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O 18 de Brumário de Luís Bonaparte de Karl Marx e o conceito de bonapartismo

Antônio Mazzeo

O conceito de bonapartismo em Marx decorre de uma experiência objetiva que se


viveu na França. O momento histórico desta deu-se quando o sobrinho de Napoleão
Bonaparte, Luís Napoleão, sobe ao poder, através de um golpe de estado.

Podemos fazer um resumo sucinto, que é o seguinte.

Luís Napoleão constrói alianças políticas que possibilitam o isolamento e a repressão


do movimento operário, do movimento dos trabalhadores e da democracia. A burguesia sente
a necessidade de construir, na estrutura do estado burguês, instrumentos para poder reprimir
o movimento operário.

De certa maneira, o 18 Brumário de Marx, mostra também como a burguesia vai


construindo os seus instrumentos de hegemonia e de poder, isto é, a partir do 18 Brumário é
que se cria a ideia de estado de exceção e, obviamente, as manobras políticas de como é são
constituídos os blocos hegemônicos e o bloco histórico da burguesia.

Temos então, no 18 Brumário , esta questão ressaltada, além das relações burguesas e
da pequena burguesia que sempre oscilam, já que a pequena burguesia vive atormentada com
o pavor de virar proletária, de proletarizar-se. Por outro lado, percebe-se um fenômeno, ao
qual Marx vai chamar de Lumpenproletariat, em alemão, que significa: proletariado em
farrapos, que além de não ter emprego, está desordenado e desagregado ideologicamente

Existe uma reflexão de Friedrich Engels, num livro de juventude dele, A Situação da
Classe Trabalhadora na Inglaterra, em que, em uma passagem, faz a seguinte observação: um
meio social degradado gera uma consciência social degradada. De tal modo que, ao viver-se na
degradação, Marx consegue perceber (não só Marx, mas muitos romancistas da época, como
por exemplo, Zola), que a vida desagregada, a vida sem trabalho, a vida marginalizada das
pessoas, do trabalhador, fora de alguma uma normalidade na aquisição de renda, desagrega
sua forma de consciência, como inevitável consequência.

Esse setor é o que Marx vai chamar lupem proletariado, que se constitui em um dos
instrumentos que a burguesia vai usar para montar suas tropas de choque, de reprimir o
movimento operário. Assim tem sido classicamente o fundamento da ação da burguesia e da
sua ação autocrática. Basta lembrar que a base do fascismo, além da pequena burguesia e dos
grandes monopólios capitalistas, imperialistas, há uma pequena burguesia conservadora, que
se embrenha no senso comum, sendo muito reacionária, aliada ao lupem proletariado, que
sempre constituiu a tropa de choque desta burguesia. Este lupem proletariado vai também ser
um manancial de recrutamento para as polícias do estado que irão constituir as polícias de
repressão do movimento operário, no caso no Brasil, é a Polícia Militar.

O conceito que Marx vai criar, a partir da experiência de Luiz Napoleão, vem a ser o
bonapartismo. Gramsci tentou trabalhar com o conceito de czarismo, neste sentido, e outros
trabalharam com o conceito de bismarckismo. Na verdade são variantes, podemos dizer assim,
da análise o Marx faz no 18 Brumário.
No plano genérico, ao utilizarmos este conceito, conseguimos avaliar o próprio caráter
do fascismo, e vermos que este, assim como o nazismo, são formas bonapartistas de governo
da burguesia. Entende-se, então, que o pressuposto é um apoio Incondicional da burguesia
para essa estrutura política, que vai suprimir os direitos democráticos, que vai super-explorar o
trabalhador, que vai, ao mesmo tempo, reprimir os movimentos dos trabalhadores e os
movimentos sociais.

O Brasil surge como nação já sob a égide de alguma coisa muito parecida. O
bonapartismo classicamente ocorre em sociedades aonde o capitalismo chega na era do
imperialismo com os burgueses hegemônicas na estrutura do poder e na estrutura do
imperialismo (é o caso da França, da Alemanha, do Japão). O bonapartismo não é uma receita,
mas é uma forma organizativa que a burguesia encontra para governar sem os trabalhadores e
contra eles.

Também não é um fenômeno que não ocorre somente um país de capitalismo tardio,
ocorre, em vários momentos, por exemplo, nos Estados Unidos (bastas nos reportamos à
experiência de Roosevelt, em que se desmontou a estrutura sindical, fez-se um acordo com a
máfia siciliana, a qual se se entregou sindicatos com a finalidade de assassinar os líderes
sindicais, ao mesmo tempo apoiando o núcleo imperialista da burguesia, com apoio da
pequena burguesia, com o lupem proletariado espancando trabalhadores em greve. Vê-se
também, assim, o quadro clássico também nos Estados Unidos do bonapartismo.

No Brasil também. O Brasil viveu vários momentos em que houve uma oscilação entre
uma autocracia burguesa institucionalizada e o bonapartismo escancarado. O último que se
conheceu foi o golpe de 64, e agora estamos vivendo um momento de um certo bonapartismo
com um forte núcleo da autocracia burguesa, com a diferença é que não é a de manter o Brasil
autônomo, no sentido do imperialismo, mas tem como fim manter o Brasil inserido no âmbito
do imperialismo de forma subalterna e complementar da economia mundial.

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