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Dom Eugênio Vandeur

AVE MARIA
NIHIL OBSTAT

Guarda, 2 de Dezembro de 1954

Cónego Messias G. Marques

Censor Delegado

IMPRIMATUR

Guarda, 2 de Dezembro· de 19S4-

t DOMINGOS,

Bispo da Guarda

Composto e impresso
CASA NUN'ÁLVARES
GOUVEIA
1 9 5 4

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A direcção das ccEdições Lux» ao
inicar a publicação das obras de
Dom Eugénio Va!!c:!�1l .r, cumpre um
dever de gratidão e presta uma sin­
gela homenagem.
Dever de gratidão JXIra com Dom
Eugénio V andeur que tem sido guia
seguro e mestre competentíssimo de
tantas almas no mundo inteiro, pois
os seus escritos encontram-se hoje tra­
duzidos e divulgados quósi por toda
a parte.
Singela homenagem ao grande
monge beneditino que apesar dos
!'leus 70 anos, ainda trabalha afano­
samente, ora escrevendo, ora pregan­
do, sempre que os seus deveres con­
ventuais lho permitem.
A este trabalho vão seguir-se os
outros do mesmo autor em breve es­
paço, correspondendo assim ao desejo
de tantas almas piedosas.

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tP A X

/110 volume «ABANDONO NAS MÃOS DE


_/ V DEUS, Caminho da Paz», obra, pela bênção
divina, muito espalhada, tentámos um comen­
tário do PAI NOSSO. Ali demonstrámos que, ne­
nhuma oração, podia, como a ORAÇÃO DOMINI­
CAL exprimir o nosso total abandono nas mãos de
Deus, em ordem a saborearmos a verdadeira paz das
criancinhas.
A AVÊ MARIA, é a oração de um Arcanjo, de
S. Gabriel, o Anjo de Maria. Ê como um comple­
mento do Pai Nosso, se porventura poderrw8 dizer
que falta alguma coisa, ao que Tertuliano poude cha­
mar o «Resumo do Evangelho», por conter tudo quan­
to o coração humano pode desejar e exigir. Entre­
tanto, a Igreja nunca separa a AVÊ MARIA do PAI
NOSSO, mesmo na Liturgia sagrada das Horas Canó­
nicas, tão extraordinária é a consideração que lhe me­
rece. A Igreja viu sempre na saudação angélica uma
«Síntese de Teologia Mariana», tão bel a e tão pro-

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funda, que obriga todo o fiel que a medita e pronun­
cia, a votar-se a um abandono absoluto e s·incero,
nas mãos d'Aquela que, sendo Mãe de Deus, é neces­
sáriamente também a Mãe dos homens. A Avé Maria
bem estudada, bem compreendida, introduz infali­
velmente a alma cristã num caminho de Confiança,
de molde a reforçar o Caminho da Paz.

Este livro não é u.m <<Tratado de Teologia Ma­


riana»; não obstante, inspira-se exclusivamente nos
dados da Escritura, nos trabalhos dos Padres Douto­
res da Igreja; aproveita, sob o ponto de vista da
Devoção a Nossa Senhora, o que uns e outro s ensi­
nam, e os teólogos concluem da doutrina de todos.

No intuito de ao leitor dar ensejo, de à sua von­


tade entrar em contacto imediato e mais directo
com a Virgem Senhora, não depomos a nossa pecu­
liar maneira de escrever em semelhante matéria.
Comentando cada uma das palavras da Avé-Maria,
do seu sentido, salientamos os pensamentos que ali­
mentam o espírito e os sentimentos que dilatam o
coração. Cada um aproveita o que quere, na medida
da sua precisão e capacidade. Vai-se avançando len­
tamente, em ordem a assimilar o «Segredo de Ma­
ria», onde se contempla o de Jesus. A meditação da
Saudação angélica aperfeiçoa singularmente o e1tlto,
sempre mais e melhor compreendido, do SS. Rosário
Essa meditação deve provocar no coração que a sabo­
reia, um amor cada vez mais admirável, mais con-

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quem nasceu Jesus que se chama o Cristo (1).
Estas páginas não têm qualquer pretensão; no <
imenso concerto de louvores que autores antigos e
modernos, célebres alguns, consagram a Maria, de­
vem parecer, quem sabe, uma insignificância. Jlt!as
enfim, Aquela que dirige esta sinfonia celeste e vir­
ginal nunca desprezou a chegada de um retarda­
tário qualquer, que humildemente vem prestar a sua
colaboração. A frauta rústica do pastori'nho também
tem os seus encantos, e a Esposa do Espírito Santo
tem inpiração bastante para enriquecer esta melodia
pobre, com arranjos sábios e ricos de acordes mais
solenes. E a melodia assim enriquecida passa a ser
o arroubamento dos artistas.

De antemão, peço à Virgem que Gabriel saudou,


me perdõe qualquer nota desafinada, que porventura
tenha escapado do meu instrumento de principiante.

O AUTOR

(1) Mt., I, 16.

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PR EFÁC I O

Um dos maiores Servos de Maria, São Grignon


de Montfort, escreveu: (1)

«Almas predestinadasJ escravas de Jesus em


MariaJ tende sempre presente que a AV.Ê MARIA é
depois do PAI NOSSOJ a mais bela de todas as ora­
çõesJ· é a maneira mais delicada de apresentardes os
11ossos cumprimentos a MariaJ dado que foram os
cumprimentos que O Alt íSsimo enviou por um arcan­
jo para Lhe conquistar o coração; tal influência exer­
ceu no coração da Virgem o celeste saudarJ pelos
encantos secretos que o revestemJ que Maria con­
.'lentiu na Incarnação do VerboJ apesar da sua pro­
funda humüdade. De igual sorte lhe ganhareis o
c:oração se souberdes cumprimentar como é dado.
«A AV.Ê MARIA bem rezadaJ isto é com aten­
rcioJ devoção e modéstiaJ éJ segundo os santosJ o ini-
I

(') No seu ad'mirâvel «Tratad o da Verdadeira Devoção


1\ BanUssima Virgem», um dos mais belos livros qu e sobre
I
Mnrla se escreveram: cap. vm, § 5.


!
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��:::: g��j fu
esmagaJ a santificação da almaJ a alegria dos Anjoo J
a melodia do s predestinadooJ o Cântico do Novo Tes­
tamentoJ o prazer de Maria e a glória da Santíssi­
ma Trindade.

«A AVÉ MARIA é um orvalho celeste que ferti­


liza a alma; é um beijo casto e amoroso que se dá a
Maria; é uma rosa maravilhosa que se lhe apresentaJ·
é uma pérola preciosa que se lhe ofereceJ. é uma taça
de ambrooia e de néctar que se lhe dá. Estas as com­
parações dos Santos».

Acrescentemos que esta saudação pareceu a


Maria tão grandiosa e extraordinária, que segundo
S. Lucas a Virgem se perturbou e, pensativa, cogita­
batJ meditava-a e avaliava o seu valor, qualis esset
ista salutatio {I) .

Que ela, a Bem-aventurada mãe de Deua e sem­


pre Virgem, nos ajude a bem aprofundar os misté­
rios da Avé-Maria: e então, e então sõmente, arreba­
tados por tanta beleza, gostaremos de recitá-la como
convém.

Uma Avé Maria assim valerá por cem ou mil,


ditas a correr distraidamente.

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1
Enfim, alma cristã, lembra-te de que, sempre
que dêste jeito saudares Maria, será s retribuido cor-
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I

(')

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Lc., I, 29.

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I
I �Hmente e com elegância divina. Se mil vezes a sau- .
clnrcs com devoção, mil vezes te retribuirá também.
C lm é neste retribuir que se realiza a efusão de gra­
•;ILH de que no dizer de Gabriel a Senhora «é cheia».
Tornai a dizer-lhe antes de percorrer estas
ldLginas:

Avé Maria, cheia de graça, O Senhor é convOS'CO;


bendita sois vós entre as mUlheres, e bendito
é o fruto do vosso ventre, Jesus.

San,ta Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, peca­


dores, agora e na hora da nossa mcYrle. Amen.

1I
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D EDIC A TÓRI A
À SAN TÍ SSI MA VIRG EM MA RI A
MÃ E D E D EU S

,
E
diante de Vós, 6 Augustíssima Rainha do céu e
da terra, que primeiro me venho prostrar,
para vos prestar as mais respeitosas homena-
gens do meu espírito e do meu coração. É a vossos
pés, que venho depor estas palavras antes de as
expor aos olhos dos vossos servos. Peço-vos humil­
demente que as recebais como vossas, e de igual sorte
recomendo a quantos as lerem que as considerem
como pertença vossa.

õ Virgem Santa, vós tendes inegável direito a


todas as palavras que no tempo são pronunciadas ou
escritas pelos homens, pois lhes destes a Palavra eter­
na do Pai, e só por vosso intermédio Ele nos falou
sensivelmente pelo seu Verbo.

Tendes o mesmo direito aos pensamentos do


homem, pois foi mediante Vós que recebeu o Pensa-
13 �

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mento ou a Concepção eterna do Espírito de Deus a
quem chamamos o seu Filho único, no qual estão
encerrados todos os tesouros da divina Sabedoria.
Mas não é só sobre as palavras e os pensamen­
tos. Tendes um direito legítimo e muito particular
sobre todos os livros que se escrevem e imprimem na
vastidão imensa do mundo cristão; são todos vossos
e deveriam ser-vos dedicados, pois sois o Livro da
Geração de Jesus Cristo, O Filho de Deus; na expres­
são de S. Mateus: Liber Generationis Jesu Ohristi.
Portanto se todos os livros vos pertencem, que
direito não tendes sobre o presente? Uma simples
vista de olhos sobre o título e o frontespício, diz a
todos que é vosso, e leva quemquer a exclamar que
por tal motivo é justo que vos pague tributo.
Dignai-vos por isso, ó amabilíssima Mãe do meu
Salvador, receber esta pequena homenagem que vos
apresento, e cujo mérito exclusivo é falar de Vós.
Só a minha confiança, tantas vezes apoiada nas pro­
vas da vossa protecção, me levou a empreendê-lo.
Que felicidade para mim se consegue agradar-vos!
Sei que mais não merece que desprezo e esqueci­
mento, pois é bem corrupta a fonte donde mana. E
não receio, Virgem Santa, fazer aqui a confissão
sincera da minha temeridade, ao lembrar-me de que
tantos santos tremiam de medo só de pensarem em
Vós, e se julgaram indignos de escrever ou de falar
s vossas inefáveis prerrogativas.
Confundo-me na vossa presença ó augusta Mãe
Deus e pergunto-me a mim mesmo: Quem és tu
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que ousas meter ombros a uma empresa a que perso­
nagens tão ilustres e grandes santos não se aiTis­
c�aram, por superior, segundo eles, às suas forÇas?.
Entretanto, encorajado pelas palavras e senti­
mentos de S. Bernardo, quero, Virgem Santa, sem
reparar na minha indignidade e incompetência, pen­
Har em Vós; falar de Vós, escrever de Vós, e jàmais
deixar de honrar-V"os; quero fazer todos os esforços
para levar toda a gente a dedicar-se-Vos de todo o
coração, e a declarar bem alto que vos venera e vos
serve.

Dai missão e comissão a este pequeno livro para


Ir a toda a parte exaltar-Vos e conquistar para Vós
todos os corações. Para tal deixo-o aos vossos pés,
pedindo-Vos a bênção com estas palavras derradei­
ras:

D ignare me laudare teJ Virgo Sacrata


Da mihi virtutem contra hastes tuos. (1)

(') Colhemos esta Dedicatória, que traduz tão perfei­


lamente os nossos sentimentos num autor do século XVIII,
o R. P. Louis-François d'Argenton, Capuchinho, nas Confe­

rl\nclas teológicas e espirituais sobre as grandezas da Santis­


l!lma Virgem Maria, Mãe de Deus, obra a mais de um titulo
notável.

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I

AVÉ MA RIA
CHE IA DE GRAÇA,
O SENH OR É CONVO SCO;
B EN DITA SOIS Vó S EN TRE
AS MULHE RES, E B END IT O É O F RUTO
DO V OSSO V EN TRE, JE SUS.
SAN TA MA RIA,
MÃE DE DEUS, ROGAI PO R Nó S,
PECADORES,
AGO RA E N A HO RA
DA N OSSA MORTE.
AMEN.

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A Saudação Angélica compreende duas partes:
a Saudação prõpriamente dita e a oração acrescen­
tada pela Igreja.

A Saudação, primeiramente, é composta pelas


palavras do Anjo Gabriel: AVE, CHEIA DE GRA­
ÇA, O SENHOR É CONVOSCO; BENDITA SOIS
VóS ENTRE AS MULHERES; depois pelas pala­
vras de Isabel, mãe de São João Baptista: E BEN­
DITO É O FRUTO DO VOSSO VENTRE, A Igreja
acrescentoo 08 dois nomes: de JESUS e de MARIA.

A oração que em duas palavras: SANTA MA­


RIA, MÃE DE DEUS, resume a saudação do Anjo
e que tanta confiança inspira, mais não é que um
apelo à Mãe de Misericórdia,· a Igreja compô-la:
ROGAI POR NóS, PECADORES, AGORA E NA
HORA DA NOSSA MORTE. AMEN.

Mas antes de começar esta exposição, importa


situar o AVÉ MARIA no seu verdadeiro quadro, o
da ANUNCIAÇÃO, mensagem que existe em função
desta SAUDAÇÃO e seu verdadeiro COMENTÁRIO.

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A ANUNCIAÇÃO
Quadro e comentário do

AVE




l������ 19�i

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O ANJ O DO AVE

ô Gabriel, Arcanjo santo, será para vós eterna


honra, terdes sido o primeiro neste mundo a pronun­
ciar, o AVE de Maria, o AVE da Mãe de Deus, o AVE
da Virgem das Virgens.

Vós sois o Anjo da Incarnação do Verbo, Anjo


desse mistério tão sublime, em cuja realização Deus
empregará toda a força do seu braço.

Com efeito, o vosso nome significa, a FORÇA


de DEUS: não pertence porventura a vós anunciar­
des a grande obra da mão de Deus? Significa tam­
bém: Deus-Homem; e não será de facto o resumo
deste formidável Sacramento?

O AVE foi pronunciado desde toda a eternidade,


desde que Deus é Deus, no conselho da adprável
Trindade que, antes d\:l todos os tempos, saudou Ma­
ria; e fostes vós o e �carregado de o trazer à terrà..

Quando pronunpiardes o AVE a esta Virgem, a


Imaculada, todo o universo, do céu aos abismos máis
profundos ficará abalado: ele não é-olhais do que o
transbordar da plenitude do Coração de Deus.

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O céu verá aí o começo do mistério incompará­
vel de um Deus que incarna, onde se aniquila a ma­
jestade de um Deus, que se torna mortal para resti­
tuir aos homens a imortalidade.

A terra exultará de alegria, pressentindo o


começo do mistério incomparável da sua redenção,
em que um Deus dá a vida para a salvar e restitui­
-la enfim à liberdade dos eleitos.

O Inferno e os demónios sentirão pesar sobre si


a presença formidável do Todo Poderoso que lhes
vem arruinar o império. Tremem de terror. Nada
os atemorisará tanto como ouvir o AVE.

Gabriel, como é solene, a embaixada que vos con­


fiaram ! Com certeza, pois se trata do «negócio de
todos o s séculos», do interesse de Deus, do interesse
do céu e da terra.

Está em jogo o interesse dos homens, de todos os


que ocuparam a terra ou hão-de ocupá-la desde a
criação do mundo até ao fim dos séculos.

Não se trata do interesse por um bem temporal,


por uma hora passageira, ou por uma vida que acaba ; !

I
o que está em causa é um bem ou um mal infinito,
uma glória ou uma infâmia perpétua, uma vida ou
uma morte eterna.
I
Os próprios Anjos se interessam pelo AVE que )

.
vai ser pronunciado. Muitos dos seus, na peugada de
Lúcifer, viram a sua natureza arruinada, tendo per- l�
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dido o lugar no céu e sendo precipitados numa conde­
nação que não terá fim.

Importa preencher as vagas deixadas, e só às


homens podem fazê-lo. Eles sabem que por si são
incapazes, mas que para Deus nada há impossível. O
AVE vai anunciar que um Deus desce à terra para
erguer os homens até ao céu, porque a s ruinas deles
serão reparadas. Um Deus feito homem pelo maior
dos milagres, só pode fazer anjos, dos homens.

Quem mais interessado está nisso é o próprio


Deus, que de uma forma definitiva quer fazer as
pazes entre o céu e a terra, entre Deus e a natureza
humana, em guerra desde a criação do mundo.

O AVE de Gabriel vai preparar o caminho ao con­


tracto de casamento que estreitará as duas partes,
Deus e o Homem, numa ligação tão íntima que não
serão mais do que uma só pessoa, um Homem-Deus.

Daqui, do êxito desta diligência, vai depender


a felicidade eterna dos homens, a perfeição e a bem­
-aventurança dos anjos, e toda a glória que Deus
recebe das criaturas.

Ide pois, Arcanjo Santo, ide levar à Virgem Ma­


ria a mensagem eterna e inefável da Trindade San­
tíssima; atravessai o espaço imenso que separa o

L.::_da�
céu e a terra.
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I Ela vive em Nazaré, a «cidade das flores». Aper-
ntre as muralhas, a cidade é pequena e

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a casa onde ela habita; mas cabe bem ali toda a gran­
deza do céu.

Ide depressa dizer-lhe que chegou o tempo da


misericórdia de Deus; dizei-lhe que Ela agrada a
Deus a tal ponto que Ele resolveu escolhê-la para
Mãe do seu Filho único.

Abandonai por momentos os altos céus; embai­


xador do grande Deus, levai no vosso séquito legiões
de anjos das nove hierarquias sagradas; e nessa pom­
pa brilhante correi, aviai-vos.

No porte de personagem nobre, perfeito, cheio


de majestade, entrai na câmara secreta da Virgem
admirável, que está só, em oração.

Deus revestiu-vos de tal beleza, e dum brilho tão


extraordinário, que ultrapassais tudo quanto possa
ser visto sobre a terra: assim, a Imaculada poderá
identificar-vos como um Príncipe do Alto.

Ela, humilde e toda mergulhada n' Aquele que


adora em vós, dar-vos-á a mesma atenção que ao
próprio Deus, pois só Ele poude compor e preparar
a vossa tão sublime saudação.

Não ides acrescentar nem mudar nada; não é o


vosso pensamento que exprimis mas o do Monarca
Todo Poderoso que vos enviou e falará pela vossa
boca.

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alavras que ides proferir entrarão a,
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ingressus ad eam, na expressão do Evangelista; ela
as receberá como vindas dos lábios de Deus que dela

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se aproxima.

Anjo Santo, falai, o céu e a terra aguardam, e


já estremecem de emoção. Dizei a Maria, para saber- �
mos de quem se trata, o AVE do tempo e da eterni- �
dade. i

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A A TITUDE DE GABRIEL

ARCANJO Santo, nem bateis à porta de Maria pa­


ra que venham abrir; não fazeis o mais leve ruí­
do, para dar a entender que entrais com pleno
direito, como um enviado do Monarca do mundo.

As fechaduras de ferro não poderão deter-vos,


pois atravessais tudo pela virtude da vossa subs­
tância. :m aos homens que uma virgem fecha a porta
e não aos anjos. (1)
Anjo, entrais no quarto virginal, com um corpo
fictício, ágil e subtil como os espíritos; apresentais­
-vos em silêncio, com humildade profunda, não para
receber mas para dar.

Na qualidade de embaixador do Altíssimo, ten­


des a autoridade e imponência do Senhor que repre­
sentais; falais de pé com dignidade única.

Ela, que nunca sai do abismo do seu nada, que


um dia cantará a pequenez de uma Escrava do Se­
nhor, levanta-se por atenção ao Mensageiro de Deus.

(' ) S. Bernardo, Missus est, 3.

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Quem leva vantagem, agora, em nobreza e subli­
midade, Vós ou Ela? Ah! não hesitais sequer um ins­
tante, e o AVE que ides dizer-lhe é uma confissão da
vossa disponibilidade ao seu serviço.

Eis, a bem dizer, algo que até ali nunca se vira.


A criatura humana até esse momento considerara
sempre grande honra reverenciar os anjos, e teste­
munhara-o sempre com emoção.

O Anjo, na verdade, não se curva diante do ho­


mem, porque lhe é superior: excede-o em dignidade.
O Anjo é um ser espiritual, o homem é feito de maté­
ria corruptível.

O Anjo tem relações mais imediatas com Deus;


é o familiar do Altíssimo, é como que o seu assis­
tente. O homem é como que um estranho, um exi­
lado de Deus pelo pecado.

O Anjo é superior ao homem pela plenitude do


esplendor da graça divina; participa plenamente na
luz divina. O homem tem certamente quinhão nesta
luz de graça; mas é tão reduzido que se encontra
quase às escuras.

Que um Anjo se curve reverente, e transmita a


sua mensagem a essa criatura, era uma coisa inau­
dita, antes de vós, Gabriel, terdes saudado a Bema­
venturada Virgem, dizendo-lhe: AVE} eu vos saudo.
É que esta criatura incÓmparável, sem igual, é
superior ao Anjo sob todos os aspectos: e é isso que

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quereis reconhecer Vós mesmo, um dos sete que
estais diante da Majestade de Deus, no Céu.
Ê isso que vos faz exclamar: «AVE... Eu vos
saudo. Reconheço que a plenitude de graça está bem
mais cheia do que a minha, do que a nossa, os Anjos
de Deus. Curvo-me reverente porque me sois supe­
rior, a mim, a todos nós, a toda a criatura.
«Vós excedeis-nos, ó Maria, na familiaridade
com este Deus, que está convosco; porque se com­
porta para convosco como verdadeiro Filho do Pai;
enquanto que para nós é sempre o Senhor.
«Estais acima de nós em pureza de luz e em
esplendor de beleza espiritual; vós sois o caminho
todo puro em si mesmo; e sois vós ainda que irra­
diais para os outros essa pureza.
«Por isso, eu não passo, nós os Anjos do Céu,
não passamos de súbditos, de servos vossos, nada
mais desejamos do que estar e permanecer a vossos
pés, para executar os vossos mandatos como executa­
mos os de Deus.
«E é por isso que eu vos digo também, ó Maria:
AVE CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR B CONVOS­
CO; BENDITA SOIS VóS ENTRE AS MULHE­
REJJ».
E falando assim numa voz doce e patética, (1)
acreditou-se que o Arcanjo Gabriel, O Anjo da guar-

(') S. Andr. Cret. Sennão da Anunciação.

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da de Maria, conservava a cabeça inclinada na ati­
tude de um soberano respeito, (1) rodeado de toda a
corte angélica.

Alma cristã, permanece assim alguns instantes,


diante d' Aquela, que o céu, por um espírito que se
faz eco da voz do Altíssimo, proclama como a Virgem
das Virgens, a Mãe do teu Deus e a tua Mãe.

I
L (') S. Boav. Med. da vida de Cristo, c. IV.

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A VIRGEM PERTURB A-SE

O,
Virgem Maria que fazieis enquanto o vosso
Arcanjo, resplandecente de graça e de glória vos
dirigia este AVE? Onde estáveis, em que im­
perturbável silêncio a vossa alma se encontrava
mergulhada?

Certamente, estáveis mergulhada na Oração de


Deus! ( 1 ) rezando ao Pai em silêncio (2) . Gabriel
assiste como os anjos gostam de fazer, à vossa ora­
ção e oferece-a a Deus como um sacrifício de suave
perfume e santa devoção.

A vossa alma imaculada mergulha no seio da


adorável Trindade, do Pai, do Filho e do Espírito
Santo. Contemplais certamente, o Verbo inefável
que vai descer à terra e realizar a promessa dos
séculos passados.

Filha eternamente predestinada deste Deus,


Uno e Trino, não ignorais os seus desígnios sobre

(') Lc., VI, 12.


( ') Mt., VI, 6.

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Vós; e meditai-los, aniquilada nessa humildade que
atrai sobre vós a atenção do céu e da terra.

Dais conta, no silêncio impressionante da ora­


ção, do clamor dos aflitos, pedindo-vos consolação;
os seus olhos fixos em vós, as lágrimas que sem
cessar lhe correm pelas faces reclamam o vosso
auxilio.

De todos os pontos do universo, há bocas que se


abrem e imploram misericórdia; e esses gritos che­
gam até vós provindos dos limbos, da terra e dos
próprios céus; gritos, lágrimas, suspiros, expressão
desses mesmos anseios.

Ouvis Adão, vosso primeiro pai, todos os patriar­


cas, todos os reis dos séculos passados que são vossos
ascendentes, todos os filhos dos homens, desolados
por a porta do céu estar fechada: e quem tem a chave
sois vós.

E Maria, diz o Evangelista, perturba-se, procura


em si mesma o significado de uma tal saudação;
Oogitabat qualis esset ista salutatio. (1)
(
Vós perturbais-vos, Maria, mas sem
emba­ �
(2). Que há pois que vos perturbe? Per­ )

I
raço.
miti-me que vos interrogue com humildade. Tudo o
que se passa à vossa volta está cheio de mistérios; de
mistérios e de santidade.

l�
(') L., I, 29.
(2) S. Bernardo

30 ���·���-�----�
---�

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É o Arcanjo que vos perturba? Ê o seu aspecto,
a sua beleza, a juventude eterna dos seus traços, que
vos arrancam por momentos à oração puríssima que
vos arrebata da terra?

Só o pensar nisso, me parece já uma injúria, um


ultraje. Uma imaculada, uma Virgem concebida
sem pecado, sem as taras e consequências de tudo
isso, não é a senhora absoluta das suas paixões?

Há muito tempo, desde sempre, que os anjos vos


visitam, e muito particulannente o vosso Anjo da
guarda! ó Virgem Prudentíssima, Satanaz poderia
alguma vez transformar-se diante de vós em anjo
de luz?

O que vos perturba, o que vos comove, são os


tennos da Saudação; é o seu conteudo espantoso,
maravilhoso e sublime; sim, qualquer coisa de abso­
lutamente divino.

Uma ciência, mais que infusa, Ciencia que se


arreigou, que progrediu sem limites, revela-vos a
fundo o sentido do AVE.
Essa ciência proporcionada aos dons com que
fostes favorecida dese n volveu necessàriamente em
vós as energias sobrenaturais, conferiu à vossa
prudência e sabedoria virtudes incomparáveis, e a
estas um desenvolvimento que é uma plenitude de luz.

l
Conheceis melhor que Gabriel, infinitamente me-
lhor do que ninguém, o alto significado desta Mensa-

31 �

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-
s

i
tese do vosso mistério, ó Maria.

Aceitais o enunciado; Deus, pelo seu Arcanjo,


uma vez mais, confirma sobre a terra o que, AB INI­
TIO, desde o princípio, no dia da vossa predestinação,
foi concebido no seu pensamento imutável.

O que vos comove e parece perturbar-vos, é a


vossa incomparável humildade. Na verdade, aquela,
que tem sempre o domínio perfeito de si mesmo, crê
sempre difícil acomodar a sua fé ao que a ultrapassa.

.
Ah! não, vós não duvidareis, vós que estivestes
presente a Deus no começo de todos os caminhos (1)
Mas o que o céu vos recorda, afigura-se-vos tão ele­
vado, tanto acima, de quanto pode crer-se, que ficais
como que esmagada.

Gabriel, um Arcanjo, saúda-vos, chama-vos


cheia de graça; assegura-vos que O Senhor está con­
vosco como ninguém; coloca-vos acima de todas
as criaturas, sendo vós, a primeira de todas, bendita
entre todas as mulheres.
Ah! sim, que perturbação! O mensageiro divino
apercebe-se disso: e tudo o que tem ainda a dizer-vos
nesse momento, o mais solene da história do mundo,
vai elevar ao máximo a profundeza da vossa
humildade.

( ') Prov. VTII, 22.

32 ��-�������w����w��·

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Ele quere comentar-vos, como ninguém no
decorrer dos séculos poderá jamais fazê-lo, esses
três pensamentos, EU VOS SAüDOJ CHEIA DE
GRAÇAJ O SENHOR É CONVOSOO J BENDITA
SOIS VóS ENTRE AS MULHERES. Mas quem
não compreende que tendes necessidade de ser escla­
recida e amparada para não cederdes nem desfalecer?

NE TIMEASJ MARIA! (1) Gabriel não ousara


ainda pronunciar este nome,
MARIAJ nome acima
de todo o nome além do de Jesus Cristo. Quem,
ainda que fosse um Arcanjo, poderia proferi-lo como
convém?

MARIA! Ê intraduzível este nome, de tal ma­


neira é elevado, tais os mistérios e abismos de ciên­
cia e de amor, que encerra: MARIA.
Este nome é uma plenitude de graças; é uma
presença do SenhorJ uma benção incomparável.
Para dizer:
MARIA . seria preciso ser Aquele, que a
. .

enche de todos os dons acima de toda a medida, o


Próprio Deus.

MARIA ! . . Só ao ouvi-lo se acalma a Virgem


.

timorata; adquire a presença de espírito, dir-se-ia.


Este nome que Deus pronuncia desde toda a eter­
nidade, no seio dos Três, tem a virtude inaudita de
tranquilizar Aquela a quem exclusivamente pertence.

(') Lc; ibid.

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,�....._...._---...._.....__,_�-...
Não . ...... temas, Maria, pois encontrastes graça
-'-' ____ �___.._,._,�_,-.....-���_,_,..._.._,. '- '-""-'-�'-'�--���../'o...r-'""'""-....__,..�....,.....,

iMa te de Deus. Queres· a prova disso? Concebe­


n
rás e darás à luz um filho a quem porás o nome de
JESUS.
É uma outra forma de vos dizer: AVE, GRA­
TIA PLENA, DOM/NUS TECUM, BENEDICTA
TU IN MULIERIBUS. É ainda mais claro e mais
preciso; é certamente mais luminoso e mais reve­
lador.

GRATIA PLENA ! Que graça única diante de


Deus! Graça inaudita nunca concedida aos séculos
passados, maravilha do universo; graça digna de
louvores sem conta que precede todas as graças dos
anjos e dos homens.

Encontrastes o Filho de Deus, um Filho que no


céu não tem mãe, mas que na terra vos terá a vós;
um Filho que há-de chamar-se JESUS, porque há-de
salvar o seu povo e livrá-lo dos seus pecados.
DOM/NUS TECUM! Quem poderá estar tão
�ntimamente ccmvosco, como Aquele mesmo que
será o Vosso Filho, Aquele que será grande, tão
grande, que será o Filho do Altíssimo e com uma
grandeza que ruro tem limites? (1)
O Senhor, seu Pai, dar-lhe-á o trono de David.
Sobre este trono de Sabedoria, trono inextinguível,
reinará eternamente o Filho que ali tiverdes colocado.

(') Ps. CXLIV, 3.

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Como será grande esse Senhor, o vosso e o
nosso Jesus. Grande em méritos, em poder, em digni­
dade, incomparável em sabedoria, divino em santi­
dade e duma beleza sem igual.

Será verdadeiramente o Filho do Altíssimo.


Aquele de quem sereis Mãe, BENEDICTA TU IN
MULIERIBUS, sendo Ele mesmo o Altíssimo , nunca
podendo pensar em usurpação sacrílega (1)

Será tudo isso; mas se eternamente já o é, pode


sê-lo ainda :p1ais? Sim porque aquele que é grande
como Deus, sê-lo-á também como Homem.

Sim, será grande este Homem-Deus. Deus de


tal maneira o exaltará em glória, em presença dos
poderosos deste mundo, que povos e reis hão-de ado­
rá-lo e servi-lo.

Mas todos eles só poderão adorá-lo nas vossas


entranhas e nos vossos braços, ó Maria, Virgem das
virgens e Mãe de Deus, Mãe dos Anjos e Mãe dos
Homens; Mãe da humanidade em Vós regenerada.

Como é extraordinária a constância da vossa fé,


ó mulher Santa! Vós sabeis que Deus pode tudo,
quando quere. Vós acreditais, vós aceitais, porque
a vossa fé assenta exclusivamente na base inque­
brantável da vossa humildade.

(') Philip., II, 6.

35 �'

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I

A BENDITA DO ESPI RITO SAN TO

A
VOSSA incomparável humildade, ó Maria, está
agora garantida. É ela que vos engrandece e
vos dispõe para tudo o que o AVE vos sugere,
e eu desejo àvidamente ouvir. · ·j
Pertence à AVÊ MARIA criar em nós esta vir­
tude. E é de notar que os devotos desta oração, se
não são humildes vêm a sê-lo, e crescem sem des­
canso na humildade.

O que contém e diz é, com efeito, tão sublime


que a alma que o meditar, será arrastada convosco
para aquele aniquilamento em que se realiza todo
o encontro com o seu Deus. RESPEXIT HUMI­
LITATEM (1).
Mas a humildade é a base de uma outra virtude,
a pureza de coração nos seus diversos graus. Ali
mergulham as raizes de toda a virgindade, da vossa
sobretudo, ó Virgem Imaculada.

(1) Lc., I, 48.

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Não me surpreendo por à mensagem do vosso
Arcanjo, responderdes na mais perfeita paz:
COMO
HÃ-DE ISSO ACONTECER, POIS EU NÃO
CONHEÇO VARAO; todo o meu ser está dedicado
exclusivamente a Deus?

Com certeza, não duvidais, e a vossa pergunta


não tem em vista inquirir se é possível que uma vir­
gem se torne a Mãe de um Deus; mas tão somente
saber como, por que meio, de que forma lhe agrada­
rá que as coisas aconteçam QUOMODO FIET
ISTUD ?

Lê-se, por vezes, que renunciaríeis ao privilégio


desta Maternidade, de preferência a sofrerdes qual­
quer quebra na vossa virgindade. Mas não, pois es­
tais completamente abandonada à vontade deste
Deus. (')

Não há dúvida que fizestes um voto; jurastes fi­


delidade ao Senhor. O não cumprimento desse com­
promisso inquietar-vos-ía justamente; mas, que se
faça a Vontade d'Aquele que quere descer até mim!

Pode, entretanto -porque nada Lhe é impossí­


vel- permitir a uma Virgem que conceba um filho
e o dê à luz. Não seria essa a prova solene de que pôs
os olhos na baixeza da sua serva? Mas como?

(') S. Bernardo.

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BENEDICTA TU IN MULIERIDUS. ó Ma­
ria, é aqui que está a maravilha das maravilhas: Ga­
briel disse-vos: O Espírito Santo virá sobre ti, e o
poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. (1)

Que di z ele? N.ão estais j á cheia deste Espírito


do Pai e do Filho? Podeis ser cheia de graça e não
possuirdes ainda esse mesmo Espírito, Dispensador
de todas as graças?

Se ele está em vós, - e sabemo-lo presente com I


I
I
uma plenitude única - qual a razão porque o Anjo )
I
vos promete uma nova vinda? Que quere ele dizer?

O Espírito Santo vai vir sobre vós, já cheia de
graça. Recebereis uma graça, nova plenitude, a acres­
·�
í
í
centar-se misteriosamente a uma primeira plenitude
maravilhosa.

Esta primeira, só enche a vossa alma. A pleni­


tude da Divindade que, em vós, como em muitos ou­
tros Santos, habita espiritualmente, vai começar a
habitar corporalmente no vosso Seio Virginal.

O PODER DO ALTISSIMO OOBRIR-TE-Ã


OOM A SUA SOMBRA. Quem pode entender que en­
tenda. Ê o mistério dos mistérios e só pode conhe­
cê-lo Aquela a quem foi concebida a imensa felici­
dade de o saber.

(') Lc., I, 35.

38 �����w���-�-�-�����-�� -�---·------���----"'-�

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rí is
inacessível, O Espírito do Pai e do Filho, chegou até
<
vós? �
A Trindade Santíssima realizava sozinha e só em )
vós, o mistério escondido aos séculos eternos, ( 1 )
o grande mistério da misericórdia. (2) Só vós me­
1i
receis conhecê-lo e, sobretudo, senti-lo. �
i
'

O Espírito Santo viria sobre vós pela sua omnipo­


tência e tornar-vos-ia fecunda; m as a sua operação
seria tão bem velada, tão escondida na sombra im­
penetrável dos seus desígnios secretos, que só Jesus,
o Vosso Fruto, e vós, teríeis conhecimento dela.

COMO HÃ-DE ISSO ACONTECER? Portanto

Il
não interrogueis Gabriel! Sabe-lo-eis por Aquele mes­
mo que o há-de realizar e dar-vos conta disso. O
Arcanjo não tem a missão de criar a vossa Conceição
virginal, mas só de anunciá-la.

Não será pela operação do homem, mas pela do

I
Espírito de Amor que concebereis; e é por isso que
CONCEBEREIS PELA PRóPRIA VIRTUDE DO
ALT!SSIMO (3), O PRóPRIO FILHO DE DEUS.
PORQUE AQUELE QUE NASCER DE TI ;

I
SERÃ CHAMADO O FILHO DE DEUS! ( 4 ) Não

( ')
(')
COL; I, 26.
I Tiro., III, 16.
)
(') Cor., V, 18.
(' ) Lc., I. 35.

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���������.-....��-._,���)

;
I
será só Aquele que do Seio do Pai desce ao Vosso, mas
Aquele que vem colher na vossa própria substância )
a sua filiação em relação a vós. i
I
<
E assim como Aquele que, desde todos os sécu­ )

lo s gerado pelo Pai, se chama o seu Filho, de igual


l
i
sorte será chamado vosso. E assim como Aquele que
nasce do Pai é o vosso Filho, Aquele que nascer de
vós será o seu Filho. I
I

Para tanto não haverá dois Filhos, um do Pai, �


outro vosso; será um só. Não terá cada um o seu, mas i

II
será o Filho único de ambos. Oh! maravilha das ma-
ravilhas!

O SANTO QUE NASCER DE TI... Com que res­


peito o Anjo assim fala! Parece faltar-lhe um nome

l
para designar, ó Mãe, O FRUTO BENDITO DO VOS­
SO VENTRE, como dentro em breve dirá Isabel, vos-
sa prima. I

Esse Fruto magnífico, que vai surgir da união da


alma e do corpo, que será tirado do vosso corpo
puríssimo, Filho único do Pai, que nome lhe daria ele?
É assim um nome tão sublime que não possa dizê-lo
no céu e na terra?

Não encontra. Não diz, nem a Carne Santa, O


Homem Santo, O Menino Santo ou coisa parecida:
isso não bastaria. Diz: O Santo, expressão indefinida,
o Santo por excelência, esse fruto divino concebido
\
por obra do Espírito Santo...

< '
(�- 40 -����-�---�-��-----,�����/vV�-- -

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Sim, sereis então verdadeiramente, QHEIA DE
ORAÇA, da graça criada e da graça incriada (1) ;
tê-la-eis encontrado, recuperado junto de Deus para
todo o género humano; sereis a Mãe d'Aquele que
tmlva os que esperam n'Ele.

Que mais é preciso para vos convencer? Gabriel


nnuncia-vos que a estéril Isabel, vossa prima conce­
beu um filho? Oh! não, vós nunca duvidastes! Não
vai ela dentro de dias louvar-'Vos por terdes a��edi­
tado? (2)

Se, entretanto, o Arcanjo vo-lo comunica, é para


cúmulo da vossa felicidade de Mãe escolhida, dando­
-vos conta deste segundo e estupendo milagre, depois
do primeiro que é só convosco: uma estéril concebeu!

Só a vós, antes de mais ninguém, o céu, devia


anunciar estoutra graça. Um dia saber-se-á que, desde
o começo destes mistérios tão estranhos como espan­
tosos, vós tinheis deles pleno conhecimento.

Não, Maria, para Deus, nem uma só palavra é


impossível (3) . Gabriel não diz A DEUS NADA B
TMPOSS/VEL, mas PARA DEUS NEM UMA Só

(') (Nota do tradutor) a): graça, criada, a participação


1ta vida divina na alma, do justo. b) : graça incriada, o pró-
prio autor da graça, Deus.
(') Lc., I, 45.
(") Lc., I bid.

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PALAVRA Ê IMPOSSIVEL. Ê que, para Deus,
não há diferença entre fazer e dizer, entre dizer e
querer.

Ê que n'Ele a palavra não difere da intenção,


porque Ele é a verdade. N'Ele, a acção não poderia
ser diferente da palavra, porque é o Poder; n'Ele o
modo não difere do acto, porque é a Sabedoria.

E o Arcanjo, inclinado com o céu e a terra, sobre


o Seio virginal onde o Verbo eterno vai incarnar,
recebeu a aquiescência da BENDITA ENTRE AS
MULHERES.

Maria, abismando-se nessa humildade sempre


tão estreitamente unida à graça, cai de joelhos, di­
zem revelações, com uma devoção profunda, e de
mãos postas, diz a Deus a quem adora :

EIS A ESCRAVA DO SENHOR, FAÇA-SE EM


MIM SEGUNDO A VOSSA PALAVRA ! (1) Ou
ainda: QUE A RESPEITO DO VERBO ME ACON­
TEÇA COMO ME ANUNCIASTE. Isto é:

Que o Verbo que estava no princípio em Deus,


IN PRINCIPIO, se faça carne da minha carne,
segundo a vossa palavra; que uma mãe fecunda do
vosso Espírito, se torne a própria Mãe de Deus!

I

(1)

42
Lc. Ibid.

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i
I


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·- �Ma��: �
� �!
quere que lhe peçamos na oração aquilo mesmo que
nos prometeu, e nos quere conceder.

Que o Verbo seja de tal sorte, que os meus olhos


o possam ver,. os meus braços estreitá-lo, os meus
beijos inebriá-lo de ternura, um Verbo incarnado
e vivo.

Que me aconteça, corno a ninguém aconteceu


antes de mim , e nunca acontecerá também depois;
que desça a mim em silêncio, incarnado em pessoa,
corporal nas minhas entranhas.

Que seja feito em mim, este Verbo que nem pode


nem tem precisão de ser criado em si mesmo, o
Eterno; que me conceda esta graça de nascer em mim
e pelas gerações das gerações! Assim seja!

O Filho de Deus, Deus e Homem, nasce sem


demora no Seio da Virgem; ali toma carne, enquanto
que na sua personalidade total, permanece no Seio
do Pai.

É ali, naquela Arca da Aliança, que Aquele que


estava na forma de Deus, e que sem usurpação pode
sempre reclamar homenagens divinas, se aniquila
tomando a nossa forma, a forma de escravo. (1)

(') Philip., li, 8.

43 �

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w/

Deus perfeito que era, nasce Homem perfeito, (


com a alma, com o corpo, com os membros distin-

tos. Que digo eu? Novo Adão, tronco novo e ado­
rável de uma raça de homens renovados que recon­
duz à vida, onde nós estamos presentes intencional­
mente.

Renascemos ali, nas entranhas de uma Virgem­


-Mãe, vós e eu, intencionalmente sem dúvida, mas
realmente; ao mesmo tempo que é Mãe de Deus,
fica a ser Mãe dos homens. O Corpo Místico de
Cristo é uno, a Cabeça é e será sempre inseparável
dos membros, que somos nós.

Maria, sempre de joelhos, adora com o Arcanjo,


com as hierarquias celestes, com as gerações estu­
pefactas, inebriando-se de amor. Ouve-se pela vez
primeira a AVÉ MARIA dos homens: SANTA MA­
RIA, MÃE DE DEUS, ROGAI POR NóS, PEGADO­
DORES, AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE.
AMEN. E Maria, comovida a mais não poder ser,
adoptava-nos como filhos...

SANTA MARIA MÃE DE DEUS,· a célebre ora­


ção, sintetisa, em duas palavras, tudo o que acabamos
de meditar, o A VE do Arcanjo Gabriel que se repe­
tirá até ao fim dos séculos.
(

� Ê de presumir que, mal nascido nestas profunde-

L:
� zas virginais, o Verbo Incarnado, tenha oferecido a
u Pai a primeira adoração de um Homem-Deus, que 1
44 ��� ���-��,��
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pelo seu valor infinito, satisfazia a todas as exigên­
das da glória deste Pai.

Sacerdote eterno, oferecia-lhe plenas acções de


graças, satisfações inauditas, súplicas eficazes, que,
partindo do Coração Imaculado de Maria, como de
um altar, reparavam singulannente por todos os cri­
mes da criatura.

Depois, deve ter-se voltado para Aquela que ao


mesmo tempo que sua Mãe, constituia Medianeira e
Distribuidora de todas as graças, ficando a ser, na
expressão de S. Bernardo, o pescoço do Corpo Místico.

E foi então, sem dúvida, que, no seio d'Aquela


que nós chamaremos com um nome tão belo, NOSSA
SENHORA, Ele recitou o AVE de um Deus feito
Carne.

E é ali, que um filho de Maria deve sempre consi­


derá-lo bem presente, com uma fé total, uma esperan­
ça invencível, um amor sempre mais ardente; sim, ali,
nas entranhas onde ele deu os primeiros vagidos para
a vida sobrenatural, nesse dia, na Anunciação de
Nossa Senhora.

ó Maria, mereceste-nos este AVE, vós que éreis


humilde em espírito, Virgem na carne, quando expri­
míeis a Deus esta fé, esta esperança e este amor.

Ponde e guardai, indefinidamente em nossos lá­


bios e, sobretudo, em nossos corações, esta Saudação,

45 �

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que alcance a salvação eterna aos pobres pecadores
e às pobres pecadoras que nós somos.

Que a nossa vida decorra sempre a dizer, AVE,


AVE e ainda e sempre AVE.

Que ela seja a nossa última palavra, na hora su­


prema, em plena agonia, no sorriso da paz que vós nos
prometeis. Que seja assim.

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Primeira Parte

A SAUDAÇÃO

AVÊ-MARIA, CHEIA DE
GRAÇA, O SENHOR Ê
CONVOSCO. B E N DITA
SOIS VõS ENTRE AS MU­
LHERES E BENDITO É O
FRUTO DO VOSSO VEN-
TRE, JESUS.

47 �

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A VE

GLó RIA DO AVE

AVE ...

E
STA saudação angélica vem do céu, do céu de
Deus. Ressoa ali desde os séculos dos séculos.
Ressoou no Seio dos Três, do Pai, do Filho, e do
Espírito Santo, ab initio et ante saecula... antes de
todo o princípio.
Porque, antes de todo o começo, antes da vida e
do movimento, antes de tudo o que é e se move, Ma­
ria foi saudada pelo Santo dos Santos. O Pai saudou
a sua Filha eterna; o Filho saudou a Mãe admirável;
o Espírito Santo, a Esposa Imaculada.
Toda a Santíssima Trindade, a saudou e se de­
tém diante da súa beleza sem igual, proclamando-a,
A Toda bela em, quem não há moAWha.

AVE . . .
É um Arcanjo, o Arcanjo Gabriel, um dos sete
que se conservam diante de Deus; é aquele cujo nome

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I!���: F:����
à terra.
Ah! repitamo-lo; até então, nunca um anjo se
tinha curvado diante de uma criatura humana.
Mas diante desta Virgem, abate a sua grandeza;
sabe que está diante da sua soberana, diante da raí-
nha de todas as hierarquias dos Anjos.
Não vem só; acompanham-no milhares desses
espíritos e de todas as suas incomparáveis hierar­
quias.
AVE... Entoou a Saudação que J?eus repete des­
de a infinidade dos séculos, no seu eterno Segredo.
E todas essas legiões magníficas repetiram -

AVE ...

AVE . .. e u te saudo, nós te saudamos.


É o cântico de to�'Js os Santos e Santas de Deus.
É o cântico entusiasta, em que transparece uma admi­
ração sem par.
Ê a exaltação dos Profetas, dos Apóstolos e dos
Mártires;
É o hino incansável dos Confessores, das Vir-
gens e das Viúvas;
É a consolação dos humildes e dos pequenos;
É o refúgio dos pecadores; a força dos doentes;
É o repouso dos fatigados;
É a oração das grandes almas; a súplica de todos
aqueles e aquelas que têm necessidade de Deus.

AVE . . Eu vos saúdo...


.

É o grito da minha pobre alma,

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É o meu desabafo nas horas de ailição,
É a luz das minhas trevas;
É a alegria das minhas tristezas,
É a minha paz nas angústias e ansiedades,
É a minha defesa na hora da tentação.
AVE. .. Eu vos saúdo, Virgem toda bela,
Vaso desde sempre escolhido por Deus;
Vaso, que é o maior prodígio do Universo,
Vaso, que é o batel da terra inteira,
Vaso, paraíso de delícias, de atractivos e de
imortalidade
Vaso, árvore da vida, da alegria e dos santos
arroubamentos.
Vaso, tesouro dos fiéis e salvação do mundo.
Vaso, trono glorioso do Criador.
Vaso, que é a excelente Medianeira de Deus e
dos homens.
Vaso, que é a Conciliadora eficaz do mundo
inteiro.

AVE... õ Maria!
As nossas horas todas, todos os nossos dias não
chegariam para exprimir o significado de um AVE,
a oração que o céu e a terra proclamam como a Solene
Saudação de quantos recorrem a Vós, com um cora­
ção recto e sincero!

AVE, AVE, AVE... MARIA! !


I
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M A RI A

TÃO BELO O SEU NOME!

AV:m MARIA!

M
U
nome, é sempre a imagem de uma essência.
Posso nunca ter encontrado nem conhecido
alguém: conheço apenas o nome que usa; e eis
que se apresenta aos olhos da minha alma; vejo-o,
toco-o, falo-lhe. Faço reviver diante de mim, tantas
vezes quantas lhe pronuncio o nome. E tratando-se
do nome de alguém que amo, experimento, ao pro­
nunciá-lo, uma sensação de bem estar e alegria no
meu coração.
E esse nome evoca-me as virtudes, as acções
brilhantes, os talentos, e os méritos de quem o usa.
O mérito e a glória pertencem ao nome.
Repeti-lo é estender a nomeada, é levá-la a
toda a parte, é eternizá-la em todos os espíritos.
Há destes nomes infinitamente augustos e
sagrados, que não conseguimos pronunciar sem um

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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sabe interpretar, como não se
:����
ousava, outrora,

l
correr o véu do santuário.
Israel preferia o nome sacrossanto de Jeová a
toda a Lei.
:É de igual sorte, a excelência dos nomes de
l
Jesus e Maria.
Podemos ver neles uma espécie de resumo da
Nova Lei, o tesouro das maiores maravilha s da reli­
gião, e das verdades mais sublimes do Evangelho.
Avé-Maria !
Pronuncio estas palavras, enuncio o nome
d'Aquela, que é uma Virgem Mãe, Mãe de Deus e

I
Mãe dos homens e minha Mãe também; e eis que, de
repente, surge diante de mim.
Não tenh o necessidade de a ver aparecer-me,
como a tantos outros, não sou digno de tanto.

Mas se balbucio : MARIA! . . . Ela ali está.
a certeza de uma presença, que me vê, me sorri, me
Tenho

ouve, e me estende os braços.

MARIA !

Nem o céu, nem a terra poderiam pronunciar


um nome, em que a minha fé e amor possam haurir
graça mais abundante, em que fundamente uma es­
perança mais segura, e com o qual experimente uma
suavidade mais divina.

Avé-Maria!
Este nome mil vezes bendito, significa um mundo

53 ����
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����������c�·-·..·������

� de coisas. É-me impossível, a mim, e a quemquer, i


I exprimi-las. �
� Basta lembrar-nos deste profundo mistério : na �
origem do mundo, o Espírito de Deus pairava sobre
as águas, não como um barco de velas pandas que
um vento favorável faz singrar, mas como uma
pomba que se aninha sobre os ovos para os aquecer,
e deles fazer brotar a vida.
A esse enorme acervo de águas chama a Escri­
tura : MARIA (latim) .

Oh! eu bem sei que MARIA e MARIA (1) , aqui


são nomes diferentes, com um sentido inteiramente
diferente ;
Mas a semelhança e consonância perfeita de
ambos inspiraram os Santos de Deus.
O Espírito Santo, dizem, animou um e outro
e fecundou-os.
Das águas, MARIA ( latim) , saiem os filhos
adoptivos de Deus, no Santo Baptismo; e de Maria
nasceu o próprio Filho de Deus, o que a constituiu
como a mesma Mãe de Deus.
Avé-Maria!
Este nome belo, o mais belo de todos os nomes,
o mais fecundo, o mais poderoso, o mais santo, de­
pois do Santo Nome de vosso Filho Jesus ;

(1) Em francês Marie e Maria, distintos fonétic a e


\
i gràflcamente.
I
1 � 54
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Este nome significa tudo o que de grande e de
sublime, pode conceber-se no céu e na terra ;
Oh! é tão divino que ultrapassa a minha com­
preensão.
Quando digo : MARIA, tenho a impressão de
exprimir um conceito absolutamente transcendente.
Ê frequente ler-se que significa SOBERANA e
RAINHA : e é verdade.
Vós dominais, ó Maria, no céu, na terra e até
no inferno;
Sois a Soberana e Raínha absoluta de todo o
Império do vosso Filho.
Todos os vossos súbditos, lá em cima são cabe­
ças coroadas no reino deste Rei dos reis, no Paraíso
de Deus.
Na terra, os reis a vossos pés, depõem diade­
mas, coroas e as suas próprias pessoas.
O inferno está sujeito a suportar o peso dos
vossos ódios eternos, sendo maior humilhação para
Satanás ver-se abatido aos pés da mais humilde das
criaturas, do que sentir-se esmagado pelo braço
omnipotente do próprio Deus.
Sois também a minha Rainha, a minha Sobe­
rana. E esse domínio total sobre mim, sobre o meu
i

j
corpo, a minha alma, os meus sentidos, sobre tudo
o que sou e possuo, desejo, preciso, sinto-me orgulho-
so com ele.
i
�J
Esse domínio, saudo-o como uma Estrela bri-

=�� =:=�:::��
lhante, que me ilumina e orienta a vida. Fixo nela 1

lh o
55

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Tenho f é n a sua luz, esperança no seu auxílio,
amo-a apaiKonadaxnente, corno � escravo de Binor
espontâneamente votado ao serviço da sua Grande
Dama.

AV:S:-MARIA !

Minha alma, invoca Maria, confia no seu Nome


santo.
Repete-lho dia e noite sem descanso, chama
por ela corno uma criança.

MARIA! MARIA!

Mais não sei ainda que galrejar estas duas


sílabas. Mas a mãe fica encantada, até mais não,
quando ouve o filho chamá-la com gritos inarti­
culados.
Haveis de compreender-me sempre e muito
melhor com certeza que qualquer mãe, sempre que
chamar por vós:

AVÊ-MARIA !

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C H EI A DE G RAÇA

§ 1. - A SUA BELEZA

AVÉ MARIA, CHEIA DE GRAÇA...

A natureza fez de Vós uma obra prima. Olhan­


do para vós, aqui presente. resplandeço à luz da
vossa beleza.
PorqueJ foi espalhada a graça sobre os vossos
lábios ( ' ) , ó Maria; vós sois bela entre todas as
criaturas, a mais bela, a TODA BELAJ aquela em
quem não há mancha. (2)
E falo ainda só da beleza natural.
CHEIA DE GRA ÇAJ dom gratuito do Senhor,
estais a transbordar dessa plenitude, realizando em
vós todas as perfeições da alma, toda a beleza do
corpo.
A vossa alma, que riqueza de ideal e de real !
Se Jesus é o mais belo dos filhos dos homens, vós
fostes o seu molde, o seu espelh o e Ele o vosso.

(1) Ps. XLIV, 3.


(' ) CANT., IV, 7.

������,�-�������� 57
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Uma alma como a vossa que em si deve reali­
zar todas as maravilhas da graça, deve ser a mara­
vilha da natureza.
Notar-se-á um acabamento de perfeições em
todas as faculdades : penetração e firmeza da inte­
ligência, força e tenacidade da vontade, harmonia
incomparável das potências inferiores.
É o reino da paz.

CHEIA DE GRAÇA . . .

O vosso corpo, ó Maria, é a obra prima do


poder, da soberania, e do amor d'Aquele que devia
tomar Carne da vossa carne.
Uma alma pura como a vossa devia unir-se a
uma carne sem corrupção, com todas as perfeições
e esse brilho superior que constituem a beleza.
Ao formar o vosso corpo, Deus tinha Jesus
Cristo presente : trabalhava para Ele! (1)
Ele devia ser o molde sobre o qual se derram a- I
ria o Verbo do Pai para se tornar o Verbo Incar­
nado.
Vós éreis perfeitamente bela, bela, no espírito,
bela de corpo, bela de rosto, TOTA PULCHRA.
Com os encantos da mais pura das virgens,
com a majestade da mais augusta das mães, com a
integridade mais perfeita e em fecundidade sem igual.

(') Bossuet; I sermão sobre a Natividade da Santfs­


sima Virgem. Exórdio.

� 58
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Bela, em toda a parte onde aparecíeis, bela
ao apresentardes-vos no templo; bela, diante de
Gabriel, extasiado na contemplação dos vossos olhos;
bela, no segredo de Nazaré sob a irradiação da face
de Jesus; bela, nos caminhos da Judeia e da Gali­
leia, seguindo Jesus e ouvindo-o encantada ; bela, aos
pés da cruz e com Jesus exangue nos braços; bela,
sob as línguas de fogo do Espírito Santo n o Cená­
culo ; bela, no infinito da glória onde reinais com
Jesus.

CHEIA DE GRA ÇA . . .

õ Maria, a eternidade não bastaria para con­


templar a beleza que admiro na vossa natureza.
Dizer que verei, um dia, assim o espero, a beleza
do vosso rosto, e mais e melhor ainda a beleza da
vossa alma!
Uma alma em estado de graça, ultrapassa em
beleza, dizem, todas as belezas criadas, a das flores,
as dos astros, a de toda a natureza.
E a vossa ultrapassa ainda infinitamente, pode
dizer-se, todas as almas em estado de graça, visto
que só vós sois a Imaculada.
As almas excedem-se umas às outras em graus
desconhecidos.
Como será a centésima ? Mais bela que as no­
venta e nove anteriores. E a milésima e a centé­
\

i
sima milésima ?
Essa possui cem vezes, mil vezes, cem mil vezes
mais beleza que a primeira.
<\
59 ��
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Imagino a mais bela de todas: que é ela em
comparação com a vossa ? Uma sombra de beleza.

Quem visse a beleza de um Anjo, do último dos


Anjos, seria levado a tomá-lo por Deus, e a adorá-lo.
Mas o último dos Arcanjos está muito acima
do primeiro dos anjos.
De igual sorte, a últ4na das Virtudes do céu,
·
acima do primeiro dos .A.rçanjos. � assim vou su­
bindo aos Principados, às ·
�ominações, às Potesta­
des, até ao coração dos Tronos, graduando da mes­
ma forma a beleza de cada uma desta s ordens an- ·

gélicas.
Subo até aos Querubins da Glória, e mais acima
ainda até aos Serafins estuantes de amor ; compa­
rando sempre.
E o número que constitui cada uma dessas
hierarquias é cada vez maior, crescendo na medida
da perfeição.
Esses Espíritos, são miríades de miríades, diz a
Escritura.
Oh! dizei-me qual poderá ser a beleza, o esplen­
dor, a inefável sublimidade do primeiro de todos,
do mais excelso dos Serafins!

[
E contudo, ainda não há nada que se assemelhe

( à vossa beleza única, ó Virgem pulquérrima.

} Por mais elevados que sejam, são sempre ser-


os de Deus ; e Vós e só Vós, sois a Mãe do mesmo
us; não será dizer tudo?
Alguém que a contemplou, a pequena Santa de

60 ������
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I
Lurdes, poude afirmar : «desejaria morrer para a tor­
nar a ver nem que fosse uma só vez».

I
AVE, ó MARIA CHEIA DE GRA ÇA ...
Fico mudo, deslumbrado diante dos encantos
da vossa beleza.
Mas ainda vou dizer maiores coisas . . .

§ . 2. - A . GRÀÇA .. SANTIFICANTE

A V:R MARIA, CHEIA DE GRA ÇA •..

A natureza, diremos, esgotou em vós todo o seu


potencial de beleza.
Mas que é tudo isso, comparado às irradiações
do sobrenatural ?
Sois CHEIA DE GRAÇA , e essa graça é um
dom precioso que Deus fez à alma, objecto do seu
amor divino, a quem confere a beleza suprema, que
a torna tão agradável aos seus divinos olhos, a
ponto de ali descobrir encantos quase infinitos e de
tal forma que lhe seria impossível não a amar. Da
graça resultam, na verdade, os especiais atractivos
da alma que lhe conferem essa beleza que o seduz.

Ouço falar da graça santificante, que torna


santa a alma que a possui ; elevando-a, a ponto de
ser adaptada como filha de Deus, e herdeira do seu
reino eterno, e de tal forma que o próprio Deus a
não poderia deserdar. Constitui para ela um inegável

61
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direito, e de tais proporções, que entra na posse de
todos os bens de Deus e na posse d'Ele Mesmo.
Que riqueza esta graça habitual, santificante !

CHEIA DE GRAÇA!

Essa graça, não é um corpo, nem um espírito,


nem uma substância.
Não é, nem uma parte da Divindade, nem a
Pessoa do Espírito Santo, nem uma alma nova
acrescentada à nossa.
Tudo isso, foi já erroneamente sustentado.
A graça é uma qualidade sobrenatural, afecta
à alma, como um acidente espiritual, criado por
Deus ; uma efusão sobre a alma, do esplendor pes­
soal do próprio Deus.
� um pouco o que a luz faz ao globo de cristal
que atravessa ; o que o calor do fogo faz ao ferro ao
aquecê-lo até ficar em brasa.
A luz não é mais que um acidente do sol, não
a substância ; e o calor também não passa de um
acidente do fogo.
O sol não comunica a própria substância ao
globo de cristal, nem o fogo ao ferro que fica em
brasa.
Se assim fosse, o globo de cristal seria o sol,
e o ferro seria o fogo.
Um e outro não comunicam mais que uma quali­
dade de entre tantas, um dos acidentes.
E não obstante quem dirá que o globo, exposto

62
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à. luz do sol não se transformou num sol ? Quem
dirá que o ferro em brasa não se transformou ver­
dadeiramente em fogo ?

Pois bem ! a graça é uma certa participação da


natureza de Deus, que excede toda a natureza.
É exclusivo de Deus, Ser dos seres, Oceano de
perfeições infinitas, comunicar a uma alma que san­
tifica pela graça habitual, uma tal semelhança con­
siga mesmo, que parece uma comunicação da pró­
pria natureza divina.
Se alguém contemplasse a beleza que essa
alma recebe dessa graça, tomá-la-ia pelo mesmo
Deus.
Não obstante, não pass a de uma participação
criada da sua natureza.
Digamos, é um esplendor que envolve a alma,
que a penetra, que a transforma, que a deifica, que
não a faz Deus, mas muito semelhante a Ele.
Deus reconhece nela o seu filho, filho que adop­
ta e a quem dá, pela graça, o que Ele é por natureza.
Não, nunca será Deus, nunca passará de cria­
tura.
Mas, esse Ser dos seres encerra a infinidade
das suas perfeições e exprime a sua beleza sem
igual, nessa graça santificante, que concedida a uma
alma, a torna tão semelhante a Ele que parece estar
revestida da própria natureza divina.

E quem nos dá essa graça ?


Oh ! maravilha do Amor! A graça não passa de

63 �i
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uma criatura, como a alma a quem é destinada. En­
tretanto, a Escritura não diz que Deus a tira do
nada.
Ela provem directamente do Seio da Trindade,
do Seio do próprio Amor.
Difunde-se� derrama-se� insinua-se nos nossos
corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. (1)
Dir-se-ia um licor precioso derramando-se dum
vaso para outro vaso.
E visto que o Espírito Santo é como que o Cora­
ção do Pai e do Filho, essa graça transborda do seu
Coração para o nosso.
Não passo de uma vil criatura ; e não obstante,
essa criatura, fica como que divinisada; torna-se ver­
dadeiramente semelhante a Deus.
Parece que se a minha alma se visse, com
absoluta certeza, na posse dessa graça santificante,
e lhe conhecesse o valor, dificilmente poderia viver
um só momento sobre a terra; morreria de alegria.

Importava repetir isto tudo, e abrir este parên­


tese, para compreender os extraordinários louvores
que exprimimos a Maria, quando lhe dizemos: AVE
MARIA� OHEIA DE GRAÇA.
Cheia dessa graça que a assemelha como ne­
nhuma outra criatura pura, ao seu Deus.
Porque, se existe uma alma que tenha sido in­
vadida pelo Espírito de graça, submergida pelas

('} Rom. , V, 55.

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torrentes de graça que brotam do Coração de Deus,
foi Ela, e só Ela, depois do Homem-Deus.
Gabriel poude afirmá-lo : ENCONTRASTE GRA­
ÇA JUNTO DE DEUS. (1) .
Ninguém a tinha encontrado e recebido como
Maria.

§ 3. - A IMACULADA
AVÊ MARIA, CHEIA DE GRAÇA.
É tal qual, como reveláveis a Bernardette, na
gruta de Massabielle, quando à sua pergunta :
« - Quem sois vós, ó bela Senhora ?»
Respondestes : «EU SOU A IMACULADA
CONCEIÇÃO».
Não há nada mais incompatível, nada mais
oposto a Deus que o pecado. Deus é a bondade infi­
nita, o pecado a malícia infinita. Como poderia o
pecado aproximar-se do trono de Deus ? Quanto
mais uma alma se aproxima de Deus, mais se afasta
do pecado.
Ora, ninguém, ó Maria, devia estar mais pró­
ximo de Deus que vós, porque é impossível que cria­
tura alguma esteja mais perto do Filho de Deus que
a sua própria Mãe.
Desde toda a eternidade, antes de nada existir,
estáveis unida a Jesus Cristo Vosso Filho por laços
inefáveis.

(') Lc., r, 30.

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�- " � ' �---�-- - ��- -,-,,_,,�, ��-����---�--�'�-�v����-���-vv- �!

O Benhar teve-voa presente no começo de todos i


j
I os seus caminhos. e) Porque tendo eternamente
i
!
decretado a Incarnação do Verbo, do próprio Filho
de Deus, e querendo essa Incarnação só por vosso in-
) termédio, fostes concebida desde sempre, nos desí-
) gnios do Criador, no mesmo plano que Jesus.

j E porque tudo foi feito para Ele, tudo foi igual-

i
I
mente feito para vós.

l
Todas as criações angélicas, humanas, e tudo
o que está abaixo delas, tudo é para Ele, tudo é

i
) para vós.
Desde os séculos infinitos, a conceição futura
j do Homem-Deus encen-a a de sua Mãe.
� Se a do Filho de Deus é toda, toda santa, infi-
nitamente afastada de toda a simples aparência do


� pecado, não convém, e num grau superior, que seja

l)
parecida à conceição d'Aquela de quem um dia há-
-de nascer ?
E foi por isso, Virgem puríssima, que fostes
i
I
concebida sem pecado, sem sombra de pecado, no
) seio de Ana, vossa mãe.
i
Í
O pecado original, que devíeis contrair como
qualquer filha de Eva, foi incapaz de atingir-Vos,
i por causa dessa predestinação eterna para a ma-
i ternidade divina. Um opróbrio de tal ordem , refle-

1�.
1
tir-se-ia perpetuamente no vosso Filho,
mesma Santidade.
Jesus, a

(
{

(') Prov., VIII, 22.


66 ����-��'-"""__....._. )

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Com que insolência não poderia Satan ter-lhe
dito : venci-Te na Tua Mãe. Aquela que te deu o ser,
esteve por instantes sujeita ao meu domínio.
Mas não, não aconteceu assim, sois de tal ma­
neira sem mancha que podeis dizer-nos :
«EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO».
Ê o acto de fé que faço, antes de tudo, quando
clamo :
AVD MARIA, CHEIA DE GRAÇA.
Em vós, o pecado é inconcebível ;
Em vós, só existe a graça de Deus.
Em vós, só existem o seu esplendor, a sua luz,
o seu amor, as suas inefáveis complacências.
Sois, sem dúvida, a sua Filha bem amada, a
única em quem não houve mancha.
Em vós, tudo é puro, tudo é santo, tudo é vir­
ginal, tudo é imaculado.
Fostes concebida e nascestes como o «Lírio
da gloriosa e sereníssima Trindade» . (1)
Em vós, nada da concupiscência, dos seus
amargos frutos e taras.
Sois a santíssima criatura de Deus, aquela que
está destinada a conceber e dar ao mundo o Santo
dos Santos ; aquela também que com Ele, conce­
be, no vosso Seio, a multidão dos Santos e Santas
de Deus.
õ cheia de graça, quem vos há-de render as

( ') S ... Gertrudes:

67
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��=�::::!:
sobretudo vos não há-de amar, a toda bela, em quem )
não há mancha ? )

§ 4. - UMA PLENITUDE DE GRAÇA

A V.l? MARIA, CHEIA DE GRAÇA.


õ Maria, sois mna profusão de graças, dessas
graças que fazem de vós a Santa dos Santos.
Sois um mar espiritual de graças. (1)
Quem poderá compreendê-lo ?
Nem os espíritos dos homens, nem os dos an­
jos, juntos, poderiam conceber a plenitude espiri­
tual da vossa alma.
Quem pode imaginar os tesouros de graça que
Deus quis empregar na construção do templo vivo,
onde, durante nove meses viria habitar a Sabedo­
ria divina ?
Atendei : Deus Pai, gera o seu Filho único na
eternidade.
Ora esse mesmo Filho único, Maria gera-o para
o tempo, enquanto Homem, Homem que é Deus.
Eis o Pai e a Mãe da mesma Pessoa divina.
Maria não produz a natureza divina que existe
por si mesma, mas como o Pai gera realmente
a Pessoa do seu Filho, assim Maria gera real-

(') s.• Epifânlo.

68
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�::;; ::� ;: :� �
- � �

��::�::o:

ilh n to
carnado.
Necessidade no Pai,
i
Milagre em Maria,
i
Glória eterna para ambos.
i
ó Maria, como se fará este milagre que é exclu-
l

sivamente vosso ?

É da vossa mesma substância que produzia o


vosso Filho único, esse Verbo que em vós incarna.
Essa substância não é rica como a do Pai ; não
tem como ela perfeições infinitas, porque é sempre
substância de criaturas, tirada do nada.
Quem vos dará a possibilidade de gerar um
Homem-Deus da vossa própria capacidade ?
Uma graça inaudita, que necessàriamente tem li
de suprir o que por natureza vos falta. i
Donde ireis receber essa graça ? i
<
Esgotareis todos os tesouros de Deus, ainda que

i�
inesgotáveis.
Porque, repito, essa graça encootraste-la.
Entretanto, mesmo depois disso, mesmo depois 1

deste esgotamento dos tesouros , continuareis sem-


pre uma criatura, não um Deus, como o Pai do
vosso Filho único. ,
I
Vou eu afirmar, que tinheis precisão de vos \
I

i
igualardes com Deus, para de igual sorte serdes a
Mãe do Verbo eterno ?
Não praza a Deus ! Quem ousaria, sem blasfe­
mar, admitir uma conclusão assim ? Mas colherei )
I
69 - �� � �
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' . � � -v--�·�-·��· - · .��--����-�--� �·�-�·-�·���
esta, que é de um dos vossos servos mais ilustres,
S. Bernardino de Sena :
«Foi preciso que Maria fosse elevada a uma
certa igualdade com Deus : Unde debuit elevari ad
quandam cum Deo aequalitatem».
Não diz : a uma perfeita, mas a uma certa
igualdade com Deus. Comparada com Deus, Maria
não é nada.
Mas é porventura proibido comparar a cópia
com o original ?
Deus não criou o homem à sua imagem e seme­
lhança ?
Maria deve ter sido elevada a uma certa igual­
dade com Deus.
Eis o que consagra a honra suprema de Deus
na sua incomparável grandeza ; eis também, o que
eleva a glória de Maria ao mais alto grau, a que
a criatura mais nobre, podia subir.

Destes raciocínios, tiro uma outra conclusão que


seduz a minha alma :
ô Maria, se tudo isto é verdade - e eu estou
pronto a morrer para o confessar - recebestes uma
graça maior que todas as criaturas juntas. A vossa
plenitude de graça é de tal ordem que ultrapassa
o número incontável das graças feitas aos nove
coros dos Anjos, concedidas a todos os santos que
estão no céu, na terra ou n o purgatório ou dispen­
sadas a quantos hão-de existir até à consumação
dos séculos.
i(
�� 70 �-��������-��� '"- " - ��-� ·
https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Sois mais rica que todo o paraíso junto ; porque
todas as graças dos Anjos, dos Santos e de todos os
homens que existiram, existem e hão-de existir,
juntas, seriam incapazes de elevá-los a uma igual- >

dade com Deus, capaz de produzir, como Vós, o seu �>


Filho único.
Existe em vós uma espécie de imensidade de
!�
graça, inconcebível para o espírito de todos eles. �
Mas isto será muito para uma Mãe de Deus ? �

��
E foi por isso que fostes alvo de maiores home-
nagens que todos os Anjos e Santos juntos.
E para nós, esse facto constitui uma obrigação
correspondente de Vos tributar mais honras, mais
louvores e mais respeito, que a todos os Anjos e
Santos.
i
A estes honramo-los com um culto de dulia; �
mas para Vós, e exclusivamente para Vós reser­ �
vamos um culto de hiperdulia.
Mais não fazemos que imitar o próprio Deus.
1
>

CHEIA DE GRAÇA . . .

Quando se considera, com os teólogos mais


- \.
I
1

I
ilustres, que em razão da sua predestinaçao para a

l
Maternidade divina, em virtude de uma Conceição
Imaculada exigida por essa mesma Maternidade,


. desde a sua Conceição no seio de Ana, sua mãe, Maria
estava de posse da graça superior que acabamos de ,


contemplar ; de posse de uma graça, que desde o 1

primeiro momento ultrapassava já a das nove hie-

' -�� v·. , .. � · - 71 -� �


https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
·�--··- · - - � - -��·--. ·-� � - · � , - , , , , ��-. ,,�-
� ;:;;�: :��;�:� :� � :� :: �����: �::
,� - �·- - � � �
i s d tas
� de Deus , de todos os homens que existiram, que
existem, e hão-de existir ; quando pensamos que esta
primeira graça inicial foi o ponto de partida de uma
infinidade de graças sempre crescentes, sempre
maiores, mais eficazes, mais sublimes, mais divi­
nas, até à sua feliz Dormição, ao findar a vida ter­
rena, chegando à plenitude final da graça, ficamos
estupefactos, extasiados.
Começamos então a compreender um pouco
daquele versículo do seu MAGNIFIOAT:
O Todo Poderoso realizou em mim grandes coi­
sas : FEOIT MIHI MAGNA QUI POTENS EST. ( 1 )

§ 5. - A MEDIANEffiA

A V.lil MARIA, CHEIA DE GRAÇA.


Sois repleta de vida divina, para vós mesma ;
mas, porque Mãe do género humano, Mãe dos vivos
prefigurados em Eva, que ultrapassais de mui­
tas formas, sois uma superabundância de graça
para nós.
Porque Deus assim estabeleceu nos seus planos
eternos, sois a associada de Jesus em tudo , pois
fostes vós que inefàvelmente no-lo destes.
E agora, quere que formeis Cristo nas nossas
almas, em nós , no pobre que eu sou.

(�) Lc. I, 49.

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
)
)
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�����------
- -...----�""-"--�-�.---�'"'-- ------ ....._ -_,.._,-._-. � -�......___._ ...

I
Quere que sejais a Mãe do Seu Corpo Místico,
como fostes a Mãe do Seu Corpo natural.
Ninguém pode nascer para Deus em Jesus
Cristo, sem nascer também de Vós ; e é por isso que
tenho necessidade, com todos os meus irmãos em
Cristo, de me enriquecer com a vossa plenitude.
Vós e Jesus, sois inseparáveis na obra da mi­
nha salvação.
A sua vontade e a vossa, de mãos dadas, con­
sentem, concorrem, operam, merecem, satisfazem,
intercedem, para nos alcançarem a graça, cada uma
a seu modo.
Foi Deus que assim o quiz, e em Deus não há
lugar para arrependimento.

Oh ! sem dúvida, Jesus será a causa principal


de todas as consequências da salvação, mas vós sois
a causa secundária.
Sois, depois d'Ele, o modelo dos predestinados.
Ele obtém a graça, por um direito de justiça ; vós
consegui-la por um título de conveniência e ami­
zade incomparável.

Jesus satisfez cabalmente para nos resgatar ; a


vosso modo cooperastes neste resgate.
No céu, diante da Face de seu Pai, Jesus inter­
cede, com as chagas benditas que lhe mostra ; Vós,
sois a Omnipotência Suplicante.
É por isso que vos chamam a Medianeira uni­
versal de todas M graçM.
Se Jesus é o nosso Mediador junto do Pai, vós

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
sois a nossa Medianeira junto de Jesus. Quem, me­
lhor que vós, pode cumprir essa missão ?
Sois tão boa, tão terna, tão misericordiosa !
Quem sabe rezar como vós ?

Jesus possui a graça em plenitude absoluta ;


ultrapassou todas as capacidades.
Mar sem praias, alberga as águas de todos os
oceanos de graças.
:m que, Homem-Deus, comunica intimamente
com a fonte infinita das graças, a sua Divindade.
Quem, mais que Ele, poderia estar perto de
Deus ?
A sua graça, enquanto Homem, é uma pleni­
tude sem limites, até ao último grau possível, de
harmonia com a potência ordinária de Deus.
Ora, uma tal plenitude, ó Maria, é de algum
modo, a vossa ! As graças que Jesus nos destina, pos­
sui-las, em depósito, e tendes o encargo oficial de
no-las distribuir.
Jesus comunica-vos quanto adquiriu, pela sua
vida e morte ; méritos infinitos, virtudes admirá­
veis. Sois a Tesoureira de quanto o Pai lhe legou
como herança.
Por vosso intermédio, aplica méritos, comunica
virtudes, distribui graças. Sois o canal misterioso,
o aqueduto límpido, por onde docemente faz passar
com abundância o rio das suas misericórdias. (1)

(' ) S. Grignion de Montfort.

� 74
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r Sendo assim, diz S. Bernardo, nenhuma graça
�' desce do céu à terra sem passar pelas vossas mãos.
i
� 6 MARIA, AV.S CHEIA DE GRAÇA.

Foi por vós, que Deus nos deu Jesus Cristo, e


é por vós ainda que imicamente no-Lo dá, quando
nos quere fazer beneficiar das suas graças.

AV.S CHEIA DE GRAÇA!

75 �

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O SENHOR É C ONVOSCO

§ 1. - A PREDESTINADA

O SENHOR É CONVOSCO.

O sublime Gabriel, que maravilha do Grande Se­


nhor anunciais à divina Maria !

O SENHOR É CONVOSCO.

Dizei-nos, pois, até que ponto e como Ele está


com Ela, até que ponto e como Ela está com Ele !
Quem é este Senhor ?
É o Senhor do céu e da terra, o Senhor de todos
e de tudo, o vosso Senhor, particularmente, ó
Maria.
É o Senhor todo poderoso, o Senhor sapientís­
simo, o Senhor riquíssimo, o Senhor eterno.
Já alguém viu coisa semelhante, e vê-Ia-á algu­
ma vez mais?
E Vós , ó Virgem, sois a Filha nobilíssima do
Senhor, a Mãe sem mancha do Senhor, a Esposa
Imaculada do Senhor, desse Senhor, que é Uno em

�����-��� �-� ���w��w� 77


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1/� �;:--.;::� Pessoas, de quem vos declarais
ser humilde serva.
ó Maria, o Senhor, está certamente convosco ;
esteve, está e sempre estará ; convosco, como o Sol
com a aurora que o anuncia ; convosco, como a flor 1

com o arbusto que a produz ; convosco , como o Rei


com a Rainha.
Não é Jesus o mais brilhante dos sois ?
Não é a mais preciosa de todas as flores?
Não é o Rei dos Reis ?
Está convosco, e vós estais com Ele . . . Quem
cantará as vossas grandezas ?

O SENHOR Ê OONVOSOO

Já o disse, mas é bom repeti-lo e aprofundar


este mistério :
O Senhor é convosco, desde a infinidade dos
séculos, antes de todo o princípio, antes de nada
existir.
Desde que Deus é Deus, alimenta um projecto
magnífico, assombroso, no meio de nós.
Medita na criação dum Homem que será Deus.
Um Homem-Deus, o seu próprio Filho, o seu Verbo,
o seu Pensamento, a Palavra em que se exprime
·

cabalmente.
Nos seus planos eternos, medita em Jesus
Cristo. Esse Jesus, no momento aprazado, será a
primeira, a mais esplêndida das criações, ultrapas­
sando-as infinitamente a todas.

78
https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Será a razão , o centro, e o fim de tudo ; será
mesmo o Chefe único, recapitulando tudo o que
existe, se move e vive, no céu e na terra.
Cristo será a síntese perfeita.
:É assim que o quere, independente de Satan ;
que vai tentar, quando chegar a hora, perturbar esse
plano pelo seu pecado e pelo homem.
Ora, para realizar este plano, esta obra prima
única, a sua bondade dispõe de uma infinidade de
meios ; mas de entre todos escolhe um só ; para um
exclusivamente reserva as suas preferências, a sua
predestinação eterna ; e esse sois vós ó Maria.
Aquele que era, que é, e que há-de vir (1) , nas­
cerá do vosso Seio Virginal, da vossa carne, do
vosso sangue mais puro.
Sereis, no verdadeiro sentido da \palavra, a
Mãe de Deus ; e porque Mãe de Deus, sereis ao mes­
mo tempo a Mãe dos homens.
Daí em diante, O Senhor Jesus e Vós, sois in­
separáveis. Deus previu tudo isso, desde o começo
e antes que qualquer coisa existisse.
Tudo foi jeito par Ele, o Verbo Senhor ; tudo
foi jeito para Ele (2) Verbo Incarnado, o Senhor
Jesus.
Pode dizer-se, partindo daqui, que também
para vós foram feitas todas as coisas. Os universos

�����(�') Apoc.,
!
I, 8.

��
(') Col., I, 16.
� . ���� 79
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�:::-�=�:::::��!
para vós.

O que lhe convém por natureza, convir-vos-á


por graça.
Daí, todos os vossos privilégios, todas as vos­
sas prerrogativas, todas as vossas alegrias, todas
as dores, todas as glórias.
Participais na sua Mediação Universal, na dos
anjos e na dos homens ; e é em vossas mãos que
coloca as graças a distribuir, para a salvação dos
eleitos.
E ass im corno ele será o Rei imortal dos séculoo,
vós sereis a «Rainha do mundo». As hierarquias
celestes, as gerações humanas, proclarnar-vos-ão
bernaventurada e soberana fielmente servida.
O culto que vos tributarão, será uma escravi­
dão de amor, e para todos será motivo de consola­
ções inefáveis, motivo de honra.
Eu vos louvo por isso , ó Mulher sem igual,
digna deste Homem único !
Ê assim que o Senhor está convosco ! . . . Mas
não é tudo.

§ 2. - MAGNIFICAT
(
MARIA ! O SENHOR É CONVOSCO.

Um Santo chama-vos « complemento de toda a
Trindade, TOTIUS TRINITATIS COMPLEMEN­ l
TUM». (1)
l
S
(')
Q
s. Hesiquio, Patriarca de Constantinópola.
��--����������w� �
https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Mas faltaria, acaso, alguma coisa ao Ser abso­
lutamente perfeito, ao Pai, ao Filho ou ao Espírito
Santo ?
Nem Jesus, enquanto Homem, por Santo que
seja, nem vós ó Virgem perfeitíssima fazeis alguma
falta a Deus. Deus basta-se a si mesmo, e não pre·
cisa de mais ninguém.
Mas fora d'Ele, não pode como que crescer, en­
grandecer-se com uma glória, acidental ao menos,
e que por esse facto mesmo realce aos olhos das cria­
turas encantadas, a beleza do seu Ser?
Não poderá unir-se a uma criatura, e isso num
grau tal como até então nunca tinha feito ?

O SENHOR Ê CONVOSCO, õ MARIA.

Porque, sois vós, que desta forma, aumentais,


completais, acabais, se assim podemos dizer, o nosso
grande Deus.
Não seria, em suma, o sentido desta palavra
MAGNIFICAT ?
prodigiosa :
A minha alma, dizíeis, glorifica, fmgrandece o
Senhor, e exulta n'Ele.
É como se o vosso ser ampliasse ainda mais as i
\
dimensões do Incomensurável ; MAGNIFICAT DO­ i
(

I
M/NUM.
Oh ! quem jamais compreenderá as profundezas
desta palavra, deste cântico ? Os Santos e os Douto­
res, Virgem toda bela, em vão se esforçam por isso :
é um abismo insondável. )

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81 �
O que o Magnificat contém, ó Mulher, só Deus,
que vos teve presente desde o princípio de todos os
seus caminhos, o sabe.
I!
E não me admiro por isso que a Igreja nem wn
só dia do ano o omita.
Nem sequer em Sexta Feira Santa !
Nesse dia, não engrandeceu, não glorificou tam- 1
I
bém a Deus ?

O SENHOR 1l CONVOSCO.
!
O Pai do céu é convosco, como com ninguém, pois
vos permite, ó Maria, engrandecê-lo, ainda que aci­
dentalmente. E, com efeito, pela sua inteligência,
conhecendo-se, a Ele e todas as coisas fora d'Ele,
concebe e gera eternamente o seu Filho.
E, este Filho, ó Pai, brota do vosso seio, esgota
por si só a vossa fecundidade de Pai. fl o vosso único
Filho consubstanciai, Deus de Deus, Deus verdadeiro
de Deus verdadeiro.
Mas aí não interferem nem a vossa vontade nem
a vossa liberdade : o vosso Verbo é necessário.
Sem ele, nem mesmo seríeis Deus, não haveria
Deus.
Nasce do Pai, é o Verbo, o Pensamento do Pai,
que exprime numa Palavra muito secreta.
Palavra infinita que exprime totalmente o Pai e
tudo o que Ele pensa.
Palavra sem emissão de voz ; sem sílabas, sem
sucessão de frases, sem comentário.

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Uma só Palavra que exprime o mundo infinito
dos pensamentos, que poderiam ser pensados ; uma
só Palavra, que por si só, exprime o mundo infinito
das palavras que poderiam ser articuladas.
Um só Verbo, filho de Deus, canta toda a glória
de Deus, que existe dentro e fora d'Ele.
Ora, essa Palavra não poderia de qualquer for­
ma exteriorizar-se, tomar corpo, aparecer ; Palavra
nova que seria ainda e sempre, a antiga, a única, mas
que se tornaria sensível e comentário divino do Ine­
fável ?
Sim, o Pai quis essa palavra ; fê-la, e é Jesus
Cristo.
E foi por Vós, MARIAJ que a fez, ó Mãe da Pala­
vra que jamais se extinguirá. Depois que se escapou
de vossas entranhas, é a vida mesma que nós vimos ;
ouvimo-la, palpamo-la.
Uma Palavra eterna, acrescentada a outra Pala­
vra idêntica, no tempo ; que engrandecimento do
Filho !
Não constituiria esse facto para vós motivo de
engrandecimento e de louvor ?
Não só tivestes possibilidade de realizá-lo, mas
quizeste-lo sempre desde os séculos dos séculos.
E foi para realizar esta obra prima das obras
primas, que escolhestes e criastes MARIA.
Será ela o instrumento virginal deste divino en­
grandecimento.
MAGNIFICA T! Aquele que existe, na Trindade �
Santíssima e se chama Filho de Deus, será, simul- )

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83 �
tâneamente o Filho de Maria, nascendo das suas
entranhas, à sombra do Espírito do Pai e do Filho.
E todos, Anjos e homens, o reconheceremos e
adoraremos com um único e mesmo Jesus Cristo
Senhor Nosso.
Oh ! este Filho de Deus, acrescido do Filho de
Maria !
MAGNIFICAT!
E foi até estes extremos que o Pai quiz estar
com MARIA.

O SENHOR Ê CONVOSCO.

Virgem toda bela, o Filho de Deus, o Verbo do


Pai, quere que a sua glória imensa esteja convosco.
E por esse motivo, podeis engrandecê-lo, e de
algum modo completar Deus Filho .. MAGNIFICAT...
.

DOM/NUM.
Nasce no seio da SS. Trindade, Deus de Deus,
Luz de Luz ; e é assim, por Maria, que será facultado
ao Filho único, que está no Seio do Pai, falar-nos
desse Pai, pelo facto de nascer do vosso seio, ó Maria
...

MAGNIFICAT.
Foi até estes extremos que o Filho de Deus quiz
estar convosco !

O SENHOR Ê CONVOSCO.

Maria, podeis engrandecer e glorificar o Espírito


Santo, o Amor do Pai e do Filho. o o

MAGNIFICAT.
;

84 �'�W������� ,��w���,�·��·�

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
���
��:;:�;:::�::-�
sois o fruto adorável de Um e de Outro, ficareis esté-
ril, não produzireis, pelo vosso lado, nenhuma Pes-
soa ? Ah! da vossa substância, não, é impossível;
!!
)

pois sois o fruto único do Amor mútuo de ambos.


Mas, aquela que é Virgem, não poderá propor­
cionar-vos os meios de o conseguirdes?
Não podeis, através d'Ela, tornar-vos o princí­
pio dum fruto novo, mas sempre antigo, o princípio de )
uma Pessoa divina provinda não da vossa Essên­
cia, mas do vosso Poder ?
Sede pois o Esposo divino de uma Imaculada.
à vossa sombra, produzirá Ela o Filho do
Altíssimo. E vossa sombra, será também, o Justo
José, que há-de proteger este comércio secreto e
inefável.
Hão-de tomá-lo, e sem mentira, pelo Esposo
desta Virgem Mãe e logo pelo Pai de Jesus.
Mas a virtude do Altíssimo, o poder que fecWI­
dará Maria, Terra virgem, sereis Vós e só Vós.
A vossa fecWldidade dar-nos-á Jesus, Verbo do
Pai, Primogénito de uma multidão de irmãos. (1)
E dest'arte a Filha eterna do Pai, a Mãe admi­
rável do Filho, será chamada a Esposa Imaculada
do Espírito Santo. E assim ter-Vos-á também
engrandecido . . .
MAGNIFICAT.

I
Rom., vm, 29. I
I
(')
s
�-v�� '"�"· ·· � - �-�--- •-�� ��,··. .. vv� � •••• · . . ...... ,·. -� � .. � 85 ���� )

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
, .• .
E será nestes termos que Deus Espírito Santo
estará com MARIA.
õ gloriosa fecundidade de toda a Trindade
Santíssima. TOTIUS TRINITATIS COMPLEMEN­
TUM.
õ complemento, engrandecimento, aperfeiçoa­
mento de um Deus por uma Virgem !
MAGNIFICAT!
Depois da hora da Visitação a Isabel, mãe de
João Baptista, foi este o hino, que os séculos can­
taram, cantam, e hão-de cantar eternamente !
Sendo assim, Gabriel exprimiu-se bem :
AVE MARIA, CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR
B CONVOSCO.

§ S. - MANANCIAL FECUNDO

Porque o Senhor está convosco e de uma forma


muito especial, eu vos saúdo.
Está convosco pela sua bondade. «Deus, é
a bondade por essência», diz S. Leão.
Ora, a bondade faz tudo, pode tudo, só não pode
ficar dentro de si. Tem necessidade de se comuni­
car, de se dar, de se difundir por todas as formas.
E quanto maior é a capacidade, menor é a pos-
l sibilidade de permanecer sem se comunicar.

l Tal bondade seria suportável, se não se suavi-

li
s zasse transbordando da sua abundância.
Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, são a Bon-
dade por essência.
1

� 86 ��

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O Pai, Bondade Infinita, incansàvelmente e des­
de toda a eternidade das eternidades, deve expan­
dir-se no seu Filho.
Sendo desta sorte, idêntica no Filho, esta Bon­
dade do Pai e do Filho deve difundir-se e comuni­
car...:se inteira no Espírito Santo.
O Espírito Santo, Bondade ainda, como o Pai e
o Filho, não pode difundir-se noutra Pessoa ; comu­
nica-se n'Aquela que mais se aproxima das Pessoas
divinas ; difunde-se em Vós, ó Maria, Virgem Mãe,
Esposa do Amor do Pai e do Filho.
E vós mesmo que tão admiràvelmente herdais
esta Bondade, o Senhor torna-vos tão fecunda, que
produzia uma Pessoa divina numa natureza huma­
na, o que verdadeiramente vos constitui Mãe de
Deus.
Depois a partir de vós, a Bondade transfonna-se
em fonte inexgotável duma infinidade de bens que se
derramam na Igrej a !
ó maravilha da Bondade Infinita !
ó Maria, éreis vós talvez, aquela fonte, que
desde a criação do mundo, Deus colocou no meio do
Paraíso terrestre, no Eden das delícias ?
Os Santos Doutores, que vos cantam, afirma­
ram-no e repetem-no (1 ) .

(1) Segundo o P. d'Argentan, Conf. Teol. sobre a SS.


Virgem.

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�;o�� :: a:e:� -;:� �
- -�� -� � - J �- ��
�:� :� :
� l tràri à
corrente que corre para baixo, esta fonte corria i
para cima, FONS ASCENDEBAT DE TERRA. (1)
Escapava-se e brotava da terra em grandes bor­
botões, dividindo-se em quatro rios imensos, para
regar a superfície da terra. Irrigabat faciem terrae .
Levava a todas as terras a fresquidão, a fecun- ·

didade, para produzir tudo o que servia para ali­


mentar os seres vivos.
Sabemos que este Paraíso figurava a Igreja ;
mas a Fonte, diz S. Jerónimo, sois Vós, ó Virgem,
que proporcionais alimento a todos os eleitos.
A Escriutra guardou o nome destes grandes
rios, cada qual com o seu significado e que ao mes­
mo tempo revelam os prodígios da Bondade divina
em vós.
Eram o Phison, o Géhon, o Tigre e o Eufrar
tes (2) .

O primeiro rio chama-se Phison, isto é : que


produz ouro.
O ouro é preciso adquiri-lo, custe o que custar ;
é preciso dar tudo para o possuir, diz a Sabedoria.
O ouro, é o amor sagrado, é a caridade santa,
é a graça santificante, e sem ela temos a morte
eterna.
Que rio ! e quantos braços não tem : os Sacra-

(' ) Gen., li, 6, segs . .


(') Id., 11, 11-14.

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mentos e todas as práticas da nossa santa Religião ��
O rio Phi.son que contém águas mais preciosas
que todo o ouro que arrasta, isto é, a abundância �
das graças santificantes, é Jesus Cristo, o Filho de �
Deus, o Filho de Maria.

Este Jesus, Homem-Deus, não existe por si


mesmo, como Deus ; existe por seu Pai ; que seria
sem o Pai ?
Como Homem, existe pela sua Santíssima Mãe ;
que seria sem a Mãe ?
Recebe do Pai toda a Divindade, da Mãe toda a
Humanidade.
Deve ser Deus e Homem, para ser o grande rio
das graças que santificam e salvam.
Pai e Mãe esgotam a sua substância para o pro­
duzirem.
O Pai fá-lo todo semelhante a Si, a Mãe todo
semelhante a nós.
Ambos, constituem a Fonte onde o rio começa.
õ Pai adorável ! õ Mãe admirável !
Como o Senhor está com MARIA ! como MARIA
está com o Pai ! e como ambos estão com Jesus !

O segundo rio chamava-se Géhon, isto é : a


saída do peito e como que a expansão do coração.
Enquanto Deus, Jesus sai eternamente do peito
I
de seu Pai, donde, ó Maria, desce ao Vosso Seio, I
para dali brotar semelhante a nós, para se dar a i
nós, nos abrir o seu Coração.

89 �1
1
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Ali se vão haurir todos os tesouros da ete ��
I
dade. E desse peito eterno e temporal, que brota
o grande rio das graças, que vão irrigar toda a
terra, de que a Igreja é a face, constituindo a sua ?

beleza sem par : lrrigabat faciem terrae. Não foi


Ele que um dia disse : «Se alguém tem sede venha
até mim e beba? (1 ) . Neste rio divino, bebe-se à
discrição.
E é sempre como de duas fontes, como de um
duplo peito, que sobre ele se espraia assim, quem é
atraído e torturado por esta sede.
Um é o Seio eterno do Pai, o outro o seio vir­
ginal de Maria.
Quem duvidará jamais que o Senhor está com
Ela, e Ela com o Senhor ?

O nome do terceiro rio é o Tigre, que significa,

1ji
a seta volante.
Qual o poder destas setas volantes ?
São as graças actuais, as santas inspirações de
Deus, as graças que previnem, que excitam, que nos
movem a vontade tantas vezes rebelde. 1
i
Dir-se-iam dardos de amor que atravessam os
corações para os fazer morrer para o pecado, e levá-
-los á penitência.
E um rio de misericórdia e de perdão . ,1

Ah ! tantas vezes o coração está fechado, entor-
i
i
I
pecido, e a dormir ! �

!

(
90
' ) Jo. , I, VII, 37.

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Quem pode abrir-nos o coração, despertá-lo e
encaminhá-lo amorosamente para Deus ?
São estas flechas lançadas pelo grande rio Jesus
que revolvem a terra estéril e tantas vezes ingrata
das nossas almas.
Mas quem tem a aljava em seu poder é MARIA;
é ela que a seu divino Filho apresenta as flechas
que há-de desferir�nos.
õ Virgem, Distribuidora das graças, vi escrito
que tendes autoridade total sobre todos os favores
que nos são dispensados.
Desde que em vosso seio trouxestes o Verbo
eterno, Jesus, não vos compete uma como que juris­
dição sobre os tesouros espirituais do Espírito de
Amor ? (1) Igualmente li que graça alguma vem
do céu à terra sem passar pelas vossas mãos. (2)
Jesus é o Chefe que a s espalha em torrentes ; vós
sois o canal por onde passam antes de irem espa­
lhar-se sobre todos os recantos do Corpo Místico.
O Pai celeste lança-as do seu Seio na alma de
Jesus, e dessa alma deslizam para a de uma Vir­
gem Mãe.
E deste modo, ó Maria, parece terdes uma certa
jurisdição sobre a influência de todas as inspira­
ções divinas que chegam à minha alma.
Sois como que um oceano da Divindade ; em vós

(') S. Bernardino de Sena.


(') S. Bernardo

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nascem todos os rios e regatos de graças ; e a nas­
cente é o vosso seio puríssimo.
Uma tal jurisdição, estende-se a todos os dons,
:�. todas as virtudes, a todas as graças do Espírito
Santo.
Das vossas mãos espalham-se sobre quem dese­
jais, quando quereis, como quereis, e na medida em
que quereis.
Poderia Deus estar mais intimamente convosco ?

Há ainda um quarto rio, o Eufrates, que signi­


fica abundante em frutoo.
No sentido espiritual este rio, de margens fér­
teis, abunda em frutos do tempo e da eternidade.
Nele contemplo, ó Maria, os méritos de todas as
boas obras que foram, que são ou hão-de vir a ser
realizadas pelos vossos servos.
Os trabalhos dos apóstolos e os sofrimentos dos
mártires ;
as orações das almas contemplativas,
as austeridades e os longos martírios dos con-
fessores,
os combates heróicos das virgens,
a fidelidade admirável das viúvas,
a caridade dos ricos, a paciência dos pobres ;
numa palavra, todos os frutos das virtudes pra­
·cadas na Igreja. Ah! sim, esta tornou-se o verda­
iro jardim do Senhor, o novo Paraiso terrestre.
Que dizer dos frutos incontáveis, já sazonados

92 �.�������

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c recolhidos no Paraiso celeste da glória, que os
Santos e Santas de Deus colheram !
Foi o Eufrates que os produziu a todos.
O Eufrates, isto é, aquele que é Filho da vossa
Virgindade santa, da vossa fonte puríssima, ó san­
tíssima Mãe de Deus.
Deus esteve convosco, como com ninguém, para
produzirdes uma tal abundância e serdes o centro
de todas as mercês.
Sim, em verdade, podemos exclamar à sacie­
dade :

Sim, em verdade, podemos exclamar à saciedade :


O Maria, cheia de graça, O SENHOR S CON­
VOSCO.

93
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BENDI TA SOIS VÓS
ENTRE AS MU LHERES

AVÊ MARIA, CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR


É CONVOSCO, BENDITA SOIS VóS ENTRE AS
MULHERES.
,

E o mais santo, o mais se-


o Cântico dos Cânticos,
creto de todos os cânticos que fala assim de vós,
ó Maria :
Há sessenta raínhas, e donzelas sem conta;
uma só é a minha pomba, a minha Imaculada,
a única... a preferida.
As donzelas, e as raínhas viram-na e procla­
maram-na bemaventurada. (1)
E nesta linguagem misteriosa que sempre vos
reconheceram e hão-de reconhecer eternamente.
Só há uma Mulher, a Mulher por excelência, que
contemplámos,
revestida de sol, com uma caroa de doze estrelas
na cabeça (2) .
A Mulher, resplandecente com os fulgores da
Divindade que a queimam de amor, com todas as

(') Cant. Cant. VI, 8-9.


(2 ) Apoc., Xll, I.

94
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virtudes que, como astros do firmamento, a exor­
nam e embelezam até mais não.
ó Mulher, bendita entre todas e a todas supe­
rior, como sois bela, ó toda bela, a única, a pre­
ferida !
Só depois de condenada é que Eva, a primeira
mulher, é chamada a Mãe dos vivos (! ) .
Eva perdeu-nos pelo pecado, e dão-lhe um título
que só a vós, MARIA� pode verdadeiramente apli­
car-se . . .
É que Eva, a partir daquele momento, trans­
formava-se, passava a ser a maior das profetizas
que vos anunciavam, porque desde então lembrava
a mulher que devia esmagar com o seu calcanhar a
cabeça da serpente infernal.

Um grande Santo, considera a genealogia de


Jesus Cristo, como uma escada celeste de vários
degraus.
Nessa exposição faz sobressair duas mulheres,
uma no cimo outra no fundo :
uma que é a mãe da morte, outra que é a Mãe
da Vida ;
uma que foi vencida pelo demónio, outra que
lhe proporcionou remédio ;
uma que lançou a maldição sobre toda a posteri­
dade ; outra que fez subir a benção até ao mais alto
de todos os seus ascendentes ; benção que espalhou

(') Gen., m, 20.

95
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abundantemente sobre todos os que se lhe segui·
ram (1) .

õ MARIA; todos os Santos Padres, todos os


Doutores, vos repetem com a Igreja, este louvor :
Vós transformastes a antiga maldição numa
nova benção.
Vós reparais o que Eva estragou.
«Desgraçada, como fala Tertuliano à primeira
mulher,
«Tu foste a presa do diabo, que te guiou para
o fruto proibido, a primeira que abandonaste a lei
do teu Soberano, que derrubaste Adão que a ser·
pente não ousara atacar ;
que desfiguraste a imagem do Criador, e para
reparação do teu crime foi preciso que um Deus
morresse (2) .

Mas consola·te, pobre criatura, exclama S. Ber­


nardo :
«Eis que chegou o tempo, em que será levan­
tado o · opróbrio em que incorreste.
«E nunca mais será permitido dizer a Adão, que
a mulher que recebeu de Deus o fez cair nas ciladas
de Satan. Terá de confessar que por meio da Mulher,
foi livre delas.
Apressa·te, Eva, e apresenta·te a Maria !

( ') S. Bruno Sermão da Natividade de N. Senhora.


(') De habitu mulierum, c. i.


96
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Que a Filha responda pela mãe ; que recolha as
queixas e as repreensões de seu pai ; porque se o
homem foi arrastado na queda pela mulher, a Mulher
o levantará ; mas uma Mulher cheia de sabedoria
que sucede a uma louca, a uma imprudente ; uma
Mulher humilde, que lhe é dada em vez da orgu­
lhosa ; uma Mulher que lhe dá a vida, em Iogar
daquela que lhe comunicou a morte. (1)

Vinde todas, ó mulheres, de qualquer condição


que sejais ; vinde prestar as vossas homenagens
àquela que vos restabelece na honra.
Vinde, virgens, render o vosso preito àquela
que é o vosso modelo e a vossa Rainha ;
vinde, mães, saúdar a vossa maior glória ;
vinde, amas, vinde venerar, admirar e cantar a
ama mais casta do mundo.
Que todas as idades, todas as condições, todas
as profissões, que todos os homens venham também,
render o mesmo preito, a quem os salva pelo Fruto
bendito das suas entranhas.
Que homens e mulheres se apliquem a servir, a
amar, a agradecer a Maria a bendita entre todas as
mulheres.
Porque foi por ela irnicamente, porque escolhida
entre todas, que Jesus, o Filho de Deus, veio a este
mundo ; e assim onde abundou o pecado superabun­
dou a graça ; e por onde a morte tinha entrado, veio
também a vida ; a vida tomou o lugar da morte.

(') HorniUa da Anunciação.

97 �

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��w�;:::=
:::� =���=-
Mulher, expulsou a morte introduzida pela mulher.
E foi assim que aqueles a quem a carne de Eva
mais não poude fazer que filhos dos homens, renas­
cidos do Filho de Maria são chamados Filhos de
Deus.
Avé Maria, cheia de graça ;
Avé, reconciliadora do mundo,
garantia da paz, porta da Vida, enfim, entrada do
Paraíso.

BENDITA SOIS VóS ENTRE AS MU­


LHERES;
Sois a única, na verdade, que escapais à mal­
dição que as atinge a todas. Conceberás na dor (1 ) ,
dizia Deus a Eva depois do pecado.
Só vós escapais a uma outra que se lhe segue :
Maldita seja a mulher estéril em Israel ( 2 ) .
Recebeis, pelo contrário, uma benção especial,
para de alguma forma não permanecerdes estéril e
ao mesmo tempo, escapardes às dores da materni­
dade.
Nenhuma mulher recebeu nem receberá jamais
uma tal benção.
Porque se a mulher se torna mãe, perde a vir­
gindade ; e se permanece virgem, não pode ser mãe.
Mas, vós, Maria, sois Virgem e Mãe ao mesmo
tempo.

( ') Gen., m, 16.


(') Deut., VII, 14.

98 ��������,��

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Há mães imicamente mães e virgens imicamente
virgens.
O vosso privilégio é único, sois ao mesmo tempo
Mãe e Virgem.
E também se vos pode aplicar esta palavra de
Jesus :
Maria escolheu a melhor parte, que não lhe
será tirada ( 1 ) :
a fecundidade é uma boa parte, a virgindade
ainda é melhor ;
mas, o excelente, é ser virgem e mãe, o que só
foi outorgado à Santíssima Mãe de Deus, à Virgem
das virgens. ( 2 )

BENDITA SOIS V6S ENTRE AS MULHERES.

Serão sempre admiradas as mulheres abençoa­


das pela sua fecundidade,
Sara, Raquel e Rebeca, troncos gloriosos dum
grande povo ;
será louvada, pela sua castidade virginal, Ruth
a Moabita, a mulher virtuosa ( 3 ) , filha de Noémi.
Será considerada a viúva Judite e a sua força
vitoriosa, ao cortar a cabeça de Holofernes.
Será celebrada a incomparável sabedoria de

(' ) Lc., X, 14.


1�
. -�·
(') S. Bernardino de Sena. Da Saudação Angélica,
Serm. 52. �

��
Il, 11.

99
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uma Abigail cheia de prudência ( 1 ) e de Holda, a
filha de Thécuath, que falava a Jéová. (2)
Quem não recorda a beleza incomparável de
Ester que encanta Assuero e confunde os inimigos
do seu povo ? (3)
As figuras de Maria abundam na Sagrada
Escritura, e anunciam à porfia, as virtudes, as
grandezas, os seus triunfos.
Vimos que excedeu inefàvelmente a Eva antiga ;
e sabemos que ultrapassa, sem medida, todas as
mulheres santas e extraordinárias distinguidas com
os favores do Espírito Santo.
É preciso dizer-se que ultrapassa quantas vie­
rem depois d'Ela, no decurso dos séculos e até ao
fim do mundo.
E entre tantas, surgem muitas extraordinària-
mente elevadas e superiores às da Antiga Aliança :
são Santas, beatificadas e canonizadas,
virgens admiráveis,
viúvas corajosas,
mães, imitadoras das suas mais altas virtudes.
Não nomeamos ninguém com o receio de esque-
cer alguma.
Mas todas essas mulheres juntas, que são e
que valem, comparadas a Maria, Virgem e Mãe ?
De todas, e num grau imensamente superior,

(') I Reg., XXV, 3.


( 2) 11 Parai. XXXIV. , 22.
( ') Esther, Vill, IX.

� 1 00
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sois vós a mais bela ; a mais pura, a mais generosa,
a mais intrépida.
Sempre tive grande admiração por aquela que
tinha um nome como o vosso, e que é talvez a mais
ilustre de todas depois de vós ; J>Orque vos prefigu­
rava como nenhuma outra,
Maria, irmã de Moisés e Aarão,
a virgem profetiza,
que guiava o povo de Israel, na fuga do Egipto,
região maldita do pecado, através do Mar Vermelho,
a primeira que entoou o cântico perpetuamente
celebrado : OANTEMUS DOMINO :
Oantai a Jeová, porque fez brilhar a sua
glória;
precipitou no mar cavalo e cavaleiro,
lançou no mar os carros do Faraó e seu exér­
cito,·
a fina flor dos seus capitães foi sepultada no
mar Vermelho;
precipitaram-se no fundo da8 águas como uma
pedra...
Quem como tu, Senhor, entre todos os deuses?
Quem como tu, augu-sto em Santidade,
temível e digno de louvor,
realizando maravilhas!
Pela tua graça conduzes este povo que liber­
)

l
taste;
pelo teu poder orienta-lo para a morada santa.
E Maria, a profetiza, de tamboril na mão e

101 �� )
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r:::::�Is�='
tambores, dançavam e cantavam :
Oa;ntai a Jeová, porque fez brilhar a sua glóriaj
Precipitou no mar cavalo e cavaleiro (1 ) .

Sois vós, a verdadeira Maria, Virgem e Mãe ;


vós precedeis o novo povo de Deus, liberto das
cadeias de Satan, das suas hordas, do seu inferno ;
vós antecipais-vos ao exército incontável dos elei­
tos através do mar Vermelho do Sangue do Cor­
deiro, Fruto bendito da Ovelha gloriosa.
Sois vós que os orientais para a terra da pro­
missão, onde reinaremos com Ele, onde triunfare­
mos convosco.

Sim, sede para sempre bendita, poderosa Coope­


radora, auxiliar única oferecida ao Redentor.
única mulher digna, entre todas as mulheres,
·

de nos introduzir no céu.


Sede bendita, amada, glorificada para sempre :
Com Jesus, Fruto bendito das vossas entranhas vir­
. ginais, vencestes o mundo.

(') Exod., XV.

102
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E BEND ITO É O FRUTO DO VOSSO
VEN TRE, J.ESUS

§ 1 - A VISITA ÇÃO DE MARIA

O, Maria, Gabriel, o arcanjo de Deus, só poude


dizer-vos, AVÉ BENDITA ENTRE AS MU­
LHERES.
Não tínheis ainda pronunciado o vosso FIAT;
não tínheis, ó Virgem, aceitado ainda serdes Mãe
de Deus.
Foi uma mulher, prima vossa, Isabel , até ali
estéril, que por um milagre foi mãe de João que
!1
trazia no seu seio, que mereceu dirigir-vos este cân-
tico tão curto, mas tão misterioso, quando acrescen-

�=
l

E BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VEN-


TRE.
I
1
)

Temos aqui um mundo de maravilhas, que não )
é inútil perscrutar.
1
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� ��� w��-������-�-v������� �
I

A vossa VISITAÇÃO, ó Maria, é outro comen- 1

tário solene do A VE do vosso Arcanjo.


Esta Saudação, partindo do céu, deve provo­
car uma segunda, provindo da terra :
Engano-me : Isabel funde-as num mesmo e
idêntico louvor ; ampliando ainda as vossas gran­
dezas.
Maria acaba de experimentar em si mesma, se
assim podemos exprimir-nos, o poder do seu AVE.
Recolheu-o no seu coração ; a sua fé saboreou­
-lhe o conteúdo.
Continuou humilde , submissa, entregue à acção
do Espírito Santo, que lhe faz reviver cada palavra.
A AVÊ MARIA fez de uma Virgem Ima­
culada a própria Mãe do Deus Altíssimo , aquele de
quem quere ser e permanecer sempre a humilde
Serva.

Agora, é o Verbo feito carne no Seio virginal


de Maria que reclama para sua Mãe a saudação ine­
fável :
AVÉ MARIA, OHEIA DE GRAÇA, O SE­
NHOR É OONVOSOO, BENDITA SOIS VóS EN­
TRE AS MULHERES.
O Verbo está com Ela ; está n'Ela ; dali em
diante, vive, vai falar e agir por Ela.
Tornou-se o Motor divino que a leva a realizar
sob este impulso todas as operações próprias não
só de uma Mãe de Deus, mas também e consequen­
I
temente, de uma Mãe dos homens.
i
I
�� 1 04 ·�w�w��������-��--�� - ·

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EXSURGENS MARIA ( 1 ) ! Ei-la, de pé , enca­
minhando-se para a obra de Deus.

Isabel, sua prima, está no sexto mês da sua


maravilhosa gestação. Gabriel certifica Maria do
sucedido. Mas aquel e que essa mulher, a estéril de
ontem, que Deus arrancou ao seu opróbrio, leva
consigo, deve ser o primeiro a beneficiar do A VE e
das maravilhas por ele criadas em Maria.
João, o filho de Zacarias e de Isabel, tem neces­
sidade de Jesus Cristo, mas por Maria.
O mistério inefável da Incarnação do Verbo no
seio de uma virgem, tem por fim destruir o monstro
abominável do pecado original.
Ora, João, como todos os homens que existi­
ram, existem e hão-de existir, foi atingido por esse
pecado.
João, de quem tão grandes coisas acabam de
ser preditas a seu pai, pelo mesmo Arcanjo, será
o primeiro a ser libertado da escravidão de Satan.

E porquê o primeiro ?
Ê o maior homem que nasceu de uma mulher.
Ê o precursor imediato do Messias : não con-
virá que receba as primeiras manifestações das
suas graças ?
Não precisará de ser preparado por Aquele, que
do seio de sua Mãe o vem santificar ?

(') Lc., I, 39.

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��;
l�
-����

João é a voz que deve anun


O Verbo corre a juntar-se à voz, para lhe dar
o brilho intenso que lhe acrescentará a inspiração 1

das suas graças.

Maria) parte à pressa para a região das monta­


nhas) para uma cidade de Judá Leva no coração o
...

Verbo eterno, todo inflamado nas chamas e ardores


í
do Seio de seu Pai, o Verbo que traz o fogo do amor
sagrado a este mundo.
Está escondido no seio virginal de sua Mãe,
para ser a primeira que transformará numa cari­
dade toda divina.
Mas o fogo não pode ficar encerrado : o fogo
queima tudo ; fundiria os rochedos, e faria desa­
bar as montanhas para não ficar encadeado.
E é por isso que a caridade que abrasa Maria,
a eleva e a transporta por sobre montes e colinas,
para ir expandir esse fogo que a devora, na casa de
Isabel.
Como me agrada esta pressa! Cum festina­
tione . . .
ó Maria, concebestes a Palavra, que o Pai con­
cebe no seu Seio ; e quereis santificar a voz que deve
anunciá-la, proclamá-la e reivindicar-lhe os direi­
tos. Correis para ela com Aquele que está em Võs,
e que vos faz seguir as pégadas desse grande gi­
gante : e é Ele que assim vos leva a caminhar com
esse passo. Correis, e não obstante, em que êxtase
permaneceis mergulhada !

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Como ides unida ao vosso Filho !
Aquele que reinava eternamente no Seio do
Pai, como no carro de triunfo que transporta todas
as suas grandezas, teve o Coração atravessado pela
mais aguda das flechas de amor.
Ferido no coração, desceu desse primeiro carro
e acaba de mudar para um semelhante ; saído do
Seio Paterno, entrou no da sua Mãe admirável, indo
por meio d'Ela em socorro dos pobres pecadores.
Onde ides Senhor, e que ides fazer ?
Não passais ainda de uma criancinha, e cami­
nhais com passo apressado para nos salvar a todos
do naufrágio.
Ainda não podeis andar ; mas servis-vos dos
pés de vossa santa Mãe para chegardes até mim.
Não é tanto ela que vos leva, sois vós que a
transportais na sua pressa, que elevais o seu corpo
sobre as montanhas, e que arrebatais a sua alma
até ao céu.
Era assim que Maria caminhava, e Maria sau­
dou Isabel.
Que lhe terá ela dito ? O Evangelho não no-lo
conta.
Verdadeiramente não é ela que fala.
É o Verbo incarnado no seio da Virgem das
virgens, que se serve da sua língua para falar
àquele que é a sua voz ; àquele que o coração de
sua bemaventurada mãe, Isabel, encerra ; a João
que se serve dos ouvidos da mãe para ouvir o Verbo
adorável que lhe fala por Maria.

107
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n�=��: ! .
se � João o Verbo do Pai ?

Fez-lhe sem dúvida a mais terna das confidên­


cias ; feriu-o também na alma ; e era Maria que des­
feria os dardos que feriam e inebriavam João,
transfonnado no mesmo instante, regenerado no
seio daquela que foi a estéril.
Parque no momento em que Isabel ouve a Sau­
dação de Maria, a criança que ela tem consigo
exulta de alegria nas suas entranhas ; agita-se,
salta ; não se contém, e comunica à mãe, que o en­
volve, a graça e a alegria que o enchem. E como
que ficam inundados, um e outro, da mesma torrente
saida das mãos de Deus, precipitando-se por Maria,
Aqueduto virginal, sobre aquele e aquela que se en­
golfam nas consolações do Céu.

Isabel, nesse momento, também está verdadei­


ramente repleta do Espírito Santo!
Admirai estes milagres :
Uma Virgem Mãe, que leva um Deus no seu
seio ; uma mãe estéril , que no seu seio leva aquele
que por diversas vezes a Escritura chama um Anjo.
Ao ouvir o AVE de um Anjo, Maria tornou-se a
Mãe de Deus ; Isabel, ao ouvir a voz de uma Virgem,
torna-se a mãe de um Anjo ; ela que até ali levava
em si um pecador, torna-se a mãe do maior dos
Santos.
Uma e outra ; Maria e Isabel, ao serem sauda­
das, ficam cheias do Espírito Santo.

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tude !
Mas como é diferente a m � �
Isabel é cheia deste Espírito, isto é dos seus
1
dons, das suas graças ; tornou-se mais santa pela
presença do Salvador e de sua santa Mãe ; porque
mais perto da fonte e do canal das graças.
Maria é cheia, não só da graça, GRATIA PLE­
NA� mas da Pessoa mesma do Espírito Santo ; este
torna-se sua propriedade muito particular, pois que
procede do Verbo que está no Seio da Virgem.
Ela torna-se a sua Esposa, e pela operação divi­
na do mesmo Espírito, a Mãe de Jesus.
Ele é-lhe dado para ficar sempre com Ela, na
mesma casa : verdadeiramente dois numa só carne.

Isabel, é a primeira, a receber o dom de com­


preender alguma coisa do grande mistério.

Exclamavit voce mag'tta . . .

Ei-la, dum momento para o outro, iluminada


como os Profetas, mais sábia que os Padres e Dou­
tores da Igreja, dotada da inteligência dos Anjos,
abrasada nos ardores dos Serafins.
Todas as potências da sua alma, todas as ener­
gias do seu corpo, todo o seu ser enriquecido pelos
dons do Espírito Santo, se expandem subitamente.
Animados pelo seu sopro divino, ei-la que exclama
com uma voz tão alta e tão forte, voce magna� que

1 09

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ainda hoje depois de tantos séculos ressoa no
Evangelho, e as nossas vozes desafinadas transmi­
tem sempre a Maria, e a quantos amam a Virgem
Mãe de Deus, a sua Saudação.

BENDIOTA TU . . . BENDITA SOIS VóS EN­


TRE AS MULHERES, E BENDITO Ê O FRUTO
DO VOSSO VENTRE.

E donde me vem esta dita de vir até mim a mãe


do meu Senhor?
Porque assim que chegou a voz da tua saudar
ção aos meus ouvidos, logo o menino exUltou de ale­
gria no meu seio.
Bemaventurada sois vós que acreditastes;
Porque tudo o que o Senhor vos disse se cum­
prirá...

E então Maria exclamou:

MAGNIFIOAT. . . A minha alma glorifica, en­


grandece o Senhor.

§ 2. - A SAUDAÇÃO DE ISABEL

õ Maria, não duvido que a vossa prima Isabel


é profetisa, e talvez, com Zacarias seu esposo, a
maior profetisa do Novo Testamento.
Viu-vos entrar em sua casa, com a doçura de
um Anjo e a majestade de uma Rainha, e exclamou :
BENDITA SOIS VóS ENTRE AS MULHERES.
110

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Quem lhe ensinou a dizer, literalmente, a mes­
ma Saudação, que Gabriel vos tinha dirigido ?
Quem lhe ensinou assim, a pronunciar o A VE,
que constitui toda a vossa glória. ?

Isabel acrescenta :
E BENDITO 11 O FRUTO DO VOSSO VENTRE.
E DONDE ME VEM ESTA DITA DE VIR ATÉ
MIM A MÃE DO MEU SENHOR?

Quem lhe ensina, imediatamente, o celeste mis­


tério, mistério conhecido só de vós e de José ?
Quem lhe disse que vós sois realmente a Mãe
de Deus, e que esse Menino, levado no vosso cora­
ção virginal é um Fruto , um Fruto bendito, um
Fruto de benção ?
É o Fruto da nova Eva, Mãe dos Vivos, fruto que
deve reparar a desordem causada pelo fruto de mal­
dição e de morte que se desprendeu da árvore da
ciência, onde se colhem o bem e o mal.

Isabel continuou ainda:


SOIS BEMAVENTURADA, PORQUE ACRE­
DITASTES, tão fielmente, nas palavras do vosso
Anjo ; não hesitastes, como a Eva da perdição, em
aceitar a vontade do Senhor e obedecer-lhe ; disses­
tes-lhe : EIS A VOSSA SERVA, ECOE ANOILLA
DOMINI.
Bemaventurada, porque não hesitastes, nem
duvidastes, como o próprio Zacarias, que Deus cas­
tigou pela sua desconfiança, fazendo-o mudo.

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Ah ! não, MARIA, vós respondestes : Fazei Se­
nhor como vos aprouver e como dizeis, FIAT MIHI.
Quem, pois, revelou a Isabel, esta mensagem
do Anjo e todas as coisas extraordinárias que nem
um dos maiores Santos sobre a terra sabia ainda ?
Isabel era a vossa profetisa, como Zacarias
aparecerá dentro em breve como o arauto do Altís­
simo, BENEDIOTUS DOM/NUS DEUS ISRAEL:
profetisa sagrada pelo mesmo Espírito de Deus,
que vos fmchia a um a e à outra, que de Jesus trans­
bordava para vós, e de vós para João.

Quem meditará suficientemente a palavra que


esta profetisa, tão ilustre e tão santa, introduz na
AVÊ MARIA.
Palavra que é toda a sua glória, que perpetua
a sua memória há vinte séculos e perpetuá-la-á até )
à eternidade :

E BENDITO Ê O FRUTO DO VOSSO VENTRE. !

I
Vede tudo o que a sua fé reconhece neste ine­
fável mistério ; perscrutai, aqui, as mais importan­
tes verdades que dizem respeito à Pessoa adorável

I
de Jesus Cristo, e à glória de sua Santíssima Mãe.

Isabel acredita e confessa bem alto os dogmas I


augustos da Virgindade de Maria e da sua Materni­
dade divina. !
.

Foi no mesmo sentido que Gabriel exclamou


primeiro : BENDITA SOIS VóS ENTRE AS MU­
LHERES, que existiram, existem e hão-de existir.

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Bendita porquê ?
Porque ressuscita a Primeira Eva, a Eva cul­
pável.
Maria torna-se a nova Eva, criada sem mancha
alguma, para fazer dela verdadeiramente a Mãe dos
vivos; é bendita porque sobretudo, é diferente de
todas as mães que sacrificam o privilégio da sua
integridade virginal, e que sózinha conservou, poden­
do ainda e sempre ser chamada a Virgem das vir­
gens, sendo ao mesmo tempo a Mãe do Filho divino
que leva consigo.

Sim, este Filho divino, verdadeiro Filho de Deus


e verdadeiro Filho do homem,
é o fruto dM suas entranhas, e é bendito.
É bendito� e porquê ?
Porque é o BENDITO, por excelência;
esse mesmo BENDITO, que daí a pouco Zacarias
vai proclamar,
O Senhor Deus bendito de Israel,
O Senhor Deus bendito, que vem visitar o seu
povo,
e resgatá-lo, (1)
Isabel assim o reconhece, e numa medida que
deixa explodir o espanto da sua humildade :
E donde me vem esta dita de vir até mim a mãe
do meu Senhor?
Sinto-me tão indigna de uma visita destas !

(1) Lc., I, 68.

113 �

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r-·-� -��.-·����:�:�q::·-·:�:;�:::·-�-·-�:��� �
::�::::
em presença de quem me encontro, é a Mãe do meu
Senhor, a Mãe do meu Deus.
Creio - o, confesso-o . . . e prostro-me diante
d' Aquele que ela leva consigo, eu a sua humilde cria­
tura.

BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VENTRE


õ Maria, este Deus nasceu de vós, da vossa
carne virginal.
Esse facto afasta por si e confunde de ante­
mão, todas as heresias infernais, que ao longo dos
séculos haviam de tentar diminuir a Humanidade
em Cristo, exaltando o Deus que ele é, ou engran­
decendo o Homem, �uprimindo a Divindade.
õ Maria, sois verdadeiramente a Mãe de um
Homem que é e continua a ser o nosso Deus para
sempre , o Deus bendito pelos séculos dos séculos.

Isabel confessa as duas naturezas em Cristo :


A natureza humana, a única que uma Virgem
lhe podia dar, da sua própria substância ; e a natu­
reza divina, a única que o Pai lhe comunica da sua
própria substância ; mas estas duas naturezas en­
contram-se unidas numa só e mesma pessoa, não
humana, mas divina.
Eis a razão porque MARIA é verdadeiramente
Mãe de Deus.
Tudo o que se disser do Filho do Pai Eterno,
poderá dizer-se do Filho da Virgem ; é o mesmo e
único Filho de Deus.

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Aqui reside, Santa Isabel, a vossa glória !
Antes do tempo e das decisões dos concílios
universais, antes dos Apóstolos, antes dos Santos
Padres e Doutores da Igreja, marcáveis a fé desta
mesma Igreja e destruíeis os monstros das heresias.
Quem poderia ter-vos transmitido estes conhe­
cimentos, a não ser o Espírito Santo que estava con­
vosco ?
REPLETA EST SPIRITU SANCTO ELISA­
BETH.

Podeis abandonar-vos às vossas exclamações,


aos excessos da alegria, que partilhamos convosco,
quando dizeis a Maria :
E BENDITO B O FRUTO DO VOSSO VEN­
TRE.

UNDE HOC MIHI? Adorável Providência !


Donde me vem este insigne favor ! Quem alcança
para mim uma tal felicidade, por esta primeira
visita que o Salvador do mundo fez na terra, por
meio da Virgem das Virgens, da Mãe do meu Deus ?

Santa privilegiada, estáveis preparada para tal.


Havia seis meses que não aparecíeis, furtan­
do-vos a todo o contacto com o mundo e a todas as
relações com as criaturas. Occultabat se mensibus

:�:::�
sex. Não vos dissipáveis nas distracções do século.
Feliz de vós que permanecíeis no silêncio da �

��
n!

1 15
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Sem o silêncio dessa solidão, não teríeis sido
honrada, quem sabe, com a visita do Filho de Deus,
desse Deus que veio ao vosso encontro no taberná­
culo das entranhas de uma Virgem Mãe.
De quantas graças não teríeis sido privada !
E é por isso que João, porque mais solitário
ainda, porque mais profundamente escondido no
vosso seio, miraculosamente fecundo, as recebe ain­
da mais estrondosas.
Bemaventurada solidão ! É o caso de dizer, e
felicidade única ! (1)
Oh ! quanto importa andar recolhido, para vos
poder repetir convenientemente ó Maria, com Isabel
esta saudação suprema :

E BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VEN­


TRE, JESUS!

( ' ) No original francês : «Bienheureuse soUtude ! . . . et


seule béatitude ! «que é tradução do ditado ascético, assim
expresso em latim : O beata solitudo, et sola beatitudo!

� 1 16
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JESUS

§ 1. - NOME ACIMA DE TODO


O NOME

E BENDITO 2 O FRUTO DO VOSSO VEN­


TRE, JESUS.

f ICAVA reservado à Igreja, herdeira de todas


as luzes de Deus, pronunciar este nome ben­
dito pelos séculos dos séculos.
Inseriu-O na AVÉ MARIA, guiada como sem­
pre, pelo mesmo Espírito Santo que inspirava Ga­
briel, o Arcanjo, e Isabel, a profetisa.

O AVE pertence-lhe dali em diante ; pertence


a cada um dos seus filhos ; guarda-o, comenta-o sem
cessar, propaga-o, reparte-o em tesouros riquíssi­
mos e incomparáveis.
Colocou o Nome santíssimo de Maria, no início

desta Saudação, para fazer um comentário divino a

tudo o que a contém.

1
Este Nome, cheio de graça, em que o Senhor 1

habita, Deus penetra-o com o seu poder, a sua sabe-

I
doria, a sua misericórdia.

,,����-��-������� 1 17 �

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Este Norne, era o da sua Medianeira ; devia ins­
pirar e conduzir ao de Jesus1• devia levar a Ele, ter­
mo augusto e síntese magnífica desta Saudação.
MARIAJ e a seguir JESUS.
Sempre Maria, primeiro ; e depois e sempre,
JESUS.

AVÉ MARIAJ CHEIA DE GRAÇAJ O SENHOR


É CONVOSCO; BENDITA SOIS VóS ENTRE AS
MULHERES.
Aquele que é o Fruto bendito do vosso ventre
é Ele, JESUS CRISTOJ Senhor Nosso.

Gabriel tinha anunciado à Virgem tão hwnilde


e quase tímida :
Conceberás e darás à luz um FilhoJ e por-lhe­
-ás o nome de Jesus.
E enquanto o Arcanjo lhe dizia este Nome
diante do qual todo o joelho se dobrava já no céu,
esse nome que a terra adoraria dentro em breve, e
que faria tremer o inferno espantado, burilava-o,
esculpia-o, gravava-o em letras de fogo, no Coração
Imaculado de Maria.
Ao ouvi-lo pronunciar, acalma-se e tranquiliza­
-se. Ela cala-se ; emocionada, ouve enunciar as gran­
dezas deste Nome santo e terrívelJ como a Igreja can­
tará ( 1 )

(' ) AnUfona da festa do SS. Nome de Jesus.

118

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" - .-......-........-.......
.. .... .............._ . ,_,......,...__...._�_,_...._........-- .....-...
... -....,,_·....,--� ........,.,-....... -�-·-'.......... �� --.;-....-..--..,.......
... .... ......,... .-. ......��·_,,...._.
.. ......
.. ..
... ..


Maria entra em êxtase, arrebatada na luz in- �
tensa, nas chamas ardentes deste Nome do Homem­
-Deus.
Inebria-se de amor e consome-se neste fogo
descido do céu ao seu seio virginal.
E foi nessa contemplação, adorando e cele­
brando pela primeira vez o Nome sacratíssimo do
Filho de Deus, que concebeu o Filho do Homem, o
seu Filho, dizendo :
ECOE . Eis-me aqui . . . FIAT MIHI, que se faça
. .

em mim . . .
Acerca deste Nome, sabe guardar segredo ; não
o revelará sequer a José, o Justo, o seu casto Es­
poso.
Este, sabe-lo-á dentro de meses, quando sem
dúvida o mesmo Anjo lhe aparecer, para o tranqui­
lizar, e levá-lo a aceitar sem hesitações a mão da
Virgem da virgens, daquela que é já a Mãe do seu
Deus.
E, de facto, desde que ouviu o nome d'Aquele
que nasceu do Espírito Santo, nas entranhas virgi­
nais, fica descansado, submisso e tranquilo ; e acei­
ta Maria como esposa ; virgens um e outro.
Maria ficou silenciosa, José permaneceu de
igual sorte.
Este nome sacrossanto de JESUS, escondido
desde os séculos dos séculos , no Seio da Santíssima
Trindade ; este Nome que desde a origem foi prepos-
to às hierarquias dos Anjos, era o Nome do seu Deus,
Nome fonte de graças e da sua própria salvação.

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Dir-se-ia que Maria e José não ousavam pro­
nunciá-lo, de tal maneira o julgavam celeste e temí­
vel, mas também pejado das misericórdias infinitas
de um Salvador - o significado exacto do nome de
JESUS:
Dir-se-ia que não ousavam ainda deixá-lo aflo­
rar aos lábios, e revelá-lo aos homens pecadores,
ainda tão insignificantemente preparados para lhe
receberem as influências inefáveis.
Entretanto, mal nasceu Aquele que usa este
Nome de JESUS� mal deu o primeiro vagido na
manjedoura acanhada e sobre a palha tão fria da­
quele abrigo da meia noite, o Anjo do Senhor, o An­
j o da Incamação, sempre Gabriel provàvelmente,
faz brilhar em Belém nessa Noite, sobre os pastores
humildes envolvidos na sua luz intensa, a revela­
ção do nome de JESUS :
Eis� lhes diz ele� que vos anuncio uma grande
alegria,
que será para todos os povos;
que hoje nasceu o Salvador� o mesmo é dizer�
JESUS.
B o Cristo� é o Senhor.
Sim, é um Salvador, é na verdade JESUS, vem
realizar na terra o que o seu nome indica. Vem arran­
car o seu povo e todos os povos ao pecado ; vem salvá­
-los a todos.
Não temais: Aquele que se chama assim, é ain­
da criancinha�
envolvida em faxas e deitada numa manjedoura.

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Equivale a dizer que o seu Nome é santo e terrí­
vel, (1) e, ao mesmo tempo, cheia de doçura, de bon­
dade e de misericórdia ; é um Nome que traz consigo
a graça, é um Nome que gera para a Vida eterna.

E era precisamente por isso, que nessa nóite,


por sobre as trevas onde se debatiam os povos que
este Nome devia salvar.
as multidões angélicas cantavam com Gabriel:
Glória a Deus no mais alto dos céus,
e paz na terra aos homens de boa vontade e)!

O Nome sacrossanto de JESUS não é mais do


que isto, mas isto tudo :
Uma glória dada a Deus Altíssimo, na paz que
traz aos homens.

§ 2. - O PODER DESTE NOME

E BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VENTRE


JESUS

Quem se cansará de repetir estas palavras ?


Desfiai as contas do Rosário ; e exercitai-vos
cinquenta, cento e cinquenta vezes, sobre cada uma, a
repetir nada mais que estas palavras :

(' ) Ps. ex, 9.


(') Lc., li.

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A VB MARIA, CHEIA DE GRAÇA.
Com a mesma devoção dizei e saboreai outras
tantas vezes :
E BENDITO B O FRUTO DO VOSSO VEN­
TRE, JESUS!

Isto entra, pouco a pouco, na alma ; penetra-a


até ao mais recôndito, insinua-se até à medula, se as­
sim podemos exprimir-nos, ccnno um azeite derrama­
do (1) um azeite doce e suave, derramado por todos
os cantos e totalmente espalhado,
um azeite que alumia, alimenta, e consola.

Dizei ainda menos do que isso : dizei simples­


mente : JESUS!
Uma atitude destas, alumia como um foco de
luz, fortalece como um alimento, consola como um re­
médio. JESUS! Este nome tem um fulgor tal que
nos atrai irresistivelmente para a luz, a luz da fé.
Repentinamente, a inteligência em trevas, re­
gressa à claridade do seu Dia (2) que é JESUS ;
Deus de Deus, Luz de Luz, para se transformar em
Luz no Senhor (3 ) .
JESUS! que apoio, que força a deste pensamen-
to !
Reanima os sentidos abatidos, fortalece as vir-

(') Cant. Cant., I, 2.


( ') I Thess., V, 5.
( ') Ephes., V, 8.

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tudes, imprime vigor aos costumes bons e honestos ;
mantem os afectos castos !
Ah ! como é insípida a alimentação da alma, se
não for orvalhada, penetrada por este óleo tão suave !
Como é desenxabida sem este sal celestial !
Espalhai, deixai o nome de JESUS nos vossos
escritos se quereis que os aprecie.
JESUS! Oh ! este mel na boca, esta melodia nos
ouvidos ; e esta alegria incontida numa alma ! (1 )

JESUS! JESUS! JESUS! ( 2 )

Servi-vos d'Ele como dum remédio, e remédio


universal. E onde o haverá melhor ?
Minha alma, estás triste : aflita e desfalecida !
Pronuncia : JESUS . . . Todas as núvens desapa­
recem.
Sentes o peso de algum crime, talvez horrível ;
o desespero persegue-te, talvez . . . Que vais fazer ?
Ah ! diz sempre : JESUS JESUS
Ê este Nome entre todos sagrado,
que cura a chaga da inveja,
que domina todo o movimento de luxúria,
que extingue o fogo das paixões infames ;
que mata a ambição do avarento,
que acalma a excitação de todos os maus instintos.

(1) Hino da Igreja.


(') Bossuet.

123 �

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Não posso pensar, nem dizer : JESUS, sem ime­
diatamente me lembrar d'Ele, isto é, dwn homem do­
ce e humilde de coração, bom, sóbrio, casto e mise­
ricordioso sem medida ; nwna palavra, de alguém que
conheço e adoro em toda a pureza, em toda a santi­
dade.
Falo d'Aquele que é Deus e Homem ao mesmo
tempo.
Alma minha, lembra-te, sem cessar, de JESUS.
Que o vosso Nome, Salvador querido, seja e con­
tinue a ser sempre como o de MARIA, a minha única
riqueza
Colocai-os como wn selo sobre o meu coração,
como um selo no meu braço P ) . Que dali receba a
força que há-de amparar-me, e o amor com que
quero amar-Vos.
Todos estes pensamentos, todos estes sentimen­
tos, não os invento ; são de todos os Santos e Santas
de Deus, de S. Bernardo sobretudo, que como nin­
guém, invocou, celebrou e exaltou; o nome sacrossan­
to de JESUS, o nome sacratíssimo de MARIA.

JESUS!
Poderia perguntar-se porque foi que em confor­
midade com profecias célebres que davam ao futuro
Filho da Virgem os nomes de Emmanuel, Admirável,
Conselheiro, Deus forte, Pai do futuro sécu,lo, Prin-

l
Lhttps://alexandriacatolica.blogspot.com.br
- (') C�t., VIII, 9.

1 24 �.���w����w�
�-
cipe da Paz ( 1 ) , Senhor nosso Jus
dado o nome de JESUS.

Todos estes nomes, não passaram de figuras ;
a sua verdade só é claramente expressa no Nome 1
de JESUS. �
Se assim quisermos, serão pinceladas dadas
aqui e além, para exprimir no conjunto o adorável
Nome que usa.
Ele encerra, por si só, todos estes nomes dife­
rentes.
Excede-os a todos em doçura, excelência, força
e majestade.
Ê como o espírito, como o requinte de tudo o
que os Profetas quiseram dizer d'Ele, com todos
esses títulos diferentes que lhe atribuíram.
JESUS não diz porventura mais que EMMA­
NUEL� Deus conosco ?
JESUS diz Deus conosco e nós com Deus ; por­
que significa a união inefável das duas naturezas,
divina e humana, na unidade de uma só e mesma
Pessoa. Diz mais que Admirável; é adorável. Diz
mais que Conselheiro; é a Sabedoria infinita de Deus
Pai ; mais que Deus, pois exprime, ao mesmo tempo,
um Homem e um Deus ; mais que Forte, Ele é a Vir­
tude toda poderosa de Deus.
Diz mais que Pai do futuro séwlo; porque não
tem passado, nem futuro ; é o Deus eterno.

(') Is., vn, 14.


(') Jer., xxxm, 16.

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Diz mais que Príncipe da paz, porque Ele é a
nossa reconciliação com Deus seu Pai.
Enfim, diz bem mais que Senhor nosso Ju,.§to;
não é Ele a nossa Justiça a nossa mesma Santi­
dade ? (1)
Compreenderei algum dia bastantemente o que
se encerra neste Nome de JESUS, o que ele me dá,
o que me promete, e tudo o que desde já me tranqui­
liza e por toda a eternidade ?
E BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VEN­
TRE, JESUS.
ô Maria, termino nestas linhas a vossa Sau­
dação angélica!
Só Vós, que no dia sagrado da Anunciação, o
pronunciaste pela primeira vez no íntimo da vossa
alma, podeis esculpir e gravar, a letras de fogo no
meu coração : JESUS.
Compreendo que Santos e Santas, e para não
lembrar outros Santa Joana de Chantal, o tenham
gravado no peito, com um ferro em brasa, e como
que o tenham gravado na sua carne viva.
Os Santos e Santas sabem ser heróicos, nas
horas em que o Espírito Santo os move e excita ao
amor que os atormenta.
õ Maria, Mãe de Deus e Virgem das Virgens,
vós tínheis burilado na alma desses servos de Deus,

( ' )
< o nome do vosso bendito Filho. Isto é o essencial

l' � 126
I Cor., I, 30.

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e basta para a maior parte daqueles a quem destes
JESUS.
É a graça que habitualmente imploro da vossa
bondade maternal, sempre que vos rezo o meu A VE.
Oh ! sim ; é quanto me basta, e aprecio-a num
grau indizível.
Como admiràvelmente canta a Sagrada Litur­
gia com S. Bernardo (1) , que me seja sempre agra­
dável recordar este Nome de JESUS, sendo para
mim como que uma presença d'Ele, que me encante,
me encha de alegria e de paz.
JESUS! Não, nada pode cantar-se de mais sua­
ve ; nada pode ouvir-se de mais agradável ; nenhum
pensamento pode ser mais expansivo que o de
JESUS, o Filho do mesmo Deus.
JESUS! 1!:: a esperança dos que se arrependem,
a ternura dos que pedem, a bondade que aparece
aos que O procuram.
Mas, quem dirá o que sois para os que vos en­
contram !
Tentai, lábios meus, dizer o que é amar o Nome
de JESUS.
Não, só o pode exprimir aquele que o experi­
menta.
Ao pronunciá-Lo, imediatamente a vossa Ver­
dade brilha, aos olhos da minha alma ; começo a
desprezar por vós toda a vaidade mundana, e a arder
na chama da vossa caridade eterna.

(1) Festa do Santisslmo Nome de Jesus Hinos.

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õ JESUS� cântico tão suave aos meus ouvidos,
mel maravilhoso na minha boca, néctar celeste para
o meu coração ; quando vos saboreio, ainda tenho
fome ; quando vos bebo, fico perturbado ; porque vos
desejo cada vez mais, sem poder desejar outra coisa.
Dulcíssimo JESUS� esperança da alma que por
Vós suspira, vede as minhas lágrimas que Vos recla­
mam ; ouvi os meus gritos íntimos de clamor por
Vós.
Permanecei comigo, com todos nós, porque a
noite chega e faz-se tarde. . .
JESUS� Flor incomparável de uma Virgem
Mãe, Amor cheio de doçura, fogo de anseios sempre
mais ardentes, para Vós sejam o louvor, a honra do
vosso Nome, na terra e no reino da eterna glória !
ô Maria, como naquele dia foi dito a propó­
sito : BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VENTRE�
JESUS. (')
Nada mais h á a acrescentar aos vossos louvo-
res. Agora só me resta prostrar-me aos vossos pés,
de mãos postas, e com uma confiança sem medida,
repetir sem nunca me cansar :

SANTA MARIA� MÃE DE DEUS� ROGAI POR


NóS� PECADORES� AGORA E NA HORA DA NOS­
SA MORTE. AMEN.

(') cf. Dom Vandeur. <Jésus» Elévations sur son


Amitié.

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Segunda Parte

A INVOCAÇAO

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS,


ROGAI POR NóS PECADORES,
AGORA E NA HORA DA NOSSA
MORTE. AMEN.

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f���-����-��� �����-�����,.�.-����w�����

!
/

SAN TA MARIA

§ 1. - A SUA SA NTIDA DE

SANTA MARIA! MÃE DE DEUS.

A IGREJA
AVE,
que acaba de recitar e meditar o seu
fica maravilhada diante de todas as
grandezas, contempladas n'Aquela que foi saudada
por Gabriel, Arcanjo da Incarnação.
E para sintetizar todos estes louvores num
único movimento do coração, põe-se de joelhos e
exclama :

SANTA MARIA! MÃE DE DEUS!

Não podemos ver nestas duas palavras, toda a


Teologia Mariana na sua vastidão ?

SANTA MARIA!

Virgem Mãe, Santa mais santa que todos os

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Santos e Santas, e tesouro santíssimo de toda a san­
tidade ! ( 1 )
O Profeta diz-nos que Deus é admirável nos
seus Santos, Mirabilis Deus in Sanctis Suis (2) ; mas,
quanto mais não há-de sê-lo na Mãe do Santo dos
Santos na qual, e num grau eminente, se encontram
todos os privilégios dos outros Santos ? A Igreja gre­
ga chama-a a Panagia, a absolutamente Santa. É
como o nome próprio de Maria, Mãe de Deus, o seu
nome por excelência. No Ocidente, é a expressão pre­
dominante na maneira de falar dos cristãos.
A Santíssima Virgem; é o nome próprio de Ma­
ria, é um nome que é reservado para a Mãe de Deus.
A Igreja venera muitas virgens santas, márti­
res e outras que perfumam com suas virtudes herói­
cas, a casa do Pai de família ; mas nenhuma mereceu
nem obteve o nome de Santíssima Virgem.
Tudo o que possa imaginar-se de honesto, de
distinto, de meritório, de graças e de glória tudo
existe em Maria, a Santíssima Virgem.

A santidade é uma separação total da criatura,


uma união perfeita com o Criador.
Santa, é uma alma que se recolhe em Deus , en­
tregue imicamente ao seu Ser, á sua sabedoria, ao seu
amor, à sua beleza, à sua felicidade.
Nisto, parece-se com o próprio Deus, o Santo,

(') S. André de ereta. Hom. I, de Virg. dormit.


(') Ps., LXVII, 36.

131 �
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quere dizer, o Separado por excelência, de tudo o que
não é Ele.
É o que eternamente cantam os Serafins pros­
trados em adoração e dizendo :
Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus do& exér­
citos! (1)
Ao dizerem isto, exprimem a inacessibilidade
deste Deus, escondido na sua Essência infinita, na sua
infinita pureza, no seu infinito desprendimento de
todo o ser criado, no seu infinito isolamento.
Não há sequer uma maravilha, das infinibts
maravilhas de Deus, que não esteja compreendida
neste louvor e neste epíteto : o Santo.
E este Santo, é o Filho de Maria.
Também não há ninguém além de Maria, Mãe de
Deus, que depois do seu divino Filho, possa ser cha­
mada três vezes Santa e a única Santa. ( 2 )
A Igreja gosta de se apoiar neste pensamento.
Chama-a Santa Maria, no seu AVE; e nas suas
célebres ladaínhas começa sempre assim :
Santa Maria, Santa Mãe de Deus, Santa Virge;n
das virgens. . .
E outrora continuava a dizer assim, prosse­
guindo :
Santa Mãe de Cristo . . . Santa Mãe da divi·na
graga.
Santa Mãe puríssima . . . etc . .

(' ) Is., VI, 2-3.


(') S. Boaventura.

1 32
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Queria assim penetrar e encher totalmente as
almas e os corações da lembrança de uma santidade
extraordinária e única.

MARIA, desde o primeiro instante da sua Ima­


culada Conceição no seio de Ana sua mãe, repousou,
retirou-se, escondeu-se unicamente em Deus, longe de
toda a criatura.
Era e é ainda a verdadeira solitária) que encon­
tra no seu Deus uma solidão vastíssima.
A sua santidade, é o muro que a separa do resto
do mundo.
O Coração de MARIA estava e permanece
escondido em Jesus Cristo, e o Coração de Jesus
Cristo em MARIA.
São o tesouro um do outro. O Santo dos Santos
é tudo para a Santa dos Santos ; e a Santa dos Santos
é tudo para o Santo dos Santos. ( 1 )
Quem viu ou ouviu coisa semelhante ? Um Deus
encerrado no seio de uma Virgem, num seio tão puro,
tão imaculado que se torna Santuário, no qual o
único Soberano Pontífice, Jesus Cristo Nosso Se­
nhor, teve acesso.
Este seio tornou-se o Templo do divino Sacer­
dote, o altar de ouro, o propiciatório da Nova Alian­
ça, a arca da nossa própria santificação.
E foi essa a razão porque era preciso que
essa criatura celeste fosse um oceano de santidade.

(') S. Lourenço Justiniano.

1 33 ��
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!,
.�w����w����w����;•

N'Eia não se vê senão Deus, em todos os seus


estados e em todos os seus mistérios ; e é o carác­
' ter da sua santidade que o distingue de tudo o mais.

I
Ela é toda para Deus e só para Deus.
Quererá ser chamada sem dúvida, a Mãe e a
li Virgem dos pobres, a Medianeira e Distribuidora
< de todas as graças e misericórdias ; mas isto não
será senão em ordem a uma união sempre mais ín- (


tima com Deus, sem prejuízo da sua sublime união
com Deus e da sua separação de todo o criado.
Esta união basta-lhe.
I

l
Dela poderia a Escritura dizer também que to-

1
dos os rio8 vão ter ao mar, e que este não extravasa
(1) ; assim todas as virtudes dos Santos se recolhem !
i
em Maria, sem exceder, sem mesmo encher o abis-

f
mo da sua santidade.
Deus elevou-a a tanto n'Eie que nunca fez nem

i
fará nada maior, nada mais santo, nem mais digno
l de si mesmo, da sua grandeza e do seu amor, que
� esta divina Mãe.

I)

Na ordem da graça e da santidade das criatu­
ras, é Ela o termo das operações de todas as corou­

i
nicações e efusões do poder, da sabedoria e da bon-
dade de Deus.
Trazendo em si Jesus Cristo, o Santo de Deus,
é Ela que, como ninguém, participa, na santidade

!
do seu divino Filho.

'
'
(' ) Eccl., I, 7.

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�t;� ��::;;:�:::a�
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i�
e doutor da Igreja que escreveu : «Convinha que fos-
se uma mãe puríssima, aquela no seio de quem
se devia operar a incarnação do Verbo Divino ;
« convinha, desde então, que Ela brilhasse
duma santidade tal, que fosse a maior que se possa
conceber após a de Deus.
«0 Pai dispunha-se a dar-lhe o seu Filho único,
esse Filho gerado no seu coração e igual a Si, que
ama como a Si mesmo,
«e a dar-lho de maneira que fosse naturalmente
um só e mesmo Filho, comum a este Pai e a esta Vir­
gem.
«0 Filho escolhia-A para ser substanciahnente
sua Mãe,
e , n'Ela, o Espírito Santo queria e devia operar,
afim de que fosse concebido e nascesse o Verbo de que
Ele mesmo procede. (1) »
Que mais ? . . . Mais não ousamos que repetir :
SANTA MARIA !
Há um encanto tal, e uma doçura e graça tama­
nhas em repetir-lho !
Alma cristã, desfia ainda cada uma das contas
do teu terço, e não lhe digas mais que isto : SANTA
MARIA!
Pensa ao faze-lo, que Ela é a Santa dos Santo<J,
a Virgem Mãe três vezes santa, porque Santa do
Pai, Santa do Filho, Santa do Espírito de Amor.

(1) De Concep. Virg., 17.

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E assim saborearás melhor o gosto do seu AVE;
sentir-te-ás como que transformado na sua santida­
de ; isto é, terás desejo de te fazeres santo, tu tam­
bém, para lhe poderes dizer melhor : SANTA MA­
RIA, SANTA MÃE DE DEUS, SANTA VIRGEM
DAS VIRGENS!

§ 2. - AS SUAS VIRTUDES

Como a Igreja fez bem em unir estas duas pala­


vras : BANTA e MARIA!
Quere lembrar-nos sempre que recitamos o nosso
AVE, que a santidade e Maria são como uma e mes­
ma coisa.
A V.É MARIA. É assim que começamos a Sau­
dação Angélica; e tudo o que se segue revela mara­
vilhosamente, já o vimos, quem é esta MARIA, o
que este nome tão doce nos recorda, as suas gran­
dezas, tudo o que contém de graça , de presença de
Deus, de bençãos de todo o género.
E reconhecemos então que é verdadeiramente
Santa, a Santa dos Santos ;
a mais Santa depois d'Aquele que é o Santo
dos Santos.

SANTA MARIA.

Quereria enumerar aqui, todos os seus dons,


todas as suas virtudes ; quereria poder mostrar até
que ponto o Espírito Santo a invade, com o seu


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temor filial para com Deus, com a sua piedade sem
igual, com a sua força heróica, o seu prudentíssimo
�i
conselho, a plenitude da sua ciência, com a sua pro-
fundíssima inteligência e sabedoria divinas.
l)
Quereria, com S. Bernardino de Sena, meditar �
as suas doze virtudes principais, a que o santo cha- !
ma Damas de honor, que estão sempre com Ela e
l
a acompanham para toda a parte ; o recolhimento,
l
o silêncio, o pudor, a prudência, o temor, a honesti- (
dade, a diligência, a caridade, a obediência, a humil­
dade, o bom desejo e a fé (1 ) . Estas virtudes orna­
vam o seu coração, quando Gabriel a veio visitar ;
embelezavam-na desde sempre.

Sou incapaz, sinto-me inferior à altura da mi­


nha tarefa ; e estas páginas não têm a pretensão de
apresentar aos teólogos e aos doutores uma nova
Mariologia. O meu fim é muito mais modesto ; pro-
, curo tomar contacto com almas simples, para quem
bastam algumas irradiações da beleza de Santa
Maria; para a admirarem sem fim, e melhor pro­
nunciarem o seu nome, o mais belo dos nomes depois
do nome de JESUS.
Acode-me à memória somente esta passagem da
Escritura em que o Espírito Santo nos diz :

A Sabedoria construiu para si uma morada; e


fir�a sobre sete colunas (2) . Trata-se da Sabe-

(1) De Iaudibus Virginitatis. Serm. 48.


(') Prov., IX, 1.

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doria do Alto, de Cristo, Virtude de Deus e sua
Sabedoria (1) que escolhe o seio de Maria para
morada,
a morada de uma Virgem puríssima, castíssima,
inviolável, aquela de quem o Espírito Santo diz mais
ainda :
«Quando entrar em minha casa, descansarei
com Ela» (2) .
A Sabedoria assentou esta morada sobre sete
colunas :
São sete das principais virtudes : as quatro vir­
tudes cardiais da prudência, da temperança, da for­
taleza e a da justiça, e as três virtudes teologais da
fé, esperança e caridade. ,
Esta casa de Deus, Porta do Céu, está ornada
do cortejo admirável de todas as virtudes morais,
dos doze frutos do Espírito Santo e das oito bemaven­
turanças, como nenhum outro Santo.
Que palácio ! que riquezas ! Quanto ouro, quan­
tos diamantes !
MARIA foi criada como domicílio da virtude, a
fonte inexaurível da luz divina.
Por isso, os Santos Padres e os Doutores mais
ilustres, não sabem como exprimir este compri­
mento, esta largura, esta profundidade e esta subli­
midade, medidas por assim dizer indefinidas da per­
feição e da santidade de SANTA MARIA .
I

L
(') I Cor., 1,30.
(') Sap., vm, 16.

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, ,v�,��a���::;;
::;:;�:óp��
!
Deus, um céu, o céu de Deus, o céu dos céus que
pertence ao Senhor ; �
i
o domicilio maior e mais rico que Deus possui,
a casa de uma madeira incorruptível,
a casa de ouro, o palácio imenso, que encerra o
que o mundo não pode conter ;
o lugar incomensurável onde reside o Infinito,
o santuário augusto e sagrado onde reside a
plenitude da Divindade,
a arca suprema da Majestade divina,
o único templo verdadeiramente digno do Todo
Poderoso (1 ) .
Renunciamos a enumerar os títulos que com­
petem a SANTA MARIA e às suas virtudes.
Nada mais tenho a fazer que dizer-lhe :
TOTA PULCHRA, sois a toda bela, ó Ma­
ria, e em vós não há a mais ténue mancha, não
existe qualquer pecado, a mais leve sombra, ou im­
perfeição.
Vós sois, ó SANTA, como uma emanação pura
da glória de Deus Todo Poderoso ( 2 ) , deste Filho
bem-amado, nascido das vossas entranhas de Vir­
gem, e que faz de Vós SANTA MARIA, a MÃE DE
DEUS.

(1) Ver as referências no belo livro «Porque amo


Maria> do R. P. de Lombaerde, Bonne Presse du Midi, Vai­

I
son-la-Romaine, Vaucluse ( France ) , p. 138.
(') Sap., VII, 25.

1 39 � '
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E assim como para conhecer o Pai eterno olho
para este Filho ; para conhecer Jesus, ó 8ANT18-
8IMA, contemplo-o em Vós.
Atraí-nos ao perfume de vossas virtudes.
As vossas vestes têm o perfume do incenso mais
puro (1 ) . Que ele nos eleve para o alto, para muito
alto, para o céu, para Deus.

(' ) Cant., Cant., IV, 11.

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MAE DE DEUS

§ 1. - A SUA VIRGINDADE

SANTA MARIA, SANTA MÃE DE DEUS e


SANTA VIRGEM DAS VIRGENS!

M
UITOS séculos antes de Gabriel, o Arcanjo de
Maria, ter vindo dizer-lhe o seu AVE, Isaías
tinha profetizado :
Eis que uma Virgem conceberá (1) .
Aproximai-vos Patriarcas e Profetas, Israel e
Nações do Universo ;
ouvi, olhai e pasmai.
Vede este prodígio novo, a maior maravilha que
os séculos podem presenciar, a obra prima da mão
de Deus Todo Poderoso :
uma Virgem vai conceber e dar à luz ! . . .
Esta Virgem, é a Filha, a Mãe, a Esposa de
Deus ;

(1) Is., VII, 14.

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será a Raínha dos Anjos e a Mãe dos homens.
Ela unirá Deus ao homem, o céu à terra, a ma­
ternidade à virgindade, e conduzirá os pecadores à
santidade !
«Ficava bem, diz Bossuet, que a Carne santís­
sima do Salvador, fosse por assim dizer embelezada
com toda a pureza de um sangue virginal, para ser
digna de se unir ao Verbo divino» (1) .
E Tertuliano houvera já dito : «Convinha que
o Filho de Deus nascesse da Mulher para que por
este lado fosse Filho do Homem ; e que não nas­
cesse do homem, com receio de que sendo filho do
homem, já não parecesse Filho de Deus» (2) .
Contemplai pois esta economia ; vêde como é
admirável !
A Maternidade de Maria revela a Humanidade
do Verbo ; a Virgindade torna patente a Divindade.
Duma Mãe Virgem nasce um Homem-Deus.
Maria é Virgem, e é Mãe ; é Mãe e permanece
Virgem (3) .
Não temos aqui, a coroação mais sublime da Vir­
gindade numa tal Maternidade ? !
A Incarnação do vosso Filho, ó Maria, longe
i de macular a vossa augusta Virgindade dá-lhe um

I
carácter divino.

' '
S
g<m.
( ')

( )
Segundo Sermão sobre a Conceição da SS. Vir-

D• Cam• Chriati, 17 . :


( ') Aug. Nicolas. Economia da lncarnação, 11, 4.

. 142 ��-�����

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�_-......... �......_��)
sois tanto mais Virgem quanto mais sois Mãe, l
pois sois a Mãe do Autor da Virgindade ;
sois tanto mais Mãe quanto mais sois Virgem,
l
sendo uma e outra por excelência e como que \
1
1
duplamente,
sois duplamente Mãe, sendo Mãe-Virgem ;
sois duplamente Virgem, sendo Virgem-Mãe.
O que em toda a parte se exclui, em Vós cresce
e multiplica-se.
E é assim que vós apresentais ao mundo, e par­
ticularmente ao vosso sexo, a mais maravilhosa, a
mais adorável obra prima de Virgindade e de Mater­
nidade.

Uma Virgem-Mãe !
A minha fé é esta : Creio, na verdade, que Jesus
Cristo foi concebido do Espírito Santo, e nasceu de
Maria Virgem ( 1 ) .
õ Maria, vós sois Virgem ao conceberdes, Vir­
gem no parto e Virgem depois do parto : assim o
creio : CREDO.
Como aprecio estas palavras de Santo Agos­
tinho ! . . .
«Jesus Cristo, gerado desde toda a eternidade
pelo Pai, nasce de uma Virgem-Mãe,
«No seu primeiro nascimento, provém de um
Pai impassível ;
«no segundo, de uma Virgem incorruptível.

t
(') Credo da Missa . 'I!

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r��- :��u;-;:: �;� !
,
i
conhece ; i

í « AVirgem e Mãe sem mancha, que não conhece


� homem, é a única que tem conhecimento do segundo.
i «No Pai, perpétua Divindade ;
1 «na Mãe, eterna Virgindade.

� «Tomar-te-ei como minha Esposa para sem-


pre (I) , diz Deus a Maria pelo seu Profeta.
1 «Ora, Aquela que é a Esposa eterna de um Deus
í
l deve ser Virgem eternamente.

j
� «Jesus Cristo vem invisivelmente do Pai e visi-
velmente da Mãe ;
<
!
«vem do Pai de uma maneira inexprim.ível,
«nasce da Mãe de uma maneira incomparável,
i
j
«porque neste primeiro nascimento tem, sem
corrupção, a Deus por Pai, sem Mãe ;
j
i
, «no segundo, tem a Virgem por Mãe, sem pai. 1

i «Do seio maternal que Ele criou, sai sem o

J
<
corromper, para que Aquele que no céu tem por Pai
um Deus-Virgem, tenha na terra uma Virgem por
Mãe» (2) .

i

i
'
Que eu compreenda bem os louvores sem fim,
que os grandes Santos e Doutores tecem, Ãquela que,

I
Virgem de corpo, Virgem de alma, Virgem de cora-
ção, é a Raínha das virgens.
São Gregório chama-lhe o Porta-estandarte das
Virgens. �
'
I
l
(') Os., II, 119.
i

L.
( 2) Sermão 18, in Natali Domini.

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Santo Ambrósio, a Mestra da Virgindade.
São João Damasceno, a Glória de toda a Vir­
gindade.
São Bernardo, a Chave da Virgindade�
São Germano, o modelo e a forma da Virgin­
dade,
São Tiago, na sua Liturgia, a Glória das
Virgens.
São Bernardo proclama que a Virgindade de
Maria, está acima da pureza dos Anjos (1 ) .
Santo Epifânio ensina que o costume de dizer,
Santíssima Virgem� como nome próprio e distintivo
seu, é essencial a Maria, e é prática invariável e
indestrutível na Igreja.
Os cristãos do Oriente chamam-lhe a Sempre
Virgem� com urna só palavra como faziam os anti­
gos Padres latinos, a SEMPERVIRGO.
Que direi eu mais, senão com a Igreja :
«SANCTA VIRGINITAS. . . ó Santa Virgindade!
- como se Maria a incarnasse - que louvores
posso tributar-te, não sei?
Porque Aquele que o céu e a terra não pude­
ram conter, levás-te-lo tu no teu seio» (2) .
Era em caracteres de ouro, que merecia ser
escrito, aqui, o testemunho dado em louvor de Maria
pelos lábios daquela mulher do Evangelho, que,

(' ) De Conceptione Virginis c. 18.


(') Responso de Matinas, no Ofício da SS. Virgem
Maria.

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(,.,_� �..r-· ......,_��---.....�-....--�..--�
� �������'.-''-� ;

( levantando a voz do meio da multidão, clamava para
1 Jesus :
Bemaventurado o seio que te trouxe, e os pei­
tos que te amamentaram ! (1)
Todos os séculos, à porfia, confessam e cele­
bram nesta exclamação a sua fé na Maternidade
divina de MARIA.
Jesus não recusou esta prova de estima para
com sua Mãe ; antes pelo contrário lhe deu relevo,
e em resposta àquela mulher, exclama :
Mais felizes ainda os que ouvem o Verbo e o
guardam (2) .
O Verbo, é a Palavra ; essa Palavra que incar­
nou em MARIA, sem dúvida, mas que primeiro a
fez Mãe segundo o espírito, antes de o ser segundo
a carne.
ô Maria, concebestes este Verbo segundo o
espírito, em vossa alma, antes de o conceberdes em
vossas entranhas.
Vós o tinheis conhecido primeiro, na fé : Feliz,
porque acreditaste (3) , dissera-vos Isabel.
Se sois Mãe, deveis à fé a fecundidade.
Assim falam os Santos Doutores ( 4 ) •

A Vossa Maternidade é uma elevação sem igual,


é uma fonte de inúmeras glórias. E não obstante,

(') Lc., XI, 27.


( ') Ibid., 28.
( )
' Ibid., I, 45.
(4) S. Agostinho Liber de S. Virgine. c. m.

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dizem eles que a vossa Maternidade espiritual é ain­
da mais gloriosa.
O grande Suarez vai até ao ponto de afirmar
com S. Justino, que sois mais feliz por causa das
virtudes que vos tornam digna da Maternidade
divina, do que em virtude da mesma dignidade de
Mãe de Deus (1 ) .
Foi, sem dúvida, um dom gratuito ; mas se vós
sois Mãe de Deus, devei-lo também a estas virtudes.
Hanc prcypter illam obtinuit.
E compreende-se esta palavra do Apóstolo : A
fé faz habitar Je8U8 Cristo num coração (2) .
õ Maria, a resposta de Jesus àr mulher do
Evangelho faz �essaltar ainda os vossos louvores.
E que consolação não dais a esses milhões e
milhões de almas, que desde então e em função da
vossa, reservam para Deus e lhe consagram a sua
virgindade !
Virgens santas de todos os tempos, e de todos
os lugares, virgens de todas as idades, virgens már­
tires e outras que durante tanto tempo viveis o
vosso longo e tão glorioso martírio, rejubilai : uma
Virgem deu à luz, Cristo.
Que a esterilidade não vos preocupe. A vossa
fé é o princípio de uma fecundidade maior e mais
feliz.
Permanecendo virgens, concebeis, gerais espi-

(') In m S. Thomas. Q. 7 , disp. I , s . 2.


( ') Ef., m, 17.

1 47
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ritualmente a Cristo, e em Cristo, uma multidão
de almas, sem perderdes nada da vossa integridade.
Imitai, com fidelidade, a Mãe do vosso Esposo
celeste.
Aquele que d'Ela nasceu, não vos recusará a
honra insigne de uma virgindade fecunda.
O que Ele deu a uma Mãe, Virgem tão santa,
o que conservou na sua éarne puríssima, também
vo-'lo concede, para serdes virgens e mães ; para
serdes como a carne de Cristo, isenta de toda a
mancha.
Vinde a MARIA e sereis sempre virgens e sem­
pre fecundas.
Felizes, todas vós, que permaneceis atentas dia
e noite, às inspirações do Verbo que o Pai concebe
e gera na eternidade ;
felizes vós, que o recebeis no mais íntimo da
alma concebendo-O e formando-O em vós, para O con­
ceberdes e formardes nos outros !
Santa Virgindade, em verdade, não sei com que
louvores possa engrandecer-vos! (1)
Maria e vós, sois uma e mesma coisa.
O grande apóstolo dissera-o : Uma virgem só
pensa no Senhor, para ser santa de corpo e aJma (2) .
Virgindade, tu és virtude tão sublime que o
nome de virgem, na sua raiz, vem de virtude ( 3 ) .

(') Responso do Oficio.


(' ) I Cor., VII, 34.
(3) S. Fulgêncio, Epist. 3, c. 4.

148
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Foste ao céu em procura daquilo de que que­
ríeis dar-nos uma ideia na terra. E tendo passado
para além das nuvens e do firmamento, chegaste
até Deus ; e encontraste no próprio Seio do Pai, o
Verbo eterno (1 ) .
Ser virgem e Anjo, é uma e mesma coisa ( 2 ) .
A virgem é diferente do Anjo em felicidade, mas
não em virtude.
A virgindade do Anjo é mais feliz, a da virgem
é mais heróica.
E ser virgem, é um mérito adquirido pela cora­
gem, que alcança com o auxílio da graça o que o
Anjo possui por natureza (3 ) .
õ Virgindade, tu és qualquer coisa de tão ele­
vado, de tão ilustre, que tornas a alma semelhante
ao Deus incorruptível ( 1 ) .
Uma virgem, é o sacrário vivo de Jesus
Cristo ( 5 ) .
Apesar disso, diz S. Bernardo, não te glories
da castidade do teu corpo, por virtude louvável que
seja.
Quanto mais alto estás, mais deves humilhar-te
em tudo, se, como MARIA, queres encontrar graça
diante de Deus.

(') S. Ambrósio. Da Instit. Virg., c . 15.


('} S. Gregório, De Virginltate.
(3} S. Bernardo, S. Jerónimo.
(') S. Basilio, De vera Virg ..
(' ) Idem. De laud F. Virg.

149
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lj��:;;: .:�i::.�::ti=�:ni!���:
Só Deus concede a castidade e a protege, mas
aos humildes.

um
�� ··

� A VÉ MARIA, CHEIA DE GRAÇA.

I
Santa Mãe de Deus, Santa Virgem das virgens.
Sois o Va.so honotrífico onde o Pai celeste quiz
que guardásseis o Verbo, a sua Palavra,
o Vaso espiritual do Espírito Santo, onde Ele

) fez germinar todas as virtudes,
)

l
o Vaso in3igne de devoção que se deu total­
mente ao Verbo Incarnado, Redentor, para Ele

I
cooperar na obra insigne do nosso resgate, da nossa
salvação.
Virgem toda bela, a mais bela, a mais pura, a

i mais casta, a mais imaculada das virgens. Que os


'
Anjos vos aclamem, que os Santos cantem os vossos
louvores, que as virgens vos imitem !
Sois a coroa e a glória da Virgindade !

§ 2.0 - O GRANDE MISmRIO

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS.

A Maternidade de MARIA! Eis o pedestal de


todas as grandezas, de todas as prerrogativas de
MARIA :
da sua Predestinação eterna, da sua Imaculada
5
1 0 -�/ ��������������,��-'�- _;

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. . ··"·� ��-��� ���-�
"�����
���� !
Conceição, dos títulos de Corredentora, de Dis- <

tribuidora das graças, �


as suas dores, as suas alegrias, as suas glórias.
«Maria é Mãe de Deus, diz Bossuet : esta pala-
l
vra encerra tudo, diz tudo».
Ser Mãe de Deus, é uma participação tão supe­
rior na Divindade, uma aliança tão estreita com Ela,
que acima de Maria, já só está Deus.
S. Tomás disse bem : «Entre Deus Pai e a Mãe
do Verbo existe uma afinidade especial.
«A Paternidade de Deus Pai e a Maternidade
da Virgem-Mãe assemelham-se tanto, aproximam-se
tão de perto, estão tão intimamente unidas, que uma
toca na outra (1) .

MÃE DE DEUS.

Tem algo de inexgotável este tít p!o. Ser Mãe


I
de Deus, é ter-lhe dado com a natureza humana, a �
sua própria substância, o corpo, a carne, o sangue ;
é adquirir sobre Ele, direitos de Mãe sobre o seu fi­
lho ; é vê-Lo submisso como um filho, a ponto de lhe
chamar mãe, e como tal respeitá-la, honrá-la, amá-la
�!
l
e obedecer-lhe (2 ) . ,
São assim as relações de Jesus e Maria. O
mesmo sangue circulava n'Ele e n 'Ela durante os 1
I
I

I
I
)
(') rr . rr . Q. 103. a. 4.
( ') Corn. a. Lap.

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..
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(

nove meses que viveu no seu seio ; o mesmo sangue


I para Ela e para Jesus, os corações pulsavam em
uníssono, era o mesmo alento que lhes mantinha a
vida (1 ) .
Era assim ainda que o sangue de Maria, maté­
ria do Precioso Corpo de Jesus, e o leite com que O
alimentava e que se transformava na substância do
seu Filho, estavam unidos hipostàticamente ao Verbo
eterno.
De tudo isto conclui Santo Agostinho : «A carne
de Jesus Cristo é a carne de Maria».
Ao dar-nos o Seu Corpo como alimento e o Seu
Sangue Precioso como bebida, dá-nos o corpo, o
sangue, o leite, e a substância "da Virgem Maria,
transformada na sua própria substância (2) .

MÃE DE DEUS! Sim, porque Aquele que é


seu Filho no tempo, é ao mesmo tempo o Filh o do
Pai na eternidade ; e isto em unidade de Pessoa.
A Mãe da Pessoa do Verbo , é portanto realmente
a MÃE DE DEUS.
Não há dignidade que mais se aproxime da
união hipostática das duas naturezas em Jesus, que
a Maternidade divina.
E é por isso que os grandes teólogos ensinam
que esta Maternidade pertence à ordem própria
desta União, e tem com esta ordem uma relação

(') D e Lombaerde.
(') De Assumpt. B. Virg.

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necessária (1) ; de tal forma que MARIA, MÃE DE
DEUS, não poderia estar mais intimamente unida a
Deus, sem parecer o mesmo Deus (2) .
MARIA pode portanto exclamar no seu Magni­
ficat: Aquele que é Poderoso, operou em mim gran­
des coisas; grandes para mim, com certeza, mas
também para Aquele que as realizou.

Estas coisas são tão grandes que MARIA


não pôde compreendê-las, sem dúvida, em toda a sua
sublimidade.
Só a Santíssima Trindade pode penetrar os
abismos desta dignidade.
E S. Bernardo pode afirmar : «Ser Mãe de Deus,
é uma graça tão grande que Deus não poderia torná­
-la maior.
«Sim, pode aumentar o mundo e os céus ; mas
não pode aumentar a dignidade de sua Mãe ( 3 ) .
õ maravilha das maravilhas, que é Maria, MÃE
DE DEUS!
Que Deus tenha gerado Deus, está de acordo
com a sua natureza divina ; é pois necessário que
assim aconteça, para que Deus seja o que é.
Mas que uma mulher conceba e dê · à luz um
Deus, isto é o milagre dos milagres.
É o que acreditamos, cantamos e celebramos

(') Suarez.
(') S. Alberto Magno.
( ') Spec. BM. V. Iec. 10.
I)
·
'�
� ��-� � � � ����� -�-�, --��-�-"-��--��-�� 1 53 �)

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l�������--� ����� --�-�---- �----���-��-�-

! quando de joelhos, repetimos com os séculos, o que


até na eternidade havemos de repetir :
I
(
)
«Oreio em UM Só SENHOR, JESUS ORISTO,
«Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai, antes

j
de todos os séculos,
«De?.l.3 de De?.l.3, Luz de Luz, Deus verdadeiro
de Deus verdadeiro. . .
«E que incarnou, por obra do Espírito Santo,

l
«NO SEIO DA VIRGEM MARIA; �
«E FOI FEITO HOMEM» (1) . �
)
I

§ 3. - A MAE DOS HOMENS 1


'
I

Este titulo de
MÃE DE DEUS faz lembrar teo­
lógica e làgicamente o de
MÃE DOS HOMENS.
ó Maria, vós sois MÃE DE DEUS; e é por isso
que sois NOSSA MÃE. Que graça e que felicidade !
MARIA é a Mãe do meu Deus, e por isso, no
verdadeiro sentido da palavra, chamo-lhe minha
Mãe...
AVE.
Espírito Santo do Pai e do Filho que fecun­
dastes Maria para ser ao mesmo tempo Mãe de Deus
e minha Mãe, ensinai-me bem esta consoladora e
inefável doutrina :

(') Credo da Missa.

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MARIA, MÃE DE DEUS e MÃE DOS HO­
MENS.
Quem sois vós, Senhor Jesus ?
Sois essencialmente o Salvador, o Redentor;
sois o nosso Mediador junto do Pai.
E para dizer tudo , vós sois, conforme ensina o
Apóstolo :
a Cabeça do Corpo da Igreja (1)
o Füho primogénito dum número incontável de
irmãos (2) .
Os cristãos são membro s vossos, em relação
com o lrm9.o mais velho que sois Vós, na multidão
que os compõe e os une.
Se a Incarnação da vossa Pessoa, ó Verbo, deve
resgatar e salvar os homens, tendes forçosamente de
ser o Mediador, o Primogénito, o Chefe augusto do
Corpo Místico da vossa Igreja.
Místico, não é oposto a real, mas oposto a físico,
tangível.
Há tantas coisas que se não vêem, e que não
obstante são de uma tal realidade, que ninguém sen­
sato ousa pô-las em dúvida ; a começar pelo próprio
Deus e seus Anjos. Jesus, Vós sois o nosso Sacerdo·
te, o Grande Sacerdote de toda a raça humana, o
Cordeiro Mediador, imolado desde a cO"It8tituição do
mundo (3) .

(1) Col. , I, 18.


(') Rom. VIII, 29.
(8) I. Petr., I, 20.

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����-�-��-���
1!: este Jesus, não UIÍ1 Cristo abstracto, mas �
muito concreto, que nós adoramos ; é Ele que está {
unido, indiscutivelmente, a cada um de nós, como �
a cabeça está unida a cada um dos membros do cor- )
I

po, para lhe transmitir o influxo vital, que os con-


serva, os alimenta e os dirige.
1!: deste Chefe, que MARIA) a MÃE DE DEUS)
é a Mãe autêntica.
MÃE DE JESUS) ó Maria, vós sois a nossa
MÃE.
Vós gerastes a Cabeça ; e n'Ela gerastes tam­
bém, intencionalmente sim, mas essencialmente,
todos os membros que Aquela deve vivificar.
Quere dizer que, em Jesus, de quem sois Mãe,
todos estamos incluidos ; todos os homens que exis­
tiram, existem, ou hão-de existir um dia, todos
quantos podem aspirar à Redenção, estão contidos
n'Ele, em poder pelo menos. Fazer abstracção de
nós, seria separar-nos do vosso seio.
Ao conceber Jesus, ao dar à luz, vós concebestes
e gerastes todos aqueles que no tempo e na eterni­
dade haviam de fazer parte do Seu Corpo Místico.
Foi Deus, que assim o quis, na predestinação de Je­
sus e de vós mesma : foi o plano que Deus consagrou.
Que maravilha ainda !
MARIA) MÃE DE DEUS E MÃE DOS HO­
MENS.
Não temos necessidade de trazer para aqui
todas as citações dos Doutores e Padres da Igreja,

�· 1 56 ' -�-����----��--- �� ���--�-�����


https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
:."'C··�;��;;��·::g.:::��
� :::��:�·-:::��··1
temporâneos para apoiar esta doutrina. �
Recordamo-Ia aqui simplesmente, para que �
.>
nunca esqueçamos - e que lacuna seria na nossa
piedade - que M�4RIA, MÃE DE DEUS, e por este
mesmo motivo, é também a MÃE DOS HOMENS, a
nossa Mãe, A MINHA 11fÃE.
Basta perscrutar o fundo do meu coração, para
encontrar a prova do que afirmo. Porque esta con­
vicção foi depositada na minha alma, com as gra­
ças do meu baptismo. Desde a minha mais tenra in­
fância - apelo para a experiência de todos - dei con­
ta de que Aquela a quem minha própria mãe me con­
sagrava, aos pés de quem me ensinaram a ajoelhar,
era a Mãe de Jesus, mas também a minha Mãe.
Experimentava, de resto, que Ela correspondia
a esta fé, acrescida duma confiança sem limites,
com um amor que eu não posso exprimir.
Todos os cristãos experimentam idênticos sen­
timentos, por muito pouco que saibam quem sois
Vós, ó Maria.
Eles sentem que podem lançar-se nos vossos
braços e repousar no vosso Coração, Coração de ver­
dadeira MÃE DOS HOMENS, porque verdadeira
Mãe de Deus.
As crianças, os adolescentes, os j ovens, os
homens feitos, os velhos, todos numa palavra,
diante das vossas imagens, proclamam em uníssono
que não há Mãe comparável a esta MÃE DE DEUS
e MÃE DOS HOMENS.

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l É um movimento universal de fé e de amor,

!
que hoje mais que nunca, os atrai a todos para vós.
Todos sabem que nas nossas indizíveis desgra­
( ças, já não há esperança senão em vós e n' Aquele

j

que de Vós nasceu para ser toda a Nossa Esperança.
õ Mãe admirável, permanecei inclinada sobre

l os filhos do vosso coração maternal.

� Dai a vida a estes seres tantas veze s quási mor­

S tos, em que nos transformámos ; modelai-nos à ima-


gem d' Aquele, que va-los confiou.

Que pensamento tão consolador ! Sou o fruto


de um duplo amor ; Deus amou-me primeiro ; e esse
amor depositou-o no vosso coração, ó Maria. A
união destes dois corações infundiu na minha alma
a vida da graça.
Foi o Espírito Santo, Amor do Pai e do Filho,
que a infundiu em mim ; mas pelo vosso FIAT, e
no perfume do AVE que Gabriel vos dizia, coope­
ráveis voluntàriamente nesse trabalho.

E é sempre assim : este mistério não se completa


cá na terra.
Trazeis-me sempre no vosso Coração, para aí
receber o Espírito do meu Deus, de Jesus, vosso
Filho, como a criança que andando no seio de sua
mãe só vive para ela ; assim eu só vivo bem, perma­
necendo no vosso Coração amante. Toda a minha res­
piração sobrenatural ali está.
Nada posso desejar ou querer em ordem à eter­
nidade, sem vós, porque é pelas mãos de Maria que

��. 1 58
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se distribuem todos os dons celestes, todas as vir­
tudes e todas as graças. Maria as distribui com quem
quer, quando quer e como quer (1) .
É na vossa própria substância sobrenatural,
isto é , na vossa caridade sem limites, que eu colho,
como leite para a minha alma, a graça que alimenta,
sustenta e desenvolve a vida de Jesus em mim.
Vós sois portanto fecunda por natureza, ao dar­
-nos Jesus Cristo ; sois fecú.nda pela caridade obten­
do-nos a graça que nos alimenta ( 2 ) .
Maternidade da carne, maternidade do amor ;
duas fecundidades que se atraiem e se completam !

ó MÃE DE DEUS, E MÃE DOS HOMENS! (3)

Mas para me aproveitar de todos os benefícios


que resultam deste inefável mistério, tenho de estar
intimamente unido a minha mãe, a vós, ó Maria.
A cada instante que passa, a vida que me des­
tes em Jesus, deve continuar e crescer.
É pela oração que se consegue tudo isto, mas
que espécie de oração ? A oração de uma crianci­
nha de colo, incapaz ainda de caminhar por seu pé.
Se quero experimentar que sois minha mãe,
tenho de reconhecer as minhas enonnes fraquezas,

(' ) S. Bernardino de Sena.


( ') S. Agostinho. De Sancta Virginitate.
> . ( ' ) Isto segundo um dos mais belos livros escritos <
\ sobre Maria, do R. P. Schryvers, C. SS. R. Minha Mãe.
l
Lw� � � � ��� 159 l

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a minha inconcebível miséria, e incapacidade total
para o bem.
Tenho de renunciar a qualquer pretensão, e à
minha presunção ; renunciar à confiança que depo­
sito na minha ciência, e pretensas virtudes ou mé­
ritos.
Por me sentir tão pobre e tão pequeno é que
tenho necessidade de vós, minha Mãe. . Mas, com
que confiante abandono, devo recorrer a vós ! Pode
um filho ter verdadeiramente medo de se aproximar
de sua mãe ?
A função de mãe, não é precisamente comuni­
car a vida que profusamente alberga em si e encher
de confiança os seus filhos ?
õ Maria, junto de mim, outra missão não ten­
des que dar-me JESUS, o Fruto bendito do vosso (
)


ventre. )
Além disso, gostais imenso que eu vos peça,
que vos suplique, e vos exponha com simplicidade
todas as minhas necessidades. Í
Sei que procedendo deste modo, vos causo um �

1
'

prazer indizível. )
Senhora e Mãe, não é ilimitada a vossa bon-
dade, não é mesmo apaixonada por fazer bem a
quantos a ela recorrem ?
Amai-me então tanto quanto podeis amar.
Amar não é porventura a grande a quási única mis-
ii
são duma mãe ? )
E que dizer duma MÃE DE DEUS!
Embalai a minha alma nos vossos braços, ali-
l

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_,.,..,_.�
· -- �,..,_,,_., _,....,_,,_�_,..._,...,_���--;..... � ��
� -.,.�'-"
���� ��
mentai-a com esse amor que inebriou Jesus Cristo,
l
1
vosso Filho, vosso Primogénito em relação a nós. 1

Conheceis as minhas necessidades, necessida-


des de alma e de corpo ; conhecei-las melhor do que
eu, - porque é Jesus que vos faz ciente delas - o
que reverte em benefício da minha vida de cristão.
Fazei que eu vos dê graças e vos ame sempre
mais.
Oh ! sim, que eu vos ame cada vez mais, com
um amor de filho ; com um amor bem unido ao amor
com que vos ama JESUS.
Amar-vos, seio-o bem, é ainda e sempre amá­
-Lo, a Ele, o Amor supremo.
Sei igualmente que por mais que tente ou faça,
amar-me-eis sempre mais do que eu vos amo, ou
possa desejar ser amado por vós.
Que felicidade experimento, sabendo que vivo
em vós, e que através de vós, JESUS faz descer a
mim a sua vida !

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ROGAI POR NÓS

A OMNIPOT�NCIA SUPLICANTE

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS E DOS


HOMENS, ROGAI POR N6S!

ÃE
M
do género humano, sois cheia de vida divina
em vós mesma, e para nós transbordais de
graças : Plena sibi, superplena nobis.
õ Mãe, o vosso papel na distribuição das gra­
ças, não é a consequência do que desempenhastes
na sua aquisição ?
Oh ! sem dúvida, na glória, Jesus continua,
pelas suas divinas Chagas, a ser o nosso Intercessor
Oficial. Causa meritória das graças, alcança-as por
um direito de justiça (1 ) .
Todos os dons celestes nos chegam por meio
d'Ele.
í

I
)

(') De condigno - De direito estricto.

��--� 162
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I
Mas ó Maria, vós sois a Omnipotência Supli­
cante, pela qual sobem a Ele todas as preces, e des­
cem todas as graças. Omnipotentia supplex.
i
É que por conveniência ( 1 ) e por direito de
amizade, merecestes tudo o que podemos esperar de
Deus por meio de vós.
í
Depois do FIAT da Anunciação começastes esta

I
I
missão sublime, de serdes .em nosso favor a Auxi­
liar de Deus.
l(
O Pai celeste, fez de Jesus e de vós um con­ (
)
junto redentor. Vós na dependência d'Ele com cer­
\
l
teza ; mas considera-Vos sempre unida a Jesus, em
todos os mistérios, em todos os estados ; e é assim
unida, que cooperais na salvação dos homens. �
Já meditei que estais encarregada de distribuir

\
)
aos homens a vida sobrenatural que vem lá dos con­
fins da eternidade, não como obra vossa, mas pelo
vosso mérito.
A eficácia deste mérito atinge todos aqueles a
quem JESUS, princípio de todos os bens , aplica a
sua acção salvadora.
Isto sobretudo é verdade, quando se trata da
vossa oração, da expressão dos vossos desejos,
daqueles que traduzem as nossas necessidades, as
das almas e as dos corpos. Pela vossa dignidade, ó
Maria, tocais nos confins do divino.
Aquele que dá a graça acolhe as vossas orações
como ordens.

(') De congruo.

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Ora nos sabemos que vós quereis, e com que
ardor, as graças de Deus para nós.
Encanto incomparável para Deus ; sendo a Ima­
culada, a toda pura, a toda bela a soberanamente
agradável ao Amor eterno, que pode Ele recusar­
-Vos ?
Quando a Trindade Santíssima põe os olhos em
Vós, vê outro que não seja Jesus Cristo, e a Tesou­
reira de todos os seus bens ?
Tudo o que a Jesus pertence por justiça, não ,.
pertence a Vás por amizade ?
Oh ! sim, os Doutores, têm toda a razão para
dizer que é pelas vossas preces e méritos que a vir­
tude e os frutos da Paixão de Cristo são aplicados
aos homens.
Não, mil vezes não, não é fazer injúria a Jesus,
apresentar-lhe os nossos pedidos, por intermédio
de Vós.
Ele é sempre o intercessor principal necessário
junto do Pai celeste. Toda a sua Paixão bendita
clama sem cessar a Deus, pelas suas chagas sempre
abertas ; nenhuma intercessão, nem nossa nem de
qualquer outro tem o mínimo valor separada d'Ele
e das suas Chagas.
Mas se é verdade que na obra da Redenção coo­
perastes em tudo, nas alegrias e nas dores de Cristo,
para obterdes a nossa salvação, estamos autorizados
a concluir que acontece outro tanto na distribuição
de todas as graças, materiais e espirituais necessá­
rias para realizar esta salvação.

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É opinião de grandes teólogos, depois dos San­
tos e Doutores, que nenhuma graça, nenhuma sem
excepção, mesmo quando recorro à intercessão de
um Santo ou de uma Santa, desce do céu à terra
i sem ter passado pelas vossas mãos, ó Maria, pela
vossa mediação actual. P )
Em plena posse d a vossa felicidade no céu, ó
Mãe de todos os homens� vós cuja maternidade, em
virtude da vossa dignidade, da vossa missão, das vos­
sas relações com Cristo Salvador, é tão efectiva ;
poderíeis ser plenamente feliz, se lá em cima não
tivésseis conhecimento das necessidades desses
homens, resgatados pelo preço de tantas dores vos­
sas e de Jesus ?
No céu todos os bemaventurados têm direito,
segundo parece, a este conhecimento.
Mas, vós, ó Mãe de Deus, sim, e minha Mãe,
para me comunicardes, para conservardes em mim a
vida espiritual, para desenvolver em mim os actos
bons e destruir os meus vícios, não precisais de me
conhecer a fundo, os pensamentos, os desejos, os
perigos, as tentações, e tantos auxílios de que tenho
necessidade absoluta para escapar definitivamente
ao naufrágio deste mundo ?
Não é este o atributo próprio da vossa Mater­
nidade ?

(') Cf. Hugon. O. P. La Mere de Gr4ce, obra notá­


vel sobre este assunto.

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Doutro modo poderíeis ser A MÃE DE DEUS e
A MÃE DOS HOMENS ?

Se, pois, tendes conhecimento de tudo isto, por­


que o vêdes, o contemplais em Deus, que vo-lo reve­
la como a ninguém, poderia eu ó Mãe cheia de bon­
dade e de carinhos, e tão poderosa como sois, duvi­
dar um instante sequer, que tende s interesse em pe­
dir e sobretudo alcançar para mim, as graças de que
teilh.o mais necessidade ?

Dir-se-á talvez : sobre este tema, há liberdade de


opinião. Mas quando sabemos que é a doutrina prá­
tica da Santa Igreja, na Liturgia Sagrada ; quando
ouvimos afirmá-lo a um S. Germano de Constanti­
nópola, a um S. Pedro Damião, a um S. Bernardo,
todos três Doutores ilustres da Santa Igreja, a um
S. Tomás de Aquino, o príncipe da Teologia Católica,
a um S. Bernardino de Sena, a Suarez, um teólogo
eminente entre tantos ; a um S. Grignon de Mon­
fort ; a um Bossuet que de uma maneira grandiosa o
ensina ; repito, é muito sábio, muito agradável, mui­
to eficaz acreditá-lo, com Santo Afonso que encheu
as Glórias de Maria com afirmações concordes so­
bre o assunto, com os doutores e teólogos que lhe
sucederam.
Cito Bossuet, porque o seu pensamento resume
maravilhosamente, o da Igreja, o da Teologia, o dos
Padres e Doutores :
«Deus quis uma vez dar-nos Jesus Cristo por

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· .
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',
meio da Santíssima Virgem, e Deus não se arrepende
das suas dádivas ; esta ordem é imutável.
É e será sempre verdade, que tendo recebido
pela sua caridade o princípio universal da graça,re­
cebemos ainda por seu intermédio as diversas aplica­
ções para todos os estados diferente8 que compõem
a vida cristã.
«A sua caridade materna que tem contribuído em
tão larga medida, para o mistério da Incarnação,
que é o princípio universal da graça, contribuirá
eternamente para todas as operaçõe8 que não pas­
sam de consequências do mistério central (1) •

Compreende-se agora, a razão porque a Igreja,


na sua A VÊ MARIA, supondo como admitida esta
doutrina, nos manda juntar as mãos e dizer à nossa
Mãe do céu :
SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, e necessà­
riamente , MÃE DOS HOMENS, ROGAI POR NóS.

Que bela prece a que exprime esta A VÊ MA­


RIA!
Começo a aprender um pouco o seu poder sobre
o Coração de uma Mãe que nos ama !
Tudo o que acabámos de escrever sobre a Sau­
dação Angélica, sobre o que nos revela desta Vir­
gem e desta Mãe, não é nada, absolutamente nada
ainda, ao lado do que ela realmente contém.
Para lhe atingir todo o significado, seria pre-

( ') Edit. Lebarcq t. V., p. 609.

167 - � - - - .

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ciso ser Gabriel ; ou melhor. . . seria preciso ser o
próprio Deus.

ROGAI POR N6S!

Quem, ao recitar este AVE, como convém, com ,


toda a fé, com toda a confiança, com todo o amor,
com algo ao menos desse respeito de que Gabriel
ao pronunciá-lo estava penetrado ; não se sente con­
fiado, com a plena certeza de ser atendido ?
Se alguma alma julgando-se muito indigna de
ser atendida , não ousasse, ó Maria, resar-vos com
esta certeza, nessa altura, deponha este AVE nos
próprios lábios de Jesus Cristo, Filho de Deus e
vosso Filho.
Oh ! ninguém duvida disso, foi Ele que ainda no
seio de sua Mãe bem amada, entoou esta inefável
melodia do AVE à sua Imaculada ; a quem depois
numa série infinita de actos de fé, de esperança e
de amor, o repetiu, repete e há-de repetir pelos
lábios de quem acreditou, acredita e acreditará em
vós,
MÃE DE DEUS, MÃE DOS HOMENS, OHEIA
DE GRAÇA, OOM QUEM ESTÁ O SENHOR.
BENDITA ENTRE AS MULHERES, e cujas
entranhas trouxeram Jesus, o Fruto bendito pelos
séculos dos séculos.
Foi Ele que inspirou às Hierarquias celestes os
movimentos de admiração que os impelem para Vós,
Virgem Mãe, quando com Gabriel vos repetem A VS
MARIA!

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(...... -... �������.......,..._,��?

Í Os Profetas, os Evangelistas, os Apóstolos, que �


� são a glória de Cristo,


;
os Mártires de que Ele é a coroa,
os Confessores que honram a sua santidade e
i
i a vivem,
)
as virgens heróicas, as viúvas castíssimas,
todos os Santos e Santas de Deus,
todos aqueles de quem sois Rainha,
todos aprenderam com Jesus a dizer-Vos :
AVÉ-MARIA!
Todos a disseram e repetem-na sem cessar.
Sabiam bem e experimentam-no sempre que
nunca se vos diz em vão :
SANTA MARIA, MÃE
DE DEUS_, ROGAI POR NOS!
Seguindo o exemplo de todos eles, e proétl.rando
igualar a sua fé, unindo-nos á sua admiração e à
intensidade dos seus pedidos, nós miseráveis, di­
gnos só de compaixão, e tendo necessidade da vossa
misericórdia, repetimovo-lo, ó MÃE DE DEUS, e
Mãe nossa :
SANTA MARIA ROGAI POR NOS!
. Rogai por nós, vós que tanto podeis, que tudo
podeis por nós ; vós que, infinitamente mais que uma
mãe, por perspicaz que fosse, conheceis as nossa s
necessidades de alma e corpo ; rogai por nós, que
a vós suspiramos, deste vale de lágrimas, para que
sejamos socorridos, iluminados, fortificados, am­
parados, guiados, consolados, e enfim, salvos.
SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, ROGAI
POR NOS!
1:69
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PECADORES

A MÃE DE l\DSERICóRDIA

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, ROGAI


POR NóS PECADORES.

F
OI numa festa da vossa Assunção, que o mais
ilustre dos vossos panegiristas, S. Bernardo,
exclamou :
«Por vós, ó Maria, o céu encheu-se ;
«Por vós, o inferno viu fugir-lhe uma multi­
dão de almas ;
«Por vós, numa palavra, foi concedida a vida
eterna a uma multidão de desgraçados que dela se
tinham tornado indignos». (1)
É esta convicção, apoiada por todos os vossos
Santos Doutores, pelos vossos teólogos antigos e
modernos, que nos faz suplicar, dizendo : ROGAI
POR NóS PECADORES.

(') In Assump. B. M. V. Senn. 4.

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O esperança dos que a não têm, porto dos náu- ��

fragos, refúgio e asilo dos pecadores !
Tendes muita consideração por
(1)
estes pobres
l
)
filhos de Eva pecadora, que nós somos ; compade-

J
ceis-Vos incessantemente das nossas misérias ; e é
por isso que nós sabemos, a Igrej a repete-no-lo a
cada momento e por todas as formas, que pedis

>
sempre, que recomeçais sempre a pedir, e nunca
vos cançais de o fazer, porque é insaciável a vossa
vontade de nos defender de todo o mal (2) .

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS e DOS HO­


MENS, ROGAI POR NóS, PECADORES!

PECADORES!

Il
Oh ! sim, nós não passamos disso. . .
E quem o negasse seria um mentiroso, e a ver­
dade não estaria n'Ele (3) .
Esta criação magnífica, que o Amor eterno se
tinha comprazido em fazer surgir do nada, consti­
tuia um concerto admirável. �

I
Tudo cantava a glória de Deus, tudo se orien­
tava para Ele, Princípio e Fim supremo dos homens
e de todas as coisas, feitas para eles.
De repente, nesta Sinfonia divina, feriram os

(')
(')
(1)
S. Efrem.
S. Afonso.
I Jo. II, 4,.
1
171 �)
l
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,�-
ouVidos de Deus três notas, no �;;�;:;�:� 'j
daçaram as alinas : a dor, a morte, o mal ; a dor no �
meió de lim mundo criado para o amor ; a morte �
que impiedosamente ceifa todas as belezas à sua
passagem ; o mal que o homem aprecia e para o
qual por vezes é atraído irresistivelmente.
Que se terá passado ? O homem prevaricou ;
recusou-se a obedecer ao seu autor, Eva comeu o
fruto proíbido ; depois deu-o a seu marido que fez
outro tanto.
O pecado mortal, destruindo neles a imagem
inefável da Trindade Santíssima, matou as almas,
votando-as à cólera de Deus ; as almas dos primeiros
pais e as de todos os homens que existiram, existem
e hão-de existir ainda, condenando-as ao fogo eter­
no do inferno.
Ao mesmo tempo, a concupiscência, fonte e
ocasião do pecado , apoderou-se deles e de todos os
descendentes, de nós, de mim.
Ah ! que mistério, exclama o Apóstolo !
Não chego a compreender o que faço, porque
o bem que quero não o faço; e o mal que odeio, é o
que faço. Desgraçado que eu 8CYU! Quem me livrará
deste corpo de morte? ( 1 )
·"

Sinto e,QJ. plim um sangue viciado, que arrasta


consigo todos os meus achaques, os do corpo, mas,
sobretudo, os da alma ; um sangue revoltado contra

i
��
(')

172
Rom. Vil, 15.

v"- � - � � � " � - - -����r�-�-v -���v-��-��-- '/'" � ' - ·

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( )

i
> ?

,
Deus, contra os homens e contra mim mesmo, san-
gue que encontra por vezes desde o berço, espanto- l

i sos instintos para o mal ! �
i Sinto-me atormentado pelo pecado original e
pelas suas consequências horríveis.

!1

> É verdade que eu não sou culpado deste pecado
senão em Adão, meu primeiro pai, porque descen­
dente da sua raça e do seu sangue.
Mas a maldita concupiscência, que leva ao mal

I e provem directamente do pecado de origem, arras-

1
ta-me, contra minha vontade, embora sempre volun­
tàriamente quando se trata de pecados pessoais, bem
meus, como claramente disso tenho conhecimento.
Existe no coração do homem decaído como que

uma tríplice inclinação, uma tríplice agitação do san-
gue viciado que lhe corre nas veias.
A primeira lança o meu espírito em exaltações
verdadeiramente loucas e presunçosas : é o ineu
orgulho.
A segunda lança os meus sentidos em desejos
odiosos : e é a voluptuosidade em todos os seus graus.
A terceira é uma revolta contra a lei de Deus
que me proíbe este abuso da liberdade que o ultraja:
e é a minha independência :
Ccmcupiscência da carne, concupiscência dos
olhos, soberba da vida,
eis o que tiraniza o mundo, e isto · rião vem de
Deus. (1) .

( '} I Jo., II, 16.

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PECADORES.

Seria preciso poder descrever aqui, analisar, e


estigmatizar cada um desses pecados a que chama­
mos capitais, essas sete cabeças horríveis do espírito
infernal que agita, incita e arrasta ao mal o nosso
organismo físico e moral.
Baste-nos recordar que somos impregnados de
soberba, de avareza, de luxúria, de ira, de gula, de
inveja, de preguiça.
Isto não acontece com todos no mesmo grau e
na mesma medida.
Um mais que outro é vítima de tal ou tal des­
tas tendências malsãs : questão muitas vezes de tem­
peramento.
Mas em todos existem e só estão à espreita da
nossa negligência ou falta de atenção, da presunção,
da tentação ou ocasião próxima para despertarem,
precepitarem-se sobre a alma e dominarem-na.
Cada um tem talvez o seu pecado próprio, o seu
defeito dominante, como soi dizer-se, o orgulho, a vo­
luptuosidade, ou a preguiça.
É esse pecado que, de ordinário, traz consigo to­
dos os outros e nos subjuga para lhe obedecermos
como escravos.

PECADORES.
Sim, quem .me livrará deste corpo de morte?


Se tenho de morrer no meu corpo, e isso é ine-
(
vitável, é porque estou morto na minha alma.
L 17. �������
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Ah ! quem me livrará desta morte ?
Quem me livrará do pecado, deste homicídio in­
veterado, insaciável ?
Quem me há-de livrar da morte eterna e ressu­
citar-me, restituindo-me a vida para sempre ?

SANTA MARIA� ROGAI POR N6S PECADO­


RES.
ó Imaculada, só vós não naufragastes no ocea­
no profundo dos crimes da nossa humanidade. Só vós
conseguistes triunfar da antiga serpente, esmagan�
do-lhe a cabeça com o vosso calcanhar sem mancha.

ROGAI POR N6S PECADORES.


Nós somos os pobres publicanos do Evangelho ;
asseguro-Vos que não ousam gloriar-se de nada.
Dificilmente ousariam levantar os olhos ao cén, com
medo de manchar os de Deus, ou os vossos.
Não preciso de perscrutar o coração do meu
próximo ; olho para o meu e é com toda a sinceri­
dade que digo :
Tende piedade àe mim que 80U um homem
pecadcYr. (1)
Mãe e refúgio dos pecadores, não me despre­
zeis, não me afasteis quando recorro a vós ; não,
vós nunca afastais aqueles e aquelas que recorrem
à vossa compaixão.

( 1) Lc., XVIU, 13.

175 �

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�� ��gr��:�;:::;:: �
1
Eu sei q
longe da casa materna, dos que fogem e talvez vos
insultem. 1
Mas mesmo esses não são filhos resgatados pelo (�
Sangue do vosso divino Filho e pelas vossas lágri-
·
(
mas ?
São filhos extraviados dignos de todos os cas­
tigos, sem dúvida.
Mas há tantos ignorantes entre eles ; e é mUito
reduzido, quem sabe, o número dos plenamente res-
·

ponsáveis!
Não é precisamente por isso que são mais des­
graçados ?

·· PECADORES!

I
Tenho a certeza de que ainda os amais apesar
de tudo, e que os seguis com o vosso olhar materno ,
até ao mais desastroso dos seus afastamentos ; e o l
l
i
vosso coração cobre-os com a sua ternura.
Mãe dos culpados, sim, mas Mãe também do
seu Juiz, Jesus ; suportaríeis que fossem seus ini- �

!'
ntigos ?
Entre eles, também os há, e quantos que dese-
jam converter-se, lançar-se aos pés do Sacerdote,

\�
juntar as �ãos e pedir perdão. l
Ah ! esses, sobretudo esses ajudai-os a quebrar
as cadeias, a desfazerem-se do respeito hUJll.ano, _e I

iI
a esperarem na misericórdia do vosso Filho. Alcan-
çai para eles a convicção profunda da fé, a espe­
rança, de que Ele, Amor infinito, e.stá prollto a

176 .
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acolhê-los, a recebê;_los nos braços, apertando-o s ao
seu Coração.

PECADORES!
Lembrai-nos muitas vezes e a todos, como Ele
olhou para Pedro e o fez chorar amargamente ( 1 ) ;
como chamou Paulo no caminho e lhe disse : Eu sou
Jesus a quem tu persegues (2) ; como arrancou Ma­
Segue-me (3) ; como fez
teus ao telónio dizendo-lhe :
descer o chefe desses Publicanos, Zaqueu, do sico­
moro e consentiu em entrar em sua casa ( 4 ) ; como
, mostrou a Tomé as mãos trespassadas, e lhe apre­
sentou o sagrado Lado para que n'Ele metesse a
mão (5) ; como à Samaritana, dava a água viva do
Espírito Santo que a purificava (6) ; como, a Mada­
lena, permitia que lhe banhasse os pés com lágri­
mas, lhos cobrisse de beijos e lhos ungisse com per­
fume de alto preço ( 7 ) ; como, enfim, à mulher adúl­
tera dirigiu esta absolvição : Eu também te não
condenarei. ( 8 )
Todos esses e essas quiseram arrancar-se ao
pecado, para repousar no Coração do Amor miseri-

(' ) Lc., XXII, 62.


(') Act. Ap., IX, 4.
( ') Mat., IX, I.
(' ) Lc., XIX.
(') Jo., XXI.
( ") ld., IV.
(' ) Lc., VIII .

( ") Jo., VIII .

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l����������� ··
1 cordioso, ou seja, Aquele que dá o seu Coração aos

I
miseráveis.
E há tantos, pecadores e pecadoras, que ainda
não querem vir.
Quem lhes há-de dirigir o convite e decidi-los a
darem o primeiro passo, o passo muitas vezes deci­
sivo que leva a Deus ?
Sereis vós, ó Maria, Refúgio dos pecadores,
porque toda a graça deve passar por vós para che­
gar a nós, pobres pecadores.

ROGAI ENTÃO POR N6S.


Rogai por mim ; preciso tanto de vós !
Tenho consciência da minha incapacidade para
todo o bem, qualquer que ele seja ! Como todo o
homem, levo no coração a ferida original, que sus­
citou outras voluntárias, difíceis de sarar inteira­
mente.
Colocai a vossa mão maternal e tão suave,
sobre essas chagas que têm uma tendência mórbida
para se abrirem de novo.
Procedei comigo, como com vosso Filho Jesus,
quando descido da Cruz repousava nos vossos bra­
ços : deixai correr as vossas lágrimas de Mãe sobre
estas chagas abertas, para que as lavem e as puri­
fiquem.
Lançai nelas o bálsamo que as cure definitiva­
mente.
Oh ! sim, mostrai que sois verdadeiramente
minha Mãe ; a mim, a todos aqueles e aquelas que

�� 178
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F- no seu AVE com contrição sincera :

i ROGAI POR NóS PECADORES.

l A Bernardette, e8'8a Confidente da vossa Im�


culada Concetição (1) , inspirastes uma confiança

l imensa.
Bernardette tinha-vos fixado, contemplado, ad­

l
mirado, nos seus dezoito êxtases ; e, depois, desejava
morrer, para vos tornar a ver uma vez mais, de tal
maneira vos dizia bela, a toda bela !

Mas não : tinha recebido de Vós a missão de

I sofrer, Ser humilhada, discutida, incompreendida e


sempre doente, numa pobre enfermaria de convento.
Tinha recebido a missão tão humilde, mas tão
fecunda, de rezar por esses milhões de almas que vi­
riam a Massabielle de Lurdes, e que ali entoariam
-
os seus AVE, AV.S MARIA .

Devia acabar os seus dias nos piores tormentos


de uma doença que a crucificava, na sua cadeira,
como sobre a cruz bendita, enquanto que até ao últi­
mo alento, murmurava ainda esse AVE, a sua única
oração de sempre, dizendo :

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, ROGAI POR


NóS, PECADORES,
«e por mim,
pobre pecadora, pobre pecadora! . . . »

(1 ) Titulo dum belo livro que conta a sua história. Ne­


vers, S. Glldard.

179 �

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É assim que morrem
. aqueles e aquelas que são
para Jesus Cristo ;
Pobres pecadores.. . . pobres pecadorasI
Têm perfeita e sinceramente consciência de que
são sempre assim, em frente de uma Imaculada Con­
ceição.
.
- Mas a Imaculada, aceitando a homenagem da sua
humilde confissão, vai-os entretanto trabalhando ; e
transforma-os na sua própria beleza, para os tornar
mais dignos ainda da beleza do mais belo dos filhos
dos homens (1) .
Ele veio precisamente para nos chamar a n ós, pe­
cadores (2) , para nos curar, nos salvar e nos res­
suscitar, transformando os nossos corpos tão Iíliserá­
veis, no esplendor da sua própria Glória (3) .

I
)
l
l
!
;

( ') Ps. XLIV, 3 .


. ( ') Mat. 13.
( ') Fillp. , li, 4.

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I
\ AGORA

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AGORA E SEMPRE
I

;1,:
li, SANTA MARIA, MAE DE DEUS, ROGAI POR
NóS, PECADORES, AGORA, E NA HORA DA NOS-
SA MORTE.

� AGORA.
l
� uMA simples palavra ! E , entretanto, que signifi- (

cado vastíssimo !
õ Maria, rogai por nós, AGORA, porque é o mo­
mento em que temos necessidade de vós, de sentir
que sois a MÃE DE DEUS, e por consequência
NOSSA MÃE.

AGORA!
Esta palavra contém um mundo de coisas !
Agora, que quere dizer ?

Nunc, no seu sentido mais extenso é a vida pre­


sente ; é a minha vida na terra, é o tempo da minha
peregrinação no vale de lágrimas, in hac lacrymarum
'���·�-� ��-��- •. �-"-�··.��-��·-"''��-�� 181 ��� -· '

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
i�� Senhor
empo em que habito no meu carpo� looge do
(IJ� esperando que Ele volte (') .
Tenho esperança qu� logo que este tempo tenha
Í acabado para mim, Jesus desça até à minha miséria,
que me leve consigo, para onde Ele está, para ficar
e permanecer para sempre com Ele (3).

SANTA MARIA� ROGAI POR NóSJ AGORA.


Vós estais com o Senhor que glorificais lá em
cima, na glória ;
fostes arrebatada nessa glória da Assunção bem­
aventurada ;
fostes coroada para vos sentardes à direita do
Filho, o FRUTO BENDITO DO VOSSO VENTREJ·
Rogai por nós pobres pecadores, pobres pecado­
ras !

l
l
AGORA!

I
Precisamos tanto de vós !
Tendes tal poder sobre o Coração de Jesus, vos­
so Filho querido !
i Obtende-nos a paciência, a coragem e o amor pa­

l ra suportar esta vida miserável. Estamos expostos a

I
tantos perigos de alma e corpo !

I
� {') TI Cor., V, 6.

l
( ') I Cor., XI, 26.
(3) Jo., XIV, 3.
(
(� 182
https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
����w����w�w��

:,� .
Corremos tantas vezes o risco de perder a graça
e a vida eterna !
Protegei, amparai os nossos esforços, em ordem
a essa recompensa prometida aos que crêem e espe­
ram.
Arrancai as nossas almas ao amor de tudo o que
é passageiro, tão depressa fatiga e cedo ou tarde se
despedaça.
Recordai-vos que, não passamos de hóspedes, de
passagem pela terra, para nos livrarmos das cobiças
que fazem guerra à alma. (1)
A não ser Jesus e vós, que poderia restar-nos na
hora das contas ?

ROGAI POR N68,


AGORA.
É breve, dizem, é claro, é incisivo, como um grito
que irrompe, e acaba de se ouvir, hoje . . Nwnc.
.

AGORA, é de facto, hoje mesmo.


Rogai por mim, Santa Maria, hoje, neste mesmo
dia que vai começar.
Tive de arrancar-me a um sono por vezes tão
curto ; tive de saltar da cama ou dum catre, que al­
guns nem sequer têm ; há tantos que dormem ao re­
lento ; como Jesus o Filho do Homem, que não tinha
onde reclinar a cabeça (2) .

(') I Petr., 11, 11.


( ') Lc., IX, 58.

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Hoje, ainda hoje, AGORA.
Importa tomar sobre si o peso do dia que come­
ça, com tudo o que deve enchê-lo : este dever de esta­
do inevitável, tão monótono, tão fatigante, tão peno­
so por vezes ; este trabalho tão necessário, se quero
viver e fazer viver todos os que me rodeiam.
- Tenho de retomar o peso do meu trabalho, dos
meus cuidados, das minhas angústias de hoje, de
AGORA, o peso do meu sofrimento , o que me tortu­
ra o espírito e ainda mais o coração.
Em certos dias, sinto-me como esmagado, e Jogo
.desde manhã, até mais não . . . Mesmo assim, é preci­
so caminhar e apesar de tudo.

AGORA.
õ Mãe bem amada, MÃE DE DEUS e MÃE DOE
HOMENS, Mãe daquele que está a vossos pés e esten­
de os bi'aços pàra vós, ROGAI, POIS, POR NóS . . .
Rogai por mim, que vos suplico, e de vós espe­
ro o auxílio e a graça, a luz e a força, o favor que a
vossa intercessão pode obter para quem em vós de­
posita uma confiança absoluta.

AGORA.
Gosto de ver, neste AGORA a designação direc­
ta da provação, em que Deus, por razões que não vejo
nem compreendo, me colocou e me conserva.
Cá em baixo cada um tem a sua ; que chega mais
cedo ou mais tarde, mas chega sempre.
É preciso que chegue ; porque para entrar na gló-
<

(�-- 184 � � �--��� �����-�����w���- � - -�����

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
�,

ria de Deus, é preciso conhecer o sofrimento ; é preci- i


so experimentar tudo o que ele encerra de amargo,
de humilhante e de crucificante.
Tenho de aprender por meio dele a submeter-me
a Deus, a despedaçar o orgulho, a deixar penetrar o
coração pela resignação e pela paciência.
Tenho mesmo de aprender a amar este sofrimen­
to, não por si mesmo - é impossível, mas para cum­
prir a santa e adorável Vontade de Deus ; para assim
me submeter à lei tão doce do seu Amor.
Tenho que aprender a admitir que o estado em
que me encontro e tudo o que me acontece, é obra des­
te amor ;
importa que com toda a minha vontade, eu o pre­
fira a qualquer outro estado que me seria mais agra­
dável, mas que viria menos de Deus.

SANTA MARIA, ROGAI POR NóS, PECADO­


RES;
Rogai por mim para que realize em plenitude es­
se AGORA.
Rogai para que não queira mal ao próximo : para
.que o suporte e chegue a amá-lo como amam todos
aqueles e aquelas, para quem a Vontade de Deus se
tornou a única regra da existência.
Mãe caríssima, Vós passaste s por este mundo,
sabeis o que é sofrer.
Não sois por todos os títulos, A Mãe das Dores?
Haverã uma só que não tenhais experimentado,

'-�w��--����"�--���� 185 ���

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Vós que me mostrais o Coração trespassado por se­
te espadas ?

MÃE DE DEUS, rogai por mim, AGORA e sem­


pre, e sempre mais.
Se é preciso sofrer mais, aumentai em mim pela
vossa intercessão, a força para levar a minha cruz ;
para a suportar, seguindo os traços de Jesus ; seguin­
do os vossos passos, os passos de todos os verdadei­
ros .servos e servas da adorável Vontade de Deus.

AGORA.
Sim, no sofrimento físico que me prostra, na dor
moral que me atormenta o coração ; no dever que me
constrange a cada instante, na tentação que me im- �
portuna, na decepção que lança por terra todas as l
minhas esperanças ; · (
nas trevas horríveis em que me debato, nas te­
nebrosas noites que cegam o meu espírito, enfraque­
cendo a alma.

AGORA.
Rogai, ó Virgem tão boa, única consoladora dos
aflitos, rogai por nós , por todos aqueles e aquelas
que atravessam a hora da provação,
afim de que a prova seja para eles um caminho lumi­
noso, uma graça cheia de amor,
que os lance em Deus, que os conduza definitivamen­
te à santidade final,
e que os prepare para o doce encontro da sua Face ;

AGORA e sempre.

1 86 ·
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! !
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E NA HORA DA NOSSA MORTE
l
rE STE AGORA, a vida na terra, o hoje presente, o
dia que passa, este AGORA, que foge inces­
(

santemente, que é semelhante a uma sombra


que se desloca, sem nunca me cansar e a seduzir-me
� sempre.

I
Este NUNO . . . deve ir dar sem dúvida, à hora da
morte.
Está determinado, e quem duvida de uma coisa
·�<( dessas,que os homem morrem só uma vez, e depois
� da morte é o juízo (1).

!l, ET IN HORA . . . Cada um na sua hora, para pas­


sar imediatamente do AGORA, isto é, do tempo à
eternidade.
Virgem Santa, ó MARIA,
MÃE DE DEUS E DOS
1
\HOMENS, ROGAI POR NóS, PECADORES, AGO­
<
RA, E NA HORA DA NOSSA MORTE.

/
Essa hora virá . . .
> Essa hora vem, acorre, aproxima-se . . .

I (') Hebr., IX, 27.

� �w���r·-��r••���-��r�--����-��r.���r ·�� 1 87

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É inaudito como a sentimos aproximar, sobre­
tudo no findar da vida . . .
Ah ! como tudo foge com rapidez !
Como tudo se despedaça à nossa volta ! Como
tudo cansa, como tudo fatiga !
É inútil tentar escapar a esta perseguição da
morte.
Cada ano que cai no abismo do passado, cada
mês que acaba, cada dia que desaparece, cada ins­
tante que se foi como o tic tac do relógio ;
e as estações que morrem, e as searas ceifadas,
e as flores tão belas e viçosas e fanadas no Outono,
que abandonaram ao vento as pétalas descoloridas
e secas ;
tudo, tudo se perde assim, e volta de onde saíu
pela mão de Deus.
Eu, também vou morrer, estou já morrendo . . .
Porque, o que é a vida, senão uma perda inin­
terrupta das forças que a regem,
senão o caminhar forçado para o que se chama
com uma palavra que faz efeito, de tal maneira é
pesada e acabrunha,
a morte, Amare� mors ?
A sua hora chega ; e sempre mais cedo do que
se pensa.
Essa hora soa para todos, em todas as idades,
em todos os lugares.
A in exorável voracidade da morte destrói a
infância, sobretudo ;

188
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f� � -,v��� ;::;:;:;ela ::� ;�o�ência,
� - .___ -�---- -- - ---�-� "-"-_.,.�- '

atinge o ado-

I
lescente.

l Não respeita, nem a beleza da juventude, nem


a virilidade da idade madura.

1 Basta-lhe tocar de leve a fragilidade do velho ;


para o fazer cair como a folha que rodopia no
espaço.

Não foi sem motivo que, desde a mais tenra


idade, desde o dia em que instruidos pelas nossas
mães aprendemos a pronunciar a AV.S MARIA do
Arcanjo , rezámos assim :
SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, ROGAI POR
N6S, AGORA, E NA HORA DA NOSSA MORTE.
Há quantos anos que assi m rezamos . . .
Há vinte, cinquenta, oitenta que o repetimos,
e sem dúvida, para nos lembrarmos que um dia
havemos de morrer, e devemos estar sempre pre­
parados para a HORA DA NOSSA MORTE.

j Esta insistência em multiplicar o nosso AVE,


j! poderia parecer fastidiosa ; poderia assustar, e quem
sabe, fazer desanimar.
Este último pedido , esta última palavra do meu
l� AVE, depois de coisas tão belas meditadas acima,
<

!
poderia dar a impressão de lançar sobre essas mara­
vilhas, uma sombra que lhe diminuiria o brilho.
í Mas não ; é precisamente o contrário o que
� acontece.
l
l
Fazei a experiência, recitando com atenção . e
piedade a vossa A V.S MARIA.

L�-��-w�,����/���� 1 89 �
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--
anto neste AVE! Que paz penetra a
� alma toda ! E como sentimos bem a verdade deste
grito da SALVÉ REGINA :
O DULCIS VIRGO MARIA!. . . õ doce Virgem
Maria ! . . .
É precisamente para atenuar tudo o que de
horrível poderiam sugerir estas últimas palavras do
AVE�
NA HORA DA NOSSA MORTE,
que, de antemão, dizemos com uma admiração
penetrada de amor,
AVÉ MARIA, CHEIA DE GRAÇA,
O SENHOR É CONVOSCO,
BENDITA SOIS VóS ENTRE AS MULHE-
RES�
E BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VEN­
TRE, JESUS.
E finalmente a transbordar de confiança :
ROGAI POR NóS, AGORA, E NA HORA DA
NOSSA MOP,TE!

Todos esses grandes mistérios recordados, me­


ditados e contemplados no AVE de Gabriel, foram
concebidos, queridos por Deus ; foram vividos por
JESUS e MARIA,
para nos ajudarem a viver bem, AGORA,
para expirarmos santamente, um dia,
NA HORA DA NOSSA MORTE.
Por isso, ó Maria, vos rezamos sem descanso
a Saudação Angélica.

https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Importa tê--la rezado e repetido vezes sem conta
na vida, para docemente a soletrar, com uma espe­
rança indizível e um amor sempre crescente.

NA HORA DA NOSSA MORTE.


Há-de chegar essa hora solene, em que já não
, poderei meditar longamente, nem rezar o meu santo

(I
Breviário, nem ler tantas coisas belas, nem escrever
para edificar os outros, consolá-los e incutir-lhes
1
ânimo na prática do bem.
Mas a AVÉ MARIA que durante tantos anos,
desde os primeiros dias da minha vida passou pelos
meus lábios, certamente que os terá purificado e
santificado !
Nesta Rosa, terão respirado tais perfumes, e de
tal maneira se terão inebriado no seu fruto ben­
dito,
que ficarão como colados a este AVEJ nada
mais sabendo que dizer AVE MARIAJ e ainda e
sempre AVÊ MARIA . . .

Mãe querida, Mãe de Deus e minha Mãe, quando


finalmente chegar essa hora, e eu já não duvidar
da sua presença, quando ler no rosto dos que me
rodeiam que o momento se aproxima ;
quando o surpreender no cochichar misterioso
das pessoas caridosas que me assistirem ;
quando essa hora começar a bater para me
lembrar o momento de ir até Deus, de ir ao encontro
de Jesus, o meu Juiz,

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anto neste AVE! Que paz penetra a

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ahna toda ! E como sentimos bem a verdade deste
grito da SALVÊ REGINA :
O DULCIS VIRGO MARIA!. . . ó doce Virgem
Maria ! . . .
É precisamente para atenuar tudo o que de
horrível poderiam sugerir estas últimas palavras do
AVE�
NA HORA DA NOSSA MORTE,
que, de antemão, dizemos com uma admiração
penetrada de amor,
AVÊ MARIA, CHEIA DE GRAÇA,
O SENHOR Ê CONVOSCO,
BENDITA SOIS VóS ENTRE AS MULHE-
RES,
E BENDITO Ê O FRUTO DO VOSSO VEN-
TRE� JESUS.
E finalmente a transbordar de confiança :
ROGAI POR NóS, AGORA, E NA HORA DA
NOSSA MOP,TE!

Todos esses grandes mistérios recordados, me­


l
1
ditados e contemplados no AVE de Gabriel, foram
concebidos, queridos por Deus; foram vividos por
JESUS e MARIA, �
para nos ajudarem a viver bem,
para expirarmos santamente, um dia,
AGORA,
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NA HORA DA NOSSA MORTE. 1
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Por isso, ó Maria, vos rezamos sem descanso
a Saudagão Angélica.
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Importa te-la rezado e repetido vezes sem conta
na vida, para docemente a soletrar, com uma espe­
rança indizível e um amor sempre crescente.

NA HORA DA NOSSA MORTE.


Há-de chegar essa hora solene, em que já não
poderei meditar longamente, nem rezar o meu santo
Breviário, nem ler tantas coisas belas, nem escrever
para edificar os outros, consolá-los e incutir-lhes
ânimo na prática do bem.
Mas a AVÊ MARIA que durante tantos anos,
desde os primeiros dias da minha vida passou pelos
meus lábios, certamente que os terá purificado e
santificado !
Nesta Rosa, terão respirado tais perfumes, e de
tal maneira se terão inebriado no seu fruto ben­
dito,
que ficarão como colados a este AVE, nada
mais sabendo que dizer AVE MARIA, e ainda e
sempre AVÊ MARIA . . .

Mãe querida, Mãe de Deus e minha Mãe, quando


finalmente chegar essa hora, e eu já não duvidar
da sua presença, quando ler no rosto dos que me
rodeiam que o momento se aproxima ;
quando o surpreender no cochichar misterioso
das pessoas caridosas que me assistirem ;
quando essa hora começar a bater para me
lembrar o momento de ir até Deus, de ir ao encontro
de Jesus, o meu Juiz,
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o h ! não, digamos antes, do meu Salvador, por
que outra coisa não significa o seu nome bendito :
Oh ! então, como tantas vezes me prometestes,
vinde junto de mim, e rogai por mim, NA HORA
DA MINHA MORTE.

Ficai comigo, como uma Mãe muito querida.,


que sabe o que é sofrer, e me oferece, para descan­
sar a cabeça vacilante, que já não pode mais, a
ahnofada suave desse CORAÇÃO imaculado, onde
tantas vezes Jesus repousou ;
onde repousou ao pé da cruz, quando os vossos
braços o estreitavam amorosamente, e as vossas
lágrimas escaldantes manavam sobre as Chagas
lívidas, para as purificar.

Ficai comigo ; que eu me dê conta da vossa pre­


sença, a cuidar de mim com toda a bondade.
Permiti que eu possa ter conhecimento de que
ainda me ouvis, que me atendeis com todo o carinho,
e assim possa murmurar uma derradeira vez :
AVÉ MARIA, CHEIA DE GRAÇA, \

I
SANTA MARIA, MÃE DE DEUS,
ROGAI POR NóS, AGORA. Oh ! sim, agora,
por mim, e NA HORA DA MINHA MORTE.

õ Lírio branco da gloriosa e sereníssima Trin­

l
dade,
Rosa brilhante do Paraíso !
õ vós de quem quiz nascer e alimentar-se o Rei 'I

) � �� !
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�, �-�....., �� �..... -�
inundai, agora, a minha alma com as efusões �
dessa graça de que estais cheia ! ( 1 ) �
i
Rogai, agora, por mim ;
e NA HORA DA MINHA MORTE.

Talvez pareça que já parti ?


Recolhendo-me no interior da minha alma, com
os olhos obscurecidos, cegos, os ouvidos fechados
a qualquer ruído exterior, e os lábios já sem força
para pronunciar uma única palavra ; talvez me sur­
prenda como que conduzido à presença de Deus com
quem exclusivamente terei de tratar. . .

Oh ! então, ó Mãe, desde já faço pacto convosco,


então, do fundo do coração vos peço, conce­
dei-me que vos invoque, com as minhas últimas
lágrimas, para segredar ao ouvido materno incli­
nado sobre a minha angústia, um supremo AVE . . .
AVE . . . EU VOS SAúDO, MARIA.
ó VóS BENDITA ENTRE TODAS,
ENTRE TODAS AS MULHERES, entre todas
as mães.
Rogai, agora, oh ! sim, rogai . . .
Chegou a hora. .. A HORA DA NOSSA MORTE,
a hora da minha . . .
Pedi, SANTA MARIA, MÃE DE DEUS;
Pedi a JESUS, MEU SALVADOR, MINHA
ONICA ESPERANÇA,

(1) St. • . Gertrudes.

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pedi AO FRUTO DO VOSSO VENTRE�
pedi-lhe que também de mim se compadeça.
Que me seja favorável, como se mostra no seu
Evangelho para quem se arrepende e implora mise­
ricórdia !
Visto que o exílio, neste vale de lágrimas acabou,
visto que chegou a hora de passar deste mundo para
Deus,
da morte, sim ; da morte à vida que Ele é, ·

mostrai-me, revelai-me JESUS�


esse Fruto delicioso, que para sempre mate em
mim as influências mórbidas do fruto proibido e
das suas consequências.
Apresentai-mo, JESUS� tal qual como vós mes­
ma O contemplais :
arrancai dos meus olhos o véu que até aqui
impedia de contemplar-Lhe a Face adorável.
Preparai-me enfim, iniciai-me, também a mim,
nessa Visão eterna, em que espero cantar sempre
e sem me cansar convosco, ó Imaculada, com Ga­
briel, com os Anjos do Senhor, com o meu Anjo da
Guarda, qual outro Fanuel ( 1 ) de Deus e chama do
seu amor :
SANTO, SANTO S O SENHOR DEUS. (2)
Terei então expresso plenamente tudo o que
queria dizer-Vos e pedir-Vos, ao repetir o meu AVE.
Peço àqueles que me rodearem, esperando o
\ meu último suspiro, que o recitem comigo, com uma
\

1 (' ) Fanuel, quere dizer <que vê Deus:..


Is., VI, 3.
l
(' )

�-� 194 ���� ������-.��" '

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fé imensa, uma esperança sem medida, uma cari­
dade perfeita.
Que por mim, desfalecido e a morrer, se dignem
suprir toda a honra, todo o amor, que quereria tri­
butar-Vos, minha MÃE, de quem recebi tudo o que
tenho e tudo o que sou.
E visto que aquela criança de Lourdes, a Pas­
torinha inocente, a humilde Bernadette, essa após­
tola magnífica da AV.S MARIA, está sempre lá em
cima, a vossos pés, muito melhor e mais inebriada,
mais arrebatada do que jamais poderia estar na
gl1lta abençoada,
peço-lhe que me obtenha de Vós, a Imaculada
Conceição, para a minha hora derradeira, os mes­
mos sentimentos admiráveis que lhe enchiam a
alma, quando já desfalecida e reduzida ao extremo
das forças, enterrada naquele cadeirão, fonte de
milagres, que lhe embalou a agonia, Vós lhe incutíeis
força para vos repetir o seu último AVE.
Era uma Santa, uma Santa autêntica, sabemo-lo
hoje, e que Santa extraordinária !
Contudo, não ousava chamar-se senão, «pobre
pecadora, pobre pecadora ».
. . .

Mãe querida, sou indigno, por todos os títulos,


de poder de longe parecer-me com ela ; mas, nessa
hora, atendei-ttle.
Não sei quando virá ; não sei qual será o meu
género de morte ; ignoro qualquer circunstância que
possa acompanhá-la.
Por isso mesmo, com infinitamente mais razões

195 �

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que essa virgem, vossa Confidente, desde hoje, como
se me encontrasse nesse instante supremo de que a
minha eternidade depende, com toda a fé, com uma
confiança absoluta, com um abandono sem limites,
repito :

AV.S MARIA CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR


:8 CONVOSCO; BENDITA SOIS VóS ENTRE AS
MULHERES, E BENDITO R O FRUTO DO VOSSO
VENTRE, JESUS!
SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, ROGAI POR
NOS, PECADORES, por mim pecador, sim, pobre
pecador,
AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE.
AMEN.

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�\

\ AMEN I

AMEN.

STE
E
AMEN é pronunciado para glória de
Deus. (1) AMEN assim seja !
. . .

Que seja bem assim !


Que tudo o que foi dito ao recitar o AVE, que
tudo o que ele significa, seja acreditado, honrado,
glorificado !
Que tudo o que ele implora, se consiga para a
vida e para a eternidade, para o AGORA da vida
que passa, para hoje, para este momento preciso ;
que este AVE triunfe em nós, em mim, para glória
de Jesus Cristo, para honra de SANTA MARIA,
MÃE DE DEUS e MÃE DOS HOMENS, NA HORA
DA NOSSA MORTE, na hora da minha morte, pobre
pecador, sim, pobre pecador !

(') Cor., I, 20.


. -- �- �
197 �

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AMEN!

ó Maria, quanto tenho a agTadecer-vos por me


terdes permitido meditar as gTandezas da A V.l?
MARIA, oração incomparável, que não pode sepa­
rar-se do PAI NOSSO, e me terdes dado ensejo de
sobre ela escrever algunia coisa.
Sei muito bem que tudo isso não corresponde
de forma alguma à realidade do vosso ser sublime.
Não passam de migalhas recolhidas, aqui e
ali, à mesa do festim onde se deleitam os vossos
grandes Servos, os Santos, as Santas, os Doutores,
e os Teólogos mais profundos.
Que importa ! Esta meditação do AVE deixa­
-me pressentir embora de longe, esta realidade : dei­
xa-me gosar como que antecipadamente, neste vale
de lágrimas - onde caminhamos na fé, na esperança
e na caridade - da eterna Visão de Deus, do encon­
tro que terei com JESUS, vosso Filho e também con­
vosco, ó toda bela, tota pulchra!

ASSIM SEJA.
A A lT.l? MARIA . Oh ! a oração tão bela !
. .

Que admirável antífona ! Não me surpreendo


que a sagTada liturgia esteja repleta, e que a vossa
Santa Missa DE BEATA dela transborde, e que o
meu breviário esteja saturado desta oração . . .
AgTadou assim a Jesus ; e agTada-Vos, ó minha
Mãe que assim seja.

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.. ,.. ...... .. ...........,.�--...- ��"'-""'-''-"'"'_,.,_,...-
.. "'-"..._...,_
. ,'-'...... , ............. ....... ---... .
� AMEN.
AVS MARIA. Uma oração que Don8 ditou a
"' "�'�"���
uma Virgem Mãe, que pronunciou nüo pela boca
dos homens, mas por um Arcanjo, um d oH Hete que

� estão diante da Face de Deus (1) ;

� uma oração, que a Trindade Santissimn com­


� pôs e cometeu a Gabriel o encargo de transmitir a
1 uma Imaculada Conceição!
(
Podemos na verdade depois do pronun- )
�)
PATER
l
1
ciado por Jesus, a Sabedoria eterna, comparar-lhe
� outra oração em santidade, em sublimidade, em efi-
cácia ? l
I
. Não é, em cada vez que se recita, renovar no
, Coração da Virgem aquela alegria desmedida, que

l a invadiu na hora em que incarnou o Filho de Deus-

I
1 -Filho de Maria ?

l AVS MARIA. Compreende-se agora que esta


saudação é o antídoto celeste que preserva a alma
da mordedura da serpente,

I
dess a serpente com a cabeça esmagada pelo pé
virginal da Imaculada ?
Que clava, para lhe despedaçar continuamente
essa cabeça que urdiu e urde sem cessar, todos os
atentados à glória de Deus e do seu Cristo ; à honra

I
da Virgem Mãe, no seu Coração Imaculado ; à con­
servação e à pureza da Igrej a ; à perfeição dos San­
tos e Santas ; à felicidade dos povos, ·das sociedades,
das famílias, dos indivíduos!

(') Lc., I, 19.

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A AVB MARIA. É a estocada vibrada pela
Mulher revestida de Sol, na fronte de Sisara, esse
inimigo do povo de Deus ( 1 ) ,
é a mó que abate o infernal Abimelech (2) ;
é a espada de Judite que corta a cabeça ao ím­
pio Holofernes ( 3 ) .
A AVÉ MARIA, tem sido a Espada sempre
brandida pela mão de Deus, a despedaçar os cismas,
as heresias, todos os inimigos do nome cristão.
Com o AVE, está assegurado o triunfo sobre
Satan, o inimigo eterno ( 4 ) .
AMEN.

AVB MARIA.
Alma cristã, serve-te também tu, deste gládio
com que podes pôr em fuga as hordas infernais ;
com o qual podes vencer todas as tentações em
ti, e naqueles que amas ;
com o qual podes operar maravilhas, fazer mi­
lagres, curar os corpos e salvar as almas.
Se te é possível, nunca te esqueças de rezar
todos os dias o terço, e mesmo o Rosário inteiro se
para tal tiveres tempo.
Não te preocupem as distracções desde que

(') Judie., IV, 21.


c•> Ibid., IX, ss.
(") Judith, XIII, 10.
(•) Jo., VIII, 44.

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,_........_..._,..._,...._,�..._
.. �_,--�'-"""'-''- ' - - ---· ..r'-'-....-....� -...-
..-.... -.� -�

l tenhas vontade de as combatc! r·. A nossa boa Mãe


Í do céu, compreende tão bem n.H I I I II IHns fraquezas, �
i
enfados ! . .'
as nossas fadigas e por vez c H ' H I I!HIIlo
',
os nossos

1
.

i
As nossas Avé-Marias mul t l p l il·udiiH 1 1 1 1 1 u :n a en- ·

!
fadam. Aprecia este murmúrio du. 1 1 111. f(,, dn. l.ua es-
perança, do teu amor para com T%1. . <

Faz o melhor que soubereH, 1 1 1 1 1 1"4 1 1 1 1 1 1 c : n dPixc·H


de rezar o Terço.

I
Levá-lo contigo não é já ree f t ft . Jo em Hr.gr·c�do,
dia e noite ?
Por vezes, e nas horas mais d i fici'IH 11obrctudo i

i
Não tH•r·ft n mão de �
i
coloca-o na palma da mão.
MARIA ?

I E para terminar, guarda bem este c:orwl ' i h o , ao
I
\

l

menos : Nunca te esqueças de dizer a MA Nl A 111 �1 [I} ,

DE DEUS e tua Mãe, três AVÉ MA RIA N, de: r uu­ :�

I
<
nhã e à noite, para agradecer à Santí:: m im u 'l'rin­
dade, ter-nos dado uma tal Mãe . . .

i

l
) Contam-se maravilhas inauditas desta prftliea
� fiel, entre aqueles que sofrem, que trabalham, que
� se sacrificam de qualquer forma,

l operadas no corpo e na alma, no meio dos cui­

l
! dados, para a salvaguarda dos interesses do tempo
e da eternidade.
i

���r, Quando amamos alguém nunca nos cansamos


e amamo-lo cada vez mais .

201 , "'' v
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Dizendo AV.8 MARIA nunca te enganarás, nem
o teu coração, nem sobretudo O CORAÇÃO IMA­
CULADO DE MARIA . . . 1!:: a tua Mãe. . . Não será
dizer tudo ?

Amen ? Sim, é muito justo, muito agradável,


bem bom que seja assim !

AMEN.

�� 202
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��·· ·
i

INDICE

PAX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . 5
PREFACIO ... ... ... ... . . . . . . ... . .. . . . . .. 9
DEDICATóRIA A
SANTíSSIMA VIRGEM 13
AVÉ MARIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
A ANUNCIAÇAO - Quadro e c:omentário do Ave . . . ... . . . 19
O anjo do Ave . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
A atitude de Gabriel . . . . . . . . . 25
A Virgem perturba-se 29
A Bendita do Esp[rito Santo . . . 36

1." Parte - A SAUDAÇAO 47

AVE - Gl6ria do Ave . . . . . . 49


MARIA ... ... ... ... . . . ... . .. 52
Tão belo o seu Nome! 52
CHEIA DE GRAÇA 57
§ 1 - A sua beleza ... 57
§ 2 - A graça santilicante 61
§ 3 - A Imaculada . .. ... . . . 65
§ 4 - Uma plenitude de graça . .. ... ... .. . .. . . .. ... 68
§ 5-A Medianeira . . . . . . . . . . . . . . . .. . .. . . . . . . . . . . .72
O SENHOR É CONVOSCO . . . . .. . . . . .. . . . .. . . . . . . . ... ... 77
� § 1 - A Predestinada . . . . . . . .. 77
§ 2-A 80

. 1>
Magnificat . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . .
§ 3 - Manancial fecundo ... . . . . .. .. . . . . . . . . . . 86

������ -��

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BENDITA SOIS VóS ENTRE AS MULHERES . .. 94
E BENDITO É O FRUTO DO VOSSO VENTRE . . . 1 03
§ 1-A Visitação de Mcrr ia · ;· . . . 103
§ 2-A Saudação de Isabel ... . . . 1 10
JESUS . . . ... ... . . . ... . . . . . . . . . . . . 1 17
§ 1 - Nome acima de todo o nome 1 17
§ 2 - O Poder deste nome 121

2. • Parte - A INVOCAÇÃO . . . 129

SANTA MARIA . .. ... ... ... .. 130


§ 1 -A Sua Santidade 1 30
§ 2 - As Suas Virtudes 136
'•
l

l
MÃE DE DEUS ... ... ... ... ... 141
§ 1 - A Sua Virgindade 141
§ 2 - O grande mistério 150 }
§ 3-A Mãe dos Homens ... 1 54 �
ROGAI POR NóS . . . . :. . . . . ." . . . . . . . 1 62 �
A omnipotência suplicante ... . . . . . . . . . . . . . . . 162 �
'
PECADORES . . . . . . . . . . . . " . . . . . . . . . . . . . . . . . . 170
!
(
(
A mãe da misericórdia 170
AGORA ... ... ... ... ... 181 �
Agora e Sempre 181
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E NA HORA DA NOSSA MORTE 1 87
AMEN . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . · · · · · · · · · · · · • 1 97

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