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Corrupção: uma explanação filosófica sobre

uma "onerosa e reincidente" realidade


humana
Trata do tema sob uma visão filosófia, onde a autora disserta com
clareza sobre este mal socio-cultural, busca demonstrar que a
corrupção é uma distorção do caráter humano, sendo mais
explícito, repugnante e oneroso na órbita política.

Por Suzana J. de Oliveira Carmo


DIREITO PENAL | 17/AGO/2005

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De início, parece-nos oportuno delimitar o cerne de nossa explanação, e
neste aspecto, é não só oportuno, mas também bastante coerente,
demonstrar que estaremos partindo de uma impositiva primeira
complexidade, que se perfaz na evidência de que uma proposta
dissertativa sobre a “corrupção ou corrução”,forçosamente nos reporta a
uma observação do elemento humano sob uma ótica dual: ação-reação,
pois, o homem é, num só tempo, agente e objeto desta decomposição que
contrafaz seu caráter.

Conceitualmente, a corrupção pode ser entendida como atentado ou


transgressão às normas, princípios e valores, tantos os jurídicos quanto
os sociais. Em verdade, retrata uma violação mediata ou imediata ao
organismo como um todo, configurando-se sempre em uma lesão (delito
jurídico ? vício ou falta moral). Retrata uma conduta gravosa,
independentemente de sua ordem: social, econômica ou político-estatal.

Bárbara Barris White, docente da Universidade de Oxford, define a


corrupção atribuindo aos seus efeitos uma proporção abrangente; assim
dizendo: “A corrupção não se restringe ao suborno, sem que se estenda à
invasão fiscal, à exploração do trabalho, e distorça a ética que deve
reger uma sociedade”. [1] (tradução nossa)

Assim, entendida como algo inserto na órbita da natureza humana, e,


aqui não trataremos de questionar, argumentar ou refutar a existência ou
não de uma peculiar natureza humana, daí porque, aceitaremos como
incontestável sua existência, ou, até mesmo sua sobrevivência ante a
interatividade cultural. Assim, a marcha de nosso pensamento filosófico
prossegue, e nesta trajetória tentaremos aclarar a concepção do que é;
qual sua origem e causa; como se revela; e ainda, de que forma
a “corrupção” transforma o homem.

Em sua representação denotativa, a corruptibilidade evidencia algo


corrompido, desmoralizado, desacreditado, podre, estragado, pervertido,
desnaturado, ou ainda, decomposto. Novamente aqui, ao adentrarmos à
análise semântica dos verbos transitivos, em tempo particípio e
adjetivos “pejorativos” que descrevem a literalidade da palavra
corrupção; nos deparamos, uma vez mais, com caráter dúplice da
questão, porque todos estes signos revelam ao mesmo tempo “ação-
processo”, donde saltam percepção e dedução lógicas: o corrupto dilacera
com os objetivos, interesses e valores sócio-culturais, e em contrapartida,
faz ruir em si mesmo a estrutura edificada de uma unidade social, de um
ser participativo e elementar à consciência coletiva.

Em face destas constatações primeiras, ou, porque não dizer, primárias, a


partir das quais trataremos de discorrer sobre o que corrompe o homem.

Partindo do ano 410 da Era Cristã, encontramos na narrativa do teólogo e


filósofo Santo Agostinho, a expressão: "Dentro de cada homem há uma
guerra civil". Assim, em sua obra, Santo Agostinho pontua a necessidade
de que o homem socializado possua um temor reverencial, o que por ele
foi denominado como: “virtude civil”, que nada mais é, senão um
sentimento humano voltado a Deus e, por ele apontado como o
ingrediente basilar do caráter, ou seja, o que leva o homem à
não “decair” e a afastar-se dos três maiores pecados: ânsia por dinheiro e
bens materiais; desejo [2] de poder e o desejo sexual. Santo Agostinho
nos fala em pecados, todavia, não é de suma importância o modo como
que nomeamos a fraqueza do caráter humano: pecado, paixão, vício ou
hábito, quando sua manifestação é que se impõe relevante.O mal
generalizado que atinge a sociedade é que deve ser considerado em sua
integralidade.

Distante de Santo Agostinho cronologicamente, porém, tão próximo no


que tange à observação da natureza humana, está Kant. Em “Idea for a
General History, Kant compara: ambição, desejo de Poder e inveja aos
três maiores flagelos da humanidade ? guerra, fome e peste. Do mesmo
modo, Schwantes reconhece a fragilidade do caráter humano; sua
tendência nata à deformação e, atribui à crise moral o sintoma mais
flagrante da ausência generalizada de caráter. E afirma:

“São parasitos os que exploram a sociedade para benefício próprio, os


que vivem à custa do Estado sem nada produzir, os que vegetam em
lastimosa ociosidade. Tais indivíduos são como células cancerosas que
roubam a vitalidade do organismo social. [3]

Por seu turno, Jean-Jacques Rousseau, munido de sua antropologia


filosófica, afirmou: “Homem nasce bom e sem vícios, porém, a sociedade
civilizada o corrompe”.Talvez, não possa ser tomada como uma assertiva
válida esta que nos é colocada por Rousseau, ao considerarmos que o seu
modelo de homem ideal é aquele em estado “in natura”, ou seja,
primitivo e desconhecedor das desigualdades sociais; alheio à razão,
assim eqüidistante de todos os vícios. Contudo, ele o descreve como
detentor de algo que foi denominado como “sentimento de
piedade” diante do sofrimento alheio. Todavia, ao nosso ver, tal estágio
humano não configura que haja uma falta de agressividade, ou então,
ausência de maldade no contexto da natureza humana, e sim uma apatia
cultivada pela ignorância selvagem. Sob tal aspecto, comungamos da
exposição de Lúcia Santaella, naquela em que define a nossa existência
sígnica, como algo que está necessariamente pautado pelo agir, reagir,
interagir, e fazer, que são modos marcantes, concretos e materiais de
dizer o mundo, a interação dialógica, ao nível da ação, do homem com
sua historicidade. [4] Ou seja, houve para a humanidade um instante
histórico e preciso, em que o homem deixou de ser simplesmente um
primata e tornou-se o “Homo Sapiens”.

Diferentemente de Rousseau, Thomas Hobbes em “Leviatã”, publicado


em 1650, nos sugere uma idéia antagônica, descreve um ser humano que,
por natureza, é mau, sendo controlado (freado em suas paixões e
vícios) por meio do medo institucionalizado, imposto pela sociedade em
que está inserido. Decerto, Hobbes esboça-nos uma natureza humana
feroz e destrutiva ("homo homini lupus ) [5], afastada do “valor social”,
aquém do bem comum.

Mais tarde, Edgar Morin decifra este processo de hominização [6],


traçando uma a uma as etapas de seu desenvolvimento, e nos leva a
aportar em uma tensa realidade, a de que a “igualdade” social, está
repleta de desigualdades, umas são de fato, outras de direito, porém,
ambas geram intolerâncias, antipatias, brigas, disputas. Morin sugere que
das desigualdades e distinções nasce o poder político, que é a existência
de uma dominação pré-constituída, que posteriormente, viria ser o
Estado. Assim, através da obra de Morin, traçamos um paralelo com o
Estado Moderno, de forma que, tal e qual foi no período
da “hominização”, a vida social requer organização e cooperação de
todos, contudo, o modelo coletivista onde tudo é bem de todos, possui um
sistema de repartição de riquezas “mais ou menos” igualitários, com
vantagem, sem dúvida, em favor do chefe. [7]
Necessariamente, para nós, a corrupção é um processo dicotômico:
intrínseco e extrínseco, pois, inicia-se no caráter e se exterioriza na
sociedade, tornando-se uma patologia cultural, incidente e inafastável.
Rui Barbosa ilustra a questão da corrupção política, primeiramente,
aponta a política como:“ciência cujo único dogma inalterável é o dos
princípios furta-cores, com um matiz para os nossos amigos e outro,
oposto, para aqueles que não o são”. [8] E nos fala do homem corrupto,
como aquele que põe em senzala sua dignidade e caráter, todavia, ao
mesmo passo, o descreve como um ser servil e confinado, longe da luz, do
vento e oxigênio que tudo limpam e regeneram. Por fim, caracteriza a
corruptibilidade como um círculo vicioso, de fluxo incessante; assim nos
diz:

“Cada um dos que vão chegando, se aduba dos outros; com eles se cruza
e recruza, novas espécies lhe surgem do coito sutil; há hibridação em
hibridação, de multiplicação em multiplicação, um mundo incalculável
de malignidades se enxameia [...] os antigos colaboram com os recentes;
do ajuntamento de uns e outros se vem gerando novos, pelo concurso
destes com aqueles, crescem ao infinito, em número, em diversidade, em
virulência aos contágios, as infecções, as pestes”. [9]

De posse das considerações traçadas por Rui Barbosa, somos capazes de


fazer uma ilação espontânea, a corrupção sugere a pré-existência de um
“Poder”. O Poder possui muitas faces, e estas suas faces não
descaracterizam suas feições objetivas e obstinadas, que na maioria das
vezes, resulta sempre numa tendência de acúmulo de poderio econômico.
Assim, vemos que o Poder se estabelece pela necessidade basilar de
comando de uma sociedade pré-estabelecida, no entanto, não se restringe
a tal liderança, o mando pelo mando não faz sentido, e por isto, tem
objetivos mais extensos, ou seja, de angariar “riquezas”. Sim, a história da
humanidade nos tem demonstrado que desde o início das civilizações,
durante todo o escorço do tempo, que o alvo do poder é atingir
substancialidade patrimonial para aquele que o detém.

Segundo Federico Trillo, em sua obra: “El poder político en los dramas
de Shakespeare” (1999), transmite a idéia de que Shakespeare em seus
dramas sempre faz a narrativa do Poder como algo que atrae, que subjuga
e provoca, noutras palavras, como uma força maldita. E, acrescenta, que
nos dramas Shakespearianos o Poder tem a mesma característica e
objetivo da Política. A obra de Shakespeare demonstra esta “paixão”como
um lado sombrio do homem. Pois, o Poder, explica Trillo:

“É uma paixão reveladora de todas as sombras de um caráter e capaz,


com o tempo de evidenciar o resto dos caracteres. Assim o veria há dois
mil e quinhentos anos a Antígona de Sófocles, quando considerava
impossível conhecer a alma, os sentimentos e o pensamento de nenhum
homem até que não se o tenha visto na aplicação das leis e no exercício
do poder". [10] (tradução nossa)

De tal maneira, em todas e por todas as formas, a primeira compreensão


pertinente, é a de que a sociedade não sobrevive sem o Estado, e o Estado
não permanece sem governo, e ainda, que este governo tem
necessariamente que ter autoridade e, que esta autoridade se funda em
Poder. Lembramo-nos que estes foram os preceitos e prescrições de
Maquiavel em o “Príncipe”, como conquistar, manter e ampliar o poder.

Mas, nos salta de imediato uma indagação: O que realmente corrompe o


homem?

Cremos que esta perquirição requeira, a priori, uma outra análise: A do


caráter humano. O que é o caráter? Caráter significa o conjunto de traços
que singularizam o ser humano através das formas de seu
comportamento. É o que torna individual o seu modo de ser. Segundo
Theódule-Armand Ribot, pode ser definido como “conjunto de
qualidades afetivas e ativas que distinguem um homem de outro”. No
mesmo sentido, John Dewey nos ensina: “Um homem pode denunciar-se
em um olhar ou em gesto. O caráter pode ser lido por meio dos atos do
indivíduo”. [11] Por conta disto, caráter se revela como a interpretação
dos hábitos de um indivíduo, é também o lado voluntário e sentimental
de sua personalidade. Conforme Kretschmer, o caráter revela as
predisposições hereditárias desenvolvidas em interatividade com o
mundo exterior.

Desta forma, nos parece lógico que em nossa questão nuclear, a


corrupção seja uma manifestação inata do caráter individual do homem.
Sendo assim, ele não é corrompido, ao contrário, é quem corrompe.
Todavia, percebemos claramente que corromper ou ser corrompido
envolve um poder de decisão, há nesta “ação”, independentemente de ser
ela ativa ou passiva, um antecedente de escolha, ou seja, um livre arbítrio.
O homem é conduzido pelo que pensa, e seus atos racionais ou irracionais
são impulsionados e geram um “agir” no mudo fático, e é também
conduzido por esta singularidade que norteia seus pensamentos.

Segundo Mondin existe singularidade em todas as expressões do agir


humano, existe também uma vontade interna dirigida à transcendência,
noutras palavras, já não está voltada somente à cognição do exterior, mas
sim, para o universo cognoscível do interior, para o próprio homem; este,
em tudo o que faz, diz, pensa, quer, deseja, demonstra sempre uma
tentativa de superar a si mesmo. [12]
Com estas palavras de Mondin, correlacionamos o agir humano, com a
conduta adequada, politicamente correta, socialmente benéfica, e desta
feita, atingimos o hemisfério da ética. Assim, imbuídos pela certeza de
que a índole humana pode ser decomposta ou deformada, precisamos,
socialmente, possuir um mecanismo de contenção destas paixões
destrutivas e virulentas. Devemos transformá-las em um valor social
produtivo. Shaftesbury nos orienta sob esta questão:

“Se a inclinação para [a aquisição de riqueza] for modesta e em grau


razoável; se não ocasionar nenhuma busca apaixonada ? não há nada
nesse caso que não seja compatível com a virtude, e mesmo adequado e
benéfico à sociedade. Mas se com o tempo transforma-se numa real
“paixão”, o dano e o mal que faz ao público não são maior do que aquele
que cria para a própria pessoa”. [13]

François La Rochefoucauld, em uma dissecação pormenorizada da


natureza humana, revelou que é preciso mais que uma atitude de
repreensão ou recriminação às paixões humanas, é preciso e necessário
mobilizá-las. Conquanto, nos diz que a tarefa de controlar, pela força, se
necessário, as piores manifestações e as mais perigosas conseqüências
das paixões, é incumbência do Estado. [14] Porém, como viabilizar o
propósito de La Rochefoucauld, quando o celeiro das paixões, dos
interesses privados, das vantagens e privilégios pessoais é o próprio
Estado?

Notadamente, a corrupção é um mal sócio-cultural, o que não significa


que estejamos fadados à sua permanência, tampouco, que não possamos
extirpá-lo. Concluímos, apontando a moralidade e transparência política
como os dois caminhos a ser encontrados e percorridos. Porém, só uma
sociedade consciente de seus direitos de cidadania, ciente de seu poder
político e com aprimorado poder de escolha, conseguirá deitar passos
nesse sentido.

[1] In “Liberalization and the new corruption” IDS ? Bulletin, abril de


1996.

[2] Representação de algo que a pessoa considera meio de satisfação ou


de gratificação. O sentimento de que uma coisa ou condição determinada
satisfará ou aliviará uma necessidade ou carência. (CABRAL,
Álvaro. Dicionário de Psicologia e Psicanálise. 2ª ed., (Revista e
Atualizada), Rio de Janeiro: Expressão Cultural, 1979. p.78).
[3] SCHWANTES, S. Júlio. Colunas do Caráter. Santo André: Casa
Publicadora Brasileira, 1983. p.58.

[4] SANTAELLA, Lucia. O que é Semiótica, 5ª ed., São Paulo: Brasiliense,


1987. p.66-67.

[5] “O homem é o lobo do homem”.

[6] “Evolução biológica e evolução cultura [...] é o produto de um


processo de interações e de interferências, que deve ser visto como um
sistema genético-cérebro-sociocultural, cujos constituintes são: a
espécie, a sociedade e o indivíduo” (Morin ? 1973)

[7] MORIN, Edgar. O Enigma do Homem, 2ª ed., tradução: Fernando de


Castro Ferro, Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p.71-72.

[8] Obras Seletas [Tribuna Parlamentar] Tomo II, p.311.

[9] BARBOSA, Rui. Obras Completas. Vol. VLVI, Tomo II, p.91.

[10] Contrastes Recomienda: Crítica por Fernando Vilches sobre a


obra: El poder político en los dramas de Shakespeare • Autor: Federico
Trillo Colección: Ensayo y Pensamiento • Editorial: Espasa Calpe, 1999.

Federico Trillo tiene en Shakespeare un verdadero y magistral


"políticamente correcto" punto de referencia en la medida en que -como
concluye el libro- Shakespeare supo copiar, con privilegiada
sensibilidad, el fenómeno del poder como pasión -como fuerza, como
afán, como tensión, como conflicto humano- hasta sus más profundos
matices, y sobre argumentos históricos creó personajes dramáticos que
trascendieron al original, convirtiéndose en prototipos permanentes del
comportamiento humano ante el poder". p.3

[11] Apud João de Sousa Ferraz in Psicologia Humana, 7ª ed., São Paulo:
Saraiva, 1969. p.312

[12] MONDIN, Battista. Introdução à Filosofia. Coleção: Filosofia ? 2, 4ª


ed., Tradução: J. Renard. São Paulo: Paulinas, 1980. p. 64-65.

[13] Characteristicks, p.336 ? apud Albert O. Hirschman. As Paixões e os


Interesses ? Argumentos Políticos para o Capitalismo antes de seu
triunfo. Tradução: Lúcia Campelo, São Paulo: Paz e Terra, 2000. p. 62.

[14] Idem nota 12. p. 22.


A rigor, a corrupção pode ser compreendida como o ato pelo qual o funcionário público ou o
agente político são levados a burlar a lei, favorecendo interesses particulares em troca de
recompensas.
Na filosofia, o tema é discutido por diversos pensadores. Na Grécia antiga, preocupava-se em
estabelecer condições ideais para o surgimento de cidadãos capazes de zelar pela “coisa
pública”. O homem público deveria estar moralmente apto a servir o bem comum. O filósofo
italiano Maquiavel, século XVI, rompe com essa tradição idealista. Apóia-se na realidade para
afirmar que o poder político nasce de uma maldade intrínseca à natureza humana. O homem
é perverso e seus atos políticos o conservarão no poder, se for capaz de agir de acordo com
as circunstâncias, mesmo que opte pela prática do mal. Nessa linha, são as idéias de Thomas
Hobbes, pensador inglês, para quem “o homem é o lobo do homem”. A tentativa de levar
vantagem sobre os outros é prática comum. No século XVII, porém, John Locke ruma em
direção oposta. A soberania do povo é capaz de arrefecer o ímpeto natural descrito por
Maquiavel e Hobbes. A solução está na educação. Mas foi o francês Jean-Jacques Rousseau
quem declarou, já no século XVIII, que a sociedade corrompe os homens. Quando as classes
economicamente fortes ditam as leis e instituem a propriedade privada, os homens rompem
os postulados de uma sociedade justa.
Corrupção no Brasil
Como já dissemos em texto próprio citado no início, minimamente
compreendido o fenômeno da corrupção, inegavelmente algo histórico e
constantemente presente no desenvolver das relações humanas entre si e
entre estes e as instituições, criadas por estes, certo que já cabível tentar
compreender a gravidade do tema quando se fixa como locus, o Estado
Brasileiro, até para que possamos comparar tal percepção com os textos dos
escritores do século XIX e XX futuramente apresentados.
É que, forte não só nas teses referidas, mas também em toda e
qualquer Revista semanal de informações ou Jornais diários, casos de
malversação de recursos públicos, uso indevido da máquina administrativa,
redes de clientelas e tantas outras mazelas configuram uma sensação de mal-
estar coletivo, em que sempre olhamos de modo muito cético os rumos que a
política, no Brasil, tem tomado. Clamor moral, instabilidade, não utilização do
Parlamento, do Executivo e do Judiciário para questões senão os escândalos
surgidos, precocemente aparecem como temporárias barreiras à efetiva
implementação de políticas públicas.
Porém, logo tudo se esquece, contribuindo à sensação de impotência
por parte da sociedade; a corrupção é, pois, tolerada. E essa sensação gera
concepções de senso comum acerca de uma natural desonestidade do
brasileiro, com caráter duvidoso e que, a princípio, não se nega a levar algum
tipo de vantagem no âmbito das relações sociais ordinárias.
Em verdade, pesquisa aqui já referida indicou que há, pelo menos,
certa despreocupação com a desonestidade de maneira geral. Culpa-se, em
regra, nossa construção estatal histórica, de colônia portuguesa, com o não
incentivo ao desenvolvimento cultural e o viés explorador do agente político.
Para FILGUERAS[22], toda essa visão representaria um “projeto de
interpretação do Brasil fornecido pela vertente do patrimonialismo”, que
tenderia a tomar esse pressuposto como característica antropológica.
Diz ainda que essa posição contraditória do cidadão comum em
relação à corrupção acarreta um contexto de tolerância, fazendo com que
indivíduos tomem atitudes em que prefiram aderir a esquemas de corrupção a
afirmar valores. De outro lado, dados mostrariam[23] que esse mesmo cidadão
comum é capaz de reconhecer valores morais fundamentais e,
consensualmente, reconhecer que esses valores são importantes na dimensão
da sociabilidade e da política.
Concluiu o citado Autor, então, que[24]:
Isso ocorre, do ponto de vista normativo, pela cisão entre valores e
necessidades, configurando juízos muitas vezes assentados em uma visão
agonística da vida, sem perceber a necessidade de concepções mais amplas
de vida republicana. Essa posição da cidadania, tendo em vista o problema da
corrupção, tem por consequência reduzir a accountability do sistema político,
ao enfraquecer o sistema de fiscalização em relação às atividades das
instituições políticas. Falta, nesse sentido, uma noção mais ampla de público a
partir da qual se deve pensar o tema da corrupção não apenas no plano das
instituições formais da democracia, mas na ideia de vida democrática.
No que diz respeito à corrupção, constata-se que não basta uma
mudança do aparato formal ou da máquina administrativa do Estado
propriamente dita, mas reforçar os elementos de uma cultura política
democrática que tenha no cidadão comum, feito de interesses, sentimentos e
razão, o centro de especulação teórica e prática para uma democratização
informal da democracia brasileira. Os avanços das reformas da máquina
pública, nas duas últimas décadas, são inegáveis, com o reforço da
transparência. Contudo, falta, à democracia brasileira, um senso maior de
publicidade, pelo qual a transparência esteja referida a uma ativação da
cidadania, à accountability e à participação, sem os quais os esforços de
combate e controle da corrupção ficarão emperrados em meio a uma cultura
política tolerante às delinquências do homem público”.
Essa corrupção existe no Brasil, este um pressuposto que aqui
adotamos.
Mas aqui, como parece notório, estaria disseminada de forma
endêmica, cultural, em vários níveis e graus do Estado e em várias das
relações sociais, este um segundo pressuposto.
Mas porque o mal da corrupção se desenvolveu de tal maneira no
Brasil?
Daí a relevância dos autores dos séculos passados a retratar a
sociedade, em movimento, que percebiam.
E o que podemos retirar da visão dos autores pincelados?
Para tanto, cabe breve resenha de suas ideais centrais, apropriando-
nos daquilo já filtrado pelo Professor Eduardo Cerqueira Batitucci, em suas
aulas da disciplina “Pensamento Social Brasileiro” do Curso de mestrado em
Administração Pública da Fundação João Pinheiro (conforme referências
bibliográficas a seguir citadas).
2.2. OS PROBLEMAS DE FORMAÇÃO POLÍTICA E SOCIAL DO
BRASIL EM JOAQUIM NABUCO, NINA RODRIGUES, EUCLYDES DA
CUNHA, OLIVERIA VIANA, GILBERTO FREYRE E SÉRGIO BUARQUE DE
HOLANDA
Assim, como adiantado no último parágrafo, e apropriando-se de
síntese já devidamente reverenciada e referenciada, apresentaremos algumas
visões da sociedade brasileira por Autores de época e considerados clássicos
e que, portanto, podem indicar etapas, problemas, percepções corretas ou
equivocadas de nosso processo de desenvolvimento social com, claro, suas
consequências.
Joaquim Nabuco[25] em 1883 publica O
Abolicionismo apresentando como ideias centrais: 1 - Ilegalidade e
ilegitimidade da escravidão, “nem baseada no direito natural, nem baseada na
Lei – ausente na constituição um código negreiro”. (63); 2- Incompatibilidade da
escravidão com a modernidade, “instituição fóssil, inconciliável com a
sociedade moderna”, trocando a ênfase política da historiografia imperial pelo
foco na dinâmica socioeconômica, inspirado pela “política científica” européia
(63). Neste sentido, a metrópole transmitiria sua decadência ao legar ao Brasil
um trinômio vicioso: organização social baseada no latifúndio, monocultura e
no comércio de escravos; 3 - A escravidão como herança colonial que adquiriu
caráter de “sistema social”, estruturadora de todas as instituições, costumes e
práticas. Como empresa econômica principal, entranhou-se na ocupação do
território e, em par com a monocultura, esgotou a terra e a concentrou, gerando
feudos auto-insulados. Tolheu as atividades urbanas, impedindo o
desenvolvimento de um operariado assalariado e de classes médias, e
condenou os homens livres pobres à dependência dos grandes proprietários
(63).
A escravidão teria se tornado o pilar de todas as profissões e
negócios, gerando uma rede de relações de clientela que invadiu o Estado e
viciou toda a sociedade no seu usufruto. No sistema político, impediu a
formação de um corpo de cidadãos e de uma opinião pública autônoma, já que
o direito de voto se assentava na propriedade de terras e escravos (64).
Como legado, Joaquim Nabuco descortinou os fundamentos
escravistas da formação social brasileira, vinculando as elites políticas à base
socioeconômica que a nutria.
Em suma, no que nos interessa, a escravidão seria o problema
central na formação da sociedade brasileira. Somada à estrutura latifundiária,
formado um sistema político em que se legitimava a posição de domínio.
Nesse contexto, a autonomia do escravo, após libertado, viria do
binômio educação e previdência, mas também reforma agrária, para tivesse
acesso aos meios de subsistência, dando-lhe a autonomia.
Mas não tinha elite responsável para fazer isso e assim o futuro povo
brasileiro, que não existia como ator social, induzia à conclusão de um Brasil
pouquíssimo desenvolvido.
No que nos interessa, cabe salientar que o escritor já indicava a
necessidade de uma atuação responsável pelas classes dominantes e elite
intelectual, apresentando a necessidade de “educação” do povo como caminho
à formação de um próprio e consciente povo.
Porém, nossa “elite” não o faria.
Nina Rodrigues[26] deixou um legado paradoxal: a despeito de ser
reconhecido como o primeiro antropólogo físico a fazer um levantamento dos
povos africanos no Brasil, ele é também lembrado como aquele que defendeu
diferenças ontológicas entre as raças e, em especial, por considerar a
mestiçagem como um sinal de degenerescência (92).
O contexto acadêmico e social no qual Nina Rodrigues viveu,
escreveu e pesquisou era dado a determinismos de toda ordem: raciais,
biológicos e sociais. Neste sentido, Nina Rodrigues foi um intelectual coerente
com o seu tempo, ao adotar o Darwinismo de forma literal, ao negar o
evolucionismo social e incluir a criminologia de Lombroso como modelo
analítico (92).
Neste sentido, Nina afirmava que concepções como a igualdade
jurídica e a idéia do livre-arbítrio estavam ultrapassadas: do ponto de vista da
imputabilidade jurídica, por exemplo, se esperava responsabilidade do
indivíduo sobre seus atos. De algumas raças, para Nina, “não se pode cobrar o
que não se possui...”.
Nos seus estudos sobre criminalidade (As Raças Humanas e a
Responsabilidade Penal no Brasil (1894); Negros Criminosos (1895); O
Regicida Marcelino Bispo (1899); Mestiçagem, Degenerescência e Crime
(1899)), Nina via na criminalidade mestiça, uma particularidade nacional. O
suposto era o da desigualdade entre as raças e, neste sentido, da necessidade
da criação de códigos penais distintos, que atenuassem as responsabilidades
segundo estas diferenças (92-93).
Tomando, portanto, a degenerescência, como conseqüência de uma
desigualdade antropológica e sociológica, Nina Rodrigues passa a analisar
casos que comprovariam as suas teorias, um debate entre universalismo e
diferença, iluminado por “trabalho de campo”.
A proposta é de uma nova modalidade de “medicina social” para o
contexto do final da escravidão e das epidemias de cólera, febre amarela e
varíola, entre outras, que chamava para a indispensável função de “higiene
social” que se reservava aos médicos, um profissional que deveria ser “político
e missionário” cujo desempenho se relaciona tanto à doença (abordada pela
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro) como ao doente (objeto dos estudos
da Faculdade de Medicina da Bahia) (100).
Em suma, o médico adotava uma linha lombrosiana para determinar
qualidades biológicas do brasileiro mestiço como sério indicativo, e pessimista,
de que o país teria graves problemas de consolidação de uma Nação, pela
atávica característica de seus habitantes.
“Canudos” era exemplo de um povo de “selvagens”, portanto
atrasado, inferior e sem solução.
No que nos importa, o fatalismo das características negativas do
povo é ideia que talvez ajude a explicar um certo conformismo da sociedade
brasileira com situações de ilegalidade e descompromisso social. Claro que
não atrelada a fatores morfológicos, mas pesa a suposição de uma “natureza”
ruim do brasileiro.
Euclydes da Cunha[27] foi influenciado pelo pensamento científico
da época, com seus traços deterministas, mas opta por realçar os dilemas da
formação histórica do país e a dificuldade para os esquemas deterministas
interpretarem a dinâmica da natureza, do homem e de processos sociais no
Brasil, que se apresentariam revoltos, de difícil fixação, enfim, como um enigma
para o observador (106).
Seu tema predileto são os espaços “incivilizados”, dominados pelo
conflito ou pelo sofrimento social ou pela natureza avassaladora (muitas vezes
confundindo ambas as temáticas), a Amazônia e o sertão. Neste sentido, sua
obra é redigida em torno da ideia de um Brasil não apenas desconhecido, mas
incompleto, uma nacionalidade em formação.
A inadequação das instituições políticas, neste sentido, era vista
como o resultado do descompasso entre o Estado e a Nação, e a missão do
cientista, a busca por um “Brasil real” (107-108).
Tendo presenciado a Guerra de Canudos, a retrata em Os Sertões.
Na arquitetura da obra, obedece a um esquema positivista, que
separa a análise numa trilogia: meio, raça, circunstância (a terra, o homem e a
luta). Adotando uma abordagem evolucionista, constrói sua análise através da
ideia de uma sociedade em transformação, e da Ciência, como a ferramenta
para antecipar o ritmo e rumo da mudança (108).
Das influências positivistas, entretanto, não decorre a conclusão
pessimista, nos termos de Nina Rodrigues, da inviabilidade da civilização no
Brasil. Na descrição das condições geográficas do sertão (e depois da
Amazônia), evidenciam-se o impacto da natureza naquilo que se transformará
no principal argumento com relação ao Homem, ao Sertanejo: o isolamento do
sertanejo como fator histórico crucial para explicar o antagonismo e a oposição
entre o litoral (a civilização) e o sertão. O sertanejo seria um retrógrado (e não
um degenerado), como decorrência de ter ficado distante das influências
negativas da civilização que se desenvolvera nas cidades do litoral. Ao mesmo
tempo, as influências dos fatores contextuais seriam responsáveis pela
dificuldade em fixar quem seria, efetivamente e nos termos positivistas, o
sertanejo. De forma ambígua, o sertanejo é um Hércules e um Quasímodo,
pois, de acordo com as circunstâncias, oscila da força à fragilidade, da
monstruosidade ao caráter heróico (109).
O que se observa, fugindo ao esquema determinista, é a plasticidade
das categorias sertão e litoral, essencialmente utilizadas como referências
simbólicas que sofrem no texto uma série de deslocamentos: é a inversão de
papéis e comportamentos esperados dos habitantes do sertão e do litoral, entre
os sertanejos e as forças militares que os combatiam, e da transformação
súbita dos sertanejos e de sua realidade. É o esforço e a dificuldade em
transformar terra, homem e circunstâncias em algo cognoscível (109-110).
O dualismo litoral/interior seria representado pela civilização da Rua
do Ouvidor no Rio de Janeiro, com seus cafés e livrarias e por aquilo que
Euclides da Cunha representou como sociedade dos copistas, e pelo sertão de
Canudos, caracterizado pela supremacia da natureza sobre o homem, pela
impenetrabilidade da caatinga (depois da floresta) e
pela autenticidade (rusticidade, violência, condição de indomável, de real) da
Nação (mas não do Estado, que não refletiria a Nação) (111).
Certamente, esta condição convive com a representação negativa do
homem sertanejo, que com sua mentalidade e religiosidade “atávica”, resistiria
à mudança e ao fatalismo de um processo civilizatório inescapável
É, entretanto, esta ambivalência que tornaria, não apenas possível,
mas positivo e necessário, para a civilização do litoral, o projeto e a
necessidade de incorporação efetiva do interior à construção do Estado
nacional no Brasil (112).
Como legado, Euclydes da Cunha, em Os Sertões, é tido como livro
monumento da nacionalidade brasileira, responsável pela gênese de
uma teoria do Brasil na qual sobressai a imagem de uma sociedade dividida
entre um pólo atrasado, porém considerado a base da nacionalidade, e um
pólo civilizado, formado, entretanto, por copistas, por elites políticas e
intelectuais que permaneciam com os olhos voltados para fora, de costas para
o país (111).
Em suma, o Autor de Os Sertões, indica que para o país
desenvolver-se, em especial na conexão Estado-Nação, há necessidade de se
enxergar quem é verdadeiramente seu povo, e este deve ser visto como ator
social, apesar do “atraso” decorrente de espaços de baixa “civilização”.
Portanto, podia mudar, melhorar.
No que é relevante ao trabalho, veja-se que o Autor é otimista com
o país e apresenta, a partir de uma necessidade até hoje atual de
conhecimento de seus povo, um caminho pelo investimento na civilização, ou
seja, no desenvolvimento, na educação, no estímulo à melhoria do povo como
ator social.
Oliveira Viana[28]tornou-se, nas últimas décadas do Séc. XX, um
clássico do Pensamento Social Brasileiro. Porém, a vinculação de suas
análises a uma proposta de Estado Autoritário, somado ao seu engajamento
político à máquina do Estado pós-1930, teve sua obra tachada de reacionária e
racista (AG 146).
Sua obra, Populações Meridionais do Brasil, busca “ressaltar o
quanto somos distintos de outros povos”, dado que, apesar de a comparação
das novas sociedades americanas com as antigas sociedades europeias
evidenciar esta diferença, nossas classes dirigentes revelariam verdadeira
obstinação de não reconhecerem a originalidade de nossas condições (BR 56).
Esta nova postura intelectual e política procuraria romper com o
descompasso entre ideias e realidade no Brasil, libertando da condição de
“marginalidade” a elite brasileira, que “vive entre duas culturas: uma – a do seu
povo, que lhes forma o subconsciente coletivo; outra – a europeia ou norte-
americana, que lhes dá as ideias, as diretrizes de pensamento, os paradigmas
constitucionais, os critérios de julgamento político” (BR 57-58).
Neste sentido se trataria de descobrir as “nossas causalidades”,
responsáveis pela construção do nosso país tal como se encontraria
objetivamente. O interior, neste aspectos, seria mais importante do que as
cidades, os tipos urbanos, variantes dos tipos rurais. O campo e o seu
habitante, portanto, é a “matriz de nacionalidade” do Brasil (58).
Neste caso, o país não possuiria unicidade aos olhos do povo. Não
teríamos uma “consciência coletiva”, porque “culturologicamente considerado o
Brasil não me parece ainda uma unidade constituída, e sim uma unidade a
constituir-se”. A separação entre o Estado e a Nação (como em Euclydes da
Cunha) se refletiria na incapacidade das elites em construir o Estado levando
em consideração a realidade do povo, limitando-se a aspectos jurídicos e
políticos que não atingiriam, verdadeiramente, as massas (58-59).
Assim, se distinguiriam, pelo menos, três histórias diferentes entre o
nosso povo: a do norte, do centro-sul e do extremo-sul, que teriam gerado “três
sociedades diferentes: a dos sertões, a das matas e a dos pampas, com seus
tipos sociais específicos – o sertanejo, o matuto e o gaúcho”.
A estrutura rural é a do latifúndio. Nele, não haveria grande espaço
para a solidariedade social. O grande domínio, que tudo absorve, seria um
mundo em miniatura, onde prevaleceria a vida doméstica, organizada à
maneira romana, onde o pater famílias é o chefe supremo. As relações sociais
tenderiam a ser instáveis em virtude da extensão infinita do latifúndio (tanto do
ponto de vista simbólico, como empírico), e da extensão infinita do território,
nada impedindo que o colono se torne, um dia, proprietário (ou seja, que a
“ordem natural” das relações sociais, a separação entre nobres e os outros,
seja subvertida (61). Surge aí, uma categoria chave para o entendimento da
obra e do pensamento de Oliveira Vianna – a de insolidarismo.
Para Oliveira Vianna éramos incapazes de construir formas de
solidariedade social modernas (especialmente do ponto de vista político) em
razão de nossa diversidade pouco compreendida e, neste sentido, explicada.
Precisar-se-ia de um bom diagnóstico que entendesse e explicasse os nossos
problemas, proposta que seria crescentemente compartilhada, no período,
pelos movimentos sociais e pela intelectualidade (AG 152).
Assim, em contraposição a um discurso otimista sobre o futuro do
Brasil, começa a se cristalizar uma versão mais realista, que visa identificar um
conjunto de males (falta de saúde, educação, opinião pública, etc.), todos
sintetizados na inexistência de uma sociedade e de um governo modernos. O
atraso do Brasil se devia a um deslocamento entre o Brasil “real”, marcado pelo
insolidarismo, e o Brasil “legal”, o mundo das instituições, destinado a dirigir
uma nação que ainda não existia.
A dicotomia deveria ser analisada, neste sentido, como uma tentativa
de tornar compreensíveis características da realidade brasileira oferecendo
subsídios para a elaboração de projetos de intervenção política modernizadora.
Retornando à questão do latifúndio e de insolidarismo, Oliveira
Vianna aponta que, com a auto-suficiência do latifúndio, a pequena
propriedade teria, historicamente, uma importância ínfima, não se
desenvolvendo, portanto, as classes médias.
As próprias características da economia e da sociedade colonial
impediriam que isso ocorresse. Da mesma forma, os pequenos proprietários
(se existissem) não encontrariam o estímulo para produzir para mercados (que
também não existiam), já que os mercados potenciais (os núcleos urbanos, por
exemplo) seriam atraídos pela função “simplificadora” do grande latifúndio (BR
61-62).
O principal problema da aristocracia, neste cenário, seria o de se
conseguir braços para trabalhar a lavoura, recorrendo-se portanto, à
escravidão (considerada tanto como um meio para se enfrentar a escassez –
numa visão tradicional para a época, mas também como meio para
se disciplinar (no sentido técnico e político) uma mão de obra que não estaria
disponível na sociedade livre.
Em virtude das limitações de classe e de mobilidade social (classes
sociais praticamente correspondendo ao critério de raças), da insegurança
sistêmica e da dependência quase completa dos grandes senhores territoriais,
a solidariedade social seria muito restrita, toda a atividade colonial restringindo-
se ao latifúndio, ao círculo familiar e ao seu microcosmo, estando o
associativismo praticamente ausente da vida social (63).
Como chefes de clãs, os proprietários rurais agiriam no sentido de
“propiciar um contínuo aperfeiçoamento, através de processos conhecidos de
lógica social, dos elementos bárbaros da massa popular à moral ariana
(européia), ao espírito e ao caráter da raça branca”. A gênese da nacionalidade
estaria na mestiçagem, produto do latifúndio, capaz de reunir, num mesmo
espaço social, simbólico e político, as três etnias presentes no Brasil (63).
Quatro séculos de colônia, neste sentido, não teriam sido capazes de
criar, de fato, uma sociedade no Brasil: “... sem quadros sociais completos,
sem classes sociais definidas, sem hierarquia social organizada, sem classe
média, sem classe industrial, sem classe comercial, sem classes urbanas em
geral – a nossa sociedade rural lembra um vasto e imponente edifício, em
arcabouço, incompleto, insólito, com os travejamentos mal ajustados e ainda
sem postes firmes de apoio...” (64).
É somente com a vinda da família real portuguesa que, para Oliveira
Vianna, o isolamento do Brasil tem fim, dado que a nobreza nativa se
confrontaria, então, com outros dois grupos importantes: os mercadores
portugueses, enriquecidos pela abertura dos portos, e a nobreza portuguesa,
que acompanhava a família real. Da disputa pela primazia política até o período
da independência, resulta uma aristocracia fundiária plenamente adaptada ao
meio como vitoriosa, aliada aos comerciantes lusitanos no papel de burguesia,
restando à aristocracia portuguesa o papel de burocracia estranha ao
ambiente, simbolicamente derrotada (64).
A independência representaria, portanto, a vitória da aristocracia da
terra, desenvolvimento lógico, dado que era a única classe com verdadeira
base na realidade brasileira, mas incapaz, por outro lado, de dar início a obra
de unificação nacional, em virtude de seus próprios princípios e interesses.
Assim, se no período colonial o latifúndio é o principal instrumento para a
adaptação e fortalecimento de uma nobreza fundiária, depois da
independência, em virtude especialmente de sua principal característica, a
auto-suficiência, passa a ser visto como impedimento mais sério para a tarefa
de unificação nacional que então se imporia. Não haveria nação, não haveria
sentimento nacional. Apenas a fidelidade ao imperador teria evitado a
secessão no Brasil. Assim, na luta entre o “localismo e o centro, os caudilhos e
a Nação, o rei apareceria apenas como elemento moderador”, regulador dos
conflitos, mas sem voz de fato (65-66).
Daí que no Brasil, o poder central, ao invés de ser o grande inimigo
das liberdades locais, como o é na Europa, seria o defensor dessas liberdades
contra os caudilhos. A defesa da descentralização, à maneira anglo-saxã,
como propunham os liberais, seria injustificável, já que favoreceria apenas aos
poderosos (66).
Seria, neste caso, em virtude desta índole, o Estado a assumir o
papel de agir sobre a sociedade e transformá-la, moldando-a. Populações
Meridionais do Brasil caminha, então, para a conclusão de que, em certas
condições, a autonomia do Estado deve levar a criação, de maneira
voluntarista, da sociedade que se deseja (68).
Em suma, o Autor da era Vargas apresenta as consequências da
escravidão e da estruturação em latifúndios como origem dos problemas da
sociedade brasileira.
O Brasil tinha várias nacionalidades, com histórias diferentes; sul,
sudeste e norte. Mas o elemento comum era a estrutura latifundiária, isolada,
independente.
Latifúndio era, pois, a estrutura social do Brasil.
De um lado gerava sociabilidade local, interna, laços de família,
honradez, mas limitados pelos valores do Senhor Local.
Por outro, gerou o insolidarismo brasileiro, a falta de conexão,
preocupação com os outros fora de seu latifúndio.
Latifúndio gerou paternalismo, patrimonialismo. Essa é a herança do
latifúndio. Daí que soluções importadas não servem se não abrasileiradas. Pra
resolver o entrave necessário desfocar o centro do poder.
Sair do latifúndio, passar ás cidades, já que ali as classes sociais
permitiriam, entre si, maior socialização. E mais, Estado forte, com burocratas
técnicos, imporiam, por necessário, os valores da solidariedade.
Problema é que a elite latifundiária dominaria a estrutura do Estado.
Certo, porém, que o Estado Autoritário não seria o melhor modelo,
mas seria o modelo que a sociedade brasileira necessitaria para ser induzida,
ou melhor, forçada, ao desenvolvimento.
No que releva, destaca-se a esperança de melhoria da sociedade
brasileira, marcada por problemas sérios de paternalismo, patrimonialismo
(com origem na estrutura latifundiária) ainda que por imposição de uma ideia
de solidariedade social pelo Estado forte.
Ou seja, a fé no processo de mudança da formação da sociedade
brasileira é o traço que queremos destacar, apesar da constatação de que
motivos históricos influenciariam na formação do caráter insolidário do povo
brasileiro.
Porém, hoje urbanizados, é de se perguntar se somos solidários, se
há sentimento de Nação... há? se a resposta for não será que a estrutura
latifundiária é a culpada, até hoje, por nosso insolidarismo?
Gilberto Freyre[29] escreveu Casa Grande e Senzala em período no
qual o debate intelectual estava marcado pela questão da mestiçagem, que
costumava ser retratada como um problema – implicando esterilidade biológica
ou cultural – ou retardando o desenvolvimento do Brasil, inviabilizando ou
dificultando seu acesso à modernidade – sempre representada pelo domínio da
raça branca e pelos valores da civilização ocidental (BR 200).
O enorme impacto representado pelo surgimento de Casa Grande e
Senzala concorre para alterar esta avaliação, enfatizando não somente o valor
específico das influências indígenas e africanas a identidade brasileira, como
também o hibridismo e instável articulação de tradições que caracterizariam o
próprio colonizador português.
A contribuição fundamental do antropólogo alemão Franz Boas à sua
formação se revela na separação primordial entre as noções de raça e cultura,
conferindo a última absoluta primazia na análise da vida social, através da qual
Gilberto Freyre redefinirá a ideia de mestiçagem, “reinventando” as concepções
do Brasil, até então dominantes (200).
A nova concepção de mestiçagem implica em um processo no qual
as “propriedades singulares de cada povo jamais chegam a se dissolver por
completo, guardando indelevelmente a lembrança das diferenças presentes em
sua gestação, sincrética, mas nunca sintética”, povo indefinido – entre a
Europa e a África.
O caráter português, então, é um “luxo de antagonismos”, que
embora equilibrados, aproximados, recusam-se terminantemente a se fundir
em uma nova identidade, separada, indivisível e original. Essa recusa
representa o hibridismo– “antagonismos em equilíbrio”, dramatizados,
exacerbados no nosso caso, pelas divisões e pelo despotismo típicos da
escravidão colonial (201).
Este conjunto de características díspares, entretanto, implica, muitas
vezes, na inconsistência e na instabilidade – no excesso. Assim, as paixões, as
emoções, desempenharão um papel fundamental no caráter brasileiro,
especialmente as paixões sexuais, responsáveis pela geração de uma
atmosfera cultural de intimidade entre as raças que, sem descartar seus
antagonismos, tornava possível sua convivência.
A “primeira sociedade moderna dos trópicos” era possível pelo
caráter fecundo e, ao mesmo tempo destruidor, do “erotismo patriarcal”,
freqüentemente experimentado sem qualquer refinamento civilizatório, bestial,
através do estupro sistemático de mucamas e escravas, do sexo com vegetais
e animais, do cultivo das “formas sadistas de amor” e, por fim, do próprio
incesto familiar. A voracidade sexual representando uma metáfora que faria a
ligação entre o vulgar e o sublime, o sagrado e o profano, as diferenças (de
gênero, de raça, de poder) e aquilo que as igualaria, a afirmação da
convivência, mas com um grau de proximidade inusitado – um ethos brasileiro
específico, antagonismos em equilíbrio. (202-204).
Assim, os antagonismos em equilíbrio (metaforicamente
representados pela oposição casa-grande e senzala) formariam a identidade
brasileira (BR 90-92):
“... todo um sistema social e político: de produção (a monocultura
latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, a rede, o
cavalo); de religião (o catolicismo de família, o culto dos mortos); de vida sexual
e de família (o patriarcalismo polígamo); de higiene (a touceira de bananeira, o
banho de rio, banho de gamela, banho de assento, lava-pés); de política (o
compadrismo)...”.
A família patriarcal estendida (isto é, o patriarca, seus servos,
escravos e agregados) seria a raiz e o lugar de expressão destes
antagonismos. Neste sentido, as relações entre as raças seriam constituídas,
do ponto de vista histórico, de uma harmonia relativa, baseada na necessidade
de alguma reciprocidade: “...todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz
na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e do negro”.
O Brasil colonial seria algo novo e original, não teria se formado
como uma simples feitoria, mas uma organização social que deixa marca de
permanência: uma “democracia racial” (94).
Logo, de forma antagônica, Gilberto Freyre pode ser lido como
alguém que, mais do que qualquer outro autor, tenha contribuído para a
formulação de uma ideologia conservadora que, como tal, ajuda a encobrir
muito da violência que caracterizou a escravidão e que continua a permear as
relações raciais no Brasil. Por outro lado, e de maneira complementar, essa
ideologia também auxiliou, de uma forma que não era possível antes, os
brasileiros a elaborarem a imagem que gostam de ter de si mesmos, como
tolerantes, alegres, receptivos, etc... (99).
Em suma, Gilberto Freyre apresenta um Brasil, em “Casa Grande e
Senzala” em que não existiria uma dicotomia de raças e sim um “mix” de
culturas que, ao mesmo tempo em que mantém suas características fundantes,
relacionam-se umbilicalmente numa simbiose ambiental formando a Nação
brasileira. As “culturas” seriam entrelaçadas, interdependentes e Estado e
Nação seriam uma coisa só.
Adota o termo de “contradições em equilíbrio”, frisando que não é
diferença de raça que importa, e sim a diferença de cultura que em correlação
de forças, faria umas se destacarem sobre outras.
Os papéis sociais se diferenciariam relações de poder, mas são
ligados, interdependentes e tudo isso é traço cultural do Brasil. Daí a crítica sua
obra, pois não enxergou o desequilíbrio opressor, à época.
Mas há mérito por sepultar o determinismo biológico de Nina
Rodrigues, além de apresentar uma visão otimista do Brasil, que seria viável
apesar da diversidade cultural, vez que justamente a mistura e conexão de tais
culturas formava a Nação brasileira. Valorizou a diversidade, apesar de não
enxergar todo o ônus do desiquilíbrio entre os tipos sociais, talvez por
compreender de forma romântica, e sexual, a relação branco x índio x negro.
O português teria, ainda, uma miscibilidade, uma grande capacidade
de se misturar, sendo, pois, essencialmente democrático. Traço positivo do
Brasil seria justamente isso: Uma sociedade construída sob regime de colônia,
com “mix” de culturas, diferente de todas as outras que impunham suas
culturas as colônias.
Essa herança ibérica é que permitiria ao Brasil ser possível, no
equilíbrio da ordem e desordem das culturas, sendo este seu caminho
No que nos é imprescindível, o otimismo com a Nação multicultural
que pode crescer e se desenvolver, se souber entender-se como multifacetada,
indica uma característica presentes em análises sociais do Brasil de hoje.
Porém, os anos demonstraram que o desequilíbrio gerado no atrito
das culturas não foi insignificante, tornando necessária alguma intervenção
visando à readequação.
Tal indica, pois, que as raças, ou melhor, claro, as culturas, não são
capazes de em sua simples correlação formar uma sociedade mais igual. A
Nação brasileira que vem de tais tangenciamentos, pois, está fadada à
injustiças e desigualdade.
E, além dessa incapacidade de equilíbrio, é dúvida pertinente saber
se, atualmente, as diferenças sociais decorrem das diferenças de culturas, da
característica do insolidarismo ou de problemas mais gerais e relacionados a
fatores como pobreza e falta de educação, como fruto da má administração do
Estado?
Sérgio Buarque de Holanda[30] procurava se afastar de uma
perspectiva naturalista e/ou positivista (com muitas críticas aos trabalhos de
Oliveira Viana), participando da denúncia do preconceito de raça, da
valorização do elemento de cor, da crítica aos fundamentos “patriarcais” e
“agrários” da sociedade brasileira, através do discernimento das condições
econômicas e da desmistificação da retórica liberal.
Utilizava a metodologia dos contrários, através da exploração de
conceitos polares, utilizando, entretanto, o critério de tipos ideais de Max
Weber, mas ressaltando a interação entre os tipos no desenvolvimento do
processo histórico, procurando nele uma “estrutura”, as “raízes” da metáfora do
título: trabalho e aventura; método e capricho; rural e urbano; burocracia e
caudilhismo; norma impessoal e impulso afetivo – são pares que o autor
destaca no modo de ser ou na estrutura social e política, para analisar e
compreender o Brasil e os brasileiros (12-13).
Destaca a Península Ibérica, Espanha-Portugal e o processo
colonizador que impuseram às Américas. A prevalência do personalismo, de
onde provêem a frouxidão das instituições e a falta de coesão social, típica da
realidade brasileira, levando à ausência do princípio de hierarquia nas relações
sociais e institucionais, e a exaltação do prestígio pessoal com relação ao
privilégio hereditário. E como conseqüência, especialmente na América
portuguesa, a nobreza permanece aberta ao mérito ou ao êxito, favorecendo a
mania de fidalguia – “em Portugal somos todos fidalgos” (14).
Surge um dos temas fundamentais: a repulsa pelo trabalho regular e
as atividades utilitárias, de que decorre, por sua vez, a falta de organização –
“o ibérico não renuncia às veleidades em benefício do grupo ou dos princípios”,
o que levaria a uma conseqüência paradoxal – a renúncia à personalidade por
meio da cega obediência, única alternativa para os que não concebem
disciplina baseada nos vínculos consentidos, nascida, em geral, da tarefa
executada com senso de dever
A conseqüência mais forte desta cultura de personalidade, entretanto,
seria a extrema dificuldade de fazer vigorar o associativismo, ao estilo
de Tocqueville, em virtude do déficit de solidariedade social advindo desta
característica: “... em terras onde todos são barões, não é possível acordo
coletivo durável...”. A solidariedade possível, então, se vincularia muito mais
ao sentimento do que ao interesse, fazendo parte mais do âmbito doméstico do
que do âmbito público.
A idéia de “cultura de personalidade” faz com que Sérgio Buarque
seja visto como o principal formulador de uma interpretação do Brasil que veria
os processos de modernização daquela época como “superficiais, epidérmicos,
de fachada”, fruto desta herança ibérica, do personalismo e do patrimonialismo
decorrente (109).
Distingue trabalhador e aventureiro – duas éticas opostas: a primeira
voltada para a realização a longo prazo, estima a segurança e o conforto; a
segunda, busca novas experiências, acomoda-se no provisório e prefere
descobrir a consolidar (AC 14). Não se encontraria, entretanto, no mundo real,
nem um nem outro tipo em forma pura. Aventureiros e trabalhadores,
como tipos, teriam um valor heurístico, auxiliando na compreensão dos
fenômenos sociais, tais como nos tipos ideais weberianos.
A colonização da América Ibérica, seria uma obra de padrão
“aventureiro”, cabendo ao “trabalhador” papel limitado, o que ajudaria a explicar
a fraqueza das instituições e o esforço descontínuo do processo de
colonização, praticamente limitado ao litoral, apenas se aprofundando
sistematicamente já no séc. XVIII.
Para o primeiro, o que importaria seria o fim último, seu ideal sendo
“colher o fruto sem plantar a árvore”. Ignoraria, neste sentido, fronteiras,
vivendo em espaços “ilimitados”. Para o trabalhador, vislumbra-se o “obstáculo
a vencer e não o trunfo a alcançar”. Se o impulso de aventura é propício a obra
da conquista, por outro lado, ele é inadequado para o estabelecimento de uma
sociedade permanente (AC 14-15, BR 111-112).
A paisagem natural e social seria marcada pelo predomínio do rural
sobre o urbano, da fazenda sobre a cidade, a primeira se vinculando à idéia de
nobreza (por extensão, de alegria, de ócio, gozo, prazer), e também o lugar das
atividades permanentes, enquanto que à segunda caberia o lugar do vazio (por
extensão, do trabalho, do sofrimento).
Neste sentido, tal como já o haviam observado Oliveira Vianna e
Gilberto Freyre, para Sérgio Buarque o domínio rural auto-suficiente é
o lócus privilegiado do patriarcalismo, a família a única instituição da vida
brasileira cuja autoridade não é questionada. A este predomínio,
corresponderia uma “invasão do público pelo privado”, os indivíduos, mesmo
fora do âmbito doméstico, agindo segundo seus preceitos (por exemplo através
do predomínio do clientelismo, do mandonismo e do patrimonialismo nas
relações públicas), comportamentos que dificultariam o estabelecimento
do Estadoe da Democracia no Brasil (BR 112-113).
Destaca-se, ainda o conceito de homem cordial. Como
conseqüência das características anteriores, formado nos quadros da estrutura
familiar, o brasileiro teria recebido o peso das “relações de simpatia”, que
dificultariam a incorporação normal a outros agrupamentos. Por isso, não
achamos agradáveis as relações impessoais, características do Estado,
procurando reduzí-las ao padrão pessoal e afetivo. Neste caso, onde pesa a
família tradicional, dificilmente se forma a sociedade urbana de tipo moderno:
“em nosso país, o desenvolvimento da urbanização criou um desequilíbrio
social, cujos efeitos permanecem vivos até hoje...” (16-17).
O homem cordial não pressupõe bondade, mas apenas o predomínio
de comportamentos afetivos ou de aparência afetiva, inclusive suas
manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas, mas
que se opõe aos ritualismos da polidez (por exemplo, manifestações
generalizadas de amizade e intimidade, mesmo que direcionadas a
desconhecidos e, neste sentido, vazias, por oposição a ritualismos vinculados à
ordem social, como o pedido de desculpas, o “bom dia”, o uso dos pronomes
de tratamento impessoal que impliquem distância cerimonial. Ou, de outro lado,
a inversão, no ambiente público, entre o comportamento formal e o
comportamento afetivo).
O homem cordial seria, portanto, visceralmente inadequado às
relações impessoais que decorrem da posição e da função do indivíduo (tais
como a distância devida ao decoro profissional, a cerimônia vinculada a
posição hierárquica, a obediência a normas abstratas, o ambiente público,
etc.), dado que se relaciona, prioritariamente, às conseqüências de sua marca
pessoal e familiar, das afinidades nascidas na intimidade dos grupos primários
(isto é, à necessidade de pessoalização das relações sociais) (17).
Assim, a uma “mentalidade cordial”, estariam ligados vários traços
importantes, como a sociabilidade apenas aparente, que na verdade não se
impõe ao indivíduo e não exerce efeito positivo na estruturação da ordem
coletiva (isto é, uma sociabilidade de fachada, sem conteúdo ou substância, e
que não gera qualquer tipo de obrigação de reciprocidade). Decorreria deste
fato o individualismo expresso na relutância do indivíduo diante de qualquer Lei
que o contrarie. Ligado a este sentimento, a falta de capacidade para aplicar-se
a um objetivo exterior ao indivíduo e suas motivações.
Para Sérgio Buarque de Holanda as interpretações positivistas e
deterministas do final do séc. XIX e do início do séc. XX são um exemplo do
nosso culto pelas formas impressionantes, exibicionistas e com pouca
aplicação prática, típicas deste ethos cordial. Na vida política, por outro lado,
isso corresponderia a um “liberalismo ornamental” e a ausência de verdadeiro
espírito democrático: “a democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-
entendido, dado que uma aristocracia rural e semi-feudal importou-a e tratou de
acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios, os mesmos
privilégios que tinham sido, no velho mundo, o alvo mesmo da luta da
burguesia contra os aristocratas”. Assim, os nossos movimentos
aparentemente reformadores teriam sido, de fato, impostos de cima para baixo
pelos grupos dominantes (18).
Entende, por fim, possível um processo civilizador dessa sociedade,
ainda que lento, fruto da modernização das relações sociais e com o Estado,
mas ressalta que esta, porém, não traz, por si só, uma racionalidade, que deve
construída entre as tensões do nosso processo de modernização com as
características locais. (BR 118).
Em suma, tendo como obras referencial “Raízes do Brasil” e “Visão
do Paraíso”, Holanda falava como acadêmico, tendo levado o debate sobre a
formação do Brasil, e suas consequências, para a academia, como o primeiro a
sistematizar a influência ibérica.
Usava metodologia dos contrários, dicotomia entre trabalho e
aventura, rural e urbano, burocracia e caudilhismo. Brasil seria exemplo de
formação dicotômica de Nação, muito mais do que mistura entre negro, índio e
português, como dizia FREYRE, pois seria fruto, também, dos valores
recebidos da península ibérica (Portugal e Espanha).
Tal implica em lógica do personalismo nas relações sociais, com
instituições fracas. Personalismo gerava diferença de tratamento,
desigualdade. Se tivesse instituições fortes delimitando hierarquias, geraria
igualdade. Assim, a desigualdade viria do personalismo.
Para Holanda, diferentemente de OLIVEIRA VIANA, nem burocracia e
nem classe social conseguiriam consertar o Brasil, pois seriam viciadas pelo
mesmo personalismo, com seus privilégios, influencias pessoais, oriundos de
Portugal e Espanha.
A repulsa pelo trabalho regular e atividades utilitárias, a valorização
da personalidade, como forma de crescimento pessoal e profissional, através
de favores, de família, de influência, de títulos, é traço da pessoalidade nas
relações.
Outra consequência dessa característica ibérica seria a dificuldade de
associativismo, pois há déficit de solidariedade. Há solidariedade local,
doméstica, mas não no âmbito público. O brasileiro é cordial, no sentido de
personalizar relações, não permitindo acordos coletivos duradouros pela
sobreposição dos interesses privados, pessoais, sobre os públicos.
Cabendo destacar e concluir assim que ainda que se questione a
atribuição à herança ibérica de nossa característica da pessoalidade nas
relações públicas, certo que tal traço existe até hoje, eivando a impessoalidade
que se impõe no trato da coisa pública e tornando mais subjetiva e, portanto,
mais susceptível á privilégios, favores, corrupção, a decisão estatal.
2.3 – A CORRUPÇÃO E O CAMPO FÉRTIL BRASILEIRO
No Brasil, o mal de todos (corrupção é mundial e histórica, se
desenvolve especialmente no espaço da política e reflete o descompromisso
com o interesse público, em termos conceituais), encontrou, pois, ambiente
extremamente propício ao seu desenvolvimento ante as características como
de difícil formação de uma identidade nacional, pessoalidade nas relações
públicas, paternalismo, ideia de mérito relacionado a título e interesse
subjetivos, valores nas relações familiares exacerbadamente valorizados sobre
os interesses públicos, dentre outras.
Assim, como uma praga, uma bactéria, juntou-se algo talvez inerente
à fraqueza da natureza humana, como vicio, do homem no processo político, a
um ambiente social fruto de traços fortes de pessoalismo, paternalismo e falta
de solidariedade, criando-se um corpo perfeito ao desenvolvimento endêmico
da corrupção.
De fato, resume-se das características encontradas o seguinte no
processo de formação da sociedade brasileira;
- falta de preparo educacional;
- ausência do estado em vários ambientes, permitindo a existência de
espaços autorreguláveis como latifúndios, Canudos, Amazônia, etc.
- povo com valores morais e éticos fincados nas relações pessoais,
familiares, o que gera, na outra face, falta de solidariedade social, ou
insolidarismo, ou falta de uma percepção de Nação.
- pessoalidade, pois, também como cordialidade, nas relações com o
público estatal;
- crescimento individual atrelado a tais relações, seja familiares ou de
influências, com desvalorização da noção de trabalho árduo como forma de
crescimento pessoal e social;
Daí pois a conclusão de que o mal mundial e talvez inerente ao
homem no processo político encontrou na formação da sociedade brasileira as
características ótimas ao seu pleno desenvolvimento, de forma a contaminar as
estruturas fundantes do Estado.
Mas é de se vislumbrar alguma solução?
Caberia mencionar como mecanismos de combate à corrupção
aqueles atrelados a melhorias nos índices de desenvolvimento humano e
conscientização social (educação, cultura...).
Assim, AFFONSO GHIZZO[31], diz que o fenômeno da corrupção no
Brasil possui caráter essencialmente cultural, influência do legado predatório
português. E isso ocorre em virtude da adoção da dominação tradicional
patrimonial, caracterizada por um modelo centralizador, absolutista e privatista
de poder, o que permitiu a formação de uma estrutura totalmente contrária e
lesiva aos interesses sociais, difusos e coletivos, enfim, avessa à garantia de
quaisquer direitos fundamentais.
A corrupção, então, se forma como valor negativo moral da
sociedade, levando seus indivíduos a tratarem o público como se fosse
privado. Como fenômeno cultural e relacional, a corrupção não se relaciona
unicamente com a ação ímproba decorrente da utilização indevida do poder
constituído em benefício privado, como também, com a maneira de ser dos
indivíduos e os valores éticos pré-definidos no íntimo pessoal de cada
personagem.
Cita-se ZANCARO[32]: “o fenômeno é anterior ao ato corrupto
propriamente dito. Pelo que, sob um modelo de dominação de características
patrimoniais, em princípio, nenhum cidadão pode considerar-se imune aos
seus atrativos”.
Sem resposta para todos os questionamentos que circundam a
problemática do desenvolvimento da cultura da corrupção no Brasil, como se
viu, é possível imaginar, porém, uma transformação educativa para a formação
de sujeitos pensantes: críticos e reflexivos. Somente através de um processo
educativo de formação de novos valores morais e éticos positivos, compatíveis
com os princípios, garantias e direitos fundamentais, é que será possível
finalmente descobrir o Estado Democrático de Direito, acessível a todos
brasileiros.
Conclui, novamente em Zancanaro[33]:
“Educação para cidadania: eis o caminho a ser trilhado com urgência
pela sociedade brasileira, se quiser vencer o estigma da corrupção. Mudar a
mentalidade de seu povo, implementando um processo educativo capaz de
reverter o quadro de derrocada dos valores morais que corrói as instituições e
as consciências. O problema da corrupção é um problema de formação de
consciência cívica. Formar a consciência dos indivíduos, fazendo o exercício
de construção dos valores inerentes à dupla face da condição humana: a dos
valores e interesses individuais; e a dos valores e interesses coletivos. A
corrupção nas instituições não é causa, mas efeito da incorporação pelos
indivíduos de antivalores sociais. O sistema patrimonial de dominação mostrou-
se incapaz de desenvolver um modelo de relações sociais que tornasse
possível enquadrar a ação dos agentes públicos dentro dos limites da
racionalidade.”
É este, para nós, e aqui encerrando a menção ao texto de GHIZZO,
efetivamente, o melhor caminho para o eficiente combate à corrupção.
Porém, fácil perceber que se trata de um dos mais longos, apesar de
duradouro, e que demandará esforços públicos e privados.
De qualquer forma, um esforço público localizado, acreditamos, já
caiba ao Estado fazer.
Indicamos que a melhoria na relação Administração x Servidor
público é mecanismo de controle e eficiente combate à corrupção, e tal por um
motivo óbvio: foca na raiz humana do problema.
Em princípio, pois, servidores públicos satisfeitos tem menos motivos
para corromper ou se deixar serem corrompidos pelos agentes privados. Diz-se
menos, pois, após tudo que se viu aqui, não é adequado se concluir que a
corrupção tem causa e percepção única em eventual, por exemplo, insatisfação
remuneratória do servidor, eis que ali devem ser inseridos também elementos
que passam da condição humana, pela moral, ética, a fatores históricos e
sociais até conscientizações mundiais das mazelas geradas pela corrupção,
além dos evidentemente necessários investimentos e aprimoramentos dos
meios de controle, prevenção e eficiente combate à corrupção.
Certo, para nós, que tratar adequadamente da relação Administração
x Servidor Público, por que também influenciada por questões sociais e
estruturais, merece atenção doutrinária multidisciplinar, pois a corrupção é
muito mais que jurídica, como visto, cabendo ser tratada no campo do
comprometimento organizacional.
Tal poderia funcionar como mecanismo de controle e combate à
corrupção a partir do momento em que se relaciona com diversos dos aspectos
humanos, internos e externos, aqui apontados como elementos da
configuração do mal social, político, econômico e jurídico aqui estudado.
Porém, nesse frágil texto, não cabe desenvolver o tema do comprometimento
organizacional dos servidores públicos, apesar de o termo tentado, inclusive
com busca empírica de dados, no estudo de nossa autoria já citado.
3 - CONCLUSÃO
Sinteticamente, buscamos tangenciar algumas características do
fenômeno da corrupção para identifica-lo como algo mundial, ou seja, não
exclusivo do Brasil ou américa latina.
Também histórico e talvez inerente à fraqueza humana no processo
político, como em Maquiavel e Montesquieu, Autores geralmente distantes mas
que se aproximam para destacar o risco que a corrupção leva ao Estado.
Nesta parte, indicamos algumas referências conceituais para salientar
a necessidade de agentes públicos e privados e o desvirtuamento das regras
gerias, públicas ou objetivas porventura existentes.
Assim, identificamos o mal analisado.
Após, o ambiente de sua disseminação epidêmica.
Para tanto aproveitamos de textos com referências às obras de
diversos autores considerados clássicos da análise da formação da sociedade
brasileira, que inclusive a vivenciaram, para identificar algumas características
desse processo que talvez tenham propiciado ao mal em questão o ambiente
perfeito à sua endêmica ocorrência.
De fato, parece-nos, pois, que as características da formação da
sociedade brasileira como paternalismo, pessoalidade, subjetividade,
supremacia dos interesses privados sobre os públicos, falta de solidariedade e
falta de identificação nacional tenham permitido o pleno desenvolvimento, aqui,
de atitudes tidas mundialmente como corruptas.
Daí o encaminhamento de que uma futura, e distante solução, passa
muito mais pela re-formação da sociedade brasileira com investimentos em
cultura e educação do que em criação de leis e normas mais rígidas de
combate à improbidade e aos crimes de corrupção ativa e passiva.
Não por menos a verificação de que realmente o texto não se
aprofundou de maneira adequada nos temas propostos mas talvez
efetivamente útil à discussão do foco correto, da direção adequada para o
combate à corrupção como elemento, já que aqui endêmica, geralmente tida
como o grande responsável pelas mazelas brasileiras.