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Anton Pavlovitch Tchekhov

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Um clássico contemporâneo da literatura russa
Elena Vássina
Entre o estrelado áureo dos escritores russos do século 19, Anton
Tchekhov (1860-1904) ficou consagrado como o mais ousado
transgressor da tradição literária clássica e um importante precursor
das formas e da linguagem artística contemporânea. O escritor de
múltiplas faces, Tchekhov, antes de tudo, é um reconhecido mestre de
narrativas curtas: em cada um de seus contos ele conseguiu recriar o
microcosmo literário que abrange o infinito e a imensidão do ser
humano e do mundo. Essa preciosa descoberta artística do gênio
tchekhoviano fez a literatura do século 20 reconhecer o gênero conto
como um dos mais importantes da narrativa contemporânea e
transformou o contista, segundo a bela definição de Alfredo Bosi, em
“um pescador de momentos singulares cheios de significação”. Ao
mesmo tempo, Tchekhov é um grande renovador da arte dramática,
criador de um novo paradigma estético do drama contemporâneo. Fora
das obras de ficção, este autor russo deixou-nos uma valiosa herança
dos escritos documentais: ensaios jornalísticos, cartas, diários e
cadernos de anotações. Por isso, não é de estranhar que as obras
completas do escritor, cujo credo literário era “a brevidade é irmã do
talento”, incluem 30 volumes.
Humor sutil e alto grau de condensação formal na formação
da linguagem tchekhoviana
Anton Tchekhov nasceu na pequena cidade de Taganrog, situada no sul
da Rússia. Passou sua infância em um meio muito patriarcal. Seu pai
era dono de uma pequena mercearia. A numerosa família (os Tchekhov
tiveram seis filhos) vivia apertada. Em 1876, o pai arruinou-se.
Obrigados a vender a casa, os Tchekhov mudaram-se para Moscou. Mas
Anton, sozinho, ficou mais três anos em Taganrog para terminar seus
estudos no Liceu. Sem o controle paterno, ele se sentiu mais livre para
se dedicar ao que gostava desde a infância – ao teatro e à literatura.
Tchekhov começou a escrever cedo. Quando foi a Moscou, aos 19 anos,
para fazer o vestibular de medicina na Universidade, em sua pasta já
havia muitos contos humorísticos e um texto dramático.
Cursando a faculdade de medicina, Tchekhov passou a publicar em
revistas “montanhas inteiras de contos” escritos quase que “brincando”
(segundo ele próprio) e assinados sob o pseudônimo de Antocha
Tchekhontê. O teor ligeiro e abertamente humorístico predomina na
criação do jovem escritor. Seus personagens são pequenos funcionários
que morrem de medo (literalmente) do general (A morte do
funcionário, 1883); ficam apavorados ao saber que o amigo de infância
se tornou um burocrata importantíssimo (Gordo e magro, 1883) ou
acham que a felicidade fosse impossível sem condecoração emprestada
(A condecoração, 1884). Mas já no início, formam-se os traços
peculiares do humor “puramente tchekhoviano” que foi perfeitamente
definido por Vladimir Nabokov: “As coisas para Tchekhov eram
engraçadas e tristes ao mesmo tempo, mas não se pode enxergar a
tristeza se não se enxergar a comicidade, pois ambas estão ligadas”.
O tema dominante desta primeira fase da obra literária de Tchekhov
poderia ser definido como a ridicularização do que se considera
“normal”, ou seja, daquele “bom senso” vulgar e mercantil que rege e
reina na vida corriqueira. Desde o início do trabalho literário, forma-se
um traço muito peculiar da poética tchekhoviana: uma total economia
de meios artísticos, ou seja, a específica “avareza” verbal que obriga o
autor a cortar cada palavra supérflua, cada frase escassa para atingir um
alto grau de condensação formal.
O escritor mergulha na vida cotidiana cheia de fatos miúdos para captar
através deles o essencial e o eterno da existência humana. Em 1888,
Tchekhov escreve uma das suas obras primas, a novela Estepe, em que
se reflete uma imagem da infinita planície russa e seus tipos humanos,
tudo recriado pelo prisma da percepção infantil do seu personagem
principal, um garoto Iegóruchka, que faz uma longa viagem para ir
estudar, acompanhado de seu tio e de um padre.
Numa das cartas, Tchekhov escreve: “Meu objetivo é matar dois
pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o
quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim,
como é desconhecida por todos nós”. O escritor Tchekhov, ao contrário
do doutor Tchekhov, não receitava, apenas constatava graves doenças
da alma humana mostrando, com toda a objetividade (“A subjetividade
é uma coisa terrível”, frequentemente repetiu o escritor) que a principal
culpa estava dentro da própria natureza humana e não nas condições
sociais injustas do mundo.
A técnica da narrativa e a visão artística de Tchekhov, o escritor menos
“engajado” da época, eram muito inovadoras no contexto da literatura
russa, que sempre tinha certa inclinação para as pregações morais.
Segundo Tchekhov, “só as pessoas impassíveis são capazes de enxergar
as coisas com clareza, isso diz respeito apenas às pessoas inteligentes e
dignas; os egoístas e as pessoas vazias já são indiferentes mesmo sem
isso”.
A transfiguração poética de vida corriqueira
Em 1888, Tchekhov recebe o prêmio Púchkin, maior láurea literária
concedida pela Academia de Ciências da Rússia. Seu talento
amadurecido se concentra cada vez mais em recriação de sutilezas da
interioridade “fluida e contraditória” do ser humano, como ocorre, por
exemplo, em contos: O monge negro, Enfermaria nº 6, Estudante e Os
homens. Ao ler e analisar essas obras primas de Tchekhov, Virginia
Woolf deixa destacado que o escritor russo “é o analítico mais sutil das
relações humanas. Quando lemos estas Histórias sobre quase-nada, o
nosso horizonte estende-se e ganhamos um espantoso sentido de
liberdade”.
Todas as obras de Tchekhov estão inteiramente ligadas pela específica
visão artística do escritor, que poderia ser chamada de “o inimitável
mundo tchekhoviano”. Tentaremos definir alguns aspectos específicos
do método artístico de Tchekhov. Antes de tudo, ele é o escritor, ou
melhor, o poeta do cotidiano: sob a sua pena, realiza-se a transfiguração
poética dos fatos, situações e personagens comuns.
O escritor não se acha pregador da verdade, nunca sugere soluções para
os problemas tão difíceis da vida, por isso, muitas obras não têm
desfecho, terminam em reticências, como o fluxo natural da vida.
Tchekhov é um daqueles escritores que detesta colocar os pingos no “is”,
acreditando que a liberdade da interpretação de texto é um privilegio
sagrado de cada leitor, participante ativo no ato da criação literária.
“Quando eu escrevo (como costumava repetir Tchekhov), confio
inteiramente no leitor, supondo que ele próprio vai acrescentar os
elementos subjetivos que faltam ao conto”. Através do indefinido e do
infinito, sempre presentes na narrativa de Tchekhov, suas obras ficam
ligadas com a eternidade da própria vida, com aquela luz divina que
sempre se sente nas verdadeiras obras de arte que ultrapassam o seu
tempo. Pode-se tomar como exemplo o final de um dos contos mais
líricos e sutis de Tchekhov, A dama do cachorrinho (1899), que relata a
história de um inesperado amor que profundamente transtorna as
almas dos personagens Gúrov e Anna Serguiévna. Ambos casados e
infelizes em seus casamentos, “tinham a impressão de que mais um
pouco e encontrariam a solução e, então, começariam uma vida nova e
bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim
estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”, como
aponta Sophia Angelides em sua brilhante pesquisa da poética
tchekhoviana. O efeito buscado por Tchekhov, ao encerrar uma
narrativa, é que a vida continua e a realidade é inesgotável.
Criador do novo paradigma dramático
Inovador no mundo das letras, Tchekhov era ainda mais radical na
inovação da arte dramática, naquela verdadeira virada para o novo
drama que se manifestou, pela primeira vez, na genial tessitura teatral
da peça A gaivota. Ainda que a primeira montagem desse drama, em
1896, no Teatro Aleksandrínski, tivesse sido um grande fracasso, dois
anos mais tarde, a encenação de A gaivota, realizada por K.Stanislávski
no palco do Teatro de Arte de Moscou, obteve um sucesso inacreditável
que marcou o nascimento do novo sistema dramático já aberto para o
século 20. Desde então, Tchekhov escreve suas peças especialmente
para o Teatro de Arte de Moscou: em 1899, estreia Tio Vânia; em 1901,
As três irmãs; e em 1904, o último drama, O jardim das cerejeiras.
Anton Tchekhov quebra todas as regras que existiam antes no ofício
dramático. É difícil encontrar em suas peças componentes obrigatórios
do enredo de drama: ponto de partida, conflito, culminância, desfecho.
Ao abolir a história propriamente dita (“o enredo pode até não existir”,
gostava de afirmar o escritor), o credo de Tchekhov encontra-se na
“importância das coisas não importantes”: por trás das banalidades e
trivialidades do cotidiano, há um mundo de conflitos trágicos. Em
comparação às peças dos antecessores, que possuíam uma trama
dramática espetacular, parece que nada acontece no teatro de Tchekhov,
pois suas peças sempre têm um final aberto. Se o teatro clássico falou
dos dramas que acontecem na vida, Tchekhov foi o primeiro a mostrar
no palco o drama da própria vida – da vida “regular, plana, comum, tal
como ela é na realidade”. O dramaturgo formulou seu objetivo cênico da
seguinte maneira: “Que tudo no palco seja como na vida: as pessoas
almoçam e só almoçam e ao mesmo tempo se forma sua felicidade ou
quebra sua vida.” Da mesma maneira, a dolorosa perda do ninho
familiar na biografia do próprio Tchekhov se transformaria em seu
teatro (nas peças Tio Vânia, As três irmãs e O jardim das cerejeiras) no
motivo “do paraíso perdido” (bem característico do paradigma estético
da contemporaneidade).
Na dramaturgia de Tchekhov, todos os episódios que seriam
“acontecimentos principais” para o drama anterior são realizados fora
do palco – como, por exemplo, o suicídio de Tréplev (A gaivota), o
duelo e a morte de Tusenbakh (As três irmãs), a venda do jardim (O
jardim das cerejeiras). Esta inversão estabelece um ritmo e uma
dinâmica próprios à dramaturgia tchekhoviana: referindo-se a A
gaivota, o autor afirmou: “A despeito de todas as regras da arte
dramática, eu a comecei forte e acabei pianíssimo”. No teatro de
Tchekhov, a ação é movida pelas pausas, silêncios, mudanças do estado
de espírito, ou melhor, pela “corrente submarina”, tudo aquilo que cria
no espectador a sensação de que ele assiste no palco ao fluxo da vida. Ao
trazer o fluxo da vida para o teatro, Tchekhov inovou a narrativa
dramática, assim como o escritor francês Marcel Proust revolucionou a
narrativa da ficção ao descobrir o fluxo da consciência.
Nas peças de Tchekhov, sempre existe algo mais importante de que o
plano dos acontecimentos, algo que estabelece a ligação entre o
cotidiano da vida humana e a eternidade. Essa ligação é estabelecida
através do principal motivo do teatro tchekhoviano: o tempo. O
dramaturgo irrompe no tempo teatral para abrir a ação dramática à
eternidade da vida. Como são importantes, por exemplo, as estações do
ano (o tempo cíclico da natureza) para o desenvolvimento da ação de As
três irmãs. O primeiro ato começa na primavera. É o despertar da
natureza e o despertar das esperanças das três irmãs Prósorov – Irina,
Olga e Macha – depois de um ano de luto pela morte do pai. O último, o
quarto ato, passa-se no outono: “A neve pode cair a qualquer
momento… Os pássaros já começam a emigrar…”, diz Macha, como se
esses pássaros de arribação levassem consigo todos os sonhos e a
esperança de felizes mudanças na vida das três irmãs.
A fábula externa da peça poderia parecer trágica se não fosse absorvida
pelo mais importante enredo interno tipicamente tchekhoviano. Na
tessitura dramática do drama, sempre se entrelaçam dois planos – o
plano da vida cotidiana (nesse plano, para as três irmãs, tudo fica pior
do que era no início da peça) e o plano da vida espiritual, que o autor
considera essencial. Para Tchekhov, a vida do homem que não é
iluminada pela busca da verdade e da beleza não tem sentido, como diz
Macha no seu famoso monólogo: “Parece-me que todo homem deve ter
uma fé, ou deve procurar uma fé, sem a qual sua vida torna-se vazia,
vazia… Viver sem saber por que as cegonhas voam, por que nascem as
crianças, por que há estrelas no céu… Não! Ou sabemos por que está
vivendo, ou tudo é bobagem e nada importa…”
K.Stanislávski definiu muito bem o sentido essencial da obra do
escritor: “Tchekhov apresenta-se inesgotável, porque, apesar da
aparente descrição da vida trivial, em seu leitmotiv (motivo condutor)
principal, ou seja, espiritual, ele sempre fala sobre o Humano com
maiúscula”.  

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