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Subwoofers – A Lenda!!

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Uma conversa quase informal sobre subwoofers e alguns de seus arranjos.!
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Por Alexandre Rabaço!
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Desde pequenos, no colégio da tia Talita, fomos levados a acreditar que os subwoofers são
omnidirecionais. Na verdade, tecnicamente eles o são; mas praticamente, o caso é um pouco
mais complexo. Vejamos algumas figuras:!
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Podemos perceber que à medida que a frequência emitida pelo sub aumenta, sua característica
direcional muda, se afastando cada vez mais do tipo “omnidirecional”, produzindo mais pressão
sonora na frente do que atrás da caixa.!
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Vamos guardar esta informação por enquanto: os subs não são exatamente omnidirecionais.!
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Há algum tempo temos visto muitas experiências com arranjos de subwoofers, a maioria delas
com a intenção de criar algum controle direcional nas baixas frequências. Muito se diz sobre
alguns arranjos que têm “maior pressão sonora do que arranjos tradicionais” ou “mais punch”, ou
“mais impacto”… Enfim, você pode escolher a palavra que melhor define o arranjo no seu caso,
na sua percepção. Porém, precisamos olhar com cuidado estas afirmações.!
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Vamos estudar, como exemplo, um caso muito conhecido: o “inverted stack gradient”. Este arranjo
foi descrito por Harry Olson (sempre ele…) em 1972 (!) e consiste em colocarmos uma caixa
virada na direção do público e outra invertida, virada “para trás” !
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(figura 1).!
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O procedimento para conseguirmos um grande cancelamento atrás do arranjo é relativamente
simples, quando temos as ferramentas adequadas de manipulação e medição. Precisamos
colocar as caixas “em fase” e com o mesmo nível de pressão sonora na parte de trás do arranjo.
Daí, basta inverter a polaridade de uma das caixas e o arranjo estará pronto: o cancelamento
estará garantido. Mas espere: eu falei que precisamos ter o mesmo nível de pressão sonora atrás
do arranjo. Lembra daquela informação que guardamos há alguns segundos? “Os subs não são
exatamente omnidirecionais”.!
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Sendo assim, o que precisamos fazer para garantir que os níveis atrás do arranjo sejam
idênticos? Acertou quem pensou que precisamos atenuar a caixa que está virada para trás.!
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Opa! Apareceu a palavra “atenuar”…!
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Isso quer dizer que não vamos mais ter a máxima pressão sonora possível com este arranjo
quando comparado com um arranjo “tradicional”? Acertou de novo quem respondeu “SIM!”]!
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Na figura 2 podemos ver o resultado do arranjo em questão SEM o ajuste de nível na parte de
trás. Bom, né?!
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Na figura 3, podemos ver o mesmo arranjo COM o ajuste de nível. Melhor né? Depende®…!

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Nas simulações referentes às figuras, utilizando os subs 700HP da Meyer Sound (usarei este
modelo de sub para todas as predições neste artigo), quando ajustamos os níveis atrás, teremos
uma máxima pressão sonora na frente de cerca de 108,8 dB SPL a 14 metros do arranjo. Quando
não ajustamos, teremos 109,9 dB SPL. 1,1 dB de diferença não é preocupante.!
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Mas quanto seria a máxima pressão destas duas caixas se voltadas para frente? 112,6 dB SPL,
sempre a 14 metros. Agora já são 3,8 dB, comparado com o arranjo “ajustado”…(Fig. 4)!

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– Por que precisamos ter o mesmo nível de pressão sonora entre as caixas atrás do arranjo?!
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Bem, naquele ponto, precisamos ter uma interferência, uma máxima interação entre as duas
caixas para que o cancelamento seja grande. E a máxima interação entre sinais se dá quando o
nível dos mesmos é igual. Por isso a necessidade de igualarmos os níveis na parte posterior do
arranjo.!
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– Mas e se eu não quiser atenuar a caixa que está virada ao contrário? Será que eu não poderia
colocar outra caixa virada para frente? Assim eu aumentaria a pressão sonora atrás (e na
frente…), evitando a necessidade de atenuação da caixa virada para trás!!
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Boa ideia! O arranjo, então, poderia ficaria como na figura 5, logo abaixo.!
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Pronto! Problema resolvido! Veja na figura 6 como fica a distribuição de pressão no ambiente:!
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Mas será assim tão bom? Vamos estudar mais um pouquinho como funciona um subwoofer na
vida real.!
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De quanto será a diferença em dB SPL da parte da frente para a parte de trás de um subwoofer?
Vejamos como se comportam os subs utilizados nos nossos exemplos: diferença de 4 dB em 80
Hz, de 3,1 dB em 63 Hz e de 2,6 dB em 35 Hz!
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Imaginando que conseguimos ajustar tudo direitinho atrás do arranjo (níveis e fase + inversão de
polaridade), o que acontece na frente?!
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Sabemos que cada vez que dobramos o número de fontes sonoras acopladas com mesma fase e
mesmo nível, aumentamos a pressão sonora em 6 dB. Ou seja: se as duas caixas que estão
viradas para frente estiverem cumprindo a regra, teremos um aumento de 6 dB de pressão sonora
quando comparado com o nível de uma caixa. E a terceira caixa? De quanto seria o aumento na
pressão sonora?!
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Bem, se ela estivesse cumprindo as “regras do acoplamento”, o aumento na pressão sonora
deveria ser de cerca de 3,5 dB. Mas somente se ela estivesse produzindo o mesmo nível das
suas companheiras e estivesse em fase com elas. E isso definitivamente não está acontecendo;
nem uma coisa nem outra, pelo menos para a maior parte da banda passante de interesse: o nível
produzido por ela está abaixo de cada uma de suas companheiras, se distanciando cada vez mais
à medida que a frequência sobe. E a fase? Para saber o que está acontecendo com a fase deste
arranjo na frente dele, precisamos entender o que foi feito para que ele funcione como esperado
atrás.!
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Há pouco, aprendemos que precisamos colocar os sinais das caixas em fase na parte de trás,
para depois invertermos a polaridade e assim criarmos o tão esperado cancelamento. Como
fazemos isso?!
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Olhando com atenção o arranjo por trás, percebemos que vamos precisar aplicar um atraso na
caixa que está virada para trás para que o som que sai dela chegue em fase (ao mesmo tempo!)
com as caixas que estão viradas para frente, na parte de trás do arranjo. Quando aplicamos o
atraso correto, tudo chegará em fase atrás. Veja a sequência de figuras 7 a 9, que mostram,
respectivamente, a medição de uma caixa frontal, a medição de duas caixas frontais, a medição
da caixa traseira primeiro sem nenhum processamento e depois com o delay necessário para ficar
em fase com as caixas da frente (no mesmo gráfico), tudo medido atrás do arranjo.!
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Na figura 10 podemos ver que todas as caixas estão em fase atrás. Percebam a pequena
diferença de pressão sonora entre a caixa virada para trás (linha branca) e as duas caixas frontais
(linha azul). Neste ponto, invertemos a polaridade e pronto: teremos cancelamento atrás!!
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E na frente? O que acontece? Vamos ver na figura 11 as respostas de fase das caixas da frente
comparada com a caixa de trás, medido na frente.!

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Hummm… Nem tudo está em fase. Nada está com mesmo nível… O que acontecerá?!
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Acertou quem respondeu que a soma na frente será menor do que os 3,5 dBs teóricos. Lembrem-
se: a máxima interação entre dois sinais se dá quando os níveis destes são iguais! Dependendo
da diferença de nível entre os sinais, a fase nem é importante porque não haverá interação
significativa (mas isso é assunto para outro artigo…).!
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E qual o problema dessa aparente “perda” de pressão? Na verdade, quase nenhum, quando
nosso intuito é criar algum tipo de controle na diretividade nas baixas frequências. O problema é
alguém sair dizendo por aí que este arranjo é mais eficiente do que um arranjo tradicional, em
termos de máxima pressão sonora.!
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Daí, alguém pergunta: – Mas por que eu achei que o som fica melhor, mais definido, com este tipo
de arranjo?!
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A resposta, por incrível que pareça, está na acústica da sala onde o sistema foi ouvido.!
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Quem já ouviu falar em Distância Crítica (DC)?!
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Bem, em uma sala, o nível de reverberação é constante e igual por toda a extensão da mesma;
chamamos isto de “campo reverberante”. Sendo assim, à medida que nos afastamos do sistema
de falantes, estamos cada vez mais ouvindo o “som da sala”, ou melhor, o campo reverberante, e
menos o som dos falantes. Quando encontramos um local onde o som dos falantes tem o mesmo
nível do “som da sala”, ou seja, o som direto é igual ao campo reverberante, encontramos a
distância crítica. Esta distância está relacionada com o volume total da sala, coeficientes de
absorção e com a… diretividade do conjunto de falantes! Quanto maior é a absorção, mais
distante é a DC. Quanto mais diretivo o sistema, mais distante a DC. Como nas salas que
encontramos normalmente em nosso dia a dia a absorção de baixa frequência é muito pequena,
na maioria das vezes próxima de zero, normalmente a DC para as baixas frequências é muito
próxima das caixas. Para melhorar isso, só nos resta trabalhar a diretividade do sistema para que
tenhamos uma distância crítica realmente distante. E é esse o motivo de percebermos os
subwoofers direcionais com mais “punch” (seja lá o que isso quer dizer…) e mais definidos.!
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– E existem outras formas de criar ou aumentar a diretividade dos subwoofers?!
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– Com certeza! E existem várias!!
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Há algum tempo, a forma de montagem de subs que mais desperta a atenção na nossa
“comunidade” é a chamada “dipolar”. Esta montagem se baseia em duas características presentes
no arranjo:!
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1- End Fire: esta técnica, também descrita por Olson em 1957, consiste em colocarmos caixas
umas a frente das outras e aplicarmos atrasos nas caixas mais à frente para que fiquem em fase
com a caixa colocada mais atrás. Isso faz com que haja uma soma na frente e algum
cancelamento atrás do arranjo. Ou seja, é mais uma forma de criarmos algum controle de direção
nas baixas frequências. (Fig 12).!

2 – “Figura 8” – característica que o arranjo assume quando montado fisicamente como “di-polo”.!
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(Figura 13!
A distância entre os polos pode variar desde 1/4 até 2/3 do comprimento de onda do corte superior
acústico do arranjo. É esta distância que vai determinar a maior ou menor diretividade horizontal
do conjunto. Já a distância entre as caixas vai determinar quanto cancelamento conseguiremos ter
na parte posterior do arranjo. Esta distância está limitada a 1/4 do comprimento de onda da
frequência de corte superior do arranjo.!
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– Qual é a principal vantagem deste arranjo?!
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Respondo: o controle horizontal da dispersão, através da manipulação da distância entre os polos.!
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Vejam nas figuras 14 e 15 dois arranjos em configuração dipolar. O primeiro com distância entre
os polos de 1/4 do comprimento de onda de 80 Hz (cerca de 1,10m.) e o segundo com 2/3 (cerca
de 2,87m.).!

Muito importante perceber que o sistema com o espaçamento de 2/3 do comprimento de onda não
gera mais pressão sonora x distância! A 30 metros do arranjo, ambos geram 115,2 dB SPL (na
simulação). Podemos ser levados a acreditar, visualizando rapidamente o gráfico de distribuição
de energia, que o arranjo com 2/3 de espaçamento “toca mais longe”; porém, este gráfico
demonstra “diferença de pressão x distância e não máxima pressão x distância. Se atenuarmos
todas as caixas em 40 dB, por exemplo, o gráfico terá o mesmo aspecto.!
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– Mas este sistema não é mais eficiente do que um arranjo tradicional?!
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Vejamos…!
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Sabemos que os subwoofers não são exatamente omnidirecionais! Se viramos as caixas de lado
para os ouvintes, estaremos perdendo alguma coisa em termos de pressão sonora.!
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– E de quanto seria esta perda?!
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A diferença de pressão de uma caixa medida a 20 metros de frente e de lado (90º), é de cerca de
2 dB.!
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Temos encontrado muitos arranjos em formato “dipolar” montados com 8 caixas. Podemos fazer
um pequeno comparativo de pressão sonora total a 30 metros entre um arranjo deste tipo, um
arranjo “end-fire” e um arranjo tradicional (sem controle de diretividade), com o mesmo número de
caixas. Vejam nas figuras 16 e 17, montagens “End Fire” com distâncias entre linhas de 1/4 e 2/3
do comprimento de onda em 80Hz, respectivamente:!
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E finalmente, nas figuras 18 e 19, dois arranjos convencionais: um montado com 4 colunas de
duas caixas e outro com 8 caixas colocadas lado a lado:!
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A que conclusão podemos chegar?!
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1- Sempre que possível devemos utilizar arranjos com algum controle de diretividade para diminuir
a pressão sonora onde for de interesse, melhorando assim a distância crítica, mas tendo em
mente que haverá perda de pressão sonora na frente do arranjo quando comparado a um arranjo
semelhante, sem controle de diretividade.!
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2- Aponte a caixa (ou o conjunto) para onde você quer que haja som. Simples assim…!
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3- Se você se deparar com um arranjo que não conhece, pesquise se foi descrito em algum livro
por Harry Olson. Se não foi, desconfie!!
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Tá bom, é brincadeira o terceiro item. Mas em toda brincadeira…!
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Nota: a palavra “depende®” foi registrada pelo Professor Denio Costa e gentilmente cedida para
utilização neste artigo.!
Agradecimento especial a Adriano Spada pela leitura e comentários sobre este artigo quando nem
figuras direito havia no mesmo…!
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Alexandre Rabaço!
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Alexandre Rabaço tem sido instrutor do curso de Desenho e Alinhamento de Sistemas de
Sonorização desde 2015; no final de 2016 se tornou instrutor oficial Smaart Brasil e desde então
vem realizando treinamentos do software pelo país. Ao mesmo tempo, tem cuidado dos monitores
do cantor e compositor Djavan (e de sua banda também!) na turnê “Vidas pra contar”. Quando
tem tempo, mixa e masteriza em seu estúdio Aura Mix & Master. Foi lá que mixou ou masterizou
CDs e/ou DVDs de alguns artistas como Lulu Santos, Seu Jorge, Leila Pinheiro, David Feldman,
Léo Gandelman, entre outros. Ganhou até um Grammy®, mas foi pura sorte por ter participado do
incrível trabalho “Músicas para Churrasco Ao Vivo” do cantor e compositor Seu Jorge. Além disso,
é consultor da Attack do Brasil, participando do grupo de Pesquisa e Desenvolvimento da
empresa. !
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