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CENTRO DE EVENTOS BENEDITO NUNES - UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ - BELÉM-PARÁ-BRASIL

GT 07 – Cidades e Transformações do Urbano na América Latina

OS MUSEUS NAS PERIFERIAS URBANAS BRASILEIRAS: SOBRE A POLÍTICA


CULTURAL DOS PONTOS DE MEMÓRIA

Camila de Fátima Simão de Moura Alcântara (Universidade Federal do Pará)1


camilafsmoura@gmail.com

RESUMO

A prática museológica tem sofrido alterações significativas ao longo do último século com a
consolidação da museologia social que defende os compromissos sociais dos museus com a
comunidade representada dentro dessas instituições. No Brasil, essas práticas ganharam
força com o aparecimento dos Pontos de Memória, que são iniciativas comunitárias que
reconhecem a importância dos museus para as transformações sociais em territórios
musealizados, sendo ferramenta útil para afirmação de identidades e patrimônios locais. O
Programa Pontos de Memória criado em 2009 pelo Instituto Brasileiro de Museus, reconheceu
inicialmente 12 iniciativas comunitárias situadas em territórios periféricos dos centros urbanos
brasileiros, entre eles, o bairro da Terra Firme em Belém do Pará, com o Ponto de Memória
da Terra Firme. Por meio da teoria antropológica e do fazer etnográfico frente as formas de
atuação das comunidades integradas à Ação-Piloto do Programa Pontos de Memória e em
meio ao processo museológico instaurado no bairro da Terra Firme, proponho nesse trabalho,
refletir por que essas comunidades periféricas se organizam politicamente por meio dos
museus, trazendo observações e experimentos em campo. Desse modo, procuro dialogar
com dois campos disciplinares: Antropologia e Museologia, ao desenvolver uma pesquisa de
antropologia urbana. Em curso, afirmo que os museus presentes nas periferias urbanas
brasileiras provocam o protagonismo comunitário de comunidades que não tiveram a
oportunidade de expor seus valores sociais e culturais, garantindo assim o exercício ao direito
à memória.

Palavras-chave: Museus, Periferias, Pontos de Memória, Terra Firme, Política Cultural.

1. INTRODUÇÃO
No ano de 2009, o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) lançou o Programa Pontos
de Memória (PPM), tomado por um processo transformador no campo museológico que
iniciou na segunda metade do século XX. O objetivo principal era o de apoiar ações e
iniciativas de reconhecimento e valorização da memória social a partir do protagonismo
comunitário, partindo do entendimento de que os museus seriam meios de mudança social e
desenvolvimento sustentável de comunidades que não tinham a oportunidade de expor seus

1 Estudante de pós-graduação, Bacharel em Turismo Mestra em Antropologia pela Universidade Federal do Pará,
Programa de Pós-Graduação em Antropologia (UFPA/PPGA). Bolsista CAPES. Integrante do Grupo de Pesquisa
“Turismo Cultural e Patrimonialização: campo de relações, referências culturais e gestão para visitação”,
coordenado pela Professora Dra. Renata de Godoy (UFPA/PPGA).

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valores sociais e culturais (IBRAM e OEI 2016, MOURA 2016). Para iniciar o Programa, o
IBRAM propôs para 12 comunidades urbanas periféricas a realização de uma Ação-Piloto que
consistiria em um experimento prático do PPM.
Consideradas como pontos pioneiros (BRASIL 2017), as iniciativas comunitárias
contempladas inicialmente são: Comunidade do bairro da Terra Firme (Belém-PA);
Comunidade do Taquaril (Belo Horizonte – MG), Comunidade da Estrutural (Brasília-DF);
Comunidade do Sítio Cercado (Curitiba-PR); Comunidade Grande Bom Jardim (Fortaleza-
CE); Comunidade do Jacintinho (Maceió-AL); Comunidade da Lomba do Pinheiro (Porto
Alegre-RS); Comunidade do Coque (Recife-PE); Comunidades do Pavão-Pavãozinho-
Cantagalo (Rio de Janeiro-RJ); Comunidade da Brasilândia (São Paulo-SP); Comunidade do
Beiru (Salvador-BA) e Comunidade do São Pedro (Vitória-ES).
Esses pontos fizeram parte de uma consolidação de políticas públicas para os campos
do Patrimônio Cultural, da Memória Social e dos Museus, resultado da parceria entre o IBRAM
com os Programas Mais Cultura e Cultura Viva do Ministério da Cultura, o Programa Nacional
de Segurança com Cidadania (PRONASCI) do Ministério da Justiça (MJ), com apoio da
Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI/Brasil). É válido salientar que no ano de
2011 o PPM ampliou-se a partir da concretização do Edital Prêmio Pontos de Memória 2.
Contudo, essa pesquisa restringe-se aos doze pontos iniciais contemplados pelo Programa.
Ao vivenciar o processo de formação do Ponto de Memória da Terra Firme no bairro
da Terra Firme em Belém do Pará e a consolidação dos Pontos de Memória em seus locais
de atuação, proponho nesse paper, refletir por que comunidades periféricas escolhem se
organizar politicamente por meio dos museus, tomando como estudo de caso a Ação-Piloto
do Programa Pontos de Memória. Utilizo a teoria antropológica e o fazer etnográfico para
observar e experimentar essas práticas museológicas que vem ganhando força no Brasil nos
últimos anos.
Compreendo que os pontos pioneiros “são museus por trabalharem com identidades
locais, narrativas e representações dentro de pressupostos de um tipo de representação
museal” (MOURA e GODOY 2017, p. 7), por exemplo museus de território, museus de
percurso, museus de cultura periférica. Entretanto, os considero museus comunitários por
serem proponentes de comunidades locais que vivem e trabalham em simbiose com a
população de seu território de pertencimento, emergidos a partir de pessoas que militam por
seus patrimônios reconhecidos e legitimados (VARINE 2005). Desse modo, são apreendidos

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O edital promovido pelo IBRAM visa reconhecer e premiar práticas museais e processos dedicados às memórias
desenvolvidas por grupos, povos e comunidades em âmbito nacional e por comunidades brasileiras no exterior.

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nessa pesquisa como iniciativas comunitárias que tomam os museus como espaços de
representação e reflexão de suas realidades (MOURA e GODOY 2017).
No Brasil, o museus tem contribuído para o processo de transformação social em
comunidades que são marcadas pelo abandono e esquecimento do poder público. Na defesa
desses museus, em contextos urbanos, apresento aqui escritos de minha dissertação de
mestrado e os primeiros resultados da continuação dessa pesquisa no doutorado em
Antropologia Social (realizada na UFPA, por meio do Programa de Pós-Graduação em
Antropologia) que busca dialogar com o campo da Museologia, tendo como objeto de estudo
os Pontos de Memória. Nesse momento, o meu interesse é contribuir no debate sobre
diferentes formas de organização política dentro de comunidades periféricas que resistem
bravamente ao descaso do poder público.

2.OS NOVOS MUSEUS BRASILEIROS


O século XX representou o surgimento do que convencionou-se chamar de Nova
Museologia, dada pelas transformações teóricas e metodológicas no campo dos museus
(DUARTE 2013). Segundo Sepúlveda (2004), nesse momento diversos campos do saber
provocaram críticas quanto à representação histórica e autoritarismo das elites presentes
nesses espaços. Para a autora (Ibidem) assim como outras instituições públicas, os museus
foram capazes de ordenar, civilizar e disciplinar grandes setores da civilização.
Contudo, a Nova Museologia propiciou o empoderamento social dentro dos museus.
Espaços que antes consistiam em um cenário silencioso, superado e desajustado, se afirmam
como um lugar de prazer, aprendizado e troca; de inclusão de novos temas, objetos e recortes
diferentes (SEPÚLVEDA 2004, MORAES 2009, DUARTE 2013, MOURA 2016). Desse modo,
os museus tornaram-se instituições que salvaguardam as linguagens, categorias e símbolos
de uma dada sociedade com o propósito de representar aspectos de sua cultura, sendo meios
de afirmação e legitimação de uma identidade coletiva a fim de se tornarem agentes de
transformação social no lugar onde atuam (MOURA 2016).
Como resultado dessas mudanças de pensamento e comportamento museológico
surgiram novas designações baseadas em conceitos, como o de museu integral3, que
implicaram no surgimento de: museus de sociedade, museus de civilização, museus de
culturas, ecomuseus, museus comunitários, por exemplo (DIAS 2007). Sabe-se que cada

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Conceito apresentado e discutido durante o 18° Encontro Anual do ICOM, na cidade de Santiago, Chile, no ano
de 1972. Em que considera que os museus podem e devem desempenhar um papel decisivo na educação da
comunidade representada dentro desses espaços.

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sociedade desenvolve uma cultura específica que percebe e define o museu à sua maneira.
Porém, o processo de musealização acontece de mesmo modo nas diferentes apreensões
culturais, em que dentro de um determinado território há transformação de um conjunto
patrimonial que define o espaço musealizado cabível de memória e representação, conforme
a necessidade da comunidade detentora desses patrimônios (MOURA 2016).
Frente a esses acontecimentos passou-se a chamar museologia social a nova forma
de se fazer museus, relacionada à questão dos compromissos sociais que o museu assume
e se vincula, se referindo a compromissos éticos de dimensões científicas, políticas e poética
(CHAGAS e GOUVEIA 2014). Os museus emanados dessa museologia social tornaram-se
meios para a construção de sujeitos coletivos que se apropriam desses espaços para propiciar
a reflexão e a crítica em torno de suas realidades (LERSCH e OCAMPO 2004). É nesse
contexto que surge o Programa Pontos de Memória.
A proposta de criação dos Pontos de Memória foi resultado de um movimento político
iniciado com a implantação do Departamento de Museus e Centros Culturais (DEMU)4 no
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no ano de 2003, que provocou
diversos avanços no campo dos museus no Brasil, as frentes políticas priorizaram ações
voltadas para a consolidação da museologia social no país. No entanto, é importante destacar
que os museus comunitários dentro de bairros, favelas e centros culturais já era uma realidade
brasileira, refiro-me ao: Ecomuseu do Quarteirão e Museu da Maré no Rio de Janeiro;
Ecomuseu da Serra do Ouro Preto, cidade de Ouro Preto em Minas Gerais; Museu Treze de
Maio, em Santa Maria no Rio Grande do Sul; como também o Ecomuseu da Amazônia, em
Belém (MOURA 2016).
Essas iniciativas surgiram após a Eco-925, que discutiu e reconheceu no país a
importância sócio educacional dos museus para os novos espaços e também os em
funcionamento. Desde 2004, essas experiências se articulam por meio da Associação
Brasileira de Ecomuseus e Museus Comunitários (ABREMC)6, que buscam desenvolvimento
sociocultural a partir do processo museológico dentro de comunidades compromissadas com
sua memória, território e patrimônio cultural. Portanto, a importância da implantação do
Programa Pontos de Memória, pelo Instituto Brasileiro de Museus, é o reconhecimento do

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Unidade institucional responsável em promover estratégias de mobilização política e coorporativa, difundir e
estimular ações específicas e algumas reflexões no campo dos museus
5
Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento na cidade do Rio de Janeiro, Brasil,
em 1992.

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É uma associação civil, sem fins lucrativos e que tem por finalidade fomentar a criação, cooperação e divulgação
de ecomuseus e museus comunitários no Brasil.

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poder público sobre as transformações sociais que os museus provocam nos lugares e nas
pessoas.
Assim, o PPM surge com a proposta de incentivar a criação e quiçá reconhecer novas
iniciativas dentro da sociedade brasileira, que na maioria dos casos, se mantém a margem de
políticas públicas sociais. Porém, sabe-se que a política dos Pontos de Memória trata-se,
também, de uma promoção do estado de bem-estar das comunidades urbanas que sofrem
com as mazelas das grandes cidades. Contudo, a estratégia política de identificar, selecionar
e apoiar grupos que valorizam a cultura periférica é decisiva para o sucesso do programa.
As comunidades selecionadas que integram a Ação-Piloto do Programa Pontos de
Memória são grupos oriundos da periferia, pelo qual resistem a opressão social por meio de
suas expressões culturais que estão nas músicas, nas danças, nas vestimentas e também
em outros tipos de linguagens corporais e de comunicação. Essas expressões que vêm das
periferias para os centros da cidade estão se afirmando no século XXI, presente em lugares
de formação recente que surgiram com a expansão das grandes cidades e articulação
sociopolítica das pessoas que conseguem se firmar enquanto grupo e território (MOURA e
GODOY 2017). Podemos tomar como exemplo a Comunidade do Cantagalo-Pavão-
Pavãozinho, na cidade do Rio de Janeiro, a primeira inciativa comunitária de memória e
museologia social reconhecida dentro do PPM.
Nessa comunidade existe o Museu de Favela (MUF) desde o ano de 2008, uma
associação privada de interesse comunitário sem fins lucrativos fundada por moradores das
favelas de Cantagalo, Pavão e Pavãozinho. “O MUF já nasceu com um plano museológico e
um forte modo de experimentalista, sem modelos nos quais se inspirar” afirmam Pinto et. al
(2012, p. 147). Com o propósito também de experimentar, técnicos do IBRAM se deslocaram
para mais 11 (onze) capitais, mencionadas anteriormente, para mapear as comunidades
periféricas. Levaram em consideração: a história dos grupos, ações voltadas para a afirmação
da memória e identidade, apropriação da cultura popular e vontade de formarem
coletivamente um museu comunitário.
Feito o mapeamento dessas comunidades o Programa Pontos de Memória passou a
promover no período de 2009 a 2013 as seguintes ações: 1) Teias da Memória7 – encontros
nacionais com as comunidades selecionadas no programa, com o objetivo de estimular a troca
de experiências, a gestão participativa no PPM e reflexões sobre as realidades socioculturais
dos lugares onde atuam os pontos de memória; 2) suporte técnico – a coordenação do
programa dividiu-se entre os pontos pioneiros ministrando oficinas de formação para os

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O primeiro encontro ocorreu em dezembro de 2009 na cidade de Salvador.

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Conselhos Gestores8 das iniciativas, com temas relacionados à memória, patrimônio,
identidade e museus; 3) consultoria locais - seleção de consultores locais para atuarem nas
comunidades afim de viabilizar consultoria técnica-operacional em torno da memória social
legitimada por esses grupos; 4) redes de pontos de memórias9 - com o interesse de aproximar
e articular ações e trocas de experiências entre iniciativas culturais. (CHAGAS E GOUVEIA
2014, MOURA 2016, IBRAM e OEI 2016)
Essas ações realizadas de maneira gradativa de acordo com as peculiaridades locais,
estruturais e de momento, foram essenciais para a consolidação do Programa Pontos de
Memória como uma política cultural (IBRAM e OEI 2016), o processo que iniciou em 2009
veio ao longo dos anos legitimando essas iniciativas comunitárias de memória e museologia
social como organizações civis importantes que provocam transformações socioculturais e
educacionais em seus lugares de atuação. Essa legitimação deve-se muito a uma militância
política, constituída em sua maioria por lideranças comunitárias dos pontos pioneiros, que
tomam posicionamentos críticos frente as mudanças que começaram a surgir dentro do
programa (MOURA 2016). A militância exige principalmente representatividade dentro da
manutenção do PPM, além de continuação de oficinas, visitas técnicas e promoção da Teia
da Memória.
No entanto, apreendo que uma das principais, se não a principal contribuição dessa
militância política é a forma como resignificaram a categoria museu, incorporando amplas
dimensões simbólicas e sociais. Nos primeiros anos, buscaram o reconhecimento como
museus que seguiam os pressupostos da museologia social, porém nos últimos tempos, os
Pontos de Memória passaram a se afirmar e a exigir reconhecimento como tal. Os sujeitos
atuantes no processo entendem como Pontos de Memória qualquer iniciativa comunitária que
se identifiquem com as perspectivas da memória social e/ou da museologia social, atribuindo
diversos significados a suas organizações (MOURA 2016).
Contudo, é válido assegurar que o interesse em se afirmarem como iniciativas
comunitárias de caráter sociocultural deve-se ao objetivo dessas comunidades de
participarem de diversas políticas públicas culturais pelo país, que possam contribuir para o
seu fortalecimento e manutenção local. Dado pelo fato de que serem “apenas” museus ficam
restritos a políticas públicas específicas para o campo museológico, que de certa maneira são
escassas no país. Entretanto, não ditar, nomear, conceituar essas iniciativas de memória e
museologia social como museus, não desmerecem o protagonismo social por meio de ações
museológicas (MOURA 2016).

8 Representatividades civis dos Pontos Pioneiros.


9 Destaca-se a Rede de Memória e Iniciativas Comunitárias da Região Norte.

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Varine ao referir-se aos novos museus afirma “alguns nem se chamarão museus, mas
todos seguirão os princípios da nova museologia (Santiago, Quebec, Caracas) no seu espírito
ou na sua escrita (teoria)” (1996: 2014; p. 247). A partir dessa perspectiva defendo que os
pontos pioneiros são museus, em sua maioria, sendo processos comunitários dinâmicos que
entendem o papel transformador dos museus e seus desdobramentos, indo além do conceito
pré-estabelecido no sentido institucional. Desse modo, os comunitários reconhecem as
linguagens reveladas, categoriais criadas, símbolos e rituais expostos, bem como instituições
afirmadas (BARTH 2000) que envolvem o processo de formação e execução do Programa
Pontos de Memória.
O programa alcançou reconhecimento nacional e internacional no que se refere à
aplicação na prática dos conceitos atrelados a museologia social, compartilhando saberes e
fazeres das experiências metodológicas dos pontos pioneiros, o que contribuiu para um maior
desenvolvimento e qualificação, inclusive do seu pessoal (MOURA 2016). Reconhece a
importância dessa política, mas sabe-se que é por meio do empoderamento das comunidades
relacionadas aos pontos pioneiros que a eleva ao status de eficácia, passando a ser
reconhecida como uma importante política cultural do estado brasileiro. Abordar os
desdobramentos dessa política é o objetivo da próxima seção.

3. POLÍTICA CULTURAL DOS PONTOS DE MEMÓRIA


A partir da década de 1990 iniciou no Brasil um movimento político em defesa da
cultura como agente formador e articulador no processo de luta e consciência social, em que
defendia-se propostas de descentralização cultural. Nesse momento, a idéia de diferença foi
incorporada no cotidiano dos grupos sociais que exigiam instituições de vida própria inserida
no cotidiano das cidades, da indústria cultural e da cultura de massas (MORAES 2009). No
campo dos museus, intelectuais e agentes comunitários trabalharam em defesa de políticas
públicas que pudessem promover, valorizar e difundir o patrimônio cultural.
Frentes políticas voltadas para museus passaram a militar por mudança no quadro
político da época, conseguindo ascensão no governo Lula no ano de 2003. Todo tipo de
profissional de museus como museólogos, antropólogos e educadores integraram-se a
instituições culturais pelo país, por exemplo no DEMU/IPHAN, mencionado anteriormente.
Nesse contexto, iniciou um processo de formulação de documentos e autarquias museais,
surgindo a Política Nacional de Museus (PNM)10, o Sistema Brasileiro de Museus (SBM)11 e

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Propõe promover a valorização, a preservação e a fruição do patrimônio cultural brasileiro.
11Sua finalidade é facilitar o diálogo entre museus e instituições afins, objetivando a gestão integrada e o
desenvolvimento dos museus, acervos e processos museológicos brasileiros.

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o Estatuto de Museus (EM)12 em 2006 até a aprovação e constituição do Instituto Brasileiro
de Museus, em 2009.
Moraes nos assegura que essas ações “modificaram as relações estruturantes,
relações gerenciais, políticas, econômicas, sociais, relacionais e simbólicas políticas (...) isto
é, o museu não é mais um fim em si mesmo, não se esgota em si, mas é parte de uma
estratégia social e simbólica” (2009, p. 63). Portanto, essa estratégia social e simbólica
identificada pelo autor representou o surgimento do Programa Pontos de Memória, onde o
estado apreende essa política como sendo uma metodologia fundamental ao combate dos
problemas sociais existentes nas periferias, como a violência (GEISE 2014, MOURA 2016,
MOURA e GODOY 2017).
Desse modo, o PPM foi pautado no Plano Nacional de Cultura e o Plano Nacional de
Museus, sob responsabilidade da Coordenação de Museologia Social e Educação (COMUSE)
do Departamento de Processos Museais (DPMUS) do IBRAM. Pelo qual, reconhece
comunidades organizadas, por meio das lembranças, práticas cotidianas, expressões
artísticas e religiosas, fazeres e saberes; que expressam por outros suportes de memória os
seus valores patrimoniais (CHAGAS 2009). Sendo a favor de movimentos que lutam por
redução de injustiças e desigualdades sociais a partir de processos museais (CHAGAS E
GOUVEIA 2014). Atualmente são mais de 150 iniciativas reconhecidas no país, além de 18
premiadas no exterior, a partir dos editais prêmios.
Os princípios do programa foram definidos em 2012, com participação dos pontos
pioneiros, representantes do campo da museologia social e técnicos do instituto. Esses
sujeitos redigiram a “Carta dos Pontos de Memória e Iniciativas Comunitárias em Memória e
Museologia Social” (IBRAM 2012) contendo os seguintes princípios:

1. Garantir o direito à memória às comunidades, grupos e sujeitos locais


historicamente excluídos;
2. Salvaguardar que os Pontos de Memória e demais iniciativas comunitárias em
memória e museologia social sejam geridas por instâncias participativas,
organizadas para esta finalidade, no seio de suas próprias populações;
3. Garantir a autonomia e a descentralização das iniciativas comunitárias de
memória, fomentando a cooperação entre as redes estaduais de memória e
museologia social;
4. Reconhecer, respeitar e valorizar as diversidades, especificidades e
potencialidades das comunidades, priorizando o desenvolvimento local e visando à
sustentabilidade;
5. Adotar metodologias de conhecimento sistêmico do território como garantia da
relação entre memória social e sustentabilidade;
6. Instituir a formação em rede como parte do processo de articulação das redes
estaduais, garantindo uma formação continuada que atenda às reais necessidades de

12
Lei 11.904/2009. Com a finalidade de preservação do patrimônio cultural musealizado e passível de
musealização, o decreto coloca para o setor uma série de ações e procedimentos que devem ser seguidos e
confere ao IBRAM ações de fiscalização.

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desenvolvimento e sustentabilidade dos Pontos de Memória e demais iniciativas
comunitárias em memória e museologia social.

A definição desses princípios foi uma conquista da militância política dos pontos de
memória que pressionou a COMUSE para a garantia de que o PPM fosse definitivamente
uma política pública do IBRAM. As articulações dos sujeitos envolvidos intensificaram com a
formação da Comissão Provisória de Gestão Compartilhada/Participativa (COGEPACO)
durante o 5º Fórum Nacional de Museus na cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro
(realizado no mesmo ano de 2012). A COGEPACO possibilitou o intercâmbio entre as
experiências de pontos de memória (reconhecidas até o momento) e na capacitação dos
pontos premiados pelo primeiro edital, além da realização da IV Teia da Memória em Belém
no ano de 2014.
A IV Teia recebeu os representantes de 120 Pontos de Memória existente naquele
momento, como também profissionais, pesquisadores e estudantes da museologia social no
Brasil e no mundo. O evento teve como principal resultado o debate sobre a minuta de portaria
para a constituição de um Conselho de Gestão Participativa e Compartilhada do Programa
Pontos de Memória e a eleição dos conselheiros, que são representantes dos pontos
pioneiros e dos premiados, além de representantes específicos das Redes de Pontos de
Memória (MOURA 2016, IBRAM 2017). Identificou-se ao longo desses últimos anos que a
instabilidade política do país influenciou diretamente na articulação dos pontos que perderam
forças dentro do programa, principalmente no período de 2015 a 2016.
Isso é claramente percebido quando observamos que o Conselho de Gestão
Participativa e Compartilhada do Programa Pontos de Memória não teve atuação no período
descrito, resultando na não aprovação da minuta de criação do conselho dentro do IBRAM.
Porém, no ano de 2017 as forças políticas efervesceram novamente e conseguiram
participação desse mesmo conselho dentro do 7º Fórum Nacional de Museus ocorrido em
maio na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Para uma primeira etapa de campo de
minha tese acompanhei os debates acirrados entre os representantes do Conselho de Gestão
Participativa do PPM com os representantes do IBRAM, inclusive com forte pressão ao atual
presidente do instituto, Marcelo Mattos Araújo.
Os representantes dos Pontos de Memória presentes no 7º Fórum garantiram a
agilidade ao processo de criação de uma autarquia civil na gestão do PPM. O momento foi de
negociação, de avanços e de rupturas entre as esferas envolvidas. Tendo como principal
encaminhamento a publicação da Portaria nº 315 que institucionaliza o Programa Pontos de
Memória, após alguns meses, em setembro de 2017.

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Na portaria os princípios do PPM estão registrados, as experiências comunitárias
participantes da Ação-Piloto são reconhecidas como pontos pioneiros, o Comitê Consultivo
do Programa Pontos de Memória (uma negociação dentro do 6º Fórum que substituí o formato
de Conselho por Comitê) é constituído, o IBRAM compromete-se a promover debates e ações
com representantes de pontos de memória e fixa-se o prazo de 240 dias para a publicação
do regimento interno do Comitê Consultivo. No entanto, identifico que as rupturas
impossibilitam que ações realizadas nos pontos pioneiros possam avançar para os demais
pontos de memória, principalmente nas que se referem a processos museológicos.
Moraes afirma que “a política cultural ainda depende de circunstâncias e de alianças
conjunturais” (2009, p. 67). Desse modo, percebe-se que as políticas culturais voltadas para
os museus não se diferenciam de qualquer outra política pública cultural brasileira, mesmo as
pautadas no protagonismo comunitário. Contudo, as iniciativas comunitárias que muitas vezes
nem entendem conceitos de museu e memória social, ao militarem por seus patrimônios
internalizaram a política dos Pontos de Memória como um importante processo de ação e
mobilização social. Com o intuito de expor de que modo a política acontece em níveis locais,
trago na próxima seção algumas observações e experimentos de campo.

4. REFLEXÕES SOBRE MUSEUS NAS PERIFERIAS


Participo do processo de formação e consolidação do Programa Pontos de Memória
desde sua fase inicial quando tornei-me conselheira do Ponto de Memória da Terra Firme
(período de 2010 a 2011) e, posteriormente, consultora local do programa no PMTF (anos de
2011 e 2012). Ao cursar Antropologia passei a pesquisar sobre essas iniciativas comunitárias,
tomando como referência a existente em Belém. Fato que possibilita-me experimentar o fazer
antropológico frente a um processo complexo, inacabado e construtivo do campo dos museus
no país.
Dentre algumas imersões em campo, na oportunidade de perguntar a um grupo de
moradores do bairro da Terra Firme o que significa ter um museu na periferia? Obtive a
seguinte resposta13: “Museu na periferia é dar espaço ao novo, é narrar a vida, é valorizar o
conhecimento, a diversidade e o movimento em comunidade. Mas, museu na periferia, é,
sobretudo, dar representatividade”. A partir dessa definição busco observar o que isso
significa na prática para os pontos pioneiros.

13 Nessa imersão em campo, estive acompanhada de Camila Quadros, pedagoga, mestranda do Programa de
Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Pará, pesquisadora no bairro da Terra Firme. Em maio
de 2017 realizamos a oficina Viver para lembrar, morrer para esquecer? A Terra Firme e suas representações
museais” para estudantes, lideranças e moradores do bairro da Terra Firme. A definição de “museu na periferia”
foi um dos resultados desse trabalho.

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Ao visitar a exposição “Movimentos da Estrutural – Luta, Resistência e Conquista” do
Ponto de Memória da Estrutural, no Distrito Federal, conheci a história do lugar com a
representação de fatos que contribuíram para a identidade local e o fortalecimento dos laços
comunitários, por meio de conjuntos expositivos criados a partir de objetos reciclados. No Rio
de Janeiro, visitei o Museu de Favela pelo Circuito Casas Tela que narra a memória e a cultura
local por meio de 27 telas de arte grafite/naif de vários artistas dos morros Cantagalo, Pavão
e Pavãozinho. Em Salvador, vivenciei alguns encontros no Ponto de Memória do Beiru onde
pude conhecer um pouco da luta pela valorização da memória do líder negro, Gbeiru (Beiru,
em Yorubá)14, que deu origem ao nome do bairro, por ser considerado símbolo de luta e
resistência entre os moradores da região (IBRAM 2016). Caminhei no bairro Lomba do
Pinheiro em Porto Alegre para conhecer os percursos trilhados pelos moradores na garantia
de seus direitos, como educação, saúde e moradia; luta diária do Ponto de Memória Lomba
do Pinheiro.
As realidades, por mim identificadas, são próximas as do bairro da Terra Firme em
Belém, meu lugar de pertença dentro dos Pontos de Memória. O lugar foi formado a partir da
década de 1960 por meio de um processo de ocupação de trabalhadores de baixa renda que
se deslocaram do centro urbano da cidade e do interior do estado com o intuito de fixarem
moradia em áreas de várzeas pertencentes à União, mais precisamente a Universidade
Federal do Pará (MOURA 2016). Sem planejamento urbano e se mantendo por um longo
período à margem da sociedade belenense o bairro da Terra Firme foi abandonado pelas
políticas públicas governamentais. Contudo, é um lugar de organização política ativa em que
moradores reivindicam seus direitos por meio de associações e cooperativismo, sendo
chamado por Quadros (2014) de a “periferia dos direitos”.
Segundo Fernandes e Mata (2015) a formação de periferias se dá para além da
distância geográfica, elas indicam uma distância simbólica constituída pela perda de qualquer
coisa que coloca em ordem o urbano, como também pela perda de recursos materiais e de
um estilo de vida marcado por padrões de conforto e acesso a esses recursos. A partir dessas
construções simbólicas dentro das cidades são gerados os mais variados estigmas, rótulos,
etiquetagem social sobre esses lugares, fala-se de “bairros de tráfico”, “bairros de droga”,
“bairros de imigrantes”, “bairros de realojamento” dentre tantas outras classificações
locais/nativas. Para os autores “viver nas periferias desqualificadas gera uma condição social

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Nigeriano da cidade de Oió, chegou ao Brasil em 1820. O líder destaca-se por ter organizado um quilombo na
região que atualmente é o bairro do Beiru.

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subalterna, e esta tem um impacto sobre o indivíduo, desde logo sobre o seu corpo e a sua
saúde, mas também sobre o seu autoconceito” (Ibidem, p. 9).
As periferias inseridas no Programa Pontos de Memória são marcadas por agravantes
sociais e antagonismos de classes, porém a organização social por parte de seus moradores
possibilita na transformação desses lugares, visando constantemente a melhoria na qualidade
de vida. E dentre diversos atos de transformação desses grupos, observamos o processo de
musealização de seus territórios, tocados pela vontade de memória. Para Abreu (2016) a
memória social é constituída entre o lembrar e o esquecer que propicia em novos mundos, ao
possibilitar a apropriação de experiências para a transformação de acontecimentos já vividos.
Bosi nos afirma que “na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir,
repensar” (1999, p. 55).
Essas citações são importantes para compreendermos que o processo museológico
instaurado nessas comunidades possibilita um novo arranjo social, provocado pelo
surgimento de novos mundos que são constituídos pelo ação de refazer, reconstruir e
repensar as experiências lembradas e vividas. Portanto, os impactos sobre os corpos, saúde
e autoconceito dos indivíduos, mencionados por Fernandes e Mata (2015), são vencidos
conforme essas rearranjos sociais acontecem, principalmente quando suas memórias são
instrumentos de resistência e empoderamento social.
Em vista disso, Lifschitz (2016) defende que em alguns povos recusa-se esquecer,
resultando no surgimento do que compreende-se como memória política. Para o autor, “a
memória política se articula a vínculos intencionais (...) Ou seja, que mais que compreender,
a questão é como exercer influência sobre outros ou confrontar-se para atingir uma finalidade”
(Ibidem:71-72). A finalidade levantada por ele é a de intervir no mundo social, confrontando a
realidade jurídica, cultural e política por meio de narrativas e práticas de memória.
Desse modo, compreende-se que esses novos museus brasileiros, os Pontos de
Memória, surgem com a intenção de valorizar e enaltecer o processo de construção da
identidade coletiva de seus lugares de pertencimento. Identidade formada sob forte influência
de movimentos sociais, como: o feminismo, o negro, o LGBT, entre tantos outros significativos.
Esses movimentos mobilizam pessoas na formação de redes de instituições comunitárias que
atendem as necessidades básicas dos sujeitos envolvidos (WACQUANT 2007).
Tais sujeitos são marcados por processos de subalternidade, marginalidade e
discriminação social. Muitos são negros e negras oriundos de famílias pobres que tiveram
pouco acesso à educação de qualidade, pelo qual sofrem com a estigmação que os reduzem
a uma situação de minoridade. Contudo, são a grande maioria da população brasileira que

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resiste bravamente ao racismo e ao preconceito, os aprisionando nessa situação ao longo de
suas vidas.
A realidade de formação desses Pontos de Memória, em especial os pioneiros,
acontece dentro de mudanças na conjunta política do país. Em que homens e mulheres lutam
pela garantia de suas direitos conseguindo aos poucos por meio de políticas afirmativas
acessar a educação de ensino superior. Esses sujeitos retornam aos seus lugares de
pertencimento refletindo junto com suas redes relações pessoais e profissionais sobre a sua
realidade e a do seu lugar.
Desse modo, conseguem enaltecer e valorizar a própria vida, o conhecimento local, a
diversidade e o movimento de suas comunidades, conseguindo representatividade dentro de
espaços de luta e poder, como os museus. Nesses novos museus são narrados memórias
que não quiseram ser esquecidas, de um tempo de luta frente a várias situações em que
sofram coagidos em suas próprios lugares, como por exemplo o Grito da Terra Firme em 1992
onde levou mais de 20 mil pessoas as ruas de Belém exigindo a garantia do direito à moradia.
Essas memórias são contatadas por meio de movimentos artísticos de produção local, como
o Circuito Casas Tela do MUF e a exposição Movimentos da Estrutural do Ponto de Memória
da Estrutural, que valoriza o potencial cultural desses lugares.
No mais, a contribuição mais significativa dos Pontos de Memória em seus lugares de
atuação é a melhoria na autoestima dos sujeitos, que em sua maioria são trabalhadores e/ou
estudantes que diariamente realizam seus afazeres com muita dificuldade, mas que não são
reconhecidos, se quer vistos dentro da rede de relações opressoras que instalam em seus
lugares de moradia e trabalho. É o autoconceito, afirmado por Fernandes e Mata, que ao ser
trabalhado torna-se uma ferramenta de luta frente a essas situações de opressões sociais.
Os pontos pioneiros, ao longo desses oito anos de atuação, vem contribuindo para a formação
de identidades coletivas fortes, atuantes e operantes, pelo qual ajuda os sujeitos na
descoberta de si e seus pares dentro dos territórios em que atuam.
Visualizamos essa contribuição quando nos deparamos com o principal objetivo do
Ponto de Memória do Beiru, em que por meio da história do líder Beiru a formação da
identidade do bairro vem sendo consolidada e operacionalizada como instrumento de
resistência histórica e sociocultural dentro da cidade de Salvador. Identificamos esse interesse
também no Ponto de Memória da Terra Firme quando jovens estudantes do bairro são
convidados a produzirem dois vídeos documentários - “Todo Dia é Dia de Feira na Terra
Firme” e “Ritmos, Cores e Rostos da Terra Firme” – que os possibilitaram refletir sobre as
realidades cotidianas e artísticas do bairro da Terra Firme.

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Esses e outros conflitos íntimos dos Pontos de Memória tem-me levado a realidades
muito semelhantes pelas periferias brasileiras, mas com arranjos sociais diferentes conforme
as necessidades de cada lugar. Imergir nesses lugares provoca-me inquietações muito
pessoais sobre o país, sobre quem sou nesse país e como sou vista nesse lugar. Desbravar
esses lugares e suas provocações em nós é um dos objetivos da minha pesquisa. Contudo,
espero, mesmo de maneira breve, conseguir afetar a você, leitor, sobre as escolhas que são
feitas a partir do momento que não se esquece algo, e que os Pontos de Memória contribuem
para esses debates de resistência política no Brasil.

5. BREVE CONCLUSÃO
As ações que implicam na consolidação do Programa Pontos de Memória, propiciam
autonomia e o protagonismo comunitário dentro de territórios marginalizados pela opressão
social. Poder falar em primeira pessoa, militar a favor de suas necessidades tem contribuído
para a valorização da memória social desses sujeitos, bem como o fortalecimento de suas
identidades, impulsionando a economia de produção local. Sobretudo, tem contribuído para a
melhoria na autoestima do cidadão marcado por estereótipos fundamentados em
preconceitos.
Ao trabalhar com um olhar, um ouvir e uma escrita tematizada tenho proposto construir
uma etnografia que desafie os conceitos do senso comum ao observar os sujeitos envolvidos
no processo relacionando com as teorias sobre o tema. O objetivo é desmitificar as marcas
desses territórios, permitindo reflexões sobre suas potencialidades, identidades e memórias.
Desse modo, desafio você também a treinar seu olhar e reconhecer o outro que mora ao lado!

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