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Paulo Arthur Germano Rigamonte

O HUMORISMO COMO MANIFESTAÇÃO DA LIBERDADE DE

EXPRESSÃO NO CONTEXTO DA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO

TRIBUNAL FEDERAL

Centro Universitário Unitoledo

Araçatuba – SP

2016
Paulo Arthur Germano Rigamonte

O HUMORISMO COMO MANIFESTAÇÃO DA LIBERDADE DE

EXPRESSÃO NO CONTEXTO DA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO

TRIBUNAL FEDERAL

Monografia apresentada como requisito parcial para


obtenção do grau de Bacharel em Direito pelo Centro
Universitário Toledo, sob a orientação do Prof. Dr.
Daniel Barile da Silveira.

Centro Universitário Unitoledo

Araçatuba – SP

2016
BANCA EXAMINADORA

___________________________________________
Prof. Dr. Daniel Barile da Silveira (Orientador)

__________________________________________
Prof. Me. Thiago de Barros Rocha

__________________________________________
Prof. Me. Pedro Luís Piedade Novaes

Araçatuba, 07 de outubro de 2016.


Dedico essa monografia a mim, pelo esforço
que envidei durante os cinco anos de
graduação, vencendo o cansaço e superando
as frustrações do dia-a-dia, e também pelos
frutíferos resultados que colhi nessa jornada,
representados por minhas conquistas, meu
conhecimento e minha experiência acadêmica
adquiridos.
Agradeço primeiramente à Deus, pois a ti
confiei minhas escolhas e a mim Ele concedeu
sua benção. Agradeço a minha família, pai,
mãe e irmão, pelo apoio que sempre me
deram, sobretudo aos meus pais, Paulo Sérgio
Rigamonte e Ana Germano Rigamonte, que
permitiram, com seus grandes e reconhecidos
esforços, que eu chegasse bem sucedido ao
diploma. Agradeço aos professores e aos
profissionais que fizeram parte da minha
graduação, sejam aqueles que lecionaram
durante o curso, sejam aqueles que
acrescentaram experiência à minha
graduação nos estágios pelos quais passei, em
especial ao Dr. Paulo Domingues, ao Prof.
Me. Thiago de Barros Rocha e ao meu
orientador e amigo Prof. Dr. Daniel Barile da
Silveira. Agradeço às amizades que fiz durante
a faculdade, que me proporcionaram
momentos felizes e divertidos, os quais serão
levados para sempre em minha memória. Por
fim, não menos importante, agradeço a minha
namorada, Débora dos Santos Viana, pelo
companheirismo, amizade e amor que tem
compartilhado comigo até então.
O humor não é um estado de espírito, mas
uma visão de mundo.

L. Wittgenstein, Aforismos, 1949.


RESUMO

O humor é um fenômeno interdisciplinar. No que tange à Ciência Jurídica, o humor guarda


intrínseca relação com o direito à liberdade de expressão e com o direito à criação artística,
ambos tutelados pela Constituição Federal de 1988. A importância dessa pesquisa reside no
crescimento do debate acerca dos programas humorísticos e suas limitações frente aos direitos
da personalidade, ao mesmo tempo em que o humor irradia os valores da liberdade de
manifestação de ideias, opiniões e pensamentos, bem como apresenta-se como forma de
criação artística. Para tanto, num primeiro momento, busca-se definir o conteúdo do direito à
liberdade de expressão, amparando-se na doutrina especializada e no texto constitucional, a
fim de definir os contornos desse direito e as formas de controle que incidem sobre ele. Em
um segundo momento, realiza-se um estudo aprofundado do humor e do riso, elencando os
principais ensinamentos sobre essa espécie de discurso e narrando sua importância na história
da humanidade. Num terceiro momento, procede-se a uma busca quantitativa na
jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, tomando-se nota dos casos de maior relevância
julgados pela Corte, após o que se faz um estudo dessas decisões a fim delas extrair o exato
conteúdo jurídico do humorismo como manifestação da liberdade de expressão. Com isso,
verifica-se que o humor é um tema tímido na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal,
deixando para o leitor um legado de reflexões acerca dos rumos que a discussão poderá tomar,
sobretudo ao considerar o humorismo ora como liberdade de imprensa, quando relacionado à
crítica jornalística, ora como criação artística, quando relacionado ao profissional do humor,
ou ainda, às pessoas comuns que eventualmente dedicam-se ao riso.

Palavras Chave: Humor; Liberdade de expressão; Liberdade de imprensa; Liberdade de


criação artística.
ABSTRACT

The humor is an interdisciplinary phenomenon. Regarding the Legal Science, the humor
protects the intrinsic relation with the right to freedom of expression and the right to artistic
creation, both protected by the Federal Constitution of 1988. The importance of this research
lies in the growing debate about the comedy shows and limitations on the individual rights,
while the mood radiates the values of freedom of expression of ideas, opinions and thoughts,
and presents itself as a form of artistic creation. Therefore, at first, it seeks to define the
content of the right to freedom of expression, based on the specialized doctrine and on the
Constitution in order to define the boundaries of this right and the forms of control that focus
on it. In a second stage, carried out a thorough study of humor and laughter, listing the main
lessons of this kind of discourse and chronicling his importance in the history of mankind.
Thirdly, it proceeds to a quantitative search in the jurisprudence of the Supreme Court, taking
note of cases of greater relevance judged by the Court, after which it makes a study of these
decisions in order to extract from them the exact legal content of humor as a manifestation of
freedom of expression. Thus, it appears that humor is a shy theme in the jurisprudence of the
Supreme Court, leaving the reader a reflection of legacy about the direction that the
discussion can take, especially when considering the humor or as freedom of the press, when
related the journalistic criticism, sometimes as artistic creation, when related to professional
humor, or even ordinary people who eventually are dedicated to laughter.

Key-Words: Humor; Freedom of expression; Freedom of press; Freedom of artistic creation.


LISTA DE ABREVIATURAS

ADI-MC = Medida Cautelar na Ação Direta de Inconstitucionalidade

ADI = Ação Direta de Inconstitucionalidade

ADPF = Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental

a.C. = Antes de Cristo

Art. = Artigo

CF = Constituição Federal

CPC = Código de Processo Civil

CQC = Custe o que Custar

DF = Distrito Federal

DVD = Digital Video Disc

ECA = Estatuto da Criança e do Adolescente

EUA = Estados Unidos da América

Min. = Ministro

nº = Número

p. = Página

p. ex.: Por Exemplo

Rel. = Relator

STF = Supremo Tribunal Federal

STJ = Superior Tribunal de Justiça

TSE = Tribunal Superior Eleitoral

TV = Televisão
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.......................................................................................................................12
I – A LIBERDADE DE EXPRESSÃO..................................................................................14
1.1 – A liberdade de pensamento como um direito a priori.................................................14
1.2 – O conceito e as dimensões da liberdade de expressão................................................15
1.3 – Os fundamentos da liberdade de expressão.................................................................18
1.3.1 – A liberdade de expressão como garantia da autossatisfação individual (self-
fulfiment)..........................................................................................................................19
1.3.2 – A liberdade de expressão como meio de conceber a verdade.............................20
1.3.3 – A liberdade de expressão como garantidora da democracia............................... 21
1.3.4 – A liberdade de expressão como ferramenta de manutenção da atividade
governamental.................................................................................................................22
1.4 – A liberdade de expressão como direito fundamental assegurado na Constituição
Federal de
1988.................................................................................................................................23
1.5 – Demarcações constitucionais do direito à liberdade de expressão..............................28
1.5.1 Direitos da personalidade.......................................................................................30
1.6 Formas de controle da liberdade de expressão...............................................................32
1.6.1 Controle administrativo..........................................................................................32
1.6.2 Controle judicial.....................................................................................................34
1.6.2.1 Tutela civil......................................................................................................35
1.6.2.2 Tutela penal.....................................................................................................37
II – O HUMORISMO COMO FORMA DE MANIFESTAÇÃO DA LIBERDADE DE
EXPRESSÃO...........................................................................................................................39
2.1 – O fenômeno do riso, suas origens históricas e preocupações teóricas........................39
2.2 – Freud: a importância do humor na sociedade contemporânea....................................44
2.3 – O riso e suas expressões..............................................................................................45
2.4 – O humor e sua relação com a liberdade de expressão.................................................46
III – O HUMORISMO NO CONTEXTO DA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL.........................................................................................................50

3.1 – Humorismo no STF: uma pesquisa de resultados tímidos..........................................50


3.2 – A ADPF 130 e os contornos da liberdade de expressão..............................................58

3.2.1 – Os principais argumentos nos votos da ADPF 130.............................................59

3.2.2 – A ratio decidendi no acórdão da ADPF 130.......................................................63

3.3 – A ADI 4.451 e os contornos da crítica humorística....................................................64

3.3.1 – Os principais argumentos nos votos da medida cautelar na ADI 4.451..............65

3.3.2 – A ratio decidendi no acórdão de Referendo da Medida Cautelar na ADI 4.451 e


seus reflexos sobre o humorismo.....................................................................................71

CONCLUSÃO.........................................................................................................................74
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................................77
12

INTRODUÇÃO

O direito à liberdade de expressão, também conhecido como direito à liberdade de


manifestação do pensamento, é a faculdade que todo e qualquer cidadão tem de emitir ideias,
opiniões e pensamentos, através de qualquer forma, seja ela escrita, falada, por gestos ou
mímicas, bem como de conhecer ideias, opiniões e pensamentos vertidos por terceiros.
Ademais, a liberdade de expressão também compreende o direito de conhecer informações e
notícias sobre fatos e acontecimentos, assim como o direito de difundir essas notícias e
informações para pessoas alheias.

No bojo da liberdade de expressão situa-se o humorismo, fenômeno esse que necessita


da liberdade de expressão como motor de impulsão, o que se faz através dos meios de
comunicação, tais como os impressos (gazetas, panfletos, jornais, revistas e livros), os
programas de radiofusão sonora e de sons e imagens (programas de rádio e de televisão), a
internet etc.

Dessa forma, considerando o humorismo como forma de manifestação do direito à


liberdade de expressão, pode-se afirmar que a proteção conferida à liberdade de expressão
pela Constituição Federal de 1988, em especial o previsto em seu art. 220, caput, deve ser a
mesma atribuída à atividade humorística.

Nesse sentido, o humor pode tanto se apresentar como crítica, caso em que merecerá
idêntica tutela conferida à liberdade de imprensa, como também pode se apresentar como
simples manifestação individual das pessoas, caso em que merecerá o resguardo do direito à
criação artística. Em todo caso, o humorismo é pura liberdade de expressão, não se afastando
dele os valores e interpretações inerentes à referida liberdade.

Ocorre que a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, apesar de ser farta quando a
pesquisa recai sobre o conteúdo da liberdade de expressão em geral, muito pouco aborda o
humorismo como manifestação dessa liberdade, deixando um vácuo interpretativo para os
demais órgãos do Poder Judiciário.

Diante disso, o presente trabalho busca interpretar a tímida jurisprudência do Supremo


Tribunal Federal, a fim de extrair, ainda que em poucas divagações, o verdadeiro conteúdo do
direito de fazer humor e seu elo com a liberdade de expressão, numa tentativa de estabelecer
seus eventuais contornos e fixar as conclusões acerca do que já foi objeto de litígio na Corte.
13

A partir disso, novas interpretações e discussões ganham relevo, permitindo-nos conjugar,


talvez num momento futuro, as constatações dos tribunais inferiores acerca do humorismo e
da liberdade de expressão com as diretrizes fixadas pelo Supremo Tribunal Federal.

Para o desenvolvimento árduo desse tema, como se pode imaginar, foram utilizadas
pesquisas bibliográficas e jurisprudenciais. As pesquisas bibliográficas ganharam dimensão
interdisciplinar, pois baseadas estiveram tanto em obras de Direito Constitucional e
específicas sobre a liberdade de expressão, quanto em obras relacionadas à Psicologia, à
História e à Linguística, sobretudo no segundo capítulo, oportunidade em que foi abordado o
humor e suas discussões teóricas. Já no que tange às pesquisas jurisprudenciais, o foco recaiu
sobre o Supremo Tribunal Federal, em especial a ADPF nº 130/DF e a ADI nº 4.451/DF.

Por fim, é válido apontar que essa pesquisa estendeu-se por três capítulos:

No primeiro deles será dado ênfase ao conteúdo da liberdade de expressão, buscando-


se conceituar esse direito conforme a doutrina especializada e o texto constitucional, fixar
suas dimensões e fundamentos, definindo seus limites e formas de controle.

No segundo capítulo, buscar-se-á caracterizar o fenômeno do riso, suas origens


históricas e preocupações teóricas, ressaltando a importância do humor na sociedade
contemporânea e sua ligação com o direito à liberdade de expressão.

Ao final, já no terceiro capítulo, proceder-se-á a uma pesquisa na jurisprudência do


Supremo Tribunal Federal, em busca do entendimento acerca da liberdade de expressão na
ADPF nº 130/DF para, num segundo momento, compreender a relação do humor com essa
liberdade constitucional no Referendo da Medida Cautelar na ADI nº 4.451/DF.
14

I. A LIBERDADE DE EXPRESSÃO

A liberdade de expressão como um direito a ser tutelado pelo Estado constitui um


tema de estudo muito relevante, em razão da célere e ágil difusão de ideias, opiniões,
pensamentos e juízos de valores que se tem hoje em dia. Trata-se, assim, de uma das
liberdades constitucionais mais complexas, senão a mais, eis que implica na delimitação dela
frente a inúmeros outros direitos igualmente tutelados em nosso ordenamento jurídico.

Por essa razão, então, é necessário dedicar à liberdade de expressão um longo capítulo,
o qual abrangerá desde os conceitos mais teóricos tecidos ao conteúdo desse direito até as
suas formas de controle atualmente admitidas.

1.1 A liberdade de pensamento como um direito a priori

Antes de uma abordagem mais profunda sobre a liberdade de expressão, seu conceito,
seus fundamentos e dimensões, cabe definir, em termos breves, um direito que surge a priori,
isto é, de forma primogênita: o direito de pensar.

O direito de pensar, também conhecido como liberdade de pensamento, é o direito que


toda pessoa tem de projetar ideias e opiniões em seus laços íntimos, para si mesmo.

Stuart Mill (apud WEFFORT, 2006, p. 211) discorre que:

(...) a esfera adequada da liberdade humana compreende, inicialmente, o domínio


interno da consciência: exigir liberdade de consciência no sentido mais abrangente,
liberdade de pensamento e sentimento, absoluta liberdade de opinião e sentimento
sobre todos os assuntos, práticos ou especulativos, científicos, morais ou
teleológicos.

Gilberto H. Jabur leciona que o pensamento “consiste na atividade intelectual através


da qual o homem exerce uma faculdade de espírito, que lhe permite conceber, raciocinar ou
interferir com o objeto eventual” (2000, p. 148).
15

Mais adiante, Pontes de Miranda esclarece que “a livre manifestação ou emissão do


pensamento é direito de liberdade do indivíduo em suas relações com os outros, no que se
distingue da liberdade de pensamento, que é direito do indivíduo sozinho, de per si” (1968, p.
139).

Apesar da importância merecida à liberdade de pensamento, o Direito vem melhor se


ocupar com a manifestação desse pensamento, pois se o sujeito pudesse se isolar no segredo
da vida interior, nenhum problema jurídico criaria (RIVERO, 1997, apud GODOY, 2015).

A par desta lição, Pimenta Bueno (apud SILVA, 2016, p. 462) explica que a
“liberdade de pensamento em si mesmo, enquanto o homem não manifesta exteriormente,
enquanto não comunica, está fora de todo o poder social, até então é do domínio somente de
sua inteligência e de Deus”.

A partir de então, com a difusão do pensamento encerrada num fenômeno jurídico-


social, surgem as problemáticas nas quais é preciso o Direito insurgir, mais especificamente
sobre o movimento interno e externo que faz o pensamento através da expressão de opiniões.

1.2 O conceito e as dimensões da liberdade de expressão

Buscando o melhor conceito de liberdade de expressão, vamos nos socorrer ao


entendimento predominante na Europa, também referendado no Brasil, que nos remete à
leitura do art. 19.2 do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, adotado pela
Assembleia Geral das Nações Unidas, de 19 de dezembro de 1966, segundo o qual:

Toda pessoa terá direito à liberdade de expressão; esse direito incluirá a liberdade de
procurar, receber e difundir informações e ideias de qualquer natureza,
independentemente de considerações de fronteiras, verbalmente ou por escrito, em
forma impressa ou artística, ou por qualquer outro meio de sua escolha.

O mencionado texto explica que a liberdade de expressão compreende a liberdade de


expressão em sentido estrito (stricto sensu) e a liberdade de informação.
16

A liberdade de expressão em sentido estrito é o direito que as pessoas tem de livre se


expressar, isto é, de fazer difundir, por qualquer meio, ideias e opiniões de qualquer natureza
(artística, literária, científica etc.).

Ao lado da liberdade de expressão em sentido estrito, existe a liberdade de


informação, a qual se refere aos direitos de conhecer e de fazer conhecer fatos, dados, notícias
e informações sobre os acontecimentos que circundam o dia-a-dia das pessoas e da
comunidade, tanto a nível nacional quanto a nível internacional.

Luís Gustavo Grandinetti de Carvalho (1999, p. 25), leciona que:

Por isso é importante sistematizar, de um lado, o direito de informação, e, de outro, a


liberdade de expressão. No primeiro está apenas a divulgação de fatos, dados,
qualidades, objetivamente apuradas. No segundo está a livre expressão do
pensamento por qualquer meio, seja a criação artística ou literária, que inclui o
cinema, o teatro, a novela, a ficção literária, as artes plásticas, a música, até mesmo a
opinião publicada em jornal ou qualquer outro veículo.

Aliás, por se referir a fatos a liberdade de informação exige a prova da verdade, ou, ao
menos, a existência da um trabalho necessário preparatório acerca da informação veiculada.
Por outro lado, a liberdade de expressão stricto sensu, por se referir a ideias, opiniões e
pensamentos, não está condicionada à verdade, pois esta representa um limite apenas do
direito fundamental à liberdade de informação (CHEQUER, 2011).

Como visto, tanto a liberdade de expressão em sentido estrito quanto a liberdade de


informação são direitos que exigem certa reciprocidade, ou seja, é um direito do indivíduo
difundir suas ideias e opiniões de qualquer natureza na medida em que possa conhecer e ter
acesso às variadas opiniões e ideias vertidas por terceiros. Igualmente, é tanto um direito do
indivíduo divulgar fatos, notícias e informações quanto conhece-las através dos meios de
comunicação.

Noutro giro, a liberdade de expressão, agora tomada em sentido amplo: consiste,


basicamente, no direito de comunicar-se, ou de participar de relações comunicativas, quer
como portador da mensagem (orador, escritor, expositor), quer como destinatário (ouvinte,
leitor, espectador) (MARTINS NETO, 2008, p. 27).

A propósito, a abordagem da liberdade de expressão como um direito de “mão-dupla”


vem consagrada em importantes documentos internacionais, a exemplo da Convenção
Europeia dos Direitos do Homem, que assim dispõe, em seu art. 10, § 1º:
17

[...] toda pessoa tem direito à liberdade de expressão. Esse direito compreende a
liberdade de opinião e a liberdade de receber ou de comunicar informações ou
ideias, sem que possa haver a ingerência da autoridade pública e sem consideração
de fronteiras.

Outrossim, a Convenção Americana de Direitos Humanos, em seu art. 13.1, preconiza


que:

Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Esse direito


compreende a liberdade de buscar, receber e difundir informações e ideias de toda
natureza, sem consideração de fronteiras, verbalmente ou por escrito, ou em forma
impressa ou artística, ou por qualquer outro processo de sua escolha.

A propósito, interpretando este dispositivo, a Corte Interamericana de Direitos


Humanos1 tem decidido que as pessoas possuem não só o direito e a liberdade de expressar
seus próprios pensamentos, como também o direito e a liberdade de buscar, receber e difundir
informações e ideias de qualquer natureza.

Com efeito, o citado Tribunal afirmou que o direito à liberdade de pensamento e de


expressão possui duas dimensões: uma individual e outra social; as quais possuem
importância igual e devem ser garantidas de forma plena e simultânea, a fim de dar
efetividade ao dispositivo da Convenção Americana.

Outra lição imprescindível que é muito citada pelas doutrinas que dissertam sobre a
liberdade de informação, é a de que tal direito se sustenta numa tríade: o direito de informar, o
direito de se informar e o direito de ser informado.

Em apertada síntese, o direito de informar é a garantia de poder comunicar ao mundo


informações, fatos e notícias, sem impedimentos. O direito de se informar consiste na
faculdade de alcançar informações, fatos e notícias, também sem impedimentos. Enfim, o
direito de ser informado é aquele que condiz à liberdade de receber essas informações, de ser
noticiado em seu estado passivo, sem impedimentos (RODRIGUES JUNIOR, 2009).

Pois bem, tendo em vista que a liberdade de expressão compreende a expressão em


sentido estrito e a liberdade de informação, bem como que ambas devem ser consideradas sob
as óticas individual (direito de expressar opiniões e ideias, bem como fatos, notícias e

1
Caso La Ultima Tentación de Cristo; Caso Ricardo Canese Vs. Paraguai; Caso Ivcher Bronstein Vs. Peru;
Caso Herrera Ulhoa Vs. Costa Rica.
18

informações) e social (direito de conhecer opiniões e ideias alheias, bem como fatos, notícias
e informações), cabe definir o que seria o consectário da liberdade de imprensa.

A liberdade de imprensa nasce como uma forma de exteriorizar a liberdade de


expressão stricto sensu e a liberdade de informação, que é garantida aos meios de
comunicação em geral.

Com efeito, para Celso Bastos, a liberdade de imprensa:

(...) se refere ao uso dos meios de comunicação de massa e, portanto, se dirige a um


grande número de pessoas desconhecidas do autor. Aqui não há interação. Seu
características principal é o seu poder de alcance como forma de divulgação, que
pode ser enorme e assumir efeitos bombásticos (2000, p. 44).

Noutras palavras, é possível afirmar que a liberdade de imprensa cuida-se do direito de


veicular a liberdade de expressão em sentido amplo através dos meios de comunicação, quais
sejam: impressos (gazetas, panfletos, jornais, revistas e livros), programas de radiofusão
sonora e de sons e imagens (programas de rádio e de televisão), internet etc.

1.3 Os fundamentos da liberdade de expressão

O fato de que a liberdade de expressão configura um direito fundamental é


indiscutível, à luz dos vários tratados e convenções internacionais de direitos humanos, bem
como das cartas políticas que regem as democracias atuais.

No entanto, dizer que a liberdade de expressão só é fundamental porque prevista nas


legislações internacionais e nacionais não acrescenta conteúdo ao nosso trabalho, sendo
preciso identificar as razões pelas quais tal liberdade foi erigida como fundamental por tão
importantes documentos jurídicos.

Eric Barendt (2005, apud CHEQUER, 2011) aponta quatro argumentos utilizados pela
doutrina para motivar a liberdade de expressão como um direito fundamental, a saber: a) a
liberdade de expressão é um direito fundamental por garantir uma autossatisfação individual
(self-fulfiment); b) a liberdade de expressão é um direito fundamental em razão de ser um
19

importante instrumento para a descoberta da verdade; c) a liberdade de expressão é um direito


fundamental porque possibilita a participação do cidadão na democracia; d) e a liberdade de
expressão é um direito fundamental porque garante o controle do povo sobre as atividades do
governo.

Antes de estudarmos cada um desses fundamentos, é imprescindível dizer que


nenhuma das teorias abaixo declinadas são capazes de, por si só, justificarem a liberdade de
expressão como um direito fundamental, haja vista que cada uma delas arremata inúmeras
críticas, esclarecendo as falhas nelas contidas. No entanto, se formos hábeis a somá-las em si,
formaremos um direito à livre expressão reforçado, com pilares sólidos e resistentes, a partir
do que poderemos asseverar, com muita certeza, que se trata de um direito fundamental, assim
reivindicado em tantos documentos internacionais e nacionais existentes atualmente.

1.3.1 A liberdade de expressão como garantia da autossatisfação individual (self-


fulfiment)

Esse fundamento parte da premissa de que a liberdade de expressão é um direito da


personalidade humana.

Integrar a personalidade humana significa, numa visão jusnaturalista, que a liberdade


de expressão é um direito inato, que emana da própria individualização do homem, pouco
importando se existe ou não previsão no ordenamento jurídico.

Balizado nessa ideia, Carlos Alberto Bittar (apud GODOY, 2015, p. 17):

[...] considera que os direitos da personalidade não existem por força de lei,
constituindo direitos que, destarte, chama de inatos, correspondentes às faculdades
normalmente exercidas pelo homem, relacionados a atributos inerentes à condição
humana.

É justamente por pertencer à personalidade humana que a liberdade de expressão


contribui para a construção psíquica do ser humano, de seus valores intrínsecos e, sobretudo,
de sua dignidade.
20

Aliás, Ronald Dworkin (apud RODRIGUES JUNIOR, 2009), o principal expoente


desse fundamento da liberdade de expressão, instrui que a liberdade de expressão está
intimamente vinculada ao conceito fundamental de dignidade humana, não sendo preciso
cumprir finalidade específica alguma.

Igualmente, Nuno Sousa (1983, p. 316) assevera que a liberdade de expressão, por
estar intimamente ligada à dignidade do homem, “protege tanto a divulgação dos resultados
do próprio trabalho intelectual como a vital necessidade de comunicação do homem, sob pena
de se desprezar [em] certas necessidades essenciais da pessoa”.

Com efeito, a liberdade de expressão deve ser protegida porque o homem a utiliza
como importante, senão indispensável, ferramenta para, além de pensar, comunicar esses
pensamentos, opiniões e emoções, e construir uma determinada cultura ao seu redor.

Nesse sentido, considerando que o homem vive em sociedade, isto é, em companhia


de outros indivíduos, a difusão de suas crenças e ideias é necessária para que a sociedade na
qual ele esteja inserido possibilite o desenvolvimento pessoal dos demais indivíduos que ali
protagonizam.

Assim sendo, nos ensinamentos de Cláudio Chequer (2011, p. 29), parafraseando


Barendt: “a teoria da autorrealização entende que a liberdade de expressão é instrumento para
a autorrealização das pessoas. Se elas não tiverem amplo acesso a todas as ideias, não poderão
imaginar a total extensão de possibilidades em suas vidas”.

1.3.2 A liberdade de expressão como meio de conceber a verdade

A teoria ora apresentada teve seu maior expoente na pessoa de John Stuart Mill, em
sua obra On Liberty, de 1859 (apud RODRIGUES JUNIOR, 2009, p. 66), podendo ser
sintetizada, aprioristicamente, na seguinte passagem:

[...] se a opinião for correta, a espécie humana será privada da oportunidade de


trocar o erro pela verdade; se for errada, ela perde, o que é quase um benefício tão
grande, a percepção mais clara e a impressão mais vívida da verdade, produzida por
sua colisão com o erro.
21

Com efeito, esse fundamento explica que é através do debate de ideias e opiniões que
se viabiliza o descobrimento da verdade, ainda que relativamente considerada. Assim, o
choque, a colisão entre diversos pontos de vista leva um determinado grupo de pessoas a se
posicionar entre uma ou outra versão, buscando sempre a melhor verdade.

Trata-se, segundo os norte-americanos, do chamado marketplace of ideas, que, numa


tradução livre, significa o “mercado de ideias”, a circulação de opiniões diversas entre
diversas pessoas.

Nesse sentido, pondera Cláudio Chequer (2011, p. 32), citando Thomas Emerson, que
os teóricos que sustentam esse fundamento argumentam que, apesar de manter em aberto uma
discussão, isso não significa que a verdade será sempre obtida, como pode parecer à primeira
vista, pois algumas das maiores verdades já aceitas se transformaram em erros e mentiras;
alguns dos mais avançados conhecimentos humanos, a exemplo de Copérnico a Einstein,
resultaram da desconfiança em relação a inquestionáveis afirmações.

Assim, não há uma verdade absoluta, mas é certo que o caminho mais correto que nos
aproxima de opiniões e fatos verídicos é o livre debate e a livre circulação de ideias, sem
restrições de qualquer natureza. É por isso que Stuart Mill (apud MORRIS, 2002, p. 388)
brilhantemente ensina que:

[...] quando uma opinião é verdadeira, pode ser aniquilada de uma vez, duas vezes,
ou muitas vezes, mas no decorrer de eras se encontrarão em geral pessoas para
redescobri-la, até que uma de suas reaparições ocorre num tempo em que, por
circunstâncias favoráveis, ela escapa da perseguição até avançar tanto a ponto de
resistir a todas as tentativas subsequentes de anulá-la.

1.3.3 A liberdade de expressão como garantidora da democracia

A liberdade de expressão é um mecanismo de autogoverno na medida em que


contribui para a formação da opinião popular sobre temas políticos. Para tanto, é preciso que
os Estados preconizem em seus ordenamentos constitucionais o princípio da democracia, pois
careceria de razão de existir esse fundamento se houvesse, no lugar de um Estado
Democrático de Direito, um sistema autocrático, oligárquico ou teocrático.
22

Sobre o tema, João dos Passos Martins Neto, com autoridade e através de exemplos
concretos, instrui que:

Na lógica do sistema, a liberdade de expressão cumpre funções cruciais: permitir


que os eleitores façam escolhas informadas nas eleições a partir da ampla discussão
entre candidatos; que as pessoas possam influenciar as escolhas das políticas
governamentais; que as autoridades públicas sejam submetidas a críticas que podem
levar à sua substituição; que o abuso de poder e os atos de corrupção sejam
denunciados ou prevenidos pelo receio de sua revelação; que aspirações
contraditórias na comunidade sejam identificadas e os respectivos interesses
acomodados em favor da estabilidade social; que indivíduos e minorias, à medida
que podem abertamente dissentir, aliviem frustrações e não precisem recorrer à
violência como alternativa para alcançar o poder, combater ações de governo ou
obter atenção para pretensões reformistas; que melhores deliberações sejam tomadas
com a audiência de todos os lados do debate (2008, p. 49).

Ademais, salienta-se que essa teoria é muito difundida pela doutrina e jurisprudência
norte-americana, sobretudo porque nos Estados Unidos a liberdade de expressão ganha uma
conotação especial e ampla quando relacionada ao interesse público, isto é, à democracia. É
por isso que “havendo conflito entre liberdade de expressão e outro direito fundamental
(direitos da personalidade), a liberdade de expressão é analisada como um direito
preferencial” (CHEQUER, 2011, p. 41).

Aliás, o supracitado autor (idem pág.), em suas pesquisas sacramentadas, afirma que a
mesma importância é conferida à liberdade de expressão, quando relacionada ao princípio
democrático, na Espanha, na Alemanha e da Inglaterra, países onde esse direito goza de
posição privilegiada.

1.3.4 A liberdade de expressão como ferramenta de manutenção da atividade


governamental

Esse fundamento se justifica porque em uma sociedade onde é conferida amplitude à


liberdade de expressão em detrimento da repressão política, haverá maior estabilidade
governamental.
23

Em se tratando de um governo onde a liberdade de expressão ganha espaço


considerável as pessoas inclinam-se a acreditar mais nele, pois ele está melhor aparelhado a
ouvi-las e deixa-las discutir suas ideias e opiniões, sem ingerências arbitrárias. Caso contrário,
se o governo for despótico no sentido de objetar a livre manifestação de pensamento, as
pessoas conferirão menor credibilidade aos próprios governantes e, consequentemente,
preocupar-se-ão menos em respeitar as decisões políticas e as leis emanadas de seus
representantes.

Agora, havendo maior participação popular na tomada das decisões políticas e na


confecção de leis e atos normativos, consequentemente, o povo ficará mais receptível a essas
manifestações de autoridade, em razão da própria cooperação no processo político. E mais, as
pessoas pouco importarão se essas decisões políticas, leis e atos normativos lhe trarão ou não
benefícios, pois já cumpriram seu papel legítimo através do discurso público e aberto. Tanto é
assim que CHEQUER (2011, p. 42) chega a afirmar que “quase como ocorre em um processo
judicial, em que se observa o devido processo legal, abrindo-se oportunidade para ampla
defesa, esses indivíduos vão sentir que a decisão final, embora desfavorável, é uma decisão
legítima”.

1.4 A liberdade de expressão como direito fundamental assegurado na Constituição


Federal de 1988

O primeiro reflexo da liberdade de expressão na Constituição Federal é encontrado


logo no art. 1º, caput, o qual dispõe que “a República Federativa do Brasil, formada pela
união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito”.

Nessa ocasião, a ênfase deve ser dada ao fato de que a República Federativa do Brasil
constitui um Estado Democrático de Direito, ou seja, rege-se pelo princípio da democracia,
intimamente ligado à liberdade de expressão quando esta atua guarnecendo o regime
democrático e seus fundamentos.
24

Sobre o tema, sabe-se que a “grande conquista democrática dos novos tempos pós-
Grande Guerra foi a nova realidade segundo a qual todos os nacionais passaram a ser
eleitores” (SILVA, 2002, p. 29).

Noutras palavras, “o Estado Democrático de Direito significa a exigência de reger-se


por normas democráticas, com eleições livres, periódicas e pelo povo, bem como o respeito
das autoridades públicas aos direitos e garantias fundamentais” (MORAES, 2006, p. 131).

Assim, o princípio democrático é claro: demanda a absoluta participação de todas as


pessoas na atividade política do país, de modo que elas possam eleger da melhor maneira
possível seus representantes, a fim de que estes satisfaçam as vontades da maiorias e, em
alguns casos, também das minorias.

Daí decorre a importância que possui a liberdade de expressão num Estado


Democrático de Direito, pois ela é substancial para a formação da opinião pública, ou melhor,
é a conditio sine qua non para as pessoas e as entidades políticas, tais como partidos,
sindicatos e outras organizações decorrentes do pluralismo, potencializem seus ideais de
maneira plena e os projetem sobre as decisões de seus representantes.

Em segundo lugar, nossa Constituição Federal dispõe acerca da liberdade de expressão


em seu Título II, art. 5º, incisos IV, IX e XIV, que versa sobre os Direitos e Garantias
Fundamentais, situando-se a liberdade de expressão conexa à autossatisfação individual.

Com efeito, o art. 5º, inciso IV, do Texto Magno, preconiza que “é livre a
manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”.

Diante desse dispositivo, por estar prevista como uma das primeiras liberdades
constitucionalmente asseguradas, a liberdade de manifestação do pensamento é normalmente
qualificada por alguns autores como sendo concomitantemente primária e primeira, pois
desponta cronologicamente antes de outras liberdades tidas como corolário seu.

É assim porque a liberdade de manifestar o pensamento, considerada aqui como


liberdade de expressão em sentido amplo, isto é, compreendendo a liberdade de expressão
stricto sensu e a liberdade de informação, permite que alguém, por exemplo, exerça sua
liberdade de consciência e de crença, bem como expresse livremente qualquer atividade
intelectual, artística, científica e de comunicação, direitos estes assegurados, respectivamente,
nos incisos VI e IX do mesmo dispositivo constitucional.
25

Além dessa vertente negativa, isto é, que coloca o Estado em posição de neutralidade
com relação aos indivíduos titulares da liberdade de expressão, a Carta Magna de 1988
também previu uma vertente positiva a esse direito, assim entendida a liberdade de expressão
sob a modalidade do valor “exigência”. Vale dizer, a Constituição elencou hipóteses em que
ao indivíduo é dado vindicar do Estado a estimação de sua consciência a fim de eximi-lo de
alguma obrigação contrária. Trata-se do art. 5º, inciso VIII, que dispõe que “ninguém será
privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo
se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir
prestação alternativa”.

Por fim, a Constituição Federal, no mesmo art. 5º, inciso IV, mas na sua parte final,
vedou o anonimato. Significa dizer que a manifestação do pensamento é livre, mas com a
ressalva, dentre algumas outras que ainda estudaremos, de estar vedado o pensamento
incógnito, desconhecido ou anônimo.

Ora, nenhum direito é absoluto, a exemplo da própria liberdade de expressão que,


conforme veremos, esbarra-se em limites constitucionalmente consagrados. O anonimato
configura-se como um desses limites, pois guarda em si uma forma torpe de manifestação do
pensamento, assim, nas palavras de Celso Ribeiro Bastos (1989, p. 43):

A pessoa que o exprime não o assume. Isto revela terrível vício moral consistente na
falta de coragem. Mas este fenômeno é ainda mais grave. Estimula opiniões fúteis,
as meras sacadilhas, sem que o colhido por estas maldades tenha possiblidade de
insurgir-se contra o seu autor, inclusive demonstrando a baixeza moral e a falta de
autoridade de quem emitiu estes atos.

Ademais, “o anonimato é cerceador e prejudicial aos direitos individuais, na medida


em que impede um eficaz direito de resposta” (SILVA, 2002, p. 75), direito este previsto no
inciso V do art. 5º da Carta Política.

Em terceiro plano, o inciso IX do art. 5º da Constituição preconiza que “é livre a


expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente
de censura ou licença”.

As atividades intelectuais seriam propriamente atividades de natureza artística,


literária ou científica.

Destarte, longe de discussões aprofundadas e meramente conceituais, vamos


estabelecer que, por atividade artística, tem-se uma forma de linguagem, uma maneira de o ser
26

humano se expressar, a exemplo da poesia, da pintura, da música, da dança, do teatro, dentre


outros gêneros artísticos.

Já a atividade literária consiste na arte de criar e compor textos, a exemplo da poesia,


da prosa, da ficção, do romance, da literatura técnico-científica (livros sobre medicina, obras
jurídicas etc.).

A atividade científica é aquela baseada no método científico, ou seja, é a atividade


através da qual é possível verificar, de forma pormenorizada e sistemática, todo o caminho
percorrido para se chegar à conclusão afirmada.

Quanto à atividade de comunicação, entende-se que é basicamente aquela exercida


pelos meios de comunicação em massa, consistente na atividade da imprensa de veicular tanto
informações objetivas quanto opiniões e ideias particulares, através dos impressos, dos
programas de radiofusão sonora e de sons e imagens, da internet etc.

Em resumo, basta dizer que a liberdade de expressão abrange toda e qualquer forma de
manifestação, seja pelo uso da palavra escrita ou falada, seja por meio de pinturas, músicas e
fotografias, seja por meio de expressões corporais, o que inclui as expressões simbólicas, seja,
ainda, através do próprio humor, manifestado em textos, crônicas, caricaturas e programas
humorísticos, tais como os de gênero stand up.

Com efeito, essas atividades devem ser exercidas independentemente de censura ou


licença, assim considerada todo procedimento pelo qual os Poderes Públicos (Legislativo,
Executivo e Judiciário) visam a impedir a circulação de ideias, opiniões e informações.
Contudo, por força da própria Constituição Federal, veremos em tópico específico que
existem algumas espécies não de censura, mas de controle sobre aquilo que é veiculado pelos
meios de comunicação em massa, a exemplo da classificação por faixas etárias de diversões e
espetáculos, dos meios de defesa das pessoas e das famílias quanto ao programas de rádio e
televisão (art. 221, incisos I a IV) etc.

Ainda no que se refere à liberdade de expressão como autossatisfação, o inciso XIV do


art. 5º da Constituição assegura a todos o acesso à informação e resguarda o sigilo da fonte,
quando necessário ao exercício profissional.

Como visto em tópicos anteriores, a liberdade de informação é integrada por três


vertentes: o direito de informar, o direito de se informar e o direito de ser informado. São os
direitos de se informar e de ser informado que o inciso XIV protege, assim entendidos,
respectivamente, como a inclinação que os indivíduos tem de buscar informações, sem
27

qualquer impedimento, e a faculdade de receber informações na qualidade de sujeitos


passivos, isto é, manterem-se adequadamente e verdadeiramente informados pelos meios de
comunicação.

Aliás, é interessante lembrar que os direitos de se informar e de ser informado ganham


uma conotação especial pela leitura do art. 5º, inciso XXXIII, da Carta Magna, que dispõe que
todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de
interesse coletivo ou geral, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da
sociedade e do Estado. Desse modo, não se limita apenas como um direito em face dos meios
de comunicação em geral, mas também em face do próprio Estado, que deve assegurar o
direito de informação pelos órgãos públicos.

Quanto à parte final do inciso XIV, em obra específica sobre o tema, o Professor
Pedro Luís Piedade Novaes (2012, p. 106), sintetiza que:

De maneira geral, o profissional de imprensa deve sempre mencionar as suas fontes


na matéria jornalística, somente fazendo uso do sigilo da fonte em casos
excepcionais, ou seja, a regra é a utilização de fonte ostensiva 2; a exceção, a sigilosa.
E é por isso que a própria Constituição Federal resguarda o sigilo da fonte somente
quando for preciso para o exercício profissional, ou seja, essa via é utilizada para
garantir a divulgação da notícia.

De forma ainda mais singular, Carlos Roberto Barreto (2005, apud NOVAES, 2012)
ensina o seguinte:

O sigilo da fonte é, sem dúvida, a grande garantia de trabalho do profissional da


imprensa. Sem ela, nenhum jornalista tem condição de fazer bom jornalismo,
mormente o investigativo. Não conseguirá informar os leitores e ouvintes sobre fatos
que são revelados off the record, porque os que detêm a informação muitas vezes
não podem torna-la pública sob pena de sofrerem sanções dos mais variados tipos.

Uma vez analisadas as manifestações da liberdade de expressão como forma de


autossatisfação individual, passemos ao exame da previsão desse direito no Título VIII,
Capítulo V, da Constituição Federal, que trata sobre a Comunicação Social, mormente o texto
do art. 220, imprescindível para o desenvolvimento do presente trabalho.

Vejamos a redação integral do art. 220:

2
O mesmo autor explica que “a fonte ostensiva é aquela identificada na matéria jornalística, p. ex.: „fulano de
tal‟, delegado de polícia, esclareceu que o inquérito policial não foi finalizado” (2012, p. 104).
28

Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob


qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o
disposto nesta Constituição.
§ 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena
liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social,
observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.
§ 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.
§ 3º Compete à lei federal:
I - regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao Poder Público informar
sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários
em que sua apresentação se mostre inadequada;
II - estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de
se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o
disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que
possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente.
§ 4º A propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos,
medicamentos e terapias estará sujeita a restrições legais, nos termos do inciso II do
parágrafo anterior, e conterá, sempre que necessário, advertência sobre os malefícios
decorrentes de seu uso.
§ 5º Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto
de monopólio ou oligopólio.
§ 6º A publicação de veículo impresso de comunicação independe de licença de
autoridade.

Por conseguinte, pode-se afirmar que o legislador constituinte projetou-se, através


desse dispositivo, no sentido de determinar e proteger os meios pelos quais os direitos de
manifestação do pensamento, de criação, de expressão e de informação, serão difundidos, por
intermédio dos meios de comunicação social.

Em apertada síntese, fica proibido pela Constituição (MORAES, 2013, p. 860):

A edição de lei que contenha dispositivo que possa constituir embaraço à pena
liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social,
observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV; toda e qualquer censura de
natureza política, ideológica e artística; a exigência de licença de autoridade para
publicação de veículo impresso de comunicação, permitindo-se, porém, a sujeição
da propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos
e terapias a restrições legais, bem como, se necessário, a advertência sobre os
malefícios decorrentes de seu uso (grifo nosso).

É de se perceber, então, que as únicas limitações à liberdade de expressão no que


tange aos meios de comunicação, sob qualquer forma, processo ou veículo, somente são
aquelas previstas no próprio texto constitucional, numa espécie de rol taxativo. Tanto é assim
que, em defesa da liberdade de imprensa e da livre manifestação de pensamento, o Supremo
29

Tribunal Federal declarou a não-recepção, por maio da ADPF 130, da Lei nº 5.250/67 (Lei de
Imprensa), em face da incompatibilidade material com a Constituição Federal de 1988.

1.5 Demarcações constitucionais do direito à liberdade de expressão

Vimos, a princípio, que a garantia da liberdade de expressão “tutela toda opinião,


convicção, avaliação ou julgamento sobre qualquer assunto ou sobre qualquer pessoa,
envolvendo um tema de interesse público, ou não, de importância e de valor, ou não”
(MENDES et. al., 2009, p. 403).

No entanto, também vimos que a liberdade de expressão não é um direito absoluto,


uma vez que o legislador constituinte, do mesmo modo que previu a extensão e amplitude da
liberdade de expressão como um direito fundamental, também a limitou em face de outros
direitos de igual natureza.

O art. 220, § 1º, da Constituição, ao afirmar que “nenhuma lei conterá dispositivo que
possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de
comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV”, pretendeu se
referir que a intromissão do legislador é admissível para proibir o anonimato (inciso IV); para
garantir o direito de resposta e a indenização por danos morais e patrimoniais à imagem
(inciso V); para preservar a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas
(inciso X); para exigir a devida qualificação profissional daqueles que lidam tecnicamente
com os meios de comunicação (inciso XIII); bem como para assegurar o acesso à informação
(inciso XIV).

Igualmente, nos §§ 3º e 4º, o referido dispositivo magno restringiu a publicidade de


bebidas alcoólicas, tabaco, medicamentos e terapias; impôs às emissoras de rádio e televisão o
dever de respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família; bem como conferiu ao
Poder Público o dever de informar sobre a natureza das diversões e espetáculos públicos, as
faixas etárias não recomendadas e os locais e horários de apresentação inadequada (MENDES
et. al., 2009).
30

Outra limitação importante à liberdade de expressão, trazida implicitamente no texto


constitucional, mormente pelo art. 1º, inciso III, que elenca a dignidade da pessoa humana
como fundamento da República Federativa do Brasil, é a vedação do discurso de ódio, mais
conhecido como hate speech. Aliás, por discurso de ódio entende-se o aglomerado de
manifestações de desprezo ou intolerância contra determinados grupos étnicos, religiosos, de
gênero sexual, de opção ou orientação sexual, de deficientes físicos e/ou mentais, dentre
outros fatores.

Nesse sentido, em repúdio ao hate speech, o STF3 decidiu constituir crime de racismo
e, portanto, não amparada pela liberdade de expressão, a conduta de disseminar ideias que
“buscam resgatar e dar credibilidade à concepção racial definida pelo regime nazista,
negadoras e subversoras de fatos históricos e incontroversos como o holocausto,
consubstanciadas na pretensa inferioridade e desqualificação do povo judeu”.

1.5.1 Direitos da personalidade

Uma vez mencionadas todas as limitações que a Constituição Federal traz à liberdade
de expressão, cumpre dizer que algumas delas são frequentemente utilizadas para se discutir
quais as condutas que podem ser protegidas pela liberdade de expressão e quais não podem
ser. Esses limites ou demarcações se resumem nos chamados “direitos da personalidade”,
assim entendidos a honra, a intimidade, a vida privada e a imagem das pessoas.

A princípio, pode-se dizer que a honra é o conjunto de qualidades que compõem a


dignidade da pessoa, conjunto este que envolve o respeito, o bom nome e a reputação do
indivíduo.

Na lição de Adriano de Cupis (1961, apud RODRIGUES JUNIOR, 2009, p. 112), a


honra “significa tanto o valor moral íntimo do homem, como a estima dos outros, ou a
consideração social, o bom nome ou a boa fama, como, enfim, o sentimento ou consciência da
própria dignidade”.

3
HC 82.424-2/RS, de 19.03.2004, Rel. Min. Mauricio Corrêa.
31

Desse modo, a doutrina costuma ilustrar o direito à honra em dois aspectos: um


subjetivo e outro objetivo. A honra subjetiva corresponde à autoestima do indivíduo, seu
amor-próprio, a consciência de seus próprios valores morais e sociais; ao passo que a honra
objetiva é o conceito que a pessoa logra perante a sociedade, trata-se da admiração, da estima,
do apreço, da fama e reputação que o indivíduo estampa à sociedade.

Quanto à intimidade, afirma-se que esta consiste no conjunto de relações intra-


individuais do sujeito, tais como, nos ensinamentos de Capelo de Sousa:

[...] a intimidade da vida pessoal, familiar, doméstica, sentimental e sexual e


inclusivamente os respectivos acontecimentos e trajetórias, mas ainda o respeito de
outras camadas intermédias e periféricas da vida privada, como as reservas do
domicílio e de lugares adjacentes, da correspondência e de outros meios de
comunicação privada, dos dados pessoais informatizáveis, dos lazeres, dos
rendimentos patrimoniais e de demais elementos privados da atividade profissional e
econômica, bem como também, last but the least, a própria reserva sobre a
individualidade privada do homem no seu ser para si mesmo, v.g., sobre o seu
direito a estar só e sobre os caracteres de acesso privado de seu corpo, da sua saúde,
da sua sensibilidade e da sua estrutura intelectiva e volitiva (1995, apud
RODRIGUES JUNIOR, 2009, p. 101).

Seria a intimidade, ademais, o direito de preservar os segredos pessoais, as dúvidas


existenciais, a orientação ou opção sexual, dentre outros elementos que compõem o trato
íntimo da pessoa.

Em âmbito um tanto quanto mais extenso que a intimidade, existe o direito à vida
privada, assim entendida o conjunto de relações interindividuais, tais como as relações
familiares (p. ex.: relações entre pais e filhos, entre parentes etc.), as relações profissionais (p.
ex.: segredos de profissão, lista de clientes, estratégias de mercado etc.), as relações bancárias
(p. ex.: movimentações financeiras), as relações conjugais (p. ex.: a atividade sexual, as
discussões etc.), as relações entre amigos, dentre outras.

A propósito, imprescindível destacar que a intimidade e a vida privada, apesar de


serem expressões comumente empregadas como sendo sinônimas, não se confundem. Assim,
explica Cláudio Chequer:

Enquanto o conceito de vida privada é mais amplo, genérico, capaz de comportar


tudo aquilo que se executa à vista de poucos, familiar e domesticamente, sem
formalidade nem cerimônia alguma, portanto, capaz de englobar tudo aquilo que não
é ou que não queremos que seja de geral conhecimento; o conceito de intimidade é
mais restrito, uma vez que aquilo que se executa à vista de poucos não tem que ser
necessariamente íntimo. Intimidade representa, assim, apenas um núcleo da
privacidade que protegemos com mais zelo, com mais força em razão de o
entendermos como essencial na configuração de nossa pessoa (2011, p. 81).
32

Em última análise, mas não menos importante, nos referimos à imagem como sendo
um conjunto de proteções lançadas pela Constituição brasileira aos caracteres físicos,
psíquicos e morais das pessoas.

Assim, há quem entenda que a imagem é o direito de a pessoa não ter sua imagem
“mercantilizada, usada, sem o seu exclusivo consentimento, em proveito de outros interesses
que não os próprios” (FERRAZ JUNIOR, 1992, apud RODRIGUES JUNIOR, 2009, p. 126).

Por outro lado, existe doutrina no sentido de que o direito à imagem também abrange o
direito de o indivíduo “não o ver apresentado em forma gráfica ou montagem ofensiva e
materialmente distorcida ou infiel” (REBELO, 1999, p. 86).

1.6 Formas de controle da liberdade de expressão

Com base na obra “Liberdade de expressão e liberdade de informação: limites e


formas de controle”, escrita por Álvaro Rodrigues Junior, podemos classificar a formas de
controle da liberdade de expressão em duas espécies: o controle administrativo e o controle
judicial.

1.6.1 Controle administrativo

O controle administrativo sobre os meios de comunicação a exercício da liberdade de


expressão é aquele expressamente previsto no art. 21, inciso XVI, da Constituição Federal,
que dispõe ser de competência exclusiva da União “exercer a classificação, para efeito
indicativo, de diversões públicas e de programas de rádio e televisão”.
33

Divergindo sobre a efetividade e o exercício desse controle, há aqueles que entendem


que o art. 21, inciso XVI, da Constituição, traz à superfície uma espécie de “censura
administrativa”, pois inexistiria razão em afirmar que a competência da União seria
exclusivamente de fazer uma singela indicação, dizendo quem deveria ou não assistir aos
espetáculos, sem qualquer interferência na diversão (MARTINS, 1992, apud RODRIGUES
JUNIOR, 2009).

De outro lado, para Luís Roberto Barroso, o art. 21, inciso XVI, da Carta Magna, tem
a finalidade de oferecer apenas uma informação ao telespectador, e não de determinar a
conduta das emissoras, caso contrário a classificação não estaria prevista como sendo
indicativa, mas seria cogente (2001, apud RODRIGUES JUNIOR, 2009). Assim, caso a
emissora não fornecesse a indicação do programa que televisionou, não haveria sanção
alguma.

Com razoabilidade, Álvaro Rodrigues (2009) afirma em sua obra que a interpretação
mais acertada do dispositivo ora em comento seria aquela que admitisse sanções a posteriori
em caso de programas que não observassem aos princípios preconizados na Constituição
Federal e as regras exigidas pela norma geral de classificação indicativa. Aliás, o mesmo
autor sustenta que a presente hipótese de controle administrativo, conforme o próprio texto
constitucional prevê, apenas deve ser exercida sobre diversões públicas e programas de rádio
e televisão, contanto que não sejam estes programas ou espetáculos de natureza artística,
científica, política, ideológica, nem de comunicação.

Exemplo mais claro dessa classificação indicativa trouxe o Estatuto da Criança e do


Adolescente (ECA), em seu art. 74, que assim dispõe:

Art. 74. O poder público, através do órgão competente, regulará as diversões e


espetáculos públicos, informando sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não
se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada.
Parágrafo único. Os responsáveis pelas diversões e espetáculos públicos deverão
afixar, em lugar visível e de fácil acesso, à entrada do local de exibição, informação
destacada sobre a natureza do espetáculo e a faixa etária especificada no certificado
de classificação.

E mais, sustentando a linha de pensamento de Álvaro Rodrigues Junior, o ECA


estabelece sanção severa ao descumprimento do mandamento do art. 74 ao prever, em seu art.
258, que se o responsável pelo estabelecimento ou o empresário deixar de observar o que
34

dispõe o ECA sobre o acesso de criança ou adolescente aos locais de diversão, ou sobre sua
participação no espetáculo, ele será apenado com multa de três a vinte salários de referência.
Ainda, prevê o artigo que, em caso de reincidência, a autoridade judiciária poderá determinar
o fechamento do estabelecimento por até quinze dias.

Nesse sentido, a fim de dar efetividade ao disposto no art. 74 do ECA, bem como ao
art. 21, inciso XVI, da Constituição, foi editada, pelo Ministério da Justiça, a Portaria nº
1.100/06, que regulamenta o exercício da classificação indicativa de diversões públicas,
especialmente obras audiovisuais destinadas a cinema, vídeo, DVD, jogos eletrônicos, jogos
de interpretação (RPG) e congêneres.

Em primeiro lugar, essa portaria estabelece um dever aos produtores, distribuidores,


exibidores ou responsáveis por diversões públicas, dever esse que condiz ao anúncio e à
afixação, em lugar visível e de fácil acesso, de informação destacada sobre a natureza da
diversão e sobre a faixa etária para a qual não se recomende, sob pena de constituir infração
tipificada nos artigos 252 e 253 do ECA.

Em segundo lugar, essa portaria estabelece que a informação de classificação é


meramente indicativa aos pais e responsáveis, os quais, no regular exercício de sua
responsabilidade, podem decidir sobre o acesso de seus filhos, tutelados ou curatelados, a
obras ou espetáculos cuja classificação indicativa seja superior a sua faixa etária, desde que
com autorização deles e na sua presença. Ressalva-se, porém, que essa autorização só é
válida, ainda que na presença do pai ou responsável, se a diversão ou espetáculo tiver
classificação indicativa superior a 18 anos.

Outro documento importante nessa matéria é a Portaria nº 1.220/07, que regulamenta


as disposições da Lei n° 8.069/90 (ECA), da Lei no 10.359/01, e do Decreto nº 6.061/07,
relativas ao processo de classificação indicativa de obras audiovisuais destinadas à televisão e
congêneres.

Diferentemente da Portaria nº 1.100/06, a Portaria nº 1.220/07 serve-se à classificação


das obras audiovisuais destinadas à exibição em programas de televisão e, apesar de ser
meramente indicativa, é possível a instauração de procedimento administrativo para apurar
qualquer inobservância ou irregularidade da classificação por parte do canal ou programa
televisivo, nos termos dos artigos 12 a 15 da referida portaria.
35

1.6.2 Controle judicial

No controle judicial, ganham destaque a tutela civil, assim as tutelas preventiva e


reparatória, e a tutela penal, assim a tipificação dos crimes contra a honra (calúnia, difamação
e injúria).

1.6.2.1 Tutela civil

A tutela civil de intervenção no direito à liberdade de expressão pode se manifestar


através de dois gêneros distintos: a tutela preventiva e a tutela reparatória ou repressiva.

A tutela preventiva tem guarida no art. 12, primeira parte, do Código Civil, segundo o
qual “pode-se exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a direito da personalidade, e reclamar
perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções previstas em lei”.

Tal dispositivo faz emergir o chamado “controle jurisdicional de legalidade”, que não
se confunde, apesar de evidente discussão doutrinária, com a “censura judicial”. É assim
porque a própria Constituição Federal de 1988 prevê, em seu art. 5º, inciso XXXV, que “a lei
não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”.

Significa dizer que, apesar de o controle jurisdicional de legalidade implicar numa


restrição à liberdade de expressão, mormente a liberdade de imprensa, antes da veiculação da
notícia, pensamento, ideia ou opinião, ele não configura uma censura por parte do Poder
Judiciário, pois este atua no “exercício da função constitucional de resolver e dizer o direito,
transformando o abstrato legal da norma na lei realidade quando aplicar ao caso concreto”
(CASTRO, 2002, apud RODRIGUES JUNIOR, 2009, p. 161).

Aqui, vale destacar a previsão, no novo CPC, da figura da tutela provisória, fundada
numa cognição sumária dos fatos, divisível, inclusive, em tutela de urgência e em tutela de
evidência. Mais especificamente, o novo diploma civil trouxe a tutela de urgência, a qual
exige, para sua concessão, a probabilidade do direito (fumus boni iuris) e o perigo de dano ou
36

risco ao resultado útil do processo (periculum in mora). Assim, por exemplo, poderia o juiz,
em casos extremos, impedir a circulação de livros e impressos, a exibição de programas de
rádio e televisão, bem como de filmes, etc.

Já a tutela reparatória ou repressiva é aquela efetivada após a ocorrência de um dano,


visando sempre reequilibrar a relação entre o ofensor e a vítima, bem como, na medida do
possível, reestabelecer o status quo ante da parte lesada.

Álvaro Rodrigues Junior (2009) enumera várias formas de tutela reparatória, a saber: a
publicação da retratação do ofensor; o direito de resposta; a publicação da sentença
condenatória; e a indenização por danos materiais e danos morais.

A publicação da retratação do ofensor, no âmbito civil, não se presta para isentá-lo da


obrigação de arcar com os danos patrimoniais e/ou morais que vier a causar na vítima, mas
serve para atenuar a indenização eventualmente a ser fixada, contanto, por óbvio, que seja
feita antes de proferida a sentença de procedência do pedido do autor (vítima), uma vez que
após isso a retratação perderia qualquer eficácia que fosse capaz de produzir.

O direito de resposta serve tanto para o ofendido apontar sua própria versão sobre os
fatos divulgados que, de certa forma, o atingiram, quanto para rechaçar eventuais imputações
ou acusações feitas contra ele.

A propósito, nos termos do art. 5º, inciso V, da Carta Magna, o direito de resposta
deve ser assegurado na proporção do agravo. Isso significa que a resposta do ofendido deve
ter idêntico destaque àquele dado ao agravo emitido em seu desfavor, o que abrange o mesmo
veículo de informação, com a mesma duração, com o mesmo realce em palavras e títulos,
bem como atingindo número de pessoas consideravelmente semelhante àquele atingido pela
primeira divulgação.

Igualmente, vale dizer que o direito de resposta não se presta à afastar eventual
indenização por danos patrimoniais e/ou morais, mas tão somente amenizá-la.

Quanto à publicação da sentença condenatória do ofensor, serve essa de maneira


semelhante àquela prestada pelo direito de resposta, devendo a sentença ser publicada, por
exemplo, no mesmo periódico empregado para a semeação da ofensa, com o mesmo destaque
a ela atribuído.

Aliás, a publicação da sentença condenatória consiste numa obrigação de fazer que


pode ser imposta tanto ao autor da ofensa quanto ao meio de comunicação responsável por
37

disseminá-la, conforme a Súmula nº 221 do STJ, que preceitua ser civilmente responsáveis
pelo ressarcimento do dano, decorrente de publicação pela imprensa, tanto o autor do escrito
quanto o proprietário do veículo de divulgação.

Por fim, caberá indenização por danos patrimoniais e/ou morais sempre que o ofensor,
por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a
outrem, nos termos do art. 186 do Código Civil.

A esta altura, cabe dizer que a responsabilidade do ofensor é subjetiva, ou seja,


depende da existência de culpa em sentido amplo, assim entendida a culpa em sentido estrito
ou o dolo. Vale explicar: ou o agente deve pretender causar um resultado lesivo a algum
direito da personalidade de outrem (honra, imagem, intimidade e vida privada); ou deve ele
agir com negligência, imprudência ou imperícia, causando esse mesmo resultado lesivo.

No que tange aos danos, bem sabemos que eles podem ser de natureza material e de
natureza moral. Os danos materiais são aqueles que afetam tão somente o patrimônio do
ofendido, compreendendo o dano emergente e o lucro cessante. São exemplos trazidos pela
doutrina de Álvaro Rodrigues Junior (2009): a notícia veiculada que, por ser demasiadamente
atentatória contra a honra ou vida íntima de alguém, causa-lhe enfarto fulminante, obrigando
sua hospitalização com eventuais gastos médicos e terapêuticos (dano emergente); o
empresário que, em virtude de notícia falsa divulgada a seu respeito, perde seu emprego
(lucro cessante).

Enquanto que os danos morais são aqueles que afetam diretamente o indivíduo como
pessoa, acarretando dor, sofrimento, tristeza, vexame, humilhação ou depressão. Esses são os
danos mais comuns verificados quando a liberdade de expressão extrapola seus limites
constitucionais e atinge frontalmente os direitos da personalidade do ofendido.

1.6.2.2 Tutela penal

A tutela penal é aquela exprimida através dos crimes previstos nos artigos 138, 139 e
140 do Código Penal, os quais tipificam, respectivamente, a calúnia, a difamação e a injúria.
38

No crime de calúnia o que se tem a imputação a alguém de um fato definido como


crime, imputação essa que deve ser falsa, seja porque não existiu o crime imputado, seja
porque o crime não foi de autoria da vítima. Viola-se a honra objetiva e o delito se consuma
com o conhecimento de terceiro.

Já no crime de difamação se tem a imputação de um fato ofensivo à reputação da


pessoa, isto é, à honra objetiva dela. Tal imputação pode ser falsa ou verdadeira, consumando-
se o delito com o conhecimento de terceiro.

Por fim, no crime de injúria ocorre uma ofensa à dignidade ou decoro da pessoa,
através da atribuição de qualidades negativas ou pejorativas a ela. Viola-se sua honra
subjetiva, bastando para a consumação do crime o simples conhecimento da vítima sobre as
ofensas a ela dirigidas.

Todavia, quanto ao tema assevera Nelson Hungria:

Somente quando a sanção civil se apresenta ineficaz para a reintegração da ordem


jurídica é que surge a necessidade de enérgica sanção penal. O legislador não
obedece a outra orientação. As sanções penais são o último recurso para conjurar a
antinomia entre a vontade individual e a vontade normativa do Estado. Se um fato
ilícito, hostil a um interesse individual ou coletivo, pode ser convenientemente
reprimido com as sanções civis, não há motivo para a reação penal (1958, apud
RODRIGUES JUNIOR, 2009, p. 157-158).

Noutras palavras, apesar dessas figuras típicas previstas no Código Penal, maioria
esmagadora da doutrina, a exemplo do saudoso Nelson Hungria acima citado, entende que os
direitos da personalidade, sobretudo o direito à honra, são melhores protegidos sob o aspecto
civil em detrimento do criminal, em virtude do princípio da intervenção mínima do Direito
Penal, também conhecido como “princípio da última ratio”, segundo o qual ao Estado
somente é deferido recorrer à sanção criminal quando inexistirem ou não forem adequados os
meios de prevenção e repressão do ilícito.

Enfim, após a leitura do presente capítulo, dentre as várias constatações possíveis,


verifica-se que a liberdade de expressão é um direito complexo, haja vista poder assumir
como fundamento ora a autossatisfação individual, ora a busca da verdade, ora a garantia da
democracia e, em certos caso, a manutenção da atividade estatal.

Seja como for, a liberdade de expressão é um direito amplamente tutelado pela


Constituição Federal, o que, por outro lado, também significa que ela pode ter limites – como
de fato tem – fixados na Carta Magna, limites esses direcionados à proteção dos direitos da
39

personalidade e da dignidade da pessoa humana, cuja proteção se faz através de mecanismos


administrativos e judiciais, sejam estes de natureza civil ou penal.

II. O HUMORISMO COMO FORMA DE MANIFESTAÇÃO DA LIBERDADE DE


EXPRESSÃO

No capítulo anterior, vimos que a liberdade de expressão é um direito amplo e


complexo, o que permite seu diálogo com outros direitos garantidos em sede constitucional.
Além disso, essa complexidade da liberdade de expressão permite relacionar a ela toda e
qualquer manifestação do pensamento humano, em especial a liberdade de fazer humor, a
qual, se certo modo, também se justifica como liberdade de criação artística.

Dito assim, o humorismo é uma forma autêntica de manifestação da liberdade de


expressão, o que também permite dizer que a ele podem ser atribuídos, na medida do possível,
os mesmos fundamentos discutidos acerca da liberdade de expressão, bem como as
demarcações constitucionais e as formas de controle já tratadas anteriormente.

Todavia, como fenômeno autônomo, o humorismo tem suas próprias origens, história
e fundamentos teóricos, pois é um ramo do discurso debatido interdisciplinarmente, seja pela
Psicologia, pela Sociologia, pela Literatura, pelo Direito, dentre outras ciências. Assim, o que
se pretende com o presente capítulo é abordar o humor e o riso como algo além da Ciência
Jurídica, para, num segundo momento, relacioná-lo ao debate constitucional que circunda a
liberdade de expressão.

2.1 O fenômeno do riso, suas origens históricas e preocupações teóricas


40

O riso é muito mais do que um estímulo provocador de reflexos motores, responsáveis


por contrair coordenadamente mais de 15 músculos faciais. Trata-se de um fenômeno
complexo e que, em virtude dessa complexidade, atingiu a interdisciplinaridade, podendo ser
estudado pela Semiótica, Literatura, História, Sociologia, Psicologia, dentre outras ciências.

No Direito, não é o riso em si o objeto de estudo, mas sim os meios capazes de


provocá-lo, meios esses que convergem para o direito à liberdade de pensamento e, sobretudo,
de expressão.

A origem mais remota do riso encontra-se na mitologia grega. Narram que Hera,
esposa de Zeus, após uma briga com ele, deixa-o e refugia-se nas montanhas. Então Zeus, a
fim de provocar o retorno de sua amada esposa, constrói uma estátua e a cobre com um véu,
espalhando rumores dela ser sua nova mulher. Hera, zangada, retorna ao seu lar para explorar
e descobrir sobre a suposta noiva. Ao ver a estátua, Hera retira o véu que a encobria e
descobre a farsa de seu esposo, momento em que cai em gargalhadas. A partir de então, tem-
se o nascimento do riso, do cômico.

Afora do sentido cômico que o riso assume nos dias atuais, muito antigamente, ele
refletia rituais e sacrifícios, estando presente em cerimônias nas quais escravos escarneciam
com deboches e zombarias, mas ao final, um deles era elegido para o sacrifício, o que
representava o fim do caos e o império da ordem e da lei novamente.

Mas a comédia em si foi explorada pelo teatro grego, em 501 a.C., quando teve início
a era das tragédias e, poucos anos mais tarde, a das comédias.

A tragédia era o espetáculo principal, sendo que a comédia era uma arte acessória,
cujo objetivo era apenas relaxar os espectadores durante os intervalos das peças teatrais.
Tinha-se como cômico o homem inferiorizado, rebaixado moral e socialmente, numa clara
tentativa de explorar o ridículo, o grotesco do ser humano.

Anos mais tarde, a comédia passa a assumir diversas facetas, ora tida como meio de
crítica aos personagens públicos, ora como entretenimento e, em certos casos, até mesmo
como significativo de inferioridade humana.

Nesse aspecto, Aristófanes (445 a 386 a.C.) foi o precursor da independência entre a
comédia e os teatros trágicos, pois introduziu o cômico como forma de criticar as figuras
públicas e os deuses da mitologia.
41

Já Menandro (342 a 292 a.C.) tratou o riso como distração e divertimento, como uma
forma de desapego dos problemas do dia-a-dia. Assim, o homem era metaforicamente tratado
como a borracha de um arco, a qual se estica diante das necessidades, mas depois de ser
usada, precisa ser afrouxada, pois se for mantida sempre tensa, ela arrebenta e torna-se
inutilizável.

Por outro lado, há ainda quem viu o riso com outros olhos. Platão atribuiu um conceito
negativo ao risível, sendo este o fruto de homens medíocres e inferiores, porque apenas a
filosofia era digna de apreensão da verdade, em oposição à ilusão característica das paixões.

Para Platão, são condições do risível o fato de não conhecer a si mesmo e de ser fraco.
Conforme Verena Alberti (apud ALAVARCE, 2009, p. 73): “poder-se-ia falar aqui de uma
dimensão política da teoria de Platão: os fortes e os poderosos que se acham mais sábios, mais
belos ou mais ricos do que na verdade são não se tornam objeto de riso”

Aristóteles, não tão radical como Platão, sugeriu que o riso fosse usado com
moderação, associando-o ao agradável, ao prazer, à calmaria, à amizade e ao que nos é natural
(ALAVARCE, 2009, p. 73).

Outro filósofo que enfatizou as características positivas do riso foi Marcus Tullius
Cícero (106 a 43 a.C.), segundo o qual a vantagem de se utilizar do cômico e do risível nos
discursos é que o ouvinte se torna bondoso, agradável, o que serve para atacar e enfraquecer o
adversário. Todavia, apesar de engraçado e extrovertido, o risível só deveria ser utilizado para
a consecução de objetivos sérios, pois segundo o filósofo: “o bom orador tem sempre uma
razão para empregar o risível, enquanto os bufões e mimos fazem troça o dia todo e sem
razão” (apud ALBERTI, 1999, p. 59).

Ademais, no século V a.C. assistimos ao surgimento dos bufões, popularmente


conhecidos como “bobos da corte”. Os bufões, presentes não só na Grécia, como também na
Pérsia e no Egito, eram figuras engraçadas que participavam de cerimônias festivas, sempre
alegrando e divertindo os convidados.

Já no Império Romano, o riso assumiu um papel de relevo nas festas saturnais, mas
tempos depois decaiu, passando a ser perseguido pelas autoridades. Foi nos séculos III e IV
que a comicidade, com o fortalecimento do Cristianismo, ganhou uma imagem diabólica,
quando as festas e escárnios passaram a significar paganismo.
42

Aliás, essa imagem tecida do riso ganhou força porque, conforme as escrituras
sagradas, Jesus Cristo nunca teria rido, razão pela qual os cristão, devendo seguir as
orientações do cristianismo, também não deveriam engajar-se no risível.

Sobre o tema, George Minois (apud ALAVARCE, 2009, p. 79/80) explica com
propriedade o fenômeno do risível contraposto à doutrina cristã:

O riso é ligado à imperfeição, à corrupção, ao fato de que as criaturas sejam


decaídas, que não coincidam com o seu modelo, com sua essência ideal. É esse hiato
entre a existência e a essência que provoca o riso, essa defasagem permanente entre
o que somos e o que deveríamos ser. O riso brota quando vemos esse buraco
intransponível, aberto sobre o nada e quando tomamos consciência dele. É a desforra
do diabo, que revela ao homem que ele não é nada, que não deve seu ser a si mesmo,
que é dependente e que não pode nada, que é grotesco em um universo grotesco .

Contudo, apesar dessas perseguições, o riso não esvaiu-se, pois na Idade Média a
mesma Igreja que pregava sua abominação o adotou com uma faceta didática, pautada nas
paródias. Assim, o riso, desde que moderado, tornou-se instrumento dos pregadores para
evitar o sono dos fiéis durantes as longas e monótonas missas.

Havia o que diziam ser o bom e o mau riso, ou melhor, o riso benevolente e o riso
malevolente. O bom riso é o riso que desperta o interesse das pessoas, o momentâneo e
distrativo; ao passo que o mau riso era a zombaria, o escárnio, o burlesco, vivenciado
sobretudo nas festas populares carnavalescas, nas quais o cômico era visto ao lado da
exploração das baixezas humanas, como o sexo, a excreção, os maus odores, o peido etc.

O riso malevolente foi uma ideia bem desenvolvida por Thomas Hobbes, para quem o
fenômeno é pejorativo, representando uma manifestação grosseira acerca da superioridade de
quem ri, pois assim o faz tendo consciência da menor capacidade no próximo, sendo obrigado
a reparar nas imperfeições dos outros para poder continuar sendo a favor de si próprio
(HOBBES apud ALAVARCE, 2009, p. 83). Vale dizer, o riso é um ato provocado em
desfavor de alguém inferior a fim de nos aplaudir em detrimento deste.

Acontece que benevolente ou malevolente, o riso passou a servir como instrumento de


saques e revoltas, mormente no reinado de Luís XIII, quando os foliões carnavalescos
simulavam festas para consumar roubos, ataques e saques. A partir de então, o riso e o
carnaval tornaram-se insustentáveis na Europa, forçando a frequente perseguição de suas
origens.
43

Com a decadência do grotesco, o riso teve que assumir uma postura mais discreta,
menos vergonhosa e vulgar. Segundo Fernando Moreno da Silva, no artigo “As Várias Faces
do Riso” (2014, p. 218), era a época em que a regra era rir com inteligência, utilizando-se de
métodos sutis e perspicazes para suscitar o riso. Nesse momento a ironia ganha força,
conforme o autor.

No século XVIII, Anthony Ashley Cooper, o conde de Shaftesbury, buscando


amenizar a negatividade sobre o risível, advinda principalmente dos ensaios teóricos escritos
por Hobbes, reconheceu a existência de duas espécies de riso: a jocositas, assim entendido
como o riso agressivo, o escárnio, e a hilaritas, assim entendido como o riso moderado,
controlado, não vulgar.

Aliás, é com o conde de Shaftesbury que o riso começa a refletir a liberdade de


exposição das críticas como meio de progresso. Segundo Minois (apud ALAVARVE, 2009,
p. 86): “Shaftesbury defende a liberdade de zombar, a liberdade de questionar tudo, em uma
linguagem decente, e a permissão de esclarecer e refutar qualquer argumento, sem ofender o
interlocutor [...] Sem a liberdade de rir, de caçoar e fazer humor, não há progresso da razão”.

Assim, então, ficou estabelecida umas das mais interessantes características do riso: a
liberdade de expressar opiniões e propor novas discussões sobre as verdades já existentes. O
riso seria, portanto, um mecanismo de mudança e de progresso.

Agora nos desloquemos para o final do século XIX e começo do século XX, onde
escreveram sobre o riso Bergson e Freud. Nessa época, o riso passa a ter uma conotação
social, tornando-se um mecanismo hábil para combater as infâmias e os descréditos das
figuras públicas.

Apesar de ser julgado contraditório em suas dissertações, Bergson (apud


ALAVARCE, 2009, p. 88) dizia que “o riso reprime as excentricidades, mantém
constantemente vigilantes e em contato recíproco certas atividades de ordem acessória que
correriam o risco de isolar-se e adormecer”, ou seja, atua como força repressora de
comportamentos desordenados.

Já Freud analisou o riso como uma espécie de prazer que alivia a dor ou qualquer mal,
psíquico ou moral, isto é, o riso como um instrumento capaz de evitar o desgaste afetivo que
assola o homem.

Explicando Freud, Minois (apud ALAVARCE, 2009, p. 90) expõe que: “o humor é,
assim, um processo de defesa que impede a eclosão do desprazer. Ao contrário do processo de
44

recalque, ele não procura subtrair da consciência o elemento penoso, mas transforma em
prazer a energia já acumulada para enfrentar a dor”.

Por fim, já no século XX, o riso, mormente depois das grandes guerras seculares, volta
aos poucos a assumir a função de distração do homem, isto é, uma espécie de escapatória aos
terríveis acontecimentos da época, na medida em que se fortalece como dispositivo de crítica
aos governantes e às atrocidades que assolavam as sociedades.

2.2 Freud: a importância do humor na sociedade contemporânea

Atualmente, cenários como a preocupação financeira, a falta de tempo, o consumo


desenfreado, a cultura ao corpo, a ansiedade, entre outros agentes, têm colocado as pessoas
numa situação de desiquilíbrio emocional.

Com isso, a busca do prazer como forma de amenizar as angústias e as melancolias do


homem tem sido o objeto da literatura científica pós-moderna e, dentre os mecanismos
utilizados para essa busca do prazer, um em especial ganha relevo: o humor.

Segundo Freud, o humor é uma intervenção do superego que enfrenta o ego quando
este é ameaçado. Vale dizer que o humor consiste “em que alguém se livre dos efeitos que a
situação [negativa] teria provocado normalmente, considerando por meio de um chiste a
possibilidade de semelhante desenlace emocional” (FREUD, 1976, p. 189).

Noutra palavras, explica Vivian Letícia Lopes Soares (2011):

A realidade intimida, muitas vezes, o ego que, se saudável, busca recursos para não
sucumbir a realidade sofrível. Quando isso não ocorre, a pessoa se entrega aos
entristecimentos e outros afetos e emoções dolorosas causados pelo mundo externo
de forma duradoura e sem perspectiva de que isso possa favorecer o
autoconhecimento e o crescimento pessoal. Utilizamos o humor como recurso para
assegurar nossa integridade.

Então, é possível afirmar que cenários provocadores do riso orientam as pessoas para
uma situação de bem-estar, de descontração e relaxamento que ajuda na administração dos
45

sentimentos negativos, evitando que elas permaneçam concentradas em seus problemas e


conflitos personalíssimos.

Diante desse quadro, o humor precisa, para projetar-se sobre a sociedade, do impulso
que lhe oferece o direito à liberdade de expressão, liberdade essa que se faz através dos meios
de comunicação – impressos (gazetas, panfletos, jornais, revistas e livros), programas de
radiofusão sonora e de sons e imagens (programas de rádio e de televisão), internet etc.

Portanto, humor e liberdade de expressão, mais nos dias atuais do que em qualquer
outra época vivenciada, são dois elementos indissociáveis, isto é, não há humor sem antes
haver ampla liberdade de expressão, que possibilita a exploração do risível em seus mais
variados recursos e gêneros.

2.3 O riso e suas expressões

São inúmeros os recursos utilizados para provocar o riso, dentre os quais se destacam:
a comicidade, o humorismo, a ironia, a caricatura, a paródia e a sátira. Vejamos um pouco de
cada um.

A comicidade (ou o cômico) é a mera verificação de um contraste, sem qualquer


reflexão. É o que Raskin chama de passagem de um script a outro, isto é, de um enredo a
outro enredo (apud POSSENTI, 2013, p. 121). Assim, uma piada humorística deve ser
compatível, completamente ou em parte, com dois scripts, os quais devem ser contrapor, de
modo que a passagem de um para outro – também denominada de “gatilho” – gere a graça, o
riso.

O humor é a análise mais aprofundada que se tem do cômico, ou seja, é a reflexão


sobre a mensagem que o interlocutor quis disseminar através de determinado texto ou piada,
quando essa de fato existe.

Já a ironia é um jogo dialético: afirma-se para negar ou nega-se para afirmar. Nas
palavras de Fernando Moreno (2014, p. 224), na ironia “as palavras expressam o contrário da
ideia que se pretende exprimir, mas se insere na mensagem um sinal que, de certa forma,
46

previne o destinatário das intenções do enunciador, ficando subentendido que tal recurso foi
usado propositadamente”.

A caricatura é o retrato cômico que aflora as principais características de uma


determinada pessoa, sobretudo as suas deformidades físicas mais despojadas. O riso na
caricatura não é provocado tão somente pelo exagero, pela hipérbole, mas também por fazer
saltar aos olhos dos espectadores as principais características e defeitos do caricaturado, numa
clara tentativa de confirmá-las diante daqueles que o veem ou leem.

Outro recurso humorístico é a sátira, assim entendida como uma arma de crítica e
agressiva. Nas palavras de Almir Correia (1997, p. 190), “a sátira manifesta-se como arma de
denúncia, um ataque à censura e a repressão (política, religiosa), ou se impõe como uma
forma de ridicularizar, diminuir, depreciar tudo aquilo que foge ao dito padrão estabelecido”.

Ressalta-se que, apesar de próximas, a sátira não se confunde com a charge, que é
outro recurso humorístico. Por assim dizer, a sátira é uma técnica literária ou artística que
critica determinado tema, ao passo que a charge é uma ilustração que, por meio de uma
caricatura, satiriza, critica ou debocha de algo.

Já a paródia é uma imitação grotesca que explora a estética e a linguística (SILVA,


2014, p. 225). Assim, é perfeitamente possível parodiar qualquer coisa, desde movimentos e
ações até hábitos criados pelo homem.

Além dos recursos humorísticos supracitados, também existem o macarrônico e o


estereótipo, que não deixam de ser importantes para a nossa análise.

O macarrônico é um gênero irônico de prosa em que se acrescentam elementos de


outro idioma à língua original, tais como palavras latinas ou de outra língua. Por exemplo
“ma que coza sera esza de marrônico? Io só coneço macarrone e com muto morro e
quecho!”.

Por fim, o estereótipo é um recurso que projeta e injeta estratégias metafóricas e


metonímicas, simulando uma realidade que não é sua e cuja cultura se apresenta sempre de
forma estereotipada. Cuida-se da visão dos grupos predominantes, a exemplo da imagem que
temos do caipira, do cearense, do português, do gaúcho etc.

2.4 O humor e sua relação com a liberdade de expressão


47

Saliba (2008, p. 38) disserta que o Século XIX foi marcado pelo nascimento das
revistas humorísticas, devido aos avanços nas técnicas de impressão e reprodução que
possibilitaram o aumento do número de tiragens, atingindo maior contingente de leitores.

Segundo o autor, essa produção humorística “aparecia sempre nas margens: primeiro
nos rodapés dos jornais ou em pequenos e efêmeros pasquins semanais, depois nas margens
das obras dos próprios autores e, por fim, nas margens da própria produção escrita” (2008, p.
38).

A partir das décadas de 30 e de 40, as produções humorísticas desdobraram-se para o


contexto radiofônico, quando ganham destaque as misturas linguísticas, a concisão, a rapidez,
a habilidade de trocadilhar e jogar com palavras, entre outros recursos que provocam o humor
nos ouvintes (SALIBA, 2008, p. 228).

Transpondo todo o restante do Século XX, no Século XXI o humor que tem se
destacado é o televisivo, vivenciado em programas de televisão, tais como “Pânico na Band”,
“Zorra Total”, “CQC”, entre outros, bem como o humor divulgado em sites e blogs da rede
mundial de computadores (internet), a exemplo dos seguintes grupos: “Porta dos Fundos”,
“Hermes e Renato”, “Galo Frito”, “Divertics” etc.

A propósito, a partir dos anos 2000, outra forma de comédia e entretenimento que
ganhou relevo foi o “stand-up comedy” que, numa tradução livre, significa “comédia em pé”.
Essa espécie de comédia:

[...] é uma modalidade de apresentação de comédia popularizada também por


demandar apenas equipamentos básicos, pois o artista está “desarmado”: sem
figurino, cenário, ou recursos teatrais mais exigentes; apenas um palco, um
amplificador de som, um foco de luz e um microfone. Buscando uma identificação
imediata com o público, o stand-up se caracteriza, ainda, por buscar percepções do
cotidiano de acordo com a recepção do público aos textos apresentados
(SECHINATO, 2015, p. 03).

Uma vez analisada a retrospectiva história da comédia em nosso país, passemos ao


estudo crítico do humor como mecanismo de liberdade de expressão.

Henri Bergson (1859-1941), no seu livro “O Riso – ensaio sobre a significação da


comicidade” (1899), ensina que o riso pode ser entendido em duas dimensões: a primeira é a
48

de que o riso é um fenômeno social de determinado grupo. Assim, o riso é um traço específico
de cada comunidade, como se cada povo compusesse sua própria cultura do que “é risível”,
engraçado. Por essa razão é que uma piada só pode ser entendida por pessoas que a
contextualizam, por pessoa que vivem na sociedade a qual se atribui o conteúdo da piada.

A segunda dimensão do riso é a de que ele não apenas serve para gerar alegria e
prazer, mas também como poderoso mecanismo discursivo, a fim de disseminar discursos,
críticas e opiniões.

Bergson também interpreta o riso como resultado de um movimento involuntário de


alguém, isto é, como o resultado de sua desatenção, erro, falta de agilidade, a exemplo de
acidentes que consideramos engraçados: uma pessoa que tropeça e cai; uma pessoa que anda
nas ruas com a calça rasgada etc.

No entanto, o riso nos programas de comédia atualmente tem sido muito mais amplo
que isso. Hoje, existem pessoas que buscam no riso a sua profissão, tais como os comediantes,
os humoristas e os cartunistas. Essas pessoas muitas vezes podem utilizar o riso como uma
opção de lazer para os demais que os assistem ou leem, como uma forma de descontração,
mas também podem utilizar o humor como ferramenta de opiniões, de pontos de vista, sem
que isso seja visto com formalidade.

Destarte, por não se saber ao certo se o humorista deseja apenas causar o riso como
forma de descontração ou como forma de crítica e difusão da opinião própria é que o
ambiente humorístico é tido como uma “zona neutra”, na qual é perfeitamente possível que a
liberdade de expressão ultrapasse valores éticos e morais.

É por isso que o riso é definido por Dagoberto José Fonseca (2012, p. 53) como um
elemento que revela costumes, opiniões e preconceitos de uma determinada comunidade,
senão vejamos:

Os grupos sociais, quando riem de uma determinada piada, demonstram que estão
aparentemente de acordo com suas mensagens, que elas encontram eco na
sociedade; sua atitude manifesta consciência e assimilação, aludindo a uma relativa
identificação entre a mensagem expressa por eles e a leitura de mundo que é feita
pelo conjunto da sociedade.

Por assim dizer, o riso é explicado como o “não-sério”, isto é, como um discurso não
oficial, algo neutro que não pode ser controlado ou não se pode exigir que o emissor o
controle. Verena Albert explica:
49

O riso revelaria assim que o não-normativo, o desvio e o indizível fazem parte da


existência. São inúmeros os textos que tratam do riso no contexto de uma oposição
entre a ordem e o desvio, com a consequente valorização do não-oficial e do não-
sério, que abarcariam uma realidade mais essencial do que a limitada pelo sério
(2011, p. 12).

Por assim dizer, o riso é considerado, sobretudo pelos profissionais do humor, como
uma expressão elástica, que, a depender da análise da roupagem atribuída à manifestação do
emissor, não pode caracterizar um ato ilícito. Noutras palavras, “uma piada é apenas uma
piada”, uma simples manifestação cultural, um costume, um atributo da inteligência humana,
não havendo, a princípio, o desejo de aviltar e degradar a imagem e honra alheias.

A partir de então, a dúvida que se consolida e que se pretende dirimir no próximo


capítulo é a resposta à seguinte pergunta: existe no riso limites? Vale dizer, é permitido que o
humor seja exercitado além dos limites à liberdade de expressão (assim já estudados: a
honra, a intimidade, a vida privada e a imagem)?

Com isso, o que se pretenderá verificar é se ao Poder Judiciário cabe a função de


definir e interpretar, através de critérios hermenêuticos, a manifestação humorística e seu
conteúdo frente aos direitos que possivelmente possam estar em perigo.

Nessa análise, ainda, veremos que existem dois lados opostos: há quem defenda que o
humor deve obedecer aos mesmos limites que o direito de crítica, os quais ditam que somente
são admissíveis as críticas objetivas, isto é, relativas à obras e realizações de interesse público,
sem qualquer ofensa direta à personalidade, dignidade e honra das pessoas. Mas há também
aqueles que entendem que a piada deve ser entendida como uma forma especial de liberdade
de expressão, no sentido de agradar e descontrair o público espectador.
50

III. O HUMORISMO NO CONTEXTO DA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO


TRIBUNAL FEDERAL

No presente capítulo, conforme se vem propondo desde o início do trabalho, a


discussão recairá sobre a interpretação da manifestação humorística pelo órgão de cúpula do
Poder Judiciário brasileiro, começando por uma pesquisa avançada sobre como a liberdade de
expressão tem se manifestado na jurisprudência desse tribunal, para, num segundo momento,
analisar sua conexão com o humorismo e seus reflexos sobre o conteúdo e os limites
prováveis do direito de fazer humor.

3.1 Humorismo no STF: uma pesquisa de resultados tímidos

Ao proceder a uma pesquisa no site do Supremo Tribunal Federal


(http://www.stf.jus.br), na caixa de texto que permite serem escritas palavras-chave
condizentes com o conteúdo de uma busca jurisprudencial, e utilizando-se as palavras
<“humor”> e <“humorismo”>, que são as que representam o objeto do presente trabalho,
averiguou-se existirem quatro julgados: três deles não guardam relação alguma com o tema
que ora debatemos, sendo que apenas um nos chama a atenção de imediato.
51

A ementa que nos chama a atenção é a que resume o Referendo na Medida Cautelar na
Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 4.451/DF, cujo relator é o Ministro Carlos
Ayres Britto, com o seguinte teor:

EMENTA: MEDIDA CAUTELAR EM AÇÃO DIRETA DE


INCONSTITUCIONALIDADE. INCISOS II E III DO ART. 45 DA LEI
9.504/1997. 1. Situação de extrema urgência, demandante de providência imediata,
autoriza a concessão da liminar “sem a audiência dos órgãos ou das autoridades das
quais emanou a lei ou o ato normativo impugnado” (§ 3º do art. 10 da Lei
9.868/1999), até mesmo pelo relator, monocraticamente, ad referendum do Plenário.
2. Não cabe ao Estado, por qualquer dos seus órgãos, definir previamente o que
pode ou o que não pode ser dito por indivíduos e jornalistas. Dever de omissão
que inclui a própria atividade legislativa, pois é vedado à lei dispor sobre o núcleo
duro das atividades jornalísticas, assim entendidas as coordenadas de tempo e de
conteúdo da manifestação do pensamento, da informação e da criação lato sensu.
Vale dizer: não há liberdade de imprensa pela metade ou sob as tenazes da censura
prévia, pouco importando o Poder estatal de que ela provenha. Isso porque a
liberdade de imprensa não é uma bolha normativa ou uma fórmula prescritiva oca.
Tem conteúdo, e esse conteúdo é formado pelo rol de liberdades que se lê a partir da
cabeça do art. 220 da Constituição Federal: liberdade de “manifestação do
pensamento”, liberdade de “criação”, liberdade de “expressão”, liberdade de
“informação”. Liberdades constitutivas de verdadeiros bens de personalidade,
porquanto correspondentes aos seguintes direitos que o art. 5º da nossa Constituição
intitula de “Fundamentais”: a) “livre manifestação do pensamento” (inciso IV); b)
“livre [...] expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação”
(inciso IX); c) “acesso a informação” (inciso XIV). 3. Pelo seu reconhecido condão
de vitalizar por muitos modos a Constituição, tirando-a mais vezes do papel, a
imprensa mantém com a democracia a mais entranhada relação de interdependência
ou retroalimentação. A presente ordem constitucional brasileira autoriza a
formulação do juízo de que o caminho mais curto entre a verdade sobre a conduta
dos detentores do Poder e o conhecimento do público em geral é a liberdade de
imprensa. A traduzir, então, a ideia-força de que abrir mão da liberdade de imprensa
é renunciar ao conhecimento geral das coisas do Poder, seja ele político, econômico,
militar ou religioso. 4. A Magna Carta Republicana destinou à imprensa o direito de
controlar e revelar as coisas respeitantes à vida do Estado e da própria sociedade. A
imprensa como a mais avançada sentinela das liberdades públicas, como alternativa
à explicação ou versão estatal de tudo que possa repercutir no seio da sociedade e
como garantido espaço de irrupção do pensamento crítico em qualquer situação ou
contingência. Os jornalistas, a seu turno, como o mais desanuviado olhar sobre
o nosso cotidiano existencial e os recônditos do Poder, enquanto profissionais
do comentário crítico. Pensamento crítico que é parte integrante da informação
plena e fidedigna. Como é parte do estilo de fazer imprensa que se
convencionou chamar de humorismo (tema central destes autos). A previsível
utilidade social do labor jornalístico a compensar, de muito, eventuais excessos
desse ou daquele escrito, dessa ou daquela charge ou caricatura, desse ou
daquele programa. 5. Programas humorísticos, charges e modo caricatural de
pôr em circulação ideias, opiniões, frases e quadros espirituosos compõem as
atividades de “imprensa”, sinônimo perfeito de “informação jornalística” (§ 1º
do art. 220). Nessa medida, gozam da plenitude de liberdade que é assegurada
pela Constituição à imprensa. Dando-se que o exercício concreto dessa liberdade
em plenitude assegura ao jornalista o direito de expender críticas a qualquer
pessoa, ainda que em tom áspero, contundente, sarcástico, irônico ou
irreverente, especialmente contra as autoridades e aparelhos de Estado.
Respondendo, penal e civilmente, pelos abusos que cometer, e sujeitando-se ao
direito de resposta a que se refere a Constituição em seu art. 5º, inciso V. A crítica
jornalística em geral, pela sua relação de inerência com o interesse público, não é
52

aprioristicamente suscetível de censura. Isso porque é da essência das atividades de


imprensa operar como formadora de opinião pública, lócus do pensamento crítico e
necessário contraponto à versão oficial das coisas, conforme decisão majoritária do
Supremo Tribunal Federal na ADPF 130. Decisão a que se pode agregar a ideia de
que a locução “humor jornalístico” enlaça pensamento crítico, informação e
criação artística. 6. A liberdade de imprensa assim abrangentemente livre não é de
sofrer constrições em período eleitoral. Ela é plena em todo o tempo, lugar e
circunstâncias. Tanto em período não-eleitoral, portanto, quanto em período de
eleições gerais. Se podem as emissoras de rádio e televisão, fora do período
eleitoral, produzir e veicular charges, sátiras e programas humorísticos que
envolvam partidos políticos, pré-candidatos e autoridades em geral, também
podem fazê-lo no período eleitoral. Processo eleitoral não é estado de sítio (art.
139 da CF), única fase ou momento de vida coletiva que, pela sua excepcional
gravidade, a Constituição toma como fato gerador de “restrições à inviolabilidade da
correspondência, ao sigilo das comunicações, à prestação de informações e à
liberdade de imprensa, radiodifusão e televisão, na forma da lei” (inciso III do art.
139). 7. O próprio texto constitucional trata de modo diferenciado a mídia escrita e a
mídia sonora ou de sons e imagens. O rádio e a televisão, por constituírem serviços
públicos, dependentes de “outorga” do Estado e prestados mediante a utilização de
um bem público (espectro de radiofrequências), têm um dever que não se estende à
mídia escrita: o dever da imparcialidade ou da equidistância perante os candidatos.
Imparcialidade, porém, que não significa ausência de opinião ou de crítica
jornalística. Equidistância que apenas veda às emissoras de rádio e televisão
encamparem, ou então repudiarem, essa ou aquela candidatura a cargo político-
eletivo. 8. Suspensão de eficácia do inciso II do art. 45 da Lei 9.504/1997 e, por
arrastamento, dos §§ 4º e 5º do mesmo artigo, incluídos pela Lei 12.034/2009.
Os dispositivos legais não se voltam, propriamente, para aquilo que o TSE vê como
imperativo de imparcialidade das emissoras de rádio e televisão. Visa a coibir um
estilo peculiar de fazer imprensa: aquele que se utiliza da trucagem, da montagem ou
de outros recursos de áudio e vídeo como técnicas de expressão da crítica
jornalística, em especial os programas humorísticos. 9. Suspensão de eficácia da
expressão “ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido,
coligação, a seus órgãos ou representantes”, contida no inciso III do art. 45 da Lei
9.504/1997. Apenas se estará diante de uma conduta vedada quando a crítica ou
matéria jornalísticas venham a descambar para a propaganda política, passando
nitidamente a favorecer uma das partes na disputa eleitoral. Hipótese a ser avaliada
em cada caso concreto. 10. Medida cautelar concedida para suspender a eficácia
do inciso II e da parte final do inciso III, ambos do art. 45 da Lei 9.504/1997,
bem como, por arrastamento, dos §§ 4º e 5º do mesmo artigo (grifo nosso).

Nesse julgamento, o STF, por maioria, referendou a liminar, suspendendo as normas


do inciso II e da segunda parte do inciso III, ambos do art. 45 da Lei nº 9.504/97, bem como,
por arrastamento, dos §§ 4º e 5º do mesmo artigo, contra os votos dos Ministros Dias Toffoli,
Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio, que, nos termos do pedido sucessivo da inicial,
deferiram a liminar, declarando a inconstitucionalidade parcial das normas impugnadas
mediante interpretação conforme.

Por outro lado, ao escrevermos “liberdade de expressão” na caixa de pesquisa, o


resultado foi alargado para 246 documentos relacionados. Todavia, apesar desse trabalho ter
também como foco a liberdade de expressão, não se pode afirmar que seja ela o objeto
principal aqui, mas sim o acessório que nos possibilita aprofundar a pesquisa do entendimento
da Suprema Corte acerca do humorismo como manifestação da liberdade de expressão.
53

Dentre os resultados alcançados utilizando-se a “liberdade de expressão” como foco


de pesquisa, situa-se o acórdão na Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental
(ADPF) nº 130/DF, de relatoria do Ministro Carlos Ayres Britto, acórdão esse que talvez
possa ser considerado o de maior relevância quando o tema é liberdade de expressão na ordem
jurídica brasileira.

Vejamos a ementa:

EMENTA: ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO


FUNDAMENTAL (ADPF). LEI DE IMPRENSA. ADEQUAÇÃO DA AÇÃO.
REGIME CONSTITUCIONAL DA "LIBERDADE DE INFORMAÇÃO
JORNALÍSTICA", EXPRESSÃO SINÔNIMA DE LIBERDADE DE IMPRENSA.
A "PLENA" LIBERDADE DE IMPRENSA COMO CATEGORIA JURÍDICA
PROIBITIVA DE QUALQUER TIPO DE CENSURA PRÉVIA. A
PLENITUDE DA LIBERDADE DE IMPRENSA COMO REFORÇO OU
SOBRETUTELA DAS LIBERDADES DE MANIFESTAÇÃO DO
PENSAMENTO, DE INFORMAÇÃO E DE EXPRESSÃO ARTÍSTICA,
CIENTÍFICA, INTELECTUAL E COMUNICACIONAL. LIBERDADES
QUE DÃO CONTEÚDO ÀS RELAÇÕES DE IMPRENSA E QUE SE PÕEM
COMO SUPERIORES BENS DE PERSONALIDADE E MAIS DIRETA
EMANAÇÃO DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. O
CAPÍTULO CONSTITUCIONAL DA COMUNICAÇÃO SOCIAL COMO
SEGMENTO PROLONGADOR DAS LIBERDADES DE MANIFESTAÇÃO DO
PENSAMENTO, DE INFORMAÇÃO E DE EXPRESSÃO ARTÍSTICA,
CIENTÍFICA, INTELECTUAL E COMUNICACIONAL. TRANSPASSE DA
FUNDAMENTALIDADE DOS DIREITOS PROLONGADOS AO CAPÍTULO
PROLONGADOR. PONDERAÇÃO DIRETAMENTE CONSTITUCIONAL
ENTRE BLOCOS DE BENS DE PERSONALIDADE: O BLOCO DOS DIREITOS
QUE DÃO CONTEÚDO À LIBERDADE DE IMPRENSA E O BLOCO DOS
DIREITOS À IMAGEM, HONRA, INTIMIDADE E VIDA PRIVADA.
PRECEDÊNCIA DO PRIMEIRO BLOCO. INCIDÊNCIA A POSTERIORI DO
SEGUNDO BLOCO DE DIREITOS, PARA O EFEITO DE ASSEGURAR O
DIREITO DE RESPOSTA E ASSENTAR RESPONSABILIDADES PENAL,
CIVIL E ADMINISTRATIVA, ENTRE OUTRAS CONSEQUÊNCIAS DO
PLENO GOZO DA LIBERDADE DE IMPRENSA. PECULIAR FÓRMULA
CONSTITUCIONAL DE PROTEÇÃO A INTERESSES PRIVADOS QUE,
MESMO INCIDINDO A POSTERIORI, ATUA SOBRE AS CAUSAS PARA
INIBIR ABUSOS POR PARTE DA IMPRENSA. PROPORCIONALIDADE
ENTRE LIBERDADE DE IMPRENSA E RESPONSABILIDADE CIVIL POR
DANOS MORAIS E MATERIAIS A TERCEIROS. RELAÇÃO DE MÚTUA
CAUSALIDADE ENTRE LIBERDADE DE IMPRENSA E DEMOCRACIA.
RELAÇÃO DE INERÊNCIA ENTRE PENSAMENTO CRÍTICO E IMPRENSA
LIVRE. A IMPRENSA COMO INSTÂNCIA NATURAL DE FORMAÇÃO DA
OPINIÃO PÚBLICA E COMO ALTERNATIVA À VERSÃO OFICIAL DOS
FATOS. PROIBIÇÃO DE MONOPOLIZAR OU OLIGOPOLIZAR ÓRGÃOS DE
IMPRENSA COMO NOVO E AUTÔNOMO FATOR DE INIBIÇÃO DE
ABUSOS. NÚCLEO DA LIBERDADE DE IMPRENSA E MATÉRIAS APENAS
PERIFERICAMENTE DE IMPRENSA. AUTORREGULAÇÃO E REGULAÇÃO
SOCIAL DA ATIVIDADE DE IMPRENSA. NÃO RECEPÇÃO EM BLOCO DA
LEI Nº 5.250/1967 PELA NOVA ORDEM CONSTITUCIONAL. EFEITOS
JURÍDICOS DA DECISÃO. PROCEDÊNCIA DA AÇÃO. 1. ARGUIÇÃO DE
DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL (ADPF). LEI DE
IMPRENSA. ADEQUAÇÃO DA AÇÃO. A ADPF, fórmula processual subsidiária
do controle concentrado de constitucionalidade, é via adequada à impugnação de
54

norma pré-constitucional. Situação de concreta ambiência jurisdicional timbrada por


decisões conflitantes. Atendimento das condições da ação. 2. REGIME
CONSTITUCIONAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA COMO REFORÇO DAS
LIBERDADES DE MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO, DE INFORMAÇÃO
E DE EXPRESSÃO EM SENTIDO GENÉRICO, DE MODO A ABARCAR OS
DIREITOS À PRODUÇÃO INTELECTUAL, ARTÍSTICA, CIENTÍFICA E
COMUNICACIONAL. A Constituição reservou à imprensa todo um bloco
normativo, com o apropriado nome "Da Comunicação Social" (capítulo V do título
VIII). A imprensa como plexo ou conjunto de "atividades" ganha a dimensão de
instituição-ideia, de modo a poder influenciar cada pessoa de per se e até mesmo
formar o que se convencionou chamar de opinião pública. Pelo que ela,
Constituição, destinou à imprensa o direito de controlar e revelar as coisas
respeitantes à vida do Estado e da própria sociedade. A imprensa como alternativa à
explicação ou versão estatal de tudo que possa repercutir no seio da sociedade e
como garantido espaço de irrupção do pensamento crítico em qualquer situação ou
contingência. Entendendo-se por pensamento crítico o que, plenamente
comprometido com a verdade ou essência das coisas, se dota de potencial
emancipatório de mentes e espíritos. O corpo normativo da Constituição
brasileira sinonimiza liberdade de informação jornalística e liberdade de
imprensa, rechaçante de qualquer censura prévia a um direito que é signo e
penhor da mais encarecida dignidade da pessoa humana, assim como do mais
evoluído estado de civilização. 3. O CAPÍTULO CONSTITUCIONAL DA
COMUNICAÇÃO SOCIAL COMO SEGMENTO PROLONGADOR DE
SUPERIORES BENS DE PERSONALIDADE QUE SÃO A MAIS DIRETA
EMANAÇÃO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA: A LIVRE
MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO E O DIREITO À INFORMAÇÃO E À
EXPRESSÃO ARTÍSTICA, CIENTÍFICA, INTELECTUAL E
COMUNICACIONAL. TRANSPASSE DA NATUREZA JURÍDICA DOS
DIREITOS PROLONGADOS AO CAPÍTULO CONSTITUCIONAL SOBRE A
COMUNICAÇÃO SOCIAL. O art. 220 da Constituição radicaliza e alarga o regime
de plena liberdade de atuação da imprensa, porquanto fala: a) que os mencionados
direitos de personalidade (liberdade de pensamento, criação, expressão e
informação) estão a salvo de qualquer restrição em seu exercício, seja qual for o
suporte físico ou tecnológico de sua veiculação; b) que tal exercício não se sujeita a
outras disposições que não sejam as figurantes dela própria, Constituição. A
liberdade de informação jornalística é versada pela Constituição Federal como
expressão sinônima de liberdade de imprensa. Os direitos que dão conteúdo à
liberdade de imprensa são bens de personalidade que se qualificam como
sobredireitos. Daí que, no limite, as relações de imprensa e as relações de
intimidade, vida privada, imagem e honra são de mútua excludência, no sentido de
que as primeiras se antecipam, no tempo, às segundas; ou seja, antes de tudo
prevalecem as relações de imprensa como superiores bens jurídicos e natural forma
de controle social sobre o poder do Estado, sobrevindo as demais relações como
eventual responsabilização ou consequência do pleno gozo das primeiras. A
expressão constitucional "observado o disposto nesta Constituição" (parte final do
art. 220) traduz a incidência dos dispositivos tutelares de outros bens de
personalidade, é certo, mas como consequência ou responsabilização pelo desfrute
da "plena liberdade de informação jornalística" (§ 1º do mesmo art. 220 da
Constituição Federal). Não há liberdade de imprensa pela metade ou sob as
tenazes da censura prévia, inclusive a procedente do Poder Judiciário, pena de
se resvalar para o espaço inconstitucional da prestidigitação jurídica.
Silenciando a Constituição quanto ao regime da internet (rede mundial de
computadores), não há como se lhe recusar a qualificação de território virtual
livremente veiculador de ideias e opiniões, debates, notícias e tudo o mais que
signifique plenitude de comunicação. 4. MECANISMO CONSTITUCIONAL DE
CALIBRAÇÃO DE PRINCÍPIOS. O art. 220 é de instantânea observância quanto
ao desfrute das liberdades de pensamento, criação, expressão e informação que, de
alguma forma, se veiculem pelos órgãos de comunicação social. Isto sem prejuízo da
aplicabilidade dos seguintes incisos do art. 5º da mesma Constituição Federal:
vedação do anonimato (parte final do inciso IV); do direito de resposta (inciso V);
55

direito a indenização por dano material ou moral à intimidade, à vida privada, à


honra e à imagem das pessoas (inciso X); livre exercício de qualquer trabalho, ofício
ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer (inciso
XIII); direito ao resguardo do sigilo da fonte de informação, quando necessário ao
exercício profissional (inciso XIV). Lógica diretamente constitucional de calibração
temporal ou cronológica na empírica incidência desses dois blocos de dispositivos
constitucionais (o art. 220 e os mencionados incisos do art. 5º). Noutros termos,
primeiramente, assegura-se o gozo dos sobredireitos de personalidade em que se
traduz a "livre" e "plena" manifestação do pensamento, da criação e da informação.
Somente depois é que se passa a cobrar do titular de tais situações jurídicas ativas
um eventual desrespeito a direitos constitucionais alheios, ainda que também
densificadores da personalidade humana. Determinação constitucional de
momentânea paralisia à inviolabilidade de certas categorias de direitos subjetivos
fundamentais, porquanto a cabeça do art. 220 da Constituição veda qualquer cerceio
ou restrição à concreta manifestação do pensamento (vedado o anonimato), bem
assim todo cerceio ou restrição que tenha por objeto a criação, a expressão e a
informação, seja qual for a forma, o processo, ou o veículo de comunicação social.
Com o que a Lei Fundamental do Brasil veicula o mais democrático e civilizado
regime da livre e plena circulação das ideias e opiniões, assim como das notícias e
informações, mas sem deixar de prescrever o direito de resposta e todo um regime
de responsabilidades civis, penais e administrativas. Direito de resposta e
responsabilidades que, mesmo atuando a posteriori, infletem sobre as causas para
inibir abusos no desfrute da plenitude de liberdade de imprensa. 5.
PROPORCIONALIDADE ENTRE LIBERDADE DE IMPRENSA E
RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. Sem
embargo, a excessividade indenizatória é, em si mesma, poderoso fator de inibição
da liberdade de imprensa, em violação ao princípio constitucional da
proporcionalidade. A relação de proporcionalidade entre o dano moral ou material
sofrido por alguém e a indenização que lhe caiba receber (quanto maior o dano
maior a indenização) opera é no âmbito interno da potencialidade da ofensa e da
concreta situação do ofendido. Nada tendo a ver com essa equação a circunstância
em si da veiculação do agravo por órgão de imprensa, porque, senão, a liberdade de
informação jornalística deixaria de ser um elemento de expansão e de robustez da
liberdade de pensamento e de expressão lato sensu para se tornar um fator de
contração e de esqualidez dessa liberdade. Em se tratando de agente público, ainda
que injustamente ofendido em sua honra e imagem, subjaz à indenização uma
imperiosa cláusula de modicidade. Isto porque todo agente público está sob
permanente vigília da cidadania. E quando o agente estatal não prima por todas as
aparências de legalidade e legitimidade no seu atuar oficial, atrai contra si mais
fortes suspeitas de um comportamento antijurídico francamente sindicável pelos
cidadãos. 6. RELAÇÃO DE MÚTUA CAUSALIDADE ENTRE LIBERDADE DE
IMPRENSA E DEMOCRACIA. A plena liberdade de imprensa é um patrimônio
imaterial que corresponde ao mais eloquente atestado de evolução político-cultural
de todo um povo. Pelo seu reconhecido condão de vitalizar por muitos modos a
Constituição, tirando-a mais vezes do papel, a Imprensa passa a manter com a
democracia a mais entranhada relação de mútua dependência ou retroalimentação.
Assim visualizada como verdadeira irmã siamesa da democracia, a imprensa passa a
desfrutar de uma liberdade de atuação ainda maior que a liberdade de pensamento,
de informação e de expressão dos indivíduos em si mesmos considerados. O § 5º do
art. 220 apresenta-se como norma constitucional de concretização de um pluralismo
finalmente compreendido como fundamento das sociedades autenticamente
democráticas; isto é, o pluralismo como a virtude democrática da respeitosa
convivência dos contrários. A imprensa livre é, ela mesma, plural, devido a que são
constitucionalmente proibidas a oligopolização e a monopolização do setor (§ 5º do
art. 220 da CF). A proibição do monopólio e do oligopólio como novo e autônomo
fator de contenção de abusos do chamado "poder social da imprensa". 7. RELAÇÃO
DE INERÊNCIA ENTRE PENSAMENTO CRÍTICO E IMPRENSA LIVRE. A
IMPRENSA COMO INSTÂNCIA NATURAL DE FORMAÇÃO DA OPINIÃO
PÚBLICA E COMO ALTERNATIVA À VERSÃO OFICIAL DOS FATOS. O
pensamento crítico é parte integrante da informação plena e fidedigna. O possível
56

conteúdo socialmente útil da obra compensa eventuais excessos de estilo e da


própria verve do autor. O exercício concreto da liberdade de imprensa assegura ao
jornalista o direito de expender críticas a qualquer pessoa, ainda que em tom áspero
ou contundente, especialmente contra as autoridades e os agentes do Estado. A
crítica jornalística, pela sua relação de inerência com o interesse público, não é
aprioristicamente suscetível de censura, mesmo que legislativa ou judicialmente
intentada. O próprio das atividades de imprensa é operar como formadora de opinião
pública, espaço natural do pensamento crítico e "real alternativa à versão oficial dos
fatos" (Deputado Federal Miro Teixeira). 8. NÚCLEO DURO DA LIBERDADE
DE IMPRENSA E A INTERDIÇÃO PARCIAL DE LEGISLAR. A uma atividade
que já era "livre" (incisos IV e IX do art. 5º), a Constituição Federal acrescentou o
qualificativo de "plena" (§ 1º do art. 220). Liberdade plena que, repelente de
qualquer censura prévia, diz respeito à essência mesma do jornalismo (o
chamado "núcleo duro" da atividade). Assim entendidas as coordenadas de
tempo e de conteúdo da manifestação do pensamento, da informação e da criação
lato sensu, sem o que não se tem o desembaraçado trânsito das ideias e opiniões,
tanto quanto da informação e da criação. Interdição à lei quanto às matérias
nuclearmente de imprensa, retratadas no tempo de início e de duração do concreto
exercício da liberdade, assim como de sua extensão ou tamanho do seu conteúdo.
Tirante, unicamente, as restrições que a Lei Fundamental de 1988 prevê para o
"estado de sítio" (art. 139), o Poder Público somente pode dispor sobre matérias
lateral ou reflexamente de imprensa, respeitada sempre a ideia-força de que quem
quer que seja tem o direito de dizer o que quer que seja. Logo, não cabe ao Estado,
por qualquer dos seus órgãos, definir previamente o que pode ou o que não pode ser
dito por indivíduos e jornalistas. As matérias reflexamente de imprensa, suscetíveis,
portanto, de conformação legislativa, são as indicadas pela própria Constituição, tais
como: direitos de resposta e de indenização, proporcionais ao agravo; proteção do
sigilo da fonte ("quando necessário ao exercício profissional"); responsabilidade
penal por calúnia, injúria e difamação; diversões e espetáculos públicos;
estabelecimento dos "meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade
de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que
contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e
serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente" (inciso II do § 3º do
art. 220 da CF); independência e proteção remuneratória dos profissionais de
imprensa como elementos de sua própria qualificação técnica (inciso XIII do art. 5º);
participação do capital estrangeiro nas empresas de comunicação social (§ 4º do art.
222 da CF); composição e funcionamento do Conselho de Comunicação Social (art.
224 da Constituição). Regulações estatais que, sobretudo incidindo no plano das
consequências ou responsabilizações, repercutem sobre as causas de ofensas
pessoais para inibir o cometimento dos abusos de imprensa. Peculiar fórmula
constitucional de proteção de interesses privados em face de eventuais
descomedimentos da imprensa (justa preocupação do Ministro Gilmar Mendes), mas
sem prejuízo da ordem de precedência a esta conferida, segundo a lógica elementar
de que não é pelo temor do abuso que se vai coibir o uso. Ou, nas palavras do
Ministro Celso de Mello, "a censura governamental, emanada de qualquer um dos
três Poderes, é a expressão odiosa da face autoritária do poder público". 9.
AUTORREGULAÇÃO E REGULAÇÃO SOCIAL DA ATIVIDADE DE
IMPRENSA. É da lógica encampada pela nossa Constituição de 1988 a
autorregulação da imprensa como mecanismo de permanente ajuste de limites
da sua liberdade ao sentir-pensar da sociedade civil. Os padrões de seletividade
do próprio corpo social operam como antídoto que o tempo não cessa de aprimorar
contra os abusos e desvios jornalísticos. Do dever de irrestrito apego à completude e
fidedignidade das informações comunicadas ao público decorre a permanente
conciliação entre liberdade e responsabilidade da imprensa. Repita-se: não é jamais
pelo temor do abuso que se vai proibir o uso de uma liberdade de informação a que o
próprio Texto Magno do País apôs o rótulo de "plena" (§ 1 do art. 220). 10. NÃO
RECEPÇÃO EM BLOCO DA LEI 5.250 PELA NOVA ORDEM
CONSTITUCIONAL. 10.1. Óbice lógico à confecção de uma lei de imprensa que se
orne de compleição estatutária ou orgânica. A própria Constituição, quando o quis,
convocou o legislador de segundo escalão para o aporte regratório da parte restante
57

de seus dispositivos (art. 29, art. 93 e § 5º do art. 128). São irregulamentáveis os


bens de personalidade que se põem como o próprio conteúdo ou substrato da
liberdade de informação jornalística, por se tratar de bens jurídicos que têm na
própria interdição da prévia interferência do Estado o seu modo natural, cabal
e ininterrupto de incidir. Vontade normativa que, em tema elementarmente de
imprensa, surge e se exaure no próprio texto da Lei Suprema. 10.2.
Incompatibilidade material insuperável entre a Lei n° 5.250/67 e a Constituição de
1988. Impossibilidade de conciliação que, sobre ser do tipo material ou de
substância (vertical), contamina toda a Lei de Imprensa: a) quanto ao seu entrelace
de comandos, a serviço da prestidigitadora lógica de que para cada regra geral
afirmativa da liberdade é aberto um leque de exceções que praticamente tudo desfaz;
b) quanto ao seu inescondível efeito prático de ir além de um simples projeto de
governo para alcançar a realização de um projeto de poder, este a se eternizar no
tempo e a sufocar todo pensamento crítico no País. 10.3 São de todo imprestáveis as
tentativas de conciliação hermenêutica da Lei 5.250/67 com a Constituição, seja
mediante expurgo puro e simples de destacados dispositivos da lei, seja mediante o
emprego dessa refinada técnica de controle de constitucionalidade que atende pelo
nome de "interpretação conforme a Constituição". A técnica da interpretação
conforme não pode artificializar ou forçar a descontaminação da parte restante do
diploma legal interpretado, pena de descabido incursionamento do intérprete em
legiferação por conta própria. Inapartabilidade de conteúdo, de fins e de viés
semântico (linhas e entrelinhas) do texto interpretado. Caso-limite de interpretação
necessariamente conglobante ou por arrastamento teleológico, a pré-excluir do
intérprete/aplicador do Direito qualquer possibilidade da declaração de
inconstitucionalidade apenas de determinados dispositivos da lei sindicada, mas
permanecendo incólume uma parte sobejante que já não tem significado
autônomo. Não se muda, a golpes de interpretação, nem a inextrincabilidade de
comandos nem as finalidades da norma interpretada. Impossibilidade de se
preservar, após artificiosa hermenêutica de depuração, a coerência ou o equilíbrio
interno de uma lei (a Lei federal nº 5.250/67) que foi ideologicamente concebida e
normativamente apetrechada para operar em bloco ou como um todo pro indiviso.
11. EFEITOS JURÍDICOS DA DECISÃO. Aplicam-se as normas da legislação
comum, notadamente o Código Civil, o Código Penal, o Código de Processo Civil e
o Código de Processo Penal às causas decorrentes das relações de imprensa. O
direito de resposta, que se manifesta como ação de replicar ou de retificar
matéria publicada é exercitável por parte daquele que se vê ofendido em sua
honra objetiva, ou então subjetiva, conforme estampado no inciso V do art. 5º
da Constituição Federal. Norma, essa, "de eficácia plena e de aplicabilidade
imediata", conforme classificação de José Afonso da Silva. "Norma de pronta
aplicação", na linguagem de Celso Ribeiro Bastos e Carlos Ayres Britto, em
obra doutrinária conjunta. 12. PROCEDÊNCIA DA AÇÃO. Total procedência da
ADPF, para o efeito de declarar como não recepcionado pela Constituição de 1988
todo o conjunto de dispositivos da Lei federal nº 5.250, de 9 de fevereiro de 1967.

Nesse julgamento, o STF, por maioria e nos termos do voto do Min. Relator Ayres
Britto, julgou procedente a ação no sentido de declarar a não recepção em bloco da Lei nº
5.250/67 pela nova ordem constitucional.

Foram vencidos, em parte, o Ministro Joaquim Barbosa e a Ministra Ellen Gracie, que
julgaram a ação improcedente apenas quanto ao artigo 1º, § 1º; artigo 2º, caput; artigo 14;
artigo 16, I; artigos 20, 21 e 22, da Lei nº 5.250/67.
58

Também foi vencido o voto do Ministro Gilmar Mendes (Presidente), que julgou a
ADPF improcedente quanto aos artigos 29 a 36 da Lei nº 5.250/67, bem como o voto do
Ministro Marco Aurélio, que julgou a ação totalmente improcedente.

Em síntese, foi possível observar que o objeto central desse trabalho (“o humorismo
como manifestação da liberdade de expressão”) é relacionado num contexto de jurisprudência
bastante escassa no órgão de cúpula do Poder Judiciário brasileiro, haja vista existir tão
somente um caso que leva à discussão jurídica sobre a liberdade de criação humorística.

Se não bastasse a insuficiência jurisprudencial sobre o tema, o único caso acima


referido não foi julgado definitivamente, de modo que os argumentos da Suprema Corte
limitam-se a uma decisão cautelar, cuja natureza, como bem sabemos, é de exame
perfunctório e superficial sobre a matéria, com pouco aprofundamento.

Mas, mesmo diante da dificuldade que assola esse trabalho, sobretudo este capítulo,
vale o empenho para expor a ratio decidendi do STF no Referendo na Medida Cautelar da
ADI nº 4.451/DF, pois apesar de um juízo superficial, esse julgamento sinaliza, ainda que em
linhas brandas, como a Colenda Corte interpreta a crítica humorística no contexto de um
Estado Democrático de Direito.

Frise-se, também, que a discussão acima indicada não terá início de imediato, pois é
preciso pontuar com precisão como o STF tem interpretado a liberdade de expressão no
Brasil, sobretudo aquela relacionada à liberdade dos meios de comunicação, estudo este que
se fará analisando os argumentos debatidos na ADPF nº 130/DF e extraindo-lhe a ratio
decidendi.

3.2 A ADPF 130 e os contornos da liberdade de expressão

A ADPF nº 130 foi ajuizada pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) em face da
não recepção integral da Lei nº 5.250/67 (Lei de Imprensa).

Editada durante o regime militar, a Lei de Imprensa, como o próprio nome sugere,
trazia dispositivos regulamentadores da liberdade de expressão e de informação, dos abusos
59

no exercício destas, do direito de resposta e da responsabilidade civil e penal por violação aos
direitos da personalidade (honra, imagem, privacidade, vida privada etc.).

A não recepção da Lei nº 5.250/67 sustentou-se, principalmente, pela


incompatibilidade de seus artigos com o disposto no art. 220, § 1º da Constituição Federal:
“nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de
informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no
art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV”.

Como mencionado no subtítulo anterior, a não recepção integral da Lei de Imprensa –


que, aliás, foi o pedido principal contido na ADPF nº 130 – foi o argumento acolhido pela
maioria do STF (sete dos onze Ministros): Carlos Ayres Britto (Relator), Eros Grau, Menezes
Direito, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Cezar Peluso e Celso de Mello.

Já os Ministros Ellen Gracie e Joaquim Barbosa votaram pela parcial procedência da


ADPF, decidindo manter os dispositivos que regulamentavam os abusos no exercício da
liberdade de expressão, inclusive os de matéria penal.

De outro lado, o Ministro Gilmar Mendes (Presidente) votou pela total improcedência
do pedido, ressalvado os artigos normalizadores do direito de resposta.

3.2.1 Os principais argumentos nos votos da ADPF 130

O Ministro Relator Carlos Ayres Britto fundamentou seu voto na plenitude da


liberdade de expressão, advogando pela existência e distinção de dois blocos constitucionais
de direitos que devem ser ponderados entre si. O primeiro bloco é composto por direitos que
dão conteúdo à liberdade de expressão, ao passo que o segundo compreende os direitos à
imagem, honra, intimidade e vida privada. Segundo o Ministro, o primeiro bloco precede ao
segundo, que incide a posteriori para assegurar o direito de resposta e as responsabilidades
civis, penais e administrativas.

Nessa linha, o Ministro Relator assentou que a liberdade de imprensa reveste-se do


caráter de um sobredireito, ou seja, “antes de tudo prevalecem as relações de imprensa como
60

superiores bens jurídicos e natural forma de controle social sobre o poder do Estado,
sobrevindo as demais relações como eventual responsabilização ou consequência do pleno
gozo das primeiras4” (p. 04).

Pontuou que, nos termos do art. 220 da Constituição Federal, a liberdade de


pensamento, de criação, expressão e informação são livres, ressalvada a aplicabilidade dos
seguintes incisos do art. 5º: vedação do anonimato (IV); direito de resposta (V); direito à
indenização por dano material ou moral à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das
pessoas (X); livre exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão (XIII); direito ao
resguardo do sigilo da fonte jornalística, quando necessário ao exercício profissional (XIV).
Assim, tão somente esses dispositivos podem regulamentar o exercício da liberdade de
expressão em sentido genérico, não cabendo ao legislador infraconstituinte ingerências legais.

Mas a parcela mais interessante de seu voto é a atribuição de uma atuação livre
conferida ao jornalista, sobretudo no que tange às críticas contra pessoas e instituições. Vale a
transcrição:

O exercício concreto da liberdade de imprensa assegura ao jornalista o direito de


expender críticas a qualquer pessoa, ainda que em tom áspero ou contundente,
especialmente contra as autoridades e os agentes do Estado. A crítica jornalística,
pela sua relação de inerência com o interesse público, não é aprioristicamente
suscetível de censura, mesmo que legislativa ou juridicamente intentada. O
propósito das atividades de imprensa é operar como formadora de opinião pública,
espaço natural do pensamento crítico e real alternativa à versão oficial dos fatos5 (p.
07) (grifo nosso).

Desse modo, o nobre Ministro estabeleceu ser inadmissível a censura aos meios de
comunicação sociais, inclusive porque o art. 220, § 2º da Constituição Federal, faz essa
proibição em tons claros: “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e
artística”; razão pela qual “não cabe ao Estado, por qualquer dos seus órgãos, definir
previamente o que pode ou o que não pode ser dito por indivíduos e jornalistas6” (p. 08).

O Ministro Menezes Direito salientou a importância da liberdade de informação, mas


também fez referência à necessidade de respeito aos direitos de personalidade, cabendo ao
intérprete equilibra-los diante de cada caso concreto. Destacou, ao final, que apesar de ser
favorável à regulamentação da liberdade de imprensa – “é claro que muitas vezes já a
4
Brasil. Supremo Tribunal Federal. Pleno. Arguição de Preceitos Fundamentais 130/DF. Ementa (...) Relator
Ministro Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 05.11.2009.
5
Idem.
6
Brasil. Supremo Tribunal Federal. Pleno. Arguição de Preceitos Fundamentais 130/DF. Ementa (...) Relator
Ministro Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 05.11.2009.
61

veiculação do mal, mas isso não se deve à liberdade de imprensa e sim à qualidade do
profissional, como ocorre em qualquer atividade humana7” (p. 94) – a Lei de Imprensa é
incompatível com os princípios constitucionais otimizadores da liberdade de expressão,
votando, então, por seu afastamento do ordenamento jurídico brasileiro.

A Ministra Carmen Lúcia seguiu o voto do Ministro Relator, mas deu ênfase breve
para três pontos: 1) a liberdade de imprensa, talvez a manifestação mais importante da
liberdade, é garantia para a realização da dignidade humana (p. 97); 2) o fundamento da
Constituição Federal é a democracia e nenhuma lei regulamentadora da imprensa pode ter
caráter penal (p. 97/98); 3) muitos Estados Democráticos contam com lei de imprensa e nem
por isso são considerados antidemocráticos, isto é, autoritários (p. 98).

O Ministro Ricardo Lewandowski enfatizou que os direitos do art. 5º da Constituição


são de eficácia plena e aplicabilidade imediata, e que o direito de resposta, ainda que sem
regulamentação infraconstitucional, não ficará sem parâmetros, assim como a indenização por
danos materiais e morais.

Observou, finalmente, que naqueles países onde a imprensa tem mais liberdade, onde
a democracia é mais profunda, salvo exceções raras, a manifestação do pensamento é
totalmente livre, citando os exemplos dos EUA, do Reino Unido e da Austrália8 (p. 105).

O Ministro Joaquim Barbosa atacou o voto do Ministro Relator Ayres Britto no que
tange à plenitude da liberdade de expressão. Asseverou que nem todos os dispositivos da Lei
de Imprensa são contrários à Constituição Federal e à ordem democrática, a exemplo dos
artigos 1º, § 1º, 14 e 16, que proíbem a propaganda de guerra, de subversão da ordem política
e social ou de preconceitos de raça ou classe, cominando reprimendas para tanto9 (p. 111).

No mesmo sentido, o Ministro argumentou que as figuras penais tratadas na Lei de


Imprensa (calúnia, injúria e difamação) assim o são no âmbito da comunicação pública e
social, razão que justifica o tratamento especializado delas em detrimento do Código Penal,
pois nesses casos considera-se de maior intensidade o dano causado à honra e à imagem do
ofendido10 (p. 114).

7
Idem.
8
Idem.
9
Idem.
10
Brasil. Supremo Tribunal Federal. Pleno. Arguição de Preceitos Fundamentais 130/DF. Ementa (...) Relator
Ministro Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 05.11.2009.
62

Destarte, concluiu que há artigos na Lei de Imprensa que não podem ser considerados
inconstitucionais, pois os tutelados ficariam à mercê de um limbo jurídico.

O Ministro Cezar Peluso seguiu a retórica de que não há direito algum de caráter
absoluto, nem mesmo a vida, mas que a liberdade de expressão é plena nos limites
constitucionais (veja: plena, não absoluta!). Isso significa que é na Constituição Federal onde
encontram-se literalmente as restrições à liberdade de expressão, bem como que essas
restrições são consideradas nos limites conceitual-constitucionais, ou seja, a liberdade de
imprensa é plena nos limites constitucionais, não impedindo eventual regulamentação
infraconstitucional, contanto que observados os dispositivos magnos.

Todavia, o Ministro entendeu não ser prático manter uma lei cujo sistema em que fora
criada (durante a ditadura militar) já se foi, já se mutilou, pois isso levaria à dificuldade de
aplicação e interpretação de normas sem organicidade.

Em contrapartida, o Ministro Marco Aurélio defendeu a posição de que a Lei de


Imprensa não viola preceito fundamental algum, pelo contrário, ela protege o cidadão quanto
à privacidade e à honra, ainda que tenha sido criada na época da ditadura militar. Advogou no
sentido de que, sem a Lei nº 5.250/67, haveria um limbo jurídico, um vácuo normativo que
prejudicaria tanto o cidadão em sua privacidade quanto à própria atividade jornalística.

Portanto, para o Ministro Marco Aurélio, embora a Lei de Imprensa traga em si


algumas incongruências, o mais correto seria ela vigorar até que os representantes do povo e
os dos Estados, deputados e senadores, editassem novo diploma para substitui-la, afastando o
mal de se ter um vácuo normativo.

O Ministro Celso de Mello enfatizou não haver nada mais perigoso do que a pretensão
do Estado em regular a liberdade de expressão, apesar de concordar que inexistem direitos e
garantias revestidos de natureza absoluta.

Quanto à crítica jornalística, tema útil para o presente trabalho, Celso de Mello
asseverou:

Uma vez dela ausente [crítica] o “animus injuriandi vel diffamandi”, tal como
ressalta o magistério doutrinário [...], a crítica que os meios de comunicação social
dirigem às pessoas públicas, especialmente às autoridades e aos agentes do Estado,
por mais acerba, dura e veemente que possa ser, deixa de sofrer, quanto aos seu
63

concreto exercício, as limitações externas que ordinariamente resultam dos


direitos da personalidade11 (p. 149) (grifo nosso).

Percebe-se, então, que assim como o Ministro Relator Ayres Britto, o Ministro Celso
de Mello tratou a crítica jornalística como um sobredireito se comparada com os direitos que
protegem à personalidade (a honra, a imagem, a vida privada e a privacidade), ainda mais
quando dirigida a figuras públicas, pois essas são dotadas de alto grau de responsabilidade na
condução do Estado.

Ademais, o Ministro concordou que a Constituição Federal é diploma normativo


suficiente para garantir a integridade, a moral e a preservação da intimidade, vida privada e
imagem das pessoas, o que, por si só, torna a Lei nº 5.250/67 letra morta e, portanto,
justificando a procedência da ação.

Finalmente, o Ministro Gilmar Mendes, balizado na jurisprudência do Tribunal


Constitucional da Alemanha – e aqui permitam-me utilizar o nome no idioma de origem:
Bundesverfassungsgericht –, dissertou sobre a existência de duas dimensões dos direitos
fundamentais: a subjetiva (individual) e a objetiva (institucional). Enquanto direitos
subjetivos, os direitos fundamentais, em cujo bojo obviamente situa-se a liberdade de
expressão, outorgam aos titulares a possibilidade de impor os seus interesses em face do
Estado. Já como direitos objetivos, os direitos fundamentais formam os pilares que sustentam
o ordenamento jurídico de um Estado Democrático de Direito12 (p. 219).

Destarte, a imprensa é, na visão do Ministro, um elemento essencial para compreender


o significado da liberdade de imprensa no Estado Democrático de Direito13 (p. 223), motivo
bastante para que haja uma lei de imprensa capaz de regulamentar a atividade, assim como
tem sido em diversos países, como Espanha, Portugal, México, Reino Unido, Chile, França,
Peru, Uruguai e Alemanha. Então, concluiu, ao lado do Ministro Marco Aurélio, que,
enquanto não for editado novo diploma sobre o assunto, – salientando existirem vários
projetos em tramitação no Congresso Nacional –, a Lei nº 5.250/67 deve permanecer em
vigor.

11
Brasil. Supremo Tribunal Federal. Pleno. Arguição de Preceitos Fundamentais 130/DF. Ementa (...) Relator
Ministro Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 05.11.2009.
12
Idem.
13
Idem.
64

3.2.2 A ratio decidendi no acórdão da ADPF 130

Vimos resumidamente como cada Ministro do Supremo Tribunal Federal abordou a


questão da não recepção da Lei de Imprensa pela atual ordem constitucional, o que nos
possibilita notar que o principal ponto de divergência entre eles é a questão da plenitude do
direito constitucional à liberdade de expressão, fator este que nos ajudará a compreender
como e até que ponto o humor e a crítica humorística estão inseridos na liberdade de
expressão.

Posto isso, reputo relevante e de forte interesse prático expor, ponto a ponto, o que se
pode concluir do julgamento da ADPF nº 130/DF, para, em breve, utilizarmos essas
especificações no sentido de compreender a interpretação da liberdade de fazer humor no
Referendo na Medida Cautelar na ADI nº 4.451/DF.

Pois bem, pontuemos nossas conclusões até aqui, as quais, aliás, compõem a razão de
decidir do STF, com as devidas ressalvas aos entendimentos isolados:

1) A Constituição Federal de 1988 não prevê a existência de direito ou garantia de


caráter absoluto, o que denota não ser a liberdade de expressão um direito dessa
natureza.
2) A liberdade de expressão é um direito pleno e só pode sofrer restrições previstas
no próprio texto constitucional, sendo expressamente vedada qualquer censura de
natureza política, ideológica ou artística.
3) Não há espaço constitucional, no nosso ordenamento jurídico, para interferências
do Estado tendentes a restringir o exercício da liberdade de expressão e de
comunicação de ideias e pensamentos, ressalvadas as hipóteses do art. 220, § 3º
da Carta Magna.
4) O direito de crítica não é aprioristicamente suscetível de censura, havendo outros
instrumentos suficientes para coibir abusos, assim compreendidos o direito de
resposta e as responsabilizações civis, penais e administrativas posteriores à lesão.
5) Os agentes públicos devem maior tolerância às ofensas em sua honra e imagem,
justamente por estarem à frente das responsabilidades e encargos assumidos em
nome do Estado ou Governo.
65

6) Eventuais conflitos entre a liberdade de expressão e os direitos da personalidade


devem ser dirimidos lançando-se mão da técnica de ponderação de valores
(adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito), mas com um
plus: deve ser observado o grau de interesse público impingido na manifestação
da opinião, ideia ou pensamento.

Frise-se que, especialmente no que tange às conclusões dos itens “4” e “5”, os
Ministros votantes da ADPF nº 130/DF divergiram consideravelmente uns dos outros,
divergências estas que não nos cabe discutir no presente momento.

3.3 A ADI 4.451 e os contornos da crítica humorística

Cuida-se de ação direta de inconstitucionalidade com pedido de medida liminar,


proposta pela Associação Brasileira de Rádio e Televisão (ABERT) e cujo objeto de
impugnação é a Lei nº 9.504/97, mais especificamente o seu art. 45, incisos II e III:

Art. 45. A partir de 1º de julho do ano da eleição, é vedado às emissoras de rádio e


televisão, em sua programação normal e noticiário:
[...]
II – usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer
forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação, ou produzir ou
veicular programa com esse efeito.
III – veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a
candidato, partido ou coligação, a seus órgãos ou representantes.

Em síntese, a parte autora da ação fundamentou o pedido de inconstitucionalidade dos


dispositivos mencionados porque eles geram “um grave efeito silenciador sobre as emissoras
de rádio e televisão, obrigadas a evitar a divulgação de temas políticos polêmicos para não
serem acusadas de difundir opinião favorável ou contrária a determinado candidato, partido,
coligação, a seus órgãos ou representantes14”. Argumentou, também, que “esses dispositivos

14
Brasil, Supremo Tribunal Federal. Pleno. Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.451/DF. Referendo em
Medida Cautelar. Ementa: (...) Relator Min. Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 02.09.2010.
66

inviabilizam a veiculação de sátiras, charges e programas humorísticos envolvendo questões


ou personagens políticos, durante o período eleitoral”15 (p. 07).

Em decisão monocrática, o Ministro Relator Carlos Ayres Britto deferiu parcialmente


a liminar e, dias depois, ocorreu a sessão para o referendo da medida cautelar, sessão essa
onde os demais membros do STF puderam formar seus respectivos juízos perfunctórios e
proferir seus votos, os quais serão analisados a seguir.

O resultado, até a conclusão do presente trabalho, é a concessão, por maioria de votos,


da medida liminar, suspendendo o inciso II por completo e a parte final do inciso III do art. 45
da Lei nº 9.504/97.

3.3.1 Os principais argumentos nos votos da medida cautelar na ADI 4.451

Vale começar pelo voto do Ministro Relator Carlos Ayres Britto, talvez aquele que
melhor traduz o que este trabalho vem buscando, uma vez que ele foi enfático ao afirmar que
programas humorísticos, charges e caricaturas são formas de colocar ideias, opiniões, frases e
quadros espirituosos em circulação. Assim, citando o escritor Ziraldo, dissertou que o
humorismo não é apenas uma forma de fazer rir, o que pode ser chamado de comicidade ou
outro termo equivalente; além disso, o humor é uma visão crítica do mundo e o riso, efeito
colateral pela descoberta inesperada da verdade que ele revela.

Logo, afirmou categoricamente que programas de humor, charges e caricaturas


“gozam da plenitude de liberdade que a ela, imprensa, é assegurada pela Constituição até por
forma literal16” (p. 13).

Com isso, o nobre Ministro classificou a crítica humorística também como


manifestação da imprensa, o que força a aplicação à ADI nº 4.451/DF das mesmas
coordenadas fixadas na decisão do STF quando do julgamento da ADPF nº 130/DF.

Daí por diante, foi exposto que a liberdade de imprensa, abrangente do humorismo, é
livre e plena durante todo o tempo, lugar e circunstâncias, tanto em período eleitoral quanto

15
Idem.
16
Idem.
67

fora dele, até porque o processo eleitoral não seria Estado de Sítio, único momento em que a
Constituição Federal permite restrições às garantias da inviolabilidade de correspondência, do
sigilo nas comunicações e da liberdade de imprensa, radiofusão e televisão17 (p.14).

Quanto ao objeto da demanda, o Min. Relator manifestou-se, em decisão monocrática,


pela interpretação conforme à Constituição do inciso III, afastando a vedação às emissoras de
rádio e televisão em “veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária
a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes”. É dito na decisão
monocrática porque, posteriormente, durante o referendo em plenário, o Ministro decidiu, em
conjunto com a maioria, suspender também a eficácia do inciso III, assim como foi feito com
o inciso II, que coibia a trucagem, a montagem e outros recursos como técnicas de expressão
da crítica jornalística, sobretudo dos programas humorísticos.

Enfim, o que mais chamou a atenção no voto do Min. Relator foi seu entendimento no
sentido de que, quanto ao inciso III do art. 45 da Lei nº 9.504/97, haveria vedação somente
quando a crítica ou matéria jornalísticas viessem a descambar em propaganda política,
passando a favorecer nitidamente a uma das partes na corrida eleitoral, mas que hipóteses
como essa só poderiam ser avaliadas caso a caso e sempre a posteriori pelo Poder Judiciário,
afastando qualquer tipo de censura prévia18 (p. 15).

No entanto, esse posicionamento foi de imediato hostilizado pela Ministra Carmen


Lúcia e pelo Ministro Cezar Peluso, haja vista que, pelo fato de o art. 5º, XXXV da
Constituição Federal preconizar que não seja excluída da apreciação do Poder Judiciário lesão
ou ameaça a direito, deve-se garantir a todos o direito de acesso à jurisdição.

Em sendo assim, tal questionamento levantado pelos Ministros, somado à alteração do


voto do Relator no sentido de também suspender a eficácia do inciso III, ao invés de só dar-
lhe interpretação conforme, forçou a eliminação do termo “a posteriori” da liminar concedida.

Já o Ministro Dias Toffoli votou para que o inciso II não fosse declarado
inconstitucional, mas sim para que lhe fosse afastada a interpretação de que ele afetaria o
humorismo, uma vez que “não há vedação legal prima facie à liberdade comunicativa dos

17
Brasil, Supremo Tribunal Federal. Pleno. Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.451/DF. Referendo em
Medida Cautelar. Ementa: (...) Relator Min. Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 02.09.2010.
18
Idem.
68

artistas, humoristas e atores de stand up comedy no espaço público alheio ao modelo de


outorgas de serviços de radiofusão19” (p. 47).

Nessa linha, o Ministro salientou que a liberdade comunicativa, na qual se incluem os


artistas, humoristas, atores de stand up comedy e toda a sorte de agentes culturais, sejam eles
profissionais ou amadores, nas ruas, nos teatros, nos jornais, em revistas, em shows e na
internet, sempre foi livre, independentemente de qualquer outorga do Estado.

No entanto, o mesmo não se pode dizer a respeito dessa liberdade nas emissoras de
rádio e televisão, em virtude da interpretação restritiva que se extrai da leitura do inciso II do
art. 45 da Lei nº 9.504/97. Mesmo assim, o Ministro entendeu que restrições a um direito
fundamental podem e devem ser feitas pelo legislador infraconstituinte, discordando
constantemente dos entendimentos fixados na ADPF nº 130/DF, sobretudo aqueles que
classificaram a liberdade de expressão como direito absoluto.

Destarte, quanto ao inciso II em tela, Dias Toffoli pontuou que a sua natureza não é a
de intimidar os programas humorísticos e semelhantes, mas sim a de evitar que recursos
técnicos “possam ser utilizados para transformar a imagem do candidato ou a própria verdade
dos fatos em algo inverídico que viole a garantia prevista nos incisos V e X do art. 5º da
Constituição Federal20” (p. 71).

Dito assim, fossem permitidas as trucagens e montagens contra os candidatos, estaria


instalada a baixaria, com a clara ridicularização e degradação da honra e imagem dos
postulantes na propaganda eleitoral, o que nada guarda de relação como o humor, pois
segundo o Ministro, “o humorista não ridiculariza, degrada, humilha, agride ou ofende. Ele
satiriza, ironiza, faz uso do sarcasmo, da crítica (muitas vezes ferina) e põe em destaque as
contradições, as incoerências, a insinceridade do objeto de sua atividade artística21” (p. 73). É
por isso, então, que o nobre julgador votou pela manutenção do inciso II do art. 45 da Lei nº
9.504/97, mas conferindo-lhe interpretação conforme para que não seja atingida a atividade
humorística.

Já com relação ao inciso III do art. 45 da Lei nº 9.504/97, o Ministro votou pelo
indeferimento da liminar, porque entendeu não existir qualquer restrição à crítica jornalística,
conforme a leitura do inciso V do mesmo dispositivo.

19
Brasil, Supremo Tribunal Federal. Pleno. Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.451/DF. Referendo em
Medida Cautelar. Ementa: (...) Relator Min. Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 02.09.2010.
20
Idem.
21
Idem.
69

A Ministra Carmen Lúcia votou nos termos do voto do Relator, dando ênfase para o
fato de que o art. 45, II da Lei nº 9.504/97, ao vedar previamente o uso de trucagem,
montagem e outros recursos semelhantes, vai de encontro com o teor do art. 220, caput e §§
1º e 2º, pois cria embaraços à plena liberdade de informação jornalística e impõe censura de
natureza política, ideológica e artística.

Nada mais autoexplicativo do que suas palavras:

Censurar é repreender, desaprovar e, por conta dessa admoestação, impedir. A


censura é a mordaça da liberdade. Se legítimo ou não o acanhamento da liberdade é
o que se há de verificar, porque o direito à liberdade está delineado com suas
restrições no sistema jurídico. Mas no modelo constitucional brasileiro, a censura de
natureza política, ideológica e artística não é permitida. Logo, na minha visão, ao
excluir do espaço de liberdade de informação (noticiários) e de programas (incluídos
aí como estão os de humor) da arte, não tenho como compatibilizar as regras legais
com a norma constitucional22 (p. 87).

Nessa toada, apesar de concordar com a vedação da degradação, do aviltamento e da


desmoralização da pessoa humana, a Ministra considerou a trucagem e a montagem como
técnicas legítimas, adotadas pelos meios de comunicação social justamente para expressar a
ideia, o pensamento e a opinião do autor, sobretudo quando se fala em programas de conteúdo
humorístico.

No mais, como dito acima, a Ministra não referendou a afirmação de que ao Poder
Judiciário caberia tão somente o controle a posteriori, isto é, posterior à conduta lesiva, haja
vista que não é esse o teor do art. 5º, XXXI da Carta Magna. Aliás, salientou que há casos em
que eventual direito de reparação posterior tornaria a lesão irreparável, mormente durante o
processo eleitoral23 (p. 90).

Cumpre informar, contudo, que a Ministra retirou de seu voto essa indignação acerca
da vedação ao controle a priori do Poder Judiciário, após o Ministro Relator votar também
pela suspensão da segunda parte do inciso III do art. 45 da lei em comento.

Inicialmente, o Ministro Ricardo Lewandowski mostrou-se perplexo em relação à


impugnação da norma naquele momento, eis que ela já se encontrava em vigor há 17 anos e
nunca se deixou de fazer humor no Brasil. Asseverou que trucagens e montagens não podem

22
Brasil, Supremo Tribunal Federal. Pleno. Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.451/DF. Referendo em
Medida Cautelar. Ementa: (...) Relator Min. Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 02.09.2010.
23
Idem.
70

ser consideradas técnicas constitucionais, pois degradam e rebaixam os seus alvos, violando o
princípio da dignidade da pessoa humana.

Todavia, mesmo assim o Ministro votou pela interpretação conforme do inciso II,
ressalvando não se poder interpretá-lo no sentido de afastar as sátiras e os programas
humorísticos. Quanto ao inciso III, acompanhou o voto do Ministro Relator pela suspensão da
segunda parte do dispositivo.

O Ministro Gilmar Mendes acompanhou o voto do Relator, suspendendo


integralmente o inciso II e parcialmente o inciso III. Salientou haver periculum in mora na
manutenção da eficácia do dispositivo, até porque “a dinâmica da vida não impõe que haja aí
um tipo de usucapião da legalidade24” (p. 103), rebatendo, assim, a indignação do Min.
Ricardo Lewandowski diante da impugnação de uma lei há 17 anos em vigor.

A Ministra Ellen Gracie também votou como o Ministro Relator, ressaltando, quanto
aos argumentos trazidos pelo Min. Dias Toffoli, que o inciso IV do art. 45 da Lei nº 9.504/97
já faz o papel de proibir tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação, resolvendo
a tensão existente entre o direito de liberdade de expressão e o direito de paridade de armas.

Nesse sentido, a nobre julgadora expos:

É bem verdade que a técnica retratada no referido inciso II pode ser utilizada para
fins de manipulação e indução da opinião pública, como quaisquer outras formas de
se fazer imprensa. Todavia, tais condutas encontram vigorosa vedação no inciso IV
do mesmo art. 45 da Lei nº 9.504/97, que, em alto e bom som, proíbe a concessão de
tratamento privilegiado a determinada candidatura 25 (p. 113).

Sem muitos acréscimos, o Ministro Marco Aurélio entendeu pelo afastamento da


interpretação do inciso II que conduzisse ao impedimento das emissoras de rádio e televisão
em produzir e veicular charges, sátiras e programas humorísticos. O mesmo fez em relação ao
inciso III, aplicando-lhe a técnica da interpretação conforme.

Por fim, o Ministro Cezar Peluso apontou a inutilidade absoluta do inciso II, já que o
Código Penal, ao tratar dos crimes de calúnia, difamação e injúria, não fez restrição alguma
com relação aos respectivos sujeitos passivos do crime, de modo que os jornalistas em geral
não estão isentos da responsabilidade penal. Portanto, só o diploma legal é suficiente para
tutelar os políticos de eventuais abusos da imprensa.

24
Brasil, Supremo Tribunal Federal. Pleno. Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.451/DF. Referendo em
Medida Cautelar. Ementa: (...) Relator Min. Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 02.09.2010.
25
Idem.
71

A propósito, o Ministro ressaltou que a trucagem e a montagem não trazem em si nada


de insólito, nem de injurídico, pois “é da essência da caricatura, da sátira e da farsa, operarem
mediante deformações hiperbólicas da realidade, residindo nesse exagero o distanciamento
dramático em relação ao real26” (p. 125).

Em seguida, o nobre julgador colaciona parcela de um voto que há tempos havia


proferido como Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, digna de apreço:

O caráter ridículo e sarcástico daquelas representações televisuais e, por


consequência, toda a força de seu propósito crítico sustentam-se, aqui, precisamente
nos excessos metafóricos que, despertando a atenção e instigando a reflexão dos
telespectadores, adquiriam capacidade de, por via dos escárnio e da galhofa, não
apenas assumir e encorpar, mas também suscitar, onde fossem ignorados ou
subestimados, a indignação coletiva contra fatos reais trágicos e repugnantes. Esta é,
aliás, uma das funções do riso27 [...] (p. 126).

Ainda na transcrição de seu voto como Desembargador, o Ministro levantou uma


discussão antiga sobre a crítica humorística, difundida na doutrina e jurisprudência
estrangeiras, segundo a qual as manifestações humorísticas, em especial a caricatura, são
compostas por uma roupagem literária ou plástica adotada pelo autor e uma mensagem ou
significado objetivo. Assim, para que se possa compreender a mensagem objetiva que o autor
traz em sua manifestação é preciso que “se abstraia à obra considerada o invólucro das
palavras, dos desenhos ou das imagens cênicas28” (p. 127).

Nesse sentido, Manoel da Costa Andrade (1996, p. 244) explica:

À roupagem cabe, assim, uma função prevalentemente apelativa: emprestar


visibilidade e força à mensagem a transmitir. Acresce que é sobretudo na roupagem
que se atualiza a liberdade de criação artística da sátira e da caricatura. O que
confirma a expectativa já antecipada e segundo a qual a roupagem não colidirá
normalmente com a dignidade pessoal. A acontecer, a colisão há de, em princípio,
levar-se à conta do custo social a suportar em nome da liberdade de criação artística.
Só não será assim nos casos extremados em que a roupagem configura já ela
própria um atentado irredutível e intolerável à dignidade humana (grifo nosso).

Com isso, o Ministro finalizou no seguimento do voto do Ministro Relator, isto é, pela
suspensão da eficácia dos incisos II integralmente e III parcialmente, ambos do art. 45 da Lei
nº 9.504/97.

26
Brasil, Supremo Tribunal Federal. Pleno. Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.451/DF. Referendo em
Medida Cautelar. Ementa: (...) Relator Min. Carlos Ayres Britto, Brasília, DF, 02.09.2010.
27
Idem.
28
Idem.
72

3.3.2 A ratio decidendi no acórdão de Referendo da Medida Cautelar na ADI 4.451 e seus
reflexos sobre o humorismo

Pois bem, de maneira semelhante como a que pontuamos as principais conclusões


extraídas do acórdão da ADPF nº 130/DF, iremos pontuar aquelas nos interessam referentes
ao acórdão do Referendo da Medida Cautelar na ADI nº 4.451/DF, com as devidas ressalvas
aos entendimentos isolados:

1) O humor, em qualquer forma de manifestação (caricaturas, sátiras, programas


humorísticos, programas de stand up comedy etc.), integra o rol de atividades de
imprensa e, consequentemente, recebe o mesmo tratamento conferido à liberdade
de imprensa pelo acórdão da ADPF nº 130/DF.
2) A trucagem, a montagem e os demais recursos tecnológicos semelhantes, são
instrumentos viabilizadores da atividade humorística e, portanto, recebem o
mesmo tratamento que a liberdade de imprensa.
3) A censura de natureza política, ideológica e artística, não só é vedada em relação
aos veículos de comunicação social (televisão, rádio, jornais, revistas, periódicos
etc.), como também não pode atingir à atividade humorística.

Apesar das duas brilhantes decisões do STF aqui analisadas, brilhantes porque bem
fundamentadas no sentido de conferir à liberdade de expressão, sobretudo à liberdade de
imprensa, caráter de um direito pleno (frise-se: pleno, não absoluto!), há alguns aspectos que
ainda não foram debatidos pela jurisprudência da nossa Corte maior.

O primeiro deles é acerca da abrangência do humorismo, que tanto pode assumir a


posição de crítica humorística, como também pode servir como profissão àqueles que hoje se
dedicam aos programas de humor, a exemplo do Pânico na TV, da Zorra Total, do CQC,
dentre outros, ou ainda, aos programas de stand up comedy, tal como é o canal “Comedy
Central”.

Destarte, o que se verifica é que a decisão liminar do STF na ADI nº 4.451/DF, em


que pese discutir sobre o humor como liberdade de imprensa, assim o faz considerando que as
73

manifestações humorísticas são estritamente maneiras de se criticar algo, alguém ou alguma


instituição, quando, na verdade, existe também o humor puro e simples, isto é, o “humor pelo
humor”, dito sem qualquer intenção de criticar ou emitir opiniões ou ideias.

Resta saber, então, até que ponto o humor deixa de ser crítico para se tornar objeto de
uma profissão, cujo objetivo passa a ser o aumento da massa espectadora e o seu
divertimento, até porque, longe de se amesquinhar tão somente como instrumento de
manifestação de opiniões, o humor serve para inúmeras outras finalidades, a exemplo daquela
que conduz o riso como causa do prazer e alívio da dor, psíquica ou moral, que assola o
homem pós-moderno.

Desta feita, questiona-se se a decisão liminar do STF é capaz de atingir todas as


finalidades do humor, sejam elas finalidades democráticas – e aqui vimos que sim, já que se
buscou tutelar a liberdade de emitir juízos de valores – ou finalidades meramente
autopoiéticas do humor, a exemplo de simplesmente “fazer os outros rir”.

O segundo aspecto-incógnita nos leva a discutir se é toda e qualquer espécie de humor


que merece o enquadramento como atividade de imprensa, tal como o entendimento do STF
na liminar da ADI nº 4.451/DF, pois o que vimos é que o humor televisivo, o humor
radialista, o humor da internet, bem como o humor expresso em veículos escritos (revistas,
periódicos e jornais), são facilmente identificáveis como manifestação da imprensa.

Todavia, o problema reside em identificar se outras formas de expressão do humor,


distintas da imprensa, merecem a mesma proteção conferida pelos contornos da liminar da
ADI nº 4.451/DF. Por exemplo: um aluno que narra uma piada em sala de aula merece a
mesma tutela da liberdade de expressão do que um humorista que conta a mesma piada num
programa televisivo?

Ora, não é conveniente afirmar que uma piada contada em sala de aula, sem o impulso
de qualquer veículo de comunicação, pode ser reconhecida como expressão da liberdade de
imprensa. Contudo, o que se poderia dizer, nesse caso, é que o humor vai muito além da
imprensa, revestindo-se verdadeiramente de uma criação artística. É isso! O humor é
originariamente uma criação artística, a ele cabendo idêntica tutela conferida à liberdade de
expressão e de imprensa, pois segundo a Constituição Federal (art. 220, caput), “a
manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma,
processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”
(grifo nosso).
74

Então, se o STF considerou o humor como forma de liberdade de imprensa, assim se


justificando com base no disposto no art. 220, caput da Carta Magna, por que seria diferente
se utilizar da mesma interpretação para enquadrar o humor, em sua expressão genuína (ou
seja, puramente criação artística), também como um direito pleno, cujas limitações são
aquelas expressamente trazidas pelo legislador constituinte?

Sem sombra de dúvidas, não seria diferente.

Portanto, como se pôde notar, a decisão do STF, apesar de conferir tratamento bem
expressivo à liberdade de imprensa, em especial à liberdade de fazer humor, não abordou
todas as facetas sobre tema, deixando em aberto questões que mais cedo ou mais tarde
chegarão até a Corte, forçando ou não a extensão das interpretações realizadas em seus
precedentes, a fim verificar o que pode ou não ser considerado humor; se apenas os
profissionais objetos dos holofotes da mídia merecem a tutela constitucional, ou todos aqueles
que, em qualquer ocasião do dia a dia, utilizem do humor; se o humor pode ser tutelado tanto
como crítica quanto como criação artística. Enfim, discussões que ainda estão por vir e que
servirão como termômetro direto da liberdade de expressão e, indiretamente, do regime
democrático de direito em que vivemos.
75

CONCLUSÃO

No primeiro capítulo deste trabalho, buscou-se demonstrar que a liberdade de


expressão é um tema muito amplo, podendo assumir inúmeras funções num Estado
Democrático de Direito, seja como uma liberdade voltada para a autossatisfação individual,
seja como um mecanismo direcionado à expressão da verdade, seja como um remédio para
garantir a democracia plena, ou ainda, para controlar a atividade governamental.

Qualquer que seja o fundamento da liberdade de expressão, não se pode negar que o
legislador constituinte a classificou como um direito fundamental, indispensável para a
formação de nossa democracia, direito este que encontra amparo em diversos dispositivos
constitucionais, sendo os principais: o art. 5º, incisos IV, IX e XIV, e o art. 220, caput e
parágrafos.

Diante disso, a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação


estão imunes à quaisquer restrições, salvo aquelas expressamente autorizadas pela
Constituição Federal no art. 5º, incisos IV, V, X, XIII e XIV, a saber: a vedação do
anonimato; o direito de resposta; o direito à indenização por dano material ou moral à
intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas; o livre exercício de qualquer
trabalho, ofício ou profissão; e o direito ao resguardo do sigilo da fonte jornalística, quando
necessário ao exercício profissional.

Possibilitadas essas limitações, surgem as formas de controle da liberdade de


expressão, assim o controle administrativo e o controle judicial. Aquele, por sua vez, é
exercido dentro dos próprios contornos da Constituição Federal (art. 21, XVI e art. 221, § 3º),
sob pena resvalar em censura de natureza política, ideológica ou artística, o que é
expressamente inconstitucional. Já o controle judicial se faz tanto no âmbito civil, no que
tange ao instituto da responsabilidade civil, quanto no âmbito penal, no que se refere às
figuras penais da calúnia, injúria e difamação.

Numa segunda análise, restou claro que, do conteúdo atribuído à liberdade de


expressão, nasce a manifestação humorística, que tanto pode estar relacionada à liberdade de
imprensa, quando dedica-se o humor como veículo para a crítica e emissão de juízos de
valores, como também pode estar relacionado à liberdade de criação artística.
76

O que é certo é que o humor constitui importantíssimo fenômeno para a sociedade,


pois conforme a História e a Psicologia mostram, além de instrumento para a busca do prazer
e da autossatisfação individual, o humor serve como ferramenta de crítica, como veículo para
opiniões, ideias e pensamentos, eficaz, portanto, contra qualquer regime, governo ou
instituição. Aliás, é oportuno citar o jornal satírico francês “Charlie Hebdo”, que, apesar da
infeliz tragédia que assolou seus principais editores e cartunistas em janeiro de 2015, tem
exercido muito bem a liberdade de expressão através do humor, mais especificamente através
da sátira e da caricatura.

Pois bem, após as divagações sobre a liberdade de expressão e o humorismo, no


terceiro capítulo chegamos ao ponto central desta pesquisa, que foi analisar onde está situado
o humorismo na Constituição Federal e como o Supremo Tribunal Federal tem interpretado o
seu conteúdo.

Ao ingressar nessa labuta, constatou-se que a jurisprudência de nossa Corte Suprema é


escassa quando o tema é humorismo, haja vista existir tão somente um caso em que o humor é
abordado como objeto principal da demanda: a ADI nº 4.451/DF.

Se não bastasse a escassez jurisprudencial, a única decisão que se tem é um acórdão de


Referendo de Medida Cautelar, o qual, pela própria natureza que lhe é inerente, não traz
fundamentações tão profundas, limitando-se a um juízo perfunctório e superficial, ainda que
tenha contado com o empenho de grande parcela dos Ministros ao proferir cada qual o seu
voto.

Mesmo assim, se com a análise da ADI nº 4.451/DF também se fizer uma leitura
minuciosa do acórdão proferido na ADPF nº 130/DF, torna-se possível extrair pelo menos
duas conclusões interessantes acerca do tema:

A primeira delas é a de que a liberdade de expressão, em que pese não existir direito
de natureza absoluta em nossa ordem jurídica, é um direito pleno, cujos limites não devem ser
outros senão aqueles expressamente ditos na Constituição Federal.

A segunda é a de que o humor, quando veiculado sob forma de crítica e opinião,


enquadra-se no conteúdo de liberdade de imprensa, merecendo idêntico tratamento conferido
à liberdade de expressão nos meios de comunicação social.

No entanto, o problema surge porque a escassez jurisprudencial do STF nos leva à


pelo menos dois entraves:
77

Primeiro: o humor pelo humor, dito assim aquele que não traz em si tons de crítica,
pensamento ou opinião, também teria a mesma proteção que a crítica humorística?

Segundo: o humor fora dos holofotes da imprensa teria idêntica proteção que o humor
veiculado por ela, mesmo não guardando nenhuma relação com as mídias de comunicação
social, sendo tão somente uma forma de manifestação artística?

Essas são duas indagações cuja presente pesquisa, embasada na jurisprudência tímida
do Supremo Tribunal Federal, não conseguiu responder, e que também não foram abordadas
pela doutrina que trata sobre o tema, doutrina essa que, assim como nossa Corte, limitou-se a
tratar o humor como pura e simplesmente forma de manifestação de opiniões, críticas, ideias e
pensamentos, nada ingressando nas várias facetas que ele pode assumir, nem considerando
que ele pode ser objeto de riso e divertimento, a ser empunhado por qualquer cidadão, desde
um recôndito aluno em sala de aula até a figura de um grande humorista da televisão.

Portanto, quem sabe num futuro próximo tenhamos as respostas para essas perguntas,
haja vista que alguns tribunais, em especial o Superior Tribunal de Justiça, já têm consolidado
algumas margens de entendimentos sobre o humorismo e a liberdade de expressão nesse
sentido, o que nos permitirá avançar para questões mais complexas, a exemplo do controle a
priori do Poder Judiciário sobre os meios de comunicação ser ou não considerado censura,
discussão essa, aliás, que, apesar da tentativa de abordagem na ADI nº 4.451/DF, não recebeu
a devida atenção dos Ministros da Corte.
78

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