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2009/2010

Prof.
Escola E.B 2,3 Dr. António Francisco Colaço
Manuela Pereira
Língua Portuguesa – 9º ano
3º Período
Teste de Preparação

I
5
Lê atentamente o excerto do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente que se segue:

Vem um Onzeneiroi, e pergunta ao Diabo – Não cures de mais


Arrais do Inferno, dizendo: linguagemviii.

Onzeneiro – Pera onde caminhais? Onzeneiro – Pera onde é a passagem?

Diabo – Oh! Que má-hora venhais, Diabo – Pera a infernal comarca.


Onzeneiro, meu parente!
Onzeneiro – Dixix! Nom vou eu em tal
Como tardaste vós tanto? barca.
Estoutra tem avantagem.
Onzeneiro – Mais quisera eu lá
tardar… Vai-se à barca do Anjo e diz:
Na safraii do apanhariii
me deu Saturnoiv quebrantov. Hou da barca! Houlá! Hou!
Havês logo de partir?
Diabo – Ora mui muito m’ espanto
nom vos livrar o dinheiro! Anjo – E onde queres tu ir?

Onzeneiro – Solamente pera o Onzeneiro – Eu pera o Paraíso vou.


barqueiro
nom me leixaram nem Anjo – Pois cant’eu mui fora estoux
tantovi… de te levar para lá.
Essa barca que lá está
Diabo – Ora entrai, entrai aqui! vai pera quem te enganou.

Onzeneiro – Não hei eu i d’embarcar! Onzeneiro – Porquê?

Diabo – Oh! que gentil recear, Anjo – Porque esse bolsão


E que cousas pera mi! tomara todo o navio.

Onzeneiro – Ainda agora faleci, Onzeneiro – Juro a Deos que vai


leixa-me buscar batel! vazio!
Pesar de São Pimentelvii,
Nunca tanta pressa vi! Anjo – Não já no teu coração.

Pera onde é a viagem? Onzeneiro – Lá me fica de Rodãoxi


minha fazendaxii e alhea.
Diabo – Pera onde tu hás-de ir. Anjo – Ó onzenaxiii, como es fea
E filha de maldição!
Onzeneiro – Havemos logo de partir?
Torna o Onzeneiro à barca do Inferno
e diz:
Onzeneiro – Houlá! Hou demo Onzeneiro – Ó triste, quem me
barqueiro! cegou?
Sabês vós no que me fundoxiv?
Quero lá tornar ao mundo Diabo – Cal’-te, que cá chorarás.
e trarei o meu dinheiro.
Aqueloutro marinheiro, Entrando o Onzeneiro no batel, que
Porque me vê vir sem nada, achou o Fidalgo embarcado, diz, 5
dá-me tanta borregadaxv tirando o barrete:
como arrais lá do Barreiro.
Onzeneiro – Santa Joana de Valdêsxvii
Diabo – Entra, entra! Remarás! Cá é vossa senhoria?
Nom percamos mais maré!
Fidalgo – Dá ò demo a cortesia!
Onzeneiro – Todavia…
Diabo – Ouvis? Falai vós cortês!
Diabo – Per forç’é! Vós, fidalgo, cuidarês
Que te pésxvi, cá entrarás! que estais na vossa pousada?
Irás servir Satanás Dar-vos-ei tanta pancada
porque sempre te ajudou. Com o remo, que reneguêsxviii!

1. Delimita o percurso cénico do Onzeneiro.

2. A segunda personagem a entrar em cena, no Auto da Barca do Inferno, é o


Onzeneiro, a quem o Diabo trata por “seu parente” (verso 183).
2.1. Relaciona esta forma de tratamento com a afirmação do Diabo contida nos
versos 236-237.
2.2. O Onzeneiro esperava morrer neste momento? Justifica com uma
passagem do texto.
2.3. Efectua o levantamento das expressões irónicas usadas pelo Diabo no
primeiro momento do percurso cénico do Onzeneiro.

3. O diálogo entre o Anjo e o Onzeneiro é breve.


3.1. Por que razão lhe é recusada a entrada na barca da Glória?
3.2. O que argumenta o Onzeneiro em sua defesa?

4. Tal como o Fidalgo fizera, também o Onzeneiro expressa o desejo de voltar,


por momentos, à Terra.
4.1. Com que objectivo?
4.2. Que traço do seu carácter é aqui posto em evidência?
4.3. Refere que outras características tem o Onzeneiro. Justifica.

5. Já dentro da barca do Inferno, o Onzeneiro encontra-se com o Fidalgo.


5.1. Que sentimento expressa a interrogação que lhe dirige?
5.2. Como explicas a reacção intempestiva do Fidalgo?

6. Identifica as figuras de estilo presentes neste excerto do Auto da Barca do


Inferno.
7. Identifica os tipos de cómico presentes na cena em análise.

II

1. Explica o que são arcaísmos.


1.1 Exemplifica retirando do texto três arcaísmos.

2. Qual a origem da língua portuguesa? 5


2.1. Enumera as outras línguas que tenham a mesma origem.

3. Identifica as diversas fases de evolução da língua portuguesa.

4. Identifica os fenómenos de evolução fonética que ocorreram nos seguintes


vocábulos:

a) avantagem > vantagem


b) fea> feia
c) si> sim
d) viiir > vir
e) vita > vida
f) secretu > segredo
g) som > sou
h) arrecear > recear
i) assi > assim

5. Estabelece ligações entre as frases seguintes, bem como as alterações


necessárias de modo a formares as frases indicadas nas respectivas alíneas:

O Fidalgo chegou à barca do Inferno.


O Fildalgo vinha com um pajem.

a) Frase Subordinada Relativa Explicativa;


b) Frase Subordinada Temporal.

6. Divide e classifica as seguintes frases:

a) O Onzeneiro disse que o seu bolsão estava vazio.

b) Embora não trouxesse um tostão consigo, o Onzeneiro foi para a barca dos
danados.

c) O Diabo queria obter o maior número de passageiros possível, pois queria


mão-de-obra gratuita.

III

1. Imagina que o Onzeneiro consegue voltar à vida durante 24 horas. Elabora


um texto sobre esse dia do Onzeneiro.
2009/2010
Bom Trabalho!
Prof.
Escola E.B 2,3 Dr. António Francisco Colaço
Manuela Pereira
Língua Portuguesa – 9º ano
3º Período
Teste de Preparação

5
I

1. Quem é o autor da obra Auto da Barca do Inferno?


2. Em que século foi escrita essa obra?
3. Quais as personagens que permanecem sempre em cena ao longo de todo o
auto?
4. À medida que vão morrendo, as personagens recém falecidas chegam ao
cais.
4.1. Considerando a leitura e análise da obra Auto da Barca do Inferno, nas
aulas de Língua Portuguesa, até ao momento em estudo, que personagens
já chegaram ao cais?
4.2. Qual foi a primeira personagem a chegar ao cais? E a última até ao
momento em estudo?
5. O que simbolizam os elementos cénicos que acompanham as personagens?
6. Que elementos cénicos transportava o sapateiro?
7. Qual a língua a partir da qual se formou o português?
8. Que outras línguas tiveram origem nessa mesma língua?
9. Refere qual/quais o(s) objectivo(s) de Gil Vicente ao elaborar o Auto da
Barca do Inferno.
10. Elabora uma reflexão sobre a actualidade da obra.

Bom Trabalho!
i
Aquele que empresta dinheiro a um juro de 11%;
ii
Colheita, azáfama;
iii
Amealhar dinheiro;
iv
Deus romano responsável pelo Tempo e pela extensão da vida;
v
Doença, mau-olhado, morte;
vi
Nem sequer me deixaram uma moeda para dar ao barqueiro;
vii
Personagem conhecida do público, imprecação;
viii
Escusas de falar mais;
ix
Já disse;
x
Não estou disposto;
xi
Em confusão;
xii
Bens;
xiii
Juro de 11%;
xiv
Sabeis vós no que me fundamento?;
xv
Pancada;
xvi
Ainda que te custe;
xvii
Personagem da época que o público conhecia, semelhante a Brísida Vaz (prostituta);
xviii
Detesteis, que haveis de praguejar!