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“[…] Essa relativização do absoluto

é endêmica na sociedade

pós-moderna “polimorfa” de nosso

século, sobretudo no Ocidente.

Quer você acredite em Jesus, Buda,

os Beatles, cristais, mãe terra ou

qualquer outra coisa que seja do seu

interesse, tudo é considerado em pé


A história de Daniel foi permeada por uma extraordinária fé
de igualdade, pois tudo tem a mesma
depositada em Deus. Acompanhado de três amigos, ele ascendeu
validade para os relativistas. Muitas
de capturado por Nabucodonosor, imperador da Babilônia, ao
pessoas estão convencidas
mais alto nível da administração pública. Eles não se limitaram a
de que esta é de longe a posição
manter a devoção a Deus no âmbito particular. Em uma sociedade
mais segura a adotar. […]”
pluralista e antagônica à sua fé, posicionaram-se contra a opinião

geral e deram um testemunho público de grande destaque.

Vivemos hoje em uma sociedade parecida que tolera a prática do

cristianismo no nível pessoal e nas atividades religiosas na igreja,

no entanto deprecia cada vez mais o testemunho público. É por

isso que essa história tem uma mensagem tão forte para nós.

Se Daniel e seus companheiros estivessem conosco hoje estariam

na vanguarda do debate público. Não se importariam em ir contra


John C. Lennox é docente de
a cultura do politicamente correto para elevar o nome de seu Deus.
Matemática da Universidade de
E você? Está preparado para ir contra a correnteza?
Oxford e ocupa as cátedras de

Matemática e Filosofia da Ciência

na Green Templeton College.

Lennox é autor de numerosos livros

que tratam das relações da Ciência,

Religião e Ética. Ele e a esposa

Sally moram perto de Oxford.


Traduzido por
Luís Aron de Macedo

1ª edição

Rio de Janeiro
2017

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Todos os direitos reservados. Copyright © 2017 para a língua
portuguesa da Casa Publicadora das Assembleias de Deus.
Aprovado pelo Conselho de Doutrina.

Título do original em inglês: Against the Flow


Lion Hudson, Orfoxd, Inglaterra
Primeira edição em inglês: 2015
Tradução: Luís Aron de Macedo

Preparação dos originais: Cristiane Alves


Capa : Suzane Barboza
Projeto gráfico e editoração: Elisangela Santos

CDD: 240 - Moral cristã e teologia devocional


ISBN: 978-85-263-1474-0

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida
Revista e Corrigida, edição de 1995, da Sociedade Bíblica do
Brasil, salvo indicação em contrário.

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e os últimos lançamentos da CPAD, visite nosso site: http://
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Av. Brasil, 34.401 – Bangu – Rio de Janeiro – RJ
CEP 21.852-002

1ª edição: Setembro/2017
Tiragem: 3.000

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Dedicatória

E
ste livro é dedicado aos meus netos, Janie Grace, Freddie,
Herbie, Sally, Lizzie, Jessica e Robin na esperança de que
eles serão parte de uma nova geração que se inspirará em
Daniel e viverá Contra a Correnteza.

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“John Lennox conseguiu de novo. Combinando reflexão
profunda, investigação generalizada e um olho clínico
na cultura ocidental contemporânea, Lennox estabeleceu
paralelos estreitos e informativos entre a vida e circunstâncias
de Daniel e a vida e circunstâncias do crente contemporâneo.
Em minha opinião, o ponto mais interessante em Contra a
Correnteza é a observação de Lennox que, apesar de estar
incorporado nos altos escalões de uma cultura pluralista cada
vez mais hostil à religião bíblica, Daniel não se contentou
em baixar seu testemunho ao nível da piedade pessoal. Pelo
contrário, Daniel manteve o envolvimento público com as
ideias e práticas existentes em seus dias. Lennox oferece
conselhos sábios e aplicação prática para nos tornar um
Daniel dos dias atuais. Recomendo este livro.”
— J. P. Moreland, eminente professor de filosofia da
Universidade de Biola, em La Mirada, Califórnia, e autor
de The Soul: How We Know It’s Real and Why It Matters.

“Poucas partes da Escritura estão mais prenhes do confronto


entre a sabedoria de Deus e a sabedoria do mundo do que o
livro veterotestamentário de Daniel. Poucos autores hoje são
mais exímios em analisar e articular do que John Lennox. É
uma combinação magistral e o resultado é extraordinário.”
— Rev. Dr. John Dickson, diretor-fundador do Centre for
Public Christianity, membro honorário do Departamento
de História Antiga da Universidade de Macquarie.

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“Leio tudo que John Lennox escreve por causa da sua incrível
combinação de erudição rigorosa com insights e aplicações
práticas para todos nós. Você não pode se dar ao luxo de
deixar passar este importante livro! Leia e depois passe para
um amigo.”
— Dr. Rick Warren, autor de
Uma Vida com Propósitos.

“Este livro é um excelente exemplo de nossa responsabilidade


em entender a Palavra de Deus e a cultura em que vivemos,
e depois fazer as ligações entre as duas. John Lennox é
singularmente talentoso para nos ajudar a fazer isso, ao
tratar dos grandes temas da obra de Deus na história, o lugar
da moralidade, a natureza da humanidade, os desafios à fé,
a confiabilidade da Escritura e a chamada a proclamar a
verdade custe o que custar. Como professor da Bíblia, cientista
e discípulo corajoso de Cristo, John Lennox nos oferece um
recurso extraordinário. Recomendo entusiasticamente este
livro extraordinário.”
— Jonathan Lamb, diretor-executivo e
ministro itinerante de Keswick Ministries.

“Não consigo pensar em um livro mais importante para esta


era secular e pluralista. John Lennox desafia os cristãos a
ousarem ser como Daniel, que testemunhou corajosamente
nos mais altos escalões de uma nação que não compartilhava
com sua fé. Este livro é tremendo incentivo para todos os
cristãos que desejam viver fiel e proveitosamente para Deus
em um mundo hostil.”
— Amy Orr-Ewing, diretora de programas
do Oxford Centre for Christian Apologetics.

“John Lennox tem um talento inigualável como professor


da Bíblia. Ele aplica o texto de forma incisiva ao mundo de
hoje e suas filosofias prevalecentes. Esta exposição arguta
de Daniel mostra como o livro oferece fortes críticas das
idolatrias atuais, sejam ateias ou secularistas. Cada leitor

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de Contra a Correnteza verá a profundidade e coerência do
livro de Daniel de uma nova maneira.”
— Dr. Peter J. Williams,
tutor de Tyndale House, Cambridge.

“John Lennox alcançou uma coisa rara — erudição excelente,


fidelidade bíblica e aplicação cultural por excelência. O
exame que ele faz da história de Daniel expõe as profundas
tensões que foram enfrentadas por Israel e lembra-nos de
que muitos desses desafios ainda existem. Assim como Daniel
manteve a integridade e a fidelidade a Deus, nós também
podemos. Este é um livro de reflexão teológica aplicada que
transborda de esperança. Os desafios de que trata são muito
reais, mas as respostas que dá são incrivelmente simples e
extremamente desafiadoras.”
— Malcolm Duncan, pastor sênior da
Igreja Batista de Gold Hill.

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Agradecimentos

E
ste livro nunca teria sido escrito se não fosse pela inspira-
ção fornecida ao longo de muitos anos pelo meu amigo e
mentor professor David Gooding. Foi ele quem primeiro
me abriu os olhos para a riqueza da Escritura e me ensinou
a pensar biblicamente. Seu trabalho seminal sobre Daniel
conforme refletido nas Palestras Tyndalede 1981 foi o estímu-
lo para eu começar a pensar sobre o valor desse livro antigo
como meio de comunicar a visão de mundo bíblica para o
mundo contemporâneo.
Continuo, como sempre, imensamente grato à Barbara
Hamilton por sua inestimável ajuda secretarial não menos im-
portante em me salvar das infelicidades da gramática e estilo.
Gostaria também de agradecer à minha esposa Sally pelo
constante incentivo e aos muitos amigos ao redor do mundo,
numerosos demais para serem mencionados individualmente,
que me disseram que este empreendimento iria valer a pena.
Espero que eles não venham a ficar decepcionados.

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Sumário

Dedicatória .............................................................................. 5
Agradecimentos..................................................................... 11
Por que Devemos Ler Daniel ................................................ 15

Daniel 1
1. Uma Questão de História..............................................19
2. Uma Cidade de Ídolos ...................................................40
3. Uma Questão de Valores ...............................................48
4. Uma Questão de Identidade .........................................55
5. A Decisão e o Protesto ................................................... 73
6. A Visão de Mundo da Babilônia ................................... 81
7. A Maneira do Protesto .................................................. 93
8. A Estrutura Lógica de Daniel ..................................... 100
Daniel 2
9. Sonhos e Revelações ................................................... 106
10. Uma Sucessão de Impérios ....................................... 122
Daniel 3
11. Quando o Estado se Torna Deus .............................. 154
Daniel 4
12. O Testemunho de Nabucodonosor ........................... 171
Daniel 5
13. A Escritura na Parede ............................................... 192
Daniel 6
14. A Lei dos Medos e dos Persas ................................... 214

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Contra a Correnteza

15. A Lei das Selvas.......................................................... 233


Daniel 7
16. Os Quatro Animais e o Filho do Homem................. 245
Daniel 8
17. A Visão do Carneiro e do Bode.................................. 274
Daniel 9
18. Jerusalém e o Futuro................................................. 299
19. As Setenta Semanas................................................... 313
20. A Septuagésima Semana............................................ 320
Daniel 10
21. O Homem sobre as Águas do Rio.............................. 330
Daniel 11
22. A Escritura da Verdade.............................................. 343
Daniel 12
23. O Fim do Tempo........................................................ 358

Apêndice A: A Natureza do Reino de Deus.......................375


Apêndice B: Tradução do Texto do Cilindro de Ciro.......389
Apêndice C: A Estrutura do Livro de Daniel.....................395
Apêndice D: Daniel 11 e a História................................... 399
Apêndice E: A Datação do Livro de Daniel.......................421

Perguntas para Reflexão ou Debate...................................423


Referências.......................................................................... 431
Notas.................................................................................... 435
Crédito dos Textos.............................................................. 441
Crédito das Fotos................................................................ 443

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Por que Devemos Ler Daniel

A
história de Daniel é uma história de fé extraordinária
depositada em Deus e vivida no auge do poder executivo
no pleno resplendor da vida pública. Relata os aconteci-
mentos cruciais da vida de quatro amigos — Daniel, Hananias,
Misael e Azarias — que nasceram no pequeno estado de Judá,
no Oriente Médio, em torno de dois mil e quinhentos anos
atrás. Como jovens membros da nobreza, ainda adolescentes,
foram levados cativos pelo imperador Nabucodonosor e trans-
portados para a capital Babilônia, a fim de serem educados
na administração babilônica. Daniel conta que eles subiram
aos altos escalões do poder não só do império mundial da Ba-
bilônia, mas também do Império Medo-Persa que o sucedeu.
(Estou bem ciente de que essa datação tradicional do livro
de Daniel tem sido ponto de disputa, e que muitos acreditam
que é uma obra do século II a.C. e não do século VI a.C. Essa
questão será abordada em vários pontos ao longo do livro, e
apresentarei um resumo das argumentações no Apêndice E.)
O que torna notável a história da fé desses jovens é que
eles não só continuaram a devoção particular prestada a Deus
que desenvolveram na terra natal, mas também mantiveram
um notório testemunho público em uma sociedade pluralista
que se tornava cada vez mais antagônica à fé deles. É por isso
que sua história tem uma mensagem tão poderosa para nós
hoje. As fortes correntezas do pluralismo e do secularismo na
sociedade ocidental contemporânea, reforçadas pela correção
política paralisante, jogam cada vez mais para escanteio a

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Contra a Correnteza

expressão da fé em Deus, confinando-a, se possível, à esfera


particular. Está se tornando cada vez menos politicamente
correto mencionar Deus em público, sem falar em confessar
que crê em algo exclusivo e absoluto, como a singularidade
de Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador. A sociedade
tolera a prática da fé cristã nas devoções em casa e nos cultos
em igreja, mas deprecia cada vez mais o testemunho público.
Para o relativista e secularista, o testemunho público da fé
em Deus cheira demasiadamente a proselitismo e extremismo
fundamentalista. Consideram-no como ameaça crescente à
estabilidade social e liberdade humana.
A história de Daniel e seus amigos é um toque sonoro
para que nossa geração seja corajosa. É um sinal de alerta
para que não nos apavoremos e permitamos que a expressão
da fé seja diluída e eliminada do espaço público e, assim, se
torne débil e ineficaz. Sua história também nos dirá que esse
objetivo não é suscetível de ser alcançado sem custo.
Conforme a correção política sufoca o testemunho cristão,
o ateísmo torna-se cada vez mais eloquente na esfera pública.
Richard Dawkins em Deus, um Delírio, Sam Harris em Carta a
uma Nação Cristã, Christopher Hitchens em Deus Não É Grande
e Michel Onfray em Atheist Manifesto [Manifesto Ateísta] têm
reunido tropas para suas fileiras ao anunciar os perigos da
religião e a conveniência em eliminá-la. Para fazer isso, esses
chamados novos ateus servem-se do imenso poder cultural da
ciência. Em uma conferência no Instituto Salk de Ciências Bio-
lógicas em La Jolla, Califórnia, em novembro de 1994, Steven
Weinberg, ganhador do Prêmio Nobel, sugeriu friamente que
a melhor contribuição que os cientistas poderiam fazer para
esta geração era a eliminação completa da religião.
Weinberg e outros retratam o ateísmo como a única visão
de mundo intelectualmente respeitável. A intolerância religiosa
e o crescente desrespeito às pessoas com convicções religiosas
são características centrais do ataque cada vez mais estridente
desses estudiosos. Sua constante repetição de argumentos
esfarrapados e filosoficamente superficiais levam-nos a sus-
peitar que seu grande imperador do ateísmo está começando
a tremer de frio por falta de roupa.
Se Daniel e seus três amigos estivessem conosco hoje não
tenho dúvida de que estariam na vanguarda do debate público,
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Por que Devemos Ler Daniel

liderando o contra-ataque aos autointitulados “quatro cavalei-


ros do novo ateísmo”, como Dawkins e seus aliados Dennett,
Harris e Hitchens chamam a si mesmos. Neste livro, tentare-
mos aprender algo sobre o que deu a esse quarteto de tempos
antigos a força e a certeza para estarem preparados, muitas
vezes correndo grande risco, para nadar contra a correnteza
em sua sociedade e dar expressão pública inequívoca e ousa-
da do que eles criam. É o que reforçará nossa determinação
para sair da casamata e nos assegurar de antemão que nossa
mente e coração estão preparados, que nosso capacete está
firmemente no lugar, de modo que não sejamos surpreendidos
no primeiro ataque.

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Capítulo 1
Uma Questão de História
Daniel 1

P
recisamos de algumas informações que nos ajudarão a
entrar na atmosfera da história de Daniel.1 O diminuto
Estado de Judá localizava-se em uma conexão geográfica
no antigo Oriente Médio, onde os interesses das grandes po-
tências entravam em conflito e, portanto, vivia sob constante
ameaça de invasão pelas superpotências vizinhas daquela
época. Cerca de meio século antes de Daniel nascer, o mundo
(pelo menos, a parte relevante para nós) era dominada pela
superpotência da Assíria. Nos dias de Ezequias, um dos me-
lhores reis de Judá, o imperador assírio Senaqueribe avançou
na direção de Judá em 701 a.C. Como Byron disse (em “A
Destruição de Senaqueribe”): “O assírio veio como o lobo ao
aprisco”. As ovelhas se prepararam para um holocausto. De
repente e inesperadamente, Senaqueribe retirou-se (mas essa
é outra história), e Jerusalém foi temporariamente poupada.
A grande capital assíria de Nínive caiu em 612 a.C. diante
dos exércitos babilônicos e medos, que posteriormente conti-
nuaram a tradição de ameaçar exterminar Judá completamente.
Como se já não bastasse, sempre havia o Egito ao sul, que já
não era uma superpotência, cuja antiga glória desvanecera,
mas, mesmo assim, causava uma irritação constante. Ante-
riormente, Josias, um dos reis reformistas de Judá, perdera

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Contra a Correnteza

o senso de perspectiva e embarcara na imprudente missão


de ajudar os babilônios que procuravam tomar o poder do
exército egípcio. Seu empreendimento fracassou e ele foi
morto. Faraó imediatamente depôs Joacaz, filho de Josias, e
o deportou para o Egito, instalando como governante títere
Eliaquim, irmão de Joacaz, agora chamado de Jeoaquim. Au-
mentando ainda mais o problema, Faraó impôs sobre Judá a
drástica multa de cem talentos de prata e um de ouro, soma
principesca naqueles tempos de pobreza.
Jeoaquim mostrou-se ineficaz, e não demorou muito para
que ele também fosse removido: não pelos egípcios, mas pelo im-
perador da Babilônia, Nabu-kudurri-usur II (Nabucodonosor II,
como ele é mais conhecido, ou Nabucodorosor, pois há evidência
de mudança de r para n na transcrição de nomes babilônicos).
Anteriormente, no verão de 605 a.C., Nabucodonosor derrotara os
egípcios na batalha decisiva em Carquemis sobre o Eufrates bem
a nordeste de Jerusalém. Não muito tempo depois desse triunfo
militar notável, Nabopolassar, pai de Nabucodonosor, morreu e
Nabucodonosor voltou para a Babilônia como rei. Posteriormente,
fez visitas regulares a seus territórios conquistados no oeste, a
fim de receber tributos, levar pessoas e fazer justiça (WISEMAN,
1991, p. 22). Foi uma dessas visitas que mudou definitivamente
a trajetória de vida de Daniel e seus amigos.2
Aconteceu assim. Como parte de sua política de tratamento
das nações conquistadas, Nabucodonosor levava o melhor dos
jovens para a Babilônia, a fim de qualificá-los para servir na
administração babilônica. Daniel e seus amigos foram conside-
rados material adequado para essa qualificação, sendo retirados
de suas famílias, sociedade e cultura e transportados para uma
terra estranha e desconhecida a muitos quilômetros de distân-
cia. Tiveram de lidar com o trauma emocional do afastamento
forçado de seus pais e também com a total estranheza do novo
ambiente — novo idioma, novos costumes, novo sistema político,
novas leis, novo sistema de ensino e novas crenças. Deve ter sido
desconcertante. Como assimilaram a nova situação?

Deus e a história
A explicação de Daniel de como se ajustaram ao novo ambien-
te é fruto da reflexão de uma vida inteira sobre os principais
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Uma Questão de História

acontecimentos que moldaram sua vida e fizeram dele o que


ele era. Daniel começa o livro fazendo uma descrição concisa
de com se sentiu ao ver o monumental cerco de Jerusalém
feito por Nabucodonosor e a subsequente deportação para a
mais ilustre das antigas capitais, Babilônia sobre o Eufrates.

No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá,


veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém
e a sitiou. E o Senhor entregou nas suas mãos a
Jeoaquim, rei de Judá, e uma parte dos utensílios
da Casa de Deus, e ele os levou para a terra de Sinar,
para a casa do seu deus, e pôs os utensílios na casa
do tesouro do seu deus. E disse o rei a Aspenaz, chefe
dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos
de Israel, e da linhagem real, e dos nobres, jovens
em quem não houvesse defeito algum, formosos
de aparência, e instruídos em toda a sabedoria, e
sábios em ciência, e entendidos no conhecimento,
e que tivessem habilidade para viver no palácio do
rei, a fim de que fossem ensinados nas letras e na
língua dos caldeus. E o rei lhes determinou a ração
de cada dia, da porção do manjar do rei e do vinho
que ele bebia, e que assim fossem criados por três
anos, para que no fim deles pudessem estar diante
do rei. E entre eles se achavam, dos filhos de Judá,
Daniel, Hananias, Misael e Azarias. (Dn 1.1-6)

Muitas coisas que Daniel poderia ter mencionado, as quais


teríamos gostado de saber, são tentadoramente omitidas. Por
exemplo, não há absolutamente nada sobre sua infância em Judá
e nada sobre a patética intriga e turbulência política nos anos
que antecederam a deportação. Daniel escolhe começar com os
acontecimentos do ano 605 a.C., quando Nabucodonosor voltou
a atenção militar a Jerusalém que ficava na borda de seu império.
A rebeldia da cidade irritou o imperador e ele a sitiou. Levando
em conta o mero poderio militar envolvido, o resultado era uma
conclusão inevitável. A cidade foi tomada, o rei de Judá tornou-se
vassalo e a primeira onda de deportações para a Babilônia teve
início. Nessa ocasião, acidade de Jerusalém em si sobreviveu,
até que Nabucodonosor a destruiu em 586 a.C.
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CONTRA A CORRENTEZA

Esses acontecimentos são documentados mais detalha-


damente nas antigas crônicas babilônicas, como a mostrada
adiante. Essas tabuinhas de pedra com escrita cuneiforme
confirmam que Daniel está nos contando uma história real
e não fruto de sua imaginação. Mais tarde, teremos de falar
mais sobre a historicidade de seu relato, visto que tem sido
muitas vezes questionada.

Crônica Babilônica que menciona a captura de Jerusalém em 597 a.C.

A grande questão para alguém com a formação de Daniel


era: por que Deus permitiu que uma coisa dessas aconteces-
se? Afinal de contas, não era sua nação uma nação especial?
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Uma Questão de História

Não era a nação de Moisés, que recebera a lei diretamente


de Deus? Não era a nação que esse mesmo Moisés tirara dos
campos de trabalho escravo do Egito e levara para a terra que
Deus lhes havia prometido como herança? Não era também a
nação de Davi, o grande rei consolidador, que fez de Jerusa-
lém sua capital, e cujo filho Salomão construíra um Templo
singular para o Deus vivo? Não falara Deus com os patriarcas,
sacerdotes, profetas e reis daquela nação com clareza cada
vez maior acerca de um futuro Rei, o Messias (Ungido), que
seria descendente do rei Davi e reinaria no futuro durante
um período de paz e prosperidades em precedentes na terra?
Essa visão messiânica encontra eco no coração dos seres hu-
manos de todas as culturas, e tem mobilizado a atenção das
nações contemporâneas a tal ponto que está inscrito no muro
do edifício das Nações Unidas, em Nova York, para o mundo
inteiro ler: [...] e estes converterão as suas espadas em enxadões
e as suas lanças, em foices; não levantará espada nação contra
nação, nem aprenderão mais a guerrear (Is 2.4).
O que seria dessa visão se Jerusalém fosse saqueada e a
linhagem de Davi eliminada? Será que a promessa do Messias
teria de ser relegada à lata de lixo cheia de ideias utópicas fra-
cassadas? E quanto ao próprio Deus? Poderia Ele, por assim
dizer, sobreviver a tamanho fracasso? Como poderiam Daniel
e seus amigos continuar a acreditar que havia um Deus que
se revelara à sua nação de maneira especial? Se Deus é real,
como poderia um imperador pagão como Nabucodonosor
violar a santidade do singularíssimo Templo de Deus e sair
impune? Por que Deus não fez nada? Essa é, em essência, a
questão difícil que ainda hoje nos assola de mil formas es-
pecíficas e diferentes. Por que a história toma um rumo que
abala a confiança na existência de um Deus que se importa?
Para o historiador secular, obviamente, não há nada de
estranho sobre o que aconteceu no distante no de 605 a.C.
A conquista de Judá foi apenas mais um exemplo da lei do
mais forte — uma enorme nação fortemente militarizada es-
maga um pequeno estado. Judá não tem o poder de fogo para
causar impressão real sobre as tropas altamente treinadas e
fortemente armadas do exército de Nabucodonosor. Não há
competição entre revólveres de brinquedo e tanques. Claro
que não havia nada mais do que isso...
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Contra a Correnteza

O secularista pode muito bem acrescentar que, se a vitória


tivesse ido para o outro lado e Judá tivesse colocado Babilônia
em fuga, talvez se começasse a falar sobre Deus estar envolvido
no acontecimento. Mas não foi o que aconteceu. Tudo ocorreu
da maneira que qualquer pessoa poderia ter previsto. Dizem,
portanto, que temos de encarar o fato de que a ideia de os
descendentes de Davi serem especiais não passa de mito tribal,
inventada para apoiar uma casa real bastante instável em um
minúsculo estado do Oriente Médio. O Templo em Jerusalém
não era nada mais do que um edifício, seus utensílios não
eram nada mais do que artefatos humanos, ainda que belos
e valiosos. A ideia de que Deus, se houvesse um Deus, estaria
interessado em um assunto tão insignificante é absurda. Não
seria explicação mais fácil, e de longe a mais provável, afirmar
que não há Deus para o Templo ser de alguma maneira seu?
Por que esperar que alguma coisa acontecesse? As pessoas
não roubam itens valiosos de igrejas nos dias de hoje? Será
que Deus as detém com um raio do céu?
Esse ponto de vista é extremamente plausível para muitas
pessoas pela simples razão de que é o único ponto de vista
lógico que o secularista está disposto a considerar. Todavia,
não era absolutamente o ponto de vista defendido por Daniel
e, pelo menos, podemos dizer que ele foi pessoalmente apa-
nhado pelos acontecimentos em questão. Ele também sabia
o que estava em jogo no que se refere à sua credibilidade,
quando declarou corajosamente que Deus estava por trás da
vitória de Nabucodonosor: E o Senhor entregou nas suas mãos
a Jeoaquim, rei de Judá (Dn 1.2).
A primeira coisa que Daniel diz sobre Deus em seu livro
é que Ele está envolvido na história humana: declaração de
imensa importância, se for verdadeira. Daniel não se contenta
em informar o que aconteceu, pois está muito mais interes-
sado em saber por que aconteceu. Ele está interpretando a
história, e interpretando-a de forma muito provocativa para
a mente contemporânea, para dizer o mínimo. Afirmar que
há um Deus por trás da história é opor-se ao vento predo-
minante do secularismo e, portanto, provocar pena se não
o ridículo principalmente do departamento de história de
uma universidade. No entanto, como diz Lesslie Newbigin:
“De Agostinho até o século XVIII, a história da Europa foi
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Uma Questão de História

escrita na crença de que a providência divina era a chave para


entender os acontecimentos” (1989, p. 71). Há muito que
acabaram os dias em que um historiador de destaque, como
Herbert Butterfield, poderia dizer facilmente que a providência
de Deus é a “agência viva e ativa em nós mesmos e em seu
movimento ao longo da totalidade da história” (1957, p. 147).
É ilusão pensar que a interpretação da história que rejeita
a possibilidade da ação divina é método objetivo, ao passo
que o método de Daniel é subjetivo. Toda história é história
interpretada. A verdadeira questão é: existe evidência de que
a interpretação de Daniel é verdadeira?

Crença e evidência
Da próxima vez que alguém lhe disser que uma
coisa é verdade, por que não perguntar: “Que tipo
de evidência há para isso?”. E se não puderem lhe
dar uma boa resposta, espero que você pense com
muito cuidado antes de acreditar em uma palavra
do que dizem. (DAWKINS, 2003, p. 248)

Concordo plenamente com Richard Dawkins quanto a


esse ponto. Como David Hume destacou há muito tempo, é da
própria essência da ciência ajustar a crença à evidência. Até
aqui, tudo bem. Mas em seguida, Dawkins faz uma distinção
entre o pensamento baseado em evidências legítimas, que é a
especialidade do cientista, e o que ele chama de fé religiosa,
que pertence a uma categoria muito diferente.

Penso que podemos defender a tese de que a fé é


um dos grandes males do mundo, comparável ao
vírus da varíola, mas mais difícil de ser erradicado.
A fé, sendo a crença não baseada em evidências, é
o principal vício de qualquer religião.3

Seria erro pensar que este ponto de vista extremo é típico.


Muitos ateus estão longe de estar contentes com sua militância,
para não mencionar suas conotações repressivas e totalitárias.
Todavia, são essas declarações excessivas que são destacadas
na mídia, com o resultado de muitas pessoas ficarem cientes
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Contra a Correnteza

desses pontos de vista e serem afetadas por eles. Seria tolice


ignorá-los. Temos de levá-los a sério.
Pelo que ele diz, é claro que uma das coisas que (infe-
lizmente) gera a hostilidade de Dawkins para com a fé em
Deus é sua impressão de que, ainda que a “crença científica
está baseada em evidências publicamente verificáveis, a fé
religiosa não só carece de evidências, mas apregoa com ale-
gria sua independência de evidências aos quatro ventos”.4
Em outras palavras, ele considera que toda fé religiosa é fé
cega. Mas seguindo o próprio conselho de Dawkins, conforme
citado acima, temos de perguntar: qual é a evidência de que
a fé religiosa não está baseada em evidências? Infelizmente,
existem pessoas que, enquanto professam fé em Deus, aceitam
um ponto de vista abertamente anticientífico e obscurantista.
Essa atitude coloca a fé em Deus em descrédito e é deplorá-
vel. Talvez Richard Dawkins teve a infelicidade de conhecer
desproporcionalmente muitas delas.
Mas isso não altera o fato de que o cristianismo tradicional
insistirá que a fé e as evidências são inseparáveis. A fé é a resposta
às evidências, não a alegria na ausência de evidências. O apóstolo
cristão João dá a seguinte explicação à narrativa que fez de Jesus:
Estes, porém, foram escritos para que creiais (Jo 20.31). Ou seja,
João entende que o que está escrevendo tem por objetivo fazer
parte da evidência sobre a qual a fé está baseada. O apóstolo
declara o que muitos pioneiros da ciência moderna acreditam
que a natureza faz parte da evidência da existência de Deus:

Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação


do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua
divindade, se entendem e claramente se veem pelas
coisas que estão criadas, para que eles fiquem ines-
cusáveis. (Rm 1.20)

Não faz parte da visão bíblica de que, onde não há evi-


dência, as coisas têm de ser cridas. Assim como na ciência, fé,
razão e evidência pertencem umas às outras. A definição que
Dawkins dá à fé como “fé cega” revelou-se ser o exato oposto
da fé bíblica. É curioso ele não estar ciente da discrepância.
A definição idiossincrática que Dawkins dá à fé fornece
notável exemplo do tipo de pensamento que ele alega detestar,
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Uma Questão de História

qual seja, o pensamento que não está baseado em evidências.


Em demonstração de assombrosa inconsistência, a evidência é
exatamente o item que Dawkins deixa de fornecer para afirmar
que a fé se alegra com a independência de provas. E a razão
pela qual ele não apresenta evidência nenhuma não é difícil
de determinar: porque não existe. Não é preciso pesquisar
muito para constatar que nenhum estudioso ou pensador
bíblico sério apoiaria a definição de fé dada por Dawkins.
Alguém até seria perdoado por ceder à tentação de aplicar
em si mesmo a máxima de Dawkins e não acreditar em uma
palavra que ele diz sobre a fé cristã.

História e moralidade
Que evidência Daniel possuía para basear sua interpretação
da história? A evidência é cumulativa, e há uma lógica na qual
todo o seu livro é composto. Por exemplo, mais tarde, ele in-
forma (Dn 9) que foi sua crença em Deus que o levou a esperar
a invasão e conquistada Babilônia. Podemos aceitavelmente
dizer que Daniel estava tão convencido disso que se Nabuco-
donosor tivesse sido detido por uma defesa inesperadamente
impetuosa de Judá ou mesmo por intervenção divina direta,
teria criado problemas para sua fé em Deus. Deixaremos os
detalhes para o contexto apropriado, detendo-nos apenas para
focar a questão central: a relação da história com a moralidade.
De seus pais e professores em Jerusalém, Daniel teria
aprendido pela narrativa em Gênesis que os seres humanos
são seres morais, feitos à imagem de Deus. Foi o que formou
a base do que ele entendia do universo e da vida. O universo
era um universo moral. O Criador não era um tipo de mágico
cósmico, que habitava um templo em forma de caixa e realizava
magia para proteger suas posses ou seu grupo de favoritos.
O caráter moral de Deus exigia que Ele não fosse neutro em
relação ao comportamento humano. Essa mensagem formava
a parte central dos escritos dos profetas hebreus. Nos anos
antes de Jerusalém ser atacada, Jeremias havia alertado a
nação repetidamente sobre as graves consequências da cres-
cente concordância dos judeus com as práticas pagãs imorais
e a idolatria das nações circunvizinhas. Não deram ouvidos a
Jeremias, e não demorou muito para que a Babilônia invadisse
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Contra a Correnteza

a nação e exilasse a maioria da população, como ele previra


explicitamente.
Judá não entendera que a fidelidade de Deus ao seu ca-
ráter e, portanto, às suas criaturas tem sérias implicações.
Alguns líderes de Judá tinham incorrido em pensar que, tendo
em vista que a nação fora escolhida para desempenhar um
papel especial para Deus na história, não importava como os
líderes ou a nação se comportasse. Era algo perigosamente
irresponsável e minava a fibra moral do povo, porque levou
à racionalização do comportamento corrupto e imoral que
era incompatível com a Lei de Deus, embora amplamente
praticado nas nações vizinhas. Esse comportamento causou
o efeito indireto de tornar absurda a afirmação de a nação
ter um papel especial.
Em nosso mundo de hoje, o comportamento moral in-
consistente por parte daqueles que afirmam seguir a Cristo
desvaloriza a fé cristã e leva as pessoas a zombar dela. O que
os líderes e muitas pessoas em Judá não viam era que Deus
não tem favoritos cujos pecados apenas ignora. Deus não faz
acepção de pessoas, pouco importando de qual nação ou nível
social elas sejam.
Essa questão já fora demonstrada muitas vezes antes dos
dias de Daniel. Herbert Butterfield (1957, p. 92), eminente
historiador de Cambridge, escreve:

Os antigos hebreus são notáveis pela maneira em


que levavam à conclusão lógica a crença de que
há moralidade nos processos e no curso da his-
tória. Reconheciam que, se a moralidade existia
em todas as coisas, estava lá o tempo todo e era o
elemento mais importante na conduta humana.
Reconheciam também que a vida, a experiência e
a história tinham de ser interpretadas em termos
da moralidade.

Moisés e os profetas haviam salientado constantemente


que Deus disciplinaria o povo, se eles ignorassem as exigências
morais da Lei. Além disso, a nação de Judá deveria saber disso
mais do que todas. Cerca de um século antes foi exatamente
por essa razão que os assírios invadiram Israel e deportaram a
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Uma Questão de História

maioria dos israelitas. Deus os advertira por meio de Isaías, e a


nação ignorara. A história agora estava se repetindo. Judá, a única
parte que ainda restava, estava dirigindo-se a toda velocidade,
passando por todas as luzes de advertência e indo direto para a
mesma catástrofe que já tinha acontecido com sua irmã, Israel.
Pouco antes de Nabucodonosor sitiar Jerusalém, Jeremias deu
um aviso direto do que exatamente iria acontecer e por quê:

Assim diz o Senhor: Exercei o juízo e a justiça e livrai


o espoliado da mão do opressor; e não oprimais ao
estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais
violência, nem derrameis sangue inocente neste
lugar. Porque, se, deveras, cumprirdes esta palavra,
entrarão pelas portas desta casa os reis que se assen-
tarão no lugar de Davi sobre o seu trono, em carros e
montados em cavalos, eles, e os seus servos, e o seu
povo. Mas, se não derdes ouvidos a estas palavras,
por mim mesmo tenho jurado, diz o Senhor, que
esta casa se tornará em assolação. Porque assim diz
o Senhor acerca da casa do rei de Judá: Tu és para
mim Gileade e a cabeça do Líbano; mas por certo que
farei de ti um deserto e cidades desabitadas. Porque
prepararei contra ti destruidores, cada um com as
suas armas; e cortarão os teus cedros escolhidos e
lançá-los-ão no fogo. E muitas nações passarão por
esta cidade, e dirá cada um ao seu companheiro: Por
que procedeu o Senhor assim com esta grande cidade?
Então, responderão: Porque deixaram o concerto do
Senhor, seu Deus, e se inclinaram diante de deuses
alheios, e os serviram. (Jr 22.3-9)

Judá não deu ouvidos, e o moralmente inevitável aconteceu.


Daniel chama a atenção para esse ponto nas palavras introdu-
tórias do seu livro, onde registra que Nabucodonosor sitiou a
cidade, e o Senhor entregou nas suas mãos a Jeoaquim, rei de
Judá. Essa informação histórica fazia sentido, quando anali-
sada do ponto de vista moral à luz das advertências de Deus. A
punição era adequada ao crime. A nação tinha concordado com
a imoralidade, a injustiça e a idolatria, e por isso seria levada
para o cativeiro pela nação mais idólatra na terra.
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Contra a Correnteza

Sim, a conquista de Judá por Nabucodonosor fez sentido


moral no esquema divino das coisas, mas não significa que Daniel
e seus amigos aceitaram a situação de imediato ou facilmente.
Uma coisa é fazer uma avaliação sóbria dos acontecimentos
turbulentos e traumáticos depois de muitos anos de reflexão.
Outra bem diferente é passar por tais acontecimentos, que foi
o que Daniel e os outros tiveram de fazer. Em certo nível, eles
viam os acontecimentos como representação do julgamento
de Deus contra o comportamento da nação e, sobretudo, de
seus líderes. Mas como seres humanos pensantes e sensíveis,
certamente teriam tido dúvidas, assim como nós teríamos.
Por que, por exemplo, eles teriam (ou nós teríamos) de
sofrer por ações cometidas por outras pessoas? Afinal, eram
jovens normais, cheios de energia e ambição. Todavia, já em
seus corações estavam determinados a seguir a Deus. Por que
tinham de passar pela dor da separação de suas famílias? Não
havia (e não há) respostas fáceis e imediatas para essas per-
guntas. Respostas como essas podem ter levado muito tempo
para chegar. Mas no final, Daniel e seus amigos entenderam
que Deus está interessado não só na história mundial, mas
também na história pessoal daqueles que são apanhados
inocentemente em suas trágicas consequências.
Sei muito bem, é claro, que haverá aqueles que questiona-
rão o fato de que há significado primordial na história. Eles
consideram a ideia como legado fora de moda do que chamam
de o “modo de pensar judaico-cristão”. John Gray, professor
de História do Pensamento Europeu na Escola de Economia
de Londres, coloca a ideia desta forma (2002, p. 48):

Se acreditamos que os humanos são animais, não


pode haver algo como a história da humanidade,
somente a vida de humanos particulares. Se falamos
da história das espécies, é apenas para representar
a soma incognoscível dessas vidas. Como se dá com
os outros animais, algumas vidas são felizes, outras
são miseráveis. Nenhuma vida tem um significado
que está acima de si mesma. Procurar significado
na história é como procurar padrões em nuvens.
Nietzsche sabia disso, mas não podia aceitar. Ele
estava preso no círculo de giz das esperanças cristãs.
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Uma Questão de História

Pergunto-me como Gray sabe disso. Presumo que ele


aceitaria que seu livro, do qual acabo de citar, é parte de sua
vida e história. Se ele está certo no que afirma, então seu li-
vro não pode ter significado acima de si mesmo e, portanto,
obviamente, nenhum significado para você ou para mim. Sua
teoria da falta de significado da história deixa de ser válida
para nós, pois ele não pode saber que a sua história ou a
minha não tem significado. O círculo em que ele está preso
por sua incoerência lógica é feito de material mais duro do
que o giz. Como todos os que defendem tal relativismo, ele
cai no erro de fazer de si mesmo e suas ideias uma exceção
às consequências lógicas dessas ideias. Sua epistemologia é
incoerente. Herbert Butterfield tem um ponto de vista muito
diferente (1957, pp. 10, 11):

O significado da conexão entre religião e história


tornou-se importante nos dias em que os antigos
hebreus, embora um povo tão pequeno, encontra-
ram-se entre os impérios concorrentes do Egito, de-
pois Assíria ou Babilônia, de modo que se tornaram
atores e, em certo sentido particularmente trágico,
mostraram que eram vítimas no tipo história que
envolve lutas colossais pelo poder. [...] No total,
temos aqui os maiores e mais deliberados esforços
já feitos para lutar com o destino, interpretar a
história, descobrir significado no drama humano
e, acima de tudo, enfrentar as dificuldades morais
que a história apresenta à mente religiosa.

O que isso significa é a importância de perceber que o


sentido da história acha-se fora da história. É exemplo par-
ticular do princípio de que o significado de um sistema está
fora do sistema. Ludwig Wittgenstein expressou a ideia muito
bem (1922, 6.41):

O sentido do mundo tem de achar-se fora do mundo.


No mundo, tudo é o que é e acontece como acon-
tece. Nele, não há valor, e se houvesse, não seria
de valor. Se há valor, que é de valor, tem de estar
fora de tudo o que está acontecendo e sendo, pois
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Contra a Correnteza

tudo o que está acontecendo e sendo é acidental.


O que torna algo não acidental não pode estar
no mundo, pois, caso contrário, seria novamente
acidental. Tem de estar fora do mundo.

O centro do monoteísmo é que Deus, que está fora da


história, é o fiador do significado. Como alguém que está
fora do cosmos que se desenrola, Deus está exclusivamente
qualificado para lhe dar significado. Lidar com as dificul-
dades morais que a história apresenta é um dos principais
focos da obra de Daniel. Mas com isso, Daniel, em comum
com os outros escritores bíblicos, não quer dizer que indica
um fatalismo ou determinismo que reduz os seres humanos
a peões indefesos cujas vidas individuais, com seus amores
e escolhas, seus sucessos e fracassos não têm um significado
último. É certamente evidente que em um universo totalmente
determinista o amor e a escolha genuína seriam impossíveis.
Quando o apóstolo Paulo dirigiu-se à augusta corte filosófica
ateniense, o Areópago, salientou que nem a explicação estoica
do universo (caracterizada por processos determinísticos), nem
a explicação epicurista (caracterizada por processos aleatórios)
era adequada para captar a sutileza das coisas como elas são.

E de um só fez toda a geração dos homens para


habitar sobre toda a face da terra, determinando
os tempos já dantes ordenados e os limites da sua
habitação, para que buscassem ao Senhor, se, por-
ventura, tateando, o pudessem achar, ainda que não
está longe de cada um de nós. (At 17.26, 27)

De acordo com Paulo, Deus está no controle final da histó-


ria. Mas isso não elimina, evita ou invalida a responsabilidade
humana de buscar e alcançar a Deus.
Este tópico tem sido o combustível do debate filosófico
durante séculos. A Bíblia não discute a questão a ponto de
nos dar um tratado filosófico a respeito, focando a atenção
sobre a forma como isso funciona na história prática. Este
é o método de comunicação de ideias que encontramos na
grande literatura da Rússia. Há o sentido real de que seus
filósofos são seus romancistas. Se os russos desejam explorar
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Uma Questão de História

ideias profundas e complexas, como o problema do mal e do


sofrimento, eles escrevem romances a respeito, sendo bons
exemplos Guerra e Paz, de Tolstói, e Os Irmãos Karamazov,
de Dostoiévski.
O mesmo ocorre na Bíblia. O apóstolo Paulo indica em
Romanos 9–11 que podemos obter uma perspectiva sobre
a relação entre o envolvimento de Deus na história e a res-
ponsabilidade humana dando uma olhada na (complexa)
história de Jacó, cujos pais foram informados antes mesmo
de Jacó nascer, que ele teria um papel especial. Como mostra
a narrativa de Gênesis, essa escolha soberana não implica
um determinismo divino que roubou de Jacó sua liberdade
de escolha. A narrativa mostra em detalhes que Deus con-
siderou Jacó responsável e obrigado a prestar contas pelos
métodos que adotou para assegurar esse papel, e Deus o
disciplinou de acordo, particularmente por meio das relações
com seus filhos. Por exemplo, Jacó enganou seu pai Isaque,
que estava quase cego, usando a pele rústica de um cabrito,
a fim de fingir ser seu irmão mais velho Esaú. Muitos anos
mais tarde, Jacó foi enganado ao pensar que José, seu filho
favorito, estava morto, quando os outros filhos lhe trouxeram
a túnica de José encharcada com o sangue de um cabrito. A
história por si só já é suficiente para mostrar como é complexo
o desenrolar do controle global que Deus tem da história,
ao fazer provisão para um grau de verdadeira liberdade e
responsabilidade humana.
Essas histórias também mostram que, com todas as limita-
ções de nossa humanidade, nunca teremos plena compreensão
da relação entre o governo de Deus na história e a liberdade
e responsabilidade humana. Todavia, não significa que não
devemos acreditar nelas. Afinal, a maioria de nós acredita
em energia, embora não saibamos o que é. A crença de que o
governo de Deus e a liberdade humana são reais é justificada
principalmente porque este ponto de vista tem considerável
poder explicativo. (De forma semelhante, a tensão entre ver
a luz simultaneamente como partículas e como onda é to-
lerada nas explicações físicas da luz.) A narrativa bíblica, e,
na verdade, a própria história, faz mais sentido à luz deste
ponto de vista complexo, em vez de negarmos o governo de
Deus ou certo grau de liberdade humana. É preciso também
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Contra a Correnteza

muita humildade, tendo em vista do que está, em última


análise (e, talvez, necessariamente), caracterizado por certo
grau de mistério.

Poder explicativo
Em certa ocasião, depois de dar uma palestra sobre a relação
da ciência com a teologia em uma importante instituição
científica na Inglaterra, um físico perguntou-me como eu po-
deria ser um cientista matemático no século XXI e professar
a crença central da fé cristã: que Jesus Cristo era simultanea-
mente humano e divino. Respondi que me seria uma honra
enfrentar a pergunta, caso ele me respondesse uma pergunta
científica muito mais fácil. Ele concordou.
— O que é consciência? — perguntei.
— Não sei — respondeu ele, depois de certa hesitação.
— Tudo bem — disse eu. — Pensemos em algo mais fácil.
O que é energia?
— Bem — disse ele. — Podemos medir a energia e escrever
as equações que regem sua conservação.
— Podemos, eu sei, mas não foi essa a minha pergunta.
A minha pergunta foi: o que é?
— Não sabemos — disse ele com um riso forçado. — Acho
que você também contava com isso.
— Sim, como você, li Feynman e ele diz que ninguém sabe
o que é energia. Isso me leva ao meu ponto principal. Estaria
eu certo em pensar que você estava prestes a desprezar a mim
(e minha crença em Deus) se eu não explicasse a natureza
divina e humana de Jesus?
Ele riu de novo e não disse nada. Continuei:
— Semelhantemente, você ficaria feliz se eu agora des-
prezasse você e todo o seu conhecimento de física, porque
você não pode me explicar a natureza da energia? Afinal de
contas, a energia não é, sem dúvida, por definição, muito
menos complexa do que o Deus que o criou?
— Por favor, não! — disse.
— Não, não vou fazer isso, mas vou fazer outra pergunta
para você: por que você acredita nos conceitos da consciência
e energia, mesmo que não os entenda inteiramente? Não é
por causa do poder explicativo desses conceitos?
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Uma Questão de História

— Sei para onde você está indo — respondeu ele. — Você


crê que Jesus Cristo é Deus e homem, porque essa é a única
explicação que tem o poder de dar sentido ao que sabemos
dEle?
— Exatamente.
Se não queremos ser desnecessariamente intimidados
por esse tipo de argumento, precisamos entender que não são
apenas os crentes em Deus que acreditam em conceitos que
não compreendem inteiramente. Os cientistas também. Seria
tão tolo e arbitrário desprezar os crentes em Deus por não
terem nada a dizer, visto que não podem explicar a natureza
de Deus, quanto seria desprezar os físicos, porque não sabem
o que é energia. No entanto, é exatamente o que acontece.
Esse argumento, útil ao nível da discussão acadêmica,
também ajuda a acalmar as águas tempestuosas da experiência
prática. Daniel não dá uma explicação filosófica detalhada,
resolvendo a tensão entre a soberania de Deus e a respon-
sabilidade do homem, embora, com seu conhecimento da
Escritura, suspeito que ele teria a capacidade de fazê-lo. Seja
qual for a resposta a essa pergunta, não é difícil imaginar que
as previsões de Jeremias foram de ajuda prestimosa para pre-
parar ele e seus amigos para os dias sombrios e turbulentos
pertinentes à deportação:

Porque assim diz o SENHOR: Certamente que,


passados setenta anos na Babilônia, vos visitarei
e cumprirei sobre vós a minha boa palavra, tor-
nando-vos a trazer a este lugar. Porque eu bem sei
os pensamentos que penso de vós, diz o SENHOR;
pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o
fim que esperais. Então, me invocareis, e ireis, e
orareis a mim, e eu vos ouvirei. E buscar-me-eis e
me achareis quando me buscardes de todo o vosso
coração. E serei achado de vós, diz o SENHOR. (Jr
29.10-14)

É evidente pela análise da história de Daniel que ele levou a


sério o que Jeremias disse e nós também devemos. Em tempos
de estresse e turbulência, é extremamente reconfortante saber
que o Deus que é soberano na história global não é indiferente
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Contra a Correnteza

ou está distante dos altos e baixos de nossa trajetória pessoal.


Deus tem planos, planos individuais, para aqueles que confiam
nEle. Com certeza, não houve a cena de quatro adolescentes
saindo de Jerusalém e observando (como podemos imaginá-
-los) por olhos lacrimejantes enquanto os rostos ansiosos de
seus pais aflitos perdiam-se na distância. Nesses momentos
comoventes, eles podem não ter sentido que Deus lhes daria
um futuro e uma esperança. Mas foi o que Ele fez.
É algo que deve nos animar, quando nossa fé em Deus está
sendo submetida à severa provação, quando nossas orações
parecem ricochetear num céu aparentemente impenetrável e
as dúvidas amontoam-se em face de circunstâncias adversas
e do crescente ataque público contra a fé cristã. Quando as
emoções de Daniel e seus amigos foram dilaceradas, tiveram
verdadeiro consolo ao saber que, embora extremamente
traumático, o que estava acontecendo com eles havia sido
previsto pelos profetas. E podemos agir da mesma forma.
Afinal, o próprio Senhor Jesus deixou claro que aqueles que
o seguissem acabariam sendo tratados como Ele foi:

Tenho-vos dito essas coisas para que vos não escan-


dalizeis. Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo
a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer
um serviço a Deus. (Jo 16.1, 2)

Foi o que Jesus disse aos discípulos com antecedência


para que, quando fossem perseguidos e acossados, soubessem
que não tinham saído das mãos de Deus. Talvez uma analogia
nos ajude. Pense em um mapa de estradas. Você não precisa
de um mapa desses quando a estrada é larga e os sinais estão
bem iluminados. Todavia, quando a estrada fica estreita e
acidentada, dando a impressão de não levar a lugar nenhum,
é muito reconfortante ter um mapa que lhe mostre que esse
terreno cheio de irregularidades é precisamente o que você
deve esperar neste trecho da viagem, se estiver no trajeto certo.
É esse tipo de “mapa” que nos ajuda quando a “estrada” da
vida é acidentada. Para Daniel, era muito acidentada, mas
estava claramente marcada no mapa que Jeremias fornecera.
Claro que o realismo nos diz que ainda há muitas ques-
tões perturbadoras a serem enfrentadas. O que Jeremias
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Uma Questão de História

quer dizer quando afirma que Deus tem planos não para nos
fazer mal? Não fez mal para Daniel e seus amigos o fato de
serem arrancados da estabilidade de suas casas e levados
para a Babilônia? A lesão, ou a doença, ou a perseguição, ou
a fome não faz mal para uma pessoa? Será que o câncer que
tira a mulher de seu marido ou a mãe de seus filhos não está
fazendo mal para esse marido e essa família? O que, então,
significa dizer que Deus tem planos para não nos fazer mal?
A resposta está em considerar que tipo de mal é segundo a
perspectiva de Deus. Jesus disse:

E não temais os que matam o corpo e não podem


matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer
perecer no inferno a alma e o corpo. Não se vendem
dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá
em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo
os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos
passarinhos. (Mt 10.28-31)

Jesus deixa claro que o tipo de mal que mata o corpo não
é o mal que Deus considera mal. O apóstolo Pedro disse algo
semelhante, para reforçar a fé dos cristãos que estavam prestes
a passar por tempos difíceis de perseguição:

E qual é aquele que vos fará mal, se fordes zelosos


do bem? Mas também, se padecerdes por amor da
justiça, sois bem-aventurados. E não temais com
medo deles, nem vos turbeis. (1 Pe 3.13, 14)

É fato triste que cristãos professos causem problemas e


sofrimento para si mesmos, porque não são justos. Aqui, Pedro
está escrevendo para aqueles que estão sofrendo porque são
justos, e dizendo-lhes para não ter medo.
O que faz a diferença? Poderia ser que o que pensamos que é
mal é diferente do ponto de vista eterno de Deus? Se a morte física
é o fim da existência, como afirmam os ateus, então as palavras de
Pedro são totalmente vazias. Pior do que isso, são positivamente
enganadoras. Se a morte não é o fim, mas a entrada que marca
a transição para algo muito maior, então tudo parece diferente.
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Contra a Correnteza

Daniel tinha essa perspectiva. Ele termina o livro afirman-


do com confiança a esperança da ressurreição. As últimas
palavras que ele registra são as que lhe foram ditas por um
mensageiro do outro mundo: Tu, porém, vai até ao fim; porque
repousarás e estarás na tua sorte, no fim dos dias (Dn 12.13).
Falar de outro mundo além deste e da ressurreição neste
mundo é como acenar lenços vermelhos para os novos ateus.
Talvez nem tanto. Eles ficariam felizes com outros mundos
com base na convicção de uma evolução universal que deve
ter semeado vida em abundância. Mas com certeza não estão
felizes em antever a ressurreição. Por definição, um buraco
sobrenatural na história não pode ser visto pela lente de uma
visão de mundo materialista (ou naturalista). Mas isso não
prova que não existe. Um aparelho físico que é projetado
apenas para detectar a luz no espectro visível não detectará
os raios-X, mas não prova que os raios-X não existem.
E há um buraco tão bem documentado na história, um
ponto singular que não se encaixa em uma teoria reducionista
da história ou da ciência. Como C. F. D. Moule, teólogo de
Cambridge, escreveu (1967, pp. 3, 13):

Se o surgimento dos nazarenos, fenômeno inega-


velmente comprovado pelo Novo Testamento, faz
um grande buraco na história, um buraco do tama-
nho e forma da ressurreição, o que o historiador
secular propõe para fechá-lo? [...] O nascimento e
rápida ascensão da igreja cristã [...] permanecem
um enigma sem solução para o historiador que se
recusa a levar a sério a única explicação oferecida
pela própria igreja.

A história já dá testemunho da ressurreição física de Jesus


cerca de 600 anos depois do tempo de Daniel. A ressurreição
constitui forte evidência que comprova que Ele era o Messias,
o Filho de Deus. Mostra também, é claro, que a morte física
não é o fim.
Mas estamos avançando muito rapidamente. Deixemos
o estudo sobre o fim do livro de Daniel para o lugar apro-
priado. Menciono a ressurreição aqui, para salientar que só
entenderemos a estabilidade e intencionalidade da vida de
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“[…] Essa relativização do absoluto

é endêmica na sociedade

pós-moderna “polimorfa” de nosso

século, sobretudo no Ocidente.

Quer você acredite em Jesus, Buda,

os Beatles, cristais, mãe terra ou

qualquer outra coisa que seja do seu

interesse, tudo é considerado em pé


A história de Daniel foi permeada por uma extraordinária fé
de igualdade, pois tudo tem a mesma
depositada em Deus. Acompanhado de três amigos, ele ascendeu
validade para os relativistas. Muitas
de capturado por Nabucodonosor, imperador da Babilônia, ao
pessoas estão convencidas
mais alto nível da administração pública. Eles não se limitaram a
de que esta é de longe a posição
manter a devoção a Deus no âmbito particular. Em uma sociedade
mais segura a adotar. […]”
pluralista e antagônica à sua fé, posicionaram-se contra a opinião

geral e deram um testemunho público de grande destaque.

Vivemos hoje em uma sociedade parecida que tolera a prática do

cristianismo no nível pessoal e nas atividades religiosas na igreja,

no entanto deprecia cada vez mais o testemunho público. É por

isso que essa história tem uma mensagem tão forte para nós.

Se Daniel e seus companheiros estivessem conosco hoje estariam

na vanguarda do debate público. Não se importariam em ir contra


John C. Lennox é docente de
a cultura do politicamente correto para elevar o nome de seu Deus.
Matemática da Universidade de
E você? Está preparado para ir contra a correnteza?
Oxford e ocupa as cátedras de

Matemática e Filosofia da Ciência

na Green Templeton College.

Lennox é autor de numerosos livros

que tratam das relações da Ciência,

Religião e Ética. Ele e a esposa

Sally moram perto de Oxford.