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Sumário

Capa

Contra Capa

Página Título

Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafo

Prefácio

Prólogo

Fase Um: Ignição


Capítulo Um

Capítulo Dois

Capítulo Três

Capítulo Quatro

Capítulo Cinco

Capítulo Seis

Capítulo Sete

Capítulo Oito

Capítulo Nove

Capítulo Dez

Capítulo Onze

Capítulo Doze

Capítulo Treze

Capítulo Quatorze

Capítulo Quinze
Capítulo Dezesseis

Capítulo Dezessete

Capítulo Dezoito

Capítulo Dezenove

Capítulo Vinte

Capítulo Vinte Um

Capítulo Vinte Dois

Fase Dois: Reação


Capítulo Vinte Três

Capítulo Vinte Quatro

Capítulo Vinte Cinco

Capítulo Vinte Seis

Capítulo Vinte Sete

Capítulo Vinte Oito

Capítulo Vinte Nove

Capítulo Trinta

Capítulo Trinta Um

Capítulo Trinta Dois

Capítulo Trinta Três

Capítulo Trinta Quatro

Capítulo Trinta Cinco

Capítulo Trinta Seis

Fase Três: Detonação


Capítulo Trinta Sete

Capítulo Trinta Oito

Capítulo Trinta Nove

Capítulo Quarenta

Capítulo Quarenta Um
Capítulo Quarenta Dois

Capítulo Quarenta Três

Capítulo Quarenta Quatro

Capítulo Quarenta Cinco

Capítulo Quarenta Seis

Capítulo Quarenta Sete

Capítulo Quarenta Oito

Capítulo Quarenta Nove

Capítulo Cinquenta

Capítulo Cinquenta Um

Capítulo Cinquenta Dois

Capítulo Cinquenta Três

Capítulo Cinquenta Quatro

Capítulo Cinquenta Cinco

Fase Final: Avalição dos Danos


Capítulo Cinquenta Seis

Capítulo Cinquenta Sete

Créditos
Para minha mãe,

que me ensinou a amar livros e filmes


Agradecimentos
Desde que eu vi pela primeira vez no cinema o filme que mais tarde viria a ser
conhecido como STAR WARS : Episódio IV: Uma nova esperança , ainda
criança, fiquei curioso para saber como seria a vida sob o Império. Um novo
amanhecer me deu a chance de explorar o tema numa história que se passa
vários anos antes do seriado de televisão Star Wars Rebels . Um novo amanhecer
ilustra os personagens Kanan e Hera conforme foram desenvolvidos pelos
produtores executivos do programa, Dave Filoni, Simon Kinberg e Greg
Weisman, e eu lhes sou grato pelas sugestões e orientações dadas.

Obrigado também a Rayne Roberts, Leland Chee e Pablo Hidalgo, da nova


Lucasfilm Story Group, e, como sempre, a Jennifer Heddle, editora de ficção da
Lucasfilm. Minha gratidão ainda a Random House por ter me dado essa
oportunidade: à editora-chefe, Shelly Shapiro, e aos editores Frank Parisi, Keith
Clayton e Erich Schoeneweiss.

Novamente, devo tudo a minha esposa e revisora Meredith Miller, e um


obrigado em especial ao mestre em ficção científica e amigo de longa data, Ken
Barnes, por ter me ajudado a raciocinar de acordo com alguns detalhes
astronômicos.

Por último, sinto-me em dívida com todos os escritores que desenvolveram o


universo de STAR WARS até os dias de hoje, e aos milhões de leitores que
apoiaram suas obras. As histórias que amamos nem sempre se encaixam
perfeitamente numa única cronologia, mas sempre terão sua importância.

JOHN JACKSON MILLER


Prefácio
Star Wars é um universo incrivelmente criativo, no qual, desde 1977, vários
contadores de histórias têm enviado cavaleiros Jedi a incontáveis missões,
explorando inúmeros planetas e descobrindo tesouros escondidos. Cresci com a
trilogia original e, conforme os anos se passaram, li os livros e gibis, joguei os
games, assisti aos relançamentos, e mal pude acreditar quando, belo dia, eu me
sentei num cinema e apareceu na tela EPISÓDIO I . Ansiava por aquele dia
havia muito, muito tempo. Fui à noite de estreia de todos os novos filmes,
enfrentei as filas de pé como todos vocês, estava presente nos lançamentos dos
bonecos nas “Midnight Madness”. Eu curtia de verdade a comunidade que tinha
crescido em torno do universo de STAR WARS . Mal sabia que, antes mesmo
que o Episódio III fosse lançado, eu me mudaria para o norte da Califórnia e
começaria a trabalhar em STAR WARS : A Guerra dos Clones , lado a lado com
o “Criador” George Lucas. Eu me senti como se tivesse ganhado em algum tipo
de loteria de STAR WARS , mas também senti uma tremenda responsabilidade
perante todas as pessoas que, eu sabia bem, amavam STAR WARS: ter a certeza
de que “fiz direito”. Desde que iniciei meu próprio treinamento Jedi, sempre
contei com George para esclarecer as minhas dúvidas mais profundas,
garantindo que tivéssemos entendido o espírito da coisa e estivéssemos
verdadeiramente criando STAR WARS do jeito que ele queria. Ele costumava
brincar comigo e com minha equipe, dizendo que vinha nos ensinando os
caminhos da Força para que, algum dia, quando se aposentasse, STAR WARS
pudesse continuar qualquer outro período de sua existência, novas histórias de S
TAR WARS estão sendo contadas todos os dias. Ainda mais importante, o velho
conceito de cânone já não existe e, desse ponto em diante, nossas histórias e
personagens existem todos no mesmo universo; os principais criadores
envolvidos nos filmes, programas de televisão, revistas em quadrinhos,
videogames e romances estão todos conectados criativamente pela primeira vez
na história do universo de STAR WARS . Um Novo Amanhecer é resultado
desse método de colaboração narrativa aqui na Lucasfilm. Como produtores
executivos de Star Wars Rebels , Greg Weisman, Simon Kinberg e eu pudemos
colaborar com a história e os personagens, trabalhando junto com o autor John
Jackson Miller. Até cheguei a dar pitacos nos visuais de Kanan e Hera na capa
da edição norte-americana; talvez um detalhe insignificante para alguns, mas foi
emocionante fazer parte daquele processo e saber que os personagens
permaneceriam fiéis ao modelo pretendido. Espero de verdade que você aprecie
esta história e que ela enriqueça a experiência e o conhecimento de cada leitor
sobre os personagens presentes em Star Wars Rebels . Ainda há inúmeros
mundos para se explorar, inúmeros alienígenas para se conhecer e, com os
talentos incríveis que conseguimos reunir na Lucasfilm, o caminho a seguir nos
parece bem claro.

Por fim, devo agradecer a você. Independente de esta ser sua primeira aventura
no universo de STAR WARS ou mais uma de tantas ao longo dos anos:
obrigado. Obrigado por sua dedicação e sua paixão à galáxia de STAR WARS .
É por causa de fãs como você ao redor de todo o mundo que a Força há de estar
conosco, sempre.

Dave Filoni

PRODUTOR EXECUTIVO E DIRETOR DE SUPERVISÃO, STAR WARS


REBELS

Por milhares de gerações, os cavaleiros Jedi levaram paz e ordem à República
Galáctica, auxiliados por seu elo ao campo de energia mística conhecido como a
Força. Eles, porém, foram traídos e toda a galáxia pagou o preço. Eis a Era do
Império.

Agora, o imperador Palpatine, antes chanceler da República e secretamente


um discípulo Sith do lado sombrio da Força, levou sua própria paz e ordem à
galáxia. Paz através de uma brutal repressão e ordem através do controle
crescente das vidas de seus súditos.

No entanto, enquanto a mão de ferro do imperador se fechava cada vez mais,


alguns começaram a questionar seus meios e motivações. E outros ainda, cujas
vidas foram destruídas por maquinações de Palpatine, espalharam-se por toda a
galáxia feito bombas não deflagradas à espera do momento propício para
detonarem...


Anos antes...

– Já está na hora de vocês voltarem pra casa – Obi-Wan Kenobi disse.

O mestre Jedi fitou as luzes que piscavam no painel a sua direita e, então, os
alunos que o observavam. O corredor que passava entre as imponentes torres de
computação da estação central de segurança fora projetado de modo que alguns
poucos Jedi pudessem realizar a manutenção do maquinário, e não uma
multidão; as crianças, porém, encontravam-se perfeitamente acomodadas,
receosas de acotovelarem umas às outras na presença do professor daquela
manhã.

– É o que esse sinal significa – o homem barbudo prosseguiu, voltando-se de


novo à interface. Fileiras de luzes azuis cintilavam num mar de indicadores
verdes. Ele ligou um interruptor:

– Vocês não conseguem escutar nada agora, nem enxergar nada. Não aqui, no
Templo Jedi. Mas longe de Coruscant, em planetas por toda a galáxia, aqueles da
nossa Ordem serão capazes de receber a mensagem: Voltem pra casa .

Sentado no chão da estação central de segurança junto com seus colegas de


classe, o jovem Caleb Dume escutava tudo, embora não muito atentamente. Sua
mente vagava, como sempre acontecia quando ele tentava se imaginar em
campo.

Tinha então um corpo esguio e rijo, rosto corado e olhos azuis sob uma
cabeleira negra. Apenas mais um na multidão, ainda não tinha um mentor. Um
dia, porém, ele estaria lá fora, viajando rumo a mundos exóticos com seu mestre.
Instaurariam a paz e a ordem aos cidadãos da República Galáctica, derrotando o
mal onde quer que o terminá-la antes que Caleb tivesse sua grande chance.

Por fim, ousava nutrir esperanças de que se tornaria um mestre Jedi a exemplo
de Obi-Wan, aceito ainda bem jovem como um dos mais sábios da Ordem.
Então, poderia de fato realizar grandes façanhas. Lideraria a batalha heroica
contra os Sith, lendária contraparte maligna aos Jedi.

Claro, os Sith não eram vistos havia milhares de anos e ele não tinha
conhecimento sobre o menor vestígio de um possível retorno. Quanto a suas
ambições, no entanto, Caleb não se diferenciava em nada dos jovens à sua volta,
não importava o gênero ou espécie. A imaginação juvenil desconhecia limites.

O mestre Jedi de cabelos loiros escuros tocou no painel outra vez.

– Está só no modo de teste agora – Obi-Wan disse.

– Ninguém irá responder. Mas se houvesse uma emergência de verdade, os


Jedi seriam capazes de receber a mensagem de várias maneiras. – Fitou seus
ouvintes. – Há o sinal básico de alerta. E há ainda outros componentes, nos quais
vocês poderão encontrar mensagens textuais e holográficas mais detalhadas.
Independente do formato, a finalidade básica deve ser clara... – Já pra casa! – os
alunos gritaram em uníssono.

Obi-Wan assentiu. Então, avistou alguém levantando a mão.

– O aluno lá no fundo – ele disse, tentando pescar um nome.

– Caleb Dume, certo?

– Sim, mestre. Obi-Wan sorriu:

– Eu também estou aprendendo.

– Os alunos soltaram risadinhas.

– Você quer perguntar algo, Caleb?

– Sim. – O garoto tomou fôlego. – Onde?

– Onde o quê? Os outros pupilos riram de novo, um pouco mais alto dessa
vez.

– Onde é que fica essa casa? Pra onde é que a gente vai?

Obi-Wan deu um sorriso:

– Pra Coruscant, claro. Pra cá, rumo ao Templo Jedi. A convocação é


exatamente o que parece ser. O professor ensaiou se virar de volta ao
convocador, mas viu Caleb Dume agitando a mão no ar outra vez. Caleb não era
de se sentar na frente durante as aulas (ninguém respeitava o queridinho do
professor, afinal), mas a timidez nunca fora um de seus fracos.
– Sim, Caleb? – Por que... – a voz do menino falhou, provocando risadas
abafadas de seus companheiros. Cravou os olhos nos outros alunos e retomou a
palavra:

– Por que seria necessário todos os Jedi aqui duma vez?

– Uma pergunta muito boa. Olhando em volta, daria pra se imaginar que
temos todos os Jedi que precisamos! – Obi-Wan escancarou um sorriso aos
mestres dos alunos, todos numa sala de controle mais espaçosa, observando tudo
de fora. Pelo rabo do olho, Caleb pôde vislumbrar Depa Billaba entre eles.
Bronzeada e de cabelos escuros, tinha demonstrado interesse em adotá-lo como
seu aprendiz e então o analisava de longe com seu olhar de costume,
primordialmente sereno: Do que é que você está falando agora, Caleb?

Caleb quis enterrar a cabeça no chão, logo em seguida, quando Obi-Wan


dirigiu a ele:

– Por que você mesmo não me diz, Caleb? Quais seriam as razões, a seu ver,
que nos levariam a enviar uma convocação a todo e qualquer Jedi da Ordem?

O coração de Caleb disparou ao se dar conta de que todo mundo o encarava.


No dia a dia, o menino nem se importava em ser azucrinado por expressar suas
opiniões; as crianças com as quais regularmente treinava sabiam que ele não era
de dar o braço a torcer. Naquele encontro, porém, havia alunos que nunca sequer
tinha visto antes, incluindo os mais velhos, isso para não mencionar os mestres
Jedi. E Caleb tinha acabado de estragar a chance de impressionar um membro do
Conselho Superior na frente de todos.

Por outro lado, poderia ser uma chance de aprofundar a questão e arcar com as
chacotas. Eram tantas possibilidades...

Inclusive, a de ser uma pegadinha.

– Eu sei por que você os chamaria de volta – Caleb finalmente disse.

– Razões imprevistas ! Os outros irromperam em gargalhadas desenfreadas,


afastando todo e qualquer resquício de uma ordem dita respeitosa ante as
palavras de Caleb.

Mas Obi-Wan ergueu suas mãos:


– Ainda não tinha escutado uma resposta tão boa quanto essa – ele disse.

O grupo se aquietou e Obi-Wan prosseguiu:

– A verdade, meus jovens amigos, é que eu simplesmente não sei. Eu poderia


lhes contar sobre as tantas vezes ao longo do curso da história da Ordem em que
os Jedi foram convocados de volta a Coruscant pra lidar com uma ameaça ou
outra. Algumas ocasiões periclitantes, que resultaram em grandes atos de
heroísmo. Existem verdades e existem lendas com um toque de verdade, e todas
elas podem lhes ensinar algo. Tenho certeza de que Jocasta, nossa bibliotecária,
auxiliaria todos vocês a explorar mais o tema – ele juntou as mãos –, mas
nenhuma ocorrência chegou a ser igual à outra e, quando o sinal for enviado de
novo, tal ocorrência também deverá ser única. Espero que isso nunca seja
necessário. Ter o conhecimento sobre sua existência, porém, faz parte do
treinamento de vocês. O importante é que, quando vocês receberem o sinal...

– ... já pra casa! – as crianças disseram, inclusive Caleb.

– Muito bem. Obi-Wan desativou o sinal e abriu passagem entre a multidão


até a saída. Os alunos se levantaram e se encaminharam de volta à sala de
controle, apreciando o espaço mais amplo e papeando sobre o retorno às outras
aulas. A visita de estudo àquele andar do Templo Jedi tinha terminado.

Caleb também ficou de pé, mas não deixou o corredor. Os Jedi sempre
ensinavam seus alunos a vislumbrar todos os ângulos possíveis de determinada
coisa, e lhe ocorreu o pensamento de que havia outro ângulo sobre o que acabara
de lhes ser exposto. Franzindo a testa, o menino ensaiou levantar a mão de novo.
Então, ele se deu conta de que não tinha sobrado mais ninguém ali além de si
próprio. Ninguém mais o observava ou o escutava. A não ser por Obi-Wan,
parado à porta.

– O que foi? – o mestre indagou, sobressaindo-se ao ruído. Às suas costas, os


outros se aquietaram, paralisando-se no lugar. – O que foi, Caleb?

Surpreso por ter sido notado, Caleb engoliu a seco. O momento era propício
para se calar.

– Esse convocador aí. Dá pra enviar qualquer tipo de mensagem, né?

– Ah... – Obi-Wan disse. – Não, nós não o usaríamos pra questões


administrativas corriqueiras, por exemplo. Como cavaleiros Jedi, o que eu
espero que todos se tornem um dia, vocês irão receber tais instruções
individualmente, de uma maneira bem menos dramática de...

– Dá pra mandar as pessoas irem embora?

Ouviu-se um suspiro em meio ao grupo. Interrompido, embora não


visivelmente irritado, Obi-Wan o encarou:

– Como assim?

– Dá pra mandar as pessoas irem embora? – Caleb repetiu, apontando para os


controles do convocador. – Isso aí pode convocar todos os Jedi duma só vez, né?
Não daria pra alertar todos eles a irem embora também?

O salão por trás de Obi-Wan foi tomado pelo burburinho. Mestre Billaba
entrou na sala de computação, parecendo estar disposta a dar cabo àquela
situação um tanto embaraçosa.

– Creio que já basta por ora, Caleb. Perdão, mestre Kenobi. Não é nossa
intenção desperdiçar seu tempo.

Obi-Wan não se voltou a ela.

– Não, não – ele finalmente disse, acenando à multidão, ainda de costas. – Por
favor, esperem. – Coçou sua nuca e se virou em direção ao grupo. – Sim – ele
disse com toda a calma.

– Eu presumo que seja possível alertar os Jedi a baterem em retirada.

Alertar os Jedi a baterem em retirada?

Os Jedi não fogem!

Os Jedi se jogam de peito contra o perigo!

Os Jedi resistem, os Jedi lutam!

Os outros mestres tentaram intervir, gesticulando a Obi-Wan.

– Alunos – um dos mais velhos se adiantou –, não há razão para...


– Não há razão prevista – Obi-Wan retrucou, apontando o indicador ao alto.
Buscou o olhar de Caleb. – Apenas o que nosso jovem amigo aqui disse: razões
imprevistas.

O silêncio caiu sobre a turba. Caleb, relutante em dizer algo mais, deixou que
outro aluno perguntasse o que ele próprio tinha em mente.

– E depois? Se você mandar eles todos embora, o que é que acontece depois?
Obi-Wan refletiu por um breve momento antes de se dirigir aos alunos com um
sorriso afetuoso, dos mais reconfortantes:

– O mesmo de sempre. Todos devem obedecer e esperar pelo próximo


comando. – Levantando os braços, dispensou a assembleia: – Agradeço o tempo
de vocês.

Os alunos deixaram a sala de controle sem maiores delongas, ainda


tagarelando. Caleb permaneceu no lugar, observando Obi-Wan sumir por outra
porta. Sua atenção se voltou outra vez ao convocador. Sentiu estar sendo
observado por mestre Billaba. Virou-se na direção dela, sozinha, à espera na
porta. A carranca tinha sumido; o olhar da professora já era atencioso, acolhedor.
Ela fez sinal para que o menino a acompanhasse. E assim ele o fez.

– Meu jovem estrategista parece estar com a cabeça cheia de ideias – ela disse
ao entrarem no elevador. – Alguma outra pergunta?

– Esperar pelo comando. – Caleb fitou o chão por uns instantes e, então,
ergueu os olhos a sua mestra. – E se o comando nunca for dado? Eu não vou
saber o que fazer.

– Talvez você saiba.

– Talvez não.

Ela encarou o menino, contemplativa:

– Tudo bem, talvez você não saiba. Mas tudo é possível – ela disse, passando
o braço pelos ombros dele quando a porta do elevador abriu. – Talvez, a resposta
lhe ocorra de outra maneira.

Caleb não soube dizer o que aquilo significava. Mas, até aí, era simplesmente
o modo de mestra Billaba se expressar em enigmas e, como de costume, ele
tratou de afastá-los do pensamento tão logo chegaram ao andar em que os jovens
Jedi treinavam. Fosse um dia qualquer, todas as salas, uma após a outra,
testemunhariam os guerreiros mais poderosos da galáxia repassando à geração
seguinte as técnicas de combate com sabres de luz, acrobacias, corpo a corpo, e
até mesmo ensinando como pilotar uma espaçonave, valendo-se de simuladores.
Toda e qualquer disciplina imaginável que tivesse alguma afinidade com a Força
mística – o campo de energia ao qual todo Jedi recorria em busca de
concentração e vigor – vinha a calhar.

E os ali presentes eram apenas uma pequena fração da Ordem Jedi, que
dispunha de postos avançados e agentes por toda a galáxia conhecida. A bem da
verdade, a República Galáctica então se encontrava em guerra contra os
separatistas, mas os Jedi já tinham sido capazes de frustrar ameaça atrás de
ameaça por milhares de gerações. Como poderia alguém ou algo ainda os
desafiar?

Caleb parou em frente a uma sala onde seus colegas de classe já estavam em
treinamento, lutando com varas de madeira. Um de seus parceiros habituais de
duelo, um garoto humanoide de pele avermelhada que também tinha assistido à
aula expositiva, foi a seu encontro à porta com a arma de treino em mãos.

– Bem-vindo, jovem mestre Sisudo – ele disse com um sorriso afetado. – O


que foi aquilo lá com o mestre Kenobi?

– Deixa pra lá – Caleb retrucou, passando pelo colega e cruzando a sala até
sua própria arma de treinamento. – Não foi nada.

– Mas pera lá! – O outro garoto ergueu uma das mãos, zombando dos
questionamentos de Caleb. – Ai! Ai! Me chama!

– Beleza, amigão, é melhor você se concentrar porque eu tô prestes a dar umas


chicotadas nesse seu rabinho aí. – Caleb sorriu e deu início aos trabalhos.
Aqui é Obi-Wan Kenobi

As Forças Republicanas foram levadas a se voltar contra os Jedi

Evitem Coruscant, evitem a detecção

Mantenham-se firmes

Que a Força esteja com vocês


Fase Um

Ignição
“Imperador revela plano ambicioso de expansão da frota imperial”

“Conde Vidian investe energia estelar em nova turnê de inspeção


industrial”

“Sobra de artilharia explosiva das Guerras Clônicas segue sendo


uma preocupação”

– Manchetes, HoloNoticiário Imperial (Edição Gorse)


1
– Soem o alarme!

Segundos antes, o destróier estelar tinha emergido do hiperespaço; logo em


seguida, uma nave de carga surgiu emborcando direto rumo à sua ponte de
comando. Antes que os escudos defletores da Ultimatum pudessem ser
acionados ou que a tripulação lançasse mão dos canhões, a embarcação em rota
de colisão deu uma repentina guinada para o alto.

Rae Sloane assistia a tudo incrédula quando o cargueiro errante se arremessou


por cima da escotilha da ponte de comando para fora de seu campo de visão.
Mas ela ainda podia ouvi-lo: o catapum de uma raspadela não deixava dúvidas
quanto ao leve esbarrão contra o topo do casco da gigantesca nave. A nova
capitã voltou-se ao primeiro oficial:

– Algum dano?

– Nadinha, capitã. Novidade , ela pensou. Certeza que o outro sujeito tinha
levado a pior. – Esses caipiras ficam agindo como se nunca tivessem visto um
destróier estelar na vida!

– Pois eu tenho certeza que não – o comandante Chamas disse.

– Pois é melhor que se acostumem. Sloane observou o enxame de naves de


transporte que se alastrava diante da Ultimatum . A enorme nave da classe
imperial tinha saído do hiperespaço bem no limite da via de segurança,
periculosamente próxima do que devia ser o maior congestionamento da Orla
Interior naquele momento. Ela se dirigiu às dezenas de membros da tripulação
que seguiam em suas estações:
– Fiquem alertas. A Ultimatum é nova demais para que a levemos de volta
com o polimento arranhado. – Ao pensar melhor, apertou os olhos. – Envie uma
mensagem no canal da Associação de Mineração. O próximo retardado que
chegar a menos de um quilômetro de nós vai ganhar um corte de cabelo feito a
turbolaser.

– Aye, capitã.

Evidentemente, Sloane nunca havia passado por aquele sistema antes.


Também, tinha acabado de conquistar o título de capitã, pouquíssimo tempo
antes daquele cruzeiro-teste da Ultimatum . Alta, musculosa, pele negra, cabelos
pretos – Sloane desde sempre se destacara de maneira exemplar, e escalou a
hierarquia rapidamente. A bem da verdade, ela estava ali tão somente como
interina da Ultimatum , cujo capitão supostamente se encontrava em uma missão
a serviço do comitê de construção. Quantos, porém, poderiam dizer que
estiveram no comando de uma nave capital aos trinta anos? Ela não fazia ideia: a
Frota Imperial existia com aquele nome havia menos de uma década, desde que
o chanceler Palpatine depusera os Jedi traiçoeiros e transformara a República no
Império Galáctico. Sloane sabia bem que os próximos dias seriam decisivos para
que ela conquistasse uma nave toda para si ou não.

Aquele sistema, segundo lhe repassaram, era o berço de algo raro – um casal
astronômico genuinamente estranho. Gorse, visto pelo visor da ponte de
comando, fazia jus à reputação de talvez ser o planeta mais feio da galáxia.
Vinculado a sua estrela-mãe numa relação de total dependência, um dos
hemisférios da esfera de lama fumegante tostava eternamente sob um sol
escaldante. Apenas a face permanentemente escura era habitável, ninho de uma
enorme cidade industrial em meio a uma paisagem transformada pela mineração.
Sloane não conseguia se imaginar vivendo num mundo onde nunca pudesse
testemunhar o nascer do sol – se é que dava para chamar de viver aquela
suadeira toda ao longo de uma noite eterna e mormacenta de verão. Desviando
sua atenção à direita, vislumbrou a verdadeira joia: Cynda, a única lua de Gorse.
Quase grande o bastante para ser computada nos registros imperiais, fazendo
dupla com Gorse como um planeta, Cynda tinha um brilho prateado esplêndido,
tão encantador quanto seu par era sombrio.

Sloane, porém, não estava nada interessada na paisagem, muito menos na lida
diária de todos os fracassados de Gorse.
– Certifiquem-se de que os comboios estão respeitando nossa zona de
permissão – ela disse, virando-se de costas para a escotilha. – Depois, informem
ao conde Vidian que temos...

– Esqueça o antigo modelo – uma voz de baixo-barítono irrompeu.

As palavras asperamente entonadas deixaram todos na ponte de comando em


alvoroço, pois não era a primeira vez que as ouviam, ainda que isso fosse raro.
Era o bordão do mais ilustre passageiro da Ultimatum , citado em vários
programas empresariais durante os dias de República e ainda usado para
introduzir suas bem-sucedidas séries assistenciais de gestão, agora que fora
transferido à prestação de serviços governamentais. Por tudo quanto era canto, o
antigo modelo da República vinha sendo substituído. “Esqueça o antigo modelo”
era de fato o slogan daqueles tempos.

Sloane só não tinha certeza do porquê de agora estar escutando aquelas


mesmas palavras.

– Conde Vidian – ela se pronunciou, passando os olhos de porta em porta. –


Estávamos estabelecendo nosso perímetro de segurança, agorinha mesmo. É
procedimento padrão.

Denetrius Vidian despontou na entrada mais ao longe de Sloane.

– E eu lhe disse para esquecer o antigo modelo – ele repetiu, muito embora
não houvesse dúvidas quanto a todos terem-no escutado de primeira. – Ouvi sua
transmissão ordenando que o tráfego de mineração se desviasse de vocês. Seria
mais prático se vocês desviassem das rotas de trânsito deles .

Sloane endireitou a postura.

– A Frota Imperial não desvia do tráfego comercial .

– Poupe-me de seu orgulho besta! Se não fosse pelo torilídio que esse sistema
produz, você não teria mais do que uma nave auxiliar para capitanear. Você está
emperrando a produção. O antigo modelo é falho! Sloane fechou a cara,
detestando ser aviltada em sua própria ponte de comando. Precisava fazer com
que aquilo parecesse ser uma decisão sua. – É o torilídio do Império. Vamos
evitá-los. Chamas, recue um quilômetro das rotas dos comboios e fique
monitorando todo e qualquer tráfego.
– Aye, capitã.

– Aye está de bom tamanho – Vidian retrucou. Cada sílaba foi enfaticamente
pronunciada, mecanicamente modulada e amplificada de modo que todos
pudessem escutá-las. Havia um porém. Sloane não conseguia tirar da cabeça a
parte mais estranha de tudo aquilo, que havia notado assim que o conde
embarcara: a boca do sujeito nunca se mexia. As palavras de Vidian emanavam
de uma prótese vocal especial, um computador anexado a um alto-falante
embutido na gargantilha de prata em torno do seu pescoço.

Ela já tinha escutado a voz de Darth Vader, principal emissário do imperador;


embora eletronicamente amplificada, a voz do Senhor Sombrio ainda guardava
algum traço original do que quer que estivesse no interior daquela armadura. No
entanto, conde Vidian teria supostamente escolhido sua voz artificial com base
em pesquisas de opinião, almejando possuir o tom mais motivacional do setor
empresarial.

E desde que embarcara na espaçonave com seus assistentes, uma semana


antes, Vidian ainda não tinha demonstrado o menor escrúpulo ao pronunciar-se
em alto e bom tom sempre que considerava necessário: sobre a Ultimatum , a
tripulação de Sloane e ela.

Vidian avançou a passos mecanicamente largos pela ponte de comando. Não


havia outra maneira de descrever a cena. Ele era tão humano quanto ela, só que
grande parte de seu corpo já tinha sido substituída. Seus braços e pernas eram
blindados em vez de reconstituídos com próteses de synthxerto; isso era do
conhecimento de todos – não que ele fizesse algum esforço para esconder o fato.
Sua túnica real bordô e o kilt preto na altura do joelho eram os únicos sinais de
uma vestimenta adequada a um lorde cinquentenário da indústria.

Era o rosto de Vidian, porém, que chamava a atenção de maneira mais


desconfortante. Como perdera a pele da cabeça para a mesma moléstia que já
tinha tomado seus membros e cordas vocais, Vidian havia revestido suas feições
com uma camada de synthxerto. Além disso, havia seus olhos: estruturas
artificiais, com íris amarelas e reluzentes num mar vermelho. Olhos que
pareciam projetados a outra espécie que não a humana; Vidian os escolhera tão
somente pelo que podiam causar.

E isso ficava bem claro agora que ela o via caminhar, mirando de esguelha
cada comboio do lado de fora, cada nave, mentalmente analisando a situação
como um todo.

– Já conhecemos alguns dos habitantes locais – ela disse. – O senhor


provavelmente ouviu o esbarrão. O pessoal aqui é...

– Desorganizado. É por isso que estou aqui. – Ele se virou de costas e foi
caminhando pela fileira dos operadores de terminais até alcançar o posto tático
que retratava todas as naves na área. Passou esbarrando em Cauley, o jovem
alferes humano, e apertou a tecla de comando. Então, Vidian se afastou do
console e ficou parado, parecendo mirar o nada, espaço afora.

– Senhor? – Cauley o chamou, exasperado.

– Eu conectei a saída de sua tela aos meus implantes ópticos – Vidian disse. –
Pode voltar ao trabalho enquanto leio tudo.

O oficial tático assim o fez; decerto aliviado, Sloane pensou, por não ter mais
aquele ciborgue no encalço. Os métodos de Vidian eram sem dúvida estranhos,
mas surtiam efeito; não por outra razão, estava na espaçonave. Antes
industrialista, era agora o expert em eficiência empresarial preferido do
imperador.

As fábricas de Gorse produziam torilídio refinado, uma substância rara,


estratégica e necessária em quantidades absurdas devido a uma vasta gama de
projetos imperiais. Só que, por aqueles tempos, a matéria-prima vinha de Cynda,
sua lua: daí o engarrafamento de cargueiros zanzando pelo vácuo entre as duas
esferas. O imperador tinha despachado Vidian com a missão de aumentar a
produção, função à qual era singularmente qualificado.

Vidian era conhecido por espremer até o último erg de energia, o último
quilograma de matéria-prima, a última unidade da produção industrial de um
mundo após o outro. Não fazia parte do círculo mais fechado de conselheiros do
imperador; ainda não. Mas estava claro para Sloane que ele não demoraria a
integrar o rol, contanto que não passasse por uma recaída do que quer que tenha
comprometido sua saúde tempos antes. Os bilhões de Vidian se encarregaram de
uma vida extra, e ele parecia determinado a não permitir que ninguém, inclusive
ele, desperdiçasse um só segundo dela.

Desde que embarcara, os dois ainda não tinham conseguido estabelecer um


diálogo sem que ele a interrompesse ao menos umas dez vezes.

– Já alertamos a associação de mineração local sobre sua chegada, conde. A


produção total de torilídio...

– ...já está a caminho – Vidian a interrompeu, e seguiu marchando em direção


a outro terminal de dados na popa da ponte de comando.

O comandante Chamas se juntou a ela na dianteira da ponte, a alguns metros


de distância do conde. Já avançado na casa dos quarenta, Chamas tinha sido
preterido de posto por vários oficiais mais jovens. O sujeito simplesmente
adorava uma fofoca.

– Sabe – Chamas disse discretamente –, eu fiquei sabendo que ele comprou o


título. – E isso te espanta? Tudo nele é artificial – Sloane murmurou. – O médico
da nave acha até que algumas das partes dele foram voluntariamente...

– É perda de tempo ficar lucubrando – Vidian rebateu, sem desviar a atenção


do que examinava. Os olhos escuros de Sloane se arregalaram:

– Perdão, senhor...

– Dispense as formalidades. E as desculpas. Não há razão para nem um, nem


outro. Mas é bom que sua tripulação saiba que há sempre alguém à espreita, e é
bem provável que esse alguém tenha ouvidos melhores do que os seus.

Mesmo que esse alguém tenha que comprar os ouvidos numa loja , Sloane
pensou. Os lóbulos carcomidos que outrora foram as orelhas de Vidian
ostentavam aparelhos auditivos especiais. Eram obviamente capazes de captar as
palavras dela. E um tanto mais. A capitã se aproximou dele.

– Isso era exatamente o que eu esperava – Vidian prosseguiu, fitando o que


quer que fosse a coisa invisível diante de seus olhos. – Eu disse ao imperador
que valeria a pena me enviar para cá. – Um número considerável de mundos
subprodutivos que fabricavam itens críticos à segurança do Império tinham sido
removidos de suas respectivas jurisdições locais e postos sob a autoridade de
Vidian: Gorse era o último deles. – Este trabalho esculachado pode ter sido
satisfatório durante a República, mas o Império representa a ordem a partir do
caos. O que fazemos aqui, e em milhares de sistemas exatamente como este, nos
deixam mais próximos de nossa meta final.
Sloane refletiu por um instante:

– Perfeccionismo? – O que quer que o imperador deseje. Sloane assentiu. Um


chiado metálico irrompeu do alto-falante no pescoço de Vidian, um ruído
desconcertante que ela tinha aprendido a interpretar como a maneira do conde de
soltar um suspiro zangado.

– Há uma lesma retardando o comboio lunar – ele disse, mirando o nada.

Observando sua tela tática, Sloane notou se tratar da mesma nave de carga que
os atingira mais cedo. Ordenou que a Ultimatum girasse para que pudessem
obter uma visão direta.

Uma chuva de faíscas jorrava do fundo do casco do cargueiro. Outras


embarcações se mantinham à distância, temendo uma explosão.

– Enviem uma saudação ao cargueiro – ela disse.

Uma voz trêmula e não humana foi canalizada ao interior da ponte de


comando.

– Cynda Dreaming na escuta. Desculpa pelo arranhão mais cedo. A gente não
tava esperando... Sloane foi direto ao ponto:

– Qual é a carga útil de vocês?

– Por enquanto, nada. A gente tava indo pegar um carregamento de torilídio


na lua pra ser refinado na Calladan Chemworks lá em Gorse.

– Vocês são capazes de fazer o transporte nessas condições?

– A gente precisa parar numa oficina pra ver isso direito. Eu não sei avaliar o
tamanho do estrago só de olhar. Pode levar alguns meses...

Vidian se manifestou, taxativo:

– Capitã, mire nessa embarcação e abra fogo.

Ele ordenou quase como se fosse a coisa mais natural do mundo; não que a
entonação de Vidian viesse alguma vez carregada de uma comoção assim,
genuína. A diretiva, todavia, conseguiu deixar Chamas perplexo. Parado em
frente ao pelotão de artilharia, ele se voltou à capitã em busca de uma
orientação.

O piloto do cargueiro, tendo escutado a nova voz, não poderia soar mais
surpreso:

– Foi mal... eu acho que não entendi muito bem. Vocês acabaram de...

Sloane encarou Vidian por alguns instantes e, então, lançou um olhar a seu
primeiro oficial:

– Fogo.

O capitão do cargueiro ficou chocado:

– Quê? Vocês não podem estar...

Dessa vez, os turbolasers da Ultimatum se encarregaram da interrupção. Uma


onda de energia alaranjada saiu rasgando o espaço, reduzindo a Cynda Dreaming
a um emaranhado de fogo e explosões.

Sloane ficou observando as outras naves do comboio redirecionarem as rotas


sem demora. Seus artilheiros tinham feito o trabalho deles, alvejando a nave de
maneira a minimizar os danos às naves mais próximas.

– Você compreende, não é mesmo?

– Vidian disse, voltando-se a ela.

– O tempo de conserto de um cargueiro, fora os custos com a tripulação nesse


setor, seria de...

– ...três semanas – Sloane o interrompeu. – Menos do que dois meses. – Viu


só, eu também li os seus relatórios .

Era o único jeito de lidar com aquela designação, ela concluiu. E daí se Vidian
era estranho? Descobrir o que o imperador (e aqueles que falavam em nome
dele) queria e a melhor maneira de satisfazê-lo: eis o caminho ao sucesso.
Discutir suas ordens era pura perda de tempo e só pegaria mal para ela. Outro
segredo para progredir naquela carreira: ficar sempre ao lado daquilo que vai
acontecer de um jeito ou de outro.

Sloane cruzou os braços por trás das costas.

– Vamos providenciar que os comboios façam jornada dupla, e alertar


qualquer espaçonave que se recuse a isso.

– Não se trata tão somente do trânsito – Vidian rebateu. – Enfrentamos


problemas também em terra, tanto no planeta quanto na lua. E há sempre a
possibilidade de um imprevisto.

Sloane voltou a cruzar os braços por trás das costas:

– A Ultimatum está ao seu serviço, senhor. Esse sistema irá executar o que
quer que nos seja requerido pelo senhor... pelo imperador. – Que assim seja –
Vidian disse, com sangue nos olhos.

– Que assim seja. Hera Syndulla observava de longe os restos dispersos do


cargueiro incendiando em silêncio no espaço. Não havia reboque algum à vista.
Dada a improbabilidade de sobreviventes, ninguém se preocupou com isso. Tudo
o que havia eram os comboios, que não demoraram a redefinir a rota em torno
dos escombros.

Na toada do chicote.

Era essa a misericórdia nos tempos do Império, ela pensou. E os imperiais


nem sabiam mais o que era misericórdia; aparentemente, o desinteresse deles
vinha contaminando também a população.

A Twi’lek de pele esverdeada observava tudo de sua espaçonave clandestina e


não conseguia acreditar no que via. Lá no fundo, as pessoas eram decentes e, um
belo dia, ainda se levantariam contra seu governo déspota. Mas não agora, e
certamente não ali. Cedo demais, e Gorse mal tinha acordado politicamente.
Aquela não era uma expedição de recrutamento. Não... por aqueles tempos, os
esforços estavam concentrados em observar o que o Império era capaz de fazer,
um projeto sob medida a Hera, desde sempre curiosa. E conde Vidian, o santo
milagreiro do imperador, praticamente implorara para ser investigado.
Nas semanas anteriores, o quebra-galho do imperador fizera um estrago no
setor, despertando muita atenção para si ao “aprimorar a produtividade”. Em três
mundos pregressos, alguns conhecidos de Hera que pensavam como ela tinham
relatado na HoloNet a escalada astronômica dos índices de miséria sob as vistas
eletrônicas de Vidian. Logo depois, simplesmente desapareceram, o que acabou
provocando o interesse de Hera. A visita do conde ao sistema de Gorse já era
meio caminho andado.

Possuía outro contato em Gorse, que lhe prometera várias informações sobre o
regime. Ela queria aquelas informações, claro, mas primeiro queria ver Vidian de
perto, e o comércio de mineração do sistema, notoriamente anárquico,
proporcionou-lhe uma grande variedade de oportunidades de se aproximar dele.
O desarranjo industrial, isca perfeita para o conde, oferecia um excelente
disfarce para que ela pudesse estudar os métodos dele.

O imperador Palpatine dispunha de um número demasiado de subordinados


com grandes poderes e influência. Seria mais produtivo descobrir se conde
Vidian tinha de fato um toque todo especial antes que ele ascendesse a qualquer
outro posto.

Era hora de seguir viagem. Ela captou o sinal de identificação de umas das
naves do comboio pelo transponder. Um simples aperto de botão e sua
espaçonave era aquela embarcação, até onde qualquer um que estivesse
observando o tráfego pudesse ver. Com o maior desembaraço do mundo, foi
cortando caminho por entre o fluxo caótico de cargueiros em direção à lua.

Esses caras não valem nem as latas-velhas que pilotam , ela pensou. Ainda
bem que não se tratava de uma expedição de recrutamento. Provavelmente não
teria encontrado ninguém digno de seu valioso tempo.
2
— Vê se olha por onde anda, seu idiota!

Vendo o volumoso cargueiro carregado de torilídio vindo direto em sua


direção, Kanan Jarrus deixou a conversa de lado e jogou seu cargueiro para fora
do caminho. Nem perdeu tempo se preocupando se a nave maior viraria na
mesma direção – aproveitou a chance enquanto a escolha ainda era sua. Foi
agraciado com a sobrevivência e, de sobra, unta vista alarmante do casco inferior
da nave cada vez mais próxima.

— Foi mal – uma voz estalou pelo sistema de comunicação.

— Foi péssimo – Kanan disse, cerrando seus olhos azuis, penetrantes, sob
sobrancelhas escuras. Se eu cruzar com esse cara num beco hoje à noite, é
melhor ele ficar esperto.

Estava uma loucura só. A órbita elíptica e alongada de Cynda mudava


diariamente a distância entre a lua e Gorse. Dias como aquele, de maior
proximidade, transformavam a região entre os mundos numa corrida de
demolição congestionada. O surgimento do destroier estelar e a consequente
destruição da nave de carga, no entanto, tinham provocado uma debandada no
espaço. Um vali com dois grupos aterrorizados e emaranhados em direções
opostas avançando uns sobre os outros nas mesmas vias de trânsito.

Normalmente, seria Kanan quem testaria os limites para ver até onde a
situação chegaria. Era o que o levava a continuar torrando todo seu dinheiro com
bebida, principal razão de ter um emprego. Mas também se orgulhava

de conseguir manter a cabeça fria enquanto todo mundo entrava em pânico, o


que definitivamente era o caso. Kanan já tinha visto um destroier estelar antes, e
sabia com toda certeza que ninguém mais por ali podia dizer o mesmo.

Outro cargueiro avançava pela lateral. Esse ele não conseguiu identificar. Com
formato de joio, possuía uma cabine em forma de bolha na frente e outra mais
acima, vazia, reservada ao artilheiro. Até que era uma boa embarcação, se
comparada a qualquer outra coisa pelo espaço. Kanan beliscou o acelerador,
tentando emparelhar as naves para ter uma visão do piloto. O cargueiro revidou,
fechando a passagem a uma velocidade surpreendente e o obrigando a
desacelerar. Kanan ficou pasmo quando o piloto da outra nave se valeu da pós-
combustão e assumiu a dianteira com folga.

Foi a primeira vez em que encostou nos freios durante toda a viagem, e foi
imediatamente notado. Seu sistema de comunicação chiou, logo seguido de uma
voz feminina, que não soava nada satisfeita:

— Você aí! Qual é a sua identificação?

— Quem quer saber?

— Aqui é a capitá Sloane, do destroier estelar Ultimaram!

— Eu tô impressionado – Kanan disse, acariciando os pelos negros da sua


barbicha pontiaguda. – O que você tá vestindo?

– Hein?

— Só só tentando te visualizar. É difícil conhecer gente nova por aqui.

— Repito, qual é a sua...

– Aqui é a Expedient, voando a serviço da Moonglow Polychemical. —Ele


quase nunca se dava ao trabalho de ativar seu transponder de identificação;
ninguém nunca tinha controlado o tráfego espacial por aquelas bandas, mesmo.

— Acelere, se não...!

Kanan se recostou no assento de modo desleixado e revirou os olhos.

— Pode atirar em mim se você quiser – ele disse, quase arrastando as


palavras. – Mas, antes, é bom você ficar sabendo que eu tô transportando uma
carga explosiva de bissulfato de barádio lá pras minas de Cynda. Uma parada
bem instável. Mas, assim, você pode até ficar a salvo da explosão aí dentro dessa
sua nave grandona, eu só não posso garantir nada quanto ao resto do comboio. E
parte desse pessoal tá transportando a mesma coisa que eu. Então, eu acho que
isso não seria muito inteligente. – Soltou uma risadinha discreta. – Mas que daria
um espetáculo e tanto, isso daria.

Silêncio.

Então, após um breve momento:

— Siga adiante.

– Tem certeza? Quer dizer, você poderia muito bem registrar tudo e vender...

– Não force a barra, seu roceiro – ela retrucou friamente. – E vê se vai mais
rápido.

Ele esticou uma das luvas sem dedos e sorriu:

— Foi bom conversar com você também.

— Câmbio, desligo!

Kanan desligou o receptor. Sabia que não havia a mais remota chance de ser
alvejado por alguém com neurônios que compreendesse o que ele transportava.
Para a própria proteção, os mineiros só usavam o "bebê" —apelido sardónico do
bissulfato de barádio – em pequenas quantidades nas minas de Cynda. Qualquer
imperial pensaria duas vezes antes de alvejar um carrinho de bebé assim tão de
perto, e a capitá do destróier estelar, em particular, estaria menos propensa a
contatá-lo mata vez sobre o que quer que fosse depois daquela conversa.

O que também estava de acordo com o plano. Era melhor evitar aquele
encontro, independente de qual aparência ela teria.

Fez pouco da situação, imitando Sloane com a boca. "Vá mais rápido!" O
cargueiro já estava voando quase na velocidade máxima. Se estivesse totalmente
carregada, a Expedient nunca daria conta de render tudo aquilo. O nome
sarcástico fora ideia sua: celeridade não era o forte da nave. O cargueiro era da
Moonglow, uma das dezenas de embarcações que a empresa administrava; o fim
dessas naves costumava ser bem desastroso, então a firma nem se dava ao
trabalho de batizá-las. Os "pilotos suicidas" tampouco duravam muito tempo no
jogo, a menos que sobrevivessem, de modo que Kanan não fazia a menor ideia
de quantas pessoas haviam pilotado sua nave antes de si. Dar um nome ao
carrinho de bebê fora só uma tentativa de lhe conferir uma sensação mínima de
conforto.

Não seria nada mau, ele pensou, se numa dessas visitas a esses planetas ele
pudesse pilotar alguma coisa com um pouco mais de classe, como aquela nave
que tinha acabado de passar por ele. Mas aí, quem quer que fosse o dono
provavelmente não deixaria que ele tomasse certas liberdades como fazia na
Expedient. Como agora: ao avistar dois cargueiros de mineração avançando
direto em sua direção, inclinou sua nave, passando em espiral por entre elas.
Ambas reduziram a velocidade, ele seguiu em frente. É bom que fiquem espertos
comigo.

Seu carregamento, cuidadosamente em segurança, não reagiu ao movimento


repentino, mas a manobra provocou um leve baque na parte de trás da área de
carga. Virou a cabeça, roçando no banco a ponta de seu cabelo preso em rabo de
cavalo. Pelo canto do olho, Kanan vislumbrou um senhor idoso no convés, meio
que nadando contra o chão na tentativa de se orientar.

— Dia, Okadiah.

O homem tossiu. Como Kanan, Okadiah também tinha barba, só que sem
bigode e com os cabelos totalmente brancos. Estava dormindo nos fundos, junto
com os contêineres de bissulfato de barádio, dentro do único que estava vazio.
Okadiah preferia muito mais aquilo à poltrona antigravitacional na cabine
principal – era mais tranquilo lá. Imaginando qual direção seria a frente, o velho
passou a engatinhar pelo chão. Lançou-se ao alto só quando alcançou o assento
do copiloto.

— Decidi não te pagar o bilhete cobrado, e nem receberás gorjeta.

— A melhor gorjeta que eu já recebi foi outra profissão – Kanan retrucou.

— Humpf.

A bem da verdade, Okadiah Garson se aventurava por várias linhas de atuação


e por isso era o amigo perfeito para se ter, aos olhos de Kanan. Okadiah era o
capataz de uma das equipes de mineração em Cynda, um veterano com trinta
anos de lida nas costas, por dentro de todas as artimanhas. Fora isso, lá em
Gorse, ele ainda administrava O Cinturão de Asteroides, uma cantina
frequentada por muitos de seus próprios garimpeiros. Kanan tinha conhecido
Okadiah meses antes, quando batera boca com um sujeito no bar; foi através de
Okadiah que Kanan conseguiu o emprego como piloto do cargueiro na
Moonglow. Nessa época, Kanan já morava no albergue vizinho à cantina. Morar
em um local com um estoque de bebidas até não era um mau negócio.

Okadiah alegava que apenas partilhava de seu próprio pão quando alguém se
machucava nas minas. Era uma convicção que vinha bem a calhar, considerando
que isso acontecia quase todos os dias. A escavação do dia anterior tinha sido tão
cruel que acabou garantindo a festa noite adentro, o que fez Okadiah perder a
hora de sua ponte aérea particular. Os carrinhos de bebê não costumavam levar
muitos passageiros, já que eles dispunham de outros meios mais práticos de
transporte até o trabalho, e Kanan não era de dar carona. Para Okadiah, porém,
ele abria uma exceção.

— Sonhei que escutava a voz de uma mulher – o velho disse, esfregando os


olhos. – Severa, pomposa, impositiva.

— Capita de uma espaçonave.

— Gostei – Okadiah disse. – Não é para teu bico, claro, mas eu sou um
homem de recursos. Quando terei o prazer de conhecer esse anjinho?

Kanan apenas indicou com o dedo a direção da escotilha à esquerda dos dois.
Lá, o velho contemplou a Ultimaram pairando sobre a correria frenética do
tráfego espacial. Okadiah arregalou seus olhos injetados de sangue e, logo
depois, ele os apertou na tentativa de distinguir exatamente o que estava
olhando.

— Hmm – ele finalmente disse. – Aquilo não estava ali ontem. – É um


destroier estelar.

— Ah, não! Nós seremos destruídos?

— Olha, eu nem perguntei – Kanan respondeu, arreganhando ar dentes. Não


sabia como um velho mineiro num fim de mundo como Gorse acabou
adquirindo um modo de falar tão gentil, mas isso sempre o divertia. – Um cara aí
a pegou de mau humor. Você conhece alguém da Cynda Drearning?

Okadiah coçou a barbicha:

— Parte da tripulação de Calladan. Um companheiro alto, cabeça de bagre,


magricela, adora pendurar uma conta n'0 Cinturão de Asteroides.

— Bem, pode esquecer de cobrar o cara.

— Oh... – Okadiah murmurou, voltando-se novamente à escotilha. Ainda


havia alguns escombros do infeliz cargueiro vagando por aí. – Kanan, meu
rapaz, de fato levas jeito para dissuadir uma peuoa.

— Que bom. A gente tá quase lá.

A Expedient girou e inclinou para baixo em direção à superfície


esbranquiçada e sem atmosfera de Cynda. Uma cratera artificial tinha sido
escavada para servir como zona de pouso; meia dúzia de docas de pouso com
sinalizadores vermelhos foram escavados ao redor, conectando-se às áreas de
mineração mais abaixo. Levando a Expedient a pairar sobre a cratera, Kanan
embicou a nave na direção da entrada a ele designada.

Okadiah virou a cabeça para frente e semicerrou os olhos:

— Agora sim, lá está minha condução!

– Te disse que a gente alcançaria.

Até alcançaram de fato, mas não de todo por conta do esforço de Kanan. A
insensatez da diretiva imperial teve lá seu papel. O transporte particular no qual
Okadiah deveria estar tentou entrar na doca depressa demais e acabou chocando
a lateral contra a passagem. Agora bloqueava a entrada, desativado e pendurado
pela metade na beirada. Não havia perigo de ela despencar, ao menos; mas o
campo magnético que vedaria a caverna contra o vácuo tampouco podia ser
ativado. Dava para ver operários com trajes espaciais na doca, encarando aquela
lata velha sem saber o que fazer.

— Tirem essa coisa daí – Kanan disse pelo comunicador.

— Fique onde está, Moonglow-72 – a torre de controle disparou a resposta do


centro da cratera. – Nós lhe daremos acesso assim que os operários
descarregarem e acomodarem tudo.

— Eu tenho hora agendada – Kanan disse, desativando o modo pairar da


Experiente seguindo em direção à entrada.

Várias abjeções irromperam em alto e bom som do comunicador, chamando a


atenção de Okadiah. O velho encarou Kanan:

— Estás ciente de que transportamos uma carga altamente explosiva?

— Não tô nem aí – Kanan rebateu. – Você tá?

– De modo algum. Não foi minha intenção te perturbar, perdão. Prossiga.

Assim Kanan o fez, demonstrando toda sua perspicácia ao levar o nariz


atarracado da Expedient rumo à lateral exposta da condução particular. Pôde ver,
através das escotilhas, os garimpeiros no interior do veículo, gritando em vão
enquanto sua nave estabelecia contato, gerando um forte baque.

Com os motores da Expedient rangendo, Kanan afundou o pé no acelerador,


empurrando a condução particular para dentro. O ruído do atrito reverberou por
ambas as embarcações e, irritado, Okadiah olhou de relance para o setor de
carga. Em questão de segundos, porém, as duas naves já se encontravam no
interior da zona de pouso. O campo magnético vedou o compartimento e Kanan
desligou os motores.

Okadiah assobiou. Ficou observando Kanan com certa admiração nos olhos
por um instante e, então, acomodou as mãos no painel a sua frente.

— Bem, então é isso. – Ele fez uma pausa, parecendo estar confuso. —
Bebemos após o expediente, correto?

— Corretíssimo.

– Deveria ser o contrário – o velho disse, bambeando um pouco ao se levantar.


– Mãos à obra, então.
3
Um garimpeiro devaroniano com chifres na cabeça saiu em disparada da
condução particular desligada pelo pátio da caverna pressurizada.

– Seu pivete!– Ele gritou assim que Kanan saiu da Expedient.– O que é que
você tava querendo provar lá atrás, hein?

Kanan ainda estava na casa dos vinte e poucos anos, porém nunca tinha sido
chamado de pivete na vida. Muito menos vindo de um cabeça-oca feito Yelkin,
cuja função era perfurar buracos para os explosivos. Kanan se virou de costas e
saiu andando ao lado de sua nave, abrindo as comportas de carga pelo caminho.

O musculoso garimpeiro foi logo atrás a passos largos e o agarrou pelo ombro:

– Eu tô falando com você!

Com reflexos ágeis, Kanan agarrou a mão de Yelkin e girou o punho, torcendo
o braço de seu oponente. Yelkin se contorceu de dor e caiu de joelhos. Kanan
não soltou. Pronunciou cada palavra num tom de voz tranquilo e bem devagar,
com a boca encostada no ouvido pontiagudo do devaroniano:

– Sua nave cava no caminho, meu chapa. Eu tenho um prazo pra cumprir.

Todo mundo aqui tem – Yelkin retrucou, resistindo.– Você viu como eles
dispararam contra aquele cargueiro.

– Vai mais rápido, então. Só não fica bestando– Kanan largou Yelkin, que foi
ao chão, arfando. Kanan espanou com os dedos sua túnica verde de mangas
compridas e deu as costas, voltando-se à Expedient.
Vários garimpeiros foram se amontoando em volta de Yelkin.

– Maldito piloto suicida!– um deles gritou.– Esse povo não regula bem!

– Alguém tem que te ensinar boas maneiras– outro disse a Kanan.

– É, tô sabendo.– Sem demonstrar o menor sinal de preocupação, Kanan


passou os olhos pela doca de pomo. Os droides carregadores que normalmente
ajudavam ainda não tinham aparecido, algo que evidentemente não fazia o
menor sentido, tratando-se de uma situação de pouso improvisado num piso de
carga. Pelo que tudo indicava, seria mais um daqueles dias em que ele tinha de
fazer tudo sozinho.

Kanan descarregou um hovercart e o estacionou em frente à nave. Então, deu


início ao custoso processo de empilhar caixotes de metal. A gravidade mais fraca
de Cynda tornara os caixotes um pouco mais leves do que em Gorse, mas não
menos volumosos ou perigosos de se carregar. Suspendeu o primeiro caixote e
seguiu rumo aos garimpeiros que se roíam de raiva.

– Você cá empatando o caminho– ele disse.– Por enquanto. Okadiah surgiu no


outro extremo da nave espacial:

– Cavalheiros, presumo que a máxima ainda esteja valendo: nunca exacerbe


os ânimos de um homem com um carregamento altamente explosivo.

Os mineiros abriram passagem, fuzilando Kanan com os olhos. Esfregando o


braço, Yelkin vociferou a Okadiah:

– Você me aparece com cada figura, hein, meu patrão.

– Como fiz com todos vocês, uma vez ou outra– o velho retrucou. Apontou
em direção ao sul, rumo a uma série de empilhadeiras.– Se o

Império estiver mesmo realizando uma inspeção hoje, Chefe Lal também se
fará presente. Ao menos, finjam que estão trabalhando.– Ele deu um sorriso,
escancarando os dentes.– E, se me permitem acrescentar, em memória e honra
daquele pobre coitado que explodiu em mil pedaços, o happy hour irá perdurar
por toda a noite hoje lá n'0 Cinturão de Asteroides. Vamos até mesmo buscá-los
e deixá-los de volta em casa.
Com os ânimos momentaneamente abrandados, os garimpeiros deram meia-
volta e seguiram em direção às empilhadeiras. Okadiah ficou observando
enquanto Kanan acomodava um caixote no hovercart.

– Ainda barganhando amigos e influência?

– Náo sei por que eu faria uma coisa dessas– Kanan respondeu.

– Ah, sim. Não permanecerás aqui. Conforme me disseste: nunca permaneces


em canto algum.

– Minhas roupas cabem numa mochila– Kanan disse, virando-se para agarrar
outro caixote.– Viaje sem carregar peso e a morte nunca te encontrará.

– Fui eu quem disse isso, não?– Okadiah assentiu com a cabeça.– Vais
trabalhar no bar hoje à noite?

– Se você tiver dinheiro pra me pagar.

Okadiah deu uma piscadela e saiu vagarosamente, logo atrás de seus colegas
de trabalho. Kanan segurava a barra no bar de vez em quando, mas havia noites
em que ele era seu melhor cliente. Também já tinha tentado a sorte como leão de
chácara, muito embora, novamente, tenha começado muito mais brigas do que
apartado. Ainda assim, aquele sistema vinha sendo a coisa mais próxima a um
lar do que qualquer outro que ele tenha conhecido em seus anos de peregrinação.
Seria um lugar difícil de deixar.

Mas ele o deixaria. A rotina do trabalho diário estava acabando com ele.
Desistindo de esperar pela ajuda dos droides, Kanan terminou de carregar o
primeiro hovercart e o empurrou até o elevador de carga.

Assim que as portas se fecharam, um pensamento lhe ocorreu. Talvez fosse


sentir falta da casa de Okadiah, sim, e certamente sentiria falta de Cynda. Em
todas suas jornadas, nunca tinha encontrado um lugar como aquele. Olhando da
doca de pouso, ninguém diria, mas ele sabia bem que o espetáculo começaria
assim que as portas do elevador se abrissem.

Abriram, cem metros abaixo, e Kanan foi bombardeado por um display


coruscante de luzes e cores. Encontrava-se numa das inúmeras grandes cavernas
do subsolo. Estalagmites cristalinas e estalactites penduradas por todos os
cantos. Cada uma delas atuando como um prisma, refratando as luzes da equipe
de operários; movimentar-se ali era uma constante mudança caleidoscópica.
Ainda melhor, os cristais liberavam calor, tornando as várias e oxigenadas
cavernas subterrâneas de Cynda tão iluminadas e acolhedoras quanto seu
planeta-mãe Gorse era sombrio e úmido.

Nos tempos antes do Império, o lugar fora uma reserva natural. Cynda já tinha
sido literalmente o ponto de iluminação na vida dos moradores de Gorse; o
turismo costumava ser o chamariz número um da lua e de Gorse. E apesar de os
cientistas da República terem descoberto desde sempre que o interior daquela
mesma Cynda continha grandes quantidades de torilídio, ninguém queria saber
de escavação enquanto o hemisfério noturno de Gorse ainda fosse viável, por
menor que fosse a quantidade restante da substância. Até onde Kanan sabia
dizer, ninguém sequer tinha se dado ao trabalho de procurar torilídio no
hemisfério diurno de Gorse, onde fazia calor o suficiente para derreter qualquer
droide manufaturado.

Mas então, praticamente no mesmo dia em que o chanceler Palpatine


proclamou o primeiro Império Galáctico, um relatório revelou que as minas de
Gorse se encontravam saturadas. As refinarias interromperam a produção. Coisa
que o Império não admitiria nunca, e nem precisava. Cynda estava logo ali,
disponível para ser explorada de imediato.

Enquanto empurrava o hovercart da antecâmara ainda intacta até a área

de trabalho principal, Kanan podia ver muito bem no que isso acabara
resultando. Calhaus de cristais se espalhavam pelo chão, e suas botas rangiam a
cada passo dado. Só as grandes lâmpadas industriais conseguiam iluminar a
cavidade; não dava para ver o teto por conta da nuvem de fumaça pairando no ar.
Um fedor nauseante de queimado empesteava o ambiente.

O Império tinha corrompido o lugar, mas não havia quase nada a ser feito para
resistir. Por mais útil que o torilídio fosse em sua forma processada, ele possuía
uma estrutura molecular bem frágil em seu estado natural. Os esforços para
separar a substância dos cometas– por si só um processo já insanamente
complicado– muitas vezes resultavam no colapso do composto em seus
elementos componentes. Cynda, porém, era o veio matricial em mais de um
sentido, uma vez que as robustas colunas de cristal conseguiam preservar o
torilídio em seu interior, mesmo quando explodiam da base. Dada a forma como
as estruturas prismáticas reagiam aos fachos de laser, sair explodindo tudo era o
único jeito.

A demanda por explosivos tinha garantido um emprego a Kanan, mas também


uma causa contra a qual os gorseanos pudessem se voltar. Uns eram mais francos
do que outros. E alguns poucos, descaradamente sem papas na língua, gritavam
aos quatro ventos para que todos ouvissem.

Tipo aquele cara ali, Kanan pensou, reconhecendo a voz que vinha do outro
extremo da zona de trabalho. Ah, não, mermáo. Skelly.

– Você não tá me dando ouvidos!– o ruivo declarou, fazendo subir uma nuvem
cinza de poeira do seu colete de proteção ao agitar os braços.– Você náo tá me
dando ouvidos!

A caverna proporcionava uma câmara de ressonância perfeita e, assim,


ninguém podia deixar de ouvir Skelly. Kanan meio que ficou na expectativa de
que se ainda houvesse alguma estalactite intacta, a voz de Skelly acabaria por
derrubá-la.

Kanan, porém, logo reparou que o alvo do assédio de Skelly não estava
prestando muita atenção, e não que ele pudesse culpá-la. Membro de Besalisk–
uma das subcomunidades de Gorse —, com quatro braços e pele esverdeada, Lal
Grallik era a empreendedora-chefe da Moonglow Polychemical. A administração
da empresa obrigava "Chefe Lal" a ficar viajando do planeta à lua e de volta.
Para ela, Skelly náo passava de mais um contratempo.

– Eu estou te ouvindo, Skelly– ela disse.– Eu acho até que daria pra te escutar
lá de Gorse.

Certeza de que ela queria estar lá agora, Kanan pensou. Baixinho e


entroncado, Skelly possuía um só modo de operaçáo: intenso. Kanan tinha vaga
consciência do currículo de guerra do sujeito quarentão como escavador de
túneis; as cicatrizes e marcas de varíola no rosto dele eram um verdadeiro
passeio pela recente história militar. Mas apesar de Kanan sentir muito por
qualquer um que tivesse passado por tudo aquilo, não tinha a menor paciência
com a forma como Skelly sempre falava, como se estivesse tentando se
comunicar durante um bombardeio. Os gritos do sujeito facilmente se
sobressairiam a uma turbina a jato.
– Eu tô tentando salvar as vidas das pessoas aqui– Skelly disse, assumindo um
semblante da mais pura seriedade.– Salvar sua empresa também– completou ao
se dar conta de que Lal não desgrudava os olhos do manifesto eletrônico que
levava na mão de quatro dedos. Skelly se virou de costas e deu de ombros.–
Ninguém me escuta.

Kanan sabia que Skelly trabalhava como especialista em demolições para a


Dalborg, uma das outras companhias de mineração. Contaram-lhe que Skelly
tinha sido demitido de toda e qualquer grande empresa nos últimos cinco anos. A
única pela qual Skelly ainda não tinha passado era a empregadora de Kanan. Não
que se tratasse de uma empresa pequena; Okadiah tinha dito: apenas sortuda.
Kanan não podia concordar mais.

Skelly sabia bem o que fazer com uma carga de demolição, mas uma enorme
variedade de neuroses vinha junto no pacote. Fora sempre estar com a aparência
de quem tinha dormido no chão. Mesmo quando Kanan tinha de recorrer a isso,
sempre dava um jeito de se mostrar apresentável.

Skelly se virou para encarar a superintendente da Moonglow:

– Olha só, Lal, tudo o que você precisa fazer é suspender as explosões depois
da Zona 42. Você e as outras empresas, pelo menos por enquanto. Só o tempo de
eu testar minha...

Lal o encarou de volta com total descrédito:

– Eu pensei que você tinha dito que já tivesse desistido!

Skelly apertou seus olhos miúdos:

– Era tudo que você queria, né? Esqueci disso. Tudo farinha do mesmo saco,
essa turminha de vocês aí dessas associações. Só querem saber de se dar bem...

Kanan tentou se desligar daquilo tudo e saiu empurrando seu palete:

– Tô passando.

Lal, visivelmente satisfeita por ter alguém além de Skelly para conversar,
baixou os olhos rumo à carga transportada por Kanan e checou os itens no
manifesto.
– Que bom que você conseguiu, Kanan. Fiquei sabendo de uns probleminhas
pelo caminho.

– Nada a ver com a minas– Kanan retrucou, estacionando o hovercart.

– Cá estão suas bombas.

– Esse lote vai pra Zona 42– Lal disse, acenando para alguns operários. Fez
um sinal de cabeça a Skelly, que se remoeu por dentro ao fitar o hovercart.– O
lugar preferido de alguém– ela murmurou.

Skelly se apoiou contra a alça do hovercart:

– Eu já te disse, a gente náo pode continuar com as explosões pras bandas de


lá. Náo com esses...

– Leva tudo pra casa, entáo– Kanan rebateu, contornando Skelly.– Te explode
à vontade lá.– Passou a descarregar os caixotes de explosivos, um por um, para
que os operários os transportassem.

– Pera aí– Skelly disse, finalmente notando o piloto do cargueiro. Colocou-se


ao lado de Kanan e se voltou a Lal.– Vocês dariam ouvidos ao Kanan, né? Ele é
um dos seus melhores carregadores de explosivos, e um dos meus melhores
amigos.

– Acertou na primeira colocação, errou na seguinte– Kanan retrucou, sem


parar de trabalhar.

– O Kanan viaja com essas coisas– Skelly prosseguiu.– Ele sabe bem do que
isso é capaz. Ele pode confirmar pra vocês: usar microexplosóes pra partir
cristais é uma coisa, mas náo se deve nunca usar uma coisa dessas pra explodir
uma parede! Ele sabe muito...

– Eu vou te falar o que eu sei– Kanan o interrompeu, virando-se e

cutucando o peito de Skelly, o que fez com que ele desse um passo para trás.

– Eu tenho um prazo a cumprir. E tenho mais coisa pra descarregar. Até logo.–
Ele se voltou ao hovercart já vazio e o virou ao contrário. Lal se afastou para
atender uma chamada:
– Canal imperial– ela disse, dispensando Skelly com um aceno de mão.

– Isso aqui é importante.

– Isso aqui é importante também– Skelly resmungou para si mesmo. Vendo


Kanan já longe a empurrar o hovercart, passou a segui-lo a passos largos.
Alcançando-o, tentou acompanhar o ritmo do piloto– Kanan, amigão, por que foi
que você não me apoiou lá atrás?

– Some daqui, dá pra ser?

– Sumir é o que vai acontecer com todo mundo aqui se isso continuar —
Skelly disse, esbaforindo-se.– Eu sei bem o que a família dos barádio pode fazer.
Melhor do que ninguém. Fui eu que fiz as estimativas de produção. Faz tempo
que eu venho analisando a sismologia dessa lua...

– Você até que deve ser divertido num dia de folga– Kanan rebateu,
empurrando o hovercart para dentro do elevador.

– ...fui descendo até onde ninguém parece ter dado muita importância: o
núcleo!– Skelly continuou falando ao forçar caminho veículo adentro junto com
Kanan.– Aqui em cima é bem firme, mas lá pro fundo? Essa lua pode rachar ao
meio feito um biscoito proteico.

– Ah.

– Ah já é alguma coisa. Eu sabia! Você concorda comigo!

– Náo, falar de comida me fez lembrar– Kanan disse, puxando uma bolsinha
da sua jaqueta —, eu náo tomei café da manhã.

– Eu tô falando sério– Skelly insistiu, apalpando o próprio traje. Calçava uma


única luva na mão direita, que Kanan nunca o vira mando a não ser como pinça:
havia então algo preso a ela, não muito maior do que uma moeda.– Tá tudo
nesse holodisco. Toda a minha pesquisa tá aqui. Sabe aqueles tremores de terra
que sempre rolam em Gome quando a lua passa muito perto? Só náo acontece
coisa pior aqui em Cynda porque as formações cristalinas mantêm a tensão sob
controle. Mas a gente continua explodindo a coisa toda! Se eu conseguir fazer
com que apenas uma pessoa leia isso...
– E por que tem de ser logo eu? Eu não sou ninguém.

– Todo mundo passa lá no Okadiah!– Skelly retrucou.– Você tá lá o tempo


todo. Você pode conversar com o pessoal.

– E por que você não?– Kanan sabia o porquê.– Ah, tá. Ele te baniu de lá por
bater boca com todo mundo.

– Só dá uma checada nisso aqui.– Skelly sacudiu o disco na altura do rosto de


Kanan.

– Tira isso da minha cara, Skelly. Tô falando sério.– Kanan jogou sua
lancheira na plataforma do palete. Contrariar funcionários de outras empresas
sempre acabava causando problema; Okadiah já o tinha prevenido

sobre isso. Skelly, porém, náo tinha amigo algum, e por uma boa razão. Kanan
estava chegando a seu limite.

Skelly retorceu o nariz, soltando um resmungo qualquer de puro desdém.

– Tá certo, beleza. Esqueci. Vocês são pagos pelo carregamento, né? E agora
vão tudo sair correndo feito uns eskrats, só porque o Império veio fazer uma
visitinha.– Ele pulou na frente de Kanan, mais alto, encarando-o nos olhos–
Bem, é melhor o Império tomar cuidado ou vai acabar com um desastre em
mãos!

– Último aviso!

Skelly ainda chegou a abrir a boca outra vez, mas antes que pronunciasse a
primeira sílaba, Kanan lhe deu um murro em cheio bem no meio dos dentes.
Cinco segundos de violência gratuita depois, as portas do elevador se abriram na
doca de pouso, de onde os droides carregadores assistiram a Kanan empurrando
o palete com o corpo contorcido de Skelly no topo.

– Que bom, vocês chegaram– Kanan disse. Deu um empurrão no hovercart na


direção deles.– Botem isso em algum lugar.

Enquanto Kanan retornava à Expedient para mais um carregamento, Skelly,


atordoado e confuso, ergueu os olhos rumo a droides bastante intrigados.
– Ninguém me escuta.
4
— Chegou um sinal da câmera Cynda 560– o operador na segunda fileira
disse.– Ameaça ao Império, língua básica. Câmera do elevador. Trinta e oito
decibéis, entoado com clareza.

Do outro lado do centro de dados abarrotado de gente, Zaluna Myder


continuou cuidando de suas plantas:

– Alguém escutou isso?

– Um piloto transportador.

E nós, Zaluna pensou consigo mesma enquanto se virava de volta aos


negócios. Sua mão cinza varreu o ar e um novo holograma de meio metro de
altura surgiu numa das plataformas de exibição em torno do seu estrado de
trabalho.

A centenas de milhares de quilômetros acima de Gorse, duas pessoas vinham


conversando em um dos elevadores da estação de mineração lunar. Ou, melhor
dizendo, estavam tendo uma conversa até que uma das partes surrou a outra. As
imagens foram todas se desenrolando de novo, segundos depois, em três
dimensóm estáticas entrelaçadas diante dos enormes olhos negros de Zaluna.

Concentrando-se na imagem em movimento, a Sullustana estendeu o braço


para alcançar sua caneca de caf– sagrada de hora em hora. Então na casa dos
cinquenta, Zaluna passava uma hora por dia na academia corporativa, mas ainda
assim sabia que já havia passado da hora de ela se

livrar de seu estimulante artificial. No entanto, a quantidade de trabalho só


aumentava, e caf era seu único vício. E também sabia com toda certeza que
aquilo a tornava uma minoria entre os moradores de Gorse, já que, nos últimos
trinta e tantos anos, Zaluna Myder tinha visto e ouvido tudo.

Era obrigada a fazer isso. Era seu trabalho. Através dos auscultadores
plugados a suas orelhas gigantescas em forma de concha, escutou as palavras
que tanto chamaram a atenção do sistema: "...é melhor o Império tomar
cuidada...".

Baixou a cabeça, lançando um olhar ao operador de terminal na segunda


fileira:

– O interlocutor era um piloto transportador, você diz. Alguém que nós...

– Migrante, sem ficha– ele se antecipou.– Ninguém com quem devamos nos
preocupar.

Zaluna nem perdeu tempo em perguntar se o orador era alguém com quem
devessem se preocupar. As palavras dele por si só bastavam. Os
supercomputadores de vigilância tinham compreendido a declaração,
contrastando-a a métricas misteriosas e chutando a bola aos Mynocks, que
repassaram a ela.

Os Mynocks da Myder. Era assim que sua equipe passou a ser chamada depois
que ela foi promovida a supervisora. Sem filhos, nem netos; nunca chegou a
precisar de outra família. Parada ali, em sua plataforma, ela era uma rainha,
oferecendo seus conselhos aos operadores de vigilância e aproveitando o
eventual tempo livre para cuidar das plantinhas que cultivava. Tivera o
infortúnio de nascer num mundo em que o sol nunca nascia, mas, pelo menos,
seu escritório dispunha de uma iluminação de espectro total.

Zaluna não tinha mudado praticamente nada desde sua adolescência ali no
World Window Plaza, o cone truncado de cabeça para baixo que ainda

era o prédio mais novo em Gorse. A Transcept Media Solutions tinha


construído a estrutura, sem sequer uma janela, como um repositório local para
dados de marketing sobre os residentes do planeta. Quase não havia comércio
em Gorse sem algum tipo de vínculo com a indústria de mineração, mas isso
pouco importava– quando as pessoas partiam, levavam suas preferências de
compra consigo. E, graças às estações de
monitoramento que mantinha, a Transcept teria acesso a seus perfis quando
chegassem em outro lugar. Aquela informação com certeza valia alguma coisa,
muito embora quem quer que pudesse se interessar por ela, ou porquê, fosse um
assunto raramente considerado por Zaluna.

Quase ninguém mais partia de Gorse além de pobres trabalhadores


temporários, mas isso não era uma preocupação. Primeiro, a República e, depois,
o Império se tornaram clientes da Transcept, e Zaluna se manteve no emprego
dos seus sonhos. Vendo e escutando tudo: tinha nascido para fazer isso. Não por
causa de seus olhos e orelhas gigantescas de Sullustano —eles nunca deixavam
nada passar, é verdade —, mas porque desde pequena adorava observar e
absorver informações. Zaluna tampouco se esquecia das coisas.

– Ah, nosso velho amigo– ela disse em voz alta, movimentando o dedo para
fechar o holograma.– Skelly. Sem sobrenome. Humano, nascido em Corellia, há
exatos quarenta anos. Especialista em demolição, Dalborg Mining, operação
Cynda. Último endereço conhecido, Crispus Commons em Gorse. Veterano das
Guerras Clônicas. Ferido, mão substituída. Dois dentes faltando...

O operador na segunda fileira virou a cabeça para trás, lançando-lhe um olhar,


impressionado:

– Esse mesmo– Hetto disse.– Mas eu ainda nem puxei a ficha dele.

– Você fez isso há oito dias– Zaluna rebateu, bebericando de sua caneca.– Não
precisa me dizer nada duas vezes.

– Você tá me assustando, chefe.– Gargalhadas irromperam por todas as fileiras


de escrivaninhas.

– Um pouco de medo é sempre bom, Hetto. Voltem ao trabalho, todos vocês.

Os operadores se aquietaram de imediato, e Hetto deu um sorriso e se virou de


volta ao terminal. Por mais de duas décadas, ela vinha observando como a
impetuosidade juvenil do funcionário fora se tornando uma irascibilidade
carregada de estafa, embora ainda alimentasse esperanças de conseguir um
aumento dela.

Zaluna nunca tinha esperado comandar uma sala de qualquer tipo. Por serem
baixinhos (com um pouco mais de um metro e meio de altura em média, Zaluna
era mais alta do que a maioria), os Sullustanos eram um dos povos menos
ameaçadores em Gorse, um mundo onde o povo costumava representar ameaça
com certa frequência. Muito antes de ter sido promovida, Hetto já se dispunha a
trazê-la e levá-la de volta ao bairro violento em que ela morava. Ela apreciava o
gesto, mas, a bem da verdade, enfrentava corajosamente o perigo. A ladroagem
era uma constante em Gorse, tanto quanto os terremotos que abalavam o planeta
periodicamente. A pessoa poderia até ser derrubada de vez em quando, mas a
única escolha era voltar a se levantar.

Tudo teve início bem antes do Império, ainda sob a República: os Mynocks
foram encarregados de fazer a triagem das comunicações eletrônicas e de certos
lugares públicos monitorados em busca de "conversas suspeitas de constituir
uma ameaça às vidas dos cidadáos da República". À medida que as Guerras
Clônicas foram se arrastando, "as vidas dos cidadãos da República" evoluíram
para "a segurança da República" e, sob o Império, os dizeres se transformaram
em "ordem pública".

Nada com que se preocupar, Zaluna chegou a pensar na época. São só

palavras. Ela nunca tivera problemas para ouvir as dos outros, desde que por

uma boa causa. O ramo da mineração atraía um monte de arruaceiros, sim,


mas coisas piores cresciam às escuras. Foi inteligente da parte das autoridades
policiais terem lançado mão das mais recentes ferramentas para manter o
controle sobre os meliantes.

E não faltou o que ouvir. Durante as Guerras Clônicas, os separatistas tinham


tramado muitos complôs contra a República; ficar atento a eles não era mais do
que mero senso comum. Mesmo os pretensos defensores da República, os Jedi,
tornaram-se traidores. Isso segundo o imperador. Ela não tinha lá muita certeza
de que esse era o caso, mas estava certa de que, se houvesse uma conspiração,
alguém como Zaluna provavelmente seria a primeira a detectá-la.

Privacidade? Ainda na mocidade, Zaluna já a considerava um conceito bobo.


Ou a pessoa guardava os pensamentos na cabeça ou os espalhava duma vez. A
única diferença entre um sussurro e uma transmissáo intergaláctica era de cunho
técnico. Um interceptador com os meios para escutar algo tinha todo o direito de
fazê-lo. Na verdade, tinha a obrigação de fazê-lo. De outro modo, o ato de
comunicar seria inútil. Zaluna não era de falar o que pensava tanto quanto Hetto,
nem perto disso, mas quando tinha algo a dizer, ela fazia questão de que as
pessoas a escutassem.

Os tempos, porém, eram outros. Sob o Império, as palavras se tornaram causas


com maiores efeitos. Pessoas monitoradas por ela tinham desaparecido, muito
embora ela nunca tenha descoberto o motivo. E o trabalho deixou de ser tão
divertido.

A imagem de Skelly permanecia congelada diante dela, com a boca aberta no


meio do discurso inflamado. Parecia ser a pose perfeita ao sujeito, e ela sabia
que a veria de novo, pois Skelly, ela também sabia bem, tinha levado um
carimbo vermelho. Registros digitalmente carimbados com uma estrela vermelha
indicavam visitas da autoridade de saúde mental de Gorse.

– Se ele ganhar mais algumas estrelas, já vai dar pra inaugurar a própria

galáxia– ela disse. Respirou fundo, aliviada. As pessoas com carimbos


vermelhos tendiam a permanecer no sistema médico, era raro que a situação
evoluísse a outro patamar. Eram mais soltos com as palavras do que a maioria,
mas raramente partiam para a ação. E, ao menos, Skelly costumava ser
engraçado de se escutar no passado. Ela retomou a transmissão.

– É isso, então. Eu vou encerrar o...

– Mensagem recebida– Hetto disse de repente.– Do canal oficial. Náo é todo


dia que isso acontece, ela pensou.

– Pode conectar!

Uma forma macabra vestida de marrom surgiu holograficamente bem diante


dela. A voz mecânica era nítida e precisa:

– Aqui é conde Vidian do Império Galáctico falando a todas as estações de


vigilância sob minha autoridade. Estou dando início a vistorias nas operaçóes de
mineração tanto em Cynda quanto nos processadores em Gorse. Todos esses
locais estão a partir de agora sob Regime de Segurança Nível Um. Sem
exceções.

Pasma, Zaluna encarou o vulto em tamanho real:


– Perdão. Todas as operaçóes de mineração? O senhor faz ideia de quantas...

Conde Vidian não esperou que ela terminasse. A transmissão foi encerrada.

Hetto foi o primeiro a falar, como de costume:

– Mas que diabos?

– E não é...– Zaluna retrucou, suspirando. Então, soltou um assobio. O


comércio de mineração empregava milhares e milhares de pessoas.

– Ele tá falando sério? Será que ele pelo menos sabe o que tá pedindo? —
Hetto jogou os braços ao alto.– Talvez, seja melhor a gente arranjar um carimbo
vermelho pro arquivo desse cara. Sério mesmo, alguns desses imperialistas
devem estar ficando doidos! Ou isso, ou...

– Hetto!– Zaluna disparou.

A não ser pelo burburinho das transmissões de áudio saindo dos

monitores, a sala ficou em silêncio. Já num tom mais calmo, ela prosseguiu:

– Nós fazemos o que nos mandam fazer.

Zaluna passou as pontas dos dedos pela sua papada, tentando se lembrar da
última vez em que o Regime de Segurança Nível Um tinha sido invocado. Isso
não acontecia desde que o imperador a recrutara pela primeira vez para lidar com
a crise Jedi. O que implicava elevar todos os casos sob vigilância ao mais alto
nível e Zaluna fazia uma boa ideia do que aquilo significava.

Não era nada bom.

Ela voltou sua atenção à transmissão em tempo real de Skelly em

Cynda, a conexão que ela estava prestes a encerrar sem tomar uma atitude.

– Arrasta ele aqui pra cima, Hetto.

– Mas ele tá com carimbo vermelho.

– O que não vale de nada hoje em dia.– A supervisora endireitou a postura.–


Qualquer que seja a condição dele, a boca do mestre Skelly vai lhe render uma
temporada com os nossos amigos de branco.

E toda sorte do mundo pra ele dali em diante, ela pensou.


5
– Conde Vidian, é uma honra– disse aos borbotões o Neimoidiano que esperava
ao pé da rampa de pouso da nave auxiliar imperial. Era um sujeito alto e vestia
uma capa. Apesar do prazo apertado, toda empresa com negócios na lua tinha
enviado alguém à reunião na Cudgel, e o diretor praticamente sorria com os
olhos, vermelhos, enormes, de tanto orgulho. —É com muita satisfação que a
Associação Cyndana de Mineração vos recebe - Prosseguiu, com um sorriso
estampado no rosto verde sem nariz.– Eu sou o diretor Palfa. Todos nós já
ouvimos falar muito sobre...

— Poupe-me– Vidian disparou, e metade dos presentes na caverna deu um


passo para trás, aflita.– Tenho uma agenda a cumprir e você também. Vamos
tentar não comprometê-la!

A garganta do diretor ficou seca:

– É c... claro.

Os demais desviaram o olhar, temendo encarar o ciborgue.

Muito bem, Vidian pensou.

Nos dias derradeiros da República, os manuais de gestão escritos por Vidian


se tornaram hits da cultura pop, apesar de, ou melhor dizendo, por causa da sua
relutância em aparecer no HoloNoticiário de negócios. Não que fosse tímido ou
tivesse vergonha da sua aparência; simplesmente não gostava de desperdiçar seu
tempo. Mas apesar de aquela mística toda contribuir para sua reputação pública,
seu sucesso gerencial se devia em grande parte à sua presença física.

O expert em reestruturação empresarial, tinha escrito, é um germe que invade


a corporação. Certamente encontrará oposição. Sempre que alguém procurava
instituir uma outra organização, os burocratas bem consolidados tentavam
intimidá-lo. Mas Vidian também sabia jogar e vinha ganhando nos últimos
quinze anos.

A lenda sobre Denetrius Vidian tivera início cinco anos antes, no que os
médicos consideraram seu leito de morte. Ele, porém, sobreviveu e passou seu
tempo de cama transformando seu parco saldo bancário numa fortuna por meio
de transações eletrônicas. Com o decorrer dos anos, encomendou próteses de
última ponta, bastante caras e sob medida para suas próprias necessidades. Não
se parecia nada com os outros humanos, mas havia sido a humanidade que o
abandonara primeiro, deixando-o apodrecer em casa, de repouso naquela cama.

Foi então que Vidian resolveu otimizar seus traços físicos de acordo com sua
então famosa trindade das filosofias gerenciais: Não parem! Superem barreiras!
Observem tudo!

Regras simples e por ele aplicadas de forma diligente, sempre que havia uma
oportunidade. Inclusive agora, enquanto a comitiva se encaminhava aos
elevadores.

– A turnê estabelecida irá percorrer uma certa distância– o diretor disse.

– Vossa Senhoria não gostaria de descansar um pouco primeiro?

– Não– Vidian respondeu, andando tão depressa que os outros mal


conseguiam acompanhá-lo. Sua agilidade estava bem melhor do que em
qualquer época da sua juventude; a idade biológica já não importava mais.
Algumas pessoas caçoavam de Vidian por ele ser metade droide, mas ele sabia
que a comparação era inadequada. Os droides desligavam. Vidian já tinha
passado tempo demais deitado na cama.

Não parem: com um corpo são, a mente pode alcançar qualquer objetivo!

Guiando Vidian pelo caminho do elevador a um piso inferior, o diretor fez


uma pausa na tagarelice sobre as maravilhas de Cynda.

– Perdão– ele disse, oferecendo seu comlink.– Vossa Senhoria gostaria de


comunicar à vossa embarcação que chegou?
– Acabei de fazer isso, enquanto você choramingava no elevador —Vidian
retrucou.

Palfa parecia estar confuso. Não tinha visto nem ouvido Vidian fazendo nada.
O conde instalara uma série de receptores comlink nos seus auscultadores;
roteando sua voz artificial por meio deles, fazia ligações com frequência sem
nunca parecer sequer abrir a boca. Vidian detestava obter informações por meio
de intermediários, que geralmente distorciam as coisas em proveito próprio; sua
múltipla capacidade de comunicação não era em vão.

Quebrem barreiras: obtenham informação de maneira direta, sempre que


possível!

– Esta câmara leva a um dos nossos níveis de mineração– o diretor disse,


apontando para os trabalhadores correndo de um lado ao outro.– O que Vossa
Senhoria está vendo aqui não passa de um dia típico de...

– Mentira– Vidian rebateu, sem diminuir o passo.– Estou lendo a transmissão


em tempo real de seus relatórios enquanto conversamos. Você dobrou o ritmo da
produção, mas retornará à mediocridade tão logo o Império dê as costas. Pois
tenha a certeza: vou providenciar para que isso não aconteça.

Um ruído se alastrou pelo salão, vindo do grupo de representantes das


empresas de mineração em torno dos dois. Mas não adiantava discutir. Com um
comando vocal que não emitia som externo, Vidian apagou os relatórios diários
de produção de setas receptores visuais.

Anos antes, ele se dera conta de como os líderes, de gerentes a executivos-


chefes, encontravam-se constantemente cegos pelas circunstâncias básicas ao
redor. Vidian não admitia deixar nada passar. Seus implantes ópticos não apenas
lhe conferiam uma visão excepcional, como também dispensavam a necessidade
de monitores de vídeo ao projetarem a alimentação de dados externos direto em
suas retinas. Observem tudo: aquele que deter os dados está no comando!

Vidian lançou um olhar por cima do ombro, rumo ao apreensivo grupo de


agentes de mineração. Alguns já estavam sem fôlego, tentando acompanhar seu
ritmo, entre eles uma Besalisk. Havia vários humanoides trabalhando na
Calcoraan Depot, seu centro administrativo: membros de uma espécie
relativamente diligente, mas, de outra maneira, em nada surpreendente. Antes
que ele pudesse voltar sua atenção a ela, as portas dos elevadores de carga se
abriram em ambos os lados da câmara. Stormtroopers saíram apressados dos
veículos.

Bem na hora. Vidian deu um giro e apontou para cinco corredores diferentes
que saíam da câmara. Sem dizer uma palavra em resposta, os esquadrões se
dividiram e avançaram túneis adentro.

O diretor Palfa estava estarrecido:

– O que está acontecendo?

– Nada além do que eu já não tenha dito.– O tom de voz de Vidian era tão
casual quanto seus propósitos eram nefastos.– Vocês são gerentes. Nós vamos
ajudá-los a gerenciar.

Não era a intenção de Hera levar sua nave ao complexo de mineração


Cyndano, ainda mais com o pouso não autorizado. Ao se juntar ao comboio, no
entanto, foi se aproximando e, uma vez fora da vista do destroier estelar, acabou
estacionando em órbita. Sua pequena embarcação de passeio a levara pelo resto
do caminho até um pequeno anexo de manutenção na superfície.

Já tinha lido o suficiente sobre o comércio de mineração para saber qual seria
seu disfarce: especialista em manutenção de droides graneleiros. Deixaria para
pensar no resto depois.

– A entrada de vocês não é por aqui– o sujeito na câmara pressurizada disse.

– Ai, meu Deus, me desculpa. É o meu primeiro dia e eu tô atrasada!

– E cadê seu crachá?

– Eu esqueci. Dá pra acreditar? Logo no meu primeiro dia!

O sujeito acreditou na conversa, deixando-a passar com um sorriso em que se


lia a esperança de novos enganos no futuro. Pessoas de várias espécies diferentes
achavam Hera atraente, e ela se valia disso em nome de uma boa causa com todo
prazer.

À medida que ela avançava com todo cuidado pelo complexo de mineração,
porém, foi aos poucos se dando conta do quão cruel aquela causa tinha se
tornado. Gorse e Cynda produziam uma matéria-prima estratégica para o
Império, tudo bem, mas se encontravam por demais distantes do centro
galáctico. E, ainda assim, Hera saiu espionando uma câmera de vigilância atrás
da outra, incluindo várias visivelmente dispostas de modo que os operários não
pudessem vê-las. Se o nível de segurança em Coruscant tinha mesmo chegado a
todos os mundos da Orla, qualquer ação contra o Império se tornaria um tanto
mais difícil.

Outra boa razão pra fazer uma visitinha ao meu amigo em Gorse depois daqui,
ela pensou, arremessando-se com agilidade para fora do alcance de outra câmera
secreta. Um rendez-vous com qualquer informante misterioso era um perigo; não
demorou a aprender isso em sua curta carreira como ativista. Seu contato,
porém, detinha conhecimento comprovado sobre a capacidade de vigilância
imperial, e ela precisaria disso para chegar mais tarde ao que importava de fato.

Conhecendo um pouco melhor os métodos do conde Vidian, porém,

ela teria de ser extremamente sorrateira. Estava em Cynda agora, sabia bem:

já o tinha visto de longe, passando de uma caverna a outra na companhia de


um grupo maior. Seria complicado chegar mais perto. As colunas transparentes
de cristal eram até bonitas de se admirar, mas compunham um dos esconderijos
mais fajutos.

Esgueirando-se por uma passagem lateral isolada, pensou que encontraria um


atalho para se antecipar a ele. Ao invés disso, acabou encontrando outra coisa.

– Pare!– Um stormtrooper surgiu no fim do corredor com sua arma de raios


em riste.

– Desculpa– ela disse, levando a mão ao peito e suspirando.– Você me deu um


susto!

– Quem é você?

– Eu trabalho aqui– ela respondeu, aproximando-se como se nada de errado


estivesse acontecendo.– Eu acho que me enganei de lugar. É o meu primeiro
dia.– E sorriu.

– Cadê o seu crachá?


– Esqueci.– Seus olhos fitaram o chão, recatados, e então se ergueram de
volta.– Dá pra acreditar? Logo no meu primeiro dia!

O stormtrooper ainda a analisou por alguns segundos antes de notar a arma de


raios que ela carregava. Hera foi mais rápida do que ele, desferindo um chute
alto que derrubou a arma das mãos do stormtrooper surpreso. Ele ainda tentou
recuperar a arma jogada no chão, mas ela o contornou sem maiores dificuldades
e deu um giro, pulando sobre as costas do sujeito de armadura. Perdendo a
estabilidade no piso cristalino, ele tropeçou, e ela se valeu do seu peso para
empurrar a cabeça do trooper contra a parede. O capacete rachou ao meio,
provocando um forte barulho, e ele desmoronou no chão.

– Foi mal– Hera sussurrou por cima do ombro do trooper caído. —Meu
charme nem sempre funciona.
6
– Andem logo! Mais depressa!

Skelly olhou para trás, aborrecido, enquanto Tarlor Choh avançava afoito pela
caverna, incitando os operários adiante. Sujeito de pele clara, alto, Tarlor era o
imbecil oficial da Mineradora Dalborg na Zona 39, não devendo ser confundido
com os demais imbecis que gerenciavam os esforços da própria empresa naquele
bolsão subterrâneo. Havia também imbecis oficiais em todas as outras zonas,
Skelly bem sabia, e nenhum deles tinha a menor noção das coisas.

Aquele dia, todos pareciam estar dando chiliques. Durante horas, os operários
que chegavam traziam novos relatos da pressão que o Império estava exercendo;
circulava até mesmo um boato de que um destróier estelar havia explodido o
capitão de um cargueiro por pegar leve no batente. Agora, a notícia saía direto da
boca de Tarlor: o maior expert em eficiência do imperador, o conde Vidian,
estaria inspecionando as instalações.

Seria sua salvação, Skelly considerou. O maior inspetor governamental estava


indo justo ao seu encontro. Não era realmente ao seu encontro, claro, mas já era
perto o suficiente. E para melhorar ainda mais a situação, tratava-se de Denetrius
Vidian. Um magnata dos negócios durante a República, é verdade, mas talvez
fosse a única pessoa que Skelly respeitava. Vivia às custas de corporações mal-
ajambradas, lucrando ao remediar as falhas da indústria. O famoso tratado de
Vidian, "Esqueça o antigo modelo", era o único holo empresarial que Skelly
possuía.

Se Skelly conseguisse entregar sua pesquisa a Vidian, o Império entenderia a


situação e, com certeza, deteria o que quer que as empresas de mineração
estivessem fazendo.
Tarlor se avultou sobre ele:

– Skelly, prepara logo esse explosivo duma vez!

Skelly se limitou a suspirar e tratou de voltar sua atenção à coluna de cristal


ao lado da qual estava ajoelhado. Tendo preparado uma suspensão de bissulfato
de barádio com a massa explosiva, passou a espalhar a substância pastosa em
torno de toda a base da estalagmite.

Era um trabalho lento, meticuloso e, principalmente, difícil de se fazer com


perfeição quando ele se encontrava irritado com todo o universo e cada ser vivo
nas imediações dele. Kanan, é claro– a boca de Skelly ainda doía por causa do
murro que levara. Quem ele pensava que era? Tarlor também atormentava seus
pensamentos, junto com toda aquela fauna gerencial, especialmente desde que a
Dalborg o rebaixara de cargo recentemente, de supervisor de explosivos a mero
técnico em demolições.

E, acima de tudo, odiava sua mão direita por ser tão inútil e forçá-lo a realizar
os acabamentos mais detalhados com a esquerda. Mal conseguia olhar para sua
mão de mentira; preferiu deixá-la retorcida na forma de uma garra na maior parte
do tempo desde aquele terrível dia durante as Guerras Clônicas.

As Guerras Clônicas eram outro assunto que o aborrecia. Tudo sobre o


conflito tinha sido mentira. Os separatistas haviam sido taxados como os grandes
inimigos e, ainda assim, tão logo o Império foi declarado, todos eles
simplesmente sumiram como se alguém tivesse apertado um botão. As grandes
corporações tinham armado a coisa toda, Skelly estava certo disso. Durante as
guerras, vendiam-se mais naves, mais armas e mais dispositivos médicos. E, nas
Guerras Clônicas, até mesmos os soldados de ambos os lados eram bens
manufaturados.

A República e a Confederação tinham sido parceiros no mesmo esquema


corrupto. O Império provavelmente não passava de uma reiteração de tudo isso,
na opinião de Skelly; nem mais, nem menos imoral. Aos olhos dos oligarcas
corporativistas, alianças políticas eram como trocar de roupa. Naquela década, a
moda era a centralização de poder. Algo novo não demoraria a surgir. A besta
tinha de ser alimentada com vidas e membros perdidos no campo de batalha, e
com o suor e o sangue dos trabalhadores.

Um único problema: explodir coisas era a única coisa que Skelly sabia fazer.
Ele não se culpava por isso. Era simplesmente o produto de um sistema que
construía as coisas só para destruí-las depois, segundo ele. Tinha aprendido seu
ofício com os melhores do ramo, e aprendido muito bem.

Tudo sempre se resumia a um conjunto simples de etapas, ensinadas a ele


ainda em seu primeiro dia nas demolições militares: Conecte seu explosivo ao
iniciador. A ignição conduz à reação, que conduz à detonação. Se aplicado a
compostos de barádio ou a seu isótopo tremendamente mais poderoso, o barádio-
357, tal sequência desencadearia uma série de reações complexas que, no fim
das contas, acabariam dando no mesmo simples resultado.

Agora aos quarenta, Skelly costumava pensar que essas etapas também se
aplicavam à vida. Havia um problema desagradável. Alguém iniciava uma
mudança. O sistema reagia a essa pressão. E então, bang, aparece uma solução.
O método sempre fora esse. Ele tinha sido o único a ensaiar mudanças sempre
que possível, desde os tempos do campo de batalha. Por isso mesmo oferecia-se
para tudo. Sempre que uma muralha era demasiadamente perigosa para ser
atacada, Skelly arriscava sua vida para sair escavando um buraco e plantar os
explosivos responsáveis pela abertura crucial. Fazia isso e muito mais.

Mas eis que eclodiu a Batalha do Poço de Escória. Uma carga insensata em
nome de um general idiota, que esperava se valer das demolições para eram bens
manufaturados.

A República e a Confederação tinham sido parceiros no mesmo esquema


corrupto. O Império provavelmente não passava de uma reiteração de tudo isso,
na opinião de Skelly; nem mais, nem menos imoral. Aos olhos dos oligarcas
corporativistas, alianças políticas eram como trocar de roupa. Naquela década, a
moda era a centralização de poder. Algo novo não demoraria a surgir. A besta
tinha de ser alimentada com vidas e membros perdidos no campo de batalha, e
com o suor e o sangue dos trabalhadores.

Um único problema: explodir coisas era a única coisa que Skelly sabia fazer.
Ele não se culpava por isso. Era simplesmente o produto de um sistema que
construía as coisas só para destruí-las depois, segundo ele. Tinha aprendido seu
ofício com os melhores do ramo, e aprendido muito bem.

Tudo sempre se resumia a um conjunto simples de etapas, ensinadas a ele


ainda em seu primeiro dia nas demolições militares: Conecte seu explosivo ao
iniciador. A ignição conduz à reação, que conduz à detonação. Se aplicado a
compostos de barádio ou a seu isótopo tremendamente mais poderoso, o barádio-
357, tal sequência desencadearia uma série de reações complexas que, no fim
das contas, acabariam dando no mesmo simples resultado.

Agora aos quarenta, Skelly costumava pensar que essas etapas também se
aplicavam à vida. Havia um problema desagradável. Alguém iniciava uma
mudança. O sistema reagia a essa pressão. E então, bang, aparece uma solução.
O método sempre fora esse. Ele tinha sido o único a ensaiar mudanças sempre
que possível, desde os tempos do campo de batalha. Por isso mesmo oferecia-se
para tudo. Sempre que uma muralha era demasiadamente perigosa para ser
atacada, Skelly arriscava sua vida para sair escavando um buraco e plantar os
explosivos responsáveis pela abertura crucial. Fazia isso e muito mais.

Mas eis que eclodiu a Batalha do Poço de Escória. Uma carga insensata em
nome de um general idiota, que esperava se valer das demolições para conquistar
uma fortificação separatista com pouco esforço. O chão era firme, os explosivos
não eram os apropriados, e Skelly já tinha feito um escarcéu quanto a isso.

Ninguém tinha dado ouvidos. Ninguém nunca dava ouvidos.

O sujeito tinha patente de general. Tudo o que Skelly podia fazer era tentar
encontrar uma brecha, valendo-se de seu talento inato para salvar o dia em nome
de seus companheiros.

Só que nada acabou saindo conforme o esperado.

As Guerras Clônicas terminaram enquanto ele ainda estava em coma; mais


tarde, ficou sabendo que nenhum de seus companheiros se salvaram. Sua mão
foi outro balde de água fria. Os droides médicos tinham assegurado ao pelotão
que levavam consigo todas as peças necessárias para uma cirurgia adequada no
campo de batalha. Mas haviam mentido. Dispunham somente de uma mão
profética klatooiniana sobrando para Skelly, que nunca fora compatível com sua
neurologia humana. Ainda pior, as asneiras cometidas pelo corpo médico tinham
comprometido seu braço a ponto de uma substituição apropriada nunca vir a
funcionar. Skelly, então, resolveu simplesmente enfiar uma luva naquela coisa
estúpida e tentar seguir em frente.

Os tempos de pobreza vieram logo em seguida. Ele não teve outra escolha
senão retornar ao ramo da demolição. E uma vez lá, só confirmou suas suspeitas
quanto às malfeitorias corporativas. Eram dos negligentes quanto as militares.

Teria sido insuportável, não tivessem suas viagens o levado a Cynda.

Mesmo já tendo passado muito do seu tempo embaixo da terra, ficara


maravilhado com a beleza das cavernas da lua. Seus pensamentos, sempre
afoitos, pareciam se aquietar um pouco ali dentro. Atribuíra certa
responsabilidade ao seu papel, por um tempo– já que a lua seria explodida de um
jeito ou de outro, ele se certificaria de que fosse feito de maneira cautelosa,
zelando pela segurança do mundo e das pessoas que nele trabalhavam. Cynda
possuía inúmeras cavernas; era impensável cogitar a possibilidade de que, um
dia, as corporações arruinariam todas elas.

Mas, então, era só no que Skelly conseguia pensar. Cynda se tornaria mais um
lugar deixado para trás, todo esburacado, somando-se à pilha de vidas aos
pedaços.

Após armar o detonador, colocou de volta o aplicador em sua caixa de


ferramentas. Mais uma estalagmite na conta, pronta para ser decapitada.
Trabalho de rotina– entediante mas bem feito. Alguém tinha que se preocupar
ali.

– Ele está ali– Skelly ouviu o supervisor dizer. Ele se levantou e deu as costas
à estalagmite minada. Deu de cara com um grupo de quatro stormtroopers
imperiais guiados por Tarlor.

Ah, Skelly pensou. Parecia cedo demais para que a equipe avançada de
inspeção estivesse lá, mas isso pouco importava.

– Olá!– Ele gritou. Com a caixa de ferramentas ainda presa à sua mão direita,
ele os saudou com a esquerda. Um ato impulsivo: ele não fazia parte de
nenhuma organização militar, mas a armadura deles se parecia muito com as que
de usara enquanto serviu, o que o deixava feliz sempre que os via.– Meu nome é
Skelly. Faz meses que eu tô escrevendo pra vocês lá da superintendência...

– O quê?– Tarlor deixou escapar.

– ...e eu fico contente em saber que alguém me deu ouvidos.– Skelly foi
virando a cabeça à medida que os stormtroopers passaram marchando por ele.–
Er... o conde Vidian tá por aqui?
O trooper no comando parou e ergueu seu rifle de raios. Seus companheiros o
acompanharam.

– Skelly, você está preso.

Skelly soltou uma risada nervosa:

– Isso é brincadeira, né? Por quê?

– Você está sendo acusado de proferir discurso subversivo ao Império. Os


olhos de Skelly se arregalaram, e sua mente foi a mil.

– Pera! Foi o Kanan que me denunciou?

Tarlor sacudiu a cabeça careca:

– Ele é todo seu. O Skelly sempre foi um problema, e a Mineradora Dalborg


não quer por perto ninguém que seja um aborrecimento pro conde Vidian. Por
favor, digam a ele que nós cooperamos totalmente.– Ele se voltou a Skelly e
destilou todo seu veneno.– Parece que eu ganhei o jogo. Você tá despedido!

Skelly se engasgou, gaguejando:

– P... pera. Isso é um engano! E, Tarlor, você não tem autoridade pra

Antes que ele pudesse terminar a frase, os stormtroopers avançaram para cima
dele.

– Ponha essa caixa de ferramentas no chão!– o trooper no comando disse, a


poucos passos de distância.

Com uma arma de raios apontada para ele e caminhando em sua direção,
Skelly tomou sua decisão. Levou a mão esquerda ao alto e passou a se agachar.

– Beleza, tranquilo. Já tô me entregando. Só mais um segundinho. —Ficou de


joelhos...

...e catou o controle remoto que tinha deixado no chão. Deu uma

cambalhota para trás da coluna de cristal que tinha acabado de minar e se


curvou todo, protegendo sua caixa de ferramentas com o corpo. Antes que

os stormtroopers tivessem a chance de segui-lo, Skelly apertou o botão.

O bissulfato de barádio fixado à coluna perto de Skelly detonou e o enorme


cilindro de diamante maciço despencou adiante, exatamente na direção em que
ele previra. Para longe dele. E rumo aos stormtroopers. Um deles soltou um
berro, esmagado na hora pela base da coluna tombada. Ao se chocar contra o
chão, toda a estrutura se espatifou em estilhaços afiados.

Skelly não pôde ver o que aconteceu com os outros stormtroopers, pois já
estava devidamente de pé, fugindo. Saiu correndo por uma passagem não
iluminada que interligava a Zona 39 a um poço de serviço. Sabia de cabeça que
também levava a túneis de ventilação e outras rotas, caminhos que poderiam
levá-lo a qualquer canto do submundo de Cynda.

Já resfolegante de tanto correr, Skelly tentava entender no escuro o que tinha


acabado de acontecer. Quer dizer, então, que alguém estava de fato dando
ouvidos ao que ele dizia, no fim das contas? Só não tinham compreendido muito
bem o que ele queria dizer.

Tudo bem, ele pensou. Sentiu a caixa de ferramentas cheia de explosivos,


ainda presa a sua mão direita imobilizada, quicando contra sua perna enquanto
corria. Sentiu-se reconfortado e sorriu.

Existe mais de uma maneira de se enviar uma mensagem.


7
Vidian nunca tinha visto charlatões corporativos debandarem tão depressa.
Desde que declarara o Regime de Segurança Nível Um, os operadores de
vigilância em Gorse tinham lhe fornecido os nomes de quarenta e seis potenciais
agitadores trabalhando nas minas Cyndanas. As notícias de Vidian a respeito das
detenções realizadas pelos stormtroopers tinham feito os executivos saírem em
disparada para alertar seus funcionários sobre o novo escrutínio.

Outros seres orgânicos, apesar de sua suposta consciência, não eram em nada
melhores do que os droides, Vidian pensava. Podiam facilmente ser levados a
agir de acordo com o programado.

com o devido estímulo, é claro. Flanqueado por dois stormtroopers, o conde


encarou o chefe da corporação, única pessoa que sobrou no grupo.

– Palfa, seus membros nomearão um dirigente moral para cada equipe de


trabalho de modo a assegurar que o Império seja apoiado por meio de palavras e
ações.

Os olhos do diretor caíram ao chão:

– Senhor, eu não sei como tal programa há de ser recebido. Trata-se do tipo de
trabalhadores que atraímos, sabe. Uns brutamontes. É difícil controlar o que eles
pensam sobre...

– Se é que pensam de fato. A mim, pouco importam os bêbados e bravateiros.


Mas eles não são de todo inofensivos! Esse relatório que acabo de ouvir, por
exemplo– Vidian fez uma pausa para sintonizar seu auscultador —, urna
tentativa de prisão aconteceu no Nivel 39, e o suspeito reagiu atacando os
troopers!
O diretor sacudiu sua enorme cabeça:

– Isso é terrível. Tenho certeza de que o nosso pessoal da segurança o pegou.

– Pois não o pegaram. Mas minhas tropas darão um jeito nisso. Vidian
desligou suas comunicações audíveis, só pelo tempo de um comando.

– Pronto– ele disse em alto e bom tom novamente.– Enviei ao seu escritório
uma cópia do meu programa politico remediativo. Certifique-se de que suas
empresas afiliadas adotem as medidas de imediato.

– Sim, senhor.

– Podemos prosseguir.

O diretor, um tanto desanimado, guiou Vidian por urna zona de trabalho.


Como em rodos os outros lugares, aquele espaço estava lotado de trabalhadores
itinerantes, seres ligeiramente mais eficazes do que ciroides. Alguns passavam
com explosivos rumo a outras câmaras. Outros estavam enterrados até os quadris
nos montes de cristais estilhaçados, suando em bicas enquanto descarregavam
pás cheias de torilídio em compartimentos para embarque. O interior de Cynda
era naturalmente seco; a leve neblina no ar se devia a unia transpiração
totalmente orgânica. Vidian ficou feliz por seu olfato já não existir mais.

O entulho à ralé, Vidian pensou. Aquele tipo de gente estava presente em


incontáveis outros mundos de produção que recebera a tarefa de pôr nos eixos, e
eram horríveis de lidar. Mesmo tirando os encrenqueiros, poucos seriam capazes
de aprender algo novo, sem contar que seus respectivos estilos de vida só
serviam para torná-los ainda menos eficientes no trabalho.

Eram em número ilimitado, o que lhe proporcionou urna possibilidade.

Abriu caminho entre os trabalhadores e foi batendo suas mãos de metal nas
costas de um operário após o outro.

— Você. Você. Você. E você. -, Todos os quatro ergueram os olhos,


estarrecidos com o toque do ciborgue. Humanos ou não humanos, a única coisa
em comum entre eles era a idade avançada. - Velho demais. Lento demais.

Ignorando os olhares de aviltamento e indignação que recebia dos operários,


Vidian chamou de volta o dirigente da corporação:

— Palfa, uma nova diretiva aos seus membros. Limite de idade menor, a
vigorar imediatamente.

Palfa se engasgou, gaguejando:

— Mas... mas eles ainda são produtivos!

Vidian lançou um olhar desalmado a Palfa:

— E você está sendo improdutivo agora - ele retrucou, inclinando-se em


direção ao outro. - Sua associação é um refúgio de traidores e vadios!

— Senhor, talvez eu possa sugerir alguma outra maneira de...

Vidian não esperou para ouvir as sugestões de Palfa. Lançou o braço adiante e
agarrou o diretor pelo colarinho. Puxando o manto para baixo, cobriu a cabeça
do burocrata, forçando-o aos berros contra o piso rochoso. Os stormtroopers
ficaram assistindo a tudo com as armas de raios em riste enquanto Vidian
desferia golpes violentos por todo o corpo de Palfa.

O conde recuou, dando-se por satisfeito, assim que o corpo recoberto de panos
do chefe da associação parou de se mexer. Vidian fitava com admiração suas
próprias mãos; ainda ostentavam seu brilho prateado.

— Senhor! - um dos stormtroopers exclamou.

— Hein? - Vidian se voltou ao soldado e, então, outra vez ao grupo de


trabalhadores entre os quais estava. Todos o encaravam de volta.

— Acidente industrial - ele disse. - Voltem ao trabalho, a menos que eu lhes


ordene que voltem pra casa. Suas empresas encontrarão funções mais adequadas
a vocês em Gorse. Desemprego num sistema de recursos tão estratégico chega a
ser ilegal. O Império não tolera vagabundos.

Vendo os operários em alerta, correspondendo a suas expectativas, Vidian


assentiu com satisfação. Gestão, o jeitinho imperial. Era tão mais eficaz do que
nos tempos da República, e tão fácil para ele. Despedir um gerente motivava
apenas os mais ambiciosos a tomarem seu lugar. Um assassinato, porém, deixava
todos mais motivados. Um artifício que deveria ter lugar cativo no kit de
ferramentas de todo e qualquer supervisor.

Mudou seu canal de áudio:

– Capitã Sloane, você está na escuta?

Direto da Ultimaturn, a voz da capitã inundou os ouvidos dele:

– Positivo.

– Informe Coruscant que há uma vaga em aberto no alto escalão da


Associação de Mineração de Cynda. Tenho certeza de que o Império pode nos
enviar alguém apropriado.

– Certo. Câmbio desligo.

Deixando que os stormtroopers cuidassem de se livrar do corpo, Vidian


continuou sua inspeção sozinho. Na câmara seguinte, encontrou outro grupo de
trabalho e, apesar de não ter a intenção de checar e identificar pessoalmente cada
um dos preguiçosos ali presentes, não pôde resistir ao avistar um homem de
cabelos brancos ajoelhado, limpando sua picareta.

– Você está definitivamente velho demais– Vidian disse, agarrando o sujeito


pelo colarinho.

– Ah, é? Bem, e tu és feio demais– o sujeito rebateu antes mesmo de se virar


para ver quem o abordava. Tão logo o fez, soltou um berro, tamanha foi a
aversão.– Mas o que diabos tu és, afinal?

Vidian não reagiu. Leu o crachá do velho.

– Okadiah Garson.– O nome não constava na lista dos dissidentes, mas isso
pouco importava. Aquilo já bastava por si só.– Pare de me olhar feito um idiota.

– Perdão.– Okadiah apontou para um ponto atrás do ouvido do ciborgue, onde


a pele sintética não cobria completamente a cicatriz por baixo.– É só que...
deixaste uma falha passar bem ali.

– Não é por vaidade. É em benefício daqueles cujos rendimentos caem quando


confrontados com o extraordinário.– Apertou ainda mais o colarinho de Okadiah
e o sacudiu.– Penso que esta galáxia já comporta seres ordinários o bastante.
Talvez, você também queira ter sua pele removida pra ver como se sente!

– Talvez seja melhor você deixá-lo em paz– surgiu urna voz por trás do conde.

Vidian se virou para ver um jovem de cabelos escuros parado na entrada de


um túnel com um hovercart sobrecarregado. Segurava uma arma de raios com a
mira bem no conde.

– Vejam só...– Vidian disse, sem a menor preocupação com sua segurança.–
Temos um pistoleiro. Ou, talvez, tenhamos encontrado nosso sabotador!

Em suas viagens, Kanan havia encontrado muitas pessoas usando próteses. A


maior parte eram indivíduos decentes que usavam a tecnologia para suprir
alguma deficiência. Mas o ciborgue que estava segurando Okadiah pelo
colarinho tinha exagerado. Ele parecia mais um droide de guerra fantasiado de
humano num baile de máscaras.

– Eu não sou nenhum sabotador– Kanan disse, ainda segurando sua arma.–
Ouvi um grito, pensei que havia algum problema e vim dar uma olhada.

– Sou o conde Vidian e represento o imperador. Estou trabalhando para ele.


Vidian, que parecia nada preocupado com a arma de Kanan, começou a erguer
ainda mais o velho pelo pescoço.

Kanan colocou o dedo rio gatilho da pistola. Ele não tinha a mínima vontade
de mexer com o Império, muito menos com alguém do ranking de Vidian. Então
se sentiu aliviado quando teve outra ideia.

– Você precisa saber de algo.– Abaixou sua arma e começou a andar adiante
com cautela.– Está prestes a ferir o melhor minerador de torilidio deste sistema.

Vidian parou e disse:

– Duvido. Ele não tem força para cavar ou carregar qualquer coisa.

– Mas é ele quem ensina o restante a fazer isso– retrucou Kanan.– Ivloonglow
é a produtora mais eficiente para seu tamanho.
Vidian sacudiu Okadiah por mais alguns segundos e logo em seguida o
derrubou no chão da caverna.

– Até que enfim alguém aqui que entende o que realmente importa —ele
disse.– Você tem sorte que eu já tenha matado alguém hoje, pistoleiro. Tenho um
cronograma a seguir.– Após dizer isso o ciborgue se virou rapidamente e saiu
com seus guardas.

Kanan guardou a pistola e virou para checar como Okadiah estava. Enquanto
era socorrido pelos colegas de trabalho, o velho homem massageou seu pescoço
e olhou para Kanan.

– Sempre te metes em confusão.

– Aprendi com você– Kanan respondeu.

Yel ki n, o mineiro com que de havia discutido mais cedo aquela manhã,
revirou os olhos para Kanan.

– Não sei por que você não atirou naquela aberração. Estão dizendo que ele
matou o líder da associação.

– Eu escolho com quem eu danço– respondeu Kanan. Andou de volta ao


hovercart e o ativou.– Não mexo com o Império, e de não mexe comigo.

– Zona 42 nos espera, senhores– Okadiah interrompeu.– Gostaria que este dia
chegasse logo ao fim.

Do outro lado da ampla câmara, Hera baixou seus eletrobinóculos. Acabou


tendo um pouco de sorte na última hora, quando todos os stormtroopers tinham
evacuado a área. Pelo que deu para ela escutar, estavam todos à procura de
alguém que resistira à prisão com violência. Ficou bastante interessada na
história, mas, como Vidian vinha em primeiro lugar, tratou de seguir adiante,
tentando encontrar locais seguros em cada câmara cavernosa de onde pudesse
espreitar.

Ainda não tinha conseguido se aproximar mais do que cem metros, mas já
tinha visto o suficiente para saber que se tratava de algo infame, totalmente
digno de um posto importante ao lado do imperador. Testemunhara tanto o
ataque contra o pobre diretor da associação quanto a maneira como seus
acompanhantes reagiram ao fato: como se um assassinato gerencial fosse a coisa
mais normal da galáxia. E presenciara também, minutos depois, o modo como
Vidian molestava o velho. Foi pura sorte o sujeito mais novo ter aparecido de
repente. Ao menos, alguém ali tinha atitude.

Observando o sujeito de cabelos negros com seu hovercart, Hera sentiu um


impulso momentâneo de segui-lo. Era sempre válido conhecer pessoas com o
ímpeto de enfrentar o Império. Mas, então, lembrou que não se tratava de uma
expedição de recrutamento. Precisava manter o foco.

Quem sabe na próxima encarnação, amigão. Hera saiu de sua posição num
pulo e seguiu no encalço de Vidian.
8
Mais stormtroopers passaram correndo por Kanan enquanto ele empurrava o
hovercart pelo último túnel a caminho da Zona 42. Era certo que ainda
procuravam pelo idiota que tinha surtado, atacando-os na Zona 39. Lal Grallik
apareceu na linha de produção bem a tempo de confirmar o boato de que era, de
fato, Skelly à solta. Kanan não estava nada surpreso, quanto menos chateado
com a notícia. Ao menos, Skelly tinha saído do seu pé.

Não era nada raro ver stormtroopers por aí. As andanças de Kanan galáxia
afora, porém, tendiam a seguir um padrão em espiral, deslocando-se do centro
para fora. Mundos do Núcleo, mundos-colônia, Orla Interior: cada um
representava uma nova fronteira. E cada um tinha se mostrado idêntico ao outro–
a presença do Império começava minúscula e ia crescendo gradualmente. Kanan
às vezes se perguntava como os fornecedores dos uniformes dos stormtroopers
conseguiam suprir a demanda. Quando os imperiais chegassem aos limites da
galáxia, o que estariam vestindo?

Não que a visão de stormtroopers o deixasse alarmado. Não. Assim como a


mulher do destróier estelar com quem tinha conversado, todos não passavam de
funcionários. Droides orgânicos, treinados para reagir de certa maneira e
localizar certos alvos. Vidian talvez fosse a mais perfeita tradução disso: toda
uma eficiência robótica e sordidez em geral atreladas a uma massa metálica com
um pouco de pele por cima. O melhor jeito de evitar o assédio por parte deles era
simplesmente se encaixar com perfeição nos estereótipos que esperavam
encontrar.

Em mundos como Gorse, o Império esperava encontrar trabalhadores com um


perfil já muito bem delineado: baixo grau de instrução, empregos de alto risco.
Personalidades turbulentas e indisciplinadas, só não rebeldes. Ameaças à própria
sobriedade e uns aos outros, mas nunca ao Império. Nada ativos politicamente,
nem mesmo conscientes.

Calhou de aqueles planetas serem os que Kanan considerava os mais


divertidos. O papel de casca-grossa lhe convinha. Viajara por toda a galáxia, só
apreciando a vista; e, às vezes, o teto... depois de alguma briga excepcional ou
um porre qualquer. Visitara mais lugares do que era capaz de se lembrar, e, fora
Okadiah, nunca gravara os nomes da maioria das pessoas com quem havia
cruzado. Para que se importar com isso, afinal, quando nunca ficava parado num
só lugar?

Kanan seguiu empurrando o hovercart Zona 42 adentro. Muito abaixo da


superfície de Cynda, essa era a maior câmara já aberta– mais importante, os
sensores tinham detectado grandes reentrâncias escondidas por trás das paredes,
outras áreas certamente abarrotadas de torilidio extraivel. Por semanas a fio,
várias equipes detonaram explosões (quase abafadas pelas objeções de Skelly)
na tentativa de atingir as jazidas mais abundantes. Numa alcova recém-escavada,
técnicos da Moonglow trabalhavam em sua própria tentativa.

Kanan parou o hovercart do lado de fora e deu algumas batidas na parede


externa.

– Eu tô com sede. Bora acabar logo com isso!

Yelkin apareceu de dentro do buraco, vestindo um traje branco de segurança.


Franziu a testa ao ver Kanan:

– Você de novo.

— Pode apostar.

Irritado, o Devaroniano inspecionava a carga de explosivos,

– A gente tá medindo o tanianho do Furo de sondagem pros explosivos. Deve


levar só mais um...

– Espera– alguém exclamou de dentro da área já escavada.– Tem um


problema aqui.

Kanan soltou um suspiro enquanto Yelkin se enfiava de volta no buraco.


Kanan estava prestes a descarregar os caixotes sozinho mesmo quando olhou de
relance o interior da reentrância. Além de Yelkin, vislumbrou outro técnico
perfurando um buraco com urna broca comprida. Ou tentando perfurar:

– Já rem alguma coisa aqui dentro!

Kanan arregalou os olhos. E, pela primeira vez, olhou para o chão do lado de
fora do curto túnel. Havia algo que ele já tinha visto antes, jogado num canto.

A caixa de ferramentas do Skeily.

Kanan gritou pela abertura:

– Saiam dai! Saiam já daí!

Náo precisou gritar uma terceira vez. Os técnicos já estavam a caminho.

– Já tem uma fiação ligada em alguma coisa aqui– Yelkin disse) em pânico.–
Ter um cronômetro! Trinta segundos...

Vão dd pra desarmar isso!

– Esquece!– Kanan gritou.– Vem!

Os técnicos de demoliçâo da _Moonglow costumavam levar urna sirene


portátil para a área de explosão; convenientemente, ela se encontrava no
caminho de Kanan, que a ativou imediatamente. Por toda a Zona 42, os operários
saíram correndo pelos túneis de emergência.

Logo a sua frente, Yelkin tropeçou na superfície rugosa e caiu. Kanan, que
estava correndo, diminuiu o passo ao se aproximar do garhrnpeiro, a

— Pode apostar.

Irritado, o Devaroniano inspecionava a carga de explosivos.

– A gente tá medindo o tamanho do furo de sondagem pros explosivos. Deve


levar só mais um...

– Espera– alguém exclamou de dentro da área já escavada.– Tem um


problema aqui.
Kanan soltou um suspiro enquanto Yelkin se enfiava de volta no buraco.
Kanan estava prestes a descarregar os caixotes sozinho mesmo quando olhou de
relance o interior da reentrância. Além de Yelkin, vislumbrou outro técnico
perfurando um buraco com uma broca comprida. Ou tentando perfurar:

– Já tem alguma coisa aqui dentro!

Kanan arregalou os olhos. E, pela primeira vez, olhou para o chão do lado de
fora do curto túnel. Havia algo que ele já tinha visto antes, jogado num canto.

A caixa de ferramentas do Skelly.

Kanan gritou pela abertura:

– Saiam daí! Saiam já dail

Não precisou gritar uma terceira vez. Os técnicos já estavam a caminho.

– Já tem urna fiação ligada em alguma coisa aqui– Yelkin disse, em pânico.–
Tem um cronômetro! Trinta segundos...

Não dá pra desarmar isso!

– Esquece! Kanan gritou.– Vem!

Os técnicos de demolição da Moonglow costumavam levar uma sirene portátil


para a área de explosão; convenientemente, ela se encontrava no caminho de
Kanan, que a ativou imediatamente. Por toda a Zona 42, os operários saíram
correndo pelos túneis de emergência.

Logo a sua frente, Yelkin tropeçou na superfície rugosa e caiu. Kanan, que
estava correndo, diminuiu o passo ao se aproximar do garimpeiro, a única outra
alma ainda no enorme átrio de cristal. Mas Yelkin não estava pedindo ajuda.
Estava apontando para algum lugar, alguma coisa que Kanan tinha esquecido.

Kanan! O seu hovercart!

Kanan virou-se, lançando um olhar ao hovercart carregado de bissulfato de


barádio, cem vezes mais explosivos do que Skelly estaria levando na caixa de
ferramentas, e se lembrou do ditado do cara da demolição: são os secundários
que fazem o estrago. Seu hovercart seria capaz de fazer metade daquela cadeia
de cavernas desmoronar.

Kanan deu um pulo de volta rumo à fresta, e suspendeu o hovercart. Virando-


o ao contrário, saiu empurrando o hovercart o mais rápido que pôde, em
disparada.

Notou que Yelkin estava parado no lugar. Pelo que dava para ver, tinha torcido
o tornozelo. Kanan embicou o hovercart na direção dele, pisando firme no chão.
Sua voz ecoou pela câmara:

– Yelkin! Se agarra aqui!

Não deu mais para ver ou escutar quase nada depois disso.

O brilho veio primeiro. Emanando do túnel em explosão à área de trabalho,


saiu refletindo ofuscante por toda a estrutura cristalina acima e em volta de
Kanan. O som veio em seguida, um burra silencioso.

Kanan estava prestes a alcançar Yelkin com o hovercart cheio de caixotes


quando a onda de choque o atingiu em cheio. Os repulsares do hovercart ainda
estavam ligados; o para-lama dianteiro pegou bem no estômago de Yelkin e,
então, os dois juntos com o hovercart seguiram sendo jogados para frente; Kanan
segurava firme na alça, como quem se agarra literalmente à vida.

Estouros causticantes ressoavam por todo o átrio. Kanan, ora um mero


passageiro pendurado a exemplo de Yelkin, sabia bem o que vinha em seguida.
Feito pingentes de gelo num dia de verão, estalactites com mais de

tanto mais reforçado.

E, então, liberou tudo. Liberou com sua mente e escutou enquanto a montanha
de escombros tomava conta do espaço que até pouco lhe havia sido negado.

Vidian se encontrava numa câmara mais elevada, passando orientações ao


droide-mestre e a seus três ajudantes aterrorizados, quando o chão começou a
desmoronar.

Tudo escureceu e Vidian, seus interlocutores e todos os móveis foram


tragados. Foi uma queda breve, mas alta o suficiente para esmigalhar o que
sobrara da superfície no piso inferior, mais resistente. Vidian ficou com os
nervos tremendamente abalados.

Soterrado até os quadris de pedregulhos, precisou de um tempo para se


recompor. Seus olhos passaram ao modo de visão noturna e notou a cratera
aberta logo abaixo do escritório do droide-mestre: as paredes da sala, bem como
o corredor no lado de fora estavam intactos, vários metros acima.

Indiferente aos gritos de dor dos outros se debatendo nos escombros, Vidian
se valeu de seus braços cibernéticos para escavar uma salda. Então, passou a
escalar até a abertura.

– Estamos presos aqui– uma voz berrou logo atrás dele.– Nos ajude!

– Alguém há de encontrá-los antes que vocês morram de fome– Vidian


retrucou, dirigindo-se à porta.

– Mas e se houver novos tremores...

– Novos tremores? Impossível. As colunas de cristal desta lua são capazes de


prevenir tremores– Vidian disse. Aquele evento isolado não poderia ter sido
natural. Puxando-se para cima e rumo ao corredor intacto, começou a suspeitar
do que tinha acontecido de fato.

Sua ira voltou renovada.

Em meio à escuridão, Hera sentiu o mundo ribombar em sua volta. Tinha visto
quando Vidian foi tragado pelo chão e sumiu; ainda hesitou por uns instantes, na
esperança de que tivesse sido para sempre.

Tô sem sorte hoje, pensou, ao escutar a voz do conde vinda da cavidade. A lua
tinha dado só uma provadinha e cuspido Fora.

Dava para ouvir vozes pelos corredores ao redor e ela pôde espiar o brilho de
algumas lanternas ali e acolá. A movimen_ração tinha ficado grande demais,
alguém tinha chutado o pau da barraca. Precisava se beneficiar da escuridão
enquanto ainda podia.

Fim do reconhecimento, a Twilek pensou. Deixou a câmara de Vidian e saiu


correndo de volta pelo corredor.
Kanan continuou se arrastando de costas enquanto os escombros
desmoronavam no chão a sua frente. Enfim, após o que pareceu uma eternidade,
fez-se silêncio.

E. então, a luz.

Okadiah apareceu a seu lado e ficou de joelhos:

– Meu bom jovem, estás bem?

Kanan tossiu, levantando urna pequena nuvem de poeira, e confirmou com a


cabeça. Ainda com areia nos olhos, mal conseguia enxergar seu hovercart e os
caixotes de explosivos, muito bem amarrados, ainda no lugar. Yelkin estava
jogado no topo, com a cara enflada nas caixas, resfolegaste.

– O que aconteceu?– Okacliali perguntou.

– Eu não vi nada– Yelkin respondeu.– Eu acho que a gente foi carambolado


pra dentro do tiinel! Eu jurava que esse seria nosso fim, certeza!

– Urna chance em um milhão– Okadiab retrucou, coçando o queixo. Olhou


para Kanan.– Meu rapaz, és mesmo sortudo.

Kanan sabia bem que podia ser tudo, menos sortudo. Pois Kanan Jarrus na
verdade, era Caleb Dume, o Jedi que nunca fora.

E agora, ele sabia, era hora de se mudar.


9
A Força era um misterioso campo de energia que brotava da vida em si; até aí,
todo aprendiz de Jedi sabia. A Força podia ser usada por vários motivos:
proteção, persuasão, sabedoria. Mesmo para a manipulação da matéria e um
desempenho físico excepcional. Os Jedi ensinavam todas essas coisas as
crianças.

Nunca ensinaram, porém, como fazer a Força sumir quando indesejada. E era
tudo o que Caleb, ou melhor, tudo o que Kanan sempre desejara da Força por
anos a fio. Eis, porém, que aquela maldita coisa resolvera despertar em Cynda.
Salvara sua pele, é verdade, mas se alguém tivesse notado, sua vida não valeria
um único crédito Confederativo.

Tinha abandonado uma lua em pleno caos. O teto da Zona 42 tinha


desmoronado, provocando tremores que acabaram causando a abertura de veios
perigosos em alguns pisos mais elevados. Felizmente, nenhuma câmara fora
expelida ao espaço: estavam abaixo demais da superfície de Cynda. Foi um
milagre ninguém ter morrido.

Kanan não sabia se conde Vidian ainda se encontrava lá ou não, ou se o


Império considerava Skelly suspeito de ter plantado as cargas que causaram a
explosão. Foi uma aposta de risco da parte deles. Skelly tinha alertado
justamente sobre a mineração na Zona 42; talvez, tenha decidido ele próprio
fazer o telhado vir abaixo antes que outro o fizesse. Cynda era toda atravessada
por túneis, mas os imperiais estavam em grande número.

Acabariam encontrando Skelly, cedo ou tarde, e ele veria o que era bom para
tosse.

Kanan tinha escapado por um dos túneis nos fundos, deixando Okadiah e sua
equipe para trás. Tornando elevadores quase inutilizados até a Expedient,
decolou antes que a segurança se inteirasse da situação. Pôde escutar pelo
transceptor que as naves estavam impedidas de levantar voo. Duvidou, porém,
que isso seria um problema. Os técnicos da Moonglow lá embaixo poderiam
atestar que ele tentara alertá-los; ao menos, ninguém suspeitaria de Kanan corno
o autor do atentado. Afinal, só estava levando a nave de volta à base em Gorse
em segurança, conforme o programado.

E chega. Nunca mais poria os pés na lua outra vez. E, no dia seguinte, daria
um jeito de zarpar fora de Gorse. Era hora de seguir em frente.

Vinha peregrinando por ai desde aquele dia sombrio, anos antes. O mais
sombrio dos dias. O dia em que sua vida, como ele a conhecia,

desmoronou; foi destroçada por algo que, na época, ele sequer tinha
compreendido. Ainda não compreendia muito bem. Lá estava ele, com quatorze
anos, completamente dependente da Ordem Jedi para tudo: comida, abrigo,
educação e segurança. Amor, talvez não; mas pelo menos tinha estabilidade, paz
e bom senso.

E, então, de repente, a República e seus soldados clone se voltaram contra os


Jedi. Depa Billaba lutou para protegê-lo, e ele lutou para protegê-la de volta. Ela
morreu. Ele fugiu. Ela morreu para que ele pudesse fugir, mas à custa do quê? O
que ela esperava dele?

O jovem Caleb não chegou a saber. Só sabia que, no fim das contas, a Força
não a ajudara em nada. Ou nenhum dos outros Jedi dos quais já tinha ouvido
falar.

A Força não é sua amiga, ele disse a si mesmo. Essa era uma das razões pelas
quais ele se recusava a usá-la, mesmo que fosse para tornar sua vida um pouco
mais fácil. Também se recusava a carregar seu sabre de luz. Ainda o guardava:
além da Força, enjoada que só ela, era seu único vínculo com o passado. Mas do
que adiantava um sabre de luz? Do que adiantava a Força se ela permitia que a
maioria de seus devotos seguidores fossem eliminados por traição?

– Um. Jedi se vale da Força para buscar orientação– seu primeiro professor
havia lhe ensinado. Só se for orientação de corno dar com a cara direto num
maldito muro!
O problema era que não havia urn interruptor para desligar a Força. Muitos
dos benefícios que ela comportava eram dos mais sutis. Reforçavam certos
traços sem o menor esforço consciente de sua parte. Nenhum ato cie vontade
seria capaz de detê-la; nenhum lapso de convicção poderia fazê-la sumir
totalmente. Kanan seda sempre melhor do os outros cm certas coisas. E esse era
o maior problema de sua vida. Ainda se permitia a aceitar empregos que
despertavam seu interesse e a se destacar neles. Era simplesmente seu jeito de
ser.

Ao se destacar demais, porém, ou por muito tempo, corria o risco de chamar


muita atenção. Justo o que fora orientado a refrear.

Obi-Wan lançara mão do convocador para alertar os Jedi a evitarem ser


detectados. Não demorou para que Kanan entendesse o porquê. Por dias e
semanas após os generais Jedi terem sido eliminados por seus próprios soldados
done, o novo Império continuou a caçar e matar os Jedi. Não se tratava
simplesmente de se esconder fisicarn.ente do Império. .Evite ser detectado
implicava em esconder de todos o fato de que se possuía um vínculo à Força.

nir-se à Força era o mesmo que viver com a cabeça à prêmio.

Os primeiros meses tinham sido de uma obscuridade aterrorizante para o


jovem Caleb. Teve pesadelos constantes sobre o que poderia vir a acontecer. O
Império detinha o controle da sede dos Jedi, o que certamente incluía o banco de
dados com. rodas as informações arquivadas pelos Jedi arespeito de Caleb
Dume. Já deviam saber seu nome, com toda certeza, e provavelmente tinham
suas imagens registradas pelas câmeras de segurança do centro de treinamento.
O que mais teriam? Tinha cansado de quebrar sua cabeça tentando se lembrar de
quais das suas informações biométricas, se fosse o caso, os Jedi teriam coletado
ao longo dos anos. Teriam uma reprodução de sua voz? Uma amostra genética?
Kanan ficou desnorteado com a possibilidade de o Império saber mais sobre seu
histórico familiar do que ele próprio.

O que quer que tenha acontecido com os outros cavaleiros Jedi e seus
Padawans, tudo levava a crer que o imperador estivesse profundamente
envolvido. Deviam ter encontrado alguma lista, ou elaborado uma. Deviam ter
riscado todos os que caíram. E deviam saber que Caleb Dume não caíra junto
com Depa Billaba.
Então, no início, Caleb fez tudo certo. Toda vez que arrumava emprego para
se alimentar, fazia questão de não se destacar muito além do esperado. Distribuir
pessoalmente suas próprias cargas em Cynda era uma concessão a essa prática;
mantinha o número de voos por dia numa média excepcional, mas sem levantar
suspeitas. Tinha resistido a amizades e relações românticas a longo prazo, e
conseguido conter a maioria de seus impulsos cavalheirescos. Ainda um
adolescente, tinha feito tudo isso por temer uma visita dos stormtroopers no
meio da noite.

No entanto, as semanas acabaram se transformando em meses, e os meses em


anos, e ninguém nunca chegou a aparecer em sua casa (ou abrigo ou tenda ou
pedaço de chão ou o piso da espaçonave) para acordá-lo e levá-lo de lá. E o
jovem rapaz então conhecido como Kanan Jarrus acabou descobrindo que a
bebedeira fazia todas aquelas preocupações sumirem.

Então, o jeito era fazer mais do mesmo. Bebia para esquecer. Brigava para
aliviar a pressão. Aceitava os trabalhos mais perigosos para financiar seu estilo
de vida e, em seguida, começava tudo de novo. Não era um
nômade cavalheiresco, que se escondia de planeta em planeta, realizando boas
ações e partindo quando as coisas esquentavam demais. Não, pelo contrário:
partia quando as coisas esfriavam demais. Quando o dinheiro da bebida acabava,
ou quando a filha do dono do bar de repente queria se casar com ele. Kanan
estava partindo não porque o Império chegara: já tinha encarado imperiais como
Vidian antes e sobrevivido. Sabia que era melhor ignorá-los. Não...

ele estava partindo porque onde quer que o Império estivesse a diversão
geralmente morria.

Ele também partia sempre que se encontrava numa situação confortável


demais. Era nessas ocasiões que a Força, cansada de ser suprimida, esgueirava-
se feito um animal de estimação ignorado. Ele não queria que isso acabasse
complicando seu mundinho, fazendo-o se sentir como presa de alguém outra
vez. E não gostava de ser lembrado sobre o que acontecera naquela sua outra
vida.

Ao observar a Ultimatum cada vez maior no visor de sua ponte de comando


enquanto se dirigia a Gorse, Kanan pensava pela enésirna vez no trecho da
mensagem de Obi-Wan. As forças Republicanas foram levadas a se voltar contra
os fedi. Havia algo nas entrelinhas: foras levadas a se voltar. Sugeria que, talvez,
o povo em si não tivesse se voltado contra os Jedi, apesar das afirmações do
imperador em contrário.

Aquilo até podia ter sido importante anos antes, Kanan pensava, mas
dificilmente seria agora.

Sempre o irritara o fato de Obi-Wan compartilhar tão pouco. Fazia todo


sentido que ele tivesse sido breve. Talvez ainda não soubesse de muita coisa
quando enviou o alerta. Mas por que não tinha mandado outro? Se já não tivesse
mais acesso ao convocador em Coruscant, não teria encontrado outra maneira de
enviar uma mensagem, mais tarde?

Kanan sabia a resposta. Porque provavelmente já não havia mais Jedi algum
com quem entrar em contato. E porque, provavelmente, o próprio Kenobi já
estava morto.

Em outros tempos, aqueles costumavam ser pensamentos difíceis de se ter;


mas agora só provocavam um bocejo enfastiado. Não conseguia imaginar Obi-
Wan se acomodando de bom grado em algum mundinho remoto à espera de
alguma resolução. Deveria estar em alguma missão, se ainda estivesse vivo; uma
missão importante. Faria questão de que todos tomassem conhecimento. E todas
as missões que Kanan era capaz de imaginar teriam colocado Obi-Wan em
movimento por toda a galáxia. Não, se Kenobi estivesse vivo, Kanan saberia
algo a respeito.

Kanan, porém, tinha plena consciência de que não se importaria nem mesmo
se o mestre Jedi aparecesse sentado no assento logo atrás dele. Caleb Dume não
chegara a ser um cavaleiro Jedi, e Kanan Jarrus definitivamente não era um.
Nada disso afetou sua vida, nem nunca precisaria afetá-la. As cartas estavam na
mesa, restava-lhe jogar com o que tinha em mãos. Jogar, contanto que
conseguisse se manter longe de peripécias estúpidas como as desencadeadas em
Cynda.

Só não jogaria mais ali.

Pilotaria a Expedient de volta a Moonglow; só mesmo um ladrão idiota de


naves ia querer uma coisa dessas. Pegaria seu pagamento, recolheria seus parcos
bens antes que Okadiah voltasse para casa e tomaria seu rumo. O destróier
estelar continuava por lá, dava para ver, mas ainda não tinha barrado voos
comerciais partindo de Gorse. Decidiria em qual direção seguir e...
Kanan voltou sua atenção ao destróier estelar, então à sua frente, mais à
direita. Da parte inferior da Ultimatum, emergiram duas frentes com quatro
caças TIE cada uma, e avançaram a seu encontro.

Em alerta total, Kanan inclinou-se adiante e agarrou o leme. Por qual caminho
seguir? Estavam indo direto para cima da Expedient. A nave tinha uni pequeno
canhão e nada mais, fora o fato de a embarcação não ter sido reabastecida desde
aquela manhã, quatro voos lunares antes. Kanan sintonizou o sistema de
comunicação de canal em canal, tentando encontrar a voz da capitã Sloane.
Alguém ou alguma coisa que fosse para lhe dizei- se era melhor lutar ou voar.

A única voz que ele escutou, porém, surgiu do banco traseiro, mas não era
Obi-Wan Kenobi, nem o bom e velho Okadiah.

– Não estão atrás de você– a voz disse.– Estão atrás de mim. Kanan olhou
para trás.

– Skelly!
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– Você!– Kanan agarrou Skelly pelo colarinho, puxando-o para o banco da frente
com certa violência e jogando-o contra o painel da Expedient. O primeiro
instinto de Kanan foi lidar com o clandestino a bordo, mas os imperiais ainda se
encontravam lá fora, seguindo em sua direção.

– Olha lá!– Skelly disse, ofegante, agitando os braços.

Kanan acompanhou o olhar do sujeito de ponta-cabeça e vislumbrou, além dos


esquadrões TIE, uma nave auxiliar da classe lambda partindo da Liltimatum.
Assim que as asas trapezoidais dobraram em posição de voo, outra nave auxiliar
surgiu. E então mais uma, até que cinco delas estivessem indo na direção de
Kanan. Dois TIE de cada grupo quebraram a formação e passaram a escoltar as
naves auxiliares enquanto os outros seguiam em frente, liberando as pistas
espaciais. Kanan observava tudo, incrédulo, quando as embarcações passaram
voando sobre sua cabeça a caminho de Cynda.

– Eu te disse, eles estão atrás de mim Skelly disse.– Não de você.

– Parabéns– Kanan retrucou, seco, sem soltar Skelly.– Mais uns cem
stormtroopers estão a caminho de Cynda, graças a você. Eu confesso que tô
bastante tentado a te levar de volta e te entregar pra eles.

Skelly tentou se livrar de Kanan e acabou levando um murro em cheio no


meio da fuça. Jorrava sangue de seu nariz.

– Seu babaca! Por que é que você fez isso?

— Você explodiu a Zona 42. Você tentou matar todo mundo!


– Eu não fiz isso!– Skelly rebateu, ainda tentando se libertar.

– Você tá mentindo! Kanan agarrou o braço esquerdo de Skelly e o torceu para


trás.– Estão te procurando, né? Pois eu vou te entregar!

– Cuidado! Esse braço não! Esse braço não!– Skelly disse. Lançando adiante
sua mão livre, a mão mecânica, agarrou-se a uma alça perto da porta da câmara
pressurizada. Após um breve momento de peleja, Kanan se deu conta de que a
mão do sujeito estava presa, e Skelly não iria a canto algum.

– Tudo bem– Kanan disse. Virou-se e pegou seu coldre, até então pendurado
no apoio do assento do piloto.

Skelly olhou para trás e zombou:

– Quê, vai me matar agora?

– Talvez.

– Isso que é gratidão! Eu te salvei! Eu te salvei– Skelly disse.– Salvei você e


toda aquela sua corja corporativista podre!

– Salvou, foi...– Kanan estava embasbacado.– Você desmoronou uma


montanha na minha cabeça, isso sim!

Skelly ficou em silêncio.

Irritado, Kanan se levantou, voltando-se aos controles para direcionar a


Expedient a um caminho bem longe de todos os outros comboios, fossem
imperiais ou não. Olhou de relance para trás e vislumbrou Skelly caído contra a
porta da câmara pressurizada, massageando a mão enfim livre da alça.

Kanan baixou a pistola, mas não a guardou. Repentinamente exausto, ele se


jogou na poltrona antigravitacional, de frente para a câmara pressurizada.

– Eu preciso de uma bebida– ele disse, esfregando a testa.– Agora, me


explique de novo. Você queria salvar a gente explodindo todo mundo?

– Eu não tentei explodir ninguém. Eu só tava tentando mostrar aos inspetores


imperiais que a gente não deve usar barádio pra abrir novas câmaras. Cynda não
vai aguentar isso.

– Você podia ter matado pessoas! Kanan retrucou.

– Não, não Skelly rebateu.– Vocês da Moonglow não deveriam estar


trabalhando na Zona 42 até amanhã. Eu chequei isso na agenda da Chefe Lal
mais cedo!

– Essa era a agenda de antes de o Império dar as caras. A gente tava


trabalhando em dobro. Não era nem pra ter mais a programação de hoje.

– Ah...– Skelly disse num tom de voz baixo, embaraçoso.– Er... mas então,
alguém chegou a morrer?

– Que bom que você se importa– Kanan respondeu, alcançando seu coldre de
ombro e o ajustando ao corpo.– Não. Não que eu saiba.

– Menos mal– Skelly julgou.– Eu só tava tentando provar minha teoria, e


funcionou– prosseguiu, afrouxando o colarinho.– A estrutura toda desmoronou,
que nem eu disse. Se tiverem contado pra Vidian que eu tinha razão, ele
provavelmente deve estar me procurando pra me agradecer. —Apontou com a
mão esquerda para a janela da câmara pressurizada.– Deve ser esse o motivo de
todas essas naves. Eles acham que eu ainda tô lá embaixo. Busca-e-resgate!

– Essa razão pela qual você deu no pé, em vez de ficar lá.

– Eu precisava arrumar um lugar pra esperar até que o Império descobrisse o


que tinha acontecido. Eu não fazia a menor ideia de que você voltaria tão
depressa e já decolaria!

Kanan sacudiu a cabeça. Não sabia no que acreditar. Mas antes que tivesse a
chance de dizer algo, Skelly ficou de pé e avançou a passos firmes, feito um
homem com um propósito.

Kanan se manteve no lugar:

– O que você pensa que tá fazendo?

– O que você acha que eu tô fazendo? Eu vou enviar uma saudação ao


destróier estelar!
Kanan esfregou os olhos:

– Qué?

– Já te disse, eles estão atrás de mim.– Skelly tentou apertar um botão,

só para ser empurrado de volta ao banco do passageiro por Kanan.


Alcançando o cinto de segurança, Kanan prendeu Sk_elly. Em seguida, sacou
sua arma de raios novamente.

– Ei! Não atira!

Kanan não atirou. Ao invés disso, ativou a trava de segurança e virou a pistola
ao contrário. Valendo-se da coronha corno um martelo, bateu na fivela do cinto
de segurança até que ficasse totalmente deformada.

– Você quebrou. Não dá pra acreditar que você fez isso.

– Essa nave não é minha– Kanan retrucou. Ou não seria mais, depois que
pousassem. O cinto de segurança manteria Skelly no lugar.– Eu não vou te
deixar enviar saudação nenhuma pra um maldito destróier estelar!

Skelly sacudiu a cabeça:

– Você ainda não entendeu nada.– Enfiou a mão esquerda em seu traje e
puxou o holodisco que tinha mostrado a Kanan> mais cedo.– Eu só preciso levar
essa informação pro Vidian...

– Vidian.– Kanan se sentou no banco do piloto, sua cabeça girava.– Aquele


cara estranho que o Império enviou?

– Você não acompanha o noticiário? Vidian é um reformador. Ele é que nem


eu: consegue ver o que tem de errado nas coisas e dá um jeito nelas. Ele
provavelmente já deve ter suspendido o trabalho em Cynda pra realizar uma
investigação, Tudo o que tenho a fazer é entrar em contato com ele e apresentar
meus fatos. Ele vai descer o chicote naqueles amadores corporativistas!

Kanan lançou um olhar à Ultimatum, diminuindo cada vez mais na janela a


estibordo, e, então, de volta a Skelly:

– Você realmente acha que é isso que vai acontecer?

– Claro. Depois que eles verem o que eu tenho pra mostrar, talvez até te deem
uma recompensa por ter me levado até eles.

Kanan fitou os controles outra vez e, então, ergueu os olhos. Em meio à


escuridão do hemisfério noturno permanente de Gorse, vislumbrou algo familiar
ascendendo ao espaço.

– Olha lá sua resposta– ele disse.

– Hein? Skelly virou a cabeça. Avistou dezenas de naves: cargueiros vazios,


conduções particulares e cargueiros de explosivos como a Expedient. Todos
seguiam rumo a Cynda.– E o próximo turno?

Kanan soltou uma gargalhada:

– Esse Feriado Comemorativo ao Dia do Skelly tá rendendo.

Ligou o sistema de comunicação. O controle de tráfego imperial estava todo


embaralhado, mas Chefe Lal falava alguma coisa no canal exclusivo da
Moonglow. As zonas de trabalho afetadas pelo desmoronamento estavam sendo
isoladas. As operações de mineração, porém, continuavam em outras áreas.

– Ordens do conde Vidian– ela disse, acessando uma lista de instruções de


pousos reencaminhados.

Ouvindo tudo com muita atenção, Skelly ficou estupefato. Mas só por um
instante:

– Eles acabaram de ver no que dá sair explodindo nos lugares errados. E,


ainda assim, vão continuar?– tremendo de raiva, cuspiu três palavras que, Kanan
pôde notar bem, ele detestava.– Negócios são negócios.

Kanan desligou o sistema de comunicação e se recostou na cadeira. Skelly,


impossibilitado de se mexer, encarou o piloto:

– E então?
– E então o quê?

– E então o que agora?

– Eu tô voltando pra casa– Kanan disse.

– Casa?– Skelly perguntou.– E onde é que fica essa casa?

– Vou levar a Expedient de volta ao estaleiro da Moonglow, como de costume.


Vou estacionar a nave e, aí, vou te entregar para aquele chefe de segurança,
marido da Lal.– Kanan se concentrou em pilotar a nave. Skelly sacudiu a cabeça
e baixou o tom de sua voz:

– Belo amigo que você é!

– Vamos deixar uma coisa bem clara aqui– ele disse, levantando um dedo na
direção de Skelly.– Eu não sou seu amigo. Eu não sou seu cúmplice. E, muito
menos, seu parceiro de conspiração. Eu não te ajudei em nada disso e nem vou te
ajudar a escapar dessa. Chega!

Skelly ficou encarando Kanan por alguns instantes e, então, virou a cabeça de
lado:

– Maravilha– ele resmungou.– É sempre assim. Ninguém nunca... Pelo reflexo


na escotilha, Skelly viu Kanan se levantar. Virou a cabeça de volta.

– Pera, aonde é que você tá indo?

– Pra algum lugar onde eu não consiga te escutar.

De volta a bordo de sua nave, já em segurança, Hera enviou uma mensagem


criptografada a seu contato em Gorse. Nunca esteve tão certa quanto à
necessidade de um encontro. Não era surpresa alguma que o Império estivesse
espionando os locais de trabalho num sistema que produzia uma matéria-prima
tão estratégica. O problema era que não tinham o menor escrúpulo de lançarem
mão de tais tecnologias em todo e qualquer lugar, e seu contato poderia lhe dizer
muita coisa sobre as últimas capacidades de vigilância imperial e corno anulá-
las. Teria de correr o risco de um encontro, tivesse outra chance de espionar
Vidian ou não.
Hera analisou o cenário do lado de fora. Escutando, prestou atenção em tudo.
O Império estava criptografando seus próprios sinais, mas as empresas de
mineração não estavam, e ela acabou conseguindo visualizar com clareza o que
se passara nas últimas horas em Cynda.

Um mineiro taxado de encrenqueiro ou dissidente tinha sido identificado pela


vigilância imperial. Todavia, Skelly, o sujeito das detonações, acabara
surpreendendo seus empregadores, o Império, e todos mais, valendo-se de
explosivos a fim de escapar da prisão. E, não muito depois disso, uma grande
explosão ocorrera em uma zona de trabalho de forma imprevista e havia sido,
evidentemente, muito mais destrutiva do que qualquer outra coisa jamais levada
a cabo em operações normais.

Então, o Império tinha resolvido agilizar, e enviou mais da metade da frota de


naves auxiliares do destróier estelar a Cynda. Uma vez que não havia naves
ambulatoriais partindo de Gorse (a clinica lunar possuía recursos limitados), ela
presumiu não haver vitimas. O que significava que os stormtroopers naquelas
naves auxiliares com certeza não faziam parte da equipe de busca e salvamento.
Estavam lá para continuarem procurando quem havia colocado a bomba.

Mas entre os relatórios da explosão e a correria imperial, ela pôde notar algo
mais. Um cargueiro de explosivos (o Moonglow-72, segundo o indicativo de
chamada) tinha sido a única nave, além da sua, a decolar de Cynda antes dos
voos serem proibidos. Ela viu quando a nave arrancou com violência assim que
as formações TIE se aproximaram. E, apesar de tal reação ante caças imperiais
ser das mais compreensíveis quando se trata de um comerciante qualquer, a nave
saíra voando de forma bastante invulgar logo em seguida, como se ninguém a
pilotasse. Por fim, tinha iniciado os procedimentos de pouso em Gorse por uma
rota bem longe das pistas mais movimentadas.

Skelly, Hera concluiu, encontrava-se naquele veiculo.

Era mais do que um palpite, mas certamente não chegava a uma dedução
cientifica. Não permitiria que isso desviasse a atenção de seus verdadeiros
objetivos. Sua conexão em Gorse, acabara de ver, tinha respondido a mensagem,
confirmando o encontro para mais tarde. Era só o que importava.

Mas, como já estava indo na mesma direção cie Skelly, Hera concluiu não
haver mal algum em descobrir qual era a história dele...
11
Kanan tinha vivido por anos a fio sob o estresse diário de ter um segredo; mas
nunca deixara essa tensão transparecer, tanto por necessidade quanto por
escolha. Melancolia só atraía mais melancolia, ele julgava. Agir feito vítima só
piorava as coisas.

Gorse e Cynda dariam um estudo de caso e tanto. A dança gravitacional entre


os dois deixava ambos sob estresse constante, mas Gorse sentia as consequências
de forma pior. Cynda, com suas entranhas formadas por estruturas de cristal,
conseguia manter tudo junto, apesar de alguns atos insensatos de sabotagem.
Gorse, com a superfície enlameada e mole por baixo, sofria com terremotos
incessantes cada vez que Cynda se aproximava. Não ajudava em nada o fato de
seus moradores estarem presos numa noite permanente.

Mas até mesmo um perdedor frustrado merecia uma folga de vez em quando,
e Gorse tinha a sua a cada lua cheia. Cynda ficava enorme e gloriosa no céu por
dias a fio. As luzes das ruas eram ofuscadas. O crime diminuía ligeiramente. E
viver em Gorse já não parecia assim tão ruim.

Cynda estava a poucos dias de ficar cheia, Kanan reparou ao caminhar pela
rampa da Expedient rumo ao asfalto. Já não estaria mais ali a tempo de vê-la..
Olhando em direção a um conjunto de prédios baixos logo em frente, avistou um
vulto corpulento se aproximando, com quatro braços e vários coldres pendurados
em torno da cintura. Era Gord Grallik, chefe de segurança e marido de Chefe
Lal. Gord era um tipo decente, Kanan pensou: capaz de ser completamente
apaixonado pela esposa.

– Kanan. Fiquei sabendo do desmoronamento, feliz de te ver bem.

– E assim pretendo continuar– Kanan disse, tirando seu crachá de


identificação.– Pode dar minha nave pra alguém.

– Eu não vou te julgar– Gord disse. Ergueu dois de seus braços, recusando o
crachá.– Você deveria conversar com a Lal primeiro. Ela não vai gostar nada de
te ver indo embora.

– Não vou mudar de ideia.

– Dá urna passada lá com o Primo Drakka e vê se come alguma coisa. A Lal já


vai estar por aqui até você ter terminado.– Gord olhou para a lua e sacudiu a
cabeça.– Ela com certeza está exausta.

A cabeça de Kanan ainda estava na parte sobre comida. Teria de ver Lal para
receber seu último pagamento, de qualquer jeito. Lembrando-se de algo mais,
estalou os dedos:

– Ah, e eu te trouxe um presentinho de despedida.

Gord foi seguindo Kanan pela rampa até a nave. Lá dentro, no banco do
passageiro, encontrou Skelly sentado, ainda amarrado ao assento. Estava com
um pano enfiado na boca e sangue nos olhos.

– Mminft? Mrrfiff

– Mas o quê...– Gord levou uma das mãos à boca.

– Aqui está seu "homem-bomba"– Kanan disse.– Não precisa de recompensa.

Gord se abriu de rir. Todo mundo na Moonglow conhecia a fama de Skelly. O


chefe de segurança examinou a fivela de contenção esmagada.

– Eu vou ter que cortar isso aqui pra soltá-lo.

– Eu sugiro que você tire o banco com ele junto– Kanan rebateu, dando uns
tapinhas no ombro de Gord ao se virar para ir embora.– Você não vai querer que
o pano saia da boca e ele comece a tagarelar de novo.

O conde Vidian estava sentado no compartimento de tropas da Cudgel,


sozinho, ao decolarem de Cynda. As naves auxiliares tinham acabado de pousar,
já não havia mais razão para ele continuar na lua. Os stormtroopers, incluindo
sua escolta pessoal, tinham permanecido lá para investigar o caso.

O que quer que tivesse acontecido na Zona 42, tinha deixado várias áreas
interditadas. Se tivesse sido um ato deliberado de sabotagem, as forças de Vidian
descobririam. E se o responsável tivesse sobrevivido, bem... ele também
descobriria. Ou os stormtroopers encontrariam o culpado em Cynda ou os
transceptores de vigilância o encontrariam em Gorse. Não havia urna terceira
possibilidade. O Império não podia ser desafiado daquela maneira.

Não... não devia ser desafiado nunca. O Império era o único caminho.

O Império, no entendimento de Vidian, era o resultado lógico de um milênio


de governo galáctico. Durante séculos, a República se expandira não pela força,
mas por exercer tranquilamente uma poderosa atração magnética em sistemas
satélites. A promessa de comércio com os mercados dos Mundos do Núcleo era
de grande valor, e a perspectiva inexoravelmente acabava atraindo mundos não
membros a uma cooperação cada vez mais estreita com a corporação.

Mas a República era sempre lenta demais para convidar novos sistemas a
participarem. A incorporação de territórios tendia a diminuir o poder político dos
senadores já existentes. Os novos membros, invariavelmente, alinhavam-se em
blocos, com sua própria vizinhança galáctica, ainda que a maioria dos senadores
no controle dos convites representasse mundos próximos ao Núcleo. A
República repelia ao mesmo tempo em que atraia. E havia ainda outras
circunscrições eleitorais que acabavam desacelerando a expansão. Os burocratas
da República não gostavam nada dos custos de ampliação dos serviços e
proteção às regiões mais distantes. O resultado era que muitos sistemas estelares
úteis ficavam esperando, às vezes por séculos, para participar da República,
mesmo às custas de sua energia total.

Na cabeça de Vidian, o imperador Palpatine tinha levado uni sopro de


sensatez às políticas de crescimento da República. Ao se apresentar aos
secessionistas como chanceler, sinalizara que a República já não era mais algum
tipo de clube social do qual se poderia sair à vontade. Tal movimento acabou
despertando a atenção de Vidian, e seu apoio financeiro. Agora, como
imperador, Palpatine tinha mostrado todo seu impero, ou melhor dizendo, seu
zelo quando se tratava de expansão. G, mundos do Núcleo haviam sempre sido o
coração da Repáblica, extraindo nutrientes a partir da periferia. O imperador
tinha se apossado desse modelo biológico e o refinado, aperfeiçoando-o. O
Império estava crescendo de forma robusta, já sem a gordura da burocracia para
entupir suas veias e artérias. Um único cérebro se encontrava no comando, e não
uma agregação de mentes com ideias conflitantes.

O imperador tinha feito tudo certo, até então. Ter selecionado o conde para
representar seus interesses foi sua melhor decisão. Decerto, ninguém poderia ser
mais eficaz na promoção das metas do imperador. Vidian era o homem imperial
perfeito, analisando tudo sem o menor sentimentalismo, remodelando o que
julgava ser necessário e seguindo em frente.

Mantinha um único ritual, mesmo esse, puramente prático. Sentado à luz


baixa, ouvindo tão somente os sinais corriqueiros de alerta vindos da cabine de
comando e o zumbido das engrenagens da lambda, Vidian deu voz de comando a
seus pulmões para que soltassem um profundo suspiro. Seus olhos proféticos já
não tinham mais pálpebras, nem a menor necessidade para elas, então os ajustou
para que não exibissem nada. O que Vidian iria fazer requeria o mínimo de
distrações possível.

A mente de Vidian. era seu trunfo mais poderoso e, ainda assim, ele lidava
todos os dias com suas limitações. Seus olhos artificiais registravam as paisagens
dc toda sua vida acordado, mas a capacidade de armazenamento era limitada: os
dados deveriam ser expurgados a cada ciclo de sono. Nos sonhos de Vidian,
onde outrora havia imagens, agora, quando ele dormia, não havia nada.

Existiam tecnologias cibernéticas mais invasivas que poderiam ter concedido


a Vidian urna memória quase total, o que lhe permitiria processar toda a
informação a sua disposição. Mas ele tinha decidido dispensar tal upgrade,
temendo o risco de prejudicar qualquer que fosse a química de seu cérebro,
responsável por seu gênio extraordinário. Um medo irracional, talvez, mas
apesar de nunca ter acreditado na Força mística dos fedi,

aceitava que certas coisas eram capazes de desafiar a lógica quando se tratava
do poder da mente.

Então, todas as noites, Vidian se sentava sozinho, corno agora, e recapitulava


os acontecimentos do dia, decidindo quais imagens guardaria no armazenamento
permanente. Embarcações cargueiras a caminho de Cynda, sim. Nucas de
terceiros em inúmeros corredores, não.

Não armazenou as imagens da morte do diretor da associação. Sabia que não


haveria repercussão alguma, e não sentia lá tanto prazer assim com atos de
violência, além da satisfação em colocar uma empresa ineficiente nos trilhos.
Salvou a imagem do velho que o confrontara para se lembrar de acompanhar as
novas restrições de idade, mas apagou o rosto do pistoleiro estúpido. O salvador
do velhote, provavelmente, não deveria passar de mais um esporrento, corajoso
demais para seu próprio bem. Não havia nada de especial nele, tampouco.

A não ser pela palavrinha que tinha dito: Moonglow. O que levou Vidian a
fazer uma pausa para reflexão.

Tinha visto o nome da Moonglow Polychemical pela primeira vez enquanto


fazia sua pesquisa avançada sobre Gorse. Quase não lhe deu atenção. Era uma
empresa pequena, provavelmente nova, ou talvez uma fatia de algum
conglomerado falido, que era agora administrada pelos

próprios funcionários. Esse truque nunca dava certo, ele pensou. Por que as
pessoas ainda insistiam em tentar reanimar os mortos?

Ao puxar os arquivos da empresa na HoloNet, no entanto, acabou sendo


surpreendido por seus números. O tolo com a arma de raios em punho estava
correto sobre a eficiência da empresa. As metas de produção eram menores em
relação às outras corporaçóes, mas era a única que chegava a algo próximo
delas. Talvez não fosse de toda descartável, ele pensou: algumas ideias para
serem roubadas em favor de outros fabricantes.

Raspando ideias no fundo da lata, Vidian pensou. Atormentava-lhe o fato de


que o estado das coisas em Gorse era tal que ele teria de recorrer a...

– Mensagem de Coruscant, senhor.

Ao som da voz da capitã, os olhos de Vidian tremeluziram, restabelecendo sua


visão, e a área de passageiros da Cudgel reapareceu ao seu redor.

– Transfira.

Um vulto surgiu em sua frente na forma de um holograma. Robusto e bem-


vestido, o jovem loiro juntou as mãos e fez uma reverência:

– Conde Vidian! É um prazer revê-lo.


– Do que se trata, barão?

Vidian já não era de cordialidades, muito menos ao barão Lero Danthe de


Corulag. O herdeiro abastado de uma dinastia produtora de droides dispunha de
uma sinecura na administração imperial, mas não se cansava de buscar uma
forma de transformá-la em algo mais, geralmente às custas de Vidian. Como
agora.

– O imperador embarcou em várias iniciativas novas e surpreendentes

Danthe disse, radiante.– Precisamos de mais torilídio.

– Já estou ciente das cotas...

– Essas são as cotas antigas. O imperador deseja mais.– Os olhos de Danthe se


arregalaram com um quê de malícia faceira.– Cinquenta por cento a mais por
semana.

– Cinquenta?

– Eu disse ao imperador que você estava presente no local, e se havia alguém


capaz de fazê-lo, seria você.

– Estou certo disso.– Vidian sabia bem que Danthe nunca seria capaz de dizer
tal coisa; afinal, ela não implicava em esfaquear o ciborgue pelas costas.

– Claro, se minhas fábricas de droides puderem ajudar de algum modo, você...

– Câmbio, desligo– ele o interrompeu, cortando a transmissão.

Ainda fervia de raiva um minuto depois quando sentiu o baque indicando a


chegada da nave auxiliar na plataforma de desembarque da Ultimatum. Não
havia "iniciativas novas", coisíssima nenhuma, Vidian bem sabia; era tudo uma
armação de Danthe, parte de sua busca interminável pela posição do conde no
Império. Vidian já tinha frustrado os planos do arrivista no passado, sempre que
tivera uma chance, mas aquilo ultrapassava todos os limites. Pelo que Vidian
tinha visto em Cynda, mesmo cinco por cento a mais seria um desafio e tanto.

Com um datapad em mãos, a capitã Sloane o encontrou ao pé da rampa de


desembarque.
– O senhor pediu atualizações a cada meia hora sobre o desmoronamento da
câmara– eia disse.– Confirmamos que foi mesmo intencional. Uma equipe de
detonação localizou um dispositivo armado pelo fugitivo Skelly.

Vidian não pareceu nada surpreso:

– equipe sobreviveu. Como eles conseguiram escapar?

– Alguém bancou o herói– ela disse.– Estamos tentando descobrir como...

– Esqueça– Vidian retrucou, mirando o espaço através do vão de desembarque


magneticamente blindado. Depois de um longo tempo, ele assentiu.

– É chegada a hora da segunda fase.

– Da inspeção, o senhor quer dizer?

Vidian se Voltou a ela:

– É claro. Não por outra razão estamos aqui. As minas de toriliclio na lua são
apenas parte do problema. As refinarias. Devo ir a Gorse. Sloane pestanejou:

– Eu pensei que o senhor tinha decidido que seria mais eficiente se encontrar
com os gerentes planetários aqui mesmo, via holograma.

– Sei bem o que decidi. Não me questione!– Um segundo se passou, e ele


diminuiu o volume de sua voz..– Meus planos mudaram. Vou precisar de sua
assistência em terra.

– Eu... não sei se entendi bem, senhor. A segurança planetária deve ser capaz
de coordenar os esforços do senhor.

– Capitá, tenho várias outras providências a tomar que não serão nada
populares entre as massas– cie disse, pronunciando a última palavra com um
desdém á parte.– Corno acabamos de ver, o povo precisa saber que minhas
medidas irn todo o peso do poder imperial.– Ele a analisou e refletiu por um
tempo antes de prosseguir:– Você está no comando da Ultimatzon apenas
enquanto o capitão Karlsen se encontra destacado em outro lugar, não?

Sloane desviou um pouco o olhar.


– Sim, senhor. Há mais capitães do que destacamentos.

– Então, temos de construir destróieres estelares mais depressa. Talvez


Karlsen possa retornar a um desses novos, assim você permaneceria na Ultimam
771.

Ela o encarou nos olhos:

– Mas ele é mais experiente.

– Eu tenho alguma influência em determinados quartéis. Sirva-me bem, e sua


atual posição pode acabar se tornando permanente.

Sloane engoliu a seco antes de endireitar a postura.

– Obrigada, senhor.– Ela o saudou desnecessariamente e partiu.

Vidian se virou para mirar o espaço. Gorse pairava ao longe, na escuridão de


sempre; apenas algumas luzes que se esgueiravam esporadicamente por entre as
nuvens davam alguma indicação de que o corpo celeste negro não era apenas
mais uma parte do imenso vazio do espaço.

Gorse já havia lhe desapontado antes, de maneiras que ninguém conhecia. E,


agora, o planeta e seus trabalhadores preguiçosos ameaçavam fazer mais do que
simplesmente decepcioná-lo.

Mas ele saberia lidar com isso. De forma eficiente, como só ele era capaz.
12
Aquele tinha sido, sem sombra de dúvidas, o pior turno que Zaluna conseguia se
lembrar.

O novo estado de segurança já fora executado antes, quadruplicando a carga


de serviço dos Mynocks da Myder. Os funcionários da segurança imperial,
figuras corriqueiras nos elevadores da World blindo w Plaza, rastejavam-se por
todos os lugares, mas o que fez Zaluna ficar realmente surpresa foi a presença de
stormtroopers no prédio. Estavam todos seguindo as pistas levantadas por seu
escritório, enquanto outros se preparavam para caçar encrenqueiros antes da
visita iminente do conde Vidian a Gorse, conforme ela já tinha apurado.

As fábricas de Gorse já tinham sido visitadas por outros figurões antes, mas
nada nesse nível. O papel de Vidian na administração do imperador não era
nenhum segredo. Fora um empresário abastado antes de entrar para o gabinete
imperial. O pobre planeta e sua lua de riquezas eram recentes aquisições ao seu
portfólio: ele nunca tinha colocado os pés em Gorse antes, até onde ela sabia.
Então, se as medidas de segurança eram excepcionais, ao menos eram
explicáveis. Gorse precisava mostrar serviço ao novo chefe. O fato de o próprio
patrão ter ordenado tais medidas era apenas um incentivo a mais. O Regime de
Segurança Nível Um tinha causado um frenesi e tanto, é verdade, mas fora um
frenesi decretado.

Enquanto seus Mynocks perscrutavam as cavernas de Cynda atrás de Skelly,


Zaluna ficou procurando pelo indivíduo de cabelos escuros com quem ela tinha
visto Skelly discutindo mais cedo no elevador, no caso de o sujeito saber de algo.
Ainda não havia uma ficha na Transcept sobre ele, demorava um pouco até que
os trabalhadores migrantes obtivessem uma, mas ela já o tinha visto várias vezes
através de diversas câmeras nas últimas semanas. O "piloto robusto", como ela o
apelidara– sempre conduzindo seu hovercart e cuidando da própria vida, exceto
quando não estava.

Tinha acabado de descobrir o nome do piloto nos registros da Moonglow ao


encontrá-lo numa das câmeras de Cynda, salvando um senhor de idade dos
maus-tratos do assustador conde Vidian. Vidian, que, momentos antes, já tinha
feito algo contra o diretor da associação: as câmeras não puderam registrar
exatamente o quê, mas Palfa de repente aparecera morto e Vidian tinha
remotamente ordenado que os registros de sua reunião fossem expurgados– tipo
de coisa que vinha acontecendo com bastante frequência por aqueles dias.

E por ter se insurgido contra Vidian, Zaluna acabou decidindo premiar Kanan
Jarrus, deixando-o em paz. Já tinha sido intimidado o bastante por um dia.

O trabalho prosseguira normalmente por um tempo. Em seguida, veio a


notícia da explosão e do desmoronamento nas minas de Cynda, e tudo
degringolou de vez.

Agora, os imperiais encontravam-se ali no escritório, interrogando Zaluna e


vasculhando todas as gravações dos eventos ocorridos na lua. Já estavam nisso
havia horas. Enquanto os relatórios públicos de Cynda atestavam que o
desmoronamento tinha sido um fenômeno natural, os oficiais claramente
consideravam que um sabotador fora o responsável pela detonação e já tinham
levado todos os arquivos sobre Skelly e uma dezena de outros potenciais
suspeitos que estiveram na lua. Para piorar ainda mais as coisas para o lado dos
Mynocks, poucos da comunidade mineira pareciam acreditar na cobertura dos
fatos, o que acabou resultando em declarações sediciosas e ainda mais
imprecisas de serem avaliadas por sua equipe. Era como se cada mineiro prestes
a deixar Cynda no fim do expediente tivesse dito algo sobre o caso num lugar
monitorado.

Fora que a mera presença dos stormtroopers deixava rodos aturdidos.


Intelectualmente, Zaluna sabia que as figuras vestidas de branco defendiam a paz
e a ordem, mas não havia dúvidas a respeito do quão intirnidadores pareciam.
Como deveria ser tê-los na porta de casa ou no local de trabalho? Ela sempre
tinha se perguntado isso.

Pois todos descobriram. Hetto, normalmente urna fonte de pequenas


inconfidências na segurança do escritório ou durante o isolamento dos passeios
com Zaluna, estava visivelmente nervoso. Não tinha dito nada desde que os
imperiais entraram na sala, mantendo seus olhos fixos no trabalho sempre que os
oficiais se aproximavam.

Assim que teve uma chance, ele esticou o braço e puxou a manga da chefe:

– Eles estão falando de mim?– ele sussurrou.

– De você? Por que eles estariam...

– Deixa pra lá.

Ela suspeitava do porque de tanta preocupaçáo da parte dele. Se Skelly tinha


de fato provocado todo aquele estrago na lua, sua equipe levaria a culpa por não
ré-lo detectado antes. Mas a solução era um tanto óbvia: vindicação. E, assim,
ela continuou pesquisando a rede de vigilância de Cynda na esperança de avistar
Skelly.

Foi então que Zaluna teve um estalo repentino. Gorse!

Interrompeu sua busca nas gravações das câmeras de vigilância lunares e, em


vez disso, iniciou uma nova varredura em Gorce. Acostumada à rotina, levou
menos de um minuto para encontrar uma combinação vocal e retiniana.

— Achei– Zaluna anunciou. Por todo o ambiente de trabalho, os imperiais


em visita fizeram silêncio.– Skelly está em Gorse. No escritório da Moonglow
Polychemical, lá em Shaketown.– Era uma das gravações secretas, transmitidas
pelas câmeras de segurança corporativa.

– Aqui em Gorse?– O oficial no comando pareceu alarmado.– Como foi que


ele chegou até aqui?– O corpulento tenente subiu correndo os degraus até o
estrado de Zaluna e, sem a menor cerimônia, empurrou-a de lado.– Deixe-me
ver. Saia da frente, criatura!

Zaluna chegou a pensar em dar um pisão no pé do oficial mal-educado. Em


vez disso, preferiu xeretar a conversa entre eles pelo fone de ouvido.

– Levaram Skelly em custódia. O gerente da fábrica está entrando em contato


com a segurança planetária nesse exato momento.
Era visivelmente o caso, pelo que dava para ver nas imagens: tanto ela quanto
os oficiais puderam vislumbrar, com toda clareza, Skelly preso a urna cadeira e
sendo vigiado por um guarda Besalisk. Ela já tinha visto o tal guarda inúmeras
vezes ao longo dos anos.

O tenente se virou, bradando um comando, e três dos stormtroopers saíram da


sala.

– Informe a Ultimatum– ele disse a um de seus ajudantes ao passar por ela,


deixando a plataforma.

Parece que a cheia aqui salvou o dia outra vez, Zaluna pensou, bufando na
esperança de que sua equipe não tivesse mais de passar por momentos
desconfortáveis como aquele. Não era nada fácil, tanto para os observados
quanto para os observadores, e ela nunca tinha visto o pobre Hetto tão agitado
assim. Ela se virou na direção da mesa dele, esperando encontrá-lo um pouco
mais aliviado.

Mas acabou não encontrando nada.

Zaluna ficou olhando ao redor por um tempo antes de perceber que ele estava
logo atrás dela, espiando-a através das prateleiras de plantas. Ele tinha

passado para o outro lado da plataforma, fora do alcance dos ouvidos

atentos dos imperiais.

– Você me assustou– ela disse, sorrindo aliviada. J Tá pensando em

assumir a jardinagem?

Hetto estava tentando, sem sucesso, ser indiferente, ela pensou, remexendo a
terra nos vasos de suas estásias amarelas.

– Eles não vão embora– ele disse em voz baixa.

Zaluna lançou um breve olhar por trás do ombro. O bando de agentes ainda
estava num canto, conversando furtivamente sobre algo. Ela voltou-se outra vez
a Hetto, tentando tranquilizá-lo.
– Não se preocupe. Já encontramos o Skelly de novo.

– Não é isso.– Ele a encarou de volta.– Faz de conta que você deixou cair
alguma coisa.

Percebendo uma seriedade atípica no tom de voz dele, Zaluna pegou um dos
vasos na prateleira mais alta e se ajoelhou, fingindo trocar o pires. Movimento
que a deixou cara a cara com Hetto, que passou o braço pelos balaústres e
agarrou as mãos dela.

– Zaluna, eu... me meti num rolo ai. Tem alguém com que eu venho
conversando na HoloNet sobre... deixa pra lá. Eu vou me encontrar... quer dizer,
eu ia me encontrar com ela hoje à noite.

– Espera aí. Do que você...

Ele colocou as mãos dela no vaso:

– O endereço tá num bilhete do lado de fora. Vai sozinha. Por favor, Zal.

Zaluna olhou para o vaso. Havia algo enterrado pela metade. Parecia um cubo
de dados, uma mídia de armazenamento de alta densidade. Ela apertou os olhos
e sacudiu a cabeça. Uma mulher na HoloNet?

– Ai, ai, Hetto, no que foi que você se meteu?

Nada que você já não tivesse previsto.– Ele baixou a cabeça e falou de modo
sombrio, mais sério do que ela jamais o escutara falando antes.– Se a minha
ajuda já significou alguma coisa pra você, você vai entregar isso por mim. E...
desculpa.– Dito isto, soltou as mãos dela e se afastou da balaustrada.

Perplexa com aquela breve conversa, Zaluna pegou o vaso e ficou de pé,
tentando descobrir em qual direção Hetto teria ido. Nada difícil de ser
encontrado, o rapaz. O imperial grandalhão já estava de volta, e havia parado
Hetto no meio do caminho, acompanhado por stormtroopers.

– Hetto é você?

Hetto o encarou:
– Sou sim.

– Você está preso.

– Sob qual acusação?

– Crime de sedição. Temos uma gravação dos seus comentários, comentários


no intuito de perturbar a ordem.– O tenente deu um puxão no ombro de Hetto.–
Tudo enquanto trabalhava aqui... aqui! Você abusou da confiança do Império
Galáctico!

Hetto curvou o lábio superior, contrariado:

– Império Galáctico? Eu acho que você tá confundindo as coisas. Você chegou


a ver a logomarca no prédio? Eu trabalho pra Transcept Media Solutions!

– E a mesma coisa! Você trabalha pra nós, e não admitimos traidores em nosso
meio.

O tenente apertou os olhos, franzindo suas espessas sobrancelhas vermelhas, e


olhou em volta, desconfiado.

– E quanto ao resto de vocês? Será que nenhum de vocês chegou a ver o


sabotador em Cynda? Talvez tenham todos olhado na direção oposta!

Um burburinho atordoado surgiu em meio aos outros membros da equipe de


vigilância. Zaluna adiantou-se para defender seu pessoal:

— Opa, pera lá! Esta equipe tem feito tudo o que Império vem pedindo!

– É melhor que você esteja certa– o tenente zombou.– Tudo o que aconteceu
hoje aqui será revisto. Se há alguma coisa a ser encontrada, nós a
encontraremos.– Ele apontou para Hetto: Nós o pegamos, não foi?

Hetto reinou escapar, mas os stormtroopers o agarraram pelos braços.

– Escutaram bem, Mynocks?– de se pronunciou.– Vocês estão todos sendo


observados também.

Hetto encarou o tenente:– Observem a gente, observem todo mundo! Bem,


senhores, vão em frente e revistem tudo o que vocês quiserem. Ninguém aqui
tem nada a ver com esse desmoronamento estúpido, não que vocês se importem
com isso!

– Talvez– o oficial retrucou.– Mas você sabe muito bem o que andou dizendo
por aí sobre o Império, Hetto. E nós também.

Zaluna desceu de sua plataforma, prestes a partir para cima dos stormtroopers,
se fosse preciso.

– Flerto, eu juro que não sabia de nada disso!

Hetto a encarou e assentiu:

– Eu sei, Zal. Esse aqui não é o único andar nesse prédio. Por esses tempos,
todo mundo tá sendo observado. Todo mundo. Eu só sou mais um idiota.

Então, o tenente apontou em direção à porta e os stormtroopers saíram


empurrando Hetto à frente deles. Os demais funcionários se olhavam,
consternados, em estado de choque.

Da porta, Hetto olhou para trás, mas não em direção a Zaluna. Seu olhar
estava voltado à planta amarela na prateleira superior. E, então, captores e
prisioneiro foram embora.

Um silêncio recaiu sobre o ambiente de trabalho.

Com os olhos brilhando, uma jovem mulher encarou Zaluna:

– O Hetto já trabalha com a gente faz dez anos.

— Vinte.

– O que é que vai acontecer com ele? Você deve saber o que... o que se passa.

Zaluna endireitou a postura, desconfortável demais para encarar alguém nos


olhos.

– Eu tento não perguntar. Todos nós aqui... somos todos uma ferramenta capaz
de impedir que coisas ruins aconteçam. Como fizemos, ou melhor dizendo,
poderíamos ter feito em relação ao que aconteceu hoje em Cynda.– Ela sacudiu a
cabeça.– Quanto ao resto, eu não sei de nada.

Os agentes imperiais entraram de novo na sala.

– De volta ao trabalho, Mynocks– Zaluna disse, soando resignada.

Mas só soando, pois, após um breve momento de reflexão, seguiu a passos


largos de volta a sua plataforma e fingiu regar suas plantas.

Era mesmo um cubo de dados, tudo bem. E enterrado junto com ele havia um
pequeno bilhete com a letra de Hetto, no qual se lia o nome de uma cantina local.
E urna palavra:

HERA.

Hera teria de agir depressa.

Tinha levado tempo demais para encontrar um lugar onde pudesse pousar sua
nave. Gorse era um mundo em retalhos, com uma indústria falida sobrepondo-se
à outra. Aquele solo lamacento nunca comportaria os imponentes skytowers dos
mundos da cidade-cânion; o que acabou acarretando em urna expansão urbana
horizontal que parecia não ter fim. Tinha finalmente encontrado um lugar
estratégico entre alguns prédios abandonados. Até então, seu percurso ali só a
levara de bairro em bairro, um pior do que o outro.

Chegou à sede da Moonglow bem a tempo de avistar um guarda Besalisk e


seus ajudantes carregando alguém amarrado a uma poltrona antigravitacional
para fora do cargueiro de explosivos que ela rastreara. Logo em seguida,
sumiram pela porta da fábrica; a essa altura, Hera já estava certa de que o
prisioneiro era Skelly.

Hera queria descobrir mais sobre o sujeito, mas ainda não sabia dizer se o
esforço valeria a pena. Skelly tinha evidentemente desnorteado os imperiais, o
que não deixava de ser urna coisa boa. Ele poderia ter alguma informação útil.
Ou poderia ser um desperdício total de tempo. Sua causa requeria uma
abordagem meticulosa, e não atos impulsivos. Ou pessoas propensas a eles.

Urna nave auxiliar corporativa pousou e uma mulher Besalisk desembarcou. A


chefe das operações por ali, Hera concluiu. O tempo estava se esgotando. Tinha
de tomar uma decisão, e logo. Pelo que podia ver, vultos sombrios começaram a
se reunir em frente ao prédio: criminosos, muito provavelmente, e já de olhos no
rumo dela. Conversavam, apontando em sua direção. Seja lá quais fossem os
planos deles em relação a ela, certamente não eram nada bons.

Mal sabiam, porém, que ela também já tinha seus próprios planos em relação
a eles.
13
Nunca tomes uma decisão crucial de estômago vazio. Um bom conselho de
Okadiah. Mas a comida n’O Cinturão de Asteroides era palatável apenas na
teoria, e já que Kanan Jarrus não iria mudar de ideia sobre deixar Gorse, também
não permitiria que sua última refeição fosse urna tigela de petiscos sortidos no
balcão de um bar. Especialmente depois do dia que tivera.

Restava-lhe a lanchonete ali perto da Moonglow. A poucos metros de onde


estava, atravessando a Avenida Quebrada (ninguém usava o nome oficial da rua,
Bogan), o estabelecimento tinha sobrevivido por anos e anos em meio a tempos
difíceis no bairro de Shaketown, não apenas pela qualidade da comida, como
também pela força de seu chef. O temperamento um tanto volátil de Drakka o
tornara notoriamente incapaz de trabalhar na empresa de mineração de sua
prima, Lal; mas– por causa de seus quatro braços comicamente musculosos–
bem capaz de despachar qualquer desordeiro.

Além disso, até que preparava um bom guisado.

– Obrigado Kanan disse, pegando outro prato fumegante.

O cozinheiro não respondeu, mantendo sua crista bege e ossuda para baixo,
enquanto suas quatro mãos enormes se encarregavam das panelas e frigideiras.

– Eu vou sentir falta dessas conversas espetaculares– Kanan acrescentou.


Drakka ergueu os olhos apenas pelo tempo de rosnar, um ruído assustador que
ficava ainda pior pela forma corno a barbeia carnuda sob sua boca vibrava. Logo
em seguida, retornou a sua cozinha.

Por Kanan, tudo bem. Orgulhava-se de ser uni lobo solitário. Claro,
conversava com várias pessoas todos os dias: aquelas com quem tinha de lidar
de modo a realizar seu trabalho. Na n-laioria das vezes, porém, não trocava mais
palavras além do estritamente necessário. E não que fosse por conta dos
segredos de seu passado, não; simplesmente lhe convinha. Certas pessoas sabiam
ser insuportáveis.

Okadiah era a única exceção. O velho tinha sido amigável desde o principio,
oferecendo ao andarilho um lugar para ficar e, mais tarde, uni emprego. A
mineração de torilidio tinha trocado Gorse por Cynda, mas as pedreiras na zona
sul da cidade permaneciam no mesmo lugar, desvalorizando um tanto o valor
imobiliário da área; foi onde Okadiah decidira abrir sua cantina, no bairro
apelidado de Fosso". Tinha contratado Kanan para conduzir seu antigo hoverbus,
levando os mineiros para cima e para baixo., entre as instalações da Moonglow e
o bar. Mais tarde, recomendara Kanan à vaga para transportar explosivos em
nome da Moonglow. Ninguém em Gorse era tão gentil com os recém-chegados.

Mesmo assim, Kanan mantinha o velho a certa distância. Sempre encontrava


alguém como Okadiah em todos os planetas que visitara: urna pessoa disposta a
ajudar um estranho, sem maiores perguntas, E Kanan tinha abandonado todos
aqueles mundos sem dizer adeus a nenhuma delas.

Poderia até ser irônico, caso Kanan se preocupasse em refletir sobre essas
coisas. Os fedi sempre fizeram questão de pregar contra novas conexões de
modo a evitar que seus acólitos atribuíssem um valor exagerado a qualquer tipo
de relacionamento. Ao fazerem-no, tinham involuntariamente treinado seus
alunos para serem os fugitivos perfeitos, capazes de cortar relações e dar no pé a
qualquer momento. Contanto que não deixassem de se preocupar, poderiam
seguir adiante indefinidamente.

Mesmo assim, Kanan pensou enquanto comia, Okadiah era um pouco


diferente dos outros. Kanan nunca tinha conhecido seu pai; Padawans em
potencial tendiam a ser separados de suas famílias ainda muito jovens. Kanan só
tinha conhecido seus mentores, como mestre Billaba. E, apesar de não saber por
experiência própria, suspeitava que pais deveriam ser um tanto diferentes. Um
pai também ensinava coisas aos filhos, mas sem todo aquele julgamento. Bons
pais, pelo menos. E, nesse ponto, Okadiah provavelmente tinha sido bem mais
paternal do que qualquer outro patrono que Kanan encontrara em suas viagens.
Okadiah não se importara com o comportamento irritadiço de Kanan, sua
bebedeira ou seus atrasos; o velho sempre estava ao lado dele, boa parte do
tempo. E com dezenas de trabalhadores em seu destacamento de mineração,
Okadiah sempre poderia eleger alguém pior em todos esses pontos.

Mas, por alguma razão, Okadiah nunca o tratara como um mero membro da
equipe. O velho tinha enxergado algo nele, Kanan só não sabia dizer exatamente
o quê, e sempre agira da maneira mais correta possível. Okadiah nunca tentara
ajudar o andarilho à força; deixava Kanan decidir qual auxilio gostaria de
receber.

Isso até que tinha funcionado, na maioria das vezes. Pois, apesar de Kanan
nunca ter compartilhado segredo nenhum sobre suas origens com seu capataz,
ele tinha permanecido em Gorse mais tempo do que pretendia. O transporte de
explosivos, por pior que fosse; a casa logo em frente ao bar; e Okadiah, seu
anfitrião: tudo isso fazia de Gorse um lugar mais habitável do que qualquer outro
canto em que ele tinha tentado ficar.

Mas sabia bem tudo o que o mundo tinha a oferecer. E havia várias e várias
coisas que ele não perderia por nada. E uma delas estava logo ali, bem à porta
atrás de si.

– Suicida! Você ainda tem coragem de dar as caras por aqui, depois da última
vez?

Kanan ergueu os olhos em direção ao espelho atrás da grelha, já sabendo


quem era seu interlocutor.

– Olá, Charko– ele disse. Levou sua mão ao coldre de ombro, mas, fora

isso, nem se mexeu.

Charko, dois metros de pura mesquinhez Chagriana e chifruda, não seria


capaz de botar os pés na lanchonete de Drakka. O cozinheiro guardava não
apenas uma, mas quatro enormes armas de raios atrás do balcão. Em vez disso,
Charko limitou-se a gritar da porta aberta feito um idiota.

– A gente tá só te esperando, piloto. Sai dai e vem brincar com a gente, vem.

O cozinheiro Besalisk falou alguns palavrões e avançou rumo a suas armas.


Charko não esperou para ver. Fechou a porta com força. Despreocupado, Kanan
terminou seu guisado enquanto Drakka contornava o balcão com quatro armas
em quatro mãos. Um Besalisk armado até os dentes, defendendo seu
estabelecimento, era um fator de equilíbrio e tanto.

Charko nunca ia a lugar algum sem, pelo menos, meia dúzia de membros de
sua gangue, os Sarlaccs. O nome vinha de um monstro voraz que consistia
basicamente de urna boca; Kanan considerava a denominação adequada. Os
Sarlaccs de Charko tinham um apetite incessante pelos créditos de qualquer um
que fosse tolo o suficiente para passear pelas ruas da área industrial. As
atividades das gangues tinham fornecido uma grande oportunidade comercial a
Okadiah: abrir sua cantina do outro lado da cidade e transportar os mineiros em
segurança pelos pontos de conflito.

Por três vezes, Charko tentara (e fracassara) roubar os créditos ganhos às


duras penas de Kanan enquanto ele caminhava pela Avenida Quebrada. Na
terceira, Kanan acabou quebrando um dos chifres da cabeça de Charko; o
Chagriano tinha jurado vingança.

– Eles ainda estão lá fora?– Kanan perguntou, sem levantar os olhos.

– Subiram a rua pra conversar com alguém– Drakka resmungou.– Mas sim,
eles ainda estão lá. Idiotas.– Fechou a porta e voltou a sua cozinha.

Bem, não faz sentido nenhum deixar trabalho inacabado pra trás, Kanan
pensou, esfregando o rosto. Empurrou a tigela com uma das mãos e sacou sua
arma de raios com a outra. Kanan foi caminhando com toda cautela até a
entrada, pistola em riste. Empurrou a porta com a ponta do pé.

– Ei, feioso!– ele gritou.– Onde foi que você se escondeu?

Já do lado de fora, avistou a silhueta chifruda inconfundível de Charko em


meio a um grupo sombrio mais ao longe. Havia oito ou nove deles, todos
membros do bando de Charko, mas eles ignoraram Kanan e continuaram a
conversar com o outro sujeito.

Antes que Kanan pudesse reparar em mais detalhes, o grupo se dispersou


depressa, dividindo-se em grupos de três pessoas e sumindo pelos becos,
enquanto quem quer que fosse o interlocutor deles permanecera onde estava, a
uns vinte metros de Kanan.

Alguma coisa disse a Kanan para guardar sua arma. Ao fazê-lo, o observador
se virou em sua direção e exclamou:
– Licença!– Não dava para ver o rosto do sujeito, mas era urna voz feminina,
quase melódica.– Onde é que eu posso encontrar a plataforma repulsara de
entrada da Moonglow?

O chão irrequieto sob os pés de Kanan retumbava quando ela abriu a boca
para falar, mas ele não era capaz de ouvir nada. Ainda estava tentando processar
aquela voz, tão calorosa e educada que destoava totalmente de uma rua em
Shaketown. Ficou tão surpreso que só conseguiu dizer:

– Hein?

– Esquece– o vulto disse de maneira afetada.– Eu mesma encontro.

Girando sua capa, ela seguiu na direção oposta.

Kanan, que nunca tivera uma missão na vida, então se viu com uma: descobrir
quem poderia ser a dona de urna voz corno aquela. No fim das contas, Gorse
ainda tinha uma última surpresa reservada a ele. Em nada importava que ela
estivesse conversando amigavelmente com urna gangue de rua. Seus pés
desenvolveram vontade própria e começaram a se movimenlar para segui-la.

Não foram muito longe, e muito menos o resto do corpo. Primo Drakka surgiu
por trás cicie> sentando dois pares de mãos enormes e engorduradas nos ombros
de Kanan.

Tinha esquecido de pagar a conta.


14
– Tomei conhecimento de que você capturou o suspeito de Cynda —disse a
cintilante forma holográfica de conde Vidian.– Vocé em breve receberá um
pelotão de stormtroopers para levá-lo sob custódia.

Skelly fechou a cara. Olhando por trás da imagem, podia ver Vidian, mas
Vidian não podia vê-lo. Ou talvez pudesse. Lal mal informara às autoridades que
Skelly se encontrava lá e o expert em eficiência já tinha entrado em contato.
Nada mais coerente, Skelly pensou, do que o Império ficar de olho em todos os
produtores de um composto tão estratégico quanto o toriliclio.

Mas ele não se incomodava nem um pouco com aquela espionagem toda.
Incomodava-se, sim, com os idiotas gorduchos de quatro braços ali na sala com
ele, que ainda não o tinham soltado da cadeira e, além de tudo, decidiram manter
a mordaça em sua boca quando Vidian ligou, apesar da insistência de seus gritos
abafados para ser autorizado a falar.

– Moonglow. Sua empresa é uma dessas mais novas?– Vidian perguntou.

– Só com esse nome, senhor– Lal respondeu.– Já trabalho nessa instalação há


mais de vinte anos.

Skelly ficou imaginando se um holograma seria capaz de perceber o quanto


ela estava nervosa por estar conversando com o homem do imperador. É melhor
eia ficar preocupada, Skelly pensou. Quando o Império enfim descobrisse o que
ele sabia, toda a Associação de Mineração poderia acabar ficando desempregada.

Lal prosseguiu:

– Somos uma empresa pequena, mas conseguimos avançar muito


na produtividade. Eu lhe garanto que não sabia de nada sobre...

– Não se preocupe com o sabotador– Vidian a interrompeu.– Eu já verei essa


produtividade de perto. Começarei minha inspeção por ai.

– Aqui?– Skelly pôde ver os olhos de Lal se arregalando. Ela juntou os dois
pares de mãos, suplicante:– Senhor... gostaríamos de um pouco mais de tempo
pra nos prepararmos pra sua chegada. Já estamos no fim de um longo dia de
trabalho. Eu sei que não temos dias aqui, mas seria possível...

Vidian abanou sua mão metálica em sinal de puro desdém:

– Ciclos diurnos! Tão desagradáveis. Tudo bem. Em doze horas, então.


Considere como uma recompensa por seu serviço. Mas não espere clemência
alguma de minha parte quanto a minha avaliação por conta de sua ajuda esta
noite. Entendido?

– Eu nunca esperaria por isso, senhor. A Moonglow estará pronta pra recebê-
lo.

– Que assim seja– a resposta veio friamente.– Um repulsar imperial chegará


em cinco minutos. Prepare o prisioneiro.– Vidian sumiu.

Lal ficou parada, estupefata, mirando o espaço vazio onde antes a imagem se
encontrava. Mais ao lado, Skelly pôde ver o marido dela, o chefe de segurança
Gord, coçando a cabeça.

– Você tinha dito que achava que o Império não iria inspecionar aqui– Gord
disse.– A gente é pequeno demais.

– Eu também não tê. entendendo.– Lal lançou um olhar a Skelly. —Talvez


seja por causa de você?

– Mmmm-Mmmftt– Skelly respondeu.

– Ah– Lal disse, desconcertada.– Gord, tira isso da boca desse homem!

Gord resmungou alguma coisa.

– Tá, tudo bem– ele retrucou, avultando-se sobre Skelly, sentado. —Mas eu
acho que isso não é urna boa ideia.

Com o pano finalmente removido, Skelly tossiu antes de voltar sua ira aos
Besalisks:

– Era Vidian! Por que foi que vocês não me deixaram falar com ele? Lal
arregalou os olhos em resposta:

– Eu já estava aterrorizada. Não ia deixar você falar com ele de jeito


nenhum!– Quase que em transe, ela se jogou em sua cadeira de escritório. —
Doze horas pra colocar esse lugar em ordem pra uma inspeção imperial?

Gord a encarou de volta:

– Tá tudo bem, Lal. Você administra um bom lugar. Eu vou trazer os primos
com alguns esfregões e vai ficar tudo bem.

Skelly revirou os olhos. O chefe de segurança era louquinho pela esposa, e a


pieguice dos dois era só o que faltava para completar aquele dia terrível.

– É melhor vocês se preocuparem mais com o que Vidian vai dizer depois de
conversar comigo. Vocês e qualquer urna dessas empresas que já tenha usado o
bebé pra derrubar uma parede.

– Esquece esse cara– Gord rebateu. Estalou os dedos.– Ai, Lal, eu quase
esqueci. Aquele camarada lá, o Kanan, disse que ia se demitir. Lal sacudiu a
cabeça, desapontada.

– Meu medo era esse. Foi o pior dia de todos. Ele quase morreu. Mas eu
queria agradecê-lo, ele acabou salvando as vidas de alguns dos meus
funcionários.

– Talvez você consiga fazer ele mudar de ideia– Gord disse. A campainha
tocou.– Tem alguém no portão da plataforma repulsora.

– Devem ser os stormtroopers– a esposa dele retrucou, olhando para Skelly.–


Eu sinto muito.

– Tá, beleza– Skelly disse.– Vocês é que vão sentir mesmo, depois.
Gord assobiou. Dois de seus assistentes Besalisks entraram e carregaram
Skelly, com cadeira e tudo. Eles o levaram ao curral enluarado ao lado do
complexo. Vários equipamentos abarrotavam o perímetro interno da cerca negra
e alta, deixando um caminho rio meio apenas largo osuficiente para um
caminhão repulsor passar.

Skelly sabia bem o que o esperava– estava cansado de ver os veículos de


transporte da tropa imperial pairando de um lado para o outro pela Cidade de
Gorse. Dessa vez, pelo menos, ele esperava que o levassem direto para Vidian.
Pôde ver quando Gord, deixando Skelly com os outros guardas, aproximou-se do
portão e o abriu.

Ninguém entrou.

Curioso, Gord saiu. Uni segundo depois, o Besalisk corpulento olhou para trás
e gritou para seus assistentes:

– Pessoal, é o Charko! Os Sarlaccs estão roubando nosso hovertruck!

Os guardas sacaram suas armas de raios e saíram correndo quase ao mesmo


tempo, a fim de se juntarem a Gord. Sozinho, Skellv sacudiu a cabeça. Num
bairro com uma incidência criminal como Shakerown, nenhum serviço de
entrega era seguro, nem mesmo quando os imperiais estavam a caminho.
Escutou disparos de raios vindos da rua. Talvez acabassem atirando uns nos
outros.

Então, ocorreu a Skelly que os Sarlaccs é que deviam ter tocado a campainha
no portão de entrada. Por que é que eles fariam isso? Antes que pudesse
ponderar sobre o assunto, sentiu a presença de alguém as suas costas. E algo
puxando a alça em seu ombro esquerdo.

– Você que é o Skelly.

– Hein? Ele olhou para sua esquerda e deu de cara com uma figura vestindo
um manto, agachada por trás da cadeira.– Sou, sim. Mas quem é...

– Hera– a voz feminina disse, estendendo uma de suas mãos verdes e


inserindo urna vibroadaga por baixo de urna das amarras dele.– E você tá caindo
fora.
– Não, perai– Skelly disse.– Eu não posso ir embora. Eu tenho uma história
pra contar!

Por um instante, a mulher parou de cortar, um tanto confusa. Mas só por um


instante.

– Eu posso te ajudar a contar essa sua história. Mas você tem que fugir!

– Pera!– Skelly não fazia a menor ideia de quem ela era ou sobre o que ela
estava falando.– Escuta aqui...

– Eu vou te escutar. Mas a gente tem que ir– ela disse, rompendo o último laço
e arrancando as alças.– Eu dei um jeito de distrair o Charko, mas nosso tempo tá
acabando.

Skelly olhou para a rua pelo portão. Estava vazia. Pôde ouvir, porém, Gord e
seus companheiros correndo e disparando suas armas de raios, e, além disso, o
zunido baixo de um veiculo repulsor.

Não sabia o que fazer. Os stormtroopers o levariam até Vidian, que tinha o
poder de interromper o que vinha sendo feito em Cynda. Mas, por outro lado,
talvez não. Fora que a mulher de manto tinha dito algo que ele não estava nada
acostumado a ouvir.

– Eu vou te escutar– ela repetiu.– Vai embora!

Skelly olhou para trás, mas já não encontrou ninguém. Escutando o som de
passos em direção ao portão, mesmo com um pouco de cãibra, forçou-se de pé.
Caminhando com certa dificuldade e um pouco de dor, seguiu rumo ao portão.

– Onde é que eu posso te encontrar?– ele berrou.

A resposta veio do outro lado da cerca, já fora do complexo:

– Eu te encontro!

E sumiu.
15
Kanan se apressava para contornar um prédio quando foi quase atropelado por
um transporte de tropa imperial. Ao ver o veiculo repulsor retangular
emborcando direto para cima de si, Kanan mergulhou de ponta-cabeça na estrada
lamacenta. O longo coletivo passou sobre ele, a poucos centímetros de sua nuca.

Agora, lá estava ele, jogado de cara na lama, bem no centro de um cruzamento


em Shaketown, e nada ainda da mulher com a voz sedutora.

Levantando-se do chão, Kanan espanou sua túnica com as mãos e ficou


parado no meio da rua ao notar mais movimentação, dessa vez a pé: dois
membros da gangue de Charko corriam em sua direção com longas barras de
ferro em mãos. O barulho de raios sendo disparados surgiu logo em seguida.

Kanan sacou sua arma, mas logo percebeu que os Sarlaccs não estavam atrás
dele e que os disparos, na verdade, eram endereçados a eles. Os arruaceiros
passaram correndo sem parar, fugindo de seus perseguidores, que, no fim das
contas, tratavam-se de Gord e seus guardas, descarregando as armas de raios nos
lombos dos bandidos.

– É melhor vocês darem o fora daqui, seus marginais!– Gord gritou,


disparando raios com todas suas quatro armas.

Kanan olhou para o fim da rua, na direção deles, e, em seguida, voltou sua
atenção ao trajeto feito pelos imperiais. Sacudiu a cabeça. Tô sóbrio demais, ele
pensou. Nada disso faz sentido!

Deu a volta no quarteirão. Ao longe, bem no fim de uma rua, pôde vislumbrar
a entrada de serviço da Moonglow. Não havia o menor sinal de nenhuma mulher
encapuzada por ali; apenas os mesmos stormtroopers de antes, desembarcando
do veículo repulsor. Kanan rapidamente deu meia: volta e se escondeu.

Não lhe pareceu boa ideia atrapalhar o serviço das pessoas erradas, fossem
stormtroopers ou não. Aquele trecho de Shaketown, ele se deu conta, tinha
acabado de passar por um terremoto; metade da área estava em reforma e quase
tudo se encontrava fechado. Resignado, Kanan decidiu desistir e retornar à
hospedaria de Okadiah. Eu sou um idiota, mesmo, ele pensou. Amanhá, eu caio
fora daqui. Já passou da hora de arrumar as malas.

Então, ouviu a voz outra vez.

– Cinquenta adiantado, cinquenta depois– a mulher disse —, conforme a gente


combinou.

Kanan correu os olhos pelo beco para ver o vulto encapuzado defrontando
Charko, cercado por vários membros de sua gangue. Parecia a cena
testemunhada por Kanan do lado de fora da lanchonete, só que não era. O local
ali era mais fechado; andaimes de construção subiam pelos edifícios de ambos os
lados da passagem. Havia um quê de ameaça na nova postura dos amigos de
Charko, um misto de humanos e outros seres, todos com pinta de durões. E
Charko, segurando um monte de créditos, não estava nada feliz.

– Se você tem cem créditos, talvez você tenha mais cem– o líder chifrudo da
gangue disse, dando um passo adiante. Avultando-se sobre a mulher miúda,
apontou para o manto negro que ela vestia.– Aposto que tem espaço aí pra muito
mais grana.

Kanan saiu de seu esconderijo, a passos largos, em direção ao grupo:

– Ei, Charko! Era eu quem você Lava procurando, esqueceu?

Charko e seus comparsas olharam para trás.

– Como esquecer?– o Chagriano retrucou.– Pra você, eu sempre arrumo um


tempinho.

Kanan notou as armas sendo sacadas. A sua já estava em mãos. Seis, não, sete
contra um. É, dd pro gasto.

Mas antes que ele pudesse disparar, a mulher girou repentinamente. Com um
único e rápido movimento, tirou seu manto e o transformou numa arma,
lançando-o sobre a pague feito urna 1-ceie. Charko ainda tentou se virar de
costas, mas não conseguiu escapar e ficou com o rosto encoberto, derrubando
seus créditos no processo.

O líder da gangue tropeçou para trás, vitima de um chute alto de sua


agressora. Seus amigos ficaram boquiabertos diante do que então Kanan já podia
ver: unia linda Twi>lek de pele esverdeada, ágil, com urna pistola na mão
enluvada.

A Twilek deu um tiro à queima-roupa num dos Sarlaccs humanos e, sem


pestanejar, partiu para cima do próximo. Enquanto o sujeito corpulento caia para
trás, a Twilek se valeu do corpo dele corno urna escada improvisada, o que lhe
conferiu a altitude necessária para saltar turno a um suporte horizontal num dos
andaimes. Agarrando a barra com sua mão livre, aproveitou o impulso para se
empoleirar, apoiando-se num dos suportes verticais. Virando-se, disparou contra
a turba atônita.

– Peguem ela!– um membro feminino da gangue gritou. A essa altura, porém,


os raios já partiam de uma outra direção já que Kanan, cansado de observar,
passou a descarregar sua pistola beco adentro. Os Sarlaccs se espalharam, sem
saber ao certo de quem se defender primeiro.

Com um berro irado, Charko saiu da lama num pulo, sem se importar com o
fogo cruzado. Voltando-se em direção à Twilek, se jogou de peito contra um dos
suportes do andaime. A estrutura balançou e a Twilek deixou sua arma cair. Já
sem. nada na mão, saiu escalando a armação de Charko e seus comparsas
olharam para trás.

– Como esquecer?– o Chagriano retrucou.– Pra você, eu sempre arrumo um


tempinho.

Kanan notou as armas sendo sacadas. A sua já estava em mãos. Seis, não, sete
contra um. É, did pro gasto.

Mas antes que ele pudesse disparar, a mulher girou repentinamente. Com um
único e rápido movimento, tirou seu manto e o transformou numa arma,
lançando-o sobre a gangue feito uma rede. Charko ainda tentou se virar de
costas, mas não conseguiu escapar e ficou com o rosto encoberto, derrubando
seus créditos no processo.
O líder da gangue tropeçou para trás, vítima de um chute alto de sua
agressora. Seus amigos ficaram boquiabertos diante do que então Kanan já podia
ver: uma linda Twi'lek de pele esverdeada, ágil, com uma pistola na mão
enluvada.

Twilek deu um tiro à queima-roupa num dos Sarlaccs humanos e, sem


pestanejar, partiu para cima do próximo. Enquanto o sujeito corpulento caía para
trás, a Twi'lek se valeu do corpo dele corno uma escada improvisada, o que lhe
conferiu a altitude necessária para saltar rumo a um suporte horizontal num dos
andaimes. Agarrando a barra com sua mão livre, aproveitou o impulso para se
empoleirar, apoiando-se num dos suportes verticais. Virando-se, disparou contra
a turba atônita.

– Peguem ela!– um membro feminino da gangue gritou. A essa altura, porém,


os raios já partiam de uma outra direção já que Kanan, cansado de observar,
passou a descarregar sua pistola beco adentro. Os Sarlaccs se espalharam, sem
saber ao certo de quem se defender primeiro.

Com um berro irado, Charko saiu da lama num pulo, sem se importar com o
fogo cruzado. Voltando-se em direção à Twi'lek, se jogou de peito contra um dos
suportes do andaime. A estrutura balançou e a Twi'lek deixou sua arma cair. Já
sem nada na mão, saiu escalando a armação de metal feito um macaco da areia,
mesmo quando tudo começou a desmoronar.

Kanan sabia que precisava fazer alguma coisa. Atacou o oponente mais
próximo, a única mulher da gangue, agarrando a arma de raios dela com a mão
esquerda. Seu movimento desviou o disparo que ela estava para dar, acertando o
assaltante que se aproximava à direita; no embalo, acertou uma cabeçada em
cheio no queixo da moça, derrubando-a para trás. Então, vislumbrou Charko,
endemoniado, tentando derrubar a estrutura de ferro. Deu um mergulho de
encontro a Charko, mesmo após a Twi'lek já ter saltado na direção oposta, rumo
ao andaime do outro lado do beco.

Agarrado por trás, Charko soltou o suporte do andaime e a coisa toda veio
abaixo, todos os cinco andares. Kanan foi capaz de vislumbrar um único lugar
para onde correr: a enorme vitrine do edifício a que o andaime estava preso.
Lançou-se junto com o Chagriano através do vidro, provocando uma chuva de
estilhaços, enquanto a avalanche de andaimes despencava no beco, logo atrás
deles.
Confuso e tendo perdido sua arma na manobra, Kanan se esforçou para se pôr
de pé outra vez, já no interior do imóvel desocupado, que percebeu ser uma
cantina abandonada. O Chagriano tinha recebido todo o impacto da queda e,
ainda assim, de alguma forma, o bandido já se encontrava de pé, pronto para
lutar.

– Você tá no meu território agora– Kanan disse, erguendo os punhos. —Meu


treinamento foi todo feito de bar em bar!

Kanan e Charko saíram trocando socos pela penumbra do cômodo arruinado


pelo terremoto. Kanan pegou uma cadeira; Charko fez o mesmo com metade de
uma mesa quebrada. Os dois seguiram se atacando e se esquivando dos ataques
um do outro numa batalha com suas armas improvisadas, o tipo de luta que os
Jedi nunca chegaram a ensinar no Templo, mas que caiu feito uma luva a Kanan.

Golpe a golpe, ele foi conduzindo Charko até a única janela ainda intacta. Já
sem fôlego, o Chagriano cambaleou. Kanan viu a deixa. Um chute circular
lançou o oponente através da vidraça estraçalhada.

Já tá bom pra você?– Kanan perguntou, subindo no parapeito da janela.


Charko não voltou a se levantar dessa vez. Mas os outros ainda estavam lá fora,
Kanan se lembrou. Ele se preparou e, com todo o cuidado, saiu pela janela
quebrada.

Não havia mais nada a fazer. Todos os comparsas de Charko já estavam no


chão. Alguns Kanan tinha derrubado mais cedo; outros ficaram a cargo da
Twi'lek. O resto acabou sendo esmagado sob o andaime tombado. E a própria
Twi'lek já estava bem longe da vista.

Esfregando o rosto machucado, Kanan vasculhou os escombros atrás de sua


arma de raios. Sentia muita dor, do tipo que logo passaria, mas também do tipo
que não o deixaria levar adiante uma nova rodada com os Sarlaccs. Quando
enfim encontrou sua arma, no entanto, ficou claro para ele que já não havia mais
perigo algum.

Algo, porém, estava faltando naquele cenário. Os créditos que Charko tinha
deixado cair não estavam mais no chão, e pequenas pegadas levavam ao fim do
beco.

Avistou o manto da Twi'lek logo adiante, preso a uma viga. Quer dizer, então,
que, no fim das contas, eia acabou me deixando um souvenir. Fazendo um
esforço tremendo, arrastou a trave de lado. Segurou a toga com ambas as mãos e
a suspendeu. Um belo achado, ele pensou ao se virar para sair cambaleando do
beco. Pois já estava começando a acreditar que ela nunca tinha estado lá.

Possibilidade descartada tão logo pôs os pés na rua principal, ao dar de cara
com ela.

– Ah– ela disse, olhando para seu manto.

– Ah– ele repetiu. Ficou parado no lugar, analisando a mulher sob o luar. Ela
era mais baixa do que ele, tinha pele verde escura, lábios carnudos e um queixo
agradavelmente pontiagudo. Usava um quepe cinza de piloto que deixava os dois
lekkus escaparem de sua cabeça corno tentáculos, pendurados um pouco mais
abaixo da altura dos ombros. Vestia camiseta marrom, calças douradas com
bolsos utilitários e luvas pretas que combinavam com o manto que ele carregava.

– Eu sabia que tinha me esquecido de alguma coisa– ela disse, tomando o


manto das mãos dele com tamanha destreza que ele mal notou.– Tá tudo bem aí?

Kanan confirmou com a cabeça.

– Você fala o idioma básico?

– Me faltam palavras.

Ela sorriu:

– Pelo visto, faltam mesmo.

Não foi ironia. Ou, se foi, fora dito de uma maneira tão gentil que Kanan
preferiu nem notar.

– Aquilo lá que você fez me deixou impressionado.

– Pois é– ela disse, ainda com aquela voz maravilhosa, espanando a lama do
manto.– Que bom, né, que eu tava lá pra te salvar.

Kanan franziu as sobrancelhas e olhou para trás.


– Me salvar?– Ele apontou para os corpos.– Tinha uma gangue inteira atrás de
você!

Twilek suspendeu o manto para vesti-1o.

– Eu tinha dado uma grana pra eles fazerem um servicinho pra mim. Tivemos
urna discussão quanto ao valor. Eu teria resolvido tudo sozinha. Ao perceber que
ele a encarava boquiaberto, ela deu um encostão de leve com seu punho fechado
no queixo machucado dele.– Mas até que você se saiu muito bem, sabe. Eu
também fiquei impressionada.– Eia o analisou da cabeça aos pés.– E então, você
é do tipo que gosta de sair por ai se

arriscando pelos outros?

– Não!– Kanan respondeu– Er... quase nunca.– Ele piscou algumas vezes
antes de prosseguir.– Espera aí... você precisou de um servicinho deles?– ele
disse, apontando de novo para os corpos no beco.

– Arram. E já foi feito.– Ela jogou o manto de volta sobre os ombros, virou-se
e passou a caminhar.

– Eu também faço alguns servicinhos– Kanan disse, correndo atrás dela. Seu
corpo ainda estava todo dolorido por causa da briga, mas ele não queria que a
conversa terminasse assim tão rápido.– Se você precisar de alguma coisa, eu sou
o cara.

– Não, obrigada– ela rebateu, sem parar de andar.– Tenho algumas paradas a
fazer.

– Espera!

Kanan tentou acompanhá-la, mas seu corpo se rebelou. Curvando-se, levou


urna das mãos ao joelho. Ao levantar a cabeça, ela já tinha sumido de novo,
provavelmente num dos becos adentro.

Indignado com o universo, Kanan gritou na calada da noite infinita de Gorse:

– Qual é o seu nome?

Por um longo momento, nada se ouviu.


E, então, novamente naquela voz, veio a resposta:

– Hera.
16
As espaçonaves eram verdadeiros assentamentos nos céus. Algumas chegavam a
ser aldeias; a Ultimatum era uma grande metrópole. E mesmo os destróieres
estelares funcionavam como pequenas cidades. Uma enorme bacia, cheia de
fofocas e, como em qualquer cidadezinha, os assuntos todos tendiam a fluir para
uma única pessoa, feito água rumo ao dreno.

Sloane estava parada junto à escotilha quando Nibiru Chamas, o dreno não
oficial da Ultimatum, sentou-se como quem não quer nada na cadeira de seu
escritório. As naves de mineração continuavam zanzando de um lado para o
outro entre Gorse e Cynda (mais velozes do que antes, claro), mas sua atenção
estava voltada à lista que Chamas estava lendo.

– O conde Vidian designou e promulgou novas diretrizes pras naves


cargueiras que transitam entre os dois mundos - Chamas disse.– Ele ordenou
várias mudanças às sub-rotinas dos droides carregadores em Cynda, que deverão
torná-los mais produtivos. Mudou as cores dos pratos usados no restaurante
comunitário e...

– O quê?

Chamas riu por entre os dentes:

– Essa última era brincadeira.

Sloane revirou os olhos.

– Continua.

– Ele também ordenou uma inspeção lá no pessoal da Transcept... os


caras que encontraram o maluco de Cynda, tá sabendo? Já teve pelo menos
uma prisão por conduta suspeita.

– Meticuloso - Sloane comentou.

Ela também era meticulosa, ou desejava ser. Tinha sido pega de surpresa pelas
ações de Vidian em sua ponte de comando, dando ordens a sua equipe. A
Ultimatum tinha autorização para destruir o cargueiro Cynda Dreaming, e Vidian
sabia bem disso. Mas, apesar de ela ter concordado com tal decisão, convinha-
lhe descobrir mais sobre seu visitante, e como ele interagia com outras
tripulações. Ela se recusava a ser tão somente mais um braço mecânico.

– O que mais ele fez?

– Estabeleceu bases de trabalho pra turnê em Gorse. Ele já tá com a agenda


cheia. Ainda faltam algumas horas pra ele chegar lá, mas já reorganizou três
associações, ordenou a consolidação de vários fornecedores de equipamentos
numa única empresa, e até fechou um centro médico, transferindo os pacientes a
uma instituição mais perto das fábricas pra que eles possam voltar ao trabalho
mais rápido.

– Só isso?

– E não é o bastante? Ele já se reuniu várias vezes com os assessores que


levou a bordo e fez várias chamadas ao escritório central em Calcoraan Depot.
Só tem uma coisa que ele ainda não fez.

– Dormir - Sloane retrucou. - Ele não tem tempo pra isso.

– Ele não tem uma cama - Chamas a corrigiu. - As serventes que limparam o
quarto dele encontraram o lugar todo destruído. Os móveis, quebrados.

– Hein? Quando foi isso?

– Depois que ele voltou da lua. Na verdade, depois da segunda chamada que
ele recebeu do barão Danthe. Eu acho que o nosso conde é meio temperamental.

Sloane prendeu o riso. Ela já tinha ouvido falar sobre o pavio curto de Vidian,
e estava correndo um boato em Cynda de que o diretor da Associação de
Mineração tinha descoberto isso da maneira mais difícil.
– Você arrumou um outro quarto pra ele, eu espero?

– A gente tem uma ampla oferta. Não se preocupe, tudo vai ficar pronto antes
do nosso... er, capitão titular chegar.

Obrigada por me lembrar que eu sou só temporária, Sloane pensou,


contornando sua mesa. O comentário de Chamas, porém, despertou sua atenção
de volta ao que ela queria saber. Mas isso, ela teria de averiguar com certa
cautela.

– Sujeito interessante, esse Vidian... chega a ser surpreendente o fato de ele ter
escolhido o serviço governamental. Você disse que ele comprou o título. De
onde ele é, você sabe?

– Segundo consta na biografia oficial, ele é de Corellia. Nos tempos da


República, ele era engenheiro numa pequena empresa de design que terceirizava
serviços aos fabricantes de naves. Só uma das engrenagens de uma rodinha já
pequena. As melhorias que ele sugeria eram sempre rejeitadas. Aí, ele acabou
sendo vítima da Síndrome de Shilmer, e passou os cinco anos seguintes,
enquanto ela o comia vivo, conquistando as bolsas de valores deitado numa
cama.

– E a empresa?

– Segundo reza a lenda - Chamas fez questão de enfatizar a palavra -, a


primeira atitude de Vidian pra recuperar sua mobilidade foi comprar a empresa e
colocar todo mundo na rua. Mas eu nem sei o nome dessa empresa. Tinha uma
cláusula de confidencialidade nos acordos de indenização. Ele não quer que
ninguém prejudicado por ele fique fazendo críticas por aí, arruinando as vendas
do próximo holo gerencial.

Sloane sabia que Vidian não precisava do dinheiro, mas ela tampouco tinha
qualquer problema quanto à razão de ser do sujeito. Uma pequena vingança era
capaz de fazer maravilhas em nome do processo de cicatrização. Nada mais
humano, afinal. E não havia muito de humano em Vidian.

– Se ele é de Corellia– ela disse —, ele provavelmente tem conexões com o


setor da construção naval. E com o almirantado.

Já era meio caminho andado até a pergunta que ela queria fazer, e a
observação como ela queria que soasse de fato. Chamas, porém, era dos mais
astutos e percebeu na hora qual era a real intenção dela.

– Em outras palavras - ele disse com um sorriso será que ele seria capaz de
fazer com que seu posto aqui seja permanente, talvez dando ao capitão Karlsen
um emprego confortável numa das subsidiárias dele? Por favor, peça pra ele um
pra mim também, quando você estiver dentro.

Pega de surpresa, Sloane simplesmente o encarou:

– E o que tem pra amanhã?

Chamas lhe passou seu datapad, mostrando as paradas do tour planejado por
Vidian em Gorse. Parecia um dia exaustivo.

O primeiro nome da lista a deixou curiosa.

– Moonglow. Por que começar por essa empresa tão pequena?

– Eles aparentemente capturaram, e acabaram deixando escapar, o fugitivo de


Cynda algumas horas atrás.

– Isso não vai pegar nada bem pra eles– Sloane disse, devolvendo-lhe o
datapad. Ela girou a cadeira para mirar de novo pela escotilha as naves rumo a
Gorse. Franziu a testa ao tentar digerir aquela situação toda.

– Então, quer dizer que, enquanto ele tá nessa turnê mundial dele, a gente fica
aqui brincando de guardinha de trânsito– Chamas disse, parado no lugar.–
Contendo a ralé, enquanto seu Vidian incrementa o folclore em torno dele. A
gente devia exigir uma parte dos royalties no próximo holo.

Sloane sorriu por dentro. Para ela, bastava um papel coadjuvante. Era seu
trabalho ajudar o Império; ajudar o capitão legítimo da Ultimatum a encontrar
uma nova nave até que seria um bônus agradável.

Os stormtroopers tinham revistado seu apartamento algumas horas antes. Isso,


Skelly pensou sem o menor sinal de contentamento, oficialmente representava o
primeiro ato de atenção dispensada pelo Império às moradias em Crispus
Commons.
Crispus era um projeto voltado aos veteranos das Guerras Clônicas que se
encontravam desabrigados na região, uma proposta idealizada nos últimos dias
da República. O Império tinha mantido a iniciativa, enviando novos moradores
de quando em quando, sem nunca ampliar ou aperfeiçoar o complexo. Na
opinião de Skelly, aquilo dizia muito, em alto e bom som, sobre o que a
República e o Império de fato pensavam a respeito daqueles que tinham lutado
contra os separatistas. Vamos abandoná-los onde o sol já não brilha mais.

Skelly tinha permanecido no apartamento dilapidado, em parte, porque ficava


espremido entre os distritos industriais da Cidade de Gorse. Assim, não
importava por quem fosse despedido, seu trajeto do trabalho de volta para casa
nunca se estenderia por mais tempo. A outra razão de ter continuado lá, porém,
era a grade enferrujada atrás da caçamba de lixo do complexo numa das
extremidades do pátio de exercícios. E o que estava por baixo dela.

Era certo que ninguém de fora o tinha visto se aproximando. Ele se esgueirou
por trás da lixeira e para dentro do buraco. Fechou o gradeamento ao entrar.
Passando por uma cortina improvisada, saiu apalpando os cantos em busca do
interruptor. Um ou dois estalos depois, a escuridão ao redor de Skelly deu lugar à
vermelhidão das luzes dos monitores de computação e uma única lâmpada de
baixa intensidade no teto.

O lugar fora concebido como um abrigo antiaéreo, construído pela República,


como parte do projeto Crispus no caso improvável de o conde Dookan ou o
general Grievous ter um súbito interesse em destruir a colônia de veteranos. As
paredes de permacreto encontravam-se mofadas quando

Skelly descobriu o local. Mas lhe agradou o fato de o esconderijo ter o próprio
gerador, e a presença de uma enorme caçamba de lixo na frente da grade
permitia que ele entrasse e saísse de lá sem ninguém vê-lo.

Todos os computadores de Skelly tinham sido montados a partir de conjuntos


de peças, tornando-os seguros contra invasões por parte dos poderes
constituídos, fossem corporativos ou governamentais. Apenas uma das máquinas
estava ligada à rede HoloNet, e isso através de uma conexão roubada de um
trailer de lanches Ithoriano que ficava estacionado todos os dias no outro lado da
quadra. Ao optar por um intermediário móvel e guardado em outro lugar, Skelly
tinha eliminado a chance de ser surpreendido por olhos e ouvidos intrometidos.
Em qualquer lugar, menos no trabalho. Skelly tinha conhecimento de que
algumas das empresas que funcionavam em Cynda tinham instalado
equipamentos de vigilância, mas ele pensava que era só para ficarem de olho na
produtividade e evitarem o roubo de material explosivo, o que já tinha sido um
problema antes. Evidentemente, acabaram se valendo da estrutura também para
bisbilhotarem conversas alheias. Era uma loucura. Surdos a seus apelos sobre a
segurança do sistema, mas metendo os narizes em todo o resto!

Skelly comeu depressa uma refeição precária, preparada à base de alimentos


enlatados, antes de cair, exausto, num tapete estendido no chão. Aquele cômodo
vinha sendo seu mundo, seu mundo real, havia anos.

Lousas armadas numa das paredes estavam cheias de anotações escritas à mão
sobre o complexo industrial militar e a intrincada rede de quem o possuía. A
segunda parede era reservada a seus estudos sobre a história dos conflitos
galácticos; os lados mudavam a toda hora, mas os casos continuavam os
mesmos. Sempre que os titãs lutavam, aos peões cabia a morte.

A maior compilação de anotações, no entanto, encontrava-se na parede de


frente para ele. Além da abertura entre as cortinas que dava num pequeno
armário, cada centímetro quadrado estava adornado por notas sobre a estrutura
geológica de Cynda. Ver aquilo tudo fazia seu estômago doer. Skelly já temia há
algum tempo que um dia como aquele seria necessário– o dia em que ele teria de
arriscar tudo para chamar a atenção de alguém. Mas ele vinha decidindo as
coisas enquanto elas aconteciam, e seu medo era que já tivesse estragado tudo.

Tinha fugido da Moonglow sem pensar direito nas consequências, depois de


uma promessa feita no calor do momento por alguém que ele nem conhecia,
muito provavelmente arruinando toda e qualquer chance de conversar com conde
Vidian. Ele só ainda não entendia muito bem por que tinha escapado. Sim, era
natural ter medo de ser levado por stormtroopers a qualquer lugar; os soldados
de infantaria do Império tinham o péssimo hábito de agredir prisioneiros em
trânsito. E todos tinham interpretado mal sua tentativa de instrui-los como mera
sabotagem. Mas Vidian ainda era sua melhor chance, o único com autoridade
para efetuar a mudança. Será que Vidian partiria de Gorse sem falar com ele?
Será que Vidian chegaria a vê-lo, de fato, agora que era um fugitivo?

Sem tirar os olhos de seus escritos, deitado no chão, Skelly soltou um gemido
bem baixo:
– Ninguém me escuta.

– E o que você tem pra dizer?

Skelly olhou para cima, assustado, e deu de cara com a figura encapotada que
o resgatara. Ela tirou o capuz.

– Você é uma mulher!

– Hera– a Twflek o corrigiu.– Vamos conversar.


17
Skelly se sentou, alarmado.

– Como foi que você me encontrou?

Hera deu um tapinha em seu próprio ombro.

– Se você der uma espiada nesse bolso aí no seu ombro esquerdo, você vai
encontrar um dispositivo de rastreamento que eu enfiei nele enquanto eu te
soltava. - Ela sorriu. - Eu disse que te encontraria.

Skelly levou a mão ao bolso c descobriu um pequeno chip. Ele a encarou com
raiva.

– Eu não gosto de pessoas me espionando.

– Você tá no sistema errado, então. - Hera simplesmente abriu a mão


enluvada. - Eu fico com isso. Obrigada.

– Você sabe o meu nome - ele disse, desconfiado.– Como é que você me
conhece?

– Você ganhou a atenção de muitas pessoas hoje. Eu ouvi falar sobre o que
você fez em Cynda. À explosão, sabe, enquanto o enviado do imperador tava lá -
ela se interrompeu, tentando assimilar as diversas anotações sobre o Império na
parede a sna esquerda.– Eu tõ bastante interessada em ouvir suas razões pra ter
feito o que você fez.

Franzindo a testa, Skelly se levantou.


– E por que você se importa com isso?

– Eu só tô... interessada - Hera respondeu. 

– Olha só, não fica lendo minhas coisas. Eu não te conheço, moça. E nem sei
se te contar o que eu tenho pra dizer vai adiantar de alguma coisa!

Hera olhou para a direita e vislumbrou a outra parede com as notas sobre
Cynda. Um brilho despontou em seus olhos escuros.

– Você por acaso me contaria se eu fosse repórter da Gazeta de Ação


Ambiental?

Skelly arregalou os olhos.

– Eu pensei que esse jornal tivesse fechado!

– Está só se reestruturando– Hera disse.– E você pode fazer parte do grande


relançamento.

Skelly a examinou. Nunca estivera entre a audiência daquela publicação da


HoloNet, mas ela tinha aparecido várias vezes durante sua pesquisa. A Gazeta já
tinha posto um fim a uma série de más práticas empresariais no

– Vamos lá - ela disse, puxando um datapad de seu manto.– Eu te soltei, não


soltei?

Skelly respirou fundo. E tomou uma decisão:

-Ok.

Deu um pulo até sua parede e foi apontando de um diagrama a outro,


desenvolvendo suas teorias. Romper algumas estalactites e estalagmites
cristalinas não tinha problema; eram meras protuberâncias das estruturas físicas
que mantinham Cynda no lugar. Era como cortar os cabelos da lua. Mas o uso de
explosivos para abrir novas câmaras se assemelhava mais a quebrar ossos.

– Toda câmara nova que eles descobrem tem mais torilídio do que a anterior -
Skelly explicou -, e isso faz eles usarem ainda mais carga pra chegar até a
próxima.
– E isso acaba causando os desmoronamentos, acidentando os trabalhadores. -
Hera balançou a cabeça, fazendo anotações em seu datapad.– Ao tempo em que
arruínam um belo cenário natural.

– Agora, sim, você entendeu! - Triunfante, Skelly deu um soco no teto


rebaixado.

– Ok - Elera disse de maneira suave.

O rosto de Skelly congelou.

– Ok?

Ela sorriu gentilmente para ele.

– Essa não é bem uma grande notícia, das mais chocantes, Skelly - ela disse
de modo ainda mais gentil, guardando o datapad de volta no lugar. - O Império
prejudica os trabalhadores e arruína as coisas. Isso acontece o tempo todo, em
todos os lugares.

– E daí?

– E daí que, com base nisso, você só teria mais um problema, que nem um
bilhão de outras pessoas na galáxia. Algum dia, todos nós vamos fazer alguma
coisa a respeito. É bom saber disso, e eu sinto muito por todos os envolvidos.
Mas eu não tenho certeza se o momento é propício pra se fazer muita coisa
quanto a isso.

Skelly ficou alarmado.

– Você não vai publicar a matéria? Depois disso tudo que eu te contei? Que
tipo de negócio é esse? Eu pensei que você fosse uma jornalista!

A mulher deu um passo para trás; não que estivesse temendo a reação dele,
mas simplesmente para lhe dar espaço para extravasar.

– Na verdade, eu ainda tô só coletando informações, Skelly. Mc preparando


pra... - Sua voz falhou e, em seguida, ela apontou para a parede com as notas
sobre Cynda. - O que você me descreveu não é nada bom, com certeza,, mas não
é exatamente tão abalador assim.
– Ah, mas é sim! - Skelly puxou o holodisco do bolso de seu colete e o
segurou entre o polegar e o indicador esquerdos. - Porque eu acredito piamente
que, se o Império continuar com isso, vão acabar explodindo a lua toda em mil
pedacinhos!

Hera suspendeu uma das mãos.

– Olha só, vamos deixar essa hipérbole pra lá. Quão grave seria esse dano que
você tá falando?

– Eu não tô exagerando!– Skellv retrucou. Guardando o holodisco de volta no


bolso, cie se virou de frente para a parede e começou a folhear algumas notas
grudadas com sua mão boa. - A lua já é frágil. A órbita elíptica faz Gorse e o sol
exercerem uma força gravitacional tremenda sobre ela o tempo todo. Gorse
libera o estresse através dos tremores de terra. Mas toda essa energia fica
acumulada em Cynda, porque as redes cristalinas são tão profundas que...

– Direto ao ponto, por favor.

– É só usar uma determinada quantidade de explosivos nos lugares errados, e


Cynda poderia desmoronar feito as promessas de um senador.

Hera o encarou por um instante. Skellv a encarou de volta.

– Isso é simplesmente... inacreditável - ela disse, finalmente. - E a potência


necessária pra destruir um corpo celeste daquele tamanho? E difícil de acreditar
que uma coisa dessas sequer exista.

– Mas existe. É possível. E eu tô começando a achar que ninguém lá se


importa com isso.

Hera foi até a parede e começou a ler.

– Essas anotações estão por todo o lugar– ela continuou.– Tem coisa aqui que
não faz muito sentido pra mim.

– Confia em mim - Skellv retrucou.– Eu sou especialista no assunto.

– Você é um geólogo planetário.


– Não, eu construo bombas.

Hera comprimiu os lábios.

– Ah - ela prolongou a sílaba.

– Eu sei que parece loucura - ele prosseguiu, puxando algumas notas e as


prendendo em sua mão direita paralisada —, mas é verdade. E as empresas de
mineração sabem disso, porque eu disse a eles, Mas eles preferiram encobrir os
fatos, porque todos eles fazem parte da conspiração.

– Conspiração?

– O triângulo de torilídio - Skelly disse, abismado por ela nunca ter ouvido
falar nisso. Ele atravessou a sala até sua parede sobre a vergonha corporativa. -
As empresas de mineração são corruptas. Os proprietários, os conselhos de
administração, tá todo mundo atrelado aos construtores navais que subornaram o
Império num projeto de construção atrás do outro. Ah, claro, tudo sendo feito no
mais absoluto sigilo, mas não dá pra manter tudo em segredo. Um bilhão de
destróieres estelares não é o bastante. Eles querem construir superdestróieres
estelares, e super-superdestróieres estelares, e sabe-se lá mais o quê!

– Sei - Hera disse, cautelosamente recuando um pouco mais. - E como é que


você sabe disso tudo?

– A HoloNet!

– Ah - Hera retrucou. - A HoloNet.

– É tudo uma grande rede que não tem mais fim - Skelly disse com os olhos
fixos na parede do outro lado da sala. Ele se aproximou da parede e passou a
remexer as notas. - Você sabia que foi só por causa dos interesses dos ricos que
começaram as Guerras Clônicas? Teve um fabricante de droides de batalha que
estava com o inventário muito cheio e...

Skelly sentiu os olhos dc Hera sobre si, c o ar lhe escapou dos pulmões. Parou
de falar. As notas, as matérias de jornais, tudo girava diante dele, nada fazia
sentido.

Tinha se atrapalhado de novo.


– Desculpa ter te incomodado - ele meio que a ouviu dizer. - Boa sorte.

Skelly continuou de cara para a parede.

– Olha só, eu sei o que tá parecendo. Já passei por isso... quer dizer, eu já
passei por um monte de coisas ruins. Eu fico meio agitado, nem sempre falo as
coisas direito. Mas o que eu sei, nem por isso, deixa de ser real.– Ele tomou
fôlego. - Eu não sou maluco.

Quando ele se virou, ela já tinha ido embora. Ainda pôde escutar passos
suaves, escada acima. Tentou segui-la, mas já não viu mais nada além da
caçamba de lixo e da quadra escura ao redor.

Desanimado, Skelly desceu de volta para dentro do buraco e fechou a grade.

Ficou sentado em silêncio no fundo do poço. Sua cabeça zumbia e doía, como
se estivesse doendo por um longo tempo. O sono de Skelly estava todo
desregulado desde que se mudara para Gorse, e o período que passou nas
cavernas sempre iluminadas de Cynda só o deixara ainda mais confuso. A
confusão de notas ainda presas a sua mão defeituosa eram produto disso. Mas ele
ainda era capaz de se concentrar em certas coisas. Os dados no holodisco, por
exemplo, ele sabia estarem corretos. Era seu testamento, sua última chance.

Skelly se lembrou da chamada de Vidian a Lal Grallik. O conde estava


chegando, sim. E Vidian ainda poderia escutá-lo e fazer a coisa certa. Mas
estaria trazendo o resto do Império consigo, e eles ainda poderiam fazer a coisa
errada.

Skelly se pôs de pé e reentrou em seu santuário. Abrindo as cortinas do


armário, expôs sua bancada secreta. E, embaixo dela, em embalagens lacradas,
seu enorme estoque de barádio, contrabandeado ao longo dos anos. Por conta de
seus temores quanto às detonações em Cynda, toda vez que lhe pediam para
plantar explosivos para abrir uma parede, ele usava um pouco menos. Só nunca
chegou a devolver o que sobrava.

Mas se não lhe dessem ouvidos agora, ele devolveria tudo. Tudo de uma só
vez. Assim o escutariam.

Ah, se devolveria...
Hera sacudiu a cabeça ao pôr os pés de volta na rua.

Fora um risco calculado, ter soltado Skelly. Sua premissa ao tomar tal desvio
era que valeria a pena dar uma checada em qualquer um que se levantasse contra
o Império, de um jeito ou de outro. Alguns poderiam acabar sendo úteis. Talvez
não ainda, mas no que estava por vir. Era importante estar ciente da capacidade
de todos.

Mas Skelly nunca teria serventia alguma e, portanto, ela tratou de arquivá-lo
mentalmente junto com dezenas de outras pessoas que ela tinha conhecido,
iguaizinhas a ele. O ativismo político acabava atraindo mais lunáticos do que
devia. Alguns foram legitimamente levados à loucura pelas forças contra as
quais lutavam; alguns ficaram destrambelhados em decorrência da guerra, como
ela suspeitava ser o caso de Skelly. Já outros, simplesmente, não tinham desculpa
alguma. Mas apesar de essas pessoas serem sempre as primeiras a se revoltar,
quase nunca levavam a revoluções bem-sucedidas. Ações contra o Império
requeriam medidas cautelosas.

Especialmente, agora.

Até então, Gorse tinha sido um fracasso. Na escuridão em mais de um sentido:


as pessoas vagavam feito robôs entre o trabalho penoso e os perigos das ruas,
sem nada sentirem. Mesmo o humano que a ajudara contra a gangue de rua, de
quem ela ora se lembrava como sendo o mesmo sujeito que ajudara o veterano
em Cynda, poderia facilmente se encaixar num modelo preestabelecido: o
farrista, sempre à procura de uma briga. Isso seria decepcionante, se fosse
verdade, mas não seria nada surpreendente - como todos em Gorse, ele
simplesmente estaria preso ao papel que o Império reservara a ele. Ele nunca
seria uma ameaça. O que não deixava de ser uma pena; ele parecia saber muito
bem o que fazer numa luta.

Mas Hera tratou de afastá-lo de seus pensamentos. Skelly não passou de uma
fuga no itinerário; o que importava de fato ainda estava por vir. E ela o
encontraria no estabelecimento cujo anúncio nada sutil apareceu em seu datapad:

O Cinturão de Asteroides
Fosso– Okadiah Garson, proprietário

Aberto a noite inteira

Venha e viaje nessa parada


Aqui é Obi-Wan Kenobi

As Forças Republicanas foram levadas a se voltar contra os Jedi

Evitem Coruscant, evitem a detecção

Mantenham-se firmes

Que a Força esteja com vocês


18
– Ei, moça! Eu tô falando com você!

O brutamontes estava de fato se dirigindo a Zaluna, já que não havia mais


ninguém na rua. Mas ela preferiu continuar andando, e o jeito foi acompanhá-la.
Já a poucos passos dela, ele gritou outra vez:

– Eu disse que eu tô falando com você!

– Não, não tá, não– ela retrucou, seguindo seu caminho pelo meio da lama.–
Se você estivesse falando comigo, você usaria o meu nome real.

Acelerando o ritmo, o bêbado deu uma risada.

– E como é que eu vou saber quem você é?

– Exatamente!– Zaluna deu um giro e lhe lançou um olhar aguçado por baixo
de seu leve capuz.– Então, não tem motivo nenhum pra você ficar falando
comigo, Ketticus Brayl. Vai pra casa cuidar da sua esposa e dos seus filhos.

Com o rosto iluminado pelo luar, o Besalisk empalideceu.

– Peraí. Como é que você sabe meu nome?

– Isso não importa– ela rebateu, e sua mão direita sumiu pela manga comprida
e folgada de seu poncho, o traje mais leve que possuía, capaz de esconder suas
feições.– O que importa é que você vai me deixar em paz.

Brayl deu uma gargalhada.

– E se eu não deixar?
– Aí, você vai ter uma conversinha com isto aqui. - Sua mão direita
reapareceu de dentro da manga, segurando uma pequena arma de raios. -
Estamos entendidos?

O bêbado arregalou os olhos ante ao súbito surgimento da arma. Então, deu


meia-volta, cambaleando noite adentro em meio à névoa. Retomando seu trajeto,
Zaluna guardou a arma cm seu esconderijo outra vez, contente com o fato de
ninguém saber que ela nunca tinha sido disparada naqueles trinta e três anos,
desde que sua mãe a deixara para ela.

Não dava para dizer que ela conhecia de vista todo mundo em Gorse e em
Cynda, claro, mas quase um terço de século 11a vigilância tinha colocado vários
arruaceiros em sua lista negra. E muitos dos quais pareciam acabar ali, no Fosso.
Alguns mineiros agiam como se o bairro, estabelecido perto das antigas minas,
fosse um lugar decente para se viver, agora que a mineração a céu aberto não
existia mais havia muito. Talvez, para eles, até fosse. Mas, em sua experiência,
trabalhadores braçais não passavam de bombas-relógios prestes a explodir a
qualquer momento. Já tinha monitorado várias brigas de bar no Fosso, assistido a
dezenas de pessoas sendo extorquidas nas ruas por dinheiro ou mero esporte.
Seja lá o que as empresas pagavam aos garimpeiros, não era o suficiente para
impedir que alguns deles perturbassem pessoas honestas por dinheiro.

Além disso, se de fato recebessem um aumento, acabariam bebendo mais, o


que iria torná-los ainda piores.

Aquele encontro indesejado tinha sido só mais uma dor de cabeça num dia
cheio delas. Após a prisão de Fietto, o resto dos funcionários da vigilância na
Transcept tinha trabalhado as horas remanescentes em silêncio, todos temerosos
cm dizer qualquer coisa que fosse. Todos os antecedentes de cada operador
estavam potencialmente em análise, caso o tenente imperial estivesse dizendo a
verdade. Zaluna tinha esperanças de que encontrando o suspeito Skelly
novamente compensaria o fato de os Mynocks não terem acenado no sentindo de
prendê-lo antes, mas suas expectativas caíram por terra ao ficar sabendo que
Skelly escapara do escritório da Moonglow antes que os stormtroopers pudessem
chegar.

Ao menos, ninguém suspeitava que os Mynocks tivessem o avisado. O


supervisor de fábrica tinha passado uma hora defendendo sua equipe de
segurança dos insultos dos stormtroopers. Ainda assim, Zaluna esperava dias
difíceis pela frente para todos no escritório da Transcept.

E mesmo se nada tivesse acontecido, o emprego que ela tanto gostava nunca
mais seria divertido outra vez.

Era uma coisa estranha. Muitas pessoas em Gorse viviam amedrontadas, em


especial os Sullustanos e outros de menor estatura. No entanto, trabalhando com
os Mynocks, ela se sentia um pouco imune. Havia certa segurança naquele
isolamento todo, segurança em deter informações. Sim, o tipo de trabalho que
fazia tinha todo o potencial de criar problemas aos outros. Ela, porém, tinha se
obrigado a reprimir qualquer consideração dessa natureza, uma vez que muitos
dos quais ela espionava eram pessoas sem escrúpulos e propensas a importunar
uma pobre trabalhadora numa rua escura.

Porém...

Cada vez mais, havia menos e menos cascas-grossas sendo alvo de


espionagem, e mais e mais pessoas como... bem, como Hetto. E agora o próprio
Hetto tinha diante de si um destino desconhecido. Nada daquilo fazia sentido
para ninguém cm seu andar. Claro, Hetto tinha reclamado sobre as condições de
trabalho e o salário que recebia, mas quem não o fazia? Sim, ele considerava
uma abominação o que o Império tinha feito às cavernas antes magníficas dc
Cynda, mas isso não era nenhuma novidade, além de ser senso comum em
Gorse.

O cubo de dados, no entanto, era algo à parte, e Zaluna já tinha conhecimento


de que era a razão pela qual ele entrara na mira imperial. Assim que seu turno
terminou, ela saiu correndo para casa com o intuito de descobrir o que Hetco lhe
entregara. Ele não lhe dera permissão para ler o que estava no cubo de dados,
mas essa não seria a primeira vez que ela bisbilhotaria alguma coisa. Além disso,
ela não tinha a menor intenção de entregar qualquer coisa a essa tal “Hera” sem
antes checar do que se tratava.

Ela se valeu de um leitor que ganhara ainda adolescente, desvinculado da


HoloNet, para analisar em segurança o conteúdo do cubo de dados de dentro de
seu armário. As informações tinham sido criptografadas por um programa
empresarial, mas Zaluna já tinha trabalhado por vários e vários anos na coleta de
dados eletrônicos e não demorou a dar um jeito de furar o bloqueio.

Picou impressionada com o que descobriu. De alguma forma, Hetto tinha


conseguido baixar os arquivos que a Transcept mantinha sobre todas as pessoas
já vigiadas em Gorse e sua lua, desde os tempos da República até os dias atuais.

Por um breve momento, chegou a pensar que a tal "Hera" poderia ser de
alguma empresa de vigilância rival. Espionagem corporativa: espiões
espionando espiões em nome do lucro. Hetto, sempre endividado, bem poderia
ter corrido atrás de uma compensação financeira. Ela só não queria ter qualquer
envolvimento numa transação como aquela. Mas, refletindo um pouco melhor a
respeito, ela se deu conta de que a Transcept vendia dados a seus concorrentes o
tempo todo, por vezes em escala maciça. Uma atitude, portanto, desnecessária da
parte dele, pelo que parecia.

Analisando os dados mais minuciosamente, Zaluna percebeu que a


abundância de informações pessoais contidas no cubo não era a parte mais
importante ali. Sua existência servia apenas como um guia de última geração aos
meios de vigilância. Cada imagem, cada registro de voz, cada bioscan, toda e
qualquer comunicação eletrônica vinculada aos nomes nos arquivos estava
identificada por informações que descreviam como tinha sido obtida. Com isso,
um leitor poderia saber a exata localização de todos os pontos de vigilância na
rede local da Transcept.

Quem precisaria de algo assim?

Talvez, um outro Skelly, algum excêntrico ou bombista maluco procurando


saber as capacidades do Império a fim de causar ainda mais confusão. Ela não
gostaria nada de se envolver com isso.

Hetto, porém, não era esse tipo de gente. O que implicava em dizer que
poderia haver outro alguém interessado naquelas informações: alguém que se
preocupava com o que o Império vinha fazendo ao povo de Gorse.

Alguém que se preocupava tanto quanto Zaluna.

Se houvesse a mínima chance de “Hera” ser esse tipo de pessoa, valeria a


pena ter uma conversa com ela, independente do perigo que isso representaria a
Zaluna. Apenas uma conversa, nada mais; ela não tinha a menor vontade de
acabar como ele. Mas Hetto merecia que ela fizesse isso por ele.

No entanto, ela teria de fazê-lo em segredo. Razão pela qual seu destino a
deixara tão desnorteada.
– O Cinturão de Asteroides?

Fazia trinta anos que ela não colocava os pés numa cantina, mas já tinha
assistido a câmeras de vigilância o suficiente para se questionar por que alguém
consideraria a possibilidade de um lugar como aquele para uma reunião
clandestina. Tantos olhos! Tantos ouvidos! Isso, sem mencionar os órgãos
sensoriais de naturezas que ela nunca sequer tinha imaginado, bem
características a todas as outras espécies que frequentavam cantinas.

Tomada pela adrenalina, desenterrou todos os truques dos programas de


formação pelos quais tinha passado anos antes, quando aprendera as melhores
práticas para implantar câmeras e microfones escondidos, e detectar os já
existentes para repará-los, por meio de suas emissões subespaciais. Detectá-los
antes que eles a detectassem: essa seria sua vantagem, ela pensou.

Avistou a placa logo adiante. Não fazia sentido ficar esperando do lado de fora
por mais tempo.

– Hetto, Hetto, sua pobre alma imprudente, só por você mesmo. Puxou o
manto com força contra o corpo e avançou em direção ao prédio.
19
O garimpeiro com um dente quebrado não tirava os olhos de Kanan desde o
primeiro instante em que o piloto pisou n’Cinturão de Asteróides.

– Eu tava te procurando - o sujeito corpulento gritou, ríspido. - A gente ainda


tem aquela briga de ontem à noite pra terminar!

Ainda sujo e machucado por causa do episódio em Shaketown, Kanan ensaiou


passar direto por ele. Mas não demorou para suas mãos enluvadas avançarem,
agarrando o mineiro pelo cangote peludo. Kanan o puxou com força, jogando o
sujeito de cara contra uma das mesas ao lado, derrubando as cartas e os créditos
de um jogo de sabacc pelo caminho. Perplexos, os jogadores só ficaram
observando quando Kanan puxou o sujeito atordoado para fora da mesa e, logo
em seguida, subiu nela.

– Escutem bem aqui, ó - ele berrou às dezenas de clientes amontoados na


ampla cantina.– Já chega por hoje, meu dia não foi nada fácil. Quem se meter a
besta comigo vai parar no centro médico.

– O Império fechou o centro médico! - Alguém gritou de volta.

– Corrigindo: quem se meter a besta comigo vai parar no cemitério. É só o que


eu tenho pra dizer.

Num único c ágil movimento, curvou-se, levando sua mão à caneca de cerveja
a seus pés, a mesma que tinha pertencido ao sujeito caído no chão. Bebeu tudo
num gole só e desceu da mesa.

De seu lugar habitual atrás do balcão, o velho Okadiah analisou-o de cima


abaixo.
– Fico pasmo contigo, Kanan. Parece que acabaste de sair de uma briga de
bar, e ainda assim eu poderia jurar que chegaste não faz nem um minuto.

– É porque eu tava numa briga de bar - Kanan retrucou, esfregando o queixo.–


Lá no posto de abastecimento do Philo, em Shaketown.

– Mas não estava previsto para reinaugurar só daqui a três meses?

– Acho que vai demorar mais um pouquinho - Kanan retrucou, passando o


braço por cima do balcão para pegar uma garrafa.

– Hmm. - Okadiah lustrava um copo. - Só se pode supor o envolvimento de


uma mulher.

– Pode adicionar uma dose de estupidez aí e misturar bem - disse Kanan. -


Mas que mulher... ela tava usando um capuz quando a vi pela primeira vez. Mas
que olhos maravilhosos, viu. E como ela se mexe... tô te dizendo, Okc, se ela
entrasse aqui agora...

– Pois eu acho que teu desejo foi atendido! - Okadiah rebateu, apontando em
direção à porta.

– Hein? - Kanan olhou para trás ansioso. Espiando pela porta entreaberta
estava uma mulher Sullustana usando um poncho cor-de-rosa. Carregava uma
bolsinha azul e espreitava com cautela de um lado a outro da cantina.

– Capuz, confere. Olhos, confere - Okadiah disse, sorrindo. - Mas eu acho que
nunca entenderei teu gosto pelas mulheres.

A mulher se esgueirou bar adentro. A porta bateu com força, assustando-a com
o barulho. Ela, porem, de pronto se dirigiu a uma mesa de canto e logo depois a
outra, e mais outra, desbravando seu caminho pelo salão, como se estivesse
tentando evitar ser vista por alguém que só ela via.

Kanan assistia a tudo, perplexo:

– Que tal te parece?

– Talvez, o agente fiscal esteja na cidade– Okadiah respondeu.


Finalmente se aproximando do balcão, a Sullustana olhou em três direções
diferentes. Então, disparou pelo vão, chegando à banqueta mais da ponta, perto
de Kanan.

Okadiah a cumprimentou com um aceno de cabeça.

– Bem-vinda ao meu estabelecimento, mocinha. Meu amigo aqui é um grande


admirador teu.

Kanan encarou Okadiah.

– Não é ela, seu imbecil!

Okadiah sorriu.

– Podemos ajudá-la com alguma coisa?

A mulher ergueu seus grandes olhos, fitando Kanan, e seu semblante antes
tenso suavizou um pouco, como se o reconhecesse.

– Tem uma coisa, sim. O balcão. Você se importaria se eu fosse pro outro
lado?

Kanan arregalou os olhos.

– Você quer se sentar do lado de dentro do balcão?

– Kanan faz isso o tempo todo - Okadiah disse. - Inclusive, dorme por aqui
também.

– Moça - Kanan retomou a palavra. - Não tem nem uma baqueta suja aí do
outro lado, quem dirá limpa.

– Tudo bem - a mulher retrucou, examinando o teto. - Eu não preciso de uma


cadeira. Eu quero me sentar no chão, mesmo.

Kanan e Okadiah se entreolharam, intrigados. Então, ambos deram de ombros


e a mulher saiu em disparada pela brecha e para trás do balcão. Kanan nem viu
quando a Sullustana sumiu.

– Sinto muitíssimo ter de deixá-los– Okadiah disse —, mas um anfitrião deve


entreter seus convidados. Jarrus, meu bom rapaz, segure as pontas. - Jogou seu
pano de prato no peito de Kanan e se curvou à mulher encolhida.

- Vamos nos falar novamente qualquer dia desses, que tal? - ele disse, saindo
de trás do balcão.

Kanan agarrou Okadiah pela camisa quando ele passou.

– Isso tá bizarro. O que é que eu falo pra ela?

– Estarás lá atrás com toda aquela cana. Oferece-lhe uma bebida. Ou toma
uma dose tu mesmo.

Kanan ponderou os fatos e se deu conta de que seu amigo tinha dado uma
excelente sugestão. Apoiando as mãos no balcão, passou para o outro lado num
pulo. Lá, viu a Sullustana sentada no chão, inclinando-se para trás, com a cabeça
e os ombros dentro do armário embaixo da pia.

– Ei! O que é que você tá fazendo aí?

– Só um segundo - ela gritou.

Kanan esperou. Talvez, ela tivesse a ambição de algum dia se tornar


encanadora.

Ela deu uma espiada para fora.

– Desculpa, tem como você me passar o estilete que está na minha bolsa?

Estupefato, Kanan fez o que ela havia lhe pedido. A bolsinha estava
abarrotada de gadgets.

– Obrigada - ela disse, tomando a ferramenta. Segundos depois, ela surgiu


com um olhar de satisfação. - Pronto. Tudo sob controle.

Kanan estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.

– O que você fez?

– Neutralizei as câmeras de vigilância daqui– ela respondeu, ficando de pé.–


Obrigada pela ajuda.
– Tem câmeras por aqui?

– Tem câmeras por todos os lugares - a mulher retrucou, espanando a roupa.


Parecendo muito mais à vontade, tirou o poncho, revelando um traje em tons
escuros. - Era isso que eu estava fazendo quando entrei, me movendo entre os
pontos cegos. Eu imaginei que a Transcept escondesse o transmissor atrás do
balcão. E o lugar preferido deles numa cantina, ninguém se dá ao trabalho de
limpar embaixo da pia.– Colocou a ferramenta de volta na bolsa. - Eu cortei a
energia de todo o sistema.

Kanan olhou em volta do salão. Ainda não conseguia ver onde as câmeras
estavam.

– Não se preocupe, eu fiz de um modo a parecer que um roedor danificou a


fiação. Acontece o tempo todo. Alguém fingindo ser um distribuidor de cerveja
deve vir aqui até a próxima semana pra consertar tudo.

– Se você diz. - Kanan respirou fundo, tentando imaginar se ele próprio já


tinha feito outra coisa naquele lugar senão se embriagar. Sabendo bem a
resposta, deixou a paranoia de lado. - Como é que você sabe disso, Zaluna?

Ela o encarou, subitamente séria de novo. Seus olhos, já grandes, arregalaram-


se ainda mais.

– Como... como é que você sabe meu nome?

– Tá no seu crachá aí - Kanan disse, apontando.

A mulher ainda ficou de olhos nele por um instante e, em seguida, olhou para
baixo, vendo o crachá oficial preso a suas roupas de trabalho.

– Ah, tá - ela disse, aborrecida, puxando o crachá e o guardando em sua bolsa.


- Eu acho que não sou muito boa nisso.

– Nisso o que?

Recompondo-se, Zaluna lançou um olhar a Kanan e deu um sorriso afetado:

– Eu sou só mais uma cliente visitando uma cantina. Tenta simplesmente me


ignorar.
– Tudo bem - Kanan retrucou, voltando-se às garrafas.

– Mas talvez eu precise de mais uma ajudinha.

Kanan olhou por cima do ombro.

– Olha aqui, minha senhora, eu tive um dia longo hoje e realmente não tô com
a menor vontade de ajudar ninguém.

– Mas você vai.– Zaluna se inclinou sobre o balcão e sorriu gentilmente.– Eu


sei quem você é. Já te vi trabalhando... em Cynda.

– Como? Eu não te vi lá.

Zaluna não explicou:

– Você ajuda as pessoas. Eu já te vi fazendo isso antes. E eu te vi também


salvando o seu amigo do conde Vidian hoje.

– Você me viu?

Zaluna não entrou em detalhes. Mas sorriu, um pouco envergonhada do que


tinha acabado de revelar.

– Esse é um dos raros prazeres do meu mundinho, sabe; passo todo o meu
tempo assistindo às vidas de gente que não presta, desejando esquecer o que eu
vejo. Mas dos bons, desses eu me lembro.

Kanan a encarou. Nada do que Zaluna falava fazia sentido. A mulher, ele
então se deu conta, lembrava Jocasta Nu, a bibliotecária Jedi. Não que as duas
fossem semelhantes, claro. Mas Jocasta sempre parecia saber tudo, e agia como
se saber tudo não fosse nada. Era exatamente como aquela mulher se
comportava.

– Que tipo de ajuda você quer?

Zaluna olhou para a multidão em polvorosa.

– Eu tenho que encontrar alguém, mas não sei como essa pessoa é.

– Não é você que conhece todo mundo?


– Não nesse caso. E eu preciso ser discreta. Você pode procurar ela pra mim?

Kanan baixou os olhos e suspendeu as mãos na altura do peito.

– Zaluna, eu não sei quem você é, nem quem você acha que eu sou, mas você
não me conhece. Eu não saio por aí ajudando aleatoriamente as pessoas!

– Não foi o que eu escutei sobre você - uma voz surgiu do outro extremo do
bar. A voz.

Kanan resolveu ficar na boa, enquanto se virava. Elas sempre vêm atrás de
você irmão.

– E aí, Hera - ele disse, sorrindo, todo confiante. - O que é que eu posso fazer
por você?
20
A Ordem Jedi era mais do que uma força policial não remunerada, mais do que
apenas um clube recreativo voltado à metafísica. Era um modo de vida, com
base no Código Jedi e numa série de boas práticas que não constavam no
Código, incorporadas posteriormente. Uma delas dizia que um Jedi devia evitar
se envolver em relacionamentos românticos. Uma vez no mundo, porém, Kanan
Jarrus acabou descobrindo que essa regra não era muito difícil de ser esquecida.

A visita de Hera ali, naquele momento, não era nenhum tipo de encontro, mas
não havia como negar o fato de que ela era uma linda mulher ansiando por uma
conversa particular, e, baseado em suas experiências anteriores, ele sabia
exatamente aonde poderia levá-la. O Cinturão de Asteroides tinha uma mesa
grande, isolada na parte de trás, a iluminação lá era perfeita e ainda ficariam fora
do alcance dos tropeços de bêbados e briguentos.

Nunca, porém, em nenhuma de suas visitinhas anteriores a tal mesa, ele tinha
levado uma segunda acompanhante baixinha e cinzenta. Zaluna estava
conversando mais com Hera do que com de. E depois de ir ao balcão pela
terceira vez para buscar alguma coisa nova para Hera, Kanan já estava começado
a suspeitar que a Twi’lek de fato só fora lá atrás de Zaluna, e não dele.

As duas estavam cochichando bem próximas uma da outra quando

Kanan retornou à mesa com os porta-copos que Hera tinha pedido. Era hora
de agilizar as coisas.

– Podem parar de reclamar sobre o quanto vocês sentiram minha falta,


senhoras, já tô de volta!

– Maravilha - Hera disse num tom de voz que, pela primeira vez, não soou
como música aos ouvidos de Kanan. Ela parecia irritada por ter sido
interrompida, mas ele não deixaria que isso o desencorajasse.

Baixando a cabeça, viu que a cadeira em que estava sentado tinha sido
empurrada para bem longe da mesa, rumo ao corredor. Percebeu que Hera a
tinha afastado com o pé. Quanta gratidão por ter sido salva.

– Não tem mais lugar pra sentar no bar - ele disse, pegando a cadeira e rindo. -
Ainda bem que ninguém pegou minha cadeira.

– Ainda bem - Hera repetiu.

Kanan girou a cadeira para trás e se sentou, apoiando o peito contra o encosto
c cruzando os braços, um gesto que tinha o intuito de levá-lo totalmente de volta
à conversa.

– Mas, e então, o que foi que eu perdi?

Hera o encarou com certa impaciência, até que Zaluna levou sua mão à dela.

– Eu acho que dá pra confiar nele. Eu já o venho observando há mais tempo


do que você. Ele ajuda as pessoas, apesar de todo esse show tentando mostrar o
contrário. Ele enfrentou Vidian ainda hoje.

– Eu vi– Hera disse.

– Você viu? - Kanan perguntou de queixo caído.

Hera parecia preocupada.

– Ainda assim, não me parece muito inteligente. Quanto menor o círculo, mais
bem protegido fica o segredo.

– E eu me sinto mais bem protegida tendo uma testemunha – Zaluna retrucou.


- Eu tenho sido uma testemunha profissional por toda a minha vida. Se vamos
mesmo conversar sobre isso, eu gostaria de ter uma agora. - Ela se voltou a
Kanan. - Ele serve.

Kanan se debruçou ainda mais sobre sua cadeira e deu de ombros.


– Eu sirvo.

0 que é que tá acontecendo aqui?

Hera parecia estar se decidindo. Ela inclinou-se sobre a mesa, entrelaçando as


mãos.

– Tudo bem. Eu vim aqui pra me encontrar com um cara que eu conheci na
HoloNet...

– Ah, bem, esse foi o seu primeiro erro - Kanan proclamou.– Eu poderia ter te
falado...

Mas antes que ele pudesse terminar a frase, Hera o encarou com um sorriso de
forma um tanto paternalista.

– Dá pra esperar?

Ligeiramente humilhado, Kanan tratou de calar a boca.

– Eu estava procurando por um homem chamado Hetto. Ele e Zaluna


trabalham numa empresa de vigilância contratada pelo Império. O Hetto vinha
ficando cada vez mais preocupado com o que ele considerava ser abuso de
autoridade, c já tinha entrando em contato com outras... partes interessadas.

Kanan pôde perceber pela forma como Hera pronunciou as palavras que cia
não queria desenvolver a questão. Mas chegou a dizer com todas as letras que
deveria ter se encontrado com Hetto, e não Zaluna, até que a prisão dele mudou
tudo.

– Ele foi preso por ter tentado te encontrar– Zaluna disse, sacudindo a cabeça.

– Não foi só por isso– Hera ponderou num tom consolador. - Você sabe disso.
O Hetto tava ciente, Zaluna. Já tinha acordado pro mundo, sabia de tudo que o
Império andava fazendo. Esse encontro? Foi iniciativa dele, a tentativa de fazer
alguma coisa. Você foi corajosa de assumir pra si a responsabilidade de terminar
o que ele começou.

– Eu não sou corajosa– Zaluna rebateu, com a voz um pouco trêmula.


- Eu sou uma velha idiota. Eu me lembro de coisas demais. Eu me lembro de
como era, c de como tudo ficou pior, mesmo antes do Império. Eu me lembro de
quando as pessoas não matavam os diretores das associações por puro capricho e
iam embora sem o menor remorso. - Seus olhos negros brilhavam. - E eu me
lembro de quando o meu povo estava a salvo. Aqueles funcionários da mina são
meus Filhos, e agora um deles está em apuros. - Ela se focou em Hera. - Será
que vão matar o Hetto?

Hera parecia não saber o que dizer. Zaluna fechou seus enormes olhos, triste.
Kanan esticou o braço e lhe acariciou a mão.

– Ei, você aí, talvez o seu amigo esteja só num campo de trabalho forçado.

– O Kanan tem razão - Hera emendou, uma frase que, para ele, soou
maravilhosa vindo dela, fosse sincera ou não.– O Hetto é uma pessoa talentosa, e
eles vão querer mantê-lo por perto, talvez até mesmo fazendo esse mesmo
trabalho pelo qual ele foi preso. Só que em outro lugar.

– Pois c, e talvez eles até tenham a luz do dia lá - Kanan disse, sorrindo meio
sem jeito para Hera e dando de ombros.

Recuperando a compostura, Zaluna enfiou a mão na bolsa e tirou um cubo dc


dados. Era maior do que o dispositivo de armazenamento que Kanan tinha visto
com Skelly.

– Era isso que o Hetto queria te entregar. - Ela olhou para Hera sem levantar a
cabeça.– Você sabe o que tem nisso?

– Eu acho que sim - Hera respondeu. Enfiou a mão no bolso e tirou um


pequeno dispositivo de leitura.– Posso?

Zaluna fez uma pausa, subitamente relutante.

– Então, é isso, nc? Agora é a hora. - Passando os olhos pelo bar, ela respirou
fundo. - É quase emocionante estar desse lado das câmeras. Você fica
imaginando quem mais pode estar aqui.

– Não tem nenhum agente imperial aqui, se é esse o seu medo– Kanan disse.
Lançou um olhar ao outro lado do salão. - O povo aqui é tudo cem por cento
bebum. Eu já me engalfinhei demais com vários deles pra pensar que são espiões
do Império.

Hera o encarou:

– E o que é que você acha do Império?

– O mínimo possível - ele respondeu. - Eu posso tanto amá-lo quanto deixá-lo.

– Hmm.

Ela pareceu desapontada, Kanan pensou, mas só um pouco. Estava bem claro
que Hera era politicamente consciente; ele conhecia bem esse tipo, depois de já
ter cortejado algumas tantas universitárias em mundos mais sofisticados. A
diferença era que aquelas mulheres tinham todas tentado de tudo, e de forma até
agressiva, para convencê-lo a se preocupar com as causas da semana. Hera
deixava-o em paz, pelo menos por enquanto. Bom para ela.

– Toma, pode ver. - Zaluna finalmente se decidiu, estendendo-lhe o cubo de


dados.– Era isso o que o Hetto queria. Mas talvez seja melhor você me dar de
volta depois. Certo?

– Tudo bem - Hera concordou. Com o cubo cm mãos, ela o conectou a seu
dispositivo e começou a ler. Kanan notou que os olhos dela se arregalavam
enquanto lia, e também que saboreava algo maravilhoso.

– O negócio aí tá picante?

– Mm-hmm. - Ela ficou manuseando o dispositivo durante vários minutos. -


Isso aqui é coisa seríssima. Não só pela informação em si, mas também pela
maneira como ela foi obtida. O Império tá por toda parte.

– Mas não é onisciente - Zaluna retrucou. - Olhos e ouvidos são passíveis cie
falhas.– Ela acenou com a cabeça ao que Hera segurava. - Se você analisar esses
dados por um tempo, vai ver onde eles não alcançam.

– Esse pedaço aqui. O que esses nomes significam?

Zaluna examinou o trecho apontado por Hera e pigarreou.

– Isso é outra coisa. Essas são todas as solicitações feitas no canal imperial ao
banco de dados da Transcept. Pessoas nas quais eles estão interessados.
Antecedentes, arquivos de vídeo baixados, essas coisas.

Kanan deu uma espiada enquanto Hera folheava a lista de nomes. Ainda não
conseguia acreditar que tudo aquilo fosse real.

– Eu acho que o Hetto estava baixando arquivos até poucos minutos antes de
ser preso– Zaluna disse. - Tem coisa aí muito recente, mesmo.

Hera apontou para um nome.

– E esse último aqui? Lemuel Tharsa?

– É uma das solicitações a nível de comando do destróier estelar. Algum


figurão quer saber mais sobre cie.

– Nível de comando? Tipo o capitão? Ou o conde Vidian?

– Eu suponho.

– E quem é Lemuel Tharsa?

– O nome não me soa familiar - Zaluna disse. Ela pegou o cubo e o leitor de
Hera e fez uma pesquisa.– Alguém com esse nome havia feito uma visita ao
planeta há vinte anos. Alguém abriu um arquivo sobre ele, pelo menos. Sem
mais detalhes, no entanto.

– Por que estariam à procura de alguém assim?– Hera perguntou.

– Não faço ideia. Desculpa por só ter isso, mas, antigamente, nos dias de
vigilância empresarial, existiam mais medidas legais contra esse tipo de
rastreamento. - Zaluna passou o cubo e o leitor de volta para Hera. - Claro, eu
provavelmente devo ter visto o sujeito naquela época, se é que era de fato a
mesma pessoa. Talvez alguma coisa acabe refrescando minha memória.

Kanan riu por entre os dentes:

– Bem, seu pessoal lá espiona milhões de pessoas. Eu não esperaria mesmo


que você...
– Kanan Jarrus, humano do sexo masculino, vinte e poucos anos– Zaluna
disse, olhando para ele. - Piloto de carga, carga perigosa.

Autorização dc voo sete. Emigrou pra Gorse há cinco meses, vindo de...

Kanan agarrou seu pulso.

– Tá, você conseguiu me deixar todo arrepiado. Já entendi. - Sua boca ficou
seca, e ele pegou sua bebida.

– Isso é bom - Hera disse, desconectando o leitor e passando o cubo de dados


de volta à mulher.– Muito bom, valeu muito o sacrifício de Hetto. E o seu. Será
que eu poderia ficar com isso até conseguir fazer uma cópia? Eu tô cheia de
coisas pra fazer pelo motivo que me trouxe aqui, mas, pra isso, eu arrumo um
tempo.

Kanan ergueu uma sobrancelha:

– Eu pensei que você tivesse vindo pra se encontrar com ela.

Hera o olhou gentilmente.

– Kanan, eu sou grata pelo que você fez por mim lá em Shaketown, e também
por ter recebido a gente aqui. Mas eu não vou dizer mais nada só pra satisfazer a
sua curiosidade, então...

– Ai, não!

Hera e Kanan olharam para Zaluna.

– Ele está aqui - a Sullustana disse, olhando para a multidão. - Por que ele
estaria aqui, agora?

Kanan olhou em volta, mas só conseguia enxergar a agitação dos clientes.

– O que foi? Quem tá aqui?

– O que foi, Zaluna?– Hera perguntou, preocupada.– O Império?

Decidida, Zaluna enfiou o cubo de dados em sua bolsa e se levantou.


– Isso já é demais pra mim. Eu tenho que ir embora daqui. - Ela se virou de
costas para a mesa e foi em direção à porta lateral. - Adeus!

Kanan e Hera se entreolharam, confusos. Até perceberem a presença de um


vulto num sobretudo surrado.

– Kanan! Justamente quem eu tava procurando– Skelly disse, espiando por


baixo de seu capuz.– E eu vejo que você já conheceu minha amiga!
21
– Você! Eu pensei que já tivesse conseguido me livrar de você!

Skellv estendeu os braços e escancarou um sorriso a Kanan.

– Oi pra você também - ele disse em voz alta. - Não precisa se levantar. Kanan
levantou-se. Agarrou o fugitivo assustado pela nuca e o forçou a

se sentar na cadeira antes ocupada por Zaluna.

– Esse salão tá cheio de mineiros querendo sua cabeça, jurando que você
tentou soterrar todo mundo vivo!

– Não foi nada disso, tá tudo errado. - Skellv ensaiou se levantar. - Olha só, eu
poderia explicar pra eles...

– Fica sentado aí!– Kanan bradou, empurrando-o para baixo. Olhou ao redor
do salão para ver se alguém tinha notado. Felizmente, estava tudo no mesmo
caos de costume, um termo que cada vez mais vinha resumindo sua noite.

– Por que você... - Hera se interrompeu. - Nossa amiga, a Sullustana. Ela deu
no pé assim que te viu. Por quê?

– Eu sei lá– Skelly respondeu.

– Ela provavelmente já te encontrou num desses elevadores da vida– Kanan


sugeriu.

Skelly apontou para Hera com sua mão boa.

– É melhor você tomar cuidado com essa mulher por perto, Kanan. Eu não
acho que ela seja quem ela diz que é.

– Obrigado pelo conselho. Mas ela ainda não disse nada.

Hera se levantou e olhou de relance a Kanan:

– É melhor eu ver pra onde ela fugiu. Já volto.

– Não, espera. - Ele se levantou e tocou no ombro dela.– Senta aqui com o
Skelly. Fica de olho pra ele não fazer... bem, pra ele não fazer nada. Nada
mesmo.

Kanan saiu depressa atravessando o bar. Alcançando a porta lateral, não viu
nada do lado de fora senão o velho hoverbus de Okadiah estacionado ao luar.

Avistou Skelly e Hera cochichando furtivamente quando voltou para dentro.


Será que eles se conheciam, mesmo?

– Não consegui alcançá-la– anunciou.

Hera franziu a testa.

– Ela devia saber que o Skelly tá sendo procurado - ela argumentou.

– Talvez ela volte quando ele for embora.– Sentando-se, Kanan encarou
Skelly.– Em primeiro lugar, o que é que você tá fazendo aqui? Quem te deixou
escapar?

Skelly apontou.

-Ela!

Kanan olhou para Hera, embasbacado.

– Hein?

Hera simplesmente assentiu com a cabeça e deu de ombros.

– Quando? Onde?

– Na Moonglow - ela enfim disse.– Ele tava sendo mantido prisioneiro. Eu o


soltei.

– Por quê?

– Parecia a coisa certa a fazer.

– O quê, tipo ativar um detonador térmico? - Kanan não podia acreditar.

Ela parecia indiferente.

– Me pareceu seguro na hora. Não havia nenhum relatório sobre vítimas lá na


lua...

– Eu quase fui uma delas. Esse cara é uma arma biológica. - Agarrou a manga
de Skelly num tapa.– Agora, por favor, dá pra cair fora daqui?

– Eu tô indo - Skelly disse, puxando sua mão de volta. - Mas eu vim aqui pra
te ver porque eu preciso dum favor.

– Nossa, que ótimo.

– Vidian tá chegando em algumas horas pra inspecionar a Moonglow– Skelly


continuou, despertando o interesse de Hera.

– Isso é estranho. Eu pensei que a Moonglow fosse peixe pequeno.

– Foi o que eu escutei ele dizendo pra Lal. Os stormtroopers já puseram um


cordão de segurança em torno de toda aquela área em Shaketown.

Então, eu vou precisar da sua identidade pra poder passar por eles, amigão.

Kanan deu uma golada em sua bebida e, então, perguntou:

– Minha o quê?

– Você não disse que ia largar tudo pra ir embora? Só me empresta o seu
crachá, então. Eu vou te devolver assim que resolver o meu caso com Vidian.

– Eu nunca vou pegar isso de volta, sabe por quê? Porque eles vão meter um
raio bem no meio da sua cabeça! E Vidian vai ter o maior prazer em assistir tudo
de perto. – Kanan sacudiu a cabeça. – Aquele cara é terrível.
– Ele é brilhante. Ele não é de engolir conversinha fiada daqueles
corporativistas.

– Nisso, você tá certo– Hera disse.– Ele mata todos eles.

– Eu conheço alguns que até merecem, sabe. Pelo que eu ouvi, ele só faz o
que precisa ser feito. – Com a mão esquerda, apontou para a mão direita,
paralisada. – E ele não tem vergonha das suas partes cibernéticas. Eu acho que
ele fala a minha língua. A gente vai se consultar, feito dois profissionais.

Eu vou salvar a lua. E aí eu vou embora.

– Esse é o plano mais idiota que eu já ouvi. – Kanan lançou um olhar a Hera
em total descrença.– Foi essa coisa aí que você soltou.

Hera suspirou.

– Eu vi alguém cm apuros. Eu queria saber do que se tratava antes que o


Império desaparece com ele. Eu queria saber se valia a pena conhecê– lo. – Ela
encarou Kanan nos olhos e falou com toda a calma do mundo:– Não dá pra
sempre adivinhar qual papel cabe a determinada pessoa.

– Você não sabe escolher os seus amigos, você quer dizer?

– Ah, eu sou muito seletiva.

– Aposto que sim.

– Eu sou bem exigente – Hera reiterou. – Só pessoas muito especiais vão ser
capazes de me ajudar agora.

– Tipo o Skelly? Ou ela? – Kanan apontou com o polegar para a porta pela
qual Zaluna tinha acabado de sair.

– Não, provavelmente não.– Ela sorriu caridosamente. – E nem você. Eu te


agradeço de novo por mais cedo, mas você não vai ser capaz de me ajudar.

– Te ajudar com o quê?

Ela sorriu gentilmente.


– Se você ainda precisa perguntar, você não tá pronto pra saber. – Ela se
levantou. – E agora quem precisa ir embora sou eu, de verdade. O Império ainda
tá à procura do Skelly. E se eles conseguirem fazer com que o Hetto dê com a
língua nos dentes, vão acabar sabendo sobre esse meu rendez– vous.

Antes que Kanan pudesse responder, escutou a porta da frente sendo aberta
com um chute. Dois stormtroopers. Ao virar a cabeça, avistou mais dois
entrando pela porta lateral.

Hera também os viu. Soltou um suspiro.

– É só falar no Império, que ele aparece.

Agachada atrás de uma caçamba de lixo, Zaluna se esforçava para se acalmar.


Tinha feito a coisa certa ao sair naquela hora. Todo e qualquer imperial em
Gorse estava à procura de Skelly, e alguma recompensa provavelmente deve ter
sido oferecida. Não sabia se ele era culpado do que estava sendo acusado, mas
não ia ficar sentada por aí, possivelmente traindo o Império, com ele por perto.

Traição! Era o que tinha acabado de cometer, ela se deu conta. A respiração de
Zaluna acelerou ao olhar para o chão e ver sua bolsa aberta. Lá estava o cubo de
dados, brilhando sob o luar. Ao mostrar o objeto e seu conteúdo a Hera, Zaluna
acabou jogando fora mais de trinta anos de confiança, e para quê? Para ajudar
uma mulher que podia estar em conluio com um bombista maluco? Skelly
pareceu ter reconhecido Hera. Teria toda aquela briga com Kanan na lua não
passado de uma fraude só para enganá– la?

Armadilhas vinham sendo uma preocupação recorrente, e ela tinha tomado


algumas medidas na tentativa de contornar esse risco. Só não contava com a
inexistência de uma rota de fuga naquele lado do prédio. Ao ouvir o barulho das
armaduras dos stormtroopers passando, Zaluna procurou furtivamente por algum
lugar onde pudesse esconder o cubo de dados ou alguma coisa com que pudesse
esmagá– lo. Não havia nada. Até a caçamba de lixo estava trancada.

Ao escutar o zunido de outro veículo de transporte vindo da rua logo adiante,


Zaluna vislumbrou seu único santuário possível se avultando, enorme e escuro,
no fim do beco. Pegou sua bolsa e saiu correndo até lá. Ou todos aqueles anos
gastos na sala de ginástica da Transcept a salvariam, ou não.

A gritaria n’Cinturão de Asteroides não diminuiu quase nada quando os


stormtroopers, um homem e três mulheres saíram abrindo caminho salão adentro
com armas de raios em mãos, embora não em riste. Kanan viu Okadiah
abandonar sua rodada de sabacc a tempo de cumprimentá– los.

– Sejam bem– vindos, oficiais, sejam bem– vindos! Happy hour, a noite
inteira!

Kanan lançou um olhar preocupado a Hera.

– Só tem duas maneiras de sair daqui– ele disse.

– Eu sei. Já tinha checado isso antes de entrar.

É claro que sim, Kanan pensou.

Skelly levantou– se e levou a mão ao capuz.

– Já chega disso – ele resmungou, começando a tirar seu capuz.– Eu tô


tentando me encontrar com Vidian, mesmo. Deixa eu ir logo com eles!

– Não! – Kanan e Hera retrucaram em uníssono, cada qual agarrando um


braço de Skelly e o puxando para baixo. Kanan deu um puxão no topo do capuz,
quase encobrindo o rosto de Skelly até o nariz.

Os stormtroopers atravessavam o salão, dirigindo a palavra a um cliente de


cada vez. Os mais bêbados simplesmente se recusavam a cooperar, e os
stormtroopers não eram nada gentis em troca.

– Porta lateral? – Hera perguntou.

Kanan sacudiu a cabeça.

– Escutou esse barulho?

Hera se concentrou por um instante.

– Só o do bar.

– Tem um transporte de pessoal em marcha lenta lá fora. Devem ser ainda


mais stormtroopers.
Hera olhou de relance à saída.

– Será que não é o hoverbus?

– O barulho é diferente.– E só ele e Okadiah tinham o código de ativação, de


todo modo. Kanan olhou ao redor do bar, discretamente, até que seus olhos
recaíram num corredor estreito que dava bem atrás de sua mesa.

Kanan olhou para trás, checando se os stormtroopers não estavam olhando em


sua direção. Ao vislumbrar sua chance, ele ficou de pé, segurando o braço de
Skelly com força.

– Depressa – ele disse, a caminho do corredor. – Você também!

– Mas esse caminho não leva a lugar nenhum – Hera retrucou.

– Só me segue. E faz exatamente o que eu mandar.


22
– Você aí!

– Eu aqui? – Kanan disse, saindo sozinho do corredor estreito com um pano


de prato branco na mão. Menos de um minuto se passara e dois dos
stormtroopers já tinham alcançado sua mesa recém– desocupada.

– Estamos vasculhando este estabelecimento – disse aquele que tinha a voz


feminina.

– E por quê?

– Um espião veio aqui para se encontrar com um traidor.– O soldado do sexo


masculino passou empurrando Kanan rumo ao corredor.

– Você tá de brincadeira, né? – Kanan riu. – É só olhar em volta – ele disse,


pegando sua caneca vazia da mesa e a esfregando com o pano.– Se o seu espião
esteve mesmo aqui essa noite, ele já deu no pé faz tempo!

A stormtrooper inspecionava a multidão em festa. Um Ugnaught


extremamente bêbado, de tromba torcida e apenas um metro de altura, estava
montado no cangote de um Ithoriano, igualmente bêbado. O titã com cabeça de
martelo e couro marrom tinha um jarro em cada uma de suas mãos de dedos
compridos e, todo desajeitado, vinha tentando se mexer de modo a encher seu
próprio copo e o de seu pequeno passageiro ao mesmo tempo, sem derramar uma
gota sequer de cerveja.

Só mais noite como outra qualquer n’ Cinturão de Asteroides, em todos os


aspectos.
– Talvez sejam os seus traidores ali – Kanan disse, apontando para eles com
um sorriso estampado no rosto.

– Não se preocupe – o stormtrooper retrucou.– Também estamos procurando


por um piloto da Moonglow. Ainda não temos imagens dele, mas se trata de uma
testemunha. O sabotador partiu na nave dele. Comunicaram– nos que ele mora
aqui.

– No chão, talvez– Kanan rebateu, seguindo até o balcão para guardar o copo.
– Esses pilotos vêm numa noite, na outra não. – Catou uma garrafa vazia e a
jogou no lixo.– Eu sou só o bartender. Vocês querem alguma coisa?

Do fim do corredor estreito, o outro stormtrooper gritou:

– Tem alguém por trás dessa porta!

– Oh– oh– Kanan disse, dando um pulo na tentativa de chegar lá primeiro.


Havia uma pequena porta à esquerda no final do corredor, e o stormtrooper
estava prestes a chutá– la. Kanan se colocou na frente dele e suspendeu uma das
mãos. – Eu acho que não é uma boa ideia você entrar aqui.

O stormtrooper encarou Kanan com o capacete ligeiramente inclinado em


sinal de perplexidade.

E, então, todos eles ouviram: um ruído dos mais altos, mais nauseantes, vindo
de trás da porta. Algo metálico no interior se chocou contra a parede com um
forte estrondo, e depois contra a porta, antes que aquele ruído horrível
começasse de novo, quase provocando ânsia de vômito em todos.

– É um dos Wookiees – Kanan disse, sacudindo a cabeça.– Ele sempre acha


que dá conta de encarar a cerveja Trandoshana. Essa coisa é capaz de fazer um
solodeslizador andar.

O stormtrooper do sexo feminino não recuou.

– Mas esse barulho não se parece com...

Ela foi interrompida por uma sinfonia nauseabunda terrível, mais alta do que
antes. Kanan olhou por trás da dupla blindada.
– Pode trazer o sossega– leão, Layda!

– Dá licença! – Hera, vestindo um longo avental, surgiu pela porta aberta do


outro lado do corredor. Saiu da despensa segurando um esfregão numa das mãos
e uma maleta com produtos de limpeza industrial na outra. Sob os olhos atentos
dos stormtroopers, ela colocou a maleta no chão do corredor e a abriu, expondo
várias máscaras de pano. Amarrou uma delas sobre o rosto e, depois, mais outra.
– É bom vocês saírem daqui – ela disse aos observadores enquanto colocava a
terceira máscara sobre sua boca.– Eu não sei se esses trajes vão ser capazes de
proteger vocês.

– Rrrraaa– arrghh– arrggh– arrrrgh! – surgiu outro uivo miserável por trás da
porta. As pancadas voltaram.

– Eu acho que nós já vamos embora– a stormtrooper disse. A linguagem


corporal de seu parceiro era a mais perfeita tradução de alívio imediato.– Caso
vocês vejam qualquer indivíduo suspeito– ela prosseguiu —, chamem as
autoridades.

– Pode deixar – Kanan disse.

Assim que a porta da frente se fechou quando os stormtroopers saíram, Kanan


sacou uma chave do bolso e destrancou a porta. Lá, dentro de um pequeno
armário, Skelly se encontrava agachado, apavorado, segurando um balde de
metal.

– Foi alto o bastante? – ele perguntou, gritando dentro do balde e produzindo


um eco barulhento.

– Sai já daí– Kanan retrucou, agarrando– o.– E vê se sai daqui agora!

Mantendo o capuz enfiado na cabeça de Skelly, Kanan o empurrou de

volta pelo salão principal, atravessando o bar, e porta lateral afora. O veículo
de transporte dos stormtroopers já tinha partido; só restava o hoverbus de
Okadiah.

Já sob o alpendre, Skelly suspendeu o capuz e fez uma nova tentativa,


lamurioso:
– E aí, você vai me emprestar o crachá ou não?

Kanan respondeu batendo a porta e passando a chave.

Hera estava encostada no balcão, já sem avental, quando ele retornou.

– Foi uma boa tática lá atrás, Kanan. – Dava para ele perceber pela expressão
dela que a moça tinha ficado impressionada. – Se você quer que eles vão
embora, faça com que queiram ir embora. Muito bem.

– Eu tenho alguma experiência me livrando dos stormtroopers.

– Ah, é? – ela disse.– E por quê?

– Eu não gosto das roupas deles.

Ela sorriu.

– Vem aqui.

E assim Kanan o fez, e ficou agradavelmente surpreso quando ela estendeu a


mão para tocá– lo.

– Você anda escondendo o jogo de mim, não anda?– ela disse, correndo o
dedo pela gola da camisa dele.

– Eu nunca faria uma coisa dessas. – Foi andando de lado até chegar mais
perto dela, surpreso com a nova atitude. Se aquela emoção toda havia acabado
tornando– a mais amigável, ele é que não iria se opor. – Pode perguntar, pedir,
sei lá, tudo o que você quiser.

– Ótimo– ela disse. – Eu quero o seu passe pra Moonglow.

– Eu... – Kanan disse, antes de entender sua resposta. – Você quer o quê?

– Seu passe– ela repetiu, enfiando a mão com tudo no decote dele para agarrar
algo. Puxou de volta um cartão dourado, preso em torno do pescoço de Kanan
por um cordão de segurança.– Você trabalha na Moonglow. Eu não sabia disso
até Skelly ter mencionado. Eu quero o seu passe pra poder chegar até lá.

– Eu acho que você não pode simplesmente...


– Eu vi o portão. É automático. – Ela gesticulou como se passasse um cartão
imaginário.– Simples assim.

– Peraí. Por que é que você quer entrar na fábrica?

– Denetrius Vidian.

– Eita – Kanan retrucou, voltando ao balcão, onde muitos de seus amigos


acenavam com seus respectivos copos vazios, uma visão reconfortante. – Minha
querida, confia em mim, eu sou muito mais bonito.

– Eu sei bem qual é a aparência dele – ela retrucou, acompanhando– o até o


balcão.– Ele é a razão por que estou aqui.

– O que é ainda pior – Kanan rebateu. Passou a encher os copos. – Olha só,
eu sei que gosto não se discute, mas você é areia demais pro caminhãozinho
dele, não?

– Eu não tô num relacionamento com ele. Eu tô tentando descobrir por que ele
veio pra cá.

– Eu pensei que isso fosse meio óbvio. Ele veio tirar mais sangue de pedra, ou
torilídio dos cristais.– Entregando– lhe um copo, ele se juntou a ela ao lado do
balcão. Ela estava falando sério sobre aquilo, o que quer que aquilo fosse. – Eu
nunca entendi por que o Império precisa tanto de torilídio.

Hera sacudiu a cabeça.

– Esse não é o maior mistério desse lugar. Eles estão construindo destróieres
estelares numa escala tal que daria pra colocar um em cada casa de todo o
universo. A questão é: por que Gorse? – ela perguntou. – E por que isso agora?

– O que você quer dizer?

– Eles já vinham explorando vocês até a última gota de suor pra acelerar a
produção bem antes de Vidian dar as caras. É por isso que o seu amigo Skelly...

– Ele não é meu amigo!

– ...é por isso que Skelly e mais um monte de gente como ele não vêm tendo
papas na língua. O Império não respeita mundos como Gorse e Cynda com essa
negligência toda.

– Cuidado – Kanan ponderou, arrumando uma desculpa para se inclinar ainda


mais para perto dela e lhe escancarar seu sorriso conquistador. – Discurso de
traição, hein.

– Eu acho que vou confiar na varredura de vigilância da Zaluna. Então, me


explica uma coisa – ela pediu. – A sede do domínio administrativo de Vidian é
em Calcoraan, a setores de distância daqui. Mas, ultimamente, toda a carreira
dele parece tê– lo levado rumo a um só objetivo: ganhar autoridade sobre Gorse
e Cynda. E, no mesmo instante em que conseguiu isso, convocou uma escolta
imperial pra trazê– lo aqui– ela disse, enumerando os mistérios nos dedos. –
Agora, me diz se isso não é estranho?

– Estranho é que uma pessoa tão inteligente assim não tenha nada melhor pra
fazer do que ficar obcecada com a vida de um maluco imperial – Kanan
retrucou, sacudindo a cabeça em sinal de descrença.– Por que você ainda se
importa com isso?

– Porque aonde quer que Vidian vá, a desgraça vai atrás. Amigos meus
sumiram, seus mundos sofreram. Acontece que todo mundo tem um interesse
oculto. Se eu conseguir descobrir do que é que ele tá atrás, talvez eu possa fazer
alguma coisa a respeito.

Kanan sacudiu a cabeça. Quantos anos ela tinha? Dezoito, talvez? Enfrentar
um mediador imperial?

– Falando sério agora, como é que foi pra você começar a pensar nisso tudo?

– Eu tenho olhos e ouvidos. Eu li. Eu converso com as pessoas. Eu escuto.

– E, você conversa com gente tipo o Skelly e a Zaluna, você deve estar
desesperada mesmo. O Skelly é um lunático. E a Zaluna não me pareceu nem
um pouco a fim de se envolver nisso. Ela tava só realizando o último desejo do
cara lá, e não adotando uma causa.

Um olhar distante lhe tomou a expressão. Um pouco triste, ele pensou.

– Não – ela disse.– Eles não são muito o tipo de gente que poderia ser de... –
ela se conteve e recomeçou. – Eles não são o tipo de gente que eu tô
procurando.

– Eu poderia ter te avisado isso. Eu te avisei, na verdade. – Levou a mão ao


peito. – Já eu, sou outro papo. Dos mais confiáveis. E tô prestes a ficar
disponível.

– Disponível pra quê?

– Pro que seja.– Kanan endireitou a postura.– Eu vou embora desse planeta. E
eu recomendo que você faça o mesmo. Sabe, foi divertido passar esse tempo
contigo, apesar de uma ou outra briguinha pela rua. Esquece esse negócio de
Vidian duma vez e vamos sair vagando por aí, só nós dois.

Ela o encarou com um misto de diversão e incredulidade.

– Eu acho que não– Hera disse. – A gente acabou de se conhecer. Eu nem sei
quem é você, o que você faz.

– Pode perguntar pra qualquer um.– Kanan acenou em direção às cabeças da


multidão embriagada. – Okadiah! Fala um pouco de mim pra ela, fala!

Oculto em meio à turba grogue, Okadiah gritou:

– Um bom piloto, humanitário ocasional e hóspede um tanto tolerável. Podes


se casar com ele, minha querida!

– São essas as palavras de aprovação dele?– Hera perguntou, esticando– se


para ver de onde a voz tinha vindo. – Será que, pelo menos, ele consegue me
enxergar?

– Não importa – Kanan retrucou. – Qualquer um vai dizer a mesma coisa. Eu


faço de tudo.

– Eu não quero que você faça nada.

– Eu conheço esse setor. Eu conheço as pessoas daqui. Eu conheço pessoas


que conhecem pessoas.– Ele se virou. – Aqui ó, saca só. Qual era mesmo o
nome lá na lista da Zaluna?
– O cara sobre quem o Império anda perguntando? – Ela náo deixava nada
passar. – Lemuel Tharsa.

Os olhos dele percorreram o salão.

– Peraí– ele disse. – Okadiah!

O velho foi abrindo caminho entre a multidão em direção aos dois.

– Me chamaste?– Recaindo os olhos sobre Hera, o velho a saudou


admiravelmente:– Ah, definitivamente me chamaste.

Hera baixou os olhos e sorriu.

– Você chegou a conhecer um tal de Lemuel Tharsa? – Kanan perguntou.

– Eu devo ter conhecido vários Lemuel Tharsas. Alguma dica?

– A última notícia que a gente tem sobre ele é de uns vinte e tantos anos atrás–
Hera disse.– Eu pensei que talvez você pudesse se lembrar dele.

Okadiah sacudiu a cabeça.

– Sinto muitíssimo em desapontar– te, minha querida. Mas não. Nunca passou
Lemuel Tharsa algum por minha equipe.

Hera assentiu.

– Tranquilo. Obrigada.

Começando a se virar, Okadiah olhou para trás.

– Agora, se ele trabalhava nas refinarias ou na administração da Associação,


eu não o teria visto de todo modo, a menos que ele tivesse vindo ao bar. Poderias
perguntar a Chefe Lal. Ela passou a vida inteira na Moonglow, desde os tempos
em que ainda era Introsphere. Talvez ela tenha algum registro de pessoal.

– Obrigada!

– Mas, por favor, não vás bisbilhotar meus registros– Okadiah disse. —
Não quero que descubras que sou velho demais para ti.

– Cai fora daqui – Kanan retrucou, empurrando seu amigo. – Ele tem pedras
nos rins mais velhas que você – ele disse a Hera.

– Tuas palavras magoam – o velho rebateu, afastando– se.

Hera encarou Kanan de baixo para cima.

– Bem, agora mesmo que eu quero entrar lá. Você vai me dar o crachá ou não
vai?

Kanan esfregou a testa.

– Eu sabia que você ia me perguntar isso. Olha só, tive um longo dia. Daqui a
poucas horas, eu vou ter que levar essas pessoas de volta até a Moonglow pro
turno da manhã. Quem conseguir recobrar a consciência, pelo menos. Eu
também preciso pegar meu último pagamento. Você vem com a gente. Se você
insistir muito, eu posso pensar num jeito de fazer você entrar.– Ele suspendeu as
mãos.– Mas é isso, tá? Sem nenhuma maluquice.

Ela o analisou por um instante. Por fim, concordou.

– Ok. Só isso mesmo. – Ela ergueu seu copo. – E sem nenhuma maluquice.
Esse é o meu lema.

Hera retornou a sua nave, tendo recusado a oferta de Kanan para se hospedar
n’0 Cinturão de Asteroides. Acabou que a expressão “bêbados dormindo no
chão” não era assim tão jocosa; Okadiah Garson era o proprietário do prédio no
outro lado do beco, onde os fanfarrões exaustos, ao módico valor de um crédito
por cabeça, recolhiam– se ao luxo de colchonetes no chão duro. Kanan havia lhe
oferecido um lugar mais espaçoso e reservado no andar de cima da cantina– com
ou sem ele– mas ela resolvera passar a proposta adiante. Ainda tinha muita coisa
para digerir.

Zaluna nunca chegou a aparecer de novo, e Hera duvidava que houvesse


qualquer propósito numa tentativa de reestabelecer contato. Se Hera tivesse
chegado um pouco mais cedo ou se a Sullustana não tivesse sido afugentada,

ela poderia estar com o cubo de dados da Transcept agora, obviamente um


tesouro com informações sobre milhares de pessoas e métodos de vigilância
imperiais. Mas Hera não estava revoltada com seu destino, nem com ela própria.
Todo plano corria o risco de fracassar, graças ao imprevisto. Ficar se
recriminando era pura perda de um tempo valioso.

Kanan Jarrus, porém, fora capaz de surpreendê– la, o que raramente acontecia.
Em Shaketown, ela tinha conhecido um sujeito brigão, típico casca– grossa.
Mas, no bar, além de todo o interesse romântico por ela – o que era divertido —,
ela havia notado alguns gestos de astúcia e sutileza por parte dele.

Foram bem oportunos, claro, mas provavelmente não se repetiriam. E ela


simplesmente não esperaria para descobrir isso da pior maneira.

Não, o verdadeiro problema em sua vida continuava o mesmo. Vidian


obviamente ansiava por melhorar a produtividade naquele mundo, mas a
urgência de sua visita a levou a supor que outra coisa estava em jogo. Se Vidian
estivesse mesmo lá numa missão secreta, talvez uma missão secreta a serviço do
imperador, ela tinha de descobrir.

E ainda havia o tal Lemuel Tharsa. De sua nave, ela pesquisou na HoloNet de
domínio público e descobriu que Tharsa estava vivo, muito bem vivo, e vivendo
fora do planeta como consultor de mineração, fazendo trabalhos freelancer ao
governo imperial. Por que, então, alguém a bordo da Ultimatum desejaria
vasculhar o passado distante dele em Gorse? Tratar– se– ia de um traidor em
potencial no círculo de Vidian? E, assim sendo, um possível aliado a quem ela
deveria alertar?

Correria atrás de respostas no dia seguinte, na Moonglow. Descobriria a


verdade, e a verdade lhe diria o que fazer. Como sempre.

Obrigou– se a dormir.
FASE DOIS

REAÇÃO
“Imperador inaugura novo centro médico aos veteranos em Coruscant”

“Caça ao foragido está em curso após acidente industrial em Cynda”

“Conde Vidian chega a Gorse para turnê de inspeção, possível engarrafamento”

– MANCHETES, HOLONOTICIÁRIO IMPERIAL (EDIÇÃO GORSE)


23
Pela primeira vez desde que entrara na Academia, Rae Sloane estava atrasada
para um compromisso. A agenda, no entanto, fora estabelecida pelo Império
Galáctico. Ela, portanto, poderia quebrar a agenda.

E a culpa não era dela, afinal. Durante a descida pela atmosfera de Gorse,
conde Vidian surgira do compartimento de passageiros para redirecionar a nave
auxiliar da capita, a Truncheon, rumo a uma localização bem mais ao sul dos
distritos industriais. Tinha exigido um sobrevoo pelo asilo dos mineiros, o
mesmo que ordenara que fosse fechado.

Até então, ela ainda não tinha entendido o motivo daquela viagem, já que não
iam pousar em terra. Não havia muito para ver naquela escuridão. Mas ela
repentinamente conseguiu entender o motivo num clarão, ou melhor dizendo,
com um clarão, assim que o edifício todo em forma de cubo implodia logo à
frente. Vidian estivera ocupado enquanto Sloane dormia, determinando a
transferência do pessoal, dos equipamentos utilizáveis e de todos os pacientes do
centro médico; ao menos, até onde ela podia ver. Vários dos recém– evacuados
ainda estavam em solo, ao lado de seus transportes olhando para trás. As equipes
de demolição do Império executaram o serviço sem demora. Veículos de
remoção dos escombros já se encontravam no local; Vidian tinha planos de
transformar o lugar num conveniente depósito de combustível. Fiel a sua
reputação, o sujeito trabalhava incrivelmente rápido. Sloane podia imaginar o
que os pacientes, perplexos assistindo a tudo aquilo, deviam estar pensando,
vendo seu lar vindo abaixo.

Ela, porém, não se deu ao trabalho de imaginar o que Vidian estaria pensando.
O sujeito tinha simplesmente assistido à implosão sem esboçar o menor sinal de
comoção, antes de retornar aos fundos do veículo. Por ela, tudo bem. Seu
trabalho era se certificar de que nada mais interferisse na visita. O que
acontecera em Cynda não aconteceria ali.

O conde tinha planejado algumas paradas por toda a megalópole lamacenta, o


que fez com que Sloane resolvesse não usar veículos terrestres entre um destino
e outro. Haveria rotas demais a serem vigiadas. Em vez disso, a Truncheon
voaria de parada em parada, levando sua própria tropa de stormtroopers,
protegida por contramedidas eletrônicas de prevenção a ataques por terra ou por
ar enquanto voava. Claro que um ataque desses era improvável ao extremo, mas
Sloane tentava sempre pensar em tudo.

O que implicava em limpar as zonas de pouso em todos os lugares e lhes


garantir segurança. O que, por sua vez, não era um problema. O capitão de um
destróier estelar deveria ser um oficial naval, claro, mas também a
personificação da autoridade imperial no sistema. E embora ela não gozasse de
um poder formal sobre as autoridades locais do Império em Gorse, a não ser sob
certas circunstâncias, os capitães das principais naves costumavam ser tratados
como minigovernantes. Eram poucos os pequenos burocratas que se dispunham
a discutir com alguém capaz de colocar uma dezena de AT– ATs em solo com
uma mera chamada no comlink. E, assim, toda a força policial de Gorse acabou
se juntado aos stormtroopers da guarnição planetária, a fim de se prepararem
para a chegada de Vidian.

Nem seria tão difícil assim se acostumar àquela autoridade toda. Era
exatamente o que ela queria.

– Shaketown– ela anunciou enquanto a nave se aproximava do distrito


industrial. – Bem conforme o esperado.

O nome do lugar era bem apropriado, ela julgou. Sloane sentiu um leve tremor
quando o trem de pouso da nave encostou na lama. A equipe de reconhecimento
tinha se decidido contra o pouso da Truncheon na pista da Moonglow, onde teria
de ficar estacionada em meio a cargueiros de explosivos; o fugitivo tinha voado
de volta em um daqueles e ainda continuava à solta. A rua em frente ao portão de
entrada da Moonglow, no entanto, encontrava– se isolada de modo a delimitar a
área de recepção; supostamente, sob o protesto encolerizado de um cozinheiro
Besalisk, proprietário de uma lanchonete no perímetro.

Bem conforme o esperado. Com a rampa abaixada, Sloane examinou o local.


Uma visita oficial de Vidian, mesmo uma visita dela própria, a outro mundo
fazia jus a toda pompa e preparo, fosse a curto prazo ou não. Havia alguns tripés
de iluminação temporários complementando o brilho da lua crescente, e alguém
tinha colocado algumas tábuas sobre a rua enlameada. Cerca de vinte cidadãos
encontravam– se nas laterais, do lado de fora da barreira protegida pelos
stormtroopers, observando tudo enquanto uma pequena e triste procissão se
aproximava da Truncheon entoando um cântico. Não era bem a saudação que ela
tinha encomendado ou mesmo teria gostado, mas sabia que Vidian não se
importaria nem um pouco.

Ele apareceu à porta atrás dela. Até então, ela só tinha conhecido o lado de
Vidian que marchava em linha reta, de um lado ao outro, e que nunca perdia
tempo, mas lá estava ele, parado no lugar, olhando para cima, para baixo, por
todo o redor. E principalmente para a fábrica logo adiante, onde os olhos
macabros do conde permaneceram por um bom tempo. Preferiu acreditar que ele
simplesmente estava fazendo o que quer que fizesse ao se preparar para uma
inspeção. O sujeito bem poderia estar só de olho no menu do dia seguinte nos
refeitórios da Ultimatum, vai saber.

Uma humana de pele bronzeada acenou a eles, escoltada por dois Besalisks.
Sloane a reconheceu da conversa holográfica entre as duas com a prefeita de
Shaketown.

– Bem– vindo, conde Vidian. Bem– vinda, capitã. Permitam– me apresentar–


lhes Lal Grallik, diretora de operações da Moonglow Polychemical.

Vidian despertou de seu transe e desceu a rampa. Mão nenhuma foi estendida.
Sloane juntou– se a ele sobre as tábuas.

Lal, vestindo um terninho escuro, curvou– se e acenou em direção ao outro


Besalisk.

– Esse é o meu marido, Gord, chefe de segurança da fábrica.

– Acredito que não vamos precisar dele – Sloane rebateu, acompanhando


Vidian.– E fico surpresa de ainda vê– lo trabalhando aqui após deixar o
responsável pelas detonações fugir– ela parou para fitar Lal —, sendo da família
ou não!

O Besalisk rosnou:
– Se você acha que pode fazer melhor...

Sua esposa o silenciou:

– Eu lhe garanto que não vai haver nenhum problema dessa vez, capitã. A
equipe do Gord checou umas três vezes cada metro quadrado deste lugar.

– Arram. – Ouvindo um zunido alto ao sul, Sloane se virou para se deparar


com um hoverbus estacionando fora da zona de segurança. – Que veículo é
aquele?

– Parte do próximo turno até Cynda – Lal disse, escancarando demais os


dentes ao sorrir. – Aqui, ninguém nunca para de trabalhar!

Os stormtroopers indicaram ao hoverbus combalido o caminho até o posto de


fiscalização. O smoothride Mark VI já tinha ultrapassado sua vida útil quando
Okadiah o comprou; antes a máquina voava pelos céus, agora nem mesmo
Kanan ousava levantá– la a mais de um metro do chão. Okadiah chegou a ficar
tão apavorado com a ideia de que o ônibus pudesse acabar disparando ao alto,
descontrolado, que mantinha um paraquedas embaixo do assento. Na opinião de
Kanan, tratava– se de uma situação bastante improvável. Seria muito mais fácil
que o veículo acabasse morrendo na rua mesmo, como já tinha acontecido com
ele várias vezes. Para uma coisa, ao menos, tinha utilidade: levar à Moonglow os
mineiros de ressaca para que pudessem ganhar créditos o suficiente para beber
tudo de novo.

O lambda imperial estava estacionado um pouco mais adiante, bloqueando


totalmente a entrada da lanchonete de Drakka. Kanan tinha certeza de que o chef
estava adorando aquilo tudo. Avistou, então, o marido de sua chefe
perambulando em frente à nave auxiliar dos Sistemas de Frota Sienar, alguns
tantos passos atrás de um grupo maior. Vendo– o passar, Lal acenou:

– Oi, Kanan! Bom saber que você não foi embora!

Kanan respondeu com um meio aceno e, em seguida, vislumbrando Vidian,


enfiou na hora sua cabeça de volta pela janela. Cerrou os dentes. Ainda no dia
anterior, estava pronto para deixar Gorse de uma vez por todas. Agora, retornava
de bom grado a um verdadeiro campo de guerra. Mas seria só por mais um dia, e
havia uma excelente razão para tanto. Olhando para trás, no fim do corredor, ele
a viu conversando amigavelmente com os mineiros. Estavam fascinados por
Hera. Não dava para recriminá– los.

Os stormtroopers orientaram o hoverbus a contornar até o portão de serviço. O


smoothride zuniu ao dobrar bruscamente e, por um instante, Kanan pensou ter
ouvido um baque vindo de um dos compartimentos traseiros. Podia ser qualquer
coisa, ele pensou. Aquele hoverbus era capaz de morrer em qualquer
viagenzinha de nada. Até mesmo a porta do banheiro estava emperrada.

– Estou tendo uma conversa das mais encantadoras com tua jovem amiga–
Okadiah disse, abordando– o por trás.– Decidimos que vamos passar as férias
em Naboo. Podes nos levar se quiseres.

– Cuidado. Ela é uma mulher com uma missão– Kanan retrucou, enquanto a
besta metálica pousava na lama com um solavanco. As portas se abriram e os
passageiros saíram. Kanan permaneceu.

– Não vais transportar teus explosivos hoje? – Okadiah perguntou.

– Não – Kanan respondeu, apontando para trás com a cabeça. – Eu quero


mostrar a cidade pra alguém.

Okadiah deu alguns tapinhas no ombro dele:

– Única ocupação que interessa de fato. Boa sorte.

Kanan se demorou sorrindo enquanto o velho ia embora. Okadiah não tinha


visto a sacola no chão, ao lado do banco do piloto: os pertences de Kanan,
empacotados enquanto o velho não estava por perto. Sentiria falta de Okadiah, e
aquele provavelmente tinha sido o adeus. Mas o capítulo seguinte, pelo que
podia sentir, já tinha começado.

Mesmo tendo começado de modo tão estranho.

– Você quer mesmo fazer isso? – ele perguntou a Hera. Ela estava à janela
logo atrás do banco do piloto, perscrutando tudo em volta.

– Sim – Hera disse.– Eu quero, sim, muito.

Ela, então, puxou seu manto, revelando um traje totalmente preto por baixo.
Ideal para ficar se esgueirando por aí num lugar sem sol, Kanan pensou. E
melhor ainda de se admirar. Ela checou seu coldre, ajustando sua arma de raios
no lugar.

– Eu sinceramente acho que você deveria deixar isso pra lá e aproveitar seu
tempo de um jeito melhor– ele disse.

Hera retrucou com firmeza no olhar:

– Eu tenho certeza de que você tem várias sugestões. – E estendeu a mão.

– Beleza, então. – Ainda que relutante, Kanan lhe entregou seu crachá da
Moonglow.– É só colocar na frente do sensor que fica na porta de entrada. Eu
vou ficar estacionado do outro lado da rua, fingindo que tô com um problema no
motor – embora soubesse que não precisaria de tanto.– Quando você voltar, eu
entro pra pegar meu pagamento com a Lal e depois a gente segue pro
espaçoporto e vai pra qualquer planeta que você quiser.

– A gente vai, não vai? – Hera revirou os olhos.

– Pode apostar.

– Eu tenho minha própria nave– ela disse e saiu do ônibus.

Hm. Que notícia interessante aquela, ele pensou assim que ela sumiu pela
porta.

Kanan conduziu o hoverbus de volta pelo portão e o estacionou à vista da


nave auxiliar. Ao sair do ônibus, notou que os stormtroopers e alguns seguranças
ainda estavam a postos por todos os cantos. Já era tempo de começar a
pantomima.

Ao menos, uma pequena graça alcançada: no fim das contas, Skelly não tinha
dado as caras. Ninguém é tão idiota assim!

– É o Kanan, que bom.– Skelly examinava os recém– chegados de sua


posição, escondido entre as chaminés no telhado da lanchonete de Drakka.
Apenas uma das lentes de seus macrobinóculos de segunda mão funcionavam, o
suficiente para lhe mostrar o que precisava ver.

Ele se deu conta de que não podia simplesmente dar as caras por aí. As
pessoas da empresa de mineração não queriam que ele conversasse com Vidian,
e ele não confiava nos stormtroopers para levá– lo até o conde após o episódio
na lua. Precisaria abordar o sujeito quando estivesse sozinho. O que significava
dar um jeito de entrar na fábrica. As refinarias de torilídio eram lugares
complicados: um monte de equipamentos imensos, muitas vezes amontoados em
espaços apertados, proporcionando inúmeros esconderijos.

E a Moonglow ainda tinha outra coisa: uma antiga conexão com o sistema de
esgoto de Shaketown, abandonado havia muito. Gorse não era um lugar
particularmente chuvoso, mas o lençol freático subia e descia de forma
dramática com as marés. Os movimentos de Cynda espremiam o planeta feito
uma esponja, fazendo poças aleatórias florescerem do chão. Os danos
provocados pelos terremotos acabaram inutilizando a tubulação, e só quem
nutria muito interesse por tais lugares, como Skelly, ainda sabia da existência do
sistema de esgoto.

E como entrar lá. Tirando os macrobinóculos de sua mão, ele os enfiou em sua
enorme mochila. Jogando– a nas costas, vislumbrou a escada que levava ao beco
da lanchonete. Lá, no meio de uma poça rasa e salobra, estava a tampa
arredondada que ele vinha procurando.

Lutando contra o peso de sua mochila, Skelly se agachou para passar as mãos
pelo disco de metal. Firmou os dedos por baixo da tampa e fez força por quase
um minuto. Nem se mexeu. Ele tentou se levantar e acabou se dando conta de
que sua mão direita, a defeituosa, tinha ficado presa no lugar.

Maravilha, Skelly pensou. O que mais vai dar errado agora?

Não demorou a descobrir.

– Mas olha só quem voltou. – Drakka, o enorme chef Besalisk, apareceu por
trás dele, armado– como se precisasse – com uma imensa frigideira. Agarrou
Skelly com suas três mãos livres, tentando virá– lo ao contrário. Skelly sentiu
uma dor tremenda no braço, pois sua mão, ainda presa à tampa do esgoto, não
cedia um milímetro.

– Uepa, pera lá! – Skelly retrucou. Ele sabia que estava invadindo o lugar,
mas o Besalisk haveria de reconhecê– lo.– Sou eu, Drakka! Skelly! Você me
conhece!
– Você diz isso como se fosse uma coisa boa– o Besalisk continuou
empurrando– o. – Você tá invadindo minha propriedade!

– Ei, não!– Skelly se contorceu de dor. – Eu só tô tentando chegar lá na

Moonglow pra me encontrar com os imperiais!

Drakka parou de empurrá– lo e franziu a testa.

– Eu tive que fechar minha lanchonete hoje por causa desses imbecis. Skelly
ficou parado, observando– o por um tempo, nervoso, enquanto o

Besalisk tomava uma decisão.

Então, passou por Skelly e arrancou a tampa do esgoto, soltando a mão do


humano no processo.

– Os Besalisks têm um provérbio – ele disse. – Se teus vizinhos te


perturbam, joga teus roedores no ninho deles.

Antes que Skelly pudesse se sentir aliviado, Drakka lhe agarrou num puxão e
o atirou no buraco.

– Valeu, amigão! – Skelly gritou do fundo, encharcado. Tinha a sorte de


possuir bons amigos sempre dispostos a dar uma mãozinha.
24
Ter poder em solo não era tão bom assim, no fim das contas, Sloane pensou. Não
caso autoridade significasse sair em excursões estúpidas por fábricas locais.
Natural de Ganthel, um mundo industrial, já tinha visto estaleiros e docas de
carregamento o bastante em sua vida. Frequentara a Academia justamente para
escapar de um futuro trabalhando em tais lugares.

Mas não, Lal Grallik tinha insistido em ficar exaltando as virtudes de cada
pormenor na empresa. Estava, então, levando os imperiais a uma nova seção,
recém– construída sob sua rígida supervisão; quando as reservas de torilídio
findaram em Gorse e a mineração passou à lua, um novo centro de consumo se
fez necessário. Daqui a pouco, ela vai querer nos mostrar os armários da
zeladoria, Sloane pensou.

A única coisa surpreendente naquilo tudo era o fato de conde Vidian não ter
dito quase nada durante a turnê. Estranho, já que se encontrava ali para
despachar diretivas e se alguém era capaz de dar um basta naquela tagarelice
toda da Besalisk, que vinha lhes tomando um precioso tempo, era ele.

– Lal! – seu marido, o chefe de segurança, gritou. – Chegou um relatório


sobre alguém bisbilhotando pelas instalações. Departamento pessoal.

– Aquele tal de Skelly? – Vidian perguntou.

– Não viram quem era – Gord Grallik disse. Enfiou o comlink no bolso e deu
meia– volta. – Eu vou checar isso.

Sloane fez sinal ao stormtrooper que lhe escoltava:

– Vá ver.
– Não, não – o guarda retrucou. – Meu território é aqui.

– Isso tudo aqui é seu território – Sloane rebateu, apontando na direção do


Besalisk. – Siga– o!

Skelly observava tudo de seu esconderijo por trás de uma esteira rolante em
movimento. Tivera sorte. Um antigo bueiro o levara direto a uma das
construções mais recentes; teve de deixar sua mochila no piso inferior para
escalar até o topo, mas fora capaz de passar correndo para o interior do prédio.

A partir de então, passou a se arrastar pelas instalações de teto alto, esperando


por sua chance de abordar Vidian. Alguma coisa devia ter acontecido para que
Gord saísse daquele jeito, além do fato da capitã imperial ter enviado um de seus
stormtroopers junto com ele. Skelly continuou rastejando, cada vez mais perto.
Pôde, enfim, ouvir a conversa entre eles, mesmo com todo o barulho das
esteiras.

– ...e talvez isso seja do seu total interesse, capitã Sloane – era Lal falando, ao
pé de uma montanha de uns dez metros de titânio no outro extremo da sala. –
Esse é o nosso graneleiro pra cargas pesadas, o mais recente em uso aqui em
Gorse. A senhora vai ver que o interior da cabina é semelhante aos de alguns
walkers blindados de vocês: é o mesmo fabricante. Se a senhora quiser entrar, eu
posso mostrar...

Skelly pôde ver as duas subindo a escada de metal e entrando no compartimento


de passageiros do imenso veículo. Rastejando um pouco mais adiante,
vislumbrou Vidian, desacompanhado, caminhando pelo longo corredor entre as
esteiras, fora da vista das outras duas. O coração de Skelly palpitou. Pouco
importava se Vidian fosse ficar sozinho por um instante ou um minuto, aquela
era sua chance!

– Já pode sair daí– a voz, alta, era a mesma que Skelly já tinha escutado em
dezenas de gravações sobre gestão. – Eu posso ouvi– lo muito bem, mesmo em
um lugar como este.– O conde Vidian virou– se para encará– lo.

– O sabotador, eu presumo.

– Não é bem isso que eu sou – Skelly, antes de joelhos, retrucou, ficando de pé e
espanando a roupa. – Eu tô mais pra um denunciante, conde Vidian. Eu sou que
nem o senhor, sabe, eu acho que o jeito antigo de se fazer as coisas tem que
mudar. Eu consigo ver o que as pessoas estão fazendo de errado!

– E eu estou vendo alguém fazendo algo errado bem na minha frente.

Skelly ficou feliz por Vidian estar falando com ele. Já tinha escutado sobre as
capacidades cibernéticas do sujeito: conversar com Skelly significava que ele
não estava se valendo de seu comlink interno.

– Se você me conhece tão bem – o conde prosseguiu – , sabe que eu costumo


resolver meus problemas com minhas próprias mãos.

– Então, eu acho que o senhor vai querer dar uma olhada nisso – Skelly disse,
puxando o holodisco do bolso. – É minha pesquisa. O senhor tem que parar com
as detonações em Cynda. Vocês vão acabar explodindo a lua ao meio por
engano!

– Sandice. – Vidian seguiu a passos firmes da direção dele. – E ainda que isso
fosse possível, e o Império assim o decidisse, nós certamente não pediríamos seu
consentimento.

Os olhos de Skelly grudaram no semblante macabro de Vidian e ele tropeçou


para trás.

– Mas eu tô tentando ajudar o senhor!

– Ajuda bastante, morrendo. – Com uma forte bofetada, Vidian fez o holodisco
voar pelos ares, quicando no chão até uma das esteiras. O segundo movimento
foi em cheio no meio das fuças de Skelly.

Que época boa pra ficar bisbilhotando por aí, Hera pensou ironicamente. E já
que não havia como se aproximar de Vidian durante sua turnê pelo campo de
pouso, o jeito foi iniciar pelo departamento pessoal, verificando se Lemuel
Tharsa, o tal sujeito do interesse imperial, segundo os arquivos de Zaluna, era
alguém importante. Ele nunca chegou a ser um empregado da firma, mas já tinha
estado na Moonglow: deram– lhe crachás de visitante em várias ocasiões, havia
mais de vinte anos. Antes que ela pudesse descobrir mais sobre ele, alguém a
encontrou. Esse era o maior problema em se infiltrar numa fábrica justo no dia
em que o Império fazia uma inspeção. Ninguém faltava por motivo de doença.
Ela, normalmente, gostava de um desafio. Mas com a equipe de segurança da
Moonglow vindo por uma direção e os stormtroopers pela outra, acabou sendo
forçada a lançar mão do último recurso de um covarde: os dutos de ventilação.
Felizmente, o sistema do novo edifício era menos vil do que os de outras
fábricas com os quais ela já tinha se deparado.

Olhando para baixo através de uma outra grade, vislumbrou o chefe de


segurança Besalisk outra vez – Gord, como Kanan o chamara, marido da
administradora. Gord dizia a seus ajudantes que deveriam se redimir por ter
deixado Skelly escapar no dia anterior. Hera sentiu uma pontada momentânea de
culpa por colocar o sujeito em maus lençóis com a esposa e com o Império.
Sentimento que não demorou a passar, tão logo Gord jogou a cabeça para trás e
apontou ao alto, evidentemente percebendo o recuo no tubo de ventilação. Foi
quando os raios começaram a ser disparados.

Já chega disso, ela pensou, arrastando– se por outra tubulação. Era hora de
encontrar Vidian.

Sloane surgiu da cabine do graneleiro para avistar Vidian a algumas dezenas de


metros, do outro lado do pátio da fábrica, esmurrando Skelly sem a menor
piedade. Ela ativou o comlink em seu pulso e sacou sua arma de raios.

– Troopers, venham aqui!

Vidian suspendeu o intruso e o arremessou. Skelly foi se debatendo pelos ares,


de uma ponta a outra. Seu voo terminou violentamente contra o console de
controle de uma das esteiras.

– Está tudo sob controle – Vidian disse, caminhando casualmente em direção ao


local.

Sloane desceu correndo as escadas, de todo modo. Podia ver que o adversário de
Vidian estava sangrando e comprimindo o peito. Skelly ficou de pé, atordoado,
encarando o ciborgue que se aproximava, antes de sair subindo
desesperadamente pela lateral da estação de controle. Dando um salto, esticou os
braços para se agarrar a uma saliência e fez força para cima.

– Parado! – Sloane apontou sua arma.

Com uma explosão de energia que a deixou sem reação, Skelly saltou sobre a
esteira em movimento. Sloane atirou, mas a esteira fez a curva bem na hora e o
raio acabou pegando de raspão na canela de Skelly.

Sloane olhou para trás e avistou Lal, horrorizada, se mantendo a distância, no


topo da escadaria de metal.

– Parem todas as esteiras! – a capitã gritou. Lal saiu correndo em direção aos
controles.

– Tarde demais – Vidian disse, observando tudo de longe. A esteira seguiu do


lado de fora, rumo à área de carregamento. Vendo os troopers de Sloane
chegando por um corredor lateral, Vidian apontou:

– Atrás dele!

Sloane se aproximou de Vidian.

– Isso foi coisa dele? Do Skelly?

Vidian assentiu e passou a caminhar de volta pelo corredor.

– Ele não vai conseguir sair das instalações. Vou alertar todo mundo – ela disse.

– Acabo de fazer isso– Vidian disse de cabeça baixa. Estava procurando algo no
chão, ela percebeu, ao pé de uma das esteiras. – Mas é melhor que você vá lá
supervisioná– los. Alguém com autoridade deve se fazer presente.

Todo aquele episódio deixou Sloane confusa.

– O que era que Skelly estava tentando fazer? O que ele queria?

Vidian ajoelhou– se. Catou um pequeno objeto do chão.

– Ele queria me entregar isto – ele disse. Era um holodisco, conforme Sloane
pôde notar. – Nada relevante. Quando você encontrá– lo, diga– lhe que eu o
destruí. Ele deve morrer ciente do quão fútil foi desafiar o Império.

Kanan removeu um parafuso do motor do smoothride pela décima quarta vez.


Em seguida, passou a colocá– lo de volta.

Não era de arriscar seu pescoço por muita gente – na verdade, por quase
ninguém! Havia algo em Hera, porém, que o impedia de simplesmente cair fora
dali. Ainda estava tentando descobrir ao certo o quê. Ela era linda, claro, mas,
acima de tudo, sabia como agir numa boa. Também parecia ser razoavelmente
competente – tinha percebido na hora que se tratava de um truque da parte dela
na cantina. Todas as características ideais, feitas sob medida para seja lá o que
ela tinha em mente. Kanan ainda não sabia bem o que era, mas tudo bem.
Poderia participar sem problemas, como já tinha feito várias vezes antes, sempre
quando algo ou alguém despertava seu interesse por um tempo. Não tinha mais
nada para fazer, mesmo.

Do lado de fora, uma sirene disparou. Espiando por baixo do capô do hoverbus,
Kanan viu vários stormtroopers passando pela zona de segurança em speeder
bikes, rumo aos portões da fábrica. Parte deles seguiu em direção ao aeródromo
da Moonglow, onde a Expedient estava estacionada em meio a alguns outros
veículos; o restante se dirigiu à instalação principal.

Quanta competência, ele pensou. Pelo visto, Hera estava em apuros.

Fechou o capô e passou a voltar à fábrica. Estava sem seu crachá, mas sabia de
um lugar, logo dobrando a esquina, onde poderia pular a cerca do aeródromo.

Chegando ao local, Kanan deu um salto e girou sobre o gradeamento. Atingindo


o solo macio, saiu rolando...

...de encontro às armas de raios dos stormtroopers, apontadas em sua direção.

Luzes intensas inundaram um dos cantos do campo de pouso, quase o cegando.


Pôde entrever uma mulher de pele negra num uniforme de capitão imperial,
aproximando– se.

– E aonde– ela perguntou abruptamente – você pensa que vai?

Skelly acabou fechando a tampa do esgoto sobre sua cabeça bem na hora. Ouviu
o barulho das botas dos stormtroopers correndo, logo acima, enquanto penava
para dar um jeito de descer os degraus de ferro da escada.

Ao alcançar o fundo, ficou com aquela água salobra até os tornozelos, bem
machucado e todo quebrado. Sua cabeça estava sangrando, e sentia como se as
maçãs de seu rosto estivessem se mexendo por baixo da pele. Passou afoito os
dedos pela boca, contando seus dentes, e ficou agoniado ao perceber quantos
faltavam. Com muita dificuldade, conseguiu virar de lado. Com certeza, suas
costelas estavam quebradas.

Skelly tossiu, perplexo. Era para Vidian ser diferente. O quebra– regras.

O destruidor de paradigmas. Tinha atingido o auge em ambos os setores, público


e privado, ignorando a burocracia e suas convenções ao dar ouvidos a tudo e a
todos, e tomando suas decisões com base em fatos.

No entanto, acabou tornando– se apenas mais um sádico, tão surdo e cego


quanto o fora antes das próteses.

Avistando sua mochila, Skelly lutou contra a dor e se arrastou até onde ela
estava. Havia um medpac lá dentro e algumas coisinhas mais. Muito mais.

Se meras palavras não foram capazes de salvar a lua, era chegada a hora de ir
além!
25
Pouquíssimas criaturas na galáxia tinham um aspecto tão deprimente quanto os
Besalisks, Vidian pensou consigo mesmo. Com bocas enormes esticadas, e
barbelas de couro murcho penduradas quando franziam a testa, suas feições eram
perceptíveis a quilômetros de distância.

Conde Vidian não estava nada interessado no desconcerto de Lal Grallik por
conta da invasão de Skelly, tampouco nas desculpas que ela tinha a dar. O
encontro com o sabotador lhe dissuadira de sua agenda predefinida. Ela não
perdeu tempo, levando– o de imediato ao prédio da refinaria: a parte mais antiga
da Moonglow, ela disse, da época em que a empresa ainda respondia por
Introsphere.

Eufórica, ela fez questão de lhe mostrar todas as melhorias realizadas na


fábrica, e ele tratou de ignorar a decepção estampada no rosto dela tão logo as
desfez, abolindo uma prática de segurança após a outra. Exposição a substâncias
tóxicas era um preço irrisório a se pagar de modo a atender à cota do imperador.

Vidian detestava depender de terceiros para refinar o torilídio: suas


colheitadeiras caçadoras– de– cometa requeriam poucos trabalhadores e se
encontravam mais perto da fonte. As reservas cometárias, porém, já haviam
diminuído a níveis microscópicos, enquanto os fragmentos provenientes de
Cynda tinham de ser reduzidos a um tamanho refinável sem que o material em
seu interior fosse danificado. Para piorar, cometas com torilídio eram
extremamente raros, e a demanda insaciável do Império pela matéria– prima
tinha praticamente varrido o cristal da galáxia. Muitas das gigantescas
embarcações colheitadeiras operadas por Vidian tiveram de ficar paradas, o que
acabou garantindo aos preguiçosos daquele sistema uma certa segurança no
emprego. Levaria uma eternidade para reproduzir a infraestrutura de refinação de
Gorse em Cynda: ele teria de depender de tolos como Lal Grallik para sempre.

O torilídio era a franquia de Vidian no Império. O torilídio e uma série de


outras matérias– primas estratégicas. Ao suprir tal necessidade, acabou
conquistando poder e posição. No momento, porém, vinha falhando em atender
às demandas de seu imperador. E os rivais de Vidian estavam cientes disso.

Encontrava– se preocupado desde a segunda mensagem do barão Danthe, na


noite anterior, a bordo da Ultimatum. Ao menos, Danthe não tinha ligado para
dizer que o imperador estava novamente elevando as cotas de produção, mas o
que disse chegava a ser quase tão ruim quanto. Outra frota de caçadores– de–
cometa regressava à Estação de Calcoraan, tendo exaurido o que antes fora uma
rica reserva de cometas com torilídio.

E ainda pior: Vidian ficou sabendo através de seus assessores que Danthe
andava sussurrando nos ouvidos do imperador, propagando calúnias sobre todo o
esquema de produção de Vidian. O conde sabia bem o que Danthe queria:
transformar Gorse em mais um mercado para os droides fabricados por sua
família. Vidian não nutria rivalidade alguma com os droides, que podiam ser, em
muitos casos, bem mais eficientes do que os orgânicos. Tampouco estava
disposto a deixar que Danthe colonizasse uma indústria que lhe pertencia. Vidian
já tinha perdido a paciência em sua cabine na nave, mas agora adoraria ter a
traqueia de Danthe em suas mãos robóticas.

Grallik o guiou até o outro lado da sala, a uma porta estreita, por trás da qual
havia outro grande cômodo com tubos colossais no teto e amplos tanques
cavados no chão. Longos e estreitos, como os tanques de cultivo numa fazenda
marinha. Também havia droides no local, alguns empurrando carradas de cristais
para dentro do líquido turvo esverdeado, outros remexiam os tanques com
instrumentos compridos.

– Temos muito orgulho disso, senhor. Trata– se de um projeto premiado de


minha autoria, o único banho automatizado de ácido xenobórico em Gorse. Os
cristais lá de Cynda, sabe, tudo tem início aqui, e os droides se encarregam do
resto.

Yidian baixou a cabeça, analisando o tanque. Longo e profundo, o caldeirão


turvo tinha uma fome insaciável por matéria– prima.

– E quantos dias de trabalho se perde quando os droides acabam caindo no


tanque durante os terremotos? Orgânicos manteriam uma constância maior na
produtividade.

– Perfeito, senhor. Mas toda essa fumaça e os respingos poderiam acabar


sendo perigosos e, é claro, se alguém caísse lá dentro, seria bem pior do que se
fosse um droide.

– Pior, como?

Lal ficou sem palavras diante daquela situação. Vidian simplesmente não
estava nem aí. Ele teve de atender a uma chamada. Sintonizou seus ouvidos no
modo comlink.

– Comandante Chamas a bordo da Ultimatum, senhor. Mensagem de


Coruscant.

– Transfira.

Lero Danthe apareceu diante de seus olhos eletrônicos.

– Meus cumprimentos ao conde Vidian.

O que restou das cordas vocais de Vidian provocou um grunhido, vocalização


esta que, para ele, não possuía qualquer contrapartida eletrônica. O jovem barão
surgiu em tamanho real, sobrepondo– se a tudo ao redor de

Vidian: não havia holoprojetor ali, mas funcionava basicamente da mesma


maneira.

– O que foi?– ele finalmente disse.

O barão sorriu, ostentando seus cabelos loiros.

– Acabo de sair de outra série de reuniões com autoridades do alto escalão,


envolvidos em última instância em projetos da mais grandiosa...

Vidian parou de escutar. Estava ocupado demais virando sua cabeça de lado e
enfiando digitalmente o barão tagarela num tanque de ácido após o outro.

– ...e para que isso seja possível, o imperador ordenou um aumento geral de
produção, duplicando as entregas de torilídio. Em vigor imediato.

Vidian ficou pasmo.

– O quê? O dobro?

– Correto.

– O dobro das cotas originais.

– Não – Danthe retrucou, falando como se estivesse explicando a uma


criança.– Sua cota já tinha sido aumentada em $0% ontem, lembra– se? Então...

– Então, na verdade, trata– se do triplo. – Vidian sentiu sua ira borbulhando


com mais ímpeto do que qualquer banho de ácido naquela sala. – E você não
argumentou nada contra tal medida? Essa meta é impossível de ser cumprida. O
fracasso será seu também.

O barão deu de ombros.

– Sou vinculado a sua administração, senhor, mas sirvo ao imperador antes de


qualquer coisa.– Ele fez uma pausa, antes de prosseguir com certa cautela. – De
fato, sugeri uma série de coisas que eu poderia fazer para ajudar. Mas, é claro,
isso implicaria em transferir parte de seus territórios a minhas mãos.

– Aposto que sim – Vidian vociferou. – Isso ainda não acabou, Danthe!

– E o que devo dizer ao imperador, portanto?

– Que obterei êxito! Câmbio, desligo!

Yidian fervia de raiva. Sentia– se extremamente frustrado. Ele nunca fora um


bom jogador nos bastidores; essa era a sua maior fraqueza. Os outros aristocratas
sabiam bem disso, e eis que um deles finalmente resolvera tomar a dianteira. Ele
estava total e irremediavelmente comprometido, de uma forma tal que não
experimentava havia anos, quando ainda era uma pessoa diferente...

Lal estava ao lado de uma das banheiras de ácido e olhou para trás,
completamente confusa.
– Está tudo bem, senhor? O senhor... er... está parado no lugar já faz um
tempo.

Vidian não esboçou qualquer emoção, como de costume. As palavras saíram


de seu pescoço:

– Preciso triplicar a produção desta fábrica, imediatamente.

Lal soltou uma forte gargalhada. Imediatamente, envergonhada, cobriu sua


imensa boca com duas de suas mãos.

– Perdão. O senhor não pode estar falando sério, está?

Vidian se virou e passou.

– Eu sempre falo sério.

Ela recuou, nervosa:

– Não tem como a gente fazer isso. Já damos um duro danado pra cumprir as
metas iniciais do Império.

– As quais vocês nunca cumpriram, tampouco.– Vidian ficou cara a cara com
ela. Lal tremia dos pés à cabeça, encarando– o de volta apavorada.– Vocês são
capazes de cumprir essa nova meta?

– N... n... não.

– Do que você me vale, portanto? – Vidian lançou seus braços adiante,


empurrando Lal com as palmas das mãos. Ela tropeçou e caiu em cheio num dos
tanques.

A Besalisk berrava de dor enquanto o ácido borbulhava por tudo em sua volta.

– Socorro! P... por f... favor!

Vidian lhe deu as costas e se deparou com uma das varas de tratamento, feita
de um material projetado para suportar o desgaste químico. Ao invés de lhe
estender o bastão, porém, ele a golpeou, empurrando Lal ainda mais ao fundo.

– Eu estou ajudando– Vidian disse, com seus olhos eletrônicos brilhando. –


Preciso que esse tonel volte a operar. Mexa– se e dissolva de uma vez.

Hera escutou o grito.

Tinha conseguido manter– se um passo à frente do chefe de segurança


Besalisk ao entrar na refinaria e sair correndo em meio às vigas. Os diversos
tubos e passarelas espalhados pelo chão, sem dúvida alguma, proporcionavam
rotas ideais a alguém tão ágil quanto ela. Estava prestes a fazer o caminho de
volta para terminar de procurar o que tinha em mente quando escutou o grito.
Horrível, diferente de tudo o que já tinha ouvido antes.

Não teve outra opção senão correr na mesma direção.

Ao chegar lá, porém, era tarde demais. Dava para ver bem o corpo do ponto
privilegiado (se é que se pode usar essa palavra) em que ela se encontrava, nas
profundezas do tanque revolto, só não havia maneira alguma de se aproximar
mais sem que ela própria caísse lá dentro. Conde Vidian estava parado na
beirada, com uma vara de tratamento. Só podia ter sido ele; ninguém mais
parecia suspeito. Ele ficou observando o tanque por um tempo antes de soltar o
bastão, dar meia– volta e sair de cena.

Hera vislumbrou um canto aonde poderia saltar com certa segurança até

lá embaixo, logo adiante. Passou a desbravar seu caminho naquela direção.

Mas Gord Grallik chegou primeiro. E conseguiu deixá– la de coração partido.


26
Caído no chão da refinaria, Gord Grallik chorava.

O chefe de segurança tinha entrado correndo no pátio, ainda em busca de


Hera. Ela, por sua vez, seguia em direção às escadas quando ele parou entre os
tanques de ácido cheios de espuma e olhou para baixo. Hera já tinha visto lá de
cima que o vulto de quatro braços mergulhado no ácido era, sem sombra de
dúvidas, um Besalisk.

– Lal!– Gord se precipitou pelo redor, à procura de um dos aguilhões à prova


de ácido. No momento em que Hera atingiu o chão, porém, ele já tinha desistido.
De frente para o tanque, estava prestes a mergulhar na banheira de ácido para
salvar sua esposa.

– Não faça isso!– Hera exclamou. Derrapando até parar de modo a não cair no
tanque e derrubar Gord junto, ela agarrou o braço esquerdo do chefe a de
segurança.

– E tarde demais!

Gord tentou se livrar dela.

– Eu tenho que tentar!

Hera se atracou a ele, desesperada. Nem sabia se ele tinha se dado conta de
quem ela era enquanto se arrastava em direção ao tanque. Ele pesava muito mais
do que ela e, ainda assim, ela se valia de toda sua força para impedi– lo de pular.

– Você... não pode... fazer isso!


No último instante, Gord parou. Ela não soube dizer se ele tinha finalmente
notado sua presença, percebendo também que ela cairia no tanque, ou se ele
simplesmente viu outra vez o que restava de Lal. Tão pouco.

– Não– ele disse, quase sussurrando. Caiu de joelhos.– Não...

A Twi’lek estava pendurada nos braços dele.

– Eu sinto muito – ela disse, tentando puxá– lo para longe da borda, sem
muito êxito.

Gord a encarou. E os olhos dele brilharam de raiva.

– Foi você que fez isso?

– Não! Eu juro que não fui eu. Foi Vidian! – Hera conseguiu se desvencilhar
dele, mas não fugiu.– Pode checar nos monitores de segurança. Você vai ver!

As mãos do Besalisk a agarraram. Com Hera a reboque e sangue nos olhos,


Gord seguiu depressa até a estação de controle de segurança, na sala ao lado.

– Pois é o que a gente já vai ver– ele disse.

Vidian estava do lado de fora da refinaria, mirando a lua. Tinha assassinado


outro guia de inspeção, sim, mas já não havia mesmo o menor sentido em
continuar com aquele passeio, ou qualquer outro. A Moonglow era o melhor
exemplo operando em Gorse. E ainda que o Império assumisse o controle direto
da fábrica, um artifício que se provara dos mais eficazes em seu kit, não havia
como satisfazer as novas cotas do imperador.

E as primeiras entregas seriam dali a uma semana.

Vidian virou– se e deu um soco na parede. Seu punho afundou no permacreto,


deixando um recuo no lugar. O barão Danthe ia se ver com ele. Um suposto
subalterno transformando– o num mero trabalhador obrigado a se esforçar para
cumprir um ultimato vindo de cima. Já tinha se resignado com o fato de que não
havia como encontrar torilídio disponível naquela quantidade em seu território,
nem em qualquer outro. Não sem trucidar completamente a lua...

Yidian interrompeu– se. Rebobinou o que seus olhos e ouvidos tinham


gravado mais cedo, os devaneios daquele maluco, o tal de Skelly.

– O senhor tem que parar com as detonações em Cynda. Vocês vão acabar
explodindo a lua ao meio por engano!

Recordando– se do episódio, enfiou a mão no bolso. Lá estava o holodisco, o


mesmo que tinha planejado destruir antes.

Vidian seguiu a passos firmes em direção a um prédio comercial ali próximo.


Sim, era quase certo que averiguar o conteúdo daquele holodisco seria um
desperdício de tempo para ele, um homem que não tinha tempo a desperdiçar. O
simples fato de ter considerado aquela hipótese mostrava o quão desesperadora
era a situação em que ele se encontrava.

Sloane não era a primeira capitã imperial que Kanan tinha conhecido. Mas
decerto era a mais bonita, ainda que insistisse em prender seus maravilhosos
cabelos negros por baixo daquele quepe minúsculo. Um dos auxiliares dela
estava com uma lanterna apontada para o rosto dele, algo totalmente
desnecessário sob a luz do luar.

– Disseram que você entrou na zona de segurança porque estava levando os


garimpeiros ao trabalho – a mulher disse. – Se você é só um motorista de
ônibus, por que estava tentando entrar na fábrica?

– Eu tava indo pegar o meu salário. – Com as mãos algemadas atrás das
costas, Kanan lhe deu um sorriso.– Se você quiser, depois que eu pegar, posso te
mostrar a cidade.

Sloane apertou seus olhos castanhos.

– Espera um pouco. Eu te conheço! Você é aquele piloto do cargueiro.

O bocudo.

– Você me deu um apelido?– Kanan disse, escancarando os dentes. —

Que maravilha! Eu sabia que você não ia conseguir simplesmente sair voando
por aí. Você fez essa viagem toda até aqui só pra me ver?

Sloane avançou, passou o braço por trás dele para agarrar o rabo de cavalo e o
puxou.

– Vamos tentar não me dar tanto trabalho, piloto – ela respondeu, forçando– o
contra o chão. – Essa sua atuação de mau gosto pode funcionar com certas
mulheres. Quanto a mim, eu poderia te jogar num programa de serviço forçado e
te colocar na manutenção dos compactadores de lixo. Ou te enfiar num deles
logo duma vez!

– Tá, tá. – Kanan deu de ombros contra o aperto do stormtrooper. – Mas se


você sabe que eu sou um piloto, você deve saber que eu trabalho aqui.

– Sem nenhum passe de entrada às instalações?

– A Lal Grallik me conhece. Pode perguntar pra ela.

– Fazendo novas amizades aí?– Kanan ouviu a voz familiar surgindo por trás
de Sloane. A capitã girou sem soltá– lo, torcendo seu pescoço no processo. Hera
deu um passo adiante na fábrica, balançando o seu passe em suas mãos.– Você
deixou sua identidade cair lá dentro, amigão.

Os imperiais apontaram suas lanternas sobre Hera. Sloane analisou– a por um


tempo antes de se voltar novamente a ele. Kanan assentiu, até onde pôde mexer
sua cabeça com a capitã segurando seu cabelo.

– Eu te disse.

Sloane soltou Kanan com um empurrão, derrubando– o para trás e contra a


lama. Ela se virou a Hera.

– E onde está o seu crachá?

Hera sorriu.

– Bem, eu também tenho que ter um, né? Como é que eu poderia entrar lá, de
outra forma?

Sloane jogou a cabeça para trás e rosnou, frustrada.

– Eu já aguentei o bastante de vocês dois. Eu acho melhor nós levarmos os


dois pra um...
– Sloane!

A capitã se virou para descobrir seu interlocutor.

– Conde Vidian– ela disse.– Ainda estamos procurando Skelly e quaisquer


cúmplices que ele porventura tenha.

– Esqueça– os – Vidian retrucou.

– Senhor?

– A inspeção. Tudo. Esqueça tudo isso. Eu já vi o bastante. Tenho uma nova


estratégia que há de satisfazer o imperador. Precisamos retornar à Ultimatum
imediatamente. Reúna sua equipe e me encontre na nave auxiliar.

Sloane assentiu e desativou seu comlink. Fez sinal a um stormtrooper para


remover as algemas de Kanan. O segundo baixou sua arma de raios e a guardou
no coldre.

– Hoje é seu dia de sorte– Sloane disse.

– Com certeza é– Kanan retrucou, acenando para Hera. – Eu tô com vocês


duas aqui.

Hera se adiantou e agarrou o braço dele.

– Obrigada, capitã. Já estamos indo. – Ela passou a empurrar Kanan em


direção ao portão aberto sob o olhar gélido de Sloane. – Desculpa ter
incomodado vocês.

– Pois é, e boa sorte aí com a sua inspeção – Kanan emendou, antes de Hera o
empurrar à força pelo portão dos funcionários.

Hera foi arrastando Kanan até dobrarem a esquina e retornarem ao hoverbus.


Ela parecia um tanto perturbada.

– Você não sabe mesmo quando parar, né?

Kanan deu de ombros.

– Mas, ei, funcionou, não funcionou?– Espanou a lama da calça.– Ser


hostil ou ficar de bico calado provoca ainda mais os caras. O único jeito de se
livrar desses imperiais é se mostrando tão feliz de vê– los, mas tão feliz, que eles
ficam até emocionados quando você some da frente deles. Alguns imperiais,
pelo menos.

Hera jogou as mãos para cima.

– A gente não tem tempo pra isso. Aconteceu uma coisa terrível lá dentro, e...
– ela se interrompeu e baixou a cabeça, meio sem ar. Ele se deu conta de que
nunca a vira daquele jeito antes, sem o controle total da situação. Ela parecia
estar esgotada.

– Ei – ele disse, tocando– lhe o pulso.– Você não tá de brincadeira, né?


Alguma coisa grave?

– Vidian matou a administradora.

– Quê? A Lal?– Kanan estava chocado– Ele matou a Lal? Por quê?

– Porque ele podia– ela disse, levantando a cabeça e o encarando nos olhos. –
O marido dela descobriu e saiu correndo atrás de Vidian. E, pelo que deu pra
entender daquela chamada no comlink, Vidian já tá com outra coisa em mente!

– Pra ser exato, tá logo ali, ó – Kanan disse, apontando para a nave auxiliar
imperial. Do outro lado da avenida enlameada, o portão principal da Moonglow
se abriu. Vidian despontou pela passagem, conversando com a tripulação da
nave. Sloane e seus stormtroopers se juntaram a ele.

– A gente tem que segui– los – Hera disse.

– Não dá pra seguir uma nave auxiliar num hoverbus!

– Mas é um smoothride Mark VI– ela retrucou.– Dá pra voar nessa coisa!

– Dava, cerca de um zilhão de anos atrás– Kanan rebateu. Virou a cabeça e viu
Vidian marchando a passos firmes ao longo da rampa até a nave. Sloane
permaneceu no portão com os demais, evidentemente dando ordens relacionadas
a sua partida.

E, logo em seguida, traçando com os olhos o caminho de volta à lambda,


notou algo espremido por baixo da rampa mais próxima à nave. Parecia ser uma
pequena bolsa, a vários metros de distância do que parecia ser uma tampa de
esgoto.

Uma tampa de esgoto aberta.

Kanan não precisou que a Força lhe dissesse para agarrar Hera.

– Vai pro chão!– A noite se iluminou em Shaketown. A nave auxiliar


imperial explodiu, lançando estilhaços em chamas por todas os lados. Ainda na
rua, a onda de choque atingiu Vidian, arremessando– o de costas contra a cerca
da fábrica ao mesmo tempo em que uma bola de fogo passou triscando por sua
cabeça.

Kanan só conseguiu ver de relance o destino do ciborgue, pois, com as mãos


firmes nos ombros de Hera, mergulharam os dois por trás do smoothride.
Destroços metálicos foram lançados por todas as direções; alguns se chocavam
estrondosamente contra o hoverbus. As speeder bikes das tropas de reforço,
estacionadas na rua, saíram rodopiando descontroladas; Kanan viu quando uma
delas ficou empalada na grade logo atrás deles.

O barulho diminuiu. Certificando– se de que Hera estava bem, Kanan sacou


sua arma de raios e espiou com cuidado pela lateral do veículo. Mais adiante,
Vidian estava de joelhos, ainda vivo; a estrutura corporal reforçada do ciborgue,
evidentemente, garantia– lhe proteção extra. A rua em frente à fábrica, porém,
não passava de uma cratera em chamas, e o conjunto de prédios por trás dela,
incluindo a lanchonete do pobre Drakka, já se encontrava consumido pelo fogo.
O instinto de Kanan lhe dizia para sair correndo em direção ao incêndio e checar
se estava tudo bem com o cozinheiro Besalisk.

Outra coisa, porém, chamou sua atenção primeiro. Um vulto escuro, saindo
pelo buraco de esgoto que ele tinha visto antes. O local encontrava– se em meio
às chamas, mas estava, até então, imaculado. O vulto seguiu mancando depressa
com uma grande mochila nas costas. Skelly!

Encontrando uma speeder bike imperial que ainda funcionava, Skelly deu uma
espiada para trás. Então, montou na motocicleta e foi embora.
27
Hera prendeu a respiração ao alcançar o telhado, no topo do terceiro andar. Os
prédios ao longo da avenida onde ficava a sede da Moonglow não eram altos,
mas todos tinham escadarias externas ou algum outro tipo de escadas de
incêndio. Todo mundo havia aprendido a esperar terremotos em Gorse. Mas essa
era uma história à parte.

Por trás de um esconderijo, ela observava a rua logo abaixo, espantada.

A embarcação imperial ainda estava pegando fogo, destruída por alguém


prejudicado por eles. Hera esperou sua vida inteira por um dia como aquele, algo
que, ela sempre acreditou, estava por vir. Só não esperava que fosse acontecer
tão cedo, e nem dessa maneira. Não tinha certeza do que levara Skelly a fazer
uma coisa dessas, mas ele certamente tinha sido o responsável, com base no que
Kanan testemunhara.

Hera preferiu não ficar muito tempo no chão após a explosão. A rua parecia
mais uma zona de guerra, e a tentativa de assassinato decerto seria a gota d’água
para os imperiais. Ainda assim, ela chegou a ajudar na operação de busca e
salvamento até o limite de sua ousadia, quando teve de encontrar uma maneira
de escapar do perímetro isolado pelo cordão de segurança. De qualquer forma,
apenas Kanan possuía algum tipo de permissão para estar no local, e ele ficou
zanzando lá por baixo, tentando libertar as pessoas. Foi um gesto que lhe deixou
bastante encantada, e ia completamente contra a aparente vida louca que ele
parecia querer incorporar.

Na verdade, ela ainda estava se recuperando do episódio na fábrica, quando


Gord Grallik assistira à gravação de Vidian assassinando sua esposa. Ele era um
típico segurança durão e, mesmo assim, assistiu ao assassinato da esposa como
se seu mundo tivesse desmoronado à sua volta. Ainda lhe partia o coração só de
lembrar.

Essa, porém, não tinha sido a pior parte, ela se dera conta enquanto observava
a rua. Vidian, um pouco chamuscado, mas aparentemente intacto, estava saindo
de cena, devidamente escoltado, quando Gord apareceu no portão. O Besalisk
saiu correndo em meio às cinzas em chamas, mas logo foi detido pelos
stormtroopers. Ela não era capaz de ouvi– lo àquela distância, mas ele os
interpelava, suplicando– lhes algo. Que prendessem Vidian, ela supôs. Um
assessor da Moonglow entregou um datapad a Gord: Hera presumiu que se
tratavam das imagens da câmera de segurança. O Besalisk, frenético, saiu
mostrando o conteúdo a um soldado atrás do outro, mas eles não o deixavam
passar.

Hera não queria mais ver aquilo, não havia nada que pudesse fazer. Não ali,
não naquele momento. Ela, porém, obrigou– se a continuar acompanhado o
desenrolar da história. Gord tentou seguir Vidian de qualquer maneira, só para
ser agarrado pelos soldados. Foram necessários quatro deles para conter o
corpulento chefe de segurança – um para cada braço.

Em seguida, eles o espancaram. Era essa a justiça imperial.

Quando os stormtroopers dispersaram, Hera vislumbrou Gord rastejando de


volta ao portão da Moonglow. Enxugou uma lágrima de raiva. Sim, precisava ver
esse tipo de coisa para se lembrar pelo que estava lutando.

Hera cerrou os olhos para conseguir enxergar através da escuridão


enfumaçada por onde Vidian tinha ido. Avistou o conde e Sloane discutindo
intensamente enquanto caminhavam entre duas fileiras de stormtroopers em
direção a...

Opa, o Kanan não vai gostar nada disso.

– Você tá de brincadeira comigo?– Tendo terminado sua busca por


sobreviventes e se juntado a Hera no telhado, Kanan mirava o espaço vazio na
rua. – Não dá pra acreditar nisso. Eles roubaram o hoverbus!

– Eu acho que eles chamam isso de desapropriação em caráter oficial – Hera


disse, agachando– se na borda do telhado e apontando em direção ao leste.
Kanan avistou o contorno do hoverbus despontando pista acima. – Certeza que
eles estão indo pro espaçoporto imperial pra embarcar em outra nave.
Kanan franziu a testa.

– Beleza, então, quero só ver quando eles descobrirem que a porta do banheiro
tá emperrada– ele disse, dando uns petelecos nas cinzas em sua túnica. Tinha
encontrado Drakka preso atrás de um freezer; levou alguns bons minutos até
conseguir libertá– lo. Logo em seguida, o cozinheiro deu um pulo e saiu
ventando pela porta, no intuito de mostrar aos imperiais um pouco de sua
insatisfação por ter seu negócio arruinado. De onde estava, Kanan podia ver que
a conversa não ia nada bem, mas ele tinha seus próprios problemas para lidar. –
O espaçoporto fica em Highground. Como é que eu vou chegar lá? – Eram dez
quilômetros de distância.

– Eu tô mais interessada em saber como é que eu vou sair daqui – Hera


retrucou, levantando– se. – Acabou de acontecer um atentado contra um
enviado do imperador, todo mundo é suspeito. A gente tem que sair desse bairro
antes que metade do Império apareça!– Ela se afastou da beira do telhado.–
Talvez seja melhor a gente voltar praqueles becos mais ao sul?

– E o ônibus do Okadiah – Kanan insistiu. – Eu não posso simplesmente


deixá– lo pra trás. – Esse era o grande problema em se fazer amizades, ele
preferiu não dizer em voz alta: tornava– se impossível ser livre de verdade.

Correu os olhos pela Avenida Quebrada – hoje um termo mais descritivo do


que o habitual– e vislumbrou um caminhão madeireiro repulsor cinza partindo
do pátio de carregamento da Moonglow.

– Ei, espera aí – ele disse, agarrando o pulso de Hera antes que ela pudesse ir
embora. – Acho que a gente pode resolver os dois problemas de uma só vez –
afirmou, apontando para o veículo. – Aquilo ali tá carregado de torilídio
refinado. – Nem mesmo transgressões, assassinatos e sabotagens eram capazes
de interromper a produção de torilídio, pelo visto: a cada seis minutos, outro
transporte partia da fábrica.– E ele tá indo...

– ...direto pro espaçoporto imperial – Hera se adiantou.– Eu descobri isso,


reconhecendo a área ontem.

Os dois se entreolharam e, no instante seguinte, saíram correndo pelos


telhados. Hera era mais veloz devido a toda sua agilidade, desviando de
obstáculos e saltando um vão atrás do outro. De quando em quando, olhava para
trás, checando se Kanan estava conseguindo acompanhá– la.
– Eu tô bem– ele disse, mantendo– se alguns passos atrás.– Só tô tentando não
te atropelar.

Ela sorriu e saltou o vão seguinte. Ele seguiu o exemplo dela à risca.

Alcançando o fim da fileira de prédios residenciais, encontraram uma porta e


saíram correndo escada abaixo. Recuperando o fôlego já na rua, pararam a
tempo de ver o caminhão repulsor subindo a rua bem na direção deles. Um
stormtrooper fez sinal ao veículo, e o motorista, um droide dourado, passou.

Assim que o stormtrooper virou a cabeça, Kanan e Hera se precipitaram rumo


ao caminhão se aproximando. Kanan saltou no estribo do lado do passageiro.

– Eu sinto muito– o droide disse. – Mas caronas não são permitidas no...

Hera, então pendurada do lado de fora da outra porta, apertou um botão no


pescoço do droide, desligando– o. Kanan se enfiou pela janela e, já na cabine,
agarrou o manche de controle, virando– o com tudo. O veículo fez uma curva
aberta à esquerda, passando pela última barreira dos stormtroopers; o sentinela
nunca chegou a ver a mulher pendurada do lado de fora. Com uma habilidade
ímpar, Hera abriu a porta e empurrou o robô para fora do caminho.

– Deixa que eu dirijo – ela disse, alcançando os controles.– Nada contra você.

Kanan fechou a porta do passageiro e esticou as pernas.

– Minha querida, você pode me levar pra qualquer lugar – olhou de relance
para a bagunça em que Shaketown tinha se transformado —, desde que seja bem
longe daqui!

Hera estava quase tão calada quanto o droide desativado, Kanan pensou.
Ainda não tinha dito nada sobre o que acontecera na fábrica antes de ter
encontrado Lal.

Ele nem conhecia o marido de Lal assim tão bem, sabia só que o sujeito tinha
pavio curto e uma grande coleção de armas. Além de outra coisa.

– Aquele cara vivia em função da Lal – ele disse.

– Deu pra ver. Loi bem cruel.


Sem tirar os olhos dela, Kanan supôs que se tratava de um eufemismo.

– Bem, pelo menos, você acabou descobrindo alguma coisa sobre Vidian. Ele
é o próprio mal em pessoa.

– Ser mau não te prejudica em nada no Império. Pelo contrário, só ajuda.– Ela
suspirou.– Eu nem sequer cheguei perto dele dessa vez, mas acho que descobri o
que eu queria saber aqui em Gorse. O segredo de toda a eficiência de Denetrius
Vidian é a matança.

– E aonde é que isso te levou?

– A nenhum lugar que eu já não tenha ido antes.– Ela sacudiu a cabeça.

– E tudo o que eu consegui descobrir sobre Tharsa foi que ele chegou a visitar
a fábrica algumas vezes, há muito tempo. Não deu pra encontrar mais nada.
Primeiro, o Gord apareceu e, depois, todo mundo começou a correr pela fábrica
em busca do Skelly.– Ela suspirou ao fazer a curva numa esquina. – Eu não sei o
que Skelly pensa que pode conseguir indo por esse caminho. Isso de sair
explodindo tudo por aí não leva a lugar nenhum.

– E aonde é que você tá tentando chegar com isso? – Ele a encarou de forma
intensa. – Eu pensei que você fosse me abandonar depois da sua ligeira invasão.
E você acabou de dizer que a sua grande missão já tava cumprida. Mas você
continua aqui.

Ela revirou os olhos.

– Eu só tô te ajudando a recuperar o seu hoverbus.

– Arram.– Kanan riu por entre os dentes.

– Não, não. É o mínimo que eu posso fazer– Hera retrucou.– Você estava
disposto a voltar lá dentro só pra me procurar. Desnecessário, e quase te causou
problemas. Mas apreciei o gesto.

– Bem, você é a única pessoa nesse planeta por quem eu me arriscaria. – Isso
deveria tocá– la de algum jeito, ele pensou.

– Eu não tenho muita certeza se acredito nisso. Você voltou pra ajudar aquele
cozinheiro Besalisk, e o Okadiah já tinha me contado no ônibus que você o
salvou de Vidian.– Ela sorriu.– Você salvou até o Skelly na cantina.

Ele jogou as mãos ao alto.

– Ei, todo mundo comete erros!

– Bem, é o que a gente vai ver– ela disse, e deixou por isso mesmo. Kanan
gostou do olhar que viu no rosto dela. Dizia– lhe que ela estava considerando a
possibilidade de que talvez valesse a pena ficar de olho nele. Observando os
prédios passando pela janela, Kanan soltou uma risada.

– Toda essa preocupação em torno do torilídio, toda essa segurança envolvida


no processo, e cá estamos, dirigindo um caminhão roubado e abarrotado de
cristal refinado.

– A gente tá só levando tudo direto pra onde deveria ir – ela retrucou. – E


não é como se a gente já tivesse encontrado alguém pra quem vender essa carga.

Kanan sacudiu a cabeça.

– Sabe, eu não sei nem pra que essa porcaria serve.

– O torilídio? – Hera perguntou. – É usado na absorção do choque granular


no estado sólido. Eles usam isso nos destróieres estelares pra manter as torres do
turbolaser no lugar após os disparos.

– Mas esse povo já adora uma explosão!– Kanan gargalhou. – Sério que eles
estão arrumando essa confusão toda só por isso?

– Pois é... o que não falta pra eles é pavio curto! Tem canhão de sobra por lá.–
Os olhos de Hera se arregalaram ao refletir sobre a consideração.– Um destróier
estelar requer o uso de 16 milhões de componentes individuais, 27 mil dos quais
só são produzidos num único sistema, tipo Gorse.– Ela olhou para ele, com o
semblante tomado de paixão. – É por isso que o imperador precisa de um
Império, Kanan. É como uma lesma espacial, cuja única função é permanecer
viva. Tem que ficar consumindo e consumindo e consumindo cada vez mais.

– Você tá começando a soar que nem o Skelly.


– Ele não tá de todo errado – ela retrucou, conduzindo o caminhão repulsor
por Highground. – Mas definitivamente não anda batendo muito bem das ideias.

Skelly fora guiando a speeder bike rente aos telhados até chegar em
Highground, voando baixo, de modo a evitar qualquer rastreamento por parte do
tráfego aéreo. Como quase toda a atenção imperial estava voltada ao envio de
viaturas policiais a Shaketown, Skelly acabou presumindo que não estariam
dando tanta atenção aos campos de pouso. Mesmo assim, sabia que não podia
simplesmente passar voando com uma motocicleta por cima do muro de
contenção. Fora isso, ainda estava um tanto relutante em prosseguir a pé, pois
cada passo dado fora da motocicleta lhe causava uma dor tremenda.

Agora, porém, na escuridão da ala oriental do complexo, a experiência que


adquirira na guerra, minando barricadas, lhe seria útil outra vez.

Notara, durante seus voos a Cynda, que o terreno em Highground possuía


valas profundas de drenagem que corriam até a parte baixa do complexo.

Foi lá, do lado de fora, no escuro, que ele encontrou um bueiro grande o
suficiente para acomodar tanto sua speeder bike quanto ele próprio. As barras
que protegiam a tubulação não eram páreo para a vasta gama de explosivos que
carregava em sua mochila. Achava engraçado que as mesmas técnicas usadas
pelo Império na mineração de Cynda então o estivessem levando até a base
imperial.

Algumas explosões abafadas depois, ele se debruçou, com muita dor, sobre o
corpo da speeder bike, deixando– a carregar ele e seu saco de vinganças pelo
túnel. Já no interior do complexo, continuou a voar baixo pelos canais de
drenagem que dividiam as áreas de desembarque. As luzes ali se encontravam
todas apontadas ao alto; caso alguém se incomodasse em olhar para baixo, a
visão de sua cabeça despontando no chão e suavemente navegando pelo pátio
poderia fazer esse alguém parar para investigar melhor a situação.

Mas ninguém olhou. Agora, em meio às sombras na torre de controle do


espaçoporto, aguardava o momento de agir, passando pomada em seu rosto
inchado com uma gaze encontrada no medpac. Ficou observando a área de
desembarque dos transportes terrestres, onde a cada poucos minutos outro
hovercraft guiado por um droide aparecia transportando torilídio aos cargueiros
imperiais de prontidão.
Esse espaçoporto deve estar todo assim, ele pensou. Último passo antes da
iguaria de Cynda, já devidamente triturada e refinada, partir rumo à Estação de
Calcoraan, de onde seria distribuída a todos os projetos insanos de construção
naval do Império. Skelly ficava enojado só de ver.

O tempo passou. Por um minuto, chegou a temer que sua aposta estivesse
errada. Tinha presumido que Vidian, já tendo perdido uma carona para fora do
mundo, apareceria lá na oportunidade seguinte. No entanto, logo a porta se abriu,
permitindo a entrada do... hoverbus de Okadiah?

Skelly pestanejou. O que aquilo estaria fazendo ali? Então, avistou um grupo
de stormtroopers saindo do veículo, seguidos por Vidian e a capitã imperial. Não
era de se admirar que tivesse chegado antes deles, pensou. Seria preciso um
gênio da pilotagem para fazer aquele smoothride superar quem quer que fosse na
direção de uma speeder bike.

Sentiu suas costelas se deslocando dolorosamente ao se encolher contra a


parede externa da torre de controle. A essa altura, Skelly só estava de pé em
função da adrenalina correndo em suas veias, e devido ao estímulo dos remédios
encontrados no medpac. Mas ele não se fazia de rogado.

Já tinha deixado Vidian escapar uma vez. Não deixaria acontecer de novo.
28
O conde Vidian olhou para cima, além da torre de controle. A Cudgel estava
descendo do espaço, enviada do destróier estelar para levá– lo de volta à órbita.
Não queria desperdiçar mais nenhum segundo em Gorse. Permanecer no planeta
era totalmente desnecessário a seus planos.

E seus planos, então, tinham mudado. Não havia tempo para esperar que o
povo de Gorse continuasse em viagens de ida e volta para garimpar a lua.
Mesmo suas ideias mais extremas– como a de construir dormitórios em Cynda e
forçar os trabalhadores a se mudarem para lá – levariam muito tempo. Já estava,
porém, com outra alternativa em mente, proporcionada pela fonte mais
inimaginavelmente estranha.

Skelly não passava de um demente, só mais um veterano traumatizado das


Guerras Clônicas. Mas uma breve análise daquele material sugeria que, talvez,
ele pudesse ter tropeçado em algo útil. Vidian precisava consultar sua equipe e
os peritos da Ultimatum para confirmar.

O hoverbus expropriado acabou sendo o meio de transporte menos eficiente


para chegar ao espaçoporto que ele poderia imaginar; mesmo os sobreviventes
da tripulação de Sloane não conseguiram tirá– lo mais de um metro do chão. Ele,
porém, soube aproveitar bem o tempo, explicando a Sloane quais eram suas
intenções. Ela reagiu aos planos dele com cautela – algo característico da
marinha. Ele não tinha sido capaz de apreciar um pingo sequer de imaginação
em todo o serviço. Ainda assim, Sloane era jovem e ambiciosa, e, mesmo então,
tratou de sugerir soluções.

– Os depósitos da Ultimatum devem ter o que o senhor precisa, senhor. Não


há necessidade alguma de envolver qualquer pessoa em Gorse.
– Excelente.

Os portões se abriram, permitindo a entrada do caminhão repulsor carregado de


torilídio. O droide, já reativado embora silenciado de modo a evitar o falatório
sobre sua antipatia por caroneiros, conduziu o veículo até o interior do galpão,
conforme fora programado a fazer. Nenhuma sentinela chegou a ver Hera e
Kanan agachados. Instantes depois, o enorme veículo já se encontrava no
estacionamento, devidamente na fila, aguardando sua vez de ter a carga
transportada aos cargueiros logo adiante. Levantando um pouco a cabeça, Kanan
viu que a fila logo os deixaria ao lado do hoverbus estacionado.

Foi um alívio. Imaginou que enfim daria para ter seu merecido descanso.

Abaixando– se de volta ao lado de Hera, ele riu.

– Estar com você é sempre uma aventura, hein?

Hera sorriu de volta.

– Pois é, e isso porque a gente só veio buscar seu smoothride.

– Eu tô com a carteira de motorista do Okadiah, talvez eu consiga simplesmente


sair daqui dirigindo essa coisa – Kanan disse. – Eu acho que não daria pra eu
simplesmente abordar os caras e perguntar sobre o veículo sem que eles
desperdicem meu tempo de novo. Fora que eu tenho alguns lugares pra...

Percebendo uma total inexpressividade no semblante dela, ele se interrompeu:

– Peraí – Kanan prosseguiu. – Você não veio aqui comigo só porque queria
conversar, ou me salvar de um cerco fechado, né? Você tá querendo bisbilhotar
por aí, pra ver se descobre um pouco mais sobre Vidian!

Hera respondeu apenas com um sorriso gentil.

– Isso é ridículo!– Ele apontou para trás em direção à nave auxiliar imperial, que
se preparava para pousar.– Vidian tá caindo fora. O que mais você precisa saber?

– Alguma coisa o trouxe até aqui – ela respondeu. – E alguma coisa fez ele ir
embora antes do previsto.
– Que tal Skelly e aquela maldita bomba?!

Hera sacudiu a cabeça.

– Não é isso, Kanan. Eu o observei com os eletrobinóculos enquanto ele ia


embora da fábrica. Ele tá diferente. Alguma coisa mudou. Ele tá com uma nova
missão.

– Como é que você consegue interpretar a expressão de um droide humano?–


Kanan fitou o chão, consternado, quando o veículo estremeceu e parou. Hera
seguia à risca o jeitinho clássico dos Jedi de fazer as coisas, conforme ele se
lembrava. Mestre Billaba ou Obi– Wan ou qualquer outro teria igualmente
colocado uma ideia na cabeça e insistido nela até o fim, escondendo– se em
armários e rastejando por sistemas de ventilação, espionando por aí.

Mesmo quando claramente não havia nada para ver, como ali. Kanan sentou– se
com certa cautela, deu uma espiada do lado de fora e abriu a porta do passageiro.
Pisou no chão de cascalho e se escondeu atrás de um smoothride, fora da vista
dos imperiais. Instantes depois, Hera desceu do caminhão sem fazer barulho e se
pôs logo atrás dele.

– Olha só – ele disse, virando– se para encará– la nas sombras. O espaço entre
os veículos era estreito, o que os deixou bem perto um do outro.– Eu costumo
viajar sozinho. Mas eu até te acho divertida, sabe, quando você não tá por aí
fazendo alguma coisa estranha. – Apontou com o polegar para o hoverbus.– Eu
vou levar essa coisa de volta pro Okadiah, e depois seguir meu caminho até o
espaçoporto público. Você pode vir comigo, ou me deixar pegar uma carona
junto com o que quer que você pense que tenha nessa nave. Mas eu já tô farto de
ficar bisbilhotando por aí e eu acho que você deveria sentir o mesmo.

Não havia mais nada a dizer. O alerta de Obi– Wan e a ira do imperador o
obrigavam a esconder parte de quem ele era. O que não queria dizer que ele
gostaria de passar a vida inteira se esgueirando pelos cantos só para ter a
companhia de uma mulher, ou para apoiar a causa dela, seja lá qual fosse. Ele
não era assim. Kanan passou a desbravar seu caminho pela lateral esquerda do
hoverbus, sentindo– se grato pelo fato de o veículo estar com as portas abertas
de ambos os lados. Esperaria até que Vidian fosse embora e, em seguida, voltaria
à sua vidinha regrada de sempre. Ou Hera o entenderia, ou não.

Ele parou para olhar para trás. Hera estava ao lado da traseira do hoverbus,
tentando espreitar os imperiais. Ele sacudiu a cabeça. Pelo visto, não, pensou.
Que pena. Ela era especial. Kanan firmou o pé no estribo da porta...

...e escutou gritos vindos do outro lado do veículo. Alarmado, virou a cabeça
atrás de Hera, mas ela já tinha dado meia– volta e corria em sua direção.

– O que foi?

– Se mexe! – Sem mais palavras, ela o empurrou para dentro do hoverbus. Ele
caiu no chão e ela, por cima dele. Incapaz de se mover, de imediato passou a
formular uma resposta sobre como ela não conseguia viver sem ele, mas logo
pescou com o rabo do olho o que se passava lá fora, ao lado do veículo bem a
sua frente, na direção dos imperiais.

Vidian, Sloane e vários stormtroopers se encontravam a uns cinquenta metros de


distância, fugindo de uma nave auxiliar da classe lambda que tinha acabado de
pousar. À luz da lua, ele só foi capaz de distinguir a imagem de algo sendo
arremessado em direção à nave, direto das sombras da torre de controle perto
dele.

Craca– bum! Pela segunda vez em pouco mais de uma hora, o lado povoado de
Gorse testemunhou o que parecia ser a luz do dia quando a nave auxiliar
imperial explodiu. Kanan protegeu seus olhos do clarão e, logo em seguida,
agarrou– se em algo assim que a onda de choque balançou o smoothride. Ao
abrir seus olhos novamente, viu uma chuva de destroços caindo por todo o
campo de pouso e, então, escutou o barulho provocado pelos pedaços da lambda
se chocando contra a fuselagem da lateral direita e do capô do hoverbus.

Quando a barulheira toda cessou, Hera relaxou suas mãos, até então firmes em
Kanan.

– Eu acho que é a nossa chance– ela disse, levantando– se. Ele a acompanhou.
Com todo o cuidado do mundo, os dois se esgueiraram pela lateral do veículo de
modo a obter um campo de visão melhor.

Uma fumaça negra obscurecia a lua. Puderam ver, porém, que Vidian e todos os
comparsas dele, incluindo Sloane, acabaram sendo atingidos pela explosão,
alguns chegando a ser arremessados por vários metros. Vidian ainda se mexia,
Kanan viu, mas definitivamente cambaleava.
– Bora logo – Kanan disse, agarrando o braço de Hera.

– Tá, acho melhor mesmo!

Já tinham testemunhado um ataque havia pouco. Não seriam capazes de se safar


outra vez. Mas antes que pudessem alcançar a porta, Kanan escutou um zumbido
ensurdecedor por trás deles, vindo da direção da explosão.

Mais destroços, agora? Não importava. Dessa vez, ele tomou a iniciativa e
empurrou Hera contra o chão...

...bem na hora em que uma massa disforme de metal passou voando por cima de
suas cabeças e se chocou contra o hoverbus, estilhaçando ainda mais janelas.
Kanan protegeu sua cabeça e a de Hera com os braços.

Quando ele finalmente ergueu os olhos, viu algo que o deixou sem palavras. Era
uma speeder bike, igual às que os stormtroopers imperiais usavam. Ou parte dela
– o nariz do veículo, comprido, tinha atravessado uma das janelas do hoverbus,
brecando seu voo e efetivamente empalando o veículo maior.

Fora do hoverbus, pendurado de cabeça para baixo na motocicleta enterrada pela


metade, estava Skelly, preso a um dos guidões pela mão direita. Parecia que
tinha acabado de passar por um dos liquidificadores de Okadiah. Seu corpo,
bastante maltratado, pendia inerte da estrutura, e havia uma grande mochila
precariamente amarrada em torno de sua barriga, prestes a cair.

Houve ainda uma nova explosão secundária, logo atrás deles, mas Kanan não
conseguia tirar os olhos de Skelly, estonteado. O bombista despertou e virou a
cabeça, reconhecendo– o, com um visível cansaço no olhar.

– K– k– k... – Skelly disse, com o rosto inchado e a boca sangrando.– Kanan.

– O que foi?

– A mochila. Toma.

Sem pensar, Kanan pegou a mochila e, então, checou o que havia dentro.

– Tá cheio de bombas!
– Isso não é nada bom – Hera disse, agarrando o braço dele. Do outro lado do
campo de pouso, as equipes de emergência se precipitavam da torre de controle
para tentar apagar o incêndio, enquanto Vidian se levantava. O conde ainda não
tinha visto Kanan e os outros dois; havia muitos destroços em chamas entre eles.
Kanan, porém, pôde ver os olhos assustadores do ciborgue brilhando enquanto
examinava a área. Novos stormtroopers saíram correndo da torre de controle em
direção ao local da explosão, e vários comparsas de Vidian se colocaram de pé,
procurando suas armas. Por cima de suas cabeças, uma sirene soou. E o chão de
repente foi varrido por holofotes, cortando a fumaça.

– Ali! No hoverbus!– Vidian gritou, amplificando artificialmente sua voz ao


nível máximo.

Kanan se virou em direção à porta do longo hoverbus, a três metros de distância,


só para ver um disparo de raio acertar bem no exterior da moldura. Com o rabo
do olho, pôde vislumbrar ao menos uma dezena de stormtroopers em formação
por trás dos destroços. Ainda não estava na mira de ninguém, mas o veículo era
outra história. Hera também estava ciente disso. A exemplo dele, encontrava– se
de frente para o hoverbus, mas, apesar de estar com a mão sobre sua arma, não
chegou a sacá– la. Sacudiu a cabeça, olhando para ele.

– Lugar errado, hora errada.

A história da minha vida, Kanan pensou. Numa reação quase automática, deixou
que a mochila com os explosivos de Skelly escorregasse de suas mãos, de
encontro ao chão. Nada explodiu, o que ele quase considerou uma pena.

– Coloquem as mãos atrás de suas cabeças! – a ordem amplificada de Vidian


irrompeu por trás deles.

Acima e à esquerda de Kanan, Skelly saiu da motocicleta e atingiu o chão de


cascalho com um baque surdo – sua mão havia finalmente se soltado.

– Skelly, eu posso até morrer – Kanan disse, encarando o sujeito no chão. –


Mas eu te mato primeiro!
29
Quando o outro sujeito apareceu com todo um exército, o melhor a se fazer foi
não discutir. Kanan manteve o rosto contra o hoverbus. Podia escutar o barulho
das armas de raios sendo preparadas, enquanto mais stormtroopers passavam a
se mover, vasculhando o campo de pouso de ponta a ponta.

Hera tampouco não se mexia, mas ele pôde notar que ela tinha algo em mente.
Com a fumaça obscurecendo a lua, os imperiais ainda não tinham visto seus
rostos com muita clareza, o que logo mudaria, já que ele teria de se virar para
correr ou lutar; embora a última opção parecesse impossível. Não tinha
disparado um tiro sequer contra um imperial ao longo daquele dia caótico, e não
queria começar justo agora. As chances de sobreviver eram simplesmente
remotas demais.

Skelly estava, mais ou menos, a um metro da mochila, com os olhos fixos


nela. Vidian, com seu olhar afiado, de pronto notou.

– Não toque nisso!

Kanan olhou de relance a Hera outra vez. Daria uma bela corridinha, ele disse
para si mesmo. Começou a colocar suas mãos atrás da cabeça.

– Baixem as armas! – outra voz berrou por trás e à direita de Kanan.

– A gente não tem arma nenhuma! – Kanan gritou de volta.

– Eu não quis dizer vocês! – por um momento, a voz pareceu estranhamente


familiar a Kanan, até que ele se deu conta de que era familiar de fato. Kanan e
Hera olharam para o lado e deram de cara com Gord, que surgira por detrás do
terminal de cargas, avançando a passos firmes. – Eu vim atrás de Vidianl
O corpulento chefe de segurança estava bem machucado, Kanan pôde ver –
Hera lhe contara sobre o espancamento, mais cedo. O Besalisk também estava
armado até os dentes, pronto para encarar a morte com todas as quatro mãos.
Tinha chegado da mesma maneira que eles, Kanan concluiu, num dos outros
transportes de torilídio. Nunca tinha visto o chefe de segurança tão sério. Ou tão
ameaçador.

– Conde Vidian! Meu nome é Gord Grallik, chefe de segurança da Moonglow.


Você está preso pelo assassinato da nossa supervisora. E minha esposa!

– E com que autoridade?– foi a vez de Sloane, que parecia estar atordoada.

– A minha, mesmo– Gord retrucou. – A Cidade de Gorse tem uma cadeia.


Você vai ser tratado de forma justa. Bem mais justa do que você merece!

– Já chega– Vidian berrou.– Atirem nele!

Gord atirou primeiro. E uma segunda vez. E uma terceira. Movendo– se com
uma velocidade surpreendente, o Besalisk pulverizou os stormtroopers com os
disparos de raios. As posições defensivas dos imperiais os protegiam contra o
hoverbus, mas não contra alguém situado naquele ângulo, mais à direita. Antes
que qualquer um dos stormtroopers tivesse a chance de atirar de volta, Gord
arremessou algo com sua quarta mão– uma granada sônica. A bomba detonou
em meio ao grupo de stormtroopers mais próximos dele, emitindo um zunido
que os deixou cambaleantes.

Hera, tirando as mãos de trás da cabeça, olhou para Kanan.

– Será que a gente tá pensando a mesma coisa?

Kanan assentiu:

– Corre!

Passaram a avançar em direção ao hoverbus, mas logo se jogaram no chão,


assim que os stormtroopers, atentos, atiraram contra a porta. Ao ver que os
disparos carmesins atingiam o cascalho bem à frente deles, Kanan saiu
rastejando rumo ao único abrigo que conseguiu encontrar: um pedaço do motor
iônico de propulsão subluz da nave auxiliar imperial, que antes tinha atingido o
capô do hoverbus, rolando até chão.
– Tá na hora de participar da festa – Hera disse, sacando sua arma de raios.
Debruçando– se sobre a barreira metálica, mirou sem demora e disparou. Um
dos atiradores parou de alvejar o hoverbus.

Kanan olhou para ela e sacou sua arma. Tinha feito de tudo para evitar
situações como essa, mas ele não conseguiria sair daquela confusão de qualquer
maneira. Beleza, então!

– Bora dançar, rapaziada!

Kanan disparou. Mais ao norte, Gord ainda estava mandando ver e, de alguma
forma, simplesmente ignorava o tiro que o havia atingido de raspão na perna
esquerda. Hera e Kanan davam– lhe cobertura com o fogo cruzado, forçando os
imperiais a levarem Vidian e Sloane a um lugar mais seguro.

Sem parar de atirar, Kanan ficou preocupado com a possibilidade de ser


cercado pelas laterais ou atacado por trás. O caminho parecia estar livre mais ao
sul, conforme constatou. E logo atrás dele, o hoverbus...

...estava em movimento!

Kanan lançou um olhar ao chão, onde antes Skelly estava caído. A mochila
com as bombas tinha sumido. Cutucou Hera.

– O ônibus! Tá sendo roubado de novo!

Enquanto os raios disparados pelas armas imperiais resvalavam inutilmente na


fuselagem, o hoverbus ficou suspenso a um metro no ar e, em seguida,
despencou no chão novamente, quase capotando. Um chiado mecânico se
sobressaiu aos tiros e a embarcação flutuou outra vez. Mas um primeiro,
derrubando seu oponente no chão.

Kanan não tinha como disparar sem correr o risco de acertar o Besalisk. Ele se
retraiu ao ver Vidian erguendo os punhos e os baixando e os erguendo
novamente, seguidas vezes. Mas antes que pudesse pensar novamente sobre o
destino do chefe de segurança, o hoverbus descontrolado completou outra
rotação e se encaminhava de volta em direção a ele e Hera. Ela também percebeu
o que estava acontecendo e já se encontrava de pé, guardando sua arma no
coldre.
– Vamos!

Ignorando os raios que cruzavam seu caminho, Kanan pulou do chão e a


seguiu. O smoothride deu uma guinada desenfreada bem rumo aos dois, com um
pouco mais de altitude do que antes. Hera saltou, derrapando por baixo do
veículo. Kanan a acompanhou, um segundo depois.

Hera acabou sendo recompensada por agir primeiro. Conseguiu se segurar em


um dos suportes de apoio que compunham o chassi do hoverbus, enquanto
Kanan só foi capaz de firmar sua mão direita em torno de um dos anéis ligados
ao turboventilador na traseira, movimento que o colocou de cara contra a válvula
de escape.

O veículo repulsor inclinou e despencou de novo, quase arrastando os


caroneiros contra um obstáculo horizontal. Só alguns segundos depois foi que
Kanan se deu conta de que se tratava da parede externa do espaçoporto imperial.
Finalmente, estavam a caminho... de algum lugar!

Por detrás de um pedaço da asa da nave auxiliar que ela usava como abrigo,
Sloane assistia a tudo, estupefata, enquanto a robusta máquina de metal
derrubava inesperadamente a barreira de permacreto. Seu comlink já estava em
mãos.

– Todos atrás daquela coisa, agora!

Saindo de trás da chapa metálica retorcida, correu em direção a seu


comandante.

– Conde Vidian! Conde Vidian!

– Essa gritaria é totalmente desnecessária – a voz dele a encheu de alívio,


para variar um pouco. Mas só por um instante. Vidian se afastou do cadáver do
Besalisk, pondo– se de pé, com seu traje régio todo rasgado e ensanguentado.

– Eu estou vivo, mas não graças a suas forças militares. Outra bomba e, agora,
ainda por cima, esses agressores. Você chama isso de segurança?

Sloane conteve seu ímpeto, preferindo não começar uma discussão. Era
responsabilidade das guarnições do Exército Imperial proteger a área de pouso, e
não dela, mas aquele não era o momento para mesquinharias. A perseguição
estava em andamento. Transportes de tropas imperiais, cinza e atarracados,
carregados de stormtroopers, já estavam deixando o local pelo portão oeste, e ela
tinha mais coisas com as quais se preocupar.

– Ordene que as autoridades locais coloquem obstáculos em todo e qualquer


cruzamento, eu quero que eles fiquem encurralados aqui em Highground!– ela
gritou no comlink. – Entre em contato com as equipes de vigilância terrestre e
satélites, certifique– se que saibamos onde o veículo se encontra em tempo real!

E do outro lado da pista, longe do local da explosão, ela avistou algo sobre o
qual tinha controle direto: dois caças TIE, estacionados e à espera.

– Ponha aqueles caças no ar – ela exclamou ao chefe do espaçoporto.

– E pra já, capitã!

– Havia outras pessoas com o sabotador – Vidian disse, voltando– se aos


oficiais que se encaminhavam aos caças —, o que transforma isso numa
conspiração. Quero Skelly morto no ato, mas tragam os outros até mim!

Sloane não tinha conseguido ver direito quem eram os dois que estavam de
frente para o hoverbus, e duvidava que alguém o tivesse. Um dos traidores tinha
atirado na câmera de vigilância que cobria a área; ele ou ela, portanto, sabia bem
o que estava fazendo. Skelly, porém, acabara se expondo. De todo modo, não
iriam muito longe naquela monstruosidade que estavam dirigindo.

– Eu quero aqueles renegados aqui – ela gritou aos soldados.– Agora!


30
A melhor maneira de controlar seu medo quando estiver à beira de um penhasco,
mestre Billaba dissera, é não pensar nisso até que você tenha saído da beirada. Já
naquela época, Kanan costumava pensar que aquele conselho poderia ser
interpretado de duas maneiras. Fora da beirada poderia significar que a pessoa
estava em segurança, ou poderia significar que a pessoa havia despencado.
Vários adágios Jedi pareciam padecer do mesmo problema– sempre presumiam
que tudo daria certo.

Kanan, porém, não presumia nada disso no momento. A parte inferior de um


solodeslizador normalmente não teria proporcionado vão algum no qual alguém
pudesse se pendurar, e o smoothride, projetado para voar, não era muito mais do
que um solodeslizador havia anos. Tirá– lo mais de um metro do chão fazia a
coisa toda oscilar freneticamente fora do eixo, de um lado ao outro. Todos os
motoristas de Okadiah sabiam bem disso.

Skelly, porém, não era um dos motoristas de Okadiah.

– Cuidado! – Kanan gritou para Hera quando a máquina perdeu altitude.


Hera impulsionou suas pernas para cima antes que elas varressem a rua coberta
de lama, logo abaixo. Kanan, que estava em um ponto um pouco mais elevado,
sentiu as pontas de suas botas roçando a superfície.

Kanan fez força, puxando seu corpo mais ao alto, de modo a firmar sua outra
mão no veículo. Mais à frente, viu Hera girando a perna para cima com agilidade
para agarrar um suporte de apoio. Ele não tinha como fazer o mesmo; não com
aquelas lâminas giratórias do turboventilador bem a sua frente. Para tanto, teria
de contrabalancear seu peso e inverter as mãos de lugar, virando– se ao
contrário.
Ao fazê– lo, avistou seus perseguidores. Dois, ou melhor dizendo, três
transportes de tropas imperiais avançavam pela pista escura no encalço do
hoverbus, ocasionalmente retardados pelo tráfego. Tráfego este com o qual
Skelly não se incomodava nadinha, Kanan percebeu– a cada poucos segundos o
veículo se chocava contra algo, tanto à esquerda quanto à direita, ou então dava
uma guinada para o alto, tendo simplesmente passado por cima do obstáculo.
Kanan era obrigado a suspender seu corpo toda vez que a máquina vinha abaixo
para não ser arrastado pelo chão. Mas não havia outra opção a não ser ficar
pendurado; não com os imperiais logo atrás e Hera em perigo logo adiante.

Kanan viu que a situação já estava insustentável quando uma rajada de raios,
disparada pelo canhão duplo do veículo de transporte de tropa mais à frente,
passou a poucos metros do hoverbus. Vislumbrando uma pequena reentrância
bem no interior da traseira do chassi, jogou suas pernas para cima e firmou suas
botas por baixo da aba inferior. O movimento lhe permitiu alcançar um apoio
mais seguro à esquerda, deixando o turboventilador para trás.

Tomando todo o cuidado possível numa situação em que até o vento


chicoteava seu corpo, Kanan foi tateando no escuro e, então, deu um jeito de
recuar até o fundo do smoothride, sentindo– se um pouco como um mynock sem
força de sucção. Gemendo para superar o desgaste, lançou seu corpo ao outro
lado da reentrância até um lugar onde pudesse se atracar, bem no interior da
traseira do chassi.

Uma vez lá, resolveu esperar, respirando com certa dificuldade, enquanto o
hoverbus seguia empinando e sacolejando. Aquela espera era insuportável, mas
necessária até o momento oportuno, que finalmente chegou. O hoverbus colidiu
contra algo maciço à esquerda, quase capotando. Vislumbrando a passagem de ar
entre ele e o chão que deslizava abaixo, Kanan rolou até o para– choque traseiro.

Dessa vez, o smoothride de fato bateu no chão ao se estabilizar novamente. E,


por pouco, Kanan não caiu do para– choque.

– Te peguei, Kanan!

Ele olhou para cima, surpreso. Alguém realmente o tinha pegado. Skelly
estava pendurado para fora da janela quebrada, com sua mão biônica enganchada
no cinto de Kanan. Skelly gritou de dor quando Kanan saiu trepando em seus
ombros até entrar pelo buraco da vidraça.
Kanan caiu no chão dos fundos do hoverbus, resfolegante. Só não teve tempo
para descansar. O fundo do hoverbus colidiu novamente contra o asfalto.
Qualquer um por baixo ao veículo teria sido cuspido.

– A gente tem que voltar pra buscar a Hera!– ele gritou. Logo em seguida,
fitou Skelly e pestanejou: – Quem é que tá dirigindo?

Antes que obtivesse uma resposta, o smoothride quicou outra vez em algo,
fazendo Kanan deslizar de costas pelo corredor quando o veículo empinou de
frente.

De cabeça para baixo ao lado do banco do motorista, olhou para cima.

– Foi mal – Hera disse, abrindo um sorriso. – Eu ainda tô pegando o jeito.


Mas enfim, seja bem– vindo a bordo!

Kanan girou ao contrário e ficou de pé. Viu que Skelly tinha de alguma forma
chegado à dianteira, visivelmente morrendo de dor, mas incapaz de se aquietar.
O baixinho estava sentado na escada da porta aberta à esquerda, com seu braço
direito em volta do corrimão enquanto sua outra mão revirava a mochila.
Instantes depois, Skelly arremessou uma pequena bomba caseira pela porta.

Os solodeslizadores estacionados ao longo da pista foram lançados ao alto


num verdadeiro caos que iluminou toda a área, estatelando– se no chão logo em
seguida. A onda de choque atingiu a traseira do smoothride, quase fazendo
capotar ao propelido em direção a um cruzamento. Kanan se agarrou ao
corrimão enquanto Hera tratava de habilmente reaver o controle, aproveitando o
embalo para direcionar o veículo a uma rua lateral.

Skelly abriu um sorriso, escancarando seus dentes podres e quebrados. Enfiou


a mão na mochila outra vez.

– Dá pra você fazer esse cara parar com isso? – Hera gritou, virando a cabeça.

– Com todo o prazer– Kanan retrucou, avançando e puxando a mochila de


Skelly.

– Ei! – Skelly reagiu, tentado pegar a mochila de volta e quase caindo pela
porta aberta.
Kanan o agarrou e de imediato se arrependeu disso.

– Eu deveria...

Antes que pudesse completar a frase, rajadas de raios estilhaçaram as janelas


da esquerda. Kanan se agachou, tentando proteger sua cabeça dos cacos de
vidro. Pela porta aberta, pôde ver de onde vinham os disparos: de um dos
transportes de reconhecimento, numa emboscada por uma rua transversal. No
instante seguinte, as janelas da direita explodiram com os disparos vindos da
direção oposta.

– A gente tá no meio de um fogo cruzado! – Kanan gritou. Tinham de sair


dali o quanto antes; o que acabaria, no entanto, levando– os a descobrir onde
estavam. Jogando a mochila nas costas, sacou sua arma de raios e se empoleirou
num dos assentos.

Era quase impossível enxergar qualquer coisa enquanto o mundo zunia em


meio à escuridão. Okadiah nunca chegara a consertar o sistema de navegação do
veículo– quem precisaria dele, afinal, quando o bar era o único destino? Ali,
porém, a história era outra, e Kanan buscava desesperadamente qualquer ponto
de referência.

– Lá! – A estranha forma de transepto da World Window Plaza, iluminada por


dentro e por fora, passou rapidamente. Vá para a direita – gritou Kanan. Na auto-
estrada velha dos mineiros. Vamos para as Pits!

O Smoothride estremeceu. Hera dificilmente desacelerou e, de alguma forma,


conseguiu se virar facilmente para a rampa de entrada. A antiga e alta estrada
tinha o benefício do acesso limitado: agora, em vez de passar pelas ruas laterais
com atiradores imperiais, os edifícios e os tetos passavam por ambos os lados.
Eles estavam encurralados, era verdade, mas havia muito pouco tráfego na
rodovia, então Hera acelerou ao máximo. Kanan saltou do banco e correu para
trás.

Ele viu que os transpostes de Reconhecimento os seguiam. Ele tirou a mochila


de Skelly do ombro dele. Ainda havia cerca de uma dúzia de explosivos
improvisados. Agora que eles estavam sem trânsito, o risco de causar mais danos
à propriedade de outra pessoa foi reduzido. Ele chamou Skelly, mesmo no meio
do hoverbus.
– Como faço para ativar esses explosivos?

– Conele os cabos e deixe cair!

Tirando um cilindro não maior do que um copo pequeno, Kanan rapidamente


quebrou os dois fios soltos que ele havia conectado. Olhando para trás, ele
apontou. Ele atirou para fora da janela traseira e viu o jato de propulsão levá-lo
diretamente para os imperiais que se aproximavam.

O fogo foi desencadeado na frente do transporte de reconhecimento que foi à


cabeça. Abaixo, a estrutura da rodovia, já desgastada durante anos por tremores,
movia-se violentamente. O primeiro transporte virou tentando evitar a explosão,
jogando os stormtroopers para fora, mas isso foi melhor para eles, um após o
outro, os veículos de trás se chocaram contra o primeiro.

– Três em um! – Kanan gritou, jogando seu punho cerrado ao alto.

– A gente tá com uns problemas maiores ali na frente!– Skelly gritou.

Kanan se virou, assustado. Não estava esperando que a viagem seguisse

tranquila por todo o elevado, é verdade, mas a rampa de acesso seguinte ainda
se encontrava a quilômetros dali.

– Ainda não devia ter ninguém na nossa frente!

Mas antes que pudesse alcançar a dianteira do hoverbus para analisar a


situação, uma luz brilhou do lado de fora através das janelas, cegando– o de
imediato. Sentindo uma súbita onda de calor, percebeu que não se tratavam de
holofotes inundando o hoverbus, nem o fogo das armas de baixo calibre dos
imperiais. Um zunido ensurdecedor passou por cima deles.

– Isso por acaso é um...

– TIE! – Hera gritou.

O caça estelar disparou sobre eles um clarão branco imprensado entre asas
negras hexagonais. Kanan virou a cabeça para trás e viu as luzes gêmeas dos
motores ionizados se distanciando, só para sentir o mundo estremecer de novo
quando um segundo caça surgiu, perpendicular à estrada, e passou a metralhá–
los do alto.

Hera inclinou bruscamente o smoothride, levando seus passageiros ao chão.


Não havia proteção alguma contra o ataque dos TIE, a não ser pela própria
autopista. Com os motores do smoothride chiando, Hera emborcou o hoverbus a
noventa graus, e agora não deslizava mais tanto pela superfície da estrada, mas
sim pelo muro elevado de contenção à esquerda. O canhão do TIE, que vinha
mirando baixo em sua investida, não encontrou mais do que o permacreto.

Hera girou o manche, nivelando o smoothride outra vez. O TIE emitiu um


som agudo e iniciou um loop. A essa altura, o primeiro oponente já estava de
volta, em disparada pela rodovia na direção deles. Dessa vez, Hera pisou no
freio, dando um cavalo de pau, e saiu sem demora na contramão. A manobra
diminuiu a distância entre os TIE que os perseguia de tal modo que os disparos
passaram por cima deles sem representar perigo algum.

Kanan ficou de pé num pulo. Hera era o melhor piloto que ele já tinha visto,
levando o smoothride a fazer coisas que ele jamais tinha imaginado serem
possíveis. Mas aquilo não podia continuar, especialmente quando estavam
correndo de volta no rumo dos transportes de reconhecimento, amontoados e em
chamas. Alguma coisa tinha de ser feita.

Ele correu à dianteira do veículo. Derrapando até parar, mergulhou de


encontro ao chão, direto às pernas de Hera.

– O que é que você pensa que tá fazendo?– Hera perguntou, desnorteada.

Kanan passou a braço pelos pés dela, procurando algo embaixo do banco do
motorista.

– Essa coisa aqui costumava voar, lembra?– Arrancou um pacote marrom com
algumas tiras em volta. O antigo paraquedas de Okadiah.

– Você vai pular do ônibus?

– Mais ou menos! – Ficando de pé, Kanan fitou o teto. – Mete o pé no


acelerador. Quando eu der o sinal, pisa fundo! – Olhou para trás. – Skelly! Eu
vou precisar da sua ajuda!

– Maravilha!– Skelly o encarou, fatigado. – Eu vou precisar de mais remédio.


– Mas acabou se levantando.

No teto, bem ao centro do veículo, havia uma saída de emergência: nada mau
num planeta propenso a terremotos e deslizamentos de terra. Quando Skelly
enfim o alcançou, Kanan já se encontrava equilibrado sobre o encosto de um dos
bancos, tentando forçar a abertura da escotilha enferrujada.

– Eu preciso que você suba aqui pra me segurar!

O segundo caça TIE voava em disparada por toda a extensão da rodovia


quando Kanan surgiu no topo do hoverbus. Não havia como provocar estrago
algum simplesmente atirando uma bomba contra o caça, logo percebeu. O vento
o açoitava com força. Skelly tinha se firmado na abertura por trás de Kanan e o
segurava pelo cinto. Kanan encarava de baixo um TIE que voava em sua direção
com os lasers prestes a disparar, enquanto ele, por sua vez, não dispunha de arma
alguma.

Mas ele tinha um plano.

– Hera, agora!

Por trás dele, Skelly gritou pela abertura o aviso para Hera, que pisou no
acelerador tão logo Kanan puxou a corda do paraquedas. Sem estar preso a nada,
o drogue pegou todo o embalo do vento e tufou aberto bem no caminho do caça
TIE. A nave embicou à direita e acabou se dando de frente contra algumas
cordas e lonas pelo caminho, cobrindo todo o painel solar a estibordo.
Desorientado, caindo e completamente cego, o piloto do caça não foi capaz de
enxergar a torre de micro– ondas mais adiante.

– Uou!– Kanan soltou, quase perdendo o equilíbrio enquanto a nave explodia


de maneira espetacular. Menos um. Mas ainda restava o outro, ele não tardou a
lembrar tão logo se virou de frente. E entre o hoverbus e o caça TIE, Kanan
vislumbrou a montanha fumegante formada pelos transportes de
reconhecimento. A sujeira que haviam feito antes agora estava ali diante deles –
uma enorme barreira – , e se Hera tentasse fazer outra gracinha do tipo girar o
ônibus a 180 graus de novo, temia acabar voando. Pior ainda: havia
stormtroopers pelo pavimento, recém saídos dos destroços. Armas de baixo
calibre cuspiam fogo, e eles corriam em linha reta justo na direção delas!

– Me puxa de volta!
Skelly não estava em condições de puxar Kanan para lugar nenhum.

Mas ele acabou se desequilibrando e caindo pela abertura para dentro do


hoverbus, fazendo Kanan rolar de costas rumo à escotilha. Conseguindo se virar
e abaixar as pernas dentro da escotilha.

Ele ouviu alguma coisa.

– Hera disse para se segurar!

Kanan, a meio caminho da escotilha com ambas as mãos no telhado, hesitou.

– Hera, o que você está...?

Antes que ele pudesse terminar a pergunta, o hoverbus voou entre os


stormtroopers e o pavimento elevado antes deles, dando diversas roladas nos
lados da estrada. Certo de que o hoverbus colidiria com os destroços queimados,
Kanan colocou o seu braço sobre o seu rosto...

...e então sentiu uma tremenda onda abaixo dele quando o hoverbus atingiu o
obstáculo. Com os jatos repulsorlift, eles usaram os entulhos como uma rampa
improvisada, esfregando-os e superando-os. O Smoothride lançou-se no ar e
voltou a si, como se os velhos motores se lembrassem do que eram capazes de
fazer.

Hera fez o veículo voar! Para a surpresa de Kanan, e também para o piloto do
TIE sobrevivente, que desviou para evitar a colisão, apenas colidiu
catastróficamente em uma chaminé.

O Smoothride permaneceu no ar, deixando a auto-estrada e tremendo sob os


telhados dos edifícios. Kanan não podia acreditar. Deslizando dentro da abertura
do telhado, ele caiu bruscamente e se apressando em direção a Hera.

– Este fato não voou em anos!

– Você só teve que falar com ela. – disse ela, sorrindo.

– Achei que você era um bom piloto. Mas você... você é incrível.

– Obrigado. Mas devemos ir a algum lugar.


Kanan pestanejou.

– Ah, tá, claro. – Apontou: – Pega de volta pro sul, rumo ao Fosso, lá perto
da cantina.

Ela olhou de relance para ele com certa preocupação.

– Não dá pra gente simplesmente sair dirigindo por aí. Eles têm satélites. Vão
acabar encontrando essa coisa. A gente tem que se livrar dele quanto antes.

– Isso não vai ser problema – Kanan a tranquilizou.


31
Palavras podem mudar as coisas. Kanan aprendera isso com os Jedi. E isso era
especialmente verdade no caso de um breve documento gerado pela Minerax
Consulting, que transformara a paisagem de Gorse quatro anos antes da queda da
República.

A mineração de torilídio no sistema, até então, tinha ocorrido inteiramente na


superfície de Gorse, nas vastas planícies encharcadas ao sul da megalópole.
Então veio o levantamento da Minerax, ressaltando que não havia mais reservas
de torilídio em qualquer escala, em ambos os hemisférios do planeta. Quando os
mineiros enfim puderam comprovar isso, os investimentos já tinham migrado e
os produtores estavam estabelecendo suas operações em Cynda. No espaço de
um ano, as minas a céu aberto que se estendiam até a orla da cidade passaram de
zonas de trabalho sob holofotes a lixões na obscuridade. A última mina em
Gorse fechara no dia em que as Guerras Clônicas terminaram.

Vários daqueles locais ainda existiam; Okadiah costumava chamá– los de


“poros entupidos de Gorse”, e Kanan não conseguia imaginar um lugar melhor
para esconder o hoverbus. O gigantesco ferro– velho abrigava diversos veículos
abandonados, grandes e pequenos, incluindo várias smoothrides; foi ali que
Okadiah tinha encontrado aquela coisa, para começo de conversa. Kanan
concluiu que seria o único lugar aonde poderiam ir, depois daquele longo e duro
dia, se quisessem seguir um dos conselhos de Obi– Wan.

– Evitem a detecção– Kanan resmungou.

Surgindo de baixo do painel de instrumentos, à esquerda, Hera olhou para ele.

– Hein?
Ele se recostou no assento do motorista.

– Nada. – Deu de ombros. – Eu só tava pensando, sabe, todo o trabalho que


tivemos para manter a discrição, e agora isso.

– Bem, desculpa dizer, mas eu acho que o ônibus morreu– Hera disse,
desligando sua lanterna. – Isso aqui não voa mais, pode esquecer. Eu acho que
nem andar ele vai de novo.

Kanan ficou olhando para Hera enquanto ela fechava o painel de volta. O
hoverbus estava tão amassado e tinha tantas marcas de tiros, que ele ficou
impressionado com como aquela coisa não tinha entrado em combustão
espontânea.

Hera passou pelo assento do motorista com os braços meio moles. Parecia
cansada.

– Acho que eu nunca tive um dia como esse.

– Passa mais uns dias aqui em Gorse – Kanan retrucou, seguindo– a pelo
corredor.– Todo dia é uma excursão ao zoológico.

Hera confrontou Skelly, duas fileiras mais atrás, cuidando das feridas dele. O
tom de sua voz foi bem frio.

– O que raios tava passando pela sua cabeça?

Skelly a encarou de volta com um semblante moribundo.

– A minha rota de fuga foi toda planejada. O seu hoverbus foi que apareceu no
caminho.

– No caminho do quê?– Kanan perguntou. – Da parede, só se for.

– Não, não é isso – Hera retrucou. – O que eu quis dizer foi ter levado a
gente pela avenida principal e, depois, jogado um monte de bombas a torto e a
direito. Você já tava perto de se tornar uma ameaça maior do que o Império.

Skelly pareceu magoado.


– Eu só tô tentando salvar as pessoas aqui. Eu tentei minimizar as baixas.

– Falando assim, parece até que você tá numa guerra – Kanan disse.

– Mas eu tô – Skelly rebateu. – A guerra nunca terminou. – Abanou sua mão


protética ao redor.

Hera sacudiu a cabeça e se afastou.

– Vidian matou Gord. Eu vi tudo.

Kanan assentiu.

– Eu acho que ele não ia conseguir viver sem Lal, de todo jeito.

– Ele só queria justiça – Hera disse com uma voz suave, de cara para a
parede.– Mas esperar que o Império processe um dos seus é...

– Idiotice?– Skelly interrompeu, voltando– se de repente a ela.

Hera sacudiu a cabeça.

– O que eu ia dizer era algo que a gente tem o direito de esperar. É por isso
que as pessoas estão com o pé atrás quanto ao Império. Eles não estão aqui pra
ajudar ninguém. Só querem saber de ajudar a si próprios.

– Rapaz, e não é que é isso mesmo? – Skelly disse, esfregando a testa. – E eu


fazendo uma ideia totalmente diferente de Vidian.

Na opinião de Kanan, a conversa estava indo por outro caminho, e já era tarde
demais para ficar discutindo aquilo. Só o que importava então era que
precisavam seguir viagem logo, antes que o Império colocasse naves de busca
nos céus.

– Vamos logo– ele disse a Hera.– A gente não tá longe d’0 Cinturão de
Asteroides. Chegando lá, a gente decide o que fazer.

Ela não respondeu nada. Segurando o braço dela, ele acenou a Skelly.

– Você que queria esse hoverbus não é, Skelly? Pode ficar. A gente vai
embora.
– Calma – Hera disse. – Você vai simplesmente deixá– lo aí?

– Errado. A gente vai simplesmente deixar ele aí, se você for inteligente. Eu
não acho que ninguém chegou a ver a gente direito lá no espaçoporto, mas todo
mundo viu a cara dele. E ainda tem aquela mulher lá da empresa de vigilância
com câmeras espalhadas por toda a cidade. Vai querer ficar dando sopa por aqui
até quando?

Hera franziu a testa.

– Mas ele tá ferido.

– Foi ele quem fez isso contra si mesmo.– Kanan a encarou no fundo dos
olhos.– Eu não sei o que você tá tentando fazer, mas, seja lá o que for, ele não
vai te ajudar.

Ela ficou olhando para ele por alguns segundos. Por um instante, Kanan
chegou a pensar que ela tomaria uma decisão.

E, então, escutou uma série de batidas.

Vinham do banheiro pouco maior do que um armário. A estrutura da porta se


encontrava ligeiramente retorcida, como resultado dos danos sofridos pelo
hoverbus. Havia uma pequena fresta entre a moldura e a porta. Quando ele se
aproximou, a intensidade das batidas aumentou ainda mais.

– Eu sei que a gente tá num lixão – Skelly disse —, mas esse é o maior roedor
que eu já ouvi.

Intrigado, Kanan foi andando até os fundos do ônibus e encontrou um pé de


cabra. Hera e Skelly estavam juntos perto da porta quando ele voltou.

– Essa porta sempre emperra – Kanan resmungou.– Ela se tranca sozinha, ou


pior. Okadiah passou as férias de verão dele dentro desse banheiro, uma vez. –
Enfiou a ponta do pé de cabra na fresta e empurrou. Algo estalou.

A porta se abriu com tudo e uma Sullustana exausta foi ao chão.

– Zaluna?
Zaluna Myder rolou pelo chão, ofegante e agarrando sua bolsa.

– Ar! Ar! – Ela parecia exausta. Ela usava a mesma roupa escura da noite
anterior, advertiu Kanan.

Skelly olhou pra ela com surpresa.

– Você esteve aqui todo esse tempo?

– Em tudo, a batida e o tiroteio – disse ela, a garganta seca. Esta porta inútil é
muito grossa. Eles não podiam me ouvir! Zaluna olhou para Hera e Kanan,
sentindo–se aliviada. Então, seus olhos se concentraram em Skelly. –Você!

Skelly parecia confusa quando a mulher recuou, rastejando pelo chão.

– O que há de errado? Não te conheço. Como você me conhece?

– Você é o bombardeiro – Zaluna disse, seus olhos grandes se alargando,


incrivelmente. Eu cuidei das câmeras de vigilância que conseguiram prendê–lo.

Skelly piscou.

– Você é o que? Percebendo o que estava dizendo, ele se lançou do banco


dele para ela. Você é o que?

Zaluna procurou a bolsa e puxou o blaster.

– Mantenha-o longe de mim.

Kanan colocou as mãos nos ombros de Skelly e puxou–o.

– Ele não vai te machucar. Primeiro, eu receberia sete surras de mim.

– Três até sete. – disse Skelly. Vidian já me atingiu. E você me deu a "surra"
ontem na lua. Ele olhou para Zaluna com ódio. Você viu isso também?

– Sim. – Zaluna disse, olhando para o chão. Eu acho que Kanan não deveria
ter atingido você.

– Ah, obrigado – Kanan disse, dando de ombros para Hera. – Viu só o que eu
recebo em troca por ter ajudado?
Zaluna deixou sua pistola de lado. Hera se adiantou para ajudá– la a se sentar
num banco. A Twi’lek se voltou ao banheiro apertado:

– Você ficou lá dentro por quanto tempo?

– Desde ontem à noite, quando a gente viu o Skelly entrando na cantina –


Zaluna respondeu, esforçando– se para ficar de pé. – Os stormtroopers estavam
lá fora. Eu fiquei procurando um lugar pra me esconder e vi o ônibus
estacionado lá na rua. Mas eu acabei ficando presa. Eu não conseguia enviar um
sinal e a porta é tão grossa que não dava pra ninguém me ouvir.

Kanan riu por entre os dentes, sacudindo a cabeça.

– Todas aquelas bombas explodindo, todo mundo atirando na gente, e você aí


o tempo inteiro!

– Não recomendo.– Ela se voltou a Hera:– Vamos ter que deixar a conversa
sobre o cubo de dados do Hetto pra mais tarde. Eu tenho que voltar pra casa.
Não fui trabalhar hoje!

Hera fitou Kanan com certa preocupação no olhar.

– Zaluna, eu não sei se é uma boa ideia você voltar pra casa, nem pro trabalho.
– Hera sacudiu a cabeça, delicadamente. – O Império não tá mais só atrás do
Skelly. Eles estão atrás desse veículo e, provavelmente, da gente também, sei lá.
E até a gente descobrir o que eles estão pensando de você, não é muito seguro
que você volte pra lá.

Zaluna parecia desolada.

– Eu me meti numa das grandes, não foi?

– E não cheira nada bem– Kanan complementou.

A Sullustana fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes. Após algum


tempo, ela os abriu de novo, ostentando um novo semblante, quase em paz.

– Tudo bem. Já são trinta e tantos anos de um lado das câmeras. Não vai doer
se eu experimentar pra ver como é estar do outro lado. – Instantes depois, ela
ficou de pé em cima de seu assento, esticando– se toda para alcançar a luminária
no teto. – Quando as pessoas fogem, eles nunca fogem de maneira inteligente –
Zaluna disse, correndo seus dedos pela cúpula da luminária. – O segredo é se
certificar que os observadores não saibam quem está no comando.

Hera ficou alarmada.

– O que é isso? Não tem uma câmara de vigilância a bordo, tem?

– Isso aqui era um transporte público. Essas câmeras eram instaladas por uma
empresa de vigilância empresarial há trinta anos. – Não encontrando nada,
Zaluna desceu e seguiu ao próximo assento. Subindo, repetiu todo o processo
anterior com a luminária seguinte.

Kanan estava pasmo.

– Por que é que eles grampeariam um hoverbus?

– Naquela época, pra ver quais eram as bebidas que as pessoas preferiam
tomar numa viagem – Zaluna disse, vasculhando a luminária.– Hoje em dia,
pela mesma razão que o Império fica de olho numa cantina, ou num elevador.
Pra identificar as ameaças antes que elas se tornem ameaças.

Skelly cruzou os braços.

– Todo mundo que me chamou de paranoico, atenção: a fila pra me pedir


desculpa começa aqui, à minha esquerda.

A papada de Zaluna se abriu num sorriso Sullustano, e ela tirou um pequeno


dispositivo de dentro da cúpula.

– Ah. Bem como eu imaginava. Um dos nossos gravadores obsoletos. Sem


transmissão ao vivo, ele faz um upload em lote ao satélite, uma vez por semana.
– Ela o arremessou a Hera quando Kanan se ofereceu para ajudá– la a descer.

Hera rolou o dispositivo de gravação incrivelmente pequeno pela palma de


sua mão.

– Não, ele está desconectado do trasmissor. Mas eu admito que seria


interessante saber o que ele gravou. Eu estava no escuro o dia todo. Gostaria de
saber por que foi todo esse barulho.
– É melhor não saber. – disse Kanan. Gostaria de esquecer!

Hera ficou na porta e olhou para ele.

– Você pode esconder a todos nós no bar até que vejamos qual é a situação? É
mais seguro se não nos separarmos.

Kanan percebeu que não era preciso reclamar. Se houvesse uma coisa que ela
tinha aprendido, era que ela não podia mudar a opinião de Hera quando ela
decidiu fazer alguma coisa.

– Está tudo bem. – disse ele. Mas no primeiro sinal de um soldado imperial:
Skelly, eu não conheço você!

. . .

– Bastinade está aqui. – disse Sloane, sorvendo de seu copo e acenando para a
nave Lambda descendo do céu.

– Você acha que o seu povo pode evitar que esta nave voe em pedaços? – Vidian
perguntou. Você só tem nove mais transportes.

Sloane escondeu a expressão dela atrás da xícara de caf. O caf na torre de


controle não era bom, mas depois das últimas horas, qualquer intervalo foi mais
que bem-vindo. Eles perderam vários transportes, dois TIE fighters e, pior de
tudo, sua presa. Em uma pedreira, que parecia uma aglomeração de poços cheios
com restos e esgoto que ela nunca tinha visto. Os satélite rastreadores perderam
o controle do hoverbus depos de cinco segundos no local. Os stormtroopers
poderiam vasculhar a área por meses.

Até agora, Vidian não havia dito nada sobre o incidente; Em vez disso, ele
decidiu rever a questão que ele havia discutido antes com ela quando estavam no
hoverbus. Uma pergunta muito rara, certamente, e com possíveis ramificações
para todos aqueles que viveram em Gorse. Se analisado em detalhes, poderia
transformar os cidadãos modelo na difícil ilusão Skellies.

Provavelmente não, mas Sloane estava ansioso para sair do planeta antes que
algo acontecesse. "Quanto mais tempo eu gastei em Gorse", ele pensou ao
mesmo tempo que ele estava se dirigindo ao transporte, "eu nunca mais poderei
pedir como capitão substituto".
32
Era estranho que o Cinturão de Asteróides estivesse tão sozinho. Os clientes
ainda não chegaram e não esperaram por muito tempo. Moonglow ainda estava
cheio de Imperiais, e com o hoverbus fora da circulação, a Okadiah teria que
encontrar outra maneira de transportar seus clientes freqüentes e da a cantina.

Kanan pensou milhões de vezes em abandonar os outros. Mas ele não queria
deixar Hera, e ela estava convencida de que a captura de Skelly levaria o
Império diretamente para eles. Quem sabe, talvez ela estivesse certa. E ele não
partiria sem Zaluna, não quando o Sullustan possuía o cubo de dados que Hera
queria.

Pelo menos, Zaluna tinha sido útil, levando-os ao longo de rotas que ele sabia
que estavam livres de vigilância. Uma vez que ele confirmou que as câmeras no
edifício estavam mortas, Kanan enviou todos para o apartamento no sótão. Ele
estava no piso térreo daquele bar escuro juntando toda a comida que conseguisse
encontrar.

Kanan tinha deixado aquela manhã pensando que nunca mais iria para aquele
lugar. Agora eu não tinha idéia de onde eu estaria nas próximas doze horas. Ele
não achou que alguém visse o porto espacial imperial, mas ele não queria contar
com essa possibilidade.

E algo tinha a ver com os outros convidados.

Alguém destrancou a porta lateral. Kanan rapidamente largou sua sacola de


viagem de cima do balcão e se colocou de pé. Okadiah entrou, com um ar mais
melancólico do que de costume.

– Você chegou mais cedo do que eu esperava– Kanan disse.


– Está acontecendo alguma coisa na Moonglow – Okadiah respondeu,
melancólico, acomodando sua jaqueta num cabideiro. – Já sabes sobre Chefe
Lal?

Kanan confirmou e, logo depois, sacudiu a cabeça.

– Eu não ouvi a história toda. O que foi que aconteceu?

– Disseram que um tremor de terra a derrubou dentro de um tanque de ácido


na fábrica. Ela chegou perto demais– o velhote disse.

Kanan sacudiu a cabeça.

– Terrível.

– Uma mentira terrível, queres dizer.– Okadiah saiu vagando pela escuridão,
desviando– se das cadeiras.– Conheci Lal Grallik quando ainda nem tinhas
nascido, meu rapaz. Ela sabia bem onde pisava. E resolveu cruzar o caminho de
um ciborgue depravado, só isso, a exemplo do diretor da associação. – Fez uma
pausa para limpar algo em seu olho, e se virou de costas. – Redirecionaram todo
o transporte de funcionários ao campo de Calladan. Eu peguei um aerotáxi para
chegar até aqui.

– Isso explica a multidão – Kanan disse, tentando soar normal enquanto


passava os olhos pelo bar. – Eu acho que essa noite vai ser tranquila.

– Essa é uma das razões – Okadiah disse. Cruzou o salão e colocou suas mãos
sobre o balcão. – Alguns cavalheiros me abordaram quando desembarquei.

Kanan encontrou um trapo velho e passou a limpar a bancada.

– Eles estavam vestidos de branco?

- Algo ininteligente com tanta lama neste planeta. O velho percorreu a


extremidade do bar e desviou o olhar. Então ele viu a mochila cheia de comida
aos pés de Kanan. Ele evidentemente decidiu ignorá-lo e se juntou a Kanan atrás
do balcão. Eles dizem que os imperiais tiveram que comandar o Smoothride para
o espaço-porto e que alguém o roubou e levou-o a uma viagem de campo.

"Incrível", disse Kanan. Você acreditaria que o Império seria mais cuidadoso
com a propriedade de outras pessoas?

- É um bom hábito que você deveria ter. Okadiah abriu a garrafa e colocou
dois copos. Aparentemente, quem estava naquela viagem, atirou em alguns
soldados imperiais e causou danos a um valor de cem mil créditos em
propriedade de outros. Sem olhar para Kanan, Okadiah serviu a bebida. Há algo
que você quer me dizer?

Kanan estava de pé com um olhar inexpressivo no rosto.

-Nada em particular.

Okadiah agarrou as duas bebidas e olhou para ele.

- Essa menina não está com problemas?

Kanan não respondeu.

Okadiah olhou para o jovem por um momento, antes de caminhar em direção


a ele com as bebidas.

- Sempre me surpreendei que você seja um cara sem um alvo à vista, Kanan;
Nunca como homem na corrida. Ele tinha os olhos nele. Indo em lugar nenhum é
melhor. Poucas pessoas perguntam onde você está.

Kanan assentiu.

"Eu entendo", ele disse, pegando o copo que eles ofereceram. Ele sinalizou
para um ponto abaixo do balcão. Por sinal, se você marcar o seguro, você
encontrará alguns créditos. Eu acho que alguém os deixou atrás de uma mesa.

-Ah sim?

"Basta comprar outro avião", disse Kanan, baralhando. Era metade do


dinheiro que ele havia economizado. Embora provavelmente não seja tão novo
como o que você teve.

"Bem, pelo menos hoje a fortuna sorriu para alguém", disse Okadiah. Ele
levantou o copo com torrada. Que o espírito de morte cometa um erro e se
esqueça de que você existe.Algo bem insensato, dada toda a lama neste planeta.–
O velhote foi andando de volta até a entrada do bar e se virou. Olhando para trás,
viu a sacola cheia de comida aos pés de Kanan. Obviamente preferindo ignorá–
la, ele se juntou a Kanan atrás do balcão. Eles dizem que os imperiais tiveram
que comandar o Smoothride para o espaço–porto e que alguém o roubou e
levou–o para um passeio.

– Surpreendente. – disse Kanan. Você acreditaria que o Império seria mais


cuidadoso com a propriedade de outras pessoas?

– É um bom hábito que você deveria ter. Okadiah abriu a garrafa e colocou
em dois copos. Aparentemente, quem estava naquela viagem, atirou em alguns
stormtroopers e causou danos a um valor de cem mil créditos em propriedade de
outros. Sem olhar para Kanan, Okadiah serviu a bebida. –Há algo que você quer
me dizer?

Kanan estava de pé com um olhar inexpressivo no rosto.

– Na verdade, não.

Okadiah agarrou as duas bebidas e olhou para ele.

– Essa garota não está com problemas?

Kanan não respondeu.

Okadiah olhou para o jovem por um momento, antes de caminhar em direção


a ele com as bebidas.

– você sempre me pareceu com alguém sem destino, Kanan. Nunca como um
homem em fuga. Ele mantinha os olhos nele. Nenhum lugar para ir é melhor.
Poucas pessoas vem perguntando onde você está.

Kanan assentiu.

– Eu entendo. – ele disse, pegando o copo que ele ofereceu. – Ele sinalizou
para um ponto abaixo do balcão. –Por sinal, se você verificar o cofre, você vai
encontrar alguns créditos. Eu acho que alguém os deixou atrás de uma mesa.

– É mesmo?
– Basta comprar outra hoverbus. – disse Kanan, arrastando um pouco o pé.
Era metade do dinheiro que ele havia economizado. Provavelmente não seja
novidade com o que tinha.

– Bem, pelo menos a sorte sorriu para alguém hoje. – disse Okadiah. Ele
retrucou, erguendo o copo num brinde. – Que o espírito da morte cometa um
erro material e se esqueça de tua existência.

– Um brinde – Kanan retrucou. Em seguida, acrescentou: – A Chefe Lal.

– A Lal.

Kanan entornou sua bebida e colocou o copo na pia. Pegou a sacola de comida
e seguiu rumo à escada.

. . .

As vozes por trás da porta silenciaram de imediato, tão logo Kanan bateu. A
trava foi aberta. Ao vê– lo, Hera baixou sua arma e o deixou entrar.

O cômodo era um espaço habitável tão somente na acepção gorseana do


termo. Uma chaminé se estendia por um teto baixo, reclinado; da rua, não havia
indício algum da existência de um piso superior. Canos corriam por todo o chão,
atravessando a câmara bolorenta. Luminárias portáteis proporcionavam a única
fonte de iluminação. Um colchão estava jogado sobre algumas caixas criando
uma cama improvisada.

Zaluna sentou–se ao pé da cama, esfregando os tornozelos. O compartimento


era um lugar apertado, e ela tinha dormido mal, isso quando conseguira ao
menos cochilar um pouco. Skelly estava sentado em frente a um pequeno
lavatório, fazendo o melhor que podia para limpar suas feridas. E Hera segurava
a porta, aparentando estar frustrada de um jeito que ele nunca a vira.

– Algum problema?

– A gente acabou de conversar sobre tudo o que aconteceu hoje – Hera disse,
calmamente, e lançou um olhar a Skelly. – Especificamente, sobre algumas
coisas que poderiam ter sido feitas de forma... diferente.

– E disso que esse povo precisa, sabe, de um bom conselheiro. – Kanan


passou por ela e começou a repartir a comida. Zaluna e Skelly saíram afoitos
atrás de seus respectivos quinhões. Kanan foi até a cama e se sentou, ele
ofereceu uma cadeira para Hera e o que restava na sacola.

– Sua mesa, madame.

Depois de um momento, ela se sentou ao lado dele.

Todos comeram em silêncio.

– Isso é sério – disse Hera enquanto terminava de comer. -Você fez tudo
errado, Skelly. Você precisa esquecer os costumes antigos.

– Isso parece familiar para mim – reclamou Skelly.

Kanan riu.

– Agora, o que Skelly está fazendo de errado?

– Isso é o que eu estava tentando dizer antes – disse Hera enquanto espremia a
sacola. Gord confrontando a Vidian. Skelly estourando com tudo ao seu redor. –
É suicídio. Não é a melhor forma de fazer isso.

– De fazer o quê?

– De fazer um... – Hera parou, respirou fundo e baixou a voz. Essa não é a
melhor maneira de fazer a diferença contra o Império.

– Eles não estão tentando fazer a diferença – disse Kanan enquanto distribuía
a comida. Eles apenas tentam contra-atacar.

– E eu entendo, mas se as pessoas que tiveram problemas com o Império


agiram unicamente com base em seus próprios interesses, não fariam nenhum
bem com ninguém; na verdade, eles podem tornar mais difícil se juntar a
qualquer tipo de rebelião a desabrochar...

– Rebelião? – Skelly interrompeu. –Quem está falando de rebelião?

Perto, Zaluna se fez um som shh-shh. Ela falou, com voz adorável
sussurrando:
- É assim que você entra em problemas.

– Ninguém está falando de uma rebelião, com certeza – sublinhou Kanan.


Zaluna correu ao redor da sala procurando aparelhos de espionagem, mas
claramente não estava confortável com as palavras que tinha ouvido.

Hera revirou os olhos.

– Não, a gente não. A gente nunca faria uma coisa dessas. Mas,
teoricamente...– aumentou o tom de voz para pronunciar a palavra, olhando de
forma reconfortante a Zaluna.

– Os imperiais não gostam nada dessas teorias – a Sullustana retrucou com


uma risada.

Hera prosseguiu:

– Teoricamente, digamos que haja milhares de pessoas, não, melhor dizendo,


milhares de sistemas enfurecidos com um Império Galáctico hipotético de uma
galáxia distante. Tá todo mundo frustrado em relação às questões locais,
algumas queixas em particular, só que ninguém nunca se une em nada. Aí,
acabam ficando sem força em números, sem nenhuma vantagem estratégica de
cooperação. Assim, fica muito fácil de serem apartados e dissuadidos. E o pior
de tudo: nenhum espírito de comunidade se desenvolve, nunca.

Skelly olhou para trás em descrença:

– Você tá dizendo pra gente não contra– atacar?– sua voz ecoou pelo pequeno
cômodo. – E o que eles estão fazendo com a lua? E o que eles fizeram com a
Lal? O que eles fizeram comigo...

– ...foi horrível, Skelly. – Levantando– se, Hera se aproximou e colocou sua


mão no ombro dele. – Mas você não foi ferido por uma pessoa.

– Não mesmo. Parecia mais um exército.

– Você foi ferido por um regime. Você pode até conseguir se vingar da mão
que te feriu, ou que matou Lal. Mas a justiça não será feita. Não até que seja
feita pra todo mundo.
Skelly apertou os olhos e baixou a cabeça em silêncio.

No chão, Zaluna tirou outro pequeno dispositivo de sua bolsa e passou a


brincar com ele.

– Só checando minhas mensagens – ela disse àqueles a seu redor.– É seguro.

Hera assentiu.

Skelly estava parado, olhando para o caule frondoso do único vegetal que
Kanan fora capaz de encontrar na despensa da cantina.

– Sabe, teve um monte de gente que perdeu algum membro na guerra. Tudo o
que a gente queria dos médicos era poder voltar a fazer o que a gente tava
acostumado a fazer antes. Ninguém se voluntariou pra ser transformado numa
máquina mortífera. – Ele se curvou, meio atordoado. – O que tem de errado
com esse cara?

Kanan pressupôs que se tratava de retórica. Também se deu conta de que


Skelly tinha levado uma surra bem pior do que ele imaginava.

Zaluna perdeu o fôlego e deixou cair o gadget de sua mão.

A Twi’lek se voltou a ela, preocupada.

– O que foi?

Com as mãos nos joelhos, Zaluna fitava incrédula o pequeno dispositivo a


seus pés.

– Eu acabei de checar. Toda minha equipe foi suspensa. E como eu nem


apareci no meu turno, devo ter sido também. – As palavras estavam presas em
sua garganta. – Trinta anos com um histórico impecável...

Hera levou a mão à boca.

– Ai, Zaluna, eu sinto muito.

– E não é só isso. O Império sabe que eu era amiga de Hetto. Eles vão acabar
descobrindo onde eu estava hoje. Eu vou perder meu emprego, ou coisa pior!
– Que belo emprego, hein, espionando a vida de todo mundo– Skelly disse,
destilando todo seu veneno.

– E importante!– Zaluna retorquiu.– Pelo menos, era... já foi. Fizemos muitas


coisas. Coisas importantes.

– Eu só não vejo como– Kanan soltou, já de pé e seguindo em direção à porta,


contra a qual se encostou, cruzando os braços. O enxerimento do Império não o
surpreendia em nada, é claro. Só lhe parecia um total desperdício de tempo.– O
que tem de bom em ficar assistindo a um bando de miseráveis levando umas
vidinhas sem graça?

– Nos velhos tempos, ainda sob a República, fazíamos mais do que isso –
Zaluna retrucou, animando– se. – Nós encontrávamos pessoas desaparecidas.
Diminuíamos a criminalidade. Nós impedíamos...

– Impediam que as pessoas questionassem qualquer coisa! – Skelly jogou no


chão o caule que segurava.– Vocês ajudaram no monitoramento do Império.
Ajudaram a prender qualquer um que saísse da linha!

– Isso é agora – Zaluna rebateu com uma voz estridente. Falando depressa,
encarou Skelly.– Nunca aconteceu nada de ruim na sua vida? Nadinha de ruim
que poderia ter sido evitado caso alguém prestasse mais atenção?

Skelly respirou fundo e assentiu.

– Mais de uma vez.

– E com você, Kanan? Já aconteceu alguma coisa ruim na sua vida que
poderia ter sido evitada se alguém estivesse cuidando de você?

Kanan se transformou. Hera vinha escutando tudo em silêncio, encostada num


canto, mas, naquele momento, ele pôde sentir a atenção dela toda voltada a si.

– Sei lá – ele disse, por fim, com as mãos nos bolsos.

– Todo mundo já passou por isso – Zaluna retomou. – O que nós fazemos... o
que fazíamos... era bom. – Baixou a cabeça, agastada. – Mas já chega pra mim.

Kanan se esforçou para encontrar o que dizer. Não conseguiu pensar em nada.
Ao tirar uma das mãos do bolso, porém, vislumbrou o dispositivo de gravação
que Zaluna tinha localizado no hoverbus.

– A menos que alguém queira reviver o desastre de hoje – ele disse —, eu vou
esmagar essa coisa.

– Não, espere. – disse Hera enquanto se aproximava e pegava o dispositivo.


Os Imperiais estavam dirigindo o ônibus hoje mais cedo. Vidian e o Capitão
Imperial.

– Não escutei ninguém. – disse Zaluna, oferecendo a Hera seu holoprojector.


Mas ninguém me ouviu também. – Hera ligou os dispositivos e voltou a
gravação em várias horas atrás.

Permaneceram em silêncio enquanto observavam o material da câmera de


vigilância do hoverbus. Quando acabaram, Kanan revirou os olhos, perplexo.

– Skelly estava certo. Eles estão indo explodir a lua.


33
...de modo que já não teríamos mais que minerar em Cynda. Se o que o
bombista diz for verdade, a lua pode ser pulverizada, e todo seu torilídio
diretamente extraído e processado no espaço. Não haveria mais a necessidade
de garimpeiros lerdos, ou de processadores onerosos em Gorse...

Hera desligou o gravador. Estava perplexa.

Skelly estava furioso.

– Ele roubou minha ideia!

– Roubou sua...– Kanan deu um sorriso cínico. – Você entregou pra ele a sua
ideia de mão beijada. Você quase morreu pra entregar a sua ideia pra ele!

– Ei, quando eu te disse que o Império ia destruir o mundo por acidente, você
pensou que eu estava louco– Skelly disse.– Agora, a gente sabe que eles vão
destruir tudo de propósito. Parece que eu não estava tão louco assim\

– Então, foi por isso que Vidian foi embora da Moonglow tão de repente. –
Hera sacudiu a cabeça.

– Mas quanta loucura... – Kanan disse. Sloane, ele notou, mal tinha dito uma
palavra durante toda a gravação. Ele ficou se perguntando se ela se dava conta da
insanidade de Vidian. – Não dá pra simplesmente dissolver uma lua inteira!

– Quer que eu te mostre como? – Skelly disparou. – Tem um monte de


estudos que eu posso te mostrar!

– Tudo na parede de um abrigo antibombas do outro lado da cidade– Hera


retrucou, franzindo a testa. – Eu também não acreditei nisso. Skelly, você tem
certeza?

– Eu tô falando, certeza! É claro que eu tenho certeza – Skelly garantiu,


apontando para seu próprio rosto ferido.– Você acha mesmo que eu teria me
arriscado tanto se não tivesse certeza?

Tudo parecia inacreditável demais para Kanan. Estaria Vidian levando aquilo
realmente a sério?

E Skelly não tinha derrubado várias camadas do substrato de Cynda só com


uma bomba bem colocada?

– Vai saber– Zaluna disse.– Nenhum de vocês nasceu aqui. Eu me lembro de


quando era jovem e minha mãe costumava me dizer que a lua é assim tão frágil
porque Gorse a ama e fica tentando abraçá– la forte demais.

E a lua fica tentando fugir.

Uma ótima metáfora pra alguns dos meus relacionamentos, Kanan pensou.

– Ela dizia que, um dia, Cynda romperia, ruindo. Todos nós já escutamos essa
história, quando criança.– Ela sorriu um tanto taciturna. – Talvez isso seja parte
da razão pela qual as pessoas em Gorse vivem assim, porque o fim do mundo
está chegando. Mas nos disseram que isso só aconteceria daqui a milhares de
anos, então não precisávamos nos preocupar.

Hera assentiu.

– E se isso acontecesse amanhã?

•••

A jovem tenente apareceu na porta do escritório da capitã do Ultimatum com


um sorriso estampado no rosto.

– As projeções foram realizadas, conde Vidian.

– E?
O especialista em ciência planetária do Ultimatum saudou tardiamente Sloane
e leu seu relatório.

– O bombardeiro estava certo, em parte. – disse o tenente Deltic. – Cynda


pode ser despedaçada por explosivos nos pontos marcados, mas levaria muitos
mais explosivos em um grau superior do que Gorse armazena.

– Eu tenho baradium, 357 em grandes quantidades no Depósito Calcoraan. –


disse Vidian, olhando atentamente para Sloane. Bem como uma nave coletora de
thorilide, o tipo que colheita material, destroçado de cometas. O campo de
destroços permanecerá em órbita para peneiração?

– A órbita altamente elíptica torna improvável que o material forme um anel


ao redor do planeta. – disse o tenente. Pelo menos alguns resíduos devem sair do
sistema; Alguns poderiam ser capturados, outros caíriam no planeta. Supondo
que Thorilide permaneça, seu coletor terá mais do que suficiente para
permanecer ocupado. Ele riu sombriamente. Embora o planeta seja outra
história.

– Não estou interessado em saber o que acontece com Gorse. – disse Vidian.

– Eu também não. – disse Sloane. – Afinal, o tenente trabalhou para ela.

– Bem, primeiro haverá um impacto direto, que depende de quão poderosa é a


dispersão inicial e onde está. Eles teriam mais meteoros em ação se a explosão
ocorrer no perigeu que se aproxima; menos se acontecer várias semanas depois,
quando a lua estará mais longe. Os pedaços não chegariam tão longe, mas sua
composição dificulta ao queimar na atmosfera.

– E as reações sísmicas em Gorse? Sloane perguntou.

– Ohh, cara. – disse o tenente, sua expressão sugerindo que já haviam


atravessado para o mundo da especulação. Pouco mudaria no início, mas o
sistema evoluiria. Com a mudança no equilíbrio das marés, Gorse reagiria. As
coisas ficariam muito feias.

– Terremotos e tempestades de meteoro! Sloane olhou para Vidian. Parece um


cataclisma.

– E isso não é tudo. – acrescentou o tenente. O planeta pode não voltar.


– O que?

– A lua é uma pequena companheira na dança entre Gorse e seu Sol, mas um
companheira muito importante. A dinâmica atmosférica de Gorse é
extremamente sensível à mudança, é quase um milagre que lado escuro seja
habitável!

– A conclusão! Vidian disse secamente.

O tenente revisou suas anotações.

– Nada poderia acontecer ou eles poderiam ver a destruição de todo o bioma


em dez anos.

Sloane ficou surpresa.

– Dez anos!

– Ou talvez não. – disse o tenente rapidamente. – Vale a pena ver o que


acontece.

– É o suficiente. – Sloane disse, revirando os olhos. Olhando para a lua lá fora


através da janela, brilhante e suspensa no espaço, lembrou–se de algo mais do
que o tenente dissera um pouco antes. Você disse que se a thorilide sobreviveria
à destruição lunar. Por que não deveria?

– Eu não sou uma química. – respondeu a jovem, – mas sei que a molécula de
thorilide é frágil, facilmente propensa a dissolver–se em seus elementos. É por
isso que Cynda é uma ótima fonte de thorilide. Os cristais em que o elemento é
encontrado o protegem. Mas há uma diferença entre explosões cuidadosamente
controladas e do que estou falando agora. Não saberíamos se os cristais
sobreviveriam até o teste. Ele fez uma pausa. – Caso contrário, seria um
desperdício da lua. – Sloane olhou para Vidian, e depois para o tenente.

– Dispensado.

O tenente saudou e saiu do escritório. O capitão olhou para Vidian.

– O Imperador aguardará um teste. – disse ela.


Vidian estudou preguiçosamente as costas da mão.

– Já considerei. Um dos especialistas que trouxe na minha comitiva, garantiu–


me que ele pode fazer as observações usando os sensores do Ultimatum.

– Quão conveniente. – pensou Sloane.

– Então podemos realizar um experimento o mais rápido possível. Iremos,


com certeza, reportar tudo o que encontrarmos para o Imperador. – disse Vidian.

Com certeza. As coisas se moveram rapidamente, especialmente considerando


a seriedade do que foi contemplado.

– É ainda difícil de imaginar. Gorse foi destruído em dez anos?

– É aceitável. – disse Vidian, enquanto se dirigia para a entrada.

– Nós iremos destruir um mundo habitável. – disse Sloane, mostrando


repulção e surpresa.

– Nós não poderíamos estar refinando a thorilide em Gorse de qualquer


maneira, mas no espaço, usando as naves que eu tenho à minha disposição. –
disse Vidian, parando na porta para olhar para Cynda. Aqueles com as
habilidades apropriadas podem se candidatar para se juntar à equipe.

– E outros?

– O resto é pouco utilizável e não me importo. Eles podem encontrar alguma


saída do mundo e seren úteis em outros lugares, mas com esta descoberta não há
dúvida: para o Império, seu mundo vale mais destruído.

– Depois de fazer o teste. – disse Sloane.

– Com certeza. – Ele virou e saiu do escritório.

•••

Hera observou os outros dormir.

Apenas Kanan não tinha permanecido. A discussão surgiu sem qualquer


propósito, após a revelação de Cynda, com Skelly inventando novas teorias
loucas por minuto. Zaluna, que permanecia incrivelmente resiliente até agora,
deixou sua fraqueza alimentar sua preocupação. Hera tentou moldar a discussão,
exortando de forma prática, e o esforço, de certa forma, tinha parecido chatear
Kanan ainda mais.– Você não se importa com nada? Ela perguntou antes de
deixar as escadas.

– Nunca é bom importar-se em demasia. – disse ele, frívolo como sempre.


Você ficará desapontado.

Agora eu fui forçado a decidir o que eu ia fazer. Tantas tempo havia se


passado em silêncio, no qual ele duvidava ee Kanan tivesse sido identificado no
espaço-porto imperial; Isso significava que não haviam mais stormtroopers
espreitando fora do Cinturão de Asteróides. Talvez ele pudesse voltar para sua
própria nave. Pelo menos Zaluna lhe havia dado o cubo de dados que Hetto
preparara para ela. Isso, ela sabia, ajudaria outros dissidentes em outros lugares.

E ela sabia o que esperar de Vidian, que a famosa vantagem, autoridade em


negócios era um criminoso homicida com intenções de fazer esquemas
revoltantes. Como Kanan, ela duvidava que a destruição da lua fosse possível.
Era uma ideia muito grande e fantática de imaginar. Uma engenharia tal, nessa
escala, nem sequer existia ainda ou, pelo menos, ela nunca tinha ouvido falar.
Vidian certamente descobriria um jeito. Pelo menos, enquanto estivesse ocupado
com isso, não iria realizar mais nenhuma de suas “inspeções” sádicas. Então, não
havia muita razão para ela continuar em Gorse.

Antes, porém, deveria levar Zaluna a algum lugar seguro antes que o Império
a prendesse. Pois certamente o faria – Hera não nutria ilusões quanto a isso. E,
por algum motivo que ela não sabia identificar, queria ter mais uma conversa
com Kanan. Ele era egocêntrico e hedonista, com certeza– mas não havia como
negar que algo diferente às vezes despontava dentro dele, o que a fazia se
perguntar quem ele era e de onde tinha vindo. Ele era bom em prever os passos
do Império, e ela testemunhara proezas notáveis realizadas por ele.

Mas nada disso importava se ele não tinha a menor consciência das coisas. Era
preciso mais do que talento para eclodir uma revolução. Era necessário ter força
de vontade.

E isso nem todo mundo tinha.


34
Um dos benefícios de viver em um lugar sem a luz do dia, pensou Kanan, era o
grande número de opções oferecidas àqueles que não queriam ser vistos.

Um grupo de turistas perdeu "as calças", ou melhor, suas capas ostentosas


para Kanan há várias semanas em um jogo de sabacc. Os mantos não haviam
sido usados no armazém da cantina desde então, pois era impossível penhá-los.
Isso ocorreu porque, no escuro, os mantos eram vistos como vestes usadas por
um grupo de seguidores sanguinários raros de algum culto, enquanto vagavam
pelas ruas sob a lua cheia, cantavam seus mantras e procuravam um animal de
estimação para praticar sua religião. Esses tipos de cultos não foram apenas
tolerados pelo Império, mas causaram que o departamento de controle de
animais da cidade de Gorse se desintegrasse para economizar dinheiro.

Kanan amaldiçoou seus companheiros de jogatina, que devem ter sabido que
"maníaco assustador" era uma descrição elegante que ninguém gostava. Mas
agora ele e os outros colocaram-se sob os mantos.

– Continuem andando. – ele disse sob o capuz, enquanto ele conduzia os


outros pela longa avenida do distrito industrial. –Se você ver alguém, mantenha
a cabeça baixa e rosne como se estivesse com fome.

Ninguém os incomodou. A lua cheia estava subindo depressa e outros


membros da seita já perambulavam por aí em direção aos cemitérios, onde
gostavam de praticar seus rituais. A ocasião era das mais oportunas para se
ostentar um visual macabro pelas ruas. Kanan tinha jogado sua sacola de viagem
nas costas por baixo do manto; monges malucos não carregavam bagagem, e
julgou que uma aparente corcunda proporcionaria um toque todo especial à
indumentária.
– Parece que tá funcionando – ele disse. – A gente não vai conseguir se safar
com essa mais de uma vez, mas pelo menos vai dar pra atravessar a cidade.

– Você não para de me surpreender – Hera retrucou. Vinha logo atrás de


Kanan, mantendo os olhos atentos ao redor.

– Pois é, toda uma família de lunáticos dando um passeio pela noite– Kanan
brincou. – Mamãe, papai, vovó e o tio estranho que a gente mantém no porão.

– Só se a vovó for você – Zaluna rebateu.

Kanan sorriu. A Sullustana tinha arrefecido na noite anterior, mas as horas de


sono pareceram tê– la revigorado. Ainda a achava meio estranha, mas ela acabou
o impressionando. Anos antes, toda sua rotina de vida fora interrompida, mas ele
não tinha chegado nem perto de viver o que ela já tinha vivido. E, ainda assim,
Zaluna parecia ter dado a volta por cima. Ele ficou se perguntando qual seria o
segredo dela.

Skelly se encontrava em pior forma. Já estava se movimentando mais devagar,


ele notou– os efeitos da última rodada de remédios não tinham durado nem a
caminhada inteira. Ficou olhando para a lua enquanto andava com dificuldade.

– Sabe – ele disse.– Eu acho que o que eu sempre quis de verdade foi
destrinchar umas pedras.

Kanan o fitou.

– Um que?

– Um Mineralogista. ELes usaram para estudar Cynda antes de começar a


cavar. Eu deveria ter ido para a escola, tudo o que sei que aprendi sozinho. Mas,
vir até aqui foi legal. Mostrou que o subterrâneo é mais do que apenas um lugar
para enterrar minas.

– Ou pessoas. – ele disse quando apontou para a frente. –Senhoras e senhores,


de Beggar Hill.

O Beggar Hill não era uma colina acima de tudo. Uma quadra limpa definida
por ruazinhas trafegáveis, o cemitério era povoado por túmulos acima do chão
que o solo húmido de Goser exigia. Nightferns e a rastejante yettice tinham
caído sobre as antigas criptas e apagaram os nomes que lhes foram inscritos.
Apanhando um pouco da luzinha enquanto isso acontecia neste momento da
órbita de Cynda, parecia uma gruta silenciosa.

Kanan olhou para Hera enquanto caminhava pelo pequeno caminho entre as
tumbas, com a luz nos olhos. Ela é realmente interessante.

Skelly cambaleou e olhou em volta.

– Tenho medo de que não haja um lugar como esse para Lal ou Gord. Eu não
me dei bem com eles, mas ainda assim...

– Sim. – disse Kanan, embora não tenha pensado muito sobre isso. Velórios
não eram a dele. Os Jedi eram muito cerimoniais em funerais, mas ninguém
comemorou nenhum deles. A morte significava que era hora dos vivos
continuarem.

E foi assim.

– Muito bem, eu fiz o que pude. – disse Kanan. –Este é o extremo oeste de
Shaketown, Moonglow fica a poucos quarteirões daqui. Estamos no meio de
tudo. Hera, você disse que seu navio estacionou dois quilômetros a oeste. O
departamento de Zaluna está a duas ruas do sudeste e o porto comercial espacial
mais próximo – ele disse, virando–se e apontando ao norte – fica a dez
quarteirões pra lá. Portanto, pra onde quer que qualquer um de nós vá, já
estamos perto.– Baixou seu capuz. – Já chega por hoje.

Hera fitou Zaluna, que perambulava pelos cantos, admirando os monumentos.

– Você já se decidiu?

– Eu quero ir com você – eia disse. – Na sua nave. – A Sullustana apontou


em direção aos túmulos. – Quase todo mundo que eu conheço nesse planeta já
não passa de um nome numa tela ou numa pedra. Eu não quero mais trabalhar na
Transcept, mesmo que me deixem voltar. Fora que seria bom ver o sol nascendo
de verdade em algum lugar por aí.

– A gente tem que ir na sua casa pra pegar as suas coisas?

Zaluna sacudiu a cabeça.


– Ela já deve estar sendo vigiada a essa altura. E minha vida não estava
naquele apartamento, mesmo. – Ela jogou a cabeça para trás, mirando a lua.

– Vamos começar logo com isso.

Hera se voltou a Skelly.

– E você, vai fazer o quê?

Skelly abriu seu manto e apalpou sua mochila com a mão esquerda.

– Eu vou tratar de cortar esse mal pela raiz, detonando a fábrica de explosivos
que fica perto do espaçoporto. Se não puderem levar barádio de Gorse, não vão
poder destruir a lua!

Hera o encarou com um olhar de reprovação.

– Você sabe que existem outras fontes de explosivos além de Gorse, né?

– Se eu conseguir atrasar a vida deles por um dia que seja, já vale a pena.

– Skelly empinou o queixo. – Além disso, o que mais me resta fazer?

Kanan concordou com a cabeça, mesmo sem querer deixar transparecer.


Skelly tinha acabado de resumir tudo. Tudo o que restava a qualquer um em
Gorse seriam esforços em vão. Kanan, claro, entendia tudo sobre ser sem rumo e
não tinha idéia do que era essencial fazer. Ele descobriu o segredo: nunca mais
se relacionar com qualquer coisa ou qualquer pessoa, na medida em que perdê–
lo não o deixaria com mais opções. Mas nem todos eram tão inteligente quanto
ele.

Ele caminhou na direção a Hera.

– Então, onde você quer ir depois de deixá-la? Wor Tandell é fofo. Há também
alguns mundos de cassinos que eu acho que você adoraria.

Hera balançou a cabeça.

– Odeio parecer com o droide de ontem, Kanan, mas não quero parceiros.

Seu tom sério o surpreendeu.


– O que é isto de novo?

– Não viajo pelo espaço procurando parceiros ou lugares pra ver. Tenho
metas. Não preciso de alguém que esteja interessado em me atrapalhar. – disse
Hera.

– Mas Zaluna...

– ...ela fez um serviço à galáxia, fornecendo informações sobre os métodos do


Império e ela precisa começar uma nova vida onde ela pode se sentir segura.
Você, pelo menos o que eu sei, lide com o que quer que aconteça e com quem
está no comando.

– Isso é desagradável.

– Isso é o que eu vejo. – disse ela. Hera estendeu–lhe a mão. –Agradeço o que
você fez. Boa sorte.

Com a língua presa, Kanan simplesmente aceitou o aperto de mão.

– Certo. – ele finalmente disse. –Você tem certeza?

Hera assentiu calmamente, soltou a mão e virou–se.

– Oh! Ela disse enquanto procurava seu manto e pegava uma pequena mochila
para vê–la novamente e contava créditos imperiais. –Pegue isso, pela sua ajuda.

Kanan ficou surpreso.

– Você acha que sou mercenário?

– Não. Mas eu sei que você coloca dinheiro no cofre Okadiah para pagar o
hoverbus. – Ele ofereceu o dinheiro. –Pegue–o Você irá mais longe.

Agora, não passo de mais um mercenário. Pensou Kanan. Oh, bem. Ele pegou
o dinheiro.

Kanan olhou para Skelly e Zaluna.

– Até logo. – ele disse e caminhou em direção à rua. Seria um longo caminho
para chegar ao porto espacial, e muito quente com a túnica que ele usava. Ele
tirou o manto e jogou–o nos nightferns. Ele correria o risco, como sempre fazia.

Onde o caminho encontrou a rua, ele se virou para ter o último vislumbre de
Hera. Todos estavam lá, preparando–se para seguir seus caminhos separados. Ele
balançou a cabeça, imaginando o que estava lhe impedindo. Kanan Jarrus nunca
olhou para trás. Ele sempre parecia superior, seguindo a atração pelo
desconhecido. Cynda, flutuante, grande e bulbosa, foi a luz brilhante que
apontou o caminho para o seu futuro. Lá no céu, onde...

A lua explodiu!

O horizonte de Gorse iluminou-se, repleto de luz do amanhecer pela primeira


vez em uma era geológica. Nenhuma explosão de Skelly iluminara a paisagem
urbana dessa maneira. Kanan, atordoado, esperava algum tipo de som
estrondoso, mas não havia nenhum. A luz apagou-se e seus olhos se ajustaram;
Kanan percebeu que a lua não explodiu.

Mas também não estava intacta. Perto do membro escurecido inferior do


disco, quase cheia com uma nuvem branca colossal se espalhava pelo espaço.
Era quase como se uma lágrima estivesse caindo de Cynda, uma lágrima de uns
cem quilômetros, que aumentava cada vez mais ao avançar.

Kanan já tinha visto cometas e meteoros colidindo contra a lua. Aquilo não se
parecia nada com eles. Era uma erupção. Uma erupção, num mundo
vulcanicamente morto.

Ele conhecia muito bem aquele ponto em Cynda. Desembarcava lá todos os


dias.

Virou–se outra vez em direção à rua. O tráfego estava todo parado. As pessoas
se encontram fora dos veículos, ao lado de suas speeder bikes, mirando o céu
num misto de fascínio e horror. Kanan olhou para além da multidão, rumo ao
imenso relógio brilhante sobre o edifício do sistema de distribuição de água. Só
confirmou o que o embrulho em seu estômago já tinha lhe dito: Okadiah ainda
estava no turno dele na lua.

Por todos os lugares, as pessoas começaram a falar ao mesmo tempo, como o


burburinho num evento esportivo. Kanan também pôde ouvir a voz de Hera, a
voz que ele adorava escutar, chamando– o pelas costas. Mas ele não deu
ouvidos. Já estava correndo em direção a uma speeder bike parada no meio da
rua, tomando– a das mãos do motociclista atordoado. Hera e o proprietário da
speeder bike ainda gritavam quando Kanan arrancou rua abaixo, em disparada a
caminho de Shaketown.

•••

O mundo estremeceu sob os pés de Skelly. Logo ao lado, a voz de Zaluna se


encheu de pânico.

– Começou.

– Não – Skelly disse, olhando em volta, espantado, enquanto o chão tremia. –


O terremoto foi só uma coincidência. Acho que dá pra considerar como um
lapso de solidariedade. – Tinha retirado o capuz. Ninguém estava interessado
em olhar para ele, mesmo. Não naquele momento. E um cemitério lhe pareceu o
lugar mais perfeitamente apropriado para se testemunhar o início do fim do
mundo. Fitou Hera quando o tremor diminuiu.– Isso aí não foi nada comparado
com os terremotos que a gente vai sentir se eles continuarem com isso.

– O Império levou adiante – Hera disse, olhando para cima, abismada.

– Eles realmente levaram essa história adiante.

– E você ainda achava que eles não levariam?– Skelly perguntou.

– Se forem capazes, vão fazer. – Ela sacudiu a cabeça. – Eu só não achava


que fosse possível, ou que fosse acontecer tão rápido.

Zaluna puxou a manga da Twi’lek.

– Será que as pessoas precisam fugir, Hera? Vai acontecer alguma coisa com o
planeta?

– Segundo o Skelly, tá tudo bem. Mas é melhor a gente voltar pra minha nave,
só por precaução.– Olhou de volta em direção à rua.– Era isso que eu tava
tentando dizer a Kanan. – Hera tinha algo nas mãos, Skelly notou, algum
dispositivo com o qual ela vinha se debatendo desde pouco depois que Kanan
tinha dado no pé.– Tô tentado obter qualquer informação que eu puder, mas tá
dando muita interferência nas ondas do rádio.
– Tá todo mundo se falando – Skelly ponderou.

Um transporte de reconhecimento passou por eles como se nada estivesse


acontecendo, apontando um holofote na direção oposta. Skelly pôde ouvir que
outro se aproximava pela rua de um cruzamento.

– Ainda estão atrás da gente– ele disse com certo desalento. – Mesmo com
tudo isso acontecendo lá em cima.

– Então, a gente não pode ficar dando sopa por aí– Hera afirmou, guardando o
gadget no bolso.– Parece que seus planos vão ter que mudar devido às
circunstâncias, Skelly. Vamos pra minha nave.

– E seguir pra onde? – Zaluna perguntou.

– É Kanan! – Skelly exclamou, reconhecendo sua figura. –É a Expediente!

A rampa traseira desceu enquanto a nave de mineração estava suspensa a meio


metro acima da superfície da cidade. Kanan apareceu na rampa.

– Rápido. – ele chamou a Hera. –Preciso que você me leve ao local da


explosão. Eu sou apenas um amador ao seu lado!

Hera apontou para seus companheiros.

– Eles vêm comigo!

– Não me importa. Eu tenho o time de Okadiah no interfone. – disse Kanan.

– Eles estão morrendo!


35
A Expedient disparou através da exosfera no espaço. Kanan tinha achado certo.
Ele perdeu dois turnos de trabalho, mas com Lal morto e sem o cuidador
nomeado por Vidian, sua nave não tinha como transferir ninguém. Sua
identificação o levou a pista, mas ninguém estava cuidando dela de qualquer
forma. Ele notou que o assento do passageiro havia sido mudado, mas a nave
não tinha sido carregada de explosivos. Este último fato ajudou enormemente a
manobrar a Expedient.

Pelo menos, ele não era único a lidar com isso.

– Pesado. – disse Hera guiado a alavanca do manche. Do assento do


passageiro, Kanan podia ver que todo o tráfego que dirigia-se a Cynda nesse
momento se juntavam as naves em fuga. Um gigantesco cone de detritos de
prateados subiu no espaço do hemisfério sul de Cynda, florescendo para fora
com uma nevasca ao contrário. O contato direto com rápida ejeção poderia ser
catastrófico, e outros pilotos de cargagueiros sabiam disso.

Kanan sabia disso, também, e foi por isso que se rendeu ao entregar os
controles a Hera. Depois de sua experiência no hoverbus, ele não teve dúvidas
de que Hera era uma boa piloto, na verdade ela era excelente. Até o momento,
ele estava chateado, não comandando as suas emoções, e sabia que isso poderia
fazer com que ele não se concentrasse ou tivesse os reflexos necessários, porque
eles tinham que ir exatamente para o lugar do qual todos fugiram.

– Não há mais informações no comunicador. – disse Kanan.

Não havia nada além de estática por vários minutos, já que ele ouviu a equipe
da Okadiah enviar sua chamada de socorro. Os canais de outras empresas
também estavam mortos. Ao ter uma ampla perspectiva do espaço, ele podia ver
o porquê. Os fragmentos que emanavam de um ponto a menos de um quilometro
de distância da entrada principal do complexo mineiro cobriram o campo de
visão. Não poderia haver um único sinal. O que não explodiu para fora tinha
afundado.

Hera manobrou a Expedient que atravessa com pressa circulando em sentido


contrário das naves de carga. A metade delas não sabia para onde estavam indo.
Kanan pensou: "Todos estavam procurando refúgio, seja em Gorse ou em outro
lugar.

–Eles temem que isso aconteça novamente.

– Bem provável, mas não hoje. – disse Hera.

Talvez seja apenas um desastre natural, pensou ele. Isso ou um acidente


industrial. Ele queria mais do que tudo, por seus piores medos, estar errado. O
Império, alguém, iria realmente ir tão longe para testar uma improvável teoria
enquanto todos estavam no trabalho? Isso não faz sentido. Mas então ele viu o
Ultimatum, o única nave que não segura. Sem veículos de resgate foi lançado,
somente droides sonda indo em direção ao campo de destroços.

Hera girou a nave para longe do trânsito e em uma ampla aproximação


vetorial em direção à lua. Kanan olhou para a traseira sem janelas da cabine. A
luz refletida de Cynda se intensificou, lançando as sombras dos dois sobre os
outros passageiros. Skelly se sentou, estranhamente calado e contido, à esquerda
da poltrona antigravitacional, de cabeça baixa. Zaluna estava numa cadeirinha,
virada de costas para Kanan. A princípio animada com a decolagem, absteve– se
de olhar pela escotilha conforme se aproximavam do local do desastre.

– Todas essas pessoas – ela disse em voz baixa. – Eu as observava todos os


dias.

De uma maneira estranha, é como se a Sullustana viesse trabalhando com eles


na lua por anos a fio, Kanan pensou.

Kanan se virou para frente quando Hera habilmente fez a Expedient girar. Já
então, podia distinguir bem o comprimento e a forma do campo de destroços.

– É... bem suspeito, hein?– ela disse.– Tá tipo um funil.


– Pois é. E tá canalizando tudo pra fora– ele pestanejou. – Nada disso tá
caindo de volta lá pra baixo!

– E nem vai – Skelly disse, morosamente.– Uma explosão normal ia emanar


pra fora, tipo uma esfera. Ia chover um monte de fragmentos de volta. Isso aí foi
coisa de carga moldada, um catatau de explosões simultâneas, todas
posicionadas de forma a conduzir a maioria dos destroços pro alto e para frente a
uma velocidade de escape.

Kanan ficou olhando para aquela formação de aparência nada natural.

– Como é que você sabe disso?

– Foi ideia minha– Skelly resmungou.– Tava tudo no holodisco.

Kanan perdeu a paciência ao examinar os sensores.

– Vazamento de gás no compartimento principal de pouso. Tem uma ruptura


no complexo.– Desafivelou o cinto de segurança e se dirigiu à traseira da cabine.
– Eu tenho que descer lá.

Hera apertou vários botões.

– Dá pra atravessar essas nuvens. Aonde você quer ir?

Skelly se desenganchou e foi até a cabine, com Hera. Analisando o cenário,


apontou:

– O compartimento auxiliar!

Vestido pela metade com o traje espacial que tinha pego, Kanan se juntou aos
dois.

– É, eu acho que você tem razão.

Skelly foi guiando Hera em direção a uma pequena passagem escura acima da
zona de explosão. O compartimento auxiliar costumava ser a área de embarque e
desembarque reservada a uma rede menor de cavernas, desde então abandonada
em troca dos veios mais sofisticados da extensão principal. Uma câmara
pressurizada separava as seções, instalada devido ao receio de que o antigo
complexo viesse a despressurizar.

Agora que justo o contrário tinha acontecido, Kanan pensou, talvez fosse a
única maneira de entrar.

Hera conduziu a nave rumo a uma profunda cratera. A superfície estava


coberta de resíduos carbonizados pela explosão, mas havia uma passagem
retangular entalhada na parede ao sul, intacta.

– O campo magnético ainda tá ativado – ela disse. – Mas tá tudo escuro.

– As luzes vinham de outra fonte de energia – Kanan disse, calçando as botas.


– Você dá conta do recado?

– É claro – sem esforço algum, Hera conduziu a Expedient à boca da caverna.

Ao adentrar a escuridão, Hera ativou as lâmpadas difusas. No mesmo instante,


os tripulantes da Expedient foram banhados novamente por um clarão, a luz
deles próprios dessa vez, refletindo e coruscando através das milhares de
estalagmites pelo teto.

– A gente economizava bastante na conta, desse jeito– Skelly disse.

Zaluna curvou-se em torno da cadeira de Kanan para ver quando a Expedient


tocava o chão. Ela ficou impressionada com a beleza e depois voltou para a
cadeira enquanto Cynda estremeceu. A lua não tremia antes, de acordo com as
lembranças de Kanan, mas não se importava, ele já estava preparando o capacete
do roupa espacial. O ar na baía era adequado, mas o que estava por vir talvez
não.

– Estou conectando meu comunicador do traje ao canal de áudio no


Moonglow. Espere na aqui nave.

– Eu vou com você. – disse Hera, se levantando. –Você tem dois trajes.

Tinha um saco cheio de máscaras de oxigênio, Kanan balançou a cabeça.

– Preciso de você aqui. Alguém tem que levá-los para fora deste lugar.

Ela já estava se preparando.


– É uma missão de resgate ou suicídio? Agora abra a rampa, porque eu estou
indo junto!

•••

Kanan sentiu-se como um inseto que entra em uma pilha de espinhos, no escuro.
Foi isso que a região se tornou além de um câmara reforçada de descompressão.
Os corredores que tinham estados nos eixos horizontais e verticais, ambos se
foram nas diagonais como a gravidade procurou preencher o buraco deixado
pela explosão.

Os cristais rico em thorilide que eram o objetivo Império, de fato, a única


razão pela qual havia a se mover pelo espaço: mesmo danificada pela explosão, à
sua resistência força de tração era incrível, dando ao lugar uma aparência de
contínua de estrutura. Kanan não teve tempo de pensar na ironia. Continuou
descendo mais à frente na escuridão, iluminado apenas por luzes de seu capacete
e de Hera.

Hera de alguma forma acompanhou ele, mesmo quando ele esteve enrolado
por cima e por baixo, e ao redor. Ela estava desenrolando um microfilamento de
cabo que acharam no hangar de pouso; Sem ele não havia expectativa de
conseguir achar o caminho de volta à nave.

Kanan não poderia contar com a tecnologia de navegação para se guiar ali
embaixo no submundo. Tudo que ele tinha era o sinal de socorro em seu
capacete, ainda que fraca, a trasmissão vinha de algum lugar no caos. De vez em
quando, tinha visto um sinal da ocupação anterior: um carrinho esmagado e de
lado, um braço um perna de um droide. Mais lá não havia sinal de vida.

Ele encontrou uma escura abertura triangular a frente. Iluminanando com sua
lanterna, ele viu o que equivalia a um chão vários metros abaixo. Kanan puxou
um conjunto de cabos que tinha carregado ao amarrar ao redor do seu braço e
fixado ao solo em um aparente apoio em cristal sólido.

– Aguarde aqui. – Ele disse no microfone do capacete.

– Não.

Não havia tempo para parar e discutir. Ele deslizou pelo lado e pendurou-se,
tentando encontrar um lugar abaixo dela superfície. Ele largou e caiu no chão
deslizando para baixo na escuridão.

– Kanan! Hera chamou.

– Eu estou bem. – disse ele, iluminando ao redor com sua lanterna no lugar
onde estava caído. –Estamos chegando perto.

Hera esgueirou-se descendo por um cabo e escorregou por trás dele.

– Perto? Como você pode saber? Está difícil de enxergar!

– Eu sei Kanan. – disse. Ele apontou a luz para iluminar uma cabeça agredida,
aparecendo do teto.

– Ah! Hera disse.

– Pois é. – Era Yelkin. O corpo dele estava esmagado, encravado nas novas
camadas da lua.

Kanan pôde notar que Hera ficou arrepiada diante da cena. Também não era
muito agradável para ele. Mas, à medida que a abertura ficava cada vez mais
horizontal, outros cadáveres foram aparecendo, caídos pelos cantos feito varetas,
ali e acolá, em meio às colunas partidas de cristal. Era como se tivessem entrado
num túnel até o cemitério. Kanan reconheceu um uniforme mais adiante e, em
seguida, um hovercart, igual ao que ele usava no dia a dia. Tinham, enfim,
chegado ao lugar certo.

– Kanan!– Hera gritou.

Rastejando sobre um monte de escombros, ele a encontrou ajoelhada ao lado


de um console semienterrado.

– Taí. o seu sinal de emergência– ela disse, olhando em volta. – Eu só não tô


vendo o...

– Okadiah!

Kanan saiu pulando no escuro sobre os obstáculos salientes, precipitando– se


a um ponto logo à frente. Tratava– se da cabine de um elevador na diagonal,
embora ainda presa na moldura do antigo eixo.
Okadiah jazia logo abaixo. Kanan iluminou o rosto do velho. A pele de
Okadiah estava azulada; olhos e lábios recobertos por uma fina camada de gelo.
O volume de ar na rede subterrânea se encontrava bem mais vasto devido às
novas aberturas ao espaço. Ainda que desmoronamentos posteriores tivessem
fechado os portais, a pressão tinha caído consideravelmente e o ar, esfriado.
Kanan abriu sua sacola num puxão e tirou uma máscara de oxigênio.
Envolvendo– a com cuidado em torno da cabeça do mineiro, ficou aliviado ao
ouvir o velhote tossindo.

– Kanan...

– Não se mexa – Kanan disse.

– Isso... é uma piada? Não é engraçado.

Kanan puxou a tampa térmica de sua bolsa e cobriu o peito e os ombros de


Okadiah. Então ele olhou para as pernas do velho. Elas haviam sido esmagadas
sob a cabine do elevador, mas não estavam completamente presas.

– Aguente firme!

Kanan virou-se e procurou algo que ele pudesse usar como alavanca. Hera
estava ali mesmo, procurando um estalactite de aparência pesada. Kanan pegou e
inseriu-o ao lado do carro.

– Tente puxá-lo pra fora. – ele disse para Hera e levantou. O peso, já desigual,
cedeu na direção oposta, inclinando o suficiente para Hera para libertar o
velhote.

Kanan desabou, ofegante, no chão ao lado de Okadiah.

Okadiah lutou para dizer algo.

– S-s-stormtroopers...

– Que?

– Stormtroopers. Eles vieram... ordenaram-nos a deixar a Zona Sessenta e


seis. Eles tinham suas próprias cargas...
Kanan exalou.

– Eu sabia. – Sentiu a força retornar aos músculos dele, ele caiu de joelhos.
Vamos tirar você daqui.

– Muito... tarde. – disse Okadiah.

Kanan olhou para Hera, que, por sua vez, olhou a escuridão respectivamente.

– V-v-venha aqui – murmurou Okadiah. Onde... eu posso te ver.

Kanan embalou o corpo maltratado do velho em seus braços.

– O que acontece, Okadiah?

– Não... você. – disse Okadiah, antes de tossir. A... mais bonita.

Hera aproximou-se do outro lado de Kanan e se ajoelhou.

– Estou aqui.

– Ah. – ele disse sorrindo, como se ao por seus olhos nela sentisse aliviado
por remédios. –Você... escute. Este garoto... é bom deixá-lo perto. Okadiah
tossiu novamente, desta vez mais violentamente. Você deve... ficar ao seu lado.
Acho... você precisa...

Okadiah parou de falar e fechou os olhos. O interior da máscara transparente


de oxigênio depois de embassar ficou clara.

Não. Kanan pegou as mãos de Okadiah em seu peito, com certeza ele
precisava fazer algo, mas ele não sabia o que. Ele sabia o básico dos primeiros
socorros, mas os ferimentos de Okadiah precisavam de mais do que isso. Ele se
sentiu impotente, tão indefeso como quando a mestre Billaba havia morrido e a
turbulência daquele momento misturou-se com este e nublou a sua concentração.
Ele lutou para ficar focado...

...apenas para sentir o suave toque da mão de Hera em seu braço. Ela balançou
a cabeça.

– Ele se foi, Kanan.


Eu tentei.

– Você fez isso. – disse ela; Sua gentil carícia tornou-se um aperto firme.

Precisamos sair agora.

Kanan olhou para ela e balançou a cabeça.

– Não, não sem ele.


36
– É um triunfo – conde Vidian declarou.– Um triunfo, pura e simplesmente! –
Foi caminhando até a ponte de comando, segurando um datapad na altura do
rosto. Não que ele precisasse de um, mas nem todos tinham olhos como os seus.
– É o relatório de meu pesquisador– chefe – ele disse, aproximando– se da
capita Sloane. – Noventa e sete por cento das moléculas de torilídio no efluente
mantiveram– se intactas. Apenas uma pequena parte quebrou!

– Eu não estou reconhecendo esse nome– Sloane disse, apontando para o


pesquisador– chefe.– Lemuel Tharsa. Ele está a bordo?

– Faz parte de minha equipe. Ele embarcou comigo. – Vidian a encarou com
certa impaciência no olhar, incomodado com a interrupção de suas boas novas.–
Pode checar nos registros do manifesto de sua nave. Mas que diferença isso faz?
O que importa é o que ele diz.

Sloane passou a ler o relatório:

– “A lua Cynda pode ser efetivamente pulverizada com o uso de carga pesada,
produzindo– se uma quantidade de torilídio disponível em número igual ao que
seria extraído ao longo de 2 mil anos através dos métodos convencionais...” –
Ela ergueu os olhos, não acreditando no que tinha acabado de ler.– Dois mil
anos?

– Imagine qual não será a reação do imperador!

– Uma melhoria extraordinária na produtividade, com certeza.

Vidian, por trás da capita, mirava o céu através da escotilha da


Ultimatum.

– Qual é o estado das frotas cargueiras de mineração?

– Ordenamos que todas as embarcações vazias ficassem em posição, no


aguardo do seu comando – ela disse, entregando o datapad a um assessor.– São
270 naves, contando com os transportadores de torilídio e os cargueiros de
explosivos.

– Vamos precisar de todas elas – Vidian disse. – E de todas as que estão em


Gorse. Traremos milhares de toneladas métricas de barádio– 357 da Estação de
Calcoraan. Poderemos readaptar os transportadores de torilídio por lá mesmo.

Sloane se aproximou para examinar um monitor.

– Parecer haver também ao menos um cargueiro de explosivos intacto ainda


em Cynda.

– Audacioso.

– Ou imprudente. Nossos sensores demonstraram que estava a caminho da


lua, mesmo após a explosão. Alguém parecia estar determinado a entregar sua
carga.– Sloane analisou a tela mais detalhadamente, antes de erguer os olhos
com certa preocupação. – Contamos 33 embarcações destruídas no hangar
principal de Cynda, tanto transportes de pessoal quanto naves de carga. Todos os
funcionários presumivelmente desaparecidos.

– Aceitável – Vidian retrucou. – Se tivéssemos alertado os mineiros sobre


nossos planos, você teria testemunhado um verdadeiro rebuliço. Surgiriam
dezenas de novos sabotadores.

– Um já é o bastante– Sloane concordou, endireitando a postura. —

Mas será que o povo de Gorse não se questionará sobre o que aconteceu?

Vidian passou a caminhar de volta ao elevador, acompanhado por Sloane.

– Já preparei uma nota de alerta, que será divulgada– ele disse. —

Refere– se ao evento como a colisão de um cometa. Tal explicação, por si só,


esclarece tanto por que os trabalhadores foram pegos de surpresa quanto o
destino final de Cynda.

– Eficiente.

– De qualquer forma, não vamos precisar de mineiro algum tão logo nosso
plano seja posto em prática.

As sobrancelhas escuras da capitã dispararam em riste.

– Nosso plano?

– Isso pode acabar sendo muito importante para você, Sloane – Vidian disse,
parado à porta do elevador. – Repassarei as instruções finais em breve.

– Estamos prontos, senhor.

Vidian assentiu, entrou no elevador e ficou encarando– a até que a porta se


fechasse. Não foi capaz de dar um sorriso, mas o sentiu por dentro. Fora de fato
um triunfo.

Mas não pura e simplesmente. Não tinha contado tudo a Sloane. Destruir a lua
decerto o ajudaria a cumprir a meta do imperador por ora. Depois disso, porém,
a história era outra. Essa sutil e inconveniente diferença lhe fora revelada de
última hora, e ele ainda não a tinha compartilhado com ninguém.

Mas ele já esperava por tal eventualidade e possuía um meio de lidar com ela.
Seria capaz de passar por aquela crise e, em seguida, preparar uma armadilha da
qual o barão Danthe nunca poderia escapar. Vidian sabia de algo que Danthe
desconhecia, um segredo que resolveria todos seus problemas.

De uma só tacada, satisfaria os desejos do imperador e eliminaria seu


principal rival. De uma vez por todas. Eficiente, como sempre.

Com a ajuda de Hera, Kanan tinha conseguido carregar o corpo de Okadiah de


volta pelo longo trajeto, todo irregular, até o compartimento de carga auxiliar
ainda pressurizado. Uma vez lá, tão logo tiraram seus trajes espaciais, deram de
cara com Skelly e Zaluna ao lado da nave. Skelly estava deitado de costas,
olhando para as luzes no teto, enquanto Zaluna perambulava como se estivesse
em transe, maravilhando– se com os efeitos caleidoscópicos.
– Faz anos que eu venho observando esse lugar pelas câmeras – ela disse.–
Mas eu nunca imaginei que pudesse existir uma coisa tão bonita assim.

Kanan tinha considerado a possibilidade de levar o corpo de Okadiah de volta


a Gorse para ser enterrado. Mas, pensando melhor, chegou à conclusão de que
Cynda parecia ser um lugar muito mais tranquilo para que seu amigo
descansasse em paz. Ele e Hera encontraram uma gruta, onde acondicionaram o
corpo e o cobriram com pedras.

Observando todo o dano causado pela explosão, Kanan achou difícil que
alguém voltasse a explorar a lua de novo; ao menos, da maneira habitual. O que
significava dizer que todo o Império tinha aderido ao esquema de estraçalhar o
satélite.

– Tem alguma coisa piscando em você – Skelly disse, olhando para Kanan.

Kanan notou uma luz piscante no dispositivo em seu cinto.

– Chegou uma mensagem. – Era estranho receber uma mensagem justo


naquela hora. – É o meu pager da Moonglow.

Ele o ativou, e a voz de Vidian ecoou pela câmara gigantesca:

– Atenção, todo o tráfego vinculado à Associação de Mineração. Todos as


naves de carga vazias que se encontram em Gorse ou em órbita estão intimadas a
seguirem a Ultimatum até o sistema de Calcoraan. Todo e qualquer piloto
desprovido de uma nave em Gorse deverá se apresentar e pilotar qualquer das
embarcações disponíveis.

Skelly se sentou. Boquiaberto, tentava fazer os cálculos.

– Isso deve dar umas mil naves!

A transmissão continuou, só agora Sloane foi quem falou.

– Este é um alerta do Controle de Tráfego Espacial de Gorse. Mais nenhum


tipo de transporte está autorizado a partir de Gorse até segunda ordem. Os
corredores espaciais devem permanecer vazias até retornarmos. Nós deixamos
TIE fighters para patrulhar e reforçar a restrição. – A mensagem acabou.
– Ninguém pode deixar o Gorse? Perguntou Zaluna, inquieto.

– E se voltarmos, estamos presos. – disse Skelly. –Devemos avisar as pessoas.

– O que é tudo isso? – perguntou Kanan. –O que é Calcoraan?

Ajoelhando-se perto da saída da baía de pouso, Hera olhou através do escudo


magnético para o espaço exterior.

– É a base de operações de Vidian. Um centro de operações de abastecimento


para o Império neste setor!

Skelly estalou os dedos.

– Três-cinco-sete!

Kanan piscou.

– O que? Baradio-357?

– Está na minha pesquisa. – disse Skelly. –Eu fiz os cálculos para o pior caso,
o que seria necessário para explodir a lua em pedaços. O bissulfato de baradio
antigo e simples não podia fazê-lo, nem com milhares de naves carregadas. Mas
o isótopo poderia fazê-lo. Isso é material maligno, armas de destruição em
massa.

Você é o especialista, pensou Kanan.

– E estão lá.

– Eles o inventaram lá. – disse Hera, caminhando para se juntar a eles.

Zaluna falou com uma voz preocupada.

– Então o que fazemos?

Ninguém disse nada.

Kanan, finalmente, deu de ombros e apontou para a Expedient.

– A gente pode fazer o que eles querem que a gente faça.


Hera se virou para encará– lo.

– Ah, é?

– Isso aqui é um cargueiro de explosivos. Eu sou piloto de uma das empresas


de mineração. Você acabou de escutar as ordens que eu recebi. A gente não pode
ir pra mais nenhum outro lugar, pelo que parece, não sem acabar lutando. – Ele
estendeu as mãos com as palmas viradas para cima. – Então, o jeito é ir lá.

– A gente vai seguir Vidian?– Skelly apertou os olhos.– E depois fazer o quê?

Kanan o encarou.

– Ninguém aqui vai explodir nada, isso eu te garanto!

– Mas talvez– Hera disse.– Talvez a gente nem precise.

Kanan ficou olhando para a nave, considerando as possibilidades.

– A gente não pode decidir nada sem o consentimento de todos – Hera


prosseguiu. – Esse é o jeito do Império de fazer as coisas.

Kanan a encarou de volta, sem acreditar no que estava ouvindo.

– O quê, você quer uma votação agora? Meio que não dá pra gente ficar
sentado numa rodinha de debate o ano inteiro.

Hera se encaminhou ao centro do grupo, dirigindo– se a cada um dos três ao


se virar.

– Olha só, eu acho que todo mundo aqui compreende bem os riscos, pelo
menos, eu espero que sim. Você sabe que a gente precisa deter o Império
imediatamente, e você também tem motivos pessoais pra se importar com isso.
Mas se quisermos ter alguma chance de trabalhar em equipe, a gente precisa se
unir. Todo mundo tem que vislumbrar o mesmo cenário.

Zaluna a observava atentamente:

– Conte-nos.

– Estive perto para ver isso. Por toda a galáxia. Este é um Império motivado
pela ganância; Isso gera injustiça, faz com que seja governado pelo medo e
prosperar através da mentira. – Ele começou a contar com os dedos. –Ganância,
injustiça, medo, mentira. Você pode vê-los aqui, certo?

– Certamente que há em parte ganância. – disse Skelly, olhando para o teto. –


Não consigo acreditar no que fizeram, eles vão destruir esse lugar. E para que?
Ele apontou com a mão boa. -Tanto faz. Contem comigo. E acho que se Gord
Grallik estivesse vivo, iria com você nessa parte injusta.

Hera assentiu. Ele se virou para Zaluna a seguir.

– Você quer ir para casa, Zaluna? Porque, se desejar, entenderemos você,


ninguém irá julgá-lo.

Zaluna não disse nada por um longo tempo.

Finalmente, invocando as palavras, ela falou.

– Você sabe, eu sempre quis pensar que eu era uma pessoa corajosa. Mas o
fato é que eu sou um covarde. – disse ele, olhando pro chão. – O lugar onde eu
me senti mais seguro era onde eu podia ver os outros, mas isso mudou. Hetto,
Skelly, eles estão longe de serem os únicos. Existem milhares de pessoas que são
presas com base em coisas que disseram e fizeram. – Ela sacudiu sua cabeça. –E
nunca mais vi alguma dessas pessoas na por aí. Ninguém volta!

– O império não continua vigiar a fim de proteger, Zaluna. Ele faz isso para
produzir medo.

– Eu também conheci o terror. Seus olhos se encheram de desafio e olharam


para Hera. Não quero mais assustar pessoas inocentes. E não vou deixar que eles
façam isso também.

Hera deu um sorriso doce. Kanan sabia que Hera não queria deixar
transparecer, mas dava para notar que estava imensamente orgulhosa de Zaluna.

– Nós... não vamos ter que machucar ninguém, né? – a mulher perguntou.

– Não se a gente puder evitar – Hera respondeu.

Então, Zaluna se voltou a Kanan.


– E quanto a você?

– Eu já perdi o fio da meada– Kanan retrucou.– O que sobrou pra mim? A


injustiça?

– As falcatruas– Skelly propôs.

– Bem, eu acho que já dá pra garantir isso– Kanan disse, gesticulando.

– Todos aqueles corpos lá embaixo. Não era pra ninguém estar aqui.– Coçou a
barba, decidindo se oferecia algo mais, quando as palavras seguintes saíram
meio sem jeito: – E eles não foram meus únicos amigos enganados pelo
Império.

Hera ficou olhando para ele, talvez decidindo se lhe pedia para desenvolver
mais o assunto. Em vez disso, porém, sorriu timidamente.

– Mas e aí, o que é que você sugere fazer sobre isso?

– Alguma coisa – Kanan fez uma pausa. – Eu só não sei o quê. Mas se um
otário aí esmurrou um amigo meu, não vou deixar barato.

– Tá ótimo. – Hera endireitou a postura e acenou em direção à rampa.

– A nave é sua, capitão.

– Você é a pilota.

– E você, o estrategista.– Ela abriu um sorriso.– Vamos ver do que você é


capaz.

Era mais do que um simples risco, Hera pensou: ir a uma estação imperial,
justo àquela altura de seu projeto, beirava as raias da loucura. O

Império, por enquanto, ainda não sabia quem ela era. Ser identificada agora
seria tão ruim quanto ser capturada.

O que estava acontecendo em Gorse e Cynda, porém, era mais do que sério.
Era o tipo de coisa que ela tinha jurado algum dia deter. O dia só acabou
chegando um pouco cedo, cedo demais, antes que ela pudesse ter montado uma
equipe capaz. Aquele não era exatamente o novo amanhecer que ela tinha em
mente.

Skelly teria sido preso se ela o tivesse deixado para trás em Gorse, acreditava
piamente nisso; o que poderia ter colocado o Império em seu encalço. Ele não
era bem um revolucionário. E Zaluna podia até estar decidida, mas, cedo ou
tarde, acabaria ficando meio perdida.

Não, era Kanan quem ela queria ver em ação. Ela o observava no assento do
piloto enquanto ele traçava as coordenadas do hiperespaço no sistema de
navegação. Ele já lhe passava outra impressão. Não era obcecado, como Skelly,
mas focado, centrado. Ela o tinha visto agir dessa forma em rompantes de
heroísmo quando necessário; aquele empenho todo, porém, vinha se sustentando.
Ficou claro que o episódio em Cynda o afetara profundamente.

Ela não tinha mentido antes. Queria ver o que ele seria capaz de fazer.
Todavia, estava mais interessada em ver o que ele faria de fato.
Fase Três:

DETONAÇÃO
Conde Vidian lidera Associação em um esforço heroico para estabilizar a lua”

“Investigadores no caso da explosão investigam as empresas de mineração”

“Observadores da indústria do turismo preveem uma grande temporada pela frente”

– MANCHETES, HOLONOTICIÁRIO IMPERIAL (EDIÇÃO GORSE)


37
Como o globo de neve de uma criança, só que cheio de sangue. Foi assim que
um dos primeiros visitantes a contemplar Calcoraan descrevera o mundo. Era
impressionante que alguém tivesse voltado a visitar o planeta, dada tal descrição.
Rae Sloane não podia concordar mais.

Observando o espaço da ponte de comando da Ultimatum, vislumbrou um


planeta de um turbilhonante carmesim, resultado da alta densidade do oceano
formado por cloreto de cromilo, que ocupava praticamente toda a superfície.
Não havia vida alguma lá embaixo, não naquele mar no qual uma gota de água
poderia desencadear não apenas um, mas dois compostos ácidos dos mais
potentes. Contudo, tanto o líquido quanto o solo por baixo dele eram de grande
utilidade na fabricação de naves estelares, e assim a Estação de Calcoraan fora
construída em órbita de modo a atender às diversas fábricas robóticas já no
espaço.

Aquela era só mais uma de várias paradas bizarras ao longo do que, na


opinião de Sloane, tornara– se um tour pelos planetas mais estranhos da galáxia.
O Império tendia a gostar de ambientes inóspitos como aquele, ela pensou, assim
como uma bactéria extremófila numa fenda vulcânica. Até fazia sentido para ela,
filosoficamente: o verdadeiro poder só poderia ser reivindicado por aqueles
corajosos o suficiente para enfrentar os desafios e conquistá– lo.

E Gorse tinha tudo para se tornar mais um lugar infernal num futuro, perdendo
a pouca habitabilidade que tinha.

A Estação Calcoraan era o design de domínio de Vidian; A coisa parecia uma


expressão arquitetônica de sua filosofia. O vasto centro do depósito poliédrico
orbitava como o maior átomo de uma molécula extensa, conectado a todas as
fábricas orbitais, por uma rede triangular de corredores. Os novos suprimentos
eram movidos através daqueles tubos para a rede ao seu principal armazém ou
diretamente às naves para partida de entrega. A posição central da rede também
permitiu que seus ocupantes tivessem uma visão de tudo ao redor, incluindo a
frotilha de naves de carga de Gorse.

Sloane podia ver que os lacaios de Vidian trabalhavam a toda velocidade,


também, numa curiosa nave gigante de uma espaçonave ao extremo do extenso
complexo. Vidian estava ali agora, supervisionando os preparativos finais e
ligando a cada 30 segundos para perguntar quando o resto da frota de carga de
Gorse chegaria.Era uma nave como nenhuma outra que Sloane já tenha visto.
Sete esferas negras destacadas conectadas em um eixo longo que o fez parecer
um inseto segmentado. Mas, onde as pernas do inseto deveriam estar, em vez
disso, tinha uma longa antena, como se uma estrutura correndo da maior parte do
módulo cobrindo todo o comprimento da nave.

– Forager. – disse o oficial de ciências excitadamente. É uma verdadeira


beleza.

A Capitão assentiu. O tenente Deltic estava nervoso, mas Sloane havia


ordenado que ela estivesse aqui de qualquer jeito. Ela sentiu que precisava
entender o processo que lhe pediram para proteger.

– Quais são essas coisas longas saindo da coluna?

– Torres eletrostáticos, dezesseis no total. – A Tenente arrumou o pingente no


chápeu embora torto. –Eles vão enviá-los para o exterior quando estiverem
operacionais para se tornar os raios da roda de coleta. Uma vez que vi uma nave
como essa em ação. Simplesmente varrerá através do campo de destroços,
abocanhando a mercadoria.

– Mercadoria? – Sloane sacudiu a cabeça –Eu não acho que consigo lidar com
esse jargão técnico.

– Moléculas de thorilide. Elas são atraídas pelos raios e desviadas para dentro
da embarcação. Existem centros de processamento que são automatizados em
cada um dessas grandes câmaras,assumindo o lugar do que muitas refinarias em
Gorse não fazem. Logo acima dos propulsores, esse tanque de extremidade tem
as baías de desembarque para descarregar o material. Eles levam a mais pura
thorilide em uma hora, o que os mineiros levariam um mês.
Sloane assentiu com a cabeça. A embarcação estava fortemente protegida,
contra tudo o que pode invadir como campo de asteróides e caudas de cometa;
Os canhões de turbolaser no exterior de cada módulo de frente ao centro de
comando provavelmente também reduzirá os danos causados aos destroçoes
errantes. Uma vez que o Forager estava no lugar, Gorse teria seu próprio
Depósito em Calcoraan enquanto durasse a thorilide.

O que parecia ser para sempre. A tenente estava tonta com seus cálculos
matemáticos novamente. –Mesmo que noventa por cento dos detritos atinjam o
planeta, essa máquina poderia fornecer a uma centena de Impérios do tamanho
de nosso por um século!

– Há apenas um Império. – Sloane disse com dureza. Então olhou para a


tenente.

– Noventa por cento de detritos caindo? –Isso é possível?

A jovem de ombros encolheu os ombros.

– Eu te disse. Pode ser uma gota, mas também pode ser uma inundação. – Ela
sorriu.

A gente tem até uma roda de apostas lá nas Ciências Planetárias. Se alguma
coisa acontecer com o World Watch Plaza na Cidade de Gorse ainda nesse ano,
eu vou passar meus dias de licença em Alderaan!

– Dispensada – Sloane disse. Pra fora da câmara pressurizada, quis


acrescentar.

Ainda assim, acabara descobrindo o que queria saber. Era incrível ver de perto
todo o trabalho desenvolvido em função de apenas um componente do arsenal
imperial. E aquela era tão somente uma das inúmeras instalações. Quantos
outros projetos não estariam em andamento por aí, semelhantes aos que Vidian
tinha em mente? Quantos ele já não teria coordenado, e quantos não estaria ele
próprio executando pessoalmente?

Ficar brincando de guarda– costas de um expert em eficiência não tinha


despertado o menor interesse de Sloane no começo. Mas agora ela conseguia ver
com clareza que sua missão, em grande parte, dizia respeito ao objetivo
fundamental do Império: seguir em frente. Continuar crescendo. O que
implicava que Vidian, com todo seu jeito excêntrico, era tão vital ao imperador
quanto Lorde Vader. E escoltar Vidian era obviamente mais importante do que
perseguir piratas na Orla Exterior. Era necessário construir o progresso.

Em última instância, todos os impérios interestelares ascendiam e caíam por


conta de sua capacidade de gerir essa simples e monótona disciplina: a logística.
Seus estudos sobre história militar haviam lhe ensinado sobre as guerras que
construíram o passado, e ela não tinha dúvidas de que Vidian também fizera sua
lição de casa. Ele podería muito bem se tornar o grande forjador das lendas do
futuro, e ela, sua provável representante.

Mas ainda achava um pouco surpreendente que toda a população de um


planeta pudesse acabar entre o martelo e a bigorna. Mesmo um grupo tão
heterogêneo de espécies como o que vivia em Gorse. Os trabalhadores de sua
terra natal, bem mais perto do centro da galáxia, eram muito mais comportados.

O comandante Chamas apareceu à porta de seu gabinete.

– Pelo visto, a tenente Esquisita te deixou em paz.

Sloane revirou os olhos.

– Você quer alguma coisa?

– Chamada para você – o primeiro– oficial disse. – E eu acho que você vai
querer aceitá– la. Uma pessoa muito importante.

– Vidian de novo?

Chamas sorriu.

– Uma pessoa importante de outra maneira.

Ela já o tinha visto antes, durante a cerimônia de formatura na Academia. Ele


tinha subido ao palco e cumprimentado algumas pessoas. Ela náo fora uma
delas, claro. Ainda assim, não conseguia esquecê– lo. O barão Lero Danthe
pagava mais num traje do que a família de Sloane pagara na casa que moravam
em Ganthel.

– Senhor – ela disse. – A que devo a honra?


– As honrarias ficam por conta da senhora e sua tripulação, pelos serviços
prestados – o jovem disse, curvando– se. – Fiquei sabendo sobre os atentados
contra a vida do conde Vidian. Estou ligando para lhe agradecer por protegê– lo.

– Generosidade de sua parte. – Extremamente generoso, na verdade; ainda


mais considerando– se a hostilidade entre Vidian e seu subordinado na
administração, pelo que ela tinha ouvido falar. – Ainda não conseguiram
capturar o sabotador capaz de frustrar os planos do Império.

O homem de cabelos dourados sorriu.

– Fico muito feliz pela senhora estar em nossa equipe.

Ela gostou de escutar isso. Os dois se distinguiam meramente por uma questão
de títulos e fortuna, mas decerto ela e Danthe eram legítimos representantes dos
novos imperiais – o apelido dado pela mídia à primeira geração a crescer sob o
regime do Império. Salvo raras exceções, seus superiores navais faziam parte de
uma classe que lutara para chegar ao topo apenas para ver todas as regras
mudarem; agora passavam cada segundo de suas vidas tentando acompanhar as
mudanças. Talvez não Vidian, ela pensou. Era cansativo demais lidar com todos
eles, porém. O Império seria um lugar melhor quando sua geração, pessoas como
ela e Danthe, estivesse à frente da situação.

Mas nas forças armadas, assim como no governo, o tempo de aprendizagem


tinha de ser respeitado. Sabia que Danthe já era fabulosamente abastado, e
exercia o controle herdado de uma fábrica de droides para serviços pesados, que
seriam utilizados em mundos ardentes como Mustafar. A participação de Vidian,
porém, era mais abrangente; seu nome já era estabelecido no ramo. E, dadas as
boas condições de saúde do ciborgue, ela não conseguia imaginá– lo deixando
seu posto pelas próximas décadas.

Não que o jovem não estivesse ansioso.

– O conde não anda com tempo para me colocar a par desse novo projeto
especial envolvendo Cynda. Como a senhora julgaria que as coisas vão
andando?

– Eu não seria capaz de julgar, senhor. Não faço mais do que a escolta.

– Hmm. – Danthe franziu a testa, ainda que sutilmente, antes de esclarecer as


coisas. – Bem, eu tenho certeza que a senhora se sairá muito bem nisso. Quero
que a senhora saiba, capitã, que se, algum dia, a senhora precisar de qualquer
coisa, por favor, contate– me de imediato. Meu pessoal irá transferi– la
diretamente a mim.

– Eu... agradeço, senhor.

A transmissão encerrou.

Primeiro Vidian e agora Danthe? Será que todos os capitães interinos são
popular entre a elite?
38
Através de seu próprio reflexo a janela, sentado no banco do passageiro, Kanan
contemplou todo o Estação de Calcoraan. Ele havia visto outros exemplos de
majestade em suas viagens: enormes exemplos de engenhosidade e excessos
imperiais. Parece que eles estão ficando gigantes a cada ano.

Mas seu foco estava em sua reflexão e na pergunta que agora estava sendo
feita a si mesmo: Caleb, o que você está fazendo?

Ele não respondeu por esse nome em anos e não considerou ser relevante para
a pessoa com quem ele estava agora. No entanto, enquanto Kanan arriscava o
seu pescoço mais do que era confortável, Caleb Dume normalmente era o
culpado. Caleb, o pequeno Jedi que se isolou perante o encontro com seu
destino, sua carreira com a galáxia, salvando o atrofiado super-herói. Ele não
poderia acreditar agora que ele tinha sido essa pessoa. Esse menino era um
ninguém, e nunca foi. Um indesejável invasor na parte de trás da sua massa
cinzenta. Quando Kanan teve uma idéia em que Caleb Dume poderia ter
concordado, era geralmente prerível ficar aqui dentro e pedir a dupla.

Tanto quanto o Imperador, Caleb era responsável por fazer de Kanan um


adolescente miserável em seu constante remorso. Caleb era toda contradição e
tudo "e se"; todas as repetições mentais das mortes de Depa Billaba e dos outros
Jedi, sempre procurando por alguma forma de desastre que poderia ter sido
evitado. Foi exatamente por isso que ele estava evitando outras pessoas, porque
isso o fez um fugitivo insuportavelmente melancólico. Enquanto os outros
adolescentes estavam em grupinhos, ele tentou se misturar falando sobre as
corridas de pods, ele estava sozinho no canto tentando descobrir como o Mestre
Jedi Ki-Adi-Mundi poderia ter se protegido melhor em Mygeeto, ou o Mestre
Plo Koon em Cato Neimoidia. Todo o nome que ele tinha achado naqueles dias
acabara estabelecendo de novo, impossibilitando para ele esquecer.

A perda de tempo. Exceto por uma coisa: todos esses pensamentos e sua
maneira de se esconder naqueles dias o treinaram para analisar situações
rapidamente e cuidadosamente. As táticas inteligentes que Hera parecia gostar
surgia daí. Nesse caso, pensou Kanan, havia algo de bom que vinha disso.
Porquê quando ele olhou pra ela no banco do piloto agora, ele decidiu segui-la a
qualquer lugar.

Se ele não fizesse com que ela fosse morta primeiro ou se ela não fizesse o
mesmo com ele.

Hera estava tão animada ao travar a Expedient.

– Te disse que íamos conseguir. – ele disse enquanto a nave se aproximou da


cauda de um comboio de carga.Tinha sido discutível se iriam chegar de todo
jeito. A Expedient tinha deixado Cynda assim como as errantes naves de carga
que seguiam a Ultimatum para o hiperespaço. Kanan, que nunca usou o
hiperdrive antes, estava preocupado com o fato de que não funcionaria. As naves
na fuga lunar estavam lá pelo mesmo motivo, os dias de transporte era passado.
Mas, o fato de que nenhuma das outras naves eram melhores fez deles
inalcançáveis por outro piloto, e Hera tinha Hera se entendido facilmente com
Expedient, seguindo o seu caminho. Ela fez isso muitas vezes

Tinha funcionado desse jeito para ele, também. Ele gostava que Hera tivesse
controle e dirigisse. Todas as mulheres eram criaturas mágicas para Kanan, mas
havia as ninfas da floresta feliz e depois haviam as feiticeiras. Havia muito mais
em Hera, que poderia levar vários dias, semanas ou mesmo anos para descobrir o
que estava motivando-a.

Tempo, ele tinha, mas ele não poderia ficar mais por perto se isso significasse
que constantemente deixaria Caleb Dume tomasse as decisões. Hera parecia
sentir o velho instinto obediente nele, e que o trouxe até este ponto. O problema
era que essa pessoa era alguém que nunca fora, e nunca poderia ser novamente.
A morte de Okadiah merecia uma resposta, sim, e Gorse precisava ser protegido
se possível. Mas ambas as responsabilidades eram do tipo que tentara evitar por
anos. Ele pretendia continuar evitando-os.

Hera era inteligente, e bonita; e ele amava sua voz. Se a única maneira de
continuar ouvindo-a fosse jogar seus jogos de agentes secretos e espionagem,
talvez o mais lógico fosse retornar ao seu caminho e agradecer boas lembranças.

– Certo, sua vez. – disse Hera.

– Hmm?

– Eu não sou uma piloto recordista. – disse ela e ao se levantar do assento.


Eles já estavam se aproximando do perímetro exterior de segurança, um escudo
de energia invisível que cercava Estação de Calcoraan. Os TIE fighters
atravessaram a estação, para demarcando a localização.

– Certo. – Kanan se espremeu ao passar por ela, uma experiência agradável,


para sentar-se em seu lugar habitual. Pegando o manche de controle, foi aos
poucos desacelerando a Expedient até parar completamente, a centímetros da
barreira indicada em sua tela principal.

Uma voz feminina, rouca, irrompeu no sistema de comunicação.

– Qual é o seu identificador?

– Moonglow – 72 – Kanan respondeu.

– Não mais.

Por um instante, a informação deixou Kanan assustado.

– O que você quer dizer? – Ele apertou um botão. – Aqui, acabei de ligar
meu transponder de identificação. Já dá pra checar aí quem eu sou. Eu trabalho
na Moonglow...

– E eu disse que não mais– a mulher retrucou.– Agora, você responde por
Provisório Imperial 72. Nome, licença e passageiros.

– Kanan Jarrus. Licença cinco, quatro, nove, oito, um. – Ele fez uma pausa
para olhar para trás.– Passageiros, três operários.

– São dois a mais do que você deveria levar.

– Vai dar pra carregar tudo mais depressa– Kanan disse. – Mas, na boa...
importa?
– Nem um pouco. Pode se dirigir até a estação de desembarque 77. Siga as
luzes e vá devagar.

Kanan assim o fez. A Expedient saiu navegando por entre uma das maiores e
mais diversificadas seleções de naves com as quais ele já tinha se deparado.
Cada um dos carrinhos de bebê que ele já tinha visto nos céus entre Gorse e
Cynda estava lá, e mais tantos de outros lugares. Mas, ao contrário do que
acontecia nas viagens lunares, todas as naves estavam voando de forma ordenada
e precisa. Não demorou a entender o porquê – tão logo a Expedient estremeceu,
ele sentiu o manche morrer em suas mãos.

– Manobristas de raio trator– Kanan disse.– Maravilha. Só espero não ter que
dar gorjeta pra ninguém. – Ele se sentou de volta, só mais um passageiro outra
vez, como todos os outros.

Hera observou o Expedient circular pelas instalações.

– Teremos problemas para sair daqui?

Kanan balançou a cabeça.

– Duvido. Esses raios são para manipulação de tráfego. Esse lugar é tão bem
protegido que não precisará raio de trator para puxar naves fugindo no céu.

– Isso é um alivio!

Kanan levantou-se para esticar as pernas e pensou nisso novamente. Havia


alguma coisa que o controlador dizia e o pertubava.

– Que estranho. – Eles mudaram nosso sinal de chamada.

– Eu sei por que. – disse Zaluna. Kanan virou-se para vê-la na cadeira ao lado
de Skelly. Assim que saíram do hiperespaço, eles tiraram o DataPad e
começaram a procurar por notícias nos canais públicos.

– Eles mudaram seu nome porque o Moonglow não existe mais.

– O que?

– Mongonglow tinha sido culpado pela grande explosão em Cynda.


Do outro lado do corredor, a boca de Skelly caiu.

– Isso não é verdade!

Zaluna sacudiu a cabeça.

– Foi uma equipe de Moonglow que encontrou sua primeira bomba, lembra?

Kanan revirou os olhos.

– Eu estava lá. Não me lembre.

– Eu estava na Transcept monitorando o quarto quando se tornou conhecido. –


disse Zaluna. Eles disseram que era um evento natural, para que ninguém tivesse
medo das práticas da empresa de mineração...

– Ou eles veriam que havia um dissidente. – concluiu Hera.

– Isso. Agora, mudaram toda a história, dizendo que o desmoronamento no


início da semana e aquela explosão gigantesca foram tudo coisa da Moonglow. A
empresa foi dissolvida e os ativos colocados sob o controle imperial.

– Nada como sair arrastando o bom nome de alguém na lama depois de matá–
lo – Kanan disse. Lal Grallik tinha sido boa para ele. E o conde Vidian estava
começando a subir em sua lista negra.

A Expedient traçou um amplo arco em direção à gigantesca estação de


desembarque em forma de disco, conectada por enormes mastros ao resto da
instalação. Várias portas abertas revelavam uma extensa área de carregamento.

O sistema de comunicação voltou à ativa tão logo a nave cruzou a entrada do


compartimento de pouso.

– Ao pousar, desembarque e comece a carregar os produtos assim que


aparecerem nas esteiras. Tome as precauções de praxe, você agora está em nosso
território.

– Maravilha– Kanan disse quando a transmissão terminou. – Agora, pelo


visto, eu acho que tô trabalhando pro Império. – Encarou Hera. – Qual é o
plano?
– O plano é o seguinte: você faz exatamente o que eles disserem– ela retrucou,
levantando– se e checando seu comlink. – Carrega a nave. E espera até eu te
ligar.

Kanan arregalou os olhos.

– Peraí. Você vai embora?

– Isso mesmo– ela respondeu, ajustando a arma de raios em seu coldre.– Eu


vou destruir a estação.
39
Kanan quase caiu aos pés de Hera tentando ficar entre ela e a porta.

– Destruir a estação? – Ele não podia acreditar no que estava ouvindo. . –Eu
pensei que todos seríamos cuidadosos e passaríamos despercebidos. Agora,
quem é o louco aqui?

– Eu sei o que estou fazendo. – Hera olhou diretamente para ele e explicou,
um pouco menos paciente do que em outras ocasiões. –Cynda não é apenas um
pedaço de pedra no céu acima de Gorse, Kanan. Eu li na nave o jornal do planeta
enquanto você estava dormindo. Zaluna estava certa. É um planeta errante que
entrou no sistema e foi capturado, grande o suficiente que podem começar a
girar um ao outro em um milhão de anos, se Cynda não for destruída primeiro.

Ela apontou com o polegar em direção da popa da nave.

– Mas você viu quantas naves estão aqui. Eles estão voltando para acabar com
a lua e nem num milhão de anos. Estão a fazer agora. as pessoas de Gorse lá em
baixo estão em perigo agora. Então é preciso fazer algo agora.

Kanan se recusou a ceder.

– Eu achei que... era um vôo suicida.

– Eu chamo de lógica. – Ela cruzou os braços e bateu com o pé no convés. –


Agora, você vai sair da minha frente ou não?

Sacudindo a cabeça, Kanan se afastou da porta da câmara pressurizada. Ela


voltou-se aos outros dois.
– Me desculpem se as coisas tomaram esse rumo. Se eu não conseguir voltar,
tentem avisar as pessoas de alguma forma. Aí, depois, Kanan pode levar vocês
pra algum lugar seguro. – Ela fez uma pausa. –Algum lugar fora de Gorse.

Kanan olhou para Zaluna, agarrada a sua bolsa e sacudindo a cabeça só de


pensar em perder sua terra natal.

– Os Jedi costumavam cuidar dessas coisas.

A observação assustou Kanan. Os Jedi eram um assunto meio proibido.

– O que é que você sabe sobre os Jedi, Zaluna?

– Bem mais do que aquela historinha que o Império inventou sobre eles.– Seu
semblante foi tomado pela melancolia. – Eu cheguei a ver os Jedi em ação, sabe,
muito antes de você nascer. Se as vidas de pessoas inocentes fossem ameaçadas,
eles sempre davam um jeito de resolver. Mesmo numa situação sem saída.

Hera assentiu.

– Um deles aqui seria de grande valia, agora.

– Ou talvez seja a hora das pessoas serem seus próprios Jedi. – Empolgada
com o assunto, Zaluna passou os olhos, com um certo ar de confiança, de Hera a
Kanan.– Eles não eram deuses, eram só gente como a gente, percebiam as
coisas. Se eles eram capazes de encontrar um jeito, eu tenho certeza que nós
também somos.

Talvez, Kanan pensou.

E, então, ele se deu conta.

– Espera– ele disse, assim que ela tocou na maçaneta da porta. – Digamos
que você, de alguma maneira, exploda toda essa monstruosidade. Não existem
outras estações tipo essa aqui?

Hera o encarou, confirmando com a cabeça.

– Não são exatamente tipo essa aqui, mas, sim, existem estações em todos os
setores.
– Então, me diz: se o imperador já pensa que pra ter um monte de torilídio
sem esforço nenhum vale a pena arruinar o sistema de Gorse, ele não iria
simplesmente tentar tudo de novo?

– Eu imagino que sim.

– Então, eu acho que não consigo entender o que você tá tentando fazer –
Kanan disse. – Não foi você que disse que atos inúteis são uma idiotice?

– Estou ganhando tempo.

– Pra quê? Vale a pena se sacrificar pra adiar o inevitável?

Hera deu de ombros.

– Eu não quero me sacrificar, não. Mas o que você está me descrevendo é uma
situação em que a gente simplesmente fica sentado, de braços cruzados, vendo o
Império fazer o que bem entender.

– Não, não. Tem uma outra interpretação pra tudo isso. Não basta impedir que
isso aconteça só agora. A gente tem que fazer com que eles nunca mais queiram
tentar de novo.

A cabeça de Kanan estava a mil. Hera ficou olhando para ele, curiosa.

– Continue.

Ele passou a falar, sem saber ao certo aonde chegaria.

– Beleza, olha só. O Império nunca nem tinha sonhado com essa maldita ideia
até que o Skelly aqui resolveu entregar tudo de bandeja pra eles...

– De besta que eu fui – Skelly o interrompeu, amargo.

– ...e aí, eles a testaram, com aquela explosão tremenda. Mas como é que
ficaram sabendo que o teste deu certo? Que não acabou destruindo o torilídio
que foi liberado?

– Eu vi umas sondas vasculhando os destroços – Hera sugeriu.

– Eu também vi– Kanan disse e começou a andar.– Vidian não seria


capaz de simplesmente destruir uma lua sem a anuência do imperador. Ele
teria que enviar um relatório – então, fez uma pausa e estalou os dedos. – Ou
seja, é só a gente enviar outro relatório. Ou “consertar” o que ele tá prestes a
enviar.

– Isso aí, pode deixar essa parte comigo – Skelly disse, ficando interessado no
assunto.– Eu jogo logo um balde de água fria nessa coisa toda. Eu vou dizer que
esmigalhar a lua vai acabar é arruinando o que eles querem de verdade!

– Tá, então a gente diz que o teste não deu certo– Hera concordou. – Isso
causaria mesmo uma baita confusão, talvez desse pra atrasar tudo até que a gente
possa alertar as pessoas. Mas dá pra fazer de um jeito que pareça legítimo?

– Sem problema– Zaluna se ofereceu.– Onde é que algo assim deve estar
guardado?

– Com o próprio Vidian– Kanan disse. Coçou sua cabeça e olhou para
Zaluna.– Você seria capaz de encontrá– lo usando o sistema de vigilância da
estação?

– Talvez – ela respondeu. Logo em seguida, emendou: – Sim. É só me levar


a um terminal que eu possa invadir.

Hera parecia estar contente.

– Essa ideia me agradou mais do que explodir o lugar todo. Mas vai ser mais
difícil do que se eu simplesmente ficasse me esgueirando por aí. O Skelly é carta
marcada, e, até onde a gente sabe, todo mundo aqui também.

Kanan concordou. Então, algo lhe disse para se virar. Do lado de fora da nave,
um lampejo colorido chamou sua atenção.

– Peraí– ele disse, reconhecendo o que era.– Olha lá!

Hera e Skelly se juntaram a Kanan mais adiante e olharam em direção à


plataforma do elo de embarque. Uma dezena de outros cargueiros, carrinhos de
bebê e antigos cargueiros de torilídio do mesmo porte estavam estacionados com
as respectivas rampas baixadas. Sob o olhar atento de stormtroopers enfileirados,
sujeitos altos e baixos desciam das naves, todos vestidos de laranja– fluorescente
dos pés à cabeça.
– Trajes Hazmat – Hera destacou.

– A gente tá aqui pra carregar barádio– 357, tá certo – Kanan disse.– É um


bebê malcriado.

Apoiando– se contra as costas do banco do passageiro, Skelly concordou:

– Bem como a gente imaginou. Vão precisar da carga pesada pra destruir a
lua. Eu fiz as contas no meu relatório. Quem me dera não ter feito isso nunca.

Hera o encarou:

– Esses trajes são pra quê? Por acaso o material explode se a gente respirar
nele?

– Não é essa a razão– Skelly retrucou, mancando de volta a seu lugar. – Os


canisters de explosivo possuem uma camada externa cheia de líquido
refrigerante, bastante tóxico. Bem desagradável no caso de um vazamento.

– E isso pode acabar matando a pessoa?

– Até pode. Mas a pessoa vai sair matando um monte de gente primeiro. É
psicoativo, provoca uns reflexos involuntários bem violentos.

Kanan soltou uma risada.

– Dá uma procurada lá na sua casa pra ver se você não acaba encontrando um
pouco disso aí, Skelly. Ia explicar muita coisa. – Então, algo despertou em sua
mente. Kanan estalou os dedos e se virou de costas.

O armário da Expedient ficava entre o compartimento dianteiro e a área de


carga. Abrindo as portas, vislumbrou seu próprio estoque de trajes alaranjados,
todos arrumados, pendurados em cabides. Havia máscaras numa das prateleiras
mais altas.– Eu sabia que já tinha visto isso por aqui, só nunca precisei usar.

Hera parou diante da porta e o encarou.

– Você tem seu próprio guarda roupas?

Kanan retirou um traje.


– Isso é idéia do Lal. Nós nunca soubemos o que usamos todos os dias e não
queríamos que alguém se machucasse. Os trajes eram feito para serem
descartáveis, é por isso são bastante baratos. E um... tamanho... serve... ou a
maioria, de qualquer jeito.

Eficiente, pensou Kanan, embora tenha decidido não mencionar que Vidian
provavelmente aprovaria. Ele olhou de volta para Skelly e Zaluna.

– Nós precisamos deles conosco. Pode ser perigoso...

– Bobagem. – Zaluna disse, levantando-se. –Sabemos o que está em jogo.

Skelly revirou os olhos.

– Vamos antes que o efeito dos meus medicamentos passe e comece a pensar
com clareza.

– Certo. – disse Hera, puxando pra baixo a máscara. –Nós tentaremos do seu
jeito, mas, se isso não funcionar, voltamos para o meu plano.

– Morrer nunca foi o plano. Mas conseguiu um acordo.


40
Aquela era uma das raras estações espaciais em que um destróier estelar
conseguia atracar. Entre as diversas ramificações da Estação de Calcoraan, havia
uma longa astroponte acoplada a uma câmara de pressurização no casco da
Ultimatum. Sloane pôde notar que Vidian calculara de propósito uma economia
de tempo irrisória no artifício.

Ele a encontrou no porto de ligação. Dizer que eles se cumprimentaram seria


forte demais, uma vez que, como de costume, ele parecia estar ocupado numa
conversa silenciosa com alguém em seu comlink. A julgar pelo número de
lugares pelos quais passaram, o passeio de bonde entre os elos parecia mais uma
excursão. Só que uma excursão em que o guia não tinha quase nada a dizer.

Cruzaram uma área de desembarque onde robôs fortemente blindados estavam


sendo desmontados. Ela nunca tinha visto nada parecido com aquilo.

– O que é isso?

– Droides.

– De que tipo?

– Tolerantes ao calor. A estação abastece projetos por todo o setor, não só em


Gorse.

Ela estava ansiosa por demonstrar seu conhecimento.

– À prova de calor. Então, foi a fábrica do barão Danthe que produziu, certo?
Ele detém o monopólio.
Vidian ficou visivelmente irritado com a menção do nome do barão.

– Correto. Várias empresas fornecem ao Império, inclusive a dele.

– Mas são funcionários de uma das suas empresas que estão desmontando os
droides, não?

Ela reconheceu as logomarcas nos uniformes.

– Manutenção padrão. – Vidian acelerou o bonde, indicando que o assunto


estava encerrado.

Ainda passaram por várias outras interseções, o que possibilitou que ela
observasse os carregamentos da estação e trocasse outras palavras bem concisas
com Vidian. Sloane se perguntava se ele ao menos ainda se lembrava do que lhe
pedira antes.

– É um lugar incrível– ela disse, por fim.– Agradeço a oportunidade de


conhecê– lo.

– Você não considera o mundo logístico por demais entediante?– ele


perguntou assim que a condução começou a desacelerar.

– E o que move o Império.

– Concordo – Vidian disse. Apontou para um pequeno armário no bonde. –


Você há de se interessar pelo que há lá dentro.

Sloane abriu o compartimento e retirou uma máscara transparente.


Colocando– a sobre o rosto, avistou uma placa sinalizando a estação de
desembarque 77, logo adiante. Havia trabalhadores com trajes Hazmat por todo
o local, recolhendo tambores cilíndricos com quase um metro de altura de dentro
de tubos pneumáticos, e transportando– os aos cargueiros.

– São os explosivos. – ele disse, gesticulando. – Estão sendo carregados aqui


e em vários outros elos, a caminho de Cynda. Os testes demonstraram que os
orgânicos conduzem os explosivos mais depressa do que os droides.

O medo é um grande motivador.


– Claro. – Ela encarou Vidian, sem teatro. – O senhor não precisa...?

– Meus pulmões foram melhorados para rejeitar os venenos.

O carro parou e Vidian o deixou para o piso de embarque. Sloane o seguiu.

– Os explosivos devem ser depositados nas profundezas de Cynda usando


poços perfurados em locais precisos. – Ele fez uma pausa e olhou para ela. –
Minhas equipes de preparação já estão prontas a caminho da lua, mas seus
engenheiros militares podem ajudar a acelerar as coisas.

Agora, vamos entrar nisso, pensou Sloane.

– Claro. Eles estão à sua disposição.

– Certo. – Um humano vestido de vermelho chegou à frente de Vidian e


oferecendo-lhe um DataPad. O Conde passou para Sloane. –Transmita estas
instruções para a sua equipe. – Enquanto alguns trabalhadores passou carregando
barris, outro chegou de outra direção. Vidian apontou para a área de carga.

– Devo terminar meu relatório para o Imperador. Fique e aprenda. – Ele


caminhou até o veículo.Então ele parou e olhou pra ela de novo. –É bom ter um
aliado na militar que entende o que estou fazendo.

Eera a coisa mais próxima de cordialidade ela tinha visto nele. Ela inclinou a
cabeça.

– Estou às suas ordens.

***

– Esse é o nosso garoto. – murmurou Kanan enquanto colocava um cilindro na


plataforma de carga.

Hera assentiu, irreconhecível no sua roupa laranja, mas com exceção dos
grandes buracos no capuz onde seus lobos alongados estavam escondidos.

– Ele ainda não tinha enviado o relatório. – disse ela, com sua linda voz
mesmo que tenha sido abafada pela máscara. –Teremos mais sorte se ele passar
por aqui!
– Se é que dá pra chamar assim.

– Skelly! – Hera gritou.

Kanan deu um giro para trás e se deparou com Skelly, encapuzado, mancando
pelo meio da multidão de trabalhadores ocupados em direção a Vidian. Pior
ainda: estava carregando sua mochila de explosivos. Suando frio, Kanan pegou o
canister de barádio e saiu apressado no mesmo rumo.

Skelly estava a uns dez metros de Vidian, aproximando– se pelas costas do


conde e já com a mão enfiada na mochila, quando Kanan se interpôs no
caminho. Empurrou o canister nos braços de Skelly.

– Tá aqui, amiguinho. Pode levar de volta pra nave.

Skelly, mesmo com o semblante oculto por trás do visor opaco, pareceu
determinado a seguir em frente.

– Você não tá vendo?

Vidian? Pode apostar, Kanan queria dizer. Em vez disso, girou Skelly ao
contrário. Acenou a um dos stormtroopers montando guarda.

– Foi mal. Lugar grande, sabe como é. Nada difícil de acabar se perdendo.

Skelly ainda tentou resistir enquanto Kanan o puxava para longe da linha do
bonde. Vidian já se encontrava na condução, aparentemente sem notar nada.

– Skelly, você perdeu o juízo?

– Mas ele tá bem ali, Kanan!

– Agora não! – Kanan saiu, empurrando-o de volta por todo o caminho até a
Expedient. – Você quer que todo mundo se exploda, é isso?

– É ele ou a gente.

– Mas assim seria ele e a gente– Hera disse. Adiantando-se, tomou o canister
das mãos de Skelly enquanto Kanan lhe tirava a mochila das costas.

– Fica de olho nele – Kanan disse, voltando-se à rampa da Expedient. – Eu


vou colocar essa coisa aqui num lugar onde ele não possa alcançar.

Kanan balançou a cabeça enquanto fechava a mochila com as bombas. O


tempo só parecia aumentar as lesões que Skelly sofrera nas mãos de Vidian.
Estava ficando mais díficil trazer o cara à razão devido a sua dor. Ao
desembarcar, Kanan viu que Hera tinha destacado Skelly para a rampa com um
DataPad, simulando fazer um inventário. Era o melhor lugar para ele, por
enquanto.

Zaluna aproximou-se carregando um cilindro cuidadosamente, como se


estivesse trazendo uma criança.

– Eles explodem se deixar cair no chão?

– Apenas um pouco. – disse Skelly.

– Ele está brincando. – disse Kanan. –Mas se você fizer isso, certifique-se de
ter seu capuz. – Não queria imaginar Zaluna numa chacina provocada por
produto químico.

Minutos depois, Hera voltou com uma caminhada despreocupada da área de


carga.

– Certo, Vidian foi para a central. – ela disse suavemente. O layout da estação
estava no DataPad de Skelly agora, Zaluna havia baixado recentemente de um
terminal próximo, mas eles precisavam de mais tempo e a Expedient estava
quase carregada. Eles esperavam sair da estação depois disso.

– Precisamos diminuir a velocidade. – acrescentou Hera. Não sei como


podemos entrar lá.

Kanan evitou rir.

– E você estava pensando que íamos ter o controle do lugar.

– Eu não vou levar esse bando através dos dutos. – disse ela, olhando. Além
disso, os stormtroopers estão por toda parte, garantido que estamos onde
devíamos estar.

Kanan olhou de novo para o lugar onde Vidian havia partido. Havia três
portais paralelos lá, um no corredor de serviço, à esquerda o cilindro de
carregamento pneumático e à direita a entrada do tubo do bonde. Kanan apontou
com o dedo.

–Há uma resposta. – disse ele. Nós nos mudamos do lugar onde deveríamos
estar.

Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, Kanan afastou-se.

Assobiando, ele passeou casualmente sobre o condutor onde cilindros, que


cuidadosamente avançavam sobre uma gentil almofada de ar, aparecendo na área
de carga. Olhando para os lados e verificou se ninguém o viu, Kanan
desapareceu no túnel de serviço.

Ele viu quando passou mais cedo, um droide prateado e lânguido, cuidando
dos controles fora do tubo. Kanan atravessou uma porta de manutenção no lado
de fora do tubo. Com um giro, ele se irritou ao abrir a escotilha.

– Espere! O droide piou. –Você não pode fazer isso! – Ele se virou para
Kanan, que o agarrou e o jogou no tubo de um metro de largura. Com outro
chute, ele meteu seu torso para trás, alojando-o totalmente lá dentro. Finalmente,
ele bateu no painel de manutenção fechando-o.

A luz de bloqueio já estava piscando fora da abertura quando retornou à área


de carga. Kanan viu a luz e chingou em voz alta.

– Esta porcaria ficou presa.

Os trabalhadores se reuniram na abertura, Sloane marchou até lá.

– O que está acontecendo aqui?

– Eu vou te dizer o que está acontecendo. – disse Kanan, olhando pela


abertura escura. –Seu estúpido droide arruinou todo o meu trabalho!

Sloane acenou depreciativamente com sua a mão.

– Alguém envie uma equipe de reparos.

– Sim, você faça isso. – ele respondeu, satisfeito por ela não conseguir ver
atras do visor do traje anti-radiação. Ele se afastou do grupo e marchou de volta
a Expedient.

– Espere. – a capitã chamou. Pra onde você acha que está indo? – Mas Kanan
já subiu a rampa.

Quando ele voltou, viu Sloane esperando com um stormtrooper armado.

– Passando. – ele disse enquanto empurrava o carrinho pela rampa do


Expedient. menor do que o outro que ele andou para sobreviver em Cynda,
saltou no ar quando ele empurrou em direção aos pés de Sloane. –Eu tenho um
prazo, senhorita. Mova-se.

Sloane deu um passo para trás, certamente surpreendida por sua presunção.

– Agora o que você está fazendo?

– Vocês estão nos pagando para mover essas coisas. – disse Kanan. Se a sua
estação não puder trazer a tralha pra mim. Estou indo embora. – Ele olhou de
volta para Hera –Vamos, Layda, traga seus primos.

Hera cumprimentou e reuniu os outros. Eles seguiram Kanan e seu hovercart


para o corredor de serviço, seguido por outros carregadores que tiveram a
mesma idéia e foram para seus próprios carrinhos.

Sloane encolheu os ombros com irritação e deu um passo para trás. Ela olhou
para o stormtrooper ao lado dela.

– Não foi pra essas coisas que eu fui para a Academia.


41
Skelly se recostou contra um pilar, resfolegante.

– Da próxima vez, a gente pega o bonde.

– É, isso não seria nem um pouco suspeito – Kanan ironizou, empurrando o


carrinho por outro corredor aparentemente interminável. Ainda não tinham
cruzado com ninguém, a não ser alguns droides– assistentes como aquele que
ele abordara, mas toda aquela distância era o verdadeiro teste. Já tinham ido de
um elo a outro, tentando encontrar o caminho até o centro de distribuição.

Baixou os olhos ao hovercart, visivelmente aborrecido.

E eu que pensei ter abandonado essa vida quando me demiti da Moonglow!

Andando ao lado de Kanan, Hera parou e olhou para trás. Puxou o braço dele,
e Kanan se virou para se deparar com Skelly sentado no meio do chão.

– Eu tô bem – o bombista disse. – Só... voltem... pra pegar o meu corpo.

Kanan encarou Hera. Não dava para ver seu rosto, mas ele conseguia imaginar
a cara de preocupação da Twi’lek. Aquilo não ia prestar. Ambos haviam se dado
conta ainda na viagem de Cynda que Vidian tinha machucado Skelly mais do
que ele deixava transparecer; só tinha conseguido chegar tão longe por ter se
dopado com os remédios do medpac, mas ele já não estava mais conseguindo
aguentar.

Kanan parou e trouxe o hovercart vazio para ele.

– Aqui. – ele disse, ajudando a Skelly subir na carroceria. –Você faz uma
piada sobre eu ser sua enfermeira e eu estou largando você no chão.

– Confere. - Skelly desmaiou caindo de costas.

Hera olhou para o disco grosso no teto.

– O que você acha, Zal?

– Estas são as câmeras Visitrictic 830 de segurança da fábrica. – disse Zaluna.


Andando a frente do grupo, Ela apontou com um de seus dispositivos como se
fosse um galho de varinha mágica. –Material de qualidade, existem apenas
alguns em Gorse. Eles não são usados para o reconhecimento facial. Mas devem
garantir que o produto continue circulando.

– Você pode desligá-los?

– Estou congelando-os antes de sermos vistos. Enquanto ninguém entrar no


local, não vai ficar estranho.

– Você pode fazer isso? – Kanan perguntou. –Eu pensei que você disse que
eram câmeras sofisticadas.

– Aí está. – disse Zaluna, desabotoado e retirando o seu capuz. –Mas ninguém


deixa uma câmera de fábrica sem um código de defesa. Muitos executivos foram
presos por desfalque por sua própria tecnologia. Quando eu era mais jovem,
costumávamos usar os códigos para atrapalhar com outros operadores. Você irá
aprender sobre eles no cubo de dados de Hetto.

Hera tirou a máscara do rosto e sorriu para Kanan.

– Foi por isso que vim para Gorse.

Kanan tirou a máscara também. Ele estava pingando de suor.

– É óbvio que essas máscaras não são para correr maratonas. Quanto falta para
a central?

Hera olhou para o seu DataPad.

– Quinhentos metros para chegar a outra junção, então oito mil metros a mais.
Existe uma razão pela qual eles usam rampas e esteiras deslizantes.

– Eu não quero ver outra esteiras deslizante novamente na minha vida. –


murmurou Skelly.

– Espere. – disse Kanan. –Zaluna, seu truque de câmera funciona se formos


mais rápido?

– É um sinal infravermelho. Funciona assim que estiverem no seu campo de


ação.

-Certo. Vocês dois entram no hovercart com Skelly. – disse ele, estalando seus
dedos. Ele colocou os propulsores no hovercart ao máximo e agarrava-se as
barras frontais. –Eu fiz isso uma vez com um teto caindo em mim. Prepare-se
pra segurar!

***

Em pé atrás de uma parede de containeres num enorme armazém do núcleo da


Estação Calcoraan, Kanan decidiu que nunca mais dirigir um hovercarts em toda
sua vida. A viajem pelo chão sublunar de Cynda uma avalanche tinha sido
bastante angustiante, mas colocando seus formidáveis músculos para funcionar,
saltando para bordo do para-choque traseiro do hovercart. Kanan transformou o
palete flutuante num míssil não guiado, batendo nas paredes do corredor. Hera,
sentada na frente, quase colocou os salto de suas botas no chão levando a coisa a
parar de correr mais, no segundo final.

Substituindo suas máscaras na entrada, acharam que o núcleo da Estação


Calcoraan era, em cada parte tão ocupada e barulhenta quanto Kanan havia
imaginado. Braços robóticos, mangueiras de vácuo e ímãs eram empregados
aqui, coletando materiais de uma floresta de impontes armazéns e
redirecionando-os para partes externas da estação. Zaluna tinha se referido a um
arame do tamanho da Expedient que parecia guardar travas de reposição para
portas de banheiros.

– Se a gente destruir mesmo esse lugar– Skelly disse —, metade da Frota


Imperial vai fechar as portas.

Pelo menos Skelly parecia estar se sentindo melhor. Já Kanan não podia dizer
o mesmo. Haviam encontrado um local tranquilo (tranquilo era um termo
relativo) onde pudessem deixar o hovercart, perto de uma parede mais afastada,
enquanto Hera fazia o reconhecimento da área à procura de um caminho até a
câmara executiva de Vidian. O mapa de Zaluna indicava que a localização seria
em algum ponto depois da parede, mas, no mínimo, um andar acima. Só não
detalhava como chegar lá. Pórticos e passarelas que levavam ao piso principal
não tinham funcionado. Os elevadores eram seguros e vigiados. A escotilha de
manutenção no paredão por trás dele era a última chance do grupo.

Kanan baixou os olhos e fitou o traje Hazmat de Hera, embolado sobre o


hovercart. Ela tinha tirado a roupa volumosa para ter mais liberdade nos
movimentos e poder se esgueirar pelos cantos. Ele ficou se perguntando onde ela
estaria, e chegou a pensar em abrir a portinhola para segui– la.

Antes que pudesse agir no impulso, Hera apareceu pela porta. Parecia
frustrada.

– Isso não é nada bom– ela disse, escancarando a escotilha. O corredor por
trás se encontrava perdido nas sombras. Ela suspendeu sua lanterna, revelando
aberturas estreitas em ambos os lados da passagem que parecia não ter fim.– A
entrada é no outro extremo, no andar de cima, mas é um corredor bem longo e
vigiado por stormtroopers. E a gente ainda teria que passar por um monte dos
caras de vermelho de Vidian nas suas respectivas mesas antes de chegar até lá.

– Talvez, a gente pudesse falar que estava entregando o almoço – Kanan


disse. Estava prestes a desistir quando viu algo se movendo atrás dela, passando
através de uma estreita abertura à direita.

– Olhe lá!

Ele era alto e mecânico, entrando no corredor na escuridão remota. Kanan


atravessou a escotilha para ter uma visão melhor. O droide tinha um corpo
tubular cinza e uma cabeça plana que girava em todas as direções, lançando uma
única luz vermelha à medida que se movia.

– Isso não é um droide de vigilância. – disse Hera, observando-o ao


desaparecer através de uma pequena abertura no lado esquerdo da passagem.
Isso é um Medtech-FX ou algo assim.

– Por que eles têm tantos droides médicos em um complexo de escritórios? –


Kanan perguntou e acenou com a mão para os outros fora da escotilha para
segui-lo. Tenham cuidado, está bastante escuro.

– Sem luz, não é problema. – disse Zaluna com seus grandes olhos de
Sullustana se alargando quando ela entrou.

– Eu vou a qualquer lugar, menos lá. – disse Skelly, esfregando a orelha. –Este
lugar está me dando dor de cabeça.

Com a porta fechada, Hera indicou o caminho, rastejando para a saída escura
que o droide tinha tomado.

– Este não era o lugar onde eu fui antes. – ela murmurou.

– Permite-me. – Kanan sacou o seu blaster e virou a esquina. Ningué veio até
ele. A lanterna no uniforme de Hera lançavam nas vigas de gesso, sombras
profundas num vasto espaço circular. O lugar estava vazio, exceto pelo que
parecia ser mobiliário armazenado, incluindo uma cama, várias mesas de
operação de diferentes tipos, um guarda roupa e uma cadeira grande o suficiente
para passar-se por um trono.

O droide médico os ignorou quando entraram na área. Ele simplesmente


planejou algo perto do que parecia ser um console e parou.

Skelly estreitou os olhos.

– O que é que a gente tá...

– Espera – Kanan disse. A área foi iluminada por um feixe de luz que saía de
uma abertura quadrilátera no teto logo acima do droide médico. Com um zunido
mecânico, tanto o robô quanto o console começaram a ascender por entre as
vigas, suspensos por uma prensa hidráulica. A luz ainda clareou todo o resto do
cômodo antes da abertura no teto se fechar de volta. – A gente tá embaixo da
clínica particular de Vidian!

– Ótimo – Skelly disse, cambaleando desorientado em direção a um armário.


– Um centro médico vem bem a calhar.– Abrindo uma gaveta, desabou contra a
lateral do equipamento. Os outros ficaram só olhando enquanto ele apalpava
cegamente a instalação com sua mão direita retorcida, incapaz de acertar o
interior da gaveta.
Zaluna olhou aflita para Hera.

– Será que ele vai ficar bem?

– Quanto antes a gente acabar com isso, melhor pra ele.– Kanan notou que a
Twi’lek examinava os outros móveis: todos em plataformas semelhantes.– Pelo
menos, agora, a gente já tem como entrar.

– Por que é que você continua dizendo a gente? – Kanan retrucou.

– Bem, essa ideia foi sua e o último metro é sempre o mais difícil. Além disso,
a gente teve sorte até agora– ela disse, sorrindo. – Talvez ele esteja dormindo.

– Ou fazendo um transplante de personalidade – Kanan suspirou ao puxar o


zíper de seu traje. – Mas eu duvido muito. Ninguém nunca tem o que precisa de
verdade.
42
Vidian sentou-se no centro de sua rede e olhou para todos.

Seu quarto, como qualquer parte da Estação Calcoraan, tinha sido construído
de acordo com suas especificações. Um quarto hemisfério que vai até o centro
do núcleo, era um lugar para contemplar seus planos enquanto se recuperava de
suas cirurgias de manutenção regular, realizadas pelos seus droides médicos. Ele
não tinha necessidade de grandes janelas para olhar para fora ou uma tela
cartográfica estelar gigante na cúpula acima dele. Ele poderia fazer com que seus
olhos cibernéticos mostrem todas as imagens que ele queria.

Ele raramente permitia que outros entrassem, mas, quando eles viam apenas
um cinza neutro no teto, mal iluminado por um anel de luzes. Mas quando
Vidian, com o baú agora coberto com uma túnica pós-operatória, observava,
podia ver a estação espacial em ação, como se pudesse ver atrás das paredes. Ele
habitava em todos os cantos de sua estrutura de duraço, olhou os suprimentos
quando foram trazidos e ordenados para a redistribuição. Ele viu os movimentos
das naves fora da estação e seus destinos além. Toda a galáxia se espalhou diante
dele, pronta para ser transformada por sua força de vontade.

Nem sempre foi assim. Que esteve sem poder, outrora, e de qualquer forma
ninguém sabia. A biografia oficial de Vidian o descrevia como um heroico
delator a serviço de um empreiteiro militar, mas, na verdade, tinha exercido a
mais inútil das funções– fora um mero inspetor de segurança a serviço de uma
associação de mineração interestelar.

Respondia por outro nome, na época. Foi quando aprendeu tudo o que sabia
sobre o comércio do torilídio, e foi quando veio a entender a hipocrisia praticada
pelos que detêm dinheiro e poder. As vidas das pessoas não significavam nada
para os fabricantes que visitava, e muitos de seus superiores eram subornados
para que os relatórios apresentados por ele não valessem nada.

Foi justo durante uma viagem de inspeção a Gorse, dentre todos os lugares
possíveis, que ele enfim se cansara. E decidira entrar no jogo, pedindo e
recebendo propina de várias das empresas que visitava. Antes que pudesse gastar
um crédito sequer, porém, acabou passando mal no hall de entrada de uma das
empresas de mineração. Já no centro médico da mineradora, ficou sabendo que
suas viagens haviam o pegado de jeito. As toxinas que inalara e os agentes
biológicos com que entrara em contato em inúmeras fábricas imundas tinham
desencadeado uma doença degenerativa, que carcomia sua carne. Não seria
nenhum fim teatral, como cair num tanque de ácido, mas, no fim, o estrago seria
o mesmo. Logo, tudo o que restara daquele jovem outrora energético foi um
invólucro ressequido de órgãos, de alguma forma estimulados a se manterem
funcionando pelos esforços dos cirurgiões.

Nunca chegara a ser uma grande pessoa, por vontade própria, mas, agora, até
aquilo se fora. Tudo o que havia restado era uma mente presa, sem meios de se
expressar. Ficou deitado ali, perdido, à beira da loucura, contemplando sua
existência, ou a falta dela; fervendo de raiva pela impotência da vida que levava,
e alimentando um ódio por aqueles que ganharam na vida enquanto ele seguia as
regras à risca. Após dois anos de maceração no ácido de sua própria mente,
encontrou uma forma rudimentar para se comunicar com um dos droides zelador.

E assim, o leito de morte do inspetor da guilda se tornou o local de nascimento


de Denetrius Vidian.

A partir de então, sua vida progrediu mais estreitamente de acordo com a


então, "famosa lenda", a única parte de sua biografia remotamente verdadeira.
Vingando-se contra figurões da indústria era necessário uma nova indentidade,
uma figura no mesmo nível ou maior. Vidian iniciara como um código, um nome
em uma conta bancária eletrônica. Mas em breve viria a maior perseguição
empresarial que a República alguma vez já viu, enquanto ainda estava no centro
médico.

A República tinha protegido a indústria de mineração de thorilide contra


piratas empresariais durante as Guerras Clônicas, então, ao invés dela tirar suas
participações das empresas manufatura de cometas, que eram recolhidas por
embarcações caçadoras. Ele secretamente comprou sua participação na Consulta
Minerax, emitindo relatórios que apagaram a superfície de mineração em Gorse
e outros mundos. Muitas das empresas que ela uma vez inspecionou falharam,
incluindo a empresa predecessora de Moonglow.

Revanche, talvez, mas ele não se importava. Com suas próteses cibernéticas,
ele tinha mobilidade para isso, deixando Gorse e suas más lembranças de riqueza
e fama financeira. Ele tinha deixado tudo para trás. Ele tornou-se poderoso,
alguém que nunca teria sido com a sua antiga identidade. E se ele não fosse pelo
que ouvira sobre Palpatine, pelo menos ele tinha seu respeito. A República
estava cheia de indústrias incompetentes. Vidian era conhecido como o homem
que poderia consertar todos elas.

Ele não iria deixar um arrogante pretensioso como o Barão Danthe miná-lo. O
imperador promoveu vigorosa competição em sua administração. Era uma
estratégia razoável, obrigando todos a dar o melhor de si. Mas Danthe apenas
poderia derrubar aqueles mais talentosos do que ele. O Barão buscou
desesperadamente por alguma arma para usar contra Vidian. Essa era uma das
razões pelas quais o conde tinha solicitado autoridade imperial sobre Gorse.
Conseguiu demolir o centro médico de seu antigo confinamento, e qualquer
traço de seu verdadeiro passado, sem que ninguém mais o conhecesse.

Ainda assim, havia quem fosse tolo o suficiente para continuar tentando. O
barão tinha entrado novamente em contato com ele, mais cedo, em busca de
informações sobre seus planos. Os operadores da Estação de Calcoraan
chegaram inclusive a interceptar uma chamada de Danthe à capitã Sloane,
tentando obter o mesmo. Para seu próprio bem, Sloane não dissera nada ao
sujeito.

Não havia razão alguma para esperar mais. Vidian se levantou da cadeira e
seguiu de volta ao porão. Foi até o terminal de segurança ao lado da câmara e
digitou sua senha de acesso. Com um simples comando, enviou o documento
que tinha preparado a Coruscant. Fora redigido com o maior cuidado; o
imperador haveria de apoiar suas ações. Vidian estava assumindo um risco no
rumo atual da situação, sim, mas também preparava uma armadilha que tiraria
Danthe de seu pé, já inexistente, para sempre. Sloane possuía um papel
importante em seu plano, bem como os droides que mostrara a ela antes.

Quando tudo terminasse, Vidian cairia nas graças do imperador, e o Império


cresceria, ininterruptamente, por conta disso. E, quem sabe?
Poderia até haver um bônus. Vidian sabia que o imperador estava interessado
em projetos de criação de gigantescas armas de intimidação. Não conhecia tudo
o que existia por aí, mas seria difícil de esconder algo por muito tempo de
alguém envolvido com tantas redes estratégicas de abastecimento. A destruição
de Cynda, se fosse mesmo possível, poderia ser de interesse militar. Luas com
aquela estrutura peculiar, órbita e tamanha proximidade de seu planeta– mãe
eram raras, sim, mas seria o preço a se pagar pela multiplicidade de ferramentas
numa galáxia tão vasta.

Vidian encerrou sua conexão com a capital imperial e fez uma pausa. O lugar
estava quieto, apesar dos zunidos e estalidos dos FX– 4 circulando entre a mesa
de operação e o console de diagnósticos logo ao lado.

– Sei que vocês estão aqui– o conde disse, de costas ao resto da sala.

Não ouviu nada em resposta. E, então, passos suaves seguiram a sua esquerda,
por trás do computador à direita da porta de entrada fechada. Vidian se afastou
casualmente do terminal de comunicações e deu outra ordem silenciosa. Uma
nova mesa de cirurgia, está com amarras, despontou à vista.

– Ouço vocês desde que entraram. Chegaram por trás de minha cadeira.–
Passou pelo droide médico. – Não há fiscalização alguma neste cômodo.
Apenas eu. Ouvi seus movimentos, seus corações batendo. Vi suas respirações
tomarem cor no infravermelho. Não me obriguem a caçá– los. Seria por demais
cansativo.

Vidian girou e deu um pulo para trás em direção ao terminal na parede à


direita da entrada. Olhando por cima do computador, avistou uma jovem Twi’lek
de pele esverdeada de cócoras no chão, apontando uma arma de raios em seu
rosto.

– Você é novidade para mim – ele disse.

Escutou alguém se movendo por trás dele. Vidian estava parado feito estátua
quando levou o golpe: um carrinho cirúrgico de metal se espatifou em sua nuca.
A Twi’lek se esquivou quando os acessórios do carrinho saíram voando,
tilintando por tudo ao redor. Vidian deu um giro ágil e investiu contra seu
agressor num único movimento indefensável.

– Você não é novidade para mim– ele disse, segurando o homem de cabelos
escuros pelo pescoço. O eixo quebrado do carrinho cirúrgico ainda estava nas
mãos enluvadas do sujeito. Vidian o suspendeu do chão e o encarou bem no
fundo dos olhos azuis. – O pistoleiro de Cynda. Posso ter excluído sua imagem,
mas nunca me esqueço de um tolo. Estou fascinado em saber o que o traz aqui.
43
Sufocado, Kanan tentou em vão acertar Vidian com o que restava da arma
improvisada.

– Atire nele! – Ele disse entre suspiros. –Atire nele!

Hera fez exatamente isso, inclinou-se sobre o console do computador e


disparou diretamente para as costas de Vidian. Plasma passou por Vidian e
acentando em Kanan, surpreendendo-o. Através da dor, Kanan podia ver que a
túnica que cobria o peito esfarrapado de Vidian, revelando um brilho prateado
embaixo.

– Eu não faria isso novamente. – disse Vidian enquanto rasgava as roupas com
a mão livre, ainda segurando Kanan. Meu enxerto de pele é uma malha de
cortosis, um resíduo daqueles dias em que eu aconselhei os fabricantes nos
últimos anos das Guerras Clônicas. Posso garantir-lhe, senhorita, que cada raio
que você atira em mim irá direto para o seu amigo.

Kanan viu Hera de pé com os olhos fixos em Vidian.

– Você quer saber por que estou aqui? Baixe isso e eu vou lhe dizer!

– Certamente. – Vidian se abaixou até Kanan, mas assim que os dedos dos pés
do jovem tocavam o chão, o conde lhe deu uma poderosa bofetada com a mão
esquerda. Kanan sentiu sua mandíbula quase virar de lado.

E ainda assim, Vidian continuou a segurá– lo pela garganta. Kanan se


esforçou para falar, mas só conseguiu emitir sons ininteligíveis.

Vidian aliviou um pouco a pressão.


– O que foi? Você espera alguma misericórdia de minha parte?

Kanan deu uma tossida e o encarou.

– O que eu disse foi: “mas que golpe baixo, hein?”.

– Bom saber que você aprovou. – Vidian olhou para trás, em direção a Hera,
cujos olhos corriam entre o conde e a porta. – Não se preocupe. Essas paredes
são à prova de som, e ainda não solicitei auxílio. Raramente tenho uma chance
de me entreter. Não quero ninguém interferindo.

Hera fitou Vidian e, em seguida, avançou, saltando atleticamente sobre o


console. Ainda no ar, disparou um raio que passou triscando pela cabeça de
Vidian, errando o alvo de propósito. Só ficou no chão pelo tempo de se
impulsionar adiante, investindo contra o ciborgue. Vidian, surpreso com o ataque
frontal, estendeu ambos os braços para agarrá– la, soltando Kanan no processo.
Imediatamente, Hera mudou seu alvo, mergulhando baixo e se atracando ao
quadril de Kanan, enquanto as mãos de Vidian se cruzavam, agarrando o vento.
O arranque de seu salto a levou junto com Kanan ao chão, a dois metros por trás
do conde.

Vidian deu um giro, mais entretido do que propriamente alarmado, enquanto


os dois ficaram parados no lugar.

– Muito bem.

Kanan, conseguindo respirar de novo, empurrou Hera de lado assim que


Vidian avançou para cima deles. O conde, então, era praticamente um típico
lutador de rua sem camisa, e numa jaula sozinho com eles: o tipo de adversário
com o qual Kanan já tinha lidado em inúmeras ocasiões pelas cantinas da vida.
Kanan recepcionou o ciborgue em plena investida com um chute na base das
costas. Pareceu mais que tinha chutado um saco cheio de martelos de titânio, e
ele se sentiu ainda mais burro pela tentativa frustrada quando Vidian agarrou sua
perna e o empurrou. Kanan tombou de costas contra uma mesa de laboratório,
partindo– a ao meio.

Hera abriu fogo contra Vidian outra vez, visivelmente convencida de que
ninguém do outro lado da parede reagiria aos disparos. Vidian pareceu
indiferente ao impacto e a atacou. Hera pulou alto, saltando sobre as costas do
conde ao tempo em que ele mergulhou no ar. Dessa vez, porém, as pernas dele
mantiveram o equilíbrio, e ele girou a tempo de agarrá– la por uma de suas
saliências caudais. Vidian deu um puxão, arremessando– a com violência ao
outro lado da sala.

– Hera!– Kanan gritou, levantando– se em meio aos destroços da mesa. Vidian


tinha lançado Hera com força o suficiente para estatelá– la contra a parede e,
ainda assim, ela nem ao menos chegou a cair de encontro ao chão. O feixe azul
de um campo de estase acoplado ao teto a capturou no ar antes disso.

O conde o fitou num alto astral só.

– Maravilhoso! Mira perfeita. Não se mova, tá?

Claro que não, afinal, ela não conseguiria. Antes que Kanan pudesse se
perguntar o que Vidian estaria fazendo com um feixe de suspensão paralisante
nos aposentos dele, o ciborgue já tinha partido em sua direção novamente.

– Agora, onde estávamos? Costumava treinar pugilismo durante a fisioterapia.

– Ah, é mesmo, é? E eu costumava mandar o povo pra lá – Kanan avançou


espirituosamente.

Vidian deu um jab de direita. Kanan se esquivou com a mesma agilidade,


sentindo o golpe passar ao largo. Cerrando seu punho enluvado, acertou Vidian
em cheio no ouvido esquerdo. O resto do sujeito poderia até ser revestido com
algo resistente, mas Kanan podia apostar que Vidian contava com os ouvidos
para se equilibrar como qualquer outra pessoa. E estava certo; ao menos por um
instante, o ciborgue recuou. O que deu tempo o suficiente para que Kanan
agarrasse Vidian com veemência pelo que se passava pela orelha dele. Impelindo
a cabeça do conde ao redor, Kanan lançou Vidian de cara contra um gabinete
com um estrondo colossal.

Qual uma arma de mola, Vidian quicou de volta. Seu rosto estava totalmente
inexpressivo, mas sua voz mecânica entregou o que sentia.

– Agora, sim, começou para valer!

Kanan e Vidian trocaram socos por longos segundos. Kanan se valeu de toda
sua agilidade para se desvencilhar dos golpes firmes de Vidian, e de toda sua
técnica para não quebrar a mão no exoesqueleto metálico do conde. Já tinha
lutado corpo a corpo com adversários durões o suficiente para saber como evitar
cabeçadas ou qualquer outra coisa mais ameaçadora para ele do que para Vidian.
O que o deixava sem muitas outras opções a não ser tentar desequilibrar o conde.

Até tentou. E o cômodo acabou pagando por isso à medida que dois gabinetes
foram derrubados e outros mais ainda estavam no caminho daquela luta. O
ciborgue era ágil demais.

– Já chega por hoje – Vidian disse, lançando seu braço direito adiante.
Agarrando Kanan pelo pulso num aperto inebriante, Vidian deu um jab de
esquerda em cheio na têmpora do piloto. Kanan não conseguiu ver mais nada por
alguns segundos, mas sentiu o impulso quando Vidian agarrou sua túnica e o
empurrou.

Assim que as luzes em sua cabeça pararam de piscar, Kanan se deu conta de
que Vidian o prendia contra a mesa cirúrgica principal. O conde atou a mão
direita de Kanan numa das contenções de metal. Tão logo Kanan tentou reagir, o
ciborgue o golpeou novamente. Instantes depois, tanto as mãos quanto os pés de
Kanan se encontravam presos à mesa.

Vidian endireitou a postura e esticou os braços, como que revigorado.

– Isso foi energizante, de fato.– Olhou em volta.– Algum outro voluntário? Ou


já basta? Nenhum Besalisk de luto para salvar o rapaz?

Não vendo ninguém se apresentar, Vidian se virou de costas.

– Tudo bem, então. – Prosseguiu, de frente para Hera e Kanan.– É hora de


começarmos a nos conhecer.

Kanan engoliu em seco e fitou Hera, que, ainda suspensa, conseguiu sacudir a
cabeça. Skelly, no subsolo, não estava em condições de fazer qualquer coisa, e
Zaluna nunca se intrometeria no meio de uma briga. E eles não queriam que ela
o fizesse.

Vidian vasculhou um dos armários.

– Você pilota para a Moonglow, pistoleiro. E eu matei seu patrão. É disso que
se trata?– Vidian tirou uma camisa dourada e a vestiu. – Amizades custam caro.
Nos levam a fazer coisas contra nossos próprios interesses.
Kanan não disse nada.

– Tenho certeza de que você daria mais detalhes a meu droide interrogador –
Vidian disse enquanto atravessava a bagunça que seu cômodo tinha se tornado. –
Além do mais, você ainda pode me ser útil.

Debatendo– se contra o feixe de estase, Hera o fitou de relance:

– O que você quer dizer com isso?

– Eu poderia deixar que meus droides praticassem algumas técnicas novas em


você. – Ele se voltou a Kanan e coçou o queixo, um gesto que pareceu mais
uma afetação do que alguma coisa motivada por uma coceira de fato. – Você
pode imaginar o que é viver sem sentidos, sem quaisquer meios de interagir com
o ambiente em volta?

– Depois de alguns drinks.

– A mente é um dínamo no escuro, um motor funcionando sem parar, sem


alimentar nada. Irrequieta– se durante a noite, em busca da luz do dia, forjando
sua própria luz.– Contornou a mesa, à procura do carrinho cirúrgico.
Encontrando uma bandeja retorcida, Vidian se ajoelhou ao lado dela e passou a
recolocar sobre a mesa, de forma meticulosa, os instrumentos cirúrgicos
espalhados pelo chão. Segurou um bisturi diante de seus olhos.– Sem nada
controlar. Considere isso! Tanto um recém– nascido quanto um idoso passam
pela mesma experiência, a mesma luta permanente contra a ineficácia. Não
controlar nada é a verdadeira morte.– Ele se levantou, segurando a bandeja. –
Eu, porém, retornei dos mortos. E, através de mim, o Império há de controlar
tudo. – Colocou a bandeja de volta no carrinho.– Talvez, você já tenha ouvido
meu slogan por aí: Não parem, quebrem barreiras, observem tudo.

– É, eu já te vi falando isso uma vez no holo, num espaçoporto por aí– Kanan
respondeu.– Ninguém tava assistindo.

– Não me ofendo. Uma mera trivialidade sobre consultoria gerencial, decerto.


Para alguém totalmente amputado, no entanto, é mais do que isso. Trata– se de
uma receita de como viver bem.– Vidian caminhou de volta até Kanan, com o
bisturi em mãos.– Fiquei sem contato com o mundo exterior durante dois anos.
Vamos ver como você se sai ao longo dos próximos dez. Quem sabe? Talvez
você acabe se tornando até bem interessante.
– Espera!– Hera disse, ainda se remexendo.

Vidian a fitou com impaciência no olhar.

– Sim?

– Eu pensei que você fosse interrogar a gente primeiro.

Kanan revirou os olhos.

– Ah, é, me torturar antes de me torturar. Eu não quero nunca me esquecer


disso! – O que ela tinha na cabeça?

Vidian deixou o bisturi de lado.

– Ela está certa.– Ficou em silêncio por um tempo.– Acabo de chamar meu
assistente. Tenham um pouco de paciência.

Outra fenda se abriu no piso. Um globo negro de olhos esbugalhados saiu


levitando de lá. Kanan, debatendo– se para se soltar, reconheceu o droide
interrogador imperial. A reputação dele era bem conhecida e a enorme seringa
que empunhava o identificava inequivocamente.

– Fique quieto – Vidian disse. – Não vai levar nem um segundo.

Os pensamentos de Kanan foram a mil conforme aquela coisa se aproximava.


Mestre Billaba o teria aconselhado a usar a Força. Lance essa coisa contra a
parede! Destrave seus grilhões! Hipnotize Vidian de modo a fazê– lo dar um
longo passeio fora de uma câmara pressurizada! Tentara nunca usar a Força
abertamente no passado, mas aquilo ali era sério. Kanan começou a se
concentrar...

...mas antes que pudesse fazer alguma coisa, o droide interrogador girou a
apenas alguns graus e estendeu sua agulha direto rumo à porta de injeção no
pescoço exposto de Vidian.

– O quê?– Vidian deu uma bofetada no droide flutuante, arremessando– o


contra a parede. Então, caiu de quatro no chão.

Uma enorme passagem se abriu no chão. O trono de Vidian ascendeu ao


cômodo. Skelly estava sentado nele, com Zaluna de pé a seu lado, segurando o
controle remoto do droide.

– Eu acho que aquilo não era soro da verdade– Hera disse.

– Com certeza, não. – Skelly deu uns tapinhas na pequena montanha de


frascos em seu colo. – Eu conheço direitinho os meus produtos farmacêuticos –
disse, escancarando seus dentes quebrados a Vidian.– Durma bem, meu bem.

Deitado na diagonal em outra mesa que não a de Vidian, Skelly se regozijava


com uma massagem de baeta feita por um dos droides médicos do conde.

– Eu não sei quanto a vocês– ele disse. – Mas eu acho que a gente deve
deletar esse sujeito de uma vez. Já chega, né.

Kanan esfregou sua garganta.

– Que tal uma votação?

Skelly forçou sua mão direita ao alto com a ajuda da esquerda.

Hera sacudiu a cabeça.

– Eu quero fazer a coisa certa dessa vez– ela retrucou.– Eu não sou contra
matar esse cara, se for preciso. Mas alguma coisa muito estranha tá acontecendo.
E eu quero ter certeza de que matá– lo não vai acabar causando algo pior!

– Pior do que ele explodir a lua e transformar Gorse num cemitério? – Skelly
perguntou.

Hera sacudiu a cabeça de novo.

– Não, o que eu quis dizer foi... pior, mas diferente. Se a gente assassinar
Vidian aqui e agora, e acabar sendo preso, o Império vai pensar que existe uma
rebelião em Gorse!

– Uma rebelião? Logo lá?– Kanan soltou uma risada. – Aquele planeta não é
bem o berço do pensamento político.

– A coisa vai esquentar quando os expurgos começarem– Hera argumentou.


Apontou para Zaluna, trabalhando num console a seu lado. – A Zal sabe melhor
do que ninguém. Eles vêm coletando nomes. Não vai ser nada aleatório, tipo
cometas caindo do céu. Vai ser muito bem direcionado – Hera explicou. – Ou
talvez seja aleatório, mesmo, com bairros inteiros sendo bombardeados da órbita
só pra servir de exemplo!

Zaluna arregalou os olhos.

– Isso... isso já aconteceu antes?

Hera desviou o olhar.

– Você não vê tudo, como pensa que vê– ela disse em voz baixa.

Fez– se silêncio na sala. Vidian tinha cumprido bem com sua palavra numa
coisa ou noutra, pelo menos: tanto quanto sabiam, ninguém do lado de fora tinha
ouvido nada que se passara dentro do cômodo, nem visto a luta. Zaluna já tinha
apagado tudo das câmeras. Kanan ficou se perguntando por que Vidian gostaria
de se proteger contra os olhos de seu próprio povo. Pelo menos o cômodo não
carecia de dispositivos de contenção. Transferiram– no ao campo de estase, no
caso de ele começar a se mexer, muito embora, de acordo com o droide médico,
o coquetel de Skelly fosse mantê– lo desacordado por algumas horas.

Tempo do qual, pelo visto, precisariam.

– Não tem como invadir esse sistema – Zaluna disse, frustrada.

Hera sacudiu a cabeça:

– Ainda a última senha de acesso?

– E um código, digitado à mão– a Sullustana explicou.– Não teria como ele


entrar só pelo reconhecimento de voz. Se tivesse alguma câmera ou algo do tipo
por aqui, talvez desse pra ver. Teríamos alguma coisa, pelo menos. Mas não há
nada.

A sala ficou em silêncio novamente.

Kanan a encarou:
– Espera um pouco. Talvez haja.– Ele se aproximou de Vidian e virou a
cabeça do homem. Lá, na orelha esquerda, viu uma pequena porta de dados.
Sentiu uma ligeira repulsa, mas logo passou. – Beleza, minha gente– ele disse. –
Quem aqui topa baixar o cérebro de Vidian?
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Zaluna sentou– se junto ao terminal portátil, ao lado da cama de Vidian, e seguiu
com os olhos o caminho feito pelo fio claro e fino que se estendia até uma porta
de dados escondida no ouvido do conde.

– Essa é a coisa mais estranha que eu já fiz na vida. E olha que, pros últimos
dias, isso não é pouca coisa.

Kanan sorriu e arredou o pedaço de um equipamento caído que obstruía a


imagem do holoprojetor.

– Tudo pronto – ele disse. – Pode mostrar pra gente o que é que ele tem aí.

– Eu já desativei os olhos e os ouvidos dele pra que não registrem nada, e já


apaguei também todo o encontro com a gente– Zaluna disse.– Foi muito fácil.
Mas só dá pra mostrar o que ele viu nesse último, deve ser o limite deste
subsistema. – Apertou um botão.– Aí está.

A sala ficou à meia– luz. Do outro lado, em frente ao trono de Vidian,


surgiram imagens holográficas em tamanho real, projetadas pelo emissor logo
acima deles. Os hologramas eram simples estereoscópicos, abrangendo as
imagens dos olhos esquerdo e direito de Vidian, mas com uma nitidez e uma
profundidade fora do comum.

Hera sacudiu a cabeça, espantada.

– A gente tá vendo através dos olhos de Vidian!

– Pois é – Kanan disse. – Dá até vontade de vomitar.


Zaluna avançou e reverteu a visão durante o tempo decorrido, parando apenas
por uma fração de segundo antes de mudar outra vez. As imagens vieram e
foram tão rapidamente que Kanan nem sempre estava incerto do que viu, mas a
Sullustana parecia saber.

– Você pode ver tão depressa? Kanan perguntou.

– Todo dia, por trinta anos. – Disse Zaluna, manipulando os controles. Ela
parecia mais confortável do que ele já viu algum dia. –A vida da maioria das
pessoas não é muito interessante. Você aprende a ignorar e passar por cima
muito rápido.

Ela localizou um fragmento que aparentemente ter sido gravado recentemente,


aqui no santuário. Um terminal de dados que estava no outro lado da sala, veio
até eles.

– Lá. – disse Hera.

Zaluna estava no caminho à frente dela.

– Ele está entrando em sua chave de dados. – disse ela, enquadrando a


seqüência em sentido inverso. –Certo... aqui.

Hera leu rapidamente o código e se lançou no terminal do outro lado da sala.


Poucos segundos depois, ela chamou-o muito feliz.

– Entramos!

Skelly, muito bem medicada, coxeava com ela.

– O que você achou?

– A lista de mensagens de dados subespaciais para Coruscant. – disse Hera


enquanto lia. Ela franziu a testa. Ele já enviou os resultados da prova Cynda ao
Imperador.

Skelly encontrou uma cadeira e puxou-a ao lado dela.

– Encontre o original. Vamos criar uma versão revisada. – dizendo que os


testes falharam. Diremos que houve um erro de medição.
– Eu não sei nem se dá pra gente enviar qualquer coisa que seja. Pelo visto,
precisa de uma senha diferente pra acessar o canal direto do imperador. Ele deve
ter entrado mais cedo e desconectado depois.

– Deve ter sido bem mais cedo, então – Zaluna argumentou, ainda
vasculhando as imagens capturadas pelos olhos do conde. – Nenhum outro
código foi digitado.

– Não dá pra contar sempre com a sorte – disse Hera. – Mas talvez não haja
outra maneira.– Seus dedos se moviam com agilidade pelos controles.

– Tá aqui o arquivo com os resultados dos testes lunares. Vamos ver.

Skelly aproximou o rosto quando Hera começou a ler. Um tempo depois, ela
se interrompeu e ficou olhando para a tela, desconcertada.

– Isso aqui tá muito confuso.

– Linguagem técnica, né– Kanan disse.– Foi por isso que a gente trouxe o
Skelly, que fala essa língua.

– Não é por isso que tá confuso – Hera retrucou, fechando o documento para
abrir outro. – Não tem jeito.

– De fazer a mudança?

– Não, nem precisa – ela respondeu, a um só tempo surpresa e confusa.

– Os resultados iniciais já apontaram que a explosão do teste acabou


desintegrando a maior parte do torilídio. A versão enviada por Vidian é que foi
uma farsa.

– O quê? – Kanan estava começando a pensar que nem um ano seria o


suficiente para que entendessem como funcionava a mente do conde.

Hera passou a ler o documento em voz alta. O relatório original dizia que
havia, sim, torilídio entre os destroços espaciais lançados pela explosão que
matou Okadiah, só que grande parte tinha sido destruída completamente. Um
processo de decaimento progressivo e exponencial foi desencadeado no resto;
dentro de um ano após a destruição da lua, todo o torilídio não recolhido deixaria
de existir. E, ainda assim, Vidian tinha dito ao imperador que havia uma oferta
pelos os próximos dois mil anos. Hera estava boquiaberta.

– Por que é que ele iria querer destruir Cynda quando o que ele quer está justo
lá?

Kanan estava com a mesma dúvida.

– Só sendo doido pra destruir algo tão almejado pelo imperador.

Zaluna encarou Hera.

– Você não acha...

– Que ele é um revolucionário como eu?– Hera abafou uma risada.– Eu


duvido muito. Ele praticamente acabaria morto.

– Ou com uma mesa em Kessel– Kanan retrucou.

Skelly esfregou uma de suas contusões.

– Bem, a gente sabe que ele não passa de um droide sádico maluco. Talvez
isso faça sentido no mundinho dele.

Hera sacudiu a cabeça.

– Ele não é suicida. Tem que haver uma razão pra ele ter feito isso, e uma
razão pra ele não estar preocupado.

A sala ficou em silêncio, a não ser pelo clique sutil do controlador de


holograma de Zaluna, que continuava acompanhando o dia de Vidian.

Kanan vislumbrou a cadeira de Vidian e desabou sobre ela. Lançou um olhar


fatigado à avalanche de imagens. Aquela era a mais alta tecnologia em matéria
de espionagem, mas só haviam conseguido o código de acesso até agora. Olhou
para o chão.

E, então, de volta para cima, onde uma imagem chamou sua atenção.

– Volta essa parte aí– ele disse.


Zaluna assim o fez.

– Olhe, há um homem bem vestido – ela disse. Era um jovem humano loiro,
vestindo trajes régios de negócios: um conjunto de roupas ricamente adornadas,
com botões dourados e meia capa pendurada no ombro direito.

A imagem, porém, não se parecia com as demais. – A resolução dessa


imagem está diferente de todo o resto. Estranho.

Hera reconheceu a pessoa.

– Esse é o barão Danthe, o magnata dos droides. – Hera estava por dentro de
tudo, para variar, mas parecia confusa.– Ele também é do governo imperial, é
adido de Vidian lá em Coruscant. Eu o encontrei na minha pesquisa. Ele tava
aqui?

– Ele não estava aqui – Kanan respondeu, estalando os dedos. – A imagem tá


diferente porque ele também é um holograma.

– Um holograma num holograma? Ele não deveria estar azul e meio


distorcido?

Zaluna sacudiu a cabeça enquanto ajustava os controles.

– Não se Vidian canaliza as mensagens direto em seus olhos. E é uma


mensagem, de fato. Pelo visto, Vidian salvou o áudio da conversa.

As imagens começaram a se mover, e eles escutaram a voz desincorporada de


Vidian.

– Barão Danthe, como posso fazer meu trabalho se você não me deixa em
paz?

– Sou apenas o mensageiro. O imperador quer garantias imediatas de que você


ê capaz de produzir o contingente anual de torilídio– o jovem disse.

– Meus planos hão de prover toda a demanda do imperador, a menos que você
o convença novamente a elevar a cota total.

– Meu caro conde, assim você me deixa magoado. Eu nunca...


– Poupe– me. Estou prestes a enviar o relatório a Vossa Majestade Imperial.

– Maravilhoso. Se você pudesse me copiar nessa...

– Pois não copiarei. Tratam– se dos meus domínios, não dos seus– uma
pausa.– Se você deseja tanto assim assumir tal responsabilidade, barão Danthe,
tudo bem. Tão logo eu cumpra com êxito as metas anuais do imperador,
assuntarei sobre a possibilidade de transferir a gestão de Gorse a seu escritório.

– Generosidade de sua parte, senhor. Não sei o que...

– Não diga nada. Limite– se a ficar longe de meus assuntos!

A imagem do barão desapareceu.

– Rapaz, eles realmente não se dão bem – Kanan disse. – Você viu o
sorrisinho irônico do tal barão? Eu não confiaria num sujeito desses nem pra
abrir a porta pra mim.

– Faz sentido – Hera disse. – O imperador espera que Vidian satisfaça a cota,
por isso que ele quer partir a lua ao meio feito um ovo. Ele acabaria produzindo
uma quantidade de torilídio que daria pro ano todo e, assim, cumpriria sua meta.
Mas quando o minério acabar antes do previsto, o Danthe que terá que se virar!

– Quanta maldade– Kanan disse, referindo– se a Vidian, inerte. – Eu sabia


que esse cara era o mal em pessoa.

– Espera um minuto aí– Skelly entrou na conversa.– O imperador não ia


aceitar a palavra de Vidian sobre esse relatório. Vidian é um gestor, e não um
cientista. Quem foi que assinou o relatório?

Hera se voltou à tela novamente.

– Não acredito que eu passei isso batido. Lemuel Tharsa!

Kanan pestanejou.

– Esse cara de novo. Quem ele é, afinal?

Hera sacou seu datapad do bolso.


– Eu já tinha descoberto isso antes. De acordo com a HoloNet, por quinze
anos, Lemuel Tharsa atuou como analista– chefe na Minerax Consulting,
produzindo estudos sobre matérias– primas encomendados pela iniciativa
privada e, mais recentemente, pelo governo imperial.

Zaluna logo se animou:

– Esse é o sujeito de quem alguém no destróier estelar nos perguntou. Não


havia muito sobre ele no cubo de dados, só o Bioscan padrão na alfândega.

Hera a encarou.

– Checa a refinaria da Moonglow, mais ou menos uns vinte anos atrás. Eu


achei várias credenciais de entrada emitidas no nome dele.

– Ah – Zaluna disse. Abriu sua bolsa e tirou o cubo de dados de Hetto.


Desligando o acesso à memória visual de Vidian, conectou o cubo ao terminal
que operava. – A Moonglow fazia parte da Introsphere naquela época. Já então,
monitorávamos todo o prédio.

Skelly revirou os olhos.

– Por que será que eu não tô surpreso com isso?

– Muito desse material antigo não chegou a ser analisado. Nós provavelmente
não soubemos por onde começar quando essa investigação toda começou.– Os
dedos ágeis de Zaluna voavam pelo console.– Eu estou executando uma busca
visual pelo nome, limitada a crachás de segurança.

– Tem alguma coisa que você não consiga fazer? – Kanan esfregou a testa.
Esconder seus talentos provindos da Força até de si mesmo já fazia muito mais
sentido agora.

– Pronto– Zaluna disse. – Aqui está ele.

O holoprojetor foi outra vez ativado, e um humano apareceu. Kanan ficou de


pé e se aproximou da imagem em tamanho real.

Os dados biométricos que Zaluna tinha encontrado nos arquivos aduaneiros


diziam que o sujeito estava na casa dos trinta anos quando da visita, apesar de
parecer bem mais velho: algum gerente atormentado, prematuramente careca um
tanto por isso, com alguns tufos acaju isolados. Seu terno estava encardido; seus
sapatos, gastos. Poderia se passar por qualquer um.

Ainda assim, Kanan achou que havia algo estranhamente familiar em Lemuel
Tharsa. Sua postura, seus gestos enquanto vociferava a um executivo, o qual
visivelmente não estava dando a mínima ao que ele dizia.

– O que é que ele tá falando? – Kanan perguntou.

– Parece que só conseguimos um fragmento dessa conversa – Zaluna


pressionou um botão.

– ... Não tenho que lhe dizer de novo quais são as regras de segurança da
guilda. Eles são os mesmos em qualquer parte do negócio. Eles estão fazendo
isso de forma errada. Esqueça o jeito antigo!

Skelly riu.

– Eis aí o antigo lema de Vidian, antes dele dizer isso.

Kanan e Hera se olharam, depois para o propenso Conde, e então para de volta
para a imagem. A voz estava diferente, com certeza, mas a intonação era similar.
Hera levantou-se e se aproximou de Zaluna.

– Onde você disse que estavam os dados biométricos em Tharsa?

– Bem aqui. – Zaluna pressionou o console. –Fazemos um pequeno trabalho


com eles no Transcept. O principal espaço-porto os exige para que todos os
visitantes pousem. – Kanan arrepiou-se, felizmente ele pousaram com um
cargueiro mercante o que impediu essa rotina.

– Não posso acreditar que vou perguntar isso. Ele olhou para Vidian. –Os
dados biológicos de Vidian estão nesse console médico?

– Deveriam estar – Entendendo o que Hera pensou, Zaluna fez uma


comparação. Os resultados apareceram na tela. –Os marcadores genéticos são
idênticos à amostra Tharsa quando foram inseridos. Não dá para comparar os
olhos, a voz ou as digitais, mas, por baixo de tudo, temos o mesmo cara.
– Uau! Disse Skelly, vendo Vidian e a imagem de Tharsa. Ela coçou a cabeça.
–Não, não Algo está errado. Eu vi um pedaço da sua biografia na HoloNet.
Vidian era um constutor defensivo, próximo de morrerr da síndrome de Shilmer.
Ele não era um inspetor de segurança. – Ele riu. Que irônia é essa?

– Muito. – disse Hera, estudando os resultados. Mas é ele.

Skelly ficou atordoada.

– Então a biografia de guerra de Vidian era uma mentira? Ele deveria ser sido
um delator, ajudando as tropas!

Hera olhou para Skelly com empatia.

– Ah vamos, você realmente se surpreendeu?

Skelly levantou as mãos.

– É mais divertido quando... penso em conspirações.

– Então Tharsa ficou doente e se tornou Vidian. – Kanan cruzou os braços. –


Isso aconteceu em Gorse? Existem registros do centro médico?

– A República tinha leis de privacidade mais rigorosas, – disse Zaluna. –Era o


único lugar para o qual não tivemos acesso. Os únicos registros seriam
diretamente no local.

– Ou não mais. – Ele franziu a testa. –Vidian teve o centro médico demolido
em sua visita. Mas eu não sei por que ele agora teria cuidado de cubrir suas
pistas, ou porque alguém na Ultimatum iria ficar perguntando sobre Tharsa.

Kanan olhou para ela, perplexo.

– Essa é a única coisa que não entendo. Por que ele não manteve seu nome
original?

Hera pensou por um momento... e ficou claro.

– Porque ele procuraria manter Tharsa vivo. Ele ainda está trabalhando com o
Império como conselheiro, lembra? Ela voltou para o terminal na área mais
distante da sala e apontou para a tela. E veja o que ele tem sido responsável!

Kanan ficou atrás dela e leu. Era uma longa lista de coisas, algumas
recentemente datadas.

– Eu... não saquei. O que são essas coisas?

Hera passou o dedo pelos registros na tela.

– Relatórios técnicos da consultoria Minerax. O nome de Tharsa está em


muitos deles como responsável como preparador – Seus olhos examinaram os
títulos. –Existem dezenas de mundos, dezenas de projetos. Algumas são coisas
que Vidian trabalhou para o Império, e outros são de antes, da época da
República.

– Ele é seu próprio auditor independente? – Skelly riu. –Existe uma maneira
eficiente de enganar seus clientes e isso é fazer sua própria investigação
fraudulenta! Ele olhou maliciosamente para o corpo sem vida de Vidian. Estou
impressionada. Você é o mestre. De verdade.

Kanan assentiu. As coisas estavam caindo no lugar. Se alguém tivesse


perguntado sobre Tharsa, talvez Vidian tivesse apagado suas impressões digitais
em Gorse para evitar que alguém fizesse uma conexão. O nome de Tharsa ainda
seria sido bom para o Imperador, desde que não suspeitasse de nada. O plano de
Vidian de destruir a lua passaria facilmente.

Hera olhou para os lados.

– Aqui está outro arquivo com o nome de Tharsa, algo antigo e acessado hoje.
Mas não consigo abri-lo.

– Não há problema, – disse Kanan, virando-se. –Zal?

– Trasmitindo, – disse Zaluna, passar pra frente o fio ligado à cabeça de


Vidian.

Hera levantou-se e foi para onde Kanan estava. Ele sorriu para ela.

– É algo, certo?
– É algo, – disse ela, olhando para as portas exteriores. –Não tenho certeza do
que é.

– Enviamos a versão correta para o Imperador, é isso, – disse Kanan.

– Não por esse sistema – Hera rebateu. – E eu não acho que o imperador
verifique as próprias mensagens, em especial aquelas vindas de um dissidente
qualquer.

Ela jogou a cabeça para trás e mirou o teto. Estava com aquele olhar de novo,
o mesmo que dizia “estou a cinco passos a sua frente” em qualquer que fosse o
jogo dela. Ele gostava daquele olhar, ainda que o deixasse um pouco
desconfortável. Olhou para trás.

– Tá tendo sorte aí, Zal?

– Eu não consigo decifrar o código– Zaluna disse.– Eu não sou um slicer. É


melhor sequestrar um da próxima vez.

Kanan olhou para Vidian. O tempo estava se esgotando. Poderiam dopar o


conde outra vez, mas alguém acabaria procurando por ele.

Kanan se virou a Hera.

– Você acha mesmo que tem alguma coisa importante nesse arquivo?

Ela confirmou com a cabeça.

– É o único que está tão bem protegido assim. E...– ela acrescentou, com certa
cautela.– Tenho um pressentimento.

– Pra mim, só isso já basta – Kanan disse, caminhando até a mesa de Vidian.
– Traz aquele droide médico de volta pra cá. Eu tenho um plano.
45
– Mais rápido, aí! Se vocês estivessem carregando torpedos na minha nave, eu
teria lançado vocês na próxima!

Os trabalhadores vestidos de laranja começaram a se mover mais rápido, mas


caminharam para a fim de evitar a Sloane, negando aumentar a velocidade.

As coisas não estavam indo bem. Três dos mineiros de Gorse tinham
derrubado alguns recipientes, causando vazamentos de refrigerante que
clarearam o chão durante dez minutos dessa vez. E enquanto a manutenção
removia o droid tolo que tinha de alguma forma se amontoado no tubo
pneumático, eles tinham feito longos cortes no interior da parede almofadada
interna no processo. Agora estava sendo consertada. Civis!

Pelo menos, essa experiência deu um pouco mais de mentira a lenda de


Vidian, pensou ela. Se o Estação Calcoraan deveria ser o domínio do homem que
viu tudo e mantinha tudo funcionando, ele estava dormindo em serviço.

Caso contrário, não houveria problema. Ciente de que o terrorista de Gorse


estaria entre os trabalhadores recrutados para transportar os explosivos, Ela
aceitou uma pistola e um coldre de stormtroopers. Isso não seria necessário.

Nenhum dos trabalhadores tropeçou no que realmente estavam ajudando: a


possível destruição suas próprias casas. A coisa toda, ela pensou, poderia acabar
ficando feia.

Seu comlink bipou. Levou sua mão até o dispositivo.

– Sloane.
– Capitã– zumbiu uma voz familiar.

– Conde Vidian– ela disse, abruptamente.– O carregamento está quase


concluído. Estaremos prontos para partir de volta a Gorse em breve.

– Estou precisando de você. Apresente– se em meus aposentos executivos,


sozinha.

A testa de Sloane enrugou.

– Algo sobre o relatório ao imperador?

– Pode-se dizer que sim – foi a resposta.– Venha de uma vez.

– Sim, senhor.

Sloane desligou seu comlink. Já estava ficando cansada de estar sempre à


disposição de Vidian. O capitão titular da Ultimatum, porém, poderia aparecer
para retomar seu comando a qualquer momento, mandando– a de volta à lista de
espera na companhia de um mundaréu de gente. Teria de dançar conforme a
música.

Passou por um tenente enquanto marchava em direção a um bonde livre.

– Diga ao comandante Chamas para monitorar o carregamento – ela disse. –


Eu já volto.

***

A antecâmara de Vidian era exuberantemente decorada. Os que se faziam


presentes no escritório, porém, pareciam alheios a tudo em volta. Cerca de vinte
homens e mulheres de várias espécies, todos “aperfeiçoados” com implantes
cibernéticos, perambulavam monasticamente pelo cômodo opulento, balançando
a cabeça como se estivessem ouvindo música. Nenhum deles percebeu a chegada
de Sloane. Estavam todos sintonizados em eventos a sistemas de distância,
administrando o fluxo de bens e serviços vitais ao funcionamento do Império nos
domínios gerenciais de Vidian. Sloane ficou se perguntando se nunca nenhum
deles tinha chegado a cair num poço de um elevador aberto enquanto andava
com a cabeça nos dispositivos da Wor Tandell.
Identificando– se aos stormtroopers que montavam guarda, entrou num longo
corredor. A porta dupla no extremo oposto se abriu assim que ela se aproximou.
O cômodo jazia na penumbra.

Sloane revirou os olhos. Que coisa bizarra. Respirando fundo, deu um passo
adentro.

– Conde Vidian?

Outro passo e as portas se bateram por trás dela. Sloane ouviu algo se
movimentando no escuro. Sacou sua arma de raios, mas acabou sendo
surpreendida por um chute que a derrubou de sua mão. Escutou o barulho da
arma quicando pelo escuro. Um vulto ágil e sombrio se precipitou a sua direita:
o agressor. A capitã ainda levou uma das mãos novamente à cintura, dessa vez
em busca de seu comlink, e foi então que alguém agarrou seus braços com força
por trás, virou– a ao contrário e a empurrou.

Sloane não chegou a cair no chão, nem nada. Ouviu o zunido ainda no ar e
sentiu o intenso impacto de uma força invisível prendendo seu corpo no lugar.
Era um campo de estase, como os da prisão militar. A pessoa que a tinha
empurrado caminhou a sua frente no escuro antes de se virar e jogar a luz de
uma lanterna em seu rosto.

– Capitã Sloane? – era a voz de Vidian, vinda da direção da luz.

– Conde Vidian? O que está acontecendo?

A lanterna se moveu e Sloane notou que, apesar de ser mesmo a voz de Vidian
lhe dirigindo a palavra, ele se encontrava amarrado a uma mesa, imóvel. A luz
da lanterna contornava levemente os traços do conde. Havia um intervalo em sua
gargantilha onde o alto– falante eletrônico deveria estar.

– Que bom que você recebeu minha mensagem.– Dessa vez, Sloane percebeu
que a voz estava vindo da pessoa com a luz portátil e com os olhos apertados, ela
só conseguia distinguir a figura pressionando algo contra seu próprio pescoço.

– Bugiganga bacana. É ativado com os músculos da garganta.

– Você se disfarçou dele!


– E bem. – disse o auto-falante, ainda usando o dispositivo. Sua luz voltou
para Vidian, e o auto-falante virou suas as costas pra ela. –Devolva isso,
viciado, e recue. – Ele ouviu alguém dizer isso em uma voz diferente e mais
suave. Há alguém mais na sala que rastejava em direção à mesa.

Sloane se forçou a ver, mover ou fazer qualquer coisa.

– Liberte-nos agora. – disse ela em seu tom mais autoritário. –Você não vai se
safar dessa!

Não há resposta.

– Espero que o Conde esteja vivo e ileso ou irá ter uma marca de morte em
todos os sistemas da galáxia!

Ainda não há resposta.

Sloane ficou com medo. Fanáticos como o terrorista de Gorse não se


importam com as consequências. Depois de um breve silêncio, ela decidiu
aplicar outra tática.

– Olha. – ela disse com mais calma. –Posso conseguir que as suas queixas
sejam ouvidas. Mas isso só acontecerá se vocês deixarem eu e o Conde livre sair
daqui imediatamente.

A figura com a luz brilhava nela novamente.

– Ah, não vá tão cedo? Mas esse é nosso primeiro encontro!

Sloane reconheceu essa voz. Com a boca aberta, ela disse:

– Você é o piloto tagarela!

– Ele trouxe a luz por baixo do seu queixo e mostrou um sorriso demoníaco.

– E sempre bom ser lembrado.

Sloane estava embasbacada.

– Nós checamos seu crachá lá em Gorse. Kanan alguma coisa.


– Kanan. Alguma Coisa tá de bom tamanho. – Jogou a luz no rosto dela
novamente.

Ela começou a encaixar as peças.

– Um piloto da Moonglow. Foi como você conseguiu entrar aqui. – Encarou o


feixe de luz.– Pois acho que o senhor se perdeu do restante do grupo, não
deveria estar aqui.

– É que eu tava doido pra te ver – ele disse, açucarando a voz. – E aposto que
você morreu de saudades, né?

– Kanan!– alguém sussurrou, quase gritando em meio à penumbra.

Sloane disparou um olhar ao interlocutor:

– Ah. Sua coleguinha de trabalho. – Quem lhe dera o chute, ela supôs.

E havia ainda outros vultos na escuridão, incluindo uma pessoa esbelta à


mesa, mexendo no vocoder de Vidian. – Vocês estão todos juntos com ele?
Vocês são cúmplices, sabiam? O que foi que ele pediu pra vocês fazerem?

– Deixa eles pra lá – Kanan retrucou. – Será que você ainda não se tocou? Eu
sou um agente infiltrado, mas numa missão que você com certeza vai aprovar.
Eu sirvo ao imperador. – Fez uma pausa, antes de acrescentar: – Diretamente.

Sloane baixou os olhos, encarando Kanan por vários segundos. Em seguida,


caiu na gargalhada.

– Você, um agente do imperador?

– O que foi?– Kanan fez uma careta. – E totalmente plausível.

Sloane tentou, de todas as maneiras, parar de rir.

– Eu acho que ele conseguiria coisa melhor do que você! O que pilotos
suicidas como você fazem? Por acaso, ficam bebendo de porto em porto?

Será que você se perdeu de seu taberneiro?

Kanan bateu com o polegar no peito:


– Eu sou um homem com uma missão.

– Você é um idiota com uma ilusão. Você sabe qual é penalidade por se passar
por um agente pessoal do imperador?

– Não.

– Pois um agente pessoal do imperador saberia!

– É aí que você se engana. Não vai ter penalidade nenhuma, sabe por quê?
Porque ninguém se atreveria a tanto.– Kanan colocou a lanterna no chão,
inclinada de modo a apontar na direção de Sloane. Caminhou até um painel de
controle perto de onde ela estava suspensa e apertou um botão.– Agora, escuta
bem o que é que vai acontecer. Eu vou te dar um recado e, logo depois, vou
seguir meu caminho. O campo de estase tá programado pra te libertar com certa
folga de tempo pra você fazer o que precisa fazer, antes de Vidian acordar.
Entendido?

– Pois deixe que eu lhe diga o que vai acontecer, em vez disso– Sloane
retrucou. – Você vai me descer daqui, ligar essas luzes, soltar Vidian e, depois,
nós todos vamos direto ao bloco de detenção. Pode guardar sua conversa fiada a
um dos droides interrogadores.

– Isso seria um erro. – Kanan começou a andar em volta da sala escura.– Eu


tenho uma informação vital pra você e pro imperador.

– Se você fosse o agente do imperador, já teria relatado diretamente a ele. O


que você quer de mim?

– Vidian controla todo o sistema de comunicação dessa estação. Eu não posso


correr o risco dessa mensagem ser interceptada. Eu preciso de um capitão
imperial, com seus próprios recursos. – Ele a encarou, de modo sagaz.– Você
tem muitos recursos, não tem, não?

– Eu sei dizer quando estou sendo manipulada. – Fez força contra o campo de
estase– Já chega disso. Alguém vai acabar vindo me procurar.

– Isso seria um erro. – Kanan começou a andar em volta da sala escura.

– Então, é melhor falar rápido. – disse Kanan.


– E é melhor você ouvir. Como sua vida depende disso .
46
De volta ao seu traje de proteção, Kanan levantou outra lata de baradium 357
para fora o hovercart para um armário da Expedient.

– A semente foi plantada.

Através de sua máscara, Zaluna olhou para ele.

– Esta foi a coisa mais emocionante que fiz na minha vida e também a mais
cansativa. O que fazemos agora?

Ele bloqueou o cilindro num suporte magnético.

– Deixe estas coisas pra sempre. – disse Kanan, enquanto tirava sua máscara
de proteção e jogava no convés. Uma vez que os cilindros foram garantido, a
roupa protetora corpulenta poderia ser descartada.

Enquanto Zaluna tirou a máscara, Kanan viu que a mulher de Sullustana


estava sem fôlego.

– Quero dizer, e se o que você fez não funcionar? Ela perguntou. Com o
Capitão, regresse.

– Não se preocupe, vai funcionar. – disse Kanan ao deixar seu traje. Sloane já
foi vendida, posso lhe garantir.

– Você poderia ter certeza? – Uma vez que a escotilha estava fechada atrás
dela, Hera tirou a máscara e franziu a testa. –Sloane pensou que você estava
louco.
Kanan fez um gesto desdenhoso.

– Skelly está quebrado. Eu parecia um adulto responsável.

– Quem queria pagar uma bebida pra ela. Essa coisa do seu charme não
funciona em todas as situações, Kanan. – Hera passou por ele e sentou-se no
banco do piloto.

– Cuida do Skelly.

Skelly, de bruços, onde ele tinha acelerado o desmaio no sofá, debilmente


tentou remover o capuz com a única mão funcionando. Ele finalmente conseguiu
ao puxar a máscara e deu a Kanan. O homem parecia mal. Eles tinham carregado
os explosivos e faziram o caminho de volta para a nave o mais rápido possível,
não houvesse deixado espaço para o Skelly dirigir o hovercraft. A caminhada
tinha sido difícil para ele, e Hera e Zaluna o apoiaram metade do caminho. Eles
tinham sido os últimos membros da tripulação a regressar, e por pouco evitando
serem notados.

Skelly olhou para cima, seu rosto torcendo de dor.

– Ainda acredito... que deveríamos tê-lo matado.

Kanan balançou a cabeça, não ia explicar de novo. Ele levantou Skelly do


assento e colocou uma máscara de oxigênio.

– Confie em mim. Isso vai funcionar.

– E... se isso não funcionar? Skelly disse entre inspirações. Precisamos...


avisar Gorse.

– Qual é o ponto? Perguntou Kanan enquanto o movia para frente. O Império


declarou o impedimento as decolagens em Gorse. Ninguém podia sair.

– Existem túneis – disse Skelly –E abrigos de bombas.

– Hera me disse que eles fazem boas casas. – disse Kanan enquanto ele se
acomodava no assento do passageiro ao lado dela. –Vamos esperar não chegar a
isso.
Zaluna olhou para a frente enquanto os motores se aceleraram.

– Você precisa falar com todos no planeta ao mesmo tempo...

Kanan a fitou:

– Você tem alguma ideia?

Ela sacudiu a cabeça.

– Não... nada não. – Ela se afundou em sua cadeira, fatigada. – Nós já


fizemos o bastante.

Hera se virou para encarar Zaluna.

– Bora, Zal. Você sabe como ajudar, não sabe?

Zaluna soltou um longo suspiro.

– Eu acho que existe uma maneira– ela finalmente disse. – Só não dá pra
fazer com o transmissor dessa nave. Eu preciso de algo que tenha sido produzido
nos últimos mil anos, pelo menos.

– Epa, eu tenho certeza que essa nave foi toda reequipada, não faz nem um
século – Kanan retrucou, mirando o anteparo. Mas estava longe de querer ficar
defendendo a Expedient, independente de tudo o que ele e a nave tinham
passado. Olhou para Hera. – E quanto a sua adorável condução?

– Tá completinha – ela respondeu, puxando o manche. A Expedient ficou


suspensa no ar. – Minha nave deve dispor do que quer que você precise. Isso, se
a gente puder pousar em Gorse e chegar até lá.

– Vão atirar na gente tanto na descida quanto depois, na subida.

– Na subida, eu nem me preocupo. – Ela sorriu.

Eu tenho que ver essa nave de perto, Kanan pensou outra vez enquanto a
Expedient virava ao contrário em pleno ar.

– O que é que você tem em mente, Zaluna?


– Eu ainda tenho a senha de Vidian. Se nós pudéssemos enviar um sinal,
simulando um pedido imperial de controle seletivo, daria pra enviar uma
mensagem de emergência a todos os sistemas eletrônicos espionados pela
Transcept em Gorse. – Ela fitou Kanan com certo receio. – Mas só seríamos
capazes de fazer isso uma única vez. Fechariam todas as portas de acesso, logo
depois.

– Uma mensagem, então. Vai ter que bastar– Hera disse, conduzindo a nave
pelo campo magnético, rumo ao espaço. – A gente teria que chegar lá e fazer
tudo antes que ele mude a senha.

– Isso, se ele chegar a perceber que a gente fez alguma coisa – Kanan rebateu.
– O que ele não vai. – Apontou adiante. O tráfego até fluía bem do lado de fora
da estação, e ele pôde ver os caças TIE realizando o sobrevoo de rotina.– Estão
vendo só? Ninguém tá atirando na gente.

– Só porque sua nova amiguinha não convocou a artilharia pesada. Ainda.–


Hera retrucou...

...e tão logo ela o fez, a Expedient estremeceu bruscamente. Zaluna gritou.
Kanan e Hera se entreolharam, apreensivos.

– É só o raio trator de estacionamento levando a gente pra fora– Kanan


finalmente disse, acenando adiante com a cabeça. A nave estava virando ao
contrário, avançando em direção ao perímetro espacial.

Hera respirou fundo e soltou um assobio.

– É melhor torcer pra que essa coisa solte a gente antes que o campo de estase
solte a Sloane.

– Eu já te disse pra não se preocupar – Kanan reiterou, recostando– se no


assento e esticando as pernas. – Nada disso é necessário. Acabou pro Vidian.
Sloane virou a casaca.

– Senhor! Senhor!

Conde Vidian despertou. Costumava recobrar de pronto os sentidos após o sono,


fosse induzido por medicamentos ou não. Seus olhos ativaram um segundo
depois dos ouvidos, e ele se deparou com o semblante angustiado da capitã do
destróier estelar debruçada sobre si.

– Sloane? O que está acontecendo?

Ela puxou as amarras que prendiam-no à mesa de operações.

– Você estava inconsciente. – disse ela, enquanto tentava remover uma das
algemas de duraço que amarrava seus pulsos.

– Você está bem?

– Eu acho que sim. – ele murmurando um comando, ele reviu tudo o que seus
olhos haviam gravado nas últimas horas. Não havia nada, desde o momento em
que ele estava inconsciente, nem mesmo uma lembrança dos pesadelos que ele
teve ultimamente. Nem seus sentidos registaram nada da última hora, durante a
batalha com o piloto e seus companheiros. Uma falha, causada pelo dano na
luta?

O servomotor no seu quadril foi ativado e ele sentou-se à mesa. Olhou em


volta para a bagunça no seu espaço vital.

– Alguém me drogou.

– Havia intrusos. – disse Sloane, movendo-se com as algemas prendendo seus


tornozelos.

– Eles também me atacaram quando eu entrei. Eles me acertaram com seu raio
de imobilizador e depois partiram.

Vidian olhou em volta.

– Através do chão?

Sloane assentiu com a cabeça.

– Estava escuro, eu não podia ver muito. O que eles queriam?

– A mim. Vidian apoiou-se para baixo e arrancou as algemas do tornozelo


com as mãos de metal. As algemas foram projetadas para suportar a tentativa de
libertação, mas mesmo assim eles não sobreviveram à ira de Vidian.

– Eu quero uma pesquisa completa. Bloqueie a estação! – Ele abriu um canal


em seu comlink e preparou-se para dar a ordem.

Sloane falou antes dele.

– Meu senhor, um deles falou comigo. – Seus olhos negros mostravam


preocupação.

– Ele afirmou ser um agente do Imperador.

– O quê? – Vidian fechou o canal de áudio e a encarou. – Quem?

– Uma das pessoas que me emboscou – ela disse.

– Um agente do imperador? – Vidian se afastou da mesa e ficou de pé,


virando– se de costas à capita. – O que... ele disse?

– Um monte de besteiras. Alegou que o senhor estava agindo contra os


interesses do imperador no projeto de Gorse. Que seu plano era destruir a lua e
todo o torilídio, independente da produção.

Vidian ficou paralisado. Com certa cautela, ele se virou para encará– la.

– Quão divertido. Mas, diga– me, quais foram os motivos apontados por tal
místico para que eu fizesse uma coisa dessas?

– Só ficou esbravejando coisas sem sentido, conde Vidian. Nem prestei


atenção.

– Talvez, ele pense que sou algum tipo de traidor? Algum trapaceiro tentando
atropelar a hierarquia?

Sloane deu uma risada.

– Eu acho que ele era louco, só isso. – Ela o encarou. – O senhor já acionou a
segurança ou eu mesma faço isso?

– É o que estou fazendo neste exato momento – Vidian disse. Ao orientar


seus olhos a verificarem os relatórios de vigilância da estação, porém, não
encontrou quase nada que sua equipe pudesse usar para seguir adiante. Nada de
anormal fora identificado a bordo da Estação de Calcoraan nas últimas horas.
Tinha reconhecido o pistoleiro de Cynda e se lembrado de Skelly. Mas todos os
trabalhadores a bordo estavam portando máscaras Hazmat, e as naves já tinham
partido. Uma breve averiguação dos feeds de dados dos droides médicos
presentes na sala atestou que até mesmo as memórias deles tinham sido
deletadas.

Os infiltrados eram bons no que faziam, quem quer que fossem.

Os relatórios dos sentinelas TIE no perímetro do sistema confirmaram que


todas as naves já tinham partido rumo ao hiperespaço: em direção a Cynda,
conforme ordenado. Se os agressores não se encontravam mais a bordo da
estação, restava apenas outro lugar onde poderiam estar.

Yidian pensou rápido sobre seu movimento seguinte. Não tinha certeza de
quem eram seus agressores, tampouco sobre o que diriam caso fossem
encontrados. Só o que importava, no entanto, era se certificar de que nada
interferisse na destruição de Cynda.

E havia uma maneira de fazer isso.

– A Ultimatum chegará ao sistema de Gorse antes dos últimos cargueiros de


barádio?

Um pouco estarrecida com a repentina mudança de assunto, Sloane


confirmou.

– Ainda estão por construir um cargueiro que corra mais do que um destróier
estelar.

– Ótimo. Quero toda sua frota de caças mobilizada, controlando a entrega


final. Envie caças TIE extras daqui mesmo, utilizando os cargueiros da Gozanti.
Se algum cargueiro sair um centímetro da rota prevista, quero a nave destruída,
seja de carga ou qualquer outra. E independente de qualquer perigo que o piloto
da Frota Imperial possa correr. Entendido?

– Eles cumprirão seu dever. Por mim.– Sloane lhe lançou um olhar penetrante.
– O senhor acha que os invasores estão indo para Gorse?
– Não custa nada estar preparado para isso. – Vidian atravessou a sala até um
armário caído. Colocando– o de volta no lugar, pensou sobre seu outro
problema. Duvidava de que o pistoleiro fosse um agente do imperador; apesar de
Palpatine gostar de testar a devoção de seus subordinados, nunca seria assim tão
desastrado. Tampouco era capaz de conceber que um bando de amadores
desembarcassem com êxito em sua estação, simplesmente em busca de vingança
pela morte de Lal Grallik.

O que Vidian poderia facilmente conceber, no entanto, era que o piloto e os


amigos dele fizessem parte de alguma trama armada por um de seus vários
rivais. E isso significava que ele teria de ser mais cauteloso. Não fazia ideia do
que o piloto tinha dito a Sloane, mas teria de se certificar da lealdade dela, e de
seu sucesso final.

– Estou grato por você ter me libertado, Sloane. Isso poderia ter sido...
embaraçoso.

Ela deu de ombros.

– Apenas meu dever para com o senhor.

– Então, hei de cumprir o meu para com você.– Ele ficou parado por alguns
segundos antes de retomar a palavra em voz alta.– Acabo de enviar uma
instrução verbal à equipe de meu escritório em Corellia. Em poucos dias, o
capitão Karlsen receberá um convite dos mais lucrativos para se juntar ao setor
privado.

Surpresa, Sloane ergueu a mão em sinal de protesto.

– Senhor, eu não estava esperando por...

– Após isso, a Ultimatum se tornará de sua inteira e exclusiva


responsabilidade.

A notícia pareceu tirar– lhe o fôlego. Ótimo, Vidian pensou.

– Regresse com a Ultimatum conforme planejado enquanto eu finalizo os


preparativos a bordo da nave de coleta. Uma vez que a lua estiver destruída e a
Forager começar a operar, o imperador há de ver o retorno, e nosso trabalho em
conjunto será reconhecido.
– Em conjunto, senhor?

– Você há de receber os devidos créditos por ajudar a fazer isso acontecer tão
depressa. Eu poderia, inclusive, solicitar que você e a Ultimatum sejam
permanentemente destacadas a minha pessoa. – Ele a encarou no fundo dos
olhos.– Quem é a mais jovem almirante, eu me pergunto?
47
Havia pouco a se fazer uma vez que a nave entrasse no hiperespaço, o reino
interdimensional entre as estrelas. E menos ainda se essa nave fosse a Expedient,
que não contava com cozinha nem alojamentos. Além disso, a cabine não provia
privacidade alguma; Skelly não parava de roncar em sua poltrona e Zaluna, até
então inabalável, tinha passado a revirar, nervosa, o conteúdo de sua bolsa
mágica. Bem, mesmo os mais fortes chegavam ao limite, sobretudo quando a
destruição espreitava seu mundo natal.

O único refúgio encontrava– se nos fundos da nave, num dos corredores


transversais da área de carga. E lá, bem no cantinho, de pé em meio às
prateleiras dos canisters de barádio– 357, estava quem ele queria ver.

– É aconchegante aqui atrás, né? – Kanan disse. – A gente podia pedir uns
flatcakes.

– Engraçadinho. – Hera prendeu o sorriso por não mais do que um instante.


Parecia cansada.– A gente precisa conversar.

– Com todo o prazer. – Kanan vislumbrou uma prateleira mais baixa, sem
canisters, no fim do corredor. Dois lugares improvisados.– Eu dei um jeito no
transponder de identificação como você pediu. Ele vai indicar outra nave,
diferente da que pousou na Estação de Calcoraan, se é que eles já se deram conta
de que foi a gente quem pegou Vidian.

Hera ainda ostentava o mesmo semblante preocupado, ele notou.

– O que é que tá te incomodando dessa vez? – Kanan perguntou.

– Skelly. – ela disse suavemente e assentindo em direção a cabine. –Eu acho


que ele está em perigo.

– Ele está sempre em perigo.

– Eu acho que ele está morrendo. – ela disse. –As piadas são uma fachada. Ele
está muito mal.

Kanan inspirou profundamente e assentiu. Ele havia notado o mesmo.

– Vidian fez um belo trabalho nele. Ossos quebrados, sangramento interno. –


Ele balançou a cabeça. –Eu consegui acompanhar as leituras do droide médico.
Pretendia abri-lo ali mesmo.

– Precisamos levá-lo para um centro médico. – disse Hera. Ele navegando


sozinho só por força de vontade.

– Isso ele tem muita. Mas onde podemos levá-lo? Estamos prestes a dizer a
todos em Gorse que salvem suas vidas.

Hera suspirou.

– Tem razão. Eles vem primeiro. Ele vai ter que aguentar. – Ela olhou para ele
na pequena janela à sua esquerda, no final do corredor. As estrelas passaram a
toda velocidade. Kanan pensou que ela parecia espetacular, mesmo com a
possibilidade de ser derrotado. –Não é por isso que você veio a Gorse, ou era?

Ela riu sombriamente.

– Nem chegou perto. Eu falei com pessoas que têm muitas queixas contra o
Império, só para descobrir o alcance do que está lá fora, o que seja possível
fazer. Não esperava fazer algo contra o eles. Ainda não de qualquer forma. Não
por muito tempo.

– Esse é o problema com as pessoas. – disse Kanan. –Elas nunca se


preocupam com os problemas dos outros, apenas com os seus.

Ela assentiu. Então, olhou de volta a ele. Depois de analisá– lo por um


instante, perguntou:

– De onde você é, Kanan?


– De um lugar aí – ele respondeu. – E você?

– Mesma coisa.

– Justo.

Ela deu um sorriso suave:

– Mas isso nem era o que eu queria perguntar de verdade, enfim...

Kanan sorriu.

– Manda bala, então.

– Por que é que você tá fazendo isso?

– Me sentando aqui com você? Não perderia isso por nada nesse mundo.

– Não, o que eu quis dizer foi isto. Sair voando por aí com um bando de
fugitivos tentando derrubar Vidian. Eu sei por que o Skelly e eu estamos fazendo
isso – ela disse. – Até mesmo a Zaluna. Mas você, não.

Ele deu de ombros.

– Eu adoro uma festa.

– Sério.

Ele coçou a barba.

– Você tava lá. Você viu o que aconteceu com o Okadiah, e todas as outras...

– E isso é horrível. Mas, como você mesmo já admitiu, você nunca para
quieto num lugar. Tava prestes a ir embora de Gorse pra sempre quando eu te
encontrei. Então, muito embora eu aprecie o fato de você estar aqui, eu fico me
perguntando se tem algo mais por trás.– Ela o encarou.– Quero dizer, não é pela
política que você tá aqui.

Ele riu.

– Definitivamente, não.
Ela sorriu.

– Sim, você não parece uma vítima de opressão.

O sorriso de Kanan derreteu um pouco ao ouvir as suas palavras e ele virou a


cara.

– Você nunca sabe. – ele murmurou. –Aparências enganam.

– O que?

Sentindo seus olhos nele, ele encarou-a de novo e sorriu.

– Nada. Ei, é como o que eu disse no início. Só vou para onde você for.

Hera enrugou o nariz.

– Humm. – disse ele, depois de um momento.

– Humm o que?

– Acho que gostei mais da sua primeira resposta

***

Zaluna ficou cara a cara com as estrelas. Era um espetáculo incrível, algo que eu
nunca teria esperado ver. Seu salário não era suficiente para levá-la tão longe e
também não tinha para onde ir. Seu escritório era o seu universo.

E agora que Skelly dormia, e Kanan e Hera tinham ido para a parte de trás da
nave, era a última chance de retornar.

Sua última oportunidade de mudar de ideia.

Ela havia arruinado completamente sua vida nos últimos dias. Ela só queria
cumprir o último desejo de Hetto e não viajar pela galáxia como se fosse uma
agente secreto. Infiltrar um depósito imperial? Alterar não apenas os
computadores de um oficial importante, mas seu próprio corpo? Quem era essa
pessoa? Certamente não era a mulher que ela pensava ser.

Mas aqui, ela tinha a oportunidade de desfazer tudo. Ela já tinha visto a
grande luz vermelha no painel de controle da frente, antes: estava sinalizando
quando a embarcação estava prestes a deixar o hiperespaço. Agora estava
escuro, ao lado do sistema de comunicação, algo que Zaluna sabia como usar.

E ela poderia usar isso, certa como eles reentraram em contato com o Império
e sair desse passeio.

Talvez eles ainda acreditassem nela. Ela poderia dizer que foi seqüestrada,
forçada a cooperar com os supostos radicais. Skelly e Kanan eram sujeitos
violentos que haviam atacado agentes imperiais. Hera era o cérebro que tentava
persuadi-la a trair o Império. Zaluna era inocente, um peão, uma tola mulher
com nada além de boas intenções. Ela podia dizer que estava tentando pegar os
agitadores quando eles a pegaram. Eles a colocaram em perigo. Ela não lhea
devia nada.

E se lua ainda pudesse ser salva. Se Vidian estava fazendo algo que não
deveria, o Império o detêria, não deteria? E como alguma coisa era problema
dela de qualquer maneira? Talvez as previsões mortais do que possa acontecer
estivesse errada. Quem era ela para questionar as decisões acima? Seria um
Império certamente irracional que ignorasse os melhores interesses das pessoas.

Somente... o Império tinha feito tantas vezes que ela tinha visto. E seus
capangas nunca ouviram a defesa de qualquer um antes. Eles apenas ouviram o
que o Império disse. Zaluna sabia de primeira mão, pois eram os olhos e ouvidos
do Estado em Gorse e Cynda há muitos anos. Ela tinha ouvido isso, mas nunca
entendeu. Ela olhava, mas não via.

Mas isso estava mudando. Os outros o fizeram pensar.

Hera tinha ouvido pacientemente as preocupações de Zaluna inúmeras vezes


ao longo da jornada, e sempre argumentava com franqueza e firmeza. O medo
era compreensível e perdoável, e ninguém esperava que Zaluna fizesse mais do
que seria capaz.

– Mas só ficar vendo e não fazer nada nem é o pior – Hera tinha dito. — É
pior ficar vendo e não se importar.

Zaluna já tinha visto os subordinados imperiais fazendo de tudo. Coisas ruins,


às quais os observadores da Transcept eram obrigados a fazer vista grossa. Ela
sempre cumpria o que lhe era determinado, mas nada disso nunca tinha feito o
menor sentido. Seu trabalho não era vigiar as pessoas? Do que valia uma
testemunha se as leis poderiam ser alteradas ao bel– prazer dos legisladores?

E ainda havia Skelly. Era um sujeito perturbado, com certeza, mas ela acabou
percebendo que ele estava de fato interessado em proteger Cynda e Gorse. O
Império pouco se importava com os veteranos das Guerras Clônicas, e menos
ainda com quem levava suas atividades industriais com um mínimo de
escrúpulos. Dava para notar que, para Skelly, a iminente destruição da lua seria
como assistir a morte de alguém muito próximo.

Havia também Kanan, que parecia viver de desastre em desastre como se


vagasse de uma cantina a outra. Nada parecia tocá– lo, embora ela soubesse não
ser verdade. Sim, ele bancava o tipo faz–tudo, trabalhando em empregos
perigosos e pressionando de volta aqueles que o pressionavam. Mas o episódio
com Okadiah não foi a primeira vez em que ela o vira saindo em defesa de
alguém. Eram sempre ações sutis; muitas vezes, o socorrido nem chegava a
saber de nada. Ele parecia fazer de propósito, por algum motivo.

Ela também pôde notar que ele estava cansado de viver daquele jeito: cansado
de pular de um trabalho inútil a outro, em busca de um lugar onde pudesse viver
como bem entendesse. Ela já tinha visto aquele olhar centenas de vezes nos
rostos de outros trabalhadores migrantes. E o Império estava tornando aquele
olhar perpétuo na vida de cada vez mais deles. Kanan era jovem, mas no
fundinho de sua alma era muito mais velho. E Zaluna sabia que o Império era de
alguma forma responsável.

Mas Zaluna também tinha o direito de escolher a sua própria vida e o tempo
estava acabando.

A luz vermelha piscou no Computador de Navegação. Um alarme, meio


quebrado e pouco audível, soou. Seus olhos foram para os controles do sistema
de comunicação. Seria muito fácil...

– O único valor que você tem para o Império é o que você pode fazer por isso,
disse uma voz por trás.

Sem se surpreender ao ouvir Hera, as palavras ouvidas estavam girando em


sua mente.

– Você sabe. – Zaluna disse calmamente. –Hetto costumava dizer a mesma


coisa.

– Ele tinha razão.

Zaluna viu o reflexo de Hera na janela, onde as estrelas móveis também


vislumbraram. Ela estava imóvel atrás dela, não se aproximando.

– Você não tem medo? Perguntou Zaluna.

– Qualquer um poderia ter. Mas os Jedi tinham um ditado sobre o medo: leva,
em última instância, ao sofrimento. – Hera fez uma pausa. –Alguém tem que
quebrar as correntes.

– As pessoas não podem mais falar sobre os Jedi.

Talvez elas deveriam.

Zaluna assentiu e olhou para o painel de controle.

– Era melhor antes. – Ela sentiu que sua força revivia. Zaluna sabia que era
mais do que um par de olhos e ouvidos ao serviço de um sádico cyborg e um
imperador distante. Ela não era uma revolucionária, mas ao menos poderia tentar
detê–los agora.

Zaluna moveu a sua mão para o computador de navegação e desligou o


alarme.

– Eu estava indo falar com você. – disse ele. Ele olhou para Hera e sorriu.

— Chegamos.
48
Kanan achou que seria muito tolo dizer isso em voz alta, mas sair do hiperespaço
era como entrar, só que o inverso. As estrelas que apareceram na janela passaram
de ser linhas borradas para pontos brilhantes. Neste momento, poucos podiam
ser vistos a partir da cabine do Expedient. Cynda pendurada acima, um brilhante
crescente desse ângulo, enquanto o Gorse gigantesco apareceu à frente com suas
cidades em noites eternas.

E havia outra coisa: mais TIE fighters do que ele já tinha visto. Um enxame
estava por vir, ordenados em quartetos enquanto o Expediente entrou na área.

— Vetor direita para sete e cinco graus, para baixo eixo vinte. — disse uma
voz no sistema de comunicação. —Siga a formação se quiser viver.

Kanan hesitou. Normalmente, nessas ocasiões, ele respondia algo aos


Imperiais, mas ele não estava voando, e não era inteligente, agora não. Hera
obedeceu, manobrou a embarcação alinhando-a com uma fila de naves à frente.
Cada transportador tinha um par de TIE, acima e abaixo ou em ambos os lados,
definindo um corredor: Kanan podia dizer, dos sensores, que duas naves
flanqueavam a Expedient, nos lados a bombordo e a estibordo. Em frente, o céu
ficou preto por um momento, enquanto a asa hexagonal de outro TIE passava
pelo seu campo de visão.

— Eles estão cruzando. — disse Kanan. —Eles nos mantêm separados.

Hera franziu o cenho.

— Eles estão limitamdo os danos que um saboteador poderia fazer. Eles


temem que haja outro Skelly lá fora.
— Eles estão certos. — chamadou Skelly de trás. Enquanto segurava o
abdômen, Skelly mancava em direção à frente da cabine. Ele foi para onde
estava o assento de Kanan, e falhou. Zaluna saltou do seu lugar e agarrou-o por
trás. Skelly parecia não estar ciente da mulher que o segurava. Seus olhos
estavam fixos no lado de fora.

— Ninguém não está de brincadeira.

A Expedient seguiu o comboio através do exterminador que dividiu a noite do


dia em Cynda. Lá a viram, suspensas no espaço: o chefe do grupo em seu
trabalho de equipe. Zaluna suspirou com a visão.

— Outro Star Destroyer!

— Não, é o mesmo. — disse Hera.

Kanan assentiu. Foi uma das muitas consequências perturbadoras quando


naves com diferentes velocidades usavam o hiperespaço. O Ultimatum foi visto,
através da câmera retrovisora, estacionado na Estação Calcoraan, quando eles
foram para à velocidade da luz; agora estava a frente deles, sobre Gorse,
expelindo ainda mais TIE fighters.

Hera olhou com uma inquieta surpresa.

— Este TIE não pode ser do Star Destroyer. Um classe Imperial é sessenta,
talvez setenta.

Kanan apontou outras naves orbitando o horizonte de Cynda. Longas e


volumosas, como as embarcações de carga de torilídeo, as naves dispunham de
portos de atracação para quatro caças cada. Parece que o Império andou
reformando os cargueiros da Gozanti nos últimos dias.

— Levaram a melhor pra cima da gente aqui também! – Hera estava irritada
de um modo como ele nunca a vira antes. Estava claramente acostumada a
pilotar uma nave mais veloz. – Sorte que eles não tiveram tempo de pousar. –
Olhou para o scanner e ergueu os braços, frustrada.– Eu não sei se vai dar pra
gente chegar em Gorse com esse bloqueio todo.

— Eu pensei que você fosse boa nisso– Kanan alfinetou.


— Não tão boa. Não nessa coisa.

Os TIEs guiaram o comboio por uma longa descida, a várias centenas de


quilômetros da superfície de Cynda. Hera girou a Expedient a 180 graus de
modo a enxergar da cabine o chão da lua.

— Obra em construção mais em frente– Kanan disse. Ligou um interruptor,


acionando o revestimento magnificador sobre a escotilha.

Skelly cambaleou adiante e quase tombou contra o painel dianteiro, entre Hera
e Kanan. Espalmando as mãos de braços abertos para se apoiar, ficou pasmo
com o que viu.

— A gente chegou tarde demais – Skelly disse, mirando uma enorme torre de
metal fincada na superfície, elevando– se sobre suas cabeças.

— O que foi? O que são aquelas coisas? – Kanan perguntou. Podia ver ao
menos outras seis, espaçadas aparentemente de maneira aleatória por toda a
superfície da lua.

— Os locais de injeção. Eles estão bombeando ácido xenobórico, perfurando


uns buracos profundos no manto. É por esses suprafilamentos que vão enfiar as
cargas de barádio depois. – Skelly passou os olhos de torre em torre. –Olha lá
embaixo, Cynda tá cheia de falhas, como um diamante. Vão acionar as cargas
numa ordem precisa, segundos de diferença. As primárias racham a estrutura. As
secundárias esmigalham. As terciárias se dispersam.

Kanan o encarou.

— Como você sabe tudo isso?

— É a minha ideia. Eu fiz isso como um experimento mental, só pra provar


que tenho razão. Ele estava no holodisco. — Ele suspirou e caiu no chão. —Para
que eu sempre tenho que estar certo?

Hera estudou os trabalhadores na superfície.

— Eles estão com muita pressa. — disse Hera.

— Vidian é o que está com pressa. — disse Kanan. Ele tem que destruir uma
lua antes que o Império perceba o que está fazendo aqui. Ele sorriu. E isso é o
que está faltando. Ele e sua grande nave coletora. Eu disse a eles, que só tinham
que confiar...

— Atenção, cargueiro que acabara de chegar. — disse uma voz familiar no


sistema de comunicação. Aqui é a capitã Sloane da Ultimatum. Tenho
informações importantes sobre uma mudança de planos.

Kanan sorriu para os outros e levantou o polegar.

— Chegou a hora!

— O recente acidente nesta semana deixou as minas da lua perigosamente


instáveis. — disse Sloane através do comunicador. —Cientistas imperiais
determinaram que a única maneira de prevenir futuras catástrofes é libertarem
todo o estresse acumulado, agora sem ninguém nas minas. Ao fazer isso,
garantimos que as escavações seguras continuem em nome do Império.

— Sim, é realmente por isso que o Império está à procura deles. — disse
Skelly. —Eles estão chamando nosso próprio povo para cometer suicídio!

— Eles serão guiados para os locais na superfície de Cynda, onde irão


carregar e partir imediatamente. — continuou o capitão.

Kanan franziu a testa.

— Espere um minuto. Não era isso que ela deveria dizer. Ela deveria dizer que
Vidian é um caso perdido e mandar todo mundo de volta pra casa!

— Não me soa nadinha como uma mulher que acabou de delatar alguém pro
imperador – Hera retrucou.

Kanan fitou o sistema de comunicação:

— Não mesmo. – Sacudiu a cabeça.

O alarme de anomalia hiperespacial ficou azul e apitou estridente.

Mais adiante, a gigantesca embarcação colheitadeira de Vidian despontou no


único espaço livre disponível.
— Seja bem– vinda, Forager– Sloane disse pelo sistema de comunicação.

— Os últimos cargueiros já se encontram no local e as cargas derradeiras


serão injetadas em quarenta minutos. Enviaremos uma conexão de dados com o
Controle de Detonação dentro de uma hora.

— Excelente trabalho, capitã Sloane. – Ouviram Vidian dizer.– A senhora há


de se tornar um bom almirante algum dia.

Kanan encarou Hera.

— Isso tá me dando náuseas. Eles estão de namorico.

— Tá com ciúmes?

— Que se dane, eu pensei que ela tivesse me dado ouvidos! – Bateu com o
punho cerrado no painel. – É o famoso jeitinho imperial, tá certo. Sempre
apunhalando os amigos pelas costas!

Sloane se pronunciou novamente pelo dispositivo, soando um tanto mais


preocupada.

— Conde Vidian, o quesito tempo será essencial. A equipe da tenente Deltic


está dizendo que o senhor terá uma hora, a partir do Controle de Detonação, para
desencadear o processo.

— Não precisarei de tanto – Vidian respondeu, seco.– Já estou pronto e a


Forager logo estará.

— Pra coletar o torilídio depois de ele explodir quase todo junto com a

lua – Skelly murmurou ao fim da transmissão. – Nenhum sentido. – Ele se


virou ao contrário e caiu de costas contra os painéis de controle da cabine.
Limpou o nariz com a mão. Escorria sangue. – Só me deixem em qualquer
lugar, mesmo. Talvez eu ainda possa morrer em Cynda antes que explodam tudo.

Hera ficou olhando para Skelly por um tempo e, então, de volta para fora da
nave. Seus olhos focaram em algo mais adiante.

— Skelly, por que foi que ela disse que tinha um limite de tempo pra detonar
os explosivos que eles estão plantando na lua?

Skelly esfregou a lateral da cabeça, de olhos fechados.

— É por causa do ácido xenobórico que eles estão injetando. Se esperar tempo
demais, qualquer gota dessa porcaria que sobrar lá embaixo vai sair comendo
tudo pelo caminho, corroendo os cabos terminais do barádio e os contêineres.
Aí, nada de explosão.

Hera fitou Kanan. Ele tinha sacado a jogada.

— Você disse que seria uma reação em cadeia, que algumas dessas torres
eram primárias?

Skelly fungou, abrindo os olhos.

— Isso. Quatro delas.

— Quais quatro? – Kanan perguntou.

— Eu tô tentando lembrar. Eu tenho que olhar.

Skelly tentou ficar de pé, mas acabou caindo com o traseiro no chão. Zaluna
deu outro pulo de sua cadeira e o ajudou a se levantar, apoiando– se entre os dois
assentos dianteiros. Skelly se virou de frente e olhou de soslaio para a superfície
brilhante de Cynda.

— E se a gente derrubar as torres, interrompe a reação?– Kanan lhe


perguntou.

— Arram. Mas tem gente nossa lá embaixo trabalhando na área. E levando as


cargas.

— Eu sei. — Kanan alcançou os fones de ouvido e colocou-os.

— Isso apenas remenda o tráfego de comunicação local. — disse Hera. —Nós


não podemos enviar o aviso de Zaluna.

Kanan ignorou-a e trabalhou no trinco do painel na frente de seus joelhos.


Uma porta se abriu e ele puxou o que estava dentro. As dobradiças quebradas
rangiam e caíram. Com esforço, Kanan esticou um sistema de alvo com alças,
em direção do seu peito.

— Gostaria de saber o que ela está fazendo? — Perguntou Zaluna.

Hera encarou-o confusa.

— Não tenho certeza que sei.

— O caçador de meteoros. — disse Kanan, e acenando para o teto. O único


canhão pendurado acima do compartimento da tripulação tinha uma área de fogo
que cobriu um vasto ângulo curvo de cada lado à frente da Expedient. —Cada
cargueiro Bebê tem um. Bebês não gostam de serem batidos.

— Nem eu. — disse Skelly, que estava olhando nervosamente pra ele. —Você
não espera enfrentar os impérios com isso, não é?

— Não mais do que alguns poucos. — disse Kanan, testando seu microfone.
—Mas se eu fizer isso certo, o pouco será o suficiente.
49
O centro de comando da nave de coleta parecia mais a catedral de alguma antiga
religião. A estação de comunicação de Vidian, no meio da sala, se assemelhava a
um altar. Ambas, comparações inúteis. Vidian não era indiferente à realidade. De
sua posição, sacrificaria a lua a seu imperador, caindo nas graças de Palpatine
por mais um ano. E as cinzas do satélite sufocariam seu rival de uma vez por
todas.

Intencionalmente ou não, os designers da nave de coleta tinham adicionado


um ar meio sobrenatural ao projetarem a ponte de comando da Forager. Situada
na dianteira da esfera mais proeminente da série de cápsulas interligadas da
nave, a enorme sala redonda possuía uma vista de frente para o espaço através de
escotilhas que subiam até a curva do teto, a vinte metros de altura. Vários
consoles como o de Vidian o circundavam feito megálitos em miniatura,
dispostos para um ritual de idolatria. Uma passarela, dois andares acima,
percorria o arco dianteiro da câmara, proporcionando estações de trabalho
adicionais entre as escotilhas para os droides e os demais assistentes cibernéticos
de Vidian. Ele era capaz de vislumbrar os vultos metálicos indo e vindo pela
plataforma, sacerdotes digitais iluminados pelo luar.

– Traves estendidas, senhor – um deles disse.– Estamos prontos para dar


início ao processo de coleta.

Vidian assentiu. Dependia só de Sloane e do pessoal dela, dali em diante.


Alternando seu campo de visão entre as câmeras remotas, examinou com
aprovação as instalações em Cynda. Sloane tinha realizado um trabalho notável,
empregando milhares de funcionários da Ultimatum num projeto que, dias antes,
não passava de um desvario no holodisco de um terrorista demente. Mas agora,
faltavam apenas trinta minutos para que fosse executado algo ainda só possível
no limiar da capacidade imperial: a destruição de uma lua e, talvez, do mundo
abaixo.

A cooperação de Sloane havia sido fundamental desde o início.

Qualquer segundo a mais, qualquer deliberação extra, e o corpo de


engenheiros do imperador teria de entrar em cena, o que os levaria a questionar o
retorno da explosão de teste. Vidian podia até se valer do nome de Tharsa para
falsificar um relatório e defraudar uma capitã ambiciosa; mais do que isso,
porém, seria difícil. E a situação não podia esperar. Ao processar suas
mensagens diante de seus olhos, Vidian viu não só muitas do incômodo Danthe,
como também várias do círculo íntimo do imperador. Todas quase comicamente
urgentes, sugerindo que, se Vidian não entregasse o torilídio em quantidades
recordes de imediato, toda a Frota Imperial teria de ser desativada. O barão tinha
realmente se esforçado para convencer aqueles mais próximos ao imperador.

Bem, aquela situação toda logo se resolveria. Ele entregaria o torilídio em


número muito além da imaginação; e, então, Danthe poderia ficar à vontade com
seu sorrisinho cínico no rosto e uma bomba– relógio nas mãos.

Um dos assessores cibernéticos de Vidian adentrou:

— Estamos recebendo uma mensagem, mestre, no canal da Associação de


Mineração.

— Hã? – Vidian sussurrou alguns comandos até que o áudio lhe chegou.

— ...sei lá o que tá acontecendo. Tá parecendo tão... estranho. Esses malditos


canisters de bebê, alguns começaram a vazar, sei lá, esse gás...

— Do que se trata essa asneira toda? – Vidian disse em voz alta.

— ...sei lá como isso aconteceu. Carregamento defeituoso, material


defeituoso, alguma coisa com defeito, que nem tudo nesse trabalho miserável.
Eu odeio muito tudo isso, saca.– A voz passou de um tom apalermado a uma
pontada de amargura: – E eu odeio muito todos vocês.

— Está vindo de um dos cargueiros – o assessor de Vidian se antecipou.– O


líquido refrigerante que reveste os canisters de barádio– 357 é conhecido por
causar episódios psicóticos se...
— Pois é, vocês me conhecem – o interlocutor interrompeu, parecendo mais
irritado pelo modo como falava.– Vocês conhecem a minha voz. Eu já briguei
com todos vocês, pelo amor de Okadiah. Nas minas, no hoverbus, no bar. Um
bando de vagabundos, todos vocês. Se acham tão durões. Vocês me dão nojo!

Vidian ferveu de raiva ao reconhecer a voz. O pistoleiro!

— Localize essa transmissão– ele ordenou.– Encontre– o!

O interlocutor já estava vociferando:

— Seus mineiros imundos, fedorentos! Dá pra ver seus transponders de


identificação, eu sei quem vocês são. Vocês se acham o máximo, né, carregando
essas bombas. Vamos ver quem é que vai explodir o que nessa joça!

Vidian ativou seu modo comlink:

— Agora, escute– me! Aqui é conde Vidian. Desconsiderem estas


transmissões e finalizem suas entregas! O que vocês acabaram de ouvir foram os
delírios de um lunático, um baderneiro...

O piloto explodiu em sua resposta:

— O louco aqui sou eu? Eu que sou louco, então? Pois bem! Eu tô me lixando
pra esses seus caças estelares fedorentos, Homem do Império. Eu tô falando pra
todo mundo escutar, hein. Se tu me ver chegando, só te digo: corre, porque eu
vou explodir tudo quanto é nave que eu ver no céu! A começar pelos mineiros!

Um guincho agudo horrível irrompeu do sistema de comunicação da


Expedient. Interferência imperial no canal da associação. Hera fitou Kanan,
estupefata.

— Eu pensei que você fosse alertar o povo sobre a lua!

– Ninguém teria acreditado. Eu mesmo mal acredito nisso. Tudo o que eles
temem agora são os caças TIE. Mas já, já eles vão se borrar de medo de mim! –
Kanan lançou um olhar desvairado. – Eu preciso que você pilote que nem um
Wookiee com os cabelos em chamas. Um que esteja pensando que todo mundo
acendeu o fósforo. Você consegue fazer isso?
Ela pareceu ter compreendido a ideia, ainda que relutante:

– Entendi.

Ele apontou na direção de um caça TIE começando a cruzar o corredor


formado pelo comboio.

— Mergulha quando eu fizer o sinal.

O caça estelar imperial arremeteu por seu campo de visão com asas se
mostrando um alvo hexagonal perfeito. Kanan as interpretou exatamente como
tais, puxando o gatilho em seus controles de artilharia.

— Hera, agora!

A torre de armas, posicionada acima e logo atrás de suas cabeças, cuspiu uma
rajada de raios alaranjados, acertando na mosca a asa do caça TIE que passava
diante deles. Hera empurrou o manche e acelerou bruscamente, levando a
Expediente mergulhar. O TIE explodiu numa bola de fogo, provocando um
clarão, mas, já então, Cynda era tudo o que podiam ver, com sua superfície
gelada se avultando pela escotilha.

Zaluna acabou soltando o assento de Kanan, onde se apoiava, e caiu para


frente, esmagando Skelly contra o painel de controle dianteiro. Ele gritou de dor.

– Segurem firme! – Hera girou a Expediente fazendo um dos dois caças


imperiais que os escoltava surgir no campo de visão de Kanan. Ele disparou
novamente. Hera não esperou para ver o resultado, embicando outra vez a nave
abaixo. A gravidade de Cynda começou a fazer efeito.

Zaluna tentou ajudar Skelly a ficar de pé.

— Eu sinto muito– ela disse. – Não estou acostumada com esse tipo de coisa!

— E quem é que tá? – Tentando debilmente repelir as tentativas dela de


levantá– lo, simplesmente largou o corpo no chão.– Por favor, só me deixa
sentado aqui mesmo...

— A gente precisa de você aqui– Kanan retrucou, esforçando– se para


encontrar o outro caça em seu escopo. O TIE disparava contra a Expedient. Ele
pôde ver o brilho das partículas energizadas a sua direita. – Onde é que esse cara
tá?

— Bem aqui – Hera respondeu, acionando os contrajatos de frenagem. Os


propulsores iônicos do terceiro TIE apareceram brilhando no espaço diante
deles. Kanan girou seu mecanismo de mira e apertou o gatilho. Hera deu um
soco de cima a baixo no painel quando o caça estelar explodiu em pedaços.

Kanan lançou um olhar a Skelly, que parecia agitado enquanto Zaluna tentava
ajudá– lo a se levantar. Skelly era mais pesado do que a Sullustana, mas ela fazia
o melhor que podia para mantê– lo no lugar. Kanan implorou:

— Vamos lá, Skelly. A gente já tá aqui. Se concentra!

Skelly olhou de soslaio para a superfície da lua enquanto Hera descia. Havia
uma torre no horizonte, bem ao longe, nada além do que uma agulha num
oceano branco. Puderam vislumbrar uma frota comercial se dirigindo à área.

— Vai por ali!

O clarim de alerta ressoou pela ponte de comando da Ultimatum.

— Caças quatorze, quinze e dezessete, decolem de imediato– Sloane disse. –


Sigam o cargueiro, daqui em diante denominado Renegado Um. Derrubem– no!

A capita encontrava– se ao lado da exibição holográfica de rastreamento e


acompanhava, perplexa, toda a ação. Ordenou que o destróier estelar
permanecesse em sua posição, supervisionando a rota do comboio e protegendo
a Forager. Era difícil, porém, de acreditar no que estava se passando na
superfície de Cynda. E tudo tinha começado com aquela mensagem bizarra de
Kanan.

— O Renegado Um está perseguindo os outros cargueiros de barádio– disse


um alferes. O jovem Cauley vinha tentando fazer o melhor que podia para
acompanhar o ziguezague do renegado. O único problema era que nenhum
movimento da Expedient fazia o menor sentido.

— Eles estão tentando destruir os cargueiros?

— Não, capitã. Só os caças TIE na escolta. Os cargueiros deviam ser alvos


mais fáceis, mas é só que, bem... – O alferes estava pasmo diante de seu
monitor. Sloane se colocou atrás dele para observar a perseguição. O fugitivo
passou raspando pelos caças que escoltavam as naves totalmente carregadas e,
então, saiu atirando aparentemente sem a intenção de acertar em nada, mirando
logo em frente das embarcações.

— Fogo de assédio– ela disse. Seria Kanan, o piloto, o insurgente, um agente


imperial? O que quer que fosse, definitivamente estava a bordo daquela nave e
tentava impedir que os outros descarregassem. Sua mensagem ameaçadora tinha
provocado um cenário de puro caos. – Há uma metodologia clara por trás dessa
loucura toda. Ele quer assustá– los para que fujam.

— E vem fazendo um bom trabalho– Cauley disse, apontando para a tela.– É


só ele chegar perto de algum cargueiro pra que todos eles tentem sair da
formação.

Sloane olhou de volta para a tela de rastreamento holográfico. Um por um,


todos os cargueiros de barádio foram desligando seus transponders de
identificação, temendo que Kanan fosse atrás deles. Aquilo tudo só aumentava
ainda mais a confusão. Será que toda essa gente já se meteu em confusão com
esse sujeito?

Cauley levou sua mão ao fone de ouvido.

— Eu estou com um piloto TIE na escuta, perseguindo o cargueiro que vinha


escoltando. O cargueiro está fugindo com medo de ser alvejado pelo Renegado
Um. Nosso piloto está perguntando se pode abatê– lo.

— O quê? Não!– Sloane ficou paralisada. Tinha garantido a Vidian que não
permitiria que nada interferisse na entrega dos explosivos e, ainda assim,
enviaram uma quantidade superior à necessária para a execução do projeto. No
entanto, quão superior? – Diga a nosso piloto que permaneça no encalço da
nave que vem escoltando o quanto puder até que nossos reforços cheguem.
Diga– lhe que, se ele puder intervir...

— Enfim... – Cauley retrucou, tirando o fone de ouvido.– O Renegado Um


acaba de abater nosso piloto.

Sloane cerrou os punhos.


— Dispense da escolta todos os caças na área. Envie todos eles contra Kanan!

— Contra quem, capitã?

— Renegado Um! – Tremendo em raiva, ela apontou para o lado de fora. – O


cara que está atirando em todo mundo!
50
Kanan permanecia de olho na mira enquanto Hera inclinava a Expedient por
outra curva em forma de “S”. Ela vinha costurando, havia algum tempo, o
perímetro entre a torre de injeção na superfície de Cynda e a área de pouso nas
proximidades, onde os veículos terrestres tracionados do Império transportavam
pelo gelo os canisters de barádio descarregados dos cargueiros.

Não estava disposto a correr o risco de atingir algo em cheio: um disparo


contra a torre, Skelly tinha dito, poderia desencadear acidentalmente uma reação
que aniquilaria a lua. E sair matando os trabalhadores nos cargueiros ou nas
icecrawlers não o tornaria nada melhor do que Vidian. Ao invés disso, continuou
metralhando as áreas por onde os trabalhadores teriam de atravessar, impedindo
a aterrissagem de quaisquer outras naves. Não queria acertar civis, mas
tampouco tinha maiores objeções quanto a matá– los de susto em nome de uma
boa causa.

— Eu acho que essa não é bem a melhor maneira de conscientizar o povo. –


Hera disse assim que ele disparou uma nova rajada contra o chão, logo abaixo de
um cargueiro que tentava pousar.

— Deixa pra recrutar mais aliados quando você tiver um tempinho de sobra.
Isso aqui tá chamando atenção o suficiente, e bem do jeitinho que o povo de
Gorse gosta!

O problema era que eles estavam ficando sem alvos.

— Skelly, onde é a próxima torre primária?

— Esqueça. — surtou Hera. Puxando o manche mandou uma relutante


Expedient em uma espiral grunhinda ascendente. Kanan viu por que eles se
viraram: o céu estava cheio de TIE fighters, avançando furiosamente na direção
deles.

Um apito alto veio dos controles de artilharia. O indicador disse que armas da
torre foram superaquecidas. Ele olhou para Hera e balançou a cabeça.

— Esta coisa é classificada para transportar algumas pedras. Só isso!

— Acho que os motores podem parar a qualquer minuto. — Ela suspirou com
exasperação quando o Expedient se lançou novamente em órbita.

— A coisa mais segura a bordo é o baradium!

Era uma coisa perversamente sortuda. Kanan pensou, que com tantos
solavancos, batidas e quase, acidentes que a Expedient sofreu, teria sido
suficiente para mandar a carga embora em um segundo. Pelo menos,
ridiculamente mais poderoso o Bebê a bordo pelo menos teve a vantagem da
garantia dos contêineres fixados na prateleira.

Gorse reapareceu na frente deles novamente, com a Forager suspensa diante


deles. Seus raios estavam abertos, uma gigantesca flor metálica na frente da
nave. Kanan empalideceu diante ao tamanho disso.

— Podemos destruir essa coisa?

Hera verificou seus instrumentos e sacudiu a cabeça.

— Tem um enorme escudo de energia ao redor. — Ela levou o Expedient para


fora, longe da onda ameaçadora de TIE fighters. Isso lhes deu uma visão melhor
de um lado da Forager, mas isso foi tudo. Era inútil.

Kanan lançou os controles da artilharia. Ele viu que havia deixado suas
marcas das suas mãos neles. Ele esfregou a testa.

— Alguém tem outro plano?

Ninguém disse nada por um momento.

Então uma voz foi ouvida de trás.


— Eu acho que podemos usar o Plano Dois.

Kanan viu Zaluna tentando tentando passar esperemida por Skelly. Ela estava
olhando em direção a Forager.

— Qual era o Plano dois? Kanan perguntou.

— Eu pensei que o plano dois era atrasar o processo de injeção. — disse


Skelly enquanto segurava a cadeira da Hera.

Zaluna sacudiu a cabeça.

— Não, esse era o Plano Três. O plano um era informar sobre o conde Vidian.
O plano dois era avisar as pessoas. O plano três era atrasar a injeção...

— Podemos parar com isto? — Hera implorou. Ele acenou com a cabeça para
a esquerda e sorriu suavemente para Zaluna. —Lembra-se de uma Frota de TIE
fighter em dois minutos?

A mulher apontou a frente para o Forager.

— Certo. Olhe lá. — Atrás da roda de um vagão estava a coleção de sete


globos esticados, conectados em uma linha. Um na frente da nave, o mais
próximo dos rádios tinha, até o topo, um na área da tripulação e um grande disco
redondo em cima disso.

— Esse é um transmissor Imperial subespacial.

— Eu não tinha visto isso. — disse Kanan. —Boa visão.

— É por isso que eles me pagaram. — Zaluna sorriu. —Eu posso conectar
com o sistema Transcept nessa coisa e enviar um aviso para o Gorse. Eles não
saberão bloqueá-lo.

Kanan encarou.

— Esse é a nave onde está Vidian agora. Nós tínhamos de te levar até lá para
fazer o seu trabalho.

Zaluna se encolheu um pouco quando ouviu isso, mas não o eximiu.


— Eu sei.

— E talvez a gente possa até mesmo impedir que Vidian dê a voz de comando
pra explodir Cynda – Hera emendou.

— Dois por um – Kanan brincou.– Happy hour, minha gente.

— Você vai mesmo precisar de uma ou duas bebidinhas fortes depois disso –
Hera disse, levando a Expedient a um amplo arco. Ela o encarou: – Isso não é
bem o que você consideraria uma aposta segura. Tem certeza de que você quer
fazer isso?

Kanan respirou fundo. Normalmente, não aceitaria aquele desafio nem em seu
pior dia de porre. Era uma loucura, mas o que não tinha sido até então? Além
disso, era obrigado a admitir que nunca, em todos os seus anos de fuga, se
sentira tão bem, fazendo alguma coisa de verdade, mesmo que estúpida.

— Eu não tenho mais nada pra fazer, mesmo. Vamos lá, então.

— Tá certo.– Hera fitou a Sullustana. – Aperta o cinto, Zal. Todo o resto:


segurem firme!

***

Vidian já estava farto das pessoas lhe dizendo o que não podia fazer.

Como um dos inspetores de segurança da associação, tinha expedido decretos


para manter a ordem, mas não dispunha do poder necessário para impô– los, e,
assim, seus supervisores corruptos constantemente o prejudicavam. Tinha
transformado sua imagem e sua posição de uma maneira tal que ninguém mais
deveria ousar lhe dizer um não. E, ainda assim, as pessoas continuavam
insistindo de todo modo, tentando fazer as coisas à moda antiga.

O pistoleiro e os amigos dele, era óbvio, tentavam impedi– lo de destruir a


lua. Seriam sabotadores a serviço do barão Danthe? O barão tinha estabelecido
uma meta de produção quase impossível de ser cumprida por Vidian; poderia
muito bem temer a aclamação que o êxito traria ao conde. E Vidian sabia que o
barão contava com espiões perguntando sobre o “consultor independente” de
Vidian, o tal Lemuel Tharsa. Assim sendo, Vidian se sentia ainda mais preparado
para destruir a lua. Ninguém lhe diria não dessa vez.
Estava com a vantagem, após ter se preparado cuidadosamente. As artimanhas
ensandecidas daquele piloto idiota não tinham mudado nada. Vidian
incrementara o plano de Skelly com suas próprias precauções, o que incluiu
despachar hem mais carregamentos de barádio do que o necessário. As
embarcações sobressalentes já se encaminhavam em direção à área recentemente
conturbada pelo renegado. Aquele circo armador os fez perder um pouco de
tempo, mas não o suficiente para que o ácido xenobórico inutilizasse as bombas
implantadas na lua. Era o mesmo tipo de ácido em que Lal tinha caído em Gorse,
uma exigência do refino; a Forager se encontrava repleta daquela coisa. Mas seu
plano não seria corroído.

A única variável aleatória estava prestes a ser anulada. O cargueiro fora de


controle estava sem espaço para se movimentar, encurralado entre as armas da
nave coletora e o enxame de caças TIE já entrando em cena.

Vidian tinha pensado em tudo. Era essa sua força, seu poder. Um dia, a
diferença entre o sucesso e o fracasso do Império talvez fosse algum pormenor
ignorado por outra pessoa. Não, essa pessoa não seria ele. Algo assim jamais
aconteceria sob sua supervisão. Observaria tudo como mero expectador e, só
então, agiria.

— Estamos a uma distância segura da lua– alvo – ele disse. – Reoriente a


nave de modo a fitá– la.

Os motores zuniram, e Cynda despontou cintilante, totalmente à vista. Vidian


não se deu ao trabalho de admirá– la por um segundo sequer.

— Atualize– me sobre o inimigo– ele ordenou à assistente cibernética mais


próxima. Vidian nunca chamava a mulher calva pelo nome; não parecia ser
necessário depois da cirurgia pela qual ela passara.

— O cargueiro ainda não atacou– ela disse num tom enfastiado.– Está
sobrevoando. Sondando o escudo de energia da Forager.

— Há alguma fraqueza?

— Não, meu senhor. O único espaço no escudo de energia está na parte de


trás, pelo eixo horizontal da nave. As hélices produzem uma flutuação quando
são reiniciadas.
Vidian congelou. Os motores foram ativados apenas alguns minutos antes. E
estava na parte de trás da nave, nas hélices, onde a baía de embarque estava
aberta ao espaço...

— Alarme de proximidade. — disse a ciborgue fêmea. —Uma embarcação


não autorizado está se aproximando!

Vidian já estava assistindo a cena, seu sinal óptico foi mudado para as câmeras
na parte de trás da nave. Perseguidos por meia dúzia de TIE fighters, e que eram
apenas aqueles que estavam no campo de tiro, o cargueiro errante estava voando
em direção à popa da Forager.

— O que você está esperando? — Disse Vidian. —Todas as torres defensivas,


fogo!

Do lado de fora, a Expedient disparou através do fogo cruzado em direção da


parte de trás da Forager. As fileiras das baías de desembarque estavam acima e
foram introduzidas abaixo das hélices, abertas para o espaço.

— Uma porta aberta é sempre um convite. — disse Hera.

Mas o cargueiro longe estava indo muito rápido, pensou Kanan.

— Isto irá ser bem perto!

Hera disparou nos propulsores principais, queimando com a velocidade, não


mencionar o cromo de todos os droides carregadores pela frente.

A Expedient atingiu a superfície de pouso, arrastando– se ruidosamente


convés adentro. Era um amplo hangar, e o cargueiro se valeu de toda a extensão
para desacelerar. Kanan agarrou os braços de seu assento, ciente de que uma
parede não tardaria a se pôr no caminho...

Um choque violento sacudiu a embarcação, desequilibrando os subalternos de


conde Vidian. Do alto, um droide escorregou entre a passarela e o corrimão,
despencando no convés principal com um forte estrondo.

Vidian, já preparado para o impacto, permaneceu inabalável.

– Todas as tropas a bordo da Forager– transmitiu.– Fiquem a postos para


rechaçar os invasores. Basta!
51
— A gente ainda tá vivo?!

Foi Skelly quem perguntou, mas Kanan estava tão surpreso quanto qualquer
um deles. A não ser por Hera, que simplesmente endireitava suas luvas como se
nada tivesse acontecido.

— Você é incrível, mulher – Kanan disse.– Eu vou me mudar definitivamente


pro banco do passageiro.

— Hora de sair daqui, na verdade.– Hera ficou de pé, checou suas armas e
seguiu rumo à câmara pressurizada. – Vamos lá, Zal!

Zaluna respirou fundo e pegou sua bolsa de trás da poltrona antigravitacional.


Encontrou com Hera já na porta.

Vidian deveria quase que certamente estar na proa da Forager, onde ficava o
transmissor.

— Você não tem mais nada a bordo que a gente possa usar?– Hera perguntou
a Kanan. – A gente não conhece o terreno.

— Eu acho que sim. – Ajustando seu coldre, Kanan foi caminhando pelo
corredor até um compartimento de armazenamento. Ficou de joelhos diante do
escaninho e o abriu. Lá dentro, ao lado da mochila de Skelly com os explosivos
improvisados, que ele escondera por segurança, jazia parte do kit de emergência
de Cynda: uma arma de escalada com um recolhedor automático. Ele a repassou
a Hera.

Estava prestes a fechar o escaninho quando viu sua sacola de viagem, a que
ele carregou com ele ao deixar Gorse. Um pensamento lhe ocorreu, e ele a abriu
e algo no seu interior.

Seu sabre de Luz.

Ele estava lá, escondido e inofensivo, dentro do coldre de lona para um rifle
blaster. Kanan hesitou por um momento antes de retirar do coldre e amarrando-a
na perna esquerda. Ele não iria usar isso, com certeza, mas infelizmente na
Estação Calcoraan, as chances da nave ser revistada eram altas. Ele não queria
que ninguém os achasse.

Ele se virou para trás para ver se Skelly estava vendo-o. Por um momento,
Kanan preocupou-se se ele perguntaria sobre o alcance do caso, ele não tinha um
rifle blaster, afinal, ele rapidamente viu Skelly ficar de olho em sua mochila da
morte.

— Eu não vou deixar você nos explodir. — disse Kanan e levantou a mochila
de Skelly. —Isso vem comigo por segurança.

— Você vai se explodir apenas carregando isso. — Skelly forçou-se a ficar de


pé. —Está tudo bem. Deixe-o. Eu irei com você

Kanan franziu a testa.

— Você mal consegue andar!

— Então eu posso cuidar da retaguarda. Deixe disso e vamos.

***

Kanan descobriu que o interior da Forager era um enorme chão de fábricas


automatizadas. As sete esferas que formaram o corpo da nave cruzaram-se em
uma linha, produzindo um único átrio com vários andares de altura, o que se
estendiam até ficar fora da vista. Recipientes, centrífugas, transportadores e
tubos pneumáticos eram a produção de Denetrius Vidian, se houvesse uma.

Parada em um corrimão, inspecionou a área e ficou maravilhada por um


momento com a visão.

— É como se alguém amontoasse todas as refinarias de Moonglow em um


única nave.

— Rápido, podemos savar o verdadeiro. — disse Kanan. Ele podia ver os


soldados Imperiais no piso principal, correndo em direção a eles pelos fundos.
As escadas de metal os levou para baixo ao que seria ao que parecia um
quilômetro de luta intensa, em quase todo percurso para o Star Destroyer.

— Posso... voltar... e pergar as minhas bombas? — Perguntou Skelly, ofegante


no corrimão. Ele ficou por trás pela segunda vez e caiu no caminho de volta para
as baías de pouso.

Kanan balançou a cabeça e olhou para Hera, que estava olhando as vigas.

— O que você tem?

— As coisas estão melhorando. — disse ela, apontando. —Olha lá!

Os olhos de Kanan voltam a reastrear sua localização e os degraus da escada


anexados à parede atrás deles, com quinze metros de altura ou mais. A escada
era a única rota para o bonde: não havia nenhuma maneira de que a pistola de
rappel pudesse transportar mais do que um por vez.

Hera teve a ideia; Kanan fez o plano. Foi assim que as coisas estavam
funcionando entre eles. Kanan enviou Hera até a escada primeiro, fazendo
paradas em intervalos para se virar e dar cobertura, se necessário, contra
qualquer chegada do Império. Então, chegou a vez de Zaluna, que subiu sem
soltar um pio sequer. Pelo visto, àquela altura toda não a intimidava nem um
pouco; menos um item em sua lista de temores.

Skelly, porém, foi o único retardatário. Kanan tinha imaginado que seria
melhor se ele fosse a sua frente ou nunca chegaria lá em cima de outra forma,
mas o esquema acabou tornando o progresso dos dois impossivelmente lento.
Skelly estava morrendo de dor e relutava em usar sua mão direita como apoio.

— Anda logo, Skelly! – Kanan gritou, após a terceira vez em que o sujeito
parou para descansar, esgotado.

Skelly se encontrava precariamente pendurado pelo braço direito, preso a um


degrau.
— Só me dá mais um...

Skelly nunca chegou a terminar a frase. Disparos de raios salpicaram a parede


em sua volta, e ele acabou se soltando. Kanan ainda tentou agarrá– lo, em vão,
quando o outro passou caindo por ele, debatendo–se.

— Skelly!

O coitado despencou contra o corrimão da varanda onde estavam havia pouco.


Com o corpo totalmente bambo, Skelly tombou de lado e para fora da vista,
presumivelmente em direção ao chão da fábrica. Bem mais ao alto, Hera abriu
fogo contra os stormtroopers que se aproximavam.

Pendurado a meio–corpo na escada, Kanan esticou o pescoço na tentativa de


vislumbrar qualquer sinal de Skelly. Não conseguiu ver nada e então mais
atiradores avançavam pelo pátio. Hera deu um grito:

— Kanan, anda logo!

Kanan subiu a escada, escapando por pouco de ser baleado várias vezes no
processo. Atingindo o topo, passou ao curto patamar de metal ao lado do bonde
estacionado. Hera já estava no interior do veículo, debruçada sobre a dianteira e
olhando para baixo.

– Nem sinal do Skelly – ela disse. Olhou para trás, preocupada. – Eu não
acho que ele possa ter sobrevivido a essa queda!

— Não resta mais nada a fazer – Kanan retrucou, entrando no bonde. –A gente
vê isso quando voltar. Isso se a gente voltar. Vamos logo!

Uma vez ativado por Hera, o bonde seguiu chacoalhando por centenas de
metros. Estava carrilado num monotrilho, provavelmente eletrificado, Kanan
pensou, preso ao teto por uma estrutura de metal.

As coisas se acalmaram por um minuto, até que os stormtroopers enfim


atingiram o mesmo nível dos intrusos. Dali em diante, estava aberta a temporada
de caça, com disparos de raios a torto e a direito, ricocheteando nas vigas, no
teto, alguns até mesmo no bonde em si. Passando o controle do veículo a Zaluna,
Hera se juntou a Kanan no fogo cruzado, muito embora os alvos fossem
minúsculos e numerosos demais. E ainda não tinham percorrido nem sequer
metade do caminho até o outro lado do chão da fábrica.

— É melhor a gente tomar alguma atitude antes que venham com a artilharia
pesada– Hera disse.

Kanan a cutucou.

– Olha aquilo lá! – Ele apontou em direção a enormes cilindros no chão de


fábrica, feitos de algum tipo de composto especial transparente. Dentro, havia
um líquido verde fluorescente. – É ácido xenobórico, o mesmo lá da fábrica da
Lal. – Fazia sentido: era uma refinaria de torilídio, afinal. Kanan e Hera se
entreolharam, deram de ombros ao mesmo tempo e, então, apontaram suas armas
ao tonel mais próximo.

Vários disparos de raios acertaram o recipiente no mesmo lugar.

Fazendo um chiado nojento, o material de proteção cedeu, liberando um


chafariz de ácido. O primeiro dos stormtroopers a ser atingido largou sua arma e
gritou tão alto que o escutaram do teto. A estrutura do tonel definhou totalmente
em seguida, jorrando o ácido todo no chão. Os stormtroopers saíram todos
correndo para os cantos a fim de escapar do ácido e jogar fora as botas e
armaduras que foram afetadas.

Kanan e Hera alvejaram outro tonel, e depois mais outro, enquanto o bonde
avançava. O truque estava liberando o caminho para eles de maneira mais
eficiente do que qualquer exército. Ele escancarou os dentes a Hera, na
esperança de ver um sorriso dela em troca.

Ao invés disso, viu uma careta quando o bonde parou. Hera foi até o outro
lado, onde Zaluna estava, e socou em vão os botões de controle.

— Parece que o passeio de graça chegou ao fim – ela disse.– Alguém sabe
que estamos aqui.

— Eu acho que são aqueles caras ali– Kanan afirmou, apontando para baixo.
Novos disparos de laser voltaram a ricochetear no teto, embora com menor
precisão do que antes: os atiradores estavam todos amontoados por cima de
consoles de controle e outros equipamentos, escapando do fluxo de ácido. Ele
fitou o painel de controle do bonde.
— Eu acho que eu sei como religar essa coisa.

— Pois eu tenho certeza que eu sei como fazer isso – Hera rebateu,
adiantando–se. –Continua atirando aí! Estamos correndo contra o tempo!

Kanan se virou no intuito de fazer exatamente o que lhe havia sido dito,
quando Zaluna o cutucou. Ela apontou pro alto, rumo à armação do monotrilho
conectado ao teto. Uma série de vigas percorriam a extensão da reta,
providenciando um espaço estreito, mas suficiente para que rastejassem
protegidos, logo acima. Kanan, porém, logo notou não apenas que seria um
longo percurso a ser feito engatinhando, como também que o percurso exigiria
alguém de porte pequeno e atlético.

— Eu acho que não consigo chegar até lá– Zaluna disse. – Mas um de vocês
dois conseguiria.

— A gente não sabe como acessar os sistemas de comunicação global que


você falou – Hera ponderou.

— Espere um pouco– Kanan disse, tendo uma ideia. – Hera, volta aqui!

Enquanto ela o fazia, ele guardou sua arma de raios e pegou a arma de
escalada. Ancorando suas pernas por trás do painel, ele se inclinou para fora do
bonde e atirou num dos suportes horizontais, muito mais à frente. O gancho
estalou retesado e o recolhedor motorizado rangeu em ação. A corrente elétrica
podia até ter sido cortada do monotrilho, mas o bonde ainda se movia ao longo
dele, mesmo que lentamente.

— A gente é muito pesado – Hera disse. Ela olhou para cima, em direção a
uma área de desembarque, muito mais adiante.– Se formos todos os três juntos,
vai levar uma eternidade. Eu vou pelo trilho, mesmo.

Zaluna a encarou, aflita:

— Hera, eu acho que você não deve ir sozinha.

— E nem você– Hera retrucou.– Kanan, faça de tudo pra que ela chegue lá.
Manda esse alerta duma vez! – Ela subiu pela lateral do bonde e saltou.
Agarrando agilmente um dos suportes, girou o corpo e sumiu pelo estreito
espaço horizontal, a salvo das rajadas dos stormtroopers.
O cabo se recolheu, Kanan liberou o gancho e se preparou para disparar de
novo. Zaluna, olhando para cima na vã tentativa de vislumbrar Hera, sacudiu a
cabeça.

— Nós vamos ter que enviar a mensagem enquanto Vidian ainda estiver na
sala, não é mesmo?

— Você já chegou até aqui, Zal. A parte mais difícil já ficou pra trás. – Kanan
abriu um sorriso e disparou o gancho. Seus professores Jedi haviam o alertado
sobre mentir aos mais velhos. Ele, porém, concluiu que dessa vez seria por uma
boa causa.

— Os relatórios da Forager estão sendo lançados– um alferes bradou de um


terminal. – Pequena incursão de forças. Três, talvez quatro.

— Fique a postos.– A capitã Sloane foi até o posto de seu oficial subalterno e
olhou por cima do ombro dele. A Ultimatum estava recebendo algumas imagens
do monitoramento de segurança da nave coletora, mas era difícil ver muita coisa.
Por um instante, pensou ter vislumbrado uma Twi’lek em fuga. Logo em
seguida, avistou de fato o jovem piloto arrogante.

Sacudiu a cabeça.

– A Forager está solicitando auxílio?

– Não, capitã. O conde Vidian continua com a contagem regressiva,


aguardando que o local da injeção esteja preparado para que ele termine o
trabalho.

Sloane assentiu. Vidian dispunha de seus próprios stormtroopers e guardas


pessoais. Seria pouco provável que ele precisasse de ajuda. Ainda assim, era
difícil ficar simplesmente sentada ali, sem saber o que fazer. Era em momentos
como aquele que ela sentia saudades dos tempos em que era uma oficial
subalterna, tendo sempre alguém por perto com todas as respostas...

— Capitã!

Sloane se virou e deu de cara com o comandante Chamas correndo pela ponte
de comando em sua direção.
– O que foi?

Chamas parecia pálido.

— Nós temos uma mensagem de prioridade máxima para a senhora.

Sloane ficou parada no lugar.

– Do almirantado?

— Não – o comandante disse, esbaforido. – Do imperador.

Os olhos da capitã se arregalaram.

— Vou recebê– la em meus aposentos. – E já estava à porta ao terminar a


frase.
52
O Comandante Chamas apareceu no holograma, falando com a tripulação de
comando do Forager.

– Seu link para o Detonation Control está pronto, Count Vidian. Nós só
precisamos de dez minutos até as cargas serem implantadas.

– Eu vejo isso. – Vidian estava observando o progresso do último no local de


administração. –Os atrasos que esse carregueiro inútil causou não foi fatal.

Ele ainda era agravado pela falha dos fighters da Ultimatum em parar o
renegado, mas a aterrissagem forçada na Forager não lhe custara muito. Os
infiltrados encontraram um jeito de contornar os seus stormtroopers, mas eles
tinham desligado a linha do bonde. Eles danificaram as áreas da refinaria, é
verdade, mas tiveram outras naves da refinaria no caminho.

Ele olhou para o holograma.

– Onde está Sloane?

– A capitã está... indisposta. – Chamas pareceu agitado.

– Ela irá perder o show.

– Você precisa de assistência contra...

– Não. Forager está fora. – Vidian cortou a transmissão, e Chamas


desapareceu. O ciborgue nunca teve qualquer utilidade para o homem e não
queria falar com ele mais do que o necessário. Não agora, em seu momento de
sucesso.
Os sons dos disparos das armas de raios surgiram do corredor sul, um dos três
portais no térreo que levavam ao centro de comando. Vidian alternou sua visão à
transmissão da câmera de segurança do corredor e não viu nada de anormal,
apenas seus stormtroopers montando guarda. Mas havia algo de errado com a
imagem. Estava congelada, com os soldados parados no meio de seus
movimentos feito estátuas, mesmo enquanto as sentinelas na sala com Vidian
disparavam através da porta sul. Viam algo que ele não era capaz.

— Fechem as portas de segurança do piso do centro de comando!

Barreiras pesadas desceram lentamente pelas molduras das portas das três
amplas entradas. Ainda disparando contra quem quer que estivesse no corredor,
um dos stormtroopers saiu correndo em direção à saída, apressando– se para
conseguir passar por ela antes que a porta se fechasse.

Um raio, porém, acabou lhe acertando em cheio no meio do caminho, e ele


tombou de lado. A porta maciça veio abaixo sobre a clavícula do soldado e ali
ficou parada, deixando um espaço de meio metro entre a soleira e o chão.

Vidian notou quando os disparos cessaram. A abertura era pequena demais


para que o invasor se aproveitasse dela tão facilmente, quem quer que fosse.
Verificou a transmissão da câmera novamente. Os guardas ainda estavam
imóveis e a porta, ainda aberta na imagem.

– Alguém está interferindo no que eu posso ver.

Um sinal de alerta disparou em seu console de comando. Um momento crítico


tinha ficado para trás: a última série de cargas de barádio estava sendo carregada
pelo guindaste até as profundezas de Cynda. Não poderia tolerar mais distração
alguma. Não havia portas blindadas nas entradas do nível superior de sua
câmara, mas poderia posicionar suas sentinelas remanescentes lá em cima. Ao
seu comando, os stormtroopers subiram correndo as escadas até as passarelas. O
que deixava apenas mais uma via até o cômodo, pela qual poderia liquidar seu
verdadeiro inimigo de uma vez por todas.

Voltou– se ao console de comando, de costas para a porta principal. Seria uma


questão das mais simples de se resolver.

Kanan montava guarda em meio aos corpos dos stormtroopers caídos. Tinham
chegado antes de Hera, conforme ele esperara, mas sabia não haver um jeito
fácil de passar pelos stormtroopers em alerta. Pelo menos, agora, havia um
caminho até a câmara de Vidian, uma das tantas que o conde dispunha.

— Tá preparada?

Olhando para os soldados caídos, Zaluna estremeceu dos pés à cabeça.

— Eu não sei.

— Você sabia que ia ter de fazer isso sozinha, né? Não dá pra gente se
esgueirar por aí, os dois.

— Eu não achava que fôssemos chegar tão longe. – Zaluna colocou o


dispositivo de volta em sua bolsa. Tinham precisado novamente dele para anular
as câmeras de vigilância em sua abordagem nave adentro, como na Estação
Calcoraan, embora o truque não funcionasse tão bem quando havia alguém
enquadrado. Só não havia como contornar isso no momento.– Tem certeza que
você não quer um tutorial sobre como invadir os sistemas de comunicação
imperiais?

— Eu faria isso se eu pudesse – Kanan disse. Pôde escutar mais tropas


correndo pelo corredor, à procura deles.– Nosso tempo tá acabando.

— Acontece.

Os stormtroopers estavam cada vez mais perto. Kanan se ajoelhou, protegendo


a passagem na frente dela.

— Eu sinto muito que você tenha de fazer isso, Zaluna. Você nunca pediu
nada disso.

– Nem você – ela retrucou, segurando sua bolsa. – Você é uma pessoa
decente, Kanan, independente desse tipinho aí que você faz pra todo mundo.
Você continua o mesmo.

Com uma saudação diligente, Zaluna ficou de quatro e espiou por baixo da
porta de segurança sustentada pelo corpo do infeliz stormtrooper. Olhou para trás
e sussurrou:

– Todos ciborgues, o tempo todo. Vai ser que nem se esquivar das câmeras. –
Em seguida, deslizou por baixo da porta.

O cômodo era assustadoramente grande, com vários consoles de computador


ao redor. Muitos lugares onde se esconder. Zaluna foi engatinhando por trás de
um deles. Os assistentes cibernéticos de Vidian zanzavam ali e acolá, mas
pareciam estar com a cabeça no trabalho.

Em silêncio, Zaluna passou de uma estação de trabalho a outra, torcendo para


que ou ouvidos artificiais presentes ali na câmara não fossem capazes de ouvir
suas articulações estalando, nem seu coração batendo. Isso está que nem ter
cruzado aquela cantina no outro dia, disse a si mesma. Não era. Mas ajudava
pensar que sim.

Finalmente, encontrou um console, perto da parede mais ao leste, que parecia


ter uma conexão com o sistema de comunicação, além de um cantinho dos mais
agradáveis por trás, onde poderia invadir a rede e enviar seu alerta.

Teria de ser por escrito, mesmo. Já tinha rascunhado o texto durante a viagem
de bonde: “Povo de Gorse, cuidado...”. Ela o enviaria e esperaria pelo melhor.

Estava prestes a se conectar à porta quando uma voz surgiu por cima de sua
cabeça.

– E cá está nosso roedor.

Agarrada pela parte de trás de sua camisa, Zaluna foi arrancada do chão

e jogada adiante. Ainda atordoada, vislumbrou a lua pelas escotilhas. Viu


stormtroopers descendo as escadas de metal correndo até o andar principal. E,
então, fitou diretamente os olhos terríveis de conde Vidian.

Ele sacudiu a Sullustana violentamente. A bolsa dela caiu aberta,


esparramando sua arma de raios e todos os seus dispositivos pelo chão. Vidian
vistoriou os instrumentos.

— Então trouxeram uma slicer. Eu sabia que havia outra pessoa. – Com uma
das mãos firmes ao colarinho de Zaluna, ele a puxou e a encarou bem de perto.–
Se você sabia tanto sobre câmeras de vigilância, deveria ter se lembrado de uma
outra coisa: nem sempre se sabe onde estão.
Vidian se virou e a arremessou pela sala.

Em meio ao fogo cruzado com os stormtroopers que se aproximavam, do


outro lado porta, Kanan ouviu o grito de Zaluna.

A jogada tinha falhado. Kanan saiu disparando sua arma de raios até derrubar
o último de seus oponentes no convés. Colocando a pistola de volta no coldre,
virou de frente para a porta. Ela tinha cedido um pouco desde que Zaluna
passara: os servomotores continuavam trabalhando, tentando em vão avançar
contra o obstáculo blindado.

Kanan colocou as mãos por baixo da soleira da porta de segurança e fez força
para cima. Seus músculos gritaram de dor, lutando não só contra o peso da porta,
mas também contra o mecanismo que a empurrava de volta para baixo. O metal
rangeu e, então, algo estalou. Forçou a porta meio metro acima de onde estava, e
então a porta travou. Era o suficiente. Passou suas pernas por baixo e rolou
pouco antes da porta voltar a se mover.

Recompondo– se, avistou o conde avançando em direção ao corpo imóvel de


Zaluna no chão. Kanan se colocou em posição.

— Vidian!

Um stormtrooper investiu contra Kanan pela esquerda da porta, com sua arma
de raios em riste. Kanan desviou agilmente, agarrando o rifle pelo cano e
puxando– o das mãos do soldado, que tropeçou para trás. Outro soldado o
surpreendeu pelas costas. Kanan girou, sentando uma coronhada no capacete de
seu oponente.

Vidian atacou. Kanan virou o rifle do stormtrooper ao contrário. Três disparos


acertaram o corpo de Vidian à queima– roupa, chamuscando sua túnica. Kanan
logo percebeu que aquilo não o deteria, mas tinha de arrumar um jeito de mantê–
lo afastado de Zaluna. Vidian investiu novamente, agarrando o cano do rifle de
raios. Ele o tomou e, então, despedaçou– o com suas próprias mãos de metal.

– Vamos acabar logo com isso– o conde disse, imperturbável.– Tenho um


horário a cumprir.

Kanan levou sua mão ao coldre, mas não demorou a desistir da ideia. Tinha
aprendido uma coisa ou outra em seu primeiro confronto contra o conde. Então
mergulhou de lado quando Vidian se atirou, atingindo o chão a tempo de saltar
outra vez, direto nas costas do conde.

Enfurecido, Vidian tentou se livrar de Kanan de qualquer jeito, agarrando com


seus dedos a roupa do piloto. Cravando os calcanhares nos quadris metálicos do
ciborgue, Kanan passou os braços ao redor do pescoço de Vidian e se agarrou
literalmente por sua vida.

Hera se precipitava de corredor em corredor, tomando cuidado para evitar os


destacamentos de stormtroopers. Eram mais numerosos naquele trecho final da
Forager e, aparentemente, já combalidos pela investida anterior de seus amigos.

O Kanan passou por aqui, tá certo, ela pensou, espiando pelo canto de uma
parede os corpos dos soldados desfalecidos. Os demais stormtroopers socorriam
os companheiros e ajudavam a defender a estação. Ela não seria capaz de seguir
pelo mesmo caminho que Kanan tinha tomado.

Abrindo uma porta que levava ao salão principal, adentrou uma área de
armazenamento cheia de equipamentos e veículos de carga, tudo sem vigilância
alguma. Havia ainda vários hovercarts parecidos com os utilizados por Kanan
em Cynda.

Uma empilhadeira chamou sua atenção – um veículo repulsor de serviço


pesado, mas estreito o suficiente para navegar pelos corredores, e com uma
cabine que proporcionava algum grau de proteção contra oponentes mais à
frente.

Hera abriu um sorriso. Conduzir equipamentos de carga era o forte de Kanan.


Ela, porém, iria mostrar– lhe do que era capaz.

Zaluna acordou no meio de um pesadelo. O barulho foi a primeira coisa que


escutou. Vidian cambaleava em volta, atirando– se de costas em consoles e
paredes na tentativa de se livrar de Kanan. Chiados perturbadores saíam dos
alto– falantes de Vidian enquanto os circuitos eletrônicos tentavam expressar sua
ira animal.

E, ainda assim, Kanan continuou se movendo, mudando de posição sempre


que Vidian chegava perto de desalojá– lo. Com uma chave de braço em volta do
pescoço do ciborgue, o jovem se revirava em resposta à cada movimento do
conde.
Zaluna se forçou a ficar sentada. Sua perna doía terrivelmente devido ao
tombo, mas, pelo menos, os únicos stormtroopers ali se encontravam no chão.
Os assistentes cibernéticos de Vidian se espremiam contra as paredes, limitando–
se a observar a dupla causando estrago no espaço de trabalho. Vidian passou
novamente pela frente dela, cambaleando com Kanan nas costas, quase
pisoteando a Sullustana. Ela saiu rolando...

...e viu sua pistola caída no chão. Vidian tinha conseguido agarrar Kanan pelo
tornozelo esquerdo, ela notou. Precisava ajudar seu amigo. Zaluna mergulhou
em direção à arma de raios e se levantou para enfrentar o conde.

– Zal, não! – Kanan gritou.

Vidian saiu varrendo tudo pela frente, soltando Kanan para agarrar a arma. Ela
tentou disparar, mas ele já estava segurando o cano da pistola. O conde apertou o
gatilho. Zaluna viu um clarão mais ofuscante do que um relâmpago quando o
gerador de energia da arma descarregou contra seus rostos. Ela caiu para trás. E
não viu mais nada.

O clarão cessou. Kanan, por se lembrar do que acontecia quando disparos de


raios atingiam Vidian, saltara de lado no instante anterior ao lampejo. Uma vez
que seus olhos se acostumaram à luz, Kanan vislumbrou Zaluna desfalecida.

– Não!

Vidian cambaleava com as mãos sobre o rosto. Kanan logo percebeu que o
sujeito tinha superestimado a própria capacidade de se safar de ataques de
energia. Disparos de raios eram uma coisa; geradores de energia explodindo à
queima– roupa eram outra. Kanan passou correndo por ele até Zaluna. A
Sullustana ainda respirava, ele notou, mas seu rosto estava queimado.

Agora conseguia ver que o de Vidian também estava. Recomposto, o ciborgue


já havia tirado as mãos do rosto. Seu revestimento sintético facial estava
carbonizado e todo derretido, expondo o homem de metal que estava por baixo.
O conde endireitou sua postura e fitou a dupla.

– Esta história termina agora, pistoleiro. Saque sua arma.

Kanan estava prestes a fazê– lo quando ouviu algo além: disparos de raios
ecoavam pela enorme câmara. Não soube dizer de onde vinham. Olhando em
volta, Vidian também parecia não ter ideia do que se tratava. Tampouco era
capaz de identificar o ruído horrível, parecido com o de uma lixadeira, que os
acompanhava.

Poucos momentos depois, todos puderam ver uma enorme empilhadeira


repulsora desbravando caminho através de uma das entradas superiores, rumo à
passarela mais acima. Dois infelizes stormtroopers já tinham sido recolhidos por
seus braços robustos, e um terceiro, apanhado de surpresa, caiu para trás sobre o
corrimão até o chão do centro de comando.

O veículo seguiu adiante, destroçando a proteção da passarela. Vidian, atônito


com o novo intruso, mergulhou de lado enquanto Kanan se debruçava sobre
Zaluna para protegê– la. Com um estrondo ensurdecedor, a empilhadeira e os
soldados capturados se espatifaram no chão entre os infiltrados e Vidian. Os
braços de elevação se partiram violentamente– um deles quase acertou as
canelas do conde.

Hera se debruçou para fora da cabine. Vidian a fitou, estupefato:

— Você!

— Esse é o problema com as câmeras de vigilância, conde. Não dá pra assistir


a todas elas ao mesmo tempo.– E sacou suas armas de raios.

Vidian passou a escalar a pilha de destroços em direção à Twi’lek.

— Você devia ter tentado me atropelar. Você sabe muito bem que essas armas
de brinquedo não são capazes de me atingir.

— Não mesmo, mas talvez aquilo lá sim. – Hera se virou e apontou cada uma
das pistolas a uma escotilha diferente. – Essas escotilhas não têm blindagem
magnética e eu ajustei as armas na potência máxima. Eu posso despressurizar
todo esse compartimento se eu quiser. Já pode ir se preparando pra mudar de
endereço caso dê mais um passo na direção dos meus amigos ou tente dar a
ordem de comando pra detonarem a lua!

Vidian retrucou com uma bufada digital.

— E qual de nós você acha que se sairia melhor caso você realmente faça
isso?– O conde caminhou até um dos consoles e fechou suas garras sobre ele. –
Eu não vou a lugar algum. E já abasteci minha reserva respiratória.– Ele sacudiu
a cabeça e soltou um cacarejo eletrônico. – Embora tenha achado muito
interessante isso que você disse. Cá estamos, finalmente. – Você quer salvar a
lua, Cynda. – Ele olhou de volta para seus trabalhadores, e para os poucos
stormtroopers móveis, aumentando e erguendo suas armas.

– Diga– me para quem você está trabalhando, agora!

– Eu trabalho para todos. Para as pessoas de Gorse. As pessoas da galáxia!

Vidian parecia surpreso. Então ele riu.

– Acho que temos um agitador aqui.

– Se você destruir a lua, você vai destruir a thorilide. – gritou Hera. –O


Imperador não tolerará isso!

– Não tenha tanta certeza. – disse Vidian. –Eu sou mais esperto do que você
pensa. – Ele olhou para o console. –Eu vou fazer isso. E então vou descobrir
quem cada um de vocês é. O Império irá destruir tudo o que é importante para
vocês.

Kanan olhou para ele com ódio.

– Está um pouco atrasado para isso.

– E o seu tempo está acabando. Quatro minutos para o intervalo de detonação


ideal. – Vidian olhou para Kanan.

– Devemos esperar todos juntos?


53
Sloane sabia que tinha caído em uma armadilha na Estação Calcoraan. Ela só
não sabia quem tinha feito.

O piloto tagarela tinha contado sobre a dupla identidade de Vidian, seus testes
com resultados fraudulentos e seu desejo de cumprir o prazo do Imperador
destruindo Cynda e Gorse junto com ele. Ele achou que isso era bobagem e, de
fato, uma verdadeira prova de lealdade por parte de Vidian. Depois que o
tagarela e seus companheiros sombrios foram para o elevador hidráulico, Sloane
estava pronta para esquecer a coisa toda.

Mas Vidian tinha exagerado muito. Ele tinha tentado arduamente garantir sua
cooperação, insistiu muito em acelerar a conclusão do projeto. Sua elevação
permanente a capitã de um Star Destroyer, acima de todos os outros mais velhos
do que ela, era mais que um suborno. Foi um golpe de sorte, algo que ninguém
poderia ter recusado.

E a sugestão que ele possa ter uma maneira de elevá-la a almirante, uma
capitã verde se um destacamento permanente, era simplesmente um insulto a sua
inteligência e ao serviço pelo qual dedicou a sua vida.

Vidian, o misterioso homem disse, vivia aterrorizando as pessoas para


encontrar produção. No entanto, o medo da perda de posição o motivou a
destruição da produção que o imperador ainda poderia contar por anos a fio.

E Sloane acreditou nele.

Só não havia como relatar as informações do piloto a seus superiores, não da


forma tradicional. Eram explosivas demais. Em vez disso, retomara da Estação
Calcoraan à Ultimatum, onde Chamas tinha arranjado uma conexão segura com
Danthe, valendo– se dos contatos que o barão fornecera. Era extremamente
contra as regras envolver um civil, mas não conhecia ninguém mais além de
Danthe capaz de alimentar suas esperanças de conseguir abordar diretamente o
imperador ou, ao menos, um de seus asseclas.

Enquanto aguardava em silêncio, ela se limitara a fazer seu trabalho conforme


o ordenado. Então, finalmente, obtivera uma resposta da parte deles em seus
aposentos. O pessoal do imperador confirmara ser verdade tudo o que o jovem
lhe dissera. E havia mais.

Yidian já tinha armado um esquema para fraudar o povo de Gorse desde os


tempos anteriores ao Império. Ao comprar e controlar secretamente a Minerax
Consulting, tinha emitido o relatório crítico responsável por agilizar o fim da
mineração de torilídio em Gorse. Este único ato por si só acabou
comprometendo a associação para a qual ele já tinha trabalhado, cujos interesses
foram sobrepostos aos da indústria dos caçadores de cometa, praticamente
controlada por ele. Em Gorse, os trabalhos de mineração tinham literalmente ido
para o espaço, já então, obliterando o que antes fora uma famosa reserva natural.

Aquilo havia sido o suficiente para Vidian, pelo menos até a semana anterior,
quando ele regressou ao sistema pela primeira vez em muitos anos. Foi então
que Sloane enfim entrou na história. Ao retornar ao sistema, Vidian havia dado
um jeito de romper os últimos laços entre ele e Lemuel Tharsa ao se valer do
poder da Ultimatum, e dela própria, para eliminar o centro médico onde ele tinha
convalescido. Mas isso era o de menos se comparasse com o problema que
enfrentara ao encontrar os novos objetivos de produção do Imperador. A recém–
descoberta da destruição a lua por torilídio tinha sido uma benção repentina, e
seus dedos de metal agarraram a cana com toda a força. Lá, novamente, ele usou
Minerax para mentir, afirmando que o projeto seria uma produção bem–
sucedida, a longo prazo. Minerax, e seu principal pesquisador: Lemuel Tharsa.

Como Vidian esperava, o nome e a reputação de Tharsa haviam sido


suficientes para obter aprovação Imperial para a destruição da lua. O homem e
seu currículo eram reais. Thomas Tharsa não tinha sido um veterano da Guilda
Interestelar do Thorilide, antes de abandonar a sua linha de consultoria? E não
tinha aprovado dezenas de projetos ao longo nos últimos anos, alguns dos quais
redundaram no lucro pessoal de Vidian?

Sim e não. Porque o piloto renegado falou verdadeiramente. Vidian era


Tharsa. Mas Vidian também manteve o nome de Tharsa vivo, usando-o para
avançar seus objetivos e enriquecer-se. Além disso, a suposta existência de
Tharsa ajudou a esconder o passado do conde de outros, que poderiam ter
encontrado sua verdadeira origem, como um funcionário para uma guilda, onde
todo mundo era corrupto, menos convincente do que seu próprio, roteiro do mito
de projetista de nave militar que tinha dado aos seus superiores em nome das
tropas.

Havia outra conseqüência: o Imperador não tinha que saber da verdade.

O alcance e os recursos do Imperador Palpatine eram imensos. Pouco do que


acontecia no Império Galáctico que ele não tinha conhecimento, geralmente,
sabia antes mesmo de acontecer. era uma coisa boa e isso funcionou em proveito
de todos os seus assuntos. Mas Vidian se fez de rogado para encobrir seus
rastros. E, talvez, a imagem de Vidian no passado como um guru dos negócios
em busca de fama tivesse levado o imperador a aceitar sua identidade conforme
apresentada. Contanto que Vidian fosse tão eficaz quanto sua reputação pregava,
que diferença faria se ele enchesse os bolsos e ostentasse um pouco?

Muita diferença, Sloane agora compreendia bem. Pois “Kanan”, o agente do


imperador (já havia aceitado o fato), tinha, através dela, transmitido a verdade a
seu mestre. Vidian tinha mentido sobre os resultados dos testes na lua. Antes de
repassar o relatório adiante, Sloane pediu à equipe técnica da Ultimatum que
confirmasse a alegação do homem: dentro de um ano, a esmagadora maioria do
torilídio não coletado dos escombros lunares poderia se decompor no espaço,
destruindo a preciosidade do imperador.

Os assessores de Vidian a bordo de sua nave– ao menos os que ainda viviam–


tinham ajudado a fraudar o teste, garantindo que os dados falsificados fossem
notificados. Enquanto ainda ancorados na Estação Calcoraan, seus melhores
técnicos tinham reexaminado cada droide sondador nos depósitos da Ultimatum.
O pessoal de Vidian tinha feito um bom trabalho, encobrindo a adulteração do
conde, mas não bom o suficiente. Ao agilizar a destruição de Cynda, Vidian
acabara sendo obrigado a elaborar sua fraude depressa demais.

Supostamente, a verdade só deveria aparecer um ano após a destruição da lua


– Vidian sabia que o resultado enfureceria Sua Alteza. E, no entanto, lá estava o
conde, tocando o projeto adiante. Sloane se perguntou se a busca por vingança
não o teria deixado louco.
Vidian, porém, estava longe de ser insano. Possuía um plano, esboçado num
documento suplementar entregue a ela pelo estranho: um arquivo criptografado
copiado dos computadores de Vidian. Os especialistas do imperador tinham
quebrado os códigos poucos minutos antes, fazendo o imperador chamá– la. Sua
raiva só aumentava enquanto ela lia o arquivo.

Cynda seria destruída e, dentro de um ano, não passaria de escombros


dispersos pelo espaço, sem a menor utilidade. Àquela altura, porém, já seria
responsabilidade de outro: provavelmente, do subalterno e maior rival de Vidian,
o barão Lero Danthe. O barão naturalmente incriminaria Vidian, que, por sua
vez, atribuiria a culpa à incompetência de Sloane e suas equipes de demolição.
Diria que se precipitara ao nomeá– la capitã interina. E, em seguida, apressar–
se– ia em solucionar tudo ao fazer uma grande revelação – algo tão
desconcertante, que ela mal podia entender como Vidian tinha conseguido
escondê– la por todo aquele tempo. Um fato descoberto pela Minerax Consulting
havia quinze anos, e que levou Vidian a comprar a empresa a fim de enterrá– lo.

A lua Cynda possuía, realmente, mais torilídio do que o hemisfério noturno de


Gorse. O hemisfério diurno, porém, detinha uma quantidade de minério
incalculavelmente maior, todo enterrado sob o calor escaldante de um sol que
nunca sumia do céu.

Antigamente essa informação seria inútil: os orgânicos não suportariam


trabalhar naquele calor todo. E, na época, os fornecedores de droides resistentes
ao calor se encontravam ao lado dos separatistas nas Guerras Clônicas. O
material era inacessível. E quando a guerra enfim terminou, Danthe acabou
detendo o monopólio do fornecimento desse tipo de droide. Tal recompensa teria
feito de Danthe uma pessoa incalculavelmente rica e poderosa, ela se deu conta.
Surpresa nenhuma, portanto, que Vidian tivesse escondido o fato.

Agora ela entendia o que tinha testemunhado na Estação Calcoraan: os


trabalhadores de Vidian tentando aplicar engenharia– reversa aos droides de
Danthe. Os arquivos de Vidian estipulavam um prazo de um ano para que seus
próprios droides estivessem preparados para explorar o hemisfério diurno de
Gorse, suprindo a demanda quando as ruínas de Cynda ficassem sem torilídio.
Numa sucessão de eventos típicos de sua preferência por soluções simples,
Vidian eliminaria um concorrente e salvaria o dia no Império, tudo enquanto
embolsava um lucro enorme.
Havia um porém: teria de destruir a população de Gorse ao longo do processo.
E pior ainda: arruinaria a carreira de Sloane.

Ela não permitiria isso. Tampouco o imperador. Palpatine não tinha problema
nenhum em destruir lugares a fim de lucrar a curto prazo ou lidar com seus
rivais. Mas a galáxia e todos seus recursos lhe pertenciam e só cabia a ele decidir
onde e quando tais ações seriam tomadas.

E isso facilitou, e muito, sua ordem seguinte. Saindo de seus aposentos, rumo
à ponte de comando, guardava a certeza de que o desenrolar dos fatos dali em
diante deixaria sua tripulação tão chocada quanto seu patrono.

— Preciso de um canal ao conde Vidian – ela disse.

Chamas, encarando– a com um misto de curiosidade e preocupação, estalou


os dedos. A imagem holográfica de conde Vidian apareceu.

— Ah, Sloane– ele disse.– Você voltou bem na hora. Estou prestes a detonar
as cargas e pulverizar a lua.

— Então, eu voltei bem na hora mesmo– ela retrucou, respirando fundo antes
de prosseguir. – Tripulações técnicas da Ultimatum: cancelem a conexão do
Controle de Detonação com a Forager.

— O quê? – Bruxuleante, conde Vidian a fitou boquiaberto, acompanhado de


forma bem real pelo comandante Chamas, ali por perto.

Sloane cerrou o punho.

— E, atenção, todos os stormtroopers a bordo da Forager, em nome do


imperador, prendam conde Vidian!
54
A mesma coisa tinha acontecido com os Jedi; Kanan se lembrava bem.
Respondendo a algum comando do imperador, soldados clone haviam eliminado
a força de combate mais estimada da República. Fora um dia sombrio – de
longe, o mais sombrio da vida do jovem Caleb Dume. Kanan Jarrus geralmente
evitava pensar nisso.

Naquele momento, porém, ver os stormtroopers se voltando contra o próprio


mestre, foi um tanto surpreendente e delicioso, mesmo que os imperiais
continuassem apontando as armas também a Kanan e seus amigos. Mais
stormtroopers içaram a porta principal, elevando o número total de guardas em
trajes brancos para uma dúzia.

No topo de um graneleiro, Kanan notou que Hera não sabia o que pensar.
Quanto à reação de Vidian diante da capitã holográfica, no entanto, não pairava
dúvidas.

– Esse é um ato irrefletido de sua parte, Sloane. Você perdeu o juízo?

– Você está preso por múltiplas violações no código legal imperial. Falso
testemunho ao imperador. Especulação sem a permissão do imperador. Quebra
de confiança para com o imperador. Tentativa de dano ou extermínio de bens
estratégicos, considerados vitais ao...

– Imperador– Vidian completou a frase, em fúria crescente. – Você, então,


ousa invocar o nome do imperador?– Apontou para Kanan. – Esses anarquistas
envenenaram sua mente contra mim. São partidários de Gorse, tentando
dificultar o nosso projeto.– ele olhou pra trás na escotilha o exterior da lua.

— O projeto deve continuar!


— Esquece, Vidian — disse Sloane. —Você não vai destruir nada hoje.

Kanan dificilmente conseguiu conter sua resposta. Sua jogada tinha


funcionado, afinal.

Vidian olhou enquanto uma dupla de stormtroopers se aproximavam dele,


como se decidisse o que fazer. —Eu não sei — disse ele. Ele olhou para um par
de seus assistentes cibernéticos. —Restabelecer a ligação ascendente de controle
de Detonação.

Sloane gritou com ele.

— Nós já desligamos...

— Você não desconectou nada. As torres de injeção, os sistemas logísticos,


você só os instalou. — Meus trabalhadores os fabricaram e podem tomar
controle novamente a qualquer momento.

— Se é assim que você quer. — disse Sloane. — A setença da morte se


estendeu a todos os trabalhadores na ponte do Forager. Stormtroopers, fogo!

Os stormtroopers executaram sua ordem à queima-roupa em vários assessores


de Vidian imediatamente. Vidian gritou alguma coisa, mas Kanan não a ouviu.
Tiros de Blasters ardendo ao redor, ele atingiu o convés. Lutando atrás da cabine
da empilhadeira esmagada, ele viu Zaluna. Ela olhava duro, seu rosto estava uma
confusão queimada.

Nós temos que sair daqui. Ele olhou para trás para ver Hera lutando para
descer a maior parte, se amontoando no chão para evitar os tiros como ela fez.
Ao redor os droides e ajudantes de Vidian caiam.

Empunhando sua arma, Kanan chegou a considerar a possibilidade de se


juntar ao grupo, mas logo mudou de ideia. Para um homem de meia– idade, se é
que ainda havia qualquer homem naquele corpo, Vidian tinha uma força sobre–
humana. O que quer que alimentasse todo aquele vigor ainda detinha energia de
sobra. Esquivando– se de um raio disparado por um stormtrooper, Vidian
investiu contra seu oponente, esmagando o capacete do sujeito em suas mãos.
Mal o soldado soltou um grito, horrível, Vidian já atacava outro stormtrooper.

Kanan avistou uma porta recém– aberta, mais ao lado. Hera deu cobertura
enquanto ele suspendia o corpo de Zaluna. Saiu em disparada rumo à saída e a
acomodou no chão, do outro lado da porta.

— Espera aqui. – ele disse.

— Isso foi... uma piada? – ela murmurou.

— Desculpa. – Kanan se virou de frente para a câmara.

Hera, mesmo em meio ao caos, lembrou– se do que eles mais precisavam


fazer.

— O console de comunicação – ela gritou, apontando para além do corpo a


corpo que se desenrolava na sala. Saltou de trás da empilhadeira, mesmo vendo
que Kanan já se apressava na mesma direção.

Mas Vidian já estava lá.

O último stormtrooper jazia no chão, Kanan notou tarde demais. Os


funcionários de Vidian também estavam caídos; eram mais algumas baixas no
trabalho sob a administração do conde. Só ele, Hera e Vidian permaneciam vivos
ali. E Vidian tinha acabado de digitar uma série de códigos.

— Conexão com o Controle de Detonação restabelecida – Vidian disse.

– Pouco mais de um minuto a perder.

Sua voz seguia com o mesmo tom presunçoso e autossuficiente de sempre,


embora sua aparência estivesse bem diferente. Sua túnica estava em frangalhos;
sua pele artificial e seu nariz, totalmente queimados, davam lugar a uma mera
máscara de prata carbonizada. Faíscas esvoaçavam de suas juntas mecânicas. O
sujeito, no entanto, não se deixava abalar. Ele se voltou a Kanan e Hera.

— Eu não sei o que vocês disseram a Sloane. Mas assim que o imperador vir
meus resultados, pouco importa.

— Seus resultados? – Hera gritou. – Destruição e genocídio!

Vidian bufou:
— Penso que você está encarando a situação pela óptica equivocada, sabe.
Vocês nunca chegarão a lugar algum contra o Império. Vocês são indisciplinados
demais, muito desorganizados.

— É o que a gente já vai ver – Hera retrucou, brandindo sua arma.– O povo
vai te deter. A gente vai te deter.

— Já passamos por este embate antes, nós três. Vocês não têm como me
atingir.

— Talvez eu tenha. – Kanan levou a mão ao estojo de lona em sua perna


esquerda, onde seu sabre de luz estava escondido.

— Bobagem – Vidian retrucou, gesticulando em sinal de desdém. – Se você


tivesse como, já teria usado. Certo?

Hera lançou um olhar penetrante a Kanan quando Vidian se voltou ao console.


Kanan ensaiou sacar sua arma secreta, mas, então, interrompeu– se. Algo, em
algum lugar, dizia– lhe: Não, isso não. Não agora.

Ainda não.

— Não lhe dê atenção, Twi’lek– o ciborgue disse, mexendo no console.

— Ele não é capaz de me deter.

— Mas eu, sim– capitã Sloane retrucou de seu holograma que tremeluzia de
volta à vista. Ostentava um semblante frio, semicerrando os olhos.– Controle de
artilharia da Ultimatum, mirem na torre de transmissão e disparem fogo.

Agora, sim, Kanan tratou de se mexer. E bem de acordo com seus instintos.
Mergulhou para cima não de Vidian, mas de Hera, jogando– a no chão ao
mesmo tempo em que uma das escotilhas por trás do conde se iluminou como
uma centena de sóis.

Se houve algum barulho, Kanan não chegou a ouvi– lo. Houve apenas luz e
movimento, e calor assim que a Forager foi arrebatada violentamente pelo
impacto do turbolaser de barragem do destróier estelar. Rolando para longe de
Hera, levou o que pareceu ser uma eternidade para que seus olhos se
acostumassem ao clarão. As luzes estavam apagadas no centro de comando, e
Vidian cambaleava ao redor como se estivesse preso num furacão. Kanan se deu
conta do porquê, olhando através das escotilhas. Agora vários caças TIE haviam
se juntado à Ultimatum para castigar o escudo defletor da Forager. Por enquanto,
a nave ainda estava inteira; mas a cada novo golpe no escudo, tudo dentro da
nave estremecia freneticamente.

De alguma forma, Vidian foi capaz de alcançar o console novamente. Kanan


estava pronto para ir atrás dele, mesmo abalado; mas, dessa vez, foi Hera quem o
agarrou, mantendo– o contra o chão. Ele logo entendeu o motivo. A
superestrutura da Forager vinha aguentando o tranco, sim; a torre de
transmissão, todavia, visível pelas escotilhas na câmara, ruiu abaixo sob o
impacto de um disparo direto da Ultimatum contra o escudo.

Era Sloane quem dava as cartas, Kanan percebeu. E os artilheiros


simplesmente cumpriam com seu dever.

Vendo sua chance de destruir Cynda escapar por entre os dedos, Vidian soltou
um urro e se virou. Saiu correndo de volta pela entrada principal, não dando a
mínima a Kanan e Hera. Encontrando sua arma de raios no chão, ali por perto,
Kanan se levantou para seguir Vidian. Pelas costas, Hera bradou:

– Kanan, não! – Ele olhou para trás. Ela ainda estava de joelhos, perto da
porta pela qual tinha arrastado Zaluna, logo abaixo da passarela anteriormente
danificada. – A gente tem que encontrar um...

O tempo parou para Kanan. E, então, voltou a passar de novo, devagar.

Ele viu tudo. Viu o caça TIE do lado de fora, lançando um torpedo contra o
escudo defletor da Forager. Viu a ponte de comando estremecer com violência,
em resposta. Viu a pesada passarela de hiperaço, já comprometida em
decorrência da entrada triunfal da empilhadeira de Hera, rompendo– se de seu
ancoradouro. Viu a passarela cair em direção a Hera. E Hera, embora não alheia
a tudo, sem condições de sair do caminho.

Kanan fez um breve reconhecimento dos obstáculos entre os dois; destroços e


corpos que se encontravam amontoados ao longo do trajeto mais curto. Sem
pensar, varreu tudo pelo caminho com o poder de sua mente, desobstruindo
totalmente a passagem até Hera.

E, então, ele se precipitou. Mais veloz do que quando salvara Yelkin, mais
veloz do que lembrava de ter se movido em anos. Tudo na esperança de agarrá–
la e mergulharem por baixo da porta.

Não fosse pelo fato do tempo também se passar mais rápido, muito mais
rápido do que suas esperanças. Quando enfim conseguiu alcançar Hera, já era
tarde demais, como fora tarde demais para salvar mestre Billaba. A Força se
apresentara tarde demais a muitos naquele dia. Mas estava com ele agora,
enquanto ele deslizava pelo chão até Hera. A Twi’lek, ciente do perigo que a
espreitava, levou a mão adiante como se quisesse afugentá– lo para que ficasse
em segurança. Em vez disso, porém, Kanan olhou para cima e acenou...

...paralisando a gigantesca passarela no meio do ar, a centímetros de suas


cabeças.

Hera ficou parada, olhando tudo estupefata, e então o encarou. Um tanto


inibido, Kanan fez um movimento brusco com a mão, empurrando a massa
suspensa de lado. A passarela foi ao chão com um estrondo colossal.

A Forager estremeceu novamente sob o ataque imperial. A paisagem do lado


de fora da nave era de uma beleza perversamente maravilhosa, ele pensou:
vários clarões diante da lua conforme os caças arremedam. Mas tudo
empalideceu diante do que viu ali em meio à escuridão, nos olhos de Hera.

— Mas então... — ela ensaiou dizer. — Mas então, você é...

Com um sorriso maroto, Kanan levou o dedo à boca de sua companheira.

— Shh. Não conta pra ninguém.

Ela continuou encarando– o por um bom tempo, maravilhada diante da


revelação que chegara a seu conhecimento, e um sorriso suave lhe veio ao rosto.
Assentiu.

—Vamos.
55
A cápsula salva– vidas decolou da Forager. Kanan se debruçou sobre a estreita
escotilha circular e olhou de volta à nave de coleta. Várias outras pequenas
cápsulas eram propelidas ao longe, e o Império estava de olho em cada uma
delas.

— Tem um caça TIE atrás da gente, praticamente grudado na nossa cauda –


ele disse.

— A gente não tem uma cauda. Mal temos um motor. – Hera manuseava um
pequeno bastão, conduzindo o veículo. Era basicamente o único controle a seu
dispor. – Eu acho que o TIE tá só acompanhando a gente, mesmo.

— Sei.– Não havia nada a ser feito. Kanan se afastou da escotilha e voltou a
umedecer com cuidado as queimaduras no rosto de Zaluna com um chumaço
embebido no baeta encontrado no medpac.

A Ultimatum ainda atacava a Forager, assim que os imperiais se dessem por


satisfeitos, Kanan sabia, provavelmente passariam a varrer todas as cápsulas de
fuga. Sloane não deixaria de procurar Vidian, mas acabaria encontrando Kanan e
companhia no lugar.

— Você ainda consegue enxergar?– Kanan perguntou a Zaluna.

— Não há nada de bom pra se ver, mesmo– ela respondeu.

Vidian atravessava um rio de ácido. O líquido cáustico se encontrava na parte


fábrica de Foragner; Em algumas partes chegava aos tornozelos, em outras na
cintura. Estava destruindo o piso e já havia comido nas anteparas abaixo; ele
antecipou a descompressão explosiva a qualquer momento.
A travessia começara como uma corrida de forma angustiante e mecânica, que
logo depois diminuía a velocidade e terrivelmente dolorosa, enquanto suas
pernas se desfaziam em escoras esqueléticas ao caminhar. Seus braços estavam
ainda mais danificados na viagem. Não havia outra escolha, nenhum outro
caminho para chegar ao seu destino.

Ele se lembrava de algo. Os intrusos haviam chegado em um transportador de


barádio. Estava intacto, podia ver através das poucas câmeras de vigilância ainda
estavam em funcionamento: pronto para partir. Ele iria usá-lo, evitando os pods
de fuga. O cargueiro poderia estar perdido na confusão, esperava ele; ele poderia
chegar a um dos locais de perfuração em Cynda, de onde ainda havia tempo para
detonar os explosivos e cumprir a cota do imperador. Ele encontraria um
caminho.

Isso era obra do Barão Danthe, de alguma forma. Tinha que ser. Era
impossível imaginar que alguns rebeldes e um capitão substituto pudessem levar
a sua reputação e carreira a ruína. Com a detonação da lua, ele tinha certeza, que
iria recuperar o prestígio, entre a lua e o lado iluminado pelo Sol de Gorse, o
Imperador teria torilídio para construir mil frotas.

E se isso não acontecesse, o cargueiro ainda teria um hiperdrive e uma carga


completa de barádio - 357. Esse era um recurso importante, e algo a ser
construído em outro lugar, se necessário. Ele havia ressurgido do nada antes.
Talvez não levaria vinte anos desta vez. Mas ele não teria que fazer isso. Ele
terminaria o projeto.

Vidian cambaleou em membros falidos para o compartimento de aterrissagem.


O lugar era uma confusão de vigas e anteparos caídos, mas o cargueiro
problemático estava exatamente como devia estar, com a rampa aberta. Ele
achou irônico que, de todas as coisas, essa seria sua salvação.

Alcançou a rampa, Vidian olhou através do campo magnético da baía de


aterrissagem. O Forager, saía fora de controle, agora, estava indo enfrentar
Cynda. Era conveniente para uma viagem rápida, pensou Vidian. “Eficiente”.

Vidian subiu cambaleando a rampa do cargueiro, e depois não pôde ir mais


longe. Ele olhou para baixo. Ali, no convés de aterrissagem encostado ao lado da
rampa, estava Skelly. O homem estava maltratado e ensanguentado, e, no
entanto, tinha encontrado forças para alcançar a perna de apoio de Vidian
enquanto subia a rampa. Skelly agarrou o único tornozelo de Vidian com sua
mão direita.

O conde tentou afastá-lo, mas não conseguiu.

-Solte-me!

-Essa ... mão não se solta. - disse Skelly e tossiu. -Não... me importo. Eu
estava... aqui olhando... para a lua.

-Não se acostume com isso. - disse Vidian, esforçando-se para continuar


subindo. Mas suas pernas danificadas pelo ácido não lhe davam nenhuma
vantagem.

-Desculpe, Vidian. Explodir coisas ... é o meu trabalho. Regras da guilda,


sabe.

Skelly se mexeu - e agora Vidian via o dispositivo na sua outra mão,


conectada a uma longa linha de micro filamentos. Os olhos de Vidian seguiram a
linha e encontraram a porta da nave.

-Eu disse ao Kanan... que não precisaríamos da minha bolsa de truques. -


disse Skelly. -Mas o que eu não disse... era que não voltaria por isso. Nesse
instante Vidian percebeu.

-Não! Não, não!

-Eu não recebo ordens de você. - Então Skelly olhou para fora da entrada da
baía de pouso em Cynda e piscou. -Eu salvei você, querida! – E ele apertou o
botão.

O flash cegou Kanan a princípio. A explosão começou na parte traseira da


Forager, consumindo rapidamente os decks de aterrissagem e destruindo a parte
frontal. Com os olhos se ajustando, Kanan reconheceu a conhecida cor
característica de uma explosão de barádio. Mas isso era maior e mais poderoso
do que ele já tinha visto.

-Hera, vai!
Havia pouco que ela pudesse fazer, exceto colocar o escudo térmico de
reentrada do pod de escape entre eles e a explosão. O TIE Fighter que os
perseguia demorou a reagir. Partículas superaquecidas da explosão rasgaram as
asas hexagonais da nave, fazendo com que a nave se destruísse violentamente.
Uma onda de choque composta plasma e matéria que se expandira de fora da
zona da explosão, atingiu seu pod de escape.

Desorientada pelo impacto, Hera lutou com os controles, ancorando o pod


para pegar a onda. Ao redor, Kanan viu mais efeitos da explosão. O Pods menos
afortunados estavam se desintegrando, assim como seus perseguidores TIE. E as
torres eletrostáticas que haviam sidos os rádios do Forager foram lançadas em
todas as direções, inclusive em direção ao Ultimatum. Um longo feixe
esfarrapado bateu na superfície do casco do Star Destroier, abrindo um talho de
fogo.

Era distração suficiente para Hera, que aproveitou a oportunidade para se


dirigir a atmosfera de Gorse. Ela desligou as luzes interiores da cabine, e o pod
de escape ficou às escuras enquanto voavam, como outro pedaço de detrito.

Na escuridão, Hera reorientou a nave para que os passageiros pudessem olhar


para os restos da Forager. Não havia muito para ver. Kanan não tinha dúvidas de
que a Expedient, com seu carregamento de barádio - 357, era o motivo da
explosão.

-Um Bebê muito safado. - disse Kanan.

Zaluna estremeceu. Ela não tinha visto a explosão, mas a sentiu.

-Eu... eu tinha a esperança que Skelly pudesse ter sobrevivido, mas agora sei
que isso acabou terminou com ele.

Hera a segurou.

-Está bem. Nós saímos. Talvez ele também tenha feito isso.

-Não. - disse Kanan, pensando em voz alta. -Ele não fez isso.

Sombriamente, Hera olhou para a tempestade no espaço.

-O compartimento de pouso deve ter sido atingido pela Star Destroier.


Kanan balançou a cabeça.

-Não. Skelly fez isso.

-Se você não viu. - perguntou Zaluna, -como você sabe?

Hera estudou Kanan por um momento. Ele ficou em silêncio.

-Ele só sabe. - ela finalmente disse. -Ele apenas sabe.

Ela voltou para os controles. O pod de escape afundou nas nuvens da


interminável noite de Gorse.
Fase Final:

AVALIAÇÃO DOS DANOS


“Imperador planeja exploração robótica no hemisfério diurno, uma nova era em Gorse”

“Supervisão da região industrial é outorgada ao barão Lero Danthe de Corulag”

“Site de Vidian na HoloNet desaparece após recaída em seu estado de saúde”

– MANCHETES, HOLONOTICIÁRIO IMPERIAL (EDIÇÃO GORSE)


56
Era raro ver Sloane vestindo seu uniforme de gala. Ela só costumava usá–lo em
suas cerimônias de promoção. Aquela noite, porém, era diferente, e era sempre
noite em Gorse.

O governador regional se encontrava lá em visita à residência real do prefeito,


de longe o lugar mais agradável do planeta. Ela reconheceu vários outros
capitães imperiais e um almirante, que tinha levado consigo um moff, uma das
mais altas autoridades do governo. Estavam todos ali para beber, papear e
comemorar o acontecimento mais importante na história da produção industrial
de torilídio: a abertura do hemisfério ensolarado de Gorse aos drones de
mineração resistentes ao calor do barão Danthe.

Tratava–se de um grande momento para o mundo, capaz de transformar sua


economia de maneira surpreendente. As refinarias de Gorse seriam necessárias
como nunca antes; nem o imperador destruiria a lua e devastaria o planeta por
um lucro efêmero se, a longo prazo, a recompensa seria muito melhor. E tudo
estava sendo atribuído diretamente a uma descoberta feita por Sloane e pela
equipe científica da Ultimatum. Não era, claro; ela tinha simplesmente repassado
adiante o extenso relatório secreto de Vidian. Mas era a ela que os créditos
estavam sendo concedidos, e ela os aceitou de pronto, ao lado de sua tripulação.

Sua tripulação. Alheio às maquinações de Vidian, o destacamento do capitão


Karlsen tinha acabado de ser permanentemente outorgado a ela.

Sloane ficou feliz com o fato do comandante Chamas ter despachado Deltic e
seus demais colegas de trabalho de volta para a nave imediatamente após a
cerimônia de condecoração, antes que a deixassem constrangida na frente de
alguém. Eram seu constrangimento agora. A Ultimatum era sua.
E os trabalhos estavam só começando. Mais tarde, todos desfrutariam de um
luxuoso passeio por Cynda, já que a lua havia recuperado seu status de destino
turístico. A zona atingida pela explosão de teste era apenas uma das muitas
antigas reservas naturais no satélite; o Império não tardou em recriar outra.
Ficaria à disposição para ser visitada pelos ricos e poderosos: aqueles que bem
serviam o imperador e aqueles cuja influência ele solicitava aos tribunais. O que
incluía praticamente todos na sala, eia pensou.

Pegando um drink da bandeja de um droide da classe serviçal GG, Sloane


repassou mentalmente os fatos desde a morte de Vidian. Um intermediário do
imperador fora a seu encontro para se colocar a par de toda a situação. Sloane
contara a mais absoluta e completa verdade, claro, e o inspetor não viu nenhum
problema em seu testemunho. Mostrara– se, no entanto, intrigado com a história
do jovem piloto com quem conversou no escuro. O tal “Kanan” não era agente