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UFMG- LETRAS-ESTUDOS TEMÁTICOS DE LITERATURA DE LÍNGUA PORTUGUESA: O Conto

Moderno.Turma M1 Prof: Sérgio Bellei. Aluno: Tales Moreira de Carvalho.

Análise do conto “O gato preto”, de Edgar Allan Poe.


Publicado pela primeira vez no United States Saturday Post
(Sarturday Evening Post), 19 de agosto de 1843. Título original: The Black
Cat.

Enredo: Um homem aparentemente feliz; casado; possuidor de


vários animais domésticos; etc; após certo tempo começa a sentir-se irritado,
fica agressivo; demonstra aversão aos seus animais e atribui isso a seu
crescente alcoolismo, que transforma seu caráter gradativamente. Em um
ataque de fúria, arranca um olho de seu animal predileto, o gato preto
chamado Plutão. A ferida que ficou nos olhos do gato aos poucos melhorou;
entretanto o narrador-personagem continuava bebendo e a aversão de Plutão
ao Protagonista o irritou tão profundamente que ele o enforcou. No dia
seguinte sua casa é consumida pelas chamas, inexplicavelmente, restando
somente uma parede. Transcorrido um tempo, o homem pega outro gato
semelhante ao anterior, exceto por “uma grande, embora imprecisa, mancha
branca cobrindo quase toda região do peito”. Chegando a casa, esse se
familiariza rapidamente com tudo, inclusive com a esposa do narrador, que
doravante antipatiza-o, não obstante o temor que o impede de agredi-lo, pois
teme ser esse a reencarnação de Plutão, apesar de seu discurso racionalista.
Ainda mais porque descobre que a mancha de pelos brancos aos poucos
adquire o desenho de uma forca; e o animal cerca o personagem aonde quer
que ele vá, de dia e de noite, apavorando-o ainda mais até que ele decide
matá-lo com um machado; sua mulher o impede. Então ela sofre o golpe em
sua cabeça caindo morta. O gato some; ele a empareda a fim de ocultar o
corpo. A polícia faz buscas; quando revistam o sótão houve-se um urro
quando o narrador bate sua bengala na parede. Essa ruge, os policiais
acabam de retirar-lhes as pedras; deixando à mostra o corpo da mulher e o
gato preto.
Foco narrativo: Primeira pessoa; ou seja, não é um narrador no qual
se possa confiar plenamente. Corrobora esse fato a sentença de abertura do
conto: “Para a muita estranha embora familiar narrativa que estou a
escrever, não espero nem solicito crédito”.
Protagonista: Para uma análise do perfil psicológico do protagonista,
o primeiro ponto a ser destacado é que ele está redigindo um “testemunho”
que “para muitos, parecerão menos terríveis do que grotescos”. Um segundo
elemento que já se enuncia logo no início do conto e perpassa ao longo de
toda trama se refere à questão da sanidade do narrador: “Louco, em verdade,
seria eu para esperá-lo (se referindo ao crédito), num caso em que meus
próprios sentidos rejeitam seu próprio testemunho”. Desse modo ele mesmo
cogita a possibilidade da loucura. Outro fato relevante é o de ele não possuir
nome. Na verdade nenhum dos personagens do conto possui nome, exceto o
primeiro gato. O narrador, ainda, é extremamente contraditório, fato que
poderíamos relacionar ao alcoolismo, ou à loucura. Escreve que seu
“imediato propósito é apresentar ao mundo, plena, sucintamente e sem
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comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos”. Simples


acontecimentos domésticos? Sem comentários? Ainda, ele escreve que não
é um ser supersticioso, entretanto, demonstra exatamente o contrário:
“Espírito de perversidade”; “Não tenho a fraqueza de buscar uma relação de
causa e efeito entre o desastre e a atrocidade (...)”. (Referindo-se ao incêndio
após do assassínio do gato.)
Espaço: É possível inferir que o narrador está em uma prisão,
quando escreve “amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma”. A partir
desse local, resgatam-se, pela memória, os cenários da narrativa. São
poucos: a casa; um jardim junto a casa; “antro”; outra casa.
Tempo: Rememora cronologicamente. Da prisão onde se encontra,
passa pela sua infância até a aquisição de Plutão em poucas linhas. Desse
momento em diante começa a urdidura da trama; com isso, detalhes, porém,
apenas os necessários. Após a morte de Plutão e a aquisição do “outro” gato
preto, passam-se meses, única marca temporal: “Durante meses eu não pude
me libertar do fantasma do gato (...)”.
Personagens: Também são poucos: Narrador-protagonista; sua
esposa; o gato preto, Plutão; outro gato preto, com uma mancha branca;
criados; policiais; curiosos; etc.
Simbologia: O gato preto é frequentemente associado à figura das
bruxas, e o próprio Poe esclarece isso no conto, como que aguçando a
imaginação do leitor: “minha mulher que no íntimo não tinha nem um
pouco de superstição, fazia freqüente alusão à antiga crença popular que
olhava todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas”.
Teoria da perversidade: O narrador de “O gato preto” discorre
longamente sobre a perversidade, chegando ao ponto de declarar que existe
um espírito guiando-a: “Restava-me ainda bastante de meu antigo coração
(...). E então, apareceu, como para minha queda final e irrevogável, o
espírito de perversidade. Desse espírito não cuida a filosofia. Entretanto,
tenho menos certeza da existência de minha alma do que de ser essa
perversidade um dos impulsos primitivos do coração humano, (...) O
espírito de perversidade, repito, veio a causar minha derrocada final”. Desse
modo ele transfere a culpa para um “espírito”. Essa passagem pode ser vista
como irônica; como uma comprovação do caráter fantástico da narrativa; ou
como um testemunho de sua loucura.
Assunto/Tema: O assunto como podemos ver o próprio Poe
analisando, abarca um campo muito mais amplo, perpassando todo o conto;
inclusive ele faz seu narrador elaborar uma teoria sobre o assunto de “O
gato preto”: a perversidade. Por outro lado, apesar de estar contido na
estória, no enredo; no caso específico de “O gato preto”, o tema é mais
discutível. Pode ser o fantástico/sobrenatural, pois aparentemente diversas
ações “sobrenaturais” acontecem; o choque entre o discurso lógico e a
superstição; a vingança, no caso de aceitarmos o fantástico, pois Plutão
poderia ter voltado para se vingar, como é sugerido.
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