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Esta é uma coletânea inédita de dez artigos contemporâneos da

antropóloga norte-americana Anna Lowenhaupt Tsing, publicados


originalmente em sevistas académicas ou como capítulos de livros. Esta
obra busca trazer aopúblicoda lingua portuguesa, dos campos ambientais
e das humanidades, «uma antropóloga visceralmente engajada em temas
contemporâneos e que vem contribuindo para as transformações na e
pela antropologia por meio de sua abordagem feminista e crítica.
Entendendo sua inserção em movimentos que questionam os grandes
divisores da modernidade tinatureza e cultura; ciência e humanidades;
biologia e cultura; individuo v sociedade), estes textos propõemsuperar o
impasse de um excepcioralismo humano na abordagem das práticas
[TST =:: do ser Na busca por tecer linhas que
interconectam materias « ustenas em mundos em devir ES AA)

ndo pesquisas < j praticas etnográficas, conceitos e


DEUSA 0) LE RES TR E RREO CATIA(o RIAA TEN:[o EA6[oTeJT Ro[Oo
estudos pos-coloniais, à "grafia multiespécies e, mais recentemente, a
ciência e tecnologia

[Ras
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MaastisareoR ieISACoIS ain TOR Ta UUjcoSÃO TUALoAEE)UTTejo70]
que desafiam a separação analítica entre naturezae cultura
no pensamento ocidental. No entanto, a maioria dos
estudiosos humanistas quetrabalham nesta linha enfatizam
as naturezas feitas pelo homem,desde produtos
econômicosaté novas tecnologiase animais criados por Viver nas;ie
bioengenharia. Minha contribuição para essadiscussão é
chamara atenção para a capacidade dos não humanosde
responderàs práticas humanas de maneiras diferentes
daquelas pretendidas pelo design humano. Além disso, suas
respostas nãosão necessariamentefruto deintenções
humanas, mas, sim, programas humanosdetransformação
deterra, águae ar. Este é o reino do“feral”. A vida feroztira
proveito da perturbação humanapara fazer suas próprias
coisas. Sem atendera essa forma de acção,os humanistas
reafirmama hegemonia do design e da consciência
humana,afirmação quejá fazia parte do problema,tanto na
teoria quanto na prática. Para além desses sonhos de
controle humano está o Antropoceno”

Anna Lowenhaupt Ting


Copyright 2019 by Mil Folhasdo (EB.

Todosos direitos desta edição reservadosa Mil Folhas do IEB,

É autorizada a reproduçãototal ou parcial sem fins lucrativos do conteúdo desta publicação,


desde quecitadaa fonte, mantendo-se a integridade das informações.

ANNA LOWENHAUPT TSING


REALIZAÇÃO
Mil Folhas do EB

AUTORA
Anna Lowenhaupt Ting

EDIÇÃO PROJETO GRÁFICO


Thiago Mota Cardoso Ribamar Fonseca (Supernova Design)
Rafael Victorino Devos
CAPA E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
TRADUÇÃO . Cristina Guimarães (Supernova Design)
Thiago Mota Cardoso
RafaelVictorino Devos UUSTRAÇÕES (ÍCONES):
Maritena Altenfelder de Arruda Campos Sylvia Bahri
Viviane Vedana
o : S DA CAPAE DAS ABERTURAS DOSCAPÍTULOS:
qpar Amang
Paulo Ollvier Ramos Rodrigues FOTO:

Maria Alice Neves ado | AsdaeRADDE


Yves Marcel Seraphim

BeiDembosár
REVISÃO DE TEXTOS
AEres | DEScioaaaENS]rsoito
Laeticia Jansen Eble PPGATUFSA

no Antropoceno
Dadosintemacionaisda Calslogação na Publicação (CIP)
(eDOG BRASIL,Bolo HorizontalMG)
Teing, Anna Lowenhaupt.
TaB2v Viver nasruínas: paisagens mulliespécies no
antropéceno / Anna Lowenhaupt Tsing;edição Thiago Mota
Cardoso, Rafaei Victorino Devos. — Brasília: IEB Mil Folhas,
2019.
284 p.:foto.; 16x 23em

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-60443-54-2

1. Antropologia, 2. Etnologia. 3. Pluralismo cultural, 1.


Titulo, P EN

con 305.8 a 2] EB
Elaboradopor Maurícia AmorminoJúnior — CRB6/2422 MIIL FOLHAS

EB - SedeBrasilia “8 wwwieborgbr Bi lEBBrasi MILSABE


SCLN 2% - Bloco Bsala 101e 102 CEP 70863-520 - Asa Norte-Brasiia-DF O iebDiieborgbr Ojeb
Fone:(61)3248-7449 Fax: (61) 3248-7440 Y Qieboficial
“AS PAISAGENS GLOBAIS DE HOJE ESTÃO REPLETAS DESSE TIPO

DE RUÍNA. AINDA ASSIM, ESSES LUGARES PODEM SER

ANIMADOSAPESAR DOS ANÚNCIOS DE SUA MORTE; CAMPOS

DE ATIVOS ABANDONADOS ÀS VEZES GERAM NOVAS VIDAS

MULTIESPÉCIES E MULTICULTURAIS. EM UM ESTADO GLOBAL

DE PRECARIEDADE, NÃO TEMOS OUTRAS OPÇÕES ALÉM DE

PROCURARVIDA NESSA RUÍNA.”

Anna Lowenhaupt Tsing


APRESENTAÇÃO Anna Tsing faz como poucos esse movimento, incluindo em sua pesquisa de campo a
observação do que fazem fungos, árvores, animais, solo, sem abrir mão dorigorda et-

DOSEDITORES nografia. Para descobrir na paisagem ossinais desses gestos mais que humanos, segue as
agilidades de catadores de cogumelos, micólogos, caçadores, geólogos, zoólogos, co-
merciantes, camponeses e muitas outras pessoas cujas práticas são voltadas para as
marcas das novidades na vida de florestas de pinheiros, cogumelos, cervose gente, para
Vivemos em um mundo de paisagens em ruínas einesperadas catástrofes ambientais.
citar um exemplo dos capítulos seguintes, E ela enfrenta da mesma maneira fenômenos
As mudançasclimáticas são uma das grandes pautasda ciência e da política contempo-
mais usuais do campo dadisciplina - modosde conhecimento e traduções, empreendi-
râneas, e perdas de biodiversidade nos levam ao que vem sendo chamado de a Sexta
mentos capitalistas, o mercado financeiro as relações de trabalho, a migração forçada
Extinção. Nas últimas décadas, cunhou-se o termo Antropoceno parase referir ao im-
de povos expulsos de seus territórios, os efeitos da desigualdade entre homens e mu-
pacto de proporções geológicas quea jornada humanateve sobre transformação da
lheres. São fenômenosque fazem parte de um mesmoprocesso, uma mesmahistória,
dinâmica ambiental do planeta. É um debate que tem transformado também os estu-
ou de histórias da transformação de paisagens pela participação humana, da transfor-
dos ambientais, tanto nas Ciências da Natureza, quanto nas Ciências Humanas, sob o
mação do humano pelas socialidades que formam paisagem.
desafio de observaresse processo em andamento.
Nesse movimento, o conceito de paisagem é central. Na paixão comum entre a antropo-
Na antropologia, em particular, essa é uma questão que causa certo desconforto, pois o
logia e a ecologia pela heterogeneidade,a autora encontra conceitos capazesde nos leva-
termo retoma um universalismo que generaliza a figura humana nos moldesdo capita-
rem além do debatefilosófico, para entender na prática o tipo de dinâmicas coletivas em
lismo transnacional industrial e em sua maneira derelacionar-se com a vida e a matéria
questão: assembleias de seresvivos e materiais nãovitais, socialidades marcadas por ações
no planeta: comorecurso natural. Uma primeira resposta da antropologia tem sido
intencionais e não intencionais mais que humanas, emergência de novos modos de existir
mostrara diferença, a alteridade de outros modosde relação com seres vivos e mate-
face à destruição dos emaranhados que dão formaà paisagem. Paisagens têm histórias
riais não vitais. Uma resposta que não escapa ao desafio de entenderos efeitos dessas
particulares e possibilitam emergir modosde vida que não condizem com os padrões ex-
transformações em escala planetária nesses modos devida. Outra resposta possível é
pressos pelos conceitos de espécie ou sociedade. Para Tsing, paisagens são o sedimento
compreender como humanose outros modosdevida se entrelaçam e constroem con-
concreto defluxosvitais, condições atmosféricas, sonhos, memórias e representações.
dições para viver nasruínas dos imperialismosindustriais e das plantations de ecologias
simplificadoras, para usar palavras de Anna Ting. Esta é uma coletânea inédita de dez artigos contemporâneos da antropóloga norte-
-americana Anna Lowenhaupt Tsing, publicados originalmente em revistas acadêmicas
A antropologia foi uma das primeiras a despertar do sonho do excepcionalismo huma-
ou como capítulos delivros. Esta obra busca trazer ao público da língua portuguesa,
no. É verdade, os primeiros povos dos muito ambientes do planeta já mostraram há
dos campos ambientais e das humanidades, uma antropóloga visceralmente engajada
muito tempo que animais, plantas, rochas, agentes atmosféricos e muitos outros são
em temas contemporâneose que vem contribuindo paraas transformaçõesnae pela
nossos companheiros na política de habitar e transformar um mundo mais que huma-
antropologia por meio de sua abordagem feministae crítica. Entendendo sua inserção
no. Umaconstatação que vem transformando os conceitos da ação social e da política
em movimentos que questionam os grandes divisores da modernidade (natureza e cul-
para além da cisão entre as Ciências Humanas e as Ciências da Natureza. Mas, ainda as-
tura; ciência e humanidades; biologia e cultura; indivíduo e sociedade), estestextos pro-
sim, faltava à antropologia, e às Ciências Humanas em geral, reconhecerem nesses ou-
põem superar o impasse de um excepcionalismo humanona abordagem das práticas
tros mais que humanoslegítimos atores no campo empírico de pesquisa.
domesticadoras e da.ontologia do ser-Na busca portecer linhas que interconectam
que enredam esse fungo. Chamamos esse momento de “Contaminação”? em que a
materiais e histórias em mundos gm devir, sing vem realizando pesquisas, formulando
perspectiva multiespécie emerge como formadé contaminar e desfazer as ontologias
práticas etnográficas,conceitos ereflexões importantes para osestudos feministas, a
dosere das essências. Perseguir os cogumelos envolve compreenderformas de demo-
ecologia política;-os“estudos pós-coloniais, a etnografia multiespécies e, mais recente-
cratizaro conhecimento em práticasdeengajamento na paisagem, como mostra o arti-
mente, a ciência e tecnologia.
go “Arte da inclusão, ou, Como amar um cogumelo'?ede caminhar e perceber, como
Aoescolhermos.E contribuições de ing no intercruzamento entre as noções de paisa- argumenta a autora no capítulo “Dançandona floresta.de cogumelos”,? Ainda vivendo
gem,vidas imultiespécie e Antropoceno, abrimos possibilidades para um diálogo vigoroso com os fungos e com Strathernalém dos humanos enãohumanos, no capítulo “Stra-
-er uitas vezes crítico — dentro da antropologia brasiléira com osestudosdas ciências e thern além dos humanos: testemunhos de um esporo!4 Ting segue o voo dosesporos,
com as abordagens da chamada “virada ontológica”. Ao mesmo tempo, trazemos uma testemunhando suas vidas contaminantes e tratando de comparações: por que não po-
aútóra'que vem propondoàum olhare umapráticade pesquisa que entrelaçam as ciências demos compararo fazer mundos dos fungos ca om o dos humanos? *
fitirmianas e naturais, Eslocando--Nos frenite aú desafio de nos engajarmos em contar histó-
A seção “Ocupeas ruinas"? é composta por artigos que nosbrindam comas ferramen-
rias dignifcativas frente àà "crise da biodiversidade” e aôs desastres do Antropoceno, Lem-
tas da autora para ocuparmosas margense interstícios dasciências-e das paisagens ar-
bremos, e nunca esqueçamos,das catástrofes engendradas pelo capitalismo feroz da mi-
ruinadas no Antropoceno: Nesse momento emergem conceitos centrais em sua antro-
neração em Brumadinho e Máriana, em Minas Gerais, e das devastações das plantations de
pologia — simbiose, história, paisagem-e coordenação — como no artigo “Em meio à
Soja;eucalipto, cana-de-açúcar e gado no$ diversos'ecossistemas, que desafiam a atuação
perturbação”é sing nos desafia a contar histórias críticas e a percebermosatentamente
(de pesquisadores de várias áreas da ciênciano país.
a vida dos não humanos, levando-osa sério como agentes. Porém, sejamos cautelosos:
ing tem inspifado muitos pesquisadores no Brasil, cuja diversidade a autora não propõe um olhar sobre a coisa em si ou ao indivíduo; mas ao compósito,à
eflete”o alcarite a htradisciplinar ê indisciplinado de sua abordagem. Na Uni- assembleia, aos ritmos, aos encontros indeterminados e aos entrelaçamentos históricos.
vérsi fade Federal de SantáCatarina, os textos da autora foram discutidos com o grupo
| dé pesquisa Coletivo de Estudos em Ambientes, Percepções e Práticas (Canca), do qual
participaram pessoas comformação em diferentes áreas e em diferentes níveis, da gra- 1 Original publicado em: Contaminateddiversity in “slow disturbance”: potential collaborators fora tiveable
duaçãoà pós-graduação: antropologia, ecologia, biologia, micologia, ciências sociais, co- earth. In: Martin, G; Mincyte, D; Múnster, U. Why do we value diversity? Biocultural diversity im a global context, Munich:
Rachel Carson CenterPerspectives, 2012. p.97-99.
municação social e história Desses debates, selecionamosostextos que, após conversas
2 Original publicado em Arts of inclusion, or, How to love a mushroom. Australian Humanities Review, Can-
com a autora, resultaram nas traduções contidas nesta coletânea de artigosinéditos no
berra, v. SO, p. 5-2maio 201.
Brasi) os quais refletem as contribuições mais recentes de Anna Ting aos estudos mul- 3 Original publicado em: Dancing the mushroom forest PAN: Philosophy Activism Nature, Melboume, n. 10, p.
tiespécie da paisagem em face do desafio dos debates do Antropoceno: em sua ontolo- 6-14, 2018. í
gia relacional e materialista, vidas em fricção ganham relevo em paisagens transforma- 4 Original publicado em: Strathern beyond the human: testimony efa spore. Theory Culture 27Society (SAGE
das ao longo do tempo. Publications)v 3% n. 2-3, p. 221-241, 2014.

5 Original publicado em: Occupy theruins. Society and Space, Quebec, 18 now. 2011. On-line. Disponível em:
À primeira seção da obra conjuga artigosescritos pela autora ao se debruçar sobre a http://societyandspaceorg/2011/11/18/0ccupy-the-ruins-anna-tsing/
vida do cogumelo matsutake, em que buscou compreender as economias e ecologias 6 Original publicado em: In the midst of disturbance: symbiosis, coordination, history landscape.In: Asso-
ciation of Social Antrhopolegists (Asa) Annual Conference 2015. 13-16 abr. 2015, University of Exeter.
Em “Socialidade mais que humana”? somos convidadosa descrever
essas vidas muties- “Agradecemosa generosidade
pécies e em “Quandoas-coisas queestudamos respondem dos editores e das editoras que
entre sifa compreender o - dução e publicação dos artigoso cederam os direitos de tra-
caráter ôntico da emergência dos.mundos materiais e das paisagens. riginais exclusivamente. para ésta coletânea
* mos Thomas Bristow da
revi
. Agradece-
sta PAN: Philosophy, Activism,
: trafian Humanities Review; Mat Nature; Monique Reoney da
Áarte de perceber avida no Antropôcêno nos leva aos artigos sobre feralid ti Erasaari, da Suomen Antrop Aus-
ade de fungos, olo gi; Viv
“pragas eanimmacidade das linhas de vida dos não humanosnas paisagens :-Tevista The Cambridge Journal ian K, Ber ghahr da
arruinadas pelo dfAnthropology (Berghahn Books)
imperialistmoindustr . Na-seção “Destroçose recuperação”? a autora intérco ory Culture E Society, da Sage Pub ; aos edi tor es da revi sta The
necta sua lication, eda revista Common
próposta etnográfica multiespécie com o tema doAntropoceno. Escalabilidade - Sity Press; aos editores da Knowledge, da Duke Univer
é a prática Routledge eda
itropocênica deampliação dos projetos modernistas sobré o território Nature: As:
não levando em
“Consideração a diferença e a indeterminação: Em contraposição,
“Sobre à não
escalabilidade" é o modo de fazer paisagens queextrapola a ação domestitador
a e repli-
Cânte, Em “Terra perseguida pelo homem," Ting tece sua crítica feminis
ta ao Antropoce-
- hoy: êniquanto: em: “Uma "ameaça paraa ressurgência holocênica é
uma ameação à
“habitabilidade!2realizaumacrítica ao cônceito-prática doAntropocen
oe sua expansão ne Vedana Paulo Olivie
: como manchas e fragmentos = patchy anthropocerie — por meio das prática r Ramos Rodrigues ,Victo
r Vieira Paúlo; MariaAlic
s domesticado- “Marcel Seraphim e Beatriz e Neves Yves
— Tas e simiplificadoras de ecologias das:plantations que emergem diante de prática Demboski Búrigo. Agradecer A

s ressur- “Contribuíramparaos debate rio s ta mb ém aos colegas que


s sobre ostextos e as traduç
getes-holocênicas..Por fim, em 0“O Cervo; O touro e o sonho
do veado”? a autora nos “che, Pedro Castelo Branco ões :Brisá Catão, Jeremy Detur-
mostra comoos humanosnão possuem controle de suaspráticas degest Silveira, Leticia'Cesarino, Gab
ão das paisagens. : Postali Cruz, IgorLuiz Rod rie l Coutinho B arbôsa, Patríc
rigues dá Silva,Larissa Schiveder ia
Pragasanimais; Vegetaise fungos dão o tom contradomesticador sky Julia: Faraco; Natalia See-
e biodiverso, refazendo
paisagens à revelia do ditame humano e masculinista

7 Original publicado em: More-than-human sociality: a call for critical


description. in: Hastrup, K Anthropo-
logy'artd nature, Nova York:Routledge, 2013, p. 37-52.
8 Original publicado emWhen the things we study respond to each other:
tools for unpacking "the mate-
Fal” tn: International Workshop on Engaging the Material: Challenges to Anthropo
logy 13-14 now 2014, Universidade - de Pós-Graduação em Antrop
ologia da Universidade Fed
de Osto. Comunicação.
do Programa de Pós-Gradu eral da Bahia (PPGA/UFBA)
ação em Antropologia Social e
9 Original publicado em: Wechoge and recovery: exploring the nature of nature. Edição
Jerg; Aarhus University 2015, (More than human: Aura Working Papers, v. 2).
de Anna Ting. Hojb- Santa Catarina (PPGAS/UFSC, da Uni ver sid ade Federal de
Disponível em: http://anthropocene.
audk/working-papers-series/
Somosgratos, sobretudo,à
10 Original publicado em: On nonséalábility: the living worldl is not amenable to precision Anna'Ting, cuja aposta em
-nested scales. a assembleia deesforços que pesquisas colaborativas inspir
Common Knowledge, v. 18, n.3, p.505-524, 2012. tornou possívelessa publicaçã ou
o.
“ Original publicado em: Earth stalked by man. The Cambridge Journal ofAmthropology,
v. 34, n. 1, p. 2-16, 2016.
2 Original publicado em: A threat to Holocene resurgence is a threat to livability.
In: Brightman, M, Lewis, ). Thiago Mota Cardoso
. (Ed). The anthimpology ofsustainabilty. Nova York: Palgrave Macmillan (Springer),
2017, p. 51-65,
3 Original publicado em: The buck, the bull, and the dream of the stag: some Rafael Victorino Devos
unexpected weeds of the

Bo.
Anthropocene. Suamen Artrepologi: Joumalofthe Finnish Anthrapological Society, Helsinki,
u 42, n.1, p. 3-21, 2077.
ver terra infundida nesse tipo de ferocidade perigosa. Esse é o resultado da transfor-
mação da paisagem naqual investidores, formuladoresde políticas e engenheiros nãose
importam com efeitos não planejados, mesmo quando obtêm acesso a enormes cam-
pos de ação. É claro que os efeitosperigosos se acumulam. A “vida em ruínas”, que con-
forma o temadeste livro, inclui aterrorizantes ações “ferais” ao lado de ações benéficas.

No verão passado, conheci Merremia peltata, umaespécie de videira de folhas largas que Minhaprimeira incursão no estudo da vida “feral” veio em decorrência de minhas pes-
cresce nas florestas dasplanícies em todo o sudeste da Ásia. Na ilha de Waigeo, onde eu quisas sobre os cogumelos matsutake(Tricholoma matsutake), que crescem com pinhei-
estava hospedada, chamam-na taf susu, “vinha doleite”, por causa daseiva branca que ro vermelho no Japão. O matsutake é uma espécie pioneira de florestas perturbadas
exsuda quando cortada. A tali susu é uma comum habitante da floresta, e por milênios pelo homem, e é tão benéfico quanto qualquervida “feral” que possamos imaginar. As
ninguém pensou nisso como causa de problemas. Mas quandoa floresta foi atingida pessoas o valorizam como um alimento aromático de outono, pinheiros florescem gra-
pela atividade madeireira comercial, a tali susu se tornou algo bem diferente. Aproveitan- çasa eles, e as florestas das aldeias ganham valor econômico porcausa deles. Quando
do a súbita e extensa entrada de luz, a videira estendeu-se portodo o espaço disponível, tipos de matsutake foram descobertos em todo o hemisfério norte, forrageadores in-
cobrindo as árvores restantes, vivas e mortas, sombreandotodas as plantas, cultivadas trépidos - geralmente refugiados e minorias culturais — correram paraasflorestas para
ou ferais, que ousavam ocupar local. Com velocidade impressionante,a tali susu criou encontrá-los e para desfrutar dos altos preços das vendas ao Japão.
sua própria monocultura: uma encostainteira, onde nenhumaoutraplanta crescia. Dez
A primeira seção de artigos desta coletâneafoi escrita durante o período em que estu-
anos depois daexploração comercial perto da aldeia em queeu estava hospedada, a tali
dei o matsutake. No processo de conclusão da pesquisa, comecei a me perguntar como
susu ainda cobria tudo. A tali susu havia bloqueado a regeneração dafloresta.
as ciências sociais teriam que mudarpara incorporara atenção à socialidade mais que
O comportamento alterado da tafi susu oferece umaparábola para o nosso tempo. Or- humana, incluindoa ação feroz. A segunda seção deartigos aborda as convenções disci-
ganismos que, no passado, combinaram-se bem com os outros tornaram-sefortaleci- plinares, com o objetivo de abri-las para além do excepcionalismo humano. Naterceira
dos pelas transformaçõesda paisagem industrial em larga escala e pela conquista huma- seção, vocês verão para onde minha pesquisa mais recente está me levando.
na, assumindo comportamentos que bloqueiam as acomodaçõesinterespécies de longa
Primeiro, uma visão mais sombria do Antropoceno: enquanto o matsutake é o tipo de
data. Como astransformaçõesindustriais e imperiais da paisagem são extensas e pode-
vida “feral” que nos dá coragem para continuar, tem-sea fé inquestionável na esperança
rosas em todo o planeta, nenhum de nós pode escapardos perigos dessas novas ecolo-
comoumavirtude que não noslevará a lugar nenhum. Quanto mais aprendo sobre as
giasferais. “Feral” aqui se refere a reações não projetadas de não humanosàs infraestru-
grandes transformações paisagísticas do Antropoceno, mais empenhada me torno a
turas humanas. Durante a maior parte dos últimos 12.000 anos — e nos contínuos
contar as más notícias ao lado dos esperançosos. Segundo,as práticas interdisciplinares
arranjos ecológicos que Zachary Caple (2017) chama de “fragmentos do Holoceno” —
e colaborativas como necessárias para conhecer o Antropoceno: alguns dosartigos reu-
os seres humanos dependeram dosefeitos ecologicamente benéficosdaação feroz, do
nidos nessa sessão derivam detrabalho de campo colaborativo interdisciplinar em Saby
recrescimento dasflorestas após o corte de árvores realizado pelos humanos ao apo-
Brunkulslejer, conduzido quando coordenei a pesquisa Aarhus University Research on
drecimento de resíduos humanos em composto. O termo Antropoceno marca uma
the Anthropocene (AURA),entre 2013- 2018 (para mais informações sobre esse traba-
diferença:à medida queas infraestruturasindustriais e imperiais se espalharam,os efei-
lho de campo, ver Tsing e Bubandt, 2018). Terceiro, há fungos patogênicos ao lado dos

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tos perigosos não projetados dispararam. Se somarmos os comportamentos ferais das
micorrízicos. Os fungos micorrízicos formam relações simbióticas com asraízes das ár-
coisas não vivas, do dióxido de carbono à radioatividade e ao lixo plástico, poderemos
da por padrões de atividade humanae não humana. A paisagem é um ponto de encon-
vores, trazendoáguae nutrientes em troca de carboidratos. O ressurgimento dafloresta
tro para os atos humanos e não humanose um arquivo deatividades humanase não
depende de micorrizas, que, comoresultado, nos mostram avenidas de esperança. Em
humanas do passado.
contraste, os fungos patogênicos, que são fungos que matam outros organismos, res;
pondem vigorosamente às transformações da paisagem do Antropoceno, incluindo a Segundo,a história: a erudiçãocrítica no final do século XX mostrou comoa história, tal
agricultura de plantation e o transporte de longadistância de organismosvivos. Os fun- como a conhecemos, está entrelaçada com objetivos elitistas e compromissos naciona-
gos patogênicos, fortalecidospelas infraestruturas do Antropoceno, tornaram-se terro- listas. Alguns estudiosos se voltaram contra a história comointrinsecamente ligada às
res, responsáveis por muitas extinções. Ajustaposição de fungos micorrízicos e patogê- ontologias imperiais ocidentais. Para mim, no entanto, é hora de recuperara história e
nicos como portadores de esperanças e medos, respectivamente, é uma forma de permitir a entrada de não humanos, assim como historiadores sociais se abriram para as
avaliar o estado atuale futuro da vida nas ruínas. histórias de povos colonizados, povos indígenas, pessoas de cor e mulheres no final do
século XX.Para estudara vida nas ruínas, um ponto de partida para mim é a capacidade
Em minhas reflexões, juntei-me a muitos outros estudiosos que desafiam a separação
dos não humanos de mudarhistoricamente e às vezes nas mesmas escalas de tempo
analítica entre natureza e cultura no pensamento ocidental. No entanto, a maioria dos
que os humanos-- por exemplo, respondendo aos programas de construçãode infraes-
estudiosos humanistas que trabalham nesta linha enfatizam as naturezas feitas pelo ho-
truturas imperiais e industriais.
mem, desde produtos econômicos até novastecnologias e animais criadospor bioen-
genharia. Minhacontribuição paraessadiscussão é chamar a atenção para a capacidade Esse movimento traz à tona um terceiro termo,a história natural. Convencionalmente,
dos não humanosde responder às práticas humanas de maneiras diferentes daquelas este termo sereferiu às observaçõese escritos deelites europeiase observadores colo-
pretendidas pelo design humano. Além disso, suas respostas não são necessariamente niais. Para as artes antropocênicas, é umatarefa urgentetirar esse termo desse legado
fruto deintenções humanas, mas, sim, programas humanos de transformação deterra, limitadore abri-lo às muitas tradições e práticas dos povos em todo o mundo, à medida
águae ar. Este é o reino do "feral”, A vida feroz tira proveito da perturbação humana que eles interagem com as plantas, animais, terras e águas ao redor deles. Nahistória
para fazersuaspróprias coisas. Sem atendera essa formadeação, os humanistasreafir- natural que proponho, muitos modos diferentes de observação prática e interação se-
mam a hegemonia do design e da consciência humana, afirmação que já fazia parte do riam incluídos, tais como — tomandodois exemplos bem conhecidos — os do Koyukon
problema, tanto na teoria quanto na prática. Para além desses sonhos de controle hu- do Alasca (Nelson, 1986)e os do Japão do século XVIII (Marcon, 2015). As observações
manoestá o Antropoceno. dahistória natural, nessesentido ampliado,participam da “anarquia ontológica” de Edu-
ardo Viveiros de Castro (2019).
Para prestar a devidaatençãoà vida “feral”, eu preciso retrabalhare reafirmar uma série
de ferramentas analíticas. Primeiro, a paisagem: nos anos 1980, os geógrafos culturais Eu também devo mencionar o termo em inglês “assemblage”, que eu entendo queseja
descobriram asraízes do conceito de paisagem na pintura europeia, e as próximas déca- um problema na sua tradução para o português. Em inglês, o termo reúne vários lega-
das de estudos exploraram comoessasraízes levaram à objetificação das perspectivas dos, servindo como tradução de agenciamento em Deleuze e Guattar), ao mesmo tem-
coloniais. Infelizmente, esse importante desenvolvimento fez com que os estudiosos po queseliga à ecologia da paisagem, comoos organismos que podem ser encontrados
humanistas perdessem contato com a materialidade das paisagens, que só foi redesco- juntos e agrupados em um lugar. No meu caso, uso fortemente o último legado, que
bertaporesse grupo nosúltimos anos. Em vezde se comprometerem novamente com permite a um observadorver processos sociais mais amplos e dinâmicos do que os hu-
a perspectiva da pintura de paisagem europeia, o novo trabalho sobrea paisagem abriu manos, mesmo quando mantenho o termo aberto ao primeiro, com seu convite a no-

7
'
campopara uma socialidade mais que humana. Paisagem, na minhaescrita, é constituí- vas maneiras de pensarsobre política e cultura. A maioria doscientistas sociais que usam
É
É
L
o termo eminglês hoje, noentanto,fez umaescolhadiferente: usa o termoparaserefe-
rir a um refinamento da “formação discursiva” de Foucault (ver, por exemplo, Ong e
Collier 2004), como referente a esse complexo deideias, instituições e materiais que se
juntam para criar algum tipo de efeito social humano.Isso pode ser interessante, mas,
como em Foucault, relembra retrospectivamente as genealogias dos efeitos atuais, em
vez de descreverasjustaposições abertas que podem levar a múltiplos futuros. Conhe-
ce antecipadamente a função coesiva de cada elemento, em vez de explorar os misté-
rios. Em meu uso mais fundamentado do termo “assemblage”, o termo reúne apenas

REST
seres, humanos ou não humanos, e nuncaideias e instituições, que certamente podem
estarligadas, mas não são elementos constitutivos do encontro que chamo,na tradução
em português, de assembleia. Isso permite a pergunta de por que há um encontro, quais
são seus efeitos e onde ele está destinado a permanecer não resolvido e, portanto,
aberto à investigação.

Assembleia é um termo que permite a descrição crítica, que, eu argumento, é uma ha-
bilidade central para conhecer o Antropoceno, Se há tima mensagem central para os
humanistas e cientistas sociais aqui, é que o mundo do Antropocenoé cheio de coisas
estranhas e surpreendentes que precisamos conhecer, e é hora de renovar nosso inte-
resse coletivo no que está acontecendo. Na minhadisciplina doméstica, a antropologia,
o valor se acumula cada vez mais nas discussõesfilosóficas dos conceitos.Isso aprimora
as críticas à descrição objetivista, mas também bloqueia os esforços para tentar outras
modalidades. Ironicamente, mesmo aocriticar a descrição como um apagamento privi-
legiado da teoria, grande parte desse trabalho eleva novamente oslocais centrais a par-
tir dos quais o refinamento teórico é mais fácil. Meu argumento nestelivro, que se tece
como umacoleção de artigos, é de que a teoria sutil e a política da justiça podem ser
usadas na e durante a descrição. Espero inspirar os colegas a olhar em volta para perce-
ber o mundo(art ofnoticing) - mesmo enquanto atendem ao colonialismo,à ontologia e
a outras estruturas críticas. Teorias e conceitos emergem melhor da atenção para O
mundo. Além disso, não é preciso se afastar de casa: a vida nas ruínasestá em todaparte
à nossa volta.

Anna Lowenhaupt Ting


ES EL! .

CONTAMINAÇÃO

Nosso tempo é o “Antropoceno”, a era da perturbação humana. O Antropoceno é uma


era de extinção em massa, não devemos esquecer. Mas o Antropoceno também é uma
era de emergências. O que emergiu? Eu uso o termo “diversidade contaminada” para
referir-me a modosculturais e biológicos de vida que se desenvolveram em relação aos
últimos milhares de anosde difusão da perturbação humana. Diversidade contaminada
é adaptação colaborativa a ecossistemas de perturbação humana. Emerge como os de-
tritos da destruição ambiental, da conquista imperial, dos finslucrativos, do racismo e da
normaautoritária — assim como do devircriativo. Nem sempre é bonita, mas é quem
somose o que temos disponível como parceria para umaterra habitável

"Perturbação lenta” refere-se aos ecossistemas antropogênicos nos quais outras espé-
cies podem viver. Paisagens de perturbação lenta são aquelas que nutrem colabora-
ções interespecíficas. Não são intocadas pela presença dos humanos, o supremo inva-
sor “daninho”. No entanto, sua biodiversidade é comparativamente elevada. Uso o
adjetivo “lento” em diálogo com slowfoods e slow cities; lentidão é um sonhoa encorajar,
mais do que um traço a objetificar. Em minha corrente pesquisa colaborativa no mun-
do conectado por cogumelos matsutake (um cogumelo de perturbação lenta muito
valorizado no Japão e extraído ao longo do hemisfério norte), tenho explorado paisa-
gens de colaboração interespecífica envolvendo humanose florestas de pinus (Satsuka,
2012; Hathaway, 2012). Paisagens de matsutake são florestas perturbadas e também
sítios de vida multiespécie.

23
1 “Original publicado em: Contaminated diversity in “slow disturbance”: potential collaborators fora livea-
ble earth. fn: Martin, G; Mincyte, D; Múnster, U. Why do wevalue diversity? Biocultural diversity in a global context.
Munich: Rachel Carson CenterPerspectives, 2012. p. 97-99.”
Como podemostrabalhar em direção a um planeta de perturbação lenta? Em vez de
ternativa à modernidade capitalista ficandofora de seu caminho, Não é que nuncate-
simplesmentecatalogar diversidade, precisamos narrarashistórias em quea diversidade
nham ouvido sobre colonialismo ou desenvolvimento nacional; eles tentaram,à sua ma-
emerge — isto é, admitir suas formas animadas e, portanto, contaminadas. Diversidade é
neira, sobreviver na periferia destas formações. Sua integridade cultural é tão
Criada em sinergias colaborativas; é sempre devir. Tanto nativos quanto migrantes
po- contaminada quanto sua paisagem biológica, e isto oscoloca em parentesco cosmopolita
dem participar na produção deáreas de perturbação lenta. Umadireção útil na qual
com o resto de nós.
movera “diversidade biocultural” é abri-la à diversidade contaminadae aos regimes
de
perturbaçãolenta de pessoas em muitas circunstâncias. Esse parentesco podelevar-nosa claros e contrastantes exemplosdediversidade conta-
minada e perturbação lenta. A recente dissertação de Bettina Stoetzer (2017) explora
Diversidade biocultural tem sido geralmente usada como termo para reconhecerpráti-
diversidades contaminadas na cidade de Berlim. Os destroços de prédios desmorona-
cas ecológicas tradicionais. Tradição é apenas um exemplo, argumento, de diversida
de dos após a Segunda Guerra Mundial criaram “ecologias de destroços” no coração da
contaminada quepossibilita perturbação lenta. Há um parentesco aqui com outras for-
cidade; novas ervas brotaram dasruínas da guerra. Tais ervas a guiaram até metafóricas
mas contaminadas. Mas deixe-me começar com um casoclássico.
ecologias de destroços dejardins de imigrantes e churrasqueiras, assim como campos
Entre os Meratus Dayaks da floresta tropical de Kalimantan, com os quais eu realizei de refugiados na floresta. Diversidade cultural contaminada torna-se ligada à diversida-
trabalho de campo,a biodiversidade é criada porpráticas cotidianas (Ting, 1994, de biológica contaminada nestas práticas. Algumasvezes a perturbação lentaé possível,
2005).
Os Meratus não são apenas abençoados com um ambiente diverso,eles estimulam bio-
Entre esses dois exemplos está a conturbadafloresta de pinus que produz cogumelos
diversidade por meio do manejo da paisagem. Primeiro, os Meratus diversificam plantas
matsutake. Um de meus locais de pesquisa são as ruínas de florestas industriais no Ore-
cultivadas, desenvolvendo muitas variedades em cada safra, Segundo,eles diversificam
gon. Os grandespinheiros se foram. Pequenospinheiros, aglomerados, doentescrescem
a paisagem por meio deagricultura itinerante, criando manchasdeflorestas secundári
as lentamente nesse solo compactado e pedregoso.Isto é certamente diversidade conta-
com florestas antigas. Fragmentos cultivados estimulam biodiversidade. Terceiro,
eles minada. Aqueles que mais bem a conhecem são os catadores que chegam todo verão
estimulam outras espécies através de semidomesticação, trazendo plantas e animais
em busca de rmatsutake. Muitos doscatadores são também sobreviventes — da guerra.
para suas ecologias perturbadas sem os rigores da domesticação. Por exemplo,eleslim-
Veteranosbrancosda guerra da Indochina partilham a mata, a contragosto, com refugia-
pam e preparam árvores silvestres para abelhas migrantes. Eles espalham sementes de dos do sudeste asiático da mesma guerrae das guerrascivis que se seguiram. Outros
frutos selvagens e fomentam plantas úteis.
catadores foram deslocados ao final da exploração madeireira industrial, pelo declínio
A diversidade que prospera é a que se adaptaàs práticas de perturbação dos Meratus. de empregos estáveis, e pela possibilidade de cruzar fronteiras buscando novas vidas.
As
coisas ficam confusas quando conservacionistas identificam esse conjunto de Muitas línguassão faladas, incluindo hmong, mien, lao, khmer, cham, akha, mayan,
espécies espa-
como florestas tropicais “intocadas": eles não deveriam banir as pessoas nhol, cantonês, mandarin, tagalog, japonês, koreanoe inglês. Esta pequenaárea de flo-
da história.
À dádiva do termo diversidade biocultural é tornar isto evidente, Mas não é necessári resta arruinada deve ser, culturalmente e linguisticamente, uma das mais diversas
o áreas
negar a história (na busca portradição) para manter esta dádiva. Plantase animais do mundo — durantea estação do matsutake. Mas isto é tudo diversidade contaminada.
são
parte de um regime humano de perturbação;eles têm umahistória contaminada. Osrefugiados constituem a si mesmos como grupos culturais com a memória da guer-
En-
quanto os Meratus tiveram um longo tempopara desenvolveresse conjunto de práticas, ra. Identidade cultural aqui é a memória da guerra, Então, também, ecologia aqui é a
seria igualmente um erro imaginá-los mantendo um modelo desabedoria atemporal. memória da exploração madeireira. Diversidade contaminada está em toda parts; para
Os
Meratus foram refugiados da islamização do sul de Kalimantan. Desenvolveram melhor oupara pior, é o que nóstemos. Aceitando essas limitações, essa coleta de
umaal- mat-
sutake constitui perturbação lenta, permitindo quea vida dafloresta continue.
DANÇANDO NAFLORESTA DE
x, : Í

COGUMELOS

Pode-se esperar queos forrageadores de cogumelos, que passam muito tempo nos bos-
ques, saibam algumacoisa sobre a vida nafloresta. Eles sabem. Maso primeiro instinto dos
pesquisadores para aprendersobreeste conhecimento — trabalhar com a nomenclatura e
classificação de plantas, animais e ecossistemas — não funciona tão bem, comoera de se
esperar. Muito do conhecimento dos catadores de cogumelo sobre a floresta é um conhe-
cimento cinético - conhecimento sobre como se moverpela floresta, navegando porsuas
vistas, sons e cheiros. Enquanto eles podem ser eloquentes sobre explicar seus movimen-
tos, as pessoasse tornam especialistas em forrageamento de cogumelos, nãoatravés de
conversas, mas usando seus corpos. Se formos generosos com o significado das palavras,
não é exagero consideraro forrageamento do cogumelo como umaformade dança?

Dançaé uma arte formal; a colheita de cogumelos não é. No entanto,os catadores se


movimentam de maneira habilidosa enquanto navegam pela floresta. Esses movimen-
tos habilidosos podem ser para a dança o que o compositor John Cage escutou na

1 Original publicado em: Dancing the mushroom forest. PAN: PhilosophyActivism Nature, Melbourne, n. 10,
p.6:14,2013º
2 Este artigo reúne o trabalho colaborativo do Matsutake Worlds Research Group (Timothy Choy Leiba
Faier, Michael Hathaway, Miyako Inoue,Shiho Satsuka e eu mesma). Minha pesquisa no Oregon deve-se a outras
colaborações com Hjorleifur Jonsson e Lue Vang. Este artigo foi escrito primeiramente como umafala na Univer-
sidade de Minnesota para Ananya Chatterjea e o Departamento de Teatro, Artes e Dança. Meusinterlocutoreslá
ofereceram generosos comentários. A pesquisa em Oregon foi realizada sempre em setembro e outubro, entre
2004 e 2008, O University of California Pacific Rim Research Program apoiou a pesquisa preliminar; a Fundação

27
picaigjeo) Toyota ajudou a financiar o programa colaborativo mais amplo. Obrigado a Kathryn Chetkovich, Pautta Ebron e
aosrevisores anônimos.
música: a arte emergente da vida cotidiana? Defato, eles estão mais de voltas, linhas sinuosas através da floresta? Seguir linhas de forrageamento como
próximos da dança do queossonsaleatórios de Cageestão da música; “dança” parece particularmente frutífero, porque a dança chamaa atenção para dois
os movimentos dos catadores de cogumelos são significativos. Outro outrosatributos. Primeiro, as linhas de forrageamento são geradas porprincípios cines-
guia podeser o dito balinês: “não temosarte, fazemos tudo da melhor tésicos específicos, correspondendo variados programasestéticos e histórias de práti-
maneira possível”, Assistir a dança emergir da subsistência nos desperta ca. Nem todososcoletores são iguais, suaarte importa. Em segundo lugar, as artes da
t colheita para as artes da vida cotidiana. vida humanase entrelaçam de maneiravariada com as artes da vida de outras espécies,
: matsutake incluindo os cogumelos. Muitas espécies fazem linhas de dança. O primeiro desses atri-
Há outras razões além da apreciação para se importar com essa dança.
se procura butos nosatrai para diversas histórias culturais dos usos humanosdafloresta. O segun-
» Corpos habilidosos em movimento nos mostram que os humanos não
3s.
são os únicos que dançam. Nossos lugares selvagens e não tão selvagens do nos permite seguir seres humanos e outras espécies reunidos à medida que geram
gue estão diminuindosão feitos em trilhas detravessia, humanas e não conjuntamente paisagens multiespécies. Essas preocupações nos levam além das pro-
humanas. O aquecimento globalserá experienciado nessa dança entre postasiniciais de Ingold, enquanto ainda apreciamosas vivas possibilidades das linhas.
espécies. Algumas populações de determinadas espécies irão florescer, Este ensaio segue os coletores de cogumelos matsutakenas florestas do Noroeste Paci-
enquanto outras morrerão; são as linhas de atividades dançadas de gru- fico dos Estados Unidos para mostrar comoas linhas de forrageamento são tanto for-
pos particulares que fazem toda a diferença. Nós aprendemos, por exem- masdearte cinestésica quanto negociações devidas da floresta.
plo, sobre as aves marinhas que seguem sua fonte de alimentos para o Matsutake são cogumelos selvagense aromáticos muito apreciados no Japão. Até a dé-
norte, para climas mais frios e, em seguida, encontram-se sobre o mar cada de 1970, as florestas do Japão produziam o suficiente para o consumo japonês,
aberto, sem pedras sobre as quais se aninhar. Sua dança é o voo,
a busca mas desde então as mudanças ambientais provocaram um declínio acentuado no for-
de comida, a busca de ninhos; cada umafaz parte da dança da vida da ave. necimento, Esse declínio corresponde à ascensão do Japão à prosperidade e, desde os
Listas de espécies sozinhas não serão mais suficientes. Somente seguindo
anos 1980, o Japão importou matsutake das florestas do hemisfério norte. Uma gama
as populações em tais danças poderemosver os efeitos da mudança am- diversificada de pessoas mobilizou-se paraa colheita do matsutake, dos tibetanos na
biental. Precisamos de mais histórias sobre tais danças: o forrageamento
China aos trabalhadorestailandesesnaFinlândia, aos marroquinos, butaneses e ao exér-
de cogumelos é uma delas. cito norte-coreano. Quandoos preçosestão justos, é o cogumelo mais caro do mundo.
A atenção do antropólogo Tim Ingold (2007)às linhas — não às linhas re-
Nas montanhas do Noroeste Pacífico dos Estados Unidos, dois grupos distintos colhem
tas e constrangedoras doslivros de regras gramaticais da escola ou dos matsutake: catadores herdeirose catadores comerciais? Os nipo-americanoscoletaram o
arquitetos modernistas, mas as sempre moventes trajetória dasatividades cogumelo porcentenas de anos; hoje coletarfaz parte de umaherançacultural autocons-
animadas — é um ótimo lugarpara começar a seguir a dança do forragea-
ciente. Um dos lugares favoritos é o Monte Hood, no Oregon, um cone vulcânico cuja
mento do cogumelo. Uma dançaforma umatrajetória, um tipo delinha. forma dramática lembra a comunidade do icônico Monte Fuji no Japão. Importadores
O forrageamento do cogumelo pode ser imaginado como um conjunto

4 Compareas linhas de caça e coleta de First Nation, de Brody (1997) como “mapas”.
5 Generalizações aqui sobre “catadores de cogumelo”se referem a Oregon. Minha pesquisa com matsu-

29
3 Cage ouvia música, por exemplo,nos sons do trânsito. Ver“John Cage about silence”,
take também me levou ao Japão, China, Canadáe Finlândia;diferentes agendas e habilidades
disponível em: wwwyoutube.com/watch?v=pcHnL7as64Y sãorelevantes nesses
lugares. Meu website oferece umaprova dessas diferenças: wwwimatsutakeworidsorg
comerciais no Japão sabem sobre o matsutake dos Estados Unidos por causa dos nipo- música, a comida: tudo sugeria que eu haviasido transportada, de alguma maneira, ao
-americanos. Na década de 1970, quandoas importações japonesas começaram,osja- Sudeste asiático rural. Havia tendas de noodle onde se poderia comer pho e escutar cara-
poneses da América coletavam comercialmente, mas desde o final dos anos 1980, eles oquê do Laos. Você poderia pedir um laap, não a carne moída com cebolas quelhe seria
têm coletado principalmente como hobby, distribuindo cogumelos entre parentes e para servido em um restaurante tailandês americano, mas a coisa real, todo sangue cru, intes-

a comunidade nipo-americana. A colheita de matsutake tornou-se um símbolo da he- tinos e pimentas picantes. Isso no meio do bosque sem água oueletricidade.
rança nipo-americana no Noroeste Pacífico e é considerada como umahabilidade que
A surpresa me conduziude volta a minhahistória: a performance- isto é, os movimen-
os anciãosidealmente poderiam passar para uma geração mais jovem e relutante.
tos e astrajetórias — de coletar cogumelos matsutake revela sensibilidades culturalmen-
Desdea década de 1980, uma população muito maior adentrou essas florestas em bus- te ricas para a compreensão dasvidas nafloresta. Para isso, voulevá-lo paraa floresta
ca do cogumelo:os catadores comerciais. Os catadores comerciais são os descendentes portrês vezes, primeiro, por mim mesma, para mostrara cena, depois novamente com
dasprivatizações e do enxugamento do Estado norte-americanonaera Regan.Este é o especialistas. Levarei junto Hiro, um ancião da comunidade nipo-americana. Depois, ire-
empreendedorismo para aqueles que começam com nada; penso nisso como um “ne- mos novamente com Moei Lin e FamTsoi, duas mulheres mien de meia idadeA cada
oliberalismo popular”, o empreendedorismo do pobre (Ting, 2013). Não há emprega- vez, seguirei as trilhas que nos mostram a natureza em uma dançadafloresta, As danças
dores e a terra é pública, umafloresta nacional. Tudo o quevocêprecisa é de um veículo dos meus companheiros Mien e nipo-americanosdiferem naformapela qualestão liga-
e da vontade deestar no bosque profundo porsua própria conta. Talvez você encontre das ao resto de suas vidas. Acompanharas dançasda floresta de matsutake envolve-nos
ouro; talvez não consiga nada. na riquezadadiversidade cultural e biológica.

Osprimeiros catadores comerciais eram homens brancosque desejavam estar sozinhos


no bosque: veteranos do Vietnam,trabalhadores dernitidos do setor madeireiroe tra- PROCURANDO,SENTINDO
balhadores rurais conservadores que chamavam a si mesmos de “tradicionalistas”. Al- Oscoletores de cogumelos - mesmo aqueles que ganham toda sua renda com isso —
guns destes homens perseveraram. Mas no centro do comércio do matsutake eles fo- concordam: coletar não é “trabalho”. Um catador do Laos mostrou-se particularmente
ram sobrepujados e largamente deslocados por uma enorme população nova na articulado aofalar disso. O trabalho, disse ele, envolve seguir ordens. É preciso aturar o
floresta: os refugiados vindos do Laos e do Camboja. Estes grupos chegaram aos Esta- ônus constante da hierarquia. Diferentemente, a colheita de cogumelos é a “procura”.
dos Unidos nos anos 1980, quando o estado de bem-estar social, os serviços públicos e Procurar envolveiniciativa e conscientização. Os cogumelos são difíceis de encontrar.
os empregos formais estavam desaparecendo. Vivendo ainda o trauma da guerra e do É preciso usartodos os sentidos. Ao procurar, fico alerta aos odores. O matsutake tem
deslocamento, sem falar inglês ou, em muitos casos, sem experiência de trabalho urba- um aromapungente, e às vezes posso percebê-lo antes de encontrar algum cogumelo.
no, eles foram paraa floresta com determinação. Quatro gruposétnicos eram domi- Eu expando minhas narinas, concentrando-menos cheiros, os quais se misturam com
nantes: Khmer, a maioria da população do Camboja; Lao, o grupo majoritário em Laos; pinheiro e poeira. Às vezes eu paro em meio a um passo, provocado pelo odor. Então
e Hmong e Mien, dois grupostribais da montanha do Laos. Eu sigo a convençãolocal de meusoutros sentidos também despertam. Meusolhos varrem o chão, “cornolimpado-
usar estes rótulos étnicos sem o qualificador “americano”, apesar de a maioria deles resde para-brisa”, explica o catador. Às vezes eu medeito no chãopara ver por um ân-
serem cidadãos americanos. gulo melhor, ou mesmo parasentir.

Como estudiosa do Sudeste da Ásia, não poderia ter ficado mais surpresa ao encontrar
6 Todosos nomespessoais são pseudônimos. Sou grata aos muitos nipo-americanos, americanos do Su-
acampamentos do Sudeste asiático no meio dafloresta de Oregon.A cultura material, a deste Asiático, catadores brancos e latinos que me mostraram comoforrageiam.
O segredo dacolheita de cogumelos matsutake é este: nuncase procura por cogumelos.
Por sua vez, como bons agricultores, eles disponibilizam nutrientes para suas árvores.
De vez em quandoalguém vê um cogumelointeiro — provavelmente descartado por ani-
Grande parte do trabalho útil de classificação realizado pelos catadores envolve nomear
mais ou tão velho que os vermes quase o consumiram. Os bons cogumelos, no entanto,
as árvores certas. Mas a classificação de árvores apenas abre a porta, talvez determinan-
estão sobo solo. Para encontrar um bom cogumelo, procuram-se os sinais de seu cresci-
do a área geral que um selecionadorescolhe para procurar. Não é realmente muito útil
mento, sua linha de atividade. Cogumelos movem o chão levemente quandosurgem, e é
para encontrar cogumelos. Os catadores não perdem muito tempoolhando para iden-
preciso procurar por aquele local de movimento. Algumas pessoas chamam de saliência,
tificar árvores. Nosso olhar é direcionado para baixo, onde os cogumelos se erguem
mas isso implica um montículo bem definido, muito raro. Em vez disso, sinto um suspiro,
através da terra agitada. É lá que o catador buscalinhas de vida — as linhas de atividade
um efeito comoa inalação de ar no peito. É fácil de imaginar o movimento como um so-
que criam as microecologias da floresta.
pro do cogumelo. Às vezes, há um leve estalo, como sea respiração do cogumelo tivesse
escapado. É claro que os cogumelos não respiram dessa maneira. No entanto,é esse reco- É improvável que o matsutake seja encontrado em lugares férteis e bem irrigados;
nhecimento da vida comum que forma a base da dançada floresta de matsutake. outros fungos crescerãolá, e o matsutake não é um bom concorrente. Em vez disso,
o matsutake podeser encontrado em ambientes pobres, com poucos nutrientes dis-
Há muitas protuberâncias e rachaduras em qualquer chão defloresta, e a maioria não
poníveis: dunas de areia; rocha vulcânica; encostas erodidas; deserto. Se houver mui-
tem nadaa ver com cogumelos. Muitos são antigos, estáticos, sem uma indicação do
tos arbustos de murta, o solo provavelmente está muito úmido. Se as árvores têm
movimento da vida. O catador de cogumelos matsutake deve procurar por movimen-
ainda poucas décadas de crescimento, nenhum cogumelo aparecerá. Se os animais
tos dinâmicos, aqueles que sinalizam que um ser vivo está lentamente empurrando.
deixaram excrementose trilhas, este é um bom lugar para procurar. Se a umidade
Sente-se então o chão, talvez inserindo um bastão. O cogumelo pode estar a dois ou
encontrou um lugarpara se esconder ao lado de umarocha ou um tronco, isso tam-
três centimetrosabaixo da superfície, mas um bom catadorsabe, tendo percebid
o a vi- bém é bom.
vacidade dosolo, a linhavital do cogumelo.
Há uma pequenaplanta no chão dafloresta que dependeinteiramente do matsutake
Procurartem um ritmo simultaneamente apaixonadoe calmo. Os catadores descrevem
(Lefevre, 2002), chamada candy stick (Allotropa virgata). Ela forma um caulelistrado ver-
sua ânsia de entrar na floresta como uma“febre”. Às vezes, dizem eles, não planejara
m melho e branco adornado porflores, e mesmo depois queas flores murcham,seus ga-
ir à floresta, masa febre os pega. No calor dafebre, coleta-se na chuva, na neve,
e mes- lhos secos podem serfacilmentevistosnafloresta, e eles são um indicador de matsutake
mo à noite com luzes. Háos quese levantam antes do amanhecer para estarlá primeiro.
= seja frutificando ou apenas fios fúngicos no subsolo.
Vamos, está perdendo tempo; alguém vai pegar esses cogumelos. No entanto, não se
consegue encontrar um cogumelo correndo pelafloresta. Vá mais devagar.. vá mais de- Linhas devida são emaranhadas: candy stick e matsutake; matsutake e suasárvores hos-
vagar, fui constantementeavisada, Catadores inexperientes perdem a maioria dos cogu- pedeiras; árvores hospedeiras e conjuntos de ervas, musgos, insetos, bactérias do solo e
melos movendo-se muito rapidamente; apenas uma observação cuidadosa revela os animais da floresta — levantando montículos no solo e atiçando catadores de cogume-
movimentossuavesdaterra. Calmo, masfebril, apaixonado, mas imóvel:o ritmo do los. Meu ponto até agora é o seguinte: os catadores de cogumelos matsutake estão
ca-
tador condensaa contradição da ansiedade com um estado de prontidão. atentosàs linhas de vida nafloresta. Explorar com todosossentidos cria esse estado de
alerta. É uma forma de conhecimentoe apreciação da floresta. Falta a integridade de um
Os catadores também estudam a floresta. O matsutake estabelece uma relação simbió-
sistemade classificação. Em vez disso, a busca nosleva à vivacidade das populações não
tica com certas árvores, enroscando-se em volta e dentro desuas raízes. Como nós, eles
humanas experimentadas comosujeitose não como objetos.

33
vivem do açúcar que asplantas fabricam a partir da luz dosol; as árvoresos alimentam.
Estas sãoas impressões de minha colheita de cogumelos; é hora detrazerosespecialistas.
MAPEANDO MEMÓRIAS Ao dirigir com Hiro rumoà floresta, a memória se torna pessoal Ele apontapara ajane-
Hiro é um ancião da comunidade nipo-americana de Portland. Agora, aos 80 anos,ele la: “Esse é o lugar de caça do matsutake de Roy; ali é o lugar especial de Henry”. Só mais
leva uma vida exemplar de um representante classe trabalhadora. Por muitos anos, ele tarde percebo que Roy e Henry estão mortos. Mas eles vivem no mapa dafloresta de
trabalhou em umaforja, fazendo equipamentos pesadose participando do sindicato. Hiro, relembrados toda vez queele passa porseus lugares. Hiro ensina os mais jovens a
Poressalongavida detrabalho, ele recebe US$ 1 por ano de pensão. Quandoa Segun- caçar cogumelos; e com a habilidade vem a memória.
da Guerra Mundial estourou, Hiro era um jovem agricultor com seuspais. Seus pais per-
Conforme andamosno interior da floresta, a memória torna-se específica. “Debaixo da-
deram a fazenda quandoas autoridades osclassificaram comoestrangeiros inimigos e
quela árvore, encontrei uma vez 19 cogumelos, umafileira inteira, estendendo-se no
os levaram para o curral de gado dePortland, e depois para um campode concentração
meio do caminho em tornoda árvore”. “Al, encontrei o maior cogumelo quejá encon-
cercado de arame farpado. Hiro se juntou ao exército dos Estados Unidose serviu ao
trei, ele tinha quatro quilos, e outro de dois quilos e ainda um broto”. Ele me mostra
442 Regimento de Combate Nisei famoso por suas perdas, enquanto as tropas mais
onde uma vez as tempestades derrubaram uma boaárvore de cogumelos; não haverá
brancasfloresciam.Se os nipo-americanos se comportaram como“minorias-modelo”
rrais cogumelos lá. Nós vimosos lugares onde umainundaçãovarreu o solo superficial
depois da guerra, isso tem muito a ver com essa história dediscriminação e perda Como
e onde os catadores arruinaram gradativamente um bosque ao fazer suas escavações.
disse outro ancião, “ficamos longe de tudo o queé japonês. Se você tivesse um par de Esses eram bonslugares para cogumelos, masjá não são mais.
chinelos[japoneses], você os tirava antesdesair de casa”. Embora seuspais fossem mi-
grantes do Japão,Hiro fala apenas um pouco dejaponês e não lê nada; eleé fluente na Mesmo fora da floresta, Hiro caminha com uma bengala, e é incrível queele ainda
cultura americana. De fato, esse é o tipo de cultura asiático-americana de assimilação possa escalar troncos caídos, passar através de arbustos e andar para cima e para
rápida e com medo do cárcere com a qualeu cresci em Ohio? baixo em barrancos escorregadios. Mas Hiro não tenta cobrir toda a extensão do
chão em sua busca. Em vez disso, seguindo sua memória, ele vai de um ponto de
Nointerior de uma cultura de assimilação asiático-americana do século XX, no entanto, cogumelos a outro. A melhor maneira de encontrar o matsutake é olhar onde o en-
algumas formas de asianidade imaginadafloresceram. Para os nipo-americanos de Por- controu antes.
tland, a busca por cogumelos matsutake tornou-se um local de prazes, orgulho e apego
aolugar. Os membros da comunidade contam com prazersua oportunidade de enviar É claro que, se esse ponto estiver no meio do nada, sob um arbusto aleatório perto de
algo valioso de volta ao Japão — mesmo queàsvezes chegue cheio de vermes. umaárvore aleatória, é bem difícil lembrar desse lugar de um ano para outro. Seria im-
possível catalogar todos oslugares em que se encontrou um cogumelo. Mas Hiro expli-
A distribuição de cogumelos matsutake é um dos maiores prazeresda colheita. Hiro diz ca que não é preciso. Quando se chega ao lugar, a memória emerge, fazendo com que
que no ano passado ele pôde dar matsutake para 64 pessoas, principalmente pessoas todosos detalhes desse tempo anterior de repente fiquem claros.
mais velhas, que não conseguiam chegar às montanhaspara coletarpor elas mesmas.
O matsutake constrói uma sensação de prazer e comunidade, especialmente entre os Essetipo de memória requer movimento e inspira um conhecimento histórico ínti-
mais velhos. Como tal, tornou-se um presente que os anciãos podem dar aos jovens. mo da floresta. Hiro se lembra de quandoa estrada foi aberta ao público: “Havia
Procurar por matsutake move um catadoratravés do tempoe do espaço. A memóriaé tantos cogumelos ao lado da estrada que você não precisava entrar na floresta!”Ele
vitalizada pelo movimento do corpo nafloresta: a memória inspira a dança e a dança se lembra particularmente dos bons anos: “Eujuntei três caixas de laranja de cogu-
inspira a memória. melo e não conseguia imaginar como levá-las para o carro”. Toda essahistória são

35
camadas na paisagem, entrando e saindo destes lugares, é possível verificar uma
7 Para um relato comovente da história nipo-americana no Oregon, ver L Kessler (2008). nova vida emergente.
O poderda dança da memória na paisagem me impressionouparticularmente quando
agitação da vida da aldeia. Vizinhostrazem notícias, comida cozida para compartilhar e
falamosdaspessoas que não podiam maisrealizá-la. Hiro sempre leva cogumelos
para carne de caça para distribuir. Os coletores Mien descrevem os prazeres do campo de
aqueles que não podem mais andar na floresta. Presentear cogumelos reinsere os doen-
cogumelos como uma chance derecriar a vida daaldeia.
tes e as famílias dos mortos na paisagem comunal. Às vezes, porém, a meméria
falha, é
então, para melhor oupior todo o mundose torna um cogumelo. Ken me contou
sobre Também há motivos para esquecer, como FamTsoi me lembrou quando perguntei a ela
um membroidoso da comunidade queestava com Alzheimer, confinado em umaclni- sobre as lembranças de casa. Como muitos catadores de Hmong haviam me dito que
ca de repouso. “Você deveria ter vindo aqui na semanapassada”, o velho disse
a ele caminhar pelas florestas do Oregon os fazia lembrar das colinas do Laos, perguntei a
quando Kenvisitou: “Aquela colina estava embranquecida com cogumelo”.Ele apontava FamTãoi se ela às vezes pensava no Laos quandoestava coletando. “Sim, claro”, ela disse.
pelajanela para o gramado cortado onde o matsutake jamais cresceria, acenando vigo- "Mas se você pensar apenas no cogumelo,é capaz de esquecer”.
rosamente a umailusão. Sem a dança dasflorestas de matsutake, a memória perde
o Os Mien vieram para os Estados Unidos com as tragédias da guerra dos Estados Unidos
foco. A dança é memória.
na Indochina. Como os Hmong, os Mien tiveram aldeias inteiras arrastadas para a guerra
Em contraste, os catadores comerciais cobrem todoo solo em sua busca. Ao contrário secreta da CIA no Laos. Nenhum Mien laosiano escapou de uma história de mortes,
dos catadores tradicionais, para os quais meio balde de cogumelosrepresenta migrações forçadas, famílias divididas e traições de guerra. Quando os americanos se
um bom
dia de coleta, os catadores comerciais entendem que meio balde provavelmente não retiraram, em 1975, muitos Mien foram pegos do lado errado. Depois de passar anos em
cobrirá o custo dagasolina. Oscatadores comerciais não podem sedaro luxo decoleta aldeias tailandesas e campos de refugiados, um número significativo foi aceito como
r
apenas em seus pontos de memória. Para ganhar vida, eles coletam ao longo do refugiado nos Estados Unidos. Muitos se mudaram para o clima amenoe a riqueza agrí-
dia,
por mais tempo, em faixas mais amplas e ecossistemas mais diversos. Deixe-me levá-lo cola da região central da Califórnia?
agora para outra dança.
Refugiados do Sudeste Asiático chegaram à Califórnia em um momento em que o governo
Reagan estava encerrando o estado de bem-estarsocial. A assistência do Estado foi limitada
LINHASE ALINHAMENTOS a 18 meses; o treinamento profissional era mínimo. A maioria dos refugiadostinha pouca
Para Moei Lin e Fam'oia colheita de matsutake é tanto um meio de vida quanto um habilidade com o inglês e muitos não tinham experiência profissional. Em contraste com a
período deférias. Em todasas estações de matsutake desdeo início dos assimilação coercitiva da cidadania americana de meados do século XX, esses refugiados
anos 1990,etas
fizeram seus caminhos com seus maridos saindo de Redding,na Califórnia,
até as Casca-
entraram em um país onde ninguém se importava com assimilação, contanto que você
des Centrais; e às vezes, nos finais de semana, seusfilhose netosjuntam-se a eles. não pedisse nada. As instituições deassimilação — ação afirmativa, educação pública, empre-
Quan-
do a temporada acaba, o marido cle Moei Lin empilha caixas de leite no Wal-Mart go padrão — estavam em declínio. Os Mien criaram enclaves étnicos, cultivando comidas do
de
Redding por US$ 11,50 a hora, sem benefícios; e o marido de FamTsoi dirige sudeste asiático, forjando ferramentas tradicionais e cerimônias de revitalização. Diferente-
um ônibus
escolar. Em um bom ano, a coleta de matsutake propicia uma vida melhor do mente de minha mãe, imigrante chinesa que estudou comopreparar hambúrguerese bolo
que qual-
quer umadessas alternativas. Além disso, eles esperam ansiosamente pela temporada de carne há meio século, as donas de casa de Mien se orgulham de pendurartiras de carne
porvárias razões, incluindo o exercício físico e o arfresco da floresta. As mulheres se para secarsobre o fogo da cozinha Quando osrefugiados ouviram que poderiam ganhar
sentem livres do confinamentodas cidades. Os abrigosestreitos do acampamento dinheiro pegando cogumelos na floresta, eles se juntaram para a colheita.
Mien
na floresta são os mais próximo que podem chegar nos Estados Unidos, de umaaldei

3%
a
8 Para umadiscussão inspiradora sobre memórias de guerra dos Mien americanos que informam experi-
na região montanhosa do Laos. Os campos de cogumelos Mien estão repletos da ências de refugiados nosEstados Unidos, ver H. Jonssen 2014).
Abandonados para ganhara vida por seu próprio talento, os refugiados Nem todasaspistas são bonsguias. Quantas vezes encontrei uma saliência no solo que,
do Sudeste Asiático encontraram bons usos para antigos repertórios de pressionada, revelava apenas o ar: O túnel de uma toupeira! E quando perguntei a Moei
,
habilidades. Desbravar paisagens é uma habilidade tradicional dos Mien, Lin se ela procurava por candy stick, a pequena planta que cresce apenas com matsutake
Era um
necessária para um cultivo itinerante migratório. As pessoas de Mien ela franziu a testa e disse “não”. “Outras pessoas já terão estado lá”, ela explicou.
sempre usaram floresta; não é um lugar de medo ou desorientação. Os sinal muito óbvio para as complicações sutis que buscávamos.
2rformances de catadores urbanos do Laos se perderam na floresta — assim como eu -,
Olharpara o lixo sob esta luz foi uma revelação para mim. Caminhantes brancos odeiam
ãodiferentes mas isso raramente aconteceu com os catadores de Mien. Todosse sen- Serviço Florestal
lixo. Estraga a floresta, eles dizem. Os catadores do Sudeste Asiático — o
: dois grupos, é tiam tão confortáveis que não havia necessidade de ficar perto. Quando
concorda — deixam muito lixo. Algunsfalavam em fechara floresta aoscatadores apenas
coletei com eles, os homens saíram por conta própria, com trajetórias
por causado lixo. Mas, à procura delinhas de vida, um pouco delixo ajuda. Não as mon-
te porque suas

'e dança foram mais rápidas, enquanto as mulheres forjavam seu próprio caminho. “Os ras-
tanhas de latas de cerveja que deixam oscaçadoresbrancos, mas um pouco de lixo
2cidasdeforma homens correm atrás de grandessaliências”, explicou Fam'Tsoi, “enquanto
treadoao longoda floresta. Um pedaço enrugado de folha de estanho,o frasco descar-
pelo Estado as mulheres raspam o chão”.
tado de um tônico de ginseng, umacaixa encharcada de cigarros cambojanos: cada um
mericano.”
Eu aprendia raspar o chão com Fam'eoi e Moei Lin. Em todosos lugares desses era um sinal de que um catador do Sudeste Asiático havia passado.Eu fui capaz
que escolhemos, outros catadores estiveram antes de nós. Mas em vez de de reconhecer a linhae mealinhar a ela; isso impediu que me perdesse, colocando-me

gere
amaldiçoarsuas escavações bagunçadas, nós as exploramos. MoeiLin se in- napista de cogumelos. Eu me vi procurando aslinhas pelas quais o lixo poderia me guiar.
clinava e tocava sua bengala na área ondeo solo havia sido perturbado. Ne-
O lixo não é o único bicho-papão do Serviço Florestal. Sua principal preocupação é o
nhumasaliência estaria em evidência porquea superfície já havia sido viola-
“raking”, quesignifica cavar o chão. Os porta-vozes anti-raking descrevem o raking como
da. Mas às vezes poderia haver um cogumelo! Seguimos os rastros de
o trabalho deindivíduosegoístas ou ignorantes. Rakers cavam o chão com suas varas
coletoresanteriores, tocando seus restos. Como o matsutake, ancorado nas catado-
grandes, destruindo os recursos do solo, sem se importar com os outros. Masas

ERR
árvores, surge de novo nos mesmoslugares, essa era umaestratégia surpre- é na
ras sugeriram algo diferente. Àsvezes o chão perturbado classificado como raking
endentemente produtiva. Nós nosalinhamosa catadoresinvisíveis que ha- uma área
verdaderesultado do trabalho de muitas mãos. Quando muitas mãos tocam
viam passado antes de nós, mas deixaram traços desuas linhas deatividade. às vezes é o
para encontrar suas linhas de vida, uma depressão pode se formar. O raking
Os catadores não humanos eram tão importantes quanto os humanos resultado de muitaslinhas de vida consecutivas e emaranhadas.
nessa estratégia. Cervose alces amam matsutake; quando encontramos
O chão onde Moei Lin e FamiToi colhem não é o tapete esculpido do vale de Hiro. No
suas pegadas ou rastros, eles geralmente nos levavam a um padrão. Os
deserto vulcânico alto das Cascades Orientais, o solo está seco,as árvores são derrubadas
ursos reviram os troncos com o matsutake embaixo e fazem uma bagun-
pelo vento, adoecidase às vezes esparsas. As árvores caídas cobrem o chão, suas extremi-
ça ao cavar o chão. Mas os ursos — assim como veadose alces — nunca
dades desenraizadas bloqueiam a passagem. Ondas de exploração madeireira e detrata-
apanham todos os cogumelos. Descobrir uma escavação recente de ani-
mentos do Serviço Florestaldeixaram um rastro detocos, estradase terra arrasada. Parece
mais é um sinal de que os cogumelos podem estar porperto. Seguindo os
estranho argumentar que os catadores estão entre as piores ameaças à essa floresta. Entre-
traços da vida dos animais, nós alinhamos nossos movimentose nos enre-
tanto, suas pistas são fáceis de ver. Para Moei Lin e FamIsoiisso é uma vantagem.
damos, procurando com eles.
Seguindo aslinhas de viela e alinhando seus movimentos a elas, MoeiLin afeta os humanos em Bangladesh e em Minnesota de maneira diferente, também as popu-
e Famoi co-
brem umagrandeextensão de terreno. Nósnos levantamosantes do amanhec lações não humanas dentro de uma única espécie são afetadas de formadiversa — depen-
er, e de-
pois de umarefeição, já estamos naflorestaà primeira luz do dia. Podemos dendo de suas linhas deatividade ecológica. As listas de espécies não são suficientes porsi
ficarna flo-
festa por quatro ou cinco horas antes de contatar os homens pelo walkie-talkie. Embora mesmas; precisamos de novas maneiras de narrar nossas relações uns com os outros em
Os contornos gerais das colinas sejam familiares, estamos sempre condições de mudança,incluindo histórias de linhas de vida emaranhadas.
verificando novoslu-
gares. Esta não é umafloresta devínculos familiares. Nós exploramos
um novoterritório
seguindo linhas de vida. Oscatadores de cogumelos que descrevi são observadores das performances de vida
de outras pessoas, bem como artistas de suas próprias danças da floresta. Eles não se
Na hora do almoço, sentamos em um tronco e tiramos sacolasplástica importam com todas ascriaturas dafloresta; eles são seletivos. Mas sua formade per-
s de arroz cozido.
Hoje, nosso acompanhamento são nuggets de carpa, misturados com temper cepção incorpora as performancesda vida dos outros em suas próprias performances.
os verme-
lhose verdes. É tentadoramenterico e apimentado, e pergunto comoé Aslinhas de vida cruzadas guiam a performance, criando um tipo de valorização da flo-
feito. FamTsoi
explica: “Você tem um peixe. Você adiciona sal”, Ela hesita; mas é isso. resta. Catadores, alces, pinheiros, candy stick e cogumelos matsutake dançam e perambu-
Eu meimagino na
cozinha com um peixe cru salgadopingando na minha mão. A lingua lam nos caminhos uns dos outros, consequentemente tocando-se em algumas ocasiões.
gem atingiu seuli
mite. O truque de cozinhar está na performance corporal, o que não A valorização baseada na performane de ecologias humanas e não humanas podeofe-
é fácil de explicar.
O mesmovale para a coleta de cogumelos: mais dança do queclas recer modelos de conscientização ambiental para nossos tempos.
sificação. É uma dan-
sa quefaz parceria aqui com muitas vidasde dança.
É hora de devolver a dança para você

PASSANDO A DANÇA
Japoneses americanos e Miens tiveram diferentes experiências de cidadani
a americana.
Embora as conexões transnacionais continuem sendo uma característica
vibrante dasvi-
das diaspóricas, nem os japoneses nem os Miens americanos oferecem
uma cópia de mu-
seu das formas devida anterioresno leste e no sudeste da Ásia.
Em cada caso, a expressão
cultural responde aos desafios oferecidos pela política e sociedade
americanas. Se as per
formances de coleta são diferentesentre osdois grupos, é em parte porque suaspist
as de
dança foram estabelecidas de formadistinta pelo Estado norte-american
o.
Enquanto isso, cada dançaoferece umaapreciação de outras vidasda floresta
. É perfei-
tamente possível aprender muito sobre cogumelos a partir de livros
e cursos; assim eu o
fiz. No entanto,assistir à dança oferece algo mais. Em vez de
observar outras espécies
como objetos de classificação ou manejo derecursos, seguindo a
interseção de corpos
em movimento e em crescimento, eles são rastreados como sujeitos
dinâmicos.
Isso é excitante em si mesmo; é também umahabilidadefundamental para os nossos

4
tem-
pos. Considere os dilemas da mudançaclimática global. Assim como a mudança
climática
ARTE DA INCLUSÃO, OU,
COMO AMAR UM COGUMELO!

Da próximavez que você caminhar por umafloresta, olhe para baixo. Uma cidade está
sobseuspés. Se você fosse dealguma formadescer sob terra, você se encontraria cerca-
do ou cercadapela arquitetura de teias e filamentos. Os fungos criam essasteias à medi-
da queinteragem com as raízes das árvores, formandoestruturas conjuntas de fungose
raízes chamadas “micorrizas”. As teias micorrízicas conectam não apenasraízes e fungos,
masatravés defilamentos fúngicos, árvores com árvores, conectandoa floresta em ema-
ranhados. Essa cidade é uma cena animada de ação e interação. Há muitas maneiras de
comere compartilhar comida. Reconhecidamente, há caça: por exemplo, alguns fungos
enlaçam pequenos vermes chamados de nematóides para o jantar. Mas esta é apenas a
maneira mais bruta de ajustar a digestão. Os fungos micorrízicos sugam para seu uso os
açúcares que fornecem a energia das árvores. Alguns desses açúcaressão redistribuídos
atravésda rede de fungos de árvore para árvore. Outros apoiam plantas dependentes,
como micófilos amantes de cogumelos, que usam rede para enviar energia para flores
pálidas ou coloridas (por exemplo,a planta-cadáver ou Indian pipe, e as orquídeas Co-
rallorhiza). Enquantoisso, como um estômago de dentroparafora, os fungos secretam
enzimas nosolo ao redor deles, digerindo material orgânico e até pedras, e absorvendo
nutrientes liberados no processo. Esses nutrientes também estão disponíveis paraas ár-
vorese outrasplantas, queos utilizam para produzir mais açúcarpara si mesmas — e para
a rede. Nesse processo há também um monte de cheiros acontecendo, como plantas e

CE.

43
OA DaEid 1 Original publicado em Arts ofinclustor, or, Howto love a mushroom.Australian Humanities Review Canber-
ra, 4.50, p. 5-21, maio 2011”
animais e fungos, farejamos não apenas boas refeições, mas também bons parceiros. E torno de seus segredos de maneira bastante diferente da dos estudiosos de moscas da fruta

re
que odor maravilhoso, mesmo para um nariz de animal, como o meu. (Alguns fungos, ou células HeLa. E, enquanto alguns devotos dos fungosse contentam com umaassociação
comotrufas, dependem de animais para sentir o cheiro de seus corpos reprodutivos, privada, outrosdesejam compartilharsua paixão com o mundo.
para se espalharem por meio deseus esporos) Alcancee cheire um coágulo de terra
da Como os amantes de fungos exercitam artes de inclusão que sensibilizam outros? Nesses
floresta: ele cheira como umacidade subterrânea de fungos?
temposde extinção, quando até mesmo um conhecimento superficial pode fazer a di-
Tal comoascidades humanas, essa cidade subterrânea é um local de transaçõ ferença entre preservação e desprezo indiferente, poderíamosquerersaber.
es cosmo-
politas. Infelizmente, os humanos ignoraram esse cosmopolitismo vivo. Nós construf
-
mos nossas cidades através da destruição e simplificação, derrubando florestas
para OBSERVANDO
substituí-as por plantações para cultivo de alimentos ou para viver em asfalto e concre-
Henning Knudsen, curador de fungos do Museu Botânico da Universidade de Cope-
to. Nas plantations do agronegócio, nós coagimos as plantas a crescerem sem ajuda
de nhague, mostrou-me a coleção de fungos do herbário da universidade em abri de
outros seres, incluindo os fungosda terra. Substituímosos nutrientes fornecidos pelos
2008. A princípio, os corredores parecem limpos e impessoais. Em seguida, retiramos
fungosporfertilizantes obtidos pela mineração e em indústrias químicas, com suastri-
as folhas dobradas para exporos espécimessecos, cada um delesidentificadoe rotula-
lhas de poluição e exploração. Cultivamos nossas plantaçõesparaisolamento em estu-
do por seu coletor. Escondidos em sua poeira, estão os cogumelos ressequidos, mas
fas químicas, enfraquecendo-as comogalinhasenjauladas e sem bico. Nós mutilamose
ainda falando,trazendo seus nomes e os nomes de seus coletadores para a formidável
simplificamos as plantas cultivadas até que elas não mais saibam como participa
r em história da vida na Terra.
mundos de múltiplas espécies. Uma das muitas extinções que nossos projetos de de-
senvolvimento buscam produzir é o cosmopolitismo da cidade subterrânea. E quase A taxonomia não é muito popular atualmente; defato, seus detratores acreditam que a
ninguém percebe, porque tão poucos humanos sabem da existência dessa cidade. classificação seca estraga qualquer prazer. Mas, ao manipularmosos espécimes no her-
bário, é fácil imaginar o prazer de nomear. Aqui, por meio da nomeação, percebemos a
No entanto, muitos de nós, entre os poucos humanosque percebem os fungos, conseguem
diversidade da vida. Juntamente com pintura, colecionar era umaarte de observação.
amá-los com umapaixão sem fôlego. Gourmets, herbalistas e aqueles que poderiam
remediar
a ecologia mundial muitas vezes se tornam devotos do mundo dos fungos. Os forragea
dores
de cogumelo selvagem elogiam sua inesperada generosidade, suas cores, saborese cheiros,
e
sua promessa de um meio de subsistência na floresta. Quantas vezes os forragea
dores me
disseram quese esquivavam de outras obrigações, tendo sucumbido à “febredos cogume-
los”, à emoçãoselvagem da caçada? Até mesmo agentes comerciais estão aturdido
s com a
imprevisibilidade de sua mercadoria indomável. Cientistas que estudam fungos
deliram em

2 Este ensaio tem comobase a pesquisa colaborativa conduzida pelo Grupo


de Pesquisa Mundos Matsu-
take (Matsutake Worlds Research Group), formadopor: Timothy Choy Michael
Hathaway MiyakoInoue,LiebaFaier,
Shiho Satsuka e eu. A pesquisa preliminar em Oregonteve o apoio financeiro da
University of California Pacific Rim. E DD
Por suavez, a pesquisa noJapão foi apoiada pela Fundação Toyota Sou grata
a Thom van Dooren e Deborah Bird
Rose porinspirarem este ensaio. Meus mais profundosagradecimentos à Andy

as
Moore, à dra. Fumihiko Yoshimura, FIGURA 1- Ilustrações de cogumelos, Limacella (Amanita) lenticularis e Amanita (Amanitopsis)
ao dr. Henning Knudsen e a muitos outros, não mencionadosnorninalment nesse
e texto, por me permitirem pensar
por meio de seu trabalho. strangulata (Lange, 1935-1940, v. 1, Lâmina 7, figuras A e O)
O norte da Europa, incluíndo a Grã-Bretanha,é a pátria da j i á-los.Mm
Por
popularbota. Depois, ele percebia fungos portodaparte e, de fato, dedicou sua vida a io
nica, a coleta e nomeaçãode plantas. Entretanto, P :
cabe notar que osfun. Fri trouxe os fungospara a atenção
ão, Fries
.o de suas habilidades para descrição, ão do públi-
gos não surgiram facilmente, explicava-me o dr Knudsen, a : j - E x
à qual O
r

co. Seu Seu entusiasmo fundou uma genealogia de micologistas sistemáticos,


m
porque osteuro-
peus do norte desprezavam os cogumelos — talvez pela , 3
lembrança de seu é um herdeiro.
nudsen, sociólogo de cogumelo e coeditor de Nordic Macromycetes,
Knudsen,
passado pagão. Foi preciso um rei sueco, nascido na
França do século XIX, »
tdécada de 1970, Karl Johan,vir mostrar aos escandinavos o valor Esta é umagenealogia que recrutou membros de lugares distantes
i do norte da Eu ropa.
dorei bolete (cep, porei-
restasde pinheiros ni) - o cogumelo é até hoje conhecido por seu nome. i o alcance dos p razeres da taxonomia,
yavaliar i basta lembr: ar-se
- do do natu
brar-se naturalista Mi-
a
Além disso, os fun- Para
e
tesas eram uma gossão difíceis de coletar e identificar, porque seus corpos
tendem ser akata Kumagusu (1867-1947), queofereceu ao Imperador do Japão umacaixa
rica de matsutake. subterrâneos. Apenas os órgãos reprodutivos, os
cogumelos, surgem no : o de cavalo — com exemplares interessantes de fungo. As aquarelas de Minakai
inakata reú-
2s pinhais, at, e apenas esporadicamente — às vezes emintervalos de jaçã atenta. Às cores se agitam;
onem arte e coleção, atraindo-nos para umaapreciação itam; os
muitos anos.
iados à vida das fungos posam: o herbário está vivo.
O dr. Knudsen me contou sobreElias Fries (1794
15 diminuíram após -1878), o pai da moderna
micologia sistemática, ComoLinnaeus, Fries era sueco 7 As offdogpoi igntas
unda Guerra é amante das plan- Exa «Ga trt 2 PrinomalDen dat)aporapor
tas, Fries estendeua botânica lineana ao mundo dos
lial” fungos. Seu trabalho
foi possível graças a uma combinação de extraordin
ária memória e extra-
ordinária paixão.Ele reconheceu 5.000 espécies, lembr
ando-se delas ano
após ano, por entre períodos sem cogumelos. Muito
s dos espécimes fo-
ram coletados perto daaldeia em queele nasceu e onde
aprendeu a amar
cogumelos. O dr Knudsen lembra-se dele escrevendo
sobre esse amor
precocee persistente. Quando menino, encontrou
um enorme exemplar
da espécie Tricholoma collosum, e ficou emocionado:
“Eu amo minhairmã,
amo meu pai, masisso é melhor”, recorda Knud
sen como sendo esse o
sentido desua escrita. O dr. Knudsen meofereceu uma
cópia dolivro de
memórias de Fries, traduzido do latim para o inglês
. Não consigo encon-
trar essa passagem citada por cr. Knudsen, mas histór
ias de amor igual-
mente apaixonadas saltam dapágina:

Até hoje, mais de meio século depois, lemb


ro-me com
gratidão a admiração que me tomou quando, em 1806,
fui
com minha mãe a uma floresta incendiada para FIGURA 2 — Minakata Kumagusu, Kinrui Zufu [Color Mustrations of Fungi), 2007, p.76. Image
colher
morangos e lá consegui encontrar um copyright National Science Museum, Japan.
espécime
anormalmente grande de Hydnum coralloides,
que foi a
primeira coisa que me induziu a estudar fungos
(Fries, L Hansene H Knudsen são coeditores dos três volumes do Nordic Macromyoetes dedicados a fungos.
1857/1955, p. 140-141). 4 Alan Christyj em informação pessoal fornecida em 2008.Ver Blacker (2000).
À observação inspira artistas e naturalistas. O compo
sitor americano John Cage (1912.
1992) era um caçador de cogumelos querefletia obser Osbasídios fazem parte dos órgãos reprodutivos dos cogumelos; dos basídios, os seo
vando os cogumelose percebia
na música sons com habilidades relacionadas. Difer ros são “disparados” para o ar. Um cogumelo, o “fungo bala-de-canhão eous
entemente de outros músicos, ele
queria uma música que obrigasse os ouvintes à stellatus), lança sua massa de esporos com um “pop” às vezes audível (mas não pelos ba-
prestar atenção a todos os sonsa seu
redor, sejam eles compostos ou incidentais, Obser sídios). Para a maioria dos cogumelos, no entanto, o tiro dos esporos não pode serper-
var cogumelos era uma maneira de
ensinar essa atenção aberta, porém focada. cebido pelos ouvidos humanos. Cage quer que encontremosinspiração para a música
Em uma desuas composições, pequenas
histórias de um minuto são executadas em orde nossonsque sentimosfalta.
m aleatória para que os ouvintes pres-
tem atenção à indeterminação (que é também O estilo analítico e anedótico de Indeterminação lembra outras poéticas formais, como o
o nome da peça). Muitas dashistórias
são sobreas interações das pessoas com cogumelos. haicai. Observar cogumelos — especialmente aquelas delícias aromáticas que os japone-
Cogumelos são imprevisíveis; eles
nos ajudam a escutar. Nesta entrada (n. 113), Cage ses chamam de matsutake — não escapoudos temas dos poetas haiku. De forma seme-
é explícito:
lhante, a indeterminação guia a mão do artista haicai, como neste poema de Kyorai
Mukai(1651-1704)8
Music and mushrooms:
two words next to one Matsutakeyo hito
another in many dictionaries.
Nitoraruru hana no sali
Where did
he write The Three-Penny Opera?
Now he's Matsutake;
buried below the grass at the
foot of High Tor. Taken by someoneelse
Once the season
changes from Right in front of my nose.
summer to fall,
given sufficient
rain, or just
the mysterious dampness thats in
Matsutake (Tricholoma matsutake e aliados) são cogumelos muito amados no Japão. Eles não
the earth, podem sercultivados, então eles atraem amantes de cogumelos para procurálos em flores-
mushrooms grow there,
carrying on, tas de pinheiros. Eles são difíceis de detectar e, para o caçador de cogumelos, a ideia de que
[ am sure, alguém pode pegar o cogumelo queé o objeto do próprio desejo é frustrante. Devemos
his business of working with
sounds. olhar isso com mais cuidado.
That we
have no ears to hear the Frases e sons nos conduzem para um mundo onde podemos observaros fungos. Mesmo
music the spores shot off um único grupo de espécies valorizadas, como o matsutake, podeinspirar ricos mundos
from basidia make obliges us
to busy ourselves microphonically.
cosmopolitas de amor pelos cogumelos. Talvez o poemade Kyorai possanosincentivar a
considerartais habilidades de inclusão envolvendo exatamente esse cogumelo.
5 Espaçamentos nooriginal, Ver o site dedicadoa esta
obra, criado por Eddie Kohler: http://wwnwicdf.
9rg/indeterminacy/index.cgi Acesso em: ago. 2010.
Visto queas histórias são coletadas a partir de vários
performances de Cage, e são reunidas em novas perfor livros e

ag
mances, elas atrapalham a determinação das práticas de
citação padrão.
6 “Traduzido e publicado porReginald Blyth.
CONJURANDO MUNDOS MATSUTAKE: EM DIREÇÃO A UMA Andy Moore era uma dessas pessoas. Original da Louisiana, ele encontrou seu caminho
CIÊNCIA DEMOCRÁTICA para o bosque de Oregon durante a guerra do Vietnã, Alistado como soldado, ele ficou
Sob o nome de Matsiman (os americanos às vezes chamam os rmatsutake de matsi;
desiludido com o queviu e experimentouna guerra, Ele se sentiu com sorte quando con-
Andy Moore dedicou sua vida a produzir e difundir conhecimento sobre os cogumelos seguiu que umalesão dainfância se agravasse, e foi mandado de volta para casa. Por al-
matsutake. Moore não é um produtor comercial, pois o matsutake não podeser cultiva-
gum tempo,ele dirigiu um jipe em uma base marinha dos Estados Unidos, mas um dia
do. Ele não é um cozinheiro gourmet, e nem gosta do sabore do cheiro do matsutale.
recebeu a notícia de que seria enviado de volta ao sudeste da Ásia. Ele não estava disposto
Ele não é um cientista treinado, embora compartilhe daciência dedicada ao matsutake. a ir. Com orgulho, ele conta como devolveu jipe e saiu andando pelos portões afora,
Em vez disso, seu objetivo é tornar o conhecimento acessível. Ele quer umaciência de-
ausentando-se sem permissão. Não querendoser capturado, ele correu para floresta.
mocrática e inclusiva. Matsutake é o objeto com o qual ele espalha conhecimento — e Ele garantia seu sustento com váriostiposde trabalho florestal, comoo corte delenha.Ele
sua visão da ciência democrática. Em sua página na internet (matsiman.com), Moore aravaa floresta. [sso lhe deu um novoobjetivo: “viver na floresta e nunca pagaraluguel".
publica tudo o que pode encontrar sobre matsutake e abre discussão sobre isso?
No final da década de 1980, a loucura matsutake chegou ao noroeste dos Estados Uni-
Os matsutake são habitantes micorrízicos dasflorestas do hemisfério norte, associand dos. As florestas ficaram cheias de catadores. Os compradores de matsutake monta-
o-
-se particularmentea coníferas, como o pinheiro. É um grupo amplo de espécies, com ram tendas aolado daestrada para iniciar a jornada dos cogumelos até o Japão. O Ja-
populações que se estendem pela Eurásia, atravessando o norte da África, seguindo o pão ainda vivia o resplendor do boom econômico e os preços eram muito bons; os
outro lado do Atlântico até o Canadá, os Estados Unidos e o México. Na maioria dos catadoresesperavam ficar ricos com o “ouro branco”. Moore tentou pegar cogumelos
lugares onde os cogumeloscrescem, eles não são mulito apreciados. Inicialmente, os eu- e achou agradável.
ropeus os chamavam de Tricholoma nauseosum, para indicar sua antipatia pelo cheiro.
(O especialista em cogumelos David Aroradescreve o matsutake como “uma harmonia Moore dispunha da condição ideal para colher — e estudar — os cogumelos. Ele havia
provocante entre algo “excitante” e meias sujas” (1986,p. 191)) Mas, para os japoneses, o conseguido uma posição como guarda de umagrandefloresta privada. Ele morava em
cheiroé “translúcido”. Grelhado ou cozido em sopa, os matsutake são um deleite uma pequena cabana no topo da propriedade; seu trabalho lhe dava bastante tempo e
e uma
iguaria cara, bem como um sinal da beleza do outono. oportunidade para explorá-la. Em sua propriedade, o matsutakeestava ali apenas espe-
randopara ser escolhido. Como o matsutake tem um relacionamento de longo prazo
Até a década de 1970,asflorestas depinheirosjaponesas eram umafonte rica de matsu- com determinadas árvores, a melhor maneira de colhê-lo é ir às mesmasárvores todos
take. Mas os pinhais, associados à vida dasaldeias, diminuíram após a Segunda Guerra Os anos para ver se há cogumelos. A maioria dos catadores no noroeste dos Estados
Mundial. Nesse mesmo período, a renda japonesasubiu. Na década de 1980, o Japão Unidos escolhe florestas nacionais com acesso aberto; eles voltam para as mesmas árvo-
começou a importar matsutake de todo o mundo. Os preços eram altos; empresár res, mas, com bastante frequência, outros catadoresjá os venceram nacolheita. ("Matsu-
ios
de cogumelos correram paraentrarna briga. Inicialmente, Osjaponeses nadiáspora, que take; / taken by someone else / right in front of my nose”, A situação de Moore era única: ele
haviam encontrado cogumelos para uso próprio no exterior, orientavam os tinha uma grandeárea de floresta para colher e um portão trancado para impedir a
importado-
res. Mas, em seguida, todo tipo de gente estava colhendo matsutake — gostassem ou entrada de outros forrageadores.
não do cogumelo para seu próprio uso.
Essa condição de exclusividade despertousuacuriosidade sobre os cogumelos. Quando
O fungonãoestá frutificando, a área ao redordas árvores com forte presença de micor-

s
7 Disponível em: http://wwnwmatsiman.com.Acesso em: ago. 2010, rizas é vazia e pouco promissora; de repente e inesperadamente cogumelos surgem.
Quais fatores determinam o aparecimento dos cogumelos? Moore conhecia vários bo- cas. Viver na floresta e nunca pagar aluguel! Enquantoisso, ele se dedicava a vagar, fumar
atos contraditórios sobre isso, mas parecia não haver conhecimento sólido e experi- e fazer experimentos com cogumelos. Ele experimentou a comercialização de diversos
mental. Então ele decidiu começar seu próprio experimento. Como outros catadores produtos derivados de cogumelos, como temperos de cogumelos defumadose lanches
nãose intrometiam em seurefúgio, ele foi capaz de marcartodos os pontos em que o” de cogumelos secos. Parece improvável quetais experimentos gerassem uma boa ren-
matsutake aparecia. Assim foi possível registrar dados de exatamente quandoeles apa- da, mas eles mantinham a exuberância que Moore enxergava no crescimento dos cogu-
reciam, a quantidade e o peso. Esses dados podiam ser correlacionados com chuva, melos. Entretanto, não havia nada de privado em nenhuma das muitas ideias que ele
temperatura, preço e outrosfatores. produzia. Ele acreditava que todo conhecimento deveria estar acessível; o site da Matsi-
man construía uma comunidade de conhecimento. Para Moore, não havia nada mais
Moorenãotinha treinamento nem orientação para seus experimentos. Ele apenas co-
apaixonante queintroduzir novas pessoas no mundo do matsutake, seja através de seu
meçou a fazê-los. Mais tarde, ele trabalhou com pesquisadores do Serviço Florestal
site ou comovisitantes. Passei um tempo muito feliz aprendendosobre o matsutake de
norte-americando em seus projetos e tornou-se coautor de vários artigos, mas ali ele
Mooree osdiferentes pinheiros: tanoak, shasta red fir e pines.
era apenas um assistente sem a capacidade de formular perguntas ou sugerir métodos.
Por conta própria, ele foi forçado a inventar a ciência por seus próprios meios. Uma
terminologia obscura, escalas padronizadas e procedimentos de testes sofisticados pa-
reciam desnecessários para ele. Em vez disso, ele começou com as perguntas que os
catadores querem saber: quando e onde os cogumelos aparecem?

Com algunsresultados surpreendentes na mão (seus cogumelosrespondiam à tempe-


ratura e não à chuva), Moore decidiu divulgarseusresultados. Em 1998, Moore lançou o
site Matsiman.com. O site não seria, no entanto, o blog pessoal de Moore; em vez disso,
ele facilitaria a criação e a troca de conhecimento. Todos, sugere o site, podem fazer
pesquisas; tudo que é preciso é curiosidade. “Quem é Matsiman?”,o site coloca:

Qualquer pessoa que adore caçar, aprender, entender, proteger, educar os


outros e respeitar o cogumelo matsutake e seu hábitat será matsiman.
Aqueles de nós que não conseguem entender o suficiente, tentando
constantemente determinar o que fez isso ou aquilo acontecer ou não.
Não noslimitamos por naciorialidade, gênero, educação ou faixa etária.
Qualquer um pode ser um matsiman. Existe pelo menos um em cada
comunidade de coletadores.

Para apreciar a natureza extraordinária desse conhecimento público, é importante per


mitir a Moore sua excentricidade autonomeada. Seu emprego como guardaflorestal Figura 3 - Andy Moorenafloresta. Foto da autora.

s
terminou; mas ele encontrou um trabalho comoanfitrião de acampamentos, permitin-
E se a ciência estivesse aberta a todos os “matsiman”?
do-lheviver o ano inteiro em uma motor home como um administrador de terras públi-
CONJURANDO MUNDOS MATSUTAKE: EM DIREÇÃO A O dr. Yoshimura é capaz de desenhar o longo legado da ciência aplicada de matsutake.
MODOS MAIS INCLUSIVOS DE BEM VIVER As tentativas de nutrir e promover matsutake são muito antigas no JapãoNo século
Considere um projeto diferente deinclusão baseado em cogumelos: o apelo ao matsutake.- XX, o matsutake tornou-se um objeto da ciência moderna. Minoru Hamada merece
para que nosajude a construir modos de bem viver nos quais humanose não humanos crédito especial aqui por perceber que a pesquisa de matsutake poderia abordar ques-
possam prosperar. O carismático e ativo Fumihiko Yoshimura estudou e trabalhou com tões biológicas básicas e simultaneamente promover a produção de um produto eco-
matsutake durante a maiorparte desua vida. Comocientista, o dr. Yoshimura realiza alguns nômico valorizado. O dr. Hamadatreinou umacoorte de pesquisadores de matsutake
de seus trabalhos em laboratórios e em áreasde floresta. Masele também é o fundador após a Segunda Guerra Mundial, que porsua vez treinou muitos dos pesquisadores de
do Matsutake Crusaders, umainiciativa da sociedade civil baseada em Kyoto para revitali- hoje. Makoto Ogawa, um dos alunos do dr. Hamada, foi particularmente eficaz na divul-
zar as florestas matsutake do Japão. Os “cruzados” são voluntários em defesa do matsu- gação da pesquisa sobre o matsutake. Ele convenceu o governo a enviar pesquisadores
take; seu trabalho é esculpir a floresta para trazer de volta a saúde do pinheiro vermelho, de matsutake a todas as estaçõesflorestais da prefeitura? O dr. Yoshimura passou a
Junto com seu parceiro, o matsutake. Matsutake aqui não é apenas umaiguaria gastronô- maiorpartedasua carreira na prefeitura de Iwate conduzindo pesquisas de matsutake e
mica deliciosa, é também um símbolo e um participante num mundo de bem viver ecoló- promovendo o matsutake.
gico. O lema dos cruzados de matsutake é: “Vamosrevitalizar a floresta para que todos
Promover o matsutake não requer domesticação. Embora os pesquisadores tenham
possamos comersukiyaki”. O sukiyaki (um guisado de carne e legumes que semprefica
conseguido cultivar micélios de matsutake e até mesmo micorrizas de matsutake-pinus
melhor com matsutake) é um alimento popular e tradicional no Japão. As vezes, o sukiyaki
em laboratórios, ninguém ainda conseguiu obterestoques cultivadospara produzir um
é ingerido em ocasiões festivas, outras, em passeios aoar livre, nos quais os moradores
cogumelo. Em vez disso, o foco na promoção do matsutake é fazer o tipo de floresta
urbanos desfrutam de ar fresco. Aose alimentar juntos e apreciar o mundo natural, as
em que o matsutake gosta de viver. O matsutake no Japão associa-se ao pinheiro ver-
pessoas se revitalizam, assim comosuas florestas. O movimento do dr. Yoshimuratraz os
melho, Pinus densiflora. O pinheiro vermelho é umaespécie pioneira de áreas perturba-
membrospara o campopara oferecer uma novavitalidade ao mundo.
das. Por muitosséculos, os camponesesno Japão perturbaram as florestas por meio do
cultivo dinâmico e dacolheita seletiva de árvoresde folhas largas. A madeira das árvores
defolhalarga era usada para lenha e carvão. Os camponeses também coletavam ervas,
gramae folhas para aduboverde.Isso deixava as encostas brilhantes e abertas, com solos
expostos: a condição preferida pelos pinheiros vermelhos.

Tudo isso mudou depois da Segunda Guerra Mundial. Os camponeses começaram a


usar combustíveis fósseis para aquecimento e tratores em vezdebois. Ninguém mais se

8 dr. Yoshimura chamou minhaatençãopara o primeiro registro escrito sobre matsutake no Japão,
em umaantologia de poemas waka, da poesia clássicajaponesa (Man? sh, livro X, poema2233, 650-750, CEJ.O
poema “O aromados cogumelosdepinheiro” foi traduzido por Minoru Hamada daseguinte forma: “ O caminho
para o topoda colina de Takamatsu, Tall Pine Tree Village, acaba de ser obstruído pelas coroas e linhas dos chapéus
de cogumelos de pinheiros, que se erguem rapidamente.Eles emitem um atraente aroma de outono, que me

55
refresca bastante.”
FIGURA 4 — Dr. Fumihiko Yoshimura. Foto da autora.
9 Ver Ting e Satsuka para citações e um tratamento mais aprofundado sobreessa história.
preocupou em coletar lenha, fazer carvão ou colherfolhas. Osjovens se
O Matsutake Crusaders do dr. Yoshimura surgiram desse meio. O nome da iniciativa
mudaram para a cidade, deixando as aldeias para os idosos. As florestas
baseia-se na popularidade de uma mobilização dos anos 1980, os Weoodland Mainte-
dasaldeias foram negligenciadas. Árvores de folha larga renasceram, som-.
nance Crusaders, em que estudantes voluntários removiam ervas daninhas que sufoca-
breandopinheiros. Enquanto isso, os pinheiros ficaram enfraquecidos por
vam a floresta" O grupo do dr. Yoshimura tinha a excitação adicional não apenas de
uma doençadisseminada por um nematoide importado. Na sombra pro-
recompora floresta, mas também, possivelmente, por produzir cogumelos saborosos
aura nos fundada floresta folhosanegligenciada, os pinheiros morreram. Sem seus
Seus métodos eram para beneficiar o pinheiro:para remover completamenteasárvores
neosta anfitriões, o matsutake sumiu. Muitos amantes de matsutake descrev
e- perenes de folhas largas, abrindo assim a encosta à luz. Quandoo pinheiro retornava, a
ue, depois de ram as encostas que eles conheciam como um menino branco com cogu-
encosta se tornava umafloresta aberta ondeasflores silvestres, os coelhose osfalcões
lho, estava melos, agora sem um único pinheiro.
poderiam encontrar nichos. Mas ninguém poderia garantir o retorno dos cogumelos.
antee verde
Nadécada de 1970, os moradores urbanos estavam perdendoas floresta
s
Os voluntários deveriam fazer o trabalho pelo amorà natureza.
's. “É assim
desuajuventude — lugares ondeas flores silvestres na primavera ou vaga-
asta devia Tudo isso meleva a um sábado de junho de 2006, quando eu e meu colaborador de
-lumes noverão podiam ser vistumbrados, ou as cores do outono,
empos admi- pesquisa Shiho Satsuka nos juntamos aos cruzados para um dia de trabalhoflorestal e
radas.” Cresceram os movimentos sociais dispostos a enfrentar o am-
xplicou ele. ” diversão. O local era uma encosta íngreme que havia ficado sufocada porjovensfolhas
biente empobrecido do Japão moderno.Diferentementedos defensores
verdes perenes. As muitas árvoresfinas estavam tão juntas que ninguém conseguia pe-
da floresta selvagem nos Estados Unidos, muitos japoneses concent
ra- netrar — muito menosandar — através delas. Era escuro e desagradável para os seres
ram-se nas vívidas ecologias de locais de perturbação humana a longo
humanos — e muitos não humanos. A única forma delidar com a situação, explicou o dr.
prazo: as margensdeestradas,as planíciesaluviais dos rios, redes de irriga-
Yoshimura, eralimparo terreno. Apenas o pinheiro vermelhoseria salvo. Quando eueo
ção das aldeias e arrozais - ou a floresta aberta daaldeia. Nesseslocais
dr. Satsuka chegamos, um grupo de homens estava ocupado removendo árvores e ar-
perturbados, algo que poderia ser chamado derelação sustentável entre
bustos. Surpreendentemente, para mim,eles estavam escavando as raízes dasfolhas lar-
humanos e não humanos poderia ser demonstrada no microcosmo.Pre-
gas, removendo-as para umapilha. Foi um trabalho intensivo, todo feito com ferramen-
servação significaria não abandono humano, mas perturbação guiada. No
tas manuais. Levaria anospara limparessa única montanha. Aindaassim, todo mundolá
processo de aprender métodos antigos de perturbação, os cidadãos mo-
estava alegre e cheio de entusiasmo.
dernos poderiam se educar sobre estar nanatureza.
O dr Yoshimura nos mostrou a encosta adjacente, que, depois de muito trabalho, estava
aberta, brilhante e verde com pinheiros. "É assim que essa encosta devia parecer em tem-
posanteriores”, explicou ele, Animaise pássarosjá foram avistados; eles estavam esperan-
10 A distinção entre dois tiposde árvores de folhas largas — decíduas
e perenes — é im- do ansiosamente por cogumelos. Ao lado dessa encosta havia outros projetos em grupo:
portante noJapão. Folhas largas decíduas são preferidas para lenhae carvão. Os campones
es eli- um jardim, um forno para fazer carvão, um monte decriação de besouros para amadores.
minaram seletivamente as folhas largas perenes. Enquanto isso,as folhas largas decíduas
cresceram
partir de brotações após a colheita, estabelecendoassim seu domínio na arquitetu
ra da floresta.
E na base dacolina havia comida, chá e conversas. Na hora do almoço, os trabalhadores
Isso ajudou a manteras florestas brilhantes e abertas. No fina! do século
XX, quando o mane- que suavam no morro desceram. Seus colegas trabalhavam arduamente naconstrução de
jo florestal não estava sendo feito em muitas áreas, as folhas largas
perenes, não mais cortadas,
tornaram-sea vegetaçãoflorestal dominante. Além de desencorajar
o pinheiro e seus associados,
um longo aqueduto de bambu.Seria servido um prato especial de verão: macarrão no

57
essas novas florestas escuras não permitiam a presença de flores silvestres
habituais, pássaros e
insetos associados às florestas anteriormente. Eles também não oferecem
as cores de outono. n Ver Nakagawa (2003, p414) para umadiscussão sobre esses primeiros cruzadose seu contexto.
córrego (ou “somenflutuante"), Deixamos correr águafria pelo aqueduto e colocam
os AMANDO EM TEMPOSDE EXTINÇÃO
macarrão quente e fumegante. Todos nos reunimos no “riacho” e pegamo
s macarrão As formas de amor que descrevi neste capítulo são diversas, até mesmo contraditórias.
com nossos pauzinhos, misturando-os com molhos em tigelas. Houve muita
brincadeira é Apesar de ambos se dedicarem aos cogumelos matsutake, Andy Moore e dr. Yoshimura
riso, Eu conheci fazendeirose donas de casa urbanas e até mesmo
um estudante ce pós- podem achar estranhas as práticas um do outro. As ciências e as ecologias sociais e naturais
-gracuação em antropologia. Alguém ofereceu um divertido haicai
ni sobre à chegada da das quais participam estão ligadas, mas não são contínuas em nenhum sentido simples.
América. Alguém: a - ns
mostrou os“caran guejos” que havia feito engenhosamente à mão. Al. Escrevi em outro lugar sobre a relação entre “ecologias florestais” tal como observada e
guém mostrou fotos de sua propriedade, que esperava revitalizar
usando as técnicas do interpretada em Oregon e Kyoto (Ting e Satsuka, 2008; Tsing, 2010). Aqui, a razão para
Crusader. Nós demoramos muito antes de voltar ao trabalho, Essa
foi umarevitalização incluir detalhes sobreciênciae ecologia em cadaregião é apenaspara mostrar as fontes de
não apenas para a encosta, mas também em todosos sentidos.
cadaintervenção criativa. Para Andy Moore, a economia do cogumelo selvagem, em sua
oportunidade aberta aos excêntricos, também cria possibilidadespara a ciência popular,
isto é, para uma produção de conhecimento da qual pessoas comuns podem participar.
Para o dr Yoshimura, o interesse doscidadãos em reconstrução ambiental oferece a chan-
ce de construir conexões entre o bem viver humano e o não humano.Paraele, os esforços
para remodelar as paisagensflorestais tornam os voluntários mais felizes e saudáveis, ao
mesmo tempo em quecriam um ambiente mais hospitaleiro e multiespecífico.

Cada uma dessas intervençõescriativas contrasta nitidamente com o credo hegemôni-


co e orientado paraa extinção que poderíamos chamar de “ciência das plantations”.
A ciência das plantations nos ensina a trabalhar pelo controle total de nossas plantas e
colheitas. Administradores e especialistas, trabalhando juntos, devem ser capazes de
manipular humanose não humanosrelevantes. Para aqueles que amam cogumelossel-
vagens,tal controle não é o alvo; a indeterminaçãoé parte da história. Onde quer que os
voluntários se reúnam para promoverflorestas perturbadas, ou catadores parem para
ponderar por que os cogumelos surgem,a ciência das plantations perde um pouco de
sua suposta autoridade.

Naciência das plantations, a expertise e a administração trabalham juntas. Os cultivadores


nunca são solicitados a comentar sobre suas colheitas. Na ciência das plantations, o bem-
FIGURA 5 — Um dia de trabalho com oscruzados. Foto da autora. -estar é uma fórmula calculada a partir de cima; o dano colateralé esperado, e ninguém
para para perguntar: “Bem-estar para quem?” Naciência das plantations, especialistas e
No outono de 2008, a encosta produziu seus primeiros cogume
los matsutake. Os cru- objetos são separados pela vontade de poder; o amor nãoflui entre o especialista e o
2adosficaram encantados.
objeto. Em contraste, minhas histórias contam como a defesa dos cogumelos pode

59
levar a projetos deciência democrática e bem-estar publicamente inclusivos. É a paixão
pelo cogumelo — em todososdetalhes de sua ecologia natural e social - que torna esses
projetos possíveis. ê
Há novos estudoscientíficos em andamento,e sua principal característica é o amor
mul-
tiespecífico. Diferentemente das formas anteriores de estudos científicos, sua razão de
ser
não é, principalmente, a crítica da ciência, embora também possasercrítica. Em vez
disso,
algo novo é permitido:a imersão apaixonada nas vidas dos não humanos que estão sendo
estudados. Antes, tal imersão era permitida apenas a pesquisadores dasciências naturais e
principalmente sob a condição de que o amor não aparecesse. A intervençãocrítica desses
novosestudos científicos é que eles permitem que a aprendizagem naciência natural
e
todas as ferramentas das artes transmitam uma conexão apaixonada.

Em comum com escrita da natureza, seu trabalho é a comunicação e a mobilização do


público. Eles também assumem tarefa de fazer perguntas difíceis, filosóficas, sociais e
científicas, e, com o privilégio da sabedoria, persistir sobre cada uma delas. Escritores
desse novo gênero, incluindo eu mesma, estão empolgados com a chance de ultrapas-
sar asfronteiras entre asciências naturais e as humanidades. Mas só teremossucesso
com esse gênero na medida em que possamos abrir novosespaços na imaginação do
público, espaços pouco percorridos pela paixão ou pela atenção. Paraisso, precisamos
invocaros talentos inesperados que outros trouxeram para essa tarefa. Minhashistórias
de amantes de cogumelose seus projetos são uma pequena contribuição.
STRATHERN ALÉM DOS
HUMANOS: TESTEMUNHOS DE
UM ESPORO”

COMPARAÇÃO É [UMI JOGO SIMULTANEAMENTE NO SENTIDO

MAIS SÉRIO E NO MAIS BRINCALHÃO — NÃO PARA SER ENTREGUE,

MAS PARA SER JOGADO.

Marilyn Strathern, 2002,p. xvii

Eu nem sempre tive o prazer de ser um esporo voando capaz de experimentar o mundonascostas do
vento. Antes disso eu ficava pendurado precariamente nas lamelas de um cogumelo, esperando por
uma brisa para leva-me. Masquesenso de antecipação! Mas que desejo eu sentia de voar. Mas
antes disso, eu era um cogumelo, ou, pelo menos, uma parte dele, sentindo as tensões e as felicidades

1 Este ensaio foi nutrido por muitos espíritos generosos. Seu tom brincalhão nasceu nasessão de lana
Gershon dos encontros anuais da Associação Antropológica Americana em 2007. Em 2011,eu desenvolvi meus pen-
samentos na mesa redondade Heather Swansone Peter Lutz na Universidadeda Califórnia, Santa Cruz, em “Mexen-
do com comparação”. Donna Haraway e Rusten Hogness leram um rascunho anterior. Morten Pedersen e Heather
Swanson meajudaram a pensaratravés de erros. Por sua vez, o conselhoeditorial de Theory Culture Er Society ofereceu
objeções estimulantes, Alice Streete Kathy Chetkovich gentilmente meguiaram através delas. O Matsutake Worlds
Research Group, ao qual minha pesquisa deve tudo, é Timothy Choy Leiba Faier, Michael Hathaway, Miyako Inoue,
ShihoSatsuka e eu mesma.

«a
2 Original publicado em: Strathem beyondthe human: testimony of spore. Theory Culture &7Society (SAGE
Publications), v. 31,11. 2:3,p.221-244, 2014.”
de nossa grande expansão, enquanto nos reuníamos, preenchíamos, e finalmente fola. Além disso, não há necessidade de seficarpreso a problemas de agência imediatamente; há
emergiamos do abrigo subterrâneo para o mundo luminoso, em tudo penetrante e mais para a socialidade que essa questãoe, ademais, nós vamosfalar disso mais tarde. Para o
vasto. momento vamos apenas considerar que o “Eu” que abre túneis, irrompe e voa não é singular nem
plural então, não suponhaquejá me conhece.
Espalhando nossoguarda-sol sob o torpor ofuscante, desconcertados por novos chei-
ros — e ventosfrescos -, sim, eu posso me lembrar: existiam tantas formasde excita- Mas talvez eu esteja muito ansiosa para balbuciar; você nãoestava preparado. Deixe-me dara ela a
ção. Mas, antes disso, estávamos embaixo da terra, na maravilhosa e misteriosa es- chance defalar.
pessoas
curidão, explorando como dedos para encontrar novos sabores entre o solo e as
tas Este ensaio oferece umareflexão sobre o pensamento de Marilyn Strathern que se
pedras, alongando-nos em finosfios e girando em grossos tubos, sempre nosjuntan-
gem, movepara além dos mundos devida imaginados por ela, ainda que se engaje em um
do a nossas amigas, as raízes de árvores, em um abraço autoextensível, dandoe rece-
sidas uns modo de análise stratherniano: reificação para o trabalho de comparação. Strathern
bendo doces sucos de vida. Isso erafelicidade, mais que uma e menosque muitas.
forma vem argumentando que a reificação para criar comparaçãoé útil se servir como reflexão
Pessoas admiram patos porsuas habilidades para nadar, caminhar e voar: três mo- crítica. A reificação stratherniana deve ser ao mesmo tempo “séria” e “divertida”. Isso
dos separadosde experienciar o mundo. Mas eu tambémjá o experienciei de outras deve interromper o embalo sonolento do senso comum. Devesercapaz de mostrar a
formas. Eu supereiaventuras no subsolo;fiquei em silêncio na superfície, absorvendo- diferença onde nós poderíamos ver apenas conexões. Comparação, em sua melhor
-0, e agora estou suspenso no ar. Você sabeo quanto um soprofraco de ar pode me acepção, propõe Strathern, é uma interrupção, uma recusa de conexões, para mostrar
carregar? Eu sou tão leve; posso ir a qualquer lugar. Posso ser carregado para mais as lacunas por meio das quais podemosrepensar nossas categorias. Ela cria “a hesitação
longe que um pato ou um ganso, apesar de suasfamosas migrações. Você sabia que que causa umapausa (o pensamento quejá é um ato), a fim de permitir um segundo
a estratosfera é cheia de esporos fúngicos circulando ao redor do planeta? Eu posso pensamento” (Strathern, 2002,p. xvi).
ir a qualquer lugar! Eles dizem que minha espécie tem apenas 26dias para germinar
Reificação — e as comparações permitem reificações — requerem simplificaçõese este-
ou murchar. Existe muito que eles não sabem,e eu posso viver mais que as suas ex-
reótipos. Muitos antropólogos dofinal do século XX rejeitaram as comparações, pois
pectativas. E 26 dias! Isso pode ser um longo e glorioso tempo para ver a mundo.
elas necessitavam dereificações, o que fazia o mundo parecer algo muitofácil de se
Quem desprezaria uma jornadatão leve, a chance de contemplar, de estudar e de
“capturar”. Em vez disso, Strathern introduziu um gênero de comparação que funciona
adicionar à sua experiência? Eu irei a todos os lugares e verei tudo. Eu posso até
simultaneamente contra a hegemonia da comparação, bem como do conhecimento.
contara você sobre isso.
Comparações strathemianas aumentam a desorientação. Na justaposição forçada de
Não fique chocado queeu sinta alegria. Além de tudo, eu existo apenas como uma comparaçãostratherniana, objetos de pesquisa revelam as circunstânciaspráticas e
uma estranha relação; uma humana americana mefez. Ela lê Ursula Le Guin e os hábitos de pensamento que os produziram. O ponto de uma comparação strather-
blogues de ciência como o "Not Exactly Rocket Science”, bem como Marilyn Stra- nianaé, portanto, mostrar oslimites — e possibilidades — das formas de se construir co-
thern, ela quer explicar socialidades mais que humanas não apenas para confun- nhecimento,a partir do modo comoefa lançaluz sobre as situações e objetos postos
dir suas ideias, mas para oferecer imagens e histórias vívidas. Então ela me fez em comparação deforma incomum. Em vez de deixar os futuros analistas com asolidez
umavoz artificial, mas útil e melembrou que todos nós viemos a nos tornarfigu- das categorias, as comparações strathernianas abrem questões. Categorias acadêmicas
estão sempre em jogo nas comparações de Strathern.

65
ras por meio de traduções infiéis. Isso é o que todo contador de histórias faz, ela
Minha comparação desloca os limites da antropologia, Stratherniana e OUtráiag inportants, mas existem outras maneiras de ir além da agência individualizada. A
introduzindo um esporo fúngico como sujeito etnográfico. Meu esporo pertence ; mparação stratl herniana oferece umaalternativa, mostrando-nos comoo trabalho de
gênero Tricholoma, gênero que inclui o matsutake, aqueles cogumelos Selvage ng permite comparações surpreendentes. Na comparação de Strathern, as
ficação
são interrompidas por
aromáticos e muito valorizadosenviados ao Japãopelo comércioglobal. O experiment;o conexões sociais” decorrentes da distribuição de agência
a refletir sobre a forma como
aqui considera a promessa de um conhecimento multiespécie no qual a percepção d; analogias culturais”, criadas para nos conter, forçando-nos
de choque” por
os (Strathern, 1991, p. 94). Strathem o chama de um “estado
avançam e recuam naanálise. O experimento faz parte de um argumento maior para ai xões sociais em formação podem ser quebradas, permitindo um

descrição crítica, isto é, a arte de perceber o entrelaçamento dasrelações entre sered inomento dereflexão sobre os ângulos da nossavisão.
humanos e outras espécies por meio de escalas múltiplas não aninhadas? A descriç
fei
Jo feitos ; espéci
ietóri s cruzadas de muitas Ç uso da p primeira Pp pessoa Pp para trazer você p para dentro dessa
assiim, emb ora eu faça
j
ti considera
crítica como mundos são nas trajetória
los são agentes
história, não estou tentando argumentar que os esporos de cogume
a . : sa . = ividuais. O esporo falante é um dispositivo, uma reificação, para fazer o que Strathern
E
acima dafilosofia, nem uma antropologia de “adicionar e agitar” agentes não humano: ndividuais P P . são, P q
. 2 ; analogias culturais. No entanto, estendi o campo P deinvestigaç ão para além da
am x chama de 8 t 5 P
descriçõescríticas de relações entre muitas espécies poderiam nos mostrar comoolha
; : . e isolava os estudos sobre os humanos dos estudos sobre as demais espécies.
P
mais: de perto bem como sacudir nossos aparatos e ampliar nosso conhecimento d cerca qui
a cerca, as possibilidades
; x . a j fato, uma vez que nos permitimosatravessar (ou suplantar)
P ves P
mundo. Por isso, as percepções strathernianas representam um guia útil — mesmoã De fato, q P
quando o projeto alcança direções imexploradas E. parafazer analogias úteis e chocantes se multiplica exponencialmente.

. Vga x . ns Nesse papel, o esporo pode oferecer uma visão criticamente reflexiva de nossos
Em paisagens multiespécies, pessoas sociais de muitas espécies interagem, moldando asd
- - nt rã aparatos para conheceração e agência. Assim, por exemplo, imaginei um esporo quese
Po, imãs poro q
vidas uns dos outros de forma variada. A descrição crítica aborda comoocorrea criaçã P P ç 8 “P
: adociom não à ima? em “lembra”de sua existência anterior como um órgãoreprodutivo (um cogumelo) e como
de um mundo no oximoro do “design não intencional”, como espécies com modosde
so q . . or o um fungo subterrâneo pré-parental. Ele é um clone somático,»P pai e também filho:
vida tão distintos se juntam com ou sem intencionalidade, boa vontade, inimizade, oui 8 Prep
; apita ae , dificilmente uma unidade de ação em senso comum. O modo de generalização de
mesmo percebendo um ao outro. Quais formase histórias bióticase abióticas sejuntam
a a , * Strathern, a reificação dos “euro-americanos” para considerar intersecções entre
em um mundo multiespécie? A criação do mundo ocorre quando organismos :
. o. Lo. ferramentas de conhecimento científicas e vernaculares, pode levar isso ainda mais
encontram nichos dentro dos quais vivem uns com os outros; não há problema em
PU humana, masesserótulo . x . longe. Considerando a maneira comoos fungos desconstroem nossas suposiçõessobre
chamar este processo de “agência” não não esclarece muito.
Os indivíduos, pode-se observar que os humanos euro-americanos imaginam seus
“Agência” é um instrumento de conhecimento que muitas vezes assumiu um tipo de; descendentes comoindivíduosdiferentesdeles, e os cientistas adicionam combustível a
ação humanaintencional e limitada no mundo, mas, como Strathern mostra ao longo esta crença popular, apontando para a distinção genética entre pais e filhos, e a
=... . m tal a 4 e 2 . 4 e
.
de seu trabalho, essa muitas vezes não é a melhor maneira de se pensar a ação social É segregação de células germinativas e de células do corpo, que impedematé os óvulos e
(ver, por exemplo, Strathern, 1988). A teoria ator-rede pressionou a superação desse Os espermatozóides de “experimentar” qualquerhistórico parental. Em contraste, os
modelo mostrando a agência que surge em interações entre humanos e não humanos fungos não segregam células germinativas e células do corpo. As células do corpo se

e se distribui por meio de lugares de ação potencial e realizada. Este é um trabalho É tornam cogumelos, que depois se diferenciam em órgãos que produzem esporose os

ETA
£sporos propriamente. Esses esporos são geneticamente distintos, mas eles carregam
3 Ver o capítulo 5 deste volume. todaa história ambiental do corpo parental (por exemplo, as transferências horizontais
de genese as histórias epigenéticas). Assim, um esporose “lembra”de sua parte em ser |sso é chamado de acasalamento “di-mon”. O corpo parentalganha o material genético, que só aumen-
pai - e antes. A memóriaincorporadana carne é contínua através das gerações. ta a sua desenvoltura em lidar com o estresse ambiental.4 Eu sei, é diferente de vocês, animais. Você
pode imaginarisso como sefosse você tendo um lho com o seu próprio braço, o que expandiria as suas
Ascoisas ficam cada vez mais estranhasa partir daqui, e eu vou tentar mostrar-lhe um: habilidades em potencial. O corpo mosaico resultante, recheado com materialgenético heterogêneo, tem
poucodisso neste ensaio. Mas talvez esse detalhe ilumine a mistura de ciênciae ficção todos os tipos de possibilidades: você e você e você e euy tudo em um.
que orientam minha narrativa. Mesmo quando afirmo, contrafactualmente, que um
esporo pode experimentar o mundo de forma a se comunicar com humanos euro- É como gostamos disso. Dois de nós quatro, esporos irmãos que emergiram do nosso basídio, caíram
americanos, o queisso nosdiz é tão certo quanto o que eu consigo fazer, com base em de volta sobre o corpo parental assim que conseguiram. Eu os vi ir enquanto estava pendurado, espe-
minhas leituras, observações e entrevistas com micologistas. Assim como Strathern rando. Por agora, elesjá podem tersido reabsorvidos em nosso corpo coletivo, e defato eu estou com
confia em etnógrafos da Melanésia para seus experimentos reflexivos, eu confio em um pouco de ciúmes. Mas eu acho queeu já estava pronto para yiajar. Antes que eu tivesse tempo
micologistas e ecologistas para os meus. Meu objetivo, seguindo Strathern,é usar o que para pensar, um sopro de ar veio e levantou-me para cimae parafora. Agora eu sou um aventureiro.
poderia ser apresentado como meros “fatos científicos” para perturbar o que achamos Ey não sei o que aconteceu ao nosso quarto esporo irmão, cavalgandoo vento, eu estava tão anima-
que sabemos — e então o que podemos pensar. O potencial radical da antropologia do que esqueci-mede olhar para trás. Talvez aquele um esteja voando também, como eu.
sempre foi esse: outros mundossão possíveis. Maseu estou subindo tão alto, já longe de casa! A maioria de nós, mesmoosaventureiros, fica feliz
E por onde começar novamente: pelo parentesco, gênero e sexualidade,essas teses do de encontrar um lugar bem perto de onde crescemos. Existem pessoas novas para estar com, mas não
cânone antropológico? Strathern (1988) nos fez repensar esses tópicos, mostrando umanovaforma de vida. Agora eu olho para o campo,já atravessei um grande rio, planícies e cida-
comoeles moldam o que todo mundo, de cientistas a pessoas comuns, apenas “sabem” des emformas que eu nunca imaginei. Há tanta coisa para aprender. Mas não se preocupe: eu tenho
sobre comoser e comoagir. Eu sigo sua proposta. umagrandefamília por todo o hemisfério norte. Eu acho queeles vão me levar e me ajudar a encon-
trar um bom companheiro.
Talvez você queira saber um pouco de minha história de vida. Eu não me lembro de tudo como eu
mestmo, mas como todos os eus em camadasque tenho sido antes de metornar um esporo. Entenda, Sair por si mesmo é divertido, mas também um pouco assustador. uma das vantagens do pareamen-
minhaespécie se reproduz por meio de esporos — e nós estamos mais próximos de um “eu”singular to di-mon é que o esporo que germina não precisa encontrar uma nova árvore parceira. O corpo
nesse estado, Quando um esporo germina, ele precisa procurar outro esporo para acasalare repro- fúngico estabelecidojá está conectado a muitas árvores amigas; o esporo que pareia com esse corpo
duzir uma nova forma devida fúngica. Muitos fungos têm porções exógenas, ou classes ainda mais apenas se une a ele. Para explicar eu devo começar uma nova história sobre comerjuntos. Mascreio
complexas, que se assemelham a gêneros humanose grupos de parentesco na atribuição de parceiros que primeiro eu gostaria de sentir o vento e olhar ao redorda paisagem um pouco.
apropriados. Esses esporos fúngicos não deveriam nem flertar com um esporo de sua própria meta- Strathemfez algo estranho com prática da comparação: ela desenvolveu um método
de; isso apenas não seria considerado certo. para fazer as comparações sempre de formaprovocativa. Na maiorparte do século XX,
Mas meus antigos eus não têm vergonha da perversidade polimorfa. Nós podemos acasalar com quem os analistas trabalharam para elaborar comparações sociais mais razoáveis ou, pelo
quisermos. Defato, muitos esporos que eu conheço escolheram ter relações com seus pais. Quandoeu era menos, menosselvagens que nos trabalhos dos evolucionistas de gabinete do século
maisjovem, uma parte daquele meu corpo acasalou-se com muitos de nossospróprios esporos. Nós não XIX. As comparações devem ser controladas, eles argumentavam, para comparar
pensamosnisso comô incesto; isso expande o repertório genético do nosso corpo parental, Você não semelhante com semelhantee excluir o diferente.Claro, declarando coisas “semelhantes”

69
precisa se acasalar com seus próprios pais; você pode ir ejuntar-se com outros pais de esporos. Em am-
4 Ver Murata et al. (2005).
bos os casos, o esporo germinado acasala-se não com outro esporo, mas com a próprio corpo fúngico.
e solapando diferenças radicais. Isso garantiu poder ao analista para formar umagrade conceitos de “natureza” ou “cultura” com os quais criar um antagonismo para conhecer
de comparabilidade. Quando isso envolvia dividir o globo em porções comparáveis, o mundo, ela está apontando não apenas para um contraste entre os Hagene o Oci-
esse podercheirava a colonialismo. Além disso, umavez estabelecida a comparabilidade dente, mas também para a incapacidadeda oposição natureza/cultura de operar como
das unidadesanalíticas, tornou-se impossível coletar dados dentro dessas unidades que os usuários em contextos europeus e americanos imaginam. Isto não é, então, apenas
podem desafiar a comparação. A comparabilidade das unidades bloqueou percepções um contraste. É uma mosca nonariz do elefante.
disruptivas. Eu cresci em uma coorte de estudantes que pensavam que comparações 4
Nesse espírito, comparações cruzadasentre espécies parecem um jogo completamente
sociais eram completamente inúteis, pois ao tornar as coisas comparáveis, todas as ã
justo. Claro, comparações entre humanos e outras espécies são geralmente antropo-
perguntas interessantes já haviam sido respondidas. Esta foi uma das nossas defesas da
cêntricas, de uma forma quefaz tanto biólogos como humanistas se arrepiarem. Mas se
etnografia: a boa etnografia, pensamos, recusa comparações.
o objetivo é mostrar as relaçõesentre objetos de pesquisa e ferramentas, tais compara-
Strathern nosdesafia, fazendo-nosconsiderar comoas comparaçõesjá estariam dentro çõesinadequadas eventualmente podem serúteis. Como sabemos sobre o crescimen-
das melhores etnografias. Nós não seríamos capazes de fazer questionamentos sem to, individualidade, geração, comunidade, e mudança na compreensão da vida — huma-
isso, ela argumenta. Nossos quadros de análise foram sempre comparativos. Não é pos- - na ou outra? Como reconhecemosa liberdade? Talvez histórias de fungos possam
sível pegar qualquer domínio de estudos(por exemplo, de gênero ou parentesco) sem ajudar em algumascoisas.
evocara história e o método comparativo. Strathem propõe que, em vezde tentarevi-
Eu prometifalar para você sobre como meis tipo fiúngico e nossas árvores companheiras nos alimen-
tar as comparações, deveríamosfazê-las, incorporando-as em nossas ferramentas analf-
tamosjuntos. Você provavelmente sabe queas folhas de árvores produzem carboidratos pela fotos-
ticas explícitas. Masisso também a libertou de “controlar” suas comparações, isto é, de 4
síntese, estimulados pela luz do sol, Esses carboidratosfsem através dos corpos das árvores, das suas
torná-las razoáveis e apropriadas.
pontas às suasraízes, alimentando-as. Eles também nosalimentam, pois estamos enrolados em suas
Uma comparação strathernianaefetiva é aquela que expõe a especificidade de suas fer raízes, bebendo com asárvores. Nós não somos parasitas, tomando sem dar. Nóstornamospossível
ramentas e objetos. Muitas vezes é a própria incompatibilidade das unidades sendo para a árvore obter água e nutrientes do solo. Com a nossa ajuda, a árvore aumenta sua exploração
comparadas que ilumina o relacionamento entre ferramentas e objetos de pesquisa. subterrânea. Nós dissolvemos minerais das rochase do solo, tornando-os disponíveis para o cresci-
Este insight que seu trabalho trouxe em umasérie de comparaçõesentre formas de viver mento da árvore. Nós comemos para nós mesmose para os outros.
documentadas por etnógrafos em pequenas comunidades na Nova Guiné, por um 4
Assira, também nos tornamos parcialmente indlistinguíveis dos outros. Nós formamos órgãos conjuntos de
lado, e os cânonesdacivilização ocidental, por outro. O quão desbalanceadas e irracio-
fingo e raiz chamados micorrizas, “fungo” e “raiz”juntos. Através desses órgãos, os nutrientes passam em
nais são essas unidades! No entanto,esse procedimento explicitou o que muitos etnó- “4
ambas as direções. Nós alimentamos um ao outro e assim nos tomamos um pouco mais um do outro.
grafos fazem: mostramosnossas comunidades de pesquisa sendo uma exceção. Se um q
elefante não pode nem esmagar umaervilha, esse tipo de comparação, argumenta ela, “à Nós evoluímos juntos. Meu próprio clã favorito de árvores amigas são os pinheiros, que evoluíram
dificilmente explica e gerencia o universo. Strathern (1997) nos mostrou como a compã suas “raízes curtas” para os companheiros fúngicos há pelo menos SO milhões de anos. Se nenhum
ração desequilibrada irracional funciona. fungo viesse colonizaressas raízes, elasteriam murchado e declinado. Essas raízes estão lá para nós, e
apenas para nós. Nós ajudamos os pinheiros. Os pinheiros colonizam o solo mineral descoberto e
Tais comparações também são frequentemente autoconscientemente dissimuladas.
perturbado recentemente. Mas não há nutrientes lá que eles possam encontrar sozinhos. Para que
Quando Strathern (1980) argumenta que as pessoas em Monte Hagen (uma comunida-

7
comam bem, eles precisam de nós, assim comonósprecisamos deles.
de nas terras altas da Nova Guinê), diferentemente dos euro-americanos, não têm ;
É claro, que nem tudo éfelicidade e paz. Os pinheiros nos dão muito de seu açúcar e nós nem sempre que precisamos. Bactérias e folhas alimentam outras espécies respectivamente. A
somos gentis para eles. Às vezes nós damos para outras plantas da floresta. Nós conectamos muitas principal diferença é queas vilosidades são tecidos humanos, de modo queas trans-
árvores, transferindo carboidratos e outros nutrientes de uma árvore para outra. De vez em quando ferências através das espécies acontecem antes que a comida desça pelos seus tron-
nós matamos raízes com as nossas exigências. As árvores podem nos deixar defora também, ou serem cos, “subterrâneos”, por assim dizer. Nós não podemosnosalimentar sem essas bac-
cortadas por vocês, e sem outras árvores companheiras nas proximidades, nós morremos defome, Sabe térias, assim comoos fungos não podem sealimentar sem as árvores. Nós evoluímos
todas aquelasflorações de cogumelos que vocês amam ver? Alguns são nossos últimos suspiros, espe- juntos; nós vivemos para comerjuntos. .
randose espalhar como esporos quando tudo mais falha e nós estamos morrendo. Nós produzimos
crianças quando nós não conseguimos mais viver bem em nossos corpos. Reprodução não é sempre um
sinal de boa saúde.

Em Partial connections, Strathern (1991, p. 61-76) comparadeformaescandalosa árvores,


canoase flautas, explorando comoessas formas longase finas podem variar sendo
totalidades e partes, pessoas ou mais do que pessoas. Considere uma comparação
similar entre árvorese vilosidadesintestinais: folhas de árvores fazem “seres” fúngicos
comobactériasintestinais fazem humanos. Humanos e fungos ectomicorrízicos, ambos
precisam de outras espécies para conseguirem se alimentar. Nenhum deles é capaz de
comersozinho. Fungos e humanos, cada um tem muitos tipos do que Donna Haraway 1A Floresta de pinus? 1B - Vilosidadesintestinaisé
(2007) chama de "companheiros de mesa”, isso é, companheiros para comere serem
comidos. Mas eles compartilharem um subconjunto dentro disso é o mais extraordinário: FIGURA 1 — Semelhançaentre árvorese vilosidadesintestinais
umaassociação obrigatória para comer que aproximatãointimamente os companheiros
queé difícil saber onde um termina e o outro começa. Considere as implicações. Quem somos nós? Noventa porcento dascélulas em nossos
corpos não têm umaassinatura genética; elas são bactéria. No entanto elas estão co-
Para fungos ectomicorrízicos, essa é a associação entre o fungo e a árvore. Considere nosco, e nós precisamos delas. Nossos corpos vêm a ser através delas. Para além de
umafila de árvores com seus fungossubterrâneosassociados envolvendoas raízes. As nossos corpos, nós não podemos sobreviver sem paisagens multiespécies. Nós nos
folhas produzem oscarboidratos, que são passados para as raízes e fungos. Do ponto de tornamos quem somosatravés de agregados multiespécies. Nós somos mais parecidos
vista fúngico, as árvores são estruturas coletoras de alimento que se acumulam em filas com fungos micorrízicos do que imaginamos.Isso faz uma enorme diferença para nossas
eficientespara coletarluz solar e enviar comida utilizável para os fungos. teorias de ação “humana” no mundo. Como os humanos podem agir como uma força
Essa imagem de árvores como estruturas coletoras de alimento é uma reminiscên- autônomase o nosso “nós” inclui outras espécies que fazem de nós quem somos? Se nós
cia das vilosidades intestinais humanas (Figura 1). Nossosintestinos são revestidos não somos umaforça autônoma,e a liberdade - seremos então escravos da compulsão
com estruturas coletoras de alimento, projetando-se para a absorção eficiente
comoasfilas de árvores. As vilosidades estão cobertas de bactérias, que transfor- 5 Fonte: Wikimedia Commons. Dispon Wikimedihttps://commonswikimedia.org/wiki/File:Pinusforest,
mam o que comemosem algo que podeser usado por nossos corpos humanos. Da Saint-Rémy-de-ProvencecfO2jpg

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perspectiva humana,as bactérias, comoas folhas das árvores, coletam os nutrientes 6 Fonte: GRAY, Henry. Anatomy of the human body. 1918. Dispon. of the hitps:/Awwnwbartleby.
com/107/248.html
natural? O que podesignificarpara um agregado multiespécieatuar sobre Corno você imagina a história da sua vida? Eu aposto que você pensa que tem umapersonalidade
o mundo? distintiva, como umaalma interior que expresse sua biografia e todas as suas realizações. “É apenas
quem eu sou”, você diz. Considere o que você pode aprendercomfungos, quefazem um curso de vida
Não há necessidade de entrar em pânico. Agora mesmoeu sou um esporo, flutu-
não a partir de algumaessência pré-formada, mas a partir de todas as coisas que nos tornamos.
ando acima de tudo, tão autônomo quantojamais serei. E mesmo quando eu era
Você querfalar sobre liberdade? Considere osfungos.
um mosaico fúngico entre árvores companheiras, não era tão difícil descobrir o
que açãosignificava pra mim. Ação era aventura, curiosidade, e crescer em novas Nem todos os fungossão semelhantes. A podridão daraiz causada por Armillaria não
“emos
coisas. Nós explorávamos. Você não poderia nosparar! Você sabeque fungos são formarelações micorrízicas com árvores, elas são comedoras de madeiraviva e morta.
ação;
maravilhosos na resolução de labirintos? Você já viu os padrões intrincados que Elas são famosas como o maior organismona terra, “uma” Armillaria por vezes se estende
fazemos na madeira ou no subsolo? Não pense que pode nosprever. Nós aprovei- sob uma floresta inteira Mas “indivíduos” são geneticamente heterogêneos,
ente
tamos oportunidades. Nós colonizamos novos espaços com novos padrões. Nós continuamente agregando material genético novo a seus corpos. Provavelmente seja
temos
inovamos. Ninguém podedizer que nós apenas nos repetimos em um plano prede- graças a isso que eles conseguem sertão acaptativos e viver tão longamente. Aqui está
o que um time de micólogos (Peabody et al, 2005) conclui sobre Armillaria gallica:
“x

finido. Nós crescemos.

Indeterminação é uma das coisas mais importantes que temos como fungos. Em al- Na maioria dos organismosas populaçõesse adaptam ao longo do tempo
gumasformas, nós somos muito mais criativos que humanos. Olhe para você, preso na medida em que indivíduos aptos contribuem com quantidades
no mesmocorpo por toda a sua vida. Tudo o que você podefazer depois de chegar à desproporcionais de genespara futuras gerações. Em espécies de plantas
adolescência é deteriorar. Tente crescer um novo braço ou um novocérebro. Hah! Nós perenese de fungos capazes de crescimento indeterminado, no entanto,
fazemos o equivalente. Nóscrescemose mudamos por toda a nossa vida. Nossofor- essavisão doindivíduo e de aptidão individual podeser por demaisestreita,
matoreflete nossa experiência: estendendo aqui ou ali, amontoado, como umateia [.] No caso de indivíduos de fungos em especial, pode ser mais correto
ou linear, simétrico ou irregular. Para aqueles de nós que se tornam mosaicos, nós pensar em indivíduos como “trajetórias interativas contínuas, crescendo
adicionamos novopotencialgenético através do qual nós desenhamos outrasformas indeterminadamente [e que] apenas respondem à circunstâncias locais,
criativas e respostas. Você pensa que não humanos são autômatos, capazes apenas sem nenhuma adiministração central” (Rayner, 1997a) e são capazes de se
de ação pré-programada. Nada poderia ser mais distante da verdade. Nós, como reconfigurar durante suas vidas de maneira a permitir que se adaptem a
vocês, ajudamos a fazer o mundoatravés de ação indeterminada. condições mutáveis. ,
Sim, vocês se movem por aí Mas todos os pulos e contorções apenas compensam Absorva isso mais vagarosamente: indivíduos são trajetórias interativas contínuas em
aquilo quefazemosaocrescer: dá a você a chance de desenvolver ação indetermina- crescimento indeterminado. Sem nenhuma administração central, eles são capazes de
da. Claro, a maioria de vocês segue rotinas bastante regulares todo santo dia. Ainda reconfigurar a si mesmosdurante suasvidas de formaa permitir que se adaptem a con-
assim, vocês vagam para além delas de vez em quando, indo a novos lugares ou ten- dições mutáveis.
tando um novo padrão. Essa é a sua indeterminação. É assim que vocês exploram 0. Novamente, isso é tanto um contraste quanto uma mosca nonariz do elefante. O que
mundoe fazem novas coisas acontecerem. Nósfazemos isso através de nossoscor.
podesignificar considerar a nós mesmos, enquanto agentes, comotrajetórias interativas
pos, crescendo em novas situações. Nossasformas de ação não são tão diferentes.

75
Crescendo indeterminadamente, adaptando-se a condições mutáveis? Há muito que
fecomendarnesse ponto de vista no que concernea histórias de vida humanas. Uma
aciministração central? Elites euro-americanas frequentemente superestimam suas fun- Meus antigos eus cresceram em uma floresta fragmentada de aldeia em um município montanhoso
ções cognitivas ao colocar a ação em movimento. Raramente nós humanos nos move- na Prefeitura de Chuxiong na Província de Yunnan, China.
mos de um plano para ação; na maior parte do tempo nós meramente fazemos o que
Nossasflorestas não sãosilenciosas,frias e imponentes, mas desleixadas, turbulentas e cheias devida.
podemose, em nosso melhor, aproveitamosa ocasião.Isso nãosignifica que nós agimos
Se você quer saber comoespécies agem conjuntamente para fazer mundos, eu vou lhe contar sobre
como autômatos. Mas as outras espécies também não o fazem.Repensar a nós mesmos
nossasflorestas. Os detalhes importam: eu vou explicar comoagregados multiespécies agemfazendo
comotrajetórias interativas pode nos fazer refletir sobre como nós agimos conjunta-
mundos e o que “liberdade” pode significarse você considerar mundos multiespécies mais seriamente.
mente com outras espécies para fazer o mundo.
Claro, tem as amigas árvores, elas são as melhores. Meujovem corpofungicojuntou-se não apenas a
À citação interna na passagem citada acima é do micólogo Alan Rayner, que escreveu
pinheiros, mas também a carvalhos, tanoakese chinquapinê Nós gostávamos de todas elas. Minha
sobreliberdadea partir da perspectiva de padrões de crescimento indeterminados de
gente éfamosa por nossas amizades cosmopolitas com árvores.
fungos. Degrees offreedom, de Rayner (1997b), considera como formas de vida de todos
ostipos fazem suasvidas em indeterminação. In praise ofplants, do botânico Francis Hal- Mas dificilmenteas árvores eram as únicas a compor nosso mundo. É um lugar vívido. Eu não posso
le (2002), oferece observações relacionadas sobre a indeterminação de plantas como deixar de mencionar as cabras, já que não se pode ignorá-las, elas são tão famintas. Elas comem
um mododeviver em liberdade. Comentários deste tipo não se encaixam facilmente tudo. Eles cortam tanto as mudas de pinheiros queelas ficam parecendo grama cortada. Não se
com correntes poderosas na filosofia ocidental. Mas considere as limitações dessas preocupe com os pinheiros; com nossa ajuda, suas raízes crescem mesmo quando as cabras comem
correntes. Assim Immanuel Kant, vivendo sob um regime repressivo, em que muitas suas partes superiores, e então eles brotam rapidamente acima das cabeças das cabras. Além disso,
formas de ação eram proibidas, imaginava liberdade comoa transcendência humana vocês humanos são ainda mais destrutivos.
da natureza através da razão. Raciocinar era um dos poucostipos de ação queele po-
Osfazendeiros que vivem aoredor de nossas florestas não apenas derrubam as árvores para fazer
deria realizar, outras formas de ação eram bloqueadas. Sob outro regime, poderiaele
postes e tábuas, mas também continuamente podam as árvores vivas, Eles cortam ramos e galhos de
ter imaginadoliberdade não apenas em pensamentopassivo, mas em um sentido mais
árvores decíduasdefolhas largas para fazer lenha. Além disso, seus porcos também comem comida
completo de viver?”
cozida, e comida de porco é cozida em fogões especiais ao arlivre, requerendolenha adicional. Então
Viver em indeterminação é umaforma de liberdade que compartilhamos com outras muita madeira é recolhida todo dia. Eles cortam ramos de pinheiro para colher nozes e pólen, e eles
espécies. Se nós queremos saber comoagregados multiespécies agem,esse é um lugar jumtam as agulhas dos pinheiros para osleitos dos porcos. Quando essas agulhas estão cobertas de
melhorpara começar do quea razão. Em nossas trajetórias interativas, dentro e além do fezes de porco, elas são levadas aos campos e usadas como fertilizante. Folhas de árvores decíduas
indivíduo, dentro e além da espécie, nós fazemospadrões, ecossistemas, e mundos: de- compõem um aduboverde que vai diretamente para os campos. Essas pessoasestão lá todos os dias
sign sem administração central. procurandopor coisas: ervas medicinais, vegetais selvagens e todo o tipo de cogumelo nos quais po-
dem botaras mãos. Nós somos os mais valiosos, então eles têm especial consideração por nós.
Eu não introduzi a mim mesmoapropriadamente porque eu tenho nomes demais. Se você gosta de
binômios em latim, você pode me chamarde Tricholoma matsutake. Nósjá tivemos outros nomes Você pode pensar que nós estaríamosinfelizes com todaessa atividade, mas na verdade nós amamos
em latim antes, aqueles cientistas sãoindecisos. Mas esse nome pelo menos diz às pessoas o quanto isso. Não me entenda mal: nós não gostaríamosque você cortasse a floresta completamente, como
os japoneses nos respeitam: matsutake é um nome japonês para nós. Mas eu não sou do Japão. vocêfez em tantos lugares. Nós queremos a floresta. Mas nós gostamosda floresta perturbada cheia

77
7 Essa questão foi levantada por Tala! Asad's (1993) em umaleitura de Kant 8 Do gênero Castanopsis.
clamassem por uma
defazendeiros e cabras. Nós amamos quando vocês rastelam as folhas e agulhas: isso evita que o outra. Nãoera para Strathern umadialética na qual estas diferenças
era justamente apoiar-se
húmus se acumule. Pinos odeiam quando há muita terra fértil suas sementes não conseguem sobre- novasíntese, transcendendo a oposição. Aocontrário, o ponto
e ferramen-
viver a isto. O solo mineral nu queé deixado por seu rastelo é bom para nós também. Nós somos* na estranheza, usando-a para refletir sobre a relação entre objetos de pesquisa
m dos antagonistas,
fortes em dissolver rochas para obter nutrientes. Mas nós não gostamos quandoos nutrientes estão tasSurpreendentemente, as simplificações não prejudicaram nenhu
co nas mãos de Stra-
tãofacilmente disponíveis: outrosfungosos tomam. em vezdisso,dignificaram os dois. O feminismo ganhou peso filosófi
nte nova.
them, assim comoa antropologia se estendeu para uma atividade totalme
Nósgostamos também quandovocês abrem a floresta ao cortar ramos. Nós somos criaturas de flo-
restas perturbadas, e suas perturbações nos gjudam a viver. Fazendeiros não colheriam matsutake Como pode uma abordagem dessas funcionar para se pensar sobre paisagens mais que
sem essa perturbação. Mas, claro, eles não estão fazendo todas essas coisas por nós. Nós apenas es- humanas? Simplificando muito, é possível contrastar duas formas divergentes de olhar
tamostirando vantagem da situação — e adicionando nossa parte em mundoonde pinheiros, árvores uma paisagem: a ecológica e a cultural, Quais são as pressuposições de cada uma?
defolhas largas, cabras, humanos, porcos e cogumelos matsutake vivemjuntos. Para os ecologistasda paisagem,a paisagem é umaunidade de diferença interna.
Você quer ver espécies trabalhandojuntas para construir designs intrincados, mas não intencionais? A questãocentral de se estudar paisagens está em apreciar sua heterogeneidade. Uma
Você quer observar a promessa de trajetórias interativas sem administração central? Nossas áreas paisagem é um mosaico de fragmentos florestais, isto é, agregados de formas de vida
florestais das aldeias são um bom lugar para olhar. que vivem umas em tornodas outras. É nas diferentes dinâmicas de cada fragmento que
a heterogeneidade da paisagem serealiza.
O matsutake cresce em florestas perturbadas, incluindo aquelas perturbadas por huma-
nos. Florestas antropogênicas (florestas formadas em parte pela ação humana) já foram Porsua vez, para os geógrafos culturais, a paisagem é um sistema cultural e político.
quase invisíveis para as disciplinas porqueelas caiam entreas áreas do conhecimento A questão é entender sua sisternaticidade singular e característica, isso é, o conjunto de
natural e cultural. Mas com a crescente atenção dadaà presença dos humanos no am- princípios estruturais que a mantém unida. Princípios estéticos podem ser importantes,
biente, as florestas antropogênicas se tornaram um importante objeto de pesquisa. e histórias políticas desempenham um papel. A peça-chave sobre uma paisagem, no en-
Como devemos estudá-las? tanto, é que ela é uma unidade que podeser contrastada com outraspaisagens, confor-
madassob diferentes princípios.
Há um desafio stratherniano aqui: as discrepâncias entre abordagens acadêmicas. O tra-
balho mais estimulante deStrathern emerge da brincadeira com essasdiscrepâncias. Ela Para ecologistas da paisagem, contrastar umapaisagem com outraé muito menos inte-
está disposta a simplificar e estereotipar apenaspara amplificara diferença entre abor- ressante; todas aspaisagens são compostasde elementossimilares. Seria contraproduti-
dagens.Essasdiferenças funcionam paraela. vo assumir a unidadesingular da paisagem. É a estrutura fragmentada da paisagem, a
diferença interna, que fascina. A distinção aqui remete convenientemente a um debate
Eu apreciei isso, primeiramente, nas comparações de Strathern (1987) entre feminismo € quetem interessado os antropólogos recentemente: existem muitas culturas e uma na-
antropologia como dois modosdeabordar gênero. Outropensadorteria mostrado como tureza, ou muitas naturezas e uma cultura (Latour, 2002)? Por um lado, o animismo é
feminismoe antropologia podem fundir-se. Mas Strathern trabalhou as duas perspectivas uma opção cultural entre muitas para classificar o que todos sabem sobre a natureza;
"numarelação estranha”, e a estranheza foi a ferramentautilizada porela para pensar. Foi por outro lado, o animismo desafia sistemas classificatórios ocidentais ao postular que
preciso algumasimplificação dos dois ladospara produzir antagonismos. Portanto ela car perspectivas animistas sobre a personificação de animais são igualmente verdadeiras.

79
racterizou a antropologia como relativismo cultural e o feminismo como universalismo O primeiro postula diferença “cultural”, o segundo postula homogeneidade cultural e
politicamente motivado. Isso permitiu que ela colocasse as abordagens uma contra a diferença “natural” (Viveiros Castro, 1998).
considerar
Paisagens nãolevantam a mesmaquestão, masexistem conexões. Ecologistas de paisa. thern continuamente nos relembra, nós não podemos fazer perguntas sem
vivas
gem veem os mesmoselementos combinados em fragmentosatravés dos quais a dife. nossas ferramentas para indagar. A história das perguntas e a história de paisagens
rençase revela. A diferença que importaé interna à paisagem,e não entre a paisagem,A se entrelaçam aqui.
versus a paisagem B. Geógrafos culturais veem elementos ontologicamente variados los que são
A diferença entre espécies que muitos acadêmicosaceitam entre os cogume
cada um criado pelas estruturas culturais das paisagens. Paraeles, oselementos de uma “americano”,
introduzidos no comércio de matsutake é a diferença entre o matsutake
mesmapaisagem,no entanto, sempre têm algo em comum: cultura. Diferençasinternas Mas o “Dr. C” era
Tricholoma magnivelera, e o matsutake "eurasiático”, Tricholoma matsutake.
sãolimitadas pela estrutura unificadora da cultura:elas não podem romper o holismo eia do que é
cético até mesmo quanto isso. “Em fungos”, explicou, "nós não temosid
da paisagem sem levar a paisagem a umanova configuração holística. s apre-
uma espécie” Os próprios organismossão tão estranhos que nós não podemo
Poderíamoscolocaresse dilema em termos dos matsutake da seguinte forma: o matsu- endê-los com nossas categorias. O melhor que podemosfazer é falar de “matsutakes”,
take quecresce na China é o mesmo matsutake quecresce no Japão ou na América do os cogumelosque entram no comércio japonês. Simplificações autoconscientes e ques-
Norte? Como o matsutake cresce em florestas antropogênicas em cada região, pode- tões continuamente em erupção: uma matriz stratherniana.
mos abordaresta questão tanto do pontodevista da geografia cultural quanto da eco- Um estudo comparativo depaisagens mais que humanas pode requerer tanto adesão
logia de paisagem. O matsutake de Yunnan é constituído de alguma formapelo queas quantoceticismo em relação à diferença.
pessoas de Yunnan (ou outras espécies) pensam e fazem? As diferenças de escala da
paisagem entre estes lugares importa — ou deveríamos pensar mais sobre os elementos Possolhe contar os lugares pelos quais estou vigjando? Um vento forte do sul melevantou, soprando-
de diferença dentro de cada umadestas paisagens? E há algo a ganhar ao não resolver -me para o norte até que eu mejuntei à corrente ocidental, Após atravessar por sobre muitas regiões
essas questões — seguindoa trajetória de Strathern? de aparência desconfortável onde eu dificilmente podia perceber uma árvore, eu subitamentejarejei os
tentadores pinheiros das montanhas Jilin, do nordeste da China. Eles dizem que o matsutakelá é ex-
incrivelmente, essas questões se revelaram produtivas nos estudos do matsutake, e exis- cepcionalmente aromático. Por um tempo, eu tive esperança de que eu cairia lá para buscar por meu
tem alguns bons argumentos para manter as respostas sem solução. Considere duas companheiro. Mas eu subi e, pior ainda, mejunteiao pó amarelo — o solo dodeserto e a poluição que
entrevistas que eu conduzi com cientistas de matsutake sobre a questão da identidade vazam do norte da China - e meus sentidos confundiram-se, tomando-se dificil para mim saber onde
de espécies do matsutake dentro e através das paisagens. euestava indo. Eu devo ter passado porsobre a Coreia, onde eles dizem que o matsutake é abundante

O jovem “Dr. A” provou, por meio de análise de reação de polimerização em cadeia e delicioso. Mas eu não era nem mesmocapaz de dizer quandofoi que cruzei o mar do Japão.
(polymerase chain reaction — PCR), que o DNA do matsutake de Yunnan correspondia ao Então o ar começou a ficar limpo, e eu passei sobre o Japão em umasérie de rajadas. Por muito
do matsutake japonês, apesar de o primeiro, ao contrário do segundo,associar-se com tempo eu tive esperançade cair nas montanhasdo nordeste do Japão. Mas, quando passei por cima
árvores de folhas largas e a pinheiros. Assim, o matsutake de Yunnan é igual ao matsu- de lá, eu pudesentir o cheiro: césio radioativo. Fungos nãose dão tão mal com radioatividade, a me-
take japonês. Mas seu superior, “Dr. B”, objetou. “Depende da pergunta que você faz”, nos em curto prazo. Nós a absorvemos com nossos nutrientes, nós crescemos com ela. Mas ela causa
ele explicou. Poderiam esporos de matsutake de Yunnan acasalar com esporos de mat- mutações em nós assim como em vocês. Fica feliz de não ter parado.
sutake japonês, produzindo fungosviáveis cujos esporos, por sua vez, também seriam
viáveis? Ninguém sabe, ele assinalou, e são exatamente questões como essa que fazem Acabei de ultrapassar a Ásia, e estou agora sobre o Oceano Pacífico. Oh! Eu nunca ouvisobre alguém
de minha espécie que tenha vigjado tão longe. Claro, nós ouvimos histórias sobre primos que vivem

81
a diferença entre a vida e a morte em paisagensreais. A identidade entre espécies de-
pende de que questionamentos são feitos: um pensamento stratherniano. Como Stra- em terras americanas e além, mas eu nunca soube o quantodisso era mito.
Subitamente, sinto-me ao mesmo tempo amedrontadoe exaltado. Chegarei ao outro lado, e saberei mercantilizam seu trabalho bem como participam de trocas entre parentes nas
o que fazer se conseguir chegar? Conhecerei osfungosde lá - e eles me reconhecerão como um dos montanhas(Strathemn, 1985). Paisagens mais que humanas são cheias defiguras deste
seus? Eles me ajudarão com minhatransição de um esporo para um eu multicelular, multinucleado? tipo. Por exemplo, pode-se considerar como diferentes florestas de matsutake em cada
Estou preenchido com umasensação de minha inexperiência. O que eu conheço de outrasflorestas, lado do Pacífico emergem em conjunturashistóricas. Nesses momentosdejustaposição,
outrosfungos? comparação e história simultaneamente se opõem e crescem umas sob as outras como
fungos micorrízicose raízes.
Masse as coisasfuncionarem, imagine: eu posso ser o primeiro em séculos, talvez milênios, a cruzaro
oceano e sobreviver! Minha história ficará marcada nashistórias dosfungos. Eu darei origem a uma Consultores norte-americanos trazidos pelo governo Meiji impulsionaram o
linha de brilhantes sucessores, cada um carregandoas experiências de continentes separados. Eu sou reflorestamento com pinheiro vermelho no Japão central, colocando assim em ação a
um explorador. Eu estoulevandoa indeterminaçãoa seus limites. Permita-me ceder a este momento estética paisagística tipicamente “Japonesa” das áreas florestais das aldeias do século
incomum de orgulho antes que eu tenha de voltar a ser “apenas” um esporo. Além disso, eu tenho XX, com seu cultivo não intencional de matsutake. O abandono por meio século só
muitos dias antes de precisar me preocupar com meurelógio biológico. tornou essas paisagens tradicionais mais estimadas,e ao final do século, conservacionistas
japoneses estavam prontos para desafiar a estética selvagem americana, afirmando que
Pensando sobre paisagens geograficamente dispersas, encontro-me poderosamente
a biodiversidade floresce melhor em florestas culturais apreciadas pela perturbação
atraída pela história. Comoas coisasse tornaram dessejeito lá, ou ali? Talvez essaatração
humana, Diferenças entre paisagens americanas e japonesas emergem aqui — mas
surja de uma das mais profundas surpresas de meu trabalho de campo entre os dayaks
também diferenças internas. Um carregamento de toras de pinho Americano no
do Bornéu indonésio: paisagens são sempre históricas. Onde eu via uma encosta
começo do século XX involuntariamente trouxe o nematódeo murcha-pinheiro
verdejante, eles me ensinaram a ver um palimpsesto de movimentos humanos e não
(Bursaphelenchus xylophilus) para o Japão, resultando ao final do século na morte de
humanos: uma biografia comunitariamente entrecruzada (Tsing, 1995, 2004). Agora a
muitos dos mesmospinheiros vermelhosqueos consultores americanos recomendaram
história é como uma comichão para mim ao estudar paisagens: ela estimula a necessidade
que os japoneses plantassem (Suzuki, 2004), Até recentemente eu teria dito que se as
derastrear detalhese reunir histórias.
reivindicações japonesas de promoção de um modo “japonês” de sustentabilidade
Mas quetipo de prazeres na história poderia Strathern tolerar? Para Strathern, a história histórico-mundial não dessem certo, seria por causa daquele nematódeo miserável.
como umaexplicação é só outro rodeio para evitar fazer um acordo com os aparatos de Mas agora se assomam problemas maiores. Concebido na sobreposição entre
pensamento. Afinal, a história não toma comocertasas sequências direcionais por meio capitalismo “de casino” internacional e o sigilo do Estado, havia esse reator americano-
das quais conhecemos o tempo? Em vez de dar explicações por meio da história, Japonês de baixo custo, que quebrou e expeliu radioatividade por sobre as paisagens-
Strathem se esforça para justapor o que pode ser considerado o velho e o novo, modelo reconstruídas no nordeste do Japão (Fujioka e Krolicki, 201%).
trabalhandoa partir de suas discrepâncias.
Enquantoisso, no outro lado do oceano,a decisão do Japão de importar madeira barata
Contudo, há um lugar para a história nessa prática: a história pode ser o mise en scéne da China e do Sudesteda Ásia nofinal do século XX fez decaírem os preços da madeira
através do qual práticas discrepantes são reunidas. Nãoé o fluxo dahistória queinteressa americana do noroeste do Pacífico, levando madeireiras a abandonarem a região e
aqui, mas o súbito afloramento de uma oportunidade contingente para justaposições esvaziando, assim, os fundos para reposição de árvores. As florestas nacionais das
estranhas. O trabalho de Strathem é cheio de figuras que incorporam as interrupções Cascades orientais ficaram debilitadas a um estado de capacidade de gerar pouca

83
culturais de seus tempos, como os empregados domésticos de Port Moresby, que madeira utilizável, mas o fogo ainda não estava presente (Robbins, 2010). Isso se revelou
uma excelente, ainda que involuntária, oportunidade para o matsutake. O boom
econômico do Japão nofinal do século XX fez os preços subirem, o que Bang! Onde estou? Eu pousei, sob uma grande gota de chuva. Agora é tempo de meestender, de
atraiu milhares de coletores de matsutake paraa floresta e, ao menospor crescer, de encontrar meu parceiro. Mas que superfície é essa na qual estou? Isso não é solo, é uma
um tempo, o matsutake valia mais que madeira (Alexander et al, 2002). rocha. Eu já estou crescendo; eu tenho que descer. Essa não é uma pedra muito grande. Eu posso
Mas esse é o matsutake “americano” em mais de um sentido, e o debate sentir 0 solo; ele está a apenas uns poucos centímetros. Por todo o meu redor ufa! está o cheiro de
sobre seu status no Japão continua. matsutake. São meus amigos e família, tão perto que eu quase posso tocá-los. Tudo que tenho que
sinto o
Tudoisso não “explica” nada, mastalvez possa prover um pano de fundo fazer é sair dessa rocha.
1
para considerar práticas de comparação — japonesas e americanas — nos A chuva parou. Algumabrisa leve irá me levar pra baixo agora. Infelizmente, eu destizei para dentro
natsutake.
dois lados do Pacífico. De que maneiras os matsutakes americanos e de uma pequenafenda, e está úmido aqui.Isso torna mais difícil. Mas eu não sou alguém que desiste.
1parte,
japoneses são diferentes — ou iguais? Histórias de paisagem abrem as Aquieu estou germinando, eu não vou desistir agora. Eu chegarei ao chão. Eu vou acasalar e criar
n bom
discussões nas quais tanto comparações acadêmicas quanto as de nossos uma nova vida. Haverá umabrisa forte, eu sei. Isso não pode parar aqui. Escute, um pássaro pousou
e
informantes surgem se agitam. nas proximidades. Talvez seus passos me coloquem para fora daqui. Eu sei que vão. Eu encontrarei o
sorou.”
solo. Eu posso esperar um pouco. Eu sei ser paciente. Noite agora, agora dia: não importa. Eu apenas
Eu consegui! Eu estou sobre a costa americana. Eu estava preocupado, com nada
esperarei até ter minha oportunidade. Eu vou. Eu vou. Eu vou criarnova vida nesse continente. Eu vou.
abaixo de mim por tanto tempoexceto cristas de ondas e gaivotascirculando, e meus
dias remanescentes indo emborasilenciosamente. Mas os ventosdacorrenteociden- Numa tragédia, a morte de um protagonista permite ao leitorrefletir sobre como a
tal têm sido certeiros, e agora estou sendo soprado terra adentro, sobre fazendas e pequena força que é a vontade de alguém é frequentemente frustradapelos fatos.
cidades. Agora uma corrente ascendente: estou subindo acima de uma cadeia de Numahistória de detetive, a morte do protagonista abre um mistério, estimulando uma
montanhas, e agora descendo, e abaixo de mim estão os pinheiros, amados pinheiros. chuva de questionamentos. Qual deles será?
Euespero pousar nesse lugar. Pense em todas as árvores que vou conheces, semfalar
de outras espécies. Haverá ursos? Tenho certeza de que algum esporo a germinar
meufuturo companheiro,já está me esperando. O desejo de sentir o solo novamente
brota em mim. Crescerei nesse novosolo e traçarei novaslinhas de conexão, minha
história e a deles.

Sim, umacorrente descendente, e ainda uma chuva refrescante. Conformecaio, sinto o


cheiro: o aroma temperado do matsutake. Está portoda a parte, esse deve ser um bom
lugar O odor me envolveu e revigorou. Essa terra deve estar cheia de matsutake. Me
juntareia eles, um verdadeiro cosmopolita.

Chuva. Estou dilatando conforme caio. Não sou um esporo murcho e moribundo.
Ainda estou saudável e agora pronto para germinar. Sim, germinarei aqui, entre
oportunidades americanas. Eujá sinto meuinterior desenvolvendo-se, pronto para

85
enviar hifas exploradoras. A sensação é boa, Eu já posso provar aquele solo forte e
novo em minha imaginação.
i
[
i ' TAL fio

OCUPE AS RUÍNAS

Ocupe Fukushima — todas aquelas ruínas em que ainda devemosviver. Ocupar é


dedicar-se ao trabalho deviverjuntos, mesmo ondeas probabilidades estejam contra
nós. É recusar — e também se recuperar Se quisermosviver, devemosaprender a ocu-
par até os espaços mais degradados da vida na Terra. Nossa raivaé necessária. Sem
isso, nós definhamos.

Em uma chamada dealerta para a vida na Terra, a Usina Nuclear de Fukushima |, um


produto comercial norte-americano-japonês de baixo custo, espalhou radioatividade
em todoo nordeste do Japão, posteriormente alastrada porforças estatais, comerciais
e geofísicas, para mais longe queisso. Como vamos viver nessas ruínas? No mínimo,
devemos ocupar, ocupare ocupar. (Para participar de uma pequena ocupaçãojaponesa
da imaginação pública pós-Fukushima, escreva um mini ensaio para os editores Naito, et
al. Para veras estrelas mais umavez, dnaito (Dgrmailcom)

Ocupar comida. Entre os desertos monocultores e sepulturas de agricultura industrial e os


lábios impacientes dos consumidores repousao sinal da ruína de nossos tempos: nossas
cadeias de suprimento dealimentos mortais. No entanto, na última década, as mobiliza-
ções populares, da alimentação saudável ao comércio justo, tiveram um sucesso impres-
sionante em mostrar que essearranjo é inevitável: nós podemosfazer a diferença. Polí-
ticas alimentares estão sob observação; sistemas alimentares alternativos estão
florescendo. Nós temos uma chance: ocupar a comida.

8
1 Origina! publicado em: Occupy the ruins. Society and Space, Quebec, 18 now 201. Online, Disponível
em: hitp://societyandspaceorg/.'2011/n/18/occupy-the-ruins-anna-tsing/
Àsprincipais características do movimento de Ocupação (Ocuppy) também podem ser
vislumbradas aqui, tais como a enorme diversidade de pessoas e causas e nossa capaci-
dade de formar conexõesfortalecedoras entre continentes, culturas e espécies. De se.
nhoras idosas com seus cartazes bem impressos a garotos rastafári desaforados; de
abraçadores deárvoresa tecnomaníacos; da propaganda pela ação ao Ocupe o Con-
gresso (Occupy Congress): traga todos.

Ocuparboa fortuna. Em um mundocolonizado pelo espírito empreendedor, é difícil sa-


ber como resistir “Não ganhe dinheiro” dificilmente funciona, e “Ganhedinheiro (nosso
Jeito)” é aindapior. Mas ainda não há um lugar para outros tipos de fortuna — a atração
pela curiosidade; o prazer detrabalhar com estranhos; o mistério do mundo em toda a
sua exuberância selvagem? Quandoa segurança e o dinheiro são o senso comum de
todos, ficamos entorpecidos. Ocupe o familiar. Recuse e recupere a vida cotidiana.
Aprenda mais idiomase pratique outras formas de dançar. Lançar nossa fúria contra o
senso comum;alcançar o queeles dizem que não podemoster: o comum.

No YouTube é possível assistir a um vídeo sobre a evacuação de Fukushima, e o que se


vê são cidades normais e hortas — e o alarme do contador Geiger soando.

https://youtube/yp9i)3pPuL8

89
EMMEIO À PERTURBAÇÃO:
SIMBIOSE, COORDENAÇÃO,
HISTÓRIA E PAISAGEM

O queseria necessário para construir uma antropologia de habitabilidade mais que hu-
mana? Os termos no meu título têm sido ferramentas em minhastentativas de respon-
der a esta questão. Cadatermo tem suas próprias possibilidades. Cormeçarei com sim-
biose, que então melevará ao que se pode chamarde “biologia substantivistas”. É o
que me permite tentar reviver a paisagem como uma protagonista. Isto é desafiador;
demanda novas convenções de gênero e este ensaio explora algumas. Na maior parte
deste ensaio, me deterei em paisagens animadas nas quais humanossão parte de mutu-
alismos que fazem muitas formas de vida prosperarem. Precisamos de mutualismos
multiespécies para sobreviver. Termino com os terrores de coordenações rompidas e
paisagens de não habitabilidade: isto se refere também à antropologia.

PRIMEIRO:SIMBIOSE REQUER ALGO MAIS


O convite paratratar de "antropologias simbióticas”, tema do encontro da Association of
Social Anthropologist (ASA) em 2015, foi uma oferta que não pude recusar. Tenho traba-
lhacio com simbioses biológicas, particularmenteentre fungos e árvores, há alguns anos
en-
(Tsing, 2015). Entendo que, no tema da reunião da ASA, simbiose é compreendida
quanto metáfora, envolvendo questões de colaboração, mas isto só tornou a proposta

”M
meio à perturbação: simbiose, coordenação,história e paisagem. Em Saby 1 Original publicado em:In the midstofdisturbance: symbiosis, coordination,history landscape. fa: Associa-
tion of Social Antrhopologists (Asa) Annual Conference 2015, 13-16 abr: 2015, University of Exeter.
PASSAS
nãoplanejadas estabelecem novas coordenações. É o “algo mais” quetorna isso possí-
Yy mais convidativa. Estou dirigindo um programa envolvendocolaborações
entre pessoas das humanidades e das ciências naturais? então mutualis- vel. Capacidades inesperadas se desenvolvem. Isso tem sido fundamental na evolução
mos transdisciplinares têm sido importantes para mim também. E o as- das simbioses biológicas. Somos todos “algo mais” debactérias, que brincaram com di-
sunto de nossas colaborações é o mutualismo multiespecífico que faz versas formas de sobrevivência e se saíram bem como extensões simbióticas multicelu-
umaterra habitável — então é outra simbiose metafórica. Simbiose tem lares. É igualmente fundamental nas simbioses metafóricas que mencionei — colabora-
2 de reunir sido um tema muito caro a mim para recusar. ções entre tradições de conhecimento, por um lado, e paisagens multiespécies
biólogos, habitáveis, por outro.
Quando a proposta converteu-se em uma conferência em honra de
mregrase
Raymond Firth, só tornou a oportunidade mais convidativa. Lembro-me Em meu projeto de reunir antropólogose biólogos, não comecei com regras e planos,
icomo
de quando li pela primeira vez Malay Fishermen, deFirth (1975), juntamente mas sim com o “algo extra” que emerge — esporadicamente e em seupróprio ritmo —
e emerge
com Housekeeping amongMalay Peasants, de Rosemary Firth (1966), quando de compromissos comunse leituras comuns.Tanto os biólogos quanto os antropólogos
ante e em
me preparava para a seleção de pós-graduação no sudeste da Ásia. Estes do grupo se preocupam com observações empíricas e trabalhos de campo,e isso faz
no-de
livros eram tão ricos de detalhes etnográficos! Eu estava encantada — e diferença. Por meio dessas técnicas, cada um de nósvai observando as coisas aconte-
omuns e
.”
inspirada a prestar atenção à etnografia. Até hoje, continuo a achar que a cendoe, nessas observações, quando temossorte, surgem preocupações mútuas.
descrição etnográfica é o dom mais importante de nossadisciplina. Muito O projeto surge da observação, não dosrequisitos de uma filosofia unificada.
tempo depois que os quadros teóricos de que somos tão orgulhosos em
A conjunturahistórica que torna isso possível é nossa preocupação compartilhada com
inventar forem para a lata delixo, a descrição etnográfica permanecerá
a diminuição da habitabilidade da terra, que cada vez mais e mais é reduzida a recursos
viva. O “algo mais" nessas descrições — para além do argumento teórico
para processos industriais e acumulação capitalista. Uma maneira de abordar essasim-
= inspira novos pensamentose novos argumentos. Apesar de toda a pres-
plificação industrial mundial, com seusefeitos colaterais letais, é falar do Antropoceno,a
são sobre nós para nos tornarmosfilósofosinstantâneos, o legado desse
época proposta em que o impacto ambiental causado pelo homem excede o impacto
“algo mais”é algo que devemoslutar para preservar.
causado pelo recuo das geleiras, que identificou a época anterior, o Holoceno.Preocu-
Algo mais é a chave parasimbiose. Uma vez que o mutualismo pareceser pações sobre o Antropoceno possibilitam novas conversas entre pesquisadores dasci-
tão bom, muitas pessoas que não se dedicaram a pensarnisso assumem ênciasnaturais e das humanidades, que podem interromper umaera anterior, em que as
que seja fácil - como se Deus apenas pretendesse que as coisas fossem portas entre as ciênciase as humanidades eram fechadas. Eu entendoas preocupações
assim. Na verdade,lidar com os outros, seja humano ou não humano, é que fecharam essas portas. Fui formada nessa época e participei da crítica da ciência.
frequentemente brutal e hierárquico, ou ambos. Quando o mutualismo Masagora, penso eu, outra coisa é possível: uma nova mutualidade baseada em interes-
se desenvolve, é um pequeno milagre e nada pode ser dado comocerto. ses comuns na habitabilidade.
Isso raramente é planejado. À simbiose se desenvolve em umainesperada
Para desenvolver esse mutualismo, no entanto, nósantropólogostalvez tenhamos de de-
conjuntura histórica; ela emerge dasituação, à medida em queas partes
sistir de nossajustificada defensiva ao lidar com cientistas naturais. Estamos acostumados
a rejeitar a ciência natural por seus errosfilosóficos ou, alternativamente, observá-la como
2 Trata-se do projeto Aarhus University Research on the Anthropocene (AURA) — um inseto sob o vidro. Nós nos esquecemos de como encontrar aliados. Quandose trata

93
Niels Bohr Professorship e Project: Discovering the Potential of Unintentional Design on
Anthropogenic Landscapes (Nota dos Editores), de cientistas ambientais, nós apontamos nossos dedos para eles: “Vocês são apenas
a perturbação é principal-
apocalípticos”, dizemos. No processo de nos distinguirmos dos cientistas naturais
nos humanos com mau comportamento. Maspara um ecologista,
fazê-la — isso não é necessaria-
tornamosconservadores ambientais. É hora de mudar. Se nos preocupamos com a hab mente não humana, embora os humanos também possam
bações. Seguir his-
tabilidade da Terra, precisamosaprendernão apenas comocriticaros cientistas ambien, mente ruim. Paisagens adentram em suas histórias por meio de pertur
protagonista dinâmico e
tais, mas também procuraraliados que possam nosajudar a mudar“o mais do mesmo” tórias de perturbação é uma maneira de fazer da paisagem um
ferente.
Permitir “algo extra” em nossas conversas sobrea vida na Terra é um passo fundamental umaprática de coordenações multiespécies. Mas, primeiro, algo um poucodi
Paraos antropólogos, isso pode começar com o reconhecimento de que osseres huma-
A
SEGUNDO: O VELHO DEBATE FORMALISTA-SUBSTANTIVIST
nos são incapazes de sobreviver sem outras espécies. Somosseres dentro deteias ecoló-
gicas e nãofora delas. Paisagens multiespécies são necessárias para sermos humanos.
RETORNOU — NA BIOLOGIA
debate for-
Paisagem: na maioria das vezes usamosesse termo para imaginar um pano de fundopara Dar umapalestra em homenagem a Raymond Firth lembrou-me do velho
Quando
a ação humana. Se nos preocupamos con a habitabilidade, no entamto, teremos que malista-substantivista na antropologia, do qual ele foi um participante-chave.
te ensinado,
descobrir como tornaras paisagens animadas, protagonistas de nossashistórias. O pro- cheguei à pós-graduação, o debate formalista-substantivista era raramen
embo-
blema não é apenas a chamada agência de não humanos.Essa formulação geralmente principalmente porque ossubstantivistas haviam se sobressaído na antropologia,
a reinar. Ima-
leva a histórias de díades humanos/não humanos. Até aqui tudo bem, mas nenhuma rano restante dasciências sociais o formalismoainda reinasse — e continua
sobre isso.
diade humana/não humanavai longe o suficiente ao fazer a habitabilidade mútua de gino que a maioria dos meusleitores tenha apenas uma vaga lembrança
todo um conjunto de organismos que precisamos para sobreviver. Precisamosde paisa- Deixe-merefrescar suas memórias.
gens, práticas espacializadas de habitabilidade. A formulação dada pelo geógrafo Kenne-
Formalismo refere-se àquele conjunto de suposições que conhecemos melhoratravés da
th Olwig (1996) para a genealogia do termo"paisagemé útil aqui. No norte da Europa
economia neoclássica: indivíduos maximizam custos e benefícios para seus interesses e,
lembra-nos Olwig, a paisagem foi definida em encontros nos quais as pessoas coloca:
nesse processo, efeitosagregados são formados. Margaret Thatcher articulou uma famo-
ram a questão em debate e a tornaram umacausa comunitária. Minhas paisagens são
sa versão particularmente forte em 1987:"Quem é a sociedade? Não existe tal coisa! Exis-
mareunião multiespécie, práticas das possibilidades de convivência. d Firth, que
tem homens e mulheres individuais..”2 Esse não é o formalismo de Raymon
um con-
As paisagens são assembleias trabalhando em coordenações dentro de uma dinâmica exigia atenção a metas e normas culturalmente específicas e, defato, ofereceu
smo e
nistórica. Mas acabo de apresentar mais dois termos-chave para o projeto de pensar texto etnográfico tão rico para representar os interesses individuais, que O formali
sobre isso
iabitabilidade comosimbiose: coordenação e história. Por história, refiro-meaos rastros o substantivismo começaram, convenientemente, a se fundir. Eu voltarei a falar
, que ajuda
2 sinais de humanose não humanos, a comoestes criam paisagens. Uma das formas de depois. Mas deixe-me ficar primeiramente coma caricatura vívida de Thatcher
ie observar o que antropólogos e biólogos podem fazer juntos é assistir paisagensse a explicar por que meus professores achavam que tinham algo diferenciadoe útil quando
:riando por meio de rastros e sinais humanose não humanos. Coordenação é umalen- me ensinaram antropologia coro substantivismo: aprendi que os indivíduos somente
e para observaros organismosinteragirem uns com os outros. Simbiose— assim como surgem, quando o fazem, comoefeito de processos sociais. “Interesses” são produtos cul-
pro-
:ompetição, predação e outras relações interespecíficas-- requer coordenação.Prestar turais efêmeros que emergem de determinadas conjunturas históricas, em vez de
tenção às temporalidades das paisagens permite-nos observar sua dinâmica intersticial. priedades essenciais das unidades autônomas que Thatcher chamou de “homens e

95
i . : . o
| um
ais « antes deP passar para
termo ocu-
Entrevista para a revista Women's Own. Disponível em: Inttp://wrwymargaretthatcherorg/d
pai outra istóri
história: perturbação. Humanistas, entre os quais
3
1Cluo a! tropólogossociais, equentemente ir aginai que “perturbação” retira-se à seres ment/106689
mulheresindividuais”. Em vez de serem as unidadesbásicas de análise, indivíduos
e inte- individuais não são autônomos.A princípio, eles pensaram que eram apenas alguns or-
resses são efeitos da sociedade baseada em relações. Maximizar os interesses
de alguém ganismos — mas cada vez mais se está percebendo que é comosetodos os organismos
só faz sentido dentro de cenas culturais e políticas nas quais os interesses surgem
tal qual precisassem de outros organismospara seu próprio desenvolvimento e, em muitos ca-
uma aplicação financeira. Na época em que fui instruída, o surgimento
de mundos so-
sos, organismos de outras espécies. À lula bobtail havaiana tem sido um exemplo dessa
ciais, e nãoa disputa deinteresses, era o material da antropologia social
e cultural. Essali- abordagem, porque desenvolve um órgão luminoso que ajuda a evitar os predadores
nha de pensamento ainda é hegemônica em nosso campohoje.
(McFall-Ngai, 2008). Maso órgão daluz só existe quandoa lula encontra um tipo parti-
iu tragoessa linha de pensamento não para cesafiá-la, mas para usá-la para mostrar cular de bactéria na água do mar; as bactérias e a lula, trabalhando juntas, desenvolvem
um
tebate paralelo que está energizando o campo da biologia. Ninguém o chamade “de- o órgão da luz. Quanto rrais osbiólogos observam, mais comuns parecem ser os mutu-
»ate forrmalista-substancialista”, mas os paralelosestão aí — e eles podem nos
ajudaren- alismos necessários. A grande borboleta azul na Inglaterra exige formigas paracriar suas
juanto antropólogos a apreciar esse campoalém da rejeição estereotipada da larvas (Strickland, 2009). Mesmoosseres humanos, antes tão orgulhosamente indepen-
“ciência”
omo um objeto unificado. Se quisermos encontraraliados, precisamos conhecer os dentes da “natureza”, são agora entendidos como parceiros simbióticos de bactérias
lebates. Considere primeiro os formalistas: em biologia, eles são chamad
os neo-darwi- que permitem processos corporais humanos, comoa digestão. Comodisse um grupo
tistas. Essa perspectiva surgiu no século XX, a partir da fusão da teoria evolucio de biólogos do desenvolvimento, “jamais fomos indivíduos” (Gilbert, Sapp e Tauber,
nária de
Jarwin e dodispositivo da herança genética. Lembre-se de que Darwin não conhecia 2012). Eles argumentam quea evoluçãoselecionarelacionamentos, não unidades individu-
a
enética. Foi necessária a redescoberta dos experimentosdeervilha de Mendel do co- ais, em qualquerescala. A simbiose não é uma aberração estranha da natureza, mas uma
3eço do século XX para começar se estabelecer um mecanismo de heredita característica básica do processo evolutivo. Esta é umabiologia substantivista porque
riedade.
so inaugurou o queficou conhecido comoa síntese moderna. A evolução e a heredi- nos mostra organismos emergindo derelações, em vez de preexistentes comoindivíduos
ariedade foram associadas por meio da atenção à base genética da seleção evolutiv autônomoscom interesses próprios. Esses biólogos estão cientes de que estão atacan-
a.
- principal disciplina no coração dessa abordagem é a biologia populacional. Até onde do as premissas básicas da síntese moderna do século XX e do neodarwinismo. Seu
«sea biologia populacional se formou independentementeda economia neocláss ponto departida, no entanto, não é cosmologia, masas descobertas empíricas de como
ica,
tas o mesmoclima dafilosofia utilitária moldou cada umadelas. Os paralelos são for- os organismos se desenvolvem. Sua abordagem é “eco-evo-devo”: biologia ecológica,
's. À análise exige unidades de aplicação autônomas. Em contraste com a economi evolucionária e do desenvolvimento? (Gilbert e Epel, 2008).
a, os
ólogos imaginam essas unidades em escalas variadas, como populações, organis
mos Na parte “eco-evo” deste universo, mas sem o “devo”, outra abordagem é mais popu-
dividuais e genes. No entanto, em cada escala, as uniclades autônom
as competem lar; a teoria de construção de nicho (Odling-Smee etal. 2013). A teoria da construção
ira maximizar seus interesses, criando, no processo,efeitos agregados,
incluindo quem de nichos argumenta que os organismos funcionam como engenheiros de ecossiste-
ve e quem morre a longoprazo. O “geneegoísta”de Richard Dawkins (1990) é exem-
mas, ou seja, mudam seus hábitats para torná-los mais vantajosos. Os castores constro-
ar. Aptidão, medida por quem deixa o maior número de herdeiros, é o resultad
o da em represas e alojamentos, redirecionando a água e a terra. As minhocas perturbam o
mpetição entre unidades autônomas.
solo e reciclam seus componentes. Quase todos os organismos, ao que parece, trans-
sa foi a linha hegemônica nabiologia durante a maior parte do século XX. No século formam os hábitats à sua volta. Esses mundos redesenhados, porsua vez, tornam-se os
£, no entanto, várias abordagens contrastantes foram sugeridas, e elas caminh habitats em que tanto os membros de uma mesmaespécie quanto de outras espécies
am para
*er O que eucreio que posso chamar de umaintervenção “substantivista”

97
. Assim, gra-
tivamente, os biólogos do desenvolvimento descobriram que os organi
smos 4 Nooriginal: "ecological evolutionary developmental biology”.
vivem suas vidas e se reproduzem.A evolução, argumentam os teóricos da construção rede de Hartig, e não é nem árvore nem fungo, mas ambos. Árvore e fungo transfe-
denicho, trabalha através desses ambientes continuamente refeitos. Ao reconfigurar rem nutrientes pela rede de Hartig; além disso, o fungo podeestendersua transferên-
hábitats, os organismos moldam a evolução de outros organismos, incluindo outras cia de nutrientes por várias árvores separadas umas das outras. Algumas árvores,
espécies. Em vez de unidades de evolução autonomamenteinteressadas, temos rela- como os pinheiros, têm raízes especiais que só se desenvolvem quando encontram
ções quecriam paisagens multiespécies. Alguns bons exemplos envolvem pessoas. Por fungosapropriados. Este é um exemplo clássico de simbiose biológica. Organismos
pelo menos 400.000 anos, os forrageadores hominídeos modificaram suas paisagens tornam-se apenas em relação.
através do fogo (Smith, 2011). Plantase animais quese dão bem com o fogo prospera-
Asimbiose também tem um efeito extraordinário, uma façanha de engenharia ecológica
ram, e sua evolução subsequente ocorreu em paisagens alteradaspelo fogo. Essa é uma
e construção de nicho. As florestas, de acordo com a pesquisadoraLisa Curran, são efei-
ecologia substantivista: paisagens surgem em processos históricos; osinteresses e os
tos das conexões fungo-raiz micorrízicas (Curran, 1994). Vocêjá se perguntou por que
indivíduos que emergem dessesprocessos são consequências da formação de paisa-
algumasárvores, como carvalhos e pinheiros, formam florestas, enquanto outras, como
gens multiespécies.
macieras, são indivíduos isolados, a menos que vocêas plante juntas? Árvores formadoras
Minha intenção ao rotular esses desenvolvimentos como “substantivistas” é chamara deflorestas têm fungos ectomicorrízicos que lhes permitem competir com outrasplan-
atenção para umadistinção entre essas práticas narrativas e aquelas desenvolvidas sob o tas, formando,juntos, suportes arborizados. Uma vez quea floresta surge, ela forma um
rótulo substantivo da antropologia. No entanto, os biólogos substantivistas nãorejeitam hábitat para muitas outras espécies, incluindo animais. Há sombra e comida, padrõescli-
genes, organismose populações comoatores na história evolucionária. Os que eu cha- máticos modificados, para nãofalar de frutas e nozes, e tudoisso influencia as trajetórias
mode substantivistas querem ver comoos genes, organismos e populações emergem evolutivas das espécies que vão morarlá. Isto é uma construção denicho, assim como
- e, então, comoeles negociam a sobrevivência e a continuidade histórica. Este é um umasimbiose.Paisagensflorestais são emergentes nas relações multiespécies.
substantivismo que nos devolve à predação, competição e extinção. Mutualismos não
Osseres humanos podem fazer parte das relações multiespécies nas florestas. (E aqui,
nosisentam dessas dinâmicas; em vez disso, eles nos mostram como elas funcionam.
com toca a estranheza de uma norte-americana escrevendo para um público inglês,
Não há holismo cosmológico emergindodetais cenas. Talvez o formalismo etnografica-
mudo de terminologia. Até agora useia palavraforest, floresta, para mereferir a ecossiste-
nente rico defendido porFirth seja um antecessor proveitoso das ecologias substanti-
masbaseados em árvorese fungos. Agora eu vou usara palavra woodiand, mata, para me
ras dos nossos tempos.
referir a paisagens que incluem árvores. Para os norte-americanos, qualquer coisa com
-om além deFirth, estou argumentando que a biologia substantivista produz bons árvores é uma “floresta”, mas a florestainglesasignifica algo diferente; envolvedireitos. Eu
lliados para antropólogos sociais e culturais. Enquanto estivermos abertos a incluir opto por mata então). Até a introduçãode fertilizantes químicos, osagricultores huma-
elações multiespécies nos mundossociais e culturais que estudamos, temos muito nos dependiam das matas para fornecer nutrientes para seus campos, seja deixando os
em comum. Tanto o eco-evo como o eco-evo-devo têm sido ótimos para ampliar animais pastarem nas matas e transferindo esterco para os campos, como na Europa, ou
ninha pesquisa e meu pensamento.Para ilustrar as possibilidades de aliança, então, usando estrume verde ou carvão diretamente nos campos, como em várias partes da
leixe-me passar para osfungos — e as florestas queeles ajudam a fazer. Eu tenho es- Ásia. As matas também eram fontes de muitositens de subsistência, incluindo lenha, fru-
udado um membro do grande grupodos fungos, que faz conexões especiais com as tas e nozes, comoacabei de mencionar. Os camponeses estavam preocupados em man-
aízes das árvores. Os fungos ectomicorrízicos se enrolam nas bainhas ao redordas teras florestas e os campos em um relacionamento. Mas parece-me menospreciso dizer

99
aízes das árvores receptivas e enviam suas hifas entreas células daraiz. Juntos, árvore queos camponeses produziam matas sustentáveis do que dizer que as matas produziam
hifa formam um novo órgão, distinto por sua colaboração, o qual é chamado de camponesessustentáveis. A contínua regeneração das matas permitia aos camponeses
cultivar, alimentar seus rebanhose encontrarcoisas de que precisavam. Quandoos cam-
pos foram abandonados, as matas se expandiram, regenerandoa biodiversidade campo-
nesa. Às matas deram aos ecossistemas camponesessua longevidade. Esse é o tipo de,
simbiose da paisagem que mencionei no começodeste artigo como um dos meus obje-
tos de estudo. As matas representam umapaisagem multiespécie em queosseres huma-
nossão umadas partes dessas coordenações multiespécies assim comodosregimes de
perturbações através dos quais as assembleias florestais criam habitabilidade continua-
mente. Permita-me então, com a ajuda de eco-evo e eco-evo-devo, transformarpaisa-
gens em vigorosas protagonistas de nossas histórias.

Volto ao meutítulo: “No meio da perturbação:simbiose, coordenação,história, paisa-


gem”.Eu trabalhareiostrês tipos de simbiose quesão o tópico deste artigo: primeiro, a
simbiose biológica, aqui entreraízes de árvores e fungos; segundo, o pensamento cola-
borativo entre ciências naturais e humanas, aqui em histórias humanas e não humanas
entrelaçadas; e, terceiro, O surgimento de paisagens de habitabilidade multiespécie.

TERCEIRO: AS MATAS CAMPONESAS MANTÊM A FIGURA 1 - Floresta Satoyama,Prefeitura de Kyoto. Foto da autora.
HABITABILIDADE POR MEIO DE ASSEMBLEIAS DE
Pelo fato de satoyama ser um conceito para mobilização e restauração, há certo essen-
COORDENAÇÕES
cialismo estratégico em seu coração. Seus defensores comparam as paisagens arboriza-
Nesta seção, eu extraio umailustração de um artigo que estou escrevendojuntamente
das reais ao satoyamaideale trabalham pararestauraras características dessa paisagem
com a artista Elaine Gan, na qual nós exploramosa coordenação como umprincípio das
ideal. Há algo como um diagrama em satoyama -— isto é, um esboço simplificado com
assembleiasflorestais (Gan e Ting, 20157). Nosso artigo apresenta a mata japonesa de
partes que se encaixam. É essa característica de satoyama que meinspirou a trabalhar
satoyama como um diagramade coordenações. Satoyamarefere-se à paisagem campo-
coma Elaine Gan para representar as coordenações por meio de umasérie de desenhos
nesa tradicional como entendida porseus defensores contemporâneos, os quais gosta-
a nanquim. Para Gan, o uso do diagramabaseia-se em sualeitura do filósofo Gilles De-
riam depreservare restaurar essa paisagem porrazõesestéticas, ecológicas, pedagógi-
leuze. Nós duas pensamos que o diagrama poderia ajudar a transmitir a vivacidade das
cas e de subsistência. Satoyama inclui campos de arroz, caminhos, jardins, canais de
assembleias mostrando satoyama como um conjunto de elementos móveis, cada um
irrigação florestas plantadas, bem como matas. Mas as matas, entendidas como uma
criando possibilidades de viver para os outros.
composição de formas humanas e não humanas devida, é o coração do conceito. As
matas estão ameaçadas em grande parte do Japão pelo abandono do campo diante do Osdesenhos que Gan fez mostram os elementos-chave em nossa análise da seguinte
rápido crescimento econômico do Japão. Os defensores de satoyamagostariam de tra- forma: ela começou com fotografias do meutrabalho de campono Japãoe selecionou
zer a população urbana de volta ao campopararestauraras ecologias vigorosas que eles as partes que mostravam a nossa história por meio delinhas em tinta preto-e-branco

101
associam com eras anteriores de subsistência camponesa. (ver Figura 2) Inicialmente, imaginei a coordenação entre modosde vida multiespécie
como uma fuga, ou seja, uma composição musical na qual cada parte representa uma: espaços florestais perturbados. Eles exigem sol e solo mineral para germinarem,e não se
melodia independente e os ouvintes devem acompanhar os momentos em que essas - dão bem em florestas latifoliadas de dossel fechados. Eles prosperam com perturbações
partes criam um efeito entresi. Em contraste com O batimento unificado do rock and rol, humanas, com o fogo, limpezae até erosão. Quando a madeira é cortada, deixando as
colinas “carecas”, o pinheiro é a primeira árvore a repovoaressascolinas. Mas o pinheiro
tão, são umaespécie de partitura musical na qual trabalhamos para perceber como & só pode fazer seu trabalho associado aos fungos, que ajudam a árvore a encontrar água
funcionam as justaposições temporais a que chamamos de coordenações. Destacamos e nutrientes mesmo em solos descobertos.
o trabalho colaborativo de quatro grandesparticipantes: pinheiros; cogumelos matsu-
take, um associado simbiótico do pinheiro; carvalhos decíduos; e agricultores humanos.
Estes quatro constroem umaarquitetura para as matas de satoyama nas quais muitas
espécies podem prosperar. Os defensores de satoyama enfatizam a importância de ou-
tras plantas quesão viabilizadas por essa arquitetura, tais comoflores silvestres de pri-
mavera, arbustos de azaleia e bordo-japonês-vermelho. Eles também se preocupam
com osanimais quese saem bem nesta composição, incluindo coelhos, raposas, sapose
pássaros. No entanto, osquatro elementosque escolhemostêm um papel especial para
tornar possível essa assembleia multiespécie. Deixe-me apresentá-los.

FIGURA 3 — As micorrizassão órgãos articulares dofungoe da árvore. Mudas de pinus com


micorrizas são mais bem-sucedidas. Desenho de Elaine Gan.

Isso é umasimbiosebiológicano sentidoestrito do termo.Ospinheiros formam estru-


turas de raízes especiais chamadas “raízescurtas” para fungos micorrízicos; se não en-
contrarem osfungos, as raízescurtas são mortas. Os fungosprecisam das árvores como
fonte de alimento.Juntos, pinheiros e fungos definem-see fortalecem-se mutuamente
e tornam possível a expansão dafloresta em espaçosabertos.

FIGURA 2 - Pinheirosnafloresta de satoyama: um diagrama. Desenho deElaine Gan. Minhaatençãofoi atraída particularmente para os cogumelos matsutake, um cogumelo
muito valorizado — pelos humanos— no centro do Japão. Matsutake podesero violon-
Poderíamos começar com qualquer um, mas começamos com o pinheiro, tomando-o

103
celo da minha fuga. Os matsutake crescem com pinheiros nas matas camponesas. Mat-
comoo primeiro violino na nossa fuga. No Japão central, os pinheiros são seres de sutake secretam ácidosfortes que dissolvem os mineraise, assim, ajudam os pinheiros
em sua nutrição. Na região central do Japão, especialmente onde os humanoscortam
muitas árvores, ospinheiros crescem em todos os lugares, e o matsutake possivelmente
é o fungo de pinheiro mais comum. Quando era mais abundante, o matsutake tornou- !
-se a palavra genérica para cogumelo naregião de Kyoto. O matsutake é valorizado por
seu pungente “aroma de outono”. Por algum tempo,foi considerado um prazer gour-
met tão valioso que, como explicarei em breve, o manejo das matas tornou-se vantajo-
so justamente porcausa da venda dos cogumelos.

FIGURA 5 -- Investigandoas vantagensdopinheiro e seu parceiro matsutake. Desenho de


Elaine Gan.

Carvalhos também são atores importantes. Carvalhos queimam devagar e uniforme-


mente; eles produzem a melhorlenhae carvão. Camponesescortam o carvalho para
muitosfins. Mas o carvalho tem propriedades especiais que faltam ao pinheiro. Quando
você o corta, ele volta. Se você corta na base, isso é chamado de talhadia; se você cortar
os galhos, isso é chamadode desgalha. Em ambos oscasos, novas hastes emergem das
raízes e do tronco. Um carvalho com muitos caules é um carvalho quefoi cortado. Car-
valhos cortados e desgalhados são elementosestáveis nas florestas. Eles vivem por mui-
“IGURA 4 — Matsutake espalhae sustenta florestas de pinheiros. Desenho deElaine Gan. tos anos, e, quando são cortados, renascem mais rapidamente do quese procedesse o
plantio de novas mudas, Eles ajudam a estabelecer o que estou chamando de arquitetu-
às agricultores humanos também são atores fundamentais para tornarpossívelessa as-
ra da floresta — as características que a tornam hospitaleira para muitas, embora particu-
sembleia ecológica. Ospinheiros desapareceriam dos bosques centrais do Japão se não
lares, espécies florestais. O Japão tem dois tipos decarvalhos, caducifólios e perenes.
'osse a perturbação humana. Sem osanimais que são fonte de esterco para os campo-
Carvalhos caducifólios são particularmente valiosos para os camponeses, e eles formam
teses europeus, até meados do século XX,osagricultores japoneses usavam os nutrien-
um elemento-chave na arquitetura da floresta de satoyama. Ao perder suas folhas no
es das florestas para fertilizar seus campos.Eles cortavam pequenas árvores, eras e er-
inverno, deixam espaços iluminados para um sub-bosque defloressilvestres, ervas, inse-
'as e recolhiam o húmus, usando esse adubo verde em seus campos. Aolimpare arejar
tose pássaros. Elestambém coexistem com pinheiros, embora ospinheirosàs vezes ocu-
- mata, favoreciam ospinheiros e seu parceiro matsutake. Juntos, fazendeiros, pinheiros
pem cumes, enquanto os carvalhos ocupam encostas. Carvalhose pinheiros trabalham

105
: matsutake sustentavam pinhais. Os agricultores são as violas da minha fuga; violas: o
juntos para formar as florestas de satoyama; eles são osdois violinos na minha fuga.
om da voz humana.
tentes cresceram densamente, uma
Asflorestas mudaram. Os carvalhos e louros persis
-moso, queera cuida-
vez que oscarvalhos decíduos não eram mais talhados. O bambu
sos brotos de bambu, tor-
dosamente colhido todos os anos em virtude deseus saboro
ama tomou-se densa e
nou-se umaplanta invasora. A mata aberta e iluminada de satoy
ver. Sem carvalhos, pinheiros,
sombria; nem pinheiro nem matsutake poderiam sobrevi
ou a desapare-
matsutakee fazendeiros, todo um conjunto de plantas e animais começ
cer de aves e flores de sub-bosque a sapose formigas.

FIGURA 6 — Oscarvalhos cortadosjuntam-se aos pinheiros na formação da arquitetura das


florestas de satoyama. Desenho deElaine Gan.

Carvalhos, pinheiros, rmatsutake e agricultores: juntos eles criam a habitabilidade mul-


tiespécie da floresta de satoyama. Em suas construções de nicho sobrepostos, eles
abrem espaço para muitos tiposde vida. Assim também moldaram o aparecimento his-
tórico da paisagem no Japão central. Em contraste com uma partitura em uma peça
musical, essa paisagem mudava constantemente, mesmo quando esses componentes
de satoyama tornou-se
continuavam seus entrelaçamentosnoestilo de fuga. Grandestransformações, por ve- FIGURA 7 — O bambu-moso tornou-se umaerva daninha. O bosque
sombrio e escuro. Desenho porElaine Gan.
zes, produziram satoyama. A industrialização do Japão no século XIX causou umavasta
erosão florestal. Mas ospinheiros surgiram e os carvalhos sejuntaram a eles; como resul simbióticas
Simbiose, coordenação,história, paisagem: das conexõese coordenações
tado, o início do século XX tem sido frequentemente considerado o período modelo uma paisagem habitá-
do carvalho, do pinheiro, do matsutake e dos agricultores, surgiu
para se pensar em satoyama.A história faz satoyama. XX e, de fato, no final
vel, a floresta de satoyama. Satoyama foi protagonista no século
daderesiden-
Agora, os mais recentes desenvolvimentos têm desafiado essa paisagem. Na década do século produziu anseios tão fervorosos que uma mobilização apaixona
estudantes e aposentados
de 1950, muitos agricultores se mudaram para as cidades, abandonando o campo. tes urbanos surgiu para revitalizá-la. Cientistas, donas de casa,
Eles removeram ases-
Mesmoondeeles permaneceram, osfertilizantes químicos substituíram o adubo ver- juntaram-se aos trabalhadores assalariadosnosfinais de sernana.
para que os pinheiros
de e os combustíveis fósseis substituíram a lenha e o carvão. A mata de satoyama pécies invasoras, incluindo o bambu-moso, e abriram as matas
de perturbação camponesa, eles
pudessem mais uma vez prosperar. Imitando práticas

107
tornou-se menos importante para a subsistência, e foram deixadas sem aspráticas de
perturbaçãoanteriores. talharam carvalhose até removeram o húmus abundante.
bre a necessidade de recriar conexões através delas, particularmente por meio da revi-
talização das florestas. Em 2010, o Japão anunciou umaIniciativa Global para Satoyama*
Talvez isso me permita levara ideia para mais longe.

Comojá enfatizeia floresta de satoyamatem características de um ideal - um diagrama


ou umapartitura musical. Isso fica evidente em seu declínio e sua revitalização. Para ver
essetipo de floresta camponesa em umaação menos coreografada, deixe-melevá-lo
para a província central de Yunnan, na China, onde humanos, carvalhos, pinheiros e mat-
sutake têm uma paisagem simbiótica semelhante, mas sem a estética das imaginações
ideais. Aqui também, eu argumento, essas espécies trabalham juntas paracriar condi-
FIGURA 8 — Gruposde voluntários, como os militantes do matsutake, mobiliza
ram-se
ções de vida. Mas este é um cenário mais bagunçado de habitabilidade. A maioria dos
para revitalizar satoyama. Desenho deElaine Gan. especialistas e conservacionistas estrangeiros — que vêm principalmente com oshábitos
e a visão dos Estados Unidos — sentefalta de tal simbiose, e trabalham para “salvar” os
Aqui é onde matsutale faz uma nova aparição, Os defensores de satoyama querem que as
camponeses, oscarvalhos, ospinheiros e os cogumelosde si mesmos.
Paisagens que revitalizam sejam espaços de trabalho e subsistência — não apenas de
esté-
“ca passiva Os altos preços do matsutake compensam a revitalização de satoyama. Apesar
los milhões de ienesjá investidos em tentativas, ninguém sabe comocultivar o matsutak
e,
2 melhorquese pode fazer é estimular o tipo de floresta em que o matsutake gosta de
:rescer. Voluntários, como os militantes matsutake de Kyoto, fazem exatamenteisso.
Revi-
alizar satoyama traz devolta a fuga de carvalhos, pinheiros, matsutake e humanos.

FIGURA 10 Floresta da aldeia de Yunnan. Foto da autora.

Nas montanhas do centro de Yunnan,a paisagem nãoé tão diferente da do centro do


GURA 9 — Paisagem de satoyama.Foto da autora, editada porElaine Gan. Japão. Há carvalhos, pinheiros, matsutake e fazendeiros criando umapaisagem comum
— mas aqui sem intencionalidade de satoyama. Comono Japão central, os pinheiros

109
5 paisagens de satoyama incluem aldeias, camposde arroz, jardins, canais deirrigaç
ão,»
atas plantadas, bem como matas de satoyama, e os defensores têm argumentado so- 5 Mais informações sobreessa ação estãodisponíveis nosite da iniciativa: http://satoyama-initiativeorg
dos pinheiros foram cortados
desaparecem nesta parte de Yunnan sem perturbação humana. Umadife- Observe-se os pinheiros na Figura 10. Todos os ramos
ros com sementes comestíveis
rença é o tipo de carvalhos: nesta parte de Yunnan há apenas carvalhos para coletar pólen para a indústria de cosméticos. Pinhei
da terebintina. Esse é um espaço
perenes, que também são hospedeiros de cogumelos matsutake, fazendo , também têm seu cumecortado, e de outros é extraí
— se não forem devorados
o complexo carvalho, pinheiro, matsutake, fazendeiro ainda mais evidente. confuso. Quanto aos carvalhos, eles são cortados para lenha
só para a culinária humana,
Nacategoria “carvalhos”, incluo tanoaks e chinquapins, que se comportam pelas cabras, que comem até pinheiros. A lenha é usada não
heiros são retiradas do chão
de forma semelhante aos verdadeiros carvalhostalhadose são grandesan- mas também para cozinharos porcos. E as agulhas dospin
»diferente e, são transferi-
fitriões de matsutake. É possível ver alguns ao fundona Figura 10. da floresta para a cama dos porcos — e depois de cobertas com estrum
nimais e é um ótimo lugar para o
das para os campos. Essa é uma mata jovem e desordenada.E
era quando
Yunnan tem suaprópria história. Minha pesquisa ocorreu depois que uma matsutake, assim como para outros cogumelos.
cada ou
proibição de extração de madeira foi implementada em toda a província,
yno
permitindo a derrubada de árvores apenas para fins domésticos. Após a
movimento
proibição, os cogumelos matsutake- e outros produtosflorestais não ma-
capaz de
deireiros — tornaram-se muito mais importantes comofonte de renda. En-
tao conjunto
tretanto, a proibição em si foi em parte umaresposta ao poder de especialis-
tase pesquisadores ocidentais em Yunnan. A maioria não gosta da desordem.
Ao contrário do Japão, ninguém vêessa paisagem como um modelo de ha-
bitabilidade. No entanto, contra a corrente — e orientados por satoyama,
pode-se ver os mesmosprincípios aqui. A perturbação humana pode parti-
cipar de umasimbiose de carvalho, pinheiro, matsutake e agricultor.

semana

Figura 12 — Lenha e agulhas depinheiros de Yunnan. Foto da autora.

o pasto e o corte em
Foi difícil para mim aprendera apreciar essa ecologia. Quando via
apreciar a mutualida-
talhadia, eu via bagunça, desordeme sujeira. Levei algum tempo para
ação. O que me
de multiespécie na qual os humanos fazem parte do regime de perturb
para que pesquisado-
convenceu foi a alternativa: uma pequena reserva cercadafoi criada
. Umapassarela mantém os
res visitantes pudessem ver O matsutake crescendona floresta
m cortou árvores ou removeu o
visitantes fora do chão dafloresta. Por quinze anos, ningué
As árvores cresceram altas e som-
> material orgânico. A entrada de cabras não é permitida.

m
Dto ter
a
cogumelos matsutake crescendo
brias. A matéria orgânica se acumulou. Ainda há alguns
FIGURA 11 - Coletores de cogumelos em umajovem floresta da aldeia ue se vê fora da reserva.
de Yunnan,Foto da autora. lá, mas claramente não é a próspera floresta de cogumelosq
BRAM AS
QUARTO: ALGUMAS ECOLOGIAS HUMANAS QUE
LIDADE
COORDENAÇÕES NECESSÁRIAS PARA A HABITABI
de satoyama,incluindo não ape-
Volte novamente à Figura 9: um diagramada paisagem
a beleza e o carisma desse tipo de
nasflorestas, mas habitação e cultivo humanos. Foi
's Global Satoyama
paisagem queinspirou a Iniciativa Global Satoyama do Japão (Japan
, umainiciativa de con-
Initiative) em 2010. Esta seria a projeção do Japão para o mundo
ro grande evento foi realiza-
servação com valores culturais em seu coração. Seu primei
ém estava ouvindo essa
do de 10 a 11 de março de 20118 Mas, em 1 de março, ningu
imae osreatores
história de natureza valorizada. Um tsunamiatingira a cidade de Fukush
nucleares racharam e derreteram.
as decidiram ajudar a
Aradiaçãose espalhou pela região. Pior ainda, as autoridadesjapones
oscultivados em Fukushi-
região exigindo que os municípios do Japão aceitassem aliment
de Fukushima? Assim
ma. Aterros sanitários em todo o Japãoagora carregam radiação
ura de Iwate, perto de Fukushima,
Figura 13 -- Reserva de matsutake em Yunnan. Foto de Michael Hathaway. também as matas, embora de formadesigual. A Prefeit
os cogumelos acu-
possui algumas das florestas de matsutake mais famosas do país. Mas
tornaram venenosos.
Areserva é refrescante e sombreada — mas não há perturbação humanasuficiente para mulam radiação. Osvaliosos matsutake de Iwate de repente se
que a simbiose entre fazendeiro, pinheiro, matsutake e agricultorse sustente. No centro
daperturbação: simbiose, coordenação,história, paisagem.

Deixe-me voltar ao Japão central. Tenho mostrado histórias que produzem as matas
camponesas, em suas simbioses de habitabilidade, e também histórias que quebram
as coordenações que mantêm essas matas no lugar. Até agora, tenho melimitado a
exemploshistóricos nos quais a revitalização parece possível. Um conjunto diferente
de plantas, animais e fungos prospera quando a mata é cercada ou abandonada; no
entanto, um movimento voluntário é capaz de trazer de volta o conjunto anterior.
Essaé a resiliência ecológica da qual passamos a depender. A crise de habitabilidade
de nossos tempos, entretanto, é algo diferente — e é essa diferença queé sinalizada no
termo Antropoceno. O Antropoceno não marca a aurora da perturbação humana. nações de satoyama.
FIGURA 14 — Césio radioativo: umaruptura sem precedentes de coorde
Como venho mostrando, a perturbação humana pode fazer parte dos ecossistemas DesenhodeElaine Gan.
resilientes do Holoceno, como as matas camponesas. O Antropoceno marca, em vez
————
disso, uma quebra nas coordenações, algo que é muito mais difícil de corrigir. Somos itiative.org/en/the-first-globai-
6 Informações sobre o evento estão disponíveis em: hep://satoyama-in
empurrados para novas ecologias de proliferação da morte. Minha seção final acena -conference-ofpsi-3/
para esse problema. 7 Informaçãopessoal fornecida porDaisuke Naito.
A ideia de Elaine Gan para representar essa mudança sem precedentes nas Cogrdeii Umaestratégia para umaaliança quese sustente em interesses antropológicos é con-
çõesera inverter a fotografia, como a ilustração que você acabou dever. Agora o PA duzir projetos culturais para conhecere “fazer”a habitabilidade realmentea sério. Ao
to é branco. As coordenações foram alteradas. O matsutake pulsa com os ritmos discutir paisagens camponesas, fui guiada por um programa específico paratrabalhar
césio radioativo. Não apenas os humanos, mas também outros animais comem col com assembleias multiespécies: a satoyama. O quão longe isso pode meleva em ter-
melos, e eles carregam a radioatividade por toda parte. Em Chernobyl, os ecologisã mosregionais é uma questão em aberto, mas esseé o tipo de questão que os antro-
fizeram a descoberta surpreendente de que os níveis de césio na paisagem não eé pólogos podem abordar. Eu não estou disposta a parar de fazer uma análise externa
vam diminuindo do mesmo modo comono laboratório (Madrigal, 2009). O sol de programasjaponeses de “criação” de florestas. Em vez disso, escolhi me juntar a
Chernobyl é quase tão radioativo agora quanto em 1986, quando usina se rom esses programas para ver O que uma antropóloga poderia aprender sobre florestas,
Enquantoisso, o javali come cogumelose osleva porlongas distâncias. Os gourmê? em Yunnan assim como no Japão.Essa não é a única maneira de “fazer”florestas, e eu
alemães que apreciavam o javali descobriram que suas refeições eram venenosas, À não a promoveria para todas as paisagens.
meio da perturbação: simbiose, coordenação,história, paisagens. Essasrelaçõesaj
Masisso esclarece algumas questões teóricas queos antropólogosestão fazendo atu-
são válidas. Mas o Antropocenoassinala novos terrores nafalta de habitabilidade. N
almente, incluindo o papel da simbiose — biologicamente, comocolaboração e, mais
é apenasa radioatividade que está envolvida. A transferência global de organismá
generosamente, como formação de paisagem. A simbiose metafórica da colaboração
em escala industrial tem contribuído para criar novos patógenos virulentos para hj
envolve mais do que observarmos os outros fazerem o quefazemos. É preciso apren-
manose outras espécies. As contaminações quírnicas e a disseminação defertilizani
der o suficiente para procurar emergências produtivas — talvez naquelas arenas de
químicos prejudicam as ecologias de água doce. A mudançaclimática interrompi :
“algo exira” que a percepção forneceatravés da especialização disciplinar.
coordenaçõesinterespécies, levando muitas populações à extinção. Aprender sobã
isso é um trabalho urgente no qual os antropólogos podem querer participar. & Como argumentei, a exploração da habitabilidade exige a apreciação das paisagens
como ferramentas analíticas. Para permitir que a paisagem reingresse no vocabulário
A primeira tarefa desseprojeto é aprenderalgo sobre outras espécies, incluindo esp
da antropologia em melhor situação, meu primeiro passofoi recusar a genealogia da
cies selvagens, querealizam um imenso trabalho invisível para possibilitar a sobre
paisagem como uma representação distante. Em vez disso, procurei por reuniões
vência dos humanos. Humanos não podem viver sem outras espécies. Isso não
multiespécies que estivessem emergindo. Eu defendo que osseres humanos não po-
porque nós os comemos.Paisagens multiespécies são cenários de habitabilidade. Bá
dem sobreviver sem tais reuniões multiespécies. Nem outras espécies podem.Há al-
cisamos dessas coordenações para nos mantermosvivos. Em todasas escalas,
[a

gumaurgência então em seguir esta maneira defazer a paisagem.


os nossosintestinos até o nosso planeta, precisamos de paisagens de habitabili
comum,alcançadas por meio de simbiose e coordenação. Mas a paisagem ainda parece passiva, até mesmo morta, para a maioria das pessoas,
incluindo antropólogos. Paisagens são panos de fundo para uma ação empolgante.
j
ã humanos, novostipos
No entanto,para aprenderalgo sobre não de colaboraç desg
. . inncias nal Precisamos darvidaàs paisagense torná-las protagonistas de nossas histórias. Precisa-
rão necessárias. Tenho sugerido que podemosencontrar aliados das ciências N
. a r nat mosnos animar para aprender o que acontece em seguida. Desenvolver um novo
prestando atençãoa discussões e debates entre diferentes formasde ciência
n a

. ef e os fi Bênero de contar histórias é sempre arriscado. Até que o público aprenda a ouvir o
Não é útil imaginar a ciência como um monálito. Isso não significa que dever
Novo gênero, ele é enfraquecido.Teria sido mais fácil capturar suaatenção contando
olíticas
:
calar diante das falhas nas experiências científicas e as consequências P!
E E EA doniê . sit ivi histórias coloridas de forrageadores de cogumelos humanose suas travessuras. Mas
programas de pesquisa. Também nãosignifica que precisamos adotar um po

ns
EU tentei mostrar paisagens ativas, paisagens tendo aventuras através das
simbioses e
científico e abandonar todasas coisas que aprendemos como antropólogos:
coordenações que as formam e reformam.Eu tentei tornar essa atividade mais clara q
apontando para os diversos participantes da mistura, especialmente para o carvalho, í
o pinheiro, os cogumelos matsutake e os agricultores humanos. Para evidenciar seus
papéis, Elaine Gan e eu usamos o diagrama para apresentá-los, uma partitura Musical, 4
um roteiro para uma peça em constante mudança. Juntos, eles contam umahistória
— e umahistória que precisamos conhecer. Eu ainda estou numafase de incertezas, e À
preciso de suas sugestões sobre como tornar as façanhas da paisagem mais convin. 4
centes. Mas este é o novo animismo de que precisamos — nãolimitado a animais sin-
gulares, em seus paralelos com os humanos, masdistribuído entre paisagens de habi-
tabilidade. Em meio a perturbações, simbioses, coordenações, histórias, as paisagens É
oferecem o inesperado.

vz
-—

Um
CAP | |UM
OS

SOCIALIDADE MAIS QUE


HUMANA: UM CHAMADO PARA
A DESCRIÇÃO CRÍTICA

Comopodeter ocorrido a alguém que outrascoisas vivas além dos humanos não são
sociais? Quanto mais pensamos sobreisso, mais ridícula se torna a oposição entre a so-
cialidade humanae a não humana. O que é não socialidade? Se social significa “produzi-
do em relações intrincadas com outrossignificantes”, claramente outrosseres vivos não
humanossão totalmente sociais - com ou sem humanos. No entanto, uma oposição
entre natureza e sociedade tem sido bastante convencional nas humanidades e nas ci-
ências modernas. Essa oposição define o que chamamosde ciências sociais, área que
quase nunca lida com intrínseca socialidade dos não humanos, ou seja, aquelas rela-
ções sociais que não surgem em função dos seres humanos.Eu fui treinada nessa tradi-
ção também.Fico envergonhada dever que, em trabalhos anteriores, algumas vezes eu
defini social como “tendoa ver com histórias humanas”. Agoraisso me parece um tanto
estranho. O conceito de socialidade não faz distinção entre humano e não humano:a
“socialidade mais que humana”inclui ambos?

1 Original publicado em: More-than-humansociality: a cali for critical description. in: Hastrup, K Anthropo-
logy and nature. Nova York: Routledgs, 2013. p. 37-52.

2 Meus agradecimentosa Kirsten Hastrupe aosparticipantes da conferência “Natureza/Sociedade”, que


tornaram possível escrita deste capítulo. Caminhadas nafloresta e discussões com Zachary Caple, Donna Haraway,
Gail Hershatter, Andrew Mathews e Heather Swanson geraram muitas das ideias registradas aqui. Este trabalho tem

9
Comobase o projeto colaborativo do Matsutake Worlds Research Group, que incluialém de mim, os pesquisadores
Tim Choy tieba Faier, Michael Hathaway Miyako Inouee ShihoSatsuka. Minha gratidão especial vai para o micologis-
taHemning Knudsen, que me fez pensar ao falar sobre a sociologia dos fungos.
Meu despertar ocorreu após umaentrevista com um micologista quefazia a curadoria claramente formuladas. A tarefa deste ensaio é abrir as portas para esse tipo de traba-
da coleção de fungos no Jardim Botânico da Universidade de Copenhague.Pergunte; lho, para estender o convite aoscientistas sociais que não têm medode aprender sobre
“lhe sobre sua pesquisa de doutoradoe ele explicou-me que estudavaa sociologia dosá novose diferentes tipos de socialidade.
cogumelos. Eu fiqueisurpresa; não sabia que havia um campo chamado sociologia dos.
Abrir uma porta é um tipo específico detarefa intelectual queexige saltosimaginativos
cogumelos. Mas é claro! Muitos campos de investigação biológica têm se dedicado à
tanto quanto dadose argumentação. Para estabelecer o terreno no qual podemos con-
vida social de seres não humanos.Por quase um século, esses campos foram sub-finan-
siderar uma socialidade mais que humana, precisofazer algumas perguntasalarmantes.
ciados e comumente descartados como “mera descrição”; e talvez porisso tenham esí i
Primeiro, comoalguém chegoua pensarqueos não humanosnão são sociais? Segundo,
capado não apenas do meu pensamento, mas do pensamento da maioria doscientistas
comoalguém pode estudar os mundossociais de outras espécies se elas não podem
sociais. Lembremos que essa avaliação negativa como “mera descrição” também fo
falar conosco? Terceiro, como podemospretender apreciar a socialidade mais que hu-
aplicada à antropologia. Então, temosalgo em comum.De fato, no momento em que os à
manase não conseguimos contornaras limitações do conhecimento especificamente
buscadores clo “socialpercebam a biologia descritiva e a história natural, algo novo fica- 4
humano? quarto, qual a utilidade disso para conhecer o mundo?Sãoessas as questões
rá claro: podemosteraliados estudando socialidade, e podemos pensarjuntos sobre
que discuto aqui. No entanto,deve ficar claro que num pequeno ensaio comoeste só é
comoestudarrelações sociais e redes.
possível lançar tais questões, masnão respondê-las completa e adequadamente.
Sobre esse aspecto,talvez algunsleitores de ciências sociais possam pensar:
Antes, existe ainda um pequeno aspecto fundamental que não posso evitar. E as coisas
Poupe-nos de tais aliados: os sociobiólogos, que reduzem vida social à : que não estão vivas? Elas não são sociais também? Não consigo pensar em uma boa
estratégia reprodutiva, juntamente com ospsicólogos evolucionistas, que razão para argumentar quecoisasnão vitais não são sociais. Afinal, elas são constituídas
explicam as piores características do status quo comoinevitáveis; estas não em relações com outros.Elas reagem,elas são transformadas. Não há razão para não
são nossas teorias do social, estendera teoria social a rochase rios. No entanto, também há algo específico nesse
ponto sobre a vida. Eduardo Kohn (2013) tem uma maneira útil de nos orientar aqui: ele
Esses não são osaliados que tenho em mente.Essas teorias explicam a vida social em vez
argumenta que osseres vivosincluem futuros no queeles fazem nopresente. O porvir
de terem curiosidade sobreela. Em vez disso, eu estou pensando em ambososlados do-
é parte do modo comoascoisas vivas reagem; oferecemosnossosprojetos de vida em
que CP Snow (2007) denominou de “duas culturas” (as humanidades asciências natu-
função de futuros potenciais. Esse não é o caso com rochas ou outrascoisas não vitais.
rais) ávidaspela arte da descrição. Se quisermos aprender algo sobre vida social O pri
Entendoque isso faz diferença, não para a definição de socialidade, mas paraos tipos de
meiro passo é mergulhar em seus caminhos. Superando fronteira entre humanos e descrição crítica nos quais os analistas podem embarcar. A descriçãocrítica dos seres
outras espécies, teremos muitotrabalhoa fazerjuntos.
vivos mapeia esses planos, intencionais ou não, que giram em direção ao futuro, criando

Vou chamar este trabalho de “descrição crítica”: crítica, porqueela faz perguntas urgen" à mundospara o porvir e para o presente. Este ensaio concentra-se na socialidade das
tes; e descrição, porque amplia e disciplina a curiosidade sobre a vida. Na intersecção 4 coisas vivas.
entre etnografia e história natural, temos muito a aprendersobre como os humanos e Minha capacidade de escrever sobre essas questões é dependente de boas companhias.
outras espécies criam modos de vida através de redesde relações sociais. E agora que &
Eu meinspiro: ) no comprometimento de Donna Haraway (2007) em reaprender os
estamos começando imaginar umaTerra antropogênica na qual osseres humanos &” 4 humanos como uma“espécie companheira” entre outras; il) na teoria do ator-rede de

“21
tão em todaparte, envolvidos em transformar tudo, precisamossaber quais socialida- 3
Bruno Latour (2005), que abriu as portas para as teorias do social em que os não
des mais que humanas estão sendo produzidas, com ou apesar de intenções humanas à
humanos desempenham um papel central; ii) na insistência de Tim Ingold a princípio, essa liberdadeainda era umaescolha moral. (Somente mais tarde, nas mãos
(ot) de que prestar atenção na vida em movimento renova as dosutilitaristas, tornou-se apenas a capacidade de escolherentre as opçõesdisponíveis,
possibilidades de uma antropologia mais que humana;e iv) na afirmação * como um consumidor que escolhe as compras no supermercado.) À liberdade moral
de Eduardo Kohn (2013) de queasflorestas “pensam”,isto é, que fazem era a liberdade da vontade; não era materializada em ação, mas, sim, em um tipo de
um trabalho derepresentação. Estes são apenasalguns dos teóricos que determinação mental. Para Immanuel Kant, de fato, a liberdade moral era contrastada

1gos não meimpulsionam. Emborao caráterdistintivo de minha abordagem fique com a dinâmica sensitiva da natureza, que consistia em mera realização técnica. A
éticas de claro a seguir, ele é menos importante que as contribuições dessesautores liberdadeeraa capacidade detranscender o chamadodanatureza por meio da atenção
+bocas para e outros para o que venho chamando de descrição crítica. Muitos ao que deveser feito?
: é difícil cientistas sociais e naturais já fazem descrição crítica; meu trabalho aqui é
O antropólogo Talal Asad (1993) contextualiza convenientemente as noções de
as práticas apreciar o desdobramento do nossotrabalho sob um novo ângulo.
liberdade de Kant nos gêneroslocais de discussão política, assim como nas políticas do
se Estado repressivo prussiano em que Kant viveu. Seguindo Foucault, Asad argumenta
anais com
COMO ALGUÉM PODERIA IMAGINAR QUE COISAS que, comoossujeitos do Estado tinham pouca margem de manobra política, tudo o
VIVAS NÃO SÃO SOCIAIS? que podiam fazer era pensar. Em contraste, Asad salienta que osfilósofos muçulmanos
No momento em que se considera a obviedade de umasocialidade mais tiveram formas e foros sociais bastante diferentes; suasfilosofias são frequentemente
que humana, a questão de como pudemos esquecerdisso salta aos olhos. filosofias de ação, não simplesmente vontade. No entanto, com todas suas limitações, a
É claro que essa é uma questão muito ampla para ser considerada filosofia de Kant oferecia umavisão carismática do papel e do governo dos humanos; os
devidamente aqui, e talvez a principal contribuição ao levantá-la seja humanosdistinguem-se do restante da natureza por umaliberdade de ação baseada na
instigaros leitores a também fazer muitas perguntas. Há muitas correntes moral. A socialidade humana, consequentemente, baseia-se na razão moral, enquanto
dahistória que se engessaram em umaciência social indiferente aos não outras criaturas obedecem cegamente às exigências da natureza. Não é de admirar que
humanos. Ainda assim, parece existir uma pequena corrente que pode seus mundos sociais pareçam insignificantes.
nos ajudar a reabrir essa história. Essa corrente é a genealogia da
Repare por um momento no mundo que o micologista Alan Rayner (1997b) evoca em
“liberdade” como um atributo que separa osseres humanosde todos os
seu livro sobre os desafios da vida interespécies, Degrees of freedom:living in dynamic
outros seres vivos. Se, enquanto ouiras espécies são brinquedos
boundaries. Pensando por meio dos fungos, Rayner argumenta que todososseres vivos
mecânicos, os humanos são livres, talvez a socialidade humana seja
têm liberdade de manobra dentro dos mundos que cada um de nós ajuda a fazer. Para
inteiramente única. Mas outras espécies realmente não têm liberdade?
cadaespécie, a liberdade depende da formacorporal que herdamos, pois é através dela
Nasreligiões maniqueístas que cresceram no antigo Oriente Médio, do que navegamospelo mundo. Nisso, humanose fungos são bastante semelhantes: por
Zoroastrismo ao Islamismo e, claro, incluindo o Cristianismo, Deus pede exemplo, ambos queremosaprender mais sobre os mundos que habitamos, mesmo
aos humanos que escolham o caminho moralmente correto: isso é quando também alteramos esses mundos. No entanto, os fungos têm liberdade para
liberdade. Os humanos são os únicos entre as criaturas de Deus a serem fazer muitas coisas que nós humanos nunca imaginaríamos, por exemplo,crescer em
solicitados a escolher entre o bem e o mal. A formacristã de pensar à

23
liberdade como escolha moral foi herdada pelo Iluminismo europeu, que 3 Minha compreensão da posição de Kantsobre a liberdade tem sido muito influenciadapelainterpreta-
transformoua liberdade em umaprática secular. Entretanto, pelo menos çãode Pheng Cheah (2003).
As relações sociais
novas formas para explorar melhor os ambientes. Como heróis de quadrinhos,eles se Mas, é claro, outrosseres vivos também têm seus modos de vida.
precisam ser or-
transformam em ação.E nós pensamosque somostão especiais. Mas, assim como com são as formas pelas quais os modos de vidasão organizados. Eles não
Defato, para ficar O
os outros, nossaliberdade é tanto limitada quanto facilitada pelo que nossos corpos ganizados por meio deorientação intencional para serem sociais.
planejamento e O social,
podem fazer. mais distante possível da confusão entre a intenção humana,o
ão trazi-
ficarei longe dasociologia animal neste capítulo. Frequentemente, os animaiss
A ideia de quea liberdade é essencialmente um ato de vontade é um obstáculo parase e comunicação
dospara discussões de mundos sociais mostrando que sua consciência
me-
aprender sobre outras formas deliberdade. A liberdade se tornaintencionalidade e
se sobrepõem às dos humanos. De acordo com padrões humanos, eles são pelo
planejamento. No entanto,as ações humanasraramente são executadasa partir de um
nos um tipo de social. Essa é a liberdade que conhecemos através do senso comum
projeto. Umapalestra acadêmica quese desenrolaa partir de um roteiro é um exemplo e diver-
pós-cristão: o social emerge quando comunicamos nossas intenções comuns
disso, e sua característicae singularidade formal como um tipo de ação humanaenfatiza gentes. Aqui ainda estamos no mundo da liberdade moral de Kant, desconectada da
isso, Na maioria das vezes, fazemos o melhor que podemos com ascircunstâncias que
ação;issolimita nossa curiosidade.
encontramos, justamente como outras criaturas o fazem. O planejamento é apenas um
elemento em nossorepertório e dificilmente define nossa liberdade de ação. O primeiro Maso problemadificilmente se resume àliberdade. Considere, por exemplo, o problema

passo, então, para apreciarmosa socialidade mais que humanaé abraçarmos um senso do Ser. Nadiscussão de Heidegger (2008) sobre “worldin) "4 os animais, diferentemente
mais amplo do quea liberdade de agir podesignificar — para humanose não humanos. das pessoas, são “pobres de mundo”. Mas, de acordo com Heidegger, pelo menoseles
Isso requer o reconhecimento de que as definições de moralidade e planejamento da têm algumacapacidade de criar mundos! Em contraste, as plantas, para Heidegger, não
liberdade são produtos de uma tradição cultural exótica e limitada, em vez de boas têm nem capacidade de criar mundos — porque não têm nada a comparar com a
,
descrições de como vivemos no mundo. Precisamosrecuperar de volta a liberdade dos consciência humana. Para trabalhar contra oslimites organizados poressa presunção
kantianos; precisamos repensar seu alcancee potencial. no restante deste capítulo evito os animais e vou direto para a vida social das plantas — e
seus companheiros comuns, Os fungos.
Osantropólogosjá são praticantes sérios nisso. Raramente imaginamoso social como
cercado por códigos morais decretados porintençãoe planejamento. Somos a disciplina Plantas e fungos não têm as faces éticas de Levinas, nem bocas para sorrir e falar; é difícil
entanto,
que privilegia o aprendizado sobre o social “estandolá”, em vez de apenas perguntar as confundir suas práticas comunicativas e representacionais com as nossas” No

opiniões de algumas pessoas poderosas. Aprendemos outras socialidades suas atividades de criação de mundo e sua liberdade de agir também são claras — se
experimentando-as, não através de projetos, mas como modosde vida. Aqueles de nós permitirmos que a liberdade e a criação de mundo sejam mais que intenção e
que tentaram o trabalho de campo em situações radicalmente não familiares sabem O planejamento. É desse potencial compartilhado deliberdade e criação de mundo que
quanto é importante abrir nosso caminho para a socialidade dosoutros, pelo menos até podemos avançar para vidas sociais mais que humanas.
encontrarmos nosso chão. A história da briga de galosde Clifford Geeriz (1973), sobre
fugir da polícia e acabar, juntamente com outrosfugitivos, tomando chá nojardim de 4 Worlding foi popularizado pela primeira vez por Heidegger em Ser e 0 tempo (1927). Ele
transformou o
mundo
alguém é exemplar: aprendemossobre formas sociais ao sermosjogados em situações substantivo (world/mundo) no verboativo (warlding), um processo gerundivo e gerador de criação de
ido
mundo,
em andamento
tornando-se e (comoele coloca) mundo “aproximan do”. Para Heidegger, worlding é sempresent
surpreendentes. A “imersão”do trabalho de campofunciona porque somosforçados à (ou seja, nunca não mundano); workding é como nós experimentamos um mundo
como familiar; woriding é uma
entrar em outros modosde vida — isto é tornar-nos sociais — antes de termos alguma

25
determinação doser do Dasein (Nota dosEditores ).
ideia do que estamos aprendendo. articularmente
5 Por um apelo apaixonado e poético para estendera ética de Levinas para não humanos,p
cães, ver Rose (201.
m se
Eles continuam crescendo e mudando aolongo de suas vidas. Mesmo que não consiga
COMO ESTUDAR MUNDOSSOCIAIS DE SERES QUE NÃO Suas
mudar para outro lugar, eles podem crescer em novos ambientes e campos sociais.
PODEM FALAR CONOSCO? quais elas
formas mostram suas biografias; é umahistória das relaçõessociais através das
Os cientistas sociais estão acostumados a conversar com as pessoas como uma Hallé (2002),
foram moldadas. Alan Rayner (1997b), pensando em fungos, e Francis
maneira de aprender. Como não podemosfalar diretamente com eles, comosaber exemplo,
pensando em plantas, são excelentes porta-vozes dessa perspectiva. Assim, por
alguma coisa sobre a vida social deplantas e fungos? Duas abordagens são comuns: muitos vizinhos,
umaárvore com galhosinferiores mais grossos, provavelmente,cresceu sem
atenção às assembleias e atenção à forma. Assembleias significam justamente aqueles
mesmose vocêa encontrar agora cercada por outras árvores. Se tivesse crescido à sombra
que encontramosreunidos: por exemplo, as plantas que crescem em torno umas das com
dos outros, esses ramosinferiores grossos não teriam se desenvolvido. Uma árvore
outras em uma paisagem particular. Minha inclusão de fungos com plantas vem de
vários troncos podeter o fogo ou um machado em sua biografia. Umasuave curva côncava
um arranjo comum de agenciamentos: a maioria das plantas obtém seus nutrientes
perto de sua base é sinal de talhadia: esse caule cresceu a partir de um troncoé
não carboidratosatravés da ajuda de fungossimbióticos. Alguns fungos vivem dentro :
de plantas; outrosse torcem em torno dasraízesdas plantas. Os fungosse alimentam Fungos cultivados em meio artificial oferecem um vislumbre privilegiado das histórias
de seus hospedeiros vegetais assim como estes lhes fornecem suplementos sociais inscritas na forma. O meio artificial só é importante porque permite que nós,
nutricionais. Muitas plantas reúnem várias espécies de fungos, e a maioria dosfungos humanos limitados, vejamoso fungo, que de outra forma estaria na madeira ouno solo.
se liga a várias espécies de plantas, muitas vezes ao mesmo tempo, formando uma teia O fungo explora o meio, deixandovestígios do que ele encontra em stta forma corpórea.
através da floresta. Ainda assim, esses arranjos não estão abertos a todos os O crescimento de fungos resolve labirintos complexos para encontrar retalhos de
interessados. Algumas plantas e fungos preferem um a outro. Descobrir tais alimentos. Retiram-se napresença de concorrentes hostis. Mais surpreendentemente, talvez,
preferências é um trabalho árduo, mas não impossível. Por exemplo, um dos métodos é um fungoàs vezes se juntar a outro semelhante como um mosaico entrelaçado. Em um
ram e
de avaliação tem a ver com a sucessão deflorestas. Alguns fungos preferem plantas experimento adorável, variedades brancas e marrons de Pholiota nameko se emaranha
pioneiras, as primeiras a preencher os espaçosabertos. Outrospreferem viverentre as produziram cogumelos manchadosde cor branca e marrom — não como descendentes de
espécies tolerantes à sombra que lentamente vêm parasubstituir as pioneiras. Além um acasalamento, mas como desenvolvimentos corporais do par misturado (Babasaki,
disso, os fungos participam da criação desses mundos florestais: alguns fungos Masuno e Murata, 2003). A forma podeser uma materialização das relações sociais.
facilitam a disseminação de florestas, tornando possível o crescimento de árvores em
Apesar desses detalhes exóticos, assembleias e forma são ferramentas completamente
lugares que de outro modoseriam desencorajadores paraas plantas. Outros fungos
familiares para os antropólogos. Sempre que estudamos um acontecimento social, uma
facilitam a sucessão de um tipo defloresta para outro. O sociólogo de cogumelo que
comunidade ou umainstituição, prestamos atenção às associações: quem está incluído?
conheci em Copenhagueescreveu suatese sobre essas questões.
Que tipos derelações de status eles têm entre si? Toda vez que olhamos para a cultura
Uma segunda abordagem é a observação da forma corporal. Os humanos nem sempre material, a performance ou até mesmo para o cotidiano da vida social, prestamos
pensam em formas corporais como uma expressão de socialidade, porque, como muitos atenção à forma. Defato, alguns doslocais para observarmos formas sociais são os
animais, temos estruturas corporais determinadas. Desenvolvemos nossa forma básica corpos humanos — como em representações de gênero, religião, etnicidade, na moda
entre a concepçãoe a adolescência; depois disso, podemosperder um membro ou ganhar ou tatuagem. Nós sabemosleras relações sociais através da forma. Este é um terreno
uma camada de gordura, mas não desenvolvemos umainterface diferente com o mundo.

127
Nossas vidas sociais têm a ver com a forma como nos movemospor aíe conhecemos 95 6 Sougrata à Andrew Mathews por esses exemplos, que descrevem árvores apontadas porele durante um
outros. Muitas plantas e fungos, em contraste, são indeterminados em sua forma corporal passeio na floresta.
omum. Não há razão para que estender nossas análises a essas outras socialidades têm sido mais sensíveis a distúrbios humanos. Preciso de histórias humanas para falar de
oque o medo,a retração, o desprezo ou a inveja que às vezes surgem quando os socialidades vegetais e fúngicas. Aindaassim, como acontece com asbactérias, precisoter
umanistas confrontam as ciências naturais. Nossos estudos não enriqueceriam ao em mente suas relativas autonomias em relação aos projetos humanos. Exercícios de
rcluir neles socialidades mais que humanas? Poderíamosverhistórias humanas dentro liberdade de plantas e fungos não dependem de suas interações com humanos.
le um campodehistórias multiespécies.

:xistem algumas questões, de fato, pelas quais o foco exclusivo na socialidade humana MAS NÃO ESTAMOSLIMITADOS POR NOSSO
galmente nosatrapalha. Eu penso particularmente em questões de mudança ambiental,
CONHECIMENTO HUMANO?
je queremossaberalgo sobre mudança ambiental, precisamossaber sobre os mundos
Conhecemosa socialidade mais que humana apenas através do conhecimento e das
práticas humanas, incluindo as práticas de viver. Identificamos as formas de vida de
ociais que outras espécies ajudam a construir.
outras espéciesa partir de engajamentosprofissionais, esquemas mentais e sua inclusão
além disso, é aí que a dicotomia natureza/sociedade pode causar mais problemas: em projetos experimentais aprimorados por tecnologia. Os arranjos práticos através
enquanto antropólogos, achamos que já sabemos como estudar a natureza. Nós a dos quais conhecemos as outras espécies moldam o que elas são para nós. Nunca
sstudamos em relação às metase necessidades humanas. Os antropólogos estudam as teremos a chance de nos tornarmosplantas.Isso é, de fato, umalimitação.
:oisas corno dádivas, como mercadorias, comosignos e como ferramentas. Mas todos
“Limitação”, no entanto, não é a única maneira de se pensar tal situação. Nossa
2sses são projetos humanos para existir com coisas. Nenhum permite que as coisas
humanidade é também um ponto de partida, uma abertura para se envolver em
enham suas próprias socialidades. Diferentemente, na abordagem queestou sugerindo,
mundos multiespécies. Nossas explorações nos levam a novose variadosarranjossociais
35 humanos teriam que se juntar a socialidades mais que humanas. Podemos nem
e humanos, entre outros. Estamos continuamente desenvolvendo novas maneiras de
empreestar no comando. Podemosconhecer mundosoutros que humanos dos quais
sarticipamos, mas nos quais não fazemosas regras. aprender sobre os outros, ampliando nossas maneiras de viver e conhecer. Somos tão
participantes quanto observadores; recriamos sensibilidades interespecíficas no que
A vida social de plantas e fungos pode ou não incluir seres humanos. Agora que Os fazemos. Para além de apenas identificar os não humanos como um outro estático,
humanos se estabeleceram em todo o planeta, é difícil encontrar um lugar onde os aprendemossobreeles e sobre nós mesmos em ação, por meio de atividades comuns.
seres humanosnão sejam relevantes. No entanto, não é um pré-requisito da sociologia
Nosso próprio envolvimento humano em mundos multiespécies é, portanto, um lugar
vegetal e fúngica que osseres humanosestejam envolvidos. Suas relações sociais não
para se começar. Nossosfeitos são uma forma detraçarosfeitos do outros. Isso exige
arecisam ser autorizadas pelos humanospara ter valor. As ações humanas podem ser
acompanhar osarranjos práticos e as interações dinâmicas de outras espécies com o
um estímulo indireto, ao invés de direto, paraas relações sociais de plantase fungos. As
desastre humano. Podemos começar com arranjos impulsionados por humanos, mas,
vezes, os humanos não são nem um pouco protagonistas.
em seguida, podemos confiar na forma e na assembleia como guiaspara nos fornecer
Escrevendo sobre bactérias, a socióloga Myra Hird QO72,p. 69) fala de assimetria radical: informações a respeito das relações sociais das quais somos apenas participantes indiretos.
“Enquanto as bactérias são amplamente indiferentes à nossa prosperidade”, escreve ela,
Desse modo, o que proponho extrapola a forma como os sociólogos têm abordado os
"somostotalmente dependentes das abundantes associações de micróbios dinâmicos que
não humanosno quese refere à tecnologia, por um lado,e a questões éticas, por outro.
compõem e mantêm ambas a nossa corporeidade e nossa biosfera” (ver também Hird,

129
As tecnologias se referem a ferramentas que ajudam os humanosa fazer o que querem.
2009). Hird argumenta que não há muito o que os seres humanos possam fazer além de
São próteses humanas. Os humanos são sempre atores importantes nas redes sociais de
destruir fisicamente o planeta, quefará muita diferençapara as bactérias. Plantas e fungos
ecnologia. Embora seja possível acompanhar como os materiais se inserem em uma Satoyama podese referir à totalidade das paisagens camponesas tradicionais, o queinclui
ecnologia para além do momento de entrar em umaassociação com uma ferramenta camposdearroz, hortas, canais de irrigação, caminhosentrevilarejos e plantações de
iumana, a maioria das análises relacionadas à tecnologia — comoa teoria ator-rede de árvores (Takeuchi et al, 2003). O coração do conceito de satoyamaé, contudo, o bosque
3runo Latour — interessam-se, sobretudo,pela interface entre humanose coisas, uma vez camponês, e minhadiscussão aqui tem como foco esse componente da paisagem. As
que é isso o que tornaas tecnologias possíveis (Latour, 1996). De forma semelhante, as florestas satoyama não são plantações de árvores; elas não são plantadas, mas são
málises éticas podem focar as relações humanas com não humanos. O momento intensamenteutilizadas e moldadaspelo uso.Elas provêm madeira para lenhae carvão
Jecisivo é aquele em que ocorre o intercâmbio entrea pessoa e o outro: por exemplo, o vegetal, e são fonte de produtos florestais não madeireiros, tais como vegetais da
olhar de Derrida (2008) sobre seu gato. Diferentemente, proponho métodos que montanha, castanhas, brotos de bambu, cogumelos, forragem e adubo verde. Nos
ibandonam a produção tecnológicae ética do objeto para perseguir os mundossociais últimos anos, as florestas satoyama se tornaram objeto de pesquisa e defesa, visto que
Jesses objetos em movimento. Para usar um exemplo-chave, poderíamos explorar estão em um declínio acentuado causado, por um lado, pela conversão para outros usos
»aisagens multiespécies — para nós, de fato, identificáveis como éticas e tecnológicas, e, por outro, pela sucessão vegetalresultante da negligência dos agricultores. Desde os
a0rém mais vívidas queisso em suas socialidadesinterespécie. Aqui poderemos encontrar anos 1970, grupos de civis e cientistas têm militado pela restauração das florestas
»s desafios da descriçãocrítica. Os planejamentos humanosseriam importantes, mas não satoyama. Umafloresta satoyama, portanto, refere-se tanto a uma assembleia social
astaríamos apenas acompanhando planejamentos humanos; os humanos seriam um imaginada, quanto aflorestasreais. Para veresse objeto, sigo meus informantes, cientistas
antre váriosagenteshistóricos. Todas asdiversas trajetórias que causaram algum impacto e defensores civis. É uma questão de tecnologia e de ética. É também um local de
napaisagem seriam relevantes, quer sejam humanas ou não.Juntas, elas comporiam os socialidades mais que humanas. Seguir meus informantes aqui me permite deixá-los
“itmospolifônicos da paisagem,isto é, a atuação de múltiplas histórias conjuntas. liderar o caminho entre os interesses autoconscientes dos humanos e a criação de
mundo mais que humana. Ao longo do caminho, usarei númerose itálicos parasinalizar
postuladospara a descrição crítica de paisagens multiespécies.
COMOISSO NOS AJUDA A CONHECER PAISAGENS
PARTICULARES? Um: começo com investimentos humanos porque eles enquadram o objeto. A floresta satoyama,
Até aqui, dispus as bases para trazer a socialidade mais que humanapara dentro de explicam os defensores, é um lugarde beleza e de biodiversidade. É um lugar-chave para
nossa compreensão sobre o social. Para desenvolver essa abordagem, preciso não nutrir percepções das quatro estações, dizem eles, percepções caras a seu sentido de
apenas de um exemplo, mas também de outras especificações da descrição crítica. consciência nacional. Na floresta satoyama é possívelassistir às flores se abrindo na primavera,
Deixem-me usar uma paisagem multiespécie particular para observar que tipos de caçar libélutas noverão, colher cogumelos em meio às folhas caídas no outono e admirar a
-elações sociais e históricas podem ser relevantes. A paisagem escolhida é a floresta nevenoinverno(Kishi, 2006). Todavia, admiração passiva nãoé o suficiente. É preciso trabalho
satoyamado Japãocentral, a proveitosa floresta camponesa? para conhecer a satoyama, pois as atividades dispõem as pessoas no mundo social de outras
coisas vivas, Para que as pessoas aprendam apreciara floresta satoyama, elas devem fazê-la
praduzir para elas, mesmo que tudoqueela produza agora seja valorturístico educacional
7 Agradeçoa Shiho Satsuka por me apresentar à floresta satoyama. Tive o privilégio de visitar alguns pro- paralelamente aos produtos especializados, tais comocarvão vegetal para cerimônias de chá
etos de restauração de satoyama entre 2005 e 2009.Fuiguiada porproprietários deterras, cientistas, estudantes,
Jonas de casa, aposentadosentre outros voluntários e defensores. Sou grata a muitos estudiosos do satoyama que

31
ne guiaram por seus locais de pesquisa e descobertas, incluindoosdis. Kishi, Kitagawa, Kuramoto,Natuhara, Takeu- 8 Sucessão é o nome cladopelos ecólogos ao processo no qual a paisagem vai se transformando após um
=hi, Yamada e Yoshimura, Minhacontribuição é apenas colocarosresultados de suas pesquisas sobre satoyama no distúrbio. Comunidades vegetais vão se transformando em termosde composiçãoe forma, desdeosestágios iniciais,
zontexto do meu argumento sobre à socialidade mais que humana. em que as plantas são denominadas de pioneiras,até um estágio culminante deequilíbrio dinâmico (Nota dosEditores).
e cogumelos gourmet. A paisagem satoyama deve ser uma paisagem em Mas, também, dois: são as relações dinâmicas entre essas espécies, não seu recrutamento individual
processo; caso contrário ela não tem nada a ensinar. enquanto ferramentas humanas, que criam a teia de relações sociais da floresta. Espécies que
amam luz sobrevivem porcausa da limpezadasflorestas em buscadelenha e da talhadia
Aprendi algumas coisas trabalhando com os defensores para restaurar a
dos carvalhos — não porqueos fazendeiros propositalmente as erguem. As plantas e os
floresta satoyama. Aprendi como a perturbação humana — planejada ou não animais característicos da floresta satoyama prosperam nos bosques abertos e
— nos ajudou a moldar a arquitetura da floresta. Florestas satoyama são perturbadoscriados pelas práticas camponesas. O pinheiro vermelho e outras formas
toyama florestas abertas dominadas porcarvalhos decíduose pinheiros vermelhos, de vida a ele associadas desapareceriam dessasflorestas se as práticas camponesas não
bitabilidade
Elas existem dessa forma devido a perturbações da paisagem camponesa: criassem espaços abertos; no entanto, os camponeses não estavam plantando esses
talhadias, queimadas, exploração madeireira, agricultura migratória. Talhadia é pinheiros, cujas sementes se espalhariam e germinariam prontamente onde quer que os
ente
a prática de periodicamente cortar árvores que crescem novamente dos humanos exponham solos minerais nus. É possível chamaras relações que crescem
ontraste brotos do toco. Os carvalhos decíduos fazem a melhor madeira para lenhae juntas nafloresta satoyama de um tipo de design multiespécie, um design, no entanto,não
; deflorestas
para carvão vegetal. Cortá-los mantém seu domínio florestal deixando-os intencional. Esse quase oxímoro destaca as trajetórias sociais independentes das coisas
m para
sempre jovens e com o crescimento rápido. Os carvalhos que passaram pela vivas que se reúnem nafloresta satoyama, fazendo mundosparasi e para outros.

talhadia voltam a crescer antes que outras mudas possam se estabelecer.
Entretanto, o pinheiro vermelho japonês é umaespécie pioneira cujas mudas A floresta satoyama transpira habitabilidade multiespécie particularmente através do
necessitam deluz e de solo mineral; ele não ocorre nas florestas montanhosas contraste com os tipos deflorestas que cresceram para substituí-la. Novamente, esta é
do Japão central sem que haja perturbações — de humanos ou de outros — a experiência de trabalho de cientistas e defensores. Olhar para aquelas florestas pela
tais comoincêndios, erosão e desmatamento. Antes do uso de combustíveis janela de um carro é perfeitamente aceitável. Dentro delas, contudo, é escuro,
fósseis, os camponeses japoneses retiravam grande parte da matéria orgânica abarrotado e tenebroso. Dois tipos de florestas escuras têm substituído os bosques
de suas florestas para usarem comoadubo verde.Isso ajudlava a criar os solos satoyama: florestas de plantation e florestas de negligência. Cada uma tem umahistória
minerais que as mudas de pinheiro amam. Os camponeses também cortavam multiespécie que vale a pena contar. Logo deinício, contartais histórias nos oferece um
árvores e faziam queimadas para criar campos e abrir florestas para à lembrete das múltiplas escalas e trajetórias emaranhadas na criação dessas paisagens
agricultura itinerante (Suzuki, 2002). Tudo isso encorajava os pinheiros sociais? Portanto, três: muitas histórias, humanas e outras, reúnem-se em lugares de socialidade

vermelhos, o segundo elemento-chave da satoyama. Os carvalhos decíduose mais que humana. Uma história só não é o suficiente. Deixem-metrazeralgumas, enfatizando
os pinheiros vermelhos criam umafloresta aberta com uma mistura de outras suas múltiplas escalas simultâneas.
árvores e umadiversidade de camadas de solo e de vida selvagem. Esse é O As duas espécies madeireiras mais valiosas no Japão não estão representadas nafloresta
segredo nãoapenas da biodiversidade da floresta satoyama, mas também das satoyama.São elas sugi (Cryptomaria ou cedro japonês)e hinoki (cipreste japonês). Ambas
quatroestações tão admiradas porartistas e ideólogos? são aromáticas e resistentes a insetos; ambas têm sido procuradas desde os tempos
antigos para a construção de templos e mansões. É por isso que elas não são
9 Para atenderaos leitores de ciências sociais, neste ensaio, identifiquei espécies aperas representadas na satoyama, embora ocorram em florestas mistas. Sugi e hinoki eram
por nomes comurs. Algumas das principais espécies discutidas aquie a seguirsão as seguintes
carvalho decíduo, ver particularmente konara, Quercus serrata; pinheiro vermelho, akamatsu, Pinuó reivindicadospelos aristocratas mesmoquando cresciam perto devilarejos camponeses.

133
Z
densiflora; sugi, Cryptomeriajaponica; hinoki, Chamaecyparis obtusa; nemátodo de pinheiro, Bursphe
Butasturindicu s; mais q
lenchus xylophilus; barnbu gigante, Phyllostachys edulis; urubu-de-cara-cinzenta,
take, Ticholoma matsutake. 10 Ver ing (2012) para umadiscussão em profundidade sobre histórias da paisagem.
de espécies: do nordeste
Noséculo XIX, patrocinadas pelo Estado, as plantations dessas duas árvores se tornaram q O Japão central situa-se no ponto de encontro dedois grupos
decíduo e pinheiro, enquanto do
comunse tais plantations são responsáveis pela visão expressa naliteratura anglófona de da Ásia continental vêm espécies como carvalho
A perturbação camponesa
que o Japão é um “arquipélago verde”, pleno de florestas (Totman, 1989). Contudo,fo; sudoeste vêm espécies como carvalho perene e louro.
— não apenas árvores, mas
apenas após a Segunda Guerra Mundial que as plantações de sugi e hinoki decolaram ajudou na manutenção do conjunto de espécies do norte
s. Sem a perturbação
no Japão central, tanto em terras privadas quanto estatais. Florestas de folhas largas e todo um agregado, incluindo formigas características e libélula
do sul avança vam. Carvalhos
pinheiros foram derrubadas; plantações sugi e hinoki tomaram seulugar. camponesa, e com a supressão das queimadas, as espécies
dafloresta aberta
perenes e louros deslocaram árvores decíduas (Tabata, 2007). Nolugar
Após a clevastação da Segunda Guerra Mundial, as plantações de madeira tornaram-se e sazonal, elescriaram um dossel fechadoe escuro, com poucas mudanç
assazonais. Os
uma prioridade nacional, visando, sobretudo, poupar divisas para o petróleo, portanto s dafloresta
arbustos e ervas do mato desapareceram sob a sombra. Ospássaros e animai
nenhuma madeira poderia ser importada. Os preços da madeira eram altos e envolviam es perenes
de satoyama foram embora. As novas florestas eram densas, com espéci
muito trabalho agrícola. Os responsáveis pelo planejamento das plantações pensaram a e menos
pouco espaçadas; mais do que as plantações, não permitiam a entrada human
que essa situação perduraria, e incentivaram o plantio próximo a encostas íngremes, o ainda dos pinheiros. Sem aberturas de luz, novos pinheiros
não tinham como se
queexigiria o desbaste e a colheita manuais. O plantio estreito significava queas plantações estabelecer Até mesmo os pinheiros maduros estavam estressados pela sombr
a dos
ficariam escuras e monótonas; pouca coisa poderia crescer em sua sombra profunda, e os carvalhos perenes e louros. Espécies invasoras, como O bambug
igante, contribuíram
animais dafloresta rapidamente se tornariam pragas. Então o petróleo tornou-se barato, para o problema. Sob essas condições, a doença da murcha do pinheiro, import
ada por
e o governo cedeuà pressão da indústria da construção para importar madeira barata descuido dos Estados Unidos no início do século XX, espalh
ou-se, Os pinheiros
comprada do sudeste da Ásia. O preço da madeira doméstica despencou, Ninguém vermelhos morreram, assim comoas espéciesa eles associadas (Suzuki
, 2004), Cinco:
queria sugi ou hinoki exceto para alguns usos especializados, como postes ornamentais Alteração na mistura de espécies têm consequências sociais para humano
se não humanos.
em salas tradicionais japonesas. A mão de obra rural mudou-se para a cidade. Ninguém A mudança de espécies não é apenas metáfora.
foi deixado paraafinar as árvores(Iwai, 2002). Tornou-se muito caro administrar as novas
Mas
florestas, e elas foram abandonadas, foram ficando abarrotadas, escuras e cadavez mais Estes são os contrastes queinspiraram a pesquisa e a defesa dafloresta de satoyama.
do que uma
cheias de pragas e material em decomposição (Ishikawa, 2009). Não havia prazer de restaurar a floresta de satoyama acabou se mostrando bastante diferente
— isto é,
recreaçãoali pelo contrário, a produção em massa de pólen das árvores plantadas causou plantação de árvores. O objetivo da restauração era necessariamente indireto
uma onda dealergia que fez as pessoas das cidades abandonarem totalmente os passeios encorajar um resultado ao mudar outrascoisas que poderiam permitir quea socialidade
coração tanto
no campo.Portanto, quatro: “Os melhores planos de ratos e homens /Às vezes dão errado” (Burns, não humanaassumisse o trabalho. As interações interespécies têm sido o
1786). Contingência é a chave para histórias humanas e não humanos. Esta é uma metade da da pesquisa quanto da restauração. Dois breves exemplos podem ilustrar isso.
história de por que satoyama começou a parecer tão bom. Urubusde cara cinzenta, que acasalam naSibéria e no nordeste da China, migram
para
o final de outubro
A outra metade é a história da mudança de espécies nas florestas que não foram o Japão em abril para aninhar e criar filhotes, permanecendo até
voam
convertidas em plantações de madeira. A mudança começou quando o preço do antes de voar para o sul. Mas, como colocou um pesquisador: “Por que os urubus
as”
petróleo caiu. Os agricultores pararam de usarlenha e carvão, passando a importar para o Japão? A resposta não é conhecida, mastalvez o segredo esteja nas satoyam
as fêmeas
combustíveis fósseis. Eles pararam de coletar adubo verde, comprando fertilizantes (Azuma, 2003, p. 106). Os urubus machos alimentam-se e incubam

Bs
s
artificiais. Eles pararam de cortar e limpa, pararam de perturbara floresta. Sem essas empoleirando-se em árvores altas para inspecionara paisagem habitada por pequeno
machos, a
perturbações camponesas, novas espécies assumiram. anfíbios, répteis e insetos. Ao colocar transmissores de rádio em abutres
equipe de pesquisa descobriu queas aves costumam esperar apenas 14 minutos sem Organismos humildes e onipresentes, comoosfungos, atraem nossa atenção para mundos de muitas
encontrar nenhum alimento antes de se mudar para um novolocal de levantamento, espécies em interação. Essa é uma vantagem útil para nos conhecermos comoparticipantes de uma
Ariqueza de sapose insetos dafloresta de satoyama e dos camposde arroz próximos, socialidade mais que humana.
faz do satoyama um localideal para criar filhotes de urubus. Seis: mundossociais pulsam
com múltiplos ritmos.
REVITALIZANDO A DESCRIÇÃO CRÍTICA
Meu segundo exemplo é a pesquisa e restauração voltadas para o matsutake, o Investigar a vida da floresta de satoyama nos ajuda a pensar sobre por que os
cogumelo gourmet altamente valorizado que foi o principal assunto de uma pesquisa antropólogos podem querer saber sobre socialidade mais que humanaao considerar a
colaborativa que realizei (MWRG, 2009). Matsutake é um associado dospinheiros na mudança ambiental em relação à transformação da paisagem. Mas como os
floresta de satoyama. Como outros fungos ectomicorrízicos, os matsutake envolvem as antropólogos deveriam assumir essa responsabilidade? Podemos fazer algumas
raízes das árvores, extraindo seus carboidratos das árvores, enquanto as auxiliam a obter observações sobre relações sociais outras-que-humanas; afinal, já somos muito bons na
água e outros nutrientes. Os matsutake ajudam as árvores a crescer assim comoeles arte de observação. Também precisamos de colaborações com pesquisadores que se
precisam de árvores hospedeiras para sobreviver Como mencionado anteriormente, os concentraram mais particularmente em algumas das relações sociais sobre as quais
pinheiros de satoyama — as árvores hospedeiras mais importantes para o matsutake no queremos saber. Embora essas colaborações tenham sido negligenciadas, há muitas
Japão — estão morrendo. Comoresultado, o fungo matsutake está morrendo também. boas razões para conhecermos alguns fitossociólogos, micossociólogos e, é claro,
Os cogumelos Matsutake eram abundantes naprimeira metade doséculo XX naregião sociólogos de animais. Um estímulo pode ser nossa história comum deluta pelo social.
central do Japão, mas nofinal da década de 1970,eles se tornaram raros. Considere o seguinte: outra razão pela qual a maioria dos antropólogos nunca ouviu
falar de sociologias não humanas é que elas há muito caíram em desuso na biologia.
Porque as pessoas adoram o matsutake, elas ficaram preocupadas: o prazere o preço
O curador de Copenhague que mencionei no início deste ensaio me disse que ele não
do masutake fazem dele um objeto carismático para a restauração dafloresta. Mas
trabalha mais na sociologia de cogumelos, porque não há financiamento ou
ninguém sabe comofazer esse cogumelo crescer por meio da ação humana direta.
reconhecimento para o campo. Você pode pensar que eu quero colocar a culpa nos
Apesar de milhões de ienesinvestidos em ciência acadêmica e corporativa, ninguém
camposdealto prestígio dos estudos de bioquímica e genoma, mas meu alvo é mais
conseguiu produzir um cogumelo de matsutake em um laboratório ou em uma
antigo — um campo que começana virada do século passado. Nesse ponto, a empolgação
plantação. O melhorquese podefazeré restaurar os pinheirosdafloresta de satoyama
na biologia se voltou para a genética populacional emergente, o campo que estudaa
e esperar que os matsutake se desenvolvam com eles(Ito e lwase, 1997), Essa é uma
expansão bem-sucedida das populações. Os geneticistas de população argumentaram
proposta de longo prazo. Como um homem aposentado, que esteve ocupado
que as mutações são bem-sucedidas quando superam as outras; assim elas se expandem.
restaurando a floresta de satoyama, explicou, ele não espera ver em vida nenhum
Essainovação reuniu a genética mendeliana e a teoria evolutiva darwiniana; a revolução
matsutake na floresta que ele estava ajudando a restaurar. Estava trabalhando para à
que isso gerou é chamada de “síntese moderna”. Ela tornou-se o centro da teoria e
floresta e para o futuro, disse ele. Cabe à socialidade mais que humana fazer O
inovação nasciências biológicas.
matsutake emergir.
Uma coisa me chamaa atenção sobre a genética de populações: ela depende de uma
Ele pode nunca ver os cogumelos, mas para eles ele mergulha no mundo da vida da
floresta. Pensar através do diálogo entre o Ser humano e o Outro não humano pode
compreensão profundamente empobrecida da socialidade. O pensamento desse

137
campo depende de indivíduos autônomose nãoreativos. Dentro de umaespécie, os
não ser suficiente para aprender sobre mundos multiespécies em formação. Sete:
indivíduos competem para estabelecer as gerações futuras. Entre outras espécies, eles
conhecem apenaspredadoresou presas. Nenhumaoutra relação social é possível. Esta
foiumasimplificação produtiva, é claro. O modelo matemático da dinâmica populacional
dependia disso. No entanto, dificilmente esta era uma plataforma para pensar sobre
relações sociais outras-que-humanas.Ela fez o que pôde para matar a história natural
profissional e, com ela, as sociologias multiespécies.
Essetipo de simplificação produtiva é familiar aos cientistas sociais: sabemos disso a
partir do campoda economia, estabelecido na mesmaépoca com os mesmos princípios.
Na economia neoclássica, os indivíduos são maximizadores autônomos com relações
simples de competição com os outros. As relações sociais são reduzidas a custos e
benefícios. Aqui também as simplificações têm sido muito poderosas, estabelecendo a
hegemonia desta ciência sobre todas as outras ciências do humano. A antropologia
cresceu à sombra do individualismoutilitarista. Por causa do poder deste último, temos
lutado para enriquecer o domínio dosocial ao longo dahistória de nossa disciplina. Isso
também é verdade sobre as corajosas almas das sociologias outras-que-humanas. Para
formular entendimentos enriquecedores dasrelações sociais, elas tiveram que trabalhar
contra as simplificações não sociais da genética populacional. Em certo sentido, elas
tiveram vantagem em relação aos humanistas que lutam dentro das ciências sociais;
ninguém nabiologia sugeriu criar uma disciplina em que a multiplicidadedeespéciesé
irrelevante. Os historiadores naturais convivem com as simplificações da biologia
populacional, diferente da situação na antropologia, em que devemosviver contra a
economia neoclássica. Podemos aprender com suas habilidades de observar os
diferentes águlos de uma situação para elaborar sobre como as relações sociais
zompõem nosso mundo.Talvez eles também se beneficiem de nossas posições críticas.

Tais colaborações podem tornar possível entender a socialidade humana não como
conquista sobre outras espécies, nem como um paralelo a outras formas de ser - mas
zomo um ingrediente em mundossociais nos quais humanos e não humanos vivem
untos. À socialidade mais que humanaé o nosso mundoe também o deles.
eo

ESTUDAMOS RESPONDEM
ENTRESl: FERRAMENTAS PARA
DESEMPACOTAR “O MATERIAL”

No seu melhor, workshops são oportunidades para diversão. Permaneçam comigo,então,


enquanto brinco com o “material”. Eu corroo risco de me perder num terreno perigoso
— em que algunsparticipantes vão me chamarde inacessível. Eu não costumo escrever
trabalhos que sejam apenas sobre “teoria”, e com certeza cometereierros ao longo do
caminho. Mas não me confrontem tão rápido; eu posso abrir algumasjanelas emperra-
das para aquilo que nós, antropólogos, podemosfazer.

"Envolver-se com o material”. nafrase que estrutura este workshop, “o material” p” propo-
sitadamente confunde as distinções entre a análise e o mundo. Na chamada de traba-
p Pp
lhos, “material” refere-se tanto a coleções acadêmicas (o “material” para uma análise)
quanto a coisas mais genéricas ao nosso redor. Essa é umaintrigante sobreposição de
significados a explorar, particularmente porque os interesses, ultimamente, mudaram.
Enquanto os analistasjá agonizaram sobre a questão “Nossas coleções são adequadas
para conhecer o mundo?”, nós perguntamos: “Elas estão animadas o suficiente para
participar do mundo?” O desafio anteriorera a representação, agora é animação.

Noentanto, somos assombrados também pelas considerações de nossosantecessores


sobre a representação.Eles se preocupavam cada vez mais não apenas com o fato de

141
Ri
1 Original publicado em: When the things we study respond to each other: tools for unpacking “the mate-
ep ISPGEE rial”,In: International Workshop on Engaging the Material: Challenges to Anthropology, 13-14 now. 2014, Universidade
: Er
de Oslo. Comunicação. -
terem dados apropriados, mas também com o que entendiam a partir de. 2 Neste trabalho, abordo esse problemaintroduzindo a noção de assembleia, que meaju-
les. As grandescontribuições dos últimos trinta anos estavam mais preocu. dou a acompanhara vivacidade do material, em ambosos sentidos: de dadose de mun-
padas com os aparatos de representação do que com a representatividade do. Em meulivro recentemente concluído (Tsing, 2015), eu dedico muito tempotraba-
dos dados. Nossa capacidade de fazer novas perguntas para entendermos: j lhando a assembleia como uma ferramenta para a economia política — uma posição
como o aparato de coleta de dadosse torna conhecimento depende dos analítica em que sofisticação teórica às vezes subjugoua arte da descrição. Eu também
toyama esquemas brilhantes dos pioneiros desse período. Como herdeiros desses discuto as assembleias de paisagens. Aqui, eu estendo essa última parte da discussão
aitabilidade métodos, nossotrabalho em anirnar coloca em primeiro plano o aparato de 4 para discutir esse conceito na fronteira entre antropologia e estudos das ciências. Isso
coleta de dados. Objetos, reconhecemos, emergem por meio de nossos me permite simplificar o problema do material animado como um problema para as
nte aparatos. Assim, reconhecemos a vivacidade do material por meio davivaci- relações multiespécies. Como, pergunto, podemos aprendera observar encontrosani-
mtraste dade de nossos aparatos de conhecimento para nos envolvermos com ele, madosentre não humanos — em vez de apenasrelações entre humanose não humanos?
de florestas Eutragoa aplicação da economia política para deixarclaro queesta não é a única ques-
Assumir os desafios da animação, no entanto, coloca novosdilemas. Será
npara tão que importa ao abordara animação. O problema de não dar atenção a uma ferra-
que nossa atenção aos aparatos de conhecimento pode, às vezes, confun-
menta que congele excessivamente o material é igualmente importante quando se es-
dir nossa capacidade de perceber o vigor do material? Levar a animação a
tuda um problema quediz respeito principalmente aosseres humanos. No entanto, a
sério significa permitir que o material reaja a outro material, bem como a simplificação ajuda a esclarecer as questões teóricas. Umavez que os aparatos do co-
nós como analistas. No entanto, colocarmos em primeiro plano nossas
nhecimento sejam parte da humanidade do analista, ele ou ela pode se moverpara além
ferramentas às vezes bloqueia a nossaatençãoparaessaforma particular
da dupla primária humano/não humano? Quando, em nosso trabalho, os não humanos
de vivacidade: ao tentarmos evitar estruturas em que fatosreais são sim-
são autorizadosa responderuns aos outros, e não apenas aos analistas humanos?
plesmente “descobertos”, nós nos permitimos identificar a vivacidade
apenas em relação aos processos que desencadeamos.
ANTHROPOSE O MATERIAL
Se o “material” emerge de “aparato”, eles parecem estreitamente parea-
O problema de bloquear a animação do material confunde-se com o novo “Anthropos”
dos em relações um-para-um: um aparato, um material. Deixamos de
(humano) proposto peloscríticos do excepcionalismo humano.A versão de Bruno Latour
lado o material reagindoatravés de seus variados componentes. Assim &
(2013) é umadas muitas possíveis revisõescríticas: em vez de um mestre da natureza, o
“virada acadêmica” para a multiplicidade, por exemplo, destaca os múti- Anthropos de Latour propõequesãoas criaturas “terrestres” queaceitam aslimitações de
plosaparatos de conhecimento atuando simultaneamente.Identificá-las
umaterra multiespécies. Considere-se aindaas implicações de umarelação antropo-ma-
como tecnologias do ser, em vez de conhecimento, não é diferente disso;
terial composta de envolvimentos humanos e não humanos. Embora alguém possa argu-
ontologias múltiplas são nossas multiplicidades de conhecimento. Poderia
mentar queisso liberta os humanosdeseu fardo de domínio,ele transfere o fardo para
haver outros tipos de multiplicidade também??
os não humanos, que, para sempre, só ganham vida por meio da compreensão do huma-
no. Mas por que os não humanos não seriam perfeitamente animados sem nós? Sei a
2 Umaexceção aosproblemas que estou levantando pode ser encontrada no trabalho resposta rápida: na fronteira entre, por um lado, os estudosde ciência etecnologia (C&T),
30
de Donna Haraway, que mostra como empilhar histórias sobre histórias, adicionando contexto
contexto, podendo animar o material. Em vez de segregar formas de operações para ver
formas e poroutro,a antropologia, osteóricostrabalharam arduamente para construir alternati-

143
intrinse
de materiais que emergem delas, Haraway mostra labirintos de mecanismos e materiais, vas àqueles simples positivismos em que as coisas falam porsi, buscando verdades que
camente entrelaçad os em padrões queela chamade “figuras de cordas”.
transcendem o aparato de pesquisa. Isso é bom. Eu concordo com o programa. Mas tal. modernas de conhecer, habitar e fazer mundos. Nos mundos que eles descrevem, ou-
vez não seja suficiente supor que materiais só possam responder ao humano. Um mate- tros seres são “pessoas” animadas, tão vivas e tão sociais quanto os humanos.Essa abor-
“ijal respondea outro material também. Nem tudoé sobre nós. dagem representa um salto empolgante das categorias acadêmicas habituais. No entan-
to, as necessidades de mostrar como esse salto acontece inclinaram a análise para
Considere as principais abordagens pelasquais os teóricos animaram outrosseres. La- abstrações cosmológicas, em oposição às descrições práticas de seres animistas. Em vez
tour é cofundadorda escola da teoria ator-rede, que conquistou boa reputação traba- de observarosseres interagirem uns com os outros, a maioria dosrelatos nos mostra
lhando em torno dos problemas das relações entre humanose tecnologia. A tecnologia comoeles informam linhas de pensamento que expandem as concepções humanas de
é um tipoespecial de material: material criado para responderaosseres humanose ofe- nós mesmos. O interesse dos analistas permanece com os humanos; os outros seres
recer suporte às nossas necessidades e desejos. Emboraseja perfeitamente possível para são extensões de nossas esperançase sonhos.É difícil assistir a todos aqueles seres ani-
os teóricos sociais exploraras histórias dos minérios de cobre ou camposeletromagné-
madamente promissores queinteragem uns com os outros.
ticos antes e fora de suas relações com os seres humanos, a maioria dos teóricos da
tecnologia não está particularmenteinteressada em tais histórias. Eles se preocupam Eu não estou descartando nenhumadessas abordagens; cada umaé inspiradora e neces-
com o que emerge da relação entre humanose não humanos que servem aos nossos sária para resolver meuproblema. Mas,juntas, elas sugerem que um medoirracionalmente
propósitos. Acho que essa é uma ótima maneira de abordar a tecnologia, mas não é ampliado do positivismo criouraízes na fronteira entre a antropologia e os Sciences Studies,
suficiente para conhecer“o material” de forma mais geral. Certamente, quando chega- bloqueando a atençãoa questões que envolvem as interações de não humanos com não
mos aosseres vivos, essas histórias sem nós importam. humanos. Lembrando-nosde não esquecero aparato, permitimos que nossopróprio ser
ocupassetanto espaço na análise que esquecemosque outras dinâmicas também podem
Aabordagem mais proeminente para trazer osseres vivos para umaredefinição do huma- ser importantes. Talvez também tenhamosescolhido modelos que nos permitem obscu-
no vem dosestudosanimais, em que questões éticas ajudaram a reformutara relação en- recer esse problema. A tecnologia e os animais, sejam eles ocidentais ou indígenas, têm
tre humanos e não humanos. Se aprendermos a imaginar os animais não como umaclasse algo em comum: eles nos incentivam a olhar a nós mesmos de perto. Os animais são
de pessoas diferentes ou incômodas, mas comoindivíduos com osquais podemos desen- “comonós”, pessoas de fato, e é fácil imaginar intimidade e cosmologia através deles. Talvez
volver uma relação de resposta mútua, poderíamos abrir nossas vidas sociais para além do seja hora de desviar para o que Michael Marderchama de “pensamento vegetal” — e tam-
humano como o conhecemos. Deborah Bird Rose, Donna Haraway, Thom Van Dooren e bém de pensamento fúngico ou bacteriano — para nos conduzir às relações multiespécies
Jacques Derrida nos empurram nessadireção. Através de um redirecionamento do eu nas quais a consciência e a intenção podem não ser o lugar para começar. Aqui, mais de
humano para incluir animais, nós nos juntamos a umaterra multiespécie. Isso é útil, inteli-
dois podem participar da criação de mundos, e nenhum deles precisa ser humano.
gente e radical. Mas isto também captura “o material” — no caso, o anirnal - por meio da
compreensão humana. Conhecemoso animalatravés desuas relaçõesdiádicas de respos- O desafio é apreciar o dinamismo do mundo não humano sem imaginar fatos quefalam
ta com o Anthropos, por mais amplas que sejam. No entanto, um mais um nãoé suficiente, porsi. Inevitavelmente, o aparato analítico ainda importa. Mas, em vez delimitar-se às

mesmo quandoestá claro que muitos outros fazem cada um deles. Não há ferramentas ferramentas dos cientistas e analistas sociais, poderíamos também verificar os aparatos
aquipara seguir as respostas de muitos, uns para osoutros, e não apenas para nós. de outros não humanos? Para explicar esse ponto,é útil adotar o vocabulário de Karen
Barad, que escreve sobre os “cortes agenciais” que moldam o mundo- incluindoo que
Deixe-me mencionar mais uma abordagem que alcançou proeminência na antropolo-
gia: o novo animismo. Teóricos como Eduardo Viveiros de Castro e Rane Willerslev de

145
3 Encontro uma exceção promissora a essa generalização nos escritos de Richard Nelson e Eduardo
fendem a reabertura do Anthropos através da atenção às formas não ocidentais e não Kohn,queoferecem histórias multiespécies bem observadas dos seres animados nos mundosindígenas.
estamos chamando de “o material”. Para Barac), os materiais emergem em “intra-açõeg”, pesquisa doscientistas que estudam. Eles conversam com oscientistas e seguem seu
envolvendo o aparato de análise, através de cortes agenciais. Poderiam outros seres trabalho de conhecimento, mas eles erguem um muro contra os objetos não humanos
também fazer cortes agenciais, no sentido de introduzir aparatos que moldam o surgi- do estudo, exceto quando oscientistas os relacionam. O mesmo acontece em uma ala
mento da matéria e do “material”? Deixe-me oferecer umailustração perigosamente da antropologia do meio ambiente: antropólogos relatam o que outras pessoas (por
longe da minha base de conhecimento:as proteínas assumem umaconfiguração formal, exemplo, moradores, conservacionistas) dizem sobre o meio ambiente, masse recusam
uma “dobra”, em relação às suasintra-ações. Quando o RNA ribossômicose liga às pro- a conhecer porsi mesmosalgo sobre o mundo natural. É como se tocar um não huma-
teínas como blocos de construção das células, ele introduz um dispositivo a partir do no contaminasse o analista com afirmações de verdade positivistas que se tornaram
qual uma dobra de proteína particular se forma. Outras dobras são possíveis, mas o cor tabu até mesmo aoolhar. Isso é bobagem.
te agencial do RNA molda o material que emerge.É claro que só sabemosdisso por
São necessárias grandes máquinase laboratórios para observar algumas partes do mun-
meio de ferramentas adicionais, envolvendo ciência de laboratório, masisso dificilmen-
do não humano, mas há muitas outras coisas que podem ser estudadas usando méto-
te apaga as intra-ações de RNAe proteínas. Apesar da minha hesitação com os detalhes,
dos que nãosão tão diferentes dos usadospelos antropólogos no trabalho de campo.
minha conclusão deveser clara: os cortes de agências são mais-do-que-humanos.
Ottrabalho da biologia de campo, por exemplo, não é tão diferente da etnografia: envol-
Como um antropólogo pode observarinteraçõese intra-ações entre variados não hu- ve assistir e descreveras relações sociais que o analista encontra. No meu estudo sobre
manos sem cair no poço do positivismo? A partir daqui, sugiro alguns caminhos. Em cogumelos matsutake, acompanheiasrelações comerciais e ecológicas através de técni-
primeiro lugar, ofereço materiais práticos, isto é, “o material” tal como pode surgir nas casrelacionadas (Tsing, 2015). Falei com as pessoas; olheipara florestas e acampamentos
práticas antropológicas e de C&T. Em segundolugar, mostro comoeles se envolvem em e linhas de abastecimento; reuni histórias de suas marcas humanas e não humanas. Em
um conceito revitalizado de assembleia. As assembleias são um meio de perceberas in- outros lugares, descrevi algumas maneiras de olhar a paisagem que meparecem contri-
terações constitutivas dentro do “material”. Finamente, eu ofereço alguns curtos exem- buir para uma antropologia mais do que humana (Ting, 2012). Nenhum dos métodos
plos de trabalho de campo colaborativo realizado recenternente na região central da que descrevo para os não humanos (por exemplo, olhar para a forma, observar encon-
Jutlândia, na Dinamarca. tros sociais) diverge radicalmente daqueles bem conhecidos pelos etnógrafos. E en-
quanto eles expandem as discussões que podemoster sobrepráticas de conhecimento,
eles não mepressionam na direção do positivismo.
PRÁTICAS MATERIAIS
Três intervenções, todas obtidas de maneira colaborativa, guiaram meu pensamento so- Tive ajuda para aprendera imaginar a observação direta como umaferramenta para observar
bre comoentrar no “material” sem que eu o acompanhasse com meupróprio corpo, de a dinâmica das múltiplas espécies, e minhas dívidas com Andrew Mathews e Zachary Caple
modo que sua dinâmica interna desaparecesse. À primeiro consistiu na observação dire- são particularmente fortes. Mathews me mostrou comoler a história social das florestas atra-
ta. Antropólogos e estudiosos da ciência e tecnologia não temem a observação direta vés da forma. Caple foi pioneiro em combinarhistória natural e técnicas etnográficas, fazendo
de seres humanos. Quando aprendemos com a observação participante, não nos acusa- com que parecesse possível (ver também Swanson, 2017). Minha colaboração com esses es-
mosde positivismo. Imaginamos que podemos tornar o contexto do trabalho de cam- tudiosos me dá a confiança para quebrar o tabu: podemosapreciara vivacidade do “mate-
po parte de nossa análise. rial”, em parte, conhecendo-o melhoratravés do nossotrabalho de campo.

O mesmo deveser verdade para a observaçãodireta de não humanos. É fascinante para Minha segundaintervenção metodológica também deriva da colaboração, neste caso,

147
mim quetantosestudiosos de CeT se recusem a aprenderalgo sobre os objetos de com a artista e antropóloga Elaine Gan, que correspondea sintonizar-se com o tempo
como uma forma de identificar a responsividade humana e não humana. Gane eude. bém se alimentam das raízes. Os seres humanosapreciam os corpos reprodutivos fún-
senvolvemos o conceito de “coordenação” para observar as intra-ações do “material” gicos comoalimento gourmet. Essas coordenações produzem umafloresta. Além disso,
Toordenações, no sentido que demosao termo,são respostas temporais através da dj. mostramos comoeles são parte de histórias contingentes, humanas e não humanas.
“erença.Elas nos permitem assistir a ação ea emergência sem exigir comunicação inten- Essas coordenações são moldadas pela industrialização, guerra e urbanização, por um
:ional ou legibilidade mútua entre os participantes. A construção do mundo pode pros- lado, e novas espécies, mudanças climáticas e doenças, por outro. Os humanossão par-
seguir com ou sem planejamento, e privilegiar a intencionalidade como a base da te da história, mas os humanos não fazem a história. Trabalhar com as coordenações
“esponsividade muitas vezes nostraz de volta ao mundoda vida humana. À coordena- como um guia permite que vários protagonistas surjam no coração do “material”.
:ão, em contraste, nos permite reconheceras ontologias incomensuráveis de vários se-
Minhaterceira intervenção metodológica, já sugerida no caso matsutake-floresta, é funda-
es ao mesmo tempoquese observaos devires que eles proporcionam em seus encon-
mentar pesquisa e análise em uma paisagem. Uma paisagem é o sedimento deatividades
ros. Como explica Gan (2013, p. 2-3):
humanase não humanas, bióticas e abióticas, importantes e construídas sem intenção.
Paisagens são mundosativos davida, sustentados portraçose legados materiais, mas ainda
Temporalidade é uma série de coordenações através de abertos a formas e possibilidades emergentes. Eusigo os ecologistas parafazer da diferen-
incomensurabilidades ou ontologiasqualitativamente diferentes. Usando o ça umapropriedade fundamental das minhas “paisagens”: uma paisagem podeexistir em
conceito de Deleuze e Guattari de umavariedade ou assemblage de devires qualquer escala, mas sempre envolve uma diversidade de fragmentos. Uma mistura de
rizomáticos (1987), as coordenações surgem de múltiplas trajetórias que fazendas e florestas é uma paisagem, mas também umafolha na qual insetos e fungos
podem ser consideradas como sequências e limiares para intimidade e criaram micro-ecologias. Pensar com paisagensabre a análise para uma multiplicidade en-
imensidão, continuidade e mudança. Coordenações não são ocorrências trelaçada. “O material” se expande para incluir as relações que fazem lugares e nichos. Mas
coincidentes, ou coisas que apenas acontecem ao mesmo tempo. não precisa abrir-se ao ponto de exigir que tudo entre naanálise. Isso é fundamental para
Coordenações emergem de sequências que sedimentam, repartem-se, o desafio de repensar “o material” p para a análise da relação entre não humanos.
resistem, repercutem, extinguem e permanecem adormecidas. A partir
Considere novamente por que “o material” p parece, muitas vezes, apenas uma coisa, em
dessas variações e interseções entrevariações, umasintonização específica
sua relação com o Anthropos. Umarelação abstrata envolve dois: o analista e “o material”.
se desdobrae se repete. A matéria e o mundo se tornam e evocam uma
multiplicidade de temporalidades, ou de uma coordenação entre as
A distinção diádica entre Anthropos e material é confirmada apenas pela abstração. Em
contraste, se reintroduzirmosa paisagem do material, tudo muda. Urnarelação funda-
diferenças historicamente constituídas que se conjugam e são concretas.
mentada em umapaisagem é subitamente abarrotada por outras relações que exigem
Jossocaso nosleva àsflorestas camponesasjaponesas, já tratado em capítulos anterio- ser contadas. “O material” p se torna múltiplo e seus componentes estão envolvidos em
as, onde humanos, pinheiros, carvalhos e cogumelos matsutake se coordenam para suas próprias interações. O inverso é igualmente importante.É difícil abstrair todos os
riar um espaço habitável para todoseles. Agricultores cortam carvalhos para lenha e relacionamentos que formam uma paisagem. Mais e mais agrupamentos participam e a
arvão; carvalhos brotam de seus tocos, tornando-se características estáveis da arquite- matemática da capacidade de resposta torna-se cada vez mais misteriosa. Umapaisa-
ara da floresta. À floresta aberta de carvalhoscortados dá lugar a pinheiros, que sem a gem é mais fácil de manusear em sua concretude, não como um conjunto de díades em
erturbação humana não entrariam nessas florestas. O pinheiro, porsua vez, cresce um vácuo, mas dentro dos contornos geográficose históricos que lhe conferem uma

149
om cogumelos matsutake, que complementam os nutrientes das árvores, pois tam- composição e caráter particulares. Essa é a sua força comoferramenta analítica.
“eu estado dealerta para a paisagem deve muito às conversas com Heather Swanson, que me de ser”. A identificação de espécies podeser uma boa pista para os modos deser das
mostrou que tanto a água quanto a terra fundamentam a análise da socialidade mais do que coisas animadas, mas é apenas umapista. Nós conhecemosisso bem noqueserefere aos
umana (Swanson, 2017), O estudo de Swanson sobre o salmão exigiuatenção a duas paisagens humanos. Apesar de as espécies serem comuns, agricultores e cientistas “produzem”
quáticas radicalmente diferentes: o rio onde nascem salmões e ondeeles voltam para desovar, paisagens de maneiradiferente, em função de seus modosde ser, que são moldados por
:omar aberto onde viajam para se alimentar durante a maior parte de sua vidaadulta. A o hábitose legados que nós explicamos como “cultura” e “história”. Hábitos e legados são
var a sério cada uma dessas paisagens aquáticas — assim comoa terra ao redor da água — ela igualmente relevantes para a vida de outras espécies. Um organismo em um ambiente
nostra múltiplos interlocutores para o salmão, incluindo humanose não humanos, e de vários pode ser um companheiro pacífico para seus vizinhos; fora desse cenário, pode se tornar
ipos. Em vez de se limitar às relações humano-salmão, ela as fundamenta nos mundos que os um destruidor virulento. As identificações de espécies não são suficientes para se
almões criam. “O material” emerge dessas paisagens, em vez de atuar sobreelas. conhecertais modosdeser, o que me conduz para histórias e microecologias ambientais.

O conceito de “modos de ser” também meleva à teoria social. Estou interessada em


ASSEMBLEIAS: DESEMPACOTANDO “O MATERIAL” assembleias como conjuntos de coordenações através da diferença, ou seja, em
:sses três métodosse juntam para possibilitar o conceito de assembleia (assemblage). A situações em que um dos parceiros em uma coordenação pode operar de forma
issembleia é uma ferramenta para explorar a dinâmica constitutiva das paisagens. bastante diferente de outro e sem a legibilidade mútua. Seguindo Helen Verran (2007),
vinhas assembleias são coordenações de variadas maneiras de ser — humano e não pode ser útil chamar tais estratégias de existência de “ônticas”. Verran contrasta os
“A
umano, vivo e não vivo, dentro e fora das práticas iluministas. Através da investigação modoscotidianos deser, os “ônticos”, com filosofias de ser, as “ontologias”. Sob o olhar
Je paisagens baseadas em reuniões de coordenações, o trabalho de campo poderia abstrato da reflexão, ônticos tornam-se ontologias; por suavez, práticas ontologicamente
umpliar a unidade falsamenteimaginada do “material” parasuarelação com a ferramenta interessadas na vida são ônticas. Para Verran, ambos os termosse referem a aparatos
Je investigação analítica. humanos. Não há razão para pensar, no entanto, em não estenderos ônticos aos não
humanos(a ontologia podeser mais difícil: os não humanostêm suas próprias filosofias?).
veu uso do termo assembleia baseia-se na ecologia e na teoria social. Os ecologistas
As assembleias, então, agrupam os ônticos discrepantes, humanos e não humanos. Elas
alam de “assembleia de espécies” (“species assemblages”, isto é, ajuntamentos
nos permitem perguntar sobre resposta e interação sem unidade ontológica. E assim
saracterísticos de espécies. O termo extrapola as conotações às vezesfixas e limitadas elas também proporcionam investigações em formas de multiplicidade ontológica nas
le “comunidade” ecológica. Assembleia mantém abertas as questões sobre como as
quais os humanosnãosão os únicos com dispositivos de cortes agenciais.
rariadas espécies em um agregado de espéciesinfluenciam umas às outras. Algumas
aspécies são predadoras e presas; outras competem entre si; outras ainda se ajudam Outros teóricos sociais usam o termo assemblage de maneira diferente. Os dois usos
mas às outras em relações mutualísticas. Além disso, as espécies vêm e vão. Assembleias mais comunsdos quais tenho consciência denotam estruturas discursivas (Ong e Collier,
;ão agrupamentos abertos. Eles nos permitem questionar sobre efeitos comuns sem 2004) ouredes deatores(Latour, 2005). Cada um dessesusos tem objetivos e promessas
assumi-los, e nos mostram histórias potenciais em formação. bem diferentes das que promovo aqui. E enquanto eu suponho que é um ato de grande
arrogância procurar umapalavra para significar o que você, ao contrário dos outros,
Nem espécies nem organismos, no entanto, são as melhores unidadespara a proposta de quer, o termo não é tão engessado,ainda que pareça imutável; nem é umachave em
assembleias. Mesmo onde osseresvivos são elementos-chave do entrelaçamento, quero qualquer uma dassituações que acabei de mencionar. Além disso, o fato de assemblage
ver as identidades se aglutinando na assembleia e, portanto, não posso escrever seus

151
ser usado comoa traduçãoinglesa para o agencement dofilósofo Giles Deleuze só me
zontornos em unidades preexistentes. Em vez disso, assisto a ajuntamentos de “modos
hábitos de observação. Essas
ajuda — fornecendo um amplo campode interpretação no qual o principal obstá, Trabalhar com assembleias, então, requer a construção de
são a chave para um envolvimento mais rico com o “material” no qual os materiais
a lealdade em desfazer obstáculos.
interagem uns com os outros, assim como conosco. A melhor maneira de mostrar o que
variável é adicionar o qualificador “polifônico! .
i i inha
é poltênicol querodizer é se deslocar para dentro de alguns breves exemplos.
Uma maneira espedfica
de2015), r inha
expliquei esse qualificadorda seguinte forma:
meulivro (Ting,

Polifonia é música em que melodias autônomasse entrelaçam. Na m é ASSEMBLEIAS MULTIESPÉCIES NAS RUÍNAS DA MINERAÇÃO
ocidental, o madrigal e a fuga são exemplos de polifonia. Essas feia
INDUSTRIAL
parecem arcaicas e estranhas para muitos ouvintes modernos p
Em meutrabalho atual com o programa de Pesquisa sobre o Antropoceno da
foram substituídas pela música em que um ritmo e uma melodia unifi
a a ácai a “ Universidade de Aarhus(Aarhus University Research on the Anthropocene - AURA),
mantêm a composição unida. Na música clássica que substituiu a barro paisagens moldadas Pp pelo
pesquisadores Pp para examinar as paisag
. SO . . Jiuntei-me a quip de pesq
uma equipe
unidade era o objetivo; isso foi “progresso” exatamente no sentid
plano das atividades humanase mesmoas que O ultrapassam. Nosso primeirolocal de
estudo foi uma área de mineração abandonada no centro da Jutlândia, na Dinamarca.
Durante e depois da Segunda Guerra Mundial, o carvão marrom (linhito) foi escavado
do solo e vendidopara energia industrial. A mineração cessou em 1970, deixandoa área
cheia de lagos — isto é, os buracos de onde o carvão marrom foi removido — e dunas de
momentos de harmonia e dissonância queelas criam juntas. Esseti areia — o rejeito amontoado. Era uma área era dificil para os seres vivos, porque a
m
mineração havia deixado descobertas camadas deargila rica em pirita, que oxidava
percepção é exatamente o que é necessário para apreciar os múlt
ritmose trajetórias temporais da assembleia. comoácido sulfúrico. Além disso,as pilhas deareia eram instáveis e o subsolo movediço
as tornavaperigosas demais para o desenvolvimento humano.Árvoresforam plantadas
ão têm inclinaçã i r útil imagi .
; parte da Dinamarca,
x com a maior a
Para aqueles que não têm inclinação musical, pode se 8 em algunslugares; no entanto, emé comparação
. i
o início das plantiã o
ia polifôni ão à agri previsão de recursos para a gestão da paisagem deixou a desejar. Nesse terreno
assembleia polifônica em relação à agricultura Desde .. ? H
cul
a agricultura comercial tem como objetivo segregar uma única favoravelmente “selvagem”, os pesquisadores da AURA se perguntaram como os
tâneo para “ mo
trabalhar em direção ao seu amadurecimento simul materiais” interagem uns com os outros.
lturas têm mil
colheita coordenada. Mas outros tipos de agricu
ritmos. No cultivo itinerante que estudei no Borneo indonésio, Mg Em minha parte na pesquisa, fiz dos fungos um guia para as assembleias emergentes das
culturas cresciam juntas no mesmo campo e tinham calendários8q areias ácidas. Isso foi possível graças à generosa assistência dos micologistas Henning
. . méié Knudsen e Mikako Sasa, que me orientaram. Eu também trabalhei com uma pequena
. banana, inharne, batata-doce, cana-de-açúcar, pal
diferentes. Arroz, . ndei
: A . . equipe, incluindo Nathalia Brichet, Elaine Gan e Thiago Cardoso. Todo o projeto (com
ltores precisavam atenda
árvores frutíferas se misturavam, e os agricu 35,
. . uma dessas cultur à muitos desdobramentos) só foi possível por causa dos esforços de pesquisa desses
variados cronogramas de maturação de cada
08
nas; se somarm Osa Colegas, assim comoNils Bubandt, Rachel Cypher, Maria Dahm,Pierre DuPlessis, Natalie
ritmos eram sua relaçãão com as colheitas huma
1
os tmg
Forssman, Peter Funch, Frida Hastrup, Colin Hoag e Mathilde Hejrup, ThomasKristensen,
relações, por exemplo, a de polinizadores ou outras plantas, esul Ê

153
-
Katy Overstreet, Pil Pedersen, Meredith Root-Bernstein, Heather Swanson e Jens-
ga va me
multiplicam. A assembleia polifônica é a reunião dessesritmos,1
.

s. Christian Svenning. Esperamospublicar juntos e separadamente nossosresultados.


de projetos de criação de mundo, humanose não humano
“WS
Duas questões foram particularmente excitantes para mim naquele lugar. emjazidas de linhito. Isso ocorre porqueeles têm sido bem-sucedidos aotrabalhar com
Primeiro, porque tudo o que estava vivofoi exterminado, a vida teve de fungoslocais receptivos, ou seja, aqueles que não são muito exigentes em relaçãoa seus
começar tudo de novo — é um local para observar o que poderíamos anfitriões. Nas duas fotografias a seguir, tiradas por Elaine Gan, pode-se ver o pinheiro-
chamarde “ecohistórias-de-novo”.Eucriei esse termo em conversas com -lodgepole invadindoa areia descoberta graças à ajuda do Paxillus involutus, talvez o fun-
ecólogosinteressados em “novos ecossistemas”, mas em resposta tanto ao go ectomicorrízicos mais presente na Dinamarca.
nelhos “novo” — diante da confusão sobre o que é novo e o que não é — quanto ao
tlândia “ecossistema” — muito estável e autorregulável em suas suposições. O que
ecuo das crescia naquelas ruínas? Em segundolugar, estava interessada nas constantes
ram (embora irregulares) perturbações mais que humanas que moldam lugar.
2 reduzidos Considerando que os “novos ecossisternas” são imaginados como surgindo
4 sozinhos após um momento de perturbação humana, nasjazidas de linhito,
aisagem; as perturbações humanas nunca pararam. Além disso, os humanos
nos atrás, raramente “projetam” a perturbação, no sentido de planejar o
n mortos gerenciamentodas paisagens. As perturbações humanas são principalmente
1
as sobras involuntárias de atividades(por exemplo, mineração)nas quais as
consequências na paisagem são dificilmente pensadas. Nisso, de fato, os
seres humanossão bastante semelhantes a outras espécies agressivas na
paisagem. Najazida de linhito pós-mineração, os pinheiros-lodgepole (Pinus
contorta) invasorese a superpopulação de veados-vermelhos tiveram cada
um deles grandes efeitos na modelagem da paisagem. Cada uma dessas
espécies — humanos, pinheiros e veados — podem ser consideradas como
uma“agitação” da paisagem,não sendo possívellimitar suas perturbações a
apenas uma de suas instâncias. As assembleias que acompanho são O
resultado dessa agitação multiespécie.

Deixe-me trazer alguns pequenos exemplos das coordenações através


das quais se formam assembleias nesse lugar. Primeiro, as ecohistórias-de- Que tipo de antropologia é essa que observa pinheiros e fungos trabalhando juntos?
-novo: as árvores são capazesde se estabelecer nas dunasgraçasà ajuda Nostermos que estabeleci aqui, as micorrizas formam um aparato de coordenação. Os
de fungos ectomicorrízicos,isto é, fungos que reúnem nutrientes da areia pinheiros e fungos têm maneiras bem diferentes de ser; que eles formem estruturas
e os tornam acessíveis às árvoresatravés de suasraízes. Isso é particular- conjuntas é um exemplo do resultado da assembleia. Certamente há comunicação en-
mente notável para espécies exóticas, como o pinheiro-lodgepole, trazi- tre raiz e fungo, mas não compreensão mútua. A análise aqui pode se ocupar do proble-
do para a Dinamarca sem a companhiadeseusfungosfavoritos. Lodge-

155
ma de ônticosdivergentes reunidos nas coordenações da assembleia. É claro que minha
pole é uma espécie norte-americana, mas crescerápido e furiosamente percepção também é relevante paraa análise. Mas seu objetivo é permitir a articulação
com os aparatos dentro do material, em vez de assumir que apenas a interface entre é lhando para estabelecer formas de existência por meio de coordenações disponíveis. Por
meu aparato e o material, imaginado comoalgo homogêneo, importa. À micorriza é um meio detais aparatos, os materiais respondem aos materiais e mundos sãofeitos.
aparato da mesmaforma que o trabalho de campo. Ambos importam.
Mas quais são esses mundos? isso não é ciência normal, Em nossapesquisa, observações
As assembleias modificam paisagens, em parte, por meio de suainteração com outras esporádicas e informais são significativas. A maioria das discussões que os cientistas de
assembleias. Nafoto a seguir, os cogumelos em primeiroplanosão Lactarius coconutscented humanas da equipe estão tentando fazer pode serfeita inteiramente sem dados quan-
um fungo que cresce principalmente com as raízes de bétula. Ao fundo e um pouco titativos e estatísticas. Além disso, nosso próprio aparato de pesquisae análise é parte
direita da foto, é possível ver a pequenabétula a cujas raízes os cogumelosestão presos, 4 essencial de nossas considerações. Os mundos que estudamos, portanto, são articula-
çõesentre as coordenações queestabelecemos e as que sãolevantadas no campopelos
nossos aprofundamentos. Tais articulações, planejadas e não planejadas, também são o
material das relações humano/não humanas nessapaisagem de maneira maisgeral.

Osplantadores de árvores humanostrouxeram os primeirospinheiros, que avançaram


além de seus sonhos mais selvagens. As novasflorestas surgiram no momento em que
outrahistória ecológica se desenrolava na Jutlândia: o retorno do veado-vermelho. Os
veados-vermelhos ocuparam a Jutlândia após o último recuo das geleiras, mas foram
gradativamente reduzidos pela caça e pela mudança na paisagem; cerca de 300 anos
atrás, os veados foram mortos paraprotegeras fazendas. Nosúltimos 25 anos, quando
as fazendas foram abandonadas, os veados-vermelhos voltaram. A jazida delinhito tem
sido um refúgio ideal paraeles, porque a presença humanaé limitada pela instabilidade
daareia. Além disso, assim que tiveram conhecimento da sua presença, os caçadores
começaram a comprar terra e incentivar sua reprodução fornecendo comida extra.
Populações de veados-vermelhos explodiram. Durante o dia, de fato, os veados estão
concentrados nas florestas comparativamente não tão apetitosas de pinheiros. Como
um caçador explicou, o veado comea casca das árvores não porque gosta de comê-la,
mas porque “está entediado”.

As árvores danificadas pelos veados morrem, às vezes permitindo que outras espécies
as sucedam. Claro, os fungos participam.As árvoresdanificadas são rapidamente infec-
de que essa “4
O interessante de encontrar essa configuração, para mim, envolveu o fato tadas por fungos parasitas e decompositores, que geralmente são responsáveis pelo
pequenaárvore de bétula estava crescendo no meio de uma floresta de pinheiros muito golpe final. Aqui também está a coordenaçãoe a criação de paisagem, embora em dis-
antiga — um lugarque é muito sombreado para o feliz estabelecimento da bétula. Mas posiçõese inícios imprevisíveis. Assembleias emergem de todos os aparatos de coorde-
nação em cena, que nesse lugarsão o tédio dos veados-vermelhos, a vulnerabilidade das

157
com a ajuda dos fungos, a bétula consegue se manter. A paisagem é um conjunto de as
sembleias — aqui pinheiros e bétulas, cada um com seus fungosnutritivos, cada um traba" 4 árvores, osapetites fúngicose a disponibilidade de árvores sucessoras que aguardam na
vegetaçãorasteira. As duas últimas fotografias, tiradas de dois ângulos no mesmo local Essa cena de coordenações multiespécies nãofoi “projetada” pelo veado, nem se soma
porElaine Gan, mostram uma chafurda de veados cercada porsalgueiros que estão a um “sistema” ecológico autorregulador. Faz parte da história ecológica deste lugar,
com suas superpopulações de veados. É uma perturbação causada pelo movimento
dosveados. Da mesma forma, os seres humanos não projetaram essa paisagem, mas a
movimentação humana — incluindo a alimentação do veado, que (juntamente com a
construção de estradas intransitáveis) dá origem à aglomeração — é fundamental.
O movimento,seja de humanos, veados ou árvores,faz as paisagenshistóricas, em vez
de estáticas. E a maneira de apreciar essa história é por meio da observação dos apara-
tos dos não humanos, assim como os dos humanos. Nossos aparatos são bern-sucedi-
dos na medida em que se expandem para se coordenar com os dos outros.

O material responde ao material, não apenas a nós.

159
“Eu preferiria esperar que uma cabra tivesse sucesso como jardineira, do que esperar
que os humanosse tornassem administradores responsáveis da Terra”. Essa provocativa
citação do fundadorda hipótese de Gaia, James Lovelock, abreasseis palestras de Bru-
no Latourintituladas Facing Gaia (Latour, 2013), E, de fato, como Latour argumenta, os
destroços causados pelos humanos têm sido grandes. Latour menciona as mudanças
climáticas, a canalização derios, a erosão, a extinção em massa, O desmatamento e a
acidificação dos oceanos, entre outros. Eu concordo: temos um grandeproblemae não
existem soluções simples. É um momento importante para os estudiosos renovarem
nossa atenção ao chamado mundo natural.

As palestras de Latour nos ajudam. Latour argumenta que o primeiro passo é desvincu-
lar-se das concepções modernistas sobre a natureza comopassiva transcendente e,
em vez disso, abraçar os mundoscontestadose provisórios dos quais participamos.Indo
além das alegações de verdade tanto da ciência quanto dareligião, ele nosatrai para
umanova reunião, o “povo de Gaia”, isto é aqueles queaceitam as características locais,
históricas e incertas de seus compromissos com o mundo. Os autores que tive O privilé-
gio de apresentar novolume 2 do Aura Working Paper? (Brichet e Hatrup, 2014; Flikke,
2014; Nustad, 2014; Nyquist, 2014) são certamente “pessoas de Gaia”. Cada um concor-
daria com a premissa-chave de Latour: o que era imaginado umavez como natureza

1 Original publicado em: Wieckage and recovery: exploring the nature of nature. Edição de Arma ing Hojb-
jerg; Aarhus University 2015. (More than human: Aura Working Papers, v. 2). Disponível em: http://anthropocene.
audk/working-papers-series/

161
É g ) ;
a ara - o e cNSRADE
' Tait Parra po ANSaço) [NATo(a deSanta Cruz, Estados Unidos. E E. 2 Periódico do projeto Aarhus University Research onthe Anthropocene — AURA (http://anthropocene.
E audk/) (Nota dos Editores).
e PARE
as
Esses exemplos ilustram o tema deste workshop, que tem amplos
deve ser reconceitualizado dentro de suas disputas constitutivas. No entanto, eles tam.
fundamentos empíricos ligados a destroços ou recuperação, ou ambos, mas
bém nosatraem para fora do escopo de Latour. Eles refazem a pergunta de Latowr . É
com um foco compartilhado na discussão de comotais questões podem ser
“Quem são as pessoas de Gaia?” — e oferecem respostas bem diferentes. “O que traz ;
estudadas proveitosamente com ferramentas dos estudos da C&T e da
um encontro assim?”; Os participantes falam uns com os outros?; “E que papel podef
antropologia. Procuramostrabalhos em andamento em torno dequestõesde:
haverpara os estudiosos?”. Seus artigos discordam da estrutura de Latour, mostrando;
um caminho alternativo para fora da natureza modernista. Através de um jogo de coe. e como a ruína das condições presentes (naturais, sistêmicas e / ou
são e contraste, então, as palestras de Latour me ajudam a mostrar O que é excitante ef políticas) nos afeta e nosforça, por necessidade ou criatividade,a lidar com
4
original em textos que exploram a natureza da natureza. as novas condições devida e de ser humano;

Ostrabalhos citados aqui fizeram parte de um workshop realizado em dezembro dei e como interferências humanas deixam pegadas naterrae noclima, onde
2013, intitulado “Destroços e Recuperação: Vivendo com a Mudança”. O workshop, read negociamos, nos apropriamos ou nos opomos esses desenvolvimentos;
lizado em Oslo, foi um esforço colaborativo entre os programas Tecnologia, Informaçãod
é comopaisagens socio-naturais contestadas surgem dentro deestruturas
e Conhecimento (TIO)e Anthropos e o Material, da Universidade de Oslo, e a Pesquisa
de economia política e formações pós-coloniais;
da Universidade de Aarhus sobre o Antropoceno (Aarhus University Research on theg
Anthropocene — AURA). À chamadapara artigos teve como alvo antropólogos nórdicos] é como coabitamos(ou não) com outrostipos de espécies em tempos de
a
e estudiosos de ciências e foi compostaporTina Talleraas, Sylvia Lysgárd e seusassoci perda e restauração;
dos na TIK. Ela incluiu o seguinte:
* como várias pessoas vivem, negociam e discutem sobre mudanças
dl
Destroçose recuperação,especialmente quando colocadaslado lado, são através de estratégias de restauração, políticas de mitigação ou práticas
o
palavras que fornecem várias associações. Elas ressoam com extinçã alternativas de coabitação.
ea
sobrevivência; poluição e adaptação; demolição e reconstrução. Ou começam
s q
a pensar em perda e resgate da existência, nas práticas humana Convidamos estudiosos da CeyT e antropólogos que reconhecem este amplo
destruição e inovação. Comum a todos esses pares é a conexão col interesse de pesquisa em seu própriotrabalho, seja em função de material
derrubada ou a construção de algo específico. empírico adequado, abordagens metodológicas ou perspectivas teóricas
sobre como estudar mudançae correção. Alguns de nós nos concentramos
granf
Vivemos em tempos em que as preocupações com O climasão de em paisagens desestruturadas e desordenadas, alguns seguem espécies
alcance, afetando a vida cotidiana das pessoas e da política. Utiliza ameaçadas em convergência de extinção, enquanto outros cuidam das
ferramentas biotecnológicas para produzir novas formas de vida construções da natureza e dos animais na ciência. Talvez você escreva sobre
costum
desafiam a compreensão da vida e da natureza como indústrias ou soluções tecnológicas, siga processoscientíficose políticos, passados
conhecer. Vivemos com legados imperiais que continuam à prod presentes, ou procure entendera ecologia política ou imaginários capitalistas e
paisagens contestadas. Somos forçados a confrontar à corn! pós-coloniais. Convidamos você a participar deste workshop.
interligação entre a devastação de modos de vida, humanose não huma
É Colecando “destroços” lado a lado com “recuperação”, o workshop estabeleceu termos que

163
forf
pelas atividades humanas, bem comosuas associações com várias
de tecnociência. É Tustraram as declarações radicais de desastre ambiental. Ainda assim, admito que fiquei
surpresa queentreos dez artigos apresentados, nenhum descreveu “destroços”. A major; Somente quandoaceitamosa natureza parcial, disputadae política do conhecimento,
dos artigos eram relatos etnográficos e históricos sobre osesforços de “recuperação” 8 em podemosprosseguir além dos impasses estabelecidos em nosso caminho pela ciência
geral a recuperação acabou sendo,pelo menos, tão problemática quanto os destroços que e pela religião. Então, como podemosconhecera Terra? Latour oferece duaspistas. A
pretendia resolver. Algunsartigos descreveram o uso de recursose a extração, mas Mostra hipótese de Gaia, de James Lovelock, mostra-nos umaterra multiespécies animada na
ram negociação e mitigação, em vez de ruína. Na medida em queesse consenso sugen qual os humanos não são os únicosatoreshistóricos. À filosofia de Peter Sloterdijk nos
uma “zona de conforto” para antropologia e CeT eu vejo isso como motivo de preocupa lembra de que as possibilidades humanas nos colocam nasuperfície da Terra, com
são. Os destroçosestão fora doslimites? Voltarei a essa questão aofinal deste interlúdio,” todas aslimitações dessa posição — sem olharpara baixo do céu, como os pensadores
No momento, meutrabalho discutir o que oferecemos, não o quesentimosfalta. modernistas imaginavam para nós. É a partir dessas pistas que Latourreúne seu povo
de Gaia em uma guerra de mundosqueos coloca contra a a Humanidade e a Nature-
Osartigos selecionadose publicados no volume 2 dasérie AURA Working Papers des
za modernas.Esta guerrafilosófica, ele argumenta, pode fazer todaa diferença para o
tacam os pontosfortes do workshop como um todo: são análises sofisticadas de como a
destino da Terra.
“natureza”passa a existir. Em vez de estabelecer um pano de fundo passivo paraa ativi-
dade humana,os trabalhos do workshop descreviam práticas cotidianas, mobilizações e Latour é ousado, claro e provocativo. Este é um presente incrível. Entre outras coisas
disputas através das quais os objetos naturais emergem, pelo menos provisoriamente, boas, significa que ele pode ser um excelente iluminador, através do qual é possível es-
dentro dos projetos de criação de mundo. Umadas características mais empolgantes do clarecer formulações alternativas do problema da natureza. A natureza esquemática do
workshop foi sua atenção à história: os trabalhos mostraram mudanças nas articulações argumento de Latour provoca diagramasalternativos. Sua claridade também provoca
da natureza dentro dosventos inconstantes envolvendoinstituiçõese indivíduos, políti- tentativas de serclaro. No espírito dessas provocações úteis, deixe-me oferecer uma vi-
ca e cultura, e o nexo de arranjosinterespécies que possibilitam articulações particula- ; são estrutural de comoosartigos apresentados no workshop discordam dos termos do
res. Nós também fomos apresentadosa alguns bons exemplosda interação sutil e aten- argumento de Latour. Aqui, no entanto, espero despertar seuinteresse com o contorno
ção aos detalhes produzidos pela melhor etnografia. Nossa conversafoi animada pela mais forte.
disposição dosparticipantesdeir e voltar entre os detalhes minúsculos que surgiram da
O caminhoalternativo dosartigos para escapar da natureza modernista pode ser carac-
pesquisa e grandes questões de teoria e método. Os quatro artigos que compõem a
terizado, contra as formulações de Latour, como segue:
referida publicação são exemplosparticularmente bonitos desse processo de ida e volta.
Cada um oferece um estudo de caso cuidadoso, e cada um deles procura, ao mesmo 1. Possibilidade humana:as agilidades de espécies se desenvolvem através de histórias de po-
tempo, estimular mudanças no pensamento convencional sobre o conhecimento, à dere diferença — não da humanidade universal.
prática social e como os humanos habitam a Terra. Eu tornoa liberdade deusar as Gifford 2. Política: a mobilização cria articulações através da mudança de posições interseccionais —
lectures de Latour (2013) como um facho parailuminaressas percepções. não de confrontos sem sentido com estranhos.
3. Linguagem:as palavras e os conceitos ganham significadosatravés das lutas em que estão
envolvidos — não delógicas subjacentes transcendentes.
FACING GAIA — LATOUR EM ALGUMAS ALTERNATIVAS
4. Prática acadêmica: os estudos se desenvolvem noencontro e na colaboração — não em
Latour começasuahistória com as alegações de conhecimento,primeiro da ciência €
torres de homensungidos.
depois dareligião. Essas afirmações da verdade se espelham, argumenta- e ignoram
Espero ter chamado sua atenção. Para examinar o queissosignifica, continue lendo.

165
estrategicamente as condições sob as quais cada umarealmente produz conhecimento.
ONDE DEVEMOS OLHARPARA AS POSSIBILIDADES odores. À colonização as habilidadesde espécies se fizeram mutuamente.
Habilidades
HUMANAS? de espécies se desenvolvem por meio de discursos de podere diferença —
não de uma
Rune Flikke escreveu um artigo extraordinário sobre o cheiro. Na década de 1870, na humanidade universal.
cidadede King William, na África do Sul, os colonosbritânicos plantaram eucaliptos por À
Isso faz diferença em nossas análises. Não é um ornamento de umateo
que achavam queo aromade eucalipto compensaria os odores da vida nativa, que, ima- ria geral, isso
mudaa teoria. Isso nos permite ver algo completamente diferente quando
ginavam, carregavam doenças. Flikke mostra queosdiscursos médicos e ambientais se olhamos
para “o humano”. O “povo de Gaia” que Flikke chamaé fragmentado
sobrepuseram aqui, através do olfato, como osprimeiros interesses dos Solonos em j não — como en-
tende Latour — porque eles sealinham a ou contra assuntos
plantar árvores para melhorar visualmente a paisagem transformada em higiene social, específicos, mas, sim, por-
queeles incorporam diferença e a desigualdade desde o início, através
O forte cheiro do eucalipto tornou-o umaferramenta para colonizar a paisagem efi- das narrativas
que os elaboram. Em relação à Humanidade modernista, alguns mal são
caz contra seus perigos, humanose não humanos. humanos, ape-
sarde suas espécies, e isso pode bloquearsua entrada aojuntar-se
ao círculo latouriano.
Flikke é explícito em sua consideração do olfato como uma habilidade humana, isto é, Talvez seja mais fácil apreciar isso mais profundamente ao nos voltar
mos para a questão
um modo pelo qual os humanosentram em contato e se unem ao mundo.À partir de da política.
Tim Ingold, Flikke (2014, p. 28) escreve:

A medida que nos movemos,a paisagem é umadas muitas superfícies do mundoj O QUE É POLÍTICA?
ondea respiração é a base da vida que continuamente perturba a distinção ent Para se inspirar na política, Latourrecorrea Carl Schmitt, cuja
ideia, como Latour explica,
um terrenosólido e a atmosfera mais elusiva [..) Quando andamos, respiram é que a política é tida comoa inimizade contra o estranho,
o outro entre nós. Essa
sentimos o vento abraçar nossos corpos, os aromas de árvores, cas flores e de) definição inspira Latour a arregaçar suas mangas contra os modernistas,
a cujas
may, misturamo-nose participamos desses aspectos do nosso entorno LC]. definições de Natureza e Humanidade ele se opõe. Retornarei a discussão
sobre essa
traços olfativos doseucaliptos que emanam das árvores individuais estendem sia batalha contra as palavras na próxima seção. Mas aquiparece útil
considerar: que tipo de
presençaatravés doar até quese fundam conoscoatravés da respiração. política é essa? Certamente é aquela em que se deve definir o inimigo
antes da batalha.
É umapolítica que impede reposicionamentos de amigos e inimigos
E, no entanto, a análise de Flikke oferece uma ruptura com a deIngold e io j no meio do conflito.
pensa atravésde Sloterdijk. Tanto Ingold quanto Sloterdijk imaginam as habil as A Para um quadro diferente sobre política, é útil recorrermosà etnogra
fia deliciosamente
manas como universais, determinantesda agilidade das espécies. Já para Flie, o a rica do artigo de Jon Nyquist sobre os Kimberly Toad Busters
(KTB), um grupo de
só faz sentido em função dasnarrativas de raça, classe e colonização. O cheiro cor x australianos ocidentais que se reuniram para descartar manual
mente todos os sapos-
O
lipto é o cheirode higiene doscolonos britânicos; é uma reação contra era cururu que encontravam. Os sapos-cururu são uma espécieintrodu
zida na Austrália, e
portadoresde doenças. Flikke até observa queas ontologiasafricanas podem dê eles tanto envenenam predadores quanto expulsam os competidores
nativos.
do a criar esseolfato britânico: os caçadoressul-africanos seguiam as presas pelo nã
Os KTB argumentam que os sapos-cururus empobrecem a biodive
Se, comoele afirma, "os aromas quese estendem pelo ar [1 são essenciais para lig rsidade das paisagens
bell é izal em que eles chegam para dominar. O objetivo de Nyquist é ouvir
é jas históricas de coloniZig atentamenteo que os
presença neste mundo” (Flikke, 2014, p. 30), é através de teias his rática-M caçadores de sapos dizem e observar o que eles fazem, Ele
e das categorias raciais e padrões de colonização que isso é colocado em
P ao fica nervoso de deixar o
“contexto” dominar o que seusinformanteslhe mostram;ele querqu

167
inalar a "saúde”,
Ú os colonosbritâ j
nicos tiverarr
itâni que aprender
Êisso em oposiça!
p' ição eas características
dos sapos surjam da ação e do discurso dos participantes
do KTB. Latour, imagino,
aprovaria. No entanto, a atenção cuidadosa de Nyquist ao rebentamento de sapos aborígines— elaborado especialmente para atrair o ministro do Meio Ambiente para seu
mostra-lhe uma política de mudanças que continuamente remodela os seres humanos
PE
campo. Nessa política de mudança de identidades, as posições são continuamente
bem comoossapos.A inimizadeé2ainstável,
atualizadas. Asarticulações são criadas por meio de potencialidades intersecionais —
. a A
assim como a aliança. ,

Considere o que acontece quandoos Toad Busters, majoritariamente brancos, começam pontos em queinteresses sobrepostos podem ou não ser formados. A mobilização cria
a trabalhar com os guardas-florestais aborígines. Nyquist registra umainteração na qual articulações através de posições intersecionais flexíveis — não confrontos sem sentido
am Toad Buster brancoentrevista um guarda-florestal aborigene, o qual explica como com alienígenas.
2s sapos puseram em perigo aspráticastradicionais ao destruir osarbustos alimentares:

nós crescemos caçando, você sabe, lagartos e.. os antigos costumavam nos COMO PALAVRAS ADQUIREM SEUSSIGNIFICADOS?
ensinar, mas não há nada, se o sapo deixar completamente Kimberley não haverá É hora devoltar à batalha de Latour sobre palavras e conceitos. Sem vontade de parar de
mais nada para nossosjovense seusjovens caçar, e não terá nada para ensiná-los construir um novo vocabulário, ele quer lutar contrapalavras e conceitos dos quais ele
porque não haverá nada lá [..] nossosfilhos esqueceriam nossacultura e como não gosta. Mas de onde vêm as palavras e conceitos? Na guerra de Latour, eles são
caçar e tudo o mais (Nyquist, 2014,p.41). efeitos de um modo de existência: Natureza e Humanidade emergem dosalgoritmos
da modernidade. Outros entendimentos de palavras e conceitos são possíveis. Por
Nyquist (2014, p. 42) observa aindaa reação do entrevistadorbranco: exemplo, e se as palavras fossem ferramentasda batalha e não a razão dabatalha? Isso
ucta 4 a: . .
Ele diz que isso é exatamente o tipo de coisa que ele quernessesfilmes e ele não poderia oferecer uma abordagem diferente para estabelecera paz?
está muito feliz que Trevortenha dito isso sem ele ter que colocar palavras em Para vislumbraresse tipo de linguagem, seria útil viajar para o Sul da África, onde a
sua boca. Todos os guarda-florestais enfatizaram a caçatradicional e que seus “natureza” tem sido uma retórica empregada por colonos brancos para afastar os
alimentossilvestres e suaspráticas tradicionais estarão em perigo, o que Michael habitantes negros de seus meios de subsistência. O termo vem carregado de emoção
considera excelente. intensa quando usado tanto por defensores quanto por detratores; quando os pavios
Aqui, por um momento,temosumafrágil aliança, umaarticulação gramsciana na qual são tão curtos, é difícil, pelo menos para mimvera situação como uma das lógicas de

lesejos aborígenes de caça e Toad Busters brancos esperam que a biodiversidade governo. Em vez disso, as histórias de colonialismo e proteção, de alianças feitas e

ontinue a se reunir. Como Nyquist observa, a articulação dificilmente pode ser quebradas, são continuamente evocadas. “Natureza” é umapalavra de luta.
onsideradaestável; em outras ocasiões, haveria discordância. No entanto, ta! política Por meio de sua apaixonada evocação da batalha pela floresta Dukuduku, Knut Nustad
leve ser tratada de maneira bem diferente da rejeição de Schmitt ao estranho: a (2014, p.64) nos leva até lá. Nãosetrata de uma, explica ele mastrês florestas conflitantes:
lentidade do estranho — e do eu — muda constantemente.
Uma delas é umafloresta primordial que chegou perto da extinção pela
Ja etnografia de Nyquist isso acontece o tempo todo. O cientista torna-se apenas mais agricultura industrial e exploração florestal, e cujas áreas remanescentes
m contadorde histórias, enquanto seus companheiros caçadores de sapos o cativam estão sendo derrubadas porinvasores que não apreciam a natureza. Outra
omo aliado. Com suas histórias trocadas mutuamente, sua autoridade desliza para floresta está sendo reivindicada por pessoas que foram expulsas à força,
sgundo plano. O presidente do KTB começaa fazer política ao entremear a questão primeiro em nome da floresta e mais recentemente em nome da

169
os caçadores de sapos no discurso acerca das condições precárias das comunidades conservação. E, ainda, há uma terceira floresta que foi eficazmente
abordagem está. um méto
, ;
convertida em campos de cana-de-açúcare área de exploração madeireira do que elas chamam de Br
“curiosidade lateral”, uma forma de

AniamDont
em escala industrial por meio do plantio de espéciesde crescimento rápido, engajamento que tem informantes como interlocutor
es:

No conflito sobre qual dessastrêsflorestas será capaz de prosperar a “naturez A curiosidade lateral, então, não é apenas uma quest
a” é uma ão de curiosidade pessoal,
ferramenta. Os defensores da conservação usam-na para atrair seus mas também de tentar tornar nossos colaboradorescur
aliados iosos sobre o mundo que
internacionais. Por sua vez, as pessoas despejadas evocam osterritórios compartilhamose, muitas vezes, tornamos porce
ancestrais. Os rto, e de estarmosdispostos a
fazendeiros industriais parecem -ignorar tudo isso, talvez aprovei considerar formas alternativas de viver. A curiosidad
tando-se de sua e alimenta uma espécie de
capacidade de vencer aparentandoestarfora da “política”; o conflito fica assim reduzid terreno comum,colaborativo pornatureza (Brichet e
o Hastrup, 2014, p. 82),
a “comunidades versus conservação”. Enquanto isso, os conservacionista Esse método tem alguma semelhança com a teori
s propõem
novas palavras, esperando mobilizar mais aliados. Eles falam de “conservação baseada a ator-rede de Latour, na qualele

(stgint1 Be
pede aos pesquisadores que evitem a contextual
em comunidade” ou de construir um sistema de “compensações”.
ização para acompanhar os
No entanto, como informantes em suas redes. No entanto, Brich
et € Hastrup divergem disso em dois
Nustad diz, suas-mobilizações atingem os grandesatores, mas raramentealcan aspectos importantes. Primeiro, elas postulam
çar os a atividade acadêmica como uma
necessitados. Nustad se alinha aos que foram despejados e retornam, que veem essas forma de colaboração, fazendo assim uma crític
a implícita à figura do heróico
novas palavras como dissimulação de más intenções. Novas palavras entraram na pesquisador individual. Em segundo lugar, recu
sam'o fechamento não apenas da
batalha, mas as alianças práticas ficam para trás. natureza e extensão das redes, mas também
de ontologias básicas, isto é, filosofias do
A batalha de palavras pode, por exemplo, provocar a solidariedade da comunid ser. Em vez de permitir que os pesquisadores estab
ade, eleçám filosofias de base para seus
ou reforçar as diferenças. Mas seu uso dessa maneira também chama a atenção para informantes, como na abordágem de Latour, Brich
et-e Hastrup exigem que"os
a possibilidade de alianças entre identidades cambiantes. Talvez Nustad e eu informantes se envolvam com eles na criaç
ão de filosofias, assim como de categorias,
discordemos disso, mas, para mim,a solução não é a conversão a uma nova coisas e redes. Isso produz muito mais mistu
filosofia, ra e diversão na filosofia, tornando-se
mas, sim, aliançaspráticas nas quais novas articulações podem serfeitas. A articulação, difícil operar com o tipo-de dicotômias ontológicas
conforme as Gifford Lectures de
como argumentou Stuart Hall, é dupla: envolve conexão e discurso (Hall, 1996). Latour. Além disso, como Latourelaborou as
Gifford Lectiires em uma versão clássica do
: Palavras assumem novos significados no processo da política. Articulações mudam trabalho civilizacional da filosofia, a abordagem deBr
ichet e Hastrup'torna-se boa
quem somos.Palavrase conceitos ganham significadosatravésdaslutas em queestão para se pensar em alternativas hipotéticas. A sabed
oria se desenvolve em colaboração
envolvidos — não por lógicas subjacentes transcendentes. — não em torres de homens Lingidos/purificados
.e
As Gifford Lectures são clássicas porque Latourelabora seu
ponto de vista sobre os ombros
O QUEÉ O TRABALHO DOS ACADÊMICOS? de gigantes. Ninguém pode se qualificar como um gigant
e, é claro: é preciso um tipo
Essas facetas de uma “abordagem alternativa deumanatureza contestada se juntam particular de euro-americano masculino. As exclusõess
ão constitutivas. Latour não pode
quando se considera o problemada prática acadêmica. Aqui, O artigo escrito em citar um conjunto mais diversificado de pensa
dores se pretende construir uma torre
coautoria por Nathalia Brichet e Frida Hastrup (2014) é particularmente perspicaz civilizacional. Ironicamente, a torre aponta para
o céu. As práticas, de prodtção de
Brichete Hastruprelatam suavisita a uma mina de ouro na Groenlândia. Seu objetivo é conhecimento de Latour devem ser encobertas
— exatamente da maréira comoele
aprender sobreos recursos naturais sem tolhera curiosidade inicial, elas são explícitas ao analisa — para criar as reivindicações de verda
de da torre civilizacional, Se todo seu

11
permitir que o artigo elabore rrais perguntas do que respostas. No centro de sua conhecimento for colaborativo, a torre desaba em um
arbusto.
Talvez seja bom queisso leve à queda da civilização. Brichet e Hastrup
nos mostra, nosso planeta? Poderia haver também uma antropologia das ruínas e, em caso
comotrabalhar com conhecimento ramificado. Sua abordagem pode ser chamad
ad afirmativo, como isso se relacionaria com as formas de reconstituição histórica e
feminista, não apenas porque abre umaporta para mulheres pesquisadoras, mas tambés, paciente que nos empenhamos em oferecer?
é
porque trabalha contra essa poderosa forma de masculinismo ligada ao imagina
do
avanço da civilização ocidental. Reivindicações ontológicas são rebvindi Aofazeressas perguntas, as Gifford Lectures de Latour retornam comoaliadas. Um dos
caçães
civilizacionais; sua clareza colapsa no método anticivilizacionalde curiosidade lateral, que aspectos mais corajosos das lectures, para mim, é o argumento de Latour de que devemos
produz fragmentos misturados. Se seguirmosBrichet e Hastrup, devemos procurar nas viver como se o fim da vida na terra como a conhecemosestivesse chegando. Não
ruínas da civilização o conhecimento colaborativo. De fato, é principalmente aí que devemoster medo, ele argumenta, das acusações de sermos apocalípticos; em vez
podemosencontrar as relíquias da natureza. disso, devemos usar o apocalipse como um tropo para aumentar nossa consciência.
Naturalmente, devemosficar encantados se nossas expectativas forem provadasfalsas.
Mas essa esperança não deve atrapalhar a descrição dos terrores. Esse argumento
ASSISTINDO A NATUREZA EMERGIR parece-me uma importante provocação para os antropólogos. Meu palpite é que uma
Juntos, os artigos que compõem o volume 2 do Aura Working Papers (AURA, 2015) dão dasprincipais razões pelas quais os antropólogos não descrevem “destroços” é por
passos importantes na articulação de métodos para estudar a natureza da natureza, medode serem chamados pelos nomes — não apenas apocalípticos, mas também como
Duas conjunturas merecem atenção: primeiro, ostrabalhos de Nyquist (2014), Brichete românticos e, pior ainda, estúpidos. De fato, os antropólogos que fazem grandes
Hastrup (2014) se somam na recusa em saber demais com antecedência. Nyquist se declarações muitas vezes erraram, e às vezes estupidamente, vergonhosamente.
preocupa com o fato de o conceito de “espécies invasoras” exijir demais; Brichet e Nenhum de nós quer seguir esses passos. E, no entanto, o medo de ser chamado de
Hastrup têm a mesma preocupação com os “recursos naturais”, Pesquisando em que estúpido impediu nossa disciplina de dizer qualquercoisa sobre a destruição ambiental.
medida conceituações fortes podem bloquear uma boa descrição, os autores nos Ironicamente, umadisciplina quese orgulha de suas posturas radicais se tornou uma das
mostram como aprendersem fazer uso de tantas pressuposições. Eu pensonisso como disciplinas mais conservadoras quando se trata de bem-estar ecológico. Nós não
o método dapaciência infinita. O trabalho do pesquisador é trabalhar cuidadosamente gostamosde dizer nada mais forte do que “tudo é complicado”.
e discretamente com informantes, deixando-os definir os termosdo encontro.
Deixo osleitores com um desafio. Por que temos tanto medo de denunciaras ruínas e
Osartigos de Flikke e Nustad abordam um problema diferente: o apagamento de os destroços? Imaginem temposterríveis anteriores, talvez o Holocausto ou a escravidão.
histórias anteriores nas avaliações do presente, Conservacionistas olham para uma Queremosestar entre aqueles que só poderiam dizer: “tudo é complicado"? E os não
floresta e esquecem dos moradores que foram expulsos. Um nariz experimenta um humanos como possíveis aliados? Umadas razões pelas quais os antropólogos ficam
cheiro sem rastrearas associações queinformam sua pungência. Esses dois trabalhos presos ao dar igual peso a todos os aspectos das controvérsias ambientais é que não
nos mostram comotrazer histórias para O presente, preenchendo o presente com os estamos dispostos a fazer uma causa comum com paisagens ameaçadas de plantas e
traços de interações e eventos anteriores. Pode-se chamar a isso de método de animais. Nós relatamostodos oslados da controvérsia, exceto os deles. Talvez devesse
reconstituição histórica. O pesquisadorpercorre osrastros do passado até o presente. ser também nosso trabalho aprenderalgo sobresuaspráticas desubsistência e relações
Cada um desses métodos é um passo necessário para observar a emergência da interespécies - comofazemospara os humanos.Esses potenciais aliados podem fazera
natureza. Eu aprecio e aprendo com eles. Mas deixe-me encerrar este artigo com diferença nas plataformas em que estamosdispostos a nos engajar. Paciênciainfinita e
nquietações vagas: isso é suficiente para entender o dano contínuo à habitabilidade do reconstituição histórica seriam bonsguias.
SOBRE ANÃO ESCALABILIDADE:
O MUNDO VIVO NÃOÉ
SUBMISSO A ESCALAS DE
PRECISÃO ANINHADAS

Háalgo perturbadoramente belo na precisão, mesmo quando sabemos que ela falha
conosco. Um século atrás, as pessoas ficavam impressionadas com a terrível precisão da
fábrica; hoje é com a precisão do computador. À precisão tem hipnotizado não apenas
engenheiros, mas todos os tipos de designers, estudiosos e observadores. Uma arena
onde a precisão ganhou uma hegemonia malévola é no uso da escala. Como na mídia
digital, com seu poderdeaplicar um zoom e ampliar algo minúsculo e reduzir algo gran-
de sem o menoresforço, a escala se tornou um verbo querequer precisão: escalar bem
é desenvolver uma qualidade chamada escalabilidade, ouseja, a capacidade de expandir
— e expandir e expandir — sem repensar os elementos básicos. À escalabilidade é, na
verdade, um triunfo do design de precisão, não apenas nos computadores, mas nos ne-
gócios, no desenvolvimento, na “conquista” da natureza e, mais genericamente, na cria-
ção de mundos. É umaformadedesign que tem uma longa história de dividir vencedo-
res e perdedores. No entanto, disfarça essas divisões bloqueando nossa capacidade de
percebera heterogeneidade do mundo.Por seu design, à escalabilidade nos permite ver
apenas blocos uniformes, prontospara expansão futura. Este ensaio chamaa atenção

7
1 Original publicado em: On nonscalability: the living world is not amenable to precision-nested scales.
CommonKnowledge, v. 18, n. 3, p. 505-524, 2012”
ã
para a diversidade selvagem davida na Terra argumentando que é ahora biológico? Eu chegueia essa questão não apenas porrazõeshistóricas, mas também
de uma teoria da nãoescalabilidade? por considerar os desafios contemporâneos de comoviver bem com os outros — tanto
Mesmo com o avanço das tecnologias, o encanto da escalabilidade cria- outras espécies quanto outras culturas. As elites europeias e norte-americanas tiveram

dora de mundosestá se desfazendo nosdias de hoje. A escalabilidade se problemas para conviver com os outros, e não apenas por causa do preconceito. No
século XX, nos acostumamosa ecologias políticas de produção — a produção de mate-
espalha — e aindaé constantemente abandonada, deixando ruínas. Preci-
rologias digitais rial, a produção de cidadania e a produção de conhecimento — em que outras pessoas
samos de umateoria de não escalabilidade que preste atenção ao monte
irmos cinquenta não autorizadas não tinham utilidade. Os outros não tinham nenhumautilidade por-
de ruínas que a escalabilidade deixa paratrás. A teoria danão escalabilida-
os mostraram os que atrapalhavam essa expansão, imaginada como necessária para o bem-estar: expan-
de permite ver comoa escalabilidade usa articulações com formas não
25 do zoom são era progresso. À diversidade biológica e cultural eram e sãoinimigas do progresso.
escaláveis, ao mesmo tempo queas nega ou apaga. Os empreendedores
ido: passamos de Assim, parece importante perguntar: de quese tratava esse crescimento? Que legado
já tiraram grande proveito dessacaracterística da economia política con-
tos detalhes para ele nos deixou hoje?
temporânea. Então, temosas plantas e animais que chamamosde ervas
: pontos de vista
daninhas e pragas, e de fato a grande variedade devida que prospera com À expansãoreflete mais que uma vontade de poder, embora possarefletir isso tam-
renas alguns

a perturbação humana. No entanto, os acadêmicosficam para trás, man- bém. À expansão, no sentido queestou discutindo, é um problema técnico que exi-
tendo os prazkres estéticos da precisão escalável, mesmo quandoisso ge considerável talento no design. Ordinariamente, coisas que se expandem mudam
projeta apenas nossas fantasias. É hora de os estudiosos olharem para à medida que assumem novos materiais e relacionamentos. Digamos que eu expan-
além de nossos modelos para a contínua vitalidade da vida, tão terrível da minha rede acadêmica paraincluir colegas de outro país ou outra disciplina. Mi-
quanto maravilhosa. nha perspectiva acadêmica mudará à medida que eu aprendaalgo novo. Não este
o tipo de expansão que estou discutindo. A expansão que entendemos como pro-
gresso não permitiu mudançasna essência do projeto em expansão. O objetivo era
ESCALABILIDADE E EXPANSÃO
À conceituação do mundo e a criação do mundo estão entrelaçadas estender o projeto sem transformá-lo. Caso contrário, não teria acrescentado à pro-
eza universal imaginada como progresso. Esse foi um feito técnico envolvendo esca-
uma na outra — pelo menos para aqueles com privilégio de transfor-
marseus sonhos em ação. O relacionamento se dá nos dois sentidos: la — isto é, a relação entre o pequeno e o grande. De alguma forma, os elementos do
novos projetosinspiram novas formas de pensar, que também inspiram projeto tinham queser estabilizados para que a expansão adicionasse mais elemen-
novos projetos. Este ensaio diz respeito a umaligaçãohistoricamente sig- tos sem alterar o programa. Meutítulo chama esse truque de escalas de “precisão
nificativa entre conceituare fazer o mundo:a naturalização da expansão - aninhadas”, e o termo funciona se aplicado a questõesrelacionadas ao design: o pe-
como o caminho para os humanos habitarem a terra. Por que as pessoas queno é englobado ordenadamente pelo grande somente quando ambossão cria-
dos para expansão uniforme.
chamam o “crescimento” da expansão comose fosse um processo
O aninhamento de precisão deve evitar os efeitos de transformação quedistorcem o
2 Umaversão anterior deste ensaio foi apresentada na conferência “Conceptualizing projeto. Comoé possível manterosinsumosdos projetos padronizados? Como mantê-
the World”, na Universidade de Oslo (set 2011). O diálogo com colegas na conferência foi muito
-los autossuficientes, incapazes de formarrelacionamentos? Relacionamentossão veto-
instrutivo, assim comoas conversas na UniversidadedaCalifórnia, em Santa Cruz; na Universidade

v7
de Aarhus; na Universidade de Leiden; e na conferência “Globalization and the Hurnanities”, da res potenciais de transformação. Somente sem a indeterminação datransformação é
Universidade de Wisconsin (fev 2010), possível aninharescalas — isto é, mover de pequenoa grande sem refazero design.
Chamamosde escalabilidade esse recurso de design, ou seja, quando projetos pequenos Obviamente, os pixels devem permaneceruniformes, separados e autônomos;eles não
podem se tornar grandes sem mudara natureza do projeto. Escalabilidade é um termo podem sangrar um no outro ou se transformar um no outro. Os artistas se queixam de
confuso, porque parecesignificar algo mais amplo, a capacidade deusarescala; masesse pixelização, que fragmenta nossa visão do mundo.A rraioria de nós não se importa.
nãoé o significado técnico do termo.Projetos escaláveis são aqueles que podem se ex- Mas o que tomouessa tecnologia tão fácil de imaginar, eu diria, é a qualidade pixelizada
pandir sem mudar. Meuinteresse é a exclusão da diversidade biológica e cultural em do mundo orientado para a expansão, que é algo com que devemos nos preocupar.
projetos escaláveis. A escalabilidade só é possível se os elementos do projeto não forma- Para capturar a vivacidade dopixel, vou cunhar um termoparalelo. Pixel é uma abrevia-
rem relacionamentos transformadores que possam alterar o projeto à medida que os ção de picture, “pix”, e o elemento,“e”. Elementos da paisagem social removidos dasre-
elementos são adicionados. Mas as relações transformadoras são o meio para O surgi- laçõessociais formativas podem ser denominados “elementos não sociais de paisagem”
mento dadiversidade. Projetos de escalabilidade banem diversidadesignificativa, o que (nonsocial landscape elements”) ou, usandoa fórmula de pixel, “nonso” mais “ef” ou nonsoel.
significa acabar com diversidade que pode mudaras coisas. Como chegamosa habitar um mundo expansionista nonsoel?”

Escalabilidade não é uma característica própria da natureza. Tornar os projetos escalá- O termo “escalabilidade” teve seu lar original não em tecnologia, mas nos negócios.
veis exige muito trabalho.Ainda assim, consideramosa escalabilidade tão garantida que À escalabilidade nos negócios é a capacidade de expansão de uma empresa sem alterar
os estudiosos frequentemente imaginam que, sem projetos de pesquisa escaláveis, esta- a natureza do queela faz. As "economias deescala” — práticas organizacionais que tor-
ramospresos em minúsculosimicromundos, incapazes de escalar. “Aumentara escala”, nam mais baratosos bens queestejam sendo mais produzidos — compõem um tipo de
na verdade, é confiar na escalabilidade — para mudara escala sem alterar a estrutura do escalabilidade comercial. Em contraste com a tecnologia digital, o objetivo não é ampliar
conhecimento ou ação. Existem alternativas para mudara história do mundo localmen- 9z00m, mas apenas contagens de expansão.A escalabilidade empresarial é uma expan-
te e para contar grandes histórias ao lado das pequenas, e a “teoria da não escalabilida- são para o crescimento e oslucros; esse era um princípio do progresso do século XX.
de” é umaalternativa para conceituar o mundo. Mas antes de considerar essas alterna- Sob a hegemonia norte-americana, maior sempre foi melhor Como negócios, o desen-
tivas, deixe-mevoltar a esse domínio familiar para ganhar experiência com escalabilidade: volvimento deveria aumentar. O Banco Mundial apenas financiava projetos de comuni-
tecnologia digital. a dadesse estes já fossem escaláveis, isto é, se eles pudessem se espalhar para outras co-
munidades sem alterar os elementos doprojeto. Defato, a maneira como você poderia
Às tecnologias digitais dos últimoscinquenta anos nos mostraram os prazeres do zoom
dizer se umainstituição era moderna e desenvolvida, em oposição a atrasada,era se ela
pixelizado: passamos de pequenos detalhes para amplos pontos de vista com apenas
era grande, Grandeza foi progresso.
algunscliques. Nos nossos computadores, aumentamos o texto e o alfabeto parece o
mesmo. Nossas fotografias digitais prestam-se à procura de detalhes ou devisões gerais. Clifford Geertz (1968)foi estudar os mercados de Java no auge desse programa, em
No site "Paris 26 Gigapixels”, vemostodaParis, ou um quarto dentro de umajanela? Ess meados do século XVIIl. Ele estava preocupado com o queviu: em vez de empresas
habilidade que parece mágica é a escalabilidade. Em arquivosdigitais, a escalabilidade é escaláveis, os comerciantes Jjavaneses baseavam seus negócios em relacionamentos com
a capacidade de se moveratravés de escalas sem alterar as formas das imagens, o que é compradores e outros comerciantes. Sempre queeles expandiam suas redes, o negócio
possível graças à estabilidade do pixel, o elemento de imagem.A imagem digital é au-
mentadaou dimintida redirmensionando os pixels. 4 Para a autora, nonsoel é uma brincadeira. Ela pega as primeiras sílabas da frase “elementos não sogiais”
(isto é, um elemento que não pode sertransformadoatravés de relações sociais) transforma-os num falso termo de
complitador, nonsoel criado a partir de non +50 + e! (não+ social + elemento). Ao mesmo tempo, o termo rionsoel soa

w9
como“alma! (em inglês: sou) (essência espiritual), de modo queo termo poderia ser interpretado como“sem alma”
3 Disponível em: hitp:/Awwnwparis-26-gigapixelscom/index-enhtml, (Nota dos Editores).
mudava. Sem empresas escaláveis para expansão, argumentou Geertz, não poderia ha- falar em “regulação” sem que os políticos ficassem horrorizados. Tanto
coisas boas
ver desenvolvimento. Os mercadosjavaneses foram irremediavelmente deixados de quanto ruins podem ser não escaláveis. O serviço feudal era umafor
madetrabalho não
fora do alcance do progresso. De nossa perspectivaatual, a avaliação de Geertz nosdiz escalável, mas nem porisso louvável. Cortar umafloresta podeser não
escalável, mas
tanto sobre o programadeprogresso quanto sobreo javanês. não, como resultado, melhorque a exploração floresta! científica Ao
mesmo tempo, a
Hoje, é fácil olhar para trás com um olharcrítico sobre este programa do século XX, complexidade ecológica não é escalável, assim como O amor;
e nós valorizamos essas
porqueele foi desafiado por mudanças na economia política global. No século XXI, a coisas. À diferença entre projetos escaláveis e não escaláveis não
pode ser colocada a
priori em umaescala normativa. A definição de não escalabilidade
hegemonia das economias de escala desmoronou diante do avanço das cadeias de está no oposto disso:
a escalabilidade é um recurso de distinto de planejamento; a
fornecimento globais, nas quais as atividades econômicas estão espalhadas por mui- não escalabilidaderefere-se
tas empresas, em muitos lugares. Muitas empresas poderosas não se esforçam mais a tudo queestá sem esse recurso, seja bom ou ruim. Maso fato de não
querermosalgo
não é motivo para ignorá-lo. A teoria da não escalabilidade é um aparato
apenaspara serem grandes; em vezdisso, eles usam suas “competências” estrategica- analítico que
mente. A competência aqui é uma maneira defalar sobre privilégio. Empresas em pa- nosajuda a perceber fenômenos não escaláveis“ A teoria da não escalabi
lidade permite
íses poderosos usam sua posição para contratar firmas em países pobres; e as elites queas escalas surjam das relações que constituem projetos, cenas ou
eventos especifi-
cos. Muitos projetos de criação de escala disputar a atenção de acadêmi
nacionais, para contratar os desfavorecidos de seus países. À competência também é cos ou cons-
trutores mundiais; o truque é rastrear ou estabelecer relacionamento
uma maneira de falar sobre mobilização cultural. Em todos os níveis, empresas redu- s entre projetos.
zem os custos fazendo com “que os trabalhadores façam seus trabalhos por razões Nesse trabalho, há grandes e pequenas histórias para contar. Não há
exigência para o
culturais, e não por pacotes de salários e benefícios. A virada paraa criação de um ni- entrelaçamento deescalas ou que se execute a magia de conversão
de umapara a outra
cho cultural na economia global é surpreendente do ponto devista dos ideais de es- sem distorção. Osprojetos de escalas são disputados e competem entresi.
Visto que os
calabilidade do século XX, que dependiam da regularização e disciplina do trabalho relacionamentos são encontrosatravés da diferença, eles têm a indeter
minação como
para impulsionar a expansão. Hoje, o estoque é escalável, mas tanto o gerenciamento umadesuas características. As relações são transformadoras e nunca
se tem certeza do
de mão de obra quanto o de recursos naturais estão recuando da escalabilidade. En- resultado. Assim, a diversidade no fazer é sempre parte da mistura. A
teoria da não esca-
tretanto,as cadeias de suprimentos exigem atençãoàsrelações entre as empresas, em labilidade requeratenção à contingência histórica, à conjuntura inesper
ada e às manei-
vez de apenasexpandir os insumos; há algo aqui reminiscente daspráticas deresistên- ras pelas quais o contato entreas diferenças pode produzir novas agendas
. Em trabalhos
cia ao progresso dos comerciantes javaneses descritas por Geertz. Todosesses desen- anteriores, chamei esses processos de “fricção” CEing, 2005). Esse tipo
defricção é uma
volvimentos nos permitem fazer uma retrospectiva aos projetos de escalabilidade do característica importante dateoria da não escalabilidade.
século XX, com uma consciência de suas limitações e falhas, incluindo suaaversão à Para demonstrar como-a escalabilidade funcionaatravés da fricção,
ana . ans deixe-me começar
diversidade e sua consequente imprecisão. a contar umaversão não escaláveldo histórico deescalabilidade. Um modelo
importante
Quanto à teoria da não escalabilidade: a não escalabilidade não é de forma alguma me-
lhor que a escalabilidade apenas por não ser escalável. Os aspectos não escaláveis da 6 Em vez disso, a teoria da escalabilidade pergunta comotornar os sistemas mais
escaláveis e carrega a con-
veniência de se fazer isso comoalgo garantido. A teoria da escalabilidade
economia política do século XXI não representam uma melhoria em relação aos do sé- assemelha-se àteoria da nãoescalabilidade
no rastreamento de problemas de projetos que surgem para tomar as
coisas escaláveis (ver, por exemplo, Abbott
culo XX; na verdade, eles estimulam a nostalgia de um momento em que era possível e Fisher, 2010). Noentanto, o ponto da teoria da escalabilidade
não é apenas melhoras mas também naturalizar a
escalabilidade. Nessaestrutura, um sistema. quefuncione deveser
escalável, e sistemas não escaláveis são entendidos

81
comodefeituosos. O primeiro passo na construção dateoria da não escalabili
5 Para uma discussão adicional sobre cadeias do capitalismo,ver Ting (2009). dade é desnaturalizar a escalabilidade,
revelando sua historicidadee especificando altemativas.
Brasi) eles abandonaram essatécnica e a utilização de mão de obra nativa e passaram a
de projeto de escalabilidadefoi a plantation e, particularmente, as plantations europeias
copiar os portugueses. Portanto, é para Os experimentos portugueses que podemos
de cana-de-açucar no Novo Mundo.Essas plantations desenvolveram formas de paisa-
gem nãosociais padronizadas e segregados, Os “nonsoels? que mostravam como a esca- olhar para ver comooselementosestáveis da paisagem foram formadospor contingên-
labilidade poderia funcionar para gerar lucro (e progresso). As plantations nos deram o cia e atrito.
equivalente a pixels paraa terra Mas, diferentemente dos pixels, essas plantations não sur- Considerea natureza da própria cana, como os europeus a conheciam: a cana-de-açú-
giram por meio de umaestética de escalabilidade já desenvolvida. Em vez disso, eles car doméstica não é umaespécie peculiar, não é um grupohíbrido de organismos.
tropeçaram nahistória e só depois se tornaram um modelo para novosprojetos escalá-
O que Linneu chamou Saccharum officinarum, a cana-de-açúcar doméstica, é um grupo
veis. A atenção ao seu tropeço — isto éàs contingências e conjunturas que conforma-
de clones propagadosvegetativamente.? A canaera plantada enfiando-se uma estaca
ram seu projeto — é a abordagem “não escalável” que eu uso para compreender onde
de cana no chão e esperando queela brotasse. Todas as plantas eram clonese os euro-
seus planos falharam em atender suas próprias expectativas. A escalabilidade nuncaé
peus não tinham conhecimento de comocriar esse grupo de espécies tropicais. A per-
completa. Se o mundoainda é diverso e dinâmico, é porque a escalabilidade nunca
mutabilidade dostipos deplantio não foi um resultado da intenção europeia, mas uma
cumpre suas próprias promessas.
característica da cana Se os europeus soubessem escolher novas variedades, comofize-
A teoria da não escalabilidade é útil para recontar o que escapa da escalabilidade. Em ram os sudeste-asiáticos, não teriam que trabalhartanto para fazercrescer as que ti-
vez de considerar a escalabilidade nham. Mas, agir assim forçou-osa experimentar novas formas depreparação daterra, o
i como umaferramenta necessária para o progresso, a
teoria da não escalabilidade se ocupa da contingência e do fracasso. A teoria da não que levou casualmente a outras formas de controle de cana. Além disso, no Novo Mun-
escalabilidade nos mostra a escalabilidade em ação. do a cana nãotinhahistórico de espécies companheiras ou relações com doenças; ela
vivia isolada. Isolados genéticos sem vínculosinterespécies: os clones de cana do Novo
Mundo eram osnonsoels originais, elementos paisagísticos sem relações transformado-
PLANTATIONS COMO MODELOS DE ESCALABILIDADE ras, Eles prepararam os campos para a expansão.
A escalabilidade, poder-se-ia argumentar, surgiu com a plantation colonial europeia, entre
os séculos XV e XVII As plantations de cana-de-açúcar podem nos mostrar comoisso se O ímpeto original das plantations europeias de cana-de-açúcarera obter açúcarfora do
deu? As primeiras plantations não foram projetadas segundo modelos modernos e havia controle dos muçulmanos, mas a Europa era geralmente muito fria para plantar cana.
muitos impasses. Quando os espanhóis tentaram plantar cana no Caribe, por exemplo, Quando as viagens europeias do descobrimento revelaram novasterras quentes, os
empregaram nativos americanos e usaram seus métodos de plantio em montículos investidores correram para patrocinar o plantio de cana. Por acaso, um dosprimeiros
(Wolf, 1982). A cana cresceu, mas os resultados foram ordinários; em outras palavras, experimentos portugueses foi numa ilha do Atlântico, a Ilha da Madeira, onde um cli-
não escaláveis. Quando os espanhóis viram o que os portugueses estavam fazendo no maseco fez com que a construção de irrigações extensas fosse necessária no processo

7 ing escreve sobre o uso de escravos, trabalhadores e não humanos como “nansoek” — entendidoaqui
como um neologismo para nãosocial -, comoelementos dedesign feitos para expansão sem mudança Esse tipo de 9 Muitos clones domésticos de cana-de-açúcar não podem se reproduzir sexualmente;criadores não po-
trabalho supostamente evitou relacionamentos transformadores e, portanto, não poderia atrapalhar o design original dem desenvolver novas variedades com eles. Na terra natal da cana-de-açúcar, na Nova Guiné e no Sudeste Asiático,
(Nota dosEditores). no entanto, as pessoas há muito tempoproduzem novas variedades através da escolha de híbridos úteis de Saccharum
robustum e S. spontaneum. Os europeus chegaram esse conhecimento muito tarde, só depois de terem acabado

1a
8 Uma rica literatura interdisciplinar — compreendendo antropologia, geografia, história da arte e agrono-
mia histórica, entre outros campos -— reunit-se em tomoda história da plantation de cana-de-açúcar. Ver especial- de conquistar o mundo por açúcar. Antes do século XX, os europeus obtinham novas variedades apenas obtendo
mente Mintz (1986; 1960); Galloway (199); Casid (2005); e Sauer(1993). amostras de pessoas queos cultivavam. VerSauer(1993, p. 236-250).
de reconstrução total da paisagem.? O sucesso deste experimento direcionou os es- o mais rápido que podiam, e com todaa atenção,paraevitar ferimentos. Sob essas con-
forços portugueses subsequentes para a conformação daterra e a irrigação, embora dições, os trabalhadores se tornaram unidades autônomas.” Já enquanto mercadoria,
não fosse necessário cultivar cana no Novo Mundotropical, onde o território plano e eles recebiam empregosintercambiáveis pela regularidade monótona e pelo tempo co-
úmido estava facilmente disponível. Mas verificou-se queessas tecnologias possibilita- ordenado da prodição de cana, Os escravoseram os próximos nonsoel, meras engreria-
vam um controle mais rigido do crescimento da cana, facilitando a permutabilidade dos gens de um projeto quevisava à expansão sem alteração.
elementose, portanto,a escalabilidade. A irrigação ajudou a coordenaro crescimento
O sucesso do experimento brasileiro induziu as versões espanhola, inglesa, francesa e
sincronizado,facilitando a escalabilidade no gerenciamento dos recursos e da mão de
holandesa no Caribe. Paisagens foram transformadas em função da nova e disciplinada
obra. Enquantoisso,os plantadores coloniais assumiram o controle das terras nativas.
Cana-de-açúcar e sua forçadetrabalho escravizada. O historiador dearte Jill Casid cha-
Ãoacabar com os povosnativos e apreender suasterras, um vasto terreno para a ex-
mao que elesfizeram de “uma paisagem agro-industrial híbrida, uma máquina de paisa-
perimentação de nonsoeis espalhou-se antes dos fazendeiros europeus. Como o geó-
gem”, orientada porenxertos e projetos coloniais (Casid, 2005, p. 44). O Caribefoi ape-
grafo J. H. Galloway escreveu: “As vastas plantações do Brasil apresentavam uma ima-
nas o começo dessa máquina de produção. Quandoa abolição do comércio de escravos
gem de recursos abundantes e uso extravagante que deveter surpreendido qualquer
reduziu oslucros dessas trocas Atlântico afora, os produtores levaram os mecanismos
pessoa familiarizada com o manejo cuidadoso dos minúsculos campos em terraço na
de conformação daterrapara o Pacífico. Soagida, a mão de obraasiática tomouo lugar
liha da Madeira” (Galloway, 199, p. 72). Apesar do novo terreno,os plantadores segui-
dosafricanos.A intensificação do capital resultou em menos empresas, com tecnologias
ram o precedente estabelecido na Madeira por conformandoa terra em módulosar-
de moagem mais caras. A produção de cana tornou-se cada vez mais ligada ao capital
tificiais de plantação de cana. O Brasil mostrou o potencial do experimento da Madei-
estrangeiro concentrado. Em Porto Rico, a ocupação norte-americana em 1901 sinalizou
ra em criar um mundo orientado para a expansão através da replicação de práticas de
umanovaindústria açucareira americana, controlada por alguns gigantes que ofereciam
cultivo controladas.
empregostemporários e pagamento pordiária. Essa é a indústria que Sidney Mintz mais
A cultura portuguesa de cana-de-açúcar juntou-se ao seu poder recém-adquirido de tarde descreveu comoprodutora de um proletariado rural que “batalhava” com a cana
arrancar pessoas escravizadasda África. Comotrabalhadoresda cana no Novo Mundo, (Mintz, 1986, p. 16). Em substituição às nelações de cuidado entre agricultores e planta-
os africanos escravizadostraziam grandes vantagens do ponto de vista dos produtores: ções, os planosdas plantations levaram alienação entre os trabalhadores e a cana; a cana
os escravos não tinham relações sociais locais e, portanto, não tinham facilidade de se era O inimigo. Pelo menos em teoria, esse trabalho prevenia relacionamentos transfor-
movimentar. Como a própria estaca de cana, eles foram transplantados, e agora esta- madores, evitando,assim, perturbações ao projeto dosistema. O trabalho humanoe à
vam isolados. Eles estavam a caminho de se tornarem independentes. Além disso, as produção de mercadorias de origem vegetal surgiram como módulos compostos de
plantations foram organizadas para promovera alienaçãoe, assim, aumentaro controle. unidadesestáveise regularizadas.
Quando as operações de moagem foram iniciadas, todas as atividades tinham de ser
executadas no prazo que a usina pedia Ostrabalhadores passaram ter de cortar a cana
n Mintz. (1986) descreveuo trabalho de cana na década de 1950 em Porto Rico. O plantio sincronizado
ea colheita de umaúnica variedade tornaram desnecessária a atenção ao crescimento das plantas. Em vezdisso,
a
disciplina de humanose não humanosera fundamental Quando o tempoda colheita foi anunciado, a cara
teve que
10 Osprisioneiros de guerra ficavam pendurados em penhascos para cavar canais na rocha; muitos perde- ser cortada e transferida para fábrica em 24 horasahtes que qualqueraçúcar fosse perdidopara a fermentação.
ram suas vidas no processo. Os experimentosde preparação de cana da Madeira, portanto, também prefiguravam A coordenação do tempoera essencial. Os trabalhadores foram forçados a usar toda a sua energia e atenção para
o uso de mão de obra escrava para O agronegócio escalável. Ver Greenfield (1977, p 536-552). Cristóvão Colombo Cortar em sincronia e evitar lesões. Como disse o informante-chave de Mintz (1986, p. 202), “tenho muito medo

185
foi conferir o açúcar na llha da Madeira e levou consigoa cana madeirense em suas viagens ao Novo Mundo,ondea disso. Especialmente quandoeles estão cortando cana pesada com lixo [folhas de canal, um facão podefacilment
e
reengenharia da paisagem da canalogo se tornou a norma. se emaranhar napalha e incapacitar um homem, com tantas pessoas cortando ao mesmo tempo”
O experimento foi um sucesso: grandes lucros foram gerados na Europa,
e a maioria dos europeus estava muito longepara ver os seusefeitos. do trabalho e da natureza,e a alienaçã
o de cada um deles. Enquanto isso,
com os cer-
O projeto parecia, pela primeira vez, escalável. As plantações de cana-de- camentos das provisões dos camponeses,
um novotipo de “trabalho livre” apareceu
cidades. Esse trabalho deslocado e já alie nas
-açúcarse expandiram e se espalharam pelas regiões quentes do mundo. nado poderia ser colocado em funcionament
nas fábricas com alguns dos mesmos o
Seus elementos contingentes — plantio por clonagem, trabalho escravo e controles nonsoels usados no trabalho
Quando adaptou a teoria dovalor-trabalho escravo.
dernidade é, entre terras conquistadas e, portanto, abertas para instalá-los — mostraram para falar sobre a fábrica, Marx propôs uma
s coisas, o triunfo da comoa fabricação de nonsoeis poderia gerarlucros sem precedentes. história da escalabilidade do trabalho.
2za técnica sobre a A mercantilização da “força de trabalho
Essa fórmula moldou um sonho que passamos a chamar de modernida- ” significa que os trabalhadoresse torn
eza. Este triunfo mentosintercambiáveis e independentes am ele-
de. Mesmo agora, vemos um traço da plantation em condições que consi- da fábrica, já quesó assim eles são capazes
rque a natureza vender seu trabalho abstrato — isto é, sua de
deramos modernas. A modernidade é, entre outras coisas, o triunfo da capacidade detrabalhar em condições padr
mpa de relações nizadas. o-
destreza técnica sobre a natureza. Este triunfo requer quea natureza seja A escalabilidade do trabalho, portanto
,está nabase do capitalismo (Marx, 1992)
s transformadoras” Este ponto parecia tão importante que Mar .
limpa derelações sociais transformadoras; caso contrário, esta não pode- x hesitou em postular qualquer “fora” cons
titutivo dentro docapitalismo — quaisquer artic -
ria ser a matéria-prima da techne? A plantation mostra como é preciso ulaçõesem quea escafabilidade exigisse
criarterra null, a natureza sem reivindicações emaranhadas. Os emara- articulações com relações não escaláveis
. A maioria dos marxistas continuou a trata
escalabilidade do trabalho como limitada ra
nhamentos nativos, humanos e não humanos, devem ser extintos; refazer apenaspelo progresso da expansão do
lismo,ele próprio um projeto escalável. capit a-
a paisagem é uma maneira deselivrar deles. Então, trabalhadores e plan- À medida que o Capitalismo se espalha,
mentam
argu-
tas exóticas (ou outros elementos do projeto) podem sertrazidos, proje- eles, o mesmoacontece com a escal
abilidade.
tados para alienação e controle:nonsoels. Tanto o trabalho quanto à nat Osinvestidores concordaram. Pensar na
reza estão próximos de serem autossuficientes e intercambiáveis em escalabilidade permitiu queeles expandis
capitalismo. Ao imaginar cada vez mais o sem o
relação ao projeto desenhado sob essas condições e, portanto, o projeto mundo como os nonsoels da plantation, eles
ventaram todos ostipos de novas mercador in-
está pronto para expansão. ias, tanto materiais quanto virtuais. Even
alments, eles propuseram que tudo na tu-
terra — e além dela poderia ser escal
portanto, passível de troca a valores de ável e,
Expandir, isso ele fez. No século XVII] os europeus pensavam querefazer mercado. Esse era o utilitarismo, que acabo
congelando como economia neoclássica use
o mundo como uma plantation era necessário para progredir Eles elabora- e contribuiu para forjar mais escalabili
Diferentemente do marxismo, que consider
dade.
ram sistemas de governança em que potenciais trabalhadorese recursos ava o potencial de mudançaradical
ofereci-
naturais foram preparados para a intercambiabilidade dentro do projeto do pela escalabilidade, a economia
neoclássica teorizou o potencial de
escalabilidade
por meio de decreto administrativo. Eles inventaram máquinas por meio oferecido até mesmo pela mudança mais
radical.
das quais a interface entretrabalho e natureza poderia ser administrada
O que aconteceu com a diversidade na E
Vo
com maior firmeza, facilitando projetos econômicos escaláveis. As fábri- sombra dos projetos escaláveis? O livre
dadiversidade foi banido da plantation jogo
cas se modelavam nas plantations, construindo em seus planosa segregação e da fábrica. No entanto, até o final do
sécu lo ir
XIX, as plantations e asfábricas eram ilhas
de escalabilidade em um oceano de diver
dade não escalável. Somente no sécu si-
lo XX a modernização e o desenvol
vimento
2 Para umaanálise relacionada, ver Latour (1993). 3

187
Para a discussãoacerca das plantations de cana-
de-açúcar como modelo paraa disciplina fabril,
(1986, p. 47) e Wolf (1982). ver Mintz
espalharam projetos de escalabilidade pela Terra, encolhendo em poças residuais o deterioradas porfungos clandestinos que se espalhavam por todo o campo. Na
melhor
que havia sido um oceano dediversidade. O avanço da modernização no século xx das hipóteses, projetos escaláveis são articulaçõesentre elementos escaláveis e não
escalá-
teve sucesso, em parte, através de umacadeia de projetos relacionados nos quais go- veis, nos quais os efeitos não escaláveis podem ser ocultados dos investidores do
projeto.
vernoe indústria formaram paciuações conjuntas de escalabilidade. No começo do Na esteira dos entusiasmos do século XIX e XX pela escalabilidade, o mundo de
hoje é
século, ainda era um empreendimento colonial que formava c modelo. Mas, com o entrecruzado portais articulações entre o escalável e o não escalável. Muitos projetos
para
avanço do século, aprovações populistas de escalabilidade surgiram na metrópole. a vida - humanos ou não — ocorrem nas ruínas dos projetos de escalabilidade.
Tanto o socialismo quanto a democracia social mobilizaram o entusiasmo popular
pela escalabilidade:a escalabilidade era progresso. Por exemplo, o New Deal nos Esta-
DO AÇÚCAR AO COGUMELO
dos Unidos recrutou sindicatos e acendeu o sentimento popular em apoio a negócios
Para ilustrar os usos da teoria da não escalabilidade, podeser útil recorrer
escaláveis. Em meados do século XX, umadas funções do governo nosEstados Uni- a um exemplo
“completamente diferente, extraído de minha pesquisa colaborativa sobre as ecologia
dos era educar os cidadãos para exercerem o papel de unidades de trabalho inter- s glo-
bais e as cadeias mercadológicas de matsutake.* Encontrados em florestas em todo o he-
cambiáveis na indústria. Outra era regular os recursos naturais, como águae florestas,
misfério norte, os matsutake são cogumelossilvestres caros, de valor especialmentealt
parafacilitar seu uso como matérias-primas escaláveis. Tais artes de governança deve- o
no Japão, e assim emergiram como um comércio transcontinental/ Como iconesd
riam construir riqueza e bem-estar, permitindo economiasde escala. Assim, projetos ees-
calabilidade, o matsutake e a cana-de-açúcar ocupam extremos opostos do espectro
de treinamento e regulamentação foram espalhados pelo mundo, seguindo o entu- :-: .
À cana-de-açúcaré cultivada como clones autônomos, nonsoeis prontos para expansão
siasmo do século XX pelo desenvolvimento global, Todas as novas nações do sul glo- .
O matsutake, ao contrário, não podeviver sem relações transformadoras
bal queriam transformarseus cidadãos e recursos para projetos de escalabilidade.A. com outras es-
pécies; eles se recusam a se tornar nonsoels. Os cogumelos matsutake são os corposfr
expansãofoi o avanço.” uti-
feros de um fungo subterrâneo associado a certas árvores da floresta O fungo obtém
seus
No último terço do século, movimentos sociais críticos ganharam força. Minorias exigiam carboidratos em relações mutualísticas com as raízes de suas árvores hospedeiras,
para as
dirêtos. Ambientalistas se enfureceram com a profanação da natureza. Os indígenas se quais também fornecealimento. O matsutakepermite queas árvores hospedei
ras vivam
mobilizaram. Na década de 1990, a "diversidade" como uma questãotinhainfluência sufi em solos pobres, sem húmus fértil. Porsua vez, os fungossão nutridos pelas
árvores. Esse
ciente para conquistar tanto a aprovação quanto a cooptação do governo e daindústria mutualismo transformador tornou impossível aos humanoscultivar o matsutake.Institu
i
em todo o mundo. No entanto,a essa altura a escalabilidade parecia irrefreável. Muito: ções de pesquisa japonesas investiram milhões deienes para tornar possível o cultivo
de
críticos apontaram para seus problemas: a escalabilidade não parou para as necessidades matsutake, mas até agora sem sucesso. O matsutake resiste às condições da plantation
. Eles
humanas, e não parou na destruição da natureza. Ela não conhecia limites — apenas expan- exigem a diversidade da dinâmica multiespécie da floresta”
são. À compreensão pública generalizada de seus horrores nãoa fez reduzir a velocid
No entanto, talvez a informação pública tenha contribuído para a conscientização de um
5 O Miatsutake Worlds Research Group é composto per Tim Choy Lieba Faier, Michael
problema diferente: a escalabilidade está sempre incompleta. Os elementos do proj Inouee Shiho Satsuka, assim como euPartes de nossa pesquisa foram apoiadas por
Hathaway, Miyako
doações da Fundação Toyota e
nunca estão totalmente sob controle. Mesmona plantation de açúcar, os trabalhadores da proposta de pesquisa da UC Pacific Rim.
escravizados fugiam para formar comunidades quilombolas, e as mudas das plantas chegavam; 16 O termo matsutake refere-se a cogumelos aceitáveis no comércio transnacion
al, incluindo Tricholoma
matsutake, da Eurásia, T magnivelera, da América do Norte,e Tcaligatum, do Norte da
África.

189
Y Sobre a biologia do matsutake, ver Makoto (1997) e Hosford et al (1957). Sobre o
mundo social do matsu-
q Para umaanáliserelacionada, verScott (1999). take, ver Matsutake Worlds Research Group (2009, p.380-403) e Ting (2009,p. 347-368)
Assim cornoa cana-de-açúcar me permitiu contar umahistória sobre o avanço dos pro- mecânica. As árvores para madeira eram um novotipo de cana-de-açúcar: manejadas

jetos de escalabilidade por meio do reordenamento da paisagem socionatural, o matsu- para crescimento uniforme, sem interferência de múltiplas espécies, desbastadase co-
lhidas por máquinas e equipes de trabalho anônimas. Eles eram nonsoeis, unidades de
take motivou umahistória sobre a vida nas ruínas da escalabilidade. Nos Estados Unidos,
os matsutake crescem nas ruínas das florestas industriais - um projeto deescalabilidade expansão controlada*
que deu errado. Eles nos permitem considerara diversidade da vida em tais ruínas. Eles Apesar de sua proeza tecnológica, o projeto de transformarflorestas em plantations
nos mostram como os meios de subsistência humanossão extraídos de frações de re- funcionou de maneira desigual, na melhor das hipóteses. Antes, as empresas madei-
cursos não escaláveis, sem a pretensão — ou planejamento, ou trabalho — de tornar as reiras prornoviam a matança colhendo apenas as árvores mais caras; mas quandoas
coisas escaláveis. Considerando que os catadores de matsutake são algo como o oposto florestas nacionais dos Estados Unidos foram abertas, após a Segunda Guerra Mun-
do trabalho escalável, eles nos permitem consideraras possibilidades de formas de capi- dial, eles continuaram com essa política de “nivelmento poralto” — digna consideran-
talismo que entram e saem da escalabilidade. Grandeparte da economia mundial pare- do os padrões segundo os quais árvores maduras eram mais bem substituídas por
ce mais com isso, eu diria, do que nos mostram os modelos econômicos convencionais árvores jovens de crescimento rápido. O corte raso, ou o manejo de árvores da mes-
(sejam elesliberais ou marxistas). Expectativas sobre escalabilidade têm cegado os ob- maidade, foi introduzido para superaras ineficiências de tal colheita seletiva. Mas as
servadores para a vitalidade de mundosnão escaláveis — e para os elosentre o escalável árvores renovadaspela gestão científico-industrial não eram tão convidativas em ter-
eonão escalável, ; mos delucro. Noslugares onde as grandes espécies madeireiras tinham sido mantidas
Considere o noroeste do Pacífico, a área de maior concentração de exploração flores- anteriormente porregimes de fogo, incluindo a queima de nativos americanos, era
tal industrial do século XX nos Estados Unidos. O noroeste do Pacífico atraiu a indús- difícil reproduzir as espécies “certas”. Abetos e pinus lodgepole cresciam onde antes
tria madeireira depois dejá ter destruído as florestas do meio-oeste e da mesma ma- grandes exemplares de pinus ponderosa dominavam. Entretanto, o preço da madeira
neira que a exploração florestal científica se tornou uma potência na administração do noroeste do Pacífico despencou quando o Japão encontrou no sudeste asiático
dos Estados Unidos. Mais recentemente, grandes quantidades de madeira foram trans- árvores mais baratas para importar.
feridas. A centralidade daregião como o local da política e da prática madeireira nos Sem as escolhas fáceis do alto nível, as empresas madeireiras começaram a procurar por
Estados Unidos expande-te nitidamente pelo século XX.Interesses privados e públicos árvores mais baratas em outro lugar. Sem a influência política e os recursos das grandes
(e, posteriormente, ambientalistas) pela floresta entraram em confronto no noroeste medeireiras, o Serviço Florestal regional perdeu o financiamento e a manutenção de
do Pacífico; a exploração madeireira científico-industrial sobre a qual estavam fragil- florestas semelhantesa plantations tornou-se proibitiva em termosde custos. Ao mesmo
mente assentadosera decorrente de muitos acordos. Aindaassim,esse é um lugar para tempo, os ambientalistas começaram ir aos tribunais, pedindo medidas mais rigorosas
se veras florestas sendo tratadas comoplantations escaláveis. Nas décadas de 1960 e de proteção da conservação. Os ambientalistas foram facilmente censurados pela eco-
1970, durante o auge da exploração florestal industrial público-privada, as florestas- nomia madeireira em colapso, mas as empresas madeireiras - e a maioria das grandes
-modelo eram monoculturas de madeira de mesmaidade.Esse gerenciamento consu- árvores - já haviam partido.”
mia uma enorme quantidade detrabalho. Espécies de árvores indesejadas, e de fato
todas as outras espécies, foram pulverizadas com veneno,As queimadas foram absolu-
tamente suprimidas. Árvores “superiores” foram plantadas por equipes de trabalho
18 Minhadiscussão sobre a exploraçãoflorestal do nordeste do Pacífico tem comobase,principalmente,

191
alienadas, às vezes formadas por prisioneiros. O desmatamento foi brutal, uniforme e Robbins (2004), Hirt (1994)e Rajala (1998).
obrigatório. O espaçamento adequado permitia taxas máximas de crescimento e colheita 19 Sobre o que deuerrado,ver Langston(1996). Sobre as Cascades orientais, ver Znerold (1989).
Na época em que entrei pela primeira vez nas Cascades orientais, em 2004, o abeto e o dispendiosas. Havia também mão-de-obra pronta — formada não apenas pelos traba-
pinheiro lodgepole? tinham avançado muito em áreas antes ocupadas quase que exclu- lhadores descartadospela indústria madeireira no noroeste do Pacífico, quejá estavam
sivamente porpinheiros ponderosa. O Serviço Florestal não tinha recursos para o mane- familiarizados com floresta, mas também por uma nova migração de refugiados do
jo florestal, exceto aqueles geradospela oferta de contratos com a indústria da madeira; Sudeste Asiático, estimulados pela experiência de sobrevivência precária. Mas esse tra-
assim,eles precisavam doar a melhor madeira para conseguir desbastar a densa camada balho era totalmente diferente daquele das equipes de plantio e desbaste de árvores,
de arbustos propensa ao fogo do lodgepole que resurgia. Embora as placas ao longo das agui era impossível de recrutá-lose discipliná-los. Eles não respondiam à autoridades se
rodovias ainda dissessem “Madeira Industrial”, era difícil imaginar dinheiro circulando afi. mobilizavam porconta própria.
À paisagem estava coberta de moitas de lodgepole e abeto: muito pequenas para a
Os forrageadores de matsutake no noroeste do Pacífico trabalham apenas para eles
maioria dos usuários de madeira e não suficientemente paisagísticas para recreação.
mesmos. A maioriaestá lá porque amam a colheita de cogumelos — pela liberdade da
Masalgo mais havia surgido na economia regional: os cogumelos matsutake. Embora os
floresta, pela busca independente e pelo dinheiro, que eles usam para se sustentar. Mui-
nipo-armericanos tenham começado a colher matsutake das Cascades noinício do sé-
tos são sobreviventes de guerras, cuja prioridadeé viverseu traumanafloresta, com sua
culo XX, a maioria dos guardas florestais e gerentes regionais nunca percebeuo matsu-
abertura para esquecer-se e lembrar-se dos momentos da guerra? Embora trabalhem,
take: este era o país da madeira? Entretanto, alheio à comunicaçãooficial, o matsutake
os forrageadores de matsutake não se encaixam nos requisitos do trabalho capitalista:
nutria a madeira. Alguns matsutake cresciam com pinheiros ponderosafas principais
não recebem salário; eles não têm práticas de trabalho padronizadas que possam ser
espécies madeireiras. O abetà vermelho de Shasta é um bom anfitrião para o matsu-
contabilizadas como “trabalho abstrato”; eles não se sentem alienados do processo de
take, tanto quealguns catadores o chamam de“a árvore cogumelo”. O mais impressio-
trabalho.Eles não são nada parecidos com os nonsoeis. Como eles vêm por suas próprias
nante é que os matsutake produzem cogumelos especialmente bem sob os lodgepoles
razões, seria impossível expandir a unidade de trabalho sem transformá-la. Qualquer um
maduros, maseles existem em quantidade extraordinária nas Cascadesorientais, apenas
pode participar, porsuas próprias razões. Os trabalhadores do México e da Guatemala
graças à exclusão do fogo, ponto de partida da exploração florestal industrial. A exclusão
não compartilham ideais detrabalho florestal comosobrevivência de guerra. Os nativos
do fogo tornou mais difícil para os pinheiros ponderosa restabelecer seu domínio após
americanos escolhem reviver suas conexões com terra. Mas os brancose os sudeste-
a extração de madeira, e assim os lodgepoles se espalharam. Apesar de sa inflamabili-
asiáticos que procuram algo que eles chamam de“liberdade” dominam a cena?
dade, eles alcançam uma longa maturidade. O matsutake floresce depois de 40 a 50
anos2 A abundância de matsutake pode derivar em parte das condições de criação e Cogumelos são forrageados durante o dia e vendidos para compradores indepen-
abandonodeflorestas industriais no noroeste do Pacífico. dentes à noite. Os compradores vendem para graneleiros que vendem para exporta-
dores que enviam os cogumelos para o Japão noinício da manhã seguinte. Surpre-
Nessa combinação de mudança de ecologias e mudança deestruturas de perspectiva, a
endentemente, no momento em que os cogumelos estão na barriga do avião, eles
economia do matsutake floresceu no final dos anos 1980. A mudança da ecologia do
assumem a forma de inventário escalável: uma mercadoria capitalista classificada
Japão fez com que o matsutake se tornasseraro na década de 1970; ao mesmo tempo,
o boom de sua economia, nas décadas de 1970 e 1980, tornou possíveis as importações

23 Ver Ting (20135).


20 Nome comum para a espécie Pinus comtorta spp.
24 Esse conceito de “liberdade” tocaas ideologias econômicas neoliberais, mas é moldado demais porcul-
n Em 2005, uma impressionante comemoração dolegadojaponês rmatsutakefoi realizada no Oregon Ni-

193
turas de sobrevivência na guerra para ser sinônimo. Oscatadores de matsutake não acreditam que devam se tornar
kkei Legaoy Center em Portland
unidades autônomas de escolhapara serem “livres”. Em vez disso, a “Iberdade” promove agendas culturais comunais
22 Forester Phil Cruz, comunicação pessoal, outubro de 2004. de sobrevivência na guerra. Ver Ting (201Bb).
por sua maturidade, tamanhoe peso.? A expansão é repentinamente fácil para esses Esse tipo de pirataria é ilustrativo de uma forma emergente de capitalismo global que
cogumelos empacotados; dissociados da floresta e dos forrageadores, eles são mane- chamei de “capitalismo da cadeia de suprimentos”Z O nomedeve ser dissonante: “ca-
jáveis nonsoels. Aqui tropeçamos em outro tipo dearticulação entre o não escalável e deia de suprimentos”é o termo usado pelos entusiastas, enquanto “capitalismo”é o ter-
o escalável - não asruínas de escalabilidade, mas a recuperação de recursosflorestais mousado peloscríticos. Eu o uso para descrever a economia política baseada na cadeia
não escaláveis para inventário escalável. A transformação de um processo não escalá- de suprimentos que, desde os anos 1970, emergiu com a ascensão do capital financeiro.
vel para um estoque escalável é o que o capitalismo contemporâneo das cadeias de No coração destesistema estão as ligações entre projetos escaláveis e não escaláveis, ra-
suprimentos faz de melhor. Talvez esse retorno à escalabilidade seja um bom lugar zão pela qual os analistas sociais convencionais não conseguiram enxergá-lo com muita
para voltar a questões gerais. clareza. O desconforto do nome destina-se a estimular a consciência. Cadeias de supri-
mento japonesas são um bom lugar para começar. Nos anos 1960e 1970, as empresas de
comércio no Japão aperfeiçoaram a arte de forjar cadeias de suprimentos globais. Desde
PIRATAS, OU, NÃO ESCALABILIDADE PARA VELHAS MÃOS
a Restauração Meiji do século XIX,os japoneses caracterizam seu país como dependente
Projetos escaláveis estão por toda parte ligados a mundos não escaláveis. Em um
de recursos estrangeiros, tornando o comércio internacional um setor-chave para o de-
tipo de vínculo, a escalabilidade se torna crivada de falta de escalabilidade, assim
senvolvimento nacional. As empresas comerciais em geraleram umaversão pós-Segunda
como as ervas daninhas tomam asplantações toda vez que o veneno permite. Pode-
Guêira Mundial de comoestabelecertais laços? Ao contrário das empresas americanas
-se veras ervas daninhas se aproveitando do trabalho duro de fazera plantação, des-
da época, eles não tinham interesse(apesar desua vastariqueza) em assumir a produção
de erradicar a flora original até fornecer águae fertilizantes. Ervas daninhas aqui são
nosvários países dos quais compravam insumos, As empresas japonesas eram comer-
“piratas” de escalabilidade; colhendo as recompensas do trabalho nas plantações.
ciantes: seu objetivo era transformar os produtos, criados em lugares e processosestra-
O matsutake é um tipo de erva daninha em florestas industriais. Enquanto isso, há
nhos, em inventário.Seu segredo de sucesso era imaginar essa prática como trabalho
outro tipo de vinculação: projetos escaláveis podem colheros frutos da falta de es-
declassificaçãoe tradução; eles ditavam padrões, mas permitiam que os produtores ob-
calabilidade. Os piratas daqui são os patrocinadores da escalabilidade, roubando do
tivessem os produtos como bem entendessem. Assim, por exemplo, para obter madeira
trabalho dasrelações transformativas. Por exemplo, a maioria das gramíneas, incluin-
barata, as empresas comerciais fizeram acordos com funcionários e generais corruptos
do a cana-de-açúcar, beneficia-se de associações transformadoras com fungos. Os
no Sudeste Asiático, que, porsua vez, arrasavam osterritóriosflorestais dos aldeõesindí-
fungos auxiliam as plantas na busca por nutrientes, além de protegê-las de bactérias
genas. Os comerciantes não eram responsabilizados e a madeira era barata?” (Daí a que-
nocivas.Mas estes são fungos endomicorrízicos, que são encontradosinteiramente
da nos preços que ajudaram a impulsionar as empresas madeireiras do noroeste do Pací-
dentro das plantas. Até recentemente, os produtores europeus de cana não sabiam
fico dos EUA, dandoorigem à economia matsutake daquela região).
que seus clones de cana-de-açúcar continham outra espécie, uma espécie que aju-
dava a cana-de-açúcara crescer. As plantations foram projetadas com a ideia de que Nesse modelo,a produção não precisa serescalável, Nasflorestas do Sudeste Asiático,
apenasumacultura era relevante: a cana-de-açúcar. No entanto, os donos de planta- por exemplo, a madeira era simplesmente cortada sem reposição: isso não é escalabi-
ções eram piratas, colhendo as recompensas dotrabalho transformadordasrelações lidade. Mas a mesma madeira tornou-se escalável quando entrou noinventário dos
entre a cana e os fungos.
7 Ver Ting (2009). O uso deligações entre projetos escaláveis e relações não escaláveis não selimita ao
capitalismo dacadeia de suprimentos, embora o processoseja especialmente claro nessecontexto.

195
25 Ver Ting QOBO. 28 Ver Young (4979)e Yoshinoe Lifson (1986).
26 Vez por exemplo, famal et aí. (2004). 29 Ver Dauvergne (1997) e Ross (2001),
comerciantes japoneses, Suas origens e o processo de colheita foram apagados; a rma- variável. À cadeia de commodities matsutake dos Estados Unidos ao Japão é um exemplo
deira passa a serclassificada e traduzida em tamanho,qualidade e peso. No transporte, de uma formarelativamente benignade capitalismo da cadeia de suprimentos. Não há
tornou-se um nonsoel, pronto para expansão.A criação de estoques, um projeto de esca- custos de recrutamento de mão-de-obra e disciplina, nem benefícios. Os catadores de
labilidade, colheu os benefícios de um processo não escalável de destruição de florestas Matsutake trabalham porsuas próprias razões. Não há custos de renovação de matéria-
e deslocamentodeindígenas. A pirataria desse tipo faz o capitalismo da cadeia de supri- -prima. Os cogumelos são forrageados em terras nacionais. Os comerciantes não ten-
mentos funcionar. tam controlar a produção; eles simplesmente transformam essas relações de produção
não escaláveis em estoque escalável. Comopiratas, eles aproveitam osativos dessa con-
O sucesso das tradings japonesas foi um fator que promoveua “revolução dos acionis-
tas” dos anos 1980 e 1990, na qual grandes empresas foram desmanteladas e substituí- versão. E enquanto a cadeia de commodities matsutake é um caso extraordinariamente
das por cadeias de suprimentos. Os investidores norte-americanos estavam preocupa- benigno, ela também exemplifica dois princípios-chave do capitalismo da cadeia de su-
primentos: a contratação independente como trabalho; e o roubo, o forrageio ou a re-
dos que os Estados Unidos estivessem perdendo seu poder global e pensaram que
poderiam se renovar aproveitando a alavancagem do dinheiro americano.”O resultado cuperação como aquisição de recursos. À contratação independente é a marca do
foi uma rede de cadeias de suprimentos intercontinental que rapidamente superou a modo de produção da cadeia de suprimentos capitalista; contratadosindependentes
experiência japonesa. Os objetivos eram, no entanto, semelhantes: terceirizar custos e recrutam e disciplinam-se sem custos ou responsabilidades para as empresas líderes. En-
responsabilidade para colher! estoques e lucros. À chave, novamente, é permitir que os tão, por que ter todo o trabalho dêtomeçar uma plantação se você pode pegar maté-
produtores usem qualquer método que desejarem. Mais tarde, as mercadorias podem rias-primas gratuitamente de fontes públicas ou comuns? Essas formas de não escalabi-
ser convertidas em estoque: lidade tornaram-sea força vital do capitalismo da cadeia de suprimentos, do software à
mineração. Aqui, as commodities escaláveis são criadas através da exploração (no sentido
É chocante a grande parte da não escalabilidade exploradaneste sistema. Em vez de de recursos naturais) de relações ambientais e trabalhistas não escaláveis. Agarrar — e
usartrabalho alienado e disciplinado, a violência e a intimidação poderiam ser usadas converter em estoque. .
para recrutar trabalhadores. Em vez de fingir manteros recursos, as matérias-primas po-
dem ser roubadas, recuperadas ou adulteradas com venenosbaratos. Como tenho ar- Por que os estudiosos e especialistas não descreveram essas características das cadeias
gumentado, só porque algo não é escalável não significa que seja bom. Os gigantes de de suprimentos? Por que ostrabalhadores do conhecimento demoram a perceber o
estoquedos Estados Unidos, como Walmart e Amazon, valem-se da prática econômica
que os empreendedores — para não falar deervas daninhas e fungos — utilizaram por
de empurraros custosde volta aos produtores para que os produtos possam ser vendi- tanto tempo? pi
pi
po
dosa preços baixos todos os dias. Os produtores precisam encontrar uma maneira de h
agradar a esses senhores severos, o que geralmentesignifica eliminar as normas traba- NÃO ESCALABILIDADEPARA INICIANTES
lhistas e ambientais enquanto se produz mais lixo Prestaratenção às articulações entre o escalável e o não escalável requer repensar nos-
f
Todavia, a exploração da não escalabilidade pelo capitalismo da cadeia de suprimentos sas práticas de conhecimento, que foram moldadas dentro da história de refazer o
ii
nãoé necessariamente terrível. O objetivo é economizar custos e a economia de custos é mundo paraa escalabilidade. Para explicar comofazerisso, é necessário retornaràs ca-
racterísticas de planejamento da escalabilidade.
30 Ver Gregory (1997) e Ho (2009).
A maioria das ciências modernas exige escalabilidade, a capacidade de fazer um deter-

197
3 As práticas da cadeia de suprimentos do Walmart estão cada vez mais bem documentadas; Ver por
exemplo,Lichtenstein (2006).
minado modelo de pesquisa se aplicar a escalas maiores sem sofrer distorções. Esse tipo
de expansão só é passível quando o modelo de pesquisa analisa elementos de dados diversidade, porque era umaciência da expansão. Ao considerar a escalabilidade como
estáveis — os nonsoels da ciência. Somente dados do mesmo tipo podem seradicionados algo garantido, perguntou comoas populações se expandem. A expansão era possível
à pesquisa sem desorganizar o modelo. Assim, um projeto de pesquisa econômica que porque cada organismoera considerado autônomo, um nonsoel. A colaboração não era
estudaa renda familiar podese expandir para englobar dados de muitos domicílios, mas necessária para sobrevivência. A diversidadeera o painel atual de estratégias de conquis-
se um coletor de dados mostrar que os domicílios não são uma unidade de renda no ta variadas, porém,similares. Para enxergar criação da diversidade, precisamosde algo
local em queela registra dados, seus dados devem ser descartados, pois incluí-los des- diferente. Nos últimos anos,a centelha veio de uma nova combinação de biologia evo-
truíria o o modelo da pesquisa. Apenas os dadosreunidosparase ajustarem a um pa- lutiva, ecológica e de desenvolvimento,que estudouas interações entre espécies na ge-
drão específico permitem quea pesquisa seja expansível. As unidades de análise devem ração devida multiespécie*?
ser definidas de formaestável entreinstâncias e imtercambiáveis em sua relação com o
modelo de pesquisa. Tudo queesteja fora dos nonsoels criados porprojetos de escalabi- No que se refere aos humanos, esse campode estudos mostra o quanto precisamosdas
lidade é banido aqui e, com ele,o livre jogo de espécies das quais a diversidade emerge. bactérias em nossas entranhas e em nossa pele para nos tornarmos quem somos. Ob-
Essetipo de conhecimento é incapaz de enxergara não escalabilidade, devido à escala- serve-se como esse conhecimentoalterao projeto de criação de escala Nossas unida-
bilidade constitutiva de suas próprias práticas. dessão relações transformadoras, não nonsoels independentes. A questão do surgimen-
to precede a da expansãoe é, portanto, umaaplicação da teagia da não escalabilidade.
Osproblemas da diversidadé e de conviver com os outros exigem modos de conheci-
mentodistintos. Nonsoels não são suficientes, seja para o conhecimento acerca dos hu- O matsutake nos mostra esse tipo dediversidade biológica. Matsutake são criaturas de
manos ou de outras espécies. Considere-se a economia política global. Parece-me um florestas perturbadas, onde vivem em relação com as raízes das árvores. Eles não cres-
fato notável que acadêmicose jornalistas tenham conduzido tantos estudos sobre os cem onde os solos são ricos e cheios de nutrientes, mas onde geleiras, vulcões, areia

diversosnichos que são arrastadospara o capitalismo global hoje. Ficamos sabendo so- movediça — ou atividades humanas — privaram a terra de húmus nutritivo. A maioria dos
bre crianças que fazem tapetes, fornecedores indigenas de supermercadose cemitérios matsutake coletados comercialmente cresce em florestas industriais ou florestas cam-
fedorentos de computadores. Mas a maioria dos estudiosos da economia global como ponesas. Nesses lugares perturbados pelo homem, o matsutake nosrevela as formas de
um todo, seja qualitativa ou quantitativa, marxista ouliberal, irritada ou autossuficiente, sobrevivência colaborativa — as relações sociais transformadoras - que tornam a vida
ainda está presa apremissas de escalabilidade e, portanto, raramente faz uso dessari- possível. As florestas habitadas por matsutakesão colaboraçõesentre muitas espécies,
queza de dados etnográficos. Suas anedotas são isoladas, mantidas fora de suas grandes incluindo humanos. Precisamos da teoria da não escalabilidade para entender como
histórias. Essas histórias são continuações de histórias de escalabilidade do século XX; a funcionam essas paisagens multiespécies. Em vez de ciência escalável, o lugar para co-
diversidade transformadora dos nichos econômicosestá faltando.Precisamosda teoria meçar é a descrição crítica dos encontrosrelacionais entreas diferenças. Mas esse é um
da não escalabilidade para contar uma história diferente, umahistória alerta para as tra- tópico para outro artigo. Aqui, é hora de repassar meus pontos principais: a facilidade
duções e disjunções estranhas e imprecisas inerentes às cadeias de fornecimento glo- com que nossos computadores produzem ampliações embala nossafalsa crença de que
bais. Há muitos projetos de construção de escala aqui, e eles não são aninhados ordena- tanto o conhecimento quanto as coisas existem por natureza em escalas aninhadas de
damente. A teoria da não escalabilidade nos mostraa arquitetura do não aninhamento, precisão. Escalabilidade, novamente, é essa capacidade de expandir sem distorcer o mo-

que é a chave para (relcriação da diversidade cultural, capitalista ou não. delo. Mas é preciso muito trabalho para tornar conhecimentos, paisagens e projetos
escaláveis. O que tentei mostrar é comoesse trabalho, por seu design, encobre e tenta

"99
O problemaé igualmente grave ao pensarmossobrea diversidade biológica. A genética
populacionalclássica do século XX bloqueoua atenção aos processos de criação de 32 Ver por exemplo, Gilbert e Epel (2008).
bloqueara diversidade transformadora das relaçõessociais. Nessa perspectiva, a história
da escalabilidade deve ser considerada tanto em relação a seus momentos de sucesso
quantoaos eventualmentefelizes fracassos.

Projetos que podem se expandir por meio de escalabilidade são a menina dos olhos da
medernização e do desenvolvimento. Agronegócio expandido. Populações biológicas
expandidas. Abordagens escaláveis para o conhecimento expandido. Aprendemosa co-
nhecer o moderno pela sua capacidade deescalar. A expansão escalável reduziu o que
antes era um oceano de diversidade a algumas poças remanescentes. Os defensores
desse projeto pensaram que haviam compreendido. o mundo, mas foram confrontados
com dois problemas: primeiro, a capacidade de expansãoficou fora de controle; segun-
do, a escalabilidade deixou ruínas em sua esteira. Efeitos não escaláveis queantes po-
diam ser varridos para debaixo do tapete passaram a assombrartodos nós.

Comoa escalabilidade é criada? Não é umacaracterística necessária do mundo. As pes-


soas tropeçaram em projetós escaláveis por meio das contingências históricas. Elas
montaram juntas maneiras de tornar as matérias-primas (tanto para produção de bens
quanto para O conhecimento) independentes e estáticas e, portanto, passíveis de ex-
pansão. Nas plantations europeias de cana-de-açúcar, os nativos foram eliminados; plan-
tas e trabalhadores exóticos, coagidos e alienados vieram substituí-los. Lucros foram
gerados porquea violência geral do extermínio e da escravidão poderia ser desconside-
rada dos livros. Tais encontros historicamente indeterminados formaram modelos para
projetos posteriores de escalabilidade.

Nós vivemos em um mundo de elementos de paisagem nonsoeis escaláveis? Sim e não.


Osgrandesprojetos de “progresso”dosúltimos séculos se basearam no legado da plan-
tation colonial para fazer a escalabilidade funcionar nos negócios, no governo e natec-
nologia. Masa escalabilidade nuncafoi completa. Nosúltimos anos, mudançasno capi-
talismo global desafiaram a pressuposição de escalabilidade para a gestão do trabalho e
dos recursos naturais, e pelo menosalguns teóricos das ciências sociais apontaram a
hegemonia malévola da precisão. Entretanto, oscríticosda escalabilidade manifestaram
sinais de preocupação sobre o destinoda diversidade biológica e cultural naTerra. É um
momento importante para desenvolvera teoria da não escalabilidade como uma forma
de reconceitualizar o mundo- e talvez reconstruílo.
H/
i

TERRA PERSEGUIDA PELO


HOMEM

Mudançaclimática excessivamente rápida; extinções em massa; acidificação do oceano;


poluentes de decaimento lento; contaminação de água doce; transições críticas do
ecossistema:a industrialização provou ser muito maisletal para a vida na Terra do que
seus criadores jamais sonharam. Abordar esse desastre oferece um dos maiores desafios
para todasas pessoas inteligentes hoje em dia. Comoos antropólogos podem voltar sua
atenção para esse conjunto de questões? Este artigo sugere que podemos fazer algo
fácil para aqueles treinados em nossadisciplina: explorar nossa ambivalência constituti-
va sobrea figura do Iluminismo, o Homem. Trabalhar com essafigura pode fornecer
umadescrição melhor dos pesadelos ambientais atuais. Nossa condiçãoé, eu argumen-
to: a Terra perseguida pelo Homem.

Outra maneira de abordar essas preocupaçõesfoi possível em virtude do surgimento


do termo Antropoceno: a proposição sobre a época geológica na qualas atividades
humanasultrapassam as geleiras ao mudar a face da Terra. Algumas proposições so-
bre o Aniropoceno são neutras ou mesmo triunfalistas. A maioria, no entanto, chama
a atenção para os perigoscrescentes da catástrofe ambiental? De fato, o termo é con-
testado:cientistas sociais e de humanas têm sido particularmente vigilantes ao apontar

1 Earth stalked by man. The Cambridge Journal of Anthropology, v 34, n. 1, p. 2-16, 2016.
2 O aronegrama do Antropocenoainda está em construção. Enquanto alguns arqueólogos defendem

203
umadata inicial para o Antropocenohá cerca de 10.000 anos, a maioria dos estudiosos defendedatas que remetem
a processos ecológicos posteriores, desde o período da invasão colombiana do século XVil Lewis e Maslin 2015) até
Globo do Mickey (contraste escuro). Em Exeter, Reino LE)gioioR a primeira bomba atômica em 1945 (Zalasiewics et al. 2015),
suas fraquezas (ver, por exemplo, Haraway, 2015; Malm e Hornborg, como delimitá-lo e medir seus efeitos excessivos sobre a cultura e a história. Colocar
2014). No entanto, talvez o pior problema do termo — sua referência este Homem no Antropocenodá tração ao conceito em nossa disciplina — e conduz a
inicial ao Hornem — possa ser sua característica mais reveladora. Tomar uma melhordescrição.
o Homem como um poder sério, nem para ser descartado nem para
A ambivalência antropológica sobre o Homem pode apresentar um problema central
ser inocentemente seguido, é exatamente o que precisamos para ob-
no estudo do Antropoceno: é global? Como o Homem, sim, claro... e não. É global, por
raçãocria as servar o “Antropocenofragmentado”, isto é, o terreno único e desigual
definição: os modelos de mudançaclimática, por exemplo, são todossobrea circulação
ilidades das da Terra perseguido pelo Homem.
global de ar e água. Você não pode “fazer” a mudança climática em apenas um lugar.
nas dereplicação,
Antropologia e Antropoceno: cada um oferece o prefixo “antropo-,. O mesmo acontece com crise da extinção: se você exterminar uma espécie em ape-
tornam eficientes
atestando suas raízes na genealogia do Homem iluminista. No entanto, nas uma área,ela não será extinta; extinção significa que o mundointeiro perdeu essa
“oras de ativos, que
cada um se revolta contra esselegado dediferentes maneiras. A antropo- espécie. E eu me lembro darapidez com que a radiação do desastre de Fukushimafoi
1ser transformados
logia recusa a abrangência do Homem rasga seu manto em perspecti- notadana Finlândia, apesar de os ventos fazerem um longo caminho para chegarem lá.
tente em ativos
vas fragmentadas e modosde vida. O ântropoceno recusa o heroísmo da Quando osresíduosradioativos de Fukushima foram levadosparao litoral da Califórnia
s-e defato
luta do Homem contra suagrandenatureza antagonista e revela os terro- algum tempo depois (Sherwood, 2014), foi apenas mais uma confirmação de que a ra-
na produzir esse
res de sua destruição em todo o planeta. Essas reações são diferentes. dioatividade, como todas as formas de poluição, é um problemaglobal.
2 defuturo a que
Eles podem ericontrar tração entresi? O Antropoceno pede à antropo-
mosde progresso.” E agora, é isso? O litoral da Califórnia é um lugas, assim como floresta na Finlândia,
logia que levea sério as questões de habitabilidade. Em vez de apenas
ondea radiação de Fukushima foi medida. Nenhum de nós vive em umsisterna global;
seguir cientistas para questionar sua autoridade, somosinstadosa retor-
nós moramos em lugares. isso não significa que não viajemos, mas viajamos de um lugar
nar às melhores descrições do mundo.Porsua vez, a multiplicidade an-
para outro, não em uma globalidade abstrata. O Antropoceno é importante porque a
tropológica rompe a unidade imaginada do Antropoceno, recusando a
habitabilidade é ameaçada pelas repercussões das atividades humanas.E nós experi-
temporalidade universal. “Fragmentos” de gliferença surgem, forçando
mentamosa habitabilidade apenasatravés doslugares. O Antropoceno é encenado em
heterogeneidades de escala em seus cálculos. Juntos, há trabalho que
lugares, mesmo quando é umacirculação global. Esta não é a mesmasituação, digamos,
vale a pena fazer aqui.
de corporações supostamente globais, que existem apenas em lugares específicos.Lá, a
Mas quem é esse personagem, Homem? Suasorigensiluministas deram ideologia é global e a implementaçãoé local. O Antropocenoé global; só faz sentido em
origem à nossa disciplina e ainda nos capacitam a escrever. No entanto, escala planetária. E é também sempre restrito, perspectivo e performativo.Isso não é
sua generalização sempre inclui alguns de nós mais do que outros, e essa apenas porquevárias pessoas imaginam o Antropoceno de forma diferente, ou apenas
tem sido a principal descoberta de nossa disciplina. Ele tem um gênero, porqueossistemas globais causam impacto em vários tipos de pessoas de maneiradife-
uma raça, umareligião, uma teoria da propriedade e umaideia sobre si rente. É mais que isso. O Antropoceno é fragmentado porque é composto de várias
mesmo; essas características permitem a ele generalizar. É difícil generali- assembleias de habitabilidade. Existe apenas em e através desses fragmentos.
zara partir de uma mulher muçulmana negra; só é possível generalizar a
Chegueia essa perspectiva por causa de meu deslizamento contingente ao território do
partir de um Homem brancocristão. Ao mesmo tempo,ele ultrapassa a si
Antropoceno.Fui convidada a reunir um grupo de pesquisa transdisciplinar em Aarhus,

205
mesmo e prolifera; seus efeitos não estão limitados a sua classe, raça e
na Dinamarca. "O que devo propor?”, perguntei. “Faça algo sobre a mudançaclimática”,
gênero. Este é um terreno familiar para os antropólogos. Nós sabemos
disseram meus anfitriões, pensandonofinanciamento.Escrevi sobre paisagens antropo- alterno entre reflexões e narrativas fantasiosas. Minhas narrativas são alegorias necessá-
gênicas (paisagens multiespécies nas quais os humanos desempenham um papel), já que rias, simultaneamente baseadas em evidências e criadas para oferecer novos valores
essa era minha pesquisa, mas dei à proposta do nomede “Vivendo no Antropoceno”, para o pensamento.
paraatrair os colaboradores. E funcionou: o termoatraiu cientistas, artistas, antropólo-
gose filósofos para uma conversa comum,e isso é Ótimo. Mas meu começo por meio
REFLEXÃO1: A PACIÊNCIA DE MARILYN STRATHERN
da paisagem me fez ver o Antropoceno através desta lente. As paisagens são assimétri-
case irregulares — o que eu chamode fragmentos. Quandopenso sobre a ambivalência nas categorias, a antropóloga que me vem à mente
é Marilyn Strathern. Strathern nosguia para coisas que não se encaixam — e ainda assim
Desde o primeiro momento pensei no Antropocenoatravés dafigura da plantation. Por estão juntas de alguma forma. Em contraste a uma “contradição” marxista, as bifurca-
plantation quero dizer aquelas simplificações ecológicas nas quais os seres vivos são ções de Strathern não levam a lugar nenhum; não hásíntese, mas, sim, uma chance de
transformados em recursos — ativos futuros -, removendo-os de seus mundosde vida. refletir sobre as categorias. Ela nos pede para pacientemente permanecer em uma con-
As plantations são máquinas de replicação, ecologias evocadas para a produção do mes- fusão, não tentando resolvê-la, mas para ter tempo de considerarmosa incomensurabi-
mo, Como muitos antropólogos têm mostrado, desemaranharas coisas dessa maneira lidade (Strathern, 1997. Existem vários tipos de paciência aqui. Primeiro, a prosa nos
é realmente exótico. Produzir recursos — isto é, coisas desembaraçadas — requertraba-
& atrasa. Em segundolugar, nos obriga a considerar a multiplicidade através de escalas
lho cultural. Vamos chamareste trabalho de “alienação”, quer envolva humanos ou não conflitantes, com suas conexões e desconexões. Em terceiro lugar, o trabalho mostra um
humanos.A alienaçãocria as possibilidadesdas máguinas de replicação, que se tornam caminho que combina a urgência da ação com a atenção às complexidades.
eficientes produtoras deativos, que podem sertransformados novamente em ativos
futuros — e de fato ajudam a produzir esse modelo de futuro a que chamamosde pro- Eu acho tudoissoútil para considerar a Terra perseguida pelo Homem. O Homem é um
problematanto porserlimitado quanto por agir em todos oslugares. Assim também é
gresso. A alienação produz os dilemas ambientais que chamamos de Antropoceno.
A mudança climática antropogênica, a crise de extinção e a poluição radioativa, meus com seu avatar, a paisagem das plantations. Plantations espalhadas por toda parte — são
exemplos até agora, são todos produzidosatravés da busca de ativos por meio de eco- proliferações modernistas. Como máquinas de replicação,fabricam proliferação. No en-
tanto, em toda parte,elas são formadas em histórias vernaculares, queasligam às con-
logias simplificadas e dos processosindustriais que essas ecologias tornaram possíveis.
tingências de conflitos e às peculiaridades dos lugares. Elas nunca podem estar em todos
A vantagem de pensarnas plantations é que o Antropoceno fragmentado é imediata- os lugares, porque dependem das paisagens emaranhadas queelas separam. E, no en-
mente aparente. Por mais onipresentes que sejam as paisagens das plantations em nosso tanto, cadaerupção da plantation espalha a generalidade de todaa parte. Há uma confu-
mundo hoje, elas não estão em toda parte. Existem muitas paisagens de entrelaçamen- são aqui: a plantation cria a generalidade da separação; no entanto, apenas um aparato
to multiespécies, como as matas. E, no entanto, as plantations são energizadas pelas pos- local pode fazer emergir essa generalidade.
sibilidades de proliferação. Proliferação: uma palavra que chega a nós do câncer e das
Essa não é exatamente umabifurcação stratherniana; Aindaassim, tomo a liberdade de
armasnucleares. O câncer, quase por definição, não pode estar em todolugar; o câncer
colocá-la dentro dosinsights de Strathern sobre a antropologia feminista. Minha análise
se desenvolve em organismos de células não cancerígenas.E ainda assim, prolifera. As-
sim também acontece com armas nucleares — plantations. Na proliferaçãoirregular das aqui é feminista em dois sentidos. É feminista por comparação, em sua relação com O
impasse de Strathern acerca da multiplicidade e da escala. É também constitutivamente
ecologias das plantations, o Antropoceno fragmentado torna-se aparente. E aqui retor-
feminista em minhaprópria indignação com as obras destrutivas do Homem.Essa com-

207
no ao Homem, com H maiúsculo, quecria recursos para o progressoatravés das planta-
binação meleva aoartigo An awkward relationship: the case offeminism and anthropology de
tions. Mas que tipo de perseguição e quetipo de Hornem é esse? No quese segue, eu
Sirathern (1987), Esse artigo realmente me desafiou porque começou com categorias externa, os agricultores sabem exatamente quandocada porca está entrando no cio. A
que pareciam completamente erradas: feminismo era universalismo e antropologia era parte detrás de cada porca é marcada com umafaixa colorida queindica o dia. Assim
relativismo cultural. A dicotomia solapou o próprio empreendimento em queela estava quea vulvaestiver vermelhao suficiente, a porcaé inserninada. E assim que a gravidez é
embarcada — e acho queesse era o ponto. Nem universal nem relativista, a antropologia confirmada, a porca é deslocada para diferentes pocilgas, cada umaindicando exata-
feminista de Strathern surgiu dentro de um conjunto insustentável de distinções, obri- mente quantosdias a gravidez prosseguiu. A vida social nas pocilgas foi encorajada pelas
gando-nosa não esmiuçaras perspectivas, mas a usá-las pararevelar suas contradições. discussões da União Europeia, que respondem ao recente reconhecimento de que os
Nós não podemos escolher: devemos impossivelmente aceitá-las. Em contraste com porcossão seres sociais.
formas de estruturalismo nas quais as dicotomiassão algoritmospara definir o mundo,
Mas tal socialidade é cuidadosamente administrada em relação à exatamente como a
como uma máquina em movimento, as bifurcações de Strathern detêm o mundo em
fêmeaestá grávida: a princípio, ela precisa da opção pelo espaço privado; mais tarde, ela
suas trilhas. Elas fazem a confusão, diminuindo a velocidade para permanecermosnela.
deve estar em grupo, a menos que esteja doente. Os fazendeiros sabem exatamente
Para ficar pacientemente na minha confusão, deixe-me recorrer a uma história.
quandoela dará à luz e tudo está preparado para a chegada dosleitões. Estas porcas
têm númerosvariados de tetas, de 10'a 18, e, comoas leitoastêm suastetas especiais, as
CONTO 1:05 TRÊS MIL PORQUINHOS mães não podem dar de mamara mais leitões do que possuem detetas. Mas os agricul-
“Na Dinamarca, onde estou vivendo atualmente, a criação de suínos para exportação é a tores calcularam uma média de 14 tetas e, assim, ajustam a quantidade de inseminação
maior indústria agrícola do país e, de acordo com a maioria daspessoas com quem con- para formar 14 leitões. Os quatro leitões a mais de umaporca com 10 tetas são dados a
verso, ajuda a definir o caráter nacional. Os porcos são criados em grandes operações uma porca com 18 tetas. E, assim que possível, os leitõessão removidosda mãepara que
devários milhares de animais, mas é importante para os porta-vozes que estas sejam a porca possa voltar a produzir mais leitões. Comoosleitões são removidostão rapida-
“fazendas familiares”. A Dinamarca tornou-se uma nação modernaatravés da mobiliza- mente, antes de terem o sistema imunológico adequado,eles são alimentados com an-
ção de um movimento cooperativo agrícola, e os sonhos de modernidade foram, desde tibióticos; ao mesmo tempo são desvencilhados até mesmo de bactérias intestinais.
O início, ligados a um campo de fazendas familiares imaginárias. Os porcos são ativos Tudoisso faz cora que as porcas se reproduzam ao máximo. A fazenda é uma máquina
universais e dinamarqueses vernaculares: a confusão do Homem. de replicação:porcas e leitões são ativos, para serem gerenciadoseficientemente. À efi-
ciência é conseguida pela taylorização do processo de reprodução e pela remoção de
Em março de 2015, Inger Anneberg levou-me em uma de suas viagens de pesquisa a
impedimentosatravés de um espaço devida estéril e monitorado de perto.
uma fazenda de porcosno centro da Jutlândia (Anneberg; Vaarst; Bubandt, 2013; Ham-
mar, 2006). Eu não sou umaestudiosa de porcos. Aindaassim, a fazenda fornece uma Acompanhado de perto, e ainda pela família dinamarquesa: esta é a plantation em con-
imagem tão vívida das “máquinas dereplicação”, que tomoa liberdadede descrevê-la. tradição, tanto transcendente quanto localizada. Afinal, o agricultor explicou, eles não
são como os holandeses hipermodernos, que transformaram fazendas de suínos em
Deixe-melevá-lo primeiro ao edifício em que as porcas reprodutoras estão encurrala-
fábricas semelhantes a depósitos. Aqui está umahistória vernacular em que o Homem
das. O mais impressionante, para mim, era que cada animalera classificado e manejado
emerge com características jutlandesas; aqui é olocal em que o global entra em erup-
de acordo com seustatus reprodutivo, que é minuciosamente conhecido. Nós começa-
ção. Vale a penaacrescentaralgumas histórias.
mos nossa turnê com as porcas jovens, que estavam se tornando reprodutivamente
ativas pela primeira vez. Estas foram mantidas juntas em umapocilga perto da porta

209
O trisavô do fazendeiro, a quem chamarei de Mads, fundou a fazenda naregião central
principal, para facilitar a observação. Através do rastreamento da cor de sua genitália da Jutlândia comoparticipante de uma mobilização nacionalista do século XIX para
transformar os pântanos em fazendas familiares modernas. Os dinamarqueses perde- confere dominio. Para proteger os porcose a nós dainfecção, somostotalmente ade-
ram suas melhoresterras agrícolas em uma guerra com a Alemanha e, como dizia o di- quados, desde os pésaté os cabelos; ficamos parecendo um pouco com as enfermei-
tado, “O quefoi perdido fora deveser ganho dentro” (Ohwig, 2008)? Esta norma nacio- ras do Ebola. Defato, a propagação dessas bactérias desafiou um ritual nacional: à vi-
nal para as fazendas familiares modernas conformou contradições subsequentes. sita de crianças em idadeescolar à fazenda de porcos. Debates sobre a segurança de
Quando ospais de Mads decidiram aprimorarsua fazenda mista em 1980,eles queriam suinocultura restabelecem os limites vernaculares da máquina de replicação, ao mes-
mudar seus negócios para laticínios. Mas ao observar os números, Mads nos contou, mo tempo em quesuportam simultaneamentesuas futuras proliferações - como em
eles perceberam que apenasos porcos eram viáveis. Os númerosdiziam: empresa fami- nossos processos de segurança.
liar aquié a plantation. Entretanto, continuando as contradições, os pais de Mads encon-
Avirulência é um negócio comum naplantation. Virulência tanto sublinha a generalidade
traram um trabalho que poderia ser modernista e, ao mesmo tempo, familiar. Sua mãe
da máquinade replicação, em suas proliferações, quanto a restringe. A própria plantation
foi para a Romênia e recrutou um jovem cujos familiares continuaram a fornecertraba-
lho à fazenda desdeentão. começa a aparecer como uma erupção semelhante a uma doença, ao mesmo tempo
em que cria seus próprios patógenos. Essesácaros de ácaros podem sacudir — ouesten-
O laço que combinavaintimidade e separação pareceu-meparticularmente claro num dê-lo através de novos terrenos vastos. Sentados nessa confusão, os elemento
s inco-
conjunto de conversas sobre;a sexualidade dos porcos. Mads estava me explicando - mensuráveis do quebra-cabeça que chamamos de Homem emergem.
como inseminar as porcas usado um longo tubodeplástico inserido na vagina de uma
porca. Diferentemente de umá vaca, uma porca precisa contrair alguns músculosinter-
nospara que o sêmen fosse introduzido. Cada vez que Mads descrevia o processo, ele
REFLEXÃO 2: A FORÇA OCULTA
The hiddenforce é o nomede um romance deLouis Couperus, originalmente publicado em
parava dramaticamente, hesitava por um longo momento e usava o termo “orgasmo”.
1900, sobre os efeitos do colonialismo nas Índias Orientais Holandesas (Couperus
para esse processo. Umavezele estava descrevendoa paciência necessária, já que a por- ,
1900/1990)Isso me leva a um desvio aos mundoscoloniais que ajudaram a produzir antro-
ca não responde imediatamente. Um colega meu perguntou o que ele faz durante a
pologia e também plantations. O Homem entra em erupção nos encontroscoloniais; en-
espera:ele estimula a porca? “Ele manda uma mensagem para sua esposa”, um pesqui-
contros coloniais nos mostram o Homem como uma erupção. A produção simultânea da
sador dinamarquês entrou em cena. Mads imediatamente concordou e começoua imi-
universalidade do Homem as histórias provincianas e vernáculas que o ligam ao lugarsão
tar o processo de mensagens de texto enquanto segurava o tubo de inseminação.Pará
extremamentevisíveis nesse espaço, no qual a incomensurabilidade é a prática cotidiana.
mimisso sugeria a tensão entre a intimidade e o desapego no coração da fazenda fami
liar e industrial, [sso é sexo, e isso não é sexo: assim, a máquina de replicação assume sua Mas deixe-me começar mais de um século antes do romance de Couperus para es-
forma dinamarquesa. piarJava do século XVII] como descrito na incrívelrelato do historiador Jean Taylor,
The social world ofBatavia (Taylor, 2009), Aqui reside umailustração vívida do que quero
E, no entanto, também há outra coisa, uma força oculta que surge nessa confusão :
dizer com a erupção do Homem. Naqueles tempos, os trópicos eram considerados
entre geral e particular — e isso distancia e separa os dois. Considere as bactérias: bac-
insalubres para as mulheres brancas, e os oficiais coloniais chegavam como homens
térias infecciosas resistentes a antibióticos que surgiram na maioria dos espaços hu-
solteiros. Eles se envolveram com mulhereslocais e tiveram filhos mestiços. Para cui-
manos semelhantesa plantations, como o hospital, se espalharam para quase todas às
car dessas crianças, eles enviaram os meninospara a Holanda para sua educação, mas
fazendas de suínos da Dinamarca(SSt; NF, 2012), A onipresença dos antibióticos lhes
eles mantiveram as meninas em casa — e as casaram com a próxima geração dejovens

2
3 Nooriginal: What was lost without shall be gained within”. que chegavam da Holanda.Para chegar a algum lugar na hierarquia colonia), osjovens
achavam oportuno casar com asfilhas mestiças de seus superiores. Mas aquelasjo- CONTO 2: FORDLÂNDIA
vens mulheres eram criaturas das Índias: mastigavam bétele, manchando os dentes de O nome é tão cheio de mitos que não posso repetir o título da minha história. Fordiân-
vermelho; ouviam a música do gamelão enquanto os servos seguravam guarda-sóis dia: a plantation de borracha do grande empreendedor Henry Ford no meio daselva
reais sobre suas cabeças. Os homens europeusestavam enojadose aterrorizados; eles amazônica e O local de um sonho de progresso moderno. Fordlânciia: linhas retas de
tinham quesair de casa. Os homens formaram clubese juntos descobriram linguística, casas caiadas de branco, máquinas reluzentese,é claro, as fileiras de seringueiras limpas
arqueologia, história e ciência. A civilização ocidentalsurgiu em seus frenéticos esfor- que levam à eficiência, riqueza e poder. Então, alguns anos depois, Fordlândia: ruínas
ços para evitar suas esposas. Simultaneamente provincial e cheio de espírito universal, enferrujadas, lamainvasora e umatorre de água abandonada; nada mais. Fordiândia foi
esta foi uma erupção do Homem. uma erupção do Homem noBrasil no final dos anos 1920 e 1930. Ainda mais do que os
As erupçõescoloniais do Homem nãoselimitaram aos homens brancos. Noinício do porcos dinamarqueses, Fordiândia nos leva à incomensurabilidade do Homem ao es-

século XX, um grupo de jovens javaneses deelite ficou fascinado com o Homem: tor- preitar a terra. Fordlândia é o Homem em suaformamais geral, a máguina de replicação
nando-se Homem, eles aprenderam a ser agitadores anticoloniais e acabaram cons- — e também em sua forma mais estranha e particular, entrelaçada e emergente às pe-
truindo um movimento revolucionário. Esse processoé descrito na sequência histórica quenas contingências dahistória. Então, também há a força oculta: a força de prolifera-
de Pramoedya Ananta Toer, no Byru Quartet e, especialmente, em seu primeiro romance ção e também seulimite.

This earth of Mankind CToer, 1996) Pramoedya descreve o amadurecimento de uma ju- A maioria dos comentaristas aceita esse caso como umalição objetiva contraas obses-
ventude javanesa protonacionalista, cujos horizontes são expandidos pelo sonho da sões de um homem Fordlândia aparece como um homúnculo do cérebro de Henry
modernidade:esta terra da Humanidade. Apesardastravessurasracistas de seus profes- Ford. Mas sou gratoa Evan Killick, que não apenastrouxe Fordiândia para minha atenção,
sores coloniais, que têm a coragem de chamá-lo de “Macaco”, ele intenta alcançar esse mas também me enviou a ótima dissertação de Barry Machado sobre sua história
potencial universal. Isso abre sua consciência para discussões sobre direitos e inspira sua (Machado, 1975). Machado oferece um relato em que os brasileiros são atores-chave e
luta contra a discriminação colonial. Mais uma vez, esta é uma erupção do Homem. nos quais história e a política são importantes. Em particular, Machado dá sentido ao
Aqueles sem cromossomos Y Brancoscristãos também podem navegar nessas águas. fato de que a Ford contratou um capitão de navio norueguês-americano que, sabia

No entanto, nem os brancos nem osnativos coriseguiam evitar a força oculta: a magia Ford, não tinha experiência nem com o Brasil nem com a borracha para definir as prin-

virulenta e a maleficência do abraço colonial. A força oculta emerge da própria arquite- cipais características de sua plantation. Por quê?
tura do Homem, com sua separação do mundo davida. Quanto mais pura a racionalida- Como Machado conta a história, durante grande parte da década de 1920, uma rede de
de do Homem, mais forte é a força oculta. A força oculta atormenta o administrador imperialismoe intriga fez bom uso da Ford, a grande empreendedora da época. Henry
colonial no romance de Couperus com esse nome; coisas indescritíveis e sem explica- Hoover, então secretário de Comércio dos Estados Unidos da América (EUA),difundiu
ção acontecern.O protagonista tenta ignorarosefeitos de seus programas de racionali- a máxima de que os americanos devem tersua própria borracha, um recurso estratégi-
zaçãonasociedade colonial que ele ajudoua criar. Mas o indescritível assombra-o, des- co que deveria estar livre de outrosinteresses imperiais. Os primeiros esforços nesse
lizando pelas rachaduras das paredes, salpicando sua esposa europeia com cuspe de sentido foram para as Filipinas, então colônia dos EUA, mas osnacionalistas filipinos os
bétele vermelho-vivo, embora efa esteja inteiramente protegida, ao que parece, em seu bloquearam. Nesseclima, os futuros capitalistas compradoresbrasileiros surgiram e cor-
banho. Comoas bactérias resistentes aos antibióticos, a força oculta emerge dosproje- tejaram Ford, que nãoseinteressara anteriormente pela borracha. Em 1927, por meio de

213
tos do Homem. No romances,isso prejudica esses projetos, limitando sua universalidade um conluio envolvendo um empresário brasileiro, um secretário consular americano, o
imaginada. Às vezes, também,isso ocorre no mundo,
o lo- (Lieberei, 2007). O Microcyelus ulei infecta apenas seringueiras. Ele se espalha lentamente
governadordo estado do Pará, um facilitadorbritânico e um prefeit
e causa pouco dano onde a borracha é cercada por outras árvores, como na floresta
cal, foi feita umaoferta para Ford queele não podia recusar. Ford assinou
amazônica. Mas faça umaplantação homogênea em que todas as outras árvores te-
e contratou pessoal para abrir sua plantation. Mas a política brasileira era
nham sido removidas as seringueiras tenham sido plantadaslado a lado: uma máquina
“ umviveiro de facções de oposição, e outro grupoalertoujornalistas locais
dereplicação. Um novo mododeproliferação fúngica entra em ação,já um atributo do
sobre as maquinações portrás do acordo com Ford. Em 1928,os jornalis-
fungo, mas energizadopela plantation. Esporos assexuados com vida curta e pouca capa-
tis uma questão tas divulgaram a história do conluio em todosos noticiários.
cidade de disseminação geram pouca capacidade de proliferação do Microcyclus na
ve ser levantada: Segundo Machado,Ford ficou chocado; ele nunca havia visitad
o º Brasil
floresta diversificada. Mas na plantation, basta que os esporos produzidos passem de
Homem, puro
e nãoestava prestando atençãoà política. Mas agora a plantation já estava umafolha para outra folha para infectar uma nova árvore.Isto é particularmenteeficaz
rido, nem seus outro tado,
surgindo.Ford demitiu sua equipe, americana e brasileira. Por quando,privado de novas sementes por uma administração hostil a diversidade genéti-
s indígenas, puros contratou um homem supostamente honesto em quem podia confiar: ca das plantas é pequena. Enquanto isso, a plantation é estruturada para acelerar e sincro-
Brasil
ridos, são um capitão norueguês. O fato de o capitão não saber nada sobre o nizaro fluxo de folhas jovens; o fungo, que infecta aperiasfolhas jovens, é apanhado
ados.” mudou, e
era umarecomendação. Enquanto isso, o governadordo Pará nesse novoregime de crescimento — e em anosfavoráveis o excede. A arquitetura da
suprimen-
os novos servidores foram hostis com Ford, e cortaram seus plantation promove não apenas o crescimento da borracha, mas também proliferação
tos, incluindo 5ementes de borracha. Ford respondeufechando a planta- da ferrugem da folha da borracha. Em Fordlândia, a ferrugem da folha deborracha ex-
falar o ral
tion para O mundo: era não ver o mal, não ouvir o mal, não plodiu e todas as árvores morreram.
ão
Sem diálogo local, o capitão e seus sucessores administraram a plantaç
Convém dizer que a doençadas folhas de borrachajá era bem conhecida na década de
de seringueiras em uma versão quase parodiada da ordem moderna
1920. Se Fordlândia nãotivesse se protegido deinfluências externas, tanto locais quanto
branca (seja escandinava ou o do meio-oeste norte-americano): uma
hado estrangeiras, talvez as coisas tivessem sido organizadas de maneira diferente. De fato,
erupção do Homem em sua mais virtuosa generalidade e emaran
4 eventualmente, algumas operaçõesforam transferidas para um local mais seco, Belterra,
em suacontingênciai .
onde trabalhadoresassiduamente enxertaram, inspecionaram lavaram as árvores para
um lu-
Desde início, foi um desastre. Os administradores tentaram criar deter insetos e fungos. Ainda assim, quase nenhuma borrachafoi produzida durante
ais e
gar moderno para o trabalho, com salários, em vez de bens comerci todo o experimento. Até hoje ninguém produz borracha nas plartations no Brasil. As
com a expectativa de abstenção doálcool das mulheres. Os trabaihado- plantations de seringueiras estão limitadas à Ásia e à África, para onde as sementes brasi-
res brasileiros, tanto caboclos quanto indígenas, acharam essascondições leiras foram transportadas sem a companhia dos fungos. É revelador que as Nações Uni-
incompreensíveis e se recusaram a segui-las. Houve tumultos. Mas os das tenham colocado a ação deste fungo em sualista de armas biológicas (Lieberei,
maiores desastres vieram dos não humanos: como uma máquina de repli- 2007). Não seria necessário um plano terrorista para espalhar o fungo, destruindo as
cação, a plantatian acelerou o crescimento não apenas das seringueiras, economias das plantations. O fato de que essa disseminação não tenha acontecido até
mas também deseus adversários. agora é um testemunhodas lacunas entre as plantations, o Antropoceno irregular, frag-
mentado.E, no entanto, essa história, encenada umavez como farsa, invertendo Marx,
Para apreciar comoas patologias das plantas se tomaram a força oculta,
se repete comotragédia. Mas primeiro:
eu preciso contar um pouco sobre o fungo quecausa a ferrugem da folha

215
de borracha, Microcyclus ulei. Eu mudo daqui de Machado para micologia
REFLEXÃO 3: HOMEM NO BRASIL variações, Viveirosde Castro revitaliza aquele núcleode alteridade que ainda
podebri-
Descrever uma erupção do Homem no Brasil me leva ao terreno de um dos antropó- lhar através da contaminação para reanimar o mundo. Lembro-me de
ler a rejeição de
logos mais empolgantes e polêmicos do nosso tempo: Eduardo Viveiros de Castro. Michael Taussig em considerar o índio da Amazônia como irecuperável; foi
quase uma
Viveiros de Castro me permite evocar um domínio tão grandioso como o do Ho- reflexão tardia (Taussig, 1986, p. 135). Viveiros de Castro desafia nossa disciplin
a recupe-
mem. No entanto, mesmo quando vejo o Homem na Amazônia, Viveiros de Castro rando-a. À figura do ameríndio faz com que outros mundospareçam possívei
s - e nos
bloqueia minha capacidade de ver as contingências da erupção do Homem. Dom e lembra do poder contínuo da proliferação do Homem.
veneno: que impasse!
Minha vontade deabrir a questão do Homem se baseia nesse insight. Comodis
ciplina,
Viveiros de Castro permite aos antropólogos dar uma segundaolhada no Homem,não ficamos entediados do Homem, vendo-o como menosrelevante para nossas
preocupa-
ver seu gênero, sua raça ou suas estruturas familiares, de propriedade ou administração, ções atuais, Pensamosquetínhamos terminado com ele; nós o largamos em
um canto
comojá fizemos há algum tempo, mas, sim, examinar seu confronto com a Natureza — qualquer com outras antiguidades, Mas a teoria decolonial latino-americana
volta a me
com N maiúsculo —, entidade contra a qual o Homem se desafia (Viveiros de Castro, envolver com sua importância contínua — e a contínua proliferação de seus
primeiros
1998). Viveiros de Castro estimulou um novotipo de teoria anticolonialna qualesse tipo princípios. Ao mesmo tempo, não me contento em engolila porinteiro.
Aquele Ho-
de Natureza, classificada e isolâda para exercícios de alienação, não parece mais a única mem que é apenas umarepresentação de si mesmo não pode emergir
em uma erup-
alternativa. Além disso, o Hombm que faz essa Natureza destaca-se, nos escritos de Vi- são contingente dotipo que introduzi em Fordlândia. Aquele Hornem
apenasfaz e faz
veiros de Castro, ao confrontar seu Outro no ameríndio (Viveiros de Castro, 2004). As- — e não há nenhum Antropocenofragmentado, mas apenas aquele em queEle
já nos
sim comoo pós-colonialismo crítico anteriorvindo da Ásia nos mostrou a modernidade superou a todos. Não há muita tração para a habitabilidade. O que eu
preciso, infeliz-
emergindo em primeiro lugar dos locais asiáticos de alteridade na Europa, Viveiros de mente, é uma desordem Strathemiana: umarelação desajeitada entre Thongch
aie Vi-
Castro mostra o Homem do Homem-e-Natureza triunfando no Brasil. veiros de Castro. Eu preciso tanto do Homem historicamente disposto
em camadas
quanto do sempre generalizado e generalizável. Na prática, isso significa
No entanto, há uma diferença entre os respectivos anticolonialismos da teoria decolo- uma descrição
que enfrenta ondois lados: por um lado, oferece desafios mais que locais;
nial latino-americana e a variedade pós-colonial asiática. Considere como um maravilho- por outro
lado, evoca a fricção das conjunturas históricas. A proliferação de plamtations
so exemplo a demonstração de Thongchai Winichatkul sobre a construção da moder- é esse tipo
de problema: a proliferação é uma característica estrutural é universalizante
nidadeno reino de Sião: as elites siamesas fizeram da modernidade em suas negociações da moder-
nidade ocidental, mas também um efeito provinciano e contingente das histórias
um cálculo europeudaracionalidade (Winichatkul, 1997). Desdeo seuinício, a moderni- verna-
culares híbridas de raça, classe, gênero, expansão imperial governo estatal
dadefoirevestida pelas histórias dos colonizados e excluídos. Nessa história, a moderni- e muito mais.
Em todo lugar e simultaneamentelimitado: é um tanto quanto perverso,
dade é um palimpsesto de histórias vernaculares de todo o mundo, onde o Homem não mas é o que
tornapossível o projeto de umaantropologia do Antropoceno.
podeser desvinculado das negociações criativas e das lutas desenhadas em seu seio. Em
contraste, Viveiros de Castro purifica o Homem, buscando umaessência estrutural, tan- Há mais uma questão que deve ser levantada: nem o Homem, puro ouhíbrid
o, nem
tonoocidental quanto no ameríndio, que permanece intocada pela história. Ele distin- seus Outros indígenas, puros ou híbridos, são adequados. As separaç
ões do Homem
gue as histórias confusas dos mestiços para recuperar a longa e desprezada figura do permitiram que novas ecologias de parentesco,reprodução e morte surgisse
m, mas es-
ameríndio, ressurgindo como protagonista da crítica radical. Há umavisão inteligente tas não são nem intencionais nem deseu conhecimento. Tampouco são
sujeitos de cos-
mopolíticas indígenas. Nem o Homem nem seus Outros assumem a responsa

27
aqui. Em vez de reduzir o mundo ao domínio do Homem, em todas as suas muitas bilidade;
não existe um plano. Eu tenho chamadoisso de força oculta — o excesso do enconiro
esta é a planintion misturando-se em florestas: as ecologiasainda
colonial, explicado por nenhum dos fados. O Antropocenoé48 “força oculta” naé E
até o fim. entrelaçadas do mun-
do sem plantations. Esta é a proliferação do Antropoceno,
em todos os seus perigos.
Uma avenida inteira para pesquisa potencial se desdobra dessa
revelação:seguir os frag-
CONTO TRÊS: A MORTE DE COMPANHEIROSINDISPENSÁVEIS mentos do Antropocenoatravés de seus processos industriais e
seus efeitos não inten-
Oliver Rackham foi um botânico britânico que dedicousuacarreiraàs florestas. Ele não cionais. Aqui eu ofereço notas de abertura, um pequeno canto
a cappella pelo declínio
estavainteressado em desertos pouco visitados, mas, sim, noslugares habitados há mui- de nossos companheiros indispensáveis.
to tempo,feitos por histórias humanase não humanas. Ele observou ostipos de árvores
O freixo europeu é o assunto do últimolivro de Rackham (2014).
que aparecem em campos abandonadose se recuperam após o corte. Se nos preocu- Não havia razão para
plantar freixos; ele surge em todos os lugares com perturbação
pamos com a habitabilidade, seja para nós mesmosoupara os outros, a vitalidade e a humana. Não havia ra-
Zão para importar freixos; é uma árvore comum emtodaa Europa.
diversidadedessas florestas antropogênicas é algo a ser observado. Carvalhos,faias, frei- No entanto,o trans-
porte de contêineres ameaçou esse companheiro. Com a capaci
xos: nós ignoramostais árvores, mas elas são companheiras indispensáveis. Chame de dade de colocar 18.000
árvores, com seubarro contaminado, em um único contêin
"serviços ecossistêmicos” se você quiser. Nós não podemosviver sem eles. Rackham, um er, o comércio de viveiros
estava pronto para transportar carvão para Newcastle. Remess
observador atento, estava angustiado ao ver até mesmo as árvores mais comuns de suas a de contêineres: uma
plantation flutuante. Com isso veio um fungo assassino.
amadas florestas murcharem: o carvalho, infectado por um mofo que o impediu de
crescer na sombra; a faia, destruída por esquilos cinzentos importados; o freixo, vítima Há cem anos, os norte-americanos começaram a importa
rpinheiros brancos cultivados
de um fungo. em viveiros de plantas. Não havia razão para plantar pinhei
ros brancos; eles surgem em
todos os lugares. Não havia razão para importarpinheiro branco
Eu nunca conheci Rackham. Como admiro o trabalho dele, tentei convidá-lo para uma . Masos preços estavam
bons as plantações europeias de pinus foram importadas.
conferência, enviando-lhe uma sequência de e-mails frenéticos entre janeiro e o come- Com eles veio a ferrugem
de pinheiro branco, que entrou nas florestas americanas, não
ço de fevereiro de 2015. Então, em meadosde fevereiro, descobri que ele nunca mais apenas nas plantações,
matando árvores. a
responderia aos e-mails: ele havia morrido. Companheirosindispensáveis são humanos
e não humanos. À industrialização das transferências de plantas tem
dois efeitos. Primeiro, ela move os
patógenos em umaescala incompreensível, bloqueando a recupe
O livro de Rackham, Woudlands (Rackham, 2012), iniciou minha descida ao Antropoceno ração daplanta Como
disse Rackham: “As catástrofes não são necessariamente anorma
fragmentado. Antes de lê-lo, pensara em doenças, pragase espécies invasoras como um is.. É a taxa de catástro-
fes — a cada poucos anos, em vez de uma em um milênio — que
resultado necessário da viagem e do comércio humanos: parte do quesignifica, talvez, importa”.Ele continua:
“A globalização do plantio de árvores, inevitavelmente, tendea
ser humano. Rackham sugeriu outra coisa. Introduções casuais de pragas não são o pro- globalizar as doençasdas
árvores, particularmente a Phytophthora, que pode se hibridi
blema A maioria das ecologias pode se recuperar dessas introduções casuais. Para as zar e gerar cepasvirulentas”
(Rackham, 2012, p. 427-428). As Phytophthoras são mofosque
Plantas, é a industrialização promovida pela indústria de viveiros de árvores com sua estão matando os carva-
thos e medronheiros das minhas matas de Santa Cruz. Assim
grande exportação global desolose plantas que causa tanto a ampliação da taxa quanto ele tratou da segunda for-
ma pela qualas plantations ultrapassam seus limites: são criado
a virulência da disseminação contemporâneade patógenos — e o consequente declínio uros de virulência, O co-
mércio de plantas industriais não apenas se move em torno
até mesmo de nossas árvares mais comuns. Isso me chamoua atenção. Este não é o de agentes patogênicos; ela
gera patogenicidade.Assirn, para a ferrugem das folhas de borrac
trabalho das pessoas comuns.Este é o Homem em seuavatar na p/antation. Piorainda, ha, um novo tipo de

21»
proliferação tornou-se possível, aumentando as habilidades
do fungo. O comércio
industrial também transforma patógenos. Phytophthoras hibridizam e criam formas que sendousado — e temo que continuea se tornar maisinfluente
— é o “bom Antropoce-
atacam novos hospedeiros quando reunidos no comércio deplantas industriais (Brasier; no”, isto é 0 “Antropoceno no qual mais ecologias da alienaç
ão resolverão todosos nos-
Cooke; Duncan, 1999). O fungo Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), que está matando sos problemas. O Breakthrough Institute, por exemplo, promovea
ideia de um Antro-
saposao redor do mundo, é, de forma semelhante, uma nova forma virulenta. o comér- poceno melhorpor meio do capitalismo e da tecnologia: o homem
estará encarregado
cio industria! pareceter estimulado tanto a hibridação quanto a propagação: o estreito de supervisionar a si mesmo Mas as ferramentas do mestre nunca
desmantelarão a
contato dos corpos no comércio industrial facilita a proliferação de fungos. Enquanto casa do mestre Se novas formas de morte humana e não humana
surgirem em ecolo-
isso, asrãsindustriais se distanciaram ferozmente de outras espécies, criando novas pos- gias de alienação, mais alienação apenas exacerbará o problema.
sibilidades para a evolução dos fungos. A forma virulenta emergiu nessainteração de
Eu permaneci com o termo Antropoceno apesar de tudo isso porque eu ainda
rmuitos corpos e muitas espécies. Os detalhesdessas histórias se alteram com a evolução o vejo
como aberto a diálogos que podem alterar seu conceito. Neste artigo,
da pesquisa. No entanto, até agora eles apenas reforçam meu ponto:a forma da planta- argumentei que
poderia haver um conceito antropológico de Antropoceno,isto é um
tion traz novas biologias e ecologias. Antropoceno em
que os antropólogos pudessem desempenhar um papel importante
de pesquisa. Isso
i no céu
“Há mais coisas é e naterra, Horácio
áci / Do que vocêê sonha em sua vãa filosofia”. 4 seria mais do que seguir os cientistas em volta e apontar suas fraquez
as, embora pudes-
im a síntes
i recusam
Essas novas ecologias sn e moderna da biologia,
iologi e ão di do Homem.
gia, sua erupção rem se haver espaço paraisso também. Eu quero uma antropologia
que envolva o mundo,
Nasíntese moderna, os seresvivos são controlados pelo seu DNA;nitidamente segreg humano e não humano,tanto em sua habitabilidade complexa
quanto nas novas formas
do, nem classificação nem alienação são um problema. Em contraste, essas patogeni- de morte que nos atormentam.Este é 0 Antropoceno fragmentado-
isso é um kan
, : o : guias :
cidade emergentes exploram o terreno oculto da síntese moderna: epigenética; meio budista. O Antropoceno é global; não pode existir em partes. No entanto
, o Antropoce-
ambiente; interações interespécies. Alguns sapos expostos a pesticidas morrem mais . no verdadeiramente global é aquele em que todos nósjá estamos
mortos, em função
facilmente da infecção por Bd (Davidson et al, 2007). Os fungosassassinos encontram dacrise ambiental. O fato de vivermosfala fragmentos de habitabi
lidade entre novas
novos hospedeiros quando proliferam nas plantações. Os microbiomas humanosso- formas de morte. O impasse conceitual, então, é o que
temosque viver.
frem mutações em níveis de radiação comprovadamente segurospara as células huma-
A ambivalência stratheriana é útil para pensarmos sobre este impasse
nas, com consequências ameaçadoras. O Homem, em seu isolamento ordenado, mal . Strathern nos
orienta a fazer bom uso de contradições intratáveis. Nossas ferrame
= 2.
sabe corno reagir. Isto não é obra do Homem, diz ele. Mas então, o queé isto, e quem
. ntas de análise blo-
queiam nossa capacidade de ver nossos objetos. Tudo bem, ela diz,
permanecerá vivo? esse é o dilema no
qual temosdenosdeter O Antropocenoé esse tipo de dilema.

Juntamente com alguns de meus colegas em Aarhus, há pouco tempo


PENSAMENTOSFINAIS escrevi uma revi-
são de conferências interdisciplinares sobre o Antropoceno (Swans
Minha paixão me afastou aqui da paciência de Marilyn Strathern. Deixe-me reunir as on; Bubandt; Eing,
2015). Para nos manter entretidos, fizemos uma piada strathemniana.
coisas novamente — e retornar às percepções de Strathern. O Antropoceno,
dissemos, é “menos que um, mas mais que muitos”. Estávamosinve
rtendo a descrição
O termo Antropoceno chamou a atenção de muitos tipos de pensadores, mas ainda ——
não de maneira consistente. Uma das formas mais populares pelas quais o termo vem 5 Ves por exemplo, seu “Manifesto Ecomodermista”. Disponível em; hitp://
wwnmecomodemism.org/ma-
nifesto/. Acesso em: maio 2015,

221
6 Esta frase usa O título de um discurso de Audre Loule (1984) quese tornou
umaparte importante do
4 Shakespeare, Hamlet, Ato 1, Cena 5. cânonefeminista.
stratherniana de complexidade em Conexões parciais (Partial connections) como “mais do
que um, mas menos que muitos” (Strathern, 1991, p. 35). O que queremosdizeré que
nós, pensadores antropocênicos, não tínhamos ideia do que estávamos falando, ao
mesmo tempo que espalhamos o conceito portodo o lugar: menos de um e mais do
que muitos. Eu tentei aqui levar essa piada ao mundo,isto é mostrar comoela se aplica
não ao conhecimento, mas ao próprio mundo. O Antropoceno é menos de um, quer
“um”seja interpretado comosistemas, estruturas ou hegemonias cosmológicas. O ho-
mem não governatotalmente. Nenhum “um”cobre o planeta, No entanto, em todo o
planeta, algo novo e inexplicável se espalha: as biologias selvagens como a força oculta.
Proliferação prolifera — e é sempre mais do que muitos. Menos que um e mais que mui-
tos: outro kan para o Antropoceno fragmentado.

E se há fragmentos de complexidadenesta terra que herdamos do Homem, talvez nos-


so trabalho nãoseja apenasjobsefvá-los, mas também fazer o melhor possível para
mantê-los nolugar. ,
UMA AMEAÇA PARA A
RESSURGÊNCIA HOLOCÊNICA
É UMA AMEAÇA À
HABITABILIDADE

“Sustentabilidade” é o sonho de repassar umaterra habitável para as gerações futu-


ras, humanas e não humanas. O termo também é usado para encobrir práticas des-
trutivas, e esse uso se tornou tão predominante, que a palavra mais frequentemente
mefaz rir e chorar. Aindaassim, há razão para sonhar — e objetar — e lutar poralterna-
tivas, e esse é o propósito deste volume. Em vez de criticara palavra, então, eu a levo
a sério, reaproveitado-a como um argumento radical em face da prática hegemônica.

Este capítulo argumenta que uma sustentabilidade significativa requero ressurgimen-


to de máltiplas espécies, isto é, a reconstrução de paisagens habitáveis através das
ações de muitos organismos. A maioria dos estudiosos da sustentabilidade concentra-
-se apenas em planose programas humanos. Em contraste, eu argumento que, onde
os modosde vida humanosse sustentam através de gerações, é porque eles se alinha-
ram à dinâmica do ressurgimento de múltiplas espécies.

O inversoé igualmente verdadeiro — e uma mensagem urgente para nossos tempos.


Ondeo ressurgimento é bloqueado, mais terríveis as ecologias se tornam, ameaçando

225
1 “Original publicado em: À threat to Holoceneresurgence is a threat to livabiligy In: Brightman, M;Lewis,
). (Ed). The anthropology ofsustainabilty Nova York: Palgrave Macmillan (Springer), 2077. p. 51-65”
a habitabilidade. Usando o termo plantation em seu sentido mais amplo, aponto para dernos estejam propensos a esquecer-se disso, essa dependência presiste igualmente
ecologias simplificadas projetadas para criar ativos para futuros investimentos — e para os agricultores e proprietários de anirnais — e, portanto, também para todos aqueles
para impedir o ressurgimento. Plantations matam seres que não são reconhecidos que vivem de seus produtos. A agricultura é impossível sem a ressurgência multiespécie.
comoativos. Eles também patrocinam novas ecologias de proliferação, a disseminação
Percebi pela primeira vez essa dependência ao estudar o cultivoitinerante nas monta-
incontrolável da vida amplificada pela plantation na forma de doençase poluição. Em
nhas Meratus, no sul de Kalimantan, na Indonésia, nas décadas de 1980 e 1990 (CEing,
oposição ao que estou chamando de ressurgimento,a proliferação ameaçaa vida na 2005). Os Dayaks das montanhas Meratus cortavam árvorespara fazer pequenas clarei-
Terra. Esse deve ser um assunto de preocupação não apenas para a biologia, mas tam- ras de camposagrícolas na floresta tropical; depois de dois anosde cultivo de grãos, eles
bém para a antropologia, necessária para rastrear as histórias culturais em que essas permitiam quea floresta crescesse novamente entre vegetais e árvores.
relações sociais mais-que-humanas emergem.
Passados dez anos, troncos de árvores tão largos quanto a coxa de umapessoa voltavam
a preencher antigos campos. Animaissilvestres, ervas e fungos juntavam-se a essa as-
O QUEÉ RESSURGÊNCIA? sembleia florestal em crescimento; e após SO anos, espécies antigas chegavam e come-
Perturbações, humanas e de outros, suprimem assembleias multiespecíficas — todavia, as
cavam a substituir as pioneiras. À floresta era um lugarpara a caçae coleta dos Dayaks,
ecologias habitáveis retornam” Depois de um incêndio florestal, as mudas brotam nas
ábem comopara a realização de novos camposrenovados após um ciclo. O rebrotamen-
cinzas e, com o passar do tempo, outra floresta pode crescer após a queimada. A floresta
to da floresta permitiu que os Dayaks mantivessem a combinação agricultores-forrage-
em crescimento é um exemplo do que estou chamando deressurgência. ? As relações inte-
adores e seus meios de subsistência nofinal do século XX.
respécies que tornam as florestas possíveis são renovadas em sua reconstituição.
A agricultura itinerante dos Dayaks abraçaa floresta; em oposição, a agricultura de cam-
Ressurgência é o trabalho de muitos organismos que, negociandoatravés de diferenças,
po fixo é frequentemente imaginada comoa antítese da selvagem. Talvez tenhasido
forjam assembleias de habitabilidade multiespécies em meio às perturbações. Os huma-
esse imaginário que me surpreendeu ao descobrir que os camponesessão igualmente
nos não podem prolongar seus meios de subsistência sem considerar isso. A dependên-
dependentes da regeneração dafloresta? Em minha pesquisa mais recente sobre cole-
cia da manutenção humana em relação à ressurgência é particularmente óbvia quando ta comercial de cogumelos em florestas temperadas do norte (Ting, 2015), encontrei
se considera a caçae a coleta: se os animais e as plantas não se renovam, os forrageado-
uma relação igualmente íntima entre fazendeiros e florestas — pelo menos naquelas
res perdem seu sustento. Mas, embora tanto os estudiosos quanto os agricultores mo-
áreas onde gerações de camponeses criaram um padrão de agricultura de longa du-
ração que poderia ter alguma chance de ser chamada de sustentável. Os camponeses
2 Perturbação é uma mudança relativamente rápida nas condições dos ecossistemas; não é necessaria- precisam deflorestas por muitas razões. Seus animais se alimentam de plantas que a
mente ruim — e não necessariamente humana. Infelizmente, os humanistas muitas vezes entendem mal o termo,
como umaformade criticar os humanos, sem essa implicação (equivocada), poderia ser um termoútil para uma an- floresta fornece; a floresta fertiliza seus campos; as plantas e os animais que vivem na
tropologia de um mundo sempre em movimento (ver Ting, 2015, cap.11). Entretanto, não há implicação aquique as floresta atendem às necessidadesdiárias dos agricultores. A interação entrefloresta e
ecologias pós-perturbaçãosejam as mesmas queelas substituem. No entanto,eles também nãosão aleatoriamente .
diferentes. A dinâmica deressurgimento pós-perturbação é estudada comosucessão. campo é essencial para a habitabilidade intergeracional de seres humanose seus ani-
3 O ressurgimento, portanto, fez parte de um conjunto de palavras relacionadas à saúde ecológica que mais domesticados, assim comooutras espécies. Chamareiessainteração de ressurgên-
inclui resiliência e remediação.Escolhi o ressurgimento porqueele nãoé estreitamente definido pela exatidão quanti- cia holocênica, para indicar seu desenvolvimento nos últimos 10.000 anosassim como
tativa eassim, mantém sua polissemia, com tons poéticos. O termofaz parte do meu esforço para expandiro terreno

227
em que cientistas naturais, humanistas e dentistas sociais podem se engajar em discussões abertas sem permitir
demandas por correção filosófica, por um fado, ou modelos quantitativos, por outro lado,para bloqueartrabalho 4 Euuso o termo “forest” (floresta) no sentido americano para significar uma paisagem com árvores. Meu
criativo em conjunto (ver TEing, 2015; AURA, 2019). usoé sinônimode “woodland” (mata) em britânico.
sua dependência das habilidades de espécies pós-Idade do Gelo. Para ria contribuir para o conhecimento da sustentabilidade. Cerca de 12.000 anos atrás, no
ver como esse tipo de ressurgimento contrasta com a proliferação do
final da Idade do Gelo,o clima da Terra se aqueceu e se estabilizou” Os seres humanosse
Antropoceno, permitam-me abordar agora essas formas de analisar a
espalharam e começaram a usar cada vez mais novos modosde vida envolvendo planta-
ecologia e o tempo.
çõese animais domésticos. Muitas espécies foram prejudicadas pela proliferação dos hu-
ultura holocênica manos, mais dramaticamente aqueles grandes animais cuja extinção seguiu a expansão
iou os mesmos HOLOCENO E ANTROPOCENO:INDICADORES humanadoPleistoceno e Holocenotardio. Em comparação com a destruição ambiental
os de PARA A CONDIÇÃO HUMANA moderna, no entanto,é possível pensar o Holoceno como uma época em quea agricul-
'mento e Nosúltimos anos, os geólogos tomaram a opinião pública de assalto ao su- tura humana conseguiu coexistir com uma ampla variedade de outros seres vivos. Se
leias de espécies gerir que uma nova época geológica fosse nomeada apósas massivas mu- existe algum significado para o termosustentabilidade, deve-se procurá-lo nas ecologias
is do que a danças climáticas e a produção de sedimento causadas pelas atividades Holocênicas - incluindo aquelas que conseguiram se manter no mundo contemporâneo.
ão mutiespécies humanas. Essa época proposta é o Antropoceno.Seguiu-se um debate ani-
Como a agricultura mantevesua viabilidade de longa duração durante o Holoceno? A
ieguiu à Idade do imado sobre se tal época deveria existir e, se fosse para ser estabelecida,
agricultura holocênicaprivilegiou os mesmosprocessosde ressurgimento e assembleias
cluindo a gucessão quando deveria começar. Os arqueólogos pediram um “longo antropoce-
de espécies florestais que a expansão multiespécies quese seguiu à Idade do Gelo, in-
as viagens de no”, que mapeié os efeitos das atividades humanas pelo menos desde o
cluindo tanto a sucessão local quanto as viagens de longa distância das plantas? As plan-
istância das início da domesticação deplantas e animais (Smith e Zeder, 2013). Mas a
tas precisavam viajar para sobreviver: o frio e a seca da glaciação da Era do Gelo elimina-

maior parte dos:demais pesquisadores das ciências naturais e humanas pre-
ram muitas espécies. Os espaços onde essas espécies destruídas em outros lugares
feriu usar o termo para marcara força esmagadora dos projetos humanos continuaram a prosperar tornaram-se refúgios. Quando as geleiras recuaram e o mundo
modernos(Lewis e Mastin, 2015; Zalasiewicz et al. 2015)? No centro desses
tornou-se mais quente e úmido, coisas vivas se espalharam a partir dos refúgios, refazendo
projetos modemosencontra-se uma combinação de ecologias de planta-
florestas, pântanose prados. Em terras temperadas, depois da primeira onda de plantas
tions, tecnologias industriais, projetos de governançaestatais e imperiais e
ruderais (ou ervas daninhas), árvores formadoras de florestas ocuparam lugares outrora
modos capitalistas de acumulação. Juntos, eles movimentaram mais terra
congelados. As árvoressão móveis e, portanto, podem responder à agricultura. Em sua
do queas geleiras e mudaram o clima da Terra.Eles fizeram isso ao permitir
disseminação a partir de refúgios, as plantas mostraram a vívida iniciativa queas ajudou à
queinvestidores engendrassem projetos delarga escala em longas distân-
sobreviver a perturbações humanas. Osagricultores do Holoceno reduziam as florestas,
cias para converterlocais em plantações. Enquantoisso, as taxas de extinção mas todavez que as plantações eram abandonadas, as florestas retomavam a terra. Imitan-
aumentaram. O Antropoceno,então, é uma época em quea habitabilidade
do suadisseminação pós-ldade do Gelo, as florestas continuavam retomando. Enquanto
de múltiplas espécies passou a ser ameaçada.
isso, tanto as culturas quanto os animais domésticos dependiam dos nutrientes obtidos
Nomear o “moderno” como "Antropoceno”convida-nos a olhar para a
época geológica anterior, o Holoceno,para ver em queeste período pode- 6 Nodiscurso geológico oficial, a época do Holoceno começa 11700 anosatrás, seguindo o Pleistoceno.
7 A mudança de vegetação no Holoceno seguiu diferentes padrões em diferentes regiões. A disseminação
davegetação após o recuo das geleiras no hemisfério norte é particularmente clara. Em contraste, em outras regi-
5 Cada uma das citações neste parágrafo oferece datas de início bastante diferentes
des, a mudança climática seguiu padrões locais mais específicos. Por exemplo, o aumento da umidade do Holoceno
para o Antropoceno, de 12000 AP a 1945. A franqueza do debate atual é minha desculpa para
permitiu que a vegetação da floresta recolonizasse osdesertosda Era do Gelo. Noentanto, parece-me que o

229
um usoalternativo dos termosneste capítulo: Holoceno e Antropoceno aqui são usados para se rótulo
Holocene (e piarainda Quaternário) privilegia o norte global,e alguns repensarseriamente sobre os processos da
referir a modalidades ecológicas que podem coexistir em épocas específicas.
Terra precisam ser feitos a partir da perspectiva do sul.
das florestas. A agricultura não apenas cortou, mas também empobreceu florestas, e ainda No quese segue, considero dois modos de vida fúngicos característicos, que podemos
assim as florestas se recuperaram. considerar “caçar”e “cultivar”2 Meus fungos caçadores são decompositores. Eles locali-
zam presa vegetal e se instalam para se deleitarem nela. Eles possibilitam a sucessão
Acredita-se que a agricultura holocênica tenha encorajado a promulgação contínua de
florestal ao abater árvores estressadase ao fornecer nutrientes para os recém-chegados.
sucessões pós-Era do Gelo. Em seu avanço, tanto as geleiras quanto às fazendas afasta-
Meus fungos agricultores formam conexões simbióticas, chamadas micorrizas, com as
vam as ecologias anteriores; em seu retiro, ambos atingem agilidade multiespecial na
raízes dasárvores. Comoosagricultores humanos,eles cuidam desuasplantas, fornecen-
renovação ecológica. Felizmente, essa agilidade não desapareceu. Os modos holocêni-
do-lheságuae nutrientes. Por suavez,asplantaslhes fornecem umarefeição com carboi-
cos de existência, nesse sentido,ainda fazern parte do mundo contemporâneo, embora
dratos. Ambos os modosdevida são importantes para o ressurgimento holocênico, mas
pressionados por poderosas alternativas modernas. Para reconhecer essa-importância
eu me concentro na micorriza. Eu me detenho então nos decompositores para mostrar
contínua, eu preciso de um uso especializado:neste capítulo, o holoceno e o antropoce-
comoa plantação bloqueia o ressurgimento e gera umaproliferação incontrolável.
no não oferecerão uma cronologiasingular, mas, ao contrário, apontarão modos ecoló-
gicos divergentes que se emaranham e coexistem ao longo do tempohistórico, mesmo
quandofazem histórias. Para preservar a habitabilidade, precisaremosconservaras eco- O MATSUTAKE PERMITE RESSURGÊNCIAS HOLOCÊNICAS
logias do Holoceno — e, parajisso, precisamos prestar atenção nelas. Minhas pesquisas recentes seguiram conexões ecológicas e comerciais envolvendo esse gru-
po de cogumelos micorrízicos chamado ratsutake (Tsing 2015).º O matsutake tem um chei-
Acredita-se que a agricultura holocênica tenha encorajado a regulação contínua de su-
ro poderoso e característico, e graças a esse cheiro eles se tornaram um prazer gourmet no
cessões pós-Era do Gelo. Em seu avanço, tanto as geleiras quanto as plantações afasta-
Japão. Os preçossubiram deforma espetacular nos anos 1970 e 1980, quando a oferta inter-
vam as ecologias anteriores; êm seu recuo, ambos fazem uso da habilidade multiespécie
na de matsutake das florestas do Japão declinou acentuadamente. O matsutake nuncafoi
para a renovação ecológica. Felizmente, essa habilidade não desapareceu. Nesse sentido,
cultivado com sucesso. Mas descobriu-se queas florestas em todo o hemisfério norte possu-
os modos holocênicos de existência ainda fazem parte do mundo contemporâneo,ain-
fam matsutake e, desdeos anos 1980, um comércio vigoroso trouxe cogumelos para o Japão
da que pressionados por poderosas alternativas modernas. Para reconheceressa impor-
a partir de florestas da América do Norte, China, norte da África, Europa nórdicaentre outras
tância contínua, eu preciso de um uso especializado: neste capítulo, o Holoceno e o
regiões,
Antropoceno não oferecerão uma cronologia singular, mas, ão contrário, apontarão
modosecológicos divergentes que se ernaranham e coexistem ao longo do tempo his- Os matsutake crescem em florestas com problemas nutricionais; ondesolosricos estão
tórico, mesmo quando fazem histórias. Para preservar a habitabilidade, precisaremos disponíveis, outros fungos os deslocam. Noleste da Ásia, eles estão associadosa florestas
conservaras ecologias do Holoceno — e, para isso, precisamosprestar atenção nelas. camponesas — e dependem das perturbações dos agricultores, que abrem floresta de
maneiras que os beneficiam em relação a outros concorrentes. Aquieu fico com o matsu-
As plantas não apenas ocupam lugares automaticamente; suas assembleias são forma-
take no Japão, onde a admiração pelos cogumelos encorajou muita pesquisa e reflexão.
das em negociações entre espécies. No restante deste capítulo, uso as relações entre
Como o matsutake torna possível o ressurgimento holocênico?
fungos e plantas em substituição aos vários tipos de relações multiespécies que ener-
gem doressurgimento holocênico, por um lado, e daproliferação do Antropoceno, por
8 Estas não são essências; comoacontece com “caçadores” e “agricultores” humanos, seus descendentes
outro. Fungossão atores importantes na formação de paisagens; a maioria de nós repa- podem mudar. Ao explicar esses modosde vida, eu produzo entendimentos, mas não os aprisiono em identidades fixas.
ra pouconeles — e, dessa maneira, são bons embaixadores dos muitos mundos ocultos

231
9 Minha pesquisa fez parte dotrabalho do Matsutake Worlds Research Group (MWRG, 2009), “Matsu-
que possibilitam sustentabilidade dos meios de vida humanos. take” aqui se refere a um aglomerado de espécies relacionadas, com especial atenção para Tricholoma matsutake e T.
magnivelare.
A maiorparte da ilha central do Japão, Honshu, não estava coberta degelo naúltimaglacia- gência holocênica. Se as paisagens camponesas japonesas podem ser consideradas “sus-
ção;aindaassim, o climaera frio e seco, as florestas de coníferas cobriam a maiorparte da tentáveis” — e de fato têm demonstrado uma grande viabilidade — é em virtude de sua
terra (Teukada, 1983). À medida quea região se aquecia no final da Era Glacial, árvores de relação com ressurgimento do pinheiro, do matsutake e da floresta, que possibilita a
folhas largas se mudaram e coníferas recuaram para as altas montanhas centrais. As únicas agricultura como um modo devida.
coníferas nas colinas e vales (isto é, fora das montanhas centrais) eram aquelas que podiam
crescerintercaladas com folhas largas, como sugi (Cryptomeria) e hinoki(cipreste japonês). Na Nos últimosanos, as florestas de satoyama diminuíram. Algumas foram substituídas — pelo
primeira parte do Holoceno, os humanos parecem ter manejado árvores, mas não fizeram desenvolvimento suburbano,por um lado, e porplantações de madeira, por outro. Outras
se transformaram por meio das respostas multiespécies ao abandonodosagricultores. Du-
clareiras extensas na floresta de folhas largas (Crawford, 2017).Então, vários milhares de anos
atrás, osagricultores começaram a cortarárvores para a agricultura intensiva. De repente, os rante o boom econômico dofinal do século XX no Japão, muitas famílias deagricultores se
mudaram para a cidade, deixando suas fazendas nas mãos dos idosos. Enquanto isso, aque-
pinheiros, que haviam desaparecido de colinas e vales desde o final da Idade do Gelo,esta-
vam devolta (Kremenetski et al, 2000, p. 102), Osparceirosdas árvores nesse retomoforam les que ficaram nafazenda substituíram o aduboverdeporfertilizantes químicose substitu-
íram a lenha e o carvão vegetal por combustíveis fósseis. Sem perturbação humana, um
os matsutake. Juntos, eles responderam à necessidade de um ressurgimento progressivo.
processo sucessional diferente atingiu a floresta de satoyarna: árvores de folha larga perene
Camponeses japoneses em Honshu há muito cultivam diferentes paisagens aldeãs, consa- mudaram-se do sul, sufocandopinheiros e até árvores decíduas de folhas largas. Outra flo-
- gradas comoprática tradiciorkal (Takeuchi et al, 2003). Vales planos são locais apropriados resta surgiu, uma que não mais apoiava a agricultura. Os matsutake desapareceram dessa
para arrozais, hortas e casas. Canais deirrigação diminuem o fluxo de cursos de água nas nova floresta e, junto com eles, um conjunto de flores, pássaros, anfíbios e insetos?
montanhas enquanto também regam o arroz. Desde o século XIX,as plantações madeirei-
Tais transformações nos levam refletir sobre os esforçosda agricultura modernapara
ras de sugi e hinoki tornaram-se cada vez mais comuns. Noentanto, o coração da paisagem
desvincular-se doressurgimento da floresta. Deixe-me passar diretamentepara a planta-
da aldeia é a floresta antropogênica das colinas íngremes aoredor, a floresta de satoyama. A
floresta de satoyamaé usada intensivamente. Pode ser desmatada para madeira e cultivo tion as novas formas de movimento biológico que ela engendra, que eu chamo de
proliferação. Meu exemplo é outro fungo,desta vez um decompositor: um caçador que
itinerante;as árvores também são cortadas regularmente para lenhae carvão. Produtos flo-
restais, comovegetais silvestres, frutas e cogumelos são colhidos.E as folhas caídas e o hú-
está matandofreixos por toda a Europa.
mus são levados para adubação verde nos campos.A floresta de satoyama é uma parte es-
sencialda vida camponesa, suprindo necessidades diárias e fertilizando os campos. ECOLOGIAS ANTROPOCÊNICAS DE EXTINÇÃO
Noinício dos anos 1990, foirelatada uma estranha morte entre os freixos na Polônia.
A agricultura depende das florestas — e as florestas exigem resiliência da ressurgência. O
Um fungo que se espalhava rapidamente — algo novo que não havia sido relatado até
matsutake nos mostra os repetidos começos desse processo. Os pinheiros colonizam o
solo mineral ny, desnudado pelas práticas camponesas, através de sua parceria com o mat- então — mostrou ser responsávelpela mortandade que seiniciava, o Hymenoscyphus pseu-
doaibidus. Desde então, o fungose espalhou por quase toda a Europa. Em muitos lugares,
sutake, O rmatsutake disponibiliza para os pinheiros os nutrientes dossolos minerais; o pi-
nheiro oferta ao matsutake sua porção de carboidratos. Assim queospinheiros e os mat- mais de 90% das árvoresestão infectadas pelo fungo, o que provoca manchas foliares,
cancros, murchamento e morte de árvores. Na Dinamarca, um estudo de campo de 39
sutake reabilitam a terra nua para as florestas, seguem-sefolhas largas. Se os agricultores
não continuassem a perturbar a área, os pinheiros acabariam porse extinguir. Mas o uso

233
contínuo da floresta pelos fazendeiros repete a necessidade de sucessão pioneira de novo 10 Um movimento de cidadãos japoneses, preocupados com fato de essa paisagem não mais fazer a
conexão entre o ressurgimento multiespécie e a habitabilidade humana, surgiu para trazerdevolta florestas de sa-
e de novo. Ospinheiros e matsutake são favorecidos. Este é o ato de abertura da ressur toyama Ver Bing 2015, cap. 18).
O desenvolvimento do comércio internacional de plantas seguido em grande
árvores encontrou apenas uma com menosde 10%de dano (McKinney et al, 2011). No
parte da difusão generalizada de transporte em contêiner: a disponibilidade de
início, os micologistas pensaram que o fungo poderia ser um mutante novoe virulento
espaço em navios porta-contêiners, alguns capazes detransportar mais de 18.000
de Hymenoscyphus albidus, um sapróbio inofensivo de folhas de freixos no chão dafloresta
contêiners de tamanho padrão significa que dezenas de milhares de plantas
da Europa Oriental. Mas um trabalho deinvestigação subsequente sugeriu que o fungo
podem ser transportadas por mar, alcançar os pontos de distribuição pretendidos
seria uma importação asiática recente (Gross et al, 2014). Seus primosasiáticos são da
dentro de alguns dias a algumas semanas. [. inevitavelmente, a produção de
mesmaespécie, masnão prejudicam os freixosasiáticos, permanecendonafolhagem em
plantas condensou-se. As plantas jovens eram muitas vezes abastecidas por
vez deinfectara árvore (FAO, 2014, p. 53). Na Europa, um novo ciclo de vida fúngicafoi
viveiros em regiões onde os custos de mão de obra eram mais baixos, inicialmente
iniciado, no qua! o fungo cresce das folhas para o caule da árvore, causando eventual.
na Europa Central e Oriental, depois para além da Europa, na Ásia, África e
mente a sua morte. A reprodução sexual obrigatória anual, que requer um novo hospe-
América do Norte e do Sul.
deiro, espalhou o fungo rapidamente e o manteve flexível ao lidar com as respostas da
população geneticamente heterogêneade freixos europeus (Gross et al, 2014). Essa do- Osadministradores veem a produçãoindustrial de árvores e o transporte de longa dlis-
ença é espetacular e aparentemente imparável. É possível que a Europa perca a maioria tância como econômicose eficientes, masessa visão toma comocertasas hegemonias
outodos os seus freixos. Como o matsutake no Japão,o freixo é culturalmentesignifica- que os antropólogos e antropólogas podem querer revelar. O comércio deviveiros in-
tivo: na mitologia nórdica, é Ydrasi, aárvore no centro do mundo,e sua mortesignifica dustriais é uma instância da reorganização do mundo vivo em ativos, isto é, recursos
caos. Osecologistas também àpontam quefreixossão espécies-chave, sustentando mui- para mais investimentos. Esse é o princípio por trás do que estou chamando de planta-
to mais vida do que apenas elas mesmas. Existem insetos, liquens, fungos, moluscose aves tion. As plantations disciplinam os organismos como recursos, removendo-os de seus
que são totalmente dependentes de freixos. Como um grupo de pesquisadores coloca, mundos de vida. Os investidores simplificam as ecologias para padronizar seus produtos
“a perda de umaalta proporção de freixos provavelmente terá uma cascata de efeitos e maximizara velocidade a eficiência da replicação. Os organismossão removidos de
ecológicos nos serviços ecossistêmicos e na biodiversidade” (Pautasso et al, 2013, p. 41. suas ecologias nativas para impedi-los de interagir com espécies companheiras; eles são
Como o fungo do freixo sédesenvolveu? É difícil separar sua rápida disseminação da feitos para coordenarapenas cora réplicas — e com o tempo do mercado.

industrialização do comércio deviveiros na Europa. O freixo é uma árvore comum em A simplificação intencional das plantations priva os organismosde seus parceiros ecológi-
toda a Europa, e prospera como um companheiro para o assentamento humano. Não cos comuns, já queestes últimos são considerados corno obstáculosà produção deati-
houve necessidade de importá-lo. No entanto, centenas de milhares de árvores jovens vos. Por um lado, então, organismos quaseidênticos são empacotadosjuntos; por outro
foram enviadas para programas de reflorestamento,tanto públicos como privados, nos lado, eles são alienados de todos os outros. Essa é uma forma ecológica estranha — e
lugares em que são comuns. À situação na Europa é descrita em um relatório da FAO tem consequências não apenas para Os organismosativos, mas também para seus pre-
(2014, seçãoI| p. 7-10) da seguinte forma: dadores. Imagine festa dosfungos “caçadores”: umarefeição sem fim de presas inde-
Até 40-50 anosatrás, o comércio de horticultura era feito principalmente em nível fesas e idênticas.
local, Viveiros criavam plantas perto de onde seriam plantadas. [..] A partir dos Plantations são incubadoras, então, para pragas e doenças, incluindo patógenos fúngicos.
anos 1970, no entanto, a indústria mudou rapidamente. [.] A partir desse As ecologias de plantation criam e disserninam microrganismos virulentos. As plantations
momento, as mudas ou estacas foram produzidas por viveiros especializados, são investimentos de longa distância, e os mercados distribuem seus produtos global-

235
transportadas para outrosviveiros como “linhas” para envasamento em recipientes mente e com velocidade sem precedentes. Através do comércio deviveiros industriais,
de dois ou três litros, e depoislevadasa partir desse estágio em vasos maiores.
por exemplo, o solo, com seus microorganismos, é coletado de todo o mundo para ser
tation, solto no mundo.Essas biologias ferozes bloqueiam o ressurgimento holocênico
transferido para qualquerlugar. A disseminação de patógenos também nãoé limitada a
— e ameaçam a habitabilidade das paisagens multiespécies.
outras plantations.
Considere o adoecimento de freixos, então, em virtude de sua disseminação pelo trans-
As fronteiras entre a plantation e a floresta têm se confundido: como osfreixos cultiva-
porte em contêineres, uma plantação flutuante. Essa não foi umaintrodução casual, um
dos em viveiros são misturados a paisagens autogeridas, a morte de freixos se espalha
resultado comum de viagens. As vias de comunicação para os fungossão asligações de
pela floresta. Ironicamente, essa disseminação parece um exemplo do autêntico movi-
troca em plantations industriais: dos viveiros de baixo custo na Ásia a viveiros também de
mento de fungose plantas que celebrei ao discutir o ressurgimento holocênico — mas
baixo custo na Europa Oriental; da Europa Oriental para a Holanda, o centro de iranspor-
acelerado de forma irreconhecível, A velocidade é importante. Os patógenos sempre
te de viveiros industriais; dos Países Baixos para o resto da Europa. Esse tem sido o cami-
atacaram asplantas; mas quando esse processo acontece devagar, as paisagens se recu-
nho por umarazão: a organização do comércio de viveirosindustriais. O relatório da FAO
peram. A velocidade de múltiplos ataques é algo novo e um produto do domínio da
quecitei continua: “Uma vez na EU [União Europeia! asplantas são consideradas limpas”,
forma plantation. O fato de os ataques acontecerem mesmonaquelas árvores queresis-
tendo passado pelas inspeções de fronteira, mesmo que não sejam inspecionadas, Conti-
tiram à perturbação humana é particularmente assustador: a morte dessas árvores
nua o comércio dentro da UE, com um grande número de plantas enviadas para outros
ameaçaa ressurgência da qual dependemos.
países além do estadoinicial de importação” (FAO,2104,p. 218Em 2012,jornalistas britã-
As plantations fazem mais do gue espalhar patógenos; elas também os cultivam. A proxi- nicos relataram que os berçários locais re-etiquetaram seus freixos importados como
midade de tantos corpos deativos purificadose idênticos — refeições para patógenos “britânicos”, esperando assim agradarosclientes (Gray, 2012). A mortede freixos se espa-
— aumentaas habilidades patogenéticas e às vezesas altera completamente. No afluxo lhou ao trazera plantation para floresta. Em sua celebração dosfreixos, o botânico britâ-
de muitos corpos, a reprodução fúngica pode avançar com um novovigor, fazendo uso nico Oliver Rackham Q014, p. 8-10) colocou o problemadaseguinte forma:
de outras habilidades menores, como formas alternativas de reprodução. Além disso, a
Amaior ameaça às árvores e florestas do mundo é a globalização das doenças
economia da plantation oferece oportunidadespara patógenos fúngicos a fim de encon-
dasplantas: a maneira informal com queas plantas e o solo são transportados e
trar relações próximas de outras regiões e descobrir novas presas. Nessa reunião farta e
transportados pelo mundo em quantidades comerciais, traz inevitavelmente
familias, novas formas virulentas que saltam de umapresa para outra são formadas. Pa-
doenças para as quais as plantas não têm resistência em seu desuno. Isso tem
rece que esta era a situação provável da morte de freixos. É a abundância continua, ja-
subtraído árvore após árvore dos ecossistemas do mundo: se continuar por mais
mais faltam novos pratos.
cem anos, quanto restará?
Em ecologias mais comuns, os patógenos tornam-se menosvirulentos com o passar do
tempo, à medida que se ajustam à dinâmica populacional de suas presas. Na plantation,
UM TEMPO PARA A ANTROPOLOGIA
no entanto, a oferta de corpos é constantemente atualizada Não há motivo para os
Osantropólogos, em geral, não levaram muito a sério as ameaças à habitabilidade. Em
patógenos reduzirem sua virulência.
parte, isso ocorre porque nossos métodos etnográficos nos predispõem a perceber o
Bem-vindo ao Antropoceno, no qual organismosalienados e desengajados, incluindo sucesso navivência, mesmo onde as pessoas estão lutando com os desafios ambientais.
seres humanos, multiplicam-se e espalham-se sem considerar osarranjos de vida mul- Para estudar a inviabilidade invasiva, precisamosdehistórias mais longas do que o traba-
lho de campo normalmente permite, além de atenção às conexões mais distantes e di-

237
tiespécies. Tal proliferação não faz ajustes para habitantes anteriores e não mostra sinais
de limites. O perecimento dosfreixos é um dos muitos produtos cla economia da plan- fíceis detraçar. Em parte, também,os antropólogos desconfiar da arrogância dos espe-
cialistas e queremos mostrar a eles que os habitantes locais sabem mais trado naqueles patógenos humanosque nasceram de forma semelhante de ecologias
sobre a situação do queos cientistas admitem. Nósrejeitamos generaliza- desimplificação comoa plantation.
ções sobre a destruição ambiental, especialmente quando envolvem acu-
Conhecer outros organismos, no entanto, é um novo desafio para a antropologia.
sações contra grupos pobres e marginalizados. Pensamos em nós mes- Mas
temoso que é preciso: sabemos comoaprendersobre os processos sociais e sobre os
mos comocríticos radicais das autoridades. Mas, no processo, ignoramos
lugares e aqueles que vivem neles (Tsing, 2013), Precisamos apenas expandir nosso re-
stintas modalidades a afirmação radical dos cientistas ambientais: essa forma habitual de ne-
pertório de “pessoas” para incluir outros seres vivos. Podemos aprender sobre eles
gicas que assinalo gócios está nos matando. Este capítulo argumenta que não podemos
usando todasas nossas habilidades: não há razão para não combinar o que aprendemos
3s termos Holoceno continuar a tapar nossos ouvidos — e certamente não se nos preocupa-
da observação, cosmologia indígena, relatórios e experimentoscientíficos, mobilizações
ropoceno se mos com a sustentabilidade.
políticas e histórias escritas e não escritas. Cada uma de nossas fontes deve ser avaliada,
tram em nossos A invasão involuntária dos arranjos antropocêntricos poderia ser um de- é claro, em relação a seus métodos para conhecere “fazer” o mundo. Mas não há
razão,
os; eles não somam safio estimulante para a pesquisa antropológica. Os cientistas naturais do eu argumento, para jogar fora qualquer um desses princípios, mesmo que eles não se
nico todo.” Antropoceno foram osprimeiros a admitir que, dadosseus treinamentos encaixem perfeitamente.
e métodos, np conseguem resolver sozinhos esses problemas. Precisa-
Esta falta de fontes unificadas pode ser exatamente o gue precisamospara entender
mos entender à natureza semiótica e material das ecologias do Antropo- um
cenário ecológico fragmentado,parte da ressurgência holocênica e parte daproliferação
ceno.Precisamosrastrear as observações etnográficas enraizadas em co-
do Antropoceno.As distintas modalidades ecológicas que assinalo com os termos Holo-
munidades particulares, por um lado, e histórias e conexões amplas, por
ceno e Antropaceno se misturam em nossos tempos; eles não somam um único todo.
outro. Precisamos entenderas afinidades humanas e não humanas que
Precisamosde ferramentas especialmente para acompanhar essa irregularidade. Quando
possibilitam os arranjos antropocênicos, bem como astrajetórias históri-
as peças não se encaixam perfeitamente, uma variedade de maneiras de se conhecer
cas mais-que-humanas que se juntam em terríveis hegemonias e man-
pode ser útil De fato, essa recusa em somaré um argumentopara utilidade da antropo-
chas de esperança ou resistência, Essas são tarefas que os antropólogos
logia. A antropologia é uma das poucas disciplinas que podem identificar irregularidades
treinaram para realizar. Um novo campo está nos esperando — e exige
e mostrar sua importância. Identificar os fragmentos em queo ressurgimento do Holo-
atenção urgente.
cenoainda é forte podeser crítico para nossasobrevivência em todosos níveis.
Para apreciar os desafios do Antropoceno, no entanto, precisamos pres-
Este capítulo argumentou quea sustentabilidade é um assunto multiespécie. Se tiver-
tar mais atençãoàs socialidadesinterespécies das quais todos nós depen-
mos algum sonho de entregar um mundo habitável a nossos descendentes, precisare-
demos. Enquanto bloqueamos tudo o que não é humano, fazemos da |
moslutar pelas possibilidadesde reressurgência. A maior ameaçaà ressurgênciaé a sim-
sustentabilidade um conceito mesquinho limitado; perdemos o rumo -
plificação do mundodos vivos como um conjunto de ativos para futurosinvestimentos.
do trabalho comum que é necessário para viver na Terra tanto para hu-
À medida que o mundo se torna uma plantation, os patógenos virulentos proliferam,
manos quanto para não humanos. Ademais, isso não funciona:as tentati-
matando até plantas e animais comuns. Eu só posso repetir o aviso do botânico Ra-
vas dos investidores para reduzir todos os outros seresa ativos geraram as
ckham:“se [isso] continuar por mais cem anos, quanto restará?”
terríveis ecologias que chamei de proliferações do Antropoceno. Embora...

239
meu exemplo mostrasse a morte de freixos, eu poderia ter me concen-
O CERVO,O TOURO O
SONHO DO VEADO: ALGUMAS
PRAGAS INESPERADAS DO
ANTROPOCENO

Vivernos em um mundo depragas - um mundode perturbação ecológica humana que


se espalha ao redor do planeta. Ainda assim, acadêmicos sabem muito pouco sobre pra-
gas, que entendo como organismos que assumem o controle após perturbações huma-
nas. As novas antropologias da paisagem podem auxiliar nisso mostrando comoentre-
laçarhistórias humanas e não humanas. Na esperança de revigorar formas emergentes,
este ensaio oferece uma excursão por um trabalho de campo colaborativo interdiscipli-
nar em uma mina de carvão desativada na Dinamarca? Quando a mineração foi

1 “Original publicado em: The buck, the bull and the dream ofthestag: some unexpected weeds ofthe
Anthropocene. Suomen Antropologi: Joumnal oftheFinnish Anthropological Society, Helsinki, v. 42, n. 1, p.3-21, 2017”
2 Sougrata à equipe do Aarhus University Research on the Anthropocene (AURA) pela pesquisa colabo-
rativa em queesse artigo se baseia Mathilde Hojrup merece um agradecimento especial por meajudara entender
a história social da Jutlândia central e por traduzir pesquisas dinamarquesas sobre esse assunto. Agradeço à Anu
Louneia e à Sociedade de Antropologia Finlandesa porsolicitar este ensaio em função de sua preocupação especial
Som paisagem.O local da pesquisa de campo, na Jutlândia Central,é Soby Brunkulslejerne, que tornou-se o foco
para a pesquisa colaborativa do AURA, que promove a colaboração entre pesquisadores das ciências humanas e na-
turais, Aqui os antropólogos trabalham junto com biólogos, ecólogos, acadêmicos deciência e tecnologia, e artistas,
Até agora, a pesquisa do AURA nesse local foi conduzida por Filippo Bertoni, Nathalia Brichet, Nils Bubandt, Thiago
Cardoso, Rachel Cypher, Maria Dahm,Pierre DuPlessis, Natalie Forssman,Peter Funch,Frida Hastrup, Maria Henrik.
sen, Colin Hoag, Mathilde Hejrup, Agata Konczai, Thomas Kristensen, Katy Overstreet, Julia Poerting, Meredith Root-

241
-Bemstein, Jens-Christian Svenning, Heather Swanson, Line Thorsenye Stine Vestbo, assim como por mim mesma.
Meu artigo se origina detoda essa pesquisa. Dissertações de mestradoa partir desta pesquisa incluem Dahm (2014)
Vidoeiro nostrilhos. Em SchônebergerSiidgelânde, Germany
e Hajrup (2015). Um número especial de artigos a partir dessa pesquisa está em preparação.
descontinuada, animais passaram a vagarporali e caçadores esportivos compraram boa
parte da área. É um lugar “selvagem” nos padrões dinamarqueses. É também um lugar
para conhecer paisagens daninhas — o tipo de lugar que caracteriza o Antropoceno,
nosso tempoderuína industrial.

Urna das pragas em minhahistória é o veado-vermelho, umaespécie que antes era co-
mum na Dinamarca, mas foi exterminada, exceto nos parques de caça, no século XVI
Os veados-vermelhos em nosso local de trabalho de campo eram descendentes defu-
gitivos desses cercados: refugiados, sobreviventes — e agora, também,pragas agressivas.
Os acadêmicos não costumam pensar nos veados como pragas, masver poressa pers-
pectiva nos conduz a práticas de contarhistórias em que paisagens nascem nas conjun-
turas de muitastrajetórias, humanase não humanas.

Minhahistória começa com uma pintura, o “Veado-vermelhonolago, névoa matinal”,


de Adolf Henrik Mackeprang (Figura 1). Não é excepcional: é uma das muitaspinturas dé
cervos de Mackeprang? Enquanto dinamarquesa, evoca pinturas similares de outras
partes da EuropaSetentrional e, emboraoriginal doséculo XIX, se podevercópias des-
sas pinturas hoje por toda parte, de decoração na paredea folhetos imobiliários. Não é
excepcional, mas conta umahistória persistente.

A imagem mostra uma orgulhosa, porém, vulnerável autoridade masculina, que atrai FIGURA 1 — Veado-vermelhonolago, névoa matinal,de Adolf Henrik Mackeprang (1833-1911). Óleo

observadores à caçada. Pode-se chamaressaatração de “o sonho do veado”e, embara sobre tela. 122 cm x 90 cm.Fonte:cortesia do Ribe Kunstmuseum.
nãoseja propriamente o tópico deste ensaio, será seu tropo guia. Dois propósitos para
Segundo, há o senho do veado. O sonho fascina, deixando os observadores vidrados
o sonho do veado estão colocados aqui, entrelaçados. Primeiro, há veados e caçadores
nos encantosselvagens de autorrealização íntima. A selvageria interior, por sua vez, faz
concretos, que me ajtidam a entender paisagens daninhas. Coordenações através de
projetos humanos e não humanos fazem com que as assembleias de paisagens se as histórias de paisagens desaparecerem. Paisagens surgem sem história, com a plenitu-
dee coerência de um panodefundoteatral. Esta não é a maneira dese conhecerpaisa-
unam. As pragas, que anunciam desafios à estabilidade, mostram-nos as transforma-
ções por meio das quais as assembleias de paisagensse juntam e se desfazem. gens — especialmente as paisagens daninhas que dividimos com veados-vermelhos. Mas
primeiro deixe-me mostrar o sonho do veado em ação.

3 Eu preferiria “Veado rugindo no lago” de Mackeprang (https://wwwplentyofpaintings.com/Adolf-


-Henrik-Mackeprang/Roaring-Stag-Standing-By-A-Lake-oil-paintinghtml), o tratamento mais icânico visto em mui- Olhe por sobre meus ombros; mas, porfavor, fique quieto. Estou andando o mais silen-
tas reproduções e formas de homenageá-lo (por exemplo, http://hp-comiccom/roaring-stag-standing-by-a-lake/).
ciosamente que posso ao longo de umatrilha nafloresta. Meu companheiro é um caça-

243
Entretanto, não consegui obter permissão para esta pintura.
4 Para outras discussões sobre esse ponto,ver Gan e Ting (2018) e Ting (2019). dor, um proprietário deterras, um gêniofinanceiro no ramodo vestuário dinamarquês.
Ele ganhoue perdeu mais dinheiro em poucos minutos do que agriculto- doatravés da mira de sua arma. Está muito tonge para atiras, mas isso não impede sua
res geram em umavidainteira. Vou chamá-lo de “Touro”(“bull”) para mar- fascinação. Outro que está imobilizado é o jovem cervo. Ele olha fixamente; aproxima-
carseu peito estufado, suas aspiraçõesaristocráticas e sua busca contínua -se com a cabeçaerguida. O veado levanta a cabeça após comer. O jovem cervo é me-
não apenas por caça, mas também por mercados ascendentes, que cha- nos que um terço de seu tamanho, dificilmente uma ameaça. O veadobalança sua ga-
mamosde bull market. Enquanto a tarde se aproxima, nós alcançamos um lhada por um momento volta a comer. Maso jovem cervo está fascinado.Ele se ergue,
assento alto para caçare subimos. Na Dinamarca, a caçaindividualé feita ergue a cabeça; ele recua um passo, mas então se apressa em avançar novamente.E
reasselvajamento, de lugaresaltos, para que um caçador possa de forma segura mirar para o Touro também,fascinado.Ele não queratirar em corsas oufilhotes. É o veado macho
as paisagens chãoaofinal do disparo. O estilo norte-americanode perseguiçãoé ilegal. que o atrai. Ou talvez, em ambosos casos, o sonho doveado.
arbadas seriam Além do mais, assentos altos não devem ter cobertura ou serem muito
Estou interessada nestes olhares assimétricos. O veado não olha nem para o cervojo-
ssas e inócuas, confortáveis. O Touro e eu nos empoleiramos precariamente em uma
vem, nem para-Touro,e cervo e Touro não se olham. Cada um olha fixo para o veado. O
rovidas de placae, fora de vista, espreitamos as redondezas. Estamos olhando para
que eles estão e não estão vendo? E comoo entrelaçamento de seus respectivosnão
nismos exceto um largo prado relvado, cercado por densa plantação de um bosque de
entrelaçamentos molda a paisagem? Ambasas coisas me interessam: seu não engaja-
aqueles que pinheirose abetos. Os veados-vermelhos se escondem nafloresta duran-
mento um com o outro, e aemergente assembleia de paisagem que foi possível aconte?
-armoslá.” te o dia, mas àb entardecereles saem parasealimentar. Atirar só é permi-
cer apesar disso. A coordenação entre estes dois olhares desencontrados — o trabalho
tido até o pôrtdo-sol, então temos uma curta janela de tempo.Espreita-
não intencional do sonho do veado — é a chave para as dinâmicas nocivas do lugar.
mos ansiosamente ao entardecer.

A presença de veados-vermelhos aqui já é estranha por si mesma. Como mencionado


Dessa vez, nós não temosque esperar muito. Uma corsa espia para fora
anteriormente, veados-vermelhos livres e errantes foram exterminados na Jutlândia no
da floresta, olha em volta, e lidera suas duas companhias no gramado:ou-
século XVII Além do mais, a Jutlândia se tomou mais e mais domada, especialmente des-
tra corsa e um jovem cervo, com cerca de dois outrês anos deidade. É
de as técnicas industriais introduzidas nosséculos XIX e XX, que permitiram a conversão
final de outúbro, e essas corsas já estão grávidas. Elas se afastaram sem
da charneca em modemas fazendas. Fora asbeiras de estrada e cercas vivas, dificilmente se
contestação dos veados machos; e é graças somentea isso que, conforme
encontra um metro quadrado de espaço que não seja agroindustrial, As árvores são de
me contaram, é possível que este jovem cervo passeie com as corsas. Eles
cultivo; os solos são enriquecidos com fertilizantes. É preciso uma mina abandonada para
comem pacificamente, muito distantes para um disparo. Nossavigia, tam-
hospedar umacena de selvageria. É por isto que o lugaré interessante para a equipe da
bém, é relaxada e pacífica.
Aarhus University Research on the Anthropocene (AURA), cuja pesquisa colaborativa em-
Então uma corsa mais velha surge do outro lado daclareira. Ela lidera um basa meu pensamento aquié Muitas reservas naturais e parques ao longo do Norte da
grupogrande de corsas filhotes — e um grande veado macho com uma Europasão minas abandonadas ou outros locais de ruína produzidos por humanos. Mas
galhada. O Touro está fixado, seu gatilho pronto enquanto observa o vea- nossolocal de trabalho de camponão é um parque. Veados-vermelhos vagueiam aíporsi
mesmos em conjunto com um arranjo de hóspedes surpreendentes, incluindo invasivos
5 N. do T;a autora utiliza “bull”, tanto no sentido de touro e macho, mas também nãonativos comoguaxinins, assim comoprofundamente proibidosjavalis e, mais recente-
faz alusão ao bull market, que não costumasertraduzido literalmente em português quando se mente, osassustadores eletrizantes: lobos. Que diversa coleção deanimais para se reunir!
trata do mundo financeiro, referindo-se a mercados em queos preços estãosubindo ou no qual

245
espera-se que subam. Optamosporutilizar Touro, sempre em maiúscula, para caracterizar ao
mesmo tempo o nome do personagem e analogia, sem confundir com o animal touro. 6 Ver http://anthropoceneatdk/ para mais informações sobre esse programa.
NÓS PRECISAMOS SABER ALGO SOBRE PAISAGENS DE
AUTOREASSELVAJADORES
Ospesquisadoes do Antropoceno têm seinteressado mais por façanhas de engenharia
humana do que porpragas. O problerna não é o sonho do veado; defato, é algo como
o seu oposto, a atração da história universal, que nega completamente a presença de
diversas paisagens. Cientistas do clima e geólogosintroduziram o termo Antropoceno;
tempo global e universal são o seu presente advindo do Iluminismo,e eles não estão
dispostos a abrir mão disto.” Para os antropólogos, em contraste, a heterogeneidade im-
porta. O Antropoceno avança somente quando introduzimos desigualdade,história e
especificidade cultural. Paisagenssão úteis para tais análises. Paisagens podem nos mos-
trar configurações nocivas: a reunião detrajetórias humanas e não humanas. Eu me vol-
to para a paisagem, então, como uma ferramenta que pode vitalizar as discussões do
Antropoceno — e trazer-nos devolta a autoreasselvajar. .
8.

Um argumento sobre a genealogia da paisagem tem sufocado o potencial do termopai-


FIGURA 2 Veados-vermelhos em Seby Brunkulslejerne. O lago é umacratera de mineração sagem em antropologia. Geógrafos culturais nos deixaram desconfiados, mostrando-nos
abandonada. Máquina fotográfica de animais selvagensutilizada com permissão de Michael
umagenealogia quenosleva à pintura de paisagem holandesa, ao pitorescoe à reificação
Hauge.
da Natureza como objeto davisão Iluminista (Cosgrove, 1985). Sob a perspectiva dessa
genealogia, estudar paisagens é achatar nossas perspectivas para notar apenas a visão
É possível pensarnessetipo de reassemblage como autoreasselvajamento. “Reasselvaja-
distanciada. Ainda que abordagens fenorãenológicas continuem a prosperar (Ingold,
mento”se refere à colocação de animais em paisagens de perturbação humana,seja
201, a marca genealógica do termo bloqueou o arranjo de outras abordagéns — mate-
para ajudar processos de ecossistemas ou meramente para ampliar a biodiversidade.
rialistas, ecológicas, históricas, etc. — que de outra maneira poderiam ter florescido em
Autoreasselvajamento, então, seriam as atividades reasselvajadoras de animais de si
torno do tema. Sou grata ao geógrafo Kenneth Olwig (1996) por nos conduzir para além
mesmos, e euincluiria plantas e outros organismos como autoreasselvajadores também.
deste impasse. Olwig argumenta que, em uma genealogia anterior e mais pertinente da
Autoreasselvajamento é um dos mais importantes processospara fazer o nosso mundo
paisagem na Europa germânica, é o lugar em que reuniões (moots) políticas podiam ser
de perturbação humana hoje. Sem autoreasselvajamento, nossas paisagens perturbadas
promovidas para discutir coisas, isto é, assuntos de importância. Uma paisagem é uma
seriam escassas e inócuas, desprovidas de organismos exceto por aqueles que colocar-- -
reunião em formação. Essa definição se presta para a análise de muitos dos problemas a
moslá. Mas q autoreasselvajamento oferece futuros ambivalentes. Por um lado, deve-
que estudos de paisagem se voltam. Paisagens são tanto imaginárias quanto materiais;
mosa riqueza de nossas paisagens ferais ao autoreasselvajamento. Por outrolado, auto-
envolvem geografias físicas, fenomenologias e compromissos culturais e políticos.
reasselvajadores matam as chances de outras espécies menos agressivas e menos
apreciadoras da perturbação. Autoreasselvajadoressãoarrojados. São daninhos. Como A definição podeser estendida, também,para abranger reuniões multiespécies em for-
nós, eles não lidam bem com outros. Eles nos ajudam a fazer o Antropoceno, a época mação (Ting, 2015). Minhas paisagens são reuniões em que muitos seres vivos — e

247
proposta de descomunal perturbação humana.
7 Bonneuil e Fressoz (2015) oferecem umaintrodução útil à história dos debates do Antropoceno.
também coisas não vitais, como rochas e água — tomam parte. Eles se encontram para momentose eventosa partir dos quais nossa percepção dastransformações da paisa-
negociar sobrevivência colaborativa, o “quem vive e quem morre” e o “quem fica e gem pode ser ampliada. Considere, por exemplo, as datas-chave atualmente em jogo
quem sai”, performações da paisagem.Eles podem não se conhecerdiretamente. Po- para O início do Antropoceno.Essas datas são registros concorrentes — mas aqui eu as
dem ignorar uns aos outros, assim comoo cervo e Touro. Mas cada um declina ou flo- utilizo como pontos para observar a mudançada paisagem. Alguns arqueólogossugeri-
resce nosefeitos de projetos de fazer-mundo iniciados e mantidos pelos outros. ram que o Antropoceno deveteriniciado junto com primeira domesticação de plan-
tas e animais, data que tornaria os termos Antropoceno e Holocenolimítrofes (Smith e
Paisagens, então, são reuniões de modosde ser em formação. Como os ecologistas ar-
Zeder, 2013). Alguns geógrafos argumentam que, por volta de 1610, houve uma queda
gumentam,são unidades deheterogeneidade: uma paisagem pode existir em qualquer
global de gás carbônico, que pode ser explicada pelo genocídio de nativos americanos
escala desde que abranja padrões de heterogeneidade. Há paisagens em umafolha e em
em decorrência das doençastrazidas pelos europeus (Lewis e Maslin, 2015). Esse geno-
um continente. À chamada “escala de paisagem” dosisternadeinformação geográfica é
cídio encorajou o crescimento de florestas no Novo Mundo, diminuindo a disponibili-
apenas uma das muitas escalas de paisagens a serem exploradas. E modos de ser? Mo-
dade global de gás carbônico, o quetalvez também expliquea última metade da Peque-
dosdeser são historicamente performações inconstantes. Espécie é relevante, mas difi-
na Era Glacial na Europa.Inicialmente, os cientistas do clima promoveram 1784 como a
cilmente determinadatotalmente. Um fazendeiro e um financista têm diferentes per-
datainicial para o Antropoceno porcausa da invenção da máquina a vapor, um marco
formances humanas; assim como um cavalo de corrida e um cavalo que puxa um arado
ad para a Revolução Industrial (Crutzen e Stoermer, 2000). Agora, muitos voltaram sua
têm diferentes performancks cavalares. Rochas e água também têm historicamente”
atenção para 1945, ano de lançamento da primeira bombaatômica, com sua clara marca
modosde serinconstantes. Em reuniões de paisagens, modosdeser emergem - emol-
radioativa em sedimentos ao redor do mundo,e a “grande aceleração” de população
dam o que é possível para todosos outros.
humanae da perturbação industrial (Steffen et al, 2015).
Paisagens são históricas e nos permitem pensaratravés de uma variedade de escalas, de
Se estas datas são assentoselevadosa partir dos quais se observam as inovações huma-
temposdistantes a eventosatuais. Tais escalas inconstantes de tempo são o foco da dis-
nas, elas também são assentoselevadosa partir dos quais se percebem novas formas de
cussão sobre o Antropoceno, um termo que continua a ser contestado — e, portanto,
pragas. Considere os danos trazidos ao mundo por cada uma das inovações notadas
ainda em aberto. Como podemostrazer paisagenspara a discussão do Antropoceno? Na
pelosestudiosos do Antropoceno. A domesticação de plantas e animais traz pragas para
próxima seção, meu desafio é deixar a paisagem interromperas histórias universais do
as plantaçõese a pecuária, de ratosa plantas que se escondem noscereais, comoa ce-
Antropoceno — tanto levando sério tais linhas de tempo quanto mostrando comoelas
vada no trigo. Há também as pragas de áreas fronteiriças perturbadas, plantas e animais
parecem diferentes quando usadas para espreitar paisagensparticulares. As paisagens in-
que prosperam com perturbação humana. Há novas doenças para humanose seus ani-
terrompem história; isto me permite retornar depois para permitir quea história inter-
mais domésticos, pois patógenos vêm e vão nas condições movimentadas da vida do-
rompaas paisagens — ou pelo menoso tipo que emergenafascinação pelo veado.
méstica. Exemplos disso são o sarampoe a varíola, Esses efeitos nocivos surgem no
mundo e permanecem conosco.
LINHAS DE TEMPO SÃO ASSENTOS ELEVADOS PARA
À conquista europeia do Novo Mundo oferece todo um outro catálogo de pragas.
OBSERVARPAISAGENS INCONSTANTES
À historiadora Virginia Anderson (2006) oferece o termo “criaturas de império”, por
O que faremos com as linhas de tempo-do Antropoceno? Linhas de tempo não preci-
meio do qual se refere ao rebanho trazido por colonos europeus que, através de sua
sam propor mudanças de época; podem também oferecer pontosa partir dos quais

249
errância, alimentação e status de propriedade, ajudaram a destruir os americanosnativos,
observar algo novo. Pense nelas, talvez, como um assento elevado para caca: são locais,
humanos e não humanos. O termo pode seestender para compreendertoda série de
espécies queviajam com conquistadores humanos.Primeiro, há aqueles que se poderia
Iniciada no século XVII, a Revolução Industrial racionalizou paisagens para a produção
chamar de “tropas de choque”, isto é, aqueles que ajudam humanosinvasores em seu
de ativoscapitalistas. Muitostipos de pragas nasceram dessaracionalização. Pestes e pa-
trabalho sangrento. No Novo Mundo, patógenos europeus fizeram esse trabalhoinicial,
tógenos, por exemplo, proliferaram e emergiram em formas novas e mais virulentas a
seguidos pelos rebanhos. Mas houve também o que se pode descrever como “seguido-
partir das monoculturas abarrotadas da lavoura racionalizada. Pântanos foram drena-
res de acampamento”,a série de organismosintroduzidos de forma intencional e não
dos, e fertilizantes destruíram ecologias específicas; tais perdas empoderaram certas
intencional que tornaram a vida mais difícil para nativos, humanos e não humanos?
formas de pragas. Estas são paisagens ferais decorrentes da racionalização agrícola e in-
QUADRO1 — Pragas inesperadas do Antropoceno dustrial, Paralelamente, no entanto, há sobreviventes, como as remanescentes pradarias
americanas descritas pelo historiador William Cronon (1992); estas pastagens brotaram
Data deinício 1. 10.000 AP: domesticação apenasà beiras das estradasdeferro, ondefaíscas acendiarm incêndios sem que houves-
» Companhias desafra e rebanho (por exemplo,ratos, cevada) se regulação dosresultados. As pragas são capazes de abranger ecologias tão aterrori-
» Pragas de fronteiras perturbadas zantes quanto esperançosas.
» Zoonoses (doenças transmitidas entre humanose animais domésticos)
A “grandeaceleração” após a Segunda Guerra Mundial também trouxe uma aceleração
Data deinício 2. 1610:criaturas de império
de paisagensferais. O capitalismoindustrial moveu-se aos mais remotos pontos da Terra
» “tropas de choque” ihatam nativos diretamente, por exemio, rebanhos, para usá-los e rapidamente abandoná-los comolocais de produção de ativos. Paisagens
patógenos e ferais substituem não apenas vastas áreas selvagens, mas também as últimas ecologias
» “seguidores de acampamento”, por exemplo,invasores pestilentos, diminuem
camponesas, com suas acomodações comparativamente de longo prazo entre humanos
as chances denativos
e não humanos. O uso massivo defertilizantes vazou para cursos de água, arruinando-os
Data de início.3.1784:industrialização para peixes e plantas aquáticas. Enquanto isso, toxinas proliferaram, assim como substân-
» Pragas agroindustriais, pestes e patógenos cias antropogênicas delenta degradação,incluindo plásticos, alastrados portodapare.
» Sobreviventes nativos em espaços fronteiriços não racionalizados
Como essas formas de pragas se combinam e se sobrepõem? Cadadinâmica de paisa-
Data deinício 4. 1945: grandeaceleração
gem feral sobrepõe formas de pragas trazidas à vida em momentoshistóricos variados.
» paisagens tóxicas (por exemplo, contaminação química e radioativa)
» “êútrofizaçãoe Zonas mortas o Considere-se o autorreasselvajamento, que combina todas as formas de pragas que
» aceleração do uso industrial e abandono mencionei. Os autorreasselvajadores apreciam e criam perturbação;as pragas de plan-
tações e rebanhossão autorreasselvajadores talentosos. Autorreasselvajadoressão pra-
gas invasoras, definindo agilidades a partir de antigas e modernas conquistas. Autorreas-
Pense nos estominhos, introduzidos inicialmente nos Estados Unidos para celebrar os selvajadores são sobreviventes espaços marginais não racionalizados; um local industrial
pássaros de Shakespeare,agora espalhadosao longo do continente deslocando pássaros abandonado é uma margem ampliada. Autorreasselvajadores fazem uso da aceleração
nativos. Essas são criaturas de invasões humanas. do uso e do abandono industrial.

À entorpecente velocidade da mobilidade do capital faz do autorreasselvajamento a


melhor agilidade que termospara a sobrevivência — assim como para umaaterrorizante

251
8 Otermoorigina-se de Crosby (2004); estou em dívida com sua análise aqui. confusão. Poragilidades eu quero dizer modos de ser que emergem de oportunidades
históricas? Onde pensadores anteriores imaginaram apenas repetição mecânica entre A CHARNECA,A MINA E A CONFUSÃO:LINHAS DE TEMPO
não humanos, estou vendotalentos emergentes. Autorreasselvajadores têm isso de so- INTERROMPIDAS PELA PAISAGEM
bra. Mesmo onde os autorreasselvajadores são bloqueados, eles podem estaraguardan- Primeiro a charneca:já umapaisagem feral, emergindo de queimadas e pastoreio hurma-
do para aproveitar o momento. nos. Nuncafoi umapaisagem de total controle, embora pessoas a tenham usado e guia-
do, mas muito mais umareunião de ovelhas, fogo, urze, fazendeiros, lama, areia, cascalho
Quadro 2 — Agilidades de autorreasselvajadores historicamente sobrepostas
e, não muito abaixo, subsolo endurecido, por si mesmo um desenvolvimento histórico
derelações humanas e não humanas.” A charneca emerge desses entrelaçamento, su-
perando qualquer propósito singular.

Às jazidas de iinhito de Soby herdaram suasareias e cascalhos de geleiras. O leste da


» Atiresihegadores
são so iwasoras (E1610)
Dinamarca foi coberto porgeleiras, mas algumasfaixas do sudoeste da Dinamarca — in-
De Aúitórreasselvajadoressão sobreviventeséemvespaçosmarginais não
cluindo esse local - permaneceram livres de geleiras. Em vez disso, porém, foram com-
pletamente cobertos por sedimentos arenosos de degelo glacial, resultado da movi-
mentaçãoglacial sem ser parte da geleira.
(F1945)
Árvores seguiram-se às geleiras que recuaram, em particular, bétulas, limeiras e carva-
lhos. Humanos também moveram-se para o Norte quandoas geleiras regrediram.
À Jutlândia é conhecida por seu Neolítico comparativamente tardio, mas eventualmen-
Por causa destas agilidades sobrepostas, os assentos elevados que eu identifiquei para ob-
te humanos cortaram essas árvores, que por estarem crescendo em solo com sedimen-
servar o desenvolvimento de pragas não contam uma narrativa histórica em si mesmos.
tos arenosos de degelo glacial, não brotaram novamente. Em sualentidão, foram ultra-
Em vez disso, eles evocam histórias de paisagensparticulares, narradas em múltiplas escalas
passados por outra assembleia de paisagem: a charneca, um lugar de urze, ovelhas e
espaço-temporais. Nessas histórias podemosveragilidades, as quais, apesartde emergirem
pastores de ovelhas.
de diferentes lugares e tempos, reúnem-se para um efeito definitivo na fricção da paisa-
gem. Na próxima seção deste ensaio, eu ofereço umahistória em miniatura das jazidas de
carvão Saby — não do carvão, que chegou muito antes, mas da habitação humana desde o
fim da última Era Glacial Muitas formasde agilidades de autorreasselvajamento se desen- 10 O relato da produção do solo endurecido da charneca é um modelo maravilhoso para notaras intera-
volveram nessa paisagem antropogênica perturbada de várias maneiras. Eu narro três as- ões não intencionais entre humanose geologia, tão centrais para o Antropoceno. Aqui é como o arqueólogo Karl
Butzer (1982, p. 125-126) narra as consequências do desmatamento mesolítico no Norte da Europa: “Em ambientes
sembleias de paisagem, sendo que cada umadelas condensahistórias humanas e não hu- frios e úmidos com solos com poucos nutrientes, a remoção de florestas reduz a evapotranspiração das plantas e
manas em uma emergente coesão de encontros multiespécies: a chameca, a mina e a eleva o já alto lençolfreático; além do mais, o desmatamento reduz a biota do solo, aumenta a acidez do solo, e assim
favorecea lixiviação dos nutrientes do solo. Como consequência, plantas resistentes à acidez, como espruce, urze
confusão. Tais histórias são o Antrapoceno em ação,linhas de tempointerrompidas pela e musgo espalham-se, reforçandoa tendência de acidez do solo em que húmus “crus! se acumulam. Desidratação
paisagem — e paisagens radicalmente transformadas porhistórias em múltiplas escalas. sazonal de solos expostos levam à desidratação irreversível de óxidos de ferro e alumínio, favorecendoa formação
de subsolo endurecido e em seguida impedindo a drenagem própria interna dosolo, Eventualmente, espodossolos
inférteis e alagados, turfas e charcossão gerados, criandosolos que são marginais ou inutilizados para a agricultura,
9 Tomoo termo “agilidade”("agility”) de Dona Haraway (2007), que o utiliza para descrever umjogo em enquanto favorecem uma vegetação ácida de pouco valor pastoril. Dessa maneira, extensas terras descampadas
que pessoas e cães aprendem as capacidades uns dos outros. O termoaqui se refere a muitas formas de habilidades (chamecas e charcos) se formaram no noroeste e norte da Europa, particularmente em ambientes montanhosos e
historicamente adquiridas, através de espécies. em substratos arenosos.”
A Figura 3, uma famosa pintura de paisagem dinamarquesa, mostra o século XIX, uma quese sólidificaram em Soby. Mas me deixe continuara subir em cada assento elevado
época de intensificação do pastoreio; para o período anterior, imagine-o como um frag- do Antropoceno, um por um.
mento. O queestá faltando na imagem é o fogo, outro participante nessa reunião de
modosde ser. Sem queimada e pastoreio, as árvoresretomam. A charneca é uma paisa- Ântes, quando camponeses ocupavam a charneca, cada pastortecia sualã, e as roupas

gem feral reunindo agilidadeshistóricas de humanos, ovelhas, urze e fogo. de tricô tornaram-se não apenas umaespecialidade local mas também um item de co-
mércio. Ao longo do século XVI), comerciantes de lã da Jutlândia central vendiam seus
produtos em Copenhague e, quando os comerciantes de Copenhague protestaram, o
rei inclusive lhes deu licenças especiais (Klitmaller, 1998). O ano de 1610 é meu segundo
local privilegiado para pesquisar ecologias daninhas. O que vemos? Apesar de avanços
no comércio delã, as charecas da Jutlândia foram cambaleando para as periferias —
afundando em sua lama, porassim dizer.

Dois recuos do século XVI| associados a mudanças ambientais globais patrocinadas por
humanos emergem dosregistros. Primeiro, a PequenaEra Glacial deixou a Jutlândia fria
& e inundada; a agricultura diminuiu e as ovelhas morreram por doenças(Hansen, 1983, p.
398). Lewis e Maslin (2015) argumentam que o resfriamento da Europa durante esse
período é um efeito do genocídio no Novo Mundo. Segundo,a transferência de orga-
nismosassociados com a conquista europeia desfavoreceu a produção de lã europeia,
quando novostêxteis se tornaram disponíveis.

Estudiosos têm prestado considerável atenção aos efeitos ecológicos assimétricos das
conquistas europeias dos séculos XVI e XVI! (Crosby, 2004; Grove, 1996). Em compara-
ção com os americanos, os europeus tiveram sorte; o fluxo de espécies invasoras na-
quele tempo ocorria geralmente em via única. Considere-se, no entanto,a expansão da
FIGURA 3 — Um pastorda Jutlândia nas charnecas, 1855, de Frederik Vermehren (1823-1910), atenção europeia em direção à Ásia. A questão principal no financiamento das explora-
59,5 cm x 80 cm.(À direita: detalhe). Fonte: National Gallery of Denmark. ções — tanto no Oeste quanto no Leste — era posicionar comerciantes europeus para
conseguirem algodão indiano e seda chinesa sem a mediação de muçulmanos, que os
Essa pintura também mostra o tricô, umaantiga atividade desubsistência de campone-
cristãos europeus aprenderam a desprezar. Em 1600 e 1602, respectivamente, a Compa-
ses que viviam na charneca — e umaatividade que, atravésdas voltase torçõesdafibra,
nhia Britânica e a Companhia Holandesa da Índia Ocidentalforam formadas, com suas
conduz à contínua importância da indústria têxtil e do vestuário na Jutlândia Central.
canhoneiras e abastadosinvestidores. Por volta de 1610, os europeustinham força no
Aqui, então, minhashistórias precisar adentrar nas histórias entrelaçadas de têxteis, de
comércio asiático. Em 1664 apenas, a Companhia Britânica daÍndia Ocidental importou
um lado, e ecologias da Jutlândia, por outrolado. Nãoé fortuito que meu personagem
cerca de um quarto de um milhão de peçasde calicô e chita (Wells, 2007, p. 26). O resul-
Touro seja um rei daindústria do vestuário. Mudanças na organização da produçãotêx-
tado na Jutlândia? Lã não era mais excitante para as elites urbanas, que agora podiam

255
tile de vestuário percorreram um longo caminho moldando as variadas paisagens daninhas
comprar algodão colorido e seda. As charnecas da Jutlândia repousaram em paz
misturadas aos arbustos de carvalho enquanto as metrópoles europeias
do século XX, empreendedoresda indústria têxtil e do vestuário importavam algodão
voltavam-se para outros lugares em busca deriquezas.
para acrescentar ao seu negócio; o declínio do pastoreio de ovelhas na Jutlândia não
A escravidão, o colonialismo e a RevoluçãoIndustrial — os desenvolvimen- seria mais um impedimento para a produção têxtil” Em meadosdo século XX,150 mil
tos dinâmicos da Europa — fizeram-se pela busca do algodão, não dalã fábricas produziam tecidos e roupas, a maioria para exportação (Hansen, 1983, p. 385).
(Beckert, 2014). A sustentabilidade da ecologia daninha da charnecafoi
andeaceleração” Note que os dinamarqueses, como osingleses, usam a palavra de origem francesa em-
um efeito colateral do comércio de algodão e seda, que possibilitou que a
a Segunda Guerra preendedorpara elogiar homens de negócio comoaqueles que fazem as coisas aconte-
produção delã se limitasse aos remansosda Jutlândia central. Só maistar-
dial também trouxe cerem.Inicialmente, esses empreendedores do ramo de vestuário e tecidos eram um
de a produção delã seria modernizada.
aceleração de grupo fechado, unido porparentesco, casamento e favores pessoais(Illeris, 1983; 1992).
gensferais. O A Revolução Industrial é meu próximo assento elevado e, defato, as pai- Eles eram também o que hoje chamamosde “flexíveis”: deslocavam capital de um setor
alismoindustrial sagensda Jutlândia central se transformaram. Nas principais localidades de negócios para outro.
u-se aos mais criadoras de ovelhas, a população de ovelhas cresceu mais do que o do-
Essa é uma maneira de entender como algunsinvestiram em mineração delinhito na
tos pontosda Terra bro entre 1837 e 1871 (Hansen, 1983, p. 338). Por volta de 1847, estima-se
Segunda Guerra Mundial. A família Damgaard, por exemplo, teve três irmãos notáveis,
usá-los e que 25.000 pessoas ocupavam-se do tricô, e enquanto boaparte do tricô
criados na indústria têxtil: Aage, Mads e Knud. Quando começou a Segunda Guerra
amente abandoná- erafeito por camponesesindividualmente, asoficinas surgiram na região
Mundial, foi Knud quese alterou entre a mineração de linhito e a produção têxtil. Ele
molocais de de Herning, que importavalã dos arredores, de distritos pobres (Hansen,
também continuou a trabalhar próximo de seus irmãos da indústria têxtil, iniciando
ição de ativos. 1983, p.386) -
uma escola técnica têxtil, entre outras coisas. Nem todo investimento na mineração
Nofinal do século XIX,o significado de “progresso” mudou, Apósa Dina- de linhito veio da indústria têxtil e do vestuário regional; empreendedores chegaram de
marca perdersuasterras cultiváveis mais férteis para a Prússia em 1864, os toda a Dinamarca. Mas o comprometimento regional dessaindústria deixou sedimen-
dinamarqueses se dedicaram a transformaras charnecas da Jutlândia em tos contínuos na paisagem, mesmo emguas disrupções.
fazendas modernas, dizendo que “o quefoi perdido fora deve ser recu-
Chegamos à Segunda Guerra Mundial, meu próximo assento elevado para paisagens
perado dentro” (Olwig, 1984, p. 58). Fertilizantesartificiais e máguinas que
daninhas, e as minas Saby. Que tempo foi aquele: tudo foi virado de cabeça para
podiam rompero solo endurecido da charneca tornaram possível plantar
baixo no sentido mais literal. A guerra cortou os suprimentosbritânicos da Dinamar-
lavouras e árvores, bem comocriar gado leiteiro e porcos. A criação de
ca; alguns políticos tentaram proteger dinamarqueses de serem recrutadospela Ale-
ovelhas declinou,e as charnecas desapareceram. Ainda assim, o emergen-
manha; fazendeiros pobres das charnecas estavam satisfeitos em vendersuas terras
te triângulo têxtil de Herning-lkast-Brande era uma exceção; sendojá um
centro de produção delã, a lã permaneceu comoo centro dos esforços
de modernização. Pequenas fábricas surgiram, e os caixeiros-viajantes
vendedoresdelã aumentaram (Klitmoller, 1998). Mercadoresde !ã intro-
duziram máquinas detricô e um sistemadedistribuição para roupas de lã
Otricô foi desenvolvido, não sendo mais deixado nas mãos de campone-

257
ses. Muito dinheirofoi gerado, o suficiente para se tornarcapital. No início n Verhtp://wwwwisithemingcom/In-int/heming/ textite-city-heming
2 Ver http://wrwwkulturarudk/100fortaellinger/enGB/heming-folk-high-schoo!
para empreendedores.” O próximo resultado dessa conjuntura foi um programa ESSA É A PÁTRIA DO SONHO DO VEADO
ocupacional de escavar em busca de um dos mais ineficientes e poluentes combus- Essas histórias me ajudam a interpretar como o sonho do veado encanta em Soby.
tíveis, o linhito. Grandes crateras foram escavadas e drenadas; montes de areia e la- Para o Touro, caçar tem algo a ver com jogar a dinheiro: ambos testam seu ímpeto;

gos ácidos foram deixados para trás. Esta é uma boa paisagem para se pensar sobre ambos desenvolvem sua ambição. A arte da caça também atrai ministros de Estado e
autorreasselvajamento, precisamente porque o ecossistema anterior foi esgotado. chefes executivos para sua rede; ele os convida às suas caçadas, aumentando assim

Portanto, a “confusão”. sua flexibilidade financeira, outra forma deliberdade. Como ele explicou, não está in-
teressado em atirar pela came. Se ele mata, deixa outra pessoa fazer a carnificina.
Depois de 1958, foi solicitado às companhias de linhito que investissem em um fundo de Além do mais, a came dos veados adultos no outono, queele prefere, é tão dura que
reabilitação da paisagem, quefoi usado parareflorestamento, particularmente com co- ninguém quer comê-los. É o seu confronto com o grande macho que está em ques-
níferas exóticas de crescimento rápido, como o pinheiro americano lodgepole. O pi- tão. Ocorre o mesmo para o cervo, que olha para o grande veado com impulso de
nheiro lodgepole mostrou-se um autorreasselvajador bem-sucedido; tomou conta da lutar. O cervo, como o Touro, é umafigura histórica, um feixe de agilidades congela-
paisagem e, agora, proprietários de terra lutam, sem sucesso, para derrubá-lo (Gan e das nesse momento de autorreasselvajamento. Ele detém-se em preparação; ele se
“sing, 2018). Também convidou todotipo de animais, incluindo veados-vermelhos, que prepara para roubar o rebanho e inseminar as corças. Embora se diga que as corças
apareceram pela primeira vê em 1985. Isso trouxe caçadores, que compraram a terra e lideram o rebanho, o conduzem em busca de comida e segurança. Oscervos, diferen-
lutaram contra o desenvolvimento, citando a instabilidade dos montes de areia deixa- temente, são os mestres da reprodução e expansão. Nessa zona protegida, a assem-
dos pela mineração, com sua propensão ao colapso repentino. Com o manejo para caça, bleia de paisagem que chamei de confusão, há espaço paraa pretensão masculina e a
outros animais chegaram; otisadosautorreasselvajadores tomaram conta. Alimentados luta, mais do que em uma ecologia estável. Rebanhos podem se espalhare reproduzir;
pelos caçadores, veados-vermelhosproliferaram como notáveis coelhos. machos buscam cantos desabitados. Assim como para O Touro, para o cervo este é
Enquanto isto, apósa guerra, a indústria têxtil e do vestuário otimizou-see explodiu. Então um tempo histórico paraliberdade e ferocidade.
veio o fim da Guerra Fria; antigospaísessoviéticos tornararn-selugares muito baratos para O sonho do veado, portanto, age como um eixo de coordenação entre os projetos do
produzir tecidos e vestimentas (illeris, 1992). Nossos empreendedores estavam prontos cervo e do Touro. Sem repararem muito um no outro,eles se encontram com projetos
com suaflexibilidade. Eles terceirizaram toda produçãoe se especializaram em design e sobrepostos de fazer mundo. Através de tais sobreposições, uma paisagem emerge.
inovação, acumulando capital. Seus trabalhadores têxteis perderam seus empregos. Mas Muitos outros organismos, assim como coisas não vitais, ocupam essa paisagem. Mas
analistas de negócios pensam neles como grandes modelos(lleris, 1998). Eles perderam cada vez que uma pequenacoordenação emerge, um momentodefricção, se você pre-
muito dinheiro e muito tempo. Investiram em arte moderna — e caça Expulsaram outros ferir (Tsing, 2005), ela tem a capacidade de fazer paisagens.Isto dá à assembleia uma
de seus territórios de caça, encorajando o veado-vermelho. Os veados-vermelhos esma- trajetória pelo menos momentânea. O conjunto feral dasjazidas delinhito de Soby — de
garam as plantas, tornandoa paisagem inútil para fazendas ou plantação de árvores. Jun- lobos a pinheiros lodgepole — deve muito a um momento de coordenação entre os
tos, caçadores e veados-vermelhos criaram umaformaparticular de praga. projetos de veados-vermelhos, de um lado, e de empreendedoresfinanceiros, de outro.
Todas as paisagens são criadas nesses momentosdefricção. É poristo que precisamos
8 Como o carvãoinglês e alemãofoi engolido pelas mobilizações da guerra, a Dinamarca passou a procurar tanto de histórias humanas quanto não humanaspara conhecê-las.
fontesde energia. Com a ocupaçãoalemã da Dinamarca em 1940, as importaçõesde carvãodoReino Unido foram
totalmente encerradas. Para discussões de decisões políticas anteriores quelevaram à mineraçãodecarvão lenhite A coordenação entre veados-vermelhos e caçadores encoraja um tipo particular de
manualmente, ver Nielsen, 1982; Kristensen, 2009.As entrevistas de Mathilde Hojrup estabeleceram que muito fa-
zendeirosestavam ansiosos porpartir (Horjrup,2015). paisagem daninha; e também cerceia outras. Essa é a mensagem do recentelivro Feral,

É
do escritor George Monbiot, uma exploração das possibilidades de reasselvajamento
UM LUGAR PARA COMEÇARÉ PELO EXCEPCIONALISMO
(Monbiot, 2015). Vários capítulos conduzem leitores à Escócia, um território análogo
HUMANO DECLARADO
à Jutlêndia Central que venho descrevendo. Caçadores de veado-vermelho possuem
Minhaleitura do sonho do veado me faz simpática a ele, mesmo que discorde dele.
enormes extensões de terra lá, e veados-vermelhos e caçadores juntos encorajam
Excepcionalismo humano exclui não humanospara fora do círculo encantado de
uma paisagem particular. (A pesquisa de Mathilde Hojrup seguiu o nexo com Jutiân-
fazer mundo. Aqui outros humanos tomam o lugar do veado; o teórico é encanta-
dia central lá: um proprietário de terras é um magnata do vestuário da Jutlândia cen-
do pelo sonho do humano. Limitando o foco a esse antagonista encantador, então,
tral, e ele leva o estilo de caça da Jutlândia à Escócia.)'* Monbiot não gosta da paisa-
outros emaranhamentos são apagados. Autoprodução humana em vez de coorde-
gem de veados-vermelhose caçadores proprietários deterras.Ele vê outra paisagem
nação multiespécie toma conta da análise. As agilidades ampliadas do observador,
daninha aguardando nas bordas, excluída, Ele mostra que, ao cercar mesmoqueseja
capturado no sonho do humano, bloqueiam as histórias do mundo vivo que tor-
apenas uma pequena área, de modo que o veado-vermelho não consiga entrar, umia
nam o sonho possível.
floresta começa a emergir. Carvalhose pinheiros são autorreasselvajadores aguardan-
do apenas uma configuração diferente de coordenações que os permita retornar. Daqui, é fácil se apoiar nos conceitos dofilósofo Martin Heidegger, aquele estonteante
Monbiot defende a vantagem desse tipo de pragas em espera. Incentivam uma gama pensadorda linguagem,ser e habitar comoagilidades humanas. Em seu foco no sonho
bem maic& de animais; restatram parte da riqueza botânica do lugar. Toda coordena- do humano, entretanto, ele exclui todos os outros, ainda que pelo menosele tenha a
ção de paisagem obstrui outras coordenações. Cada praga que infesta exclui outras, coragem de dizê-lo. Considere sua famosa afirmação de que animais são pobres de
Esta é uma precaução útil. Sem chamar pelo nome, Monbiotliga exclusão ao sonho mundo (Heidegger, 1995, p.185). Essa declaração reduziria meu olhar do cervoa instinto;
do veado. Ele mencionaa pintura britânica “Monarch of the Glen”, que mostra um como um animal, para Heidegger, o cervo possui apenas sua esfera sensorial herdada.
veado-vermelho escocês com montanhas indefinidas atrás. Detalhes da paisagem Ele não pode desenvolveragilidades ou fazer mundos; somente humanossão fazedores
não podem estar em foco — porque a coordenação da caça não permite. Monbiot de mundo. Considere ainda comoisto é um reflexo de como Heidegger define “mun-
condenaA o sonho do veado por bloqueara riqueza de outras coordenações. do”, que para ele requer linguagem como razão, uma propensão particularmente hu-
mana. Se definirmos mundoa partir de umaaptidão de cervos, humanosseriam pobres
O sonhodoveado é uma forma de autoabsorção em que outros engajamentos forma-
de mundo. Heidegger é focado no humano; o animal é efeito colateral. Mas observe
tivos são esquecidos. Uma coordenação fascina; outras assembleias de paisagem desa-
comoisto bloqueia a história de assembleias de paisagens. O animal é instintivo, isto é,
parecem.E se levássemos essa descoberta para o terreno teórico? Há uma ironia aqui
mecânico; não tem história, pois história, para Heidegger, é feita no espaço significativo
que quero provar. Ser encantado pelo sonho do veado é impor'tar-se por não humanos
dalinguagemO animal é a-histórico porque não vive com linguagem. Assim, animais
— mas apenaspara ser capturado no apagamento de assembleias de paisagem. Como
não têm projetoshistóricos para coordenar com humanos; a mise-en-scêne da vida hu-
nossos melhores pensadores sobre relações multiespécies ainda retornam frequente-
mana, a paisagem, precisa ser inteiramentefeita por humanos. Heidegger oferece uma
mente ao excepcionalismo humanoe às paisagensfeitas inteiramente de sonhose es-
afirmação excepcionalmente clara do sonho do humano, que nos captura em seu en-
quemas humanos?
cantamento, cegando-nos a outros. De fato, tardiamente em suavida, Heideggerafas-
tou-se dessainstância, deixando assim ainda mais claro seu posicionamento anterior. É

261
15 Aho (2007 p. 10) explica esse ponto comosegue: "Logos, na visão de Heidegger articula o espaço histórico
revelador do sentido, tornandopossível para nós estarmossintonizados com as coisas, O animal não é sintonizado nesse
14 Comunicação pessoal de Mathikie Hojrup, outubro de 2015.
sentido, porque é mantido cativo em seu ambiente porrespostas instintivas O mododeser animal é a-histórico”
como se meu cervo estivesse lá Em “A linguagem no poema”, Heidegger (1971) nos sua coerência em uma cosmologia singular, que oferece umatrajetória poderosaparaa his-
mostra o olhar do cervo, se bem que um cervo em um poema; as linhas entre humano tória da paisagem. Assembleias de paisagenssurgem dajustaposição de variados modos de
e cervo se borram em face de sua mortalidade comum (Mitchell, 2011). O sonho do fazer mundos; nenhuma cosmologia singular pode ordenar umapaisagem sozinha.
veado,ironicamente,liberta Heidegger do sonho do humano.é

Daqui, não é um passo muito largo para antropólogos trabalhando em ontologias altena- ENTÃO POR QUE TEMSIDO TÃO FÁCIL IGNORAR ESTE PONTO?
tivas. Considere aqueles com as críticas mais fortes ao Ocidente,isto é, teóricos dos modos O sonho doveado, ou do jaguar, ou do Oeste, encanta observadores para aguçar suas
radicalmente diferentes de fazer mundos(por exemplo, Mignolo; 2071; Escobar, 2071; Cas- agilidades na caça e ao mesmo temponegligenciar as coordenações que fazem isso pos-
tro, 2015). Estou repleta de excitaçãoe respeito poresse movimento, que acordoua antro- sível, À paisagem fica borrada e os únicos não humanosque podem ser vistos são aque-
pologia de umalonga letargia. E ainda assim — este não é um ramo do excepcionalismo les que ocupam o espaço do sonho, o espaço da caçada.
humano? Esta pode ser umareivindicação chocante. Muitos não humanossãofiguras re-
Esse argumento não é um conector para umanarrativa mais científica. Quandose trata do
levantes, dosjaguares às garrafas de rapé dos xamãs.” Ainda assim esses não humanos não
sonho do veado, narrativas científicas podem ser tão ruins quanto as narrativas cosmoló-
possuem suas próprias ontologias; são trazidos à existência por humanos. Só humanos
gicas. Deixe-meretornar ao exemplar Feral, de Monbiot (2015). Quando Ii o livro pela pri-
têm ontologias; só humanos fizem mundos. Só humanosfazem paisagens:*
meira vez, não era capaz deaderir às constatações ecológicas porque estava muito pertur-
Tendoa concordar que apenas humanospossuam ontologias. Ontologias são filosofias do bada pela moldura. A premissa do livro é que reasselvajamentoinicia no coração do eu, e
ser, e não é claro para mim que qualquer organismo outro que humanose importe com fi- embora masculinidade nunca seja mencionada diretamente,é claro queé esta a intenção.
losofia No entanto, talvez a situação mude quando consideramoso termo “ônticos” de Reasselvajamento, para Monbiot, significa colocar-se em situaçõesperigosas de propósito,
Helen Verran (2007. Ônticos não sãofilosofias, mas práticas em que modosde ser são de maneira a cultivar umaintimidade imaginada com animais selvagense pessoas primiti-
performados. Qualquer um podefazer ônticos, quer estejam ou nãointeressados emfilo- vas. Por “imaginada” aqui, eu quero dizer fantasiada. A intimidade de Monbiot com estes
sofia Um cervo, umaplanta, uma pedra: todostêm ônticos, mesmogue não tenham onto- Outrosé limitadapelo fato de queeste é um projeto para construir o eu; é a interioridade
logias. Além do mais, ônticos são mais humildes que ontologias; não demandam tomar selvagem do eu masculino que melhor promoveo feral, conta ele. Nãose trata derelacio-
todo o espaço. Muitos pensadores da ontologia dividem o mundo entre contrastes. Há a namentos ou coordenações, mas indivíduos que encontram seus eus ferais. Como Mon-
Ontologia A e a Ontologia B, e nunca osdois se encontrarão. Ônticos, em contraste, tocam, biot coloca, descrevendo o quão bem: faz carregar nos ombros um veado morto que en-
ultrapassam e trabalham ao redor do outro, sobrepõem e mudam napresença um do ou- controu nafloresta, “a civilização foi despida como se despe um roupão de banho” (2015,
tro. Há eixos de coordenação,assim como recusas. Observar a emergência depaisagens é p- 33). Fica-se com seu animal interior. Apesar do desprezo de Monbict pela caça do vea-
umaquestão de ônticos. É a coordenaçãoentreos ônticos do cervo e do Touro, em vez de do-vermelho, este é o sonho do veado. A imersão de Monbiot em paisagens multiespécies
é eclipsada por autoconstrução, que apaga outras agendas.
1% “The stranger's faotstep / ringsthrough the silvernight / Would a blue deer remember his path?” CTrak,
1915). Nos sombrios caminhosde transição espirituai, a lembrança se move entre humanoe cervo. O cervo azul é
Novamente, o sonho do veado meajuda a sersimpática, mesmo que eu discorde.Ele me
selvagem, um animal decaça e umafera, mas tanto animal quanto humanosão transformados pelo entardecer em ajuda a colocar a caçada de Monbiot no contexto de sua antagonista, que ele chama de
testemunhas de movimento e morte. Mitchell (2019 guia minha leitura aqui.
“civilização”. Considere osintelectuais públicos do debate do Antropoceno. Um grupo
To Parajaguares, verViveiros de Castro (2004); para garrafas de rapé, ver Pedersen (2012).
poderoso vem crescendo advogando o “bom Antropoceno”, isto é, o que podeser com-

263
18 A maior exceção de quetenhociência é “Howforests think”, de Eduardo Kohn (2013) embora Kohnfaça
trolado e explorado por ferramentas civilizacionais familiares. Penso nessas vozes como
da comunicaçãoo sine qua non doser, um movimento quase heideggeriano.
os “filhos herdeiros” do pensamento do Antropoceno. São “ecomodernistas” que usam O ANTROPOCENO É UM CONVITE A PRESTAR ATENÇÃO ÀS
as ferramentas do mestre para redecorara casa do mestre. Suas ferramentas são capita- PRAGAS
lismo, tecnologia deelite filosofia canônica (ver, por exemplo, Breakthrough Institute, Muitos de nós somospragas do Antropoceno. Pragas são criaturas de perturbação; fa-
2015; Ellis e Ramankutty 2008; Purdy, 2015). Eles nos dizem que essas ferramentas po- zemos uso de oportunidades, impomo-nos sobre outros e formamos colaborações
dem consertar o que está quebrado; eles não se preocupam com pragas. Comooutros com aqueles que nos permitem proliferar. A tarefa-chave é descobrir que tipo de infes-
engenheiros sociais antes deles, eles nos dizem que nada dará errado com seusplanos. tação viabiliza paisagens de habitabilidade mais que humana.Isto requer história em
Eles não são iludidos pelo sonho do veado;eles apenas querem herdara propriedade. muitasescalas. É a mesmacoisa com o local que descrevi, um insignificante lugar arrui-
nado no tedioso centro da Dinarnarca: qualquerruína provoca narrativas de assembleias
Em contraste, Monbiot é um filho rebelde.Ele vê o problernadacivilização; ele desenvolve
daninhas entre os últimos dez mil anos — e os últimos dez anos.
sua vontade para resistir ao mandato do pai. Aqui ele se une a outrosfilhos rebeldes: he-
róis, piratas, solitários (ver, por exemplo, Abbey, 1968; Watson, 1980; Krakauer, 1996). Eles Por meio daatenção às coordenações que permitem assembleias daninhas particulares,
submergem em lugares selvagens para ventilar sua selvageria. Eles esperam que a força a paisagem pode ser um objeto de pesquisa que nos mostra a heterogeneidade de pro-
bruta de sua recém-estabelecidaindividualidade derrotará a civilização. Ainda assim, são Jetos defazer mundo. Observaro sonho do veadoe ainda atentar para as coordenações
limitados pelo sonho do veado. Eles não percebem os emaranhamentose coordenações que caçadores ignoram. Precisamos fazer histórias de paisagens que envolvam todosos
queos conduzem.É difícil nãd imaginar queeles estejam fugindo da esposa e dosfilhos. Se tipos de seres, humanose não humanos. Assim também podemosenfrentar um desafio
queremoslevar o Antropocenoa sério, mesmoatravés da descrição, precisamosfazer me- analítico central do pensamento sobre o Antropoceno: como combinar paisagem e his-
lhor do que essas duas alterriativas masculinas, herdeiras e rebeldes. tória para que diferença e possibilidade permaneçam à vista.

O que as variadas abordagens sôbre a paisagem podem fazer? Neste ensaio eu me diri-
gia essa questão lançando muitostipos de materiais juntos. Talvez isso possaabrir futu-
ras conversas sobre os mundossociais mais que humanosà nossa volta — e o desafio de
sobreviver ao Antropoceno.

255
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