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HISTÓRIA RELIGIOSA

de PORTUGAL

CENTRO üníA i ILiGlCSA


PORTO, Diocese do. 1. Das origens à actualidade. bispo ariano na sede portucalense. Quando Recaredo
1.1. Origens: do período suévico à Reconquista: reuniu, no ano de 589, em Toledo, 63 bispos e pro-
O processo territorial da implantação do cristianismo moveu a concórdia na unidade da fé católica, o Porto
através de uma rede diocesana faz corresponder a ficou com dois bispos: o católico Constâncio, que na
cada civitas um bispo. E essa configuração que va- ordem é o número 26, e o convertido do arianismo,
mos encontrar documentada nos concílios dos sé- Argiovito. Constâncio parece, pela antiguidade, ter
culos vi e vii, com nomes episcopais. Foram já criti- sido eleito no tempo dos Suevos. Argiovito sucedeu-
cados por J. Augusto Ferreira os erros acerca das -lhe e ainda vivia em 610, quando assiste à posse do
origens da diocese lançados pelo Catálogo dos bis- rei Gundemaro, com assinatura de Argebertus, que
pos do Porto, de Rodrigo da Cunha (1623), aumen- deve ser identificada com Argiovito. Outro bispo de
tados por Frei Manuel Pereira de Novais, que só que se conservam referências é Ansiulfo, com assi-
trata dos bispos até'ao final do século XVII (Episco- natura no IV Concílio de Toledo (633) e no VI Con-
pologio, publicado em 1918), e António Cerqueira cílio de 638. Depois não aparece nenhum nome até
Pinto, na nova edição do Catálogo (1742). Novais ao X Concílio em 656, quando surge Flávio. Segui-
informa que se inspirou em Gaspar Alvares Lousa- damente temos a notícia de Froarico, presente no
da (1554-1634), que intentava um trabalho seme- III Concílio Provincial de Braga de 675 e ainda nos
lhante, inspirado nos cronicões. São obras marca- vários nacionais de Toledo (681, 683, 688). Também
das pela falta de rigor metodológico, mas preciosas sabemos do nome de Felix, bispo do Porto em 693,
recolhas de informações. José Augusto Ferreira trata que chegou a Toledo convocado como bispo do Por-
estes dados para os apresentar e ampliar, com espíri- to, mas saiu a assinar como metropolita de Braga,
to crítico, nas suas Memórias archeológico-históri- devido a grande remodelação operada neste concílio.
cas da cidade do Porto, Braga, 1923-1924, 2 vol. Nos dois últimos concílios de Toledo, XVII (694) e
Pode-se afirmar que não temos documentos autênti- XVIII (701), não apareceram bispos portucalenses,
cos para provar a existência de diocese antes do sé- o que poderia explicar-se pelo carácter mais regional
culo vi, concretamente do Concílio de Lugo, de 569. da reunião e pela decadência, já demonstrada, do rei-
Inicialmente formando uma vasta diocese, Braga, no visigótico. Apresentados os dados tentemos a in-
Porto e Tui desenvolvem uma organização paroquial terpretação. Portucale adquiriu importância nos sé-
semelhante, com distinção entre paróquias de vici ou culos v e vi. No último quartel assiste-se mesmo
villae e paróquias de pagi (v. PARÓQUIA). O catolicis- à instalação de uma oficina monetária visigótica.
mo crescia no reino suévico na lenta conversão do O paroquial suévico diz onde se situa a sede episco-
povo, graças à insistente pregação de São Martinho. pal: «in castro novo», o que não faz com outras se-
O combate do arianismo e priscilianismo* dava vi- des. O morro da sé ganha importância em relação à
gor ã fé e estabelecia as regras disciplinares. A con- zona ribeirinha. Assim se criou uma ecclesia recen-
sistência desta evolução religiosa justifica a criação te, além da Valle Aritia, que seria ariana segundo Al-
de novas dioceses e paróquias e revela-se na convo- meida Fernandes. Talvez o domínio ariano não per-
cação do I Concílio de Braga de 561, logo seguido mitisse a residência do prelado ali. Vai então para
da criação de nova metrópole em Lugo, em 569. No Magneto (Meinedo-Lousada), que era igreja de dou-
II Concílio de Braga de 572 aparece, nas actas, Via- trina ortodoxa. A opinião, muito acertada, de Augus-
tor como bispo magnatense. Deve ter sido o único. to Ferreira, Miguel de Oliveira e Torquato Sousa
Entre 572 (II Concílio de Braga) e 589 (III Concílio Soares, que justifica a presença do bispo em Meine-
de Toledo) o título Magnetense termina. Começa o do pela existência de um mosteiro, à semelhança de
Portucalense. O fim do reino dos Suevos e início da Dume, não tem, até hoje, provas arqueológicas por-
monarquia visigótica (585) terá sido determinante que as notícias do mosteiro são apenas de 1131.
para optar pela nova sede do bispado, preferindo a A situação geograficamente central e a proximidade
importância do local à centralidade física. Provavel- da divisão com Bracara justificariam melhor a esco-
mente antes da morte do rei ariano Leovigildo (586) lha provisória do local para sede do bispo. O Porto
já estava no Porto a sé, devido a referências de um era também cidade pouco segura por ser fronteira.
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PORTO

O Parochiale, confundido com actas do Concílio de


Lugo de 569, regista o momento da divisão da dio-
cese de Bracara, criando o espaço portucalense
(FERREIRA - Memórias, vol. 1, p. 60-61) correspon-
dente ao da civitas romana de Cale. Na época suévi-
ca, segundo o referido Parochiale do século vi, a
diocese era constituída por um pequeno número de
paróquias (paroécias) muito extensas, que se subdi-
vidiriam, segundo o crescimento cristão das popula-
ções: Portucale, Villa Nova, Betaonia, Visea, Mentu-
rio, Tórebria, Bauuaste, Bonzoaste, Lumbo, Nescis,
Napoli, Curmiano, Magneto, Leporeto, Meiga, Ton-
gobria, Villa Gomcdei, Tauuasse, referidas como ec-
clesias. Menciona como pagi: Labrencio, Aliobrio,
Valle Aritia, Truculo, Cepis Mandolas, Palentiaca
(DAVID - Études, p. 34-35). Estas enormes paróquias
«urbanas» e os povos dispersos (pagi) deviam ser
muitas vezes regidos e assistidos por mosteiros paro-
quiais. A identificação destes lugares com a toponí-
mia actual, tentada por Almeida Fernandes (Paró-
quias, p. 68-77), e nalguns pontos criticada por
Moreira (Freguesias, p. 28-30), é esforço notável,
mas, para já, meramente hipotético para certos topó-
nimos difíceis de identificar, por falta de conheci-
mentos documentais ou arqueológicos. A atribuição
de valor religioso à distinção entre ecclesiae e pagi,
sendo estas últimas ainda arianas, é tese de Almeida
Fernandes. A atender à preferida hipótese de identi-
ficação deste autor, verifica-se grande densidade pa-
roquial no litoral, junto ao norte do Douro e no mé- Fonte: Anuário Católico de Portugal, 1995-1998.
dio Sousa. A sul do Douro o número de paróquias é
mínimo. Segundo as crónicas, a cidade do Porto foi houve devastação, pela incursão avassaladora de
destruída, em 716, pelos Árabes (FERREIRA - Memó- muçulmanos. E pelo segundo quartel do século x
rias, vol. 1, p. 94). Entre os bispos que optaram por que se documenta a extensão do termo Portucale a
refugiar-se nas terras asturiano-leonesas esteve o do uma região que acompanha o avanço da Reconquista
Porto, segundo referência aquando do II Concílio de (PERES - Origens, vol. 1, p. 87). No ano 997, uma se-
Oviedo, no ano 900. Boa parte da população rural gunda expedição se dirige contra o reino leonês por
manteve-se nas suas terras. Houve incursões várias, obra do Almansor e chega a destruir Compostela.
como a de Afonso I (739-757) que reconquistou a ci- Portucale, situado entre o domínio cristão e o mu-
dade do Porto. Porém, só no reinado de Afonso III çulmano, revela uma série de prelados atentos ao es-
(866-910) os cristãos foram além do Douro, como sencial. Pode, passado cerca de um quarto de século,
testemunha o Chronicon Albeldense, que refere o no- acolher os bispos ou arcediagos, sinal de progresso
me de Justo (881). A data apontada para a reocupação citadino. Os Gascões, chegados à foz do Douro e fi-
do Porto pelo conde Vímara Peres é 868. A essa épo- xando-se na cidade, nos princípios do século xi, per-
ca corresponde, de facto, a restauração do território, mitiram uma povoação mais sólida e adoptaram cos-
como atesta a sagração da Igreja de São Miguel de tumes e nomes da região. Alguns nomes de bispos
Negrelos (873), fundação do mosteiro de Soalhães ressaltam da presença documental: Nonego (1025),
(875), dedicação da Igreja de São Martinho de Aldoar Sesnando (1048-1075). Desde esta data até à chega-
(944). O bispo Gumado (899-900) é referido para o da de D. Hugo, monsenhor Ferreira supõe uma sede
Porto, nesta fase em que as cidades estavam ocupadas vacante, sendo a diocese governada por arcediagos
e os bispos permaneciam ausentes, provavelmente em até começos do século xn, em virtude da perturbação
Oviedo, mas a base documental para a atribuição não política entre os filhos de Fernando Magno e devido
é segura (FERREIRA - Memórias, vol. 1, p. 108-109). ao estado calamitoso das sés. O arcebispo de Braga
Outro nome mais certo é de Froarengo (905-911), deveria superintender na diocese do Porto, apesar de
citado em escrituras da época. Vêm depois: Hermo- a hipótese de Coimbra não ser de rejeitar. Há notí-
gio (912-915), que seria transferido para Tui; Ordo- cias no século xi sobre Campanhã (1058), Cedofeita
nho (931) e Diogo (960). Em 9 4 4 há documento da (1087) e Lordelo (1098). De Cedofeita há vestígios
Igreja de São Martinho e São Miguel de Aldoar, fun- pré-românicos reaproveitados na igreja românica.
dada por Frei Agião e sagrada pelo bispo de Coim- Afonso VI subdividiu o governo do seu largo reino
bra Gundesindo. Foi um tempo difícil pela intermi- em condados. Coube a D. Henrique o território portu-
tência, mas relativamente pacífico do ponto de vista calense, como governador subalterno, até à separação
inter-religioso para as populações moçárabes e mu- da Galiza em 1095. Quando morreu o rei em 1109,
dejares, com liberdade de religião. Se no século ix D. Henrique avança na independência. Só em 1113 é
houve uma tentativa de repovoação, no século x escolhido para bispo do Porto Hugo, francês e arce-
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diago de Compostela. Vai operar-se a restauração da funcionário da Coroa ou gestor senhorial. A D. Afon-
diocese. Hugo era diácono. Foi ordenado presbítero so Henriques interessava dar um sucessor da sua
no sábado de Paixão e bispo no domingo, em Lerez confiança a D. Hugo. A eleição de D. João Peculiar
(Compostela). 1.2. Da restauração de D. Hugo ao (1 137-1138) em meados de Junho de 1136 corres-
fim do senhorio episcopal da cidade: Com a chega- ponde a este intento. Tomou parte no Concílio de
da de D. Hugo (1112?-1136) inicia a cidade novo ci- Burgos ainda como bispo eleito. A 17 de Julho
clo de marca episcopal. A história da diocese liga-se de 1137 assiste ao pacto de Tui entre D. Afonso VI e
à história de Portugal em vias de independência, o Afonso I. A 26 de Outubro de 1137 deu ao mosteiro
que será uma nota característica da sua evolução. de Grijó vários privilégios, entre eles o de isenção de
D. Teresa, a 8 de Abril de 1120, faz carta de doação jurisdição episcopal. Actua como fundador de Santa
e couto do burgo ao bispo (cf. AZEVEDO, Rui de - Cruz. A sua fidelidade ao novo rei é logo agradecida
Documentos medievais portugueses: documentos ré- com ampliações do couto de D. Teresa, concedido à
gios. Lisboa: APH, 1958, vol. l/i, p. 66-67). A auten- Sé do Porto, e com a eleição para Braga (Outono de
ticidade deste documento, sucessivamente trasladado 1138). Tem, assim, passagem efémera pelo Porto,
em cópias, como descreve Damião Peres (PERES - deslocando-se imediatamente para Braga, onde per-
Origens, vol. 1, p. 98-104), foi posta em questão por maneceu longamente, até à morte em 1175. Faltou ao
Miguel de Oliveira, em 1957, em sessão da Acade- Porto esta estabilidade. Sucederam-lhe D. Pedro Ra-
mia Portuguesa da História (O senhorio da cidade, baldis (1138-1145), D.Pedro Pitões (1146-1152),
29-60), mas logo foi defendida por Rui de Azevedo D. Pedro Sénior (1154-1174) e D. Fernando Martins
{Documentos medievais, vol. l/i, p. LVII-LVIII). Esta (1176-1185), sendo o primeiro e último sobrinhos de
área de jurisdição ampliada foi terreno de luta pela D. João Peculiar e cónegos regrantes de Santo Agosti-
defesa dos habitantes da cidade contra a tirania de nho, do mosteiro de Coimbra. Pedro Rabaldis alargou
reis e poderosos, embora com inconvenientes e certo o senhorio eclesiástico e fez carta de feudo à Santa
desajuste em relação ao desenvolvimento da organi- Sé. Pedro Pitões aceitou a doação de Vilar de Ando-
zação municipal. Em 1114, D. Hugo reúne um síno- rinho e metade do padroado de Jovim. Assistiu ao
do com os bispos de Tui, Mondonhedo, Lugo, Oren- Concílio Provincial de Braga, de 1148, e fez a céle-
se e Coimbra para fazer um pacto de boas relações bre alocução no largo da sé aos cruzados da tomada
e resolver o problema dos limites entre Coimbra e o de Lisboa. D.Pedro Sénior (1154-1174) aceita a
Porto. Para isso se reuniram a 30 de Dezembro de doação de metade de Canidelo (Gaia), Serzedo, Gui-
1114. A acta desta sessão tem duas versões que não dões (Santo Tirso), Santa Maria Madalena (Gaia).
compaginam (Censual do cabido e Livro preto). D. Fernando Martins era natural de Coimbra e deão
A amizade com o bispo Diogo Gelmires, de Com- da Sé de Braga. Fez doação de livros à Igreja do
postela, levou D. Hugo a permanecer, ainda algum Porto e de Braga. Também do cabido bracarense
tempo, junto dele e isento do metropolita de Braga, vem D. Martinho Pires (1186-1189) que remodelou
até se deslocar à Santa Sé. Aí tratou com Pascoal II o cabido, segundo a experiência bracarense, insti-
de assuntos não só referentes a Compostela, mas tuindo dignidades (deão, chantre, mestre-escola e te-
também ao Porto. Através de informações pouco soureiro) e pôs fim à vida em comum do cabido.
correctas consegue a bula Egrégias quondam que es- Suprimiu os dez arcediagados e uniu-os à mesa epis-
pecifica os limites da diocese (15.8.1115). Este limi- copal e capitular (duas partes para o bispo e uma pa-
te não passou do papel até 1882. Consegue de D. Te- ra o cabido). Após esta fase de restauração da dioce-
resa o burgo e o couto adjacente e pode dar foral à se inicia-se uma época dc conflitos e tensões entre
povoação a 14 de Julho de 1123. Essa carta de foral bispo, cidade e rei que se prolonga por dois séculos
seria peça essencial no desenvolvimento do espaço até ao pontificado de Gil Alma (1407) que negoceia
citadino pelo afluxo de habitantes e fomento comer- com D. João I a devolução do senhorio da cidade à
cial. Um maiorino, nomeado pelo bispo, exercia as Coroa. Assim terminariam as violências espirituais e
funções administrativas e judiciais. A relação de temporais, incompatíveis com o crescimento econó-
D. Hugo com os mosteiros não é ambiciosa. Faz mico da cidade, centrado na navegação. D. Martinho
concessões e cria apoio. D. Teresa prosseguia, mais Rodrigues (1191-1235), tesoureiro-mor da Sé do
tarde, as suas doações: São Faustino da Régua Porto, anulou as medidas do seu antecessor, referen-
(1127), Mosteiro de Bouças (1128) e metade do por- tes ao cabido, e continuou a vida em comum, que
to de água do Douro. Este compromisso na política não agradava aos cónegos, pois preferiam disfrutar
galicana de D. Teresa faz resfriar as relações com os um terço das rendas em liberdade e não como mon-
mosteiros no final do episcopado. Toda a consolida- ges. Para obter a concórdia houve a intervenção do
ção patrimonial e fixação de moradores da Igreja arcebispo de Braga por duas vezes, convindo as par-
portucalense foi obra da grande figura de D. Hugo. tes em nomear um prebendeiro que administrasse a
Embora a sua dependência compostelana contrarias- terça dos rendimentos (8.10.1200). A discórdia alas-
se os interesses políticos de Afonso Henriques (COS- trou para o rei Sancho I e o prelado viu-se obrigado
TA - D. João Peculiar, p. 59-83), conseguiu envolver a sair da cidade e foram-lhe confiscados os bens. As
as rainhas D. Teresa e D. Mafalda (mulher de Afonso intromissões régias em assuntos eclesiásticos condu-
Henriques) na construção da sé. A seguir a D. Hugo, ziram a estas discussões, que os delegados de Ino-
os bispos do Porto, regra geral, provêm de grandes cêncio III julgaram, repondo D. Martinho (rescrito
famílias do país. Este tom nobiliárquico do episco- de 30.7.1208). O equilíbrio era precário. O Porto dila-
pológio da época impede muitas vezes o caminho da tava-se junto ao rio com gente empreendedora. Quan-
penetração do Evangelho, equiparando «alto clero» a do o bispo não assiste ao casamento de D. Afonso

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com D. Urraca, porque eram parentes, ainda que em nhuma interferência. Foi das figuras maiores após
grau afastado, e a isso soma não receber processio- D. Hugo. Sucede-lhe no longo e conturbado episco-
nalmente os esposos quando passam pelo Porto, vol- pado o mestre-escola do cabido do Porto, D. Pedro
ta a contenda, porque Sancho I sente-se provocado. Salvadores (1236-1247). Chama os Dominicanos
O cabido divide-se, apoiando uns o rei e outros o para o Porto, que crescem ao lado dos Franciscanos,
bispo. O ambiente da burguesia crescente também com as habituais dificuldades. Prosseguem as con-
não favorecia o bispo. Aproveitaram este momento tendas com D. Sancho II, sobretudo devido às leis de
frágil de D. Martinho para desencadear um motim e amortização. Os reis pretendiam proibir as igrejas e
arrombar as portas do paço. O bispo esteve preso mosteiros de aceitar bens de raiz. A reacção do epis-
cinco meses até conseguir fugir para Roma, onde re- copado generalizou-se e o papa Gregório IX expediu
clamou ao papa uma intervenção. Inocêncio III deu bulas ao rei, admoestando-o a pôr fim aos abusos e
ordem ao bispo de Zamora e a alguns dos seus cola- intromissões em assuntos eclesiásticos, sob ameaça
boradores para repor a ordem e reparar os danos. de censuras canónicas. A concórdia foi ratificada em
A pena da excomunhão atingia os oficiais do rei, os Coimbra, em Maio de 1238, e consignou-se a doa-
chefes do levantamento popular: João Alvo e Pedro ção régia de Soalhães e Beduído. O bispo desloca-se
Feudo e ainda os cónegos e raçoeiros que não ti- a Roma para um concílio, convocado por Gregó-
nham aceite os dois interditos. Na Primavera de rio IX, mas acaba por permanecer por lá cerca de
1210, o bispo regressa de Roma com as bulas papais três anos, envolvido na espera da eleição complicada
e os legados executam as medidas. O rei, entretanto do novo papa, Inocêncio IV, a quem apresenta quei-
adoentado, cedeu e as prerrogativas episcopais fo- xa de Sancho II. Vai depois a Lião, em 1245, local
ram restituídas. D. Sancho confirmou, de modo am- onde afinal se realiza o concílio. A deposição de
plo, o senhorio do Porto e os burgueses acataram, Sancho é conseguida. D. Pedro Salvadores morre em
forçados à derrota. No testamento o rei ofereceu à sé 1247 e deixa como testamenteiros franciscanos e
mil maravedis e ao bispo o couto de Gondomar. dominicanos. O novo bispo, D. Julião Fernandes
O seu filho Afonso II confirmou a doação e aumen- (1247-1260), prior de Cedofeita, recebe o direito do
tou-a com as igrejas de Pindelo (1227) e Bougado padroado de Santa Cruz de Leça. Apesar de Afon-
(1226). O bispo recebeu o padroado da igreja de so III ser apadrinhado pelos bispos não vai ser aco-
Campanhã, cedido por Nuno Soares, prelado de Ce- lhedor das suas directrizes. O bispo do Porto, em
dofeita e cónego do Porto. Apesar de haver protestos 1250, apresenta, nas Cortes de Guimarães, 15 as-
quanto aos limites da diocese tudo permaneceu se- suntos sobre imunidades e direitos senhoriais da ci-
melhante. Quanto aos votos de São Tiago, o bispo dade. A resposta do monarca constitui uma espécie
teve de pagar 30 áureos a Compostela. Apenas atin- de concordata, mas o bispo não pára na exigência
ge a maioridade, D. Sancho II revelou-se um defen- de direitos, lembrando ao rei que ele devia a Coroa
sor acérrimo do poder secular contra os direitos do ao clero. O uso das armas justificou intervenção ré-
bispo do Porto: pretende usurpar a jurisdição episco- gia e multa pesada de 6600 libras. Julião pagou e
pal da cidade, pedindo ao bispo procurações e co- partiu para Roma. A bula Provisionis nostrae, de
lheitas, passar por cima de imunidades, apoderar-se 12 de Setembro de 1253, datada de Perugia, marca
de rendimentos de paróquias vagas, apresentar páro- definitivamente os limites meridionais da diocese
cos sem ter direito a tal, obrigar clérigos a alinhar no do Porto. E a confirmação do que Pascoal II tinha
exército e a responder perante o povo. O papa Honó- determinado em 1115. Termina a questão com o
rio III confirmou o padroado de igrejas (Pindelo, bispo de Coimbra. Só nas Cortes de Leiria de 1254
Bougado, Paranhos, Fânzeres, Guidões, São Pedro se resolveu a questão dos direitos sobre os efeitos
da Cova, Meinedo, Régua, São João de Ver e Gue- fiscais de entrada de barcos no rio, dividindo os ca-
tim) e prosseguiu nas censuras aos oficiais régios. sos entre burgo episcopal e Gaia régia. O desenvol-
O novo papa Gregório IX (1227) retoma o remédio vimento da zona de Monchique até Miragaia era no-
para reparar as ofensas ao clero portuense. Como se tável. E este acréscimo de comércio trazia aumento
multiplicavam as bulas, mas faltava dar-lhes pronta de tributos, capazes de suscitar ciúme da Coroa.
execução, enviou também João d'Abbevillc, cardeal O modo de afrontar foi dar foral a Gaia e criar rivali-
de Santa Sabina e antes arcebispo de Besançon, pa- dade na margem fronteira. Acabaria por exigir a di-
ra, entre 1227 e 1229, dar seguimento às suas deter- visão em metade das rendas das portagens e trânsitos
minações. Mas em 1223 de novo se desloca a Roma seja do Porto, seja de Gaia. As inquirições realizadas
para apresentar queixas. O rei continua a retirar da em 1258 permitem um levantamento de casais e mo-
cidade gente para a guerra e a exigir tributos a título radores assim distribuídos: julgado de Bouças (Ma-
de procuração. Regressado à diocese não desiste de tosinhos): nove paróquias e 286 casais; Maia: 50 pa-
lutar e consegue ainda, em 1235, um rescrito papal. róquias e 1768 casais; Gondomar: sete paróquias e
Martinho Rodrigues não estava disponível para ce- 267 casais; Melres: uma paróquia e 52 casais; Refo-
der na isenção absoluta da jurisdição secular e na jos: 25 paróquias e 761 casais; Aguiar: 46 paróquias
imunidade completa dos bens da Igreja. Mas o cres- e 1233 casais; e Penafiel: 35 paróquias e 982 casais
cimento da cidade obrigava a uma nova mentalida- (CORPUS, vol. 1, p. 203-368). Estes números revelam
de. O rei, aconselhado por mestre Julião, seguiu a uma densidade populacional elevada. O bispo Julião
onda secularizante da Europa. A inflexibilidade do faleceu a 31 de Outubro de 1260, deixando o episco-
bispo trouxe incidentes sucessivos e revelou a fragi- pado ao seu deão: D. Vicente Mendes. No largo pon-
lidade das relações, mesmo com o próprio cabido. tificado de 35 anos, procurou concórdias felizes, co-
A energia episcopal de Martinho não aceitava ne- mo hábil lutador pela defesa dos direitos da Igreja.
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Baptizou em Outubro de 1261 o infante D. Dinis e Paços de Gaiolo) e a 11 de Julho permutou Soalhães e
procedeu a trocas de padroado. Esteve presente no Mesquinhata por São Nicolau da Feira e Alvarelhos,
Concílio Nacional de Braga (Maio de 1262) para re- que o rei tinha doado a João Martins de Soalhães. Re-
validar o casamento entre D. Afonso III e D. Beatriz, cebe em 1304 a doação do mosteiro de Canedo, por
após a morte de D. Matilde, condessa de Bolonha. concessão régia. Em 6 de Fevereiro de 1307 dá-o ao
O papa Urbano IV, atendendo às súplicas do rei, cabido do Porto, com algumas obrigações. Em 1305
concedeu a dispensa. Em 1265 foram publicadas por recebeu pessoalmente do rei o padroado de São Sal-
D. Afonso III as leis da fazenda, resultado das inqui- vador de Bouças. Do Porto, D. Geraldo iria para Pa-
rições de 1258. Não agradou ao clero esta reivindi- lência, na Espanha. D. Fredulo (1308-1309), bispo
cação de propriedades e, apesar dos apelos às imuni- estrangeiro, segundo consta não chegou a residir no
dades, nada demovia o rei. Só restava o interdito ao Porto e faleceu em Avinhão, nos finais de 1309. O su-
país e o apelo para Roma. Clemente IV recebeu em cessor, D. Frei Estêvão (1310-1312), OFM, foi no-
Viterbo a exposição queixosa dos bispos portugue- meado a pedido do rei, de quem era confessor. Par-
ses, um libelo de 43 artigos, três referentes uni- ticipou no Concílio de Viena, de 16 de Outubro de
camente à diocese do Porto (29, 30, 31). O papa con- 1311 a 6 de Maio de 1312, onde conseguiu indul-
vidou o rei a observar a concordata que seu irmão gências para quem visitasse a Igreja de Santa Cruz
respeitara e enviou um núncio, Guilherme Folquini. de Coimbra para honrar os Mártires de Marrocos.
O rei prosseguiu nas expropriações, apoderando-se Regressou ao Porto, onde estava a 23 de Setembro.
de bens e rendas dos bispos. O bispo do Porto torna- Anexou o mosteiro de Canedo à dignidade do deão.
va-se o chefe na defesa dos direitos eclesiásticos. Entretanto, D. Frei Estêvão, como pessoa com im-
Gregório X, em 28 de Maio de 1273, envia bula ao portante interferência na vida política e religiosa no
rei que consegue fugir à questão e obriga a nova in- momento da extinção dos Templários e da criação
vectiva papal (4 de Setembro de 1275). Entretanto, o da Ordem de Cristo, é chamado pelo rei, vai para
papa faleceu e vieram várias complicações. Esta Lisboa e em Fevereiro de 1313 já estava a tratar de
composição entre bispo do Porto e rei só aconteceria negócios na corte pontifícia. Não conseguiu o que
com D. Dinis, em Évora, a 28 de Abril de 1282. Di- desejava. A 8 de Outubro é nomeado para Lisboa,
zia respeito às entradas dos navios no Douro, resti- como administrador da Ordem do Templo (cf. LO-
tuição de verbas e indemnizações por danos ao bispo PES - Das actividades, p. 55-56), e o seu sobrinho
e entrega do padroado sobre a igreja de Cabanões D. Fernando Ramires (1314-1322) é novo bispo pa-
(Ovar). D. Vicente fez outras convenções: com o ra o Porto, a pedido do deão da sé e do mestre Filipe,
abade do mosteiro de Santo Tirso (8.2.1287) que no- cónego da catedral, que suplicaram ao papa, em Avi-
meava pároco em Lavra, Asmes, Vilar, Folgosa, Co- nhão, a necessidade de um bispo que desagravasse
velas e Santa Cristina do Couto (Maia) e doava ao as injúrias proferidas pelos fidalgos. D. Fernando é
abade os padroados de Guilhabreu, Bougado e Alfe- ordenado a 20 de Agosto de 1314. A câmara e con-
na; com o abade do mosteiro de Ferreira, recebendo celho do Porto levantaram a questão do senhorio
o padroado de Válega (Ovar) em troca de perdão de episcopal a título de mau uso da administração da
direitos de igrejas anexas ao mosteiro. Apesar da justiça por parte dos oficiais do bispo. O bispo não
Concordata de 1289 (40 artigos, mais onze, de 1290), compareceu ao tribunal do rei, o qual instituiu na ci-
havia novas razões de queixa e D. Dinis veio ao Por- dade um juiz régio. Aquando do desacato de Lisboa,
to para nova concordata (23.8.1292), com dez arti- envolvendo irmãos do bispo do Porto, este e o tio
gos. Era o reconhecimento das leis de amortização, abalam para Avinhão e acabam bispos de dioceses
concedendo o rei igrejas e direitos que possuía: pa- de Espanha, em Jaen, no ano de 1322. Transitou
droado de Vila Nova (Gaia) e Cabanões (Ovar). An- depois para Badajoz onde faleceu e está sepultado.
tes de falecer (23.4.1296), D. Vicente fez com o ca- Entretanto, D. Dinis tinha ocupado a jurisdição da
bido uma concórdia de quatro artigos para acertar cidade, torre e fortaleza da igreja, palácio episcopal
direitos. D.Sancho Pires (1296-7.1.1300), deão da e sequestrado os bens da mitra. D. João Gomes
Sé do Porto, é já a 3 de Junho seu bispo. Participou (1323-1327), chantre da Sé da Guarda, é novo bispo,
no Tratado de Alcanizes em 1297. Recebeu o pa- já ordenado a 29 de Abril de 1323. Obtém os bens e
droado integral de Campanhã e fez convenção com o a jurisdição confiscada pelo rei a D. Fernando Ra-
prior do mosteiro de Moreira, que pretendia apresen- mires. Só determina que os crimes e apelações su-
tar párocos em Perafita, Vila Nova da Telha, Gemun- premas subam à Coroa. A solução é aparentemente
de e Mindelo e cedia o padroado de São Fins (da definitiva porque se aproveita o governo do infante
Feira) e Santa Maria de Retorta. Com o mosteiro de D. Afonso para jogar na conquista de espaço civil no
Grijó negociou a cedência de Perosinho, Argoncilhe, governo da cidade. Foi redigida uma concordata, no
Serzedo, recebendo o bispo o padroado de Lobão e Mosteiro de São Francisco, em 24 de Julho de 1324,
São Pedro do Paraíso. Aqui se demonstra que a terra entre o infante D. Afonso, o bispo, cabido e repre-
de Santa Maria pertencia, de facto, ao bispo do Por- sentantes do concelho. Constitui uma espécie de no-
to, desde D. João Peculiar (1137-1138). Termina um vo foral para a cidade. Uma carta régia de 20 de
século de bispos oriundos do Porto e entra-se num Abril de 1325 regulamentava posteriormente as rela-
período de episcopados breves, bispos de passagem ções entre mitra e cidade. O bispo D. João Gomes
para outras sedes e ocupados em litígios jurídicos. faleceu no Porto a 5 de Dezembro de 1327 e foi se-
O bispo D. Geraldo Domingues (1300-1308), deão da pultado na sé. D. Vasco Martins (1328-1342), sobri-
Sé de Braga, em 1302 (1 de Julho) recebeu o padroa- nho do bispo do Porto D. Geraldo Domingues, filho
do da Igreja de São Martinho de Fandilhães (anexa a do abade de Almacave, acabou os estudos em Avi-

9
PORTO

nhão e daí vem nomeado pelo papa João XXII para do outro. O encontro dá-se nos Paços de Valada, pró-
o Porto, contra a vontade de Afonso IV. O rei apro- ximo de Santarém (4.6.1354). As sessões prolon-
veitava a ausência do bispo para ir sequestrando as garam-se em lugares diferentes. Na última sessão,
rendas do bispado. Em 1331 opera-se uma concórdia realizada a par do monte de São Jorge, perto de
para resolver questões pendentes entre bispo e cida- Coimbra, foi dada sentença (25.10.1354), da qual
de (Campo do Olival, pesos e medidas). Mesmo au- Ferreira deu resumo (FERREIRA - Memórias, vol. 1,
sente em Avinhão faz doação de livros à catedral. p. 363-365). O bispo terminaria os seus dias, pobre
O vigário-geral era João Palmeiro. O novo papa, e envelhecido, sem a última resolução do longo
Bento XII, deu orientação para os bispos residirem conflito, ignorando-se o paradeiro da sua partida fi-
nas suas dioceses. Vasco Martins percebeu o recado nal. D.Afonso Pires (1350-1372), sobrinho de
e regressou em 1335. Nessa altura o rei restituiu as D. Vasco Martins, era cónego de Lamego quando
rendas sequestradas. Não voltaria atrás era na juris- foi escolhido para bispo do Porto, já no reinado de
dição da cidade, dado o crescente poderio dos bur- D. Pedro I. E neste episcopado que, graças ao rei
gueses: Apesar dos sucessivos protestos do bispo e D. Fernando, se opera a grande mudança do espaço
cabido o êxito destes era quase nulo. A gravidade do urbano do concelho do Porto, que se alarga desde o
desentendimento acabou em motim, assalto ao paço Douro ao Ave e do mar ao Tâmega. D. João I com-
e resposta do bispo, com saída da cidade e interdito. pletará a obra com a parte de Gaia e Vila Nova.
De Medeio, junto a Lamego, ia governando a dioce- A primeira tarefa é levantar o interdito sobre a ci-
se. A vacância de Lisboa permite enviar para lá dade. Em 1360 celebrou sínodo diocesano com no-
D. Vasco Martins, onde faleceria em 1344, e para o vas constituições. Faleceu em 1372 (?) - a lápide
Porto transferir D. Pedro Afonso, sobrinho de erra na data (1362) - e jaz sepultado em São Pedro
D. Gonçalo Pereira e bispo de Astorga, onde teve de Balsemão, local onde tinha feito algumas obras.
papel preponderante na organização da Batalha do Parece ser falsa a informação do castigo que D. Pe-
Salado (1340), essencial para a estabilidade das mo- dro queria dar ao bispo do Porto por calúnia sobre
narquias católicas na Península. Mas se a deslocação relações com uma mulher casada (FERREIRA - Me-
para o Porto fazia adivinhar algum mal-estar em mórias, vol. 1, p. 383-384). O «caso» foi eterniza-
Castela, o belicoso bispo D. Pedro Afonso vai ter do pelos romances dc Garrett, Arco de Santa Ana, e
uma luta de mais de dez anos na cidade do Porto, as- de Herculano, Arras por foro de Espanha, imagi-
sente na questão do governo da justiça e na nomea- nando o bispo a presidir ao casamento de D. Fernan-
ção dos juízes da cidade. Na impossibilidade de um do com D. Leonor Teles. Para suceder a D. Afonso
acordo, D. Pedro Afonso convocou um sínodo dio- Pires foi eleito D. Lourenço Vicente em 1373, mas
cesano para Cedofeita, que decidiu proceder com não passou de eleito porque foi promovido para Bra-
censuras contra o rei. Redigiu-se carta monitoria, ga, garantindo D. Fernando pela transferência resti-
com prazo de quatro meses para o rei desistir das tuir à Igreja do Porto a jurisdição usurpada e deste
ofensas à Igreja do Porto. O rei mandou ao Porto modo pôr fim ao interdito de 27 anos. Assim aconte-
mestre Pedro das Leis e outros credenciados para se ceu com D. João, que já estava na posse da diocese a
entenderem com o bispo. Data de 1348 a inquirição 6 de Novembro de 1373, data da corte régia que dava
de André Domingues que concluiu pela usurpação letra ao prometido, mas se revelaria incapaz de al-
do rei do território situado entre o couto da sé, o de terar a evolução, na linha de uma crescente seculari-
Cedofeita e o rio (Monte do Olival, São Nicolau e zação do burgo. Nem D. João I, aclamado em 1385,
Miragaia). Tal abuso teria sido cometido pelo bispo fez outra coisa senão reintegrar na Coroa a jurisdi-
Julião Fernandes (1247-1260). Reuniram na igreja ção da cidade, por contrato de avença com a mitra,
de Cedofeita um comício público com ameaças do situação que se repetiu com o bispo seguinte, D. João
povo e câmara ao bispo. Aproveita a visita e foge de Azambuja. A situação do papado, dividido pelo
para Tui, num exílio de dez anos. O rei ficou com to- grande Cisma do Ocidente* (1378-1417) não contri-
do o poder judicial da cidade, apesar das abundantes buiu para uma solução. D. João III, bispo do Porto,
excomunhões que o bispo expedia de Tui e do inter- mantém-se entusiasta do mestre de Avis, a quem re-
dito lançado sobre a cidade e a diocese. O rei ia cebeu na catedral para o matrimónio em Fevereiro
jogando cartas e conquistando direitos e rendas ao de 1387. Calculou-se o que seria necessário dar ao
bispado através dos seus legistas e competia com o bispo para troca da jurisdição e senhorio da cidade.
bispo nas embaixadas a Avinhão. Era o poder mo- O sucessor de D. João foi D. Martinho (1390), como
nárquico dos novos tempos e o enfraquecer da cris- se confirma em documento de 10 de Março de 1390,
tandade, com bispos já pouco respeitados, mesmo no mas a 9 de Julho de 1391 novo bispo surgia: D. João
poder espiritual. As excomunhões e interditos já não Esteves de Azambuja (1391-1398), já com longo
assustavam nem perturbavam o ambiente. Em 1352 currículo: cónego de Évora, abade de Monção, prior
o bispo do Porto, na catedral de Salamanca, com le- de Alcáçova de Santarém, letrado do conselho do
tras apostólicas de Clemente VI, lançou solene aná- rei, bispo de Silves em 1390. O rei renovou o contra-
tema contra o rei e seus cúmplices. Ficou afixada tá- to sobre a jurisdição da cidade, celebrou uma com-
bua de sentença em frente ao altar-mor da catedral. posição amigável no Paço do Porto, em 23 de Se-
Com novo papa, em 1352, novas embaixadas se des- tembro de 1392, mas não teve efeito em virtude da
locam quer do rei quer do bispo, com os advogados Guerra da Independência. O interdito voltou à dio-
mestre Ricardo e Oldrado da Ponte. Acertou-se uma cese. A questão só seria resolvida por D. Gil no ano
arbitragem em Portugal, com emissários de ambas as de 1405. D. João de Azambuja criou o arcediago do
partes: rei e concelho, de um lado; e bispo e cabido, Porto no cabido da catedral em 1398, com rendas de
IO
PORTO

Meinedo. Este bispo passaria a Coimbra até 1402 e meado; 4.7.1416: eleição do cabido). O Concílio de
depois a Lisboa, onde foi cardeal. Sucede D. Gil Constança resolve a situação e a bula de Martinho V
Alma (1399-1407), que consegue concordata com data de 15.12.1417. D. Vasco II (1421-1423) foi or-
D. João I, avaliando em 3000 libras da moeda anti- denado e promovido pelo papa Martinho V em 1421.
ga ou 300 000 da corrente a cedência do senhorio Em 1423 é transferido para Évora. Da Sé de Évora
da cidade. Foi celebrado em Montemor-o-Novo, no vem o deão para o Porto, D. Antão Martins de Cha-
paço do bispo de Évora (13.2.1405). Após a apro- ves (1424-1447). Em 1426 participou no Concílio
vação papal foi notificado em Santarém (13.4.1406). Provincial de Braga e a 23 de Setembro celebrou sí-
Gil Alma foi transferido para Coimbra e aí faleceu nodo diocesano no paço destinado a eleger procura-
em 1415. D. João I foi capaz de negociar. Era essa dor para ir a Roma defender os direitos eclesiásticos,
determinação que faltava. Desde esse momento de o que ficaria sem efeito devido à concórdia entre
entrega do senhorio da cidade e na fase seguinte, os D. João e o episcopado em 30.8.1427. D. Antão par-
bispos foram assistentes dos passos largos do abso- ticipa na embaixada portuguesa ao Concílio de Basi-
lutismo monárquico, seja de tom medieval seja com leia, escolhido por D. Duarte em 1435, acompanhan-
rosto liberal. Os bispos, provenientes da nobreza, vi- do o conde de Ourém, D. Afonso. Nesse atribulado
viam em ambivalência entre ser agentes do poder concílio D. Antão defendia o partido do papa e o bis-
absoluto ou suas vítimas, por causa do evangelho. po de Viseu, Luís do Amaral, o partido do concílio.
1.3. A Igreja do Porto durante a expansão ultrama- A mudança para Ferrara deu atribuição de tarefas a
rina: o rescaldo da contenda com a cidade (1407- D. Antão. O papa Eugénio IV enviou o bispo do
-1517): Este período é caracterizado por episcopados Porto a Constantinopla como embaixador seu, acom-
muito breves ou por bispos bastante ausentes. Já es- panhado de mais dois bispos. Conseguiram mover o
tava provido para o Porto em 19 de Julho de 1408 imperador grego para o partido do papa e fazê-lo vir
D. João Afonso Aranha, que faleceu a 11 de Janeiro a Ferrara. Devido à ameaça de peste transita o concí-
de 1414 (FERREIRA- Memórias, vol. 2, p. 16). A notí- lio para Florença. Aí Antão assinou os decretos de
cia dada por Cunha acerca da colaboração na expe- união com a Igreja grega. Grato pelos serviços o pa-
dição a Ceuta só se pode aceitar na preparação dos pa nomeou-o cardeal, a 18 de Dezembro de 1439,
preliminares. D. Fernando Guerra (1416-1418) já sob o título de São Crisógono. A este bispo do Porto
era bispo em 22 de Fevereiro de 1416. A 22 de Mar- se deve a criação do Hospício de Santo António dos
ço preside à benção da primeira pedra de Santa Cla- Portugueses, que ainda hoje existe com o nome de
ra, para trasladar o mosteiro de Entre-os-Rios. instituto (cf. ROSA - S. Antonio dei Portoghesi,
A morte do arcebispo de Braga levou à escolha do p. 326-328). Participou no conclave que elegeu Ni-
bispo do Porto para lhe suceder (11.6.1416: é no- colau V (6.3.1447), morreu em Roma a 11 de Julho
de 1447 e está sepultado na Basílica de São João de
Latrão. Quem no Porto governava a diocese era o vi-
gário-geral, Pedro Vasques. Após a morte do car-
deal, D. Fernando Guerra administrava temporal-
mente a diocese até ser nomeado D. Gonçalo Anes,
de Óbidos (1449-1453). Teve D. Gonçalo uma con-
tenda com os Dominicanos por causa de uma Con-
fraria do Santíssimo Nome de Jesus que o convento
do Porto erigiu e o bispo queria extinguir. Feito ape-
lo ao papa Nicolau V, este encarrega D. Gomes,
prior de Santa Cruz de Coimbra, de proferir senten-
ça, que será favorável ao convento, segundo Cunha.
Mas Ferreira usa outra documentação do cabido. Aí
se dá outra versão. Os frades procediam à bênção de
águas, chamadas do Bom Jesus, e a outras supersti-
ções. É por isso que o chantre e cabido da catedral
protestam. A sentença foi dada pelo cardeal Domin-
gos e a confraria foi extinta por Nicolau V em 1451.
D.Luís Pires (1454-1465) faz-se representar nas
Cortes de Lisboa de 1455 pelo cónego Alvaro Gra-
vez. Entre a morte do bispo anterior e a tomada de
posse, D. Fernando Guerra volta a governar inteira-
mente a diocese. A 29 de Outubro de 1454, Luís Pi-
res faz juramento de fidelidade ao arcebispo. Criou o
arcediagado de Oliveira em 1455. Colaborou na or-
ganização da expedição a Africa, que conquista Al-
cácer Seguer. D. Álvaro, bispo de Silves, veio ao
Porto, a pedido do rei Afonso V, para harmonizar o
bispo e a câmara. Conseguiu de momento, mas, pas-
sados três anos, novos litígios rebentaram por causa
da madeira e carvão da serra de Reboredo e de São
Pedro da Cova. O Porto procurava a dependência di-
Claustro da Sé do Porto.
10
PORTO

recta da Coroa para ser mais livre e garantir a expan- lançadas em clima de conflito. Austero e duro, um
são comercial marítima. As questões com o bispo tanto puritano na sua inflexibilidade frontal: defen-
devem-se ao facto de ele constituir obstáculo a este deu o prestígio da Igreja com isenções territoriais e
processo, qual símbolo da exacção, como senhor da jurídicas. O cabido esteve ao seu lado. Manteve no
cidade. Por isso, são os mercadores, os ourives-cam- cargo o vigário-geral do antecessor, Diogo Anes,
bistas e as gentes superiores do fisco que se sentem com quem teve sempre boas relações. O apoio capi-
representantes da cidade. São estes agentes de uma tular tinha grande força porque a instituição era o
«oligarquia hereditária» que no século xv dão voz maior proprietário predial. Por isso, quando o confli-
aos Portuenses nos conflitos com D. Luís Pires (24 to teve expansão pública, os da Câmara foram venci-
de Agosto de 1453-26 de Novembro de 1464). Os dos. O rei era manobrado por eclesiásticos astutos.
conflitos parecem inciar-se nos finais de 1456 ou Usaram a táctica do isolamento do adversário. O in-
princípios de 1457 e permaneceram até ao fim deste terdito lançado em 1457 e em 1461 cria um processo
episcopado. É uma campanha episcopal desejosa de de destabilização e a coligação episcopal apodera-se
regressar ao poder perdido no senhorio da cidade, do descontentamento popular. Mostra-se a tibieza e
uma investida teocrática já fora do tempo. O grupo vazio da autoridade do poder municipal. No entanto,
da câmara era dotado de experiência política e rique- o município conseguiu bater-se pelos ideais políticos
za monetária. Os burgueses desejavam mudar o seu da liberdade da Invicta e não permitiu o regresso do
estatuto social que passava também pela sepultura senhorio. No princípio de 1465, D. Luís Pires é
reservada e pela posse de senhorios rurais. Eram os transferido para Évora e daí para Braga. Por razões
mesmos que não levavam a sério a pena e o castigo de ameaça de epidemia, o arcebispo de Braga convo-
medicinal da excomunhão, conduzidos por uma mo- cou o clero para um sínodo, na catedral do Porto,
ral de situação e não por falta de convicções religio- aprovando aí as novas constituições de 11.12.1477.
sas, evidentes no momento da morte e no medo do Faleceu em Outubro de 1480 e está sepultado na sé
Inferno. Por isso, os testamentos revelam um grande em campa brasonada. D.João de Azevedo (1465-
investimento em sufrágios para se remirem dos erros -1495), natural de Lisboa e estudante de Direito em
da vida. São comportamentos de oportunistas que Paris, era deão da Sé de Lisboa quando foi apresen-
avaliam as realidades sobrenaturais com critérios tado para o Porto. No seu tempo preparou-se uma
materialistas. Pretendem derrotar as pretensões neo- frota para a conquista de Arzila e Tânger, comanda-
-senhoriais do bispo e de alguns nobres. Luís Pires é da pelo duque de Guimarães. Em 1474 (31 de Maio)
fidalgo com carreira episcopal sob protecção régia, dá-se o motim popular contra Rui Pereira, senhor da
conhecedor da corte como capelão de D. Duarte e de Feira, que por causa de negócios ficou mais de três
D. Afonso V. Em 1445 é denominado capelão-mor dias na cidade. Apesar de intervenções do bispo para
do reino. Em 1446 vai a Roma numa embaixada de encontrar solução pacífica, o povo revoltado incen-
obediência ao novo papa. E feito protonotário apos- diou a casa ao nobre. O rei obrigou o governo da ci-
tólico e em 26 de Janeiro de 1450 é nomeado para dade a reparar os danos e confirmou os privilégios
bispo de Silves, no Algarve. Nova embaixada, agora de cidade sobre a moradia de fidalgos. Em 1475,
a Nápoles (1453), leva a representar o rei. Em 24 de D. João de Azevedo escolheu para seu coadjutor Frei
Agosto de 1453 deixa o Algarve e vai para o Porto. Egídio do Porto, bacharel em Teologia, natural da ci-
Foi na sequência das conquistas obtidas pelos prela- dade e residente no Convento de São Francisco.
dos nas Cortes de 1456 que entrou em conflito com O papa deu-lhe o título de bispo foliense. Deve ter
a câmara. Refugia-se no mosteiro de Moreira da falecido antes de 1487, porque na ausência do bispo
Maia, onde está em 6 de Setembro de 1457 para en- foi outro a tomar o governo da diocese. D. João de
viar carta de recusa às propostas dos oficiais da Azevedo instituiu em 1492 o arcediagado da Ré-
câmara e manter a sua ideia de expansão das jurisdi- gua. Contribuiu para a instalação dos frades lóios
ções eclesiásticas. Em 1458 os da câmara consegui- na cidade e em Setembro de 1495 decide renunciar
ram que o rei pusesse em questão os direitos con- à diocese e recolher-se no convento de Xabregas,
cedidos nas cortes. Passados dois anos o prelado em Lisboa, onde vive ainda 25 anos até falecer a 27
obteve do rei a actualização do censo para o senho- de Julho de 1517, como reza o epitáfio. D. Diogo
rio do Porto de 1406. Roma dá-lhe o honroso encar- de Sousa (1496-1503), de família nobre, era deão
go de reformador do clero do reino. Vemos então da Capela Real quando foi apresentado no Porto,
Frei João Álvares reformar os beneditinos de Paço provido pelas letras apostólicas de 23 de Outubro
de Sousa e D. Fernando Lopes do Carvalhal ser no- de 1495. Manteve o vigário-geral de D. João de
meado para Santo Tirso. Acomete fidalgos, abades, Azevedo, cónego Pedro Anes Machucho, chantre
priores e oficiais do concelho. Ao findar o ano de da sé. Diogo de Sousa nasceu em 1400 em Figueiró
1460 reacendeu-se o conflito e D. Luís Pires saiu dos Vinhos. Iniciou estudos em Évora, prosseguiu
vencedor. Mas, mais dois anos, e era de novo o bispo em Salamanca e Paris. Foi membro da embaixada a
a perder, por sentença régia que o obriga a dar entra- Roma em 1493. O seu carácter disciplinador fica
da nos seus coutos aos juízes municipais, no exercí- demonstrado pelas constituições propostas em síno-
cio da jurisdição criminal. Em 1463 consegue actua- do, celebrado em 21 de Agosto de 1496. Procedeu à
lizar outra vez o censo e prossegue obras na sé e no trasladação das relíquias de São Pantaleão de Mira-
paço. A 26 de Novembro de 1464 é transferido para gaia para a sé em 12 de Dezembro de 1499, deixan-
Évora e depois para Braga, onde consegue recuperar do um braço em Miragaia. D. Manuel, passando pe-
o senhorio da cidade para os arcebispos em 1473. lo Porto em 1502, mandou concluir a arca de prata
Era vertical e zeloso e as acusações da câmara são para guardar as relíquias. A amizade com D. Ma-
12
PORTO

se reduziria a metade o que o foral estabelecia e em


1832 se extinguiria. O bispo do Porto foi dos que
mais reagiu à política fiscal de D. Manuel, conheci-
da pelo nome de terças, destinadas à guerra contra os
infiéis. Esta reacção do clero obrigou a uma concor-
data. No seu tempo fundou-se o Mosteiro de São
Bento de Ave-Maria e de Madre Deus de Monchi-
que. D. Pedro da Costa esteve ausente da sé pelas
funções na corte quer como capelão-mor das infan-
tas D. Isabel e D. Beatriz, quer desde 1526, ano em
que acompanha D. Isabel para Espanha, devido ao
casamento desta com Carlos V. Regressou ao Porto,
só em 1534, mas por pouco tempo, pois ainda nesse
ano a imperatriz o requer e não mais regressará a
Portugal. Vagando a diocese de Lião, a 2 de Maio de
1535, é seu titular, mas logo em 1538 é transferido
para Osma, onde faleceu a 20 de Fevereiro de 1563.
Foi sepultado no convento dos Dominicanos de Aran-
da. D. Pedro da Costa foi generoso na diocese. Proveu
muitas igrejas paroquiais pobres de cálices de prata e
ornamentos decentes. Dotou a catedral de ricos ponti-
ficais, que serviram ainda no tempo de D. Rodrigo da
Cunha. Fez obras no paço episcopal e aumentou as
rendas do cabido. Se nestes locais não restam obras, é
possível atribuir-lhe o claustro de Bustelo, de arqui-
tectura quinhentista. A roda de navalhas do martírio
de Santa Catarina, emblema do bispo, encontra-se na
padieira de duas casas da Rua das Flores, aberta nessa
época, onde vivia Diogo de Castilho, a trabalhar no
convento de Monchique (cf. V A S C O N C E L O S - D. Pe-
dro). 1.4. Florescimento religioso da diocese: da Re-
Constituiçõees que fez ho Senhor Dom Diogo de Sousa forma à Restauração: A diocese do Porto vive uma
B[is]po do Porto, 1496 (Porto, Biblioteca Pública hora de crescimento pastoral de 1537 a 1580 e duran-
Municipal. te o agitado domínio castelhano passa pelo desenvol-
vimento económico e patrimonial, graças a prelados
nuel, sendo o bispo capelão-mor da rainha D. Maria activos (1580-1640). Terminadas as batalhas entre
e membro do conselho do rei, foi aproveitada para bispo e cidade com a fixação de direitos e deveres
liquidar contas da Coroa ao bispo e cabido. D. Diogo mútuos, puderam os bispos dedicar-se à renovação
de Sousa acolheu a Misericórdia do Porto em 1498 e pastoral. Baltasar Limpo (1537-1550), carmelita
cedeu-lhe a Capela de São Tiago, no claustro velho nascido em Moura em 1478, estudou em Salamanca
da sé, em 1502. Aos poucos os privilégios dos cida- e chegou a ser professor de Teologia na universida-
dãos do Porto, que não permitiam a residência de fi- de, então em Lisboa (11.4.1521-24.3.1530). Foi pro-
dalgospor mais de três dias, vai caducar pela transfor- vincial da ordem, confessor da rainha D. Catarina e
mação social operada. D. Diogo de Sousa, em 1505, é confirmado para bispo do Porto em 15 de Novembro
enviado a Roma como embaixador de D. Manuel para de 1536. Toma posse em Abril de 1537. Entretanto,
tratar de assuntos do Estado. Obtém a 11 de Julho de é seu vigário-geral Pedro de Belliago. Lançou a pri-
1505 letras apostólicas que o confirmam para arcebis- meira pedra do Convento de Santo Agostinho da
po de Braga, onde continuará trabalho notável. Para Serra do Pilar (28 de Agosto de 1538). Pela visita
renunciar ao arcebispado de Braga, o cardeal D. Jorge feita à diocese em 1538, verificou o estado lamentá-
da Costa pede para o sobrinho, Diogo da Costa, o bis- vel de muitas paróquias sem pároco residente, mas
pado do Porto. Faleceria em Roma pouco depois, em entregues a vigários anuais, a quem era dada uma re-
1507. Não consta que residisse na diocese. Os despa- compensa miserável, obrigando-os a viver de outros
chos são do vigário-geral, Pedro Gonçalves, abade trabalhos não próprios para o ministério. O bispo to-
comendatário do mosteiro de Bustelo. Sucede-lhe ma medidas: decreta que os párocos governem pes-
D. Pedro da Costa (1507-1535), seu irmão. Tinha 22 soalmente as suas paróquias ou dêem aos vigários
anos e não era ainda presbítero, apesar de ser co- uma remuneração justa. O clero reagiu e apelou para
mendatário do mosteiro de Paço de Sousa. Só veio o papa, mas o árbitro, cardeal infante D. Afonso, e
de Roma, onde estava, em 1509, após a morte do tio o próprio papa, decidiram a favor de Baltasar Limpo
cardeal (1508). Vai lutar pelo direito de portagem (breve Gregis nobis credidi, 1.2.1539). Promoveu o
com a câmara do Porto até ao foral de D. Manuel, sínodo em 1540 e reformou as constituições diocesa-
em 1517. Chegou, assim, ao fim a batalha entre o nas, publicando-as em 1541, para retomar a discipli-
bispo e o município. A mitra ainda tinha direitos fis- na. Como pessoa metódica e organizada comprome-
cais. A Coroa fixava os seus e a cidade adquiria os teu-se e realizou um censual da mitra (cf. S A N T O S -
seus direitos lentamente conquistados. Só em 1822 O censual). Em 1542, fundou em Coimbra um colé-

13
PORTO

Aspecto geral da Igreja de São Francisco, Porto.


gio para os padres da diocese do Porto, mas a direc- referentes aos anos de 1541-1546 ( c f . BAIÃO - A In-
ção foi desviada para o Colégio dos Carmelitas Cal- quisição; FREITAS - Familiares; M E A - A Inquisição).
çados de Nossa Senhora da Conceição, na Rua da Baltasar Limpo deslocou-se ao Concílio de Trento
Sofia. No tempo de Baltasar Limpo, D. João III esta- (fim de 1546-1549), tomou parte nas sexta (13 de Ja-
beleceu a Inquisição no Porto e pediu ao bispo para neiro), sétima (3 de Março) e oitava sessões (11 de
a exercer (carta de 30 de Junho de 1541) no Porto e Março). Chegou por volta de 16 ou 17 de Novembro
em Braga. O bispo pedia dispensa de Braga e, des- de 1546. Tomou a palavra em diversas sessões ge-
gostoso, queria resignar do Porto (3 de Setembro de rais, para tratar quer o tema da justificação, quer o
1541). D. João III, em 1542, nomeia auxiliar para o da residência dos bispos, ao qual era particularmente
julgamento dos feitos da Inquisição, que teria vida sensível. Quando, devido à peste, se mudou para Bo-
muito efémera. Uma carta do rei ao bispo, datada de lonha a nona sessão, Baltasar Limpo não assistiu,
30 de Junho de 1541, institui o Tribunal. Em Agosto porque alinhou com os Espanhóis na recusa do novo
de 1541 D. João III, para ajudar o bispo, mandou ao lugar. Algum tempo de permanência em Trento viti-
Porto, como inquisidor, o protonotário licenciado mou um dos criados, atingido pela peste, e o bispo
Jorge Rodrigues para aí estabelecer o Santo Ofício. retirou-se para Veneza e depois foi para Bolonha por
Eram também membros o provisor de Braga, Dr. Gas- ordem do rei. Mas não houve mais condições para
par de Carvalho, e o prior da colegiada de Guima- nova sessão. Aí recebeu a missão de ir a Roma auxi-
rães, o bacharel Gomes Afonso. Em Outubro, o Tri- liar o embaixador D. João III junto do papa. O bispo
bunal funcionava. As pousadas do inquisidor eram do Porto foi contundente acerca do concílio e da Re-
na Rua Chã, com audiências diárias. Na Rua Escura forma da Igreja, defendendo a renovação com liber-
situava-se o cárcere dos homens, a partir de 1544, dade e ousadia, a ponto de Paulo III o apelidar de
com o promotor de justiça D. João de Avelar. O có- Avis rara. Conseguiu também obter nova bula de In-
nego Miguel de Azevedo era notário, Fernão de quisição para Portugal. Voltou a Bolonha e assistiu
Azevedo, ministro, Sebastião Gonçalves, o solicita- à congregação geral de 28 de Novembro de 1547.
dor, e Jorge Freire, o escrivão. Apesar de constar que Quando se pôs a questão do regresso a Trento, o pa-
o único auto-de-fé foi a 11 de Fevereiro de 1543, ce- recer do bispo do Porto foi diferente: os prelados es-
lebrado na Porta do Sol, não corresponde à verdade. tavam prontos para ir para Trento, mas impondo as
Houve, de facto, dois e no Campo do Olival, Cor- condições. Este voto desagradou a Roma e a Bolo-
doaria actual. O já referido e outro, em 27 de Abril nha. Espalhou-se a notícia de por isso ter falhado o
de 1544. Segundo Ferreira, os penitentes do primeiro título de cardeal para o bispo do Porto. Assume, no
eram 74: quatro foram queimados vivos, 21 em está- entanto, novas posições de liberdade em Bolonha e,
tua, 15 condenados a prisão perpétua e 43 a cárcere devido à reacção, D. Baltasar retira-se para Ferrara e
temporário. Seria extinto o Tribunal por Paulo III, a a seguir para Pádua. Escreve ao rei, pedindo diocese
16 de Julho de 1547, e os processos passaram a para regressar. Em Veneza recebe a resposta do rei e
depender de Coimbra. Conservam-se 111 processos o convite do papa para colaborar na Reforma da
H
PORTO

Igreja. Mas nada avançava. A vacância da arquidio- prosseguiu as visitas: uma comarca por ano. Era ze-
cese de Braga fá-lo vir assumir essa diocese de 1550 loso e austero. Por visitar as igrejas da Ordem de
a 1558 (31 de Março) e jaz sepultado na sé. Sucede- Cristo teve problemas. Mandou construir a sacristia
-Ihe D. Rodrigo Pinheiro (1552-1572). Converte um e a capela-mor da catedral (1606), na Capela de São
espaço campestre em sumptuosa quinta de recreio Vicente ampliou o jazigo dos bispos e projectou uma
(Santa Cruz do Bispo), acrescenta a abóbada de pe- história eclesiástica do Porto que a morte inesperada
dra ao transepto e arco cruzeiro da catedral, dá exe- não permitiu, mas o sucessor, Rodrigo da Cunha,
cução às determinações tridentinas e participa no aproveitaria. Convocou um sínodo diocesano em
Concílio Provincial de Braga de 1566. D. Aires da 1611, mas não chegou a conclusões por ser suspenso
Silva (1574-1578), antes reitor da Universidade de pelo bispo, desentendido com os procuradores sino-
Coimbra, não tem tempo para deixar grandes mar- dais. Em 1615 a Relação do Porto condenou o bispo
cas, envolvido que foi na aventura de Alcácer Qui- do Porto à pena do desterro do país, por não ter aceite
bir. Lá faleceu com D. Sebastião e para aí tinha uma sentença em que o obrigava a aceitar a coloca-
encaminhado importantes recursos financeiros, que ção de um padre para Fandinhães (Marco de Cana-
faltariam à diocese. Mais breve ainda foi o conturba- veses), cujo padroado pertencia à Casa de Marialva.
do pastoreio de Simão de Sá Pereira (1580-1581), D. Rodrigo da Cunha (1619-1627), vindo de Porta-
abalado pelas resistências do prior do Crato à inva- legre, foi escritor fecundo e publicou em 1623 o Ca-
são espanhola. Descendente de ilustre família de tálogo e história dos bispos do Porto, auxiliado por
Coimbra, doutor em Cânones, ex-deputado da Inqui- Pantaleão de Seabra e Sousa. Obra pioneira mas sem
sição de Coimbra e de Lisboa, é transferido da Sé visão crítica da história, influenciado pelas crónicas.
de Lamego para o Porto, onde apenas é pastor de 22 Ainda no Porto escreveu o comentário à parte do
de Maio de 1580 a 11 de Abril de 1581, data da mor- Decreto de Graciano, publicado já em Braga (1629).
te em Tomar, onde participava nas cortes. Tem uma A diocese tinha 314 freguesias e 115 não possuíam
posição política que Ribeiro da Silva estudou. Era capelas. Refere 132 capelas dedicadas a Nossa Se-
inimigo do Prior de Crato e buscou refúgio junto do nhora, 27 a Cristo e 274 a santos (CUNHA - Catalo-
bispo de Tui quando a cidade foi ocupada por D. An- go). Frei João de Valladares (1627-1635), eremita
tónio. Escreveu mesmo ao conde de Benavente a pe- de Santo Agostinho, vem de Miranda. No seu go-
dir intervenção militar e ao rei, a 13 de Dezembro de verno iniciou-se o altar de prata da sé, cresceu o
1580, a manifestar a alegria e indiscutível aceitação Convento de São João Novo. Nas diferentes visitas
por ter Filipe II como rei e senhor. Mas denuncia os pastorais teria crismado mais de 200 000 pessoas.
excessos do general Sancho de Avila que tomou o E chamado o Moisés portuense pela suposta inter-
paço, transformado em messe de oficiais, e prosse- venção no caso dos implicados no motim das maça-
guiu uma «ocupação vexatória e prolongada» (cf. rocas, como reacção aos impostos reais de Espanha.
SILVA, F. Ribeiro da ~ O bispo do Porto e os suces- Gaspar do Rego da Fonseca (1636-1639) quase não
sos politico-militares de 1580. Porto, 1982, p. 29).
Apoiou a causa castelhana, mas foi vítima das tro-
pas prepotentes e imorais do candidato apoiado (ver
também PINTO, J. A. — A campanha de Sancho de
Avila em perseguição do Prior do Crato: Alguns
documentos de Simancas com um estudo [...]. Porto,
1954). Frei Marcos de Lisboa (1582-1591), francis-
cano e cronista da ordem, procedeu à divisão da ci-
dade do Porto em quatro paróquias (1583), construiu
a Capela de Nossa Senhora da Saúde (hoje São Vi-
cente), com cripta para panteão, mandou construir
uma casa chamada do cabido, mandou vir uma ar-
mação de Flandres para a catedral, novos antifoná-
rios e ordenou a construção da Quinta do Prado
como casa de campo (hoje cemitério Prado de Re-
pouso). Levou a cabo reformas, através das Consti-
tuições Sinodais de 1585, para pôr em prática as
determinações tridentinas e provinciais. O sínodo
diocesano que as aprovou reuniu a 3 de Fevereiro de
1585. Jerónimo de Meneses (1592-1600), reitor da
Universidade de Coimbra, doou a Igreja de São João
Novo aos Eremitas de Santo Agostinho em 1592 e
dividiu os paroquianos entre a Vitória e São Nicolau
(1592), acolheu a ordem dos Beneditinos. Destacou-
-se pela liberdade para com os pobres principalmen-
te por ocasião da peste (1558-1600) e invasão de
gafanhotos, sobretudo nas regiões marítimas. Orga-
nizou os Estatutos do cabido de 1596. D. Gonçalo
de Morais (1603-1617), beneditino, visitou pessoal-
mente toda a diocese, crismando e dando esmolas e
Portal da Igreja de Santa Clara, Porto.
15
PORTO

parou no Porto e morreu em Lisboa aos 63 anos, ram a suspensão em Fevereiro de 1726. O arcebispo
abrindo uma sede vacante que duraria 32 anos (1639- de Braga, encarregado pelo rei de resolver o assunto,
-1671). 1.5. Da Restauração ao final do século xvm: nomeou, em 7 de Março de 1726, o Dr. João Guedes
longas vacâncias e fomento da arte: Nesta longa va- Coutinho governador do bispado. Tinha sido vigá-
cância, a diocese teve entre os governadores o deão rio-geral e era abade resignatário de São João de Ver
Luís de Sousa, natural do Porto, que, depois, seria ar- (Feira). Esteve 13 anos no cargo, até a morte. Por su-
cebispo de Lisboa e cardeal. Teve vários bispos elei- gestão do rei o cargo foi ocupado a 24 de Janeiro de
tos mas que nunca foram apresentados. Os dois bispos 1739, durante dois anos, pelo Dr. Diogo Marques
sucessores não puderam entregar-se a eficaz dina- Mourato, ex-vigário-geral do Porto e abade resigna-
mismo pastoral. Nicolau Monteiro (1671-1672), no- tário de São Tiago de Bougado. Era natural de Tavi-
bre, natural do Porto (6.12.1581) foi representante ra e homem de confiança de D. Tomás. Seria bispo
do rei de Portugal para conseguir do papa a resolu- de Miranda. Foi fase renovadora da catedral, ao esti-
ção do problema da confirmação dos bispos. Como lo da época. O franciscano do convento romano de
resultado desta cansativa missão deixou algumas Ara Coeli, D.José Maria Fonseca e Évora (1741-
obras. O prior da colegiada de Cedofeita é eleito, -1752), no Porto não prosseguiu a acção que prome-
com noventa anos, para o Porto e faleceu no ano se- tia um glorioso passado de luta pelo saber. Entrou no
guinte (20.12.1672), cansado pela enorme quanti- Porto a 5 de Maio de 1743, com grande pompa e em
dade de crismas e ordenações em atraso. Mandou verdadeira marcha triunfal, de Monchique para a sé.
construir nova Igreja de São Nicolau (1671) e ainda Desta festa excessiva fez minuciosa Relação impres-
nomeou dois esmoleres para socorrer os pobres (cf sa em 1743. Não soube tratar da contenda entre os
PINTO - Na restauração). Fernando Correia de La- Dominicanos e Terceiros da mesma ordem e desres-
cerda (1673-1683), de sangue nobre e espírito culto, peitou o mandato do vigário-geral de Braga, que afi-
com fama de grande orador e distinto poeta, sofreu xou editais para dar execução ao breve papal. Foram
por causa das imunidades eclesiásticas, ao lançar in- rotos e sujos pelo provisor do bispado do Porto. No-
terdito parcial à cidade. Na visita que realiza em vo conflito o esperava com a Misericórdia do Porto
1675 a São João de Canelas (Gaia) mostra-se dispos- (27.12.1745). No Jubileu proclamado indicou sete
to a reprimir todo e qualquer abuso, com autoridade. igrejas, estando entre elas nomeada para o receber a
Reforma rigorosamente a vida das comunidades e Misericórdia, que apelou para a sua isenção e não
clero, segundo as constituições sinodais. Relata com compareceu. O prelado interditou a igreja e estabele-
minúcia as observações sobre a realidade e ameaça ceu uma tensão com sucessivos recursos até 15 de
os prevaricadores. Acreditou na eficácia das visitas Fevereiro de 1747 (cf. FERREIRA - Memórias, vol. 2,
pastorais e logo após a entrada na diocese calcorreou p. 320-322). Durante o pontificado de Fonseca e
a comarca da Maia, só não chegando ao fim pela fal- Évora foi levado o sacramento da confirmação a
ta de saúde (cf SANTOS - Os livros, p. 240). Teve muitas pessoas, há 24 anos sem bispo. Nesse minis-
contendas e dissensões com o cabido e acabou por tério sofreu o bispo uma enfermidade grave que o le-
renunciar. Faleceria em 1685, com apenas 57 anos, varia à morte, após algum tempo de doença. A bula
deixando muitas obras publicadas, entre elas duas do governador, João da Silva Ferreira (1752-1756),
cartas pastorais, além de escritos de espiritualidade e deão da Real Capela de Vila yiçosa, tem data de 22
de circunstância. D. João de Sousa (1684-1696) de Janeiro de 1752. Fonseca e Évora faleceu em 16 de
mandou fazer novas constituições e para as aprovar Junho de 1752 e foi sepultado na capela-mor da ca-
reuniu sínodo diocesano de 18 a 20 de Maio de 1687. tedral. O bispo deixou obra na catedral e fez repa-
A mudança sucessiva para Braga e depois para Lis- rações e modificações na Quinta de Santa Cruz
boa não permitiu a continuidade pastoral desejada. (onde tem brasão). Um brasão está no claustro da
Estava atento aos pobres e numa epidemia que atin- Biblioteca Municipal do Porto, levado da Rua de
giu o Porto excedeu-se em generosidade. Vem de- Monte Belo. Grande abundância de impressos e ma-
pois D. Frei José de Santa Maria Saldanha (1697- nuscritos seus vêm elencados na Bibliotheca lusita-
-1698), capucho oriundo do Funchal, muito esmoler na e Dicionário bibliográfico (vol. 13, p. 95). Frei
sobretudo pela ocasião difícil das guerras da suces- António de Sousa (1757-1766), OSA, ordenado em
são ao trono de Espanha. Figuras episcopais com al- Évora, em 1757, entrou no Porto a 2 de Junho de
gum relevo são transferidas para outra sede. É o que 1758 e salienta-se na atenção à arte, reconstruindo a
acontece com D. Tomás de Almeida (1709-1717). igreja da Vitória, a Igreja de São Nicolau (estragada
Convocou o Sínodo Diocesano de 1710. Alimentou por um incêndio (12.8.1758), levantando a de Santa
a piedade eucarística, repensando o lausperene Cruz do Bispo (onde está o seu brasão). Promoveu
(1713). Realizou obras de renovação da cidade obras em São João Novo, onde se conserva o seu re-
(Praça das Hortas), abertura do postigo de Santo trato. Foi várias vezes provedor da Santa Casa da
Elói, interior da Igreja dos Congregados do Orató- Misericórdia. Prosseguiu a acção benemérita, já re-
rio. Viveu no fausto do tempo, com todos os cargos velada aquando do terramoto de Lisboa. Escreveu
públicos que acumulou e o indicavam para primei- cartas pastorais, por exemplo a 17.10.1759, a proibir
ro patriarca de Lisboa (1717-1754). Eis o Porto em a comunicação verbal ou escrita com os Jesuítas. Jaz
nova e longa sede vacante (1717-1741), motivada na catedral. Nova vacância (1756-1770) vai pertur-
pelas pretensões de D. João V junto da Santa Sé, bar a vida da diocese. Após a morte de D. António
que as recusa e impede o provimento das sedes. de Sousa o cabido escolheu provisor o padre mestre
0 cabido decidiu governar colectivamente a diocese, Frei Aurélio de São Tomás, eremita de Santo Agosti-
mas os excessos, desordens e má gestão determina- nho, que não aceitou. O cabido administra colectiva-
I6
PORTO

ser ordenado para bispo de Miranda (1758), que pas-


saria, então, para Bragança. Seria por doze anos bis-
po decidido. Apresentado para o Porto pelo rei em
5 de Março de 1770, deu entrada pública a 4 de No-
vembro. A 23 de Maio de 1771 faleceu e foi sepultado
no Convento de São Domingos no Porto, demolido no
século xix. Os restos mortais foram trasladados para
a catedral e o túmulo desapareceu. Foi pregador e
deixou dois sermões impressos, proferidos em Lis-
boa. D. João Rafael de Mendonça (1771-1793), no-
bre, nascido na capital a 25 de Abril de 1717, frade
jerónimo e doutor em Teologia, foi abade no Mostei-
ro de São Marcos e abade-geral em Belém, onde vi-
veu a experiência do terramoto e reparou os danos.
Foi eleito geral da congregação por duas vezes. No
segundo triénio foi apresentado bispo de Pinhel e lo-
go transferido para o Porto a 27.5.1771. Foi orde-
nado em Lisboa a 10.11.1771. A 2 de Fevereiro de
1772 entrou solenemente saindo da capela-fronteira
de Nossa Senhora de Agosto (Assunção). Competiu-
-lhe dar execução ao breve de Clemente XIV que ex-
tinguia os Jesuítas. O Colégio de São Lourenço foi
comprado pelos Eremitas Descalços de Santo Agos-
tinho (1779). Mandou edificar o majestoso paço
episcopal como testemunha da grandeza familiar e
pompa do tempo. Ficou por concluir. É recordado
como amigo do clero e dos pobres. Também é obra
sua a casa da câmara eclesiástica, junto ao paço,
auditório, e a rica livraria da mitra. Empenhou-se
em avultadas despesas na Quinta do Prado, em Santa
Cruz e em Penafiel. Faleceu, a 6 de Junho de 1793,
no paço, e foi sepultado na sé. Novamente a sé estaria
provida por tempo breve: D. Lourenço Correia de Sá
(1796-1798) foi indicado ao cabido, por carta régia,
como vigário-capitular e governador a 10.2.1792. Já a
23 de Outubro de 1793 expedia uma provisão a todo
Retrato de D. Frei José Maria Fonseca e Évora, bispo do o bispado. Vivia em Lisboa, mas a família estava no
Porto, 1741-1752 (Porto, Igreja dos Clérigos). Porto. Seria bispo da diocese a partir da posse, a
19 de Março de 1796. Entrou solenemente a 30 de
mente a diocese. Dado que as relações interrompidas Outubro de 1796. Cumpria os seus deveres pastorais.
com a Santa Sé prometiam demora na escolha do Estava a visitar a diocese, em Mesão Frio, quando
bispo. Pombal indica ao cabido o vigário capitular a foi surpreendido por uma doença grave que o viti-
eleger: Nicolau Joaquim Thorel da Cunha Manuel, mou, com 57 anos (6.6.1798). Foi sepultado em
de Lisboa. Aceite pelo cabido teve provisão em 1768 campa rasa na Capela de Nossa Senhora das Dores,
e deixou a 4 de Novembro de 1770. Seria depois no- no convento do Varatojo (paroquial de Santa Cristi-
meado bispo de Lamego, mas nunca entrou, por ter na). 1.6. A diocese portucalense na Época Contem-
falecido. Este governador publicou uma carta pasto- porânea: O cartuxo D. António São José e Castro
ral, a 9 de Janeiro de 1769, suspendendo de confes- (1799-1814), eleito a 13 de Junho de 1798, só dá en-
sar e pregar os padres da Congregação do Oratório, trada a 19 de Setembro de 1802, governando através
suspeitos de estarem implicados na seita jacobeia. do provisor cónego Dr. Manuel Lopes Loureiro, aba-
Na vacância foi criado o efémero bispado de Pena- de resignatário de São João do Grilo (Baião). Mes-
fiel*, com base na comarca de Penafiel de Sousa, mo ausente, providenciou pela fundação do seminá-
desmembrado do Porto por alvará, de 3 de Março rio, na Quinta do Prado, e procedeu à sua instituição
de 1770, e bula de Clemente XIV, de 10 de Julho de em 1804. O principal problema a enfrentar será o
1771. A razão invocada de extensão «disforme» do das Invasões Francesas. Começou por aceitar a reali-
bispado era, no momento, incongruente e com peso dade, nas pastorais de 5.12.1807 e 18.1.1808, e não
político incapaz de ser sustentado pelo único bispo pode escapar à crítica de afrancesado. Vê-se obriga-
Frei Inácio de São Caetano, que nunca regeu pes- do a recomendar o acolhimento de estrangeiros e re-
soalmente a diocese. Em 11 de Dezembro de 1778 vela-se colaboracionista. Os oratorianos do Porto
seria novamente incorporada no Porto. O carácter recusaram-se a picar as armas reais da frontaria da
efémero de soluções prolonga-se com o dominicano igreja e continuaram a celebrar o aniversário de
D. Frei Aleixo de Miranda Henriques (1770-1771). D. Maria (cf. VITORINO, Pedro - O grito de indepen-
Viveu entre 1692 e 1771. Em 1756 foi governador dência em 1808, p. 17). A partir de Dezembro de
do arcebispado de Braga com energia e firmeza até 1807 «os portuenses principiaram a sentir os efeitos

17
PORTO

da presença franco-espanhola, cujo sustento corria lância popular desenfreada. Os sermões de acção de
pelo erário local» (MARQUES - O clero, p. 12). Ia graças e os Te Deum multiplicam-se por toda a re-
crescendo a aversão portuense à presença francesa, gião do Norte (Ibidem, p. 29-49). A carta pastoral de
pelos impostos lançados a que não escapavam os 14 de Julho ordenava preces públicas, oração e pro-
bens da Igreja e pelas atitudes indecorosas dos che- cissões de penitência. Depois da longa crise da guer-
fes militares, pelos roubos de prata e ouro, carre- ra peninsular havia situações a ordenar, abusos a
gados a 25 de Maio para Lisboa, pelo progresso do desmantelar. Foi com bondade e lucidez que D. João
jacobinismo alimentado pelos pedreiros-livres que de Magalhães e Avelar (1816-1833) reformou a dis-
apoiavam os intrusos. Aos poucos o desagrado fazia ciplina. Este lamecense formado em Cânones e lente
crescer a sensibilidade de uma conjura. O púlpito foi de Prima era cónego doutoral quando foi apresentado
o lugar para incitar à rebelião que irrompeu em Ju- para o Porto (17.12.1814). Confirmado (8.6.1816), to-
nho de 1808. Obtida a anuência do vigário-geral, na mou posse (12.6.1816) por procuração ao cónego Ma-
madrugada de 19 de Junho, o capitão Mariz dirige-se nuel Pinheiro de Aragão, foi ordenado em São Do-
ao paço. Sai o bispo para a sé, reza e toma a palavra mingos de Lisboa (27.08.1816) e deu entrada na sé
com energia para incentivar à defesa da nação unida (11.12.1816). Tinha grande cuidado com a sua mag-
ao trono e ao santuário (Ibidem, p. 20). Quando vai nífica biblioteca: uma extraordinária livraria com
conhecendo os comportamentos indignos dos inva- mais de 30 000 volumes, que viria a ser o núcleo da
sores, o bispo muda de tom na carta pastoral de Biblioteca Municipal do Porto. Era também colec-
14.7.1808, organiza a resistência e faz instalar mili- cionador de moedas, conseguindo um rico «meda-
tarmente um corpo eclesiástico (600 clérigos). Como lheiro» e algumas pinturas de merecimento. Conti-
membro da regência do reino comandará a defesa do nuou as obras no seminário que viria a ser destruído
Porto na segunda invasão de 1809. Não aceita as por incêndio no cerco do Porto (1832-1834). Bispo
propostas de capitulação de Soult porque espera em momento de alteração política, viu atenuado o
auxílio dos Ingleses. Mas os invasores avançam e seu esforço para conhecer bem as paróquias da dio-
tomam as baterias da entrada da cidade em 29 de cese. Mandou organizar um Tombo Geral das Igrejas
Março. O bispo retirou-se, na véspera, para a serra do Bispado, com rendimentos, população, número
do Pilar e daí para Lisboa. O desastre da Ponte das de casas, oragos, data de construção da igreja. A lis-
Barcas e o domínio francês no Porto por 45 dias será ta do clero, realizada em 1822 e conservada no Ar-
dura prova. A defesa das críticas ao bispo foi feita quivo da Assembleia da República, foi estudada por
por Ferreira (Memórias, vol. 2, p. 411-418). A 12 de Fernando de Sousa (O clero da diocese). Havia 341
Maio o exército de Wellesley consegue libertar a cida- freguesias com população de 346 000 habitantes e
de. A Sé do Porto foi declarada impedida, pelo cabido, 1498 padres, sendo 150 já incapacitados. A cidade
até 23 de Junho de 1809. Foi compilado um inventário do Porto, com 60 000 habitantes, contava com 243
dos bens do paço, também em 1809. O bispo, nomea- presbíteros distribuídos por sete freguesias. Nas
do para patriarca de Lisboa, mas nunca confirmado, comarcas havia a seguinte distribuição paróquias-
escolheu como provisor o Dr. Teodoro Pinto Coelho -padre: Maia (72-236), Penafiel (101-349), Sobretâ-
de Moura, vigário-geral de Penafiel, abade resignatário mega (71-286) e Feira (90-384). A média geral de
de São Nicolau e beneficiado da colegiada de São Pe- padre por habitante, no total da diocese, era de 260
dro de Ferreira. Quando o bispo faleceu, a 13 de Abril pessoas. O clero secular é «eminentemente rural»
de 1814, o provisor foi eleito vigário capitular. O bispo (SOUSA - O clero, p. 246) e idoso, com uma média
foi sepultado na Cartuxa de Laveiras e o cabido do de 52 anos e só 18 % tem menos de 40 anos. Para os
Porto pagou as despesas. Nascerá a Junta Provisional benefícios e canonicatos da sé são providos familia-
do Governo Supremo presidida pelo bispo, tendo por res de cónegos ou bispos, fidalgos da Casa Real e
vogais o provisor, Manuel Lopes Loureiro, e o vigá- clérigos da média burguesia e pequena nobreza ru-
rio-geral, José Dias de Oliveira. Em Santo Ovídio o ral. Os candidatos ao presbiterado, pela documenta-
povo recebe armas. Na distribuição de munições es- ção dos processos existentes (1745 a 1826), são
tão os dominicanos Frei António Joaquim de Barros 77 % oriundos de famílias rurais (lavradores), de
e Frei João Soares, os franciscanos Frei João Pedro negociantes, todos da cidade do Porto e de meios
de Santo Rosa, Frei António Joaquim de Nossa Se- com certa condição social. Tais dados permitem
nhora dos Anjos e Frei João de Nossa Senhora do concluir que em finais do século xvin e princípios
Livramento. Formam-se dois esquadrões no Douro. do século xix a maioria do clero secular provinha
Um é chefiado por franciscanos, com o pendão de da pequena e média burguesia e da burguesia nobili-
Santo António. O deão da sé, feito coronel do regi- tada, como uma forma de honrar a família. Os des-
mento do clero, recruta eclesiásticos combatentes. cendentes da nobreza ocupam os lugares mais ren-
Até os familiares do Santo Oficio alinham na com- táveis. Dos 1295 padres de que Fernando de Sousa
panhia (cf. MARQUES - O clero, p. 23). A 6 de Junho, conseguiu apurar a proveniência geográfica, 902
o bispo do Porto publica uma pastoral destinada a exercem o ministério nas paróquias de origem; 295
acalmar os exageros da multidão furiosa. Ordena são naturais do bispado e exercem o serviço pastoral
que sejam entregues à polícia os inconfidentes do na proximidade da terra natal e só 98 são de fora da
trono e os sectários afrancesados. E nova pastoral diocese. Há dois grandes grupos: os párocos (341) e
convida a população a não dar crédito a «editais in- os clérigos não paroquiais. Dentro dos párocos dis-
solentes e revolucionários de alguns jacobinos» (Ibi- tinguem-se os abades e priores (150) que recebem
dem, p. 26). Há um clima de anarquia e perseguição directamente os clérigos; os reitores (72), vigários
sem limites, com execuções lamentáveis, uma vigi- (29) e curas (90) com uma côngrua fixa, que parti-
I8
PORTO

Apenas no Porto, nessas décadas de 1794-1822, o


número de eclesiásticos baixou de 468 para 234.
Houve nesta época uma redução de presbíteros e um
claro envelhecimento. Em 1822 existem no bispado
179 candidatos ao sacerdócio (118 minoristas, 26
subdiáconos e 35 diáconos). Em carta pastoral de
26 de Março de 1821, o bispo esclarece os párocos
sobre a nova forma de governo no país, consideran-
do que não é ofensa à religião, à fé ou à santidade.
Faz cerrada e documentada argumentação sobre a
necessidade da religião para a subsistência da civili-
zação. Demonstra conhecer o percurso histórico das
várias religiões e a evolução do papel do cristianis-
mo na civilização dos povos. Parece liberal em 1820
e logo absolutista em 1823. Mas era apenas patriota
que, como toda a gente, aderiu à revolução, contudo,
como alguns, reagiu à Constituição anticatólica. Em
28 de Junho de 1823, em longa pastoral (17 pági-
nas), exulta com a derrota da Constituição e critica
asperamente o governo deposto. Enumera os seus er-
ros, comparando com situações semelhantes no resto
do mundo. Manifesta enorme alegria pela mudança e
exorta à festa em todas as comunidades. Em cartas
sucessivas, tratando do jejum e abstinência (10 de
Março de 1824 e 1 de Fevereiro de 1830), aproveita
para fazer referências ao regime dos «libertinos e in-
cendiários rebeldes» e aconselhar obediência a D. Mi-
guel. Já na pastoral de 12 de Julho de 1828 se mani-
festava claramente miguelista e iludia-se na firmeza
da nova situação. O clima era tenso e nem todos os
clérigos estavam do mesmo lado. Por participarem
na revolta de 16 de Maio de 1826 os liberais foram
castigados, por sentença de Abril de 1829. Alguns
foram executados, outros condenados a ser açoitados
e degredados. Entre eles, o padre Manuel Rodrigues
Braga, da Congregação do Oratório, Frei João de
Santa Rita Barca, franciscano ordinário da Ordem
Aspecto exterior da Igreja e Convento de São Lourenço Terceira, Frei Faustino de São Gualberto, agostinho
(Grilos), Porto. descalço conventual do Colégio de São Lourenço
(FERREIRA - Memórias, vol. 2, p. 457-458). A 2 de
cularmente aos últimos não permite viver condigna- Junho de 1832, o bispo escreve outra carta. Apela à
mente. No rendimento do pároco entram o passal, as penitência e à oração pela epidemia que grassava
primícias, o pé de altar ou benesses e um conjunto e critica severamente o liberalismo*, nova ordem
de ofertas, segundo os usos de cada igreja. Aos que cheia de males, para a qual previne os ministros e
não eram párocos restava-lhes o posto de coadjutor, fiéis. Faz o elogio de D. Miguel, em afirmativa fide-
com gratificação ocasional e por serviços prestados lidade miguelista. Não se estranha que, com a chega-
(133 em 1822). A grande maioria eram pobres curas da de D. Pedro ao Porto, o bispo deixasse a cidade
(1009). Além dos párocos havia 57 eclesiásticos que (8.7.1832), acompanhado do secretário, cónego Ma-
integravam o cabido e a colegiada de Cedofeita. In- nuel Rodrigues do Rosário, e do provisor, cónego
formação sobre rendimentos anuais só existem para Bento de Mena Falcão, para Santa Maria de Oliveira
a comarca de Penafiel, em 1825. Com renda inferior (Mesão Frio), donde governou o bispado. A bênção
a 100 000 réis são 34 %, quase todos vigários e cu- dos óleos de Quinta-Feira Santa de 1833 realizou-a
ras. Acima dos 600 000 réis há 34 abades na comar- na Igreja de Santa Cruz dos Lóios (Lamego). O bis-
ca - ALMEIDA, A . de - Descrição histórica e topográ- po residiu em Arneiros, onde faleceu em 1833. Foi
fica da cidade de Penafiel. História e memórias da sepultado na capela-mor da Sé de Lamego. Por mor-
Academia Real das Sciencias. 10: 2 (1830) 93-105. te de Avelar o cabido do Porto devia eleger vigário
Cerca de 28 % do clero secular do bispado aufere capitular, mas o cerco da cidade não o permitia.
rendimentos de professores (14 das primeiras letras, O deão Dr. António Navarro de Andrade, que residia
10 de Gramática Latina, dois de Retórica e um de Fi- em Lordelo (Paredes), convocou os cónegos disper-
losofia), capelães de missa e capelães de pescadores sos para Penafiel, a 1 de Junho. Mas era tarde. O ca-
(sete em Ovar e um na Murtosa), assistência em hos- bido de Braga, por insinuação de D. Miguel, tinha
pitais, Misericórdias, conventos, recolhimentos e eleito vigário capitular o Dr. José de França de Cas-
quartéis. Nos finais do século xvm (por 1794), a nor- tro e Moura, vigário-geral da comarca de Penafiel e
te do Douro o número de presbíteros era de 1564. ecónomos Bento de Mena Falcão e Correia Godi-

19
PORTO

nho, cónegos da Sé do Porto. O cabido do Porto pro- Dr. José Correia, doutorado em Teologia (9.7.1820).
testou, mas concordou. Até Abril de 1834 o Dr. José São medidas bem recebidas: a integração de todos os
de França exercitou a jurisdição ordinária em todo o párocos e cónegos afastados (portaria de 14.12.1839,
bispado, excepto na cidade do Porto. Ocupada a ci- I.7.1840, 16.7.1840); a pastoral sobre a primeira co-
dade de Penafiel por liberais, retirou-se para Boelhe munhão das crianças (15.3.1840); a abertura das ca-
onde esteve alguns meses até regressar a Penafiel, deiras de Teologia para aplicar as leis de instrução.
permanecendo aí até à morte, em 24 de Outubro de Divide, em Maio de 1840, as quatro comarcas da
1839 (FERREIRA - Memórias, vol. 2, p. 481). O aban- diocese em distritos: Maia (3), Feira (4), Penafiel (5)
dono da cidade por Magalhães e Avelar bastou para e Sobretâmega (3). Regulamenta as palestras sema-
que D. Pedro nomeasse governador do bispado o nais para formação do clero (22.09.1840). Emana
agostinho liberal, natural de Baguim do Monte e re- importante pastoral sobre o matrimónio (7.1.1841).
sidente no convento da Formiga, Frei Manuel de A 13 de Junho de 1841 anunciava-se o reatar das
Santa Inês, a 18 de Junho de 1832. Insinuou, por relações entre Portugal e a Santa Sé. Terminaria o
isso, ao cabido que o elegesse vigário capitular. Na cisma. O bispo eleito escrevia de Lisboa ao cabido,
impossibilidade de reunir o cabido avisou o vigário- participando a sua confirmação em consistório de
-geral que reunisse uma assembleia do clero regular 19.6.1843. Delegava interinamente no deão, Antó-
e secular da cidade e arredores para a 30 de Julho nio Navarro de Andrade. A 20 de Agosto de 1843
elegerem o vigário capitular. Apareceram 42 padres, seria a ordenação na Sé do Porto e aparatosa entra-
sendo dois contra (párocos da Sé e da Vitória: José da a 27 de Agosto. Teve de proceder à reparação da
Vicente Teixeira e José Pinto de França). Este proce- sé e do paço. Neste lugar promovia «partidas sema-
dimento do governo, repetido em várias dioceses, nais», congregando gente influente na sociedade
criou uma situação de cisma prático, com clérigos e portuense. Estes convívios ajudaram a reatar laços
leigos a acolher autoridades criadas pelos liberais entre famílias desavindas por questões religiosas.
com a conivência dos cabidos. Na cidade do Porto Costa Rebelo era afável e delicado com todos. Na
permaneceram os cónegos José Dias de Oliveira, vi- altura da revolução setembrista de 1846, que termi-
gário-geral; Ricardo Vanzeller, arcediago de Olivei- nou com a capitulação do Porto na Convenção do
ra, e o Dr. João Pedro Ribeiro, muito doente e idoso. Gramido (29.6.1847), o bispo escreveu uma pastoral
Segundo ofício do governador intruso (2.8.1832), pedindo que, terminadas as discussões dos partidos,
nenhum cónego ausente podia retomar funções sem houvesse Te Deum na catedral e em todas as igrejas,
se apresentar no Ministério dos Negócios Eclesiásti- e durante um mês se rezasse na missa as orações
cos. Foi nesta situação cismática que se deu a extin- «pro pace» (5.7.1847). Antes dos seus funerais
ção das ordens religiosas. A 12 de Dezembro de 1832 pomposos na catedral (3.3.1854), organizou as ma-
foi nomeada uma comissão encarregada de adminis- jestosas exéquias de D. Maria II (15.11.1853), à se-
trar os bens móveis e imóveis dos conventos e mostei- melhança das de Gregório XVI (1.6.1846). Era a
ros da cidade do Porto, abandonados pelos habitantes. despedida faustosa de um homem moderado, com
Da prata reunida dos conventos mandou-se cunhar bom senso, pacificador de afastados, com capaci-
moeda (9.4.1833). Manuel de Santa Inês, apesar de dade administrativa e promotor da instrução do cle-
pessoalmente viver pobre e ter imagem positiva, re- ro. Assume a missão de vigário capitular o cónego
velou fragilidade na aceitação das directivas liberais. Joaquim José Correia de Vasconcelos, provisor e
Conseguiu o Convento e Igreja de São Lourenço pa- vigário-geral do bispado. O sucessor de Costa Re-
ra seminário, mas cedeu na venda à câmara da Quin- belo, António Bernardo da Fonseca Moniz, viria já
ta do Padrão da Mitra, apesar da oposição inicial cansado e doente para o Porto, após um percurso
(carta de lei, 5.3.1839). Foi na bênção chuvosa deste longo desde a terra natal de Moncorvo (nasceu a
cemitério que adoeceu e viria a falecer a 24.1.1840, II.3.1789), passando por Coimbra, onde estudou
sendo sepultado na Lapa, após grande confusão e pâ- Cânones; Braga onde foi procurador-geral da mitra
nico nos funerais, decorridos na sé (para mais infor- e secretário do bispo, arcediago do Neiva; Coim-
mações ver FERREIRA - Memórias, vol. 2, p. 487 ss.). bra, onde assumiu a tarefa de vigário capitular e go-
O governo prosseguiu no cisma, apresentando como vernador; e Lisboa, onde participou na Câmara de
bispo Jerónimo da Costa Rebelo (27.1.1840), natural Deputados; bispo eleito do Algarve (1840), senador
de Braga, bacharel em Cânones e cónego da Sé de por Viana nas cortes e bispo confirmado do Algarve
Braga, ex-abade de Fonte Boa (Esposende) e ex-vi- (1845-1854) são novo desgaste. Daí invoca a falta de
gário capitular de Lamego (1.8.1835 a 19.9.1836). saúde para vir para o Porto, onde entra a 22 de Outu-
E insinuado para vigário capitular e assume funções bro de 1854. Em 1856 era este o quadro estatístico
(19.2.1840). Havia nessa data um delegado apostólico da diocese: população, 383 321; padres seculares,
nomeado: D. João da Assunção Carneiro de Araújo 1042; egressos, 155; ordinandos, 209. As paróquias
Correia Machado (1782-1873), que exerceu a missão eram 334 (sem anexas). Os rendimentos dos passais
até 20 de Julho de 1840. Este antigo prior-geral de somavam 18 194 250 réis, de pé-de-altar, benesses,
Santa Cruz de Coimbra subdelegou no padre Fran- etc. 28 642 714 réis; de derramas, 24 972 175 réis,
cisco Barbosa de Queirós, abade de Canidelo (Vila o que somava um total de 71 809 409 réis. As co-
do Conde). Esta função só terminaria em 1843, mo- marcas tinham somas diversas: Porto e Gaia: 11 pa-
mento em que o papa agradece os seus serviços róquias, 61 752 habitantes, 155 padres, com rendi-
(19.6.1843). Não obstante a situação irregular de mento geral de 5 055 006 réis. A Feira, com 89
bispo eleito, Costa Rebelo consegue a benevolência paróquias, 127 725 habitantes, tinha 305 padres e
dos Portuenses com a escolha do secretário tripeiro, rendia 22 707 509 réis; a Maia: 71 paróquias, 56 686
20
PORTO

habitantes, 159 padres, rendia 13 640 021 réis; Pena- altos cargos. Em 1869 chega a vigário capitular.
fiel: 95 paróquias, 76 090 habitantes, 245 padres, E nesta missão, desempenhada com apreço durante
rendia um total de 17 605 855 réis; e finalmente So- dois anos, que conhece a nomeação para o Porto.
bretâmega, 68 paróquias, 61 068 habitantes, 178 pa- Entra solenemente a 20 de Setembro de 1871. Uma
dres e 12 800 943 réis de rendimentos (cf. ALMANAK). preocupação primária de D. Américo foi renovar o
Viveu dos rendimentos pastorais do antecessor e re- seminário, como ponto fulcral para o futuro da dio-
petiu as suas orientações disciplinares nas pastorais cese. A experiência adquirida em Santarém, a de-
que deixou: saudação aos diocesanos (Out. 1854, terminação empreendedora herdada no sangue por-
45 p.), sobre a definição dogmática da Imaculada Con- tuense e a vivacidade da inteligência valorizam a
ceição (10.4.1855), Bula da Cruzada (10.11.1859). Os atenção dedicada à educação do clero, sem a qual
subsídios desta bula foram aplicados no crescimento não se renovaria a diocese. Vivia-se, no Porto, hora
do seminário. O cabido reunia a 10 de Dezembro de de projecção do laicado. A Associação Católica pro-
1859 para eleger, de novo, vigário capitular o chan- movia de 27 de Dezembro a 5 de Janeiro de 1872 o
tre Joaquim José Correia de Vasconcelos, provisor e 1.° Congresso Católico, no Palácio de Cristal. Esta
vigário-geral. O novo bispo chegaria à diocese igual- associação nascera no ano anterior e deliberava ago-
mente desgastado, agora pelo serviço pastoral do ra criar o jornal A Palavra, que durante quase 40
Oriente. D. João de França Castro e Moura (1862- anos seria voz firme dos católicos. O apoio ao papa-
-1868) era oriundo de Gondomar (nasceu a 19.3.1804) do em época de dificuldade suscitava tumultos pú-
e frequentou o seminário diocesano de Santo Antó- blicos à porta da sé, quando se celebrava o Te Deum
nio. Deslocou-se para o Oriente, onde exerceu exce- no aniversário da eleição, promovidos pelo anticleri-
lente labor missionário (v. FERREIRA - Memórias, cal Diário da Tarde. Atento ao crescimento de co-
vol. 2, p. 543 ss.). Passou pela China, Filipinas, Ti- munidades protestantes, implantadas desde 1866 e
mor e regressou a Lisboa em 1853. Aguardou aí hi- com redobrada vitalidade, publica uma longa pasto-
pótese para regressar ao Oriente. Quando vagou a ral sobre o protestantismo (30.9.1878) no estilo da
diocese do Porto, foi logo indicado e acolhido com época: vigoroso na defesa da fé, polémico no com-
aplauso geral. Ordenado pelo núncio (29.6.1862), bate teológico, sem demonstrar agressividade (v.
entrou na diocese a 30 de Agosto de 1862. Compe- APOLOGÉTICA). Esta pastoral será ocasião para uma
tiu-lhe logo abrir as aulas no seminário renovado. polémica com intervenções de R. Kalley, Guilherme
Ficaram célebres as suas intervenções na Câmara Dias da Cunha, Manuel Filipe Coelho e Sena Frei-
dos Pares (14.2.1863 e 28.12.1863). Os eloquentes tas. Outras polémicas o esperavam, após receber o
discursos enfrentavam o tema do recente decreto título de cardeal nacional (12.5.1879), prova da esti-
(2.1.1862) que estabelecia o concurso documental ma da família real, como confessor dos príncipes.
para o provimento de benefícios. O bispo via-se re- Em 1880 dá-se o caso do suicídio do padre António
duzido a informador. O assunto havia de merecer Augusto Tavares, pároco de Barcos (Tabuaço) de
novo discurso a 14 de Abril de 1864. Demorava-se Lamego, apresentado para a igreja de Valadares
pouco na cidade, devido a problemas de saúde, ca- (Gaia). Por ter reprovado no exame sinodal, mata-se
da vez mais precária, e saía frequentemente para vi- na Rua da Batalha, com tiro de revólver, no dia se-
sita pastoral à diocese. Tinha o cuidado de possuir guinte... Levanta-se uma discussão acesa sobre os
um secretário muito eficiente, Dr. João Álvares de exames sinodais. Acusa-se o cardeal de ser opressor,
Moura (1880), cónego da sé e professor do seminá- pelo rigor nas provas. A atestar o brado da polémica
rio, depois chantre e provisor do cardeal D. Améri- sairá um volume (Os exames sinodaes e os protestos
co. Em 1867, o bispo foi a Roma à visita ad limina. do clero da diocese do Porto. Porto, 1880). Também
Ao regressar ainda concluiu a visita pastoral à co- os artigos de A Palavra, do conde Samodães, são pu-
marca de Penafiel e Sobretâmega. Já não pôde pre- blicados em volume. Esta polémica demonstra a
sidir à abertura da biblioteca do seminário e descer- criação de um clero formado e capaz de imprimir
rar o seu retrato (7.6.1868), e faleceu a 16.10.1868, profundas marcas na vida da diocese. A questão do
sendo sepultado na capela-mor. Foi eleito pela ter- prior de Cedofeita também agitou os ânimos em
ceira vez vigário capitular o deão Joaquim José Cor- 1880. Seria ele simplesmente pároco da Igreja ou
reia de Vasconcelos. E teve trabalho porque D. Amé- também cónego da colegiada e por isso obrigado ao
rico, apresentado pelo rei em 1869 (23.12), só foi ofício coral? D. Américo determinou, por provisão
confirmado em 1871 (26.6). Este atraso na confir- (23.10.80), que todos tinham obrigações capitulares.
mação deve-se a suspeitas de maçonaria, levantadas O cónego António Alves Mendes da Silva Ribeiro
sobre a figura de D. Américo na imprensa, obrigan- escreveu um opúsculo de 128 páginas, com decisão
do o núncio ao mais rigoroso processo. O bispo do contrária. Em 1855 surge nova questão relativa à
Porto, Américo Ferreira dos Santos Silva (1871- Confraria de Santo António da Aguardente, que abu-
-1899) era portuense (nasceu em 1830) e filho de sivamente se opôs a que o padre José Coelho da Ro-
um homem de negócios, dentro da tradição comer- cha exercesse o seu ministério e aconselhasse a vida
cial da cidade. Estuda em Paris, Porto e Coimbra religiosa. Estas polémicas não o desalentam. A ca-
(Faculdade de Teologia, onde é doutor em 1852). pacidade organizadora, o carácter metódico e a pre-
Exerce o ministério presbiteral em Lisboa, lugar de paração recomendaram-no para tarefas delicadas.
residência do pai. Professor no Seminário de Santa- Assim, em 1881, deu execução à bula papal Gravis-
rém, vice-reitor (13.10.1855) e reitor do liceu, dei- ssimum Christi Ecclesiam (30.09.1881), que apre-
xa a cidade por falta de saúde em 1862. Era cónego sentava nova configuração diocesana. A sentença
desde 1858 e agora ascenderá progressivamente a foi proferida em 4 de Setembro de 1882 e a 25 de
21
PORTO

Setembro provia medidas para assumir as paróquias


transferidas das dioceses de Braga, Lamego e Avei-
ro para o Porto. Criou mais duas comarcas, além
das existentes: uma de Amarante em quatro distri-
tos e outra em Arouca com mais quatro (provisão
de 27.1 1 . 8 2 ) . Os últimos anos de vida, desde 1896,
foram de doença na coluna. Com o agravamento da
situação, no início de 1899, foi resistindo até 21 de
Janeiro. Era conhecido o seu zelo pela caridade e a
sua bondade, no respeito pela dignidade dos pobres
e na imediata resposta aos problemas da região.
Basta recordar as horas difíceis do Teatro Baquet.
D. Américo presidiu à Comissão de Socorro às fa-
mílias das vítimas. Também no caso do Ultimato
inglês de 11.1.1890 protesta com uma provisão
(19.2), reveladora do alto perfil de patriota cons-
ciente da sua missão e dando remédio às necessida-
des da sociedade contemporânea, criando desta vez
na diocese uma subscrição do clero a favor da defesa
nacional. À questão social consagrou uma importan-
te pastoral (3.11.1891) no seguimento da encíclica
de Leão XIII. Em 1898 (5-9) aprovou os Estatutos
do Círculo Católico de Operários do Porto. Na Ofici-
na de São José pronuncia uma informada alocução
sobre o trabalho. Já então luta pelo descanso domini-
cal (18.4.1875/10.9.1897). Emitiu documentos para
implorar ajuda para vítimas de intempéries, pobreza,
abandono (cheias, 7.1.1877; terramoto na Andaluzia,
22.1.1885; cólera-morbus, 30.7.1885; peditórios a
favor do Hospital de Crianças Maria Pia, 20.2.1886; Conde de Samodães.
males da agricultura portuguesa, 6.12.1887) (cf. Obras
pastoraes. Porto, 1901-1902. 2 vol.). A esta figura de médios: catequese para todos, pregação clara e con-
prelado palaciano, mas determinante na aposta pela vincente, popular e polida, escolas católicas. Não
formação dos padres e firme na orientação discipli- afastou o olhar das questões sociais. Logo no início
nar, sucede o conhecido missionário D. António Bar- evidencia a criação da Assistência Nacional aos Tu-
roso (1899-1918). Chegaram ecos dos incansáveis berculosos (6.2.1900). Pede ajuda para o Ribatejo
trabalhos na missão do Congo, das notáveis confe- atingido por um tremor de terra (23.4.1909) ou para
rências, reveladores da capacidade de olhar os pro- as populações inundadas pelas cheias de Dezembro
blemas com realismo descritivo e eficaz rasgo de de 1909. Em 1917 é a vez da Lituânia e em 1918
soluções do prelado de Moçambique (1881-1897), (25.4) escreve de modo mais extenso sobre a proble-
estudado por Manuel Castro Afonso - D. António mática social e fala «em nome dos pobres». Reco-
Barroso em Moçambique (1892-1897). Humanísti- nhece a heroicidade da agricultura. Pede justiça nos
ca e teologia. 15 (1994) 329-351. Este audaz espíri- salários. Já na pastoral de 1910 (10.2) tinha aborda-
to missionário atira-o para Oriente como bispo de do o papel social da Igreja. Em sintonia intensa com
Meliapor na índia (1897-1899). Aí é surpreendido a vida interna da Igreja, na ligação ao Papa e no en-
pela eleição para o Porto. Depois de várias hipóte- tusiasmo pela universalidade dos cristãos é exemplar.
ses (ver A Z E V E D O - Escritos, p. 228), é confirmado Bispo bondoso e dinâmico atravessa com múltiplas
a 16 de Junho de 1899. A pastoral de saudação é iniciativas a preocupação pelo clero, seminários, li-
datada de Lisboa (27 de Julho). Neste documento turgia, devoções. Nesta enumeração de campos de
programático promete «firmeza e constância na fé», intervenção quase se esquece que D. António Barro-
alívio da miséria dos que sofrem. Esperava-o um so essencialmente deu lição corajosa numa vida atri-
serviço pastoral pleno de tribulações, mas a coragem bulada: o caso Calmon em 1901, o exílio de 1911-
era virtude sublime de quem teimava na atenção per- -1914, a cena ofensiva no tribunal de São João
manente ao concreto. A visita pastoral à diocese, pa- Novo, o exílio de 1917 (7 de Agosto-20 de Dezem-
ra conhecer a realidade, só não a iniciou mais cedo bro). Este místico de olhos abertos, tão maltratado
porque quis contactar directamente com a adminis- pelos governos, tinha entranhado amor à pátria. Fa-
tração da diocese, atender a serviços para bem do leceu a 31 de Agosto de 1918. Para suceder a dois
padroado e ainda tratar da saúde abatida pelas mis- bispos de grande influência pastoral na diocese é es-
sões. Não pretendia visitas sublimes mas reais, feitas colhida (16.7.1919) uma pessoa natural de Parada de
com caridade e mansidão, indagando de tudo. Ao Todeia (Paredes), conhecedora da realidade portuen-
conhecer o âmago da realidade dá conta da raiz de se, D. António Barbosa Leão (1919-1929). Tinha já
muitos males: a falta de instrução religiosa. Conside- 59 anos o novo habitante do Paço dos Sacais, já que
ra a ignorância religiosa «um encarniçado inimigo em 1916 o paço tinha sido retirado para a câmara do
da Igreja de Deus» (cf. Ibidem, p. 233). Aponta re- Porto. A 8 de Setembro de 1919 entrou na sé. Cedo
22
PORTO

tinha vindo para o Porto, mudando da agricultura pa- as necessidades, acalentando a cruzada do tempo,
ra trabalhar numa oficina de ourives. Só aos 16 anos expressa na Acção Católica. Em 1930 inicia com de-
se matriculou no Colégio do Carmo, em Penafiel, e terminação o seu multiforme apostolado: o governo
aos 22 anos entrou no Seminário do Porto (1883- inteligente deixou sinais na reforma dos estudos dos
-1886). Após actividade docente, foi pároco de Lus- seminários, na fundação do Seminário de Trancoso,
tosa. O gosto pela pregação absorve-o completamente na visita pastoral à diocese, onde deixa uma palavra
e durante dois anos vai dedicar-se só a essa dimen- sedutora que a todos encanta, no impulso à constru-
são, vivendo em casa dos pais. É indicado para bispo ção de residências paroquiais, na promoção da ca-
de Angola em 15.2.1906, confirmado em Julho e or- tequese, da Acção Católica e retiros, da pastoral ju-
denado em 26 de Agosto. Apesar de notável acção venil e no interesse pelos problemas dos operários,
em Angola é deslocado depressa para o Algarve pela visita aos presos, na salvaguarda da disciplina e
(1907). A catequese é a sua paixão. A República dá- combate à superstição - Lúmen. 1 (1937) 51-53. A 5
-lhe dois anos de exílio e regressa a 14.1.1914. Es- de Outubro mandava publicar uma provisão relativa
creveu longas cartas pastorais. A exortação ao clero à guerra, «tremenda hora» de «provação». Conscien-
do Algarve tem 153 páginas. Em 1916 organizou um te da «cumplicidade» de todos, por causa do pecado,
congresso de obras católicas e publicou o opúsculo pede espírito cristão na oração por todos, vítimas e
«União Católica e Centro Católico Português». É es- inocentes. Apela à «união sagrada à volta dos nossos
te breve currículo que justifica a selecção desta figu- governantes» para que tomem decisões conducentes
ra. Já bispo do Porto assina uma carta pastoral que à paz. Para que Portugal possa não «sofrer os horro-
clarifica o rumo aos católicos no campo político-reli- res da guerra» convida todos à peregrinação a Fáti-
gioso (cf. ALVES, Adelino - Centro Católico Portu- ma do dia 13 ou a associação nesse dia por exposi-
guês. Lisboa: Rei dos Livros, 1996). Teve a tarefa de ções do Santíssimo e oração do terço nas igrejas da
adaptar os serviços diocesanos ao Código de Direito diocese - Lúmen. 4 (1940) 63-64. A 7 de Outubro de
Canónico (1917). Deu novos estatutos ao seminário, 1940 faz apelo à preparação da canonização de São
reformou a cúria, insistiu nos exercícios pastorais do João de Brito, já que os dois milagres necessários
clero e estabeleceu as conferências eclesiásticas obri- ocorreram na diocese do Porto - Lúmen. 4 (1940)
gatórias, renovou a congregação de doutrina cristã e 668-669. A 18 de Novembro de 1940 exorta a uma
publicou pastoral sobre o ensino religioso, mandou
realizar um Relatório do movimento religioso, cor-
respondente a 1922-1923, que foi publicado em
1924. Fundou o semanário A Voz do Pastor (1921).
Publicou uma pastoral sobre a devoção e consagra-
ção ao Sagrado Coração de Jesus (16.6.1924). Criou
novas paróquias, correspondentes ao desenvolvi-
mento da cidade. Quando sentiu diminuir as forças
pediu um coadjutor. A 23 de Junho de 1928 vem
D. António Augusto de Castro Meireles, para o as-
sistir nos últimos momentos (21 de Junho de 1929),
no Paço da Torre da Marca. Depois das exéquias na
sé foi sepultado na sua terra natal. Barbosa Leão ti-
nha pregação de estilo directo, popular, resultado da
sua experiência paroquial. Em horas de demagogia
manteve a firmeza vertical de um lutador prudente e
sereno. Também natural da diocese (Boim-Lousada,
13.8.1885) e igualmente filho de lavradores proprietá-
rios é D. António Augusto de Castro Meireles (1929-
-1942), que foi um lutador, desde estudante de Teolo-
gia (1907-1910) e Direito em Coimbra (1911-1912),
no púlpito, no Parlamento onde arrebatava pela flui-
dez do improviso, pelo calor da eloquência brilhante.
Ao regressar da universidade monta banca de advo-
gado no Porto e assume a direcção do colégio de Er-
mesinde. Demonstra inteligência viva e memória
espantosa, revela eloquência e bondade. Dotes reco-
mendáveis para parlamentar versátil, quando eleito
deputado pelo círculo de Oliveira de Azeméis. Im-
portava conquistar as liberdades da Igreja, a cris-
tianização das leis, o espírito novo na solução dos
problemas nacionais. Passa ainda por professor do
seminário (1920-1923) antes de ir para um breve
mas fecundo e marcante episcopado em Angra. Ad-
quire órgãos de imprensa, cria estabelecimentos de
ensino e organiza o centro católico. No Porto, logo
no papel de coadjutor, visitou a diocese e auscultou
Cardeal D. Américo, bispo do Porto.
23
PORTO

oração pela paz no mundo, a realizar a 24 seguinte. ta, piedosa e enevoada, espelhava a franqueza bon-
As missas paroquiais desse dia serão pela intenção dosa de ser apenas agarrado ao tempo, sacrificando
da paz e pelo descanso eterno dos que morreram por os passos novos ao passado. Este disciplinador,
causa da guerra - Lúmen. 4 (1940) 733. Muita resig- amante do dever, imprimiu carácter e estimulou
nação e amarguras multiplicadas fizeram-no cair no amor ao trabalho, à perfeição, sem inovações, mas
combate, em defesa da integridade de carácter, con- com zelo ardente e candura paternal e infantil. Morre
tra a vileza de adversários cruentos. A ofensa à dig- a 21.2.1952. A diocese do Porto seria confiada a um
nidade moral de D. António Castro Meireles feita bispo (1952-1982) que se identificava com a história
pelo pároco de Amarante, padre Manuel Pinto da da diocese e se considerava discípulo e continuador
Costa, e o processo que enviou para Roma, recorren- de D. António Castro Meireles. De facto, D. António
do à Congregação do Concílio em Outubro de 1934, Ferreira Gomes (1906-1989), após o serviço docente
logo após a sua exoneração, mereceu uma retratação de Filosofia em Vilar e quatro anos e meio de bispo
feita em carta de 16 de Março de 1940 e em depoi- ao serviço de Portalegre e Castelo Branco (1948-
mento assinado a 9 de Março de 1942 - Lúmen. 8 -1952), reveladores de um apostolado de inteligência
(1944) 125-126. O desagravo à memória do bispo é e vontade forte, irá desde logo sentir a necessidade
também reconhecido a 22 de Novembro de 1943 pe- de «recristianizar o Portugal cristão». Consciente de
lo padre Urbano Rodrigues Valente, de Salreu, autor que não basta o sentimento religioso católico, mas é
do folheto «Anos de Perdição», sob pseudónimo de fundamental a teologia cristã, pensa que «os destinos
Dona Clotilde Zarcão. Neste escrito manchava a re- da humanidade têm de ser decididos em função de
putação do bispo sem lhe referir o nome. A causa uma teologia». O futuro exige caminhos «através
esteve no afastamento das funções de pároco - Lú- de formas de cristandade ainda não pensadas e por-
men. 8 (1944) 127. Por estes reflexos se vê o am- ventura ainda mesmo impensáveis». Deseja que o
biente de conjura criado que degradou a resistência Porto marque posição neste caminho novo fiel à sua
física e contribuiu para a morte do bispo aos 57 anos tradição, como «ponto de partida das grandes arran-
(29.3.1942). Após esta fase atribulada vem para o cadas que têm feito história em Portugal» - Lúmen.
Porto D. Agostinho de Jesus e Sousa (1942-1952), 17 (1953) 100-101. E nesta direcção que vai seguir,
homem culto e informado, de estilo cuidado, vida por exemplo na exortação pastoral sobre o ano ma-
austera e coração de criança, sólida piedade, longa riano - Lúmen. 18 (1954) 112-116. Recomenda aí o
experiência episcopal de 20 anos em Lamego. Natu- estudo da teologia marial, verdadeira fonte de pieda-
ral de Pensalves, Vila Pouca de Aguiar (7.3.1877), de sincera. Na provisão sobre os estipêndios da mis-
estudou em Roma (1896-1903) Filosofia e Teologia sa - Lúmen. 21 (1957) 393-398 - critica frontalmen-
e leccionou desde então em Braga. Escrevia nos te os abusos e estabelece normas claras. De 1952 a
boletins Acção Católica (1916-1921, director) e 1958 o bispo do Porto notabilizou-se: pela atenção
Apóstolo. Respondia a questões de direito canóni- à miséria social do povo português, pela crítica do
co, moral e liturgia, o que continuará na Lúmen. corporativismo do Estado e pela exigência da livre
A nomeação para Lamego, como bispo coadjutor, expressão do pensamento e da acção política (céle-
em 1921, dá-lhe imediato contacto com o governo bres discursos aos jornalistas, no dia de São Francis-
da diocese, embora só em 1935 fosse efectivamen- co de Sales). O seu magistério não se circunscreve à
te o bispo diocesano. Deu assinalável contributo na porção diocesana. Aquando das eleições para a pre-
redacção dos textos do Concílio Plenário Português sidência da República em 1958, o bispo tinha um
(1926). Foi visitador apostólico de todos os semi- compromisso em Barcelona. Querem oferecer-lhe
nários do país (cf. D. AGOSTINHO). Transferido para bilhete para vir votar com o compromisso de uma
o Porto a 16 de Maio de 1942, deu entrada a 15 de conversa com Salazar para discutir os problemas.
Agosto. O seu governo salienta-se na reforma da Foi para essa conversa que escreveu.o pró-memória,
legislação sobre festas - Lúmen. 7 (1943) apêndice, uma espécie de declaração de voto, conhecido como
1-27; 8 (1944) 391-399-, na preocupação por re- Carta a Salazar, que se divulgou e motivou reacções
cristianizar os costumes e restaurar o sentido cris- ofensivas e criou clima quente. Aconselhado a sair
tão e litúrgico. Foi obstinado nesta intensificação do país (27.7.1959), seria impedido de entrar (cf. pa-
da vivência moral das romarias - Lúmen. 6 (1942) ra mais detalhes ver AZEVEDO - Prefácio, p. 1 í-14).
722, 723-726. Classifica as paróquias em l. , 2. e
a a Forçado a exílio de 10 anos, inicia-o em Vigo e con-
3. classe -Lúmen. 10 (1946) 707-714. Cuida do
a tinua-o em Santiago de Compostela, Valência - onde
inventário dos bens eclesiásticos - Lúmen. 13 (1949) colabora na acção pastoral -, Alemanha, Lourdes,
251-252. Remodela o seminário da sé, adianta estu- Cidade Rodrigo e Alba de Tormes, estas últimas de
dos para um seminário em Ermesinde, dinamiza regresso a Portugal, entre Fevereiro e Junho de
grandes eventos como o Congresso Nacional do 1969. Nesse ano várias diligências são feitas por lei-
Apostolado de Oração, Congresso Catequístico Dio- gos e padres a favor da entrada. Esse duro e ilegal
cesano, Congresso Eucarístico de Arouca, Oliveira exílio foi fecundo para a formação teológica do bispo,
de Azeméis, Santo Tirso e Paredes, já com a ajuda para a largueza de horizontes pastorais e para a vivên-
de D. Policarpo da Costa Vaz, bispo auxiliar em Ju- cia do II Concílio do Vaticano {cf. GOMES, A. F. - Pa-
lho de 1950. A mentalidade canonística e a paixão receu ao Espírito Santo... e a nós? Porto: Fundação
pela disciplina faziam-no descer a pormenores hoje Spes, 2000). O seu «diário» do concílio, recente-
demasiado acessórios para merecer tanta determina- mente publicado pela Fundação Spes, que criou, é
ção: o traje, o cabelo, o tamanho da coroa segundo o um questionamento do «Portugal problemático», nu-
grau da ordem... -Lúmen. 7 (1943) 125. Na voz len- ma visão profética da história. Os 30 anos do seu

2-4
PORTO

lugar para a casa diocesana. Nos últimos sete anos


de vida dedicou-se ao estudo e escrita, quanto os
olhos lhe permitiam. As Cartas ao papa (datadas
entre 1982-1985) são um fruto desse tempo fecun-
do, sempre atento ao mundo, a reflectir sobre o sen-
tido dos acontecimentos. E um claro testamento de
um bispo excepcional, «consciência de um século»
( M A R T O - Magna carta. In G O M E S - Pareceu, p. 19).
Nos 10 anos de exílio (1959-1969) governou a dio-
cese D. Florentino Andrade e Silva, chamado à mis-
são episcopal para auxiliar de D. António Ferreira
Gomes, com quem tinha convivido no Seminário de
Vilar como director espiritual. Natural de Mosteiro
(Santa Maria da Feira) distinguia-se pela fortaleza de
um carácter incisivo e pela dignidade hierática. Cou-
be-lhe a ingrata missão de governar a diocese na si-
tuação castigada de administrador apostólico de uma
grei impedida, pela política e pela falta de solidarie-
dade episcopal, de ter o seu bispo. Para fazer crescer
particularmente a diocese, em tempos de grande mu-
dança eclesial, teve de tomar decisões difíceis e vi-
ver no meio de permanente tensão e clivagem de fi-
delidades. Deixou o paço quando o bispo regressou.
A situação dividiu a diocese, criou expectativas, sus-
citou remoções e promoções. Após algum tempo de
descanso na Feira, foi colocado na diocese do Algar-
ve, até resignar e regressar à diocese para, em Fon-
tiscos, passar os últimos 12 anos da sua vida recata-
da, serena e piedosa. A vivência do pós-concílio não
D. Antonio Ferreira Gomes, bispo do Porto. esperou pelo regresso de D. António, mas os passos
tiveram de ser tímidos. Em ampla carta pastoral,
discutido episcopado foram modelação para o futuro D. Florentino preparou a diocese para o concílio
dos tempos pós-conciliares. Deu responsabilidade, -31.5.1962: Lúmen. 26 (1962) 592-602 -, conscien-
doutrinou amplamente e testemunhou com coragem te de que seria o maior evento religioso do século,
a liberdade do evangelho. As homilias e textos de in- com a afirmação de Deus perante o ateísmo e laicis-
tervenção eram densos na expressão, ousados nas mo e a revelação do sentido de dignidade da pessoa
ideias e certeiros nos objectivos. Era personalidade humana. Denuncia o oportunismo camaleónico do
com memória alargada por um saber sempre em per- progressismo e o indiferentismo disfarçado de tole-
manente aquisição, em qualquer campo. A preocupa- rância. Anseia por «nova vitalidade interna» da Igre-
ção dominante do pastor foi a doutrinação e a cria- ja e renovação pastoral. Exorta todos a colocarem-se
ção de organismos de corresponsabilidade eclesial: em «estado de Concílio». Já na segunda sessão do
Junta de Coordenação Pastoral, Conselho de Leigos, concílio escreve nova carta pastoral - 11.11.1963:
Comissões e Secretariados, o semanário Voz Portu- Lúmen. 28 (1964) — sobre as vocações. Aí lança a
calense e o boletim Igreja Portucalense. Foi incó- ideia do novo seminário para atender ao aumento
modo e polémico antes e depois do 25 de Abril de de alunos. Refere a abertura a 14 de Outubro do Se-
1974. Enfrenta a nova situação com coragem coe- minário do Paraíso, que foi oferecido na hora e lo-
rente, com escrita singularmente fecunda. O diálogo go serviu para improvisar um seminário. Proclama
com a cultura moderna será o tema central desde (13.7.1964) a Senhora da Conceição como padroei-
1976. A partir de 1980 começa a rarear a interven- ra da cidade do Porto - Lúmen. 28 (1964) 623-625.
ção até pedir a resignação (18.2.1982). Quando en- Como auxiliar do administrador apostólico é nomea-
trou na diocese D. António reconhece que era «pre- do o modesto e piedoso Alberto Cosme do Amaral
cário e mal assegurado» o equilíbrio orçamental (ordenado na Sé do Porto, a 23 de Agosto de 1964) -
ordinário. Procurou animar a ideia de construção de Lúmen. 28 (1964) 723-725. D. Florentino, no segui-
uma casa diocesana, qual grande carência, mas, mento do concílio começa por aplicar a constituição
apesar do projecto e lançamento da primeira pedra conciliar sobre a liturgia, regulando a ocasião e esti-
na Quinta das Palhacinhas, não avançou pelos in- lo da homilia - Lúmen. 29 (1965) 763-764. Em
convenientes do local. Quando reentrou viu cons- 1967, põe em marcha uma tentativa de reorganiza-
truído em parte um grande seminário em Ermesinde, ção diocesana, destinada a valorizar pastoralmente a
assunto que já se estudava antes do exílio, e que, não estrutura vicarial. A revisão das circunscrições era
obstante o decréscimo das vocações, se realizou. Es- feita segundo critérios sociológicos, geográficos e
tava paga apenas uma terça parte e era difícil mobili- religiosos para, dentro de três anos, se delimitarem
zar a generosidade dos fiéis para uma obra desneces- as zonas pastorais. A escolha de vigários poderá ser
sária. Quando faz o balanço, em 1981, considera a feita por eleição, dependente de confirmação supe-
situação económica desafogada e sugere Vilar como rior. Revela atenção aos fenómenos da emigração -

25
PORTO

carta pastoral de 29.5.1967: Lúmen. 31 (1967) 493- coordenação dos bispos na pastoral vicarial; 7) ade-
-499. Constituiu o primeiro conselho presbiteral, por quação da diocese ao tempo e intensificação das vi-
decreto de 31.12.1967 - Lúmen. 32 (1968) 55-57-, sitas pastorais às comunidades; 8) atenção perma-
com primeira reunião em 5 de Fevereiro de 1968. As nente aos mais pobres e injustiçados; 9) atenção
conferências eclesiásticas foram redimensionadas - especial à acção pastoral da cidade do Porto; 10) to-
Lúmen. 32 (1968) 840. Voltando ao episcopado de mar consciência e assumir consequências da falta
D. António, refira-se que teve como auxiliar após o de clero; 11) empreender a construção dos centros
exílio D. Domingos de Pinho Brandão, natural de de espiritualidade e de pastoral, em Vilar, criando
Rossas (Arouca), investigador de arqueologia e cul- instalações para a formação, animação, desenvolvi-
tivador da história da arte. Tinha sido reitor do semi- mento e coordenação das actividades apostólicas em
nário e pago a amizade fiel a D. António com a reti- toda a diocese - Lúmen. 46 (1985) 461-462. Eram
rada do seminário. Nomeado bispo auxiliar de Leiria prioridades a mais! Foram, de facto, realizados os
regressava ao Porto. Apesar do mal crónico dos rins, pontos 1, 5, 6, 7, 8 e 11. Houve maior proximidade
demonstrou resistência de trabalhador infatigável até das relações, presença mais sistemática dos bispos
à esperada morte (Agosto de 1988). A partir de 25 na pastoral vicarial, intensificação das visitas pasto-
de Março de 1979, D. António receberia novo bispo rais, renovação de várias estruturas físicas diocesa-
auxiliar: Armindo Lopes Coelho, até aí reitor do Se- nas e cuidado na construção de novas igrejas e a
minário do Porto. Ferreira Gomes deixou a diocese grande construção da Casa Diocesana de Vilar, com
com o seguinte quadro (1981): presbíteros: 491; re- espaço para Centro Pastoral e Centro de Espirituali-
ligiosos: 245 padres e 77 irmãos, tendo 26 deles dade (1989-1995). A restauração do diaconado per-
funções paroquiais; religiosas: 1638, de 42 congre- manente na diocese foi iniciada em 1988, com a no-
gações com 120 comunidades. Com a resignação de meação de um delegado episcopal, Carlos Moreira
D. António é nomeado para o Porto D. Júlio Tavares Azevedo. Após a selecção dos candidatos, prepara-
Rebimbas (1982-1997), natural de Bunheiro-Murto- ram-se 18 homens casados, durante quatro anos e
sa (21.1.1922). Após uma experiência paroquial em foram ordenados em Abril de 1992. Criou-se depois
Ílhavo e com qualidades pastorais postas ao serviço um interregno, sem nomeação de delegado (1994-
da diocese de Aveiro, como governador do bispado 1998). Tendo chegado aos 75 anos, D. Júlio pediu
em 1962, é escolhido para bispo do Algarve em resignação. A diocese esperaria algum tempo pela
1965, para arcebispo titular de Mitilene e auxiliar de notícia (13.6.1997) do novo bispo, D. Armindo Lo-
Lisboa em 1972 e primeiro bispo de Viana do Caste- pes Coelho, que tomou posse a 29 de Julho. Deixaria
lo em 3.11.1977. Esta entrega de tarefas de maior dois auxiliares partir para bispos de Santarém
responsabilidade é atestada na escolha para suceder (D. Manuel Pelino) e de Setúbal (D. Gilberto) e fica-
à grande figura de D. António, que deixara algumas ria com D. João Miranda. D. José Pedreira sucedeu a
feridas ainda por sarar e exigia agora grande pondera- D. Armindo em Viana do Castelo (1997). A Santa Sé
ção e simplicidade de trato. A escolha do vigário-ge- nomearia (21.2.1999) António Maria Bessa Taipa,
ral, cónego António dos Santos, foi o primeiro teste ordenado a 18 de Abril de 1999, e António José Ca-
vencido. Com a saída de D. Armindo para Viana do vaco Carrilho, ordenado a 29 de Maio. 2. Legislação
Castelo, necessitava de novos auxiliares, pois decidiu e doutrina: Vários órgãos de governo diocesano se
pôr fim à estrutura de governo anterior, com base em responsabilizam pelas directivas doutrinárias e jurí-
vigários e delegados episcopais. Sucessivamente foram dicas. Os sínodos diocesanos e as orientações dos
nomeados: D. José Augusto Pedreira (31.12.1982), ao bispos são as vertentes a analisar. A fase dos concí-
serviço a partir de Março de 1983; D. João Miranda lios provinciais bracarenses de 561, 572 e 675, que
Teixeira (13.5.1983), que entrou na função em Agos- deixaram disposições aplicáveis também à diocese
to; D. Manuel Pelino Domingues (19.12.1987), que do Porto e se podem ver no estudo de José Marques
iniciou o ministério na diocese em Março e D. Gil- (v. BRAGA) nesta obra (vol. 1, p. 237-238), privile-
berto Délio Gonçalves Canavarro dos Reis, nomeado giaram a condenação de erros doutrinais e a eleva-
em 16.11.1988 e ao serviço a partir de Março, que, ção espiritual de clérigos e leigos, pela correcção de
de certo modo, substituía o lugar deixado pela morte práticas e favorecimento na virtude. Também os con-
de D. Domingos de Pinho Brandão. É com a ajuda cílios de Toledo se aplicavam às dioceses da Galécia
desta qualificada equipa que publica, em 1991, as e permitiram dinamizar a Igreja, no trabalho de mu-
Orientações diocesanas de pastoral, documento ba- dança mental e religiosa das populações, tornando-as
silar, equivalente às antigas Constituições. D. Júlio, a capazes de resistir, pela consciencialização dos va-
24 de Novembro de 1985, revelava em 11 tópicos os lores fundamentais do cristianismo, aos efeitos da
seus objectivos prioritários para a renovação da Igre- invasão árabe. O IV Concílio de Latrão de 1215 dis-
ja no Porto, tendo em conta as situações concretas: punha, no cânon 6, que os metropolitas deviam con-
1) unidade e pluralidade da diocese, com desenvol- vocar concílios provinciais uma vez por ano para re-
vimento do sentido comunitário e a corresponsabi- formar a vida da região. Para vigiar a aplicação
lidade dos agentes da pastoral; 2) promoção, forma- ordenava visitas às dioceses por pessoas idóneas.
ção e actualização pastoral do clero, atenção às Cada diocese adoptaria as medidas e observações re-
vocações e adequação dos seminários, com altera- formadoras em sínodos diocesanos também anuais.
ções físicas e pedagógicas; 3) formação e promoção A prática desta legislação foi desigual e longe da pe-
dos leigos; 4) reforma da cúria diocesana; 5) maior riodicidade idealista. Segundo o estudo do Synodicon
proximidade do bispo com o clero e os diocesanos; (p. 343-354) são referidas ao Porto várias constitui-
6) presença sistemática de animação, informação e ções. Há notícia do tempo de Julião Fernandes, 1247-
26
PORTO

-1260, do qual se conhece uma constituição confirma- mar as constituições anteriores. Pretendia pôr cobro
da no episcopado de D. Vicente Mendes (1261-1265) aos abusos deparados nas suas visitas pastorais. As
0Censual do cabido, p. 540-542). D. João Gomes Constituições foram impressas em 1541, no Porto,
(1322-1327), reúne sínodo a 6 de Novembro de 1326, por Vasco Dias Franco Frexenal (clérigo da cidade
para apresentar uma bula do papa João XXII. E teste- de Badajoz), que esteve activo na cidade desde
munhado por uma declaração de presença do abade 1539. As Constituições de D. Baltasar Limpo, com
de Grijó no sínodo. Para a igreja de Cedofeita, o bis- colofão de 1 de Março de 1541, têm anexo o cere-
po D. Pedro Afonso convocou um sínodo em 1344, tnonial (cv R-CXVIV), Cânones penitenciais e casos
para decidir acerca das questões entre o rei e a cidade. reservados ao Papa (cxvn R-CXXIX R), Determina-
Resolveu-se admoestar o rei com ameaças de censu- ções finais (cxxixv- cxxxv). Quanto à residência
ras. Também D. Afonso Pires (1357-1372) reuniu sí- torna-a obrigatória para os abades. Os que estão des-
nodo a 20 de Novembro de 1360 e produziu consti- culpados devem preocupar-se por ter curas habitan-
tuições que restringiam direitos dos Beneditinos e tes na freguesia e por pagamento adequado. O bene-
Cónegos Regrantes e proibiam os beneficiados de ficiado, ao assumir a cura de almas, deve no acto de
saírem da diocese sem licença do bispo. Convocou colação fazer juramento de observar a residência.
ainda outro sinodo a 25 de Julho de 1371 para cobrar Para dar eficiência à regra põe-lhe penas. Se não for
um tributo destinado a pagar ao legado pontifício, dada razão da falta de residência será retirado o be-
bispo de Bréscia. Conhece-se a existência desta reu- nefício. Se não se justificar, no espaço de seis meses,
nião pelo protesto do abade de Grijó, apelando por ficará sem renda por um ano. Após esse espaço,
isenção. Novo sínodo se reuniu no tempo de D. João prosseguindo sem justificação será julgado. O bene-
Afonso Esteves de Azambuja (1391-1399) e promul- ficiado pode sair um ou até dois meses por ano sem
gou constituições, sendo conhecidas apenas três (cc. licença especial, desde que alguém fique encarrega-
14-16) contra os abusivos detentores dos bens da do da freguesia. Os frutos do benefício são resultado
Igreja e do clero. D. Antão Martins de Chaves, a 23 do trabalho dos capelães ou curas. Devem por isso
de Setembro de 1426, celebrou no paço uma reunião receber o suficiente para não se entregarem a outros
(à qual alguns atribuem o título de sínodo) para ele- trabalhos temporais. A taxa é fixada pelo bispo, vi-
ger procuradores destinados a defender, em Roma, gário ou visitador e deve ser paga em três presta-
os direitos e liberdades da Igreja. A 22 de Novembro ções: Natal, Páscoa e São João. Se não cumprirem,
de 1430, para confirmar as constituições (14-16) do os curas terão direito ao dobro. Foi esta experiência
bispo João Azambuja, reuniu sínodo. Por informa- que Limpo levou para o concílio. Para aplicar as de-
ção posterior (1456) sabe-se que promoveu vários terminações tridentinas, Frei Marcos de Lisboa reu-
sínodos. Existe a possibilidade de um sínodo pro- niu sínodo diocesano em 3 de Fevereiro de 1585 e
movido por D. Gonçalo Anes (1447-1453), devido fez nova edição das Constituições synodaes do bis-
a referências de 1496. Há notícia de um sínodo ce- pado, impressas em Coimbra, na Oficina de António
lebrado por D. João de Azevedo (1465-1469), mas Mariz. Há uma segunda edição de 1590. Segue o se-
desconhece-se a data. Já mais documentado, pela guinte esquema: temas teológico-doutrinais: fé, sa-
passagem a impressão, está o resultado do sínodo cramentos, jejum e festas, abstinência; organização
de 1496. D. Diogo de Sousa (1496-1503), pessoa de pastoral: abades, reitores e curas, raçoeiros e benefi-
formação académica provada, antes de fazer um ciados; da vida e honestidade dos clérigos, monges,
ano de presença no Porto, convocou sínodo para 24 cónegos regrantes e freiras; dos benefícios; dimen-
de Agosto de 1496. Faz compilação da legislação são litúrgica: ofícios divinos, serventia das igrejas e
diocesana anterior, acrescentando algo novo que enterramento, trintários e missas de defuntos. Muito
corresponde a questões suscitadas por novos proble- interessante é o capítulo das igrejas, ermidas, orna-
mas. E único o catecismo anexo às constituições. mentos de altar (p. 86-95), das procissões (p. 95-97).
A ordem dos temas tratados não é muito lógica. Os Seguem-se os aspectos económicos: emprazamentos,
temas dominantes referem-se à disciplina de vida re- dízimos e primícias, imunidades das igrejas e isen-
ligiosa (1-7, 21, 26), à disciplina do clero secular e a ções eclesiásticas, testamentos e testamenteiros. As
assuntos relativos à vida pastoral (8-20, 22-25, confrarias são brevemente tratadas (p. 115-116) e
27-31). A disciplina laical, o património eclesiástico, passa a temas jurídicos: excomunhão, sacrilégio,
as relações com as autoridades estão incluídas no te- questores, demissórias, mandados de juízes, pecados
ma dos clérigos. Além da temática comum à legisla- públicos, querelas e denúncias, visitação e visitado-
ção da época, aparecem alusões próprias: referência res. Finalmente, trata da própria aplicação do sínodo.
aos dez mosteiros da diocese (c. 5); elenco das festas D.João de Sousa (1684-1696) mandou fazer novas
de preceito (c. 6); padres de outras dioceses com constituições e para a aprovação reuniu sínodo dio-
benefícios no Porto (c. 17); a faculdade dada aos pá- cesano em 18 e 20 de Maio de 1687. Após a revisão
rocos para absolver casos reservados (c. 28), a exis- definitiva dos procuradores, foram impressas no Por-
tência de muitas mulheres solteiras concubinas de to, em 1690. Fez determinações acerca da procissão
homens casados (c. 46); a especificação de quantias do Corpo de Deus em confronto com a câmara e tra-
dos dízimos (c. 48); a pesca do peixe sável aos do- vou razões com o cabido sobre o lugar do provisor e
mingos, no Douro (c. 50); a proibição de entrarem vigário-geral, no coro da catedral. O sínodo diocesa-
leigos na clausura de Santa Clara do Porto ou das no de 1710 (10.6), com uma só sessão, na catedral,
dominicanas de Gaia (c. 59). Estas constituições são foi convocado por D. Tomás de Almeida, recém-che-
o primeiro livro impresso no Porto, por Rodrigo Al- gado à diocese, a 3 de Novembro de 1709. Acarta
vares. D. Baltasar Limpo reuniu sínodo para refor- pastoral de 28.4.1710 convocava para o evento, que
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PORTO

contou como juízes: Dr. Frei Antão de Faria, provisor, ção por uma interpretação teológica eclesial renova-
e Dr. Diogo Marques Mourato, vigário-geral. O se- da está sempre presente. Assenta em novas estrutu-
cretário do sínodo foi o Dr. Luís de Álvares Montei- ras de corresponsabilidade que vivem nas páginas
ro e o promotor do sínodo o Dr. Francisco Xavier deste boletim. D. António criou a Comissão da Dou-
Delgado. Do púlpito, foram publicados 10 decretos e trina da Fé para intervir no campo doutrinal. A situa-
redigiram-se sete constituições aprovadas a 15 de Ju- ção mais difícil que viveu foi a declaração acerca do
lho, em sessão no paço episcopal. Confirmam-se as livro do padre Mário de Oliveira, sobre Maria de
constituições de 1687. Manda que haja um vigário da Nazaré. O último documento pastoral normativo são
vara em cada comarca eclesiástica e que todos os me- as Orientações diocesanas de pastoral, de D. Júlio
ses se dê busca aos cartórios quando requerida pelo Tavares Rebimbas, fase amadurecida de um Directó-
contador (FERREIRA - Memórias, vol. 2, p. 293-296). rio do episcopado anterior. 3. Limites, governo e ad-
A necessidade de marcar ritmo novo na vida interna ministração da diocese. Cabido e colegiadas: A es-
da Igreja, solidificando as determinações dos pasto- cassez das fontes para o período suévico e visigótico
res com o apoio da imprensa, é sentida pelos bispos não permite avançar dados para além dos comuns.
e as publicações periódicas são um meio fundamen- Após a restauração de D. Hugo e a aplicação da re-
tal. O jornal A Palavra (1872-1911) foi repositório forma gregoriana ao território portucalense começa a
de actos legislativos e orientações pastorais dos pre- delinear-se uma centralidade governativa. Comece-
lados. Veio depois o Boletim da Diocese do Porto mos por desenhar os limites da diocese e o modo co-
(1914-1936), criado por D. António Barroso. Preten- mo evoluíram as circunscrições administrativas do
de transmitir as determinações do bispo, dar notícia bispado. Abordaremos depois o cabido e colegiadas
do movimento diocesano e orientar de modo prático e terminaremos com notas sobre o governo central.
para questões actuais e imprimir unidade de acção 3.1. Limites da diocese: Se atendermos à informação
aos católicos. A obrigação de existir um exemplar do Parochiale suévico, a diocese do Porto, no sécu-
nos cartórios paroquiais mostrava a vontade episco- lo vi, era somente a norte do Douro, uma vez que
pal. O primeiro director foi o padre António Moreira «portucale castrum antiquum» pertencia a Coimbra
de Araújo (Agosto de 1914-Março de 1915). Teófilo (DAVID - Etudes, p. 37). Almeida Fernandes supõe
Salomão Coelho Vieira Seabra é padre exemplar, di- que no Provincial visigótico do século vn já se esten-
rector de Abril de 1915a Novembro de 1921. Vem a desse até Loure - Albergaria-a-Velha (FERNANDES -
seguir o padre Adriano Martins e Manuel Pereira Paróquias, p. 130). Houve certamente oscilações vá-
Lopes (1921-1936). A criação (4.12.1920) da Voz do rias nesta época de agitação. A divisão com Braga é
Pastor (13.2.1921/27.12.1969) e a transformação atribuída pelo Liber Fidei ao rei Miro (569-582),
ampliada do Boletim Parochial, órgão da União Ca- embora os documentos sejam de redacção posterior
tólica (18.6.1916-1919). Será o órgão oficioso da (COSTA - O bispo, p. 246, 272). Os limites da dio-
diocese. Teve como director o cónego António Ber- cese do Porto tiveram, efectivamente, história atri-
nardo da Silva (1921-1932), padre Joaquim Pinto da bulada. Com a restauração do bispado em 1113
Costa (13.8.1932-1954), padre Domingos de Olivei- (OLIVEIRA - Os bispos, p. 161) ou 1 1 1 4 (FERREIRA -
ra Costa Maia (1954-1969). Deu lugar à Voz Portu- Memórias, vol. 1, p. 151) vai abrir-se uma longa dis-
calense desde Janeiro de 1970 até hoje. A criação da puta da terra de Santa Maria, entre Porto e Coimbra.
revista Lúmen, em 1936, levou à supressão dos bole- Esta região é atribuída a Coimbra por bula de Pas-
tins diocesanos para nesse órgão nacional incluir a coal II, de 24 de Março de 1121 (DAVID - Études,
sua informação e documentação. Aos poucos, cada p. 71). A reunião efectuada em 30 de Dezembro de
diocese reconheceu a necessidade de um boletim ofi- 1114 não é determinante. Só a ida a Roma de D. Hu-
cial. Quando D. António Ferreira Gomes regressa do go convence o papa Pascoal da situação pintada com
exílio deseja lançar na vida diocesana o estilo conci- exagero. Consegue os «antigos limites da diocese»,
liar, com um projecto de renovação de meios. Quer o referidos na documentação coeva: da foz do rio Ave
semanário Voz Portucalense, quer a Igreja Portuca- até ao Vizela; daí até Pombeiro, Marão, rio Banduge,
lense (1970-1984) pretendiam promover a positivi- descendo o curso do Corgo até ao rio Douro. As
dade, cultivar um espírito aberto ao mundo, formar fronteiras foram realmente as terras de Refojos,
na fidelidade ao tempo e dar uma imagem séria e Aguiar, Meinedo, Gouveia, Baião, e Penaguião co-
credível da Igreja. Este boletim Igreja Portucalense mo pertencentes à diocese do Porto. No Sul até ao
é considerado como «renascença e continuação» do rio Antuã. Só com Julião Fernandes, em 1253, se re-
anterior Boletim. Destinava-se a arquivar documen- tiravam a Coimbra as terras entre Douro e Antuã. No
tação, veicular informação e formação pastoral, ser ano seguinte volta a Roma e obtém a bula Apostolicae
fórum de diálogo diocesano. O primeiro número sai Sedis (12.4.1116), anexando Lamego ao Porto, bula
em Outubro-Dezembro de 1970, sendo director o que seria revogada (18.6.1116). O bispo de Coimbra,
cónego Dr. Manuel da Silva Martins. Segue-se o có- D. Gonçalo, põe pés ao caminho rumo a Roma e faz
nego Dr. Serafim Sousa Ferreira e Silva, a partir da prolongar a questão. O Concílio de Burgos (18.2.1118)
nomeação do bispo de Setúbal (n.° 35, Novembro- obrigou D. Hugo a renunciar às concessões obtidas.
-Dezembro de 1976). O chefe de redacção é o padre D. Gonçalo concede-lhe apenas a igreja do Olival,
Eloy Almeida Pinho - 1941-1993; a partir do n.° 51 em Gaia (OLIVEIRA - Os territórios, p. 37). D. Hugo
(Julho-Agosto de 1979 - dirige o Boletim D. Domin- não desiste. Em 1120 vai a Cluny onde encontra o
gos de Pinho Brandão (1920-1988). Salta evidente a papa Calisto II e confirma os limites da bula de
riqueza magisterial do bispo D. António e uma nova 1115, com mais clareza de fronteiras: da foz do Ave
percepção das relações Igreja-Mundo. A preocupa- até ao Vizela, Arco do Pombeiro, Anta de Temone
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PORTO

(Vila Meã, Pombeiro, Felgueiras), Montes das Éguas cese, na segunda metade do século xi, eram 10:
(Cabeceiras de Basto), Farinha (Vilar de Ferreiros, Além-Douro (Santa Maria), Maia, Refojos, Aguiar,
Mondim de Basto), Marão; do Marão ao rio Campeã Penafiel, Meinedo, Lousada, Gouveia (região de
até ao Corgo e Douro; a sul: foz do rio Arda, Montes Amarante) Benviver (Marco de Canaveses), Baião,
de Meda e Nabal (entre Escariz e Chave), rio Antuâ Penaguião. Há correspondência entre as terras e os
até ao mar (Censual do cabido, p. 4). Mesmo assim arcediagados. D. Martinho de Pires (1186-1189) vai,
a polémica questão vai prosseguir. Logo a 25 de dada a escassez de rendimentos, suprimir os arce-
Agosto de 1121,o Concílio de Sahagún regressa à diagos, aquando da reorganização do cabido. Os ar-
decisão de Burgos, a favor de Coimbra. Vários docu- cediagados são reduzidos a benefício, sem peso
mentos pontifícios de 1198 e 1245 pretendem que o pastoral e assim entregues: à mesa episcopal (Santa
Porto restitua a Coimbra a terra de Santa Maria, mas Maria, Baião e Penaguião), à mesa capitular (Maia
aparece incorporada no Porto. A questão só será de- e Lousada), ao deado (Aguiar), ao mestre-escolado
finitivamente definida com a Bula provisionis nos- (Gouveia e Bemviver), ao tesourado (Refojos). Mais
trae de 12.9.1253, concedida a D. Julião Fernandes. tarde, alguns viriam a ser restaurados porque os bis-
Em relação a Braga a delimitação de fronteiras vai pos não conseguiam governar bem e assegurar as
ser mais alongada ainda. Nos princípios do sécu- funções cultuais em tanta extensão de território. As-
lo xni o bispo D. Martinho Rodrigues (1191-1235) e sim, em 1398 é criado o arcediagado do Porto e Mei-
os seus sucessores reclamam as igrejas e mosteiros nedo por D. João de Azambuja (Cristelos, Boim,
que começam em Burgães e vão pelo mosteiro de Pias, Ataíde, Castelões, São Mamede e São Marti-
Pombeiro até ao rio Tâmega (Censual do cabido, nho de Recesinhos, Constance e Croça) e vai durar
p. 8). Braga ignora os vários rescritos papais e man- até 1853. As razões apontadas são: falta de assistên-
tém a posse de freguesias que a documentação não cia nas visitações, exame dos clérigos para ordens e
justificava serem suas. Em 1542 (SANTOS - O cen- colação de benefícios (para mais detalhe cf. SANTOS -
sual, p. 29) a linha de demarcação era: rio Corgo e O censual, p. 38-43). Em 1455, D. Luís Pires (1454-
rio Banduge, norte das paróquias de Sever, Fontes, -1465) cria o arcediago de Oliveira do Douro (Mafa-
Sedielos, Teixeira, Loivos do Monte, São Simão de mude, Oliveira do Douro, Avintes, Vilar de Andori-
Gouveia, Jazente, Lomba até ao Covelo. Descia pela nho, Canelas, Lever, Sandim, Arcozelo, Gulpilhares,
margem esquerda do Tâmega até Santa Maria Sobre- Vilar do Paraíso, Valadares, Madalena e Canidelo),
-o-Tâmega e daqui até ao Ave, incluindo Constance, que persiste até 1904. Em 1492, D. João de Azevedo
Castelões, Ataíde, São Mamede de Recesinhos, Mei- criou o da Régua, que devia abranger as freguesias
nedo. Pias, Cristelos, Figueiras, Freamunde, Santa do antigo arcediagado de Penaguião, que prossegue
Eulália, Meixomil, Penamaior, Monte Córdova, São até 1807. Os arcediagos tinham a obrigação de visi-
Miguel do Couto e Santo Tirso. No tempo do car- tar as igrejas, receber as procurações, visitar outras
deal D. Américo, por sentença de 1882, a diocese do igrejas da diocese quando o bispo estivesse impedi-
Porto vai ver os seus limites estabelecidos e adquirir do. A estes deveres estavam anexos determinados
a fisionomia quase actual. Consegue de Braga o que rendimentos. Ao título de arcediagos do século xn,
as bulas medievais determinavam nos concelhos de nas conhecidas listas de igrejas de 1320, 1371 e ain-
Amarante, Felgueiras, Lousada, resto do Marco, de da no século xvi, sucede a designação antiga de ter-
Santo Tirso e Paços de Ferreira. Para sul estendeu o ras. Agora o número passa para nove, com tendência
espaço, obtendo de Lamego o resto do concelho de para agrupamentos: Santa Maria, Maia, Refojos,
Arouca (excepto Alvarenga e Covelo de Paivó), e to- Aguiar (em 1371 chamada Aguiar e Ferreira), Pe-
do o concelho de Castelo de Paiva. Da extinção de nafiel, Meinedo, Gouveia e Benviver, Baião, Pena-
Aveiro recebe Vale de Cambra (excepto Arões e Jun- guião. Estas duas últimas unem-se já em 1371 e
queira), o concelho de Oliveira de Azeméis e de Es- tendem a juntar-se com Gouveia e Benviver, com a
tarreja, a sul do Antuã, e todas as freguesias de designação Além-Tâmega ou Antre Douro e Tâme-
Albergaria-a-Velha. Em compensação deixou para ga. Maia e Refojos unem-se em Maia. Em 1542
Lamego o concelho de Mesão Frio, Régua e Santa (Censual da mitra) a terra é dita Maia e Gondomar.
Marta de Penaguião, depois integrados em Vila Real Penafiel, nas constituições de 1585, inclui as anti-
(1922). Em 1882 a diocese ficou com 464 paróquias gas terras de Aguiar e Meinedo. O único desdobra-
e 605 021 pessoas, segundo a sentença do cardeal mento é de Santa Maria (chamada Feira a partir do
D. Américo (MARQUES - Poder, p. 61). Aquando da século xvi), pela criação de Além-Douro (Gaia).
restauração da diocese de Aveiro, em 1938, foram A divisão das terras em julgados administrativos
retiradas as freguesias dos concelhos de Beduído, conduz a igual parcelamento eclesiástico. A extin-
Avanca, Albergaria-a-Velha, Estarreja e Murtosa. ção ou alteração de nome de algumas freguesias foi
3.2. Evolução das circunscrições administrativas: estudada por Cândido Santos (O censual, p. 53-57).
A divisão do bispado em circunscrições administra- A distribuição de paróquias por comarcas é desde o
tivas teve uma evolução de tipo e nomenclatura que final do século xvi a seguinte: Feira (84): 34 reito-
acompanhou os movimentos pastorais europeus. Já rias e as outras anexas ou com vigários, mas 14
falámos das paróquias suévicas. Na Baixa Idade Mé- com livre colação do bispo; Maia (67): 25 reitorias,
dia (a partir do século xi) a divisão usual para facili- 20 com vigários filiais e anexas, mas nove apresen-
tar o governo era em arcediagados. O arcediago re- tadas pelo bispo; Penafiel (103): 48 com reitor, 25
presentava o bispo com jurisdição delegada e foi com vigários e restantes anexas, sendo 16 de livre
conquistando autoridade, chegando a causar rivalida- provisão episcopal; Ribatâmega (68): 44 reitorias,
de ao bispo. No Porto, desde a reorganização da dio- seis com vigários perpétuos e oito à livre colação
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PORTO

do bispo. Do rei e outros seculares eram ainda 19. cimento urbano vai obrigando à criação de novas
Em 1620 e 1629 são 320 as paróquias de visitação paróquias: Bonfim (1841), Senhora da Hora (1918),
ordinária do bispo e mais 20 de outros patronos. Senhora da Conceição (1927.5.1), Santíssimo Sacra-
O total de habitantes é de 103 628. Quanto ao Por- mento (1927.8.31), Pedrouços (1928.6.20), Antas
to, sofrerá a divisão da cidade, operada em 1583, (1938), Carvalhido (1941.1.1), Baguim (1964.6.6) -
em várias freguesias: Sé, São Nicolau, Vitória, São Lúmen. 28 (1964) 625-626-, Senhora do Porto
João Baptista de Belmonte (1583-1592). Posterior- (1967.3.23) - Lúmen. 31 (1967) 313 -, São Pedro de
mente, o Porto inclui Miragaia e Santo Ildefonso. Azevedo, Senhora da Ajuda (1973.1.28), Senhora do
Só em 1789 integrou Cedofeita e Massarelos (ex- Calvário, Cristo Rei (1979), Nossa Senhora da Areosa
tinta religiosamente no século xx). Em 1831-1834 (1979), Ameal (1980). Também fora da cidade foram
criou-se o Bonfim, desmembrado da Sé e de Santo criadas: Lomba (Gondomar), Fomelos (Penaguião)
Ildefonso. Em 1836, Campanhã, Lordelo do Ouro e (1660) e Godim (Régua) no século xvi; Moldes, Re-
Foz do Douro. Paranhos passa, em 1837, a ser con- carei (1855-1856), Sebolido, Espinho (1889); e já no
siderado termo. Em 1895, a comarca do Porto recebe século xx: Torreira (1926), Olo (1936), Ribadouro
Nevogilde, Ramalde e Aldoar. Esta forma de subdi- (1936-1939), Afurada (1952), Araújo, Padrão da Lé-
visão do bispado perdurará até 1840 - cf. Plano de gua (1964.2.1) - Lúmen. 28 (1964) 268-269 São
divisão e arredondamentos das parochias da cidade João de Ovar (1967.1.13) - Lúmen. 31 (1967) 146 -,
do Porto, conforme o decreto de 18 de Dezembro de Candal, Furadouro e Santo Ovídio, Cristo Rei de Ver-
1841. O Tripeiro. 3 (1910) 303, 308, 332, 346. As gada, Corim, Coimbrões - cf. Igreja Portucalense. 2
comarcas são, então, subdivididas em distritos (cha- (1971) 46 - e Fontiscos (1980). 3.3. Cabido e cole-
mados depois «vigariarias da vara»). A Feira divide- giadas: Como instrumentos fundamentais para conhe-
-se em quatro, a Maia em três, Penafiel em cinco, cer o cabido e a sua história contamos com o Censual
Sobretâmega em três e o Porto forma um distrito. do cabido da Sé do Porto, que é um códice gótico
Com a integração das novas paróquias em 1882, as apógrafo do século xiv ou xv, coligido pelo padre
provenientes de Braga formam a comarca de Ama- João da Guarda, raçoeiro do cabido, impresso em
rante, com quatro distritos, e as de Aveiro e Lamego 1924. O Inventário do cartório do cabido da Sé do
formam a comarca de Arouca, igualmente com qua- Porto e dos cartórios anexos e o índice roteiro dos
tro distritos. O Porto deixa Penaguião para Lamego chamados livros originais do cartório do cabido da
e o respectivo distrito de Sobretâmega é completado Sé do Porto, organizados por José Gaspar de Almeida
com as freguesias vindas de Braga. De facto, a bula (Porto, 1935-1936), são preciosos auxílios para as
de Leão XIII, Gravissimum Christi Ecclesiam, de 30 muitas investigações a realizar no Arquivo Distrital
de Setembro de 1881, marca o número de paróquias do Porto, para onde foi o Arquivo do Cabido do Por-
e os limites das dioceses, devido à supressão pressio- to. Ferreira Pinto, na sua obra de conjunto, O cabido
nada pelo governo. O cardeal D. Américo, executor da Sé do Porto, permite um conhecimento circunstan-
da bula, tem a vantagem de beneficiar das freguesias ciado da instituição portucalense. Cândido dos Santos
a sul do rio Ave para a diocese portucalense, o que estudaria mais tarde a coraria. O cabido portucalense
não foi pacífico com D. João Crisóstomo de Amorim foi criado por D. Hugo (1114-1136), restaurador da
Pessoa. O Porto recebeu o que reinvindicava desde diocese. Em 1130 já há uma doação que refere o cabi-
D. Hugo: 31 paróquias do concelho de Amarante, to- do, a viver junto do bispo numa espécie de mosteiro.
do o concelho de Felgueiras (33), 17 de Lousada, Assim permaneceu até ao pontificado de D. Martinho
quatro do Marco de Canaveses, oito de Santo Tirso e Pires (1186-1189). Vindo de Braga, onde era deão,
sete de Paços de Ferreira. D. António Barroso, em organiza o cabido do Porto de modo semelhante ao
Setembro de 1916, depois de um Projecto para a seu. Criou quatro dignidades: deão, chantre, mestre-
nova organização dos distritos eclesiásticos - BDP. -escola e tesoureiro. Repartiu com os cónegos os ren-
2 (1915-1916) 443-448 - decide subdividir a diocese dimentos e proventos correspondentes a uma terça
em vigararias - BDP. 3 (1916-1917) 119-124. A área parte, ficando o bispo com duas partes e o encargo da
territorial corresponde, na maioria dos casos, à dos despesa da sé. O sucessor, porém, D. Martinho Rodri-
concelhos: Albergaria-a-Velha, Amarante (2), Arou- gues, tesoureiro do Porto, prefere voltar atrás e não
ca, Baião, Feira (3), Castelo de Paiva, Estarreja, Fel- partilhar os bens, mas apenas alimentação e vestuário.
gueiras (3), Gaia (2), Gondomar, Lousada (2), Santo Após apelo ao arcebispo a separação de bens foi san-
Tirso (3), Valongo, Vila do Conde (2), Livração, cionada. Abandonou-se a vida em comum e conser-
Macieira de Cambra, Maia, Marco (2), Matosinhos, vou-se apenas a recitação do ofício, a partir do ano
Oliveira de Azeméis, Ovar, Paços de Ferreira, Pare- 1200. D. Martinho Pires pôs fim também aos arcedia-
des (2), Penafiel (2). As paróquias eram 473 e o bispo gados, que eram 10, conforme referido. Seriam cria-
pretendia «facilitar a comunicação dos párocos com dos mais três. O arcediagado do Porto, em 30 de Mar-
os respectivos vigários e tomar mais fáceis as pales- ço de 1398, por Gil da Alma, anexando-lhe as rendas
tras mensais». Em 1935 - BDP. 21 (1935) 24-30 - há da Igreja de Santo Tirso de Meinedo, menos 100 ma-
pequenas alterações na distribuição das freguesias. ravedis anuais, que recebia a mitra. O arcediagado de
Em 1962 opera-se remodelação das vigariarias de Oliveira do Douro foi instituído por D. Luís Pires a 9
Lousada e Felgueiras - Lúmen. 26 (1962) 389. Em de Setembro de 1455. Anexou-lhe as rendas de Oli-
1967, a cidade do Porto foi dividida em cinco vigaria- veira do Douro (Gaia) e confiou-lhe a visita às igrejas
rias - Lúmen. 31(1967) 932 - e criaram-se várias pa- e mosteiros do julgado de Gaia. O cabido passa assim
róquias experimentais - Senhora do Calvário (1966) e a ter seis dignidades. Finalmente veio o arcediagado
Senhora da Ajuda (1967). No século xix-xx, o cres- da Régua. E instituído em 1492 por D.João de
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PORTO

Azevedo, no cabido da catedral, dedicando-lhe me- das de modo semelhante às corporações capitulares
tade das rendas da Igreja de São Faustino, da mesa eram as colegiadas, que não têm merecido estudos
pontifical. Ao cabido uniu as igrejas de Azurara e aprofundados. A colegiada de Cedofeita, de funda-
de Arvore. A confirmação por bula papal data de 21 ção medieval, ao menos do século XIII (1221), teve
de Janeiro de 1493. No final de 1541, D. Baltasar grande projecção até ser extinta em 1869 (cf. LACER-
Limpo criou mais uma dignidade ao cabido: arci- DA, F. Correia de; LEÃO, M. Barbosa - História da
preste. Tinha a obrigação de quando o bispo não insigne collegiada de S. Martinho de Cedofeita. Por-
benzesse os óleos na Quinta-Feira Santa os trazer to, 1871). A colegiada de Soalhães, com estatutos de
doutro bispado à sua custa. Além das dignidades, fo- 4 de Março de 1307, registados no Censual, a pedido
ram criados nos cabidos dois lugares ou conezias de D. João Martins de Soalhães, é anexa Mesquinha-
doutorais e magistrais, para doutores ou licenciados ta. Os raçoeiros ou beneficiados deviam ser escolhi-
da Universidade de Coimbra, por apresentação régia. dos entre os clérigos da freguesia, se houvesse gente
Os doutorais eram consultores jurídicos do cabido e idónea. O reitor ou abade será da linhagem do bispo
os magistrais conselheiros morais. A divisão de pre- D. João. A Igreja do Porto cedia o censo anual de
bendas com mais dois titulares e o orgulho intelec- cem maravedis a favor da colegiada. 3.4. Governo
tual dos cónegos reagiu a esta determinação. Desde central: As estruturas de administração de uma dio-
1568 que o Porto teve doutoral, sendo o último o no- cese correspondem ao modo de entender a Igreja. Há
tável fundador da diplomática, João Pedro Ribeiro um estilo gregoriano que se aplicou nos alvores da
(1820-1839). O primeiro magistral foi provido em nacionalidade. Veio a seguir o modelo tridentino que
1570 e o último, de 1857-1888, foi apenas honorá- se manteve até ao Código de Direito Canónico de
rio. O título de deão terminou com Teófilo Salomão 1917 e só seria definitivamente alterado pela pers-
Coelho Vieira de Seabra (1850-1935). O cabido foi pectiva traçada no II Concílio do Vaticano. Estas fa-
regido por estatutos. O Censual refere-se a este regu- ses essenciais tiveram, algumas vezes, de cruzar-se
lamento, mas o texto primitivo não chegou até nós. com as alterações do regime político, quando este
Pelas notícias concluímos que D.Vicente em 1294 obrigava a mudanças necessárias para as relações
regulamentou vários assuntos. No tempo de D. João entre Igreja e Estado. Não existe grande diferença de
de Azevedo (1465-1495) houve também estatutos diocese para diocese no esquema central do governo.
capitulares. Foram confirmados pelo papa em 1472: Documento de notável importância para identificar a
«as dignidades deviam ter cursos ou graus, literatura estrutura económica da diocese é o recentemente des-
ou artes, e quando faltassem... fossem pessoas no- coberto Censual da mitra (1542). É um cartulário que
bres. Para os simples canonicatos ou meios canoni- descreve os nomes e a extensão das propriedades, a
catos, deviam, ao menos, ler e entender gramática la- largueza e a natureza dos fundos que a compõem,
tina» (cf. PINTO - O cabido, p. 17). Os primeiros a cultura, os produtos, a condição e administração
estatutos, com texto conhecido, são de Jerónimo de das terras (SANTOS - O censual, p. 10). Permite co-
Meneses e datam de 1596. Constam de 96 capítulos, nhecer o estado da diocese nos meados do sécu-
com toda a minúcia exigida. Além das dignidades, o lo xvi, quanto à vida económica e quanto à organi-
cabido era constituído por 12 cónegos, cinco meios- zação paroquial. Ao indicar os foros, as rendas, as
-cónegos, 10 bacharéis e quatro meios-bacharéis. pensões e os censos toma o nome de censual, mas
Este pessoal manteve-se, no século xvii, no tempo de quase se aproxima de um inventário plenário. Era
Rodrigo da Cunha e de Rebelo da Costa, no sécu- essa a intenção de Baltasar Limpo, no desejo de
lo xviii. Na reforma da capela-mor da catedral, ope- cumprir o estipulado e prometido nas constituições
rada por D. Gonçalo de Morais (1603-1617) ficaram sinodais, publicadas em 1541. A partir de Trento são
cadeiras adequadas: 24 para dignidades e cónegos e as constituições sinodais (1595-1687) o meio adap-
20 para bacharéis e meios-bacharéis. Os estatutos, tado para conhecermos a estrutura governativa da
no entanto, mantiveram-se com alguns aditamentos. diocese. Recentemente, são os almanaques os anuá-
Logo D. Gonçalo de Morais acrescentou pormenores rios os instrumentos auxiliares para estudar a evolu-
relativos ao enterramento do prelado, capitulares e ção administrativa (cf ALMANACH Ecclesiastico, 1857;
beneficiados da sé, bem como sobre o cerimonial, ANNUARIÓ). Após o concílio do século xx desaparece-
estipulado por Clemente VIII. Em 1851 seria publi- ram os examinadores sinodais, que ainda eram no-
cado regulamento sobre a coraria. Outros pequenos meados em 1968. A Comissão de Indultos Pontifícios
detalhes iam sendo explicados. Após a instauração ou o Cartório da Bula da Cruzada já não aparecem
da República foi necessário proceder à mudança dos no Anuário de 1968. Os revisores e censores de im-
Estatutos. Em 8 de Dezembro de 1930, 40 artigos fo- prensa não são mencionados a partir de 1968. Vários
ram aprovados por D. António Augusto de Castro organismos de perspectiva conciliar surgem: Comis-
Meireles. Mantêm-se, ainda, as dignidades: deão, são Justiça e Paz (1970), Gabinete de Opinião Pública
chantre, tesoureiro-mor, arcediago e arcipreste. Um (1970), Comissão Ecuménica do Porto (1971), Co-
cónego deve ser escolhido teologal e outro peniten- missão de Infra-estruturas Pastorais (1971). A respon-
ciário. De facto, pouco depois, as dignidades caíram sabilidade pastoral da diocese foi, com a presença de
em desuso. Após o II Concílio do Vaticano proce- vários bispos auxiliares, partilhada por uma espécie
deu-se a nova revisão dos estatutos para os confor- de conselho superior directivo que estuda e decide
mar ao novo Código de Direito Canónico de 1983. os assuntos principais em reuniões de trabalho e
Foram aprovados por um período de cinco anos, em na troca de perspectivas própria de quem convive
23 de Setembro de 1986, por D. Júlio Tavares Re- na mesma casa episcopal. A este Conselho Episco-
bimbas. Contudo, ainda hoje se mantêm. Organiza- pal uniu-se um órgão de informação e colaboração

3I
PORTO

com o bispo, não previsto no concílio. D. António cia o ministério da palavra pela irradiação da prega-
Ferreira Gomes chamou-lhe Junta de Coordenação ção. Em 1496, o sínodo refere, na constituição 30,
Pastoral, que integrava os vigários episcopais, insti- que os párocos (abades e capelães) ficam obrigados
tuídos por decreto de 23.10.1969 (clero, educação desde o Natal até à Páscoa, todos os domingos, a en-
cristã, apostolado dos leigos, religiosas), delegados sinar «em modo que os seus possam aprender per
episcopais (instituídos a 1 de Fevereiro de 1975) linguagem os preceptos e mandamentos e peccados
presentes nas várias regiões pastorais, inicialmente mortaaes». Da Páscoa até 15 de Agosto ensinem o
três, depois cinco e finalmente sete: Porto-Cidade, pai-nosso e ave-maria e os artigos de fé e obras de
Porto-Aro Norte, Porto-Aro Sul, Norte, Nordeste, misericórdia. Da Santa Maria de Agosto até ao Natal
Sobretâmega, Sul), secretário-geral, tesoureiro-geral ensinem os sacramentos e os cinco sentidos e virtu-
da diocese e pelo director do Secretariado Diocesano des teologais e cardeais (SOUSA - Constituições,
de Pastoral. A estruturação pastoral foi decretada em p. 68). A determinação decorre da informação reco-
12 de Julho de 1979, dividindo a diocese nas sete lhida por visitadores, segundo os quais muitos fre-
regiões pastorais, estabelecendo funções aos dele- gueses não sabem o pai-nosso nem ave-maria, nem
gados episcopais e aos arciprestes ou vigários da nada mais. Mais adiante diz que os clérigos precisam
vara - Igreja Portucalense. 51 (1979) 3-12. Pelos de ter textos escritos para apoio deste trabalho. Pro-
anos 19701971 iniciaram-se as consultas em ordem mete mandar fazer um «Sumário breve» destas ins-
a ser criado um Conselho de Leigos. Era caminho truções (c. 36, Ibidem, p. 72-73), o que vem publica-
pedagógico positivo para educar os leigos no espíri- do como apêndice das constituições. Posteriormente
to de corresponsabilidade, de forma institucional. usaram-se na diocese certamente as cartilhas ou car-
Após vários projectos foram aprovados os estatutos tinhas (v. CATEQUESE), O Catecismo Pequeno, de
em 29.6.1974. O funcionamento inicialmente tími- D. Diogo Ortiz de Vilhegas (1504), o Compendio da
do foi experiência prometedora, capaz de superar a doctrina christã (1559), de Luís de Granada, ou Ca-
lacuna do exercício da comparticipação além da pa- tecismo de doutrina cristã (1564), de Bartolomeu
róquia e encaminhar para o nível regional ou dioce- dos Mártires, com 14 edições até 1785. A Doutrina
sano. O Conselho Pastoral viria a ser criado por cristã do jesuíta Marcos Jorge (1566) teve edições
D. Júlio Tavares Rebimbas, pondo fim ao Conselho até ao século xix e era conhecida como «Cartilha do
de Leigos. O Conselho Presbiteral, iniciado por padre mestre Inácio», devido aos acrescentos feitos
D. Florentino, só adquiriu eficiência, representativi- pelo padre Inácio Martins (1527-1571). Outros cate-
dade e credibilidade nos triénios 1970-1973 e 1974- cismos foram saindo a lume. Alguns conservam-se
-1977, com estatutos elaborados por uma comissão na biblioteca do Seminário do Porto: Cathecismo
eleita e aprovados e promulgados - Igreja Portuca- Romano e praticas da doutrina cristãa, ordenado
lense. 5 (1971). Apesar da boa vontade, não se con- por João Eusébio Nieremberg. Lisboa: Domingos
seguiu uma participação autêntica do clero e uma Carneiro, 1678; Escola da doutrina christã em que
comunhão verdadeira do presbitério com o conse- se ensina o que he obrigado a saber o christam, or-
lho. A «crise do clero» e as expectativas de uma de- denado por João da Fonseca. Évora: Off. da Cidade,
mocracia total terão motivado o desinteresse. Foi 1688. O marquês de Pombal imporia o Catecismo de
por isso suspenso o funcionamento e convocada Montpellier, traduzido em 1765 e com tendências
uma assembleia diocesana de padres e leigos, na jansenistas e regalistas. Esta obra (Instrucçoens ge-
procura de um estímulo recíproco. Reuniu a 25 de raes em forma de catecismo, de Carlos Joaquim Col-
Abril de 1980, com 720 membros. Houve notável bert, bispo de Montpellier. Porto, 1769, impressa a
participação e criatividade. Aí se deram a conhecer pedido do arcebispo de Évora, com sucessivas edi-
o directório pastoral e a Lei-Quadro do Conselho ções e Catecismos de Montpellier o resumo para os
Paroquial de Pastoral. Com as achegas recebidas meninos das escolas. Porto: Off. de A. A. Ribeiro,
procedeu-se a nova redacção e foram aprovados os 1789) é vendida no Porto por António Álvares Ri-
documentos. Tem sido lenta a aplicação deste órgão beiro Guimarães - cf. LEÃO, M. - Livros, livreiros
de corresponsabilidade de âmbito paroquial. Além e impressores portuenses do séc. xvm. Humanística
da cúria episcopal e do tribunal eclesiástico, o go- e Teologia. 20 (1999) 110. Foram editados no Porto,
verno central da diocese é constituído por secreta- ao longo do século xvm: Católica instrução e com-
riados, coordenados pelo Secretariado Diocesano pendio breve do que para se salvar está obrigado
de Pastoral e por comissões, como a de infra-estru- saber, crer e cobrar todo o cristão. Porto: Álvares
turas, que foi criada por D. António Ferreira Go- Ribeiro, 1792; Exercido cristão e compendio da san-
mes. 4. Cultura e evangelização. 4.1. Catequese: ta doutrina pelos padres da Congregação da Missão
A transmissão do testemunho da fé fez-se essencial- de Lisboa. Porto: Álvares Ribeiro, 1788; 1798; Com-
mente de modo oral e foi recebida pela escuta da pendio da doutrina cristã para uso dos meninos. Por-
pregação da parte do povo crente. Apesar da icono- to: Álvares Ribeiro, 1801. É no século xx que se de-
grafia religiosa ser um serviço à evangelização, pelo senvolve e implanta um sistema catequético no tecido
alimentar do olhar que eleva o espírito e recorda pas- completo da diocese. D. António Barroso, dando se-
sagens bíblicas, capazes de manter vivas as verdades guimento à encíclica de Pio X (15.4.1905), criou ime-
da fé e guiar para atitudes verdadeiras, só com a in- diatamente, pela pastoral de 20 de Outubro de 1905, a
venção da imprensa se desdobrou a utilização da Congregação da Doutrina Cristã. Na fase após a Re-
imagem aliada ao texto. Era sobretudo pela pregação pública assinala-se a Obra de São Francisco de Sales,
que passava a transmissão do saber e da moral evan- presidida pelo cónego Joaquim Luís de Assunção
gélica. As ordens mendicantes realizaram com eficá- (Matosinhos), com sensibilidade catequética que o

32
PORTO

indica para tratar da organização da catequese na desdobrando os seus serviços, sendo particularmen-
diocese. Agregam-se os párocos da Sé, Ramalde e te relevante o papel na formação de catequistas. Pa-
Bonfim, Dr. Aires Borges e Dr. António Ferreira ra atender à diversidade etária dos formandos criou
Pinto. Cada freguesia devia criar a associação cha- a divisão entre catequese de infância, catequese da
mada Congregação da Doutrina Cristã, que incluiria adolescência, catequese da juventude. A revista
leigos e garantiria a catequese. Em 30 de Novembro Mensagem (Outubro de 1956) é um instrumento for-
de 1906 dá estatutos à congregação com a presidên- mativo pelo qual se pode estudar a evolução da pe-
cia do cónego Assunção e os seguintes membros: dagogia religiosa na diocese. Apesar da criação do
Dr. João Manuel Correia, Dr. Joaquim José de Oli- Secretariado de Pastoral da Juventude, que também
veira e Cunha, Dr. Aires Gonçalves de Oliveira Bor- se preocupa com a catequese dos jovens, a atribuição
ges, Dr. Fernando Urcullu Ribeiro Vieira de Castro, de uma formação global, desde os sete anos até
padre João de Brito Gouveia e padre Manuel Pereira à preparação para o sacramento do Crisma, conduz à
Lopes, secretário. Recomenda para o ensino a leitura elaboração de catecismos necessários para 10 anos
das Explicações do Catecismo de Astete, o Sumário de catequese. Só na fase posterior ao Crisma é que
da doutrina Cristã (3. ed.) e o Catecismo da doutri-
a entraria a coordenação de vários agentes intervenien-
na cristã, da Obra de São Francisco de Sales. O te- tes na pastoral juvenil. Teve excelente acolhimento a
ma da carta quaresmal de 1909 é a instrução paro- proposta catequética publicada por D. Manuel Pelino
quial. Barbosa Leão prossegue a 1 de Julho de 1921, Domingues e António dos Santos Marto. Um secre-
recomendando normas precisas para implementar esta tariado diocesano do ensino religioso nas escolas
instituição. D. António de Castro Meireles (10.6.1939), providencia à coordenação e formação permanente
em ordem a concretizar a organização do ensino reli- do conjunto de professores de Religião e Moral, ca-
gioso da Congregação do Concílio, preconizado em da vez mais constituído por leigos, formados em
circular de 12 de Janeiro de 1935, manda estabelecer Ciências Religiosas ou em Teologia, na Faculdade
em todas as paróquias a Associação de Doutrina do Centro Regional do Porto. A catequese de adultos
Cristã, regulada por novos estatutos. Institui o Con- corresponde a diocese não com um serviço organi-
selho Central Diocesano para coordenar todo o mo- zado, mas impulsionando iniciativas paroquiais, ca-
vimento catequético e cooperar com os párocos na pazes de corresponder à necessidade de formação
difusão e intensificação do ensino da doutrina cristã. permanente e de encontrar formas de a realizar: a
Competia-lhe velar pelo funcionamento regular dos experiência pioneira da Comunidade da Serra do
centros e fomentar em todos o interesse pela educa- Pilar, orientada pelo padre Arlindo Magalhães Ri-
ção religiosa do povo, promover cursos de religião beiro da Cunha, as comunidades neocatecumenais,
na cidade, unificar as informações relativas ao ensi- a atenção de vários movimentos à pedagogia da fé,
no religioso. Nomeia para vice-presidente o cónego os cursos de preparação para os sacramentos, as se-
Dr. António Joaquim Pereira, que faleceria a 8 de Ju- manais instruções ao povo de Deus, iniciadas na
lho de 1939 - c f . Lúmen. 3 (1939) 505-508. Admite paróquia Senhora da Conceição, 1994. A criação do
que leigos possam fazer parte do conselho. D. Agos- Centro Catecumenal do Porto, realizada pelas paró-
tinho de Jesus e Sousa, consciente da necessidade de quias da cidade, em 1995, tem sido uma escola para
reorganizar a catequese diocesana, promoveu o Con- os não baptizados adultos se prepararem para assu-
gresso Catequético da Diocese do Porto (27-30 de mir o cristianismo de modo amadurecido. Cabe a
Abril de 1950), presidido por Manuel Pereira Lopes orientação ao inovador padre Leonel Oliveira, com
e António Almeida Gonçalves de Azevedo. Além do a colaboração de uma equipa. 4.2. Centros de cultu-
programa cultural e litúrgico, que mobilizou os colé- ra religiosa. Escolas católicas e seminários: A pre-
gios portuenses, e do certame interparoquial, houve paração do clero para o sacramento da Ordem e o
sessões de estudo com comunicações de: J. Soares exercício do ministério teve, antes de Trento, diver-
da Rocha, Agostinho Alves da Cunha, J. Alves das sas soluções, mas são poucas as notícias que nos
Neves, Domingos de Pinho Brandão, Martins Fer- chegaram. O III Concílio de Latrão (1179) tinha
nandes, Heitor Calobi, José Lobato de Sousa Júnior, obrigado à existência activa do mestre-escola nas
Armando Pereira, Zacarias de Oliveira, entre outros. catedrais, o que aparece documentado no Porto em
A clausura teve a presença do cardeal Cerejeira e 1186. Mas em 1215, o IV Concílio de Latrão alargou
ouviram-se Helena Vital, Carlos da Fonseca e Dia- estas providências às colegiadas e aumentou nas sés
mantino Gomes. Como conclusão deste congresso a obrigação de mais um professor teólogo destinado
resultou a instituição do Secretariado Diocesano de a preparar o clero para o ministério paroquial. Vários
Catequese, criação de salões paroquiais e a forma- bispos do Porto legaram livros nos testamentos. Fa-
ção de catequistas (cf. Actas. Porto, [s.d.]). D. Flo- ziam parte das livrarias episcopais, com obras teo-
rentino, de Roma, onde participa na terceira sessão lógicas e filosóficas, de direito civil e canónico:
conciliar, escreve uma provisão sobre o ensino reli- D. Fernando Martins, D. Pedro Salvadores, D. Julião
gioso na escola primária (9.10.1965). Trata-se de Fernandes, D. Vicente Mendes, S. Sancho Pires,
incentivar o serviço pastoral aberto por portaria do D. Vasco Martins, D. João de Azevedo, D. Diogo de
ministro da Educação que estabelece as bases de Sousa. Revelam a presença da cultura cristã na cida-
aplicação do artigo 21 da Concordata ao sector pri- de. Desde 1330 que os franciscanos do Porto ensina-
mário. O bispo pede o empenhamento de todos os vam Teologia e Filosofia. Seguiam António de Lis-
agentes pastorais para organizar eficazmente este boa (Teologia Mística), Pedro Hispano (Lógica),
dever de evangelização -Lúmen. 29 (1965) 845- Álvaro Pais e Frei Álvaro Cosme (Ética) (cf. B R A N -
-847. O Secretariado Diocesano de Catequese foi DÃO - Teologia). Em 1401 estava no Porto o domini-

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PORTO

cano Frei Vasco Gil, mestre em Teologia, que estu- Gulpilhares, Inácio Bernardino de Sousa Sarmento,
dara no estrangeiro por 12 anos e dispendera grandes fixa pensão de 100 000 réis. Mas nem o sucessor
somas. Natural do Porto, pediu ajuda à câmara para conseguiu meios. Só D. António de São José e Cas-
pagar 10 francos que ainda devia. Foi aceite (3500 tro, depois de solicitar autorização régia (alvará de
libras). Em 1394, o prior do convento do Porto, Frei 21.4.1801) e pontifícia (bula de 5.4.1803), publicou
Vasco do Vale pediu igual subsídio para um Frei Pe- a provisão de 21 de Julho de 1804, fundando o Se-
dro, mestre em Filosofia, para continuar os estudos minário de Santo António, construção que iniciou
em Oxónia. Outros nomes franciscanos se podem na Quinta do Prado, lugar das Fontainhas. Não po-
acrescentar: Frei João de Xira, bacharel e depois de concluir a grandiosa obra em virtude das Invasões
mestre em Teologia, era natural do Porto e Doutor Francesas. E já como patriarca eleito que assina os
pela Universidade de Lisboa; Frei João Pais, confes- estatutos do seminário (4.1.1812). Nesse ano teve
sor de Santa Isabel, Frei João Esteves, mestre em início a leccionação (1811 -1812). No alvará de 1805
Teologia no convento do Porto (1357) e Frei Rodri- determinava-se que o curso teológico fosse de três
go do Porto, professor teólogo. Também os Cónegos anos (Escritura, Dogma, Moral Evangélica, História
Regrantes de Grijó e Moreira tinham as suas escolas. e Disciplina Geral e Particular da Igreja), acompa-
Estes incipientes estudos entraram em decadência nhados de prática de catecismo, administração dos
nos séculos xv e xvi até se conseguir a criação de sacramentos, ritos e cerimónias. O ano lectivo ia de
instituições próprias como serão os seminários, Outubro a Maio. Com a entrada das tropas de D. Pe-
criados pelo Concílio de Trento. Apesar de tudo, no dro no Porto, a 9.7.1832, acaba a experiência do se-
século xvii houve leitores de Artes no mosteiro de minário. Houve incêndio e a casa esteve abandona-
Santo Tirso e Pombeiro. Frei José da Cruz, natural da, apesar das tentativas do bispo D. Fonseca Moniz
do Porto, mais tarde abade de Travanca, seria mes- para recuperar o imóvel, em 1856. O Colégio dos
tre de Artes em 1687. Conservam-se as apostilhas Órfãos lá se instalaria em Setembro de 1903. A for-
ditadas, na Biblioteca Pública de Braga (códice 443). mação teológica, de 1832-1862, era dada por alguns
Sucedeu-lhe Frei António de São Miguel, natural de padres, de forma particular. Citemos o caso de Antó-
Azurara, lente em 1690. Parece ter-lhe sucedido Frei nio Caetano Osório Gondim, Francisco da Piedade
Manuel Lobo, natural de Vila Real. Em 1700, Frei Silveira, António Teixeira, que chegam a ter 40 alu-
António de São Bento, natural de Braga, cursou Ar- nos, ensinando Latim, Filosofia e Grego (cf., para
tes em Santo Tirso e acabou lente em Coimbra. Tam- mais dados e nomes, PINTO - Memória, p. 43). A par-
bém foram alunos de Manuel Lobo Paulo de Assun- tir de 1836 providencia o Estado em garantir nos li-
ção, de Arrifana de Sousa e Manuel dos Serafins, de ceus uma classe de estudos eclesiásticos. Constará
Fonte Arcada, ambos futuros gerais beneditinos. de duas cadeiras. Só em 1840 abriram, provisoria-
O plano de estudos de 1774 deu novo impulso ao en- mente no Porto, as cadeiras de Dogmática e Moral.
sino até à reforma definitiva do plano e regulamen- A proposta episcopal de nomes foi acolhida: Antó-
tos dos estudos, publicados em 1789. As aulas se- nio Roberto Jorge e Baltasar Veloso de Sequeira. As
riam em português e com compêndio. A formação aulas funcionavam no paço episcopal. Desde 1841 a
do clero promovida com determinação pelo concílio 1860, o padre Roberto Jorge teve 1079 inscritos e,
tridentino teve eco brilhante no Concílio Provincial até 1876, um total de 1333 (BRANDÃO - Camilo,
de Braga, em 1566. Duarte Cunha, deão da Sé do p. 18). Publicou a obra Compendium theologicae
Porto, foi procurador do cabido e do clero. Aí pediu dogmaticae. Portucale: Typ. A. Moldes, 1859. Tra-
dispensa da diocese não avançar já com o seminário. duziu do italiano: MARTINI, Antonio - Espirito da Bí-
O pedido foi indiferido e o Porto comprometeu-se a blia ou moral universal christã tirada do Antigo e
abrir o seminário para 30 alunos. Mas, contra a von- Novo Testamento. Porto: A. Moldes, 1848; fez publi-
tade do clero, nada se fez. Como se verifica pelas car o estudo do bispo do Rio de Janeiro, Manuel do
Constituições de 1687, o que se exigia para o sacra- Monte Rodrigues de Araújo (Compêndio de theolo-
mento da Ordem era conhecimento da doutrina cristã, giae moral. Porto: Typ. Commercial, 1853). A admis-
latim, moral, reza e canto. O provisor, vigário-geral são à Ordem não ficou restrita aos frequentadores
e outras pessoas peritas e religiosas faziam o exame. destas cadeiras. Bastavam simples atestados passa-
Os ordinandos não faziam curso regular. A não ser dos pelos párocos da freguesia que preparavam can-
Coimbra, com Teologia e Cânones, nada mais apare- didatos. Em 1845 estabeleceu-se um curso trienal e
ce referido nos processos. No século XVII a instrução um programa (mínimo 8 cadeiras). Não teve efeito
e os exames eram feitos perante os priores das or- no Porto. Em 1859 o governo destinou canonicatos a
dens religiosas, jesuítas e lóios. Os Oratorianos, a eclesiásticos capazes de ensinar teologia. A 26 de
partir de 1683, também asseguram a formação filo- Maio de 1860, uma portaria é dirigida ao vigário ca-
sófico-teológica. No século xvm a predominância pitular do Porto, insistindo na organização do semi-
vai para os conventos de São Domingos e São Fran- nário. A insistência produziu efeito e no ano lectivo
cisco. No princípio do século xix, os exames eram de 1861-1862 haveria quatro professores para o cur-
feitos perante o bispo D. António de São José de so trienal. Agora sim, a instituição ganha estabilida-
Castro (cf. CRUZ - O ensino). Chegou finalmente a de e instalações definitivas. Frei Manuel de Santa
hora do Seminário Maior do Porto. D. João Rafael Inês tinha conseguido que o seu antigo convento de
de Mendonça deu passos para se conseguirem meios São Lourenço não fosse arrematado e fosse conce-
financeiros. A 6 de Maio de 1783 impõe ao padre dido em troca do seminário destruído. D. Pedro
Francisco de Sales Pinto, de São Salvador de Lor- atende-o, a 2 de Abril de 1834. A primeira obra de
delo, uma pensão para o seminário. Ao abade de reparação fez-se só a partir de 1853. D.Jerónimo
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PORTO

da Costa Rebelo, com o fundo da Bula da Cruzada, ção de textos conduzia à publicação, suscitando as-
iniciou obras de reedifícação. D. António Fonseca sim o aumento de qualidade do ensino e a produção
Moniz chegou a adquirir dois prédios (2 200 000 teológica (cf. PINTO - Actividade, p. 89-93). Nos últi-
réis) no Largo do Açougue (hoje Largo Dr. Pedro mos 50 anos o seminário maior teve profundas re-
Vitorino) para demolir e aí edificar o seminário. modelações já abordadas nas sugestivas perspectivas
O engenheiro Miguel Maciel traçou a planta, apro- de Raimundo de Castro Meireles - Seminário Maior
vada em 21 de Abril de 1859. Mas a morte do bispo do Porto nos últimos cinquenta anos. Atrium. 25-26
interrompeu o projecto. Coube a D. João de França (1999) 97-100. Várias casas foram destinadas a se-
Castro e Moura organizar o início do primeiro ano minário menor. Dado o progressivo número de alu-
lectivo no Colégio de São Lourenço, em 1861- nos, D. Américo Santos Silva fundou, em Pedroso-
-1862, e dotá-lo de biblioteca. O regulamento dado -Gaia, o Seminário de Nossa Senhora do Rosário dos
pelo bispo ao seminário (10.10.1861, publicado em Carvalhos, para alunos dos preparatórios. Foi inau-
PINTO - Actividade, p. 21-26) tem o programa de es- gurado a 16 de Novembro de 1884. Entre 1887-1898
tudos: 1.° ano - História e Exegese; 2.° - Pastoral e foi sujeito a ampliações, sempre colaborando em
Dogma; 3.° - Moral e Direito Canónico. Em 1865 grande parte dos custos. Encerrou em 1911. Para o
(4.10), o governo melhorou o programa para nove suprir, o bispo Barbosa Leão estabeleceu os primei-
cadeiras (seis professores). Em 15 de Novembro de ros anos de preparatórios na Torre da Marca, em
1866 reuniu o primeiro conselho de professores: 1919. Só em 1922 se adquiriu o colégio e Quinta das
Roberto Jorge, José Simões Gomes, João Álvares Salésias, em Vilar, que logo abriu portas. O aumento
de Moura, Manuel Filipe Coelho, António Alves de alunos obrigou à construção de novo pavilhão pa-
Mendes da Silva Ribeiro, faltando apenas o profes- ra salas de estudo e aulas, em 1927. A estabilidade
sor Baltasar Sequeira. Se até aqui as iniciativas política ia permitindo regular a vida eclesial e
eram do governo, a partir de agora serão do bispo: D. António Castro Meireles abriu em 1930 o Semi-
cardeal D. Américo. Logo a 4 de Agosto de 1872, nário de Trancoso, em Gaia, com 31 alunos. A casa
D. Américo publicou os estatutos provisórios do de D. Maria Margarida Peixoto Guimarães e Silva
Seminário Episcopal de Nossa Senhora da Concei- seria doada e assim se abriria novo espaço em 1938,
ção do Porto, reveladores de uma larga experiência com 81 alunos. O crescimento prosseguiria com no-
neste sector da vida pastoral. Organizou o curso vo pavilhão, aberto em 1961. Gestor deste projecto
trienal com melhor lógica e mais largos horizontes. progressivo foi o reitor (1930-1962) cónego Manuel
Permitiu melhores condições físicas, pela reforma Nédio de Sousa. Não obstante a hesitação dos tem-
assinalável das instalações. Mandou construir mais pos pós-conciliares, D. Florentino publica uma longa
24 quartos, refeitório novo, copa, cozinha e balneá- carta pastoral sobre o novo Seminário do Bom-Pas-
rio. Operou uma reforma eficaz a partir de 1872. 1 tor, em Ermesinde - 10 de Abril de 1966. Lúmen. 30
ano - História Sagrada e Eclesiástica e Teologia (1966) 855-865. Considera esta realização uma aspi-
Dogmática Geral; 2.° ano - Teologia Dogmática ração de 30 anos. Resolve «o declínio vocacional»
Especial, Princípios de Direito Natural e Teologia com a previsão de um seminário para 600 alunos,
Moral, Direito Canónico; 3.° - continuação de Teo- que substituía os colégios de Ermesinde e Gaia e
logia Moral e Sacramental, Pastoral e Eloquência mais tarde Vilar, destinado a Casa Diocesana de For-
Sagrada. Os Estatutos de 1872 vigorariam muito mação e Retiros. Ouviu, em 1964, o cabido, o Con-
tempo. Doou à biblioteca os seus livros e inventou selho Administrativo e convocou para a Torre da
formas de premiar alunos mais estudiosos e ajudar Marca os superiores dos seminários, vigários da vara
os alunos pobres. Em 1906, D. António Barroso fez e párocos da cidade e presidentes diocesanos de
construir a biblioteca e dependências da entrada no- obras católicas. Aí se deu a conhecer a concepção da
va do edifício. O Seminário Maior do Porto teria obra: teria novo espírito, métodos educativos inova-
período áureo no reitorado de António Ferreira Pin- dores e aberto teor de vida, com espírito familiar,
to. Do tempo de D. Agostinho de Jesus e Sousa são seria dispersa por vários pavilhões separados por es-
os tabuleiros destinados a recreios, varanda e gale- paço verde. O pavilhão central, com duas partes arti-
ria abobadada em arcos, que sustenta a parte antiga. culadas, nunca seria construído. A construção por fa-
Em 1930 passou ao regime de quatro anos por deci- ses foi providencial porque durante o evoluir da obra
são do bispo Castro Meireles. Na direcção espiri- se foi reconhecendo a diminuição drástica de alunos
tual salientam-se algumas figuras: monsenhor Luís e a falta de recursos financeiros. Hoje são estes (Se-
Augusto Rodrigues Viana (1907) desde 1876, tam- minário do Bom Pastor e o Seminário Maior da Sé)
bém orador com três volumes publicados das confe- que continuam em funcionamento. A experiência
rências proferidas na sé, sermões e a oração fúnebre pioneira do pré-seminário foi iniciada no Porto pela
do cardeal D. Américo. Seguiu-se, em 1908, monse- direcção do padre Alfredo Leite Soares e, mais tarde,
nhor Manuel Marinho (1863-1933), que durante 21 renovada pela mão do padre Jorge Manuel Madu-
anos serviu o seminário e se dedicou à publicação de reira Soares. Atender jovens com interrogação vo-
escritos e traduções. De 1928 a 1938, o cargo foi en- cacional e proporcionar-lhes espaços de encontro e
tregue a Alfredo Ferreira Sanches. Depois vários je- reflexão mensal, permanecendo cada um na sua zo-
suítas se dedicaram a esta tarefa até Agostinho Alves na, foi decisão fecunda, nalguns melhores momentos
da Cunha, em 1950, assumir a missão. As aberturas de mais empenhamento, com a entrega ao seminário
das aulas eram ocasião para as orações de sapiência, maior de tantos alunos como os que procediam do
inauguradas em 1873, por D. Américo, e só inter- seminário menor. Este ia atrasando sucessivamente a
rompidas entre 1911 e 1918. Muitas vezes a produ- entrada dos candidatos para idades escolares mais

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PORTO

avançadas. Agora só a partir do 10. ano. Faculta-se,


a sinde, sob presidência do padre Eduardo Alves Espi-
assim, melhor consciência e liberdade de escolha, di- nheira, e a Liga de Santidade Sacerdotal. Há várias
minui a deterioração do clima interno, evitam-se as instituições, de nível superior, orientadas por con-
desistências maciças e a ocupação de educadores. gregações religiosas: Escola Superior de Educação
O seminário maior, como lugar do curso teológico, Paula Frassinetti, das Doroteias; Escola Superior de
manteve-se até 1974, quando apareceu o Instituto de Educação Santa Maria, no Porto; Escola Superior
Ciências Humanas e Teológicas, criado em 1974 e de Enfermagem Santa Maria, das Franciscanas
activo até 1987, pelas dioceses do Porto, Aveiro, Missionárias de Nossa Senhora, e a Escola Superior
Bragança Portalegre e Castelo Branco, Vila Real e de Enfermagem da Imaculada Conceição, das Fran-
província portuguesa da Ordem Beneditina. Foi ins- ciscanas Hospitaleiras. As congregações religiosas
tituição de investigação e ensino superior, dedicada tiveram grande acção no sector do ensino. Comece-
às ciências humanas e filosófico-teológicas, com o mos por referir os colégios diocesanos: o de Erme-
objectivo da renovação permanente do ministério sinde foi fundado em 1912 e hoje tem cerca de 500
presbiteral e do fomento da cultura religiosa e huma- alunos; o Colégio de São Gonçalo de Amarante foi
nista de padres e leigos (art. 1.° dos Estatutos). Co- criado em 1931 e atinge o número de 2200 alunos,
mo membros extraordinários contavam-se: diocese o colégio de Gaia, iniciado a 8 de Fevereiro de
do Funchal, Sociedade Missionária Portuguesa, Ca- 1934, teve grande crescimento e hoje recebe cerca
puchinhos, Passionistas, Dehonianos, Redentoristas, de 1500 alunos; mais pequeno é o Externato de
Carmelitas e Dominicanos. Para estas ordens e con- Nossa Senhora das Dores (colégio da Trofa) inicia-
gregações sucedia ao Instituto Superior de Estudos do em 1963 e hoje com 240 alunos. O colégio de
Teológicos, que assim terminava. O ICHT terminou Vilar ou da Visitação, desaparecido em 1922, foi
para dar lugar à Faculdade de Teologia, em 1987. criado, a pedido de várias figuras da nobreza por-
E aí que os alunos do seminário recebem a formação tuense (Março de 1878) à superiora do Mosteiro da
filosófico-teológica, no sexénio de estudos. O ICHT Visitação de Santa Maria, de Lisboa. Sentia-se a ne-
iniciou a publicação da revista Humanística e Teolo- cessidade de formar as meninas numa casa de edu-
gia, com a direcção de Manuel Pinho Ferreira (1980- cação próxima do Porto. A Irmão Mariana Josefa
-1986) e Carlos A. Moreira Azevedo (1987-2000). da Costa foi encarregada dessa tarefa e escolheu no
A Universidade Católica Portuguesa estendeu ao Porto a Casa de Vilar, cercada de jardins. Foi esta-
Porto as suas actividades. Começou a funcionar na belecida a 23 de Outubro de 1879. A igreja só seria
diocese o curso de Direito, em edifício de proprieda- acabada e dedicada em Novembro de 1894. Durou
de diocesana, em 1978. Em 1982 foi criado o Centro até 1910. A casa foi vendida em 1922. Quanto às
de Estudos da Organização e Gestão que se desen- ordens religiosas mais dedicadas ao ensino pode-
volveria até à actual Faculdade de Ciências Eco- mos elencar presentemente: o Colégio dos Carva-
nómicas e Empresariais. Em 1982 aparece a Escola lhos, dos Claretianos; o Externato Marista (1959),
Superior de Biotecnologia. Este rápido desenvolvi- inicialmente na Rua da Boavista até 1994, depois
mento, graças ao apoio das forças vivas da região e na Rua António Cândido, 1993-1999, durante pou-
da mão forte do Prof. Francisco Carvalho Guerra, cos anos e agora já sem acção escolar no Porto; o
fez aparecer o Centro Regional do Porto, aprovado Centro de Caridade do Perpétuo Socorro; o Colégio
em 1 de Fevereiro de 1985. A Faculdade de Teologia dos Órfãos, entregue aos Salesianos, e o Externato
é augurada para culminar o diálogo interdisciplinar Paulo VI, dos Capuchinhos, em Gondomar. As Vi-
deste novo centro. Após tentativas várias surge em centinas têm três colégios: Externato de São Vicen-
1987. Nova escola, com projecto ambicioso do cóne- te de Paulo, em Felgueiras, o Externato de Nossa
go António Ferreira dos Santos, está ao dispor a par- Senhora do Rosário, no Unhão, e o Externato da
tir de 1996: a Escola das Artes. Outros centros de Gandarinha, em Cucujães. A Companhia de Santa
cultura se criaram no âmbito diocesano. O Centro de Teresa de Jesus orienta um colégio em Santo Tirso.
Cultura Católica, a funcionar desde 1964, com sede As Escravas do Sagrado Coração de Jesus têm colé-
na casa da Torre da Marca, dirigido pelo cónego gio no Porto. As Franciscanas Hospitaleiras da
Dr. José A. Godinho de Lima R. Bastos, foi destina- Imaculada Conceição animam o Colégio da Bonan-
do à formação humana e religiosa dos leigos e sua ça, em Gaia e Colégio de Santa Joana, em Ermesin-
preparação para servir as comunidades. Programou de. A Congregação do Bom Pastor tem o Externato
cursos de Teologia, particularmente endereçados à «Maria Droste», em Ermesinde. As Religiosas do
preparação de professores de Religião e Moral e dos Amor de Deus orientam o Colégio Nossa Senhora
ministros extraordinários da comunhão. Em ordem a de Lurdes. As Franciscanas Missionárias de Nossa
formar animadores de música litúrgica para as paró- Senhora possuem o Colégio Luso-Francês, no Por-
quias criou o curso de Música Litúrgica. Organizou to, o Externato de Lourdes, em Santa Cristina do
serões bíblicos e cursos intensivos de actualização Couto e Externato de Santa Margarida, em Gondo-
pastoral. Vários cursos de catequese aí se organiza- mar. As Doroteias detêm o Colégio da Paz, no Porto,
ram. E assinalável o serviço à formação de gerações e o colégio do Sardão, em Gaia. As religiosas do Sa-
de leigos, qual base doutrinal para a corresponsabili- grado Coração de Maria possuem o Colégio do Ro-
dade laical. As conferências eclesiásticas, com temas sário, no Porto. A Prelatura Opus Dei tem o Colégio
obrigatórios para estudo do clero, desempenharam dos Cedros, em Gaia. Além dos colégios estas co-
papel importante na renovação sacerdotal. Refiram- munidades religiosas dão apoio na educação através
-se ainda outras iniciativas isoladas e interessantes, de lares, onde acolhem estudantes, desde os especia-
como a do Círculo de Estudos Sacerdotais de Erme- lizados em idade infantil até aos universitários. Por
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PORTO

outro lado, várias irmãs estão presentes em institui- (1874-1881), inicialmente editado no Porto; O Li-
ções educativas que não são de sua propriedade. Há bertador das almas do purgatório: revista mensal
situações de simultaneidade de educação com finali- das obras da egreja militante e de egreja paciente,
dades de assistência. Serão referenciados nesse cam- 1877-1889; A Reforma: folha semanária evangélica,
po. 4.3. Meios de comunicação social: O apoio da 1877-1878; A Propaganda Catholica, folha católica
imprensa ao serviço da difusão da fé e como canal legitimista (1878-1899?); Revista Catholica, 1878,
de comunicação de informação teve, desde o sécu- dirigida pelo padre Chrispim Caetano Ferreira Tava-
lo xv, papel crescente. A edição do primeiro livro no res, impressa na Tip. de A. J. da Silva Teixeira (nove
Porto (1497) deve-se ao bispo D. Diogo de Sousa e números); O Despertador: advogado das almas do
trata-se das Constituições sinodais. Não é aqui lugar Purgatorio, 1879-1891, impresso na Civilização;
para estudar o uso da imprensa pela diocese, como A voz do christão: publicação mensal ilustrada, diri-
aconteceu, por exemplo, com o impressor Manuel gida pelo padre Artur Eduardo de Almeida Brandão
Pedroso Coimbra, activo no Porto entre 1741 e 1762. (1884-1890), continuada por Sciencias Ecclesiasticas;
Animou a Oficina Episcopal, graças ao patrocínio de Mensageiro popular: semanário religioso, literário
D. José Maria Fonseca e Évora. Aí foram editados, e recreativo, 1885-1889; Caridade, 1886-1888, bi-
para citar alguns, a Forma da procissão de passo mensal; A Caridade, dirigida pelo padre Joaquim
[...] em obsequio do [...] Santo Antonio de Lisboa, Guilherme Peixoto de Faria S. Azevedo (1886-
Porto, 1747, ou o Compendio geral da historia da -1887), bissemanal; Instituições catholicas: revista
venerável ordem terceyra de S. Francisco, Porto, mensal religiosa e scientifica de Portugal... (n.° 1:
1757, da autoria de Manuel de Oliveira Ferreira. No 1886); Alerta, 1896?, Porto; Boletim da obra de
final do século xvin e editor mais activo na publica- S. Francisco de Sales, dirigido pelo padre Joaquim
ção de livros litúrgicos, pastorais e devocionais é Luís de Assumpção (1896-1960), Matosinhos, Typ.
António Alvares Ribeiro e filhos (cf. LEÃO - Livros, Peninsular; O Grito do Povo, hebdomadário defen-
livreiros). São exemplos: Missae novae in missale sor dos interesses do operariado catholico, dirigido
romano. Porto, 1766; Officia própria sanctorum por Manuel Frutuoso da Fonseca (1899-1907), fun-
Diocesis portucalensis. Porto, 1774; Manuale da dido com Democracia Cristã em 19 de Agosto de
collationem sacrorum ordinum. Porto, 1784; FONSE- 1907-1913, sendo director Alberto Pinheiro Torres;
CA, João Mendes da - Instruções praticas e necessá- Almanak do operário, Porto, dirigido pelo padre
rias sobre os ritos e cerimónias das missas. Porto, Benenenuto de Sousa (1900-1911?); o Evangelho,
1787; Rituale breve ad clericorum. Porto, 1789; Mis- dirigido por Manuel dos Santos Gomes Júnior, Ma-
sae propriae sanctorum ecclesiae et diocesis portu- tosinhos (1902-1909); O Petardo, 1902-1910, quin-
calensis. Porto, 1789; 1791; Colecção de bênçãos zenário católico, dirigido pelo padre Benevenuto de
eclesiásticas. Porto, 1797, etc. Além do livro para Sousa (1903-1906) e que durante alguns anos foi pu-
uso da liturgia multiplicaram-se os escritos devocio- blicado em Lisboa; Boletim da União Cristã da Mo-
nais e a publicação de antologias de sermões, que é cidade Portuguesa, dirigido por Augusto José No-
impossível enumerar aqui. A filosofia e teologia têm gueira (1908-1918); A Cruzada: revista catholica
produção mais rara: Manuel Álvares, oratoriano do das famílias e Boletim oficial da Diocese do Porto,
Porto, publica Instrução sobre Lógica ou diálogos sob direcção de M. Abúndio da Silva, 4 de Maio de
sobre filosofia racional (Porto: Francisco Mendes 1908 - 25 (1908) [suspensa a 16 de Setembro de
Lima, 1760). Na segunda metade do século xix apa- 1908]; O Cristianismo: Fé, Esperança, Caridade:
receram abundantes publicações periódicas, de larga jornal religioso, dirigido por Manoel Lopes Guilher-
influência. Eis a lista de títulos editados no Porto, se- me (1910, n.° 1-11), Ovar, Typ. Ovarense; Correio
gundo o estudo de Joaquim Azevedo e José Ramos - do Norte: diário católico da manhã, dirigido por M.
Inventário da imprensa católica entre 1820 e 1910. Abúndio da Silva, 1910-1911; Estudante baptista:
Lusitania sacra. 3 (1991) 215-264; A Cruz, 1853- órgão da Igreja Baptista Portuguesa, dirigido por
-1860, dirigido por Francisco Gomes da Fonseca; Jerónimo Teixeira de Sousa (1910); A Fé Catholica:
A Família catholica, semanário religioso, 1853- Deus: o Papa; a Igreja; a Família, sob direcção de
-1854, dirigido por Francisco Pereira de Azevedo; Jean de Grance (1910-1911), 27 números, bissema-
Leituras populares: semanário religioso e instructi- nal [suspenso em Março de 1911], Não existem re-
vo, 1861-1881; Semanário dos Filhos de Maria, colhas para a fase que vai da República aos nossos
1866-1868, dirigido por F. P. de Azevedo; Annaes do dias, mas além do Boletim da Diocese do Porto,
Congresso catholico em Portugal e memórias sobre 1914-1936; Voz do Pastor, 1921-1969; Voz Portuca-
os assumptos históricos religiosos e sociaes, pelos lense, 1970 e Igreja Portucalense, 1970-1984, já re-
membros do mesmo congresso, 1871-1873, usa a Ti- feridos, por serem órgãos oficiosos da diocese, há
pografia da Palavra', A Palavra: jornal religioso, lit- um número imenso de boletins regionais e paro-
terario, de noticia e de assumptos de sistema públi- quiais, de inspiração cristã, de movimentos de apos-
co, 1872-1911, dirigido por J. C. Pinto da Cruz e tolado e espiritualidade, de santuários e instituições
editado pela família de José Frutuoso da Fonseca, é missionárias, como a Boa Nova, que vêm elencadas
o mais conhecido jornal católico constitucional; no Anuário 2000 da diocese do Porto, para cujo re-
Amigo da Infância: ilustração mensal dedicada às gisto remetemos (p. 130-137). De regular longevida-
creanças publicação evangélica, moral e instrutiva, de é a revista Acção Médica, órgão dos médicos ca-
1873-1898. Tip. de José da Silva Mendonça; Mensa- tólicos. De grande divulgação é a revista Miriam,
geiro do Coração de Jesus, órgão do Apostolado da dos Redentoristas. Revistas científicas ou de cultura
Oração dirigido pelo P. José Rodrigues Cosgaya também se publicam várias: Igreja e Missão, da So-

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PORTO

cicdade Missionária da Boa Nova; Humanística e do Grande Jubileu do Ano 2000. Porto: Diocese do
Teologia (1980), do Instituto de Ciências Humanas Porto, 2000). Sem descer a detalhes apontamos
e Teológicas e, posteriormente (1987), da Faculdade exemplos de igrejas com interesse artístico mais re-
de Teologia. Há uma colecção de livros teológicos, levante. A igreja românica de Cedofeita, monumento
já com 14 volumes: Biblioteca Humanística e Teo- nacional, é um dos edifícios mais conhecidos da
lógica, lançada e dirigida por Carlos A. Moreira época. Pela diocese estão espalhados vários espéci-
Azevedo. A Fundação Spes lançou também nova mes de valor: Aguas Santas, Cete, Paço de Sousa,
colecção Mundo. Evangelho. Igreja, já com quatro Boelhe, São Miguel de Eja, Travanca, Gatão, Freixo
volumes, sob direcção do mesmo autor. Várias li- de Baixo, Cabeça Santa, Meinedo, Vila Boa de Qui-
vrarias, mais dedicadas a publicações de teor reli- res, Roriz, Ferreira (Paços de Ferreira), Vilarinho.
gioso, servem a diocese: a Livraria Telos Editora, A igreja amuralhada de Ixça do Balio, da Ordem
activa editorialmente só nos primeiros tempos e Militar de São João de Jerusalém, é exemplar do gó-
agora apenas distribuidora, foi criada pela diocese. tico trecentista, embora com torre anterior. A Sé do
Também ligada à diocese é a Cooperativa Meta- Porto é edifício romano-gótico dos séculos xii-xin,
noia, cujo grande animador foi o padre José Maria com alterações profundas no período maneirista e
Gonçalves Moreira. São muito procuradas: a Livra- barroco. O claustro gótico foi iniciado nos finais do
ria São Paulo, das Paulistas no Porto e, a partir de século xiv e o revestimento das paredes com painéis
1984, em Gaia, dos Paulistas; a Livraria Francisca- de azulejos representa cenas do Cântico dos Cânti-
na; as Edições Salesianas com livraria; a Editorial cos. No ângulo sul da Casa do Cabido situa-se a
Perpétuo Socorro, orientada pelos Redentoristas; a Capela de São João Evangelista do século xiv,
Editorial de Cucujães, da Sociedade Missionária da guardando a notável arca tumular de João Gordo.
Boa Nova; Editorial Claret, dos padres dos Carva- Na Casa do Cabido, edifício do primeiro quartel do
lhos. A Rádio Renascença inaugurou as emissões século xvm, está instalado o museu e Tesouro da
experimentais a 23 de Julho de 1940, concluiu o edi- Catedral. Na Igreja de São Francisco, iniciada no
fício privativo e nova antena em 12 de Abril de 1949 século xiv, admira-se o recheio notável do melhor
e continuou a crescer até aos nossos dias. Operam barroco do século xvm. Igual hino à talha dourada
também outras rádios regionais de inspiração cristã, se vislumbra na Igreja de Santa Clara, do antigo
a demonstrar a atenção a novos recursos na difusão mosteiro do século xv, com portal gótico-manuelino
da cultura de matriz cristã. O uso destes meios per- já do século xvi. Em salas superiores reúnem-se ob-
mite marcar a leitura da realidade, com abertura jectos de raro valor, à maneira de museu. Da Renas-
transcendente mais humanista e servidora do bem cença é a capela do Castelo da Foz, recentemente
comum. 4.4. Arte: A vastidão do património artístico restaurada. Edifício quinhentista, inicialmente no
da diocese não permite aqui uma síntese porque falta Largo da Sé, é a capela da Confraria dos Alfaiates,
ainda a análise, isto é, um inventário sério nos vários deslocado nos anos 50 para a Rua do Sol. Destaca-se
domínios. Há, porém, alguns elementos já coligidos o retábulo de oito painéis de madeira pintada, com a
no Inventário artístico de Portugal: Distrito de Avei- vida de Maria e a abóbada em granito de sabor clás-
ro (zona norte) (por A. Nogueira Gonçalves, Lisboa: sico. Conserva notável escultura em calcário sob o
Academia Nacional de Belas-Artes, 1981) e Inven- título de Matrona Lusitanorum. A Igreja da Miseri-
tário artístico de Portugal: Cidade do Porto (por córdia, dos meados do século xvi, é atribuída a Ma-
Maria Clementina de Carvalho Quaresma, Lisboa: nuel Luís de Amarante. Alguns painéis do retábulo
Academia Nacional de Belas-Artes, 1995). A docu- primitivo de Diogo Teixeira (1591-1592) ainda se
mentação para o estudo da talha foi iniciada pelo conservam. A fachada escultural é de Nasoni. No
incansável D. Domingos de Pinho Brandão (Obra edifício da Misericórdia encontra-se a famosa pintu-
de talha dourada, ensamblagem e pintura na cida- ra Fons Vitae. Também da Renascença é a igreja do
de e na diocese do Porto. Porto, 1985-1987, 4 vol.) mosteiro da serra do Pilar (1598), com sacristia
e pela selecção de imagens de Maria (Algumas das pombalina e claustro redondo, monumento nacional
mais belas imagens de Nossa Senhora existentes na desde 1910. Na capela de Fontes, em Serzedo (Gaia)
diocese do Porto. Porto, 1988). Atalha do Porto guarda-se uma escultura do século xvi, atribuída a
tem merecido o maior entusiasmo nos estudos de João Ruão. O claustro do mosteiro de Grijó, do sécu-
Natália Marinho Ferreira-Alves - A arte da talha lo xvi, conserva o sarcófago do infante D. Rodrigo
do Porto na época barroca: artistas e clientela, Sanches (século XIII). A igreja matriz de Penafiel é
materiais e técnica. Porto, 1989, 4 vol.; Idem - Es- da Renascença, sobre templo manuelino. De raiz
truturas retabilísticas portuenses da primeira meta- quinhentista é a igreja matriz de Azurara. O Mostei-
de do século xviii. Poligrafia. 6 (1997) 25-43, entre ro de São Gonçalo e o Convento de São Domingos
outros. Anteriormente não podem ser esquecidos os (1540-1620), cuja primeira pedra data de 2 de Maio
trabalhos de Artur Magalhães Basto, Bernardo Xa- de 1543, foi executado segundo projecto de Julião
vier Coutinho, J. A. Pinto Ferreira, Eugénio de A. Romero. E monumento nacional desde 16 de Junho
da C. e Freitas e Robert C. Smith. Recentemente, o de 1910. A igreja matriz da Feira pertenceu ao con-
levantamento de dados para alguns projectos de ex- vento dos Lóios, Cónegos Seculares de São João
posições, que levamos a efeito, deu a conhecer par- Evangelista (1560-1743). Tem construção abobadada
te do património diocesano (Roteiro do culto anto- do século xvii, de largo transepto e uma só nave,
niano na diocese do Porto. Porto, 1996; Vigor da adaptada à pregação. A Igreja de São Lourenço do
Imaculada: Visões de arte e piedade. Porto, 1998 e Porto, de estilo jesuítico, com fachada solene
Cristo fonte de esperança. Catálogo da Exposição (1690-1709), assinala os primeiros passos do barroco
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PORTO

portuense. Na igreja dos Carmelitas, séculos XVII- Senhora do Terço e Caridade é atribuída a Nasoni
-xviii, destaca-se a capela-mor revestida de talha, o (1759-1775) e devida à iniciativa de Geraldo Pereira.
retábulo (1767) e o painel com a visão de Santo A fachada de granito lavrado centra-se à volta de um
Elias (século xix). No final de Seiscentos inicia-se a grande óculo ovalado com decoração atribuída a
igreja dos Congregados (1694-1703), dos padres do João Joaquim Alão. O retábulo é do entalhador José
Oratório e hoje de uma Irmandade de Santo António. Teixeira Guimarães. Conservam-se aqui as imagens
A fachada está revestida de azulejos de Jorge Colaço de São João Evangelista e Nossa Senhora da Conso-
(1929), executados na fábrica Lusitânia, de Lisboa. lação (século xvi), do antigo convento dos Lóios.
Já no século xvin, vemos multiplicarem-se as cons- Dentro dos parâmetros barrocos e fora da cidade po-
truções. A igreja do Mosteiro de São Bento da Vitó- dem lembrar-se: Igreja do Senhor Jesus de Matosi-
ria (17.5.1708), monumento nacional, é atribuída ao nhos, igreja do Convento Corpus Christi de Gaia
arquitecto Domingos Marques Lucas. Está ornada de com seu notável coro; igrejas de mosteiros: Moreira
talha dourada do século XVIII, grandioso retábulo do da Maia, Arouca, Bustelo (Penafiel), Alpendorada,
altar-mor, estilo nacional, cadeiral de madeira de ja- Santo Tirso (com claustro do século xiv). Seguindo
carandá, com 32 quadros esculpidos por Marcelino o estilo neoclássico foram produzidas muitas igrejas
de Araújo, representando a vida de São Bento. O ór- e altares que revestem as suas paredes. Destacamos
gão foi construído entre 1719 e 1222 pelo beneditino desta época: a Igreja da Trindade, construída ao lon-
Frei Manuel de São Bento (1757). A igreja de Nevo- go do século xix (1803-1892), edifício de Carlos
gilde (1729-1737) foi executada possivelmente sob Amarante e outros colaboradores; a igreja do Bon-
risco do mestre pedreiro Domingos Costa. A igreja fim (1874-1902), obra de José Luís Nogueira Júnior,
dos Clérigos (1732-1779) é obra de Nasoni, traçada sendo a fachada de António Sardinha (1894), com
com planta elíptica, cuja torre é ex-líbris da cidade uma segunda torre iniciada em 1902 e remodelação
(1748-1763). Em 1995 inaugurou um carrilhão com da capela-mor por orientação de Fernando Abrunho-
49 sinos - cf. MOTA, Fernando; NORBERTO, Francisco sa de Brito (1965). A igreja de Vilar, parte do Mos-
- A Igreja dos Clérigos. Atrium. 12 (1992) 51-64. teiro da Visitação, criado nos finais do século xix, e
A Igreja de Nossa Senhora da Esperança (1724- a partir de 1922 adquirido para seminário, é obra de
-1763) é pequena capela do Recolhimento de Meni- Manuel António Gomes, conhecido como padre Hi-
nas Órfãs, com fachada de sabor nasoniano. A Igreja malaia. Dos meados do século xix é a espaçosa igre-
de Santo Ildefonso (1739), com retábulo sob dese- ja matriz de Valongo. A incompleta igreja de Cedo-
nho de Nasoni e execução de Miguel Francisco da feita é obra neoclássica de Marques da Silva, da qual
Silva (1745), ostenta fachada com azulejos naturalis- se executou (até 1920) só a capela-mor, agora trans-
tas de Jorge Colaço (1932), executados em Lisboa. formada em auditório. A Ordem Terceira de São
Os vitrais são de Isolino Vaz (1967). A majestosa Francisco levanta a sua igreja em 1795-1805, sob
igreja da Lapa (1756-J779), lançada pelo impulso projecto do arquitecto António Pinto de Miranda.
devocional do jesuíta Ângelo de Sequeira, desenha- Pertencem já à época contemporânea muitas inter-
da por João Strovel e José de Figueiredo Seixas, teve venções artísticas da diocese. A Igreja do Santíssimo
construção e decoração lenta, em sucessivas fases: Sacramento, projecto de Sá e Melo para a capela-
altar-mor (1806), torre norte (1855) e sul (1863) até -mor, em granito, retomado em 1931 pelos arquitec-
chegar ao grande órgão de tubos de 1995. A Igreja tos Korrodi para continuar em betão (1938), osten-
do Carmo (1756-1787), da Ordem Terceira do Car- tando enormes janelas coloridas com vitrais de
mo, construída sob orientação do arquitecto José de Ricardo Leone (1891-1971), também activo na cape-
Figueiredo Seixas, mostra na fachada lateral nascen- la de Nossa Senhora de La Salette em Oliveira de
te um gigantesco painel de azulejos naturalista neo- Azeméis (1929-1930). A porta do sacrário é de Irene
barroco (1910), que representa a Imposição do Esca- Vilar e a fachada imponente nunca se executou. Da
pulário. O desenho é de Silvestro Silvestrini e a mesma época (1934-1936), mas sem revivalismo, é a
execução de Carlos Branco, nas Fábricas do Senhor Igreja da Senhora de Fátima, primeira construção
d'Além e da Torrinha, Gaia. A Igreja de São Nico- moderna no Porto. Deve-se a ARS Arquitectos (os
lau, na actual reconstrução (1758-1762), de Frei Ma- jovens Mário de Morais Soares, Fortunato César e
nuel de Jesus Maria, está revestida de azulejos do sé- Cunha Leão). De apreciar os vitrais de Henrique
culo xix, na fachada e no interior - cf. para o Franco e o São João de Brito de Barata Feyo (1947).
primitivo edifício, FERREIRA-ALVES, J. Jaime B. - A Igreja Senhora da Conceição (1938-1947), projec-
Construção da Igreja de S. Nicolau (1671-1676). Po- tada por Paul Bellot, ressentia-se ainda de uma pers-
ligrafia. 1 (1992) 39-63. A igreja de Miragaia foi pectiva tradicional do espaço litúrgico, mas abria no-
construída no século xvii e reconstruída no seguinte, vas emoções e reunia a colaboração de artistas como
com interior enriquecido pela talha. Num museu Dórdio Gomes, Guilherme Camarinha, Augusto Go-
anexo reúne obras de valor, com destaque para uma mes e Henrique Moreira. Foi enriquecida com órgão
pintura quinhentista: Tríptico do Espírito Santo. de tubos de Georges Heintz (1998). A Igreja de San-
A Igreja de São João Baptista de Foz, de dependên- to António das Antas (arquitecto Fernando Tudela,
cia beneditina, é ornada de preciosa talha e retábulos 1944) situa-se na linha solene e dura monumentali-
barrocos. Na igreja de Campanhã, com fachada de dade da época, indicando a linha «historicista carica-
José Francisco de Paiva (século xvm), conservam-se tural» que iria dominar (v. ARQUITECTURA). A igreja
duas preciosas esculturas do século xiv: Senhora de do Carvalhido (1967-1976) tem a marca do arquitec-
Campanhã, em calcário policromado, e Nossa Se- to Luís Cunha. Igualmente São Mamede de Negrelos
nhora da Rosa, de pedra-de-ançã. A Igreja de Nossa (Santo Tirso), em colaboração com Ferreira Pinto

39
PORTO

(1966). Abela Igreja da Senhora do Porto, sob pro- ilustre compositor e formador de novas gerações.
jecto dos arquitectos Mário e Vasco Morais Soares Apesar de algum esforço de D. António Barroso pa-
(1971-1977), foi enriquecida com sacrário e Cristo ra regular a música nas igrejas, um grande passo é
Crucificado de Júlio Resende e Zulmiro de Carva- dado por D. António Barbosa Leão, que cria, em 17
lho. A igreja de Cedofeita (1979), sob projecto de de Junho de 1920, uma Comissão de Àrte Sacra, pre-
Eugénio Alves de Sousa, foi sucessivamente enri- sidida pelo cónego António Joaquim Pereira. Os
quecida, com contributo de vários artistas, até à ins- apelos episcopais têm no grupo musical de Santa
talação do grande órgão de tubos (2000) e arranjo Cecília, fundado pelo padre José Xavier de Almeida,
interior sob orientação de Júlio Resende, com a uma resposta de qualidade na restauração da música
colaboração de Zulmiro de Carvalho e Francisco sacra. Foi director Paulo Consolini. Uma multiplica-
Laranjo. A Igreja da Senhora da Boavista, do arqui- ção de grupos paroquiais de música sacra nota-se pe-
tecto Agostinho Ricca (1981), reúne decoração de los anos 20 e 30, como se documenta no Boletim da
grande qualidade com obras da autoria de Júlio Re- Diocese do Porto. D. Florentino nomeou a Comissão
sende, Francisco Laranjo, Zulmiro de Carvalho e Diocesana de Música Sacra (9 de Março de 1965),
Manuel Aguiar (vitrais, cerâmica, via-sacra e res- tendo como presidente António Ferreira dos Santos e
surreição, sacrário, crucifixo da capela da reserva vogais P. Luís de Rodrigues e Gabriel da Costa
eucarística e altar-mor). A igreja de Aldoar, do ar- Maia. Como consultores do novo organismo inclui
quitecto Alfredo Moreira da Silva, assume a forma os membros da comissão para o estudo dos órgãos:
de tenda, com convergência do espaço no altar e D. Estela da Cunha, Dr. Bernardino Xavier Couti-
presbitério amplo. Destaca-se o baptistério bem lo- nho, D. Celestino Borges de Sousa, OSB, D. Teo-
calizado e o baixo-relevo de Maria, de Irene Vilar. doro Horvell, padres António Pacheco e Manuel Pi-
Nesta igreja também se inclui um baixo-relevo com res Bastos, maestro Afonso Valentim - Lúmen. 29
a representação de São Martinho, da autoria de (1965) 337. A comissão seria renovada no tempo de
Gustavo Bastos. Tem sido fecundo o esforço de no- D. António Ferreira Gomes como Serviço Diocesano
vas construções e as tentativas de arranjo de antigos de Música Litúrgica, independente da Comissão
espaços litúrgicos por toda a diocese. Com grande Diocesana de Liturgia. O Serviço de Música presidi-
impacte na opinião pública e ousadia criativa se si- do pelo Dr. António Ferreira dos Santos estabeleceu
tua a obra notável de Álvaro Siza Vieira, com Ro- e concretizou um programa de excepcional eficácia e
lando Torgo (1990-1995), na igreja paroquial do qualidade cujos resultados saltariam à vista no ele-
Marco de Canaveses. Depois desta visita panorâmi- vado número de agentes litúrgicos preparados para
ca, façamos breve alusão aos museus. O Museu de dirigir, animar e participar nas celebrações com pa-
Arte Sacra e Arqueologia do Porto (1958), sito no drões de exigência. É a demonstração de como a
Seminário Maior, deve-se ao trabalho persistente e aposta num sector da pastoral (três padres dedica-
entusiasta do reitor, Dr. Domingos de Pinho Bran- dos a esta missão) produziu frutos profundos e lar-
dão. Inaugurado em 1958, teve obras de remodela- gos de renovação. Hoje, este sector está organizado
ção na zona arqueológica, sob projecto de Luís Cu- a partir de um Secretariado Diocesano de Liturgia
nha, em 1962. A saída de D. Domingos, da cidade que assume todos os campos: pastoral, música e ar-
para Leiria, exigiu nova remodelação, operada em te. O curso de Música Litúrgica entrou em funcio-
1970, já sob a direcção do Dr. Raimundo de Castro namento no ano lectivo de 1971-1972. Destina-se a
Meireles. Este museu tem intenções pedagógicas e preparar animadores de assembleias litúrgicas. Fun-
dinamizadoras da sensibilidade artística na diocese cionou sob orientação do serviço diocesano de mú-
- cf SOARES, Edmundo - Etapas na existência do sica litúrgica e, recentemente, do Secretariado Dio-
Museu de Arte Sacra e Arqueologia do Porto. cesano de Liturgia. 5. Espiritualidade: As formas
Atrium. 2 (1987) 83-86. Com um excepcional acer- de fomentar e alimentar a vida espiritual dos fiéis
vo, o Museu de Arte Sacra do Mosteiro de Arouca assumiram, na pastoral da Igreja, a riqueza plural
tem revelado enorme vitalidade, dando a conhecer, da presença do Espírito Santo e das vivências insti-
através de pequenas exposições, o seu património e tucionais e pessoais. As correntes de espiritualidade
a riqueza artística da região. A música sacra tem, de ordens e congregações religiosas suscitaram for-
desde cedo, sido favorecida por excelentes compo- tes experiências do Deus de Jesus Cristo, em estilos
sitores, notáveis órgãos de tubos espalhados pelas de vida próprios da sensibilidade da época e em es-
igrejas da diocese e grupos corais em crescente quemas de práticas devocionais preferidas, segundo
multiplicação - cf PEREIRA, L. A. Esteves - Inven- a acentuação de diferentes prismas da plurifacetada
tário dos órgãos da diocese do Porto. Museu. 13 vida evangélica. Após o uso de regras antigas, com
(1970-1971) 13-36; PEREIRA, L. A. Esteves - Os ór- predomínio da regula mixta, qual combinação de
gãos da Sé do Porto. BCCM Porto. 33 (1970) 183- tradições regionais, de saber frutuosiano com as
- 1 9 1 ; VERÍSSIMO, Custódio - Órgãos históricos da clássicas de Pacómio, Isidoro ou Leandro, pelo sé-
Cidade do Porto. Atrium. 13 (1993) 73-96. Faremos culo x entra o uso beneditino. As tradições hispâni-
apenas referência aos tempos recentes, posteriores cas vão dando lugar à influência reformadora que
ao cardeal D. Américo. No seu episcopado dedica- sopra da França. O Concílio de Coiança de 1055,
vam-se à música sacra Joaquim Carvalho Moreira cujas actas foram redigidas por Tudeildo, abade de
Pinto e Joaquim Pereira da Rocha. Ao canto deu Leça, permite a utilização do regime da regula mix-
atenção o padre José Xavier de Almeida (11.8.1925). ta, ao lado do empolgante crescimento da regra be-
Sucedeu-lhe o padre Vitorino Caetano Martins Pereira neditina, realçada após o Concílio de Burgos de
até chegar a vez do padre Luís de Sousa Rodrigues, 1080. 5.1. Vida religiosa masculina: A rede de mos-
40
PORTO

teiros tem origens desconhecidas e difíceis de deci- tico é retomado pela nova fundação de Pendorada,
frar em muitos casos. Tentamos aqui apenas enume- abadia livre e não familiar. Mas por 1072 passa para
rar as filiações espirituais na distribuição na diocese. os senhores de Ribadouro. O grupo de mosteiros de-
Os Beneditinos assumiram papel notável na Recon- pendentes de Vacariça transforma-se em igrejas pa-
quista cristã fixando a população, organizando as co- roquiais. A segunda fase caracteriza-se pela introdu-
munidades rurais, catequizando e educando. Mattoso ção dos costumes cluniacenses (1085-1115). Alguns
estabelece três fases na evolução monástica portuca- mosteiros aceitam a liturgia romana e os costumes
lense até 1200. A primeira fase é de predominância da reforma beneditina de Cluny, adaptados por Sa-
da tradição visigótica e vai até 1085. Caracteriza-se hagún. São os mosteiros mais importantes da dioce-
por um monaquismo autóctone que vai desaparecer se, pertencentes a «famílias de infanções em ascen-
até 1115-1125. Começam a decair os mosteiros anti- são» (MATTOSO - Le monachisme, p. 374): Paço de
gos possuídos pela aristocracia condal, como Lavra, Sousa (1085-1087), Pendorada (1085-1094) e Santo
referido desde 947 e já igreja paroquial entre 1199 Tirso (1085-1087). Este último é abadia próspera, ri-
e 1258, Sanguedo (fundado por Gondesindus Eiriz ca, com boas relações públicas e em 1171 albergava
antes de 947), Azevedo, com referências em 947 23 monges, o que é excepcional para a época (MAT-
(talvez situado em São Vicente de Pereira - Ovar), TOSO - O mosteiro). Leça dá ao abade o título de
desaparecido provavelmente nas incursões do Al- prior em 1093 e Cete em 1117. Pedroso resistiu à
mançor; Santa Marinha, fundado também por Gon- observância beneditina até ao século xn (1115-
desindus Eiriz antes de 947 e desaparecido antes de -1117). Vairão, Rio Tinto, Canedo, Cucujães, Vila
1320. O carácter familiar, com comunidades habita- Cova e Bustelo seguiram, não se sabe quando. Tuias
das por três ou quatro monges, é atestado em Soa- passa a monjas beneditinas antes de 1173. Para al-
lhães, fundado em 875 e paroquial antes da doação guns lugares não há documentação, embora a norma
ao bispo em 1267, Lordosa (Rans - Penafiel), Paço cluniacense se tornasse habitual (Soalhães; Refojos
de Sousa (956); Aldoar, fundado em 944 pelo padre de Leça; Sermonde; Vilar de Andorinho; Santo Isi-
Agião; Grijó, fundado em 922; São João de Ver, ce- doro de Vilar; Vila Boa de Quires, fundado antes de
nóbio fundado antes de 947, Refojos de Leça e Rio 1118 e igreja paroquial entre 1307 e 1320; Várzea de
Tinto. A analisar pela instabilidade e dada a funda- Ovelha, fundado antes de 1120 e igreja paroquial já
ção por gente de condição modesta, devem perten- em 1320, e Meinedo. O sucesso cluniacense tem
cer à mesma categoria: Fânzeres, fundado antes de protecção de D. Teresa. Com a mudança política de
1032; Silva Escura, fundado antes de 1077 e igreja Afonso Henriques, os novos patronos das abadias
paroquial antes do início do século xiii; Santo Isidoro conseguem mantê-las como propriedade privada,
de Vilar (Marco de Canaveses?), fundado antes de mas enfraquecem progressivamente a irradiação.
1115 e dado a Paço de Sousa; Santo Tirso de Meine- O enriquecimento e a organização criam autonomia
do, referido em 1131; Sermonde (Gaia), fundado por em relação ao bispo, enquanto entre 1085-11 15 fo-
Ederonio Alvitiz provavelmente durante a ocupação ram apoio aos bispos «gregorianos». Aparecem no-
da terra de Santa Maria em 1017-1026 e igreja paro- vas formas religiosas, na terceira fase (1115-1200):
quial no início do século XIII; Sá (Mosteiro - Feira), cónegos regulares, eremitas, cistercienses, e ordens
fundado pela condessa Ilduara; Vilar de Andorinho, militares. Os antigos mosteiros-igrejas desaparecem
fundado antes de 1072 e igreja paroquial antes de gradualmente. Como marca do repovoamento, está
1222; São Gião, fundado pela condessa Ilduara pelos o movimento eremítico, ainda tão mal conhecido
meados do século x; Cesar (Oliveira de Azeméis), e em desaparecimento antes do fim do século xn
fundado antes de 1068 e depressa igreja paroquial. (cf. MATTOSO - Eremitas). Umas vezes, o eremitério
Estão documentados ainda outros. O mosteiro de é doado à catedral, como o de São Pedro da Cova,
Valpedre (Penafiel), fundado antes de 1066, é feito já existente em 1134; Santa Cruz do Bispo (Mato-
igreja paroquial antes de 1160. Refojos de Riba de sinhos), existente já em 1140. Outras vezes é inte-
Ave (Santo Tirso), fundado antes de 1036, desapare- grado em nova ordem como Santa Eulália de Bou-
ce entre 1263 e 1320. Este tipo de vivência comuni- ças (Matosinhos), mosteiro do século x, que passa a
tária estava espalhado pela diocese, numa época on- cisterciense cerca de 1244 e é a igreja paroquial
de o bispo era inexistente, em virtude das incursões em 1257, assim como Lordelo (Porto), existente em
árabes. Tudeildus, abade de Vacariça, expulso pelas 1144, dado a Tarouca: Vandoma (Paredes), referido
referidas incursões, estabelece-se em Leça, fundado em 1180, provavelmente faz-se premonstratense
pelo fim do século x, e tenta uma espécie de congre- (BACKMUND - Les origines, p. 433-435). São João da
gação, à maneira visigótica, prolongada pelas asso- Foz, existente já em 1145, é entregue a um grupo de
ciações gálicas do século ix e x, inspiradas na tradi- eremitas franceses e dependente do mosteiro de San-
ção frutuosina - Leça; Anta (Espinho), que depois de to Tirso, desde o princípio do século XIII. É referido
1045 é igreja paroquial; Vermoim, fundado antes do um eremitério em Crestuma, fundado provavelmente
fim do século x e igreja paroquial provavelmente an- no século xi e suprimido pouco depois de 1113. Em
tes do fim do século xi; Aldoar). A obra é continuada 1142 são referidos dois eremitas junto do rio Arda,
pelo sobrinho Randulfus, que participa no Concílio concelho de Arouca. As Inquirições de 1258 referem
de Coiança, em 1055. Esta assembleia confirma e São Martinho de Recesinhos (Penafiel) com uma er-
alarga o movimento de restauração de observâncias mida habitada por duas irmãs e servida por clérigo.
visigóticas. Infelizmente as circunstâncias não são Os Cistercienses aparecem em Portugal desde 1142-
favoráveis a Leça: Anta desaparece e Vacariça im- -1144. Na actual diocese do Porto só conseguem
põe-se a Leça como mosteiro central. O ideal visigó- Arouca, que a partir de 1882 integra o território dio-

4I
PORTO

cesano. O Eremitério de Santa Eulália de Bouças é de nomeação régia ou pontifícia, meros cobradores
transformado em granja. O movimento eremítico de rendas. A reforma é sentida e tentada pelo abade
adere a Cister no sul do Douro. Na diocese do Porto Gomes Anes, vindo de Florença em 1424 (cf. COS-
desaparece antes do fim do século, seja por doação à TA - D. Gomes). Pendorada parece estar na mira,
catedral (São Pedro da Cova, Santa Cruz do Bispo), pois era comendatário Lourenço, bispo de Mégara
seja pela integração em nova ordem: Santa Eulália e, desde 1428, Frei André Dias de Escobar, doutor
de Bouças aos Cistercienses, Vandoma aos Premons- em Teologia, antigo dominicano, a residir em Roma
tratenses, provavelmente, e São João da Foz a um desde 1397. Voltou a Roma em 1433, onde escreveu
grupo de eremitas franceses. As ordens militares na várias obras e viu-se obrigado a regressar a Portugal
diocese do Porto adquirem pouca presença. Os Có- em 1439. Embora vivesse até 1451, perderia o seu
negos do Santo Sepulcro têm Aguas Santas prova- mosteiro de Pendorada. O bispo do Porto, D. Luís
velmente antes de 1128. A partir do século xn era a Pires (1453-1464), também se preocupou com a re-
principal casa da ordem. Extintos em 1489, os bens forma monástica e nomeou, em 1461, o comendatá-
foram incorporados na Ordem do Hospital (cf. SILVA, rio Frei João Alvares como visitador e reformador
Eduardo Norte Santos - Uma ordem de cavalaria: a dos mosteiros beneditinos da diocese. Demonstra
Ordem equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém. este a sua acção nas obras deixadas: as cartas, que
Lisboa, 1988). Por 1125, D. Teresa substitui os bene- escreveu aos monges durante a viagem à Flandres
ditinos de Leça por cavaleiros do Hospital (cf. BAR- em 1467, e as constituições. O esforço não conse-
BOSA, A. do C. Velho - Memória histórica do mostei- guia muitos resultados, como se vê pela deplorável
ro de Leça do Balio. Porto, 1852; CARNEIRO, J. A. - situação de Santo Tirso. Rodeava o mosteiro o maior
Resenha histórica e archeológica do mosteiro de couto monástico do Norte, correspondente às actuais
Lessa do Balio. Porto, 1899). Os Templários obtêm freguesias de Santo Tirso, Santa Cristina e São Mi-
Fonte Arcada (Penafiel) antes de 1128. Soalhães e guel, faixa oeste de Burgães e mais de metade de
Canedo teriam vida curta porque desapareceram in- Monte Córdova e de Guimarei (SOUSA - O mosteiro,
corporados na diocese: Soalhães, que se torna paro- p. 104). Fora do couto havia uma enorme quantidade
quial antes da doação do bispo (1267) e Canedo de herdades, quintas, granjas, casais, etc. Em 1320
(1306). Cete foi entregue ao Colégio da Graça de pertenciam ao mosteiro (Santa Maria do Pinheiro,
Coimbra dos Eremitas de Santo Agostinho em 1551 Lavra, Canelas, Folgosa, São João da Foz, São Lou-
e Pedroso ao Colégio de Jesus de Coimbra, perten- renço de Asmes-Ermesinde). Era um potentado agrí-
cente aos Jesuítas, em 1560. Os outros mosteiros cola. Os abades eram senhores com poder judicial e
permaneceram até à extinção em 1834. Segundo Mat- cargo de capitão-mor. A estas posses foram-se jun-
toso talvez professassem a regra beneditina: Jazente tando outras, com direito de apresentação do abade,
(Amarante); Leça (Matosinhos), Refojos de Riba de no século xiv: Santa Cristina de Arcos, Silva Escura,
Ave, Soalhães e Vandoma (MATTOSO - Cartório, Santa Maria de Vilar, Santo Estêvão da Maia, Lame-
p. 143). Foram todos extintos antes do século xvi. las, Frazão, Seroa, Pias, Goim. Pertenciam à diocese
O mosteiro de Leça viu o seu fundo documental in- de Braga: Burgães, Rebordões, Sequeiro, Lousado,
corporado no mosteiro de Vacariça. Passou à Ordem Ribeirão, Vila Nova dos Infantes, Golães, Silvares,
dos Hospitalários em 1122-1128. O ritual cluniacen- Pedreira (Unhão). Em todas estas paróquias o abade
se vai invadindo os usos dos mosteiro da região. Em de Santo Tirso exercia poder pastoral. A maioria dos
Pombeiro está claro. Esta adopção não significa fi- monges são párocos. Os abades do mosteiro, no sé-
liação em Cluny, mas simpatia das famílias nobres culo xv, chegam ao poder pela via comendatária ou
do Entre Douro e Minho, que detinham o padroado, irregular (Martins Aires por via régia, que predomi-
pelas instituições francesas (Maia, Ribadouro, nará na fase de centralização monárquica, por ins-
Baião, Sousa). Alguns mosteiros resistiram a esta piração dos letrados). Usam o mosteiro como honra
tendência beneditina afrancesada: Moreira da Maia, pessoal, distantes dos monges, um estilo de vida se-
Grijó, dependentes da nobreza média que perma- nhorial, alheios à cultura e às artes. Os monges pau-
necia fiel às antigas tradições. Adoptariam a obser- tam mais a vida pelos critérios do mundo do que pe-
vância dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, la regra. A vida em comum pouco mais é do que a
apoiados pelos bispos amigos de Santa Cruz de obrigação do coro (Ibidem, p. 154-156). Em 1558,
Coimbra. Este entendimento e canalização de doações D. António Silva trouxe de Espanha dois monges re-
vai transformar-se em conflito no fim do século xn, formadores: Frei Pedro de Chaves e Frei Plácido Vi-
como acontece em Pedroso e Bustelo. O crescimento lalobos, mas as bulas de reformação não chegavam e
da vida senhorial, revelada também nos próprios aba- Frei Pedro volta a sua terra. Só em 1567 se constitui
des, cada vez mais administradores ausentes, e a inse- a Congregação dos Monges Negros de São Bento,
gurança social, patente em assaltos vários, são sinais com Tibães à cabeça. Frei Pedro de Chaves regres-
de relaxamento. Nalguns lugares mantém-se o rigor sou e aos poucos tomou posse dos mosteiros depen-
de disciplina como parece acontecer em Pombeiro, dentes: Pombeiro, a 14 de Setembro de 1569, mas
Santo Tirso e Pendorada, que agregavam à volta de- como D. António, prior do Crato, era comendatário,
votas. Com a evolução do tempo e a crise social, que só se efectivou em 24 de Junho de 1588; Travanca a
a epidemia multiplicaria no século xiv, a indisciplina 16 de Setembro de 1569, nas mãos do comendatário
cresce e conduz à supressão do mosteiro de Canedo D. Fulgêncio, filho do duque de Bragança. Obtendo
(1306). As exigências dos detentores do padroado a provisão do bispo D. Rodrigo Pinheiro (13 de Ou-
são crescentes e destruidoras da vida espiritual que tubro de 1569), visita: Paço de Sousa sem tomar
se desejava. Somam-se os abades comendatários, posse; Alpendorada, a 20 de Outubro de 1569, mas

42-
PORTO

por ter eomendatário, D. Manuel de Azevedo, só a constituições oriundas de São Rufo. Ficou estipulada
22 de Maio de 1588 toma posse; Santo Tirso, a 30 a obrigatoriedade de realização trienal de capítulos
de Outubro de 1569, mas como era eomendatário o provinciais, a nomeação de visitadores, a regulamen-
cardeal Farnésio só por renúncia com pensão toma tação das saídas externas e as licenças de ausência
posse a 17 de Maio de 1588, sem mencionar o couto de cónegos, suavização dos jejuns, homogeneização
de São João Baptista da Foz; Bustelo, a 19 de Março do vestuário, generalização da oração mental diária,
de 1585, onde era eomendatário D. António de Aze- aperfeiçoamento do sistema de ensino e dos conteú-
vedo (1596). Após nova bula de 1587 houve novo dos. O sucesso crúzio começa a declinar no sécu-
ciclo de tomada de posse: São Martinho do Couto de lo xiv. Em 1320 os rendimentos anuais financeiros
Cucujães, 14-15 de Março de 1588. Esta lenta toma- são díspares. Enquanto Santa Cruz rende 21 000 li-
da das rédeas de Frei Pedro de Chaves cansou-o e a bras, para o Porto há o seguinte quadro: 1500 libras
entrega de Paço de Sousa aos Jesuítas pelo card. - Vila Boa do Bispo; 600 - Roriz; 550 - Ancede;
D. Henrique foi o último golpe que consentiu antes 500 - Caramos; 400 - Freixo; 250 - Vilarinho; 170 -
de se retirar. Construi-se ainda São Bento da Vitória, Moreira da Maia; 60 - Lordelo. A reforma de Ben-
em 1596, favorecido por Filipe II. Levanta-se este to XII atingiu os Cónegos Regrantes (15.5.1339).
imponente mosteiro após decisão do capítulo geral Obrigava à visita de inspecção periódica. Em Grijó,
de 6.5.1596, aplicando as rendas de Pendorada e ob- em 1292, os cónegos deviam ser 11, com direito a
tida licença na câmara judaica, com fachada voltada prebenda. Por 1362 mantinha-se o número, com
para a sé. Centro de cultura e lugar de assistência re- mais seis fratres a prestar cura nas igrejas do seu pa-
ligiosa e sociocaritativa. A restauração dos Benediti- droado (AMARAL - São Salvador, p. 148-149). Em
nos, deu os primeiros passos com Frei João de Santa Ancede, por 1364, residiam dez cónegos. A crise
Gertrudes Leite Amorim (1865), vindo do Brasil. claustral atinge-os significativamente. Em 1556 Pau-
Inicia em Paço de Sousa, compra Cucujães (1875), lo V vai instituí-los como Congregação dos Cónegos
feita abadia em 1888. Em 1892 funda Singeverga, Regrantes de Santa Cruz de Coimbra. As pequenas
Roriz. Em 1910 escapou à extinção pelos doadores casas regrantes foram-se afiliando a outras ordens.
serem vivos. Em 1922 renasce. As várias comunida- Ancede, Mancelos e Freixo foram extintas a favor de
des uniram-se em Singeverga (1931), elevada a aba- São Gonçalo de Amarante, dos Dominicanos; Roriz
dia em 1938. Cucujães ficou priorado simples até foi apropriada pelos Jesuítas. Em 1475, pela bula de
1950. O novo mosteiro foi construído entre 1953- Sixto IV, foi extinto e anexo à mitra do Porto o Mos-
-1957, inaugurado por D. Gabriel de Sousa. Em 1943 teiro de São Pedro de Ferreira dos Cónegos Regran-
instituiu-se uma cela monástica em São Bento da Vi- tes de Santo Agostinho (CUNHA - Catálogo, p. 266).
tória (v. BENEDITINOS, ÉPOCA CONTEMPORÂNEA). Dentro Do convento de Grijó vieram para o Convento de
da vida monástica está o caso de Santa Maria de Van- Santo Agostinho da serra do Pilar (1538-1542), na
doma. Existia já um eremitério em 1186. Pertenceu Quinta de Quebrantões (Gaia), considerado lugar
talvez à ordem premonstratense. Tem priores referi- mais sadio, mas alguns saudosos do velho mosteiro
dos no censual da sé para 1239 e 1241. Segura notícia dividiram rendas e mobiliário e criaram dois mostei-
é dada por uma procuração de 1324, onde se citam ros, com bula de separação de 1566. Em 1770 seriam
Frei Gonçalo e o capelão Domingos Martins. No suprimidos pelo papa os mosteiros de Grijó, Vila
censo de 1320-1321 o mosteiro é avaliado em 225 li- Boa do Bispo, Caramos, Moreira da Maia, conver-
bras. Em 1499 já Vandoma era abadia secular sem tendo-se os patrimónios a favor do mosteiro de Ma-
comunidade. A paróquia seria entregue aos Jesuítas. fra, administrado pelos Regulares. Só a serra do Pi-
Antes do fim do século xi, os mosteiros de cónegos lar se manteve nos Crúzios. D. Maria I, em 1780,
não se distinguem dos outros mosteiros. A partir da restituía Grijó à Congregação, mas dificultados os
fundação de Coimbra em 1131, a expansão da Regra noviciados em 1791, chegadas as Invasões e a crise
de Santo Agostinho é enorme ( c f . MATTOSO - Le mo- liberal, a experiência terminaria. As ordens mendi-
nachisme, p. 129). Os Cónegos Regrantes estende- cantes cedo se estabelecem no lugar da sua voca-
ram-se à diocese do Porto com sucesso. Cedofeita ção: os burgos em crescimento. Os Franciscanos es-
era dos cónegos regulares, Ferreira (Paços de Ferrei- tabelecem-se no Porto em 1233, graças aos terrenos
ra), Grijó, fundado em 922, tinha cónegos depois de de gente devotada à nova experiência religiosa. Co-
1064: São Salvador de Tuias foi habitado por cóne- mo o bispo D. Martinho Rodrigues estava ausente, o
gos regrantes de Santo Agostinho. Até finais do sé- cabido impediu as obras, considerando que a cons-
culo xii adoptaram o Ordo agostianiano regular os trução estava a ser feita no couto da sé, sem licença.
mosteiros de Ancede (Baião), Lordelo (Paredes), Teve de usar a mão armada. Os Franciscanos usaram
Tuias e Vila Boa do Bispo (Marco de Canaveses), a força régia como arma e continuaram as obras. Re-
fundado antes de 1079, Vilela (Paredes), fundado em gressado de Roma o bispo confirma as decisões ca-
1010 e habitado por cónegos ao menos depois de pitulares e determina a excomunhão dos que colabo-
1069 e unido à serra do Pilar em 1612 (GONÇALVES - raram com os frades e expulsão destes da cidade e
A destruída), Caramos (Felgueiras), Freixo e Man- couto. Os Franciscanos recusaram e o bispo mandou
celos (Santo Tirso) e Moreira (Maia), fundado antes destruir-lhes as casas e prender o doador do terreno.
de 1027 e pertencente aos Cónegos Regrantes de- Com o sucessor do bispo, D. Pedro Salvadores, os
pois de 1133. Casas de sorores são referidas a Gri- Franciscanos tentaram de novo fundar convento. Por
jó, Vilela e Vila Boa do Bispo. Em 1229, no Porto, outro lado, o bispo, de acordo com o cabido, pede ao
reuniu-se o primeiro capítulo provincial dos Cóne- capítulo dos dominicanos de Burgos que se instalem
gos Regrantes. Renovou-se o apelo à fidelidade às no Porto, concedendo-lhes várias vantagens. A atitu-

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PORTO

de não vai manter-se e os «ciúmes do clero secular», Espirituais e organizou retiros fechados. Com a
no dizer do cronista dominicano na História de abertura da Escola Apostólica do Luso (1927) inter-
S. Domingos (vol. 1, p. 340), vão criar impedimentos rompeu-se a presença no Porto até 1938. Abriu a ca-
ã construção. A situação vai ser ultrapassada pela ac- sa de Nossa Senhora do Rosário, na Rua Clemente
ção papal e régia e os conventos vão surgir. As ques- Meneres, ao Carregal. Daí se publicava a Rosa Mís-
tões entre clero regular e secular é que irão manter- tica, revista doutrinal. Terminaria em 1944 para dar
-se. A observância franciscana entrou em Portugal lugar a duas: Rosário de Maria, de espiritualidade
em 1392, com frades da Província de Santiago. Um mariana para o grande público, e Verdade e Vida,
dos eremitérios ou oratório recolecto que abriu foi o mais doutrinal e efémera. Foi intensa a acção apostó-
do São Clemente das Penhas, nos arredores de Leça lica desta comunidade, levando ao cansaço. A 14 de
da Palmeira (1392-1482). A partir dessa data foi Agosto de 1949, a comunidade transitou para a Rua
transferido para o Real Convento da Conceição, em Afonso de Albuquerque para aí erguer uma igreja
Matosinhos (1476-1834). A divisão da ordem, de- e convento, a pedido do bispo Agostinho de Jesus e
cretada por Leão X em 1517, entre Frades Menores e Sousa. Ao lançamento da primeira pedra (28.8.1950)
Frades Menores Conventuais aplicou-se em Portugal, presidiu D. Policarpo da Costa Vaz. A dedicação da
estabelecendo a sede dos últimos no Convento de São igreja seria a 23 de Maio de 1954. O Convento de
Francisco do Porto. No século xvn tinha 60 religiosos. Cristo-Rei foi desde então lugar de dinamização pas-
Em 1567, breve do papa Pio V, a pedido de D. Henri- toral de fraternidades leigas de São Domingos, Con-
que, suprimia e integrava todos os franciscanos nos ferências Vicentinas, Equipas de Nossa Senhora,
Frades Menores (Observantes). Os franciscanos re- movimentos juvenis. A paróquia foi criada a 2 de
formados da Província da Conceição, com origem na Fevereiro de 1979. Aproveitando a amizade com o
Província de Santo António dos Capuchos, fundada bispo D. Vasco, os Lóios ou Congregação dos Cóne-
em 1705, edificaram no Campo de São Lázaro o gos Seculares de São João Evangelista estabelecem-
Convento de Santo António da Cidade, em 1783. Se- -se no Porto em 1423, em Santa Maria de Campa-
ria, depois de 1834, Biblioteca Pública, Museu Mu- nhã, o que seria efémero, dada a transição do prelado
nicipal e Academia de Belas-Artes. A Província da para Évora e a ordem de saída dada pelo prior de
Soledade, iniciada em 1673, a partir da Província Campanhã. A efectiva presença inicia-se em 1490,
da Piedade, criada em 1517, estabeleceu-se no Porto quando D. Violante Afonso, sob indicação do bispo
nos seguintes lugares: Azurara (Nossa Senhora dos diocesano, D. João de Azevedo, oferece bens e a Ér-
Anjos), 1424-1834; Convento de Santo António do mida de Nossa Senhora da Consolação aos frades
Vale da Piedade (Gaia, 1569-1984); Penafiel (Santo lóios. A construção inicia-se junto ao muro da cida-
António), 1663-1834 e Hospício de Santo António de, em 6 de Novembro de 1491, na presença do pa-
do Calvário (Porto), 1735-1834. A Congregação de dre Silvestre de Linhares e do bispo promotor, que
Oliveira do Douro (Gaia), com o Convento de Nossa permitiu à congregação angariar vários fundos para
Senhora da Conceição, era da Ordem Terceira da Pe- construir a nova casa. Estes benefícios são reconheci-
nitência. Henrique Pinto Rema traça o quadro dos dos por D. Diogo de Sousa em 1496. As rendas iriam
desacatos e incêndios provocados em 1832 pelo ja- crescer através da anexação de igrejas (v. LÓIOS) e o
cobinismo e que conduz ao abandono dos mosteiros número de frades podia aumentar, a ponto de, em
(REMA - O liberalismo, p. 33-35). Actualmente, os 1592, ter de ampliar igreja e convento. O século xvn
Franciscanos no Porto são 12, divididos por três co- foi de máximo esplendor, após o terminar das obras
munidades, Porto (1921-) (R. dos Bragas), Penafiel em 1629. Em 1658 sustentava 35 religiosos e em
(1921-) e Leça da Palmeira (1918-). Animam a Li- 1788 calcula-se que obtenha uma receita de 20 000
vraria Franciscana. Os Dominicanos começaram o cruzados. No final do século xvin pensavam remode-
antigo convento, no local do hoje Largo de São Do- lar a casa, que estava envelhecida, mas a revolução
mingos, em 1238. Nunca obteve projecção de relevo alterou os planos - cf CORREIA, Fernando da Silva -
em relação a outras instituições dominicanas. De O que foi feito do Largo dos Loios que o Porto co-
1472 a 1555 houve quatro mestres, 16 doutores, três nheceu. O Tripeiro. 1 (1961) 193-197, 247-249; MA-
licenciados, seis bacharéis, 10 priores, oito superio- NARTE, Oliveira - A primeira estada dos frades loios
res, nove jubilados num total de 94 frades referidos no Porto. Lúmen. 1 (1937) 824-827. Além do Porto,
na documentação estudada pelo cronista António do os Lóios instalam-se em Santa Maria da Feira (cf.
Rosário (Frades, p. 91-103). A Ordem dos Pregado- PINTO - Colegiada; TAVARES - A fundação). Os con-
res, além do convento do Porto, sob o nome de Nos- des da Feira, numa petição de 1549, proporcionam a
so Senhor dos Fiéis de Deus (1238-1834), do qual vinda dos frades ao capítulo geral. No local da Ermi-
não restou nem a igreja, demolida em 1865, teria da do Espírito Santo, próximo do castelo da Feira,
outros, de fundação quinhentista: São Gonçalo em ergueu-se o convento. Passados dez anos já as obras
Amarante (1540-1834), Santo André de Ancede podiam iniciar. Os habitantes pedem que esta nova
(1569-1834), São Martinho de Mancelos (1572- igreja seja a paroquial. Em 1580 é feito contrato para
-1834). O regresso após a República tem história a capela-jazigo dos condes e seus descendentes. Ape-
lenta. Em Abril de 1916 chegam ao Porto Frei Ber- sar da anexação de igrejas para o aumento de rendas
nardo Lopes e José Lourenço. Instalam-se na Rua de (São Nicolau, Travanca, Regedoura) e das doações, o
Cedofeita e depois na Rua Miguel Bombarda e exer- convento não tinha viabilidade financeira. No final do
cem apostolado nas igrejas vizinhas. O primeiro de- século xvi viviam dois religiosos, em 1623 quatro, em
dicava-se mais ao confessionário e o segundo à pre- 1639 seis e nos meados do século 10 a 12. Para ultra-
gação. Fundou a revista de direcção espiritual Flores passar o impasse, a câmara pediu ao rei D. Pedro II

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PORTO

imposição de um real em cada quartilho de vinho que serviu de quartel até 1814. Mais uns anos e 1834
se vendesse na vila. Essa concessão foi-se renovando, punha fim à vivência comunitária neste lugar. Reor-
com algumas contrapartidas do convento (cf. TAVA- ganizaram a presença portuense a partir da Foz do
RES - A fundação). Os Jesuítas estabeleceram-se no Douro, graças ao benemérito Doutor Sebastião Freire
Porto com a ajuda de D. Rodrigo Pinheiro, a simpa- de Vasconcelos. A 6 de Agosto de 1936, Frei Joaquim
tia de Henrique Nunes de Gouveia (patrono que os de Santa Teresa e Frei Jaime de São José entraram
acolhe na Ribeira) e a decisão de São Francisco de na Foz e ficaram hospedados em casa do Dr. Vas-
Borja, deslocado ao Porto em 1560, fundando o Co- concelos. Passaram a casa de outro amigo, Dr. Ar-
légio de São Lourenço. Em 1561 já eram sete. Gra- mando Vieira. Alugaram casa na Rua Alto da Vila.
ças a beneméritos, como Luís Álvares de Távora, Em Janeiro de 1943 já estavam na Rua de Gonda-
mudaram para a Rua das Aldas, agora Largo do Co- rém, 182. A comunidade cresceu e exigiu transferên-
légio, em 1577. Em 1630, os Jesuítas estenderam o cia para o n.° 508. A necessidade de obras levou à
ensino ao Porto. Em 1669 foi autorizada a lecciona- construção de raiz em 1971-1973. Paralelamente
ção de filosofia e a câmara começou a colaborar nas funcionava a comunidade de estudantes em São Ma-
despesas do colégio. Pouco depois já atingia os 200 mede de Infesta, desde 1968 (Rua Henrique Bravo,
alunos. Aqui esteve desterrado o padre António Viei- 6731). A partir de 1972 teve permanente itinerância
ra, desde Julho de 1662 a Fevereiro de 1663. O nú- até ser integrada na Foz. A exiguidade da capela pa-
mero de religiosos no século xvn era de 25. Em ra as necessidades pastorais da população que aí
1759, suprimidos os Jesuítas, passaria para a Univer- acorria levou a lançar nova casa e construção (1983-
sidade de Coimbra. Após o regresso a Portugal, abri- -1986). Situa-se na Rua de Gondarém, 274. Exerce
ram residência no Porto em 1870. Chegaram a trans- uma larga tarefa pastoral. Outra casa da ordem situa-
ferir o colégio de Guimarães para o Porto em 1906, -se em Avessadas (Marco de Canaveses). Esta casa
mas seria encerrado três anos depois. O novo retor- do noviciado começou a dar os primeiros passos a
no, a seguir ao exílio republicano, é iniciado cautelo- 19 de Abril de 1960, na Quinta da Moria (Avessa-
samente em 1927. Hoje a comunidade tem 10 reli- das), em terrenos doados pela Irmã Maria de Jesus,
giosos e anima o Centro Universitário. Os Eremitas carmelita descalça do Porto. Foi inaugurada a 22 de
de Santo Agostinho estabeleceram-se em Cete, de Outubro de 1961. A igreja era dedicada ao Menino
fundação beneditina e anexo ao colégio de Coimbra, Jesus de Praga. Receberam votos sete noviços e o
de 1551-1834. Mais importante casa foi a de São hábito 14 novos postulantes. A comunidade religiosa
João Novo (1592-1833). Os Eremitas Descalços de estava também composta (9.11.1961). Em 1968 pas-
Santo Agostinho tiveram também a casa de Nossa sou a seminário menor. Recentemente (1984), a casa
Senhora do Bom Despacho (1745-1834), na Quinta foi adaptada a Centro de Espiritualidade para Retiros
da Mão Poderosa - Ermesinde. Estabelecem-se na e exercícios espirituais (com capacidade para 130
cidade do Porto em 1749. Instalam-se junto da Cape- pessoas). A Ordem dos Irmãos de Nossa Senhora do
la de Santo Ovídio, num colégio ou hospício contí- Monte do Carmo teve a comunidade de Nosso Se-
guo. Compraram o Colégio de São Lourenço à Uni- nhor de Além, em Gaia, entre 1733 e 1834. Os Con-
versidade de Coimbra, em 1780, por 12 contos de gregados, simples clérigos sem votos, uma fraterni-
réis. Passaram para esta sede em 1789. Tiveram au- dade livre dedicada à oração e ao apostolado com
las públicas e gratuitas até 1832. Suportaram a guer- pedagogia renovada, iniciaram casa no Porto em
ra civil e a casa foi submetida a «quartel-general» do 1680, após várias diligências durante cinco anos, fei-
batalhão académico. Passemos aos Carmelitas Des- tas pelo padre Baltasar Guedes, fundador do Colégio
calços. Após deliberação do Definitório-Geral de dos Órfãos. A pressão de Manuel Rodrigues Leitão,
Lisboa, a 14 de Janeiro de 1617, deslocaram-se ao desembargador da Relação no Porto e professor de
Porto Frei Tomé de São Cirilo, definidor-geral, e Direito em Coimbra, junto do amigo D. Pedro foi es-
Frei Sebastião da Ressurreição para obter autoriza- sencial. Os Mínimos de São Francisco de Paula fun-
ção das entidades locais. Foram acolhidos carinhosa- daram, em Lordelo do Ouro, um hospício ou resi-
mente pelo governador do município e com ultrapas- dência em 1780. Os Espiritanos tiveram o Colégio
sadas reservas pelo bispo. Viram casas espaçosas na de Santa Maria no Porto (1886) e o Seminário Apos-
Rua de São Miguel, propriedade do abade de São tólico da Formiga, em Ermesinde (1894). Depois de
Vicente do Pinheiro. Com uns arranjos rápidos pre- 1919, sendo provincial D. Moisés Alves de Pinho,
pararam o lugar. Frei Paulo da Trindade seria esco- novas casas foram abrindo. Presentemente são ape-
lhido para prior e oito padres e dois irmãos iniciaram nas cinco estes missionários na Residência do Pi-
a comunidade, a 16 de Julho de 1617. Entretanto, in- nheiro Manso. Os Claretianos entram no Porto em
dagaram de um local para erigir um convento e esco- 1 de Julho de 1908, na Real Officina de São José.
lheram-no junto à Porta do Olival. Propriedade do Nos anos 40 abrem noviciado nas Termas de São Vi-
concelho, o terreno foi cedido e ampliado pela com- cente em Penafiel. Em 1945, iniciam no Porto uma
pra de terrenos vizinhos. Logo a 5 de Maio de 1619, assistência religiosa (capelania). Constroem o Semi-
o bispo lançava a primeira pedra. As obras cresce- nário de Filosofia e tomam encargo de uma paróquia.
riam ao ritmo das ofertas dos fiéis e levariam um Quando se tornam vice-província (1950) compram
empurrão final com generosa dádiva do município o Seminário Menor dos Carvalhos, onde instalam o
(100 000 réis). Em 1628 inaugurou-se a igreja. grande colégio-internato (Gaia), que orientam. Os
A partir de 20 de Julho de 1787, a comunidade pas- Capuchinhos instalaram-se no Amial em 1941, com
sa a receber o noviciado, sobretudo para o ultramar. seminário menor. A partir de 1966 fixaram-se os es-
Teve grande turbulência no período das Invasões e tudos de Teologia. Hoje assumem o serviço paro-

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PORTO

quial do Amial, a capelania do Hospital de Santa substituído por mosteiro de monjas franciscanas,
Maria e do Instituto de Oncologia. Em Gondomar fundado por Flamula Gomes. O movimento monásti-
vive outra comunidade desde 1956, com seminário. co feminino na diocese do Porto estabelece-se, por
Ao todo, presentemente, são 16 os membros. Os isso, em antigas abadias duplas: Vairão e Rio Tinto.
Combonianos estabeleceram-se na Maia (1958). Pre- Outras aderem entre 1085-1115: Sandim, Tuias e
sentemente são cinco membros. Os Dehonianos têm Bouças (Matosinhos). A abadia de Rio Tinto está
o Seminário Menor Missionário Padre Dehon - no em relação com os eremitas de Santa Cruz do Bispo
Porto, a partir de 1959. Receberam encargo paro- em 1140 e funda uma dependência em Mosteiro por
quial e desenvolvem o movimento de espiritualidade 1200; Jazente adere nesta época. O mosteiro duplo
Jovens Valentes, com a revista mensal Folha dos Va- de Arouca é dado pela sua padroeira a irmãs bene-
lentes. Têm centro dehoniano, com a paróquia nova ditinas em 1154. Quanto à presença beneditina há a
da Senhora da Boavista. Animam em Rio Tinto a referir Vairão (974-1891) (cf. FERREIRA - O couto),
obra ABC (Amici Boni Consilii). Os membros são Tuias (século xn-1535), Rio Tinto (século xi-1535),
actualmente 11. Os missionários da Consolata inicia- Vila Cova das Donas (Sandim-Gaia) (a. 1081-1535).
ram a sua presença por um centro de animação mis- Em Mosteiro (Vila do Conde) houve mosteiro extin-
sionária, na Avenida Fernão de Magalhães, n.° 1067 to durante a Idade Média e incorporado no de Rio
(1953). Actualmente são cinco e têm uma comunida- Tinto (MATTOSO - Os cartórios, p. 144). O Mosteiro
de no Seminário da Quinta do Mirante - Aguas San- da Encarnação ou Ave-Maria, conhecido por Mostei-
tas no Alto da Maia (1959). Os Passionistas têm um ro de São Bento da Ave-Maria, foi fundado em 1518.
seminário em Santa Maria da Feira. Chegaram em Destinava-se a recolher monjas transferidas das co-
Dezembro de 1955 e deixaram em Fevereiro de munidades situadas em lugares ermos: Rio Tinto,
1957. Regressaram novamente a 9 de Maio de 1965. Vila Cova, Tuias, da diocese do Porto, e Tarouquela,
Actualmente a comunidade é formada por nove pres- da diocese de Lamego. Reunidas, poderiam ter me-
bíteros. A Sociedade Missionária da Boa Nova ani- lhor assistência espiritual e ser exercida maior vigi-
ma a Casa de Cucujães e o Seminário de Valadares, lância. Abriu em 1535. O real patrocínio permitiu
com apenas 11 padres. Impulsionaram as célebres esta construção, nas hortas do bispo. Motivou novo
Semanas Missionárias e dão vida à apreciada revista arranjo urbanístico pela abertura da Rua das Flores e
Igreja e Missão. Os Vicentinos (Congregação da da nova porta de carros. Em 1629 tinha mais de 70
Missão) vivem na Casa de Santa Quitéria (Felguei- religiosas e em 1688 mais de 100 (cf. AZEVEDO -
ras) (1868). Após a extinção em 1910, dois vicenti- A Cidade, p. 32). A igreja, incendiada em 1783, é
nos, um padre e um irmão continuam em Santa Qui- reedificada logo depois. Para este mosteiro vieram,
téria, numa casa da confraria. Em 1927 abrem o também, as freiras do convento de Monchique, fran-
seminário menor em casa alugada de Jugueiros, em ciscano, quando o governo o converteu em arrecada-
1928 o Seminário de Santa Teresinha, em Pombeiro, ção bélica. Onde existiu o Mosteiro de Ave-Maria
e o Seminário de São José (Lagares) (1938). Em seria construída a Estação de São Bento (1900) - cf.
1968 estão presentes na cidade do Porto (Rua do MAIA, F. P. Sousa; MONTEIRO, I. Braga da Costa - Do
Amial). A Congregação dos Sagrados Corações, en- Mosteiro da Avé Maria à estação de São Bento. Poli-
tre 1963 e 1974, funcionou no Seminário Menor Pa- grafia. 5 (1996) 41-56, onde se estuda a polémica,
dre Mateó em Baltar (Paredes) e no seminário maior. acerca da demolição. Após a República, estabelece-
Após a revolução de Abril decaíram e reduziram a -se novamente o monaquismo feminino inspirado
sua presença. Os Irmãos Maristas vieram para o Por- em São Bento. As monjas beneditinas da Rainha dos
to em 1959. Tiveram comunidade no colégio da Apóstolos têm casa em Roriz (1935), com 33 irmãs
Boavista até 1994. Em 1960 compraram uma quinta no Mosteiro de Santa Escolástica e as beneditinas
em Ermesinde. Lá instalaram o noviciado entre missionárias de Tutzing, em Baltar (1961), com nove
1962-1965. Esteve depois fechada até 1978. Em irmãs. Das Dominicanas foi o Mosteiro Corpus
1980 instalou-se aí um lar para irmãos universitá- Christi, ou São Domingos das Donas (1345-1894),
rios. Seria seminário médio e em 1994 passou a Lar em Gaia - cf. CASTRO, Júlia C . de - O Mosteiro de
de Assistência Social a Menores. Construíram, na S. Domingos de Donas de Vila Nova de Gaia (1345-
quinta, um centro de espiritualidade, animado pelo -1513). Porto: FLUP, 1993. A instituição deve-se à
Movimento Oásis (1985). 5.2. Vida religiosa femini- nobre piedade de Maria Mendes Petite, viúva de Es-
na: Sobre esta matéria tão vasta recolhemos alguns têvão Coelho e mãe de Pedro Coelho, um dos assas-
dados privilegiando a pré-extinção e os primeiros sinos de Inês de Castro. A escritura de doação, aos
passos posteriores das congregações mais importan- dominicanos do Porto, é de 11 de Outubro de 1345.
tes. Quanto ao elenco remetemos para o Anuário As freiras viviam no mosteiro de Santarém. A falta
2000 da diocese do Porto (p. 107-114). A maioria de autorização eclesiástica levou o cabido a embar-
das casas beneditinas, a partir dos fins do século xi, gar a situação e a interpor recurso para a cúria. Nova
devia abrigar nas suas imediações algumas mulheres doação e dote é feito a 11 de Abril de 1354 ao prior
que pretendiam levar vida religiosa sem ingressar na de São Domingos (FERREIRA — Memórias, vol. 1,
comunidade, segundo a tradição da Península: eram p. 370-373). Entre 1368 e 1448 foi de oito o número
chamadas devotae. Com a importância crescente das de freiras. Em 1623 tinha 47 religiosas e em 1688 vi-
comunidades femininas, a partir dos meados do sé- viam 67 em grande pobreza, com a casa a ameaçar
culo xii as devotae vão desaparecendo. O mosteiro minas. Foi extinto em 1834. Aí se instalou a Confra-
de Entre-os-Rios (Torrão) sucede a uma comunidade ria de Nossa Senhora do Rosário e de São Domingos
de devotae, presidida pelo praepositus Toderedo. Foi (1882-1922). Desde então foi sede do Instituto Fe-
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minino e Regeneração confiado às Irmãs do Bom Centro Apostólico do Bom Pastor. Esta congregação
Pastor (1930). A presença dominicana feminina é tem presentemente 65 irmãs. A Ordem da Visitação
hoje continuada pelas Irmãs Dominicanas de Santa de Santa Maria ou Salésias consagrava-se a visitar
Catarina de Sena, com casa de quatro irmãs, em Pi- os pobres e doentes e à educação de meninas. Em
nheiro da Bemposta, pelas Irmãs Missionárias Do- 1910, tinham ainda o Colégio de Visitação, em Vilar,
minicanas do Rosário, com comunidade de 10 irmãs, para alunas internas e externas (1879-1910). As
no Porto, e pelas Religiosas Missionárias de São Do- Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição
mingos, estabelecidas no Porto e com 11 irmãs. As orientam o Colégio de São José-Bairros (1897); Co-
clarissas ou Segunda Ordem de São Francisco tive- légio da Bonança-Gaia (1927); Casa de Saúde da
ram presença no Mosteiro de Santa Clara de Entre- Boavista-Porto (1934) e a Escola Superior de En-
-os-Rios (1258-1427). Em 1264, D. Flamula Gomes fermagem-Porto (1937); o Externato Santa Joana-
faz concórdia com o bispo para o lançamento do -Ermesinde (1936). Em 1960 estabeleceram-se em
mosteiro de clarissas em Entre-os-Rios. A fundadora Fontiscos (Santo Tirso) com o Lar de São José e o
construía a igreja paroquial do Salvador e ficava noviciado. Abriram o Lar Betânia-Ermesinde, em
isenta de jurisdição episcopal para os dízimos. Com- 1973. O aspirantado e juniorado faz-se na Casa de
petia à abadessa apresentar o cura, confirmado pelo Nazaré-Gaia desde 1985 e o postulantado na Casa
bispo, para o encargo da paroquialidade. Este mos- de Santa Teresinha, no Porto, desde 1996. As Irmãs
teiro seria transferido para o Porto (1427-1900), com Hospitaleiras servem também diversas instituições
o mesmo nome. Teve bênção de primeira pedra a 28 que não lhes pertencem: Misericórdia de Lousada
de Março de 1416, pelo bispo D. Fernando Guerra. (1897), Misericórdia de Marco de Canaveses (1920),
O rei, filhos e corte assistiram ao acto solene. Houve Colégio-Creche do Candal-Gaia (1923), Misericór-
ainda o Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição ou dia de Paredes e de São João da Madeira (1929) e
Santa Clara de Amarante, criado pelas Mantelatas Colégio de São Gonçalo-Amarante (1931). Às Fran-
(1333) e depois da ordem (c. 1449-1861). Além da ciscanas Missionárias de Nossa Senhora, chamadas
cidade do Porto ter já o Mosteiro de Santa Clara de Calais até 1905, vêm para o Porto em 1877, a pe-
(claustral) é fundado outro, reformado, em Miragaia, dido de membros da Associação Católica. No ano
sob o nome de Madre de Deus de Monchique (1535- seguinte transferem o noviciado e a casa-mãe para a
-1835). Deve-se aos fidalgos Pedro da Cunha Couti- cidade. Nos finais de 1889 já tinham quatro comuni-
nho e mulher, D. Beatriz Vilhena, proprietários dos dades. A partir do desacato de 1901, viram-se obri-
paços de Monchique. A igreja estava concluída em gadas a dispersar o noviciado, até então a funcionar
1533 e deu-se início à vida conventual em 1538. no Convento de Santo António das águas férreas.
A primeira abadessa era sobrinha da fundadora, Isa- Em 1910 eram 204 irmãs, no Portugal inteiro. Após
bel da Anunciada, que veio de Coimbra com mais a clandestinidade e dispersão, recuperaram terreno a
três companheiras. Também relacionada com as Cla- partir de 1922. O noviciado, devido ao receio da ins-
rissas pode referir-se a Ordem dos Catarinos, que teve tabilidade manteve-se em Tui entre 1927 e 1936. São
uma comunidade em Gaia (Monchique, Nossa Senho- comunidades actuais: Hospital de Santa Maria (1888),
ra do Desterro (1632-1834) e a Ordem da Conceição com 38 irmãs; Escola Superior de Enfermagem de
de Maria, erigida em 1511, com uma sede, sob título Santa Maria (1952), com quatro irmãs; Colégio Lu-
de Nossa Senhora da Conceição, em Arrifana do so-Francês (1936), com 1200 alunos e 25 irmãs; Ex-
Sousa (1716). As Carmelitas Descalças tiveram o ternato Nossa Senhora de Lourdes (Santa Cristina do
seu mosteiro no Porto, conhecido como Convento de Couto-Santo Tirso), 1923, com 250 alunos e nove ir-
São José e Maria ou São José e Santa Teresa, no lu- mãs; Externato Santa Margarida, da Quinta da Aze-
gar do Calvário (1702-1833). Regressaram ao Porto nha-Gondomar (1961), com 235 alunos e 34 irmãs;
(1943) e têm o Mosteiro do Imaculado Coração, Centro Bem-Estar Infantil e Juvenil do Sagrado Co-
inaugurado em 1951, com 23 membros. Outras con- ração de Jesus (1892), com 20 irmãs; Casa Louise
gregações, após a extinção de 1834, escolhem o Por- Mabille (1995), com quatro irmãs; Casa Nossa Se-
to como lugar da sua missão. O padre Luís Martins nhora dos Anjos (1979), sede provincial com seis
Rua, tendo conhecido as Irmãs do Bom Pastor em irmãs; casa de formação do noviciado (Gondomar)
Pau (França), procura trazê-las para o Porto. Contou (1963), com três irmãs. Há comunidades ao serviço
com a colaboração de D. Jerónima Júlia do Vale Ca- de instituições não próprias; Hospital da Lapa
bral Ribeiro e, a 10 de Maio de 1881, vieram as pri- (1956), com cinco irmãs; Misericórdia de Arouca
meiras cinco religiosas. Depois das habituais dificul- (1960), com cinco irmãs. O Instituto Jesus Maria e
dades iniciais, fixaram-se na Quinta Amarela (Rua José foi fundado por Rita Lopes de Almeida. Experi-
do Vale Formoso). Em 1894 tornou-se superiora Ma- mentou viver entre 1877 e 1880 nas Irmãs da Cari-
ria Droste Zu Wischering (Irmã Maria do Divino dade do Porto e depois, como interna, num colégio
Coração), que morreu no Porto em 1899, aos 36 em Santa Maria da Feira. Recentemente criadas, são
anos, e foi beatificada em 1975. O regime republica- expulsas no rescaldo republicano e regressam a Por-
no encerrou as portas a esta instituição. Em 1930 re- tugal em 1934. O noviciado foi instalado em Paços
gressaram. Instalaram-se em Gaia (1930), onde dois de Brandão e depois, em 1952, transferido para
anos depois abriu o noviciado. Em 1956, a congre- Ovar. As Irmãs de Santa Doroteia marcaram várias
gação abriria a Casa de Ermesinde. Tem também o gerações, através do ensino. O Colégio do Coração
Lar Luísa Canavarro na paróquia da Senhora da de Jesus ou do Sardão em Gaia (1879-1910) é reno-
Conceição-Porto (1963) e uma comunidade em Vila vado após a República. Actualmente funciona tam-
Meã. Restauraram a comunidade de Arca de Água: bém como Casa de Retiros. Animaram igualmente o

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Colégio dos Sagrados Corações de Jesus e Maria em vador do Mundo. Tripeiro. 8 (1968) 257-262, 311-
Ovar (1897-1910). Actualmente dão vida ao Exter- -315, 348; DIAS, G. Coelho - Um certo Porto devoto
nato de Nossa Senhora da Paz e à Escola Superior de no Porto do liberalismo: A Arquiconfraria da Imacu-
Educação Paula Frassinetti. As religiosas do Amor lada Conceição de Maria. Humanística e Teologia.
de Deus chegaram ao Porto em 1932 e instalaram-se 14 (1992) 383-392. As ordens terceiras seculares ti-
no Grande Colégio do Porto, a troco de algumas au- veram grande papel na concretização da vida apos-
las. Em Julho de 1933 encarregaram-se do Colégio tólica, pela conciliação entre a perfeição interior,
de Nossa Senhora de Lourdes, sito na Rua Miguel segundo orientação de algumas ordens religiosas e
Bombarda (n.° 147-149), pertencente a D. Aurora acção no mundo. As ordens terceiras franciscanas
Gouveia. A 8 de Setembro foi inaugurada a capela vêm do século XIII. Esta experiência decaiu nos sé-
pelo cónego Nédio de Sousa, amigo da congregação. culos xiv e xv. Seria restaurada no século xvu. As
O número de alunos aumentou progressivamente até Franciscanas juntaram-se as do Carmo e de São Do-
ser pequeno o edifício. Em 7 de Outubro de 1939 mingos. Nova crise advém com a extinção das or-
abriu no solar da Quinta de Vilar, com alunas inter- dens religiosas em 1834. Muita tinta, carregada de
nas e externas. Em 1959 outro edifício foi adquirido polémica, correu acerca da isenção das ordens tercei-
na Rua António Cardoso, 95 e aí passou a funcionar ras. Caso interessante, dependente também dos cír-
o ensino infantil e primário. O colégio foi suspenso culos das diversas espiritualidades, é a Congregação
entre 1974-1976 e funcionou apenas a primária. Em Mariana, de influência jesuíta, fundada no colégio
1986 adquiriram o prédio e ampliaram as insta- do Porto para eclesiásticos e nobres em 1601; no ano
lações. No ano seguinte abriu o 2.° ciclo até ao 9.° seguinte inicia a Congregação para Estudantes. En-
ano. Actualmente tem 830 alunos. As Criaditas dos traram o bispo, o governador da cidade e alta nobre-
Pobres, nascidas em Coimbra, passaram ao Porto em za. Integrada no movimento de associativismo, pro-
1956, estabelecidas em Miragaia. Dedicaram a sua movido por católicos, está a Associação Católica do
acção aos mais carenciados e preocuparam-se com Porto, que tem a sua génese em 13 de Janeiro de
cristianizar as famílias nas próprias casas, a partir de 1870, ano em que o primeiro encontro de prepara-
uma intensa vida de oração e amor à liturgia. Hoje ção acontece, provavelmente em casa de Simão de
tem apenas três irmãs. A Congregação das Irmãs Almeida Nazaré, industrial de chapelaria na urbe.
Passionistas de São Paulo da Cruz chegou a Santa As reuniões vão-se multiplicando até se chegar aos
Maria da Feira a 18 de Outubro de 1984 e a comuni- estatutos (1872), redigidos por António Moreira
dade tem hoje três irmãs. 5.3. Institutos seculares: Belo em 1870, na casa cedida pelo padre António
Os institutos seculares representam um modo novo Joaquim de Azevedo e Couto. A aprovação civil vi-
de consagração, na fidelidade ao mundo profissio- ria a 20 de Janeiro de 1872 e a canónica a 9 de Fe-
nal. Só existe um instituto masculino, com 60 mem- vereiro. A primeira junta directora é eleita em 10 de
bros: O Instituto do Coração de Jesus. Os femininos Março e Roberto Woodhouse (1828-1876) é o pri-
são nove, com perto de 100 elementos. Dos mais co- meiro presidente. Antes desta criação e pelo meio
nhecidos é o Instituto Secular das Cooperadoras da da sua génese esteve o Congresso Católico realiza-
Família, fundado pelo monsenhor Alves Brás, ani- do no Palácio de Cristal a 27 e 30 de Dezembro de
mador das casas de Santa Zita: Santo Tirso (1951) e 1871, e 1, 2 e 5 de Janeiro de 1872. Este Congresso
Porto (1955). A Associação das Educadoras Paro- de Escritores e Oradores Católicos Portugueses,
quiais foi erecta canonicamente em 31 de Maio de presidido por D. Francisco Correia de Lacerda, vis-
1970, por D. António Ferreira Gomes, com estatutos conde de Azevedo e conde de Samodães, une os ca-
próprios. O movimento foi iniciado em 1956 por tólicos, sem atender a distinções partidárias. D. An-
Maria Joaquina Oliveira Santos Ribeiro, de Fiães- tónio de Almeida, um dos promotores, salienta que
-Feira, e obteve primeira licença do bispo em 1954. se trata de «unir esforços dos que trabalham na de-
Dedica-se a apoiar as comunidades paroquiais na fesa da religião» - O Direito. 14: 136 (30 de De-
formação doutrinal, animação litúrgica, apoio a zembro de 1871) 1. De salientar nomes de clérigos
doentes e idosos. 5.4. Movimentos de Apostolado e que seriam 38 % dos participantes, segundo cálculo
Espiritualidade: Sendo fenómeno sempre presente de Gonçalves (A Associação Católica, p. 18), como
na vida da Igreja, mereceu o estudo e o interesse re- Luís da Silva Ramos, João Vieira Castro Cruz, ar-
cente a descoberta de correntes e movimentos corres- cediago Van Zeller, António Couto, Luís Ruas e os
pondentes aos antepassados do que nos séculos xix e cónegos Alves Mendes e Manuel Barbosa Leão, e
xx apareceu pujante e diverso. As confrarias medie- referir leigos como o marquês de Monfalim e Ro-
vais e modernas são movimentações de apostolado e berto Woodhouse, além dos já citados organizado-
espiritualidade quer na sua dimensão corporativa de res. E de evidenciar uma larga movimentação de
ofícios quer pela reunião de objectivos religiosos co- pessoas à volta da futura Associação Católica. Esta
muns. São poucos ainda os estudos - por exemplo: novidade revitalizadora da Igreja, capaz de congre-
DINIZ, Manuel Vieira - Uma confraria mariana do
século xvi (Paços de Ferreira). Douro Litoral. 3-4 gar figuras grandes e influentes, teve contestação e
(1956); BRANDÃO, Domingos de Pinho - A Congre- ataques por parte do anticatólico jornal Diário da
gação de Nossa Senhora da Purificação e o seu al- Tarde. Mesmo assim, em 1873, atingiu o número de
tar privativo na Igreja dos Grilos. Porto, 1957; CON- 1300 associados (GONÇALVES — A Associação, p. 27).
CEIÇÃO, Manuel Rodrigues - A Confraria das Almas Uma das finalidades da associação era fomentar pu-
do Corpo Santo de Massarelos. Porto, 1958; COUTI- blicações que difundissem a religião católica. Lugar
NHO, B. Xavier - Capelas e confrarias do Senhor Sal- de destaque mereceu o jornal A Palavra (1.8.1872-
-1913). Neste sector de propaganda apologética as-
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sumem destaque o editor José Frutuoso da Fonseca e Já do século xx é a Liga de Acção Social Cristã, su-
o conde de Samodães. A difusa implantação no Nor- cessora da Associação de Padres Adoradores, que a
te causa impacte e influencia profundamente as men- partir de 1912 se estendeu de Lisboa a todo o país.
tes. A actual sede, na Rua Passos Manuel, foi inau- A Liga da Boa Imprensa aos Pobres surgiu no Porto
gurada a 22 de Junho de 1884. Será a Associação e serviu de inspiração à Liga da Boa Imprensa, esta-
Católica a implementar a criação da Juventude Cató- belecida em várias dioceses a partir de 1915, pela
lica do Porto e do Círculo Católico de Operários acção do padre Benevenuto de Sousa. Dentro do mo-
(1898), onde se lança a pioneira experiência de um vimento católico surge a Associação dos Médicos
sindicalismo católico em Portugal. O trabalho desen- Católicos (1915). Para enfrentar os problemas do en-
volvido pela associação vai ser base para o apareci- sino republicano constituiu-se a Associação dos Pais
mento de um Centro Académico de Democracia de Família (1916). Algumas organizações da primei-
Cristã, em Coimbra. Para responder às consequên- ra metade do século xx têm aparecimento efémero.
cias da Lei da Separação reanimaram-se os sindica- É o caso de Obra Expiatória ou Associação das Al-
tos de orientação católica com o nome de Círculos mas mais Abandonadas do Purgatório (Rua dos
Católicos. Nascem no Porto em 1898, sob a protec- Caldeireiros, 237), dirigida pelo cónego Correia da
ção da Associação Católica do Porto (1871). Além Silva e pelo padre Conceição Cabral. Outros nomes
de cristianizar a sociedade portuguesa pretendia lutar sugestivos de organizações efémeras: Associação
contra a impiedade, implementar a justiça e proteger dos Pagenzinhos do Santíssimo Sacramento, Pia
os operários. A União Católica teve grande aceita- União do Trânsito de São José, Devoção dos Ami-
ção e impulso diocesano, nas múltiplas iniciativas guinhos e Amiguinhas do Menino Jesus, Obra das
caritativas, económicas e sociais. O Círculo Católico Três Marias e dos Discípulos de São José Evange-
de Operários do Porto foi fundado por Manuel Fru- lista. A União dos Tarcísios do Porto, com núcleos
tuoso da Fonseca e dois operários, a 9 de Junho de activos paroquiais desde 1936, dedica-se à venda de
1898, como eco de inspiração francesa, resposta do jornais e almanaques de devoção eucarística. A Ju-
movimento católico português à situação da Igreja ventude Antoniana do Porto, agremiação com reu-
na sociedade e testemunho do impulso lançado pela nião mensal de sócios, já em 1936, renovou-se e
política social de Leão XIII. Pretende defender a re- prossegue em movimento activo. O escutismo cató-
ligião e lutar contra o socialismo promovendo a lico apareceu no Porto em 1924, graças a Franklin
recristianização da sociedade. Chegou a contar com António de Oliveira, padre Abílio Cardoso Pinto da
2000 membros e foi o único que integrou associa- Cunha, pároco do Bonfim, e ao cónego Dr. João
ções profissionais (fabricantes de calçado e alfaia- Francisco dos Santos. O primeiro comissário regio-
tes) e uma cooperativa de produção (calçado), uma nal do Porto foi Alberto Pinto Saraiva. O movimento
cooperativa de crédito e de consumo (1909), uma so- foi conquistando espaço paroquial, em sucessivas lu-
ciedade de socorros mútuos e um grupo de estudos fadas de implantação. Em 1992 a preocupação pela
sociais (1909). Este círculo não só esteve na ori- preparação cristã lança o «Rumos do homem novo»,
gem como serviu de modelo a outros. Porta-voz pú- que marca nova atitude na orientação pastoral do
blico do círculo era o semanário O Grito do Povo movimento. A região do Porto é constituída por 100
(9.6.1899), que viria a aceitar a integração do perió- agrupamentos, movimentando 8850 crianças e jo-
dico A Democracia Cristã, em dificuldades a partir vens (2002 lobitos, 2425 exploradores, 1798 pionei-
de 3.8.1907. O novo proprietário será o advogado Al- ros, 1101 caminheiros e 1519 dirigentes). Movimen-
berto Pinheiro Torres, deputado nacionalista. A maio- to eclesial por excelência, nos meados do século xx,
ria dos artigos do Grito pertencem a Manuel Fructuo- foi a Acção Católica, nascida em 1933, para impre-
so da Fonseca (1908), padre Benevenuto de Sousa, o gnar cristãmente a sociedade, segundo modelo de
grande animador, José Martins, Manuel Duarte de Al- movimento total, presente nos vários «meios so-
meida, padre Paulino Afonso, padre Roberto Maciel. ciais». Entre o pós-guerra e a revolução de Abril, foi
A morte prematura do fúndador levou a presidente o o grande motor da renovação religiosa, o protagonis-
cónego José Alves Correia da Silva, professor do se- ta de um catolicismo militante e social e o formador
minário. A sede é inaugurada a 31 de Maio de 1910 e de quadros dirigentes com sentido de corresponsabi-
logo atacada após a República, em 15 de Fevereiro lidade, capazes de levar à prática a nova mentalidade
e 30 de Setembro de 1911. Desta vez um incêndio conciliar. Vários dirigentes e assistentes nacionais
destrói quase completamente o então recente espaço. saíram das fileiras portucalenses. Ligados, ainda ho-
No contexto do final do século xix situam-se as Con- je, à Acção Católica funcionam na diocese a Acção
ferências de São Vicente de Paulo, que no Porto fo- Católica Independente, Acção Católica Rural, Jo-
ram implantadas em 1879, pelo conde de Samodães. vens da Acção Católica Rural, Liga Operária Católi-
O primeiro conselho central masculino foi instituído ca, Movimento Católico de Estudantes, Movimento
a 8 de Maio de 1893, e o conselho central feminino a de Educadores Católicos e Associação dos Médicos
6 de Julho de 1940 e, há uma dezena de anos, apare- Católicos. Também o Metanoia (1986) é movimento
cem também grupos de jovens vicentinos. Ainda do de profissionais, com raiz na Acção Católica. No
século xix as Filhas de Maria são introduzidas em campo da pastoral universitária há diferentes contri-
Portugal (1858). O Apostolado de Oração aparece butos de vários movimentos. Exerceu larga influên-
entre nós em 1864, como escola de piedade empe- cia em muitas gerações universitárias a Acção Cató-
nhada na salvação do mundo e aceitando a oração lica através da JUC, activa no apogeu dos anos 40 a
como motor de transformação. A esta espiritualidade 70 e depois agitada e decadente até à fusão com
se unem a Cruzada Eucarística e a Liga Eucarística. a JEC e criação do renovado e aberto Movimento

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Católico de Estudantes. Novas realidades se vão ten- de grupos: o Movimento de Casais de Santa Maria
tando até chegar à criação de uma Pastoral Universi- (1957-), estabelecido sobretudo na região da Feira e
tária (1989), como sector coordenador de toda a ac- Oliveira de Azeméis, com reuniões mensais à volta
ção evangelizadora no meio universitário e operador de um tema formativo; a Escola de Pais Nacional
de iniciativas próprias. O primeiro director do secre- (1969-), que procura por debates informais ajudar
tariado diocesano é o padre António José Rodrigues os pais a realizar, nas mudanças sociais, a sua mis-
Bacelar. Também ao serviço deste campo está o são de educadores dos filhos; Movimento das Equi-
CREU. O Centro de Reflexão e Encontro Universi- pas de Nossa Senhora (1957-), de nível internacio-
tário foi inaugurado pelos padres jesuitas em 4 de nal, destinado à formação e entreajuda do casal e da
Novembro de 1989, como contributo para a forma- família, dirigido por leigos casados, que no Porto
ção espiritual dos universitários da cidade. O primei- envolve cerca de 120 equipas e 600 casais; o Outono
ro director foi o padre João Cabral. Entre 1991/1992 da Vida para casais após os 55/60 anos que come-
e 1997/1998 o centro contou com a animação do pa- çam a ficar sós e com a reforma à porta e precisam
dre Vasco Pinto de Magalhães. Em 1995/1996 veio de orientação espiritual, troca de pontos de vista e
trabalhar a tempo inteiro o padre Gonçalo Eiró e momentos de oração; Movimento Esperança e Vida
agora assume a direcção com a colaboração do padre (1958-), de origem francesa (1946) para viúvas com
José Maria Cabral Ferreira. O Movimento dos Cur- o objectivo de saírem do isolamento e encontrarem
sos de Cristandade entrou no Porto no ano de 1961. o equilíbrio na provação e descobrir um lugar no
O primeiro curso teve lugar no seminário maior, com mundo e a missão no lar. Com vários centros na
inicio a 15 de Abril. Foi director espiritual o padre diocese e estatutos aprovados em 1979. Movimento
Vicente Latiegui e reitor José Casanova, além de ou- de Vida Ascendente, para leigos reformados ou em
tros espanhóis. A década de 60 foi de recepção e vias de reforma, que oferece aos mais velhos oca-
adaptação. Depois de percorrer vários lugares: Hotel sião de aprofundar a fé, abrir caminhos de integra-
de Entre-os-Rios até fins de 1964, Hotel das Caldas ção, impulsiona a participação activa na pastoral.
de Canaveses, até 1966, foi inaugurada a Casa São Os membros vivem em pequenos grupos de oito a
Paulo, em Cortegaça (16.10.1966). Por altura do dez pessoas onde se pretende viver a amizade, a es-
25.° curso na diocese, D. Florentino publicou uma piritualidade e apostolado. Em 1987 eram 60 pes-
carta pastoral sobre os cursos e o apostolado laical - soas divididas em cinco grupos. São de referir, ain-
4 de Abril de 1964: Lúmen. 28 (1964) 291-299. De- da, os movimentos: Schoenstat desde 1960, Serviço
nota grande confiança neste movimento que classifi- de Entreajuda e Documentação Conjugal (1965),
ca como «método de espiritualidade e formação», Famílias Novas (Focolares) presentes no Porto des-
iniciado no curso entusiasmante e continuado no de 1966, Pró-família (1974), Encontro Matrimonial
pós-curso, por uma convivência vigorosa com Cristo (1985) e os mais recentes: Movimento por Um Lar
e aceitação de todas as suas exigências. A vitalidade Cristão (1990), Tempo de Esperança (1995) e As-
religiosa suscitada nas comunidades, o espírito de sociação Famílias (1995). O Fé e Luz, chegado ao
colaboração activa e a dimensão fraternal são realça- Porto em 1983, é uma associação com implantação
das. Pretende o bispo integrar o novo movimento na internacional (1971) que pretende: suscitar nos pais
Junta Diocesana da Acção Católica porque está con- de deficientes mentais, sua família e amigos uma
victo das vantagens da confluência. A década de 70 comunidade com laços profundos, inserir a comuni-
foi para os cursos de cristandade de reajustamento, dade nas comunidades humanas para desenvolver
até se chegar, na década de 80, à valorização do capacidades dos deficientes em ordem a ocuparem
pós-curso, utilizando o esquema do itinerário cate- o seu lugar no mundo e corresponderem ao chama-
cumenal, nunca esquecendo o estilo querigmático, mento à santidade. Vários movimentos de espiritua-
testemunhal e a proclamação festiva e alegre do lidade têm particular vida na diocese. O Movimento
fundamental cristão. Tem o jornal Fermento desde Oásis, centrado na espiritualidade do serviço por
1994. Em Dezembro de 1999 foram publicadas amor, fundado pelo jesuíta Virginio Rotondi, che-
orientações, à maneira de estatutos para guiar a vi- gou a Portugal em 1958 e desde 1969 teve o seu se-
da do movimento (PINTO, Valdemar Alves - Refle- cretariado nacional na diocese do Porto, com a ani-
xões sobre o movimento dos Cursos de Cristanda- mação do padre Carlos A. Pereira e acção contínua
de. Porto: Ed. Secretariado Diocesano dos Cursos do padre Emílio Silva, colaboração de muitos leigos
de Cristandade, 1999). Até ao final de 2000 realiza- e padres que animaram cursos de fim-de-semana e
ram-se 250 cursos de homens e 190 de senhoras. grupos de serviço. Desde 1985 tem sede no Centro
Grandes animadores foram o padre Valdemar Alves de Espiritualidade de Ermesinde, lugar de acolhi-
Pinto, António Murias, António Lopes Vaz e mais mento fraternal e de renovação interior animado pelo
recentemente o padre José Lopes Baptista. A pasto- instituto secular Ancilla Domini. O Renovamento
ral familiar coordena várias acções promovidas por Carismático movimenta grande massas e congrega
diversos movimentos. Os Cursos de Preparação grupos de oração por várias paróquias. No estilo de
para o Matrimónio (1960-), destinam-se a ajudar os oração pentecostal, dão lugar à partilha espontânea,
noivos que desejam celebrar o casamento católico, ao canto festivo, grande disponibilidade de serviço
através de guias de diálogo e de testemunhos de vi- concreto. O Movimento dos Focolares, fundado por
da de equipa CPM. Tem mais de 50 centros na dio- Chiara Lubich, centraliza na vivência da Palavra de
cese e realiza, por ano, cerca de 150 cursos, atin- Deus uma espiritualidade cristocêntrica e geradora
gindo mais de 8000 noivos. Promovem a vivência de fraternidade. Está presente no Porto e mobiliza
dos compromissos matrimoniais pela constituição muitos jovens, quer nas Mariapolis, quer na harmo-


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nia vital de cada dia com Jesus abandonado, pre- TA MARIA - Santuário, vol. 5, p. 8-10). Também emi-
sente no meio da humanidade e acolhido como Ma- gram de Lisboa os títulos de Senhora do Vale e Se-
ria. O congresso de leigos, reunido entre 1 e 4 de nhora do Pilar. A Senhora do Pilar de Gaia, colocada
Dezembro de 1988, sob o tema «Renovar a igreja, em 1678, foi feita à imagem de São Vicente de Fora
compreender o mundo, servir o homem», contou e viajou a Lisboa para tocar na original e magica-
com 1500 participantes. Foi momento vibrante, em- mente lhe receber os dons. Santuários afamados são
bora sem consequências duradoiras - cf. MANUEL, também divulgados: Senhora da Luz, da Lapa, das
Alvaro; QUEIRÓS, Emanuel Reis - Congresso de lei- Virtudes e, recentemente, Senhora de Lurdes e de
gos da diocese do Porto. Atrium. 4 (1988) 51-56. Fátima. Cada congregação religiosa tinha as suas
Alguns grupos mantiveram, porém, o impulso reno- preferências devocionais: os Franciscanos promo-
vador e corresponsável, dentro das suas iniciativas viam a Senhora da Conceição; os Lóios, a Senhora
próprias. 5.5. Devoções e piedade: Na impossibili- do Vale; os Agostinhos, a Senhora da Graça; os Ora-
dade de historiar aqui a multiplicidade de devoções torianos, a Senhora da Assunção; e os Carmelitas, a
existentes em diferentes épocas, reduzimos este Senhora do Carmo. As confrarias do Rosário substi-
ponto ao culto mariano, já objecto de um levanta- tuem ou conseguem ultrapassar nos séculos xvii e
mento, realizado pelo conde de Samodães, e por es- xviii as mais antigas das Almas, da Cera ou Subsino
tudos mais recentes como o circunscrito à Imacula- e enraízam o costume de colocar o terço nas mãos
da Conceição (AZEVEDO - Vigor) ou a determinada dos defuntos. Refiramos os principais santuários ma-
região, como acontece com Arouca (NOSSA SENHORA rianos existentes, com vitalidade actual: o Santuário
na devoção do povo de Arouca: Exposição de es- de Nossa Senhora de La Salette provém de um mi-
cultura mariana do concelho de Arouca. Arouca, lagre. A feroz seca (1870) suscitou a necessidade
1988). O Boletim da Diocese do Porto documenta a de implorar a protecção de Nossa Senhora através
conquista de espaço da devoção ao Coração de Je- de uma procissão, finda a qual chovia, o que levou
sus, à promoção da devoção eucarística. A beatifi- à construção da capela (1880). O santuário iniciou-
cação de Nuno Alvares Pereira em 1918, gera uma -se em 1923 e terminou em 1940, sob orientação do
abertura de relação da Igreja com o sentir patrióti- arquitecto António Correia da Silva. O Santuário de
co, presente no Boletim Diocesano. As lendas e Nossa Senhora da Piedade (Sameiro-Penafiel) foi
crenças que envolvem as imagens mais antigas do iniciado em 1889, sob concepção do engenheiro Jo-
culto mariano identificam-se com o esquema mítico sé Pereira Leite. Ao estilo neobizantino é construí-
habitual. A antiguidade imemorial da Senhora da do no monte de São Bartolomeu o grande santuário
Vandoma, da Senhora da Batalha ou de Campanhã mariano penafidelense. O Santuário do Monte da
é disso sinal. As imagens têm um valor-relíquia au- Virgem foi iniciado no tempo de D. António Barro-
mentado pelas oposições ideológicas, pela presença so pela construção de uma capela, sob projecto do
de inimigos de fé e pelo aparecimento miraculoso: engenheiro Despouy (1905-1906). Aos poucos afir-
com luzes estranhas, sons celestiais, perfumes su- mou-se como centro mariano e lugar de devoção.
blimes, em grutas, lapas, troncos de árvores, silva- O Santuário de Nossa Senhora da Assunção ergueu-
dos. A Senhora de Campanhã ou a Senhora da Silva -se lentamente, na freguesia de Monte Córdova, en-
(FERREIRA, J. A. Pinto - Nossa Senhora da Silva. tre os anos 40 e 70. Situa-se esta grande basílica, de
Porto, 1967) são atribuídas ao século xiv, mas a estilo neo-românico, no alto do monte chamado da
lenda de D. Mafalda ter encontrado a imagem, ao Assunção, donde se recolhe deslumbrante paisagem.
construir a sé, já vem do século xvi. A da Batalha e A Senhora do Castelinho de Avessadas, ermida com
de Campanhã estão ligadas a acontecimento bélico milagrosa imagem, tem festa a 8 de Setembro e mui-
contra os mouros. Com o findar da Idade Média ta devoção, já no século xvin. Podem ainda referir-se
multiplicam-se as capelas e santuários marianos, a Senhora da Mó (Moldes), a Senhora da Saúde da
usando nomes tópicos que desdobram a devoção a Serra (Castelões-Vale de Cambra), Senhora dos Chãos
Santa Maria em diferenciadas Nossas Senhoras, em (Bitarães-Paredes), Senhora do Vale (Cete-Paredes),
significativo paralelo, com Nosso Senhor, que teve Senhora da Alumieira (Loureiro) - para mais dados
desenvolvido culto na devotio moderna. A quanti- cf. ARAÚJO, José; SILVA, Fernando - Santuários ma-
dade de capelas em outeiros e montes é promovida rianos da diocese do Poro. Atrium. 3 (1988) 43-50.
pelas determinações episcopais e pelo gosto da gen- As fórmulas expressivas da devoção popular adqui-
te abastada em ornar as suas quintas com capela, rem contornos dos quais aqui damos alguns exem-
verdadeira moda dos séculos xvii-xvin. As confra- plos sugestivos. É devoção da zona de Gaia, Feira e
rias profissionais erguiam também a sua capela Gondomar mandar dizer uma missa por um adulto
- ALMEIDA, Carlos A . Ferreira - O culto a Nossa recentemente falecido para que Nossa Senhora da
Senhora, no Porto, na época moderna: perspectiva Silva lhe guie a alma e retire as silvas do caminho
antropológica. Revista de História. 2 (1979) 159- para o além (OLIVEIRA, Camilo de - O concelho de
-173. Demos alguns exemplos de títulos devocio- Gondomar. Porto, 1938, vol. 4, p. 385). Os costumes
nais: Nossa Senhora da Ajuda (Lordelo do Ouro) rurais persistem longamente na cidade do Porto e a
tem a ver com zonas piscatórias e vida marítima falta de chuva levou a organizar uma procissão tra-
(LANHOSO, Coutinho - A Capela do Senhor e Se- zendo a Senhora de Campanhã para a sé ou lançando
nhora da Ajuda. Porto, 1962). Nossa Senhora da clamores que levava Nossa Senhora da Piedade do
Saúde ganha fama em Lisboa na luta contra a peste Terreiro, ou Senhora da Guadalupe, de Águas San-
e é invocação promovida na capela do claustro da tas, ao Senhor de Matosinhos (ALMEIDA - Culto de
Sé do Porto por Frei Marcos de Lisboa (1583) (SAN- Nossa Senhora, p. 169). A partir dos fins do primei-

5I
PORTO

ro quartel do século XVII inicia-se o costume das pro- deu-se à trasladação para o Bonfim, o que até hoje,
cissões dos Passos, na região do Porto, com drama- embora com menos impacte, criou grande devoção.
turgia das figuras da Senhora das Dores e de Cristo O culto dos santos ia para além das relíquias. Já foi
carregando a cruz a encontrarem-se. A primeira a es- estudado o culto a Santo António na diocese do Por-
tabelecer-se no Porto foi em Santo Ildefonso, em to (AZEVEDO - Roteiro do culto), mas não há um le-
1672, por acção de uns «missionários espanhóis» - vantamento para outras redes de santidade. No mun-
cf. também ROCHA, M . J. Moreira da - Construção de do de relações religiosas se traduzia a confiança dos
capela pela Irmandade do Senhor dos Passos: uma via fiéis em Deus. Neste âmbito referimos dois santuá-
crucis no espaço urbano. Poligrafia. 1 (1992) 65-85. rios: o Santuário de Santa Quitéria (1719-1734), dos
As romarias multiplicam-se. Apenas ilustramos com monges beneditinos de Pombeiro, foi construído
elementos do século xvin. A Senhora do Desterro, com base num milagre de cura lá acontecido em
sendo a mais famosa do Mosteiro da Vitória do Por- 1714. Em 1855 um vicentino, padre Joaquim Álva-
to e a Senhora de Copacabana do convento dos res Moura, interessou-se pelo restauro e construção
Lóios são testemunho do movimento de influência da torre (1875-1879). Várias capelas são edificadas
dos brasileiros no regresso do culto mariano. Os por- na subida. Teve em 1989 grande remodelações. De
tuenses do início do século XVIII acorrem às festas da origem mais recente é a devoção que origina o San-
Senhora da Hora, na Fonte das Setebicas e à Senhora tuário do Menino Jesus de Praga, construído em
do Salto, em Recarei. A Ermida da Senhora da Luz, 1960 (19 de Abril) em Avessadas-Marco de Canave-
da Foz do Douro, tinha no século xvn devotos de Vi- ses, no convento dos Carmelitas. A inauguração foi
la do Conde e Fão. A festa de Nossa Senhora do Ó, a 22 de Outubro de 1961 e, pela decoração interior,
na Ribeira, era gerida por moradores e congregava desenvolve a espiritualidade ao Menino Jesus, com
ricos e pobres. Em Massarelos e na Foz havia as o colorido dos santos carmelitas. As procissões são
confrarias de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, aspecto devocional de enorme impacte desde a Ida-
com festa independente da outra habitual. Em 1758 a de Média, mas com impacte impressionante nos sé-
romaria à Senhora do Amparo, de Alfena, no primei- culos xvn e XVIII. Há um estudo para as procissões
ro domingo de cada mês, atrai fregueses e vizinhos. do Porto de Luís de Sousa Couto (Origem). Às ve-
Cantam o terço na capela e dão rosários tirados à zes a motivação resultava de uma promessa de gra-
sorte. Para Alvarelhos, à Capela de Santa Eufêmia, tidão por graça recebida, como acontece na festa de
acorre em romaria, no terceiro domingo de Setembro São Sebastião, nas fogaceiras de Santa Maria da
de cada ano, gente de várias partes. A festa da Se- Feira ou no Milagre do Senhor Crucificado de Santa
nhora do Desterro, no Domingo de Pascoela, em Marinha (Gaia). Em 1420, após uma procissão a peste
Arada, atrai grande concurso de povo das freguesias desapareceu. A profunda devoção está patente nos ti-
circunvizinhas. A festa do Senhor do Padrão de Ar- tulares das capelas da zona gaiense: Senhor Jesus de
vore é a 3 de Maio, com missa cantada, sermão e sa- Gaia, Senhor Jesus da Boa-Passagem, Senhor Jesus
cramento exposto, que sai em procissão para dar vol- da Capela da Piedade e a Capela do Senhor d'Além.
ta ao padrão, com grande concurso de romeiros em A inundação do Douro levou D. Tomás de Almeida a
agradecimento dos favores com que enriquece os de- determinar (21.5.1711) uma notável procissão de pe-
votos. Existia no Porto a procura de relíquias de Nos- nitência com imagem do Senhor d'Além (FERREIRA -
sa Senhora que peregrinavam de casa em casa com a Memórias, vol. 2, p. 297). Entre a mais famosa das
finalidade de facilitar o parto e até a prática mágica de procissões está a do Corpo de Deus, com regimento
tocar nove badaladas no sino do Mosteiro de Nossa detalhado e enorme envolvência de toda a urbe (cf.
Senhora da Consolação dos Lóios para ajudar partos AZEVEDO - Festas; HISTÓRIA da cidade, vol. 2, p. 262-
difíceis - cf. ALMEIDA, Carlos A . Ferreira - Carácter -272). As procissões das ordens terceiras atingiam
mágico do toque de campainhas. Revista de Etnogra- espectacularidade competitiva. A procissão da Peni-
fia. 12 (1966) 358. Esta igreja favorecia outras devo- tência ou da Cinza, instituída em 1699, para a tarde
ções, como a de uns papéis feitos com azeite da lâm- de Quarta-Feira de Cinzas, saía da igreja da Ordem
pada de Nossa Senhora do Vale e cera, com orações Terceira de São Francisco com 24 andores. A procis-
capazes de curar diversas doenças perigosas. A ve- são do Triunfo era realizada com pompa pela ordem
neração de relíquias está divulgada e pujante nos sé- terceira carmelita na Sexta-Feira de Ramos. Os seis
culos xvn e XVIII. Só dois exemplos: há em Ariz relí- altares guardam as imagens dos Passos (1766-1769):
quias muito milagrosas, acudindo muito povo para Senhor dos Passos, Ecce-Homo, Senhor Coroado ou
benzer-se com elas. Não eram autenticadas, apenas da Cana Verde, Senhor Preso à Coluna, Senhor Pre-
constava que eram do Santo Lenho, um espinho ou so, Senhor no Horto. As procissões do Senhor dos
parte da coroa de Jesus, de São Martinho Mártir e de Passos multiplicavam-se por vários lugares da dioce-
outros santos mártires. Em São Salvador de Aveleda- se, como Ovar. No Porto a Ordem Terceira de São
-Lousada, há relíquia milagrosa de Santo Amador, Francisco promovia uma procissão todas as sextas-
com culto e devoção, guardada numa custódia de -feiras da Quaresma. Percorria os passos, lendo o
prata com resplendor, que se fez à custa do povo. mistério de cada passo e terminava na Capela de
Não há registo donde veio. Informaram que a dera Nossa Senhora da Soledade, no claustro. A devoção
um abade antigo, Pedro Domingues Leitão, que lhe eucarística a que estava unida a Festa do Corpo de
viera ou tinha trazido de Roma. As relíquias de San- Deus teve desdobradas formas de se expressar: a ex-
ta Clara, oferecidas ao pintor José Teixeira Barreto, posição e bênção do Santíssimo, as quarentas horas
que estudava pintura em Roma, chegaram em 1798 e para lembrar as 40 horas em que Jesus estava no se-
foram recolhidas na Igreja do Terço. Em 1803 proce- pulcro. Propagou-se no início do século xvn. O laus-
PORTO

perene era habitual em momentos de desacato como va, Cucujães, Espinho, Felgueiras, Gaia, Gondomar,
o havido na Sé do Porto de 10 para 11 de Maio de Lousada, Maia, Marco de Canaveses, Unhão, Olivei-
1614. Havia reparação dos sacrilégios cometidos ra de Azeméis, Ovar, Paços de Ferreira, Paredes, Pe-
através de longa adoração (lausperene). D. Tomás de nafiel, Santa Maria da Feira, Santo Tirso, São João
Almeida, bispo do Porto, obteve do papa, no ano da Madeira, Vale de Cambra, Valongo. Várias são
1714, um jubileu de lausperene por sete anos para o proprietárias de pequenos hospitais, que se anexaram
tempo da Quaresma. Começava na catedral e esten- às Misericórdias locais. No Porto a Albergaria de
dia-se a várias igrejas da cidade. Seria tornado per- Rocamador, Hospital de Santa Clara e Cimo de Vila
pétuo, todos os dias do ano e repetido por várias são entregues à Misericórdia por D. Manuel I (1521).
igrejas. A devoção às Almas é também frequente e Em 1788 estavam dependentes da Misericórdia os
intensa nas paróquias da diocese, mas não teve con- hospitais: Real, na Rua das Flores; Expostos, nos
veniente estudo analítico. 6. Assistência: As necessi- Caldeireiros; Entrevados no Cimo de Vila, Entreva-
dades e carências urgentes de caridade suscitaram, das em Santo Ildefonso; Lázaros e Lázaras, em São
ao longo dos séculos, respostas pessoais ou institu- Lázaro; Velhas, na Rua dos Mercadores. Na peste de
cionais, como rosto concreto da comunhão solidária 1568 e em 1598-1602 a Câmara do Porto confiou
expressa na partilha de bens e na organização de es- aos Dominicanos a Casa de Saúde. As crónicas re-
truturas. Geralmente, só as formas institucionais dei- gistam o nome de Frei Domingos da Anunciação co-
xaram documentação que permita um conhecimento mo sangrador e enfermeiro devotado. A atenção às
desta realidade. Na Idade Média são conhecidos os situações foi inventando institutos de resposta, por
hospitais e gafarias. Os primeiros acolhem gente de vezes com o carácter efémero dos objectivos a cum-
passagem, fossem doentes ou meros peregrinos e as prir. Como exemplo podem citar-se sucessivas reali-
segundas com estabilidade para acolher doentes de dades: Colégio dos Órfãos, tem alvará régio de 1625
modo permanente e isolá-los da comunidade. As al- - está actualmente instalado no antigo edifício do se-
bergarias e confrarias atendiam à diversidade de si- minário e é orientado pelos padres salesianos. Colé-
tuações de carência: órfãos, expostos, pobres, presos, gio dos Meninos Órfãos ou Colégio da Senhora da
velhos, desamparados vários. A Albergaria do Roca- Graça fundado em 1651 pelo padre Baltasar Guedes,
mador situava-se entre os Caldeireiros e a Rua das para meninos órfãos desvalidos, junto à Ermida de
Flores. A congregação religiosa de Santa Maria Ro- Nossa Senhora da Graça (onde é hoje a Faculdade
camador, desde o século xn ao xiv, assumiu a gestão de Ciências) - cf. PATRÍCIO, Francisco José - Bos-
de várias instituições hospitalares. No Porto conser- quejo histórico da fundação e desenvolvimento do
va-se o título ligado a uma das suas iniciativas. Ou- Real Collegio de Nossa Senhora da Graça dos Me-
tros casos: Hospital de Santa Catarina, de Santiago, ninos Órfãos do Porto. Porto: Typ. a vapor da Real
de Nossa Senhora do Cais ou da Piedade (na Ribei- oficina de São José, 1907; GUEDES, Ana Isabel Mar-
ra), do Espírito Santo ao lado de Miragaia, do Salva- ques - Quotidiano e educação dos meninos órfãos
dor, de São Crispim e São Crispiniano, Santa Clara, do Colégio de Nossa Senhora da Graça do Porto
Teresa Vaz de Altaro (na Bainharia), São João Bap- (sécs. xvn-xix). Poligrafia. 2 (1993) 197-204. Re-
tista, (Nossa Senhora de Silva, nos Caldeireiros), dos colhimento do Anjo, fundado em 1572 para meni-
Clérigos (na Rua Escura), de Cimo de Vila (Santo Il- nas órfãs, no Campo do Olival, junto da Capela de
defonso), dos Lázaros ou Gafos (Mijavelhas). Como São Miguel-o-Anjo, devendo-se à caridade de D. He-
albergarias são de enumerar: Albergaria do Salvador, lena Pereira da Maia - este recolhimento ou colégio
do Rocamador (depois D. Lopo de Almeida e mais chamou-se de Santa Isabel, sob o patrocínio de São
tarde Hospital Santo António nos campos do Casal Miguel. Recolhimento das Meninas Órfãs da Senho-
do Robalo, a poente da Cordoaria, recebendo os pri- ra da Esperança e hoje Colégio de Nossa Senhora
meiros doentes em 1779, vindo de D. Lopo), da Ju- da Esperança, instituído pela Misericórdia em 1724,
diaria Velha, de Cimo de Vila, de Redemoinhos, em virtude do legado (1718) do padre Manuel dos
atrás da sé (PINA - Instituições, p. 394). Fora da ci- Passos Castro, tesoureiro-mor da colegiada de Cedo-
dade também se podia referir, por exemplo, Amaran- feita, situado no Campo de São Lázaro. Recolhimen-
te e Arouca com suas albergarias. As iniciativas to do Patrocínio da Mãe de Deus ou do Ferro, na
multiplicam-se e dispersam energias, o que faz per- Rua Escura, passou para a Rua do Codessal, onde
der a eficácia. D. João II esteve atento à situação, estava no final do século xvin (Rebelo da Costa), de-
pensou na reforma da assistência que passava pela dicado à correcção feminina, com 36 internadas (cf.
concentração de recursos e pela passagem da tutela BASTO - O recolhimento). Seminário dos Meninos
para a autoridade régia, sem perder a dimensão reli- Desamparados, fundado na Rua do Almada, a 6 de
giosa. A 1 de Agosto de 1498 é instituída a Confra- Janeiro de 1814 pelo padre José de Oliveira da Con-
ria de Nossa Senhora da Misericórdia. Começa por gregação do Oratório, coadjuvado pelo Dr. Simão da
instalar-se (7 de Agosto de 1502) na Capela de São Costa e Silva - mudou para a Quinta do Pinheiro
Tiago, no claustro velho da sé. Seria transferida para (Campanhã) em 1863; foi doada, com outros bens, a
a Rua das Flores e teria nova igreja a 13 de Dezem- esta instituição pelo benfeitor Luís António de Lima.
bro de 1559, benzida pelo bispo Rodrigo Ribeiro. A Real Administração dos Expostos foi criada por
A capela-mor seria terminada só em 1590. Regeu-se iniciativa de Manuel Rodrigues Leitão, fundador da
pelos Estatutos de Lisboa até 1646. A actividade as- Congregação do Oratório e Baltasar Guedes. A ro-
sistencial das Misericórdias foi-se estendendo a toda da era contígua ao Hospital de D. Lopo, do lado da
a diocese, estando hoje presente em Amarante, Calçada dos Caldeireiros. O número dos expostos
Arouca, Azurara, Baião, Matosinhos, Castelo de Pai- crescia. Em 1687 a câmara deu um subsídio de 2000

53
PORTO

cruzados. Em 1726 aumentou a verba para 3500, em ca do antigo mosteiro de Paço de Sousa e a 27 de
1738 para 20 000 em 1752 para 30 000, em 1751 Maio inicia a construção da primeira aldeia. Come-
para cinco contos por trimestre (cf. VAZ, Francisco çam logo a chegar rapazes que se instalam nas ruínas
Assis Sousa - Notícia sobre o estado actual da casa do convento. Muitos passos foram dados até chegar
da roda da cidade do Porto. Porto: Imprensa Alva- aos 16 edifícios da aldeia de hoje. A 24 de Março de
res Ribeiro, 1834). Rebelo da Costa informa (1788) 1946 seria a bênção da capela. Para os que estudam
que os rendimentos da Capela do Espírito Santo se e trabalham na cidade, abre a 3 de Fevereiro de 1945
destinavam a enterrar os corpos dos afogados no o primeiro Lar do Porto, que chegou a existir por al-
rio Douro. O Hospício de Santo António, fundado gum tempo em São João da Madeira. Os estatutos da
em 1730, seria como casa de saúde dos francisca- Obra da Rua são aprovados a 17 de Maio de 1947.
nos da Soledade (Vale de Piedade). Estava instala- Para ajudar a resolver o problema habitacional dos
do na Cordoaria, onde hoje está o Palácio da Justiça pobres, o padre Américo criou o Património dos Po-
e nele se albergava a roda dos expostos. Há notí- bres que, em Fevereiro de 1951, inicia as primeiras
cias do Hospício de São Francisco de Paula, do construções em Paço de Sousa. As moradias perten-
Senhor de Além (Gaia), em 1788 (Rebelo da Costa). cem às comissões fabriqueiras das paróquias. Foram
Um contributo de alcance monumental foi dado pe- erguidas mais de 3500 casas. A 5 de Março de 1944
las ordens terceiras. A Venerável Ordem Terceira aparece o primeiro número do jornal O Gaiato, o
de São Francisco é erecta em 1633 no Convento de «famoso» quinzenário impresso na Casa Nun'Alvares
São Francisco da cidade do Porto. Os estatutos e re- no Porto. Em 1949 passaria para a própria tipografia
gra foram aprovados em 20 de Agosto de 1751, por da Casa do Gaiato. Hoje tem uma tiragem média de
Bento XIV. O objectivo principal era o da promoção 70 000 exemplares. Em 1954, o padre Américo rece-
da vida religiosa dos irmãos e aperfeiçoamento mo- be a Quinta da Torre em Beire (Paredes). Aí se instala
ral. Mandava celebrar missas, organizava exercícios a Casa do Gaiato e o Calvário para doentes incurá-
espirituais para todos os irmãos, festas e procissões veis e sua família. A 12 de Julho de 1956, D. Antó-
(Senhor dos Passos e Cinza). Agora interessa-nos a nio Ferreira Gomes inaugura a capela. Seria o último
criação do Hospital de São Francisco em 1686. acto em vida do padre Américo, que falecerá a 16 de
A Mesa da Ordem Terceira resolveu fundar um hos- Julho. O padre Carlos Galamba será o sucessor do
pital (recolhimento) para doze irmãs entrevadas, que padre Américo. Em 1965 os bispos aprovam as «Nor-
nele se recolheram para o resto dos seus dias. Em mas de vida dos Padres da Rua». Hoje conta com
1691 houve restrições nas entradas, mas em 1711 já onze padres. A pedagogia original do padre Américo
havia lugares vagos e em 1714 apenas seis irmãos se assenta num regime de autogoverno, no exercício da
socorriam do abrigo. Foi então que se pensou alterar liberdade e responsabilidade, na educação pelo tra-
a instituição para acolher irmãos doentes até recupe- balho, em ambiente familiar, cultivo de virtudes hu-
rarem a saúde. Em 1731 iniciou-se a assistência do- manas e do naturalismo cristão, tendo a vida religio-
miciliária aos irmãos necessitados: ajuda médica, sa como centro. Após dois anos de experiência e de
medicamentosa e alimentar. Reunido o dinheiro, a esforço apreciável de planeamento e preparação
mesa decidiu iniciar a construção do hospital em de trabalho, D. Florentino dá erecção canónica ao
1733. Seria inaugurado em 1743. A assistência do- Secretariado Diocesano de Acção Social, aprova es-
miciliária só termina em 1804. No século xix graves tatutos e recomenda-o à generosidade de todos (1 de
dificuldades económicas levaram a distribuir, a partir Fevereiro de 1966) - LÚMEN. 30 (1966) 241-242.
da Páscoa de 1856, a sopa económica, diária e gra- Uma particular referência merece a assistência aos
tuita para cegos, velhos e aleijados. Esta medida di- clérigos. A história da Irmandade dos Clérigos foi já
minuiu o número de doentes no hospital porque um estudada por Bernardo Xavier Coutinho (A Igreja e
grande mal era a fraqueza. Esta ajuda manteve-se. a Irmandade dos Clérigos. Porto, 1965). O Conven-
Serviu, por exemplo, os trabalhadores do jornal to de Nossa Senhora da Conceição dos Congregados
O Comércio do Porto, que foram despedidos nos de Oliveira foi instituído em Oliveira do Douro
anos 30 do século xx. A Irmandade de Nossa Se- (Gaia) pelo cónego António Leite de Albuquerque.
nhora do Terço e Caridade, fundada em 1726, pôs a Dependia da Congregação da Terceira Ordem da Pe-
funcionar um hospital, de 1781 até hoje. A Ordem nitência, com a finalidade de acudir às necessidades
Terceira do Carmo iniciou o seu Socorro a Irmãos dos clérigos pobres, cegos e entrevados da diocese
Enfermos em 1781. Persistem até hoje as ordens do Porto. A Obra de Assistência aos Clérigos foi
terceiras e a nível paroquial há o incremento explo- criada em 30 de Junho de 1916, sob a protecção de
sivo dos centros sociais, herdeiros dos patronatos, Santo António, para obstar à situação difícil do clero
com intensa e diversificada prática de assistência após o decreto de 20 de Abril de 1911. Precavê con-
social. A lista pode ser encontrada no Anuário Ca- tra as situações de miséria («cem mil reis, annual-
tólico de Portugal. A Caritas Diocesana do Porto mente!»), doença, velhice ou qualquer outro percalço.
presta um enorme serviço de caridade, desde 1947 A primeira direcção, nomeada por D. António Bar-
- cf. BARBOSA, Hélder - Caritas Diocesana do Por- roso, era assim constituída: cónego António Bernar-
to. Atrium. 20 (1996) 61-63. Dentro da assistência do da Silva, representante do cabido, Dr. Francisco
se coloca ainda o papel assinalável das Conferên- Correia Pinto, representante dos párocos da cidade,
cias de São Vicente de Paulo (v. CONFERÊNCIAS VI- padre Júlio Albino Ferreira, tesoureiro, Manuel Ma-
CENTINAS), implantadas por toda a diocese. Criação ria Ferreira da Silva, secretário (OBRA da Assistência
de registo particular será a Obra da Rua*. Em 20 aos Clérigos pobres da diocese do Porto. Porto:
de Abril de 1943, o padre Américo consegue a cer- Escola Tip. da Of. de S. José, 1917). A criação da

54
PORTO

Fraternidade Sacerdotal ou «mútua do clero» foi de de - O tesouro da Sé do Porto no séc. xvm. BCCM Porto. 28 ( 1965)
preocupação de D. Antônio Ferreira Gomes desde o 506-523. CASA Diocesana: Seminário de Vilar. Porto: Diocese do Porto,
1995. CASTRO, Francisco Cyrne de - Memórias de conventos do Porto.
início do seu episcopado. Encarregou o Dr. Manuel O Tripeiro. 12 (1972) 287-290, 319-323, 364-368. CATALOGO de todas
Pardinhas e Álvaro Madureira de pensar no assun- as igrejas, commendas e mosteiros que havia nos reinos de Portugal e
to. O exílio interrompeu o nascer de uma solução. Algarves, pelos annos 1320e 1321. In ALMEIDA - História da Igreja em
Portugal. Vol. 2, p. 609-705. CENSUAL do cabido da Sé do Porto. Porto:
Seria D. Florentino a aproveitar o esforço já dispen- Biblioteca Pública Municipal, 1924. CLEMENTE, Manuel - O Congresso
dido, erigindo-a canonicamente a 21 de Dezembro Católico do Porto (1871-1872) e a emergência do laicado em Portugal.
Lusitania Sacra. I (1989) 179-195. IDEM - Perfil de um leigo: Francisco
de 1963. A comissão preparatória, presidida pelo Teixeira de Aguilar e o apostolado dos leigos em Portugal. Laikos. 9
reitor do seminário maior, Miguel Sampaio, e cons- (1986) 471-496. IDEM - O primeiro Congresso Católico português. Lai-
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dada por São Norberto, pregador afamado e asceta
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Martinho Guedes Ruela Valente] - Notas de história religiosa diocesa-
na. A Voz do Pastor. 14: 38 (20 Out. 1934) 2; 17: 44 (27 Nov. 1937) 2.
Recolhendo-se com outros clérigos oriundos de cole-
PORTO. Secretariado Diocesano do Movimento dos Cursilhos de Cris- giadas seculares, São Norberto aspirou a uma vivên-
tandade - 20 anos do Movimento dos Cursilhos de Cristandade da dio- cia colegial regular, com voto de pobreza rigorosa e
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- Questões e comentários sobre D.Rodrigo da Cunha (1577-1643).
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com abadias quer masculinas, quer femininas, quer
teiro de S. Pedro de Pedroso: subsídios para a sua história. Universi- dúplices, a partir de meados de Duzentos verificar-
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56
PREMONSTRATENSES

um ou do outro sexo (cf PETIT - L 'Orde, p. 290). ta crúzio que, como «o queriam [ao Mosteiro de São
Tendo a simpatia de numerosos bispos e dos pró- Vicente] sujeitar ao Mosteiro de Prémontré, como se
prios papas, que viam na ordem um auxiliar precioso fosse sua filiação, o rei não o consentiu, enviando-o
na tarefa da reforma do clero ao serviço do apostola- [ao abade Gualtério], em paz, para junto dos seus».
do diocesano, bem como no controlo dos movimen- Mas, segundo N. Backmund, é provável que o «aba-
tos eremíticos que pululavam por toda a Europa de» Gualtério ainda se encontrasse em Lisboa em
Central, recebendo ainda a simpatia e o apadrinha- 1159. Os anais da Ordem de São Norberto narram
mento de São Bernardo, a Ordem de Prémontré, no que o rei português terá começado por fazer substi-
século xiii, chegou às 1300 abadias de religiosos. Em tuir o cabido estabelecido em São Vicente, permitin-
1126, Honório III aprovou a nova ordem ao mesmo do a instituição de um núcleo premonstratense, no
tempo que nomeava São Norberto arcebispo de que terá sido aconselhado pelo bispo da cidade, e
Magdeburgo, diocese situada numa linha de frontei- apoiado por D. Gonçalo de Sousa, seu mordomo-
ra da Cristandade com o Norte da Europa que impor- -mor, e pelo alferes D. Pedro Pais. Mas a verdade é
tava missionar. Em 1128, reuniu-se em Prémontré o que a canónica norbertina não vingou em Lisboa.
primeiro capítulo geral da ordem. Os usos e modelos Que os Premonstratenses devem ter permanecido em
de vivência conventual administrativa e religioso-li- Portugal, parece colher-se, por exemplo, da veemên-
túrgica dos Norbertinos são devedores das normas cia com que Urbano IV, em Março de 1264, insiste
cistercienses. Os Premonstratenses implantaram-se junto do legado pontifício mestre Sinício para se re-
rapidamente por toda a França, Alemanha, Países colher o subsídio para a Terra Santa no arcebispado
Baixos, Hungria e Península Ibérica, organizando-se de Braga, mormente em todos os seus cabidos e con-
em províncias designadas circarias. A relaxação de ventos «Cisterciensis, Premonstratenensis [!], Clu-
costumes, que se fez sentir desde finais da Idade niacensis, sancti Benedicti, sancti Augustini et alia-
Média, agravar-se-ia no século xvi com a generaliza- rum ordinum» (Registres d'Urbain IV, 1261-1264,
ção dos comendatários e as perseguições protestan- vol. 1, P- 134-135, doc. 466). Se, por si só, esta afir-
tes. Foram extintos em França com a revolução de mação não pode ser tida como prova definitiva da
1789 e em Espanha em 1835. A penetração na Ibéria permanência dos cónegos de Prémontré em Portugal,
parece ter-se feito a partir da Catalunha, onde reco- há que analisá-la, contudo, tendo em atenção o con-
lheram as simpatias e a protecção dos condes de Ur- texto historiográfico e documental sobre o problema,
gel. Em 1149, o abade Estêvão de Flabemont (Lore- dentro do qual se torna irrefutável a existência de ca-
na) recebeu, de Raimundo Berengário IV, licença sas dessa ordem entre nós. Segundo a tradição histo-
para fundar um centro premonstratense nos seus do- riográfica, teria sido a partir da Ermida de Paiva que
mínios, aparecendo, pouco depois, o Mosteiro de se enraizariam os Norbertinos em Portugal. Naquele
Santa Maria de Bellpuig de las Avellanas (Lérida). local, efectivamente, se terão estabelecido D. Rober-
Na década de 1140, ainda, surgiriam em Castela os to e dois companheiros antes de 1173. Este núcleo
mosteiros de Retuerta (Valladolid) e La Vid (Aranda castro-dairense manter-se-ia como priorado respon-
dei Duero, Burgos). Nesta província e nas de León, sável por igrejas com funções paroquiais como Santa
Navarra e Aragão, em meados de Duzentos, exis- Maria de Baltar (da diocese de Lamego), São João
tiam, além dos mencionados, os mosteiros de Agui- de Pendilhe (Castro Daire), São Paio de Alhões
lar, Ibeas, Avila, Arenillas, Villamediana, Segovia e (Cinfães). Santa Maria do Paiva existiria já por
Alba de Tormes, a que se juntarão alguns outros 1160, ano atribuído, em lápide epigráfica, à morte do
fundados posteriormente. No século xvi, os pre- eremita D. Roberto. Em 1198 o mosteiro é referen-
monstratenses espanhóis erguer-se-iam em congre- ciado como proprietário de um casal em Lavandeira,
gação autónoma (1573-1593), tomando o hábito junto a Tarouquela. No testamento do bispo lame-
negro e optando por uma maior acção de cura de al- cense D. Paio, de 1246, foi doado ao mosteiro «to-
mas fora dos claustros (cf. CORREDERA - Premonstra- tum panem de Heremita [...] fratribus de Heremita
tenses, p. 2022). Segundo J. Mattoso (Premonstraten- pro conducto». No ano de 1278, D. Pedro Eanes de
ses, col. 1003), a história destas casas em Portugal Portel e sua mulher doaram os dízimos na póvoa
«é muito obscura». Aqui, na verdade, a ordem nasce de Vila Flor, entre Penamacor e Sortelha, ao conven-
no meio de dificuldades e afirmar-se-á sempre como to e prior de Santa Maria da Ermida de D. Roberto.
um caso de aparente marginalidade no percurso his- Sabe-se, ainda, que em 1294 D. Dinis, enquanto pa-
tórico do monaquismo português. Segundo o Indicu- droeiro, consentiu na eleição que o «convento do
lum fundationis monasterii Sancti Vincentii (PMH - mosteiro do eremita Roberto» fizera de D. Pedro pa-
Scriptores, vol. i, p. 90-93), pouco após a conquista ra seu prior (COSTA - História, vol. 2, p. 548-549).
de Lisboa, em 1147, D. Afonso Henriques fez insti- Também no censo de 1320-1321 o «mosteiro de
tuir o Mosteiro de São Vicente, para onde se nomea- Santa Maria de Ermida de Dom Roberto» apresenta
ram presbíteros com obrigação de celebração de rendimentos avaliados em 300 libras (ALMEIDA -
missas quotidianas. Esse núcleo eclesiástico inicial História, vol. 4, p. 117). Foi ao «moesteyro e co-
poderá ter sido apenas constituído por clérigos secu- nuento da hermjda de sam Ruberte» que D. Pedro I
lares estrangeiros (v. g. Roardo, Hicia e Salérico), in- confirmou, em 1358, os seus privilégios e graças
gleses e norte-europeus, sob o comando de um «aba- (Chancelaria de D. Pedro I, doe. 239), o que atesta a
de» flamengo chamado Gualtério, funcionando São sua existência enquanto instituição regular. Em
Vicente como que em regime de priorado ou capela- 1363, o mesmo rei consentiu e outorgou a eleição
nia. Mas essa comunidade parece deixar-se motivar, que se fizera de Frei Afonso, frade professo de
desde logo, pelo ideal premonstratense. Diz o cronis- «Sancta Maria da hermjda de dom Roberto do bispa-
57
PREMONSTRATENSES

do de Lamego quando ho enlegerom por prior do as assembleias concelhias, confirmando a eleição


moesteiro de Bemdoma do bispado do Porto» (Can- dos oficiais, «metendo o ramo na mão» ao juiz novo,
celaria de D. Pedro I, doe. 736), o que parece indi- derrogando mesmo os apelos para el-rei pois que «se
ciar que, em Portugal, não só o rei actuava como pa- apoderaua de querer ouujr os fectos». Mais signifi-
droeiro de mosteiros norbertinos, como, e sobretudo, cativo é o facto do diploma nos apresentar a comuni-
que era Santa Maria de Paiva o centro orgânico da dade canonical de Santa Maria de Baltar, composta
ordem no reino. Sabe-se, ainda, que um Frei Gonça- por D. Martim Peres, prior, e, ainda, por Martim Ea-
lo, «priol da Ermida de D. Ruberto», esteve presente nes, Gonçalo Eanes, Gonçalo Martins, Pero Peres
no sínodo diocesano de Lamego de 1368. Em 1386, e Antoninho Martins, «conegos do dicto moesteiro e
D. João I isentaria os habitantes de São Joaninho de conuento ca noom auja hi mais frades nem conegos»
pagarem foros e prestarem serviços concelhios, a (Chancelaria de D. Pedro I, doe. 234). Em 1368, era
fim de fazer mercê ao convento de D. Ruberto (COS- prior de Baltar D. Domingos Martins. Este convento
TA - História, vol. 2, p. 548-549). Em 1488, o mos- secularizou-se, aparecendo nomeado na sua reitoria
teiro da Ermida tinha à sua frente o prior D. Álvaro paroquial Afonso Eanes, em 1448. Em 1537 rendia
do Olival, da Ordem de Santo Agostinho, posto que, 65 000 reais (COSTA - História, vol. 2, p. 316-317).
nesta data, se possa questionar a permanência dessa De Santa Maria de Vandoma, bispado do Porto, te-
casa na via de Prémontré. Em 1501, a Ermida de mos notícia segura em 1324, data de uma procuração
Paiva, já secularizada, com a sua anexa de Baltar, foi ali feita que apresenta este mosteiro como da «or-
instituída em comenda, a favor de D. Diogo Ortiz, dem de preamestre». Por ela, sabemos que o capítulo
bispo eleito de Ceuta. Também o rei D. Manuel se daquela casa nomeou seus procuradores a Frei Gon-
mostrou interessado em reformar este antigo mostei- çalo, companhom, e a Domingos Martins, capelão,
ro, mandando proceder a inquirições sobre os direi- ambos desse mosteiro, a fim de se dirigirem a Leiria
tos dele nas povoações do respectivo couto e noutras onde deveriam assistir à publicação de certos man-
vizinhas. Dessa acção resultaria o foral manuelino dados de D. Gonçalo, bispo de Lisboa e núncio pon-
de 9 de Julho de 1514 (Ibidem, p. 550). O governo tifício (Arquivo Distrital de Braga. Col. Cronológi-
do comendatário D. Cristóvão de Noronha, que che- ca, doe. 410). No censo de 1320-1321, «o mosteiro
gou a reconhecer, em 1514, o abade premonstratense de Bendoma» é avaliado em 225 libras (ALMEIDA -
de Santa Maria de la Caridad, de Ciudad Rodrigo, História, vol. 4, p. 95). As notícias de priores de
como «pater abbas», revelou-se catastrófico, redu- Vandoma, para 1239 e 1241, citados no censual da
zindo-se a comunidade a dois clérigos. Em 1570 fa- Sé do Porto, poderão interpretar-se como demons-
leceria o último religioso. Em 1602, por influência trando a existência do cenóbio já em Duzentos. Su-
de D. Aleixo de Meneses, o mosteiro de Paiva e os blinhe-se que o documento de 1324 dá o mosteiro
seus bens seriam concedidos aos Eremitas de Santo como tendo por orago Santa Maria, posto que do-
Agostinho, não conseguindo os premonstratenses es- cumentação posterior lhe chame de Santa Eufêmia e
panhóis, apesar de terem obtido bula derrogatória da mesmo de Santa Eulália. Foi em Ermida de Paiva
anexação, em 1609, reverter a favor da ordem a si- que Frei Afonso seria eleito e nomeado dom prior do
tuação (BACKMUND - Les origines, p. 419-421). A in- mosteiro de Vandoma. Em 1499, Vandoma já havia
fluência e jurisdição de Santa Maria da Ermida sobre sido reduzido a abadia secular, não tendo qualquer
Baltar pode ter levado à evolução desta para uma es- comunidade residente. Por 1570, a paróquia foi entre-
trutura prioral colegial ou monástica. Sabe-se que a gue ao cuidado dos Jesuítas (BACKMUND - Les origi-
Igreja de Santa Maria de Baltar (diocese de Lame- nes, p. 433-435). Junto a Castelo Rodrigo (Guarda)
go*) tinha cabido, em 1320-1321, o que deixa pres- fundou-se, em 1156, dentro da órbita de influência
supor que funcionaria como estrutura colegial, ou de Salamanca e de León, o Mosteiro de São Julião
mesmo canónica premonstratense, com um rendi- do Pereiro, que se afiliaria nos Beneditinos em 1183,
mento colectado em 200 libras. Rendimento elevado passando em 1218 à Ordem de Calatrava, cuja admi-
para uma simples igreja paroquial, mas médio em nistração religiosa pertencia aos Cistercienses. Em
termos de rendas monásticas do interior do país me- 1320, a Igreja de São Julião de Pereira, da Ordem de
dievo (ALMEIDA - História, vol. 4, p. 117). Numa Alcântara, foi taxada em 60 libras (Ibidem, p. 419-
carta de composição de 1344, lavrada em Baltar da -421; ALMEIDA - História, vol. 4, p. 142). O movi-
Beira, estipula-se e salvaguarda-se o direito e a juris- mento de reforma sentido dentro da Ordem levaria a
dição cível do couto do mosteiro de Baltar face às que, em finais do século xv, fossem enviados a Portu-
reclamações dos procuradores do concelho daquela gal visitadores espanhóis. Por carta do rei D. Manuel,
povoação. Nela se refere que os aldeãos faziam «o de 1502, Frei Clemente, «frade professo do moesteiro
concelho aa porta do dicto moesteiro e embargam de Sam Christovam de Ibeas, da Ordem branca de
que nom seia hi o dicto prior nem seus conegos e Nossa Senhora de Premonstre», seria autorizado a
que mujtas uezes embargauam per seus brados as promover a reforma do mosteiro da Ermida de Paiva.
oras e o serujço de Deus». Quanto ao dom prior da Esta visitação do cónego espanhol, no entanto, não
comunidade premonstratense, este agia como um tí- parece ter tido o poder de inverter o processo de ex-
pico senhor medieval, tendo mordomo que zelava tinção dos premonstratenses em Portugal.
pela execução dos seus mandados, penhorando falto- SAUL ANTÓNIO GOMES
sos e condenados, exigindo os montados e as porta-
gens, as j eiras, as carreiras e as coimas, as fintas e as BIBLIOGRAFIA: ALMEIDA, Fortunato de - História da Igreja em Portugal
talhas, os foros e os direitos «tanto ao pobre como ao Dir. Damião Peres. Porto: Civilização, 1971, vol. 4. BACKMUND, N. -
rico». Do prior monacal é dito, também, que vigiava Les origines de l'Ordre de Prémontré au Portugal. Boletim Cultural da
Câmara Municipal do Porto. 22 ( 1959) 4 1 6 - 4 4 1 . IDEM - Monasticon

58
PRESÉPIOS

Presépio do século xvm, índia (Setúbal, Convento de Jesus).


Praemonstratense. Straubing, 1949-1959. 3 vol. BECQUET, Jean - Vie
canoniale en France aux x -xii siècles. London: Variorum Reprints,
pastores, símbolo do Seu povo, escreve: «Este é o si-
e e

1985. CHANCELARIAS portuguesas: D. Pedro I (1357-1367). Org. A. H. nal que vo-Lo fará reconhecer: achareis um Menino
de Oliveira Marques [et al.]. Lisboa: INIC; UNL, 1984. CORREDERA, E. envolto em panos e posto numa manjedoura» (Luc
- Premonstratenses. In DICCIONARIO de historia eclesiástico de Espana.
Dir. Q. Aldeã Vaquero, T. Marin Martinez, J. Vives Gatell. Madrid,
2: 7,12). Nos inícios do cristianismo e por influência
1973, vol. 3, p. 2 0 2 0 - 2 0 2 3 . COSTA, M. Gonçalves - História do bispado dos apóstolos, dos seus discípulos e dos evangelistas
de Lamego: II: Idade Média: paróquias e conventos. Lamego, 1979.
LACERDA, A. - O tempo das siglas: A igreja da Ermida do Paiva. Porto,
— todos no tempo ainda muito próximos da vida pú-
1919. MATTOSO, J. - Premonstratenses. In VERBO: Enciclopédia luso- blica do Mestre - a liturgia* quase só se circunscre-
-brasileira de cultura. Vol. 15, col. 1002-1003. PETIT, François - L Or- via à Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, sendo
dre de Premontré. Paris, 1927. IDEM - Bernard et l'Ordre de Prémontré.
In BERNARD de Clairvaux. Paris: Alsatia, 1953, p. 289-307. [A revista
estas cenas as que com mais frequência eram repro-
Analecta Praemonstratensia é um instrumento indispensável para o co- duzidas pictoricamente. A Natividade, ligada à Epi-
nhecimento histórico da ordem.] fania, era menos representada e surgia reduzida à
imagem de Maria com o Menino no regaço, apresen-
tando-O aos pastores ou aos magos. Túmulos roma-
PRESÉPIOS. Presépio, palavra latina cujo signifi- nos paleocristãos exibem estas cenas, onde aqueles
cado é estábulo, curral ou lugar para recolha de ga- últimos ainda não ostentam as coroas de uma realeza
do, assume em português o sentido da representação atribuída somente a partir do século xi e são guiados
plástica da Natividade, em virtude de Cristo ter nas- por uma estrela, apresentando de pé as oferendas do
cido num local semelhante. Presépio designa, assim, incenso* devido a um Deus, do ouro próprio de um
o conjunto do cenário e dos personagens que, num Rei e da mirra destinada ao Homem. A atitude de
retábulo pintado, numa escultura ou num grupo de oferta efectuada de joelhos também só começou a
figuras, representam as cenas do nascimento de Cris- ser reproduzida por aquela época. O número certo
to segundo o Evangelho de São Lucas (v. A R T E S A - destes magos é desconhecido, acabando a tradição
CRA). Este foi o único dos quatro evangelistas que se por fixá-los em três, de escalões etários diferentes e
referiu à Anunciação, Natividade e Epifania de Je- de diversas etnias, numa globalizante simbologia hu-
sus: «E tendo dado à luz o seu Filho Primogénito, mana. Estas simples iconografias não incluíam São
O enfaixou e reclinou numa manjedoura.» E para re- José nem tão-pouco os tradicionais animais dos pre-
ferenciar a Sua revelação feita primeiramente aos sépios: o boi, o jumento e os cordeiros. A figura do
59
PRESÉPIOS

pai adoptivo de Cristo só mais tarde começou a ser boi do presépio e aos gentios representados pela es-
integrada na representação, de início de forma se- trela, pelos magos e pelo jumento. Houve autores
cundarizada, por detrás do grupo da Mãe e do Filho, que pretenderam associar à Natividade e à Epifania
para na Idade Média assumir igual evidência. Quan- o primeiro episódio da vida pública de Cristo - as
to ao boi e ao jumento, cuja primeira referência bí- Bodas de Caná - numa complementarização da trilo-
blica se encontra no Antigo Testamento, só poste- gia da Revelação messiânica. Em Portugal, por via
riormente vieram também integrar o conjunto: directa de Roma, a tradição foi sempre muito mais
«Conheceu o boi o seu possuidor e o jumento o pre- direccionada para as grandes celebrações da Nativi-
sépio do seu dono» (Is 1: 3). A partir do século iv, dade a 25 de Dezembro. Esta, à medida que o seu
com o Édito de Milão (313 d. C.) deu-se a grande culto litúrgico se difundia, começou a ser expressa
explosão do culto da Natividade. A data exacta do em composições armadas com pessoas e animais ao
nascimento de Cristo constituiu sempre uma incóg- natural, representando-se dramas sobre o tema, e en-
nita, e a sua fixação em 25 de Dezembro, nove me- tre os séculos vii e xi desenrolavam-se com ofícios e
ses após a Anunciação, fazia coincidir aproximada- festas, durante as matinas. Na Idade Média represen-
mente a celebração destas festividades cristológicas tavam-se nos adros ao ar livre, ou nas catedrais por
com o calendário solar do equinócio primaveril e do trás do altar-mor, onde por vezes eram substituídos
solstício do Inverno, ocasiões de grandes celebrações por quadros vivos de mímica (V. TEATRO). As celebra-
pagãs, que urgia cristianizar (V. LITURGIA; FESTAS). ções atingiram tais exageros em matéria de costumes
A introdução do culto natalício na Península Ibérica e de desordem, que a Igreja proibiu essas representa-
efectuou-se por duas vias diversas, que originaram ções. Durante o Natal de 1223 e depois de ter obtido
formas diferentes de celebração. No território de Es- autorização pontifícia, São Francisco de Assis re-
panha, por influência das comunidades cristãs orien- criou em Greccio o nascimento de Cristo. Nesse hu-
tais, deu-se maior relevo à Epifania celebrada a 6 de milde presépio, de figuras em tamanho natural, com-
Janeiro, enfatizando-se a dupla revelação: ao Povo postas por uma estrutura de madeira revestida de
de Deus simbolizado pelo anjo, pelos pastores e pelo palha e tecidos, integrou um boi e um jumento vivos,

Vista parcial do presépio de Machado de Castro (Lisboa, Basílica da Estrela).


6o
PRESÉPIOS

colocados próximos de um altar em forma de berço,


coberto de feno sobre o qual repousou uma pequena
imagem do Deus-Menino. Podemos considerar este
acontecimento como o início da era dos modernos
presépios e os seus grandes difusores foram os fra-
des franciscanos e mais tarde os dominicanos. Em
Portugal sempre se celebrou a Natividade com repre-
sentações cénicas - os autos de Natal -, donde surgi-
ram mais tarde os vilancicos. Paralelamente as artes
plásticas eternizavam aquele tema de diversas for-
mas e em diferentes suportes. Nos finais do sécu-
lo xiii, a Natividade foi esculpida num capitel do pri-
mitivo claustro do mosteiro de Celas (Coimbra), e
no século xiv já figurava no túmulo de Inês de Cas-
tro no Mosteiro de Alcobaça. Durante a segunda me-
tade do século xvi foram esculpidos em calcário di-
versos relevos, como num intercolúnio do retábulo
da Capela de Santa Maria na Sé Velha de Coimbra
(1559), em painéis das igrejas das Misericórdias* de
Tentúgal e de Montemor-o-Velho e no retábulo da
Capela de Santa Maria das Neves (Espinhal-Penela).
Na pintura sobre tábua ficaram-nos, da mesma épo-
ca, a Natividade atribuída a Gaspar Vaz (?-1569), a
do políptico da Igreja de São João de Tarouca e a da
Misericórdia de Abrantes, atribuídas a Gregório Lo- Presépio de penedo, de Domingos Gonçalves Lima,
pes (14907-1550). Devem merecer especial referên- «Mistério Filho», Barcelos. In O presépio no imaginário
cia a Natividade e Adoração dos Magos (1501-1506) popular, Vale de Cambra, 2000, p. 34.
da autoria de Vasco Fernandes ou Grão Vasco
(1475/14807-1542/1543?), ambas executadas para o numa referência simbólica à reconstituição do pri-
retábulo da capela-mor da Sé de Viseu, onde, naque- meiro presépio. A chegada do movimento barroco e
la última, o tradicional mago negro foi substituído a sua rápida evolução conduziram ao esplendor dos
por um índio do Brasil, como sinal evidente de novi- magníficos presépios do século xvm. Os materiais
dade. As notícias das primeiras representações por- utilizados na sua feitura continuaram a ser os mais
tuguesas do presépio, constituídas por figuras de diversos, desde a madeira, marfim, pedras e metais
vulto, são anteriores a 1537 e referem um presépio preciosos, ao vidro, cortiça e têxteis. O presépio de
existente no mosteiro feminino do Salvador, em Lis- madeira do Convento de Mafra, da autoria de José
boa, formado por figuras moldadas colocadas diante de Almeida (1707-1769), sem comportar ainda um
de um painel pintado. Sabe-se que nessa época foi grande número de figuras, apresenta já nas indumen-
dado grande incremento à produção de presépios tárias da Virgem e de São José a riqueza ondulante
destinados aos conventos e igrejas, bem como para do barroco. Contudo, foi sem dúvida no barro que os
residências da sociedade civil. A elaboração destes presépios de mestres como António Ferreira (n. Bra-
primeiros presépios sofria de manifesta influência ga 7), padre João Crisóstomo Policarpo da Silva
iconográfica flamenga, sobretudo dos conhecidos (1734-1798), Joaquim de Barros Laborão (1762-
jardin-clos de Antuérpia e de Malines, sem contudo -1820) e principalmente de Joaquim Machado de
desprezar alguns conhecimentos da arte napolitana. Castro (1731-1822) atingiram o mais elevado ponto
Esses primeiros presépios referenciados do sécu- de concepção e realização artística. O tratamento
lo xvi eram constituídos por figuras de barro, palha teatral dado por Machado de Castro à elaboração dos
ou tecidos, colocados diante de um cenário pintado e seus presépios permitiu que as mais simples e humil-
no século xvii estes conjuntos estavam montados des tarefas diárias desempenhadas pelos tipos popu-
dentro de simples maquinetas. A difusão do tema do lares neles representados ganhassem uma dimensão
presépio pelas terras portuguesas do Oriente origi- de grandeza, expressa na cor e movimento dos trajes
nou, principalmente durante o período seiscentista, e nas expressões alegres dos seus rostos. Os animais,
uma grande produção artística na índia e em Ceilão, instrumentos musicais e utensílios comuns integram
onde as cenas da Natividade eram esculpidas em a cenografia de forma natural, conferindo aos con-
marfim, quer em figuras de vulto, quer em placas. juntos o complemento essencial à compreensão da
A arte indo-cíngalo-portuguesa naquele material simbiose do divino e do profano. Nos presépios des-
constitui uma enorme referência na temática dos pre- te período artístico transparece a alegria sentida pela
sépios nacionais. A pintura deste século igualmente humanidade face a um acontecimento redentor. Toda
conserva algumas representações natais impressio- a riqueza de formas, que a arte barroca continha fi-
nantes pelos fortes contrastes de sombras e luz que cou expressa nas temáticas populares das centenas
evidenciam, tendo Josefa de Óbidos (1630-1684) de figuras integrantes dos belíssimos presépios dos
tratado o tema de forma invulgar ao incluir numa ce- mosteiros de São Vicente de Fora e do Desagravo,
na da Natividade apenas as figuras de São Francisco dos presépios dos marqueses de Belas e de Borba, da
de Assis e de Santa Clara adorando o Menino Deus, Sé de Lisboa, do Convento da Estrela, da Igreja
6\
PRESÉPIOS

da Madre de Deus ou o dos jardins do Palácio dos paroquiais, entre as múltiplas designações dos seus
Condes de Porto Covo. O século xvin constituiu o superiores - párocos, vigários, abades, reitores, etc.
século-apogeu dos presépios portugueses, onde a vi- - se encontra a de priores, talvez mais frequente no
da, os costumes e a arte da sociedade nacional da Sul de Portugal, e, segundo alguns, podendo ter nas-
época ficaram magnificamente reproduzidos nas fi- cido da colação monástica de certas igrejas, para de-
guras populares que António Ferreira e Machado de pois se ter generalizado. Incidiremos, todavia, sobre-
Castro, trabalhando isolados ou de parceria, elabora- maneira, no título de prior dado aos superiores ou
ram e integraram nos conjuntos encomendados. De oficiais de certas comunidades monásticas, sem em-
outros presépios importantes existentes no pais não bargo do conceito de priorado poder ser também
temos muitas notícias, mas é provável que tenham analisado na perspectiva da geografia eclesiástica*.
existido em grande número, dada a sua enorme po- A reforma cluniacense veio atribuir o título de prior
pularidade. No Porto, na Igreja de São Nicolau, exis- ao abade. Esta mudança serve mesmo como um dos
te um presépio, que constitui um excelente conjunto indicadores para averiguarmos a entrada da reforma
desta época. O século xix é já um século de decadên- cluniacense em Portugal. Na diocese de Coimbra,
cia artística dos presépios, cujas figuras experimen- por influência da abadia de Sahagún e não por con-
taram um regresso ao naturalismo e à simplicidade. tactos directos com os monges de Cluny, que não
A sua criação diminuiu e com ela também o número podem ser anteriores a 1092-1095, o título de prior é
dos figurantes e dos artistas que se dedicaram a ela. dado ao abade de Lorvão em 1085 e aos de Arouca e
O século xx, em termos de produção de presépios, Vacariça em 1087. Já na diocese do Porto o abade do
está sobretudo dominado pelos trabalhos criados por Mosteiro de Leça toma o título de prior em 1093, o
artistas eminentemente populares como José Franco de Pendorada em 1094, o de Paço de Sousa em 1104
(Ericeira), Rosa e Júlia Ramalho e Mistério (Barce- e o de Cete em 1117 ou 1122 (MATTOSO - Le Moria-
los), e os barristas de Estremoz e Portalegre. chisme, p. 123, 126). Esta intitulação, em consentâ-
MANUELA PINTO DA COSTA neo com as citações da regra beneditina, constitui
marca da introdução dos costumes cluniacenses no
BIBLIOGRAFIA: ALMEIDA, Carlos A. Ferreira de - O presépio na arte medie-
val. Revista de Arqueologia. (1983) 1-17. IDEM - A arte da miniatura em reino de Portugal, entre finais do século xi e inícios
barro: Escultores e barristas. Caldas da Rainha: Museu José Malhoa, do seguinte. Todavia, muitos mosteiros beneditinos
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res, e mesmo na beneditina, assimilando-se ao prae-
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-portuguesa. Gil Vicente. 11-12 (1974) 5-19. preferir a designação de prior. Mas São Bento pare-
cia temer-se dele. Justamente o capítulo LXV da Re-
PRIORADO. É o prior, por definição, o primeiro reli- gula Sancta, que lhe é dedicado, abre com estas in-
gioso de uma igreja ou mosteiro, podendo nestes vectivas: «Sucede muitas vezes que a instituição do
corresponder, ou não, ao seu superior máximo. Na prepósito (ou prior) dá origem a graves escândalos
organização do cabido da catedral bracarense, logo nos mosteiros. E que há alguns que, inchados do ma-
no século xi, em tempo do bispo D. Pedro, por certo ligno espírito de soberba, se consideram como segun-
existia o prior correspondente ao primiclerus ou a dos abades e, assumindo um poder tirânico, nutrem
um dos três praepositi. Era o primus presbiterorum, escândalos e suscitam dissensões nas comunidades,
que presidia ao cabido em nome do prelado, muito e isto principalmente nos lugares em que o prepósito
particularmente quando este se ausentava. Este prior, (ou prior) é instituído pelo mesmo bispo ou abades
que depois de 1165 se chamou também decanus ou que instituem o abade.» Admite, porém, que, se a
prepositus, podia encarregar-se mesmo do governo comunidade o exigir e o abade o julgar conveniente,
da diocese, por impedimento ou falta do prelado possa este mesmo escolher um prior, que então «exe-
(COSTA - O bispo, vol. i, p. 44). Também nas igrejas cutará com reverência o que lhe for ordenado pelo
62
PRISCILIANISMO

seu abade, e nada fará contra a vontade ou determi- e reformadores de todos os mosteiros de cónegos re-
nação dele. E que, quanto mais elevado está acima grantes de Santo Agostinho do reino de Portugal,
dos outros, tanto maior cuidado deve pôr em obser- desde 1556 (Chronica da Ordem dos Conegos Re-
var os preceitos da regra». Nos costumeiros benedi- grantes, liv. vil, cap. xiv). Além do prior-mor havia o
tinos dos séculos xi e xu distingue-se, porém, já do prior crasteiro ou claustral, a quem competia o go-
prior, ou grande prior, o prior claustral, subordinado verno dos cónegos que viviam no claustro. Também
ao anterior. O prior é escolhido pelo abade, depois existia em Santa Cruz um preposto, que superintendia
de ouvido o conselho do mosteiro. A ele deve obe- no coro, igreja e ofício divino, e um mestre-escola,
diência toda a comunidade, ou, na sua ausência, ao responsável pelo ensino, tendo todos estes cargos uma
prior claustral, bem como lhe compete a direcção da duração de três anos. A mesma hierarquização interna
administração dos domínios. Aquando da eleição do existiria noutras canónicas. Grijó, que desde 1132
abade cumpre-lhe a presidência do corpo eleitoral, acolheu a Regra de Santo Agostinho, apresenta, nas
depois de ter diligenciado sobre as formalidades ne- subscrições de um documento de Abril de 1135, os
cessárias para a eleição. Ao prior claustral, também seguintes cargos: o prior Trutesendo, o prepósito
chamado prior secundus, incumbe vigiar a vida in- Pedro, o prior claustral Mendo, o sacristão Diogo e
terna do mosteiro. No Costumeiro beneditino de o precentor (encarregado do coro) Pedro (LE CAR-
Pombeiro, o único que se conhece para Portugal, en- TULAIRE Baio-Ferrado, doe. 3 7 ) . Mas ainda outros
contram-se mais referências ao prior, no desempe- mosteiros tinham nos priores os seus chefes, como
nho de funções activas e de celebração, que ao pró- os Dominicanos, governados por priores provin-
prio abade. É apelidado algumas vezes como prior ciais e conventuais, subordinados ao ministro-geral,
maior, patenteando bem a influência cluniacense, que sedeava em Roma. Igualmente a Ordem Militar
para além de que em certos passos se alude a priores, do Hospital, depois de Malta, era dirigida por um
sendo pois de admitir que existiria também o prior prior, subordinado ao grão-comendador da ordem,
claustral. O prior substitui várias vezes o abade em que residia em Castela, o qual, a partir de D. Afon-
diversos actos, em especial actos litúrgicos, e supe- so IV (c. 1 3 4 0 ) , surge designado como prior do
rintende na comunidade, dando licença aos monges Crato, tomando o nome da sede da ordem. Alguns
para fazerem as procissões calçados ou para se ausen- dos priores destas casas, quer pela sua santidade,
tarem. Cabe-lhe ainda tocar a campainha e matraca quer pelo seu papel activo e interveniente dentro da
para chamar os monges para o refeitório, dormitório vida religiosa ou mesmo na vida política do seu
e igreja, da mesma forma que lhe compete acordá- tempo, fizeram jus à sua designação de priores, sen-
-los e passar a ronda ao mosteiro (LENCART - O Cos- do, na realidade, os «primeiros», os mais dignos, de
tumeiro, p. 81 -82). Nos mosteiros portugueses, mas- entre os seus pares.
culinos e femininos, de cónegos regulares de Santo MARIA HELENA DA CRUZ COELHO
Agostinho, os seus superiores intitularam-se, respec-
tivamente, priores e prioresas. Tal aconteceu porque BIBLIOGRAFIA: COSTA, Avelino de Jesus da - O bispo D. Pedro e a organi-
São Teotónio, como nos conta a sua vida, tendo sido zação da diocese de Braga. Coimbra: FLUC, 1959, vol. 1, COSTA, Paula
Maria de Carvalho Pinto - A Ordem Militar do Hospital em Portugal:
eleito para prelado do Mosteiro de Santa Cruz de dos finais da Idade Média à Modernidade. Dissertação de doutoramento
Coimbra, assumiu o cargo a custo, pois considerava apresentada no Porto em 1988. 2 vol. Texto policopiado. GOMES, Saul -
D. Telo o pai e mestre dos cónegos. Instado a aceitar Organização paroquial e jurisdição eclesiástica no priorado de Leiria nos
séculos xu a xv. Lusilania Sucra. 4 (1992). Separata. LE CARTULAIRE Baio-
a eleição, recusou-se, todavia, a chamar-se abade, -Ferrado du monastère de Grijó, xf-xnf siècles. Intr. et notes de Robert
tanto por respeito a D. Telo, como «porque lhe pa- Durand. Paris: FCG, 1971. LENCART, Joana - O Costumeiro de Pombei-
ro: Uma comunidade beneditina no século xm, Lisboa: Estampa, 1997.
recia mais conveniente segundo o Oráculo do Sal- MARTINS, A. Alberto - O mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, sécu-
vador, não chamar Pae ou Abade na terra, os que los xii-xv: História e Instituição. Dissertação de doutoramento apresenta-
deixavam tudo no mundo para ser filhos do Pae que da em Lisboa em 1996; 2 vol. Texto policopiado. MATTOSO, José - Le
Monachisme ibérique et Cluny. Louvain: Publications Universitaires,
está nos Céus» (VIDA, P. II, cap. iv). Os priores perpé- 1968. REGRA do Glorioso Patriarca S. Bento. Singeverga. Ora et Labora,
tuos de Santa Cruz foram desde então eleitos até ao 1951. SANTA MARIA, Nicolau de, fr. - Chronica dos Conegos Regrantes
24.° prior, que foi D. João de Noronha, sendo alguns do Patriarcha S.Agostinho. Lisboa: Oficina de Joam da Costa, 1668,
1." P. VIDA do Admirável Padre S. Theotonio. Traduzida e ampliada por
outros nomeados pelos reis, que eram os padroeiros D. Joaquim da Encarnação. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1855.
do mosteiro. Depois da reforma de D. João III, e da
união a Santa Cruz dos mosteiros de São Vicente de PRISCILIANISMO. E uma corrente religiosa de tipo
Fora e Grijó, os superiores crúzios designaram-se heterodoxo que se desenvolveu na Lusitânia romana,
priores-gerais, tendo jurisdição sobre outros mostei- em torno de Prisciliano, a partir do último quartel do
ros da ordem. Vários eram os privilégios destes prio- século iv, atingindo posteriormente a Galécia e a
res, que Frei Nicolau de Santa Maria sintetiza: serem Aquitânia. Podemos distinguir duas fases no movi-
imediatos à Santa Sé e terem jurisdição episcopal e mento priscilianista: a primeira correspondente à vi-
metropolitana nas suas igrejas; pertencerem ao conse- da de Prisciliano, sua denúncia e condenação e a se-
lho do rei e nas Cortes terem o primeiro lugar entre os gunda à expansão do priscilianismo após a execução
religiosos não bispos; serem priores do Mosteiro de de Prisciliano em Tréves. Apesar de São Jerónimo
Santa Cruz, mas também prelados superiores e refor- referir que Prisciliano teria escrito «multa opuscula»
madores de cinco mosteiros seus filiados; serem can- (De uiris illustribus, 121), a maior parte dos onze
celários perpétuos da Universidade de Coimbra, por Tractatus que, em 1885, Schepss encontrou num
mercê de D. João III em 1539, confirmada pelo papa manuscrito em Würtzburg não podem ser, de acor-
Paulo III; serem visitadores do Colégio de São Pedro do com a crítica histórica actual, atribuídos a Pris-
da Universidade de Coimbra; serem prelados gerais ciliano (cf. M A D O Z - Arrianismo y priscilianismo,
63
PRISCILIANISMO

p. 72). Segundo Escribano Pano (Iglesia y Estado, Poder-se-á assim compreender que uma das primei-
p. 57-113) só o 1.° tratado (Liber apologeticus), o ras reacções a esta corrente tenha vindo de Higínio,
2° (Liber ad Damasum) e o 3.° (Liber de fide de bispo de Córdova, na Bética? Esta é uma pergunta
apocryphis) podem ser considerados da autoria de em aberto. A questão priscilianista surgiu declara-
Prisciliano. Os restantes Tratados enraizam-se nas damente, em 378 ou 379, quando Higínio, bispo de
ideias desenvolvidas por Prisciliano mas reportam-se Córdova, se dirigiu a Idácio, bispo de Mérida e me-
a práticas tidas pelos priscilianistas, tendo sido ela- tropolita da Lusitânia, para lhe sugerir que tomasse
borados noutros contextos espácio-temporais, como posição face a um movimento desencadeado por um
a Galécia. Para além dos Tratados já referidos, Pris- grupo de leigos que pertenciam à sua província ecle-
ciliano terá sido também o autor dos Cânones in siástica (SULPÍCIO SEVERO - Chronica, 2, 46.8 e
Pauli epistulas a peregrini episcopo emendati (PLS, 47.3-4). Segundo o bispo de Córdova, aqueles leigos
2, col. 1321-1413), assim como de alguns fragmen- ensinavam doutrinas de tipo agnóstico e maniqueísta
tos de um Epistula conservados no Commonitorium e levavam uma vida de rigoroso ascetismo. Idácio de
dirigido por Paulo Orósio a Santo Agostinho. Para a Mérida desencadeou então o combate contra aquele
reconstituição do priscilianismo dispomos ainda dos movimento religioso. No que respeita à formação de
cânones dos concílios* de Saragoça, Bordéus, Tole- Prisciliano, como ele próprio reconhece, podemos
do (400), Braga 1 e II, se bem que alguns deles não afirmar que integrou estudos proibidos (Liber apolo-
aludam directamente a Prisciliano ou ao movimento geticus, 1413). Jerónimo e Sulpício informam-nos
priscilianista. Ao nível das fontes da época deve-se também que Prisciliano aprendeu «magicas artes»
sublinhar a Chronica de Sulpício Severo (sobretudo nas quais teve como mestres Agápe e Elpídio, dis-
II. 46-51), que constitui o relato mais completo dos cípulos de Marco de Mênfis, que habitava numa ci-
acontecimentos relacionados com Prisciliano, bem dade reputada como centro das artes da magia (SÀO
como as crónicas de Idácio e Próspero de Aquitânia, JERÓNIMO - Epistula 75, 3.4 e SULPÍCIO SEVERO -
que aludem à expansão do priscilianismo. Junte-se Chronica, 2, 46.5; sobre a personalidade e a forma-
ainda os De uiris illustribus de Jerónimo e de Isidoro ção de Prisciliano ver também JOVER ZAMORA - His-
de Sevilha e os testemunhos de Consêncio e Ambró- toria de Espana, 2, p. 461). Isidoro de Sevilha reto-
sio de Milão. Desde o século xix que o interesse por ma as informações de Sulpício Severo no seu De
Prisciliano e pelo priscilianismo tem vindo a aumen- uiris illustribus, mais concretamente na notícia sobre
tar polarizando-se as posições em torno do debate o opúsculo do bispo Itácio, denominado Claro (ISI-
ortodoxia*/heterodoxia* que tem constituído o pivot DORO DE SEVILHA - De uiris illustribus, 135), acres-
da reflexão de teólogos e historiadores ( c f , sobretu- centando que Prisciliano teria aprendido a magia
d o , SCHEPSS, PARET, BABUT, PUECH, MONCEAUX e M E - com o próprio Marco de Mênfis, discípulo directo de
NÉNDEZ PELAYO). O S estudos sobre o priscilianismo Mani. Posteriormente, por volta de 379, Prisciliano
continuaram a multiplicar-se no século xx, mas só a foi eleito por Instâncio e Salviano bispo de Avila (cf.
partir de 1965, com os trabalhos de Schatz (Studien PRÓSPERO DE AQUITÂNIA - Chronica, a. 379; SULPÍCIO
zur Geschichte) e de Barbero Aguilera (El priscilia- SEVERO - Chronica, 2, 47.4; IDÁCIO DE CHAVES -
nismo: herejía) é que o priscilianismo começou a ser Chronicon, 13b; TORRES - Prisciliano, doctor itine-
analisado fora do quadro das coordenadas estrita- rante, p. 81 e ESCRIBANO PANO - Iglesia y Estado,
mente teológico-eclesiásticas. Para evitar as genera- p. 392). As sés destes bispos são-nos desconhecidas
lizações é preciso, como nos convidam as investiga- mas podemos supô-los oriundos da Lusitânia visto
ções recentes sobre esta problemática, situar o seu os concílios da época estabelecerem que os novos
estudo no quadro mais lato do monaquismo ociden- bispos deviam ser consagrados por dois outros bis-
tal e da história social. Todavia, Prisciliano não criou pos da mesma província eclesiástica e pelo metropo-
um movimento ascético organizado em torno de uma lita. No entanto, no caso da eleição de Prisciliano, o
regra. O que ele pretendeu foi a reforma da Igreja, bispo da capital de província, Mérida, não estava
indo, desta forma, ao encontro das práticas do asce- presente. Não temos dados também para afirmar se a
tismo cristão tradicional. Contudo, a doutrina de sé de Ávila estava vacante ou não. Foi certamente
Prisciliano continua ainda actualmente a colocar nu- a ofensiva desencadeada contra Prisciliano e os bis-
merosos problemas de interpretação. 1. Prisciliano, pos seus partidários que levou estes a consagrarem-
denúncia e condenação: E através do cronista da -no bispo, no intuito de reforçarem as suas posições
Gália, Sulpício Severo, que conhecemos a origem (cf GARCÍA-VILLOSLADA - Historia de la Iglesia, 1,
nobre de Prisciliano (SULPÍCIO SEVERO - Chronica, 2, p. 236). As reacções à eleição de Prisciliano fize-
46.3). Alguns autores afirmam que Prisciliano nas- ram-se desde logo sentir alargando o debate sobre o
ceu na Galécia em data desconhecida e que teria dei- priscilianismo. Lembremos que as determinações
xado esta província para passar à Lusitânia. Esta dos concílios ecuménicos iam no sentido de ordenar
afirmação está provavelmente ligada ao facto de o que os bispos de uma diocese não se intrometessem
priscilianismo se ter vindo a desenvolver considera- nos assuntos das outras dioceses. Assiste-se, assim,
velmente naquela província eclesiástica. Devemos no seio do conflito priscilianista, à oposição entre
referir, no que respeita às origens geográficas de uma «hierarquia estabelecida» e uma «hierarquia iti-
Prisciliano, que o silêncio de Sulpício, bem como nerante», isto é, à confrontação entre duas concep-
de outras fontes da época, é absoluto. Podemos ape- ções diferentes de episcopado (cf. DÍAZ Y DÍAZ -
nas supor que o priscilianismo teve a sua origem na L'expansion du cristianisme, p. 93; e ESCRIBANO P A -
Lusitânia do Sul, na zona de fronteira com a Bética NO - Iglesia y Estado, p. 22). As fontes pouco mais
(cf. CABRERA - Estúdio sobre el priscilianismo, 1983). nos dizem sobre o itinerário ou o modo de vida de
64
PRISCILIANISMO

Prisciliano e os raros escritos que lhe são atribuídos Liber ad Damasum, p. 1439-1440), quer a Ambrósio
não acrescentam mais nada de concreto. A Crónica de Milão. Prisciliano ter-se-ia mesmo deslocado a
de Sulpício Severo faz-nos pensar que a eficácia da Itália com Instâncio e Salviano, seus companheiros,
acção de Prisciliano, antes e depois da ordenação depois de terem passado em Bordéus e noutras loca-
episcopal, estava relacionada de forma muito parti- lidades da Aquitânia onde receberam o acolhimento
cular com a sua personalidade ascética. Foi esta que entusiasta dos proprietários da região (FONTAINE -
lhe proporcionou, aliás, o apoio e o partenariato de Panorama espiritual, p. 185-209). A viagem a Itália
certos colegas no episcopado. Sulpício Severo subli- permitiu-lhes obter a derrogação do édito imperial já
nha igualmente que Prisciliano atraiu não só muitos mencionado, graças à influência de um funcionário
nobres mas também populares (SULPÍCIO SEVERO - da corte imperial. E com base nestes contactos a ní-
Chronica, 2, 46.5), isto é, uma diversidade de grupos vel da corte que Consêncio sublinha a condição aris-
sociais, contando-se no seu círculo não só homens tocrata de alguns membros da corrente priscilianista
mas também mulheres (SULPÍCIO SEVERO - Chronica, e menciona a sua pertença ao círculo teodosiano
2, 46.6). E difícil tentarmos elaborar uma síntese (CONSÊNCIO - Commonitorium, p. 51 -70). Quanto ao
completa do ensino de Prisciliano. Contudo, as fon- papa, não sabemos bem quais teriam sido as suas
tes disponíveis põem em evidência a predilecção do reacções relativamente a Prisciliano, Instâncio e Sal-
bispo de Avila pelo ascetismo e pela reclusão peni- viano, seus colaboradores. Contudo, sabemos, de
tencial; são mencionadas também as suas práticas acordo com o De uiris illustribus de Jerónimo, que
orientadas para a obtenção de um estado perfeito de Dâmaso se teria recusado a receber o bispo de Avila
eleição (electio Deo). Segundo testemunhos contem- e os seus companheiros {De uiris illustribus, 121).
porâneos, os ensinamentos priscilianistas faziam-se No que respeita ao bispo de Milão, sabemos que este
nos oratórios privados (cf. JERÓNIMO - Epistula 1 0 8 , se recusou a apoiar a causa de Prisciliano dirigindo
9) e nas villae. Supõe-se que Prisciliano era proprie- ao imperador Máximo um protesto contra aquele
tário de algumas destas villae ou que elas integra- «partido» (cf AMBRÓSIO DE MILÃO - Epistula 30, 24,
vam os domínios dos seus amigos. Nada sabemos, 12). Na sequência destes acontecimentos, em 384,
no entanto, sobre a sua situação ou o seu número. As realizou-se em Bordéus um concílio, convocado pelo
escavações em curso na Lusitânia poderão trazer imperador Máximo para analisar as acusações do
eventualmente alguns complementos de informação episcopado lusitano contra Prisciliano (SULPÍCIO S E -
(v. ARQUEOLOGIA, PALEOCRISTÃ). Por volta de 3 8 0 , o VERO - Chronica, 2, 49.7-9). Idácio de Chaves refere
movimento priscilianista foi reprimido no Concílio que, na assembleia de Bordéus, Martinho de Tours e
de Saragoça (na Bética), onde identificamos entre os os outros bispos ali presentes declararam Prisciliano
participantes Idácio de Mérida e Itácio de Ossónoba herético (IDÁCIO DE CHAVES - Chronicon, 13b). Na
(Faro) (cf. VIVES - Concílios, p. 16). Tudo parece in- sequência desta assembleia eclesiástica, Prisciliano
dicar que o concílio teve como objectivo primordial fez apelo ao imperador com a intenção de se justifi-
pôr fim às perturbações causadas pelos priscilianis- car perante ele. Transferida a questão priscilianista
tas nas comunidades cristãs da Galécia e da Aquitâ- para o tribunal secular de Trêves, Prisciliano e al-
nia, mesmo se os nomes de Prisciliano e dos seus guns dos seus companheiros foram convocados a
discípulos não são referidos explicitamente nos câ- julgamento naquela cidade (SULPÍCIO SEVERO - Chro-
nones. Todavia, o concílio insistiu na condenação de nica, 2, 50.1 -4). Sulpício Severo refere que Martinho
todo o tipo de ensino ministrado paralelamente ao da de Tours teria intervido junto do imperador protes-
hierarquia episcopal. Visava-se, desta forma, atingir tando contra o Iudice publica (SULPÍCIO SEVERO -
o «ministério privado» que o bispo de Avila reserva- Chronica, 2, 49.4-6), mesmo se o ensino de Prisci-
va para si e a proibição das reuniões litúrgicas nas liano e o seu comportamento o confundiam, como a
villae que levavam os fiéis a afastarem-se da Igreja outros prelados do seu tempo, não reconhecendo ne-
episcopal (Concílios, p. 16-17). Sulpício Severo re- les a sabedoria da Tradição. Para este bispo a senten-
fere o Concílio de Saragoça como iudicium sacerdo- ça episcopal já tinha sido proferida em Bordéus,
tale, para acentuar o combate contra os «heréticos» mostrando-se desnecessária a intervenção do poder
levado a cabo pelo episcopado hispânico (SULPÍCIO temporal. A execução de Prisciliano pode ser consi-
SEVERO - Chronica, 2, 47.1-3). Em 381, são ainda derada como o primeiro exemplo da intervenção da
Idácio de Mérida e Itácio de Ossonoba que, no senti- justiça secular numa questão eclesiástica (cf GAUDE-
do de travar o progresso da «seita», a denunciam a MET - L'Église dans l'Empire, p. 233-234). Ela ilus-
Graciano. Visando os acusados o imperador publi- tra, aliás, as tensões e as cumplicidades entre Igreja e
cou imediatamente um édito ordenando a expulsão poder imperial no fim do Baixo Império. Segundo o
dos heréticos de todas as igrejas (SULPÍCIO SEVERO - testemunho de Idácio, o bispo de Ávila foi executado
Chronica, 2, 47.5-7). Posteriormente, sabemos que em Trêves, em 387. A data da execução tem, contu-
as dúvidas colocadas pelos bispos da Lusitânia se do, gerado controvérsia entre os historiadores, que
propagaram a outras autoridades religiosas, como é referem com frequência os anos de 385/386. Da
o caso do papa Dâmaso e de Ambrósio de Milão, sentença de morte, de Prisciliano e quatro dos seus
que exercia jurisdição sobre o vicariato da Itália Se- discípulos, fazia parte a acusação de maleficium e
tentrional. É neste contexto de alargamento do deba- práticas religiosas obscenas (SULPÍCIO SEVERO -
te que, por volta de 381/382, vemos Prisciliano pedir Chronica, 2, 50.8 e 51.2-3). Na sequência desta exe-
apoio quer a Dâmaso (SULPÍCIO SEVERO - Chronica, cução o priscilianismo foi, por todo o Império, repri-
2, 48.2-4), a quem informou das acusações de «pseu- mido como heresia. 2. Expansão do priscilianismo
do episcopus et manichae» que lhe eram feitas (cf. após a execução em Trêves: A execução de Priscilia-

65
PRISCILIANISMO

no e a medidas para reprimir o priscilianismo no Im- tas. Tudo indicava que as decisões do Concílio de
pério não surtiram grande efeito. Segundo Idácio de Toledo de 400 não tinham conseguido pôr termo ao
Chaves, é na sequência da execução de Prisciliano movimento priscilianista e que este se continuava a
que a Galécia é invadida pela heresia priscilianista expandir no seio das populações do Noroeste penin-
0Chronicon, 16, 109). No Norte da Península Ibérica sular (cf. TRANOY - La Galice romaine, p. 428).
esta condenação deu ainda mais vigor à corrente re- Duas cartas de Montano de Toledo, de cerca de 530,
ligiosa em causa. As ideias priscilianistas parecem uma dirigida a Toribio de Astorga e outra aos cris-
ter mesmo desempenhado o papel de catalisador en- tãos de Palência, informam-nos disto mesmo. Nelas
tre os cristãos da Galécia, cristalizando à sua volta o bispo de Toledo censura os cristãos de Palência, ci-
diversas aspirações ascéticas, monásticas e intelec- dade não muito distante de Astorga, de comemora-
tuais pouco compatíveis com o cristianismo vivido rem o nome de Prisciliano entre os santos mártires.
pelo conjunto dos bispos daquela época. A ausência Uns anos mais tarde, em 561, o I Concílio de Braga
de comunidades cristãs bem estabelecidas no Norte volta a esta problemática. Em 572, o II Concílio de
da Península, no século v, e a existência aí de um Braga condena de novo o priscilianismo proclaman-
cristianismo menos controlado pelo episcopado esta- do que definitivamente na Galécia nada se apartava
belecido, pode explicar a rápida difusão do priscilia- da unidade da fé. Teriam os priscilianistas desapare-
nismo naquela região. Segundo uma tradição antiga cido? O facto é que a partir daqui não temos mais
os restos de Prisciliano teriam sido depostos em As- notícias sobre esta corrente heterodoxa.
torga, na província eclesiástica da Galécia, por volta ANA MARIA C. M. JORGE
de 396. A partir de então Prisciliano foi venerado
naquela cidade como mártir e os bispos dividiram-se BIBLIOGRAFIA: Fontes: AGOSTINHO DE HIPONA - Epistula 36. In CSEL.
34/1, p. 31-62. AMBRÓSIO DE MILÃO - Epistula 30. In CSEL. 82/, p. 214-
a seu respeito (cf. CHADWICK - Prisciliano de Avila, -215. CONSÊNCIO - Commonitorium domino meo sancto patri Augusti-
p. 206). O metropolita da Galécia, Sinfósio, tornou- no. In CSEL. 8, p. 51-70. IDÁCIO DE CHAVES - Chronicon (Hydace:
Chronique). Ed. A. Tranoy. Paris, 1974. ISIDORO DE SEVILHA - De uiris
-se o principal herdeiro espiritual de Prisciliano e illustribus. Ed. C. Codoner Merino. Salamanca, 1964. LEÃO I - Epistula
Astorga passou a ser um centro religioso que atraía 15 (Ad Turibium Asturiensem episcopum de priscilllianistarum erroni-
peregrinos que vinham rezar ao túmulo do «mártir». bus). In PL. 54, col. 693-695. MONTANO DE TOLEDO - Domino eximio
praecipuoque christicolae, domino et filio Thuribio. In PL. 65, col. 54-
Em 400, o movimento priscilianista voltou a ser -58. IDEM - Dominus dilectissimus fratribus filiisque territorii Palenti-
combatido no concílio de Toledo, que procurou ga- ni. In PL. 65, col. 51-54. PAULO ORÓSIO - Commonitorium de errore
rantir a ortodoxia na Hispânia reafirmando o credo e priscilianistarum et originistarum. In PL. 31, 1211-1216; 42, 665-670.
PRISCILIANO - Cânones in Pauli Apostoli epistulas a Peregrino episcopo
a disciplina do Concílio de Niceia (cf. ESCRIBANO P A - emendati. In PLS. 2, col. 1391-1413. PRÓSPERO DE AQUITÂNIA - Chroni-
NO - Cristianización y lideranzo, p. 271). Com efei- ca. In MGH AA. 9, p. 341-485. SÃO JERÓNIMO - De uiris illustribus. In
to, uma parte significativa deste concílio foi dedica- PL. 23, 631-760. IDEM - Epistula 75. In CSEL. 55/2, p. 29-34. IDEM -
Epistula 108. In CSEL. 55/2, p. 306-351. SULPÍCIO SEVERO - Chronica.
da ao priscilianismo, cujo chefe parecia ser o bispo In CSEL. 1. 1-105. TRACTATUS (de Würzburg). In CSEL. 18, 1-106; In
Sinfósio de Astorga, apoiado pelo seu filho Dictínio PLS. 2, 1413-1483. VIVES, J.; MARIN MARTINEZ, T.; MARTINEZ DÍEZ, G.,
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metem-nos para diversas dimensões da doutrina 1909. BARBERO AGUILERA, A. - El priscilianismo: herejía o movimento
priscilianista, a saber: a magia, a imoralidade, o ma- social?. Cuadernos de Historia de Espana. 37/38 (1963) 5-41. CABRE-
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niqueísmo, a concepção dualista e pessimista da 1983. CHADWICHK, H. - Prisciliano de Avila. Madrid, 1978. Tradução
criação, a teologia pouco ortodoxa da Trindade, a do inglês. CONDE GUERRI, E. - Paulino de Nola e la diplomacia antipris-
criação de uma elite envolvida em mistério, a utiliza- cilianista (Comentário a sua epistola 23). Carthaginensia. 4 ( 1 9 8 8 )
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ção dos Apócrifos, o jejum dominical durante todo o siècle. Paris, 1936. DÍAZ Y DÎAZ, M. C. - L'expansion du christianisme
ano, o retiro durante o Advento e a Quaresma, o des- et les tensions épiscopales dans la Péninsule ibérique. Revue d'Histoire
prezo dos bens deste mundo e a atracção dos cristãos Ecclésiastique. 6 (1983) 84-94. ESCRIBANO PANO, M. V. - Breviário de
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das cidades para as villae retiradas no campo. É ain- gia v de la historia antiqua en Espana (siglos xvtu-xx). Madrid, 1991,
da no âmbito do combate travado contra o priscilia- p. 229-235. IDEM - Iglesia y Estado en el certamen priscilianista causa
nismo que devem ser lidas e interpretadas as «regu- ecclesia y iudicium publicum. Zaragoza, 1988. IDEM - Sobre la preten-
dida condena nominal dictada por el concilio de Caesaraugusta del ano
lae fidei catholicae contra omnes haereses et quam 380. In I CONCILIO Caesaraugustano (MDC aniversario). Zaragoza,
maxime contra Priscilianos» (VIVES - Concílios, 1981, p. 123-133. FERNANDEZ CATÓN, J. M. - Manifestaciones ascéticas
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que é nesta etapa histórica de desenvolvimento do M. Marique. Worcester, 1975, p. 355-392. IDEM - Panorama espiritual
priscilianismo na Galécia que vemos desencadea- dei occidente peninsular en los siglos iv y v: por una nueva problemáti-
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Prisciliano, como no-lo atestam Agostinho (cf. Epis- ciones sociales. In I CONCILIO Caesaraugustano (MDC aniversario). Za-
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66
PROCISSÕES

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afastando do poder civil e, por fim, sofrem o embate
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mus: Die Forschung. Die Quellen, der fünfzehnte Brief Papst Leos des resulta das situações diferenciadas entre os fiéis, o
Grossen. St. Ottilien, 1965. estabelecimento das precedências. Alterando-se com
as épocas, nas formações exteriores que vão sendo
PROCISSÕES. Uma procissão é uma forma pública, assumidas, podemos verificar que duas regras orga-
mais ou menos solene, de louvor, súplica, penitência nizativas são constantes. A primeira é a que conside-
ou agradecimento, dirigida a Deus directamente atra- ra a barreira entre eclesiásticos e leigos. Essa foi
vés de Cristo, ou indirectamente através da Virgem sempre uma das grandes separações nos préstitos.
Maria ou dos santos. Diz-se a abrir o título xxi das Variam as funções durante a procissão e também os
Constituições de Coimbra de 1591 que «as procis- lugares de participação de uns e outros estão mais ou
sões forão ordenadas por direyto & louuaueys cos- menos definidos. Permanecem entrosados, entre
tumes para gloria & louuor do senhor, & honra dos eclesiásticos e leigos, os elementos das confrarias,
seus Sanctos, & para que os fieys Christãos juntos Misericórdias e ordens terceiras, movimentos de
em oração possão mais facilmente alcançar do Se- apostolado e de juventude (como o escutismo católi-
nhor remedios & ajuda em suas necessidades» co). A segunda regra permanente é a da multiplicida-
(Coimbra: António de Mariz, 1591, fl. 116). Jun- de de divisões, que em períodos de protocolo mais
tam-se no plano da procissão por um lado uma ho- marcado, como o Antigo Regime, criaram disputas e
menagem e deferência para com Deus e, por outro, querelas. Estas divisões são complexas e as suas or-
a sua exaltação. Esta exaltação de Deus assume va- gânicas são casualmente acertadas ao toque dos si-
riadas dimensões inerentes às diferenciações so- nos para a saída da procissão. Nelas englobamos
ciais da festa religiosa dando origem a determina- aquela que separa os fiéis masculinos e femininos,
das formas de sociabilidade. 1. Uma festa de não só em funções como em definição dos lugares
cristianização: As procissões são conhecidas desde possíveis de ocupar por uns e outros. Só por défices
cedo. Já no Antigo Testamento as encontramos re- de população masculina acontece nas procissões, ho-
feridas. Mais tarde, a trasladação das relíquias dos je, serem alguns andores levados em procissão por
mártires terá gerado os préstitos que as acompanha- mulheres, já que tal função sempre foi masculina; o
vam, préstitos que eram festivos. Paralelamente a pálio, mesmo no século xx, permanece sempre espa-
esses mesmos cortejos começaram a organizar-se ço de masculinidade. Mais persistente e mais legisla-
outros, não já para festejar mas para pedir o fim de da dentro das diferentes dioceses é a grelha de rela-
um determinado flagelo, considerado muitas vezes ções entre indivíduos e associações eclesiásticas que,
resultado de comportamentos menos cristãos. Ao cada uma por si, procura ganhar preeminência sobre
longo dos séculos de cristianismo em Portugal pode- as outras. Priores, reitores, curas, provisores e pro-
mos marcar três grandes estruturas temporais, longas motores do bispo, chantres, capelães, beneficiados,
de séculos, que são aquelas que neste apontamento presidentes dos cabidos, capelães da sé, vigários-
sistematicamente consideraremos. A primeira envol- -gerais, arciprestes, cónegos, monsenhores, o cabido,
ve toda a fixação de devoções na Península Ibérica, a Confraria do Santíssimo Sacramento, a Confraria
devoções que nascem em torno de relíquias e ermi- das Almas, e a de..., a as de..., tantas e tantas que
das dispersas, e estende-se até à multiplicação das vêm a ser incentivadas desde os tempos medievais,
peregrinações e à integração urbana das devoções, já e depois, os Terceiros de São Francisco, e os de São
entrado o século xiv. E o longo tempo da cristianiza- Domingos e os do Carmo, e... Em toda esta multi-
ção. As agitações religioso-morais do final medie- plicação desordenada que os designativos compor-
val, que tomam forma na confusão devocional e co- tam encontram-se situações de afirmação pessoal
memorativa e na indisciplina litúrgica, conduzem à por desempenho de cargo, por deferência honorífica
afirmação tridentina. Este tempo de afirmação pode do bispo ou do Papa, da diocese ou da ordem religio-
ser denominado de tempo das procissões. Procura-se sa e a todas elas havia que dar lugar por possíveis de
a afirmação no visível de aspectos devocionais e or- conviver na mesma procissão. Gerir o protocolo pro-
ganizacionais questionados pelas vagas protestantes cessional significa pôr em ordem a procissão, contri-
centro-europeias. Este tempo de longa preparação, buir para a configuração exterior da sociedade plani-
com configuração clara e legislativamente definida ficada hierarquicamente pelo cristianismo. Em 1591,
nos anos de Trento (1545-1563) e transbordada lo- em tempos modernos e tridentinos, escrevia-se que
calmente nas diferentes constituições diocesanas foi, numa procissão deverão ir todos em «boa ordem»,
como facilmente se perceberá de seguida pois nele significando esta que «yrão os leigos diante de to-
se fixa preferentemente este texto, tempo de consoli- dos, & logo os Religiosos per suas antiguidades ou
dação da manifestação processional que calou fundo posses; & detrás dos Religiosos os Clérigos com
até ao mundo contemporâneo. Este, o mundo con- suas Sobrepelizes: & detrás da Clerezia na Cidade

67
PROCISSÕES

irão os Regedores delia, como se custuma: & detrás entre os santos, ou a uma afloração da configuração
de todos as molheres». Mas a «boa ordem» é mais exterior da devoção mariana. O clero deve cuidar da
do que a arrumação dos participantes «como se cus- sua apresentação: não é a procissão, em primeiro lu-
tuma», é também uma determinada forma de com- gar, uma demonstração de fé que se apoia no exte-
portamento do qual fazem parte não comer, não be- rior? Daí a constante preocupação nas determinações
ber, não fazer jogos e outros divertimentos, não eclesiásticas com as formas de paramentação, privi-
brigar ou usar de armas, não cantar canções profa- legiando-se o uso de sobrepelizes sob as simples
nas, não dançar mas, pelo contrário, ir «todos quie- estolas, e mesmo com a decência dessas peças de
tos & dcuotos, cantando e respondendo ás Ladainhas paramentaria, que deverão estar lavadas e em boas
dos Sanctos, & preces que nas ditas procissões condições. Nalguns casos, mais do que decência,
ouuer» (Constituições. Coimbra: António de Mariz, procura-se dignificar a procissão com o uso dos pa-
1591, fl. 117 v.-l 18). Esta norma, inculcada em tem- ramentos mais ricos e ostensivos. Assim acontece
pos de catequização constante e de controlo de hábi- com a Procissão do Corpus Christi de Lisboa em que
tos, teve larga permanência. No século xx, por todo as Constituições de 1656, e posteriormente o ceri-
o país, a procissão continua a ser momento solene, monial da patriarcal, mandam que os párocos da ci-
de crença reverente e silenciosa ou hábito de memó- dade, as dignidades, cónegos e beneficiados da Sé e
ria respeitador. Muitos homens, nas zonas rurais, os capelães da Capela Real, além da sobrepeliz sobre
quando a procissão passa, continuam a tirar o chapéu as alvas trajem, ainda, de capas de asperges. Pautam
perante o pálio, sobretudo quando aí é levada a hós- as relações dos participantes, individualmente ou
tia consagrada. Tirando os casos isolados dos san- congregados nas procissões, desde a Idade Média,
tuários, as procissões acontecem em espaço urbano, reforçado durante o período moderno e caído em de-
aquele espaço urbano que se encontra enquadrado e suso com o passar do tempo, o transporte de uma si-
ritmado por igrejas e capelas. A atenção da hierar- nalização: as cruzes. Estas deviam ser transportadas
quia para com as procissões passa muitas vezes por desde o local de encontro até àquele onde teria início
esta situação espacial do desfile que se quer enqua- a procissão e durante o seu percurso. A lógica da si-
drado por um «mundo habitado» e que por isso não nalização pelas cruzes, de que havia uma necessida-
vá a lugares dispersos pelos vales e montes, o que de muito visível na representação das diferentes cor-
pareceria muito próximo do animismo naturalista porações de ofícios na Procissão do Corpus Christi,
dos tempos pagãos. O costume do arranjo festivo das podia ser acrescida com círios e bandeiras ou estan-
ruas por onde passava a procissão vinha neste senti- dartes, sendo paralelo à diminuição da utilização da
do, de tempos muito antigos, e perdurou até muito cruz como sinal o crescimento das bandeiras, muitas
tarde. Em 1866 a câmara de Lisboa procura cortar vezes contendo pintado um tema religioso, na maio-
este costume alegando não haver resposta suficiente ria uma passagem da Via Cruéis ou da vida do santo
dos moradores a esta tradição durante a Procissão do padroeiro, sendo por isso mais elucidativas e defi-
Corpus Christi, solicitando ao governo ser dispensa- nitórias do que a simples cruz, que quase sempre
da de fazer este pedido às populações, o que foi acei- passou, em tamanho reduzido, a encimar o pano da
te. Mas a memória e o hábito das colchas nas janelas bandeira. A moralização das procissões, quer dizer,
durante o dia e das velas e lanternas nas noites de a proibição da transformação daquelas em festa
procissões de Semana Santa manter-se-ia. Quando profana, ainda que as danças e autos tenham tido
nas décadas de 40 e 50 do século xx se assistiu a um uma origem cristã, foi uma das grandes batalhas pós-
recrudescimento e recuperação da Procissão do Cor- -tridentinas. Tratava-se de cristianizar o exterior, de
pus Christi, facilmente aproximável na sua lógica de conseguir a devoção pela compostura do gesto, pelo
desfile da visão corporativa da sociedade, é pelo silêncio, pela decência no vestir e no falar, na serie-
arranjo das ruas com flores e pelo engalanar das ja- dade do porte, longe de risos e movimentos lascivos.
nelas com colchas que se vai dar a tonalidade festiva É esta linha de rigor moral da imagem que se deve
e de aderência das populações, ainda que urbanas. ler nas Constituições de D. Pedro de Castilho, bispo
A procissão tem os seus participantes constitutivos de Leiria, publicadas em 1601, quando se determina
do préstito, que sucessivamente as constituições que nas procissões «defendemos que não vão nellas
mandam que sendo homens não fiquem nas janelas molheres, q representem sanctas, nem pelas ruas,
das casas mas que se incorporem no cortejo, e o pú- & janelas se ponhão figuras, ou pinturas lasciuas, &
blico assistente à passagem, mulheres e crianças nas indecentes» (Coimbra: Manuel de Araújo, 1601,
janelas, homens nas praças, nas ruas mais largas ou fl. 31 v.). Mais de dois séculos depois, em 23 de
junto de locais de marcada sociabilidade masculina, Abril de 1859, por resolução régia, ficaram os bispos
que deverão ter as portas encerradas, como são as ta- portugueses obrigados a autorizar, por escrito, as
bernas e, mais tarde, as barbearias, os grémios, as procissões de que previamente lhes haviam entregue
sociedades recreativas e os cafés. O que leva os fiéis uma memória descritiva. Assim queria o rei para que
a participar nas procissões? Para lá de conseguirem de norte a sul se corrigisse, proibindo, a representa-
uma notoriedade nascida da visibilidade e de certos ção de cenas teatrais durante as procissões, no seu
desempenhos como, de um ponto de vista social, ir início ou no seu final. Isto acontecia muitas vezes
ao pálio, ou levar um andor ou uma cruz como for- com aspectos da vida dos santos mas, sobretudo,
ma marcante de devoção, as procissões eram formas com a de Cristo e precisamente no tempo forte e pe-
de conseguir indulgências, enquanto estas pesaram nitencial da Semana Santa quando se recuperavam
na construção da economia da salvação de cada um, passagens dos Evangelhos para a construção de au-
ou de manifestar a fé num determinado intercessor, tos e cenas consideradas edificantes. Nestas preocu-
68
PROCISSÕES

pavam os prelados, e o rei, as indecências nascidas ciais nas relíquias, as de saudação e reverência do
da encarnação das figuras por determinados indiví- Corpus Christi, as que traziam à rua os passos da Via
duos que, pelo seu comportamento, não motivavam Cruéis, as que contemplam a figura protectora e au-
a colagem à personagem que desempenhavam, as xiliadora da Virgem Maria e, por fim, as que visam
formas e usos de linguagem e, mesmo, a aparência divulgar novos modelos de perfis de santos. No tem-
dos trajes nestas construções de cariz popular, nasci- po forte pós-tridentino notamos uma tendência de
das das boas intenções dos crentes, leigos e eclesiás- fundo, a de ultrapassar o santo/orago local justapon-
ticos, e que as representações continuadas muitas do-lhe, quando não opondo-lhe, uma festa e respecti-
vezes desvirtuavam, deixando-as cair em práticas va devoção à Virgem Maria, com procissão digni-
culturais pouco ortodoxas mas dificilmente controlá- ficatória. Quanto ao rei, se permanece na rua junto
veis. Ainda em 1888 o bispo do Algarve, D. António do pálio sempre que pode, procura em momentos de
Mendes Belo (1884-1907), exortando os seus dioce- conjunturas de poder determinadas socorrer-se da
sanos a uma rigorosa aplicação das normas de con- procissão como meio de fazer pressão justificativa
tenção e dignificação das procissões, escrevia que se do acontecido. Nesta atitude comparticipada, tida
devia respeitar «a rigorosa observância do preceitua- por eclesiástica, se enquadram todas aquelas procis-
do nas Constituições diocesanas, em que se proíbe sões que aconteceram à volta do ciclo da restauração
nas procissões as pessoas representarem ao vivo fac- da Casa de Bragança, em 1640, que tiveram lugar de
tos bíblicos, permitindo somente que se encorporem Braga a Macau e a Salvador da Bahia, ou as que, por
crianças vestidas de anjos» (apud ALMEIDA, Fortuna- razões diversas, logo em 1755, rodeiam o terramoto
to de - História da Igreja em Portugal. Porto: Civi- de Lisboa, que rogando ao céu perdão das faltas co-
lização, 1970, vol. 3, p. 457). A procissão deve co- metidas são meio de aplacar os ânimos e as histerias
meçar ao tanger dos sinos que deverão continuar a e capazes de encontrar razões para o acontecido.
tocar durante algum tempo ou mesmo durante toda Mais uma vez, estes dois ciclos de incidência políti-
a procissão. Também, caso exista, a música deve abrir ca marcada trazem ao de cima as duas grandes ra-
o desfile. Assim acontecerá nas mais notáveis, mor- zões de ser do acto processional: agradecer e pedir,
mente na do Corpus Chiristi, onde trombetas, chara- louvando a Deus. A tipologia das procissões, depois
melas e sacabuxas, em tempos modernos, e bandas de coligida e aferida, e uma vez estudada, só terá a
filarmónicas ou fanfarras militares ou dos bombeiros sua compreeensão plena se integrada nas grandes li-
na época contemporânea, darão o sinal de abertura, nhas da espiritualidade que caracterizam cada con-
assim preparando todos aqueles que pelas ruas juntura. Nesse sentido importará considerar cuida-
aguardam a manifestação de culto, ou para devida- dosamente o papel que no seu desenho tiveram as
mente o reverenciar ou, simplesmente, para guardar diferentes famílias de religiosos pois o seu protago-
respeito ao cerimonial ou assistir ao espectáculo. As nismo acaba por valorizar determinadas devoções e
cores das colchas nas janelas e dos tapetes de flores formas exteriores de reverência a Deus que lhes são
acompanham todo o percurso traçado, e a imaginária próprias e inerentes à espiritualidade implícita na re-
será transportada nos andores que são uma base so- gra de cada uma delas. E disso exemplo, em tempos
breelevada pelos homens aos seus ombros. Esta base medievais, o peso de franciscanos e dominicanos na
de espaço limitado onde a imagem se fixa tem toda divulgação das práticas de penitência por meio das
uma atenção especial através da sua decoração com flagelações que sabemos terem vingado pelo menos
flores, muitas vezes tendo os limites rectangulares nas procissões de Endoenças, ou, em período tri-
do andor assinalados por pequenos lanternins de dentino, o papel dos Jesuítas não só no reforço das
procissão. A procissão é um momento que, mesmo procissões marianas como, sobretudo, na realização
naquelas que envolvem dor e súplica, se quer de be- daquelas que envolviam os santos recentemente
leza. Recolhendo a informação de outros escritores elevados aos altares, muitos deles da Companhia ou
anteriores, João Baptista de Castro, no início da se- próximos dela. Nas constituições da época moderna
gunda metade do século xvm, regista um pormenor encontramos referências às seguintes procissões:
de beleza que acontecia na Procissão do Enterro do Corpus Christi, Visitação de Nossa Senhora, Ladai-
Senhor, em Sines, a partir da urna das relíquias nhas, Ramos, Purificação de Nossa Senhora ou das
do corpo de São Torpes: «todos os annos em sesta Candeias, Anjo Custódio e Santos Óleos. Além da
feira mayor, a tempo que se fazia a Procissão do En- referência a estas procissões os temas estruturantes
terro do Senhor, sahia da parte da urna, em que estaõ dos capítulos que lhes são relativos tratam dos que
as santas relíquias, quantidade de borboletas com são obrigados a nelas participar, da paramentação
azas prateadas, e acabada a Procissão desappare- dos clérigos, da ordem interna de pessoas e grupos,
ciaõ» (Mappa de Portugal Antigo e Moderno. Lis- do comportamento decoroso durante o préstito, dos
boa: 1763, t. 2, parte 3, p. 221). 2. A procura de tipo- percursos e arranjo de ruas (indicações que são mui-
logias: São muitas as razões que levaram os to genéricas) e das proibições de percursos não urba-
Portugueses ao longo de todos estes séculos a fazer nos. O tópico fundamental parece ser o que se encer-
procissões. Apesar dessa multiplicidade de vontades, ra sob a noção de «ordem», como que a codificação
aliada aos consentimentos do bispo da diocese, po- da fé na expressão social exterior e espectacular que
dem marcar-se algumas características capazes de se representava pelas ruas. A vaga de fundo da orde-
conduzir a uma tipologia das procissões. Aliadas ao nação e da moralização das procissões atingiu acima
sentir religioso, à cristianização e à inculcação cate- de todas a do Corpus Christi, que na apresentação
quética estariam todas aquelas que visavam a presta- das diferentes corporações de mesteres ou determi-
ção de culto aos santos fundadores, tornados presen- nados ofícios acabava por denotar a vida do conce-

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PROCISSÕES

Procissão do Corpo de Deus em 29 de Junho de 1908, Lisboa.


lho mas provocava crescimentos espectaculares de na obra de Frei Lucas de Santa Catarina (1660-
representatividade que procuravam fazer chamadas -1740). Lisboa: INCM, 1983, p. 152-153. Podemos
de atenção sobre o poder, económico em primeiro dizer que esta procissão era modelar de todas as ou-
lugar, de alguns dos participantes. Assim beneficia- tras. Esta ideia era expressa pelos seus espectadores
va o concelho, que se obrigava a mais despesas dos mais atentos e com alguma capacidade de notificar
cofres locais, e se distinguiam alguns dos partici- um acontecimento dando-lhe capacidade arquetípi-
pantes, requerendo futura atenção na distribuição do ca ou divulgando-o. É na primeira perspectiva que
poder local. As proibições desta procissão conce- age o rei D. Manuel quando, ao decretar as procis-
lhio-religiosa foram muitas e atingiram sobretudo os sões solenes da Visitação da Virgem a Santa Isabel
elementos festivaleiros da procissão, o São Jorge, o e do Anjo Custódio, desde logo estipula que «as
seu alferes, cavalo e sela, o Dragão, Serpe ou Conca, quaes Precissoês se faram, e ordenaram com aquel-
as danças e folias variadas. Isto mesmo se pode veri- la festa e solenidade, com que se faz a Precissam do
ficar nas enumerações de Évora ainda do final do sé- Corpo de Deus» (Ordenações Manuelinas. Lisboa:
culo xv, do Porto de 1620, com a sua tentativa de ul- FCG, 1984, Liv. I, p. 566). Por seu lado, Filipe I es-
trapassagem nas de 1773, também do Porto, onde o creve a suas filhas, em 25 de Junho de 1582, com-
lúdico/teatral/coreográfico deu lugar a simples enca- parando os festejos na procissão de Lisboa e de Ma-
minhamento dos esforços dos grupos que queriam drid, ressalvando a grandeza da de Lisboa e o seu
representatividade para o adornar das ruas a percor- lugar no couce: «Também fui ver as danças do Cor-
rer pelo cortejo. Entre 1690 e 1740 Frei Lucas de pus Christi. Se o vosso irmão tem medo daquelas
Santa Catarina na sua desabrida crítica ao formalis- coisas [os gigantones, a Serpe,...], procurai que não
mo da procissão do barroco continuará a manter esta o tenha e dizei-lhe o que são, que assim o perderá.
ideia de manifestação corporativa quando verseja Aqui não houve foliões mas antes muitas danças de
recomendando, e criticando, as atitudes de conquis- mulheres e algumas que cantavam bem, ainda que,
ta amorosa do elegante da época, o «faceira»: «Me- como vos escrevi, tenha visto pouco, por ir num dos
tido a critico chamará ao Carro dos Ortelloens, Bos- extremos da procissão e por ser tão grande» - Cartas
que Movedisso; ao dos Tanoeiros, Grutta de Baco; para duas infantas meninas: Portugal na correspon-
às Regateiras dos Arcos, Amalteas de obra grossa; às dência de Filipe I para as suas fdhas (1581-1583).
Tourinhas, Tritoens de couro, ou Delfins de canastra; Lisboa: Dom Quixote; CNCDP, 1998, p. 154. Não
à Serpe, Taverna portátil, ou Adega enfeitada; ao Al- se devem esquecer os caminhos das procissões nas
feres de S. Jorge, Cagado a cavallo; aos Gigantes, peregrinações. O santuário torna-se, no auge da fes-
Obeliscos de trapos, Estatuas de Poliferno; às ban- ta, o centro da peregrinação. Em espaço exterior, en-
deiras dos Officiaes, Trofeos mariolaticos» - apud tre os arranjos de festa e divertimento não sacrali-
RODRIGUES, Graça Almeida - Literatura e sociedade zados, a imagem do venerado, uma santa, santo, a
7o
PROCISSÕES

Virgem Maria ou mesmo alguma invocação de Cris- Christi, aplicando a verba ao Asilo de Cegos e Alei-
to, vem para a rua acompanhando todos os que aí jados de Celas. Os munícipes queixam-se ao gover-
acorreram. Nestes se incluem os que estão manifes- no que, por portaria de 26 de Junho de 1905, man-
tando o pagamento de uma promessa; os que a pa- dou considerar a procissão como uma obrigação
gam durante o próprio decorrer da procissão; aqueles ancestral das câmaras, repondo a obrigação camará-
que aí foram para a festa, a romaria, mais do que pa- ria. Durante o tempo da I República o afastamento
ra a sua santificação; e os que vêem vir até si, até ao volta a procurar-se enquanto que, em sentido inver-
campo envolvente do santuário, a razão de ser da pe- so, durante o período salazarista se recuperam as
regrinação. Muitas vezes ir à romaria vem de tempos procissões, sobretudo a do Corpus Christi e a dos
muitos recuados, tão recuados que já se introduziu o Passos, como grandes momentos lúdico-profanos,
hábito anual deste «passeio»/festa, no seu sentido to- envolvidos em atmosfera religiosa cristã que se quer
talizante e englobando o religioso. Mais uma vez a definitória da essência da nação. Apesar deste tempo
utilização da procissão provoca alteração no aconte- de recessão seguido da instrumentalização salazaris-
cer, pelo respeito, pela deferência para com aqueles ta, o século xx vê desenvolverem-se duas novas for-
que se conhecem, mais ou menos, e que vão incor- mas processionais, apenas dimensionadas e cultual-
porados na procissão. O pagamento da promessa deu mente assimiladas pelas populações a partir dos anos
lugar muitas vezes a expressões de afirmação exte- 40/50: a das Velas e a do Adeus. Ambas andam liga-
rior acontecendo durante as procissões. Assim é com das às aparições aos pastorinhos, em Fátima. A pri-
as fogaças, conjuntos decorados de objectos de ofer- meira, a das Velas, estender-se-á a todas as paró-
ta aos santos ou à Virgem Maria. Estes objectos de quias de Portugal e realiza-se de 12 para 13 de Maio,
cariz mais ou menos rural e regional têm um forte à noite, o que é pouco usual, apenas acontecendo
pendor cerealífero, trigo, milho e centeio, em grão, nalguns locais na Procissão do Enterro do Senhor, e
farinha ou já transformados em pão, como nas festas não só pouco usual como não recomendado pela
do Espírito Santo em Tomar ou nas do Senhor Santo liturgia que sempre defendeu que as procissões
Cristo nos Açores, podendo ainda conter carnes ani- deveriam ter lugar sob a luz do Sol. Durante esta
mais comestíveis, borrego, aves de capoeira ou en- procissão é transportada sobre o andor a imagem da
chidos de porco, ou certos bolos derivados da amas- Senhora de Fátima, enquadrada por cânticos com-
sadura do pão, os bolos de fatia, fintos, dormidos, de postos com este fim e que são narrativos dos aconte-
orelha, ou de erva-doce do Alentejo. Talvez que seja cimentos de Maio a Outubro de 1917. A segunda
no que podemos denominar de complexo processio- apenas acontece no próprio Santuário de Fátima e
nal da Semana Santa onde encontramos uma maior
densidade processional num tempo limitado de dias,
tentando cobrir quase que teatralmente todo o acon-
tecer do final da vida de Cristo em Jerusalém. Deste
complexo fazem parte, com todas as variações tem-
porais e regionais que haverá também que perceber:
antecedendo o tempo da Semana Santa, a Procissão
dos Ramos e, variando de data de zona para zona, a
dos Passos, possivelmente, depois da do Corpus
Christi, a de maior capacidade envolvente das popu-
lações, talvez pela sua linguagem fácil e teatral. Na
Procissão dos Passos representa-se toda a caminhada
descrita na Via Crucis, descrição feita por figuras
humanas portadoras dos instrumentos da Paixão (os
dados do legionário, a escada para subir à cruz, a co-
roa de espinhos, a esponja do vinagre, o chicote dos
algozes, os pregos, a lança do centurião...) ou de-
sempenhando o papel dos intervenientes nela (o cen-
turião, as Marias, Madalena, a Verónica...), numa
mistura evangélica e tradicional imemorial. Depois
vêm a do Ecce Homo, ou da flagelação de Cristo
atado à coluna e a do enterro do Senhor, esta última
realizada de noite e, normalmente, só por homens de
opas e capuzes negros. Precisamos ainda de apro-
fundar mais todos os elementos documentais e as
dimensões contemporâneas deste complexo de pro-
cissões. 3. As permanências: As permanências, tal
como a essência das procissões, acontecem pelo ex-
terior. Até aos anos 20/30 do século xix as câmaras
iam às procissões a que eram acostumadas, a partir
daí nota-se que só vão ao Corpus Christi esquecendo
as outras e tentando libertar-se desta. É exemplo des-
ta atitude o que vemos acontecer em Coimbra. Em
1905, a câmara deixa de fazer a Procissão do Corpus
Procissão de Santo António, Lisboa.
7I
PROCISSÕES

trata-se de uma procissão de despedida da imagem, PROFANO. V. S A G R A D O E P R O F A N O .


que sai da capelinha erguida no local das aparições
para a igreja do santuário. É a procissão que encerra PROFETISMO. Etimologicamente deriva de profeta e
as peregrinações. Também nela a mesma imagem é da noção de profecia. Profeta, em hebraico, é desig-
transportada e tem cânticos próprios. Destas duas nado pelo termo nabi ' (v.g. Ex 15, 20., em que se de-
aflorações processionais contemporâneas algumas senvolvem as formas verbais correspondentes nibbá
conclusões se podem retirar. Em primeiro lugar elas e hitnabbé'), que significa, em sentido activo, pro-
confirmam a permanência que o acto devocional da clamador de uma mensagem de esperança, de cariz
procissão encerra e guarda entre os públicos mais ou transcendente. Se inquirirmos o seu sentido através
menos praticantes da religião católica mas que, pelo de uma leitura na voz passiva (nabi'm), profeta sig-
menos, assim expressam fortes ligações culturais a nifica «chamado», que os LXX traduziram para gre-
estas formas de exteriorização. Em segundo lugar go por prophetés. Este vocábulo, usado em todo o
vêm ao de cima algumas características que, mais ou Antigo Testamento, é de etimologia discutível, ape-
menos marcadas, vão tendo presença ao longo do sar de a maioria dos especialistas concordarem que
tempo: o peso das procissões da Virgem Maria, a ele deriva do acádico nabû (chamar). Outros termos
prática processional nas peregrinações, muitas vezes estão-lhe ligados, como rô'eh (vidente), que define a
eivada de um forte sentido lúdico-profano, e por fim função de Samuel (v.g. 1 Sm 9); a função que ele de-
a dimensão de representação de aspectos que se que- sempenha diferencia-se pouco de nabi ': Samuel, o
rem de teor nacional. Esta referência às procissões vidente que preside à confraria dos nebî'im (1 Sm 19,
como capazes de dar individualidade a determinadas 20), adunada ao seu papel de mensageiro de Deus,
regiões e a formas culturais de estar portuguesas le- entendido como nabi' individual (1 Sm 3, 19-20). As
va ao aparecimento da noção patrimonial, e mesmo formas arcaicas de profetismo israelita expressavam
turística, dos préstitos. São disso exemplo as recupe- estados colectivos de transe suscitados pelo Espírito
rações das cerimónias e envolventes exteriores de al- de Deus (1 Sm 10, 5-7, 10-13) que depois evoluíram
gumas procissões dos Passos e de todo o conjunto com a afirmação da tradição do profetismo indivi-
das «Semanas Santas» ou a utilização propagandís- dual, na qual se destacam grandes profetas como
tica da Procissão dos Tabuleiros de Tomar. 4. Con- Ezequiel, Jeremias, Isaías, etc. O fenómeno profético
clusão: É variável a estrutura processional, seus não é exclusivo do povo bíblico, pois encontramo-lo
motivos de cristianização ou simplesmente de ma- também nas religiões anteriores e paralelas da Meso-
nutenção de memória ou permanência civilizacional potâmia, do Egipto e do mundo cananeu (v.g. profe-
católica, mas estão nela em presença alguns parâme- tas de Baal: 1 Rs 18, 19-40). No islamismo, o corâo
tros definitórios. A procissão é uma forma de repre- entende o profeta (rasúl) como o enviado por Alá
sentação dos poderes em presença, o de Deus que a aos homens e aquele que diz o que Deus determina -
Igreja manifesta e que o povo dos fiéis participa, ve- a Lei: «Nós só enviamos os profetas para anuncia-
nera e aplaude, o da Igreja, capaz de configurar a rem a boa nova para avisarem os homens» (vi, 48).
memória realizando festa-comemoração, o do conce- Na perspectiva do ocultismo, o profeta é um adivi-
lho, ou do reino, ou da República, que se afastam ou nho. A profecia é passível de duas interpretações
participam, que participam de diferentes maneiras e distintas. No sentido bíblico, a profecia é essencial-
com diferentes proximidades do pálio, dos objectos mente uma proposta de metanoia, de conversão inte-
processionais, andores e estandartes, ou que se fa- rior que se traduz na transformação e conversão das
zem esquecer no préstito do qual se alheiam, ou no estruturas sociais afectadas pelo pecado, abrindo a
qual participam como autoridades em representação história para a esperança que radica em Deus. Esote-
de instituições e procurando mostrar aceitação e res- ricamente, a profecia concebe-se como a tentativa de
peito pelas instituições, neste caso pela Igreja Católi- inquirir o futuro de forma a desvelá-lo, mormente os
ca que consegue, culturalmente, mais aqui e menos seus acontecimentos cruciais e os de carácter teleo-
ali, congregar populações. lógico. Neste caso, o termo mais correcto a utilizar
ANTÓNIO CAMÕES GOUVEIA deveria ser predicção. O profetismo pode ser enten-
dido como a corrente que oferece uma interpretação
BIBLIOGRAFIA: BRAGA, Isabel Mendes Drumond - Entre o sagrado e o pro- do destino da história à luz das profecias e uma men-
fano: as procissões em Portugal no século xvm segundo alguns relatos de
estrangeiros. In A FESTA. Lisboa: Universitária Editora, 1992, vol. 2,
sagem que possa constituir uma proposta de rege-
p. 455-468. COELHO, Antônio - Curso de liturgia romana. Braga: União neração para a sociedade degradada. O profetismo
Gráfica, 1926-30, vol. 5, p. 165-180. COUTO, Luís de Sousa - Origem das subdivide-se em duas grandes vertentes que, fre-
procissões da cidade do Pôrto. Ed. Magalhães Basto. 2. ed. Porto: Câ-
A

mara Municipal do Porto [1971]. GONÇALVES, Iria - As festas do «Corpus


quentemente, aparecem interligadas: o profetismo
Christi» do Porto na segunda metade do século xv: a participação do con- religioso e o profetismo político. Este último des-
celho. In UM OLHAR sobre a cidade medieval. Cascais: Patrimonia, 1996, dobra-se em profetismo cultural e profetismo so-
p. 153-176. JANEIRO, Helena Pinto - A Procissão do Corpo de Deus na
Lisboa barroca: O espaço e o poder. In ARQUEOLOGIA DO ESTADO - Comu- cial. Quanto ao sistema profético cristão que vai
nicações 2. Lisboa: História & Critica, 1988, p. 727-742. KRUS, LUÍS - perpassar ideologicamente o profetismo português,
Celeiro e relíquias: o culto quatrocentista dos mártires de Marrocos e a este é entendido como o testemunho da nova e eter-
devoção dos nus. In PASSADO, memória e poder na sociedade medieval na aliança consumada pela redenção de Cristo. A pa-
portuguesa: Estudos. Redondo: Patrimonia, 1994, p. 149-169. OLIVEIRA,
Ernesto Veiga de - Figuras gigantescas processionais em Portugal. In trística hispânica (v. PATROLOGIA), que se inspirou no
FESTIVIDADES cíclicas em Portugal. Lisboa: Dom Quixote, 1984, p. 273-
-286. Roux, Lucette Elyane - La fête du Saint-Sacrement à Séville en
pensamento cristológico em voga e se debateu com
1594: Essai de définition d'une lecture des formes. In LES FÊTES de la Re- as crises das suas formulações históricas em torno
naissance. Paris: CNRS, 1975, vol. 3, p. 461-484. TEDIM, José Manuel - da imagem de Cristo, vai constituir os primórdios
A procissão das procissões: A Festa do Corpo de Deus. In ARTE efémera
em Portugal. Lisboa: FCG, 2000, p. 217-223, 224-235.
do profetismo ibérico: a fase arianista de Potâmio de

72
PROFETISMO

Lisboa, o ascetismo gnóstico de Prisciliano, o anti- reconhecer nesta prova o signo decisivo da inaugura-
pelagianismo de Paulo Orósio, o providencialismo ção dos tempos messiânicos. Alguns judeus profeti-
de Apríngio de Beja, os cânones dos concílios de To- zam a chegada do Messias: v.g., o célebre financeiro
ledo, são alicerces da teologia fundamental do Oci- português Isaac Abarbanel anunciou a chegada do
dente peninsular. O profetismo bíblico encontra eco Messias para o ano 1503; David Ruben considerou-
no profetismo eclesial: os cristãos também se consi- -se um enviado da tribo de Ruben desaparecida para
deram em diáspora e aguardam, em jubilosa espe- proclamar a proximidade da rendenção; Diogo Pires
rança, a epilogai vinda de Cristo salvador. Esta te- fez várias previsões; Luís Dias autoproclamou-se co-
mática profética será consagrada e apresentada pela mo messias de Deus. Estes factos são bem ilustrati-
doutrinação ortodoxa e vai inspirar inúmeros trata- vos do clima que se vivia no seio das minorias reli-
dos cristológicos com cariz profético desferidos ad- giosas judias, que desenvolveram um messianismo
versus haereses e adversus judeos. As profecias de adequado à sua situação sociorreligiosa marginal. As
Santo Isidoro de Sevilha e de São Frei Gil de Santa- primeiras derrotas dos Portugueses no Oriente e em
rém não podem ser entendidas fora deste contexto - Africa encontraram eco nas trovas de Bandarra -
no seu entendimento, o Encoberto é o Cristo da pa- cujas profecias são vistas como o catecismo do pro-
rusia. Em Portugal, o profetismo assume contornos fetismo nacional - que profetizava a conquista de
dominantes de carácter político, integrando elemen- Marrocos, o Turco derrotado e o Império Universal
tos do foro religioso judeo-cristão e nas ciências her- sob a égide da monarquia portuguesa. D. Sebastião
méticas, bem como concatenando dados culturais foi entendido como o predestinado para a conse-
das religiões primitivas. O profetismo lusitano anun- cução dessas tarefas através, v.g., de Diogo de Tei-
cia a esperança da regeneração da sociedade portu- ve, Frei Miguel dos Santos, Freire de Andrade e até
guesa, de uma idade de ouro, da chegada de um de Camões. Paralelamente, os portugueses do sé-
messias, de um monarca que conduzirá Portugal e a culo xvi tomaram consciência da grandeza dos
Igreja Católica às glórias antigas e assegurará o seu Descobrimentos marítimos que tinham empreendi-
triunfo no quadro mundial, de acordo com o que se do; orgulhavam-se de terem feito mais do que os
crê estar determinado por Deus aquando da fundação Greco-Romanos, os quais escreveram obras subli-
do reino de Portugal. O profetismo português surgiu mes para imortalizar as suas gestas. Do mesmo mo-
com o esforço de afirmação da autonomia do reino do as façanhas dos Portugueses foram consignadas
perante os outros estados europeus, estando, portan- em textos literários e delas foram hauridas ilações
to, na sua origem e consolidação um profetismo de proféticas. Estas reflectem-se nas obras de Barros,
cariz político que não hesitou em recorrer a elemen- de Castanheda, de Góis, de Garcia de Resende, Gil
tos subsidiários de ordem religiosa e de modelação Vicente e de Camões, que canta: «Deveis de ter sabi-
mitogénica para legitimar a sua mensagem profética. do claramente / Como é dos Fados grande certo in-
A solidificação da autonomia de Portugal na guerra tento / Que por eles se esqueçam os humanos / De
de 1383 a 1385 inspirou a Fernão Lopes a procla- Assírios, Persas, Gregos e Romanos» (CAMÕES - Os
mação da sétima idade da história humana na sua Lusíadas, p. 75). Neste âmbito, emerge triunfante-
Crónica, sendo o povo português o povo eleito dos mente a fé numa missão divina atribuída pelos céus
tempos modernos. Foi nesta conjuntura de euforia ao reino lusitano. O mito da construção de um impé-
nacional, acrescida da conquista de Ceuta em 1415, rio cristão ganhou como que um carácter sagrado e
que teria nascido o célebre milagre de Ourique: tendia a estar ao serviço de um imperialismo de fé
Cristo teria aparecido a D. Afonso Henriques para religiosa e política de carácter universalizante. Os
lhe garantir a vitória na batalha contra os infiéis e missionários, os marinheiros e os soldados portu-
lhe confirmar a predilecção divina. Esta lenda, am- gueses levaram o Evangelho a todos os povos que
pliada e divulgada por muitos pregadores, teria o in- encontravam e acreditavam estar credenciados es-
tuito de sustentar o lugar privilegiado ou, pelo menos, pecialmente por Deus para tal efeito. Os profetas
autonomizado de Portugal entre os reinos da Cristan- messiânicos portugueses orientaram o seu discurso
dade europeia. Mais tarde, enriquecida com outros prevalecentemente para a prodigalização do mito do
elementos míticos, acabou por constituir o cânone Encoberto - o sebastianismo - , sendo este, em certa
basilar do credo lusitano (CLEMENTE, Portugal, p. 353). medida, entendido como a chave hermenêutica para
O profetismo que marcou a cultura portuguesa resul- a compreensão da história do país e da evolução da
ta da fusão de três correntes que convergem de uma cultura desde a Modernidade. Os outros tipos de pro-
forma sintética: as correntes hebraica, cristã e a polí- fetismo relacionam-se com o sebastianismo ou dele
tica. Todas três se compenetram e acabam por se dependem directa ou indirectamente. Este profetis-
misturar de uma forma inextricável. Nas origens, en- mo indicia-se em João de Barros, na Crónica do Im-
contramos os judeus e os cristãos-novos mal integra- perador Clarimundo e na Rópica Pnefma, na presen-
dos pela cultura cristã dominante e muitos judeus ça franciscana (os Franciscanos foram influenciados
convertidos que, não aceitando a divindade de Cris- por uma escatologia de inspiração joaquimita e mi-
to, continuavam a esperar a vinda de um messias que lenarista) na corte de D. Manuel I e na mística dos
deveria preludiar a intervenção de Deus em favor do Descobrimentos. E continua emergente na obra de
seu povo eleito. No fim do século xv, a expulsão dos Diogo Castilho, a Origem dos Turcos, na História
judeus de Espanha e mais tarde de Portugal provo- de Portugal de Fernando Oliveira, nos prognósticos
cou uma grave crise de consciência nas populações de Frei João do Porto, na obra de Frei Marcos de
judias: como no passado, os perseguidos refugiaram- Lisboa, a Crónica da Ordem dos Frades Menores,
-se na esperança de um futuro melhor, acreditando nos Desenganos de Perdidos do arcebispo Frei Gas-

73
PROFETISMO

par de Leão, bem como nas profecias de Frei Bernar- um entendimento durável entre a cristandade dividi-
do de Brito e do padre José Anchieta. A desilusão de da, através de um total aproveitamento das potencia-
Alcácer Quibir, o desaparecimento de D. Sebastião e lidades e de uma colaboração fecunda. Unidade que
a ameaça espanhola foram factores de inspiração do a fragmentação do poder temporal e as lutas intesti-
profetismo português, bem como do exacerbamento nas da cristandade contemporânea impossibilitavam.
do messianismo e do milenarismo que lhe era cone- O profetismo está patente em muitos e significati-
xo. Kg. no ano de 1587 D. João de Castro estudou as vos textos da parenética portuguesa, nomeadamente
profecias em voga e cedo lhe nasceu a convicção aqueles que foram pregados nos momentos cruciais
profética de que D. Sebastião era o Encoberto, que da história portuguesa, nos quais é anunciada a futu-
regressaria para ser o imperador do mundo. Desta ra exaltação do reino perante os outros povos e o
saudade, desta esperança e deste esforço de indaga- triunfo da Igreja Católica (cf. MARQUES - A parenéti-
ção através da interpretação das profecias surge o ca, vol. ii, passim). Ainda na segunda metade do sé-
mito do sebastianismo. O ideal profético-escatológi- culo xvii, António Paes Ferraz escreve um prognósti-
co de Bandarra - primeiro sinal da decadência da co, visando fins políticos imediatos - apresenta
idade de ouro portuguesa - tomou-se um valor co- D. Afonso VI como a concretização das esperanças
munitário e um locus de antinomias. As suas profe- sebastianistas, na altura conturbada em que o conde
cias que anunciaram a obnubilação do Império Por- de Castelo Melhor ultimava o golpe de palácio que
tuguês vão estar na base do impulso restauracionista, terminou com a regência de D. Luísa de Gusmão.
eivado ainda do ideal de cruzada que regeu a funda- Mostra, assim, a força da doutrina profética confec-
ção e expansão de Portugal. Manuel Bocarro Fran- cionada com elementos da astrologia judiciária e da
cês reflecte esta influência no poema Anacefaleosis cabalística nos meios eruditos, apresentando-se
da Monarquia Lusitana (1624), no qual prediz o Im- como a mais fecunda utilização da teoria das con-
pério Universal sedeado na metrópole portuguesa. jugações, no quadro da corrente profética nacional.
Em que é corroborado por Frei Sebastião de Paiva Embora com efeito transitório, as profecias bandar-
no Tratado da Quinta Monarquia (1641). Sob a au- rianas, ditas sebastianistas, projectaram-se sobre
toridade de Bandarra e com o impulso dos Jesuítas, personagens menos marcantes da pós-Restauração,
principalmente do padre António Vieira, o profetis- quando já era evidente que as esperanças da pri-
mo prolifera com a independência restaurada, em meira hora se não concretizariam: aconteceu com o
1640, e expande-se com ductilidade suficiente para infante D. Duarte em 1659, com um herói desco-
identificar o Encoberto com D. João IV, D. Teodó- nhecido das guerras de Itália em 1659, com D. João
sio, D. Afonso VI, D. Pedro II e D. João V. Elabora- de Áustria em 1661. Paralelamente à divulgação das
-se toda uma literatura político-profética (desde tra- trovas de Bandarra, surgiram várias especulações
tados a sermões), forjada para inculcar a ideia de que que os sebastianistas atribuíram a individualidades
a Restauração cumpriu as profecias. António Vieira, dos tempos remotos, algumas nascidas apenas da
o mais altissonante teorizador do profetismo portu- imaginação - santos, religiosos, visionários, profetas
guês, defende a consistência desta esperança com e astrólogos - cujas prédicas serviam para coonestar
base nos feitos auspiciosos realizados pelos Portu- a divulgação desta doutrina. Até o diplomata Antó-
gueses nas viagens marítimas: «Portentosas foram nio de Sousa Macedo, para fundamentar a restaura-
antigamente, aquelas façanhas, ó portugueses, com ção da independência portuguesa perante a opinião
que descobristes novos mares e novas terras, e destes europeia, não se coibiu de recorrer a uma série de
a conhecer o mundo ao mesmo mundo. Assim como vaticínios tradicionais. A corrente profética como
líeis então aquelas vossas histórias, lede agora esta que se esconde durante os séculos xvin e xix, perío-
minha, que é também vossa. Vós descobristes ao do em que as ideologias assumem, em certa medida,
mundo o que ele era, e eu vos descubro a Vós o que a expressão de profetismo, especialmente depois da
haveis de ser. Em nada é segundo e menor este meu Revolução Francesa e ao longo da Revolução Indus-
descobrimento, senão maior em tudo. Maior cabo, trial, propondo uma mensagem de esperança numa
maior esperança, maior império» (VIEIRA - História, idade mais perfeita para a humanidade, em que a
p. 64). Vieira via os Portugueses como os criadores colectividade passa a ser o protagonista. O despotis-
da universalidade. Este distinto pregador professava mo iluminado (v. ILUMINISMO), O liberalismo, o socia-
um determinismo providencialista, acreditando que lismo, o comunismo podem ser entendidos também
Portugal era um instrumento privilegiado dos de- como formas laicas de profetismo (v. LAICIDADE).
sígnios de Deus. Na História do Futuro, lança as Apesar de uma certa decadência do profetismo de
bases para construção da sua grande utopia proféti- origem judaica nas suas formas sionistas devido à
ca de cariz milenarista - o Quinto Império que emergência crítica do iluminismo racionalizante, ele
depois pretendeu edificar na Clavis Prophetarum. vai continuar patente, de uma forma menos apologé-
Anuncia mil anos de fé, de paz e de felicidade sob tica e mais literária e filosófica, nos poetas portugue-
um regime teocrático, em que o rei português e o Pa- ses. Sucintamente, podemos referir Martins Pascoal,
pa assumiriam o governo do Império Universal, nas que preconiza o retorno do homem ao ser original;
suas competências temporais e espirituais sabiamen- Pedro Amorim Viana, que defende a necessidade da
te conciliadas. No seu projecto quinto-imperialista devolução da liberdade a Deus para que o homem
coexistem duas universalidades que são distintas, assuma a realeza da história. A Renascença Portu-
embora perfeitamente interligadas: a universalidade guesa formula a temática profética em termos de
de Portugal e a universalidade da Igreja Católica. restauração do homogéneo absoluto, na elevação do
Esta utopia é trespassada pelo sonho da unidade, de sentimento da saudade como meio de contempora-

74
PROTESTANTISMO

uma filosofia de cariz místico-vitalista (v. E S O T E R I S -


MO; HETERODOXIA, MESSIANISMO; SEBASTIANISMO). A a c -
tualidade do profetismo está no facto de este conti-
nuar emergente na cultura portuguesa, associado a
fenómenos políticos, religiosos, literários e filosófi-
cos, funcionando ora como elemento mobilizador da
consciência colectiva, ora como apelo para a regene-
ração da sociedade.
JOSÉ EDUARDO FRANCO

BIBLIOGRAFIA: AZEVEDO, J. L. de - A evolução do sebastianismo. Lisboa:


Presença, 1989. BANDARRA, G. E. de - Prophecias. Lisboa: Universal,
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phétisme. Paris: PUF, 1955. QUADROS, A. - Poesia e filosofia do mito
sebastianista. Lisboa: Guimarães, 1983. 2 vol. VIEIRA, Antônio - Obras
escolhidas. Lisboa: Sá da Costa, 1951-1954, 12 vol.

PROTESTANTISMO. 1. Definição histórica: Como


atitude religiosa no interior do cristianismo, o pro-
testantismo teve origem no questionamento dos ca-
nais sacramentais e litúrgicos administrados por
uma hierarquia sacerdotal como meios únicos ou
privilegiados de comunicação dos fiéis com Deus e
acesso à Graça e à Salvação. O aparecimento da
Capa das Profecias do Bandarra (Lisboa, Biblioteca designação de «protestante», em 1529, na recusa de
Nacional). príncipes e cidades alemãs aceitarem o edicto im-
perial de Worms que perseguia em Martinho Lute-
nização das glórias passadas. Isto mesmo se revela- ro (1483-1546) a assunção radical desse questiona-
ra no idealismo de Sampaio Bruno, no misticismo mento, confere-lhe um duplo sentido de oposição
de Guerra Junqueiro e no criacionismo de Leonardo (à cultura religiosa dominante) e afirmação (da es-
Coimbra. Também Almeida Garrett expressara o piritualização da fé como caminho de salvação).
profetismo português na sua obra dramática Frei No misticismo medieval o protestantismo teve um
Luís de Sousa. António Nobre apela na sua poesia precedente poderoso que desvalorizava os canais
para a regeneração e ressurgimento nacional; Afon- institucionais e, por isso mesmo, levantava descon-
so Lopes Vieira recupera um certo profetismo se- fianças nas autoridades eclesiásticas. O exercício
bastianista no poema intitulado O Encoberto, o que puramente espiritual da fé como único caminho de
manifesta o recrudescimento do sebastianismo nos justificação do crente perante Deus não foi, pois,
últimos anos da Monarquia. Teixeira de Pascoaes uma inovação de Lutero, mas uma tendência pree-
concilia o profetismo sebastianista com o saudosis- xistente que ele seguiu e radicalizou ao ponto de
mo tipicamente português, apelando para o retorno desvalorizar publicamente a função mediadora do
ontológico ao essencial do homem lusitano; Antó- clero na conquista do perdão divino do pecado. De
nio Sardinha segue o ideário do profetismo monár- facto, Lutero colocava toda a ênfase na decisão inte-
quico e nacionalista juntamente com os colegas in- rior do crente, recusando as formas rituais de expia-
tegralistas Alberto de Monsaraz, Hipólito Raposo, ção do pecado e dando à penitência um conteúdo ín-
Luís Almeida Braga e Francisco Cunha Leão. Com timo e espiritual; com a aceitação do baptismo e da
o dealbar do século xx, em grande ambiente orfei- ceia, conservou em parte os vínculos sacramentais
co-futurista, Gomes Leal recupera a inspiração pa- na unidade visível dos crentes, mas dispensou a me-
racletiana de Joaquim de Flora e profetiza a união diação sacerdotal nessas ocasiões. Lutero estabele-
escatológica de Satã e do Espírito Santo. A verti- ceu, assim, uma nova visão da economia da Salva-
gem profética de Fernando Pessoa anuncia poetica- ção que abriu, historicamente, um amplo espaço de
mente a instauração do Quinto Império cultural e diferenciação no cristianismo, ao lado do catolicis-
linguístico português. José Régio apresenta reflexos mo romano e da ortodoxia. A irrelevância conferida
latentes de um certo profetismo angustioso e nacio- ao sacerdócio clerical como autoridade em questões
nalista indiciados no apelo ao ressurgimento pátrio. de fé deu à Bíblia uma centralidade que incentivou
Por fim, o último notável representante do profe- a sua aproximação do crente e permitiu a substitui-
tismo nacional, Agostinho da Silva, teoriza a pater- ção de uma cultura religiosa devocional e sacramen-
nidade lusitana do Quinto Império através da pro- tal por uma fé assente na intimidade do crente com a
gressão histórica pelo ideal de miscigenação, de palavra escrita. Mas os debates teológicos a que
regresso à infância espiritual e à santidade, inspira- inevitavelmente os protestantes foram conduzidos,
do no paracletismo joaquimita e tendo por alicerce como por exemplo em torno da presença real de
75
PROTESTANTISMO

Cristo na Eucaristia, revelaram que o confronto das ligadas às autoridades estatais. Por seu lado, o cal-
várias leituras da Bíblia nem sempre era conclusivo vinismo expandiu-se para a França, algumas zonas
e podia mesmo motivar divisões e incompatibilida- da Alemanha, os Países Baixos e a Grã-Bretanha e
des; estes problemas agudizaram-se quando serviram tendeu a organizar-se de uma forma menos rígida
de pretexto a revoltas camponesas que Lutero se viu que em Genebra, até por não ter nessas paragens o
obrigado a condenar, legitimando as atribuições dis- domínio do Estado; a forma congregacional (isto é,
ciplinares dos poderes temporais. Outro caminho se- de comunidades religiosas locais com grande auto-
guiu João Calvino (1509-1564), que começou por nomia) foi a prevalecente, a partir da qual se cons-
aderir à concepção de Lutero da Igreja como essen- truíram as Igrejas chamadas reformadas. Na Grã-
cialmente invisível, constituída pelos santos que só -Bretanha, os seguidores de Calvino influíram tanto
Deus conhece e distinta da organização temporal, na reorganização eclesiástica inglesa como na esco-
histórica, dos crentes em comunidades cujo pastor é cesa; o processo predominantemente político que
um mero delegado; porém, na esteira de Ecolampa- levara, em Inglaterra, à ruptura com Roma, evoluiu
do em Basileia e Bucer em Estrasburgo, revalorizará depois para uma organização episcopal tutelada pe-
a Igreja visível e a importância da disciplina no seu lo rei e entrelaçada numa teologia de inspiração
interior. Calvino seguiu, deste modo, a via da refor- calvinista quanto aos sacramentos (codificada no
ma da comunidade cristã como universo de vivência Book of Common Prayer anglicano de Thomas
da santidade, elaborando nas Instituições da religião Cranmer, 1549). Na Escócia, o modelo congrega-
cristã (1536) o seu próprio modelo eclesiástico. cional das Igrejas reformadas designou-se «presbi-
A sua preocupação com a exteriorização e a visibili- teriano» por oposição ao governo hierárquico do
dade social da santidade conduziu-o, em Genebra, a episcopalismo inglês, formalizando-se no Book of
uma eclesiologia fortemente institucional e recriado- Discipline de 1560. A organização destas Igrejas lu-
ra das formas de sociabilidade, gerando aquilo a que teranas, anglicana e calvinistas (reformadas e presbi-
Michael Oakeshott chamou um regime «teleocráti- teriana) estabilizou doutrinas e arranjos políticos
co» (OAKESHOTT - On Human, p. 284-285). Esta ten- com os poderes temporais e houve uma tendência
dência foi retomada por todos os grupos cristãos generalizada para a «artrite tipográfica» das várias
que, depois de Calvino, expressaram a sua fé em ter- denominações (BOSSY - A cristandade, p. 123). Des-
mos de persecução ou realização de uma santidade te modo, o protestantismo revelou muito cedo ter
que é vivida colectivamente e que, se os crentes se também os seus desadaptados, aqueles que precisa-
vêem a si mesmos como escolhidos, facilmente vai mente pretendiam dar uma radicalidade à ilumina-
de par com a doutrina da Predestinação, já não en- ção interior do crente ou à santidade da comunidade
tendida como o plano divino da Salvação (no senti- visível que não se satisfazia nos arranjos doutrinais e
do em que a Paixão e a Ressurreição de Cristo fora disciplinares em formação. Os mais significativos
um plano divino) mas como a eleição prévia por foram os anabaptistas, que reservavam o baptismo
Deus do grupo dos santos. O protestantismo vive aos crentes conscientes (excluindo as crianças), trans-
desde então uma dupla dinâmica, a experiência da fé formando esse acto de um ritual de integração social
como iluminação interior do crente individual e a num sinal profundamente interiorizado de conversão
busca da comunidade perfeita como realização so- individual; deste modo, levavam às últimas conse-
cial da santidade. Ambas as tendências, decorrentes quências a espiritualização da fé, a sua dessocializa-
do desconforto sentido no universo da prática tradi- ção e desritualização, não aceitando as confissões, os
cional, medieval, dos sacramentos, foram os ele- catecismos e os livros de disciplina. A partir daqui, a
mentos que fizeram explodir a unidade institucional ideia de que Deus não está encerrado nos textos escri-
do cristianismo ocidental. Mas a vertigem da desin- tos (mesmo os da Bíblia), nem nos canais sacramen-
tegração social causada por este questionamento ce- tais (mesmo o Baptismo e a Ceia, aceites por Lutero e
do forçou também os protestantes não-calvinistas a Calvino) e que tem outros meios puramente espiri-
encontrarem novas formulações teológicas que es- tuais de comunicar com a humanidade, incendiará
truturassem outras formas de sociabilidade dos cren- muitos espíritos e fará crescer, até à actualidade, os
tes. Documentos escritos (catecismos e confissões), muitos grupos protestantes não-conformistas que co-
juntamente com a apropriação pelos poderes tempo- locam grande ênfase na inspiração directa do crente
rais das competências disciplinares, foram dando pelo Espírito Santo. As complicações advinham do
corpo a novas Igrejas institucionais, nacionais, que facto de estas inspirações poderem dar ao crente uma
enquadraram a nova piedade interiorizada e espiri- sensação tão compacta da sua comunicação com Deus
tualizada, impedindo assim a dessocialização da fé. que a própria mediação única e obrigatória de Jesus
Após algumas décadas de discórdias sobre a predes- Cristo (como explicitada, por exemplo, na teologia
tinação e os sacramentos, as Igrejas luteranas che- da Epístola aos Hebreus) se perdesse; daí os refor-
garam, em 1580, a uma base comum, expressa na madores «ortodoxos», como Lutero e Calvino, terem
Fórmula de Concórdia (que proclamava a justifica- visto na palavra bíblica um suporte indispensável da
ção do crente pela fé, afirmava o dever das boas comunicação do crente com Deus (da sua leitura ou
obras, estabelecia a Presença Real de Cristo na Eu- audição é que nascia e se mantinha a fé). Este perigo
caristia - que, para os calvinistas, era uma presença ficou patente no caso dos antitrinitários e dos seus
só espiritual - e atenuava a doutrina da predestina- descendentes, os unitaristas, que evoluíram para
ção - negando nesta a escolha prévia dos santos); foi concepções teológicas que punham em causa a cris-
com base nestes princípios que se edificaram as tologia ortodoxa (e não apenas a eclesiologia tradi-
Igrejas luteranas alemãs e escandinavas, fortemente cional como os primeiros protestantes), entrando em

76
PROTESTANTISMO

metodismo, contribuiu para recuperar o profetismo


como força religiosa dentro do cristianismo histórico
e reavivar fortes sentimentos expectantes numa imi-
nente Segunda Vinda de Cristo, sobretudo com a
pregação de William Miller (1782-1849); tal espe-
rança deu a estes cristãos uma nova percepção «da
realidade absoluta de Cristo» ( B A I N B R I D G E - The So-
ciology, p. 93), que introduzia uma tensão espiritual
criadora e mobilizadora em face do ambiente social
e cultural envolvente. Mas a posteridade deste movi-
mento adventista encontrou caminhos divergentes,
ainda e sempre em torno da questão fundamental da
cristologia: os adventistas do Sétimo Dia, colocando
grande ênfase na Segunda Vinda mas preservando a
concepção trinitária, mantiveram-se no terreno da
ortodoxia histórica do cristianismo e do protestantis-
mo clássico, ao contrário do milenarismo das teste-
munhas de Jeová, de raiz unitarista, que propõe uma
leitura bíblica da natureza de Cristo que Lhe nega
participação na divindade do Pai; o profetismo oito-
centista assumira ainda outras formas de heterodoxia
(no entender das correntes protestantes anteriores),
como a da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Úl-
timos Dias, que acrescentou ao cânone recebido das
Escrituras um novo livro (Livro de Mórmon), que
considera inspirado e continuador da Revelação bí-
blica. Estes dois últimos movimentos, em geral não
aceites pelos restantes como protestantes, conside-
ram-se a si mesmos, no entanto, inequivocamente
cristãos. Surgido no início do século xx, o pentecos-
talismo representa a camada histórica mais recente
de renovação espiritual no campo cristão protestante,
/Íoíto da Revista Histórica do Proselytismo anti-catholico pretendendo desenvolver experiências de teor emo-
exercido na Ilha da Madeira pelo Dr. Roberto Reid
cional que dêem ao crente uma sensação realista do
Kalley, Funchal, 1845 (Lisboa, Biblioteca Nacional). baptismo pelo Espírito Santo - o que, em geral, pas-
sa também pela fé na «cura divina» como reactuali-
ruptura com o entendimento aceite do conteúdo que- zação dos carismas milagrosos relatados no Novo
rigmático do Novo Testamento relativamente à parti- Testamento (vista com cepticismo por outras corren-
cipação de Jesus na divindade do Pai e do seu lugar tes protestantes, esta é também uma via de vivência
na economia da Salvação. Sem estes excessos, em- da «realidade absoluta de Cristo» que, além do mais,
bora na esteira da agitação do Espírito dos anabap- preserva a concepção trinitária e a cristologia tradi-
tistas, foram tomando forma (sobretudo nas terras cional). Outras configurações tomadas pela «criativi-
de promissão da liberdade evangélica, os Países Bai- dade profética» (como, por exemplo, a Unification
xos desde o século xvi, a Grã-Bretanha e a América Church do coreano reverendo Moon) vêm lembrar a
do Norte desde o século X V I I ) novos grupos denomi- característica desestabilizadora destas «presenças do
nacionais de organização congregacionalista como Espírito» nos edifícios sociais e doutrinais em que os
os baptistas e os quakers no século XVII e os meto- cristãos muitas vezes se têm sentido demasiado con-
distas no século XVIII: estes últimos foram a prova do fortáveis; mas vêm também confrontar o cristão com
desconforto de muitos crentes protestantes dentro a premente questão da definição do ponto fixo da sua
das Igrejas estabelecidas com patrocínio estatal no fé e com tudo o que isso significa em termos de ati-
século xvi, mas também da procura de um cristianis- tude para consigo e no mundo. 2. Primeiras manifes-
mo vivido com intensidade arrebatadora. John Wes- tações e implantação em Portugal: Portugal foi um
ley (1703-1791), o fundador involuntário do meto- dos poucos países europeus onde a Reforma protes-
dismo, iniciou um movimento de espiritualização e tante do século xvi não se fez sentir, preservando até
conversão pessoal cujo desenvolvimento acabou por bem entrado o século xix a sua unidade religiosa.
levar para fora do anglicanismo os seus seguidores. Em João Ferreira de Almeida (1628-1691) encon-
Nestes movimentos não-conformistas tomou forma tra-se o primeiro protestante português e a perso-
uma das dinâmicas modelares do protestantismo, as nalidade de maior vulto que abandonou o catolicis-
cisões e multiplicação dos grupos que impedem este mo romano mas que o fez apenas fora de Portugal;
universo cristão de solidificar numa estrutura desvi- Almeida emigrou para as índias Orientais holande-
talizada. Prova disto foi o grande período do Revival sas (actual Indonésia) em 1642, onde foi ordenado
espiritual anglo-americano entre 1750 e 1850 que, pastor calvinista e traduziu para o português o Novo
além de ter revigorado as denominações já então Testamento e parte do Antigo (tal tradução destina-
existentes ( M U R R A Y - Revival) e de ter expandido o va-se à evangelização local, onde o português era

77
PROTESTANTISMO

língua corrente; v. SOCIEDADE BÍBLICA). Exceptuando- legal da Igreja Presbiteriana de Lisboa (1913),
-se a presença de algumas capelanias estrangeiras ficando esta na dependência da Sociedade Brasilei-
destinadas a diplomatas e comerciantes estabeleci- ra de Evangelização (presbiteriana), que ajudará à
dos ou de passagem, o primeiro foco protestante sur- expansão do presbiterianismo; depois da Segunda
gido em Portugal foi o iniciado pelo médico e mis- Guerra Mundial, com a chegada do missionário nor-
sionário presbiteriano escocês Robert Reid Kalley te-americano Michael P. Testa (1912-1981) abriu-se
(1809-1888) na Madeira. Após a sua chegada, em caminho para a emancipação, constituindo-se for-
1838, Kalley juntou a uma actividade filantrópica malmente, em 1947, a Igreja Evangélica Presbite-
bem recebida uma discreta evangelização baseada na riana de Portugal* (IEPP), que realiza o seu pri-
alfabetização e leitura da Bíblia que, à medida que meiro sínodo em Outubro de 1952. Os metodistas
foi sendo notada, suscitou crescente oposição entre tiveram no missionário Robert Hawkey Moreton
as autoridades eclesiásticas; quando, em Maio de (1844-1917) o seu grande impulsionador e mantive-
1845, Kalley e as centenas de fiéis que reunira se ram-se dependentes da Conferência Metodista in-
constituíram em Igreja Presbiteriana Portuguesa, glesa até à realização do seu primeiro sínodo e
desencadeou-se uma dura repressão que terminou, constituição como Igreja Evangélica Metodista
em Agosto de 1846, na expulsão do país de todo este Portuguesa* (IEMP), em 1948. No século xix esta-
primeiro grupo de protestantes portugueses (Kalley e beleceram-se ainda as Igrejas dos Irmãos, os con-
muitos deles seguiram para o Brasil, outros estabele- gregacionalistas e os baptistas; menos centralizadas
ceram-se nos Estados Unidos da América). O acon- e organizadas que os três grupos pioneiros, estas
tecimento foi demonstrativo da incapacidade de a denominações apareceram com pregadores britâni-
sociedade portuguesa da época integrar a diferencia- cos que começavam por frequentar as congregações
ção religiosa e contribuiu para atrasar duas décadas a já existentes. Assim, foi fundada a primeira Igreja
continuação da missionação protestante em solo na- de Irmãos em Lisboa em 1877 com Richard e Cath-
cional; esta teve de esperar pela estabilização do re- ryn Holden (Amoreiras), tendo posteriormente os
gime liberal a partir de 1851. A iniciativa pertenceu missionários Stewart Menair e George Owens pros-
aos capelães anglicano e presbiteriano de Lisboa, seguido a evangelização nas áreas limítrofes de
Thomas Godfrey Pembroke Pope (1837-1902) e Ro- Coimbra e Aveiro; no início do século xx, outros
bert Stewart (n. 1828) e, em Vila Nova de Gaia, ao missionários britânicos contribuíram para a fundação
industrial de origem inglesa Diogo Casseis (1844- de mais congregações (Charles e Mary Swan e Ro-
-1923); colaborando os três na distribuição regular bert McGregor) mas, a partir dos anos 20, surgiram
de Bíblias em Portugal a partir de 1864 pela Socie- também evangelizadores portugueses como Walde-
dade Bíblica Britânica e Estrangeira, juntaram em mar de Oliveira, José Ilídio Freire, Viriato Sobral e
torno de si pequenos grupos de portugueses que se Luís Paiva (alguns dedicavam-se a uma pregação
reuniam para ler e comentar as Escrituras. Destes itinerante). Os congregacionalistas abriram a sua
três grupos nasceram, na segunda metade da década primeira igreja em Lisboa em 1880 mas só dez anos
de 1860, as comunidades episcopaliana (em torno depois, graças à ajuda da então formada Missão
de Pope), presbiteriana (em torno de Stewart) e Evangelizadora do Brasil e Portugal (a partir da
metodista (em torno de Casseis). Os primeiros a or- Igreja Fluminense, congregação-mãe do congrega-
ganizarem-se formalmente numa Igreja nacional fo- cionalismo brasileiro), tiveram possibilidades de
ram, em 1880, os episcopalianos, com a Igreja Lu- estabelecer outras missões em Lisboa e no Ribate-
sitana Católica Apostólica Evangélica* (ILCAE); os jo; em Ponte de Sor, o missionário Pereira Cardoso
presbiterianos e os metodistas, com congregações fundou uma das principais igrejas desta denomina-
organizadas no início da década de 1870, estiveram ção. Após 1945, a diminuição que se fora verifican-
mais tempo subordinados às sociedades missioná- do da ajuda brasileira teve como consequência a
rias britânicas que apoiavam o seu desenvolvimento. fusão de algumas comunidades congregacionalistas
A ILCAE não esteve menos dependente da ajuda an- com os presbiterianos, integrando hoje a IEPP, en-
glicana mas teve maiores meios de subsistência de- quanto outras permaneceram independentes, contan-
pois da adesão dos dois irmãos industriais Diogo e do com o apoio, entre outras, da Liga Congregacio-
André Casseis (1880 e 1890), que subsidiaram a fun- nal de Inglaterra. Os baptistas surgiram em Portugal
dação e o desenvolvimento das congregações de Vila cova Joseph Charles Jones (1848-1928), inicialmen-
Nova de Gaia e do Porto; por outro lado, a adesão de te ligado à congregação de Diogo Casseis (Vila
alguns sacerdotes católicos romanos egressos contri- Nova de Gaia), da qual se separou para organizar a
buiu para o fortalecimento do seu corpo ministerial. primeira congregação baptista (de comunhão aber-
Em 1884, a ILCAE publicou a primeira edição do ta), que se transformou em 1908 na Igreja Baptista
seu Livro de oração comum, que estabeleceu uma li- Portuguesa. Outras congregações baptistas foram
turgia própria e lhe conferiu desde muito cedo uma fundadas pelos missionários Robert Regina/d Young
sólida unidade doutrinal e histórica; porém, só em (1867-1923), Jerónimo Teixeira de Sousa (1868-
1958 conseguiu a sagração de um bispo português, -1928) e Zacarias Clay Taylor (1851-1919), este úl-
D. António Ferreira Fiandor (1884-1970) através do timo enviado pela Convenção Baptista Brasileira,
episcopado anglicano, vindo-lhe a suceder, em 1962, que iniciou então a cooperação com os baptistas por-
D. Luís César Rodrigues Pereira (1908-1984) e, em tugueses (seguida da Junta Baptista do Texas). Dois
1980, D. Fernando da Luz Soares. Entre os presbite- portugueses, João Jorge de Oliveira (1883-1958) e
rianos, em 1911, consumou-se a separação definitiva António Maurício (1893-1980), destacaram-se como
da capelania escocesa e foi obtido o reconhecimento missionários na altura da fundação, em 1920, da

78
PROTESTANTISMO

Convenção Baptista Portuguesa (CBP) por congre- ram as suas actividades cerceadas durante o Estado
gações do Porto, Leiria, Tondela e Viseu (J. C. Jones Novo. As várias tentativas de legalização que fize-
foi ainda o seu primeiro presidente); porém, a coope- ram até 1974 fracassaram e foram vítimas da maior
ração conjunta de brasileiros e norte-americanos ge- pressão feita pelo Estado sobre uma denominação
rou algumas incompatibilidades que conduziram a protestante durante toda a época contemporânea; o
cisões na CBP, dando origem à Aliança Baptista Por- grande crescimento do seu número de fiéis intensifi-
tuguesa (1928-1932) e à União Baptista Portuguesa cou-se com a legalização e liberdade obtidas após
(1946-1956). A Junta Baptista do Texas foi substituí- 1974. Outra importante denominação cristã que se
da mais tarde pela Conservative Baptist Foreign estabeleceu em Portugal foi a Igreja de Jesus Cristo
Mission Society, que se ligou à CBP, e pela North dos Santos dos Últimos Dias, a qual só se pôde im-
American Baptist Association, em torno da qual se plantar desde 1974. 3. Grupos protestantes portu-
juntou a Associação de Igrejas Baptistas Portugue- gueses: Três dos maiores grupos denominacionais
sas (AIBP) em 1955. Dois anos depois, também a portugueses (pentecostais, baptistas e irmãos) inte-
Junta Missionária de Richmond da Convenção Bap- gram a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), cujos
tista do Sul dos Estados Unidos da América passou a estatutos foram oficialmente reconhecidos em 1935,
cooperar com a CBP, fornecendo recursos humanos quando ainda era uma pequena associação de mem-
e financeiros que criaram condições para um grande bros individuais (só após 1974, depois de uma «re-
desenvolvimento da obra baptista nas décadas de fundação», se tornou representante de grupos deno-
cinquenta e sessenta. Os adventistas do Sétimo Dia minacionais); em termos de relações internacionais,
iniciaram a sua obra de evangelização em Portugal a AEP está filiada na Aliança Evangélica Europeia e
com o pastor Clarence Emerson Rentfro (1877- na Aliança Evangélica Mundial, que são constituídas
-1951), que se instalou em Lisboa em 1904; Ernesto por grupos denominacionais congéneres. No entanto,
Schwantes, em 1906, foi o primeiro obreiro adven- cada um dos grupos denominacionais está longe de
tista no Porto. Entre 1917 e 1924, o suíço Paulo ser unitário, em grande medida pelo facto de serem
Meyer (1886-1944) dirigiu a missão portuguesa mas herdeiros da tradição congregacional; mesmo as
só em 1935 esta viu os seus estatutos oficialmente congregações que prescindem parcialmente da sua
reconhecidos, já sob a presidência do pastor António autonomia associando-se a organismos denomina-
Dias Gomes (1901-1994), que a ocupou até 1950; o cionais de cooperação ou representação não podem
período após 1945 assistiu a um grande crescimento ser consideradas integrantes de uma «Igreja» nacio-
da implantação adventista (inclusivamente no ultra- nal com unidade institucional (assim, por exemplo, a
mar), destacando-se como dirigente, missionário e CBP não é uma Igreja nacional mas a reunião das
autor nesta segunda metade do século o pastor Er- congregações baptistas que nela se fazem represen-
nesto Ferreira (n. 1913). Fadado também a um tar). No universo das congregações protestantes de
grande crescimento, o pentecostalismo teve em José muitas denominações conhecidas em Portugal (ver,
Plácido da Costa (1870-1965) o seu iniciador em para a maioria, ALMEIDA - Prontuário), a maior parte
Portugal; ex-baptista que terá aderido às Assem- integra o grupo pentecostal, dentro do qual as As-
bleias de Deus pentecostais no Brasil, este pioneiro sembleias de Deus são a esmagadora maioria: a
começou em 1913, na Póvoa de Varzim, o seu traba- Convenção das Assembleias de Deus em Portugal
lho evangelizador. Em 1921, vindo do Brasil, José reúne mais de quatro centenas de congregações, dis-
de Matos Caravela (1887-1958) implantou as As- tribuindo-se as restantes por dez outras denomina-
sembleias de Deus no Algarve e na zona de Santa- ções da AEP (Assembleia de Deus Missionária, As-
rém. Do Brasil, veio igualmente o sueco Daniel sembleia de Deus Universal, Nova Vida, Igreja
Berg (1894-1963), principal impulsionador do pen- Apostólica, Igreja de Deus, Associação das Igrejas
tecostalismo no Norte do país; na área de Lisboa, a de Cristo, Igreja de Deus Pentecostal, Igrejas do Li-
partir de 1934, outros suecos, Jack Hardstedt, Sa- vramento, Igreja Metodista Wesleyana e Vida Abun-
muel Nystron e sobretudo Jarl Tage H. Stahlberg dante) e duas não-filiadas (a Congregação Cristã em
(1902-1980) conduziram o crescimento das Assem- Portugal, com cerca de cem congregações, e a Mis-
bleias de Deus. Em 1939, realizou-se a primeira são Evangélica Maranata, com quinze). Os baptistas
convenção nacional dos obreiros das Assembleias são o segundo maior grupo, estando as suas várias
de Deus com vista a uma cooperação das várias organizações integradas na AEP: a maioria está reu-
congregações e ao aperfeiçoamento do trabalho nida na CBP, que representa nove dezenas de con-
missionário; além das Assembleias de Deus, a par- gregações, seguindo-se a AIBP com treze, a Igreja
tir da década de 60, estabeleceram-se em Portugal Baptista de Carreiros (doze congregações no Norte),
outras denominações pentecostais, quer originadas a Associação dos Baptistas para o Evangelismo
de cisões nas primeiras, quer do esforço missioná- Mundial (ramo da organização internacional com o
rio de grupos brasileiros, porto-riquenhos, norte- mesmo nome, com dez congregações) e dezasseis
-americanos e britânicos, incluindo os chamados congregações independentes. Os irmãos, por seu la-
neopentecostais, grupos dc raiz pentecostal mas do, são um conjunto de mais de cem congregações
muito marcados pela «teologia da prosperidade». que cooperam na Comunhão de Igrejas dos Irmãos
Com presença em Portugal desde 1925, as testemu- de Portugal e, tal como os baptistas, têm organiza-
nhas de Jeová vieram a tornar-se na denominação ções vocacionadas para o apoio às várias congrega-
individualmente mais numerosa; publicaram desde a ções dentro do seu grupo denominacional, como
década de 20 abundante literatura (incluindo uma uma Comissão Missionária que ajuda o trabalho dos
edição portuguesa da revista Torre de Vigia) mas vi- obreiros e os organismos juvenis no Norte e no Sul;

79
PROTESTANTISMO

entre os baptistas, existe desde 1945 a Associação das três Igrejas tem uma unidade institucional nacio-
Baptista de Evangelização que dá apoio humano e nal em que as várias congregações integram um cor-
logístico às congregações, tal como a Associação po eclesial uno sujeito a um sínodo que representa
Baptista do Norte e o Grupo Missionário Evangélico clérigos e leigos e elege o governo colegial da Igreja
da Conservative Baptist Foreign Mission Society dos (daí a designação de «Igrejas sinodais»). A ILCAE é
Estados Unidos da América. Existe ainda, desde a única destas denominações que reconhece e man-
1976, uma Ordem de Pastores Baptistas que realiza tém na ordenação episcopal a continuidade histórica
retiros, seminários e, em geral, visa a formação do da Sucessão Apostólica, estando unida à Comunhão
corpo ministerial do seu grupo denominacional. No Velho-Católica desde 1965 e, desde a sua fundação,
conjunto da AEP, além destes grupos, existe pouco à Comunhão Anglicana a que, entretanto, só aderiu
mais de uma centena de congregações que se distri- formalmente em 1980. Estão ainda presentes em
buem por várias pequenas denominações, de que se Portugal, de há longa data, várias capelanias protes-
destacam a Acção Bíblica (com perto de duas deze- tantes estrangeiras, as mais importantes das quais na
nas de congregações, está em Portugal desde a déca- capital: a Igreja Evangélica Alemã (luterana, reco-
da de 1930 e dedica-se em grande medida à colpor- nhecida cm 1761), a Igreja da Escócia (presbiteria-
tagem), a Igreja do Nazareno (com cerca de vinte na) e a anglicana Igreja de São Jorge. 4. Bíblia, cul-
congregações, evangeliza em Portugal desde 1973), tura e sensibilidades religiosas: A Bíblia, os seus
a Igreja Evangélica de Filadélfia (iniciada em 1960, preceitos, a sua leitura e difusão, está associada ao
tem cerca de duas dezenas de congregações sobretu- esforço missionário do protestantismo em Portugal
do orientadas para a evangelização da etnia cigana), desde a sua génese; quer Kalley, quer os três semea-
o Exército de Salvação (instalado em Portugal em dores Pope, Stewart e Casseis começaram por patro-
1972, conta oito congregações), a Igreja Evangélica cinar pequenos grupos de estudo bíblico que só de-
Luterana Portuguesa (fundada em 1959 a partir do pois se transformaram em congregações. Em 1884,
trabalho missionário de Rudolfo Hasse, tem apenas os autores do primeiro livro litúrgico protestante
três congregações) e um grupo de comunidades português diziam ter «posto de parte o que nos pare-
congregacionalistas que não se chegou a ligar aos ceu mau e conservado e ampliado o que julgámos
presbiterianos, reunido na União das Igrejas Evan- bom e bíblico» (Livro de oração, p. vn): a Bíblia era,
gélicas Congregacionais Portuguesas (dezoito con- na verdade, a cultura comum e o elemento diferen-
gregações no Centro e Sul do país). Fora da AEP, ciador do meio para todos os protestantes no Portu-
além das duas denominações pentecostais já referi- gal católico de Oitocentos. Opunha-se à prática re-
das, estão algumas centenas de congregações, das ligiosa devocional e sacramental dominante e, na
quais mais de cem pertencem à União Portuguesa visão protestante, era uma ligação aos primórdios do
dos Adventistas do Sétimo Dia e mais de cinco deze- cristianismo, à sua pureza e à sua verdade; evangeli-
nas à Igreja Cristã Maná (denominação de origem zar, fazer cristãos, era assim sinónimo de dar a co-
portuguesa fundada em 1984 e dirigida pelo pastor nhecer a Bíblia. Daí que a história da presença em
Jorge Manuel Guerra Tadeu, é um dos grupos pente- Portugal da Sociedade Bíblica Britânica e Estran-
costais mais bem sucedidos depois das Assembleias geira (SBBE) seja uma história de cooperação com
de Deus). As testemunhas de Jeová reúnem hoje (se- as várias denominações protestantes na tarefa de
gundo números por si fornecidos) cerca de 100 000 «traduzir, imprimir e distribuir a Palavra de Deus»;
fiéis em Portugal, dos quais metade serão membros instalada permanentemente em Portugal desde 1864
activos das comunidades locais; estas, cerca de 700 com uma agência em Lisboa, a SBBE usou as con-
actualmente, estão presentes em praticamente todos gregações protestantes como canais de desenvolvi-
os concelhos do continente e das regiões insulares. mento da sua missão, apoiando-as simultaneamente
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos numa parte fundamental do trabalho evangelizador.
Dias, que tem um trabalho missionário de cerca de Desde o início da segunda metade do século xix, a
25 anos em Portugal, tem vindo também a implan- SBBE distribuía no país Bíblias em português im-
tar-se no país. No campo pentecostal, a Igreja Uni- pressas em Inglaterra e baseadas quer na tradução
versal do Reino de Deus, de raiz brasileira, introdu- clássica de João Ferreira de Almeida (Amesterdão,
ziu, mais recentemente, uma original evangelização 1681) quer na do padre António Pereira de Figuei-
de grande visibilidade, através de meios de comuni- redo (a partir da Vulgata, Lisboa, 1790); com a sua
cação audiovisual e grandes assembleias de fiéis, acção, aparece uma figura quase lendária do protes-
conseguindo um crescimento rápido e substancial. tantismo português, o colporteur (ou colportor, de
O outro organismo de cooperação e representação forma aportuguesada): este corria o país ao serviço
interdenominacional existente em Portugal é o Con- da SBBE, levando Bíblias onde elas eram necessá-
selho Português de Igrejas Cristãs (COPIC) que rias e, por vezes, enfrentando a hostilidade dos não-
reúne as três Igrejas sinodais, ILCAE (episcopalia- -protestantes. Recentemente (1989), a agência da
na), IEPP (presbiteriana) e IEMP (metodista) desde SBBE em Portugal transformou-se em Sociedade
1971, e representa o sector protestante mais sintoni- Bíblica* de Portugal, com estatutos e direcção pró-
zado com o movimento ecuménico internacional (es- pria. A centralidade da Bíblia está bem patente nas
tá integrado no Conselho Mundial de Igrejas); entre primeiras tentativas feitas, entre os protestantes
as três denominações que o compõem, o COPIC re- portugueses, de fundamentação teológica das suas
presenta pouco mais de setenta congregações, das concepções cristológicas e eclesiológicas; na Res-
quais cerca de metade são presbiterianas, um quarto posta à Instrução Pastoral do Excmo. Bispo do Por-
metodistas e outro quarto episcopalianas - cada uma to D. Américo sobre o Protestantismo (Porto, 1879)

8o
PROTESTANTISMO

de Guilherme Dias da Cunha (1844-1907), surge atenção. Mas o potencial divisionista das velhas que-
uma interessante defesa «evangélica» (isto é, abran- relas entre as correntes protestantes ficou bem paten-
gentemente protestante, não denominacional) da Sal- te na discórdia entre Diogo Casseis e Joseph Char-
vação só pela fé, da autoridade das Escrituras sobre les Jones em 1888 quanto ao baptismo de crianças e
a tradição e dos dois únicos sacramentos considera- por imersão e que originou a fundação, pelo segun-
dos bíblicos (Baptismo e Ceia) a par de uma crítica, do, de uma denominação especificamente baptista
apoiada em referências bíblicas, do culto e das dou- em Portugal; o próprio Diogo Casseis rompera com
trinas católicas romanas. Em O que é a missa (Lisboa, o metodista Robert Moreton em 1880 por este últi-
1888), o mesmo autor, apoiado sobretudo na Epísto- mo não aceitar a introdução de imagens nos templos
la aos Hebreus, ataca a teologia sacrificial da missa e através de vitrais e crucifixos, que considerava trans-
o sacerdócio clerical histórico, que considerava in- gressora do preceito bíblico. No entanto, a falta de
compatíveis com os autênticos sacrifício e sacerdó- recursos e a presença hegemónica do adversário co-
cio de Jesus Cristo; ambos os livros dão conta da mum (a Igreja Romana) parece ter dissuadido o exa-
preocupação central do protestantismo português cerbar das diferenças, assistindo-se, desde o início
original de retorno à Bíblia como meio de reformar a do protestantismo português a uma multiplicação de
vivência da fé cristã. O tom abrangente com que caminhos que não excluiu a cooperação; a publica-
Dias da Cunha o fazia só era possível por as corren- ção, na década de 1890, de uma Bíblia Sagrada Ilus-
tes espiritualistas mais radicais ainda não terem po- trada em fascículos (lançada por Herbert Casseis e a
voado o universo protestante português e por as Sociedade Bíblica), com o apoio das várias deno-
questões mais polémicas como o acesso à Graça ou minações, foi exemplo disso. Da mesma forma, foi
ao dom da profecia não lhe merecerem a mesma possível criar-se, numa base interdenominacional,
PROTESTANTISMO

uma série de instituições paraeclesiásticas desde o missionário, como os adventistas do Sétimo Dia (no-
século xix, como a União Cristã da Mocidade Por- meadamente com o colégio de Oliveira do Douro) e
tuguesa (fundada no Porto em 1894, estendida a as Assembleias de Deus, tenham mantido bem viva
Lisboa em 1898 e mais tarde designada Associação esta tradição. Nas várias denominações, os cânticos,
Cristã da Mocidade), cujas actividades especiali- a leitura em voz alta das Escrituras e o sermão eram
zadas para a juventude (incluindo as primeiras pa- a substância dos cultos, tendo sido levada a cabo a
trulhas de boy-scouts, a introdução no país de mo- composição e publicação de hinários, sobre os quais
dalidades desportivas como o pingue-pongue e o escreveu um autor avalizado que a produção «portu-
basquetebol, a popularização do esperanto e as visi- guesa original é pobre, mas é relativamente rica a de
tas guiadas a bairros históricos) não seriam viáveis tradução» (MOREIRA — A situação, p. 16); como auto-
se restritas a uma denominação; estes mesmos facto- res de hinos em língua portuguesa, traduzindo a letra
res explicam a natureza não-sectária de A Reforma, o da hinódia popular protestante anglo-americana ou,
primeiro periódico protestante português, aparecido em menos casos, compondo com música original,
em 1877 (dirigido por Dias da Cunha), mesmo de- destacaram-se (ainda de acordo com o mesmo autor)
pois de se ter tornado «eco da Igreja Lusitana». Com Robert R. Kalley e sua esposa Sarah Poulton Kalley
O Evangelista (1892-1900), órgão dos episcopalia- na fase brasileira da sua obra missionária, Maxwell
nos, a imprensa protestante atingiu um alto nível de Wright, Richard Holden, G. L. Santos Ferreira,
qualidade onde está espelhada a actividade das deno- Dr. Silva Leite, Eurico de Figueiredo, Laura Luz e
minações e as preocupações teológicas e sociais das Leopoldina Rute da Conceição (compilação muito
suas cabeças pensantes; neste jornal colaborou, por usada desde o século xix são os Salmos e hinos, vá-
exemplo, o erudito e heraldista (episcopaliano) ma- rias vezes reeditados, mas existem também, publica-
jor Guilherme Luís Santos Ferreira (1849-1931) que dos em Portugal já no século xx, entre outros, um
nele publicou a primeira parte da sua excelente obra Hinário adventista e um Hinário baptista). Ao me-
A Bíblia em Portugal (Lisboa, 1906). A tendência todista Robert Moreton deveu-se a difusão entre os
desde então, dada a multiplicação denominacional, protestantes portugueses do solfejo tónico de John
tem sido para a profusão de periódicos denominacio- Curwen, sistema que facilitava a aprendizagem do
nais de curta duração ou publicação irregular, sendo canto pelos crentes. A literatura piedosa desenvol-
o Portugal Evangélico (1920), O Semeador Baptista veu-se muito cedo, ainda no século xix, com obras
(1926), a Revista Adventista (1938) e o órgão das como, por exemplo, as Homilias de Manuel António
Assembleias de Deus Novas de Alegria (1943) os Pereira Júnior (1875) e as Horas de Conforto e Paz
mais antigos destes títulos ainda hoje existentes; o de Augusto Ferreira Torres (póstumo, 1900), mas
primeiro, publicado por presbiterianos e metodistas, também com as incursões em tom polémico de Dias
é um caso de colaboração interdcnominacional. Mas, da Cunha em temas históricos (Ecos de Roma', Vozes
por trás destes aspectos culturais, está a dimensão da história, 1885; O que è a confissão auricular?,
quotidiana e social: a vida das comunidades protes- 1889) ou edições destinadas aos dois públicos evan-
tantes portuguesas desde o século xix foi constituída gélicos de língua portuguesa como as Horas domini-
pelas manifestações propriamente religiosas, nomea- cais: Leitura cristã para portugueses e brasileiros
damente os cultos, e o relacionamento social entre os (Lisboa, 1898). Estes géneros têm sido cultivados
crentes; estes tenderam muitas vezes a formar gru- até à actualidade nas várias denominações, sendo co-
pos autocentrados e a adquirirem a característica de muns as pequenas obras piedosas ou de temas bíbli-
uma minoria cultural dentro da sociedade portu- cos e teológicos em língua portuguesa da autoria de
guesa. Daí, apesar das suas actividades profissionais um bom número de obreiros, pastores e missioná-
estarem em geral perfeitamente integradas na vida rios: só exemplificando dentro do campo pentecos-
económica e social das zonas de residência, os pro- tal, poder-se-ia referir a actividade como polemista,
testantes tenderem a desenvolver espaços de socia- cronista e contista do grande missionário Jarl Tage
bilidade autónoma normalmente centrados no local H. Stahlberg (Mistério dos desaparecidos, As dez
dos cultos, onde podiam decorrer convívios, quer- virgens, A mulher e a serpente) ou as obras de
messes, pregações de personalidades convidadas, Abraão de Almeida (desde um Tratado de teologia
festas para crianças ou aulas bíblicas. Tal tendência, contemporânea até escritos como Israel, Gog e o
porém, não impediu os protestantes de estarem liga- Anticristo); as traduções de muitas obras clássicas
dos ao desenvolvimento de causas que transcende- da literatura protestante anglo-americana foram tam-
ram o seu círculo minoritário: são os casos de Alice bém levadas a cabo, desde O peregrino de John Bu-
Hulsenbos, fundadora no Porto da Sociedade Protec- nyan (por G. L. Santos Ferreira) até, por exemplo, às
tora dos Animais (1878), e de G. L. Santos Ferreira, principais obras de Ellen G. White (como O Deseja-
durante várias décadas um dos grandes dirigentes da do de todas as nações, Aos pés de Cristo, O grande
Cruz Vermelha Portuguesa. Do mesmo modo, quase conflito). A actividade editorial no meio protestante
todas as denominações tentaram manter escolas pri- português é, aliás, assinalável, bastando citar, além
márias, quer para os filhos dos membros das congre- da Sociedade Bíblica, O Núcleo (dirigido pelo editor
gações, quer para crianças pobres cujas famílias Fernando Resina de Almeida) ou a Publicadora
eram assim cativadas a uma aproximação; com o Atlântico (adventista); a filial portuguesa da Socie-
maior desenvolvimento da rede escolar estatal, a dade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, das Teste-
partir dos meados do século xx, as escolas primárias munhas de Jeová, é igualmente uma importante edi-
protestantes mais antigas começaram a desaparecer, tora e distribuidora de periódicos (como A Sentinela,
embora as denominações então com maior vigor de periodicidade mensal), tratados e folhetos. Há
82
PROTESTANTISMO

também um pequeno universo de publicações (efé- tros dois seminários baptistas funcionaram por pe-
meras) de pendor cultural e de reflexão, de que se ríodos aproximados de dez anos e, em 1969, foi
pode destacar a revista Bara, iniciada em 1983 por instalado em Queluz o actual Seminário Teológico
uma Associação Evangélica de Cultura dirigida pelo Baptista. Em 1946, foi fundado o ainda existente Se-
pastor (pentecostal) António Costa Barata. No âmbi- minário Evangélico de Teologia, cujo primeiro reitor
to dos estudos bíblicos e da teologia - embora exis- foi o missionário presbiteriano Michael P. Testa e ao
tam já nas principais denominações vários pastores qual estão ligadas as três Igrejas sinodais. Numa ba-
com formação académica podem ser referidos en- se interdenominacional, a Greater Europe Mission
tre eles, pela sua relevância: dentro da tradição exe- estabeleceu, desde 1974, na Póvoa de Santo Adrião,
gética «histórico-gramatical» (tradicional), a trilogia o Instituto Bíblico Português, dirigido por Gerald
de interpretação bíblica do pastor adventista Ernesto Carl Ericson. Ligado às Assembleias de Deus, surgiu
Ferreira com as obras Edificados sobre a rocha em 1966 e instalou-se em 1975 em Fanhões o Insti-
(1987), O Senhor vem (197Í, 2. ed. 1989) e Profe-
a
tuto Bíblico de Portugal. Desde então têm sido fun-
cias cronológicas na história da Salvação (1992); e dadas outras instituições congéneres de âmbito mais
dentro da tradição exegética «histórico-crítica», cla- restrito, quer pelas denominações existentes, quer
ramente minoritária no protestantismo português, o por organizações missionárias internacionais, apesar
magistério do pastor presbiteriano A. J. Dimas de de algumas denominações, como os adventistas do
Almeida (n. 1937), antigo docente do Seminário Sétimo Dia, formarem os seus ministros em escolas
Evangélico de Teologia que actualmente lecciona na bíblicas e universidades denominacionais na Europa
licenciatura de Ciências Religiosas na Universidade e na América do Norte. As testemunhas de Jeová
Lusófona, em Lisboa. Até meados do século xx, o (cuja instituição de ensino principal é a Escola Bíbli-
protestantismo português foi centrado na palavra: ca de Gileade, em Nova Iorque) têm também em
bíblica, impressa, cantada, escutada; embora com Portugal escolas de preparação para o ministério: a
algumas variantes (o pendor liturgista da Igreja Lu- Escola de Serviço do Pioneiro e a Escola de Treina-
sitana, a interpretação própria do baptismo pelos mento Ministerial. No campo da historiografia, o
seguidores de Jones), a leitura, a música e a exorta- universo protestante português tem produzido desde
ção eram o centro da vida religiosa dos protestantes o início algumas monografias; com A Reforma em
e a ceia, sob as duas espécies (mensal ou trimestral), Portugal de Diogo Casseis (1906) iniciou-se o inte-
era obviamente o momento alto da vida das congre- resse dos protestantes portugueses pela sua própria
gações. O grande crescimento do pentecostalismo história, com seguidores no século xx (Santos Fer-
após a Segunda Guerra Mundial, sobretudo com as reira, Eduardo Moreira, Albert Aspey, Michael P.
Assembleias de Deus, alterou a fisionomia desta Testa, e, mais recentemente, Manuel Pedro Cardoso
vivência religiosa, fazendo-a entrar numa época e Herlânder Felizardo; cf. Bibliografia). A investiga-
claramente diferente da que se iniciara na segunda ção histórica sobre o protestantismo em Portugal, so-
metade do século xix. Nas décadas de 50 e 60, os bretudo sobre o sector das Igrejas sinodais, muito
pentecostais introduziram uma vivência carismática tem devido a investigadores denominacionais como
da fé, dando ênfase aos dons do Espírito Santo se- os aqui referidos, tendo recebido depois o contributo
gundo a tradição neotestamentária (dom das línguas, crítico e enriquecedor de François Guichard, da Uni-
imposição das mãos, curas, profecia), imprimindo ao versidade de Toulouse, bem como dos investiga-
protestantismo em Portugal uma nova dinâmica cul- dores (F. A. Costa Peixoto, J. M. Mendes Moreira,
tural e de crescimento. No entanto, a grande expan- Narciso P. Ferreira de Oliveira, Maria Zita F. A. Fer-
são do pentecostalismo, que chegou mesmo a in- reira da Costa e Joana S. Pina Cabral; cf. Bibliogra-
fluenciar algumas franjas dos baptistas e dos irmãos, fia) saídos do seminário dirigido pelo Doutor João
contribuiu para fraccionar o universo cultural da Marques no mestrado de História Moderna da Facul-
minoria protestante portuguesa que ficou mais divi- dade de Letras do Porto. O pastor Manuel Pedro Car-
dida entre uma sensibilidade mais ligada à herança doso destaca-se por, em 1985, ter publicado uma
das Igrejas e denominações históricas vindas do sé- tentativa de síntese de uma história de século e meio,
culo xix (herança que é continuada, por exemplo, enquanto o pastor Herlânder Felizardo, mais recente-
por grupos que mantêm a centralidade da palavra, mente, deu um importante contributo para o conhe-
como os adventistas do Sétimo Dia e as testemu- cimento do sector baptista; merecem igualmente
nhas de Jeová) e uma sensibilidade de teor carismá- menção, pelas investigações relativas aos sectores
tico. A capacidade de as denominações se auto-or- adventista e pentecostal, respectivamente, o pastor
ganizarem e definirem estratégias de crescimento Ernesto Ferreira e o pastor António Costa Barata
está ligada ao surgimento de focos de formação de (cf. Bibliografia). O antecessor de todos estes es-
ministros; na ausência de instituições especializadas forços foi seguramente Eduardo Henriques Moreira
para esse efeito, organizaram-se por vezes cursos (1886-1980), o mais produtivo e prestigiado autor
teológicos esporádicos, como o de 1903-1904 na protestante do século xx; além de inúmeras tradu-
Igreja Lusitana e o Curso Teológico de Cooperação ções por si efectuadas, escreveu sobre uma grande
promovido pelos presbiterianos, metodistas e con- variedade de assuntos religiosos, sociais e culturais,
gregacionalistas no período entre as duas guerras destacando-se: A crise nacional e a solução protes-
mundiais. A primeira denominação a estabelecer tante (1910), História sagrada para o povo decorar
uma instituição de formação para o ministério foi a (1920), O cortejo dos heróis desconhecidos (1925),
baptista, em Viseu, em 1922, com Albert Ward Lu- A situação religiosa de Portugal (1935), Esboço da
per (1891-1977), a qual veio a encerrar em 1963; ou- história da Igreja Lusitana (1949), Crisóstomo por-

83
PROTESTANTISMO

tuguês (1957), Vidas convergentes (1958), Relação p. 28); a expansão do protestantismo tem-se feito pe-
da religião com a política (1974); pastor, erudito e la multiplicação destes pequenos núcleos e não pelo
historiador no longo período da crise da Monarquia seu crescimento e transformação em grandes comu-
Constitucional à ruptura de 1974-1975, Moreira foi nidades locais. Este low profüe do protestantismo
um proponente metódico de uma sociedade plura- em Portugal, causa da sua pouca visibilidade social e
lista que integrasse naturalmente a religião e as mi- cultural, contribuiu sem dúvida para que o clima de
norias religiosas na vida nacional, longe tanto do tolerância instaurado em meados de Oitocentos, com
favorecimento político da hegemonia católica ro- a estabilização do constitucionalismo liberal, nunca
mana como do jacobinismo laicista. 5. Constantes e fosse posto em causa; a intolerância raramente teve a
linhas de força: Duas características gerais marcam cobertura das autoridades e, até 1926, os protestantes
o protestantismo em Portugal desde o terceiro quar- gozaram dos direitos de reunião e difusão de ideias
tel do século xix até à actualidade a sua parcial de- garantidos a todos os cidadãos (mesmo quando, até
pendência logística e financeira das sociedades 1911, não podiam constituir-se legalmente em Igre-
missionárias estrangeiras e o lento crescimento da jas ou associações religiosas nacionais). Sob a dita-
sua representatividade social. A razão de ser destas dura militar e o Estado Novo (1926-1974), sofreram
características prende-se aos ritmos de transforma- os mesmos limites a esses direitos que a população
ção da própria sociedade portuguesa, cuja lentidão em geral. No todo, nota-se uma evolução da ordem
secular não tem favorecido a mobilidade e abertura jurídica portuguesa da tolerância abstracta para a ga-
social e económica que enquadram e suportam as rantia em concreto de direitos: em 1878, o estabele-
transformações culturais e religiosas; a grande esta- cimento do registo civil para não-católicos romanos
bilidade cultural daí decorrente tem funcionado para junto das administrações concelhias (e não dos páro-
o protestantismo como uma barreira, sendo sintomá- cos, como era então comum); em 1907, o acórdão do
tico o seu aparecimento no século xix a partir de per- Tribunal da Relação de Lisboa deliberando não ser
sonalidades estrangeiras residentes em Portugal. Os crime a difusão de Bíblias editadas pelos protestan-
primeiros pontos de desenvolvimento de congrega- tes; em 1911, a nova Constituição estabelecendo (no
ções protestantes no século xix são precisamente que será seguida pelas de 1933 e 1976) a igualdade
aqueles que mais abertos estavam ao exterior: Lis- jurídica dos cultos e abrindo caminho ao reconheci-
boa e a zona do Porto e Vila Nova de Gaia. Poste- mento oficial das Igrejas e associações denominacio-
riormente, estas duas zonas mantiveram-se como ce- nais protestantes. No entanto, esse reconhecimento,
nários privilegiados do crescimento e diversificação feito casuisticamente, só foi regularizado em lei em
denominacional do protestantismo, ao que não foi 1971, ficando garantida a personalidade jurídica às
estranha a sua maior urbanização e mobilidade eco- Igrejas e associações religiosas que o requeressem
nómica, demográfica e cultural. As estratégias de mediante a apresentação de um mínimo de quinhen-
evangelização, limitadas por estes factores gerais, tas assinaturas de cidadãos adultos. Em 1986, a AEP
parecem ter sido mais bem sucedidas desde que fo- e o COPIC passaram a ter acesso conjunto a tempo
ram introduzidas, sobretudo por acção dos pentecos- de emissão no serviço público de televisão, embora
tais, as experiências de teor carismático que, em várias denominações tivessem já investido na com-
grande medida, ultrapassaram a mediação difícil e pra de tempo de antena em estações independentes
menos imediata da evangelização centrada na pala- de radiodifusão. Em 1991, legislação especial regu-
vra promovida pelas correntes históricas; neste senti- lamentou a formação de turmas e a remuneração de
do, o sucesso relativo dos baptistas desde o início do docentes de Educação Moral e Religiosa de Igrejas e
século xx está certamente ligado à sua teologia «ca- associações religiosas legalizadas na rede de escolas
rismática» do baptismo (o mesmo podendo ser dito públicas; em 1984 fora fundada uma Associação
de grupos como os adventistas e as testemunhas de Portuguesa de Professores Cristãos Evangélicos e,
Jeová). As congregações das várias denominações depois, uma Comissão para a Acção Educativa
encontraram sempre grandes dificuldades financei- Evangélica nas Escolas Públicas, dependente da
ras, pelo que raramente os pastores podiam (ou po- AEP e do COPIC. Apesar de permanecerem uma
dem) sobreviver sem uma profissão além do ministé- pequena minoria, hoje com cerca de 250 000 comun-
rio; a dedicação total à evangelização só foi possível gantes (segundo dados da AEP), os protestantes têm
com o concurso das sociedades missionárias protes- revelado uma tendência contínua para crescer; os nú-
tantes, na sua maioria britânicas e norte-americanas meros já atingidos, a diversidade social e profissio-
(as sociedades brasileiras tiveram um grande prota- nal dos seus membros e a existência de um pequeno
gonismo na primeira metade do século xx mas elas mercado de bens culturais especificamente «evangé-
próprias dependiam, em geral, de congéneres anglo- lico» (livrarias, música, periódicos) são sinais de al-
-americanas). Esta dependência evidencia as fraque- guma capacidade já conquistada de auto-sustentação.
zas do protestantismo português que, no entanto, não Nas últimas décadas, estabeleceram-se congregações
são muito diferentes, nos seus aspectos materiais, em praticamente todos os concelhos do país, embo-
das dificuldades que têm na sociedade portuguesa ra o maior crescimento se situe nas zonas mais den-
todas as iniciativas desenvolvidas à margem do Esta- samente povoadas; a dinâmica da multiplicação de
do e da alocação de recursos por este feita. Por aqui igrejas locais capazes de serem pontos de apoio
também se compreende uma outra característica per- de novas congregações tem, aliás, sido equacionada
manente do protestantismo português: a pequena e problematizada (FAIRCLOTH; ERICSON). A estagna-
congregação de cerca de meia centena de membros ção de algumas denominações não tem impedido o
comungantes e activos (ERICSON - Nascidos, n. 38, dinamismo do conjunto da minoria protestante por-

84
PROVÍNCIAS ECLESIÁSTICAS

tuguesa, enriquecida pela sua pluralidade interna e significative. In PORTO, la ville dans sa région: contribution À I etude de
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BOA.

85
Q
QUARESMA. Para que os homens revivam, repetida-
mente, a cada ano, a glória de Cristo, a sua vitória
sobre a Morte, pela Ressurreição, têm de comungar
com o sofrimento desse mesmo Cristo, humilhado,
ultrajado, violentado até à morte por crucificação.
Antes de se alegrarem com a Páscoa têm de se peni-
tenciar na Quaresma. E a Quaresma, no calendário
cios ficavam sujeitos a essa obrigação logo na pri-
meira semana da Quaresma e até que todos os
fregueses fossem confessados, sob pena de perderem
o benefício e pagarem um marco de prata, como o
determinava o sínodo de Lisboa de 1403. Igualmente
nas igrejas de pouca renda e fregueses, em que os
priores e capelães estavam normalmente ausentes, só
litúrgico, um período de 40 dias que começa na indo celebrar a missa dominical, aí deveriam residir
Quarta-Feira de Cinzas e termina no Sábado, ante- na Quaresma, sob pena de 500 reais, para que os fre-
rior ao Domingo de Páscoa. Trata-se de um período gueses não ficassem sem confessar e comungar, o
de preparação de abstinência e jejum, para a plena que estabelece o sínodo da Guarda de 1500. Neste
vivência da Páscoa. Nos primeiros tempos da Igreja mesmo sínodo, e para que os clérigos tivessem uma
esse jejum confinava-se à sexta-feira e sábado, mas permanente disponibilidade para com os fiéis, esti-
desde o século vn já era comum, em Roma, abranger pulava-se que estes não pudessem ser chamados a
um espaço de 40 dias, que depois se generalizou pe- juízo durante esse tempo, salvo por feito crime (Sv-
lo Ocidente, no século ix. Também nos primórdios nodicon, Lisboa, 11.9; Guarda, 1.41, 42). Mas toda a
da vida da Igreja era na Páscoa que se recebia sole- ritualização do rezar, jejuar e esmolar se vivia parti-
nemente o baptismo pelo que este período que o pre- cularmente nos mosteiros. Nas comunidades benedi-
cedia era de purificação, de preparação baptismal. tinas, a tomarmos como paradigmáticas as normas
Depois tomou-se tão-só num tempo de penitência, do Costumeiro de Pombeiro, as orações aumentavam
de purificação para a Páscoa. O jejum devia ser res- durante a Quaresma e o ofício divino enriquecia-se
peitado durante toda a Quaresma, excepto aos do- com procissões às quartas e sextas. Um maior rigor
mingos, e a abstinência todas as sextas e sábados, de vida atravessava esses dias. Entre o horário de
além da Quarta-Feira de Cinzas e a Quarta-Feira das Verão e do Inverno, um específico vigorava na Qua-
Têmporas. Vários sínodos medievais das dioceses resma. Nesse tempo os monges ocupavam-se na lei-
portuguesas insistiram neste jejum. No de Braga de tura até ao fim da terceira hora (cerca das nove
1285 (?) dizia-se que clérigos e leigos deviam jejuar horas), participavam em seguida no capítulo, traba-
na Quaresma e sexta-feira, abstendo-se de carne, lhando depois no que lhes fosse determinado até à
mas também de queijo, ovos e lacticínios, o que se décima hora (cerca das quatro horas da tarde), para
repete nos de 1477 e 1505. O mesmo jejum determi- finalmente tomarem a única refeição do dia à hora
navam os concílios de Lisboa de 1240, do Porto de de Vésperas (cerca das cinco horas da tarde). Na
1496 e da Guarda de 1500 (Svnodicon, Braga, 2.3; Quaresma o silêncio substituía a conversação às se-
26.58; 28.49; Lisboa, 2.8; Porto, 11.60; Guarda, gundas, quartas e sextas. E para uma plena vivência
I.41). Além disso, contavam-se certos dias na Qua- dessa interioridade era precisamente na Quaresma
resma em que os homens se deviam abster de traba- que o armarius distribuía os livros que os monges
lhar. Dias de guarda, segundo certos sínodos, eram, deviam ler ao longo do ano. Os dias mais solenes
pois, a Quinta-Feira de Lava-Pés, a Sexta-Feira San- eram particularmente ritualizados, fosse a Quarta-
ta até ao ofício acabado e a Quarta-Feira de Cinzas -Feira de Cinzas, com o cerimonial da bênção das
até que tomassem as cinzas e a missa acabasse, cerca cinzas e sua imposição, fosse o Domingo de Ra-
da hora do jantar (Sínodo do Porto de 1496, da Guar- mos, em que o sacristão enfeitava o altar, com pal-
da de 1500 e de Braga de 1505; Synodicon, Porto, mas, folhas de oliveira e ramos. Mas um destaque
II.60; Guarda, 1.23; Braga, 28.49). A vivência de muito especial era devido à Quinta-Feira Santa. Em
um cristianismo mais aprofundado e rigoroso intro- seu torno toda a sacralização da humildade, da po-
duziria mudanças no quotidiano de religiosos e lei- breza, da esmola. O abade, o pai, à imagem de Cris-
gos. O clero secular tinha de estar disponível para to, lavava os pés aos seus filhos, os monges. Repro-
atender os fiéis. Assim, os clérigos que possuíam li- dutivamente, cada monge lavava os pés a um pobre,
cença episcopal para não residirem nos seus benefí- beijando-lhe as mãos. Esses pobres, transfiguração
86
QUIETISMO

do próprio Cristo, humilhado e sofredor, eram o pe- ras de orar e de ser quietista. Para se conseguir esta
nhor de todo o ciclo monástico da dádiva. Através dimensão referida, tão desconhecida, é necessário
desse próximo mais carenciado, alcançava-se a ple- começar por alguns estudos de caso muito concretos
nitude do sentido da esmola. A comunidade recebia- e objectiváveis, desde logo, pelo tipo e quantitativo
-os - e os pobres acorriam, na Quaresma, em grande de documentação que sobre eles podemos utilizar ou
número aos mosteiros —, dava-lhes de jantar e algum que lhes é possível ligar. Isto fez, como forma de ini-
dinheiro. Especificamente, depois da cerimónia do ciar o estudo desta matéria, J. S. da Silva Dias sobre
lava-pés cada pobre recebia, em Pombeiro, uma alguns grupos sujeitos à Inquisição, daí a documen-
moeda de prata e um vaso de vinho. Igualmente re- tação disponível sobre as «beatas» e «beatérios».
cebiam a roupa usada dos monges, enquanto os hós- Na determinação de uma datação, iniciaremos o
pedes eram contemplados, nessa Quinta-Feira Santa, percurso com os tempos de maturação das reformas
com roupas novas, porque, mesmo na dádiva, havia quinhentistas e deter-nos-emos nos anos iniciais do
que respeitar a hierarquização social (SILVA - O Cos- século xviii, com a publicação (1675) e subsequente
tumeiro, p. 78, 87, 88, 99, 104, 106, 107, 118, 125- divulgação, leitura, interiorização e condenação
-126; COELHO - Os mosteiros, p. 24-27). Conhece- ( 1687) do pensamento do padre Miguel de Molinos
mos menos sobre a vivência quaresmal dos leigos. (1628-1696) (v. MOLINISMO). Queremos deixar claro
Deviam, sem dúvida, respeitar os jejuns e abstinên- que a nossa grande preocupação foi tentar averiguar
cias desse tempo penitencial e, por certo os mais e estabelecer caminhos possíveis de compreensão
crentes, ou os mais livres em trabalho, aumentariam sobre as realidades envolvidas nos processos de ora-
as suas orações, missas e esmolas, como bem nos dá ção, entre as quais abunda o quietismo e, depois, as
conta D. Duarte (Livro, p. 215-217, 230-231). O je- ideias de Molinos. Devemos juntar a esta clarifica-
jum dos cristãos não podia ser mesmo importunado ção uma definição do quietismo, rápida mas precisa,
pelos judeus e mouros que entre eles vivessem, os de como o entendemos no seu ponto final, no assu-
quais se deviam abster de cozer, assar ou comer car- mir molinista. «L'éthos spécifique du quiétisme est
ne em público durante a Quaresma, como lhes exigia de faire un appel universel à une spiritualité fondée
o sínodo de Lisboa de 1403 (Synodicon, Lisboa, exclusivement sur une contemplation de la divinité
11.12). Todos tinham obrigação de se confessar para en elle-même, intérieurement non différenciée, libe-
estarem preparados para a comunhão que, pelo me- rée de la reflexion, des sentiments et des imagina-
nos uma vez ao ano, devia ter lugar no dia de Pás- tions, contemplation suppose au préalable la destruc-
coa. A Quaresma, antecedida pela festa bem pagã do tion de la volonté propre et de la connaissance de
Carnaval, em que, por entre folias e representações soi-même, et qu'elle est en totalité l'oeuvre de la
inversoras e transgressoras da ordem social, os ho- grâce, qui s'empare entièrement du vide laissé par
mens se tinham despedido da carne, era vivida, ago- l'autodestruction du moi et qui, paralysant la libre
ra, num cabal enquadramento eclesiástico, como um disposition des facultés inférieures de l'homme (le
tempo penitencial. Ontem, como hoje, uma quaren- corps est la partie animale de l'âme), devient le pos-
tena de sacrifícios, orações e esmolas deve purificar sesseur souverain de sa partie spirituelle» (KOLA-
o corpo e alma dos cristãos para festejarem e recebe- KOWSKI - Chrétiens, p. 495). Como Jean Delumeau
rem Cristo ressuscitado na Páscoa. chama a atenção, o quietismo assim expresso, advo-
MARIA HELENA DA CRUZ COELHO gando um total e incondicional abandono em Deus,
faz com que a noção de salvação desapareça, pare-
BIBLIOGRAFIA: COELHO, Maria Helena da Cruz - Os mosteiros medievais
num tempo de hospedar e de caridade. Codex Aquilarensis. 6 (1992)
cendo ter, e esta será a razão mais forte para a sua
9-35. LIVRO dos Conselhos de El-Rei D. Duarte (Livro da Cartuxa). condenação, «pour corollaires la négligence des de-
Edição diplomática por João José Alves Dias, A. H. de Oliveira Mar- voirs religieux ordinaires et une sorte de l'apologie
ques e Teresa F. Rodrigues. Lisboa: Estampa, 1982. SILVA, Maria Joana
Corte-Real Lencart e - O Costumeiro de Pombeiro: Uma comunidade de l'inaction» (Le catholicisme, p. 112). Estes cami-
beneditina no século xm. Lisboa, Estampa, 1997. Synodicon Hispanum: nhos foram agora abordados através de uma muito
2. Portugal. Ed. crítica dirig. por Antonio Garcia y Garcia. Madrid: Bi-
blioteca de Autores Cristianos, 1982.
simples estruturação que justapõe «interior» e «exte-
rior» como conceitos operatórios formativos, mas
possíveis de compreender em si uma reconstituição
QUIETISMO. Não queremos aqui traçar o caminho das várias conjunturas e aflorações de índole pessoal
da oração em Portugal nos séculos de cristianismo dos diferentes orantes, inseridos ou não em famílias
mas também não queremos ficar por uma definição, espirituais, sujeitas ou não a regras de vida em co-
mesmo que historicizada, do quietismo. Conside- mum. Dizíamos que os conceitos não só permitem
rámos sobre o tema e a sua organização alguns vec- essa criação estrutural de leitura, como são portado-
tores que aclaramos logo no início e extractamos al- res daquilo que os define e por que os tomamos. Po-
gumas opiniões de historiadores que tanto se têm demos descrever uma primeira conjuntura moderna
dedicado ao estudo da história religiosa da oração, de afirmação e defesa do interior como uma recusa,
da espiritualidade. Sobrevalorizámos os caminhos ou justaposição, crítica e irónica de tudo o que era ti-
que a oração percorreu no período da modernidade do por exterior. Podemos falar, compreendendo to-
até àquelas formas normalmente ditas quietistas. Re- das as cautelas a ter neste seu uso e alargamento, de
corremos, sobretudo, às aflorações mais teológicas e um tempo de devotio moderna. Importa, na sua apli-
intelectualizadas sobre a oração (manuais, tratados cação, juntar afirmações como a de Huizinga, «das
de oração, sermonários), perante a falta de estudos, fases preparatórias do misticismo intensivo de uns
que sempre terão muitas dificuldades de realização, poucos saiu o extensivo misticismo da devotio mo-
sobre as práticas e praticantes das diferentes manei- derna de muitos» (cf. O declínio da Idade Média.

87
QUIETISMO

Lisboa: Ulisseia, [s.d.], p. 233), com um conjunto de no quotidiano, como foi flagrante com a insistência
factores que Maria de Lourdes Belchior e José na frequência da comunhão. Daí resultam todas as
Adriano de Carvalho nos deixaram sintetizados reformas de retorno ao interior que, só tendo sido
exemplarmente. «A Europa - escrevem eles - dos realizadas então, permitiram anos depois, naquela
fins do século xiv e do século seguinte é cruzada não que poderíamos desenhar como uma segunda fase,
só pela devotio moderna que arranca da acção e pre- os anos 40/60 do século xvi, o tempo tridentino. Aí
gação de Gerard Groot na Flandres do século xiv, se recupera a noção de interior, para a justapor ao
mas também pela devotio moderna que se difunde, exterior abusivo e de crenças pouco claras, mais cos-
desde Paris, devido à acção de J. Gerson. [...]. Pro- tumeiras que aprendidas na catequese ou no sermão,
pondo o silêncio interior, a pobreza espiritual, a mor- em confronto com os reformismos protestantes que
tificação e, noutra ordem, a metodologização da ora- haviam levado a noção de interior até ao despoja-
ção como meio de interiorizar, logo aprofundar a mento de tudo o que era exterior, imagens, cultos, ri-
oração e concedendo, por isso, uma atenção especia- tuais sacramentários, estendendo-se aos sacramentos
líssima à oração mental (meditação e contemplação) na sua essência. Aquilo que Trento procura é deixar
e à direcção espiritual, a devotio moderna coincide, viver Deus no interior dos objectos e que aqueles
até porque alguns têm nela a sua origem, com outros que disso necessitam, ou para isso se propõem, atin-
movimentos de Reforma na Península Ibérica, v.g., jam o seu contacto. Por outro lado, deve sempre re-
o recogimiento de matriz franciscana e o erasmis- ferir-se que, ao repor, como válidas e desejadas, as
mo» (BELCHIOR; CARVALHO - Génese, p. 16-17). De formas de piedade participantes da memória da
facto, a recusa do exterior é a grande forma de de- maioria dos crentes, na sua essência aquelas mesmas
fender, divulgar, impor e definir o interior, que por que atrás referimos como definitórias de exterior
seu lado aparece como resultado de uma «méditation (peregrinações, relíquias, etc.) e parte integrante dos
personnelle - une méditation construite et méthodi- protestos de Lutero e dos separatistas de Roma seus
que» (DELUMEAU - Le catholicisme, p. 44). Nesta li- seguidores, vamos deparar nesta época de apogeu
nha próxima dos pensares humanistas se situa um do interior, ponto final do caminho que se vinha
Tomás Morus (1480-1535) ou um Erasmo de Roter- percorrendo, com um forte embate dessas duas ver-
dão (1467-1536). Este último será aliás o grande tentes. É assim que se compreende a definição de
protagonista desta afirmação interiorista por oposi- perfeição pelo franciscano Frei António das Chagas
ção frontal ao mundo monástico, seus ritmos, isola- (1631-1682), escrita em 1677 numa das suas epísto-
mento vivencial e formas de interpelação a Deus e, las: «a perfeição consiste em gozar-nos de tudo o
pretendendo, sobretudo, uma definição do homem, que nos sucede sem culpa, ou seja bem, ou seja mal,
sendo este tripartido entre carne, espírito e alma, puramente, porque assim é vontade de Deus, e assim
mas unificado perante a divindade e pelo seu trajecto era a disposição divina desde a eternidade. E con-
pessoal. Esta tonalidade antropológica sobre o divi- vém que para chegar a isto não tenhamos nem amor,
no reflectiu-se na linguagem e forma de lhe aceder e nem gosto, nem vontade própria, nem escolha ou
se a philosophia Chris ti é integradora, de tonalida- eleição alguma, nem desejo de consolação sensível,
des clássicas greco-latinas, é repúdio de tudo aquilo nem ainda espiritual senão como sombra que segue
que era tido por auctoritas, seja ela escolástica ou o corpo seguir os movimentos do divino beneplácito,
costumeira. Assim se define um exterior que é vi- havendo-nos passivamente em tudo, para que se im-
vência cristã, sem romarias, sem velas, sem pere- prima em nós o divino agrado na imitação da vida,
grinações. Como escreveu Mare Venard, Erasmo e morte e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Car-
muitos humanistas «opposent la vera pietas, chris- tas espirituais. 2. ed. Lisboa: Sá da Costa, i 957,
a

tocentrique et intériorisée, à toutes les "cérémo- p. 82). A procura de uma harmonia possível entre a
nies" extérieures et rituelles par lesquelles le peuple oração interior e o culto exterior, desequilibrados pe-
ne fait que reporter sur des reliques et des imagens la dimensionalidade sobrepujante e sobrevalorizada
de saints les vieux cultes païens» (La religion po- deste último, foi uma das realidades estruturantes
pulaire. Paris: CNRS, 1979, p. 116). Assim se pode daquilo que, normalmente, chamamos de barroco,
compreender Lutero (1483-1546) e a luta contra as ou, se quisermos, de exterioridade, espectacularidade
indulgências, ou a desvalorização das relíquias por da vida religiosa barroca. Neste preciso âmbito e po-
Calvino (1509-1564), ou a redefinição, quando não sicionamento se situa muita da parenética interventi-
renarração ou exclusão, do momento hagiográfico va, interpelante e moralizadora, quer dizer, catequé-
miraculoso, pela generalidade dos dissidentes de tica, do padre António Vieira (1608-1697). Senão,
Roma. Mas, se esta dimensão é tão própria deste ouçamos a sua voz, fixada nas palavras do Sermão
tempo, o interior também caminha de outros modos. da Quinta Dominga da Quaresma, de 1655: «Em
E o que acontece com as reformas e vivências fran- nenhuma parte do mundo é tanta a cobiça de adqui-
ciscanas. Intentando e conduzindo a um observar das rir, como em Lisboa a ambição de gastar por Deus.
regras - Delumeau, como já citámos, afirmará e de- [...] O ouro e os brocados, de que se vestem as pa-
finirá o ponto conclusivo quietista-molinista como redes, são objecto vulgar da vista: a harmonia dos
«négligence des devoirs religieux» - , e a um exer- coros, suspensão e elevação dos ouvidos: o âmbar e
cício de recuperação de um referente textual, não almíscar, e as outras espécies aromáticas que vapo-
clássico mas autoritário, os Franciscanos esboçam ram nas caçoulas, até pelas ruas rescendem muito
e praticam ou divulgam a prática da oração sem ex- ao longe, e convocam pelo olfacto o concurso. E is-
terioridades, voltados para dentro de si, de texto es- to Terra, ou Céu? Céu é, mas com muita mistura de
criturístico na mão, acentuando o factor sacramental Terra. Porque no meio deste culto celestial, exterior
88
QUIETISMO

e sensível, o desfazem e contradizem também sen- admirar, sabendo como sabemos, da intervenção qua-
sivelmente, não só as muitas ofensas que fora dos litativa de Bernardes no desenvolvimento do Oratório
templos se cometem, mas as públicas irreverências português, anteriormente fundado pelo padre Bartolo-
com que dentro deles se perde o respeito à fé, e ao meu do Quental (1626-1698). Os Estatutos, de 1670,
mesmo Deus» (Sermões. Porto: Lello, 1959, vol. 4, aprovados por Clemente X (1669-1676), em 1672,
p. 205). Afinal, o quietismo na sua formulação moli- deixam logo claro no seu rosto: «Entendão os que
nista não é mais do que uma peça desta realidade - entrarem nesta Congregação que para dous fins en-
tanto se avança no alargamento do âmbito do exte- trão nella; para a reforma de suas pessoas, aspirando
rior que se reafirma o interior, de maneira tão absor- a mayor perfeyção, e para tratarem com todo o cuy-
vente que se anula a importância do primeiro, tam- dado da salvação, e aproveytamento espiritual de
bém obra de Deus e onde Deus obra transformações, seus proximos, movendo com o exemplo de sua vida,
a começar pelo próprio homem. Trata-se de uma in- e efficacia de sua doutrina os peccadores à conver-
tensificação da interioridade frente à exterioridade. são, e os convertidos à perfeyção, e vida espiritual»
Aqui fica o grande corte, sobretudo se pensado a (A CONGREGAÇÃO, p. 5). Segue-se todo o articulado
partir das multivárias espiritualidades vividas em estatutário em que tem peso constante a oração, des-
Portugal. Realmente, se aos Portugueses muito tocou de o número um, da Primeira Parte, em que se fixa a
a procura interior de Deus, não podemos neles detec- vida do congregado, «começando pella Óração men-
tar tão fortes caminhantes neste percurso como aque- tal, como fundamento de toda a reforma, e perfeyção
les que a vizinha Espanha vinha criando; entre ou- da vida espiritual» (Ibidem, p. 7), ou seja, afirmando
tros, Frei Francisco de Osuna (14927-1542), São a oração na sua formulação interior e não exterior,
Pedro de Alcântara (1499-1562), Frei Luis de Gra- vocal. O que se aprova é a oração e a quietação da
nada (1504-1588), para se compreender Santo Inácio alma para que Deus aí intervenha. Será fim do Ora-
de Loiola (1491-1556), Santa Teresa de Jesus (1515- tório e do padre Manuel Bernardes, seu divulgador,
-1582) e São João da Cruz (1542-1591). O misticis- este alargamento da oração mental, esta multiplica-
mo aparece como o cume de um processo de defesa ção interior, apesar da oração defendida por Bernar-
e prática interior. Este percurso que atravessa a mís- des dever mais ao mundo da devotio, de Santa Tere-
tica espanhola alimenta e frutifica no Concílio de sa e de São João da Cruz, do que aos Oratorianos.
Trento (1545-1563), mas acaba por ser reduzido pela Num tempo em que o exterior se impunha como re-
espiritualidade de reforço do exterior que dele resul- gra, ganha-se um sentido da necessidade de atingir
ta. Resumidamente, Helmut Hatzfeld expressa esta todos, como o queriam a pastoral e espiritualidade
ideia-força: «En efecto, este concilio fomenta la es- tridentinas, daí muitas das suas «facilidades» exte-
piritualidad católica en el sentido de los ascéticos y riores, para as massas. Muito do escrito por Huizin-
místicos espanoles, hasta el extremo de "espanoli- ga, já citado atrás, se poderia voltar a aplicar nesta
zar" la Iglesia postridentina; pero al mismo tiempo, conjuntura de afirmação geral exterior mas em que o
levanta también barreras contra los peligros de una desenlace, esse sim, não será o mesmo. Se sob a de-
piedad subjetiva contraria al espíritu de la Iglesia. votio muito se multiplicou, no campo dos leigos e,
Esta última actitud contribuye naturalmente a desa- primeiro, dos religiosos, e, só tardiamente, dos clé-
lentar a los escritores místicos en su producción lite- rigos, sob o enquadramento dos seminários, agora
raria, al menos en lengua vernácula, de suerte que el vencerá o exterior. As manifestações de dominância
misticismo clásico espanol no continúa, ya en el si- interior, quietistas, caso do desvio de Molinos e das
glo xvii. Ahora, algunos escritores espirituales poco ideias de Madame Guyon (1648-1717) e de Fénelon
equilibrados pierden el contacto con la sana tradi- (1651-1715) sobre o «pur amour», são condenadas
ción y crean un nuevo tipo de iluminismo, que toda- pela hierarquia da ortodoxia, mas contêm em si mui-
via algunos consideran aceptable en la forma dei vi- to do despontar do desenvolvimento racionalista re-
sionarismo de Maria Ágreda, pero que deja de serio ligioso que o deísmo iluminista irá recuperar. Quere-
en el quietismo, censurable moralmente, de Miguel mos crer que frases, como a que de seguida retemos
de Molinos» (HATZFELD - Estúdios, p. 26-27). O ca- de Bernardes, denotam esta abertura às mudanças e,
minho percorrido pelos homens e mulheres orantes, também, reafirmam determinadas permanências de
em Portugal, sempre se pautou por duas realidades ortodoxia: «o Exercício da Oração mental não ha
muito fortes e inultrapassáveis: está indelevelmente muytos annos apenas conhecido e praticado só de
ligado a uma ascese e é um caminho de intervenção Pessoas religiosas, hoje por beneficio de Deos e in-
de Deus no homem, homem que quer que essa inter- dustria desta santa Congregação e de outros Obrey-
venção exista. Por isso o quietismo, tal como se cos- ros do Senhor se acha tão publico e frequentado dos
tuma entender, e a sua formação molinista final, teve Fieys que pôde, quando não cessar de todo, ao me-
em Portugal mais críticos que abertos seguidores. nos moderarse aquella queyxa do Profeta Jeremias,
Claro que estes existiram, de outro modo não se po- em que se lastimava que os caminhos do Ceo esta-
deria compreender nem aceitar que tivesse sido, por- vão desertos por não haver quem aspirasse à per-
que este percurso de crença e forma orante está a um feyção. Viae Sion lugent eo quod non sit qui veniat
passo muito estreito entre a luta pelo interior ou pelo ad solemnitatem. Ao passo, poys, que foi entrando
exterior. Por isso, às críticas do padre Manuel Ber- nos corações a meditação das couzas eternas, en-
nardes (1644-1710) ao molinismo podemos, no mí- trou também, como irmã sua inseparave a lição dos
nimo, juntar as suas reticências quanto a orar sem livros espirituaes» (Exercícios espirituais e medita-
ser de quiete e a oposição ao exterior como já Vieira ções da via purgativa. Lisboa: Miguel Deslandes,
a havia proferido. Claro que sim. Não é mesmo de 1686, vol. 1, «Ao pio leytor»). Tudo isto está pre-

89
QUIETISMO

sente em muitos outros que, nem por isso, foram BIBLIOGRAFIA: ANDRÉS, Melquíades - Historia de la mística de la Edad
de Oro en Espana y America. Madrid: BAC, 1994. BELCHIOR, Maria
quietistas no sentido de «corrente heterodoxa» em Lourdes; CARVALHO, José Adriano - Génese e linhas de rumo da espiri-
que, na maior parte dos casos, o termo é tomado. Te- tualidade portuguesa: Antologia de espirituais portugueses. Lisboa:
mos aqui muito do que foi o quietismo antes de ser I N C M , 1994, p. 11-23. A CONGREGAÇÃO do Oratório de Lisboa: Regula-
mentos primitivos: Ed. de Silva Dias. Coimbra: Universidade, 1966.
molinista e antes de ser heresia: uma forma de defe- CERTEAU, Michel de - La fable mystique (xV-xvif siècles). Paris: Galli-
sa do interior por aniquilamento do exterior, de inte- mard, 1982. DELUMEAU, Jean - Le catholicisme entre Luther et Voltaire.
riorização do cristianismo, através de uma aceitação 2.» ed. Paris: PUF, 1979. DIAS, José Sebastião da Silva - Correntes do
sentimento religioso em Portugal (sécs. xvi a xvm). Coimbra: FLUC,
da intervenção divina, conseguida na oração mental 1960 (1-1), p. 363-407. HATZFELD, Helmut - Estúdios literários sobre
e que conduz o homem até à sua perfeição, quer di- mística espano/a. 3." ed. Madrid: Gredos, 1976. HISTORIA de la Iglesia
zer, à possibilidade de alojar em si os valores que o en Espana. Dir. Ricardo Garcia-Villoslada. Madrid: BAC, 1979-1980,
vol. 3-4. HUERGA, Alvaro - Historia de los alumbrados (1570-1630): 5.
igualam a Deus, isto sem supor inactividade, pois Temas e personajes. Madrid: Fundación Universitária Espanola, 1994.
que é no interior, pela ascese e contemplação, que a KOLAKOWSKI, L. - Chrétieus sans église. Paris: NRF, 1969. LIMA, Ebion
Igreja busca as suas forças. Mas o campo tido por de - O padre Manuel Bernardes: Sua vida, obra e doutrina espiritual.
Lisboa; Rio de Janeiro: Moraes, 1969. MARTINS, A. Coimbra - Introdu-
heresia está muito perto. Todo este pensar e agir ape- ção. In PADRE Manuel Bernardes: Leituras piedosas e prodigiosas. Lis-
nas se separa dele por ténues imagens e palavras nas boa: Bertrand, 1962, p. 7-51. MENENDEZ PELAYO, Marcelino - Historia
de los heterodoxos espanoles. 3." ed. Madrid: BAC, 1979 (2). MONCA-
escritas registadas e na actuação descrita, na maior DA, L. Cabral de - Mística e nacionalismo em Portugal no século xvm.
parte dos casos por opositores, quase sempre o tribu- In ESTUDOS filosóficos e históricos. Coimbra: Universidade, 1959, vol.
nal protector da ortodoxia que é a Inquisição, ou por 2, p. 278-378. PIRES, Maria Lucília Gonçalves - Para uma leitura inter-
textual de «Exercícios espirituais» do padre Manuel Bernardes. Lis-
visitadores, ou de forma mais intelectualizada e dis- boa: 1N1C, 1980. REY TEJERINA, Arsênio - El quiestismo lusitano: pro-
tanciada pelos cronistas e hagiógrafos das diferentes cesos y condenación. Lisboa: Universitária Editora, 1990 (2), p. 881-
ordens e congregações. -892. RICARD, Robert - Études sur l'histoire morale et religieuse du
Portugal. Paris: FCG, 1970.
ANTÓNIO CAMÕES GOUVEIA

90
RÁDIO RENASCENÇA, v. MEIOS
CIAL.

RECOLETOS. v. AGOSTINHOS.
R
DE COMUNICAÇÃO SO-

RECONQUISTA. A historiografia tradicional desig-


nou por este termo o processo de conquista militar
mitadas a sul pelo curso deste rio, a partir de meados
da centúria verificaram-se avanços rápidos e signifi-
cativos no território que viria a ser Portugal. Fernan-
do Magno tomou Lamego e Viseu (1055) e atingiu a
linha do Mondego conquistando definitivamente
Coimbra (1064). Com Afonso VI (1065-1109) atin-
gia-se a linha do Tejo e Toledo, a antiga capital do
de territórios da Península Ibérica desde a Batalha reino visigótico, caía na posse dos cristãos (1085)
de Covadonga, em 722, até à definitiva destruição que, poucos anos mais tarde, haviam de chegar a
do reino islâmico de Granada, em 1492. Entre aque- Lisboa (1093), para logo a perderem cerca de um
la primeira vitória de Pelágio sobre os exércitos que ano depois, mercê da ofensiva almorávida que viera
haviam invadido a Hispânia em 711 e o triunfo fi- estancar a progressão dos monarcas de Leão e Caste-
nal dos Reis Católicos quase oitocentos anos mais la. Mas a ideia de Reconquista, com o seu cunho
tarde, a Península assistiu à coexistência e à oposi- programático de cariz militar e ideológico, também
ção entre formações políticas cristãs e muçulmanas não surgiu imediatamente após a derrota imposta pe-
que possuíam bases civilizacionais e tradições cul- los invasores provindos do Norte de Africa no início
turais distintas. Este processo multissecular de in- do século viu. Se com Afonso II (791-842) se inten-
corporação de territórios por parte do campo cristão sificaram os combates entre cristãos e muçulmanos
não foi, todavia, linear. Numa primeira fase, os nú- e se assistiu ao despontar, na corte asturiana, de um
cleos de cristãos que se acantonaram nas regiões se- sentimento neogótico, foi só com Afonso III (866-
tentrionais da Península mantiveram uma atitude de -910) que ganhou forma e se estabilizou nas suas
mera sobrevivência, incapazes que estavam de lan- grandes linhas um conceito de Reconquista política
çar qualquer tipo de iniciativa de enfrentamento e religiosa que atravessaria toda a Idade Média e se
global com as poderosas tropas de árabes e berberes. prolongaria mesmo para além dela. Na base de tal
Assim, e numa avaliação genérica, pode-se conside- concepção estava a ideia de uma continuidade goda
rar que só a partir de meados do século xi se inicia entre o antigo reino visigótico e o reino asturo-
no Ocidente peninsular a empresa da Reconquista -leonês, continuidade essa que se exprimia desde lo-
propriamente dita, com as sistemáticas expedições go pela identidade religiosa, mas também pela pre-
ofensivas de grande envergadura organizadas pelo tensa filiação directa da dinastia das Astúrias nos
rei Fernando Magno de Leão e Castela (1037-1065), antigos monarcas visigodos. Perdida, segundo a cha-
apostado na recuperação de territórios e na conquis- mada Crónica moçárabe de 754, pelos pecados dos
ta de cidades aos muçulmanos. De facto, indepen- seus reis e pela devassidão dos seus sacerdotes na
dentemente das vicissitudes das operações militares fase final do antigo reino de Toledo, a Hispânia seria
e da concentração destas em determinados períodos, resgatada e integralmente recuperada pela acção dos
a Reconquista ibérica deve ser vista como parte inte- soberanos cristãos contra os inimigos da sua fé. Um
grante de um movimento geral de expansão do Oci- tal programa assumia, pois, à partida, uma acentuada
dente cristão entre o século x e o final da centúria de feição religiosa, em que o objectivo de restauração
Duzentos. O surto demográfico, o aumento da pro- da unidade hispânica correspondia a uma exigência
dução agrícola, a revitalização da vida urbana que a histórica que se concretizava pela luta contra o Islão.
Cristandade europeia então conheceu deram expres- A formulação do conceito de Reconquista surge ex-
são a uma dinâmica global de crescimento que, no pressa na produção historiográfica do reinado de
caso da Península Ibérica, sustentou as acções mili- Afonso III. A Crónica albeldense, concluída entre
tares ofensivas e o povoamento e a reorganização 881 e 883, enunciava o projecto restauracionista, se-
das áreas que iam sendo retiradas ao domínio mu- gundo a sua versão iniciado com Pelágio e encarna-
çulmano. Se durante toda a primeira metade do sé- do na forma definitiva por Afonso II. Contemporâ-
culo xi o objectivo dos cristãos tinha sido atingir o nea desta ou pouco posterior, a Crónica profética,
vale do Douro e consolidar a posse das regiões deli- provavelmente da autoria de um clérigo moçárabe já
9I
RECONQUISTA

então residente na corte régia, identificava a Hispâ- ser definitivamente reconquistada em 1064. Terão
nia com a terra de Gog da profecia de Ezequiel, cal- sido mesmo razões ligadas às necessidades de defe-
culava à luz do texto bíblico o tempo de duração do sa da parte ocidental da fronteira cristã face ao ím-
jugo islâmico e anunciava mesmo o seu fim próxi- peto da contra-ofensiva almorávida que terão leva-
mo, para o qual chegava a estabelecer a data precisa. do Afonso VI a conceder o Condado Portucalense a
Quanto à Crónica de Afonso ///, redigida ainda du- Henrique da Borgonha. A crescente presença na Pe-
rante o reinado deste, situava na Batalha de Cova- nínsula dos finais do século xi de cavaleiros e de al-
donga o início da empresa de Reconquista, assim tos dignitários do clero oriundos de regiões transpi-
conferindo a um evento de guerra a natureza de acto renaicas foi a causa da introdução e difusão ao longo
fundador da anunciada redenção da Espanha. Elabo- da centúria seguinte do espírito de cruzada, até então
rada por clérigos integrados no meio cortesão, a cro- estranho à realidade ibérica, não obstante a oposição
nística deste ciclo conjugava de forma articulada que de há muito aí tinha lugar entre os partidários do
duas ideias essenciais: a primeira definia como ob- cristianismo e do Islão. A confrontação irredutível
jectivo supremo e inadiável a recuperação dos terri- dos dois campos e a guerra santa visando o extermí-
tórios usurpados pelo inimigo islâmico; a segunda nio dos infiéis, enquanto características inerentes ao
conferia aos soberanos asturo-leoneses o protagonis- ideal cruzadístico, ganharam expressão em alguns
mo nessa missão para a qual eram divinamente ins- textos narrativos produzidos no Portugal do fim do
pirados. A historiografia régia cumpria assim a sua século xii sobre temática da Reconquista. Tanto o re-
função legitimadora de uma dinastia guerreira que lato da conquista de Santarém, possivelmente escrito
se afirmava continuadora da tradição e da realeza por um cónego regrante de Santa Cruz de Coimbra,
godas e apostada na restauração da unidade perdida. como a chamada Crónica da fundação do Mosteiro
O propósito de fazer triunfar o cristianismo sobre o de S. Vicente de Fora, também redigida em Santa
Islão peninsular assimilava a expansão do reino as- Cruz ou no cenóbio lisboeta, estão profundamente
turo-leonês ao crescimento e ao reforço da própria imbuídos do espírito de cruzada, segundo o qual as
Igreja. Daí que também os mosteiros fossem impor- vitórias se davam por vontade divina, quando não
tantes centros de elaboração e difusão dos valores e mesmo pela sua intervenção directa no curso das ba-
dos ideais da Reconquista. Clérigos e monges confe- talhas. Em ambos os textos Afonso Henriques assu-
riam um significado transcendente à guerra anti- me uma importância central na exaltação da guerra
-islâmica, que tendencialmente assimilavam a uma de conquista contra os muçulmanos. Pela boca do
guerra santa. Os templos eram simultaneamente lo- rei e em nome de Cristo era veiculado um discurso
cais onde se invocava a protecção divina para os de intransigência face ao Islão e de aniquilamento
combatentes cristãos e onde se operava a purificação dos seus seguidores. Este destaque atribuído ao pri-
de muitos despojos de guerra trazidos das incursões meiro monarca português culminará com a elabo-
e pilhagens realizadas em terras e cidades muçulma- ração, entre 1190 e 1195, dos chamados Anais de
nas do Sul. Os objectos em metais preciosos ou em D. Afonso Henriques. Produzidos, uma vez mais,
outros materiais nobres que eram capturados aos em Santa Cruz, traçavam um retrato físico e moral
«infiéis» transformavam-se em peças que podiam
ser admiradas como tesouros pela comunidade dos
crentes ou que, depois de alteradas e sacralizadas, se
tornavam mesmo em objectos integrados no culto,
como alfaias litúrgicas ou símbolos da fé cristã.
Com a desintegração do califado de Córdova, as vi-
tórias alcançadas pelos exércitos cristãos e o sistema
de páreas - pelo qual os pequenos reinos taifas pa-
gavam a paz e a aliança militar com o antigo inimi-
go do Norte - permitiram operar a transferência de
importantes quantidades de ouro aplicadas na edifi-
cação ou na ampliação de igrejas e mosteiros, quer
na Península quer além-Pirenéus, como ocorreu com
Afonso VI, que chegou a financiar a construção da
abadia de Cluny. As vertentes político-militar e
ideológico-rcligiosa surgiam assim estreitamente as-
sociadas, constituindo como que uma matriz dos di-
versos «planos» de Reconquista que se foram afir-
mando nas diferentes unidades políticas cristãs do
Norte da Península, sobretudo a partir do século xi.
Portugal também não escapou a este quadro e, ainda
antes da emergência de uma monarquia própria, os
territórios que viriam a constituir o reino encontra-
vam-se já relativamente consolidados na posse dos
cristãos até à linha do Mondego. O Porto fora toma-
do por presúria por Vímara Peres (868) e Coimbra
caíra nas mãos de Hermenegildo Guterres dez anos
depois, embora esta última, como vimos, só viesse a Fonte: Adaptado de Derek W. Lomax, The Reconquest...,
p. 243.

92
RECONQUISTA

do rei que constituía um verdadeiro panegírico. Su-


blinhando a sua valentia guerreira e as suas virtu-
des cristãs, o que se destacava era um herói sobre-
-humano, intérprete privilegiado dos desígnios de
Deus. Na conjuntura político-militar que então se
vivia, com as constantes incursões dos Almóadas a
destruírem ou a porem em risco numerosas praças
cristãs, procurava-se reavivar a memória vitoriosa
do fundador da dinastia portuguesa, ao mesmo tem-
po que se visava acentuar uma linha de continuidade
régia, mobilizando e transferindo para o filho e já
então sucessor de Afonso Henriques o capital sim-
bólico constituído pelas qualidades guerreiras e pela
protecção divina de que este fora depositário. Impor-
ta, no entanto, sublinhar que Reconquista ibérica e
ideal de cruzada são dois elementos distintos que só
em determinadas circunstâncias se associaram. Se é
verdade que para a conquista de Lisboa, em 1147, o
rei português contara com a ajuda decisiva de guer-
reiros do Norte da Europa integrados na Segunda
Cruzada, o célebre relato de um destes combatentes
dá-nos conta da diferença de atitudes entre portu-
gueses e europeus do Norte face aos mouros e aos
moçárabes da cidade, como que confirmando que a
origem do sentimento de incompatibilidade radical e
absoluta entre cristãos e muçulmanos, característico
da ideologia da cruzada, era exterior à Península
Ibérica. Aliás, o modelo de Reconquista régia que
temos vindo a analisar e que enformou, ao longo dos
tempos, o conceito de Reconquista que havia de se
difundir como uma realidade única, não esgotava as
modalidades da guerra externa anti-islâmica. Além
deste modelo régio que punha em evidência o papel
dos monarcas como chefes militares, a actividade
guerreira levada a cabo pelos concelhos das regiões
de fronteira, organizando fossados ou breves incur-
sões de pilhagem em território muçulmano, não ti-
nha por objectivo aniquilar o inimigo, nem era, de Cofre em marfim, 1." década do século xi (Tesouro da Sé
facto, uma guerra de conquista. Tais acções integra- de Braga).
vam-se, sim, numa verdadeira economia de guerra
pela qual os cristãos se apropriavam de colheitas, de Santiago. No entanto, o ideário da Reconquista asso-
gado, de escravos e de outros bens móveis que trans- ciado à recuperação integral da Espanha não desapa-
portavam consigo no regresso às suas terras. Da receu do reino português com a consolidação das
mesma forma, certos bandos comandados por caudi- suas fronteiras. Em pleno século xiv, quando teve lu-
lhos que faziam da guerra e do saque o seu modo de gar a última grande invasão da Península por exérci-
vida, e que tanto podiam colocar-se ao serviço dos tos vindos do Norte de África, assistiu-se a uma forte
cristãos como dos muçulmanos, não se pautavam ressurgência do ideal de cruzada em torno da Batalha
por razões ideológicas ou religiosas; a atestá-lo está do Salado (1340), com manifestações muito vivas e
o caso de Geraldo Sem-Pavor, que depois de ter tido marcantes em Portugal, como o ilustra o relato in-
um desempenho fundamental na conquista de Évora cluído no Livro de linhagens do conde D. Pedro.
em 1165 acabou por combater ao lado do Islão. Pelo Cerca de cem anos após a conclusão das lides milita-
contrário, as operações desencadeadas a partir do sé- res anti-islâmicas que haviam permitido a expansão
culo xii pelas ordens religioso-militares inserem-se do território português, a ideologia da Reconquista,
em absoluto num projecto de Reconquista em que as com as suas componentes religiosa e militar, perma-
motivações de carácter religioso ocupam o primeiro necia assim actuante e funcional.
plano e se traduzem no objectivo de impor o triunfo
total da Cristandade sobre os infiéis. Actuando con- BERNARDO VASCONCELOS E SOUSA
juntamente com as tropas da Coroa ou de forma au- BIBLIOGRAFIA: BARBERO, Abílio; VIGIL, Marcelo - La formación dei feu-
tónoma, as terras que conquistavam eram imediata- dalismo en la Península Ibérica. 3." ed. Barcelona: Crítica, 1982. ERD-
MANN, Carl - A ideia de Cruzada em Portugal. Coimbra: Instituto Ale-
mente integradas no reino, cotando-se, pois, como mão, 1940. LOMAX, Derek W. - The Reconquest of Spain. Birmingham:
poderosos auxiliares da Reconquista régia. Foi, no- Longman, 1978. MARAVALL, José Antonio - El concepto de Espana en
meadamente, o que sucedeu com a conquista de la Edad Media. 3." ed. Madrid: Centro de Estúdios Constitucionales,
1981. MATTOSO, José - Identificação de um país: Ensaio sobre as origens
grande parte do Alentejo e do Algarve, terminada em de Portugal. 1096-1325. 5. ed. Lisboa: Estampa, 1995. 2 VOI.IDEM - Ri-
1249 e na qual teve importância decisiva a Ordem de
a

cos-homens, infanções e cavaleiros: A nobreza medieval portuguesa nos


séculos xi e xii. Lisboa: Guimarães, 1982.

93
REDENÇÃO DE CATIVOS

REDENÇÃO DE CATIVOS. As primeiras fontes refe-


rentes à existência de cativos e aos aspectos relacio-
nados com os resgates surgem durante o movimento
da Reconquista Cristã. Tanto o direito canónico co-
mo o direito alcorànico legitimavam a apreensão de
cativos considerados infiéis por ambos os credos.
Estava em causa não só a possibilidade de uma futu-
ra conversão como o ganho a obter com o resgate do
prisioneiro. O valor era calculado com base na posi-
ção social da pessoa aprisionada e na possibilidade
de uma futura troca por outros cativos. Este «negó-
cio» tendia a resolver alguns dos problemas surgidos
em consequência dos constantes conflitos entre cris-
tãos e muçulmanos. As pessoas mantidas em cativei-
ro eram resgatadas por profissionais que existiam
expressamente para esse efeito, de ambos os lados
beligerantes. Referem-se, sobretudo, os alfaqueques
que, com um salvo-conduto passado pelos governan-
tes, podiam frequentar os campos de guerra e obter
informações acerca do número e das condições pre-
tendidas para os resgates. Durante a primeira dinas-
tia surgem em Portugal duas ordens religiosas cria-
das com o fim específico de prover o resgate de
cativos: a Ordem de Nossa Senhora das Merçês (v.
M E R C E D Á R I O S ) e, com maior implementação no terri-
tório nacional, a Ordem da Santíssima Trindade (v.
T R I N I T Á R I O S ) . Desde a sua chegada a Lisboa, no reina-
do de D. Sancho I, os Trinitários vão ter um papel
fundamental na angariação de esmolas e na prosse-
cução dos resgates junto dos muçulmanos. No entan-
to, com a expansão para o Norte de Africa, aumenta
o número de cativos a resgatar na sequência da polí-
tica desenvolvida pelos Portugueses neste território.
Esta necessidade crescente de solucionar o problema Frontispício de Historia Chronologica da esclarecida
dos cativos portugueses em praças norte-africanas, a ordem da SS. Trindade, Redempção de Cativos, da
par de um movimento tendente à centralização do Província de Portugal, 1789 (Lisboa, Biblioteca
poder régio, levaram D. Afonso V, em meados do sé- Nacional).
culo xv, a instituir o Tribunal da Redenção dos Cati-
vos. O rei, tomando posse do exclusivo das remis- aponta como objectivo primordial do rei, ao chamar
sões, controlou o poder dos Trinitários e chamou a si a si o monopólio dos resgates, o aumento das esmo-
uma função vista, à luz da mentalidade religiosa da las. Seria, pois, uma razão financeira, provocada pe-
época, como sendo das mais louváveis. A criação lo número crescente de cativos a resgatar, que levava
desta instituição teve por base a consulta régia aos à nacionalização dos resgates. Frei Jerónimo de São
prelados do reino, efectuada em 1454, com o objec- José aponta, porém, como base desta transformação,
tivo de recolher opiniões acerca das medidas inova- razões de foro religioso. O rei, visto como libertador,
doras que o monarca propunha para a arrecadação ilibava-se assim parcialmente da responsabilidade do
das esmolas de modo a fazer face ao problema susci- cativeiro, uma vez que era devido aos seus interesses
tado pelo crescente número de cativos a resgatar. que os súbditos se encontravam nessa situação. Afir-
D. Afonso V, numa série de capítulos compilados ma ainda o cronista que «[...] quis este ínclito Rei
por Frei Vasco Tinoco, esmoler-mor do reino, propu- quando veio a primeira vez de Africa, que a elle só
nha que fossem angariadas esmolas de um modo devessem seus vassalos, que se achavão cativos, o
mais organizado e sistemático, controladas por fun- grande beneficio da Redempção, julgando com ar-
cionários dependentes do rei (Regimento da rendi- dente zelo que entrando elles no cativeiro por sua
ção dos cativos, Évora, 22 de Abril de 1454). Todos causa, devia o poder invicto, e a fortaleza do seu
os bispos, exceptuando o bispo do Porto, concor- braço ser o que, abrindo com Real piedade os cárce-
daram com o exposto elogiando a obra da redenção res de Barberia, restituísse a todos a antiga posse da
como uma das mais necessárias e louváveis. O Tri- sua liberdade» (cf. S Ã O J O S É - Historia, p. 292).
bunal da Redenção dos Cativos veio enfraquecer a D. Afonso V, que na prossecução do seu projecto de
Ordem da Santíssima Trindade, que tinha como um expansão no Norte de Africa acabaria por alargar o
dos objectivos primordiais do seu instituto a arreca- seu título de rei aos Algarves de além-mar, partiu pa-
dação de fundos através da pregação de indulgên- ra a concretização desta política com um conjunto de
cias. O autor anónimo do manuscrito intitulado medidas que lhe permitiram chamar à Coroa um
Chronica da Sagrada Ordem da S.ma Trindade de «negócio» que envolvia bens até então compartilha-
Redenção de captiuos da Prouincia de Portugal dos pela Ordem da Santíssima Trindade. Por outro
94
REDENTORISTAS

lado, tornava-se o executor de uma realidade bem dades, vilas e lugares das comarcas dependentes da
importante na consciência religiosa dos indivíduos mampostaria. Eram eles, ainda, que abriam os cofres
da época. As remissões sancionadas pela Igreja Ca- e as arcas das esmolas e superintendiam à escritura-
tólica constituíam um meio de expiação dos pecados ção das receitas finais. Através das cartas de nomea-
e obtenção de indulgências assim como de outros ção podemos ter uma noção das funções desempe-
privilégios espirituais. Afirma mesmo o monarca nhadas por estes oficiais cujo ofício é legislado por
que «antre as obras de misericórdia e piedade a mais um regimento de D. Manuel que não deveria diferir
meritória he remir os catiuos que jazem sob poder muito do regimento de 1560 de D. Sebastião, que é
dos mouros arreneguados e infíees e querendo nos apontado como actualização do anterior. Neste se en-
conseguir ho merecimento de tanta obra sancta hor- contram especificadas as funções dos mamposteiros-
denamos e mandamos e apropriamos» (ANTT. Livro -mores e dos menores bem como as dos escrivãos e
de Extras, fl. 45-45 v.), passando a especificar as vá- tesoureiros. Em adenda a este regimento são trans-
rias doações que eram transferidas para os resgates critos os principais documentos que regulamentavam
como rendas da Coroa, os bens dos que morriam os ofícios, bem como os privilégios concedidos. No
sem herdeiros e os resíduos do reino. O Tribunal da essencial seguiam-se as disposições estipuladas nos
Redenção dos Cativos, apesar de directamente de- reinados anteriores, actualizando-as em função das
pendente do rei, passou a funcionar como uma insti- novas realidades políticas: a transferência do tribu-
tuição com administração e funcionários próprios. nal para a alçada da Mesa de Consciência e Ordens,
O cargo mais importante era ocupado pelo provedor- no reinado dc D. João III. De notar ainda a inclusão
-mor. O primeiro a ser designado para tal lugar, em de regulamentação referente ao cargo de mampostei-
Dezembro de 1463, foi o capelão João de Évora, ros da índia, em vários locais do Indico, bem como
com poder total sobre a Arca da Redenção, bem co- especificações referentes aos peditórios a efectuar na
mo sobre todos os funcionários, respondendo peran- carreira da índia. Matérias estas que, por certo, já es-
te o rei sobre a eficácia da instituição. Para além da tavam consignadas no regimento de D. Manuel. Co-
responsabilidade de arrecadar todas as rendas do rei- mo atrás foi referido, do mamposteiro-mor depen-
no referentes à redenção, favorecidas pela concessão diam os mamposteiros-pequenos por ele nomeados
papal de indulgências que incentivavam o resgate de que, para além das funções referidas, fixavam nas
cativos, competia ao provedor a escolha dos prega- igrejas, junto às arcas e cepos, cópias das cartas de
dores incumbidos de anunciar os privilégios espiri- concessão de indulgências e privilégios espirituais,
tuais pelo reino que podiam ser ou não frades da Or- devendo lembrar o clérigo para as mencionar na sua
dem da Santíssima Trindade. O rei outorga-lhe ainda pregação. Tinham direito a vários privilégios entre
poderes para suspender e prover os vários ofícios da os quais a isenção de serem constrangidos para en-
instituição. Dele dependiam o contador-mor e o chan- cargos do concelho, não podendo ser chamados para
celer responsável pelas arrecadações de bens e pelos besteiro, nem obrigados a dar aposentadoria. Ligado
selos da instituição. Para o exercício de ambos os ao ofício de mamposteiro encontrava-se o ofício
cargos eram adjuvados pelo escrivão dos contos e da de escrivão da Redenção dos Cativos, com o dever
provedoria. Com o fim específico de registar as re- de registar todos os dinheiros que fossem recebidos
ceitas e despesas encontrava-se o escrivão da Reden- e despesas feitas com os resgates. Este oficial exer-
ção e o tesoureiro-mor. Este último controlava os cia o cargo juntamente com o mamposteiro, sendo
tesoureiros locais encarregados do registo das doa- mesmo indispensável a sua presença na recolha e
ções. Fora da administração central da provedoria contagem das ofertas para resgate dos cativos. Em re-
dos cativos, mais afastados mas dela directamente sumo, a Redenção dos Cativos em termos adminis-
dependentes, encontravam-se os mamposteiros, res- trativos era constituída pelo mamposteiro-mor, do
ponsáveis pela angariação de bens sobretudo mone- qual dependiam os mamposteiros-pequenos e os es-
tários para a efectuação dos resgates. Devido à fixa- crivãos da mampostaria. Tesoureiros e procuradores
ção portuguesa nas praças norte-africanas, onde os locais contribuíam para a arrecadação das esmolas.
conflitos eram constantes entre mouros e cristãos, o Deste modo o Tribunal da Redenção dos Cativos
cargo de mamposteiro para resgate de cativos adqui- exercia e cumpria as suas prerrogativas de angaria-
re grande importância ao longo de todo o século xv. ção de bens através de um funcionalismo próprio
As nomeações de mamposteiros, de início dependen- com tarefas bem definidas. Os ofícios vão-se buro-
tes das instituições onde exerciam a sua função, co- cratizando e estruturando, acompanhando as políti-
mo a Ordem da Santíssima Trindade ou a Redenção cas régias de centralização e controlo de poder. Si-
dos Cativos, passam, com D. João II, a ser da res- tuação que se mantém até inícios do século xix,
ponsabilidade régia. Seleccionando os oficiais, na altura em que se regista o último resgate de cativos
sua maioria entre os escudeiros da Casa Real, o rei portugueses provenientes de Mequinez e Argel.
controlava os ocupantes de um cargo cujo bom fun- EDITE ALBERTO
cionamento era fundamental para a Redenção dos
Cativos. Os mamposteiros principais ou mores exer- BIBLIOGRAFIA: ALBERTO. Edite - As Instituições de resgate de cativos em
ciam a sua jurisdição nas sedes de arcebispados e Portugal. Tese de mestrado apresentada em Lisboa em 1994. SAo JOSÉ,
Jerónimo de, fr. - Historia chronologica da esclarecida Ordem da S. S.
bispados do reino, nas ilhas e nas praças norte-afri- Trindade. Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789.
canas. A sua função resumia-se a superintender na
arrecadação das esmolas e receber o dinheiro dos
mamposteiros menores que o recolhiam em peditó- REDENTORISTAS. Santo Afonso Maria Ligório, em
rios nos mosteiros, igrejas, festas ou romarias nas ci- 1732, compadecido dos pobres, fundou a Congrega-
ção dos Missionários do Santísssimo Salvador, em
95
REDENTORISTAS

Scala Salerno, perto de Nápoles, na Itália, com o in- Perpétuo Socorro pelo padre José Maria Gonçalves,
tuito de seguir o Redentor na evangelização dos po- que publica obras suas e traduz algumas de Santo
bres, estando ao mesmo tempo profundamente infla- Âfonso e de outros autores. Hoje, esta casa editora
mado do ideal de evangelizar os infiéis da Africa e ganhou uma vasta projecção na área da literatura reli-
da Ásia. Com a actual denominação oficial de Con- giosa. Em 1954 o padre Gregório Martins Almendres
gregação do Santíssimo Redentor, a «finalidade da funda a revista Miriam que terá uma grande expan-
Congregação é continuar o exemplo de Jesus Cristo são pela qualidade das temáticas abordadas, desde
Salvador, pregando aos pobres a Palavra de Deus, actualidade religiosa e missionária, bem como arti-
como disse de Si mesmo: "enviou-me para evangeli- gos de reflexão teológica e catequética. O Seminário
zar os pobres"» (const. 1). A sua missão específica Redentorista de Cristo-Rei, concluído em 1939 em
consiste em evangelizar os mais abandonados da so- Vila Nova de Gaia, tem realizado o objectivo de cul-
ciedade tanto nos países de velhas cristandades co- tivo de vocações religiosas e missionárias, funcio-
mo nas chamadas missões ad gentes. São Clemente nando também como casa de retiros (Casa de Espiri-
Maria Hofbauer e o padre Tadeu Hubl trouxeram a tualidade de São Clemente), aberta a todos os grupos
jovem congregação para fora de Itália, ainda em vida eclesiais que a procuram. A Comunidade de Nossa
do fundador. Dedicando-se aos jovens intelectuais de Senhora do Perpétuo Socorro de Guimarães é funda-
Viena, São Clemente deixou muitos discípulos, dos da, em 1944, para fins de apostolado e serviço reli-
quais bom número o seu colaborador e sucessor, o gioso à cidade. Com os mesmos objectivos foram
padre Passerat, francês, recebeu na congregação. En- fundadas outras comunidades pelo país, como são
tre eles, o padre Springer que, com outros compa- exemplo a Comunidade de Nossa Senhora dc Fátima
nheiros, foi enviado a implantar os Redentoristas em de Castelo Branco em 1952, a Comunidade de Santo
Lisboa, em 1826, a pedido de D. João VI. Vinham Afonso de Lisboa em 1967, a Comunidade do San-
incumbidos das tarefas de pregar missões populares tíssimo Redentor da Damaia em 1964, a Comunida-
e de atender a comunidade austríaca residente em de de Santa Maria de Lagos em 1969, a Comunidade
Portugal. Depressa conquistaram as simpatias da ca- da Zona do Oeste, em Torres Vedras, fundada em
pital e redondezas e admitiram na congregação um 1981. A partir destas comunidades desenvolveram-
significativo número de candidatos nacionais. Mas, -se outras obras e serviços que lhes estão adscritos,
em 1834, em virtude do decreto governamental de como paróquias, lares, centros sociais, serviços de
expulsão das ordens religiosas, os Redentoristas tive- apostolado de vária ordem, bem como a fundamental
ram de deixar Portugal, após uma breve permanência dinamização missionária para apoiar o trabalho
de oito anos. A segunda tentativa de implantação em evangelizador que os redentoristas portugueses de-
terras de Santa Maria fez-se em 1903 por via dos re- senvolvem em Ângola. Os redentoristas portugueses
dentoristas espanhóis. Ajudados por amigos, vieram tomaram-se totalmente autónomos da província es-
estabelecer-se em Lourosa, a sul do Porto, a fim de panhola em 1962, ano em que é constituída a provín-
levar a cabo a pregação de missões populares e cola- cia portuguesa como expressão da consolidação de
borar na assistência religiosa às populações da dio- uma significativa dinâmica de implementação em
cese portuense. Essa actividade ganhou projecção Portugal. A Associação Missionária do Redentor é
com a fundação de uma nova casa em Canidelo, Vila também um movimento de espiritualidade para lei-
do Conde, em 1906. Construíram o seminário menor gos dinamizada pelos Redentoristas para promover a
em Lourosa quando a recém-proclamada república irradiação do carisma e da missão desta congregação
obrigou os religiosos a abandonarem o país em 1910. religiosa e para dar apoio humano e material às suas
Nesta altura, trabalhavam no país 16 padres e sete ir- obras, sendo a revista A Família Redentorista um
mãos auxiliares. A terceira fundação verifica-se em importante elo de contacto e de informação entre os
Braga. Por ocasião da perseguição movida pela Re- vários organismos e comunidades desta família reli-
pública Espanhola, proclamada em 1931, e da res- giosa.
tauração de um ambiente de boas relações entre a JOSÉ EDUARDO FRANCO
Igreja e o Estado em Portugal, chegam os missioná-
rios redentoristas espanhóis à arquidiocese de Braga, BIBLIOGRAFIA: BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL DO PORTO, org. - Afonso
Maria Ligório. Porto: BPMP. 1988. CRÓNICA da Província Portuguesa
instalando-se na Igreja do Pópulo. Entre eles vinha o dos Redentoristas. Lisboa: Congregação do Santíssimo Redentor, 1982.
padre redentorista português Manuel Leite Faria. Ini- MANSO, João - Clemente Hofbauer: um apóstolo incansável. Porto: Ed.
Perpétuo Socorro, 1991. VEIGA. Américo M. - Missão Popular Reden-
ciam com êxito o seu apostolado entre as gentes da torista. Porto: Ed. Perpétuo Socorro, [s.d.].
arquidiocese de Braga. Não obstante, dadas as precá-
rias condições de vida e de trabalho, deixam Braga REFORMA PROTESTANTE, v. PROTESTANTISMO.
em 1944, estabelecendo-se em Guimarães. De 1931
a 1942 regista-se uma grande actividade dos Reden- REGALISMO. Designação em geral atribuída ao es-
toristas. Estes missionários tinham pregado neste pe- tatuto «político-religioso» que advoga a supervisão
ríodo 70 missões, 20 renovações de missão, 30 no- tutelar da Igreja pelos monarcas ou pelos estados.
venas, 43 semanas de evangelização, 37 retiros, 293 Nesta perspectiva incumbe-lhes garantir e promover
tríduos, numerosíssimos sermões e 19 meses de pre- um clima religioso benéfico aos que vivem sob a sua
gação intensiva. As obras que os Redentoristas em- tutela. Daí a sua ingerência tanto no plano civil co-
preendem em Portugal vão desde seminários a casas mo no plano sacro, em ordem a manter um e outro
editoriais. Entre estas destacam-se a Comunidade de sob a sua alçada mais ou menos expressa de poder.
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do Porto, inaugu- Sem falar da Inglaterra, onde o rei se toma, no sécu-
rada em 1936, na qual é criada em 1946 a Editorial lo xvi, chefe da Igreja Anglicana, assinale-se que a
96
REGALISMO

mas da universidade desde o mesmo século até à sua


nacionalização em Setecentos, com a tomada de de-
cisões a respeito de negócios ultramarinos. Sinal no-
tório deste processo temo-lo na quinhentista Mesa da
Consciência e Ordens (1532), a qual permite ao mo-
narca intervir nos assuntos que preocupam a sua
consciência e superintender sobre as ordens milita-
res, nas reformas religiosas, nos assuntos da univer-
sidade. Influência em matérias contenciosas vão ter
ainda o Desembargo do Paço e o procurador-geral
da Coroa, exagerando as suas competências a favor
do Estado. Descomedidas mostram-se as tendências
regalistas em Portugal, sob o domínio espanhol.
A Coroa limita os «breves de faculdades» de que
dispunham os núncios e colectores. Por exemplo, es-
tes viram-se compelidos a não intervir na direcção
de ordens religiosas, a não conceder graças aos súb-
ditos destas, a anularem interditos e censuras. Foi-
-lhes ainda vedada a visita a dioceses e catedrais.
Divergências profundas ocorrem a propósito de
questões de direito e da propriedade eclesiástica.
O imperante chama a si toda a espécie de negócios
da Igreja sob a capa de defesa do poder régio, dos
interesses dos súbditos e de velhas prerrogativas cuja
prova documental não exibe. Em 1613 surgem, no
Defensio Fidei, as reflexões críticas do célebre lente
da Universidade de Coimbra, Francisco Suarez. Res-
ponde-lhe Gabriel Pereira de Castro como defensor
do regalismo régio, em especial no tratado De Manu
Regi. Para Zília de Castro, um dos momentos mais
expressivos do regalismo, nos tempos modernos,
aconteceu na Restauração. No ensejo, Manuel Ro-
Frontispício de Defensio Fidei Catholicae et Apostolicae, drigues Leitão considera as directivas dos monarcas
1613, Coimbra (Lisboa, Biblioteca Nacional). no campo da jurisdição eclesiástica um «direito con-
cedido» pelo papado, apanágio da Coroa e como tal
Igreja foi utilizada por católicos e protestantes com próprio da soberania real da comunidade. O regalis-
objectivos políticos. O regalismo equivale ao jurisdi- mo conforma a legitimidade e a dignidade do impe-
cionalismo em diversos estados da Itália, ao erastia- rante no exercício das suas funções, por obra de uma
nismo inglês, ao josefismo austríaco e ao galicanismo prerrogativa que lhe é própria e constitui um atributo
francês, muito influente em Portugal. No transcurso do «poder soberano da comunidade» ( c f . CASTRO -
do tempo e de acordo com os contextos, o regalismo O regalismo, p. 146) De resto, a hostilidade da Santa
exprime-se em intervenções bem peculiares. En- Sé à independência do reino, em 1640, e a sua cola-
quanto na Idade Média os soberanos põem em causa gem a Espanha, nomeadamente na recusa de prover
prerrogativas canónicas da Igreja, lutam contra a bispos para as dioceses portuguesas vagas, favoreceu
concentração de bens nas suas mãos e tentam limitar o recrudescimento das teses regalistas, de índole
a sua jurisdição no âmbito civil ou então submeter galicana, a ponto de se propugnar a sagração dos
ao seu régio beneplácito as decisões eclesiásticas, já antístites apresentados pelo monarca ao sumo pon-
na transição do século xiv para o século xv chamam tífice, sem a anuência deste. Quanto a D. João V, é
a si as opções da monarquia portuguesa quando do sabido, imiscuiu-se, a par e passo, na área eclesiás-
Cisma do Oriente, sem obterem o consenso, confor- tica, animado por preocupações religiosas e de afir-
me provam as posições de D. Fernando e D. João I. mação do poder absoluto. Foi ao extremo de cortar
Desde Quatrocentos, fixa-se a capacidade dos mo- as relações com a Santa Sé por razões de prestígio
narcas de indicarem bispos do seu agrado que o San- régio e pôs, outra vez, em execução o beneplácito
to Padre confirma. Esta prerrogativa anda ligada à régio, etc. Se também cuidou da disciplina do clero,
expansão da fé noutros territórios, cuja expressão fê-lo para responder a desregramentos intoleráveis,
maior reside no estabelecimento do Padroado Portu- tenha-se presente. De resto, em nome de normas e
guês do Oriente, somado à anexação dos mestrados tradições antigas não faltam, através dos tempos, ca-
das ordens militares à Coroa (1551), fenómeno cuja sos particulares em que a realeza ultrapassa as prer-
relevância só encontra paralelo na apropriação dos rogativas da Igreja. Período áureo e de perduráveis
bens da Igreja pelos príncipes protestantes. Amiúde, consequências no controlo pela Coroa da Igreja
nos tempos modernos, os monarcas imiscuem-se em ocorre sob D. José I (1750-1777) com a consolida-
matérias e campos antes sob a alçada da Igreja, co- ção do poder de Sebastião José de Carvalho e Melo
mo acontece por via do estabelecimento da Inquisi- (1699-1781), depois marquês de Pombal. Afirma-se
ção em Portugal (1536), com a iniciativa das refor- então o primado do monarca sobre todos os súbditos

97
REGALISMO

e legisla-se ou manobra-se para colocar a Igreja na (CASTRO - O regalismo). Após o regresso dos libe-
sua órbita ou sob a sua dependência. Ressurge o rais, dá-se a secularização dos bens da Igreja (1835)
beneplácito régio, que se estende às pastorais dos e a respectiva venda em hasta pública pelo Estado,
bispos e a outros textos episcopais, compele-se os há a ideia de que os padres, pagos pela Fazenda, são
prelados a seguir os ditames governamentais, cer- funcionários públicos. Contradizendo esta opinião,
ceia-se, por exemplo, o poder das ordens religiosas os teólogos invocam a sagração dos mesmos pelos
através do fecho de conventos, fecho nem sempre bispos de quem dependem, dizem a situação fruto da
consumado dada a doença e morte de D. José. Refor- apropriação pelo Estado dos bens sacros, da catolici-
ma-se a Inquisição (1772), tornando-a um tribunal dade da monarquia e dos povos, factos que daí para
régio, cria-se a Real Mesa Censória (1768), doravan- o futuro são invocados pelos católicos quando da
te apostada no controlo doutrinário da produção li- aceitação de beneses e intromissões governamentais
vresca. A exemplo de outros reis, D. José interrompe na sua esfera própria. Choques do executivo de Por-
as relações com Roma, despede compulsivamente o tugal com a Propaganda Fide levam os integristas a
núncio apostólico, o seu ministério propõe que os ver laivos de regalismo na argumentação aduzida,
bispos outorguem licenças de casamento e chamem junto da Santa Sé, pelo regime liberal a favor de pri-
a si prerrogativas do foro papal, cujo influxo sobre a vilégios ultramarinos antes outorgados a Portugal
Igreja portuguesa sistematicamente procura reduzir. pelo papado, mas diferentes das opções romanas de
Cândido dos Santos defende que a política do mi- então. Antes, a Constituição de 1822 afirma não só a
nistro de D. José I era «subordinar a Igreja ao poder catolicidade da monarquia, mas também pertencer ao
do Estado» e propenderia para «admitir com simpa- poder executivo, na pessoa do rei, o poder de apresen-
tia uma Igreja nacional» em quadro de catolicismo tação: 1 p a r a os «bispados, precedendo proposta tri-
iluminado (cf. SANTOS - António, p. 202). Na versão ple do Conselho de Estado»; 2.°) para os «benefícios
do seu principal teórico, padre António Pereira de eclesiásticos do padroado real, curados ou não cura-
Figueiredo, em cuja obra é notória a influência dos, precedendo concurso e exame público perante os
de Justino Fabrónio (1701-1790), «a secularização prelados diocesanos» (artigo 123, n.° v). Estas prerro-
do poder político», articulada com «a descentraliza- gativas surgem ampliadas no n.° xn do mesmo artigo,
ção do governo da Igreja», testemunham o regalismo onde se prescreve o que pertence também ao sobera-
do marquês. Este repercute-se «na legitimação das no e a outros poderes, a saber «conceder ou negar o
igrejas nacionais como parte integrante do Estado», seu beneplácito aos decretos dos concílios, letras pon-
vê-se na «inserção política das hierarquias eclesiás- tificais e quaisquer outras constituições eclesiásticas;
ticas», naturalmente submetidas ao mando do sobe- precedendo aprovação das Cortes, se contiverem dis-
rano, em matérias e atribuições que eram especifi- posições gerais; e ouvindo o Conselho de Estado, se
camente suas, diz Zília de Castro (cf. CASTRO - O versarem sobre negócios de interesse particular, que
regalismo, p. 150). Aliás, se a Tentativa teológica não forem contenciosos; pois quando o forem, os re-
(1766), de Pereira de Figueiredo, exprime o regalis- meterá ao conhecimento e decisão do Supremo Tri-
mo doutrinário em si mesmo, ele extravasa dos Es- bunal de Justiça». A sua conta, a Carta Constitu-
tatutos da Universidade de Coimbra, de 1772, já cional de 1826 assegura de novo a catolicidade da
em pontos de magistério nas faculdades, já em pro- nação e guarda para o executivo a nomeação dos bis-
postas de investigação que melhor deviam alicerçar pos e o provimento dos benefícios eclesiásticos (arti-
tal doutrina. O retraimento do movimento regalista go 75, §2), afirmando algo semelhante ao que estava
sob o governo de D. Maria I não impede que o veja- na Constituição de 1822. O executivo pode «conce-
mos emergir em diplomas vários, tradutores de ape- der ou negar o beneplácito aos decretos concílios e
tências da realeza pelos negócios eclesiásticos, com letras apostólicas e quaisquer outras constituições
prejuízo destes e o mais das vezes em beneficio do eclesiásticas, que se opuseram à Constituição, e pre-
real erário. Assim o provam, no final de Setecentos, cedendo aprovação das Cortes, se contiverem dispo-
os impostos do quinto e da décima, por exemplo. sição geral.» Sob a sua vigência, na segunda metade
Emerge ainda na atitude arrogante dos magistrados do século xix, os bispos dizem-se na inteira depen-
da Coroa no exercício das suas funções, mormente dência do Ministério dos Assuntos Eclesiásticos e da
em questões fiscais, e na exigência de documentos Justiça. A Lei de Separação entre a Igreja e o Estado,
comprovativos de privilégios. Nestas posturas aflora que o regime republicano publica em 1911, torna a
o cariz pombalino, também presente na ideia de ven- Igreja «simples agremiação particular», posto viesse
der conventos no Brasil e bem assim na indicação a ficar sob a tutela da República através das «cul-
para bispos e arcebispos de individualidades antes li- tuais» e outras determinações de cariz regalista, ate-
gadas ao marquês e favoráveis ao pendor regalista nuadas em 1918 e, em especial, em 1926, já na dita-
da sua governação. O mesmo se pode dizer de pla- dura militar, explica o padre António Leite. Com o
nos de estudo da época mariana, para uso de institu- Código Administrativo (1936) as agremiações reli-
tos religiosos, vazados nos já citados Estatutos de giosas libertam-se da tutela do Estado. Assinada a
1772 ou nas suas fontes. Como é sabido, a influência Concordata entre Portugal e a Santa Sé (1940), res-
do regalismo passa do Antigo Regime para o libera- quício regalista subsiste, por exemplo, no parecer
lismo e não se erodiu com D. Miguel. Com o vintis- ministerial que antecede a nomeação dos bispos dio-
mo, ensina Zília de Castro, o regalismo distingue-se cesanos, na protecção aos ministros da religião e aos
pela «intervenção do poder laico do Estado na vida hábitos religiosos, equiparando essa protecção à dos
da Igreja», agora considerada «ela mesma como ins- funcionários públicos. O mesmo espírito perpassa no
tituição laica, e os seus membros como cidadãos» Acordo Missionário em disposições legais relativas
98
REGISTOS PAROQUIAIS

às instituições católicas do ultramar. Por outro lado, tismo, a primeira comunhão, a ordenação sacerdotal,
a Lei da Liberdade Religiosa (1971), ao considerar ou mesmo a morte. Deste modo, o registo vê-se un-
ilícitas estruturas cultuais de confissões não reconhe- gido com a faculdade da memória, que alimenta em
cidas legalmente, traduz, afinal, a ingerência do cada dia a presença do protector, que recorda com
mesmo Estado em matéria de liberdade dos movi- particular propriedade uma experiência de salvação
mentos religiosos em causa. Sem embargo, com a vivida e sobretudo se constitui esperança certa no fu-
Concordata, a Igreja Católica cobra independência, turo. Para a história da arte, como para a do fenóme-
livra-se de mordaças regalistas de outrora, o mesmo no religioso, ficam abertos inúmeros caminhos que
acontecendo sob a Lei da Liberdade Religiosa (1971). importaria percorrer. Por um lado, verificar o acolhi-
Se a plena liberdade, face ao Estado, em matéria de mento que as diversas devoções têm na comunidade
religião, está consagrada na Constituição actual humana que lhes prolonga a vigência. Mas também
(1976), na sua vigência ficaram por raspar laivos de perseguir, através desta peculiar memória, a irradia-
benefícios sacros, prerrogativas estaduais de índole ção taumatúrgica; aferir legibilidades, nas mensagens
regalista. A Igreja Católica, por sua vez, vinca que o propostas; como detectar processos artísticos, autorias
Estado continua a utilizar património outrora seu, de modelos, linhas de inspiração para as opções pro-
que o país é predominantemente católico na crença e duzidas, trabalho que Ernesto Soares de alguma for-
na prática o catolicismo predomina e mostra-se aber- ma inaugurou, mas sem que fosse continuado. O fe-
ta a aggiornamentos concordatários, a negociações nómeno, ao contrário do que possa pensar-se, está
com o Estado. vivo e permanece em muitas comunidades como ele-
LUÍS DE OLIVEIRA RAMOS mento congregador de expressão da fé vivida num
quotidiano de longe a longe rasgado de romaria.
BIBLIOGRAFIA: ALMEIDA, Fortunato de - História da Igreja em Portugal. JOÃO SOALHEIRO
Barcelos, 1970-1971, vol. 3-4. AZEVEDO, Luis Gonzaga de - O regalis-
mo em Portugal e sua evolução até ao tempo do P. Francisco Suárez. BIBLIOGRAFIA: AZEVEDO, Carlos A. Moreira - Algumas reflexões sobre a
Brotéria. 24 (1937) 292-303, 481-498. CASTRO, Zília Osório de - O re- iconografia religiosa popular. Estudos Contemporâneos. Porto. 6 (1984)
galismo em Portugal da Restauração ao vintismo. O Estudo da Histó- 85-96. FERREIRA, João Albino Pinto - A figuração de Nossa Senhora em
ria: Boletim A. P. H. 2:1 (1990-1993) 139-155. LEITE, António - Rega- alguns registos portugueses. In A VIRGEM e Portugal. Porto: Ed. Ouro,
lismo. In VERBO Enciclopédia luso-brasileira de cultura. [S.d.], vol. 20, 1967, vol. 2, p. 965-1002. SOARES, Ernesto - História da gravura artís-
p. 68-70. SANTOS, Cândido dos - António Pereira de Figueiredo, Pom- tica em Portugal: os artistas e as suas obras. 2. ed. Lisboa: Samcarlos,
bal e a Aufklärung. O Marquês de Pombal e o seu tempo: Revista de a

1971. 2 vol. IDEM - Inventário da colecção de Registos de Santos. Lis-


História das Ideias. (1982) 167-203. boa: Biblioteca Nacional, 1955. VIGOR da Imaculada: visões de arte e
piedade. Porto: Paróquia Senhora da Conceição, 1998. Catálogo da ex-
REGISTO DE SANTOS. A avaliar pela atenção que a posição.
história da arte ou a história religiosa, por exemplo,
têm dado ao tema dos registos de santos, quase se REGISTOS PAROQUIAIS. Quando nos referimos a re-
pode dizer que não haveria lugar a facultar-lhe entra- gistos paroquiais referimo-nos geralmente a registos de
da específica numa obra desta natureza. Com efeito, baptizados, casamentos e óbitos elaborados pelos pá-
tirante um ou outro título que condensa trabalho de rocos em livros próprios, na sequência de cerimónias
inventário, o assunto não tem merecido a devida religiosas relacionadas com os actos em causa. No
atenção, o que se traduz, enfim, em sumaríssima bi- entanto, são também registos das paróquias os róis
bliografia específica. Tal situação, no entanto, não fi- de confessados, os livros de disposições testamentá-
ca a dever-se a qualquer falta de material, na verda- rias, de capelas e sepulturas, de alfaias religiosas,
de abundante e variado. O domínio próprio a que os além dos livros de usos e costumes, listas de confir-
registos de santos se reportam é o da religiosidade mados e outros. Centraremos aqui a nossa atenção
popular*, que, neste ponto, assume, bastas vezes, o nos registos de baptizados, casamentos e óbitos. Re-
colorido da etnografia religiosa*. Assim sucede com monta ao Concílio de Trento, sessão de 11 de No-
os registos em azulejo* que povoam, ainda hoje, vembro de 1563, a obrigatoriedade no mundo católi-
num gosto que vem de longe, as fachadas de mora- co de registar em cada paróquia, em livro próprio, os
dias e outros edifícios. Todavia, o maior número de baptismos e casamentos. Em 1614, o papa Paulo V
espécimes diz respeito às estampas, de que remanes- viria a estabelecer a obrigatoriedade de registar os
ce um número ainda muito significativo, seja em óbitos. No entanto, décadas antes, já em muitas dio-
gravura, aberta na madeira ou em metal, seja em li- ceses portuguesas se procedia aos três tipos de regis-
tografias, seja em produtos mecânicos a que as di- tos. Por publicações da Secretaria de Estado da Cul-
versas modalidades de impressão têm dado corpo até tura e Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, datadas
aos dias de hoje. A pragmática deste tipo de objectos de 1993 e 1994, conhecemos hoje o Inventário Co-
de piedade popular é variada, cabendo aqui referir, lectivo dos Registos Paroquiais portugueses (à ex-
de modo particular, a irradiação taumatúrgica dos cepção dos das Regiões Autónomas da Madeira e
santos cultuados com particular devoção em santuá- dos Açores), identificados em arquivos públicos
rios* próprios, a que confluem multidões de peregri- e eclesiásticos. Os inventariados não são todos os re-
nos. De regresso ao quotidiano, fazem-se acompa- gistos de baptismos, casamentos e óbitos que sobre-
nhar da imagem do protector, plasmada numa tira de viveram às vicissitudes dos tempos. Alguns exem-
papel. Tal irradiação ganha peculiar sentido comuni- plares o investigador vai descobrindo, um pouco por
tário justamente na partilha familiar, ao ser disponi- acaso, nas mais diversas circunstâncias, tornando-se
bilizada aos que são mais próximos uma experiência urgente uma pesquisa sistemática para obviar a per-
pessoal prolongada também nos sinais evocadores. das irreparáveis. Acreditando no Inventário podería-
Mas também se destina o registo à comemoração de mos afirmar que o exemplar mais antigo que se con-
um particular evento vital: sirva de exemplo o bap- servou em arquivos públicos é um livro da paróquia de
99
REGISTOS PAROQUIAIS

São Tiago, da freguesia de São Bartolomeu de Coim- que em Bragança, o distrito mais desfavorecido, ape-
bra, que inicia o registo dos baptismos em 1510, com nas em 5 % das paróquias as séries se iniciam antes
desfasamento de cerca de um século em relação aos de 1650 e se prolongam em continuidade para além
dois outros tipos de registos. Não é referida no In- do Antigo Regime. Verificamos assim que o Porto
ventário a freguesia de Santa Eufêmia de Penela, não é só o distrito que dispõe de maior número de
também do distrito de Coimbra, em que detectámos paróquias com registos anteriores a 1650, mas tam-
alguns assentos de baptismo do ano de 1459 e se- bém é o distrito em que as séries se encontram em
guintes, embora sem continuidade até meados de melhor estado de conservação. Observando um pou-
Quinhentos (nenhum registo de casamento do sécu- co melhor a situação do Porto verificamos que, ao
lo xiv, na sequência da lei de D. Afonso IV, datada entrar a última década do século xvi, pelo menos
de 7 de Dezembro de 1352, parece ter sobrevivido). 54 % das paróquias registariam os seus actos vitais
Os dois outros exemplares inventariados da segunda em plena normalidade, com a maior incidência de
década do século xvi pertencem ambos ao distrito de surgimento dc registos entre 1580 e 1590 (41 % dos
Braga - na freguesia de Cavez, do concelho de Ca- casos). Tanto em Coimbra como em Braga, para se
beceiras de Basto, os casamentos iniciam-se em encontrarem cobertas mais de 50 % das paróquias
1515 e em São Vicente de Penso, do concelho de teremos de esperar pelo fim da primeira década do
Braga, encontramos registos de óbitos de 1518. Pa- século seguinte. Em Aveiro e Viana do Castelo só se
rece ter sido na década de 1530 que se introduziu de atinge uma situação semelhante passada a década de
uma forma mais sustentada a norma de registar os 1610, embora tenha de admitir-se, nestes últimos ca-
movimentos vitais nas nossas comunidades paro- sos, a possibilidade de maior frequência de desapa-
quiais, movimento a que não devem ser alheias as recimento de exemplares mais antigos. Só em 1859
constituições diocesanas que se sucedem em várias foi decretado pelo poder civil um formulário nacio-
dioceses a partir dessa década. De facto, já em 1536, nal a ser usado em todas as paróquias. Embora em
nas constituições diocesanas de Lisboa, aparece de- 1878 fosse regulamentado o procedimento a obser-
terminado que em cada igreja paroquial houvesse var para os não católicos, só em 1911 a Igreja deixou
um livro, no qual se lançasse, numa parte, o registo de ter o exclusivo da quase totalidade da população
dos baptismos, com indicação do nome do pároco portuguesa, quando se cumpriu a obrigatoriedade de
baptizante, dia, mês e ano, e nome do baptizado e do registo civil para todos os cidadãos. Em 1915, por
pai e mãe deste, se fossem havidos por marido e mu- decreto-lei, determinou-se que os livros de registos
lher, e os nomes dos padrinhos e madrinhas; e, nou- paroquiais com mais de cem anos fossem transferi-
tra parte do mesmo livro, o registo dos óbitos, com dos para os Arquivos Nacionais. No entanto, nem to-
indicação de dia, mês e ano e nomes dos testamen- dos os distritos dispunham de arquivo compatível.
teiros (tit. i, const. vii). Não há referência a registo de Assim, a Torre do Tombo e os arquivos diocesanos
matrimónio. Das paróquias referidas no Inventário recolheram espécimes de zonas mais desfavorecidas.
como detentoras de registos paroquiais caídos em Alguns outros exemplares de recolha obrigatória en-
domínio público, 71 % dispõem de registos anterio- contram-se ainda dispersos pelos cartórios paro-
res a 1650. No entanto, a desigualdade entre os dis- quiais ou em outros arquivos públicos ou privados.
tritos é muito grande. Enquanto o distrito do Porto, o Embora os genealogistas conheçam há longo tempo
caso mais favorecido, conta 90 % das suas paróquias o interesse dos registos paroquiais, foi um demógra-
com registos anteriores àquela data, Vila Real, o ca- fo de profissão, Louis Henry, que, em 1956, conjun-
so mais desfavorecido, só atinge 35 %. O distrito de tamente com o arquivista Michel Fleury, descobriu o
Santarém aparece depois, com 48 %. Acima dos seu grande valor científico, dando corpo a um ma-
75 %, além do Porto, encontramos Aveiro, Braga, nual, Des registres paroissiaux à l'Histoire de la Po-
Coimbra e Viana do Castelo. Os restantes distritos pulation. Manuel de dépouillement et d'exploitation
posicionam-se entre os 50 % e os 75 %. Para a dis- de l'état civil ancien, considerado como a certidão
paridade encontrada a maior responsabilidade advém de nascimento de uma nova disciplina científica - a
certamente das diferenças de comportamento dos demografia histórica. Tinha sido descoberto um
agentes históricos em relação à preservação dos re- método eficaz de organização dos registos de bapti-
gistos. Para o investigador actual interessará não tan- zados, casamentos e óbitos, para reconstituição de
to a marcada antiguidade dos registos de baptismo, famílias e consequente estudo da fecundidade legíti-
casamentos ou óbitos, mas principalmente a conser- ma. Menos consequente em termos da análise de fe-
vação das três séries em continuidade e em paralelo, nómenos como a nupcialidade, mortalidade e, muito
situação bem mais problemática no caso dos registos menos, do fenómeno da mobilidade, tal método foi
portugueses. Analisando o Inventário sob essa pers- praticado em toda a Europa e mesmo fora dela e
pectiva, verificamos que só 30 % dos registos inicia- veio trazer nova luz à visão que se tinha da demo-
dos antes de 1650 apresentam séries não lacunares grafia do Antigo Regime e permitir uma melhor
ou com lacunas pouco significativas (hiatos de me- compreensão de problemas demográficos do mundo
nos de dez anos). Os distritos que conservam melhor contemporâneo. Se hoje se admite que foi através da
os seus registos paroquiais são os distritos do Porto, demografia histórica que a demografia ganhou um
com 73 % de registos anteriores a 1650 em séries novo espaço temporal e uma nova capacidade de de-
contínuas ou com pequenas lacunas, e de Coimbra, senvolver baseadas análises longitudinais, isso não
com 57 %. Braga e Viana do Castelo são os distritos se deve somente aos estudos agregativos de sucesso,
que se posicionam logo a seguir, com 46 % das suas como o que E. A. Wrigley e R. S. Schofield desen-
freguesias com registos não lacunares. Reparemos volveram para a população inglesa (1981), mas prin-
ioo
RELIGIÃO

te passo metodológico de passar da «reconstituição de


famílias» para a «reconstituição de paróquias». As
bases de dados, organizadas pelo cruzamento da in-
formação dos registos de baptizados, casamentos e
óbitos, com ficheiros de famílias e ficheiros biográ-
ficos em encadeamento genealógico, vieram relançar
a análise demográfica, particularmente nos campos
da nupcialidade, mortalidade e mobilidade, mas as
suas potencialidades não se esgotam na demografia
histórica. A possibilidade de cruzamento de outras
fontes nominativas sobre os ficheiros biográficos
abre perspectivas de uma nova história social. Hoje a
reconstituição de paróquias deve ser encarada como
uma tarefa de valorização de património que pode
estender-se de forma sistemática a todo o país, bene-
ficiando a investigação não só em demografia ou em
história, mas também em outros domínios como a
antropologia, a sociologia ou a medicina, e satisfa-
zendo o natural interesse do homem comum em co-
nhecer as suas raízes.
NORBERTA AMORIM

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Nova ed. Barcelos: Companhia Editora do Minho, 1967 e 1968, vol. 1
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FIELD, R . - The Population History of England. 1541-1871 : A recons-
trution. Cambridge, 1981.

REIS. V. ETNOGRAFIA RELIGIOSA; RELIGIOSIDADE POPU-


LAR.

RELIGIÃO. Palavra de origem latina que acumulou


várias inflexões de sentido ao longo dos tempos.
E raro encontrar noutras tradições linguísticas um
Página do Livro dos Baptizados da Freguesia da só termo equivalente. No grego são várias as ex-
Cathedral de Bragança, anno de 1799. pressões que a traduzem: ta peri ton theon, crença
religiosa, tou Xristou matemata, religião cristã, eu-
cipalmente aos pacientes estudos baseados na identi- sebeia, piedade, monachike diaita, vida religiosa.
ficação nominal. Em Portugal, Virgínia Rau trouxe 1. Significados. 1.1.: Na Antiguidade Clássica, o sig-
para a Faculdade de Letras da Universidade de Lis- nificado de religio era relativamente restrito. Evo-
boa, ainda nos anos 50, o interesse pelos registos pa- cando a imolação de Ifigênia, em Aulis, às mãos de
roquiais, expresso logo em 1959 com a publicação, Agamemon, seu pai, o poeta latino Lucrécio comen-
da autoria de Maria de Lourdes Akola Neto, de ta: Tantum religio potuit suadere malorum («Quan-
A Freguesia de Santa Catarina de Lisboa no 1." tos males pôde a religião promover!» - De rerum
quartel do século xvui, pelo Centro de Estudos De- natura, 1.101, 183). Os videntes haviam feito saber
mográficos do Instituto Nacional de Estatística. Nos aos Gregos que os deuses condicionavam o envio de
anos posteriores, proliferaram nas universidades de ventos favoráveis a esse sacrifício terrível, e a pres-
Lisboa, Coimbra e depois no Porto monografias na são dos compatriotas levara a melhor sobre o horror
mesma linha, para períodos de observação curtos, paterno. Religio representava assim o cumprimento
sem possibilidade de chegar à reconstituição de fa- escrupuloso, quase supersticioso, das exigências dos
mílias. Iniciando-se no início da década de 70 os tra- deuses. Quando, nos primeiros séculos, os cristãos
balhos de «reconstituição de famílias» para o Antigo se referem à romana religio, é neste sentido, com o
Regime em Portugal, com uma monografia sobre a intuito de contrastar o culto associado ao Estado ro-
paróquia trasmontana de Rebordãos, só nos anos 90, mano com o verdadeiro culto prestado pela comuni-
com uma monografia sobre três paróquias do Sul do dade dos baptizados: «Rogo-vos, irmãos,... que ofe-
Pico, se dá, com o auxílio da informática, o importan- reçais os vossos corpos como sacrifício (thusían)

IOI
RELIGIÃO

vivo, santo e agradável a Deus, o vosso culto razoá- periores à pessoa que, segundo se crê, dirigem e
vel (logikén latreían); e não vos conformeis com o controlam o percurso da Natureza e da vida humana.
tempo presente» (Rom 12,1); «O culto (threskeía) Assim definida, a religião comporta dois elementos,
puro e sem mácula... é visitar os órfãos e as viúvas um teórico e um prático: acreditar na existência des-
nas tribulações e conservar-se isento da corrupção ses poderes superiores, e procurar agir de forma a
deste mundo» (Tiago 1,27). E provavelmente neste propiciá-los. [...] a crença vem claramente primeiro,
sentido que a tradição protestante se auto-intitulou uma vez que é necessário acreditar na existência de
de «religião reformada». 1.2.: Na opinião de Cícero, um ser divino antes de empreender o esforço de al-
preferida por muitos linguistas, a palavra religio de- cançar o seu agrado. Contudo, se à crença não cor-
riva do verbo relegere, relegi, relectum - recolher, responde uma actuação prática, não se trata de uma
ter de novo em conjunto, compreender, revisitar, per- religião mas somente de uma teologia.» 1.3.: Com o
correr de novo, reler -, mais precisamente do particí- tempo, a cristandade ocidental acrescentou uma in-
pio religens, -entis: Qui autem omnia quae ad cul- flexão semântica à palavra. Em certos contextos ela
tum deorum pertinerent diligenter retractarent, et passou a significar também uma vida separada do
tamquam relegerent, sunt dicti religiosi a relegendo, mundo profano, uma existência interior e exterior-
ut elegantes ex eligendo... («Daqueles, portanto, que mente consagrada ao cumprimento dos chamados
retomam com diligência todas as coisas que dizem «conselhos evangélicos» (pobreza, obediência e cas-
respeito ao culto dos deuses, e assim as relegerent, tidade): a chamada «vida religiosa». E nesse sentido
se diz que são religiosos, a partir da palavra relegen- que a lemos, por exemplo, na seguinte expressão do
do [o que deve ser recolhido, relido, revisitado], tal padre português do século xvii, Manuel Godinho:
como elegantes deriva de eligendo [o que deve ser «De gentios baneanes vi em Surate um arremedo das
eleito ou escolhido]...» - De natura deorum, II, 28, nossas religiões [= ordens religiosas]... vivem em
72). De acordo com esta hipótese, religio é o oposto forma de comunidade tão pobremente, que não há
de negligio (etim. nec-legere), negligencio, desvalo- regra em S. Francisco que se lhe iguale» (cap. 6).
rizo. «Religião» denotaria, portanto, nesta perspecti- 1.4.: O significado amplo de «religião», entendida
va, uma prática de piedade semelhante ao «temor de como «sistema unificado de crenças e práticas que
Deus» da tradição bíblica; uma observância cons- dizem respeito às realidades sagradas» (Emile Dur-
cienciosa do dever imposto por um poder ou autori- kheim), encontramo-lo hoje presente em expressões
dade superiores. O significado emerge ainda por ve- como «História das Religiões», ou «a religião é o
zes na linguagem teológica da Igreja Católica, ópio do povo», mas parece só ter emergido nas lín-
quando apela ao «religioso respeito» e ao «assenti- guas modernas na sequência da expansão missioná-
mento religioso da vontade e da inteligência» devi- ria do Ocidente e o embate, pela primeira vez em
dos ao magistério episcopal (Vaticano II, Lúmen muitos séculos, com sistemas religiosos totalmente
gentium, 25). A origem etimológica proposta pelo distintos da tradição monoteísta de raiz abraâmica.
cristão Lactâncio (c. 260-340 d. C.) é diferente. Se- O mesmo padre Manuel Godinho, no relato da sua
gundo ele, a palavra deriva do verbo religare (ligar, viagem pela Arábia e pela Síria, em 1663, anota a
conjugar, cf. Inst. 4, 28, 2), e esta parece ser também certa altura: «A religião que geralmente se professa
a hipótese preferida por Santo Agostinho («culto que por toda a Pérsia é a maometana, ainda que... grande
em grego se diz threskeía e em latim religio, mas a número de persianos... se conservam em sua antiga
[religio] que é de nós para com Deus» e não, segun- crença» (cap. 13). 2. Função: A relevância social e
do o uso comum da palavra nessa altura, cultivar os psicológica do fenómeno religioso, a sua aparente
laços sociais - De Civitate Dei, X.l). O acento recai universalidade, o dinamismo que imprime ao desen-
no laço restabelecido entre o crente e Deus, de quem volvimento das comunidades e às opções colectivas
se terá afastado por negligência, pecado ou imersão dos povos, mas também o poder desgregador e vio-
no profano. A diferença é subtil, mas não deixa de lento que por vezes revela, fizeram dele objecto de
ser relevante. A hipótese avançada por Cícero subli- estudo para áreas do pensamento tão diversas como
nha o estado de espírito de quem age diligenter, ou a história, a psicologia, a antropologia cultural, a et-
seja, a vontade e até mesmo o escrúpulo testemunha- nologia, a sociologia, a ciência política e a filosofia.
dos pelo cidadão em corresponder ao que dele é exi- Uma das primeiras dificuldades com que o investi-
gido pelos costumes que regulam a relação com os gador se depara é a de definir o objecto da sua pes-
deuses e com o sagrado. Por sua vez, a hipótese de quisa. Frazer afirmava não haver «outra questão no
Lactâncio e de Santo Agostinho realça a prática, in- mundo sobre a qual tanto se dividem as opiniões co-
terior e exterior, que re-liga o crente à divindade, as- mo sobre a natureza da religião». Todo o crente ten-
sim como a comunhão que daí resulta. A verosimi- de a definir a religião por referência à sua, e o não
lhança de ambas as etimologias resulta menos de crente, por referência à que rejeita. 2.1.: Na segunda
provas documentais do que da circunstância de uma metade do século xix, sob a influência de Darwin e
e outra destacarem aspectos universalmente reconhe- de T. H. Huxley, a religião é vista por muitos como
cidos como fazendo parte do que hoje apelidamos de fase de passagem na evolução da consciência huma-
fenómeno religioso. No fundo, os mesmos que Ja- na. Para Frazer, ela enquadra-se numa sequência as-
mes Frazer (1854-1941) elege, no início do seu mo- censional que começa na magia e culmina na ciên-
numental The Golden Bough. A Study in Magic and cia. Sigmund Freud (1856-1938), incorrendo na
Religion (13 vol., 1890-1937), como aspectos essen- falácia genética de que a natureza de algo se deter-
ciais da sua definição do religioso: «Por religião en- mina pela sua origem histórica, apresenta um mito
tendo a propiciação ou conciliação dos poderes su- etiológico para explicar como os rituais religiosos
02
RELIGIÃO

apaziguam os remorsos de um crime edipiano colec- desgarrados ou redutores, se não houver um consen-
tivo praticado em tempos primordiais. Para Émile so mínimo sobre os contornos do fenómeno. Neste
Durkheim (1858-1917), a progressão da humanidade sentido, parece objectivamente mais eficaz o senti-
pelas fases do animismo, politeísmo e monoteísmo do aberto da proposta hermenêutica de Pritchard do
resulta do princípio totémico, segundo o qual as di- que o ensejo de encontrar regras ou estruturas cons-
vindades são uma criação humana que espelha eta- tantes atrás da variedade própria das religiões, co-
pas sucessivas da vida em sociedade. O sentido do mo pretende Mircea Eliade (1907-1986). Mais do
sobrenatural, do transcendente, do maravilhoso pre- que elaborar modelos teóricos a que todas as reli-
sente nas religiões era, para estes estudiosos, uma giões possam ser reduzidas, mais do que procurar
ilusão de óptica, mas desempenhava uma função im- uma religião universal, paradigmática, arquetípica,
portante, se bem que provisória, no estabelecimento importa estudar de forma aprofundada cada uma das
das sociedades humanas. 2.2.: O choque da I Guerra religiões existentes, acolher como riqueza a sua in-
Mundial pôs em causa a perspectiva evolucionista. contornável diversidade dos seus conteúdos e per-
Afinal, nem toda a mudança social e cultural repre- cursos históricos, delineando as áreas de confronto,
sentava um progresso. Entretanto, a administração os pontos de convergência e as formas de colabora-
indirecta das colónias adoptada por alguns governos ção possível. 3.1.: A partida, muitos encaram o fenó-
e a necessidade, daí decorrente, de garantir um co- meno religioso como conjunto de crenças, práticas e
nhecimento apurado dos sistemas sociais que nelas instituições que têm por referência fundamental a
vigoravam, estimulou o aparecimento de uma antro- noção de Deus. Mas precisamente aí surge uma pri-
pologia cultural e valorizou a perspectiva funciona- meira dificuldade. Como classificar então o budismo
lista. Para Bronislaw Malinowski (1884-1942) e ou o confucionismo, que desempenham as funções
A. R. Radcliffe-Brown (1881-1955), por exemplo, sociais, psicológicas e espirituais de uma religião
as práticas mágicas e os rituais religiosos aliviavam mas não se pronunciam sobre a existência de uma
tensões e revigoravam simbolicamente valores es- divindade suprema ou um princípio criador do uni-
senciais à coesão social. 2.3.: Nas sociedades plurais verso; e que dizer das religiões africanas em que o
do final do século xx torna-se menos evidente o con- Deus supremo «ocupa um segundo plano nas ideias
tributo de cada comunidade religiosa para essa coe- religiosas, intervindo pouco ou nada no governo do
são social. A atenção desloca-se então para uma mundo» (P. Carlos ESTERMAN - Etnografia do Su-
abordagem hermenêutica. E o significado das cren- doeste de Angola. Lisboa, 1956, vol. 1, p. 311).
ças e dos símbolos religiosos que interessam. E. E. O próprio conceito de Deus não é imediatamente
Evans-Pritchard (1902-1973) defende que a religião transponível de uma tradição religiosa para outra: os
tem um estatuto próprio e não pode ser reduzida às deuses do hinduísmo não têm o estatuto metafísico
questões sociais e políticas. Trata-se de um sistema do Deus bíblico; a atitude interior proposta pelo bu-
humano sui generis que não deve ser reduzido à rigi- dismo difere significativamente do agnosticismo ou
dez de um sistema natural regido por leis inflexíveis. ateísmos ocidentais. Para tornear a dificuldade, em
A lógica de cada religião é diferente, e a ela acede- finais do século xvin Friedrich Schleiermacher des-
mos só pelo conhecimento e interpretação das ideias, locou a reflexão para a centrar na experiência do
metáforas e gestos mais significativos (ritos e sacri- crente, que equacionou em termos de um sentimento
fícios) que lhe são próprios. A religião expressa algo de dependência e união radicais: «No meio da fínitu-
que é sentido como verdadeiro pelo indivíduo e pelo de, ser um com o Infinito e em cada momento ser
grupo, mas que não é objectivável em termos pura- eterno é a imortalidade da religião.» Esta referência
mente racionais. Para Pritchard, não a coesão social a um sentimento específico, sempre difícil de cir-
em si que está em causa, mas a natureza ou quali- cunscrever em termos objectivos, revelou-se de pou-
dade dessa coesão. A que nível de experiência pro- ca utilidade para historiadores, sociólogos e antropó-
curam os crentes estabelecer a sua solidariedade ou logos, que preferiram a noção de sagrado associada
comunhão? Que sentido procuram na religião para a àqueles lugares, objectos, ritos e indivíduos segrega-
sua existência pessoal e colectiva? Nesta linha, con- dos do profano, em tomo dos quais se processa a vi-
tam-se os trabalhos de Albert North Whitehead, vência religiosa da comunidade. No início do sécu-
Ernst Cassirer, P. A. Sorokin, Godfrey Lienhardt e lo xx, o teólogo Rudolf Otto propôs-se demonstrar
Clifford Geertz. 2.4.: Num movimento de aparente como essa era a noção-chave de toda a experiência
retrocesso, alguns adeptos da sociobiologia procura- religiosa: a ponte entre as práticas religiosas e a sua
ram radicar o fenómeno religioso numa propensão vivência subjectiva. Numa análise kantiana, entre-
genética da espécie humana para gerar um sistema viu na noção de «santo» ou «sagrado» a «categoria
defensivo de ordem simbólica: um sistema que reco- a priori» que se manifesta nas experiências do nu-
lhe e transmite o património de valores, sentidos e minoso e do mysterium tremendum (Das Heilige,
experiências essenciais de um grupo, e que se veio 1917). Mas o religioso não se restringe aos lugares,
a revelar, por isso, uma mais-valia para a sobrevi- objectos e pessoas considerados santos ou sagrados,
vência da espécie (cf. J . W . BOWKER - Is God a Ví- e que por isso a comunidade separou. Pelo contrário,
rus? Genes, Culture and Religion. London, 1995). a delimitação reflecte a ambivalência desta catego-
3. O lugar da religião: Enquanto perdura o debate ria. O sagrado irrompe no quotidiano do crente como
sobre a sua natureza e função do religioso, prossegue bênção mas também como poder imprevisível, evo-
a recolha de dados e elaboram-se leis para o enqua- cando por isso sentimentos de temor e de fascínio.
drar - nomeadamente, as leis de liberdade religiosa. Ameaça dissolver distâncias e diferenças numa sin-
São esforços que se arriscam, no entanto, a pecar por gularidade primordial («o homem não pode contem-
103
RELIGIÃO

plar-me e continuar a viver», Ex 33,20). 3.2.: Na


perspectiva das grandes religiões não há dimensão
da existência humana que seja estranha à vivência da
sua tradição de valores espirituais, das suas crenças
ou da sua fé. A chamada «secularização»* das socie-
dades ocidentais introduz aqui uma tensão com as
comunidades religiosas. A constatação deste dina-
mismo abrangente, próprio das religiões, levou Ni-
nian Smart a propor, no final dos anos 60, uma gre-
lha de análise que evitasse o afunilamento da
religião para áreas circunscritas da vida individual e
colectiva, falseando a sua realidade histórica, psico-
lógica e social. Para analisar com objectividade o fe-
nómeno religioso, este devia, estudado em pelo me-
nos seis dimensões complementares: a ritual, a do
mito ou narrativa, a doutrinal, a ética ou moral, a so-
cial e a mística ou existencial (The Religious Expe-
rience of Mankind. New York, 1969). A dimensão
ritual envolve gestos, celebrações, festas, tempos e
espaços sagrados, a ela pertencem realidades tão dís-
pares como as gravuras rupestres, antas, dólmenes e
círculos de pedras da nossa antiguidade até às igre-
jas, santuários e celebrações colectivas e individuais
dos nossos dias. E sobretudo aqui que se inserem os
índices sociológicos de praticante e não praticante,
hoje utilizados na avaliação do catolicismo. A di-
mensão do mito ou narrativa abarca as múltiplas
formas pelas quais uma comunidade transmite o sen-
tido profundo dos seus gestos: desde os mitos pro-
priamente ditos às narrativas dos evangelhos na tra- Cordão, dois pendentes com cruz e pendente-coração,
dição cristã. Nesta área de pesquisa, há que avaliar a século xvin (Museu de Évora).
repercussão na literatura dita profana das crenças da
comunidade e a influência dos autores profanos na dade, ao casamento e à morte. São momentos em
linguagem e imaginação do crente. A dimensão dou- que os chamados não praticantes se integram numa
trinal, como o nome indica, representa a reflexão identidade de família ou de grupo de longa duração.
crítica - no caso da tradição cristã, a teologia -, que Por fim, a dimensão da experiência (mística ou exis-
se revela tanto mais vigoroso e revigorante quanto se tencial): sem esta dimensão o rito torna-se ritualis-
mantém em diálogo permanente com as demais di- mo, a narrativa não passa de literatura, a doutrina
mensões do religioso e com a cultura circundante. não passa de especulação, a moral reduz-se a um
A dimensão ética ou moral lembra que o agir do moralismo, a dimensão social da religião fica pela
crente não se esgota na vida ritual mas atinge todos estrutura formal ou por vestígios no calendário sem
os momentos da sua vida quotidiana. Trata-se de va- relevância para o cidadão comum. É a este nível que
lores de referência, e não necessariamente os valores se avalia o esforço de cada tradição religiosa por
implícitos na prática concreta dos crentes. Por outro transmitir a sua «espiritualidade» própria. 4. Estudo
lado, as religiões são depositárias de princípios e de do fenómeno em Portugal: Excepção feita dos cam-
valores que fazem parte directamente do seu patri- pos da história da Igreja Católica e da teologia, e de
mónio, mas tendem a recolher também os valores e alguns levantamentos significativos no campo da et-
critérios de acção que se tornam consensuais nas so- nografia (J. Leite de VASCONCELLOS - Religiões da
ciedades em que se encontram implantadas. Há que Lusitânia. Lisboa, 1931; e Etnografia portuguesa.
discernir o que lhes é específico. A dimensão social Lisboa, 1933 ss.), o fenómeno religioso em Portugal
tem em conta que uma religião não se reduz a um só se torna objecto de análise em extensão e profun-
sistema de crenças: é também organização e institui- didade a partir da década de 50. Para tanto contribuí-
ção que, por isso, influem na vida social. Os diver- ram o desenvolvimento das ciências sociais e a cria-
sos ramos das ciências sociais constatam que a reli- ção de instituições de ensino superior vocacionadas
gião desempenha uma função de coesão social e de para o estudo dessa realidade. 4.1.: Em Junho de
conhecimento da realidade. E nesta dimensão que se 1957, são publicadas uma sondagem à prática do-
inserem questões como a relação Igreja-Estado e as minical no Patriarcado de Lisboa (revista Lúmen) e
tensões geradas por uma dupla autoridade na vida uma análise da prática religiosa em Setúbal (A. Ca-
dos crentes. Também aqui pertencem as festas reli- rilho e F. Micael, na revista Novellae Olivarum).
giosas que, para além do seu aspecto estritamente Seguem-se-lhes estudos sobre a situação moral e
ritual, alteram o ritmo de vida de toda uma comuni- religiosa do país (padre Manuel FALCÃO - Actas da
dade. Há que destacar a função social de certas prá- Semana de Estudos Rurais de 1957) e sobre as vo-
ticas rituais, a que se convencionou chamar «ritos cações sacerdotais na diocese de Vila Real (Lúmen,
de passagem», associadas ao nascimento, à puber- Junho, 1958). Ao longo dos anos 60, o Boletim de
104
RELIGIÃO

Informação Pastoral, do Secretariado de Informa- de 2000, Augusto da Silva, baseando-se nos dados
ção Religiosa da Conferência Episcopal Portugue- recolhidos em diversos inquéritos, analisa «A re-
sa, empreende um levantamento sistemático da ligião dos jovens» (Brotéria. 151: 6, 495-510).
geografia religiosa do país. Em 1965, Mário Lages 4.2.: Ao nível institucional, o estudo da realidade
esboça uma tipologia sociológica do cristianismo religiosa do país começou por beneficiar da abertu-
português - revista Ora et Labora. 3 (1965) 200- ra da Faculdade de Teologia da Universidade Cató-
-231. Em 1967, as direcções-gerais da JUC dão a lica, em 1968. Para além do estudo da Teologia, a
conhecer os resultados do I (1953) e II (1964) in- existência desta faculdade fixou investigadores e
quéritos à universidade, conduzidos sob a orienta- conduziu, a prazo, à criação de um Centro de Estu-
ção de A. Sedas Nunes, que permitem caracterizar dos Sociais e Pastorais (com projectos de investiga-
esse grupo social específico, nomeadamente no que ção sobre movimentos e organizações religiosas, a
se refere aos valores, comportamentos e prática re- prática dominical dos católicos, valores e compor-
ligiosa (Situação e opinião dos universitários, Lis- tamentos religiosos), e de um Centro de Estudos de
boa). Alguns anos mais tarde, Delfim Guimarães História Religiosa (revista Lusitania Sacra, e coor-
Fernandes empreende uma pesquisa sociológica na denação dos três volumes da História Religiosa de
paróquia de Santa Isabel, em Lisboa (Fé em contes- Portugal e dos quatro volumes do Dicionário de
tação. Lisboa: Sampedro, 1972). No ano seguinte, História Religiosa de Portugal editados pelo Círcu-
o Instituto Português de Opinião Pública e Estudos lo de Leitores entre 2000-2001). Dos pólos de Lis-
de Mercado dá a conhecer o seu Estudo sobre liber- boa, Porto e Braga da mesma faculdade emergiram,
dade e religião em Portugal (Lisboa: Moraes, nos anos 90, diversos projectos de investigação, te-
1973). No final da década de 70, Fernando Micael ses, congressos e publicações sobre o fenómeno re-
faz uma apreciação sociológica da Igreja em Portu- ligioso na literatura portuguesa. Na Universidade
gal - revista Igreja e Missão. 94 (1978) 393-401 - , Nova de Lisboa foi criado, no ano de 1991, o Insti-
e Augusto da Silva analisa os resultados do primei- tuto de Sociologia e Etnologia das Religiões, inte-
ro recenseamento da prática religiosa dos católicos grado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas,
portugueses, efectuado em 1977, já depois das con- sob a orientação de Moisés Espírito Santo, cujos
vulsões da Revolução de Abril de 1974 - Economia trabalhos - A religião popular portuguesa (1984),
e Sociologia. 25/26 (1979) 61-220; o número da re- Origens orientais da religião popular portuguesa
vista é todo ele dedicado à Igreja em Portugal. No (1988), Origens do cristianismo português precedi-
início dos anos 80, Luís de França publica um estu- do de A deusa síria de Luciano (1993), Os mouros
do sobre Comportamento religioso da população fatimidas e as aparições de Fátima (1995) - , dei-
portuguesa (Lisboa: Moraes, 1981). Três anos mais xando de lado a «História do Cristianismo oficial
tarde, o Patriarcado de Lisboa promove uma sonda- porque o autor não acredita nos métodos com que
gem sociorreligiosa à população da diocese. Quatro se tem feito», procuram «trazer para a mesa "factos
anos depois, Frei Bento Domingues publica A reli- brutos", cultos e textos... único tipo de material que
gião dos Portugueses (Porto, 1988). A Fundação os etnólogos consideram fiável para se conhecer o
Calouste Gulbenkian promove, em 1989, um coló- passado». Arrojado e imaginativo na associação de
quio pluridisciplinar sobre as manifestações do sa- ideias, as teses do investigador nem sempre são fá-
grado nos campos da antropologia, da história, das ceis de convalidar. Em 1997, foi oficializada na
artes e da política (O sagrado e as culturas. Lisboa, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnolo-
1992). O segundo recenseamento da prática domi- gias, em Lisboa, uma licenciatura em Ciências das
nical no país, promovido em 1991, é analisado por Religiões, sob a direcção de Frei Bento Domingues,
Manuel Marinho Antunes - Communio. 11: 2 OP, e do pastor Dimas de Almeida, com a colabo-
(1994) 160-170. José da Silva Lima publica, em ração de Alfredo Teixeira, (v. ANTICLERICALISMO;
1994, a sua tese de doutoramento intitulada Deus, AGNOSTICISMO; ASTROLOGIA; ATEÍSMO; BRUXARIA; BU-
não tenho nada contra (Porto), sobre socialidades e DISMO; ESPIRITUALIDADE; ETNOGRAFIA RELIGIOSA; EX-
eclesialidade no destino do Alto Minho. Em 1995, -VOTO; FESTAS; FILOSOFIA E RELIGIÃO; HETERODOXIA;
Carlos Alberto Martins de Oliveira analisa as Atitu- HINDUÍSMO; ISLAMISMO.)
des e comportamentos religiosos dos Portugueses PETER STILWELL
na actualidade (Évora). Cinco anos depois, o Insti-
tuto de Ciências Sociais dá a conhecer o resultado BIBLIOGRAFIA: 1. Geral. AEBISCHER-CRETTOL, Monique - Vers un oecumé-
de um extenso inquérito, organizado por M. Villa- nisme interreligieux. Paris, 2001. BOWKER, J. - The Oxford Dictionary
verde Cabral, Jorge Vala, José Machado Pais e Ali- of World religions. Oxford, 1997. ELIADE, Mircea - Tratado da história
das religiões. Lisboa, 1977. IDEM, ed. - The Encyclopedia of Religion.
ce Ramos, às Atitudes e práticas religiosas dos New York; London. 1987. 16 vol. RELIGION. In DICTIONNAIRE de Théologie
Portugueses. No mesmo ano, a Universidade Cató- Fondamentale. Dir. R. Latourelle, R. Fisichella. Paris, 1992, p. 1032-
lica publica um volume intitulado A Igreja e a cul- -1134. RELIGION. In New Catholic Encyclopedia. New York; London,
1967, vol. 12, p. 240-273. 2. Portugal. ANTUNES, Manuel L. Marinho -
tura contemporânea em Portugal, que recolhe arti- Notas sobre a organização e os meios de intervenção da Igreja Católica
gos sobre arquitectura, artes plásticas, literatura, em Portugal: 1950-1980. Análise Social. 72-74 (1982) 1141-1164. FON-
música, teatro, museus, arquivos, cinematografia, TES, Paulo - Religião. In DICIONÁRIO de história de Portugal. Porto,
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comunicação social, religiosidade popular, e ainda à dimensão simbólica. In RELIGIOSIDADE popular e educação da fé. Lis-
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GIOUS Movements and the Law in the European Union. Milano: Giuffrè
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dade portuguesa contemporânea». Em Dezembro DO e as Culturas. Lisboa, 1992. VASCONCELOS, José I-eite de - Religiões
da Lusitânia. Lisboa, 1989 [1931],

105
R E L I G I O S A S DO S A G R A D O C O R A Ç Ã O DE MARIA

RELIGIOSAS DO SAGRADO CORAÇÃO DE MARIA. Sagrado Coração de Maria. Em 1853 fundou tam-
«O Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de bém os Padres e Irmãos do Bom Pastor, congregação
Maria nasceu em França no século xix, procurando que existiu por 30 anos. Escreveu muito e, a partir
ser resposta a necessidades reais da cidade de Bé- de 1870, com a expansão do instituto para fora de
ziers» (SAMPAIO - Uma caminhada, p. 13). O seu França, fez várias viagens ao estrangeiro. Foi decla-
aparecimento integra-se no movimento geral das rado Venerável, pela Igreja, a 22 de Junho de 1972.
fundações de comunidades religiosas da época, nu- 2. História: Fundada em Béziers a 24 de Fevereiro
ma tentativa, por parte da Igreja, de solucionar, atra- de 1849 pelo padre Gailhac e M. St. Jean Cure (Ap-
vés de instituições sociais e educativas, as carências pollonie Pélissier Cure) para trabalhar no Refúgio,
existentes no país. Este instituto tem na sua estrutura criado pelo padre Gailhac, a congregação cedo per-
elementos característicos de uma congregação nasci- cebeu a necessidade de se voltar para a educação de
da no meio urbano, no século xix. Nasceu em função raparigas das classes mais abastadas em ordem à
de obras já existentes - o Refúgio e o Orfanato -; or- manutenção de outras obras: a Preservação, para
ganizou-se numa grande casa, que foi única durante raparigas em risco, e o Orfanato. A ausência de en-
20 anos, estruturada com um estilo de vida semi- sino público para mulheres era suprida, então, pelas
conventual; reflectindo a sociedade onde se inseria congregações religiosas, cujo objectivo último era
- ainda muito estratificada - adoptou dois tipos de a formação de elites católicas. Em 1851 surgiram
irmãs: as de coro e as coadjutoras, com trabalhos e as primeiras vocações irlandesas que, de certa for-
hábito diferentes. 1. Fundador: O seu fundador, ma, determinariam o rumo das futuras fundações.
Antoine Pierre Jean Gailhac (1802-1890), nasceu em A guerra franco-prussiana, com a invasão do país
Béziers; tendo frequentado o Seminário de Montpél- pelas tropas prussianas, motivou tentativas desespe-
lier, é ordenado aos 24 anos. Em 1828 renunciou ao radas na procura de novas fundações a fim de eva-
cargo de professor de Filosofia no seminário e optou cuar as irmãs mais velhas e as estrangeiras, na sua
pelo lugar de capelão do Hospital de Béziers, onde maioria irlandesas; as outras voltaram para as famí-
os doentes eram, na sua maioria, idosos, moribun- lias. É nessas condições que a segunda casa das Re-
dos, soldados e prostitutas. Percebendo que muitas ligiosas do Sagrado Coração de Maria é fundada em
prostitutas desejavam uma mudança de vida, Gail- Lisburn (Ulster) em 1870. A fundação seguinte faz-
lac acabou por fundar, em 1834, um refúgio em Bé- -se no Porto em 1871; 1872 em Bootle (Liverpool);
ziers e, logo a seguir, um orfanato para crianças 1877 em Braga; 1877 em Sag Harbor (EUA). É im-
abandonadas. Dificuldades com o pessoal dirigente portante assinalar a ligação directa dessas casas com
do refúgio levam-no a fundar, em 1849, um corpo de a casa-mãe, de que dependiam para qualquer inicia-
religiosas que tivessem os mesmos objectivos e pu- tiva, provocando às vezes atritos com a hierarquia
dessem trabalhar nas suas obras - as Religiosas do local. Em todas essas fundações procurou-se manter

Cruz com a inscrição « U T V I T A M H A B E A N T » (para que tenham vida), das Religiosas do Sagrado Coração de Maria,
gravura de Teresa Pais, 1991.
RELIGIOSIDADE POPULAR

o esquema da easa-mãe: escolas para alunos pagan- Porto e Braga, seguiram-se: Chaves, 1885, fechado
tes e escolas e/ou orfanatos para pobres. A aprova- em 1894; Viseu, 1892, fechado em 1910; Penafiel,
ção da regra das Religiosas do Sagrado Coração de 1904, tendo anexo o noviciado que ali se manteve
Maria deu-se em 1873, quando foi concedido o De- secretamente entre 1910 e 1917 antes de passar para
cretum Landis pela Santa Sé. 3. Presença em Portu- Tuy. Após a República, o colégio do Porto nunca
gal: A vinda da congregação para Portugal deve-se chegou a fechar completamente. Três irmãs perma-
às irmãs Hennessy, irlandesas, das quais duas eram neceram ali, tomando conta de três crianças do Pa-
religiosas do instituto e uma era professora da Aca- tronato, que não tinham para onde ir. Em 1912 tive-
demia Inglesa no Porto. As lutas liberais da primeira ram de deixar o colégio; foram habitar uma pequena
metade do século xix em Portugal impregnaram o casa na Rua de Cedofeita, durante cinco anos. Em
país de forte sentimento anticlerical, que culminou 1917 passaram para a Rua dos Bragas e, finalmente,
com a lei anticongreganista de 1834. O maior pro- em 1926, para a Avenida da Boavista, num palacete
blema com que se depararam as Religiosas do Sa- de família amiga, onde reabriram o colégio, hoje
grado Coração de Maria, ao virem para Portugal, foi com novas instalações. Das religiosas expulsas des-
o anticlericalismo, aliado à hostilidade aos France- tes colégios, muitas encontraram guarida junto de
ses, como consequência das invasões napoleónicas, suas famílias, outras tiveram de ir para comunidades
que era particularmente forte no Porto devido a in- de outros países como França, Inglaterra, Espanha,
fluências maçónicas. O regime liberal preocupou-se Estados Unidos e Brasil, onde fundaram uma pro-
com a educação no país; enquanto o governo procu- víncia. Em 1912 abriu-se um colégio em Tuy com
rava aumentar o número de escolas primárias ofi- mais de 60 alunas internas vindas dos colégios de
ciais e, nas grandes cidades, fundava liceus baseados Portugal. Passada a confusão dos primeiros anos da
no modelo francês, a burguesia comercial, bastante República, reabriram-se os colégios, fundaram-se ou-
numerosa no Norte, com muitos estrangeiros, orga- tros, assim como lares e patronatos: Colégios: 1920 -
nizava também as suas escolas particulares. A partir Espinho; 1921 - Braga; 1926 - Porto; 1927 - Guarda;
de meados do século xix, era comum haver no Porto 1928 - Aveiro; 1932 - Guimarães; 1934 - Penafiel;
muitas escolas para rapazes e meninas, com nomes 1941 - Lisboa; 1955 - Portalegre; 1963 - Covilhã.
como o Colégio Francês, Colégio Alemão, Colégio Lares: 1934 - Lisboa; 1934 - Guarda; 1936 - Coim-
Inglês. Numa dessas escolas era directora Margaret bra; 1944 - Braga; 1953 - Viseu; 1962 - Portalegre;
Hennessy, que a recebera em doação de uma senhora 1966 - Guimarães. Patronatos: 1933 - Lamego; 1936
idosa. Os primeiros contactos entre M. Hennessy e - Évora; 1937 - Braga; 1928 - Guarda; 1934 - Pena-
as Religiosas do Sagrado Coração de Maria são de fiel; 1944 - Guimarães. Depois do Concílio Vatica-
data incerta. Em Agosto de 1871, M. Hennessy es- no II, o instituto diversifica mais a sua forma de pre-
creveu ao bispo do Porto, «expondo-lhe que ela, co- sença no mundo. Antes do concílio, as Religiosas do
mo directora da Academia Inglesa, precisava da aju- Sagrado Coração de Maria, em Portugal, privilegia-
da de algumas senhoras francesas e inglesas para o vam as cidades onde dirigiam colégios e lares. Depois
ensino da religião e de outras disciplinas na sua es- do concílio, em comunidades, distribuem-se por três
cola, e conseguira interessar algumas senhoras de colégios, sete lares e meios rurais. Em alguns centros
um instituto em Béziers, França», sem as mencionar urbanos dedicam-se ainda a obras de carácter social; a
como religiosas (CONNELL - Uma caminhada, p. 81). título individual, trabalham também em escolas ofi-
Dada a concordância do bispo, em Setembro, partiu ciais, quer primárias quer secundárias. Actualmente
de Béziers o primeiro grupo para Portugal. Apesar são 1240 religiosas presentes em: França, Irlanda,
de grandes dificuldades no início, inclusive de or- Grã-Bretanha, Itália, Portugal, Estados Unidos, Bra-
dem material, o colégio foi-se afirmando e, em 1875, sil, México, Moçambique, Zâmbia, Zimbabwe e Ma-
já estava numa casa ampla, no Largo Coronel Pache- li. Em Portugal são 400 religiosas distribuídas por 47
co, tendo ainda como directora M. Hennessy. Nesse comunidades.
ano eram quase 80 alunas (40 internas) e a Acade- MARIA DO PILAR S. A. VIEIRA
mia Inglesa continuava a ter excelente reputação nos
círculos educacionais da cidade. É importante assi- BIBLIOGRAFIA: AUBERT, Roger - Jean Gailhac. in DICTIONNAIRE D'Histoire
nalar o papel de Margaret Hennessy nas fundações et Géographie Ecclésiastiques. 1981, vol. 19, p. 672-673. CARVALHAES,
M. de Chantai - Vidas vivas. Coimbra: RSCM, 1948. CONNELL, Kath-
da congregação em Portugal. Nunca foi membro das leen - Uma caminhada na fé e no tempo: A história das religiosas do
Religiosas do Sagrado Coração de Maria e nem in- Sagrado Coração de Maria: 2: Crescimento do instituto: fundações com
terferiu nos assuntos da comunidade. Com o mesmo aM. Sainte-Croix Vidal 1869-1878. Lisboa: RSCM, 1995. COMISSION DES
SOURCES - Aperçue historique sur le 19e. siècle: Béziers et l'origine des
espírito de zelo das Religiosas do Sagrado Coração oeuvres du P. Gaillac. Roma, 1968. KEENAN, Marjorie - A perseguição
de Maria, quase se pode dizer que as religiosas fo- de 1855. Fontes de vida, doc. 2, Roma, RSCM, 1983. MILLIGAN, Mary -
ram colaborantes nos seus próprios projectos. Esta Para que tenham vida. Coimbra: RSCM, 1982. POR CAMINHOS não anda-
dos: sessenta anos de história 1871-1931. Lisboa: Instituto do Sagrado
fundação em Portugal foi a primeira a fazer face Coração de Maria, 1970. PRIVÂT, Maurice - Sacré Coeur de Marie... no-
a um importante desafio - manter e desenvolver a tre histoire... Béziers, 1970. SAMPAIO, Rosa do Carmo - Uma caminha-
da na fé e no tempo. A história das religiosas do Sagrado Coração de
identidade religiosa, num ambiente secular, sem Maria: 1: Génese do instituto: seu desenvolvimento com a Madre
a protecção de um convento e do hábito como sinais Saint-Jean 1802-1869. Lisboa: RSCM, 1990.
exteriores. A segunda fundação fez-se em Braga, em
1876. Com um ambiente menos hostil chamou-se à
nova casa Academia Inglesa do Sagrado Coração de RELIGIOSIDADE POPULAR. Rica de elementos de
Maria Virgem Imaculada; foi fechada em 1910. An- variada índole, a expressão comporta uma dupla di-
tes de 1910, fundaram-se cinco colégios. Depois do ficuldade: delimitar o âmbito do popular e ainda
mais o âmbito do religioso no popular, donde a difi-
I107
RELIGIOSIDADE POPULAR

culdade de conceptualização de uma realidade tão em sintonia com as suas tradições ancestrais; a so-
complexa. 1. Para uma definição: Tem sido procura- cial, que congrega um povo por ligâmenes políticos
da uma definição mais ou menos completa. O termo e nacionais; a pessoal, que dá ao povo a diversidade
«religiosidade», etimologicamente, denota uma qua- de práticas, com idêntico significado. Não olhando
lidade que encerra em si uma relação com aquilo que de forma positiva para a realidade, apresentam-se
é religioso, abarcando o conjunto de fenómenos de frequentemente definições de índole superficial.
índole religiosa. No âmbito popular, a expressão tra- A tentação comum de olhar a realidade sob o prisma
duz aquilo que de mais profundo, directo e intuitivo distorcido do subjectivismo facilmente conduz a ex-
existe na alma do povo, em relação a Deus e a todo o pressões como a de alienação colectiva, «conjunto
mundo transcendente. O termo popular, sobretudo de elementos espúrios, não homogéneos entre si, in-
até ao final do século passado, tinha uma conotação dubitavelmente resíduos de uma civilização definiti-
pejorativa, significando grosseiro, vulgar. Antes, so- vamente desaparecida», «religião de massas, confun-
bretudo com o iluminismo*, havia significado opri- dindo-as com os simples agregados sociais, ou como
mido, já que «povo» tinha, como ainda hoje sob cer- fenómeno à margem das instituições eclesiásticas,
tas perspectivas (política, social...), uma conotação tomando como base a diferença ritual». Como estas,
de opressão sendo sinónimo de «grupo humano opri- existem outras expressões que se fundamentam, não
mido». «Popular», aplicado a «religiosidade», tem no fenómeno plural, vasto e complexo que é a reli-
um significado preciso, segundo os autores, se bem giosidade popular, mas somente num ou noutro con-
que não despreze por vezes quer a conotação pejora- travalor que tal fenómeno arrasta consigo e que
tiva (mesmo para estudiosos), quer uma conotação adiante se verá. Diferentes autores têm sugerido de-
de «opressão» sobretudo socioantropológica, uma finições que fazem ressaltar uma ou outra coordena-
conotação de miséria, nem tão-pouco despreze a da a não esquecer numa definição descritiva: A «re-
conotação étnico-cultural bem determinada que já ligiosidade popular é a forma como o povo expressa
tinha no século xvni. No contexto presente refere o a sua visão da vida e a sua relação com o sagrado*,
aspecto quantitativo de incidência social: Igreja po- através de uns ritos, uns símbolos e uns comporta-
pular é a Igreja das massas (embora possa haver mentos». Trata-se de um «conjunto de mediações ou
confusão com o sentido depreciativo que a expressão expressões de todo o tipo, mas nas quais um sujeito,
«massas populares» foi adquirindo em Portugal). Por que neste caso é o povo, vive a sua atitude ou a sua
«religiosidade popular» entende-se a «religiosidade relação religiosa». «Ao falar de religiosidade popu-
das massas», da multidão. Assim, além da bipolari- lar entendo não só aquelas expressões que têm ressá-
dade massa-elite, a expressão «religiosidade popu- bio de cristianismo, ou se originam nele, mas tam-
lar» encerra duas outras polaridades que convém bém aquelas crenças e superstições que têm o seu
assinalar, já que ajudarão a compreender certas de- nascimento "normal", em forma mítica, e como ane-
finições a apresentar. São elas: a «tradicional - no- lo ou necessidade do homem de dar explicações às
va (renovada)» e a polaridade «que brota do povo - coisas.» «À luz da história da salvação, a piedade
imposta oficialmente pela instituição eclesial». Es- popular aparece como parte do diálogo entre Deus e
tas duas antinomias revelam indícios que se devem o homem. A atitude espiritual perante Deus nunca se
assinalar: trata-se de uma religiosidade fundamen- exprime de modo perfeito quando se pensa que Deus
talmente tradicional e ao mesmo tempo de algo que é inefável.» «Religiosidade popular seria a Religiosi-
surge do ambiente, vida e aspirações da camada do dade das massas, desse povo anónimo ao qual per-
povo. Eis as interpretações comummente apresenta- tencem pessoas de todas as categorias sociais, sem
das para este fenómeno. A psicológica que aponta a distinção de cultura, raça, posição económica ou so-
origem de tal religiosidade em complexos e frustra- cial. Mais ainda: a pertença a esse povo, mais do que
ções acumuladas. Trata-se de uma interpretação efectivar-se pela catalogação em determinada classe,
fundada nas teorias psicológicas de recalcamento e cifra-se sobretudo numa atitude interior de pobreza e
complexo cuja paternidade pertence a Freud. A eco- simplicidade, de abertura e de escuta, de percepção
nómica, que procura radicar semelhante fenómeno e intuição de Deus e das realidades espirituais. Qual-
em situações de miséria e subdesenvolvimento, pro- quer homem, quando capaz de sair por momentos da
dutos de convulsões e mudanças sociais; a religiosi- esfera da sua competência profissional ou da sua po-
dade aparece como alternativa religiosa na ausência sição social, pode ser povo, seja professor ou aluno,
de reais alternativas políticas. O status quo do indi- patrão ou operário, general ou soldado, sacerdote ou
víduo lança-o na busca de segurança. A antropológi- leigo.» «Conjunto de convicções e práticas religiosas
ca (histórica) que liga este comportamento religioso que grupos étnicos e sociais elaboraram através de
ao antigo paganismo greco-romano que continua a uma adaptação especial do cristianismo a culturas tí-
persistir em ambientes de matriz cristã. Todas as picas...» «A religiosidade popular é como uma gran-
facetas que se reflectem neste conjunto de interpre- de árvore que brota do "modelo oficial" da Igreja-
tações não devem ser negligenciadas no fenómeno. -instituição, não em contraste com esta, mas como
O magistério da Igreja Católica não só aceita estas livre "comportamento", existencialidade vivida, da
facetas mas também pretende expurgar a religiosi- única Fé católica. [...] não é uma categoria em si,
dade de certos erros velhos, restituindo-lhe um ver- nem um fenómeno rígido; é antes "a religião institu-
dadeiro conteúdo. Na definição integram-se várias cional que varia segundo os diferentes ambientes,
dimensões: a psicológica, que pode levar a desvios contextos socioeconómicos, comportamentos e vi-
que ainda hoje estão notoriamente presentes, debi- da". A "religião oficial", misturando-se com eles,
litando a religião*; a histórica, que coloca um povo engendra o fenómeno da "religiosidade popular".»
I108
RELIGIOSIDADE POPULAR

«Catolicismo popular é uma forma de pertença reli- nizado dos factos religiosos. Tratar-se-á de manifes-
giosa inseparável da cultura popular, que consiste tações de classes subalternas? Gramsci, referindo-se
em manifestar publicamente a sua vinculação à Igre- ao caso italiano, pensou que o folclore manifestava
ja, pelo menos no momento dos grandes aconteci- uma certa contracultura identificativa de uma con-
mentos da vida pessoal ou familiar.» «A religião é cepção do mundo e da vida, oposta à das classes cul-
mais que a autobiografia. [...] Os santos contam suas tas. Deixa assim transparecer que se trata de uma
visões celestes, os pecadores arrependidos testemu- forma de comunicação/expressão de classes inferio-
nham o seu encontro com a graça. Mas a religião é res na sociedade, exprimindo desta forma a nostalgia
mais que a soma de todas estas histórias pessoais, de uma idade de ouro perdida. A religiosidade popu-
ela é também recordação colectiva, consciência de lar traduziria uma espécie de oposição aos ritos ofi-
grupo e esperança comum. É a autobiografia de todo ciais. Não se tratará de uma forma de sensibilidade
um povo. [...] A religião popular é feita não somente vinculada ao sagrado imanente? O conjunto de práti-
de imaginação e de esperança, mas também de re- cas a que a expressão alude traduz alguma oposição
cordação e de nostalgia.» «É mais exacto, do ponto ao discurso teórico e à intelectualização do divino.
de vista sociológico, definir a religiosidade popular Os fenómenos religiosos populares seriam assim as
como o "fenómeno religioso que tem por sujeito as formas sensíveis de fazer actuar o divino no quoti-
classes subalternas inseridas num processo produtivo diano, de tomar o divino imanente; seriam as per-
dependente". Por ser um sector distinto da religião, a cepções concretas e simples da inteligência do divi-
vivência das classes populares não implica carência no, ou a expressão do divino nas classes populares.
de valores, mas um modo diferente de se exprimir Neste sentido, alguns entendem estas práticas como
cheio de simbolismo e de apelos à história.» Deste as de um povo julgado inferior ou ainda, como suce-
leque de definições sobressaem determinados ele- deu no princípio do cristianismo, a religião dos «mi-
mentos a ter em conta no fenómeno. Uma distinção, nores» ou dos «pagãos rudes». Nelas se colocam em
sem contradição: «religião oficial» e «religião pra- relevo as mediações de um outro tipo de cultura: as
ticada efectivamente pelo povo». Esta diferença es- imagens, as esculturas, os objectos aparecem como
tá e estará sempre presente; quer dizer, a religião percepções da transcendência, traduções da dimen-
pregada pelos sacerdotes, baseada nas fontes da re- são intelectual da cultura popular. «A religião popu-
velação, e a religião commumente vivida, não se lar humaniza o divino para o sentir próximo e para
contradizem, mas distinguem-se sobretudo pelas ele melhor captar a potência da graça.» Será então
formas e pelas mediações. Um sujeito de acção que uma reacção anti-intelectualizante? A ser assim, o
muitos identificam com o conceito massas ou povo revigoramento destas práticas na pós-modernidade
anónimo, enquanto outros lhe conotam mais um ma- constituiria a prova da ilusão racionalizante da pró-
tiz de miséria, subalternidade ou dependência ou até pria modernidade. Este conjunto religioso popular,
subdesenvolvimento. Uma especificação de indole mais imanente, coloca em evidência o valor do cor-
ambiental, socioeconómica. A religiosidade popular po, o valor da sensibilidade, o valor da materialida-
manifesta um povo «situado» social e historicamen- de, como lugares de comunicação. Daí que esta re-
te, de forma que o tipo de expressão pode variar com ligiosidade apareça, para muitos, como uma forma
a mudança político-social. Um tipo de abertura, isto mais humanizada e corporeizada da religião. Uma
é, um diálogo ou relação com o sagrado tendo como expressão não doutoral da mesma? A religião popu-
características principais a pobreza*, a simplicidade lar, no concreto, seria a religião do homem e da
e predomínio da intuição sobre o entendimento dis- mulher para quem o estudo não é a actividade prin-
cursivo. Um sistema de mediações próprio, que re- cipal e que cumpre os actos prescritos pela lei da
flecte não a ausência de autenticidade e outros valo- Igreja, mas sem aquela formação necessária para o
res, mas sim um simbolismo que lhe é particular e aprofundamento metódico da sua vida de fé. Assim,
comportamentos derivantes da sua situação, quer so- tratar-se-ia de uma expressão de fé através de for-
ciológica global, quer de existência real. Dentro da mas particulares de representação e de devoção
denominada "religiosidade popular", há muito fre- não-doutorais. Mas, como compaginar esta percep-
quentemente, expressões elementares e simples de ção do fenómeno com práticas populares onde per-
verdadeira fé cristã que constituem uma forma tradi- siste o cruzamento das diferentes culturas letradas,
cional de catolicismo popular». Um conjunto de ele- fenómeno de alguma osmose de culturas (peregrina-
mentos espúricos, que não devem conduzir à des- ção popular). Nenhuma definição esgota a realidade
confiança e a uma visão pessimista, mas a uma nem exclui as outras. Há quem se interrogue sobre o
perspectiva de «história colectiva de um povo intei- fenómeno em termos de oposição ao modelo oficial
ro. Como a música e a medicina, a religião popular religioso. Tal religiosidade teria a ver com uma certa
está misturada de superstição, de tradição...». Sobre- prática autonómica, reivindicativa de todas as regu-
tudo a partir dos estudos de Michel Meslin (L'expé- lações da ortodoxia oficial, seria formada por um
rience humaine du divin. Paris, 1988), a questão da conjunto de práticas libertas da tutela reguladora ofi-
definição comporta um questionamento conjugado. cial. Mas, como sistema reivindicativo deverá conju-
Será que se compreende a religiosidade popular co- gar-se com a vulgarização da religião, a sua difusão,
mo a prática religiosa do grande número? Nesta que comporta a popularização da mesma. Toda a
perspectiva a religiosidade popular seria a religião vulgarização acarreta degradação do modelo oficial
da maioria, constituída mesmo por práticas de carác- proposto, conjugando as práticas oficiais (que se vão
ter residual num contexto da transformação cultural vulgarizando) com as práticas do background ante-
e social, muitas vezes exprimindo o aspecto inorga- rior. Assim sucedeu no judaísmo* e no cristianismo.

I109
RELIGIOSIDADE P O P U L A R

Poder-se-á dizer que algumas práticas desviantes da cificado Ressuscitado. Aqui se enraíza a originali-
religião popular são mais produtos de uma memória dade de uma religião com uma nova doutrina - um
activa do que uma oposição doutrinal ou reivindi- conjunto teórico a crer -, com rituais próprios na
cação de autonomia, exprimindo melhor a memória medida em que o seu significado é novo - um ceri-
activa de um povo do que um modelo de oposição. monial litúrgico que se vai impondo a partir da
A religiosidade deve contextualizar-se. As práticas «fracção do pão» -, com uma dimensão comunitária
que integra dizem a dialéctica histórica, social e forte bem característica que explicita um leque de
cultural de uma comunidade. Ela aparece como a opções éticas de relevo - o que está bem formulado
referência comportamental de uma síntese cultural, no slogan primitivo «vêde como eles se amam». Es-
como memória histórica e social. Será também pro- ta tríplice dimensão não é própria do cristianismo.
cesso de reacção e de protesto, sobretudo em con- É-lhe próprio, porém, a sua significação, o sentido.
texto de imposição cultural e de colonização. Seria A gente convertida entra num processo de transfor-
o caso, por exemplo, da colonização branca em mação no qual as representações religiosas que a es-
África, onde o Branco aparecia como sinónimo da truturam adquirem novos significados e as práticas
civilização portadora de uma religião oficial. As incongruentes com as convicções a que se adere vão
formas religiosas indígenas, num primeiro tempo, sendo purificadas ou marginalizadas, num movimen-
entravam em letargia e, num segundo, poderiam to de substituição e de aprofundamento. À medida
ressurgir como formas de protesto e de reacção rei- que se estrutura o cristianismo e que se propaga das
vindicativa da identidade autóctone. Neste horizon- cidades para as aldeias, as normas fazem corpo cada
te, certas formas próprias do religioso poderão sur- vez mais preciso, particularmente aquelas que são
gir como protesto contra forças interculturais, e a relativas às assembleias litúrgicas, o que faz notar
religiosidade popular poderá ser o lugar da preser\>a- cada vez com maior nitidez alguma diferença entre o
ção da identidade e até de uma certa desculturação. oficial programado e o popular praticado. Já o Novo
A incursão por estas interrogações conduz a não si- Testamento reflecte, mormente no corpo epistolar,
tuar a religiosidade popular como noção abstracta, o carácter simultâneo de práticas do paganismo com
mas a encará-la como o lugar da relevância cultural,
da expressão do existir, da memória activa. Atenden-
do ao que fica dito, e não pretendendo reduzir a es-
cassas linhas um fenómeno tão complexo, como sín-
tese do problema da definição e reunindo elementos
expostos, sugere-se que a religiosidade popular pos-
sa ser entendida como um conjunto de comporta-
mentos, ritos e gestos religiosos de um povo, carac-
terizados pela simplicidade e pobreza (pelo menos
externa), que, dentro da bipolaridade «religião ofi-
cial - religião praticada», manifestam, por um lado,
a sua relação e abertura ao divino, e por outro, a sua
contextura sociocultural portadora de elementos ét-
nicos e de «desvios» inconscientes. Seguindo o estu-
do de Martins de Oliveira (Évora, 1955), poder-se-á
concordar com os dois planos do fenómeno, enten-
dendo que «para o indivíduo, a religiosidade é uma
relação interior com a realidade metaempírica, a par-
tir da experiência vivida interiormente, experiência
matizada pelo contexto sociocultural e religioso em
que vive, cujas manifestações podem ser exterioriza-
das de formas diversas. Colectivamente, é o conjun-
to das manifestações religiosas tal como são vividas
pelos membros de uma sociedade, manifestações
que provêm e são expressão das suas culturas reli-
giosas, abrangendo ou não as formas institucio-
nalizadas pela ou pelas religiões dessa sociedade».
2. Elementos para a história do tema: Desde o início
do cristianismo, procedeu-se à adaptação dos usos e
ritos das «casas» convertidas e dos grupos formados,
contando com uma nova religião com mediações de
significado diferente, mas que se enraizavam em
práticas populares precedentes. Convém lembrar,
por exemplo, o baptismo, como rito do grupo dos
«baptistas», e os gestos de cura e oração pública pró-
prios de exorcistas do tempo da fundação da Igreja.
O centro de convergência, o núcleo a partir do qual
as coisas do quotidiano tomam sentido, a raiz de to- Menino Jesus Romeiro, de seguidor de Josefa de Óbidos,
dos os significados passam a ser diferentes - o Cru- finais do século XVII (Museu de Aveiro).
no
RELIGIOSIDADE P O P U L A R

os novos ritos propostos na comunidade cristã. Na


vida quotidiana, os novos significados trazidos pela
proposta de Vida Nova de Cristo implicam gerações
de transmissão para chegarem a enraizar hábitos na
comunidade. Ao longo da Idade Média, e mesmo
nos séculos posteriores, a proposta oficial dos que
são constituídos em autoridade dentro das comuni-
dades reflecte a tendência de práticas populares cujo
sentido das coisas não é unívoco em relação à inter-
pretação canónica. As propostas de jogos, de dramas
e de autos que desenvolvem as acções litúrgicas, se
por um lado revelam a intenção de manter o povo
fiel aos ensinamentos da Igreja, por outro são a pro-
va de que fora do controlo da hierarquia se desenro-
lam outros ritos que marcam a vida das gentes e que
constituem algumas práticas híbridas que muito cor-
roboram o itinerário religioso do povo. As represen-
tações relativas à Páscoa, suplantadas cedo pelas fes-
tas populares em torno do Natal de Cristo são disso
reveladoras, porquanto os representantes hierárqui-
cos mais próximos do povo as promovem e nelas
participam, com o agrado das comunidades que
reencontram ritos mais antigos vinculados ao Sol In-
vencível e às festas romanas do Novo Ano articula-
das às Calendas (v. FESTAS). A S expressões populares
de índole religiosa constituem sempre um lugar hí-
brido de alguma composição onde emerge com fre-
quência o elemento subjectivo, já que a fé plasma o
tecido quotidiano e pessoal bem configurado. Os
costumes relativos aos mortos e os ritos em torno da
morte revelam também a permanência de elementos
ancestrais, prévios ao cristianismo, aos quais o povo
procurará dar um sentido diferente sem alterar a
substância do credo religioso ao qual adere. Aliás,
ainda hoje isto é verdade em gestos piedosos de en- São Leopoldo, de António Pinheiro do Lago, 1691
comendação das almas, nos esconjuras por ocasião (Coimbra, Museu Nacional Machado de Castro).
de notícias fúnebres e nos ritos de velório próprios
de algumas povoações, como se explicitará, a título povo crente manteve a sua fé através de esquemas
de exemplo. As aparições centradas nas figuras dos devocionais já enraizados, alguns de fundo medie-
corações de Jesus e de Maria emprestam ao imaginá- val, outros jansenistas e outros de certo contrapeso
rio popular mais elementos que promovem o desen- às modas em infiltração, a partir das revelações pri-
volvimento devocional. Depois do tempo da Refor- vadas que ainda hoje possuem simpatia entre o povo.
ma, a língua litúrgica prestava-se cada vez mais aos O II Concílio do Vaticano abriu uma nova era, rein-
programas devocionais de consolo e de espirituali- terpretando a função da comunidade cristã e inscre-
dade individual que se desenvolvem de forma gran- vendo-a no meio do mundo em transformação, sem
diosa nos três séculos posteriores, e para os quais as em nada diminuir a importância das tradições e dos
ordens religiosas e seus pregadores muito contri- ritos próprios e restituindo um programa de forma-
buíram. Então a liturgia desenrola-se oficialmente ção que só a posteridade saberá avaliar. A temática
com os seus ministros que desejam que os fiéis relacionada com a religião popular reaparece neste
apliquem a si e aos defuntos o fruto dos ritos por contexto de atenção ao mundo, como um reflexo do
intermédio de orações e de propostas devocionais cuidado pastoral que tem o povo de Deus como alvo.
mais simples em sintonia com a sua cultura elemen- As devoções populares podem ser o lugar de memó-
tar. Assiste-se a um paralelismo crescente entre a li- ria de muitas gerações, guardando em ritos e em es-
turgia oficial e as práticas devocionais ao longo dos quemas simples, jaculatórias e sinais, o conteúdo
últimos séculos, reflectindo-se em alguns aspectos mais profundo daquilo que se transmite e que se
no movimento de renovação litúrgica e eclesiológi- acredita, materializando o credo. Elas são também,
ca desde os finais do século xix. O povo manteve-se de forma muito concreta e emotiva, o lugar de um
então fiel a práticas muito próprias e de fácil con- contacto ou de um corpo-a-corpo com o transcen-
cretização, quer a nível dos sacramentos de prática dente, que reclamam um cuidadoso trabalho herme-
intensa quer mesmo nos rituais mais privados e fa- nêutico para não serem desviadas, de forma prema-
miliares da vida quotidiana. Enquanto se desenvol- tura, para o campo mágico, do qual exactamente o
veram as questões do modernismo* e o avanço da cristianismo teve o cuidado de as separar. As suas
sociedade dita secularizada (v. SECULARIZAÇÃO) em mediações nem sempre são elaboradas, mas nem por
muitos dos pontos da civilização ocidental cristã, o isso deixam de jogar um papel de relevo na constru-
iu
RELIGIOSIDADE POPULAR

ção prática da religiosidade. Se nelas se concede a ainda por D. Manuel Falcão (bispo coadjutor de Be-
primazia ao coração, a razão não está ausente mas é ja). Com isto não fica esgotado o elenco de todos os
mendiga, o que faz emergir a importância da forma- trabalhos feitos numa primeira fase. Além do traba-
ção cuidada da fé para as gerações que a ela nascem. lho dos pastores há que referir um grande número de
Nas últimas décadas, a temática transformou-se num artigos e até uma razoável quantidade de revistas
eixo à volta do qual giram as atenções de todos os com números monográficos sobre a religiosidade
pastoralistas e teólogos. Até mil novecentos e ses- popular. Desde 1980, teólogos e pastores voltaram-
senta, nem o vocabulário existia. Não apareceu ainda -se de forma mais decidida para a realidade do povo,
nos documentos do Concílio, a não ser o adjectivo pois é sobre este que incide directamente a evangeli-
na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, ao falar zação. A atitude inicial é a apontada por um teólogo
de «canto popular religioso», de forma passageira. actual: «voltamo-nos hoje para a religião popular
O primeiro sinal surgiu da segunda Conferência Epis- não somente para a estudar, mas porque queremos
copal Latino-Americana (CELAM) que teve lugar na recolher o ensinamento que o povo pode oferecer-
Colômbia, na cidade de Medellin, de 26 de Agosto -nos. Pedimos ao povo que nos instrua com a sua vi-
a 6 de Setembro de 1968. Em 1969, o episcopado da, o que quer dizer que abandonamos o papel de in-
argentino fez uma declaração, intitulada «Pastoral vestigador e nos consideramos como «homens de
Popular», que adaptava as conclusões da segunda procura». A Igreja continua a ser «sinal» universal
conferência-geral do episcopado latino-americano à de salvação para todos os homens e que por isso
realidade do seu país. Anos mais tarde, ainda sob «suscita novas atitudes de conversão, inicia uma
o mesmo prisma, eram apresentados pelo referido transformação radical nos homens que escutam a
conselho episcopal «alguns aspectos da evangeliza- Palavra e de modo diverso, em graus diferentes de
ção na América Latina» ao sínodo de 1974. Ao lon- aproximação, a seguem». A religiosidade popular
go do sínodo, os bispos abordaram a temática de tal tornou-se centro de interesse porque «é um fenóme-
forma que Paulo VI, em Evangelii Nuntiandi, docu- no universal que se encontra em todos os povos, de
mento sintético-conclusivo do sínodo, lhe dedica ex- forma que pode dizer-se que toda a religião verda-
clusivamente o n.° 48 que, ao longo dos últimos 30 deira tem uma religiosidade popular». A expressão,
anos, tem sido ponto de partida obrigatório para a re- no geral, estava vocacionada a exprimir uma realida-
flexão. Grande importância teve o congresso de de que convinha não negligenciar. Nascendo entre a
Québec (Canadá), em 1970, que, para além de teólo- reflexão das Igrejas latino-americanas, por ocasião
gos e pastoralistas, reuniu sobretudo antropólogos da efectivação das primeiras decisões conciliares nas
como grandes defensores da religiosidade popular. reuniões das conferências episcopais em 1974, Pau-
Em 1973, de novo na Argentina, os directores de ca- lo VI vai adoptá-la, ligando a expressão à virtude da
tequese reflectiram sobre o mesmo assunto e, em piedade, a «piedade popular». A alusão da Evangelii
1974, em Lima (Peru), os pastores debruçaram-se Nuntiandi é justa ao ter em apreço as formas de vida
sobre a sua contextura social. Na Península Ibérica, religiosa prática adoptadas por grandes massas de
deve salientar-se o sínodo hispalense de 1973 que, povo das aldeias, simples, não muito voltado a es-
focando de perto fenómenos da religião do povo da tudos superiores, pouco racionalizante e para quem
zona andaluza, demarca certos pontos de apoio e a doutrina da fé constituía a única síntese sobre o
fundamenta algum tratamento pastoral da questão. mundo e a vida, a sua enciclopédia quotidiana. Na
Foi sobretudo a partir do referido documento papal pena de Paulo VI a expressão não parece de supre-
que surgiram directrizes pastorais. Em 1974, os bis- macia nem de teor axiológico; é antes englobante,
pos de 13 dioceses pertencentes à conferência epis- intuindo uma especial atenção merecida a esta mas-
copal de Campânia (Itália) traçaram princípios e sa de gente anónima cujo património sociocultural
apontaram linhas de rumo. Em 1975, a zona episco- exige um redobrado cuidado pastoral. Hoje, tomada
pal espanhola de Andaluzia aplica o tema à situação acriticamente, a expressão faz lembrar não só a sim-
social da sua área. Em Portugal, é de referir a sema- plicidade de algumas práticas quando interpretadas a
na de estudos sobre a religiosidade popular organiza- partir de um nível cultural diferente, mas faz tam-
da em Fátima, que decorreu de 3 a 8 de Janeiro do bém referência a fenómenos de massa que aparecem
ano em curso (1977), cuja direcção foi confiada ao como confluências onde a relação com o sagrado se
professor Luís Maldonado, especialista na temática. reveste das mais variadas formas, possuindo algu-
Todavia já haviam abordado o assunto, separada- mas de teor arcaico, mesmo animistas, e sendo o ce-
mente, alguns bispos: D. António Cardoso Cunha nário de sacrifícios e de abnegações que crispam
(bispo de Vila Real) numa extensa pastoral ao povo com a mentalidade contemporânea e mesmo com a
da sua diocese sob o epígrafe «Reflexão pastoral so- dignidade humana. Recordem-se as práticas de mui-
bre a religiosidade do nosso povo» publicada em tos nos centros de peregrinações, sejam elas vincula-
1976; esta, além de princípios, traçava coordenadas das a uma sensibilidade empírica no toque das ima-
pastorais. D. António Xavier Monteiro (bispo de La- gens, das pedras, sejam mesmo os sacrifícios físicos
mego), em entrevista, referiu-se ao problema «evan- que são marcados pelo próprio sangue - as voltas de
gelização-religiosidade popular». D. Francisco Ma- joelhos ao redor das ermidas, os percursos a pão e
ria da Silva, várias vezes, aludiu a este tema água, as grandes caminhadas a pé desafiando os li-
sobretudo no Diário do Minho, jornal oficioso da mites físicos... Estas práticas não desapareceram
sua diocese. Outros pormenores foram escritos, tanto nem tão pouco parecem estar em vias de extinção:
por D. António Ribeiro (cardeal-patriarca), como Os exemplos dos gestos dos peregrinos em Fátima*
por D. António Ferreira Gomes (bispo do Porto) e ou em Compostela, ou de outras ermidas espalhadas

I112
RELIGIOSIDADE POPULAR

pelo nosso país onde a massa do povo gosta de ir as almas. Habitualmente, a abertura à transcendência
cumprir as suas promessas e mostrar a sua fidelida- caracteriza estas formas práticas de religiosidade.
de, mesmo o lenço branco do adeus. O tratamento do Cansado de desilusões e até de esperanças humanas
tema, em Portugal, teve por certo como factores con- frustradas, o povo revela sede de um autêntico senti-
fluentes a mudança de sensibilidade política, sobre- do para viver. Esta religiosidade «traduz em si uma
tudo depois da Revolução de 1974, que redescobre o certa sede de Deus, que somente os pobres e os sim-
valor central do povo; a crise cultural da civilização ples podem experimentar» e revela «uma busca por
técnico-industrial, dando conta de graves deficiên- dignificar o ser humano e se relacionar com Deus to-
cias e que procurou, em áreas menosprezadas pelo dos os dias. Muitas vezes o povo expressa nela o ti-
racionalismo, um novo tipo de homem; a reviravolta po de sociedade que rejeita e o que quer construir:
da teologia que, depois de um período marcadamen- seu projecto político e seu estilo de vida». Não rara-
te secular e político, se convenceu da necessidade de mente a religiosidade popular aparece como «o úni-
alargar os horizontes para novas sínteses entre a fé e co meio para uma civilização vencida de conservar,
o religioso, entre o profano e o sagrado. A teologia nos dias da derrota, a sua história e as suas esperan-
necessitou para ser serviço à Igreja, para poder ser ças». Trata-se de um lugar mediador da busca de
teologia eclesial e não se dedicar somente à historio- sentido. Revela também uma recta orientação na
grafia da própria disciplina, do pão da religião, da busca de segurança e de salvação frente à evolução
mística e da experiência religiosa da gente simples. actual do mundo: «Cada dia são mais numerosos os
Assim, não correu tanto o risco de ser eminentemen- que põem ou que sentem com nova acuidade as
te teórica e sem incarnação no meio dos homens. questões fundamentais: Que é o homem? Qual o
Tomou-se mais eclesial, mais fecunda em soluções sentido da dor, do mal e da morte, que apesar do
porque dialogante. Na religiosidade como fenómeno enorme progresso alcançado, continuam a existir?»
encontra-se o homem definido em relação à realida- (Gaudium Spes, n.° 10). Em face de problemas reais,
de e que vive no interior de um povo e num contexto como a falta de trabalho, a falta de habitação, algu-
histórico concreto; assim ela expressa o modo de ser ma insegurança social e outras interrogações que an-
de um homem e de um povo no qual Deus vem tra- gustiam o povo, consciente da sua impotência e re-
çando a sua história da salvação e onde o mesmo ho- conhecendo a sua própria debilidade, orienta a sua
mem manteve e mantém o testemunho do transcen- busca de segurança e salvação: procura-a no trans-
dente. A religiosidade popular assumiu profundo cendente. Só de Deus pode vir remédio contra estas
interesse pastoral em Portugal, dada a viragem polí- situações insolúveis. Esta recta orientação é claro in-
tica, com a consequente mudança de mentalidade. dício de que o povo olha para as instituições religio-
Não raramente a religiosidade do povo foi atacada sas como factor de estabilidade. Em presença da im-
por chefes políticos. Porém, a sociedade portuguesa, pressão de possível desmoronamento do mundo, ele
em todo o país, mais vincadamente para o norte do quer e acredita que a religião lhe garante a seguran-
Mondego, tem sido por tradição medularmente mar- ça. Além disso, na enumeração de alguns valores
cada pelo aspecto religioso; o seu catolicismo é uma deste fenómeno de massa, Paulo VI aponta um apu-
realidade de massas. 3. Análise antropológica e teo- rado sentido dos atributos de Deus, fazendo realçar
lógica: Paulo VI, no documento aludido, depois de entre os atributos a paternidade, a providência, a pre-
indicar alguns desvios e deformações da religiosida- sença amorosa e constante. A religiosidade popular
de popular escreve que «se essa religiosidade popu- não denuncia um Deus afastado e separado, mas um
lar for bem orientada, sobretudo mediante uma peda- Deus presente enquanto pai providente. Mantém
gogia da evangelização, ela é algo rico de valores». com Ele alguma familiaridade. Neste fenómeno tes-
A avaliação axiológica que se segue baseia-se quase temunha-se também a pertença a um povo que vive
exclusivamente em documentos do magistério. O fe- em grande comunidade e que manifesta a grande co-
nómeno da religiosidade popular marca uma multi- munhão eclesial, mesmo de maneira informal. Nela
dão imensa que prima pela nobreza não tanto extrín- se expressa uma interioridade colectiva, dado que «a
seca, mas intrínseca, de coração. Poder-se-ia afirmar religião de todo o grupo humano é expressão do seu
que nos «devemos tomar uma Igreja da aristocracia testemunho colectivo». Esta dimensão comunitária
do coração, que encontramos mais no povo, na gente faz da religiosidade popular uma fonte de virtudes
mais simples que, por vezes, nos burgueses». Este humanas e cristãs. Para além da solidariedade, fideli-
valor que, de certo modo, define um povo, arrasta dade, lealdade, hospitalidade, a religião popular ma-
consigo muitos outros que lhe estão conexos. De per nifesta um respeito e estima tanto pelos lugares sa-
si, é valor eminente a ter em conta porque pode ser grados como pelas figuras mediadoras, sacerdotes,
obnubilado por diversos contravalores. O sentimen- religiosos e religiosas, pessoas consagradas em ge-
to, a emoção, a sensibilidade forte estão ligados a es- ral. Além destas, estão-lhe inerentes outras virtudes
ta «aristocracia de coração». O fenómeno evidencia cristãs, nomeadamente a capacidade de sofrimento e
a crença e a convicção da existência de um ser abso- sentido da cruz na vida quotidiana, o desapego, a de-
luto que é superior a tudo e a todos, já que ela surge dicação, a disposição para o sacrifício e a aceitação
de uma consciência de Deus que é força salvadora e dos outros. A fé na relação entre os dois mundos é
com quem é possível relacionar-se; manifesta-se também evidenciada, como relação entre o mundo
num forte sentido de Deus providente e numa atitude de cá, onde se vive, e o de lá, que há-de vir. Aparece
contemplativa; é, num mundo já em grande parte lai- como energia sobrenatural que toma possível algu-
cizado, uma clara afirmação do transcendente divino ma utopia vinculada também à crença no poder ex-
e, portanto, um espaço ainda livre de respiração para traordinário dos mediadores. As devoções aos san-
I113
RELIGIOSIDADE POPULAR

tos, exageradas e por vezes excessivas, são um lugar cair-se no desvio da magia imprimindo a objectos
expressivo da relação acreditada entre os dois mun- demasiado e inautêntico poder de segurança, estacio-
dos. Simultaneamente índice de admiração da santi- nando nos meios. Desta forma, a religiosidade popu-
dade dos mediadores e de crença no poder da oração lar pode deformar e tornar pequena a imagem de
de intercessão, investe o mediador de sacralidade Deus ao reduzi-la a gestos determinados e a objectos
(v. HAGIOGRAFIA E SANTIDADE). O desvio pode dar-se mágicos. Ao mesmo tempo está anexo a este um ou-
quando se absolutiza o mediador em detrimento da tro perigo que é o comummente chamado de crença
omnipotência divina e ainda quando se paganizam supersticiosa, como temor ou escrúpulo frente a de-
em excesso os ritos externos de oração. O povo sim- terminados fenómenos. Transforma-se assim o sinal
ples facilmente se inclina perante a Palavra de Deus; simbólico relacional em talismã. O que pode aconte-
por isso encontra-se na maioria uma disposição de cer com os ritos em geral, também pode suceder no
abertura para a receber e para crer na sua mensagem. âmbito do estritamente sacramental, começando a
Não quer dizer que a ortopraxe reflicta a palavra sob desenhar-se uma inclinação sacramentalista, caracte-
o impulso das suas exigências, mas esta disposição rizada pela consideração do «sacramento» como ab-
facilita e torna possível a actuação dos pastores, en- soluto, como objecto a receber como tal. Espreita,
contrando estes terreno propício para a evangeliza- assim, na religiosidade popular também, o perigo do
ção. A religiosidade popular reflecte muito a aber- individualismo cerrado. Embora a religiosidade po-
tura a uma Palavra diferente, a de Deus que não pular apresente a dimensão comunitária como valor,
engana. Consideram-se estes valores não como valo- pode haver o desvio do enclausuramento individua-
res puros, mas mistos, estando todos eles eivados lista, sem diálogo, pretendendo resolver os proble-
das deficiências e lacunas do fenómeno. A este pro- mas pessoais numa relação solipsista com Deus. As
pósito escreve Paulo VI: «A religiosidade popular, devoções podem ser a expressão deste perigo. Como
pode-se dizer, tem sem dúvida, as suas limitações. religiosidade de tipo cósmico, Deus é considerado
Ela acha-se frequentemente aberta à penetração de resposta para tudo. O homem pode enveredar por um
muitas deformações da religião, como sejam por caminho de mera passividade não se inserindo no
exemplo as superstições. Depois, ela permanece com processo histórico determinado e na marcha determi-
frequência apenas a um nível de manifestações cul- nada de um povo. Fechado numa concepção fatalista
turais, sem expressar ou determinar uma verdadeira da vida, deixa o homem de colaborar no progresso
adesão de fé. Ela pode, ainda, levar à formação de do mundo e da história. Está aí o perigo de um quie-
seitas* e pôr em perigo a verdadeira comunidade tismo paralizador. Fruto do simples ritualismo, a re-
eclesial.» Também o episcopado latino-americano ligião pode reduzir-se a um formalismo supersticio-
assinala entre as deficiências desta religiosidade a la- so e material izante, que estufe a vida verdadeira e
cunar participação na vida cultual oficial e a escassa produza escrúpulos. Muita gente utiliza as práticas
adesão às instituições eclesiásticas, a recepção dos como sucedâneos, suplentes duma vida interior que
sacramentos com pouco influxo no exercício da vida ignora ou lhe falta. A quantidade toma o lugar da
cristã, as deficiências na moral, com uma enorme re- qualidade interior. O formalismo é outro perigo des-
serva de virtudes cristãs na prática social da carida- cendente directo do ritualismo, o acessório toma o
de. A conferência episcopal da Campánia (Itália) ob- lugar do principal, o relativo passa a absoluto. A RP
serva: «As próprias procissões não são mais [...] que integra também, por vezes, uma atitude sincretista.
extenuantes maratonas de "médios" que ofendem o Carente de orientação basilar, pode degenerar num
sentido do belo e do sagrado. Põem em evidência depósito de ritos e gestos de tipo sincrético. Existin-
que perderam o verdadeiro sentido religioso e não do uma diferença entre as manifestações de tipo sin-
são certamente o sinal da Igreja em peregrinação.» crético e as do catolicismo popular, este, dentro de
«Os santos constituem o objecto de um culto quase uma perspectiva cristã dos ritos, pode tender tam-
pagão. Presidem aos diferentes acontecimentos da bém ao sincretismo. Os grupos sectários e mágicos
vida; são um talismã que cada um leva com uma podem ter aqui origem. 4. Campos de investimento,
confiança supersticiosa; aliados contra as forças do o exemplo dos ritos em torno da morte*: A RP pos-
mal e as injustiças sociais.» A religiosidade popular sui áreas práticas de grande investimento como as
integra também alguns contravalores, entre os quais, festas*, em torno das quais gravita o calendário reli-
o perigo da alienação ou da religião-refúgio. Sem a gioso, as peregrinações* e os espaços em relação aos
devida orientação, pode levar o homem a esperar tu- quais se organizam as devoções que condensam mo-
do de Deus, cruzando os braços e pode hipotecar a mentos afectivos no itinerário religioso do povo, as
possibilidade de responder a Deus e de colaborar romarias em algumas localidades que, envoltas em
com Ele pondo em exercício todas as capacidades. ambientes festivos, integram promessas a cumprir
Pode, também, tornar-se actividade compensadora com muito rigor. Também os cerimoniais de inicia-
de frustrações e até de carências culpáveis, tornando ção e de passagem, nos quais confluem ritos de
inoperante a fé. Além disso, espreita-lhe o perigo do grande densidade afectiva, são próprias ao desenvol-
ritualismo, quando o exterior das manifestações se vimento de práticas religiosas, de crenças e devo-
torna o conteúdo básico da religiosidade e o rito apa- ções, passíveis de análise dentro deste paradigma
rece como expressão central da mesma, timbrado de cultural. Os cerimoniais da morte, nas diferentes zo-
uma certa periodicidade, adquirindo assim valor em nas culturais, são um bom mostruário de sinais, de
si mesmo, absolutizando aquilo que manifesta sim- ditados, de orações, que deixam transparecer mode-
bolicamente o além. Isto arrasta consigo o perigo da los simples de relacionamento com o sagrado, na zo-
superstição e da magia. Ao absolutizar o rito pode na de mistério que o caracteriza. Há muitos sinais de
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RELIGIOSIDADE POPULAR

religiosidade popular no contexto cósmico que le- pode ter sido apressada e lacunar para os teus padri-
vam a descobrir a proximidade da morte, há anún- nhos, caso contrário, ficarás sujeito aos encontros
cios dela: a morte está próxima quando se ouve piar com as procissões dos defuntos. Estas impõem uma
o mocho, o corujão ou bufo (a cabra-môna), quando atitude a quem as vê passar nas aldeias: estende-te
o cão uiva, quando as pegas andam em volta das de barriga para baixo, enche as mãos de areia e a bo-
pessoas no campo, quando o galo não canta de ma- ca de erva, e deixa passar... não serás incomodado,
drugada ou canta quatro vezes antes da meia-noite, nem a morte de ti tomará posse. Se a procissão dos
quando o morcego aparece com frequência ou quan- mortos te surpreende numa noite, não lhe estorves o
do o vento redemoinha na aldeia. Estes, elementos caminho, anda junto aos muros para que os mortos
da criação, parecem «preocupados», fazem o que possam percorrer a aldeia; se não os estorvas, nada
não é muito habitual, ... a morte está prestes a visitar te acontecerá. Nada lhe perguntes, nem lhe usurpes
a aldeia. O seu mistério é assinalado neles. Acontece nada, pois serás afligido até restituíres e poderás cair
no campo antes da morte da tia, em casa o mocho vi- nas suas malhas. Se a morte passa, assegura-te de
sita a oliveira alguns dias antes da morte do marido e quem não leva vela na mão; poderás chorar por ele
até a pega não larga o lavrador no dia anterior à mor- que findará em três dias; se levam a urna aberta, tal-
te do neto. O povo acredita, de forma supersticiosa, vez o amigo ainda vá de pé; para esse a morte está
que estes animais «sentem a morte próxima» e que o na soleira; se vai deitado, vai «correr com o fune-
seu cantar é fúnebre; até o galo canta antes do tempo ral», pois já vão dobrar os sinos na aldeia. Muito ha-
para anunciar a aurora que vai ser cedo na família; o bitual entre o povo mais simples, esta crença nos
uivar do cão dá a notícia ao dono, ou reclama a sua mortos em procissão atravessa a terra dos vivos e
morte ou anuncia que em três dias morrerá alguém constitui um apoio de preparação para o conjunto
da sua casa ou da sua família. Nas aldeias, estes si- dos rituais em torno do morto e para as orações junto
nais são comummente interpretados pelas mulheres; do moribundo, depois dos últimos sacramentos. An-
são elas as mais atentas à vida da aldeia, possuindo tes da morte, junto do moribundo, repetem-se as ora-
um sentido mais apurado para esta zona enigmática ções à sua cabeceira. Nossa Senhora é a grande pro-
da realidade. A linguagem simples dos provérbios tectora, a Senhora da Conceição, a Senhora da Boa
revela aspectos da relação misteriosa universal deste Morte. Assim se reza, por exemplo, na Ribeira de
rito de passagem prenhe de crenças de carácter reli- Viana do Castelo: «Senhora da Conceição: Vós o
gioso. «À morte não há casa forte», sendo a sua visi- dissestes / pela vossa sagrada boca / que quem por
ta a horas inesperadas. «Contra a morte não há remé- vós ao dia / chamasse 150 vezes / que lhe havíeis de
dio» ou «para tudo há remédio, senão para a morte». valer / na sua maior agonia / na sua maior aflição. /
É inelutável esta realidade e nenhuma condição ou Valei-lhe agora, Senhora / que é chegada a ocasião.»
estatuto lhe escapam. «Tanto morre o Papa, como o Rezam então em coro 150 vezes, contadas pelo Ro-
que não tem capa» ou «na morte ninguém finge, sário: «Senhora da Conceição, valei-lhe/» A morte
nem é pobre». Em face desta realidade, a vida deve chega assim num contexto de «rezadeiras» de profis-
ser orientada, toma rumo; de certa maneira a morte são ou de piedosas senhoras da aldeia que encomen-
manda na vida: «os mortos, aos vivos abrem os dam o moribundo a Deus. Sorte lhe é reservada se
olhos», ou «depois de morto, nem vinha nem horto». morre em dia santo e sobretudo em Sexta-feira San-
Da morte se abrem cláusulas de um código de res- ta, pois entra logo no Céu cuja porta está aberta de-
peito e de postura pacificadora: «longa corda tira, vido a outros trabalhos de São Pedro no acolhimento
quem por morte alheia suspira», ou «façamos paz, das visitas. Sorte se tem também quando se morre
morreremos velhos» ou «quem morte alheia espera, com um «anjinho», facultando-lhe este uma entrada
a sua lhe chega», ou um código de coragem sem fa- no paraíso. As orações reflectem bem um imaginário
lhas: «até à morte, pé forte» nem «nenhum dia é popular estufado de crenças. A «boa morte» pro-
mau, se a morte vem a horas». «A morte com honra, cura-se e reza-se no facto de «lemiar os santinhos
desassombra» e «onde não há morte, não há má sor- na hora da morte», prática que ocupa ainda gera-
te», ou de regras de sabedoria: «aprender até mor- ções, se ela acontece em ambiente familiar e de vi-
rer», pois «mal prolongado, morte no cabo»; «quem zinhança: a rezadeira ajuda o moribundo à passa-
filhos tem ao lado, não morre de enfastiado», «do gem, ocupando-lhe o pensamento com a ladainha
mal que o homem foge, desse morre», mas «morra dos santos lembrada calmamente junto da cabecei-
Marta, morra farta». «Vão à missa os sapateiros, ro- ra. Importa pensar no bem e ocupar-se com «coisas
gam a Deus que morram os carniceiros»; «quem ga- santas». Recita-se o terço junto do moribundo e ar-
nha sem despender, não lhe lembra que há-de mor- ticulam-se jaculatórias à Senhora da Boa Morte. Na
rer, nem que herdeiros há-de ter». «Homem morto oração do povo mais adulto está inscrita a protec-
não falha» diz o povo, enfrentando traições. Falham ção de Deus e do cortejo dos seus santos, de forma
os vivos enquanto podem enganar. O morto dá sinais particular à noite, antes de se deixar vencer pelo
e abre bem os olhos aos vivos. Há um conjunto de sono, sendo a noite e o sono lugares anamnéticos
atitudes prévias que nas aldeias norteiam as gentes e da morte. Ao findar do dia, o povo continua a dizer
que revelam religiosidade misturada de superstição: que a morte tem pleno direito sobre a vida, nela es-
se passa um funeral deve o teu rosto estar pelo me- tá inscrita, a orienta, pois é nela que se decide o
nos a um nível superior ao do caixão, não vá o morto «triunfo do Céu». Reza com fórmulas deste teor:
chamar por ti e ficar-te vinculado; foge dos reflexos «Com Deus me deito, com Deus me levanto / graças
dos metais dos caixões que podem anunciar-te «mor- a Deus, Espírito Santo. / Nossa Senhora me cubra
tes»; completa a tua profissão de fé que no baptismo com o seu manto, / se eu com ele coberto for / nem

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RELIGIOSIDADE POPULAR

terei medo nem pavor / de coisa que má for. / Ama- morte se inscreve na «nova aventura do homem», que
do Jesus, José e Maria, / assisti-me na última agonia. «não é a de assegurar a propriedade do planeta (...),
/ Senhor Jesus, pela vossa grande morte e paixão, / mas, empurrados pelo amor e pela curiosidade, a de
guardai-me, confortai-me / para que convosco triun- se consagrar à itinerância em direcção do além, na
fe no Céu. Amen.» Desta forma, o manto da Virgem sorte, na incerteza». A morte abre brecha na aventu-
protege contra os males da noite, cujo principal sinal ra terrestre, desarma a estrutura física dos indivíduos
é a morte, sendo os «anjinhos» os associados a esta e projecta no espiritual e no indizível; é nesta pers-
tarefa de Nossa Senhora, a do cuidado materno para pectiva que o povo se situa em frente do aconteci-
que «coisa má» não venha a suceder. «Nesta cama mento e o traduz nas formas mais concretas da sua
me deitei, / sete anjinhos nela achei: / três aos pés, religiosidade. Além disso, também os «velórios» in-
quatro à cabeceira, / Nossa Senhora na dianteira. / tegram um sistema de ritos e orações que constituem
Ela me disse de repouso / não tenhas medo de má outros tantos textos para a compreensão das lógicas
cousa / que eu sou a Virgem Maria / Reza um Pai da religiosidade popular, o mesmo acontecendo com
Nosso e uma Avé Maria.» Ao anoitecer, a cenografia os rituais domésticos e sociais do tempo post mor-
é montada, assegurando-se de uma santa companhia tem. Os rituais que o envolvem manifestam a crença,
que velará o mortal no tempo de repouso. Se a noite mais ou menos profunda, na sobrevivência para além
lembra a morte, pode também induzir em fantasias e dela. O povo do Minho não se separou da fé na imor-
arrastar ao mal por sonhos funestos e pesadelos de talidade, sendo a morte a porta para a vida eterna.
mau agouro. O auxílio dos anjos, do lado de Deus, O funeral aparece como grande rito de separação,
constitui uma barreira que não deixa avançar para o saindo para a igreja entre os gritos do último pranto.
leito as «cousas ruins». Os sonhos não serão maca- E preciso retirar a morte de casa. Na serra de Arga,
bros se os últimos pensamentos antes de adormecer por exemplo, para que a alma do defunto não fique
são de índole espiritual. A esta encenação preside presa em casa, levava-se o morto a morrer na varan-
Maria, Nossa Senhora, «na dianteira», como «Se- da; evitava-se assim a contaminação e a separação
nhora da Boa Morte» e como a conselheira última e seria mais total. Se a morte se deu no caminho, o pa-
«advogada da paz», pronunciando uma palavra de dre tem a virtude de «cortar» com o mal passando
apaziguamento e propondo as fórmulas santas da pelo lugar fatídico; a sua passagem «corta» o cami-
oração dos filhos. A cena final do dia é tão pacifica- nho e o funeral pode seguir para a Igreja. O cortejo
dora como curta. Nossa Senhora retém a primazia no manifesta a pertença do morto aos grupos da aldeia,
conjunto, constituindo-se «Mãe de Misericórdia», confrarias e irmandades: o seu estatuto social e as re-
mesmo assinalada em certas imagens ou quadros re- lações que tinha, a sua influência, e ainda a piedade
ligiosos de teor protector, que encimam as camas dos que estrutura a alma dos «companheiros de cada um
crentes, pendurados nas paredes. Sucedem-se as ja- na sua estrada da peregrinação terrestre». O morto
culatórias: «Ó mãe de misericórdia / vós que nunca morre para «este mundo», dizem. Sucedem-se então
abandonais ninguém / vinde em meu socorro / na ho- as missas por alma do defunto e nas «procissões aos
ra terrível da minha morte.» A protecção é também cemitérios» e nas «rezas anuais» ele é lembrado pelo
de aviso: mãe de amparo, sempre presente perto dos menos ao longo do primeiro ano. Um dos costumes
filhos, facilita-lhes uma morte santa, assegurando-a que mais manifesta a comunhão em momentos de
e colocando ao alcance dos fiéis o cuidado de outros oração é o costume de «obradar» ou o dia «das do-
santos. São José e Santo António são parceiros da bradas». Faz-se normalmente no primeiro domingo
boa morte. Se «terrível», porque desmontando a su- depois do enterro e conjugam-se no costume dois
cessão pacífica dos afazeres diários, a morte é mais elementos da piedade cristã - o da oração e o da es-
branda quando os seres do mundo futuro, os santos e mola. Por ocasião da missa, as pessoas oferecem
os anjos, estão ao lado daquele que tem de passar este uma esmola pelo defunto, esmola que é aplicada em
«túnel sombrio e desconhecido». As crenças de uma benefício da sua alma, mormente em missas de su-
luta a travar estão bem presentes na oração popular frágio. Rezar pelos defuntos é obra de misericórdia
que traduz bem as agruras da vida. «Água benta me como dar de comer a quem tem fome. Um outro cos-
lave / Jesus Cristo me salve / água benta benzida / tume, que alimenta a comunhão, é o que se assinala
me lave os pecados / da morte e da vida / (Reza-se nos edículos das «alminhas», os nichos dos cami-
três Ave Maria e diz-se: / Com esta água meu rosto nhos que lembram as almas do Purgatório e que fa-
lavo / para servir a Deus e renegar o diabo.» No ima- zem pedidos de oração, particularmente no Norte do
ginário do povo crente a água benta, o sinal da Cmz, país; por vezes estão cobertos de velas e de flores
a jaculatória... são formas de expulsar o poder tenta- que a piedade dos fiéis ali deixou. Estão em pontos
dor do demónio, de vencer o pecado e de assegurar estratégicos da aldeia. De certa maneira imortalizam
uma boa passagem. A boa morte situa-se do lado de a devoção às almas do purgatório. Por estas reza-se
uma boa companhia, dos santos, de Cristo, de Maria, todos os dias quando os sinos dobravam ao cair da
implicando e exigindo a expulsão quotidiana do «ini- noite, no «toque das trindades», no «toque às almas»
migo» que pode conduzir à «morte eterna». Com- ou «no deitar as almas»: «Alerta, alerta... / a vida é
preende-se que esta luta povoe de fantasmas funestos curta; a morte é certa... / O'irmãos meus! / Filhos de
a vida quotidiana e que «o medo mágico da morte» Jesus Cristo... / Rezai um Pai Nosso... / e um Ave
não ceda tão depressa o lugar a uma «preocupação Maria... / pelas benditas almas... / do fogo do Purgató-
natural». As orações reflectem um conjunto de pre- rio!... / Quem assim fizer... / será por amor de Deus.»
cauções a tomar para que a morte aconteça do lado O exemplo é o de um pregão em Vitorino de Piães,
bom, isto é, possibilite a vida eterna feliz, já que a ao entrar a Quaresma, quando cessam os cantos
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RELIGIOSIDADE POPULAR

profanos; durava nove dias, ao tocar das Trindades. do seu Espírito que, sendo um só na cabeça e nos
Noutras terras correspondia-lhe a «encomendação membros, de tal modo vivifica todo o corpo, o unifi-
das almas». 5. Tarefas pastorais: Nos documentos ca e o move, que o seu oficio pode ser comparado
do magistério da Igreja Católica a grande directriz pelos santos padres com a função que exerce o prin-
pastoral relativa à religiosidade popular tem sido a cípio da vida ou a alma no corpo humano» (LG 7).
evangelização, integradora de uma polaridade ten- Desta forma, a Igreja define-se como uma comuni-
sional, a da pregação da mensagem do Evangelho dade viva, no sentido autêntico da palavra. É um
vinculada ao assentimento íntimo a despertar no co- verdadeiro corpo místico, e o carácter místico ou so-
ração dos crentes. Segundo a orientação católica, brenatural funda-se num elemento divino e vivifica-
devem ser tidos na devida conta dois princípios de dor. Todas as sociedades constituídas pelos homens
evangelização interna. «A evangelização deve sus- têm vida em certo sentido, movem-se, progridem,
citar a convicção de que Deus se encontra em Cris- aperfeiçoam-se. Na realidade, porém, o princípio
to para dar significação à vida humana. Estar em que as anima está fora delas, é o seu fim, e o fim é
Cristo quer dizer participar no seu amor pelo ho- uma causa extrínseca. Coisa que não rima (está de
mem e viver em comunhão fraterna. Estar por Cris- acordo) com a definição da vida, que é a do movi-
to significa abertura c empenhamento histórico para mento que procede de dentro. Nem se diga que a vida
construir a nova humanidade.» A faceta interna da das sociedades vem dos indivíduos que as constituem;
evangelização deve tender à persuasão profunda do estes são os que a manifestam, são os membros que
«estar em», «com» e «por» Cristo que reflecte três se aproveitam dela. A vida dessas sociedades procede
dimensões importantes: a «em», isto é, dimensão do fim, que se assimila mais ou menos, que é mais
vertical de posse da caridade (Amor) de Deus Pai em ou menos operante em cada um dos que a ele ten-
Jesus Cristo, sintonizando com a vida íntima da dem. E o fim é sempre causa extrínseca. Daí que não
Trindade; a «com», isto é, dimensão horizontal do se possa dizer com exactidão que as sociedades são
Amor que se estende sobre todos os homens numa organismos vivos. A Igreja, pelo contrário, se o é,
perspectiva universalista e à imagem e semelhança é porque tem um princípio vivificador intrínseco.
de Cristo; a «por», isto é, dimensão de compromisso O Espírito Santo não é somente fim e meta; é tam-
socioistórico para transformar o universo pela cari- bém princípio animador da Igreja, princípio imanen-
dade de Deus para que surjam «os novos céus e a te ou interno, embora não formal. O Espírito é o
nova terra». A este cristocentrismo da evangelização princípio vivo e vivificador. No ritmo de crescimen-
deve vincular-se o papel do Espírito Santo como al- to da Igreja em todos os aspectos e consequentemen-
ma da Igreja. «Para que nos renovássemos incessan- te na vivificação de todo o fenómeno eclesial, a fun-
temente nele (cf. Ef. 4, 23), concedeu-nos participar ção do Espírito Santo caracteriza-se como princípio
RELIGIOSIDADE POPULAR

animador que conduz ao crescimento e «que dá a vi-


da». No fenómeno da religiosidade popular, p