas personifi- que não duvida de si mesma, retira-a de seu lu-
cações. Um exemplo é o próprio Patch Adams, gar, de seus esconderijos, a expõe enquanto ideia
que em entrevista concedida ao programa Roda cristalizada e não universal, uma casca vazia62.
Viva63 revelou que seu Palhaço é um adulto com Nossa percepção e a boa receptividade das pes-
Síndrome de Down. Adams relata que ao enve- soas a essa arte, nos faz constatar de que se trata
lhecer o portador desta síndrome potencializa o de uma “linguagem patética”, com forte poten-
amor incondicional e seu estado brincante. Quem cial pedagógico para a construção de tecnologias
dera se a humanidade vivesse uma fração da in- sociais, que promove encanto, encontro, alegria
teligência emocional de um Down. e, portanto, saúde.
Patch Adams2 riu e questionou os métodos
utilizados pela comunidade médica, assim como Últimas gargalhadas
o Zaratrusta de Nietzsche ante a sociedade. Ada-
ms o fez adotando a Arte da Palhaçaria na pro- Em nossa investigação, tanto prática como
moção da alegria com saúde. Usou a arte para teórica, concluímos que a Arte da Palhaçaria é
questionar a estrutura normativa das escolas de uma ferramenta para a Dialogia do Riso. Na
medicina norte-americanas, num momento im- nobre arte temos o diálogo, o riso, a alegria, e
pulsionado pela contracultura, movimento de como foi dito, este é apenas um exemplo dos
mobilização e contestação política e social dos muitos que o conceito de Dialogia do Riso pode
anos 60. Sua indagação gerou um sonho chama- agregar. O saber sobre saúde e alegria evocado e
do Instituto Gesundheit onde a práxis é baseada apresentado pelo Palhaço, mobiliza a emoção
na lógica da Humorização (grifo nosso): sua equi- positiva e sua potencia de transformação, sem-
pe promove saúde na direção da integralidade pre presente na sua figura milenar. Entendendo
humana, usando ferramentas como a gentileza, que saúde é um conceito que se aproxima da ale-
a brincadeira, o encontro, o diálogo, o riso rumo gria, dependendo do contexto em que é reconhe-
à alegria. cido, este texto tem a intenção de provocar a de-
Como Nietzsche58 disse que não há fatos eter- fesa da construção de mais ações que dialoguem
nos e nem verdades absolutas, o Palhaço pode com a população e com os próprios trabalhado-
sair das ruas, circos e cortes para ocupar alguns res no sentido de gerar as “paixões alegres” de
campos da estrutura social como as ciências, a Espinosa. Defendemos aqui que o conceito de
saúde e as artes. Atualmente no Brasil temos diver- saúde hegemônico, centrado na técnica, não só
sas redes que promovem fóruns virtuais sobre o contribuiu para a medicalização da vida como
tema, como o site Pindorama Circus64 e encon- distanciou os profissionais de saúde do conheci-
tros internacionais de palhaços como os Anjos mento popular e da alegria.
do Picadeiro65, sendo possível constatar como a A partir destas percepções, propomos a cons-
arte ocupa diversos espaços e gêneros. No entan- trução de um novo paradigma embasado na ideia
to, no campo da saúde os palhaços têm sua pre- de que saúde não pode ser vista como algo cris-
dominância nos hospitais, como a trupe baiana talizado, que é nocivo à saúde por gerar a angús-
Terapêutas do Riso66 no complexo das Obras So- tia por nunca ser atingido. Vivemos todos no
ciais Irmã Dulce, atingindo mais de mil leitos, le- planeta Terra e seu futuro está totalmente interli-
vando arte e humanização com alegria, ou a En- gado à preservação e à sustentabilidade da vida.
fermaria do Riso67, na qual palhaços atuam em Compartilhamos a tese de Guattari68: não se tra-
hospitais universitários e de ensino a partir do ta mais de fazer funcionar uma ideologia unívo-
trabalho de uma escola de teatro. ca, mas sim promover o debate e o encontro para
4136
Matraca MVC et al.

decisões contextualizadas e mutáveis, pois como


dizia Chico Science69, dando um passo à frente já
não estamos mais no mesmo lugar.
Propomos, portanto, a Dialogia do Riso en-
quanto ferramenta para a formação de vínculos,
ao invés da lógica de restrições e obrigações.
Como foi descrito no presente artigo, mudanças
na prática de vários profissionais estão ocorren-
do no Brasil e no mundo. Desejamos Saúde, Ale-
gria e Prosperidade para o SUS, com profissio-
nais disponíveis ao encontro, para efetivamente
juntos construirmos uma saúde pública e coleti-
va, promotora da VIDA com ALEGRIA.

Colaboradores Referências

Todos os autores trabalharam na concepção e 1. Moraes V, Powell B. Samba da Benção. Em: “Vini-
na redação final do artigo. MVC Matraca foi o cius de Moraes e Odete Lara” faixa 11. Grav. Elen-
autor e TC Araújo-Jorge foi a orientadora da co, 1963. [acessado 2010 jan 06]. Disponível em:
Tese de Doutorado que originou este artigo: Ale- http://www.viniciusdemoraes.com.br/discografia/
sec_discogra_discos.php?id=2
gria para Saúde: A Arte da Palhaçaria como Pro- 2. Adams P, Mylander M. A terapia do amor. 1 ed. Rio
posta de Tecnologia Social Para o Sistema Único de Janeiro: Mondrian; 2002.
de Saúde (15/5/2009). 3. Valiate F, Tozzi, V. A busca da humanização no am-
biente hospitalar através dos Especialistas do Riso.
COMSAÚDE – 2001. [acessado 2010 jan 06]. Dis-
ponível em: http://www.projetoradix.com.br/dsp_
Agradecimentos abstr.asp?fuseaction=10a&id=173
4. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão
Os autores agradecem aos Palhaços do mundo, estratégica e Participativa. Departamento de Apoio
e a Francisco Romão Ferreira, Eduardo Stotz, à Gestão Participativa. Caderno de Educação Popular
Dário Pasche e Rosa Mitre, que atuaram como e Saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2007. [aces-
sado 2010 jan 06]. Disponível em: http://portal.
avaliadores na banca de Doutorado de MVCM, saude.gov.br/portal/saude/Gestor/visualizar_texto.
por diversas sugestões incorporadas no texto. A cfm?idtxt=25574
pesquisa foi financiada pela Fiocruz/Instituto 5. Campos MV, Araújo-Jorge TC. Palhaçadas, saúde
Oswaldo Cruz e Coordenação de Aperfeiçoamen- e alegria. In: Massarani L, organizadora. Memórias
to de Pessoal do Ensino Superior- Capes/MEC do Simpósio Ciência e Arte 2006. Rio de Janeiro:
Museu da Vida/Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz;
2007. p. 87-90. [acessado 2010 jan 06]. Disponível
em: http://www.museudavida.fiocruz.br/publique/
media/Memorias_Ciencia_e_Arte_2006.pdf
6. Matraca MVC. Matraca e o povo invisível. Video-
documentário. 2006. [acessado 2010 jan 06]. dispo-
nível em: http://video.google.com/videoplay?docid
=-2615803161554076328
7. Matraca MVC. Na pista. Vídeo-documentário. 2007.
[acessado 2010 jan 06]. Disponível em: www.
youtube.com/watch?v=Am2r8QGCuHQ
8. Segre M, Ferraz C. O conceito de saúde. Rev Saúde
Pública 1997; 31(5):538-542.
9. Carta de Ottawa. I Conf Intern sobre Promoção da
Saúde, Ottawa, nov 1986. [acessado 2010 jan 06]
disponível em: http://www.opas.org.br/coletiva/
carta.cfm?idcarta=15
4137

Ciência & Saúde Coletiva, 16(10):4127-4138, 2011


10. Lefevre F. Promoção da Saúde, ou, A negação. Rio de 30. Eco U. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fron-
Janeiro: Vieira & Lent; 2004. teira; 2000.
11. Rodrigues P H, Santos IS. Saúde e Cidadania: Uma 31. Skinner Q. Hobbes e a teoria clássica do riso. 1ª ed
visão histórica e comparada do SUS. São Paulo: Ed. São Leopoldo: Unisinos; 2002.
Atheneu; 2009. 32. Neves LFB. Ideologia da seriedade e o paradoxo do
12. Brasil. Constituição da República Federativa do Bra- coringa: O riso e o cômico. Rev Cultura Vozes 1974;
sil, Seção II Da Saúde, Artigo 196 [acessado 2010 68(1):35-40.
jan 06]. Disponível em: http://www.senado.gov.br/ 33. Palhaço Karandash. [site na Internet]. [acessado 2010
sf/legislacao/const/ jan 06]. Disponível em: http://www.mundoclown.
13. Sicoli JL, Nascimento PR. Promoção de Saúde: Con- com.br/falouedisse/karandashpalhacorusso
cepções, princípios e operacionalização. Interface - 34. Minois G. História do riso e do escárnio. São Paulo:
Comunic, Saúde, Educ 2003; 7(12):101-122. UNESP; 2003.
14. Projeto Saúde e Brincar, Instituto Fernandes Figuei- 35. Reali G. História da Filosofia. Vol. 5. São Paulo: Ed.
ra/Fundação Oswaldo Cruz. [acessado 2010 jan 06]. Paulus; 2005.
Disponível em: http://www.iff.fiocruz.br/textos/ 36. Bergson H. O Riso. Rio de Janeiro: Zahar; 1980.
prog_brincar.htm 37. Humoresques. [site na Internet]. [acessado 2010 jan
15. Morrow V. Children’s “Social Capital”: Implications 06]. Disponível em: http://pagesperso-orange.fr/
for health and well-being. Health Educ 2004; 104: corhum.humoresques/
211-225. 38. International Journal of Humor Research. [acessa-
16. Walker J, Boyce-Tilman, J. Music lessons on pre- do 2010 jan 06]. Disponível em: http://www.hnu.
scription? The impact of music lessons for children edu/ishs/JournalCenter.htm
with chronic anxiety problems. Health Educ 2002; 39. Organização Mundial da Saúde (OMS). Día Mun-
102:172-79. dial para la Prevención del Suicido 10 de septiem-
17. Mitre RMA, Gomes R. A perspectiva dos profissio- bre de 2007. [acessado 2010 jan 06]. Disponível em:
nais de saúde sobre a promoção do brincar em hos- www.who.int/mediacentre/news/statements/2007/
pitais. Ciênc Saúde Coletiva 2007; 12(5):1277-1284. s16/es/index.html
18. Garcez-Ghirardi MI, Lopes SR, Barros DD, Galva- 40. Benigni R. A Vida é Bela. 1999. Ficha técnica. [aces-
ni D. Vida na rua e cooperativismo: transitando sado 2010 jan 06]. Disponível em: http://www.terra.
pela produção de valores. Interface - Comunic, Saú- com.br/cinema/comedia/vida_bela.htm
de, Educ 2003; 9(18):601-610. 41. Frankl VE. Em Busca de Sentido: um psicólogo no
19. Projeto Saúde e Alegria. [acessado 2010 jan 06]. campo de concentração. 1984. [acessado 2010 jan
Disponível em: http:www.saudeealegria.org.br 06]. Disponível em: http://gropius.awardspace.com/
20. Houaiss A, Villar MS. Dicionário de Língua Portu- ebooks/frankl.pdf
guesa. Rio de Janeiro: Objetiva; 2001. 42. Xavier C. Aids é coisa séria! Humor e saúde: análise
21. Mariotti H. Diálogo: Um método de reflexão con- dos cartuns inscritos na I Bienal Internacional de
junta e observação compartilhada da experiência Humor, 1997. Hist Ciênc Saúde 2001; 8(1):193-221.
Rev Thot, 2001; 76: 6-22. [acessado 2010 jan 06]. 43. Berk LS, Felten DL, Tan SA, Bittman BB, Westen-
Disponível em: www.teoriadacomplexidade.com.br gard J. Modulation of neuroimmune parameters
/textos/dialogo/Dialogo-Metodo-de-Reflexao.pdf during the stress of humor-associated mirthful. Al-
22. Horton M, Freire P. Introdução. In: O caminho se tern Ther Health Med 2001; 7(2):62-72, 74-76.
faz caminhando: conversas sobre educação e mu- 44. Veloso C. Totalmente demais ao vivo. Dom de Ilu-
dança social. Bell B, Gaventa J, Peters J, organiza- dir. Polygram; 1986. 1982. [site na Internet]. [acessa-
dores. Petrópolis: Vozes; 2003. do 2010 jan 06]. Disponível em: www.caetanoveloso.
23. Deleuze G. Espinosa. Filosofia prática. São Paulo: com.br/sec_busca_obra.php?language=pt_BR&
Escuta; 2002. page=1&id= 68&f_busca=DOM%20DE%20ILUDIR
24. Freire P. Pedagogia do Oprimido. 17 ed. Rio de Ja- 45. Mora FJ. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola;
neiro: Paz e Terra; 1987. 2000.
25. Campos MV. O conceito de prevenção no discurso da 46. Descartes R. As paixões da alma. 1ª. ed. São Paulo:
Organização Pan Americana da Saúde [dissertação]. Abril Cultural; 1973.
Campinas (SP): Universidade Estadual de Campi- 47. Chaui M. Convite à filosofia. 1ª. ed. São Paulo: Áti-
nas; 2002. ca; 1994.
26. Stotz EM, Carvalho AP, Acioli S. O processo de 48. Espinosa B. Ética III: Da origem e da natureza das
construção compartilhada de conhecimento – uma afecções. São Paulo: Abril Cultural; 1972.
experiência de investigações cientificas do ponto 49. Boff L. A oração de São Francisco de Assis: Uma
de vista popular. In: Vasconcelos EM, organizador. mensagem de paz para o mundo atual. 7Ú Ed. Rio
A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da Rede de Janeiro: Sextante; 1999.
de Educação Popular e Saúde. 1ª ed. São Paulo: 50. Rosset C. Alegria: a força maior. Rio de Janeiro:
Hucitec; 2001. p. 101-104. Relume Dumará; 2000.
27. Bakhtin M. Teoría y Estética de La novela. Madrid: 51. Gadotti M. Convite à leitura de Paulo Freire. 2Ú ed.
Taurus; 1989. São Paulo: Scipione; 1991.
28. Bakhtin M. Estética da criação verbal. 2ª ed. São Pau- 52. Passoni I. Conhecimento e Cidadania. 1 Tecnologia
lo: Martins Fontes; 1997. Social. São Paulo: Instituto de Tecnologia Social –
29. Alberti V. O pensamento e o riso: a transformação do ITS; 2007. [acessado 2010 jan 06]. Disponível em:
riso em conceito filosófico. Rio de Janeiro: CPDOC; www.itsbrasil.org.br/pages/23/CadernoTS2007.pdf
2000.
4138
Matraca MVC et al.

53. Pasche DF, Passos E, Barros MEB. A Humanização


do SUS como uma política do comum. Interface -
Comunic, Saúde, Educ 2009; 13(Supl.1):491.
54. Lecoc J. Em busca de seu próprio clown. 1987. Tradu-
ção livre de Roberto Mallet. [documento na Inter-
net]. [acessado 2010 jan 06]. Disponível em: http:/
/www.grupotempo.com.br/tex_busca.html
55. Ruiz R. Hoje tem espetáculos? As origens do circo
no Brasil. Rio de Janeiro: INACEM; 1987.
56. Grupo Lume. [site na Intenet]. [acessado 2010 jan
06]. Disponível em: http://www.lumeteatro.com.br
57. Grupo Tempo. [site na Internet]. [acessado 2010 jan
06]. Disponível em: http://www.grupotempo.com.br
58. Nietzsche F. Vida e Obra: Assim Falou Zaratrusta.
São Paulo: Nova Cultural; 1999.
59. Batone N. Acrobatas Epiléticos; 2005 [site na Inter-
net]. [acessado 2010 jan 06]. Disponível em: http:/
/letras.terra.com.br/batone/1077803/
60. Burnier L O. Clown; 2001. [site na Internet]. [aces-
sado 2010 jan 06]. Disponível em: http://www.
grupotempo.com.br/tex_burnier.html
61. Fellini F. Sobre o clown; 1970. [site na Internet].
[acessado 2010 jan 06]. Disponivel em: http://www.
grupotempo.com. br/tex_fellini.html
62. Larrosa J. Pedagogia Profana: danças, piruetas e
máscaras. 4ª ed. Belo Horizonte: Autentica; 2003.
63. Programa Roda Viva. TV Cultura; 2007. [acessado
2010 Jan 06]. Disponível em: http://www.tvcultura.
com.br/rodaviva/resultado.asp?programa=1092
64. Pindorama Circus. [acessado 2010 jan 06]. Dispo-
nível em: www.pindoramacircus.arq.br
65. Anjos do Picadeiro. [acessado 2010 jan 06]. Dispo-
nível em: http://www.anjosdopicadeiro.com.br/
66. Terapêutas do Riso. [acessado 2010 jan 06]. Dispo-
nível em: http://www.terapeutasdoriso.com.br
67. Soares ALM. Enfermaria do Riso: experiência in-
terdisciplinar na UNIRIO. In: Alberto Ferreira da
Rocha Junior, organizador. Cultura e Extensão Uni-
versitária: A Produção de Conhecimento Compro-
metida com o Desenvolvimento Social. 1ª ed. São
João del Rey: Malta; 2008. p. 32-41.
68. Guattari F. As três ecologias. 3ª ed. Campinas: Papi-
rus; 1991
69. Chico Science & Nação Zumbi. Album Afrociber-
delia. Pernambuco: Sony Music; 1996.

Artigo apresentado em 13/10/2009


Aprovado em 08/01/2010
Versão final apresentada em 30/01/2010