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A COESÃO E A COERÊNCIA TEXTUAIS


I. A COESÃO TEXTUAL
(Coesão: união, ligação, harmonia ; texto: do latim textu “tecido, entrelaçamento)
Um texto é constituído por um conjunto organizado de ideias, expressas através de palavras, orações, frases e
parágrafos harmoniosamente ligados. São muitos os processos que asseguram uma ligação linguística significativa e
podem ser agrupados da seguinte maneira:

A – Coesão gramatical B – Coesão lexical


__________________________
1.Repetição
1.Coesão 2.Coesão 3.Coesão 4. Coesão referencial/ 2.Substituição lexical
frásica interfrásica temporo- cadeias de referência a. relações de semelhança e de
aspetual .anáfora oposição (sinonímia/ antonímia)
.catáfora b.Relações de hierarquia
.elipse (hiperonímia / hiponímia)
.correferência não c. Relações de parte-todo
anafórica (holonímia/ meronímia)
.deíticos

A – Coesão gramatical

1. Coesão frásica – Mecanismo que liga os diversos constituintes de uma oração ou de uma frase simples, de
modo a torná-los unos. Corresponde à ligação de todos os elementos da frase – exige a concordância de género e
número, uma correcta ordenação das palavras, o uso correcto das preposições que regem o verbo.
Às frases assinaladas com asterisco falta coesão:
→Os alunos recitaram um poema, antes de começarem a primeira aula.
*Os alunos antes a primeira começaram aula recitaram um poema.
→ Os meus irmãos e eu fomos ao cinema.
* Os meus irmãos e eu fui ao cinema.
* Os meus irmãos e eu fomos do cinema.

2. Coesão interfrásica – Mecanismo que liga as orações, frases e parágrafos, garantindo a sua unidade semântica
e traduzindo as diversas dependências entre si, por meio dos seguintes processos:
– Coordenação (assindética e sindética) / Subordinação
– Conectores e organizadores do discurso: a conexão de que resultam unidades textuais superiores ao período
pode ser assinalada por conectores adverbiais e preposicionais especializados e, até, por orações não finitas
(infinitivas, gerundivas, participiais).
– Pontuação

Tipo de conexão Conectores adverbiais e preposicionais


Depois, finalmente, seguidamente, em seguida, em
primeiro lugar, em segundo lugar, por último, por um lado,
Enumerativa
por outro lado, por fim, continuando, para começar, para
Listagem
terminar, a seguir
Também, igualmente, ainda, além disso, do mesmo modo,
Aditiva
pela mesma razão, …
Assim, em suma, chegados a este ponto, em conclusão, em
Síntese /Resumo síntese, concluindo, recapitulando, resumindo,
sintetizando, …
Em particular, nomeadamente, especificamente, isto é, ou
Exemplificação / Explicitação-
seja, quer dizer, por exemplo, … Mais precisamente, mais
particularização
concretamente, ou melhor, por outras palavras, …
Antes, durante, depois, então, primeiro, segundo,
Sequência temporal (ideias ordenadas finalmente, logo, em seguida, entretanto, de manhã, de
segundo uma ordem temporal) tarde, à noite, antigamente, hoje em dia, actualmente, de
vez em quando, …
Sequência espacial ( ideias ordenadas Por baixo, por cima, à direita, à esquerda, ao fundo, ao
segundo uma ordem espacial) lado, no primeiro plano, no segundo plano, no centro, …
Contrariamente, já, ora, agora, se, em vez de, pelo
Contraste Antitético contrário, por oposição, em contrapartida, mas, porém , no
entanto, contudo…
Concessivo Ainda assim, mesmo assim, apesar disso, …
Insistência em
Com efeito, efectivamente, na verdade, de facto…
ideias já expostas
Expressão de uma
Na minha opinião, a meu ver, em meu entender…
opinião
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3.Coesão temporo-aspetual – É assegurada pelo uso correto das formas verbais no que toca ao tempo e ao aspeto.
Como se consegue? Através de:
→O uso correlativo dos modos e tempos verbais:
Vamos à praia mesmo que esteja bom tempo. // * Vamos à praia mesmo que estivesse bom tempo.
Quando cheguei a casa, a minha mãe já tinha telefonado. // *Quando chegar a casa, a minha mãe já tinha
telefonado.
→ O recurso a advérbios/ locuções adverbiais de localização temporal, locuções preposicionais e tempos
verbais.
Antigamente as pessoas conviviam mais.
Em tempos mais recuados, as pessoas contavam e ouviam muitas histórias ao serão
Primeiro telefonei à minha mãe, depois fui passear pela cidade..
De manhã, fomos visitar a cidade. À tarde demos um passeio pela praia.
Em 1876, formou-se o Partido Republicano. Em 5 de Outubro de 1910, deu-se a implantação da República.

4. Coesão referencial – Mecanismo que assenta em cadeias de referência constituídas por um elemento
linguístico –o referente– que é retomado por outros – os correferentes. Podem integrar as cadeias de referência as
anáforas, as catáforas e os termos correferentes não anafóricos.

4.1 Anáfora – processo pelo qual certos termos retomam o antecedente já mencionado, mantendo-o activo durante a
progressão textual. A sequência é a seguinte: nome/expressão nominal + pronome/determinante.
Ao sair do cinema, encontrei o João e ele disse-me que o seu amigo de curso o tinha convidado para uma
grande festa. (João é o termo referente; ele, o, seu são termos co-referentes. Em conjunto constituem uma cadeia
anafórica ou referencial)

A Isabel já melhorou. Encontrei-a na cidade.( anáfora pronominal)


Todos os pais gostam dos seus filhos.( anáfora pronominal)
Mulheres, crianças, velhos e novos, todos são atingidos pela guerra.( anáfora pronominal)
As pessoas que não pagam os impostos fazem isso deliberadamente.(anáfora pronominal)
Mau grado a “indignidade” a que a Física nos sujeita, ela fascinou-me de imediato.( anáfora pronominal)
As opiniões sobre o estado em que a nossa língua se encontra dividem-se: Há os optimistas e os pessimistas. Os
primeiros acham que…; os segundos entendem que …( anáfora nominal)
Encontrei as minhas amigas no parque. Aí ficámos a conversar toda a tarde. ( anáfora adverbial)
4.2 Catáfora – Processo semelhante ao da anáfora mas em que os termos co-referentes surgem antes do elemento
linguístico que indica o referente do discurso.
Depois do seu primeiro exame, o João tranquilizou-se.// Reconheceu-os o meu coração, os velhos olivais.
Em volta dela tudo era luz e deslumbramento. Por isso a rapariga loira abandonou o passo e deixou-se perder
na imensa praça iluminada palpitante de vida.

4.3 A elipse – Processo em que o termo anafórico ou catafórico não surge lexicalizado ( expresso) mas em que se
subentende a sua presença.
No jogo de desvendar o mistério do universo, os cientistas nunca podem dizer “caso encerrado”. Quer [os cientistas
] gostem, quer não[ gostem ], nunca [ os cientistas]têm entre mãos um mistério. (…)
“Apenas Baltasar, cosido com o muro, desaparecera, um vulto assomou do outro lado a passo rápido. [] Não parou:
[] foi direito a todos os pontos onde uma sombra podia figurar um homem” Amor de Perdição.

4.5 Os deíticos – A deixis designa o conjunto de palavras ou expressões que têm como função apontar para o
contexto situacional permitem situar o enunciado em relação a um tempo , a um espaço e aos sujeitos da
enunciação. O significado das palavras e expressões deícticas fica pois dependente da situação de comunicação em
que ocorrem. Mostra-se um objecto sem nomeá-lo, no discurso anterior (ao contrário do que acontece com a
referência anafórica).
► Espécies de deíticos:
→Pessoais – expressam as marcas da presença do eu que fala (o locutor – eu /nós) e do outro a quem se dirige ( o
interlocutor – tu, vós, vocês). Exemplo: Eu amanhã encontro-te aqui. Falaremos então com mais calma.
→Espaciais – referem localizações reconhecíveis no interior do contexto: advérbios adjuntos; locuções adverbiais e
pronomes demonstrativos aqui, ali, acolá, naquele lugar. Exemplo: Eu amanhã encontro-te aqui. Falaremos então com
mais calma.
→Temporais – que apontam o tempo identificável em função do momento do acto de enunciação – advérbios
adjuntos e locuções adverbiais de tempo; tempos verbais. Exemplo: Eu amanhã encontro-te aqui. Falaremos então
com mais calma.

B – Coesão lexical
Mecanismo que se baseia na iteração/repetição da mesma palavra ao longo do texto, ou na sua substituição por
outras que com elas se relacionam em termos de hierarquia, equivalência ou oposição semântica, de modo a constituir
uma rede semântica adequada ao tema desenvolvido. Os processos que a concretizam são os seguintes:
1. A reiteração (repetição): “A criança é a força do futuro. A criança é a expectativa da renovação e é na
criança que assenta a esperança de um mundo melhor.” / ”Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o
lume. Elas cortam o pão e aquecem o café.”

2. A substituição
2.1 Por sinonímia ou expressões de significado equivalente– Adoro as palavras que certos odores me despertam.
Os cheiros do mar e da areia trazem-me à memória as férias em família.

André é muito simpático. O meu colega de trabalho nunca me desilude.


A Joana ganhou um prémio literário. A minha amiga merecia este prémio.
( Nota: Nas duas últimas frases, a relação entre as duas unidades linguísticas é estabelecida com base no
saber compartilhado dos interlocutores.

2.2 Por antonímia : Há quem viva carregado de dúvidas, que tanto podem tolher como espicaçar a
curiosidade; outros só têm certezas que umas vezes trazem a euforia, outras a depressão e o desânimo.
2.3.Por hiperonímia/hiponímia (relação classe-elemento):
Hiperónimo - termo abrangente que designa uma classe ( Frutos).
Hipónimo - termo de significado mais restrito que designa elementos dessa classe.
(Havia tangerinas, diospiros, pêssegos e avelãs (hipónimos). Todos estes frutos (hiperónimo) despertaram em
mim memórias alegres da minha infância longínqua.)
Tenho Matemática, Física e Biologia. Todas estas disciplinas me fascinam.
Encontrámos todo o tipo de habitações: vivendas, apartamentos, cabanas cobertas de colmo, palácios do sec.
XVIII.
2.4. Por holonímia/meronímia (relação todo-parte):
Holónimo: termo que designa o todo ( casa ; corpo humano).
Merónimo: termo que designa a parte ou partes desse todo ( quartos, sala, cozinha… ; cabeça, tronco e
membros )
II. A COERÊNCIA TEXTUAL

A coerência textual depende da sua conformidade com o nosso conhecimento do mundo e da sua adequação ao contexto
comunicativo. Para que um texto seja coerente, deve apresentar situações de acordo com a nossa apreensão cognitiva do mundo
e de acordo com alguns princípios lógicos.
Condições para uma estrutura temática coerente:
1. Relevância
Para que a estrutura temática seja coerente, é necessário que os elementos cognitivos fornecidos pelo comentário sejam
relevantes acerca do tópico. Assim, a frase “Gostei muito deste livro porque amanhã vou sair.” é incoerente, uma vez que não há
uma relação de causa – consequência entre os elementos descritos.
2. Progressão temática
Faz-se através de um processo de mudança de tópico que consiste em seleccionar como tópico da frase seguinte um
elemento do comentário da frase anterior:
“Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
Os meus pensamentos são todos sensações”Alberto Caeiro
Os mamíferos vivem em geral no meio terrestre. No entanto, alguns mamíferos vivem no meio aquático. Os mamíferos
aquáticos têm os membros anteriores preparados para a natação.
3. Não contradição entre os elementos semânticos a introduzir e os já utilizados no texto. Um texto coerente não deve
representar situações incompatíveis ou contraditórias. Por exemplo: Estar vivo é estar morto.
4. Não tautologia, ou seja, não redundância da estrutura informacional. Um texto deve conter informação nova. Assim, a
frase “ Estar vivo é o contrário de estar morto” é tautológica, sendo informativamente nula.

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