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José Mattoso, A Escrita da História in Obras Completas, vol.

10,
Lisboa, Círculo de Leitores, 2002, p. 11-22.

1. A escrita da História*

Eis-me aqui, perante esta assembleia de não historiadores, a fazer uma


coisa de que me julgaria totalmente incapaz há uns dois ou três anos: falar
de questões muito gerais e fundamentalmente teóricas. Creio que só o
sucesso do que tenho escrito ultimamente, mesmo junto de um público não
especializado, me poderia dar confiança suficiente para tentar este salto no
desconhecido.
Quero começar por explicar muito brevemente a minha hesitação, não
tanto porque creia que as minhas angústias vos interessem, mas porque
isso me permitirá definir certos limites daquilo que quero dizer. A minha
insegurança resulta de uma certa aversão pessoal por questões teóricas e
por noções abstractas, agravadas por uma deficiente preparação filosófica.
Interessa-me a prática da lógica pela sua utilidade na produção de um
discurso rigoroso e coerente, mas a metafísica deixa-me muitas vezes
desorientado, com as suas generalizações demasiado amplas, as suas
abstracções que depois hesito em aplicar, e a sua terminologia cheia de
equivalências que afinal são menos equivalentes do que parecem. Apesar
disso, estou firmemente convencido da necessidade de o historiador se
apoiar no terreno conceptual, e de as opções aí tomadas serem explícitas, o
que obriga ao esclarecimento prévio de muitas questões teóricas, sobretudo
em matérias relacionadas com as ciências humanas, como a sociologia, a
psicologia ou a antropologia. De facto, as noções conceptuais fornecidas
por outras ciências têm-me sido muitas vezes mais úteis nas minhas
investigações do que os modelos propostos anteriormente por colegas da
minha especialidade.
Apesar desta convicção, nem sempre estou seguro da coerência dos
conceitos que vou buscar a essas ciências, coerência essa que deveria ser
buscada, justamente, no terreno filosófico. Os conceitos a que me refiro
servem sobretudo para seleccionar, classificar e interpretar o material
empírico que a documentação fornece. Até aqui tem-me parecido
suficiente o uso de teses bastante simples, ou mesmo elementares, e que
obtêm um certo consenso da parte dos especialistas. Não me tem sido
necessário entrar em problemas complexos, que impliquem a tomada de
posição por escolas interpretativas divergentes nos diversos ramos do saber.
Voltarei mais adiante a

* Conferência realizada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade


Nova de Lisboa, em 22 de Outubro de 1986 .

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este problema, que me parece de uma certa importância, para me referir a
questões mais concretas. Para já, pretendo sobretudo associar-me aos
historiadores profissionais, e à sua aversão para com a filosofia da História,
embora, em alguns casos mais especiais, fortemente interessados por
questões de método e mesmo de epistemologia.
Ora bem, o interesse suscitado pelos meus livros recentes como que me
impõe a justificação das minhas posições, directa ou indirectamente
solicitada pelo público. Já não posso limitar-me a soluções um tanto
instintivas. No entanto, a minha aversão aos problemas teóricos ou
propriamente filosóficos leva-me, mais uma vez, a esquivar, na medida do
possível, as justificações exclusivamente racionais para partir de uma
atitude existencial, e que considero profundamente pessoal. Ou seja, o que
queria aqui dizer hoje não é a definição de uma posição racional,
teoricamente justificável, mas a explicitação consciente de uma atitude
pessoal perante a História, que não quero propor como paradigma. O
recurso que forçosamente terei de fazer a alguma terminologia e
problemática epistemológicas não quer dizer o contrário do que acabo de
referir, mas apenas que, apesar de me colocar no plano existencial, não
pretendo esquivar um diálogo com os teóricos. Espero, pelo contrário, que
com a sua ajuda possa, eventualmente, corrigir o que haja de incorrecto e
de desastrado nas minhas explicações.
Para não me perder no meu percurso, vou procurar referir-me a três
momentos da elaboração do discurso histórico, que são, primeiro, o exame
do passado através das suas marcas, depois a representação mental que
desse exame resulta e, por fim, a produção de um texto escrito ou oral que
permite comunicar com outrem.
I
Antes de mais, portanto, o conhecimento do passado. Começarei por
dizer que não o concebo como uma operação equivalente à simples
selecção do conteúdo «útil» dos documentos onde ele está como que
congelado. Para mim, os documentos só têm sentido quando inseridos
numa totalidade, que é a existência do homem no tempo. Desde o
momento em que os considero como os vestígios desse itinerário temporal
do homem, e por tanto como um meio concreto a partir do qual se torna
existencialmente possível descrevê-lo, todos os elementos deles extraídos
se situam na escala de uma incomensurável relatividade. Este alargamento
da escala às dimensões da humanidade inteira e da totalidade do tempo
obriga, desde logo, a procurar o sentido dos actos humanos na sua
globalidade, ou seja, muito concretamente, a não dar mais valor à queda de
um império do que ao nascimento de uma criança, nem mais peso às
acções de um rei do que a um suspiro de amor. Ao dizer isto, prevejo, desde
logo, avalanches de objecções. Vêm, antes de mais, dos próprios
historiadores, sobretudo daqueles que distinguem cuidadosamente (ou que
tentam distinguir, sem nunca chegarem a conclusões válidas e claras) os
factos «históricos» dos «não históricos». Outrora, «factos históricos» eram só
as acções dos chefes políticos, dos génios ou dos heróis. Desde que a história
da humanidade se alargou, tudo tem dimensão histórica: desde a forma
de enterrar os mortos até à

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concepção do corpo, desde a sexualidade até à paisagem, desde o clima até
à demografia. E todavia, pouco importa, como exemplificou Henri
Marrou, que, no dia 16 de Agosto de 1610, um habitante de Saint Germain-
des-Prés, ao passear na rua, tenha apanhado na cabeça com um balde de
água suja, «un pot de grosse et menue matière ordre puant» [Do
conhecimento histórico, p. 42). Mesmo que este acidente tenha
desencadeado graves questões, o que o torna objecto da História não é o
facto em si mesmo, mas o que ele eventualmente possa representar para o
destino da humanidade. Este destino é, por isso mesmo, o único fio
condutor na busca de significado da infinitude de moléculas factuais que
engrossa o oceano da História.
Não ignoro as dificuldades deste ponto de vista. A pretensão de
totalidade desafia a capacidade da imaginação humana. Pessoalmente,
creio que só é possível abarcá-la tomando uma atitude a que não sei
chamar outra coisa senão «contemplativa». Tenho-o dito várias vezes, e
talvez seja agora a ocasião de me explicar melhor.
Na verdade, só o conhecimento pode tentar estender o olhar até aos
limites da História e do Universo, e pretender envolver tudo num único
golpe de vista. Afastemos, para não perturbar esta ideia, os conceitos
vulgares acerca da contemplação como passividade, como irrealismo
beatífico, ou mesmo como busca exclusiva do transcendente, por
oposição ao real, ao concreto ou ao ser criado. Na minha maneira de
entender, o melhor exercício contemplativo é justamente a observação
atenta do real, da «espantosa realidade das coisas», como diz Alberto Caeiro.
Quer dizer, uma observação que procura captar todas as suas dimensões: não
apenas as aparentes e imediatas, mas também as ocultas, não apenas as
mensuráveis, mas o que as coisas evocam ou simbolizam, não apenas o que
nelas é classificável segundo os parâmetros das diversas taxonomias
científicas, mas também o que só pode ser captado num registo poético. A
apreensão do real em todas as suas facetas implica que se ponham em jogo
todas as faculdades de observação, não apenas as racionais, mas também as
volitivas, o que corresponde a dizer que os sentidos do corpo e do espírito
se deverão abrir de tal modo ao real, que ele seja como que interiorizado,
absorvido, captado em nós mesmos. Este exercício é, por isso, um acto de
amor. Um amor na plena acepção da palavra, isto é, que não é
contaminado pela tentação de possuir, dominar ou destruir, mas que
mantém intacta a alteridade, a radical separação do sujeito e do objecto, e
que tenta estabelecer a relação com ele através do verbo interior, em todas as
suas dimensões: o cântico de admiração, o diálogo do gesto, a descoberta do
símbolo, o desencadeamento da palavra poética.
Tudo isto são analogias para tentar exprimir o indizível, porque a
totalidade do real só pode ser apreendida e transmitida por processos
simbólicos ou por um tipo de linguagem cujo código é infinito nas suas
expressões e recursos, como é a poesia. São analogias, também, para poder
definir a relação contemplativa com uma realidade ainda mais inacessível
do que a que os sentidos podem captar na sua imediatidade, quer dizer,
aquela que já foi devorada pelo tempo, a de outrora, e a que todavia
deixou nas coisas, e portanto no presente, as marcas da sua passagem. A
necessidade de um

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olhar ainda mais atento, mais lúcido e mais apaixonado é, por isso mesmo,
maior. Nada daquilo que se quer conhecer existe já. Só o podemos
apreender por meio de indícios dispersos, que têm de se aproximar
mentalmente, e que, uma vez reconstituído, será sempre irredutível ao
discurso que jamais se possa fazer sobre ele. Não é, todavia, este limite
imposto pelas mediações a que temos de recorrer que tira pertinência ao
trabalho com que a imaginação procura reconstituir o passado. A História
sempre exerceu sobre os homens um irresistível fascínio. Creio que este
fascínio resulta de o homem estar convencido de que pode encontrar no
passado algumas das respostas fundamentais acerca de si próprio. Procura-se
explicar muito do que hoje é «assim» pelo que ontem foi, e como foi. De
facto, a ignorância ou o desprezo do passado correspondem à tentativa
absurda ou perigosa de anular a posição anterior ou de querer negar o real.
Exprimem um olhar curto, obtuso, grosseiro, sobre a vida. A questão tem
alguma coisa que ver com o problema das ideologias conservadoras ou
progressivas, que só valorizam o passado, ou só querem alterar o presente,
mas é claro que não me desviarei para considerações deste género. Basta
aludir a uma questão que interessa a toda a gente e à necessidade de a
inserir numa perspectiva histórica. O que me importa agora, porém, é
que a atitude contemplativa permite apreender a realidade como fonte de
lucidez, como meio do qual se respira, como base de sustento. Não apenas
a realidade de hoje, mas a realidade de sempre.
Descendo agora alguns degraus neste exercício, aproximemo-nos de
questões mais próximas daquelas a que estão habituados os historiadores
profissionais, para explicar que a atitude contemplativa não se exige apenas
para tentar apreender a totalidade sem margens do real, mas também para
relacionar as partes com o todo, as moléculas com o universo, os homens
com a humanidade, para reunir num só acto a análise e a síntese, a distinção
e a composição. De facto, nada tem sentido em si mesmo, mas em virtude
da sua relação com alguma coisa. A gama das relações reais ou possíveis, por
sua vez, é infinita. Mas o espírito humano aprendeu desde sempre a
classificá-las conforme as suas diversas funções. Só este ponto de vista
permite resolver os bloqueios de uma história descritiva que, no limite, se
veria totalmente ultrapassada pela necessidade de tudo registar. Quando
se opta por contar o que aconteceu por causa de um balde de água suja que
caiu na cabeça de um transeunte, fosse em 1610 ou noutro ano qualquer, não
se pode mais encontrar o caminho certo da pesquisa nem do discurso. A
solução está, por isso, em definir os conjuntos em que se inserem os dados
particulares e os laços que os unem entre si. Sem esquecer os horizontes
ilimitados a que já aludi, não posso agora deixar de chamar a atenção para a
necessidade da prática contemplativa, mesmo face a campos visuais de
horizontes bem definidos, para poder descobrir todas as relações possíveis dos
elementos que os povoam e todos os componentes de cada uma das suas
parcelas. Recortada uma área de um campo de observação, terá então de se
examinar em todas as suas dimensões, para não perder nenhum dos seus
elementos, e reconstituir as suas funções no conjunto. Essa porção do real,
por sua vez, terá de se situar perante outros conjuntos, com os quais tenha
vínculos funcionais. Os praticantes das ciências exactas que aqui estão
sabem isto muito bem.

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Para nós, historiadores, a definição dos mecanismos e dos conjuntos não é
tão simples como no mundo da física, dada a complexidade da acção
humana e a sua constante alteração em virtude de factores muito
diversos. E preciso ter muita atenção e muita imaginação para não esquecer
todos os factores que interferem na História.
Dito isto, parece-me dispensável descer às questões técnicas de que se
ocupam largamente os tratados de metodologia histórica. O que importa é
que elas resultam fundamentalmente do problema da adequação dos
vestígios históricos com o passado no seu conjunto, ou seja, de saber em
que medida é que os documentos permitem reconstituir esse mesmo
passado. Uma vez equacionado este problema, ocupam-se também dos
cuidados que é preciso ter para que tal reconstituição não seja
arbitrária.
A este respeito, bastará dizer três coisas: primeiro, a tal atitude
contemplativa de que falava com tanta insistência, ao ponto de a relacionar
directamente com a linguagem poética e com o amor, não se opõe, de modo
algum, à atitude racional e científica. Não prejudica a objectividade do
conhecimento, antes pelo contrário. Torna a ciência extremamente
exigente, e o rigor da observação, incansável. Uma ciência e um rigor
sustentados pela paixão de conhecer, quer dizer, pela resposta à intensa
sedução que a História exerce sobre o homem. Por isso, quando falo em
«conhecer», penso aqui não só na acepção actual da palavra, mas também
no seu sentido bíblico que designa o acto do amor. Como dizia um autor
cisterciense do século XII, «amor ipse intellectus». O amor é ele próprio uma
forma de conhecimento.
A segunda coisa que queria dizer, é que a atitude contemplativa levará,
também, a não nos contentarmos com os vestígios escritos do passado.
O homem, além de produzir um discurso sobre si mesmo, para uso dos
vindouros, discurso esse geralmente muito deturpante, porque nele só têm
lugar os chefes, os proprietários e os heróis, deixa muitas outras marcas,
cuja eloquência depende justamente da curiosidade e da receptividade do
observador. Os arqueólogos estão habituados a examinar sobretudo essas
marcas. Elas estão por toda a parte, encontram-se mesmo à superfície da
terra. E no entanto, tal como acontece na arqueologia, só se entregam, só
se revelam a quem sabe procurá-las e reconhecer o seu valor, isto é, a sua
relação com o passado total. Por outro lado, também não se pode
confundir o passado com a memória dele, nem sequer com a memória
colectiva. Esta baseia-se, de facto, numa reconstituição imaginária, mítica,
mesmo quando resulta da transmissão escolar, porque condiciona muitas
vezes os comportamentos colectivos. Ora o discurso, mesmo científico,
acerca do passado, não é a sua imagem fiel, mas uma expressão do que o
seu autor pensa acerca da humanidade. Não basta, por isso, estudar os
documentos escritos; é preciso procurar o passado também na paisagem,
nos monumentos, nas iluminuras, nos jogos, nos contos, no imaginário
colectivo, nas técnicas artesanais, nos pelourinhos, nos barcos de pesca, na
terminologia das formas de tratamento pessoal, na paginação dos livros, nos
brinquedos, na moda, enfim, em tudo. Tudo tem uma espessura
diacrónica. A medição dessa espessura é a operação que permite situar o
respectivo objecto perante uma grande multidão de dados de natureza
estrutural e con-

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juntural, para avaliar a sua importância e o seu significado no caminhar da
humanidade.
Em terceiro lugar, a observação do passado não se destina a um
macabro trabalho de desenterrar mortos. Não é uma viagem ao reino das
sombras, nem pode resultar de uma predilecção bafienta pelo que o tempo
esterilizou. O que está morto, está morto. De facto, só me interessam as
coisas vivas, que me interpelam, que se metem comigo. Só me interessa o
presente e a maneira de me movimentar no espaço e no tempo em que
vivo. Quero com isto dizer que só me atrai, no passado, aquilo que me
permite compreender e viver o presente. O que acontece, é que, para o
compreender, não me basta conhecer uma pequena parcela, tenho de
o conhecer todo, não obviamente em todos os pormenores, mas como uma
totalidade na qual tenho de me inserir. Também não posso escolher da
História só aquilo que me agrada, mas igualmente o que incomoda, ou até
o que põe em causa as minhas ideias, nas sucessivas interpretações que, nas
diversas fases da minha vida, vou dando à realidade. Ora é justamente de
uma constante tentativa de comparar o presente com o passado que
resultam as principais alterações acerca da minha maneira de ver a sociedade e
o mundo. Para mim, portanto, a História não é a comemoração do passado,
mas uma forma de interpretar o presente. Ao descobrir a relação entre o
ontem e o hoje, creio poder decifrar a ordem possível do mundo, imaginária,
porventura, mas indispensável à minha própria sobrevivência, para não me
diluir a mim mesmo no caos de um mundo fenomenal, sem referências nem
sentido.
II

Esta ideia da passagem do caos à ordem introduz-nos já num segundo


momento da elaboração da História, ou seja, no processo que permite
transformar em representação mental os materiais colhidos na observação
contemplativa da realidade passada. De facto, já antes pressupunha que a
atitude contemplativa, imposta pelas infinitas dimensões do objecto
histórico, não conduzia apenas a tentar abarcar uma totalidade sem
margens, mas também a descobrir a sua natureza, os seus níveis, as suas
partes e estruturas, a maneira como as unidades se relacionam com os
respectivos conjuntos, e estes entre si e com essa mesma totalidade. Ou
seja, partia do princípio de que é possível encontrar fios condutores na
imensidade do real, ou melhor, na imensidade dos vestígios que deles
chegam até mim. Dito por outras palavras, partia do princípio que existe
neles uma ordem e que essa ordem me é mentalmente acessível. Ou seja,
que a aparência caótica do passado, sobretudo quando se encara na sua
totalidade, se pode resolver em ordem, e que esta ordem não é arbitrária. As
soluções possíveis são, decerto, muitas e variadas; mais ainda, está-me
vedada a descoberta da última e definitiva palavra que resolveria todos os
mistérios e contradições. Mas isso não altera a necessidade de pressupor o
fundamento objectivo da estrutura do real, assim como a de admitir a sua
acessibilidade pela sua percepção. Sem este pressuposto, não seria possível a
representação mental globalizante acerca do passado, a que a História
procede. Com efeito, e

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apesar de muitas e variadas objecções, admite-se actualmente que a
História é uma ciência, e não uma disciplina literária. Quer isto dizer que
propõe um discurso não arbitrário, quer do ponto de vista do conteúdo,
quer do ponto de vista da forma; e, ainda, que reivindica a possibilidade de
encontrar uma relação necessária entre o discurso e o seu objecto. E, se se
pode admitir no texto literário, como em toda a produção artística —
nomeadamente na música —, que evoque não a ordem, mas a desordem da
realidade, não a sua compreensibilidade através da demonstração da
estrutura e dos seus mecanismos, mas a desorientação subjectiva do sujeito
perante a dificuldade de lhe descobrir o sentido ou de se orientar no
meio das suas contradições, isso já não pode acontecer com a História. A
História destina-se, justamente, a tentar demonstrar que existe uma ordem
no mundo, e que uma das mais importantes chaves da sua descoberta é a
repartição de existência em passado e presente e o estudo do passado em
grandes planos, para encontrar as razões profundas dos movimentos
colectivos.
Isto não quer dizer que se deva ignorar a dificuldade levantada por
Kant, e, antes dele, pelos nominalistas, de saber se o que faço consiste em
apreender o real em si mesmo ou se a mediação das minhas categorias
mentais lhe atribui uma ordem cujo fundamento objectivo é
indemonstrável. Não posso ignorar que as palavras não são as coisas, e que
as minhas frases jamais ressuscitarão coisa alguma senão na minha
imaginação ou na daqueles que me escutam. Perante esta dificuldade clássica
da teoria do conhecimento, não tentarei resolvê-la com o recurso kantiano a
um qualquer imperativo categórico de ordem moral, mas apenas com a
evidência experimental, para não dizer emocional, daquilo a que só posso
chamar a comunhão com a realidade. Quer dizer, a relação contemplativa
com a realidade não me transmite apenas uma impressão de ordem, de
cosmos e não de caos, mas também que ele se impõe na sua alteridade, na
sua diferença radical face ao que eu sou, que se me impõe, digo, pelo que é
e não em virtude de uma construção arbitrária. O caos é aparente, revela
apenas uma face, esconde uma harmonia que é o fundamento do mundo. A
sua cosmicidade, se o posso dizer, é a condição para a apreender como
sedutor, e mais do que isso, como regenerador, como portador de vida e da
salvação. Porque a apreensão do mundo como caos e a diluição no caos,
que, como se sabe, é considerada regeneradora em todas as práticas
iniciáticas, só o é, creio eu, como um momento que antecede a sua própria
superação, e não como fim em si mesmo. É um ponto de passagem e não de
chegada. Ora a revelação do Universo como cosmos resulta justamente da
descoberta da palavra que o nomeia, como dizem todas as cosmogonias que,
de uma maneira ou de outra, atribuem ao Verbo a superação do caos.
A representação mental que permite o nascimento da História, é,
portanto, um acto verbal que brota do reconhecimento da ordem no
vasto campo da acção humana. Tem qualquer coisa de admirativo, de
emotivo. A sedução desencadeia a palavra. A representação mental que
conduz ao texto histórico resulta da apreensão da realidade como harmonia,
e como harmonia dizível. Como se existisse um Verbo eterno, imanente na
realidade, e que apenas espera ser reconhecido para se revelar através da
nossa

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voz. Da comunhão com ele resultam todas as linguagens, tanto as poéticas
como as científicas. Os textos que elas constroem são como que as diversas
interpretações de uma mesma partitura. Como terão já reconhecido alguns
dos meus ouvintes, inspiro-me aqui de ideias expressas pelos simbolistas,
nomeadamente por Mallarmé, e que correspondem também a certas pági-
nas fundamentais de Pessoa.
A referência a uma Palavra única, total, que traduz a unidade e a
coerência de todo o Universo criado, e é ela própria como que o suporte
da sua realidade, não exclui, antes pelo contrário, a produção da variedade
infinita de palavras para a dizerem, no tempo e no espaço. Aquelas que eu,
como historiador, tento pronunciar, brotam de uma experiência de carácter
poético, apesar dos processos analíticos a que tenho de recorrer para
traduzir a minha percepção. Para mim, escrever sobre o passado e falar da
História é uma consequência directa da minha descoberta da sua
estrutura complexa, tanto mais atraente quanto mais misteriosa, tanto
mais sedutora quanto mais inesgotável na infinita variedade das suas
harmonias escondidas.
E, todavia, a descoberta da harmonia da História não é o resultado
apenas de uma espécie de revelação directa e intuitiva. A intuição é
normalmente indizível. Em História, para poder traduzi-la com alguma
possibilidade de persuasão, é necessário apoiá-la em longas análises e na
investigação acumulada por outros exploradores do passado, durante
muitas e muitas gerações. Aqui, convém referir rapidamente alguns
elementos técnicos da metodologia histórica, cujo uso é tão indispensável
aos historiadores como o estudo da composição, da harmonia cromática e
do domínio do pincel o são para o pintor. Sem eles, a inspiração nada
produz de interesse. Quero-me referir, por um lado, aos processos de
classificação dos dados históricos, sejam as séries de factos ou de preços,
sejam as representações cartográficas que permitem visualizar a distribuição
dos fenómenos no espaço, sejam ainda os gráficos, que ajudam a definir as
tendências sincrónicas ou diacrónicas. Tudo isto pressupõe a recolha
laboriosa do material histórico em fichas, por meio das quais ele se
selecciona dos documentos examinados. Mas para que tanto a recolha dos
dados como a sua classificação não sejam meramente empíricos, tem de se
utilizar modelos e conceitos, sobretudo os já aperfeiçoados pelas outras
ciências humanas. São eles que determinam a hierarquia dos fenómenos,
as suas relações teóricas, as suas funções e a sua articulação. Os modelos e
conceitos são como que os fios condutores que sugerem os elementos a
procurar e propõem hipóteses interpretativas, cujo fundamento e solidez
terá de se verificar com o material empírico. Permitem a definição das
normas e das coerências a partir das quais se detectam os desvios, que, por
sua vez, terão de ser interpretados e explicados em função de conjunturas
temporais ou espaciais.
Todavia, o esquema metodológico orientador deste trabalho não é
apenas de natureza científica, ou seja, lógico, racional e discursivo. Tem de
se inspirar também nos processos da imaginação e da perspicácia. E preciso
detectar as anomalias, fazer falar indícios mudos, acumular provas,
inventar formas indirectas de revelar o que os documentos não dizem
abertamente. Darei um ou dois exemplos. Como se pode saber a
população de

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um país antes da era estatística? (Isto partindo do princípio não tanto que
a questão constitui em si mesma o objecto final da pesquisa histórica, mas
que, sem esse dado, dificilmente se interpretarão os movimentos de massas.)
Na Idade Média não se encontram nunca informações directas. Quando
muito, em alguns lugares, existem dados sobre o número de casais, os
dízimos ou outros dados quantitativos do mesmo género, mas nunca em
levantamentos completos nem em séries contínuas. Todavia, com a ajuda
destes dados e acumulando indícios indirectos, como o aumento do número
de paróquias rurais ou urbanas, o registo das terras desbravadas, o
aparecimento de novos topónimos, a extensão ou contracção das áreas
urbanas, e outros elementos do mesmo género, ficamos a saber não
propriamente números exactos, mas certas ordens de grandeza. Com
alguma sorte, podemos datar e localizar aproximadamente os ritmos de
crescimento ou as depressões demográficas.
Os documentos também nada dizem acerca do comportamento sexual
normal das populações. Mas nem por isso os historiadores se resignam a
ignorar tudo a este respeito. Estudam os penitenciais que registam as
reparações exigidas dos pecadores, os sermões que mencionam os vícios
do tempo, os romances e poesias com as suas alusões claras ou ocultas, os
símbolos e metáforas usadas para definir a relação entre o masculino e o
feminino, e assim sucessivamente. A antropologia moderna, sobretudo as
observações feitas junto dos povos ditos primitivos, fornecem algumas
hipóteses interpretativas e ajudam a procurar os indícios teoricamente mais
significativos. Os resultados podem ser magros, mas alguma coisa se
consegue. A sua verosimilhança depende da articulação com os
conhecimentos anteriormente adquiridos acerca da época, da região onde se
observam os fenómenos, do estrato social a que se referem.
A dificuldade da tarefa estimula muitas vezes a perspicácia da busca.
O trabalho histórico transforma-se então em desporto, numa autêntica
aventura exploratória, quando não numa tarefa de detective. Encontradas
as pistas, apanhada a caça, detectado o responsável, é preciso ainda
demonstrar o que se descobriu, fazer os relatórios, passar à fase da escrita, da
comunicação. É preciso transmitir o que se encontrou. Têm de se
distribuir os tesouros desenterrados.

III

Comunicar é, pois, a última fase da elaboração do discurso histórico.


Falo e penso em escrita, mais do que em comunicação oral, mas, para o
contexto muito amplo em que me situo, pouco importa a distinção.
O fundamental é que a mediação da palavra pronunciada, tornada exterior
ao sujeito, se deve considerar como que a pedra-de-toque da História.
Quero com isto dizer que a emoção causada pela contemplação do agir
humano de outrora, da qual brota a representação mental ou palavra
interior, não passa de impressão vaga, ilusória, e por isso mesmo estéril, se
não florescer em escrita ou discurso.
Quero dizer, ainda, que a revelação da ordem cósmica apreendida na
sua observação permanece engano se não se transforma em palavra externa.

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O que significa, finalmente, por mais paradoxal que isto seja, que a ordem
cósmica só existe, ou pelo menos só se torna fecunda, quando é
pronunciada. A palavra, o texto, é que realmente afundam, é que realmente
a instauram. Como intuíram há muitos séculos os filósofos e dizem de
muitas maneiras os poetas (os grandes), a palavra recria o mundo, tira-o do
caos para o cosmos. A palavra humana tem essa força criadora porque não é
senão a encarnação do Logos eterno no tempo.
A história escrita resulta, obviamente, da intensidade da descoberta.
Por isso insisto tanto no carácter triplamente emotivo e estético da
experiência que tento descrever. É-o desde a observação atenta e
apaixonada do real até à produção emocionada de um texto, passando pela
intensidade do cântico interior. Daí que o historiador, se o é de verdade,
não possa deixar de escrever, como o poeta não pode deixar de compor os
seus poemas, como o músico de criar as suas sinfonias, como o namorado
de falar da sua amada, como o místico de rezar e cantar. E, ao comparar a
história escrita com estas diversas espécies de textos nascidos de uma
experiência com um denominador comum, a percepção poética, pretendo
evidentemente insistir mais no carácter artístico do texto histórico, do que
no seu teor científico. Mas uma coisa não exclui a outra, como tentei
dizer há pouco, ao falar da representação mental. O que importa, aqui, é
sublinhar que o texto histórico terá de ser rigoroso, objectivo, bem
fundamentado, mas também claro, comunicativo, sugestivo, ou mesmo, no
limite, fundador de harmonia, construtor de evidências que seriam como
que a expressão do reconhecimento da ordem cósmica, ou, mais ainda, da
potência criadora do Logos. Por isso digo que a escrita da História é do
domínio da arte, quer ela se considere como uma techné, no sentido de um
saber afeiçoar a matéria, quer se considere como uma espécie de dom
carismático.
Falo, aqui, e sempre, de limites. Na prática, temos, é claro, de
reconhecer que existem graus. Há o texto ingénuo e rude, o livro maçador
mas útil pela selecção de materiais, o compêndio primário para consumo
escolar, a ordenação esquemática e simplista que só classifica
quantitativamente; mas há também a obra genial, verdadeiramente
reveladora do que ninguém ainda tinha descoberto, ou o texto fundador de
uma nova era historiográfica, quer dizer de uma nova etapa na
consciência que a Humanidade adquire da sua própria caminhada no
tempo. Entre estes diversos géneros, os graus são inúmeros, e é claro, não
interessa a nenhum aprendiz de historiador (que somos todos os que
escrevemos história), tentar saber que grau de genialidade alcançou, mas
apenas responder com paixão ao impulso interior. Porque, uma vez
produzido o texto, já não lhe pertence. Passa a fazer parte do património da
Humanidade. Dele brotam, então, sementes e frutos que o autor não
suspeitava e que não pode administrar.
Colocadas as coisas neste pé, neste impossível encontro entre a ciência
e a arte, entre as implacáveis exigências da acuidade detectivesca e os
êxtases do poeta ou do místico, gostaria agora de baixar novamente o
tom, e me remeter para noções mais concretas, para denunciar aqui os
vícios de certas escritas históricas deturpadas pelo academismo, o
enciclopedismo ou a retórica. Uma, a que, por imposição curricular
académica ou universitária, ou tornada vício imitatório, se reveste de
um aparato científico ou

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pseudocientífico, multiplicando citações, abusando de intermináveis notas,
acumulando bibliografias esmagadoras, numa demonstração despudorada
de erudição, que, com um pouco de experiência, se revela muitas vezes
como o pesado invólucro de simples banalidades ou de uma irremediável
insegurança. Outra, a enciclopédica, que tenta dizer tudo, prever tudo, e
sobretudo classificar tudo, mas não consegue descobrir o sentido
profundo de nada, que ignora as articulações e as hierarquias dos dados, e
se torna como um supermercado onde se pode comprar tudo menos o que é
essencial. Outra, finalmente, a retórica, que desde a teatralidade barroca até
à oratória ideológica, passando pelos exageros românticos, fazia do texto
histórico pretexto para drama, sermão, requisitório ou comício. Em
qualquer das hipóteses, um discurso que recorre à retórica, ao
enciclopedismo ou à erudição para subjugar o leitor a uma ideia ou um
sentimento, ou ao prazer de o dominar, será um discurso alienante e não
libertador.
Estes vícios não se devem confundir, no primeiro caso, com o rigor
necessário a um texto científico que tem, por isso mesmo, de produzir as suas
provas, de abrir o jogo, de fornecer ao leitor os materiais necessários para
ele exercer a crítica; nem, no segundo caso, com a variedade de registos
impostos pela Nova História, com a sua multiplicidade de campos de
investigação e com o uso de problemáticas criadas por outras ciências,
humanas ou exactas; nem, finalmente, no terceiro caso, com o texto bem
escrito, que usa os processos do estilo e cuida da harmonia e da forma. A
capacidade comunicativa, aquilo a que tenho chamado a fecundidade do
texto, depende da sobriedade e simplicidade com que se usam estes
recursos.
Queria, finalmente, transmitir a convicção de que a escrita em História
é um discurso pessoal. Quero com isto dizer que resulta da minha
interpretação. Como tal, não exclui outras maneiras de ver. Temos de
admitir que a infinita riqueza do passado humano se revela em mais do
que uma única ordenação, e que esta depende dos pontos de vista, que são
muitos. Nenhum discurso pode jamais esgotá-la. A variedade das
composições que suscita não põe em causa a sua unidade fundamental; as
contradições entre os diversos discursos são apenas o resultado de uma
realidade demasiado abundante e complexa para se poder traduzir
univocamente.
Todavia, não me parece dever confundir o carácter pessoal do texto
com a simples opinião. A opinião pode ter alguma base, mas é
tendencialmente subjectiva, arbitrária e gratuita. Quando um autor invoca
o direito de opinar, encerra-se na sua subjectividade e por isso como que
esquiva os compromissos daí decorrentes. Ora a História não é de modo
nenhum arbitrária. Tem de se construir segundo regras extremamente
exigentes. Uma vez adoptado um determinado esquema interpretativo, as
soluções têm de ser coerentes. Não dependem dos meus gostos ou
preferências. O recurso à opinião só é lícito quando nenhuma evidência
permite escolher uma das várias soluções concretas de um determinado
problema. Mesmo aqui parece-me preferível suspender o juízo.
Ao dizer que o texto histórico não se pode separar do autor que o
escreveu, não me refiro, portanto, ao processo discursivo que invoca o
direito de opinião, mas à necessidade de escrever em nome próprio e na
primeira pessoa. É uma forma de relativizar quer a experiência da
apreensão

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do conhecimento histórico, quer as fórmulas escolhidas para a transmitir.
E também uma forma de convidar à crítica, de abrir o debate, de exprimir
a provisoriedade de toda a descoberta, e, por isso mesmo, de comunicar
com o leitor. Não há História definitiva, pela simples razão de que a
palavra pronunciada, por mais fundadora e fecunda que seja, está ela
própria sujeita ao tempo, torna-se ela própria passado, objecto de outras
experiências, o que quer dizer que tem de ser constantemente renovada,
constantemente pronunciada para se manter viva. A sua relação com uma
intuída Palavra eterna exige a sua actualização constante para que o tempo
não devore tudo.
Resta-me exprimir uma última ideia antes de terminar. A de que a
História, por mais expressiva que seja, por mais ligada ao fascínio do que do
passado hoje permanece, a História não é a realidade. A escrita não é senão
um conjunto de palavras evocadoras de sons que pretendem lançar uma
ponte entre o sujeito e a realidade. Como sons mediadores que pretendem
ser, convidam a descobrir a realidade. Não podem tentar encerrá-la nem
dominá-la. Tendo colocado em cena um aspecto do real, havendo tentado
subtraí-lo à acção destruidora do tempo que tudo sepulta no passado, os
discursos têm depois de se apagar, para deixarem ver, na revelação directa,
a «espantosa realidade das coisas». O texto histórico é como a palavra de
João Baptista no deserto, que dizia acerca de si próprio, como anunciador
do Messias: «é preciso que ele cresça e eu diminua» (Jo, 3, 30). Cumprida
a mediação, tem de se reduzir ao silêncio.”

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