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O autor introduz o tema sobre a história lendária de Édipo e anuncia uma análise psicanalítica

sobre os fatos. Para tanto, é realizado um resgate da lenda como maneira de iniciar sua proposta
de confrontar os fatos da história com sua análise.

No início o autor discorre sua análise em função do apego de Édipo a sua mãe pois o mesmo
jamais conseguiu desamarrar-se. Tal análise parte da metáfora do personagem ter sido
amarrado a uma árvore no Monte Citerão. Ao resgatar Édipo, um pastor de Corinto não só corta
a corda, mas também a relação entre mãe e filho, permitindo-lhe se diferenciar de sua mãe.
Mesmo adotado Édipo nunca esteve atado aos seus pais adotivos e fugiu de Corinto ao descobrir
sua história e a previsão trágica feita pelo oráculo.

Em sua viagem de fuga de Corinto, Édipo assassina seu pai biológico não sabendo que se
consumara o parricídio. Ainda, ao decifrar o enigma da esfinge, Édipo recebe a mão de sua
verdadeira mãe como seu prêmio e passou a reinar sobre Tebas. Para o autor:

Temos aí uma cisão da figura materna – de Jocasta, portanto – e a


derrotada imago da mãe aterradora e perseguidora. Foi graças a esse
mecanismo de defesa que Édipo conseguiu casar-se com Jocasta
depois de ter matado Laio (p. 2).

Ao ser pressionado e investigado, foi descoberta toda história real sobre Édipo sendo ele
reconhecido com parricida e incestuoso. Sua mãe, por culpa, se enforcou. A partir da análise
freudiana a concepção é de que a criança do sexo masculino, entre 3 e 5, chega a sua organização
fálica e deseja sexualmente sua mãe, tendo o pai como seu rival. Nesse contexto, o menino quer
possuir sexualmente sua mãe e matar o pai.

A superar essa etapa da infância há rompimento de dependência e desejo sobre a mãe. Segundo
Freud isso é possível pelo medo da castração, uma vez que ao reconhecer a falta do pênis na
mulher, o menino passa a ter medo que o medo lhe aconteça como foram de castigo oferecido
pelo pai.

O menino acaba, na hipótese mais favorável, por abrir mão do seu


projeto incestuoso. Ele internaliza a proibição do incesto e se identifica
com os valores paternos. Dessa forma, cumpre uma etapa
fundamental que o prepara no sentido de se tornar sócio da sociedade
humana (p. 4).

Embora o temor da castração seja representado como uma lei perversa (lei da Cultura), somente
o amor materno é que permite o menino uma aceitação da proibição do incesto. É o amor
materno que funda a personalidade para que o menino supere a separação.

Há um momento, no Édipo, em que a criança tem que assumir sua


condição de terceiro termo excluído [...] A Lei existe, não para
humilhar e degradar o desejo, mas para estruturá-lo, integrando-o no
circuito do intercâmbio cultural. A estrutura edípica representa a
gramática elementar do desejo (p. 5).

Por se considerar Édipo por uma Lei do desejo, pode-se afirmar que a Lei existe sobre a égide
de Eros, sendo então um produto erótico. Em um processo civilizatório não é diferente, porém
há sempre uma renúncia pulsional erótica. Entretanto, a repressão no processo civilizatório não
depende exclusivamente de tais necessidades, mas também pela luta de classes, por exemplo.
Embora reconhece-se isso pela psicanálise, Freud não foi adiante nesse contexto.
A voltar a discussão ao Édipo, o autor ainda argumentar que a criança deve renunciar a
onipotência do seu desejo, adequando a realidade, fazendo isso pelo temor subordinado ao
amor. Esse processo de repressão é fundamental para o desenvolvimento da criança, pois
futuramente irá contribuir para construção de sua vida social.

Na idade adulta, ao pacto com a Lei da Cultura – centrado em torno da


renúncia – e aos impulsos sexuais, acrescenta-se um pacto social,
estruturado em torno da questão do trabalho. O trabalho é o
elemento mediador fundamental, por cujo intermédio, como adultos,
nos inserimos no circuito e intercâmbio social, e nos tornamos de fato
e de direito-sócios plenos da sociedade humana (p. 7).

Nesse sentido, o pacto com a Lei do pai torna possível o pacto social, por meio das interações
vindas do trabalho. Ou seja, há uma relação de dependência com a Lei da Cultura, se há uma má
integração dessa lei pode ser gerada uma conduta antissocial.

Ao realizar o pacto social, o sujeito oferece sua competência e sua renúncia ao prazer (sendo
isso exigido pela sociedade) para ter o direito de receber condições para preservação de sua
integridade física e psíquica. Caso os direitos do trabalho forem respeitados, segundo essa lógica
o sujeito desprezará a sociedade (fundadora do pacto) e poderá se tornar revolucionário, sendo
essa a melhor das hipóteses. Na pior das hipóteses, o rompimento do pacto social terá,
repercussões intrapsiquicas, que irão abalar os fundamentos do pacto primordial com o Pai
simbólico e com a Lei da Cultura.

Tal desastre psíquico vai implicar o rompimento da barreira que


impedia, em nome da Lei, a emergência dos impulsos delinquenciais
pré-edípicos, predatórios, parricidas, homicidas e incestuosos.
Assistimos a uma verdadeira volta do recalcado. Tudo aquilo que ficou
reprimido ou suprimido – em nome do pacto com o pai – vem à tona
sob forma de conduta delinquente e anti-social (p. 8).