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O perigo da desinformação e da falta de consciência política

em um país democrático
Discente: Mateus Roberto Joaquim

Constantemente nos deparamos com discursos que visam promover a


democracia, principalmente nos períodos de eleição e as respectivas
propagandas políticas que seguem esse processo. A partir dessa constatação,
tentarei refletir sobre como o inverso desse discurso se concretiza quando o
setor da educação, tão importante no processo de consciência política e cidadã,
focaliza suas intenções na área técnica, deixando a desejar na formação de
cidadãos conscientes e críticos que, na teoria, seriam os responsáveis por gerir
um governo democrático.

É comum nos depararmos com estudantes aflitos diante da difícil tarefa


de escolher uma área de trabalho, em um sistema educacional que impõe
matérias específicas de estudo para que assim, tais estudantes, consigam
colocar em prática programas de governo que visam somente a melhora
econômica formando trabalhadores preparados para a disputa no mercado de
trabalho.

Bem, é óbvio que promover a capacitação dos indivíduos para o mercado


de trabalho competitivo, principalmente em um mundo interligado e capitalista, é
importante. Mas em nome desse projeto, abrimos mão de um sistema educativo
que, além de decorar fórmulas e datas, não ensina o senso crítico, não promove
a aceitação da diversidade e nem capacita os estudantes para que mantenham
uma vida política ativa.

Se vivemos em um meio político de coligações, onde cada vez mais os


partidos fazem pactos para permanecer no poder, como nós, enquanto cidadãos,
podemos agir? Creio que diante desse contexto, a iniciativa de mudança deva
partir da própria sociedade. Os cidadãos devem ter a capacidade de distinguir
notícias falsas de notícias verdadeiras, para que não fiquem à mercê das
divulgações falsas, para que desenvolvam o hábito de pesquisar as fontes e
concretizar suas ideias com segurança diante do marketing influenciador de má-
fé.
Outro ponto é a retomada da função social que todos temos enquanto
cidadãos. Em um mundo individualista, desconsiderar a função social de cada
um é algo perigoso. Uma vez que, se nos fecharmos em nossos direitos, e não
compreendermos o motivo pelo qual também temos deveres, enquanto inseridos
em um Estado democrático, estamos abrindo mão da única ferramenta que
temos para garantir que os políticos realmente governem para o seu povo. Nesse
sentido, o estudo histórico sobre como e por que vivemos em uma democracia,
diante das diversas barbaridades - promovidas pela desinformação -, que
vivenciamos até chegar na idealização do sistema político atual, pode auxiliar na
compreensão de, por exemplo, como é perigoso propor uma retomada das
forças armadas, ao invés de buscar o reconhecimento de mudança diante do
próprio processo democrático.

Sobre essas poucas informações, cito Carl Sagan (1934-1996) que, em seu livro
“O mundo assombrado pelos demônios”, faz um apelo ao senso crítico político,
defendendo a democracia e a liberdade de expressão consciente:

“Conhecer o valor da liberdade de expressão e de outras liberdades


garantidas pelas Declaração de Direitos, saber o que acontece quando
não temos esses direitos e aprender a exercê-los e protege-los deveria
ser um pré-requisito essencial para ser cidadão norte-americano – ou,
na verdade, cidadão de qualquer nação, ainda mais se esses direitos
continuam desprotegidos. Se não podemos pensar por nós mesmos, se
não estamos dispostos a questionar a autoridade, somos apenas massa
de manobra nas mãos daqueles que detêm o poder. Mas, se os cidadãos
são educados e formam as suas próprias opiniões, aqueles que detêm
o poder trabalham para nós. Em todos país, deveríamos ensinar às
nossas crianças o método científico e as razões para uma Declaração
de Direitos. ” (Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios. 1°
edição, São Paulo: Companhia das Letras. P. 485)

Enfim, um sistema político que defende uma reforma educacional que


diminui a importância de matérias como filosofia e sociologia, ao meu ver,
contribuem para que cada vez mais, as pessoas não compreendam a
importância de serem cidadãos ativos, pois, na prática, essas matérias tendem
a discutir mais esses assuntos do que as outras matérias obrigatórias. Mas não
podemos perder a esperança, pelo contrário, devemos combater a
desinformação e promover discussões, mesmo que por meios das redes sociais,
visando repassar a importância dos ideais democráticos, principalmente em um
país democrático cuja estrutura política está “prevaricada”.

Referência:

Sagan, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma
vela no escuro / Carl Sagan; tradução Rosaura Eichemberg – 1°ed. – São Paulo:
Companhia das Letras, 2006.