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Prefácio do livro

NOSSA CULTURA... OU O QUE RESTOU DELA: 26


ENSAIOS SOBRE A DEGRADAÇÃO DOS VALORES1
Theodore Dalrymplei
A fragilidade da civilização foi uma das grandes lições do século XX. No início
desse século, o otimismo de que os progressos técnicos e morais andavam de mãos
dadas, embora não fosse uma percepção universal, ao menos se disseminara. O escritor
russo V.G.Korolenko, do final do século XIX, expressou esse sentimento ao dizer que o
homem nascera para a felicidade da mesma forma que um pássaro nascera para voar.
Graças a um crescente domínio científico e tecnológico, a humanidade iria se tornar cada
vez mais próspera e saudável, e portanto, mais feliz. A sabedoria viria como um
desdobramento natural.
De fato, a humanidade se tornou mais próspera e saudável. A realidade do
progresso é visível. Hoje em dia, por exemplo, a expectativa de vida de um camponês
indiano supera em muito a que um membro da família real tivera outrora, durante o
apogeu do poder britânico. Em muitas partes do mundo a pobreza não reina mais
absoluta, na falta de comida, abrigo e vestimenta; ela se tornou relativa. As misérias não
são mais avaliadas apenas como rude privação física, mas são agora induzidas pelas
comparações feitas aos grandes contingentes de pessoas prósperas, com os quais os
relativamente mais pobres hoje mantêm maior contato, ressentindo-se de sua riqueza
como se fosse uma ferida, uma reprovação e uma injustiça.
Por um lado, se a esperança no progresso mostrou não ser totalmente ilusória, por
outro, o temor de um retrocesso não parece ser injustificado. A Grande Guerra [a primeira
guerra mundial] destruiu o doce otimismo segundo o qual o progresso rumo ao paraíso na
terra seria inevitável, ou mesmo possível. Os povos mais civilizados provaram ser
capazes de adotar as formas mais horrendas de violência organizada.Tivemos, em
seguida, o comunismo e o nazismo, que em conjunto destruíram milhões de vidas,
valendo-se de meios que apenas algumas décadas mais cedo teriam soado
absolutamente inconcebíveis. Nesse sentido, muitos dos desastres do século XX
poderiam ser caracterizados como revoltas contra a própria civilização; por exemplo, a
Revolução Cultural na China e a experiência do Khmer Vermelho no Camboja. Faz
apenas dez anos que, em Ruanda, milhares de pessoas comuns se transformaram em
assassinos impiedosos ao seguirem apelos demagógicos transmitidos pelo rádio. Essas
pessoas, em posse de seus facões, perpetraram massacres em níveis que nem mesmo
os nazistas, com suas câmaras de gás, conseguiram atingir. Quem, hoje em dia,
apostaria todas as fichas contra a possibilidade de fatos como esses acontecerem
novamente no mundo?
Diante dessas circunstâncias, é possível imaginar que uma preocupação central
dos intelectuais — de quem, afinal de contas, espera-se que enxerguem mais longe e
pensem mais profundamente — seria com a manutenção das fronteiras que separam a
civilização da barbárie, uma vez que essas fronteiras frequentemente se mostraram
bastante frágeis nos últimos cem anos. Todavia, ao se esperar tal fato, um grande
equívoco estaria sendo cometido. De forma explícita, alguns intelectuais abraçaram o
barbarismo; outros simplesmente ignoraram a ideia de que as fronteiras não podem ser
mantidas por si mesmas, precisando passar por manutenções e, por vezes, tendo que ser
defendidas com vigor. Quebrar um tabu ou transgredi-lo se tornaram termos que gozam
da mais alta estima no vocabulário dos críticos modernos, ignorando-se o que foi
transgredido ou qual foi o tabu quebrado. Uma recente resenha biográfica sobre o filósofo

1
Livro publicado no Brasil pela Editora ‘É Realizações’ (2015), com base no original em inglês ‘OUR CULTURE, WHAT IS
LEFT OF IT: THE MANDARINS AND THE MASSES’ (2010).
positivista e especialista em lógica A.J.Ayer, escrita no Times Literary Supplement,
enumerava as virtudes pessoais desse filósofo. Dentre elas, encontrava-se o fato de ele
não ser convencional. No entanto, quem escreveu a resenha achou desnecessário dizer
em que sentido Ayer não era convencional. Para o autor dessa resenha o suposto
desdém que Ayer nutria pelas convenções caracterizava-se como uma virtude em si
mesma.
Certamente isso poderia ser uma virtude, mas também poderia se tratar,
igualmente, de um vício, dependendo do conteúdo ético e da magnitude social dessa
convenção. Restam, porém, poucas dúvidas de que uma atitude de hostilidade contra as
regras sociais tradicionais é aquilo que laureia o intelectual moderno aos olhos de seus
semelhantes. E esse prestígio que os intelectuais conferem ao antinomianismo é
rapidamente transferido aos não intelectuais. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que é tido
como bom para o boêmio da elite também será bom para o trabalhador desqualificado,
para o desempregado e para aquele que recebe ajuda do governo — exatamente aquelas
pessoas que mais precisam de limites, a fim de tornar suas vidas viáveis para que
possam realmente crescer e prosperar. O resultado é uma imundície moral, espiritual e
emocional, engendrando prazeres passageiros e sofrimentos prolongados.
Isso não significa, obviamente, que toda crítica direcionada às convenções sociais
e às tradições seja destrutiva e injustificada. Certamente nunca existiu sociedade alguma
no mundo contra a qual não houvesse muita coisa passível de uma justa crítica. Mas as
críticas em relação às instituições sociais e tradições, inclusive a literatura de ficção,
devem sempre estar cientes de que a civilização precisa de conservação, tanto quanto de
mudança, e que uma crítica imoderada ou que atua a partir de princípios utópicos é capaz
de causar grandes males, muitas vezes devastadores. Nenhum ser humano é
suficientemente brilhante a ponto de sozinho poder compreender tudo, ao concluir que a
sabedoria acumulada ao longo dos séculos nada tem de útil a lhe ensinar. Imaginar o
contrário seria entregar-se ao mais presunçoso egoísmo.
Tendo passado uma considerável parte de minha carreira profissional em países
do Terceiro Mundo — onde a execução de ideias e de ideais abstratos transformaram
situações que já eram ruins em coisas muito piores —, e o resto de minha carreira em
meio à extensa classe baixa da Grã-Bretanha, cujas noções desastrosas sobre o modo de
vida derivam, em última instância, de irrealistas, egoístas e frequentemente pretensiosas
ideias advindas da crítica social, cheguei à conclusão de que a vida intelectual e artística
têm uma importância e um efeito prático incalculáveis.
Em uma famosa passagem de ‘As Consequências Econômicas da Paz’, John
Maynard Keynes escreveu que os homens práticos talvez não tenham muito tempo para
as considerações teóricas, mas, de fato, o mundo é governado por nada menos que
ideias ultrapassadas ou mortas de economistas e filósofos sociais. Concordo com ele,
mas apenas acrescentaria à lista os romancistas, dramaturgos, diretores de cinema,
jornalistas, artistas e até mesmo cantores populares. São eles os legisladores invisíveis
do mundo, e devemos prestar muita atenção àquilo que dizem e como dizem.

Falibilidade humana: Dalrymple entende que o ser humano é um ser falível, em constante esforço para
não cair no vício, no egoísmo e na imoralidade. A concepção religiosa de que o homem é uma criatura
permeada de pecados e vícios, é muito mais precisa do que a concepção utópica de que seja possível
tornar o homem um ser perfeito pela técnica ou pelo simples desenrolar da história.

i
Médico psiquiatra, escritor britânico, nascido em 1949, aproveita da sua experiência de anos de trabalho em países
como o Zimbábue e a Tanzânia, bem como na cidade de Birmingham, na Inglaterra, onde trabalhou como médico em
uma prisão. Escreve profusamente sobre cultura, arte, política, educação e medicina, além de seu trabalho em
medicina nos países já citados. Viajou extensivamente pela África, Leste Europeu, América Latina e outras regiões,
colabora com veículos como: ‘The Times’, ‘The Daily Telegraph’, ‘The Observer’ e ‘The Spectator’.