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Staff
Tradução: Priscila
Revisão inicial: Cristina A/Hillary
Revisão Final: Anfitrite/Taciana
Leitura Inicial: Janaina/Hígia
Leitura Final: Héstia
Formatação: Kytzia/Cibele
Disponibilização:
Grupo Rhealeza Traduções
06/2019

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Quando o conheci, resisti.
Como qualquer amor proibido, eu disse a mim mesma que era uma
paixão, e que passaria.
Isso foi uma mentira.
Nunca passou.
E nunca esperei que ele se apaixonasse por mim tão fortemente.
Havia muitas razões para nos manter separados, a menor dessas razões
era a década que nos separava.
Crescendo na cidade de New York, aprendi cedo que o amor é uma faca
de dois gumes. O amor acabou com os meus pais, o amor tirou os meus
amigos, e o amor, do tipo grande, intenso: "como nunca antes", me
jogou na terapia.
Agora vou para a faculdade, e é hora de dar uma outra chance ao amor.
Mas, posso mesmo recomeçar quando ele ainda está na minha vida?
Porque o único homem que eu já quis, é também o único homem que
não posso ter... E ele me quer completamente. Então posso me
contentar com algo menos do que o amor da minha vida?

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CAPÍTULO 01
Kennedy

As bolhas do champanhe fazem cócegas no meu nariz.


Eu não sinto o gosto da bebida que seguro. Nem mesmo
encosto meus lábios na taça. Não é porque sou muito jovem para
beber, mas porque não bebo. Prefiro ter o controle, portanto, em
vez de beber ergo minha taça de cristal em um brinde.
Estou sempre brindando porque tudo é grandioso no mundo
em que vivo.
Tudo é brilhante.
Tudo é fabuloso.
Mesmo quando não é.
Contudo, o programa de TV da minha mãe foi renovado para
outra temporada, e todos que importam estão aqui em nossa casa
perto do Central Park West, bebendo e beliscando, rindo e
conversando.
Como a minha mãe, por exemplo, que recebe seus
admiradores na sala de estar, graciosamente sentada em seu sofá
vermelho cereja. Seu cabelo preto é brilhante e lindo, e seus olhos
verdes brilham de felicidade quando o chefe da emissora brinda a
ela.
—À Jewel! Uma joia entre produtores. —Ele diz, parecendo
tão brilhante e reluzente quanto o terno que ele usa. Ele é
notavelmente sofisticado e sabe exatamente o que dizer nestes
momentos. Tenho certeza que ele uma vez tentou passar a noite
com minha mãe. E tenho certeza que ela rejeitou seus avanços.

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De vez em quando, muito raramente, acontece dela rejeitar
um pretendente.
—À LGO! A melhor emissora que existe! —Ela diz,
segurando sua taça no alto. Ela nem tenta fingir embaraço por ser o
centro das atenções. Ela não está envergonhada. Ela adora o seu
papel de destaque. Ela poderia muito bem ter nascido para isso,
como um poodle premiado. Ela está sorrindo como sempre porque
ela tem tudo o que quer. Seu novo homem, Warren, está ao seu
lado, bajulando-a.
A pequena amiga de minha mãe, Bailey, uma publicitária de
seu programa de TV, brinda sua taça com a minha e bebe metade de
seu champagne.
Eu não bebo nada e, em vez disso, passo
despreocupadamente o dedo pela borda da taça, querendo uma coisa,
desejando poder não querer nada. Mas eu não posso.
Eu quero ele.
Estou usando meu melhor jeans, um par de saltos pretos e
uma blusa cinza-prateada. Eu gosto de estar bonita. Eu gosto de
ficar bonita para ele, aquele cara do outro lado da sala, encostado
casualmente na parede, que não está bebendo também. Olhando a
cena se desdobrar. Parte dela, mas separado.
Fico imaginando o que ele pensa quando olha para mim. Se
ele ainda sente a mesma atração. O mesmo maldito desejo.
Seus olhos encontram os meus. Os seus são azul-escuros, a
cor da aurora antes que o dia amanheça. Eles me dão a resposta
quando ele não desvia o olhar, e meu coração tenta se libertar do
meu peito e se ligar ao dele. Estar no mesmo espaço, mesmo com
ele a tantos metros de distância, é difícil. Muito difícil. Mas eu não
queria de outra forma.
—E você?

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A voz de Bailey me atinge. Faz com que eu lembre que
estamos tendo uma conversa enquanto eu estou sonhando com ele.
—Hã? —Pergunto, franzindo a testa. —Eu o quê?
—Rapazes? Caras? Está namorando? Alguém especial?
Minhas bochechas ficam vermelhas. Calor se espalha em meu
rosto. Não estou saindo com ninguém.
—Não. —Digo, mesmo que por dentro esteja dizendo: É
complicado, é complicado, é complicado. Foi o que eu disse para minha
prima Anaka de Los Angeles quando ela me mandou um e-mail no
início dessa semana me perguntando se havia algum cara gostoso em
cena.
Conversamos bastante, falamos bobagens, uma habilidade
que tenho aprendido desde que balbuciei minhas primeiras palavras.
Então Bailey estala os dedos e seu rosto se ilumina em
reconhecimento.
—Quase esqueci! Tenho um roteiro de um amigo que quero
passar para o Hayes. —Ela diz e vai em direção ao homem que faz
as coisas acontecerem. Eu observo por um momento, catalogando a
expressão do rosto dele enquanto ela faz seu discurso, a mudança
naqueles olhos azul-escuros para seu olhar de negócios. Ele acena
com a cabeça e eu posso imaginar que ele está dizendo, claro, mande
para mim, e isso me lembra mais uma vez de tudo entre nós.
Tenho que sair desta festa e de perto da minha mãe, de seus
amigos e de toda essa gente.
Quando chego ao meu quarto, mando uma mensagem para
ele. Porque não consigo resistir.
Uma palavra. É tudo que consigo. É tudo que não consigo
ficar sem.

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Oi.

Depois da meia-noite, todos já foram. Todos eles. O sobrado


de arenito marrom está misterioso e quieto, como deveria estar de
madrugada. Entro silenciosamente na cozinha, encontro uma maçã
na cesta sobre o balcão, lavo e dou uma mordida, voltando para
algumas horas atrás na festa, para aquele momento quando
cruzamos nossos olhares. Para aquela carga elétrica, que juro que
passou pelo ar, nos conectando. Nos amarrando, como estivemos
por tanto tempo.
Estremeço, lembrando dos beijos. Lembrando seu toque. Sua
voz suave sussurrando em meu ouvido. A música que ouvíamos
juntos. As histórias que ele me contou.
É como estar sonhando, e voltando no tempo.
Então escuto passos e abro meus olhos.
Meu devaneio é cruelmente interrompido quando percebo
que estou prestes a descobrir algo que preferia não saber, a resposta
a se o mais recente namorado de minha mãe usa boxers ou cuecas
comuns.
Porque o Warren usa boxers brancas. Ele caminha pelo
corredor, atravessa a sala e passa pela mesa da sala de jantar antes de
perceber que a filha da dona da casa está encostada no balcão da
cozinha.
—Sério? —Digo enquanto mastigo a fruta.
Mesmo no escuro posso ver seu rosto ficar vermelho
enquanto ele para na cozinha.
—Eu sinto muito, Kennedy.
Mas ele não se move. Talvez seus pés descalços estejam
grudados no chão na porta de entrada.

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—Não tinha ideia que você estaria na cozinha. —Warren diz,
tropeçando nas palavras.
—Isso é evidente. Agora, você precisa que eu te sirva um
copo de leite, ou você acha que talvez consiga passar o resto da
noite sem um?
Ele está agitado e nervoso, sua barriga é flácida e é o tipo de
coisa que faria uma garotinha gritar, se encolher ou chorar. Mas isso
era de se esperar. Eu tive que superar a ideia boba de que eu poderia
andar pela minha casa sem encontrar com um companheiro da
minha mãe há muito, muito tempo. Eles estão sempre descalços,
tomando café da manhã à mesa ao meio-dia, largados no sofá à
noite, procurando comida na geladeira de madrugada. Se eu não
tivesse meu próprio banheiro, talvez nunca poderia ficar na casa da
minha mãe sequer metade das minhas noites.
Não que eu tenha muito o que dizer sobre o assunto. Não
tenho poder. Não tenho escolha. Sou muito jovem.
Warren, de algum modo, encontra forças para voltar para a
caverna escura de festividades noturnas e sórdidas, o quarto de
minha mãe, embora seja mais como um antro de ópio.
Termino a maçã em silêncio, volto para meu quarto no andar
de cima e fico mexendo no Instagram, vendo uma nova coleção de
corações encontrados na natureza, fogos de artifício vermelhos
formando um coração, um coração desenhado na areia de uma
praia, uma pedra com o formato de coração. Eu salvo todas e
mando para uma pasta especial no meu telefone enquanto me deito
na cama. As fotos me fazem esquecer o encontro na cozinha.
Verifico minhas mensagens de texto mais uma vez. Ainda estou
esperando uma mensagem de volta dele.
Não tem nada.
Talvez esteja só na minha cabeça.

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Noah

O elevador para no sexto andar e as portas se abrem. Ainda


estou segurando meu telefone, e poderia encontrar um milhão de
razões para justificar o modo como estou encarando a tela.
Respondendo aos clientes. Escrevendo de volta para os produtores.
Lidando com meu chefe. Tudo isso é verdade. Porém, tudo é
mentira, porque um pequeno texto me leva de volta para onde sei
que não deveria estar.
Mas desisti há muito tempo.
Com minha mão livre, destranco a porta do meu
apartamento e jogo as chaves na mesa. Acendo a luz, esfrego minhas
mãos sobre os olhos e suspiro profundamente. Já repassei por todas
as razões pelas quais deveria ignorá-la. Já tentei lutar contra isso por
muito tempo. Não estou ganhando nenhum troféu por resistência.
Nunca ganhei. Joguei a toalha há muito tempo.
Além do mais, uma mensagem não vai me matar.
Um. Um. Um.
A palavra ecoa na minha mente tentadoramente. Apenas uma
mensagem. Apenas um beijo. Apenas um encontro.
É sempre uma coisa que leva a outra. Eu sei disso. Mesmo
assim, eu respondo. Não há nada mágico nas minhas palavras. A
única coisa mágica é ela. E o poder que ela ainda tem sobre mim.
Então eu acrescento uma foto porque eu sei do que ela gosta.
Eu sei o que a faz feliz. Se não posso tê-la, pelo menos posso fazê-la
sorrir. Eu anexo uma imagem que encontrei na internet de neve
caída sobre galhos no formato de um coração.

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Kennedy

Deito na cama sob as cobertas. Coloco o telefone no meu


travesseiro, pertinho de mim. Toco no colar que uso todos os dias,
sentindo o formato dos três pingentes brilhantes diferentes que
estão pendurados nele.
Fecho meus olhos, mas o sono está tão longe que pode
muito bem estar na Indonésia.
Então meu telefone vibra. Seguro minha respiração por um
segundo, fazendo um desejo. Abro meus olhos e deslizo meu
polegar na tela.

Oi para você.

Três palavras. São suficientes para me fazer passar outra noite


desejando ele de volta, mas sabendo que não posso tê-lo.
Então vejo uma foto, e posso morrer de felicidade.

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CAPÍTULO 02
Kennedy

—Você sabia que apenas quatorze por cento dos alunos do


último ano sabem por que a guerra da Coréia começou?
É assim que meu bom amigo Lane me cumprimenta na sala
de espera do consultório do psiquiatra no dia seguinte. Não temos o
mesmo psiquiatra, apenas a mesma sala de espera. Sim, sou esse tipo
de garota. A filha de dezessete anos confusa e perdida de pais bem-
sucedidos e divorciados que vai ao psiquiatra em Manhattan. É meio
que uma caricatura, e caricatura é algo que tento evitar na vida.
Especialmente porque, diferente de muitos outros adolescentes em
New York que frequentam psiquiatras, eu de fato gosto de minhas
visitas semanais a Caroline. Elas são, talvez, as únicas horas em que
posso estar na presença de um adulto e não sentir uma necessidade
instintiva de mentir.
—Eu não sabia disso. Mas eu sei por que começou. —Digo
para Lane enquanto ele brinca com um rastelo em miniatura na areia
de um jardim zen na mesa da sala de espera. Foi aqui que nos
conhecemos vários meses atrás. Nesta sala de espera. Estamos
ambos no último ano, mas frequentamos escolas diferentes e em
lados diferentes da cidade.
—Por quê?
—Suponho que um bando de pessoas não se davam bem e
acabaram se envolvendo em brigas.
Lane toca a ponta de seu dedo indicador no seu nariz.
—Bingo.

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Ele tagarela outros fatos aleatórios, que nós chamamos de
papo de festa. Lane verifica um novo grande livro de fatos da
biblioteca toda semana e se empenha em memorizar os fatos mais
interessantes sobre a natureza humana.
—Nunca fique sem um pouco de baboseira para uma
conversa. —Ele gosta de dizer.
Ele nunca fica.
Ele me informa que cobras não vivem na Irlanda,
Groenlândia, Islândia, Nova Zelândia ou Antártica, então seu
psiquiatra abre uma porta no final do corredor e o paciente antes do
Lane sai. Lane se levanta, me cumprimenta e diz:
—Porque elas não podem migrar grandes distâncias sobre a
água.
Um minuto depois, eu entro no consultório da Caroline,
fecho a porta e me afundo no sofá de couro preto.
—Como você está? —Eu pergunto. —Consertou alguém
hoje?
Ela balança uma mão no ar dramaticamente.
—Todo mundo. Eu tenho feito milagres entre essas quatro
paredes.
—Você não pode ser muito boa. Vai ficar sem clientes.
Ela assente e dá um pequeno sorriso.
—Isso é verdade.
Enquanto entrego a ela o cheque mensal do meu pai, reparo
em seus sapatos. Ela está usando um par de sapatilhas de marca, que
quero dizer a ela para não usar porque ela tem pés gigantescos, e
mulheres com pés gigantescos parecem ter pés ainda maiores
quando usam sapatilhas. Mas não consigo tirar a crítica de moda da

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minha boca. Não preciso de uma psiquiatra para me dizer o porquê
fico muda neste ponto. Eu gosto muito mais da Caroline do que de
qualquer outro adulto. Com a Caroline não me sinto como um gato
encolhido no canto quando o cachorro da família passa.
—O atual inimigo público número um usa cuecas boxer
brancas. —Eu digo.
—Warren?
Eu aceno e respiro fundo.
—Ele nem teve a decência de, digamos, pegar um roupão
antes de sair para a cozinha ontem à noite. —Eu digo, e então conto
sobre ontem à noite. O engraçado é, ou melhor, o irônico é que eu
não vim aqui da primeira vez por causa dos casos da minha mãe.
Estou aqui por causa de uma carta de amor.
Não o tipo de carta com corações e marcas de batom, mas o
tipo que te deixa sem fôlego. Eu queria que tivesse esse efeito nele, e
assim foi a história de como nos apaixonamos contada através de
nossos beijos. Os beijos que tivemos, os beijos que queríamos ter e
os lugares que queríamos nos beijar. Lugares como Paris e
Amsterdam, na beira do rio ou do canal ou sob as cachoeiras de
Kauai.
Era uma carta de amor épica e era tudo o que eu sempre quis
na vida, sentir esse tipo de amor épico.
Mas meu pai encontrou a carta antes que eu a enviasse no
início deste ano. Ou melhor, uma marca de uma frase ou duas. Meu
pai não é um xereta e eu não sou tão descuidada a ponto de deixar
algo como isso largado por aí para ser descoberto por alguém. Mas
aprendi uma lição valiosa do mesmo jeito, mesmo que você esteja
escrevendo em um papel de carta lindo, novo e límpido, não
pressione muito com uma caneta roxa enquanto usa um bloco de
papel como superfície de apoio. Algumas das palavras podem

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marcar o bloco de papel de baixo. Meu pai decifrou uma parte da
carta aquela noite e ele disse que eu era muito nova para dizer para
alguém que o amaria pelo resto da minha vida e mais. Mas o que ele
sabe? Ele não é um expert em grandes amores. Ele é sim uma
autoridade em ser majestosamente ferrado por alguém que ama,
minha mãe, então eu entendo porque ele reagiu daquela maneira e
me mandou para um psiquiatra.
—E isso tudo aconteceu na cozinha ontem à noite? Depois
da última festa?
Eu assinto e acrescento, apenas para dar ênfase. —O Warren
é casado, você sabe. Ele tira o anel quando ele vem para que eles
possam fingir.
Caroline não me pergunta como me sinto. Caroline sabe
como isso me faz sentir. Horrível. Brava. Frustrada como o inferno.
Ela fez café da manhã para ele hoje. Frittatas1 com
cogumelos e queijo. Ela serviu na sua melhor louça, é claro.
—Você se juntou a eles?
—Tomei café e saí. Não posso me sentar com eles. Eu
simplesmente o odeio.
Porque é isso que eu faço. Eu odeio os namorados da minha
mãe. Amantes, devo dizer. Eu odeio que ela os tenha, que eles
tomem café da manhã e jantem na nossa casa, que eu minta para ela
fugir deles, que ela minta para todos a respeito deles, que ela tenha
mentido para o meu pai por anos e me fez mentir para ele por anos
também. Nunca esquecerei como minha vida tem sido marcada
pelos homens que minha mãe teve.
Seus amantes são a razão pela qual não posso estar com o
homem que amo. Ela arruinou meu pai para o amor, e então, em um
1
Fritatta é uma especialidade da culinária italiana como omeletes e que normalmente é preenchida com
diferentes ingredientes, como carne, legumes, queijos, cogumelos, etc.

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ato de retribuição descabido, ele tirou o amor da minha vida.
—Já pensou como seria não odiá-los?
—Ah. Sem chance.
—Estou falando sério, Kennedy.
—Para isso precisaria remover meu cérebro. Não estou
pronta para uma lobotomia.
—Hipoteticamente. —Caroline propõe, virando sua mão,
palma para cima, como se segurasse um prato invisível e fosse uma
garçonete em seu ofício. —E se você fizesse uma lobotomia que
apenas removesse a parte do seu cérebro que odeia os amantes.
Eu considero essa situação por alguns segundos. Eu
contemplo os potenciais resultados. Mas é como se alguém
propusesse transplantar meus olhos verdes por azuis. Qual é a
diferença, realmente?
—Eu não sei.
—Porque não são eles que você odeia. —Caroline diz. —É o
papel que você sente que teve quando seus pais estavam casados. É
isso que você odeia.
Eu espero ela dizer mais alguma coisa.
—Você conhece o programa dos doze passos?
—Claro. Quer dizer, de uma maneira geral.
—Um dos elementos vitais em qualquer programa de doze
passos se redimir. De fato, é talvez o passo mais importante porque
é sobre mudanças. Mudar seu comportamento, reverter o dano e
dizer que se arrepende, viver de outra maneira. —Ela continua. —
Não estou falando sobre você. O que estou dizendo é que o
conceito pode ser aplicado. Se redimir é sobre fazer reparos
diretamente às pessoas que você prejudicou.

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Volto meus pensamentos para meu pai, para o olhar perdido
em seu rosto na noite que despejei tudo, há três anos, na maneira
que sua vida virou quando sua única filha disse a ele que sua esposa
fora uma Hester Prynne2 com ele por anos. Ele ainda não saiu com
ninguém desde que se separaram, há três anos. Acho que seu
coração ainda deve estar muito machucado.
O meu também. Porque as razões ainda estão embaixo do
meu nariz, na minha cara e na minha cozinha tarde da noite, os
lembretes em todos os lugares, os lembretes como um fardo, esse
grande peso da raiva sempre dentro de mim.
—O que eu acho. —Caroline continua. —É que se redimir
pode ser um exercício útil para você. Pode ser o tipo de coisa que te
ajudaria a libertar-se de tudo o que você sente a respeito dos
amantes de sua mãe.
Eu gosto como isso soa.
—Como devo me redimir?
—Não tenho certeza. Mas sei que você encontrará um jeito.
Porque eu não sou do tipo que faz qualquer coisa pela
metade, eu não bebo, não fumo, não falo palavrão, não como carne
ou falto na aula de lacrosse3 quando tenho dor de cabeça, e
raramente falto na escola, sei que encontrarei um jeito de me redimir
Não pelas coisas que fiz. Mas pelas coisas que não fiz. Eu não parei
minha mãe. Eu não disse: Não, mãe. Não direi mentiras por você.

2
O romance mais famoso de Hawthorne, The Scarlet Letter, é a história de Hester Prynne, uma jovem
que comete adultério e é forçada a viver com as consequências na comunidade puritana de Salem,
Massachusetts.
3
Lacrosse é um esporte de equipe de origem nativa americana. Ele é jogado com uma bola de borracha
maciça, de pequena dimensão e um bastão de cabo longo chamado de crosse ou taco de lacrosse.

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Noah

Jonathan bate em minha porta.


—Entre. —Eu digo, mas é irrelevante. É claro que ele vai
entrar. Ele é o chefe. Ele comanda essa agência de talentos. E
comanda com mãos de ferro, um terno risca de giz e com a
perfeição de Don Draper4. Tenho que admitir, o cara tem o estilo
do agente implacável.
—Como vai indo?
—Bem. —Eu digo, porque é o que ele quer ouvir, e além
disso, o trabalho é bom. O trabalho sempre foi bom. O trabalho
nunca foi o problema na minha vida.
—Ouvi dizer que o The World on Time está explodindo a
cabeça dos críticos. —Ele diz, imitando uma explosão com suas
mãos.
—Sim. —Digo, porque eu teria que ser um ignorante sobre o
mundo do entretenimento para não saber disso. A série de TV de
humor negro sobre um ex-agente da CIA que trabalha disfarçado
será lançada esta quinta à noite. O que estão dizendo é que o
criador-escritor, David Tremaine, não está feliz com seus agentes e
está procurando um novo parceiro. Tremaine é um gênio, tenho
acompanhado sua carreira desde que ele escrevia uma coluna de
humor para um jornal local.
—Eu quero Tremaine. —Jonathan diz, enquanto afunda em
meu sofá de couro e cruza as pernas.
—Quem não quer Tremaine? —Eu devolvo.

4
Don— Draper é um personagem fictício e protagonista da Série de televisão da AMC, Mad Men. Foi
criado por Matthew Weiner, e interpretado por Jon Hamm. Até o final da temporada 3, Draper foi
diretor criativo da empresa de publicidade Manhattan Sterling Cooper.

18
Ele aponta para mim.
—Me consiga Tremaine, Hayes. Você é meu melhor homem.
Preciso de você para conquistá-lo. Tem um evento de caridade neste
fim de semana no MoMA5. Algo com arte e literatura. Ele vai. Leve
uma acompanhante, para não parecer que você está lá só para
bajulá-lo. —Ele diz, levantando suas sobrancelhas e apontando para
mim.
Eu estremeço por dentro, mas não demonstro. Encontrar
uma acompanhante não é difícil. É difícil quando você não liga para
a mulher ao seu lado porque você ainda está caído por aquela que
não está ao seu lado.
—Claro. —Digo para ele.
—Ainda está saindo com a Mica? Não tenho visto você com
ninguém faz algum tempo. Está mudando para meu time?
Nego com a cabeça e dou risada, feliz que ele desatentamente
permitiu que eu evitasse o assunto de porque não tenho saído com
ninguém há muito tempo.
—Ainda gosto de garotas, senhor. Mica e eu nos separamos
faz um ano. Ele é uma boa garota, porém.
Ele abana a mão com indiferença.
—Que seja. Eu não ligo se ela é bacana. Só me importo
como isso parecerá na festa. Certifique-se que sua acompanhante
seja bonita. Não quero que você traga um canhão.
—Nenhum canhão comigo, senhor. —Digo secamente.
Ele ri.
—Adoro seu senso de humor, Hayes.

5
Museu de Arte Moderna de New York City

19
Mais tarde naquela noite, enquanto passo por meus contatos
tentando encontrar alguém para convidar para a festa, o nome de
Kennedy aparece numa mensagem de texto. Meu peito se aquece.
Meu coração dispara. É por isso que não dou a mínima.
Eu já dei tudo que tenho para outra pessoa.
Ouvindo 42nd Street 6e pensando em você.

Lembro a época que a levei para ver o relançamento. A


maneira como ela entrelaçou suas mãos em meus cabelos e me
beijou no beco fora do St. James7 com o letreiro do show ainda
iluminado. Ela ama musicais da Broadway e suas grandes,
espalhafatosas e exageradas declarações de amor. Tínhamos isso em
comum. Tínhamos tudo em comum. Era quase muito para suportar.
Passo meu polegar pela tela, imaginando-a com seus fones de
ouvido, então coloco a trilha sonora também e sua música favorita
começa a tocar.
Depois vejo quem vou levar ao MoMA este fim de semana.
Escrevo de volta:

Qual música?

Em segundos ela responde com o nome da que eu estou


escutando, e posso muito bem me perder naquele beijo do lado de
fora do teatro mais uma vez.

6
Peça musical americana de 1980.
7
Teatro em New York

20
Nossos beijos roubados

Acabamos de assistir 42nd Street e você estava


cantarolando "Lullaby of Broadway" e eu te disse que
você tinha uma voz boa. Você riu e afirmou que não
poderia alcançar uma nota se tentasse. —Sou terrível
cantando.

Eu disse. —Você é incrível beijando, no entanto. E


caso duvide, deixe-me fazer você lembrar. —Então
corri minhas mãos em seus cabelos. Deus, amo seus
cabelos. Senti-los entre meus dedos. Beijei você fora do
teatro e naquele momento não nos importávamos se
alguém nos visse mesmo naquele beco. Não nos
importávamos porque a única coisa que importava era
seus lábios nos meus. Sentir sua respiração. A maneira
como segurava meus quadris, me trazendo para perto,
mas mantendo distância também, caso chegássemos
muito perto em público. Como se importasse. Como se
qualquer um que nos visse não soubesse como nos
sentíamos.

21
CAPÍTULO 03
Kennedy

Tecnicamente, o lacrosse não é um esporte de contato.


Se olhasse no livro de regras para lacrosse feminino, veria
todo tipo de aviso para manter suas mãos, cotovelos e bastões
próximos ao seu corpo. Mas não é assim que eu jogo. No meu livro
de regras, lacrosse é um esporte de contato. A vida é um esporte de
contato. Melhor ser corajosa e encarar.
Atravesso o campo determinada a acertar a bola na rede da
Keeland Prep. Sua principal defensora tenta trombar em mim e
evitar que eu marque. Viro minha mão para dentro e meu braço
para fora, transformando meu cotovelo em uma arma. Ela firma os
pés em minha frente, então eu enfio meu cotovelo direito em sua
lateral.
Ela perde o equilíbrio e vem um pouco para frente, seu rabo
de cavalo loiro chicoteando para o lado. Ela se recupera
rapidamente e agora está como um touro bravo me caçando porque
ela é uma jogadora feroz.
Mas eu também sou e disparo à frente, e então lanço a bola
na rede.
A multidão da Agnes Ethel School for Girls vibra. Levanto o
punho no ar e grito alto
—Sim!
Minhas companheiras de time me saúdam, e eu estou
voando, rindo e subindo em direção aos céus enquanto tudo de
bom cai sobre mim

22
—Uh-hu! Vai Kennedy!
Minha mãe grita meu nome das arquibancadas. Aceno para
ela e volto meu foco para o campo e meto mais dois gols na rede
para derrotar Keeland Prep por 12 a 6. Ela é a primeira a me
cumprimentar quando o jogo termina. Ela já está no campo,
agitando os punhos no ar.
—Você. Foi. Brilhante. —Ela diz.
—Obrigada, mãe.
—E se posso te lembrar, apenas mais três vitórias para a
divisão.
Estou impressionada que ela se lembre. Sempre me
surpreende que ela se lembre desses detalhes, mas ela sempre se
lembra.
—Não rogue praga.
Ela acena com uma mão no ar.
—Pragas? Quem acredita nisso? E então, vamos celebrar essa
noite? Posso arrumar uma mesa para nós no fabuloso Sushi Ko
assim. —Ela diz, estalando os dedos, seu anel de safira brilhando no
sol. —E eles têm sushis vegetarianos deliciosos.
Qualquer vitória, grande ou pequena, requer uma celebração,
um jantar elegante, um novo par de sapatos, uma sobremesa que é
verdadeiro sacrilégio.
—Tenho que ir à exposição do papai esta noite. É a noite de
abertura. —Digo, desejando os velhos tempos quando minha mãe e
eu íamos juntas à galeria. Quando minha mãe entraria feliz
passeando pela galeria, beijaria meu pai na bochecha e se encantaria
com seu trabalho. Quando nós três iríamos ao Sushi Ko juntos.
Íamos a restaurantes incrivelmente bons. Ninguém agitava um
restaurante como os Stanzlingers. Éramos nova iorquinos, jantar

23
fora era indispensável nesta cidade.
—Vou me despedir das minhas colegas de time.
Corro de volta para as outras garotas de uniforme de lacrosse
verde e dourado.
—Garota indomável!
Minhas companheiras de equipe me chamam pelo meu
apelido. É uma piada pois não sou indomável. Eu não rebato sem
controle. Quando eu rebato é com controle impecável.
—Matadora? Quem marcou nesse jogo? —Eu digo enquanto
bato mãos com cada uma, porque me dou bem com todas elas.
Embora a escola preparatória possa ser como uma besta selvagem
em Manhattan, eu sobrevivi e tive sucesso seguindo algumas poucas
regras: mantenho meus próprios segredos, foco no trabalho da
escola e mando muito bem no campo. Esse combo triplo tem sido
meu roteiro e eu o tenho seguido à risca. Também é o que me
permite ter a vida que tenho fora da escola, em que entro e saio do
mundo adulto, e ninguém na escola tem a menor ideia sobre a
minha família ou os meus casos amorosos.
Bato as mãos com a Amanda por último e ela segura meu
braço e me puxa para o lado.
—Tenho que te contar uma coisa. —Uma gota de suor
escorre em seu rosto. Ela limpa. —Meu pai veio ao jogo.
Dou a ela um olhar zombeteiro, como se ela não pudesse
estar falando sério. Isso é notícia de primeira página.
—Seu pai nunca vem aos jogos. Qual é o problema?
—Minha mãe o repreendeu na outra noite. Ela acabou com
ele por não aparecer em nenhum dos nossos eventos, do meu irmão
ou meu.

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—E ele ouviu? Achei que ele não ligasse.
—Ela disse para ele que todos os outros pais estavam lá. Ela
disse que cancelaria suas férias em Tokyo se ele não aparecesse, e ele
adora Tokyo.
—Uau, isso é demais. —Digo, porque sei que a mãe da
Amanda é quem sustenta a sua família. Seu pai perdeu o emprego
no banco há uns dois anos e não achou nada desde então. Sua mãe é
CEO de uma empresa de publicidade, então ela está indo muito
bem, dá as cartas, define as férias e geralmente determina o que vão
fazer, onde vão e onde gastarão seu dinheiro.
Amanda aponta para as arquibancadas e seu pai está sentado
num banco, sua cabeça abaixada sobre seu smartphone.
—Aposto que algum de seus estúpidos colegas de faculdade
mandou um e-mail e foi tipo “Ei, conheço alguém que conhece
alguém que pode saber quem está contratando”, então é claro que
ele teve que responder prontamente. Sabia que ele passou o jogo
todo no seu telefone idiota?
Então a Amanda bufa. É um bufar sarcástico e eu sei disso
não só porque já o ouvi várias vezes, mas porque Amanda e eu
fizemos uma lista de todas as variedades de suas bufadas. —Ela é
uma bufadora campeã e se especializou em expressá-las com várias
emoções: a bufada de rir-para-caramba, a de essa-comida-cheira-mal,
a de essa-é-a-tarefa-mais-idiota-que-já-recebi, a bufada sarcástica, a
bufada cômica, a bufada envergonhada, e a aquele-cara-do-outro-
lado-da-rua-não-é-gostoso?
Seu pai para de digitar, pega um lenço e assoa o nariz e então
olha para o campo e acena para Amanda. Aposto que é a primeira
vez que ele nota a filha. Então ele anda até o campo. Mas o e-mail
mais fascinante do mundo deve ter chegado porque agora ele está
respondendo uma outra mensagem e então consegue trombar com a
minha mãe e eles começam a conversar.

25
Minha pulsação dispara. Meus ombros ficam tensos enquanto
possibilidades perigosas passam pela minha cabeça. A última coisa
que preciso é que minha mãe comece a flertar com o pai da minha
melhor amiga. Pego minha mochila com a velocidade de um trem
expresso e digo adeus para Amanda no mesmo ritmo, e então tiro
minha mãe da conversa. Respiro aliviada novamente quando
estamos longe do campo.
Ouço minha mãe fazer seu habitual resumo do jogo
enquanto entramos no táxi que nos leva do campo de lacrosse na
Randall's Island de volta à Manhattan. Ela reproduz todas as grandes
jogadas, imita todos os momentos de glória e eu dou risada e nem
finjo que ela é ridícula, porque não acho que ela seja. Eu acho que
ela é tipo incrível por nunca ligar seu telefone durante um jogo de
lacrosse.
Nunca.
Eu quero que esses momentos sejam os que definem nosso
relacionamento. Eu quero apagar todos os outros momentos, como
os que envolvem pais dos amigos e, no lugar, cobri-los com esses.
Quando entramos no sobrado de arenito marrom que nós
três compartilhávamos, minha mãe me diz que tem uma surpresa
para mim. Ela cobre meus olhos e me leva até a antessala.
—Tha-ram!
E a Joe, minha bicicleta de marchas, sexy, elegante e prateada
está esperando lá, brilhante e reluzente, a corrente quebrada
consertada.
—Eu a peguei para você esta noite. Aproveitei e a levei para
o conserto. Regulagem completa. —Ela aperta os freios. —Veja!
Também mandei regular os freios. E polir o quadro.
—Está linda. —Corro minhas mãos pelo quadro e parece
seda de aço. Dou-lhe um beijo na bochecha. —Você é a melhor,

26
mãe.
—Tudo por você, querida.
É por isso que nunca posso odiá-la. É por isso que meu ódio
é reservado apenas para eles, seus amantes. Nunca para minha mãe,
a quem amo loucamente.
Vou até a geladeira para meu ritual de Coca Diet gelada pós-
jogo. Abro uma lata, saboreando o primeiro gole. E então ela liga o
telefone novamente e ele começa a vibrar imediatamente. As
mensagens devem ter se acumulado. Ouço ela ligar para seu agente e
meu rosto fica vermelho quando ela diz seu nome. Hayes. É assim
que todos o chamam. Todos menos eu.
Eu imagino Hayes no escritório sendo todo profissional e
negócios, sexy em suas camisas coloridas, a vermelha, a roxa, a azul
marinho, e mais do que tudo, imagino o modo como elas se ajustam
muito bem em sua estrutura alta, forte e robusta.
—Eu fui muito produtiva hoje e escrevi três cenas quentes
para a nova sequência da história. —Ela diz para ele. Lords and Ladies
é a série noturna de maior audiência que ela criou há vários anos e
ainda escreve até hoje para a emissora de TV mais popular e famosa,
a LGO. Como a produtora de Lords and Ladies, ela cria, controla e
escreve as cenas quentes. Claro, ela tem toda uma equipe de
escritores à sua disposição lá nos estúdios da LGO na West Fifty-
Seventh Street, mas o enredo é dela, a intriga, os casos e as traições
são todos cortesia da mente de Jewel Stanza. É um pseudônimo,
abreviado de seu nome de casada.
Olho pela janela da cozinha, dessa vez ouvindo trechos e
partes do que ele diz com sua voz forte e sexy do outro lado da
linha. A voz que quero manter só para mim. Mas ele pertence a
tantas outras pessoas. Ele pertence a ela, aos seus clientes, aos
negócios e a todos os que querem uma parte dele.

27
Mais que tudo, ele pertence aos oito anos que nos separam.
—Venha para jantar e conversaremos sobre as cenas. —Ela
diz casualmente para ele, como se fosse uma simples sugestão. Mas
não é uma opção desobedecer. —Convidaremos os de sempre. —
Ela diz os nomes da publicitária chefe da LGO e seu marido, o
chefe de distribuição internacional do estúdio e o escritor chefe da
série e sua esposa. —E Warren, claro. Vou chamar Warren e
faremos uma festa.
Ela termina a ligação e se vira para mim. —Você poderia me
fazer um enorme favor? Preciso que você leia três cenas. Eu sei que
você geralmente lê antes de dormir, mas eu realmente preciso do seu
feedback. Estou terrivelmente nervosa. Especialmente por causa
do... —Ela faz sinal de aspas. —Conteúdo.
Ela espera pela minha reação. Ela quer que eu fique ansiosa
para ler as cenas e o conteúdo nelas, como se eu tivesse acabado de
ganhar um prêmio, uma prévia do que os fãs de Lords and Ladies
tanto querem. Minha mãe, a mulher que sozinha devolveu o poder
das séries noturnas à TV, que renovou um meio de comunicação
antes dormente com suas voltas e reviravoltas de ingleses vitorianos
– e mulheres e suas conspirações na vida e no amor – é conhecida
por seu suspense semanal, suas revelações chocantes e as cenas
quentes de sexo da série. Isso, a série ter a fama de causar suor no
colarinho, é o que mais agrada minha mãe.
A última coisa que quero é ler as cenas inspiradas em sua
própria vida sexual. Mas sei onde falar a verdade vai me levar. Vai
levar a rupturas e farpas e uma vida pela metade.
—Claro. Vou ler agora mesmo.
É simplesmente mais fácil.

************************

28
Depois que tomo banho e lavo os vestígios do jogo de
lacrosse, visto meu jeans skinny favorito, uma camiseta justa e meus
tênis Converse. Como sempre, coloco meu colar de pingentes.
Posiciono de modo que ele não poderá deixar de vê-lo se eu o vir.
Quero que ele saiba que uso o tempo todo, que ele está comigo,
próximo ao meu coração, mesmo quando não posso estar perto
dele.
Envio um desejo silencioso ao universo para que ele chegue
cedo. Que eu possa vê-lo por um momento. Um sorriso, um piscar
de seus olhos, um olhar só para mim.
Pego as páginas do script que minha mãe deixou, fecho meus
olhos para não ver nenhuma palavra, e passo página após página
para trás. Depois de contar quinze, abro meus olhos, confirmo que
voltei ao início e que as páginas parecem lidas e desço as escadas.
—As cenas são totalmente absolutamente esplendorosamente
incríveis mãe. —Digo em voz alta, enquanto coloco as páginas no
balcão, em seguida, abro a geladeira, pego outra Coca diet e bebo
um grande gole.
—Conte-me tudo. —Ela indica as páginas em minha mão
enquanto empunha uma grande faca e corta cenouras em fatias
finas. Ela também se trocou, sua roupa casual por uma blusa
magenta decotada, a cor tão descaradamente forte que ela parece da
realeza. Ela combinou sua blusa com calças pretas e saltos de couro
de 10 centímetros. —O que achou da cena? Sobre o que Gerald faz
com Pauline nos estábulos? Me diga o que gostou.
Não. Oh Deus, não. Não há nada que eu possa dizer a você sobre o
que o Gerald faz com Pauline nos estábulos. Especialmente quando ouvi o que o
Warren fez com você na outra noite, que foi com certeza a inspiração para a
brincadeirinha dos personagens nos estábulos, e eu tive que tocar a trilha de
42nd Street pelo resto da noite para camuflar os sons.
—Sexy. Totalmente sexy. —Digo, recitando as palavras

29
exatas que minha mãe anseia ouvir. —E doce também. Uma perfeita
mistura de sexy e doce, e os telespectadores vão amar.
Ela dá um largo sorriso, como se um peso tivesse sido tirado
de seus ombros. —Obrigada. Não quero desapontar os
telespectadores.
—Eles amam seu programa, mãe. Eles amam todos os
Lordes e Damas. —Eu digo, tranquilizando-a corretamente, porque
usei as palavras certas, disse-as no tom certo para dar confiança a
ela. Porque a amo, mesmo que eu odeie tantas coisas sobre ela. Meu
amor é mais forte que meu ódio.
Tem que ser.

30
CAPÍTULO 04
Noah

Dois segundos depois que saio do elevador do prédio de meu


escritório, o porteiro me chama.
—Oi, Sr. Hayes. Tenho algo para você. —Ele diz, de seu
posto na mesa reluzente no hall de entrada. Ele me acena como se
tivesse um segredo para me contar.
—Oi, Randy. O que tem aí?
O homem de bigode no uniforme azul marinho abaixa sua
voz para um sussurro. —Meu primo Joey tem um roteiro. Uma
nova série de ação centrada em torno de um grupo de colegas de
trabalho, cada um tem um poder especial. Vai ser épico. Vou trazer
para você amanhã. —Ele diz com um sorriso.
Eu sorrio de volta. Não porque esteja ansioso para ler mais
um roteiro. Mas porque é esperado. Todo mundo, em todos os
lugares, parece ter um programa de TV e estão sempre me pedindo
para ler. Para fazer com suas ideias o que fiz com as de Jewel.
Torná-la um sucesso.
—Parece ótimo, Randy. —Eu digo e dou um rápido aceno
de adeus enquanto saio para a noite quente de maio.
Sinto uma leve batida no ombro. Me viro e vejo meu amigo
Matthew. Ele é crítico de uma famosa revista de música e trabalha
no mesmo prédio. Ele nunca me pediu para ler um roteiro de algum
amigo, primo ou vizinho. Gosto disso em nossa amizade.
—Super-heróis companheiros de trabalho? —Ele diz,

31
levantando uma sobrancelha. Ele devia estar atrás de mim e ouviu a
conversa.
Dou de ombros enquanto andamos em direção ao centro da
cidade. —Você nunca sabe quando vai encontrar o próximo
sucesso.
Ele ri, jogando a cabeça para trás.
—Você é muito gente boa. Quais as chances de encontrar
um tesouro em um roteiro aleatório que alguém te manda?
—Quais as chances de você encontrar uma grande banda nos
arquivos que as gravadoras te mandam? —Devolvo.
—Touché, companheiro. Touché. No entanto, falando de
grandes bandas, a Jane e eu vamos ver uma hoje à noite no
Roseland. Não é nem de longe tão excitante como ver um show de
cancan na Broadway, ou algo como o que você já foi, mas quer ir
conosco?
Reviro os olhos enquanto um ônibus passa, lançando uma
nuvem de fumaça.
—Ha-ha-ha. Zombar do meu trabalho, por que você não
zombaria?
—Não é realmente zombar do seu trabalho, é? Já que tenho
certeza que você vai nesses shows da Broadway por diversão, não
por trabalho. —Matthew diz quando chegamos na avenida.
—O que posso dizer? Sou um cara hétero que gosta de
musicais da Broadway. —Digo, com firmeza. E daí se gosto de
teatro?
—Estou só brincando com você. Topa ir ver Retractable
Eyes?
—Que horas? —Pergunto, olhando meu relógio.

32
—Tarde. Às dez. Precisa do seu sono de beleza?
—Eu aguento. Estou indo para a casa da Jewel agora para
jantar e revisar seu roteiro.
—Quando vai se declarar para ela?
Eu dou risada.
—Nunca.
Há um estranho silencio entre nós, e então ele pigarreia
quando chegamos na entrada do metrô.
—Certo. Quase esqueci. Não é dela que você gosta. —Ele diz
baixo, sua voz séria pela primeira vez. Ele é o único que sabe sobre
Kennedy. —É por isso que você ainda vai lá?
—Não. —Eu digo, respondendo rapidamente e
sinceramente, pelo menos em parte. É claro, gosto de ver Kennedy.
Embora gostar não seja a palavra certa. Ansiar seria mais apropriado.
Mas isso tudo é complicado pelo fato de que eu realmente gosto da
mãe dela, e não apenas porque ela é minha maior cliente. Jewel
Stanlinger é a razão pela qual ganhei o respeito que tenho e a lista de
clientes que veio depois dela. Nossa parceria de negócios é uma das
raras histórias do tipo fidelidade e confiança no estilo Hollywood.
Eu comecei a trabalhar com ela quando eu era um estagiário da
faculdade e ela estava tentando seu primeiro sucesso. Ela era a
escritora resignada no fim da base hierárquica de várias séries
diurnas que já saíram do ar faz tempo. Ela me contou sua ideia para
Lords and Ladies e eu rapidamente arrumei a ela um trabalho melhor
de escritora em outra série e forcei a barra para que ela chegasse à
escritora principal. Ela criou tramas mais sexys, impulsionou a
intriga e introduziu casos ainda mais sórdidos. Durante esse tempo
ela aperfeiçoou e reformulou e reescreveu Lords and Ladies até que
ficou irretocável. Então eu a vendi para a LGO poucas semanas
depois de me formar na faculdade. É um dos maiores programas de

33
TV do país, e agora eu tenho a lista de clientes mais invejável de
qualquer agente de TV no país, isso sem falar de qualquer agente da
minha idade.
Devo tudo a Jewel.
O que provavelmente me faz o maior idiota do mundo por
me apaixonar pela filha dela. Quatro meses depois do término, os
sentimentos por Kennedy ainda não dão sinais de diminuir.
Nenhum. Nada. Zero.
Eu devia mesmo ir ver aquela banda hoje à noite. Apenas
para tirá-la da minha mente.
—Te vejo às dez. —Digo para Matthew quando ele chega na
entrada do metrô.
—Te vejo lá. E tenha cuidado. —Ele acrescenta, porque ele
gosta de cuidar de mim no que se refere ao vespeiro que são minhas
escolhas amorosas.
—Terei.
Me dirijo para a casa de Jewel e no caminho vejo uma
explosão de amarelo e branco em um mercado do outro lado da rua.
Eu paro e olho para a faixa de pedestres. O carro mais próximo está
a quinze metros de distância e mesmo no sinal vermelho, eu corro e
atravesso, diminuindo quando chego perto do que chamou minha
atenção. Um buquê de margaridas no meio de uma grande variedade
de flores, rosas, tulipas, lírios e narcisos. O miolo de uma das
margaridas quase parece que é o formato de um coração.
Ela vai amar, então eu compro.
Quando viro no seu quarteirão, meu coração começa a bater
mais rápido e minhas palmas estão suando e essa resposta química
me irrita. Eu deveria ser capaz de controlar melhor minhas emoções.
Inferno, eu a vi na outra noite na festa. Eu a vi várias vezes desde

34
que ela rompeu nosso relacionamento, há quatro meses. Eu deveria
me controlar melhor. Mas considerando que eu acabei de comprar
flores para ela, duvido que eu consiga. Ou possa. Ou queira.
De algum modo, quando vejo o sobrado de arenito marrom,
em todos seus quatro andares de esplendor na Central Park West,
uma casa à altura de uma mulher como Jewel, dou um jeito de
controlar minhas emoções.
Seguro as flores em uma mão enquanto toco a campainha.
Kennedy atende. Seu cabelo castanho é ondulado e
exuberante e lembro como é segurá-lo entre meus dedos. Eles
coçam para tocar as mechas macias. Seus olhos verdes brilham
quando ela me vê. Seus lábios formam um sorriso quando ela segura
a porta, mantendo-a apenas um pouco aberta. Criando um escudo.
Um casulo temporário de cinco segundos.
Ela me olha de cima a baixo e posso dizer que ela se demora
na minha camisa. É roxa, justa no corpo e está enfiada dentro de
minhas calças cinza-escuras. Ela é obcecada pelas minhas camisas.
Não tenho problema com isso. Eu gosto dessa obsessão.
Mais do que eu devia.
Sou uma causa perdida, e agora, quando meu coração bate
mais forte e não me irrito. Isso me lembra de que tudo que tive uma
vez foi puro, perfeito e verdadeiro.
—Roxo. —Ela diz num sussurro, como se fosse um sonho,
como se fosse uma palavra com asas e que pode voar para longe
daqui. Me transporta de volta no tempo, lembrando-me de uma
noite de muitos meses atrás. A noite ela experimentou esta camisa.
Ela parecia deslumbrante, e minha respiração se apega à intensidade
da memória. Estou cercado por lembranças dela e não posso deixá-
las ir. Eu não quero que elas desapareçam. Nunca.
—Roxo. —Eu repito, baixo e suave, como se fosse nosso

35
segredo. Eu digo tão baixo que é quase inaudível. Mas ela me ouviu.
—Como foi seu dia?
—Foi bom. —Eu digo. —Como foi o seu?
—Não foi ruim.
—Soube que você não pode ficar hoje à noite.
—Não. Meu pai tem uma exposição de arte.
—Exposição de arte. Parece divertido. Se você gosta de arte.
—Digo com uma piscada. Eu sei que ela gosta de arte. Eu sei muitas
coisas sobre ela, e quero saber muito mais.
—Eu gosto de arte.
—Trouxe essas flores. Você pode fazer de conta que são para
a casa. —Então sussurro, quando aponto para o miolo da flor. —
Mas não são.
Ela arregala os olhos e seu queixo cai.
—Eu adorei.
—Eu também.
Ela pega o telefone para tirar uma foto do meio da margarida.
—Para minha coleção. —Ela acrescenta.
—Eu sei, K. —Digo, e ela morde os lábios quando a chamo
assim. Como se tivesse guardando dentro de si todas as coisas que
eu também guardo bem dentro de mim também.

36
Kennedy

Não quero me mover. Não quero que este momento acabe.


Meu coração ainda está agitado em meu peito porque ele chegou
cedo. Meu desejo para o universo se tornou realidade, e mesmo que
o tenha visto inúmeras vezes, não consigo tirar os olhos dele.
Seu cabelo castanho é grosso e despenteado, e ele está com a
barba por fazer. Tenho que manter minhas mãos atrás das costas
para não estender o braço e passar a mão pelo seu queixo, e então
pela linha do seu cabelo deixando-o deslizar entre meus dedos
enquanto acomodo meu corpo junto ao seu.
Eu resisto, me forçando a não me mexer para não ceder ao
que quero fazer.
Seus olhos azul-escuros brilham. Ele olha apenas para mim e
minha pele se aquece num instante. Ninguém nunca olhou para mim
como ele. Duvido que alguém vá olhar.
Noah Hayes é a pessoa mais linda que eu já vi. Por dentro e
por fora. De todos os modos. De vez em quando me pergunto
porque minha mãe nunca deu em cima dele. Considerando a
aparência dele e o apetite dela, ele seria uma presa óbvia. Mas tudo
que consigo pensar é que ela precisava de um homem que não fosse
descartável. E talvez seja por isso que ele seja o único homem que é
uma constante, porque ele é o único homem com quem minha mãe
não teve um caso. Ele é seu melhor amigo, seu confidente e, para
todos os efeitos, seu parceiro de negócios. Mais que isso, ela pensa
nele como seu filho. Sua mãe já se foi, então ela cuida dele. Ela o
ama de um jeito protetor.
O que torna a situação ainda mais confusa.

37
Nossos beijos roubados

Nossos lábios nem se tocaram em nosso primeiro


beijo. Você não estava nem presente.

Beijei uma foto que você me deu. Você me viu


várias vezes inclinada sobre meu telefone, vasculhando
fotos. Finalmente, você me perguntou o que eu estava
procurando uma noite quando estávamos sentados
frente à frente na minha sala de estar. Não tinha
ninguém por perto. Eles tinham saído para tomar
sorvete, e você estava lendo um roteiro. Você levantou os
olhos das páginas.

—Mensagens do namorado?

Você arqueou uma sobrancelha. Sua voz estava


carregada de curiosidade. Tanto que me deu esperança
que você estivesse torcendo para eu dizer não.

Balancei a cabeça e te mostrei meu telefone.

—Minha coleção de corações encontrados. —Eu


disse, e o meu próprio bateu contra o meu peito.
Mostrar a você algo que era importante para mim era
arriscado. Mas eu correria o risco.

—Encontrados onde?

—Na natureza. Na rua. Animais. Qualquer lugar.

38
—Eu disse e então observei enquanto você percorria o
aplicativo onde eu guardava as fotos que encontrava.
Um recife de corais na Austrália no formato de um
coração. Um desenho em giz numa calçada. Dois galhos
de árvore entrelaçados como um coração.

Você levantou os olhos da tela, os cantos de sua


boca se curvando num sorriso.

—Os galhos de árvore são novos. Acabei de


encontrar num blog e os adicionei. —Disse, com minha
voz seca.

—Você os encontra facilmente?

Dei de ombros. —Quando preciso.

—Por que você precisa?

—Eles me dão esperança.

—Eu me pergunto quando você encontrará o


próximo. —Você disse como se estivesse simplesmente
meditando sobre isso.

Alguns dias depois, assim que terminei de jantar


com meu pai, você me enviou uma foto. Eu abri a
mensagem com dedos trêmulos e esperançosos
simplesmente porque tinha seu nome.

—Encontrei isso para você. —Você escreveu e


anexou a foto de um cavalo marrom chocolate com
uma mancha branca no formato de um coração no

39
nariz.

Eu beijei a tela.

40
CAPÍTULO 05
Kennedy

Lane espera na Columbus Circle8. Ele está de bicicleta


também e não nos incomodamos em dizer oi, apenas nos
cumprimentamos com um aceno de cabeça e saímos em direção ao
centro, usando capacetes, prontos para a emoção de correr na hora
do rush e vencer os carros. Andar assim requer um foco supremo
para não ser morto, e ainda tem o bem-vindo benefício de manter
minha mente longe de toda situação confusa com o Noah.
Percorremos o tráfego no caminho para West Village para
chegarmos à mostra mais recente organizada pelo meu pai, uma
exposição de cartas de amor famosas dos maiores escritores da
história, dividindo espaço na parede com fotografias de homens,
mulheres, garotas e garotos escrevendo.
Logo chegamos ao nosso destino na West Village, um
quarteirão estreito com calçadas de paralelepípedo, galerias de arte e
cafés muito maneiros a cada poucos metros. É um daqueles
quarteirões de cinema, o tipo onde a heroína de comédia romântica
anda na rua à noite usando um tipo de saia de tule, saltos bonitinhos
e uma bolsinha de mão.
Prendemos nossas bicicletas em um poste. A corrida resolveu
o problema, meu cérebro hiperativo e coração rebelde se
concentram no aqui e agora enquanto observo o cenário.
Uma multidão de hipsters de trinta e poucos anos usando
jeans pretos e blusas desleixadas estão saindo da galeria para as
calçadas. Uma faixa na janela diz Letters Form The heart, o nome da
8
E uma rotatória na cidade de New York próxima ao Central Park batizada em homenagem ao
navegador europeu Cristóvão Colombo. É considerada a praça mais visitada de Manhattan depois
da Times Square

41
exposição, as fotografias estão à venda, as famosas cartas de amor
são um empréstimo e são a isca.
Noto um rosto familiar no final da rua, um sorriso torto e
bajulador que conheço bem, observando a multidão na galeria,
enquanto segura um café numa mesa do lado de fora. Meu coração
dá um salto. É o ex-parceiro do meu pai, Jay Fierstein. Minha mãe
se envolveu com ele no ano passado.
Franzo a testa.
—Esse é o cara que seu pai odeia?
Concordo. —Por muitas, muitas razões. O advogado dele
está atrás do advogado do meu pai sobre a divisão da empresa.
—O que ele está fazendo aqui? Espionando seu pai?
—Não me surpreenderia. —Digo, e então vejo meu pai lá
dentro, ouvindo um pequeno grupo de observadores curiosos
discutir o significado do desenho de uma garota segurando um
coração duas vezes o seu tamanho. Meu pai é um homem grisalho,
com um tufo de cabelo que mal cobre sua cabeça, como um
patinho. Aceno para ele, e depois mostro a Lane o original de uma
carta de amor que Zelda Fitzgerald escreveu para o seu marido, F.
Scott Fitzgerald.

Não há nada no mundo que eu queria, a não ser


você, e seu amor precioso. Todas as coisas materiais não
são nada. Eu odiaria viver uma existência sórdida e
sem cor, porque você logo me amaria menos, e menos, e
eu faria qualquer coisa, qualquer coisa, para manter
seu coração só para mim.

—É daí que vem sua inspiração para a famosa carta de amor? —

42
Lane pergunta.
—Famosa carta de amor não enviada. —Eu acrescento, feliz
por poder falar livremente com alguém. Lane é a única pessoa além
da minha psiquiatra para quem contei sobre o Noah. —Meu pai
estava trabalhando na organização desta exibição quando comecei a
escrevê-las. Eu deveria ter colocado a culpa nele, né?
—Totalmente. Os pais sempre merecem a culpa.
—Quero dizer, sério! Ele estava constantemente falando
sobre cartas de amor famosas, me mostrando cópias delas. O que
uma garota podia fazer?
—O que você fez, é claro. Escrever uma você mesma. —Ele
provoca.
Lane e eu terminamos de ler a carta.
—É uma carta linda, não acha?
—Ah, certamente. Especialmente se considerar que ela estava
completamente pirada e F. Scott era um cara super atraente, ele diz.
—Lane!
—Mas é verdade. Você é tão Sra. Apenas os Fatos, Por
Favor. Então deveria saber que a Zelda foi diagnosticada com
esquizofrenia e passou seus dias em um sanatório enquanto F. Scott
se acabava na bebida. —Ele diz enquanto uma garota de uns vinte
anos passa por nós e dá uma conferida no Lane dos pés à cabeça. É
quase impossível não fazer isso, porque sua aparência é espetacular.
O cabelo dele é castanho claro com mechas douradas. É volumoso e
grosso e convida seus dedos a passarem neles. Seus olhos são
castanhos, ou talvez verdes, ou às vezes castanho-claros. Não é que
mudam com o tempo ou seu humor. Olhos não mudam. Mas os
dele são simplesmente de várias cores e cada tom é sedutor. São
daqueles tipos de olhos que podem derreter uma mulher com um

43
único olhar.
—Você não é tão divertido. Você é um enorme desmancha-
prazeres. —Digo enquanto passeamos pelas outras cartas, lendo as
palavras de Franz Kafka para a mulher que ele amava: —As portas
estão fechadas, tudo está quieto, eu estou com você mais
uma vez. —E Hemingway para sua esposa: —Se alguma coisa
acontecesse com você, eu morreria como um animal
morreria num zoológico se algo acontecesse com sua
companheira.

Quando leio as palavras novamente, não posso me conter.


Minha mente retorna a ele, o efeito da corrida de bicicleta é lavado
pelas palavras e estou pensando mais uma vez no homem que não
consigo esquecer, o que me deu flores porque encontrou um coração
em uma delas. Posso ter que lidar com os fatos frios e cruéis sobre a
minha mãe nos meus cadernos, mas dentro de mim, em lugares que
ela não pode tocar, eu sei quem sou. Uma puritana. Uma amante do
amor. Eu amo cartas de amor, declarações de amor e momentos
verdadeiros e sinceros quando duas pessoas sabem que foram feitas
uma para a outra.
Talvez seja porque sei como isso é. Eu tive isso por seis
meses perfeitos com o Noah.
Sinto os braços do meu pai em volta de mim. —Que surpresa
te ver aqui. —Ele diz, brincando.
—Um choque total.
—Oi, Sr. Stanzlinger. —Lane estende a mão para meu pai
mesmo que eles tenham se encontrado muitas vezes.
—Bom te ver de novo, Lane. —Meu pai chega mais perto e
me diz. —Já vendemos dez fotografias. Então, sou demais. Diga.
Diga meu pai é o melhor consultor de arte do mundo.

44
—Você está me envergonhando. —Digo com um sorriso,
mesmo que ele não esteja e nunca estará. Seus clientes o amam, os
museus o amam. Ele tem uma reputação impecável. Por causa dele,
eu planejo estudar história da arte quando começar na Universidade
de New York em alguns meses.
Alguém o chama e eu observo enquanto ele se junta a outro
grupo de possíveis compradores, não posso evitar sentir um familiar
lampejo de pena dele. Ele é um homem de negócios extrovertido,
sagaz e esperto, mas ainda assim foi totalmente enganado pela
minha mãe. Algumas vezes, quero perguntar se ele já superou. Mas
como se supera esse tipo de traição? Todas as esposas de todos os
homens casados que minha mãe se envolveu superaram?
Eu não. Mantive todos seus segredos por anos, escrevi-os em
meus cadernos, menti por ela, menti com ela, até que não aguentei
mais a pressão.
E um dia contei tudo para meu pai.
Então fui eu que causei a separação dos meus pais três anos
atrás. Mas para qualquer um que acompanhe, eu realmente acabei
com o casamento deles há muitos anos atrás. Talvez eu mereça um
“A” em meu peito. Talvez um “A” duplo, por “Ajudar e
Acobertar”.
Eu paro em uma reprodução de uma das mais raras cartas de
amor de todos os tempos. Essa é do escritor Honoré de Balzac à
condessa casada, Hańska. —Não posso mais pensar em mais
nada a não ser você. —A carta é maravilhosa, mas vem de uma
situação que não posso tolerar: Um caso.
E é quando isso me atinge.
Redimir.
Posso me redimir por ter sido cúmplice dela.

45
***********

—Deixe-me entender. Você vai enviar cartas de amor para as


esposas dos homens com quem sua mãe teve casos?
Eu concordo e bebo o resto do meu café antes de explicar o
projeto de reparação que nasceu totalmente formado momentos
atrás.
—Sim e não. Não serão cartas de amor minhas. Serão mais
como cartas de perdão. Cartas anônimas. Como uma forma cármica
de reverter o dano. Já estou meio que me redimindo de ter mentido
para o meu pai todos esses anos apenas indo ao psiquiatra, então
agora posso me redimir pelo que fiz a todas as outras pessoas. Eu
posso dizer que sinto muito sem dizer: —Ei, sinto muito que minha
mãe fodeu seu marido e eu sabia e não fiz nada para parar isso.
—Mas você não podia impedir. —Lane salienta enquanto
inclina-se para frente na sua cadeira para enfatizar. Estamos na Dr.
Insomnia’s Tea and Coffee Emporium, na West Village, o melhor
café em todo o mundo, ou pelo menos em New York, que é o
mundo para mim. É meu mundo.
—Kennedy, você não entende? Sua mãe teve os casos. Ela te
pediu para mentir. Você não fez nada errado. Ela sim, e não havia
nada que você pudesse ter feito.
—Talvez eu pudesse ter dito alguma coisa antes que fosse
muito longe. —Digo baixinho enquanto olho para a xícara marrom
de café à minha frente. —Talvez se eu tivesse dito algo quando tudo
estava começando, ela poderia ter parado. Ou ele poderia tê-la
perdoado antes que ela fosse longe demais. Então essa é a minha
chance. Posso escrever cartas para as mulheres que ela enganou,
como se fosse um desejo de felicidade, uma esperança de mais amor
no mundo. Então quem sabe acrescentar um trecho de uma carta de

46
amor famosa.
—Soa meio como assédio.
—Não é assédio. É como se eu pusesse colocar o amor de
volta no mundo do qual foi levado. —Digo, as palavras agarrando
em minha garganta, mas eu engulo o caroço porque é hora de seguir
em frente de todas aquelas mentiras.
—Você está obcecada. —Ele diz, jogando suas mãos para
cima, sabendo que não vai me convencer do contrário. Ele levanta
uma sobrancelha, passando para um modo brincalhão. —No
entanto, não posso resistir a uma oportunidade de uma potencial
encrenca, então devo insistir em ajudar.
—Mas você não tem nada do que se redimir. —Eu digo, já
que Lane está em terapia por outras razões. O pai dele morreu há
dois anos.
—Eu sei que isso vai parecer meio louco e radical, mas eu
meio que acho que vai ser divertido. Você não vai privar um pobre
garoto órfão de pai de um pouco de diversão, vai? —Ele diz,
fazendo uma cara de cachorrinho sem dono.
—Pare com isso. —Eu digo, rindo, porque só o Lane poderia
pegar uma tragédia do seu passado e transformá-la em uma piada.
Ele soca o ar e depois estende sua mão para um aperto.
—Considere-me seu parceiro na reparação.
Passamos a hora seguinte tomando café, fazendo listas e
elaborando um plano de entrega de cartas de amor para compensar
minhas mentiras do passado. Os endereços não são difíceis de achar.
Umas poucas pesquisas no Google por registros de propriedades e
proprietários de casas revelam a maioria. Um número desconhecido
é insignificante na era da internet. Quando vamos embora, eu vou
de bicicleta até a casa da minha mãe. Talvez, apenas talvez,

47
conforme eu vou mandando as cartas de amor, eu possa restaurar
um pouco do amor que foi roubado.
A matéria não pode ser criada ou destruída, mas pode mudar
de forma, o ruim se torna bom, o errado começa a virar certo.
Como deveria ser.
Aperto os freios, empolgada quando vejo um homem de
camisa roxa andando em direção à Central Park West.

48
CAPÍTULO 06
Kennedy

Meus pais amavam cozinhar juntos. Era a coisa deles. Sua


ligação. Eles amavam cozinhar e amavam se divertir. Quando eu era
mais jovem, tínhamos uma casa onde os amigos apareciam nos
sábados à tarde, tomavam vinho e comiam queijo, azeitonas e doces.
Uma vez a amiga da minha mãe, Patrícia, veio com seu
marido e sua filha, Catey, que tinha a minha idade. Eu me dei bem
com a Catey e ficamos melhores amigas até o final do terceiro ano e
então até a maior parte do ensino médio. Fazíamos tudo juntas,
descobríamos novas músicas, ficamos menstruadas na mesma
época, e comprávamos roupas e maquiagem. Ambas ficamos
viciadas em cafés na mesma época também. Naquela época, eu
gostava mais de cafés com misturas e ornamentados enquanto a
Catey já tomava café.
—Sou tão durona. —Ela disse, depois de pedir um latte e eu
um Mocha chip Frappuccino em nossa primeira ida a cafeteria na
esquina.
—Vamos ver quem termina primeiro. —Eu disse enquanto a
máquina de expresso zumbia e chiava enquanto o barista fazia os
cafés.
—Não é justo. O seu é gelado. O meu é quente. É mais
difícil beber algo quente rápido. —Ela salientou, tirando o cabelo
loiro-claro do rosto.
—Sim, mas você está subestimando o potencial de um
congelamento cerebral me derrubar na batalha.
—Oh, bom argumento. —Ela disse e acrescentou creme ao

49
seu latte. —Isso vai me ajudar a equilibrar.
Bebemos nossos cafés. Rindo e lambendo espuma do mocha
de nossos lábios, e quando estávamos na metade, declaramos
empate e batemos nossas mãos.
—Devemos sempre nos certificar que as coisas terminem
empatadas. Daí nós duas ganhamos.
—Sempre. —Concordei.
Fomos amigas por muitos anos. Olhando para trás, é
impressionante que minha mãe tenha levado tanto tempo para dar
em cima do pai da Catey, o Adam. Mas sem dúvida ela o levou para
uma volta no expresso Jewel quando a Catey e eu tínhamos doze
anos. Ele era um historiador britânico, e ela queria ter certeza que o
tratamento final para Lords and Ladies atingisse o alvo. Tudo em
nome da eficiente pesquisa e veracidade histórica, o pai da Catey
começou a vir às tardes para ajudar minha mãe. Ele pegava a Catey
na escola e a trazia junto e nossa amizade se tornou seu disfarce.
Eles nos diziam para ficar no andar de cima, porque éramos
barulhentas naquela época, conversando e dançando, e que era
melhor ficarmos dentro do meu quarto com as portas fechadas para
que eles pudessem focar no ajuste do roteiro.
Mas uma vez, estávamos com fome e saímos do quarto,
descemos as escadas voando para a cozinha para pegar alguns
pretzels.
Quando cheguei no andar de baixo, fui saudada com o
gemido mais alto que já ouvi. Um descuidado, oh céus, que soou do
quarto da minha mãe. Meu rosto queimou enquanto a terrível trilha
sonora de sua busca para o prazer continuava. Um gemido rítmico
que acompanhava o bater da cabeceira e fez meu estomago torcer
em nós de vergonha.
Virei-me para a Catey, vermelho tingindo minhas bochechas.

50
—Hum, acho que nossos pais estão... —Mas não consegui terminar
a frase, então eu disse. —Não estou mais com fome.
—Nem eu. —Ela disse e subimos de volta, soldados
derrotados, batalha perdida por um ataque surpresa.
Ficamos em silêncio e fizemos nossa lição de casa quietas em
cantos opostos do meu quarto até que seu pai vestiu a camisa,
fechou as calças e pegou sua filha para ir para casa. Afinal, o que
você diz depois que você ouve sua mãe fodendo o pai da sua amiga
e vice-versa?
Nada. Você não diz nada.
Antes da próxima festa, minha mãe me puxou de lado e me
lembrou que a razão que Adam passava tanto tempo em casa era
para a pesquisa.
—Pesquisa, querida. Se seu pai perguntar, o Adam está aqui
para a pesquisa.
—Pesquisa. —Eu repeti.
—Boa garota. —Ela disse com um sorriso e um beijo e eu
sorri de volta. Porque isso era o que eu tinha que fazer. Guardar os
nomes dos homens que me diziam para ocultar do meu pai. Ficar
quieta, não mencionar, manter a calma e continuar. Eu não
mencionei. Para ninguém. Eu guardei todos os nomes dentro de
mim. Meu plano era fazer o mesmo com a Catey. Fazer de conta
que nunca aconteceu quando eu a visse. Nós poderíamos superar
isso e continuar sendo amigas. Eu tinha certeza. Tudo o que
tínhamos que fazer era acreditar que nada tinha acontecido. Era o
que minha mãe tinha me ensinado.
Mas a Catey não veio na próxima festa. Quando seus pais
apareceram, eles disseram que ela estava passando a noite na casa de
uma outra amiga.

51
Então aprendi que uma amizade podia morrer.
*
Eu vejo roxo e minha respiração trava. Eu bato os pés no
chão enquanto freio, então pulo da minha bicicleta, caminhando os
últimos metros até ele, do outro lado da rua do parque. Desabotoo
meu capacete e penduro no guidão.
—Você acabou de sair da minha casa?
Ele assente. —Vou encontrar uns amigos em Roseland para
ver uma banda.
—Não é uma banda de cabelo9 ou de hip-hop. —Digo,
referindo-me a uma de nossas piadas particulares.
Ele sorri. É um sorriso pequeno, um modesto
reconhecimento de nossos segredos compartilhados. Mas eu aceito.
—Definitivamente nenhum dos dois. E você? O que está
fazendo?
—Só arrumando problemas. —Digo, e encosto minha
bicicleta na cerca em volta do prédio que ele está em frente.
Ele ri e se afasta um pouco para encostar na grade perto da
minha bicicleta. Ele passa o dedo pela borracha do guidão, ainda
morna onde minhas mãos estavam segurando segundos atrás. Uma
faísca me atravessa, uma lembrança de todas as vezes que nós
tocamos algo que o outro tinha tocado, como parte de nossas
primeiras tentativas de aproximação. Não tiro os olhos dele. Eu o
estudo, mesmo que ele seja tão familiar para mim. A luz da lua toca
em seu rosto, iluminando metade dele. Maçãs do rosto fortes, barba
por fazer no queixo, o nariz que foi quebrado uma vez no jogo de
futebol. E os seus olhos, aqueles olhos azul-marinho que são como
tinta, ainda mais escuros agora que se aproxima da meia noite. O ar
9
Um conjunto ou banda musical dos anos oitenta que geralmente tinha como trunfo os penteados

52
está úmido e os sons de Manhattan nos rodeiam, carros, táxis,
vento, sirenes e o anonimato das multidões.
—Você. Arrumando encrencas. Não consigo imaginar isso
—Ele diz numa voz irônica, os cantos de seus lábios se curvando.
Chego mais perto. A corrente me atrai até ele, o ar entre nós
está carregado com íons e elétrons. Ele é o olho do meu furacão, a
calma que me atrai no meio do caos da minha casa. Aqui, só a um
quarteirão de distância, estamos bem perto de sermos pegos.
Mas estamos longe o suficiente para me sentir segura e
imprudente. É assim que sempre me senti com Noah.
—Você não consegue me imaginar arrumando encrencas?
Ele encolhe os ombros. —Depende da encrenca.
—Você sabe que eu sou encrenca.
Ele assente, o sorriso se apaga. —Eu sei, K. Eu sei. Acredite
em mim.
—Eu acredito em você. —Eu sussurro. —Em tudo.
Ele inala profundamente. O seu olhar diz que estamos
cruzando para uma zona perigosa novamente. É o único lugar que
quero estar com ele. Porque quando estamos lá, nada entre nós
parece perigoso. Tudo parece certo.
—Farei dezoito anos em poucas semanas. —Digo, como se
meu aniversário fosse um convite para nos atirarmos um no outro.
Ele assente.
—Eu sei.
Uma brisa sopra e mexe seu cabelo. Uma mecha sai do lugar.
O instinto fala mais alto. Ergo a mão para alcançar seu cabelo.
Mas ele é mais rápido. Ele segura meu pulso e no segundo

53
que ele faz, o momento se expande. Estende-se e se desenrola
naquilo que vou repassar hoje à noite e amanhã e no dia seguinte.
Eu olho para sua mão segurando meu pulso, voltando no tempo
para todas as vezes que ele segurou minha mão, tocou meu pulso e
passou seus dedos ao longo do meu braço. Eu me arrepio quando as
lembranças colidem, o passado batendo contra o presente.
Eu olho de nossas mãos para seus olhos. Ardente, cheios de
calor. Cheios de toda sua contenção que conheço tão bem.
—Estou quase saindo do ensino médio. —Sussurro. —Mais
três semanas e me formo.
Ele fecha os olhos. A expressão em seus olhos é de dor. Eu
deveria ficar longe. Mas tudo o que eu quero é estar perto
novamente.
—Estou perfeitamente ciente das datas. De tudo. —Ele diz
com os dentes cerrados. Ele abre os olhos. —Eu sei tudo sobre
você. Eu sei quando você se forma. Eu sei quando você faz dezoito
anos. Eu sei o que planejamos. Eu conheço você. —Tudo isso sai
como se fossem pedras de sua boca, difícil e dolorido. Exceto a
última palavra, toda respiração, calor e sussurro. Um eco. —Você.
Eu quero tudo de volta, quero dizer. Mas não digo. Deixo-o
soltar minha mão. Dói onde ele a tocou.

Nossos beijos roubados

Dizem que a gente nunca esquece nosso primeiro


beijo e eu nunca vou esquecer, mas nosso quinto beijo
também foi espetacular, não foi? Você se lembra de

54
onde estávamos? Foi na Jane Street. Você pegou minha
mão e me levou até um pequeno pátio do lado de fora
do prédio. Você colocou suas mãos nas minhas
bochechas e eu praticamente derreti só pela sensação de
você segurar meu rosto. Mas foi o jeito que você olhou
para mim que me fez disparar. Me senti como a única
para sempre. É quem eu quero ser, com você.

Então você sussurrou com uma voz mais baixa:

—Você.

Foi tudo o que você disse, mas eu sabia tudo o que


você queria dizer. Também senti.

Você.

55
CAPÍTULO 07
Kennedy

Noah começou como uma paixonite.


Ele foi o primeiro a me visitar no hospital quando quebrei
meu pé num acidente de skate no nono ano.
Eu ainda estava atordoada por ouvir a briga épica dos meus
pais que eles tiveram pelo telefone no início daquele dia. Eles
estavam brigando pela minha custódia. Chega, eu pensei. Simplesmente
chega. Eu peguei meu skate, bati a porta, desci as escadas e joguei o
skate na calçada.
Eu andei por um quarteirão ou dois no concreto liso e então
pulei do meio-fio e entrei na faixa de pedestre sem olhar. Voei para
o sul da Broadway, espremendo meu corpo e o skate entre os carros
estacionados, os táxis, os ônibus e caminhões buzinando pela
cidade. Eu estava veloz e furiosa. Eu queria velocidade e queria
distância. Não havia mais casa e não havia mais mãe e pai, não havia
mais vida normal, mas nunca houve uma vida normal de qualquer
modo, e isso era o único normal que havia, eu e as ruas de New
York enquanto desviava dos pedregulhos que o tráfego me atirava.
Era eu contra os carros, eu contra a hora do rush e eu queria vencer.
Então alguém em um táxi abriu uma porta e eu não vi. A porta
bateu no meu cotovelo e a próxima coisa que senti foi o skate
escorregando e meu pé batendo no pneu.
Eu liguei para meus pais quando os paramédicos chegaram,
mas nenhum dos dois atendeu, meu pai estava num evento no
museu e minha mãe estava tendo uma tarde de prazer. O único
outro número que me lembrei na hora foi o de Noah.

56
Ele me encontrou no hospital e nem piscou quando viu meu
pé machucado. Logo fui para cirurgia e na hora que acordei meus
pais estavam lá e o Noah tinha ido embora. Mas ele voltou para me
visitar, ele era como um membro da família, ou, pelo menos, um
bom amigo da família. Ele era o agente da minha mãe há dois anos
então ele estava sempre em casa e vinha para as festas dos meus
pais. Nos víamos fora de casa também, em eventos de Lords and
Ladies, em festas da LGO e jantares de comemoração sempre
quando ele assinava novos termos ou um novo contrato de
distribuição para o programa de TV da minha mãe. Eu falei com ele
bastante nestes anos, mas raramente ficávamos só nós dois. Agora
estávamos.
Ele também era atleta, pelo menos foi. Ele estava sentado a
poucos metros da minha cama de hospital, numa cadeira comum de
hospital, e me divertia com histórias de todos os ossos que ele
quebrou quando era mais jovem. Ele mexeu três dedos na mão
direita. —Estes três quebraram quando o center 10pisou neles durante
o treino no segundo colegial.
—Você era quarterback11?
—Não. Wide receiver12.
—Como é que o center quebrou sua mão então?
—Foi num daqueles grandes empilhamentos de jogadores de
futebol em um treino. —Ele disse.
—Você era um bom jogador?
Ele sorriu irônico.
—O que você acha?
Eu assenti minha resposta.
10
Posição de linha ofensiva no futebol americano
11
Posição de liderança no futebol americano.
12
Posição ofensiva no futebol americano.

57
Ele assentiu de volta.
—Quantos passes você pegou?
—Tantos que eles tiveram que fazer um livro de recordes
extra para Pop Warner em Hoboken, New Jersey.
—Tá, até parece!
Ele piscou e então sussurrou.
—Não conte para ninguém que não consigo lembrar os
recordes dos meus dias de glória.
—Tá. Faz muito tempo. —Brinquei.
—E aí eu quebrei a patela dois anos depois. —Ele disse,
recontando lesões do ensino médio.
—E como você conseguiu isso?
—Jogando futebol. Eu pisei errado com o pé enquanto
virava para tentar fazer um gol e então quebrou. Cara, senti como se
tivesse descido até o tornozelo.
—Sério?
Ele bateu no lado da sua panturrilha sobre as calças pretas
para me mostrar onde sua patela caiu. Ele vestia sua roupa de agente
aquele dia: calças pretas, sapatos de couro marrom, e uma camisa
azul-marinho.
—Sim. Minha patela caiu uns cinco centímetros para fora do
joelho.
Meus olhos arregalaram enquanto eu cobria a boca com
minha mão.
—É como quando o queixo de um personagem de desenho
animado cai no chão ou algo assim.

58
—Foi exatamente assim. Só que doeu de verdade, algo como
vinte mil vezes pior do que se eu fosse um desenho animado.
—E o que mais? —Perguntei, ansiosa por mais histórias de
seus ossos quebrados que não só desviou minha atenção dos meus,
mas também da minha família desajustada.

Noah

Cruzei as pernas e recostei na cadeira do hospital, feliz por


entretê-la com histórias de não muito tempo atrás. Era um dia raro
quando eu podia conversar sobre alguma coisa além de negócios. A
chance de distrair uma amiga de uma lesão – porque ela era uma
amiga, por mais estranho que isso pudesse parecer para alguém de
fora, ela foi sempre uma amiga primeiro – era algo que eu faria com
satisfação.
—Vejamos. Houve uma vez, quando eu tinha dezessete anos,
que desloquei meu ombro numa jogada tripla.
—Como? Jogou muito forte?
—Esse sou eu, todo força bruta. —Falei secamente.
—Sério. —Ela disse, estreitando seus olhos para mim.
—Eu era o homem da terceira base. Eu expulsei o corredor
na terceira e joguei muito forte para a segunda.
—Mas você o pegou, certo?
—Droga, sim. Primeiro a glória. —Disse, como se fosse o

59
lema do meu time. Mas havia um orgulho sob minha zombaria, e ela
assentiu compreensiva. Ela também era boa em esportes, treinava
duro e eles eram importantes para ela. O mesmo acontecia comigo.
—Você aguentou firme durante a jogada, e então você
mancou até sair do campo segurando seu ombro, enquanto seus
colegas aplaudiam?
—Algo assim. Mas perdemos o jogo, então, no fim, foi
irrelevante.
—Foi isso tudo o que fez enquanto crescia? Praticou
esportes? —Ela perguntou.
Eu ri e balancei a cabeça.
—Não foi tudo o que fiz, mas eu era bom em esportes. Além
disso, acho que minha mãe queria equilibrar com os shows, cabarés
e drag queens com quem eu cresci. Você sabe, me dar um senso
pleno do mundo.
Criado por uma mãe solteira do ramo de atuação, eu cresci na
Broadway e Off-Broadway, em clubes noturnos e cabarés. Eu
conhecia o plano esquerdo e direito13 antes que eu soubesse o que
era direita e esquerda. Minha mãe era do coro. Ela nunca ganhou
muito dinheiro. Ela conseguia com seus pequenos papéis apenas o
suficiente para a gente se virar. Entre seus trabalhos da Broadway,
ela cantava em clubes noturnos por cem dólares, sua voz potente e
chamativa reverberando pelas paredes do cabaré e bares noturnos de
Manhattan. Ela me levava para todos os lugares, me carregava para
todas as suas audições quando eu era um garoto, me levava pela
mão aos seus ensaios quando eu estava no ensino fundamental, me
levava para o Sardi’s14 entre suas matinês e apresentações noturnas
às quartas e sábados.

13
Divisões em um palco de teatro para melhor determina a localização e movimentos dos atores.
14
Famoso restaurante de New York Conhecida pelas centenas de caricaturas de celebridades do show
business que adornam suas paredes.

60
Eu era um acessório da cena da Broadway e me tornei um
garoto popular no teatro. Os mesmos atores com quem eu convivia
iam com minha mãe aos meus jogos, torcendo por mim no futebol e
baseball com os gritos e berros mais altos. Talvez por isso conversar
com ela sobre seu pé quebrado e as memórias dos dias de escola me
fez sentir mais perto do normal do que tinha me sentido há muito
tempo.
—Você vai assinar meu gesso? —Ela apontou para o pé com
a cabeça.
—Achei que nunca me pediria. —Eu disse, e peguei a caneta
que ela deixou no pé da cama. Seus amigos mais próximos já haviam
preenchido a maior parte do gesso com suas assinaturas coloridas e
mirabolantes e corações vermelhos.
—Hmmm. Não sobrou muito espaço. —Eu disse, avaliando
seu pé e a nova embalagem.
—Perto dos dedos. Tem um espacinho perto deles. —Ela
disse, apontando para o final do gesso.
—Lindos dedos. —Eu disse com uma risada, quando percebi
seu esmalte. Seus dedos do pé estavam verde brilhante e roxo
brilhante, alternando cada cor nos dedos.
—Minha amiga Amanda os chama de dedos Skittles15.
—Vou assinar aqui embaixo destes dedos Skittles então. —
Eu disse e então fiz minha assinatura perto das suas unhas do pé
coloridas como balas.
Eu não tenho fetiche por pés. Certamente não me apaixonei
por ela pelos seus dedos dos pés. Romance nem passou pela minha
cabeça.

15
Skittles é uma marca de doces com sabor de frutas, atualmente produzido e comercializado pela Wm.
Wrigley Jr. Company, uma divisão da Mars, Inc.. Eles têm cascas duras de açúcar que carregam a letra S.

61
Eu só gostava de conversar com ela. Eu não tinha ideia que
três anos depois ela se tornaria o centro do meu universo.

62
CAPÍTULO 08
Kennedy

—Você acha que o Sr. Lipshitz vai lembrar de você se a vir?


—Lane pergunta, acentuando o nome do antigo amante da minha
mãe enquanto atravessávamos um quarteirão silencioso em East
Seventies, circulando casualmente pelos sobrados de arenito
marrom e prédios com belas escadas.
—Provavelmente. —Digo com um gemido enquanto
procuramos pela casa da esposa do homem com o pior sobrenome
do mundo. —Foi há quatro ou cinco anos atrás, mas tive que ir
jantar com o Sr. Lipshitz16 uma ou duas vezes. Minha mãe até fez
suas famosas costeletas de porco uma vez quando estávamos só nós
três na mesa. Foi nojento.
—E isso não ofendeu suas sensibilidades vegetarianas?
—Ela me fez um sanduíche de pasta de amendoim e mel.
—Digo numa voz mortificada, como se a escolha de comida fosse
importante.
—Épico. Amo essas coisas, especialmente quando estão
torradas.
—Não há outro modo de comê-las a não ser torradas. —Eu
falo. —De qualquer modo, a esposa também me conhece. Eles
vieram a uma das festas dos meus pais alguns anos atrás. Minha
mãe convidou os dois, mesmo ainda estando no meio do caso com
ele. Eu até telefonei para a esposa para confirmar que eles vinham.
Eu acho que minhas instruções para a noite da festa foram: aja como
se você nunca o tivesse visto antes.
16
O nome soa como “lábios de merda”

63
—E foi o que você fez? Bancou a atriz?
—Você viu o Oscar no meu escritório, certo?
Ele dá um risada sem graça.
—O que seu pai disse? Ele suspeitou de algo?
Eu meneio a cabeça quando chegamos na calçada, lembrando
como me senti horrível naquela noite, como meu estômago fez um
nó enquanto eu mantinha a mentira.
—Nem se tocou. Nunca se tocou. —Digo enquanto
colocamos nossas bicicletas na calçada e as trancamos. Pego um
envelope da minha mochila e mostro para Lane. Não há endereço
de remetente nele, mas o nome de Doreen Lipshitz está na frente.
Ela mora na esquina, no sobrado de arenito marrom com a
jardineira verde na janela.
—Que sorte que esse quarteirão também tem uma caixa de
correio. —Lane aponta para uma caixa de correio azul a seis metros
de distância. —Porque é claro que você não podia enviar isso de
nenhum outro lugar na cidade. —Ele brinca.
—É um ritual. —Eu caminho até a caixa de correio, mas
antes de abri-la, uma certa preocupação me perturba. —Acho que
isso pode ser meio louco. Eu não deveria fazer isso. Eu deveria
apenas deixá-la em paz.
—O que você disse na carta?
—Só que eu desejo que ela seja feliz e seja rodeada de amor.
—Digo em voz baixa, me sentindo pequena. Por que ela se
importaria? Eu sou só uma garota de dezessete anos tentando achar
uma direção em sua vida bagunçada.
—E ela sabe o que aconteceu? —Assinto, a lembrança do
caso de minha mãe é tão fresca que está em alta definição. Meu
estômago revira quando as imagens daquele dia passam em minha

64
cabeça. Depois que o Sr. Lipshitz foi pego por sua esposa, Doreen,
minha mãe ficou mal por uma semana. Meu pai estava na Itália,
então minha mãe tinha carta branca para ficar deprimida, chorosa e
comer só bolachas água e sal. Eu levei livros para ela ler, fiz
sanduíches e disse que tudo ia melhorar quando ela disse que estava
triste porque tinha perdido um amigo. Ela me deixou cuidar dela,
me deixou abraçá-la e assistir seriados antigos na TV.
Estávamos ambas fingindo. Ela fingia que estava triste por
um amigo. E eu fingia que acreditava.
Eu tento afastar essas memórias para longe para que elas não
me aprisionem mais.
—Sim, sua esposa sabe. Ela o pegou mandando um e-mail
para minha mãe.
—Então o que você está fazendo é pedir desculpas de
maneira indireta. Você não está esfregando na cara dela nada que ela
não soubesse antes.
—Certo. —Digo com um aceno, me tranquilizando. —Além
do que minha carta é anônima. Eu só quero fazê-la se sentir feliz.
Lane sorri e envolve um braço no meu ombro.
—Você é uma boa pessoa, minha amiga.
Seu braço é quente e reconfortante, e é suficiente para me dar
coragem para fazer isso. Eu engulo em seco, abro a tampa da caixa
de correio e coloco a carta lá dentro, respirando fundo quando a
tampa se fecha com um estrondo.
É assim que reverto o dano.
—Ah, estou tão orgulhoso de você, minha pequena
Kennedy. Crescendo agora e fazendo reparações. —Ele brinca.
Eu bato nele.

65
—Cala a boca!
—Agora, minha vez de jogar. —Ele diz, batendo em sua
mochila. —Eu te falei que seria seu parceiro nas reparações. Já que
você está enviando cartas a certas pessoas, pensei que deveríamos
deixar cartas de amor pela cidade também, para qualquer um. Assim
como algumas pessoas deixam folhetos para uma campanha ou
causa? Eles colam no metrô, em letreiros e grades. Faremos o
mesmo. É como arte encontrada. Só que amor encontrado. Somos
cupidos, mais ou menos, num sentido cósmico e mais abrangente.
—Ele enfia a mão lá dentro e me entrega vários pedaços de papel.
Ele imprimiu cópias da carta de amor de F. Scott Fitzgerald, aquela
da esposa louca do escritor bêbado.
—Adoro tudo da sua ideia e também acho que você é louco,
—Digo, com admiração, enquanto ele me passa tachinhas de um
recipiente de plástico do bolso da sua mochila.
—Eu sei. —Ele diz, e seus olhos se iluminam com
entusiasmo. Agora estão verde brilhantes, parece. —Vamos fazer
isso. Vamos fazer arte pública.
É como um gole de champanhe, sua empolgação é
contagiante e eu também sinto. Corremos, olhando atrás de nós, na
nossa frente, do lado, nos certificando que não sejamos pegos por
quem quer que seja que pegue as pessoas que fazem o que estamos
fazendo.
Executamos nossa primeira missão como praticantes
improvisados de amor encontrado, pendurando a dúzia de cópias da
carta nos marcos de várias portas no quarteirão do Sr. e Sra.
Lipshitz. Uma mulher mais velha que está caminhando com um
cachorro pug de coleira rosa, nos olha com curiosidade. Meu
coração bate mais forte de preocupação, mas a mulher não diz nada
quando passa por nós deixando as mensagens de amor.
Encontrei o amor. O amor em cartas. Amor de um estranho.

66
Amor na rua. Mensagens de amor por todo lado. E respiro no ar,
imprimo nas paredes, espalho minhas esperanças e sonhos de como
as coisas poderiam ser pelas ruas da cidade.
Olho para nosso trabalho, cada pedaço de papel de cor
marfim, enrolando nas pontas como um pergaminho, e então as
palavras em letra cursiva, letras com fossem de outro século. Eu não
sei quem as verá, mas a possibilidade de que alguém vai parar e ler e
se dar conta que eles também estão rodeados de amor por apenas
um momento aqui nesta cidade de milhões de pessoas, liberta um
pouco da dor de dentro de mim.
Eu poderia me acostumar com esse sentimento. Apoiada pela
luz dentro de mim, jogo meus braços em volta de Lane e abraço
apertado.
—Obrigada. —Sussurro.
—Pelo quê? —Sua voz está nervosa, preocupada.
—Por ser meu amigo. —Digo, enquanto me afasto dos seus
braços.
Ele balança uma mão no ar como se dissesse que não é
grande coisa.
—A coisa mais fácil que já fiz. —Ele diz.
Mas é mais do que fácil, é vital esta amizade. Ninguém mais
conhece os segredos da minha família, ou toda a vergonha dela, ou
toda a culpa da minha família. E ninguém mais sabe quanto eu
quero consertar todos os erros que eu cometi minha vida toda.
E nesse momento, sua amizade é ainda melhor do que uma
paixão.
*
Depois que deixamos a primeira carta, me dirijo para a casa

67
do meu pai. Ele está fazendo um risoto de cogumelos que tem um
cheiro delicioso. Estou tentada a perguntar se ele sente falta de
cozinhar com minha mãe, rindo na cozinha com ela, e beijando-a
em sua nuca enquanto ela arrumava os queijos gouda e brie no
prato. Eu quero perguntar se ele gostaria que eu nunca tivesse dito o
que ela fez, se ele gostaria de voltar para aquele estado feliz e
ignorante em que ele estava vivendo para que pudéssemos estar
todos juntos novamente.
Estou morrendo de vontade de saber se arruinei cozinhar
para ele.
Ele estava fazendo macarrão à primavera na noite que contei
para ele.
—Mamãe está tendo um outro caso e não é a primeira vez
que ela está te enganando. A mamãe tem casos desde que eu tinha
nove ou dez anos de idade e ela traz homens para casa o tempo
todo que você não está e ela faz de tudo com eles. —Eu comecei e
então continuei sem parar. Ele parou de mexer, e parou de se
mover. Seu rosto ficou branco como papel, seus olhos vidrados.
Logo a água fervendo transbordou da panela, caindo no
fogão. Ele não se mexeu, então peguei um pano, desliguei e limpei o
fogão e disse que sentia muito um milhão de vezes. Ele saiu do
transe e disse que não era minha culpa, nada era minha culpa, que eu
nunca deveria me arrepender de ter contado para ele. Então ele
ligou para a pizzaria da rua, pediu uma de queijo e nós comemos
tudo.
De manhã, eu encontrei a caixa esfaqueada várias vezes.
Agora, enquanto ele termina o risoto e serve nos pratos, não
posso deixar de imaginar se cozinhar é uma lembrança amarga da
minha mãe. Mas não quero mexer em lembranças dolorosas.
—Como está indo à exposição das cartas de amor? —

68
Pergunto quando ele senta-se com os pratos e empurro minha tarefa
de cálculo para o lado da sua mesa de jantar de carvalho marrom
escuro, uma mesa nova, porque este lugar é ainda relativamente
novo. Estamos no seu apartamento, minha outra casa. No quinto
andar de um prédio sem elevador em Greenwich Village, com
janelas com vista para uma rua tranquila. Há apenas uma pequena
visão do rio Hudson e New Jersey, se você colocar o rosto o mais
próximo possível da quina da janela. É confortável à sua própria
maneira, com tijolos a vista e arte exposta nas paredes, a maioria
impressão dos favoritos do meu pai, trabalhos de Édouard Manet e
Willem Claesz Heda, Francesco Hayez e Roy Lichtenstein, mas
também originais de artistas mais novos, como um daqueles das
fotografias da sua exposição.
—Está indo muito bem. —Ele diz com um sorriso e então
dá uma mordida na sua criação culinária. Ele assente várias vezes,
satisfeito com sua competência na cozinha. —Você deveria
conhecer a fotógrafa por trás daquela. —Ele diz, apontando para a
foto que ele comprou. —Ela é realmente fantástica. Dezenove anos,
uma estudante de arte da NYU, muito talentosa e fácil de conversar.
Seu nome é Amy Vaughn.
—Está caído por ela?
Ele faz de conta que vai rir. Então fica sério.
—Espero que você saiba que eu não paqueraria alguém tão
mais jovem do que eu. Porque você sabe como eu me sinto sobre
isso.
—Pai, relaxe. Eu estava só brincando.
—Mas eu estou falando sério. Não é apropriado para um
homem da minha idade sair com uma garota de faculdade.
—Obviamente. —Digo rapidamente.
Seu rosto fica vermelho e ele limpa a garganta.

69
—Eu não quis dizer desse jeito, Kennedy. Eu quero dizer,
em geral, há uma faixa de idade aceitável para as pessoas
namorarem.
—Mas e aí? Está saindo com alguém? —Digo, tentando sair
do tópico perigoso da idade.
—Não acho que seja a questão aqui.
—Oh, não percebi que estávamos discutindo questões agora.
Achei que estivéssemos discutindo arte.
—E de algum modo virou, então vamos continuar. —Ele
diz, e eu me preparo. Mas sua pergunta me surpreende. —Como
estão indo as coisas na sua terapia?
Abaixo meu garfo.
—Sério? Você realmente quer que eu te conte como vão as
coisas com a minha psiquiatra?
Ele também para de comer.
—Sim, realmente. Não tem que me dar os detalhes. Eu
entendo que é pessoal o que você conversa com ela. Mas está indo
bem? Está te ajudando? Porque eu só quero que você seja feliz na
vida. Quero que você tenha o tipo de felicidade que eu e sua mãe
nunca tivemos.
Eu tinha esse tipo de felicidade.
Apenas não posso dizer isso porque então estaria inventando
mais mentiras. Mas ele é meu pai. Ele é o único com quem posso ao
menos tentar ser honesta.
—Ok, se você quer sinceridade, aqui vai. Aqui está o que
estou conseguindo conversando com a Caroline. Estou aprendendo
como seguir adiante depois do que eu fiz. Porque eu fui conivente
nos casos dela. Por mentir e acobertá-la, e dizer que fulano é só um

70
amigo e sicrano veio só para o jantar. Arrependo-me de ter mentido por
ela. Sinto muito ter ferido você por nunca ter dito nada para ela, por
nunca ter dito para ela parar. —Meu pai cobre sua boca com a mão
e parece que vai chorar. —Pai, o que eu falei de errado?
Ele balança a cabeça e fala suavemente.
—Você não fez nada errado, Kennedy. Não agora. Não
antes. Você tem que saber isso. Nunca foi erro seu. Por favor, não
se culpe.
—Sou um bom saco de pancadas para mim mesma, no
entanto. —Digo, passando para piadas e sarcasmo, porque é um
terreno confortável para mim. Faço de conta que soco meus braços.
Ele não se abala com minha tentativa de humor. Ele se
mantém muito sério.
—Estou falando sério, Kennedy. Sua mãe tem que viver com
o que ela fez. Não é sua culpa.
Mas eu não acho que ela esteja vivendo com isso. E já que
estamos colocando tudo na mesa, decido perguntar para ele algo que
eu sempre quis saber.
—Por que você nunca disse à mamãe que você sabia dos
casos dela? Depois que você a deixou? Por que não disse a ela que
você sabia?
—Porque. —Ele diz suavemente, repetindo. Ele exala
profundamente. —Porque. Porque se eu dissesse então sempre
estaria lá, sempre existiria, sempre teríamos consciência disso toda
vez que conversássemos sobre você ou qualquer coisa. E eu não
queria ter que pensar nisso toda vez que falasse com ela. Eu não
quero ter isso na minha frente o tempo todo. Queria que ficasse
para trás.
—Autopreservação. —Digo.

71
Ele assente.
—Sim, eu suponho que foi autopreservação.
—Pai, tenho idade suficiente para saber o que é o amor
verdadeiro. Sou o oposto dela. Você tem que saber isso.
—Eu sei, querida. Eu sei que é.
—Então por que se preocupa tanto comigo?
—Porque você é jovem, Kennedy. Porque você é muito
jovem para sentir-se desse jeito por alguém. E especialmente porque
você sabe como eu me sinto sobre ele. —Ele diz, e há uma dureza
em seus olhos castanhos normalmente calorosos, um brilho duro
que me diz exatamente como ele se sentiria se ele soubesse o quanto
eu quero o Noah de volta.
Quando vou para a cama, está tudo quieto. Nunca tenho que
me preocupar em ouvir meu pai fazendo sexo. Posso dormir em paz
e mesmo ansiando por Noah, por uma mensagem, por uma foto,
não é tão necessário para minha saúde ou sanidade como é quando
estou na minha mãe. Enfio meu telefone embaixo da cama para não
me sentir tentada a pegá-lo, para não ficar seduzida por este
sentimento fácil, pacífico. Ficar longe dele é minha forma de me
redimir com meu pai.
Depois que ele descobriu as partes da carta, ele enlouqueceu
ao nono grau. Eu não tinha escolha a não ser inventar um bando de
histórias sobre a carta, tantas que eu estava dançando perigosamente
perto do limite da loucura. Eu tinha que terminar com o Noah. Eu
não queria ser uma outra fonte de estresse para meu pai. Era o
mínimo que eu podia fazer pelo meu pai, considerando tudo o que
ele fez por mim. A maior coisa que ele fez foi ser apenas um pai
normal, um pai normal que não pede para sua filha manter seus
segredos.
Eu ainda tenho uma cópia da carta, uma crônica dos meus

72
chamados “21 beijos roubados”. Eu a mantenho num cofre para
que ninguém possa jamais vê-la. É a única coisa na caixa, porque é a
única coisa que eu tenho que é inestimável para mim.
Enrolo os lençóis em volta de mim mais uma vez. Talvez eu
deva apenas recomeçar. Talvez eu deva apenas sair com garotos da
minha idade. É isso que o meu pai quer, e ele é o único que é
remotamente normal das duas pessoas que passaram seus genes para
mim.
Mas realmente, o que é ser normal? Esta é a cidade de New
York. Ninguém é normal mais.

73
CAPÍTULO 09
Noah

Depois de algumas rodadas de aperitivos, que consistiam em


queijo ricota embrulhado em figo e copinhos de polenta com
pimenta doce e uma conversa dolorosamente detalhada sobre o que
vem por aí em Lords and Ladies com minha acompanhante, Jenna,
que trabalha num programa de entrevistas noturno, percebo uma
oportunidade com o Tremaine. Ele foi até o bar enquanto sua
esposa seguia pelo corredor até o banheiro. Estamos no The
Modern, o restaurante que tem vista para o jardim de esculturas no
Museum of Modern Art17.
O criador de programas de TV, de cabelos grisalhos, mostra
dois dedos para conseguir a atenção do barman. Peço licença para a
Jenna e me junto ao homem que meu chefe quer que eu agarre.
—David Tremaine. —Digo, estendendo a mão. —Noah
Hayes. Eu quis dizer olá porque sempre admirei o seu trabalho. Eu
acho que você foi um dos primeiros a realmente zombar do
universo dos hipster do Brooklyn antes disso se tornar um alvo para
todos.
Ele levanta uma sobrancelha espessa. Sua expressão é
relutante, mas satisfeita. —Você lê meus comentários do New York
Press?
—Claro. Posso ver como eles influenciaram seus programas
de TV. Seu senso de humor negro era evidente nestas colunas. Eu
os li enquanto crescia. —Digo, me referindo aos comentários que
ele escreveu para o jornal bem antes de ele começar a escrever para
17
Museum of Modern Art - MoMA

74
a telinha. Ele era um colunista de humor há muitos anos, e algumas
vezes quando minha mãe ia em audições ela me deixava na
biblioteca próxima por uma hora e eu ficava lendo as colunas do
Tremaine.
—Ninguém nunca notou que eu escrevia para o New York
Press. —Ele diz, enquanto pega sua vodca com tônica do barman e
joga uma nota verde sobre o balcão em laca preta. —Ou que aqueles
hipsters do Brooklyn precisavam ser ridicularizados.
Eu dou risada.
—Eles precisam. E a maioria das pessoas não nota porque
pensa que os escritores de TV nascem daquele jeito. Completamente
formados e escrevendo em diálogo. Mas a maioria aprende a
profissão fazendo outra coisa.
Seus olhos se iluminam.
—Exatamente. Todo mundo começou em algum lugar que
não gosta de lembrar. Jornalismo. Escrevendo discursos. Mesmo
comunicados de imprensa. Mas, ei, eu tenho sorte de saber escrever,
certo? —Ele diz, seu comentário uma lembrança de que Tremaine
está aqui neste evento de caridade porque ele é um grande defensor
dos esforços de alfabetização. Ele cresceu com uma mãe que era
professora e era voluntária regular para ensinar adultos carentes a ler
e escrever.
—Nós todos temos sorte por conta disso, e eu tenho sorte
que o New York Press tenha te contratado porque suas colunas me
faziam rir. Elas me fizeram rir quando eu precisava rir. —Digo
assim que sua esposa chega, entrelaçando seu braço com o dele e
sorrindo. Um garçom passa e oferece atum servido sobre uma
batatinha chips. Eu balanço a cabeça dizendo não.
Tremaine levanta seu queixo para mim.
—Noah Hayes, você disse?

75
Concordo.
—Você é um agente, não é?
—Sim, e posso ver que está ocupado. Foi um prazer
conhecê-lo.
—Espere. Você não vai tentar... —Ele diz, deixando sua voz
sumir.
—Te bajular? —Pergunto levantando uma sobrancelha.
Ele assente e sua esposa ri. Ele coloca um braço em volta da
cintura dela e dá um beijo na sua bochecha.
—Sim, estamos acostumados a agentes bajulando meu
marido. —Ela diz, entrando na conversa.
—Você quer? Que eu te bajule?
—Estou apenas surpreso que você não tentou. —Ele
acrescenta, um tom de satisfação em sua voz.
—Que bom. Eu acho bom quando podemos surpreender os
outros num negócio onde resta pouco disso. Vou deixar assim.
Tenho sido um fã seu desde sempre. —Digo e então saio.
Um cara como o Tremaine não está procurando um agente
como os outros. Tenho que deixá-lo querendo mais.
Encontro minha acompanhante, sentindo um momento de
irritação quando vejo Jenna e não Kennedy. Não é culpa da Jenna
que ela não seja quem eu quero, nem é seu problema que, do nada,
uma saudade profunda e solitária me atinja, e eu queira sair
sorrateiramente para ver a Kennedy no parque. Inferno, eu me
contentaria em trombar com ela na rua como na outra noite.
Eu queria que ela dissesse que está pronta.
Mas não vou pressioná-la. Não posso. Ela tem o que ela

76
precisa agora, mesmo que ela seja a única pessoa que alguma vez
verdadeiramente precisou de mim. E veja, não que eu tenha uma
queda por garotinhas. Já sai com várias da minha idade. Houve
minha colega de faculdade Sandy, e a baterista sexy Hayley que o
Matthew me apresentou, e então a publicitária, Mica, no ano
passado, aquela que o Jonathan pensou que eu ainda estivesse
namorando, mesmo que eu tenha terminado com ela quando
comecei a me apaixonar perdidamente pela garota por quem eu não
deveria me apaixonar.
Logo eu e a Jenna saímos do MoMA. Enquanto a levo para
casa, ela pigarreia e diz:
—Então, eu estava pensando... —E eu posso quase adivinhar
o vem que em seguida. —Se eu posso te mostrar umas modificações
no roteiro para um seriado de comédia no qual estou trabalhando.
—Ela continua e aí está. O pedido. O pedido inevitável. Eu sei que
é por isso que Jenna concordou em me acompanhar hoje à noite.
Mas então, não é como se eu quisesse ter algo mais com ela, então
parece justo que eu dê a ela este meu outro lado, meu lado
profissional.
—Claro. —Digo.
Antes mesmo que eu entrasse pela minha porta, Jenna já
tinha me enviado um e-mail com seu roteiro. Escrevo de volta e
digo que estou ansioso para ler.
Então procuro algo que posso dar gratuitamente. Encontro
uma foto de um cervo com um coração branco na bunda. Posso
ouvir a risada da Kennedy quando aperto a tecla enviar.

77
CAPÍTULO 10
Kennedy

Eu conheci as outras namoradas dele, incluindo a Mica. Ela


veio antes de mim.
Ela era bonita em uma espécie de estilo padrão profissional
de New York, cabelo castanho liso preso para trás, suéter preto,
calças cinza e saltos baixos. A Mica era fascinada pela minha escola,
como se ela nunca pudesse imaginar ter aulas sem meninos na sala.
A Agnes Ethel School for Girls foi tudo o que conheci desde o
jardim de infância, então não conseguia entender ter aula com
meninos.
—Ainda passa pela sua mente que não há meninos na escola
ou você já se acostumou totalmente com isso? —Mica perguntou
enquanto batíamos papo durante uma das festas da minha mãe
numa noite de primavera há pouco mais de um ano.
—Totalmente acostumada com isso. —Eu disse. —Mas é
como contar uma piada que nunca fica velha. Jogamos as cinco
coisas mais chatas em ir a uma escola só para meninas durante o
treino improvisado de lacrosse.
Era mais ou menos assim:
Eu arremessava a bola azul contra a parede bege nos fundos
da escola. —Hora do nosso treino diário. —Eu dizia.
—E quais os benefícios do treino diário? —Amanda
perguntava.
—Mantém a mente e os sentidos afiados.

78
—Nos prepara para a rebelião. —Amanda acrescentava.
—No caso de decidirmos tomar a escola algum dia.
—Para não ficarmos complacentes!
Eu gritava feliz e então começávamos nossa pergunta-e-
resposta.
—Número um. Nenhum menino.
—Número dois. Os uniformes.
—Número três. Nenhum baile.
—Número quatro. O modo como as pessoas pensam que
somos todas meninas atrevidas.
—Número cinco. Sermos meninas atrevidas!
Mica riu alto da última, provavelmente porque não cabia
muito na lista.
—Você gostaria de ter ido para uma escola mista? —Ela
perguntou.
—Claro, mas as coisas são assim. Estou acostumada a isso.
—Eu disse.
—Então você está vendo alguém fora da escola?
Não, mas meio que estou apaixonada pelo seu namorado.
—Não. —Eu disse, e lancei um olhar para o Noah, que
estava sentado no sofá de frente para minha mãe enquanto ela fazia
as honras, entretendo os convidados leais e entusiastas com uma
história, geralmente falsa, da época que ela via o sol nascer de um
telhado em Istanbul enquanto os locais faziam suas orações
matinais. Ele provavelmente já a ouviu antes, certamente conhecia
todas as suas histórias de cor, mas ele ouvia e sorria.
Ele estava com a barba por fazer como um executivo de um

79
anúncio de 1950 e parecia o tipo de homem que trabalhava na
sombra, que passava suas horas de trabalho no telefone,
conversando, negociando, bajulando. Ele vestia calças pretas
apertadas e uma camisa da cor de framboesa. Eu queria ir até ele,
sentar ao seu lado e tocar o punho da sua camisa com meu polegar e
dedo indicador.
Voltei meu foco para a Mica.
—Estou muito ocupada com a escola e outras coisas.
Ela zombou e passou os dedos com unhas feitas pelo seu
cabelo.
—Kennedy, você nunca está muito ocupada para namorar.
Deixe-me dizer, quando você conhece o cara certo, você encontrará
um modo de encaixá-lo.
—Como Hayes para você? —Perguntei e tentei mascarar o
tom alto da minha voz. Me senti como uma detetive, escavando
informações. Eu queria saber quão sério era o relacionamento de
Mica e Noah.
—Bom, e não é para gostar? Ele é gostoso, doce, e está
ganhando um monte de dinheiro já. Ele tem que ser o escolhido.
—Mica disse, e eu quis atacá-la. Eu queria gritar para Mica ficar
longe porque Noah não era questão de dinheiro. Quem se importa
se ele tem dinheiro? Eu não precisava ou iria querer um homem por
dinheiro, nem agora, nem nunca. Eu poderia estar no ensino médio,
mas planejei muito bem ganhar meu próprio dinheiro quando saísse
da escola. Eu não seria dependente da carteira de ninguém. Além do
mais, o amor não deveria ser sobre quanto alguém ganha. Deve ser
sobre como alguém te faz sentir.
—E você o ama, certo?
—Claro. Claro que o amo. —Ela acrescentou, como se
estivesse lembrando a si mesma. Tentei não encará-la.

80
Noah andou até a cozinha para pegar outro chá gelado e um
biscoito de chocolate de uma fornada que eu fiz mais cedo para a
festa. Ele deu uma mordida no biscoito e revirou os olhos com
prazer.
—Talvez eu pegue a travessa toda quando ninguém estiver
olhando. —Ele disse.
Pegue tudo, eu queria dizer, mas apenas dei um pequeno
sorriso.
—É melhor eu experimentar uma também. —Mica disse, e
havia um tom competitivo, até mesmo territorial, na sua declaração.
Algo se incendiou em mim, um sentimento denso de ciúme
quando ela colocou o braço em volta dele enquanto comia o
biscoito. Mas então me senti muito envergonhada. Eu tinha que
parar de alimentar essa paixonite por um homem que já tinha dona.
Eu não queria ser como minha mãe, nem um pouco, nem um
tantinho. Disse para mim mesma que a paixonite tinha acabado e
ninguém precisava saber que meus devaneios de colegial tinham
existido.
Subi para o meu quarto, liguei o computador e assisti um
vídeo no youtube do meu comediante favorito atravessando a ponte
do Brooklyn usando nada além de um maiô Speedo amarelo-banana e
tênis Converse pretos. Isso me distraiu da vantagem que todas as
Micas do mundo sempre teriam sobre mim quando o assunto fosse
a idade de Noah.
Algumas semanas depois, ela estava ausente da festa. E
depois da próxima. E depois da seguinte. Eu não disse nada sobre a
repentina ausência dela em sua vida. Fiquei de boca calada. Eu não
queria pronunciar o nome dela. Eu não queria intervir, plantar uma
semente, fazer todas as coisas que vi minha mãe fazer. Eu tinha que
ser o oposto da minha mãe. Eu tinha que ser discreta, ser boa, ficar
na minha.

81
Minha mãe não tinha as mesmas regras de autocontrole.
—Vou fazer um brinde a você por ter tirado aquela garota
grudenta da sua vida. —Ela disse uma noite enquanto erguia sua
taça de vinho quase vazia. Eu estava sentada à mesa da cozinha,
estudando para um dos meus exames finais de matemática do
penúltimo ano do ensino médio. Ela pediu comida chinesa para nós
três e estávamos esperando. Ela e Noah estavam revisando os
planos para a próxima temporada do seu seriado.
—Você nunca gostou dela, não é. —Noah disse. Era uma
afirmação, não uma pergunta.
—Bom, ela praticamente tinha “case comigo” escrito na cara
dela.
—O que há de errado com casamento, Jewel? —Ele
perguntou, provocando-a.
—Eu suponho que seja bom para algumas pessoas, mas não
vejo você como o tipo que queira casamento, querido.
Ele riu com vontade.
—Não terminei com a Mica por causa disso. Se ela fosse a
garota certa, eu me casaria com ela.
—Você é muito jovem. —Minha mãe disse para ele. A ironia
de suas palavras não passou despercebida por mim. —Você não
deveria nem estar pensando em casamento.
—Não estou pensando nisso. E não estou não pensando.
Quando encontrar a garota certa, ficarei de joelhos.
Jewel revirou os olhos.
—Você sempre me faz rir, Hayes.
—Não estou tentando ser engraçado. —Ele disse, mas estava
sorrindo também. Ele podia instigá-la de um modo que ninguém

82
mais podia, provavelmente porque o relacionamento deles era tão
claro. Havia limites, eles tinham funções e tudo era simples e
organizado. Porém, ela gostava de dar conselhos amorosos a ele. Ela
parecia incapaz de resistir em se meter na vida romântica de um
solteiro Nova Iorquino e jovem.
—Ok, Sr. Não engraçado. Então por que terminou com a
Mica, se não foi pelo seu jeito grudento?
—Deixe-me entender isso. O fato de ser grudenta é a única
razão pela qual eu deveria terminar com a Mica?
—Você admite que ela era grudenta? —Jewel retrucou. O
agente e a escritora, ambos usavam palavras como armas.
Noah balançou a cabeça.
—Mica era uma boa garota. Mas casamento nunca foi uma
opção para nós, porque tínhamos ideias diferentes sobre o que faz
um relacionamento funcionar.
—O que faz um relacionamento funcionar então? Estou
morrendo para saber. —Jewel disse. —Interesses compartilhados?
Opiniões em comum? Um pouco de humor?
—Isso, e alguém que conheça a letra toda de Chess18. —Ele
disse, com um sorriso torto e eu me forcei a esconder um sorriso
louco. Disse para mim mesma que a paixão tinha terminado. Quase
consegui me enganar. Mas por dentro me emocionei com as
palavras. Eu sabia a letra toda de Chess.
Jewel riu alto do seu comentário.
—Ok, você ganhou. Você ganhou essa rodada. Você e suas
músicas de shows. Você sabe que a Kennedy é um bebê da
Broadway. Ela ama todos os musicais. —Minha mãe disse enquanto
seguia para a cozinha para repor seu vinho.
18
Musical famoso dos anos 80

83
Quando ela chegou na cozinha, eu olhei para ele,
encontrando seu olhar azul-escuro.
—Agora pelo menos eu sei. Eu o conheço bem. —Eu disse
num sussurro quase inaudível.
Noah se endireitou e me olhou fixamente, com olhos
arregalados. Eu segurei meu lápis com tanta força que achei que
fosse quebrar.
—O que você acabou de dizer? —Ele perguntou baixinho.
Balancei a cabeça. Não repetiria a letra da balada agridoce de
Chess. Eu não podia admitir isso. Mas eu podia deixar escapar que eu
tinha os mesmos interesses.
—Tocou por dois meses em 1988. —Eu disse, e meu
coração foi para minha garganta. Meu estômago revirou. Eu estava
certa que meus sentimentos estavam escritos no meu rosto, uma
expressão vívida e incontestável de que eu o queria.
—E não foi revivida desde então, para o desgosto dos
fanáticos de musicais do teatro em todo lugar. —Ele disse, e seus
olhos brilharam.
—Sim, muito para o desgosto.
Voltei para as equações na página, mas eram linhas
embaralhadas na minha frente, balançando para lá e para cá. Eu não
conseguia me concentrar. Eu não podia falar. Era muito
entorpecente para mim.

84
Noah

Algo na maneira como ela disse aquelas linhas de Chess


aumentou minha temperatura em alguns graus.
Elas foram o fósforo que acenderam as chamas. Elas me
fizeram ver todas as possibilidades de nós.
Foi a doçura na sua voz, com um fio de esperança também.
Eu queria não ser afetado por isso, queria deixar passar direto por
mim, como milhares de comentários sobre mil coisas que passam
todo dia. Mas ela não era como minha vida de negócios de todos os
dias. Ela era uma jovem linda de quem eu não conseguia tirar os
olhos toda vez que ia à casa de Jewel. Eu devia saber, claro que eu
devia saber. Mas diga isso ao estúpido coração que estava batendo
no meu peito. Tudo pelo simples fato de que gostamos do mesmo
musical obscuro.
Minha kriptonita.
Eu não podia resistir em devolver a próxima frase. Baixo,
quase inaudível. Jewel não podia me ouvir. Ela estava na cozinha e
eu na sala, brincando com fogo, mas pronto para ser queimado.
—Não foi bom?
Ela desviou o olhar do papel. Eu a observei engolir.
Nervosamente. Eu fiz o mesmo, eu estava dançando perto do limite.
—Ele não estava bem? —Ela disse, compartilhando outra
frase.
—Não é uma loucura? —Eu disse suavemente indo para a
próxima.
Ela exalou e suas bochechas ficaram lindas de cor de rosa.
Então, num sussurro, ela disse a frase seguinte:

85
—Que ele não pode ser meu.
Meu coração tamborilou no meu peito. E eu estava certo que
deveria trancá-lo e dizer a ele para nunca mais agir daquele modo
perto de uma garota de dezessete anos. Mas não fiz isso. Porque ela
não era falsa ou estava procurando alguma coisa. Ela era
simplesmente a garota que gostava das mesmas coisas que eu.
Poucos dias depois eu cruzei com ela no Central Park na
minha corrida matinal. Eu não estava procurando por ela, mas não
fiquei triste em vê-la quando ela passou por mim de bicicleta quando
o sol estava nascendo e chamou meu nome enquanto eu corria. Ela
freou até parar e eu parei também.
—Quem diria que você tem outra coisa além de calças e
camisas sociais perfeitas. —Ela disse, me olhando de cima a baixo,
seus olhos verdes me prendendo.
Tentei manter tudo leve. Manter seguro.
—Não consigo queimar todos aqueles biscoitos usando uma
camisa social. —Brinquei.
—Mas é claro. —Ela disse, e então posicionou seus tênis de
volta nos pedais. —Eu deveria fazer mais biscoitos para você.
Biscoitos. Ela estava falando de biscoitos. Mas ela também
estava falando de algo mais, ela estava indo para aquele lugar onde
não éramos agente e filha da cliente. Onde éramos amigos, onde
éramos um cara e uma garota. Me permiti esquecer quem ela era.
Deixei os vínculos que nos ligavam desaparecer.
—Com pedacinhos de chocolate, por favor. —Eu disse e ela
retribuiu com um sorriso. —Tchau, Kennedy.
Eu cruzei com ela mais algumas vezes nas semanas seguintes,
e eu nunca disse uma palavra para a Jewel sobre aqueles encontros
matinais quando eu ia na casa dela à noite. Nem mesmo quando a

86
Kennedy me perguntou como tinha sido o meu dia. Eu apenas
disse: —Fiz uma boa corrida e depois um ótimo dia.
Bem na frente da mãe dela.
—E quanto a você? —Eu perguntei a ela.
—Eu fiz um passeio ótimo de bicicleta e depois tive um
grande dia. —Ela disse e nossos olhos disseram tudo. Tínhamos o
começo de um segredo e sabíamos como guardá-lo.

87
CAPÍTULO 11
Kennedy

O sentimento pacífico e confortável que tenho quando fico


na casa tranquila do meu pai não dura muito tempo.
Na noite seguinte estou de volta na casa da minha mãe e
caindo no buraco negro do barulho novamente. Eu puxo o
travesseiro sobre meus ouvidos quando ouço minha mãe e o Warren
fodendo.
Alto.
Os sons tentam me sufocar e eu quero banir os gemidos
deste mundo, mandar os responsáveis por eles para fora da órbita.
Os barulhos se infiltram em mim, mesmo quando aperto o
travesseiro com mais força e mais firmemente sobre minha cabeça.
Eu não aguento. Eu pego meu telefone, coloco os fones de ouvido e
toco Chess no último volume. Meus dedos agarram em volta do
telefone, como garras que de algum modo me seguram para não
escrever para o Noah, buscar por ele, como eu quero. Ele me salvou
disso. De todos os modos possíveis ele era meu escape e ele me
libertou. Meus dedos queimam com a necessidade de buscar por ele,
procurar aquele conforto, aquele abençoado esquecimento. Mas
então eu lembro do olhar sofrido em seus olhos na outra noite e não
posso correr para ele toda vez que tudo à minha volta dói.
Em certo ponto a música toma conta e solta o
estrangulamento. É suficiente para mim como uma tábua de
salvação.
Acho que fui a tábua de salvação dele também. Estávamos
ambos à deriva em New York. Ambos cercados de tantas pessoas,

88
mas no final estávamos terrivelmente sós. Até que encontramos um
ao outro.
Talvez eu ainda seja sua tábua de salvação porque logo sinto
meu telefone vibrar sob os lençóis. Eu o pego e deslizo meu polegar
na tela e encontro a foto de um cervo com um coração branco na
bunda.
Eu solto uma risada alta, uma risada profunda que ressoa
através do meu corpo.
Algum dia vamos encontrar esse cervo.
Então vou nas pastas no meu telefone e passo por todas
minhas fotos de coração na natureza. Algum dia vou a uma caça ao
tesouro pelo mundo e vou encontrar todos. Algum dia acreditarei
no amor novamente.

**********

—Eu gostaria de não saber como minha mãe soa fazendo


sexo. —Digo para Caroline assim que a porta da sala dela se fecha
no dia seguinte.
Ela afasta seu cabelo castanho do rosto e me dá um sorriso
solidário. —Tenho certeza. Estou certa de que você gostaria de não
saber o som que faz de modo algum.
—Gostaria de pode apagar todas as memórias destes sons.
—Digo, porque não é apenas seu novo caso, Warren, é o pai de
Catey, o Sr. Lipshitz e tantos outros. —Quero dizer, acho que você
deveria ouvir seus pais, certo? Mas em vez disso, eu escuto minha
mãe fodendo outros caras. Não que eu queira saber como ela era

89
com meu pai, porque isso também é completamente nojento
também. —Eu paro e olho para longe. —Mas isso é pior.
—É o tipo de coisa que você não deveria saber sobre seus
pais. E o motivo pelo qual parece tão estranho, a razão pela qual te
tira do sério, é porque está fora dos limites típicos.
A Caroline desenha um quadrado no ar com suas mãos.
—Há limites em qualquer relacionamento, e as coisas que sua
mãe fez e as coisas que ela ainda está fazendo estão aqui fora. —Ela
aponta fora da caixa imaginária.
Mas é difícil para mim processar seus comentários sobre
minha mãe, mesmo que ela esteja certa. Talvez principalmente
porque ela está certa. Pressiono minhas mãos sobre minha barriga e
me encolho.
—Meu estômago dói.
—Dói?
Coloco minha mão na testa.
—Minha cabeça dói.
—Sinto muito.
—Eu amo minha mãe. —Digo, porque é verdade, e preciso
que a Caroline saiba disso.
—Eu sei que você ama.
—Você acha que eu deveria odiá-la, não é?
Ela nega com a cabeça.
—Não, não acho isso de modo algum.
—Bem, eu não a odeio. —Digo, me encostando mais no sofá
de couro, de repente na defensiva. —Eu a amo. Era ela quem estava

90
em casa todo o tempo. Meu pai viajava a negócios. Isso não é tudo
culpa dele? Se ele estivesse mais em casa, talvez ela nunca tivesse
começado a trai-lo.
—Você acredita nisso? —Caroline me pergunta com
cuidado.
—Talvez. —Murmuro e desvio o olhar.
—De verdade? Acredita?
—Eu não sei. Talvez ele devesse ter ficado mais em casa. Ela
teve tantas oportunidades. Tantas chances. Talvez ele não estivesse
lá para ela.
—Talvez não estivesse. —Ela oferece, sempre a pragmática,
sempre esperando que eu descubra a droga da minha vida por mim
mesma. Hoje isso me irrita. Hoje, parece como uma coceira no meu
peito que não posso coçar, mas que não quero nem tocar. É uma
dor de cabeça. É uma dor de barriga. É tudo que me machuca na
minha vida.
—Sinto falta da Catey. —Digo enquanto brinco com os três
pingentes do meu colar, deixando-os cair sobre minha blusa
repetidamente. —Eu aprendi a amar café por causa da Catey. Me
tornei viciada nos lattes, expressos e Coca diet graças a ela. —Digo,
e sorrio uma vez. Eu sei que dependência em cafeína não é um
termômetro para uma amizade. Mas os vestígios do tempo que
passamos juntas ainda existem na minha vida, mesmo que ela não.
—Eu me tornei vegetariana por causa dela.
—E você provavelmente está preocupada que vai acontecer
com Amanda o mesmo que aconteceu com a Catey?
Encosto o dedo indicador no nariz, pensando em Lane
também, em como ele faz esse gesto.
—Bingo.

91
—Bem, o que você poderia fazer de diferente para que isso
não aconteça?
Franzo o cenho para a Caroline.
—Não é minha culpa que a amizade terminou.
—Eu não disse que era sua culpa. Simplesmente perguntei o
que você poderia fazer de diferente.
Não respondo. Não quero responder. Em vez disso, eu digo:
—Acho que devo ir.
—É isso que quer fazer?
Levanto as mãos, bruscamente.
—Por que você está só me fazendo perguntas e despejando
bordões? Você é uma caricatura de psiquiatra agora.
Ela assente pensativamente.
—Entendo por que se sente assim.
—Você continua fazendo isso!
Ela fica em silêncio.
Aponto o dedo para ela, enquanto toda minha frustração
sobre o barulho de ontem à noite cai no colo da Caroline.
—Ugh! Isso me deixa ainda mais louca!
—Agora você está falando, Kennedy. Agora está dizendo a
verdade. É isso que você deve dizer à sua mãe.
—Do que você está falando?
—Você me disse exatamente o que pensa de mim. Tente isso
com sua mãe. Diga a ela como suas ações fazem você se sentir.
Diga a verdade a ela. —Ela diz, com um tom duro na voz.

92
Fecho meus olhos, escorrego mais para baixo, minha bunda
tocando a beirada das almofadas, minhas costas pressionadas contra
o sofá.
—Não posso. —Digo, derrotada.
—Você pode.
—Eu não deveria ter mentido para meu pai. —Despejo.
—Você pode dizer a verdade a qualquer momento.
Quando é hora de ir, saio da sala de Caroline e ando pelo
corredor, sabendo que Lane está esperando por mim lá fora. Não
estou pronta para vê-lo. Encosto na parede perto do elevador, grata
por uma pausa de ter que falar e de tentar entender porque sou tão
confusa sobre a vida e o amor.
Mas sou mesmo tão confusa? Foi mesmo tão errado estar
com o Noah? Estou cansada de me segurar, cansada de esperar,
cansada de fingir que ele não é o que eu quero agora, quando ele é
exatamente o que eu quero e preciso.
Ele é o oposto.
Pego meu telefone porque não posso resistir a ele nesse
momento. Simplesmente não consigo deixar de buscá-lo agora.
Oi. Queria estar com você nesse momento.

Pronto. Mandei antes que o arrependimento batesse. Não há


arrependimento.
Pressiono o botão no elevador e quando chego no térreo
sinto uma vibração no meu bolso de trás, e a possibilidade de que
possa ser dele me dá um arrepio gostoso.
Pego meu telefone e meus dedos ficam escorregadios quando
eu abro.

93
É um número que não reconheço. Eu atendo.
—Oi, é a Kennedy Stanzlinger?
É uma voz de mulher.
—Sim. —Eu respondo.
—Aqui é a Doreen Lipshitz. Acho que você me mandou uma
carta.

94
CAPÍTULO 12
Kennedy

Eu quero que meu pai conheça a Doreen Lipshitz. Ela é


perfeita para ele. Ela trabalha numa ONG que angaria fundos para
educação em artes. Ela tem uma voz suave, mas clara. Seu cabelo
escuro é longo e encaracolado e seus olhos são castanho chocolate.
Tenho certeza que ela é a alma gêmea do meu pai. Posso imaginá-
los passeando por galerias em Florença, juntos, de braços dados. Ele
vai mostrar um quadro para ela. Ela vai compartilhar algum detalhe
impressionante com ele. Eles vão rir, sentar no pallazzo e tomar
cappuccinos.
O único problema é que ela ainda está casada com Carig
Lipshitz. Ela usa sua aliança de casamento, uma coisa prateada
brilhante e ela também tem uma pedra gigante ao lado. Aposto que
é um presente “sinto muito” dele.
—Como você sabia? —Eu pergunto. —Como você sabia
que eu mandei a carta?
Estamos sentadas num banco escondido, em uma das
entradas do Central Park. O fluxo do tráfego da tarde logo atrás é o
fundo musical da nossa conversa.
A aula terminou, eu não aguentava esperar que acabasse para
que pudesse encontrá-la. Ela foi tão gentil no telefone ontem quanto
parece ser agora. Ela me disse que ainda tinha meu número porque
guardou a informação de contato muito tempo atrás, na noite em
que liguei para confirmar se ela iria à festa.
A Sra. Lipshitz encolhe os ombros, uma encolhida meiga,
como se fosse óbvio.

95
—Não era assim tão difícil de descobrir.
Fico vermelha por um momento e olho para o outro lado.
Ela coloca uma mão no meu braço.
—Não quis dizer isso por mal. O que eu quero dizer é que
pelo contexto da carta, a caligrafia, eu consegui juntar as peças.
—O que isso quer dizer? Parece que foi escrito por uma
criança?
Ela ri, mas é uma risada tranquilizadora.
—Não. Parece que foi escrito por uma jovem mulher.
Agora eu é que dou risada.
—Eufemismo para adolescente.
—Eu me lembro de você das festas de seus pais. Você era
como a joia da coroa da sua mãe. Ela queria que todos soubessem
quem você era.
Eu deveria estar envergonhada. Mas, no entanto, eu sinto
uma estranha explosão de orgulho em mim. Porque mesmo quando
minha mãe estava ligada, mesmo quando ela era o centro das
atenções, ela nunca me deixava de fora.
—Eu conversei com você em uma das festas. Você foi gentil
comigo. E eu estava apenas no sétimo ano naquela época.
—Você não pareceu estar no sétimo ano. Tenho certeza que
te dizem muito isso, não é? As pessoas sempre acham que você é
mais velha? Porque você passa essa sensação. De maturidade. E foi
por isso que quando recebi a carta ela transmitiu esse mesmo senso
de maturidade, um tipo de experiência. Um conhecimento do
mundo adulto, sobre assuntos adultos.
Muito conhecimento, muita experiência. Eu gostaria de não
saber coisas que sei sobre adultos.

96
—Algumas vezes. —Eu digo.
—Fico contente por ter vindo me encontrar. Especialmente
porque você não tinha que fazer nada disso. Você não tinha que
dizer que sente muito, porque meu marido foi quem cometeu o
erro.
Encolho os ombros, para perto do peito como se estivesse
fazendo o oposto de um movimento de yoga de abrir o peito e
inspirar profundamente. Porque agora estou pensando como era
quando eu estava no sétimo ano e parece tão recente, tão estranho e
tão anormal novamente.
Como uma torneira totalmente aberta, as memórias jorram de
dentro de mim.
—Eu tinha que jantar com seu marido. Eu tinha que ouvir as
piadas deles. Eu tinha que ouvi-los. Eu tinha que vê-lo na minha
casa quando eu voltava da escola. —As palavras saem como água ou
chuva. São surpreendentemente fáceis de dizer a ela, a alguém que
não é minha própria mãe. É tão simples para mim dizer a essa
mulher que eu mal conheço, o quanto sinto raiva do marido dela. E
ele não significa nada para mim. Apenas um dos muitos na longa,
longa lista da minha mãe. Um dos muitos nomes que eu anotei no
meu caderno ao longo dos anos. Ainda assim, eu o odeio. —Você
não olha para ele e pensa... —Minha voz some porque eu não quero
reabrir suas feridas dizendo o que penso: Que canalha.
A Sra. Lipshitz sacode a cabeça.
—Eu não odeio meu marido. Eu o amo. É por isso que
fiquei com ele mesmo quando vi seus e-mails, mesmo quando
descobri o que estava acontecendo. Deu muito trabalho, mas estou
contente por ter feito isso. E não odeio sua mãe também.
Um carro freia bruscamente em algum lugar fora do parque,
pneus cantando no asfalto. O som me assusta e eu caio em mim

97
sobre o que ela disse e o que significa. Perdão. Ela perdoa seu
marido, ela perdoa minha mãe.
—E sua carta foi linda. Significa muito para mim o que você
fez. De verdade.
Minha carta era linda. Minhas reparações estão funcionando.
E tudo se encaixa, girando um, dois, três graus além de onde
eu pensei que estava indo. Porque se ela conseguiu superar o que
aconteceu, talvez eu possa também. Talvez eu possa perdoar minha
mãe. Talvez eu possa deixar o passado para trás e meu papel nele. A
possibilidade parece flutuar nas asas de uma borboleta. Como
liberdade e leveza ao mesmo tempo. Como fazer o gol da vitória
num jogo de lacrosse.
—Obrigada por me procurar, Sra. Lipshitz. —Eu digo,
minha mente já avançando à frente para o próximo e o seguinte e o
seguinte.
—Por favor. Me chame de Doreen. Eu realmente odeio o
nome Lipshitz.
—É realmente um nome terrível.

*********

As cartas se tornaram um projeto apaixonante. Na noite


seguinte vamos a um quarteirão no Upper East Side, diversificando
nosso repertório deixando corações recortados de papel vermelho e
rosa com trechos da famosa carta de amor Immortal Beloved de
Beethoven para a mãe de Catey.

98
Enquanto penduro um coração em um poste, penso na Catey
e tudo que compartilhamos quando éramos mais jovens.
—Sabe por que eu não como carne? —Digo para Lane
enquanto damos os últimos retoques na mais recente exibição de
“arte pública”.
Ele arqueia uma sobrancelha.
—Vai me contar uma história? Adoro histórias. Manda.
—É por causa da minha amiga Catey. —Eu digo, e então
conto sobre o dia que risquei pepperoni, presunto e frango do
cardápio.
Catey foi criada como vegetariana e ela orgulhosamente me
disse que nunca tinha experimentado carne.
—Nem frango, nem peixe, nem vaca, nem porco, nada. —
Ela disse uma tarde enquanto nos equilibrávamos preguiçosamente
nos nossos skates depois da aula, indo e vindo em uma parte lisa do
concreto no meio do Central Park, deslizando no asfalto plano.
—E peru? —Desafiei.
—Não, nada de glu-glu.
—Que tal cordeiro? Já comeu cordeiro?
—Cordeiro? De jeito nenhum! —Ela disse.
—Pato?
—Quack-quack, não.
—Perninhas de rã?
—Não faço ideia se tem gosto de frango.
—Então por que você é vegetariana?
—Como poderia não ser? Quero dizer, eu não uso

99
maquiagem que foi testada em animais, não é?
Tudo o que eu sabia sobre maquiagem eu aprendi com minha
mãe, e ela só comprava as mais caras das lojas de departamentos.
Ela nunca mencionou se o rímel dela tinha feito um coelho chorar.
—Eu não sei.
—Comer animais é quase o mesmo conceito, não acha?
—Talvez. —Mas eu ainda não estava convencida.
—Segundo, você não ouve falar de pessoas pegando a
doença da vaca louca por comer cenouras.
Eu ri e mudei o peso do corpo para parte de trás do skate.
—Excelente argumento. O que mais? Me dê outra razão.
—Aqui vai. No final das contas, você realmente quer comer
algo que faz cocô?
—Isso é muito horrível. —Eu disse e ambas rimos. Me tornei
vegetariana no dia seguinte e nunca mudei de ideia.
Lane me encara fixamente.
—Esse é o seu modo de tentar me converter aos seus hábitos
de amante de brócolis?
Eu dou risada e aperto seu braço enquanto nos distanciamos
de nossa arte, deixando para que alguém mais a descubra agora.
—Talvez. Está funcionando?
Ele balança a cabeça. —Nunca. Meu amor por pepperoni é
muito forte.

********

100
Dois dias depois, vamos para um quarteirão em Gramercy
Park. Esse é um dos difíceis, já que a carta é para a colega de
trabalho da minha mãe, Bailey. Lane e eu estacionamos nossas
bicicletas no final do quarteirão East Twenties, prendendo nossos
cadeados juntos, entrelaçando um ao outro.
Conforme andamos no quarteirão, eu meio que espero que
ele entrelace seu braço no meu, como se estivéssemos num filme de
1940, talvez até em branco e preto. Eu meio que gosto dessa
imagem, então sigo em frente, dando o primeiro passo. Lane olha
para nossos braços entrelaçados e levanta uma sobrancelha para
mim.
Ele não diz nada, apenas sorri.
Espero alguma excitação. Por um frio na barriga que eu
sentiria se o Noah fizesse isso. Não acontece e talvez seja porque eu
já gastei meu estoque de frios na barriga e palpitações quando o
Noah me respondeu à minha última mensagem de texto no outro
dia, quando disse a ele que eu queria que ele estivesse comigo.

Eu te concederia esse desejo se você quisesse. Você


sabe.

Nesse instante, eu gostaria de sentir pelo Lane metade do que


sinto pelo Noah.
Paramos perto do final da rua tranquila, próximo ao prédio
da Bailey, uma bonita estrutura de pedra cinza próxima a uma
esquina arborizada. Ela é publicitária na LGO e eu conversei com
ela semana passada na festa na minha casa quando a temporada do
programa da minha mãe foi renovada. Seu marido, Sean, se
relaciona meio que regularmente com minha mãe, tipo três ou
quatro vezes por ano. Bailey não sabe dos hábitos extraconjugais do
Sean. Então Bailey vai receber apenas um cartão pelo correio, uma
foto em preto e branco de duas crianças de mãos dadas numa praia.

101
Eu assinei “Meu desejo por um amor que dure para sempre” e coloquei em
uma caixa de correio pela qual passamos a alguns quarteirões.
Espero que lhe traga um pouco de felicidade.
Com o cartão a caminho, entramos na próxima fase da nossa
missão de cartas de amor.
Agora somos espiões. Somos clandestinos, verificando a rua
arborizada procurando a loira de trinta e poucos anos. Não a vejo
em lugar algum, então começamos a colar cópias de um trecho de
uma carta de James Joyce para sua esposa, Nora.
—Eu amo essa carta. —Digo enquanto colo a cópia em uma
placa da rua. —Mas minhas cartas de amor favoritas foram escritas
por Honoré de Balzac. Mas não posso deixar suas cartas. Sabe por
quê?
—Por quê? —Lane pergunta enquanto alisa uma página
numa grade.
—Porque ele estava tendo um caso com uma mulher casada.
—Ah, posso entender porque você não gostaria disso.
—Suas cartas são as melhores. Mas são amaldiçoadas. —
Digo, e olho para o quarto andar do prédio de Bailey. Meu coração
para. Para meu espanto, há uma mulher loira andando até a janela,
puxando as cortinas. Olhando para o outro lado da rua e depois para
o final do quarteirão.
Meu coração dispara.
—É a Bailey. —Sussurro, pegando no braço do Lane antes
que ela nos veja. Em um nanossegundo, saímos correndo em
direção ao final do quarteirão e dobramos a esquina onde deixamos
as bicicletas. Destrancamos os cadeados tão rapidamente que parecia
que estávamos fazendo o teste para o papel de demônios da
velocidade em um próximo filme. Corremos pela calçada em direção

102
à avenida, pedalando para longe dali.
Não fiz nada de errado, mas ver a Bailey na janela me lembra
que há pessoas reais do outro lado das reparações. Claro, eu quero
desesperadamente que ela sinta a felicidade, mas eu também não
quero ser pega. Ninguém sabe quanto fui cúmplice nos casos da
minha mãe, ninguém precisa saber como tenho me esforçado para
me livrar dessa culpa. Enquanto me afasto, um pensamento me
surge: Estou indo longe demais? As primeiras reparações me
fizeram sentir livre, a segunda e a terceira, libertadoras. Mas agora
tenho que pensar se estou forçando, provocando, me preocupando
com algo que talvez fosse melhor deixar para lá. Como a Bailey na
janela.
Não tenho a resposta.
Eventualmente, paramos numa lanchonete e pedimos fritas e
refrigerante diet. Assim que a garçonete sai, Lane estende a mão
para mim. Eu me encolho.
—Tudo bem. —Ele diz gentilmente. —Você tem óleo na
bochecha.
—Ai, isso é nojento.
Ele esfrega o dedo na minha bochecha.
—Graxa de bicicleta.
—Mais nojento ainda.
—Como você conseguiu graxa de bicicleta na bochecha?
—Eu não sei.
—Sabia que é sinal de boa sorte ter graxa de bicicleta na
bochecha?
Eu dou risada.

103
—Ah, claro.
Ele toca a ponta de outro dedo na língua. Então ele pressiona
o dedo na minha bochecha novamente, limpando o resto da graxa,
Ele me mostra o dedo, agora manchado.
—Viu?
—Agora está em você.
Ele passa um pouco na sua bochecha. —Então é boa sorte
para mim também. —Ele diz, e seu rosto fica um pouco corado. Ele
me dá um sorriso amável, sustenta meu olhar e eu me sinto livre.
Livre para ele.
Ele nunca olhou para mim assim, e eu honestamente não
estou certa que quero. Eu nem quero saber se o Lane me vê sob
outra luz. Eu estou em apenas uma luz e não é acesa por um garoto.
É acesa por um homem. Um homem que não devo ter.
Um garoto da minha idade deveria ser melhor para mim. Eu
deveria tentar gostar de um garoto da minha idade. Eu sei que
deveria.
Quando as batatas fritas chegam, eu seguro uma de
brincadeira para Lane, oferecendo a ele. Ele pega feliz e
continuamos assim enquanto eu tento, tento, tento.

Nossos beijos roubados

Algum dia em Londres. Algum dia em Paris.


Algum dia em Amsterdam. Foi o que você disse uma

104
noite quando estávamos comendo batatas fritas depois
de um show. Você disse que algum dia você me beijaria
em todas essas cidades. Que você me levaria pelo
mundo. Ninguém se importaria. Ninguém notaria.

—Eu seguraria sua mão e andaríamos pela rua e


você ia rir de algo que eu disse, porque eu sempre gosto
de fazer você rir, então quando você parasse de rir, eu
te beijaria.

—Mas você pode me beijar se eu estiver rindo


também?

Você ergueu uma sobrancelha, aceitando o


desafio.

—Eu nunca desistiria de beijar você.

—Então me beije agora. —Eu disse num sussurro


quente.

Você olhou para baixo, balançou a cabeça, mas


não estava dizendo não. Você estava dizendo sim. Você
estava sempre dizendo sim. É tão errado que eu sempre
queira que você diga sim? Alguns dias me sinto egoísta
de querer você tanto assim, fazer você se curvar, pedir
para você me beijar o tempo todo. Mas você nunca
pareceu se importar. Você sentou-se ao meu lado,
afastou o meu cabelo de minha orelha e sussurrou:

—Beijos de jantar.

105
Então seus lábios encontraram os meus e eu tremi,
faíscas atravessaram meu corpo por seus lábios estarem
nos meus. Seus beijos suaves me mandaram para um
estado de sonho onde o meu mundo não era nada mais
do que êxtase, felicidade e prazer.

Suponho, vendo agora, que é seguro dizer que


nunca fomos muito cuidadosos em público. Talvez
quiséssemos ser flagrados.

Eu acho que queria. Queria ser flagrada. Porque


não queria que o modo como me sentia fosse segredo.

106
CAPÍTULO 13
Noah

Jonathan entra pela porta alguns dias após o evento no


MoMA. Ele levanta as mãos no ar e arqueia uma sobrancelha
perfeitamente feita.
—Então?
Maldição. Ele deve mesmo querer o cara se está disposto a
falar primeiro. Jonathan raramente fala primeiro. Uma de suas regras
de ouro dos negócios. Quem fala primeiro perde a negociação.
—Eu o conheci. Um cara legal.
Ele olha fixamente para mim enquanto entra no meu
escritório. Sentando-se no sofá, ele coloca suas mãos nos joelhos e
arregala seus olhos gelados.
—E? —Ele pergunta, como se estivesse pendurado na beira
da notícia.
Por alguma razão, sinto vontade de brincar com ele.
—E ele adorou os copinhos de polenta. —Digo
ironicamente.
—Vamos lá, Hayes, você o pegou?
Viro minha cabeça para o lado.
—Foi um evento. Falamos por três minutos, Jonathan. Ele
não é o tipo do cara para uma rapidinha!
O Jonathan, revira os olhos.
—Então que tipo de cara ele é?

107
—Ele precisa ser cortejado. Romanticamente. Precisamos
que ele saiba o que podemos fazer por ele.
—Bem, então, trabalhe nisso. Essa é sua missão. A Jewel não
estará no topo para sempre. Você precisa de outra grande baleia.
Ele se levanta e sai. Ele terminou comigo para o dia.
Todos somos descartáveis nesse mundo. Uma das coisas que
sempre gostei de trabalhar com a Jewel foi por seu amor pela
história. Lords and Ladies se tornou um sucesso porque ela coloca seu
coração nisso. Por isso é um grande sucesso.
Conforme o sucesso aumentava, me apaixonei por sua filha.
Eu não esperava que isso acontecesse. Eu não planejei um romance
com a Kennedy. Simplesmente aconteceu graças ao grande sucesso
do programa de TV servindo como parceiro para nos fazer ficar
juntos.
Quando Lords and Ladies bombou no ano passado, eu o
licenciei para outros países pelo mundo todo, de modo que a Jewel
estava sempre assinando contratos e documentos. Ela tinha tantos
papéis para assinar que passou a mandar a Kennedy no meu
escritório para deixá-los.
Em uma tarde em junho passado, eu estava terminando um
acordo para Lords and Ladies no Brasil e a recepcionista acompanhou
a Kennedy até o meu escritório.
—Como você está? —Ela perguntou, enquanto colocava os
papéis na minha mesa e sentava-se em uma cadeira, seus cabelos
castanhos amarrados em um rabo de cavalo baixo, próximo à nuca.
Ela estava usando brilho nos lábios e isso era tudo. Seu jeito direto
me desarmou, mas era um alívio ela não ter perguntado como
estavam os negócios. Eu conversei sobre negócios o dia todo. Eu
não queria falar de trabalho.
—Bem. Estou bem. —Eu falei. —E você?

108
—Estou ótima. O que você comeu no almoço?
Eu ri da aleatoriedade da pergunta.
—Sushi.
—Nigiri, roll ou sashimi?
—Um combo, para falar a verdade. —Eu disse, e bati minha
caneta na beirada da mesa, olhando-a com curiosidade, tentando
entendê-la. Conversamos um pouco na casa dela, no parque, nas
minhas corridas matinais, mas essa era a primeira vez que
conversávamos em meu escritório.
—Você gosta de sushi?
—Desde que não tenha nadado antes.
Eu sorri da piada, sabendo que ela era vegetariana.
—Boa.
Ela apontou para meu computador, para a música que saia
dos alto-falantes. Eu estava ouvindo a trilha sonora de Anything Goes.
—Não curto Champanhe. —Ela disse, com um pequeno
toque sensual na voz. Lá estava. Como um desafio lançado. Algum
tipo de retorno para a noite em sua mesa de jantar.
—Mero álcool não me emociona em nada. —Eu disse,
começando o bate bola.
—Então me diga porque deveria ser verdade. —Ela disse, e
seus lábios se curvaram no início de um bonito sorriso. Seus olhos
encontraram os meus, aqueles lindos olhos verdes que faziam meu
estômago revirar. Eu queria dizer o próximo trecho, a que se seguia:
Que eu me divirto com você. Mas era muito cedo, muito pretencioso.
—Amo essa música, meio intensa. —Eu disse, tentando ser
seguro. Ela se ajustou comigo. Talvez ela estivesse hesitante

109
também.
—Você ouve outro tipo de música, ou apenas trilhas de
shows o tempo todo?
—Eu devo dizer que é raro o dia que ouço algo que não seja
envolvido com um palco da Broadway. E você? —Perguntei,
ansioso por continuar a conversa.
—Eu gosto de muitas músicas, mas eu gosto de musicais
mais do que tudo. Elas são tão... felizes, sabe?
—Sim, eu sei. Sei o que quer dizer.
—Qual o seu musical favorito?
—Bem, eu amo Chess, como você sabe. E Lez Miz, e
definitivamente Rent, e é claro Sweeney Todd. Mas meu favorito de
todos é 42nd Street. Minha mãe foi uma das substitutas da Peggy
Sayer em um dos relançamentos há alguns anos.
—E ela chegou a participar?
Assenti.
—Várias vezes. A atriz principal sempre tinha algum
problema vocal.
—Não é algo que se queira ter quando seu nome está nos
cartazes.
—Ruim para ela. Bom para minha mãe.
—Você assistiu a essas atuações?
—Sim, eu a vi cantar. Ela era incrível. —Eu disse, lembrando
alguns dos meus momentos mais felizes de quando eu era garoto.
Minha mãe era como uma mariposa para a luz do palco, ela adorava.
Era sua casa e sua paixão, e ela compartilhava isso livremente
comigo. E aqui estou, compartilhando um pouco com uma garota

110
por quem estava começando a sentir algo mais. Nem tenho certeza
se estava admitindo esses sentimentos para mim mesmo, por isso
que deixava ela continuar vindo.
—Você tem alguma música favorita de 42nd Street?
—A música título. Hands Down.
—Pode colocar para tocar?
Assenti.
Ela se esticou até o computador, aproximando-se e eu não
me movi. Eu fiquei parado, imóvel, tomando cuidado para não ficar
muito perto, não fazer nada inapropriado. Manter no nível seguro.
Ela clicou na nova música. O som familiar começou a tocar e
ficamos sentados no meu escritório, quietos, ouvindo músicas do
show, enquanto aconteciam negócios e acordos em escritórios
vizinhos. Mas não neste escritório. Não por estes poucos minutos
numa tarde de quarta-feira.
Quando a música terminou, ela se levantou para ir embora.
—Tchau, Noah.
Foi a primeira vez que ela usou meu primeiro nome. O modo
como soava em seus lábios arrancou outra camada do risco.

111
CAPÍTULO 14
Kennedy

—Quer sair hoje à noite comigo e a Holly? —Amanda


sussurra enquanto nosso professor de filosofia fala sobre Descartes.
—Depois do jogo. —Ela acrescenta, porque é sexta-feira e temos
nosso jogo contra o Livinston Prep esta tarde.
Balanço a cabeça.
—Não posso. Estou ajudando Lane com um projeto. Um
projeto da escola.
Tudo bem, ela sabe que tenho um amigo chamado Lane e
que ele frequenta outra escola, mas ela não sabe onde o conheci.
Porque eu não falo que vou a um psiquiatra. Se eu disser aos meus
amigos que vou a um, vou ter que explicar sobre meus pais também,
sobre porque eles realmente se separaram. Eu não quero que a
Amanda saiba sobre os hábitos da minha mãe. Eu não quero que
ninguém saiba porque o casamento deles acabou.
—Um projeto da escola?
—Sim. De história. —Eu minto, e meu estômago se aperta
em um nó. Mesmo que eu não queira contar a ela a verdade sobre
terapia, psiquiatras e meus pais, eu quero contar a ela sobre Lane, o
que ele disse ontem à noite, como ele tocou meu rosto e como
andamos de braços dados. Eu quero perguntar a ela o que significa,
porque eu honestamente não sei. Eu só tive um namorado, e tudo o
que já conheci não é normal.
Enquanto nosso professor continua sobre a conexão de
Descartes com Spinoza, eu decido tentar e sussurro:

112
—Eu acho que Lane gosta de mim.
Amanda grita baixinho.
—É claro que gosta! Vocês ficam juntos o tempo todo.
Nenhum garoto passa tanto tempo com uma garota como vocês
passam, sem que ele goste dela.
—Verdade? —Pergunto enquanto o sinal da escola toca, e
nos levantamos e recolhemos livros e bolsas.
Ela assente enfaticamente e me parece engraçado, por um
segundo, que de algum modo eu saiba tão pouco sobre garotos,
apesar de ter amado um homem. Eu nunca namorei alguém da
minha idade.
—Aposto que ele está esperando você dar o primeiro passo.
É por isso que ele fica tanto tempo com você. Ele está caidinho por
você, mas talvez seja tímido ou algo assim. Então você deve dar o
primeiro passo hoje à noite.
—Tem certeza? Quero dizer, você nem o conhece.
—E daí? Garotos são garotos.
—E homens? Homens são homens?
Ela ri.
—É claro. Só garotos maiores. Eles querem mais sexo.
Eu dou risada, imaginando se é isso que o Noah queria de
mim, enquanto saímos da sala de aula para o corredor. Amanda leva
a mão à cabeça e muda seu cabelo loiro-escuro de um rabo de
cavalo apropriado, alto e saltitante em sua cabeça, que a regra da
escola dita como altura e estilo dos rabos de cavalo permitidos, para
um contorcido e bagunçado. Como um míssil se aproximando, a
inspetora dispara para ela.
—Amanda, você ainda está dentro do corredor da escola.

113
Arrume seu rabo de cavalo agora.
Amanda muda para sua expressão de líder de torcida e dá um
olhar arrependido para a inspetora antes que continuemos em
direção aos nossos armários. Amanda coloca a combinação e a porta
se abre. Está até o topo com livros, papéis, revistas e até jornais.
Amanda é tradicional e ainda gosta de ler o jornal impresso, porque
quer estudar jornalismo na faculdade. Uma seção do New York
Times cai no chão, eu pego e entrego a ela.
—Aí, cara. Você deveria ler isso. —Ela diz, apontando com a
cabeça para as páginas em preto e branco na minha mão. —Tem um
artigo na seção de estilo sobre um casal que acabou de se casar. E
advinha. Eles se conheceram no jardim de infância dos filhos.
Levando a mão.
—Espera. No jardim de infância?
Ela assente várias vezes.
—Sim. Eles eram casados com outras pessoas, obviamente.
Mas eles se conheceram numa festa na escolinha, tipo quando os
pais vão ver arte, projetos e coisas que as crianças estão fazendo. E
eles se gostaram e começaram um caso.
Torço o nariz em desgosto.
—Sério. O que há com os pais hoje em dia? Sinto como se os
pais de todo mundo estivessem tendo casos. —Ela diz, e lista os
nomes de vários colegas de classe cujos pais terminaram casamentos
nos últimos anos. Então ela se inclina para sussurrar. —Agora, eu
acho que meu pai está tendo um caso.
Meus olhos se arregalam.
—É, ele está sempre atendendo o telefone no corredor, ou
ele caminha com o cachorro por duas horas à noite em vez dos
habituais dez minutos em volta do quarteirão.

114
—Você sabe quem é? —Eu consigo dizer, mesmo que minha
garganta esteja se fechando e eu tenha um sentimento horrível de
que eu sei a resposta.
Ela dá de ombros.
—Alguma perdedora, estou certa. Quem ia querer ele?
Venha, vamos destruir Livingston Prep.
No jogo, minha mãe senta-se duas fileiras à frente do pai da
Amanda. Ela olha para ele várias vezes, até sorri, e mesmo ri
algumas vezes.
Eu fervo por dentro. Sou uma bola de fogo, separada do sol
enquanto corro pelo campo, porque não importa o que eu faça, não
importa quanto eu tente, não importa o que eu decida, minha mãe
encontra um jeito de desfazer.
Acabamos com Livingstone Prep. Eu marco três gols, a
Amanda marca dois e eu agarro o braço da minha mãe no segundo
que saio do campo. Eu puxo ela para longe.
—Fique longe do pai da Amanda. —Eu digo entre dentes.
Sua mão voa para o coração.
—Do que você está falando?
—Eu vi você olhando para ele o jogo todo.
—Não sei do que você está falando.
Eu reviro os olhos como se eu fosse uma campeã em revirar
os olhos.
—Não aja como se não tivesse ideia. —Eu rosno, e estou
meio chocada, meio empolgada que finalmente tenho a coragem de
falar com minha mãe assim.
—Só fique longe dele.

115
—Não tem nada rolando com o Daniel. —Ela diz, e eu lhe
lanço um olhar penetrante.
Aponto um dedo para ela.
—Você sabe o nome dele.
—Claro que eu sei o nome dele. Eu estava falando com ele
porque ele é o pai da melhor amiga da minha filha. Agora chega,
Kennedy. Basta. Vamos para casa e vamos ter um ótimo jantar de
sexta-feira. Você quer macarrão primavera ou vamos sair? Vamos
sair, por que não?
Balanço a cabeça, e sinalizo com a mão desdenhando.
—Eu tenho planos.
—Kennedy. —Minha mãe chama, e sua voz treme. Eu sinto
um tipo de serenidade doentia ao ouvi-la. Ela está com medo. Ela
me quer. Ela precisa de mim. Mas não vou fraquejar, não por isso.
—Não posso mãe. Por que não vê se o Warren está livre?
Tomo banho, pego um táxi até a Grand Central Station e, de
algum modo, consigo correr pela plataforma, voar pela porta e
sentar num assento ao lado de Lane no trem das 6:20.
—Vencemos. —Digo sem fôlego.
—Claro que você venceu. Você é demais.
—Você deveria vir no nosso próximo jogo.
—Eu deveria. Verdade.
Ficamos em silêncio por um tempo, mas quando chegamos
em Scarsdale, de repente fico com medo de deixar as cartas de amor
do lado de fora da boutique da ex Sra. Pierre LaGrande.
Ela está divorciada dele agora, o homem que minha mãe
levou ao cinema comigo lá na escola fundamental. Passo meus

116
dedos pela carta que eu escrevi enquanto andamos pela rua. Eu já
escrevi o nome dela, lacrei o envelope e coloquei um selo. Lane
também tem suas cartas de amor prontas, completas com palavras
de Woodrow Wilson para Edith Bolling Galt, que se tornou sua
esposa e também a primeira dama dos Estados Unidos.
Mas agora que o centro da cidade, com suas lojas pitorescas e
cafés gracioso está à vista, alguma coisa parece errado em lembrar a
Sra. LaGrande. Paro de andar e coloco uma mão no braço de Lane.
—Talvez eu deva apenas comprar algo na loja dela.
Ele me lança um olhar curioso e espera que eu fale mais.
—Quero dizer, eles já estão divorciados. Talvez a carta seja
um ponto discutível. A Carolina diz que reparações não devem
causar mais danos. E se essa senhora já superou? Eu poderia apenas
apoiar o negócio dela em vez disso, certo?
—Então vamos às compras. —Ele diz brincando, e abre a
porta da loja. Dentro tudo remete a uma senhora rica e chique,
então eu imediatamente experimento um chapéu super caro,
mostrando a Lane um beicinho perfeito.
—Sensacional, sensacional. —Ele diz, como um fotógrafo de
alta moda. —Agora tente esses, querida.
Ele me dá um lenço sofisticado e eu enrolo em volta do
pescoço.
—Perfeito, mas me dê um pouco mais de petulância.
Eu dou a ele um olhar ardente e ele me passa um robusto
bracelete dourado que você tem que ter mais de setenta anos e
pertencer a um clube de campo para usar.
—Oh, é tão você, maravilhoso.
Logo estamos caindo de rir e é quando uma elegante senhora

117
de uns cinquenta anos me pergunta se preciso de ajuda. E me
endireito e paro de rir porque ela deve ser a senhora LaGrande. Seu
cabelo preto está enrolado num clip e ela usa uns óculos estilo
gatinho. Sou imediatamente arremessada para trás no tempo,
lembrando o dia no cinema, quando o marido dela me comprou
pipoca e me disse para curtir o filme, e minha mãe reclamou de dor
de cabeça e que me pegaria quando terminasse. Eles passaram as
duas horas num quarto de motel. Mas se alguém perguntasse, ela me
disse para dizer que ela curtiu o filme comigo.
As memórias me atacam, e perguntas terríveis passam pela
minha cabeça: O que a Sra. LaGrande estava fazendo naquela tarde
quando fui instruída a mentir? O que meu pai estava fazendo?
Eu tento abrir a boca, mas as palavras não vêm. Minha voz
está perdida, roubada para o silêncio pelas imagens que surgem em
minha mente. Sou como um peixe tentando respirar no ar, e estou
sufocando.
Lane me socorre, estende a mão para ela como um
personagem de um romance de Jane Austen, fica de joelhos e recita
as palavras de Woodrow Wilson.
—Você tem a melhor alma, a natureza mais nobre, o coração
mais doce e amoroso que já conheci, e meu amor, minha reverência,
minha admiração por você aumentaram em uma noite como achei
que apenas uma vida de associação amorosa e íntima pudesse fazer...
—Ele recita. Então ele se levanta, pega um guarda-chuva enorme de
um mostruário próximo e diz. —Isso, e levaremos esse guarda-
chuva.
Ela assente e finaliza a venda, e eu posso respirar novamente.
Quando finalmente escapamos da loja, explodimos em
gargalhadas.
—Você, apenas você, faria isso.

118
—Apenas eu. —Ele diz, e me dá o guarda-chuva. Um de
bolinhas vermelhas com um cabo de madeira curvado.
—Para você.
Meu rosto fica quente e só consigo sorrir.
—Adorei.
—Experimente-o.
—Não está chovendo.
—E daí?
Abro o guarda-chuva e passeamos pelas ruas de Scarsdale
assim, olhando vitrines, comentando as roupas elegantes das pessoas
e então parando para comprar uma barrinha de cereais de sete
camadas para compartilhar na viagem de volta para casa. Enquanto
andamos para a estação, ele coloca seu braço em volta de mim.
—Eu vou ao baile de formatura. —Lane diz de repente.
—Você vai?
Ele assente e olha para mim.
—Sim. Para tentar ser normal. Para tentar me divertir. Minha
mãe quer que eu vá. Você iria comigo? Você é minha melhor amiga.
—Sim. —Eu digo, e nesse segundo não me importa a quem
meu coração pertence. Lane está aqui para mim, ele sabe tudo de
mim, então eu irei. Como sua amiga.
—Acho que isso faz de você meu encontro para o baile
agora. —Ele diz, depois que compramos os bilhetes e sentamos nos
assentos no trem para Manhattan. Fico tensa com a palavra encontro.
Eu pensei que ele estivesse me convidando como amiga.
—Acho que sim. —Digo sem emoção, porque não estou
certa de o que ser o encontro para o baile do Lane significa, ou se

119
significa alguma coisa, ou até mesmo porque eu sinto como se
estivesse traindo ele.
O baile de formatura nunca esteve nos planos para Noah e
eu. A não ser que fosse um baile no seu escritório. Mas algo sobre
ser o encontro de alguém para o baile de formatura parece tão
normal, e por agora eu gosto disso. Quando as luzes do trem
diminuem, eu digo para o Lane,
—Amei o guarda-chuva.

120
CAPÍTULO 15
Kennedy

Eu suponho que foi no seu escritório que ficamos juntos.


Irônico, porque nunca tivemos negócios juntos, mas na segurança
daquelas quatro paredes removemos a maior barreira, não a idade,
não a do trabalho, nem a situação na vida.
Mas a presença física da minha mãe.
Uma semana depois que o Noah e eu ouvimos 42nd Street na
sua mesa, minha mãe finalizou um acordo para Lords and Ladies na
Rússia. Ela me entregou os papéis e eu alegremente os levei ao
escritório de Noah à tarde. Era o verão antes do meu último ano no
colégio e eu estava fazendo um curso pré-universitário na NYU19,
então parei lá depois da aula.
Bati duas vezes na sua porta aberta.
—Olá. Entre. —Ele disse.
Eu dei a ele o envelope e me sentei numa cadeira.
—Sente-se. —Ele brincou.
—Não se incomode se eu sentar. O que você estudou na
faculdade?
Ele se moveu na cadeira, surpreso pela minha rápida
mudança para a pergunta.
—Psicologia. Por que pergunta?
—Só curiosa. —Eu disse. —Você gostou? Do seu curso?

19
Universidade de New York

121
—Eu gostei. Pensei em estudar negócios, mas li uma
entrevista com outro agente que disse que ele queria ter estudado
psicologia, que teria sido mais útil do que economia. Então escolhi
psicologia. O que você quer estudar quando for para a faculdade?
—História da Arte. Como meu pai.
—Você é próxima do seu pai, não é? É dele que vem seu
amor pelos musicais?
—Totalmente. Nós assistimos Wicked e Billy Elliot e Chicago e
o Evita revival. Nós até fomos ver esse concerto de uma noite da
Patti Lupone no Lincoln Center dois anos atrás e eu brinquei com
ele que éramos as únicas duas pessoas hétero lá.
Noah riu e me corrigiu.
—Três. Os únicos três héteros. Eu também fui ao concerto da
Patti Lupone.
—Você foi?
—Claro. Não perderia a Patti por nada.
—Você foi sozinho?
Ele encolheu os ombros.
—Não é todo mundo que compartilha meus gostos musicais.
Mas tudo bem. Não me importei de ir sozinho.
—Legal. Que você gosta da Patti Lupone.
—Eu não apenas gosto da Patti. Eu amo a Patti. Mas
realmente, não é como se eu tivesse escolha. Minha mãe cantou as
músicas da Patti Lupone todos os dias da minha vida.
—Você sente falta da sua mãe? —Perguntei.
—Sim, eu sinto. —Ele disse e soou melancólico, até solitário.

122
—Agora só tem você, certo?
Ele assentiu.
—Homem contra o mundo. —Ele disse, como se fosse uma
piada, mas eu podia sentir que havia um ponto de dor embaixo do
comentário improvisado.
—Deve ser duro às vezes. Se sentir assim. Sentir falta dela.
—Eu disse, baixinho. Eu senti que ele não costumava falar sobre si
mesmo. Talvez ele precisasse de alguém que quisesse conhecê-lo de
verdade, e ouvir.
—Ele olhou para baixo para suas mãos no colo e de volta
para mim, seus olhos azuis encontrando os meus.
—É difícil. —Ele disse num sussurro.
—Quanto tempo já faz?
Ele esfregou uma mão no queixo e engoliu em seco.
—Três anos. —Cada palavra era uma dificuldade. Dura e
áspera. Eu queria tirar a dor, então fiz a única coisa que eu podia
fazer. Continuei falando. Sobre musicais. Sobre arte. Sobre Patti
Lupone. Até que o tom áspero saísse da sua voz.
Quando chegou a hora de ir, levantei-me, mas o Noah me
disse para esperar. Ele me entregou um envelope.
—Acredita que estão fazendo fragrâncias de Lords and Ladies
agora? —Ele disse e riu. —Acabei de receber isso da equipe de
licenciamento. Mas há um pouco de urgência.
—Devo trazer os papéis de volta amanhã?
Ele assentiu, mas não disse mais nada. Uma sombra de um
sorriso me disse que ele estava feliz que eu voltaria amanhã.
Depois que me sentei na minha cadeira de costume no dia

123
seguinte, eu mergulhei em mais uma conversa.
—Você não bebe. —Eu disse.
—Não no escritório, pelo menos. —Ele disse com uma
piscadela.
—Mas você não bebe nada. Você nunca bebeu em nenhuma
das festas ou eventos. —Eu disse, porque eu estava curiosa sobre
isso há algum tempo. Ele bebia água ou chá gelado na minha casa.
Ele nunca bebia o vinho ou o champanhe que minha mãe servia.
—Isso é verdade.
—Por que, posso perguntar?
—Minha mãe era alcoólatra. —Ele disse, falando
abertamente. Ele não tentou evitar o assunto. Ele reconheceu isso.
Sua verdade.
—Ela parou de beber?
Ele meneou a cabeça.
—Não. Ela bebeu até o dia de sua morte.
—E você decidiu que não queria ser assim?
—Não quero ser assim de modo algum. Então nunca toquei
nessas coisas. Nunca toquei e nunca quis.
—Eu também. Quero dizer, obviamente não posso beber.
Mas não quero ficar bêbada. Parece tão... —Eu não concluí e ele
assentiu.
—Sei o quer dizer. —Ele disse. —Não é sua praia, não é
você, certo?
—Exatamente. —Eu disse, e o modo que seus olhos estavam
firmes nos meus me disse que ele entendeu tudo. —Eu não quero
ser controlada por outra coisa. Eu quero estar consciente de tudo.

124
—Certo, é assim comigo também. Eu não quero ser
dependente de alguma coisa. Não quero estar preso.
—Ela bebeu o tempo todo enquanto você estava crescendo?
—Sim. —Ele disse com pesar. —Ela era uma ótima mãe, não
me entenda mal. Ela estava sempre lá depois da escola, fazia lição de
casa comigo, me levava em seus shows, ia aos meus jogos, torcia e
batia palmas o mais alto e levava todos seus amigos atores para
meus jogos. Ela tinha esse tipo de grande personalidade, sempre
rindo, sempre cantando, sempre querendo os holofotes. Conhece o
tipo?
Se eu conhecia o tipo? Fui criada pelo tipo.
—Acho que posso imaginar.

Noah

No dia seguinte era o contrato da Índia para Lords and Ladies,


e eu retomei de onde paramos.
—Você alguma vez quis escrever, como sua mãe?
—Perguntei.
Ela negou com a cabeça.
—Nunca. Eu nem mesmo assisto TV.
Eu ri e bati com minha caneta na mesa.
—Isso é incrível. —Eu disse, balançando a cabeça em
admiração.

125
—De verdade? É incrível que eu não assista TV? —Ela
perguntou, arqueando uma sobrancelha.
—Claro que sim. —Eu disse, largando a caneta e recostando
na minha cadeira. Um calor se espalhou por mim porque conversar
com ela era fácil, era tranquilo, era divertido. Era livre de obrigações
e expectativas.
—É tão diferente de todos com quem lido. Tudo que todos
querem conversar é sobre TV, ou algum novo negócio ou script ou
o que você tem.
—Quer conversar sobre TV? Posso fazer de conta que
assisto. —Ela disse, inclinando a cabeça, seus olhos brilhando de
modo brincalhão.
—Não. —Eu disse, devagar, como um pronunciamento.
—Não vamos falar de TV.
Ela não respondeu imediatamente e eu a observei, esperando.
Ela endireitou-se na cadeira, brincou um pouco com os punhos de
sua blusa azul e então levantou o rosto.
—Podemos conversar sobre Chess. —Ela ofereceu, falando
como se fosse nosso, como se fosse a ligação entre nós. Sua voz
aumentou e meu coração tremeu.
Nesse momento, tudo diminuiu. Eu considerei o que estava
por vir e se eu cruzaria a linha. Eu não era um professor me
apaixonando por uma aluna, eu não era um médico flertando com
uma paciente, mas eu também não estava imune ao risco. Eu me
importava com a Jewel. Ela era a base da minha lista de clientes. Ela
deveria ser a primeira em que eu deveria pensar. Mas ela não estava
na minha mente ou coração agora. Kennedy estava, me
preenchendo, me fazendo sentir coisas que eu não queria parar de
sentir.
Eu tinha mais a perder do que a Kennedy. Eu tinha, em

126
retrospecto, tudo a perder. Eu levantei-me, andei até a porta e
gentilmente a fechei.
Suas bochechas estavam ficando vermelhas. Minha boca
estava seca.
Eu não voltei para a minha mesa. Em vez disso, sentei-me na
cadeira em frente a ela.
—Kennedy. —Eu comecei, as palavras ameaçando entalar.
Mas eu era um adulto. Eu era o adulto. Eu tinha que agir como um
ou pelo menos discutir o elefante na sala. —Você realmente acha
que deve continuar vindo aqui?
Ela pareceu arrasada e seus lábios se curvaram para baixo.
—Você não acha que eu devo?
—Só não sei se é uma boa ideia. —Eu disse, tentando ser
cuidadoso com cada palavra.
—Você não gosta quando eu venho com os contratos e
outras coisas? —Ela perguntou, como se sentisse tola. Essa era a
última coisa que eu queria que ela sentisse. Eu me inclinei,
estendendo minha mão para ela, mas então puxei minha mão de
volta. Ainda não estávamos lá. Eu não tinha permissão para tocar
seu joelho ou segurar sua mão.
Mas assegurá-la dos meus sentimentos? Isso eu podia fazer.
—Eu gosto. —Eu disse baixo, dizendo a verdade. —Esse é
meio que o problema.
Seu sorriso reapareceu por um segundo e depois ela pareceu
domá-lo.
—Por que é um problema?
—Eu só acho que poderia complicar as coisas. Você sabe,
profissionalmente. —Eu disse. Admito, eu talvez não tenha resistido

127
muito, mas era o melhor que eu podia fazer.
—Talvez eu devesse vir e conversar sobre coisas
profissionais então. —Ela disse, brincando.
Eu sorri.
—Você é a única que vem e não quer falar dessas coisas.
Talvez seja por isso que eu goste tanto das suas visitas.
—Eu poderia falar de negócios. Na verdade, eu tenho uma
ideia para um programa de TV que queria falar com você.
Eu gemi e passei a mão nos cabelos.
—Mas espere. Realmente. Você vai amar. Você tem que
ouvir. —Ela brincou.
—Você acabou de dizer que não vê TV!
—Eu não só não assisto como não gosto de TV. —Ela disse,
cortando o ar com seu dedo indicador. Eu amei que estávamos de
volta em território familiar. Reconhecemos o que estava
acontecendo sem deixar que nos definisse.
—Você não tem ideia quão estimulante é ouvir isso. Você
assiste alguma coisa? Como vídeos online ou algo assim?
—Tem um comediante na internet que eu gosto. Ele faz
essas coisas aleatórias em New York. Como dançar com patins
usando shorts jeans na Times Square.
—Me mostre. —Eu disse, e fomos para o meu computador,
onde ela encontrou um vídeo de um cara usando shorts bem curtos
e que estava patinando através de cones laranja que ele colocou
entre as mesas e os turistas. O vídeo me fez rir e também sua reação
a ele. A doçura do som de sua risada me tocou em algum lugar
profundo.
—Eu amei. Não ria tanto assim desde que encontrei uma

128
cópia antiga de uma das colunas do David Tremaine. O escritor de
TV. —Acrescentei.
Ela assentiu.
—Eu sei quem ele é.
Eu encolhi os ombros encabulado. —Claro que você sabe.
Eu adoro o trabalho dele. De qualquer modo. —Eu disse, batendo
na tela. —Eu vou ter que assistir todos os vídeos desse cara.
Ela me lançou um sorriso.
—Espero que ele te faça rir.
—Uma das minhas coisas favoritas para fazer.
—Eu também. Acho melhor eu ir.
Ela começou a andar para a porta, e um tipo de vazio se
apoderou de mim, em volta do meu estômago, com a perspectiva de
ela ir embora. Estendi a mão e segurei seu braço.
—Você vai vir de novo? —Minha voz estava rouca e seca.
Eu não tinha certeza se deveria ter feito a pergunta. Mas estava
fazendo de qualquer modo.
—Eu não quero complicar as coisas. —Ela disse, sua voz
baixa e ofegante.
—Já estão complicadas. —Eu disse, meu peito subindo e
descendo como quando eu ficava um pouco nervoso. Bem, eu
estava bem nervoso.
—Eu virei. Você tem algum contrato para eu levar para
assinar?
—Não.
Ela sorriu, me fisgando ainda mais.

129
—Eu virei, Noah.
—Você sabe que ninguém me chama de Noah, certo?
—Está dizendo que quer que eu te chame de Hayes
novamente?
Balancei a cabeça.
—Não. Quero que você me chame de Noah.
Ela chegou mais perto, a distância entre nós diminuindo. Ela
estava tão perto que eu poderia ter passado os braços em volta dela
e a puxado para um beijo. Fechei as mãos, como se isso pudesse
manter todos os meus desejos sob controle. A coisa complicou
quando ela sussurrou meu nome uma vez mais, deixando-o sair
suavemente por seus lábios, como se pausasse em cada letra.

Kennedy

Meu coração era um beija-flor, suas asas batendo loucas e


rapidamente. Ele me deu as chaves. Eu era a única que as tinha.
Eu não perguntei o porquê. Eu suspeitava que ele usasse o
nome Hayes como um escudo, para que tivesse uma parede, uma
barreira se ele precisasse. Mas eu já tinha quebrado algumas dessas
barreiras do jeito mais simples. Eu só queria o que tinha do outro
lado. Ele, apenas ele.
Então ele se tornou o Noah, e eu era a única que o chamava
pelo seu nome.

130
—Tchau. Noah.
Eu jurei ter ouvido um gemido baixo dele, então ele se
recompôs.
—Tchau, K. —Ele disse, me chamando de K pela primeira
vez, me chamando por um apelido afetuoso. Não passou
despercebido ou desprezado.
Eu passei lá uma outra vez. E outra, depois outra.
Eu nunca tentei parecer mais velha. Eu não me produzi ou
usei maquiagem extra. Ele não se enganaria, de qualquer maneira.
Ele sabia como eu era, ou ele estava disposto a encarar ou não.
Quando eu chegava no escritório, eu vinha das aulas do curso de
verão, ou do treino de lacrosse, então eu estava vestida de modo
casual. Meu cabelo geralmente estava preso em um rabo de cavalo.
Eu parecia comigo. Se ele fosse gostar de mim, ele ia gostar de mim.
Conversávamos sobre tudo, ele me contou mais histórias
sobre sua mãe, os shows em que ela atuou, as coisas que ela fez e
disse, mesmo os momentos mais tristes, como quando ele chegava
em casa e a encontrava bêbada, como ela começou a atuar
cambaleante algumas vezes também, como ela morreu de uma
doença no fígado quando ele só tinha vinte e um anos. Ele nunca
tinha conhecido o pai, seu pai foi embora quando ele tinha dois
anos e ele nunca teve irmãos, então ele era sozinho. Eu quase quis
perguntar se ele foi atraído para minha mãe porque ela era tão
parecida em alguns aspectos com a mãe dele, e ela tecnicamente
poderia ser a mãe dele também, já que ela tinha o dobro da idade
dele. Mas eu não queria me aprofundar na relação deles, do jeito
que passou de trabalho para amizade, porque eu estaria lembrando a
ele do maior obstáculo entre nós, não a idade, mas ela. Em vez
disso, eu contei histórias sobre a escola, sobre a diretora e suas
regras, falei sobre lacrosse e contei sobre nossos jogos e os gols que
eu havia marcado e as jogadas que fiz. Eu queria que ele ficasse

131
impressionado com minha destreza no campo, que eu era uma atleta
como ele.
—Você deveria ir aos meus jogos alguma vez. —Eu disse
uma tarde. Eu não estava planejando convidá-lo para sair. Só foi
natural naquela ocasião. Era um momento natural para dizer isso.
—Eu deveria. —Ele disse com um aceno.
—Mas você vai?
Ele inclinou a cabeça para o lado, considerando a minha
pergunta. Ele estreitou os olhos.
—Você realmente quer que eu vá?
—Eu estou te convidando, não estou?
Ele fez uma pausa e lambeu os lábios brevemente.
—Kennedy, você acha que seria estranho se eu fosse a um
jogo seu?
—Estranho como? —Perguntei com cuidado, sentindo que
estávamos dando voltas na verdadeira questão, e também querendo
dar voltas.
—Estranho como óbvio.
Sorri levemente e estiquei minha mão sobre a mesa para tocar
na alça da sua caneca de café. Ele tinha terminado o café mais cedo
e suas mãos estava no seu colo. Ainda assim, eu estava tocando algo
que ele tocou.
—O que é óbvio? —Perguntei brincando.
—Você sabe o que quero dizer. —Ele disse, sua voz saindo,
entrando em território perigoso.
—Eu sei?

132
Ele assentiu, sem desviar os olhos de mim.
—Você é uma mulher muito inteligente Kennedy.
Mulher. Ele me chamou de mulher.
—Eu sei. —Eu disse.
—Que você é inteligente ou o que eu quis dizer com óbvio?
Eu ri do modo como ele estava brincando, provocando,
pescando por informação.
—Ambos.
Ele pegou a caneca vazia, batendo na alça que eu tinha
tocado, e depois alisando uma vez. Chamas se acenderam dentro de
mim pelo gesto e pelo o que parecia sugerir.
Contato.
—Se eu for num jogo seu, eu acho que seria óbvio quão
complicado isso se tornou.
O momento ficou lento, revelando um potencial.
Antecipação pairou no ar, e então a esperança que esse era o ponto
da virada. Uma rápida explosão de nervos correu pelo meu corpo,
mas eu ignorei. Eu estava pronta para o que vinha depois.
Mantendo meu olhar nos seus lindos olhos azuis, eu falei
suavemente.
—Você sabia que eu sei toda a letra de Chess?
Ele não disse nada imediatamente. Seus lábios se separaram e
ele olhou para mim, como se considerasse o que diria em seguida,
ou se deveria dizer alguma coisa. Então ele falou, numa voz que
quase vacilou.
—Se alguma vez fizerem um relançamento, eu te levaria para
ver.

133
Meu coração quase voou para fora do meu peito.
—Eu queria que tivesse um. —Eu disse, e as palavras saíram
entrecortadas, mas não me importei. —Há um excelente café no
Village. —Acrescentei antes que eu tivesse tempo de pensar, de
voltar atrás. Meu coração pulsava em todo o meu corpo, em toda
extensão da minha pele. Eu sussurrei as próximas palavras. —
Poderíamos ir lá e conversar sobre quem escalaríamos em um
relançamento.
Eu não tive que esperar muito pela resposta. Ela veio
imediatamente quando seus lábios se curvaram num sorriso que
dizia sim.
—Não consigo pensar em nada que eu quisesse discutir mais.

134
CAPÍTULO 16
Kennedy

O sol de maio me ilumina enquanto ando pelo Central Park


numa tarde de sábado. Está calor, mas não quente, um dia perfeito
de primavera em New York. As árvores estão cheias de verde.
Exuberantes e floridas. Eu respiro o perfume do frescor
profundamente, desejando poder passar o dia longe de casa.
Não vi minha mãe desde o jogo de Lacrosse de ontem,
quando eu disse para ela ficar longe do pai da Amanda. Eu a evitei a
manhã toda, saindo para almoçar e tomar café com a Amanda, mas
agora estou indo para casa.
Conforme subo os degraus até o sobrado de arenito
marrom, quase tropeço numa carta dobrada no último degrau. Eu
reconheço o papel marfim. É uma das nossas cartas de algumas
noites atrás, a de James Joyce que deixamos na casa da Bailey. Uma
carta anônima está voltando como bumerangue para a porta da
minha casa, e vê-la faz meu coração parar.
Cuidadosamente, abro a carta, mesmo com arrepios de
preocupação cobrindo minha pele. Mas não há nada no papel a não
ser as palavras que imprimi. O medo do desconhecido se dissipa.
Uma carta extra deve ter caído da minha mochila na outra noite.
Nada com que me preocupar. Destranco a porta e entro.
Os pés da minha mãe estão em cima da mesa de café e ela
está com seus óculos de leitura. Ela está marcando o que parece ser
a última versão do script de Lords and Ladies. —Eu peguei um pacote
com seis Cocas diet para você. Até conferi a data de validade, como
você sempre me diz para fazer, para ter certeza que está na validade.

135
—Ela diz com um largo sorriso, fazendo as aspas no ar com as
mãos quando usa minha frase de verificação da data de validade para
as Cocas diet.
—Você foi bem treinada. —Digo, aliviada. Talvez, ter sido
honesta ontem sobre o pai da Amanda foi o truque. Talvez, tudo o
que ela precisava era que fosse dito, expressando o pedido, “fique com
as mãos longe do pai da minha amiga”.
—Aliás, a coisa mais estranha aconteceu. —Minha mãe
começa, numa voz tranquila. —Minha publicitária, Bailey Waltham
recebeu uma carta anônima pelo correio desejando amor eterno.
—Mesmo? —Faço meu melhor para parecer desinteressada
enquanto meu coração bate na velocidade de um coelho.
—E olha que estranho. Ela disse que uma vizinha viu um
jovem casal colando cartas perto da casa dela em Gramerce Park.
—Minha mãe acrescenta, soando um pouco como um advogado
começando um interrogatório.
—O que há de estranho nisso? —Pergunto, apelando para
minha melhor habilidade de atuação.
—Bom, ela disse que a garota – a vizinha disse – estava
pedalando uma bicicleta prateada. Igual à que ela já viu você usando.
Abro o refrigerador com mãos trêmulas, mantendo meus
olhos longe dela e encarando as prateleiras. Eu não quero que ela
veja meu rosto e leia em meus olhos. —Isso é estranho. —Eu digo
em um tom monótono, mesmo que minha voz queira subir várias
oitavas. Será que foi a Bailey que deixou a carta na minha varanda
como um sinal? Ela sabia que fui eu?
Então minha mãe ri. —Eu disse à Bailey, “Bem, estou certa
que não foi a Kennedy.” Certo? Você não mandou um cartão a ela,
mandou, querida?

136
—Claro que não. —Digo, como se a ideia fosse ridícula.
Eu bato na lata de refrigerante e dou um grande sorriso falso.
—Obrigada pelo refrigerante.
—Qualquer coisa por você. —Minha mãe diz, e eu posso
respirar novamente. Subo as escadas. Quando chego ao andar de
cima, ouço o telefone tocar.
—Oi, Daniel, que bom te ouvir. —Ela diz, e eu paro de
andar, observando-a do alto.
Ela cruza os tornozelos, pousando-os na mesinha de café. Ela
é uma mulher linda. É alta, magra e em forma, seu cabelo é preto e
seus olhos são verdes, e ela sempre dominou uma sala, uma festa ou
um quarteirão inteiro. Os homens caem aos seus pés, ela é um
flautista mágico e eu não sei como ela faz isso, mas quando ela toca
sua música, eles a seguem, a bajulam e se submetem diante dela.
—Bem, claro que você deve conversar com sua amável esposa,
Daniel. Você ama Tokyo. Deixe que ela saiba o quanto você tem
procurado por um trabalho, o quanto significa para você ir nessa
viagem.
Meu estômago embrulha enquanto testemunho como ela faz
isso. Ela se intromete na sua vida, finge ser uma amiga e confidente,
dando a ele conselhos conjugais.
Ela para e espera por sua réplica. —Eu entendendo
totalmente. Mas você precisa ajudá-la a ver desta maneira. —Ela
continua, e eu sei que ela está só preparando o terreno, porque logo
ela vai sugerir que eles discutam esse assunto da viagem a Tokyo
tomando um café. É como se alguém ou algo tivesse me acertado,
ligado o timer de uma bomba que estava dormente dentro de mim.
Tento ignorar o barulho, o som e a tensão no meu corpo porque
nada importa, nada nunca muda.
Volto para o meu quarto, rabisco o nome do pai da Amanda

137
em um dos meus cadernos e a conversa que acabei de ouvir. Eu
quero lembrar de cada detalhe. Quero poder ligá-los se eu precisar
deles. Escondo o caderno, coloco minha mochila nos ombros e
desço as escadas. Minha mãe continua no sofá, ainda conversando
com ele. —Claro. Nos encontramos amanhã. Eu te ajudo com tudo
isso.
Aposto que sim.
Ela olha para mim e pergunta onde estou indo.
—Saindo. —Digo.
—Você não pode ficar? Hayes está vindo para revisar o
último acordo internacional, e então podemos pedir algo para
comer.
Afundo minhas unhas nas palmas das mãos. Não diga uma
palavra.
—Você costumava adorar sair comigo e com o Hayes. —Ela
acrescenta.
Não diga nada.
Estou com tanta raiva agora, que se eu falar, revelarei todas
as coisas sobre Hayes que eu nunca quis compartilhar. Pressiono
meus lábios fechados. Palavras podem me destruir agora.
—Kennedy, você está bem?
—Sim. —Murmuro. —Só preciso me exercitar.
Pego a minha bicicleta Joe. Preciso tirar da minha mente do
fato de que estou para perder outra amizade por causa do apetite
dela por homens. Pedalo com força, colocando distância entre mim
e aquele telefonema, entre mim e minha mãe.

138
Nossos beijos Roubados

Dois dias depois fomos ao Chocolate Cafe. Escolhi


uma barra de cereais de sete camadas e você pediu um
milk-shake de chocolate.

Estávamos tendo um encontro. Caramba.


ESTAVAMOS. TENDO. UM. ENCONTRO.

Eu tinha certeza que minhas emoções estavam


aparentes a todos, como um aviso de neon aceso a noite.
Você deveria saber. Mas eu também conseguia sentir o
seu nervosismo. Eu vi o modo como você se atrapalhou
com o papel do canudo, em como você engoliu
enquanto abria a porta para mim, no modo como seus
dedos escorregaram na primeira vez que pegou as notas
em sua carteira para pagar.

Andamos até o Abingdon Square Park que estava


próximo, aquele pequeno pedaço triangular de parque
no alto do Village que é como um oásis em Manhattan,
envolvido acolhedoramente em seus próprios muros de
árvores e flores. Sentamos num banco no parque e você
estava com seu milk-shake nas mãos.

—É tão bom. Parece um chocolate quente gelado.


—Você disse, de volta ao seu lado tranquilo e confiante
que eu adorava tanto quanto o seu lado nervoso. —Quer

139
experimentar?

—Sim. —Falei, e tomei um gole, usando o mesmo


canudo. Meus lábios tinham tocado onde os seus
também tocaram. Eu olhei o canudo, e vi a marca que
meu brilho labial deixou nele. —Marcas de batom.

—Eu gosto. —Você disse.

Minha pele arrepiou. Eu estava tão consciente da


sua proximidade. —Das minhas marcas de batom?

—Seus lábios. —Você respondeu, seus olhos azuis


mais escuros do que eu jamais tinha visto antes. Cheios
de calor. Não havia mais nervosismo. Apenas pura
sensualidade. Desejo sem pudor. Vibrei por dentro,
arrepios quentes correndo pelas minhas veias. As
perguntas terminaram. Estávamos ambos no mesmo
lugar, na mesma zona, e com a mesma necessidade.

—Posso te beijar? —Você perguntou, e minha pele


se arrepiou da cabeça aos pés.

—Sim.

Nossos lábios mal roçaram, mas foi elétrico. Foi


fogo e relâmpago, e o céu se abrindo. Nessa insinuação
de beijo, nos tornamos “nós”, mesmo quando nós dois
nos seguramos, conscientes de que muito em breve nos
arruinaria. Mas ambos sabíamos, no tocar suave de
nossos lábios, nas mãos nos braços, mãos no cabelo,

140
mãos tão ansiosas para tocar, que não haveria como
voltar atrás.

Com cada respiração, eu senti o entusiasmo pelo


perigo, de lapidar um diamante bruto, de fugir sem ser
pega, de esconder algo selvagem, travesso e maravilhoso.
Eu estava no topo do mundo.

Quando você se afastou, aquele olhar atordoado


nos seus olhos me disse que você estava tonto também.
Eu memorizei aquele olhar, e a sensação do nosso beijo.
Era o tipo de beijo que apagava todos os anteriores, que
apagava os que estavam por vir, que se tornaria a
referência de beijo a que todos seriam comparados
daqui por diante.

—Uau. —Você disse num murmúrio.

Então paramos de nos beijar e fizemos o que


viemos fazer. Escalamos o elenco para a remontagem,
escolhendo os três atores principais. Estávamos
satisfeitos com a seleção, e com nossa habilidade de
atuar como diretores de elenco.

Ignorei o fato de que o musical não tinha um


final feliz.

Eu e você teremos um final feliz, não teremos?

Vamos reescrever Chess.

141
CAPÍTULO 17
Kennedy

Preciso de velocidade. Preciso de perigo.


Coloco meu capacete e saio voando da calçada para a rua.
Ouço uma voz chamar meu nome. Viro a cabeça
momentaneamente, mas tudo que vejo é um clarão de cor laranja
brilhante antes de voltar minha atenção novamente para o tráfego
que preciso percorrer na Central Park West e Columbus Circle.
Logo pego a Seventh Avenue dentro do tráfego do final de
tarde, entrando nele, voando para o centro da cidade, disparando
por entre carros, caminhões e veículos de entrega. Continuo
pedalando e me espremendo por entre pequenos espaços até a
Broadway cortar a Seventh Avenue. Com cada quarteirão, a
memória da conversa da minha mãe com o pai da Amanda vai
ficando em uma trilha atrás de mim.
Uma porta de carro abre e eu voo. Desvio para o lado, pedalo
ao lado de um taxi enquanto vou em frente, meu foco reduzido
apenas para a rua à minha frente e meu papel nela. O táxi freia no
sinal vermelho, mas eu atravesso enquanto os carros da Thirty-
Ninth Street buzinam para mim. Sou mais rápida do que eles e passo
voando. Depois passo pela Chelsea, e voo cruzando as ruas em
ângulos malucos na Village. Tem uma ambulância agora, vindo na
minha direção, entrando na St. Vincent enquanto eu passo por trás
dela, quase prendendo minha perna no para-choque.
Quando chego em Tribeca, parte de trás da minha camiseta
está grudada em mim e meus pulmões ardem, mas não parei
nenhuma vez, em nenhum semáforo, ou para um pedestre ou carro.

142
Então, viro na Seventh para a Church Street e meus pulmões
protestam. Tento recuperar um pouco de fôlego. Um minuto depois
estou passando pelo Federal Reserve Bank e em seguida a orla de
Manhattan fica maior e vejo árvores emergindo mais perto e o
Battery Park está a apenas um quarteirão. Impulsiono mais o meu
corpo, minha cabeça baixa, meus olhos fixos apenas no prêmio.
Quase lá.
Segundos depois, eu paro, minha respiração saindo com
dificuldade quando tiro meu capacete.
Consegui meu melhor tempo de todos. Dezesseis minutos.
Pequenas vitórias, a Caroline diria.
Meu telefone toca.
—Alô? —Respondo sem nem olhar.
—Não me diga que vou ter que visitá-la novamente no
hospital como aquela vez que você quebrou seu pé num skate no
trânsito.
A voz dele envia uma carga pelo corpo, me iluminando. Ele
não me telefonava há quatro meses. Apenas mandávamos
mensagens. Ele me conhece. Ele sabe que eu precisava mais do que
uma mensagem de texto hoje. Ele me conhece melhor do que
ninguém. —Estou sã e salva em Battery Park. —Digo, amando que
ele esteja preocupado.
—Você guia como um piloto kamikaze. —Ele diz em um
aviso cuidadoso.
—Eu sei.
Então há uma pausa. O ar entre nós estala como sempre,
como se tivesse sua própria energia ou frequência. Um de nós vai se
ceder. Um de nós vai vacilar.

143
—Volte. —Ele diz, com tanta saudade na voz.
—Eu não quero estar aí nesse momento. —Eu digo,
passando as mãos pelo meu cabelo.
—Volte mais tarde então.
—Eu não quero estar aí mais tarde.
—Em algum outro lugar? —Ele pergunta, e há esperança no
modo como ele fala. Eu não consigo evitar em concordar. Eu
também sinto. Eu também quero. Eu quero a esperança, felicidade e
a fuga que sempre senti com o Noah Hayes, o único homem que já
amei.
—Qualquer outro lugar. —Eu digo, e enquanto falo, uma
leveza me atinge. Estou pronta para deixar de ficar longe dele.
—Te vejo no nosso lugar em três horas.
Nosso lugar.
Estou animada, estou iluminada, uma doce volta ao passado
que se tornou presente novamente. É tudo tão familiar e seguro à
sua própria maneira. As memórias voltam, batendo na parede,
espreitando em esquinas, esperando ser vistas. Eu cedo a elas,
aperto o play e vejo o filme dos meus momentos favoritos dos seis
meses em que eu estava no meu caso secreto com o parceiro de
negócios da minha mãe, seu agente, seu melhor amigo.
Como a vez que fomos ao jogo dos Yankees no final do
último verão.
Ele estava na nossa casa uma tarde, e tirou dois ingressos,
mostrando-os como um mágico mostra uma carta. Naturalmente,
ele deu prioridade a minha mãe. Mas ela recusou. —Eu detesto
assistir esportes em que minha filha não está jogando. Por que não
leva a Kennedy?

144
Como se a ideia tivesse sido dela.
Como se não tivéssemos planejado assim.
No dia do jogo, eu fui à loja da Mac ali perto e pedi para a
artista maquiadora se ela podia pintar um logo dos New York
Yankees, azul e branco, na minha bochecha. Então fui para casa,
vesti uns shorts jeans, uma camiseta azul e um chinelo e disse tchau
para minha mãe.
—Tome um táxi para voltar, querida. —Ela disse, colocando
uma nota de cem dólares na minha mão. —O Hayes vai te
encontrar um.
—Sim, mãe. —Eu disse, e sorri para mim mesma ao sair de
casa como se estivesse indo para a estação de metrô mais próxima e
planejando encontrá-lo no estádio. Em vez disso, andei um
quarteirão até o carro de luxo que ele alugou e estava esperando. Ele
abriu a porta pelo lado de dentro e eu entrei, fechando com um
click. Todas as pessoas passando depois do trabalho ou começando
suas corridas noturnas no parque, estavam do outro lado do vidro.
—Oi. —Falei, com um sorriso conspiratório.
—Oi. —Seus olhos brilharam.
Deslizei os dedos pelos assentos de couro. —Carro legal.
—Você gosta de mim pelo meu carro?
—Oh, exatamente. Sim, exatamente isso.
—Diga. —Ele brincou. —Diga que você gosta de mim pelo
meu carro.
—Nunca!
—Vamos. Só um pouquinho? —Ele disse, me atiçando, mas
eu sabia que ele queria a garantia do porque eu gostava dele, e não
era pelo carro, porque eu não me importava se ele tinha um carro de

145
luxo ou não. Eu gostava dele por ele, e não pelos benefícios de seu
emprego, nem pelo fato de ser um agente jovem e sexy. Eu era
provavelmente a única pessoa com quem ele interagia regulamente,
exceto talvez pelo seu amigo Matthew, que não tinha tempo. Ou
melhor, era o meu tempo que ele queria, que era um tempo sem
restrições. Eu gostava dele por ele, simples, descomplicado e nada
mais.
—Eu te acompanharia a pé até o Yankee Stadium. —Eu
disse, colocando minha mão em sua coxa.
—Está bem, vamos parar agora.
—Tudo bem, talvez nem tanto. —Eu disse, e então passei os
dedos pela bainha de seu shorts caqui. —Você está usando shorts.
—Você já me viu de shorts antes. Quando corro de manhã.
—Apenas estou acostumada com você em suas calças e
camisas perfeitas.
—Então passe mais tempo comigo nos fins de semana ou à
noite e você verá o que mais eu visto, ele disse, levantando uma
sobrancelha como uma sugestão.
—Algum dia.
—Algum dia em breve? —Sua voz aumentou um pouquinho.
—Sim. —Sussurrei, fazendo a promessa que fiz para ele de
novo e de novo. Que algum dia ficaríamos juntos de verdade. Ele
tinha vinte cinco anos, e eu tinha completado dezessete no início do
verão. Haveria tempo para o juntos de verdade. Pela estrada, não muito
longe, depois que eu estivesse na faculdade.
Ele suspirou profundamente, um suspiro de alívio, como se
eu tivesse dado o presente que ele sempre quis. Eu era o presente,
ele me queria, tudo de mim. Ele passou o polegar no meu queixo.
—Como vou colocar as mãos em sua bochecha e te beijar sem

146
estragar o seu escudo dos Yankees?
—Você ia lamber minha bochecha?
—Não, garota engraçada. —Ele disse, e colocou a mão na
minha bochecha. —Eu apenas gosto de tocar seu rosto, ok?
—Por que você não tenta e vê se consegue não bagunçar?
Passamos o resto do caminho nos beijando no carro, nosso
pequeno mundo privado, indiferentes para o resto da cidade. Eu
não tinha interesse em parar, nem ele. Mal parávamos para respirar.
Não tínhamos o suficiente um do outro. Não parávamos de nos
beijar, nossos lábios necessitando se encontrar de novo e de novo.
Suas mãos estavam nos meus cabelos, segurando meu rosto, seus
dedos traçando meu pescoço.
Quando chegamos meus lábios estavam inchados, mas o meu
escudo estava perfeito.
Assistimos ao jogo, torcemos e batemos palmas, gritamos os
nomes dos jogadores quando eles rebateram, e ele me envolveu em
um grande abraço, aqueles braços fortes ao redor, quando o
shotstop20 bateu um home run21 na sétima entrada, eu transformei o
abraço em um beijo no meio do Yankee Stadium. Um beijo intenso,
molhado e cheio de paixão e fogo, e desejo por mais. Estávamos
num mar de estranhos felizes e o fato de que estávamos mentindo
para minha mãe não importava para nenhum deles. Ninguém nos
conhecia. Ninguém podia nos conhecer. Eu não morava em uma
cidade pequena. Eu morava numa cidade gigante. Uma cidade que
podia te engolir ou te fazer nadar nela. Eu estava nadando nela, a
água era boa e a corrente estava me levando. New York era minha
cúmplice. New York fez meu caso com Noah Hayes não só possível
como fácil.
20
No beisebol, o interbases, ou shortstop, é o jogador que ocupa a posição entre a segunda e terceira
bases
21
É uma rebatida na qual o rebatedor é capaz de circular todas as bases, terminando na casa base e
anotando uma corrida.

147
Ele me levou para casa depois do jogo e entrou.
—Sã e salva, como prometi. —Ele disse para minha mãe.
—Você é um querido. —Ela disse. —Agora me conte tudo,
me conte tudo sobre o jogo, Espere. Não me conte do jogo. Eu não
ligo para baseball. Me conte uma história. Me conte algo interessante
sobre os fãs.
Eu deixei que ele falasse e fui para a cozinha pegar uma Coca
diet. Eu abri e me encostei no balcão, ouvindo-o contar histórias
para ela. Ele me olhava algumas vezes, e cada vez que ele fazia isso,
eu pensava em como afinal era eu que tinha um segredo, era eu que
sabia algo que minha mãe não sabia, e eu ia deixar isso como estava
para todo o sempre e então mais um pouco. Pela primeira vez na
vida, eu tinha a vantagem sobre ela.
E agora eu posso novamente. Agora eu posso com esse
segredo. Com o fato que ele é o Noah para mim. Que eu sou a única
que tem permissão de usar seu primeiro nome. Eu rodo pela cidade,
indo para o nosso lugar, a tarde virando noite.
Eu tranco minha bicicleta perto da entrada do Madison
Square Park. Ele já está lá, sentado em um banco, fones nos
ouvidos, as mangas de sua camisa laranja enroladas. Ele sorri todo o
tempo enquanto eu caminho e sento ao lado dele. Eu tiro os fones
dos seus ouvidos e coloco nos meus.
Ele está ouvindo músicas de shows da Broadway, desta vez
“Old man river” do Show Boat. Eu sorrio para a música, e reviro os
olhos. —Você e suas músicas de shows.
—Eu e minhas músicas de shows. —Ele diz e eu tiro os
fones e os coloco gentilmente sobre sua coxa, as pontas dos meus
dedos tocando o tecido de suas calças.
Ele olha para baixo e então coloca suas mãos nas ripas do
banco. Movo minha mão para perto da dele, e agora nossas mãos

148
estão tão próximas que me sinto completamente quente, como se
uma barra de chocolate amargo estivesse derretendo por todo o meu
corpo. Em algum lugar distante, um carro canta os pneus quando
para no sinal. Poderia estar acontecendo em Plutão.
—Kennedy. —Ele diz, e então balança a cabeça, mas não tira
os olhos de mim. Seus olhos, aqueles olhos azul-escuros são como
um raio que me atrai e que não consigo abandonar.
Aproximo minha mão, meus dedos quase tocando nos dele.
O espaço entre nós está carregado, cheio de energia, desesperados
por contato.
—Diga as palavras. —Eu digo, e pressiono a ponta dos meus
dedos levemente contra os seus. Eu assisto enquanto ele abre as
mãos, abrindo espaço para mim. Deslizo meus dedos entre os seus,
carne com carne finalmente. O toque da sua pele é ao mesmo tempo
um alívio e uma emoção. Ele fecha sua mão em volta da minha e
segura firme.
—Eu sinto tanto a sua falta. —Ele diz, olhando para mim
como ele fez no carro a caminho do jogo dos Yankees, como ele fez
no café, como ele sempre disse que faria.
Eu estou feliz. Eu estou com esperança. Não estou mais em
guerra comigo mesma. Eu pertenço a ele.
—Eu também. —Digo, segurando seus dedos intensamente
enquanto a conexão do momento se encaixa rapidamente. Em um
borrão, eu me movo. Monto nele. Subo em seu colo, afastando suas
mãos e entrelaçando meus dedos nos seus cabelos. Ele exala com
força e seu peito se enrijece. Ele segura meus quadris, aproximando-
os, mas não muito perto, mantendo um fio de distância entre nós,
como ele sempre fez. Nos encaramos. Os meses desaparecem e eu
caio novamente. Para dentro de seus olhos azuis. Para seu toque.
Em seus braços.

149
Aqui em Manhattan, em um banco no parque, com uma
noite de primavera chegando atrás de nós, estamos prontos para
colidir um no outro. E entrar em órbita novamente.
Seus lábios esmagam os meus, e é um frenesi de beijos, um
caos de lábios, línguas e dentes. Uma confusão de suspiros e
gemidos, de respirações e nomes. Eu aperto suas coxas mais forte
com as minhas, pressionando contra ele, peito com peito, corpo a
corpo, tudo alinhado. Tudo se encaixa, especialmente ele comigo, e
eu com ele. Ele é a peça do quebra cabeça que se encaixa no meu
coração, preenchendo toda a tristeza e pontos vazios dentro de
mim.
Ele me puxa para mais perto e eu me movo para ele,
querendo acabar com qualquer espaço restante entre nós. Eu apago
os segundos finais com mais beijos, profundos, mais quentes e mais
carentes.
Não sei por quanto tempo nos beijamos. Tudo o que sei é
que é tempo suficiente para o beijo ameaçar ir longe demais, e é por
isso que ele finalmente se afasta, gentilmente, mas firmemente, me
empurrando para longe.
Eu pego a dica. Eu não estou pronta para ir mais longe. Eu
desço de cima dele, mas fico o mais perto possível, com braços em
volta dele, minha cabeça deitada em seu ombro. Ele acaricia meu
cabelo, e sussurra meu nome no meu ouvido. Os sons dos sussurros
percorrem minha pele, disparando outra rodada de arrepios.
—Kennedy, você me estragou para qualquer outra.
Não consigo deixar de sorrir. Eu nunca tive nenhum poder.
Eu nunca quis ter um poder como esse. Mas eu tenho porque vem
da única coisa que possuímos e que ninguém pode tocar.
Ergo a cabeça e olho para ele. —Eu estou arruinada há muito
tempo. —Eu digo, passando as mãos em seus cabelos macios, e

150
puxando-o de volta para mim para outro beijo, dizendo a ele com
meus lábios que ele é meu, que eu sou sua dona, e o modo como me
beija de volta é a confirmação que eu precisava que ele quer que só
eu seja sua dona. O ar quente toca suavemente a pele nua dos meus
braços e enquanto chega um som de um carro que freia em algum
lugar na rua movimentada. Os sons de New York não nos param,
nem quando somos pegos em nosso hobby favorito, beijos intensos
que deixam a cabeça entre nuvens.
Algum tempo depois, não sei quando, nos levantamos para ir
embora.
—Tenho algo para você. —Ele diz.
—O que é? —Pergunto, mas ele já está desabotoando sua
camisa, revelando uma camiseta branca por baixo. A camiseta o
veste como num sonho, esticada em seu peito forte, mostrando os
músculos dos seus braços. Meu coração salta no peito. Ele é lindo.
Ele é meu.
Ele me dá a camisa laranja e eu pressiono contra o nariz,
inalando ele, inalando nosso segredo. Então depois de outro beijo
ardente que é uma promessa de mais dez mil que estão por vir, eu
destranco minha bicicleta e volto para casa, para meu quarto, onde
tranco a porta e visto sua roupa, adormecendo com sua camisa
laranja, me sentindo segura mais uma vez.

151
CAPÍTULO 18
Kennedy

Depois do nosso primeiro encontro no Chocolate Café,


fomos ao Frick, um de meus museus favoritos na cidade. Ele
comprou as entradas e andamos nas galerias em uma tarde calma de
verão, quando já não havia multidão.
Eu me inclinei e falei quase em um sussurro. —Eu acho que
este museu é perfeito. Quer saber por quê?
—Me diga por que você acha que esse museu é perfeito.
—Ele disse.
—Porque você pode ver o museu todo em menos de uma
hora.
—Ah, então você não é daquelas pessoas que precisam passar
um dia todo olhando para arte, a estudando, e olhando cada pintura?
Balancei a cabeça. —Eu prefiro saber a história por trás da
arte. É por isso que quero estudar artes na faculdade. —Para ver a
história através da arte.
Ele ficou mais perto enquanto andávamos pelo primeiro
conjunto de pinturas. —Eu gosto desta ideia. É uma maneira bacana
de olhar para a história.
—Não é? Através das pinturas. Através do que elas te dizem
sobre as pessoas.
—De certo modo é como psicologia. —Ele disse, como se
estivesse ponderando a ideia.
—É sobre entender as pessoas e o que importa para elas.

152
—Exatamente. —Eu disse, e sorri.
Ele me cutucou gentilmente com o cotovelo. —Me conte um
pouco de história da arte então.
—Então, esse museu era uma casa. —Comecei contando a
história do Frick. —A casa de Henry Clay Frick, que era um tipo de
homem de negócios da Pennsylvania na virada do século e um
grande colecionador de arte. Essa era basicamente sua coleção
particular. E ele deixou tudo quando morreu como uma coleção de
arte para o público.
De repente, parei de falar. Noah provavelmente sabia disso.
Ele cresceu perto de New York, passou um tempão na cidade
quando garoto, e morou em Manhattan durante toda sua vida adulta.
Eu nem tinha uma vida adulta, e aqui estava eu, tentando ensinar
algo que ele provavelmente já sabia. Inferno, ele estava demais hoje,
sofisticado e bacana em sua camisa verde-floresta, suas calças pretas,
seus sapatos chiques e a barba por fazer.
—Mas você com certeza já sabia disso tudo. —Eu disse
rapidamente e me afastei dele.
Ele pegou minha mão. —Eu não sabia nada disso, Kennedy.
Eu nunca estive no Frick. —Seus olhos se fixaram em mim, firmes e
sérios. —Obrigado por me trazer.
Passamos pela West Gallery, que exibia várias pinturas
holandesas. Ele parou no Portrait of a Young Woman22, de Fran Hals,
uma imagem de uma mulher corpulenta e corada, vestida com um
vestido de seda preto, com uma engenhoca firme de renda no
formato de uma colmeia de abelha subia pelo comprimento do seu
pescoço até o seu queixo. Uma gola parecida enfeitava quase todas
as pessoas nos quadros holandeses na galeria oeste.
—Qual é a dos coletores de farelo holandeses? —Ele
22
Retrato de uma jovem mulher

153
perguntou, avaliando as pinturas. —Elas são como golas gigantes.
Quero dizer, se você as sacudisse de ponta cabeça, aposto ia cair um
monte de comida.
Eu ri, e então o Noah gesticulou em direção à uma pintura de
Francisco de Goya pendurada no canto. A pintura era chamada de
The Forge e mostrava trabalhadores forjando metal.
Noah se inclinou e sussurrou para mim. —Você acha que o
Sr. Frick estava jogando poker com Sr. Guggenheim e então eles
apostaram essa pintura? E então o Frick ganhou, e o Guggenheim
disse, “Eu te desafio a pendurar essa pintura. Que tal naquele canto
que antes tinha a toalha do Elvis emoldurada?”.
Dessa vez rachei de rir. Eu gostava quando ele meio que
brincava com uma situação. Mas gostava ainda mais do que ele
estava fazendo. Ele queria me fazer rir.
—Era provavelmente uma daquelas toalhas pretas grandes.
—Ele continuou. —Com o rei usando uma jaqueta de couro branco
cravejada.
—Você deve ter sido um grande fã dele quando era criança,
certo? Quero dizer, ele era popular quando você estava crescendo.
Era o auge dele, né? —Brinquei, esperando pela resposta.
Um sorriso tomou seu rosto e ele balançou a cabeça para
mim. —Minha nossa, você é tão engraçada.
Observamos um Turner, e depois passamos por uma
exibição de Fragonards, incluindo a pintura The Stolen Kiss, que era
um empréstimo de um museu de St. Petersburg, na Rússia. Na
pintura, um homem beija o rosto de uma mulher.
—Eu gosto desse. —Ele me disse com uma voz baixa e sexy.
Arrepios passaram pela minha pele. —Eu também.
Não havia piadas, nem provocação, nem brincadeiras sobre

154
arte entre nós dois nesse momento.
Ele levantou a mão para tocar meu cabelo, e tirou uns fios
castanhos do meu pescoço. O mínimo toque fez meu interior virar
de ponta cabeça. —Me faz pensar em você. —Ele disse suavemente
e meio rouco perto do meu ouvido. Eu tremi toda e fechei meus
olhos por um segundo para deixar a sensação me percorrer. —Mas
também, a maioria das coisas atualmente me fazem pensar em você.
Eu não me movi. Simplesmente fiquei lá, com sua mão no
meu cabelo, suas palavras no meu ouvido, meu corpo tão
perigosamente próximo ao dele. Eu estava vagamente consciente de
alguns frequentadores do museu passando.
—Vamos para o pátio. —Eu disse, apontando para o pátio
retangular no meio da casa, com uma fonte e bancos. Logo
estávamos sozinhos, longe de olhares curiosos. Ele puxou meu
braço e me girou, e assim ficamos cara a cara. Seus olhos
percorreram meu corpo e pararam em meus lábios.
—Posso te roubar um beijo, K?
Meu corpo zumbiu e arrepiou-se todo. —Você não tem que
roubá-lo porque eu vou te dar livremente.
—Então vou aceitar sua oferta. —Ele disse, e reencenamos a
pintura. Eu estava sentindo um fogo lento quando seus lábios
tocaram minha bochecha e ele os manteve ali, sem pressa. Era
simplesmente um beijo no rosto, mas em nenhum momento me
senti assim antes. Eu nunca senti meu corpo querer algo, alguém,
tanto.
Nos separamos, e o olhar em seu rosto estava atordoado.
Como um personagem de desenho animado bêbado. Quando nos
sentamos em um dos bancos, ele pegou minha mão e entrelaçou
seus dedos nela. Segurando firme. Eu apertei de volta.
—O que eu vou fazer com você? —Ele perguntou em voz

155
baixa.
—O que você quer dizer?
—O que vou fazer sobre o fato de que estou me
apaixonando por você?
Tudo em mim tremeu. Eu estava viva, agitada e com calor.
Eu ia precisar de um ventilador ou talvez um contingente de servos
com folhas de palmeira para me manter fresca. —Estou me
apaixonando por você também. —Eu falei, porque não consegui me
conter mais.
—Você acha ruim que eu seja mais velho do que você? —Ele
perguntou e parecia envergonhado.
Mas desde que eu estivesse com ele, seria a última pessoa a
achar que seus sentimentos eram ruins. Mesmo assim, eu estava feliz
que ele havia levantado a questão. Seria estranho se não tivesse feito.
—Não. —Eu falei, balançando a cabeça. Porque eu não
achava. Sua idade, e ele tinha apenas oito anos a mais do que eu, não
importava para mim. Não era uma diferença grande, não era nem
uma diferença grande de vida. Muitos dos pais dos meus amigos
tinham a mesma diferença de idade ou até mesmo maior. —Você
acha?
Prendi a respiração, esperando, rezando, precisando que ele
dissesse não.
—Mais ou menos. —Ele disse. —Quero dizer, não acho que
isso nem seja legal.
—Na verdade, é. —Eu corrigi. —Eu pesquisei. A idade de
consentimento em New York é dezessete. Eu fiz dezessete em
junho. Então, há dois meses. Antes de eu começar a ir ao seu
escritório. —Acrescentei.
Ele deu um pequeno sorriso. —Olha para você. Checando os

156
fatos. Estou orgulhoso.
—Não estou tentando lisonjeá-lo. —Eu disse com firmeza,
porque a verdade era importante. A lei ainda mais. Alguns estados
definiram dezoito anos como a idade de consentimento, mas Deus
abençoe New York por colocar dezessete. Além disso, eu estava
consentindo. Ele era a minha escolha. —Eu queria saber. Não
estamos fazendo nada de errado.
Deus, se ele terminasse tudo depois daquele beijo, depois
daquele encontro, eu ia murchar. Ele era a única pessoa por quem
eu já me senti assim. Estar com ele tirou a dor e a vergonha do
bando de mentiras que eu contei.
—Ainda assim. —Ele disse e sua voz sumiu. —Eu meio que
me sinto um imbecil.
—Não sinta. —Eu disse rapidamente e coloquei minha mão
sobre a dele. —Não se sinta assim de modo algum. Eu gosto tanto
de você, e não penso na diferença de idade. Você gosta de mim,
certo?
—Obviamente. —Ele disse e se aconchegou em mim
rapidamente, antes de ficar sério novamente. —Ainda assim. Temos
que ter cuidado.
—Você quer dizer nada de amassos no pátio do museu?
—Perguntei, levantando uma sobrancelha.
—Quero dizer nada mais do que amassos.
Minhas bochechas ficaram vermelhas. Nós apenas havíamos
nos beijado, mas já estávamos falando sobre sexo.
—Noah, não estou nem remotamente pronta para chegar lá.
—Eu disse. Eu nunca fiz sexo, e não estava pronta para isso. Se ele
queria mais, ele estava com a garota errada, e era isso. Ele teria que
estar bem com situação ou eu iria embora. —Você tem que saber

157
disso para estar comigo.
—Estou ok com isso. E acho que é tudo o que devemos
fazer. Idade de consentimento ou não, legal ou não, você está no
ensino médio e eu estou, seja lá o que quiser chamar, depois do ensino
médio. Você sabe o que ia parecer.

Noah

Pareceria ruim.
Passei a mão pelos meus cabelos e deixei a testa cair em
minhas palmas. O que eu estava fazendo?
Apesar de ter a lei do nosso lado, ela era uma adolescente. Eu
deveria ser o maduro. Então, havia aquela pequena questão de que
ela é a filha da minha cliente. Eu estava em uma situação difícil, mas
Deus me ajude. Ela era uma espécie de mágica para mim. Ela era
tudo que eu nunca soube que queria, e rapidamente se tornou a
única pessoa com quem me sentia eu mesmo.
De algum modo, eu estava acostumado a ficar sozinho. Sem
irmãos ou irmãs, sem pai ou mãe, eu era só trabalho e nenhuma
diversão. Meu foco no trabalho e na minha carreira valeram a pena,
e também me mantiveram ocupado. Mas no final do dia quando eu
ficava só, eu me sentia à deriva.
Com a Kennedy, eu tinha uma âncora. Ela preenchia todos
os espaços solitários dentro de mim com seu riso, seu humor
inteligente e irônico e com tudo o que tínhamos em comum.
Claro, eu provavelmente deveria ter caído fora antes de ir
muito fundo. Mas esse é o negócio com se apaixonar. Todos os

158
filmes, livros e shows de TV vão te dizer que você não pode
escolher por quem se apaixona. Você zomba, ri e diz: “Tá certo. Claro
que você pode evitar”.
Até que acontece com você.
E você não pode evitar.
Você não tem poderes para resistir.
Ou você, na verdade, escolhe parar de resistir.
Porque em vez de fugir da fruta proibida, eu fiz o que
homens tem feito há séculos. Mordi e cuspi fora a vergonha de
como pareceria ou o que diriam sobre mim por me sentir assim por
uma garota no ensino médio. Danem-se as consequências, a
realidade tinha um sabor melhor do que o risco. Coloquei os braços
em volta do seu pescoço e a puxei para perto. —Eu não planejei
isso, K. Eu não previ me sentir assim.
—Eu sim. —Ela disse, parecendo envergonhada. —Eu
sempre tive uma queda enorme por você.
—Você tinha? —Perguntei, me afastando para olhá-la com
curiosidade.
—Sim. Eu gostava tanto de você. Era por isso que ficava
indo ao seu escritório. —Ela disse, como se fosse a confissão de um
segredo.
—Você queria baixar a minha resistência?
—Funcionou? Meu plano maligno?
—Musicais, biscoitos de chocolate, nem uma palavra sobre
negócios de TV. Sim, eu diria que funcionou perfeitamente. —Eu
disse. Então abaixei a voz, para a verdade nua e crua. —E agora sou
seu.
Eu nunca tinha me sentido tão vulnerável como naquele

159
momento. Eu estava arriscando muito, mas ganhando muito mais,
porque com ela, eu estava feliz.
—Você é meu? —Ela sussurrou, e eu podia ouvir o
nervosismo na sua voz, como se ela quisesse se certificar e ter
certeza que era tudo o que eu sentia.
—Kennedy, sou tão louco por você que gostaria de estar
com você mesmo se você gostasse de hip-hop ou bandas de metal, e
eu não suporto nenhuma das duas.
—Você não tem nada com que se preocupar com relação a
isso. “Então, me diga porque deveria ser verdade. Eu curto você”.
—Ela disse na voz mais sedutora que já a ouvi usar, e me excitou
sem limite.

Nossos Beijos Roubados

Você usou a palavra com C.

Não, não essa.

A boa palavra com C.

A de cair.

Você estava se apaixonando por mim, e eu estava


me apaixonando por você e estávamos caindo juntos na
terra dos caídos. Você colocou suas mãos nas minhas
bochechas, tocando meu rosto e seus lábios encontraram
os meus e nos beijamos até que o museu fechou. Pela

160
primeira vez na vida eu tinha algo puro, algo perfeito,
algo o oposto de tudo que eu conhecia.

Eu estava feliz. Mais feliz do que jamais estive.


Eu deixei que suas palavras. “Sou seu.” Me
preenchessem com um tipo de alegria que vem apenas
com a queda no amor.

161
CAPÍTULO 19
Kennedy

Um dos benefícios dos hábitos de minha mãe é que era fácil


colocar a venda sobre seus olhos sobre meu próprio caso. Era fácil
porque ela estava preocupada. Era fácil porque ela estava tendo seu
próprio caso com Jay Fierstein, o parceiro de negócios do meu pai.
Era fácil porque eu sabia como esconder, tendo visto e ajudado ela
por anos.
Era mamão com açúcar por outra razão também. Porque ela
nunca iria suspeitar. A minha mãe nunca pensaria que eu pudesse
estar envolvida com seu agente. Em seu sistema solar, todos os
planetas, incluindo Noah Hayes, giravam em volta dela. A ideia de
que eu poderia ter derrubado um de seus planetas de sua órbita nem
passaria pela sua cabeça.
Mas uma noite após uma festa nos arriscamos muito. Os
mesmos de sempre já tinham vindo e ido e Noah era o último ali.
Nós três relaxávamos na sala.
—Faz tanto tempo que você não vinha nos meus jantares.
—Minha mãe reclamou para mim.
Esta era mais uma pista que ela deixou de perceber. —O
fato de que eu de repente me interessei por suas festas novamente.
Eu só estava interessada por causa do Noah.
—Mãe, você sempre soube dar uma ótima festa. —Eu disse.
Ela bocejou e disse que precisava se retirar.
—Eu limpo tudo. —Falei.

162
—Eu ajudo. —Noah completou.
—O que faria sem vocês dois? —Ela beijou Noah em ambas
as bochechas e disse boa noite e fez o mesmo comigo. Ela retirou-se
para seu quarto e quando ouvimos a porta se fechar, ambos
sorrimos.
—Louça? —perguntei sugestivamente.
—Vamos mergulhar na água quente. —Ele brincou.
Recolhemos os pratos e taças de vinho das mesas, pegamos os
guardanapos e juntamos todas as travessas de servir. Enchemos a
lavadora de louça, e eu amei como ele arrumou a louça de modo
apropriado, nos lugares certos, exatamente onde deveriam estar. Ele
era organizado como eu. Eu me virei para a pia para lavar o resto da
louça. Noah começou a desabotoar os punhos de sua camisa roxa,
uma cor rica de berinjela e eu o detive.
—Deixe que eu faço. —As luzes estavam fracas na cozinha, a
casa estava fazendo sua própria versão do crepúsculo.
Ele ofereceu seus pulsos, e eu tomei meu tempo,
desabotoando o punho direito com cuidado, dobrando-o uma vez e
depois outra. A chance de estar perto dele, mesmo assim, era uma
emoção arrebatadora. —Eu amo suas camisas. —Eu disse, sem
fôlego. —Eu já te disse isso?
Ele balançou a cabeça, apertou os lábios como se estivesse
segurando tudo o que queria dizer. Comecei a desabotoar a
esquerda, lentamente libertando o botão de metal de sua casa
continuando minha confissão. —Amo todas as suas camisas. A azul,
a roxa, a verde, a laranja, a rosa e a vermelha. Amo todas. Amo
como elas te vestem, como são coloridas e como elas são tão você.
Eu sempre ficava pensando qual camisa você estaria vestindo antes
de você chegar. E passava todas suas camisas pela mente, porque eu
cataloguei todas elas.

163
Ele fechou os olhos por um instante, segurando no balcão só
por um segundo, seus dedos agarrando o mármore. —Você não
tem ideia do quanto... —Ele disse, e então parou. Ele era cuidadoso
comigo, sempre cuidadoso para não dizer demais.
Eu me inclinei em seu pescoço, passando os lábios contra ele,
ouvindo um pequeno suspiro escapar de sua boca. Seus dedos
foram até o meu cabelo, e logo ele estava beijando meu pescoço,
deixando um rastro de beijos necessitados e quentes pelo meu
pescoço.
—Noah. —Murmurei, arqueando as costas, o convidando
para mais beijos, mais toques, mais dele.
—Amo o modo como diz meu nome. —Sussurrou, e a sua
voz foi ficando mais urgente enquanto ele espalhava os dedos pelos
meus cabelos. A água na pia continuava correndo.
—Noah. —Eu disse de novo, e de novo e de novo. A
urgência de seus beijos aumentou, seu corpo forte alinhando-se
deliciosamente com o meu. Nos encaixávamos tão bem com roupas,
empurrando, pressionando e esfregando. Tínhamos a barreira
necessária, sempre tivemos. Mas ainda assim, com a pressão firme
de seu corpo tão encaixado com o meu, eu derreti. Eu queimei.
Minha mente sabia que eu não estava pronta, mas meu corpo
clamava por mais.
—Eu vou tomar outra taça de vinho.
Separamos nossos corpos para longe um do outro e
colocamos nossas mãos sob a torneira, como se estivesse sido
roteirizado, como se tivesse sido planejado. Nenhum de nós
esperava que minha mãe reaparecesse. Meu coração estava
explodindo em meus ouvidos, e eu senti como se alguém tivesse
agarrado meu estômago e torcido, girado e virado várias vezes. Eu
nem olhei para ele. Não tive chance. O chão estava afundando e
meu rosto estava em chamas. Eu tinha sido pega e ela ia fazer isso

164
doer. Ela entrou na cozinha e um medo insano tomou conta de
mim.
Mas ela simplesmente encheu sua taça de vinho, me deu um
beijo no topo da minha cabeça e caminhou de volta para seu quarto.
Quando a porta se fechou, eu finalmente consegui olhar para
o Noah.
Seus olhos estavam loucos de preocupação.
Ele não disse uma palavra, só exalou. Terminamos a louça
em silêncio e quando desliguei a torneira, sussurrei. —Essa foi por
pouco.
—Eu sei. —Sua voz estava grave, e as consequências estavam
claras no olhar petrificado em seu rosto.
—Eu não quero que ela descubra, Noah. —Eu disse, como
uma prece, como um apelo triste embora ele estivesse do meu lado.
—Acredite em mim, nem eu.
Então os murmúrios começaram. O som terrível dela
seduzindo alguém, provavelmente o Jay, no telefone. Eu me encolhi
e levei o Noah até a porta. Eu estava envergonhada, não queria que
ele a ouvisse ficando excitada no telefone com um homem. Abri a
porta e saí para a varanda, fechando a porta atrás de mim.
—Eu odeio os namorados dela. —Desabafei.
—Odeia?
—Sim. Todos eles. Eu odeio que ela fale com eles ao telefone
e que eles venham aqui, e que ela seja repugnante e barulhenta com
eles. —Eu disse, com as palavras expulsas em uma torrente pela
minha boca antes que pudesse pensar. Era a primeira vez que eu
falava disso com alguém, como os hábitos da minha mãe me faziam
sentir.

165
Enjoada. Enfurecida. Envergonhada. Ainda não existia a
Caroline na minha vida, Noah era o único para quem eu tinha dito
alguma coisa. Ele era minha rede de segurança. Uma lágrima de
raiva escorreu em meu rosto.
Instantaneamente ele me puxou para um abraço gentil, seus
braços em volta de mim, espalhando calor e conforto por todo meu
corpo. —Eu sinto muito, K. Eu sinto que tem sido assim para você.
—Eu queria que ela parasse, Noah. —Eu disse, sussurrando
em seu peito.
Ele assentiu, acariciando meus cabelos. —Eu sei o que quer
dizer. Eu me sinto tão mal que você esteja se sentindo assim.
Seu toque suave, seu completo entendimento me encorajou.
—Eu odeio mentir por ela e acobertá-la, e odeio saber todas essas
coisas que ela fez. —Eu disse, admitindo e deixando escapar os
segredos que eu tanto guardava.
—Também foi assim com minha mãe. —Ele disse, me
mantendo perto enquanto compartilhava mais sobre ele. —Com a
bebida, quero dizer. É tão difícil. Eu queria te dizer algo sábio e
profundo, mas é apenas difícil. E eu sei como você se sente.
Eu me senti segura com ele ali, aliviada por um momento.
Nos separamos e era hora de dizer adeus. —Aqui. —Ele
disse, pegando seu telefone no bolso da calça. —Fique com minha
música. —Ele falou, e imitou a batida. —Ouça Lez Miz quando
voltar para dentro de casa. Vai proteger seus ouvidos e você não vai
ter escolha a não ser pensar em mim.
Eu sorri, entendendo o que ele queria dizer, e peguei meu
telefone. Ele encostou o meu com o dele, e a tecnologia moderna
enviou a playlist dele para meu telefone.
—Pensaria em você de qualquer maneira. A noite toda.

166
—Falei, enquanto passava na tela pela sua playlist dos shows.
Ele colocou seus dedos sob meu queixo para que eu olhasse
para ele. —Venha amanhã. Você poderá ver todas as minhas
camisas.
No dia seguinte, contei os segundos até que ele saísse do
escritório e me mandasse uma mensagem dizendo que estava a
caminho de casa. Eu estava na casa do meu pai naquela noite, então
eu disse a ele que ia sair com algumas amigas da escola. Eu nunca
tinha ido ao apartamento de Noah antes. Ele morava em um prédio
perto da Madison Avenue com a Fifties. As portas tinham
acabamento em metal e um toldo verde. Ele deixou meu nome com
o porteiro, então simplesmente disse ao homem de bigode que
estava visitando Noah Hayes do 6E, e o homem apontou para os
elevadores do outro lado do pequeno hall. Faíscas subiram dentro
de mim enquanto eu apertava o botão e esperava que a porta se
abrisse. Entrei em um pequeno elevador, um dos lados tinha um
espelho de cima a baixo. Observei cada detalhe. Era como se eu
tivesse ganhado acesso a um esconderijo secreto, a casa da árvore no
alto da rua que eu só via de longe antes.
A casa de um homem. A casa do meu homem. Que adrenalina.
Que emoção.
Cheia de excitação, eu quase pulei fora da porta quando o
elevador abriu no sexto andar, então andei pelo corredor acarpetado
e bati na última porta à esquerda, esperando ele abrir, me sentindo
agitada como se tivesse ingerido muito açúcar antes.
Ele abriu a porta, os lábios se inclinaram num sorriso que
dizia que tínhamos um segredo. Ele esticou o braço, em um sinal para
eu entrar, me observando enquanto eu olhava tudo, o piso de
carvalho escuro, a mesa de centro de metal cheia com suas coisas,
fones, tablets e a pequenina cozinha com seus balcões brancos, uma
geladeira inox, e uma máquina obrigatória de expresso que ele me

167
disse que nunca usava, já que ele preferia pegar um café na padaria
da esquina. Uma TV de tela fina estava pendurada na parede da sala,
eu varri da minha mente a imagem dele assistindo Lords and Ladies
nessa tela nas noites de domingo. No meu mundo, não existia Lords
and Ladies. Na minha visão do apartamento do Noah, ele só assistia
esportes naquela telona. Em frente à TV havia um sofá cinza escuro
e uma mesinha com algumas fotos emolduradas. Eu verifiquei as
fotos, uma da sua mãe, uma dele em sua formatura usando beca e
capelo, e uma do Noah e sua mãe quando ele tinha a minha idade.
—Você no ensino médio? —Perguntei, segurando uma das
fotos.
—Sim. Naquele tempo.
—Você era bonito. —Falei, com um sorrisinho.
Ele colocou um braço em volta da minha cintura. —Era?
—Ele perguntou e mordiscou o lóbulo da minha orelha, e eu tremi
contra ele. —Era, Kennedy? —Ele perguntou novamente, desta
vez numa voz mais firme, exigindo uma resposta.
—Era. E é. —Eu disse, e me virei para olhar para ele,
traçando seu rosto com a ponta dos dedos, observando sua
respiração falhar. Ele me puxou para mais perto, me apertou mais e
me fez sentir desejada, então apagou todos os pensamentos em
minha mente com um beijo profundo e faminto que fez meus
joelhos fraquejarem.

168
Noah

Eu a peguei pela mão e a conduzi ao meu quarto. Meus


dedos apertaram os dela mais firmemente como se isso fosse me
impedir de jogá-la na cama e tocá-la de todas as maneiras que eu
queria. Me conter era a minha palavra de ordem e foi por isso que
eu segurei sua mão com força. A tensão era meu lembrete para
manter tudo no nível, uma tarefa que ficou mais difícil quando ela
passou o dedo sobre meu edredom azul marinho. Eu gemi, um som
que subia pela minha garganta apenas de vê-la tocar minha cama.
Balancei a cabeça. —Você no meu quarto é perigoso. —Eu
disse, e fiquei grato por abrir a porta do guarda-roupa segundos
depois. Minhas roupas de trabalho estavam penduradas, passadas e
organizadas. Ela soltou minha mão, me olhando com um olhar
travesso. Como se eu a tivesse trazido para seu reino da fantasia.
Talvez as camisas fossem realmente sua fraqueza. Eu observei todos
os seus movimentos enquanto ela estendeu a mão para tocá-las. Era
loucamente excitante o modo como seus dedos traçavam os botões,
punhos e colarinhos enquanto ela afagava todas elas. As azuis, as
verdes, as rosas, as roxas, as brancas.
Ela estava fascinada, e eu também. Era como testemunhar ela
se excitando por uma ideia.
Sem perguntar, sem dizer uma só palavra, ela pegou a camisa
azul-cobalto, tirou do cabide e a vestiu sobre sua camisa preta.
—Como estou? —Ela perguntou, ao mesmo tempo doce e
sedutora, enquanto ela abotoava em si mesma minha roupa. Minha
roupa. A garota que eu queria, a garota a qual eu tentei resistir e
depois parei de resistir estava usando minha camisa, parada em frente
ao meu guarda-roupa, a poucos passos da minha cama. Fique sem
fôlego. Ela era tão deslumbrante e loucamente comestível. Eu devia

169
ganhar uma medalha por me conter porque minhas mãos coçavam
para despi-la e explorar cada centímetro dela. Mas meu cérebro e
meu coração me mantiveram sob controle. Eu não faria algo que ela
não estivesse pronta.
—Tão incrivelmente sexy. —Eu disse, com um gemido de
apreciação.
Ela virou seu pescoço para cheirar o colarinho e a frente da
camisa. —Cheira bem.
Fechei meus olhos por um momento e cerrei os punhos,
precisando manter meu desejo sob controle. Quando abri os olhos,
eu observei cada movimento dela enquanto desabotoava a camisa, a
pendurava de volta e depois tirava uma amarelo-limão de seu cabide,
experimentando e desfilando. Depois, a azul-marinho. Então uma
branca. Ela ficava linda em todas e eu tive que fincar meus pés no
chão para não me mover, para não a abraçá-la e beijá-la de maneiras
que ultrapassariam limites que não estávamos prontos para cruzar.
Tudo que precisava era um movimento, um toque. Eu a
carregaria para minha cama, a despiria e a beijaria em todos os
lugares.
—Você fica bem em todas as minhas roupas, K. —Eu falei,
minha voz grave, hesitante, tão perto de quebrar as regras.
Ela pressionou seu rosto nas minhas camisas, puxando-as
para perto dela. Meu peito se apertou com desejo. Minha fome por
ela ameaçava comandar, se libertar das correntes que eu a mantinha.
Porque eu a queria. Senhor, como a queria.
—Eu amo todas elas. —Ela murmurou.
—Eu amo o modo como você fica em cada uma delas. —Eu
disse. E o modo como eu imagino você fora delas também.
—Quer vestir essa agora? —Ela apontou a azul-cobalto que

170
ela tinha vestido primeiro. —Tem meu cheiro.
Me mate agora.
Como se eu pudesse dizer não. O cheiro dela era viciante, e
eu queria inalar seu delicioso cheiro por toda a noite. —Sim.
Ela me deu a camisa azul. Eu estava usando calças e uma
camiseta branca, então enfiei meus braços nas mangas, meus olhos
nela o tempo todo. Não quebrei a conexão, estávamos ligados um
ao outro, nenhuma palavra diria mais claramente que eu não tinha
interesse em nada a não ser ela. Estendi os punhos e ela pegou a
dica, chegando mais perto, estendendo suas mãos até meus pulsos.
Até esse simples toque fez meu sangue correr rápido. Fiquei parado,
sem me mover um centímetro, enquanto ela abotoava cada punho.
Um gemido baixo escapou dos meus lábios.
Quando ela se moveu para o meio da camisa, puxando os
dois lados juntos, respirei fundo. Meu cérebro foi inundado com
imagens do que poderia acontecer a seguir como um filme
implacável passando na minha frente de todo o meu controle se
desfazendo, e nós dois rolando juntos, mãos rasgando camisas,
dedos as tirando, roupas numa pilha no chão.
Ela começou no meio da camisa, me vestindo, cada botão
como uma dança lenta e sensual. Cada toque de seus dedos
incendiava meu sangue. Ela se moveu para baixo, colocando cada
botão em sua casa, e ajustando o colarinho, seus dedos tocando meu
pescoço.
Eu não estava aguentando mais.
—K. —Eu sussurrei, era tanto um convite quanto um aviso.
Não chegue mais perto. Se você fizer isso, não conseguirei me segurar.
Ela deve ter sentido o perigo e sabia que dependia dela nos
manter sob controle.

171
Ela ficou na ponta dos pés e deu um beijo gentil em meus
lábios. Eu agarrei seus ombros, puxei-a para perto e a beijei com
força, precisando mais dela. Saboreando sua boca, seus lábios, sua
língua. Não era suficiente, mas teria que ser por agora.
Daí a soltei e exalei sonoramente. —Eu tinha que fazer isso.
—Eu disse.
—Sim. —Ela disse com um sorriso. —Você tinha.
Ela deu um passo para trás, me dando espaço para enfiar a
camisa na cintura dentro das calças. Quando olhei em seu rosto, não
vi uma garota de dezessete anos de idade. Eu vi uma mulher que
queria um homem. A idade era irrelevante. Éramos iguais. Éramos
instinto, desejo, estávamos esperando.
—Perfeito. —Ela sussurrou. —Você está perfeito.
Fomos a um restaurante nas proximidades. Eu estava
arriscando, jantando com ela. Mas também não estava. Já tínhamos
jantado fora juntos antes. Droga, já tínhamos ido ao Yankee
Stadium juntos. Fomos a shows juntos. Aparecemos como amigos
para o mundo.
Jantar não era completamente absurdo.
—Quase me esqueci. Tenho algo para você. —Falei depois
que pedimos. Enfiei a mão no bolso de trás da calça e peguei uma
pequena caixa de joias rosa com um visor transparente no topo.
Meu coração acelerou enquanto eu memorizava sua reação.
Excitação, antecipação e surpresa. Exatamente o que eu queria que
ela sentisse, ela abriu a caixa e pegou o colar prata com três
pingentes personalizados. Uma bicicleta, um skate e um bastão de
lacrosse. As pequeninas rodas no skate, a redinha no bastão de
lacrosse e os raios da bicicleta eram cor-de-rosa, brilhante,
perfeitamente rosa.
Ela tirou o colar da caixa e colocou no peito. —Adorei.

172
—Gostou?
—Sim. —Ela disse, passando a mão sobre a miniatura
prateada do skate. —Onde você conseguiu?
—Mandei fazer para você. —Eu disse, esperando que ela
tivesse gostado, querendo desesperadamente que ela soubesse que
era especial para mim. —Eu queria te dar algo. Mas não queria te
comprar algo que qualquer cara pudesse comprar. Eu queria que
fosse só para você.
—É perfeito. É perfeito para mim.
—Você não tem que usar agora. De verdade. Eu estou
apenas feliz que gostou.
—Eu quero usar agora. —Ela disse, insistindo enquanto
tentava abrir o fecho.
—Eu quero usar todos os dias.
Essas palavras, todos os dias, eram como uma doce canção para
meus ouvidos. Um puro sentimento de felicidade tomou conta de
mim ao ouvi-la dizer isso. Eu queria todos os dias com ela.
—Deixe que eu faço. —Eu disse, gentilmente pegando o
colar de suas mãos e abrindo o fecho. —Chegue mais perto.
Ela puxou a cadeira mais para perto e nossos joelhos
esbarraram. Esse pequeno contato era como um raio de desejo me
atravessando, mas eu segurei, sempre mantendo as coisas em
controle, enquanto colocava minhas mãos em volta de seu pescoço,
fechando o colar, deixando que caísse em seu peito. O restaurante se
resumiu a nós. Todos os outros clientes, garçons, maître e
cozinheiros eram um borrão de ruído. Ela era meu mundo. Deixei
que minhas mãos ficassem por um momento, mal traçando sua pele
suave com meus dedos. Ela manteve meu olhar o tempo todo, então
tocou seu novo colar.

173
—Eu amo isso, Noah. —Ela disse, seus olhos bem abertos,
nunca deixando os meus. —Eu simplesmente amo.
—Eu amo também. —Sussurrei, e eu sabia, e ela sabia, que
não estávamos falando apenas sobre o colar.
Depois do jantar, caminhamos alguns quarteirões até o
Madison Square Park, cercado de um lado pelo Flatiron Building, e
no outro pela MetLife Tower. Sentamos num banco na orla do
parque, absorvendo o ar quente e o céu escuro, enquanto olhávamos
os nova-iorquinos passarem.
—Eles estão a caminho de uma festa hipster. Você tem que
usar jeans azul para passar pela porta. —Ela disse, apontando para
um grupo de magrelos de cavanhaque com uns vinte e poucos anos
de idade.
—Uma barbicha te dá direito a uma cerveja grátis.
—Acrescentei. Depois apontei com a cabeça para um casal de
aparência cansada nos seus trinta e poucos anos. —Eles estão
imaginando se seria ruim cair no sofá quando a babá sair.
—O sono vai definitivamente ganhar. —Ela disse, quando
uma mulher de uns quarenta anos vestindo um vestido roxo de
cetim e luzes prateadas trançadas nos cabelos passou por nós. A
mulher carregava uma varinha com uma estrela na ponta. Kennedy
levantou uma sobrancelha e seus lábios se curvaram num sorriso.
—Ou ela entretém em festas de criança ou ela é realmente uma fada
madrinha.
Coloquei um olhar sério no rosto. —Com certeza ela é uma
fada madrinha, Kennedy. Ela é verdadeira.
—Claro, você está provavelmente certo. —Disse, e então ela
viu uma garota que parecia ter uns vinte anos de mãos dadas com
um cara que parecia um pouco mais velho. Eles eram nosso reflexo,
e nós dois nos viramos um para o outro ao mesmo tempo,

174
reconhecimento nos olhos dela. Ela passou a mão nos meus cabelos.
Eu me inclinei na mão dela. —Eles estão felizes. —Ela sussurrou.
Meu coração pulou no meu peito. Eu não era mais um
homem contra o mundo. Eu não era um cara me segurando num
emprego porque era tudo o que tinha. Eu era um cara louco por
uma garota, e a garota era louca por mim. Não poderia ser de outra
maneira.
—Muito felizes. Como nós. —Acrescentei
—Como nós. —Ela repetiu.
Eu passei o dedo pelo seu queixo e observei sua reação. Seus
olhos se fecharam e ela prendeu a respiração. Mantive minha mão
em seu rosto, tocando suas bochechas enquanto passava os lábios
suavemente nela, gentilmente no início, um quase beijo. Ela apertou
os lábios com força, com fome e desejo, e logo meus braços
estavam em volta dela e suas mãos em mim.
Eu sabia pela sensação de suas mãos, no modo que passavam
pelo meu peito, agarravam meus braços, se arrastavam pela frente da
minha camisa. Eu sabia no doce sabor de seus lábios, nos
murmúrios sexys que ela fazia, mas acima de tudo, eu sabia dentro
de mim.
Ela era a garota. Ela era a única. Ela me preenchia de
maneiras que nada nem ninguém fizeram antes.
Me doía romper o beijo, mas também era necessário. Eu
tinha que dizer a ela, ela tinha que saber. —Você sabe por que estou
tão feliz? —Eu disse, minha voz baixa, porém forte, da mesma
forma que eu me sentia.
Seus olhos arregalaram quando ela me perguntou suavemente
por quê.
—Porque estou completamente apaixonado por você. —Eu

175
disse, como toda a certeza do mundo.
Ela abriu um sorriso grande como o céu. Eu juro que podia
vê-la crescendo quando ela colocou as mãos em volta do meu rosto,
me beijou nos lábios e então sussurrou. —Eu estou tão apaixonada
por você.
Apertei-a contra mim. —Este será sempre o nosso lugar.
—Eu disse, porque eu nunca me esqueceria de como me senti no
Madison Square Park, numa noite quente de setembro, cercado
pelos sons de Manhattan, por estar apaixonado por ela.
Aqui, com ela, eu estava... completo.

Nossos Beijos Roubados

Eu nunca me esquecerei como me senti dizendo


aquelas palavras. Estar no nosso lugar. Apaixonada por
você, apaixonada por nós, apaixonada por nosso
segredo, pela ilha que estávamos construindo,
mantendo o mundo todo de fora.

Lá com você, eu estava... segura.

176
CAPÍTULO 20
Kennedy

Agora aqui estou novamente. Segura de novo.


E não quero que isso desmorone desta vez. Não quando
estou tão perto da linha de chegada que posso vê-la. Não quando o
meu passe de saída-da-cadeia está ao alcance. Farei dezoito anos em
poucos dias. Estarei na NYU em três meses. Eu só preciso
conseguir passar por junho, julho e agosto.
Então estarei livre dos meus pais. Uma vez na faculdade, eu
posso fazer o que quiser.
Quando eu saio da cama no domingo de manhã, tiro a camisa
laranja do Noah, dobro-a cuidadosamente e enfio no fundo da
minha mochila para devolver para ele mais tarde. Eu envio uma
mensagem: Tirei a camisa. Devolvendo para você
amanhã.

Ele responde segundos depois. Tirou? O que está


vestindo então?

Brincamos assim pelos próximos dez minutos e então ele me


diz que estará pensando em mim quando ele for à biblioteca logo
mais para um evento, e estou certa que seria necessária uma
vassoura de tamanho industrial para varrer o sorriso enorme da
minha cara, especialmente quando digo a ele que o verei mais tarde,
já que vamos ao Jardim Botânico do Brooklyn esta tarde. Minha
mãe nunca vai ao Brooklyn. Nem o meu pai. Ninguém que me
conhece estará lá.

177
Ouço meu pai andando pelo corredor, então volto a tela no
inicial no meu telefone, então confiro novamente para me certificar
que minha mochila está fechada. Não que ele olharia na minha
bolsa, mas uma vez pega, duas vezes prevenida. Então não preciso
que meu pai veja um tecido laranja e enlouqueça novamente. Eu
tomo banho e me visto, contando as horas para ver o Noah esta
tarde. Quando desligo o secador de cabelo, meu telefone toca no
tom personalizado para Amanda. Atendo rapidamente. —Sente
minha falta?
—Muito.
—O que está fazendo?
—Estou super entediada. Minha mãe está trabalhando, qual a
novidade? Meu pai está fora tomando um café com um amigo que
pode ter uma dica de trabalho, ele disse. Até parece. —Eu me
ressinto por saber onde o pai dela realmente está. Café com um
amigo é café com a minha mãe. É um encontro inicial, o início para
algo mais. —Então decidi que se você vai ao baile com o Lane,
preciso conhecê-lo. —Amanda anuncia.
Droga. O Baile. Lane.
Eu me esqueci completamente disso. Saiu totalmente da
minha cabeça. Como vou ao baile de formatura com o Lane quando
tenho um namorado secreto novamente?
—Claro. —Digo, sem comprometimento.
—Oi? Kennedy, você vai ao baile. E isso é uma grande coisa.
Está na nossa lista das cinco maiores coisas que são uma droga em
escolas só para garotas e você encontrou uma saída para uma das
cinco. Você vai ao baile. Quero conhecer seu namorado. Faça
acontecer.
Meu coração vacila no peito quando ela diz namorado, porque
ela não pode conhecer meu verdadeiro namorado. Posso até imaginar

178
como seria a Amanda conhecendo o Noah pela primeira vez no Dr.
Insomnia’s23, disfarçando a surpresa, e então de algum modo
transformando seu rosto em um sorriso feliz, quando na verdade ela
estaria pensando, Por que não me falou que seu namorado era mais velho?
—Primeiro de tudo, o Lane não é meu namorado, Amanda.
—Digo.
—Semântica.
—Mas ele não é.
—Mas ele será.
—Duvido.
—Por que não?
Caio de volta no meu travesseiro. —Eu não sei, Amanda.
Apenas... eu não sei.
—Bom, que seja. Você está me deixando louca. Vamos todos
tomar café. Preciso de você para me entreter. Ligue para ele e veja se
ele está livre.
Amanda é muito insistente. Ela será uma grande repórter um
dia.
—Está bem. —Eu desligo, e rapidamente disco o número do
Lane.
—Graças a Deus que ligou. Ou então eu teria que colocar um
anúncio procurando por uma garota com um guarda-chuva de
bolinhas vermelhas. —Ele diz antes que eu pudesse dizer oi. Faz
mesmo só dois dias que o Lane me comprou o guarda-chuva? Meu
projeto com o Lane parecia uma vida atrás. Porque a vida que eu
queria voltou para mim nesse meio tempo com o homem que eu
23
É um café famoso nos EUA

179
amo.
—Aposto que teria um monte de respostas. —Eu digo,
quando volto ao presente.
—Guarda-chuvas têm esse efeito nas garotas. —Sua voz está
esperançosa e algo nela parece muito próximo, muito íntimo para
mim. Ou talvez são só as palavras. Palavras como garotas e efeito. Não
tenho certeza se quero falar dessas palavras quando o assunto é o
Lane.
Mudo de assunto. —Quer me encontrar no Dr. Insomnia’s
em, digamos uma hora? Minha amiga Amanda quer te conhecer.
Lane faz uma pausa. No tempo do seu silêncio, estou
adivinhando que ele está considerando, imaginando, ele está
pesando o fato que nenhum de nós conheceu os amigos do outro.
Nossa amizade tem sido só nós, ele e eu.
Eu preencho o silêncio. —Quero dizer, eu sei que nunca
conhecemos os amigos do outro, mas por que não, certo? Ninguém
precisa saber que nos conhecemos no psiquiatra. Somos apenas
amigos, isso é tudo. E eu disse a ela que vamos ao baile de
formatura. Ela está morrendo para me ajudar a escolher um vestido.
Não posso evitar que ela te conheça.
—Claro. Vamos fazer isso. Te vejo em uma hora.
Ligo para a Amanda e falo para ela ficar pronta. Quando saio,
digo ao meu pai que vou me encontrar com a Amanda e o Lane. Eu
disse a verdade a ele, mas a verdade também vai ocultar a mentira
que eu estou prestes a dizer para explicar onde estarei no resto do
dia.
—E talvez eu vá ver um filme ou algo assim. —Eu digo, e as
palavras saem facilmente, suavemente, porque é assim que funciona
quando você é uma profissional experiente, quando foi treinada pela
melhor profissional, pela pessoa que aperfeiçoou mentir para esse

180
homem na maior parte do casamento.
Mantenho minha fachada falsa enquanto meu pai sorri.
—Divirta-se no cinema. Diga olá para a Amanda e o Lane.
—Ele diz.
—Direi.
Por dentro quero me espetar com lápis afiados, uma punição
para as pequenas mentiras que conto a ele, pelas maneiras que eu não
sou o oposto da minha mãe nesse momento, pelo modo como sou
sua imagem.
Abro a porta para sair.
—Sem bicicleta hoje? —Meu pai pergunta.
Não olho para ele. Eu não olho porque não preciso da minha
bicicleta, pois estou me encontrando com meu namorado secreto
num táxi em umas duas horas.
—Não, hoje quero andar. —Digo.
Antes que eu alcance a rua de paralelepípedos, eu coloco
South Pacific para ouvir, mas eu pulo porque a última música que
quero ouvir agora é “I’m gonna wash that man right outta my
hair.”24
Então troco para “Some Enchanted Evening.”25 E as
palavras e a música fazem o que devem fazer. Me fazem esquecer o
que eu quero esquecer e lembrar o que eu quero lembrar.

24
Em tradução - vou tirar esse homem da minha cabeça.
25
Em tradução – Alguma noite encantada.

181
CAPÍTULO 21
Kennedy

Naquela época, eu não pensava muito nas mentiras que eu


tinha que contar porque a bolha de felicidade era simplesmente
assim. Êxtase. Perfeição. Felicidade.
O outono do meu último ano do ensino médio foi o melhor.
Todos os dias, cada segundo com o Noah, era como uma cena de
algum romance passado em Manhattan, com encontros secretos por
toda a cidade que apenas nós sabíamos. Momentos roubados na
balsa de Staten Island em uma tarde, vendo o grande barco
atravessar a água enquanto o sol o inundava. Visitas à Chinatown
aos domingos, onde entrávamos e saímos de lojinhas lotadas que
vendiam bules de chá com gatos sobre eles e jaquetas vermelhas
bordadas. Fomos ao teatro para ver uma matinê de sábado dos Jersey
Boys, aproveitando os bilhetes pela metade do preço que ele
conseguiu aquela manhã.
É claro, o encontro no teatro em si era um paraíso, a razão
nem tanto. Eu teria que escapar da minha mãe, especialmente depois
de ouvi-la falando com o Jay Fierstein e ele estava a caminho de
casa.
—Mal posso esperar para vê-lo, gato. —Ela murmurou no
telefone enquanto eu atravessava a cozinha para preparar uma
torrada, e meu peito queimou quando eu ouvi sua voz. Eu parei no
lugar, minha mão agarrou o puxador da geladeira enquanto ela
planejava seu próximo encontro. Eu queria arrancar seus olhos,
arrancar os olhos dele, arrancar os meus próprios olhos.
Em vez disso, me voltei para o Noah e a Broadway e as

182
trilhas dos shows, e passamos a tarde de mãos dadas no escuro do
Teatro Winter Garden enquanto as músicas de Frankie Valli and the
Four Seasons me levavam. Naquela noite paramos no Sardi’s para
comer uns aperitivos, e eu contei a ele sobre o telefonema.
—Eu sinceramente gostaria de criar uma nova história para
minha vida antes deste ano.
—Qual seria, K? O que você mudaria?
Peguei na sua mão embaixo da mesa. —Tudo. Primeiro,
minha mãe nunca teria traído meu pai. Em segundo lugar, ela nunca
teria me pedido para mentir. Terceiro, eles nunca teriam se
divorciado.
Ele assentiu e acariciou gentilmente minha mão, sabendo que
esse pequeno gesto de seu polegar contra minha palma me
acalmaria. Mas mais que isso, contar para ele me acalmava. Dizer a
alguém me acalmava. Ele era talvez o único além do meu pai que sabia
que minha mãe tinha traído.
—Você sabe disso sobre ela, certo? Não é novidade, né?
Ele assentiu. —Sim. Quero dizer, não que eu e a Jewel
tenhamos discutido isso, mas não é difícil adivinhar. Nunca foi.
Além do mais, eu tenho um bom radar nesse departamento.
—Que departamento? Detectar traição?
—Não. Detectar comportamento viciante.
Foi a primeira vez que alguém usou a palavra vício em relação
à minha mãe. Foi estranhamente libertador ouvi-la, saber que mais
alguém entendia o que estava acontecendo. Eu não me sentia mais
tão sozinha com meus segredos.
—Você também queria reescrever sua história com sua mãe?
—Eu perguntei.

183
—Absolutamente. Eu teria feito qualquer coisa para fazê-la
parar de beber. —Ele disse, e soou triste e melancólico ao mesmo
tempo. —Eu gostaria de saber como ela era sem a bebida. Eu
amaria tê-la conhecido sóbria.
—É. Sei como se sente.
—Quando eu era mais jovem, eu tentava fazê-la parar. Eu
escondia suas cervejas ou as esvaziava. Mas ela sempre arrumava um
jeito de conseguir mais. E tudo o que eu podia fazer era não beber.
Assenti, porque era o que eu estava tentando fazer também.
Eu estava tentando não ser ela, não fazer as mesmas escolhas que
minha mãe fez. Ela não sabia amar. Ela apenas conhecia o carrossel
da paixão. Eu prometi nunca ir no carrossel da paixão.
E assim, eventualmente, fazíamos planos.
Conforme o outono avançava, deitamos num cobertor em
um domingo à tarde no Central Park num dia morno raro em
outubro. Ficamos num lugar afastado, um canto isolado onde
árvores altas e arbustos cheios formavam uma pequena baia para os
amantes. Comemos morangos, cerejas e mini sanduíches de
hummus26. Enquanto o sol descia no horizonte, Noah leu um novo
script de um de seus clientes e eu li um livro sobre os
impressionistas e a amizade de Manet com Charles Baudelaire, já
que meu pai estava ajudando um colecionador a comprar pinturas
impressionistas em um leilão na Sotheby. Eu queria ser capaz de
conversar com meu pai sobre seu trabalho e sobre todos os
detalhes.
Terminei as últimas páginas e fechei o livro.
—Bom livro?
—Minha cabeça está cheia de fatos sobres os impressionistas
26
Homus ou húmus é um alimento típico da cultura árabe feito a partir de grão-de-bico cozido e
espremido, taíne, azeite, suco de limão, sal e alho.

184
agora. —Eu disse.
Ele colocou as páginas do script perto dele. —Me diga algo
sobre os impressionistas.
—Bem, eles eram muito viciados em Absinto.
—Então eles estavam conseguindo com alguma ajuda dos
amigos. —Ele brincou.
—Certamente. —Eu me estiquei mais para perto do Noah,
descansando minha cabeça em seu peito. —Isso faz você pensar
muito sobre todas as coisas que estavam acontecendo na França no
tempo dos impressionistas. A guerra Franco-prussiana e a Terceira
República Francesa, e no meio disso tudo, essa linda forma de
pintura realista emergiu. Tem que haver uma conexão.
—Olha para você, já é uma bacharel em história da arte.
—E eu nem me matriculei na faculdade ainda.
—Ah, faculdade. Essa coisa que acontece em um ano.
Me virei novamente de modo a olhá-lo no rosto, em vez do
céu. —Sim, nessa hora no próximo ano eu estarei na faculdade.
—Para qual você quer ir? —Ele perguntou, e não precisava
ser uma cientista para perceber o nervosismo em sua voz.
—NYU. —Eu disse. Não havia razão para fingir que eu
queria ir para alguma outra. NYU era minha primeira escolha e
sempre foi. Eu já tinha terminado de preencher quase toda a
papelada. —Sempre quis ir para a NYU. Não quero sair de New
York. Essa é a minha casa. Eu adoro.
—Não posso argumentar com isso.
—Além disso, é perto. —Eu disse, e as borboletas do meu
estômago se agitaram. Pronto, falei. Nosso futuro, a possibilidade de
um nós no próximo ano e além.

185
Ele traçou a linha do meu cabelo com seu dedo indicador. —
É perto. —Ele disse, mas soou evasivo.
—Você quer que eu fique perto?
—Quero que você esteja onde quer estar. Eu quero que você
vá para a universidade que você quiser ir.
—Certo. —Eu disse, sabendo que ele estava sendo nobre,
sabendo que ele tinha que dizer isso, porque ele nunca seria o cara
que segurava sua namorada, especialmente numa escolha de vida tão
importante. —Mas agora que você sabe que a minha primeira
escolha fica a apenas alguns quarteirões de distância, o que você
acha?
—K, eu quero estar com você sempre. Mas é a faculdade, é
importante. Você deve fazer a escolha independente de mim.
Eu dei uns leves soquinhos nele. —Pare de ser o cara legal.
Ele pegou meus pulsos e segurou meus braços no lugar, me
movendo com suas pernas para que eu montasse nele. —Quer que
eu seja o bad boy?
—Você sabe o que quero dizer.
—Não, não sei. Me diga o que quer dizer. —Seu rosto estava
a poucos centímetros do meu e ele estava me desafiando a dizer
mais.
—Você me deixa louca. —Eu disse, e apertei seus quadris
com minhas coxas.
—Coxas fortes.
—Apenas me diga, Noah. Me diga o que quer.
—Que tal você me dizer o que quer? —Ele respondeu.
—Você é um bom negociador. Sempre me faz ceder

186
primeiro.
Seus olhos azuis brilharam. —Um bom negociador.
—Está bem. —Eu disse, desistindo. —Eu quero você. Eu
quero estar com você.
—Você está comigo agora. —Ele brincou.
—Isso não é o que quero dizer, seu chato!
—Oh, xingamentos. Essa vai ser uma negociação divertida.
—Ele disse, aumentado a pressão nos meus pulsos movendo meu
corpo mais perto do seu.
—Eu quero estar sempre com você. Eu te amo. Estou
apaixonada por você. Você é o único. —Eu disse rapidamente,
irritada. —Pronto, falei.
—Isso foi do fundo do coração.
—Bem, é isso que você ganha por me fazer dizer primeiro.
Sua vez.
Ele afrouxou as mãos e me abaixou gentilmente para perto
dele, segurando meu peito contra o dele, seus braços em volta das
minhas costas.
—Quero estar com você de verdade. Para sempre, K. —Ele
disse, mantendo seu olhar nos meus, sem piadas, sem negociação
agora. —Mas odeio a ideia de te privar da faculdade, quero que você
seja feliz, que experimente a vida e divirta-se, e se isso significar que
tenha que me deixar, então eu entendo. Mas se você não precisar me
deixar, então eu serei o homem mais feliz do mundo. Porque tudo o
que quero é estar com você. Quero que você durma comigo, quero
acordar no dia seguinte ao seu lado e te levar café da manhã, voltar
para casa e jantar com você.
Meu coração explodiu para outra estratosfera. —Eu também

187
quero isso.
—E. —Ele disse, passando seus lábios no meu pescoço, me
dando calafrios. —Eu quero ser aquele que vai te levar no
relançamento de Chess.
Me ergui para olhar para ele. Meus olhos arregalados de
emoção, eu queria ter certeza. —Vai ter? —Perguntei, praticamente
cruzando meus dedos e segurando a respiração com esperança.
Ele deu de ombros. —O boato no meio é que David Milo vai
dirigir um relançamento. —Ele disse, mencionando um diretor
vencedor do Tony27 que eu adorava.
Luzes se acenderam dentro de mim. Isso seria meu encontro
dos sonhos com meu homem. —Nós vamos. Temos que ir. —Eu
disse assertivamente.
Ele revirou os olhos. Brincando. —Obviamente, estaremos lá
na noite de abertura.
Pressionei minhas mãos no seu peito, olhando fixamente para
ele. —Você realmente acha que vai acontecer?
—Espero que sim. E quando acontecer eu vou levar a
mulher por quem estou loucamente apaixonado. E vou beijá-la fora
do teatro, no intervalo e talvez até quando o elenco fizer o
fechamento das cortinas.
—Ninguém beija como nós. —Eu disse.
—Ninguém. —Ele repetiu, e baixou seus lábios nos meus,
reclamando-os em um beijo inebriante que me derreteu da cabeça
aos pés.
Eventualmente paramos de nos beijar e eu suspirei feliz,
imaginando nosso futuro. —Eu vou te escrever uma carta de amor,
27
Antoinette Perry Awards for Excellence in Theatre, ou mais comumente Tony Award, é o maior e mais
prestigioso prêmio do teatro dos Estados Unidos, equivalente ao Oscar no cinema

188
sobre todos os nossos beijos e o quanto eu te amo. —Eu disse,
segurando seu rosto.
—Escreva-a. —Ele disse, com um tom de ordem misturado
com desejo. —Escreva e me arruíne para qualquer outra para
sempre.
Levantei uma sobrancelha. —Uma carta te arruinaria?
Ele passou uma mão pelos meus cabelos e suspirou
pesadamente. —Já estou arruinado para qualquer outra.
Nos mantivemos nesse ritmo durante o outono e pelo ano
novo, fazendo malabarismos e conciliando, enquanto minha mãe
continuava com o Jay Fierstein, eu me aproximava cada vez mais do
seu agente, tão próxima que começamos a conversar de detalhes
sobre o futuro.
Então esses planos desmoronaram em três segundos.

*********

Quando meu pai viu trechos da minha carta no início do


inverno deste ano, ele podia dizer a partir de certas palavras nela que
eu estava escrevendo para um cara mais velho, para alguém que
trabalhava em um escritório, que usava calças e camisas sociais e que
gostava de arte. Ele perguntou se a carta era para o Jay, seu parceiro
de trabalho. Eu vi uma oportunidade. Uma chance de me proteger,
guardar meu segredo e manter o cara por quem eu estava
loucamente apaixonada, Noah, fora da linha de fogo.
Eu fiz o que minha mãe me ensinou a fazer todos esses anos.

189
Me virar. Contorcer. Criar uma fábula com os fatos. Me fiz parecer
triste, desesperada, pronta para chorar enquanto dizia que estava
apaixonada pelo Jay, mas que não era correspondido, que eu só
tinha uma paixão platônica por ele. Disse até, para que parecesse
mais crível, que eu tentei beijar o Jay uma vez, e que o beijo não
durou mais do que três segundos. Falei que o Jay me empurrou
porque era errado. Que todos os beijos que detalhei naquela carta
eram fictícios, eram beijos que eu desejava.
Aquela deve ter sido minha melhor atuação, agindo como se
gostasse do Jay, quando eu o odiava. Agindo como se ele fosse
nobre, quando não era.
Mas eu sabia que meu pai e o Jay já tinha se desentendido.
Meu pai suspeitava que ele estava desviando algum dinheiro da
empresa, então a parceria de negócios deles já estava se desfazendo.
Eu apenas desferi o golpe fatal com a menção dos três segundos que
meu pai nunca conseguia tirar da cabeça. Então implorei para que
ele não dissesse uma palavra. Eu implorei para ele não dizer
nenhuma palavra ao Jay. Argumentei que estava tão envergonhada
de tudo. Prometi a ele que veria um psiquiatra. Eu faria qualquer
coisa.
Meu pai concordou em ficar quieto. Ele nunca disse uma
palavra ao Jay sobre aqueles três segundos. Ele nunca perguntou ao
seu sócio sobre minha paixão por ele. Meu pai fez o que sabia fazer.
Terminar as coisas, frias e clinicamente, e preservar o que ainda
estava intacto de sua dignidade. Mas aqueles três segundos fictícios
que nunca aconteceram fizeram o que eu precisava que eles
fizessem, eles me protegeram, protegeram o Noah, e serviram como
vingança pelo Jay ter transado com minha mãe pelas costas do meu
pai.
Eu sabia que o Jay merecia isso. Eu sei que ele é um canalha.
Mas não é como se eu conseguisse consertar as coisas agora.

190
CAPÍTULO 22
Noah

O cheiro de mofo dos livros velhos enche minhas narinas


enquanto passo pelas cópias esfarrapadas de Treasure Island28 e Moby
Dick, as lombadas quase se soltando. Por mais confortável que eu
estivesse quando criança com as divas do show business, com as
cortinas de veludo e as madrugadas nos salões, me sentia igualmente
em casa nas bibliotecas, o único lugar onde minha mãe me deixava
sozinho se ela tivesse que fazer uma audição.
Encontro facilmente a pequena sala de palestras e entro
silenciosamente. A sala está meio cheia. Uma mulher tricota na
primeira fila e um homem lê o jornal nos fundos, e todos estão
esperando silenciosamente. Sento-me no meio quando o Tremaine
entra. Quando ele me vê, para por um instante, tão rápido que quase
não se nota. Ele acena com a cabeça e se dirige ao púlpito.
Ele limpa a garganta, diz olá e inicia seu discurso. Ele fala de
como encontrar sua paixão, sobre como escrever com humor pode
ajudar as pessoas a aprender a ler, e a importância de ir atrás de seus
sonhos. Ele também conta sobre coisas que o fizeram feliz quando
criança: ler, rir, escrever piadas. Me impressiona que este cara seja
conhecido por seus sucessos centrados em espionagem, porém
alfabetização através da comédia é o que o faz brilhar. Ele não faz
propaganda destes pequenos momentos na biblioteca no domingo
de manhã, mas ouvi dizer que ele os faz de tempos em tempos, e
simplesmente aparece, como quando o Woody Allen costumava
aparecer em bares e tocar seu sax.
Depois que termina, ele conversa com algumas pessoas da
28
Ilha do Tesouro

191
plateia. Eu espero eles irem embora e me dirijo ao púlpito, estendo a
mão e o agradeço.
—Fiquei surpreso de vê-lo aqui. —Ele diz, e seu pequeno
sorriso me diz que minha presença não é uma surpresa ruim.
—Eu tinha anotado no meu calendário. Acredito muito em
seguir meus sonhos. É sempre bom ouvir outros falarem sobre isso
também. —Digo, olhando nos olhos dele, para que saiba que falo
honestamente.
—Fico feliz que tenha gostado da palestra.
—Ei, David. —Eu digo, jogando uma pergunta enquanto
conversamos na sala silenciosa, cercada por livros velhos e novos, e
pelo zumbido do ar condicionado.
—O que mais te fez feliz quando criança?
Ele sorri, e me dá um tapinha nos ombros. —Além de livros
e escrever? Bom, preciso mesmo falar? As garotas. Sempre as
garotas.
Eu rio profundamente e ele me acompanha. —Elas têm um
jeito de fazer as coisas ruins parecerem melhores.
—Garotas são irritantes e maravilhosas. Eu fico com o ruim
e o bom e o bom com o ruim. É sobre isso o que eu realmente
quero escrever agora. Dane-se toda essa coisa de espionagem.
Quero escrever uma história de amor. —Ele diz, enquanto começa a
arrumar sua bolsa, enfiando suas anotações num bolso lateral.
—Qual é o cenário?
—O cara está apaixonado por uma garota há anos. —Ele diz
rapidamente, como se fosse óbvio. Talvez seja dele. Provavelmente
seja uma história que venha de uma certeza dentro dele.
—Ele consegue a garota?

192
Ele pisca enquanto coloca a alça da bolsa no ombro. —
Sintonize às oito e veremos.
—Mas é claro que não até o final da temporada. —Eu
acrescento.
—E mesmo assim, quem sabe se vai ter um final feliz. Nem
todas as histórias de amor tem, mas isso não as torna menos
poderosas.
Concordo assentindo. —Palavras verdadeiras. —Digo em
voz baixa, enquanto deixamos a sala.
—Vamos chamá-lo de The One That Got Away29.
Uma melancolia percorre minhas veias ao ouvir o nome. —
Sempre há uma garota assim.
—Sempre. —Ele diz, e bate em minhas costas.
Então eu saio. Porque tenho uma garota para ver no
Brooklyn em uma hora.

Kennedy

Você nunca testemunhou olhos ficarem tão arregalados até


ver Amanda se deslumbrar com a visão de Lane pela primeira vez.
Ah, é aquela coisa que as pessoas fazem quando o queixo cai?
Imagine a Amanda como um personagem de desenho animado cuja
boca cai no chão como uma gaveta de caixa registradora e depois
“plim”, volta ao lugar.
—Amanda, esse é o Lane. —Digo depois que encontramos

29
Aquela que escapou.

193
Lane em uma mesa dentro de um Dr. Insomnia lotado. O lugar está
lotado com os amantes de café de domingo à tarde, e eu tenho uma
hora com meus amigos antes de ir encontrar o Noah.
—Lane, esta é a Amanda.
—É um prazer. —Lane diz quando se levanta e aperta sua
mão. Então, como um personagem de romance de novela, ele dá
um suave beijo em sua mão. Ela fica vermelha, da cor de um carro
dos bombeiros.
—Oi-lá. —Ela balbucia, uma mistura de oi com olá.
—Tonta. —Eu digo, e todos nós sentamos.
Amanda ri, e então Lane pergunta se queremos alguma coisa.
—Mocha de caramelo pour moi30. —Amanda diz.
Para mim, Lane pergunta. —Expresso para você, Kennedy?
—Mais oui.31
Enquanto ele faz o pedido, Amanda se aproxima de mim,
agarra a minha mão tão forte que juro que as veias vão explodir.
—Maria, mãe de Deus! Ele é como Abercrombie & Fitch32 de
verdade. —Ela diz, seus olhos do tamanho de um planeta.
—Ele até que não é feio. —Digo encolhendo os ombros.
—Como é que você não está perdidamente apaixonada por
ele?
—Não é bem assim. —Digo suavemente.

30
Mocha de caramelo para mim.
31
Tradução do francês: mas sim, claro

32
É uma marca de roupas, na qual em suas lojas os vendedores ficam sem camisa.

194
—Não. É assim sim. Tem que ser. Como é que você fica
com ele o tempo todo e não quer agarrá-lo? Você tem me escondido
coisas, não tem?
—Eu juro, nunca aconteceu nada. E vamos ao baile apenas
como amigos.
—Você me disse na sexta que você achava que ele gostava de
você.
—Eu acho que estava errada. Sinto que é só um lance de
amigos.
—Posso ficar com ele então? —Ela diz, como se fosse uma
piada. Mas posso sentir um fio de verdade na sua pergunta.
—Claro. —Digo, me sentindo generosa, pois terei que
encontrar um meio de não decepcionar Lane ao contar sobre não
poder ir ao baile com ele, já que voltei com o Noah. Quem sabe eu
possa manobrar para a Amanda ir. Talvez Lane possa levar Amanda
no meu lugar.
Amanda enfia a mão dentro da bolsa e reaplica o brilho labial,
pressionando os lábios. —Jura?
—Juro. —Digo, e bufo como uma porca só para ela e falo
que é minha bufada de honestidade.
—Eu só não consigo entender. Como vocês estão sempre
juntos, ele é tão sexy, e você não está afim dele. Você está
apaixonada por outro? Tem um amante secreto que eu desconheço?
Vamos lá, agora é a hora de confessar!
Como eu disse, a Amanda será uma grande repórter um dia.
Ela tem esse jeito de farejar uma história. Mas eu sou como uma
política escorregadia que sabe como enganar os eleitores, porque
tudo que eu preciso é uma pequena e rápida mentira. —Sim, a
diretora da Agnes Ethel School. —Digo, e a Amanda gargalha.

195
Lane volta com nossas bebidas, distribuindo-as com seu
sorriso matador antes de sentar à mesa.
—Então Lane, como se sente agora que finalmente a
Kennedy te apresentou a alguém em público? —Amanda diz com
uma piscadela.
Ele ri. —Claramente estou emocionado que ela não sinta
mais vergonha de mim. —Ele diz, continuando facilmente na
conversa com Amanda.
Logo os dois estão discutindo sobre tudo, desde escola a
filmes e o papel do jornalismo, e é mais um jogo do que um
interrogatório, então eu curto meu expresso e o fato de que não
tenho que fabricar um novo conjunto de inverdades. Eu participo
de vez em quando, mas na maioria das vezes deixo eles conversarem
e permito minha mente vagar até o reencontro tão esperado da noite
passada no Madison Square Park, e como foi maravilhoso estar nos
braços do Noah novamente, e que eu não me importo, não me
importo mais, com todos os motivos pelos quais não devo fazer o
que estou fazendo.
Termino minha bebida e vou ao balcão para pedir outra,
meio tonta pelas lembranças que acabei de ver na minha cabeça.
Enquanto espero pelo meu café, meus olhos vão para a Amanda e
Lane, que estão conversando como se tivessem nascido para falar
um com o outro. Quando minha bebida está pronta, pego e volto
para a mesa, a Amanda está contando ao Lane sobre nosso
professor de Inglês que diz ser de Stratford-on-Avon33, mas que ela
o ouviu em um restaurante falando com sotaque americano normal.
Lane ri. —Eu me pergunto que outros segredos obscuros ele

33
É uma cidade do Reino Unido, onde está a casa de Shakespeare.

196
esconde.
Eu espero que Lane me dê um olhar quando ele diz segredos
obscuros, uma piscadela ou aceno sobre os meus segredos. Mas ele
não dá. O comentário é real e é para ela. Uma pequena gota de um
sentimento estranho, talvez ciúmes? Passa por mim. Então lembro
a mim mesma que Lane não é meu, que eu tenho alguém, e que nem
sei porque teria inveja.
—Ele provavelmente nunca leu Shakespeare. Provavelmente
prepara sua aula com a Wikipédia. —Amanda diz em sua própria
versão de um sotaque britânico.
Ele chega mais perto dela, estreita os olhos, e acena com a
cabeça concordando. —Tenho a sensação de que todos os
professores no mundo estão fazendo a mesma coisa. Estou
convencido que existe uma vasta conspiração do ensino inspirado
na Wikipédia em todas as escolas.
—Devemos realmente desmascará-la. —Amanda diz,
chegando mais perto também, enquanto cruza as mãos sobre a
mesa.
—Sim, vamos usar bem suas habilidades de repórter.
—Ele diz, e a sensação estranha e deslocada avança mais
rapidamente por mim, subindo e se esgueirando, e eu digo para
parar, grito silenciosamente para me deixar em paz porque eu não
tenho sentimentos pelo Lane.
Então me toco!
Não é inveja. É preocupação. É o medo dos meus mundos
colidirem. É o medo de que Lane, que sabe sobre o Noah, minha
mãe e todos os seus casos e meus amigos perdidos, colidindo com a
Amanda, a quem consegui proteger do lado sujo da minha vida. Eu
mantive estes dois amigos separados por tanto tempo, e agora
entendo porque levantei esse muro. Porque preciso de ambos, estou

197
aterrorizada de perder a Amanda se ela descobrir sobre a minha mãe
e minha vida depois do horário de aula. Estou petrificada de que os
segredos do lado sórdido da minha vida vazem para o lado limpo.
Meu telefone vibra em meu bolso, e enquanto eles
conversam mais sobre seus planos hipotéticos para desvendar a
preguiça acadêmica, aproveito a oportunidade para olhar. É o Noah,
me dizendo que vai me pegar em vinte minutos na esquina da Jane
Street com a Eighth Avenue.

Estou prestes a responder: Estarei lá quando outra


mensagem aparece na minha tela: Uma delícia tomar café com
você também, D. Até a próxima vez.

Esqueça a pequena cobra da preocupação. Agora é um


grande dragão de raiva porque minha mãe me mandou uma
mensagem que ela queria mandar para o pai da Amanda. Eu fecho
meus olhos e deixo a sensação da raiva passar por mim,
atravessando meu corpo, até que estou apertando tanto o telefone
que quero atirá-lo para o outro lado do café.
—Com licença. —Atravesso o café rapidamente rumo à rua e
ligo para ela.
—Aí está você querida. Senti sua falta.
—Você me enviou uma mensagem que era para ele. —Eu
esbravejo. —Para D. Sinceramente, mãe. Não consegue nem ter
certeza que está enviando suas mensagens aos seus namorados?
Ela gagueja e parece tão natural, como se fosse assim que ela
expressaria o choque de uma mensagem enviada para a pessoa
errada. —Oh, eu sinto muito. Eu queria ter enviado para a Diana.
Ela é uma das minhas novas escritoras no seriado e acabamos de
nos encontrar para discutir uma nova história que me deixou muito
empolgada.

198
—Você honestamente acha que eu acredito nisso?
—Querida, pare com isso. Por favor. Não há nada
acontecendo com o pai da sua amiga.
Olho para dentro do café e falo entre dentes. —Daniel, mãe.
Você sabe o nome dele. Você usou no outro dia.
—Daniel. —Ela diz como se fosse a primeira vez que ela
tivesse dito. —Sim, é isso. Daniel. Obrigada por me lembrar,
querida.
—Eu tenho que ir. Tenho certeza que a história da Diana é
fantástica. —Digo, e desligo o telefone.
Olho para o aparelho. O telefone é a minha mãe nesse
instante, o telefone é tudo que não posso dizer a ela, e todas as
maneiras que distorço a verdade.
Respiro fundo. Inalo. Conto até três. Começo a responder
para o Noah, a única coisa que vai me acalmar. Mas meus dedos
estão tremendo e bagunço as palavras. Tento de novo e meus dedos
escorregam de novo. Olho para o telefone como se ele fosse meu
inimigo mortal, como uma pessoa pequenina com seus braços
cruzados sobre o peito, os pés firmes no chão, de guarda contra
mim.
Dou uma olhada feia para o telefone e o jogo na calçada. Mas
ele é um canalha resistente, então quando o pego ainda está
funcionando.
—Você está bem?
É Lane.
—Sim. —Eu murmuro.
—O que está acontecendo, Kennedy?
—Nada. O estúpido do telefone não está funcionando. Está

199
travado. —Eu minto.
—Talvez esse não seja o melhor meio de consertá-lo.
—Onde está a Amanda?
—Bem aqui.
Eu me viro e a Amanda está parada na calçada também, as
mãos nos quadris.
—O que está havendo?
—Nada. —Eu falo. —Eu tenho que ir.
Amanda pega meu braço. —Ei. Você acabou de jogar seu
telefone na calçada. Você não vai sair. —Ela vira para Lane e aponta
para a cafeteria com a cabeça. —Estaremos lá dentro daqui a pouco.
Eu a adoro por estar no comando, por não deixar Lane falar
comigo, mesmo que ele seja o único a quem posso contar. É ele que
sabe sobre minha mãe.
Mas ele obedece e volta para a cafeteria.
Amanda passa o braço em volta de mim. —Você está
chateada porque estou conversando com Lane?
A Amanda é bem direta. Ela também está muito errada.
—Não. —Eu digo, feliz que poder estar dizendo a verdade por um
segundo.
—De verdade? —Ela me olha bem nos olhos.
—Verdade. Está tudo bem.
—Porque parecia que você estava irritada porque estávamos
conversando.
—Está tudo bem. Eu juro. —Eu digo, porque tenho que
manter meus mundos separados. Os muros devem ser mantidos.

200
—Então por que jogou seu telefone?
Às vezes penso em contar para a Amanda sobre minha mãe.
Mas então me lembro da Catey e de como ela saiu da minha vida.
Alguns meses atrás encontrei com ela em uma livraria. Enquanto
esperava por um café na lanchonete da livraria, olhei para as pessoas
e a vi perto das revistas. Ela levantou a mão para acenar e eu acenei
de volta. Antes que eu pudesse processar que era a mesma Catey, o
cara atrás do balcão me entregou meu café e quando me virei ela
tinha sumido.
Eu olho para a Amanda, para seus olhos azul-acinzentados,
seus longos cabelos loiro escuros, preso em um rabo de cavalo baixo
e a perspectiva de sermos reduzidas a um encontro casual na livraria
algum dia mantém meus lábios fechados. Embora eu queira contar
a ela que nossos pais são péssimos, que seu pai é um canalha e que
minha mãe é o pior tipo de mulher, eu sei que se abrir minha boca a
minha melhor amiga do ensino médio também vai me deixar.
—É só minha mãe me enchendo o saco. —Eu digo na minha
melhor voz “irritada com meus pais”. —Ela não quer que eu fique
no meu pai esta noite então ela fica insistindo que eu vá para casa
jantar agora.
Amanda olha para seu relógio. —São duas da tarde. Não é
hora de janta.
Reviro os olhos. —Eu sei disso. Mas ela quer que eu leia um
script antes do jantar, então eu realmente tenho que ir. —Eu digo e
então dou um grande abraço na Amanda de modo que ela não veja
meus olhos e perceba que sou metades, digo meias verdades, meias
mentiras, sou meia filha, meia pessoa. Me adapto para as pessoas
com quem estou, para proteger meus segredos e esconder os deles.
Atualmente, detesto esse camaleão que me tornei. —Vou dizer
tchau para o Lane.
—Eu te ligo depois. Você não está sendo você mesma.

201
—Amanda diz. —Eu gostaria que você me dissesse o que está
realmente acontecendo com sua mãe.
Eu queria poder. Eu queria poder parar com isso, mas não
posso, então vou apenas me esquivar e desejar que não acerte onde
dói.
—Ela é apenas... —Começo. —Você sabe. Mães. Elas
existem para te deixar doida.
—Eu sei disso. —Ela diz, e coloca em braço em volta de
mim enquanto voltamos para o Dr. Insônia. Ela me beija na
bochecha e pede licença para ir ao banheiro, enquanto eu digo um
adeus rápido para o Lane.
—Tudo bem se eu te deixar aqui?
—Eu estou sempre bem. —Ele diz. —Eu estarei bem no
meu fraque azul-claro no baile em duas semanas, não acha?
Faço de conta que dou risada. Ou falsifico uma risada. Sei lá.
—Você vai usar um vestido azul-claro com babados? —Ele
pergunta.
—Definitivamente com babados. —Eu digo, mesmo que as
palavras que devessem sair da minha boca fossem: Eu voltei com meu
namorado, então não posso ir.
Como é que minha mãe consegue? Como ela consegue
equilibrar todos aqueles caras quando eu não sei nem o que dizer ao
Lane sobre o Noah?
Shakespeare estava certo sobre teias emaranhadas.

202
CAPÍTULO 23
Noah

Meu estômago revira quando vejo o nome na minha tela.


Respiro fundo e me endireito. Atendo quando saio da biblioteca.
—Oi. —Digo, na minha voz mais confiante, tentando me
lembrar que a Jewel não tem ideia que estou a caminho para ver sua
filha. Pelo menos, espero que não. E por mais maluco que possa
parecer, eu nunca parei para pensar como ela reagiria se soubesse
sobre Kennedy e eu. Suponho que sempre presumi que chegaria o
momento que Kennedy teria idade suficiente para que fôssemos
francos sobre nós, e ninguém precisaria saber que começamos
quando ela era mais nova.
Claro, isso provavelmente me faz ingênuo.
—Olá, querido. Eu queria checar o acordo de licenciamento
que fizemos para o batom de Lords and Ladies. —Jewel diz, indo
diretamente para os negócios, como ela sempre faz. Não importa
para ela que sejam duas da tarde de um domingo. Francamente, não
importa para mim tampouco. Eu sempre gostei de falar sobre
negócios com ela, ou com qualquer cliente. Agora mesmo, eu não
poderia estar mais feliz em conversar sobre o batom com ela,
porque significa que ela não sabe as coisas que escondo dela, então
faço o meu melhor para ignorar o nó de culpa dentro do meu peito.
—E você acha que o tom vermelho rubi representa fielmente
a proposta da marca Lords and Ladies? —Ela pergunta.
—Absolutamente. É a cor do programa. —Eu digo, e
respondo outras perguntas sobre outros tons. Conforme ando e falo
ao lado do ritmo tranquilo do tráfego de domingo, tento me
convencer que posso equilibrar a carreira da Jewel e o romance com

203
a filha dela ao mesmo tempo.
Certamente, eu posso andar nessa corda bamba. Vale a pena.
Ninguém jamais saberá.
Quando o telefonema termina, eu ligo para meu amigo
Matthew, porque preciso de distância entre Jewel e Kennedy.
Preciso que ele faça a ponte entre o telefonema da mãe e meu
encontro com minha garota.
Conversamos sobre esportes, o novo grupo que ele está
cobrindo, e sua viagem para visitar seu irmão em Los Angeles em
breve.
—E o que está fazendo agora? —Ele pergunta, enquanto
chamo um táxi.
Depois de entrar no carro amarelo, eu digo. —Vou me
encontrar com a Kennedy. Parece que voltamos.
Ele suspira. —Tenha cuidado, amigo. É só o que posso
dizer. Você precisa tomar cuidado.
—Não vai me dizer para parar?
Há uma pausa e nessa pausa eu quase quero que ele diga sim.
Eu quero que alguém levante a mão e coloque um pouco de bom
senso em mim. —Não é minha função. E a gente nunca sabe.
Muitos relacionamentos já começaram em praias mais pedregosas.
—Certo. —Eu digo, passando a mão pelo meu cabelo e
recostando a cabeça no assento.
—Eu só quero que você se cuide também. É uma situação
muito arriscada.
Assinto e agradeço, e então desligo.
Honestamente, não tenho certeza de qual é o maior risco. Eu
poderia perder a Jewel ou eu poderia perder a Kennedy.

204
No momento, entretanto, parece não haver dúvidas de para
que lado estou pendendo.
Especialmente quando o carro encosta na esquina da Jane
Street com a Eighth Avenue. Ela está esperando na esquina e o
sorriso que ilumina seu rosto me faz esquecer tudo a não ser ela.

Kennedy

Tento não absorver o perfume dos girassóis.


Girassóis fedem, o que é irônico considerando quão grandes
e coloridos eles são. Mas as orquídeas estão florescendo no terraço
da piscina e elas cheiram maravilhosamente bem. Nos afastamos das
flores fedidas e nos aproximamos das cheirosas e agora, aqui e para
sempre, tudo está bem no mundo. A mão do Noah está na minha,
estamos longe de Manhattan, e estou rodeada de tapetes de flores,
de vermelhos suculentos, rosas delicados e laranjas ofuscantes.
Eu o puxo para um local mais reservado dos jardins. As
borboletas e libélulas nos rodeiam enquanto nos beijamos. Passo
minhas mãos em seus cabelos, meus dedos deslizando entre os fios
castanhos. É como voltar para casa, senti-lo. Ele coloca seus lábios
nos meus, a conexão lenta e doce que foi interrompida por meses
está de volta com força total. Ele me puxa para mais perto, seus
dedos passeando em minha bochecha de um jeito que parece suave
e ávido ao mesmo tempo. Quando nossos lábios se encontram,
nossa respiração se mistura, eu sei que nenhum de nós se importa
com o que pensam sobre nós, ou se alguém está dizendo ele é muito
velho para ela ou ela é muito nova para ele, porque aqui é New York e não
somos os únicos fazendo isso.
Não somos os únicos com alguns anos entre nós.

205
—Você é realmente minha novamente? —Ele sussurra com
um pouco de incredulidade na voz.
Faço que sim, suspirando feliz no seu abraço. —Sim. Eu
realmente sou.
Passamos o resto da tarde passeando. Primeiro no jardim de
ervas. —Esse é meu tipo de lugar. O que é melhor para uma
vegetariana do que alecrim e sálvia?
—De repente fiquei com fome de salada. —Ele diz, coçando
o queixo com diversão.
Então passeamos novamente pelo Shakespeare Garden34, que
é banhado de verde, com seus arbustos exuberantes, árvores e
folhagens. —Seria engraçado se Shakespeare realmente tivesse
escrito aqui. —Eu digo.
—O Poeta no Brooklyn. —Noah diz, meditando em suas
palavras. Então estala os dedos. —Ei, isso soa como o nome de um
musical.
—Você deveria produzir O Poeta no Brooklyn. Poderia ser seu
próximo passo na carreira. Musicais de apoio. Você sabe que é o que
realmente gostaria de fazer.
—Serei um homem de relançamentos. —Ele diz. Ele estende
um braço, como um personagem de um musical pronto para
começar um número impressionante. —Posso até vê-lo agora.
—Você deveria trabalhar com o Davis Milo. Ele não ia dirigir
aquele relançamento do Chess?
Ele assente. —Supostamente está sendo preparado. Mas
essas coisas demoram uma eternidade.

34
Um jardim Shakespeare é um jardim temático onde se cultivam plantas mencionadas nas obras do
dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare. Nos países anglófonos, em especial nos Estados
Unidos, são normalmente jardins públicos associados a parques, universidades e a festivais de
Shakespeare.

206
—Eu vou esperar por ele. Estarei lá na noite de abertura.
Ele para de andar e me encara. —Eu vou te levar.
—Ou eu vou te levar. —Eu devolvo. —Você sabe o que
precisa fazer? Uma vez que começar a produzir musicais, você
precisa ter uma biografia arrasadora de uma linha na revista Playbill,
como aquela que o Cameron Mackintosh tem. Sabe o que sua
biografia da Playbill diz?
—Claro. E farei o mesmo. —Então dizemos a próxima frase
em uníssono: “Noah Hayes produz musicais”.
—Vê? Não tem como ficar melhor do que isso.
—Não mesmo.
—Como se dissesse, “Essa é minha marca no mundo, e é tão
poderosa que tudo que preciso é um verbo e um substantivo”.
—Isso é tudo o que eu sempre quis também: nome, verbo,
substantivo. Pronto.
Do nada eu vejo um lampejo de cabelos grisalhos. Um
sorriso de lado familiar. Um par de olhos castanhos semicerrados. O
cabelo da minha nuca se arrepia. Jay Fierstein. O antigo amante da
minha mãe, o ex parceiro de negócios do meu pai. Eu giro a minha
volta, meu coração acelerado, minha pele arrepiada. Mas não o vejo
em lugar algum.
Noah se aproxima de mim. —Ei, tudo bem? —Ele pergunta,
preocupado. —Viu alguém que você conhece?
—Jay Fierstein. —Digo enquanto procuro o canalha.
—Seu pai não tem mais negócios com ele, certo?
Eu paro de procurar os olhos castanhos e sem expressão do
Jay. Ele sumiu. Olho para o meu namorado. —Como você sabe?

207
—K, faz alguns meses. Eu ouço coisas.
—Minha mãe te contou isso?
—Provavelmente. —Ele diz, um pouco nervoso com minhas
perguntas.
—O que você sabe sobre ele? —Coloco minhas mãos sobre
meus quadris. Por algum motivo, me incomoda que esse segredo de
família tenha escapado.
—Não muito, advogada. Por que está me interrogando?
—Eu não sei. —Eu digo, suspirando e enfiando os dedos
nos meus cabelos. Agora estou com raiva de mim por ser chata com
o Noah. —É que...
—Ei. —Ele diz suavemente. —Você pode me dizer.
Um pensamento passa pela minha cabeça. Posso contar a ele
que sacaneei o Jay? Se o Jay está me seguindo, será que quer dizer
que ele voltou com a minha mãe? Por que o Noah está me
perguntando essas coisas?
Um pensamento horrível passa pela minha mente. Noah me
usaria para ficar perto de sua maior cliente? Para descobrir
informações sobre minha mãe que o ajudaria a mantê-la? Minha
mente voa sobre nosso relacionamento, procurando momentos que
revelariam que suas intenções não seriam tão puras.
Não encontro nenhum, mas do nada estou duvidando dele.
Por mais que eu tente afastar esses pensamentos, eles estão
implantados na minha cabeça, como um dispositivo de escuta.
Lembro a mim mesma que ele tem muito a perder ficando
comigo. Ele só está comigo por mim. Mas quando saímos dos
jardins, eu quero socar ambos meus pais.
Isso é o que acontece quando você sabe muitos segredos e

208
cresce cercada por mentiras.
Obrigada, mãe. Obrigada, pai. Vocês são uma merda.

*********

Naquela noite, janto com meu pai na mesa da sala de jantar.


Ele tem um olhar intenso no rosto enquanto folheia várias páginas
brancas. Tem a ver com minha mãe, aposto. Ela provavelmente está
perturbando-o por alguma coisa. Aposto que ela quer parar de pagar
pensão para ele. Parte de mim ficou chocada quando eu soube que
ele estava recebendo pensão. O cara era de aço e nunca deixou
transparecer que ela o estava traindo, mas ele aceitou receber
dinheiro?
—O que está acontecendo? —Pergunto enquanto sento-me
na cadeira.
Ele não responde. Eu o observo mover o queixo, quase
rangendo os dentes.
—O que está errado pai?
Ele suspira, levantando os ombros levemente, então ele
balança a cabeça quase imperceptivelmente. —Jay. —Ele fala baixo.
Eu paro de respirar. O ar some dos meus pulmões. —O que
você quer dizer?
—Isso. —Ele diz, e aponta os papéis com o dedo indicador.
—Ele está me processando.
Meu queixo cai. —O quê? Por quê?
—Violação disso. Violação daquilo. Tentando me culpar pelo
rompimento da sociedade.

209
Meu coração gela. Ele dorme com minha mãe, me segue e
processa meu pai. Meu pai me dá um olhar crítico. —Kennedy, não
sei o que você viu nele. Eu realmente não entendo como você quis
beijá-lo. Mesmo que tenha sido apenas por três segundos.
Meu pai parece enjoado. Olho para baixo, com vergonha de
ter que manter essa mentira.
—Pai. —Digo, mas não sei o que vem depois ou o que mais
devo dizer. Tudo o que sei é que não quero que ele saiba a verdade.
Ele pensa que eu estava apaixonada pelo Jay.
—Vou ligar para ele e dizer exatamente o que eu penso.
—Não. —Digo enquanto meu coração dispara. Eu não
quero que meu pai saiba que eu menti para ele todos esses meses
sobre o Jay. Não quero que ele pense que sou tão ruim quanto
minha mãe no departamento da honestidade. —Quero dizer, não
vale a pena. Não tem mais importância. Eu superei. —Digo,
contando uma mentira, mais uma camada na grande mentira.
—Deixe isso para trás, pai. Por favor. Por favor, não fale com ele
sobre mim. Eu não sinto mais nada por ele. Eu juro.
Ele aperta os dentes novamente, rangendo-os atrás de seus
lábios cerrados. Isso o está corroendo por dentro. Posso dizer pelo
modo como ele se segura, na forma como ele tenta ser
intransponível. Mas manter tudo dentro de si o deixa amargurado.
Olhando para ele, sinto-me culpada por causa das mentiras que
contei, as mentiras que conto.
Tal mãe, tal filha.
Ele balança a cabeça. —Kennedy, o cara deixa você beijá-lo
por três segundos. Você tem ideia quanto eu quero apagar esses três
segundos do registro da história? —Ele bate o punho contra a mesa
de madeira. —Mas eu mantenho minha boca fechada. Por você.
Porque você me implorou. E agora, ele tem a audácia de me

210
processar? A mim? Me processar?
Quero dizer ao meu pai que acho o Jay horrível, que ele é um
traidor. Porque o Jay é. Mas se eu disser a verdade, vai parecer
suspeito. Então, teço mais histórias. —Foi um beijo leve e ele me
empurrou. Eu juro. Não foi nada. —Digo, e me pergunto se minha
mãe já se sentiu mal como estou me sentindo agora quando mentia
para o meu pai. Porque me sinto desprezível. —E se você falar com
ele, você só vai ficar com raiva. E vai irritá-lo, e fazer com que fique
pior. Você tem que ficar frio. Você tem que ser superior. Tem que
lidar com isso através de um advogado e não deixar transparecer
nada sobre, engulo a bile que sobe pela minha garganta enquanto
vomito outra mentira, sobre um estúpido beijo de três segundos.
Ele me olha com desconfiança. —Foi só um beijo?
—Eu te falei. Foi só isso, o resto foi só eu inventando coisas
que eu pensei que queria. —Eu digo, e ter que contar essas mentiras
de novo faz parecer que tenho areia na boca, embora eu esteja grata
que ele tenha visto apenas parte da carta. —Apenas aja através do
advogado e tenho certeza que ele vai conseguir fazer o Jay recuar.
Estendo a mão e acaricio a mão do meu pai e depois a
seguro. Ele aperta de volta, segurando firme, e eu olho para ele por
um momento, tão desconsolado, tão abalado por isso. E sou a
responsável, eu trouxe para isso. Eu me sinto suja, culpada, mas
também aliviada. Estou dando meu jeito, estou conseguindo o que
quero e mantendo meu próprio segredo.
Vale a pena, certo? Esse tipo de amor não acontece muitas
vezes, e você tem que agarrá-lo, lutar por ele e protegê-lo se
necessário for. Para finalmente voltar para um grande amor, bem, eu
alegremente vou pagar o preço por isso.

211
CAPÍTULO 24
Noah

—E posso reservar a mesa dos fundos? —Pergunto,


mostrando a mesa tranquila, mais reservada.
—Absolutamente, senhor. —A mulher vestida de camisa
branca e saia preta me diz, enquanto verifica na tela do computador
na recepção. Ela estuda a tela, e então levanta a cabeça com um
sorriso. Ela marca a data, o aniversário da Kennedy. —Oito horas
da noite. É toda sua.
—Maravilha. —Eu digo e então dou meu nome para a
reserva no Happy Cow, um restaurante vegetariano que a esposa do
Matthew, Jane, comentou dizendo que era o melhor na cidade, já
que ela, como a Kennedy, não come carne. Eu poderia ter feito a
reserva pela internet ou pelo telefone, mas eu queria ver o
restaurante antes, conferir as mesas e me certificar que eu pegaria a
melhor para o seu aniversário.
Eu tenho presentes para ela também, uma nova adição
para o seu colar que eu mandei fazer, e uma noite para nós num
hotel calmo na costa de Connecticut, longe, bem longe de New
York.
Assim que eu saio e coloco os detalhes no meu telefone,
eu imagino um círculo vermelho em volta da data. O círculo
vermelho diria “LIVRE”.
Mas o seu aniversário de dezoito anos realmente muda
alguma coisa?
Sim. Não. Talvez.

212
É uma linha aleatória na areia, ela mal vai estar
começando a faculdade. E eu ainda estarei aqui, um cara de terno,
que tem um apartamento, fazendo todas a coisas que eu faço do
outro lado da faculdade.
A diferença de idade não me incomoda, mas eu seria um
idiota de pensar que não incomoda os outros. Minha única
esperança é que isso não importe para as pessoas que eu preciso na
minha vida, meu chefe, meus clientes e meus negócios. Mas então
eu me lembro que o show business é o mundo onde tudo pode,
onde rótulos e julgamento estão reservados para os críticos e para o
conteúdo. Não para escolhas pessoais, escolhas de estilo de vida ou
relacionamentos românticos.
Clico na minha playlist de músicas e coloco a “There is
No Business like Show Business,” mandando um desejo para o painel de
juízes imaginários da minha vida e das minhas escolhas, que meu
campo de escolha me dará de alguma forma, uma certa imunidade.
Meu telefone toca quando chego a faixa de pedestres.
Eu pego e não reconheço o número. Por um segundo eu me
lembro dos jardins, a preocupação da Kennedy com o Jay, com o
medo infundado de que, de algum modo, Jewel me tem pelas bolas
agora.
Eu digo para o medo ir se foder e atendo.
—Hayes falando.
—Oi, é o Tremaine. Quer almoçar e conversar sobre The One
That Got Away?
—Claro.

213
Kennedy

Alguns dias depois estou andando pela cidade num táxi de


luxo com o Noah depois da aula. Ele tem trinta minutos livres antes
de um jantar com um cliente. Conversamos e nos beijamos, mas
principalmente namoramos. Ele me deixa a dois quarteirões da casa
da minha mãe e eu seguro seu rosto e dou-lhe um beijo de adeus
nos lábios.
—Te vejo amanhã. De algum modo. —Sussurro.
—De algum modo. —Ele repete e então vou embora.
Chego ao meu quarteirão e paro quando vejo outra carta.
Está colada na placa da rua a poucos passos da nossa escada de
entrada. Fico apreensiva. Quantas cartas eu perdi? Quantas caíram
da minha mochila? Eu olho para a carta na placa da rua. É a carta
James Joyce que deixamos para a Bailey semana passada. De novo.
Eu vejo uma mensagem escrita a lápis na base.

Você teve que ler Ulysses na aula de Inglês? O que


achou? Eu odiei.

Claro que eu detestei Ulysses, mas por que você está me


perguntando e quem é você?
Eu olho para os dois lados da rua, como se eu pudesse
vasculhar o quarteirão procurando pelo culpado.
Não vejo ninguém, então imagino que possa ser só um
espertinho do Upper West Side que encontrou esta cópia voando

214
pelo quarteirão e decidiu dar sua contribuição. Alguém que tinha que
dar sua opinião sobre James Joyce.
Mas conforme subo os degraus do sobrado de arenito
marrom da minha mãe, não consigo me enganar. Afinal, Bailey
telefonou para a minha mãe no outro dia falando sobre um cartão
postal. Então, ela deve ter descoberto a coisa toda. Eu paro na
porta, minha mão pairando na maçaneta, enquanto penso nos
cenários e a possibilidade de Bailey remexer nisso. Já que ninguém
sabe que eu mandei as cartas, seria assim tão ruim se a Bailey
confrontasse minha mãe por sua conta? Não seria, de fato, uma
coisa muito boa? Isso não é tudo o que eu sempre quis? Um
sorrisinho maroto surge em meu rosto. As cartas estão voltando,
mas não estão voltando para mim. Estão no caminho certo para
chegar na pessoa que bagunçou todas essas vidas.
Ela.
Talvez vendo suas ações baterem na sua cara, ela vai parar.
Era isso que eu queria o tempo todo.
Assim que eu entro, ela é a primeira a falar. —Comprei algo
para você hoje, querida.
Levo um susto e então me poupo da delicadeza. —Não
precisava.
—Eu queria te comprar uns presentes de aniversário
antecipados. Agora, sente-se aqui para que eu possa te mostrar essas
compras deliciosas.
Ela dá um tapinha no sofá e sento-me ao lado dela. Meu
estômago ronca. Eu não comi muito hoje. —Quer que eu te prepare
algo?
—Eu estou bem.
—Posso te fazer um sanduíche de manteiga de amendoim e

215
mel se você quiser. —Ela diz.
Minha comida favorita entre todas. Eu queria que ela fosse
toda ruim.
Balanço a cabeça e aponto para as sacolas aos pés dela. Ela
esfrega as mãos, e olha para cada sacola. —Ah, vamos ver essa
primeiro. —Ela diz. Ela enfia a mão na sacola branca com as
palavras "Les Bijoux" em escrita arabesca no lado.
—Primeiro, pensei, não seria bacana você ter algo super bonito para
a faculdade, e eu encontrei essa peça maravilhosa.
Ela tira um colar de prata com um pingente de diamante
pendurado no meio.
—É lindo. —Eu digo.
—Coloque-o. —Ela abre o fecho, afasta o cabelo do meu
pescoço e fecha. A joia cai em cima do meu colar de pingentes. Eu
toco a corrente de prata do mais novo.
—É perfeito para seus olhos. —Ela não sugere que eu tire
meus berloques, mesmo que seu colar chique ficasse melhor sozinho
no meu pescoço. Fico feliz por isso. Ela não sabe de onde vieram
meus berloques, mas sabe que os uso todos os dias. Sabe que não
tiro esse colar. Ela me conhece muito bem.
Ela pega outra sacola e tira algumas camisetas leves e
desbotadas que eu gosto. Uma é num tom rosa desbotado com um
dinossauro verde estilizado, outra azul-claro com um macaco de
ponta cabeça, e outra é preta com um par de olhos de gato no canto
superior direito. De outra sacola ela me dá um novo par de jeans, do
tamanho e estilo que eu gosto.
—Você sempre foi uma ótima compradora. —Eu digo.
Minha mãe acerta em comprar para qualquer pessoa. Eu nunca tive
que trocar um item que ela me comprou, e nunca tive que fingir que
gostava de nada, como faço quando estou lendo suas cenas.

216
—É bom saber que se escrever não der certo sempre posso
tentar a carreira de personal shopper.
—Mãe, acho que ser escritora já deu certo. —Digo,
tranquilizando-a.
Ela torce seu colar distraída, uma trança dupla grossa de
ouro. —Estou preocupada com a trama da história para a próxima
temporada. Eles dizem que você é tão boa de acordo com sua
última temporada. E esta está uma bagunça, Kennedy. Uma bagunça
total.
—Estou certa que não está uma bagunça. Você é uma ótima
escritora.
Outra torcida no colar. —Eu simplesmente não sei...
—Mãe, vai ser fabulosa! A LGO vai adorar. Seus fãs vão
amar. —Digo, e realmente falo de coração.
Minha mãe respira aliviada. —Obrigada. Você não tem ideia
de quanto eu me apoio em você. Quanto eu confio em você. Você é
a única que eu sei que vai me dizer a verdade. —Um pensamento
triste passa por minha mente “A minha mãe não confia em
ninguém?” —Você quer fazer algo hoje à noite? Ver um filme? Sair
para jantar? Só nós duas.
—Claro, vamos sair. Vamos ao Sr. Picles. —Digo
rapidamente porque ela parece ansiosa e esperançosa. Não quero
magoá-la.
Ela sorri. —Sua lanchonete favorita.
—Como discutir com uma lanchonete que oferece não um,
nem dois, nem três, nem quatro, nem cinco, mas seis opções de
sanduíche vegetariano?
—Não tenho argumentos. Especialmente quando o rosbife
com maionese com molho pesto e pasta de milho no pão de

217
fermentação natural é divino. —Ela se levanta, pega sua bolsa
vermelho rubi, do tamanho de uma lancheira, e vai para a porta.
—Deixe eu me trocar antes. Quero vestir minhas roupas
novas.
Sua doçura é quase suficiente para me fazer esquecer o que
eu ouvi no outro dia. É quase suficiente para apagar a mensagem de
texto que ela me mandou por engano. Mas eu tenho que ficar firme.
Ela tem o pai da minha melhor amiga em sua mira e estou cansada,
muito cansada de todos os danos colaterais de seus casos. Não
posso deixar as roupas, suas gentilezas e o jeito que me faz sentir a
única me derrubar mais uma vez.
Quando chego ao meu quarto, esvazio minha sacola de
roupas na minha cadeira vermelha. Tiro o jeans e blusinha marrom
que eu usei para meu encontro no carro mais cedo e visto a camiseta
azul do macaco e o jeans novo. Vou para a porta e confiro minha
roupa no espelho de corpo inteiro. Ainda estou usando meu colar
novo, que não combina muito com o resto da roupa, e meus
berloques. É um look meio casual. Olho de perto e posso jurar que
vejo um arranhão de barba no meu queixo, em volta dos meus
lábios. Toco meu rosto, procurando por sinais de beijar alguém com
a barba por fazer. Eu posso ver. Minha mãe não vê? Eu levo meu
nariz até o ombro e cheiro, imaginando se estou com o cheiro dele,
se tenho o cheiro de quem foi beijada por um homem. Eu posso
sentir o cheiro dele em mim.
No espelho, posso ver todas essas minhas partes. Eu posso
ver todos os diferentes pedaços, todas as personalidades que assumo
para diferentes pessoas, para o Noah, para o Lane, para a Amanda,
para Caroline, para meu pai e minha mãe.
Para mim.
Eu não pareço eu mesma. Eu não pareço como uma garota
que está prestes a puxar o tapete da sua mãe.

218
Mas é essa que eu estou prestes a me tornar.

219
CAPÍTULO 25
Kennedy

No dia seguinte, reparo nos sapatos da Caroline, um cinza


claro lustroso, assim que passo pela porta. Digo olá, mas não dou a
ela chance de jogar conversa fora. Vou direto ao ponto.
—Estou saindo com o Noah novamente, ninguém sabe,
minha mãe está de caso com o pai da Amanda, o Lane me convidou
para o baile de formatura e eu disse sim, o Jay Fierstein está me
seguindo por aí e também processando meu pai, as mulheres para
quem deixei cartas estão descobrindo e telefonando, e alguém está
também mandando cartas de volta para mim e deixando-as na
minha porta.
Os cantos dos lábios da Caroline se curvam para cima. —Só
se passou uma semana e meia entre as consultas.
—E também, eu decidi que vou mandar mais cartas para
todos, então, eventualmente, tudo isso explodirá na minha mãe e ela
será obrigada a parar.
A Carolina ergue uma sobrancelha. —Sério? Você acha que
ela vai parar?
Eu faço que sim, com os dentes cerrados. Estou determinada.
—Ela vai ter que parar. Não terá escolha. Todos seus disfarces serão
descobertos.
Caroline aperta os lábios. —Não tenho muita certeza que isso
possa ser feito com alguém que é viciado.
—Eu estaria forçando-a a ir ao fundo do poço. —Digo,
minha voz subindo enquanto apunhalo o ar para dar ênfase. —Que
escolha ela teria?

220
—Ela é uma viciada, Kennedy. Uma dependente. Não pode
forçá-la a ir ao fundo do poço. Ela tem que encontrá-lo sozinha.
—Caroline diz, seu tom tão calmo que me irrita.
—Ela vai encontrar desta vez. Ela vai ter que achar.
—O fundo não é algo que outras pessoas te fazem encontrar.
—Eu estou agilizando para ela. Movendo as coisas para
frente.
—E então, o que acontece?

—Então eu me mudo, começo a faculdade, vou morar com o


Noah, e vivo feliz para sempre. —Digo, afastando minhas mãos
mantendo-as estendidas, como se falasse não é óbvio.

Caroline assente. Ela não zomba, ironiza ou ri. Ela deveria


fazer essas coisas. Eu reconheço a incredulidade no que eu acabei de
dizer. Mas também é o que eu quero desesperadamente.
—Como estão as coisas com o Noah agora que vocês
voltaram?
—Nunca estiveram melhores. —Digo, endireitando a coluna
e sentindo uma energia me atravessar quando penso nele. Voltar
com ele é como ter o centro gravitacional funcionando
corretamente de novo.
—Você vai contar para o seu pai desta vez? Dizer que você
está envolvida com o agente da sua mãe?
Eu dou de ombros enquanto observo minhas cutículas, e
mordo uma pelezinha morta.
—Você acha que devo contar?
Dou de ombros novamente, ao mesmo tempo que cutuco
minha unha, mais uma vez. Eu não olho nos olhos dela.

221
—Kennedy. Olhe para mim. —O tom da sua voz, forte e
autoritário, me força a erguer o olhar.
—Eu acho que você deveria, definitivamente, acho que você
deveria contar. Você e o Noah têm desafios suficientes nessa relação
e o mínimo que você pode fazer é começar honestamente.
—Meu pai vai surtar.
—Como você sabe?
—Ah, talvez porque ele surtou da primeira vez quando
encontrou a carta!
—Mas você disse a ele que a carta era para o Jay. Para o sócio
de quarenta e cinco anos dele. Não o agente da sua mãe de vinte e
poucos anos. Então é difícil saber o que ele faria, não é?
—Ele tem um histórico de surtar. —Eu digo, entredentes.
—E sabe o que mais? Eu não preciso mais temer os meus pais. Eu
estou tão perto. —Digo, levantando minha mão e fazendo sinal de
pouquinho com o indicador e o dedão. —De sair da casa deles. Eu
não preciso bagunçar tudo.
—O que você vai fazer?
Penso nos meus passeios kamikaze de bicicleta pelo tráfego,
no malabarismo que faço no estilo demolidor por entre os carros,
táxis e ônibus. Eu posso fazer isso. Consigo fazer qualquer coisa. —
Não bagunçar as coisas.
—Então ok. —Caroline diz, e cruza os braços no peito, me
imitando.
—Então ok. —Eu digo, imitando-a também.
Ela dá um tempo, esperando por mim. —Kennedy. —Ela
começa, e me diz que estou criando um cenário para ser magoada
novamente pela minha mãe. Ela também me fala que

222
relacionamentos com homens mais velhos dificilmente funcionam.
—Você está errada. Você está simplesmente errada. —Digo,
cruzando os braços.
Chegamos a um impasse. Ela não dá o braço a torcer, e nem
eu.
Quando saio, estou abastecida com toneladas de frustrações.
Eu sou movida por anos de tensão reprimida pelos segredos e
mentiras. Eu quero colocar fogo nelas, vê-las queimar no céu da
noite.
Estou bufando quando encontro Lane no andar de baixo. —
Temos que mandar mais cartas. Um monte delas. —Eu o informo.
Ele balança a cabeça e estala a língua. —Kennedy, acho que é
hora de parar com isso tudo.
—Não. —Digo, a tensão chegando a novos níveis dentro de
mim. —Eu tenho que fazer isso. Quero terminar de me redimir.
Preciso fazer isso certo. Eu não posso fazer sem você.
—Kennedy, vamos tomar um café.
—Eu não quero tomar um café. Preciso terminar com isso.
Vamos. Vou deixar a carta do Balzac hoje à noite. É minha carta de
amor favorita, você sabe.
Ele ergue uma sobrancelha com curiosidade. —Eu pensei
que você nunca entregaria a Balzac, já que veio de um caso.
—É para a Sra. Steigler. —Digo, fixando o olhar nele. Uso o
nome dela, sabendo que ele lembra o que aconteceu com ela. O
nome deve abalá-lo.
Mas não abala. Ele balança a cabeça. —K. —Diz em voz
baixa. —Eu acho que precisamos parar com isso. Vamos fazer outra
coisa. Planejar um salto de paraquedas. Pular de Bungee jumping.

223
Fazer rafting.
Cerro meus dentes e faço biquinho. —Por favor.
Ele suspira e balança a cabeça. —Você está sozinha nessa.
Mas, realmente, eu sempre estive.
*
Eu conheço a Sra. Steigler.
Bem, conheço é uma palavra pesada. Eu não sei o que ela faz
para viver, qual a idade dela ou mesmo sua verdadeira cor de cabelo.
Mas sei que ela se importa muito em manter sua família
unida.
Eu sei porque ela mesma me disse. Ela tentou parar minha
mãe através de mim.
Ela é uma mulher comum. Como qualquer mulher. Mas é a
imagem devastada de uma mulher traída.
Eu nem tenho certeza de como o caso da minha mãe com o
marido dela começou, mas posso dizer como terminou em detalhes
porque a esposa traída os pegou. As conversas que ouvi entre minha
mãe e o Sr. Steigler indicavam que algo de ruim iria acontecer. Ele
disse coisas para minha mãe, como: —Eu acho que minha esposa
está suspeitando de algo. —E minha mãe dizia: —Quanto você acha
que ela sabe?
Por isso fui escalada para encobrir. Disseram-me para atender
o telefone toda vez que tocasse dali por diante. Minha mãe só
atenderia seu agente. Essa regra se aplicava para o telefone de casa e
o celular, já que evidentemente a Sra. Steigler tinha encontrado uma
troca de mensagens potencialmente incriminadora no telefone do Sr.
Steigler, o que significava que a mesma agora tinha o número do
celular de uma certa escritora de seriados da LGO e ela ligava

224
MUITAS VEZES.
As ordens de cima eram claras. Nunca desistir, nunca se
render.
A minha mãe concluiu que a Sra. Steigler eventualmente
pararia de ligar se não chegasse a nada. Em um período de uma
semana durante meu primeiro ano do ensino médio, atendi não
menos do que vinte telefonemas da Sra. Steigler. Eu fazia uma voz
alegre cada vez, dizendo. —A Srta. Stanza não está disponível.
Posso anotar o recado? —Algumas vezes eu transmitia os recados,
mas na maioria apenas fingia escrevê-los, enquanto fechava os olhos
e me encolhia quando a Sra. Steigler dizia numa voz chorosa e
enraivecida. —Por favor, diga a ela que eu quero saber como ela
pode fazer isso com outra mulher.
Uma manhã, eu a vi do outro lado da rua. Ela estava parada
no lado oposto do quarteirão, usando óculos escuros, uma capa de
chuva e o que era obviamente uma peruca preta longa. Eu queria ir
até ela, colocar um braço em volta dela e talvez lhe dar um abraço,
dizer a ela que não valia a pena. Que ele não valia as lágrimas de
ninguém.
Em vez disso, ela veio até mim, atravessando a rua correndo,
me parando. —Por favor diga a ela para parar. —Ela disse, suas
palmas pressionadas juntas como numa oração.
Alguém tinha acabado de abrir um buraco no meu peito. Eu
podia sentir minha pele e ossos desmoronando em volta do meu
coração. —Eu não sei do que você está falando. —Murmurei,
deixando meu cabelo cair ao redor do meu rosto como uma
proteção.
—Sim, você sabe. Você tem atendido o telefone. Tudo o que
eu quero é que isso acabe. Tudo o que eu quero é que ela pare.
—Eu não sei do que você está falando. —Eu repeti, como

225
uma menina robô que me tornei.
—Por favor. Nós também temos uma filha. —Ela disse, se
agarrando a alguma coisa, qualquer coisa para me afetar.
—Eu tenho que ir. —Disse, com meu coração partido. Ela
agarrou minha manga.
—Eu estou te implorando. —Ela disse, sua voz arrastada.
Eu nunca disse nada para minha mãe sobre o incidente. Se eu
tivesse dito, ela teria simplesmente dado risada. Minha mãe
terminaria quando estivesse pronta para isso.
Duas semanas depois o Sr. Steigler parou de vir. Eu sabia que
não tinha nada a ver com o momento da Sra. Steigler, e sim tudo a
ver com a Jewel Stanza. Quando a Jewel Stanza termina com um
homem ela acaba completamente.

Nossos Beijos Roubados

Algumas vezes imagino os beijos que estão por vir.


Os lugares onde acontecerão. Eu nos vejo beijando na
chuva numa rua de paralelepípedos em Paris, sob o sol
enquanto caminhamos numa praia em San Diego,
perto de uma cachoeira em Kauai. Eu só não imagino
como serão os beijos, porque sei que eles serão
maravilhosos. Eu penso em como nos sentiremos. Se
estivermos em Paris, em San Diego, em Kauai,
estaremos nos sentindo livres.

226
É isso o que mais desejo. A liberdade de estar
nestes lugares com você. A liberdade de estar em
qualquer lugar com você.

Algum dia, certo?

227
CAPÍTULO 26
Kennedy

Pela primeira vez em meses, eu e Lane saímos separados


depois de uma consulta no psiquiatra. Eu não vou para casa, não
telefono para Noah. Não vou tomar café. Em vez disso, eu digo
para minha mãe que estou com meu pai e digo para o meu pai que
estou com minha mãe, e passo as horas seguintes fazendo minha
melhor imitação de mensageira de bicicleta, cruzando toda a
Manhattan, fazendo minhas entregas pela ilha, apesar da chuva,
mesmo quando as gotas encharcam meus cabelos e fazem minhas
roupas ficarem em camadas molhadas que terei que desgrudar mais
tarde.
Não sinto nada quando coloco as cartas nas casas, perto de
batentes de portas ou sob as fachadas. Estou só criando essas
exibições públicas porque foi assim que começamos, mas o que
importa são as palavras dentro dos envelopes, escondidas por
enquanto atrás de endereços e selos, mas logo serão reveladas
quando chegarem às caixas de correio lotadas de New York.
Expectativa corre sob minha pele, o desejo de poder fazer o tempo
andar mais rápido, como um filme visto em velocidade rápida , até
que chego à cena quando a vida da minha mãe desmorona, ruindo
em volta dela. Eu assistiria essa cena em modo lento, com uma
grande tigela de pipoca, rebobinando várias vezes, enfiando as
pipocas na boca.
Eu não iria rir, mas estaria satisfeita. Porque a cena
significaria que eu consegui ir para o outro lado.
Em algum ponto da East Eigties, a chuva para e as ruas
brilham. Volto para o West Side, me orgulhando da minha

228
habilidade em manter minha agilidade de gato mesmo numa rua
escorregadia de New York. Eu diminuo quando chego à última casa,
que fica a apenas alguns quarteirões do sobrado de arenito marrom
onde eu cresci com ambos meus pais, o lugar onde minha mãe ainda
vive. Desço da bicicleta, andando pela rua com minhas mãos
pressionadas levemente no guidão. Eu viro a esquina no quarteirão
do meu alvo e tenho a sensação de que estou sendo seguida. Viro
rapidamente, esperando ver Jay Fierstein. Mas ele não está lá.
Tiro alguns fios de cabelo molhados do rosto e puxo a
camiseta encharcada da minha pele.
Continuo andando, com minha bicicleta do lado, tensa e
atenta.
Tenho a sensação novamente, então paro de novo. O
resultado é o mesmo – ninguém entra por uma porta ou se esconde
atrás de um vaso. Subo de novo na minha bicicleta e subo e desço o
quarteirão, mas não vejo ninguém que eu conheça. Termino minha
tarefa. Coloco a última carta no batente do sobrado do Sr. e Sra.
Steigler, imaginando qual a cor verdadeira do cabelo dela debaixo da
peruca. Ela ficou com ele? Eles ficaram juntos pela filha? A filha
sabe?
Nunca saberei. Nunca vou saber como os outros foram
afetados pelas escolhas da minha mãe. Jamais saberei quem mais
tem um buraco negro em seu coração pelas mentiras que o
atravessaram.
Uma das cartas não quer parar e voa longe. Eu fixo as
remanescentes.
Pego na minha mochila os envelopes selados e colados, cartas
para as muitas esposas dos muitos homens que passaram algum
tempo na cama da minha mãe nesses anos. A Balzac. Todas elas
podem ter a Balzac. Qualquer uma delas pode ter minha favorita, as
palavras que o novelista francês Honorè de Balzac mandou para a

229
condessa casada Eveline Hanska. Foi um amor trágico, um amor
errado, e ainda assim suas cartas eram lindas e falavam do tipo de
amor profundo, duradouro, eterno que uma pessoas poderia sentir
por outra.
É hora de os enganados saberem. É hora de me livrar do
fardo no meu peito, que me pesou tanto durante toda a minha vida.
Eu preciso chutar o passado para longe, onde é seu lugar, fora do
caminho do meu futuro.

Eu estou quase louco por você, tanto quanto


alguém pode ficar louco: Não posso juntar duas ideias
sem que você não se interponha entre elas.

Não posso mais pensar em nada que não seja você.


Contra minha vontade, minha imaginação me leva
para você. Eu te agarro, eu te beijo, eu te acaricio,
milhares das carícias mais amorosas me possuem.

Quanto ao meu coração, lá você sempre estará....

Eu vejo uma caixa de correio azul no final da rua e jogo essa


pilha de cartas na sua grande boca azul, querendo que elas cheguem
logo, porque desta vez as cartas não são anônimas.
Desta vez elas foram assinadas pela minha mãe.
Eu sei como falsificar o nome dela.

***********

230
Eu paro perto de um banco e encosto a Joe atrás. Eu me
sento, pego meu telefone e ligo para o Noah.
—Por favor, me diga que você está na minha casa agora.
—Eu digo.
Ele ri, aquela risada sexy dele. —Não. Nem recebi uma
convocação para aparecer. Mas você sabe que eu vou te encontrar
em qualquer lugar que você quiser. É só dizer, K.
Meu corpo se aquece, como se estivesse zumbindo, se
arrepiando pelo jeito que ele fala K. Um sorriso conhecido surge no
meu rosto, um pequeno sorriso particular entre este homem e eu,
este cara do outro lado desta ilha, a poucos quilômetros de distância
de mim.
—Me fale sobre seu dia. As melhores partes, a comida que
você comeu, a música que você escutou. —Fecho os olhos
enquanto ele compartilha detalhes de seu almoço de salada de
frango chinesa com o David Tremaine e sua tarde ouvindo a trilha
sonora de Once enquanto ele trabalhava nos contratos para os
clientes. —Você deixou algo de fora, Noah. —Digo, adorando o
modo que soa como um flerte.
—O que eu deixei de fora, Kennedy? —Ele pergunta,
flertando de volta.
—O que você usou para o trabalho hoje.
—Calças cinza-carvão. Sapatos pretos. Camisa prata.
Eu dou risada. —Isso eu quero ver.
—Eu te falei que fui meio criado por drag queens.
—E agora?
—Camiseta e shorts.
—Você fica bem de camiseta e shorts. —Eu digo, lembrando

231
a roupa que ele usou para o jogo dos Yankees no verão passado.
—Você devia vir para cá então. —Ele diz, e posso ouvir em
sua voz quanto ele quer que eu vá. Eu posso ouvir sua fome. E ela
se equipara com a minha.
—Eu queria. —Eu digo, e me surpreendo com o quanto
estou sendo ousada, mas eu quero estar lá com ele. Além do mais, se
ele não está na minha casa, deve significar que um homem está na
minha casa, o que significa que eu realmente não quero estar na
minha casa.
Tenho uma ideia. —Eu volto a te ligar.
—Estarei esperando.
Eu desligo e ligo para a Amanda. —O que você está fazendo?
—Encarando meu telefone, esperando você me ligar. E você
ligou. Minha vida está completa. —Ela diz, então dá um suspiro
brincalhão.
—Sério. O que você está fazendo?
—Você vai rir.
—Não vou.
—Não. Você vai. É tão bobo. Especialmente uma vez que
meus pais não estão nem aqui. —Minhas orelhas pinicam. É o tipo
de informação que eu estava querendo. —Me diga. —Insisto.
—Lendo as notícias.
Eu dou risada.
—Está vendo? Eu disse que você ia rir.
—Você é viciada em notícias. É fofo. —Eu digo, então
mudo de assunto. —Onde estão seus pais?

232
—Minha mãe está fora da cidade numa conferência em
Miami. Ela está dando uma palestra, ou algo assim. E meu pai está
em alguma coisa de trabalho, mas ele disse que vai chegar super
tarde. Wink-wink35.
Me encolho por dentro, uma pequena parte do meu coração
ficando mais negro, mas eu continuo. —Você ainda acha que ele
está com saindo com alguém?
—Com certeza. Estou certa que ele está com a dita cuja hoje
à noite, como se eu não percebesse o que significa ele estar em uma
“reunião que vai até tarde” quando minha mãe está fora da cidade.
Papeamos por mais alguns minutos e então digo a ela que
preciso subir na minha bicicleta e ir até a casa do meu pai.
Em vez disso, ligo para o Noah.
—Estou a caminho. Te vejo em sete minutos. —Eu digo.
Minha mãe me usou para encobri-la por anos, é justo que eu
use seus encontros para encobrir meus próprios rastros. Estou
mentindo para meus pais hoje à noite, mas ambos me usaram para
ferir um ao outro, e em seu benefício próprio.
Estou apenas fazendo o que me ensinaram, penso, enquanto
corro através da cidade, sem que uma única alma em Manhattan, no
mundo todo, saiba onde estou esta noite. Enquanto o ar morno
passa por mim na Fifth Avenue, eu não me sinto como uma garota
ainda no ensino médio por mais uma semana. Eu não sou. Eu ainda
posso passar sete horas por dia lá, mas sou uma garota desta cidade.
Saber navegar em Manhattan é a matéria em que mais me destaco.
New York é a minha verdadeira escola. Eu aprendi tudo o
que precisava para sobreviver nesta cidade.
35
Literalmente significa, piscar os olhos duas vezes. Mas também é usada como uma expressão de
aceno invisível significando que eu sei que você me conhece e seu segredo está seguro comigo.

233
Chego ao seu edifício e ando com minha bicicleta até o hall
de entrada, digo oi para o porteiro que me conhece, e ele me diz que
vai trancar minha bicicleta no quarto de dispensa. Eu agradeço e
sigo para o sexto andar, onde meu namorado abre a porta e está
super sexy de shorts e camiseta.
—Você parece que foi pega pela chuva. —Ele diz, olhando
para meu cabelo molhado e minhas roupas úmidas.
—Eu fui. Mais cedo.
—Gosto do seu cabelo assim. Mas eu gosto do seu cabelo de
qualquer jeito que você use. —Ele diz, pegando uma mecha do meu
cabelo molhado.
—Esses jeans estão meio grudados em mim. —Aponto para
meus jeans.
—Gosta de cuecas?
Assinto e ele pega minha mão, entrelaçando seus dedos. Ele
aperta com força, seu toque é um sinal que eu sou dele e ele é meu.
É um lembrete pequeno, mas poderoso, de que ele gosta de me
tocar e sinto o mesmo. Ele me leva até seu quarto e me oferece
várias cuecas para escolher. Pego uma xadrez, e peço uma camisa.
—Pode escolher. —Ele diz e escolho minha favorita roxa,
passando as unhas pela frente e olhando sugestivamente para ele.
Vou até o banheiro e me troco, deixando minhas roupas
úmidas penduradas na cortina do chuveiro para secar. Quando entro
no quarto, ele está deitado sobre o edredom azul marinho, com as
mãos atrás da cabeça. Ele não diz nada, só levanta uma sobrancelha
apreciando minha roupa.
O que me marca ainda mais como sendo dele. Aqui, em suas
roupas novamente, demonstro minha lealdade. A ele. Essas roupas
são o sinal, mesmo que nós sejamos os únicos que sabem que eu

234
pertenço a ele. Eu pego o colarinho da camisa e levo ao nariz e inalo
seu cheiro. Meus olhos se fecham e quando abro os seus estão
escuros e completamente fixados em mim.
—Venha aqui. —Ele diz, numa voz rouca e quente. Nunca vi
tanto desejo em seus olhos, tanto calor. —Venha aqui agora.

Noah

Enquanto ela caminha até a cama, eu imagino aquele círculo


vermelho no calendário. Mas foge de minha mente num segundo na
curva de seus quadris, no seu olhar, no modo como ela lambe seus
lábios, sua língua se projetando para fora.
Meu corpo é uma corda bamba. Meu sangue aquece e minha
pele queima com desejo por ela, especialmente quando ela chega na
cama e engatinha até mim. Com. Minhas. Roupas. Minha garganta
está seca, e meus pulmões estão em chamas quando ela chega mais
perto. Minhas mãos estão do lado do meu corpo, punhos fechados.
Cerrados. Sinto que trovões me atravessam e é quase impossível
manter minhas mãos longe dela. Não quando ela aproxima seus
lábios dos meus. Não quando ela sobe em cima de mim, e se
posiciona acima de mim. Não quando ela enfia suas mãos nos meus
cabelos e me beija com força. Mais intensamente do que ela jamais
me beijou.
Sempre nos destacamos nos beijos lentos e suaves, os
medidos e controlados. Os beijos em que nos derretemos um no
outro. Mas esse é novidade. Porque é cru e quente, e ela me segura
com força, suas mãos escorregando do meu cabelo para pegar meus
ombros enquanto nossos lábios se espremem, e engolimos os
gemidos um do outro.

235
Nesse momento, eu não sei como consegui manter minhas
mãos acima da sua cintura todas as vezes que estivemos juntos no
ano passado, e eu mal sei como fazer isso agora. Ou se ainda
consigo. Porque quando eu puxo gentilmente seu lábio inferior com
meus dentes, ela ofega do jeito mais sexy e doce. Isso mata minha
determinação. Eu a tiro de cima de mim e em segundos ela está
deitada de costas na minha cama, levanto sua camisa e vou beijando
a pele macia do seu abdômen, lambendo um caminho pelo seu
corpo.
Antes que eu me dê conta, ela está desabotoando sua camisa,
minha camisa, e seus seios estão expostos. Eu congelo. Porque ela é
extremamente linda, e está aqui para mim. De todas as escolhas que
ela poderia fazer, ela me escolheu e eu nunca quero quebrar essa
confiança.
Eu não me movo. Eu só olho fixamente. Como se fosse a
primeira vez que vejo seios. Não é, mas é a primeira vez que ela tira
sua blusa para mim, e seu corpo me chama como um canto de sereia
ardente.
—Me toque. —Ela murmura.
Eu não me mexo. Eu só fico lá, equilibrado em cima dela, os
músculos dos meus braços tensos. Esse é o próximo passo. O
momento em que eu a toco de modo mais íntimo. Eu fecho os
olhos, mas quando os abro novamente segundos depois não
encontro nenhuma razão para não obedecer aos seus desejos.
Logo estou beijando, tocando e saboreando seus seios e ela
está arqueando suas costas para mim, enfiando suas mãos entre
meus cabelos. Toda vez que ela levanta os quadris, cada movimento
do seu corpo me incita a continuar.
Ela geme e ofega e me puxa para mais perto. Em algum
ponto eu me afasto, parando apenas para beijá-la e quando faço isso,
me lembro que acima da cintura é uma área mais segura. Por agora.

236
—Noah? —Ela sussurra, meu nome uma pergunta.
—Sim?
—Você quer?
Eu dou uma risada. —Claro. Mas não podemos.
—Quando poderemos?
Eu passo meus dedos ao longo de seu pescoço. —Quando eu
puder levá-la daqui. Quando pudermos ir embora para algum lugar.
Algum lugar especial. Só eu e você. Eu quero que tudo seja incrível
para você. Você quer isso?
Ela assente. —Sim. Mas eu te quero agora também. —Ela
diz, e sua voz está ofegante e desesperada, e a proximidade com ela
está me matando.
—Você não tem noção de quanto eu te quero. —Eu rosno,
nunca tirando meus olhos dela. Ela esfrega sua coxa em mim, e
gemo com o seu toque.
—Na verdade, eu meio que sei. —Ela diz, num murmúrio
que me faz sorrir.
—Bem, o que posso dizer? Te tocar me excita. —Digo para
ela.
Ela entrelaça seus braços em mim. —Me toque mais, então.
—Ela diz, sua voz uma súplica. O desejo em seus olhos verdes, o
rápido levantar dos seus quadris, me desarmam.
—Tem certeza? —Pergunto com cuidado, levantando uma
sobrancelha.
Ela assente e expira. —Muita certeza. —E então ela continua
com um pouco audível, por favor, Noah, e estou perdido pelos seus
desejos, estou me afogando nesse desejo indomável pela garota que
amo loucamente.

237
Ela coloca os polegares na cueca que está vestindo e empurra
para baixo pelas pernas. Eu acabo de tirá-las, minhas mãos
gentilmente acariciando suas pernas quando volto para ela.
Ela está nua na minha frente e eu estou extasiado.
É um privilégio tocá-la assim. É como ganhar um
Stradivarius36, algo precioso e raro, e você deve tratá-lo com
reverência.
Eu começo devagar, ouvindo suas dicas. Logo estou
tocando-a e saboreando-a, cruzando todos os limites, mas ela é a
coisa mais doce que já tive. Ela responde como um sonho,
movendo-se como a água e soando como um poema. Ela se torna
um misto de barulho e movimento, e então, completa necessidade,
enquanto suas mãos agarram meu cabelo e meus lábios a
consomem. Ela se arqueia e grita, e nada, nada já foi melhor do que
isso.
Um minuto depois, estou do lado dela, esperando ver
vergonha ou nojo. Ela pode ser lícita, mas ainda não tem dezoito
anos ainda. Mesmo assim, a única emoção que sinto é de total retidão.
Ela força seu corpo contra o meu, agarra minha camisa e me pede
para tirá-la.
—Nós não vamos até o fim. —Eu aviso. Como seu eu
pudesse de repente ditar as leis quando eu já provei que posso ficar
mudando os limites.
—Eu só quero sentir você. —Ela diz, enquanto remove
minha camisa, e espalha suas mãos sobre meu peito, depois na
minha cintura. Seu toque é extraordinário, e a corda bamba está
esticada ao máximo. Eu quero muito mais dela, mas tenho toda a fé
que vai acontecer logo. Quando tiver que acontecer. Essa certeza
nela, em nós, e no futuro é uma das maiores coisas que eu já

36
É uma marca de instrumentos, principalmente violinos.

238
conheci.
—Você vai fazer amor comigo algum dia logo, não é? —Ela
pergunta, seus olhos arregalados e inocentes.
—Sim, eu vou. É exatamente assim que vai ser. —Eu digo,
pegando sua cabeça e puxando-a para perto.
—Eu sei. —Ela sussurra no meu peito. —Eu sei.

239
CAPÍTULO 27
Kennedy

Precisamente às seis e quatorze na manhã seguinte, Joe e eu


chegamos à porta da casa da minha mãe. Ela não costuma levantar
cedo, então estou certa de que ela ainda está na sua cama king size,
com uma máscara preta de cetim cobrindo os olhos. O pai da
Amanda já terá ido embora faz tempo, ela provavelmente o mandou
para casa no meio da noite.
Carrego Joe escada acima. No degrau de cima, embaixo do
tapete, eu vejo a ponta de um papel de cor marfim. Me abaixo para
pegá-lo, puxando o resto do papel de debaixo do tapete.
O papel está dobrado em três. Rapidamente o abro. Uma das
cartas que postei na noite passada voltou para mim. Os cabelos do
meu braço se arrepiam.
Também há um bilhete, um personalizado só para mim.
K, eu realmente gostaria de vê-la novamente.

Arrepios percorrem meu corpo. Existem apenas poucas


pessoas na minha vida que me chamam de K. Eu passei a noite com
uma dessas pessoas, então sei que Noah não deixou esse bilhete. A
outra me dispensou quando pedi para ele concluir as reparações.
Será que esse é o jeito do Lane de me dizer alguma coisa? Ou
talvez é só seu jeito de pedir desculpas pela noite passada, por não
ter ido comigo?
Olho para a carta novamente, lendo as palavras que eu
imprimi, palavras de Balzac para Hańska. Lane deve ter devolvido
para mim, enfiado embaixo do tapete enquanto eu percorria a

240
cidade. A grande questão é por quê. Eu escondo a carta na minha
mochila e entro, deixando Joe na parede. Depois vem uma ducha,
secar o cabelo, maquiagem, calças limpas e uma blusa azul
engomada e estou pronta para outro dia na minha última semana no
ensino médio.
—Bom dia, querida. —Minha mãe diz da cozinha quando
desço as escadas. Sinto o cheiro do café.
—Oi mãe. —Eu digo, enquanto ela estica o pescoço de um
lado para o outro, fazendo alongamento. Ela está vestindo uma
camisola vermelha de seda até a coxa. Eu me mantenho uns metros
de distância dela quando ela me pergunta como dormi.
Eu respondo. —Bem. —Mas tudo o que consigo pensar é,
consegui me safar. Dormi com seu agente na casa dele e você nem desconfia. Me
sinto rindo de dentro para fora, me sinto como açúcar com canela
na torrada. Se safar de algo tem um sabor ótimo. Especialmente
quando esse algo é tão fantástico quanto o que o Noah fez comigo
na última noite. Meu estômago dá cambalhotas com a lembrança,
uma enxurrada de faíscas dispara dentro de mim quando me lembro
de como me senti gritando seu nome.
É melhor eu ir antes que me perca na Luxuriolândia.
—Tchau, mãe. —Eu digo, e vou para a porta. Ela se move
para um abraço. Quando ela me abraça, meu nariz sente seu cheiro
matinal. Ela tem cheiro de sexo. Me solto dela, escapando do seu
abraço. —Tenho que ir.
—Eu te amo, querida. Seja boa hoje.
—Sim. Você também. —Eu digo, mas é um desejo vazio,
porque ela não é capaz. Mas então, eu acho que eu também não
tenho sido tão boa esses dias.
Enquanto estou indo para a escola, meu telefone toca com
uma mensagem de Lane.

241
Espero que você não tenha sido pega na chuva
ontem à noite. Ou se foi, que você estivesse com um
guarda-chuva para usar. Um de bolinhas vermelhas.

O guarda-chuva que ele me deu. Era mais do que um guarda-


chuva? Franzo as sobrancelhas. Será que ele realmente sente algo
por mim?
Eu paro na faixa de pedestres da Central Park West,
esperando o sinal abrir, e é como se o tráfego, as pessoas e a cidade
estivessem me comprimindo. As pessoas do outro lado da rua
parecem tão distantes agora, como se seus rostos e corpos
estivessem desmoronando, ficando menores. E então, de repente,
estão vindo para cima de mim. Meu mundo está a quilômetros de
distância e ao mesmo tempo, na minha cara. O semáforo muda e eu
atravesso a rua, mas meus pés estão pesados e o concreto parece
muito perto, eu sei que tenho que me sentar e me controlar.
Eu não tenho noção do que fazer com relação ao Lane. Ou
quando minha mãe será confrontada com minhas cartas.
Logo me encontro na aula de Inglês, perto da Amanda, e
tenho o desejo novamente de contar tudo a ela, vomitar todas as
coisas que guardei dentro de mim, confessar como a usei a noite
passada, como eu sabia que o pai dela tinha de estar na minha casa,
mas não digo nada, e ela está estranhamente amuada durante toda a
aula. Quando toca o sinal no final do primeiro período, ela sussurra:
—Meu pai não voltou para casa ontem até às três da manhã.
Seus olhos estão vidrados. O olhar vago de seus lindos olhos
azuis se transforma em raiva. —Eu o odeio pelo que ele faz com
minha mãe.
—Eu odeio a mulher com quem ele está saindo. —Digo, as
palavras saindo, sem planejamento, espontâneas.

242
Quando as aulas terminam e os treino de lacrosse acaba, eu
procuro Lane e digo que preciso vê-lo. Combinamos de nos
encontrar para comer pizza na Lexington da Seventies, perto da casa
dele. Enquanto atravesso a cidade, relembro a noite passada. É
como se eu e o Noah tivéssemos pulado de uma ponte juntos, e ao
invés de cair, voamos. Para ser honesta, nunca tive certeza se queria
esse tipo de proximidade. Eu cresci cercada pelo tipo errado de
intimidade, então, eu não tinha ideia se desejava algo assim para
mim. Mas com Noah, eu quero tudo. Quero todas as coisas. Me
senti tão livre em seus braços ontem à noite, tão certa na sua cama
quando me entreguei a ele. Não há dúvida, eu quero muito mais
dele.
Eu ligo para ele e ele atende no primeiro toque. —Olá.
—Eu digo.
—Deixe-me adivinhar. Você ainda está sentindo os efeitos de
ontem à noite. —Ele diz com uma confiança muito sexy.
Eu dou risada. —Para falar a verdade, é exatamente o que eu
estava pensando.
Flertamos, sugestivamente e maliciosamente, enquanto ando
pela cidade, passando pelos ônibus expelindo fumaça, os táxis
buzinando, e os pedestres conversando em seus telefones também.
Assim que chego à pizzaria, ele me diz algo que me faz corar. —
Nada me excitou tanto quanto o modo como você disse meu nome
ontem à noite.
Eu dou um gemido. Porque as memórias voltam, me
aquecendo.
—Eu quero que você faça isso comigo novamente. Talvez
hoje à noite. —Digo, encostando na parede de tijolos do lado de
fora da loja.
—Isso pode ser arranjado. Considere um outro presente

243
antecipado de aniversário.
—Eu gosto dos presentes que você me dá. —Digo, porque
parece que não consigo parar essa brincadeira maliciosa com ele
agora que começamos nesse caminho de mais do que beijos.
—K, eu te darei qualquer coisa que você queira, a qualquer
hora. Apareça essa noite.
—Estarei aí mais tarde. Ninguém tem que saber. —Digo, e
ele me diz que me ligará mais tarde, pois David Tremaine está indo
para o escritório para uma reunião.
—Ninguém tem que saber o quê?
Eu estremeço, e deixo escapar um grito de surpresa. Lane
apareceu de repente e do nada. —Você me surpreendeu. —Eu digo,
batendo em seu braço.
Ele ri. —Percebi. —Ele levanta suas sobrancelhas e me
analisa. Minhas bochechas estão vermelhas e eu me pergunto o
quanto ele terá ouvido. Essa situação me parece estranhamente
familiar, como se o jogo tivesse virado. Especialmente quando ele
diz: —Então, ninguém tem que saber o quê?
Minhas bochechas ficam mais vermelhas. —Oh, só falando
com a Amanda. Ela me venceu no treino de Lacrosse, e estávamos
brincando que ninguém saberia que ela conseguiu. —Digo, a
mentira saindo da minha boca sem problemas.
Eu me viro rapidamente, entrando na pizzaria enquanto uma
onda de auto-aversão passa por mim. Não quero ser como minha
mãe. Não quero ser uma mentirosa.
—Você sabe o que mais incomoda as pessoas? —Lane
pergunta enquanto sentamos em uma mesa com uma toalha xadrez
vermelho e branco.
—Não. Me diga o que mais incomoda as pessoas. —Fico

244
tensa, temendo a resposta. Ele está bravo comigo. Vai me dar uma
bronca usando um de seus fatos.
—Taxas escondidas. —Ele diz, balançando a cabeça e rindo.
—Seguido de não conseguir falar com alguém no telefone, gente
que cola atrás do carro, despesas incompreensíveis e cocô de
cachorro no chão.
—Parece relativamente sem importância. Todos. —Eu digo,
enquanto abro o cardápio.
—Quer dividir uma pizza de queijo? Renuncio ao pepperoni
por você.
—Você é o melhor. Obrigada por sua abstinência.
Ele faz o pedido quando a garçonete chega, acrescentando
duas Cocas diet. —É melhor trazer para ela uma dupla. —Ele
acrescenta, e pisca para a garçonete. É uma piada, e ela não entende,
então ela só olha para ele por detrás de seus óculos de aro de metal.
Seu cabelo castanho claro está puxado num rabo de cavalo. Lane
balança a mão no ar. —Só duas Cocas diet, por favor.
Ela assente e sai, escrevendo o pedido no seu bloco de papel.
—Credo. O que será do mundo se não se pode nem fazer
uma piada sobre um refrigerante? Essa seria uma das minhas
grandes chateações. Meu maior incômodo. Falta de apreciação e
entendimento de sarcasmo.
—Realmente muito chato. —Digo.
Lane coça o queixo imitando o grande chefão, e então adota
um tom de Marlon Brando.
—Então, o que posso fazer por você?
Eu lhe lanço um olhar.
—Você pediu esse encontro. —Ele acrescenta.

245
Eu dou de ombros. —O quê? Agora preciso ter um motivo
para me encontrar com você? Achei que a gente simplesmente se
via. —Eu digo, mesmo sentindo a tensão, é real, ela existe, é a
sombra entre nós agora. Eu cedo. —Está bem, eu sei que você ficou
bravo comigo por causa de ontem à noite, por causa das cartas. Mas
veja, eu tive que fazê-lo, eu tenho que resolver as coisas da minha
vida. E é por isso que preciso ser totalmente direta aqui. —Pego na
minha mochila a carta que encontrei embaixo do capacho essa
manhã. Eu a abro e a aliso sobre a toalha da mesa, e explico como,
quando e onde a encontrei.
Ele a vira, lê as palavras de Balzac, então as palavras escritas à
mão. K, eu gostaria muito de vê-la novamente.

—Estranho. Quem você acha que escreveu?


A garçonete traz nossos refrigerantes e Lane bebe um gole.
—Quem eu acho que escreveu isso? —Pergunto, franzindo
as sobrancelhas.
Ele assente. —Sim. É um pouco estranho, não acha?
Eu olho nos olhos dele. —Lane.
—Kennedy.
—Você não... —Começo a perguntar.
—Eu não o quê?
—Bem, você me chama de K. Você sabia que eu estava
deixando a carta. Você sabe que Balzac é meu favorito.
Ele não diz nada imediatamente, apenas bate na mesa com os
dedos. —Balzac. —Ele diz, demorando-se no nome do escritor. —
É um nome engraçado, não é? Você acha que todo mundo gozava
dele no parquinho com esse nome?

246
É como se eu estivesse num universo alternativo e o Lane
que eu conhecia tivesse sido substituído por essa versão diferente
que não se parece com o verdadeiro.
Eu olho fixo diretamente para ele. —Lane, você deixou essa
carta para mim?
Ele me olha nos olhos, finalmente, seus olhos castanho-
esverdeados encontrando os meus. —Sabe o que mais me
incomoda? Se tivessem me chamado para a pesquisa, eu diria o que
mais me chateia. Falta de objetividade. —Ele diz.
—Mas estou sendo direta. Estou sendo totalmente direta.
—Certo. E eu faria o mesmo. Se eu tivesse sentimentos por
você, eu diria a você. Eu não deixaria uma carta na sua porta. Uma
carta destinada a uma mulher casada.
Eu enrubesço. Levanto minhas mãos, em sinal de rendição.
—Tudo bem. Captei a mensagem.
Ele se levanta e afasta a cadeira. Tudo que posso imaginar é
que eu o deixei tão bravo que ele vai embora. Mas ele dá a volta na
mesa e senta-se perto de mim, puxando uma cadeira para perto de
mim, tão perto que um dos meus joelhos fica entre suas pernas.
—Você vai me lembrar que não gosta de mim, ou algo assim?
—Você quer que eu goste de você?
Eu não sei como responder a essa pergunta, então eu não
respondo. Se me senti sem chão hoje de manhã andando para a
escola, não era nada comparado a como me sinto agora. O mundo
todo está inclinado para um lado e eu não vejo, sinto ou penso nada
direito.
—Quer? —Ele pergunta numa voz mais suave. —Porque se
eu gostasse de você, diria a você. Eu seria direto. Eu seria franco. —
Ele diz, olhando fixamente para mim. Ele coloca uma mão na minha

247
perna, e sua voz suaviza. —Eu te convidaria para o baile.
Ele espera que eu diga alguma coisa. Suas palavras são sua
confissão.
—Mas você disse. —Começo, mas estou gaguejando e
balbuciando. —Você disse que eu era sua melhor amiga. Que você
queria ir como amigos.
—Se eu estivesse sendo direto, eu te diria agora mesmo que
isso é verdade, mas sim, tem muito mais do que isso. Muito mais.
—Ele diz, as últimas palavras num sussurro quente.
Nossos olhares se fixam e não se desviam. Eu observo
quando ele pressiona os dentes contra seu lábio inferior por um
segundo, e depois respira meu nome. —Kennedy.
—Lane. —Eu digo, mas não sei se é um sinal de pare ou um
reconhecimento de como minha vida poderia ter sido. Lane e seu
presentes de guarda-chuva, amizade e coração lindo, é precisamente
o tipo de cara que seria perfeito para mim, ele tem a mesma idade.
Não haveria perguntas, nem segundos olhares, nem necessidade de
se esconder. Ele é outra escolha que eu poderia ter feito, e se eu
tivesse feito, eu não teria que viver uma vida sobrecarregada com
tantos segredos. Conforme essa escolha se desenrola em frente aos
meus olhos, eu não me movo. Não faço nada. Nem ele. Estamos
congelados no tempo. Ficamos assim, a centímetros de distância,
como estátuas, tão perto que poderíamos nos beijar. Talvez, em
outra versão da minha vida, nos beijássemos. Talvez, em um
universo paralelo, ele seja a pessoa com quem estou predestinada a
ficar, o cara da minha idade. Mas me apaixonei antes do tempo. Eu
me apaixonei por outra pessoa. E a única coisa que sei sobre mim, a
única coisa que ainda é verdadeira, mesmo que todo o resto balance,
é isso, eu não sou minha mãe.
Eu levanto uma mão e coloco contra seu peito. —Estou com
o Noah novamente.

248
Ele respira profundamente, então abaixa a cabeça. Ele aperta
seu punho contra a boca, como se estivesse segurando todas as
coisas que quer dizer.
—Sinto muito. —Murmuro, porque não tenho certeza do
que dizer. Sinto como se tivesse feito algo errado.
Ele levanta sua cabeça. —Do que você se arrepende?
—O que você quer dizer?
A mandíbula de Lane está enrijecida. Seus olhos estão
estreitados. Este lado dele eu nunca tinha visto antes.
—Você estava falando com ele antes, certo? Quando disse
“ninguém tem que saber”?
Eu suspiro e admito a verdade da minha vida. —Sim.
Ele balança a cabeça. —Por que você mentiu para mim?
Eu aponto para ele, para sua reação de raiva. —Por causa
disso. Por você estar tão chateado.
—Não estou bravo porque você está saindo com ele. Estou
bravo porque você mentiu. —Ele diz, afastando a cadeira, as pernas
fazendo barulho alto no chão. Ele pega sua carteira e joga algumas
notas na mesa.
—Para que isso?
—Para a pizza. Não estou mais com fome.
Eu me levanto e olho para ele como se ele fosse uma
aberração. —Por que está indo embora?
—Porque estou realmente chateado agora. —Ele diz
entredentes, falando num assobio baixo.
—Sempre fomos extremamente honestos e você mentiu para
mim, Kennedy. Isso me irrita e não quero falar sobre isso. Quero ir

249
embora. Então eu vou. Tchau.
Ele se vira e sai, enquanto a garçonete traz a pizza de queijo
para a mesa. Meu estômago ronca, e estou envergonhada que meu
corpo tem a audácia de sentir fome num momento como esse.
Abaixo a cabeça na mesa, sozinha e vazia, numa pizzaria em
Manhattan.

250
CAPÍTULO 28
Noah

Tremaine balança um lápis entre o polegar e o indicador. Para


cima, vira e dá a volta. Ele não errou nenhuma. Ele balança e fala,
esticado no sofá de couro do meu escritório.
—Aí é que está. —O homem grisalho diz, com suas
sobrancelhas franzidas pensativamente. —Eu me pergunto se uma
série de TV é o melhor lugar para este tipo de história.
Eu concordo várias vezes do meu posto em uma cadeira
confortável em frente a ele. —Você acha que é muito drama do tipo
eles vão, eles não vão para sustentar muitos anos e em muitas
temporadas? Ele para de balançar o lápis, se senta ereto e bate o
dedo no nariz. —Exatamente. —Ele diz, enfatizando cada sílaba. —
Por que qual é o sentimento da história? O sentimento vai e volta,
ou o sentimento é o caminho para estar juntos?
—Ou para não estar juntos. —Eu disparo. —Porque essa é
uma opção também.
—Exatamente. Eu não decidi se o herói merece Aquela que
escapou.
—Os heróis nem sempre merecem a garota. —Eu digo,
pensando no assunto, imaginando como o público veria um cara
como eu. Se eu seria merecedor da garota. Suspeito que o júri não
tenha certeza disso.
—Veja bem. —Ele começa, se debruçando para frente, mãos
nos joelhos com uma excitação nos olhos. —Eu não estou
convencido que quero colocar os personagens no tipo de inferno

251
que um seriado de TV exigiria de um romance.
Eu levanto uma sobrancelha. —Você está pensando que o
tipo de inferno do cinema é melhor?
Ele assente. —Podemos vender como um filme?
Ainda nem concordamos em trabalhar juntos. Mas esse é o
processo. É assim que um cara como Tremaine decide em quem
confiar o seu talento criativo. Além disso, eu não preciso de um
contrato para querer estar nessa sala com ele papeando sobre ideias.
—O herói está apaixonado pela garota por anos, mas ela não
se permite estar com ele por alguma razão. Talvez ela esteja presa ao
passado, ou tem alguma coisa com que ela tem que lidar primeiro. E
o herói, bem, ele não pode suportar imaginar que ela escape. —
Tremaine oferece, levantando uma sobrancelha enquanto espera
minha resposta.
—Mas por que ele é tão apaixonado por ela? É isso que vai
fazer isso fazer sentido ou não.
—Essa é sempre a chave. —Ele diz, e estou prestes a
responder quando o Jonathan aparece, todo arrumado e chique no
seu terno risca de giz, pronto para desempenhar seu papel e fechar
negócio.
Só que não preciso dele. Tremaine não quer um vendedor de
carros.
Meus músculos se enrijecem, e eu espero que Jonathan não
estrague isso. Porque Tremaine é um tipo especial de escritor, e ele
precisa de alguém que entenda o que ele está tentando fazer.
—Como vai indo, senhores? —Ele pergunta
—Vai indo muito bem. —Tremaine diz, e não posso
reclamar dessa resposta.

252
Kennedy

Eu cutuco indiferentemente o pedaço de pizza, desejando


que Lane estivesse aqui para dividir comigo. Eu queria saber o que
dizer a ele, mas ele claramente não queria saber de mim. E agora
estou enfrentando o executor de amizades mais uma vez, só que
desta vez foi o meu crime, mentir, que me trouxe aqui.
Eu me lembro da Catey, e tudo o que compartilhamos. Ela
não é mais parte da minha vida, e eu odiaria que isso acontecesse
com Lane. Inferno, a Catey é o motivo pelo qual a pizza na minha
frente não tem pepperoni. Eu começo a embrulhar a pizza para
levar para Lane como uma oferta de paz. Mas quando começo a
pensar no que dizer, percebo que não tenho ideia de que palavras
usar.
Eu não tenho treinamento nesse nível de honestidade.
Empurro a pizza para a beirada da mesa, pego minha mochila e
começo minha lição de casa.
É tão indigno ter que terminar minha lição de casa antes de
ver meu namorado hoje à noite. Fazer traduções de francês e
equações de cálculo me faz sentir uma criança. Mas eu estou muito
pronta para acabar logo com isso e começar a próxima parte da
minha vida. A parte onde tenho liberdade. Quando eu termino,
decido ter um gostinho dessa liberdade agora, então coloco meu
computador dentro da mochila e vou para Noah.
Mal dizemos uma palavra enquanto largo minha mochila na
porta e caio em seus braços. Ele me apoia contra a parede, suas
mãos segurando meu rosto enquanto ele coloca sua boca contra a
minha. Esqueço o dia com seu toque. Seus beijos me dominam, eles
apagam a memória da rejeição de Lane, da sua mágoa e de sua raiva.
Eles apagam o maldito mundo todo.

253
—Como foi o seu dia? —Ele sussurra enquanto beija meu
pescoço, seus dedos se espalhando nos meus cabelos.
—Uma merda. —Digo, enquanto agarro a gola da sua camisa
e o trago para mais perto.
—Por quê? —Ele pergunta, cobrindo meu pescoço de beijos.
—Tive uma discussão com um amigo. —Murmuro,
enquanto suas mãos percorrem sob minha blusa. Eu me arqueio
para ele. A eletricidade se espalha pelas minhas veias e apaga a briga
com Lane. Tudo o que quero agora é me sentir bem novamente e
Noah é o único que pode me dar essa pílula mágica.
—O que posso fazer para você se sentir melhor?
—Mais do que você está fazendo. —Digo enquanto abro os
botões da sua camisa. Ele inala profundamente quando passo as
mãos pelo seu peito.
—Você vai tornar os próximos dez dias muito difíceis. —Ele
diz em um gemido.
Levanto as sobrancelhas. —Eu sei. Mas eu topo o desafio.
—O desafio do aniversário. —Ele diz, enquanto tiro sua
camisa e o viro de costas contra a parede. Me abaixo para beijar seu
peito, seu abdômen e então lá, aquela linha acima da cintura da sua
calça. O gosto da sua pele me deixa louca. Eu quero conhecer tudo
dele, tocá-lo de todas as maneiras, explorar seu corpo com minhas
mãos e minha boca. O desejo pulsa em mim, um desejo profundo e
poderoso de ultrapassar cada limite. Eu perco a razão quando
começo a abrir o seu cinto.
Em um flash, suas mãos estão nas minhas, me parando. Ele
me puxa para cima. —Temos que esperar. —Ele diz, com a voz
tensa.
—Eu não quero mais esperar. —Digo, porque eu tenho

254
certeza que isso “sexo” apagaria a minha tarde horrível.
—Eu sei. —Ele diz, segurando minhas mãos ansiosas com
força. —Mas nós prometemos esperar, e eu tenho algo especial
planejado.
Então ele me conta do restaurante, do hotel, e meu coração
cria asas e tenta sair do meu peito porque é tudo tão perfeito.
O fato de que eu tenho que criar um novo jogo de mentiras
para passar a noite com ele não me incomoda. Sou tão boa em
mentiras agora que eu poderia dar aulas.
A única coisa que não preciso esconder é como me sinto.
Noah é minha liberdade, então eu procuro mais, na esperança que
irá apagar a mágoa de hoje à tarde. Eu levo minhas mãos no seu
rosto. —Você realmente não vai me deixar tocá-lo? —Pergunto,
embora eu saiba a resposta. Estou apenas preparando minha
próxima pergunta.
—Não. —Ele balança a cabeça para dar ênfase. Não estou
inteiramente certa porque tocá-lo não é aceitável, mas me tocar é
permitido. Talvez exista alguma regra não escrita que embora
tenhamos cruzado um limite a noite passada, não possamos cruzar
outro. Nesse momento, estou perfeitamente satisfeita com essa
regra porque meu corpo é egoísta.
Meu corpo deseja.
Eu só beijei um outro garoto na minha vida, e apesar de eu e
Noah termos dominado a arte de beijar há muito tempo, a última
noite com ele foi como um despertar, liberando uma necessidade
profunda de dentro de mim. As comportas foram abertas.
—Você me acharia muito gananciosa se eu pedisse que você
me fizesse... —Eu começo, mas não posso respirar as palavras finais
em voz alta ainda. Então sussurro em seu ouvido o resto do meu
pedido.

255
Gozar novamente.
Ele trava a respiração, me dando a resposta que eu já sabia.
—Você sabe que vou. Você sabe que é tudo o que eu quero. —Ele
diz, sua voz quente, revelando seu desejo e mostrando que ele não
consegue mais se conter. De algum modo, eu sou sua fraqueza, sou
seu ponto crítico, eu sou uma exceção para ele. —Você é meu
tudo. —Ele sussurra.
Eu abaixo minha mão para a dele e o guio para onde eu o
quero.
—Você pode ser gananciosa comigo a qualquer hora, K. —
Ele diz e desabotoa minhas calças. As pontas de seus dedos roçam
minha pele. Meu coração dispara e meu corpo dói para ficar mais
perto. Para ser sentido. Para ser acariciado, e levado para aquele
estado instável, quente e sonhador.
Ele ainda está hesitante comigo, como se eu fosse frágil. Mas
não sou delicada e nunca fui. Ele apenas precisa da minha permissão
a cada movimento conforme nos aventuramos nessa nova trajetória.
Então cubro sua mão com a minha, escorrego seus dedos para
dentro da minha calcinha, entre minhas pernas. É tudo o que ele
precisa, a confirmação total que eu não estou apenas ok com isso,
mas que preciso disso.
Ele me dá o que eu preciso.
Ele. Suas mãos. Seu toque. Sua devoção a mim, coração,
mente e agora corpo.
Suponho que eu deveria me sentir vulnerável ou estranha,
contra sua parede, minhas mãos em seus cabelos, meu pescoço
arqueado, meus gemidos ecoando em seu apartamento enquanto ele
me toca. Mas não há espaço em mim para mais nada a não ser essa
intensidade, essa ternura, esse feliz esquecimento com ele. Estou
flutuando, estou voando, estou no céu.

256
Apenas melhor, porque estou aqui na terra amando todos os
segundos por estar viva.

********

Mas aquelas horas roubadas da noite com Noah não têm o


efeito que eu quero de manhã. Minha felicidade temporária acaba e
ainda fico magoada. Meus amigos são muito importantes para mim.
No dia seguinte depois da aula, mando uma mensagem para
Lane para perguntar se ele está em casa. Quando ele diz sim, eu
peço pizza, metade pepperoni e metade de queijo. Depois que eu
pego a pizza, vou direto para o prédio onde Lane mora, ali perto.
Porque para o inferno se vou permitir que essa nova amizade tenha
o mesmo destino das antigas.
Quando ele atende a porta do apartamento, suas
sobrancelhas se erguem até o couro cabeludo. —Kennedy. —Ele
diz, tropeçando no meu nome.
Eu levanto uma mão. —Desculpe. Estou muito arrependida
de ter mentido para você. Eu não tenho uma desculpa e não vou te
dar uma, exceto que foi natural, é com o que eu estou acostumada.
Mas isso não torna correto, ou certo que eu tenha feito isso com
você. —Eu junto as mãos, implorando a ele. —E eu farei qualquer
coisa para implorar por perdão porque sua amizade significa muito
para mim. Não posso e não vou perdê-la. —Finco meus calcanhares
no chão, endireitando minha coluna, ficando ereta. —Eu
simplesmente me recuso. Eu me recuso permitir que você deixe de
ser meu amigo.
Isso o faz rir e ele balança a cabeça. —Recusa, hein? Como
exatamente essa recusa se manifestará?

257
—Vou acampar na sua porta até que você me aceite de volta.
—Digo, me sentindo um pouquinho mais leve agora que seus lábios
estão curvados em um sorriso. —Farei o que for preciso. Porque
você significa muito para mim. Eu estraguei tudo, e espero que
aceite minhas desculpas e saiba que vem do fato de eu tentar
entender como ser uma amiga de verdade e dizer a verdade sobre
mim. Você me perdoa? Eu trouxe uma oferta de paz. Na verdade,
uma oferta de pizza. —Eu digo, empurrando a caixa da pizza para
ele.
Ele olha com desconfiança. —É a de ontem?
Balanço a cabeça. —Não. É uma novinha.
Ele a pega, joga um braço sobre meu ombro e me puxa para
dentro. —Eu aceito. Porque eu tenho uma confissão a fazer
também. Eu estava morto de fome ontem e ainda estou agora.
Eu o cutuco com o cotovelo de brincadeira enquanto
entramos no apartamento. Está vazio. Sua mãe ainda deve estar no
trabalho. —Você mentiu também. —Eu brinco.
Ele dá de ombros e me lança seu sorriso típico enquanto
paramos na mesa da cozinha. Ele dobra uma fatia e come com
vontade. Pego uma para mim também.
Entre as mordidas, conversamos. Ele me pede para falar
sobre Noah e como voltamos a ficar juntos. Eu compartilho tudo,
minha mãe, o pai da Amanda, Jay e o processo, o jardim Botânico.
Eu conto para ele todas essas coisas, e quando tudo está na mesa,
quando estamos mordendo pedaços de pizza de queijo, superamos o
que ele disse ontem, além das minhas próprias palavras falsas.
Voltamos ao ponto que estávamos a alguns dias atrás. Nós somos
amigos, ele não foi embora. Eu comecei de novo e disse a verdade, e
ele ainda está aqui, ainda estamos aqui.
Ele não me abandonou.

258
Isso é melhor do que fazer gols no lacrosse. Isso é melhor do
que um beijo. Isso é o melhor.
Quando terminamos e é hora de ir, ele coloca suas mãos nos
meus ombros e me olha direto nos olhos.
—K. —Ele diz, então ri. —Ainda posso te chamar assim?
—Claro.
—Eu tenho um milhão de pensamentos, sentimentos e
opiniões, e admito também que estou incomodado com esse cara.
Ainda não acredito que o nome dele é Noah, porque não é justo que
ele tenha o nome mais legal de bom rapaz e que tenha você
novamente, mas você precisa dizer ao seus pais o que está
acontecendo. Por favor, por favor, faça isso.
Eu balanço minha cabeça com rapidez. Inflexivelmente.
—Não posso contar para a minha mãe.
—Você tem dois pais. Conte ao seu pai. —Ele diz,
gentilmente.
Minha pele se arrepia de preocupação. —Ele vai surtar.
—Deixe que surte.
—Eu quero dizer realmente surtar. Tipo surtar e me proibir
de vê-lo.
Lane olha para seu telefone, parecendo checar o calendário.
—Se a memória não estiver falhando, você tem quase dezoito anos
e vai para a faculdade em três meses. Diga isso a ele.
Faço que sim com a cabeça.
—Isso é um sim?
—Não é um não.

259
CAPÍTULO 29
Kennedy

Naquela noite, no dia seguinte e na noite seguinte, enquanto


ando no metrô para a casa do meu pai, penso na ideia de falar a
verdade sobre o Noah. Eu considero, reconsidero, analiso, o tempo
todo tentando entender quem deixou a carta na casa da minha mãe
na outra manhã.
Não estou mais perto de saber, ou nem estou mais perto de
um sim quando subo os cinco lances de escada para a casa do meu
pai no Village e destranco a porta.
Meu pai está sentado à mesa da sala de jantar, seu laptop
aberto, digitando. Ele tem um olhar de aço em seus olhos, um olhar
que sim, eu já vi antes, um olhar que ele reserva apenas quando fala
sobre minha mãe.
—Oi pai. —Sinto meu nervosismo causando estranhas
sensações na minha garganta, dentro da minha boca, no meu
estômago.
—Olá Kennedy. —Sua voz é fria. Ele está falando comigo
como se eu fosse minha mãe, e isso me faz sentir terrível.
Ele vira seu laptop e aponta uma foto na tela.
É o Noah e eu esse fim de semana. No Jardim botânico.
Ele clica na próxima.
Eu e o Noah entrando em um táxi. E então a próxima.
Eu entrando no prédio dele na outra noite.

260
Então a última. Eu saindo na manhã seguinte, o toldo verde
atrás de mim.
—Eu recebi estas do advogado do Jay Fierstein. Acho que ele
pensa que serão úteis no seu processo. Não estou certo se concordo,
mas francamente não dou a mínima para o processo nesse
momento. Eu gostaria de saber mais sobre a vida dupla que você
está levando. Porque eu assumo que sua mãe. —Ele diz, e a última
palavra sai como cuspe da sua boca. —Não sabe sobre isso.
Eu balanço a cabeça. Não posso negar. Não posso falar. Não
consigo formar as palavras. A terra está se abrindo e meu sangue
pulsa na minha cabeça. Impiedosamente. Eu me seguro no batente
quando o chão começa a balançar sob meus pés, ameaçando engolir
meu coração traidor inteiro.
Ele deixa cair sua cabeça entre as mãos. —Eu esperava mais
de você. —Ele diz sentado à mesa, e as palavras não são mais
lanças. Elas são o vento, tristes e solitárias, elas são o som do
desapontamento. Meu peito aperta e meu coração literalmente dói
com vergonha.
Eu tento dizer sinto muito, eu tento falar não é o que você está
pensando. Mas não faz sentido, porque é o que ele está pensando, é a
sua filha mentindo para ele. É o que estas fotos dizem.
Minhas pernas parecem sacos de areia. E me afundo na
cadeira porque se eu ficar de pé eu posso desmoronar.
A cabeça do meu pai ainda está entre suas mãos, então estou
olhando para o topo da sua cabeça, para sua careca que só se
expande. Minutos se passam. Não há um relógio marcando as horas
nesta sala, mas na minha cabeça eu posso ouvir os ponteiros se
movendo segundo a segundo.
—Sinto muito.
Ele olha para cima. Seu rosto é o mapa de um homem

261
derrotado, um homem que perdeu, um homem cuja esposa o
apunhalou, cuja filha está seguindo seus passos.
—Sinto muito. —Eu digo novamente por que o que mais
posso dizer?
Ele me olha. Pelo menos ele me olha. Há apenas tristeza em
seus olhos. Não há repulsa. Eu me agarro na possibilidade que ele
não me odeie. Eu me apego a isso até que passa a ser minha única
esperança.
—Eu sinto muito, pai. —Então começo a chorar.
Ele olha para minhas lágrimas, a trilha silenciosa escorrendo
pelo meu rosto, e ele cede, me puxando para perto, meu rosto no
seu peito. Eu choro mais. Ele não me conforta com palavras, ele
não diz que está tudo bem, como ele faria se eu ainda fosse uma
garotinha. Mas isso, o calor dos seus braços, o lugar familiar em sua
camisa onde minhas lágrimas deixaram sua marca ao longo dos
anos, me diz que ele ainda é meu pai. Ele ainda sabe como ser pai.
Ele sabe como isso funciona.
Quando meus olhos estão secos, eu olho para cima e ele fala.
—Há quanto tempo que você está envolvida com o Noah
Hayes?
Eu me encolho por um segundo, é estranho ouvir alguém
chamá-lo de Noah, ainda mais Noah Hayes.
Mas talvez seja por causa disso, porque meu pai usa o mesmo
nome que eu uso, ou talvez seja porque meu pai é um pai e eu não
sou sua confidente, não sou sua parceira no crime, que conto tudo
para ele. Como fiz na cozinha há três anos atrás.
—A carta que eu escrevi, a carta que você encontrou antes
esse ano, não era para o Jay. —Eu digo. —Era para o Noah. Eu
escrevi uma carta sobre todos os beijos que tivemos, e todos os

262
beijos que eu queria ter. Eu me envolvi com ele por todo verão e
outono passado. Até você encontrar a carta.
—Então por que você disse que era para o Jay? —Meu pai
pergunta baixinho, com cuidado.
Eu olho para o outro lado, lágrimas se acumulam no meu
peito e na minha garganta novamente. De quantas maneiras posso
feri-lo? Quantas variedades de vergonha posso infligir nele? A dor é
um punho no meu estômago, forçando para cima pelo meu peito.
Forço as palavras, como pedras na minha boca. —Porque a mamãe
estava envolvida com o Jay.
Meu pai engole em seco e cerra os dentes. Eu me pergunto se
é um movimento subconsciente, uma memória muscular da forma
como ele trabalha com sua mandíbula várias vezes a noite, ou se é
uma resposta do seu corpo ao stress ou choque.
—E dizendo que eu tinha uma queda pelo Jay, imaginei que
eu poderia proteger o Noah e jogar o Jay para as cobras.
—Acrescento, me explicando.
Meu pai ri por um segundo quando eu digo isso, “jogar o Jay
para as cobras. ”
—É lá que ele merece estar. —Meu pai diz.
—Eu sei. Eu o odeio. E eu sabia que se dissesse que nos
beijamos, mesmo que por três segundos, seria o suficiente para você
odiá-lo também. E eu amo Noah, então eu queria que o cara que era
realmente o canalha fosse o que você iria odiar.
Ele revira os olhos, algo que ele nunca fez antes comigo.
—Por que você está fazendo isso?
—Você não pode amar o Noah. —Ele diz com desdém.
—Por que não?

263
—Você é muito jovem. Ele é muito velho.
—Ele não é tão velho assim! Ele acabou de fazer vinte e seis
algumas semanas atrás. Eu terei dezoito na próxima semana. São
apenas oito anos de diferença.
—Você acha que isso faz diferença?
—Sim, e nada aconteceu. —Sinto meu rosto corar. Não
acredito que estou discutindo minha vida sexual com meu pai.
Ele aponta para a tela do computador novamente. —Você
passou a noite no apartamento dele, Kennedy. Tente me dizer isso
novamente.
Fecho os olhos. —Aí meu Deus, você está assumindo que
porque dormi lá, eu dormi com ele? Eu não fiz sexo com ele.
Ele se encolhe. —Você honestamente espera que eu acredite
nisso?
—Na verdade, sim, pai. Eu espero que você acredite nisso.
—Digo, me consolando um pouco com a verdade desta declaração.
—Estou tendo dificuldades em acreditar em você, Kennedy,
considerando como você manipulou todos os fatos antes.
—Eu tinha meus motivos!
—E daí? Tenho certeza que sua mãe tinha suas razões para
suas loucas fábulas também.
Uma chama de raiva passa por mim. —Não me compare
com ela.
—Como isso é diferente? Diga-me.
—Porque eu menti sobre Jay e Noah por boas razões. Pelas
razões certas.
—Não há razões certas para mentir. —Ele diz. —Por que

264
não me disse que gostava do Noah desde o início?
—Ah, céus. Eu não sei. Talvez porque ele seja o agente e
amigo da mamãe, e porque ele é mais velho do que eu.
—E como você pode ver, esse seriam os motivos pelos quais
você não deveria estar envolvida com ele. Sem falar que é estranho e
assustador que ele queira sair com uma garota mais jovem.
—Eu acho que é injusto que você não acredite que eu seja
capaz de tomar uma decisão madura sobre quem namorar. —Eu
digo, cruzando os braços.
—E é realmente maduro contar mentiras? Enganar seus pais?
Sair com ele por meio ano e depois começar novamente, mentir e
culpar outra pessoa?
—Não é como se você e a mamãe tornassem fácil dizer a
verdade. —Eu digo, meu peito apertado, como se fosse encurralada
num canto.
Ele suspira profundamente. —Kennedy, por favor, é errado.
—Não estou traindo ninguém. —Minha voz se eleva de
desespero enquanto luto para convencê-lo. —Não me faça pagar
pelos erros da mamãe.
—Mas você mentiu para mim também. —Ele diz numa voz
baixa e brava. Então um sussurro. —Assim como ela.
Eu puxo minha cadeira e fico mais perto dele, e agora é
minha vez de pegar sua mão. —Eu não sou ela. Não fiz as coisas
que ela fez. Você pode ficar bravo comigo o quanto quiser por não
te contar antes. E você pode dizer que eu nunca teria te contado se
você não tivesse descoberto. Mas adivinha? Agora você sabe. E
agora estou te contando tudo. Começou em junho passado e eu o
persegui, e ele resistiu por um tempão, mas fui eu que fiquei
visitando-o no escritório e convidando-o para sair, e eventualmente

265
ele saiu comigo. E entendo que você ache que é errado, nojento,
inapropriado ou o que seja, mas pergunte-se se é realmente tão
irracional que um cara esperto, engraçado, sensível e atencioso que
tem oito anos a mais pudesse se apaixonar pela sua filha? Sou sua
filha. Eu sou eu. Você deveria me achar incrível. Você deveria me
achar maravilhosa. É assim tão irracional que outra pessoa possa
achar isso também?
Meu pai me olha duramente, mas posso dizer que as
extremidades da sua raiva estão suavizando. Ele amolece quando
diz. —Eu também deveria achar que nenhum homem é bom o
suficiente para minha filha.
—Eu te amo, pai.
—Eu te amo, Kennedy.
—Ele é bom o suficiente para mim.
—Ninguém é. Ele não é. Nem qualquer um.
Eu vejo uma abertura. —Não está contente que não era o Jay
Fierstein, no final das contas?
Os cantos da sua boca se curvam. —Eu não acredito que ele
tenha a ousadia de me processar depois disso. —Meu pai diz,
balançando a cabeça, enquanto olha para um quadro na parede, com
a imagem de uma taça de prata caída ao lado de um limão meio
descascado. Eu penso na época que Jay e o meu pai viajaram para
Amsterdam, para ajudar um grande museu em New York a montar
uma exposição da natureza morta holandesa, como essas da
Hedda37. Como você se vira e apunhala seu sócio pelas costas saindo
com sua ex-mulher?
—Não acredito que sua mãe... —Ele começa, mas não
termina. Ele não vai criticá-la na minha frente. Ele estende a mão
37
Hedda Sterne (4 de agosto de 1910 - 8 de abril de 2011). Pintora americana da primeira geração de
expressionismo abstrato.

266
para mim. —Vamos fazer uma visita a ela.
Meus olhos arregalam. —O que quer dizer?
—Acho que está na hora dela saber que eu sei o que está
acontecendo.
Eu balanço a cabeça. —Não. Eu não posso fazer isso.
Ele assente com firmeza. —Você pode e nós vamos.
Eu balanço mais a cabeça.
—Você não tem o que temer. —Ele diz, como um treinador
me encorajando a voltar ao campo depois de uma queda.
Então esse é o momento pelo qual eu estava esperando, a
cena que tentei projetar por anos. Eu danço em torno da verdade,
brinco com ela, eu insulto minha mãe com fragmentos do que sei,
desafiando-a a admitir tudo, incitando-a a dizer a verdade. Mas agora
vai acontecer, e estou apavorada. O medo se instala em mim quando
entramos em um táxi e nos dirigimos para a parte alta da cidade.
Eu bato na porta dela.

267
CAPÍTULO 30
Kennedy

Minha mãe atende, e ela não deixa que a presença do meu pai
a impeça de colocar um sorriso de boas-vindas no rosto e,
estendendo o braço com maestria, nos convide a entrar.
Sua comitiva está lá, os mesmos de sempre da LGO, e até a
Bailey e o Sean, então acho que minha mãe convenceu a Bailey que
nada aconteceu. Noah está sentado no sofá, e pela primeira vez eu
não queria vê-lo. Sua expressão está neutra, mas suspeito que é
deliberado, como se ele tivesse tentando esconder sua surpresa. Eu
sei, porque estou fazendo o mesmo.
—Boa noite, Jewel. —Meu pai diz.
—Meu querido Eric. —Ela se inclina e lhe dá um beijo sem
encostar em sua bochecha, então a outra, como se fossem franceses
ou algo assim. Eu queria estar na França agora, eu queria estar No
Brooklyn, eu queria estar no Dr. Insomnia. Qualquer lugar, menos
aqui.
—Olá. —Ele diz, acenando para os convidados. —Todos
tendo uma ótima noite?
Os convidados assentem, mas não são burros. Eles sabem
que o ex-marido não vem muito frequentemente, ou nunca. Eles
estão se mexendo, pegando bolsas, pegando seus telefones.
—Oh, não se incomodem por minha causa. Essa pode ser a
melhor parte da festa.
Com isso, Noah se manifesta. —Eu acho que nós todos

268
devemos sair. —Ele diz, e é tudo o que eles precisavam ouvir. Em
dez segundos, o grupo da minha mãe está na porta, dizendo adeus.
Meu pai agarra o braço de Noah. —Você pode ficar.
Noah me olha rapidamente, com preocupação nos olhos. Eu
aceno para a porta, implorando com os olhos para que ele vá.
—Não, eu realmente insisto. —Meu pai acrescenta.
Eu olho para o meu pai. —Não faça isso. —Eu imploro
baixinho. —Isso não. Não aqui.
Ele respira com força pelo nariz. E abre mais a porta e deixa
Noah ir.
Estamos só nós três agora “mãe, pai, filha” os restos de uma
família.
—Você realmente sabe como limpar uma sala, Eric. —Minha
mãe diz, e então pega a garrafa de vinho branco na mesinha de café.
—Vinho? É espanhol. Seu favorito. —Ela mostra a garrafa e uma
taça de vinho vazia.
Ele balança a cabeça. Ela serve mais vinho na sua própria
taça, e senta-se no braço do sofá balançando uma perna para frente
e para trás, mostrando a sola vermelha do salto alto de couro que ela
está usando.
Meu pai permanece em pé. Eu fico perto dele. Talvez porque
estou do seu lado, ou porque eu sempre estive do seu lado.
—Você sabe por que eu te deixei, Jewel?
Ela zomba, tão alto e tão profundamente que parece que ela
patenteou a técnica.
—Jura? Você veio até o alto da cidade para reacender a
melhor coisa que já aconteceu comigo?

269
—Porque você me traiu.
Eu espero que ela fique chocada. Eu espero que seu queixo
caia.
Em vez disso, ela dispara de volta. —Grande notícia. Eu já
sabia.
—Foram muitas vezes. E você me traiu também com meu
parceiro de negócios.
—Isso não foi traição. —Ela diz depois de tomar um gole de
vinho. —Você e eu não estávamos mais casados.
Eu acho que minha mãe pode não ter alma. Como alguém
pode ser tão insensível?
—Você não acha que seja nem um pouquinho errado, errado
tipo imoral, inapropriado, nojento dormir com meu parceiro de
negócios?
—Se eu estivesse casada com você na ocasião, sim, então
você poderia considerar. —Ela fala clinicamente, como se estivesse
avaliando uma oferta de negócios. —Mas uma vez que não
estávamos, eu diria que a maior reclamação pode ficar para o Jay.
—Que está me processando agora. —Meu pai rapidamente
adiciona.
—É por isso que eu digo nunca tenha um parceiro de negócios.
Essas situações podem ser tão complicadas. Falando de situações
complicadas, parece que nossa querida filha está se envolvendo em
coisas que ela deveria ficar de fora. —Minha mãe diz, e levanta uma
sobrancelha para mim.
Esqueça a trégua do passeio de compras. O que quer que
minha mãe tenha varrido para debaixo do tapete no outro dia, está
sendo varrido de volta. Eu cruzei uma linha, e a Jewel quer que eu
saiba o que acontece com as pessoas que a enfrentam.

270
—Talvez você queira me contar por que você tem escrito
cartas para certas mulheres que eu preferia não ver novamente?
—Como quem? —Eu pergunto, com cuidado, porque não
sei jogar esse jogo.
—Aquela mulher Steigler, por exemplo. Ela está me ligando
novamente. —Minha mãe balança a cabeça. —Ela é tão irritante.
Ela não me deixa em paz.
Ela é tão irritante?
Meu peito queima por dentro, e com esse comentário sem
rodeios, palavras que ressaltam como ela não tem noção de todo
dano colateral que ela causou, sem perceber como suas escolhas
foram um tsunami na vida de outras pessoas, porque ela só via sua
própria vida, eu finalmente sei o que dizer. Eu endireito a coluna.
Reúno minha coragem. —Você me fez mentir para a Sra. Steigler.
Você me fez te acobertar. E ela me implorou para fazer você parar.
Meu pai inclina sua cabeça para o lado. —Você faz nossa
filha mentir sobre seus casos?
Minha mãe olha arrogantemente para a janela. —Kennedy
sempre adorou me ajudar.
—Você é uma mulher doente. —Meu pai diz, estreitando os
olhos.
Minha mãe não o responde. Ela vira para mim. —Querida,
eu sei como as crianças querem que seus pais fiquem juntos. E por
isso, eu sinto muito. Eu sei que o divórcio é uma coisa horrível para
uma criança enfrentar, mas mandar cartas para essas mulheres
aleatórias e assinar meu nome.
Eu a interrompo, passando minha mão pelo ar. —Isso não é
nem remotamente sobre o fato de vocês se divorciarem. Tanto faz.
Vocês estão divorciados. Ótimo. Estou falando das mentiras e

271
acobertamentos e o modo como você me fez ser parte de tudo isso,
mãe. Você não percebe como isso é doentio?
Eu quero pular e gritar. Quero correr como um duende em
chamas. Talvez assim ela perceberia o incêndio, como dói, como eu
não queria ser conduzida assim minha vida toda.
—Eu acho que existem maneiras melhores de chamar a
atenção para sua dor, Kennedy, do que esse estranho jogo com as
cartas que você está fazendo. Por que não conversamos sobe isso?
Ela continua num tom profissional que me deixa louca.
—Como se isso funcionasse. —Eu grito.
—O que é esse negócio de cartas que vocês ficam falando?
—Meu pai pergunta, interrompendo.
Eu explico rapidamente sobre as cartas que enviei, e as
reações que elas evidentemente desencadearam. Eu volto para
minha mãe. —Não são mulheres aleatórias. —Eu ressalto. —Você
me fez mentir para elas. Você me fez mentir para a mãe de Catey,
para a Sra. Steigler, para a Sra. Lipshitz, que aliás, é uma mulher
muito bacana. E para Bailey. E agora para Amanda. Nunca acaba,
mãe. Nunca acaba. —Digo, e sinto que estou tentando derrubar
tijolos com minhas próprias mãos, descascando o reboco com
minhas unhas. Mas não estou nem arranhando.
—Querida, você age como se eu tivesse um problema com
drogas. Ou com bebida, Deus me livre, como a mãe do pobre
Hayes. Você tem noção de como ela morreu jovem? Ela tinha
quarenta e seis. Ela basicamente bebeu até a morte. Esse é um
problema de verdade. —Ela balança a cabeça, como se a memória
dos últimos dias da mãe dele fosse muito para aguentar.
—Eu fui no seu velório. Foi tão triste ver uma vida linda
interrompida tão cedo assim.
Eu me viro para o meu pai, esperando ele aproveitar essa

272
deixa para falar algo sobre mim e o Noah Hayes. Ele fica de boca
fechada, propositadamente pressionando seus lábios. Ele acena para
mim, e esse pequeno gesto me diz que ele não vai contar nada para
ela, que ela não precisa saber, e que ele está do meu lado. Eu quero
agradecer a ele novamente. Abraçá-lo novamente.
Eu olho de novo para minha mãe, usando minhas reservas.
Essa é a minha chance de dizer a ela a minha verdade. De falar do
meu coração sobre tudo que dói. —O que você fez não foi nada. Eu
odiava mentir por você, odiava mentir para o meu pai e odiava
mentir para os meus amigos. E agora você está atrás do pai da
Amanda. Por favor, apenas deixe-o em paz. —Eu digo e minha voz
some e cubro meu rosto com as mãos. Vou chorar novamente,
porque estou tão cansada disso, cansada dela, e eu quero ter uma
amizade que ela não possa tocar.
Ela caminha até mim, me envolve com seus braços, como
meu pai fez antes. É isso, esse o momento que ela diz que sente
muito, quando ela se desculpa por tudo o que fez. Ela vai chorar
comigo, ela vai admitir que errou e vai prometer mudar.
—Você sempre foi tão profundamente afetada pelas coisas,
minha querida. —Ela diz, e eu a puxo para perto, porque ela é
minha mãe, e eu a odeio, mas eu a amo. Ela cuidou de mim e ela me
amou, e fez o certo para mim e agora ela está fazendo o que deveria,
ela está sendo uma mãe. Ela acaricia meu cabelo, e eu me sinto
segura de novo, e eu sei que ela se importa mais comigo do que com
eles. —Mas de verdade, eu te asseguro, não tem nada acontecendo
com o pai da sua amiga.
Eu me liberto dela e esmago minhas mãos contra minhas
bochechas para limpar as lágrimas. —Você está mentindo. —Eu
coloco as mãos nos meus cabelos e puxo com força. —Céus! Como
o Noah aguenta trabalhar com você?
Quando minha mãe arqueia uma sobrancelha perfeitamente

273
alinhada, percebo que cometi um erro fatal.
—Noah?
—Hayes, quero dizer. —Mas eu joguei minhas cartas e não
posso mais retroceder e blefar. Meu rosto está vermelho, e não
consigo olhar para nada além dos meus sapatos.
—Por que você o chamaria de Noah? —Ela pergunta,
curiosidade aparecendo no seu tom de voz.
—Eu quis dizer Hayes. —Murmuro.
—Mas você disse Noah. Ninguém o chama de Noah. Ele é
Hayes para todo mundo, incluindo para mim. Eu nem sabia que
você conhecia seu primeiro nome.
Eu não digo nada.
—É curioso. —Ela diz, e volta para seu sofá vermelho,
afunda-se nele, sua posição de poder, balançando sua taça de vinho.
—Porque eu percebi que o Noah parece um pouco distraído esses
últimos dias. Eu me pergunto se poderia ser. —Ela balança uma
mão no ar, então ri. —Mas isso é tolice. Ele não faria isso. Você
não faria isso. Acho que posso confiar em você quanto a isso. Estou
certa, Kennedy?
Meu pai coloca uma mão no meu ombro. —Boa noite, Jewel.
Estamos indo embora.
—Ah, não, vocês não estão. Vocês arruinaram minha festa. E
agora, eu descubro que nossa filha chama meu agente, meu melhor
amigo, de Noah. Acho que ninguém vai embora. Acho que vamos
todos sentar e ter uma conversa sobre isso. —Ela dá um tapinha no
lugar no sofá ao lado dela, e eu quero bater nela, eu quero estapeá-la
como eu fiz com a defensora da escola Keeland Prep. no campo,
enfiar meu cotovelo no seu estômago e fazê-la se dobrar,
tropeçando nos seus estúpidos sapatos de sola vermelha.

274
—Deixa pra lá, Jewel. —Meu pai diz. —Deixa pra lá. Ela se
enganou. Ela o chamou de Noah. Eu o chamo de Noah. Ela passa
metade do tempo comigo. Estou certo que ela pegou de mim.
—Só há um modo de saber com certeza como ela pegou isso
de você, Eric. —Minha mãe diz e então pega o telefone e bate seus
dedos no teclado.
Ela espera enquanto toca. Ele deve atender rápido porque
agora ela está dizendo, “Noah” no telefone, como se tivesse dez ou
vinte sílabas, e ela saboreia cada uma.
Eu não ouço o lado dele da conversa. Não preciso.
Porque a próxima coisa que ela diz é. —Conheci sua
namorada e ela é adorável. Eu tenho a sensação de que a conheço
há bastante tempo.

Noah

Tenho me preparado para esse momento há mais de um ano.


Antecipando-o em todos os níveis. Mas quando chega, é um soco
no estômago e eu mereço o que está por vir, porque eu certamente
não mereço a lealdade da Jewel. Eu violei sua confiança. Eu peguei
algo que não era meu para tocar. Eu menti para minha cliente mais
valiosa e para minha amiga.
Eu me jogo no sofá no meu apartamento, e ouço cada
palavra da sua bronca. Eu deixo cada sílaba me bater com força. No
coração. No peito. Na cabeça. Sabendo que não tenho o direito de
recuar da sua raiva.

275
—Nós terminamos. —Ela diz e desliga.
Não estou nem um pouco surpreso. Não estou nada
surpreso. Ainda assim, sinto-me vazio. Mas não é nada, esse
sentimento de perda, comparado a imaginar o que a Kennedy está
passando. Eu posso apenas imaginar o tipo de inferno que a Jewel
Stanza está fazendo ela passar, fogo e enxofre com arsênico.
Eu poderia ligar para o Jonathan e dar as notícias. Eu poderia
ligar para o Tremaine e tentar segurá-lo. Não faço nenhuma destas
coisas. Eu ligo para a Kennedy. De novo e de novo. Toca e toca.
Ela não atende.
Frustração e preocupação me consomem, mas sei que não
devo aparecer na sua casa. Nenhum dos seus pais vai querer me ver.
Inferno, nem sei se ela vai querer também.
Eu pego meu telefone, procuro entre as fotos e finalmente
encontro uma que parece servir. Uma imagem de um relâmpago no
céu, formando um coração irregular de néon. Estou prestes a
apertar enviar quando vejo que o fotógrafo deixou uma inscrição na
imagem. —O amor é como um raio no campo. Pode te matar ou te
fazer queimar com mais intensidade.
A inscrição me faz parar. Eu não quero que isso acabe. Eu
não quero sugerir finais. Eu só quero começos com ela. De novo e
de novo. Não posso permitir que ela seja aquela que escapou.
Encontro algo mais doce. Uma cereja com um cabinho que
se curva no topo de um coração.
Eu envio, desejando que eu possa fazer esse pequeno gesto
para tornar sua vida menos amarga nesse instante.
Mas no fundo da minha mente, e bem nos cantos mais
escuros do meu coração, eu tenho esse sentimento pesado de que
esse é o fim.

276
CAPÍTULO 31
Kennedy

Pedimos comida chinesa na casa do meu pai. A escolha foi


deliberada, pizza pareceria muito déjà vu, mesmo que tenha havido
muito a sensação já fiz isso esta noite. Embora esse confronto com
minha mãe também magoe de um modo totalmente novo.
Ela cavou um novo buraco dentro de mim, abrindo uma
cratera em outro lugar.
Mas não o meu pai. Ele está aqui. Ficou do meu lado.
O tofu de berinjela chega e eu ataco ele com meus hashis.
Meu pai pega o frango com brócolis. Ambos nos encolhemos no
sofá, e entre mordidas eu digo obrigada pela milésima vez. Meu
telefone está desligado. Não consigo falar com ninguém agora.
—Obrigada por não dizer a ela. —Eu digo, e significa o
mundo para mim que o meu pai não tenha falado a ela. Confirma
tudo o que eu sempre acreditei sobre ele.
Ele levanta as mãos. —Bom, não adiantou muito eu não
contar. Suponho que no fim, a verdade queria aparecer.
—Eu acho que tenho que concordar com isso.
—E já que estamos falando sobre a verdade agora, preciso te
dizer a verdade e é uma verdade que não tinha me percebido até
hoje à noite. —Ele começa, sua expressão séria como o seu tom de
voz. —E é que eu te decepcionei. Não tinha ideia quão
profundamente você era afetada pela sua mãe, e isso foi muito idiota
da minha parte. Eu devia ter observado mais, falado mais com você.
Mas, mais do que isso, eu não deveria ter me focado tanto em minha

277
preservação pessoal quando me separei dela. Deveria estar mais
focado em você. Eu precisava ter dito a ela, então, três anos atrás,
que eu sabia o que ela tinha feito. Mas eu estava magoado e fui
egoísta, e só protegi a mim mesmo. Eu não te protegi dela.
—Não é sua culpa.
Ele levanta uma mão. —Há coisas que são minha culpa. Eu
devia ter sido honesto com ela há três anos. Então talvez você não
tivesse que carregar o peso das escolhas dela. Sinto muito que te
deixei sozinha para lidar com tudo isso. Sua mãe e eu fizemos uma
bagunça com o nosso casamento. Não era para você limpar, e sinto
muito que você teve que fazer isso.
Sua voz falha e ele se aproxima e me abraça, e isso é tudo o
que eu sempre quis de cada um deles. Uma admissão honesta.
—Está tudo bem, pai. —Eu digo, então, me afasto primeiro.
Ele volta a comer seu frango, então olha para mim, limpando
a garganta. —Mas Kennedy, só porque eu não ia contar para a sua
mãe não significa que eu aprovo o seu relacionamento com Noah.
Meu estômago aperta.
—Eu não quero que você saia com ele. Não acho certo. —
Sua voz é calma, mas clara.
Eu coloco minha comida para baixo. Não tenho mais fome.
Mas também não tenho mais medo. A verdade está lá. Não há mais
mentiras entre pai e filha, ou mãe e filha. Eu comecei meu
relacionamento com Noah sob um manto secreto, eu o construí na
clandestinidade, mas agora tudo foi revelado.
Eu balanço a cabeça. —Pai, eu já rompi com ele uma vez por
você.
Ele estreita os olhos. —Você rompeu com ele uma vez para
proteger um segredo. —Ele diz, me mostrando a verdade.

278
—Tudo bem. Mas não é mais um segredo, e eu não vou mais
romper com ele por você. Mesmo que eu nunca tenha dito que
estava com ele, o fato permanece, eu rompi com ele por você. Para
não te machucar. Eu não vou terminar simplesmente porque você
não quer que eu namore um homem mais velho. —Eu digo, me
sentindo forte, e talvez seja porque enfrentei minha mãe. Talvez isso
tenha me dado confiança para defender esta escolha.
Ele solta um suspiro de derrota, mas tenta de novo. —Eu
gostaria que você fizesse a escolha certa, Kennedy.
—Eu sei. Mas as escolhas que eu faço tem que ser para mim.
E eu quero que você me ame, mesmo que não concorde comigo.
Em um segundo ele me puxa e me abraça. —Eu sempre vou
te amar.
Mais tarde, quando ligo novamente meu telefone, eu
encontro uma cereja com o cabinho no formato de um coração.
Instantaneamente, um nó se forma na minha garganta e lágrimas
escorrem pela minha face.

********

O dia seguinte passa em câmera lenta, me arrastando pelas


aulas, até que finalmente eu tenho uma hora entre o final das aulas e
o tempo para chegar ao nosso último jogo de lacrosse da temporada.
Destravo minha bicicleta e corro para o Lincoln Center, já que é
perto de nós dois. Ele está de pé numa esquina tranquila perto da
Juilliard. Esperando por mim.
Não há palavras. Apenas nós nos agarrando. Seus lábios
encontram os meus e nos beijamos num louco frenesi, desesperados

279
para apagar as últimas vinte e quatro horas, para voltarmos para
nosso casulo seguro. Somos um emaranhado de lábios e dentes. Um
coro de suspiros e arquejos. Abraço-o mais forte e ele aperta minhas
costas.
Não podemos ficar perto o suficiente.
Quando finalmente nos separamos, ele respira
profundamente, descansa o queixo no topo da minha cabeça e
sussurra. —Graças a Deus.
Sua preocupação é apenas comigo, nada com ele. —Você
ainda tem emprego? —Eu pergunto.
Ele ri levemente e nos sentamos em um banco de pedra. —
Sim, ainda tenho um emprego.
—Ainda está trabalhando com minha mãe? —De jeito
nenhum. Minha mãe nunca suportaria o tipo de decepção que ele
causou. Ela é a única que pode decepcionar.
—Não. Ela me demitiu ontem à noite. Mas isso não significa
que perdi meu emprego, K.
Eu tenho outros clientes. Eu tenho outros clientes que são tão bons
quanto. Não vou fingir que não foi golpe doloroso, mas a realidade
é que quando se é um agente você tem que operar na suposição de
que os clientes vêm e vão. Não podemos colocar todos os ovos
numa única cesta.
—Oh. —Estou surpresa, e me sinto estranhamente
derrotada. Quero dizer, essa é uma coisa boa para ele. Mas também
me faz imaginar porque tivemos que ser tão discretos antes já que
perder minha mãe como cliente não era grande coisa. Mas também,
não era o real motivo de sermos um segredo.
Oito anos era o motivo real.
Ele olha para as portas do teatro Vivian Beaumont, há um

280
grande pôster promovendo um relançamento da La Cage Aux Folles
que começará em breve. Na minha mente posso ouvir nossa canção
favorita deste show, “The best of Times”. Mas parece errado tocar a
música na minha cabeça agora, as palavras sobre viver e amar tão
intensamente o quanto você possa. Nós nos amamos intensamente.
Funcionou, mas também deu errado.
—Sinto muito que tenha perdido um cliente importante.
—Digo suavemente, tentando separar ela de mim. O
relacionamento deles era importante para ele. Sua saída deve ter
magoado.
Ele pega na minha mão. —Não vou mentir, K. Eu gosto da
sua mãe. Ela tem sido uma boa amiga. Uma grande amiga. Vou
sentir falta, muito a falta dela. Ela tem sido boa para mim, e não
quero dizer apenas financeiramente.
Eu me distancio dele, minha antena ligada. —Você não quer
dizer...?
Ele balança a cabeça rapidamente. —Não, não quero dizer
desse jeito. Nunca nos envolvemos, obviamente. Eu não faria isso.
Mas ela me deu uma chance. Ajudou a construir minha carreira.
Tudo o que sou hoje é porque sua mãe apostou em mim quando eu
não era ninguém. Eu ainda estava na faculdade, apenas um estagiário
numa agência quando começamos a trabalhar juntos. E o que fiz
anos mais tarde? Eu menti para ela. Ela confiou em mim e eu a
decepcionei. —Ele diz, balançando a cabeça, desgostoso consigo
mesmo. Mas ele soa com o coração partido também. Eu deveria
sentir empatia, mas não consigo ter sentimentos bons pela minha
mãe agora, não depois de ver como ela pode ser fria, como ela pode
facilmente enfrentar meu pai como um gladiador em uma arena.
Mantenho minha boca fechada e ouço.
Sua voz fica triste. —Ela me apoiou. Ela me ajudou a
enfrentar a morte da minha mãe. Ela foi ao velório, e certificou-se

281
que eu estaria bem. Ela era como uma mãe, de um jeito estranho,
para mim também. É por isso que eu estava lá o tempo todo na sua
casa. Mesmo antes de me apaixonar por você. Eu ia lá porque eu
acho que precisava que ela cuidasse de mim.
E é nesse momento que meu mundo para de se mover.
Esse é o momento.
O ponto no tempo em torno do qual tudo gira. Suas palavras
são uma revelação. Eles são a compreensão clara e cristalina de um
fato duro – minha mãe é nosso epicentro. Não existimos por causa
de nós. Existimos por causa de uma reação, uma reação química em
cadeia por ela. Nunca seríamos o que somos sem Jewel Stanza. Mais
ainda, se ela não fosse quem é, não precisaríamos um do outro. Se
ela fosse uma mulher normal, uma mãe comum, qualquer outra
cliente escritora de TV, Noah e eu não seríamos peças de um quebra
cabeça incompleto, desesperadamente procurando o pedaço que
falta.
Ela é uma mãe para mim, ela é uma mãe substituta para ele.
Ela é a força de nossas vidas, o furacão que nos uniu e ficamos
presos no olho, enganados pela calma de nosso esconderijo secreto.
Somos muito parecidos, muito conectados a ela. Nosso caso
de amor começou na sombra dela, estaria sempre envolto na meia-
luz da minha mãe. Eu olho para Noah, para aqueles olhos azul-
escuros onde amo me perder, para seu cabelo castanho que é tão
macio entre meus dedos. Estou olhando para um espelho, me vendo
refletida de volta. Mas ele é mais do que apenas meu reflexo,
porque eu posso finalmente ver o que ele tem sido, uma válvula de
escape. Ele foi o túnel que eu estive cavando por anos, ele tem sido
o escudo para me proteger dela.
Pela primeira vez, me deparo com a verdade deste grande
amor. Que eu nem mesmo sei o porquê dele.

282
Eu não sei se o amo por ele ou porque ele é a maneira de eu
me safar com alguma coisa, finalmente, depois de todos aqueles
anos dela se dando bem em tudo.
Ela arruinou minhas amizades e eu me vinguei. Eu tirei dela
seu melhor amigo.
Não sou melhor do que ela. Sou igual. Uma lágrima corre
pelo meu rosto.
—Não posso mais te ver. —Digo, minha voz fraquejando.
—Não podemos mais fazer isso.
—Por que? —Ele pergunta, como se gritasse para o mundo.
—Simplesmente não podemos.
—Por quê? Diga-me por quê.
Como começo a listar todos os motivos?
Coloco a cabeça entre minhas mãos. Respiro fundo. Ele
gentilmente afaga meus cabelos. Deus, eu sentirei falta disso. Eu vou
sentir mais falta dele do que senti antes. Meu coração está acelerado
dentro de mim, sufocando quando olho para cima, finalmente
dizendo a verdade.
—Porque eu não sei quem eu sou. Eu nem sei como viver
uma vida separada dela. Não sei como ser uma amiga. Não sou nem
uma boa filha. Estou apenas tropeçando em tudo, e você é a única
coisa que já fez algum sentido para mim. —Digo, enquanto passo os
dedos pelo colarinho de sua camisa. É muito difícil não tocá-lo.
Minha perna está pressionada contra a dele. Nossos corpos são
como imãs, e eles se procuram mesmo quando estamos nos
desmanchando.
—E se continuarmos nunca saberei quem eu sou sem esse
amor. —Eu digo, minha voz sumindo quando uma nova rodada de
lágrimas se derrama. Pelo menos estou finalmente sendo honesta.

283
Pelo menos estou dizendo a ele a grande verdade enquanto a fonte
borbulha atrás de nós e a multidão passa, indo e vindo no meio do
dia. —Eu te amo mais do que eu sabia que podia, mas não tenho a
menor ideia do que vou fazer com a vida ou qualquer coisa. Estou
uma bagunça. E não posso fazer você ser a única coisa certa na
minha vida. Não é justo.
—Eu sei quem você é. —Ele diz firmemente, seus olhos
escuros em mim, seu olhar resoluto. Ele levanta meu queixo
gentilmente com seus dedos, para que nosso elo não se quebre.
—Você é a garota que ama musicais, mesmo os que não fizeram
sucesso. Você é a mulher que procura por corações no meio de um
mundo confuso. Que admira seu pai e quer estudar arte por causa
dele. Que ri das minhas piadas. Que ama ouvir histórias. Que tem
um humor absurdo e beleza impressionante.
Cubro minha boca com a mão para que todo o Lincoln
Center não veja meus lábios tremendo com lágrimas enquanto ele
continua falando, sua voz mais suave agora.
—Você é a pessoa que não precisa nada de mim a não ser eu
mesmo. Você é a pessoa que enxerga além da superfície. Você é
inteligente, gentil, sarcástica e sexy. —Ele diz, mais devagar então,
sua voz trêmula, quando as últimas palavras vêm num sussurro
doloroso. —E você é inacreditavelmente desoladora. E se não sabe
essas coisas sobre si mesma, você está certa. Não posso mostrá-las a
você. Você tem que encontrá-las.
Ele para e respira fundo, então bate no peito. —Mas eu sei
quem eu sou. Sei o que quero. Sabia o que eu arriscaria. E eu fiz.
Meu chefe pode me demitir hoje e eu não me importaria. Sempre
tive certeza. Sempre terei certeza. Você valeu a pena. Você sempre
valerá a pena.
—Você também. —Eu digo, limpando o fluxo contínuo de
lágrimas salgadas.

284
Ele coloca suas grandes mãos no meu rosto, me puxa
gentilmente para ele e beija minha testa. Eu quero derreter nos seus
braços, quero deslizar de volta perto dele, deixá-lo me segurar,
dormir enroscada nele. Em vez disso, me permito saborear seus
lábios pela última vez, a última vez que vou senti-lo na minha pele.
—Você valeu tudo. —Digo em seu pescoço. Eu quero beijá-
lo, enfiar meu rosto em seu pescoço e escapar. Mas não posso usá-lo
como escape mais. Eu tenho que escapar primeiro.
Ele se levanta. —Adeus, K.
—Adeus, Noah. —Digo, e olho enquanto ele se afasta. Ele
pega seu telefone no bolso e coloca os fones no ouvido. Sei que ele
está escutando Sweeney Todd. Ele só escuta Sondheim quando ele está
triste. Eu o observo o tempo todo, vejo quando ele se afasta da
fonte, desce as escadas e vai para a Broadway, longe de mim, através
da multidão, até que não consigo mais distinguir o contorno de seus
ombros largos, suas costas, seu cabelo macio, até que ele desaparece
no mar de nova-iorquinos. Se foi.
Eu me sento na beirada da fonte por mais um minuto. Ouço
uma música do Vivian Beaumont Theatre soando. Eu me viro e
alguns atores estão saindo do teatro, cantando o refrão de "Best of
Times" enquanto andam.
Como eu adoraria dançar com o Noah essa música no baile
de formatura, ter a letra guiando o meu coração com o seu desejo de
viver o momento, viver o amor, por que quem sabe o que virá
amanhã?
Quem sabe, certo?
Seco o rosto com as mãos, afastando as lágrimas. Verifico a
hora no meu telefone. Não posso mais ficar aqui, nem quero, então,
saio para o jogo final. Chego ao Randall’s Field em tempo recorde e
bato nossas oponentes, golpeando com vontade, marcando como se

285
estivesse respirando, ganhando o troféu do campeonato como se
fosse a coisa mais fácil que já fiz.
Comemoro alto com minhas companheiras de equipe e
pulamos e gritamos. Nesse momento, tenho dezessete anos e estou
amando. Sou uma garota do ensino médio, não uma quase mulher
perdida no tempo, tentando se agarrar a um homem, ou lutando
para se desvencilhar de seus pais.
Enquanto comemoramos e gritamos, não sou definida pelos
meus erros e mentiras. Sou apenas uma atleta que gosta de marcar
gols e que ama vencer e sair com seus amigos.
Eu sou eu.

286
CAPÍTULO 32
Kennedy

Ainda é tempo de festa para minha mãe. Mesmo um dia


depois. Ganhamos o campeonato e ela quer comemorar, já que é
sábado. Mas eu não. Se vou viver a vida que eu quero, se vou me
tornar a pessoa que quero ser, tenho que começar dizendo a
verdade.
Eu bato quando chego à porta, porque esta casa não parece
mais minha.
Ela atende e me dá bronca, me dizendo que eu nunca tenho
que bater, que sou sempre bem-vinda e que ela fez barrinhas de sete
camadas ontem porque ela sabia que venceríamos
Eu queria ter sua sobremesa favorita pronta e esperando. —
Ela se apressa para a cozinha e traz um prato para a mesa. —
Café?
—Eu sempre quero café.
—Expresso duplo?
—Claro. —Digo, querendo que nosso relacionamento fosse
tão simples como ela saber minha sobremesa e bebida favoritas. Mas
ela não é minha garçonete comum. Ela é minha mãe, e precisamos ir
mais fundo do que sobremesas, saias e café.
Nos sentamos e bebo um gole, e é o melhor expresso duplo
que já tomei. Eu digo isso e ela sorri. Mas há uma tensão nervosa
em seus movimentos esta noite, como se ela soubesse que algo mais
está acontecendo, como se detectasse algo. Não é mais sobre se eu

287
me apaixonei pelo seu agente. Mesmo assim, eu quero que ela saiba
que acabou.
—Eu terminei com o Noah.
—Eu também! —Ela diz, como se fossemos irmãs
compartilhando segredos.
—Mas não por sua causa. Não porque você ficou brava com
ele.
—Brava é pouco. —Diz, e ela está de volta a Jewel no
comando. Ela é uma camaleoa.
—Não importa, mãe. Eu terminei com ele porque eu me
envolvi com ele pelas razões erradas. Eu queria ter algo que você
nunca saberia.
—Querida, não precisamos ter segredos entre nós. Você
pode me contar tudo.
Ela estica sua mão cheia de joias sobre a mesa, sua safira
brilhante ameaçando me cegar quando pega um raio da luz do sol se
pondo através da janela da sala.
—Mãe, me ouça. Você me pediu para manter segredos minha
vida toda sobre seus relacionamentos. Você me pediu para contar
mentiras. E eu odiava fazer isso. Então eu saí com o Noah.
—Hayes. —Ela diz, baixinho, mas com ênfase.
—Noah, mãe. Ele é Noah para mim. Mas a questão é como
me afetou, profundamente, o modo como você viveu, o que você
fez. Eu mal consigo ter um relacionamento normal com alguém,
nem um garoto ou garota, porque tudo o que sei fazer é mentir. —
Ela começa a protestar, mas eu levanto a mão. —Eu terminei com
ele porque era a coisa certa a fazer. Eu disse ao Lane a verdade
sobre como eu me sentia, ou não sentia, sobre ele. E falei a verdade
ao papai quando ele me perguntou sobre Noah. E me senti ótima

288
por não mentir.
Aperto sua mão com força, como se eu pudesse enviar para
ela um pouco dessa recém descoberta coragem que estou sentindo
tentando viver sem uma rede de segurança. Ela aperta de volta,
como se quisesse isso, como se ela quisesse ter o que eu tenho
agora. A capacidade de mudar. —O que estou querendo dizer, mãe,
é que eu quero que você mude também. Quero que você pare de
brincar com homens casados. É por isso que eu mandei aquelas
cartas. Mas agora estou te pedindo diretamente.
Paro de falar, espero para ver algo em seus olhos, talvez um
entendimento, ou uma disposição para me ouvir. Mas não há, então,
faço uma pergunta. —Você pode fazer isso, mãe? Pode, por favor,
fazer isso?
Seu rosto é de pedra, mas atrás de sua fachada posso ver as
rachaduras e fissuras. Talvez eu esteja conseguindo atingi-la. Talvez
tudo o que eu tivesse que fazer era pedir. Uma forte sensação de
esperança me preenche e sou invadida por memórias: De como ela
me ajudou com minhas tarefas de escola, como ela foi a todos os
meus jogos de lacrosse, como ela torceu o mais alto, desligou seu
telefone e só tinha olhos para mim. Ela sempre esteve lá para mim.
Eu me agarro nessa esperança. Seguro firme em minhas mãos, como
se fosse um delicado filhote de passarinho.
Minha mãe balança a cabeça e sua voz é fraca, como a de
uma criança. Porque ela é a criança. —Eu não posso parar. —Ela
diz. —Eu não quero parar.
Eu coloco minha cabeça entre as mãos, pressiono meu
polegar e dedo médio nos cantos dos olhos.
Uma voz dentro de mim, talvez na minha cabeça ou em meu
coração, diz: Deixe –a ir.
Eu me levanto da mesa. Dou um beijo na sua testa.

289
—Tchau, mãe. Eu te amo. —Digo baixinho, empurrando o
nó na minha garganta enquanto me levanto para ir embora. Ela fica
sentada à mesa, e é isso. Esse é o fim.
Uma lágrima escorre, de qualquer maneira, quando fecho a
porta atrás de mim.
No chão tem outra carta esperando por mim. Está debaixo
do tapete novamente. Eu puxo e abro rapidamente. É Beethoven
desta vez, “Immortal Beloved” de novo. Há uma nova linha que foi
adicionada a ela, escrita com caneta pelo remetente.
Todos querem saber quem ela era, essa “Amada
Imortal”

Você quer me encontrar? Há muito o que dizer, eu


acho. Que tal nos encontrarmos perto dos Rembrandts
no The Met38. Amanhã as 15:00 horas? Eu nunca fui
fã de pintores ingleses, aliás, nem de História Inglesa.

Eu dobro o papel e enfio no bolso da frente da minha


mochila.
Tenho a sensação de que finalmente sei de quem é, e me
permito sentir uma pequena centelha de entusiasmo em meu
coração. Levanto minha bicicleta e desço os degraus, sabendo que
essa é a última vez que carregarei Joe para fora. Não morarei mais
aqui. Estou bem com isso, eu acho. Tenho que estar.
Eu vejo um táxi parar do outro lado da rua. Eu assisto o
homem pagar. Algo nele me é familiar. Subo na bicicleta e espero.
Ele abre a porta do táxi, depois fecha e o táxi vai embora. Ele olha
para a porta da minha antiga casa.
É o pai da Amanda.
38
Met = Metropolitan Museus of Art

290
Meu coração se despedaça enquanto eu pedalo com força
para encontrar sua filha.

*******

—Essa coisa é como uma extensão de você.


—Gosto de pensar nela como um membro extra. —Digo,
acariciando Joe carinhosamente.
—Claro, o que Freud diria? —Amanda brinca, enquanto eu
empurro minha bicicleta prateada ao lado dela enquanto
caminhamos pela Fifth Avenue, o Central Park ao nosso lado.
—Não sei. O que Freud diria?
—Sei lá. Não coloco muita fé nele. Algumas vezes um
charuto é só um charuto, você sabe. —Ela balança um charuto
imaginário.
—Falando nisso. —Começo, sentido uma brecha, um jeito
de entrar na conversa mais embaraçosa de todas que eu poderia
estar tendo numa tarde de sábado, um dia depois de uma massiva
vitória no lacrosse. —Eu frequento um. Uma psiquiatra. —Digo.
—Oh, legal. —Amanda diz, sem se perturbar. —Isso é tão
Upper East Side39.
Eu dou risada. —Ela quase me perguntou se eu morava na
Fifth Avenue quando eu comecei frequentá-la. Imagine seu choque
quando ela descobriu que eu era uma garota do West Side.
—E ela ainda assim te aceitou como paciente?

39
O Upper East Side é um bairro nobre do condado de Manhattan, em Nova York, entre o Central Park e
o Rio East.

291
—Sou um caso perdido. —Digo, mas sei que precisamos
parar com as piadas e brincadeiras. Posso sentir meu coração
batendo mais rápido, meus nervos patinando sobre minha pele. Isso
deve ser o que se sente ao se abrir, deixar alguém ver quem você
realmente é. —Então, Amanda, é neste lugar que vou às segundas.
Quando saio da escola e não digo nada a ninguém. —Eu admito.
Ela para de andar e inclina a cabeça para o lado. —Tudo
bem. Entendo que você não estava pronta para me contar. Que era
pessoal.
—Você entende?
—Claro. —Ela diz, despreocupadamente. Então, ela faz uma
cara de ansiedade e finge implorar. —Mas agora posso ser super
xereta e te perguntar por que você vai. Conte-me tudo. Tudo.
Eu aponto para um banco.
—Oh-ou. Isso é sério. Já que está me fazendo sentar.
Nós sentamos e eu conto a ela tudo sobre minha mãe, meu
pai, sobre como eu cresci, o papel que desempenhei. É como me
desnudar.
Sinto-me nua e exposta, mas mesmo assim começo do início
e termino com o pai dela, que está na minha casa neste instante.
Correção. A casa da minha mãe. Eu não moro mais lá.
Amanda olha para mim boquiaberta. —Filho da Puta.
Ela não se levanta, ou corre ou vai embora. Não ainda. Mas
há tempo para isso.
Ela inclina a cabeça para trás e puxa seu cabelo num rabo de
cavalo com suas mãos. Ela balança a cabeça. —Ele é um canalha.
—Ela se endireita, solta o cabelo. —Droga, sinto muito. Não quis
dizer que ele é um canalha por estar com a sua mãe. Quero dizer, ele

292
é um canalha por trair minha mãe.
—Tudo bem, Amanda. Não temos que defender minha mãe.
Ela respira com força. —Bom. Porque ela é uma cadela
também. —Ela diz, mas posso dizer que ela não está brava comigo,
ela está brava com a minha mãe, mas principalmente com seu pai.
—Pais são tão horríveis. Eles não entendem, não é? Eles
simplesmente não entendem.
Balanço minha cabeça. —Não. Eles não entendem. Não
mesmo.
Então ela bufa e desse vez combina com um ronco. —Ei! Eu
inventei outro! É o bufo acredita-que-nossos-pais-idiotas-estão-
transando-um-com-o-outro!
Eu dou risada e bufo também. —Quem imaginaria que
precisaríamos deste?
Rimos mais e bufamos mais, e então seus braços estão em
volta de mim e os meus estão ao seu redor, e estamos rindo tanto
que não podemos respirar. A situação não é realmente engraçada,
mas o riso é necessário. É o único meio através do absurdo da coisa.
Quando finalmente nos acalmamos, Amanda levanta um dedo no
ar. —Que fique registrado que minhas habilidades como repórter
são oficialmente incríveis. Eu previ ou não que ele estava tendo um
caso?
—Você tem um faro para notícias. —Então, fico séria. —
Você vai contar para a sua mãe?
Ela dá de ombros. —Eu não sei. Talvez eu tenha que ir a um
psiquiatra também para decidir isso. —Ficamos em silêncio por um
minuto e, no silêncio, minha mente sai do controle e eu imagino que
essa é a última vez que estaremos juntas, que esse não é o início do
fim, mas que é o fim.

293
—Ainda somos amigas? —Pergunto nervosamente.
—Claro que sim.
—Bom. Fico feliz.
—Eu também. Fico feliz. Ei, quer tomar um sorvete e
celebrar nosso campeonato?
—Certamente. —Digo, enquanto andamos até a sorveteria
mais próxima, conto a ela sobre Noah, e seu queixo cai. Então
conto a ela sobre uma ideia que tenho sobre o baile de formatura e
sua boca abre no maior sorriso que já vi, e para terminar, falo a ela
sobre a carta que encontrei na minha varanda e ela concorda que
tem que ser da Catey.
—Eu vou com você até o MET amanhã e espero fora
enquanto você se encontra com ela. —Amanda diz.
—Isso seria ótimo.
Eu compro um sorvete. Está incrível. Assim como as
reparações. As reparações reais.

294
CAPÍTULO 33
Kennedy

A primeira coisa que noto é o rabo de cavalo. Alto na sua


cabeça e o louro claríssimo. Ela está de costas para mim, seus braços
estão cruzados e ela está olhando um Rembrandt40. Quando o som
dos meus sapatos ecoa pelo chão do museu, a garota se vira e me dá
um sorriso. Em alguns aspectos, ela parece a mesma, e em outros ela
está totalmente diferente. Estou nervosa porque não tenho a menor
noção do que esperar, mas há um calor dentro de mim que vem da
amizade, eu estou feliz em vê-la.
—Oi. —Catey diz, e se aproxima de mim.
—Oi.
—Eu meio que sinto algo pelo Rembrandt. —Ela diz,
indicando com a cabeça para o autorretrato que o artista holandês
pintou.
—É difícil não sentir. Ele meio que era o astro do pincel.
—Ele fazia coisas incríveis com a luz.
—E com a escuridão. —Eu acrescento, e estamos de volta.
Conversando, papeando, brincando. Sempre tivemos o dom da
tagarelice. Isso não se foi, mesmo após a passagem dos anos.
—Olhe para nós. Somos como um par de críticas de arte.
—Ela diz com uma risada, a tensão se dissipando quanto mais nós
conversamos. Eu conto a ela que vou à NYU, e ela me diz que ela
vai para Columbia para estudar Arte. Cada palavra, cada sentença é
40
(1606–69), pintor holandês; nome completo Rembrandt Harmensz van Rijn. Ele estabeleceu sua
reputação como pintor de retratos com a Lição de Anatomia do Dr. Tulp (1632).

295
fácil. Não é como uma volta ao passado. É mais um simples passo
no conforto do presente.
Mesmo quando ela diz. —Tenho te seguido.
—Tem? —Digo, e agora um temor familiar aparece
novamente. Talvez a brincadeira fosse apenas uma farsa.
Ela fecha os olhos, e os aperta com tanta força que é como se
eles fossem costurados. Ela os abre. —Eu queria me reaproximar.
Mas eu não sabia o que dizer ou como dizer. E, então, eu vi você e
aquele cara sexy colando cartas perto da minha casa um dia. Eu te
segui mais e comecei a juntar dois e dois, especialmente depois que
uma apareceu no correio para a minha mãe. E foi quando eu
comecei a enviá-las de volta para você. Para chamar a sua atenção.
—Ela diz, mordendo os lábios enquanto termina sua confissão, a
expressão no seu rosto me dizendo que ela não tem certeza de como
reagirei.
Honestamente, não tenho certeza de como reagir. Mas tudo
bem. Estou aprendendo a viver com a dúvida. —Ah, chamou
mesmo minha atenção. Por que você apenas não ligou ou me
mandou um e-mail se queria se reaproximar?
Ela dá de ombros e sussurra, sua voz vacilando. —
Provavelmente porque eu ainda me sentia mal por nunca ter falado
com você novamente depois do que aconteceu com nossos pais.
—Eu também. —Digo baixinho.
—Eu não sabia o que fazer. Não sabia como lidar com nada
daquilo. —Ela diz, e a honestidade em sua voz me atinge com força,
uma lembrança de que poucos de nós sabem o que estamos
fazendo. Que descobrir como lidar com algo tão grande na nossa
idade é uma tarefa monumental.
—Os seus ainda estão juntos?

296
Ela sacode a cabeça. —Não. Os seus? —Ela pergunta, seu
tom afetado com um pouco de raiva de seus pais. Uma emoção que
conheço bem.
Eu nego com a cabeça. —Divorciados há três anos.
Ela pisca uma, duas vezes, como se segurasse as emoções,
mas continua e gesticula para um Vermeer41 na parede, para os
detalhes nas dobras da saia azul da mulher. —Devemos manter
contato. Especialmente se ambas estamos estudando arte. Podemos
nos ajudar, sabia?
Assinto. Definitivamente. —Não acho que estamos mais
falando de arte.
—Quer tomar um café? Você ainda bebe os cafés enfeitados?
—Ela pergunta e seus olhos se iluminam. A tristeza que estava neles
foi apagada.
Eu dou um grande sorriso. Não posso conter. Eu não quero
mais nada do que tomar um café com uma velha amiga que agora é
uma nova amiga. —Eu sou totalmente da pesada. Posso tomar mais
que qualquer um na mesa num concurso de consumo de cafeína.
—Desafio aceito.
Subimos as escadas, e descemos por um longo corredor.
—Minha amiga Amanda está esperando lá fora por mim.
—No caso de eu ser uma perseguidora psicopata? —Ela
pergunta, arqueando uma sobrancelha.
—Exato. Mas acho que ela não teria sido muito útil lá fora. E
falando de perseguição...
—Vou telefonar ou te mandar e-mail daqui em diante. —Ela
diz, rindo.
41
Johannes Vermeer foi um pintor holandês, que também é conhecido como Vermeer de Delft ou
Johannes van der Meer.

297
Eu também dou risada. É bom vê-la novamente.

298
CAPÍTULO 34
Noah

Matthew e Jane tentam pagar a conta do almoço, mas eu


insisto. Já posso ver a pena em seus olhos, eu não preciso que eles
paguem o almoço porque acham que eu estou triste.
—Eu pago. —Digo, deixando algumas notas na mesa no
restaurante coreano que a Jane gosta. Na saída, ela coloca uma mão
no meu braço.
—Está tudo bem com você?
Eu dou um sorriso. É completamente falso. —Eu estou bem.
Não se preocupe comigo. —Digo, sacando minha melhor falsa
confiança. Mas que de algum modo, a engana.
O sol do meio-dia de junho me cega quando chegamos à
Sixth Avenue. Eu pego meus óculos para bloqueá-lo.
—Sério, companheiro. Está tudo certo com você? —
Matthew pergunta, me estudando.
—Eu disse a vocês, estou bem. —Eu digo, enfatizando a
última palavra. Ficarei bem. Eventualmente. Talvez até algum dia
em breve. Por agora, a solidão é como um manto que não consigo
tirar, mesmo que me rodeie de trabalho, eventos, scripts, shows e
pessoas. Tenho me enterrado na busca por clientes. A saída da Jewel
é um lembrete de que você tem que estar sempre nadando neste
ramo. Sempre alerta.
—Além do mais, David Tremaine está vindo esta tarde para
assinar os papéis da agência. Você perde alguns, e você ganha

299
outros. —Eu digo, tentando ver o lado bom.
Jewel se foi, mas eu consegui outro escritor de primeira linha.
Matthew suspira pesadamente e me dá um sorriso triste. —
Não estávamos perguntando sobre o trabalho. —Ele diz. —Mas
fico feliz que está te mantendo ocupado.
Jane me dá um abraço, me puxando para perto. —Ei, eu sei
que você sente muita falta dela. Mas haverá outras, eu prometo.
Sempre há.
Eu dou risada, mesmo que me delate. —Tenho certeza. —Eu
digo, e depois que Jane sai para um compromisso, Matthew e eu
voltamos para nosso prédio. Dentro da minha sala, faço o possível
para me afogar num mar de trabalho. Mal faz uma semana, mas eu
já perdi a esperança que apareça uma mensagem, foto ou e-mail
dela. Desta vez é para valer, e maldição, tenho certeza que é o
melhor.
Ela não estava pronta, eu estava, e é isso. Esse foi o grande
divisor.
Pelo menos tenho o meu trabalho. A sorte está do meu lado
e eu consegui me esquivar do radar, ileso do escândalo.
Enquanto concluo um contrato para um redator júnior da
TV que arrumou uma ponta para escrever para um seriado de
hospital, eu confiro a hora no meu computador. Tremaine vai
chegar logo, então guardo os papéis.
Há uma batida na porta. Está meio aberta, então eu falo. —
Entre. —Mas Jonathan já está dentro. —Hayes, temos um
problema. —Ele diz, batendo as mãos enquanto solta um suspiro.
—E qual é? —Pergunto, recostando na minha cadeira.
—Vou ter que deixar você ir.

300
Eu me endireito na cadeira. O choque corre pelas minhas
veias. —O quê?
—Sim. —Ele diz, estendendo suas mãos como se estivesse se
desculpando. —O que acontece é que eu achei que era meio
estranho que a Jewel nos deixasse. Ela não disse o porquê quando
saiu, e isso foi muito estranho para mim. Nós a ajudamos a ganhar
um montão de dinheiro. Você ia à casa dela o tempo todo. —Ele
começa, coçando a cabeça enquanto caminha pelo carpete da minha
sala. Meu rosto fica vermelho, e eu engulo, sabendo onde ele quer
chegar. —Então, quando ela foi para o meu concorrente na semana
passada, eu investiguei um pouco. Conversei com Bailey sobre Lords
and Ladies. Conversei com alguns outros. E deixe me dizer uma
coisa: não estou nem aí para que os meus clientes façam na sua vida
privada. —Ele diz, para e me encara.
A vergonha me cobre, mas fico firme, não desvio o olhar.
Vou encarar o que vem como um homem.
—Você pode achar que porque aqui é show business,
qualquer coisa passa. E enquanto estou bem com você perseguindo
acordos e pegando-os pela garganta, a única coisa que você não faz é
foder a criança de uma cliente.
A vergonha desaparece. Transforma-se em raiva e justiça e
queima dentro de mim. Mas eu engulo enquanto digo entredentes.
—Eu não fiz sexo com ela.
Ele balança a mão com desdém. —Que seja. Não estou
interessado na semântica. Você tem 15 minutos para pegar suas
coisas. Saia.
Quatorze minutos depois, eu carrego uma caixa de scripts,
fotos, alguns livros, minha xícara favorita e meu laptop para o
elevador. A raiva momentânea que estava em mim desapareceu.
Porque eu sabia que isso viria. Era uma possibilidade do dia que eu
comecei a deixar a Kennedy vir ao meu escritório. Já faz mais de um

301
ano, e hoje foi apenas a conclusão do que sempre foi meu destino.
Era difícil esperar outro desfecho.
Quando chego ao saguão, eu vejo Tremaine no elevador na
minha frente, olhando para seu telefone. As portas já estão fechando
com ele atrás.

302
CAPÍTULO 35
Kennedy

Eu apago a vela do bolo que meu pai fez para mim, ainda
impressionada que ele realmente o fez sozinho.
Ele corta uma fatia para mim, pego o garfo e mando bala. É
de chocolate e não está ruim, mas eu mal consigo engolir. Ainda
assim eu tento. Por ele.
Ele me dá um telefone novo de presente. —Eu teria te
comprado um carro, mas nunca se dirige em Manhattan. —Ele diz,
brincando.
Meus olhos se arregalam. —Eu não quero um carro, mas
posso ter o equivalente em dinheiro?
Ele ri, e eu tento acompanhar, mas é muito difícil. Não é com
ele que quero passar meu aniversário. Nem com Catey ou Amanda,
mas mesmo assim eu me encontro com elas em um Karaokê e tento
rir, como se Bruno Mars e Imagine Dragons pudessem me fazer
esquecer meus planos reais para hoje.
Funciona. Por um tempo. Até que a escuridão chega,
envolvendo a cidade em seus braços. Hoje à noite eu deveria estar
com Noah, e a dor vazia dentro de mim é tão forte que invento
desculpas para todos para poder ficar sozinha no Madison Square
Park.
Encontro nosso banco e ouço uma playlist no meu telefone
novo, desejando poder sentir seus braços me envolvendo em vez de
me sentir tão sozinha.

303
Noah

O hotel liga para perguntar se eu ainda vou para lá hoje à


noite.
—Eu cancelei há alguns dias. —Eu digo enquanto corro pelo
Reservoir42 no Central Park, não escondendo a irritação em minha
voz.
—Ah, tem razão. Desculpe pela confusão, Sr. Hayes. Peço
desculpas e espero que tenha uma boa noite.
Eu desligo, minha mão ainda segurando o telefone enquanto
passo correndo por um grupo de homens corpulentos de meia idade
na minha frente. Eu corri oito quilômetros até agora esta noite,
provavelmente mais de cento e cinquenta desde que o Jonathan me
demitiu, talvez eu corra a noite toda. Qualquer coisa para me distrair
da data no calendário, e a descida espiral que minha vida tomou em
apenas uma semana.
Mais tarde, depois de outra volta em torno do lago e um
banho quente, eu afundo no meu sofá, conferindo a hora mais uma
vez. São quase dez horas, e eu tenho só mais duas malditas horas até
que este dia miserável vire passado. Estendo a mão até a mesa de
café e pego o presente que não pude cancelar, o pingente que
mandei fazer para o seu colar. É um medalhão de prata com a foto
de um cervo com um coração branco na bunda. Ela iria adorá-lo, e
eu teria ficado imensamente feliz de dá-lo a ela.
Passo meu dedão sobre a superfície prateada, estou muito
tentado a jogá-lo na parede. Qualquer coisa para afastá-la de mim.
Mas não consigo porque meu corpo todo está vazio, e eu faria
qualquer coisa para me livrar deste buraco no meu peito. Então vejo
42
Pista em volta do lago no Central Park.

304
uma caixa de madeira que costumava ser porta copos, então eu o
jogo lá.
Mesmo longe da minha vista, ele ainda mexe comigo, me
lembrando da noite que eu dei a ela o colar onde esse pingente seria
colocado. Fomos ao Madison Square Park naquela noite.
Talvez seja por isso que não consigo me livrar da sensação de
que sei onde ela está agora. Pego minhas chaves e telefone e sigo
para o parque.
Uma semente perigosa de esperança começa a criar raízes,
mas quando chego em nosso banco ele está vazio.
Não a vejo em lugar algum, mas posso jurar que sinto seu
perfume.

305
CAPÍTULO 36
Kennedy

—O que você acha? —Amanda pergunta, virando-se em


frente ao meu espelho.
—Perfeito. —Eu digo.
—Sério?
—Olhe para você. Você está sexy. —Eu digo, e a viro para o
espelho pendurado atrás da porta do meu quarto. Ela está usando
um vestido vermelho brilhante de alcinhas bem finas. O vestido
chega pouco abaixo dos joelhos. Ela está usando um par de saltos
de 10 cm combinando, num tom vermelho cereja com uma presilha
brilhante na ponta.
Estou usando um vestido verde. É a cor do dinheiro, a cor da
inveja, a cor da grama depois da chuva. Mas não é tão bonito quanto
o de Amanda e esse é o ponto. Puxo meu cabelo para cima em um
nó francês e prendo.
—Você nunca usa seu cabelo preso e você deveria porque
você fica maravilhosa. —Amanda diz.
Coloco o colar que minha mãe me deu há algumas semanas e
o pingente prateado repousa em minha pele nua. Eu o toco uma
vez, pensando nela, desejando que ela pudesse me ver indo ao baile
de formatura. Mas ela não pode e ela não vai, exceto pelas fotos que
meu pai vai tirar e que eu vou mandar para ela amanhã. Passo os
dedos pelos meus outros três pingentes. Eu ainda uso o colar que
Noah me deu. Acho que nunca vou tirá-lo.
—Você deveria ligar para ele. —Amanda diz.

306
Tiro os dedos e limpo um fiapo imaginário do meu vestido.
—O quê? Você apenas gosta de sentir o colar em seus dedos?
—Ela continua.
Reviro os olhos. —Não vai acontecer por inúmeras razões.
—Aliás, não acredito que você usou essa coisa por um ano e eu
nem tinha ideia de onde veio.
Finjo soprar minhas unhas, como se estivessem quentes. —O
que posso dizer? Eu tenho talento. Essa garota sabe guardar um
segredo.
Amanda pega um vidro de loção, o tipo que deixa um brilho
na pele e joga para mim. —Para os seus ombros. —Ela explica.
—Claro, já entendi. —Eu digo, e passo um pouco. Jogo o
vidro de volta e ela guarda na bolsa.
—Nós estamos perfeitas. —Ela anuncia.
—Você está nervosa?
—E você, está nervosa?
—Não. —Eu digo. —É claro que não. É totalmente normal
para um cara levar duas garotas ao baile, certo?
—E pensar que você estava preocupada em ir ao baile com
um cara mais velho. —Amanda sabe tudo sobre Noah. Eu contei a
ela com riqueza de detalhes nas duas últimas semanas, e ela ama
ficar me atirando de volta toda vez que pode. Ela também gosta do
Noah. Bem, ela gosta do que eu falei a ela sobre Noah. Como ela
poderia não gostar? Ele foi a coisa mais maravilhosa que já
aconteceu comigo. Ele era minha linda fuga, e eu só sinto falta dele
quando respiro.
A campainha toca e Amanda grita. Eu aponto para ela.
—Você gritou!

307
Ela cobre a boca, fingindo vergonha. —O que tem de errado
comigo?
—Você borrou seu batom agora. Não posso mais te levar a
lugar algum. —Pego um lencinho e jogo para ela. Ela usa meu
espelho e conserta a maquiagem.
Eu ouço meu pai abrindo a porta. —Boa noite, Lane.
—Olá, Sr. Stanzlinger.
—Bom trabalho com as corsages43. Eu confio que você trará
as meninas de volta numa hora razoável.
—Claro, Sr. Stanzlinger.
Lane parece nervoso.
—Vou buscá-las.
Buscar, claro, envolve andar um metro e meio até o meu
quarto, já que é New York e o espaço é um luxo.
Meu pai aparece na porta. Ele levanta uma sobrancelha, e
sorri.
—Seu trio está completo. —Ele diz, divertindo-se com nosso
arranjo incomum para a formatura. Ele aponta o corredor. —Deixe-
me conduzi-las ao seu pretendente, por favor.
Saímos do quarto e lá está Lane nos esperando. Ele está
lindo, mas isso é o que eu esperava. Ele é, simplesmente,
empiricamente lindo.
Amanda sai e eu a vejo inalar Lane. Eu percebo que ela está

43 O corsage é um adorno de flores, utilizado geralmente no pulso

308
de quatro por ele, pelo jeito que os cabelos ruivos dele convidam os
dedos para passar por eles e como seus olhos castanho-esverdeados
podem hipnotizar alguém. Ele está usando um smoking preto,
camisa branca e gravata borboleta. Não há babados azul-claros à
vista. Ele olha para Amanda, que está deslumbrante no seu vestido
vermelho e então olha para mim. Ele me entrega uma flor e uma
para a Amanda.
Meu pai chega perto e sussurra para ele. —Você deve colocar
a flor nelas.
—Oh, certo. —Lane diz, e enrubesce. Ele está acostumado
com garotas, mas levar duas ao baile nesse nosso trio incomum
desafiaria qualquer garoto. Ele se atrapalha com a caixa de plástico
que tem a rosa vermelha. Eu olho enquanto seus dedos tentam abri-
la. Ele abre e tira a flor. Amanda oferece a mão e ele coloca a flor no
seu pulso. Depois faz o mesmo com a minha flor.
Meu pai tira algumas fotos e nos deixa ir.

Noah

É o anoitecer de um sábado no início de junho e mesmo que


Tremaine não seja mais meu cliente, eu ainda me porto como se
fosse enquanto me dirijo ao Speakeasy para encontrá-lo para um
drinque. Ele me ligou mais cedo e disse que queria colocar o papo
em dia, então volto ao meu guarda-roupa de agente, optando pela
camisa azul-cobalto. Ainda sou um agente, só minha lista de clientes
que está mais curta.
Mas pelo menos é maior do que há uma semana, quando eu
não tinha nenhum. Estou trabalhando em casa, usando meus
telefones e tentando fechar acordos como eu fazia antes. Eu pesquei

309
um escritor júnior de uma série de comédia nova que passa bem
tarde da noite. Estou apostando minhas fichas nele.
Quando entro no estabelecimento agitado no centro, eu vejo
Tremaine com sua esposa e me junto a eles na mesa.
—Posso te pedir um drinque? —Ela pergunta.
—Apenas um chá gelado para mim. —Eu digo.
—Vou até o bar pedir. —Ela diz, e pede licença.
Tremaine me lança um olhar estranho. —O que foi tudo
aquilo?
Franzo a testa. —Tudo aquilo o quê?
—Você saindo da agência e não me procurando?
Eu dou risada porque eu pensei que ele estava falando da
esposa indo até o bar.
—Desculpe se eu te ofendi por não tentar te roubar do
Jonathan. Achei que era o mínimo que eu podia fazer pelo meu
antigo chefe.
—Então você saiu. Qual a história? Eu ouvi um papo sobre
uma garota.
—Você ouviu certo. —Eu digo, e lhe dou o resumo do
resumo da história. Estou cansado de fingir. Estou cheio de ficar
encobrindo as coisas. Além do mais, eu gosto do cara e sempre fui
sincero com ele. Não há necessidade de ser diferente agora que não
sou seu agente.
—Garotas são complicadas. Eu te disse isso. —Ele diz, e
balança um dedo na minha cara, como se fosse meu pai. Mas ele não
me parece irritado ou bravo.
—Elas são. Mas confio que Jonathan esteja tomando conta

310
de você direito.
Ele coça o queixo. —Bem, a respeito disso. —Ele olha para
o teto e depois para mim. —Eu não saberia.
Eu lhe dou um olhar interrogativo. —O que quer dizer?
Você fechou com ele, certo?
Ele balança a cabeça devagar, e um sorriso se forma em seu
rosto. —Não. Eu não estava interessado em trabalhar com o
Jonathan. Mas se você disser que está começando seu próprio
negócio, isso pode me interessar.
Um sorriso puxa o canto da minha boca. O primeiro sorriso
real em semanas. —Para falar a verdade, eu comecei meu próprio
escritório.
Ele assente com aprovação. —Excelente. E já que você não
tentou me roubar, essa é mais uma razão para eu perguntar, já que
admiro sua integridade. Gostaria de um novo cliente?
—Adoraria representá-lo.
Ele estende o braço e apertamos as mãos.

Kennedy

Quando chegamos à calçada, há uma reluzente limusine preta


parada no meio-fio. Amanda me dá um olhar que pode muito bem
ser um sinal de positivo gigante. O chofer sai para abrir a porta, mas
Lane o dispensa, abrindo a porta ele mesmo.
Nós três nos espalhamos no banco de trás, Lane no meio.
Ele põe um braço nos meus ombros e outro nos de Amanda e diz
numa voz grave de Barry White. —Olá, damas.

311
Todos rimos quando Lane finge ser nosso acompanhante,
depois um homem de negócios rico, e depois um jogador famoso
que pediu por duas garotas. Minutos depois, estamos todos
ofegantes de rir quando o carro estaciona num Hotel na Fifty-
Seventh Street, onde a escola do Lane faz seu último baile do ano. O
chofer chega primeiro à porta desta vez. Entramos e seguimos para
a escada rolante que nos leva ao segundo andar.
Um porteiro abre as portas de vidro para o salão de festas e
eu paro. É cintilante – luzes prata cintilantes e balões prateados
cobrem o teto e estrelas prateadas revestem as paredes.
—Acho que o tema este ano é prata. —Lane observa
enquanto entramos no salão. Uma batida rápida e alta ecoa pela sala
cavernosa. Rapazes e moças, e moças e moças, e rapazes e rapazes
estão dançando com a música.
Eu agarro o braço de Amanda. —É como o céu!
Ela assente entusiasticamente. —Eu sei! —Ela se vira para
Lane. —Somos fáceis de satisfazer. É a consequência de uma
criação em escola só de meninas.
Ele ri. —É bom saber disso.
Eu vejo uma oportunidade. Ou a chance de criar uma. E é o
que eu estava esperando fazer esta noite. —Vou buscar refrigerante
para nós. Por que vocês não dançam?
—Ok. —Amanda diz, e Lane concorda. Ele me dá uma
rápida olhada antes de começar a dançar, mas eu sei que ele não
gosta de mim como antes, e estou contente. Eu o quero na minha
vida como um amigo.
Peço três refrigerantes ao barman. Ele me entrega as bebidas,
mas não estou pronta para voltar para a pista de dança. Haverá
tempo para eu levar as bebidas para eles.

312
—Obrigada. —Eu digo, e encosto no bar, observando meus
amigos. Eu espero e a música fica lenta e o balanço começa.
Há um desconforto inicial. Amanda e Lane arrastam os pés e
nenhum sabe exatamente o que fazer com seus braços. Fico tensa,
desejando que se aproximem mais, tentando usar a força para guiar
os braços dele para seus ombros, e depois em suas costas. Logo ele
se acerta, ela se aproxima e eles dançam.
As luzes diminuem e bolas de discoteca descem, fazendo
espirais caleidoscópicas pelo chão. Tenho certeza que esta não será a
última dança deles da noite. Tomo um gole da minha coca diet,
pensando em alguém que não está aqui, imaginando como seria ter
ele na pista de dança comigo.
Instintivamente eu toco meu colar. Balanço os pingentes em
minha mão, ouvindo a música.
Viro para o barman.
—Então, isso é o baile de formatura.
—Isso é baile de formatura. —Ele repete.
—É isso que deixa todo mundo ansioso.
—Isso. É o que deixa todo mundo ansioso.
—Posso ver o porquê.
Logo, logo vou me juntar aos meus amigos. Vou aproveitar o
momento, porque de algum modo, esse é o melhor dos tempos,
afinal de contas.
Eu deixo essa palavra reverberar na minha mente.
Tempo.
Ressoa e ecoa alto na minha mente. Insiste em ser ouvida.
Me diz que sabe alguma coisa. Tempo é o que estamos

313
perdendo. É o que Amanda e Lane têm em seu potencial favor, é o
que eu e Noah não temos.
Eu giro quando uma ideia dispara em mim, aterrissando
como um meteoro no jardim, explodindo com possibilidades.
—Você tem um lápis? Ou uma caneta? —Peço ao atendente do bar.
Ele procura em seu bolso e me entrega uma. Eu pego um
guardanapo, e começo a escrever. Ou, termino de escrever. Porque
existe uma carta que nunca enviei. Uma carta que só tinha um
começo. Não tinha final. Então eu termino.

Nossos Beijos Roubados

No baile de formatura, eu penso em você, e


encontro a resposta.

A resposta é o tempo.

E se fossemos um daqueles casais que se


encontraram fora do tempo? E se eu fosse dois anos
mais velha, ou se você fosse cinco anos mais novo, ou se
nos conhecêssemos no trabalho, ou na Europa, ou no
metrô? Teríamos nos apaixonado tanto e por tanto
tempo? Nunca saberemos, não é, o que teria acontecido
se o tempo estivesse certo?

Dizem que o tempo cura todas as feridas, mas


fecha as lacunas também? Talvez possa. Talvez em um

314
ano transforme a diferença de tempo de oito anos em
poeira. Talvez transforme uma garota que não sabia o
que queria em alguém que tenha certeza. Talvez
transforme vinte e um beijos roubados em infinitos
dados.

Então escrevo a linha final.

315
CAPÍTULO 37
Muitos meses depois
Kennedy

Minha mãe me convida para viajar para a Itália com ela nas
férias de inverno. —Florença é irresistível para qualquer estudante
de história da arte. —Ela escreve um e-mail que promete jantares
maravilhosos enquanto ela tenta me atrair com lembretes de que a
grande quantidade de massas do país está chamando meu coração
vegetariano. —Vamos viajar de primeira classe e será divino! Diga
sim, por favor!
Eu continuo esperando que ela me diga que está pronta, que
ela está mudando, que ela está fazendo terapia. Mas estas palavras
não vieram, e isso é tudo o que temos agora. Esses e-mails e
telefonemas ocasionais.
Faz vários meses desde que me mudei da sua casa
definitivamente. Eu moro nos dormitórios da faculdade, mas
quando vou para “casa” é sempre para a casa do meu pai. Como eu,
ele também está fazendo mudanças. Ele enfrentou Jay Fierstein e o
Jay recuou, desistindo do processo legal. Estou orgulhosa do meu
pai, tem sido mais fácil para ele ferver por dentro, enfrentar. É um
progresso para o homem de gelo.
Mas quanto a Jewel, ela ainda é minha mãe. E é quase natal.
Eu relaxo minhas regras temporariamente e respondo.
—Tenha um feliz Natal, mãe. Vamos nos encontrar para o almoço
antes da sua viagem. —Eu escrevo. Mas almoço é o máximo que
me permito.

316
Minha mãe tem um novo agente agora. Eu sei porque
pesquisei na internet. Além disso, ela mencionou uma vez num
telefonema que Noah nem tentou consegui-la de volta. Eu ignorei o
comentário, mas secretamente eu fiquei feliz de saber que ele não foi
rastejando de volta para ela depois que eu saí de cena. Ele continuou
profissionalmente e eu li que a agência nova dele está bombando.
Nenhuma surpresa aí.
Fecho meu laptop, e coloco dentro da minha bolsa rosa
choque e deixo algumas notas na mesa do meu restaurante favorito
no campus. O café aqui é bom, e ajuda na minha preparação para os
exames finais.
Eu saio e o vento frio de dezembro me atinge. Apertando o
cachecol no pescoço, procuro minhas luvas. Encontro-as dentro da
minha bolsa do computador e as visto para aquecer minhas mãos.
New York está tendo um inverno particularmente intenso.
Tremendo, atravesso o Washington Square Park, onde até os bravos
artistas de rua encerraram o dia. Eu passo pelos principais
escritórios de NYU, com decorações natalinas já colocadas, e abro a
porta da biblioteca. O sopro de calor do aquecimento é como um
carro no estacionamento de asfalto em agosto, o completo oposto
do frio ártico de lá de fora. Tiro meu casaco, ocupo uma mesa e
pego meu livro Um estudo da Arte.
Examino as esculturas, artistas e pinturas. Quando chego a
um Fragonard, meu coração aperta, como uma dor antiga
ressurgindo, quando eu me lembro um dos meus primeiros
encontros com Noah no Frick44 e como ele me fez rir da arte, como
nos beijamos imitando a pintura. Olho mais de perto a imagem no
meu livro como se essa representação pudesse apagar a dor dentro
de mim. Mas metade do meu coração ainda está doendo, ainda

44
A Coleção Frick é um museu de arte localizado em Manhattan, New York, Estados Unidos. Fica na
antiga casa do magnata do aço Henry Clay Frick.

317
sentindo falta. Eu espero que doa menos e talvez logo irá doer só
um quarto, então um oitavo, depois um dezesseis avos, e aí eu não
vou nem sentir a dor. Vai apenas sumir com o tempo.
Ou talvez não vá. Talvez eu sempre sinta falta do meu
primeiro amor.
—Eu passei pelo prédio do Noah na outra noite. —Eu digo
para Carolina mais tarde naquela noite. Conversamos muito sobre
isso no nosso tempo juntas. Eu tenho certeza que ajudou, toda a
conversa. Mas ser ouvida foi o que mais ajudou.
—Você entrou?
Aperto os lábios, como se tivesse sido pega. —Bem, não
entrei exatamente.
—Então o que exatamente? —Ela pergunta, mas ela não está
brava, está apenas curiosa.
—Eu só queria ver se meu nome ainda estava na lista com o
porteiro.
—E estava?
Assinto.
—E o que você acha do seu nome estar na lista?
—Eu acho que espero que sempre esteja na lista. —Eu digo
baixinho. Se o meu nome não foi riscado, então talvez o convite
permaneça aberto para algum dia no caminho. —Porque cada dia me
sinto mais pronta.
Ela levanta uma sobrancelha, me olhando curiosa. —Para?
Olho para o lado, como se ela devesse saber o que eu quis
dizer. —Você sabe. O que você acha que não vai funcionar.
—Eu nunca disse que não funcionaria, Kennedy. —Ela diz,

318
me corrigindo. —Eu disse que raramente funciona.
—Bom, talvez nós possamos ser raros então.
—Talvez você possa.
—Você acha?
—Eu não vou fazer previsões. —Ela diz. —Você sabe o que
eu penso. Você conhece os riscos. Você nem sabe se ele quer você
de volta.
Eu assinto. —Eu sei. Ele pode ter tocado a vida. Ele
provavelmente tocou a vida. Mas nunca saberei.
—A não ser que você tente.
É o máximo de benção que vou conseguir de alguém, então
eu aceito. Mas mais que ter uma benção, eu me dei permissão. Eu
me dei perdão. Eu me dei um quadro em branco.
Ela assente, e ficamos as duas quietas por um instante. Mas o
que eu realmente quero dizer é que espero algum dia entrar de novo.
Eu espero que algum dia eu pegue o elevador para o sexto andar. Eu
espero bater na porta dele. Eu espero que ele esteja esperando por
mim. E eu espero que eu esteja pronta.
Mas não posso pedir para ele esperar. Nem posso me fazer
esperar também.
Não posso viver no futuro, e não posso viver no passado. Eu
tenho uma prova para fazer, e amigos para encontrar, já que Catey,
Lane e Amanda estão todos vindo em casa para uma minifesta de
feriado daqui alguns dias.
Quando termino meu exame final no dia seguinte, mando
uma mensagem para a Catey dizendo que eu fui bem na prova
enquanto vou para o centro encontrar meu pai para um almoço na
Forty-Fourth Street, o coração do distrito teatral. Envio a mensagem

319
e ergo os olhos do telefone. Mas paro de andar quando passo pelo
teatro Belasco45. Meus pés não conseguem se mover. Estou colada
na calçada.
O mundo todo congela e eu juro que estou vendo coisas. Eu
pisco várias vezes, como se a miragem na minha frente fosse parar
de tremer e voltar ao que era. Mas o pôster... está aqui. É real e está
acenando para mim. Eu ando em direção a ele, hesitante, uma mão
estendida, como se eu precisasse tocá-lo para provar que é real. Está
acontecendo.
Um cartaz.
Um cartaz para Chess.
O relançamento. Começando daqui a três semanas. Eu estava
tão imersa na escola e meu mundo novo que eu perdi as notícias que
ele tinha passado do workshop para a fase de produção, ensaios e
seleção do elenco. Coloco a mão sobre a boca, pressionando os
dedos contra meus lábios enquanto fico maravilhada. Meu coração
fica descompassado, minha mente voa para frente para o futuro, as
perspectivas, as possibilidades.
Abro a porta para o saguão. A janela de ingressos está aberta.
Eu não tenho que pensar duas vezes. Eu compro dois ingressos para
a noite de abertura.
Então vou ao banco, visito meu cofre e retiro a única coisa
que eu tenho que não tem preço. Cuidadosamente, eu coloco a carta
na minha bolsa. Quando volto para meu dormitório, eu releio a
linha final que eu escrevi naquela noite e adiciono mais algumas.
Elas são tão necessárias quanto todas as palavras que vieram antes.
Vou até o prédio do Noah. O porteiro me deixa entrar. O
elevador me leva ao sexto andar. Uma esperança toma conta de

45
The Belasco Theatre é um teatro na Broadway, inaugurado em 1907 na rua West 44, número 111 em
Manhattan, New York City.

320
mim, eu vou até o seu apartamento e a coloco por debaixo da porta.
Não há garantias. Eu não posso exigir nada dele, e nenhum
direito de esperar qualquer coisa além de um fora. Tudo o que sei é
que eu nunca saberei se eu não tentar.

321
CAPÍTULO 38
Três semanas depois
Noah

Eu leio a carta de novo pela quinquagésima vez. Talvez pela


quingentésima. Eu ajusto minha gravata, olho no espelho e passo os
dedos pelos cabelos. Então eu tiro a gravata, e a jogo no chão.
O dia que recebi a carta, há três semanas, me deixou de
joelhos. Eu quase não a abri. Eu a amassei, joguei no lixo e fui
embora. Dez minutos depois, eu a peguei do lixo e a alisei.
Eu comecei a ler, chegando até os três primeiros beijos antes
de jogá-la do outro lado da mesa de café e bater à porta atrás de
mim. Como diabos ela podia me mandar essa carta agora? Depois de
ir embora e me deixar com outra ferida aberta?
Fui correr, subindo e descendo a Madison Avenue, tentando
queimá-la no ar frio da noite.
Quando voltei, a maldita carta me chamou. E li mais algumas
páginas.
Com cada palavra, o desejo de socar uma parede aumentava.
Talvez seja assim que deveria me sentir. Bravo. Eu não gosto
de ser feito de trouxa. Ninguém gosta. E agora ela estava me
mandando a carta que nos separou. A carta que dizia me arruíne.
Arruinou.
Mas eu estava arruinado há muito tempo.
Muito antes da carta.

322
Eu a li mais uma vez na outra noite, e então na próxima e na
próxima. E cada vez que passei nos revivendo, minha ira começou a
dissolver como neve derretendo na rua. Em seu lugar havia apenas
memórias de todos aqueles dias e noites, beijos e risadas, planos e
sentimentos. Muito mais do que jamais esperei.
Muito mais do que jamais terei novamente
Ler sua história de nossos beijos foi como assistir nosso caso
de amor na tela, daquela pequena centelha de consciência ao ponto
alto antes do nosso primeiro beijo até a noite no parque quando não
estávamos mais nos apaixonando. Estávamos nos amando.
Estamos.
Eu tenho saído desde que rompemos novamente. Tive alguns
jantares interessantes, filmes e shows. Até ri algumas vezes. Eu não
virei um monge. Mas nada se comparou. Elas são todas preto e
branco e ela é cor. Ela é todas as cores para mim.
Porque eu sei quem sou. Minha história é simples. Não é
complicada. Não é incomum.
Sou apenas um cara apaixonado por uma garota.
Vou até o hall e chamo um táxi. No caminho, abro a carta
mais uma vez e leio as palavras finais de novo. A última linha da
carta acendeu aquela esperança perigosa em mim novamente. E se
o tempo estivesse do nosso lado? Mas depois de tantas palavras
que derreteram meu coração, são as objetivas que importam agora.
Eu viro a página depois da sentença final.
O pós-escrito.
Eu vou ao café e empório de chá Dr. Insomnia
toda tarde com meus amigos. Você sabe como me
encontrar. Estarei esperando por você. Eu sempre estive

323
esperando por você. Sempre você.

O táxi para no Village.


Eu pago ao motorista, agradeço e desço na calçada em frente
ao café em que nunca fui. Seu lugar.
Eu espio através do vidro, procurando por ela. Um rapaz de
gorro passa o braço em volta de uma garota de cabelo rosa. Um trio
de garotas punk tatuadas está em um sofá. Uma jovem mãe e pai
bebem lattes enquanto a mãe embala o bebê. Uma mulher mais
velha de cabelo grisalho digita em seu laptop. No fundo da cafeteria
eu vejo um rapaz inclinado para trás na sua cadeira. Ele conversa
animadamente, provavelmente contando uma história para três
garotas. Uma tem cabelo bem loiro, uma é loira escura e uma mal
posso ver. Então ela ri e se vira para o vidro, como se estivesse
esperando por alguém.

Estarei esperando por você.

Meu coração explode dentro do peito, pula na minha


garganta. E não posso evitar. Estou sorrindo como um bobo. E lá
está ela. Quando ando até a porta e a abro, sua boca fica
escancarada. Seus olhos se arregalam, e então ela afasta sua cadeira e
anda até mim.
Paramos no meio do café. Música pop está tocando alto. Não
tenho ideia que música é. O som das máquinas de expresso e
clientes conversando se mistura com a música desconhecida.
—Oi. —Ela diz, falando primeiro, sua voz ofegante, seus
olhos verdes iluminados e brilhantes.
—Oi.
—Me perdoe.
Inclino a cabeça. —Pelo quê, K?

324
—Por te deixar.
—Não acho que você precise de perdão por isso.
—Eu não quero que você me odeie.
—Eu nunca poderia te odiar.
—Eu não quero que você fique bravo comigo. —Ela diz,
pegando em seu colar, distraidamente tocando os pingentes, como
se o colar a acalmasse.
—Eu não estou bravo com você. —Eu digo, porque já lidei
com essa emoção. E a superei. Deixei a raiva ir. Eu só sinto falta e
tenho esperança.
—Eu quero que você me ame.

Kennedy

Suas respostas rápidas desaceleram, ele parece considerar o


que eu acabei de dizer antes de me responder com uma pergunta:
—E você acha que eu parei?
Meu coração se expande, cresce no meu peito, me preenche.
Mas não parar não é o suficiente. Estar tão apaixonado não é o
suficiente. As razões têm que ser as certas. —Eu também não parei.
E eu quero que você saiba que eu te amo por você. Eu te amo não
apenas porque é um segredo, não apenas para irritar minha mãe. Eu
te amo porque você é você.
—Você partiu meu coração duas vezes, K. Você vai fazê-lo
pela terceira vez?

325
Eu balanço a cabeça.
—Como posso saber?
—Eu não sei. Como se pode saber?
—Nunca se sabe. Você se arrisca assim mesmo.
—Arrisque-se. —Eu digo, esperança crescendo dentro de
mim. Tanta esperança que não sei como vou sentir mais alguma
coisa novamente. Não pode haver espaço em mim para nada além
disso.
—Você. —Ele sussurra, então pega minha mão e entrelaça
meus dedos, seus olhos nunca deixando os meus.
—Você. —Eu repito, querendo que ele saiba que desta vez é
diferente. Desta vez é para todos os tempos.
Algumas vezes uma pessoa pode começar como um escudo
ou um segredo, mas então se torna algo mais. Ele é meu algo mais.
Aqui, com minha mão na dele, eu pergunto. —Quer conhecer meus
amigos?
—Eu adoraria.
Caminhamos de mãos dadas até a mesa. Eles estão todos em
silêncio, e posso dizer que estiveram cochichando sobre mim.
Limpo a garganta.
—Lane, Catey, Amanda. Este é meu... —Eu digo, então paro,
olho para ele, o homem que eu amo loucamente, procurando a
palavra, o título, a designação. —Meu Noah.
Ele ri, aquele riso quente, estrondoso e profundo que ressoa
dentro de mim, me preenchendo com felicidade. —Evidentemente,
sou o Noah dela. Prazer em conhecer vocês, Lane, Catey e Amanda.
Ele estende a mão para apertar a mão de cada um dos meus
amigos, então senta-se conosco para o café. Não é um encaixe

326
perfeito. Nós cinco não começamos a conversar como se fosse tudo
natural. Mas, de algum modo, nosso quinteto funciona.

******

Não é meu décimo oitavo aniversário esta noite. Este dia já


passou faz tempo, mas eu comemoro do modo como sempre
planejamos. Juntos.
Não reservamos uma pousada ou um fugimos para um hotel
cinco estrelas. Não planejamos o momento desta vez. Apenas
paramos de resistir porque não precisamos nos conter mais.
A casa dele parece minha. Ou melhor, nossa. Eu não tenho
mais que pedir permissão ou inventar uma mentira para estar aqui.
Estou aqui porque posso estar. Porque eu faço minhas próprias
escolhas agora, incluindo esta.
Tudo sobre esta noite parece certo, do segundo que ele
destranca a porta do seu apartamento ao modo como nos beijamos
e nos despimos furiosamente enquanto vamos para o quarto, até as
minhas roupas caindo numa pilha no chão de madeira.
Eu espero na cama, com as luzes acesas, observando ele
despir suas últimas camadas de roupas e pegar a camisinha.
Não consigo tirar os olhos dele. Vê-lo assim faz minha
garganta ficar seca e meu coração pular no peito. Ele é tão
maravilhoso e é meu. Eu o puxo pelos ombros e o trago para mim,

327
sussurrando que estou pronta.
—Eu também. —Ele diz.
Dói no começo, mas logo não dói mais. Ela se vai e em seu
lugar vem algo maravilhoso. Esta conexão física profunda. Esta
intensidade que vem deste amor. Não posso acreditar que esperei
tanto tempo para sentir algo tão bom, tão puro, tão feliz.
Mas fico feliz que esperei.
Nos encaixamos perfeitamente, pernas e quadris enlaçados,
lábios e respiração emaranhados. Isso é tudo. Isso é o céu e o sol e
toda a minha música. Esta é a canção que vou tocar repetidamente e
nunca me cansar.
Ele é o único que vou sempre desejar.
—Oi. —Ele sussurra em meu ouvido.
—Oi.
—Tudo bem?
Eu assinto quando ele se move em mim. —Está muito mais
do que bem. —Eu digo. Uma respiração rápida e febril quando ele
atinge um lugar dentro de mim que banha meu cérebro de prazer.
Meus pés se curvam, minha coluna se ergue, e minhas mãos
agarram suas costas. Ele me olha nos olhos e a intensidade do seu
olhar é quase muito para aguentar. Em algum lugar dentro de mim
ainda estou nervosa. É minha primeira vez, afinal. Mas, mais do que
isso, estou animada que tenho muito mais disso à frente. Com o
homem que eu amo, e ele sabe exatamente como me amar desse
jeito. Como me abraçar, como me preencher, como me levar ao
limite. Porque é onde estou agora, e é como um mundo totalmente
novo do outro lado com ele.
Estou de cabeça leve, fervilhando nas novas sensações que

328
passam pelo meu corpo. Eu sorrio feliz enquanto passo meus dedos
pelo seu peito.
Ele não tomou minha virgindade. Eu a dei a ele.
—Podemos fazer isso de novo logo?
—Quando você quiser.

*******

Na noite seguinte, eu visto um vestido prateado e saltos


pretos no apartamento dele.
Noah segura meu casaco, eu o visto e abotoo, e admiro sua
roupa. —Calças pretas, camisa azul-céu, blazer preto, sem gravata.
Nunca uma gravata.
—Espere. —Ele diz antes de sairmos, eu inclino a cabeça
para o lado quando ele abre uma caixa no seu criado-mudo e pega
um objeto pequeno prateado.
—Este era seu presente de aniversário. —Ele diz trazendo
para mim e abre um medalhão.
Faíscas se acendem no meu peito quando passo os dedos
sobre a foto. —Você encontrou o cervo. —Eu digo, e estou certa
que meus olhos estão brilhando. Ele desabotoa meu colar, coloca a
nova adição nele, e fecha a corrente em volta do meu pescoço de

329
novo.
—Você me disse uma vez que eles te davam esperança.
—Ele diz, e passa os dedos no meu rosto.
—Eu estava certa em ter esperança.
—Eu sempre tive esperança por você. —Ele diz.
Ele pega minha mão e saímos, vamos ao teatro.

No saguão do Belasco, caminhamos através da multidão de


homens de terno e mulheres em vestidos brilhantes, homens em
jeans e mulheres em roupas simples. Nem todos são chiques, mas
todos estão animados com o murmúrio e expectativa de uma noite
de estreia, de ser parte da emoção das cortinas levantando pela
primeira vez. Ele me traz mais para perto, e eu seguro firme no seu
braço, feliz de estar perto dele. Estamos cercados por pessoas como
nós. Aqueles que amam o teatro. Que amam um show. Alguns
podem estar apaixonados pelo amor, como eu. Alguns podem
simplesmente estar apaixonados. Eu também estou. Estamos com
nossos pares, só que desta vez não saímos sorrateiramente para nos
beijar, não fingimos que estamos aqui diferente do que realmente
estamos – juntos.
Nos encaminhamos para o recepcionista, quando um homem
chama meu namorado.
Usando seu nome.
—Noah!
Não estou acostumada aos outros chamarem-no assim, mas
de algum modo parece certo virar e ver David Tremaine. Noah me
disse só coisas boas sobre o homem. Ele o admira e estou feliz que
eles estão trabalhando juntos no filme que Noah vendeu semana
passada para um estúdio de Hollywood. Eles parecem combinar

330
bem. Noah me contou que ele comprou entradas para David para o
show desta noite como um presente.
—David, que bom te ver. —Ele diz, e bate nas costas do
homem grisalho.
—Esses assentos são fantásticos, eu só queria te encontrar e
dizer muito obrigado pelas entradas. Mal posso esperar para o show
começar. —David se vira para mim, uma expectativa no olhar.
Noah se adianta. —David, quero te apresentar.
David o interrompe. —Não precisa me dizer. Ela é aquela
que não conseguiu escapar. —Ele diz para nós dois, dando um largo
sorriso.
Noah passa o braço em volta dos meus ombros bem
apertado enquanto aperto a mão de David. —Sim, sou eu. —Digo,
e fico feliz em ser conhecida assim.
—Muito bom finalmente te conhecer. Eu ouvi muito sobre
você. Tome conta dele. —Ele diz, apontando a cabeça para Noah.
Eu fico na ponta dos pés e dou um beijo na bochecha de
Noah e digo. —Eu tomarei.
É uma promessa. Para David. Para Noah. Para mim mesma.
Para qualquer garota que já sofreu por amor. Para qualquer garota
que não queria apenas uma segunda chance, mas precisava de uma
terceira chance. Eu fiz essa promessa para todos nós. A garota que
se apaixonou na hora errada. Que se apaixonou quando eles não
estavam prontos. Que encontrou uma maneira de tentar novamente.
Chegamos aos nossos assentos, e logo a abertura começa e o
teatro escurece. Noah aperta a minha mão, e eu olho para ele,
saboreando a felicidade em seus olhos mais uma vez antes de
voltarmos nossa atenção para o palco.
Esse relançamento é melhor do que aquele que escolhemos o

331
elenco no nosso primeiro encontro, mesmo que não tenha um final
feliz.
Mas nós temos. Temos um final feliz porque estamos apenas
começando.

FIM

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