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TEORIAS DO

PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO
Paulo César Medeiros
Pós-graduação em Educação
Diretores
Diretoria Executiva Luiz Borges da Silveira Filho
Diretoria Operacional Marcelo Antonio Aguilar
Diretoria Acadêmica Francisco Carlos Sardo

Editora
Coordenação Editorial Raquel Andrade Lorenz
Projeto Gráfico Evelyn Caroline dos Santos Betim
Arte-Final Evelyn Caroline dos Santos Betim
Capa Vitor Bernardo Backes Lopes

Direitos desta edição reservados à Fael.


É proibida reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael.
Teorias do Pensamento Contemporâneo

1 A NATUREZA DO A posição erguida e a locomoção bípede trouxe-


CONHECIMENTO HUMANO ram vantagem adaptativa, acelerando as funções de
deslocamento e liberando definitivamente as mãos
“O pensamento é a ação ensaiando.” para a transição do símio para o hominídeo. Com a
Sigmund Freud nova habilidade internalizada, as pressões sobre as arti-
culações faciais foram reduzidas, dando lugar para a
expansão dos órgãos da fala e do volume do cérebro.
1.1 Evolução e conhecimento humano A transição do hominídeo ao homem é tema de
Sabe-se que as capacidades cognitivas dos seres muitos debates científicos. Os achados arqueológi-
humanos seguiram a trilha do processo evolutivo cos nos permitem compreender como os hominídeos
do gênero Homo e de seus predecessores. Segundo fabricavam seus instrumentos e utensílios, como se
Foladori (2001), nas últimas décadas, realizaram-se distribuíam espacialmente e como se adaptavam às
avanços importantes na paleontologia humana e na condições ambientais em que viviam. Esses registros
biologia molecular. Os dados da biologia molecular fornecem ricas informações; porém, restam lacu-
apontam que os primeiros hominídeos começaram nas sobre aquilo que pensavam e sobre a linguagem
a se desprender do tronco comum, que também deu que utilizavam. Sabe-se que a relação entre cérebro,
origem aos grandes símios, há 5 ou 6 milhões de anos. mãos e meio natural representou uma aceleração na
Pouco tempo em relação aos demais seres vivos. hominização do humano, pois mudou a história de
Os fósseis hominídeos primitivos mais conhe- suas relações sociais e delas com a natureza. Assim, o
cidos datam em 3,5 milhões de anos (Australopitecus pensamento humano seguiu a trajetória de sua pró-
afarensis). Sua diferença básica em relação aos parentes pria humanização.
símios é a posição erguida e a locomoção bípede nem
tão sofisticada como as do Homo erectus e Homo habi- 1.2 O pensamento e a construção
lis, datados em 2,5 milhões de anos. A mudança da
postura foi fundamental para a liberação das mãos, o
do conhecimento
aperfeiçoa- mento cerebral e a transformação de todo O pensamento é considerado como habilidade
o organismo, que foram vinculados, também, às pres- fundamental para a construção de ciência, pois ele
sões seletivas, produto de importantes transformações permite a adaptação às novas realidades, melhorando
climáticas. desempenho de cada indivíduo e a maneira como se
explicam os fenômenos naturais e humanos. A inves-
Por volta de 3 milhões de anos atrás, uma nova
tigação científica sobre o conhecimento humano e
onda de frio provocou alterações e tornou o clima mais
a sua interação com as diversas sociedades ao longo
seco, acarretando na mudança de dietas alimentares. A
do tempo é realizada por diferentes áreas específicas,
escassez e o processo de seleção natural levaram nossos
como história, sociologia, filosofia da ciência e episte-
ancestrais a se bifurcarem em duas práticas de sobrevi-
mologia das ciências.
vência. O grupo de Australopitecus se especializou em
extração de raízes e sementes, e o Homo habilis, com Neste texto, não serão aprofundadas as teorias do
uma dieta onívora (alimentação vegetariana e carní- conhecimento, campo vasto de estudos realizados pela
vora), alcançou o êxito evolutivo mental e físico. filosofia, pela psicologia cognitiva, pela inteligência
artificial, pela antropologia, pela neurociência e pelas 1.3 Estruturas e formas de conhecimento
demais ciências da cognição. Este texto se propõe a
De acordo com a natureza e a forma de expres-
ser apenas um ensaio de orientação sobre as recentes
são do conhecimento (sensação, percepção, imagi-
abordagens relacionadas ao conhecimento humano.
nação, memória, linguagem, raciocínio e intuição
Em termos gerais, pode-se considerar que “conhecer” intelectual), este pode ser classificado em alguns
é uma necessidade inerente aos seres humanos e que tipos, a saber:
envolve três elementos essenciais:
22 conhecimento empírico;
22 O sujeito: aquele que está na condição de
busca pela cognição de algo, alguma coisa, 22 conhecimento teológico;
ou um objeto. 22 conhecimento filosófico;
22 O objeto: aquilo que o sujeito está objeti- 22 conhecimento científico.
vando conhecer, seja um fato, coisas ou um
fenômeno. 1.3.1 Conhecimento empírico
22 A imagem da realidade: a representação É também chamado de vulgar, intuitivo, de
mental que o sujeito realiza sobre o objeto senso comum ou ordinário. Essa forma de conhe-
da cognição. cimento dos fatos não se preocupa em lhes inquirir
as causas. Esse conhecimento é superficial, acontece
Os vários métodos que procuram classificar o
por informação ou experiência casual. É ametódico e
pensamento humano destacam a capacidade de pensar
assistemático, constituindo a maior parte dos conhe-
a partir de análises da capacidade mental dos sujeitos
cimentos locais, pois é gerado para resolver proble-
em relação aos objetos que buscam conhecer. Segundo
mas do cotidiano de forma instantânea e instintiva.
Morin (2002), a mente humana opera sob duas gran-
Está ligado à vivência, à ação, à percepção e subor-
des bases de pensar: a racional, ligada à lógica, ao cál-
dinado a um envolvimento afetivo dos sujeitos. Isso
culo e à razão; e a mítica, que ocorre em um âmbito
lhe confere dificuldades de se submeter a uma crítica
mitológico, do imaginário, das analogias e dos símbo-
sistemática e imparcial, gerando dificuldades de con-
los. Para ele, o raciocínio humano acontece a partir da trole e avaliação experimental.
articulação desses dois tipos de pensamento, os quais
não podem ser vistos separadamente, de modo que 1.3.2 Conhecimento teológico
a esfera imaginária – dos mitos, religiões, crenças –
adquire para o ser humano tanta importância quanto Esse conhecimento busca suas bases em teorias
a esfera do pensamento racional. O conhecimento criacionistas, as quais explicam a origem do mundo,
reconstrução do “real” realizado pelo ser humano, por- das coisas e do ser humano a partir de princípios
tanto, não é completo, nem pode ser encarado como divinos. O conhecimento teológico foi amplamente
uma cópia exata do mundo objetivo, sendo sempre difundido no período medieval, no qual a autoridade
permeado por constantes “erros e ilusões”. divina se tornou inquestionável. Atualmente, desen-
volve-se nos meios acadêmico e religioso. Consiste em
O conhecimento humano não se encerra nos um conjunto de verdades que ocorre, não com o auxí-
princípios da razão e da lógica e deve ser sempre con- lio de sua inteligência, mas mediante a aceitação de
siderado dentro de seus limites e incertezas. Dessa uma revelação divina. Tudo em uma religião é aceito
forma, tanto o pensamento quanto a construção pela fé, nada pode ser provado cientificamente nem se
do conheci- mento são permeados não apenas por admite crítica, pois o justo viverá pela fé. A revelação
processos relativos à racionalidade e à lógica, mas tam- é a única fonte de dados. Também conhecido como
bém por fatores de outra natureza. O retorno do pen- conhecimento religioso ou místico, ele é baseado
samento a si mesmo para uma reflexão mais profunda exclusivamente na fé humana e desprovido de método
aconteceu principal- mente na filosofia clássica. Antes e de raciocínio crítico. Alguns exemplos de conheci-
disso, o pensamento era citado como algo superior, mento teológico são as Escrituras Sagradas, tais como
quase como indescritível. O logos (razão, pensamento) a Bíblia, o Alcorão, as Encíclicas Papais e a Sagrada
era uma força imensa, que dirigia todo o universo e Tradição, que reúne decisões de Concílios e Sínodos, e
aparecia como inacessível aos seres humanos. outros. Também podem ser incluídos como conheci-

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mento teológico os ensinamentos de grandes teólogos 2 PENSAMENTO CIENTÍFICO: DA


e mestres da igreja. ERA CLÁSSICA À MODERNA
O conhecimento humano não
2.1 A mitologia como
se encerra nos princípios da conhecimento do “mundo”
razão e da lógica e deve ser O termo “mitologia” deriva das palavras gregas
mytos, que pode ser traduzida como fábula, lenda ou
sempre considerado dentro a criação de algo concreto ou abstrato que influen-
ciou os humanos, e logos, que significa um tratado
de seus limites e incertezas. ou algo a ser estudado. De modo geral, compreende-
-se mitologia como um conjunto de histórias fantás-
1.3.3 Conhecimento filosófico ticas e seus personagens fascinantes que influenciam
Sabe-se que a filosofia busca conhecer o esforço o ser humano desde a Antiguidade até os dias atuais,
da razão para questionar os problemas humanos e desempenhado um papel importante como fonte de
discernir entre o certo e o errado. O conhecimento inspiração e ponto de partida do conhecimento sobre
filosófico tem por objetos as ideias, as relações concei- a natureza das coisas e do mundo.
tuais e as exigências lógicas. Para analisar esses obje- Os mitos são um tipo de conhecimento que apa-
tos, utiliza o método racional, visando questionar os rece, geralmente, na forma de histórias baseadas em
demais tipos de conhecimento (teológico, científico, tradições e lendas criadas para explicar o universo, a
empírico e outros que se apresentem). A ideia de existe origem do mundo, os fenômenos naturais e qualquer
a “verdade”. Esse termo pode ser aplicado quando os outro fato para o qual explicações simples não sejam
sujeitos do pensamento percebem o que está se desen- atribuíveis. Em geral, a maioria dos mitos envolve for-
rolando em sua volta e o conseguem comunicar, repre- ças sobrenaturais de seres divinos. Esses seres ou figu-
sentar ou interpretar, segundo sua razão e seus valores. ras mitológicas de sociedades clássicas (romana, grega,
egípcia, nórdica, chinesa etc.) formaram a base do
O conhecimento filosófico reconhece as limitações da
pensamento humano, nas diferentes civilizações.
construção da verdade, pois ela não é absoluta. Para tal
reconhecimento, utiliza dois importantes elementos A mitologia, como forma de explicação dos
para a busca de uma dada verdade: a evidência – o que fenômenos naturais e humanos, gerou pontos de
aparece do objeto de estudo, sem invenções sobre o vista e crenças sobre cultura, política e religião que
que se desvela; e a certeza – a confiança na verdade que atravessaram os séculos e na atualidade ainda influen-
está fundamentada na evidência, sem dúvida, ignorân- ciam as civilizações. Muitos estudiosos do pensamento
consideram as histórias sobre a origem e os aconteci-
cia ou juízo de valor.
mentos dos povos como contadores de mitos, como
exemplos dos textos sagrados que buscam verdades
1.3.4 Conhecimento científico
religiosas, inspiradas divinamente e repassadas em lin-
Esse conhecimento procura conhecer, além do guagens humanas. Outro exemplo são as crenças em
fenômeno, suas causas e as leis que o regem. Busca heróis nacionais sobre os quais se formam lendas sobre
descobrir os princípios explicativos que servem de feitos espetaculares e incomuns.
base para a compreensão da organização, da classifica- Na atualidade, os mitos são retomados pela
ção e da ordenação da natureza. Segundo Aristóteles, indústria cinematográfica, pela literatura infanto-juve-
o conhecimento só acontece quando sabemos qual a nil e pelos jogos eletrônicos. Filmes como O senhor
causa e o motivo dos fenômenos. Em seu método, ele dos anéis e os livros Star Trek e Harry Potter trazem
buscava conhecer perfeitamente essas causas, demons- aspectos mitológicos marcantes, que algumas vezes
trando seus experimentos em laboratório, aplicando desenvolvem-se em sistemas filosóficos profundos e
instrumentos, com trabalhos programados, metódicos intrincados. A mitologia, tomada na forma de ficção,
e sistemáticos. recria seres fantásticos que só existiram nas lendas do

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passado, mas que na sociedade atual assumem forma e O pensamento de Sócrates só foi conhecido por
geram milhões de dólares. meio dos relatos deixados por Platão, seu discípulo,
que defendia que as ideias formavam o foco do conhe-
cimento intelectual. Outro pensador de destaque foi
2.2 O conhecimento filosófico Aristóteles, que desenvolveu os estudos de Platão e de
clássico e medieval Sócrates. Ele desenvolveu a lógica dedutiva clássica
como forma de chegar ao conhecimento científico. A
O pensamento filosófico se desenvolveu em
sistematização e os métodos devem ser desenvolvidos
todos os povos e continentes. No entanto, é indis-
para se chegar ao conhecimento pretendido, partindo
cutível a importância da filosofia que se praticava
na Grécia, por volta de 2,5 mil anos atrás. Os sophos sempre dos conceitos gerais para os específicos.
(sábios, em grego), que viveram no século VI a.C.,
buscaram diversos temas para reflexão e buscaram 2.2.3 Pensadores pós‑socráticos
formular explicações racionais para tudo aquilo que Essa época vai do fim do período clássico (320
era explicado, até então, pela mitologia. Os pensadores a.C.) até o fim da hegemonia política e militar da
desse período clássico são divididos de acordo com sua Grécia e início do período medieval na Europa. Sob
ligação com Sócrates, o principal dos filósofos, em: a influência do pensamento de Sócrates, formaram-se
pré-socráticos, socráticos e pós-socráticos. várias correntes de pensamento:
a) Ceticismo: para os céticos, a dúvida deve
2.2.1 Pensadores pré-socráticos
estar sempre presente, pois o ser humano
Foram os pensadores da Grécia Antiga que vive- não consegue conhecer nada de modo exato
ram antes de Sócrates e tinham como principal preo- e seguro.
cupação o universo e os fenômenos da natureza. Em
b) Epicurismo: os epicuristas, seguidores do
seus ensaios filosóficos, buscavam explicar tudo por
pensador Epicuro, defendiam que o bem era
meio da razão e do conhecimento particular das coisas.
originário da prática da virtude. O corpo e a
O matemático Pitágoras fez parte desse grupo e desen-
alma não deveriam sofrer para, dessa forma,
volveu seu pensamento a partir da ideia de em que
chegar-se ao prazer.
tudo preexiste a alma, já que esta é imortal. Outros
filósofos pré-socráticos são Demócrito e Leucipo, que c) Estoicismo: os sábios estoicos como Marco
defendiam a formação de todas as coisas a partir da Aurélio e Sêneca, defendiam a razão a qual-
existência dos átomos. quer preço. Para eles os fenômenos exteriores
a vida deviam ser deixados de lado, como a
2.2.2 Pensadores socráticos emoção, o prazer e o sofrimento.
Entre os séculos, V e IV a.C. a Grécia viveu um
2.2.4 Pensamento medieval
grande desenvolvimento cultural, político e científico.
Entre os pensadores desse momento destacaram-se Na Idade Média, o pensamento europeu foi
os sofistas, como Górgias, Leontinos e Abdera, que muito influenciado pela igreja Católica, que assumiu
defendiam uma educação cujo objetivo máximo seria considerável poder, uma vez que os reis tornaram-
a formação de um cidadão pleno, preparado para atuar -se cristãos. O Teocentrismo, doutrina filosófica da
politicamente para o crescimento da cidade. Os jovens igreja, definiu as formas de sentir, ver e também de
deveriam ser preparados para falar bem (retórica), pen- pensar da população. Entre os filósofos dessa vertente
sar e manifestar suas qualidades artísticas. Diferente destaca-se o teólogo romano Santo Agostinho (354-
dos sofistas, Sócrates começa a pensar e a refletir sobre 430), que acreditava que o conhecimento e as ideias
o homem, buscando entender o funcionamento do eram de origem divina. Segundo esse pensamento,
universo dentro de uma concepção científica. Para ele, as verdades sobre o mundo e sobre todas as coisas
a verdade está ligada ao bem moral do ser humano. Ele deviam ser buscadas nas palavras de Deus. A partir
também acreditava que os pensadores teriam a função do século V até o século XIII, uma nova linha de
de entender o mundo da realidade, separando-o das pensamento ganhou importância na Europa, era a
aparências. Sócrates não deixou textos ou outros docu- escolástica, conjunto de ideias que visava unir a fé
mentos escritos. com o pensamento racional de Platão e Aristóteles.

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O principal representante dessa linha de pensamento também importantes os estudos de Galileu Galilei
foi São Tomás de Aquino (1225-1274). (1564-1642), que desenvolveu instrumentos ópticos,
além de construir telescópios para aprimorar o estudo
O Teocentrismo definiu celeste. Galileu defendeu a ideia de que a Terra girava
as formas de sentir, ver em torno do Sol e, por isso, teve de enfrentar a inqui-
sição da Igreja Católica.
e também de pensar da
população durante a Idade 3 EMPIRISMO: A EXPERIÊNCIA
E O CONHECIMENTO
Média.
3.1 Concepções e métodos empíricos
2.3 Renascimento e
Os empiristas procuravam argumentos nas ciên-
conhecimento científico cias experimentais, na evolução do pensamento e do
A partir do século XIV um grande movimento conhecimento humanos para justificar suas posições
no pensamento humano passou a operar na Europa, diante do que buscavam conhecer. Para eles, o conhe-
o Renascimento ou Renascença. Nesse período, os cimento resultava da observação dos fatos, na qual
impérios europeus ampliaram o comércio e a diversi- a experiência desempenha um papel fundamental.
ficação dos produtos de consumo que eram vendidos Por isso privilegiavam a experiência em detrimento
para a Ásia. O aumento do comércio gerou acumula- da razão humana. Esses estudiosos afirmavam que o
ção de riquezas nas mãos da burguesia mercantil. Isso “sujeito cognoscente” é uma espécie de “tábula rasa”,
gerou condições de se investir na produção artística na qual são gravadas as impressões decorrentes da
e intelectual. “experiência” com o mundo exterior.

Com a proteção e o apoio financeiro dos gover- Por isso essa corrente desconsidera o Inatismo
nantes e do clero na forma de mecenato, os intelectu- (doutrina que se entrelaça com o Racionalismo), que
ais, artistas e pensadores tiveram condições para pro- admite a existência de um sujeito cognoscente (a mente,
duzir novos conhecimentos e por consequência uma o espírito) dotado de ideias inatas, isentas de qualquer
grande transformação no conhecimento. Exemplos dado da experiência. Ainda que o termo “empirismo”
desse período são encontrados na Península itálica, tenha sido atribuído a um grande número de posições
região em que o comércio mais se desenvolveu nesse filosóficas, a tradição prefere aceitar como “empiristas”
período e gerou uma grande quantidade de locais de aqueles pensadores que afirmam ser o conhecimento
produção artística, como Veneza, Florença e Gênova. derivado exclusivamente da experiência dos sentidos,
da sensação ou da emperia.
Nesse processo de revitalização do conhecimento,
Admitamos que, na origem, a
houve grande valorização da cultura greco-romana alma é como que uma tábula rasa,
clássica, pois acreditava-se que esta possuía uma visão sem quaisquer caracteres, vazia de
completa e humana da natureza, ao contrário dos ideia alguma: como adquire ideias?
homens medievais; a inteligência, o conhecimento e o Por que meio recebe essa imensa
quantidade que a imaginação do
dom artístico passaram a ser as qualidades mais valo-
homem, sempre activa e ilimitada,
rizadas no ser humano; o homem passou a ser consi- lhe apresenta com uma variedade
derado o principal personagem (Antropocentrismo), quase infinita? Onde vai ela bus-
em lugar de Deus (Teocentrismo). Nesse período tam- car todos esses materiais que fun-
bém a razão e a natureza passam a ser valorizadas com damentam os seus raciocínios e
os seus conhecimentos? Respondo
grande intensidade, e os métodos experimentais e de
com uma palavra: à experiência.
observação da natureza e universo ganharam destaque. É essa a base de todos os nossos
Entre os pensadores preocupados com o desenvol- conhecimentos e é nela que assenta
a sua origem. As observações que
vimento científico, pode-se citar Nicolau Copérnico fazemos no que se refere a objec-
(1473-1543) e seus estudos astronômicos sobre o Sis- tos exteriores e sensíveis ou as que
tema Solar e os movimentos das constelações. Foram dizem respeito às operações interio-

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res da nossa alma, que nós aperce- refutadas senão pelo interesse de Deus e sua Trindade.
bemos e sobre as quais reflectimos, Tomás de Aquino, célebre teórico da escolástica,
dão ao espírito os materiais dos seus
pensa- mentos. São essas as duas
defendia que o conhecimento opera em duas fases:
fontes em que se baseiam todas as sensível e intelectual, sendo que a segunda depende
ideias que, de um ponto de vista da primeira, mas ultrapassa-a: o intelecto vê a natu-
natural, possuímos ou podemos vir reza das coisas (intus legit) mais profundamente do
a possuir (LOCKE, [s.d.], p. 68).
que os sentidos, sobre os quais exerce a sua atividade.
De acordo com a teoria de que o espírito, a Por meio da observação, o conhecimento intelectual
mente, seja uma tábula rasa, uma superfície maleá- abstrai de cada objeto individual a sua essência, a
vel às impressões da experiência externa, o empirismo forma uni- versal das coisas. Portanto, Deus é cognos-
pode ser estimado sob um prisma psicológico e sob cível pelas experiências sensível e racional. Baseado
outro gnosiológico. À medida que a fonte do conheci- nisso, Aquino propõe as chamadas “cinco provas da
mento não é a razão ou o pensamento, mas a experiên- existência de Deus” (quinquae viae), das quais proce-
cia, a origem temporal de conhecer é concebida como dem demonstrações igualmente racionais.
resultado da experiência externa e interna – aspecto
Na Idade Moderna europeia, o Empirismo
psicológico –, e, por conseguinte, só o conhecimento
assumiu a forma de método sistemático tal como se
empírico é válido – o aspecto gnosiológico.
conhece atualmente, e se difundiu como conheci-
mento nos meios acadêmicos emergentes. Entre seus
3.2 Bases históricas do Empirismo formulado- res principais destaca-se Francis Bacon,
estudioso das ciências do mundo físico. Para ele, o
Entre os primeiros pensadores europeus que
método utilizado por empiristas anteriores não era
defenderam a ideia de que todos os conhecimentos são
sistemático: embora recolhessem dados da experiên-
provenientes de experiências, encontra-se Aristóteles,
cia, essas informações eram “capturadas” ao acaso, sem
que considerava a observação do mundo como base
para a indução ou que, a partir da obtenção de dados o auxílio de um método que classificasse e sistemati-
particulares, no caso, a observação empírica, poder-se- zasse as várias experiências e as orientasse no sentido
-ia tirar conclusões (ou conhecimentos) de verdades de dar ao homem uma ciência útil, em oposição ao
mais absolutas. A partir de suas considerações, os filó- conhecimento produzindo. Pelo método da indução
sofos estoicos, epicuristas e ceticistas formularam teo- se relacionaria o conhecimento sensível, que fornece-
rias empiristas mais explícitas acerca da formação das ria material para a inteligência, e a racionalidade, que
ideias e dos conceitos. manipularia e daria sentido aos dados dos sentidos.

Os estoicos acreditavam que a mente humana era O filósofo inglês Thomas Hobbes (1558-1603),
uma tábula rasa que seria marcada pelas ideias advin- aplicou o método nos estudos da sociedade e da polí-
das da experiência sensível. Os epicuristas tiveram tica. Segundo ele, a verdade resulta de raciocínios cor-
uma visão empirista mais forte, afirmando que a ver- retos, fundamentados pelas sensações. Hobbes criou
dade provinha apenas da sensação. Para eles, as coisas um método rigoroso de controle das deduções lógicas
são conhecidas por meio de imagens em miniatura, provenientes da experiência, representada pelos acon-
os chamados fantasmas, que se desprendem do ser e tecimentos passados na história e da situação política
chegam até aos sujeitos indo diretamente à alma ou, do momento.
indiretamente, por meio dos sentidos. O ceticismo O método empírico de Francis Bacon e de Tho-
teve como maior representante o filósofo Sexto, que mas Hobbes influenciou toda uma geração de filóso-
ficou conhecido como O Empírico. Segundo ele, as fos britânicos, com destaque para John Locke (1632-
verdades sobre o universo seriam inacessíveis ao ser os 1704) que, em seu livro Ensaio sobre o entendimento
sentidos eram a base do conhecimento, mas possuíam humano, descreve a mente humana como uma tábula
limitações que distorciam a imagem do mundo real, rasa (literalmente, uma “ardósia em branco”), na
criando as ilusões. qual, por meio da experiência, são gravadas as ideias.
A Idade Média europeia foi dominada pelo pen- A partir dessa análise empirista da Epistemologia, ele
samento cristão que subordinava os demais pensa- diferencia dois tipos de ideias: as ideias simples, sobre
mentos à religião. Assim, a experiência sensível ou as as quais não se poderia estabelecer distinções, como
ideias humanas não poderiam ser comprovadas e ou a de amarelo, duro etc., e as ideias complexas, que

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seriam associações de ideias simples (por exemplo o esse Empirismo radical, esse pensador criou a corrente
ouro – que é uma substância dura e de cor amare- conhecida como idealismo subjetivo.
lada). Com isso, seria formado um conceito abstrato O escocês David Hume (1711-1776), seguindo
da substância material. a linha de Berkeley, identificou dois tipos de conhe-
Os estoicos acreditavam que a cimento: matérias de fato e relação de ideias. O
primeiro está relacionado com a percepção imediata
mente humana era uma tábula e seria a única forma verdadeira de conhecimento. As
relações de ideias se referem a coisas que não podem
rasa que seria marcada pelas ser percebidas, que não têm correspondência na reali-
dade e seriam pura imaginação. Dessa forma, os pró-
ideias advindas da experiência prios conceitos abstratos utilizados pela ciência para
sensível. analisar os dados dos sentidos não seriam verdadeiros.

Do ponto de vista político e filosófico, os Baseado nisso, Hume refutou a própria causali-
pensadores ingleses lançaram as raízes das ideias que, dade, a noção de causa e efeito, fundamental para a
talvez, mais profundamente influenciaram a transfor- ciência. Para ele, o simples fato de um fenômeno ser
mação da sociedade europeia. O Empirismo que se sempre seguido de outro faz com que eles se relacio-
desenvolveu na Inglaterra adquiriu características pró- nem entre si de tal forma que um é encarado como
prias, dos fatos e fenômenos do século XVI ao XVIII. causa do outro. Causa e efeito, como impressões sen-
Os pensadores apresentaram uma preocupação menor síveis, não seriam mais do que um evento seguido de
pelas questões rigorosamente metafísicas, voltando-se outro. A noção de causalidade seria, portanto, uma
bem mais para os problemas do conhecimento (que “criação” humana, uma acumulação de hábitos desen-
não deixam de incluir uma metafísica). volvidos em resposta às sensações.

Seu método a posteriori, utilizando as ciências O pensamento de Hume e Berkeley influenciou


positivas, estabelece uma psicologia e uma gnosiolo- várias escolas empíricas do século XIX, com destaque
gia sensistas, baseadas essencialmente nos sentidos, para o Positivismo e a Fenomenologia. Entre algu-
na sensação (sensus). Historicamente, o Empirismo se mas correntes que tentaram aproximar o Empirismo
opõe à escola conhecida como Racionalismo, segundo do Racionalismo destacou-se o Empirismo Lógico
a qual o homem nasceria com certas ideias inatas, as (também conhecido como Positivismo ou Neoposi-
quais “aflorariam” à consciência e constituiriam as tivismo Lógico, embora alguns não concordem com
verdades acerca do universo. A partir dessas ideias, o essa sinonímia), uma tentativa de sintetizar as ideias
homem poderia entender os fenômenos particulares essenciais do Empirismo Britânico (por exemplo, a
apresentados pelos sentidos. O conhecimento da ver- forte ênfase na experiência sensorial como base para
dade, portanto, independeria dos sentidos físicos. o conhecimento) com a lógica matemática, a exemplo
dos trabalhos de Ludwig Wittgenstein, Gottlob Frege,
Bertrand Russell, George Mooro, Rudolf Carnap,
3.3 Empirismo e modernidade Jonh Austin e Karl Popper e outros que aplicaram o
O Empirismo de John Locke recebeu novas inter- Empirismo em seus trabalhos.
pretações no século XVIII nas formulações de George Nem o Racionalismo nem o Empirismo são res-
Berkeley (1685-1753). Segundo ele, uma substância postas totais aos problemas que pretendem resolver.
material não pode ser conhecida em si mesma. O que O Racionalismo opõe-se ao Empirismo, e a Doutrina
se conhece, na verdade, resume-se às qualidades revela- Empírico-Racionalista representa uma tentativa de
das durante o processo perceptivo. Assim, o que existe estabelecer a mediação entre essas duas escolas, afir-
realmente não passa de um feixe de sensações. Daí sua mando que o conhecimento se deve à coparticipação
famosa frase: “ser é ser percebido”. Berkeley postulava da experiência e da razão. O maior representante dessa
a existência de uma mente cósmica, a qual seria uni- corrente é Emanuel Kant (1724-1804), filósofo ale-
versal e superior à mente dos homens individuais. No mão do século XVIII que abordou a questão da ori-
entanto, apesar de existir, o mundo seria impossível gem do conhecimento procurando conciliar as duas
de ser conhecido verdadeiramente pelo homem, pois doutrinas – de fato, para Kant, todo o conhecimento
esse conhecimento só é acessível a Deus. Ao assumir começa na e pela experiência, mas não se limita a ela.

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Os elementos múltiplos, diversos e contingentes for- Ainda que a razão seja um componente básico de
necidos pela experiência são integrados em conceitos todas as manifestações da filosofia ocidental, é no pen-
que o próprio entendimento possui a priori. Desse samento moderno que ela adquire novas característica
modo, a experiência fornece a matéria, o conteúdo do e importância. Enquanto na Antiguidade era consi-
conhecimento, enquanto o entendimento lhe dá certa derada propriedade inteligível da natureza e, na idade
forma; o que significa que o conhecimento é sempre Média, uma luz cedida por Deus ao homem para que
o resultado da junção de uma forma e uma matéria. bem a utilize, na filosofia moderna a “razão” é deter-
minada como uma faculdade autônoma, que possui
A Doutrina finalidade própria.
Empírico‑Racionalista afirma Em outras palavras, a razão torna-se, por excelên-
que o conhecimento se deve à cia, veículo de análise e de entendimento do real, que
caracteriza, de modo específico, o ser ou a substância
coparticipação da experiência racional, isto é, o homem. E, se por um lado se afirma
veículo cognitivo do real, por outro se estabelece como
e da razão. órgão experimental da mesma realidade. Quer dizer,
Kant analisa criticamente ambas as doutrinas – o as construções racionais (Racionalismo) se aliam aos
Racionalismo e o Empirismo –, concluindo a insufi- dados da experiência (Empirismo).
ciência de cada uma delas, se perspectivadas de um O Racionalismo, tomado apenas etimologica-
ponto de vista disjuntivo. Entretanto, se se concilia- mente, pode ser entendido como uma perspectiva cul-
rem, talvez resolvam mais satisfatoriamente os pro- tural pela qual o homem chega a verdades absolutas
blemas. Kant considera, pois, que o conhecimento apenas com o uso da faculdade da razão. Seja a partir
não pode se fundamentar unicamente na razão, como de fatos, os quais, ultrapassando a mera força dos sen-
pretendiam os racionalistas, mas também não pode se tidos, permitem ao homem, com a força da razão, abs-
reduzir unicamente aos dados da experiência. trair e atingir condições transcendentais do mundo;
Esta é antes fonte dos dados recebidos pela nossa seja a partir da pura intuição, que prescinde dos fatos.
sensibilidade, mas devidamente organizados por O Racionalismo buscava conhecer a essência. Por
deter- minados conceitos existentes no nosso conhe- isso, não se prendia aos fatos e ao mundo sensível, mas
cimento, os quais não derivam da experiência, pois afirmava que a razão humana poderia transcender e
são-lhe independentes os anteriores – são os concei-
chegar ao conhecimento de realidades suprassensíveis
tos puros do entendimento a priori, daí chama Aprio-
pela força da abstração e das concatenações racionais.
rismo a doutrina desenvolvida por Kant. Então, para
Ao caráter naturalista que apresentava “a razão” no
esse pensador, o conhecimento é como o resultado de
Renas- cimento, é acrescentado, assim, um antropolo-
um processo de transformação de uma matéria-prima
gismo. Por tais motivos, é possível afirmar que as filo-
dada pela experiência e apreendida pelo entendimento
sofias antiga e medieval preocupam-se mais com o Ser,
como tendo determinada significação.
enquanto a filosofia moderna com o conhecer.
O Racionalismo dos séculos XVII e XVIII é a
4 RACIONALISMO: A FACULDADE doutrina que afirma ser a razão o único órgão adequado
AUTÔNOMA DO CONHECIMENTO e completo do saber, de modo que todo conhecimento
verdadeiro tem origem racional. Por tal motivo, essa
corrente filosófica é conhecida como Racionalismo
4.1 A razão como base do conhecimento Gnosiológico ou Epistemológico. A importância con-
Sabe-se que a idade Moderna europeia foi inau- ferida à razão por Descartes e pelos cartesianos, seus
gurada com o Renascimento, o qual se estabeleceu seguidores, é um modo de racionalizar a realidade, um
de fato nos séculos XVII e XVIII. Os dois grandes lastro “metafísico” de cunho racional.
movimentos filosóficos dos séculos XVII e XVIII são
o Empirismo, tendência positiva e prática, expresso
pela cultura anglo-saxônica, conforme foi visto 4.2 Pensamento e método cartesiano
anteriormente, e o Racionalismo, corrente vinculada Descartes propôs um desprendimento cosmoló-
ao pensamento francês. gico da visão do homem, ou seja, deixar uma visão de

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mundo centralizada na autoridade e no poder da reli- 22 Jamais acolher coisa alguma como verdadeira
gião e passar para a certeza do conhecimento, dando, que não conheça evidentemente como tal;
assim, origem ao chamado Racionalismo. Assume, de isto é, evitar cuidadosamente a precipitação
certa forma, o espírito iluminista de sua época, cen- e a prevenção. E de nada incluir nos juízos
tra- lizando na capacidade racional humana da busca que não se apresente tão clara e tão distinta-
do conhecimento. Descartes preocupou-se fundamen- mente a meu espírito que não tenha ocasião
tal- mente em construir um modo para que se pudesse de pô-lo em dúvida.
chegar a um conhecimento que fosse seguro. “[...] 22 Dividir cada uma das dificuldades para que
criei um método que, parece-me, proporcionou-me se examine em tantas parcelas quantas possí-
os meios para o gradativo aumento de meu conheci- veis forem para melhor resolvê-las.
mento, e a levá-lo, gradualmente, ao máximo de grau
que a mediocridade de meu espírito e a breve duração 22 Conduzir por ordem os pensamentos, come-
de minha vida lhe permitirem atingir.” (DESCAR- çando pelos objetos mais simples e mais fáceis
TES, 2000, p. 15) de conhecer, para subir, pouco a pouco, como
por degraus, até o conhecimento dos mais
Ele distingue o universo das ideias duvidosas do compostos e supondo mesmo uma ordem
universo das ideias claras e distintas. As ideias claras entre os que não se precedem naturalmente
e distintas são as ideias inatas, verdadeiras, não sujei- uns aos outros.
tas ao erro, pois não vêm de fora, mas do próprio
sujeito pensante. Em sua mais conhecida, O discurso 22 Fazer em toda parte enumerações tão com-
do método, Descartes enumera quatro regras básicas pletas e revisões tão gerais que se tenha a cer-
capazes de conduzir o espírito na busca da verdade: teza de nada omitir.

22 Regras de evidência – só aceitar algo como O Cartesianismo também pode ser definido em
verdadeiro desde que seja evidente (ideias uma perspectiva de senso comum como a primeira
claras e distintas) – ideias inatas. filosofia moderna, tendo estabelecido as bases da ciên-
cia moderna e contemporânea. O fundamento princi-
22 Regras de análise – dividir as dificuldades em pal da filosofia cartesiana consiste na pesquisa da ver-
quantas partes forem necessárias à resolução dade, com relação à existência dos “objetos” dentro de
do problema. um universo de coisas reais.
22 Regras de síntese – ordenar o raciocínio (pro-
blemas mais simples aos mais complexos).
O Cartesianismo também
22 Regras de enumeração – realizar verificações pode ser definido em uma
completas e gerais para garantir que nenhum
aspecto do problema foi omitido. perspectiva de senso comum
Descartes via o mundo como uma máquina, como a primeira filosofia
como um relógio. A natureza, segundo essa visão, é
um conjunto de peças que deve estar em perfeito fun- moderna, tendo estabelecido
ciona- mento. Com essa obra, ele pretendia partilhar
com o leitor o método que encontrou para si, a fim
as bases da ciência moderna e
de alcançar uma ciência universal que pudesse elevar a contemporânea.
nossa natureza ao seu mais alto grau de perfeição. Seu
O objetivo de Descartes é a pesquisa de um
método é o da dúvida.
método adaptado para a conquista do saber, descobre
Para a razão adquirir seu pleno funcionamento, é esse método que tem como objetivo a clareza e a dis-
necessário limpar o terreno da mente de todo precon- tinção, ou seja, com isso quer ser mais objetivo pos-
ceito; é preciso, em um primeiro momento, duvidar sível, imparcial, quer fundamentar o seu pensamento
de tudo, principalmente do que já se tem estabelecido em verdades claras e distintas. Para isso, de acordo
como verdade absoluta, como dogma. Ele resume e com o seu método, devem ser eliminadas quaisquer
enumera apenas quatro regras, quatro passos a serem influências de ideias que muitas vezes não são verda-
dados no caminho de seu método: deiras, mas que são tidas como mitológicas, e por fim

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frequentemente acabamos aceitando tais mitos sem filosofia como resolvedora do problema do mundo e
que os tenhamos comprovado de fato. da vida, com resultados. Edmund Leach descreveu o
Positivismo em 1966 como “a visão de que o inquérito
científico sério não deveria procurar causas últimas
4.3 O Racionalismo Científico e Aplicado que derivem de alguma fonte externa, mas sim, confi-
A influência do Racionalismo sobre o método nar-se ao estudo de relações existentes entre fatos que
científico alimentou a ideia de muitos pensadores dos são diretamente acessíveis pela observação”. Essa cor-
séculos XIX e XX de que a ciência é obra da razão rente buscava explicar fatos mais práticos e presentes
humana, uma espécie de máquina gerada por ela, cujas na vida do homem, como no caso das leis, das relações
estruturas e leis internas é preciso descobrir. sociais e da ética.
O principal expoente dessa interpretação episte- Entre seus principais formuladores, encontra-
mológica é Gaston Bachelard (1844-1962). Esse autor mos o francês Auguste Comte (1798-1857). Em seus
afirma que a filosofia da ciência contemporânea não ensaios, atribui fatores humanos às explicações dos
pode aceitar nem a solução realista nem a idealista. diversos assuntos, contrariando o primado da razão,
Segundo ele, deve colocar-se em um meio termo entre da teologia e da metafísica. Para Comte, o método
ambos, no qual sejam retomados e superados. Em positivista consistia na observação dos fenômenos,
sua gnosiologia, Bachelard põe o binômio experiên- subordinando a imaginação à observação. Ele sinte-
cia-razão na base de todo o conhecimento humano. tizou seu ideal em sete palavras: real, útil, certo, pre-
Entretanto, não se trata de um condomínio de potên- ciso, relativo, orgânico e simpático e preocupou-se
cias iguais, pois o elemento teórico é que desempenha com a elaboração de um sistema de valores adaptado
o papel normativo. à realidade que o mundo vivia na época da Revolu-
ção industrial.
Bachelard (1977) indica a maneira segundo a
qual o Racionalismo, em seu diálogo permanente com Para Comte, o espírito humano, em seu esforço
o empirismo, constrói a estrutura de apreensão e de para explicar o universo, passa sucessivamente por três
criação do conhecimento científico. O Racionalismo estados:
Aplicado de Bachelard procura mostrar a interdepen- a) Estado teológico ou “fictício”, que explica
dência desses dois modos de pensar, os quais estariam os fatos por meio de vontades análogas à
disseminados por toda a ciência. Para ele, o conheci- nossa (a tempestade, por exemplo, será expli-
mento humano possui dois polos – idealismo e Rea- cada por um capricho do deus dos ventos,
lismo – e nenhuma atividade se fixa somente em um Éolo). Esse estado evolui do fetichismo ao
desses polos. poli- teísmo e ao monoteísmo.
A partir dessa premissa, esse pensador afirma ser b) Estado metafísico, que substitui os deuses
possível, então, atribuir um caráter realista ao Raciona- por princípios abstratos como “o horror ao
lismo e um caráter idealista ao Empirismo, devido ao vazio”, por longo tempo atribuído à natu-
modo como estes se relacionam respectivamente com reza.
a instância empírica e com o plano das ideias.
A tempestade, por exemplo, será explicada
pela “virtude dinâmica” do ar. Esse estado
5 PARADIGMAS DO PENSAMENTO é no fundo tão antropomórfico quanto o
CIENTÍFICO DO SÉCULO XX primeiro (a natureza tem “horror” do vazio
exatamente como a senhora Baronesa tem
horror de chá). O homem projeta espontane-
5.1 Positivismo: pensamento amente sua própria psicologia sobre a natu-
e paradigma monista reza. A explicação dita teológica ou metafísica
é uma explicação ingenuamente psicológica.
O Positivismo emerge no progresso das ciências Ela tem, para Comte, importância sobretudo
naturais, particularmente das biológicas e fisiológicas, histórica como crítica e negação da explica-
as quais buscavam resolver os problemas da Europa do ção teológica precedente. Desse modo, os
século XIX. Esse paradigma científico se preocupou revolucionários de 1789 são “metafísicos”
em aplicar os princípios e os métodos das ciências à quando evocam os “direitos” do homem –

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reivindicação crítica contra os deveres teoló- 5.2 Marxismo: materialismo e dialética


gicos anteriores, mas sem conteúdo real.
O Marxismo é o conjunto de ideias filosóficas,
c) Estado positivo, que é aquele em que o econômicas, políticas e sociais elaboradas primaria-
espírito renuncia a procurar os fins últi- mente por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels
mos e a responder aos últimos “porquês”. (1820-1895). A concepção materialista e dialética da
A noção de causa (transposição abusiva de história interpreta a vida social conforme a dinâmica
nossa experiência interior do querer para a da base produtiva das sociedades e das lutas de classes
natureza) é por ele substituída pela noção daí consequentes.
de lei. Contentar-nos-emos em descrever
O paradigma marxista compreende o homem
como os fatos se passam, em descobrir as
como um ser social histórico que possui a capacidade
leis (exprimíveis em linguagem matemá-
tica) segundo as quais os fenômenos se de trabalhar e desenvolver a produtividade do traba-
encadeiam uns nos outros. Tal concepção lho, o que o diferencia dos outros animais e possibilita
do saber desemboca diretamente na técnica: o progresso de sua emancipação da escassez da natu-
o conhecimento das leis positivas da natu- reza, proporcionando o desenvolvimento das poten-
reza nos permite, com efeito, quando um cialidades humanas.
fenômeno é dado, prever o fenômeno que O método dialético influenciou os mais diversos
se seguirá e, eventualmente, agindo sobre o setores da atividade humana ao longo do século XX,
primeiro, transformar o segundo (“Ciência desde a política e a prática sindical até a análise e a
donde previsão, previsão donde ação”). interpretação de fatos sociais, morais, artísticos, histó-
Gnosiologicamente, o Positivismo desenvolvido ricos e econômicos. Marx criticou o sistema filosófico
por Comte admite, como fonte única de conheci- idealista de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-
mento e critério de verdade, a experiência, os fatos 1831), no qual a realidade se faz filosofia, pois para
positivos, os dados sensíveis. Não aceita qualquer Marx esta precisa incidir sobre aquela. Pode-se dizer
metafísica, portanto, como interpretação, justificação que o pensamento de Karl Marx se originou funda-
transcendente ou imanente da experiência. mentalmente a partir de seus estudos sobre três tradi-
ções intelectuais já bem desenvolvidas na Europa do
O Positivismo do século XIX buscou bases meto- século XIX: a filosofia idealista alemã de Hegel e dos
dológicas no Empirismo e no Naturalismo inglês, neo-hegelianos, o pensamento da economia-política
reduzindo o conhecimento humano ao conhecimento britânica e a teoria política socialista utópica dos auto-
sensível; a metafísica, à ciência e o espírito, à natureza,
res franceses.
com as relativas consequências práticas. Por meio de
um conflito mecânico de seres e de forças, mediante a O núcleo do pensamento de Marx é sua inter-
luta pela existência, determina-se uma seleção natural, pretação do homem, que começa com a necessidade
uma eliminação do organismo mais imperfeito, sobre- de sobrevivência humana. A história se inicia com o
vivendo o mais perfeito. próprio homem que, na busca da satisfação de necessi-
dades, trabalha sobre a natureza. À medida que realiza
Como teoria do pensamento, o Positivismo vin-
esse trabalho, o homem se descobre como ser produ-
cula-se ao Monismo (do grego monis, “um”), às teo-
tivo e passa a ter consciência de si e do mundo pelo
rias filosóficas que defendem a unidade da realidade
desenvolvimento do aprimoramento da produtivi-
como um todo (em metafísica) ou a identidade entre
dade do trabalho, da ciência sobre a realidade. Perce-
mente e corpo (em filosofia da mente) por oposição
be-se então que “a história é o processo de criação do
ao dualismo ou ao pluralismo, à diversidade da rea-
homem pelo trabalho humano”.
lidade em geral. No Monismo, um oposto se reduz a
outro, em detrimento de uma unidade maior e abso- Hegel enunciou as características fundamentais
luta. As raízes do Monismo na filosofia ocidental estão da dialética, e Marx e Engels tomaram desse ensaio
nos filósofos pré-socráticos, como Zenão e Parmênides apenas o núcleo racional de sua dialética. O filósofo
de Eleia. Já Spinoza é o filósofo monista por excelên- alemão Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872) rein-
cia, pois defende que se deve considerar a existência tegrou o materialismo ao seu devido lugar, e Marx e
de uma única coisa, a substância, da qual tudo o mais Engels, assim como no caso de Hegel, tomaram apenas
são modos. o núcleo central do materialismo de Feuerbach. Dessa

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maneira, podemos organizar o pensamento marxista 5.2.3 O Materialismo Histórico
nas seguintes estruturas: a) O Materialismo Histórico considera que a
força é o método de obtenção dos meios de
5.2.1 O Método Dialético Marxista existência necessários à vida dos homens, o
a) Olha a natureza como um conjunto de modo de produção de bens materiais.
elementos ligados que dependem uns dos b) A primeira particularidade da produção, é a
outros e são condicionados reciprocamente.
de que nunca se mantém num dado ponto
Nada pode ser considerado ou entendido
por muito tempo; está sempre a transforma-
isoladamente, para se entender determinado
-se e desenvolver-se; além disso, mudança
fenômeno é necessário estudar o ambiente
do modo de produção provoca inevitavel-
como um todo.
mente a mudança de todo o regime social,
b) Olha a natureza como um estado de movi- as ideias sociais, as opiniões e instituições
mentos constante. Como diz Engels, toda a políticas; a mudança do modo de produção
natureza das partículas mais ínfimas aos cor- provoca a modificação de todo o sistema
pos maiores. Está empenhada em um pro- social e político.
cesso de aparecimento e desaparecimento,
c) A segunda particularidade da produção é a
em um fluxo incessante, em movimento e
de que as transformações e o seu desenvolvi-
em transformação perpétuos.
mento começam sempre pela transformação
c) A dialética considera o processo de desen- e desenvolvimento das forças produtivas. As
volvimento como o que passa das mudanças forças produtivas são por consequência, o
quantitativas e latentes a mudanças evidentes elemento mais móvel e mais revolucionário
e radicais, às mudanças qualitativas. da produção.
d) A dialética entende que os objetos e os fenô- d) A terceira particularidade de produção é que
menos da natureza encerram contradições as novas forças produtivas e as relações de
internas, pois têm um lado negativo e um produção que lhes correspondem não apare-
lado positivo, um passado e um futuro, todos cem fora do antigo regime, aparecem no ceio
eles têm elementos que desaparecem ou que do velho regime.
se desenvolvem, a luta entre o velho e o novo.
Lênin diz que a dialética no verdadeiro sen-
tido da palavra é o estudo das contradições 5.3 Fenomenologia: a intencionalidade
na própria essência das coisas. da consciência humana
5.2.2 O Materialismo Filosófico Marxista A Fenomenologia foi empregada em várias acep-
ções, por vários pensadores, ao longo da história da
a) Marx parte do princípio de que o mundo, filosofia. O termo aparece na obra de Jean Lambert,
pela sua natureza, é material e que os múlti- em 1734, com o sentido de “doutrina da aparência”.
plos fenômenos do universo são diferentes da Ele denomina Fenomenologia a investigação que visa
matéria em movimento. a distinção entre verdade e aparência, de modo a des-
b) O Materialismo Filosófico Marxista parte do truir as ilusões que com frequência se apresentam ao
princípio de que a matéria, a natureza, o ser, pensamento. Essa investigação é afirmada como o
são uma realidade objetiva existindo fora e fundamento de todo saber empírico. Foi, em seguida,
independente da consciência. retomada por Kant e, sobretudo, por Hegel, que
publica Fenomenologia do espírito, em 1807.
c) Para o Materialismo Filosófico Marxista,
o mundo e as suas leis são perfeitamente O método fenonenológico que emergiu na
conhecíveis. Não há de forma alguma no segunda metade do século XIX teve entre seus formu-
mundo coisas que não podem ser conheci- ladores Franz Clemens Brentano (1838-1917), um
das, mas unicamente coisas desconhecidas, filósofo alemão que, em suas análises, buscava a inten-
as quais serão descobertas e conhecidas pela cionalidade da consciência humana, em sua intenção
ciência e pela prática. de descrever, compreender e interpretar os fenôme-

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Teorias do Pensamento Contemporâneo

nos que se apresentam à percepção. Em oposição ao para um determinado objeto. Por sua vez, todo objeto
Positivismo, a Fenomenologia busca a volta às coisas somente existe enquanto apropriado por uma consci-
mesmas, isto é, aos fenômenos, àquilo que aparece à ência. Sujeito e objeto constituem, para essa concep-
consciência, que se dá como objeto intencional. Seu ção, dois polos de uma mesma realidade.
objetivo é chegar à intuição das essências, isto é, ao
conteúdo inteligível e ideal dos fenômenos, captado
de maneira imediata. No século XX, vários filósofos 6 CONFLITO DE PARADIGMAS E
desenvolveram o método fenomenológico, entre eles: ABORDAGENS CONTEMPORÂNEAS
Edmund Husserl, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre
e Maurice Merleau-Ponty.
6.1 Cartesianismo: crise humana e ambiental
O método fenomenológico consiste em mos-
O físico Fritjof Capra, no seu livro O ponto de
trar o que é apresentado e esclarecer esse fenômeno.
mutação, busca identificar os dois grandes paradig-
O objeto é como o sujeito o percebe, e tudo tem de
mas que se confrontam no fim do século XX: o meca-
ser estudado tal como é para ele, sem interferência de
nicista e o sistêmico. Segundo ele, o paradigma meca-
qualquer regra de observação. Um objeto, uma sensa-
nicista agrupa todos os paradigmas que aceitaram a
ção, uma recordação, enfim, tudo deve ser estudado
visão de mundo de René Descartes, segundo a qual
tal como é para o espectador. Toda consciência é cons-
ciência de alguma coisa. Assim sendo, a consciência o mundo natural é uma máquina carente de espiri-
não é uma substância, mas uma atividade constituída tualidade e, portanto, deve ser dominada pela inte-
por atos (percepção, imaginação, especulação, volição, ligência humana e ser colocada a seu serviço. Nessa
paixão etc.) com os quais visa algo. visão, o mundo opera a partir de leis matemáticas,
igual a qualquer máquina, o que permitiria que, ao
Segundo Kant, o fenômeno deve caracterizar-se serem estabelecidas rigorosamente, o homem teria
no tempo e no espaço por meio da aplicação das cate- uma cópia fiel do mundo. Essa visão agrupa o Posi-
gorias do entendimento a priori (uma dedução lógica tivismo, o Neopositivismo e a Dialética Materialista.
da coisa) e em seguida a posteriori (o que pode ser iden- Em suma, agrupam-se aqui as escolas de pensamento
tificado “positivamente” quanto a esse objeto). Com monista e algumas dualistas.
a coisa inserida em um contexto temporal e espacial,
está apta a receber todos os componentes da ciência A Fenomenologia busca a
afim de estudá-la. E, para a aplicação dos diversos juí-
zos da ciência (sintético/a priori; analítico/a posteriori), volta às coisas mesmas, isto
deve existir o ser que transcenda a ciência, o objeto e a
terra. Segundo ele, a fenomenologia estuda a matéria
é, aos fenômenos, àquilo que
como objeto possível da experiência. aparece à consciência, que se
Para Charles Sanders Peirce (1839-1914), filó-
sofo, cientista e matemático americano, a Fenome-
dá como objeto intencional.
nologia constitui parte da filosofia e compreende o Capra (1995) descreve como o Mecanicismo
estudo do fenômeno que se apresenta de qualquer Cartesiano foi incorporado por todas as ciências tradi-
modo à mente, independentemente de qualquer cor- cionais, levando à crise individual, social e ambiental
respondência com a realidade. Essa escola de pensa- de caráter global que se vive hoje. A visão mecanicista
mento, contudo, ganhou um novo e rigoroso dire- adota a ideia de que o mundo natural é regido deter-
cionamento no pensamento de Edmund Husserl, de ministicamente por leis matemáticas em contraposi-
maneira tal que o sentido atualmente vigente desse ção ao mundo humano, no qual há o livre-arbítrio.
termo liga-se, por princípio, ao significado que lhe O paradigma mecanicista privilegia a individuali-
outorgou esse autor. dade, a luta e a competição. Ele transformou o mundo
A Fenomenologia, segundo Edmund Husserl medieval no mundo moderno de hoje. A tecnologia
(1859-1938), é um método que visa encontrar as leis aplicada a todos os campos da vida cotidiana, indus-
puras da consciência intencional. A intencionalidade trial e científica é fundamentada nas descobertas da
é o modo próprio de ser da consciência, uma vez que ciência mecanicista, positivista, e as sociedades, ins-
não há consciência que não esteja em ato, dirigida tituições, bem como a individualidade e a subjetivi-

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dade, funcionam de acordo com os modelos dialéti- Segundo Bohm (1995), aquilo que se vê de ime-
cos, materialistas. O que significa que, de fato, a crise diato é na verdade superficial, e as ideias devem cor-
vivida hoje em todas as áreas, desde a ecológica, pas- relacionar-se ao que se vê de imediato. Ele define,
sando pela social até a individual e espiritual, é respon- portanto, que o holograma é o ponto de partida para
sabilidade do paradigma cartesiano. uma nova descrição da realidade: a ordem dobrada em
Max Horkheimer (1895-1973), filósofo e soció- que a realidade é sempre inteira, total e essencialmente
logo alemão, fez críticas ao Racionalismo de Descartes. independente do tempo, em que o todo se manifesta.
Segundo ele, o pensamento nascido com Descartes e, Desdobra simplicidade até abranger a complexidade
posteriormente, transformado em um dos princípios do universo. Bohm afirma que o manifesto está dentro
fundamentais da ciência moderna, privilegiou sem do não manifesto, e que este é maior e move aquele,
qual- quer restrição uma racionalidade abstrata e vol- captado pela armadilha do pensamento.
tada para a dominação da natureza, colocando assim o
pensa- mento e a especulação filosófica em uma via de
crescente degradação. Com a separação do pensamento 6.2 As teorias sistêmicas
e da realidade concreta promovida pelo Cartesianismo, A Teoria Geral dos Sistemas foi proposta em mea-
a razão transformou-se em um mero instrumento de dos de 1950 pelo biólogo Ludwig von Bertalanffy.
dominação, perdendo sua força esclarecedora e o seu Suas pesquisas foram baseadas em uma visão diferente
poder libertador. A racionalidade técnica, desprezando do Reducionismo Científico, até então aplicado pela
a objetividade em favor de regras (método) lógicas ciência convencional. Bertalanffy compreendeu o sis-
internalizadas, levou aos homens a possibilidade de tema como um conjunto de elementos interdependen-
domínio efetivo sob a natureza externa. tes que interagem com objetivos comuns formando
Ao lado do progresso da ciência e da indústria, um todo, no qual cada um dos elementos componen-
a razão lógica e abstrata impôs uma dinâmica cega e tes comporta-se, por sua vez, como um sistema cujo
irracional no que diz a respeito à condição humana. resultado é maior do que o resultado que as unidades
Morin (1996) lembra que presenciamos a der- poderiam ter se funcionassem independentemente.
rubada da ciência clássica cujos expoentes, Descar- Qualquer conjunto de partes unidas entre si pode ser
tes e Newton, concebiam o mundo como perfeito. considerado um sistema, desde que as relações entre
Para esse autor, essa perfeição é inexiste, o que ficou as partes e o comportamento do todo sejam o foco de
provado quando percebeu-se que o mundo era cons- atenção. Sistema é um conjunto de partes coordena-
tituído por átomos, em um sistema formado de par- das, formando um todo complexo ou unitário.
tículas altamente complexas. Nesse aspecto, a ciência Os sistemas podem ser abertos ou fechados: os
clássica é uma ciência limitada, presa a uma realidade abertos sofrem interações com o ambiente em que
determinista mecânica, que considera a subjetividade estão inseridos. A interação gera realimentações que
como fonte de erro, ao mesmo tempo em que exclui podem ser positivas ou negativas, criando uma autor-
o observador e sua observação – mundo dos objetos, -regulação regenerativa, a qual, por sua vez, cria novas
mundo dos sujeitos. propriedades que podem ser benéficas ou maléficas
Segundo Kuhn (1975), essa crise faz surgir um para o todo independentemente das partes; os siste-
novo paradigma, uma nova estrutura de pressupos- mas fechados são aqueles que não sofrem influência do
tos que vão alicerçar uma comunidade científica. Um meio ambiente no qual estão inseridos, de tal forma
olhar em nova direção passa a dar corpo ao paradigma que ele se alimenta dele mesmo.
emergente, enquanto uma teoria capaz de abarcar a Segundo Bertalanffy (1975), os organismos (ou
riqueza da ciência e do espírito. sistemas orgânicos) em que as alterações benéficas são
Para Heisenberg (1995), a realidade é indeter- absorvidas e aproveitadas sobrevivem, e os sistemas em
minada, uma probabilidade na qual tudo pode acon- que as qualidades maléficas ao todo resultam em difi-
tecer. A incerteza passa a ser rotulada subjetiva na culdade de sobrevivência tendem a desaparecer, caso
medida em que se refere ao conhecimento do mundo não haja outra alteração de contrabalanço que neutra-
de cada um. A única coisa que pode ser prevista é a lize aquela primeira mutação. A evolução permanece
probabilidade. A probabilidade, portanto, assume o ininterrupta enquanto os sistemas se autorregulam.
lugar da certeza. Um sistema realimentado se reorganiza e autogeren-

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Teorias do Pensamento Contemporâneo

cia, isso é a autorregulação em que o todo assume as de modo incessante. Esses são sistemas autopoiéticos
tarefas da parte que falhou. por definição, porque sempre recompõem seus com-
Os parâmetros que compõem qualquer sistema ponentes desgastados. Assim, um sistema autopoiético
são: é ao mesmo tempo produtor e produto.

22 entrada (input), sendo os impulsos recebidos De um modo geral, as principais ideias de Matu-
de fora na forma de matéria e/ou energia; rana e sua contribuição ao Pensamento Sistêmico
podem ser assim resumidas:
22 saídas (output), resultados ou produtos do
sistema na forma de matéria e energia; a) enquanto não entendermos o caráter
sistêmico da célula não conseguiremos com-
22 processamento, transformação ou operação; preender os organismos;
22 retroação (feedback) em forma de retroali- b) a autopoiese define com clareza os fenôme-
mentação; nos biológicos;
22 ambiente, sendo o meio que envolve o sis- c) os fenômenos sociais podem ser considera-
tema. dos biológicos, porque a sociedade é formada
Entre as várias vertentes que deram origem ao por seres vivos;
atual pensamento sistêmico, inclui-se a cibernética ou d) a noção de que os sistemas são determi-
ciência dos sistemas de controle. A cibernética surgiu nados por sua estrutura é de fundamental
nos EUA e se consolidou durante uma série de confe- importância para muitas áreas da atividade
rências patrocinadas pela Fundação Josiah Macy Jr. A humana.
partir de 1942, pesquisadores de várias procedências
Para Maturana, o termo “autopoiese” traduz o
e diferentes áreas de interesse começaram a se reunir
centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos. Para
com regularidade. Entre eles, o biólogo chileno Hum-
exercê-la, esses seres precisam de recursos do ambiente.
berto Maturana tem se apresentado como grande crí-
Portanto, são sistemas ao mesmo tempo autônomos e
tico do Realismo Matemático. Ele é o criador da Teo-
dependentes. Maturana e Varela utilizaram uma metá-
ria da Autopoiese e da Biologia do Conhecer, e junto
fora didática para falar dos sistemas autopoiéticos.
de Francisco Varela, faz parte dos propositores do Pen-
Para eles, tais sistemas são máquinas que produzem
samento Sistêmico e do Construtivismo Radical.
a si próprias. Nenhuma outra espécie de máquina é
Dizem que nós, seres humanos,
capaz de fazer isso, pois todas elas produzem sempre
somos animais racionais. Nossa
crença nessa afirmação nos leva a algo diferente de si mesmas.
menosprezar as emoções e a enal-
tecer a racionalidade, a ponto de
querermos atribuir pensamento 6.3 A teoria da complexidade
racional a animais não humanos,
Segundo uma importante dimensão ou pres-
sempre que observamos neles com-
portamentos complexos. Nesse suposto epistemológico emergente na ciência é o da
processo, fizemos com que a noção complexidade. Esse tema não é novo, ele surge de
de realidade objetiva, se tornasse maneira mais efetiva nos anos 1980. Sabe-se que as
referência a algo que supomos ser ciências biológicas e sociais há muito se defrontam
universal e independente do que
com a dificuldade de adotar o paradigma tradicional
fazemos, e que usamos como argu-
mento visando a convencer alguém, de ciência, enquanto as ciências físicas, por obterem
quando não queremos usar a força sucesso em sua forma de trabalhar com esse para-
bruta (MATURANA, 1997). digma, eram vistas como modelo de cientificidade
A abordagem sistêmica de Maturana deriva de (VASCONCELLOS, 2002).
seu conceito fundamental: a autopoiese. Poiesis é um Segundo Morin (1990), a palavra “complexi-
termo grego que significa “produção”. Autopoiese quer dade” tem origem no latim complexus, que significa
dizer autoprodução. A palavra surgiu pela primeira o que está tecido em conjunto. Refere-se a um con-
vez na literatura internacional em 1974, em um artigo junto cujos constituintes heterogêneos estão insepa-
publicado por Varela, Maturana e uribe para definir os ravelmente associados e integrados, sendo ao mesmo
seres vivos como sistemas que produzem a si mesmos tempo uno e múltiplo. Para que se possa perceber o

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complexo, é preciso ampliar o foco, em vez de acre- 22 O “problema da desordem” – remete-se à
ditar que o objeto de estudo será o elemento, ou o dimensão da instabilidade. A física constatou
indivíduo, e que será preciso delimitá-lo muito bem, também o problema da tendência à desor-
deve-se passar a acreditar que o objeto será estudado dem, que veio para derrubar um dogma cen-
ou trabalhado em seu contexto. tral da física, a ordem, segundo esse dogma
o mundo é estável, funciona como uma
Segundo Frederic Munné (1995), a Teoria da
máquina mecânica absolutamente perfeita,
Complexidade mostra que a realidade é não linear,
em que a desordem não seria mais que uma
caótica, fractal, catastrófica e fuzzy (difusa) e deve ser
ilusão ou uma aparência. Um tipo de desor-
vista de forma não somente quantitativa, mas, princi-
dem veio das pesquisas da termodinâmica.
palmente, qualitativa. A realidade é inacabada, é um
Segundo Prigogine (1980), a descoberta de
eterno e caótico fluir. Ela engloba várias teorias recen-
que o calor cor- responde à agitação desorde-
tes – Teoria do Caos, dos Fractais, das Catástrofes, da
nada das moléculas por Boltzmann permitiu
Lógica/Conjuntos Fuzzy (difusos) e outras proceden- que se notasse que a entropia corresponde a
tes das ciências exatas que se dirigem, explícita e impli- uma medida da desordem molecular. O reco-
citamente, para uma visão cada vez mais aproximada nhecimento da desordem exigiu uma nova
da realidade, sem simplificação, sem reducionismo. forma de pensar, que incluísse a indetermi-
Paradoxalmente, essas teorias aproximam-se das nação e a imprevisibilidade dos fenômenos.
ciências naturais e das ciências humanas, sendo
aplicadas para entender as estruturas e os processos Os diferentes pensadores da
organizacionais complexos que transcendem as teorias
clássicas sobre organizações humanas. complexidade reconheceram
Os diferentes pensadores da complexidade reco- que ela não é como se
nheceram que ela não é como se acreditava inicial-
mente, uma propriedade específica dos fenômenos acreditava inicialmente, uma
biológicos e sociais, tornando-se, portanto, um pressu-
posto epistemológico transdisciplinar que surge sobre
propriedade específica dos
três aspectos. fenômenos biológicos e
22 O “problema lógico” – no início do século
XX, no campo da microfísica defrontavam-
sociais.
-se duas concepções, a da partícula subatô- 22 O “problema da incerteza” – remete-se à
mica concebida de um lado como onda e dimensão da intersubjetividade. Morin
de outro como partícula, obrigando os pes- (1983) ensina a complexidade da relação de
quisadores a fazer uma das opções. Até que conheci- mento, da relação entre sujeito que
Niels Bohr afirmou que “essas proposições conhece e o objeto que é conhecido já é tema
contraditórias eram de fato complementares a muito discutido pelos pensadores e filó-
[e que] logicamente se deveriam associar os sofos. Entretanto, essa relação só foi trazida
dois termos que se excluem mutuamente” formalmente para o âmbito da ciência pela
(MORIN, 1991, p. 422). Esses princípios física, quando Heisenberg formulou o “prin-
foram também analisa- dos por Max Plank cípio da incerteza” no qual “não se pode ter,
(1990), que percebeu que a luz parecia auto- simultaneamente, valores bem determinados
contraditória, consistindo, ao mesmo tempo, para a posição e para a velocidade, em mecâ-
em ondas e em partículas, fato que elimina nica quântica”. Com isso demonstrou que
a dualidade. Essa dualidade levou ao desen- nem mesmo a mensuração poderia produzir
volvimento da teoria quântica para a mecâ- certeza e que “ao se lançar sobre um elétron,
nica quântica, ao descobrimento do funcio- a fim de poder ‘vê-lo’, isso inevitavelmente o
namento do átomo e ao reconhecimento do colocava fora de curso, afetando sua veloci-
mundo subatômico como espaço-tempo em dade ou sua posição”.
que predomina o “princípio da incerteza” e Essas descobertas provocaram a eclosão do pen-
“princípio da complementaridade”. samento complexo e, por consequência, o avanço de

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Teorias do Pensamento Contemporâneo

diversas ciências. Nas ciências humanas deu-se início determinante no desenvolvimento do caráter e da per-
uma visão mais integradora para o conhecimento do sonalidade, enquanto nas ciências sociais em geral ele
seu objeto de estudo, o ser humano, e assim a busca de se traduz no destaque do papel da cultura na organiza-
uma ciência que pudesse atender a demanda da crise ção das condutas e dos fenômenos coletivos.
socioambiental. Para se ter uma melhor percepção do Entre os conceitos mais importantes que ganha-
que se concebe no âmbito do pensamento científico ram força no Culturalismo está o de identidade, que
como complexidade, é preciso conhecer suas bases se remete para o sentido de pertença, influenciando o
epistemológicas. comporta- mento dos indivíduos em modalidade de
categorização na distinção eu-você e nós-eles. Desse
6.4 Abordagem cultural e conhecimento conceito deriva a identidade social, na qual a coleti-
vidade pode perfeita- mente funcionar admitindo no
O termo “cultura” em latim significa os cuidados seu interior certa pluralidade cultural. O que cria a
prestados aos campos e ao gado. No século XVI, essa separação, a fronteira, é a vontade de diferenciação e a
palavra definia a ação de cultivar a terra; e no fim do utilização de certos traços culturais como marcadores
século XVII passou a ser usado no sentido de uma da sua identidade específica.
faculdade ou o trabalho para desenvolver uma facul-
dade. Mas foi no século XVIII que a palavra assumiu No campo da psicologia, o
seu sentido figurado, como nas expressões “cultura das
artes”, “cultura das letras”, “cultura das ciências”. O Culturalismo atribui à cultura
termo “cultura” também se associa às expressões “for-
mação”, “educação do espírito”. É associada à ideia de
o papel determinante no
progresso, educação (uma pessoa “culta”). desenvolvimento do caráter e
Pierre Bourdieu (1930-2002) foi um sociólogo
francês que analisou diferenças culturais entre grupos
da personalidade.
sociais e desenvolveu o conceito de habitus: sistemas
de disposições duradouras e transponíveis, estruturas 7 A COMPLEXIDADE HUMANA:
adquiridas por meio de conhecimentos próprios de LIMITES E DESAFIOS EDUCACIONAIS
modos de vida particulares. Ele caracteriza uma classe
ou um grupo social por comparação com outros que
não partilham das mesmas condições sociais. O habi- 7.1 Novos paradigmas e
tus funciona como a materialização ou a incorporação conhecimento científico
da memória coletiva.
Na primeira década deste século, as preocupa-
Franz Boas (1858-1942) mostra que a aplicação ções com os sistemas naturais e humanos adquiriram
desse método recusa as determinações do meio físico e suprema importância. Veio à tona com toda uma série
as determinações raciais como responsáveis pela diver- de problemas globais que estão danificando a biosfera
sidade dos modos de vida humanos. É na cultura e no e a vida humana de uma maneira alarmante, em um
particularismo histórico que ele vai buscar as fontes cenário de degradação próximo de ser irreversível.
dessa diversidade. Boas, ao criticar o evolucionismo, Existe ampla documentação científica a respeito da
lançou as bases do Culturalismo, cujo objeto de refle- extensão e da importância desses problemas. Quanto
xão eram as sociedades ditas primitivas, espalhadas mais se conhece os principais problemas da atualidade,
sobre o globo terrestre, consideradas na sua especifici- mais percebe-se que eles não podem ser entendidos
dade, na sua originalidade. isoladamente. São problemas sistêmicos, o que signi-
Segundo Consorte (1997), o Culturalismo fica que estão interligados e são interdependentes.
emerge como esforço de compreensão da diversidade Em última análise, esses problemas precisam ser
humana, “constitui-se no processo de crítica ao evolu- vistos, exatamente, como diferentes facetas de uma
cionismo, caracterizando-se, fundamentalmente, por única crise, que é, em grande medida, uma crise de
duas rupturas uma com o Determinismo Geográfico percepção. Ela deriva do fato de que a maioria das
e outra com o Determinismo Biológico”. No campo pessoas, e em especial grandes instituições sociais,
da psicologia, o Culturalismo atribui à cultura o papel concordam com os conceitos de uma visão de mundo

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obsoleta, uma percepção da realidade inadequada para Os novos paradigmas e modelos de saber cientí-
lidar com as questões culturais e naturais deste século. fico que emergem trazem consigo uma nova visão de
Thomas Kuhn (1962) aponta que esse movimento mundo para a sociedade. Nessa nova visão o conheci-
ocorre sob a forma de rupturas descontínuas e revo- mento que necessita ser sustentado em princípios, tais
como:
lucionárias denominadas mudanças de paradigma.
Segundo ele, há um “paradigma” científico, que pode 22 o conhecimento científico-natural é cientí-
ser definido como “uma constelação de realizações – fico social sem ruptura entre o ser humano e
concepções, valores, técnicas etc. – compartilhada por natureza, o orgânico e o inorgânico, a consci-
uma comunidade científica e utilizada por ela para ência e a realidade física externa. O que leva a
definir problemas e soluções legítimos. O paradigma um saber sem distinção entre ciências exatas
que está agora retro- cedendo dominou a cultura por e humanas. O ser humano está no centro do
várias centenas de anos, durante as quais modelou a conhecimento, mas a natureza está no centro
moderna sociedade ocidental e influenciou significati- do ser humano;
vamente o restante do mundo. 22 o conhecimento é local e total, sem fragmen-
Segundo Chizzotti (2005), as concepções de tação do saber. O saber se constitui multi-
mundo denominam-se paradigmas e estes represen- disciplinarmente por meio de uma síntese de
tam uma concepção teórica, uma crença que direciona várias fontes, métodos, vivências e percep-
a leitura do mundo, ou que faz que se enxergue o ções;
mundo de um determinado modo. Por conseguinte, 22 o conhecimento é autoconhecimento, sem
as teorias que orientam as investigações podem ser distinção entre observador e fenômeno,
definidas também como paradigmas, modelos ou pos- sujeito e objeto, subjetivo e objetivo. O pen-
turas dos investigadores. samento científico não descobre, cria conhe-
Boaventura Santos, apresentando as teses de um cimentos, e não é a única explicação possível;
paradigma emergente e argumentando que todo o 22 o conhecimento científico deixa de ser her-
conhecimento científico visa constituir-se em senso mética e reservada a poucos eleitos capacita-
comum, diz: dos, para ganhar o domínio público e tornar-
[...] a ciência pós-moderna sabe que -se um saber popular.
nenhuma forma de conhecimento
é, em si mesma, racional; só a con-
figuração de todas elas é racional. 7.2 A formação do cidadão complexo
Tenta, pois, dialogar com outras
formas de conhecimento deixando- Morin (2003), ao analisar as bases da educação do
-se penetrar por elas. A mais impor- futuro, aponta que ela deverá ser o ensino primeiro e
tante de todas é o conhecimento universal na condição humana. Vive-se na era plane-
do senso comum, o conhecimento tária; uma aventura comum conduz seres humanos,
vulgar e prático com que no quoti-
diano orientamos as nossas acções e
onde quer que se encontrem. Estes devem reconhecer-
damos sentido à nossa vida. [...] É -se em sua humanidade comum e ao mesmo tempo
certo que o conhecimento do senso reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que
comum tende a ser um conheci- é humano.
mento mistificado e mistificador
Conhecer o humano é, antes de
mas, apesar disso e apesar de ser
mais nada, situá-lo no universo, e
conservador, tem uma dimensão
não separá-lo dele. Todo o conhe-
utópica e libertadora que pode ser
cimento deve contextualizar seu
ampliada através do diálogo com o
objeto, para ser pertinente. “Quem
conhecimento científico” (2002, p.
somos?” é inseparável de “Onde
55-56)
estamos?”, “De onde viemos?”,
Reconhecer a falência das certezas é tomar consci- “Para onde vamos?” Interrogar
ência da crise paradigmática que se vive. Os parâmetros nossa condição humana implica
questionar primeiro nossa posição
de verdade – aqueles transmitidos de geração em gera- no mundo. O fluxo de conheci-
ção – não são os mesmos e não conseguimos mais agir mentos, no final do século XX, traz
como nossos pais, como pensava o músico e poeta. luz sobre a situação do ser humano

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Teorias do Pensamento Contemporâneo

no universo. Os progressos 22 2º saber: o conhecimento pertinente – jun-


concomitantes da cosmologia, das taras mais variadas áreas de conhecimento,
ciências da Terra, da ecologia, da
biologia, da pré-história, nos anos
contra a fragmentação
60-70, modificaram as ideias sobre 22 3º saber: ensinar a condição humana – os
o universo, a Terra, a Vida e sobre o
indivíduos não são um algo só. São pessoas
próprio Homem. Mas estas contri-
buições permaneceram ainda desu- mais que culturais, são psíquicas, físicas,
nidas. O humano continua esquar- míticas, biológicas etc.
tejado, partido como pedaços de
um quebra-cabeça ao qual falta
22 4º saber: identidade terrena – saber que a
uma peça. Aqui se apresenta um Terra é um pequeno planeta que precisa ser
problema epistemológico: é impos- sustentado a qualquer custo. Ideia da susten-
sível conceber a unidade complexa tabilidade terra-pátria.
do ser humano pelo pensamento
disjuntivo, que concebe nossa 22 5º saber: enfrentar as incertezas – prin-
humanidade de maneira insular, cípio da incerteza. Ensinar que a ciência
fora do cosmos que nos rodeia, deve trabalhar com a ideia de que existem
da matéria física e do espírito do
coisas incertas.
qual somos constituídos, bem
como pelo pensamento redutor, 22 6º saber – ensinar a compreensão – a comu-
que restringe a unidade humana a nicação humana deve ser voltada para a com-
um substrato puramente bioana-
tômico. As ciências humanas são
preensão. Introduzir a compreensão; com-
elas próprias fragmentadas e com- preensão entre departamentos de uma escola,
partimentadas. Assim, a comple- entre alunos e professores etc.
xidade humana torna-se invisível
e o homem desvanece “como um 22 7º saber: ética do gênero humano – é a
rastro na areia”. Além disso, o novo “antropo-ética”. Não desejar para os outros,
saber, por não ter sido religado, aquilo que não quer para você. A “antropo-é-
não é assimilado nem integrado. tica” está ancorada em três elementos: indiví-
Paradoxalmente assiste-se ao agra-
duo, sociedade e espécie.
vamento da ignorância do todo,
enquanto avança o conhecimento Morin alerta que na prática de aplicar esses
das partes. Disso decorre que, para saberes, a questão fundamental, o objetivo não é
a educação do futuro, é necessário
promover grande remembramento transformá-los em disciplinas, mas sim em diretri-
dos conhecimentos oriundos das zes para ação e para elaboração de propostas e inter-
ciências naturais, a fim de situar venções educacionais.
a condição humana no mundo,
dos conhecimentos derivados das Como foi visto, a humanidade se defronta com
ciências humanas para colocar em limitações para a satisfação das necessidades básicas
evidência a multidimensionalidade de existência, a globalização econômica acelerou a
e a complexidade humana, bem degradação e dos sistemas naturais do planeta e distan-
como integrar (na educação do
futuro) a contribuição inestimável
ciou milhões de pessoas da possibilidade concreta da
das humanidades, não somente a emancipação humana. Por outro lado, observa-se um
filosofia e história, mas também amplo esforço das ciências naturais e humanas, prin-
a literatura, a poesia, as artes [...] cipalmente no fim do século XX, em buscar respostas
(MORIN, 2003, p. 47-48). e estimular ações concretas que permitam aos indiví-
Morin, em seu livro Os sete saberes necessários duos libertar-se da alienação socioespacial.
à educação do futuro, apresenta o que ele mesmo Segundo Paulo Freire (1980), “a única maneira
chama de inspirações para o educador, referindo-se de ajudar o homem a realizar sua vocação ontológica,
aos saberes necessários para uma boa prática educa- a inserir-se na construção da sociedade e na direção
cional. São eles: da mudança social, é substituir esta captação princi-
22 1º saber: erro e ilusão – não afastar o erro do palmente mágica da realidade por uma captação mais
processo de aprendizagem, integrar o erro ao e mais crítica”. Paulo Freire sempre ensinou que o ser
processo, para que o conhecimento avance. humano só tem as possibilidades de participar ativa-

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mente na história, na sociedade e na transformação da e chegaram até nossa geração por meio dos sistemas
realidade se lhe for auxiliado a tomar consciência da de ensino. Segundo muitos pensadores das novas teo-
realidade e de sua própria capacidade para transfor- rias, a sociedade atual possui as condições necessárias
má-lo. Se o indivíduo não pode lutar contras as forças (epistemológicas, tecnológicas e informacionais) para
que não compreende, a não ser que descubra que é transição para um novo paradigma. Há o movimento
modificável e que ele pode fazê-lo, esta conscientiza- de um número suficiente de pensado- res articulados
ção requer o primeiro objetivo da educação, e “antes e eloquentes que podem convencer os líderes políti-
de tudo provocar uma atitude crítica, de reflexão, que cos e corporativos sobre as formas complexas pensa-
comprometa a ação”. mento. No entanto, a mudança de paradigmas requer
Tendo a educação formal e a informal adquirido uma expansão não apenas de percepções e maneiras
as condições teóricas e metodológicas necessárias para de pensar, mas também de valores culturais e naturais.
promover uma visão mais complexa dos fenômenos
naturais e humanos é preciso estabelecer novas pre-
missas para dar corpo e sentido aos novos paradigmas REFERÊNCIAS
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duas mãos. BOHM, D. O físico e o mítico: é possível um diálogo
22 Preocupação com ambiente para entre eles? In: WILBER, Ken (Org.) Oparadigma
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Os paradigmas do pensamento atual concebem
o mundo como um todo integrado, e não como uma BRANDÃO, Z. A crise dos paradigmas e a educa-
coleção de partes dissociadas. Essa percepção reco- ção. São Paulo: Cortez, 1995.
nhece a interdependência fundamental de todos os CAPRA, F. Oponto de mutação. 14. ed. São Paulo:
fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e Cultrix, 1995.
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cos da natureza e, em última análise, são dependentes ______. O tao da física revisitado. In: WILBER, Ken
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Material Complementar
TEMAS TRANSVERSAIS
Os temas transversais são importantes para ampliar e qualificar os conhecimentos adquiridos na disciplina,
pois permitem interagir com outras temáticas.
Para acessar os sites a seguir, basta posicionar a seta sobre o link em azul e clicar.

Epistemologia e pesquisa educacional


(Adolfo Ramos Lamar)
“Debruçando-se sobre a interface entre a Epistemologia e a Pedagogia, MENESES DÍAZ (1992) ressalta
que o termo ‘Epistemologia’ aparece pela primeira vez em 1854, sendo empregado por Ferrier para ser
oposto à noção ‘Ontologia’. Este sentido não é de todo congruente com a significação literal presente em
sua raiz grega, que interpreta-se como discurso da ciência: episteme. Tal incongruência persiste quando ape-
sar de seu significado literal, o termo não refere-se ainda assim, sempre ao mesmo objeto: às vezes designa
uma teoria geral do conhecimento, às vezes uma teoria regional do conhecimento, a saber uma teoria do
conhecimento científico.
Mas, o problema do conhecimento é a pedra angular da Epistemologia. Na sua opinião, em todo momento
coexistem diversos sistemas e correntes em torno do conhecimento. Na Filosofia Antiga, com Platão e
Aris- tóteles principalmente, pode-se encontrar reflexões próximas ao epistemológico, ainda não teorias no
sentido estrito, simplesmente colocações nas que subjaz uma determinada concepção epistemológica.
Por sua parte, JIMENEZ LOZANO (1992), discorrendo também sobre as questões epistemológicas da
Educação, sustenta que o conhecimento humano é considerado como objeto de estudo da Filosofia desde
a Antiguidade. A Filosofia ocupa-se dele, de maneira muito ampla, mas não é senão após a idade Média,
com o rápido desenvolvimento das ciências nos Séculos XVI e XVII, quando esta doutrina converte-se
em uma disciplina filosófica específica e independente, que no século XiX recebe o nome de ‘Teoria do
Conhecimento’. No século XX nasce a Filosofia da Ciência como disciplina filosófica que tenta substituir a
tradicional teoria do conhecimento.
[...]”
Esse artigo está disponível na íntegra em: <http://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/educa-
cao/article/viewFile/2364/2102>. Acesso em: 19 out. 2017.

A estrutura das revoluções científicas


A obra de Thomas Kuhn, lançada nos anos 60 do século XX, trouxe à tona o conceito de paradigma
aplicado à história do fazer científico. No texto de A estrutura das revoluções científicas, o autor realiza sua
análise sob a perspectiva de que a visão paradigmática tenciona orientar quem se prepara para ingressar na
atividade científica. A obra afirma que o estudo dos paradigmas é o que prepara basicamente o estudante ou
pesquisador para ser membro da comunidade científica na qual atuará posteriormente. Nesse sentido, ela
alerta que o pesquisador deve estudar modelos do campo científico de seu interesse, a fim de se moldar nos
fundamentos da “ciência normal” desse campo.
A obra retoma o significado clássico de “paradigma” de Platão, que tem a ideia deste como modelo. Uma vez
moldado ao modelo, o novo cientista domina uma espécie de mapa do conhecimento limitada à sua zona
de escolha. Kuhn mostra que uma comunidade científica escolhe ou assume paradigmas como critérios
para soluções possíveis aos problemas. Ele apresenta a ideia de mapa do conhecimento que determinado
grupo de pensadores acolhe como patamar básico para dar suporte à concepção e à recepção das questões
científicas. Esse fato pode ser demonstrado pela investigação histórica da comunidade acadêmica. Com a
averiguação atinente à comunidade científica em um dado tempo e espaço, revela-se um conjunto de ilus-
trações recorrentes e quase padronizadas de diferentes teorias nas suas aplicações conceituais, instrumentais
e na observação. Tais ilustrações são os paradigmas da comunidade, revelados em manuais, conferências e
exercícios de laboratórios.

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Teorias do Pensamento Contemporâneo

A obra alerta os pesquisadores para a existência de um conjunto de fenômenos que conforma uma falsa
ideia de linearidade da evolução de seu respectivo campo especializado, que funcionaria como um fundo
não dialetizado do saber daquele domínio, dando-lhe certeza do perfil do conhecimento mais correto.
Essa deformação epistemológica forma a crença nesse saber que, sendo seguido como verdadeiro, levará
imediatamente a uma resistência a mudanças. Outro paradigma é instalado quando tais certezas se emba-
ralham e as explicações para os fenômenos começam a ser contraditadas ou quando outras explicações são
apresentadas em eventos científicos com tendência à aceitação e quando as práticas de laboratório seguem
principalmente teorias mais recentes e adotam outros procedimentos metodológicos, produzindo resulta-
dos científicos mais facilmente aceitos.
Quando a comunidade científica repudia um antigo paradigma, simultaneamente renuncia à maioria dos
livros e artigos que o corporifica, deixando de considerá-los como objeto adequado ao escrutínio cientí-
fico. Isso não quer dizer, naturalmente, que a ruptura se dá de imediato. Assim, para Kuhn, um paradigma
é “aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica
consiste em homens que partilham um paradigma”.

TEMAS EMERGENTES
Os temas emergentes indicam temas atuais que enriquecem os conhecimentos da disciplina, pois permitem
identificar conceitos e fatos em evidência na sociedade.
Para acessar os sites a seguir, basta posicionar a seta sobre o link em azul e clicar.

História do pensamento científico – Visão histórica da pesquisa científica


(Dante Marcello Claramonte Gallian)
“A ciência enquanto fruto do desejo ou necessidade de conhecer apresenta-se como um dos elementos mais
essenciais do ser humano.
Já nos mitos cosmogônicos mais importantes das grandes civilizações, a ciência ou conhecimento aparece
como elemento definidor por excelência do Homem.
Criado à imagem e semelhança do seu Criador, o homem carrega a centelha do fogo ou da luz do conheci-
mento divino. Conhecimento este não apenas dado, mas também roubado, arrancado por força da trans-
gressão, tal como encontramos no mito de Prometeu ou no livro do Gênesis.
Em ambas as tradições, a judaico-cristã e a greco-romana, a ciência dada por Deus parece insuficiente para
o homem que busca ir além. Já não basta ser imagem e semelhança, mas deseja ser a matriz mesma, a fonte.
Não mais criatura, mas criador. [...]”
Esse artigo está disponível na íntegra em: <http://www.hottopos.com/videtur15/dante.htm>. Acesso em:
19 out. 2017.

LEITURAS COMPLEMENTARES
Os textos a seguir selecionados para leitura e desenvolvimento acadêmico retratam as produções de pesqui-
sadores da área. A leitura e a análise desses textos contribuem para o seu conhecimento, além de subsidiarem a
realização das avaliações, já que as questões são elaboradas também a partir deles.
Para acessar os sites a seguir, basta posicionar a seta sobre o link em azul e clicar.
BITTAR, M.; FERREIRA JR., A. A educação na perspectiva marxista: uma abordagem baseada em Marx e
Gramsci. Interface – Comunic., Saúde, Educ.; v. 12, n. 26, p. 635-646, jul./set. 2008. Disponível em: <http://
www.scielo.br/pdf/icse/v12n26/a14.pdf>. Acesso em: 19 out. 2017.

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CONSORTE, J. G. Culturalismo e educação nos anos 50: O desafio da diversidade. Cad. CEDES, Cam-
pinas, v. 18, n. 43, dez. 1997. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S0101-32621997000200003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 19 out. 2017.
FERREIRA, M. O. L. A crise dos paradigmas e o marxismo entre os pesquisadores em trabalho e educação em
universidades brasileiras. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 21, set./dez. 2002. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782002000300007&lng=pt&nrm=iso>
Acesso em: 19 out. 2017.
FLORIANI, D. Ciências em trânsito, objetos complexos: práticas e discursos socioambientais. Ambiente e
sociedade, v. 9, n. 1, p. 65-80, jan./jun. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/asoc/v9n1/a04v9n1.
pdf>. Acesso em: 17 out. 2017.
GUSMÃO, N. M. M. de. Antropologia e educação: origens de um diálogo. Cad. CEDES, v. 18,
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d=S0101-32621997000200002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 2 out. 2009.
JACOBINA, R. R. O paradigma da epistemologia histórica: a contribuição de Thomas Kuhn. História, Ciên-
cias, Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 6, n. 3, p. 609-630, nov. 1999/fev. 2000. Disponível em: <http://
www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso
em: 19 out. 2017.
OLIVEIRA, B. J. de. Cinema e imaginário científico. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 13, p. 133-
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RODRIGUES, Z. A. L. Paradigma da ciência, do saber e do conhecimento e a educação para a complexidade:
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SANTOS, B. S. Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna. Disponível em:
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