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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

DENILSON ARAUJO DE OLIVEIRA

Por uma Geografia das Relações Raciais: o racismo na


Cidade do Rio de Janeiro

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação


em Geografia da Universidade Federal Fluminense
como parte dos requisitos para obtenção do Grau de
Doutor. Área de Concentração: Ordenamento
Territorial e Ambiental.

Orientador: Prof. Dr. Jorge Luis Barbosa.

NITERÓI
2011
1
Aos meus irmãos Marcia e Dailton.
E a Daniel e dona Carminha (meus pais) pelo amor, pelo apoio, pelos conselhos,
pela educação que me deram e por todo o carinho.
Vocês sempre serão os meus campeões, minhas fontes de inspiração e de
segurança. Tudo que faço na vida é por vocês. Obrigado por tudo.

2
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao Cnpq pela bolsa no ano 2009-2010 e a FAPERJ pela Bolsa
Aluno Nota 10 entre os anos de 2010-2011 que foram cruciais para a execução da
pesquisa.
Agradeço aos professores do Programa de Pós-Graduação em Geografia
da UFF, em especial a Ivaldo Gonçalves de Lima que participou na leitura crítica
oferecendo grande contribuição ao trabalho. Ao professor Ruy Moreira que
participou em vários momentos de leituras críticas deste trabalho. Ruy apresentou
grandes contribuições epistemológicas e marxistas para o meu trabalho. Sou
muito grato a você Ruy. Aos meus colegas da turma de doutorado, em especial
Elias Lopes que apresentou uma importante crítica no momento da releitura do
projeto. Ao meu orientador Jorge Luiz Barbosa pela paciência ao ouvir minhas
inquietações. Pelas leituras atentas, precisas e críticas.
Ao professor Júlio Tavares. Foi crucial no momento da defesa do mestrado
(2006) criando o mote para o tema que desenvolvemos na tese. Júlio sempre foi
um incentivador nas suas aulas e uma pessoa que guardo muito carinho. Por
questões diversas não pode está nesta banca.
Agradeço aos professores do departamento de Geografia da Faculdade de
Formação de Professores da UERJ que durante os anos em que estive como
professor contratado construíram um ambiente intelectual de altíssimo nível.
Gostaria de agradecer funcionários (Demerval, Sílvia e André) e a todos os
professores e do departamento de Geografia: Jorge Braga, Eduardo Karol,
Floriano, Leandro Dias, Rodrigo Pina, Rodrigo, Maicon Gilvan, Astrogildo, Felipe,
Otávio, Charlles, Marcos Couto, Marcos César. Ainda na Geografia da FFP
gostaria de agradecer em especial aos professores: Andrelino nos constantes
debates que tivemos. Além de incentivador e amigo, um professor rigoroso com as
questões filosóficas da geografia no tocante a questão racial. Assim, como Renato
Emerson que foi muitíssimo importante na pré-defesa apontando críticas
salutares. O professor Renato Emerson além apresentar críticas muito importante
na pré-defesa forneceu material ainda inédito que foram cruciais para a finalização

3
da tese. Renato possibilitou também uma discussão em seu grupo de pesquisa
que aproveitamos parte da discussão para a tese. Obrigado Renato e Andrelino.
Aos meus ex-alunos do sexto e sétimo ano do Colégio Estadual Menezes
Vieira. Guardo cada rosto no meu coração. Suas bagunças, suas brincadeiras,
seus empenhos e o carinho que sempre tiveram comigo. Obrigado! Aos
funcionários e professores do colégio Menezes Vieira, em especial Elaine, Nedite,
Valéria, Luiz Henrique, dona Regina, seu Jorge, dona Nilcéia, Priscila, dona
Valdete.
Aos meus ex-orientandos Leandro Marins Vila Nova e Graciano Lourenço
Fernandes Júnior pelas conversas e especialmente pela aprendizagem. Vocês me
ensinaram que orientador é aquele que precisa ser rigoroso para que os bons
frutos venham, mas também, humano para a amizade floresça.
Aos fisioterapeutas e masoterapeutas do Centrauma que me deram
condições físicas para a realização da tese. Em especial ao fisioterapeuta e amigo
Carlos Ramos Barbosa. Através dos seus conselhos e de sua amizade cresci e
me tornei mais forte física e emocionalmente. Obrigado Carlos!
Aos amigos Valter e Amelinha cuja amizade e os debates intelectuais (na
Escola de Niterói) foram vitais para tese. Tenho um carinho especial por vocês. A
Thiago e Rachel meus amigos de longa data. Mesmo longe vocês estão no meu
coração. Pelo carinho e pela amizade. Sei que posso contar com vocês sempre.
Ao amigo Leandro Tartaglia pelo qual tenho grande admiração pela sua
capacidade intelectual e tenho honra de tê-lo como amigo.
A Roberta Federico e Dinho K2 não só pela entrevistas que me
concederam, mas também pelo confiança que depositaram no trabalho e os
ensinamentos que me deram sobre a condição dos negros e negras no Rio de
Janeiro. Ao P. Júnior, nas longas conversas pelo telefone mostrando-se sempre
crítico e inquieto com a condição do negro no Rio de Janeiro.
A Gabriela. Por tudo. Pelo amor, pelo companheirismo, pelo carinho, pela
compreensão, pela ajuda em todos os momentos (não só da tese). Você me
completa. O seu amor me faz uma pessoa melhor.

4
SUMÁRIO

PÁGINAS

Apresentação 13

Capitulo 1. Espaço e ‘Raça’: um diálogo possível? 23


1.1. Aproximações da questão racial e a Geografia 23
1.2. As Trajetórias Teóricas da Idea de Raça 30
1.3. A construção moderno-colonial da raça 33

Capítulo 2. Perspectivas Geográficas das Relações Raciais e do


Racismo no Brasil: em busca de uma fundamentação Teórica 48
2.1. Relações Raciais e o Racismo: analisando as dimensões
espaciais desta complexa relação 55
2.1.1. As Relações Raciais 59
2.1.2. O Racismo, Preconceito e Discriminação 63
2.2. Em busca do Elo Geográfico: a Cor do Espaço 78
2.2.1. Eventos de Discriminação Racial 80
2.2.2. Arranjo Espacial das Relações Raciais 103
2.2.2.1. Negros e Brancos na Cidade do Rio de
Janeiro 112
2.2.3. Ordenamento Espacial das Relações Raciais 135
2.3. Noções Geográficas e Racialização do Espaço 152

Capítulo 3. Os Processos de Racialização do espaço da cidade


do Rio de Janeiro na História Urbana Recente 164
3.1. A condição urbana do negro: os lugares dos negros no Rio
de Janeiro 166
3.2. A condição negra do urbano: o negro como lugar no Rio

5
de Janeiro 202
3.2.1. Táticas Espaciais de Distinção Racial 205
3.2.2. Análise de dois casos paradigmáticos 235
3.2.2.1. Evento de Discriminação Racial sofrido
por Dinho K2 236
3.2.2.2. Evento de Discriminação Racial sofrido
por Prettu Júnior. 242

Considerações Finais 250

Referências Bibliográficas 254

6
LISTA DE SIGLAS

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.


IE – Instituto de Economia.
UNESCO –
LAESER – Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e
Estatísticas das Relações Raciais.
OIT – Organização Internacional do Trabalho.
ONU – Organizações das Nações Unidas.
PDT – Partido Democrático Trabalhista
UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro.
UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro
RJ – Rio de Janeiro
TJ – Tribunais de Justiça.
TRT – Tribunais Regionais do Trabalho.

7
LISTA DE QUADROS E MAPAS Páginas

QUADRO I – Evento de Discriminação. 101/102

MAPA I - População por Área de Ponderação


e Cor ou Raça Rio de Janeiro – 2000. 113/114

MAPA II – Distribuição Espacial de Ruas com


Calçamento Total Rio de Janeiro – 2000. 115/116

MAPA III - Distribuição Espacial de Brancos e Negros


na Rede Particular de Ensino – Rio de Janeiro – 2000. 118

MAPA IV - Distribuição Espacial de Negros e Brancos


em Escola Pública Rio de Janeiro – 2000. 120/121

MAPA V – Distribuição Espacial dos Estudantes de 01 a


04 Anos de Estudo por Cor ou Raça – Rio de Janeiro – 2000. 123

MAPA VI - Distribuição Espacial de Negros e Brancos com 9 a


11 Anos de Estudo – Rio de Janeiro – 2000. 124/125

MAPA VII - Distribuição Espacial de Negros e Brancos com


12 a 16 Anos de Estudo – Rio de Janeiro – 2000. 126

MAPA VIII – Distribuição Espacial dos Trabalhadores sem


Rendimento por Cor ou Raça – Rio de Janeiro – 2000. 127/128

MAPA IX - Distribuição Espacial da Renda Pessoal até 01


Salário Mínimo Por Cor ou Raça – Rio de Janeiro – 2000. 130

8
MAPA X – Distribuição Espacial da Renda Pessoal de 01
a 02 Salários Mínimos – Rio de Janeiro – 2000. 131/132

MAPA XI – Distribuição Espacial da Renda Pessoal de 10


a 20 Salários Mínimos – Rio de Janeiro – 2000. 133

QUADRO II – Ordenamento Espacial das Relações


Raciais no Brasil. 142

MAPA XII – Empregadores Por Cor ou Raça – Rio de


Janeiro – 2000. 144

MAPA XIII – Distribuição Espacial de Gerentes Por Cor


ou Raça Rio de Janeiro – 2000. 146

QUADRO III – Espacialidade das Relações Raciais. 152

QUADRO IV - Modelagem Espacial das Relações Raciais


de Poder e Violência. 158

QUADRO V – Segregação e Distinção. 160

QUADRO VI - Percentagem da População Abaixo da


Linha de Pobreza Segundo os Grupos de Raça/Cor,
no Estado do Rio de Janeiro, 2000. 166

GRÁFICO I – População Abaixo da Linha de Pobreza. 167

QUADRO VII - Tipo de Domicílio no Município do Rio


de Janeiro. 190

MAPA XIV – Distribuição Espacial de Apartamentos

9
por Cor ou Raça – Rio de Janeiro – 2000. 191/192

QUADRO VIII – Táticas Espaciais de Distinção Racial. 233

10
RESUMO

O tema de nossa tese envolve a abordagem geográfica da questão racial


no Brasil. O racismo é entendido como um mecanismo regulador de relações que
atua subjugando a aparência corpórea e os valores morais, culturais, estéticos e
intelectuais de um determinado grupo. Geralmente, ele atua articulado ao
preconceito e a discriminação racial. Assim, o racismo é uma prática
multidimensional de coerção cultural, política e econômica com o objetivo de
manter uma relativa distância dos grupos raciais postos como inferiores.
Entendemos, as práticas racistas, discriminadoras e preconceituosas de
base racial são inerentes à criação de distâncias (materiais e simbólicas) de
diferentes naturezas. Esses distanciamentos racializados se expressam em
diferentes processos sócio-espaciais que se conjugaram ao longo da história
urbana da cidade do Rio de Janeiro como: os processos de segregação sócio-
espacial de base racial e de distinção no acesso, no uso e na apropriação de
escalas e espaços de poder e decisão por indivíduos/pessoas identificadas como
negros.
O objetivo geral da tese é oferecer uma interpretação mais densa e
abrangente da questão racial ao pensamento social brasileiro, a partir de uma
abordagem geográfica. Buscamos assim nos vincular ao empenho que tem sido
feito nos últimos anos por vários geógrafos que tomam a questão racial como um
tema fundamental para compreender o Brasil.
Assim, iremos apresentar três propostas interpretativas a partir da Geografia
das relações raciais no Brasil (o evento, o arranjo e o ordenamento espacial das
relações raciais). Finalizaremos o trabalho investigando a condição urbana do
negro e a condição do negro urbano no Rio de Janeiro.

11
ABSTRACT

The theme of our thesis involves the geographical approach of the racial question
in Brazil. Racism is understood as a mechanism regulating relations that acts by
subjugating the corporeal appearance and moral, cultural, aesthetic and intellectual
values of a particular group. Generally, it acts articulated to prejudice and racial
discrimination. Thus, racism is a multidimensional practice of cultural, political, and
economic coercion aimed at maintaining relative distance from racial groups as
inferior.
We understand that racist, discriminatory and racially based practices are inherent
in the creation of distances (material and symbolic) of different natures. These
racialized distances are expressed in different socio-spatial processes that have
been combined throughout the urban history of the city of Rio de Janeiro as: the
processes of racial-based socio-spatial segregation and of distinction in the
access, use and appropriation of scales and spaces of power and decision by
individuals / people identified as black.
The general objective of the thesis is to offer a more dense and comprehensive
interpretation of the racial question to Brazilian social thought, based on a
geographical approach. We thus seek to link to the commitment that has been
made in the last years by several geographers who take the racial question as a
fundamental theme to understand Brazil.
Thus, we will present three interpretative proposals based on the Geography of
race relations in Brazil (the event, arrangement and spatial ordering of race
relations). We will finish the work investigating the urban condition of the Negro
and the condition of the urban black in Rio de Janeiro.

12
Apresentação

O tema de nossa tese envolve a abordagem geográfica da questão racial


no Brasil. Nosso interesse é analisar como o racismo, o preconceito e a
discriminação racial estabelecem obstáculos na trajetória sócio-espacial das
pessoas.
O racismo é entendido como um mecanismo regulador de relações que
atua subjugando a aparência corpórea e os valores morais, culturais, estéticos e
intelectuais de um determinado grupo. Geralmente, ele atua articulado ao
preconceito e a discriminação racial. Assim, o racismo é uma prática
multidimensional de coerção cultural, política e econômica com o objetivo de
manter uma relativa distância dos grupos raciais postos como inferiores.
Entendemos, as práticas racistas, discriminadoras e preconceituosas de
base racial são inerentes à criação de distâncias (materiais e simbólicas) de
diferentes naturezas. Produzir afastamento tornar-se uma forma de estabelecer
desigualdades entre as posições sócio-espaciais entre negros e brancos.
Portanto, distância e posição são referenciais teóricos chaves de nossa pesquisa.
Esses distanciamentos racializados se expressam em diferentes processos
sócio-espaciais que se conjugaram ao longo da história urbana da cidade do Rio
de Janeiro como: os processos de segregação sócio-espacial de base racial e de
distinção no acesso, no uso e na apropriação de escalas e espaços de poder e
decisão por indivíduos/pessoas identificadas como negros1.
Nesta tese iremos preferir entender tanto a segregação quanto a distinção
como processos, pois revelam o dinamismo e as articulações com outras formas
de hierarquização que os potencializam.
O objetivo geral da tese é oferecer uma interpretação mais densa e
abrangente da questão racial ao pensamento social brasileiro, a partir de uma
abordagem geográfica. Buscamos assim nos vincular ao empenho que tem sido

1
Negros, são aqui entendidos como os indivíduos que pertencem ao grupo de cor/raça caracterizado pelo
IBGE como pretos e pardos. Apesar de alguns autores que utilizaremos usarem o termo identitário afro-
descendentes, não entraremos na discussão de tais termos. Essa é uma tarefa para um outro trabalho. Assim,
usaremos termo negro.
13
feito nos últimos anos por vários geógrafos que tomam a questão racial como um
tema fundamental para compreender o Brasil.
Temos três objetivos específicos. 1- investigar e apresentar propostas
interpretativas a partir da Geografia das relações raciais no Brasil; 2- investigar
como o racismo, o preconceito e a discriminação racial engendram processos
sócio-espaciais. 3- investigar a condição urbana do negro e a condição do negro
urbano no Rio de Janeiro.
O universo da pesquisa foca à análise da questão racial na área metropolitana
do Rio de Janeiro, em especial à capital do Estado, a cidade do Rio de Janeiro na
atualidade. Por ser uma das cidades que expressam em sua dinâmica um padrão
de desigualdade tipicamente brasileira, com espaços de riqueza e pobreza muito
próximos, o estudo da referida cidade oferece um importante entendimento das
relações raciais que pode ser replicado para outras partes do país.
O Rio de Janeiro também foi escolhido pelo fato de muitos estudiosos
apontarem que esta cidade exporta as principais imagens e características de
nossa sociedade para o restante do país e para o mundo. Uma cidade que teve
um longo passado ligado à vida nacional, desde o período colonial, e que no seu
processo de urbanização expressou os encontros/desencontros de diferentes
grupos sociais.
A cidade do Rio de Janeiro ocupa um lugar central do capitalismo urbano
no Brasil e espelha um dos principais microcosmos de nossa desigualdade sócio-
espacial. Segundo os dados do censo 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística) a população negra da cidade do Rio de Janeiro2 era a
segunda maior do país com cerca de 2,36 milhões de habitantes, o que representa
cerca de 40% da população da cidade. Se contarmos a composição racial dos
municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro, os negros passam a
representar cerca de 46% da população. Como a população negra é um dos
grupos que mais é alvo de discriminação e de estereotipias no país, investigar as
relações raciais na cidade do Rio de Janeiro oferece um quadro expressivo da
condição de ser negro no Brasil. Ressalte-se que não estamos supondo, como já

2
A soma da população preta e parda do IBGE.
14
se fez no passado, que o estudo numa determinada parte do país, seja capaz de
explicar a complexa variação de articulações em termos regionais ou mesmo
nacionalmente.
Optamos também pelo Rio de Janeiro, como unidade significativa para este
estudo, por uma ordem pragmática, isto é, por morarmos próximo e transitarmos
em parte da cidade e pela área metropolitana diariamente. O deslocamento para
outras regiões do país para avaliar tensões raciais na organização do espaço, não
foi possível por privilegiarmos um foco de análise que em outros locais poderiam
ser parecidos com os vividos e investigados no Rio de Janeiro.
No campo metodológico acreditamos que seja importante esclarecer a
posição do observador em relação ao fenômeno estudado. Buscamos a partir de
nossas percepções e vivências conflituosas e tensas de experiências de racismo
na área metropolitana do Rio de Janeiro produzir maior conhecimento sobre o
nosso objeto de análise a partir da Geografia 3. Desta forma, nos tornamos um
participante observador (NETO, 2005) da análise de tais conflitos. Numa pesquisa
em que o chamado ―distanciamento‖ científico é praticamente impossível
enfatizamos que a análise é a de um negro investigando as tensões e lutas que
envolvem a população negra4. Porém, em nosso entender não existem pessoas
com autoridade para falar sobre um assunto ou tema e outras não. Não é somente
o negro que pode falar sobre negros, não é só mulher que tem autoridade para
falar das desigualdades que elas sofrem, entre outros. Discordamos da tese do
exclusivismo analítico. Defendemos que cada posição é reveladora de
possibilidades e limites das análises. Isto é, ela traz ao mesmo tempo vantagens e
desvantagens. Temos consciência desse limite tênue. Portanto, não há

3
Em alguns momentos o campo de pesquisa foi a minha vivência e percepção como negro no Rio de Janeiro.
4
Não acreditamos na idéia já tão criticada de neutralidade do conhecimento científico. Toda teoria expressa
um lócus de enunciação (MIGNOLO, 2003), isto é, os enunciados partem de um lugar sócio-espacial e estão
inscritas em relações de poder. Logo, o discurso da objetividade e a imparcialidade que seriam bases da visão
racional eliminam o sujeito do conhecimento científico (MORIN, 2002) não captando, portanto, que o
conhecimento científico é fruto de um campo de batalha teórica, epistemológica e metodológica. Para Freire
(2001), com o qual concordamos, tomar uma posição não nos afasta de uma análise rigorosamente ética e
crítica.
Nas últimas décadas essas críticas vêm se tornando, praticamente em todos os ramos do
conhecimento, um consenso. Neste trabalho nós também partilhamos dessas críticas a uma ciência sem
consciência (MORIN, 2002).
15
conhecimento/teoria falsa ou verdadeira e o detentor da verdade dos fatos.
Cremos que isso é um total equívoco analítico.
Apesar de algumas identificações nunca participei de forma orgânica da
estrutura de movimentos negros, mas isso não me fez me alijar de suas lutas
políticas. Por ser negro, o envolvimento com o tema do racismo foi intenso. Todas
as dimensões de vida do grupo estudado eram um constante exercício de
reflexividade. Percebemos nesta trajetória que a relação pesquisador/
pesquisados expressava uma dificuldade teórica e analítica de separação de
quem é quem no trabalho. Ou seja, como nos afastar? Será que podemos nos
afastar? Será que devemos nos afastar? Será que o pesquisador não é só parte,
mas também é objeto da pesquisa? Essas foram perguntas que percorreram a
nossa trajetória de pesquisa. Expressaremos as respostas destas perguntas nas
posições defendidas ao longo do texto.
Entendemos que o pesquisador é parte do objeto de pesquisa (MORIN,
2002). Assim, a nossa opção teórico-metodológica busca fugir de um idealismo
ingênuo e ―[...] sintetizar a biografia com a teoria, e prática do mundo com o ofício‖
(DA MATTA, 1978:25). Entendemos que o pesquisador toca e é tocado pela
pesquisa daí da necessidade dessas lembranças e afirmações. Porém, apesar
dos esforços, muitas experiências vividas e pesquisadas não conseguiriam ser
traduzidas por meio de textos. Sabíamos que essas trajetórias analíticas nos
encaminhavam para uma corda bamba de tendências auto-reflexivas
principalmente pela tentativa fracassada de teorização de alguns fatos vividos.
Confesso que tal tarefa além de difícil poderia soar com um tom autoritarista de
transformar casos particulares em questões gerais. Durante boa parte da
investigação, estas tendências auto-reflexivas geraram dificuldade de escolhas
metodológicas. Desta forma, passamos também avaliar textos sobre a história de
vida e casos relatados de pessoas próximas que haviam passado por algum
constrangimento racista.
Consideramos que os espectros de dados acessíveis à pesquisa social vão
além das palavras pronunciadas nas entrevistas (BAUER, op. cit.), isto é, as
linguagens verbais. A combinação de linguagens verbais e não-verbais para as

16
análises ofereceram uma gama de informações que também foram observadas.
Por isso, percebemos também na ida a campo que as ‗conversas soltas‘, ou seja,
a comunicação informal sobre o mundo social das pessoas ‗entrevistadas‘ e/ou
pessoas que tem uma ligação direta com o universo da pesquisa, como uma
mediação significativa de informações e conteúdos. A sensibilidade em escutar e
traduzir essas conversas carregadas de emoção para as nossas questões foi um
grande desafio. Apesar de possuir poucas regras explícitas, não significava que
não existiam regras na investigação (BAUER, op. cit.). Percebíamos assim, as
possibilidades e limites de tal posicionamento. As possibilidades estavam na
facilidade que constrangimentos racistas ou alguma tensão racial mais intensa me
eram revelados por ser negro. Os limites apareciam na dificuldade de separar o
amigo que ouvia e o pesquisador. Sinto que não só falhei nesta separação, mas
também, que não queria essa separação.
Deparamos-nos analisando dados e fatos tanto das pessoas pesquisadas
quanto da experiência do próprio pesquisador. Vimos-nos assim, diante do duplo
caminho entrecruzado apontado por Barbosa (1992). O caminho do susto, isto é, o
fato de nunca ter pensado a intencionalidade contida em algumas experiências
vividas e percebidas. E o caminho do encantamento, ou seja, o não imaginar e
‗tomar consciência‘ que algumas experiências e fatos pretéritos vividos marcaram
o inconsciente que influenciavam os nossos itinerários sócio-espaciais no
presente.
Nossas opções metodológicas objetivam tanto identificar e analisar a
localização e distribuição da população classificada como negra no Rio de Janeiro
quanto problematizar as trajetórias sócio-espaciais do fazer políticos desses
protagonistas (SANTOS, 2006) no acesso, no uso e na apropriação de espaços e
escalas de poder/decisão5.

5
O conceito de escala em geografia tem apresentado um rico debate. Baseado em Santos (2006) apontamos
que a escala nos informa pelo menos cinco perspectivas. 1- leitura e aproximação do real; 2- dimensão e
proporção dos fenômenos; 3- pertinência dos fenômenos; 4- níveis ou patamares da realidade; 5- mediação
entre intenção e ação.
Todas as vezes que falamos em escala estamos nos referindo as disputas em torno das leituras e
aproximações acerca do real, imposto por uma colonialidade do poder, do ser e do saber que impedem e/ou
restringem o acesso, o uso e a apropriação de determinados níveis e patamares da vida social.
17
Nossa pesquisa buscou evitar duas posturas, infelizmente ainda comuns
(BAUER, 2003) que já alertamos em nossa dissertação e em outros trabalhos. Por
um lado, uma postura pretensiosa e populista do pesquisador que parte do
princípio de que a pesquisa social equipara-se a ―dar voz aos oprimidos‖,
colocando o pesquisador como representante total dos “de baixo”. Esta forma
pretensamente progressista identifica as pessoas como vítimas passivas e
infelizes de uma estrutura social injusta (SOUZA E SILVA, 2002). Cremos que
essa perspectiva é demasiadamente equivocada e ofusca a análise, pelo fato do
pesquisador arrogar-se o título de detentor da verdade dos fatos (BAUER, op.cit.),
romantizando e tendo uma postura paternalista sobre os sujeitos sociais não
entendendo os seus protagonismos e, também, as suas contradições. Esta prática
dificulta uma análise crítica dos fatos sociais (SOUZA E SILVA op. cit.). É o
resultado da pesquisa, e não o seu contrário, que pode servir ou não, a interesses
emancipatórios de grupos subalternizados. Entendemos que seja importante
distinguir ―a responsabilidade do pesquisador perante a sociedade e o homem‖
como propõe Morin (op. cit.) num dos títulos do capítulo do seu livro, de uma
pretensa e equivocada visão do pesquisador como detentor da verdade dos fatos.
Isto é, não confundir ética da e na pesquisa com arrogância do pesquisador diante
da pesquisa.
Desta forma, apontar os caminhos trilhados em uma pesquisa é colocar ao
mesmo tempo o direcionamento que buscou ser posto em prática, as frustrações
na apreensão de uma complexa realidade, mas também os diferentes
cruzamentos, interseções, desvios feitos que foram enriquecendo este trabalho
(OLIVEIRA, 2004). Temos clareza que, em alguns momentos, cometemos
violações em algumas regras de método e algumas misturas de correntes teóricas
díspares. Tais violações no processo de pesquisa tornaram-se necessárias para a
compreensão mais apurada do processo investigativo (FEYERABEND, 1977).
Esperamos que os nossos argumentos busquem demonstrar a validade dessas
violações (Idem).
A nossa pesquisa envolveu inúmeros desafios. Tanto no campo teórico
quanto no campo metodológico. No campo teórico a proposta desta tese expressa

18
questionamentos ligados a uma coerência interna e externa (SANTOS, 2002
[1996]). Expliquemo-nos. Por coerência interna entendemos a relação obtida
através da identificação de categorias, conceitos e noções e ideais da Geografia
que dêem conta da respectiva superfície do real permitindo a produção de
instrumentos de análises, retirados do processo histórico (Idem). Assim sendo, o
desafio é tornar o nosso tema geográfico.
Já por coerência externa entendemos a relação de nossa proposta em
diálogo com outros campos disciplinares distintos, sendo ao mesmo tempo,
completado e complemento no processo comum de conhecimento do real.
Portanto, esta problemática envolve o enfrentamento do desafio da questão racial
por novos ângulos. Assim a questão que permeou todo o trabalho era como
estabelecer uma observação e uma análise geográfica das relações raciais.
Esperamos que tal resposta possa ser percebida no corpo do texto.
No contato com outros campos disciplinares um alerta tornou-se
necessário. Por fazerem caminhos teóricos, epistemológicos e empíricos distintos
do nosso campo, a advertência de Santos (Ibidem) de que os conceitos de outras
disciplinas são metáforas em nossas foi seguida nesse trabalho. Mas, entendemos
que essas metáforas também podem sinalizar o núcleo de conceitos e cria
possibilidades de aprofundamento para leituras geográficas. Dessa forma, as
noções e conceitos aqui apresentados sobre racismo, preconceito, discriminação
e as suas inúmeras articulações construídas por diversos autores das ciências
humanas tiveram caminhos empíricos, teóricos e fins políticos distintos do nosso.
Isto é, foram tecidas a partir de significados historicamente precisos e de
contextos sóciopolíticos próprios, sujeitos a revisões, mudanças e negociações
(HANCHARD, 2001). Os debates sobre o tema do racismo e da ‗raça‘ são
dinâmicos e fluidos na medida em que a sociedade está em constante movimento.
Neste sentido, buscamos ter um cuidado de imputar indevidamente sentidos e
significados construídos em contextos sócio-espaciais distintos ao aqui estudado e
também conceitos construídos no presente impresso a sujeitos e contextos do
passado.

19
Torna-se, portanto, necessário tanto um projeto de estudo geográfico das
relações raciais quanto um plano de pesquisa deste mesmo tema. Esta já era uma
das advertências à sociologia que faziam Florestan Fernandes e Roger Bastide no
final dos anos 70 quando investigavam o preconceito racial em São Paulo. O
projeto de estudo ―situa-se em um nível puramente abstrato, desenvolvendo-se
em um terreno de possibilidades teóricas, embora referidas a situação de fato‖
(FERNANDES & BASTIDE, 1979:130). Desta forma, antes de efetuar a análise de
quaisquer arquivos, propor entrevistas, realizar experimentos, e/ou a observação
direta em trabalhos de campo, torna-se necessário à preparação de um quadro de
referências analíticas, de modo a formular as questões de maneira adequada e
tornar as ‗respostas‘ inteligíveis da complexa questão que estamos sugerindo
(THIRY-CHERQUES, 2006).
Já o plano de pesquisa ―toma em consideração as condições concretas e
as possibilidades reais de organização, direção e realização da pesquisa, quer
quanto à seleção do pessoal, ao custo, à duração e a marcha da investigação‖
(FERNANDES & BASTIDE, 1979:135). Nossa proposta é iniciar a construção de
um projeto de estudo que dê futuramente maior viabilidade para planos de
pesquisas. Esboçaremos um projeto de estudo geográfico das relações raciais e
do racismo no Brasil nos dois primeiros capítulos e uma tentativa de um plano de
pesquisa da questão racial no Rio de Janeiro nos dois capítulos finais. Vemos,
portanto, que a complexidade das questões assinaladas exigiu opções.
Temos consciência que previamente poderemos ser acusados de sermos
prolixos. Chauí (1991) se desculpando da sua prolixidade esperava que o leitor
compreendesse que o sentido do excesso verbal só se tornaria inteligível ao final
da leitura. Uso das desculpas de Marilena Chauí para me desculpar com minha
banca e meus leitores.
Resumindo, o nosso método de coleta de dados e informações buscou
articular: observação direta, uso de dados quantitativos e entrevistas. Isto é,
buscamos usar de meios formais e informais, quantitativos e qualitativos que
foram analisados através do diálogo e aprofundamento do aparato teórico-
conceitual fornecido pela Geografia. Neste complexo itinerário de nossa pesquisa,

20
alguns foram mais explicitados que outros. ―Se certos materiais não foram
utilizados ou explorados, de forma visível, isso não se deve a que tenham sido
ignorados‖. (FERNANDES, 1972:12). O êxito de nossa pesquisa não está no
convencimento de nossas idéias, mas sim, na problematização de tal questão no
âmbito da Geografia, como um crescente número de trabalhos de geógrafos tem
indicado nos últimos anos, pois temos a consciência de que tal problemática ―não
é tarefa para um cientista; é um programa para gerações de cientistas e muito nos
felicitaremos se os futuros leitores deste trabalho entenderem isso com a mesma
clareza com que a cada dia os fatos nos impuseram essa verificação‖ (PINTO,
1998: 64). Daí a divisão do nosso trabalho em três capítulos visando entender e
iniciar o enfrentamento tal desafio.
Nos dois primeiros capítulos temos por objetivo desenvolver um terreno de
possibilidades teóricas e metodológicas da questão racial no campo de estudo da
Geografia, visando à preparação do quadro de referências analíticas. Buscamos
formular as múltiplas possibilidades de leitura de maneira a investigar e tornar
mais inteligível a complexa questão racial brasileira a partir de lentes geográficas.
Optamos aqui por não entrar no debate das diferentes formas de luta dos
movimentos negros no campo político, não por achá-lo menos importante, pelo
contrário, pelo fato de esta digressão fugir ao fio condutor de nossa análise que
são as práticas racistas são inerentes à criação de distâncias (materiais e
simbólicas) de diferentes naturezas.
No primeiro iremos apresentar os desafios teóricos e metodológicos de uma
abordagem geográfica da questão racial. Avaliaremos como a construção do
sistema-mundo moderno-colonial colocou a questão racial no centro da dinâmica
de dominação. Discutiremos o colonialismo/colonialidade e a diáspora africana
como as origens da questão racial no Brasil. Apresentaremos no final deste
capítulo algumas possíveis aproximações da questão racial com o campo
geográfico.
No segundo capítulo debateremos a questão racial de forma geral (relações
raciais) e de forma mais específica (o racismo, preconceito e discriminação).
Neste capítulo situa-se a base teórica de nossa tese. Sugerimos uma

21
possibilidade de leitura geográfica da questão racial a partir de três elos (o evento,
o arranjo e o ordenamento espacial) que se apresentam de forma entrecruzada.
As noções de posição e distância serão entendidas como a expressão espacial
destes elos geográficos.
No capítulo três buscamos focar num plano de pesquisa geográfico da
questão racial no Rio de Janeiro. Temos consciência que tal sugestão ainda é
muito preliminar e apresenta um longo caminho teórico e metodológico a percorrer
e desenvolver. Avaliamos diferentes processos de segregação e distinção na
cidade do Rio de Janeiro de base racial construídos historicamente. Propomos um
quadro analítico de uma periodização dos processos da segregação de base racial
na cidade e como táticas espaciais, ou seja, ações com intenções momentâneas
ou perenes, estabelecem distinções de base racial.
Apontamos que os processos de segregação são alimentados e alimentam
processos de distinção. Sugerimos 05 formas de distinção racial no acesso, no
uso e apropriação do espaço e escalas de poder. Visamos, nesta parte derradeira,
investigar os impactos sócio-espaciais promovidos tanto pela desigualdade que
tem gerado processos de segregação do espaço urbano de base racial quanto
pelos conflitos raciais que tem criado distinções no acesso, no uso e na
apropriação de espaços e escalas de poder. Avaliamos 02 casos paradigmáticos.
Defendemos assim a tese que as lutas pelo direito à cidade e a eliminação de
todas as formas de preconceito e discriminação necessitam acabar com os
mecanismos de racialização do espaço em que os negros não podem estar em
qualquer lugar engendrando distâncias e afastamentos materiais e simbólicos.

22
1. Espaço e ‘Raça’: um diálogo possível?

Neste capítulo apresentaremos algumas possíveis aproximações da


questão racial com os temas e conceitos desdobrados tradicionalmente pela
Geografia. Buscamos apontar como a questão racial, tão cara aos geógrafos
clássicos, tem sido refeita por novos estudos. Buscaremos num segundo momento
avaliar as marcas coloniais da construção moderna da raça a partir do século
XV/XVI e os significados políticos, econômicos e sociais nas trajetórias sócio-
espacial da população negra.

1.1. Aproximações da questão racial a Geografia

Nas últimas décadas inúmeros conflitos e lutas sociais vêm ganhando força
política e visibilidade no Brasil envolvendo o (re)posicionamento do negro e das
relações raciais na produção e reprodução do espaço. Essas lutas e conflitos se
expressam na política de cotas e ações afirmativas, no Estatuto da Igualdade
Racial, na lei 10.639/03 e seus desdobramentos que tornaram obrigatório o ensino
de África e das histórias e culturas negras da diáspora no ensino básico brasileiro,
nas lutas dos quilombolas pela demarcação de suas terras e de suas memórias
inscritas nos territórios remanescentes, nos movimentos anti-racistas e negros,
nos pré-vestibulares populares para negros, na difusão da cultura hip hop, entre
outros. A espacialidade desses conflitos e lutas sociais aponta que o lugar
subalternizado imposto ao negro na formação brasileira vem sendo questionado
apresentando assim outros horizontes. Entendemos que para avançarmos na
compreensão de tais tensões é necessário avaliar a espacialidade destes
conflitos.
O pensamento social brasileiro, de forma ‗inconsciente‘, vem lançando
inúmeras provocações a Geografia ao se utilizar inúmeras metáforas geográficas
(lugar do negro, geografia do racismo, geografia do negro, territórios negros, negro
como lugar, entre outros), no entanto, pouco se tem avançado na teoria geográfica
a partir dessas provocações.

23
Em nossa dissertação de mestrado (2004-2006) buscamos analisar as
formas de lutar e (re)posicionamento do negro no campo do direito à cidade.
Nosso foco de investigação foi o Hip Hop no Rio de Janeiro. Das várias críticas
que recebemos ao longo de debates e apresentações das questões da
dissertação, a investigação de uma geografia das relações raciais foi um dos mais
cobrados. Este árduo debate criou o mote para a nossa tese. Percebemos que na
última década, uma rica e crescente produção geográfica tem sido construída
analisando este tema em diferentes dimensões (religiosa, política, cultural,
econômica).
Cada vez mais analisado na teoria social, o debate das relações raciais no
Brasil está sendo refeito na Geografia. Algumas iniciativas de geógrafos brasileiros
das quais também nos incluímos (ANJOS, 2005a, 2005b, 2005c, 2007, 2008;
CAMPOS, 2003, 2006, 2011; mimeo; CARRIL, 2006; GARCIA, 2006; mimeo;
MALACHIAS, 2006; OLIVEIRA, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2009, 2011,
mimeo; RATTS, mimeo; RATTS & TEIXEIRA, mimeo; RATTS, et. al., 2006/2007;
RATTS & SOUZA, 2008; SANTOS, 2000c, 2002a, SANTOS, 2003a, 2003b, 2005,
2006, 2007; mimeo; SOARES, 2010; VAZOLLER, 2006) buscando analisar o tema
em voga através da perspectiva espacial6.
A forma tradicional como o tema das relações raciais era analisado pela
Geografia dava pouca ênfase aos conflitos e reproduzia a chamada fábula das
três raças. Os estudos sobre a distribuição espacial dos segmentos étnico-raciais,
o povoamento e os projetos de superioridade e domínio contidos nas políticas
territoriais nacionais eram os focos deste debate (RATTS, 2004). Porém, esta
linha de interpretação gerou uma dificuldade teórica com relação à análise dos
conflitos raciais, pois a ‗raça‘ não era vista como uma questão estruturante da
espacialidade das relações sociais (SANTOS, 2006). Desta forma, foi sendo
consolidada no ensino e na pesquisa de Geografia sobre esses conflitos enquanto
não constituinte da espacialidade da vida social brasileira (Idem). Este silêncio se
articulava a dificuldade de pensar o(s) sujeito(s) para além do Estado e do Capital
(RODRIGUES, 2005). Entendemos que o discurso ideológico da democracia racial

6
Esta bibliografia é um pequeno resumo desta produção crescente.
24
ajudou a sustentar este sistema de dominação que produziu análises mutiladas
dos conflitos sociais neste campo disciplinar.
Recentemente um número crescente de publicações (artigos, monografias,
teses, dissertações e livros) estão sendo produzidos por geógrafos brasileiros
sobre as tensões contidas na inscrição espacial das relações raciais dando novos
contornos para o tema. Estes trabalhos expressam que a inscrição espacial das
relações raciais podem ser analisadas no campo geográfico de distintas formas.
Para Ratts (2004) os estudos étnico-raciais têm longa data na Geografia.
Ressalta o autor, que raça e etnia não são temas estranhos às teorias
geográficas. Esses temas eram centrais entre os nossos clássicos. As propostas
de Ratzel, na segunda metade do século XIX, estabeleciam uma relação entre
raças humanas e a distribuição espacial dos recursos. Ratts (Idem) lembra que o
tema do gênero de vida de Lablache e desdobrados por Max Sorre propôs
teorizações entre a diversidade étnica e sua inscrição espacial. Ratts (Ibidem)
lembra que embora o quantitativo da abordagem da questão étnica e racial seja
elevado, poucos estudos denunciavam o papel de nossa disciplina na reprodução
de ideologias geográficas (MORAES, 2005) reforçando superioridade de algumas
raças e etnias sobre outras (RATTS, 2004).
Santos (2009 mimeo), inspirado em Quijano (2007), afirma que as visões de
mundo construído sobre a diversidade humana que estabeleceu o padrão
brasileiro de relações raciais são de natureza geográfica. Há uma vinculação
direta quando falamos em ‗negros‘ remetendo a uma comunidade, não biológica,
de origem histórico-geográfica: a África. Já quando falamos em ‗brancos‘ a origem
histórico-geográfica é a Europa. Os ‗índios‘ são associados à América e os
‗amarelos‘ à Ásia. Apesar da ‗raça‘ se assentar em leituras espaciais baseadas em
‗identidades geoculturais‘ é importante sinalizar que estas vinculações apresentam
algumas visões essencialistas problemáticas como: todos os africanos são negros,
todos os europeus são brancos, entre outros.

[...] o critério básico de classificação social universal da população


mundial, de acordo com a idéia de ‗raça‘ foram distribuídas as
principais novas identidades sociais e geoculturais do mundo. Por

25
um lado, ‗Índio‘, ‗Negro‘, ‗Asiático‘ (antes, ‗Amarelos‘), ‗Branco‘ e
‗Mestiço‘; por outro, ‗América‘, ‗Europa‘, ‗Ásia‘, ‗África‘ e ‗Oceania‘.
Sobre ela se fundou o eurocentramento do poder mundial
capitalista e a conseguinte distribuição mundial do trabalho e do
intercâmbio. E, também sobre ela, se traçaram as diferenças e
distâncias específicas nas respectivas configurações específicas
de poder, com as suas cruciais implicações no processo de
democratização de sociedades e Estados, e da própria formação
de estados-nação modernos. (QUIJANO, 2007:43)

Percebemos que Quijano (Idem) ao falar da construção moderna das


‗identidades geoculturais‘ pelo projeto colonial aponta a distâncias como uma
configuração específica de poder eurocentrado.

Chama-se aqui de eurocentrismo, o predomínio – consensual e,


por isso mesmo, já tornado invisível – dos padrões brancos, como
se a ‗branquitude‘7 fosse o ‗normal‘, o ‗universal‘, o padrão pelo
qual tudo é medido e contra o qual os ‗outros‘ são representados.
O predomínio das versões eurocêntricas define desde os padrões
de beleza até os lugares que devem ser ocupados por negros e
brancos na história do Brasil [e na geografia de seu território].
(PINHO, 2004: 119)

O eurocentrismo cria uma classificação racial de poder. Ademais, Santos


(2009 mimeo) afirma que a ‗raça‘ historicamente se constituiu como um
instrumento de poder em diferentes escalas criando distintas leituras de espaço e
de tempo e, concomitantemente, hierarquizando as regiões (continentes) do
planeta e os seus respectivos povos.
O projeto moderno-colonial engendrado pelo eurocentrismo, para
Grosfoguel (2008) age a partir de múltiplas hierarquias que se retroalimentam.
Grofoguel chama esse processo de heterarquias. Elas criam e instituem uma
forma linear de conceber as relações sociais e definir as formas de uso e
apropriação do espaço. Grofoguel (2008) enumera essas heterarquias na
compreensão do actual sistema-mundo como um todo histórico-estrutural
heterogéneo, como afirma Anibal Quijano (2007). Para Grosfoguel essas
heterarquias são a expressão da matriz de poder colonial.

7
Nas ciências sociais da Grã-Bretanha, Estados Unidos e África do Sul, tornam-se cada vez mais freqüentes
os estudos sobre „whiteness‟, termo que tem sido traduzido no Brasil por „branquitude‟.
26
1) uma específica formação de classes de âmbito global, em que
diversas formas de trabalho (escravatura, semi-servidão feudal,
trabalho assalariado, pequena produção de mercadorias) irão
coexistir e ser organizadas pelo capital enquanto fonte de
produção de mais-valias através da venda de mercadorias no
mercado mundial com vista ao lucro;
2) uma divisão internacional do trabalho em centro e periferia, em
que o capital organizava o trabalho na periferia de acordo com
formas autoritárias e coercivas (Wallerstein, 1974);
3) um sistema interestatal de organizações político-militares
controladas por homens europeus e institucionalizadas em
administrações coloniais (Wallerstein, 1979);
4) uma hierarquia étnico-racial global que privilegia os povos
europeus relativamente aos não-europeus (Quijano, 1993, 2000);
5) uma hierarquia global que privilegia os homens relativamente às
mulheres e o patriarcado europeu relativamente a outros tipos de
relação entre os sexos (Spivak, 1988; Enloe, 1990);
6) uma hierarquia sexual que privilegia os heterossexuais
relativamente aos homossexuais e lésbicas (e é importante
recordar que a maioria dos povos indígenas das Américas não via
a sexualidade entre homens como um comportamento patológico
nem tinha qualquer ideologia homofóbica);
7) uma hierarquia espiritual que privilegia os cristãos relativamente
às espiritualidades não-cristãs/não-europeias institucionalizadas
na globalização da igreja cristã (católica e, posteriormente,
protestante);
8) uma hierarquia epistémica que privilegia a cosmologia e o
conhecimento ocidentais relativamente ao conhecimento e às
cosmologias não--ocidentais, e institucionalizada no sistema
universitário global (Mignolo, 1995, 2000; Quijano, 1991);
9) uma hierarquia linguística entre as línguas europeias e não-
europeias que privilegia a comunicação e a produção de
conhecimento e de teorias por parte das primeiras, e que
subalterniza as últimas exclusivamente como produtoras de
folclore ou cultura, mas não de conhecimento/teoria (Mignolo,
2000).

Essas heterarquias definem formas de uso e apropriação do espaço


marcada por constrangimento. As relações raciais inscrevem grafias espaciais
mais duradouras e perenes e outras mais episódicas e de duração e escala
menos expressiva. Vários estudiosos têm apresentado inúmeros exemplos.
Os estudos de Anjos (2005a, 2005b, 2005c, 2007, 2008) buscam construir
uma cartografia da diáspora. Uma cartografia que de visibilidade o processo de
desterritorialização dos povos escravizados em ‗África‘ e que se reterritorializaram

27
no Brasil. Anjos (op. cit.) apresenta uma cartografia histórica das revoltas e
insurreições negras e também a criação de quilombos na nossa formação
territorial. Ademais, Anjos (Idem) apresenta configurações espaciais dos atuais
territórios de remanescentes de quilombos e a localização da população preta e
parda no território brasileiro. Desta forma, Anjos (op. cit.) oferece um quadro de
nossa formação territorial em que as relações raciais se inscreveram e se
reproduziram desde a sua gênese.
Milton Santos (2000; 2002a, 2002b) nas constantes provocações que lhes
eram feitas para falar sobre ser negro no Brasil apresenta a corporeidade,
juntamente com a cidadania e individualidade como elementos centrais para
analisar a questão racial no Brasil. A corporeidade para Santos (Idem) é feita de
dados objetivos, a individualidade de dados subjetivos e a cidadania de dados
políticos. Assim, Santos (Ibidem) amplia o debate da questão racial ao apresentar
diferentes arenas de tensão. Para ele, a consciência não suprime a realidade
social do seu corpo e nem amplia a efetividade da cidadania. É necessário avaliar
a corporeidade como instrumento de ação, articulada aos dados subjetivos e
políticos.
Já Campos (2003; 2006; mimeo) avalia a invisibilidade da população afro-
descendente no planejamento urbano e as conseqüências históricas do acesso à
propriedade e ao sistema educacional resultando na baixa participação e
subalternização da população afro-descendente em quase todos os setores da
vida pública nacional. Desta forma, a segregação sócio-espacial de base racial em
diferentes momentos da história urbana do Rio de Janeiro foi imposta, induzida ou
parcialmente induzida. Campos (Idem) ressalta ainda a linha de continuidade
histórico-espacial entre antigos espaços de quilombo e as atuais favelas. Para
Campos (2003) eles expressam um duplo papel: os espaços dos grupos
marginalizados que foram negados a propriedade da terra, os bens comuns de
uso coletivo que possibilitariam a mudança de escala na vida social e também
espaços criminalizados sob constante atenção autoritária do Estado. Os
quilombos se constituíram como espaços de sociabilidade que estabeleceram uma
complexa rede de solidariedade e de contato, em muitos casos com as zonas

28
coloniais, alicerçando pactos sociais, estratégias políticas e culturais de resistência
e formas de sobrevivência. Quilombo e favela expressariam assim a contra-face
de um projeto de nação hegemônico.
Garcia (2006, mimeo) também avalia as desigualdades e o processo
segregação nas cidades do Rio de Janeiro e Salvador de base racial a partir de
indicadores sociais. Utiliza-se de um farto e rico número de dados e mapas
buscando cartografar as desigualdades e os processos de segregação de base
racial. Garcia (mimeo) também enfatiza a questão de gênero no processo de
segregação e na afirmação do direito à cidade.
Já Vazzoler (2006) busca a partir das categorias, conceitos e noções
geográficas oferecer subsídios para reflexão da condição de vida dos negros no
Brasil. Entendemos que o grande mérito do autor é provocar uma leitura
geográfica dos estudos sobre a população negra tanto no ensino quanto na
pesquisa. Para Vazzoler (Idem) assim como para Santos (2007) a promulgação da
lei 10.639/03, fruto de uma luta histórica e antiga do movimento negro permite a
Geografia ampliar, renovar e reescrever o seu campo teórico e metodológico.
Já para Malachias (2006) do qual iremos nos apropriar em nossas
propostas, as ideologias raciais são indissociadas dos arranjos espaciais. Para
este autor, os arranjos espaciais são distribuídos de forma desigual entre negros e
brancos. Este fato cria um uso diferenciado e acesso desigual do espaço para os
diferentes grupos raciais. Malachias (Idem) sobre influência da economia política
afirma que os avanços econômicos nos últimos governos no Brasil não eliminaram
as desigualdades entre negros e brancos. Segundo o autor, com o qual
concordamos, as políticas ‗universalistas‘ não foram capazes de combater as
desigualdades de base racial. Portanto, a necessidade de implementação de
ações afirmativas torna-se um instrumento político de enfrentamento das
diferentes desigualdades de base racial.
Os diferentes projetos de nação e seus horizontes econômicos, sociais,
culturais e políticos construídos pelos negros ou que se viram excluídos como: as
tensões de territorialidades construídas tanto na formação territorial brasileira
pelos quilombos, insurreições e revoltas negras quanto nos remanescentes de

29
quilombos, nos terreiros e as manifestações dos cultos afro-brasileiros, nas
legislações anti-racistas e afirmativas. Há também outras possibilidades de leituras
geográficas que já vem sendo construída da questão racial. A toponímia (o nome
dos lugares) de expressão da diáspora (locais de lutas e resistências negras,
locais de ocupação negra, locais de nome de líderes negros e abolicionistas,
locais de referência cultural africana, nome de locais africanos aqui no Brasil), da
dominação racial (locais com o nome de donos de escravizados, agentes do
tráfico, antigos valongos, senzalas e pelourinhos), nome de locais de resistências
e dos conflitos negros. Os nomes dos lugares impõem a base geográfica de
criação do mundo. O ato de nomear cria sentido, afirma um projeto cultural e
demarca diferenças.
Outra possibilidade de leitura geográfica das relações raciais está nas
grafias das relações raciais de outros tempos que permanecem como
manifestações culturais que (re)definem a identidade dos lugares, em outras
palavras, as rugosidades do espaço das marcas das relações raciais. Este tema
possibilita alguns desdobramentos: 1) as redes de relações de apoio étnico-raciais
que se estabeleceram; 2) a criação de espaços de sociabilidade e de referência
identitária das culturas negras e afrodiásporicas que ultrapassavam ―concreta e
simbolicamente as fronteiras que delimitavam seu[s] espaço[s] próprio[s] e
afirmava, numa esfera mais ampla, sua identidade‖ (GIACOMINI, 2009: 04) que
iam do clube Renascença, a capoeira, aos blocos de carnaval, as rodas e as
escolas de samba, via de regra referida ao morro, aos bailes ‗black‟, (Idem), aos
bailes charmes, funk e festas de Hip Hop; 3) os movimentos, as organizações
sociais e políticas que tencionam na esfera pública e estabelecem um uso político
dos espaços através de manifestações anti-racistas e das culturas negras
afrodiásporicas; 4) nas tensões de diferentes territorialidades que grafaram as
suas marcas e geossímbolos ancestrais e/ou de um grupo racial distinto ao que
está atualmente ali localizado; 5) a concentração e a dispersão espacial dos
grupos raciais num dado território; 6) a questão étnico-cultural e os desequilíbrios
políticos na gestão do território8; 7) o comportamento sócio-espacial racializado

8
Tema trabalhado por GEORGE, Pierre. Geopolítica de las Minorias. Barcelona: OIKOS-TAU, 1985.
30
que estabelece acessos, apropriações e usos do espaço-tempo de forma desigual
à população negra; 8) políticas que estabelecem processo de segregação de base
racial.
Seja no urbano ou no rural, no local ou no global as aproximações dos
temas e conceitos tradicionalmente trabalhados pela Geografia com a questão
racial é uma abordagem rica e que não se finda nesta pequena listagem de
possibilidades de leituras. Desta forma, há um longo caminho a se percorrer.
Elegemos os dois últimos pontos acima como elementos de investigação, mas
tangenciaremos outros.

1.2. As Trajetórias Teóricas da Idea de Raça

Passamos por um período, nos últimos 40 anos, de virada nas relações raciais
no Brasil (TELLES, 2003; HANCHARD, 2001) fruto das lutas e conquistas, sob
inúmeras tensões, de direitos sociais dos movimentos anti-racistas e negros nas
constituições municipais, estaduais, na constituição federal e acordos
internacionais em fóruns sobre o tema. Esta virada ocorre em meio a campos de
lutas de significações (OLIVEIRA, 2006) políticas, teóricas e epistemológicas que
através de agendas e agenciamentos, instauram novos posições dos discursos
construídos por ativismos políticos e movimentos sociais que colocam novos
temários e escalas de ação (OLIVEIRA, 2006; SANTOS, 2006) na
operacionalização de direitos sociais em leis9. Porém, há muito a se fazer, pois as
práticas racistas ―avançam em certas regiões e em outras encontra não somente

9
Até o ano de 2004, informa Nei Lopes em sua Enciclopédia de que o Brasil possuía cerca de 26 textos
legislativos de alcance federal, além de mais de 400 em âmbito estadual e municipal coibindo e condenando
práticas racistas, de preconceito e discriminação.
Apesar da emergência nos últimos anos de inúmeras formas de combate as discriminações raciais no
plano jurídico e social têm intensificado conflitos raciais de toda ordem (culturais, religiosos, de caráter
econômico, entre outros) em distintos campos e contextos sócio-espaciais. Contraditoriamente no mundo da
informação globalizada, preconceitos, estereótipos, estigmas e outras formas de sujeição racial tem
recrudescido, proliferado e intensificado incompreensões. Isto tem provocado o aumento de hierarquizações
de gênero, sexualidade, étnica, racial, estamental, de classe entre outras. A procura por realçar as diferenças
tem se constituído tanto como vontade e ascensão ao poder e formas para assegurar a perenidade no
exercício de poder (RAFFESTIN, 1993) quanto potencializado violências físicas e simbólicas.
31
menor espaço, mas até manifestos esforços de re-legitimação da ordem vigente‖
(QUIJANO, 2007:46).
A história do pensamento relativo às relações raciais no Brasil, apontado por
Telles (2003), engendrou três grandes correntes. A primeira afirmando que haveria
pouca ou nenhuma discriminação racial e grande fluidez entre as raças. A
segunda corrente aponta que a discriminação racial apesar da ampla e
generalizada é transitória. E a última corrente apontando que a discriminação
racial é estruturante e persistente (Idem). Somos partidários, assim como o autor
referido, desta terceira corrente.
Esse debate segundo Telles (Ibidem) possui décadas e pelo menos duas
gerações que convivem e reproduzem as suas ideias.
A primeira geração defende a tese da existência de algum grau de democracia
racial. Para estes, a ‗sociedade‘ brasileira incluía os negros sem tensões muito
sérias. Isto é, há pouco ou nenhum racismo no Brasil. Logo, o racismo não se
inscreveria espacialmente. Para estes autores sob a inspiração luso-tropicalista10
é necessário à eliminação do uso do ―conceito de raça‖ nas ciências sociais. Estes
autores partem de dois pressupostos. Um primeiro relacionado à negação feita
pela Biologia da existência de raças humanas. E uma segunda, que seria
desdobramento da primeira que tal noção estaria impregnada de ideologias
opressivas e que seu uso só geraria mais problemas (GUIMARÃES, 1999)11.
A segunda geração desafiou as teses que sustentavam a teoria da democracia
racial sob o argumento de que o Brasil se caracterizava pela exclusão racial
(Ibidem), ou melhor, inclusões precárias e perversas (MARTINS, 1997) de
subalternização dos negros. O racismo é, neste sentido, constituinte das relações
de violência no Brasil, que em nosso entender, instauram hierarquias na

10
Segundo Lopes (2004:400) o luso-tropicalismo é a “ideologia que enfatiza a suposta capacidade inerente
aos portugueses de conviver cordialmente com seus colonizados e criar sociedades multirraciais abaixo dos
trópicos. Formulada a partir dos Grandes Descobrimentos e retomada de forma ampliada pelo brasileiro
Gilberto Freyre, serviu para justificar a continuada (e muitas vezes truculenta) presença colonial portuguesa
na África e para embasar o mito brasileiro da democracia racial”.
11
Apesar dos avanços teóricos, vários autores assim como faz Guimarães (1999) sobre este tema expressam
uma enorme confusão analítica, pois ora falam em a noção de raça, o conceito de raça, categoria de raça e a
idéia de raça deixando ainda mais confuso esse campo árduo. Iremos preferir usar como palavras sinônimas à
noção e a idéia de raça.
32
organização social do espaço. Esta geração defende o uso do termo ―raça‖ sob
rasura (HALL, 2004) nas ciências sociais enfatizando como uma construção
histórica e política e não como biológica. Ademais, afirmam que àqueles que
sofrem e/ou sofreram os efeitos do racismo não haveria alternativa ao não ser
desconstruí-lo (GUIMARÃES, 1999).
Somos partidários desta segunda geração e defendemos que o preconceito e
a discriminação racial estão grafadas na produção e reprodução urbana da
sociedade brasileira. Entendemos que ela não é transitória como supõem os luso-
tropicalistas e uma vertente dogmática do marxismo que reduz todos os
problemas a questão da luta de classe. Entendemos que não basta dizer
simplesmente que não há raças em termos biológicos. Este discurso ―foi utilizado
por muito tempo para legitimar as atrocidades cometidas com a população negra‖
(RATTS et. al., 2006: 46)
Para Guimarães (1999) não só é possível construir uma noção sociológica de
raça, mas torna-se necessário uma ―[...] definição nominalista de ‗raça‘ [que] seja
capaz de evitar o paradoxo de empregar-se de modo crítico (científico) uma noção
cuja principal razão de ser é justificar uma ordem acrítica (ideológica)‖ (Idem: 20).
Esta proposta de Guimarães (Idem) ao buscar avanços gera alguns problemas.
Ela instaura uma divisão que despreza que as classificações raciais inventadas
para justificar domínio. Dizer que raça tem como objetivo justificar uma ordem
acrítica é perder de vista as suas diferentes formas de operacionalização no vivido
e percebido do cotidiano e no concebido por Estados como instrumento de
dominação. Guimarães (1999) lembra que o conceito [para nós noção] de raça é
relativamente recente e de acordo com Banton (2000:447) seria ―um grupo ou
categoria de pessoas conectadas por uma origem em comum‖ teria entrado para a
língua inglesa no século XVI.
Cremos que essa ideia, apontada acima, de uma origem em comum mais
dificulta a análise do que ajuda, pois tira o foco do corpo e da inscrição espacial
das culturas afrodiásporicas, que em nosso entender, são centrais numa

33
discriminação racial e na definição das relações raciais de uma dada sociedade 12.
Assim como Hanchard (2001: 30) entendemos que:

O termo raça [...] refere-se ao emprego de diferenças fenotípicas


como símbolos de distinções sociais. Os significados e as
categorias raciais são construídos em termos sociais, e não
biológicos. Esses símbolos, significados e práticas materiais
distinguem sujeitos dominantes e subordinados, de acordo com
suas categorizações raciais. A raça, sob esse aspecto, é não
apenas um marcador da diferença fenotípica, mas também do
status, da classe e do poder político. Neste sentido, as relações
raciais são também relações de poder.

Entendemos que a invenção da raça como sistema de dominação significou


de forma concomitante uma instituição de poder e saber sobre os corpos.
Sodré (1992) sugere um caminho problemático para essa árdua noção de
raça, pois enfatiza a pigmentação (como não raça) na investigação do racismo ao
afirma que:

O que há de fato são gradações diferentes da cor da pele nos


indivíduos humanos, mas não ―raças‖ – pois raça é sempre o
outro.
[...] O racismo contemporâneo oferece à analise, portanto,
fora do contexto das teorizações clássicas sobre as pretensas
unidades biológicas denominadas ―raças‖, mas dentro de novos
modelos explicativos das diferenças humanas, que podem suscitar
estigmas talvez mais profundos. (SODRÉ, 1992:117/118)

Discordamos de tese do racismo sem raça, pois o racismo para nós é uma
forma de reproduzir socialmente as noções de ‗raças‘ superiores e inferiores.
Apesar da polêmica, Sodré (1992), nos deixa a entender que desde a
antiguidade, a realidade sócio-espacial do corpo foi um importante componente na
construção de hierarquizações. Mas ‗raça‘ não era motor que definia as
hierarquizações da vida de social. Quando, onde e como a ‗raça‘ ganhou esse
estatuto?

12
Em todo o trabalho entendemos o corpo não como uma perspectiva física e biológica, mas como fruto de
uma construção histórica e política da fenotipia de um grupo em uma dada formação sócio-espacial.
Lembremos novamente que o racismo atua também atua sobre valores morais, culturais, estéticos e
intelectuais construídos pela população negra.
34
1.3. A construção moderno-colonial da raça

Quijano (2007 [1999]) afirma que a ideia de ‗raça‘ foi o mais eficaz instrumento
de dominação social inventado nos últimos 500 anos. Para o autor, esta ideia foi
produzida no início da colonização e formação da América e do capitalismo, na
passagem do século XV para o XVI e imposta como dominação colonial a toda a
população do planeta. OOOOOOO

Etimologicamente, o conceito de raça veio do italizano razza, que,


por sua vez, veio do latim ratio, que significa sorte, categoria,
espécie. Na história das ciências naturais, o conceito raça foi
primeiramente usado na zoologia e na botânica para classificar as
espécies animais e vegetais.
[...] Em 1684, o francês François Bernier empregou o termo
no sentido moderno da palavra, para classificar a diversidade
humana em grupos fisicamente contrastados, denominados raças.
Nos séculos XVI-XVII, o conceito de raça passou efetivamente a
atuar nas relações entre classes sociais da França da época, pois
era utilizado pela nobreza local que se identificava com os francos
de origem germânica em oposição aos gauleses, população local
identificada com a plebe. Não apenas os francos se consideravam
uma raça distinta dos gauleses, mais do que isso, eles se
consideravam dotados de sangue ―puro‖, insinuando suas
habilidades especiais e aptidões naturais para dirigir, administrar e
dominar gauleses que, segundo pensavam, podiam até ser
escravizados. (MUNANGA, 2002a: 17)

Percebe-se na passagem acima que a problemática noção de raça possuiria


uma genealogia ligada a construção de novas diferenças sociais inventadas no
momento de criação de um sistema-mundo moderno-colonial (PORTO-
GONÇALVES & HAESBAERT, 2006). Contudo, veremos que tal genealogia não é
um consenso na academia.
Munanga (2008) e Quijano (2007) são autores que afirmam que o projeto
colonial a partir do século XV/XVI colocou em dúvida o conceito de humanidade
forjado nos limites da civilização ocidental que se constituía. O projeto colonial13 é

13
O projeto colonial forjou a idéia de que existem lugares naturais de negros e brancos (GONZALES &
HASENBALG, 1985)
35
tanto marcado pelo colonialismo que implica uma ação de conquista e
administração colonial e a colonialidade (do poder, do saber e do ser) que forja um
novo padrão de poder que não se cessou com o fim do colonialismo (LANDER,
2000; QUIJANO, 2000; 2004; 2007).

A colonialidade é um dos elementos constitutivos e específicos do


padrão mundial do poder capitalista. Sustenta-se na imposição de
uma classificação racial/étnica da população do mundo como
pedra angular do referido padrão de poder e opera em cada um
dos planos, meios e dimensões, materiais e subjetivos, da
existência social quotidiana e da escala societal. (QUIJANO,
2010, pg. 84)

Quijano (2000; 2004; 2007) aponta que os critérios moderno-coloniais de


classificação social da humanidade foram se constituindo na Europa sobre o resto
do mundo como novo padrão de poder que se funda na racialização dos diferentes
povos em todo o planeta. Ou seja, as diferenças foram sendo transformadas e
reduzidas as desigualdades. A multiplicidade do espaço (MASSEY, 2004) e a
diversidade humana foram encaradas como desigualdade. Negava-se outros
devires que não fosse o branco, europeu. Este princípio de categorizar e
classificar a diversidade humana inventada com as descobertas imperiais (SOUSA
SANTOS, 2004) transfigurará a marca fenotípica em estigma fruto da racialização
dos diferentes povos.

A ‗racialização‘ das relações entre colonizadores e colonizados. A


partir daí, ‗raça‘, uma construção mental moderna, sem muito
sentido na realidade anterior, gerada para naturalizar as relações
sociais de dominação produzidas pela conquista, torna-se a pedra
basal do novo sistema de dominação [...] (QUIJANO, 2004: 77)

Para Quijano (Idem) configura-se um novo sistema de exploração em que a


escravidão racial será um dos principais motores do mercado mundial que passou
a se constituir. A ‗raça‘ se constituiu como princípio de classificação universal e um
elemento justificador do sistema mundial de poder que se engendrava. Desta
forma, isso implicou na ―elaboração intelectual sistemática do modo de produção e
controle do conhecimento‖ (Idem: 78) tendo a Europa Ocidental como centro de
36
controle de poder. Para Quijano (Ibidem) ademais o estabelecimento do Estado
como um novo sistema de controle da autoridade coletiva, que reproduzirá um
colonialismo interno.
Para Reinaldo da Silva Guimarães (2005) a configuração do racismo na
sociedade brasileira se constituiu sob longa duração desde o período colonial. Ele
foi se estabelecendo pela colonialidade do poder, do ser e do saber e se realiza
através de estigmas, identidades e memórias que subalternizam os indivíduos por
suas pretensas características corpóreas racializadas14. Portanto, entendemos a
colonialidade como projeto de hegemonia, pois instaura um sistema normativo que
‗ordena os corpos no/com o espaço‘ a partir de valores morais, estéticos, culturais
e intelectuais eurocêntricos.

Mas, tratar a questão do racismo como uma estrutura história de


longa duração não significa afirmar que ela não englobe ou não
tenha sofrido mudanças ao longo do tempo. Ao contrário, ela
envolve uma dialética entre permanência e mudança, por isso
mais difícil de ser detectada15.
A sobrevivência do Racismo em sociedades democráticas
contemporâneas decorre da construção de uma Memória Coletiva
utilizada como fonte de preservação do poder, significando um
conjunto de valores, crenças e práticas transmitidas ao longo do
tempo. Contudo, deve-se ressaltar que este tipo de memória não
se diferencia de forma alguma da memória individual, posto que
são os indivíduos que interagem entre si e partilham significados
coletivos comuns, que se lembram do passado. (GUIMARÃES,
2005: 04)

Para Moore (2007) do qual nos apoiamos, desde a antiguidade, nas diferentes
partes do planeta, estudos antropológicos [e geohistóricos] têm comprovado que a
experiência humana foi marcada por distintas formas de sujeição por critérios
fenotípicos. Essas primeiras formas de sujeição eram locais e sem conexão
desenvolvendo assim características endêmicas (SANTOS, 2002 [1996]). Neste

14
O negro é bom para trabalho, logo podem ser escravizados, os índios são preguiçosos, não trabalham, não
produzem. Ambos são selvagens, não encontraram a civilização, são povos sem história e sem cultura.
Percebe-se nestes discursos coloniais uma desqualificação cultural e das de formas de relação com a natureza.
15
A propósito deste fato, Braudel observa que é histórico o que muda, também é histórico o que não muda. O
importante é que a mudança deve compor necessariamente uma não-mudança. Como a água de um rio
condenado a correr entre duas margens, muitas vezes mesmo entre ilhas, bancos de areia, obstáculos... A
mudança é como que pega de antemão numa cilada e, se consegue suprimir um pedaço.
37
sentido, o racismo não teve um único berço (espaço) e período de gestação
(tempo) como querem alguns autores citados anteriormente.

Com efeito, desde seu início, na Antiguidade o racismo sempre foi


uma realidade social e cultural pautada exclusivamente no
fenótipo, antes de ser um fenômeno político e econômico pautado
na biologia. O fenótipo é um elemento objetivo, real, que não se
presta à negação ou confusão; é ele, não os genes, que configura
os fantasmas que nutrem o imaginário social. É o fenótipo que
serve de linha de demarcação entre os grupos raciais, e como
ponto de referência em torno do qual se organizam as
discriminações ‗raciais‘.
Negar a existência da raça, portanto, é um absurdo, ao qual
somente se pode chegar através de uma postura ahistórica.
Assim, é preciso executar uma espécie de reorientação
epistemológica, a qual nos levaria a examinar a problemática do
racismo muito além do horizonte estreito dos últimos 500 anos de
hegemonia européia sobre o mundo. (MOORE, 2007:10/11)

Na Antiguidade, afirma Moore (2007), o território (terra, água, rios e


montanhas) e os bens (rebanhos, cidades, etc) eram os elementos utilizados para
a gestão racializada e monopolista dos recursos16. Entendemos que a criação de
desigualdades de base racial, ao longo da história e em diferentes formações
sócio-espaciais, instauraram uma gestão racializada e monopolista dos recursos
vitais da sociedade (MOORE, 2007). Contudo, Sodré (1992:115) alerta que:

A Antiguidade deu, entretanto, respostas diferentes à questão do


trato com a alteridade, tanto que era parte da tradição em certas
comunidades antigas o acolhimento ao estranho. Disso fala, por
exemplo, a Odisséia (Canto VIII), quando descreve a recepção
dada pelo rei dos feácios a Ulisses, que tinha sido encontrado
despido e desmaiado na praia. O estrangeiro implicava contato
com o desconhecido e com a latência, necessariamente
integrantes do processo de descoberta da verdade.
Ulisses não era uma diferença (a exemplo da ‗diferença
nacional‘) para os feácios, mas um outro radical, um estranho, que
podia ser acolhido e homenageado porque não era puro
complemento lógico à identidade vigente naquele território.

16
MOORE (2007) aponta uma visão simplista e reducionista de território como superfície já muito criticada
pelos geógrafos contemporâneos.
38
Desta forma, o exemplo que nos aponta Sodré acima enfatiza os sentidos
17
políticos na definição da identidade-diferença de um grupo social . Na
Modernidade a construção da alteridade terá como base requisitos racializadores.
O continente que posteriormente se chamará de África será um dos principais
alvos desta distinção. Contudo, esta distinção já ocorria desde a Antiguidade18 e
na Idade Média19 só que agora ganhará nova qualidade.

As deportações violentas de africanos foram metodologicamente,


organizadas, primeiros, pelos árabes do Oriente Médio, desde o
século VIII até o século XIX d.C, com ampla participação dos
iranianos, persas e turcos. A partir de 1500 até a segunda metade
do século XIX foram os povos da Europa Ocidental que
protagonizaram o tráfico negreiro, através do Oceano Atlântico.
(MOORE, 2005:138)

Percebemos, portanto, que a ideia de negro é uma invenção estrangeira


aos habitantes deste continente desde a antiguidade que homogeneizava uma
enorme diversidade que com a moderno-colonialidade ganhou nova escala de
poder e dominação com o início de construção de um sistema-mundo.
A construção social do negro na modernidade eurocêntrica passou a se dar
a partir dos séculos XV/XVI com a chamada Diáspora Africana, isto é, o sequestro
violento de enormes contingentes populacionais da área que posteriormente

17
Lembremos que na língua portuguesa a palavra sentido tem pelos menos 03 acepções. A primeira ligada a
um atributo de entendimento (os significados sociais constituídos até então); um atributo de orientação (os
rumos, as metas e os objetivos); e um atributo corpóreo (os 05 sentidos utilizados na apreensão e apropriação
do mundo). Estas três acepções serão aqui utilizadas de forma concomitante.
18
Na Antiguidade, essa região do mundo que conhecemos como África era chamada de Sudão (terra dos
homens negros em Árabe) para os muçulmanos. Para o proto-europeu era conhecida como Etiópia em quase a
sua totalidade. Era tida como a região mais remota habitada. Para Heródoto e também para Ptolomeu os
habitantes desta região eram negros por causa do calor e que os “etíopes da Líbia” eram “entre todos os
homens os de cabelos mais crespos”, o sêmen dos etíopes era negro como sua tez. Os etíopes comparados
com outros povos, como gregos e egípcios, seriam inferiores, bárbaros – sem civilização – e identificados
como trogloditas.
Ptolomeu, com seu livro Geografia irá aprofundar os escritos de Heródoto tendo sua obra influência
decisiva na forma como foram pensados os etíopes (africanos) na Idade Média européia.
19
Por volta do ano 1000, as imagens dos etíopes (africanos) estavam mergulhadas no imaginário da
Cristandade (A Teoria Camita e a fusão da Cartografia de Ptolomeu e a Cosmogonia Cristã). Cam, o filho
mais moreno de Noé, teria sido punido por flagrar o pai nú e embriagado (seus descendentes de pele escura
seriam escravizados e iriam habitar os territórios da Arábia, Egito e Etiópia). Os Mapas (parte Continental)
tinham o seguinte Padrão: Europa (população descendia de Jafet, primogênito de Noé, ficava a direita de
Jerusalém); Ásia (local dos filhos de Sem, neto de Noé, a esquerda de Jerusalém); África (os descendentes de
Cam, filho de Noé, ao Sul dos mapas o continente monstruoso e negro).
39
denominou-se África para o trabalho escravizado nas Américas20. Esse violento
processo de desterritorialização e reterritorialização reduziu a diversidade de
povos a condição de objeto (as ‗peças da Guiné‘, como eram chamados os negros
escravizados). A diáspora africana é uma chave interpretativa da acumulação
primitiva de capitais21. A escravidão racial22, uma invenção moderna européia de
dominação criada entre os séculos XV e XVI, alimentava um processo de
acumulação de capitais via tráfico transoceânico em direção a América em grande
escala se constituindo como evento central na construção do sistema-mundo
moderno-colonial (PORTO-GONÇALVES & HAESBAERT, 2006; MIGNOLO, 2003;
LANDER, 2003).

Reconhece-se hoje que dentre os principais fatores que fizeram


com que os povos europeus se voltassem para a África e a
transformassem no maior reservatório de mão-de-obra jamais
imaginado pelo homem foi a tradição dos povos africanos de bons
agricultores, ferreiros e mineradores, características não
existentes nos índios da América, que além de fugirem para o
interior, foram defendidos pelas missões civilizadoras. Outro fator
que justificava para o europeu a substituição do índio pelo
africano como escrav[izad]o colonial era que, trocando na África
produtos manufaturados por homens cativos, e na América estes
por mercadorias coloniais, as classes dominantes das metrópoles
da Europa apropriavam-se mais facilmente das riquezas aqui
produzidas. (ANJOS, 2005: 29)

O tráfico de escravizado para as Américas foi durante séculos uma das


atividades mais rentáveis para os europeus. Desta forma, a diáspora africana foi
um processo violento que buscava de todas as formas destruir as resistências e

20
A palavra diáspora é de origem grega e significa dispersão. Ela foi tomada de empréstimo das experiências
vividas pelos judeus após séculos desde Abraão para explicar as formas de dispersão ocorrida com estes
povos localizados fora de sua terra de origem (PINHO, 2004; TAVARES, 2003). Este termo passou a ser
utilizado no século XIX para se referir às tradições africanas que se espalharam pelo mundo fruto da
escravidão (Idem). Contudo, a expressão diáspora africana ou negra só se popularizou em meados da década
de 60 inicialmente nos EUA e no Caribe amplamente divulgada por intelectuais e movimentos políticos
negros (PINHO, 2004).
21
Estima-se que cerca de 15 milhões ou mais de negros escravizados foram arrancados violentamente de suas
terras e levados para as Américas. Destes, cerca de 400 mil pessoas raptadas e escravizadas morreram ou
praticaram o suicídio na viagem pelo Atlântico. Os números não são precisos, mas que mais de 4 milhões de
negros escravizados aportaram só no Brasil.
22
A escravidão, essa forma de subjugação do outro é um dos instrumentos de poder e dominação mais antigos
da humanidade. Os europeus reinventaram esta forma de subjugação no século XV/XVI a partir da
categorização racial (fenotípica) dos povos do mundo conhecido e desconhecido com o projeto colonial.
40
as lutas dos povos escravizados criando o maior genocídio da história que se tem
notícia com a morte e escravização de milhares de povos (NASCIMENTO, 1978).
Contudo, onde houve escravidão houve lutas, resistência, derrotas e vitórias de
vários tipos.

Mesmo sob a ameaça do chicote, o escrav[izad]o negociava


espaços de autonomia com os senhores ou fazia corpo mole no
trabalho, quebrava ferramentas, incendiava plantações, agredia
senhores e feitores, rebelava-se individual e coletivamente. Houve
no entanto um tipo de resistência que poderíamos caracterizar
como a mais típica da escravidão – e de outras formas de
trabalho forçado. Trata-se da fuga e formação de grupos
escrav[izad]os de escrav[izad]os fugidos. (GOMES & REIS, 1996:
09)

A diáspora africana além de inventar socialmente o negro 23 resultou na


desestruturação dos sistemas produtivos ‗africanos‘, despovoamento e o
desequilíbrio de algumas regiões do continente, já que o tráfico privilegiou homens
jovens. O medo, a insegurança de seqüestros e pirataria para escravização,
emboscadas lideradas por profissionais caçadores sob a supervisão de grupos
dominantes locais gerou: 1- o acirramento dos conflitos internos; 2- a emergência
de novos grupos sociais que aumentaram seus poderes enquanto atuavam como
agentes do tráfico em troca de ajuda militar; 3- desintegração e extermínio de
diferentes grupos étnico-culturais; 4- o aumento considerável da divisão social e o
corte na memória coletiva (SARAIVA, 1987). O negro nasce carregando consigo
uma inscrição espacial alvo do projeto de dominação

Veja-se aqui que por essa época [século XV/XVI] a instituição da


escravidão entre os africanos era formalmente bem diferente
daquela que o europeu implantou: o escrav[izad]o era sujeito de
Direito, não podendo ser vendido nem maltratado, e tinha até
mobilidade social. Na África, o que determinava a relação de
sujeição era o status e não o ―valor econômico‖ da pessoa.
Foram os europeus, talvez os portugueses, que introduziram
essa forma aviltante de escravidão, na qual o homem era
23
Cada povo que foi escravizado se via com identidades singulares dos seus grupos etnicos-culturais
(bacongo, ovimbundo, guenguela, ovambo, lunda, zulu, entre outras centenas) e não com uma identidade
universal negros africanos. Essa construção é externa e particularmente passou a ser muito utilizada pelos
colonizadores.
41
transformado em coisa (e nunca sujeito) de direitos e obrigações,
em mercadoria valorável economicamente, podendo até ser dado
em garantia hipotecária.
Na sociedade mandiga – para citar um exemplo africano –
escrav[izad]os tinham direito a alimentos, roupas, casamento, e
meação em terras de seus senhores. [...] E no Reino do Congo o
escrav[izad]o era considerado filho da família, ao lado dos ―filhos
de ventre‖, podendo substituir o ―pai‖ na ausência dele e podendo,
inclusive, ter os seus escrav[izad]os também. (LOPES, 1988:35)

As marcas espaciais da construção do sistema-mundo moderno-colonial na


Guiné (como a África era conhecida antes do século XV) foi à criação de centenas
de feitorias sob o controle, em especial de Portugal e Espanha (que estavam se
formando como Estados) na costa do continente. Ki-Zerbo (apud HERNANDEZ,
2005) chamará esse processo de roedura do continente que tinha estratégia
penetrar no interior.

À primeira vista pode parecer surpreendente que só no fim do


século XIX os europeus tenham conseguido penetrar no
continente africano – afinal, a África é o vizinho mais próximo da
Europa, o primeiro continente com que os europeus
estabeleceram contato, tanto na Antigüidade como no começo da
Idade Moderna. [...] Quando Portugal e Espanha tentaram
explorar o sul e o oeste, no século XV, decididos a flanquear o
poder do Islã no Mediterrâneo, inevitavelmente seus primeiros
contatos foram com a África. A Espanha se estabeleceu em
alguns pequenos enclaves coloniais na África do norte, que até
hoje mantém. [...]
Por vezes a África é apresentada como nada mais do que
uma barreira gigantesca ao objetivo real dos europeus nos século
XV, XVI e XVII – chegar à Ásia. Contudo, a África representava
uma parte vital do empreendimento português. Durante muitos
séculos o ouro africano, procedente da região onde hoje se
encontra Gana, chegava ao norte da África, transportado pelos
mouros através das rotas das caravanas que cruzavam o deserto.
[...] Um dos primeiros estabelecimentos portugueses na
costa africana foi chamado, esperançosamente, de Mina. Na
África oriental os portugueses conseguiram penetrar na região do
Zambeze, no fim do século XVI, criando feitorias nas terras altas
do moderno Zimbábue. No entanto, esses esforços nunca
alcançaram as fontes de produção do metal como sua posição no
continente nunca foi forte. Durante o século XVII sofreram
constantes revoltas; aí pelos últimos anos do século todas as
suas bases no interior da África sul-meridional foram destruídas.
(MACKENZIE,1994:12)
42
Este fato ajuda a entender porque os europeus não penetraram tão
facilmente o interior da África. As resistências e a vitórias militares dos povos
‗africanos‘ foram inúmeras. Apesar das dificuldades topográficas, de clima,
vegetação, poucos rios navegáveis, doenças e a dificuldade de ―usar animais de
tração como boi e o cavalo, suscetíveis à doenças causada pela mosca tsé-tsé‖
(Idem:13) o processo de roedura do continente que se iniciou no século XV só se
consolidou no século XIX com o imperialismo (HERNANDEZ, 2005).

Na África ocidental a floresta era percorrida por rotas de comércio,


da mesma forma que o deserto do Saara, ao norte. Durante mais
de setenta anos os portugueses conseguiram manter postos de
comércio no Alto Zambeze, a despeito das doenças e das
dificuldades do terreno. Contudo, naquela época a Europa não
gozava da preponderância militar que viria a ter mais tarde. Atrás
da faixa litorânea da África ocidental havia uma série de Estados
poderosos, muitos dos quais mantinham exércitos bem
organizados. Havia também estados importantes na África
meridional e central, e uma revolução militar negra, na África do
sul, no princípio do século XIX, renovou a capacidade de
resistência de alguns povos africanos. Na verdade, até o final do
século XIX os europeus continuaram a serem derrotados por
africanos – por exemplo, pelos ashantis, os zulus e os abissínios.
Contudo, a despeito de repetidos insucessos, os europeus
continuaram agarrados as costas da África. (MAKENZIE,1994:14)

Apesar de séculos de resistências e vitórias, o tráfico negreiro foi minando a


resistência de vários grupos para fornecer mão-de-obra para as colônias nas
Américas. As regiões no Brasil que mais receberam fluxos de negros escravizados
foram a de interesse econômico europeu. Como o tempo de vida do escravizado é
muito pequeno a necessidade do tráfico era central para evitar desequilíbrios nos
custos das mercadorias por eles produzidas (ANJOS, 2005).
Somente os desenhos do projeto imperialista no século XIX é que a ideia de
raça passa a funcionar como sistema doutrinário. A idéia de ‗raça‘ só no período
imperialista ganhou força política doutrinária ao justificar a dominação no final do
século XIX, com inferioridade dos povos classificados como negros e com os

43
ideais de branqueamento. Sant‘anna (2006) lembra que o branqueamento se
constituiu enquanto princípio que

[...] age de forma a estabelecer cânones, ideais estéticos que


estabelecem um padrão de beleza — expressão da cor da pele,
dos traços fisionômicos e da compleição física dos indivíduos —
em uma correlação direta à sua locação na pirâmide social, o que
acaba por constituir um paralelismo entre cor e posição social.
Assim podemos entender por branqueamento um processo
estruturado pela elite branca que vincula o desempenho social e o
acesso à mobilidade social ascendente às características
fenotípicas dos indivíduos. Objetivamente, para se alcançar uma
posição de destaque social as características fenotípicas dos
indivíduos devem revelar sua identidade branca, ou no mínimo
sua proximidade com esta. (Idem: 37)

O ideal de branqueamento será fundante no mundo moderno-colonial a


partir do século XIX, pois além de definir o modelo civilizatório a ser almejado do
corpo aos espaços colonizados, de forma concomitante, definirá também quais os
indivíduos que terão o direito a esse espaço24. Logo, o branqueamento será posta
como centro da construção identitária eurocentrada normativa dos indivíduos.
Neste sentido, as invenções identitárias moderno-coloniais de indígenas e negros
homogeneizaram e silenciaram uma diversidade enorme de cosmovisões, práticas
e epistemes pelo ideal do branqueamento.
Tanto Quijano (2000) quanto Munanga (2002a) e Moore (2007) com os
quais concordamos, colocam as dimensões corporais do ideal do branqueamento
(para além do físico). Para estes são evidências de relações de poder e violência
que instauram as diferenciações e classificações sociais, criando aí as ideias de
raças e as relações raciais na gestão das dimensões espaciais.
Diferentemente da Antiguidade, para Moore (Idem) na Modernidade a
gestão racializada e monopolista dos recursos vitais da sociedade ganha nova
qualidade. A força de trabalho alheio (escravizado), a produção alheia (produtos
agrícolas ou manufaturados) e as riquezas do meio ambiente e subsolo alheio

24
Uma operação marcada por valores universais eurocêntricos que busca desvincular o particular e o singular.
Lembremos que a modernidade colonial inaugurou a idéia de que os grupos dominantes mascaram os seus
pertencimentos sob a pretensão de universalidade.
44
(minerais, sal, especiarias, madeira, marfim,...) tornam-se os elementos chave da
gestão racializada e monopolista dos recursos agora em nova escala que
começava a se constituir os seus embriões, o global.

Para Silva, (2002, p. 43) ―o conceito [ou melhor a ideia] de raça


era necessário para definir o espaço da modernidade (...) o racial
foi elaborado como um conceito [ou melhor ideia] que se refere ao
espaço, ao corpo e ao continente.‖ Em outras palavras ao
território da nação, ao homem branco e ao continente europeu,
todos compartilhando o tempo da modernidade que pode ser
entendido também, como tempo da civilização da nação moderna.
(MALACHIAS, 2006: 09)

Entretanto, alerta Munanga (2002a), com a planetarização da cultura


européia universalizando a ideia de identidade-diferença humana na segunda
metade do século XVIII cria-se um saber biológico e antropológico que atribui valor
sobre a diversidade que termina sendo o substrato do racismo ideológico e
doutrinário no século XIX. Assim,

No século XVIII, a cor da pele foi considerada como um critério


fundamental e divisor de água entre as chamadas raças. Por isso,
a espécie humana ficou dividida em três raças estanques que
resistem até hoje no imaginário coletivo e na terminologia
científica: raça branca, negra e amarela.
[...] No século XIX, acrescentaram-se ao critério da cor
outros critérios morfológicos como a forma do nariz, dos lábios, do
queixo, do crânio, o ângulo facial etc. para aperfeiçoar a
classificação. (MUNANGA, 2002a 19/20)

Estas diferenciações pela ‗raça‘ se constituíram no plano político pela ação


civilizatória européia. No plano filosófico quando não foram silenciadas por uma
ideia de humanidade genérica e abstrata com valores de um universalismo
despolitizados e eurocêntricos, passaram em muitos casos, a serem reforçadas.
As filosofias de Hegel e Kant foram os pilares desta ideia. A concepção de ‗raça‘ e
concomitantemente o racismo alimentaram projetos de dominação imperialista
europeu no final do século XIX e início do XX e sofreram por isso, uma elaboração
sistemática doutrinária. Tais ideais, na visão dos europeus, serviram para legitimar

45
a usurpação de territórios visando à exploração de recursos e riquezas materiais e
imateriais.
Na segunda metade do século XX cientistas por todo o mundo expressaram
que ‗raça‘ ―[...] cientificamente é inoperante para explicar a diversidade humana e
para dividi-la em raças estanques. Ou seja, biológica e cientificamente, as raças
não existem‖ (MUNANGA, 2002a: 21). Contudo, a raça como uma realidade
social, histórica e política se constitui como uma ‗categoria‘ [noção] de dominação
e inclusão precária, perversa e subalterna(Idem) que persiste no imaginário [da
organização do espaço] e nas representações coletivas de diversas populações
contemporâneas como um ideal normativo. As representações racializadas
buscam alimentar práticas sócio-espaciais de gestão racializadas e monopolistas
das sociedades.
Nas sociedades atuais, aponta Moore (2007) os recursos vitais na gestão
racializada e monopolista das sociedades passaram a ser: a educação, os
serviços públicos, os serviços sociais, o poder político, o capital de financiamento,
oportunidade de emprego, estruturas de lazer e até o direito de tratamento
eqüitativo pelos tribunais de justiças e as forças incumbidas da manutenção da
paz (MOORE, 2007). Moore (Idem) afirma que ―a produção acadêmica voltada
para o estudo e interpretação do racismo foi orientada durante o século XX por
dois grandes desastres na história da humanidade: o holocausto judeu sob o III
Reich e a escravidão negra africana‖ (p.10). Para este autor

Embora o embate hitleriano contra os judeus tenha encontrado


ampla repulsa internacional, os desdobramentos da escravização
dos africanos e as repercussões contemporâneas desse evento
somente começaram a ser examinados seriamente após a
Segunda Guerra Mundial. Entendia-se que o racismo,
especificamente a partir do século XV, era a sistematização de
ideias e valores do europeu acerca da diversidade racial e cultural
dos diferentes povos no momento em que a Europa entrou, pela
primeira vez, em contato com eles.
[...] a visão de que o racismo seja uma experiência da
contemporaneidade cujas raízes se inserem na escravização dos
povos africanos pelos europeus, a partir do século XVI, não é
consistente historicamente.
[...] aqueles argumentos que pretensamente se enraízam
numa visão cientifica para proclamar a inexistência do racismo
46
devido à inexistência da raça como fenômeno biológico, são
inconsistentes. [...] desde seu início, na Antiguidade o racismo
sempre foi uma realidade social e cultural pautada exclusivamente
no fenótipo, antes de ser um fenômeno político e econômico
pautado na biologia. O fenótipo é um elemento objetivo, real, que
não se presta à negação ou confusão; é ele, não os genes, que
configura os fantasmas que nutrem o imaginário social. É o
fenótipo que serve de linha de demarcação entre os grupos
raciais, e como ponto de referência em torno do qual se
organizam as discriminações ‗raciais‘. (Ibidem)

Concordamos assim com Hasenbalg (1992:149) que diz que ―o conceito de


racismo não tem que ser entendido de maneira monolítica ou unidimensional.
Acho que podemos falar em estilos e formas de racismo‖. Essa proposta é o que
buscamos ao relacionar racismo e a espacialidade que iremos aprofundar mais na
frente. Torna-se necessário uma análise crítica que fuja de um idealismo cândido
e ingênuo de despolitização da questão racial no Brasil. Essa perspectiva
simplificadora afirma que outras hierarquizações (majoritariamente a de classe)
são mais importantes na análise de nossa formação que qualquer outra. Logo
desprezam as formas de retro-alimentação dessas hierarquias e as suas
singularidades.
Moore (op. cit.) observa a critica às ideias de uma origem única e recente
do racismo, do qual também concordamos. Ele apresenta duas modalidades de
racismo. Um racismo de exploração centrado na relação desigual criada pela
assunção da diferença na aparência corpórea que foi característica durante as
colonizações de povos e culturas. E o racismo de extermínio que visa à eliminação
física do ‗outro‘ como salvação única do grupo a contaminação das ditas raças
inferiores (Idem). Entendemos que na primeira modalidade predomina uma
hegemonia racial em determinado espaço. A hegemonia para Gramsci (1982)
exerce funções organizativas conectivas para a dominação. Já na segunda, o
racismo de extermínio, predomina a supremacia racial (HANCHARD, 2001) em
determinado ou na totalidade do espaço. Na história de nossa conflita formação

47
flertou-se com as duas modalidades. Todavia, o racismo de exploração e as suas
diferentes modalidades tem predominado.25
As ideias de Moore (op. cit.) já eram vistas em Castoriadis (1989) quando
afirma que ―o racismo hebreu é o primeiro de que se têm vestígios escritos – o que
por certo não significa que seja absolutamente o único‖ (p.59). Contudo, apesar do
avanço crítico que Moore (2007) sinaliza na longa passagem citada, ao avaliar o
fenótipo, como princípio historicamente mais longo, percebemos uma confusão
teórica que é infelizmente comum, entre as ideias de raça e etnia. Esta confusão
teórica no Brasil tem gerado, em muitos casos, tensões políticas que em nosso
entender além de revelar diferenças entre os termos também tem apontado os
posicionamentos ideológicos dos autores que optam por uma blindagem cognitiva
ao entender os termos como sinônimos. O Dicionário do Pensamento Social do
Século XX nos esclarece no verbete etnicidade que:

Os judeus na Alemanha foram erroneamente representados pelos


ideólogos nazistas como constituindo uma raça, enquanto na
verdade eram um grupo étnico com uma cultura característica, de
base religiosa (pág. 282).

Vemos a partir dos exemplos acima que a sujeição do outro por


características corpóreas (fenotípicas) e culturais infelizmente não é algo recente
na história humana. Ao longo dos tempos, a organização espacial das sociedades
foi marcada em diferentes graus, intensidades e qualidades de sujeições. Desta
forma, raça e etnia não são termos sinônimos. Esta confusão entre raça e etnia
aponta técnicas de dominação na classificação sócio-espacial da humanidade na
modernidade (IANNI, 2004; QUIJANO, 2000, 2007; LANDER, 2000; SIMMEL,
1983).
As classificações estabelecidas sob uma base racial construíram práticas
que subordinaram a diferença e todos os seus referenciais espaciais.

25
A crescente manifestação de skinhead, o assassinato de jovens por serem negros e de fundamentalismos
religiosos cristãos que demonizam as religiões de matriz afro não permite excluir totalmente o racismo de
extermínio na análise de nossa formação.
48
Resumindo. As formulações que envolvem o tema da questão racial em
relação ao negro não são um assunto recente. Construíram-se como temas
externos aos povos classificados pela sua pele escura da área hoje conhecida
com África desde a Antiguidade. Porém, é na construção do sistema-mundo
moderno-colonial que ela ganha nova qualidade a partir dos séculos XV/XVI. O
projeto colonial eurocêntrico reinscreve a multiplicidade dos territórios e das
populações do mundo pelo projeto de dominação racial. A raça e o racismo deram
forma ao mundo moderno com o colonialismo e a colonialidade, como um sistema
de dominação multifacetado. Portanto, o racismo se inscreve espacialmente na
realidade brasileira de forma múltipla.
Por isso, torna-se necessário construir um referencial geográfico de leitura
das tensões que envolvem a questão racial no Brasil que será alvo no próximo
capítulo.

49
2. Perspectivas Geográficas das Relações Raciais e do Racismo no Brasil:
em busca de uma fundamentação Teórica

Neste capítulo iremos sugerir uma proposta de leitura geográfica das


relações raciais no Brasil. Inicialmente apresentaremos o que entendemos por
relações raciais, racismo, preconceito e discriminação racial. Buscaremos analisar
como as marcas da colonialidade se reproduzem e novos discursos racistas são
inventados. Apontamos os resultados e as conseqüências do padrão de nossas
relações raciais avaliando algumas pesquisas e indicadores sociais da cidade do
Rio de Janeiro. Propomos três elos geográficos para analisar a inscrição espacial
do racismo (o evento, o arranjo e o ordenamento). Entendemos que as práticas
racistas geram afastamento, logo, buscaremos qualificar esse tipo de afastamento
a partir destes elos geográficos.

Nas últimas décadas, diversos estudos têm apontado que desde o início da
história humana a descoberta de que somos diferentes geraram respostas plurais
na convivência social. De formas de controle e domínio dos tidos como diferentes,
a pactos sociais de convivência pacífica. Os estudos são unânimes de que não há
uma resposta pronta e pré-estabelecida. Ademais, apontam que tais dificuldades e
conflitos não são inatos, pelo contrário, elas foram construídas sócio-
espacialmente em determinados contextos históricos para justificar uma
cartografia de poder contra os grupos vistos socialmente como diferentes. Desta
forma, sugerir uma geografia da questão racial no Brasil significa avaliar um foco
das tensões de poder e violência inscrita na produção e reprodução do espaço.
A questão racial no Brasil tem revelado uma complexa teia de relações tanto
no plano político quanto no teórico strito sensu. Otávio Ianni (2004) afirma que é
através da questão racial que podemos avaliar uma das formas como a sociedade
é produzida. Para este autor, a questão racial não é um desafio presente, ela
revela como uma sociedade fabrica identidades e alteridades, desigualdades e
diferenças, cooperações e hierarquizações, dominações e alienações (Idem).

50
Percebemos em Ianni (Ibidem) o esforço de apresentar a questão racial não como
um acaso, mas como um dos centros da construção social.
Já para Pinto (1998 [1953]) mesmo não teorizando sobre o espaço, a questão
racial está marcada por dimensões espaciais que estabelece determinadas
posições e afastamentos. Assim, ele nos diz:

[...] negros e brancos entraram em contato [ou melhor, se


constituíram] no Novo Mundo dentro de um contexto no qual o
preto começou a existir historicamente como propriedade privada
do branco. Essas distâncias sociais, por sua vez, multiplicavam-se
pelas diferenças culturais e físicas que acentuavam e objetivavam
essa demarcação.
[...] As distâncias que socialmente separavam os grupos étnicos no
espaço formado pelas relações que entre si mantinham – e foi
nessa posição que intervieram na formação da sociedade
brasileira – agiram, diretamente, no sentido de configurar não só o
quadro geral dos contatos e relações, mas também, inclusive,
condicionaram um modo característico de colocar e estudar a
questão racial no Brasil. (PINTO, 1998 [1953]: 58)

Pinto (op. cit.) e Ianni (op. cit.) em suas análises das relações raciais no
Brasil apresentam possibilidades de leituras geográficas. Até recentemente, o
pouco número de estudos das dimensões espaciais da questão racial
demonstravam que ela não comportava ―nem a ideias de negro enquanto um ente
social, e nem das relações raciais enquanto constituinte de nossa estrutura social
que grafa o espaço e produz geo-grafias‖ (SANTOS, 2007:14). Neste sentido,
entendemos que estas tensões se instauram na criação de novas agendas e
arenas (Idem) na esfera pública. ―Esclareça-se logo que [essas lutas sociais] não
se trata de um protagonismo que se inicia agora, mas sim de um protagonismo
que ganha visibilidade agora‖ (PORTO-GONÇALVES, 2007:08).
No entanto, alguns alertas tornam-se necessários na escrita deste trabalho.
Estamos aqui evidentemente para combater toda e qualquer forma de sujeição do
ser humano. Cremos, como Castoriadis (1989), que esse combate ―em nossa
época foi freqüentemente desviado e orientado da maneira mais incrivelmente
cínica‖ (p.57). Inúmeras máscaras foram inventadas e reinventadas acerca do
racismo, do preconceito e discriminação. Discursos ideológicos são produzidos e

51
reproduzidos de que essas formas de sujeição são da natureza humana e de que
sempre existiram na história. Esses ideólogos defensores desses discursos
silenciam destruições, massacres, subalternizações e eliminações tanto materiais
quanto simbólicas de determinados grupos sociais da dinâmica sócio-espacial.
Logo a naturalização é uma estratégia pela qual as ideias produzem alienação
social,

[...] isto é, a sociedade surge como uma força natural estranha e


poderosa, que faz com que tudo seja necessariamente como é.
Senhores por natureza, escrav[izad]os por natureza, cidadãos por
natureza, proprietários por natureza, assalariados por natureza,
etc. (CHAUÍ, 2000:540)

Dizer que preconceitos, discriminação e o racismo são expressões da


natureza humana significa dizer que tal coisa não depende da ação e intenção dos
seres humanos. Ou seja, cria-se uma naturalização das relações sociais
instaurando „a prioris‟ inquestionáveis que

[...] pressupõem, por um lado, que existe uma natureza humana, a


mesma em todos os tempos e lugares e, por outro lado, que
existe uma diferença de natureza entre homens e mulheres,
pobres e ricos, negros, índios, judeus, árabes, franceses ou
ingleses. Haveria, assim, uma natureza humana universal e uma
natureza humana diferenciada por espécies, à maneira da
diferença entre várias espécies de plantas ou de animais. (CHAUÍ,
2000:367)

Logo, naturalizam-se comportamentos, ideias, valores, formas de viver e de


agir não historicizando e desterritorializando os diferentes grupos humanos. Essa
perspectiva não problematizada, caminha pela ideias da existência de
desigualdades inatas entre os seres humanos, e que os preconceitos, as
discriminações e as diferentes formas de racismos não são construções sociais
políticos, mas um elemento determinado por algo transcendental, ‗divino‘ ou
mesmo pela evolução das espécies, como os darwinistas sociais tentaram sugerir.
A história já tem demonstrado vários exemplos de como os inatismos são
estratégias criadas para dominar outros povos e culturas. Portanto, esses

52
ideólogos que ao desqualificar e minimizar o racismo brasileiro como algo ínfimo e
como expressão da natureza humana não só empobrecem o debate e reduzem o
conteúdo empírico de nossa realidade, como também, simplificam a ideias de
homem.

[...] os seres humanos variam em conseqüência das condições


sociais, econômicas, políticas, históricas em que vivem. Veríamos
que somos seres cuja ação determina o modo de ser, agir e
pensar e que a idéia de um gênero humano natural e de espécies
humanas naturais não possui fundamento na realidade. Veríamos
– graças às ciências humanas e à Filosofia – que a idéia de
natureza humana como algo universal, intemporal e existente em
si e por si mesma não se sustenta cientificamente, filosoficamente
e empiricamente. Por quê? Porque os seres humanos são
culturais ou históricos. (CHAUÍ, 2000:369)

Vemos aí, que essa produção de imagens e ideias buscam


imperativamente definir a realidade criando imaginários sócio-espaciais através de
um conjunto de representações sobre os seres humanos e suas relações que não
são estáticas e passivas, pelo contrário, elas buscam incutir no indivíduo a
participação e reprodução destas representações racializadas subalternizadoras
sobre si e sobre o outro. Ou seja, estamos diante de um campo de ideologias a
serem desmistificadas.
No Brasil esses discursos são muito presentes atravessando um arco
ideológico muito diverso da ‗esquerda‘ à ‗direita‘ que buscam obliterar, de toda e
qualquer forma, tensões raciais no Brasil. O mito da democracia racial buscou em
sua história tanto penetrar o idioma comum e cotidiano quanto infeccionar todas
as formas de pensamento. Por essa razão, esse mito atingiu decisões de
relevante significação para a vida humana no plano do vivido, percebido e
concebido (LEFEBVRE, 1974) criando modelos que buscam se reproduzir espaço-
temporalmente. Entendemos que essas ideologias e seus ideólogos criam, na
verdade, obstáculos e tensões ao direito ao espaço de pessoas identificadas como
negras em nosso país. Isto é, ‗teorias‘ e seus ‗teóricos‘26 que buscam ficar em
guarda e de prontidão para eliminar todo e qualquer fato que pudesse especificar

26
Falaremos mais à frente, numa análise gramsciana, o papel dos intelectuais na organização da cultura.
53
uma espacialidade das relações raciais no Brasil 27 . Dessa forma, qualquer
entendimento que busque alargar o conteúdo empírico de nossa realidade para o
aprofundamento teórico das relações raciais e do racismo constituídos em nosso
país, passa a ser desacreditado, refutado e posto como ameaça a democracia.
A despeito das inúmeras penalidades criadas em nível local, estadual,
nacional e também internacional os conflitos raciais, especialmente no tocante ao
negro e a seus descendentes, não só persistem, mas também, em muitos locais
se intensificam. Os crimes raciais não atingem apenas a um grupo específico, os
negros, mas a totalidade, pois reproduz incompreensões e violências em toda a
sociedade. Os crimes raciais afetam aos direitos, isto é, ―[...] o conjunto de normas
de conduta e de organização, constituindo uma unidade e tendo por conteúdo a
regulamentação das relações fundamentais para a convivência e sobrevivência do
grupo social [...]‖ (p.349)28 Portanto, entendemos que investigar essas formas de
sujeição pela aparência corpórea das pessoas identificadas como negras significa
tanto romper o cinismo, apontado na passagem de Castoriadis acima, quanto
buscar construir um espaço verdadeiramente cidadão (SANTOS, 1987) para
negros, brancos, amarelos, homens, mulheres, hetero, homo, bi e transexuais,
entre outros, isto é, para todos os sujeitos de carne e osso (THOMPSON, 1981).
O racismo, o preconceito, a discriminação e outras formas de sujeição da
corporeidade do outro e de seus valores culturais, estéticos, intelectuais e morais
se constituíram como uma das principais tensões da experiência humana na
organização do espaço geográfico ao longo da história. Uma tensão antiga que
constantemente vem apresentando uma cara renovada na produção e reprodução
do espaço. Essas formas de sujeição alimentaram conquistas, guerras,
separações, mortes, genocídios e destruições em diferentes partes do globo, em
diferentes momentos e escalas. Vemos aí que o racismo, preconceito e
discriminação revelam as contingências e as tensões na criação de devires, na
coexistência da multiplicidade e nas interações constantes que dão vida e

27
Não é a toa que esses „teóricos‟, em verdade ideólogos, possuem colunas cativas em jornais de grande
circulação nacional, são grandes vendedores de livros didáticos e estão constantemente na mídia televisiva
hegemônica para desacreditar qualquer fato como este para o grande público. Em outras palavras, estam nos
meios que permitem instaurar mediações em escala nacional. Cf. BARBERO (1997).
28
Bobbio, N. et. al Verbete Direito. In: Dicionário de Política. Brasília: Editora da UnB, 2007.
54
transformam o espaço geográfico (MASSEY, 2004). Como lembra Albert Memmi
―[...] o racismo acompanha praticamente a todas as opressões: o racismo é uma
das melhores justificações, um dos melhores símbolos da opressão (...)‖ (MEMMI,
1968:83), pois, provocaram dificuldades, inventaram e reproduziram
desigualdades, concomitantemente, distanciamentos induzidos e/ou tácitos. Assim
os racismos serviram, e ainda hoje infelizmente servem, como afirmação de
identidades essencialistas e fundamentalistas que visam eliminar toda e qualquer
diferença na produção do espaço.
No imaginário geográfico, temas como o preconceito, o racismo e a
discriminação sempre estiveram em presentes. Lacoste em entrevista a rádio
francesa France Culture (1994) lembra que historicamente os geógrafos dos
tempos de Heródoto até os dias atuais sempre foram exploradores. Ou seja, ―[...] a
Geografia é, em primeiro lugar, o alhures (l‘ ailleurs), a descoberta‖ (p. 37/38)
Sendo descoberta, a Geografia inventa o outro. O conhecer e o reconhecer do
novo (pessoas e áreas), ou seja, os encontros/confrontos têm sido assim,
marcado por estranhamentos, admirações e/ou desqualificações como elementos
bases para os conceitos de estigma, estereótipo, preconceito, discriminação.
Boaventura de Souza Santos (2004) afirma que a descoberta é uma relação
de poder, pois mesmo sendo mútua (ambos estariam se conhecendo pela primeira
vez). Um grupo irá se por como descobridor e o outro como descoberto (Idem).
Nesse sentido, a ideias do que se descobre é anterior a descoberta empírica
(Ibidem). Logo, o retrato do colonizado é precedido pelo retrato do colonizador
(MEMMI, 1977) e os descobrimentos revelam-se uma empresa de encobrimentos
(BARRADAS, 1995).

Convencido da superioridade do colonizador e por ele fascinado,


o colonizado, além de submeter-se, faz do colonizador seu
modelo, procura imitá-lo, coincidir, identificar-se com ele, deixar
por ele assumir. É o momento que poderíamos chamar de
alienação. Ocupado, invadido, dominado, sem condições para
reagir, nem ideológicas nem materiais, não pode evitar que o
colonizador o mistifique, impondo-lhe a imagem de si mesmo que
corresponde aos interesses da colonização e a justifica. O
colonizado se perde no ―outro‖, se aliena (Prefácio Roland
Corbisier. In: MEMMI, 1977[1957]:08)
55
Essa perspectiva alimentou projetos coloniais e foram à base para as ideias de
ecúmeno/anecúmeno na Geografia através de um discurso de estranhamentos,
admirações e/ou desqualificações acerca dos ‗outros‘ nas áreas ‗desconhecidas‘ e
‗inabitadas‘. A ideias de vazio demográfico é um bom exemplo dessa geografia
colonial, pois se o outro é, em termos numéricos, pequeno, logo a sua
territorialidade não merece qualidade. Assim, hierarquias de saber e de poder se
estabeleceram através de práticas racistas, preconceituosas e discriminatórias
neste campo disciplinar. Essas formas de sujeição do outro podem ser
identificadas, com algumas concessões, já na cartografia de Ptolomeu, na
geografia de Varenius, nos seres monstruosos e disformes descritos em muitas
paisagens das áreas ‗descobertas‘ por vários artistas, na diferenciação de áreas
[portanto de indivíduos/pessoas]. Assim, por traz das diferenciações, descrições e
identidades inventadas, mapeadas e cartografadas há valores e interpretações
dessas diferenças (MEMMI, 1968; SODRÉ, 1999) 29 . A tradição empirista na
Geografia brasileira de raízes francesas e, sobretudo, alemã do final do século XIX
e das primeiras décadas do século XX apresentou de forma direta e/ou tácita
muitas dessas marcas ligadas a racialização das sociedades, concomitantemente,
dos seus espaços através do discurso do determinismo ambiental30.
O racismo, o preconceito e a discriminação expressam uma das inúmeras
tensões nas relações sociais na produção e reprodução do espaço tanto de
autopreservação quanto de repulsa do ‗outro‘ pelo fato deste pertencer ou advir de
outra área geográfica e por possui características distintas a de um grupo posto
como norma, como paradigma, passando assim, a serem considerados como
inferiores, ‗bárbaros‘, selvagens, menos civilizados, perigosos, feios entre outros
adjetivos depreciativos. Estas estratégias de negar o outro estiveram e estão
presentes nas formas de dominação que organizam os espaços.

29
Concordamos com as críticas que faz Sodré (1999) e SOUSA SANTOS (2004) sobre as descrições
carregadas de valores etnocêntricos de Kant e Hegel.
30
A classificação da diversidade humana em raças por Ratzel (1990) e os condicionamentos impostos pelo
meio definiram uma leitura espacial das sociedades que afirmaram projetos de dominação. O determinismo
ambiental foi assim utilizado parra justificar ações coloniais.
56
Neste sentido, a necessidade de problematização destes conflitos passa a
significar a avaliação das trajetórias construídas e abortadas na produção e
reprodução do espaço. Entendemos que tal necessidade amplia o quadro analítico
da questão racial no Brasil e oferece caminhos para a investigação geográfica.

2.1. Relações Raciais e Racismo: analisando as dimensões espaciais


desta complexa relação

A identidade do sujeito depende, em grande medida, da relação que ele cria com o corpo. A
imagem ou enunciado identificatório que o sujeito tem de si estão baseados na experiência
de dor, prazer ou desprazer que o corpo obriga-lhe a sentir e a pensar.
Para que o sujeito construa enunciados sobre a sua identidade, de modo a criar
uma estrutura psíquica harmoniosa, é necessário que o corpo seja predominantemente
visto e pensado como local e fonte de vida e prazer. As inevitáveis situações de sofrimento
que o corpo impõe ao sujeito têm que ser ‗esquecidas‘, imputadas ao acaso ou agentes
externos ao corpo.
[...] Um corpo que não consegue ser absorvido do sofrimento que inflige ao sujeito
torna-se um corpo perseguido, odiado, visto como foco permanente de ameaça de morte e
dor. (COSTA, 1986: 107)

Ser negro [...] é tomar consciência do processo ideológico que, através de um discurso
mítico acerca de si, engendra uma estrutura de desconhecimento que o aprisiona numa
imagem alienada, na qual se reconhece. Ser negro é tomar posse desta consciência e criar
uma nova consciência que re-assegure o respeito às diferenças e que reafirme uma
dignidade alheia a qualquer nível de exploração. Assim, ser negro não é uma condição
dada a priori. É um vir a ser. Ser negro é torna-se negro. (SANTOS SOUZA, N. 1983:77)

As epígrafes acima são bem elucidativas de como o racismo se constitui


como forma de violência. Em Costa (1986) a violência do racismo se inscreve na
construção identitária do sujeito negro. O corpo torna-se alvo (TAVARES, 2004)
tanto dos agressores quanto da própria vítima que passa, no extremo, a odiá-lo,
perseguí-lo e a construir uma relação tensa com a sua experiência corpórea.
Neste sentido, os corpos negros são alvos de diferentes formas de violências.
Já para Souza Santos (op. cit.) a violência racista é uma questão marcante
do tornar-se negro. Ela aponta uma importante contribuição na construção e
perspectiva do sujeito como devir, todavia, sugere a ‗tomada de consciência‘ como
elemento central na construção identitária dos negros. Nesta perspectiva, o
indivíduo expressaria um aprendizado político e uma percepção social da sua
condição tornando-se sujeito de sua existência. O indivíduo, agora sujeito, teria se
apropriado de um dado da experiência ou de seu próprio conteúdo estando a partir

57
deste momento, em condições de tirar delas as consequências e assumi-las. Essa
também é ideias apontada pelo clássico estudo de Nogueira (1985).

[...] a percepção da cor e outros traços negróides é ―gestaltica‖


dependendo, em grande parte, a tomada de consciência dos
mesmos pelo observador do contexto de elementos não-raciais
(sociais, culturais, psicológicos, econômicos) a que estejam
associados – maneiras, educação sistemática, formação
profissional, estilo e padrão de vida – tudo isso obviamente ligado
a posição de classe, ao poder econômico e a socialização daí
decorrente. (Idem: 07)

Percebemos que os discursos acima apontados por Nogueira (Ibidem),


Santos Souza (op. cit.) têm suas raízes no problemático conceito de ideologia
apresenta inúmeras dificuldades analíticas, pois acabam apontando para um véu
ideológico (DU BOIS, 1999) que cobriria a real verdade. Isto acaba enfatizando
que a verdade não é uma construção social historicamente datada e situada num
contexto geográfico para algo já dado, bastando aos negros apenas tomar a
ciência deste fato. Foucault (1979) ressalta que a luta que deve ser travada é
contra o poder e não para uma ‗tomada de consciência‘. Assim, entendemos que
essa ideias precisa ser vista sob rasuras, isto é, não podemos abandoná-la
totalmente, mas ela precisa ser vista com cuidado. A tomada de consciência dos
elementos de opressão pode ser parcial ou total. Toda ‗tomada de consciência‘
pressupõe o reconhecimento de si e do outro, isto é, das estruturas de dominação
que alijam os indivíduos classificados como negros e afro-descendentes
afirmarem a sua corporeidade, para si e para a sociedade, em outras palavras, a
corporeidade dos corpos (LIMA, 2007) 31 . O reconhecimento da lógica de

31
Para Lima (2007:66/67) “A corporeidade dos corpos consiste, em linhas gerais, num meio relacional que
aglutina variados corpos entrecruzando suas percepções, intencionalidades, afecções, atos, realizações, enfim,
suas diferenças em prol de um sentido de espaço sob a perspectiva da experiência corpórea”.
A corporeidade dos corpos apontado por Lima (2007) retira a concepção biológica dos corpos
restituindo-os como invenção social do (é no) espaço. Assim, ela redesenha o sentido da identidade pois,
rompe com a vinculação e associação compulsória a cor da pele. A cor da pele e os traços corpóreos (a
corporalidade) se complementam as culturas negras que nem sempre apresentam essa corporalidade. A
corporeidade dos corpos permite ampliar a condição social dos negros para a dos afro-descendentes. Contudo,
a corporalidade mesmo para aqueles que não se consideram negros em situações de disputas é utilizada como
resíduo irredutível (LEFEBVRE, 1974) como forma de subordinação/dominação.
58
dominação expressa um primeiro momento que é a base para ação de forma
consciente e autônoma.
Entendemos que o mérito da proposta de Oracy Nogueira e Neusa Souza
Santos além de romper com a noção biologizante do indivíduo e defender o negro
como uma construção social. A autora propõe uma dupla ruptura: uma ruptura
estética, isto é, outros valores de perceber e sentir-se negro em que a significação
da beleza torna-se um dado importante na afirmação identitária. Uma segunda
contribuição que percebemos na proposta da referida autora é uma ruptura política
ao reconhecer as relações de poder e violência que aprisiona determinados
indivíduos por suas características corpóreas. Mas que tipo de poder e violência
expressam as relações raciais e o racismo?
A multidimensionalidade da questão racial em nosso país ora se revela por
relações de poder ao buscar mudar a conduta de indivíduos e/ou grupos pela
assunção de suas características corpóreas e os seus valores, culturais, morais,
intelectuais e estéticos. Contudo, a questão racial também se revela por formas de
violência física e/ou simbólica que produzem distâncias e desorientação nos
indivíduos que se tornam estranhos e estrangeiros de si, interditando o uso e
apropriação de espaços impedindo, em algum grau, a autonomia das trajetórias
dos que tiveram suas condutas modificadas e/ou impedidas.
Para Costa (Idem) a violência racista tem se revelado de várias maneiras. O
autor apresenta três formas características de tal violência. A primeira seria a
tendência impiedosa de destruir a identidade do sujeito negro através do fetiche
da brancura. Embranquecer passa significar deixar de ser visto, não ser ou não ter
sido negro. Assim uma ideologia do corpo busca se instalar para que o negro
passe a repudiar a sua corporeidade e os valores morais, estéticos, culturais e
intelectuais relacionados a ela. Veremos mais a frente como o fetiche da brancura
se inscreve no espaço.
Uma segunda característica da violência racista que é desdobramento da
primeira, se estabelece por meio do preconceito que cria uma relação persecutória
do negro com o seu corpo. Esta forma de violência cria uma das bases das

59
distinções raciais no acesso, no uso e na apropriação de espaços e escalas de
poder pela invisibilidade e hipervisibilidade.
A terceira característica da violência racista apontada por Costa (op. cit.) está
relacionada a uma espécie de autoflagelação. Isto é, a não satisfação do seu
prazer, mas o desejo do outro branco.
Lembremos que no Brasil dispor de poder econômico significa adotar os
referenciais identitários sociais e raciais dominantes, ou seja, significa torna-se
branco ou ―ser um preto melhor que os outros‖. Assim torna-se branco ou se
colocar como um negro superior aos demais significa a possibilidade de não
passar, ou pelo menos camuflar, possíveis constrangimentos raciais a um grupo
historicamente espoliado. O poder econômico além de nos informar sobre as suas
marcas nas desigualdades raciais historicamente criadas, nos apresenta a
possibilidade da ―cidadania mutilada‖, isto é, a possibilidade de ser respeitado, ser
ouvido, poder acessar a espaços e escalas que o dinheiro pode proporcionar, mas
com o preço de mutilar seus valores identitários. Neste sentido, ―ser um preto tipo
A custa caro‖, como diria o grupo de rap Racionais MC‘s. Vemos aí que não há
econômico separado do ideológico e do político. As relações raciais embutem,
portanto, o econômico, o político, o cultural.
Espacialmente essa violência racista direta se expressa mais nos fluxos, em
eventos, do que nos fixos. Em outras palavras, tais violências se expressam na
mobilidade das pessoas classificadas como negras no espaço da cidade quando
circulam por espaços e escalas de hegemonia da população branca.
Mas também, entendemos que as tensões raciais criam relações
indiretamente nos fixos quando produziram ambientes que buscam restringir e/ou
impedir o acesso, o uso e a apropriação desses espaços por pessoas
classificadas como negras. Assim as relações raciais criadas se articulam com as
representações e valores dos grupos dominantes podendo estabelecer danos
irreparáveis na construção de outros devires. Contudo, quando tais conflitos
ganham a escala jurídica-política afirma-se o negro como sujeito político-jurídico.
Torna-se necessário, então, precisar os termos para o avanço do debate proposto.

60
2.1.1. As Relações Raciais

Cashmore (2000) sinaliza que o poder é o conceito crucial nas relações raciais
e étnicas32 ―[...] por referir-se à capacidade de determinar exatamente o grau de
aquiescência ou obediência a outros de acordo com a vontade de algo ou
alguém‖. (Idem: 418). As relações raciais expressam as dinâmicas de como as
classificações sociais são inventadas e reproduzidas. Logo, tensões são as
marcas imanentes deste tipo de relação que extrapolam o exercício do poder,
como quer Cashmore (Idem). O seu dinamismo revela que as relações raciais
mesclam diferentes formas de sujeição. Vemos que muitas vezes violência e
poder mais se complementam do que se opõem.
No Brasil, Teixeira (2006: 263/264):

[...] os indivíduos são tratados por termos raciais, como brancos,


negros, indígenas, amarelos, asiáticos, pretos ou qualquer outro
que remeta esses indivíduos à características herdadas
biologicamente de um grupo social. Esta é a forma de classificar
as pessoas que muitos de nós pensamos ser ―natural‖. Contudo,
precisamos compreender que qualquer forma de classificação –
inclusive a racial – é herdada não da natureza mas da cultura. É a
sociedade que produz tanto os termos quanto a necessidade de
classificar segundo interesses que ela mesmo cria e recria a partir
de seus valores. [...] Ou seja, a idéia de raça ou cor é aprendida,
arbitrária socialmente construída [e se traduziu de forma distinta a
cada formação sócio-espacial]. (Grifos do próprio autor)

Teixeira (Idem) expressa as relações sociais são formas de classificação da


diversidade humana. Como apontamos anteriormente, essas classificações são
carregadas de valores. As marcas fenotípicas dos diferentes grupos tem sido
historicamente rotuladas e estigmatizadas como formas de dominação. Logo, elas
não são neutras, são clivadas de arbitrariedades. Em cada formação sócio-
espacial as sociedades produziram formas próprias de se classificar, portanto, de
definir identidades/diferenças de si e do outro.

32
Restringiremos na tese apenas a falar das relações raciais.
61
O Dicionário de Relações Étnicas e Raciais (2000) dedica dois verbetes ao
polêmico tema das relações raciais. Um verbete escrito por Robert Miles e outro
escrito por Barry Troyna e Ellis Cashmore.
Segundo o verbete escrito por Robert Miles as relações raciais expressam
uma concepção originada nos EUA nos anos de 1950/60 que ligava os trabalhos
de Gunnar Myrdal, Robert Park, John Dollard, Oliver C. Cox e Lloyd Warney.
Esses estudos passaram a ver as relações entre grupos que empregavam a ideias
de ―raça‖ na estruturação de suas ações e relações entre si, como ―relações
raciais‖. Assim, o tema das relações raciais não é uma discussão biológica, e sim,
construída histórica e socialmente em determinados contextos sócio-espaciais.
Para o autor deste verbete, as relações raciais deturpavam as novas definições
políticas que surgiram na luta renovada contra o racismo e a discriminação neste
período. Dessa concepção que teve gênese nos EUA, gerou-se uma influência na
reação política, acadêmica e da mídia à migração de mão-de-obra da ―Nova
Comunidade Britânica‖ para a Grã-Bretanha na década de 1950. Assim, essas
reações se constituíam sob as reminiscências do pensamento imperialista a
respeito das ―raças‖ inferiores ao império teria influenciado a concepção das
relações raciais na Grã-Bretanha. Em outras palavras, as relações criadas em
relação às colônias, especialmente na África, são deslocadas para a metrópole.

A sociologia das ―relações raciais‖ desenvolvida a partir dessas


questões analíticas ateve-se a dois temas principais: estimar a
extensão e os efeitos do racismo e da discriminação sobre aqueles
que tinham sido objetos destes e a luta política contra o racismo e
a discriminação. [...]
Mais recentemente, desenvolveu-se uma nova linha de
pesquisa [...] que se move em direção à rejeição das ‗relações
raciais‘ como forma de estudo legítima. Essa posição está
firmemente baseada na análise histórica, tanto da idéia de ‗raça‘
quanto do estudo acadêmico das relações entre grupos que
utilizam essa idéia para organizar suas relações sociais. A partir
daí conclui-se que, devido ao fato de a ‗raça‘ não passar de um
fenômeno socialmente construído, assim também o são as
relações entre os grupos que se constituem por intermédio dessa
construção social. Conseqüentemente, não existe nada de
distintivo a respeito das relações resultantes entre os grupos
participantes de tal construção social. (MILES, 2000: 486/487 In:
CASHMORE, 2000).
62
Dessa forma, a frase que termina a citação acima apresenta a dificuldade
na determinação do termo. Miles (2000) nos alerta sobre o problema de
determinar como essas relações históricas e sociais são construídas, a fim de se
poder analisá-las. Para o referido autor, existiriam duas soluções. Uma primeira
solução ―entende as ‗relações raciais e étnicas‘ como subdivisão da sociologia das
relações entre os grupos.‖ (p.487). Parte-se, portanto, da premissa de que

[...] é a observação de que uma tradição de pesquisa foi


estabelecida e que qualquer novo desenvolvimento deveria se
restringir a ela. Mais significativamente, porém, argumenta-se que
as circunstâncias sob as quais os indivíduos são descritos, ou
descrevem a si mesmos como membros de uma ‗raça‘ (somadas
às diversas conseqüências de tal descrição), fornecem uma
explicação em termos de uma teoria de relações entre os grupos.
(Idem)

Já a segunda solução proposta foi desenvolvida a partir de referenciais do


marxismo em que o processo de descrição do social deve ser analisado como um
processo ideológico e político. Por essa razão, não poderia se

[...] empregar conceitos cotidianos ‗raça‘ e ‗relações raciais‘, nem


como categorias analíticas, nem como categoriais descritivas. O
que nos leva à conclusão de que não pode haver uma teoria das
relações raciais, uma vez que isso serviria somente para
confirmar um processo ideológico e político historicamente
específico. (Ibidem: 487/488)

Percebe-se que Miles (op. cit.) encera a sua reflexão com vários elementos
problemáticos em aberto. Entendemos que a escrita de uma segunda perspectiva
sobre as relações raciais por um dos organizadores do referido Dicionário,
expressa uma relativa insatisfação com questões teóricas pouco precisas
apontadas por Miles (op. cit.). Por essa razão, o verbete relações raciais escritos
pela dupla Barry Troyna e Ellis Cashmore propõe ―um enfoque alternativo‖ (p.488)
para tal questão. Estes autores reconhecem e endossam o vazio do conceito de
raça. Para eles, o argumento do termo deve ser aplicado a formas específicas de
relacionamento social. Contudo, insistem que em várias situações, diríamos
63
contextos sócio-espaciais, as pessoas acreditam na existência de uma raça,
dessa forma, pautam suas relações com os outros em decorrência das crenças e
valores a respeito desses outros (TROYNA & CASHMORE, 2000). Assim,

A natureza exata da raça não está em questão, embora o


conceito biológico tenha sido refutado muitas vezes antes. A
questão é, contudo, que as pessoas, certas ou erradas, aceitam
isso como verdade e agem de acordo com as suas crenças.
Desse modo, a raça torna-se algo subjetivamente real: não
importa o quanto achá-la ofensiva ou o quão negativamente nos
impressione a pesquisa científica (em grande parte falsa) a seu
respeito, ela permanece como uma força altamente motivadora
por trás dos pensamentos e do comportamento das pessoas. Ela
é tão real quanto as pessoas querem que seja e não pode ser
simplesmente desprezada. (Idem: 488/489)

O reconhecimento desses pontos, afirmam ou autores, é o núcleo desta


perspectiva de relações raciais. Dessa forma, os autores propõem três níveis para
o enfoque das relações raciais. O primeiro seria o estudo das razões que levam as
pessoas a acreditar que os outros são tão diferentes culturais e biologicamente.
Este debate é problemático, pois historicamente têm hierarquizado as diferenças
baseadas em valores de uma cultura utilizados para analisar outras culturas. Já o
segundo nível proposto que possui uma relação mais direta e intensa com as
nossas propostas de tese, seria as análises de como essas crenças afetam

[...] as suas ações em relação aos outros – o que costuma


assumir a forma de manutenção social (e freqüentemente
geográfica) de uma distância, na tentativa de manter as relações
desiguais [...] (Ibidem)

Vemos aí os autores apontando um desafio à teoria geográfica no


entendimento das relações raciais. Os próprios autores enfatizam a idéia das
relações raciais afetando [em nosso entender são inerentes] a manutenção
geográfica de distância. Em nossa entender, a ‗raça‘ ao torna-se subjetivamente
real através das práticas racista se materializa na instituição de distanciamentos
materiais/simbólicos e horizontais/verticais grafados no espaço geográfico.

64
O último nível proposto pelos autores no entendimento das relações raciais
busca investigar como tais relações se reproduzem e se perpetuam. Ou seja, ao
mesmo tempo em que avaliam o seu dinamismo apontam também as marcas que
permanece ao longo dos tempos e espaços.
As relações raciais no Brasil são marcadas por um caráter político e
ideológico de período dos mais diversos. Das teses do embranquecimento ainda
hoje presentes, além da difícil tarefa de interferir na construção identitária dos
sujeitos, as marcas dos discursos luso-tropicalistas de escravidão mais branda, da
mestiçagem e a democracia racial. Assim, as diferentes modalidades de racismo,
preconceito e discriminação racial se inscrevem espacialmente de distintas formas
e precisam ser entendidas na suas multidimensionalidades.
As relações raciais, portanto, envolvem as mais incrustadas e tensas
formas de dominação produzidas em nossa formação e geraram alguns resultados
e conseqüências nefastas na vida dos grupos mais atingidos por formas de
sujeições, como os negros.

2.1.2. O Racismo, o Preconceito e a Discriminação Racial

A polissemia em torno do conceito e das práticas racistas informam a sua


multidimensionalidade 33 . Para Banton e Miles (Idem) o conceito de racismo na
sociologia percorreu duas definições correspondentes a duas teorias de
conhecimento [eurocêntricas] contrastantes. De um lado, os autores de tradição
kantiana e de outro os de tradição hegeliana. Os kantianos ―acreditam que suas
definições têm de ser elaboradas pelo observador na tentativa de formular teorias
que vão explicar tantas observações quanto possível‖ (p.459). Já os autores de
tradição filosófica hegeliana

[...] acreditam que o observador é parte do mundo que estuda. O


observador tem de compreender os princípios subjacentes ao

33
Segundo o verbete racismo escrito Michael Banton e Robert Miles no Dicionário de Relações Étnicas e
Raciais (2000), até o final da década de 1960, a maioria dos dicionários e manuais o definiam como dogma,
conjunto de crenças, doutrina ou ideologia. Nas obras acadêmicas o conceito de racismo teve outra trajetória
ligada à expansão do capitalismo no Novo Mundo e a necessidade de exploração da mão-de-obra africana.
65
desenvolvimento do mundo e calcular primeiro as definições que
abarcam a essência das relações históricas (Ibidem).

Banton e Miles (op. cit.) afirmam que as implicações dessa distinção entre
hegelianos e kantianos podem ser mais bem apreciadas quando comparadas à do
anti-semitismo. Para eles, os cientistas sociais que utilizam uma epistemologia
kantiana partirão de elementos do preconceito contra negros e judeus. Já os que
usam a matriz hegeliana, em geral, asseveram as diferenças entre racismo e anti-
semitismo.
A complexa realidade contemporânea que instaura potencialmente um maior
contato face-a-face com a diferença que em outros momentos históricos faz essa
tensão emergir. Os olhares eurocentrados dos autores do verbete acabam
pautando para uma necessidade de descolonizar o termo.
Para Castoriadis (op. cit.) o racismo expressa uma ―[...] aparente incapacidade
de se constituir como si sem excluir o outro – e da aparente incapacidade de
excluir o outro sem desvalorizá-lo e finalmente, odiá-lo‖. (Idem: 60) Vemos a partir
do filósofo grego que o racismo promove um divórcio de elementos inseparáveis
como identidade e diferença. Para este a ―rejeição do outro enquanto outro:
componente, não necessário, mas extremamente provável da instituição da
sociedade‖. (Ibidem: 64) Assim, o racismo é entendido como um mecanismo de
inclusão precária, perversa (MARTINS, 1997) e subalterna instituída no imaginário
social para subjugar determinados indivíduos e/ou grupos sociais e atribuí-los uma
"essência má" (SACEANU, 2001 apud CASTORIADIS).
Portanto, ―[...] o racista evita, a todo custo, é encontrar-se no objeto excluído‖
(SACEANU, 2001:93). A importância da proposta de Castoriadis (op. cit.) em
nosso trabalho está nas múltiplas separações (distâncias) que ele provoca ao
produzir uma imposição escalar34 de um indivíduo e/ou grupo ao restringir as suas
trajetórias e interferir na sua mobilidade sócio-espacial. Entendemos por
imposição escalar um conjunto de ações que procuram anular e desqualificar a
ascensão de um indivíduo e/ou grupo a um novo patamar de suas ações
34
Determinado indivíduo e/ou grupo está restrito a circulação em determinados locais e patamares da vida
social. Logo, a pertinência dos fenômenos criados por estes indivíduos e/ou grupos é subalternizada, pois as
suas formas de ler o real é invisibilizada, quando não eliminada.
66
cotidianas. Queremos afirmar, portanto, que garantir simplesmente a ascensão
econômica de um indivíduo e/ou grupo através de políticas de redistribuição que
não questionam as formas de poder e violência vigente. Só estabelece novos
nichos de mercado e transfere alguma renda para os pólos retraídos, contudo,
mantém uma restrição material e simbólica no acesso, uso e apropriação a
determinados escalas e espaços gerando tensões na produção e reprodução do
espaço de caráter racializado (FRASER, 2001).
Para Albert Memmi (1968) o racismo é definido como uma ―valorização,
generalizada e definitiva, de certas diferenças reais ou imaginárias, em proveito do
acusador e em detrimento de sua vítima, com a intenção de justificar seus
privilégios ou sua agressão‖ (p.73/74) 35 . Memmi (op. cit.) enfatiza os sujeitos
envolvidos na ação e a sua utilização como forma de justificar uma dominação.
Percebemos neste autor o significado dos valores atribuídos a diferentes grupos
em determinados contextos espaços-temporais. Inventam-se assim corporeidades
carregadas desses valores subalternizantes. Este fato gera distinções no acesso,
no uso e na apropriação de determinados espaços e escalas.
O racismo como doutrina ideológica surge no século XIX marcadas pelas
teses evolucionistas, positivistas e pelo darwinismo social. Nesta perspectiva o
racismo tem uma carga ‗pedagógica‘ de catequese da dominação. Para alguns
autores (HASENBALG, 1998; GUIMARÃES, 1999, 2000, 2002; SCHWARTZ,
1993; SANTOS, 2002; SANT‘ANA, 2008) as formalizações acerca do racismo
como doutrina teria cabido Gobineau, em seu Essai sur l‟inégalité des races
humaines, publicado em 185336.

35
Tradução Livre Nossa.
36
O geógrafo Claude Raffestin (1993 [1980]) nos alerta para não nos enganarmos e imputar a Gobineau,
Vacher de Lapouge e H. S. Chamberlain “todos os erros e dramas criados pelo preconceito racial no século
XX, mas se trata somente de mostrar que pudemos recolher entre eles, em suas teorias, materiais que
respondiam à expectativa de certos meios”. (p. 130)
Para Raffestin (1993) existe um papel e um significado das diferenças. As diferenças étnicas e raciais
constituem um fator político que ora é virtual, ora é concreto. Para este, com o qual concordamos, [o valor] e
a importância, em maior ou menor grau, “concedida a essas diferenças na História se inscreve numa sinusóide
que é, por si mesma, uma vontade de poder, explícita ou não, e que se apóia no preconceito racial ou étnico”.
(p.130) Raffestin (op. cit.) afirma no que se refere à raça e a etnia fica evidente o poder evoluindo entre dois
pólos que se servem sucessivamente, a unidade e pluralidade. Assim, a exaltação das diferenças raciais e
étnicas sob o binômio superioridade e inferioridade “servem para alimentar um preconceito útil à afirmação
67
A marca do racismo brasileiro expresso por Gobineau dará um novo
significado a miscigenação (mestiçagem) no debate ideológico-político que batizou
o processo de construção da identidade nacional e das identidades particulares
(MUNANGA, 2009). Por esta razão, a miscigenação de simples fenômeno
biológico recebeu uma missão política de homogeneização fenotípica visando
branquear a população (Idem), o território e as paisagens no final do século XIX e
início do XX. Mecanismos de socialização e pedagógicos foram assim criados
para reproduzir as ideologias do branqueamento (Ibidem). Dessa forma, as
interações sociais foram marcadas por essa ideologia que ainda são perenes37.
Em outras palavras, estamos apontando que o branqueamento se constituiu como
projeto de nação ao longo da história de nossa formação territorial.
A complexidade das relações raciais no Brasil criou uma multiplicidade de
racismos.

O racismo aparece, então, como sistema multidimensional de


classificação social [que articula o preconceito e a discriminação
racial], que (no caso brasileiro) tem em traços corpóreos (cor da
pele, cabelo, entre outros traços fenotípicos) o principal traço
diacrítico classificatório, mas que pode associar outras variáveis
para compor um sistema de dominação, controle e exploração
social [como a intolerância religiosa contra as religiões de matriz
afro, a capacidade intelectual, econômica, política dos negros,
entre outros]. Isto resulta da complexidade dos sistemas
classificatórios, e da forma como eles são operados dentro de
regras sociais. (SANTOS, mimeo: 14)

O racismo é a expressão da articulação de diferentes práticas de


desqualificação, sujeição e subalternização do outro pelas suas características
corpóreas visando garantir a manutenção de vantagens historicamente reservadas

de poder”. (p.132). Portanto, existem razões políticas, econômicas, sociais e culturais para explicar o
preconceito.

“Mas as finalidades são sempre simples: assegurar o máximo de trunfos para reforçar a dominação. Nesse
caso, há várias estratégias, que vão da exploração à supressão ou à tentativa de supressão das diferenças, seja
no plano político-econômico, seja no plano sócio-cultural”.(Ibidem)
37
Além da miscigenação, da mestiçagem, da imigração e da transposição de paisagens européias para os
trópicos, Santos (2009 mimeo apud SKIDMORE, 1976) aponta que o leque de branqueamento da população
era mais variado do que se imagina como; a utilização de não-brancos em pelotões de guerra (muitas vezes,
desarmados!), assimilação e desaculturação, extermínio através de conflitos violentos.
68
[e espacialmente definidas] para um grupo racialmente específico (SANT‘ANNA,
2006). O preconceito e a discriminação são elementos dessas práticas de
sujeição. Neste sentido, o preconceito e a discriminação racial não são
exatamente a mesma coisa, todavia, são práticas freqüentemente associadas e
que podem ser concebidas como irmãs siamesas do racismo (CARDOSO DE
OLIVEIRA, 2004). Neste sentido, o racismo, o preconceito e a discriminação racial
expressam as diferentes modalidades da questão racial em nossa realidade.
Essas irmãs siamesas do racismo são sempre adjetivadas (preconceito e
discriminação racial, por religião, por origem, por orientação sexual, entre outros).
Em determinados lugares há momentos que o preconceito e a discriminação têm a
tendência aumentar. Estudiosos têm mostrado vários exemplos como: as épocas
de proliferação de doenças desconhecidas e/ou altamente contagiosas, os
momentos de crise sociais, grande fluxo de imigrantes, entre outros comprovam
essa ideias.
Segundo o Dicionário do Pensamento Social do Século XX o preconceito é

Definido aqui como um julgamento prévio rígido e negativo sobre


um indivíduo ou grupo, o conceito deriva do latim prejudicium, que
designa um julgamento ou decisão anterior, um precedente ou um
prejuízo. As conotações básicas incluem inclinação, parcialidade,
predisposição, prevenção. No uso moderno, o termo veicula
muitos significados variantes. Comuns à maioria deles, contudo,
são noções de julgamento prévio desfavorável, efetuando antes
de um exame ponderado e completo, e mantido rigidamente
mesmo em face de provas que o contradizem. (p.602)

O autor desse verbete informa que devido as suas conotações complexas na


linguagem comum, o preconceito deve ser sempre interpretado no contexto [sócio-
espacial] específico em que ele foi produzido e usado. O preconceito expressa,
portanto, uma atitude negativa de comparação social entre dois ou mais entes
para que haja o julgamento prévio. Essa comparação é carregada de valores
ideológicos. Desta forma, ele é sempre adjetivado. Estamos aqui neste trabalho
enfatizando o preconceito racial. Para Nogueira (2007)

69
Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude)
desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos
membros de uma população, aos quais se têm como
estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou
parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece.
Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência,
isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os
traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-
se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo
descende de certo grupo étnico para que sofra as conseqüências
do preconceito, diz-se que é de origem. (NOGUEIRA, 2007)

Desta forma, ao analisar Nogueira (2007) podemos apontar que


diferentemente dos EUA e de outros países, no Brasil a aparência corpórea é um
dado central na construção psíquica do preconceito. Os valores morais, mentais,
intelectuais, estéticos e culturais marcados por conflitos raciais (preconceito,
discriminação, estigmas, estereótipos) inscrevem-se nos corpos.
Cashmore (2000) escreve que o preconceito tecnicamente pode ser positivo e
negativo, embora nas relações raciais e étnicas costume se referir ao aspecto
negativo. Assim este afirma que existem muitas explicações (sociais e individuais)
das raízes do preconceito, mas as mais comuns são a de que são ―o resultado das
experiências da infância, da pressão para se adequar à sociedade em que se vive
da busca por um bode expiatório‖ (Idem: 441). O preconceito nega aos membros
de um grupo o direito de ser reconhecidos e tratados de forma digna, pois a
presença das imagens deste(s) outro(s) esta(ão) presente(s) no imaginário de
forma contínua a espera de uma nova experiência que às vezes nunca se
constitui. Logo, o preconceito expressa uma representação construída sem
experiência e/ou uma experiência traumática. O preconceito exacerbado tem uma
relação direta com a intolerância, a xenofobia, o autoritarismo e também, como
sugere o Dicionário do Pensamento Social do Século XX, ao etnocentrismo. Para
este Dicionário, o preconceito, na ciência moderna

[...] refere-se a julgamentos categóricos antecipados que tem


componentes cognitivos (crenças, estereótipos), componentes
afetivos (antipatia, aversão) e aspectos avaliatórios ou volitivos
(como disposições para políticas públicas) (Ver Blalok, 1967, p.7;
Klineberg, 1968, p.439) (Idem)

70
O preconceito afeta o plano cognitivo, da criação e reprodução de relações
afetivas e na construção de ações. Para o autor do referido verbete acima, os
conceitos de etnocentrismo e preconceito estão estreitamente relacionados, pois
eles são concebidos a partir da recusa simbólica do outro. Segundo a
Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (p.265) o etnocentrismo expressa
uma ―visão de mundo no qual o indivíduo escalona e avalia outros indivíduos ou
grupos sociais tomando como parâmetro o grupo a que pertence. O etnocentrismo
pode ser um dos componentes do racismo‖. Assim o verbete do Dicionário do
Pensamento Social do Século XX escrito por Robin M. Williams Jr. informa que
quanto mais o etnocentrismo se torna rígido, incondicional e emocionalmente
intenso, sendo maior a possibilidade para conflitos. ―Desse modo, o etnocentrismo
disperso converte-se freqüentemente em preconceito‖ (WILLIAMS JR., 1996: 603)
que pode transformar a competição em sua fonte alimentadora.
Assim, para o autor acima é possível ―controlar‖ então os preconceitos –
formas de recalcamentos – para evitar atos de discriminação, na medida em que é
possível ―respeitarmos‖ os direitos de um interlocutor com o qual não gostaríamos
de estreitar vínculos ou conviver no plano da intimidade (Idem). Entendemos que
essa ideias de controle é falsa e silencia as distintas formas de (re)produção
sócio-espacial. Estes recalques raciais instauram crenças, valores, hábitos,
costumes que conduzem a negação de direitos, criam visões de mundo e atitudes
racistas que se tornam o centro do ordenamento espacial das relações raciais. Ou
seja, a espacialidade dessas formas de sujeições instaura tensões no plano das
ideias e das ações. Assim, a aceitação do negro é apenas aparente e o
preconceito é rasteiro, camuflado e disfarçado nas suas ações. Há uma falsa
liberdade e, portanto, uma pseudo-autonomia para os devires negros. Este fato
confirma a nossa tese de coexistência de anulação e negação. ―A diferença aqui é
sublinhada e funciona como estigma: a cor da pele ou a consonância do nome
deflagram a suspeição e a rejeição‖ (CASTEL, 2008:13). O preconceito é assim
um fenômeno psicológico que reside na esfera da consciência e/ou afetividade
que
71
Aos poucos, vão se transformando em posições diante da vida, ao
se espalharem nas relações interpessoais, carregando consigo
outros ―subprodutos‖ do modelo social vigente nas diferentes
sociedades: os estereótipos, a discriminação, o racismo, o
sexismo etc. (SANT‘ANA, 2008:59 Grifos Nossos)

O preconceito é uma atitude mental aprendida socialmente nos contextos que


pertencemos e freqüentamos. Ele revela as dificuldades na interação social, pois
cria falsas expectativas, medos, incomunicabilidade e avaliação do outro sem
conhecimento de causa. Logo, o preconceito gera na interação uma distinção
racial no plano das mentalidades e justifica processos de segregação. Como
veremos a frente, essa é apenas uma das modalidades de articulação entre os
processos de distinção e segregação38.
Segundo o Dicionário de Psicologia coordenado W. Arnold et alli (1994) o
preconceito, numa alusão parecida com o verbete do Dicionário do Pensamento
do Século XX, pode ser considerado de forma complementar e não excludente em
termos: motivacionais, cognitivos e comportamentais.
As raízes motivacionais estariam relacionadas às reações humanas as
frustrações sofridas em um determinado ambiente social que provocaram
agressividade e impulsos hostis. Ou seja, as variáveis situacionais estão na
gênese da abordagem motivacional do preconceito (Idem).
Já os interesses cognitivos do preconceito estão relacionados a
generalizações falhas e, em geral, inflexíveis, isto é, a reprodução de estereótipos
e rotulações. Nesta abordagem o controle das percepções e a definição de
diferenças como desigualdades estabelecem tanto vantagens para um grupo
quanto barreiras para outros devires. Impõe-se comportamentos previsíveis a
indivíduos considerados diferentes (estranhos e estrangeiros). Desta forma, os

38
Entendemos que a distinção racial no acesso, no uso e a na apropriação de determinados espaços e escalas
necessita ser avaliada a partir de múltiplos aspectos, como: o de classe, o de gênero, pela sexualidade, no
aspecto geracional, étnico, entre outros. Ou seja, a vivência de um evento de discriminação e
concomitantemente tanto a criação de distancia quanto a luta por direitos é distinta numa criança que sofre de
racismo na escola; ou num homem negro homossexual; ou numa mulher negra que sofre por assédio moral e
sexual; ou numa „filha de santo‟ que se vê impedida em freqüentar determinados espaços com a indumentária
característica de sua fé religiosa; ou num homem negro correndo sem camisa que se vê confundido com um
criminoso; entre outros números cruzamentos que podemos fazer e os casos empíricos tem aparecido.
72
interesses cognitivos do preconceito visam afetar a percepção tanto do agressor
quanto da vítima (Ibidem).
Na abordagem comportamental do preconceito está relacionada aos conflitos
e competições intergrupais. Essas tensões engendram atitudes intergrupais e
comportamentos regulados, pois estão relacionados às possíveis conseqüências
na percepção do outro. Logo não só o passado, mas também, as ações presentes
definirão a superioridade e/ou inferioridade de um grupo.
Em nosso trabalho a opção estará mais relacionada com a segunda
modalidade do preconceito, a cognitiva. Isso não significa excluir a perspectiva
motivacional e comportamental, mas apenas apresenta que uma abordagem se
coloca com mais ênfase na investigação da questão racial no Brasil. O preconceito
nas três abordagens revela não apenas desconhecimento, um juízo a priori, mas
também, dificuldade psíquica de compreensão da multiplicidade, interações e
outros devires (MASSEY, 2004). Portanto, ―o preconceito não é um problema da
ignorância. Ele tem a sua racionalidade embutida na própria ideologia‖
(MUNANGA, 2004: 48). Logo entendemos que não se corrige o preconceito
simplesmente pela educação. Essa ideia está marcada pelo problemático conceito
de ideologia ao entender que a solução já está dada e está encoberta. Se assim
fosse, a elevação dos níveis educacionais significaria o fim do racismo. Os casos
empíricos no Brasil e no mundo têm demonstrado que isso não é uma relação
direta.
É importante lembrar que a identificação do preconceito racial é distinta da
percepção do racismo. Em estudo sobre a Percepção do Racismo no Rio de
Janeiro (OLIVEIRA & BARRETO, 2003) ressaltam esta diferença. Assim eles nos
dizem:

[...] vale ressaltar que na identificação do preconceito racial o que


está em questão é a maneira como os indivíduos vêem a si
mesmos, enquanto na análise da percepção do racismo é o modo
como os indivíduos vêem a sociedade em geral. Esse
descompasso entre a autopercepção – via de regra como um
indivíduo sem preconceito racial – e a percepção acerca da
sociedade – onde se reconhece que existe racismo – já foi objeto
de análise em outras pesquisas sobre as atitudes raciais no
73
Brasil, mas continua sendo uma questão mal compreendida ou
não resolvida (Schwarcz, 1996; Turra & Venturi, 1995).
(OLIVEIRA & BARRETO, 2003:188)

Esses mesmo autores comentando o trabalho de Jones (1973) afirmam que


um dos primeiros resultados referente aos esforços analíticos da investigação do
preconceito entre cientistas sociais e psicólogos foi ―[...] à definição hoje
considerada clássica (ou tradicional) segundo a qual a presença de estereótipos e
de distância social eram os principais indicadores do preconceito racial‖ (Grifos
Nossos p.189/190). Sant‘ana (op. cit.) afirma que o estereótipo é o conceito mais
próximo do preconceito e afirma que

O estereótipo é a prática do preconceito. É a sua manifestação


comportamental. O estereótipo objetiva (1) justificar uma suposta
inferioridade; (2) justificar a manutenção do status quo; e (3)
legitimar, aceitar e justificar: a dependência, a subordinação e a
desigualdade. (Idem: 61)

No entanto, devido a complexibilidade das relações raciais no Brasil é


necessário por em pauta que há estereótipos socialmente aceitos tanto por
―vítimas‖ quanto por ―agressores‖ que não são encarados por ambos como formas
de preconceitos. Mas como revela Guimarães (2000) são acionados em contextos
em que a presença de um grupo racial é historicamente pequena numa dada
posição buscando afirmar que aquele não seria o seu lugar.

Com relação aos padrões de sociabilidade inter-racial, é notório


que a classe baixa branca carrega um folclore de concepções
estereotipadas do negro. Contudo, tais estereótipos são com
freqüência verbalizados em contextos amistosos, e as situações
raramente evoluem para o conflito interpessoal e para a violência,
a menos que a intenção ofensiva esteja claramente presente.
(HASENBALG, 1979:252 apud GUIMARÂES, 2000:38)

Já quando falamos em discriminação expressamos um conceito que está no


plano jurídico-político em praticamente em todos os Estados Nacionais. Essa
judicialização do termo foi inspirada no conceito dos direitos humanos. Não é a toa
que possui uma definição que se encontra na Convenção Internacional para

74
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial das Nações Unidas,
artigo 1 (1):

Qualquer distinção, exclusão, restrição ou favorecimento baseado


em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica com o
propósito de efetuar, anular ou diminuir o reconhecimento, deleite
ou exercício, em termos iguais de direitos humanos e liberdades
no campo político, econômico, social, cultural ou qualquer outro
da vida pública. (Grifos Nossos)

A discriminação assim passou a significar a violação de direitos inscritos nas


constituições locais, nacionais e nos pactos internacionais. ―A discriminação é algo
assim como a tradução prática, a exteriorização, a manifestação, a materialização
do racismo, do preconceito e do estereótipo‖ (SANT‘ANA, 2008:59). Portanto, a
discriminação é a operacionalização de preconceitos. Ela supervaloriza
determinados grupos e ―desenvolve no discriminado o sentimento de menos-
valia‖. (LOPES, 2008:184). Segundo a Enciclopédia Brasileira da Diáspora
Africana discriminação significa um ―tratamento desfavorável dispensado
arbitrariamente a certas categorias de seres humanos. A discriminação tem sua
forma mais radical na segregação‖ (p.239). Entendemos que a inscrição territorial
da discriminação intensifica a separação, dificulta o contato e afirma o projeto de
um grupo posto como hegemônico. Logo, quando a discriminação gera processos
de segregação ela potencializa o(s) conflito(s).
Cashmore (op. cit.) afirma que a discriminação racial é a expressão ativa e
comportamental do racismo que tem um duplo objetivo: negar aos membros de
certos grupos o acesso igualitário aos recursos e serviços valiosos e escassos; e
manter crenças negativas a respeito desses grupos. Neste sentido,
ideologicamente resta apenas aos grupos discriminados confirmar os próprios
estereótipos que inspiram a crença racista. A discriminação já foi também
conhecida com o termo racialismo. Todavia, os termos racialista e discriminação
racial estariam perdendo força para os termos racismo e racismo institucional no
uso popular (Idem).

75
A discriminação racial, como forma distinta de muitas outras
formas de discriminação, opera com base em um grupo de
fatores: ela funciona em relação aos atributos percebidos e às
deficiências dos grupos, e não em relação a características
individualizadas. Os membros de determinados grupos têm a
oportunidade a recompensas negadas por razões não
relacionadas à sua capacidade, empenho ou mérito de uma
maneira geral; são julgados única e exclusivamente por serem
membros de um grupo identificável, que se acredita erroneamente
ter uma base racial.
A discriminação racial pode ir desde o uso de rótulos
pejorativos, como ―crioulo‖ ou ―negão‖ à negação de acesso a
esferas institucionais, como habitação, educação, justiça,
participação política etc. As ações podem ser intencionais ou não.
(Ibidem: 172)

Vemos nesta acepção apontada por Cashmore (op. cit.) que a forma de
atuação dos atos discriminatórios cria distinções espaciais dos grupos racializados
em termos negativos como instrumento de dominação. Portanto, não existe
exercício pleno da cidadania e um espaço verdadeiramente cidadão numa
sociedade racista.
Robert Castel (2008) deixa assim uma provocação aos geógrafos em sua
análise da discriminação na França ao reforçar a natureza espacial que envolve a
discriminação. Para ele,...

A questão da discriminação se impõe a partir do momento em que


cessamos de admitir que as diferenças legítimas possam ser
fundadas num estatuto hereditário, como quando, por exemplo,
um plebeu não podia assumir as funções de um nobre: ele não
era discriminado, mas simplesmente mantido em seu lugar, dentro
de uma estrutura social onde cada um devia ―ocupar o seu lugar‖
(CASTEL, 2008:12 Grifos Nossos).

Contudo, ressalta Lopes (2006) que modernamente tem se usado a


expressão ―discriminação positiva‖ para a promoção de políticas públicas de
preferência especial, isto é, as ações afirmativas, compensatórias e reparadoras a
grupos sociais historicamente discriminados visando o acesso ao poder, ao

76
prestígio e a riqueza objetivando reverter tendências históricas de desvantagens e
desigualdades sócio-espaciais39.
Castel (2008) lembra que as ações de ―discriminação positiva‖ buscam
aplicar os princípios inscritos no artigo primeiro da Declaração dos Direitos do ser
humano e do cidadão: ―As distinções sociais só podem ser fundadas sobre o bem
comum‖. Portanto, para Castel (Idem) falar em discriminação negativa não
constitui um pleonasmo, pois fazer mais por aqueles que têm menos, seria uma
forma de discriminação positiva. Castel (Ibidem) com isso apontam não apenas
um desafio teórico, mas também político na análise das populações marcadas por
discriminações.

As pessoas não herdam, geneticamente, idéias de racismo,


sentimentos de preconceito e modos de exercitar a discriminação,
antes os desenvolvem com seus pares, na família, no trabalho, no
grupo religiosos, na escola. Da mesma forma, podem aprender a
ser ou tornar-se preconceituosos e discriminadores em relação a
povos e nações. Para Valente [1998]:
 preconceito racial é a idéia preconcebida suspeita de
intolerância e aversão de uma raça em relação a
outra, sem razão objetiva ou refletida. Normalmente, o
preconceito vem acompanhado de uma atitude
discriminatória; e
 discriminação racial é atitude ou ação de distinguir,
separar as raças, tendo por base idéias
preconceituosas. (LOPES, 2008:184)

Vemos que essa ideia é inspirada no clássico estudo dos anos 50 de Oracy
Nogueira que define assim preconceito.

Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude)


desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos
membros de uma população, aos quais se têm como
estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou
parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece.
Quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência,
isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os
traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, diz-
se que é de marca; quando basta a suposição de que o indivíduo

39
As tentativas que buscam romper com o racismo institucional têm gerado um “discurso politicamente
correto” e criam uma couraça e ofusca recalcamentos inscritos nas falas de autoridades públicas e privadas.
77
descende de certo grupo étnico para que sofra as conseqüências
do preconceito, diz-se que é de origem. (NOGUEIRA, 2007)

Oracy Nogueira (1985 [1954]) buscando investigar a ―situação racial‖


brasileira distingue, em contraposição com a norte-americana distingue o
preconceito racial entre ‗regra de origem‘ e ‗regra de marca‘. Nogueira (2007)
constrói estas ideas, inspirado no sentido preconizado por Max Weber e adotado
por Robert Redfield no esquema "cultura de folk – civilização", os chamados
"conceitos ideais", abstratos e situações ―puras‖.

Quando o preconceito racial deriva das aparências, isto é, quando


suas manifestações são baseadas nas características físicas do
indivíduo, na fisionomia, gestos ou pronúncia, diz-se ser um
preconceito de marca [ou seja, a sua corporeidade é instada na
definição de sua espacialidade]; quando a suposição de que o
indivíduo descende de um dado grupo étnico é suficiente para
fazê-lo vítima de preconceito, isto é chamado preconceito de
origem [isto é, a sua trajetória sócio-espacial é instada para
instaurar a subordinação da sua corporeidade]. (NOGUEIRA,
1985:79 apud HASENBALG, 1992)

Para Nogueira (op. cit.), com o qual concordamos, isso não significa dizer
que o preconceito no Brasil é benigno e nos EUA maligno. Vemos, então, que
metodologicamente estas relações de violência e poder podem ser instaladas
tanto da corporeidade ao espaço quanto das trajetórias sócio-espaciais ao corpo.
Em cada uma dessas relações, as experiências de espaço dos indivíduos mudam.
No caso brasileiro o preconceito de marca insta inicialmente uma trajetória de
investigação do corpo ao espaço. Para Nogueira (op. cit.) com o qual
concordamos, o preconceito racial será mais intenso quanto mais escura for a pele
do indivíduo discriminado. Para este autor, a questão racial no Brasil estaria
ligada, entre outras coisas: a concentração de terras, o imperialismo, o
colonialismo interno e a concentração do poder econômico e político.
Mas também, a lógica de dominação racial opera numa outra modalidade
do espaço ao corpo, isto é, um arranjo espacial racializados é incorporado na
infância, na escola, no ambiente de trabalho, no espaço cotidiano como forma de
reprodução dessas relações de poder e violência.

78
O preconceito de marca instaura geograficamente um duplo caminho que
se retro-alimenta. Do corpo ao espaço quando as características corpóreas são
ressaltadas na definição da espacialidade de um grupo social e do espaço ao
corpo quando uma espacialidade racista é incorporada como instrumento de
manutenção da dominação em termos temporais. Neste sentido, quando estamos
apontando o trajeto da corporeidade ao espaço estamos sinalizando a produção
de uma espacialidade racista. Em outras palavras, instauram-se uma
racialialização do espaço pela segregação, em que um grupo é posto como
subalterno. Já quando apontamos os trajetos sócio-espaciais ao corpo estamos
sinalizando as formas de reprodução da espacialidade racista 40 . Logo, uma
distinção se instaura pela assunção de uma corporeidade.
Ademais, para Nogueira (op. cit.), do qual agora concordamos em parte, o
preconceito de origem não é um exemplo aplicável totalmente à formação sócio-
espacial brasileira, pois o preconceito de origem inclui o de marca, mas o de
marca não inclui o de origem. O preconceito pela descendência realmente é um
traço da realidade dos EUA, mas como a ‗miscigenação‘ no Brasil foi muito maior,
a mestiçagem era uma estratégia de branqueamento que buscava eliminar os
traços físicos e culturais negros41.
Para Nogueira (2007), não basta apenas reconhecer o preconceito no
Brasil. O passo seguinte é verificar se o preconceito racial apenas difere em
intensidade ou se a diferença deve ser considerada qualitativa (Idem.) Neste
sentido, Oracy Nogueira está abertamente criticando a ideia Luiz Aguiar Costa
Pinto que ao investigar a situação do negro no Rio de Janeiro nos anos 50
entende que o preconceito racial difere por intensidade.

Pelo menos um dos pesquisadores do grupo de trabalhos


patrocinados pela Unesco [nos anos 50 do século XX] admite

40
Quando afirmamos que as relações raciais se inscrevem dos trajetos sócio-espaciais ao corpo estamos
dizendo que um arranjo espacial busca criar regulações das corporeidades. Já da corporeidade ao espaço, um
ordenamento busca definir a experiência de espaço de uma pessoa. Falaremos disso mais à frente.
41
Um relato feito pelo d.j. TR (Teste de Raça) em um debate que tivemos numa mesa redonda no São
Gonçalo In Rap (2007) quando apontava que se descobriu negro ao perceber que a sua mestiçagem negava os
traços negros de sua família. Desta forma, não queremos apontar a descendência étnico-racial como marca de
nosso preconceito, mas apenas ressaltar que o preconceito racial no Brasil age na memória da descendência
negra ao negá-la pelo embranquecimento.
79
explicitamente que, entre o Brasil e os Estados Unidos, o
preconceito racial difere principalmente em intensidade (cf. Pinto,
1953, pp. 96-97). O ponto de vista defendido na presente
comunicação, ao contrário, é o de que, embora tanto nos Estados
Unidos como no Brasil não se possa negar a existência de
preconceito racial, as diferenças que ocorrem, nas respectivas
manifestações, são tais que se impõe o reconhecimento de uma
diversidade quanto à natureza. (NOGUEIRA, 2007)

Para Nogueira (Idem), com o qual concordamos, o preconceito racial no


Brasil não difere de outras localidades como nos EUA apenas pela intensidade,
com quer PINTO (op. cit.). Há uma outra qualidade do preconceito racial no Brasil,
pois este enfatiza a aparência corpórea. Assim, as características no que se refere
à situação racial brasileira, ou já foram reconhecidos pelos autores dos estudos
indicados – desde o de Donald Pierson aos patrocinados pela UNESCO nos anos
50 – ou se baseiam em dados e fatos que eles apresentam. Nogueira (op. cit.)
aponta a necessidade de reconhecermos a diversidade e a diferença de natureza
dos preconceitos nestas realidades. Vemos aí um interessante caminho a ser
percorrido pelos geógrafos na investigação da geograficidade deste tipo de
conflito.

A própria expressão "preconceito de marca" não constitui senão


uma reformulação da expressão "preconceito de cor", que se
encontra não apenas nos autores referidos e em outros escritos
relativos à "situação racial" brasileira, como chega, mesmo, a ser
corrente, em certos círculos, na sociedade brasileira, quando se
discute a questão. O presente trabalho outra coisa não faz,
portanto, que apresentar, de um modo sistemático e com uma
terminologia específica, o que já se encontra difuso, tanto na
literatura como no pronunciamento dos estudiosos e outros
interessados. (ibidem.)

Nosso objeto empírico demonstra um exemplo desta difícil oposição entre


poder e violência, apesar dos alertas de Arendt (op. cit.).

2.2. Em busca do Elo Geográfico: a Cor do Espaço

A maneira dissimulada de difícil identificação e verbalização das pessoas


que sofrem de atos racistas têm sido utilizado por ideólogos para afirma que as
80
tensões raciais não são uma marca de nossa realidade. Tanto intelectuais
orgânicos ligados à perspectiva luso-tropicalista quanto do marxismo economicista
estruturalista afirmam que as práticas racistas em nosso país são, no máximo,
individuais e relativas à dimensão econômica. Esta perspectiva falso-progressista
busca descolar a ideia do racismo (visão social e coletiva) para uma visão
simplificada do preconceito racial (visão individual e subjetiva) como predominante
em nosso país. Para estes, as relações raciais seriam eliminadas ao longo do
tempo sem que fosse preciso problematizar a questão racial em nosso país.
Entendemos que esta perspectiva é atemporal e anti-social, pois, ‗esquece‘ que os
indivíduos são seres sociais e interagem em diversos contextos sócio-espaciais ao
longo de sua vida. Ou seja, mesmo se admitíssemos que o preconceito e o
racismo são mínimos no Brasil, desconsidera-se aí a influência que eles podem
criar nas pessoas, nas políticas públicas, na produção de crenças, valores
passados de forma consciente e/ou inconscientemente ao longo dos tempos e
espaços, entre outros. Os ―não-ditos‖ presentes nas heranças e errâncias
(RODRIGUES DOS SANTOS, 2009) da construção histórica do espaço
geográfico. Assim, essa perspectiva despreza que as motivações individuais numa
atitude racista não suprimem a mediação do fator social (MEMMI, 1968).
Os intelectuais orgânicos ligados à perspectiva luso-tropicalista utilizam-se
de investidas ideológicas que afirmavam uma retórica reacionária e intransigente a
qualquer outro ponto de vista e/ou mudança (HIRSCHMAN, 1992) teórica quanto
política. Os luso-tropicalistas buscaram monopolizar a discussão das relações
raciais no Brasil (em todo mundo Atlântico de antiga colonização portuguesa) e ter
prestígios nos meios de comunicação. Somos radicalmente contrários às posições
de base luso-tropicalistas.
Cremos que a construção de uma agenda geográfica da questão racial em
causa em nossa tese busca afirmar a questão racial como um dos centros de
nossa formação sócio-espacial. No entanto, temos consciência que são tarefas
provocantes, porém árduas. Propomos simplificadamente três leituras espaciais
para o entendimento da questão racial no Brasil, em particular no Rio de Janeiro.
Entendemos que apesar de suas especificidades, elas estão e são articuladas. A

81
Geografia da questão racial no Brasil pode ser avaliada através de Eventos de
Discriminação, imbricadas no Arranjo Geográfico das grandes cidades brasileiras
e sustentadas por um Ordenamento Espacial das relações raciais.
Antes de apresentar as diferenças entre as modalidades de geografias da
questão racial brasileira, convém ressaltar que se trata de propostas analíticas,
como fez Oracy Nogueira inspirado em Weber, de tipos ideais que indicam
situações "puras", abstratas, que fornecem quadros interpretativos para um projeto
de estudo geográfico das relações raciais as quais propendem as situações ou
casos concretos (planos de pesquisa da mesma), ―[...] sem que se espere uma
coincidência, ponto por ponto, de qualquer caso real com um ou outro dos tipos
ideais”. Nogueira (op. cit.) continua dizendo que as proposições que serão
apresentadas ―deverão ser entendidas não num sentido absoluto, mas como
indicativas de tendências e como hipóteses a serem aferidas seja através de
novas pesquisas de campo, seja através da reconsideração de dados já
disponíveis‖. Ou seja, os planos de pesquisa constantemente retro-alimentam e
são retro-alimentados por projetos de estudos.
Entendemos que refletir sobre a espacialidade das relações raciais pode
nos ajudar a entender e combater com mais intensidade essa forma de sujeição
do outro que tem com base características, principalmente, corpóreas. Logo, a
questão racial é uma invenção histórica e política na interação e construção da
espacialidade humana.

2.2.1. Eventos de Discriminação Racial

Sai daí crioula! Teu lugar é na cozinha! Não se manca não? Vera Lúcia Couto
dos Santos (Ex-miss Brasil). (COSTA, 2009: 21)

[...] e a menina, filha do dono da casa, fez amizade com meu filho menor. Os dois tinham
por volta de 6 anos de idade. Um dia ela convidou os amiguinhos: ‗Vamos tomar banho na
piscina lá de casa!‘ O Arlindinho se encaminhou todo prosa, aí ela disse a frase fatal:
‗Gente da sua cor não entra na minha piscina‘. Olha que merda!
O garoto ficou bolado sem saber o que pensar. [...] Quando o pai da menina soube, só
faltou morrer de vergonha. O mais grave é que ele era negro, um pouco mais claro do que
eu, mas negro.
[...] Apesar disso, o Arlindinho ficou praticamente um ano e meio sem ir brincar na rua. Dá
para imaginar? Uma frase roubou um ano e meio da vida do meu filho.
Arlindo Cruz (Cantor e compositor). (COSTA, 2009: 197)

82
As epígrafes acima tratam de situações e contextos de interação em que
pessoas identificadas como negras foram molestadas racialmente. Em muitos
casos, em momentos e locais inesperadas pela pessoa que foi vítima. A
apropriação e reação a esses molestamentos são sentidos de diferentes formas,
pois no Brasil, a escala da percepção da experiência da vítima de racismo pode,
não necessariamente, coincidir com a escala da expressão da prática racista. São
conflitos raciais na interação cotidiana em determinados contextos espaços-
temporais. No espaço cotidiano a profusão, a ambiguidade e a fluidez das
categorizações raciais e sistemas classificatórios que geram tensões revelam a
complexidade de nossas relações raciais.

A polarização branco-negro enseja uma miríade de


possibilidades, como: (i) nuances nas categorias intermediárias
(moreno, mulato, pardo, etc.) que podem ter significados variáveis
e não-fixos (um mesmo indivíduo pode ser num contexto
classificado como branco, e em outro como moreno; outro
indivíduo pode ser classificado como moreno, e em outro contexto
como negro); (ii) sistemas distintos de classificação de acordo
com o contexto, p. ex., num espaço elitizado, o sistema
classificatório pode ser ancorado na divisão entre brancos e não-
brancos, estes últimos sendo todos aqueles que, a despeito de
distinções entre eles, se distanciam do referencial de brancura
adotado na polarização – ou, numa reunião do movimento negro,
a base de pertencimento pode estruturar um sistema
classificatório baseado na divisão entre negros e não-negros, com
variações de tons de pele, atributos fenotípicos e também
influência do posicionamento político de cada indivíduo. Um
mesmo indivíduo pode ser classificado como ―não branco‖ no
primeiro contexto e como ―não negro‖ no segundo, sem que isto
negue a ordem social racializada. A ambigüidade e a fluidez das
categorias intermediárias, que podem ter significados diferentes a
cada contexto, serve para acomodar possíveis tensões sociais –
de maneira a exatamente afirmar o ordenamento social
racializado. (SANTOS, mimeo: 14/15)

No Brasil, as categorizações raciais intermediárias (moreno claro, moreno


escuro, mulato, entre outros) têm servido para acomodar tensões sociais e afirmar
o ordenamento espacial racializado. Desta forma, a consciência da discriminação
tende a ser intermitente (NOGUEIRA, 2007). O grau, a intensidade, a qualidade e

83
a reverberação das experiências estão relacionadas com as representações que
as pessoas têm de si e dos outros. Ou seja, há que se considerar a
heterogeneidade de vivências da pessoa vítima. Por essa razão, eles tanto podem
produzir uma construção da memória e da identitária acionada por estratégias de
‗exclusão‘ quanto podem gerar desorientação e resposta inesperadas, não
planejadas criando estratégias próprias de ação42. Entendemos estratégias como
Bourdieu, isto é, possibilidades de ação que são desprovidas de uma intenção
premeditada. Essas estratégias podem se diferenciar a cada novo contexto e
situação no espaço-tempo que é ―[...] apresentada ao indivíduo, ao passo que
sempre haverá ações resultantes de estratégias que possuem a aparência do
cumprimento das regras e/ou um resultado racional‖ (ZANATTA & SOUZA,
2006:82). Desta forma, os eventos de discriminação apesar de alguns graus de
semelhanças são únicos expressando locais e contextos em que o negro é
tolerado, não é aceito, é reprimido e/ou repelido. Os eventos de discriminação
variam de acordo com o contexto (trabalho, escola, entretenimento, espaço
público, privado, lazer, família, entre outros). Com o momento do dia, da semana,
do mês. Varia de acordo com o grau de relação afetiva criada, a faixa etária, nível
educacional, o capital cultural, político e econômico.
Contraditoriamente, o evento de discriminação envolve habitus (nas formas
de reação inesperadas das vítimas) e representações (nas visões
preconceituosas, etnocêntricas, e estereotipadas construídas pelo agressor que
busca incutir na vítima). O evento de discriminação emerge, em geral, em

42
Há uma necessidade de um cuidado teórico e político em definir comportamentos conformistas e
progressistas. Em geral tais equívocos ocorrem por não se compreender a complexidade das condições
particulares por trás das ocorrências. As realidades sociais investigadas nestas posturas a-críticas são
simplificadas e maculadas.
Essa falta de cuidado tem gerado afirmações imperativas de pseudo-intelectuais de que os grupos
investigados são resignados e conformados com tal situação.
Queremos afirmar que discordamos totalmente deste tipo de posicionamento e nos colocamos
diametralmente oposto a tais idéias, pois, não avaliam as escalas espaços-temporais de contra-reações nem
sempre conscientes e planejadas.
84
momentos inesperados para a vítima 43 . As reações das vítimas não são
planejadas. Elas são diversas.

Para Bourdieu, o habitus é um sistema de disposições, modos de


perceber, de sentir, de fazer, de pensar, que nos levam a agir de
determinada forma em uma circunstância dada. As disposições
não são nem mecânicas, nem determinísticas. São plásticas,
flexíveis. Podem ser fortes ou fracas.
[...] São adquiridas pela interiorização das estruturas sociais.
Portadoras da história individual e coletiva, são de tal forma
internalizadas que chegamos a ignorar que existem. São as
rotinas corporais e mentais inconscientes, que nos permitem agir
sem pensar. O produto de uma aprendizagem, de um processo do
qual já não temos mais consciência e que se expressa por uma
atitude ―natural‖ de nos conduzirmos em um determinado meio.
(THIRY-CHERQUES: 2006:33)

Percebemos na citação acima que as trajetórias dos indivíduos são


definidas por ações e incorporações conscientes e inconscientes, percebidas e
não percebidas. Desta forma, a circulação e a permanência dos diferentes grupos
sociais em determinados contextos espaço-temporais expressa uma teia
complexa de determinações e escolhas autônomas.
Já no plano do(s) agressor(es), as ações racistas tem uma relação muito
intensa com as representações. Desta forma, expressa tensões entre as
representações vividas e construídas sobre e com os negros. Como afirma
Lefebvre (s/d: 20) ―[...] as representações também vem de dentro,
contemporâneas da constituição do sujeito, tanto na história de cada indivíduo
como na gênese do indivíduo a escala social‖. Sodré (1992: 119) lembra que

As representações (em sentido lato, englobando teorias e


discursos) são fundamentais na questão do relacionamento com a
alteridade, porque fornecem o quadro de mediação entre um
sujeito e o outro. A apreensão da identidade própria e do outro
passa por mecanismos perceptivos, estruturados pelas
representações que constituem o psiquismo do sujeito.

43
Florestan Fernandes (1972) apresenta que quando o negro rompe com hierarquizações que impõe
determinados espaços, contextos e o trânsito em escalas impostas, o famoso negro no mundo dos brancos, há
espaços em que existe uma maior tendência em ser discriminado.
85
Portanto, as representações são centrais na (re)construção da memória e
da identidade/diferença na trama de poder da construção sócio-espacial do
sujeito. O modo como cada evento de discriminação se desenvolve e como os
racistas atuam, em geral, combinam outras hierarquizações. O caso apresentado
na primeira epígrafe deste sub-capítulo elucida esta ideia, pois, além violentar
simbolicamente a identidade de uma persona com palavras ofensivas por ser
mulher, tal ato discriminatório instaura também uma forma de racialização do
espaço público e privado através de marcas do nosso passado colonial em que a
mulher negra tem a obrigação dos ―[...] afazeres domésticos, à manutenção da
cozinha e bem-estar da ‗sinhá‘ [...]‖ (RATTS & SOUZA, 2008:151) logo,

É imprescindível questionar a presença ou ausência destas


mulheres negras em locais públicos, como a escola enquanto
lugar de trabalho, e privados, como nos momentos de lazer ou
com a família. Dessa forma, questionamos em que medida alguns
espaços vão se delimitando como acolhedores da ―sociedade
branca‖ (SANTOS, 2002) em detrimento da população negra. De
que forma as relações raciais apresentam certa dimensão
espacial? [...] (Idem)

Cremos, portanto, que a maior percepção das mulheres da influência da cor


e raça, apresentado nas páginas anteriores, esteja relacionada às múltiplas
formas de sujeições em que são vítimas. Assim entendemos que tais
constrangimentos raciais apresentam uma reserva de sentido criadas pelos
agressores44. Essas reservas de sentido não são para aparecer naquele instante,
mas, para emergir no momento que os negros e negras aparecem no mundo do
branco. Os eventos de discriminação se nutrem dessas reservas, ademais se
retro-alimenta de diversas hierarquizações sociais para se reproduzirem gerando
na vítima, um estado emocional que geralmente tem criado dificuldades na
interação. Vários depoimentos analisados também apontam que o trauma e,
portanto, a absolutização de posições e a criação de distâncias materiais e

44
Inspirado na palestra do cineastra Antônio Carlos Amâncio em agosto de 2011 no Auditório Geociências –
UFF. Entendemos aqui reservas de sentidos como significados racistas introjetados nos hábitos, costumes e
nos valores morais, culturais e intelectuais que buscam (re)definir os rumos dos indivíduos e/ou grupos raciais
tidos como inferiores e subalternos que questionam ordem social racista.
86
simbólicas, ocorrem pela ‗descoberta‘ sócio-espacial de que se é negro quando se
pensava que era branco 45 . Desta forma, é necessário avaliar como estes se
apresentam.
Os estudos psicológicos atestam que esses eventos de discriminação
podem gerar marcas e conflitos ligados à origem étnico-racial nesses indivíduos,
intervindo na construção ou na busca de suas subjetividades, especialmente
quando crianças (RODRIGUES DOS SANTOS, 2009). Eles induzem, ainda que
com relutância de algumas vítimas, a interiorizar valores culturais, morais,
intelectuais e estéticos do embranquecimento, (NOGUEIRA, 1985) além de induzir
a negação da identidade negra e/ou afrodescendente. O instante no tempo do
evento dando-se no espaço (SANTOS, 2002) se eterniza na produção de
subjetividades, na construção cognitiva, nas representações e percepções do
mundo interferindo diretamente nas trajetórias espaciais desses indivíduos. Assim,
―diferenças hierarquizadas e valorizadas cultural e socialmente, deixando seu
legado na constituição psíquica, subjetiva‖ (RODRIGUES DOS SANTOS, 2009:
126), isto é, criando tensões na construção como sujeitos sociais ao transformar
diferença em desigualdade, o que confirma os exemplos citados nas epígrafes
acima.

[o preconceito racial envolve] aspectos cognitivos (estereótipos,


teorias explicativas, etc.) afetivos (insatisfação estética, antipatia,
desconfiança, ódio) e comportamentais (agressões verbais e
físicas, segregação, discriminação), constitui um fenômeno
altamente complexo que permite as mais variadas abordagens [...].
(NOGUEIRA, 1985: 26)

Desta forma, diferença e desigualdade não são termos sinônimos. A diferença


foi usada politicamente como um atributo da desigualdade entre povos para
subjugá-los tendo como finalidade a eliminação ou a dominação via exploração

45
Isso ocorre principalmente com as pessoas que se identificam como morenas em uma dada localidade e
descobrem-se negras em outras localidades onde há o predomínio de preconceito de origem (NOGUEIRA,
op. cit.). Todavia, discordamos apenas de Nogueira (Idem) quando aponta isso para os EUA. Vários
depoimentos investigados de pessoas que se identificavam como morenas ou que nunca haviam construídos
uma identidade racial perceberam que em algumas localidades especialmente em bairros e contextos de
maioria da população branca em cidades brasileiras forçadamente descobriam-se inesperadamente como
negras.
87
e/ou quebra da sua força política (SIMMEL, 1983). Lembremos que a
desigualdade expressa o modo que cada um se relaciona ou é relacionado com a
produção de bens e as riquezas de uma dada sociedade. Este fato levou
Rousseau (2005) apontar que a origem da propriedade significou,
concomitantemente, a origem da desigualdade46.
Já a diferença expressa o que temos de particular e singular diante de uma
totalidade. Os estudos da desigualdade foram muito explorados pela economia
política e a diferença pela antropologia e psicologia. Contudo, o mundo da vida
não é compartimentado com querem os positivistas. Logo as tradições se
misturam criando muitas dificuldades e vezes confusões entre diferença e
desigualdade, especialmente pela perspectiva racial.
A linguagem verbal e não-verbal assume aí, importância central na
produção e reprodução de espaços e escalas recortados por campos de poder, ao
dar corpo a pensamentos racistas (explícitos e implícitos), demarcar posições e
enunciar distanciamentos entre claros e escuros (SODRÉ, 1999) mesmo quando
não há palavras47. Desta forma, ―a ‗raça‘ funciona como uma ponte entre sentidos
e práticas socialmente construídos, entre as interpretações subjetivas e a
realidade material vivida‖ (HACHARD, 2001: 18). A linguagem discriminatória não
revela apenas a dimensão individual do indivíduo racista, mas também, o uso
político de uma construção social que hierarquiza indivíduos por características
raciais através da ação comunicativa da palavra e/ou mesmo o silêncio. O silêncio
racista assume certo relevo conduzindo um sentido (ORLANDI, 1997) que
constitui uma estratégica de subjugação a favor da discriminação racial. O silêncio
é uma forma de ação que atesta o movimento do discurso (Idem). O silenciamento
(que já não é silêncio, mas ―por em silêncio‖) revela um movimento de censura
que busca limitar e/ou inibir uma trajetória (Ibidem). Nesta perspectiva, para dizer
é preciso não dizer (ORLANDI, 1997) assim, ao invés de pensar o silêncio que cria

46
Não entraremos aqui na polêmica entre os liberais e os movimentos revolucionários do século XVIII sobre
a proposta de Rousseau e nem tão pouco no criticado debate do “bom selvagem”.
47
A idéia de discurso racista será visto aqui numa perspectiva ampla, ou seja, tanto os que usam palavras e
gestos (implícitos e explícitos) quanto os silêncios racistas (o não-dito) que buscam afirmar distanciamentos e
fronteiras. As palavras, os gestos e os silêncios racistas serão entendidos como linguagens de sujeição que
buscam instaurar uma ordem e um arranjo espacial.
88
uma intimidação racista como falta de palavras ele estabelece outras linguagens,
não-verbais, do racismo. O silêncio, para a vítima, significa que uma fronteira foi
cruzada e que há um lugar sócio-espacial demarcado para este indivíduo definido
pelos instrumentos de dominação.
Os discursos racistas tanto pela comunicação quanto pelo silêncio
produzem eventos que ―por definição, são ocorrências que interrompem processos
e procedimentos de rotina‖ (ARENDT, s/d:07) num instante de tempo dando-se no
espaço (SANTOS, 2002 [1996]) não dando lugar e direito (RODRIGUES DOS
SANTOS, 2009) para construção e libertação do sujeito autônomo. Diferentemente
de Milton Santos, o evento aqui não é o espaço como um conjunto de
possibilidades, é o seu inverso, o espaço sem possibilidades para determinados
sujeitos corporificados48.
O evento de discriminação direciona as experiências de interação dos
indivíduos para uma única direção: parte de um presente como mundo de
possibilidade para um presente reduzido, regulado. Não há futuro por si e nem
devir. O ‗futuro‘ significa pôr-se e/ou permanecer no seu devido lugar. Dizendo de
outra forma, o evento de discriminação instaura ‗metamorfoses sem mudar a
ordem‘ produzindo desconhecimentos das possibilidades dos itinerários sócio-
espaciais dos indivíduos identificados como negros.
No seu limite o evento de discriminação impõe uma única possibilidade, a
destruição do outro, a sua eliminação. Logo, são discursos que geram ―uma
fricção que pode, inclusive, ser identificada, condenada e absorvida, sem
nenhuma alteração da ordem racial existente‖ (FERNANDES, 1972:10). Ou seja, a
repreensão que faz o pai da menina na epígrafe acima, em nada garante uma
mudança na ordem racial que pressupõe distâncias (materiais e simbólicas).
Assim, este relacionamento de subordinação, instituído pelos eventos de
discriminação, ocorre à exclusão de toda e qualquer espontaneidade nas
interações sociais (SIMMEL, 1983).

48
Entendemos que quando Milton Santos propõe a inseparabilidade entre espaço-tempo através dos eventos
avança ao pensar um tempo espacial não só pelas formas, funções e estruturas que constituem o espaço, mas
também pelos processos.
89
Infelizmente, o molestamento racial ou racista não é algo particular de nós
brasileiros e nem muito menos, restrito ao mundo contemporâneo. Há vários
relatos feitos por estudiosos de sociedades mais antigas, em diferentes partes do
globo, com algum grau de molestamento ‗racial‘. Os insultos raciais contribuem
como afirma Guimarães (2000), contribuem na construção de uma identidade
social estigmatizada institucionalizando e/ou reinstituindo um lugar de inferioridade
aos indivíduos por suas características raciais (Idem). Desta forma, entendemos
que tais ações são performativas, pois se inscrevem na corporeidade das vítimas
através de práticas de violência simbólica (em muitos casos também física) com
os indivíduos que possuem aparência e valores morais, estéticos, culturais e
intelectuais construídos pela população negra divergentes com a instituída como
dominante.
Os insultos raciais tanto em palavras quanto em silêncios e olhares
construtores de espaços de aceitação e/ou de exclusão são instrumentos ou
práticas de humilhação, desqualificação e desvalorização simbólica cuja eficácia
reside em demarcar o afastamento e a separação de determinadas pessoas pela
assunção de sua corporeidade e concomitantemente dos valores morais,
estéticos, culturais e intelectuais construídos pela população negra49. Na maioria
dos casos, esses ‗rituais‘ de afastamento e separação são reiterados e associados
a qualidades desprezíveis, conjuntamente a outras dimensões estigmatizadoras
de classe, gênero, sexualidade, entre outros. O discurso racista é imperativamente
colocado como estruturador das relações entre os entes afetando e/ou
influenciando as condutas e as atitudes dos indivíduos em relação ao mundo
justificando ou combatendo sujeições. A linguagem assume assim grande
importância. Lima (2007) afirma que

A linguagem é o meio pelo qual operamos o liame entre os


corpos. Ela é o sistema de representações e relações simbólicas
que nós produzimos como síntese da pluralidade de nossas
experiências, dotando assim o corpo de um complexo de
fenômenos expressivos. É por meio da linguagem que
compreendemos o outro, que experimentamos um estado de co-

49
Identificamos num famoso e antigo ditado racista popular (De preto e pobre eu quero distância) a força
desta idéia no plano do cotidiano que interage com diferentes formas de hierarquização.
90
presença. A cadeia lingüística se constrói na fala por palavras
diferenciais. A fala permite-nos vivenciar um campo de presença
comum, pensar segundo o outro, compartilhar. Mas não
compreendemos o outro por um ato de interpretação intelectual
prévio, pois o pensamento e a palavra se constituem
simultaneamente. (p.70)

Lima (2007) aponta a linguagem como meio, como liame do que ele irá
chamar de corporeidade dos corpos. Contudo, pouco enfatiza as relações de
poder e violência inscritas neste liame. Assim por meio da linguagem, o discurso
racista constituído num instante de tempo dando-se no espaço (SANTOS,
2002[1996]) busca afirmar-se como instituidor de significados racializados. Como
vimos no relato do sambista Arlindo Cruz sobre a experiência de mal-estar
passada pelo seu filho numa das epígrafes acima, o trauma provocado pelo
evento é um sintoma que pode apresentar um período indeterminado, e, em
muitos casos, irreversível. Ou seja, uma ―estranheza levemente tocada e que já
vai se afastando [criando distanciamentos]‖. (KRISTEVA, 1994:11). A ―inércia
psíquica‖ (FREUD, 2003), criada aí por um evento de discriminação, como nos
apresentou uma das epígrafes potencialmente pode gerar afastamento físicos e
simbólicos interferindo na criação de ―cartografias mentais e emocionais que
variam segundo os modos de experimentar as interações sociais‖ (CANCLINI,
2008:15). Como lembra (D‘ ADESKY, 2006: 103):

Certas ofensas resultam em danos extremos, o que significa,


portanto que nem sempre é possível calcular ou avaliar seus
impactos ou malefícios [nas trajetórias sócio-espaciais de
determinados indivíduos ou grupos ao longo da vida] com
precisão.

Uma vida limitada em sua plenitude por molestamentos raciais reduz


autonomia (individual e coletiva) e a potencialidade de tornar-se sujeito de direitos.
Em muitos casos que investigamos esta vida regulada tem sido reproduzida em
ensinamentos tácitos, ou mesmo diretos, para outras gerações de como ter um
comportamento em determinados lugares e momentos.
Albert Memmi (1968) analisando as atitudes racistas afirma que:

91
A análise da atitude racista revela quatro elementos importantes:
1º Insistir sobre as diferenças reais ou imaginárias entre o
racista e sua vítima.
2º Valorizar estas diferenças, em proveito do racista e em
detrimento de sua vítima.
3º Esforçar-se em elevá-las ao absoluto, generalizando-as e
afirmando que são definitivas.
4º Legitimar uma agressão ou um privilégio, efetivo ou
eventual. (MEMMI, 1968:74)

A proposta de Memmi (op. cit.), apesar de está analisando um contexto


sócio-espacial próprio, nos ajudar a refletir sobre as ideias contidas nas epígrafes
acima, pois, o ―[...] racista tenderá, com todas as suas forças, intensificar a
distância entre os signos, a maximizar a diferença” (Idem: 77)50 como podemos
perceber nas passagens acima. As epígrafes nos sugerem também as tensões
que algumas pessoas identificadas como negras enfrentam ao ―ultrapassar‖,
―indevidamente‖, as barreiras sócio-espacialmente construídas. Em outras
palavras, fronteiras ―racializadas‖ foram rompidas por indivíduos classificados
socialmente como negros que nunca deveriam ser rompidas. Assim, as relações
de poder e violência racial visam apontar o lugar sócio-espacial onde essas
pessoas deveriam estar. Uma ordem buscando eliminar a desordem (MORIN,
2002). Essa desordem é negra. Assim, o racismo à brasileira supõe distâncias,
posições absolutizadas e fronteiras que operam distinções territoriais racializadas.
Neste sentido, os molestamentos raciais tornam-se tentativas de legitimar
uma hierarquia social baseadas na ideia de raça (GUIMARÃES, 2000) cuja função
e intenção é a manutenção de diferenciações (desigualdades) até que estas
pessoas ―aprendam e se habituem‖ ao seu lugar sócio-espacial reservado.
A trajetória jurídica dos insultos e crimes raciais, como afirma Guimarães
(Ibidem), expressa os diferentes sentidos que os eventos de discriminação tiveram
na história recente do Brasil.

Desde que a lei 7.716 de 1989 definiu o crime racial no Brasil, um


dado passou a chamar a atenção tanto dos ativistas e advogados

50
Tradução Livre Nossa.
92
negros quanto dos pesquisadores: a maioria das queixas de
discriminação poderia ser enquadrada nos crimes de injúria ou
infâmia.51 A importância numérica dos casos de insulto racial foi
tão grande que em 1997, por pressão dos ativistas, os
legisladores modificaram o Código Penal Brasileiro (Lei n. 9.459)
para que injúria racial fosse punida com o mesmo rigor dos crimes
raciais. (GUIMARÃES, 2000:32)

O crime de racismo tem sido também dissimulado nos processos judiciais


em outros jargões jurídico-políticos como: abuso de poder, desacato a autoridade,
alto de resistência, difamação, assédio moral e bullying.
Apesar das mudanças que esta forma de sujeição teve ao longo do tempo
captadas pelas tentativas jurídicas, o processo de diferenciação busca um tempo
absoluto para justificar a dominação, ou seja, os negros são visto como inferiores
no passado, no presente e no futuro (MEMMI, 1968)52.
Esta tensão expressa nas interações sociais nos lembra de Georg Simmel,
pois engendra uma atitude de reserva53. Esta reserva, em nosso entender, não
está relacionada apenas a condição econômica do indivíduo, mas também, se
refere aos preconceitos e estereótipos raciais instituídos no imaginário social e nas
consciências das pessoas sobre os negros e moradores de morros, favelas e
‗comunidades‘. Os eventos dissolvem identidades (C. Diano, 1994 apud SANTOS,
2002) propondo outras, estigmatizadas. Os eventos se estendem por outros
eventos. Assim, a situação exterior busca conformar uma realidade interior
significando a renuncia à liberdade, ou seja, inércia e resignação. Essa atitude de
reserva não possui um local previamente definido. O evento de discriminação,
essa modalidade de subordinação brasileira da corporeidade dos corpos (LIMA,
2007) subalternizados, não possui um sistema fixo e um lócus espacial único e/ou

51
Ao contrário do norte-americano, o código penal brasileiro reconhece o crime contra a honra. Sua mera
existência já indica a presença de relações sociais hierarquizadas, pautadas por um código de honra pessoal e
estamental (e não apenas ética).
52
Memmi (1968) apresenta também o exemplo do judeu caracterizado sempre (no passado, no presente e por
vir) como uma figura ávara.
No imaginário social está idéia, em relação ao negro, expressa muitos preconceitos e estereótipos
como por exemplo: mais resistência ao trabalho pesado, portanto, mais propício ao trabalho manual do que ao
trabalho intelectual; mais propício aos esportes em que a força física é mais importante que o pensamento
estratégico, entre outros exemplos.
53
SIMMEL, Georg. A Metrópole e a Vida Mental. In: VELHO, O. G. (org) O Fenômeno Urbano. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1967.
93
previamente definido. Em outras palavras, ele pode ocorrer em qualquer lugar
independente do grau de desigualdade e segregação de base racial.
Guimarães (op. cit.) analisando ofensas verbais raciais registradas em
queixas de discriminação em São Paulo (entre maio de 1997 e abril de 1998)
afirma que

Como estratégia de distanciamento social, os insultos


propriamente raciais que encontrei nos registros policiais podem
ser agrupados em sete tipos:
1. simples nominação do Outro, de modo a lembrar a distância
social ou justificar uma interdição de contato;
2. animalização do Outro ou implicação de incivilidade;
3. acusação de anomia em termos de conduta delinqüente ou
ilegal; imoralidade sexual; irreligiosidade ou perversão
religiosa;
4. invocação da pobreza ou da condição social inferior do
Outro, através de termos referentes a tal condição;
referência a uma origem subordinada; uso de diminutivos;
acusação de impostura (assunção de posição social
indevida);
5. acusação de sujeira;
6. invocação de uma natureza pervertida ou de uma maldição
divina; e
7. invocação de defeitos físicos ou mentais (GUMARÂES,
2000:35)

Desta forma, os estereótipos, preconceitos e discriminações racistas possui


uma relação direta com a criação de distâncias. Contudo, o autor da citação acima
não avança para a indissociabilidade entre o social e o espacial.
Apesar da citação acima ressaltar a situação do evento de discriminação do
ponto de vista das vítimas, a ―paranóia armada na linguagem do estigma‖
(SOARES, 2005: 183) age também no agressor. Este fato se comprova com a
reprodução do discurso racializado do caos, da desordem do medo urbano do
outro. Isso tem sido utilizado para justificar sistema de controle e vigilância através
de câmeras, cercas e muros altos por toda a cidade. Inúmeros eventos de
discriminação que nos foram relatados estão diretamente relacionados a esta
fragmentação do urbano que estabelece arranjos espaciais (falaremos isso mais à
frente) que reproduz estigmas e preconceitos com as pessoas identificadas como
negras. Tais eventos de discriminação e discriminatórios com as proximidades de
94
pessoas consideradas estranhas e suspeitas (em geral negras) em determinados
espaços têm revigorado o discurso do elemento cor padrão54.

A idéia de que ‗negro é sempre suspeito‘ está presente em


diferentes países do mundo, a exemplo dos estados Unidos, onde
há o conhecido ‗racial profile‘, que corresponderia no Brasil ao
‗tipo suspeito‘, isto é, aquele indivíduo que é constantemente
assediado pela polícia por possuir uma aparência que é
associada a um perfil, previamente estabelecido, de marginal.
Dessa forma, o corpo negro é visto como uma cifra de
desonestidade e marginalidade. Estas representações se dão
sobretudo em relação à cor escura da pela e ao sexo masculino e,
em segundo plano, à forma de se vestir.55

Ou seja, os eventos citados nas epígrafes acima não são ―meros soluços‖
nas relações raciais e no racismo no Brasil. Dizer que são eventuais, não elimina
as conseqüências que eles produzem. O eventual não significa superficial, pelo
contrário. Entendemos que admitir que molestamentos raciais coletivos existem no
Brasil significa não só inserir o racismo, o preconceito e a discriminação na história
da nossa formação como povo e nação, mas também, afirmar que essas formas
de violências instauram regulações na organização e reprodução dos espaços de
vida de determinados segmentos sociais. O acesso, o uso e a apropriação
daquele espaço por um indivíduo que foi vítima de um evento de discriminação
passam a serem virtualmente comprometidos. Os seus trajetos podem ser
modificados para evitar atritos e constrangimentos. Redimensiona-se a
reprodução do espaço de vida das vítimas diretas (indivíduos que vivenciaram um
molestado racialmente) e indiretas (indivíduos que perceberam um molestamento
racial com outro e/ou receberam ‗ensinamentos‘ de indivíduos que receberam tais

54
No ano de 2003, em entrevista com o rapper Rico e Sancho do grupo Elemento Cor Padrão da Zona Norte
do Rio de Janeiro eles assim nos diziam “[...] Elemento cor padrão, para quem não sabe, é uma norma criada
pelas autoridades para caracterizar o negro como elemento suspeito. Elemento, pô, [sic] é o padrão de
abordagem. Qual é a cor? Não precisa nem falar né [sic] que é o negro”.
Essa prática tão criticada pelos movimentos negros no Brasil permanece na percepção dos aparatos
de segurança (tanto público quanto privado) em espaços das residências das classes médias e altas da cidade
de forma tácita ou explícita. Com a reprodução do discurso do caos e do medo urbano sob perspectiva
racializadas essas práticas passam a ser restituídas. (Cf. SOARES, 2010)
55
Descrevendo os „tipos negros‟ que mais aparecem nos filmes norte-americanos, Stuart Hall (1997b)
comenta sobre a figura do Bad Buck, representado no cinema como um homem negro, alto, musculoso,
violento, raivoso e um estuprador em potencial.
95
molestamentos) que potencialmente podem passar a se afastar de tais espaços e
contextos.
Quando estamos propondo as relações raciais como eventos, isto é, um
instante no tempo dando-se no espaço (SANTOS, 2002 [1996]) estamos falando
em duração, ou seja, o tempo da ação das práticas racistas – insultos, gestos e
ofensas raciais – e as tensões geradas com os indivíduos ofendidos 56 . É
importante ressaltar que o evento uma das inúmeras modalidades de inscrição
espacial do racismo. Assim,

[...] o espaço social é uma verdadeira usina de produção de


realidade, onde intervêm campos de forças, que trabalham ora
conjuntamente, ora em oposição, ora em paralelo. Estes campos
possuem diferentes graus de densidade e fluidez. Os campos
mais fluidos são mais facilmente arregimentados pelos mais
densos, onde a energia não escoa tão livremente, pois está
articulada a compostos de representações que funcionam como
núcleos de atração. Aí, podem estar conjugados: fragmentos do
presente, fragmentos do passado (fantasmas) ou mesmo do
futuro (fantasias). Chronos aí não conta, mas sim o quanto cada
elemento possa congregar diferentes forças ao seu redor,
expandindo e intensificando o campo em questão. (NETO,
1998:24)

Esta temporalidade é por natureza reacionária e instaura relações de poder


e violência que visam aprisionar as pessoas ofendidas numa rede discursiva e
num ―território invisível‖ que busca introjetar e ―in-corporar‖ um campo de forças de
formas de (auto)subalternização e de (auto)depreciação de sua imagem como
armas eficazes de opressão (MUNANGA, 2002b). Ou seja, uma ―temporalidade
sem devir‖, portanto, atemporal.
Assim como o evento de discriminação apresenta uma duração específica
também, de forma concomitantemente, apresenta uma extensão ou a escala de
resultado da ação inicial (isto é, o alcance e dimensão do ato racista e os seus

56
Uma das epígrafes mostra que um menino passou a construir a sua realidade espacial restrita, durante um
ano e meio, devido a uma ofensa racial. Alguns estudiosos têm apresentado que casos de racismo nas escolas
interferem diretamente na trajetória sócio-espacial diária e ao longo da vida da vítima associada a dispositivos
de fuga, auto-desqualificação, atitudes de evitação, conservação, retração e inquietação psíquica.
96
possíveis desdobramentos em denúncias na esfera pública)57. As práticas racistas
– insultos, ofensas, observações e gestos que expressam opiniões bastante
negativas sobre uma pessoa e o seu grupo racial – são formas de violência e
relações de poder que instauram formas de sujeição por desqualificação das
características corpóreas de determinados grupos sociais. Isto é, mesmo se
referindo a um indivíduo, as práticas racistas atingem a toda uma coletividade,

57
A Relatoria Especial para os Direitos dos Afro-descendentes e contra a Discriminação Racial que faz
parte da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sediada em Washington, EUA dos estados
membros da OEA (Organização dos Estados Americanos) recebeu duas denúncias contra o Brasil. Uma
primeira apresentada por três organizações brasileiras: o Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL),
a Subcomissão do Negro da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP) e
o Instituto do Negro Padre Batista.
Ao buscar uma vaga de empregada doméstica na cidade de São Paulo, nos classificados do jornal “A
Folha de São Paulo” encontrou o seguinte anúncio:
“Doméstica. Lar. P/morar no empr. C/ exp. Toda rotina, cuidar de crianças, c/docum. e ref.; Pref. Branca,
s/filhos, solteira, maior de 21a. Gisele”
Depois de ligar e confirmar o fato de ser negra, não preencheria os requisitos para a vaga ofertada, a
senhora Simone André Diniz dirigiu-se à Subcomissão do Negro da OAB-SP para denunciar a discriminação
sofrida, como também na Delegacia de Crimes Raciais para apresentar notícia-crime, tendo-se instaurado
Inquérito Policial para apurar possíveis violações ao artigo 20 da Lei 7715/89.

“[...] o delegado de polícia elaborou o relatório sobre a notícia-crime e remeteu-o ao juiz de direito
competente, o qual deu ciência ao representante do Ministério Público, que, por sua vez, opinou pelo
arquivamento do processo, argüindo que: “(…) não se logrou apurar nos autos que Aparecida Gisele tenha
praticado qualquer ato que pudesse constituir crime de racismo, previsto na Lei 7.716/89 (…)” e que não
havia nos autos “(…) qualquer base para o oferecimento de denúncia”. De posse do parecer, o juiz de direito
prolatou sentença de arquivamento dos autos, acolhendo os argumentos do Ministério Público, extinguindo o
feito. Insatisfeita com a decisão judicial, a vítima procura auxílio de um grupo de organizações não
governamentais dedicadas à causa negra e ao Sistema Interamericano, o qual apresentou uma denúncia
perante a Comissão Interamericana”. (ARANTES, 2007: 129)
Como nos informa o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2001:

“As três organizações ingressaram com uma denúncia contra o Estado brasileiro sob a acusação de que este
não havia dado uma resposta satisfatória no caso de racismo de que a senhora Simone André Diniz foi vítima.
Este caso, de no 12.001, foi o primeiro processo sobre racismo tramitado em 51 anos de existência da CIDH.
Diante das provas arroladas, ficou evidenciado que o Poder Judiciário de São Paulo, em uma ação penal
intentada pela vítima, que foi impedida de se candidatar a um posto de trabalho por ser negra, agiu
erradamente à Corte Interamericana porque o reconhecimento de sua competência pelo Estado foi posterior ao
fato vivido pela Senhora Diniz” (p.260)
Uma outra denúncia foi apresentada pela ONG Geledés Instituto da Mulher Negra em 2003.

“O fato motivador da acusação foi a recusa de admissão a um posto de trabalho sofrido pelas senhoras Neusa
Nascimento e Gisele Ana Ferreira, na cidade de São Paulo. Segundo relatório de n o 1.068/03, ambas foram
preteridas em virtude de serem negras. Ao tomarem conhecimento deste ato por uma colega branca que havia
conseguido o emprego, aquelas duas trabalhadoras ingressaram com ação penal contra o responsável pelo ato.
Ingressada a ação, esta teve uma demora injustificada pelo Poder Judiário paulista, o que motivou a denúncia
perante à CIDH. No relatório de admissibilidade, o primeiro passo para a instituição do caso para análise de
mérito, ficou consignado, sem prejulgamento, indícios da existência da violação do direito das vítimas pela
demora sem qualquer justificativa do poder público para dar um desfecho ao processo. A solução final,
contudo, até o momento ainda não foi alcançada”. (Idem)
97
pois a sua base é um esquema corpóreo (BERTANINI, 1985). Assim, a escala da
experiência da atitude racista será distinta da escala do resultado de tal prática
dependendo do seu enquadramento jurídico.
A cada momento do evento de discriminação o valor das coisas mudam.
Cada acontecer gerado por uma forma de discriminação é uma fagulha do
racismo. O racismo é multidimensional. Ele não acontece em aparições isoladas.
Pelo contrário, tais eventos sucedem e causam outros eventos. O evento
discriminatório é um contexto, dos inúmeros que ele cria e ―[...] a cada novo
acontecer as coisas preexistentes mudam o seu conteúdo e também mudam sua
significação‖. (SANTOS, 2002: 95)
A ironia e a dissimulação das práticas racistas como eventos expressa tanto
nos discursos da falta de consciência dos atores sobre suas atitudes
preconceituosas (CARDOSO DE OLIVEIRA, 2004) quanto em convites a
brincadeiras em situações de um grau de intimidade que permitiria uma ausência
de formalidades e que as injúrias estariam desprovidas de significados
subjetivamente ofensivos (GUIMARÃES, 2000). Os traços de cordialidade com o
outro – o negro ou ―escuros‖, para usar uma ideia sugerida por Sodré (1999) –
passam a serem reivindicados pelos indivíduos que proferiram atos racistas, pois
tanto no plano legal (leis antirracista) quanto no plano moral, não é de bom tom
demonstrar preconceito no Brasil, especialmente racial (Idem). A rejeição da
pecha de racista e a negação de sua prática é uma das marcas de nossas
relações raciais. Isto é, estes discursos passam a afirmar ideologicamente o
espaço como inter-relações e multiplicidade (MASSEY, 2004) buscando diluir as
tensões e hegemonias.

[...] a nova lei contra a discriminação racial herdou da lei Afonso


Arinos o conceito de discriminação racial como ―preconceito de
raça ou de cor‖, exigindo a prática explícita do racismo e do dolo
do ofensor de discriminar a vítima. Desta forma, a Comissão
Interamericana concluiu que a lei anti-racismo brasileira exige um
patamar demasiado elevado para a comprovação do crime de
racismo. (ARANTES, 2007: 142)

98
Assim à prática judicial que exige uma prova cabal do ‗dolo racial‘ do
agressor pela pretensa vítima tem sido utilizado para afirma que tudo não passou
de um mal entendido58. As interações raciais – os casamentos entre brancos e
negros, a ―morenidade‖ do povo brasileiro (RIBEIRO, 1995), a ausência de
conflitos raciais como nos EUA e África do Sul em tempos de Apartheid, entre
outros – passaram a serem utilizados como um discurso em que viveríamos uma
harmonia entre negros e brancos e tais eventos com meros incidentes. Logo,
despolitiza-se a multiplicidade e as inter-relações. Estamos chamando isso de
coexistência de anulação e negação. A coexistência de anulação e negação é o
simulacro da multiplicidade, pois difunde a ideia – de forma direta ou tácita – de
que um indivíduo ou grupo devem saber o lugar que ocupa e ―respeitar‖ a
estrutura de dominação.

O patamar de exigência de comprovação de um ―dolo racial‖, se


torna uma tarefa difícil de ser atingida59. Realce-se que foi notado

58
A lei Afonso Arinos criada nos anos de 1950 passou a classificar preconceito racial como contravenção
penal. Assim, a questão racial brasileira ganha uma nova escala poder. Cria-se uma legislação anti-racismo no
país. Isto é, uma legislação protetora a uma população que foi alvo de escravidão só foi criada mais de 60
anos depois da Abolição.
Contudo, o racismo era tipificado como uma infração penal de menor gravidade tendo penas leves
frustrando a luta dos movimentos sociais e de ações individuais. Em 1988 o racismo torna-se crime
inafiançável e imprescritível. Isso leva a legislação anti-racista para uma nova fase. O papel do deputado
Carlos Alberto Caó (PDT-RJ) foi apontado como de suma importância nesta mudança. A nova lei ficou
conhecida no imaginário popular como lei Caó. As penas tornam-se mais duras. Os crimes de racismo eram
previstos através do impedimento do acesso de pessoas negras, em clubes, escolas, empregos, a divulgação de
pensamentos racistas, aumentando a pena do tato de infração em caso de utilização dos meios de
comunicação.

“A Lei Caó passou por importantes modificações através da Lei 9.459, de 13 de maio de 1997, que alterou os
artigos 1º, 20 e 140 do Código Penal. As alterações ao artigo 1º consistiam na ampliação do tipo penal,
adicionando ao crime de racismo os atos motivados por questões étnicas, religiosas ou de procedência
nacional. No artigo 20 foi incluído, no parágrafo segundo, o aumento da pena para casos de incitação, prática
ou indução de racismo por meio da mídia. Já no artigo 140 [...], ampliou-se a qualificação do crime de injúria,
na hipótese de, na promoção do ato, o agente utilizar elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou
origem. A pena, então, aumentou: de detenção de um a seis meses ou multa, para reclusão de um a três anos e
multa.
Com derivação todos os crimes denominados „raciais‟ estão fora do alcance dos crimes de pequeno
potencial ofensivo, cuja competência é atribuída aos Juizados de pequenas Causas, regulada pela Lei 9.099,
de 27 de setembro de 1995. Assim, o processamento das ações penais de natureza racial ocorre nas varas
criminais. As alterações produzidas no Código Penal, desde a Constituição de 1988, partiram do desejo de
considerar o racismo algo de alto repúdio pela sociedade brasileira, punível com penas duras e processadas
diante do espaço jurídico mais formal” (CARVANO & PAIXÃO, 2008:169)
59
CIDH. Caso Simone Diniz, nota 2 supra, § 83.
99
que o crime previsto no artigo 20 da Lei 7716/8960 é de natureza
formal, não necessitando que se produza efeitos para se
consumar. (ARANTES, 2007: 145)

Neste sentido, a dificuldade de comprovação do insulto racista interfere


trajetória sócio-espacial da vítima, pois além de não conseguir comprovar o
constrangimento sofrido institui que em determinados espaços e escalas de poder
precisa saber o seu lugar. Logo, o destino desses indivíduos classificados como
diferentes a ordem não são escolhidas por eles (CASTEL, 2008). Assim, uma
espacialidade é construída negando o reconhecimento de direitos e cristaliza
recusas a acessos a bens (materiais e simbólicos) sócio-espacialmente
produzidos.
O evento de discriminação expressa as tensões sociais no cotidiano de
muitos indivíduos negros que tencionam com a ordem espacial das coisas. A
intenção hierarquizadora racializante em tais eventos preincindem o próprio
evento pois, essas práticas expressam e atualizam as marcas do autoritarismo e
do patrimonialismo em nossa formação sócio-espacial.
Os eventos como uma modalidade de inscrição espacial das relações
raciais tanto em espaços públicos quanto privados expressa que a ascensão
social não elimina a discriminação e o preconceito racial, assim como, os negros
mais pobres não deixam de estar menos sujeitos a atos de discriminação e
preconceito racial do que os indivíduos negros de classe média ou
ricos.(CARDOSO DE OLIVEIRA, 2004)61.

60
Art. 20, alterado pela lei 9459/97 “Artigo 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de
raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Texto anterior: “Praticar, induzir ou incitar, pelos meios de
comunicação social ou por publicação de qualquer natureza, a discriminação ou preconceito de raça, por
religião, etnia ou procedência nacional.”
61
Nas últimas décadas a difusão midiática e ideológica de paisagens do medo (TUAN, 2005) vêm
aumentando as tensões nas cidades brasileiras, especialmente tensões de caráter racial. O discurso do medo
cada vez mais, vem aumentando os preconceitos, discriminações e a fragmentação sóciopolítica do tecido
urbano produzindo verdadeiras topofobias, isto “[...] un sentimiento de aversión o miedo hacia determinados
lugares, como puede ser barrios marginales o degradados. Este sentimiento deriva también de la propia
experiencia de las personas, pero guarda relación con mucha frecuencia con estereótipos mentales y la
información que se recibe del exterior” (ZA‟RATE MARTIN, M e RUBIO BENITO, M. 2006). Assim,
bancos e espaços públicos e semipúblicos, como os espaços comerciais, galerias, shopping centers, vem
sendo gradeados e vigiados especialmente nas áreas ricas e de maioria branca, criando de forma autoritária
códigos e normas de usos (horário de funcionamento, comportamentos, vigilância armada e eletrônica)
estabelecendo distinções corpóreas sobre o uso e apropriação desses espaços. Essas distinções corpóreas
100
Quando falamos em evento de discriminação estamos propondo uma
perspectiva ―microfísica‖ da espacialidade do racismo. No entanto, ―nem sempre o
enunciável se torna prática e nem toda prática é transformada em discurso. Os
discursos fazem ver, embora possam fazer ver algo diferente do que dizem.”
(ALBUQUERQUE JR, 1999:46). Assim, o Evento de Discriminação é uma prática
transformada em discurso que visa constranger, restringir, impedir negando a
possibilidade de um devir e uma cidadania plena para os negros (GUATTARI,
1986). Mas o agente que profere o enunciado racista quando enquadrado legal e
moralmente, em geral, dissimula os seus enunciados proferidos na ideia de
instante, fugaz que não teria se transformado em prática e discurso coletivos. Ou
seja, são subjetivados. Todavia, o transitório aí não é transitivo. Pelo contrário, ele
cria marcas que combinadas ou não à sucessão de eventos de discriminação
sobre um indivíduo ao longo da vida podem tanto gerar indivíduos dóceis
(FOUCAULT, 2000) aniquilando assim, toda a possibilidade de emergência de um
sujeito quanto à diferença construída negativamente pela ‗exclusão‘ e
‗marginalização‘ (WOODWARD, 2004). As práticas espaciais percebidas e vividas
são, assim, racialmente construídas, pois como lembra Albuquerque Júnior (op.
cit.) a espacialidade está ligada a ―percepções espaciais que habitam o campo de
linguagem e se relacionam diretamente com um campo de forças que as institui‖.
(p. 23) expressando marcas de discriminação vividas tanto individualmente quanto
coletivamente.
Vemos com isso, distintos padrões de eventos de discriminação.
Identificamos em nossa pesquisa pelo menos três padrões. Um padrão de ataque
racista como defesa em um momento de tensão. Esta perspectiva aponta eventos
em que a atitude violenta não é motivada inicialmente por uma questão racial, mas
ela é usada estrategicamente num contexto de tensão como recurso de
subjugação, agressão e humilhação do outro como forma de ―defesa‖. Isto é, uma
arma de última instância (GUIMARÃES, 2000). O que moralmente é apontado

restituem o antigo discurso do “elemento cor padrão” já tão criticado pelos movimentos negros. O corpo
negro torna-se „novamente‟ alvo de discriminações, preconceitos e da criminalização formando a base para o
que Souza (2008) chama de Fobópolis.
101
como uma falha no comportamento expressa, em verdade, preconceitos e
estereótipos solidamente arraigados na psique.
Há também um padrão sutil na criação de eventos de discriminação quando
o outro teria ultrapassado ―barreiras‖ inesperadas pelas pessoas que se
classificam como brancas ou até mesma por uma pessoa que se intitula negra.
Isto é, estereótipos que restringiam (ou mesmo impediam) a mobilidade sócio-
espacial dos negros e comportamentos espaciais que se julgavam próprios dos
negros foram questionados. Aí o insulto racial é o primeiro trunfo a ser sacado
(Idem) e o confinamento espacial será à base deste discurso. Por último vemos
um padrão eventos de ataque aberto ao outro. Nesta perspectiva estamos
sinalizando quando práticas racistas, preconceituosas e de intolerância são
ideologicamente elaboradas e conscientemente repassadas, geralmente com
intenções políticas de segregar e promover distinções dos indivíduos socialmente
classificados como negros. Em geral, são conjugadas com manifestações na
paisagem de pichações racistas e outros insultos. Estes discursos racistas se
inserem ―[...] onde faltam projetos de vida [especialmente em espaços
deteriorados e degradados] que façam laço entre o singular e o social‖ (KOLTAI,
2000: 25). Há aí, um ataque aberto e direto. Os skinheads e as manifestações
neonazistas são o exemplo contemporâneo extremo. Contudo, tais eventos só são
inteligíveis a luz das tensões sociais no mundo globalizado.

Neste ponto, não será demais lembrar que o racismo não é uma
simples questão de agressividade, ainda que implique violência.
No reino animal não há racismo mas, sim, luta pela vida. O
racismo só existe entre humanos e é preciso relacioná-lo com a
linguagem, sem a qual não se podem definir lugares simbólicos. E
é nesse sentido que podemos afirmar que não há racismo sem
discurso. (KOLTAI, 2000:24)

É importante sinalizar que não estamos defendendo um racismo forte ou


fraco, como faz Nicola Matteucci, autor do verbete do Dicionário de Política (2007).
Pelo contrário, estamos buscando densificar as modalidades de eventos de
discriminação. Ambas tem efeitos devastadores na (re)produção do espaço e se
somam na construção da personalidade das pessoas. Este fato nos direciona para
102
Danilo Marcondes e Hilton Japiassú (2008) quando afirmam que numa perspectiva
aristotélica um evento ou situação designa a posição e o modo como se está. Já
no existencialismo a situação expressa um dos elementos centrais na constituição
humana em relação ao qual forma sua liberdade e identidade. Os eventos de
discriminação são marcados de forma simultânea por essa perspectiva aristotélica
e existencialista.
Defendemos que o evento de discriminação é a ponta do iceberg da
espacialidade do racismo no Brasil. Ele revela uma ordem espacial autoritária e
hierárquica (falaremos disso mais abaixo) que busca moldar comportamentos e
restringir o acesso a determinados espaços e escalas. Ele apresenta diversos
elementos e diferentes características.

103
QUADRO I – Evento de Discriminação

Espacialidade
das Relações Elementos Características
Raciais

Contexto - Em qual momento ocorreu e também o acúmulo e combinação de


Histórico temporalidades hierarquizantes diferentes;

Contexto - Em qual lugar e contexto social ocorreu tal fato (?)


Sócio-espacial

Base de - Produção e reprodução de ideologias, códigos e normas racializadas


Sustentação inscritas no processo histórico de uma dada formação sócio-espacial que são
utilizados como justificativa para uma prática racista.

Agentes Sociais - Instituições (Públicas, Semi-públicas e/ou Privadas);


- Grupos Sociais Neonazistas e/ou Xenófobos;
- Grupos étnicos e racializados

Evento de
Discriminação Estruturas de - Rizomático e Molecular;
Poder

- Eliminação (Extermínio da Multiplicidade)


Finalidade
- Dominação
* Exploração
* Quebra da Força Política do Outro

- Número de casos na vida de um indivíduo (acúmulo de distanciamentos ou


Freqüência de lutas constantes para a sua eliminação);

Intensidade - O nível conflitividade e percepção construída por cada indivíduo (de


caráter muito subjetivo);

Duração - Tempo Cronológico de tal experiência hiearquizante;


- Tempo Vivido/Percebido de tal experiência hiearquizante;

- Escala do Evento e do seu Desdobramento (jurídico-político e/ou


Extensão cotidiano), ou seja, o alcance geográfico do evento no plano vivido e/ou
concebido tanto das vítimas diretas quanto percebido por vítimas indiretas
que sofrem os efeitos dos conflitos, mas, não participaram da tensão racial

104
face a face;

Instrumentos - Discurso ou Silêncio Racializante;


de Coerção - Desprezo, Ameaça, Rotulação e/ou Desqualificação Racializadora;

Fonte: Elaboração Própria

Os eventos de discriminação transbordam tanto espaço-temporalmente


quanto para outras hierarquizações. Eles se alimentam de rotulações, estigmas,
preconceitos e todas as formas de racismo. Logo, o objetivo é limitar ou mesmo
vedar alguns espaços e escalas, ou no limite extremo como os neonazistas
apontam, a totalidade dos espaços.
Percebemos que além dos eventos de discriminação possuírem uma
historicidade (hierarquias raciais de tempos diferentes) eles também possuem
uma geograficidade, pois eles ocorrem de forma distinta em cada região de um
país e mesmo entre os distintos países onde predominam tanto o preconceito de
origem quanto o de marca (NOGUEIRA, 1985), pois a base de sustentação, as
estruturas de poder, os agentes envolvidos, os instrumentos de coerção e a
finalidade de tais atos, em geral não são os mesmos no tempo e no espaço.
Já o aumento ou a diminuição da freqüência e intensidade de eventos de
discriminação tem uma relação direta com criação e aplicação de políticas
públicas antirracistas que impactaram na extensão e duração de possíveis
eventos.
Entendemos que a geografia racismo no Brasil não ocorre apenas em
eventos, isto é, no campo da ‗microfísica‘ do espaço, mas também, se
constituíram como elementos estruturadores da espacialidade urbana brasileira,
ou seja, a ‗macrofísica‘ dialogando com a ‗microfísica‘ do espaço. Assim tanto no
arranjo geográficos quanto no ordenamento espacial das grandes cidades
brasileiras impõe distâncias materiais e simbólicas entre indivíduos pela assunção
de características corpóreas (cor da pele, traços do nariz e da boca, forma e estilo
do cabelo, expressões culturais de matriz afro) na organização do espaço
105
articuladas principalmente a tensões de gênero e de classe. Todavia, tanto a
questão de gênero quanto à de classe não explicam sozinhas a questão racial.
Existe uma grande dificuldade no discernimento de como o racismo, o
preconceito a discriminação influenciam na história de vida das pessoas. Estudos
em termos avaliativos buscam suprir esta lacuna, todavia, tais eventos de
discriminação estão inseridos em formas de organizar e ordenar o espaço
mergulhado em crenças e discursos racializados que não podemos desprezar. Daí
a nossa ênfase em tal proposta.
Avaliar os eventos de discriminação significa notar as possíveis mutações
de indivíduos em seus itinerários sócio-espaciais (RATTS & SOUZA, 2008)
através tanto da energia e força que utilizam para se movimentar e adentrar
escalas e determinados contextos espaços-temporais quanto dos possíveis
enfrentamentos, desvios e atritos em seus caminhos de encontros/confrontos.
Insistimos que os eventos de discriminação não são incidentes. Pelo contrário,
eles são exemplos particulares das formas de hierarquização em nossa formação
e, desta forma, reproduzem hegemonias raciais no acesso, no uso e na
apropriação de determinados espaços e escalas ao alterar as disposições dos
trajetórias de indivíduos e/ou grupos classificados ‗a mais‘ naquele espaço e
escala.

2.2.2. Arranjo Espacial das Relações Raciais

Minha filha, existe espaço no mundo para todas as pessoas. Para nós o espaço existe, só
que temos que disputar com muito mais seriedade. Quando estudar você deve ser apenas
uma aluna normaL, se puder brilhante. Assim, poderá ter um pouco mais de chance.
Lygia Santos (Professora e escritora) Grifos Nossos62

É muito comum você entrar em alguns lugares e dar de cara com o olhar desconfiado do
porteiro, de algumas pessoas ao redor, do garçom num restaurante. [...] Veja um shopping
da zona sul, a expressiva maioria de trabalhadores é branca, se houver negro é na faxina
ou na segurança, e nas lojas tem que procurar muito para achar. E ainda há quem diga
que o preconceito é social e não racial.
Ivanir dos Santos (Professor e presidente do Centro de Articulação das Populações
Marginalizadas)63

62
COSTA, H. Fala Crioulo: o que é ser negro no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2009. Edição Revisada e
ampliada. p. 33.
63
Idem. p. 244.
106
[...] São Paulo é uma cidade super industrializada e o Rio de Janeiro não. O Rio predomina
o comércio e para se trabalhar no comércio exige algumas coisas. Exige um mínimo de
educação [formal], um mínimo de aparência que geralmente não é do povo brasileiro. É
[aparência] de europeu. Então essas coisas faz [sic] com que as pessoas te tratem pelo
que você aparenta ser.
[...] Com essa mentalidade característica no Brasil de preto ser conhecido como pobre,
aqui no Rio de Janeiro o preto é pobre, logo é tirado e não respeitado. 64

As epígrafes acima apontam outra dimensão da inscrição espacial do


racismo. A perspectiva liberal aponta que os conflitos raciais emergem quando os
negros passariam a competir com os brancos. As epígrafes acima estão
carregadas de imaginações geográficas. Elas denotam que os arranjos espaciais
das cidades brasileiras estão em algum grau marcados por formas de racialização.
Em outras palavras, a conflitividade está inscrita na produção social (material e
simbólica) do espaço. O arranjo espacial das relações raciais é o resultado da
produção sócio-espacial a partir de critérios racializados, em outras palavras,
revela a própria espacialidade como uma das dimensões da construção da d
desigualdade.
O arranjo espacial das relações raciais é produto e produtor de uma
sociedade que se constituir espacialmente hierárquica por critérios raciais. Ele é
fruto de uma sociedade racista que busca segmentar os indivíduos por suas
características corpóreas no processo de produção e reprodução social do
espaço. Por isso, que entendemos que o arranjo infere diretamente nos padrões
de sociabilidade cotidiana de uma determinada organização espacial, pois se
inscreve nas políticas de concepção dos espaços em busca de impor
autoritariamente um espaço vivido e percebido aos indivíduos tidos como
diferentes da ordem (LEFEBVRE, 1974).
Portanto, a necessidade de apresentar de forma clara a inscrição espacial
do racismo no Brasil tem sido apontada por muitos estudiosos como um dos
principais desafios em nosso país. Em nossa investigação percebíamos em
diferentes falas a presença de forma subliminar ou mesmo de forma clara
dimensões espaciais sendo apresentadas. As epigrafes acima foram uma das
inúmeras falas que encontramos tais provocações. A epígrafe da professora e

64
Entrevista com o rapper Prettu Júnior concedia no bairro de Piedade (Rio de Janeiro) em setembro de 2002.
107
escritora Lygia Santos ressalta a necessidade política de afirmação da
multiplicidade do espaço. Há espaço para todos, diz. Todavia, normas sociais
muitos rígidas impedem a empiricidade da multiplicidade no/do espaço. Esses
campos sociais criados e difundidos vigiam, disciplinam, controlam e punem,
lembra Ivanir dos Santos, em nossa epígrafe. Logo, estabelecem normas. Essas
normas sociais podem estar introjetados tanto nas pessoas mais ricas quanto num
porteiro, num garçom ou em um segurança mesmo sendo este também negro que
ressaltam esses campos de poder e violência na produção e reprodução do
espaço ao difundir a ideia de ameaça, perigo ou de sujeição com aproximação do
campo visual de um indivíduo identificado como negro, em espaços e contextos
tidos de maioria branca. Entendemos aí que a clássica frase de F. Engels de que
―os homens fazem a sua própria história, mas não segundo condições que eles
mesmos escolhem‖ fornecem uma importante contribuição no entendimento da
condição urbana do negro que será alvo de análise da última epígrafe, do cantor
de rapper Prettu Júnior. Ou seja, uma violência inscrita historicamente na
produção e reprodução do espaço como enfaticamente apontamos nos parágrafos
anteriores.
A condição urbana do negro que nos revela Prettu Júnior através de sua
vivência possui cores locais. Prettu Júnior fala do Rio de Janeiro. Apesar de não
ser tão preciso na sua imaginação geográfica acerca da geografia urbana do Rio
de Janeiro, o seu depoimento revela uma característica marcante das relações
raciais no Rio de Janeiro, a aparência corpórea 65 . Apesar dos capitais sociais
adquiridos, a presença do negro no campo visual dos brancos, especialmente em
algumas escalas e em alguns espaços especificamente das cidades se dá sob
tensões explícitas e/ou tácitas. Percebíamos assim que arranjos espaciais ou
geográficos se engendravam como forma de poder e violência contra os negros.
Ou seja, práticas espaciais hegemônicas enquanto meio e forma de expressão de
relações hierarquizadas instituídas historicamente que geravam barreiras e
obstáculos espaciais as pessoas classificadas como negra.

65
O Rio de Janeiro, diferentemente do que relata P. Júnior, teve um importante parque industrial em
diferentes momentos de sua história.
108
O arranjo geográfico contemporâneo da cidade do Rio de Janeiro é marcado
por uma produção hierarquizada do espaço. Esse arranjo se expressa na
seletividade definida historicamente das formas de localização e distribuição
(MOREIRA, 2001, 2002) dos bens sociais de uso coletivo privilegiando algumas
áreas e grupos sociais. Os pobres e os negros tem sido o alvo principal das
desigualdades historicamente engendradas por esses arranjos desiguais da
cidade (CAMPOS, 2005, 2006, 2011, mimeo; CARRIL, 2006; GARCIA, 2006;
PERRY, mimeo; TELLES, 2003). A avaliação dos dados sociais, como veremos
mais abaixo, da cidade revela esse quadro.
Neste sentido, o uso comum de certos espaços têm sido marcados por
tensões raciais explícitas e/ou camufladas deixando o tecido do espaço altamente
espesso de relações de poder e violência de todos os tipos (MOREIRA, 2001). ―O
espaço é, pois tensão. Tensão estrutural (MOREIRA, 1997), originária das
oposições criadas pelos princípios da localização e distribuição no ato da
seletividade‖ (MOREIRA, 2001:26). Assim, o espaço é utilizado como instrumento
de acumulação e de poder. (MOREIRA, 1982)
Estas tensões têm sido apresentadas e analisadas nas investigações sobre os
processos de segregação. Os estudos sobre os processos de segregação têm
demonstrado um corte racial na produção e reprodução da espacialidade urbana
da sociedade brasileira, mas ainda encontram dificuldades, muitas delas
construídas por intelectuais orgânicos de matriz luso-tropicalista que negam uma
produção e uma gestão racializada dos espaços urbanos no Brasil que vem
criando e reproduzindo processo de segregação (CAMPOS, 2006; GARCIA, 2006;
TELLES, 2003).
O arranjo espacial das relações raciais ao mesmo tempo em que é produto ele
também é produtor, isto é, ele também potencializa a desigualdade e injustiça
social no plano vivido dos moradores da cidade, especialmente a populações
pobres e negras. Sua expressão espacial são as áreas segregadas de forma
explícita e/ou tácita (CAMPOS, 2006). Logo, os arranjos são singulares de cada
localidade em que as hierarquizações racializados do/no espaço são produzidas e
reproduzidas.

109
Entendemos que o arranjo espacial das relações raciais contribui para a
manutenção da distância tanto material quanto simbólica entre claros e escuros
nas cidades brasileiras. O traço corpóreo é acionado como o marcador da
diferença para que determinados indivíduos que historicamente têm sido
empurrados para viverem em espaços perversamente desiguais, compreendam o
seu lugar na cidade. Esses arranjos estabelecem formas-conteúdo que acabam
por centralizar as vantagens urbanas nas áreas ocupadas majoritariamente pela
população branca, enquanto que para as áreas ocupadas majoritariamente pela
população negra resta a irregularidade fundiária, a falta ou baixa infraestrutura e
serviços urbanos (SANT‘ANNA, 2006). A seletividade racializada das
infraestruturas urbana expressa as formas de gestão do território ao longo da
história.
Campos (2006) numa análise intra-urbana da cidade do Rio de Janeiro
aponta o seguinte padrão da distribuição de afro-descendentes (pretos + pardos) e
brancos.

[...] os bairros do Tanque, Anil, Pechincha, Freguesia, Gardênia


Azul, Cidade de Deus, Praça Seca, Taquara (todos em
Jacarepaguá); Inhoaíba, Paciência, Vigário Geral, Santa Cruz e
Jacaré (Zona Norte e Zona Oeste) são os que apresentam maior
concentração de afro-descendentes, variando entre 886 e 577
habitantes para cada grupo de 1.000 pessoas. Obviamente, se se
pensar na dimensão de acúmulo de investimento ao longo do
tempo em infra-estrutura técnica e social, são também os menos
beneficiados por ação de planejamento urbano.
Na outra ponta, os bairros da Lagoa, Barra da Tijuca/Joá,
Humaitá, Leblon, Gávea, Laranjeiras/Cosme Velho,
Ipanema/Vidigal, Flamengo, Marcanã, Copacabana, Grajaú,
Jardim Botânico, Botafogo/Urca entre outros são os que mais
concentram estoques populacionais que se autodeclararam da cor
branca, variando de 50 a 811 pessoas, para cada grupo de 1.000
habitantes (Idem: 46).

A geografia da distribuição de negros e brancos 66 na cidade do Rio de


Janeiro é apresentada por duas práticas espaciais que criam a processos de
segregação do espaço de base racial. São elas, a saber, a seletividade e a
66
Usaremos por questões de padronização a expressão negr(a) ao invés de afro-descendentes marcada por
uma politização da identidade.
110
marginalização espacial (CORRÊA, 1992). A passagem acima de Campos (Idem)
nos sugere que tanto uma seletividade espacial das infraestruturas urbanas
marcadas por critérios raciais quanto à marginalização da população negra é uma
marca na cidade do Rio de Janeiro67. Para este autor, com o qual concordamos,
ela interfere na liberdade (pressuposto básico da autonomia), pois os processos
de segregação influenciam na capacidade dos indivíduos e/ou grupos sociais
conduzirem de forma lúcida a sua própria vida.
Os processos de segregação estão diretamente relacionados ao uso do
solo e do espaço urbano, como confirma a citação a seguir

[...] processo de exclusão, na medida em que o espaço urbano


passa a se estruturar, a se construir, segundo a lógica do poder,
numa relação direta, onde se constata que quem ganha mais e os
melhores espaços evidentemente, é quem detém mais poder.
(ABREU, 1983/1984: 78)

A exclusão aí é de não poder habitar e viver em certas áreas da cidade


devido a sua condição econômica e o simbolismo de status [também de base
racial]68. Para Abreu (Idem: 78) estabelece uma ―relação entre o espaço urbano
produzido, a estrutura de classe e sua reprodução‖. Diríamos de outra forma, se
estabelece uma relação entre o espaço urbano, as múltiplas formas de
hierarquização e sua reprodução. Vemos que assim a questão econômica e a
racial se conjugam e se inscrevem, às vezes de forma contraditória, no espaço. É
importante relembrar que a questão racial raramente aparece desligada de outras
hierarquizações.
Para Abreu (1983/1984) o processo de segregação envolve duas
categorias. Os que promovem as condições de segregação e que dela usufruem.
Para a autora eles podem ser divididos em 04 grupos.

67
Marginalização é aqui entendida com periferização da população negra.
68
O conceito problemático de exclusão é aqui entendido como a não possibilidade criada aos negros de ter a
propriedade da terra. Discordamos das análises que entendem tal conceito como possibilidade de eliminação
da vida social. Cremos que tais discussões formulam um total equívoco. Entendemos, como Martins (1997)
que em algum grau, as pessoas são incluídas, só que de forma precária, perversa e subalterna.
111
1- os proprietários do solo urbano, possuidores da ‗matéria prima‘;
2- os construtores e incorporadores, incluindo-se aqui as firmas
imobiliárias que só constroem e, as que, além da construção,
também vendem o imóvel; 3- os corretores cuja atividade principal
é oferecer o ‗produto‘ – terreno ou habitação 4- instituições
financeiras, que propiciam condições de compra aos
interessados, podendo ser de caráter público, privado ou misto.
(ABREU, 1983/1984: 88)

Para Abreu (Idem) tanto os grupos acima podem ser vistos de forma
autônoma compondo cada um, um agente próprio quanto existem empresas que
cumprem todos os papéis dos quatro grupos. Entendemos que graus de
segregação sócio-espacial de base racial emergem de forma distinta tanto de
forma tácita quanto de forma explicita em cada um desses agentes.
Avaliando o primeiro grupo, os proprietários do solo urbano, vemos que a
marca do racismo que gerou segregação tem aí uma herança colonial. A base
para Campos (2006) foi à lei de terras (1850) e as suas regulamentações (1854)
que não permitiram que os escravizados e ex-escravizados pudessem se tornar
proprietários tanto no meio rural quanto urbano. Desta forma, o direito de
propriedade no Brasil nasce como estratégia racial para evitar que os pobres e
negros tenham acesso. Para Campos (Idem) isso obrigava que os ex-
escravizados continuassem desempenhando as mesmas funções sociais impostas
pelo regime escravista. Este fato gerou uma baixa participação e subalternização
dos negros na vida pública nacional (Ibidem).
Atualmente a mercantilização do espaço urbano e obras de renovação e
revitalização em várias cidades do Brasil para atrair turismo internacional tem
produzido conflitos pela propriedade. Esse processo tem atingido majoritariamente
a população negra pobre e tem significado que luta popular pelos direito à cidade
tem uma questão racial como marca.

Desde os anos 1990, a cidade [de Salvador] gastou milhões de


dólares em projetos de revitalização, como a restauração de
prédios históricos, fontes e praças no Pelourinho. No processo, o
estado removeu para outros bairros, ao longo de toda periferia da
cidade, a tão chamada perigosa e criminosa população negra
local. Transformou as casas antes habitadas por essa população

112
em museus, hotéis, casas de espetáculo e lojas para servir à
próspera indústria turística69 (PERRY, mimeo)

As políticas de city-marketing são desterritorializadoras ao revitalizar e


restaurar pontos das cidades expulsando as populações, em geral negras, que aí
vem. A restrição histórica à propriedade da terra as populações negras é um dos
principais fatores explicativos dos processos de segregação de base racial 70 .
Assim o processo de segregação de base racial expressa tempos diferentes e
desiguais da hierarquização entre negros e brancos.

Segregação e discriminação passam a compor um mesmo quadro


social, completado pela pobreza. Em se tratando de afro-
descendentes, a pobreza tem dois discursos estruturantes: a) o
impedimento à propriedade de terras, cerceando o surgimento de
uma classe média, tendo em vista que esta era uma das
principais fontes de acesso à acumulação de bens (Ribeiro, 1996;
Sodré, 2002; Silva, 1990; Campos, 2006); b) a inserção tardia no
mundo urbano-industrial, provocado em grande parte pela
ideologia vigente da superioridade dos trabalhadores brancos
importados da Europa (Ramos, 1998; Chalhoub, 1996;
Hasenbalg, 1992). As duas vertentes têm como resultado a
pobreza estrutural dos afro-descendentes frente a condições
conquistadas pelos demais segmentos sociais. (CAMPOS,
mimeo:)

Neste sentido, os processos de segregação geraram não só trajetórias


distintas, ademais, pontos de partida distintos entre negros, para Campos (Idem)
afro-descendentes, e brancos.
O segundo grupo, os construtores, os incorporadores e as firmas
imobiliárias, entendemos que tem uma relação mais indireta com a questão racial
através do processo de auto-segregação dos ricos da cidade, em geral, brancos.

69
Henri Lefebvre (1996) discute os desafios enfrentados nas cidades francesas, em particular a desaparição de
espaços públicos, uma lógica similar à que orienta as intervenções estatais de planejamento das cidades na
Bahia; ele escreve que “para a classe trabalhadora, despejada dos centros em direção às periferias,
despossuída da cidade, expropriada assim dos melhores frutos de sua atividade, esse direito tem uma
relevância e significância particulares” (Lefebvre, 1996, p. 179).
70
Os remanescentes de quilombo tanto rurais quanto urbanos hoje exemplificam que não deter a propriedade
da terra pode significar expulsão, despejo e destruição de seus referenciais identitários. Os quilombolas hoje
em várias partes do país vêem suas terras e territórios sendo destruídas e/ou sofrendo ações de despejo por
terem a posse, mas não serem os donos, isto é, não são proprietários.
113
Já o terceiro grupo, os corretores, possuem uma relação direta com
processos de segregação quando desconfiam da capacidade de consumo da
população negra. Vários depoimentos que nos foram relatados de pessoas que se
sentiram discriminadas, pois os produtos não lhe eram oferecidos, ou um produto
de qualidade inferior era oferecido, por que eram negros71.
Com relação ao quarto grupo, as instituições financeiras que estabelecem
uma interação face-a-fade têm apresentado um histórico de tensões raciais (não
somente para crédito de imóveis) tanto no acesso, no uso e na apropriação dos
seus espaços e serviços que possibilitam ascender a outras escalas. Desta forma,
entendemos que os negros tem tido menos crédito (confiança) dessas
instituições72. Um relato que nos feito numa entrevista exemplifica tal fato.

[...] quando agente conseguiu aprovar o Ponto de Cultura no


edital, agente precisou abrir uma conta bancária específica para
receber o recurso. E aí a gente tinha que dar um endereço de
uma agência e aí agência foi a uma agência mais próxima,
próxima onde a gente morava na época que era na Praça Seca
[na cidade do Rio de Janeiro] e assim, a gente até que não sentiu
tanta dificuldade de entrar na agência, mas a gente percebeu o
tratamento [...] era como se a gente fosse trambiqueiro [...]
começou a pedir vários documentos, a questionar o estatuto, a
questionar que só tinha ... um tesoureiro e se o tesoureiro morrer
[...] O funcionário começou a querer questionar para arranjar um
empecilho para agente não abrir a conta. [...] a gente voltou para
casa, ligou para o SAC [Serviço de Atendimento ao Consumidor]
do Banco do Brasil. [...]

Percebemos que tanto o processo de segregação quanto o de distinção


agem, no exemplo acima, de maneira conjunta. Desta forma, cremos que também
seja necessário avaliar o processo de segregação de base racial na perspectiva
de quem é segregado, pois o processo de ocupação não tem demonstrado as
mesmas características, pois há caso que ocorre um processo de segregação nos

71
Um caso com um familiar foi exemplar de tal idéia quando em busca de um imóvel para financiar, um
corretor ofereceu uma casa num bairro de baixa infra-estrutura ao lado de uma vala negra no município de
São Gonçalo achando que este familiar, não poderia comprar algo melhor.
72
Milton Santos (1984) cita ainda o caso de pessoas negras proprietárias de casas, a quem foram negados os
empréstimos necessários para reformar suas casas deterioradas, durante os anos 1980 no Harlem. Entendemos
que essa pouca concessão de crédito também é um caso brasileiro.

114
espaços segregados, isto é, os mais pobres viveram nas áreas de alta
vulnerabilidade ambiental.
Portanto, entendemos que a questão racial aparece de diferentes formas no
processo de segregação do espaço urbano. O preconceito, a discriminação, os
estigmas e as rotulações em morar em determinados locais. Desta forma, atribui-
se valor (não somente econômico) que distingue os indivíduos e seus espaços.
Em outras palavras, o processo de segregação sócio-espacial de base racial
aparece nas representações do onde se mora.
A questão racial aparece também no processo de segregação no como se
mora, isto é, na seletividade sócio-espacial das infraestruturas urbanas destina as
populações racializadas da cidade, como já apontamos em Campos (2006). Neste
sentido, o processo de segregação gera um sentimento de distância nas pessoas
segregadas (SILVA, mimeo).
Garcia (2006) debruça-se sobre alguns dados do IGBE qualifica os
processos de segregação na cidade do Rio de Janeiro e Salvador. Para o
propósito desta tese nos apropriamos de algumas de suas qualificações do
processo de segregação de base racial da cidade do Rio de Janeiro a partir dos
seguintes critérios: localização e distribuição da população branca e negra,
calçamento das ruas calçadas, o acesso a rede particular e pública de ensino, os
anos de estudos, rendimentos financeiros, quem e onde estão os empregadores e
quais grupos ocupam cargo de chefia.

2.2.2.1. Negros e Brancos na Cidade do Rio de Janeiro

Entendemos que para qualificar o arranjo espacial das relações raciais


torna-se necessário apresentar a localização e distribuição na cidade do Rio de
Janeiro dos brancos e negros. O quadro econômico e político da evolução urbana
são centrais para avaliar o porquê desta distribuição. Portanto, avaliar até que
ponto podemos afirmar a existência ou não de algum grau de processos de
segregação do espaço de base racial. Defendemos que não só existem graus de
processos de segregação sócio-espacial de base racial, como também, este

115
processo sócio-espacial interfere na sociabilidade e nos sentimentos de
pertencimentos de tais grupos sociais.
Entendemos que a localização e distribuição dos negros e brancos na
cidade expressam um lócus da grafagem espacial da racialização das relações
sociais.

MAPA I - População por Área de Ponderação e Cor ou Raça


Rio de Janeiro - 2000

116
Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antônia dos Santos Garcia

Nos dados do IBGE 2000 os negros representavam 41,0% da população da


cidade do Rio de Janeiro distribuindo-se de forma bastante desigual no território.

[...] com alta densidade de brancos na Zona Sul, composta pelas


AEDs Glória (80,0%); Flamengo (90,0%); Botafogo-Praia (84,0%);
Botafogo-Soro-Humaitá (75,0%); Botafogo-Soro-Metrô (89,0%);
Botafogo-Fundos-Urca (84,0%); Humaitá (94,0%); Copacabana-
Eixo1 (88,0%); Copacabana-Eixo2 (93,0%); Copacabana-Fundos
(83,0%); Copacabana-P2 (84,0%); Copacabana-P6 (88%);
Ipanema-Eixo (80,0%); Ipanema-Orlas (93,0%); Leblon (89,0%);
Leme (76,0%); Lagoa (94,0%); Jardim Botânico (83,0%);
Laranjeiras (89,0%); Gávea (91,0%) e São Conrado/Vidigal com
68,0% (este menor percentual deve-se certamente à presença da
favela do Vidigal). Algumas áreas das zonas Oeste e Norte,
principalmente nas AEDs da Barra da Tijuca com 93,0% e Recreio
dos Bandeirantes-Grumari com 69,0%, têm um dos percentuais
mais baixos de grande concentração de brancos, certamente pela
agregação de favelas na mesma AED. Na Zona Norte, as mais
altas concentrações estão nas AEDs Jardim Guanabara (89,0%);
Maracanã (85,0%); Grajaú (87,0%); Irajá-Monsenhor Félix
(68,0%); Meier (78,0%); Maria da Graça-Del Castilho (76,0%);
Maneró-Portuguesa (71,0%); Vila Isabel (73,0%). (GARCIA, 2006:
116/117)

117
Os dados relativos à concentração da população branca são os maiores do
Brasil. Contudo, ressalta Garcia (op. cit.) que tais dados precisam ser relativizados
já que favelas, historicamente habitados pela população negra, estão em áreas de
maioria branca apresentadas no mapa. Ademais, como já muito difundido no meio
acadêmico e político, os dados colhidos em áreas de favelas, em todo o país têm
apresentado uma precariedade grande e pouca confiabilidade dos seus números,
logo a margem de erro para essas localidades é bem maior.

MAPA II – Distribuição Espacial de Ruas com Calçamento Total


Rio de Janeiro - 2000

118
Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antônia dos Santos Garcia

A Zona Oeste e parte da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, são as


que apresentam o maior grau de processos de segregação da cidade em direção
a população negra na medida em que tem a maior presença de negros e
concentram os piores indicadores sociais (GARCIA, op. cit.). Essas áreas
habitadas majoritariamente pela população negra são desprovidas de infra-
estrutura urbanas e apresentam dificuldades de mobilidade para os seus
moradores tanto pela infra-estrutura precária quanto pelo lobby das empresas de
ônibus que concentra as linhas na área central e zona sul da cidade.
Ademais vemos um intenso processo de auto-segregação nas últimas duas
décadas da população, em geral, branca (nos condomínios fechados da zona
oeste). A Zona Sul como a área de maior infra-estrutura urbana de serviços de
consumo coletivo apresenta uma alta concentração de brancos e ricos.

[...] e a urbanização dependente do nosso País engendrou, em


todas as suas fases de desenvolvimento, mecanismos de
produção e reprodução, tanto de desigualdades raciais como
espaciais. A análise do conjunto de indicadores habitacionais,
desagregados em termos raciais, confirma que há desigualdade

119
racial em todas as dimensões estudadas, o que nos permite
afirmar que existem, nas duas cidades [Rio de Janeiro e
Salvador], mecanismos poderosos de produção de desigualdades
raciais, que não se resumem a desigualdades econômicas e
sociais, como é amplamente debatido no meio acadêmico, já que
muitos autores acreditam ainda, que as desigualdades são
apenas de natureza sócio-econômicas.
Ao ignorar a especificidade dos processos que reproduzem
as diferenças e as hierarquias raciais, o racismo
institucionalizado, inscrito no espaço das cidades, contribui-se
para a perpetuação das desigualdades sócio-raciais,
naturalizando-as. (GARCIA, 2006: 154)

Desta forma, a pobreza e a riqueza urbana carioca podem ser medidas


avaliando a composição racial dos distintos estratos de renda. Com relação a
pobreza, os trabalhadores sem rendimento e entre um e dois salários mínimos se
concentram no subúrbio. Assim, o arranjo espacial da cidade ao longo da história
urbana do Rio de Janeiro foi segregando a população pobre e negra. Percebe-se
que a pobreza, especialmente a negra, está fora do campo visual das paisagens
exportadas para o Brasil e mundo da cidade maravilhosa. A pobreza se articula as
condições de trabalho, o ambiente escolar freqüentado, entre outros.
Sobre os ambientes escolares e educacionais estudos têm demonstrado
que vários ideários racistas têm sido reproduzidos desde as relações inter-
pessoais, as práticas dos profissionais das escolas, a escolha dos conteúdos e
materiais didáticos até a forma como é construído e transmitido o conhecimento
influenciando diretamente na trajetória dos estudantes (CAVALLEIRO, 2005;
RATTS et. al. 2006/2007). Desta forma, o cotidiano intra e extra-escolar expressa
conteúdos marcados por práticas racistas que vão da localização das escolas com
baixa infra-estrutura social são freqüentado majoritariamente por estudantes
negros há desqualificação, estereótipos e discriminações raciais dentro das
escolas.

120
MAPA III - Distribuição Espacial de Brancos e Negros na Rede Particular de
Ensino – Rio de Janeiro – 2000

Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antonia dos Santos Garcia

121
A questão educacional é reveladora de como uma sociedade que produz o
maior número possível de repertórios na vida de uma criança e adolescente para
enfrentar desafios no futuro. Esse tem sido um dos principais desafios do ensino
nas últimas décadas. Nos últimos 25 anos estudiosos têm apresentado críticas
aos organismos estatais pelo seu abandono de investimentos na educação em
todas as dimensões. Logo, a educação de qualidade tem se constituído em um
privilégio de poucos. A rede privada de ensino neste ínterim teve um enorme
crescimento atingindo vários públicos de diferentes faixas salariais. No entanto, o
público de alta renda tem potencialmente disponível o maior número de
repertórios, diferentemente do público de baixa renda com o menor número de
repertórios estudando, em geral, na rede pública. Os mapas acima e abaixo
revelam que os estudantes negros, especialmente das áreas mais pobres, estão
concentrados na rede pública. Desta forma, o seu principal meio de acesso à
educação é a escola pública, daí a importância do papel das políticas públicas na
superação das desigualdades sócio-raciais. Segundo o IBGE 2000 os negros
representavam 76,3% dos estudantes na rede pública. Porém,

[Os negros que ocupam as áreas mais ricas] se concentram,


principalmente, na Barra, Gávea e Ipanema e Jardim Guanabara,
mostrando que os indivíduos cuja situação socioeconômica é
melhor investem em educação de melhor qualidade, com colégio
de melhor nível. Esta situação, entretanto, se inverte no nível
superior de ensino: as universidades públicas federais e estaduais
são ocupadas pelos descendentes das famílias de maior renda,
portanto, brancas, como já demonstramos.
Contudo, é importante estar atento para a complexidade da
questão, na medida em que, por exemplo, em Botafogo, onde fica
o tradicional Colégio Santo Inácio, dos jesuítas, os moradores,
vizinhos, da favela Dona Marta, não têm acesso a este colégio,
onde estuda boa parcela da burguesia carioca de supremacia
branca, como pode ser constatado por vários indicadores. Assim,
mesmo em vizinhanças imediatas das antigas capitais [Rio de
Janeiro e Salvador], pode-se constatar diferenças na clientela
escolar: descendentes de famílias brancas concentrados na rede
particular, e descendentes de negros concentrados na rede
pública, ou seja, proximidade espacial não se traduz,
necessariamente, em integração social pela escola. Em outros
termos, mesmo quando residem proximamente, há poucas
chances de que crianças negras e brancas estudem ou brinquem
juntas. Se a socialização primária, na unidade doméstica,

122
depende dos locais de moradia, portanto afasta as crianças
brancas das crianças negras, a socialização secundária, através
da escola, aprofunda a segregação. (GARCIA, 2006: 213)

Vemos, portanto, que garantir a acessibilidade material não significa


concomitantemente acessibilidade simbólica. Cria-se assim um discurso
ideológico de proximidade física, ou melhor, de coexistência que, em verdade,
anula e nega as interações e a pluralidade de devires.

MAPA IV - Distribuição Espacial de Negros e Brancos em Escola Pública


Rio de Janeiro – 2000

123
Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antonia dos Santos Garcia

Observa-se assim, que a educação, como mercadoria, é


segmentada por classes sociais e não segue somente a lógica de
classes, mas também das raças, gerando um circuito vicioso: nas
áreas superiores, que, em geral, correspondem às mais brancas,
se localizam as melhores escolas, respondendo aos interesses da
formação das elites econômicas, políticas e intelectuais. Na
verdade, a crescente mercantilização da educação só aumenta o
fosso social e racial e, portanto, a educação no nosso país, sujeita
às leis de mercado, perpetua e aprofunda as desigualdades sócio-
raciais. (GARCIA, 2006: 213)

Com maior presença nos bairros pobres, a rede pública tem sido alvo das
maiores reclamações pelos pais, pelos alunos, pelos profissionais de ensino e
pelos estudiosos. Escolas em número insuficiente para algumas demandas locais,
o oferecimento, em geral, de um ensino de baixa qualidade devido a precarização
das relações de trabalho com os profissionais de ensino, como também tem
acontecido com o ensino particular nos bairros de baixo status social. Ademais, o
ensino nas áreas mais pobres economicamente, de maioria de estudantes negros,
tem sido prejudicados intensamente pelo aumento da violência física (tráfico de

124
drogas, intensos tiroteios e um grande número de jovens, em sua maioria negros
mortos) e a violência simbólica.

Para Kaztman (2001, p.186), qualquer que seja a forma que


adquira a segregação residencial nas cidades, suas
conseqüências sobre o isolamento dos pobres urbanos parecem
ser suficientemente importantes, para que sejam tomadas
medidas de ordenamento territorial que impeçam a polarização
espacial. Mas não basta evitar a polarização. É crucial que o
Estado promova a eqüidade racial no acesso aos bens e serviços
socialmente constituídos. Além disso, na sociedade do
conhecimento, a literatura tem destacado o importante papel
estratégico da educação para inserção no mercado de trabalho e
na conquista de diferentes formas de capital. Para Ricardo
Henriques (2001, p.26), ―os indicadores referentes aos níveis e à
qualidade da escolaridade da população brasileira são
estratégicos para a compreensão dos horizontes potenciais de
redução das desigualdades social e racial e definição das bases
para o desenvolvimento sustentado do país‖. (GARCIA, 2006:
218)

Agora quando avaliamos o tempo de estudo, encontramos novas


disparidades entre negros e brancos no Rio de Janeiro. Os indivíduos com 01 a
04 anos de estudo tanto brancos quanto negros concentram na Zona Oeste.
Porém, os negros sofrem, estatística e espacialmente, mais o processo de
segregação nessas regiões.

125
MAPA V – Distribuição Espacial dos Estudantes de 01 a 04 Anos de Estudo
por Cor ou Raça – Rio de Janeiro – 2000

Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antônia dos Santos Garcia

126
Percebe-se um número percentual alto de negros com um baixo tempo de
estudo o que dificulta uma vida qualificada e potencialmente intensifica as
imposições escalares sofridas também em momentos de distinção no acesso, no
uso e na apropriação de espaços e escalas. Em outras palavras, a distinção de
base racial constrange e/ou impede a apropriação da cidade aos negros através
da reprodução códigos sócio-espaciais racistas que lhes impõe a circulação em
apenas determinados níveis e patamares da realidade.
O tempo de estudo, além de sua qualidade como falamos anteriormente,
está diretamente relacionada às posições e as distâncias sócio-espaciais que os
negros e brancos ocupam na dinâmica social. Os mapas acima e abaixo são
reveladores das diferentes dimensões do processo de segregação na cidade do
Rio de Janeiro.

MAPA VI - Distribuição Espacial de Negros e Brancos com 9 a 11 Anos de


Estudo – Rio de Janeiro – 2000

127
Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antônia dos Santos Garcia

O repertório construído com um maior tempo de estudo potencialmente


influência nas posições de poder/decisão que o indivíduo pode ocupar ao longo da
vida.

As distorções do sistema de ensino no Brasil criam inúmeras


barreiras, entre as quais, a de acesso dos pobres (negros e
brancos), mas sobretudo dos primeiros, ao saber universitário.
Entre as barreiras, quase intransponíveis para a maioria, está
uma verdadeira indústria de cursinhos pré-vestibular, com suas
altas mensalidades. Outra é a má qualidade do ensino,
principalmente da rede pública, que se reflete no momento em
que os jovens, oriundos de escolas públicas, buscam concorrer a
uma vaga em universidades públicas ou mesmo particulares.
Desses fatos decorrem muitas das dificuldades de acesso à
universidade, para toda a população, mas sobretudo para os
negros e para os pobres das periferias urbanas. Tais fatores não
permitem que os que ocupam os espaços sociais inferiores
possam competir, em igualdade de condições, com os filhos da
classe média e, muito menos, com os filhos das classes altas, que
freqüentam os melhores colégios e ainda fazem cursos pré-
vestibular de melhor qualidade. Tudo isso deixa claro que o filtro
do vestibular torna o recrutamento para o ensino superior ainda
mais elitista. (GARCIA, 2006: 227)

128
MAPA VII - Distribuição Espacial de Negros e Brancos com 12 a 16 Anos de
Estudo – Rio de Janeiro – 2000

Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antônia dos Santos Garcia

129
Quanto maior o tempo de estudo o mapa apresenta que a população negra
fica ainda mais rarefeita. Já a população branca com maior tempo de estudo
concentra nas áreas mais ricas de maior infra-estrutura urbana. Logo, a condição
econômica possui elos com a questão racial. É importante frisar, ela não
subordina a questão racial, ela cria melhor entendimento.

Se, por um lado, a concentração das pessoas autodeclaradas da


cor ou raça branca, com maior titularidades educacionais, ocorre
nas áreas de maior poder aquisitivo, por outro lado, a
concentração dos menores indicadores de educação é aferida nos
bairros em que a presença da população de cor preta e de cor
parda é grande, constituindo-se na maior absoluta ou relativa,
independente da fórmula que se aplique. (CAMPOS, 2006: 295)

MAPA VIII – Distribuição Espacial dos Trabalhadores sem Rendimento por


Cor ou Raça – Rio de Janeiro – 2000

130
Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antônia dos Santos Garcia

131
Percebemos no mapa acima que a grande concentração da população
negra está na Zona Oeste. Esta é a região que mais cresce na cidade e tem
apresentado um aumento intenso de loteamentos precários com grande presença
de negros. Desta forma, os investimentos públicos e a renda urbana não estão
sendo apropriados pela população negra passando assim a compor com mais
intensidade os índices de pobreza, miséria e indigência. Esse movimento de re-
periferização dos negros evidencia um recrudescimento da desigualdade, pois na
Zona Oeste o acesso a serviços e bens públicos é limitado.
Quando se avalia o aumento dos rendimentos individuais percebe-se que a
composição racial da população na cidade do Rio de Janeiro modifica-se
radicalmente, pois, ―[...] á medida que a renda aumenta, diminui a participação dos
bairros que concentram os afrodescendentes‖ (CAMPOS, 2006: 267). Desta
forma, como se verá nos próximos mapas, os recursos financeiros influenciam de
forma direta e indireta: nas trajetórias sócio-espaciais ao logo da vida dos
indivíduos, na mobilidade urbana, no acesso à infra-estrutura e serviços na sua e
em outras localidades, na criação de moradia afastadas de zonas de alta
vulnerabilidade ambiental, na possibilidade de reduzir as distâncias sócio-
espaciais entre negros e brancos e além de combater os estereótipos e
estigmatizações sobre os espaços onde essa população vive.
Todavia, é importante lembra que a análise dos rendimentos tanto
individuais quanto coletivos não podem ser desvinculados da economia urbana
onde estão inseridos, já que, vivemos numa das cidades mais caras do mundo no
acesso aos bens sociais coletivos, cultura, lazer, entretenimento e serviços.

132
MAPA IX - Distribuição Espacial da Renda Pessoal até 01 Salário
Mínimo Por Cor ou Raça – Rio de Janeiro – 2000

Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antônia dos Santos Garcia

133
Existe uma alta proporção de negros abaixo da linha de pobreza no total da
população da cidade do Rio de Janeiro. A baixa escolaridade faz com que a
grande maioria dos negros se insira em ocupações pouco qualificadas e de baixa
remuneração. Desta forma, os bens sociais de uso coletivo passam a serem
apropriados por segmentos ‗raciais‘ e de classe específicos. Nem todos os
indivíduos têm o mesmo direito à cidade tanto por assunção de sua corporeidade
quanto pela sua capacidade de consumo, fato que intensifica e aprofunda às
desigualdades sócio-espaciais entre negros e brancos.

MAPA X – Distribuição Espacial da Renda Pessoal de 01 a 02 Salários


Mínimos – Rio de Janeiro – 2000

134
Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antônia dos Santos Garcia

Nossos dados evidenciam que, racialmente, no que se refere à


apropriação da renda, há diferenciações no espaço urbano, que
não podem ser explicadas apenas pela oposição entre favela-
bairro, morro-asfalto.
A segregação sócio-racial entre moradia popular, média e
alta revela que, ao contrário da mistura social e territorial, os
pobres e negros, mesmo ocupando áreas de alto poder aquisitivo,
além de serem minoria nas duas cidades [Rio de Janeiro e
Salvador], não têm relação de vizinhança, nem fortes redes de
sociabilidade que juntem uns e outros, nos mesmos espaços.
Sabemos que os moradores da Rocinha, Cruzada de São
Sebastião ou Vidigal, para ficar em alguns exemplos, não estão
nas mesmas escolas, nos mesmos clubes, nas mesmas creches,
nas mesmas igrejas e nem nos mesmos espaços públicos, como
as famosas praias da Zona Sul, onde se contam a dedo, os
negros que as freqüentam. No caso destas praias, é possível vê-
los como vendedores ambulantes (chá mate, mentira carioca,
cerveja, refrigerante, óculos de sol, etc), como se o serviço
doméstico se transferisse para as áreas de lazer. (GARCIA, 2006:
200)

A renda urbana passa a ser apropriada por segmentos de classe associada


grupos raciais hegemônicos. Desta forma, as políticas que desprezam tais dados
acabam, de forma direta e/ou indireta criando uma gestão racializada do espaço,

135
pois não atacam as diferentes dimensões das desigualdades sociais inscritas no
espaço vivenciada pela população negra. Ademais, tal ‗inércia política‘ engendra
processos de restrição e/ou impedimento de pessoas negras ao direito à cidade
de forma qualificada.

MAPA XI – Distribuição Espacial da Renda Pessoal de 10 a 20 Salários


Mínimos – Rio de Janeiro – 2000

136
Fonte: IBGE, 2000. Elaboração Antônia dos Santos Garcia

Quando avaliamos os indivíduos com um alto rendimento financeiro


percebemos que elas são marcadas pela população autodeclarada branca,
especialmente localizada na Zona Sul, Alto da Tijuca, Barra da Tijuca, algumas
parte da Zona Oeste, da Ilha do Governador e alguns bairros do subúrbio como
Vila Valqueire.
Logo, se verificamos que a segmentação das pessoas engendradas pela
desigualdade social cria um mapa da desigualdade na cidade, torna-se mais
inteligível por que a ascensão dos negros a espaços de poder e decisão possui
maiores obstáculos (materiais e simbólicos).
O processo de urbanização do território e da sociedade brasileira não
significou grande mudança para a população negra. Ela construiu uma ordem
sócio-espacial de privilégios para a população branca e gerou dilemas sociais
históricos para a população classificada como negra. Esses dilemas possuem
raízes econômicas, sociais e culturais (FERNANDES, 1972) na produção e
reprodução do espaço. Isso tem gerado ―efeitos ramificados em todas as direções‖
(Idem: 260), isto é, embranquecimento da paisagem e eliminação de

137
particularidades e singularidades negras, redes sociais de interação raciais
restritas, padrões racializados de ocupação e/ou acesso a determinados espaços,
entre outros.
Assim, a existência de uma espacialidade da vida social que segmenta
racialmente os indivíduos se engendra por estruturas macro e micro-sociais. As
estruturas racializadas de poder macrossociais se constituíram no processo de
nossa formação sócio-espacial. Elas se metamorfosearam ao longo de nossa
história na produção e reprodução do espaço de dominação. Contudo, sempre
estiveram incrustadas no Estado e em algumas instituições elitistas e de poder.
Especialmente na história de nossa República foram e continuam a serem
combatidas pelos movimentos negros em distintas instancias.
Já as estruturas racializadas de poder micro-sociais se constituíram como
estruturas normativas da vida cotidiana hierarquizada que segmenta os indivíduos
classificados socialmente como negros. Agem articuladas a eventos de
discriminação criando arranjos espaciais racializados de curta, média ou longa
duração e extensão. Tais estruturas também passaram por distintas metamorfoses
no período colonial e republicano.
O arranjo espacial das relações raciais expressa um jogo de proximidades e
distanciamentos que estão em constante metamorfose e dissimulação sob uma
recorrente marca corpórea, ou seja, um ―[...] padrão de estratificação social
vinculado à sua característica fenotípica‖ (SANT‘ANNA, 2006:02) na organização
do espaço. Todavia, para que um sistema com essa característica possa
sobreviver e se reproduzir torna-se necessário um conjunto de ideias, valores e
crenças, portanto, um sistema metafísico que justifique, sustente, internalize e
incorpore nos membros da sociedade essas divisões sociais passando assim, a
acreditar e naturalizar esta diferenciação hierárquica. Queremos com isso apontar
que uma ideologia racializadora cria um ordenamento espacial das relações
raciais.
A macro e microestrutura racializada de poder se retro-alimentam.

138
2.2.3. Ordenamento73 Espacial das Relações Raciais

A análise do arranjo buscou expressar uma perspectiva da espacialidade da


questão racial. No entanto, entendemos que tal questão convoca para uma
problematização ainda mais complexa. Entendemos que a perspectiva espacial
das relações raciais se revela tanto na esfera objetiva quanto subjetiva. Sabemos
que tal análise envolve grande complexidade e aridez. Em nossa investigação
percebemos que a espacialidade da questão racial não envolvia apenas a
presença de um grande contingente de pessoas identificadas como negras em
locais desprovidos de infra-estrutura sociais – os lugares dos negros – como
apontado no subitem anterior. Mesmo em ‗espaços e escalas de poder‘
percebíamos que distinções raciais, isto é, eventos de discriminação, se
constituíam como instrumentos de dominação. Desta forma, a fórmula inicial
também acontecia de forma invertida virando o negro como lugar. Um exemplo, de
muitos que coletamos, pode ser visto na fala de Pixinguinha a partir de
constrangimentos raciais que busca evitar.

[...] porque o Arnaldo Guinle, o Lineu de Paula Machado, o


Floresta de Miranda abriam, com o seu prestígio, o caminho para
nós... festas, rádio, cinema ... Mas o negro não era aceito com
facilidade. Havia muita resistência. Eu nunca fui barrado por
causa da cor, porque eu nunca abusei. Sabia onde recebiam e
onde não recebiam pretos. Onde recebiam eu ia, onde não
recebiam não ia. Nós sabíamos desses lugares proibidos porque
um contava para o outro. O Guinle muitas vezes me convidava
para eu ir a um lugar. Eu sabia que o convite era por delicadeza e
sabia que ele esperava que eu não aceitasse. E assim, por
delicadeza, eu não aceitava. Quando eu era convidado para tocar
em tais lugares, eu tocava e saía. Não abusava do convite (Grifos
Nossos, citado em VIANNA, L.C.R. 1998)

A fala de Pixinguinha aponta as informações que circulam no cotidiano dos


negros na cidade. Ela é elucidativa do negro como lugar, pois, explicita o seu
habitus expresso numa espécie de pedagogia tácita da dominação racista que
busca incutir através de rituais, normas, valores e discurso (verbais e não-verbais)
73
O ordenamento é uma das idéias mais genéricas presente no léxico geográfico. Usamos aqui de forma
muito específica, como construção e exercício de poder (SANTOS, 2006) em que pese às críticas.

139
que estigmatizam, subalternizam, constrangem, restringem e/ou impedem o
acesso, o uso e apropriação de determinados espaços e escalas 74 a indivíduos
identificados como negros. O aprendizado dos comportamentos espaciais pode se
torna no limite questão de vida ou morte.

Existe aí uma construção espacial que é resultante de um


―aprendizado‖ social: ainda que inconscientemente, ele ―sabe‖
aonde a raça, a cor, o pertencimento racial é importante como
critério (de seleção) regulador das relações sociais e onde não é.
(SANTOS, 2009 mimeo)

A eficácia desta pedagogia contida nestes ensinamentos racistas está em


manter-se oculta e de forma dissimulada criando ―mapas mentais‖ de trajetos
condicionados pela corporeidade na inserção em espaços de poder/decisão, de
riqueza (GOFFMAN, 2002). Ao propormos um ordenamento espacial das relações
raciais estamos afirmando que dinâmica espacial está sendo regulada por
imaginários racistas que estabelecem campos de poder no comportamento
espacial dos negros. A ênfase aqui é na dimensão espacial que o imaginário
racista institui ao cria comportamentos regulados.

O mundo de cada um, ou o nosso, está composto por múltiplos


campos. Cada campo, por sua vez, pode estar atravessado por
outros; da mesma forma que o campo, por diversos sistemas. O
sujeito sabe como se comporta em todos eles; tem mapas
cerebrais para cada um deles, o que lhe tem valido como um longo
aprendizado do poder mover-se sem cometer enganos práticos, do
que não tem sentido a partir do horizonte hermenêutico que cada
campo supõe. (DUSSEL, 2007:18/190)

Assim, apesar da visibilidade de Pixinguinha construída a partir da sua


enorme capacidade técnica de instrumentista em todo o país, e mesmo fora do
Brasil, a visualidade da sua corporeidade é inquirida, na citação acima, como um
dado excludente no acesso a determinados espaços e escalas, os lugares

74
A leitura de espaço criada por Pixinguinha explicita as suas intenções e ações. A sua experiência de espaço
avaliar as relações de poder e as formas de violência que os negros são alvos ao transitar na cidade. Mesmo
sendo reconhecido nacional e internacionalmente, Pixinguinha compreende os níveis e os patamares da
realidade social que pode transitar sem nenhum constrangimento.

140
proibidos, que ele expressa através de sua memória. O seu capital cultural não era
suficiente para romper campos que o permitiria acessar a totalidade dos espaços
sem restrição. Porém, ele demonstra que para agir precisa conhecer bem as
regras do jogo. A visualidade permite o reconhecimento, logo o corpo ganha
dimensão e importância diante do olhar em determinados pontos do espaço. O
corpo torna-se alvo de ações explícitas e/ou tácitas de recondução material e
simbólica (TAVARES, 2004). Logo, as trajetórias potenciais são tencionadas
antes de serem realizadas.
As tensões inscritas na vivência na cidade permitiram a Pixinguinha ‗in-
corporar‘ este habitus que não segue nenhuma lógica formal mecânica e funciona
como filtro de incorporação de novos habitus permitindo o estabelecimento de
estratégias para suas ações, sem que elas sejam elaboradas com antecedência
(ZANATTA & SOUZA, 2006).

O habitus constitui a nossa maneira de perceber, julgar e valorizar


o mundo e conforma a nossa forma de agir, corporal e
materialmente. É composto: pelo ethos, os valores em estado
prático, não-consciente, que regem a moral cotidiana (diferente da
ética, a forma teórica, argumentada, explicitada e codificada da
moral, o ethos é um conjunto sistemático de disposições morais,
de princípios práticos); pelo héxis, os princípios interiorizados pelo
corpo: posturas, expressões corporais, uma aptidão corporal que
não é dada pela natureza, mas adquirida (Aristóteles) (Bourdieu,
1984:133); e pelo eidos, um modo de pensar específico,
apreensão intelectual da realidade (Platão, Aristóteles), que é
princípio de uma construção da realidade fundada em uma crença
pré-reflexiva no valor indiscutível nos instrumentos de construção
e nos objetos construídos (Bourdieu, 2001:185).
Os habitus não designam simplesmente um
condicionamento, designam, simultaneamente, um princípio de
ação. Eles são estruturas (disposições interiorizadas duráveis) e
são estruturantes (geradores de práticas e representações).
Possuem dinâmica autônoma, isto é, não supõem uma direção
consciente nas duas transformações (Bourdieu, 1980:88-89).
Engendram e são engendrados pela lógica do campo social, de
modo que somos os vetores de uma estrutura estruturada que se
transforma em uma estrutura estruturante.(THIRY-CHERQUES,
2006: 33/34)

Os valores expressos por Pixinguinha em sua fala são geradores de


práticas e representações, não conscientes, sobre os espaços da cidade em que

141
ele pode ou não freqüentar.
As práticas racistas buscam operar uma mediação social ao nível tanto da
vítima colocada como culpada por acessar determinados espaços quanto do
acusador (MEMMI, 1968) que expressaria na defesa da violação do seu espaço e
ora indiferença ora medo. Imperativos são ressaltados de que aos negros
esperam-se determinados comportamentos espaciais, que tenha a leitura sobre os
campos e as regras do jogo. Isto tanto afirma a ideia de que o negro deve saber o
seu lugar, pois, ele é um estranho naquele espaço quanto este saber pode auxiliar
na construção das perspectivas de futuro. Caso ―abuse‖ seria privado de sua
autonomia. Assim Pixinguinha busca outras trajetórias para se afirmar, isto é,
ações mediadas pela ―pluralidade de habitus‖ (SOUZA, 2005) que ele construiu na
sua vivência que não foram definidos nem por estruturas nem pela razão
(ZANATTA & SOUZA, 2006). Assim, apesar de estar presente objetivamente
naqueles espaços Pixinguinha estava ausente no campo das representações
codificadas desse mesmo espaço, ou seja, ele não era dali, ele era um estrangeiro
naquele espaço, ele era ‗um a mais‘ (KRISTEVA, 1994) que representava um a
menos, alguém inferior na da escala de valores de co-presença. As estratégias
criadas então, mesmo não sendo intencionais, apresentam um grande
conhecimento dos espaços-tempos em que ele poderia se expressar livremente.
Apesar de serem tempos distintos dos de agora, o depoimento de
Pixinguinha revela uma distinta condição do negro urbano. Isto é, restos de
existência de ‗estruturas‘ hierárquicas passadas combinadas com as ‗estruturas‘
hierárquicas do presente. Neste sentido,

O que chamamos de fantasmas designa algo análogo a esses


―restos de existência‖; [...] Entretanto, não precisamos lançar mão,
como Freud, da hipótese de uma transmissão hereditária:
podemos simplesmente dizer que o fantasma habita o espaço
social [e condiciona a experiência de espaço dos indivíduos],
sendo a sua presença mantida pelo discurso coletivo e pelos
papeis sociais que, por assim dizer, preservam a sua existência.
Também cabe assinalar aqui que o fantasma não designa, de
fato, um indivíduo, em sua totalidade, mas fragmentos de
existência de um ou mais indivíduos. Esses fragmentos são, por
assim dizer, trazidos à superfície do corpo social pela linguagem e
pelos papéis, ganhando aí existência plena. (NETO, 1988:20)

142
Esses traços pretéritos combinados às ‗estruturas‘ presentes interferem nas
posições e nas tomadas de posições atuais e para o futuro. Os capitais sociais,
políticos, culturais e econômicos são partes importantes nas posições e tomadas
de posições dos indivíduos gerando cartões de visitas [falaremos disso mais à
frente]. Porém, esses capitais em nada garantem uma vida qualificada e plena
para uma pessoa identificada como negra.

- Estou aqui estudando, mas que futuro profissional me


aguarda? Que chances terei? Se eu for a um lugar e for barrado,
ele, o meu professor, também será. Não importa que seja uma
pessoa culta, mas é um negro. (José Pompilio da Hora –
Professor de direito civil e romano)75

Como afirma o jurista José Pompilio da Hora, os condicionamentos sociais


inscritos historicamente nas relações raciais impedem a autonomia, ou seja,
campos de luta de significação interferem na construção de um devir negro. Neste
sentido, estes condicionamentos produzidos nas pessoas vítimas de racismo
podem gerar preconceitos em relação a si, isto é, juízos antecipados de que em
determinados locais e fatos são inacessíveis ou impossíveis de se realizar para
um indivíduo negro. Desta forma, o processo de segregação se consolida, pois tal
ordenamento busca justificar um arranjo que cria privilégios sociais para um grupo
racial específico e introjetar uma naturalização, em outras palavras, visa produzir
um grupo racial pacificado e que não questiona a ordem espacial das coisas.
O ordenamento espacial das relações raciais "[...] se institui, paulatinamente,
por meio de práticas e discursos, imagens e textos [racistas] que podem ter, ou
não, relação entre si, um não representa o outro‖. (Albuquerque Jr, 1999:46)
Assim, podem instaurar regulações pelas regras jurídicas-políticas e/ou as normas
(códigos sociais do cotidiano) prescritas pelo controle dos grupos hegemônicos
(MOREIRA, 2001, 2002) em constantes tensões na orientação e direcionamentos
das ações dos grupos subalternizados que são transmitidas ao longo dos tempos
em determinados espaços. Assim,

75
COSTA, : 48.

143
Ordenamento aqui é utilizado propositalmente, como o duplo
sentido de construir uma ordem e de dar uma ordem – a favor de
um(s) agente(s) em detrimento de outro(s), os ordenamentos e
hierarquias espaciais do fazer político são instrumentos de poder.
O fato de determinados pontos (nós, lugares) do espaço (e do
tempo) receberem atribuições valorativas (papeis sociais) distintas
faz com que o trânsito dos indivíduos por esses ou aqueles
espaços/lugares – diferenciados pelos seus papeis de poder –
lhes condicione distintas experiências espaciais de poder, que
têm papel crucial na própria constituição de cada indivíduo
enquanto ser político. A ação, portanto, no campo político, tem
entre seus condicionantes a experiência espacial de cada
indivíduo. [...] Os papeis, as posições, os distintos capitais e
outros fatores influenciam a maneira como ele experimenta cada
espaço/lugar e como esta experiência influência a formação de
seu ―ethos político-espacial‖. (SANTOS, 2006:214/215)

A difusão de um ethos político-espacial [racializado] apontado pelo autor acima


expressa uma das maneiras de incutir uma auto-disciplina e um auto-controle da
população negra segregada nos mapas apresentados no subitem anterior. Tal
ethos impede aos negros uma apropriação e uso irrestrito do espaço. Assim, o
ordenamento espacial das relações raciais condiciona ou maximiza as
experiências de espaço de diferentes indivíduos e grupos (SANTOS, mimeo)
dependendo de como estes são classificados racialmente.
O ordenamento espacial das relações raciais expressa um campo de batalhas
simbólicas pela materialidade demarcando vantagens para um grupo hegemônico
que se empiriciza de diversas formas: nos usos ‗racializados‘ dos elevadores
sociais, de serviço e nas áreas ―nobres‖ da cidade, na entrada e revista em
bancos e lojas vigiadas por circuitos internos de segurança, as distinções raciais
no circuito superior (lócus do trabalho intelectual) e circuito inferior (lócus do
trabalho manual) da economia urbana instaurando uma verdadeira divisão racial
do trabalho, as formas de tratamento dos negros a espaços de poder e decisão,
entre outros.
Assim o processo de diferenciação e subalternização dos negros na cidade é
marcado por um arranjo e um ordenamento espacial. O arranjo busca impor os
lugares onde irão viver os negros. Já o ordenamento busca impor os lugares que

144
os negros podem ou não circular. O evento de discriminação ocorre justamente no
momento em que ou o arranjo ou o ordenamento ou ambos foram transgredidos.
As práticas racistas utilizam-se de diferenças (existentes ou inventadas) para
criar ‗exclusão‘ e separação da vítima da coletividade (MEMMI, 1968). Analisar o
ordenamento espacial das relações raciais nos fornece elementos para o
entendimento das tendências racializadoras da produção, do acesso, do uso e
apropriação de espaços e escalas que envolvem aspectos cognitivos, afetivos e
comportamentais. Sem esse quadro analítico, os mapas no subitem anterior (e os
que serão apresentados mais à frente) são ininteligíveis, pois não apresentam a
qualidade e as conseqüências das tensões.
Desta forma, propomos abaixo um quadro que busca explicitar o ordenamento
espacial das relações raciais no Brasil, particularmente nas suas grandes cidades.

QUADRO II – Ordenamento Espacial das Relações Raciais no Brasil

Ações que visam a ‘in-


corporação’ da Dimensão Prática Escala de Sentido da
Subalternização Ação Ação

O Corpo (que Permaneça


O Negro Como A Produção da Alteridade – deve ser no seu
Ordenamento Estranho O Outro ―aceito‖ (se aceitar vigiado) devido
Espacial das a ordem das coisas) Lugar
Relações
Raciais no Brasil

A Produção da O Corpo (que Ponha-se


O Negro Como Exterioridade - O Outro deve ser no seu
Estrangeiro rejeitado privado do devido
(o negro deve ser acesso) Lugar
expurgado)
Fonte: Elaboração Própria

O negro passando a ser visto como estranho e/ou estrangeiro na cidade do


Rio de Janeiro tem relação com a sua distribuição e acessibilidade (material e

145
simbólica) a bens e serviços na cidade e a escalas. Neste sentido, os
ordenamentos espaciais das relações raciais revelam a presença de elementos
normativos de hierarquização da corporeidade dos corpos (LIMA, 2007). Assim,

Embora desejem igualdade racial, justiça e reconhecimento, o


‗negro‘ e o ‗mulato‘ estão na raiz da neutralização do impacto
racial de processos acelerados de mudança social progressiva.
(FERNANDES, 1972:11)

As lutas contra o imaginário racista tencionam com um ordenamento que


buscam diminuir ou eliminar o protagonismo negro na produção do espaço. O
negro é geralmente colocado como estranho nas áreas da cidade aonde a maioria
das pessoas que se classificam como brancas (Lagoa, Barra da Tijuca, Joá,
Leblon e Humaitá)76 não reconhecem a sua presença. Logo, ressalta-se a tese da
ameaça (HIRSCHMAN, op. cit.) sendo o negro colocado como aquele que
potencialmente pode afeta a ordem social (FOUCAULT, 2000)
Há aí jogo de presença e ausência (LEFEBVRE, s/d) isto é, os negros estão
presentes nestes locais, mas não como moradores, mas sim, geralmente como
usuários e trabalhadores do circuito inferior da economia urbana (empregados
domésticos, seguranças, porteiros, ambulantes, camelôs,...) que devem saber e
pôr-se no seu lugar na ‗estrutura‘ sócio-espacial. Assim, os negros estão fora da
convivência cotidiana como vizinhos dos moradores desses bairros e são tidos
como desconhecidos e anormais, isto é, a sua presença como moradores e
protagonistas do circuito superior da economia urbana (empresários, gerentes e
donos de bancos,...) nem é imaginada77.

76
Baseado em fontes do IBGE.
77
Ainda hoje ocorre um grande espanto tanto entre negros quanto entre brancos quando um negro é morador
de uma área rica e de maioria branca ou quando tem ensino superior e pós-graduação. O negro como exceção.
Esse espanto comprova essa nossa tese do negro como estranho e estrangeiro, às vezes impostas pelos
próprios negros. Milton Santos em constantes provocações (palestras, debates, entrevistas, questionamentos
dos movimentos negros) lutava intensamente em não ser transformado num estranho e um estrangeiro. Para
Milton Santos apontava que ser visto apenas como exceção, além de ser constrangedor para o negro que
ascendeu para escalas de poder e decisão, constitui algo de momentâneo, impermanente, resultado de uma
integração casual que acaba por desvalorizar a potencialidade políticas dos devires destas pessoas
(conscientes de si e dos outros) (CAMPOS, mimeo).

146
MAPA XII – Empregadores Por Cor ou Raça – Rio de Janeiro – 2000

Fonte: Elaboração própria, a partir da amostra do Censo 2000 (IBGE).

147
Posição é poder. Ela influência e permite instaurar outras trajetórias sócio-
espaciais ao longo da vida, não cria nenhum constrangimento a mobilidade,
possibilita a eliminação de distâncias verticais e horizontais, estabelece acesso às
infra-estruturas e serviços de uso coletivo.
No entanto, esta posição perversamente pode funcionar como um cartão de
visitas (falaremos disso mais à frente) que não acaba com as desigualdades no
plano simbólico, pelo contrário a reproduz, e restitui, em casos de perda desta
posição, a condição de subalternidade.

No que se refere aos empresários negros, há uma importante


diferença, uma vez que estes se concentram, principalmente, na
AED [Área de Expansão Demográfica] Lagoa, com a mesma
variação. A observação sobre as manifestações de racismo no
topo da pirâmide social em Salvador aplica-se também a esta
cidade. Positivamente, como no caso dos gerentes, a
concentração na Lagoa Rodrigo de Freitas está merecendo um
estudo qualitativo de maior profundidade. (GARCIA, 2006: 176)

O racismo também age na desconfiança e/ou na surpresa (mesmo de


pessoas negras) quando um negro ocupa carga de chefia e/ou posições que
tradicionalmente não estão ou não são maioria78.

78
Percebi que esta surpresa pode ser tanto negativa quanto positiva. Ela se apresenta como negativa quando
não se credita que uma pessoa negra possa ocupar aquela posição e transita em escalas de hegemonia da
população branca. Quando a surpresa é positiva, em geral, cria um orgulho racial de um negro ter superado
aquelas barreiras. Lembro da admiração e até mesmo o orgulho de uma funcionária negra de um restaurante
no campus onde estudava, ao lado da faculdade de Engenharia, Arquitetura e Informática quando me viu pela
primeira vez ao almoçar na época da graduação. Não só criou uma rápida identificação racial como também
disse que era raro pessoas negras naquela época estudarem naquele campus.
Nas entrevistas também para a tese, especialmente com Dinho K2, percebi uma certa admiração ao
sempre me apresentar aos seus familiares e as pessoas que chegavam no local da entrevista como o Doutor
Denílson.

148
MAPA XIII – Distribuição Espacial de Gerentes Por Cor ou Raça
Rio de Janeiro – 2000

Fonte: Elaboração própria, a partir da amostra do Censo 2000 (IBGE).

149
Contraditoriamente, um dos bairros em que há hegemonia da população
branca morando nesta localidade é o bairro de maior concentração de gerentes
negros. Garcia (2006) também se surpreende com tal dado. Para ela, não se pode
saber se isto tem relação com as formas pretéritas de ocupação deste espaço,
principalmente quilombos e locais de grande concentração de favelas removidas
no passado recente.

É relevante notar, ainda, que os gerentes negros não se


concentram em bairros próximos a seus homólogos brancos,
podendo simbolizar um estilo de vida, mas o fato é que eles se
distribuem em ilhas isoladas, em arquipélagos. Somente uma
pesquisa qualitativa poderia mostrar todas as implicações
subjetivas e de usos de autoclassificação deste grupo social.
(GARCIA, 2006: 163/164)

O relacionamento entre negros e brancos, especialmente em espaços da


cidade onde os brancos são maioria certas ‗regras de condutas e comportamento‘
procuram acentuar e manter distâncias físicas e simbólicas. O preconceito racial é
marcado por um complexo conjunto de crenças, valores e sentimentos, uma
psicosfera (SANTOS, 2002) de poder e violência que pode, como sugere o
verbete preconceito do Dicionário do Pensamento Social do Século XX (p. 604),
se difundir e tornar-se normativos através de processos comuns de socialização
(doutrinação) e conformismo.

Quando tais preconceitos passam a ser normativos, as


expectativas e exigências encadeadas de autoridades e de pares
criam pressões e induções ao conformismo [o negro como
estranho e estrangeiro]. Dessa forma, uma ―tradição‖ cultural de
preconceito pode adquirir grande força e persistência (Idem.)

Assim, assumir-se como estranho e/ou estrangeiro é tanto expressar a


incorporação de disposições históricas e sócio-espacialmente construídas para
subjugar estes indivíduos quanto expressar um preconceito em relação a si. A
instituição de distâncias e, portanto, fronteiras, não ocorrem por um evento,
somente, mas pela resignação construída de um ordenamento
introjetado/incorporado ―[...] em que um terror subjetivo paira sobre a liberdade do

150
sujeito‖ (KOLTAI, 2000:20) marcada por um arranjo que cristaliza a segmentação
das pessoas engendradas por distinções raciais.
O estrangeiro79 é aquele que não pertence ao lugar onde está no momento.
Ele é de fora. A visão do estrangeiro se apresenta como um relativo fascínio
misturado com angústia, pois ele representa um risco (BAUMAN, 2009) potencial,
portanto, calculado.

A companhia de estrangeiros é sempre ‗inquietante‘ (embora nem


sempre temida), uma vez que faz parte da natureza do estrangeiro
– à medida que se distingue tanto do amigo quanto do inimigo – o
fato de que suas intenções, sua mentalidade e o modo como reage
às situações que deve compartilhar conosco não são conhecidos,
ou não tão conhecidos a ponto de tornar se comportamento
previsível. Uma reunião de estrangeiros equivale a uma radical e
insanável imprevisibilidade. (BAUMAN, 2009: 68/69)

O estrangeiro é aquele que não domina, momentaneamente, o código de um


lugar, portanto, não consegue se comunicar com as pessoas deste novo mundo e
não as entende. É alguém que vem de outra realidade. Em certas ocasiões, pode
ser bem-vindo. Contudo, caso queira transitar pelo novo espaço precisa se
submeter a regras do jogo de poder, se não quiser ser visto como uma ameaça
potencial e ser mandado de volta para o seu ―lugar de origem‖ ou ameaça real (um
estranho, um desconhecido). Como afirma Júlia Kristeva (1994;11), ―[...] a
expressão do estrangeiro assinala que ele está ‗a mais‘ ‖, ao mesmo tempo um
comportamento incomum, incompreensível, admirado e rejeitado (Idem). O
estrangeiro está em busca do seu território, um lugar de abrigo e segurança,
todavia, em muitos casos ele está morto para si ―pois os seus anfitriões
desdenhosos não à distância que ele possui, para se ver e para vê-los‖. (Ibidem:
14 Grifo do Próprio Autor). Contudo, Kristeva (op. cit.) vai a uma posição extrema

79
G. Garner (1983) apud Koltai (2000) afirma que esta palavra deriva do latim extraneus, que como adjetivo
significava “vindo de fora”. Como substantivo a palavra estrangeiro só iria aparecer no Império Romano,
representando uma categoria política sendo lentamente politizada em outras línguas também, como
posteriormente no francês, no inglês e no alemão. Particularmente na França até o século XIV era chamado
estrangeiro aquilo que era incompreensível ou fora do comum. Só posteriormente que ganhará uma conotação
política. O mesmo pode ser visto no alemão em que a palavra dominante fremd significava o não-familiar e o
inglês do século XVI em que a palavra strange referir-se “à mulher adúltera e ao não-familiar, a alguém que a
família não reconhece; só no século XVIII passa a referir-se a alguém vindo de outro país, de abroad.”(p. 23)

151
que não estabelecemos concordância quando afirma que o estrangeiro ―não é de
parte alguma‖ (p.18), ou seja, o estrangeiro seria a expressão do
desterritorializado80. Para ela,

O espaço do estrangeiro é um trem em marcha, um avião em


pleno ar, a própria transição que exclui a parada. Pontos de
referência, nada mais. (KRISTEVA, op. cit.15)

Para Kristeva (op. cit.) num mundo cada vez mais aberto todos nós temos um
pouquinho de estrangeiro mesmo que por instantes. Nestes momentos, perdemos
autonomia sobre nossas vidas e não exercemos o controle sobre nós mesmos
(SOARES, 2005). Entendemos que a duração deste momento de estrangeiro será
reveladora das hierarquias de uma formação sócio-espacial, pois a determinados
grupos, especialmente os historicamente incluídos de forma precária e perversa
(MARTINS, 1997) como os negros, esse tempo tem sido maior, mais duradouro
em determinados espaços que freqüentam e estão.
Transformar o negro em estrangeiro significa a introjetar comportamentos
espaciais racistas que impõe distâncias materiais e simbólicas. Logo, a
experiência de estrangeiro vivido por uma pessoa e/ou grupo qualifica a
espacialidade racista, pois, mesmo diminuindo as desigualdades de uma
localidade através de políticas que visam eliminar um arranjo espacial racista, a
duração da experiência como estrangeiro – isto é, a experiência de ser posto
como um a mais – apresenta processos de distinção racial agindo na apropriação
e no uso irrestrito dos espaços para os negros.
Koltai (2000), apoiada em J. P. Vernant, afirma que o estrangeiro enquanto
uma categoria sóciopolítico que o fixa numa alteridade que implica,
necessariamente, uma exclusão, inexistia ―entre os gregos, ainda que bárbaros,
metecos, estrangeiros, escrav[izad]os fossem relegados às margens da
sociedade‖ (Idem: 22). As crenças e as práticas institucionais entre os gregos,
lembra a autora, ―sempre encontravam um meio que permitisse reintegrar aqueles
que a própria sociedade parecia excluir‖ (Ibidem). Para a referida autora,

80
Para uma análise crítica do Mito da Desterritorialização ver HAESBAERT (2004).

152
O estrangeiro fascina, atrai, repele. Termo que percorre história e
mito provoca, sempre, movimentos de alma: amor, ódio, temor,
―amódio‖ (hainamoration). Estrangeiro pode ser tanto o Outro
inimigo – que pode ser imigrante, árabe, nordestino, negro ou
judeu, dependendo da cultura e da época – quanto aquele que
fascina por ter sobrevivido à separação. (KOLTAI, 2000:17)

É por volta do final do século XVII que o termo estrangeiro, em


sua acepção mais ampla, aparece na linguagem. A partir desse
momento, o lugar do estrangeiro deixa de ser um simples além
das fronteiras, num exterior virtual, e passa a ser um lugar de
exclusão interna, que fixa o estrangeiro lá onde se esvai a ilusão
de que a linguagem pode tudo dizer e de onde se descortina o
abismo. (Idem: 22)

Segundo Koltai (op. cit.) no Velho Testamento o estrangeiro ocupa lugar


privilegiado, manifestando-se basicamente por meio de três grandes figuras: o
Guer, o Nokri e o Zar.

O Guer é a figura da alteridade possível, visitante que vem de


longe para viver ao nosso lado na alegria e no sofrimento, sem
querer apropriar-se do que somos, nem nos transformar naquilo
que ele é. O Nokri, é dono da verdade, que vem de longe para
logo retomar seu caminho. Finalmente, o Zar, figura totalmente
desprezível, é o estrangeiro em seu sentido pejorativo. (Idem: 22)

Entendemos que quando os negros acessam espaços que ele não é maioria
se espera que ele logo retome seu caminho. Se a insistência persistir a tolerância
pode se transformar em forma de invisibilização e de retirada do campo visual. Aí,
o negro é visto como estrangeiro. Logo, mesmo quando não está em espaços
segregados, os negros são retirados do campo visual. Assim quando avaliamos
nos mapas anteriores uma presença de negros em bairros majoritariamente
brancos como Lagoa, Barra e outros já citados, ele torna-se um estrangeiro, um a
mais.
Já o estranho pode até dominar este código do lugar, mas, por ser
desconhecido e não identificado pelos outros é visto como uma ameaça real,
portanto, devendo ser prontamente conhecido, dominado e/ou eliminado de forma
material e simbólica, pois ―[...] aquilo que é secreto e oculto pode ser familiar e

153
conhecido para quem participa de um segredo, por exemplo. Por outro lado, pode
ser algo inquietante e estranho para os outros excluídos‖. (SACEANU,
2001:13/14). O estranho dirá Freud (1976: 301) "[...] não é nada novo ou alheio,
porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se
alienou desta através do processo da repressão‖. Logo estranho foi suprimido das
percepções, pois ele é tido como assustador. Freud (Idem) analisando os versos
de Schelling, afirma que o encontro com o estranho causa angústia, medo, receio,
desprazer, pois não se sabe como abordá-lo. O estranho para Freud (op. cit.) é
um tema da estética sendo tudo aquilo que deveria ter permanecido secreto e
oculto, mas que veio a tona. Logo, o negro como estranho será visto como o negro
revoltado.
Esses pares dialéticos (estranho e estrangeiro) são qualificações da
conflituosa mistura diferença e desigualdade. Elas são expressões de poder e
violência que se expressam sobre e com os negros. O lado mais perverso deste
ordenamento espacial das relações raciais tem se traduzido em: medos sociais
transfigurados em leis, políticas de segurança, representações estigmatizados
sobre determinados grupos e lugares (WACQUANT, 2003). Na evolução urbana
brasileira isso não é algo novo.
O arranjo e o ordenamento espacial das relações raciais expressam
respectivamente contextos e situações espaços-temporais hierarquizantes e
hierarquizadas concebidas por grupos dominantes que na costura de políticas
públicas e /ou na condução de suas ações produtoras de espaços desiguais
inscrevem concepções racializadoras da sociedade que se materializam na
localização e distribuição desigual dos bens de uso coletivo.
As práticas racistas, preconceituosas e de discriminação criam assim,
distâncias e impõem métricas materiais e simbólicas aos indivíduos classificados
como negros. Portanto, estabelecem processos sócio-espaciais. Esses processos
são produtos dos arranjos, ordenamentos e eventos de discriminação.
O arranjo espacial revela como são apropriados os bens sociais coletivos
produzidos e o ordenamento revela como esses mesmos bens são usados. O não
entendimento das distâncias físicas e simbólicas criadas por essas práticas de

154
poder e violência dificulta a eficácia das políticas públicas. Assim entendemos que
a espacialidade e as categorias espaciais das relações raciais e do racismo no
Brasil assim se expressam:

QUADRO III – Espacialidade das Relações Raciais

Espacialidade Eventos de
das Relações Arranjos Espaciais Ordenamento Espacial Discriminação
Raciais

Orientações Instituição de A Negação de um


desfavoráveis aos comportamentos espaciais Devir negro por
Características negros e racializado devido a práticas racistas que
condicionamentos reprodução de valores, impedem um projeto
impostos na hábitos, costumes racistas de cidadania que
organização material do incorporem os negros.
espaço

Acúmulo e Cristalizações de tensões raciais na Conflitos nas


organização do espaço da sociedade Interações Sociais
Conseqüências
(Mecanismos de Inclusão Precária e Perversa e de (Mecanismo produtor
Produção de Imaginários de Desigualdades) e Indutor de
Condutas)

Fonte: Elaboração Própria

2.3. Noções Geográficas e Racialização do Espaço

A posição atual e potencial dos negros no arranjo da cidade do Rio de


Janeiro revela os distintos graus de processo de segregação sócio-espacial de
base racial. No entanto, a posição também é ressaltada como um mecanismo de
distinção dos indivíduos. Ela se agrega às formas de discriminação ou a sua
dissimulação. Toda posição expressa é relacional a outro referente. Logo, ela
revela uma circunstância espaço-temporal vivida por um grupo social.
Investigando a questão racial no Rio de Janeiro percebemos que as posições dos
negros sinalizam tanto a sua atual condição quanto as suas disposições para
(BOURDIEU, 2008) outros itinerários.

155
Enquanto uma noção ligada a uma forma de raciocínio espacial, a posição
é ―dado que define a localização de um ponto em relação a um sistema de
referencias‖.(OLIVEIRA, 1993: 437 Grifos Nossos) Esse dado, em nosso entender
é construído pela realidade sócio-espacial dos corpos, ou seja, os esquemas
corpóreos (BERTANINI, 1985) instituídos pela cultura e, portanto, pela lógica
hegemônica em constante tensão.

[...] se a posição é um processo de interação entre os diversos


tipos de capitais, a cor dos indivíduos, per si, em face de um
processo de escravização da raça negra, pode garantir ao branco
uma vantagem natural que se expressa na simples característica
de cor da pele, denominaremos esta vantagem por capital racial,
vantagem natural de pertencer à raça branca. (SANT‘ANNA,
2006:29 Grifos Nossos)

O capital racial que fala Sant‘anna (op. cit.) é o dado que define a posição
dos indivíduos. Esse dado (capital racial) cria uma divisão em que o trabalho
manual é reservado aos negros e um trabalho intelectual reservado para
indivíduos identificados como brancos.

As práticas raciais de seleção social resultam no acesso


preferencial de brancos a posições de classe se melhor
remuneradas, de mais prestígios e autoridade. Isto sugere a
possibilidade de que a perpetuação das práticas racistas esteja
relacionada à estrutura de interesses materiais, vantagens
competitivas e benefícios simbólicos de importantes grupos da
população branca que não necessariamente são detentores do
capital [não só meramente econômico]. (HASENBALG, 1986: 30)

Portanto, as relações entre as posições revelam distâncias tanto materiais e


simbólicas quanto horizontais e verticais, pois não existem relações humanas que
não sejam mediadas pelas distâncias (SILVEIRA, 2006). A noção de distância
tratada aqui neste trabalho, não parte de uma visão simplificada de raiz euclidiana
de mensuração geométrica da relação de duas ou mais posições. Buscamos dar
maior densidade a esta ideia ao investigar os efeitos de estranhamento (PAVIS,
2007) construídos para justificar proximidades e afastamentos materiais e
simbólicos. Esse efeito de estranhamento pode ser visto na presença de negros

156
em lugares da cidade do Rio de Janeiro onde os brancos estão e circulam em
maioria. Este fato cria uma coexistência que anula, pois nega a presença no
campo visual e busca tirar a visibilidade deste.
Pavis (2007) afirma que distância é uma noção aproximativa, subjetiva e de
difícil mensuração. Para este autor, à distância ―zero‖ revela a identificação total
criada entre espectador e peça e a distância ―máxima‖ revelaria o desinteresse
total. Esta perspectiva nos sugere as tensões e as afetividades criadas no contato,
ou seja, a possibilidade de construir encontros e desencontros qualificando assim,
a nossa proposta que estamos chamando de coexistência de anulação produzindo
uma imposição escalar.
Ademais, a distância está relacionada ao grau de interação, comunicação e
afastamento de corpos em distintos pontos do extenso espacial (DORAN &
PAROT, 1998). Portanto, elas também são medidas em termos de tempo.
Segundo o Doran & Parot (1998), o grau de interação, comunicação e
afastamento podem ser tencionados conforme uma experiência de temor gerando
uma zona de segurança que tem por finalidade, em nosso entender, estabelecer
hierarquias no arranjo espacial 81 . Para esses autores, essa perspectiva de
distância tem uma analogia com o mundo animal. Dessa forma, numa tentativa de
romper com a visão instintiva contida nessa perspectiva de distância, os autores
afirmam que quando tratamos das distâncias criadas entre pessoas significa
medidas de afastamentos modulados pela cultura. Este sentido da palavra
distância nos ajuda em nossa tese do racismo enquanto uma relação de
imanência na criação de distâncias. Em geral os dicionários de sociologia referem-
se de forma adjetivada a essa noção. Nelson do Valle (1992) examinando a
―distância social e o casamento inter-racial no Brasil‖ afirma que o termo distância
social é problemático. Este autor afirma que na sociologia McFarlande e Brown

81
Essa zona de segurança cada vez mais se revela na disciplina e controle dos corpos da cidade através de
vigilância ostensiva e câmeras espalhadas por toda a cidade. No Rio de Janeiro o governo estadual em
parceria com o federal e municipal tem criado uma zona de segurança (de forma declarada nos discursos dos
gestores políticos) nas áreas de entorno e vizinhança em que ocorreram grandes eventos da Copa de 2014 e as
Olimpíadas de 2016. Ademais, o governo municipal da cidade do Rio de Janeiro tem criado muros em favelas
de morros com justificava de evitar a destruição de áreas de proteção ambiental. Não temos condição de
avaliar neste momento mais uma interrogação se coloca: Qual é o grau e a intensidade de gestão racializada
do espaço inscritas nessas ações?

157
(1973) observam dois principais significados associados aos nomes de E.
Bogardus e P. Sorokin. Para Bogardus, segundo Valle (Idem), distância social
denota a intensidade das restrições à interação social, ou como diria Simmel
(1983) toda interação inclui algum grau de limitação de cada uma das partes no
processo, ainda que possam existir raras exceções a esta regra. Já para Sorokin,
segundo o mesmo Valle (Ibidem), a distância social expressa os diferenciais sócio-
econômicos entre os grupos, especialmente no que diz respeito à renda e a
educação. Para Valle (op. cit.) em muitos casos os estudos de distância social
expressam a combinação da proposta de Bogardus e Sorokin. Contudo, Valle (op.
cit.) deixa uma proposta em aberto para nós geógrafos quando diz que
potencialmente outros tipos de diferenciação entre os grupos emergem ―por
exemplo, diferenciação de ordem geográfica e cultural‖ (VALLE, 1992:25).
Entendemos que toda a distância social apresenta uma geograficidade, pois
ela enumera as escalas espaciais distintas transitadas pelos indivíduos e/ou
grupos sociais. Portanto, as expressões como distância social e distância espacial
além de reproduzir a simplificação euclidiana do espaço como métrica separa
sociedade e espaço. Este fato é radicalmente criticado por nós. Desta forma, os
negros segregados apresentados anteriormente nos mapeamentos transitam em
outras escalas. Nessas escalas são afastados dos bens sociais de uso coletivos,
mas também, do acesso a espaços de poder e decisão.
As distâncias apontam os elos que unem ou afastam um indivíduo ou grupo
(GALLAIS, 2002[1976]). Elas influenciam diretamente na densidade de relações,
trocas (materiais e simbólicas) e na solidariedade efetiva. Mas lembra o autor
também que distanciamentos foram também construídos para duas formas: O
primeiro como estratégias de defesa das tradições, valores, costumes, hábitos de
um grupo em determinada área geográfica ao longo do tempo. E o segundo como
forma de ataque a outros grupos através de processos de segregação. Essa
segunda ideia aproxima muito de nossa análise.
Logo, criação de distâncias pode ser um mecanismo de violência e/ou como
recurso de poder. Essas distâncias podem ser tanto horizontais (por extensão)
quanto verticais (por escalas).Tradicionalmente o debate geográfico enfatizou

158
mais as distâncias horizontais, ou seja, por extensão. Todavia, cremos que seja
necessário abordar e aprofundar a relação distância e escala. A extensão
expressa uma visão horizontal de distância, portanto, o intervalo de dois pontos,
lugares, objetos e corpos. A noção de escala permite também uma visão vertical
de distância através da conexão. As distâncias assim regulam convivências
(HASENBALG & SILVA, 1992)82 que inscrevem uma cartografia de poder. Vimos
que tal regulação estabelece uma precariedade social a maior parte da população
negra, pois são empurradas para a periferia e/ou área de baixa infra-estrutura.
O racismo, o preconceito e a discriminação têm aumentado o conteúdo
político das distâncias, pois elas vão para além da visão métrica de espaço. Isto
no permite afirmar que a criação de posições e distâncias: introduzem uma
diferença estética, política e ética na produção, no acesso, uso e apropriação de
determinados espaços e escalas. Ou seja, respectivamente aquele(a) imagem
corpórea que não me agrada, aquele(a) que manifesta o seu livre agir que me
incomoda e aquele(a) que apresenta uma conduta que precisa ser disciplinada
e/ou controlada por uma ordem. Logo, são estéticas, expressões políticas e éticas
tidas como desviantes que precisam ser afastadas; este distanciamento busca ser
neutralizante, pois, tenta impedir que uma potência aristotélica se torne em ato; o
distanciamento orienta e organiza as diferentes práticas da vida (escolhas, os
usos, as interações, entre outros); o distanciamento despreza a experiência do
encontro face-a-face para afirmar a representação por delegação, aquilo que faço
longe, com distância. Por isso, concordamos com Bourdieu quando afirma que as
distâncias em geografia expressam um índice de poder 83 . Logo as distâncias
instauradas são reguladores sócio-espaciais da presença de uma corporeidade
específica, interferindo na construção identitária e gerando diferenças
estigmatizadas.
Sodré (1999) afirma que todo e qualquer racismo exacerba-se
precisamente no momento da proximidade. Logo, rejeita a alteridade tanto

82
Desunir, portanto, gerar distâncias foi uma estratégia criada no período colonial para evitar organizações
políticas dos grupos escravizados por origens e por laços identitários. Mesmo as formas de resistências como
os quilombos tinham posições estratégicas dada pelo sentido de distância engendrado.
83
“ [...] a distância geográfica está em relação aos bens e aos poderes um bom índice de poder.”
(BOURDIEU:126. Grifos Nossos)

159
conhecida por estereótipos quanto desconhecida por práticas de preconceito. Em
nosso caso analisado essa alteridade é simbolizada pela corporeidade de fenotipia
escura (Idem) e os valores culturais, intelectuais, estéticos e morais
afrodiaspóricos.

[...] daí implicar sempre o racismo uma desterritorialização – do


mesmo ou do outro. Abandonando o seu lugar predeterminado, o
Outro (o migrante, o diferente, o negro) é conotado como intruso
que ameaça dividir o lugar do Mesmo hegemônico. O Outro é
aquele que supostamente ―não conhece o seu lugar‖ – assim se
expressa o senso comum discriminatório – isto é, aproxima-se
demais, rompendo com a separação dos lugares todas as
configurações possíveis (ego, corpo, vizinhança, etc) e deste
modo conspurcando a pureza pressuposta de uma hierarquia
territorial. O nojo racista ao Outro decorre de seu deslocamento
territorial: ele (o negro, o índio, etc.) está ali onde não deveria [...]
(Idem: 261)84

Portanto, propomos abaixo um modelo espacial do racismo e das relações


raciais e as formas espaciais que assume que comporte essas ideias.

84
Percebe-se neste autor o reconhecimento da dimensão espacial das relações raciais para falar,
paradoxalmente, do seu desaparecimento provocado por uma prática racista. A tentativa progressista de
avanço epistemológico do autor, esbarrar em uma leitura conservadora a nível teórico. Ou seja, a
desterritorialização como marca analítica. Haesbaert (2004) lembra que todo processo de „desterritorialização‟
é acompanhado, de forma concomitante, de um processo de reterritorialização. Desterritorização e
resterritorização não são processos excludentes, pelo contrário, são imanentes. Dessa forma, o conflito na
interação social face a face apontado no trecho acima de Sodré (1999) tem uma relação direta com o polêmico
conceito de exclusão. Por este motivo, preferimos falar, inspirado em Haesbaert (Idem) em ações, externas ao
sujeito, que visam criar uma territorialização precária e perversa para o „outro‟ considerado intruso. Este outro
não possui autonomia sobre as suas trajetórias espaciais. Um ordenamento lhe é prescrito para assimilar e
adaptar-se as hierarquias sociais historicamente definidas em determinados lugares. Para crítica ao mito da
desterritorialização ver HAESBAERT (2004), especialmente o capítulo 7.

160
QUADRO IV - MODELAGEM ESPACIAL DAS RELAÇÕES RACIAIS DE PODER
E VIOLÊNCIA

Tensão no Contato entre Diferentes

Preconceito Discriminação Conflito

Racismo

DISTÂNCIAS

BUSCA PELA EMANCIPAÇÃO E


AUTONOMIA
- O Negro que sai do Anonimato;
- Lutas por Direitos;
= Restrição (Material e Simbólica) e Imposição Escalar
- Afirmação do Negro como Sujeito
Jurídico-Político;
- Politização da Identidade-Diferença;
- Luta pelo acesso a Escalas, Espaços e
Tensão Retro-alimentação Gera a Bens Sociais;

Fonte: Elaboração Própria

161
O modelo acima revela que a tensão do contato entre diferentes pode tanto
gera sujeição quanto lutas por emancipação e autonomia. As sujeições expressas
pelo racismo, preconceito, discriminação e seus derivativos pressupõem
distâncias tanto materiais quanto simbólicas. A materialidade destas distâncias se
expressa nos processos de segregação e distinção dos indivíduos pela
corporeidade dos corpos (LIMA, 2007) tanto na produção quanto no acesso, no
uso e na apropriação de espaços e escalas por indivíduos identificados como
negros. O produto destes distanciamentos é a conjugação de diferentes
hierarquizações sociais como: a imposição escalar e a restrição material e
simbólica da dinâmica sócio-espacial. Todavia, o conflito também estabelece lutas.
As estratégias de ação não são inicialmente intencionais. Mas em sua grande
maioria passam a serem elaboradas, politizadas na busca de conquista de
direitos. Um exemplo recente expressa tais ideias.

Thalma de Freitas falou sobre ter sido levada para uma delegacia
do Rio na última sexta-feira, 14, e afirma que não vai se calar
diante de demonstrações de racismo. "O policial disse que era
negro. Mas policial negro também age como racista. O
racismo está implícito nas atitudes da polícia", disse a atriz à
colunista Mônica Bergamo do jornal "Folha de S. Paulo" desta
terça-feira, 18. "Só sei que eu e uma garota loira fomos paradas
pela polícia. Mas só eu fui pra delegacia."
"O racismo é uma doença social que foi plantada na cabeça das
pessoas. Nunca vou me vitimizar, me sentir ofendida. Racista
nenhum vai tirar minha dignidade", afirma85.

Lembremos que a vítima é atriz da rede globo, logo possui um cartão de


visitas.

85
Fonte: www.tecontei.com.br/noticias/noticia/122380/racista-nenhum-vai-tirar-minha-dignidade-diz-thalma-
de-freitas-a-jornal.html Grifos da própria reportagem. Publicado no site da Ong Geledés. Retirado em
Novembro 2011

162
QUADRO V – SEGREGAÇÃO E DISTINÇÃO

Processos SEGREGAÇÃO DISTINÇÃO


Espaciais

Características

Configuração Espacial Áreas ou Zonas Campos de Forças


Típica Corporificados

Dinâmica Espacial Corpos Negros em Relativo Corpos Negros em Relativo


86 87
―Repouso‖ ―Movimento‖

Dilema Fundamental Espaço Urbano com grupos Instabilidade da Posição em


relativamente cristalizados determinados pontos do/no Espaço

Tendências Gerais em Desigual que pertence a outro lugar Diferente / Alteridade que está no
Momentos de Conflito (Estrangeiro) lugar errado (Estranho)

Núcleo Espacial Fixos Fluxos

Elemento Base Concentração Dispersão

Espacialidade Localização e Distribuição dos


88
Corpos Negros no Espaço Corpo é no Espaço

Espacialização Processo e Condição Social


Produto Social

Fonte: Elaboração Própria

86
Em sua grande maioria os estudos da segregação apontam estudos sobre nas residências fixas dos
moradores.
87
Buscamos através da distinção captar os negros no seu cotidiano circulando pela cidade. Desta forma, ela
está também articulada a segregação, pois ao criar desigualdade no acesso ao trabalho e ao mercado de
consumo que tende a se localizar dentro ou próximo dos bairros majoritariamente de pessoas brancas isso faz
com que o negro não se torne vizinho, mas freqüente diariamente esse espaço como trabalhador. Vários
relatos tem sido apontados pela grande mídia de pessoas negras trabalhadoras que “por estar no lugar errado”
tem sofrido com atitudes discriminatórias por alguns habitantes dessas áreas, especialmente jovens. Não
estamos aqui querendo criar generalizações, mas apontando fatos que buscam eliminar o negro do campo
visual e/ou tirar sua visibilidade no acesso, uso e apropriação deste espaço.
88
Inspirado em Merleu-Ponty entendemos que a racialização dos corpos é concomitantemente uma
racialização do espaço e suas territorialidades. Vide os cultos afro-brasileiros.

163
Quando falamos em processos de segregação ou áreas segregadas
estamos apontando para um domínio sócio-espacial de um grupo, relativamente
homogêneo, concentrado numa dada área geográfica por um período de tempo
podendo ser uma minoria ou não. Estes domínios sócio-espaciais historicamente
foram criados ora como defesa (grupos que se sentiram ameaçados e se auto-
enclausuraram) ou pela ‗exclusão‘ feita pelos grupos hegemônicos de forma direta
ou tácita por características religiosas, culturais, raciais, entre outros. Os
processos de segregação separam os considerados indesejáveis buscando
consolidar afastamentos de áreas de prestígio social.
No Brasil contemporâneo, as contradições existentes na cidade, tornam
imprescindível considerar que os processos de segregação sócio-espacial se
constituem combinando e se retro-alimentando de hierarquias de classe, raça,
gênero, entre outras. Lopes (2006) lembra da associação de segregação e
discriminação quando afirma que:

Separação física ou geográfica imposta a determinados grupos


em virtude da lei, acordo tácito ou costume. Por extensão, o termo
passou a ter quase o mesmo significado que discriminação.
(Idem:154)

Vemos na passagem acima que a manutenção de diferenças transformadas


em desigualdades significa o prolongamento do sistema de subordinação. O
Dicionário das Relações Étnicas e Raciais (op. cit.) informa que há dois tipos de
segregação. Uma segregação seria de jure representando grupos racial ou
etnicamente definido formalmente por leis. E segregação de facto não possui uma
restrição formal legal. A questão da segregação é um tema que envolve
graduação, isto é, níveis de segregação. A nossa referência neste trabalho será
esta segunda forma de segregação, isto é, segregação de facto. Para Peter
Ratcliffe, autor do verbete segregação do referido dicionário, há vários
ingredientes que se combinam com a segregação de facto como a pobreza, o alto
nível de desemprego e as práticas discriminatórias institucionalizadas no mercado
da habitação [e do trabalho] que impedem a mobilidade dessas pessoas. Os

164
estigmas, os preconceitos e as discriminações potencializam a segregação e a
distinção.
Quando falamos em distinção estamos direcionando a nossa análise para
os acessos, as formas de apropriação e usos dos espaços. Neste sentido, os
usuários e usadores do espaço da cidade (LEFEBVRE, 1974) são discriminados
pela combinação de diferentes hierarquizações sociais que sobressai a racial.
Bourdieu (1989) afirma que a distinção é um atributo da diferença.
Entendemos que as diferenças são produções sócio-espaciais que, em muitos
casos, são criadas para afirmar desigualdades. Para este, ―[...] o mundo social é
também representação e vontade, e existir socialmente é ser percebido como
distinto‖ (Idem: 118). Neste sentido, a inscrição espacial da distinção revela as
formas de como somos percebidos e representados.
Ao contrário dos processos de segregação, os processos de distinções
raciais no acesso, no uso e apropriação de espaços e escalas de poder são mais
difíceis de medir, pois nem sempre se manifestam no momento do conflito racista.
Em muitos casos esta distinção é reproduzida em formas de ensinamentos tácitos
e/ou diretos para outras gerações sem necessariamente se manifestar
explicitamente nos indivíduos vítimas de tais conflitos.
Já os processos de segregação de base racial expressam fixos espaciais
que se instituíram em momentos distintos na história urbana da cidade do Rio de
Janeiro (SANTOS, 1988) que estabeleciam diferenças espaciais entre negros e
brancos. Estes não só fazem referência à diferenciação econômica, mas também,
as hierarquizações construídas na produção social do negro inscritas no espaço
urbano.
Já a distinção no acesso, no uso e na apropriação do espaço revela uma
modalidade da discriminação nos fluxos espaciais (Idem). Neste sentido, a
distinção revela uma circularidade (eventos de discriminação) que se manifestam
buscando negar e/ou restringir o acesso, o uso e a apropriação de determinados
pontos do espaço por estigmas, estereótipos, preconceitos entre outras formas de
sujeição racial. Isto é, marcas solidificadas ao longo do tempo e dos espaços que
são incorporadas sobre determinados indivíduos que não se alteram e mantém

165
uma ordem (de posições e distâncias materiais e simbólicas) postas como
imutáveis. Esta distinção implica uma separação radical e autoritária de duas
posições numa interação hierárquica em que ―cada qual deve saber o seu lugar‖,
ou seja, ela age conjuntamente com o rito autoritário do você ―sabe com quem
está falando?‖ (DA MATTA, 1997 [1981])
Os processos de distinção e segregação de base racial não são questões
excludentes e sim complementares. Os processos de segregação separam como
forma de discriminar e os processos de distinção discriminam como forma de
separação. No entanto, entendemos que essa combinação traz um dado diferente
e peculiar na realidade brasileira. Pois, em alguns casos, pode ocorrer processos
de distinção racial no acesso, no uso e na apropriação de espaços e escalas sem
algum grau de combinação com processos de segregação de base racial. Em
outras palavras, quando um indivíduo é discriminado racialmente (algumas vezes
por pessoas de aparência corpórea negra e afrodescendente) em áreas com baixo
ou nulo nível de processos de segregação de base racial. Mas, quando mudamos
a ordem dos fatores dos processos, isto é, segregação sem distinção é quase que
impossível. Todo o processo de segregação de base racial pressupõe em algum
grau criar uma distinção da corporeidade dos corpos (LIMA, 2007) com vias de
afirma uma dominação racial.
Essas ações que criam uma imposição escalar que se retro-alimentam de
contra-performances sociais (fracasso escolar e escolas precárias, desemprego e
subemprego, ausência de um futuro digno, entre outros) colocando indivíduos
negros e pobres nestas condições em situação de alteridade total (CASTEL,
2008). Porém, a imposição escalar possui formas mais sutis e sofisticadas quando
a ascensão do negro ocorre ―dentro de um processo de acumulação de vantagens
que privilegia ao ‗branco‘‖ (FERNANDES, 1972:10). Para Fernandes (Idem) a
anulação do ‗negro‘ e do ‗mulato‘, que estamos buscando qualificar com a ideia de
imposição escalar mantém dois ingredientes:

a) o solapamento e a neutralização dos movimentos sociais


voltados para a democratização das relações raciais e, em
conseqüência, para uma efetiva igualdade entre as ‗raças‘; b) o

166
fortalecimento das técnicas de acefalia dos estratos raciais
heteronômicos ou dependentes (os tão conhecidos mecanismos
de mobilidade social seletiva, numa linha ultra-individualista, e de
aceitação e compensação dos ‗negros‘ e ‗mulatos‘ que funcionam
como a exceção que confirma a regra). Ambos os ingredientes
trazem consigo formas invisíveis de corrupção, já que quebram as
lealdades de cunho social, étnico ou racial que se identificam com
os interesses da ‗coletividade negra‘ e convertem a ‗democracia
racial‘ existente em um bom negócio para os indivíduos que
usufruem a condição de exceção que confirma a regra.
(Ibidem:10/11)

Os indivíduos classificados como negros são submetidos a redução da sua


visibilidade e prestígio através da estigmatização (marcas de desqualificação) da
sua identidade que diminuem o acesso a outros patamares (platôs) da vida social.
Neste sentido, passam a exercer uma posição subordinada.
Estes processos sócio-espaciais (segregação e distinção racial) criam
tensões ao direito ao espaço. Portanto, o racismo, o preconceito e a discriminação
estabelecem obstáculos e expressam distanciamentos entre os segmentos
‗raciais‘ distintos. Neste sentido, afirmam-se espaços de similaridade (econômica e
racial) que são camuflados por uma coexistência que cria um simulacro de
interações sociais através posições ‗geográficas‘ de poder. Entendemos que as
posições „geográficas‟ de poder são criadas quando grupos que se localizam em
áreas de grande infra-estrutura passam a estabelecer ações no campo material e
simbólico para restringir, e em muitos casos, impedir o acesso, o uso e a
apropriação de determinados espaços e escalas por outros grupos definidos como
estrangeiros, isto é, indivíduos a mais e estranhos, ou seja, indivíduos
potencialmente perigosos. Uma gestão racial do espaço. A partir dessas posições
vemos formas de reprodução de uma sociedade espacialmente racializada. Torna-
se portanto, necessário construir um plano de pesquisa dessas tensões para
avaliar as questões levantadas até aqui.

167
3. Os Processos de Racialização do espaço da cidade do Rio de Janeiro na
História Urbana Recente

Neste capítulo aprofundaremos a análise dos processos de segregação no


espaço carioca de base racial e as táticas espaciais de distinção racial.
Iremos avaliar como as tensões raciais na cidade do Rio de Janeiro na
história urbana moderna foram engendrando processos de segregação de base
racial.
Finalizaremos o capítulo apresentando outra modalidade de inscrição
espacial do racismo, a distinção. Propomos que cinco táticas espaciais de
distinção racial do espaço emergem em diferentes momentos da circulação dos
negros na cidade.

168
3.1. A condição urbana do negro: os lugares dos negros no Rio de
Janeiro

No Brasil, aponta Henriques (2001), a desigualdade racial tem origem


histórica e institucional múltipla. Para Henriques (Idem) tal desigualdade impede o
desenvolvimento das potencialidades e o progresso social da população negra no
país. Em praticamente todos os estados da federação, os piores índices sociais
têm apresentado grande participação da população negra. Quando avaliamos um
indicador social importante na medição da desigualdade no Rio de Janeiro
verificamos um quadro muito parecido com o restante do país.

QUADRO VI - Percentagem da População Abaixo da Linha de Pobreza


Segundo os Grupos de Raça/Cor, no Estado do Rio de Janeiro, 2000.

MUNICÍPIOS DO ESTADO DO RIO DE Negros Brancos Indígenas


JANEIRO

MUNICÍPIOS NÃO METROPOLITANOS 30,6% 16,8% 24,5%

REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE 42,3% 23,5% 35,1%


JANEIRO

CIDADE DO RIO DE JANEIRO 35,8% 17,3% *

ESTADO DO RIO DE JANEIRO 39,7% 21,7% 33,1%

Seguindo metodologia de Sônia Rocha (FGV) / * = não suporta desagregação estatística.


Fonte: LAESER IE-UFRJ a partir dos microdados da amostra de 10% do Censo 2000/IBGE. Negros = pretos + pardos

A desigualdade racial no Rio de Janeiro tem se revelado na organização


espacial da sociedade. Os estudos de processos de segregação têm conseguido
captar esse tipo de segmentação sócio-espacial.
Segundo os dados do censo 2000 avaliados pelo LAESER, cerca de 39,7%
dos negros do estado do Rio de Janeiro estavam abaixo da linha de pobreza.

169
Entre indígenas o percentual é 33,1% e entre os brancos este percentual é quase
que a metade, com cerca de 21,7% do total.
Já na região metropolitana do Rio de Janeiro, os negros abaixo da linha de
pobreza representam cerca de 42,3%. Já entre os indígenas o percentual era de
35,1% e entre os brancos pobres é de 23,5%
Agora quando avaliamos a composição racial da população abaixo da linha
de pobreza na cidade do Rio de Janeiro temos os seguintes dados. O percentual
de negros pobres era 35,8% enquanto que entre os brancos era menos da metade
17,3 % segundo os dados Censo 2000 avaliado pelo do LAESER.

GRÁFICO I – POPULAÇÃO ABAIXO DA LINHA DE POBREZA

45
40
35
30 Estado do Rio de
Janeiro
25
Região Metropolitana
20
15 Cidade do Rio
10
5
0
Negros Brancos Indígenas

Fonte: Elaboração Própria encima dos dados do LAESER

A condição urbana da população negra no Rio de Janeiro historicamente foi


marcada por tensões no acesso, na apropriação e no uso do espaço urbano. Esta
condição é fruto tanto da produção capitalista da cidade quanto por gestões
racializadas do espaço protagonizada pelo Estado, pelos promotores imobiliários e
proprietários urbanos, especialmente no final do século XIX e início do século XX.
Estes agentes de forma tácita e, algumas vezes explícitas, construíram um novo
arranjo da cidade baseada em teses racistas. Esta inscrição espacial do racismo

170
na cidade engendrou a distribuição de negros e brancos marcadas pelas doutrinas
do embranquecimento da população, da paisagem e do território no final do século
XIX e início do XX. Em geral, os estudos têm apresentado que a mudança no
padrão racial da população, neste período, também significaram a criação
moderna de desigualdades raciais, pois a população negra foi preterida da
construção deste país moderno, responsabilizada pelo atraso econômico e posta
como apática e indolente pelas elites dominantes.
A gestão racializada do espaço urbano no Rio de Janeiro criou uma cidade
em que o uso do solo urbano o tornou um bem oligárquico. Este fato gerou uma
certa homogeneidade econômica e racial em determinados bairros da cidade. As
interações sociais foram marcadas por conflitos no acesso, no uso e apropriação
desses bens oligárquicos.
O estado do Rio de Janeiro já foi um dos estados que já possuiu a maior
população negra do país. Após a imigração que visava embranquecer e civilizar a
população e o arranjo espacial colonial, também significa a defesa desses bens
oligárquicos. A propriedade e o acesso, o uso e apropriação dos espaços da área
central eram os principais bens oligárquicos deste período.
A modernização urbana sob a égide do capitalismo na então capital da
nova República foi um momento de grandes transformações políticas, ideológicas
e institucionais no país. Abolição, república, liberalismo, emergência de novas
elites, o Rio de Janeiro era o epicentro destas transformações. Desta forma, tanto
a organização da cidade quanto a consciência de seus moradores estavam em
mudanças. Essas mudanças eram marcadas por uma clivagem racial ainda de
heranças colônias, mas que passavam por metamorfoses.
A condição do negro logo após a abolição é vista com temor pelas elites
dominantes agrárias e as urbanas insurgentes. Assim, era necessário construir um
sistema de controle que pudesse vigiá-los e puni-los a qualquer desvio da ordem
(FOUCAULT, 2000). Lembremos que as manifestações negras passam a ser
criminalizadas (da capoeira, ao uso de instrumentos musicais como o violão).
Essa criminalização perdurou durante décadas89.

89
Lembremos também que os terreiros tinham que ter autorização policial para o funcionamento.

171
Era necessário, segundo as elites dominantes tanto antigas quanto as
novas mudar a imagem de uma cidade escravocrata para se adequar aos novos
tempos. O enorme contingente de trabalhadores negros na transição da
escravidão para o trabalho livre foram desprezados, desqualificados e postos a
margem do processo. Santos (2009 mimeo) aponta duas razões primordiais.

Uma primeira vertente de justificação está no temor das elites do


século XIX de que ocorresse no Brasil algo semelhante ao que
ocorreu no Haiti, onde os escrav[izad]os se insurgiram sob a
liderança de Toussaint L´Ouverture e expulsaram a população
branca. Este temor, na verdade, também encontrava fundamentos
na realidade daqui, visto que a quilombagem era algo
disseminado pelo território criando um número incontável de
―zonas de soberania‖ dentro do território considerado possessão
colonial portuguesa e, posteriormente, emancipado e
transformado em Brasil. Era um temor que se espalhava pelas
Américas, e que no Brasil se fortaleceu ao longo do século XIX
por conta dos levantes que pipocavam – com destaque para os
ocorridos na Bahia e protagonizados pelos Malês, negros
muçulmanos. Isto levava as elites a, de um lado, fortalecer seus
laços de solidariedade (contra estes levantes populares)
contribuindo para a unidade nacional no século XIX, e, de outro,
gradativamente constituir uma consciência sobre a população
não-branca como ameaça: era necessário branquear a
população!
A outra explicação comumente aludida para a política de
branqueamento é a influência das teorias científicas de
superioridade racial que se constituem no século XIX. Lozada
(1991) aponta que estas teorias tinham como função criar
demandas para a exportação de população européia, tornada
excedente de mão-de-obra pelas transformações sociais
impulsionadas pela revolução industrial 90. Podemos acrescentar
que estas teorias foram cruciais para o eurocentramento do poder
mundial, base da afirmação da modernidade e da colonialidade
naquele momento histórico. Fato é que a política de

90
A autora assim explica: “As idéias não surgem do nada, mas emergem de situações concretas. O „racismo
científico‟ correspondeu às circunstâncias históricas ligadas à necessidade de escoamento do excesso
populacional europeu, no período conturbado da expansão capitalista do século XIX, que desagregava antigas
relações de trabalho. Promover essa emigração para o Brasil requeira, no entanto, a mudança de mentalidade
da classe dominante brasileira.
Para convencer os proprietários de terras e de escravizados da necessidade de substituir os escravizados
negros por trabalhadores livres e brancos, como ocorreu no final do século, nada melhor que lançar mão de
„teorias científicas‟ sobre a superioridade do trabalhador branco. Não é sem motivo que o discurso
abolicionista foi, ao mesmo tempo, o discurso imigrantista.
O argumento da „qualificação‟ do trabalhador imigrante face ao escravizado pode ser refutado quando
sabemos que a maioria desses trabalhadores chegados da Europa foi destinada a realizar o mesmo trabalho
antes executado pelo escravizado, nos campos e nas cidades.” (Lozada, 1991, pg. 35)

172
branqueamento foi praticada em diversas regiões do mundo,
como aprofundamento da colonização e da colonialidade
eurocentradoras. (SANTOS, 2009 mimeo)

Santos (2009 mimeo) aponta que o branqueamento da população merece


ser compreendida como branqueamento do território. Para nós este
branqueamento estabeleceu distinções no acesso, no uso e na apropriação de
espaços e escalas aos não-brancos (negros e indígenas). Santos (Idem) aponta
três dimensões essenciais para esta ação. A primeiro, é o branqueamento da
ocupação do território. Em segundo lugar o branqueamento cultural do território. E
a terceira dimensão seria o branqueamento da imagem do território.
Para Santos (2009 mimeo) apoiado em Vainer (1990), o branqueamento da
ocupação do território no final do século XIX e início do XX indicam as
multiplicidades de interesses que se entrelaçam à dimensão econômica (braços
para a lavoura mais dinâmica e crescente das plantações de café) e geopolítica de
gestão do território (através da ocupação de áreas de fronteiras tidas como
‗espaços vazios‘) alargando a área de controle do Estado e da hegemonia da
civilização ocidental branca.

[...] temos que qualificar que a política de colonização de


fronteiras por imigrantes tanto contemplou ―fronteiras externas‖,
áreas de contato com outros países que eram consideradas focos
de ameaça geopolítica à integridade do território, quanto
―fronteiras internas‖, áreas consideradas importantes e pouco
integradas ao controle do Estado (colonial, antes da
independência, imperial e republicano depois dela). É a primeira
destas, a ideia de fronteiras externas, que explica a grande
quantidade de colônias de imigrantes nos estados da Região Sul
do país – Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Mas, é a
ideia de ―fronteiras internas‖ que explica a existência de colônias
de imigrantes em estados como o Espírito Santo, Bahia, Rio de
Janeiro, Pernambuco e Minas Gerais, por exemplo. Lozada
(1991), abordando a formação de Nova Friburgo, onde foi
instalada uma colônia de imigrantes suíços por D. João VI em
1819-1820, refuta a tese de que os imigrantes vieram por uma
necessidade de mão-de-obra, num contexto de início da transição
do trabalho escrav[izad]o para o livre. A autora busca rico material
de pesquisa para mostrar que muitos dos imigrantes suíços
tornaram-se, eles próprios, proprietários de escrav[izad]os! A
questão central a informar a decisão de localização dos

173
imigrantes naquele sítio – fora dos circuitos produtivos e
comerciais da época – era, exatamente, o perigo geopolítico
representado... pelos próprios negros ex-escrav[izad]os fugidos e
aquilombados. SANTOS, 2009 mimeo: 58/59)

Vê-se, portanto, que branquear o território via ocupação significava uma


estratégia de defesa, e concomitantemente ataque, contra ameaça do outro
racializado (tanto o negro quanto os indígenas), especialmente quando estes
tinham outros projetos territoriais, como eram os quilombos e as territorialidades
indígenas. Em verdade, o conflito é de projetos territoriais de base racial que
busca anular, subjugar e invisibilizar o outro, através dos discursos geográficos
imperiais de espaços vazios e vazios demográficos redefinindo as formas de uso e
apropriação dos espaços (RAFFESTIN, 1992).
Um monopólio da história de um território, ou de um lugar, ou de uma
região, entre outras referencias espaciais é criada reduzindo-a a chegada do
homem branco. Logo, essas expressões espaciais das sociedades são fruto
exclusivo da dinâmica desencadeada por esse grupo e seu processo civilizatório
(SANTOS, 2009 mimeo)91 eliminando o protagonismo no processo histórico e os
sentimentos de pertencimento dos grupos (ao território, ao lugar, a região, entre
outras referências espaciais).
Já o branqueamento da imagem e da história do território é um poderoso
instrumento de hierarquização, subalternização e eliminação social (fazer de conta
que eles nunca existiram ou tiveram pouca expressam naquela localidade), pois
elimina do processo histórico com um violento processo desterritorialização de um
grupo e a busca extermínio de suas mentalidades.

As conseqüências sociais mais concretas deste ‗alisamento


(analítico) do espaço‘, para tomarmos emprestada a expressão
de Gilles Deleuze e Félix Guattari, eu fui conhecer recentemente,
quando visitei a região centro-oeste do estado do Paraná. Lá,
conheci a luta de uma comunidade remanescente de quilombo
que, há algumas décadas, teve suas terras griladas, seus
moradores mais resistentes expulsos através de violência
armada, e a maior parte de sua área utilizada para

91
Esta invisibilidade oferece uma perspectiva para a análise do por que o sul do Brasil apresenta o maior
número de caso de racismo nos Tribunais de Justiças e nos Tribunais Regionais do Trabalho.

174
assentamentos de imigrantes. Recentemente, algumas lideranças
se articularam para rever o patrimônio perdido e, praticamente,
reconstituir a comunidade. Sua luta, entretanto, encontra como
barreira o descrédito que seus porta-vozes recebem quando, seja
na própria região, seja na capital Curitiba, seja em Brasília,
manifestam ser quilombolas no Paraná: ‗Quilombo no Paraná?‘,
‗Mas no Paraná há negros?‘, ‗Ué, no Paraná não houve
escravidão, lá houve assentamentos, colônias, de alemães,
poloneses, ucranianos, etc., mas escravidão, negros, não!‘, são
falas que, proferidas por representantes governamentais de
diferentes esferas, autoridades do Poder Judiciário e
tecnoburocratas de autarquias e órgãos públicos, justificam
atitudes (e inércias!) que atravancam os processos de
reconhecimento, demarcação e titulação daquela e de diversas
outras comunidades naquela região e pelo Brasil afora.
(SANTOS, 2007:14-15)

Essas dimensões do branqueamento do território se fundamentam na


legitimação e autorização de violências (físicas e simbólicas) impondo maiores
obstáculos e aumentando as distâncias sócio-espaciais entre os brancos e não-
brancos (negros e indígenas) ao acesso, uso e apropriação dos bens sociais de
uso coletivo.
Os signos e símbolos culturais que constituem e identificam territórios,
lugares e regiões têm assim uma marca racializada. O genocídio negro [e
indígenas] e de seus padrões culturais (NASCIMENTO, 1978) é a marca do
branqueamento do território.
Portanto, o branqueamento do território, da sua imagem e da sua cultura
expressam um tipo de inscrição espacial do racismo que foi gerando processos de
segregação sócio-espacial de base racial. Campos (2006) avalia que as
mudanças no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX é onde
encontramos as raízes da segregação do espaço de base racial na cidade do Rio
de Janeiro atual.
Para Campos (2006) as políticas urbanísticas se constituíam na então
capital federal, dialeticamente marcado tanto por um ideário higienista/sanitarista
quanto por concepções eugênicas que iram influenciar diretamente a atuação do
Estado na criação de códigos de posturas e no processo de demolição de cortiços
e casas de cômodos. Essas práticas que criavam um embrião de uma sociedade

175
capitalista no urbano carioca possuíam, concomitantemente, uma dimensão
econômica e ideológica. A perspectiva econômica se instituía com a emergência
dos agentes capitalistas modeladores do espaço urbano (promotores imobiliários,
proprietários fundiários, grupos incluídos de forma precária morando nas favelas,
cortiços e casas de cômodo). Já a perspectiva ideológica se referia aos ideários
de eugenia e higiênico/sanitarista difundidos no urbano europeu a partir das
transformações da cidade de Paris com Haushuman.

O par higienismo-sanitarismo foi responsável pela reestruturação


urbana do espaço construído e dos valores a eles agregados,
enquanto o eugenismo tinha como objetivo pensar o povo [e a
esfera psicológica do contato racial no espaço urbano] de acordo
com a pureza ou não da raça. (CAMPOS, 2006: 118)

Assim, embranquecer as paisagens das áreas centrais da cidade do Rio de


Janeiro no início do século XX significava reconstituir o glamour da arquitetura
parisiense "haushumaniana" e o modo de vida moderno europeu nos trópicos, isto
é, transpor paisagens derivadas (SORRE, 1961) da "civilização" européia branca
para a cidade do Rio de Janeiro, o protótipo do urbano moderno em nosso país 92.
Concomitantemente a difusão espacial de uma ideologia racial expressa com a
"territorialização" de paisagens derivadas (Idem) da "civilização" numa cidade que
ainda carregava heranças coloniais e uma maioria da população negra, processos
de "desreterritorialização" se constituíam com estratégias de expulsão da
população pobre, em sua maioria negra, das casas de cômodo e cortiços para os
arredores da cidade e para as favelas que estavam nascendo. As formas de
habitação desta população pobre e negra na área central da cidade do Rio de
Janeiro não paravam de crescer e eram percebidas pelas autoridades e grupos
dominantes (especialmente, proprietários fundiários e promotores imobiliários)
como um problema higiênico/sanitário, estético e populacional (BARBOSA &
SILVA, 2005). No imaginário dominante o medo e a busca de eliminação dos

92
Como bem lembra o Dicionário Luft de Língua Portuguesa, civilidade e civilização também podem
significar tornar-se urbano e estabelecer graus de urbanidade. Desta forma, “o mundo dos brancos” tinha a
espacialidade urbana moderna o seu novo lócus que necessitava invisibilizar ou hiperinvisibilizar pelo
estereótipo os negros.

176
cortiços e casas de cômodo tinham também como justificativa os moradores que
eram identificados como ladrões, capoeiras, meretrizes de baixa classe e
assassinos. Neste momento, a gestão racializada do espaço buscava
embranquecer a paisagem e eliminar do campo visual das elites brancas a
população negra.
Criava-se assim um embrião de arranjo espacial na produção do urbano
moderno carioca com padrões espaciais de segregação do espaço de base racial
em que as favelas e as periferias eram os espaços para onde a população pobre e
negra era empurrada.

A favela [e seus moradores] era permitida, portanto, desde que


obedecesse a uma condição fundamental: ser invisível aos olhos
burgueses ofuscados pelo glamour da arquitetura parisiense e pelo
modo de vida moderno [que embranquecia as paisagens e os
modos de vida da área central do Rio de Janeiro]. (BARBOSA &
SILVA, 2005: 27)

Neste sentido, permanecer fora do campo visual dos brancos que viviam
nas áreas centrais era a condição urbana (GOMES, 2002) que se impunham aos
negros e pobres na cidade moderna do Rio de Janeiro no início do século XX.
Para freqüentar esses espaços, os negros precisavam obedecer à ordem
racializada que estabelecia comportamentos espaciais. Os discursos tácitos que
se estabeleciam no imaginário social urbano carioca eram, portanto: ponha-se e
permaneça no seu devido lugar; retire-se do campo visual onde não te pertence.
Assim, os cheios e os vazios não só de objetos urbanos do capitalismo que estava
se constituindo na capital federal no início do século XX, mas principalmente de
pessoas de carne e osso na cidade, foi seletivamente instituído por tensões sócio-
raciais. Os espaços da cidade modernizados e não-modernizados pelo "bota-
abaixo" dos finais do século XIX e principalmente pelas reformas urbanísticas de
Pereira Passos (1902-1906) instauravam um novo jogo de poder e violência que
visava o controle e a disciplina dos corpos classificados como negros na cidade.
Visto tanto como uma ameaça potencial e real com as insurreições e revoltas
neste período contra a demolição nos cortiços e casas de cômodo, a destruição
dos morros para a criação do aterro do Flamengo, a revolta da vacina, entre

177
outras.
Esse contexto para as elites brancas significava medo, insegurança e
ameaça das "classes perigosas" negras. Esse medo negro criava padrões
racializados de circulação no espaço urbano moderno. Atualmente este medo
urbano tem se reconfigurado com o empresariamento urbano e a fragmentação
sócio-política da cidade com os condomínios fechados de alto luxo. Ademais,
esses padrões influenciavam e influenciam decisivamente na vida diária, no
cotidiano, no habitar e na construção de formas espaciais. Portanto, o arranjo e o
ordenamento espacial se constituíam como trunfos para manter o status quo e
evitar sedições. Assim, práticas espaciais estabeleceram estruturas, organizações
e movimentos cumulativos e metamórficos na construção geográfica do Rio de
Janeiro moderno.
Embranquecer a paisagem, com vias de embranquecer o território
(SANTOS, 2009 mimeo) neste período de supremacia racial (HANCHARD, 2001;
TELLES, 2003) era a marca do projeto nacional definido pelas elites urbanas que
emergiam.
Hanchard (2001) e Telles (2003) afirmam que o transcurso do debate das
relações raciais no Brasil transitou da ideia da supremacia, a hegemonia a crise da
hegemonia racial. O papel dos intelectuais na organização da cultura (GRAMSCI,
1982) foi central na criação e reprodução desses distintos sistemas de dominação
racial, Cada uma dessas ideais foi marcada por períodos que elas preponderaram
(HANCHARD, op. cit.). Cremos, portanto, que aja a necessidade de estabelecer
uma periodização geográfica das ações que instauraram um conteúdo racial aos
objetos (substrato material)93.
Entendemos que cada um desses períodos engendrou padrões sociais de
racialização do espaço. Em outras palavras, o processo histórico gerou graus de
segregação do espaço de base racial em distintos momento e lócus da cidade.
Defendemos aqui, como Santos (mimeo), que as relações raciais grafam o
espaço, se constituem no espaço e com o espaço urbano no Rio de Janeiro. Um

93
É importante frisar que apontar a existência de conteúdo racial inscrito no substrato material não significa
aqui incorrer no equívoco de explicações ecológicas para a dinâmica das relações sociais. Estamos nos
afastando de tal posicionamento tributário da Escola de Chicago.

178
arranjo do espaço foi sendo criado tendo o Estado como protagonistas em acordo
com as classes dominantes com políticas de ‗planejamento‘ físico-territoriais
adequando o espaço urbano às demandas capitalistas (CAMPOS, mimeo).
Para nós, inspirados em Telles (2003) e Hanchard (op. cit.) esses períodos
podem a sim ser divididos. O primeiro entre 1880-1930 que afirmava uma
dominação totalitária do espaço com as teses de supremacia racial. O lócus
principal das ações na cidade foi à área central. O segundo período entre os anos
30 ao final dos anos 70 marcado pela urbanização capitalista do território e da
sociedade sustentado pela afirmação, a brasileira, de uma hegemonia racial com
as teses da democracia racial. O lócus principal de ações na cidade foi a Zona
Sul. O terceiro período é o qual vivemos, o lócus principal de ações é a Zona Sul e
toda área entorno da Barra da Tijuca. Em nosso entender este último período teria
iniciado nos anos 80 com a crise evidente das teses de hegemonia racial e a
emergência de forma explícitas de novos ativismo e movimentos sociais que lutam
contra a racialização do espaço.
Para Hanchard (op. cit.), o período da supremacia racial tem os seus marcos
no final do século XIX até as primeiras três décadas do século XX. Como já
apontamos a cidade do Rio de Janeiro, como capital federal, era o epicentro das
grandes transformações que ocorriam em todo o país.

Após a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República,


para os grupos dominantes identificados com o modelo branco da
prestigiosa civilização européia, tornava-se fundamental deter o
processo de ascensão, mesmo limitado e minoritário, e manter o
controle dos ex-escrav[izad]os e seus descendentes. [...] A
inferioridade biológica e cultural dos negros e os problemas
derivados da mestiçagem, constantes nas ―teorias raciais
nacionalizadas‖ 94, sincronizaram-se perfeitamente com o ideário
dos grupos dominantes, porém, nada disso era exposto
diretamente. Primeiro, porque definir publicamente a inferioridade
do negro seria uma forma de despertar formas de organização
societária homogêneas na população majoritária com a ordem
jurídica instalada, onde o modelo liberal regulamentava a esfera
pública. Muito mais efetiva era a construção de atributos, a partir
da vivência, das práticas, do cotidiano dos negros pobres de

94
Sobre as teorias raciais na Bahia, ver: Schwartz, Lilia Moritz. O espetáculo das raças. Cientistas,
instituições e questão racial no Brasil. 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. pp. 189-238.

179
Salvador [e outras demais cidades no país], tornados ―naturais‖ –
vadios, violentos, criminosos, alcoólatra, sem família organizada,
feiticeiro –, a caracterizar negativamente a sua situação.
(BACELAR, 2001:18)

Entendemos que este debate teve rebatimento geográfico com o transplante e


reimplante de paisagens derivadas (SORRE, 1961) dos povos tidos como
racialmente superiores – europeus ocidentais brancos – para embranquecer as
paisagens dos trópicos.
Contudo, Rolnik (2007) observa que as áreas segregadas ‗negras‘ nas
principais cidades do país apresentavam uma convivência com outros grupos. Em
São Paulo eram os italianos e no Rio era os portugueses. Contudo, em nosso
entender, esses grupos de imigrantes não sofriam violências físicas e distinções
raciais no acesso, no uso e na apropriação dos espaços e escalas como os
negros95.

O branqueamento, todavia, não poderia deixar de ser entendido


também como uma pressão cultural exercida pela hegemonia
branca [de caráter totalitário], sobretudo após a Abolição da
Escravatura, para que o negro negasse a si mesmo, no seu corpo
e na sua mente, como uma espécie de condição para se ‗integrar‘
(ser aceito e ter mobilidade social [melhor dizendo, sócio-
espacial]) na nova ordem social. (CARONE, 2009: 14)

Diversamente de São Paulo e dos estados do sul do país, o Rio de Janeiro


não teve um grande fluxo de imigrantes europeus após a Abolição (CARRIL, 2006;
ROLNIK, 2007). Contudo, é importante ressalta que a inscrição espacial do
racismo doutrinário em cada localidade do país tinha uma dimensão própria. Nas
localidades rurais construíram uma dinâmica distinta das cidades.
Em geral no campo essa inscrição do racismo doutrinário criava uma
apropriação e domínio racializada da renda territorializada ou da terra.

95
José Murilo de Carvalho lembra que:

“Em 1848, ao se discutir no Congresso um projeto de lei que regulasse a imigração, e tendo sido proposta a
naturalização do imigrante após 3 anos de residência, o senador Vasconcelos objetou dizendo não desejar que
o estrangeiro, confiado na lei, viesse a tomar cacete. A expressão usada por Vasconcelos foi essa mesma,
tomar cacete. Era este o privilégio do cidadão do novo país no depoimento de um dos representantes mais
típicos da elite política imperial”. (CARVALHO, 1999).

180
Percebemos que esta foi uma característica da questão racial no campo brasileiro
que já se enunciara com a lei de terra em 185096. Na capital federal (o Rio de
Janeiro) a dinâmica das relações raciais apresentava outra cara.

O Rio, até o período da expansão capitalista no Brasil, era uma


cidade muito mais importante do que São Paulo. Em 1872, os
negros compunham quase metade de sua população. Em 1887,
correspondiam a 37% decréscimo este que Raquel Rolnik atribui
ao declínio da produção cafeeira durante o período. Isso levou a
uma intensa migração de negros alforriados da periferia para a
cidade do Rio de Janeiro, à procura de trabalho. (HANCHARD,
2001: 46)

Desta forma entendemos que o alvo principal na capital federal na época não
era somente o embranquecimento da população, mas embranquecimento da
paisagem visando embranquecer o território, especialmente da área central. Os
pobres, em sua maioria negros, foram compulsoriamente deslocados para as
favelas nas proximidades da área central ou a ocupar espaços abertos ao longo
dos trilhos ferroviários que tinham sido inaugurados nos anos 70 do século XIX
(CAMPOS, 2006). As políticas de intervenção do Estado foram marcadas por
reforço e manutenção de valores segregacionistas (Idem). Esse processo produziu
uma sacralização racial de determinados espaços, isto é, espaços que foram
investidos de um conteúdo racializador no seu acesso, uso e a na sua apropriação
no seu processo de produção97.

A desqualificação dos africanos [e as suas formas de produzir e


organizar o espaço] segue os pressupostos desenvolvidos na
Europa, valorizando os que tinham a origem vinculada ao
continente como portadores de uma sociabilidade que não podia
ser encontrada em nenhum outro grupo social. Dessa maneira, de
acordo com a aparência, ser negro representaria ter pouca

96
Apenas por questões de foco, não entraremos neste debate, pois envolve uma complexa rede de agentes,
temas, referencial teórico e uma necessidade de outro tipo de periodização da questão racial. Percebemos que
este tem sido o foco de muitas lutas dos remanescentes de quilombos. Em outro momento mais apropriado
desenvolveremos esta tese.
97
Vários relatos informais e mesmo a experiência pessoal deste pesquisador apontam que esta sacralização
racial de determinados espaços permanece ainda hoje e em alguns casos se intensifica quando a presença
negra no campo visual ganha visibilidade pelo seu aspecto protagonista. Especialmente, os espaços culturais
fechados (teatro, cinemas, galerias de arte, centros culturais), espaços de poder e decisão (câmara de
vereadores, orgões públicos e privados, bancos).

181
aceitabilidade no seio da sociedade nacional, fundamentalmente
pela condição de escrav[izad]os em que se encontravam desde o
século XVI, constituindo-se como dos elos frágeis do sistema
social. (CAMPOS, 2006:33)

As reformas urbanísticas no início do século XX no Rio de Janeiro revelam


esta nova concepção de paisagem tida como racialmente superior que instaram
um novo ordenamento espacial na cidade com as mudanças do arranjo espacial
da cidade colonial para cidade capitalista moderna. O lado negro da paisagem é o
alvo. Essa leitura proposta apóia-se em evidências bastante concretas de
condições histórico-geográficas (BARBOSA, 1999) de rugosidades de uma cidade
colonial que passava a ganhar novos conteúdos. Assim o urbano moderno no Rio
de Janeiro nasce criando processos de segregação dos negros [não mais os
descendentes de africanos] e os pobres como estratégia de subordinação e
disciplina dos corpos no espaço.
Sodré afirma que ―a ideologia do embranquecimento foi uma maneira de
‗salvar‘ o racismo contra eventuais efeitos colaterais da Abolição. Era a passagem
do racismo de dominação ao de exclusão‖ (SODRÉ, 1992: 125). O negro no Brasil
não foi inquirido no projeto de país. Engendram-se novas relações de poder e de
violência, isto é, o imperativo ponha-se no seu lugar que passa a significar, ao
mesmo tempo, o saber a sua nova posição na ‗estrutura‘ sócio-espacial que se
constituía após a escravidão, logo uma hierarquização tanto social quanto moral
que se materializa no distanciar-se dos lugares onde os corpos brancos moram,
transitam, ascendem e estão sempre presentes na cidade.

A proibição, no Distrito Federal [que era na época a cidade do Rio


de Janeiro], do uso de tambores ou outros ritos ruidosos faz com
que as macumbas de umbanda se localizem nos municípios
limítrofes do Estado do Rio, que se incluem na região
metropolitana do Rio de Janeiro, embora estejam fora da
jurisdição administrativa do governo da cidade (Nilópolis, Caxias,
São João de Meriti etc). No perímetro desta, ficam as macumbas
de outra linha, que já tendem mesmo a perder o nome tradicional
de macumba, e são mais conhecidas por tendas, centros,
cabanas e, em regra, são as mais freqüentadas por elementos de
classe média e superior, não-negros. (PINTO, 1998 [1953]: 224)

182
Como essas práticas religiosas eram, neste período, praticadas
hegemonicamente pela população negra percebe-se que tal proibição fortalecia o
arranjo racializado construído com as teses do embranquecimento. Assim, o
ponha-se no seu devido lugar não era e nunca foi uma metáfora. Significa o
estabelecimento de ações políticas de gestão racializada do espaço que retira de
forma violenta direta ou indireta a população negra de pontos da cidade tidos
como hegemônicos ou de interesse da população branca racista. O que era tido e
visto como diferente a esta nova ordem espacial era ameaçadora, vista como a
mais. No entanto, esses a mais desperta fascínio. Deveria ser eliminada do campo
visual, invisibilizada, posta para ‗margem‘ e/ou embranquecida, mas preservada
para algum interesse dos brancos. Aos negros, seus territórios, suas paisagens e
seus espaços de referência identitária (especialmente os antigos quilombos, a
roda de capoeira, os espaços de batucada e terreiros das religiões de matriz afro)
restavam-se ‗dois‘ caminhos ser invisível e ser branco (FANON, 1983) que era
outra modalidade da invisibilidade. Gerava-se uma imposição escalar totalizadora
que o impediriam ascender de forma autônoma, como negro, a qualquer escala
geográfica (social, política, econômica e cultural).
As tensões que se estabeleciam no final do século XIX e nas primeiras
décadas do século XX estavam na afirmação racializadora da instituição do
imaginário social da [espacialidade] da sociedade e seus magmas de
significações. Criavam-se hierarquizações em contextos esperados e inesperados
aos negros. A grande maioria da população negra neste início de século XX
estava sistematicamente fora do projeto de nação com as tese do
embranquecimento e com a não criação de nenhum mecanismo de incorporação
dos ex-escravizados ou mesmo dos negros livres ao novo regime com a Abolição
e a República (SODRÉ, 1999).
Os imaginários racializadores eram importados da Europa vista
ideologicamente como o parâmetro para a construção do Brasil e das cidades
modernas civilizadas. Contudo, o início da urbanização da sociedade no Rio de
Janeiro criava também um ‗proletário urbano‘ que tinha um grande contingente da
população negra. As reações e os conflitos logo ganharam expressão e foram

183
múltiplos. O Rio de Janeiro e em São Paulo eram as principais cidades onde se
desenvolviam tanto ações de racialização do espaço pelas elites quanto
mudanças pioneiras na ordem social (PINTO, 1998 [1953])
O quadro de nossas relações raciais produziu uma diversidade e variedade de
associações negras que manifestavam contradições, diferenças ideológicas,
lideranças, objetivos, prestígio e papel próprio na sociedade como: as irmandades
de nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos, a umbanda,
o candomblé e uma pequena elite negra que criou uma imprensa.
A imprensa negra se constitui num momento de doutrinas do
embranquecimento do território e da população no Brasil.

Até o advento da Nova República, esta imprensa caracterizava-se


pela tentativa de fazer o negro integrar-se na sociedade global; os
textos, de feitio rebuscado e literário, noticiam aniversários,
casamentos, eventos sociais; veiculam protestos contra o
preconceito racial; incitam à educação como recurso de ascensão
social; condenam o alcoolismo e as práticas boêmicas. Predomina
a moral puritana, valorizada como meio de obtenção de
respeitabilidade e equiparação aos padrões brancos. (SODRÉ,
1999: 239)

Percebemos que nesta primeira fase a imprensa negra apresentava algumas


contradições. Ela era marcada por valores do embranquecimento social, mas, ao
mesmo tempo criava redes de informação, comunicação e afirmação política
voltado para um segmento da população negra. A educação tinha importância
estratégica para os segmentos mais pobres tanto para os claros quanto para os
escuros. Ao colocar a educação como meta para a população negra, este tipo de
imprensa difundia pelo território novos modelos cognitivos e atitudes buscando
orientar de forma tensa e contraditória trajetórias e comportamentos espaciais
desta população.

A segunda fase da imprensa negra98 coincide com a implantação


da Nova República pela Revolução de 30. A educação, que antes
fora percebida como meio ascensional, assume agora, no âmbito

98
A classificação das fases – 1915-30, 1930-37, 1945-63 e pós 70 – foi feita por Roger Bastide, citado em A
imprensa negra do estado de São Paulo, p. 52-54.

184
de uma política educacional gratuita incentivada pelo Governo
Federal, foros amplos de estratégia coletiva para negros. a
reivindicação política – impulsionada pela conquista do direito de
voto – toma corpo no movimento conhecido como ―Frente Negra
Brasileira‖, fundada em 1931, e o jornal A Voz da Raça sustenta
posições político-ideológicas assestadas contra o preconceito de
cor. (SODRÉ, 1999: 240)

Apesar do tom de protesto racial o horizonte de aprimoramento


escolarizado da consciência com fins de melhor se acomodar criando um cartão
de visita (falaremos disso mais à frente) para se acomodar na sociedade branca
com os seus valores racistas. O Estado Novo restringiu violentamente a imprensa.
Assim, a imprensa negra ressurge com o fim do período ditatorial, porém não há
mais o caráter ―reivindicatório nem a força de mobilização numérica que
caracterizavam a Frente Negra e que acabaram levando aquela entidade
transformar-se em partido político‖ (SODRÉ, 1999: 241).
Nos anos 30 o imaginário racista muda com as teses da democracia racial. O
papel de novos intelectuais na organização da cultura (GRAMSCI, 1982) será
central na mudança da inscrição espacial do racismo. A obra de Gilberto Freyre e
dos luso-tropicalistas tiveram grande papel de destaque. Estamos neste momento
passando do fim da supremacia para a hegemonia racial na produção, no acesso,
uso e apropriação de espaços e escalas dos anos 30 aos anos 70 camuflados
pelo discurso da democracia racial (HANCHARD, 2001). Contudo, as políticas de
branqueamento ainda eram vigentes na Era Vargas. Elas se revelavam no
branqueamento da população e dos imaginários nacionais levadas a cabo nos
livros didáticos de Geografia da época (SANTOS, 2009 mimeo).
Desta forma, ideologicamente dilui-se as tensões raciais na espacialidade da
sociedade que estava em embrião. Esse foi o papel em nosso entender dos luso-
tropicalistas tendo Gilberto Freyre a sua principal figura na legitimação de uma
nova ordem sócio-espacial diluindo o conteúdo antigo arranjo que embranquecia
as paisagens.

Quando um grupo dominante assume a liderança – isto é, o


desenvolvimento de influências políticas, intelectuais e culturais
que se correlacionam com seu poder econômico e coercitivo –, as

185
tarefas principais passam a ser conciliar e intermediar, influenciar e
persuadir grupos recalcitrantes ou mesmo de oposição a aceitarem
uma nova rubrica política. Desse modo, o grupo dominante pode
realizar uma ‗revolução [espacial] passiva‘ na sociedade civil,
universalizar seu programa de ação e seus interesses [a partir da
criação de um arranjo e ordenamento espacial das relações
raciais] sem necessariamente apelar para o uso constante da força
física ou econômica [...] o grupo social dominante pode transigir
em algumas dimensões da luta entre os grupos subordinados, a
fim de manter o domínio total, ou enfatizar certas facetas de sua
interação com grupos subalternos, para manter situações de
desigualdades em outros. (HANCHARD, 2001: 36)

Este novo período foi marcado por vários momentos. Um primeiro sub-período
dos anos 40 aos 50 e um segundo sub-período dos anos 50 até o fim dos anos 70.
Hasenbalg (Idem) aponta que nas décadas de 1940 e 1950, entrou em cena uma
perspectiva reducionista que foi bastante influenciado pela obra de Freyre de que
o preconceito contra o negro é de classe e não racial. Afirma-se ideologicamente
então a não existência de barreiras à ascensão social (de negros e mulatos) e,
concomitantemente, barreiras na espacialidade urbana aos negros.

Nos anos quarenta, o aumento da urbanização no Brasil levou á


migração, quase toda não branca, de estados de produção mais
agrícola e artesanal, como Bahia, Pernambuco, e Minas Gerais,
para os dois maiores centros urbanos do país: Rio de Janeiro e
São Paulo. (HANCHARD, 2001: 46)

As tese da democracia racial e dos luso-tropicalistas buscava criar não um


imaginário urbano, mas um imaginário de harmonia das relações raciais em todo o
território nacional. Muitas críticas foram feitas mas essas teses foram logo
assumidas pelo Estado como símbolo de nossa brasilidade.
Em 1944, no Rio de Janeiro foi criado o TEN (Teatro Experimental do Negro)
apresentado críticas as teses de harmonia social entre brancos e negros. A
primeira tentativa foi em São Paulo, mas não teve êxito. Fundado por um grupo de
artista, ativistas negros e profissionais liberais, o TEN foi liderada por Abdias do
Nascimento. Abdias Nascimento já tinha intenso destaque na luta contra o
preconceito racial, as teses da democracia racial e dos luso-tropicalistas. Abdias

186
do Nascimento veio ao Rio de Janeiro com um grupo de negros de São Paulo
para

[...] protestar contra a tentativa dos comerciantes da Rua Direita,


desta cidade, de proibir que pessoas de cor se concentrassem
naquela via pública aos sábados à tarde, alegando que com isso
tinham prejuízo, pois a presença de pretos afugentava a freguesia
branca, de maior poder de compra. (PINTO, op. cit.: 247)

O TEN foi fundado com o objetivo inicial de ser uma companhia de produção
teatral passou também a assumir a outras funções culturais e políticas como:
campanhas de alfabetização em pequena escala, cursos de ‗iniciação cultural‘ e
se tornou a força propulsora do jornal Quilombo. O TEN afirma a negritude num
contexto de resquícios de teses do branqueamento e de afirmação das teses luso-
tropicalistas. Apesar das tensões que se estabeleceu entre posturas individualistas
e elitista voltadas para as massas, o TEN instara tensões nos espaços de
representação ao estabelecer novos horizontes da população negra.

No período do pós-guerra, diversas organizações e jornais negros


prosperaram por um breve intervalo no Rio de Janeiro e em São
Paulo, exibindo aspirações semelhantes às do TEN. Em São Paulo,
a Associação dos Negros Brasileiros, fundada em 1945, também
lançou o Alvorada como seu jornal oficial. A Associação Cultural do
Negro, fundada em 1954, publicava O Mutirão, lançado em 1958.
Houve outros jornais, como O Novo Horizonte, Senzala e Hífen, no
período entre 1945 e 1960. Todas essas publicações tinham
tendências normativas da época: ascensão social, necessidades de
uma elite negra e clamor pela igualdade de direitos. (HANCHARD,
op. cit.: 131)

Neste período também em algumas cidades brasileiras como Rio de


Janeiro e São Paulo foram fundados clubes sociais para elites negras que
funcionavam como espaço de sociabilidade, de celebração da negritude e de
referência identitária99.

99
Esses espaços eram múltiplos, pois iam dos espaços construídos para a celebração, sociabilidade e de
referência identitária das elites negras como Elite e o Renascença (RJ), e o Aristocrata (SP), as agremiações
de escolas de samba e seus espaços de encontro nas tradicionais feijoadas das senhoras (Tias) mais velhas, aos
pagodes de fundo de quintal. Um traço marcante em todos esses espaços era que a distinção no acesso, uso e

187
O clube [Renascença] foi fundado em 1951 por um grupo de
pessoas negras que, sentindo-se discriminadas nos clubes sociais
existentes na cidade, então Distrito Federal, decidiram criar um
espaço social próprio, no qual pudessem estar livres de
constrangimentos e pressões, isto é, como disse um dos
entrevistados, pudessem “estar à vontade”. (GIACOMINI, 2009:
141)

Em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo que passavam neste período
por um intenso processo de urbanização, mas não eliminava distinções raciais no
acesso, no uso e na apropriação de espaço e escalas, a criação desses espaços
semi-privado de celebração, sociabilidade e de referência identitária, como os
clubes sociais, os espaços de representação negra pelo Teatro Experimental do
Negro e as rede de comunicação de base racial via imprensa negra reforçava
outros sentidos de liberdade e autonomia não conquistado após abolição que
eram tão reforçado pelos movimentos negros. Desta forma, as lutas sociais negras
passavam a ter pertinência por esses veículos e espaços, assim como dimensão e
proporção dos fenômenos ligado a população negra eram visibilizados, em outras
palavras, ganhavam escala.
Os anos 50, especialmente na segunda metade, também foi marcado pela
perda política do Rio de Janeiro como capital federal com a transferência da
capital para Brasília. Neste momento o papel da afirmação da hegemonia racial
pelos intelectuais orgânicos das elites dominantes no Rio de Janeiro será central.
O grande impacto será a partir do momento que passam a definir as paisagens e
contextos sócio-espaciais da democracia racial. A praia, o carnaval (o
Sambódromo) e mais à frente o campo de futebol (o Maracanã) ganham a senda
para afirmam paisagens e contextos sócio-espaciais de um país cordial e
democrático racialmente. Constrói-se agora uma dissimulação das tensões raciais
para afirmar uma nova imagem da cidade para o mundo. Nesta lógica,

Brancos, negros e mestiços se relacionam harmoniosamente


(desde os primórdios da época colonial e tudo por obra e graça

apropriação em relação aos negros era praticamente inexistente, em outras palavras, eles não tinham a entrada
impedida, o uso e a apropriação regulados pela aspecto racial.

188
das distintas propensões culturais e sexuais dos portugueses) e
todos os brasileiros, em geral bastante miscigenados, usufruem
oportunidades semelhantes. Estamos no terreno da ‗democracia
racial‘ freyreana. (HASENBALG, 1992:11)

O papel dos intelectuais na organização da cultura da democracia racial


elegerá paisagens e contexto sócio-espaciais sínteses da harmonia das relações
raciais: a praia, o campo de futebol e o carnaval tornam-se paradigmas deste
discurso ideológico, aonde tais tensões raciais seriam eliminadas ou suavizadas.
Sansone (apud HASENBALG) chamará de áreas moles, espaços e contextos de
interação que as tensões nas relações raciais seriam menos explícitas. Este
processo se constituiu sob inúmeras tensões forjando aquilo que chamamos
anteriormente de coexistência de anulação e negação que apesar das ‗brechas‘
aos negros em relação ao período anterior, elas só se constituem com a
eliminação da sua liberdade e a incorporação deste sistema normativo. As
hierarquizações passam a se evidenciar em contextos inesperados, mas sempre
tidas como eventuais.
Nos anos 60 a dinâmica muda novamente com o novo regime autoritário. As
práticas espaciais que criam um arranjo e ordenamento espacial das relações
raciais, especialmente com a Ditadura Militar, se fortaleceram através das
remoções de favelas, das áreas e bairros de maioria da população branca com a
suburbanização dos pobres e negros. Ou seja, agora o embranquecimento das
paisagens não é mais da área central, mas sim, da zona sul da cidade do Rio de
Janeiro.
Retirar do campo visual passou a significar a grande meta. Desta forma, a
construção de grandes conjuntos habitacionais longe da área central e dos
possíveis lugares, com conteúdos de importância para o mercado imobiliário. O
núcleo, deste processo, é a antecipação espacial, efetuada pelos agentes
imobiliários que anteviram uma forte valorização do preço do solo urbano.
(CORRÊA, 1989; CAMPOS, mimeo)

Neste sentido, as décadas subseqüentes à 1960, representou um


outro patamar de história urbana. Os grupos deslocados de suas
moradias para áreas distantes, reapareceu em novas

189
ocupações/favelas em locais ainda não habitados, próximos aos
diferentes mercados de trabalho, que, em outra ocasião, este
autor entendeu como uma ―inversão de crescimento: a cidade
cresceu para ―dentro‖, sobretudo em áreas ocupadas por maioria
de pretos e pardos‖ (Campos, 1998, 2002). Este procedimento
provocou um maior esgarçamento do tecido sócio-espacial, como
aponta Souza (2002), sem precedente na sociedade carioca,
tema que ainda se encontra em aberto para amplos estudos na
Geografia. (CAMPOS, mimeo: 37)

O processo de segregação no espaço urbano carioca ganha nova escala e


qualidade, pois um grande contingente populacional de indivíduos negros são
acrescidos nos municípios do entorno da cidade do Rio de Janeiro. É importante
sinalizar a periferização da população pobre e negra já estava ocorrendo desde o
final do século XIX acompanhado o crescimento da malha urbana. Campos (2006)
aponta que o processo de segregação do espaço de base racial era marcada
tanto pelas intervenções governamentais quanto pelo mercado imobiliário que se
constituía. Contudo, este novo período (anos 30 aos anos 70) se diferencia do
anterior, pois agora a suburbanização dos pobres e negros é imposta de forma
ainda mais direta e violenta com as remoções criando uma hegemonia racial nos
espaços de maior infra-estrutura urbana e que seria beneficiadas com o acesso, o
uso e apropriação exclusiva de amenidades sociais e ‗naturais‘. A zona sul do Rio
de Janeiro torna-se um bem oligárquico sob a uma hegemonia racial branca.
Esse período coincide com o período de urbanização capitalista do território e
da sociedade brasileira, em particular a carioca que teve juntamente com São
Paulo, um dos mais intensos processos de urbanização de todo o antigo ‗terceiro-
mundo‘. Como no Rio de Janeiro predominou uma urbanização voltada para
setores de comércio e serviços, como nos alertou o rapper P. Júnior 100 , a
aparência corpórea foi perversamente inquirida no acesso, a espaços e a escalas.
Logo a aparência negra ou afrodescendente foi preterida.

100
Não estamos desprezando a dinâmica da industrialização no Rio de Janeiro, desde Vargas ela sempre
desempenhou um papel importante impulsionando a urbanização. Apenas estamos enfatizando, a partir da
experiência de espaço de um entrevistado que o setor terciário predominou no Rio de Janeiro.

190
Assim a hegemonia racial terá uma relação muito intensa com a gestão
racializada do espaço que cria urbanidades de acesso, uso e apropriação
racializados.
Tanto o crescimento urbano horizontal quanto o crescimento urbano vertical no
Rio de Janeiro terão graus de racialização do espaço. O crescimento urbano
horizontal será marcado pela segregação do espaço de base racial que possui
heranças do período anterior. Esse tipo de segregação na cidade do Rio de
Janeiro tem sido alvo dos trabalhos de Campos (2006) e Garcia (2006).
Já o crescimento urbano vertical também será marcado pela racialização no
acesso, uso e apropriação dos espaços e escalas.
A criação dos elevadores nas grandes cidades pelo mundo expressa o
processo de verticalização e um novo símbolo da modernidade urbana no século
XX que possibilitou, através de um sistema de engenharia (SANTOS, 1988),
construir uma arquitetura que pudesse exemplificar o exercício de poder e de
violência das elites urbanas. Casos de discriminação racial no elevador não são
exclusivos do Brasil. O que particular no Brasil é a divisão entre elevador social e
de serviço.
Nas grandes cidades brasileiras esse objeto da modernidade foram
politicamente utilizado como um instrumento de poder e violência (ARENDT, 2004)
para afirmar hegemonias e em alguns casos, supremacias raciais no acesso, no
uso e na apropriação de determinados ‗patamares‘ do espaço. Os prédios nas
grandes cidades brasileiras se constituíram com símbolo de poder de controle e
disciplina dos corpos racializados. Contudo, esses símbolos de poder buscaram
afirmar, através de um meio que permite mediações, ou seja, o elevador funciona
como um instrumento de poder e violência de afirmação da hegemonia racial e
espacial.

Elevador é quase um templo. Templo para minar seu sono. Sai


desse compromisso, não vai no de serviço, se o social tem dono
não vai. Quem cede a vez não quer vitória. Somos herança da
memória. Temos a cor da noite, filho de todo açoite, fato real de
nossa história. (Coisa de Pele – Jorge Aragão)

191
A separação do elevador social do elevador de serviço 101 , além de dar
dimensão espacial ao caráter patrimonialista das elites urbanas, estabeleceu uma
distinção racial no acesso, no uso e na apropriação deste meio (o elevador) que
permite outras mediações com escalas e espaços de poder e decisão102.
Nos prédios mais antigos em várias cidades brasileiras permanece ainda a
marca colonial dos quartos microscópicos feitos para as empregadas,
majoritariamente negras, dormirem no trabalho. Locais no fundo da casa, onde
serviam também de almoxarifado do dono do apartamento definindo o lugar das
empregadas domésticas não só na casa ao colocá-lo juntos dos objetos que não
prestam, mas também em toda a sociedade. Em outras palavras, tanto no
exemplo da inscrição racial no acesso e uso dos elevadores sociais quanto da
marca do racismo colonial nos quartos de empregadas restringi e/ou impede-se a
apropriação irrestrita dos espaços e das escalas de poder pela assunção da
aparência corpórea dos indivíduos. Ademais, esta separação retira o negro do
campo visual dos brancos. Estabelece-se a partir desse conjunto de ações aquilo
que chamamos anteriormente de gestão racializada do espaço (MOORE, op. cit.)
que busca regular a visibilidade dos negros para posições subalternizadas.

Ser negro na sociedade brasileira, por exemplo, geralmente


significa ter um padrão de vida inferior e menos acesso a serviços
de qualidade nas áreas de saúde e educação do que os brancos,
mais significa também criminalidade, licenciosidade e outros
aspectos negativos, considerados inerentes ás pessoas de
ascendência africana [pela dinâmica de dominação racial]
(HANCHARD, 2001; 30)

Os dados do IBGE do ano 2000 abaixo confirmam esta nossa tese de que o
crescimento vertical urbano no Brasil103 foi marcado por graus de racialização no

101
Existe também a modalidade de proibir a entrada dos empregados (geralmente negros) pela área social
destinando a área de garagem e/ou de serviço. Ou seja, restitui novamente, como na época da escravidão, aos
negros a condição de objeto. Por todo o Brasil ações do Ministério Público e dos Movimentos Negros têm
denunciados tais ações como discriminação social de base racial.
102
Os elevadores ao mesmo em tempo que permitem o acesso a novos platores eles, simbolicamente,
expressam a dinâmica verticalizada do exercício de poder. Não é a toa que morar numa cobertura é revestida
de uma imagem de poder.
103
Garcia (2006) aponta que Salvador também possui dados muito parecidos com os da cidade do Rio de
Janeiro em alguns aspectos. Há, portanto, a necessidade de avaliar com mais intensidade especialmente os

192
acesso, uso e apropriação desses espaços. Os conflitos raciais nos elevadores é
apenas uma variável que demonstra como segregação e distinção se combinam
no plano empírico quando avaliamos os grupos raciais que se tornaram
hegemônicos neste tipo de domicílio.

QUADRO VII - Tipo de Domicílio no Município do Rio de Janeiro

Cor ou Raça
Tipo de Domicílio no Município do Rio de Janeiro Branca Negra

Casa 56,4% 78,6%

Apartamento 42,6% 19,2%

Cômodo 1,0% 2,0%

Total 100,0% 100,0%

Fonte: Elaborado por Nós encima dos dados do IBGE 2000 apresentados por Garcia (2006)

Segundo as informações do IBGE 2000, a maior parte da população negra


vive em domicílios do tipo casa. Os negros são menos da metade, em relação a
população branca, vivendo em apartamentos e são o dobro em relação à
população branca vivendo em cômodos, ou seja, em domicílios com baixa infra-
estrutura.

De um lado, fica evidenciado, nesta distribuição, que apartamento


é um tipo de moradia preferencial das áreas da orla marítima, com
sua bela vista para o mar, em confortáveis condomínios e, do
outro, há ainda os conjuntos de apartamentos para a classe
média baixa em áreas urbanas menos valorizadas, construídas
por decisão do Estado e do capital imobiliário como ―alternativa‖

apartamentos de cobertura em áreas de grande infra-estrutura e prestígios social nas cidades brasileiras se
constituem ou não como uma gestão racializada do espaço. Tendemos a entender que sim, mas cremos que
seja necessário uma pesquisa sobre o tema.

193
ao mercado informal da habitação, por limitações de recursos das
classes populares. (GARCIA, 2006:125/126)

Lembremos que o crescimento vertical no Brasil surgiu nos anos 60/70 para
atender os interesse das classes médias e alta que buscavam se beneficiar de
uma localização privilegiada no espaço urbano.

Dos 42,6% dos brancos que moram em apartamento, 79,45% a


99,32% concentram-se na Zona Sul, Barra e Jardim Guanabara, e
os restantes em outras áreas da cidade. Os negros de classe
média, por sua vez, ocupam o mesmo território, mas de forma
muito restrita, como em Salvador. Note-se que no Jardim
Guanabara a participação negra é quase inexistente, o que
confirma o ―gueto‖ da burguesia quase toda branca. (GARCIA,
2006: 126)

MAPA XIV – Distribuição Espacial de Apartamentos por Cor ou Raça – Rio de


Janeiro - 2000

194
Fonte: Elaboração própria, a partir da amostra do Censo 2000 (IBGE).

A espacialização dos apartamentos no Rio de Janeiro revela não somente a


tendência dos brancos de se localizarem em áreas tradicionalmente ricas, mas
também, as áreas providas de maior infra-estrutura urbana pelo estado. Os negros
estão mais concentrados na área central e segundo Garcia (op. cit.) em
condomínios de prédios para população de baixa-renda no subúrbio.

A grande presença desse contingente [da população


afrodescendente para esse mesmo autor] em alguns bairros do
subúrbio carioca, nos dias atuais, também deve ser atribuída às
mudanças imposta à dinâmica sócio-espacial dos grupos
subalternizados ao longo do século XX, sobretudo após os anos
50 [...] (CAMPOS, 2006: 116)

Hasenbalg (op. cit.) sinaliza que na década de 60 os temas do preconceito e


discriminação passaram a serem vistos a partir de duas perspectivas
interpretativas: o reducionismo e o assimilacionismo. As teses luso-tropicalistas
sustentavam a hegemonia racial foram complementadas com visões
economicistas de caráter estruturalista que estavam sendo muito difundidas nos
meios acadêmicos neste momento.

195
No primeiro caso [reducionismo], raça e relações raciais foram
tratados como epifenômenos de outras características mais
fundamentais, a saber, classe social, estrutura e dominação de
classe. Na outra interpretação [assimilacionista], preconceito e
discriminação raciais são visto como manifestações de atraso
cultural, legado do passado escravista. Assim, a raça e a relações
raciais são uma espécie de falsa aparência que uma ordem social
futura (a sociedade de classes ou o socialismo) deverá eliminar.
Por trás desta perspectiva parece existir um modelo abstrato de
atraso de sociedade industrial (ou de uma ordem social burguesa)
em que tendencialmente o mérito individual no mercado
competitivo é o único determinante das chances de vida.
(HASENBALG, op. cit.:11)

Para este autor, a persistência [e a insistência] histórica do racismo não é


apenas um mero legado do passado, mas serve aos complexos e diversificados
interesses dos grupos racialmente dominantes e hegemônicos no presente (Idem).
Vemos que Hasenbalg (op. cit.) teme uma análise historicista, no qual
concordamos com o autor. É preciso identificar as heranças, mas também,
entender as novas causas que estaria promovendo a sujeição das pessoas
identificadas como negras104. Um elemento ressaltado por Hasenbalg (op. cit.) e
que percebemos que contribuiu, diríamos que indiretamente, para a afirmação da
hegemonia racial foi à ausência de estatísticas raciais em vários períodos.

Sem risco de exagero, pode-se dizer que, desde a época de


Giorgio Mortara no IBGE, nos anos 40 e 50, até a segunda
metade dos anos 80 [momento em que se viu a força na
Geografia Brasileira do Pensamento do IBGE], a demografia racial
no Brasil é um vazio mal preenchido por sociólogos [e geógrafos]
aficcionados às estatísticas. (HASENBALG, op. cit.:13)

Ou seja, o momento que o IBGE tinha grande ressonância no pensamento


geográfico brasileiro, que se pese as críticas desta influência, foram eliminadas da
metodologia do censo, as estatísticas da população por critérios raciais. As
ausências de informações censitárias sobre cor/raça da população também já
haviam acontecido em um período anterior, o da supremacia racial (HACHARD

104
A própria idéia de ser negro foi mudando na história brasileira ao longo do século XX. Todavia, sempre
conservou alguns resíduos irredutíveis, como diria Lefebvre (1974) ligados à corporeidade.

196
op. cit.) e embranquecimento da população e da paisagem (no censo de 1900 e
1920 não registraram a cor/raça da população; e em 1930 não houve censo). É
bom que se ressalte que não estamos querendo afirmar que a falta de informação
teria gerado poucos estudos demográficos pela Geografia 105 . Estamos apenas
apontando que uma instituição que fornece dados e informações para o
planejamento de organismos privados e públicos com governos municipais,
estaduais e o federal, como o IBGE, invisibilizou as desigualdades sociais de base
racial e estabeleceu uma imposição escalar de caráter institucional ao silenciar os
problemas sociais de base racial. Porém, isso não significou que uma investigação
geográfica preocupada com o tema se constituiu em linhas de pesquisa, mesmo
em períodos que o IBGE utilizou a categoria cor/raça.
Hanchard (op. cit.) afirma que a introdução da política na identidade racial afro-
brasileira torna-se um fenômeno significativo no movimento afro-brasileiro neste
período. Este fato repercutiu nos objetivos dos ativistas e políticos afro-brasileiros
na década de 1980.

Foi somente na segunda metade da década de 70 que a raça (ou


a cor), como atributo social elaborado, passou a ser tratada como
um esquema classificatório e um princípio de seleção racial que
está na base da persistência e reprodução de desigualdades
sociais e econômicas entre brasileiros brancos e não-brancos.
Partindo desta nova ótica, é possível propor a idéia de que a raça
ou a filiação racial deve ser tratada como uma variável ou critério
que tem um peso determinante na estrutura das relações sociais,
tanto no sentido objetivo quanto subjetivamente. Objetivamente,
na medida em que a raça é um determinante importante das
chances de vida das pessoas [na construção de devires].
Subjetivamente, no sentido do pertencimento racial (mesmo não
sendo, no caso do Brasil, um atributo unívoco e sim mais
relacional e situacional) estar associado a identidades raciais que
implicam uma socialização e aprendizado do lugar de diferentes

105
Vários são os temas das relações raciais, apenas neste sub-campo, que poderiam ser investigados com uma
contribuição geográfica. Hasebalg (op. cit.) provoca indiretamente aos geógrafos ao falar dos poucos estudos
das dimensões demográficas pertinentes às desigualdades raciais, como o caso dos padrões de migrações
internas, desenvolvimento econômico regional e urbanização dos grupos de cor. O mapa, um instrumento
tradicionalmente utilizado pelo geógrafo, vem sendo apontado como estratégia de espacialização dos
problemas raciais que os geógrafos ainda não perceberam. Esses estudos tem sido, mas desenvolvido por
economistas a exemplo das análises de Marcelo Paixão e seu laboratório de pesquisa o LAESER que tem
produzido enormes contribuições para o tema e municiado ações de movimentos sociais.

197
grupos raciais no espaço e hierarquização sociais. (HASENBALG,
op. cit.:11/12 – Grifos Nossos)

Percebemos já aí um cientista social reclamando a dimensão espacial das


relações raciais e do racismo no Brasil. Assim, vemos que geograficamente o
esgotamento do período anterior (o da hegemonia racial) coincide com o fim do
ordenamento espacial imposto pelas políticas de remoções. Políticas que em
nosso entender também tinham critérios raciais nas suas ações, pois, hoje há uma
grande similitude entre as áreas onde se concentra a população negra na cidade
com o destino das populações removidas.
Hanchard (op. cit.) e Telles (2003) finaliza a sua periodização das relações
raciais no Brasil com o que chamou de crise da hegemonia racial. Para este autor,
os anos 70 e 80 seriam este marco inicial. Essa crise está relacionada a afluentes
externos e internos. Os afluentes internos estavam relacionados às críticas dos
movimentos negros e um pequeno número de intelectuais negros havia
ingressado nas universidades e potencializavam as críticas a democracia racial, o
crescimento do movimento de gênero dentro do movimento negro. Já os afluentes
externos foram: a modificação da atitude de certas agências internacionais face ao
apoio oferecido às organizações de defesa e apoio as comunidades negras, à
abertura da renovada esquerda com a distensão da Ditadura, para novos temas
como a questão racial; as conseqüências da proliferação dos movimentos direitos
civis e das ações afirmativas nos EUA, da negritude e de libertação na África, a
black soul no Rio de Janeiro (que teria coincidido com período mais repressor da
ditadura entre 1969-1975) e, em menor proporção em São Paulo.
Sobre os chamados bailes blacks que se espalharam rapidamente por todo o
Brasil, esses espaços de sociabilidade, celebração e de referência identitária da
diáspora negra globalizada gerou intensas tensões com os luso-tropicalistas.

No plano da propaganda e das comunicações, a imagem


difundida da união nacional era da máxima importância e qualquer
referência à desarmonia racial, dentro ou fora do Brasil, estava
proibida. Os censores do cinema foram instruídos a verificar se
algum filme retratava problemas raciais no Brasil, se versava
sobre o movimento Black Power nos Estados Unidos, ou se aludia

198
a problemas raciais de um modo que pudesse causar impacto no
Brasil (Johnson e Stam, 1982) [...]
Na época em que recebeu cobertura da mídia, no fim da
década de 1970, o Black Soul foi criticado pelo governo militar –
que procurou invocar a ideologia cada vez mais falida da
democracia racial – e pelas elites civis que se opunham à ditadura
mas que, apesar disso, acreditavam que os expoentes do Black
Soul estavam fomentando o ódio e conflitos raciais. Os dois
setores viam o Black Soul como fenômeno que precisava ser
controlado. (HANCHARD, op. cit.: 137)

Críticas de autoridades, mesmo de sambistas e escolas de samba eminente


eram feitas a Black Soul. O medo se apresentava tanto nas elites civis como
militares de que a Black Soul torna-se um prenúncio para movimento de protesto
afro-brasileiro (HANCHARD, op. cit.) muito parecido com o medo das elites no
século XIX, em toda a América Latina que a experiência haitiana se replicasse em
outras localidades. Percebemos aí que o medo das elites está relacionado à
tomada de consciência dos negros tornando-se sujeitos políticos.
A crise da hegemonia racial era tão explícita que Gilberto Freyre se manifestou
contra a Black Soul em tom verborrágico num artigo intitulado ―Atenção,
Brasileiros‖, publicado em 15 de maio de 1977 no Diário de Pernambuco.

Será que estou enxergando mal? Ou terei realmente lido que os


Estados Unidos vão chegar ao Brasil (...) norte-americanos de cor
(...) por quê? (...) para convencer os brasileiros também de cor de
que seus bailes e suas canções ―afro-brasileiras‖ teriam que ser
de ―melancolia‖ e de ―revolta‖? e não, como acontece hoje (...) os
sambas, que são quase todos alegres e fraternos. Se o que li é
verdade, trata-se, mais uma vez de uma tentativa de introduzir,
num Brasil que cresce plena e fraternamente moreno – o que
parece provocar ciúme nas nações que também são birraciais ou
trirraciais –, o mito da negritude, não do tipo do de Senghor, da
justa valorização dos valores negros africanos, mas do tipo que às
vezes traz a ―luta de classes‖ como instrumento da guerra civil,
não do Marx sociólogo, lúcido, mas do outro, do inspirador de um
marxismo militante que é provocador de ódios (...). O que se deve
destacar, nestes tempos difíceis que o mundo está vivendo, com
uma crise terrível de liderança (...) (é que) o Brasil precisa estar
preparado para o trabalho que é feito contra ele, não apenas pelo
imperialismo soviético (...) mas também pelo dos Estados Unidos
[...]. (apud HANCHARD, op. cit.: 138)

199
O esforço de Gilberto Freyre e de seus seguidores eram de manter a
hegemonia da democracia racial como núcleo de nossas relações raciais. Esses
autores passam a explorar paisagens emblemáticas como a praia, as roda e
festas de samba e o futebol, em contraposição as outras formas de leitura das
nossas relações raciais que manifestações e lutas sociais estabeleciam, mesmo
que indiretamente, como os bailes de música negra no Rio de Janeiro.
Neste período também o samba e a umbanda já haviam se nacionalizado e
eram disputados pela classe média branca. O samba passou a ser utilizado por
essa classe média como símbolo da autenticidade da cultura brasileira de matriz
afro para o combate a Black Soul. A capoeira passou por um processo parecido.
Contudo, no cotidiano da maioria dos moradores essa dicotomia não se realizava
já que muitos bailes Black Soul eram realizados em escolas de samba.
Houve também os que viam os bailes black como formas de controle social e,
os mais conservadores, como festas de controle das pulsões sociais da população
pobre e negra.
A crise da hegemonia foi também provocada pela emergência de novas
organizações negras que dava nova escala política as lutas sociais por várias
cidades brasileiras como: os encontro de entidades negras e a semana do negro
na arte e na cultura em São Paulo, o CECAN (Centro de Cultura e Arte Negra), o
FECONEZU (Festival Comunitário Negro Zumbi), os jornais (jornegro, a ACACAB
(Associação Casa de Arte e Cultura Afro-Brasileira), o grupo Evolução (Campinas
– SP) que teve grande influência nos líderes que criaram o MNU (Movimento
Negro Unificado).

No Rio de Janeiro, as duas organizações mais destacadas que


surgiram na década de 1970 foram a Sociedade de Intercâmbio
Brasil-África (SINBA) e o Instituto de Pesquisa das Culturas
Negras (IPCN). [...] o SINBA era considerado o grupo mais
africanista, enquanto o IPCN era retratado (um tanto
depreciativamente, em alguns círculos do movimento) como mais
americanista. Os aspectos positivos do que era percebido como
americanista eram a defesa do protesto social direto, em prol dos
direitos civis, e o desenvolvimento de instituições negras que
ficassem à altura das brancas. Os aspectos negativos – na mente
de alguns de seus detratores – eram a preocupação com a

200
mobilidade individual e a aceitação acrítica do capitalismo como
força social dinâmica. (HANCHARD, op. cit.: 143)

Passaríamos agora então pelos desdobramentos da virada nas relações


raciais que se engendraram nos anos 70/80 (Idem). A criação do MNU
(Movimento Negro Unificado) em 1978.
Com a Constituição de 1988 e o centenário da abolição, colocou-se no plano
jurídico-político o direito à terra, que historicamente foi um bem oligárquico de
hegemonia racial branca, aos quilombos, a legislação antirracista entra numa nova
fase, pois o crime de racismo torna-se inafiançável e imprescritível. Este fato
permitiu o desenvolvimento de uma legislação ordinária pormenorizada dos tipos
de conduta e delitos passíveis de punição legal. O deputado federal Carlos Alberto
Caó teve grande importância nesta nova fase da legislação antirracista. Várias
mudanças passaram a serem feitas nesta legislação visando corrigir defeitos da
legislação anterior.

Como derivação todos os crimes denominados ―raciais‖ estão fora


do alcance dos crimes de pequeno potencial ofensivo, cuja
competência é atribuída aos Juizados de Pequenas Causas,
regulada pela Lei 9.099, de 27 de setembro de 1995. Assim, o
processamento das ações penais de natureza racial ocorre nas
varas criminais. As alterações produzidas no Código Penal, desde
a Constituição de 1988, partiram do desejo de considerar o
racismo algo de alto repúdio pela sociedade brasileira, punível com
penas duras e processadas diante do espaço jurídico mais formal.
(CARVANO & PAIXÃO, 2008:169)

Portanto, tais ações no campo jurídico-político expressam lutas por direitos


sociais a população negra e afrodescendente que acabam sendo envolvidas em
tensões pelo acesso, uso e apropriação de espaços escalas de poder por todo o
país106. Uma rede de proteção mais fortalecida começa a se constituir criando uma
retaguarda jurídica a todos que sofrem de racismo e/ou algum constrangimento
racial. Contudo, como veremos ainda prenhe de muitos defeitos.

106
Entendemos que ter acesso a um trabalho também significa a possibilidade de acessar determinadas escalas
de poder e decisão em âmbito público e privado. Desta forma, as tensões apresentadas nos TRT também
expressam atritos, restrições e impedimentos ao acesso a escalas de poder e decisão.

201
O aumento do número de casos de racismo nos tribunais nos últimos anos
expressa o fortalecimento dessas redes de proteção que começaram a ser criadas
com a luta dos movimentos negros e antirracistas 107 . No entanto, os trâmite
desses processos demonstraram muitas falhas na legislação e na sua execução
pois casos de racismo são classificados como de injúria.
Entendemos que um novo arranjo e ordenamento espacial das relações raciais
na cidade do Rio de Janeiro no final dos anos 90 travestidos de recolocação da
cidade no cenário mundial de cidades, o city-marketing, vem atualizando o debate
ideologizado da democracia racial como a imagem e discurso da cidade a ser
vendida para o mundo 108 . Estes discursos e imagens buscam construir uma
lealdade cívica (SANCHEZ, 2004) de quem for contra tal idéia está prejudicando o
país. Portanto, essas imagens e discursos buscam eliminar os conflitos de base
racial tanto do passado quanto do presente.

[...] essa imagem da Bahia [do Rio, de Recife, e outras cidades do


país], vivendo em harmonia com o novo e o velho, o colonial e o

107
Na base de dados Júris/LAESER foram encontrados no período de 01 de janeiro de 2005 a 31 de
dezembro de 2008, 232 casos de racismo julgados nos Tribunais de Justiça (TJ) e 41 casos nos Tribunais
Regionais do Trabalho (TRT) julgados em segunda instância.
Pelo fato do TJ julgar indivíduos comuns na esfera jurídica e física, bem como entes públicos
municipais e estaduais o número de casos é bem maior que os TRT que recebem demandas oriundas das
relações de trabalho, isto é, apresentam uma competência especializada.
O primeiro entre 2005-2006 com 84 processos julgados entre 01 de janeiro de 2005 a 31 de
dezembro de 2006. O segundo período entre 2007-2008 com 148 processos julgados entre 01 de janeiro de
2007 a 31 de dezembro de 2008.
O número de casos não significa necessariamente o número de vítimas e réus, pois um número
expressivo de casos uma ação representa um conjunto de vítimas frente a um conjunto de agressores.
Os dados demonstram que os indivíduos do sexo masculino são as principais vítimas de crimes de
racismo. Foram 48 casos no primeiro período e 68 casos no segundo período acima aludidos. Isso significou
um aumento de cerca de 42% do número de casos de ações por crime de racismo julgadas pelo Tribunal de
Justiça do primeiro para o segundo período.
No entanto, o aumento percentual do primeiro para o segundo período das vítimas do sexo feminino
foi muito maior. 30 casos no primeiro período e 56 casos no segundo período de vítimas do sexo feminino.
Isto é, um aumento de cerca de 87% do número de casos de ações por crime de racismo julgadas pelo
Tribunal de Justiça do primeiro para o segundo período. É importante novamente lembrar que os eventos de
discriminação não ocorrem puros. Eles se misturam a outras hierarquizações. Portanto, o dado acima
demonstra uma relação dos eventos de discriminação com a discriminação econômica e as discriminações de
gênero.
No primeiro período 84 casos 30 eram vítimas do sexo feminino. No segundo dos 198 casos, 56
eram vítimas do sexo feminino.
108
As campanhas publicitárias para a candidatura e/ou propaganda dos grandes eventos tem colocado a
democracia racial como foco ao exportar esse tipo de representação não só para atrair investimentos, mas
também, dissimular os conflitos de nossa sociedade.

202
moderno, deriva da ideia da mistura e harmonia racial da Bahia.
Entretanto, Imbassahy [prefeito de Salvador] deixa de mencionar
a violência envolvida na aquisição da terra onde os fortes foram
construídos, ou as escravizações forçadas de povos africanos e
indígenas cujo trabalho criou esses monumentos que perduram
até hoje. (PERRY, mimeo)

As tentativas de eliminar as clivagens raciais visam assim, camuflar a


coexistência de anulação e negação de direitos tanto para os de dentro da cidade
e do país quanto para os de fora.
Ademais, como já apontamos anteriormente, as obras de renovação e
revitalização urbana que visam transformar a cidade em uma mercadoria têm
também removido e expulsado a população negra dos espaços que
historicamente habitavam para as periferias urbanas mais distantes (PERRY,
mimeo) longe do campo visual dos espaços vitrines (ROLNIK, 1988) do turismo
internacional109.
Nos anos 90 a questão racial ganha a escala de poder político institucional
reforçando a luta histórica do movimento negro no Brasil.

[...] desde o início dos anos noventa, alguns prefeitos e


governadores começaram a instituir ‗secretarias de assuntos
negros‘; criou-se no âmbito do governo Federal a Fundação
Palmares, destinada à promoção da cultura afro-brasileira; um
negro elegeu-se prefeito de São Paulo, a cidade mais próspera do
país. Cidadãos de pele escura começaram a entrar em partidos
políticos, tanto de esquerda como de direita. Um grande número
de bandas e grupos musicais negros passou a freqüentar os
dispositivos da cena pública, sempre com discursos de politização
da identidade racial. (SODRÉ, 1999:248)

Essas inserções políticas da questão racial nas escalas de poder se


intensificaram com as ações afirmativas (a lei 10.639/03 e as cotas nos serviços

109
O negro que aparece nos espaços vitrines (ROLNIK, 1988) nas políticas de marketing urbano é geralmente
estilizado com: a baiana de acarajé com seus trajes típicos, as performances de danças e percurssão de
„projetos sociais‟, o negro sambista ou o jogador de futebol.
Lembro do depoimento de um amigo referindo aos grupos de pagode (em geral negros) contratados
para ficar tocando o dia inteiro na praia de Copacabana para os turistas. Essas práticas que estetizam a cultura
(JAMESON, 2004) negra despolitiza os seus significados.

203
públicos e nas universidades) que buscam promover reparações, mas
principalmente, outras trajetórias a uma parte da população negra.

A ideia de reparação foi sempre associada à experiência da


escravidão. Assim, no momento da Frente Negra 110 nos anos
1930 em São Paulo, discutiam-se já os meios para por em prática
medicas de educação e de trabalho para os antigos
escrav[izad]os es seus descendentes. Durante o primeiro
congresso nacional afrobrasileiro, que se deu nos anos 1930111 , a
questão foi abordada outra vez. O Teatro Experimental do Negro
(TEN) [...] reclamava também reparações ‗específicas para os
negros‘ no campo da cultura. [...] [Mas esse tema] teria se
difundido mais amplamente apenas a partir dos anos 1970,
tomando sentido de ‗compensar a história e compensar pelas
desigualdades‘. (SAILLANT, 2009: 206/ 207)

Assim, a análise dos diferentes arranjos espaciais que se constituíram na


cidade ao longo da sua história urbana moderna permite investigar as marcas
visíveis da racialização do espaço, as tensões como ativismos e movimentos
negros e concomitantemente as mudanças de conteúdo e percepção dessas
áreas. A avaliação destes tempos que inscreveram no espaço marcas racistas ao
longo da história urbana moderna carioca nos tem permitido apontar que elas são
persistentes, disseminadas e renovadas criando uma espécie de revolução
espacial passiva, isto é, mudança na organização espacial para se manter a
dominação já que vários estudos têm demonstrado que a desigualdade racial na
organização do espaço e a pobreza concentrada na população negra têm se
mantido estável ao longo da história (HENRIQUES, 2001) com pouquíssimas
mudanças. Desta forma, os discursos que afirmam que nunca houve, no Brasil, a
intenção de segregar por critérios raciais não se sustenta.
As tensões que se estabeleceram na inscrição espacial da questão racial no
Rio de Janeiro não podem ser vista através de uma análise maniqueísta que
afirma por um lado de vitória total das lutas negras ou, por outro, de dominação
pura do embranquecimento do território e da paisagem. No mundo da vida os

110
Fundado em 1931, esse movimento foi importante na luta contra a discriminação racial e pela difusão de
seu jornal A voz da raça. Contudo, ele não foi consensual em razão de seu alinhamento com a direita política
e de suas tendências racistas. Ele se constituiu em partido em 1936 que foi dissolvido quando do governo
Getúlio Vargas.
111
Mais exatamente, o primeiro „congresso afrobrasileiro‟ ocorreu em 1939.

204
fenômenos sociais não operam nestes maniqueísmos, não são um jogo de perde
e ganha. Não queremos sugerir, é obvio, que as tensões e contradições dessas
lutas se justificam pura e simplesmente. Cada uma dessas lutas e ativismos
sociais (da Imprensa Negra, as repercussão da Frente Negra Brasileira no Rio de
Janeiro, ao Teatro Experimental do Negro, do movimento black soul, as diferentes
organizações políticas negras como o Movimento Negro Unificado, ao Hip Hop)
são frutos das contradições de seu tempo e que marcaram a evolução urbana no
Rio de Janeiro.
Portanto, a análise do lugar sócio-espacial imposto ao negro envolve os
estudos de segregação, pois revelam o processo histórico de localização e
distribuição dos grupos raciais como uma das lógicas da produção do espaço.
Diferentemente, do negro como lugar, que apresentaremos no próximo capítulo
que envolve a análise das distinções no acesso, no uso e apropriação da cidade,
ou seja, as tensões na circulação dos negros pelos espaços e contextos da
cidade.

3.2. A condição negra do urbano: o negro como lugar no Rio de


Janeiro

Entendemos que é importante um cuidado teórico e metodológico nos


estudos da espacialização da questão racial no Brasil. Quando sugerimos
inicialmente o debate da segregação não estamos somente ligando à condição e a
posição socioeconômica do negro no espaço da cidade. Esse falso debate que se
estruturou nas propaladas ideais de 'inclusão e exclusão' dos negros tem gerado
mais dificuldades analíticas que entendimento do problema. A chamada 'inclusão'
não tem garantido aos negros uma vida qualificada e a eliminação de preconceitos
e discriminações. Portanto, o debate é mais complexo que se imagina.
A segregação do espaço de base racial é produto de formas de
organização racial pretéritas e ações no presente no espaço urbano que
distribuem desigualmente os indivíduos na cidade pela aparência corpórea. Em
geral, tal atitude busca construir uma hegemonia racial de alguns grupos no

205
acesso, uso e apropriação de espaços e escalas. Desta forma, a segregação se
articula com outras modalidades de racialização do espaço, como a distinção
racial pelo fato avaliar a mobilidade sócio-espacial dos negros na cidade.
Apesar da segregação e a distinção racial agirem em conjunto e criarem
formas de articulação, no entanto, possuem dimensões próprias. Logo, as políticas
de combate a essas formas de hierarquização são distintas. Os estudos que
buscam avaliar o grau de espacialização da questão racial têm privilegiado os
estudos de segregação. Não achamos isso um equívoco, mas, entendemos que
existe a necessidade de complexificar tal debate, pois o número de casos de
eventos de discriminação com processos judiciais têm aumentado no Brasil.
Mesmo com políticas afirmativas ou as políticas com foco na pobreza,
indiretamente tem beneficiado a população negra e pobre e diminuído o grau de
segregação do espaço de base racial na cidade, como o programa Bolsa
Família112, o debate de combate à segregação tem tido uma marca economicista.
Portanto, tais políticas ao desprezar as dimensões espaciais têm produzido
processos de segregação em áreas já segregadas113.
Ao mesmo tempo em que o número de eventos de discriminação tem
aumentado e ganhado a escala jurídica-política, como expressam os dados do
LAESER, eles tem expressado lutas por reconhecimento e redistribuição
(FRASER, op. cit.) que buscam eliminar as distâncias e fronteiras instituídas pelo
dominador.
Todavia, muitas atitudes criadas para acessar o plano jurídico por pessoas
que são ou foram vítimas de eventos de discriminação são desacreditas até
mesmo por instancias criadas para defender os direitos contra crimes de racismo.
Um relato que nos foi feito de uma pessoa vítima de racismo (o rapper Prettu

112
Não entraremos aqui no mérito de avaliar a natureza desta política social, o seu alcance e desdobramentos.
Apenas estamos ressaltando que o número de indivíduos atingidos são majoritariamente pobres e negras, em
especial as mulheres em todas as regiões. Somente na região sul que as mulheres brancas são mais
beneficiadas que as negras. A população de mulheres negras que são beneficiadas pelo programa é: mais de
12 vezes maior do que a de homens negros; é quase o triplo das mulheres brancas e é quase 36 vezes mais que
a população de homens brancos, segundo as fontes do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a
Fome, tabulados pelo LAESER no Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2010.
113
A Unidades de Polícia Pacificadora da favela Santa Marta na cidade do Rio de Janeiro, segundo Arrais
(2010) tem se constituído em políticas de foco econômico turístico que tem (re)produzido desigualdades e
construído processos de segregação nas áreas de favela. Cf. (ARRAIS, 2010).

206
Júnior que analisaremos mais detidamente a frente) praticado por policiais
militares na cidade do Rio de Janeiro reforça esta nossa ideia. Quando Prettu
Júnior chegou à delegacia para registrar boletim de ocorrência, o delgado vendo
que os agressores eram policiais e que estes também estavam fazendo boletim de
ocorrência contra a vítima alegando desacato e desobediência, o delegado
‗aconselhou‘ a vítima de racismo a pedir desculpas aos agressores e dar o caso
por encerrado. Quando Prettu Júnior não aceitando o ‗conselho‘ do delegado e
acionou, um advogado, este deu o mesmo ‗conselho‘ 114 . Percebemos nesta
atitude deste servidor público (o delegado) as marcas do racismo institucional que
apontamos anteriormente.

Assim, a incidência do racismo institucional perpassa quatro


dimensões presentes nos modos de pensar e agir dos
profissionais das diferentes agências do poder público que
prestam serviços à população: atitudes discriminatórias,
preconceito inconsciente, ignorância e falta de atenção, ou
naturalização para com os estereótipos racistas vigentes na
sociedade. Todos esses vetores levam à introjeção de valores
normativos e que tornam normais as diferentes formas de
atendimento às pessoas dos distintos grupos de cor ou raça.
(PAIXÃO: 153)

O racismo institucional expressa ações, interesses e mecanismos de


inclusão precária perversa e subalterna perpetrados pelos grupos racialmente
dominante nas instituições sociais e na estrutura de organismos de governo. O
objetivo dessa forma de racismo é a regulação e o controle dos aparatos do
Estado (legislativo, executivo e judiciário), portanto, das escalas de poder e
decisão.

3.2.1. Táticas Espaciais de Distinção Racial

114
Desta forma, a luta por direitos das pessoas vítimas de racismo no Brasil passa primeiro pelo „julgamento‟
inicial das primeiras autoridades que encaminha o caso. Aqui se encontra a primeira possibilidade de
desclassificação de crime de racismo. Depois o tempo do tramite jurídico de tal ação em diferentes fóruns e
posteriormente as decisões tanto na primeira quanto na segunda instância. E por último o número de casos
que são julgados como improcedentes, meros mal entendidos ou penalizados com penas meramente
simbólicas. Assim, a escala da luta por direitos está diretamente relacionada ao percurso judicial.

207
Quando falamos que os eventos de discriminação apresentam táticas
espaciais distintas estamos buscando qualificar as práticas racistas que enunciam
e projetam distâncias e fronteiras com que um indivíduo ou grupo não quer tecer
relações. Engendram-se assim, distinções no acesso, no uso e na apropriação de
determinados espaços e escalas. Sansone (apud Hasenbag, 1998) em pesquisa
com jovens negros baianos exemplifica o que estamos chamando de distinção.
Sansone (Idem) afirmou que são instituídas áreas moles e áreas duras na
circulação de pessoas classificadas como negras. As áreas moles são contextos
em que a aparência corpórea e os valores morais, intelectuais, estéticos e
culturais afrodiaspóricos não apresentam importância na interação ou nos
contextos onde o negro, no discurso racial dominante, não cria implicâncias e
reclamações. Percebemos, portanto, a submissão é um critério posto de forma
subliminar para o exercício de uma pretensa liberdade. Ou como diria a música,
―endossando impunidade a procura de respeito‖115
Já as áreas duras expressam contextos em que a aparência corporal e os
valores estéticos, culturais, intelectuais e morais afrodiaspóricos apresentam
grande importância na interação social. Por isso, as diferenças raciais são
mobilizadas na forma de verticalidades e hierarquias, produzindo e reproduzindo
inequivocamente as desigualdades raciais (SANTOS, mimeo). Mas, Sansone
refere-se sempre a contextos sociais.

As áreas duras são, basicamente, as do trabalho, sobretudo a


procura do trabalho, o mercado matrimonial e o mercado da
‗paquera‘ e, finalmente, a área de contatos com a polícia. Eu
[Hasenbalg] gostaria de acrescentar como área dura a escola, a
educação formal. [...] [as] áreas moles, nas quais a cor das
pessoas não tem maior importância. Elas são, sobretudo, as
atividades de lazer, o futebol, o bar etc., mas também a Igreja
Católica e as Igrejas de Crentes. Nestes contextos, ser negro não
tem muita importância e as pessoas não falam muito de raça e
racismo. Há também outro tipo de áreas moles que o autor chama
de cultura negra. No caso da Bahia são os blocos afro, a batucada,
os terreiros religiosos e a capoeira. Estes são os chamados
‗espaços negros explícitos‘, onde os negros são hegemônicos e
onde os brancos que querem participar têm que negociar as
condições de participar. (HASENBALG, 1998:16)
115
Música Tribunal de Rua banda o Rappa. Cd Lado B Lado A.

208
A proposta de Sansone apontada por Hasenbalg (1998) ao mesmo tempo
em que expressa os itinerários a se desenvolver, mas também, limites,
especialmente quando ele dá os exemplos. Há estudos que vem relativizando e
desmistificando as chamadas áreas moles (ALCANTARA, 2005; PINHO, 2004;
HERSCHMAN, 2002; s/d; GUIMARÃES, 2000; SODRÉ, 1999;). Cremos que a sua
análise seria mais densa se romper à dicotomia entre o social e o espacial. Desta
forma, os contextos são sócio-espaciais.
Para Santos (mimeo: 11) analisando a áreas moles e duras de Sansone:

[...] fazer uma leitura das relações raciais a partir da sua


espacialidade implica admitir que estes ‗espaços‘ são, na
verdade, ‗contextos de interação‘. Há na nossa sociedade um
complexo padrão de relações raciais que mistura, no cotidiano
das relações sociais, momentos onde há interações marcadas por
horizontalidade, integração e igualdade entre brancos e negros e,
ao mesmo tempo, outros momentos onde há verticalidades,
hierarquias e diferenças que são transformadas em
desvantagens, ou vantagens desiguais entre estes grupos. Esta
mistura entre momentos de horizontalidade e momentos de
verticalidade é que vai permitir que, a um só tempo, convivam em
nossa sociedade (i) uma representação de si própria como sendo
uma ―democracia racial‖ e (ii) a reprodução e a consolidação de
desigualdades sociais baseadas em raça, o que deveria ser
extirpado caso horizontalidade, integração e igualdade fossem
princípios ordenadores das relações raciais vigorando em todos
os momentos da construção do tecido social.

Assim podemos afirmar que as áreas moles ensejam um acontecer


solidário e as áreas duras um acontecer hierárquico (SANTOS, 2002) em que a
profundidade de cada acontecer é balizado pelo lugar e pelo período de tempo
das interações. Em outras palavras, o acontecer é balizado espaço-temporalmente
e tanto no solidário quanto no hierárquico está inscrito por relações de poder. A
diferença é que no hierárquico também se explicitam violências (físicas e
simbólicas). Santos (mimeo) aponta alguns exemplos que aponta a complexa
inscrição espacial de nossas relações raciais.

209
[...] dois amigos, um branco e um negro, se apresentam em busca
de uma vaga de emprego. Neste momento há, como situação
predominante em nosso tecido social, uma vantagem do
postulante branco em relação ao postulante negro – o acesso ao
emprego é um dos campos onde a assimetria é a marca das
relações raciais, inclusive nas situações em que há igualdade nas
variáveis que poderiam configurar diferenciais entre os
postulantes (mesma qualificação, mesma idade, etc.). Estes dois
postulantes podem ser os melhores amigos, e, ao sair da
entrevista, se põem a comentar ―Como foi a sua entrevista? O que
te perguntaram?‖, sentados numa praça, ou dentro do ônibus a
caminho de suas casas. Neste momento, eles voltam a ter uma
interação marcada pela horizontalidade nas relações inter-raciais,
momento este que foi sutilmente precedido por outro onde a
assimetria era a tônica. E se, quando estão ambos dentro de um
ônibus, este veículo de transporte coletivo for parado pela polícia?
Terão igualdade de tratamento? As chances de ser abordado pela
polícia, e ter um tratamento de desrespeito e suspeita por parte do
policial são as mesmas? Este exemplo que reúne situações
corriqueiras na nossa sociedade mostra como a mudança de
padrão pode se dar no mesmo lugar, em momentos diferentes, ou
em lugares diferentes: espaço e tempo aqui são flexionados de
acordo com o que está em questão em cada ―contexto de
interação‖.

Assim, a distinção racial no acesso, no uso e na apropriação de espaços e


escalas combina e hierarquiza múltiplos pertencimentos (religioso, gênero,
sexualidade, instrução, classe) onde se estabelecem diferenças nas posições e
nos padrões de interação racial, mesmo quando apresentam trajetórias sociais
são parecidas (SANTOS, mimeo).
Entendemos que o caminho sugerido por Sansone de áreas moles e áreas
duras oferece um interessante itinerário para a nossa proposta de distinção racial
no acesso, no uso e na apropriação de espaços e escalas, pois ela relativiza e
problematiza a ideia de mobilidade social ao identificar a continuidade, e em
muitos casos, a acentuação da discriminação racial para indivíduos negros que
ascendem economicamente. Por esse motivo, vemos a necessidade de precisar
essas questões no âmbito da teoria geográfica. Entendemos que os protagonistas
de táticas racistas criam práticas espaciais visando produzir distâncias e demarcar
fronteiras racializadas. Elas agem em geral articuladas. Separamos apenas para
efeito didático. Percebemos em nossa pesquisa 05 padrões de distinções raciais
criadas para impedir e/ou restringir de forma direta ou tácita o acesso, o uso e a

210
apropriação de determinados espaços e escalas de poder e decisão. São elas:
invisibilidade e/ou hipervisibilidade racializada, coação e coerção racial,
transferência de crédito e de capital, retirada de crédito e de capital e o discurso
do caos, da desordem, do medo e da ameaça racializados. Vejamos cada um
deles.

 Invisibilidade e/ou Hipervisibilidade Racializada

São ações que buscam demarcar campos visuais e de visibilidades dos


negros nos espaços e contextos onde podem ou não freqüentar e participar
livremente. Isto é, onde a presença da sua corporeidade torna-se cômoda,
incômoda ou percebida como estereotipada e/ou subalterna no espaço-tempo.
Essa tática espacial é a expressão mais contundente do que estamos chamando
de imposição escalar ao rebaixar a existência de um indivíduo de uma vida plena.
No clássico romance de Ralph Ellison (1990) sobre a invisibilidade sofrida
pelos afro-americanos nas cidades dos EUA, assim ele nos informa:

Sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como os que


assombravam Edgar Allan Poe; nem um desses ectoplasmas de
filmes de Hollywood. Sou um homem de substâncias, de carne e
osso, fibras e líquidos – talvez se possa até dizer que possuo um
mente. Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as
pessoas se recusam a me ver. Tal como essas cabeças sem corpo
que às vezes são exibidas nos mafuás de circo, estou, por assim
dizer cercado de espelhos de vidro duplo e deformante. Quem se
aproxima de mim vê apenas o que me cerca, a si mesmo, ou os
inventos de sua própria imaginação – na verdade, tudo e qualquer
coisa, menos eu. (ELLISON, 1990: 07)

Ser invisível é ser indiferente. Para Ellison (Idem) a invisibilidade decorre da


disposição do olhar na interação carregado de representações e memórias
estereotipadas. Logo, ser invisível é uma luta para tornar as coisas reais e no ato
de auto-afirmar a sua existência significa apontar outras trajetórias na gestação
como sujeito político. ―A produção de ‗invisibilidade‘ não deve ser lida como
incapacidade do outro em se adaptar, mas como negação da própria história‖

211
(CAMPOS, 2006: 41). A invisibilidade torna o negro estranho e estrangeiro em seu
próprio território (SILVA, mimeo). Estes fatos têm colocado o debate da
visibilidade como um dos temas centrais da questão racial brasileira.

Na minha opinião, o cerne da questão é a visibilidade.


[...] A nossa dificuldade é a necessidade de você visibilizar.
O negro aqui é invisível [ou hipervisível pelo estereótipo] ninguém
sabe direito onde ele está. [...] É preciso que ele seja mais visível
socialmente, porque você só fala como sujeito político quando tem
visibilidade pública. A política é a fala do cidadão, e você só sabe
que o sujeito é cidadão quando olha e reconhece que ele está ali,
que ele existe. E nos lugares da fala da cidadania não tem negro.
(MUNIZ SODRÉ In: COSTA, 2009: 254/255)

Neste sentido, o que está em jogo é o campo da visibilidade e da


visualidade da corporeidade negra em determinados contextos espaços-temporais
e escalas como forma de afirmação de um sujeito político tanto na esfera pública
quanto privada116.
O branqueamento do território e da paisagem se constituiu historicamente
como uma tática espacial de invisibilização da população não-branca (negra e
indígena) (SANTOS, 2009 mimeo). Logo as representações do espaço têm uma
marca racializada. As formas de recalcamento estabelecidas não são apenas dos
aspectos positivos do grupo invisibilizado, mas também, de suas experiências de
tempo-espaço.

É muito comum você entrar em alguns lugares e dar de cara com o


olhar desconfiado do porteiro, de algumas pessoas ao redor, do

116
Os quilombos no período da escravidão expressavam bem esta diferença entre visibilidade e visualidade.
A proliferação de quilombos em vários momentos no período escravocrata, segundo a historiografia, era
visível tanto para as elites quanto para os negros escravizados que o viam como um espaço de liberdade e
resistência. No entanto, a grande maioria dos quilombolas ou mesmo de negros fugidos que não criavam
quilombos era estabelecer estratégias geopolíticas de permanecer longe do campo visual das elites
escravocratas, pois, neste contexto, o isolamento era um trunfo (GOMES & REIS, 1996).
Este exemplo é expressa que se enganam aqueles que supõem que, por ser invisível e morar em
condições precárias, este esteja morto (ELLISON, 1990). A invisibilidade pode ser vantajosa, embora seja
desgastante para o invisilizado. Assim, “[...] quem vivem a invisibilidade o tempo que já vivi desenvolve uma
certa engenhosidade” (Idem: 10).
Mesmo com a „emancipação‟ dos negros após a escravidão não se constituiu a esses grupos sociais o
reconhecimento de um direito ao espaço (GEORGE, op. cit.). Pelo contrário, estratégias foram criadas para
eliminar a sua presença do campo visual de algumas partes da cidade. Apesar das inúmeras formas de
branqueamento da população, das estatísticas, das paisagens e do território, o negro, nunca foi uma minoria.

212
garçom num restaurante. O fato de no Brasil nunca tenha tido uma
lei de segregação escrita não quer dizer que culturalmente não
exista. Não é à toa que a polícia quando nos aborda, pede
documento e livra um branco, às vezes com status inferior ao meu.
Em geral, as pessoas não negras não se dão conta disso. Veja um
shopping da zona sul, a expressiva maioria de trabalhadores é
branca, se houver um negro é na faxina ou na segurança, e nas
lojas tem que procurar muito para achar. E ainda há quem diga
que o preconceito é social e não racial. (IVANIR DOS SANTOS In:
COSTA, 2009: 244)

Esta tática espacial racializadora aponta um intenso entrelaçamento entre a


segregação e a distinção racial ao agir subalternizando e silenciando tanto áreas
estigmatizadas quanto na presença inferiorizadas de pessoas negras em áreas de
hegemonia da população branca.
Assim, ao apontarmos o campo da visualidade do corpo negro na cidade do
Rio de Janeiro na contemporaneidade, estamos nos referindo as tensões
expressas no cotidiano de inúmeros negros(as) e afro-descendentes que são
suprimidos do campo de visão e/ou hipervisibilizados por estereótipos e
discriminações. Este campo é muito capcioso. Ora se apresenta com discurso
claro e objetivo de subjugação dos negros sob a simulação de uma diversidade do
povo brasileiro (o discurso da democracia racial), o famoso indivíduo que todos
ficam olhando deixando subentendido a pergunta/resposta: o que você está
fazendo aqui agora? Ponha-se e permaneça no seu devido lugar só saindo no
momento que a hierarquia social definir. Logo o olhar hegemônico inscreve a
espacialidade que o negro transita.

O ato de olhar fixamente e com reprovação pode ter um efeito


devastador para jovens [ou melhor, pessoas de todas as idades]
que são constantemente discriminadas. Um olhar reprovador
revela uma expressão de repúdio e fere a auto-estima de um ser
humano em formação. Ao contrário do que defende Elaine Scarry
(1999), olhar fixamente para alguém ou alguma coisa não significa
necessariamente uma reação de aprovação ou apreciação. O
olhar fixo reifica, tornando pessoas que possuem determinados
fenótipos em objetos de aversão. Além disso, fixar o olhar sobre
alguém é um ato carregado de poder. (PINHO, 2004: 117)

Assim como a visualidade do corpo negro passa a ser posta como visível

213
justamente para discriminar, ela também se apresenta sob o simulacro da
indefinição de quem é negro e quem é branco no Brasil. Neste podemos encontrar
casos que mesmo sendo visualmente reconhecido socialmente como afro-
descendente este indivíduo pode negar tal identidade para não ser preterido no
acesso, no uso e apropriação de determinados espaços e escalas. Sentir-se igual
aos brancos para não ter que enfrentar distâncias e fricções espaciais como os
negros. Vários casos de depoimentos de pessoas mestiças que nos foram feitas
que se sentiam brancas e tornaram-se negras após uma tensão racial inesperada.

Em geral, o homem de cor, no Brasil, toma consciência aguda da


própria cor nos momentos de conflito, quando o adversário procura
humilhá-lo, lembrando-lhe a aparência racial, ou por ocasião do
contato com pessoas estranhas, podendo passar longos períodos
sem se envolver em qualquer situação humilhante, relacionada
com a identificação racial. Isto é verdade, principalmente, para o
homem de cor que vive numa pequena comunidade, onde
predominam os contatos primários e onde, portanto, os indivíduos
se conhecem pessoalmente uns aos outros. À medida que
aumenta a freqüência dos contatos secundários, se torna mais
constante, para o indivíduo de cor, o risco de ser tratado em
função dos traços raciais – e, portanto, de um estereótipo – pelo
menos nas situações de contato categórico (NOGUEIRA, 2007).

Já quando sugerimos o campo da visibilidade da corporeidade negra na


contemporaneidade estamos apontando a nossa análise para a perspectiva de
como vem se tornando públicos razões que fundamentam e reivindicam direitos
sociais e espaços de representação aos negros. Assim, afirma-se uma ética de
princípios e normas norteadoras das práticas dos indivíduos classificados e/ou
identificados como negros ou adeptos das culturas afrodiasporicas a serem
respeitadas, reconhecidas e dignificadas.
Desta maneira, a hiper e a invisibilidade produzem aquilo que chamamos
de imposição escalar e uma coexistência de anulação em que um simulacro de
integração cultural/simbólica é produzido convivendo com subordinações nos
planos sociais, políticos e econômicos.

Um jovem pobre e negro caminhando pelas ruas de uma grande

214
cidade brasileira é um ser socialmente invisível117. Como já deve
estar bastante claro a esta altura, há muitos modos de ser invisível
e várias razões para sê-lo. No caso desse nosso personagem, a
invisibilidade decorre principalmente do preconceito e da
indiferença. Uma das formas mais eficientes de tornar alguém
invisível é projetar sobre ele ou ela um estigma, um preconceito.
Quando o fazemos, anulamos a pessoa e só vemos o reflexo de
nossa própria intolerância. Tudo aquilo que distingue a pessoa,
tornando-a um indivíduo; tudo o que nela é singular desaparece. O
estigma dissolve a identidade do outro e a substitui pelo retrato
estereotipado e a classificação que lhe impomos.(SOARES, 2005:
175)

Logo, tais formas de discriminação racial supõem inclusão precária,


perversa, subalterna e uma hipervisibilidade de estereótipos nos espaços de
representação, especialmente da grande mídia e da propaganda. Essa
hipervisibilidade, em verdade, significa uma visibilidade diferenciada e desigual do
corpo negro (RATTS et. al, 2006/2007). Esses autores apóiam-se no seguinte
exemplo exposto por Gonçalves (2002: 278).

Falamos, também com o nosso corpo, pois eles portam os


saberes nos gestos. Um negro no Brasil não entra numa agência
bancária de cabeça erguida, olhando de um lado para o outro,
procurando um amigo. Ele sabe, com seu corpo, o racismo que
quase sempre o vê como um ladrão, o que pode lhe ser fatal, ou
lhe proporcionar mais um momento de humilhação. Esse negro
pode até não falar sobre racismo ou ter participado do movimento
negro, mas ele, com certeza, sabe o racismo. O negro sabe que
tem que entrar de cabeça baixa porque a sociedade é racista.

Ademais, as táticas espaciais de invisibilidade buscam apagar da memória


de determinados lugares não só a presença negra, mas também, o seu
protagonismo, os seus espaços de sociabilidade e de referência identitária,
especialmente os locais de hegemonia da população branca. O sul do país é um
exemplo. SILVA (mimeo) fazendo uma análise crítica dos discursos que
embranquecem as histórias do povoamento de Londrina e do sul do país

117
É evidente que esta não é uma realidade que se possa generalizar. Descrevo uma situação típica para
identificar alguns padrões, simplificando a diversidade de situações para reduzi-las a um modelo que sirva de
ferramenta interpretativa. Nem todo jovem é igual, nem toda circunstância é igual, nem é igual à reação que
provoca e tampouco é igual o sentimento gerado por cada reação. Além disso, enquanto a madame de classe
média não enxerga determinadas realidades, outros personagens humildes das ruas vêem detalhes que
escapariam ao mais atento observador, treinado na melhor universidade.

215
apresenta um relato de um jovem, nordestino, morador da região central de
Londrina nos últimos seis anos, ao ser questionado sobre o seu bairro.

Quando eu cheguei aqui eu morei na (Rua) Rio de Janeiro, centro


de Londrina e eu me via um estrangeiro no país assim, porque era
muito visível a forma como as pessoas me tratavam por eu ser
negro e por eu ser de outro lugar, por eu ser, mais
especificamente, do nordeste. Ser nordestino numa cidade do Sul.
Eu senti muito isso aqui. (...) Desde o tratamento das pessoas
quanto eu estar passando de um lado e ela atravessar a rua, não
por eu estar mal vestido, simplesmente por eu ser negro. Isso eu
senti e não só na rua, até mesmo quando eu tentei conseguir um
emprego aqui, naquela época. Eu lembro certa vez que eu fui
fazer um emprego numa empresa, fazer uma entrevista de uma
empresa de um jornal daqui de Londrina no qual eu iria trabalhar
com o telemarketing e nesse mesmo dia, não só eu quanto os
demais concorrentes da vaga perceberam que eu, diante da
dinâmica que eles tinham passado assim pro grupo, até eles
perceberam que eu seria a pessoa mais capaz assim de
desenvolver um bom trabalho assim nessa vaga. E todo mundo
ficou de cara porque eu não consegui, e eu não consegui
imaginar outra forma se não por eu ser negro (Antonio, 28 anos,
MC118). (SILVA, mimeo:)

Contraditoriamente, há vários casos em que a invisibilidade emerge devido


a eventos de discriminação aonde presença negra em lugares tidos como
inesperados para esta população pelo discurso hegemônico. Em outras palavras,
lugares e contextos (público ou privados) onde à presença de um negro, ou de um
grupo de negros, historicamente passou despercebido e ganhou visibilidade e/ou
visualidade e, concomitantemente, causam espanto e estranhamento. Esta
postura que em geral, invisibiliza pelo estereótipo e por representações coloniais
(o negro estaria sempre ligado a trabalhos manuais em que o uso da força física e
da performance do corpo é mais importante) estão sendo questionadas.
Entendemos que esta tática espacial de distinção racial se constituiu e foi
se remodelando desde o período colonial. Hoje ela ganha nova cara com a
ascensão sócio-espacial do negro a novas escalas de poder/decisão. Logo essa
tática se mescla com hierarquizações de classe, gênero, sexualidades, entre
outras. A pseudo-cidadania no Brasil vivida pela população branca (e a que se ver

118
Mestre de Cerimônias – HIP HOP.

216
como embranquecida), especialmente a de classe médio-alta e alta não é
marcada por direitos, mas sim por privilégios. Esses privilégios também tiveram
inscrição espacial, ou seja, esses grupos buscaram se localizar nos lugares
privilegiados das cidades pelas políticas públicas do Estado.

 Coação e Coerção Racial

Entendemos esta prática espacial de distinção racial como uma ação e/ou
um conjunto de ações que visam cercear, limitar e constranger a liberdade de
circular e/ou freqüentar determinados espaços e ambientes de lazer, de consumo,
de poder e de decisão devidos às características corpóreas (raciais) de um
indivíduo e/ou grupo, especialmente quando também são moradores de áreas
estigmatizadas como as favelas.
No dia 08 de dezembro de 1988 o Jornal do Brasil apresenta uma
reportagem sobre um ex-marinheiro que exemplifica esta ideia.

[...] Adolfo Ferreira dos Santos, o Ferreirinha [...] já com 98 anos,


foi marinheiro contemporâneo e admirador de João Candido, o
líder da revolta contra o uso da chibata na Marinha. Até aí nada
demais. Não há surpresa também na revelação de que
Ferreirinha, como quase todos os marujos da época, levou
marmelo no lombo. O extraordinário está no que se segue. Disse
Ferreirinha literalmente: ―Mas chicotadas e lambadas que levei
quebraram meu gênio e fizeram com que eu entrasse na
compreensão do que é ser cidadão brasileiro.‖
Aí está. Um negro, nascido apenas dois anos após a
abolição da escravidão, diz que aprendeu no cacete o que
significa ser cidadão brasileiro.(...) A cidadania (...) brasileira foi
implantada a porrete. O cidadão brasileiro é o indivíduo que, na
expressão de Ferreirinha, tem o gênio quebrado a paulada, é o
indivíduo dobrado, amansado, moldado, enquadrado, ajustado a
seu lugar. O bom cidadão não é o que se sente livre e igual, é o
que se encaixa na hierarquia que lhe é prescrita.

No dia 13 de maio de 2001, o Jornal do Brasil publicou um artigo intitulado ―O


Sofrimento de um preto velho‖ que expressa a marcas históricas no corpo da

217
coação e coerção racial como distinção no acesso, no uso e na apropriação de
espaços e escalas. Assim se inicia o artigo:

‗As marcas do meu corpo, meus 120 anos apagaram, mas as do


coração não.‘ Sebastião Caetano Nascimento fala muito baixinho,
coisa natural em homem tão velho, que viu a história passar e era
já nascido quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea.
‗Falavam que a escravidão tinha acabado, mas meus pais foram
cativos. Nunca receberam nada dos patrões. Eu vi meus pais
apanharem de chicote. Eu mesmo fui criança de apanhar tanto do
sangue escorrer pelo rosto e as pauladas do fazendeiro me
desancarem o corpo todo‘ [...]

Carvalho (1999) analisando uma reportagem bem parecida publicada quase


dois anos antes que a cidadania brasileira foi implantada a porrete. Mudaram as
técnicas e o tempo, mas as heranças não ditas ainda são atuais. Lembra José
Murilo que essa regra não “se aplicava apenas ao mundo rural, ao reino dos
coronéis. No mundo urbano que emergia o espírito era o mesmo.‖ (p. 308).

[...] A função do cacete é exatamente dissuadir os que tentam


fugir ao espírito nacional de camaradagem, de cooperação, de
patriotismo. O cacete é paternal admoestação para o operário que
faz greves, para a empregada doméstica que responde à patroa,
para o aluno rebelde, para a mulher que não cuida da casa, para
o crioulo que não sabe o seu lugar, para o malandro que
desrespeita a ―otoridade‖, para qualquer um de nós que não saiba
com quem está falando. O porrete é para quebrar o gênio rebelde
e trazer de volta ao rebanho todos os extraviados. Como diziam
os bons padres da colônia, o castigo é para o próprio bem dos
castigados. É um cacete brasileiro, muito cordial. É pau-brasil.‖
(CARVALHO, 1999: 309. Grifos Nossos)

Está tática espacial de distinção racial historicamente utilizou-se tanto de


violência simbólica quanto física. No entanto, a violência física foi utilizada para se
constituir o exemplo a se seguir a qualquer um que desafie a ordem das coisas.
A pseudo-cidadania no Brasil foi construída para manter uma ordem sócio-
espacial

218
O cidadão brasileiro é o indivíduo que [...] tem o gênio quebrado a
paulada, é o indivíduo dobrado, amansado, moldado, enquadrado,
ajustado a seu lugar. O bom cidadão não é o que se sente livre e
igual, é o que se encaixa na hierarquia que lhe é prescrita
(CARVALHO, op. cit.).

Esta tática espacial de distinção racial forja a ideia de cidadania ligado a


obediências as hierarquias e a uma ordem espacial racializada instituída no
imaginário social
Esta dimensão do corpo memória (TAVARES, 2004), marcado por
discriminações, marginalizações e por estereótipos sobre os negros, produziu r-
existências (PORTO-GONÇALVES, 2001, OLIVEIRA 2004a), isto é, novas formas
de existir no mundo.
Percebemos assim que o racismo atua em diferentes gerações. Os estudos
FAZZI (2000) têm demonstrado que está tática tem efeitos mais duradouros e
perversos nas trajetórias sócio-espaciais de vítimas crianças e adolescentes. Não
estamos aqui dizendo que estes dois grupos são passivos, pelo contrário, eles
desempenham papel ativo, pois elaboram, resistem, reelaboram e criam
influências sob os adultos, e também, são influenciados por estes (Idem). Tais
tensões vividas neste momento da vida criam dificuldades de reconhecimento
corporal de si, baixa estima, obstáculos na interação social.

[...] quando eu era criança [...] eu lembro que agente entrava nas
lojas e assim e sempre era meio ... Eu não consigo identificar o
que mas o atendimento era meio ruim [...] diferenciado. Ficava
muito ... de cabeça baixa tipo ‗ah vocês não podem experimentar
a roupa‘, sabe, eu percebia isso. E também na escola eu via isso.
Eu estudava em escola particular lá na região, tipo particular baixa
renda, não era a melhor escola particular, mas era escola
particular e aí eu vira e mexe eu era motivo de chacota por causa
do nariz:
- ‗Ah nariz de batata! Nariz de batata! Eu percebia isso.
E o meu irmão também que era mais velho que eu, mais
escuro que eu e com ele era bem mais forte.
- ‗Fumaça, macaco, feijão‘ e todo o tipo de xingamento era
com ele. Pra mim era um pouco mais suave, mas eu também
percebia. Eu não sabia que exatamente por que agente morava
no morro ou se é por que agente era negro ou se era as duas
coisas. Mas eu só consegui ter essa reflexão depois de velha. Na

219
época eu não [...] sabia muito que fazer com aquilo. Também não
conversava sobre isso em casa [...] (Roberta Federico)

Os estigmas e os preconceitos e as discriminações para existirem


necessitam que o(s) estigmatizado(s) e/ou discriminado(s) e/ou os que sofrem
preconceitos tenham consciência do processo, sem a qual não há assunção das
estrutura, função e forma existirem.
Os constrangimentos raciais e sociais coexistem e se retro-alimentam
sobrecarregando e criando ―um elevado grau de estresse emocional, uma ferida
psíquica muito maior no negro que mora na favela‖ (TAVARES, 2009: 285)119.
Tais constrangimentos em idades de formação da personalidade de uma criança
ou adolescente apresenta marcas, em muitos casos, para toda a vida. Valores,
hábitos, gestos, falas, atitudes, crenças, costumes racistas nesta fase, em geral,
são aprendidos na televisão, na Internet, em contextos privados ou semi-privados
como a família, o trabalho, a igreja, a escola, o clube, com os amigos (onde as
relações entre os entes são mais constantes e densas) e reproduzidos tanto em
contextos públicos quanto privados.

[...] a escola que me marcou muito por que hoje voltando para cá
eu vejo meus coleguinhas daquele tempo me chamavam de
macaco. Era macaco o tempo todo, piche, e tal. Eu lembro disso
até hoje e agente na época não levava como racismo. Fala
macado, e tal. Agente vai sempre deixando por que é colega e tal.
Mas era uma coisa bem ... agredindo mesmo e a agente deixava
passar como se não tivesse acontecido nada. E isso marcou
muito e quando eu vejo os caras assim a reação era de partir para
cima. Mas agente vive numa sociedade em que ninguém pode
agredir ninguém... mas que dá uma ... aquilo me machucou muito.
Na escola [...] brigava muito na escola. Me chamavam de macaco
ai eu partia para cima. Não adianta.
Ah você é agressivo é violento!
Eu reagia [...]
[...] quando eu acho que eu tava na sétima série [...] houve
uma agressão ... foi um xingamento [...]. Ai eu partir para cima.
Eu agredi o cara. Ai me chamavam na secretaria, ai me
suspenderam. Aí eu não queria voltar mais para a escola. Meu pai
dizia que eu tinha que voltar. [...]

119
In: COSTA, H. Fala Crioulo: o que é ser negro no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2009. Edição Revisada e
ampliada.

220
[Não acontecia nada com o agressor] era só comigo e eu era
o alvo e não sabia o porque. Só sabia e uma das coisas que eu
vivi na escola é que eu era muito quieto por que qualquer fala da
minha parte era motivo de chacota também. [...] minha fala
sempre foi, sempre foi desacreditada. Isso me deixava ... eu
falava alguma coisa:
―- Ah macaco cala a boca! [...]‖
[...] eu brigava. [...] Eu briguei com quase todo mundo. Eu
brigava muito. Me marcou né. Me marcou por que eu abandonei a
escola. Teve todo um atraso de vida. Eu fiquei um tempão sem ir
para escola e esse momento da escola é importantíssimo. E até
hoje eu tô tentando entrar na faculdade e tá difícil. Desde 2004 eu
tô fazendo todos os pré-vestibulares, vestibulares, aí, ENEM e tal.
É por que lá traz eu tive essa dificuldade. [...] (Dinho K2)

Dinho K2 aponta que as rotulações sobre ele de estereótipos raciais


geraram não apenas tensão e rejeição, mas também, o rótulo de violento e
‗brigão‘. Este fato ―gera outra reação social: a de reprovação do comportamento
agressivo e rotulação de ‗desviante‘, que passa então a ser alvo de controle [para
a punição e/ou expulsão] por parte da administração da escola‖ (FAZZI, 2000: 31).
Desta forma, a possibilidade construção de capitais culturais via escola e de
ascensão a determinadas escalas da vida social apresentou, na suas trajetórias
sócio-espaciais, intensas restrições já que os conflitos levaram a exclusão por um
tempo do ambiente escolar (RATTS et. al., 2006/2007). Neste sentido, podemos
afirmar que os eventos de discriminação nos ambientes escolares são uma das
causas de evasão escolar da população negra.
Ademais, Dinho K2 expressa também, uma dificuldade de separar
componentes cognitivos de componentes afetivos (Idem) ao se referir ―[...] meus
coleguinhas daquele tempo me chamavam de macaco‖ e também no trecho:
―Agente vai sempre deixando por que é colega e tal‖. Assim,

A discriminação de que seu corpo é objeto não dá tréguas à


humilhação sofrida pelo sujeito negro que não abdica se seus
direitos humanos, resignando-se à passiva condição de ‗inferior‘.
Curiosa e trágica contradição. É no momento mesmo em que o
negro reivindica a sua condição de igual perante a sociedade que
a imagem de seu corpo surge como um intruso [um estrangeiro e
estranho], como um mal a ser sanado, diante de um pensamento
que se emancipa e luta pela liberdade. (COSTA, 1986: 108)

221
Neste sentido, as tensões no cotidiano expressam, dentro de certos limites,
tanto algum grau de adaptação ao rótulo para coexistir quanto uma ―perturbadora
experiência [do indivíduo classificado como negro] de ver-se excluído, não só das
opiniões, mas de toda experiência de vida de grande número dos nossos
contemporâneos [...]‖ (HIRSCHMAN, 1992:09), ou seja, excluído e/ou incluído de
forma precária e perversa (MARTINS, 1997) no campo visual e de visibilidade por
ações coercitivas. Desta forma,

O racismo tende a banir da vida psíquica do negro todo prazer de


pensar e todo pensamento de prazer.
Pensar sobre a identidade negra redunda sempre em
sofrimento para o sujeito. Em função disto, o pensamento cria
espaços de censura à liberdade de expressão e, simultaneamente,
suprime retalhos de própria matéria. (COSTA, 1986: 110/111)

Coerção e invisibilidade agem em conjunto. Assim, o esquema corpóreo


(BERTANINI, 1985) negro constitui-se como elemento chave de seu habitus
(BOURDIEU, 2007), pois ortopedias do olhar são criadas (SOARES, 2005) pelos
agressores, isto é, concepções estéticas em que os negros(as) e as culturas
afrodiaspóricas são subalternizadas da norma, do padrão e do modelo a ser
seguido. Sendo assim, passadas por várias gerações de forma tácita, ou mesmo
consciente, com algo ruim, selvagem e/ou algo a se evitar. Assim, concordamos
com Soares quando afirma que:

[...] não há pureza nem objetividade no olhar. Nossa visão das


coisas e das pessoas é carregada de expectativas e sentimentos,
valores, crenças, compromissos e culpas, desejos e frustrações.
Acima de tudo, é necessário reter na memória esse ponto: ver é
relacionar-se. (SOARES, 2005:173)

Essa forma de produção de distância e afirmação de fronteiras racializadas


expropria identidades, ignoram o outro na interação face a face invisibilizando por
ser negro e/ou ligado às culturas negras afrodiásporica, em geral de matriz
religiosa. Desta forma, espera-se dos negros etiquetas e comportamentos em
determinados espaços, tempos e contextos que não rompam com a ordem
racializada estabelecida e afirmando ostensivamente a negação do contato e

222
aproximação física e simbólica120. Como novamente nos informa Ralph Ellison (op.
cit.: 08) ―[...] não me esqueço de que sou invisível, e piso de mansinho para não
acordar os que dormem‖. Esse discurso subordina a capacidade técnica, o capital
político, social, econômico e cultural em vista a aparência corpórea do indivíduo
(majoritariamente a cor da pele). Desta forma, critérios de escolha racializados são
criados para impedir, subordinar e/ou restringir o acesso, o uso e apropriação de
determinados espaços. No entanto, como complementa Ellison (Idem) ― [...]
aprendi a tempo que é possível combatê-los sem que eles percebam‖.
Os critérios racializados para o acesso, o uso e apropriação de
determinados espaços se constituíram tanto de maneira dissimulada quanto de
forma explicita. A expressão ter boa aparência em muitos anúncios de emprego foi
denunciada por diversos movimentos negros durante anos como forma
dissimulada de racismo, ou como geograficamente diríamos, como forma de
distinção racializada no acesso, no uso e na apropriação de determinados
espaços. Inúmeros casos têm sido relatados na mídia e denunciados nas
instituições competentes de critérios explícitos de acesso, uso e apropriação
racializados do espaço.

Sobre a empregada, o senhor tem que me dizer o serviço que ela


vai exercer na residência, a idade, alguma preferência de etnia,
alguma coisa assim. A pessoa tem que me falar também, senão
vai constranger ambos. (Grifos da própria reportagem)121

120
As religiões de matriz afro como a Umbanda e Candomblé são alvos destas formas de negação do contato
e aproximação por outros fundamentalismos religiosos cristãos. O genocídio negro apontado por Abdias do
Nascimento passa a se constituir não só mais sobre os corpos negros mais sobre a inscrição espacial desses
corpos negros e afro-descendentes (territórios negros de quilombos ou terreiros, paisagens marcadas com
geossímbolos das culturas religiosas afrobrasileiras, entre outros). Quando não são destruídos e/ou
subjulgados como em vários casos já relatados em inquéritos policiais de discriminação religiosa por esses
fundamentalismos espera-se que essas pessoas (conscientes de si e dos outros) abandonem, progressivamente,
sua herança cultural, costumes, religião, hábitos, entre outros de matriz afro, em proveito das expectativas
assimilacionista e miscigenacionista que manifestam o grau de inferioridade que os elementos de procedência
africana em relação aos de descendências judaico-cristã afirmariam ideologicamente de superioridade. Cria-se
um racismo cultural-religioso e exacerba-se uma afroteofobia difundida em templos, manifestações em
programas de rádio, televisão, jornais, panfletos, revistas e na Internet contra territórios-terreiros e a
manifestação no espaço público de adereços e/ou insígnias afros (JESUS, 2003; CAMPOS, mimeo).
121
A empresa de recursos humanos Resilar que oferece o serviço de diarista, arrumadeiras, empregadas
domésticas, babás entre outras, situada no bairro Vila Mariana, Zona Sul da capital paulista oferecia os seus
serviços pela cor da pele que os contratantes desejavam.

223
O debate e a luta que culminaram na legislação contra qualquer
discriminação no acesso, no uso e na apropriação de determinados espaços e
escalas tem apresentado maior visibilidade na esfera pública. No entanto, apesar
de ter no plano concebido muitas manifestações de apoio, no plano vivido
cotidiano inúmeros relatos de pessoas identificadas como negras tem os seus
itinerários sócio-espaciais interferidas pela assunção de sua aparência corpórea
negando o direito à cidade. Assim, nega-se e/ou impede de forma direta ou
indireta o direito de ir e vir e o direito de intimidade122.
A principal modalidade da questão racial que predomina nesta tática
espacial de distinção é a discriminação racial franca e direta.

 Transferência de Crédito e de Capitais

Este é um dos principais simulacros de coexistência harmoniosa exportada


principalmente por ideólogos de lusotropicalismo. O exemplo que utilizamos
Pixinguinha anteriormente para falarmos de evento de discriminação racial
expressa também, um exemplo do que estamos chamando de transferência de
crédito e capitais. Ou seja, a pessoa só está naquele local porque tem uma
pessoa amiga (em geral não negra) ou por que possui um capital cultural, político
e/ou econômico que o distinga (beleza, elegância, polidez, entre outros). Assim,
fulano só frequenta este ou aquele determinado espaço por que tem um cartão de
visita que lhe dá crédito (confiança) e capital (bem disputado em alguns campos
sociais). Este crédito está direta ou indiretamente ligado à categoria do favor em
que se estabeleceu um tom aglutinador desde que o negro saiba o seu lugar e
sempre tenha que pedir para acessar, usar ou se apropriar de determinado lugar
e/ou escala de poder e decisão. Diria Bourdieu (1989), por que possui um certo

122
Souza (2008:76/77) afirma que “o direito de intimidade (ninguém, a não ser um policial, e mesmo assim
com razões fundamentadas, pode exigir que um particular se identifique para ter acesso a um logradouro
público ou por ele transitar, nem se exigir que seja informado o destino, o propósito de ali estar etc.)”.
Tanto no plano cotidiano a exemplo de dois casos paradigmáticos que analisaremos nos sub-itens
finais da tese quanto no reconhecimento de instituições de pesquisa como os dados do IBGE sobre a
influência da cor ou raça apresentados anteriormente existia uma relação com os aparatos de segurança
(pública e privada) que impede o acesso, o uso e a apropriação irrestrita do espaço. Portanto, o direito de ir e
vir e o direito de intimidade.

224
capital que não rompe com hierarquias, mas permite acessar alguns espaços.

O espectador desprovido do código [o cartão de visitas] sente-se


submerso, ―afogado‖, diante do que lhe parece ser um caos de
sons e de ritmos, de cores e de linhas, sem tom e nem som. Por
não ter aprendido a adotar a disposição adequada [...]
(BOURDIEU, 2008: 10)

Contudo, o exemplo de Pixinguinha também revela que a consciência e o


conhecimento sobre esse campo que racializa o acesso, o uso e a apropriação de
espaços e escalas o auxilia na construção de novas perspectiva de futuro.
Em geral, esse cartão de visita pressupõe algum grau de negação de sua
identidade corpórea. Em muitos casos que pesquisamos este cartão de visita que
lhe concede crédito está condicionado a categoria do favor a ser pago com
obediência (ARENDT, 2004) as hierarquias no trato destas pessoas deste novo
espaço e escala acessada. Desta forma, o cartão de visitas garante uma fala
autorizada e prestigiada (CHAUÍ, 1990), um acesso condicionado, um uso do
espaço e uma rede de relações entre diferentes, regulada e uma pseudo-
apropriação de determinados espaços e/ou escalas de poder e decisão que
impede os indivíduos de se manifestarem livremente. Logo, as múltiplas conexões
e itinerários possuem senhas e são limitados aos que se submetem ao
ordenamento espacial racistas. Isto faz deste instrumento um simulacro de
participação ao estabelecer uma coexistência de anulação e negação pela
assunção da aparência corpórea.

Assim, um clube recreativo, no Brasil, pode opor maior resistência


à admissão de um indivíduo de cor que à de um branco; porém, se
o indivíduo de cor contrabalançar a desvantagem da cor por uma
superioridade inegável, em inteligência ou instrução, em educação,
profissão e condição econômica, ou se for hábil, ambicioso e
perseverante, poderá levar o clube a lhe dar acesso, "abrindo-lhe
uma exceção", sem se obrigar a proceder da mesma forma com
outras pessoas com traços raciais equivalentes ou, mesmo, mais
leves. (NOGUEIRA, 2007)

O cartão de visitas é um signo distintivo, uma espécie de capital que


embranquece, contem a explicitação de preconceitos e elimina momentaneamente

225
num determinado contexto sócio-espacial o peso de estereótipos, estigmas e a
manifestação da discriminação. Porém, em geral, isso ocorre sob tensões
explícitas e/ou silenciadas.

Já por capital entende-se determinada vantagem, bem ou valor


passível de acumulação pelos atores sociais, tomados como bem
a ser disputado em algum dos campos sociais. A noção de capital
desenvolvido por Bourdieu não se restringe a noção de capital
financeiro da teoria marxista, o autor entende que para a definição
da posição dos indivíduos na estratificação social é necessário
uma interação entre as diversas formas de capital. (SANT‘ANNA,
2006: 29)

Nogueira (op. cit.) afirma que esta distinção provocada pela posse deste
capital, na perspectiva de Bourdieu (2008), é um traço característico do modo
como atua o preconceito racial de marca no Brasil, diferentemente o preconceito
racial de origem nos EUA, pois, independentemente de condições pessoais como
a instrução, a ocupação, entre outros, tanto a um negro portador de PhD, isto é,
um indivíduo portador de um cartão de visitas como a um operário nos EUA, sem
este elemento distintivo

[...] será vedado residir fora da área de segregação, recorrer a


certos hospitais, freqüentar certas casas de diversões, permanecer
em certas salas de espera, em estações, aeroportos etc., utilizar-
se de certos aposentos sanitários, fontes de água etc., ainda que
varie de uma região para outra e, mesmo, de uma localidade para
outra, a amplitude de situações em que se impõem restrições
(Idem).

Ainda que se reconheça que muita coisa mudou nas relações raciais nos
EUA após os estudos de Nogueira (op. cit.) que datam dos anos 50 do século
passado, sua tese de preconceito de marca e origem oferece uma importante
distinção da inscrição espacial do racismo do Brasil em relação aos EUA.
A construção da identidade/diferença em cada país expressa o modo como
atuam e desenvolvem os eventos de discriminação em cada realidade. No caso
brasileiro, portar elementos distintivos, o cartão de visitas, ou seja, o seu fiador
expressa o racismo seletivo. Numa sociedade individualista como a

226
contemporânea um cartão de visitas conseguido por um negro significa a
possibilidade de embranquecer ou se distinguir dos demais negros como negro
superior. Logo, quando acessa outros espaços que não é maioria, com o cartão de
visitas ele é um ‗invasor‘ tolerado por apresentar tal instrumento de crédito, mas
isso não significa que o conflito ficará no plano da ideia. Em muitos casos que nos
foram relatados esse conflito emerge de forma camuflada. Em entrevista que
realizamos com uma psicóloga negra Roberta Federico123 constatamos este fato.
Assim ela nos diz:

Eu percebi que era uma discriminação por que antes uma


outra pessoa branca foi atendida e agente percebeu que o cara foi
muito mais prestativo [...]
[...] No Brasil o racismo é muitas vezes assim: às vezes não
necessariamente eles te privam do acesso, mas o que a pessoa
pode fazer para te fortalecer, mas se você for negra ela não faz.
Entendeu! Mas se você for branco você encontra muita
facilidade [...]

O cartão de visita é um débito que será pago com a incorporação do


ordenamento espacial das relações raciais mesmo que haja possíveis mudanças
no arranjo espacial. O cartão de visitas é construído em cima de parâmetros
dominantes assumidos por pessoas que se identificam como negras e buscam
fugir da dominação racial dentro da ordem, isto é, se inserir em esquemas
socialmente valorizados por um ideal de brancura. Por isso que falamos que a
transferência de crédito cria um simulacro de acessibilidade, de uso e apropriação
dos espaços de poder e decisão e com elevada infra-estrutura e bens sociais. A
transferência de crédito é ‗descorporificante‘ pois a aparência corpórea é tolerada
mais pelo crédito que este indivíduo possui. Novamente encontramos vários
depoimentos em torno da transferência de crédito.

[...] Enquanto agente está articulando o projeto por telefone ou por


e-mail tudo funciona bem. [...] Quando agente mostra o corpo já
começa a desconfiar acham que não foi agente que escreveu o
projeto, não fomos nós que gestores, que agente é gente da
comunidade... Nunca é o administrador. O máximo que agente

123
Entrevista concedida em Junho de 2011.

227
puder fazer por telefone e e-mail agente faz por que
pessoalmente é sempre problema124.

Contudo, como a economia já nos ensina que todo crédito é condicionado


ao cliente e por um tempo, podendo ser revogado a qualquer momento. Dessa
forma, a perda do elemento que confere a confiança para a transferência do
crédito (capital econômico, cultural, político e/ou a pessoa amiga) ocorre a
empirização das distâncias e fronteiras até então silenciadas e dissimuladas.
Uma frase no senso comum expressa essa ideia com mais clareza: ―Você
só está aqui por que ...‖. Sem esse elemento que imprime confiança para a
concessão da transferência de crédito este indivíduo não pode estar neste lugar,
pois a sua posição, revelada pelos seus aspectos corpóreos racializados, não é
essa. Ele não é aceito é tolerado. Desta forma, o crédito (confiança) que este tinha
pode ser rapidamente transmutada em um débito (dívida). Ocorre em muitos
casos a transferência de débitos, o famoso bode expiatório.
Só o fato de existir a transferência de crédito e por vezes de débito, para
acessar determinados espaços e escalas expressa uma sociedade espacialmente
hierarquizada. O exemplo apresentado de Pixinguinha anteriormente torna-se bem
contemporâneo, pois expressa que a distinção racial no acesso, no uso e na
apropriação de espaços e escalas é marcado por ruptura de princípios éticos e
políticos para se evitar a indiferença. Em outras palavras uma ‗autonomia
regulada‘ que nos termos de Castoriadis (op. cit.) é entendido como uma
heterônoma.
Portanto, esta modalidade de distinção cria um racismo seletivo para
aqueles que não estão conformados à ordem das coisas e/ou podem gerar
alguma quizumba 125 , para aqueles negros que não tem o cartão de visitas. O
cartão de visitas funciona como um princípio cívico em uma sociedade
hierarquizada. Ele estabelece um racismo seletivo.126

124
Idem.
125
Quizumba no Brasil é sinônimo de bagunça, arruaça. É uma palavra que entrou no vernáculo da língua
portuguesa do Brasil de forma racializada como forma de subalternizar as kizomba que em quimbundo
significa as festas e festejos dos povos de Angola.
126
Identificamos esse racismo seletivo protagonizados tanto entre pessoas vistas como brancas e „mestiças‟
quanto pessoas que se identificam como negras. Mas a vítima é sempre a mesma, negra. Entendemos que o

228
 Retirada de Crédito e de Capital

Frequentemente associada com a tática espacial racializadora acima, a


retirada de crédito e de capital expressa um discurso imperativo e intransigente de
ameaça constante ao outro. Isto é, o negro precisa provar e comprovar
constantemente que merece acessar, usar e apropriar-se de determinado espaço
e escala, pois é um viajante em potencial (SIMMEL, 1983) (aquele que conseguiu
chegar, mas não se fixou). Logo precisar procurar compensar a sua corporeidade
inferior ―[...] pela ostentação de aptidões e característicos que impliquem
aprovação social tanto pelos de sua própria condição racial (cor) como pelos
componentes do grupo dominante e por indivíduos de [preconceitos de] marcas
mais "leves" que as suas‖ (NOGUEIRA, op. cit.). Por este motivo, perder a
confiança pode significar a perda da única oportunidade possível da vida.
A retirada de crédito e de capital é concomitante a criação e reprodução de
estereótipos, preconceitos e estigmas que marcam este indivíduo que
momentaneamente passa a ser considerado um estrangeiro. Este discurso
racializador de base liberal estabelece um ajustamento dos corpos ao
ordenamento hegemônico do espaço. O racismo evento, que falamos
anteriormente é a parte mais explícita deste ajustamento. Esse instante no tempo
dando-se no espaço continua atuando na produção de subjetividades, na

racismo de negros sobre negros só torna compreensível numa sociedade onde o destino dos negros é branco
(FANON, 1983). Desta forma, o negro que discrimina outro negro revela uma proximidade com um ideal de
brancura. Cria-se assim um racismo seletivo que afeta de forma diferenciada negros próximos ou longe de um
ideal de branqueamento.
Esse racismo seletivo inscreve-se espacialmente em escalas de poder ao escolher aqueles que (no
caso de negros terão um cartão de visitas) para poder transitar em outros níveis e patamares da realidade.
Em geral essas distinções são acompanhadas por outras modalidades de hierarquizações que
intensifica as imposições escalares. Vários exemplos poderiam ser apresentados neste momento, mas destaco
uma experiência vivida como aluno no terceiro ano do ensino médio numa escola pública em Niterói. A
professora de português que socialmente seria identificada como branca, cansada dos alunos desinteressados e
bagunceiros disse a seguinte frase: “Aqui não tem nenhum neguinho de morro”. (Grifos Nossos) Mesmo
sabendo que aquela frase não era direcionado para mim, pois era conhecido como nerd (ultra comportado,
estudioso, representante da turma e com uma das melhores notas) gerou-me constrangimento, pois eu morava
em morro e era um dos poucos negros da sala de aula. Logo, além de uma hierarquização econômica agir em
conjunto com uma hierarquização racial na frase proferida pela professora expressava, para ela, que eu era um
negro diferente. O famoso negro de alma branca. A frase também revela que patamar da realidade são
esperados dos negros, o morro visto pela professora, como espaço da marginalidade.

229
construção das cognições, representações, experiências e percepções
desvalorizadas do/no mundo. A dimensão prática é ponha-se e permaneça no seu
devido lugar passando a ser de forma explicita ou tácita ser preterido
(NOGUEIRA, 2007).
No entanto, a retirada de crédito e de capital também pode expressar a
passagem do negro como um estrangeiro (o mais, que era tolerado, aquele que
freqüenta, mas não está organicamente ligado a este espaço ou escala) para o
negro como um estranho (ou seja, uma possível ameaça, aquele que é
imprevisível e desconhecido totalmente) limitando a potencialidade de múltiplas
trajetórias que este indivíduo poderia ter a única trajetória, ser controlado,
regulado, posto no seu devido lugar.

O preconceito provoca invisibilidade na medida em que projeta


sobre a pessoa um estigma que a anula, a esmaga e a substitui
por uma imagem caricata, que nada tem a ver com ela, mas
expressa bem as limitações internas de quem projeta o
preconceito. Por isso, seria possível dizer que o preconceito fala
mais de quem o enuncia ou projeta do que de quem o sofre, ainda
que, por vezes, sofrê-lo deixa marcas. (SOARES, op. cit.:176)

Nesta tática espacial racializadora, cria-se um atendimento diferenciado e


desigual no acesso, no uso e na apropriação de espaços e escalas aos indivíduos
identificados como negros, em que este é um constante devedor por estar ali, não
podendo e não tendo a chance assim de nunca decepcionar pois não terá outra
chance. Logo sempre será visto como um a mais. Dessa forma, o negro como
estrangeiro...

[...] sabe que ele é o único a ter uma biografia, isto é, uma vida
inteira feita de provas. [...] uma vida onde atos são
acontecimentos, porque implicam escolhas, surpresas,
adaptações ou estratagemas, sem rotina ou repouso. (KRISTEVA,
op. cit.p. 14)

Assim, ao negro, principalmente pobre, não é dado o direito de se


manifestar e errar. Ele precisa estar constantemente dando prova do seu valor a
alguém quando não a ele mesmo.

230
Tanto a transferência quanto a retirada de crédito imprimem um uso político
dos espaços e escalas em que o alvo é o corpo. Assim, o corpo é no espaço
(PONTY) que ele é inventado.
Esta prática espacial racializadora restitui o mito de Sísifus para todos os
negros e afro-descendente que querem romper alguma barreira instituída por uma
ordem racializadora e tentam mudar o seu lugar sócio-espacial e/ou acessar
determinadas escalas de poder e decisão.
A aproximação com mito de Sísifus revela o limite da atuação da Retirada
de Crédito e de Capital, pois além de perder autoridade, todo o esforço, energia na
conquista de um objetivo, de desejos e na realização de sonhos próprios são
desacreditados e postos como inúteis.
Ambas as distinções raciais apontadas acima estabelecem planos de
desvalorização estético-moral para pessoas classificadas como negras caso não
cumpra algumas ‗exigências‘ instituídas no acesso, no uso e na apropriação de
espaços e escalas. Constitui-se assim no grupo discriminado sujeito a perder o
crédito:

1) uma preocupação permanente de auto-afirmação [mas que não


rompa com a ordem racializada, pelo contrário, a mantenha, pois o
destino do negro é branco (FANON, op. cit.); 2) uma constante
atitude defensiva [pois, este se acha um ser inferior, portanto,
incapaz de grandes feitos e realizações]; e 3) uma aguda e
peculiar sensibilidade a toda a referência, explícita ou implícita, à
questão racial [aqui, um pouco diferente os EUA, esse indivíduo se
sente um negro diferenciado que tem o cartão de visitas e ainda
não perdeu, logo se sente ofendido em ser tratado como ―um
negro qualquer‖ (NOGUEIRA, 2007)127.

As marcas liberais destas duas últimas táticas afirmam que tanto a


transferência quanto a retirada de crédito e de capital a modalidade predominante
da questão racial são os julgamentos etnocêntricos categóricos e
estigmatizadores. Essas são as modalidades da questão racial mais presente
nesta tática. O discurso imperativo racista afirma que se deu uma chance e algum

127
Apesar de Nogueira (op. cit.) fazer referencia dessas três tendências ao preconceito característico nos
EUA, entendemos que esta idéia cabe em nossas relações raciais como resposta do discriminado que se sujeita
à ordem racializada estabelecida.

231
grau de liberdade aos estigmatizados e eles não souberam aproveitar. Assim, o
cartão de visita nunca mais será lhe concedido sendo estes, culpados pela sua
própria infelicidade.
Numa sociedade hierarquizada como a nossa em que a saúde, a educação,
o acesso, o uso e a apropriação de determinados espaços e escalas tornaram-se
bens oligárquicos de um grupo racial ter um cartão de visitas significa
possibilidade, de ser um ‗cidadão‘. Uma ‗cidadania‘ mutilada, regulada e
normatizada. Ou como diria Carvalho (1999) um cidadão amansado, dobrado pelo
porrete. Um cidadão cordial.

 Discurso do Caos, da Desordem, do Medo e da Ameaça


Racializados.

Esta tática busca transformar uma condição social em posição sócio-


espacial, isto é, o pobre e o negro fora de seus ‗lugares característicos‘ pelo
discurso dominante passam a serem vistos como símbolos do caos, da desordem
e do medo. Os exemplos racializados dos farofeiros, funkeiros indo para a praia
das áreas ‗nobre‘ e da população em situação de rua são largamente utilizados
para alimentar a fragmentação do tecido sócio-político (SOUZA) através do medo
do outro, isto é, a diferença é vista afrontando os limites comuns instituídos.
Munanga (2002) afirma que esse medo do outro está relacionado a nossa
construção identitária. Nos discursos conservadores essa marca é bem
característica. Logo,

Temos medo do outro porque ele é semelhante a nós. E, sendo


semelhante, ele é capaz de ocupar o nosso espaço e desempenha
as mesmas funções ou atividades. E para impedi-lo, devemos
mostrar que ele é diferente, inferior, isto, aquilo etc. (MUNANGA,
2002: 60) Grifos Nossos.

A reprodução do discurso do medo, da desordem e do caos inscreve cores


no espaço para justificar também ações segregadoras e que visam distinguir o
acesso, o uso e a apropriação de espaços e escalas. Desta forma, ―[...] o

232
preconceito arma o medo que dispara a violência, preventivamente‖ (SOARES,
2005:175). O racismo e as formas de sujeição ligadas a ele, como o preconceito e
a discriminação, sustentam uma cultura do amedrontamento. Ele se transfigura
em leis, políticas de segurança, representações estigmatizadoras sobre
determinados grupos sociais e espaços onde são maioria associando os ―negros
como potencialmente associados aos riscos e perigos à ordem sócio-espacial‖
(SOARES, 2010: 162). Cria-se uma mixofobia (medo de misturar-se) com um
indivíduo considerado estranho ou estrangeiro impulsionando o divórcio identidade
e diferença (BAUMAN, 2009). Dessa forma, são discursos racializadores e
classistas.

O mal-estar urbano derivado da difusão do sentimento de medo


generalizado na sociedade brasileira, construído simbolicamente
por estigmas que desqualificam socialmente e culturalmente o
negro e que vitima especialmente a juventude, pobre, favelada e
mal-escolarizada desse segmento populacional tem como pano
de fundo o racismo. O componente racial desempenha função
decisiva no processo histórico da desigualdade sócio-espacial
brasileira. A cultura do amedrontamento socialmente construída
coloca a esse segmento da população tem como referência
marcas físicas e simbólicas poderosas que demarcam e definem
os processos de inclusão precária. [...]
O ‗medo negro‘ resultante da construção ideológica do
racismo é a face do discurso e da prática sócio-espacial – erguida
sob os espaços de representação – onde a construção da
totalidade social – o Nós – é produzida pela negação e pela
aniquilação da diferença, do Eu cujo desejo é constantemente
rejeitado pelo Eu dominante. (SOARES, 2010: 161)

Esses medos têm sido reproduzidos e ganham força nas mídias locais
alimentados pela sensação de insegurança. Desta forma, exige normas capazes
de reconstituir a ―sociabilidade perdida‖, por esses grupos nos seus devidos
lugares e restituir os ―direitos naturais‖ dos indefesos contribuintes [brancos ou
embraquiçados] que pagam-seus-tributos–em-dia (BARBOSA, 1999). Entendemos
que o objetivo da reprodução deste discurso do medo urbano racializado é criar a
possibilidade de um extermínio simbólico, e se possível, físico dos grupos postos
como estranhos e estrangeiros. Momentos de maior explicitação da violência,
como foram os arrastões dos anos 90 se tornaram exemplares para afirmação em

233
jornais televisivos e/ou impressos da eliminação física de determinados grupos
(em geral negros) dos espaços onde vive a população rica e onde se concentra as
amenidades sociais e ‗naturais‘ apropriadas por essa população (ALCANTARA,
2005). Essa eliminação se dissimula no discurso ―fora farofeiros‖, guaritas nas
praias, aumento do pedágio nas vias em direção as praias, retirada do metrô nos
finais de semana, entre outras (Idem).

A imagem do caos como representação da cidade reitera a


rigorosa correspondência entre a hierarquia social e a morfologia
espacial urbana e, sobretudo, mascara a radicalidade das
desigualdades sociais nas cidades.
Por outro lado, os apelos à normatização da cidade diante
do caótico vêm orientando práticas de vigilância e
disciplinarização de corpos indesejáveis (migrantes pobres,
população de rua, lumpemproletários), como também as de
isolamento e de contenção de territórios considerados perigosos.
Práticas discricionárias que se amparam no objetivo, sempre
pretenso, de defender o cidadão-consumidor da ―barbárie‖
instaurada pelo desintegração do tecido social, e que,
notoriamente, se apoiam na violência policial do Estado e em
corporações privadas de segurança, para garantir a ―civilidade‖
local e privada na cidade.
Esse caminho do avesso consolida intervenções urbanas
cujas estratégias assentam-se no discurso de recuperação dos
laços sociais/ culturais partidos pela anomia da cidade caótica.
(Idem: 62)

Logo, os avanços tecnológicos que são usados na cidade para o controle e


a segurança como carros blindados, guardas armados que privatizam o espaço
público, muros altos, cercas sofisticadas, aparelhagens de televigilância que são
utilizadas como instrumentos de classificação e enquadramento de corpos tem
intensificado estigmas e preconceitos raciais e sociais. Os discursos do caos e da
desordem não permitem a construção autônoma a identidade/diferença. Ou
melhor, qualquer diferença da ordem estabelecida é vista como estranho e/ou
estrangeiro 128 , logo o caos a ser eliminado do campo visual busca restringir
qualquer visibilidade dos grupos tidos como ameaça, em geral negros.

128
Bauman (2009:37) lembra que “o estrangeiro é, por definição, alguém cuja ação é guiada por intenções
que, no máximo, se pode tentar adivinhar, mas que ninguém jamais conhecerá com certeza”. Logo
rapidamente ele poderá ser considerado uma ameaça real, isto é, um estranho. Estrangeiro e estranhos são
pares dialéticos.

234
Os discursos do caos, da desordem e do medo urbano estabelecem uma
identidade virtual do outro desqualificando e pondo-o como ameaça (GOFFMAN,
1988). ―Da identidade virtual nascem os estereótipos e as folclorizações em torno
do indivíduo de pele escura.‖ (SODRÉ, 1999: 246). Desta forma, estas táticas
espaciais de distinção racializada estabelecem estigmas (Idem). Em geral, sobre o
corpo negro.

Contra o caos combinam-se o embelezamento estratégico, a


engenharia privada de segurança e as tecnologias soft de controle
– a exemplo da utilização de câmeras de vídeo para registrar e
vigiar o movimento de ruas e praças. Aqueles reiteram em
diferentes latitudes o padrão cultural californiano. Padrão que
combina a limpeza física - incluindo os corpos estranhos e
rebeldes - e a indiferença humana, cujo propósito maior não é
outro além de figurar uma cidade ―simulacro‖ em oposição ao
―caótico‖. Assim, a imago urbis que constrói o nosso senso
comum é um apanágio para um velho novo ―espírito urbanístico‖,
sempre empenhado na reencarnação do movimento seletivo da
mercadoria, no reordenamento hegemônico da propriedade
privada e do valor de troca na cidade.
[...] Registra-se, neste percurso, um processo brutal de
segregação urbana alimentado de radicais contradições sociais
que, por sua vez, assumem a expressão suprema da
gentryficacion de pedaços da cidade frente à crescente miséria
social, sobreposta a etnização impressa em bairros e quarteirões
inteiros – fenômenos em curso não somente na Europa e nos
Estados Unidos, como também nas sociedades latinoamericanas.
(BARBOSA, 1999: 62/63)

Esse processo de gentrificação é marcado por processos de racialização


dos acessos, usos e apropriação de espaços da cidade em geral ligados a defesa
da propriedade, nos espaços de poder e decisão e nos espaços com elevada
infra-estrutura e bens sociais utilizadas pelas classes sociais mais abastadas.
Portanto, distâncias materiais e simbólicas são instituídas em função das
características corpóreas dos indivíduos. Esta tática espacial racializadora
expressa que neste momento, a segregação e a distinção racial caminham juntas,
pois produz e reproduz espaços segregados racialmente ademais restringe e/ou
impede por características raciais o acesso, o uso e apropriação de espaços e
escalas.

235
O marketing urbano utiliza-se do discurso do caos, da desordem e
correlatos para implementar ações sem precisar de justificativa. Na cidade do Rio
de Janeiro ele é marcado por uma hegemonia racial que busca dissimular
qualquer desigualdade racial para exportar imagens de harmonia e democracia de
nossas relações raciais perante outras partes do mundo. Para Hanchard (2001:
07) ―um processo de hegemonia racial contribui para estruturar a desigualdade
racial no país [e na cidade que mais produz e exporta imagens desse país e dessa
forma], negar sua existência dentro da complexa ideologia da democracia racial e
criar as precondições de sua perpetuação‖. Três paisagens são muito acionadas
no marketing urbano da democracia racial que tem por objetivo dissimular tensões
raciais e eliminar o caos, a desordem e o medo do outro: as praias, o carnaval
(tanto de rua quanto do Sambódromo) e o futebol (marcadamente, o Maracanã).

A sociedade criou, ela mesma, uma série de chavões e estigmas


que nos forçam a não decepcioná-la. Ao mesmo tempo se insiste
nesta falácia da democracia racial que é praticada no Carnaval,
[nas praias,] no futebol e nas festas populares, mas que não se
manifesta nas coisas decisivas, nos patamares [escalas de poder]
superiores, onde a nação decide o seu destino. Lá, negro não
entra. (JOSÉ POMPILIO DA HORA In: COSTA, 2009; 47)

O marketing urbano tem criado mudanças no padrão social de racialização do


espaço. Ao dissimular e depurar conflitos racistas inscritos nestas paisagens
paradigmáticas, nos arranjos e ordenamentos pretéritos e presentes de
racialização dos espaços com vias de venda a imagem de uma cidade singular
onde negros e brancos convivem sem grandes conflitos e desigualdades. Logo,
estas paisagens depuradas e dissimuladas são apresentadas como modelos a
serem exportados. A imagem da cidade para este discurso da ordem precisa ser
garantida. Logo, exponenciar desigualdades que comprometem tal imagem
precisam ser dissimuladas. Portanto, o uso político destas paisagens tem criado
uma coexistência de anulação e negação.
A principal modalidade da questão racial que atua nesta tática espacial de
distinção racial é o preconceito presente tanto nas políticas públicas quanto nas
privadas. Vide os murros criados das favelas do Rio de Janeiro, e,

236
concomitantemente, a criação de preconceitos, estereótipos e retóricas do medo
visando negar o acesso, o uso e apropriação de determinados espaços e escalas
a pessoas consideradas intrusas. Outro exemplo que emerge no Rio de janeiro é
cada vez mais o isolamento e o confinamento espacial com fechamento social tem
se tornado uma prática (BAUMAN, 2003) por meio de políticas do medo difundidas
que militarizam e privatizam espaços públicos (Idem). A menor fruição dos direitos
de ir e vir nas cidades é marcada por preconceitos, discriminações tanto de
natureza econômica quanto racial. Reforça-se assim uma hegemonia racial no
acesso, na apropriação e uso de espaços e escalas. Isto é, uma nova qualidade
do branqueamento.
O branqueamento do território e da paisagem tem gerado processos de
expropriação e de espoliação. O processo de expropriação ocorre quando uma
parte ou a totalidade da população negra de uma localidade é submetida a uma
migração forçada para a periferia, para locais insalubres, para outras favelas e/ou
locais de baixa infra-estruturas. Quando estes grupos não foram ainda retirados
estão em permanente estado de ameaça de despejo.
O branqueamento do território também engendra processos de espoliação,
ao privar do acesso, do uso e da apropriação dos bens (materiais e imateriais) do
seu próprio território. Em outras palavras, o branqueamento do território e da
paisagem reforça uma sociedade de bens oligárquicos.
Algumas táticas espaciais criam uma modalidade própria de distinção racial.
A tática espacial que produzi invisibilidade, a que reproduz o discurso do caos e
da desordem e a tática espacial de coerção e a coação racial criam uma
distinções territoriais de direitos. Ou seja, além de restrição e/ou impedimento no
acesso, no uso e na apropriação de espaços e escalas, ao ocuparem
determinados espaços, os negros são expropriados e espoliados via estigmas e
rotulações negativas.

237
QUADRO VIII – Táticas Espaciais de Distinção Racial

Formas de Luta das Vítimas


Campo de Tensões no
Práticas Acesso, Uso e Formas de Direito
Espaciais de Apropriação
Distinções Raciais dos Agressores

Espaços de Direito de Ser Visto e Reconhecido de


Invisibilidade e/ou Hipervisibilidade Racializada Representação e forma Digna
Representação do Espaço

Coação e Coerção Racial Espaços de Lazer, de Direito de Intimidade e de Ir e Vir


Consumo, de Poder e sem ser Discriminado
Decisão

Transferência de Crédito e de Capital Múltiplas Conexões Direito à Autonomia

Retirada de Crédito e de Capital Potencialidades de Direito de Manifestar-se e de Errar


Trajetórias

Discurso do Caos, da Desordem, do Medo e da


Ameaça Racializados. A Totalidade da Cidade Direito à Identidade/Diferença

Fonte: Elaboração Própria

Diferentemente do debate da segregação que tem se constituído sobre


algumas dicotomias (classe – raça) quando falamos de distinção racial as
diferentes formas de hierarquização inventadas para negar espaço e direitos, se
combinam e explicam melhor a natureza de nossas desigualdades. Logo, quando
criamos os cruzamentos dessas hierarquizações percebemos a complexidade de
métricas que tem sido criadas e a luta por direitos que têm sido engendradas tanto
por reconhecimento quanto por redistribuição (FRASER, op. cit. ) buscando
através das diferentes formas de direito apontado no quadro acima eliminar tais
distâncias instituídas e instituintes (BOURDIEU, 1989).
Kabengele Munanga, inspirado em Habermas, lembra que reconhecer os
mesmos direitos para todos os indivíduos pode significar fazer uma abstração das
suas diferenças ao atribuir direitos idênticos a grupos diferentes. Ou seja, a

238
necessidade da diferença, especialmente que foi silenciada e subalternizada
histórica e geograficamente, ser tratada de forma diferente.

[...] todo peso da racialidade é atribuído aos grupos raciais


dominados (negro, índio, entre outros), o grupo branco exerce o
poder de não ser identificado enquanto grupo racial nas suas
ações individuais. Aqui a noção de cor do grupo ganha aspectos
de não-coloração: é possível ao indivíduo branco, no desempenho
de suas ações diárias, isentar-se de uma identificação racial em
nível do grupo ao qual pertence, pintar-se em tons incolores.
(SANT‘ANNA, 2006:37)

Todavia, é importante ressaltar que dizer que o número de casos no plano


jurídico-político não é alto e, por isso, não merece atenção para pesquisas
científicas é um incorrer num grande equívoco analítico, já que por problemas na
legislação brasileira comprovar o dolo racial é difícil no plano jurídico levando a
vítima não ir com o caso a frente; muitos constrangimentos raciais são creditados
com outras nominações (injúria, difamação, entre outros), o medo de sofre alguma
represaria (especialmente em contextos de trabalho e nas relações com a polícia),
entre outros.
Cremos que a questão racial no Brasil apresenta múltiplas tensões no espaço
concebido, na esfera do espaço vivido e percebido (LEFEBVRE, 1974). Em outras
palavras, conflitos raciais nas relações com instituições, especialmente públicas. E
conflitos raciais no espaço cotidiano que muitas vezes não chegam a esfera
jurídica-política pois, formas de autoritarismo são reproduzidas e difundidas
articuladas e sobre a manutenção, em muitos casos, do espaço concebido.

3.2.2. Análise de Dois Casos Paradigmáticos

Analisando vários casos de discriminação racial percebemos que a questão


racial se inscrevia espacialmente de distintas formas. Além dos imaginários
racistas terem interferido na autonomia das trajetórias sócio-espaciais individuais
ao cria impedimentos e restrições em direção a uma vida qualificada percebemos
que dois casos tornaram-se exemplares desta tese.

239
3.2.2.1. Evento de Discriminação Racial sofrido por Dinho K2

Edmilson dos Santos Silva nasceu e foi criado no bairro de Monjolos 129,
periferia do município de São Gonçalo (RJ). Uma região pobre, com uma baixa
infra-estrutura urbana, caracterizada por antigas olarias e com uma população que
se desloca diariamente no movimento pendular em direção ao centro comercial de
Alcântara (São Gonçalo) e para o núcleo da metrópole no centro de Niterói e do
Rio de Janeiro. Pai de 08 filhos e com uma neta, Edmilson sempre transitou por
toda a metrópole carioca desde jovem.
Desde 2002 aderiu à cultura Hip Hop e passou a ser mais conhecido como
Dinho K2. Dinho K2 é rapper, ativista da cultura hip hop, da questão racial e das
ações que busquem eliminar as desigualdades sociais no Brasil. Já realizou o seu
trabalho em várias cidades pelo país Trabalha com a palavra, isto é, ações
comunicativas através das rimas sobre o desrespeito aos direitos humanos nas
cidades brasileiras, o preconceito e a discriminação racial em escolas e projetos
em toda metrópole carioca; e com ações territoriais através do Ponto de Cultura,
no bairro de Monjolo, que oferece diversas oficinas de dança de rua, audiovisual,
grafite, entre outros que é um dos coordenadores no que ele chama de um
Quilombo Urbano, a transmutação dos espaços de antigos quilombos em favelas
(CAMPOS, 2005) e espaços populares.
Nem toda a sua experiência de 39 anos (idade na época do acontecido que
gerou ação judicial) de vivências de lutas contra a discriminação fez com que
Edmilson não fosse surpreendido, num momento de lazer com sua companheira,
por um evento de discriminação inesperado no CCBB-RJ (Centro Cultural Banco
do Brasil – Rio de Janeiro).
Numa tarde de domingo quente do verão do carioca, Edmilson e sua
companheira Roberta Federico resolveram passear no Centro Cultural Banco do
Brasil a fim de relaxar e desfrutar de algumas horas de lazer. Transitavam o casal,
como dezenas de outros pelo espaço do CCBB quando de repente Edmilson e

129
O nome deste local faz uma referencia a diáspora, pois é uma localidade em África.

240
sua companheira percebem que estão sendo seguidos pelos vigilantes locais. O
casal num primeiro momento não acreditou que tal ato poderia estar acontecendo
naquele local e naquele momento. Continuaram o seu passeio mas, a vigilância
ostensiva fez com que ressuscitassem em suas mentes a ideia que eram o
elemento cor padrão da vez. Perceberam que as suas potencias trajetórias e
itinerários estavam sendo inibidas e reguladas. Resolveram então, ‗testar‘ os
vigilantes indo para outros locais e novamente perceberam que estavam sendo
‗vigiados e punidos‘ simbolicamente por estarem ali naquele momento. Assim o
casal foi perguntar o que estava acontecendo e por que estavam sendo vigiados.
Em tom de deboche e de forma dissimulada afirmavam que estavam fazendo o
seu trabalho. Naquele momento Dinho K2 e sua companheira perceberam-se
como estrangeiros (um a mais, de outra realidade sócio-espacial) e estranhos
(desconhecidos potencialmente perigosos) naquele espaço. Apesar de ser
freqüentado por muitos turistas internacionais perceberam-se como estranhos e
estrangeiros não pela sua cultura, mas pela sua corporeidade.

[...] Aí agente não gostou [da atitude dos seguranças]. Aí agente


chamou o diretor. (Dinho K2)
[...] Ele disse que não foi racismo, por que racismo é impedir a
pessoa de ter acesso. Racismo para ele era barrar na porta.
(Roberta Federico)
[...] ai depois disso o que aconteceu. Botaram só um negro para
seguir agente para agente achar que não era racismo. (Dinho K2)
[...] quando tem eventos de Hip Hop aqui o tratamento do negro é
diferente. Aí eles estão sabendo. Quando não tem [...] por que o
evento é raro acontecer, na maioria das vezes só eventos
internacionais. Mesmo agente indo lá agente vê essa diferença.
[...] quando é evento específico de Hip Hop e da cultura negra ai
eles ficam sabendo. [...] Um montão de preto lá dentro ai eles
ficam sabendo. [...] (Dinho K2).

Percebe-se que a atitude da instituição foi não só negar o fato, mas também
criar um simulacro de coexistência com as culturas negras como Hip Hop. Este
evento mudou a sua rotina de uso de determinados espaços da cidade. Como ele
mesmo nos diz:

241
[...] deixei de ir o CCBB desde de 2007. Aí quando foi em 2009,
eu estava estudando na escola de cinema Darcy Ribeiro [...] Ai
aconteceu uma coisa que ia acontecer lá no CCBB dá uma
oficina. Aí tive que entrar mais muito com um sentimento muito
ruim de ter que dá a oficina lá num espaço que me maltratou
beneficiando outras pessoas no conhecimento que eu tenho.
Tinha que fazer a oficina com o pessoal lá. Parei de freqüentar [o
CCBB], mas não é isso só não: alguns bancos eu não entro,
supermercado eu não gosto de entrar, alguns ônibus eu não gosto
de pegar. Morara lá [Praça Seca] 260 [para Vila Valqueire].
Pegava mais o trem mais avalia antes de sair de casa. Já vai
psicologicamente preparado. Já criava uma armadura (Dinho
K2)130

A prática dos vigilantes naquele momento acabava produzindo uma


hegemonia racial sobre o acesso, o uso e a apropriação daquele espaço. Desta
forma, não era um espaço produto do racismo e sim o seu uso que o racializava. A
assunção da aparência corpórea de Edmilson se constituía com uma forma de
distinção racial do/no espaço que o hipervisibilizava pelos estereótipos e estigmas
historicamente criados sobre os negros no Brasil.
A tensão no trânsito de Dinho K2 com sua esposa naquele espaço
expressa uma normatização, especialmente no uso e apropriação que deixava seu
corpo em evidência e afirmava aquele espaço como um bem oligárquico sob a
hegemonia racial branca. Infelizmente apesar das inúmeras experiências de luta o
seu corpo era alvo, mas buscava torna-se território e arma.

Corpo alvo: corpo culturalmente perseguido e transformado em


objeto do desejo e da criminalização. Corpo território: corpo sob o
qual incidiram séculos de discriminação, agora plataforma de uma
proposta, que pela via da rebeldia, anuncia mais uma forma que se
quer autêntica de transformação das marcas sociais de exclusão,
fato constante desse corpo negro, em toda a extensão da diáspora
africana. Corpo arquivo: corpo que guarda na sua implícita memória
fisiológica a força poética com gestos e posturas. Corpo arma:
corpo que amalgama a ruptura, a liberação e a esperança,
promovidas através da ambigüidade e da fala. (TAVARES, 2004)

130
Entrevista concedida em Junho de 2011.

242
A ideia de corpo-território131, de que nos fala Tavares (op. cit.) não é nova.
Já estava contida, por exemplo, em Sodré (1988), quando este, dialogando com a
Geografia, buscava analisar as danças dos escravizados negros como um jogo de
descentramento, reelaboração simbólica do espaço, tendo no corpo o elemento
configurador do território próprio do ritmo. O corpo território, para nós, será o corpo
potencializado e reinventado na cidade pelo Hip Hop, enquanto um projeto
emancipatório.
Garcia (op. cit.) analisando um depoimento colhido em sua pesquisa,
aponta que outros contextos sócio-espaciais os corpos negros são alvo
(TAVARES, 2004) [Os restaurantes de luxo, aeroportos, clubes] hotéis e
shoppings (um dos símbolos da modernidade urbana capitalista) são visto pela
maioria como um dos lugares de maior discriminação contra negros, como
mostram estes depoimentos:

No mercado de trabalho o lugar pior são hotéis e shoppings,


porque está ligado intimamente com a clientela e a aparência
conta. Se for a algum shopping e ver que está bem cuidado, bem
maquiado. Em supermercado também tem. Sempre se olha para
a cor, mas é pior em alguns lugares‖.
No shopping, quando entra um negro de pele escura logo começa
a observar, botar segurança pra acompanhar e nem disfarça!
Enquanto olha a gente pensando que vai roubar, entra um branco
e já roubou, já levou e ele nem viu.

Ou seja, o evento que passava Dinho K2 não se restringe infelizmente a


aquele espaço e contexto. Em vários depoimentos de pessoas que passaram por
eventos de discriminação, mas que não foram à justiça, nos afirmaram que este
fato passado por Edmilson gera ―[...] a sensação de julgamento iminente‖
(ELLISON, 1990) ao acessar determinados espaços e escalas que não são
maioria. Assim, muitos pais ensinam de forma planejada e/ou tácita os momentos
de entrada e saída de alguns locais132.

131
É importante sinalizar que a idéia de território de Tavares (2004) é distinta da nossa. Tavares (op. cit.) vê o
território aqui como uma metáfora espacial. Lembremos dos cuidados teórico-metodológicos de conceitos
transpostos de outras disciplinas que ORTIZ, 2003 e M. SANTOS, 2002b [1996] nos aconselha vê-los como
metáforas, pois percorreram outros caminhos teóricos e empíricos.
132
Como já dito anteriormente meus pais na minha infância e adolescência sempre me dizia “meu filho você
preto, pobre e mora no morro”. Hoje não moro mais no morro e segundo alguns estudiosos do tema pertenço à

243
Percebemos que a luta contra o racismo que tenciona Dinho K2 na ação
que moveu é também uma luta contra as imposições escalares que impõe
restrições a circulação em determinados níveis e patamares da vida social aos
negros.
Ademais do ato de revolta do absurdo que tal evento e a busca por direitos,
Edmilson, relatou que se sentia intimidado pela forma como os superiores dos
vigilantes trataram o fato por ele narrado, pois os representantes da instituição
afirmavam que ela não impedia o acesso de negros, logo, não poderia ser admitir
atos racistas em seu espaço e nem muito menos ser culpabilizada pelos atos
racistas de pessoas naquele recinto. As posições de poder advindas das funções
desempenhadas pelos vigilantes eram marginalizadas.
Os autos do processo nos informam que os atos sociais que geraram o
evento de discriminação ganharam à escala jurídica-política. Desta forma, tal
conflito racial que se ensejou no espaço do CCBB-RJ (Centro Cultural Banco do
Brasil – Rio de Janeiro) não foi finalizado, pois a duração da experiência e
percepção do racismo ganhou a esfera (escala) institucional quando a vítima foi à
busca por direitos.

Edmilson dos Santos Silva propôs ação indenizatória por dano


moral em face de Banco do Brasil S/A, objetivando indenização
por danos morais, em valor a ser arbitrado pelo juízo. Como
causa de pedir, sustenta o autor ter sofrido injusto
constrangimento no Centro Cultural Banco do Brasil, aonde
encontrava-se com sua companheira, em 18/02/2007. Narra que
sofreu vigilância excessiva e perseguição pelos vigilantes em
razão de ser negro, o que lhe causou forte constrangimento.
Acresce, ainda, que procurou o responsável pela equipe de
vigilância, contudo, nenhuma providência foi tomada, razão pela
qual preencheu uma ficha de reclamação no local. (p. 02)

O exemplo apontado pela ação judicial feita por Edmilson dos Santos Silva
expressa aquilo que estamos chamando de tática espacial de distinção racial que
estabelece ações de coação e coerção de indivíduos pelas racialização dos seus

nova classe média. No entanto, mesmo que alguns negros não se admitam como negros (como muitos afro-
descendentes o fazem pelo grau de mestiçagem de sua família) vários relatos nos foram apontados que as
pessoas negras passam por uma pedagogia para evitar conflitos raciais para acessar, usar e me apropriar de
alguns espaços e escalas devido a minha corporeidade, assim como eu passei.

244
corpos espaciais e espacializados, ou seja, Edmilson sofreu uma coação e
coerção racial por estar e circular naquele espaço naquele momento. Desta forma,
o constrangimento racial no acesso, no uso e na apropriação deste espaço por
Edmilson reivindica o direito de ir e vir ao ser alvo de qualquer discriminação.
Indiretamente Edmilson reivindica também o direito de ser visto e reconhecido de
forma digna. Assim, a relevância do discurso, no caso, o discurso não-verbal
apresentado pela forma de abordagem e perseguição excessiva dos vigilantes por
razão de Edmilson e sua companheira serem negros e circularem em
determinados espaços revelam hábitos, costumes, valores racializados na
construção social estigmatizada dos sujeitos, o que estamos chamando de um
ordenamento espacial das relações raciais, inscritos no comportamento de
pessoas responsáveis pela ‗defesa‘ desse espaço. As posições de poder
permitem que oprimidos oprimam oprimidos (SOUZA, 2008) já que a grande
maioria dos trabalhadores da área de segurança são pobres e negros.
Os autos do processo nos informam também que

Contestação às fls.39/60, na qual afirma que promove diversos


eventos divulgando a cultura negra. Sustenta possuir a política de
prestigiar todas as raças, patrocinando, inclusive, o movimento
―Hutúz‘, maior expoente da cultura afro-descendente no Brasil.
Informa que o autor jamais foi impedido de circular dentro do
Centro Cultural Banco do Brasil e que a vigilância no local é
necessária para o regular exercício de suas atividades. Rechaça a
ocorrência de dano moral. (p. 02/03)

Percebe-se que o réu (o CCBB-RJ) aponta uma dimensão temporal em que


os negros e os afro-descendentes possuem acesso, podem usar e apropriar-se
deste espaço quase que de forma irrestrita. Como o prêmio ―Hutús‖ geralmente
ocorre próximo da semana de consciência negra em novembro, a ‗cota‘ do CCBB-
RJ expressa que ele estaria livre de qualquer discriminação criando aquilo que
denominamos de coexistência de negação e anulação em determinados
momentos do ano. Contudo, como apontado por muitos ativistas de movimentos
sociais, vários juízes, mesmo quando aceitam com procedente os casos, no final
classificam como injúria e não como crime de racismo.

245
[...] no final ela [a juíza] botou como danos morais, não botou
como racismo. Injúria racial coisa assim. [...] Ela não botou como
racismo. [...] (Dinho K2)

Os eventos de discriminação racial promovem uma experiência de espaço


distinta, especialmente nas vítimas. O caso do menino, filho do sambista Arlindo
Cruz, que ficou mais de um ano sem sair de casa ou como aqui, Dinho K2
modificando as suas trajetórias na cidade. Desta forma, vivem temporalidades
desiguais (SANTOS, 2002). Dinho K2 apresenta esta desigualdade de
temporalidade quando se refere à dificuldade que tem passado no vestibular. Em
outras palavras, as tensões que vivenciou, especialmente na escola, e os
afastamentos que estas tensões (internas e externas) que geraram o levaram está
num tempo diferente dos demais estudantes. Logo, o acesso a determinados
espaços e escalas na sua vida adulta não foi só diferente, mas também desigual.
O acontecer do evento discriminatório foi perversamente solidário a outras
formas de discriminação e hierarquizações. Logo, ele gera uma cadeia de eventos
na trajetória da vítima que modifica os seus itinerários cotidianos. Este acontecer
tem uma cara própria em cada lugar (SANTOS, 2002) e com cada indivíduo. O
que em alguns lugares e em determinados tempos pode ter soado como ato
discriminatório e em outros pode ser uma interação cordial.

3.2.3.2. Evento de Discriminação Racial sofrido por Prettu


Júnior.

Da cidade de Jandaia do Sul, estado do Paraná, para o Rio de Janeiro.


Esta foi à trajetória de Izaqueu Alves ainda muito pequeno em direção a metrópole
carioca. Sexto filho de uma família de pais bóias-frias que tiveram sete filhos
(quatro meninas e três meninos). Seu pai morreu quando tinha apenas dois anos
de idade e a cidade foi à trajetória de sua família em busca de melhores
condições. Migrou para o Rio de Janeiro com a família ainda criança. Aí construiu
os seus itinerários. Izaqueu morou alguns anos em São Paulo, mas se sente um

246
legítimo carioca, pois viveu praticamente a vida inteira nos subúrbios do Rio de
Janeiro, especialmente em Piedade, Madureira e Del Castilho.
Aderiu ao Hip Hop no final dos anos 90 e passou a ser conhecido como
Prettu Júnior ou P. Júnior. Pai de 02 filhos e amante do bom futebol. Flamenguista
apaixonado, porém não fanático, lamenta que a redenção econômica que alguns
jovens negros conseguem no futebol não venha acompanhada também de uma
redenção política da condição social do negro no Brasil.
Freqüentador assíduo dos bailes blacks do subúrbio carioca Prettu Júnior,
como é ativista da cultura hip hop no Rio de Janeiro. Participou efetivamente de
iniciativas de delegações brasileiras que participaram na III Conferência Mundial
Contra o Racismo, a Xenofobia e formas correlatas de intolerância promovida pela
ONU, em Durban, na África do Sul. Participou do Fórum Social Mundial, nos anos
de 2002 e 2003, em Porto Alegre, onde nessas duas oportunidades pode desfilar
os seus versos e rimas recheadas de críticas sociais. Foi um dos protagonistas da
criação da iniciativa ‗Fórum das Periferias‘ no Rio de Janeiro que infelizmente não
se realizou por completo. Fez shows e apresentações em várias partes do Brasil,
América do Sul e Central. Prettu Júnior, como certa vez me confessou é um negro
revoltado, pois não admite a forma subalterna de como são tratados os negros em
determinados contextos e espaços. Ou seja, Prettu Júnior é um cara politizado.
Isso impediu que fosse surpreendido com tal evento de discriminação. O evento
de discriminação não está separado de outras formas de hierarquização.
Prettu Júnior é rapper, ativista, escritor, designer gráfico e fotógrafo.
Trabalha com a palavra, com as rimas, ações, com o discurso e com as imagens
dos negros e negras na cidade. Já militou em vários movimentos sociais
envolvidos com a temática étnico-racial no Brasil, mas não se institucionalizou e
nem se submeteu às estruturas hierárquicas e hierarquizantes de muitos
movimentos.
Assim como Dinho K2, nem toda a experiência que adquiriu com as
vivências de luta contra a discriminação através do Hip Hop e com a sua
literatura fez com que Prettu Júnior não fosse surpreendido por tal
evento em frente ao metrô na cidade do Rio de Janeiro.

247
Num dia desses fui até Vicente de Carvalho pra fotografar uma
amiga minha que estava grávida e queria fazer umas fotos
bacanas. O dia transcorria normalmente e eu entretido em meus
pensamentos peguei o metro em Del Castilho e como tinha
marcado com uma amiga minha, a Luanda que pra variar chegou
atrasada, fiquei na entrada do metro de Vicente de Carvalho
esperando a menina. Passaram se uns 15 minutos e quando me
dei conta estava sendo abordado por um policial branco com voz
arrogante me perguntando o que eu tinha na mochila. Disse que
tinha uma maquina fotográfica, o mesmo me pediu pra abrir a
mochila o fiz constrangido, mas o fiz. Ao avistar a câmera uma
Canon EOS, Rebel xsi, o cara virou-se pra mim e perguntou se eu
tinha registro de fotografo. Putz! Fiquei atônito com a pergunta e
respondi que não tinha que lhe dar nada disso, então o xerifão
revoltado disse que iria me conduzir a delegacia133.

As práticas dos policias logo foram estranhadas por Prettu Júnior, pois além
de racista, feria o seu direito de intimidade, de ir e vir e de propriedade de um bem
de consumo adquirido com recursos do seu trabalho. Prettu Júnior numa utópica
inocência, como o próprio relatou, resolveu ligar para a polícia para apontar as
ações autoritárias dos policiais.

Falei com a atendente expliquei o que estava acontecendo e


perguntei se esse procedimento era correto a atendente tão
atônita quanto eu disse que não que isso não era possível. Pediu
pra eu informar o nome do policial que estava me abordando
disse o nome, mas logo em seguida fui empurrado pra dentro da
viatura por dois brutamontes (brancos) é sempre bom frisar a cor
dos agredidos e a cor dos agressores afinal são sempre os
mesmos134.

Tal ato protagonizado pelos policiais restituía, ou melhor, atualizava a ideia


e a prática tão combatida pelos movimentos negros e anti-racistas de que todo
camburão tem um pouco de navio negreiro. O tribunal de rua logo se estabeleceu
e as pessoas que circulavam logo perceberam que o corpo negro de mais um filho

133
Manifesto feito por Prettu Júnior divulgado na net por e-mail. Em conversa com Prettu Júnior percebi que
Prettu Júnior compreende a luta social para emancipação dos negros possuindo várias frentes, como lembra o
produtor cultural e escritor Haroldo Costa, “os estilhaços da diáspora negra disseminaram novos padrões.”
(COSTA, 2009: 17)
134
Idem.

248
de preto, como Prettu Júnior havia me dito o significado do seu nome, era alvo de
uma tentativa de achaque, de humilhação, violência física e simbólica.

Encheu de gente indignada, mas ninguém fez nada afinal fazer o


que todo dia o direito de algum cidadão negro é lesado nessa
cidade, as pessoas já se acostumando com a covardia. [...] na
viatura já em movimento o xerifão me perguntou com quem eu
estava falando e eu disse que era com 190 e o cara visivelmente
irritado mudou a direção pra onde íamos só Deus sabe agora.Na
delegacia o cara apresentou a sua justificativa e como se tivesse
razão disse que me prendeu e algemou por que eu disse que era
fotografo profissional, mas não apresentei o registro de fotografo.
Porra ele colocou isso nos autos nem acreditei. Mas a trapalhada
não parou ai um dos policiais que prontamente pediu para tirar a
algema de mim depois de ver que eu não tinha antecedentes
criminais veio me pedir para deixar pra lá que isso não daria em
nada, o incrível é que mais tarde uma advogada que uma ONG
me indicou e que se diz defensora dos direitos humanos me disse
algo parecido135.

A irritação que Prettu Júnior fala do policial ao perceber que ele não só não
se submeteu, mas passou a se constituir como sujeito político lembra que

[...] em toda a sociedade a produção do discurso é ao mesmo


tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por
certo número de procedimentos que tem por função conjurar seus
poderes e perigos dominar seu acontecimento aleatório, esquivar
sua pesada e temível materialidade. (FOUCAULT, 1996: 08/09).

O fato ocorrido na delegacia expressa que a duração do evento de


discriminação racial não só ganhou à escala jurídica-política, como também,
inúmeros obstáculos começaram a ser criados para evitar que Prettu Júnior saísse
do anonimato cria-se uma luta política por direitos, politizando assim a identidade
negra, afirmando-se como um sujeito político em busca de acesso, uso e
apropriação de escalas e espaços produzidos socialmente. Na delegacia os
policiais que o agrediram o acusaram de desacato (Art. 331 – CP) e
desobediência (Art. 330 – CP). Prettu Júnior de vítima tornou-se réu.
O fato que narra Prettu Júnior em seu manifesto distribuído na rede virtual
não é apenas a segregação do espaço urbano de base racial já constatado por
135
Ibidem.

249
inúmeros intelectuais críticos. Prettu Júnior aponta que historicamente a aparência
corpórea (da cor da pele [até as roupas dos ‗filhos de santo‘ adeptos dos cultos
afro-brasileiros]) tem reproduzido acessos, usos e apropriações
desiguais dos espaços da cidade das pessoas que são classificadas como
negras.
Portanto, a luta pelo direito à cidade e a eliminação de todas as
formas de discriminação necessitam acabar com os mecanismos de
racialização do espaço em que os negros não podem estar em qualquer
lugar136.
Tanto Edmilson dos Santos Silva (Dinho K2) quanto Izaqueu Alves (Prettu
Júnior) são apresentados como negros fora do lugar que lhe foram impostos pelo
imaginário racista dominante. A condição econômica de ambos não permitiu, na
visão conservadora, ter um cartão de visitas que camuflasse tal tensão. Dinho K2
e Prettu Júnior, em verdade, não querem ter um cartão de visitas. Querem ser
respeitados independentes de qualquer coisa. Por isso, podem ser vistos como
negros em movimento, pois criam fraturas na reprodução, no acesso, no uso e na
apropriação racializada dos espaços e escalas. São intelectuais orgânicos, pois
constroem e participam de uma concepção de mundo ao criarem ―[...] uma linha
consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma
concepção do mundo, isto é, para promover novas maneiras de pensar‖
(GRAMSCI, 1982: 08).

[...] eles [os intelectuais] consideram a si mesmos como sendo


autônomos e independentes do grupo social dominante. Esta
autocolocação não deixa de ter conseqüências de grande
importância no campo ideológico e político: toda a filosofia idealista
pode ser facilmente relacionada com esta posição assumida pelo
complexo social dos intelectuais e pode ser definida como a
expressão desta utopia social segundo a qual os intelectuais
acreditam ser ‗independentes‘, autônomos, revestidos de
características próprias, etc.. (GRAMSCI, 1982: 06).

136
Após a circulação na rede virtual do manifesto de Prettu Júnior a OAB-RJ entrou no processo e hoje ele
está tramitando no Juizado Especial Cível e Criminal da Penha (RJ).

250
As suas atitudes revelam que o cotidiano dos negros na cidade tanto em
espaços públicos, semi-públicos quanto privados é normatizada, regulada e
disciplinada. Cabendo aos negros pelo ordenamento dominante introjetar e in-
corporar a pose de humildade, mansuetude de valores racistas.
Os eventos de discriminação ao ganharem a escala jurídica-política nos
exemplos acima tornaram-se ativismos sociais ao criarem ações na esfera pública
por luta e garantia de direitos sociais (SOUZA, 2006) podendo direta ou
indiretamente redefinir lócus da espacialidade urbana onde foram vítimas de
constrangimento racial tanto na (re)produção quanto no acesso, no uso e na
apropriação desses e de outros espaços e escalas.
Avaliando as entrevistas concedidas e os distintos contatos com os nossos
interlocutores, percebemos que as lutas anti-racistas travadas no plano jurídico-
político vão além dos interesses particulares da vítima, já que todos os relatos que
nos foram apresentados nos informaram que o interesse não era o recurso
financeiro que poderiam ou não ganhar e, sim, no alargamento das fronteiras e
horizontes possíveis (SOUZA, 2008) buscando uma

[...] autonomia individual (que se refere à possibilidade material e


institucional efetiva e também à capacidade psicológica de um
indivíduo para definir propósitos para a sua vida e perseguí-los de
modo lúcido e em igualdade de oportunidades [e de direitos] com
os demais indivíduos pertencentes à mesma sociedade) e
autonomia coletiva (que se traduz, material e institucionalmente,
pela existência de instituições sociais que garantam a igualdade
efetiva – e não somente formal – de oportunidades aos indivíduos
para a participação em processos decisórios relevantes para a
regulação da vida coletiva, e, sobre essa base, para a satisfação
de suas necessidades) [...] (SOUZA, 2008:45)

Percebemos nas entrevistas que esses ativismos transformam-se em ações


afirmativas em sentido lato em que a questão não é a barganha entre o réu e a
vítima do valor econômico da ação, mas questionamentos mais profundos
relativos à condição urbana do negro e do negro no urbano.
Contudo, não podemos simplesmente entender as trajetórias das vítimas de
racismo como um acúmulo (somatório) de experiências (eventos de
discriminação). As percepções desses indivíduos das experiências que sofreram

251
podem mudar com o tempo diluindo ou se cristalizando nas suas trajetórias
(SOUZA, 2006). Em outras palavras, os eventos de discriminação experienciados
por um indivíduo são contextos articulados que condensam hierarquias sociais
historicamente inventadas em determinados contextos sócio-espaciais e não mera
casualidade. A ―pluralidade de habitus‖ (SOUZA, 2005) de um indivíduo pode ser
uma das bases da ‗reação‘ a esses momentos conflituosos e inesperados dos
eventos de discriminação que permite a vítima ―[...] agir em um meio dado sem
cálculo ou controle consciente‖ (THIRY-CHERQUES, 2006:34) 137 . O agir assim
não pode ser visto numa perspectiva maniqueísta de consciência e falta de
consciência racial. Os múltiplos horizontes práticos que participa o indivíduo, com
seus sistemas e subsistemas são atravessados por distintos campos. Assim, ―os
gestos fortes que só ele pode ver‖ 138 são formas de atuação não planejada da
vítima nesses campos de poder. Logo, o aparente casuísmo em muitos casos é
revelador de espaços recortados por campos (DUSSEL, 2007; BOURDIEU, 2008),
isto é, de valores ou formas de capital que dão sustentação a determinadas
relações de força (THIRY-CHERQUES, 2006) em determinado momento e lugar.
Os eventos de discriminação sofridos por Dinho K2 e P. Júnior são
situações espaços-temporais hierarquizantes vividas e percebidas por pessoas
identificadas como negras pela assunção de sua corporeidade e dos valores
morais, intelectuais, estéticos e culturais afrodiaspóricos como instrumento de
dominação139. O evento discriminatório atenta contra o domínio da liberdade. A
assunção da corporeidade e dos valores afrodiaspóricos ocorrem tanto por
linguagem verbal quanto por linguagem não verbal. Em muitos casos tais eventos
são acionados e concebidos pelos agressores como advertência e/ou punição aos

137
Concordamos com Souza (2006) quando afirma que apesar deste habitus referir-se a um indivíduo [ou
melhor, a uma pessoa], isso não significa que estamos propondo a defesa do individualismo como um valor
ou dos aportes (neo)liberais que percebem o indivíduo (sem consciência de si e dos outros) como fonte de
todo o sentido de moralidade.
138
Trecho da música Lado B Lado A do grupo musical o Rappa.
139
Visitando o Ponto de Cultura coordenado por Dinho K2 e Roberta Frederico, em outubro de 2011 eles
relataram um fato local que expressa uma tensão com os valores culturais, intelectuais e morais afro-
diaspóricos.
Uma mãe indo levar os filhos para a inscrição em oficinas do Ponto de Cultura perguntou em tom
agressivo: “Que desenhos são esses nas paredes?” referindo aos grafites feitos numa das oficinas. “Isso é
macumba?”, disse a mãe. Dinho K2 respondeu em tom afirmativo das culturas afro-diaspóricas: “Sim é
macumba, sim” Esta mãe não escreveu o filho na oficina e não voltou mais no local.

252
negros que não sabem o seu lugar e passam a circular e freqüentar espaços e
escalas que não foram definidos historicamente como seus. O caso de Dinho K2
exemplifica essa nossa teorização.
Desta forma, a distinção racial no acesso, no uso e a na apropriação de
determinados espaços e escalas expressa: 1- Preconceitos raciais disseminados
em todas as esferas da sociedade inibindo potenciais trajetórias sócio-espaciais;
2- Uma hegemonia de poder racial nos espaços de poder, de decisão, de
consumo e de lazer; 3- Invisibilidade nos espaços de representação; 4- Em geral
se apresentam combinadas a outras formas de hierarquização; 5- Restringe e em
muitos casos impede o direito ao espaço da cidade pela assunção da aparência
corpórea dos indivíduos;

253
Considerações Finais

O método de uma pesquisa orientada por questões de ordem acadêmica e


política sugere que as teses levantadas inicialmente devam ser comprovadas,
refutadas ou parcialmente refutadas e/ou comprovadas.
Percebemos que o racismo se inscreve no espaço de forma múltipla e se
apresenta em distintas modalidades. Propomos que as práticas racistas,
discriminadoras e preconceituosas são inerentes à criação de distâncias (materiais
e simbólicas) de diferentes naturezas. Percebemos que essas distâncias se
revelam tanto em eventos de discriminação quanto em arranjos e ordenamentos
espaciais das relações raciais. Buscamos comprovar que cada um desses elos
geográficos qualifica as diferentes inscrições espaciais da questão racial.
Entendemos que eles resultam em distinções raciais no acesso, no uso e na
apropriação e processos de segregação do espaço de base racial.
A sede de conhecimento, que experimentamos no processo investigativo ao
nos defrontarmos com a realidade inesgotável do mundo da vida, aponta que não
podemos depender exclusivamente do já tão criticado e precário instrumento da
razão (KONDER, op. cit.). Entendemos, como nos sugere Milton Santos (2002
[1996]), que o espaço além de técnica e tempo é razão e emoção. Ou seja,
metodologicamente ―... o que podemos fazer de melhor é tentar apreender a
realidade por todos os meios, pela sensibilidade como também pela razão‖
(KONDER, op. cit.:214).
Uma cidade como a do Rio de Janeiro, onde o contraste sócio-espacial é a
expressão de uma sociedade que cria distinções perversas entre os indivíduos
pela aparência corpórea, pelos valores mentais, intelectuais, estéticos e morais,
pela condição social e pelo lugar onde moram, é resignificada por lutas sociais no
cotidiano e no campo jurídico-político.
A nossa trajetória de pesquisa envolveu os caminhos intencionais
construídos e os itinerários inesperados no ato investigativo. É importante
ressaltar, no entanto, que alguns elementos ―inesperados‖ surgiram na trajetória
da pesquisa. Nosso caminho empírico deparou-se com uma dificuldade

254
metodológica no tratamento da questão racial. Percebemos que esta dificuldade
está relacionada ao tratamento do sujeito na Geografia. Entendemos que esta
análise tem merecido reflexões tanto ontológicas quanto epistemológicas.
Percebemos que este duplo enfrentamento merece um trabalho mais aprofundado
futuramente da questão racial.
Uma outra dificuldade ‗inesperada‘ que nos deparamos foi à análise do
crescimento vertical residencial das cidades e a questão racial. Fizemos alguns
apontamentos, mas cremos que esta questão merece um aprofundamento futuro.
Vimos também, a partir dos mapeamentos propostos por Garcia (2006), que
alguns bairros como a Lagoa, concentram uma grande quantidade de negros em
cargo de gerência. Cremos que esse dado merece aprofundamento.
Apresentamos também que a chamada política do city-marketing é
carregada por valores de nossas relações raciais. Buscamos apontar alguns
caminhos iniciais para análise. Todavia, cremos que os passos iniciais dados
ainda merecem ser analisados com mais profundidade. Por isso, para não fugir do
nosso caminho inicial, que era a distâncias materiais e simbólicas geradas pela
inscrição espacial da questão racial sinalizamos a ideia e continuamos o debate.
Entendemos que o racismo, a discriminação e preconceito racial estão
disseminados em todas as esferas da sociedade brasileira inibindo potenciais
trajetórias sócio-espaciais. Eles restringem, e em muitos casos, impedem o direito
ao espaço da cidade pela assunção da aparência corpórea dos indivíduos. Este
fato cria uma hegemonia de poder racial nos espaços de poder, de decisão. Em
geral essas formas de subalternização se apresentam combinadas a outras
formas de hierarquização.
A vida que nos é dada (CASTORIADIS, 1989) é cheia de tensões e
possibilidades que emergem no cotidiano (nos espaços públicos e privados), no
campo jurídico-político, nas representações do espaço e nos espaços de
representação. Para Garcia (mimeo), com a qual concordamos, materializar o
direito à cidade passa, necessariamente, pela compreensão da pluralidade da
realidade urbana e as desigualdades raciais, de gênero e de classe.

255
Garcia (mimeo) afirma que um passo crucial nas políticas urbanas é a
criação de ―ações afirmativas espaciais que incluam o fazer a cidade ao feminino e
nas perspectivas de raça e classes populares‖ (GARCIA, mimeo). Para esta
autora, ―isto significa fazer uma verdadeira revolução nas formas de organização e
gestão do espaço urbano, tendo o planejamento e execução das políticas públicas
papéis fundamentais na promoção do Direito à Cidade [...]‖ (Idem)
A proposta de estudos geográficos das relações raciais no Brasil vem
promovendo outros horizontes teóricos e um alargamento do conteúdo empírico
da análise geográfica, ou seja, outras possibilidades campos empíricos para
leitura espacial de nossa realidade.
Assim, a avaliação das diferentes modalidades de inscrição espacial da
questão racial torna-se uma necessidade teórica e política, pois ao mesmo tempo
em que envolve a compreensão mais densa da nossa realidade significa a
construção de instrumentos mais eficazes de combate ao racismo, o preconceito e
a discriminação racial, e, portanto, fornecem melhores subsídios para a criação de
políticas públicas. O conhecimento mais aprofundado dessas formas de poder e
violência permite criar ações e lutas sociais que potencialize a formatação de
políticas públicas progressista para a construção para uma vida qualificada.
Desta forma, políticas de redistribuição podem ‗eliminar‘ padrões de
segregação, mas não necessariamente distinções raciais. É necessário, portanto,
combinar políticas que combatam a segregação, com políticas que estabeleçam
reparações e reconhecimento do direito dos negros de não serem discriminados e
verem o cumprimento da lei, a toda restrição e impedimento no direito de ser visto
e reconhecido de forma digna, no direito de ir e vir sem ser discriminado, no direito
à autonomia, no direito a manifestar-se e de errar e no direito a
identidade/diferença.
As medidas reparadoras precisam ir além do escopo da vítima, pois as
ações discriminatórias não só atingem ao grupo racial discriminado, mas também,
a toda a sociedade que reproduz espacialmente hierarquizações racializadoras.
Desta forma, as medidas reparadoras que busquem eliminar as distâncias

256
materiais e simbólicas precisam incluir tanto a dimensão do espaço concebido na
política pública quanto o espaço percebido/vivido pelas pessoas comuns.
A investigação apresentou que muitas vítimas entendem que não basta que
seja formalmente previsto em lei o crime de racismo, mas importa que possam
fazer o uso efetivo dele como instrumento de respeito a direitos sociais, o
rompimento de uma imposição escalar e da coexistência de anulação e negação
que instaura um simulacro de harmonia social e dissimula hierarquizações raciais.

257
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