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[ matemática ]

Equações da vida

E
xplicar os fenômenos da natureza com equações
A mesma estrutura matemáticas é uma tarefa rotineira e incorpora­
de códigos une da aos estudos da física, da química e da própria
matemática. A biologia tem uma tradição menor
sequências de DNA nesse sentido. Essa relação é perseguida por vários
e comunicação digital grupos de estudo na Europa e nos Estados Unidos
que buscam uma vinculação dos genomas de seres
vivos com estruturas matemáticas para tentar compreen­
Marcos de Oliveira der melhor a formação da vida no planeta. Mas a primazia
de encontrar tal vínculo coube a um grupo de pesquisa­
dores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
e da Universidade de São Paulo (USP) que encontraram
uma relação matemática entre um código numérico e a
sequência do DNA, a sigla em inglês do ácido desoxirribo­
nucleico que carrega os genes dentro das células. Outros
pesquisadores já haviam sugerido essa relação, mas não
conseguiram provar. Os brasileiros descobriram que as
bases nitrogenadas timina (T), guanina (G), citosina (C) e
adenina (A) se organizam segundo uma lógica numérica.
“A distribuição dessas bases possui um código matemático
que prevaleceu ao longo da evolução dos seres vivos”, diz o
professor Márcio de Castro Silva Filho, da Escola Superior
de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP. “Descobrimos
que uma proteína ao perder a função biológica devido a

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uma mutação, por exemplo, deixa de ciação de códigos de correção de erros
ser representada por uma estrutura com sequências de DNA não é nova. É
matemática”, diz Silva Filho, um dos objeto de pesquisa desde a década de
coordenadores do grupo. 1980 e um dos principais estudiosos
Os pesquisadores não desenvol­ é o professor Hubert Yockey, que tra­
veram um código novo para explicar balhou na Universidade da Califórnia
a sequên­cia do DNA. Eles verificaram em Berkeley, nos Estados Unidos, e
que existe uma relação entre certas se­ publicou dois livros: Information theo­
quências de DNA com o código corretor ry and molecular biology, em 1992, e
de erros (ECC, sigla de error-correcting Information theory, evolution, and the
code), que são equações matemáticas origin of life, em 2005, ambos editados
utilizadas em todo processo digital, pela Cambrigde University Press. Outro
usado em sistemas de comunicação e pesquisador da área é Gérard Battail,
de telecomunicações, em memórias de professor aposentado da Escola Nacio­
computador e memórias flash de pen- nal Superior de Telecomunicações, da
-drives para corrigir ruídos ou defeitos França, que tem escrito artigos propon­
que surjam nas transmissões. O código do a relação entre código corretor de
também é conhecido pelas letras BCH, erros e o genoma. Eles têm demonstrado
que são as iniciais de seus descobrido­ o processo e levantado hipóteses, mas
res – os indianos Raj Chandra Bose e não apresentaram as relações matemá­
Dwijendra Kumar Ray-Chaudhuri e o ticas com o DNA. Os brasileiros con­
francês Alexis Hocquenghem –, e não seguiram estabelecer essa relação nas
apenas identifica o erro mas também sequên­cias do ácido ribonucleico men­
faz a correção. A atribuição da asso­ sageiro (RNAm) que geram as proteínas.
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na sequência de DNA que codifica uma
proteína e depois são feitos os testes em
laboratório para verificar a eficácia da
reação num experimento de tentativa
e erro. Com as equações matemáticas
será possível testar a afinidade e a es­
tabilidade da proteína em um trabalho
preliminar de forma a verificar muta­
ções e, posteriormente, testá-las a partir
de experimentos de laboratório para
confirmar se a mutação na sequência
de DNA deu o resultado esperado. “Se a
estrutura matemática não se mantiver,
a alteração não vai ser efetivada e não
produzirá os resultados esperados.”
A descoberta da existência de um
código matemático que transcreve a
sequên­cia de DNA aconteceu quase
por acaso e começou com o professor
Palaz­zo, que lançou um desafiante ob­
“Ao conhecermos a estrutura matemáti­ tes (PCT, na sigla em inglês), em vários jetivo a duas alunas de doutorado, Lu­
ca da proteína é possível alterar a ordem países, e outra nos Estados Unidos, com zinete Cristina Bonani Faria e Andrea
das bases e também corrigir as mutações financiamento da FAPESP e gerencia­ Santos Leite da Rocha, orientadas por
ou erros que possam acontecer para vol­ mento da Agência de Inovação da Uni­ ele na Feec e oriundas da graduação
tar à condição normal de uma proteína”, camp e da Agência USP de Inovação. da Pontifícia Universidade Católica de
diz o professor. Laboratórios do mundo poderão usar, Campinas (Puccamp), com mestrado
se licenciarem a patente, as estruturas na Unicamp. Elas deveriam procurar as
Problema molecular – A capacidade matemáticas descobertas pelo grupo, informações que transitam dentro de
de corrigir uma mutação ou um erro possivelmente na forma de um softwa­ uma célula. “Dentro da mitocôndria,
celular poderia, por exemplo, no fu­ re, para testar proteínas em um amplo um órgão responsável pela respiração
turo utilizar uma solução matemática leque de produtos. “Essas informações celular, existem moléculas de DNA pa­
para atuar sobre a falta de produção são importantes para desenvolver vaci­ ra sintetizar certas substâncias, mas ela
de insulina pelas células do pâncreas, nas, medicamentos ou proteínas para não tem todas as proteínas e precisa so­
corrigindo erros em um gene específi­ elaboração de queijos e amaciantes de licitar proteínas extras produzidas por
co. “Seria possível identificar a estru­ roupa, por exemplo”, diz o professor genes localizados no núcleo de modo
tura matemática das mutações e onde Silva Filho. Hoje se faz uma alteração a realizar as funções na organela. Nesse
elas ocorreram e talvez corrigir esse
problema molecular para o organis­
mo voltar a produzir insulina, rever­
tendo as estruturas anteriores. Outra
possibilidade seria fabricar proteínas a O Projeto
partir do código matemático ou ainda Código matemático de geração
encontrar proteínas não conhecidas e decodificação de sequência
existentes nas células”, diz o professor de DNA e proteínas: utilização
Reginaldo Palaz­zo Júnior, da Faculdade na identificação de ligantes e
de Engenharia Elétrica e de Computa­ receptores – n° 2008/04992-0
ção (Feec) da Unicamp, outro coorde­
modalidade
nador do grupo. “A correção ou a forma Programa de Apoio à
de reverter o erro nas células acontece Propriedade Intelectual (Papi)
da mesma forma que num disco rígido
(HD), que tem um setor danificado e o Co­or­de­na­dor
ECC reconstitui as informações.” Márcio de Castro Silva Filho – USP
Com tantas possibilidades de uso na
investimento
indústria, além do significado científico R$ 13.200,00 e US$ 20.000,00
importante da descoberta, os pesqui­ (FAPESP)
sadores resolveram, antes de publicar
a novidade em periódicos científicos,
depositar uma patente internacional
pelo Tratado de Cooperação em Paten­

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caso, para os matemáticos, a proteína é semanas aceitou o trabalho e o elegeu
informação e existe um código padrão o melhor artigo de fevereiro deste ano,
para transmiti-la”, explica o professor colocando-o na capa do mesmo mês.
Palazzo. O modelo apresentado pelos A teoria da Eles começaram a mostrar o estudo em
pesquisadores brasileiros se ajusta a congressos internacionais de teoria da
qualquer sequência de DNA produtora informação é uma informação e devem apresentar novos
de proteínas dentro da célula. resultados com informações mais deta­
Palazzo é um especialista na chama­ ferramenta lhadas e com outras ferramentas mate­
da teoria matemática da comunicação, máticas. No artigo da Electronics Letters,
área de estudo que pesquisa a transmis­ adequada para o “DNA sequences generated by BCH
são de todo tipo de informação e seus codes over GF(4)”, ou “Sequências de
códigos. Também chamada de teoria
dos códigos, ela analisa as formas de
intercâmbio com a DNA geradas pelo código BCH sobre
GF(4)”, eles apresentaram uma parte
transmissão independentemente do do trabalho utilizando a estrutura ma­
significado. Assim não importa a pala­ biologia molecular, temática chamada de corpo algébrico
vra que está sendo transmitida, mas co­ de Galois, enquanto novos resultados
mo ela é enviada de um emissor A para diz Gérard Battail usam a estrutura de anel de Galois. Em
um receptor B, dentro de um contexto uma simplificação, poderíamos dizer
matemático.“Essa teoria foi apresentada que em relação ao corpo o produto de
por Claude Shannon [matemático e en­ dois números diferentes de zero resulta
genheiro eletrônico norte-americano] máticos e um engenheiro elétrico e eu, em um número diferente de zero, en­
em 1948”, lembra Palazzo. um geneticista especializado em trans­ quanto na estrutura de anel o produto
Para o estudo de Andrea e Luzinete, porte de proteínas”, lembra Silva Filho. pode ser zero. Para os matemáticos isso
Palazzo sugeriu que elas procurassem A primeira amostra de DNA investigada faz muita diferença na apresentação dos
os professores da Unicamp, da área da pelas pesquisadoras da Unicamp foi da resultados. Até agora eles apresentaram
Faculdade de Ciências Médicas (FCM), Arabidopsis thaliana, planta da família apenas os resultados em corpo.
inicialmente, para encontrar compo­ da mostarda, que serve de modelo para O feito dos pesquisadores brasilei­
nentes biológicos e se aprofundar no estudos genômicos. A partir daí, elas ros apresenta uma solução importante e
tema. Depois de muita procura, elas ficaram trabalhando durante seis meses. uma novidade para a biologia. Ela inicia
ouviram a sugestão do professor Ani­ “Começaram a testar vários elementos uma nova fase em que os fenômenos
bal Vercesi, da FCM, para procurarem matemáticos para tentar achar alguma que estuda passam a ser analisados
o professor Márcio de Castro Silva Fi­ sistematização em relação ao genoma”, por métodos quantitativos. “Em 1999,
lho na Esalq. “Fomos conversar com explica Palazzo, que contou também a Academia Real da Suécia indicou que
ele e estabelecemos um casamento de com a colaboração no estudo do enge­ um dos avanços da ciência no novo sé­
interesses”, diz Palazzo. “Começamos nheiro da computação João Henrique culo seria a incorporação de mais ma­
um diálogo tendo de um lado mate­ Kleinschmidt, ex-aluno de doutorado temática aos estudos da biologia”, lem­
e atual professor da Universidade Fe­ bra Silva Filho. Mas para isso tanto os
deral do ABC, em Santo André, na Re­ pesquisadores brasileiros como Battail
gião Metropolitana de São Paulo. “Um e Yockey concordam que é preciso um
dia elas me chamaram na Unicamp e maior diálogo entre biólogos, matemá­
me mostraram os resultados. Quando ticos e engenheiros eletrônicos. “Como
percebi o que era fiquei sem fala. Pensei engenheiro, eu estou convencido de que
que fosse uma coincidência e passamos a teoria da informação é uma ferramen­
a repetir o trabalho usando outros ge­ ta adequada para intercâmbio com a
nomas, do homem, de bactérias, fungos biologia molecular”, escreveu Battail em
e plantas. Descobrimos que é um pro­ uma apresentação do livro de Yockey
cesso universal”, conta Silva Filho. em 2006. “Ainda estamos distantes de
uma interdisciplinaridade que permi­
Entender a linguagem – No final de ta a conversa entre áreas para projetos
2009, eles submeteram um artigo às desse tipo. Mas nós já demos um bom
revistas Nature e Science, mas as duas passo”, diz o professor Palazzo. n
recusaram dizendo que era algo muito
específico. “Acredito que eles não en­
tenderam a linguagem matemática do Artigo científico
paper”, diz Silva Filho. “Isso faz parte
Faria, L.C.B.; Rocha, A.S.L.;
da dificuldade da conversa entre bió­ Kleinschmidt, J.H. ; Palazzo Jr., R.;
logos, engenheiros, médicos etc.”, diz Silva Filho, M.C. DNA sequences genera­
Palazzo. Aí eles resolveram enviar para ted by BCH codesover GF(4). Electronics
a revista Electronics Letters, que em três Letters. v. 46, n. 3, p. 202-03. fev. 2010.

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