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EDITOR CHEFE
Arno Alcântara

REDAÇÃO E CONCEPÇÃO
Marcela Saint Martin

DIREÇÃO DE CRIAÇÃO
Matheus Bazzo

ILLUSTRAÇÃO DA CAPA
André Martins

DESIGN E DIAGRAMAÇÃO
Jonatas Olimpio

Material exclusivo para assinantes do


Guerrilha Way.

Transcrição das lives realizadas no


Instagram do Dr. Italo Marsili dos dias
14/01/2019 a 21/01/2019

2
COMECE
A apostila que você tem em mãos é uma pequena jóia --
um booklet para ser guardado em sua biblioteca. E, como
os livros de uma biblioteca, você não precisa lê-lo de
capa a capa, mas guardá-lo para futuras consultas.

Aqui você vai encontrar um RESUMO DAS LIVES DE


SEMANA e a TRANSCRIÇÃO INTEGRAL de cada uma
delas.

Cada página foi pensada para tornar a utilização desse


material o mais simples e agradável possível. Caso
não queira imprimir a versão colorida, utilize a versão
preto e branco. E, caso não deseje imprimir, você pode
simplesmente arquivá-lo em sua biblioteca virtual,
consultando o PDF sempre que necessário.

Faça bom proveito!

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ÍNDICE
RESUMOS DA SEMANA................................. 6

TE PERDOARAM, MAS VOCÊ


CONTINUA UM MERDA................................ 10

NÃO SEJA O PASTOR QUE


ACARICIA O LOBO......................................... 22

A LIBERDADE ESTÁ NO REINO


DA VERDADE................................................ 28

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NUMA
TACADA SÓ
LIVE DO DIA 04/02/2019
TE PERDOARAM, MAS VOCÊ
CONTINUA UM MERDA
O perdão que alguém nos concede não é uma
permissão à reincidência no erro, mas um alerta
para que não sejamos desleais uma segunda vez.

LIVE DO DIA 05/02/2019


NÃO SEJA O PASTOR QUE ACARICIA O LOBO
Aquele que se furta à obrigação de defender quem
legitimamente conta com seu braço deixa de cumprir
grave dever moral, deformando sua personalidade.

LIVE EXTRA, GRAVADA EM 30/10/2018


A LIBERDADE ESTÁ NO REINO DA VERDADE
A substância da vida humana é uma narrativa, a qual
só se desenrola em primeira pessoa quando se vive
com liberdade. O exercício da liberdade só pode
ocorrer no reino da verdade.

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RESUMO

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Live transmitida em 04/02/2019
TE PERDOARAM, MAS VOCÊ CONTINUA UM MERDA

Você difama alguém, faz uma fofoca, mancha a imagem


de outrem perante terceiros. Passado um tempo, arrepen-
de-se, pede desculpas à vítima, ela o perdoa. E é aí que
suas reais motivações serão colocadas à prova. É neste
ponto que seus atos demonstrarão se você se emendou,
ou se continua valendo tão pouco quanto antes.

Se você se sente dignificado porque foi capaz de pedir per-


dão, e se, depois do perdão concedido, começa a acreditar
que a vítima lhe deve algo; se, enfim, você pede desculpas
para “ficar bem com a consciência”, saiba: suas desculpas
não são sinceras e você provavelmente cometerá a mes-
ma trapaça em pouco tempo.

O pedido de perdão não passa de um dever do ofensor.


Perdoar, por sua vez, não é obrigação da vítima. Se ela
perdoa, isso não implica que dali em diante deva tratar o
ofensor com consideração, afeto e amizade. Não se pede
desculpas para “poder dormir com a consciência tranqui-
la”; mas porque é o certo a se fazer. Também não se pede
desculpas com uma expectativa na manga. O verdadeiro
pedido de perdão, aquele capaz de tornar você melhor, é
humilde e despretensioso. Se você trapaceou, arrependa-
-se, peça perdão e recolha-se; trate de se emendar, humil-
demente, sem esperar nada em troca: nem tapinha nas
costas, nem mesmo o perdão.

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Live transmitida em 05/02/2019
NÃO SEJA O PASTOR QUE ACARICIA O LOBO

A imagem do pastor de rebanhos remete-nos à figura do


guardião, daquele que é responsável por conduzir, defen-
der e garantir a vida, a honra e a união dos seus.

A vida adulta exige que assumamos a função de pastor de


algumas ovelhas: seja dos filhos, do cônjuge, dos amigos,
de um subalterno. Assim, quando um perigo vem ame-
açá-los, é nosso dever defendê-los com a força do braço.
Fugir ao dever de protegê-los, é covardia, é fator defor-
mante da personalidade.

Em nosso tempo, porém, viceja a atitude nefasta de pre-


terir, em favor do lobo, a defesa daqueles que contam com
a nossa força. A covardia é incentivada; a conivência com
o mal é vista como “sinal de equilíbrio”. O covarde passa
por “pessoa ponderada, que evita extremismos”. Na era
dos mornos, dos maus pastores que abandonam seus re-
banhos à sorte dos malfeitores, é preciso ter a coragem
de tratar o lobo como lobo, e não deixar que ele se torne
uma faceta da nossa própria personalidade, deforman-
do-a.

Live Extra, transmitida em 30/10/2018


A LIBERDADE ESTÁ NO REINO DA VERDADE

A substância da vida humana é uma narrativa, é a histó-


ria que estamos vivendo. Essa história precisa ser vivida
em primeira pessoa -- ou seja, você precisa reconhecer-se

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como autor dos seus atos, autor da sua história.

Porque essa narrativa está sendo construída, o elemento


da liberdade é fundamental para se viver uma vida que
você reconheça como sua. Uma vida vivida sem liberda-
de, sem a possibilidade de fazer escolhas, não é propria-
mente uma vida humana.

A liberdade necessária para que você tenha uma vida hu-


mana é a liberdade que nasce através de um ventre cha-
mado VERDADE. A pessoa comprometida em estar no
reino da verdade experimenta um imenso grau de liber-
dade. Mas a verdade só existe no domínio da REALIDADE.
Por isso, somente o sujeito que está instalado na realida-
de, vivendo sob a luz da verdade, poderá exercer de fato a
sua liberdade. Ele será capaz de olhar para a própria vida
e reconhecê-la como sua, porque ela não estará falseada.
É somente no cruzamento entre realidade, verdade e li-
berdade que se pode experimentar a felicidade.

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Live 04-02-2019 (segunda-feira) Instagram

Hoje vou falar com vocês sobre um assunto meio ter-


rível: a inveja. Mas não falarei bem pelo ângulo co-
mum da inveja, e sim por um outro ângulo, o do per-
dão.

Há uma mania terrível que as pessoas têm, e eu a


vejo toda hora em relacionamentos. Vou explicá-la.
É uma coisa que aconteceu recentemente comigo,
olhem que história extraordinária, e depois me con-
tem o que acham sobre isso.

Imagine só a seguinte situação: a pessoa pisa na bola,


te difama, não é fiel a você, te sacaneia. Depois ela vai
lá te pedir desculpas pela burrada que fez, pela saca-
nagem que aprontou contigo, por aquela coisa que,
às vezes, nem tem muito conserto. Às vezes a pessoa
já te difamou, já estragou uma relação que você ti-
nha, e aí esse palhaço põe a mão na consciência por
um motivo ou outro e percebe que foi um paspalho,
um babaca, que fez uma besteira que te prejudicou
objetivamente no seu círculo social. E aí ele vai lá e te
pede desculpas.

Aí você olha para aquela situação e fala “Tá bom, bele-

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za, tá desculpado”. E é aqui que nós vemos se o sujei-
to pediu uma desculpa que de fato vai transformá-lo,
ou não. Aqui nós temos que nos examinar, temos que
verificar se nós somos desse tipo de crápula, desse
tipo de pessoa que ainda tem muito o que aprender.

Imaginem só que eu fui o filho da mãe que sacaneou


com o amigo. Eu o difamei, falei besteiras sobre ele.
Depois, pensei “Caramba, fiz merda, fui injusto”, fui
lá e pedi desculpas. E aí, em uma circunstância de-
pois, anos depois, pelo fato de eu ter pedido descul-
pas, eu passo a achar que o meu amigo tem a obriga-
ção de reconhecer aquilo como um ato de grandeza e
de esquecer tudo o que aconteceu, só porque eu pedi
desculpas a ele -- mesmo que eu faça uma sacana-
gem igual à anterior.

Olhem só que coisa terrível. Vejam se estão enten-


dendo o que estou falando aqui: o sujeito que pede
desculpas depois de ter feito uma burrada pensa
que o outro tem uma obrigação moral de achar que
ele é o cara mais lindo e maravilhoso do mundo. E
pelo fato de ele ter pedido desculpas, de ter tido a
hombridade, a honradez, de ter pedido desculpas,
ele acha que outro é obrigado a tolerar todas as
burradas que ele vier a fazer doravante.

“A partir de então, pelo fato de eu ter sido homem


e ter pedido desculpas, eu posso fazer qualquer por-

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caria.” Ah, pare com isso! O sujeito que fez uma bur-
rada, que difamou alguém em algum momento da
vida, que fez uma fofoca, mesmo que tenha pedido
desculpas -- o que é obrigação dele --, ainda está abai-
xo do injustiçado! Vejam que twist mental, que bela
porcaria, que trapaça em que a gente cai: o fato de
eu ter pedido desculpas não me dá autoridade moral
de estar acima da outra pessoa. Pelo contrário! Você
pediu desculpas porque errou, meu filho, porque foi
um maldito de um fofoqueirinho; você pediu descul-
pas porque, antes, foi uma porcaria de um sujeito co-
varde, baixo!

O fato de você ter pedido desculpas para alguém por-


que fez uma burrada com essa pessoa NÃO te põe em
uma posição moral superior a ela!

Essa é a porcaria da mentalidade maluca


do brasileiro: “Eu fiz uma burrada, sacaneei
alguém, pedi desculpas, e o fato de eu ter
pedido desculpas me põe em uma posição
superior”

Isso é o que pai e mãe ensinam para crianças! “Olha,


vai lá e peça desculpas”. A criança pede desculpas e o
papai e a mamãe batem palminhas. Caramba, isso só
funciona quando o sujeito é criancinha e está apren-
dendo! Realmente, quando seu filho faz uma patifa-
ria com o irmão e depois pede desculpas, você bate

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palminha pra ele! Porque ele é um bebê, é uma crian-
ça, está aprendendo! Agora, um adulto, com barba na
cara? Uma mulher, com cabelos brancos? Pelo amor
de Deus! Cresça, não é assim que faz!

O fato de você ter pedido desculpas lá atrás para al-


guém te põe em uma posição inferior, porque você já
fez uma canalhice objetiva para aquela pessoa! Pedir
desculpa é a sua obrigação moral! Você pedir descul-
pas só para ficar tranquilinho com a sua consciên-
cia, seu palhaço? Isso não vale de nada, porque o que
você fez com o outro foi um mal objetivo no mundo!

Pedir desculpas para ficar bem com


a consciência é coisa de filho da mãe.

Aprenda isso: toda vez que você pede desculpas


para alguém para ficar com a consciência tranqui-
la, saiba, tenha certeza: você é só um filho da mãe.
É só mais um filho da mãe, e vai cair no mesmo erro
no minuto seguinte. Você ainda não limpou, não de-
purou, não purgou esse lixo moral que tem dentro
de você, não fez esse trabalho.

A gente não pede desculpas para ficar bem com a


nossa consciência. Dane-se a sua consciência, meu
amigo. Não estou nem aí para ela. Está entendendo
como é que funciona a coisa?

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Você tem que pedir desculpas para reparar
um mal que você fez para alguém e para se
emendar fortemente e nunca mais fazer o
mesmo.

Tome cuidado com esta porcaria de frase: “Pedi des-


culpas para ficar bem com a minha consciência”.
Cuidado com isso. Isso em geral só perpetua, disfar-
ça, dá uma maquiagem a essa sua cara de pau, a essa
sua imoralidade constitutiva. É isso o que acontece.
Sempre que você ouvir aquele papo de “Ah, mas eu fiz
para ficar limpo…”, desconfie. Caramba, você lá tem
seis, sete aninhos para nego ficar batendo palminha
porque você pediu desculpas para o irmão?

Você foi e deu uma voadora na cara do seu irmão, só


que você tem quatro anos. O que sua mãe vai fazer?
Vai te dar uma palmada e vai falar: “Meu filho, peça
desculpas para o seu irmão”. Aí, quando você pede
desculpas, a mãe bate palminhas: “Muito bem, é as-
sim que se faz”. Caramba! Você tem trinta anos na
cara, vinte e cinco, quarenta anos na cara, meu ami-
go, você tem que se envergonhar pela burrada que
fez e não fazer mais. É isso o que você tem que fazer.
Cuidado com essa mentalidade.

O palhaço se faz de vítima, ao estilo “Ah, estou mui-


to decepcionado com você, porque você trouxe as-

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suntos antigos para a nossa conversa”. Que assuntos
antigos, caramba? Você me difamou há cinco anos,
você vem e me difama de novo? Você é um palhaço
mesmo, não aprende porcaria nenhuma!. “Ah, mas
você não consegue perdoar, você não botou uma pe-
dra nesse assunto” Que não botou pedra?! Quem não
botou foi você, caramba, que continua a mesma por-
caria de antes! Está entendendo?

Olhe só. Esse é um ponto importante na nossa vida.

Quando você pede desculpas para alguém,


a pessoa não tem a obrigação de te desculpar.

Aprenda isso. Ela não te deve porcaria nenhuma,


não te deve nada. Você tem que pedir desculpas
porque é o certo, não é para ficar bem com a sua
consciência. E a outra pessoa não te deve nada,
nem sequer o perdão. Você está entendendo isso, ou
não?

A pessoa não tem a obrigação. Você já é um babaca,


já é filho da mãe, já fez mal para ele, e ainda quer que
ela faça o quê, que te dê beijos e abraços? Que palha-
çada! Você fez uma palhaçada, difamou o cara, fez
um mal objetivo para ele, aí você pede desculpas e
o cara responde “Beleza, cara, tranquilo, só não che-
gue perto, se você fizer outra canalhice dessas…” É
isso. Não tem obrigação nenhuma.

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Isso é muito diferente de guardar rancor. Não estou
falando de guardar rancor. O negócio é o seguinte: o
cara fez mal para mim uma vez, não é meu amigo, fez
mal, foi lá e me pediu desculpas. Beleza, desculpas
aceitas. Mas, agora, sempre você ficará com a pulga
atrás da orelha: “Sei lá por que esse cara pediu des-
culpas, caramba. Era porque queria tirar uma vanta-
gem de mim? Para ficar bem com a conscienciazinha
dele? Ou foi porque ainda tem um comportamento
infantil e quer que a mamãe bata palminhas porque
ele foi grandioso e pediu desculpas?” Cresça!

Você sacaneou a sua sogra, foi e pediu desculpas


para ela. Sabe qual é a obrigação que ela tem de fi-
car de beijinhos e abraços, de chorar e falar “Ah, meu
filhinho, você é um segundo filho”? Nenhuma! Zero!
VOCÊ tem a obrigação de pedir desculpas, botar o ga-
lho dentro, o rabinho entre as pernas, e ficar de fini-
nho ali, por um, dois anos, na sua! O outro não tem
obrigação nenhuma, ele está só de olho, você já fez
uma burrada! “Pô, já me deu uma rasteira aqui, quer
que eu fique como? Com a boca toda cheia de dentes
rindo para você? Vou tomar outra e quebrar os den-
tes daqui a pouco”. E é óbvio que vai.

Pare com essa canalhice, isso é ruim, é mau. Você


pede desculpas para alguém e fica espantado porque
a pessoa não te desculpou, não foi te abraçar? Então
a sua desculpa não é desculpa absolutamente. Você

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está fazendo carinho na sua consciência, você é um
palhaço que não amadureceu ainda! Não tem jeito,
não é assim que funciona!

Você vai pedir desculpas com humildade. Se as


suas desculpas vêm acompanhadas de uma neces-
sidade de que o outro bata palmas para a sua gran-
diosidade de espírito, vêm acompanhadas de uma
expectativa de que o outro te chame para comer
pizza e tomar vinho com ele, não é desculpa, é so-
berba! Você quer poder sentar na cabeça dele e, por
um simples ato de desculpa, achar que o cara ainda
tem a obrigação de se botar abaixo de você. Aqui, ó!
Deixe de palhaçada, meu filho, cresça!

Estou falando para você mesmo, que está em erro


com o outro. Primeira coisa: você vai pedir descul-
pas agora e não vai esperar nada em troca. Vai pe-
dir desculpas porque é o certo. E, se você puder, vai
emendar, consertar a burrada que fez.

Imagine que você difamou alguém. Você vai pedir


desculpas para quem você difamou e vai procurar as
pessoas, de uma em uma, e falar: “Olha, aquilo que eu
falei sobre ele está errado. Ele não é isso. Eu era um
invejoso, estava com medo dele, por isso falei mal”.

Vai ter gente pensando o seguinte: “Não, não; eu di-


famei por ignorância, eu não sabia que você não era

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aquilo.” Meu filho, eu nunca difamei ninguém por
ignorância. Como assim? A ignorância não é motor
para a difamação. Preste atenção nisso. Você pode ig-
norar que o outro sujeito seja inteligente, que ele seja
religioso. Não é porque você ignora, desconhece, que
vai sair falando mal dele. Fala mal quem é velha fo-
foqueira, quem é invejoso, quem está com medinho.
Fala mal quem tem um puta complexo de inferiori-
dade e tem que botar o outro abaixo de si. Ignorância
não é desculpa.

Se você é um dos que falam “Não, eu difamei lá


atrás porque eu não sabia”, então você não apren-
deu nada. Nada mesmo. Ignorância não é motivo
para difamar ninguém. Quem difama é filho da
mãe. Quem difama é quem não tem roupa para la-
var. Aquela coisa, né? Em boca fechada não entra
mosca.

Se você não pode falar


bem do outro, não fale nada.

Fique quieto, caramba. Zíper na boca. Cale a sua bo-


quinha, não vá difamar ninguém. Fez a burrada, vá
pedir desculpas. Pediu desculpas, fique na sua. O ou-
tro não tem a obrigação de ser seu amigo só porque
você pediu desculpas. O outro não é seu pai ou sua
mãe e você não tem cinco aninhos para ficar rece-
bendo palminha.

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Todos nós já fizemos burrada na vida. Tem gente que
nunca difamou ninguém porque não é fofoqueiro,
mas burrada, na vida, a gente sempre fez. Você vai
pedir desculpas. Isso aqui é para nós, para mim e
para você: pare de ficar se colocando na posição con-
trária, você vai ter que se colocar aqui e agora na po-
sição do filho da mãe, e não na posição de quem está
sofrendo injustiça. Está ouvindo? Estou falando com
você mesmo, que está me assistindo.

Você vai se colocar na posição de filho da mãe ago-


ra. Pare de ficar projetando do outro lado. Você vai
se colocar na posição de filho da mãe, na posição do
cara que é mau, difamador, bobão, do cara que tem
que pedir desculpas, e você vai pedir desculpas para
a pessoa e não vai esperar nada em troca.

Se você pede desculpas para alguém esperando algo


em troca, a sua desculpa não é verdadeira. Se você
pede desculpas para alguém esperando que o outro
bata palma para você, você é um infantilóide e, te-
nha certeza: você vai cometer o mesmo erro daqui a
três minutos.

A desculpa tem que vir acompanhada de humildade,


do peso de ser humilhado. Se o outro não quiser te
desculpar, ele está no direito dele. Você fez burrada,
mesmo… Queria o quê? Não pode obrigar o outro a
ter um coração grande, e mesmo que ele tenha um

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coração grande, preste atenção: perdoar alguém não
significa que você irá conviver mais com ele, não sig-
nifica que você irá aceitar todas as porcarias que ele
fará em relação a você. Nada disso.

Um sujeitinho me difamou lá atrás, há mais de dez


anos. Eu sou um psiquiatra, então eu tinha uma fun-
ção na Igreja e o cara me difamou, falou mal de mim
para os bispos, para um monte de gente, a maior
bobeira. Falou mal mesmo, difamou, depois pediu
desculpas e eu desculpei tranquilamente.

Eis que, por esses dias, anteontem, ele veio passar um


pito e ainda colocou um Padre na conversa. Ele fez
a mesma coisa, está difamando do mesmo jeito. É o
mesmo processo mental. Não se livrou dele. O que eu
fiz? Espanei. “Deixa eu espanar aqui, vamos limpar.”
E aí ele ficou “Oh, não acredito, que decepção.” “Que
decepção”! Pelo amor de Deus, como assim, “Que de-
cepção”? Você entende a cabeça de um sujeito des-
ses? Ele está “decepcionado”! E por quê? Porque é
um bobão, porque o perdão não é verdadeiro, ele não
pediu desculpas de verdade, já que, quando ele pede
desculpas, ele acha que o outro tem a obrigação de
ser trouxa.

Eu ri e falei “Não é possível. Vamo ensinar aqui com


quantos paus se faz uma canoa” E pá: Resolvido. Fui
embora. Pelo amor de Deus, não sabe brincar, não

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desce para o play.

É isso. Vamos aprender, esse assunto do perdão é fun-


damental. O pedido de desculpas tem que vir acom-
panhado de humildade, se não, não é verdadeiro.
Tem que vir acompanhado de humildade; do contrá-
rio, você é apenas um bobão e ainda existe um mal
real dentro de você, você nem começou o processo.

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Live 05-02-2019 (terça-feira) Instagram

Lembro-me de uma reunião que tive anos atrás. Eu


estava acompanhado de um médico muito impor-
tante, que estava comigo para falar com uma autori-
dade para pedir que nos cedesse um lugar para fazer-
mos um trabalho. E, depois de muita conversa, esse
médico, um sujeito mais velho e de alta categoria,
começou com um papo realmente frouxo, um papo
que me marcou. Aquilo me deixou uma imagem, e
falei para ele, sobre a questão da caridade e da justi-
ça:

“Um dos males do nosso tempo é que os


pastores, ou seja, aqueles que têm o dever
de proteger as suas ovelhas, que têm o
dever de proteger aqueles que são mais
fracos, resolvem, por covardia camuflada
de caridade, fazer carinho nos lobos, cuidar
mais dos lobos do que das suas ovelhas;
preocupam-se mais com quem está de fora
do redil do que com quem está dentro”

Um pai de família, ou uma mãe de família, que está


mais preocupado com a opinião do vizinho, que está
mais preocupado em agradar o vizinho, que está

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mais preocupado em agradar olhares anônimos no
supermercado, quando seu filho se comporta de cer-
to modo, é um pastor covarde, porque nosso primei-
ro dever é o de justiça para com aqueles que estão
abaixo de nós, é o dever de cuidar das ovelhas, ain-
da que para isso precisemos espancar os lobos.

“Italo, que absurdo. São absurdas essas coisas que


você fala.” Ora, estamos numa era em que temos de
abraçar árvores, escrever um livro, fazer um filho e
cantar Imagine, de John Lennon, o tempo de “não tem
mais armas”, um tempo em que toda a natureza bé-
lica deve ser revogada. Isso é covardia! Se o momen-
to pedir para matar os lobos, se o momento pedir
para falar grosso com o lobo, como devemos agir?
Não podemos, por covardia, nos furtar daquilo que
é a nossa posição no mundo. A caridade é sempre o
maior valor, mas não a confunda com sua covardia.
Você não pode ser “caridoso” com o lobo, quando a
ovelha, ou seja, seu empregado, seu filho, seu amigo,
sua esposa, seu marido, está em perigo.

Em geral, concede-se tudo aos lobos, ainda que as


ovelhas sofram prejuízo, porque você sabe que a ove-
lha o ama e vai perdoá-lo se o lobo eventualmente
der uma dentada nela. Mas que coisa feia… Isso não é
posicionamento de gente adulta e madura. Precisa-
mos sempre olhar ao nosso redor para ver se, por
covardia, deixamos de defender quem tem de ser

23
defendido; se, por omissão, estamos nos furtando
a nosso papel neste mundo. Jamais entre na balela
de que a “caridade”, o “amor”, o abraçar árvore é uma
grande coisa. “Nossa, mas, se você falar grosso com
alguém, der um tapa, um soco, um tiro em alguém,
você estará faltando com a caridade.” Nem sempre.
São poucos os valores absolutos; em geral, a vida hu-
mana se desenvolve na articulação entre as circuns-
tâncias concretas e os valores. É justamente na arti-
culação entre uma norma geral e a situação concreta
que a vida humana se desenvolve.

Aquele que é pautado só por grandes teorias


e pela norma geral escapa da natureza da vida
humana, escapa da matriz onde a vida humana
se desenvolve. Ele não é ser humano.

“Ah…, mas o amor, a caridade, é o grande princípio,


o grande valor articulado”; sim, mas articulado com
a sua circunstância concreta, articulado com a sua
vida de hoje, a sua vida presente. Se você entra no
quarto e há um sujeito estrangulando seu filho, você
vai fazer o quê? Vai se embolar com ele, e chegará
às vias de fato; vai matar o cara, se necessário. Sim-
ples, sem nenhum peso na consciência. É isso que a
justiça pede, essa é a caridade que se apresenta para
você naquele momento. “Ah, Italo, mas eu matei al-
guém...”. Ora, se era isso que estava na sua frente, o
que mais poderia fazer?

24
Portanto, jamais defenda os lobos, jamais passe a
mão na cabeça dos lobos, só porque “a ovelhinha
vai entender, a ovelhinha me ama”. “Minha esposa
me ama, então vai entender porque eu não a defen-
di naquela circunstância, porque eu não podia faltar
com a caridade.” Isso é atitude de covarde! Cultive
dentro de si uma força, um olhar específico. Sempre
que um pequenininho – que pode ser qualquer um
– precisar da sua força, ainda que na sua cabeça
deformada pelo modernismo e pelo pacifismo do
nosso tempo você ache que não deveria sacar suas
armas, cuidado!: você está sendo covarde; está ain-
da no subsolo moral da existência humana; não
é ainda um sujeito útil, um sujeito que importa,
com quem podemos contar. Você é um coitadinho
maquiado de caridade. Estamos fartos dessas pesso-
as; ninguém agüenta mais esse tipo de gente. Olha-
mos para um cara assim e sabemos que é um palha-
ço, um fanfarrão, que não serve para nada. Por que
querer viver com um cara que está sempre com uma
máscara de “Ai…, eu sou bondoso, vivo diante da gra-
tidão”. Se não posso contar com você para a porrada,
se, quando vem o exército inimigo, você vai abraçar
uma arvorezinha!... Para que eu quero você? Você é
um coitado; cala sua boca e fica aí de lado, porque
não é homem ainda.

A força moral precisa articular a norma geral com


a circunstância concreta. “Não matarás” depende

25
da circunstância concreta, que é onde se desen-
volve a vida humana. O sujeito que se pauta só por
normas gerais está escapando à densidade da vida
humana. Ele olhará para trás, no leito de morte, e
dirá: “Quem viveu esta porcaria?”. Não há substância
humana, não há densidade do real, não há um ho-
mem ali dentro, não há uma psique articulando as
coisas. É um sujeito fugaz e evanescente, que certa-
mente vai deitar a sua cabeça no travesseiro à noite
e não vai poder dizer: “Está tudo consumado. Hoje
fiz o que devia fazer”. E, o que é mais dramático, che-
gará no leito de morte, olhará para sua vida e dirá:
“Puta merda, a vida me escapou pelas mãos, porque
fui pautado pela covardia”.

Não se permita viver uma vida dessa maneira. As


ovelhas sempre estão antes dos lobos, as ovelhas
na nossa vida sempre devem ser cuidadas. Não te-
nha medo de matar os lobos, de estrangular os lo-
bos da nossa existência. Não tenha medo! É para
isso que o pastor serve, e você é pastor na vida de
um monte de gente: na vida do seu filho, do seu ma-
rido, da sua esposa, dos seus funcionários, às vezes
do seu chefe também, e de todos os seus amigos.
Um cacoete de nós, brasileiros, é pensar que, só por-
que o sujeito é nosso amigo, podemos falar mal dele
na frente dos outros. Isso é coisa de filho da puta.
Amigo defende amigo, é assim que se faz. Os amigos
são como ovelhas para nós, ao mesmo tempo em que

26
são nossos pastores. Amizade é uma via de mão du-
pla. Se, numa roda de conversa, permitimos que fa-
lem mal de nossos amigos, estamos fazendo carinho
nos lobos. E se nós, numa roda, somos os primeiros
a falar mal de um amigo, o que somos? Somos lobos,
e estamos mordendo o calcanhar de uma ovelha. En-
tão, não faça nada disso, é feio e deforma a persona-
lidade humana.

27
Live Extra1

Se olhamos para um lápis, naturalmente consegui-


mos intuir qual é a sua materialidade: ele é feito de
madeira, tem um grafite ali dentro, tem uma ponta.
Quando olhamos para o lápis, conseguimos rapida-
mente ver qual é a sua matéria, conseguimos saber
do que ele é feito. Ora, muitos dos dramas, tristezas
e ansiedades do homem contemporâneo estão em
olhar para a sua vida e não saber de que diabos ela é
feita.

Se eu perguntar para você agora, meu caro leitor,


meu caro fã: de que diabos é feita a vida humana?
Qual é a matéria da vida humana? Provavelmente
você vai travar, vai ter muita dificuldade em res-
ponder a essa pergunta. “Ítalo, é mesmo, eu nunca
tinha parado para pensar nisso: qual é a matéria da
vida humana? Do que ela é feita? Qual é a substância
da vida humana?” Ora, vida humana é algo com que
nos deparamos todo santo dia. Deparamo-nos todo
santo dia com a vida humana de centenas de pessoas
que estão ao nosso redor. Você então pode esbarrar
com esta dúvida: “É mesmo, eu não sei qual é a subs-
tância da vida humana”.

1
Live publicada em 30/10/2018, disponível no Youtube: https://www.youtube.com/watch?-
v=SByFrZXQj58

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Se eu não sei do que uma coisa é feita, qualquer
que seja sua constituição, provavelmente não vou
saber abordá-la. Assim, terei muita dificuldade em
abordar a vida humana -- seja a minha vida, seja a
vida daquele que está diante de mim, daquele que
eu amo, daquele a quem preciso servir, ou daquele
de quem preciso cuidar. Posso lhes garantir que a
natureza da vida humana é narrativa. Sei que parece
uma coisa um pouco abstrata, e falarei exatamente
sobre isso agora.

A substância da vida humana é narrativa:


é a história que estamos contando,
que estamos vivendo.

Quando olhamos para uma vida humana, “pegamos”


sua substância entendendo sua história. Notem que
não são apenas as emoções, mas tudo o que compõe
a história da vida humana. Dito de outro modo: para
que você tenha uma vida humana, você precisa es-
tar dentro dessa história, independentemente se foi
você quem tomou posse dela, ou se a estão contando
para você; independentemente de ser você quem tem
uma porcentagem grande de controle da sua narra-
tiva, ou se você não tem porcentagem nenhuma de
controle. De qualquer modo você está dentro de uma
vida humana, está vivendo uma vida humana, e essa
vida humana vai ser mais ou menos bem vivida de-
pendendo do grau de liberdade que você tenha.

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Aqui está o grande ponto central: a liberdade é um
elemento constitutivo e fundamental para que
você tenha a sua vida humana, e para que possa
contar a sua história, estar dentro da sua vida, sabo-
rear a natureza e a substância da sua vida humana.
Você precisa ter um grau de liberdade aceitável, que
de fato permita que você conte a história da sua vida,
que você construa a história da sua vida. Ora, sem
um grau de liberdade, você vai ter uma vida humana
frustrada, uma vida humana achatada, uma história
amputada das suas possibilidades. Por isso exercer a
liberdade, ter o domínio da liberdade na mão, é fun-
damental para que possamos ter uma vida humana
e olhar para trás, dizendo o seguinte: “Essa vida hu-
mana de fato valeu a pena ser vivida”; “Essa vida hu-
mana é minha porque eu de algum modo escrevi a
minha história”.

Não se trata de construir a história de modo


egoísta, mas com o controle possível nesse
mundo, que não é um controle total, mas é
o controle das escolhas do dia a dia.

“Ah... Ítalo, mas nem sempre temos liberdade”. É ver-


dade, nem sempre temos liberdade. Vou dizer qual é
o grande vilão, o que mata de fato a liberdade no co-
ração humano: não é um regime opressor, não é você
ser jogado no cárcere, não é apenas isso. Isso tira um

30
tipo de liberdade. Por exemplo, se você foi jogado no
cárcere, está privado de um tipo de liberdade, como a
liberdade de ir e vir. Se você está num regime opres-
sor, está privado de certa liberdade, como a liberdade
de empreender, a liberdade de ter a sua propriedade
privada, liberdade às vezes até de exercer a sua reli-
gião publicamente. Às vezes esse tipo de liberdade é
tirada do ser humano. Às vezes existem momentos
históricos ou alguns países em que as pessoas não
têm esse grau de liberdade.

No entanto, a liberdade constitucional, a


liberdade necessária para que você tenha
uma vida humana, é a liberdade que nasce
através dum ventre chamado VERDADE.

Quando a pessoa está acostumada, disposta e com-


prometida em estar no reino da verdade, ela vai ex-
perimentar uma indecente liberdade, uma surpre-
endente liberdade, algo que chega a constrangê-la.
Quando o sujeito passa a viver no reino da verda-
de, algo acontece em sua biografia: surpreenden-
temente, ele passa a adquirir uma quantidade de
liberdade que até então parecia impossível. Isso se
experimenta desde as pequenas coisas do dia a dia,
como, por exemplo, alguém que está no reino da ver-
dade em um relacionamento e que não tem nada
a esconder – a mulher pode vasculhar o Whatsapp
tranquilamente, pode olhar as conversas no Insta-

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gram, porque ele não tem nada a esconder, ou seja, a
pessoa vive no reino da verdade em seu coração, em
seu relacionamento. Ele terá uma grande liberdade:
a liberdade de poder deixar seu celular em cima da
mesa tranquilamente, sem angústias, sem ansieda-
de, porque a esposa, o marido, o noivo ou a noiva po-
derão olhar o que se está conversando.

Esse exemplo trivial, pequeno, demonstra para


nós algo que pode ser experimentado num domí-
nio muito mais amplo da vida humana, isto é, ter a
liberdade de fazer escolhas verdadeiras, de poder
escolher ser aquele que você nasceu para ser. Para
isso é importante, em primeiro lugar, dominar o
reino da verdade.

Algumas pessoas vão falar o seguinte: “Ah... Ítalo, não


sei se a verdade existe; a verdade é algo construído, é
algo que eu não posso nem tocar”. Calma! Não esta-
mos aqui numa aula de metafísica. Eu poderia falar
de filosofia e metafísica, porque já dei aula de filoso-
fia durante muito tempo, mas a ideia não é essa. Não
se trata de definir a verdade metafísica. Estou fa-
lando de algo muito anterior a isso, algo que é qua-
se trivial, quase bobo, que é você saber quando está
mentindo. Você sempre sabe quando está mentin-
do. Estou falando dessa verdade, e não da verdade
metafísica, das verdades eternas, das verdades uni-
versais; não estou falando da Santíssima Trindade.

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Não precisamos chegar tão longe assim para que vi-
ver no reino da verdade. Estou falando aqui daque-
le domínio próprio do seu coração, que permite a
você saber quando está mentindo, falseando, pois
todo mundo sabe quando está diante da mentira.
Esse não é o domínio afetivo, não é o domínio emo-
tivo; é o domínio biográfico. Você sabe quando está
mentindo, eu sei quando estou mentindo: estou fa-
lando desse falseamento, dessa falsificação da vida,
dos pensamentos e das palavras. Não tente fugir da
responsabilidade diante da verdade apelando para o
Quid est veritas? “O que é verdade?”

Isso é implicância, então não complique a sua vida.


Se você não tem treino filosófico, nem metafísico, se
você não dá atenção às verdades da filosofia, não ve-
nha com esse papo de querer ficar negando a verda-
de. Pare com isso, pois estou falando de uma coisa
muito anterior: estou falando de uma coisa que vai
simplificar sua vida.

Não voe tão alto com asas tão curtas,


porque você vai cair e quebrar os dentes.

Se você não é capaz de manter a atenção em coisas


simples, triviais, não se ponha a fazer perguntas tão
determinantes, tão profundas, porque, para res-
ponder a perguntas muito profundas e universais,
você precisará de muito treino filosófico. Mas, an-

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tes disso, é importante você ter certa calma diante
das coisas da vida, olhar para as verdades da vida
e falar: “Bem, as coisas existem ou não existem?”
“Estou dentro delas ou não estou dentro delas?” É
disso que eu estou falando.

Estou falando de coisas muito triviais, coisas muito


práticas. Por exemplo, quando você entra numa dis-
cussão e quer vencê-la a qualquer custo, você sem-
pre sabe se de fato estudou aquele assunto, se de fato
tem experiência daquele assunto ou não. E você pode
esquecer disso, fingir que não está olhando para isso,
porque só quer vencer o debate. Às vezes ocorre al-
guma discussão sobre uma questão econômica ou
sobre uma questão de ordem social entre você e seu
amigo no bar, ou numa festa com a família, e em al-
gum momento da discussão você nota que a outra
pessoa sabe mais sobre macroeconomia que você;
mas você tem duas ou três sacadas, duas ou três ti-
radas na manga, e fica insistindo naquilo ali, mesmo
sem ter estudado, mesmo sem ter meditado, mesmo
sem sequer ter interesse no assunto. Você só quer ter
razão, mas não estudou aquilo, ou seja, você fugiu
do reino da verdade, você está no reino da mentira e
só quer manter a pose. Aqui é importante um certo
exercício de autoconsciência, um exercício de clare-
za, para que fujamos do reino da mentira.

Quando você entra no reino da mentira porque

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quer ter razão, porque quer manter a pose, porque
quer pagar de esperto, porque quer pagar de en-
graçado, ou porque quer pagar de inteligente, re-
cue, saia desse domínio, saia do reino da mentira.
Se você não parou para analisar uma situação, uma
verdade, um fenômeno, não precisa ter opinião so-
bre esse fenômeno. Fique quieto e ouça quem sabe,
ouça esse outro cara que está na sua frente – outro ig-
norante igual a você –, e encerre o assunto. Nenhum
dos dois domina nada, e estão só querendo dar palpi-
te e opinião. São só palpiteiros. Então, quando entra-
mos no reino do palpite, saímos do reino da verdade,
porque queremos manter a nossa pose, e, como eu
disse, sem a verdade, sem estar instalado no reino
da verdade, você perde a capacidade de ser livre,
porque se aprisiona num reino de fantasia. Nesse
domínio da fantasia não existe liberdade, porque
não há conexão com a realidade.

Notem que verdade, realidade e liberdade é o que


vai nos dar felicidade. Isso é o que nos faz poder
experimentar o sentido mesmo da vida. Quando
você está na verdade, quando se instala na realida-
de, você começa a poder escrever uma história que
vai ter substância, e a sua vida passa a ter substância,
porque você pode exercer sua liberdade. Você passa a
poder escolher o bem, porque está dentro da realida-
de da vida, usando a verdade como guia. Assim, você
passa a ter liberdade, e, quando tem liberdade, pode

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escrever a narrativa da sua vida.

Lembra do que falei no início? Qual é a substância


da vida humana?

A substância da vida humana é a narrativa.


Sem uma história contada em primeira
pessoa, a sua vida perde substância; é como
se ela perdesse a própria natureza, é como
se ela fosse deixando de existir, como se
você não pudesse mais tocar sua vida.

E quando estamos diante dessa realidade chamada


vida humana, e ela não tem substância, nos desespe-
ramos, ficamos amargurados e ansiosos, perdemos
o prumo, nos deprimimos, nos entristecemos e per-
demos a felicidade, que é uma das coisas que mais
queremos na vida.

Portanto, para que a sua vida tenha substância,


você precisa de um narrativa em primeira pessoa.
E, para que possa narrar a sua vida em primeira
pessoa, você precisa de liberdade. Sem a liberda-
de de escolher o bem, sem a liberdade de escolher
aquilo que é a sua própria vida, você se entriste-
ce, porque a sua vida perde substância. E para que
possa ter liberdade, você precisa viver no domínio
da realidade iluminada pela verdade.

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A felicidade não é algo muito difícil de se conquis-
tar, mas esse domínio, essa lógica, precisa ser vivida.
Sem narrativa e sem substância, a sua vida deprime,
perde luz, perde brilho, perde características neces-
sárias e importantes; você não consegue ter uma vida
própria; você olhará para trás, e dirá: “Quem viveu
isso? Não fui eu que vivi isso; estou numa vida que
não tem substância; como dizem, eu passei pela vida
a passeio, passei pela vida sem deixar rastro, passei
por uma vida fora de prumo. Minha vida não signifi-
cou nada, pois estou numa coisa que não tem subs-
tância; olho para a minha vida, e ela não tem forma;
minha vida não tem a densidade de um queijo bola”.
Não tem nada mais denso que um queijo bola: e as-
sim deve ser a vida humana.

Densidade não é tristeza, não é seriedade; é subs-


tância. A sua vida pode ter substância de felicidade,
por exemplo, pode ter substância de alegria, pode
ter substância de serviço, ou substância de sacrifício.
Não sei qual é a narrativa que você precisa viver para
você ser você, eu não sei. O que eu sei é: sem liber-
dade, a sua vida humana perde substância; e você só
alcança a liberdade se viver no reino da verdade, ins-
talando-se na realidade.

Portanto, não vamos trair a nossa consciência, nos-


so coração, nosso espírito. Sempre que entrarmos
numa discussão, numa situação, em que apostamos

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na mentira, na falsidade, na implicância, na teimo-
sia, estamos perdendo substância; a nossa vida está
perdendo substância, e o caminho natural é o en-
tristecimento. Então, não sejamos trouxas, não se-
jamos tontos; vamos apostar na verdade que nos
instala na realidade, e que nos leva à liberdade que
vai transformar nossa vida numa verdadeira felici-
dade.

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@italomarsili
italomarsili.com.br

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