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GRUPO 3:

LORENZO DE ALMEIDA
LUCA DE ALMEIDA

ROTEIRO E RELATÓRIO DE POESIA BRASILEIRA I:


A FINITUDE HUMANA EM AUGUSTO DOS ANJOS

São José do Rio Preto


2019
Bárbara (de preto e com um aspecto doente):
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —


Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,


E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(Psicologia de um vencido)

Bárbara morre, deita em um “caixão”, a luz se apaga. A luz se acende, Bárbara


está em um dos cantos do palco e dança. Francisco, Melanie e Lorenzo em volta do
caixão e para o público:
Melanie: ​A morte não é nada, senão um evento biológico. Não é nada senão o
fim de um ciclo, onde o carbono é dissolvido e devolvido à terra. Não é nada, senão
uma seleção natural em que nós, individualmente, nunca seremos selecionados.
Sempre haverá um predador chamado Destino, sempre haverá o último carnívoro,
fatal: o Verme… ​(Melanie passa para frente do caixão e fica diretamente para o
público)
Francisco: ​Neste momento, existe um Deus? Ou ele virou a cara e deixou o
mundo aos diabos? Para que tantos Salmos? Escritos, lidos e não-lidos. Se toda a vida
tem um fim, por que tem um início? Melhor seria economizar todo o barro, jogar as
costelas aos cães. A Vida é o mar de Moisés que, uma hora, temos que atravessar. Mas
é para isso que oramos tanto em vida, para que, na morte, possamos nos consolar.
Melanie: ​Fator universal do transformismo,
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme — é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo


Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,


Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,


E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
(Deus verme)

Melanie deixa uma terra sob o “caixão”. Entra Luca e se junta aos demais
envolta do caixão.
Luca (saindo de trás do público): ​Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!


O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,


Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Luca: Como disse Victor Hugo, a vida é uma longa perda de tudo aquilo que
nós amamos. Mas, o que é a vida? Qual é o laço fundamental que temos com a
existência, o que é a existência concreta senão uma confusão entre o real e o irreal? O
que há nela, então, de concreta? Ela ​(à morta)​, pelo menos, vive a resolução dos
problemas metafísicos, de um jeito que nem Kant escreveria. Deus, Destino e
Existência são postos à prova. Ela, pe​lo menos, se sanará do vazio do não saber o que
é existir. Neste ponto, eu a invejo…

Francisco:​Glória à matéria cósmica, a energia


Potencial que dá vida aos elementos
Base de portentosos movimentos
Onde a forma se acaba e principia

Sistematização dos argumentos


Que elucidam a Teleologia
Dentro da força cósmica se cria
A fonte-máter dos conhecimentos

É do mundo o Od ignoto, o éter divino


Onde Deus grava a história do destino
Dos seus feitos de Amor no Amor imersos

Livro onde o Criador Inimitável


Grava, com o pensamento almo e insondável
Seus poemas de seres e universos

Francisco, triste pela morte, deixa uma flor sobre o “túmulo” .


Lorenzo (melancólico e lamentando a morte):
Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me á tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia


Não era esse que a carne nos conforta.
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!


E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços -

Levando apenas na tumbal carcaça


O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!
Lorenzo: ​Talvez esteja mais feliz agora, a Vida não é senão um fardo, um
relicário complexo de decisões e consequências. Agora, não resta mais decisão nem
consciência, a vida é melhor quando não está sendo vivida. ​(para a platéia)
Por fim, entra Henrique, nada melancólico e levemente triunfante.

Henrique (potente e alegre): ​Isso é música para os meus ouvidos! O réquiem


é o ruídos dos vermes se apoderando das carnes! Os cantos alegres diante do banquete
colossal, o burburinho das patas diante do divertido corpo borbulhando. Sem tristeza!
A cantoria polifônica dos fungos, formigas e moscas é a celebração desta para a
melhor! Nem as trombetas celestes, nem o piano de Chopin poderiam reproduzir essa
harmonia única!
(Henrique vai para frente do palco e tira um papel do bolso com o poema)

Triste, a escutar, pancada por pancada,


A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos
O choro da Energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada


— O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...


Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...

E é em suma, o subconsciente aí formidando


Da natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!
(Lamento das coisas)
Henrique rasga o papel e para a platéia: ​Chega de poesia! Poetas patéticos! A
poesia é só uma ilusão para a existência humana. Um doce para uma criança
desavisada. Versos, quartetos, sonetos, alexandrinos… todos são apenas um consolo
pífio como um carinho da morte, que te arrasta como uma bela sereia para o inóspito
do oceano. Nada importa! Dancemos a dança da vida ​(faz uns breves passos de
dança com a Bárbara, ao modo irônico do personagem) ​e caiamos no tropel de
vermes rugosos e gosmentos. O que importa é sempre o final, o desfecho da música,
os aplausos das pálpebras se fechando. ​A vida não nada mais é do que uma sombra
que passa, um pobre louco que se pavoneia e se agita por uma hora no palco em cena
e, depois, nada mais se ouve.
A música acaba, a luz apaga, ambas bruscamente. Cai o pano.