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Instituto de Treinamento e Pesquisa em

Gestalt-Terapia de Goiânia – ITGT

Volume XXIII – N. 2

2017
Goiânia – Goiás
http://pepsic.bvs-psi.org.br
Ficha Catalográfica

Revista da Abordagem Gestáltica – Phenomenological Studies/


Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de
Goiânia – Vol. 23, n. 2 (2017) – Goiânia: ITGT, 2017.

127p.: il.: 30 cm

Inclui normas de publicação

ISSN: 1809-6867

1. Psicologia. 2. Gestalt-Terapia. I. Instituto de Treinamento


e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiânia.
CDD 616.891 43

Citação:
REVISTA DA ABORDAGEM GESTÁLTICA. Goiânia, v. 23, n. 2, 2017. 127p

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Volume XXIII – N. 2 – Mai/Ago, 2017

Expediente

Editor
Adriano Furtado Holanda (Universidade Federal do Paraná)

Editores Associados
Camila Muhl (Universidade Federal do Paraná)
Celana Cardoso Andrade (Universidade Federal de Goiás)
Danilo Suassuna Martins Costa (Pontifícia Universidade Católica de Goiás)
Tommy Akira Goto (Universidade Federal de Uberlândia)

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Antonio Zirión Quijano (Universidad Nacional Autónoma de México)
Pedro M. S. Alves (Universidade de Lisboa, Portugal)

Conselho Editorial
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Andrés Eduardo Aguirre Antúnez (Universidade de São Paulo)
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André Barata (Universidade da Beira Interior, Portugal)
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Daniela Schneider (Universidade Federal de Santa Catarina)
Ileno Izidio da Costa (Universidade de Brasília)
Irene Pinto Pardelha (Universidade de Évora)
Josemar de Campos Maciel (Universidade Católica Dom Bosco, MS)
Lester Embree (Florida Atlantic University) (in memoriam)
Lílian Meyer Frazão (Universidade de São Paulo)
María Lucrecia Rovaletti (Universidade de Buenos Aires)
Marcos Aurélio Fernandes (Universidade de Brasília)
Marisete Malaguth Mendonça (Pontifícia Universidade Católica de Goiás)
Marta Carmo (Universidade Federal de Goiás)
Mônica Botelho Alvim (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
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Patrícia Valle de Albuquerque Lima (Universidade Federal Fluminense)
Rosemary Rizo-Patrón de Lerner (Pontificia Universidad Católica del Perú)
Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa (Pontifícia Universidade Católica de Goiás)
William Barbosa Gomes (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Editores de Texto – Suporte Técnico


Josiane Almeida
Silvana Ayub Polchlopek
Capa, Diagramação e Arte Final
Franco Jr.

Bibliotecário
Arnaldo Alves Ferreira Junior (CRB 01-2092)

Financiamento
Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiânia (ITGT-GO)

Apoio
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Revista da Abordagem Gestáltica – Phenomenological Studies.
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Qualis CAPES 2015– A2


ISSN 1809-6867 versão impressa
ISSN 1984-3542 versão on-line

As opiniões emitidas nos trabalhos aqui publicados, bem como a exatidão e adequação das referências biblio-
gráficas são de exclusiva responsabilidade dos autores, portanto podem não expressar o pensamento dos editores.
A reprodução do conteúdo desta publicação poderá ocorrer desde que citada a fonte.
Sumário

Editorial................................................................................................................................................... vii

ARTIGOS - Relatos de Pesquisa

-- Contemporaneidade e Experiências Anômalas: Dimensões Psicossociais de Vivências


Culturalmente Limítrofes........................................................................................................................ 137
Leonardo Breno Martins (Universidade de São Paulo);
Wellington Zangari (Universidade de São Paulo) &
Gabriel Teixeira de Medeiros (Universidade de São Paulo)

-- Liberdade: Limites e Possibilidades de uma Experiência da Clínica Psicológica no


Complexo da Maré.................................................................................................................................... 150
Roberto Novaes de Sá (Universidade Federal Fluminense) &
Sheila Corrêa da Silva (Universidade Federal Fluminense)

-- Para Ficar em cima do Salto: a Construção do Corpo Travesti na Perspectiva


Merleau-Pontyana..................................................................................................................................... 158
Edmar Henrique Dairell (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) &
Maria Alves Toledo Bruns (Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto)

-- Obesidade Infantil: Compreender para Melhor Intervir....................................................................... 167


Luciana Gaudio Martins Frontzek (Centro de Pesquisas René Rachou-Fiocruz Belo Horizonte);
Luana Rodrigues Bernardes (Universidade Salgado de Oliveira/Belo Horizonte) &
Celina Maria Modena (Centro de Pesquisas René Rachou-Fiocruz Belo Horizonte)

ARTIGOS - Revisão Crítica de Literatura

-- Daseinsanalyse e Psicoterapia no Brasil: uma Revisão Integrativa da Literatura.............................. 177


Breno Augusto da Costa (Universidade Federal do Triângulo Mineiro)

-- Psicologia Humanista de Abraham Maslow: Recepção e Circulação no Brasil.................................. 189


Paulo Coelho Castelo Branco (Universidade Federal da Bahia) &
Luísa Xavier de Brito Silva (Universidade Federal da Bahia)

-- Intervenções Psicossociais Aplicada a Situações de Conflito Conjugal............................................... 200


Kamilly Souza Vale (Universidade Federal do Pará) &
Adelma Pimentel (Universidade Federal do Pará)

-- Psicoterapia e Espiritualidade: da Gestalt-Terapia à Pesquisa Contemporânea.................................. 211


Aline Ferreira Campos (Universidade de Brasília) &
Jorge Ponciano Ribeiro (Universidade de Brasília)

ARTIGOS - Estudos Teóricos ou Históricos

-- Peter Schmid e a Alteridade Radical: Retomando o Diálogo entre Rogers e Lévinas......................... 221
Iago Cavalcante Araújo (Universidade Federal do Ceará) &
José Célio Freire (Universidade Federal do Ceará)

-- A Fenomenologia do Asco de Aurel Kolnai: Contribuições para o Esclarecimento


Fenomenológico dos Afetos...................................................................................................................... 231
Sumário

Yuri Amaral de Paula (Universidade Federal de Uberlândia) &


Tommy Akira Goto (Universidade Federal de Uberlândia)

v Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): v-vi, mai-ago, 2017


Sumário

TEXTOS CLÁSSICOS

-- O que é a Fenomenologia?........................................................................................................................ 247


Pierre Thévenaz (1952)

NORMAS

-- Normas de Publicação da Revista da Abordagem Gestáltica............................................................... 259


Sumário

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): v-vi, mai-ago, 2017 vi


Editorial

No segundo número da Phenomenological Studies Adelma Pimentel, a partir de uma pesquisa bibliográfica,
deste ano, apresentamos ao leitor um conjunto de pro- buscam sistematizar um panorama das formas de com-
duções que refletem a diversidade do pensamento e da preensão do tema para subsidiar a formação de Psicólogos
pesquisa fenomenológica. que atuam no campo. Novamente o tema da religiosidade
Começamos por um estudo sobre experiências pes- e espiritualidade surge no artigo Psicoterapia e Espiritu-
soais “extraordinárias” e estigma. Na pesquisa intitulada alidade: Da Gestalt-Terapia à Pesquisa Contemporânea,
Contemporaneidade e Experiências Anômalas: Dimen- de autoria de Aline Ferreira Campos & Jorge Ponciano Ri-
sões Psicossociais de Vivências Culturalmente Limí- beiro. Neste manuscrito, os autores fazem uma revisão da
trofes, Leonardo Breno Martins, Wellington Zangari & literatura com artigos do PsychINFO, SciELO, PePSIC e
Gabriel Teixeira de Medeiros, investigam variáveis psi- textos de Gestalt-terapia; e descrevem métodos utilizados,
cossociais que intermedeiam relações entre crenças/ex- como meditação e oração.
periências anômalas e cultura em contexto brasileiro, nu- A reflexão teórica e filosófica – fundamental para uma
ma pesquisa qualitativa com 46 pessoas que reportaram sólida fundamentação da prática clínica e para a própria
contatos diretos com alegados “alienígenas”, além de 35 Fenomenologia – aparece em dois manuscritos. Peter Sch-
que não as reportaram, para comparação. Clínica e vio- mid e a Alteridade Radical: Retomando o Diálogo entre
lência em comunidade é o tema de Liberdade: Limites e Rogers e Lévinas, de autoria de Iago Cavalcante Araújo
Possibilidades de uma Experiência da Clínica Psicoló- & José Célio Freire, trabalham a ética da Abordagem Cen-
gica no Complexo da Maré, de Roberto Novaes de Sá & trada na Pessoa a partir da alteridade radical postulada
Sheila Corrêa Silva. Dialogando com a filosofia existen- por Lévinas. Nesta direção, apresentam as contribuições
cial, buscam pensar através da clínica, como a questão de Peter Schmid à Psicologia rogeriana. Já o texto A Fe-
da liberdade se desvela, na especificidade do contexto nomenologia do Asco de Aurel Kolnai: Contribuições
de uma experiência junto ao Complexo da Maré na cida- para o Esclarecimento Fenomenológico dos Afetos, de
de do Rio Janeiro. Yuri Amaral de Paula & Tommy Akira Goto aponta para
Já os sentidos da transformação do corpo são o tema uma significativa “marca” do movimento fenomenológi-
de Para Ficar em Cima do Salto: A Construção do Cor- co: sua diversidade e grande variedade de investigações
po Travesti na Perspectiva Merleau-Pontyana, de Edmar dirigidas à elucidação da afetividade e de vivências afeti-
Henrique Dairell & Maria Alves Toledo Bruns, que pes- vas particulares, recuperando os trabalhos dos primeiros
quisaram o uso de silicone, hormônios e cirurgias para fenomenólogos, a partir da fenomenologia dos sentimen-
atingir a modelagem corporal, a partir dos discursos de tos hostis de Aurel Kolnai.
três travestis. Em Obesidade Infantil. Compreender para Finalizamos este número com uma excepcional tradu-
melhor Intervir, Luciana Gaudio Martins Frontzek, Lua- ção de José Olinda Braga, da primeira parte de um clássi-
na Rodrigues Bernardes & Celina Maria Modena buscam co texto de Pierre Thévenaz, originalmente publicado em
compreender a obesidade infantil a partir das narrativas 1952, que não apenas pretende “introduzir” a Fenomeno-
de crianças e pais, numa pesquisa com 10 famílias de Be- logia – a partir de quatro brilhantes estudos, sobre Husserl,
lo Horizonte, Minas Gerais. Heidegger, Merleau-Ponty e Sartre – como aponta para a
O artigo Daseinsanalyse e Psicoterapia no Brasil: direção de uma ontologia fenomenológica. Nas próprias
Uma Revisão Integrativa da Literatura, de Breno Augusto palavras de Thévenaz, logo em seu primeiro parágrafo:
da Costa, apresenta uma revisão integrativa da literatura a
partir da “Revista Daseinsanalyse”, destacando influências A fenomenologia parece um Proteu que ora surge co-
teóricas, objetivos da psicoterapia e postura do terapeuta, mo uma pesquisa objetiva das essências lógicas ou das
e apontando como nova perspectiva a possibilidade do significações, ora como uma teoria da abstração; por
pensamento daseinsanalítico fundamentar a prática da vezes como uma descrição psicológica profunda ou
redução de danos. Na sequência, Paulo Coelho Castelo uma análise da consciência, outras vezes como uma
Branco & Luísa Xavier de Brito Silva, em Psicologia Hu- especulação sobre o “Ego transcendental”; ora como
manista de Abraham Maslow: Recepção e Circulação no um método de aproximação concreto da existência vi-
Brasil, apresentam aspectos relativos à vida, obra e pro- vida, e às vezes parece, como em Sartre ou Merleau-
jeto de Psicologia de Abraham Maslow, num conjunto de -Ponty, se confundir pura e simplesmente com o exis-
três investigações bibliográficas que analisam a recepção tencialismo.1 (p. 9)
Editorial

e a circulação das ideias de Maslow no Brasil.


Em Intervenções Psicossociais em Saúde Aplicada Pierre Thévenaz, “Qu´est-ce que la Phénoménologie – Partie 1, La
1

Phénoménologie de Husserl”, Révue de Théologie et de Philosophie,


a Situações de Conflito Conjugal, Kamilly Souza Vale & 2, p. 9-30.

vii Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): vii-x, mai-ago, 2017
Editorial

A importância desse texto – aqui apresentamos o pri-


meiro dos quatro textos que serão publicados ao longo
do ano, em diversas revistas – se dá pela reflexão do pró-
prio Thévenaz (que foi retomado várias vezes por Paul
Ricoeur), quando assinala que “os verdadeiros herdeiros
de Husserl são os existencialistas franceses”.

Boa leitura a todos

Adriano Holanda (Editor)

(Este número foi finalizado em 05.06.2017)


Editorial

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): vii-x, mai-ago, 2017 viii
Editorial

Phenomenological Studies presents his second Reapproaching the Dialogue between Rogers and Lévi-
number of the year, beginning with a discussion about nas, by Iago Cavalcante Araújo & José Célio Freire, dis-
“extraordinary” experiences and the stigmatization of cusses Peter Schmid´s ethics, Lévinasian radical alterity
their protagonists, related in the article named Con- and Rogerian psychology. And after that, we have the pa-
temporaneity and anomalous experiences: psychoso- per entitled Aurel Kolnai’s phenomenology of disgust:
cial dimensions of culturally frontier experiences, by contributions to the phenomenological clarification of
Leonardo Breno Martins, Wellington Zangari & Gabriel emotions (Yuri Amaral de Paula & Tommy Akira Goto),
Teixeira de Medeiros, a qualitative-phenomenological which bring us with a discussion about a variety of in-
research with 46 people interviewed about their alleged vestigations directed to the elucidation of affectivity and
contacts with aliens, such as 35 people that did not re- of particular affective experiences.
port such experiences, for comparison. In Freedom: Lim- We finish this number with a translation, for portu-
its and Possibilities of Experience Psychological Clinic guese, of the classic of Pierre Thévenaz, “Qu´est-ce que
in Complexo da Maré, Roberto Novaes de Sá & Sheila la Phénoménologie – Partie 1, La Phénoménologie de Hus-
Corrêa Silva presents a discussion about violence, lib- serl”, published in 1952.
erty and clinic, in a community of the Maré Complex
in Rio de Janeiro city. Adriano Holanda (Editor)
Edmar Henrique Dairell & Maria Alves Toledo Bruns,
in the research entitled To get on the heels: body build- (Issue finished in 05.06.2017)
ing transvestite from the Merleau- Ponty’s perspective
presents meanings of the process of body transforma-
tion, in three discourses of transvestites. In the research
named Childhood obesity: understanding to better in-
tervene, Luciana Gaudio Martins Frontzek, Luana Ro-
drigues Bernardes & Celina Maria Modena made a dis-
cussion about childhood obesity from the person who
experiences, children and parents, to support effective
interventions, in a survey conducted in Belo Horizonte
with 10 families.
Daseinsanalysis and Psychotherapy in Brazil: An
Integrative Literature Review, by Breno Augusto da
Costa, presents a review from the Brazilian journal “Re-
vista de Daseinsanalyse”, with his theoretical influences,
psychotherapy goals and the therapist’s attitudes. Abra-
ham Maslow’s Humanistic Psychology: Reception and
Circulation in Brazil, authored by Paulo Coelho Castelo
Branco & Luísa Xavier de Brito Silva, presents Maslow´s
biography, his project of Humanistic Psychology and the
current status of his ideas in Brazil.
The article by Kamilly Souza Vale & Adelma Pimen-
tel, Psychosocial Interventions Applied to Marital Con-
flict Situations, analyzes scientific productions that ad-
dress the interventions in domestic violence situations
carried out in primary health care service and psycho-
social assistance. And Psychotherapy and Spirituality:
from Gestalt therapy to contemporary research (Aline
Ferreira Campos & Jorge Ponciano Ribeiro) investigates
how the inclusion of spirituality can benefit the therapy
process, bridging Gestalt Therapy with contemporary
Editorial

psychology research.
In sequence, two theoretical and philosophical re-
flexions: first, Peter Schmid And Radical Alterity:

ix Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): vii-x, mai-ago, 2017


Editorial

Phenomenological Studies presenta en el segundo cia psicosocial. Psicoterapia y Espiritualidad: de la Te-


numero, la diversidad de la reflexión y de la investigación rapia de Gestalt a la investigación contemporânea, de
fenomenológica. Empezamos con el artículo Contempo- Aline Ferreira Campos & Jorge Ponciano Ribeiro, explora
raneidad y experiencias anómalas: dimensiones psico- como el proceso psicoterapéutico puede beneficiarse al
sociales de experiencias culturalmente marginales, de incluir la espiritualidad a través de la Terapia de Gestalt
Leonardo Breno Martins, Wellington Zangari & Gabriel en investigaciones realizadas en el campo de la Psicolo-
Teixeira de Medeiros, que discute las experiencias di- gia contemporánea.
chas “extraordinarias” y las interpretaciones estigmati- Iago Cavalcante Araújo & José Célio Freire, en el ar-
zantes cerca de sus protagonistas, bajo una investigación tículo Peter Schmid y la Alteridad Radical: Retomando
con 46 personas que reportaron el contacto directo con el Diálogo entre Rogers y Lévinas, presentan las con-
supuestos “extraterrestres” y 35 que no reportaron para tribuciones de Peter Schmid a la Psicologia Rogeriana,
comparación. En seguida, Roberto Novaes de Sá & Shei- bajo una discusión con la alteridad radical postulada
la Corrêa Silva, en Libertad: Límites y Posibilidades de por Lévinas. Y por fin, Yuri Amaral de Paula & Tommy
Experiencia Clínica Psicológica en Complexo da Maré, Akira Goto, con La fenomenología del asco de Aurel
hacen una análisis de la cuestión de la libertad durante Kolnai: contribuciones a la clarificación fenomenoló-
la apertura de sentido de la existencia, frente a los lími- gica de las afectos, apuntan para el hecho que el movi-
tes y posibilidades para aquellos que vienen a la clínica miento fenomenológico estuvo marcado por una gran
em una comunidad donde vienen las condiciones fácti- variedad de investigaciones dirigidas a la elucidación
cas de violencia extrema y restricción compuesto por um de la afectividad y de las experiencias afectivas parti-
horizonte de sentido, partidendo de la experiencia con el culares, haciendo un análisis del ensayo de Aurel Kol-
Complexo da Maré, en Rio de Janeiro. nai, “El Asco”, de 1929.
La investigación Para subirse a los tacones: la cons- Este fascículo se completa con uma traducción, para
trucción del cuerpo travesti desde la perspectiva mer- el portugués, del clasico de Pierre Thévenaz, “Qu´est-ce
leau-pontyana (de Edmar Henrique Dairell & Maria Al- que la Phénoménologie – Partie 1, La Phénoménologie de
ves Toledo Bruns) busca comprender los significados que Husserl”, publicado en 1952.
las travestis atribuyen al proceso de transformación de
su cuerpo. Para Luciana Gaudio Martins Frontzek, Luana Adriano Holanda (Editor)
Rodrigues Bernardes & Celina Maria Modena, en La obe-
sidad infantil: entender mejor a intervenir, es necesario (Fasciculo finalizado en 29.01.2017)
comprender la obesidad infantil de la persona que la ex-
perimenta, los niños y los padres, para apoyar las inter-
venciones eficaces. La encuesta se llevó a cabo en Belo
Horizonte con 10 familias a través de las cuentas indi-
viduales y grupos desde la perspectiva de la teoría de la
complejidad y la fenomenología.
Daseinsanalyse y Psicoterapia en Brasil: Una Revi-
sión Integradora de la Literatura, de Breno Augusto da
Costa, elabora una visión general de la producción bra-
sileña en Daseinsanalyse, a partir de una revisión inte-
gradora de la literatura de la “Revista Daseinsanalyse”.
En Psicología Humanista de Abraham Maslow: Recep-
ción y Circulación en Brasil, Paulo Coelho Castelo Bran-
co & Luísa Xavier de Brito Silva presentan la biografía de
Abraham Maslow, su proyecto de Psicología Humanista
y el estado actual de sus ideas en Brasil.
Los autores Kamilly Souza Vale & Adelma Pimentel,
escriben Intervenciones Psicosociales Aplicadas a Si-
tuaciones de Conflictos de Pareja, analizando las pro-
Editorial

ducciones científicas que se refierena las intervenciones


en situaciones de violencia de pareja realizadas en los
servicios de atención primaria a la salud y de asisten-

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): vii-x, mai-ago, 2017 x


A rtigos
- Relatos de Pesquisa ......................
Contemporaneidade e Experiências Anômalas: Dimensões Psicossociais de Vivências Culturalmente Limítrofes

Contemporaneidade e Experiências Anômalas:


Dimensões Psicossociais de
Vivências Culturalmente Limítrofes1-2

Contemporaneity and Anomalous Experiences:


Psychosocial Dimensions of Culturally Frontier Experiences

Contemporaneidad y Experiencias Anómalas:


Dimensiones Psicosociales de Experiencias Culturalmente Marginales

Leonardo Breno Martins


Wellington Zangari
Gabriel Teixeira de Medeiros

Resumo: Ao longo da história, sempre foram reportadas experiências pessoais “extraordinárias”, relacionadas ao “paranormal”.
Contudo, tais experiências podem confrontar referenciais hegemônicos em dado contexto, além de conduzir à estigmatização
de seus protagonistas, o que levanta questionamentos sobre que fatores e processos propiciam seu verificado crescimento. Para
investigar variáveis psicossociais que intermedeiam relações entre crenças/experiências anômalas e cultura em contexto brasileiro,
foram entrevistadas 46 pessoas que reportam contatos diretos com alegados “alienígenas”, além de 35 que não as reportam, para
comparação. A coleta e a análise dos dados delinearam uma pesquisa qualitativa-fenomenológica. Através da Teoria da Atribuição
de Causalidade, averiguou-se que as experiências adquirem sentido sob uma mescla caracteristicamente contemporânea de
referenciais científicos, esotéricos e religiosos tradicionais, o que permite seu fortalecimento mesmo diante da estigmatização que
seus protagonistas sofrem na macrocultura enquanto insanos, mentirosos, ignorantes ou endemoninhados.
Palavras-chave: Cognição; Cultura; Estigma social.

Abstract: Throughout history, “extraordinary” experiences have always been reported, somehow related to the “paranormal”.
However, such experiences may confront hegemonic thinking in a given context, and lead to stigmatization of their protago-
nists, which raises questions about its growing. In order to investigate psychosocial variables that mediate the relation between
beliefs/anomalous experiences and culture in the Brazilian context, 46 people were interviewed about their alleged contacts
with aliens, such as 35 people that did not report such experiences, for comparison. Data gathering and analysis delineated
a qualitative-phenomenological research. Using the Theory of Attribution of Causality, it was found that the experiences ac-
quire meaning under a characteristically contemporary combination of scientific, esoteric and traditional religious references,
allowing their strength even in face of the stigmatization that protagonists suffer in macroculture while insane, liars, ignorant
or possessed.
Keywords: Cognition; Culture; Social stigma.

Resumen: Por la historia, siempre se registraron experiencias extraordinarias relacionadas con el “paranormal”. Sin embargo, es-
tas experiencias pueden entrar en conflicto con referencias culturales hegemónicas en una cultura, y conducir a la estigmatiza-
ción de sus protagonistas, lo que plantea interrogantes sobre su crecimiento. Para investigar las variables psicosociales que me-
dian las relaciones entre las creencias/experiencias anómalas y la cultura en el contexto brasileño, fueron entrevistados 46 perso-
nas que reportaron el contacto directo con supuestos “extraterrestres” y 35 que no reportaron para comparación. La recolección
y análisis de datos definen una investigación cualitativa fenomenológica. A través de la Teoría de la Atribución de la Causalidad,
se ha encontrado que las experiencias adquieren sentido en una mezcla propiamente contemporánea de referencias científicas,
Artigo - Relatos de Pesquisa

esotéricas y religiosas tradicionales, lo que permite su fortalecimiento, incluso contra el estigma de que sus protagonistas sufren
en la macrocultura como locos, mentirosos, ignorantes o que éste posea.
Palabras-clave: Cognición; Cultura; Estigma social.

1
Trabalho derivado da dissertação de mestrado do primeiro autor, intitulada: Contatos imediatos: investigando personalidade, transtornos men-
tais e atribuição de causalidade em experiências subjetivas com óvnis e alienígenas, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.
2
O primeiro autor agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa concedida para a realização
da pesquisa que possibilitou este artigo.

137 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 137-149, mai-ago, 2017
Leonardo B. M.; Wellington Z. & Gabriel T. de M.

Introdução questões que então se erguem diz respeito à compreensão


de variáveis psicossociais que atuam para amoldar, justi-
Experiências extraordinárias sempre foram reportadas ficar, amparar ou mesmo fundamentar experiências anô-
ao longo da história. Conforme o contexto cultural, tais epi- malas, uma vez que estas podem ser estranhas mesmo na
sódios subjetivos recebem interpretações distintas e não cultura de origem. Assim, a inquietação inicial a motivar
raro intercambiáveis, de modo que “êxtase místico”, “ex- o presente estudo se sustentou na constatação informal,
periências fora do corpo”, “experiências de quase-morte”, erguida ao longo de quinze anos anteriores de entrevistas
lembranças de “vidas passadas”, “curas espirituais” e “te- conduzidas pelo primeiro autor junto a protagonistas bra-
lepatia” são apenas exemplos extraídos de um universo sileiros de experiências ufológicas, de que estes tendem a
significativamente maior de interpretações. O recente ter- ser estigmatizados em seus círculos sociais (incluindo os
mo “experiências anômalas” agrega esses diferentes tipos mais imediatos) como loucos, mentirosos, ignorantes ou
de episódio e os define como experiências subjetivas em endemoninhados, este último entre seus pares em gru-
algo divergentes das experiências ordinárias ou do con- pos religiosos. Contudo, quando optavam por não relatar
senso usual em uma cultura sobre o que é possível ocor- suas experiências, a estigmatização aparentemente não
rer, embora não possuam relação obrigatória com patolo- ocorria. Ainda assim, um número significativo de expe-
gia ou anormalidade (Cardeña, Lynn & Krippner, 2014). riências novas sempre fora reportado, e seus protagonis-
Assim, o reconhecimento de determinada experiência tas pareciam resistir a circunscrever os episódios em re-
como anômala possui um determinante cultural decisivo. ferenciais culturais hegemônicos, preferindo explicá-los
O que é anômalo em determinados contextos pode não sistematicamente enquanto contatos com inteligências
sê-lo em outros. Em um exemplo antropológico clássi- alienígenas, a despeito das mencionadas consequências
co, uma cura tida como convencional na cultura médica sociais adversas. Ademais, ao contrário de então parece-
ocidental foi considerada anômala pelo indígena austra- rem idiossincrasias de seus protagonistas, as experiên-
liano lembrado por Lévi-Strauss (1975), cuja debilitação cias tendem a apresentar padrões altamente reincidentes
lhe fora alegadamente infringida por feitiçaria, algo, por dentro da mesma cultura e tipicamente desassociados a
sua vez, mais insólito para o “homem branco” europeu transtornos mentais (Appelle, Lynn & Newman, 2014;
que para o aborígene. Destaca-se, pois, o papel das for- Bullard, 1989; Dewan, 2006b; Jung, 1958/1988; Martins
mas pelas quais os protagonistas das experiências (i.e., & Zangari, 2012), o que sugere a possibilidade de vieses
as pessoas que as vivenciam) e membros de seus círculos culturais, ainda que não hegemônicos. Portanto, cumpre
sociais as explicam. investigar possíveis vetores psicossociais relativos às ex-
Uma vez definidas como experiências subjetivas aces- periências e a relação entre esses e referenciais hegemô-
síveis ao investigador através de relatos de primeira-mão nicos, de modo a compreender como as experiências não
e indícios circunstanciais, sua investigação prescinde da apenas parecem se manter, mas crescer em incidência ao
crença ou descrença em referenciais religiosos, esotéri- longo dos anos, mesmo diante da persistente estigmatiza-
cos, pseudocientíficos ou quaisquer outros que possam ção de seus protagonistas.
acompanhá-las ou fundamentá-las no cotidiano da cul- Estudos estrangeiros fornecem outros indicadores
tura. Logo, enquanto eventos de ordem subjetiva, os da- da relevância psicossocial do tema. Entre eles, Dewan
dos e achados relacionados podem ser estudados como (2006b) considera as experiências ufológicas, em termos
quaisquer outros dados com os quais a psicologia habi- de mobilização social, a categoria mais importante de
tualmente lida (Almeida & Lotufo, 2003). experiência anômala relativa ao aparecimento de luzes,
Uma categoria de experiência anômala cujas variá- devido a suas funções mitológicas e religiosas, ao exten-
veis culturais relacionadas são pouco compreendidas, es- so mosaico de crenças associadas, aos episódios em pri-
pecialmente no Brasil, onde quase não foram estudadas meira-mão com variados níveis de profundidade, às teo-
(Martins & Zangari, 2012), diz respeito a alegadas visões rias conspiratórias e apocalípticas que delas emergem e
de “objetos voadores não identificados” e “seres alieníge- ao interesse coletivo por elas estimulado para temas co-
Artigo - Relatos de Pesquisa

nas”, além de experiências relacionadas, complexas e im- mo ciência e vida extraterrestre. Complementarmente, ao
pactantes, como “sequestros” (conhecidos popularmente apurar as dimensões folclóricas tradicionais resgatadas e
como “abduções”) e “canalizações” de mensagens alega- atualizadas pelas experiências ufológicas (e.g., as narrati-
damente alienígenas. Tais episódios serão aqui chamados vas medievais de sequestros por seres mágicos), Bullard
simplesmente de “experiências ufológicas” (em referên- (1989) distingue o ícone óvni como a quintessência das
cia ao termo consagrado pelo uso popular, “ufologia”) e lendas modernas.
apresentam elevada prevalência na população geral em Um modo particularmente profícuo de enfrentar a
diversos contextos culturais, variando entre 5% e 25%, questão do suporte cultural dessas experiências ocor-
conforme o critério para apurá-las (Dewan, 2006a; Hou- re por intermédio da Teoria da Atribuição de Causali-
gh & Rogers, 2007-2008; Schuessler, 2000). dade (TAC). Presentemente, a TAC se configura em um
Por seu caráter insólito, as experiências anômalas po- somatório de contribuições teóricas de base cognitivista
dem afrontar referenciais culturais hegemônicos. Uma das centradas na compreensão dos processos e referenciais

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Contemporaneidade e Experiências Anômalas: Dimensões Psicossociais de Vivências Culturalmente Limítrofes

culturais pelos quais as pessoas buscam explicar eventos sentimento de controle sobre a realidade, tais como fé,
e experiências de seu cotidiano. Os processos de atribui- orações, rituais diversos etc. Mesmo novos e estranhos
ção tendem a incidir sobre episódios em algo novos ou eventos podem ser abarcados, elaborados, preditos e/ou
atípicos, pois o conhecimento prévio não pode fornecer controlados dentro desses sistemas.
automaticamente explicações satisfatórias a respeito. As
pessoas agem então como “cientistas ingênuos”, buscan- Como exemplar no estudo específico das experiências
do nexos causais para as experiências de vida a partir de anômalas a partir da TAC, Machado (2010) averiguou re-
sua idiossincrasia e da cultura, o que inclui sistemas de lações entre experiências anômalas do tipo extrassensó-
crenças, atalhos mentais, valores, medos, expectativas, rio-motoras (i.e., alegadas “percepções extrassensoriais”
aprendizados e outras formas de cognição social (cf. am- e “psicocinesias”), bem-estar subjetivo, crenças e atitu-
pla revisão em Dela-Coleta & Dela-Coleta, 2006). des dos protagonistas. A autora discutiu o conjunto de
Embora seus objetos de estudo mais convencionais crenças associadas às experiências (e.g., crenças em vida
sejam os comportamentos pontuais da própria pessoa e os após a morte, paranormalidade, reencarnação, práticas
alheios, a TAC passou a ser usada posteriormente como alternativas) e suas relações com a visão maior de mun-
referencial para o estudo de temas diversos, dentre eles, do dos protagonistas, incluindo concepções religiosas e
experiências religiosas e anômalas. Ao proporem uma não religiosas, além do impacto da relação entre crenças
Teoria Geral da Atribuição, Spilka, Shaver e Kirkpatrick e experiências no cotidiano, incluindo atitudes e tomadas
(1985) sintetizam: de decisão, para as quais a atribuição de causalidade às
experiências desempenha papel decisivo. Isso porque o
1. As pessoas buscam explicar os eventos cotidianos sentido que os protagonistas deram às suas experiências
atribuindo-lhes causas. Como os eventos podem possuir afetou significativamente seu bem-estar subjetivo, toma-
causas diversas e mesmo incompatíveis, o atribuidor te- das de decisão e outras crenças.
rá de escolher entre elas ou hierarquizá-las. Em caso de Por seu turno, Zangari (2007) investigou experiências
um agente causal humano, as atribuições tendem a ser anômalas precognitivas (i.e., alegadas percepções para-
concentradas em características duradouras ou outras do normais de eventos futuros) entre médiuns de Umbanda.
agente, como tendências de personalidade, razões, inten- A partir da TAC, concluiu que as experiências inicialmen-
ções etc. As atribuições constituem, em parte, tentativas te consideradas anômalas encontraram na religião sua
individuais de encaixe de eventos em amplos sistemas de significação, de modo a depender das crenças religiosas
crenças e significado culturalmente disponíveis. prévias, em detrimento das características específicas das
2. O processo de atribuição seria motivado pelo desejo experiências. Assim, as alegadas aptidões precognitivas
de predição e controle, pela necessidade de perceber os tenderam a ser atribuídas aos espíritos e não a eventu-
eventos como significativos, pela necessidade ou desejo ais capacidades mentais dos médiuns ou a explicações
de se proteger física e psicologicamente, e/ou para man- mais prosaicas.
ter ou alimentar a autoestima. Dados os aspectos cognitivos amplos que regem as
3. Os processos de atribuição são iniciados diante de atribuições causais, a TAC possibilita a compreensão de
eventos que não podem ser automaticamente assimila- processos psicossociais pelos quais protagonistas de expe-
dos pelo sistema de crenças-significado do indivíduo, riências ufológicas concluem ter se deparado com aliení-
possuem implicações para o controle de consequências genas, em vez de optarem por explicações mais prosaicas,
futuras e/ou atingem a autoestima. culturalmente disponíveis, ou outras de ordem sobrena-
4. Iniciado o processo, as atribuições específicas ten- tural ou paranormal. Assim, torna-se possível investigar
dem a ser aquelas que melhor restaurem a coerência no relações entre processos intra e intersubjetivos que per-
sistema de crenças do atribuidor, favoreçam a autoestima mitem a manutenção e mesmo fortalecimento de experi-
e consolidem confiança em consequências futuras agra- ências, crenças e alegações extraordinárias socialmente
dáveis ou controláveis. marginalizadas.
Artigo - Relatos de Pesquisa

5. O grau de percepção de uma atribuição potencial


como satisfatória (com probabilidade, então, maior para
sua escolha) varia de acordo com características do atri- 1. Objetivo
buidor, o contexto no qual a atribuição é feita, as carac-
terísticas do evento que se tenta explicar e o contexto no Este estudo pretendeu investigar variáveis e proces-
qual o evento ocorre. Se os sistemas de crenças imedia- sos psicossociais e cognitivos que atuam na elaboração
tamente disponíveis não mantiverem a coerência em fa- subjetiva de experiências anômalas caracteristicamente
ce da experiência, outro sistema tenderá a ser buscado. contemporâneas (relativas a “óvnis” e “alienígenas”) e
6. Entre as possibilidades culturais, sistemas de con- permitem sua manutenção e crescimento mesmo diante
ceitos religiosos fornecem amplo conjunto de explica- da estigmatização cultural que seus protagonistas sofrem
ções significativas para eventos, assim como possibili- na macrocultura.
dades também amplas para fortalecer a autoestima e o

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Leonardo B. M.; Wellington Z. & Gabriel T. de M.

2. Metodologia experiências ufológicas, de modo a usar suas atribuições


sobre episódios do gênero como contraponto em relação
Utilizamos uma abordagem qualitativa, por meio de aos protagonistas.
entrevistas semiestruturadas. Como parte de um estudo O critério de inclusão no primeiro grupo (pessoas que
mais amplo que contemplou também outras variáveis alegam algum tipo de experiência ufológica) foi a existên-
não discutidas neste artigo, foram entrevistados 81 vo- cia de, ao menos, um relato de experiência ocorrida em
luntários brasileiros, recrutados em centros urbanos da vigília, independentemente de outras experiências em
região sudeste, por meio de amostra de conveniência. sonhos ou em estados alterados de consciência que elas
O número total de participantes foi delimitado por sua viessem a considerar como contatos com alienígenas.
disponibilidade durante o período de coleta de dados e Aqueles que relatavam experiências ufológicas apenas em
pela saturação de informações nas entrevistas. sonhos ou outros estados alterados, foram excluídos desta
A amostra total está dividida em dois grupos: o pri- pesquisa. Por sua vez, o critério de inclusão no segundo
meiro, composto de pessoas que alegaram algum tipo de grupo foi a negação explícita de qualquer tipo de experi-
experiência ufológica, variando de experiências breves ência subjetiva (em vigília ou não) que viessem a consi-
com supostos óvnis e/ou alienígenas (e.g., o aparecimento derar como contatos com alienígenas. Ambos os grupos
fugaz de uma luz estranha ou vulto) a contatos prolonga- foram compostos de pessoas adultas, de 24 a 60 anos, de
dos e amistosos com alienígenas ou abduções; e, o segun- ambos os sexos. A tabela a seguir apresenta alguns dados
do grupo, composto de pessoas que alegam não ter tido demográficos coletados.

Tabela 1: Frequências absolutas e relativas dos dados demográficos

GRUPOS   P (n/%) NP (n/%)


Sexo Masculino 20/43,5 15/42,9
Feminino 26/56,5 20/57,1
Idade (em anos) 18-23 – –
24-28 5/10,7 5/14,3
29-34 4/8,7 4/11,4
35-39 9/19,6 8/22,9
40-45 9/19,6 8/22,9
46-50 6/13 3/8,6
51-55 7/15,2 3/8,6
56-60 6/13,1 4/11,4
Escolaridade 2º grau 9/19,6 6/17,1
3º grau incompleto 2/4,4 2/5,7
3º grau completo 12/26 9/25,7
3º completo + pós-graduação 23/50 18/51,4
Profissão Ensino 3/6,5 8/22,9
Operação de fiação – 1/2,9
Bioquímica 1/2,2 –
Pedagogia 2/4,3 1/2,9
Cabeleireiro 1/2,2 –
Advocacia 2/4,3 3/8,6
Contabilidade – 2/5,7
Fisioterapia 1/2,2 1/2,9
Estatística – 1/2,9
Artigo - Relatos de Pesquisa

Engenharia 2/4,3 2/5,7


Eletrônica 1/2,2 1/2,9
História 1/2,2 1/2,9
Enfermagem 2/4,3 –
Terapia Holística 9/19,6 –
Administração 3/6,5 1/2,9
Medicina 1/2,2 –
Publicidade 1/2,2 1/2,9
Psicologia 1/2,2 1/2,9
Serviço público 3/6,5 3/8,6
Análise fiscal – 1/2,9
Produção cultural 1/2,2 –

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Contemporaneidade e Experiências Anômalas: Dimensões Psicossociais de Vivências Culturalmente Limítrofes

GRUPOS   P (n/%) NP (n/%)


Profissão Informal – 1/2,9
Odontologia 1/2,2 –
Geografia 1/2,2 –
Estudante 1/2,2 1/2,9
Psicopedagogia 1/2,2 –
Artes 3/6,5 –
Comércio 2/4,3 5/14,3
Ourivesaria 1/2,2 –
Antropologia 1/2,2 –
Crença religiosa Múltiplos referenciais 25/54,3 –
Católica 10/21,8 25/71,4
Evangélica – 1/2,9
Espírita 3/6,5 4/11,4
“Acredita em Deus” 4/8,7 2/5,7
Agnóstico 1/2,2 1/2,9
Cristão s/ maior especificação 1/2,2 1/2,9
Candomblé 1/2,2 –
Ateu 1/2,2 1/2,9
Escala de convicção subjetiva sobre a Convicção nula – –
realidade concreta da experiência ufológica Convicção muito baixa –
Convicção baixa – –
Convicção mediana 2/4,3 –
Convicção alta 1/2,2 –
Convicção muito alta 3/6,5 –
Convicção absoluta 39/84,8 –
Nenhuma das anteriores 1/2,2 –
TOTAL   46/100 35/100
LEGENDA: P - Grupo de protagonistas; NP - Grupo de não protagonistas.

Os participantes foram abordados em ambientes or- escolhida para o contato). No caso dos voluntários que
dinários, como comércio, locais públicos e uma “clínica não reportaram experiências ufológicas, arguiu-se sobre
holística”, e recrutados a partir de uma pergunta descriti- a que se deveriam tais episódios reportados por outras
va inicial, feita de modo casual: se a pessoa já havia visto pessoas, apresentados na mídia etc. Dada a ausência de
algo incomum no céu ou no solo. Conforme a resposta estudos brasileiros sobre variáveis psicossociais subjacen-
inicial e perguntas de refinamento subsequentes e igual- tes às experiências ufológicas, pretendeu-se implementar
mente descritivas, os voluntários em potencial forneciam um enfoque qualitativo-fenomenológico, que permitisse
elementos para o reconhecimento ou não do recorte ini- abordar em detalhe as entrevistas.
cialmente pretendido para este estudo, relacionado a ex- Assim, ao utilizar uma abordagem fenomenológica
periências ufológicas breves, abduções e contatos amis- por método de análise, o presente artigo busca descrever
tosos. Ou seja, tornava-se possível reconhecer candidatos a experiência vivida pelo sujeito como esta se apresenta a
potenciais para a inclusão no primeiro ou segundo grupos ele, de modo a focar-se nas interpretações oriundas da ex-
anteriormente citados. O primeiro autor, então, se apre- periência vivida (Martins & Bicudo, 1989). Portanto, leva
sentava enquanto pesquisador e o(a) convidava a parti- em consideração que o sujeito que vivencia a experiência
cipar do estudo mais amplo de onde foram derivados os possui uma construção de vida que a fundamentou (Sada-
Artigo - Relatos de Pesquisa

dados aqui apresentados. la, 2004). Esse ser-no-mundo se relaciona com o mundo
A pesquisa foi aprovada por comitê de ética e todos pré-dado, bem como com sua percepção de mundo e as
os voluntários assinaram um Termo de Consentimento percepções de outrem, de modo que não existam mun-
Livre e Esclarecido. As entrevistas, de duração livre, fo- dos distintos, mas uma composição entre tais aspectos,
ram gravadas em áudio, com duração média de uma ho- na construção do mundo fenomenal, por meio da rela-
ra e variação de vinte minutos a três horas. As perguntas ção com o mundo e com a intersubjetividade. Deste mo-
eram referentes aos detalhes das experiências (e.g., local, do, a fenomenologia de Merleau-Ponty pode ser entendi-
duração, descrição dos óvnis e alienígenas, sequência de da como uma filosofia mundana, pois parte do ponto de
eventos que compõem a narrativa) e as explicações para vista da encarnação corporal e intersubjetiva “em mútua
a ocorrência do episódio (e.g., o que seria a luz ou cria- constituição com o mundo, com a história, com a cultura”
tura, por que ela teria aparecido, por que a pessoa foi (Moreira, 2004, p. 455).

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Leonardo B. M.; Wellington Z. & Gabriel T. de M.

Utilizamos a análise de conteúdo, que permite emergir 3.1 Protagonistas


“núcleos de sentido” extraídos dos relatos dos participan-
tes, por meio de orações expressivas de um discurso em As descrições das experiências ufológicas a seguir
relação ao tema investigado e sua relação com as demais emergiram imbuídas de atribuições causais, tanto nos
entrevistas. As análises ocorreram ao longo de todo o es- termos usados quanto nos detalhamentos e justificativas.
tudo e foram divididas em diversas etapas. Primeiramen- Salvo quando expresso em contrário, os trechos citados
te, logo após a entrevista, eram feitos breves diários de de entrevistas não constituíram exceções, mas pontos de
campo, contendo as principais ideias apresentadas pelo vista comuns dentro das amostras, o que lhes confere um
entrevistado. A essas eram ainda acrescidas notas inten- caráter de representatividade. Assim, para não tornar a ex-
sivas acerca das percepções e sensações do entrevistado posição exaustiva, serão fornecidos apenas alguns exem-
sobre a entrevista, a relação entrevistador-entrevistado e plos de cada atribuição.
o conteúdo da entrevista. As entrevistas foram analisa- As experiências tenderam a ocorrer em estado vigil de
das inicialmente, relevando e listando todas as categorias consciência, à exceção dos contatos amistosos prolonga-
encontradas em cada entrevista (Moustakas, 1994). Essas dos, os quais muitas vezes ocorreriam em estados altera-
categorias foram arranjadas em grupos de unidades de dos de consciência que contemplam “experiências fora
sentido, os quais nortearam a análise das entrevistas (Go- do corpo”, sonhos, “canalização” (i.e., conteúdos mentais
mes, 2010) e permitiram observar como cada categoria se compreendidos pelos protagonistas como mensagens te-
relacionava à totalidade do discurso, a fim de distinguir as lepáticas enviadas pelos alienígenas), intuições, visuali-
categorias centrais das periféricas (Ryan & Bernard, 2003). zações em processos meditativos, entre outros recursos
Essa análise de associação de categorias permite verificar alternativos. Por sua vez, embora experiências de abdução
quais ideias são constantemente apresentadas em união, tendam a ser descritas como intrusivas, diferentemente
de modo a concorrer a um maior entendimento sobre as dos contatos amistosos, geralmente descritos como agra-
percepções e sentidos dados pelos entrevistados. Por fim, dáveis; em reiterados casos ambas experiências foram re-
terminada essa construção de categorias, eram feitas duas portadas pela mesma pessoa.
descrições sobre a entrevista, ressaltando os pontos consi- Um aspecto destacado na elaboração das experiên-
derados mais importantes, uma primeira descrição sobre cias é o pluralismo e mesmo o sincretismo dos sistemas
o que fora vivenciado como experiência ufológica e seus de crença utilizados, podendo ser reconhecidos referen-
efeitos posteriormente sentidos, e uma segunda descrição ciais científicos (e.g., noções sobre física e cosmologia),
sobre como tal fenômeno ocorreu e suas atribuições por religiosos (particularmente variações do cristianismo e de
parte de seus protagonistas. Ao fim das etapas supracita- religiões orientais) e de esoterismo contemporâneo, o que
das, um último escrito foi composto, de modo a incorpo- Magnani (1996) chama de neoesoterismo (e.g., “confede-
rar ambas as descrições, a fim de descrever a experiência ração cósmica”, resgate dos instintos). Assim, enquanto a
vivida por cada entrevistado (Creswell, 2012). Munido de origem extraterrestre das experiências foi quase unânime,
todas as descrições de experiências, os entrevistados fo- a definição dos termos “alienígena”, “extraterrestre” e seus
ram divididos, em cada bloco de resultados, a partir de sinônimos, além de suas motivações (expostas adiante)
suas similaridades e divergências, por meio de uma aná- combinam múltiplos referenciais.
lise nomotética, desvelando os invariantes do fenômeno
estudado e tematizando as convergências (Sadala, 2004)
que são interpretadas, então, à luz dos estudos a respei- 3.1.1 Alienígenas
to das experiências ufológicas. Divididos em subgrupos,
uma nova e mais aprofundada análise foi realizada a par- Os alienígenas responsáveis pelos óvnis são frequen-
tir das categorias destacadas. Devido à diversidade e sin- temente entendidos como entidades materiais, vindas de
gularidade dos entendimentos, essa análise se situou nas outros planetas a bordo de naves mecânicas. Uma bioquí-
nuances singulares apresentadas para um mesmo enten- mica belorizontina de 38 anos, sem religião específica,
Artigo - Relatos de Pesquisa

dimento, de modo a expor a similaridade sem, contudo, definiu os alienígenas que praticariam abduções como
abandonar o caráter sui generis de cada entendimento. “seres assim altamente evoluídos tecnologicamente... São
cientistas espaciais... Eles querem fazer experimentos com
a gente, igual a gente faz com camundongos”.
3. Resultados Para alguns entrevistados, a natureza dos alienígenas
seria essencialmente dual: material e imaterial. Exemplar-
Os resultados a seguir serão agrupados conforme os mente, um dentista mineiro de 31 anos, pós-graduado e
dois grupos centrais de participantes da pesquisa: prota- que se define como “espiritualista”, relata experiência
gonistas e não protagonistas de experiências ufológicas. ocorrida após um grave acidente automobilístico: “várias
Assim, as atribuições de causalidade dos dois grupos se- pessoas morreram nesse acidente, eu fiquei parado [no
rão inicialmente consideradas de forma distinta, propon- engarrafamento]... Saiu uma luz da montanha... começou
do-se o embate entre ambas na discussão dos resultados. lenta e entrou em uma velocidade muito alta e sumiu...

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 137-149, mai-ago, 2017 142
Contemporaneidade e Experiências Anômalas: Dimensões Psicossociais de Vivências Culturalmente Limítrofes

Com certeza, acho que [a nave] foi resgatar pessoas ali [a 4. Realidade e racionalidade
alma dos que morreram no acidente]”.
Recorrendo a termos reincidentes nos contextos in- Acerca da convicção dos protagonistas sobre a “rea-
vestigados, tais capacidades duais refletiriam a condição lidade objetiva” das experiências, virtualmente todos os
“evolutiva” (sic) dos alienígenas, entendida como o cres- entrevistados reportaram inicialmente buscar explicações
cimento espiritual obtido através de um longo histórico prosaicas e, a seguir, questionar sua própria confiabilida-
de encarnações, evidenciando o referencial espírita kar- de enquanto testemunha. Uma antropóloga de 41 anos,
decista. Justamente por sua elevada condição espiritu- com pós-graduação e sem religião definida, exemplifica:
al, algumas raças alienígenas estariam em contato com “A gente duvida, mesmo com todo o conhecimento [eso-
os protagonistas, para auxiliar na evolução espiritual da térico] que a gente está adquirindo... Eu me perguntava
“humanidade terrestre” (sic), o resgate de suas dimensões muito: ‘Será que é verdade? Será que eu vi?’”
intuitivas e sua futura participação em alguma forma de Apenas após esses dois momentos (que poderiam ser
“confederação cósmica” (sic). superados em poucos instantes ou após dias ou semanas
Como outro exemplo de referenciais esotéricos, di- de elaboração) viria a perdurável convicção sobre a rea-
versos protagonistas identificaram as entidades conta- lidade objetiva da experiência, ainda que altamente in-
tadas, especialmente nos episódios prolongados, com os sólita. E mesmo com tal convicção, tende a permanecer
mestres ascensos de Helena Blavatsky, que comporiam a uma postura em algo crítica diante do que, em última ins-
Grande Fraternidade Branca, tal como o fazem contata- tância, teria sido testemunhado e diante das experiências
dos em outros países (Melton, 1995). Assim também, em de terceiros. Uma auxiliar de enfermagem mineira de 45
uma clínica holística onde foram acessados alguns dos anos exemplifica: “É uma coisa diferente... eu acho que
protagonistas deste estudo, as práticas alternativas de [disco voador] é um nome, uma coisa estranha... eu não
cura propostas tinham associação à orientação direta de posso explicar... realmente eu não sei explicar, eu só sei
alienígenas, pertencentes ou subordinados ao conjunto falar o que eu vi”.
dos referidos mestres. Dentre os protagonistas com predileções esotéricas,
uma ambiguidade surge na referida busca pela pureza
primitiva, de modo que a “racionalidade” tendeu for-
3.1.2 Motivos para as experiências temente a ser considerada ruim ou contrária à evolu-
ção espiritual. Nos termos reincidentemente usados nos
Quanto aos motivos pelos quais os entrevistados te- contextos investigados, a postura ideal seria se “entregar,
riam protagonizado as experiências, é possível sintetizar sem resistência” (sic) à intuição e à crença. Uma psicó-
duas grandes tendências: (1) Casualidade e (2) Mérito dos loga belorizontina de 58 anos revela o conflito interno
protagonistas/escolha de forças superiores. Essa segunda diante de suas dúvidas sobre a experiência: “Embora eu
perspectiva está, em diversos casos, associada a referen- esteja querendo quebrar essa racionalidade e ficar mais
ciais religiosos e/ou esotéricos, de modo que os voluntá- no ceder e no sentir, eu ainda sou muito racional”. Nas
rios foram escolhidos para o contato pelos alienígenas palavras exatas ditas por vários membros dos grupos in-
ou mesmo por um plano divino ao qual os alienígenas vestigados, “é crer pra ver”.
também estariam subordinados. Assim, os protagonistas Entre os desdobramentos do exposto, eventos inter-
teriam trilhado um caminho de evolução espiritual para pretados na macrocultura enquanto usuais ou de pouca
se relacionarem com os alienígenas de modo favorável a importância tendem a ser vistos pelos protagonistas, es-
tais metas elevadas junto à humanidade. Com frequência, pecialmente os que relatam contatos amistosos prolonga-
contatados acabam reunindo grupos de pessoas que os to- dos, como alusivos a algo excepcional. Como exemplos,
mam como lideranças espirituais evoluídas. Um contata- círculos de uma luminosidade opaca em fotografias, pas-
do de 51 anos, ortopedista com pós-graduação e terapeuta síveis de explicação como reflexos do flash da câmera em
holístico, exemplifica: “As duas consciências [seus guias partículas suspensas de poeira e água, diversas vezes fo-
Artigo - Relatos de Pesquisa

extraterrestres] entendem cada vez mais se posso ou não ram considerados “provas” da presença de “seres sutis” ou
ser o porta-voz dessa verdade... Eles falaram: ‘vocês [ele “sondas extraterrestres” (sic) ao seu redor. Episódios que
e a esposa] serão uma frente mundial’”. usualmente seriam entendidos como sonhos e imagens
Em contrapartida, a casualidade tende a ser sugerida mentais simples foram considerados manifestações dos
por protagonistas afiliados a religiões tradicionais ou sem alienígenas amigáveis, entre copiosos exemplos.
grande preocupação religiosa ou esotérica. Um técnico As experiências de todos os tipos tenderam fortemente
em eletrônica mineiro de 44 anos, católico, apresenta es- a ser consideradas como construtivas, ampliando a visão
sa ideia de modo representativo: “Quem viu primeiro [o de mundo dos protagonistas e possibilitando uma ressig-
óvni] foi [diz o nome de um amigo]... Eu vi porque ele me nificação da vida em direção a valores humanitários e a
mostrou... todo mundo que saiu do cinema naquele dia, possibilidades metafísicas como a vida após a morte e
naquela sessão, viu”. outros planos de existência. Um abduzido fluminense de
49 anos, ourives, fornece exemplo recorrente:

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A gente, depois de ter essas experiências, pensa nessa Eu acho que existe. Pela descrição que eles falam, não
possibilidade do cosmos ser habitado, de vida além tem como não ser... Um ser mesmo de outro plane-
da Terra, que a gente é só um pontinho no univer- ta... Deve ser alguma coisa assim semelhante a nós,
so... Eu comecei a perceber que a gente tinha que mas que está para o outro lado, e com inteligência...
amar mais o planeta, amar mais o próximo... É um Pelo que descreveram de objetos assim, de estarem
planeta só. A gente tem que amar o planeta. É uma voando, de haver luzes e tal, é uma coisa assim que
humanidade só. foi desenvolvida, e pra desenvolver tem que ter in-
teligência.
Muitos entrevistados, especialmente quando organi-
zados enquanto grupo esotérico, relataram terem sido, Quando perguntados sobre o porquê de não terem
anteriormente, católicos, evangélicos, espíritas, candom- tido eles mesmos experiências ufológicas, as respostas
blecistas, umbandistas e/ou frequentadores de diversos oscilaram entre três tendências: (1) Casualidade e (2)
grupos, até que somente após encontrarem o grupo atual, Escolha dos alienígenas, entre os que acreditam na ori-
teriam se reconhecido satisfeitos. gem alienígena dos episódios, e (3) Não susceptibilida-
de, entre os que consideravam as experiências farsas ou
erros de interpretação de fenômenos conhecidos. Exem-
4.1 Atribuições na ausência de experiências: os não plificando, (1) “Uma vez eu estava na Serra do Cipó [na
protagonistas região metropolitana de Belo Horizonte]... Quando eu
acordei, o pessoal falou que tinha um objeto no céu...
As entrevistas com pessoas que alegam não ter histó- Então alguma coisa aconteceu, só que eu estava dor-
rico de experiências ufológicas forneceram contraponto mindo” (engenheiro católico mineiro, 51 anos). (2) “Tem
para as atribuições causais dos protagonistas. Tais atribui- pessoas que tem mais afinidade com o assunto ou com
ções dos não protagonistas, inclusive, coincidem com as ‘eles’ próprios [os alienígenas], e tem pessoas que ‘eles’
dos familiares e amigos dos protagonistas, conforme os já veem grossamente que não têm condições de manter
protagonistas reportaram. o contato” (professora aposentada mineira de 53 anos,
espírita). (3) “Eu não tenho esse pensamento aberto pa-
ra acreditar nisso... Para você acreditar nisso, você tem
4.2 As origens das experiências dos protagonistas que ter uma imaginação muito grande!” (fisioterapeuta
mineira de 49 anos, católica).
Duas grandes categorias emergiram na ausência de
experiências, incluindo meios-termos entre ambas. De
um lado, fenômenos conhecidos são elencados enquan- 4.3 Protagonistas e não protagonistas
to causas, como farsas, fantasias, insanidade e erros de
interpretação de eventos naturais ou artificiais humanos 4.3.1 Os papéis da ciência: validação e contraposição
(e.g., astros observados em condições incomuns, aviões,
balões, alucinações). Uma professora paulista agnóstica Os conceitos científicos que participam das atribui-
de 30 anos exemplifica: ções são tipicamente apresentados de modo simplifica-
do e apartados dos contextos teóricos que lhes conferem
Eu acredito que muitas vezes as pessoas podem se en- sentido no meio acadêmico. A ciência tende então a de-
ganar ou acreditar ter visto uma coisa que, na verda- sempenhar um papel ambíguo, ora evocada para validar
de, era outra coisa, ou imaginar ter visto alguma coisa, as experiências e crenças (e.g., “a física quântica explica
interpretar alguma situação que para elas foi real com tudo [os supostos feitos extraordinários dos alienígenas]”;
uma interpretação pessoal, baseados nas suas crenças “os astrônomos descobrem planetas novos todo dia” [pa-
e na cultura que elas vivem. ra justificar a pluralidade de vida no universo]), ora re-
Artigo - Relatos de Pesquisa

baixada, quando confronta seus sistemas de crença, ao


As reincidentes atribuições estigmatizantes surgiram sugerir explicações prosaicas para as experiências ou a
em termos como postos por uma comerciante mineira de pouca plausibilidade de muitas alegações (e.g., “a ciên-
39 anos: “Eu acho engraçado. Eu acho que é muita imagi- cia humana é muito limitada”; “os cientistas são muito
nação... ou está com algum problema precisando resolver arrogantes”).
[faz um gesto, sugerindo transtorno mental]”. Usualmen-
te, tais respostas foram proferidas entre risos e expressões
faciais contorcidas e jocosas. 5. Discussão
A segunda categoria encontrada baseava-se em defen-
der a origem alienígena das experiências, como o fez uma As entrevistas e relatos aqui sumarizados permitem
secretária escolar católica de 40 anos, mineira: diversas considerações. As experiências ufológicas, espe-
cialmente quando mais complexas, possuem um caráter

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Contemporaneidade e Experiências Anômalas: Dimensões Psicossociais de Vivências Culturalmente Limítrofes

afrontoso e mesmo caótico na macrocultura. Sua atipici- toda sorte de eventos sutis, incluindo outras formas de
dade as torna alvos para atribuições causais, pelas quais experiências anômalas professadas (alta consistência des-
protagonistas e seu meio social buscam conferir sentido, se comportamento).
controle e previsibilidade a tais eventos e à realidade como Ainda de acordo com o modelo de covariação (Kel-
um todo, de modo a diminuir a ambiguidade e a insegu- ley, 1967), a atribuição externa (e.g., arbitrariedade dos
rança, possibilitar inferências e fortalecer a autoimagem alienígenas) ocorre (ao se julgar os protagonistas) pelo
(Dela-Coleta & Dela-Coleta, 2006). As atribuições acabam equilíbrio das três fontes de informação, como quando
por desempenhar esse papel, pois eventos ambíguos, de se considera que qualquer pessoa que tivesse vivenciado
aparência extraordinária e potencialmente ansiogênica um contato reagiria de forma intensa e transformadora,
acabam por ser significados e harmonizados diante das ao mesmo tempo em que tal afetação não ocorrera antes,
expectativas, conhecimentos prévios, sistemas de crença, mas somente nesse contexto (consenso, distintividade e
memórias e valores das pessoas. consistência altos). Finalmente, o acaso enquanto atribui-
ção situacional ocorreria diante da consideração de baixa
consistência (e.g., os alienígenas estariam se manifestan-
5.1 O comportamento dos protagonistas do com grande frequência, mas o protagonista os notou
poucas vezes) e indefinição quanto às demais fontes (e.g.,
As atribuições causais internas, isto é, quando se atri- cada protagonista se comporta de um jeito; alguns acre-
bui o evento a disposições de personalidade e outras cen- ditam, outros não).
tradas na pessoa (Heider, 1958), se apresentam fortes en-
tre os protagonistas e na cultura geral, que, predominan-
temente, explicam as experiências ufológicas enquanto 5.2 O comportamento dos alienígenas
idiossincrasias dos primeiros (tanto ao não acreditar na
realidade “objetiva” das experiências quanto ao conside- Para aqueles que concluíram pela natureza extraor-
rá-los pessoas mais atentas ou “sintonizadas” – sic – com dinária dos óvnis, os comportamentos dos alienígenas
os alienígenas). Por sua vez, as atribuições causais exter- também passam a ser objeto de atribuições. Assim, os
nas, isto é, focadas no contexto onde estão os indivíduos alienígenas se apresentariam furtivos e escolheriam cada
(Heider, 1958), também ocorrem, como exemplificam as pessoa para contato devido a: (1) critérios que lhes são
citadas atribuições relativas à casualidade, nas quais as próprios ou que dominam, constituindo uma atribuição
experiências ocorreriam por acaso ou sorte. interna para os que consideram que os alienígenas de-
O modelo de covariação de Kelley (1967) permite re- veriam se revelar publicamente tal como, por exemplo,
finar a questão diante dos diferentes arranjos entre con- os europeus fizeram no período das grandes navegações
senso, distintividade e consistência. No modelo, as atri- (consenso baixo diante da possibilidade de se apresenta-
buições internas tendem a ser feitas quando o consenso rem abertamente), ao invés de permanecerem décadas ou
e a distintividade são baixos, enquanto é alta a consis- séculos agindo furtivamente (consistência alta do com-
tência. Assim, é comum que pessoas que não protagoni- portamento furtivo), a despeito do quanto as sociedades
zaram experiências ufológicas considerem a ampla dis- terrestres teriam mudado desde então, a ponto de já po-
seminação do tema óvni contrastante com o que pensam derem aceitar mais facilmente a revelação da presença
ser uma baixa proporção de relatos na cultura (ou seja, alienígena (distintividade baixa em relação às diferentes
haveria um baixo consenso), além de entenderem que os circunstâncias em que a furtividade faria ou não sentido
protagonistas são pessoas usualmente estranhas, muitas em ser mantida).
vezes apenas por professarem as experiências (baixa dis- Por sua vez, (2) outros consideram que os alienígenas
tintividade, pois tais experiências ufológicas não seriam não se apresentam abertamente e seguem com discrição
distintas de outras idiossincrasias dessas pessoas) e se seus planos por razões externas a eles, como a condição
interessar sempre pelo assunto (alta consistência em seu “pouco evoluída” (sic) da humanidade. Assim, coerente
Artigo - Relatos de Pesquisa

comportamento diante do tema). com referenciais esotérico-ufológicos com os quais esta-


Raciocínio semelhante, tanto entre protagonistas beleceriam relações dialéticas, tais atribuições externas
quanto para não protagonistas dessas experiências, po- tendem a pregar que todas as civilizações alienígenas
deria abarcar os casos em que o mérito dos primeiros é aqui presentes têm conosco semelhante cuidado e dis-
considerado diante do fenômeno tido como real, pois os tanciamento (consenso alto), agindo assim por décadas
protagonistas estariam mais sintonizados ou evoluídos ou séculos (consistência alta), ao contrário de como eles
que as demais pessoas (baixo consenso na população so- devem agir em relação a outras civilizações ou entre eles
bre como se comportar diante dos alienígenas), seriam próprios (distintividade alta diante da especificidade da
pessoas especialmente benevolentes e evoluídas em di- humanidade em comparação a outras civilizações).
versas situações (baixa distintividade entre manifesta- Por fim, (3) em sintonia com Marçolla e Mahfoud
ções sugestivas de sua “evolução” diante de diversos do- (2002), algumas atribuições situam as experiências ufo-
mínios da vida) e enxergariam a presença alienígena em lógicas no campo do mistério insondável, de modo a

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Leonardo B. M.; Wellington Z. & Gabriel T. de M.

faltarem palavras e explicações refinadas por parte dos Pela pluralidade de referenciais culturais, a realidade
atribuidores. Assim, desenha-se uma atribuição situacio- maior sinalizada pelas experiências passa a harmonizar
nal, diante da aparente ausência de padrões claros nas ex- alienígenas, espíritos, aptidões humanas excepcionais e
periências (consistência baixa) e ausência de convicções toda sorte de realidades sutis a facilitar o questionamento
razoáveis sobre os demais parâmetros. de valores e crenças convencionais da cultura mais am-
pla. As sete características apontadas por Saliba (1995,
p. 41-48) para aproximar as experiências ufológicas do
5.3 Experiência e cultura campo religioso se evidenciam presentes nas atribuições:
os alienígenas tendem a ser misteriosos, transcenden-
A pluralidade de referenciais a partir dos quais os pro- tes, sobrenaturais, perfeitos, salvadores, redefinidores
tagonistas elaboram as experiências e sua história de vida da visão de mundo e fomentadores de evolução espiri-
estabelecem outra conexão com experiências ufológicas tual. Por sua vez, referenciais esotéricos e religiosos tra-
em outros países. Balch (1995) utiliza o termo “homem dicionalmente assentados na Terra e em uma dimensão
proteano” (protean man) para compreender um famoso sobrenatural um tanto distante têm seus domínios mul-
grupo de contatados norte-americano. O adjetivo proteano tiplicados ao incluir, de modo aparentemente concreto
alude ao deus grego Proteus, capaz de mudar de forma. e visualizável pela ciência (ou por representações des-
Assim, o “homem proteano” experimentaria fraca ade- ta), bilhões de galáxias, com bilhões de planetas cada,
são e constante fluxo entre diferentes referenciais e gru- dimensões paralelas e épocas distantes entre os quais
pos. Tal como os contatados estudados por Balch, vários se poderia viajar. Ao mesmo tempo, a ciência acaba co-
protagonistas deste estudo reportaram longo histórico de mo representante do que há de mais terreno e limitado,
busca pessoal por um sistema de crenças-significado que quando defende o ceticismo e levanta ressalvas quanto
julgassem satisfatório. Contudo, é importante ressalvar às alegações ufológicas.
que o contexto brasileiro, por sua pluralidade cultural e Tal relação entre referenciais e experiências não pa-
seu sincretismo particularmente rico, favorece a experi- rece uma relação vertical daquelas em relação a estas,
mentação de referenciais diversos, o que problematiza a mas de mútua influência, pois tanto as experiências são
pronta aplicação do conceito de “homem proteano” para traduzidas pelos crivos interpretativos historicamente
sinalizar, como pretende originalmente o conceito, uma datados, quanto validam, ampliam, inspiram e trans-
característica individual dos contatados. O vetor cultu- formam esses crivos. As noções científicas, esotéricas
ral justifica, ao menos em ampla medida, o trânsito ativo e religiosas encontram nas experiências exemplos con-
entre diferentes referenciais. firmadores e ampliadores, ao retratar a pluralidade de
Como sugerido por Lewis (1995) sobre os contatados, vida no universo, possibilidades tecnológicas de naves
os referenciais utilizados pelos protagonistas para elaborar espaciais, interfaces entre consciência e matéria, capa-
as experiências parecem refletir arraigados valores pesso- cidades paranormais de alienígenas e seus contatados
ais e culturais. Desse modo, ciência, religiões tradicionais terrestres, além de profecias apocalípticas e de salvação
e temas da Nova Era constituem referenciais destacados da alma. Em contrapartida, as experiências são consoli-
no cenário contemporâneo, ainda mais quando combina- dadas e ampliadas graças aos referenciais, de modo que
dos das mais diversas formas. O grau de uso desses refe- luzes não identificadas são descritas e lembradas como
renciais pode ser superficial ou profundo, a depender do naves espaciais pilotadas por inteligências complexas e
contexto, dos conhecimentos e disposições dos protago- que não raro possuem nomes e histórico pessoal, sonhos
nistas e do feitio das experiências. ambíguos se tornam contatos frontais com alienígenas,
Portanto, enquanto a esfera cultural maior oscila en- episódios de vida aparentemente anômalos ganham sig-
tre considerar os protagonistas como mentirosos, iludi- nificado robusto, atribulações pessoais se tornam prova-
dos, transtornados, sortudos (“estavam no lugar e hora ções preparatórias para os contatos, entre outras tantas
certos”, sic), azarados (“lugar e hora errados”, sic, como possibilidades. Assim, afigurar-se-ia uma relação dialé-
Artigo - Relatos de Pesquisa

no caso de penosas abduções) ou escolhidos por critérios tica de progressiva complexidade entre as experiências
misteriosos, eles próprios acabam por ora compartilhar e os referenciais que permitiria episódios e sistemas de
desses referenciais (como quando questionam a própria crença progressivamente destoantes dos referenciais
sanidade ou consideram a experiência fruto do acaso ou culturais partilhados pela maioria, mas muito significa-
de arbitrariedade dos alienígenas), ora por se reconhe- tivos psicologicamente, o que favorece sua persistência
cerem, egossintonicamente, enquanto parte ativa de um e fortalecimento. Mesmo a estigmatização cultural pas-
plano maior. Tende a incluir-se aqui a construção de um saria então a alimentar o sistema de crenças-significado
autoconceito totalizador, que resgata passagens obscuras e os episódios, pois atuaria como evidência adicional da
da história de vida e as integra positivamente enquanto grandeza das experiências, em contraste ao mundanis-
expiação e preparação para um destino maior (e.g., abu- mo depreciado por se associar a ceticismo, descrença
sos sofridos na infância constituindo preparação espiri- e limitações humanas em geral. Ao discutirem relatos
tual para os contatos). sobre luzes estranhas no município mineiro de Caeté,

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Contemporaneidade e Experiências Anômalas: Dimensões Psicossociais de Vivências Culturalmente Limítrofes

Marçolla e Mahfoud (2002) encontram semelhante fenô- Isso também remete ao modelo de Spilka et al (1985),
meno na relação complementar entre memórias indivi- de modo que as atribuições religiosas inicialmente dispo-
dual e coletiva, de modo que a primeira resgata e presen- níveis aos protagonistas teriam sido checadas e confron-
tifica a tradição, enquanto a segunda valida a primeira e tadas, quando então seriam consideradas insuficientes,
preenche suas lacunas. ao menos sozinhas, dando início à busca por diversos re-
Ainda quanto à relação experiência-cultura, seria na- ferenciais congruentes com suas experiências anômalas.
tural que experiências anômalas, independentemente Possivelmente, é nessa lacuna de suporte da macrocultura
de sua origem, fossem descritas em termos com que os que emerge o papel organizador psicológico de microcul-
protagonistas pudessem lidar, sem que houvesse, neces- turas descobertas após laboriosa jornada de buscas, decep-
sariamente, uma correspondência literal entre descrição ções e trocas. Ao que as entrevistas fartamente apontam,
e experiência original. Assim, a expressão “é como se” e apenas a mescla de referenciais exercida nesses grupos
semelhantes surgiram frequentemente nos relatos, suge- permitiram o exercício satisfatório das funções das atri-
rindo que as analogias não são exatas e que, mesmo com buições causais, entre as quais fortalecer a autoestima e
o uso de referenciais culturais e somado às ausências de conferir sentido e controle aos eventos.
atribuições, um grau de estranheza permanece.
Paiva (2007) evoca o conceito de contraintuições para
tratar da aptidão universal da espécie humana para reco- Considerações finais
nhecer a pretensa violação de princípios naturais como
permanência do objeto, gravidade e outras noções que As experiências ufológicas mantêm sua conotação exó-
nas etapas iniciais do desenvolvimento do organismo se tica tanto entre protagonistas quanto na macrocultura, o
tornam naturalizadas. Nos campos de tensão entre intui- que mobiliza o complexo processo cognitivo social das
ções e contraintuições, somados à tendência natural em atribuições de causalidade. Enquanto os não protagonis-
atribuir agentes causais, emergiriam as crenças e experi- tas, predominantemente, realizam atribuições internas
ências religiosas. Assim, mecanismos inatos favoráveis à para as experiências dos protagonistas, o que possui uma
emergência de experiências religiosas (e potencialmente dimensão estigmatizante, estes reagem à falta de ampa-
de experiências anômalas) encontrariam, na cultura, vias ro da cultura maior e buscam sentido, controle e manu-
para sua elaboração, através da atribuição de agentes cau- tenção da autoestima em sistemas de crença-significado
sais e situados entre o mundo material e o sutil, como, tipicamente contemporâneos, mas pouco conhecidos na
neste caso, seriam os alienígenas. Isso remete novamen- macrocultura, tanto que sua busca é laboriosa.
te à discussão de Marçolla e Mahfoud (2002) sobre luzes A complexidade das experiências ufológicas, enquanto
anômalas relatadas em Caeté, para os quais a dimensão fenômeno cultural, demanda novos estudos. Assim, os di-
do sagrado fornece à razão contexto para reconhecer plau- ferentes arranjos entre experiências e sistemas de crença-
sibilidade nas experiências. -significado podem ser explorados, inclusive em contextos
Dada a complexidade psicossocial das crenças e expe- distintos dos abordados neste artigo (e.g., meios rurais), e
riências ufológicas, reduzi-las à insanidade, falta de bom pelo uso de métodos quantitativos e qualitativos. Somen-
senso e atribuições afins parece exemplificar o que Ross te uma articulação entre diferentes métodos e achados
(1977) chamou de erro fundamental de atribuição, que provenientes de diferentes contextos pode responder, em
significa ignorar variáveis contextuais e executar, de mo- profundidade, ao enigma representado por experiências
do simplista, uma atribuição interna para um comporta- anômalas tipicamente contemporâneas.
mento, como relatar uma experiência ufológica.
Tal ampla estigmatização social dos protagonistas,
expressa desde a jocosidade levemente desconfortável Referências
até a patologização literal, fornece elementos iniciais fa-
voráveis à hipótese da pouca adequação cultural das ex- Almeida, A. M. & Lotufo Neto, F. (2003). Diretrizes metodoló-
gicas para investigar estados alterados de consciência e ex-
Artigo - Relatos de Pesquisa

periências, que tende a ser revertida apenas no seio de


periências anômalas. Revista de Psiquiatria Clínica, 30(1),
grupos específicos e menores, como grupos de contata-
121-128.
dos e abduzidos, clínicas holísticas, grupos esotéricos e
a “comunidade ufológica” (sic), que existe virtualmente Appelle, S., Lynn, S. J. & Newman, L. (2000). Alien abduction
sem a necessidade de convívio direto entre os interessa- experiences. Em E. Cardeña, S. J. Lynn & S. Krippner (Eds.).
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então no contexto pela busca de conforto psicológico e evidence (p. 253-282). Washington, DC: American Psycho-
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autoestima, o que entrevistados reportaram não encontrar
em seus antigos sistemas de crença e grupos, quando não Bullard, T. E. (1989). UFO abduction reports: the supernatural
somente se angustiariam pela falta de coerência entre os kidnap narrative returns in technological guise. Journal of
referenciais e as experiências, mas sofreriam estigmati- American Folklore, 102(404), 147-170.
zação no seio dos grupos afins.

147 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 137-149, mai-ago, 2017
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Leonardo Breno Martins - Possui Graduação em Psicologia pela Uni-
Artigo - Relatos de Pesquisa

Marçolla, B. & Mahfoud, M. (2002). A luz verde do Morro Ver- versidade Federal de Minas Gerais, Mestrado e Doutorado em Psicologia
Social pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisador de Pós-Dou-
melho: a elaboração da experiência do sobrenatural em uma
torado no Instituto de Psicologia da USP com financiamento da FAPESP
tradicional comunidade mineira. Psicologia em Revista, Belo
(processo n° 2015/20112-3), pesquisador do Laboratório de Psicologia
Horizonte, 8(12), 83-94. Anomalística e Processos Psicossociais (Inter Psi) e do Laboratório de
Psicologia Social da Religião (LabPsiRel), ambos da USP. Coordenador
Martins, J. & Bicudo, M. A. (1989). A pesquisa qualitativa em do Grupo de Estudos Interdisciplinares da Percepção e da Arte Mágica
psicologia: fundamentos e recursos básicos. São Paulo: (IlusoriaMente), vinculado ao Inter Psi-USP. Endereço profissional: In-
Moraes. ter Psi - Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicosso-
ciais. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo. Av. Professor
Martins, L. B. & Zangari, W. (2012). Relações entre experiên- Mello de Morais, 1721, Bloco A, sala 111, Cidade Universitária USP,
cias anômalas tipicamente contemporâneas, transtornos CEP 05508030, São Paulo, SP. E-mail: leobremartins@usp.br
mentais e experiências espirituais. Revista de Psiquiatria
Clínica, 39, 198-202.

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 137-149, mai-ago, 2017 148
Contemporaneidade e Experiências Anômalas: Dimensões Psicossociais de Vivências Culturalmente Limítrofes

Gabriel Teixeira de Medeiros - Doutorando em Psicologia Social pe-


la Universidade de São Paulo (USP). Possui Graduação em Psicologia
pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Mestrado em Ci-
ências Interdisciplinares da Saúde pela UNIFESP. Membro do Grupo
de Pesquisa CNPq UNIFESP-USP: Corpo e Alma do Sujeito da Saúde
(CASUSA), Membro do Laboratório de Pesquisa Social e do Grupo de
Pesquisa - CNPq UNIFESP-UFSCar: Corpo, cognição e experiência nas
ciências da mente, e membro do INTER PSI - Laboratório de Psicologia
Anomalística e Processos Psicossociais (USP). Endereço profissional:
Inter Psi - Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicos-
sociais. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo. Av. Profes-
sor Mello de Morais, 1721, Bloco A, sala 111, Cidade Universitária USP,
CEP 05508030, São Paulo, SP. E-mail: gabriel_tmedeiros@yahoo.com

Wellington Zangari - Graduado em Psicologia pela Universidade Paulis-


ta, Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católi-
ca de São Paulo, Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São
Paulo e Pós-Doutorado em Psicologia Social pela USP, com estágio na
Division of Personality Studies - University of Virginia. Professor do Depar-
tamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da
USP; Vice-Coordenador do Laboratório de Psicologia Social da Religião
e Coordenador do INTER PSI - Laboratório de Psicologia Anomalística e
Processos Psicossociais, ambos ligados ao Departamento de Psicologia
Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São
Paulo. Atua como membro da Comissão de Orientação e Fiscalização
do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. É membro do Grupo
de Trabalho “Diversidade Epistemológica Não-hegemônica em Psicolo-
gia, Laicidade e Diálogo com Saberes Tradicionais (DIVERPSI)”, aloca-
do no Núcleo de Métodos e Práticas Psicológicas do Conselho Regional
de Psicologia de São Paulo. Endereço profissional: Inter Psi - Laborató-
rio de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais. Instituto de
Psicologia, Universidade de São Paulo. Av. Professor Mello de Morais,
1721, Bloco A, sala 111, Cidade Universitária USP, CEP 05508030, São
Paulo, SP. E-mail: w.z@usp.br

Recebido em 04.11.2016
Primeira Decisão Editorial em 24.12.2016
Aceito em 20.01.2017

Artigo - Relatos de Pesquisa

149 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 137-149, mai-ago, 2017
Roberto N. de S. & Sheila C. da S.

Liberdade: Limites e Possibilidades de uma


Experiência da Clínica Psicológica no Complexo da Maré

Freedom: Limits and Possibilities of Experience Psychological Clinic in Complexo da Maré

Libertad: Límites y Posibilidades de Experiencia Clínica Psicológica en Complexo da Maré

Roberto Novaes de Sá
Sheila Corrêa da Silva

Resumo: O trabalho pretende discutir a questão da liberdade enquanto abertura de sentido da existência, diante de limites e
possibilidades para aqueles que chegam à clínica em uma comunidade, onde condições factuais de extrema violência e restrição
vêm compor um horizonte de sentido. Dialogando com pensadores da chamada filosofia existencial, buscaremos pensar através
da clínica, como a questão da liberdade se desvela, pois compreendemos que, cotidianamente, somos atravessados por tradições,
costumes e referenciais de uma época. O mundo atual com a instauração da era técnica acarreta contínuos impactos aos modos
de cuidado da clínica psicológica. Nossa relação com o mundo se dá em jogo lançados em um contexto impessoal que de início
nos encontramos. Portanto, as narrativas compartilhadas na clínica proporcionam um olhar mais atento para as especificidades
da experiência junto ao Complexo da Maré na cidade do Rio Janeiro. Ao propormos a questão da liberdade, apostamos na potência
de reinvenção da existência, portanto, do fazer da clínica.
Palavras-chaves: Liberdade; Clínica psicológica; Complexo da Maré.

Abstract: The present work intends to discuss the issue of liberty while opening of the meaning of existence, before limits and
possibilities for those who arrive at the clinic in a community of the Maré Complex in Rio de Janeiro city; - where factual con-
ditions of extreme violence and restriction, as to comprise a sense horizon. Dialoguing with thinkers of the so- called existential
philosophy, we will seek to think through de clinic, how the question of liberty reveals itself, because we understand that, daily,
were crossed by traditions, customs, and references of an era. The present world whith the establishment of the technical era,
entail continuous impacts to de modes of care of the psychological clinic. Our relationship with the world, comes into play in an
impersonal context which we first met. Therefore, the shared narratives in the clinic, provides a closer look at the specificities
of the experience next to the community. When we propose the question of liberty, we bet on the power of reinventing the exis-
tence; therefore, to the making of the clinic.
Keywords: Liberty; Clinical psychology; Complexo da Maré.

Resumen: El presente trabajo pretende analizar la cuestión de la libertad durante la apertura de sentido de la existencia, frente
a los límites y posibilidades para aquellos que vienen a la clínica em una comunidad donde vienen las condiciones fácticas de
violencia extrema y restricción compuesto por um horizonte de sentido. Al dialogar com pensadores de la filosofía existencial,
buscamos pensar a através de la clínica, ya que la cuestión de la libertad se revela, porque entendemos que todo el cotidiano és
atravesado por las tradiciones, las costumbres y las referencias a la vez. El mundo actual con la introducción de la técnica traz im-
pactos continuos para los modos del cuydado de la psicología clínica. Nuestra relación con el mundo se produce en um juego y
en un contexto impersonal que inicialmente se reunió. Por lo tanto, al compartir las narrativas de la experiencia del hacer clínico
se proporciona una mirada más atenta a los detalhes de la experiencia con el Complexo da Maré, en Rio de Janeiro. Al proponer
el tema de la libertad, apostamos por el poder de la reinvención de la existencia, por lo tanto, de hacer la clínica.
Palabras Clave: Libertad; Clínica psicológica; Complexo da Maré.
Artigo - Relatos de Pesquisa

Introdução além das queixas objetivas a seu âmbito. Buscando ins-


pirações em Martin Heidegger para melhor compreender
Partindo da interlocução da clínica psicológica com a o homem e os fenômenos presentes á comunidade atra-
chamada filosofia existencial, refletimos que o dispositi- vés das narrativas daqueles que acreditaram na clínica e
vo clínico ao se utilizar de múltiplas abordagens teóricas compartilharam suas histórias, solicitando ao dispositivo
não se firma em um campo coeso, sendo a clínica ainda a uma reflexão mais ampla.
mais ampla do que poderia supor sua concepção formal. Nesse sentido, constatamos que tudo que diz respeito
Através de uma experiência da clínica psicológica situa- à existência humana não tem como garantir determinação
da no Complexo da Maré na cidade do Rio de Janeiro, fo- diante da imprevisibilidade que pode ocorrer no jogo das
mos beneficiados com uma possibilidade da clínica para relações humanas. Entendemos que o psicólogo, jamais

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Liberdade: Limites e Possibilidades de uma Experiência da Clínica Psicológica no Complexo da Maré

encontrará recurso suficiente nas teorias que garantam liberdade pela qual pode vir à luz o ser dos entes que se
absoluta eficiência a seu modo de cuidado. dão ao seu encontro. Designado o homem como pastor
Herdeiro do cientificismo, portanto, o homem contem- do ser, Heidegger nos fala que o ente humano em sua es-
porâneo vem sendo sujeitado a um discurso técnico que sência é cuidado, como ser-no-mundo não se encerra em
cada vez restringe mais sua liberdade, ou seja, a aposta si mesmo, ou seja, em uma interioridade psíquica, em jo-
estaria em afirmar que tudo que existe teria uma causa go, em um contexto relacional é ser-com. O homem como
ou uma razão de ser. No entanto, para considerarmos a ser-no-mundo-com-os-outros possibilita o desvelamento
determinação do homem devemos ainda, acolher a aber- do sentido dos entes que lhe vêm ao encontro.
tura de sentido da existência humana, logo, sua liberdade. Segundo Sá (2009), a experiência clínica inspirada em
Pela clínica fomos convidados a exercitar nossa liber- Heidegger, encontraria sua motivação essencial na busca
dade pontuada por nosso horizonte histórico, pois com- da ampliação da liberdade do homem, que pressupõe uma
preendemos que da técnica não temos como escapar. compreensão mais próxima à noção de existência propos-
Apostamos que seja necessário a cada vez, iluminar nosso ta pelo filosofo contrapondo-se, portanto, as objetivações
caminho recorrendo à noção de humano que guardamos. causais e determinísticas.
Em Heidegger, compreendemos que o ente humano, ou Nesse sentido, contrapondo-se a noção de determinis-
seja, o ser-aí (Dasein)1 é um ser-no-mundo-com-o-outro. mo, a liberdade entra em cena como estrutura originária ao
Tal compreensão é importante, pois ofereceu recursos modo de ser do homem que no vir a ser de sua existência
reflexivos para a experiência da clínica que tivemos no amplia sua possibilidade de decisão2 diante da herança
Complexo da Maré. cientificista. Deste modo, mesmo admitindo que forças
Em sua principal obra Ser e Tempo de 1927, Martin causais existam, a noção de liberdade estaria próxima a
Heidegger se propõe reapresentar a questão sobre o senti- uma esfera em que se dá a abertura de sentido do homem:
do do ser que será abordado a partir do fenômeno da lin-
guagem. Para o filósofo, a linguagem é a própria aparição O determinismo nega a liberdade, e se ele a nega, ele
do ser em seus diferentes modos de manifestação, autên- deve ter uma determinada representação de liberda-
tico e inautêntico, o traduz nas relações que o homem es- de. Na representação da ciência natural, a liberda-
tabelecerá com as coisas, com os outros e consigo mesmo, de foi sempre apenas um acontecimento não-causal,
ou seja, o modo de ser cotidiano mais comum do homem. a-causal. Por isso, o determinismo encontra-se, a prio-
A existência é marcada, de inicio e na maior parte das ri, fora da liberdade. Liberdade nada tem a ver com
vezes, pela indiferença mediana e o impessoal, tenden- causalidade. A liberdade é ser-livre-e-aberto para uma
do a fugir de si o homem esquece sua propriedade e se
solicitação. Então esta solicitação é o motivo. Não tem
relaciona como algo simplesmente dado, caracterizando
absolutamente nada a ver com cadeias causais. A so-
a maneira inautêntica com que se encontra no mundo,
licitação é o motivo para o corresponder do homem.
revelando-se de inicio ao modo do impessoal. Para Heide-
O estar-aberto para uma solicitação está fora da dimen-
gger a concepção de homem enquanto sujeito configura
são de produção causal. Por isso, o determinismo nem
apenas uma das possibilidades históricas de realização da
alcança o âmbito da liberdade, nada podendo dizer a
experiência do sentido de si-mesmo não determinando sua
respeito. Por isso, em relação à liberdade, é indiferen-
estrutura ontológica, logo, seu modo de ser mais próprio.
te se conhecemos toda ou nenhuma ou algumas das
Heidegger ao apresentar em Ser e Tempo (1927) o mo-
causas de uma coisa. (Heidegger, 2001, p. 230)
do de ser cotidiano mais comum do ser-aí, aponta a radical
diferença entres os entes que possuem o modo de ser do
Uma perspectiva baseada apenas em determinismos já
homem e os demais entes. Nesta perspectiva, o homem
não é suficiente, uma vez que a liberdade não se caracte-
não possui uma essência a priori determinada, mas seu
riza tão somente como um dom ou uma dádiva, mas an-
ser encontra-se sempre em jogo. Para o filosofo a questão
tes de tudo como uma tarefa que se realiza na história do
não se trata apenas em diferenciar o modo de existir do
homem que a exerce diante de seu limite e possibilidade.
homem em relação aos demais entes apontando caracte-
Artigo - Relatos de Pesquisa

Nesse sentido, buscamos corresponder à solicitação que


rísticas essenciais como o pensamento e a linguagem. Para
nos fez a Maré pela clínica que buscou exercitar a noção
o filosofo, não é suficiente para a compreensão do homem
de humano em Heidegger, logo, compreender a diferen-
a realização de distinções entre uma res extensa e uma res
ça fundamental do ser-aí e dos demais entes no mundo.
cogitans. Para a filosofia da existência, o ser do homem
Estruturalmente, o homem é vir a ser (Ek-sistere), por-
não é res alguma não sendo possibilidade objetivações de
tanto, constrói seus modos de existir no acontecer da vida
um sujeito. “O homem é o pastor do ser” (Heidegger, 2005,
estando sua história sempre a caminho não chegando ao
p. 34), ente privilegiado, é a própria abertura de sentido,
lugar em que todos os demais entes já estão, pois todos
“Presença não é sinônimo nem de homem, nem de ser humano, nem
1

de humanidade, embora conserve uma relação estrutural. Evoca o A palavra decisão é empregada aqui no sentido Heideggeriano tal
2

processo de constituição ontológica de homem, ser humano e hu- como em Ser e Tempo (2008, p. 579), designando um movimento
manidade. É na presença que o homem constrói o seu modo de ser, em um sentido de destrancar e abrir, assim uma das modalidades do
a sua existência, a sua história, etc.” (Heidegger, 2008, 561). homem é o destrancar-se e o abrir-se para.

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Roberto N. de S. & Sheila C. da S.

são e o homem existe! Deste modo, a meta científica que Presença não é sinônimo nem de homem, nem de ser
visa assegurar ao homem “previsibilidade”, não seria ca- humano, nem de humanidade, embora conserve uma
paz de garantir segurança ontológica, pois o homem é na relação estrutural. Evoca o processo de constituição
medida em que vive. ontológica de homem, ser humano e humanidade.
É na presença que o homem constrói o seu modo de
ser, a sua existência, a sua história, etc. (Heidegger,
1. Metodologia 2008, p. 561)

O comunicado conta com relatos de uma experiência Desta maneira, acreditamos ter rompido com certo
da clínica psicológica realizada nos anos de 2006 a 2011, discurso determinista e excludente ao realizamos a ex-
que atendeu alguns moradores do Complexo da Maré na periência junto à clínica de modo mais livre frente às es-
cidade do Rio de Janeiro. O inicio da experiência clínica pecificidades do território. Nossa atenção esteve voltada,
se deu pelo voluntariado em instalações da igreja católi- como já mencionamos, para além das queixas objetivas ao
ca local e buscou exercitar uma atitude clínica mais livre âmbito da clínica e, em Heidegger, encontramos inspira-
por conta dos diálogos também iniciados na ocasião com ções para melhor compreender os fenômenos presentes
a chamada filosofia existencial. ao território e dialogar com a comunidade pela clínica.
A escolha do Complexo da Maré para o exercício da Desta maneira, não ignoramos os horizontes históri-
clínica não se deu de modo aleatório, mas foi inspirada cos e sociais mais abrangentes de nossa época, como a
pelos anos anteriores a experiência clínica quando a pes- opressão ali imposta, que restringia e desafiava a existên-
quisadora ainda morava na comunidade com a família. cia situada em níveis radicais de realização, mas busca-
A experiência anterior, nesse sentido, foi a condição de mos privilegiar as estruturas de sentido mais próximas e
possibilidade que motivou o retorno ao território para a imediatas daqueles que habitavam naquele momento a
realização da clínica e seu exercício correspondeu a apos- comunidade e a clínica.
ta feita a noção de liberdade enquanto possibilidade de Apostamos no método fenomenológico hermenêuti-
abertura de sentido diante de vários modos de violência co recorrendo a autores como Ana Maria Feijoo e Roberto
percebidos no território. O dispositivo clínico já havia Novaes de Sá, que compreenderam que o método facili-
iniciado suas atividades quando a experiência demandou ta o acesso as questões objetivas à clínica. Pelo método
uma maior reflexão e, assim buscamos melhor compreen- fenomenológico nos foi possível compreender o sentido
dê-la através da pesquisa de mestrado de onde extraímos da experiência de cinco participantes que contribuíram
os relatos apresentados no presente comunicado. Assim, com a pesquisa durante o tempo que permaneceram em
através da experiência anterior, bem como através de cinco atendimento na clinica junto a Maré. Como a atividade da
historias confiadas à clínica, fomos capazes de resignifi- clínica foi anterior à pesquisa de mestrado, os participan-
car nossa experiência e com mais cuidado voltar a olhar tes selecionados acolheram o convite para participarem
para as especificidades da comunidade. da pesquisa que buscava refletir a questão da liberdade.
Nossa atenção esteve voltada para além das queixas Após assegurarmos nomes fictícios a fim de evitar quebra
objetivas ao âmbito da clínica e buscou em Heidegger de sigilo, todos leram e assinaram o Termo de Consenti-
inspirações para melhor compreender os fenômenos pre- mento Livre e Esclarecido.
sentes a comunidade que, quase sempre, eram levados
ao âmbito da clínica através das narrativas daqueles que
acreditaram no dispositivo. 2. Resultados e discussão
Onde a vida pode se desvelar tão radicalmente opri-
mida, o desafio se impôs: que possibilidades ainda se A caminho das instalações que abrigavam a clínica na
abririam para a existência diante de circunstâncias, na comunidade, dialogando com o território, não foi possí-
maioria das vezes tão opressoras? Qual o sentido possí- vel deixar de perceber o que a experiência anterior, bem
Artigo - Relatos de Pesquisa

vel de liberdade, cuidado e pensamento para essa expe- como as narrativas revelavam, da violência e da restrição.
riência clínica? Apostamos desta maneira, na questão da Sobre a ponte construída para dar passagem e ligar duas
liberdade como palavra guia e ponto de partida para nossa das comunidades do Complexo da Maré, havia comércio.
reflexão acerca de limites e possibilidades para a clínica Transformada em escritório, o comercio da ponte – cons-
como modo de cuidado. trangia aqueles que passavam por ali, frente a negociação
Nesse sentido, correspondendo à experiência anterior e venda de drogas. Já se ouvia falar pelas ruas da comu-
na comunidade, bem como as narrativas que nos foram nidade sobre o crack que na época ainda não configura-
compartilhadas durante o trabalho voluntário na clínica, va uma epidemia nas adjacências do Complexo da Maré.
buscamos compreender o homem a partir do ser-aí, pois Os olhares lançados para o que nos chamava atenção
tal noção nos doa sentido e orienta nossa compreensão na comunidade, também afetavam aqueles que buscavam
de mundo, oferecendo recursos reflexivos para a prática pela clínica em certa medida. Cada um a seu modo, cor-
clínica e a pesquisa: respondiam a violência e a liberdade presente na Maré.

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 150-156, mai-ago, 2017 152
Liberdade: Limites e Possibilidades de uma Experiência da Clínica Psicológica no Complexo da Maré

Dona Ana3, narrava que, quando chegou com sua fa- para além da desordem social. A violência em nenhum
mília à cidade do Rio de Janeiro, encontraram no terri- momento da história passou despercebida.
tório da Maré, dificuldades como o desemprego e a vio- Ao olharmos para história, compreendemos que a vio-
lência. Assistiu dois de seus filhos envolverem-se com a lência é um senso comum de guerra, presente no tempo
“bandidagem”. O filho mais novo, com apenas 12 anos na e, para além de nossa experiência na Maré, quando ini-
época, estava afastado da escola por mau comportamento ciamos nossos diálogos com o território de modo mais re-
faltas e reprovações, pois vigiava “a boca” 4 para o tráfico. flexivo. Observamos e, nos foi possível falar do fenômeno
O filho mais velho encontrava-se preso cumprindo pena da violência pelo o que nos veio ao encontro também pela
por assalto à mão armada. clínica. Buscamos tratar do que estava lá, no território,
Dona Ana angustiava-se temendo pela vida dos filhos, para ser visto por quem pudesse ou quisesse ver o que
sentia-se desamparada diante da situação opressora. No nos levou a compreender que a liberdade era uma ques-
entanto, mesmo frente às circunstâncias que eram também tão muito mais ampla e de difícil tematização diante da
motivo de constrangimento, pois muito se comentava na noção de humano e de mundo que buscamos a cada vez
comunidade sobre os filhos, narrava que aguardava por compreender e exercitar.
dias melhores. Dona Ana deu continuidade ao processo Nesse sentido, realizamos a experiência do que nos
que iniciou na clínica e mesmo depois de constatar que foi possível compreender junto ao horizonte de sentido
não estava em suas mãos o poder de decidir o destino da comunidade, onde, afetados por costumes e tradições
dos filhos, deu continuidade aos encontros clínicos pa- de um contexto impessoal, buscamos apostar na possibi-
ra falar da vida cotidiana, como por exemplo, o cuidado lidade de tempos melhores diante dos limites impostos
da casa, a relação com o marido alcoolista e o trabalho pela violência e pelo abandono. A Maré já não é a mesma
com reciclagem. dos tempos das palafitas, mas continua acolhendo em seu
A violência na comunidade restringia a liberdade de território novas gerações. Seu meio ambiente vem sendo
ir e vir dos moradores e de serviços que permaneciam violentado há décadas, suas paisagens sofrem mudanças
fechados em dias mais violentos alterando a rotina coti- a cada instante em decorrência das continuas ocupações
diana da comunidade. Postos de saúde, escolas e creches e construções irregulares.
não funcionavam quando havia confrontos. O território Diante de tal cenário voltando a Heidegger (2000), para
da comunidade nos possibilitou algumas observações lú- compreender que o homem possui em si próprio, diver-
dicas. Meninos através de brincadeiras expressavam suas sas possibilidades de concretização, sendo o impessoal a
experiências junto ao cotidiano violento da comunidade, principal marca de seu modo de existir:
em punho de seus revolveres feitos de cabo de vassoura,
encenavam pelas ruas o que sabiam das batalhas travadas. O impessoal desenvolve sua própria ditadura nesta
Privada da liberdade de ir vir, Virginia5, também se viu falta de surpresa e de possibilidade de constatação.
afetada pela violência, ao passar uma temporada na casa Assim nos divertimos e entretemos como impesso-
de parentes: “desde que a guerra começou (...) não tive almente se faz; lemos, vemos e julgamos (...) como
como ficar lá sozinha. É perigoso! O tiroteio é constante impessoalmente se vê e se julga; também nos retira-
e as ruas ficam desertas”. A violência apesar de restringir mos das ‘grandes multidões” como impessoalmente
a liberdade de ir e vir de Virginia, também a forçava olhar se retira; achamos ‘revoltante” o que impessoalmente
para a ausência do marido frente ao casamento desfeito. se considera revoltante. O impessoal, que não é nada
Sentindo-se sozinha, desprotegida em dias de maior vio- determinado, mas que todos são, embora não como
lência, voltava sua atenção para a falta de garantias da soma, prescreve o modo de ser da cotidianidade. (Hei-
vida, pois afinal, seu casamento estava desfeito, mesmo degger, 2000, p. 179)
ecoando em sua lembrança a promessa de que estariam
juntos na alegria e na tristeza e que a união só seria des- Dar atenção à vulnerabilidade do território foi uma
feita diante da morte. das condições de possibilidade para uma melhor com-
Artigo - Relatos de Pesquisa

Os fenômenos e as reflexões em torno da problemá- preensão do homem enquanto existência, logo, daqueles
tica da violência sempre foram no tempo, uma temática que buscavam sentido junto a clínica na comunidade. Ao
explorada e discutida pelas ciências sociais e políticas, compreendermos que a tematização da violência só foi
demandando ações efetivas da sociedade como um todo. possível graças a nossa posição de liberdade, nos possi-
Nesse sentido, pode-se dizer que a violência é um fenô- bilitou compreender que a violência presente na comuni-
meno que se manifesta tanto nas cidades como no cam- dade não se tratava de uma questão simplesmente dada.
po, presente na vida cotidiana, sem distinção de cor, ra- Se de um lado existia o algoz e do outro uma vítima,
ça, sexo, credo, condições sociais e econômicas, estando, bem como refletiu Eirado6, esquecemos que tanto o algoz
quanto a vítima, se encontravam lançados a um horizonte
3
Todos os nomes foram modificamos a fim de garantir o sigilo.
4
Expressão dada ao movimento do tráfico, relacionando-se ao local Comentários do Professor Doutor André Eirado na ocasião da quali-
6

do comércio das drogas. ficação desta pesquisa em 24 de agosto de 2009, na UFF, Campus do
5
Todos os nomes foram modificamos a fim de garantir o sigilo. Gragoata, Niterói.

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Roberto N. de S. & Sheila C. da S.

de sentido territorial, que impessoalmente massacrava. numa avalanche sem fim. O homem se comporta como
Foi possível refletir em Heidegger (2000) que, trabalha- se ele fosse criador e senhor da linguagem, ao passo
-se, come-se, bebe-se de modo impessoal, mas ainda, se é que ela permanece sendo a senhora do homem. Talvez
violento, como impessoalmente se faz. A violência fazia seja o modo de o homem lidar com esse assenhora-
eco às narrativas clínicas de modo concreto e foi assim mento que impele o seu ser para a via da estranheza.
que Shirley7 viu seu pai falecer na comunidade quando É salutar o cuidado com o dizer. Mas esse cuidado é
o mesmo ao sair para o trabalho foi atingido por uma ba- em vão se a linguagem continuar apenas a nos servir
la perdida. Passado o luto, Shirley retomou seus projetos como um meio de expressão. Dentre todos os apelos
interrompidos pela tragédia, qualificando-se passou a atu- que nos falam e que nós homens podemos a partir de
ar como fisioterapeuta na comunidade, teve outro filho nós mesmos contribuir para se deixar dizer, a lingua-
e continuou cantando na igreja. Dizia que não pretendia gem é o mais elevado e sempre o primeiro. (Heideg-
se mudar da Maré, pois encontrava na comunidade tudo ger, 2008, p. 126)
que precisava para ser feliz.
Faz-se importante dizer que, mesmo contando com Ao cuidarmos das historias daqueles atendidos na
uma experiência anterior junto à comunidade, foi através clínica na comunidade, compreendemos que esse es-
“da” e “na” clínica que se deu nosso interesse de melhor paço se deu como um espaço de acolhida e liberdade.
compreender o ente humano enquanto abertura de sen- A clínica buscou desvelar sentido e ampliar as possibi-
tido, logo, liberdade. Apostamos que a clínica seja deste lidades daqueles que viviam seus momentos de restri-
modo, potência disparadora de experiência e reflexão, ções de sentido, pela narrativa daqueles que atendemos
pois nos possibilitou dialogar com o território de um mo- e que, nos coube escutar, buscamos refletir que somos
do mais aberto. O ato de pensar, segundo Sá (2009), não livres e, portanto, abertura de sentido. Nas palavras de
se restringe tão somente a uma atividade mental de um Feijoo (2000), a psicoterapia, prática da clínica psicoló-
sujeito racional, mas a palavra pensar guarda ainda ou- gica “cabe ajudar o homem a resgatar sua liberdade e a
tro sentido em português, que é o de “cuidar, curar (pen- flexibilidade”.
sar uma ferida)”. Refletir sobre a violência presente na Nesse sentido, o desafio foi de encontro às histórias
comunidade teve sua importância, pois nos libertou da narradas como no caso de dona Ana, que buscava por
lamentação e nos conduziu a correspondência de outras acolhimento e compreensão diante da impotência de as-
demandas pertinentes ainda ao âmbito clínico. sistir dois de seus filhos envolvidos com o tráfico local.
A solicitação que a noção de liberdade exerceu sobre Dona Ana pela clinica passou a dar importância a seu es-
nós ganhava mais força, quanto mais compreendíamos tranhamento diante da própria existência, desvelando-se
que o cuidado clínico também se encontra sob o domí- para além das preocupações com os filhos, deu lugar a
nio de um horizonte de sentido técnico. Ao passo que a um sofrimento que a acompanhava desde a infância, on-
noção de liberdade ganhava contorno nas experiências de o medo de ser considerada louca, a fez guardar para
clínicas que nos foi possível contato, mais sua compre- si, durante anos, os vultos que via e as vozes que ouvia.
ensão tornava-se necessária, pois a clínica situada na Aqueles que buscam pelo atendimento clínico, não pos-
comunidade não foi afetada somente pelo fenômeno da suem uma essência determinada a priori, suas essências
violência. A clínica da comunidade não deixou de se re- permaneciam em jogo no tempo. As noções de liberdade,
lacionar com as queixas objetivas de nosso tempo, pois de cuidado, de presença, não são apenas, noções abstratas,
afinal em certa medida, somos sem distinções sociais restritas ao âmbito de um pensamento especulativo, mas
herdeiros de um tempo marcado pelo cientificismo. As- no exercício clínico contando com o pensamento de sen-
sim, aqueles atendidos pela clínica na comunidade tam- tido, diz respeito à vida concreta daqueles que procuram
bém evitavam suas angustias e negavam, por vezes, sua a clínica diante de restrições de sentido e sofrimentos.
condição estrutural de abertura de sentido, ao ansiarem Segundo Sá (2009), o que produz o sofrimento não é
por decifrações e formularas mágicas que dessem conta a incorreção lógica ou factual de uma perspectiva, mas
Artigo - Relatos de Pesquisa

de seus desamparos. sim a redução de possibilidades de sentido que, por sua


Pela narrativa clínica tivemos a oportunidade de cui- vez impõem ao campo existencial a restrição da liberda-
dar das histórias confiadas e através da manifestação da de. A prática da “psicoterapia lida essencialmente com
linguagem autêntica e inautêntica, creditamos maior con- o problema da liberdade, mas não entendida como livre
fiança de que somos abertura de sentido para exercitamos arbítrio de um sujeito simplesmente dado no mundo. Li-
uma atitude clínica mais livre: berdade é o próprio ser do homem enquanto ‘poder co-
responder’ ao que lhe vem ao encontro”.
Isso só acontece, porém, quando prestamos atenção ao Na prática clínica o fenômeno não deve ser tomado
vigor próprio da linguagem. Enquanto essa atenção não apenas de modo que proporcione o aparecer de algo sem
se dá, desenfreiam-se palavras, escritos, programas, em nada aprofundá-lo, o fenômeno não é apenas o que
aparece de maneira menos rígida e despreocupada dian-
Todos os nomes foram modificamos a fim de garantir o sigilo.
7 te de um problema ou uma dificuldade, essa seria uma

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 150-156, mai-ago, 2017 154
Liberdade: Limites e Possibilidades de uma Experiência da Clínica Psicológica no Complexo da Maré

maneira ingênua de olhá-lo. O fenômeno só se mostra dizia infeliz para apostar em um curso de pré-vestibular
quando alguém se propõe a olhá-lo, aproximando-se de- comunitário na Maré. Seu objetivo era ingressar em uma
le na busca de compreendê-lo e explicitá-lo, se utilizan- universidade pública para cursar serviço social. Depois
do da escuta e da fala. Portanto, a clínica na comunida- que deixamos de exercitar a clínica na comunidade, Elisa
de buscou compreender o fenômeno apresentado atra- continuou frequentando a clínica, desta vez, ai ao nosso
vés da existência concreta daqueles que confiaram suas encontro no consultório particular em outro território.
historias ao longo dos atendimentos clínicos, bem como Recentemente, tivemos noticias de que Elisa concluiu a
buscou dialogar com a comunidade através dos olhares formação em serviço social e ingressou no mestrado em
lançados ao território e que foram afetados por tamanha saúde coletiva. Elisa continua morando na Maré e costu-
vulnerabilidade. mava-se a se indignar com seu direito de ir e vir violado,
Ao voltarmos nosso olhar para as especificidades do entretanto, em tempos de paz sua liberdade resistia e seus
Complexo da Maré, fomos apresentados a um território projetos podiam seguir seus caminhos.
marcado por fenômenos no tempo através de historias de A restrição da liberdade nesse sentido, só era sentida,
habitações, construções de espaços e de mundo. Assim, portanto, quando aqueles que passaram pela clínica viam
para além da proteção física das paredes de tijolos e ci- seu direito de ir e vir violado, ao menos, esta era de ime-
mento que abrigavam a clínica, realizamos uma experiên- diato a noção compreendida. Tal experiência dizia muito
cia de liberdade pela clínica, quando correspondemos ao mais respeito à própria dificuldade existencial em aces-
clamor do território e, compreendemos que o dispositivo sar modos mais livres e singulares nos distanciando da
clínico ultrapassa o espaço físico que, aparentemente, li- co-pertinência entre ser e pensar. Reflexões mais próprias
mita seu campo de atuação: acerca da noção de liberdade foram possíveis ao âmbito da
clínica através do enraizamento experimentado durante
Os espaços abrem-se pelo fato de serem admitidos o tempo que ali permanecemos. Graças aos diálogos es-
no habitar do homem. Os mortais são, isso signifi- tabelecidos, percebemos que nossa experiência anterior
ca: em habitando têm sobre si espaços em razão de na comunidade nos beneficiou com uma compreensão
sua de-mora junto às coisas e aos lugares. E somen- mais próxima das especificidades do território que por
te porque os mortais têm sobre si o seu ser de acor- sua vez, possibilitou uma clínica mais livre e conhece-
do com os espaços é que podem atravessar espaços. dora de seu propósito.
Atravessando, não abrimos mão desse ter sobre si. Notamos que nosso cuidado clínico deu lugar a ou-
Ao contrario. Sempre atravessamos espaços de ma- tros modos de relação com a psicologia. Desta maneira,
neira que já os temos sobre nós ao longo de toda tra- foi possível dizer que a clinica se deu como um espaço
vessia, uma vez que sempre nos de-moramos junto potente de dialogo e reflexão ainda com a profissão. Sen-
a lugares próximos e distantes, junto às coisas. (Hei- do assim, tentamos nos aproximar dos fenômenos que se
degger, 2008, p. 136) deixaram mostrar tal como se apresentou à clínica, tal co-
mo nos orienta o método fenomenológico hermenêutico.
Desta maneira, habitamos a clínica na Maré como Esforçamos-nos para colocar em suspenso, posturas que,
um espaço privilegiado de liberdade, pois procuramos por si só restringem o cuidado psicológico, engessando a
compreender através daqueles que chegavam em busca clínica como espaço de pensamento e liberdade.
de sentido, como a questão da liberdade estava sendo Partindo do entendimento que não se pode dizer que
experienciada, mesmo quando não reconhecida ou não há na existência humana somente relações de causa e
tematizada. Tivemos a oportunidade de refletir sobre efeito, sendo mais apropriado falar em motivações, segui-
aquilo que temos de mais estruturante, ou seja, nossa mos em defesa de práticas mais livres de cuidado, consi-
co-respondência. derando que o homem em sua estrutura é possibilidade
A palavra liberdade e sua compreensão para alguns na de sentido diante da herança deixada do cientificismo.
clínica guardava estreita relação com a questão da violên- Tal compreensão dá contornos e doa modulações ao nos-
Artigo - Relatos de Pesquisa

cia e pode ser refletida por ocasião de disputas territoriais so fazer clínico.
entre facções rivais ou através do confronto policial. No Nesse sentido, não podemos afirmar que, algum even-
entanto, para Elisa8 seu encontro com a liberdade guardou to que tenha ocorrido a uma criança, por exemplo, em
relação com seus projetos e não se restringiu ao direito de seus iniciais anos de vida, determine toda sua existência,
ir e vir que a mesma costumava desafiar durante o car- pois mesmo que encontremos relações de sentido entre
naval, quando desfilava no bloco Se Benze que Dá, pelas a infância e a idade adulta de um indivíduo, não se po-
ruas das 16 comunidades do Complexo da Maré, levando de atestar que tais eventos tenham apenas relações cau-
alegria e desafiando os limites impostos pelas fronteiras sais. Ao tentarmos compreender a vida do ponto de vista
existentes no território. Elisa amadurecia a possibilida- existencial, realizamos a experiência de um pensamento
de de deixar o trabalho de auxiliar de escritório, onde se mais contemplativo acerca da historia e de nosso tempo.
Desta maneira, experimentamos a vida como inacabada
Todos os nomes foram modificamos a fim de garantir o sigilo.
8 e suportamos nossa liberdade, embora, constantemente

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esquecemos-nos de nosso modo mais próprio de ser, nos de nossa liberdade diante do cuidado clínico que não po-
distanciamos de nossa condição originária. Heidegger di- demos negar que seja uma atividade técnica. Tal compre-
rá que o homem é um ser-para-morte, pois só chega a ser ensão nos conduz a liberdade e, a noção de serenidade
ele mesmo, no momento, em que não é mais. como disposição afetiva fundamental ao âmbito da clíni-
Como ser-no-mundo frente à tarefa de realização, ca- ca psicológica que defendemos e por tal disposição dizer
minhamos próximos ao estranhamento e angustiados “sim” e “não” ao nosso horizonte histórico, onde através
olhamos para o futuro e nos relacionamos com o desco- do cientificismo o calculo e as técnicas predominam:
nhecido e a indeterminação. Através de nossa historia,
de nosso passado, entramos em contato com um conjun- Mas podemos, simultaneamente, deixar esses objec-
to de acontecimentos, contudo, o que já foi vivido acaba tos repousar em si mesmos como algo que não inte-
ficando em suspenso, pois a cada novo passo, a cada no- ressa àquilo que temos de mais intimo e de mais pró-
vo acontecimento, a totalidade de nossa existência vai se prio. Podemos dizer « sim » à utilização inevitável dos
alterando e realizando. Nosso futuro, o por-vir e o vigor- objetos técnicos e podemos ao mesmo tempo dizer
-de-ter-sido, o passado, se apresentam de um modo to- « não », impedindo que nos absorvam, e desse modo,
talmente aberto, ou seja, somos livres em nossa relação vergem, confundam e, por fim, esgotem a nossa natu-
de sentido com o mundo. Desta maneira, para nós já não reza. (Heidegger, 1959, p. 24)
faz tanto sentido uma proposta clínica que se paute em
modelos cientificistas. Para procedermos de maneira que seja possível dizer
Ao reconhecermos que de nosso horizonte histórico sim e não a cada vez aos modos técnicos de cuidado, ou
não temos como escapar, apostamos que seja justamente seja, para que possamos privilegiar uma atitude clínica
por tal determinação que realizamos nossa experiência mais livre, faz-se necessário dispensar atenção à história
de liberdade. Nesse sentido, se nosso tempo é pontuado do homem cujo modo de ser é abertura de sentido. Apos-
por certo cientificismo do qual somos herdeiros, somos tamos em tal possibilidade da reflexão exercitada no âm-
ainda convidados pelo dialogo com a chamada filosofia bito da clínica não desprezando as modulações calculan-
existencial a realizar um modo de cuidado clínico mais te e meditante do pensamento, pois se não fosse assim, o
livre e menos técnico, pois compreendemos que nossa cuidado com a vida estaria engessado.
compreensão de homem deve acolher o humano tanto
pela clínica particular quanto pela clínica na comunida-
de, pois em ambos os dispositivos lidamos com restrições Considerações finais
de sentido, dores cotidianas que demandam da clínica
decifrações especializadas, fórmulas mágicas e rápidas Concluímos, com isso que em Heidegger (2001,
soluções para os sofrimentos. Tal horizonte configura, p. 230), assim como com aqueles que convidamos para
portanto, uma realização do empenho moderno em tu- serem companheiros desse comunicado, encontramos
do querer controlar e prever através de uma lógica que noções que nos possibilitaram um campo de atuação
calcula. Assistimos a uma tendência que atrela a vida às mais aberto na relação clínica. A noção de ser-aí foi à via
malhas da técnica: de acesso para compreendermos a existência humana e,
nesse sentido, a prática clínica foi se construindo e sen-
Façamos a experiência. Para todos nós os equipamen- do pensada à medida que habitávamos a clínica na co-
tos, aparelhos e máquinas do mundo técnico são hoje munidade. Dar atenção ao território onde estivemos si-
imprescindíveis, para uns em maior e para outros em tuados nos permitiu dizer sim e não ao que nos veio ao
menor grau. Seria insensato investir às cegas contra o encontro e pela experiência exercitarmos modos de ser e
mundo técnico. Seria ter vistas curtas querer conde- de cuidado mais livres.
nar o mundo técnico como uma obra do diabo. (Hei-
degger, 1959, p. 23)
Artigo - Relatos de Pesquisa

Referências
O cenário de restrição de sentido frente à técnica que,
segundo Heidegger, nos tornamos escravos guarda ainda,
Heidegger, M. (2000). M. Ser e Tempo. Vol. I. 9. ed. Petrópo-
outra direção se nos for possível vislumbrar uma atitude lis: Vozes.
mais cuidadosa e mais livre diante do horizonte de sen-
tido tecnológico em que estamos lançados. Heidegger, M. (2001). Seminários de Zollikon. Petrópolis: Vozes.
Portanto, exercitar uma proximidade com reflexões
Heidegger, M. (2008.) Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes.
mais meditativas pelo dialogo com a chamada filosofia
existencial, nos faz compreender que tal atitude não se Heidegger, M. (2005). Carta Sobre o Humanismo. São Paulo:
da através da possibilidade de um pensamento de cunho Centauro.
valorativo que seja mais positivo ou verdadeiro em detri-
Heidegger, M. (1959). Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget.
mento do pensamento que calcula, mas sim de sabermos

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 150-156, mai-ago, 2017 156
Liberdade: Limites e Possibilidades de uma Experiência da Clínica Psicológica no Complexo da Maré

Feijoo, A. M. L. (2000). A Escuta e a Fala em Psicoterapia. São


Paulo: Vetor.

Sá, R. N. (2009). Práticas Psicológicas Clínicas, Verdade e Li-


berdade: Reflexões Fenomenológicas. Anais do IX Semi-
nário Nacional de Práticas Psicológicas em Instituições
– Atenção Psicológica Fundamentos, Pesquisa e Práticas.
p. 63-74.

Roberto Novaes de Sá - Possui Graduação em Psicologia pela Pontifícia


Universidade Católica do Rio de Janeiro, Mestrado em Psicologia pe-
la Universidade Federal do Rio de Janeiro e Doutorado em Engenharia
de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente
é Professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal
Fluminense, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia
na área de concentração Estudos da Subjetividade.

Sheila Corrêa da Silva - Possui Graduação em Psicologia pela Univer-


sidade Estácio de Sá e Mestrado em Psicologia pela Universidade Fe-
deral Fluminense. É Doutoranda na Linha de Pesquisa Clínica e Sub-
jetividade do Programa de Pós-Graduação em Psicologia pela Univer-
sidade Federal Fluminense. Endereço: Rua Praia de Inhaúma, Vila 58
casa 01 apto 201 - Bonsucesso - CEP 21042-130 - Rio de Janeiro. E-mail:
sheila.correa@yahoo.com.br

Recebido em 14.09.2016
Primeira Decisão Editorial em 31.10.2016
Aceito em 21.01.2017

Artigo - Relatos de Pesquisa

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Edmar H. D. & Maria A. T. B.

Para Ficar em cima do Salto: a Construção do


Corpo Travesti na Perspectiva Merleau-Pontyana

To Get on the Heels: Body Building Transvestite From the Merleau-Ponty’s Perspective

Para Subirse a los Tacones: la Construcción del Cuerpo Travesti Desde la Perspectiva Merleau-Pontyana

Edmar Henrique Dairell Davi


Maria Alves de Toledo Bruns

Resumo: Nosso objetivo é compreender os significados e os sentidos que travestis atribuem ao processo de transformação de seu
corpo. O uso de silicone, hormônios e cirurgias para atingir a modelagem corporal se tornou algo corriqueiro entre essa população
levando a um problema de saúde pública. O método fenomenológico e as reflexões do filósofo Maurice Merleau-Ponty foram eleitos
por nós para analisarmos e compreendermos os discursos de três travestis pertencentes às classes sociais C e D, de 25 anos de
idade, em média. Os resultados apontaram três categorias: “as vivências iniciais”; “fazendo o corpo” e “o corpo desvelado na pista”.
Em busca do corpo perfeito, as travestis cruzam as fronteiras dos gêneros criando uma sintaxe erótica sui generis. Subvertem os
sentidos do autocuidado para atender à lógica do mercado. Modelam seus corpos, equilibrando-se entre o feminino e o masculino,
o desejo e o medo da violência.
Palavras-chave: Travestis; Corpo; Fenomenologia; Merleau-Ponty.

Abstract: Our objective is to understand what meanings transvestites attribute to the process of body transformation. The admin-
istration of silicone and hormones and surgeries in order to obtain the ideal body have become common place among this popu-
lation and even led to public health issues. The phenomenological method and the reflections of philosopher Maurice Merleau-
Ponty were elected for the analysis and understanding of the discourses of three transvestites of social class C and D and age 25 on
average. The results generated three categories: “initial experiences”; “building the body” and “the body unveiled in the street”. In
their effort to shape up the perfect body transvestites cross the line between genders and create a sui generis erotic syntax. They
subvert the meanings of self care in order to meet the market logic. They shape up their body balancing the feminine and mascu-
line in them as well as their desire and fear of violence.
Key words: Transvestites; Body; Phenomenology; Merleau-Ponty.

Resumen: Nuestro objetivo es comprender los significados que las travestis atribuyen al proceso de transformación de su cuerpo.
El uso de silicona y hormonas para alcanzar el modelado corporal se ha vuelto habitual entre esa población, lo que resultó en un
problema de salud pública. Elegimos el método fenomenológico y las reflexiones del Merleau-Ponty para analizar los discursos de
tres travestis pertenecientes a las clases sociales C y D, todas con un promedio de 25 años de edad. Los resultados señalaron tres
categorías: “experiencias iniciales”; “hacerse el cuerpo” y “el cuerpo expuesto en la calle”. En la búsqueda por el cuerpo perfecto,
las travestis cruzan las fronteras de los géneros, creando una sintaxis erótica sui generis. Subvierten los sentidos del autocuida-
do para atender a la lógica del mercado.
Palabras-clave: Travestis; Brasil; Cuerpo; Fenomenología; Merleau-Ponty.

Introdução Conhecer o corpo é uma tarefa complexa e as certe-


zas acumuladas a seu respeito são provisórias. Cada cor-
Artigo - Relatos de Pesquisa

Este artigo objetiva compreender os significados e os po, longe de ser constituído apenas por leis biológicas e
sentidos que travestis profissionais do sexo atribuem ao fisiológicas, supostamente imutáveis, não escapa à his-
seu processo de transformação corporal. No ethos con- tória e ao contexto cultural. O corpo funciona como um
temporâneo, vivemos profundas transformações nas ma- processador da história, por meio do qual são veiculados
e modificados os legados culturais e biológicos.
neiras como lidamos com nosso corpo e nossa sexualida-
Emissor ou receptor, o corpo continuamente produz
de – mudanças que ocorrem rapidamente, muitas vezes,
sentidos – insere ativamente o homem no interior de um
sem que tenhamos a chance de pensar sobre elas e sobre espaço cultural determinado. Desse modo, a construção
suas consequências em nosso cotidiano. Para Le Breton da identidade está atrelada ao corpo, e, em alguns casos,
(2011), os recentes avanços biomédicos e tecnológicos que a (re)construção do próprio corpo é uma das maneiras de
colocaram o corpo no centro das discussões mostram o o sujeito (re)significar sua identidade e estabelecer sua
quanto este tema é enigmático. relação com o mundo (Le Breton, 2011).

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 157-166, mai-ago, 2017 158
Para Ficar em cima do Salto: a Construção do Corpo Travesti na Perspectiva Merleau-Pontyana

Assim, vemos que o corpo, lugar do contato privi- Na abordagem merleau-pontyana do corpo existe uma
legiado com o mundo, está sob os refletores e é exata- forma de encarar os seres humanos não apenas como or-
mente por isso que se faz necessária uma ampla reflexão ganismos biológicos que respondem a influências exter-
sobre a natureza dos discursos e práticas que configu- nas. Nosso corpo não é uma estrutura que existe por si
ram o universo da corporeidade nos dias atuais. Esta mesma. Ele se estende muito além de nossas sensações
deve ser entendida como um campo de experiência e do momento, pois não se encontra localizado num deter-
reflexão, a partir do qual se desdobram possibilidades minado lugar apenas fisicamente, mas expandindo-se em
epistemológicas, éticas, estéticas, sociais e históricas nosso existir no mundo. Deve ser visto como constituí-
(Nóbrega, 2010). do não somente de sensações, mas de significações que
Para Castro, García e Rodrígues (2006), grande parte dirigem internamente o homem no seu comportamento
dos sintomas que surgem na clínica atualmente está as- (Merleau-Ponty, 2004).
sociada à questão da imagem corporal. Para os autores, A subjetividade humana necessariamente se expres-
por um lado temos os abusos na exploração das sensações sa por meio do corpo. E não poderia de modo algum res-
corporais que determinam muitas vezes o surgimento de ponder subjetivamente ao mundo se não tivesse corpo.
dependência química – de drogas lícitas e/ou ilícitas. Por Ao mesmo tempo, meu corpo não é um mero objeto no
outro lado, observam-se os transtornos relativos à per- mundo, mas algo que eu “vivo”, algo que habito como
cepção da imagem corporal e associados aos distúrbios veículo de minha experiência subjetiva. É tão verdadei-
alimentares, ao fisiculturismo compulsivo, à compulsão ro dizer que meu corpo sou eu quanto que eu sou meu
por correção estética cirúrgica, às ansiedades de exposi- corpo (Merleau-Ponty, 2006).
ção, como a síndrome do pânico e as fobias sociais etc. O corpo aqui aparece não como objeto a ser possuído,
De certo modo, o corpo se tornou um objeto privilegiado “eu tenho um corpo”, mas como meio de estar no mundo:
de preocupações e sofrimentos conscientes, não se cons- “eu sou meu corpo”. E ele não é uma coisa entre as coi-
tituindo somente como pano de fundo de conflitos entre sas, é uma experiência que dialoga interiormente com o
afetos, pulsões, representações e instâncias subjetivas. mundo, outros corpos, é com eles, no lugar de ser ao lado
Para muitas pessoas, a perfeição será atingida com o deles. O sujeito merleau-pontyano é um sujeito aberto ao
aprimoramento físico prometido pelas novas tecnologias mundo, numa relação anterior a qualquer determinação
médicas. Isso muda o perfil da idealização da imagem cor- que poderíamos fazer dele: “o corpo é o veículo do ser no
poral, pois o futuro deixou de ser o tempo indetermina- mundo; ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um
do de autorrealização de fantasias emocionais para ser o meio definido, se confundir com certos projetos e se en-
tempo das etapas de correção da aparência física (Castro, gajar neles continuamente” (Merleau-Ponty, 2006, p. 97).
García & Rodrígues, 2006). Para Matthews (2011), a perspectiva de Merleau-Ponty
No pensamento do filósofo francês Maurice Merleau- sobre o corpo permite compreender o comportamento hu-
Ponty (1908-1961), o corpo é pleno de subjetividade e mano no nível simbólico, pois, o homem é o único animal
encontra-se recortado pela historicidade. Este filósofo que consegue transcender as situações e age antecipando
não encara os seres humanos simplesmente como objetos seu futuro através de intenções e projetos. O ser huma-
das ciências biológicas. Além do corpo objetivo, há tam- no não vem dotado de uma conduta preestabelecida, es-
bém o que ele denomina de “corpo fenomênico” – nosso tá aberto a respostas espontâneas e criativas, vai além do
próprio corpo tal como o experimentamos, “de dentro”, real, concebendo uma multiplicidade de possibilidades.
um “corpo que se ergue em direção ao mundo” (Merleau- Ortega (2008), ao se utilizar das intuições deixadas
Ponty, 2006, p. 92). por Merleau-Ponty, nos fala do corpo enquanto totalidade
Para este filósofo, o que movemos é nosso corpo fe- aberta, “sistema aberto para o mundo”. Para aquele autor,
nomenal e não um corpo objetivo. Nosso corpo nos leva a incorporação de próteses representa uma possibilidade
ao mundo conforme sinaliza a sua espacialidade pessoal, de redesenhar o corpo de maneira que as extremidades se
que é diferente da espacialidade objetiva. Este corpo fe- emaranhem com o mundo. As próteses se incorporam ao
Artigo - Relatos de Pesquisa

nomenal é dado na relação vivida com o sistema natural esquema corporal constituindo uma forma de aumentar,
do corpo individual. É assim que um sujeito posto dian- de expandir os limites de nosso corpo, que não acabam
te de uma tarefa familiar não precisa procurar suas mãos na pele. O autor cita o exemplo da bengala do cego, no
ou seus dedos, pois estes não são objetos a se encontrar qual o mundo dos objetos táteis não começa na epider-
no espaço objetivo. Músculos, ossos e nervos são potên- me da mão, mas na extremidade da bengala. Para Ortega
cias já mobilizadas na percepção dos objetos a serem uti- (2008), as próteses ganham um estatuto de carne, permi-
lizados no trabalho. Vemos que os objetos dirigem certa tindo ao indivíduo ampliar sua percepção desses objetos
situação, que exige certa maneira de resolução. “Ser no orgânicos ou inorgânicos anexados ao corpo.
mundo implica em (...) manter em torno de si um siste- Na visão merleau-pontyana, o corpo atua como ponte
ma de significações cujas correspondências, relações e que nos coloca em permanente contato com o mundo re-
participações não precisam ser explicitadas para ser uti- velando os sentidos de nossas ações e projetos (Merleau-
lizadas” (Merleau-Ponty, 2006, p. 181). Ponty, 2004). Norteados por esta perspectiva, nos

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Edmar H. D. & Maria A. T. B.

perguntamos sobre os significados que as travestis atri- travestis atribuem ao processo de mudar seu corpo – fe-
buem ao processo de transformação corporal: o que leva nômeno antigo e complexo, cujo processo ganha visibili-
uma pessoa a suportar intervenções dolorosas e arrisca- dade nos dias de hoje. Na perspectiva de compreendê-lo
das? E até mesmo a repeti-las várias vezes? O que se bus- em sua complexidade, buscamos a interlocução com as
ca nas práticas como a aplicação de silicone e a hormo- próprias travestis para desvelá-lo.
nização, dentre outras?
O uso de silicone industrial, as ingestões de hormô-
nios, as cirurgias plásticas, além de outras práticas de 1. Método
transformação corporal deram visibilidade à cultura tra-
vesti, que se insere no universo LGBT - lésbicas, gays, A fim de conhecer as vivências das travestis e os sig-
bissexuais e transgêneros. “Ser travesti” é um processo nificados que elas atribuem ao processo de transforma-
que nunca se encerra e exige constantes cuidados (Pelú- ção de seus corpos, recorremos à modalidade de pesqui-
cio, 2009). Construir um corpo e cuidar dele é uma das sa qualitativa fenomenológica, que nos norteará de forma
maiores preocupações das travestis, que estão sempre bus- criteriosa e pertinente (Bruns, 2007) na trajetória rumo à
cando o que chamam de “perfeição” – ou seja, “passar por explicitação do objetivo proposto nesta pesquisa.
mulher”. Porém, não por qualquer mulher, mas por uma A opção por um método pressupõe uma questão a
mulher bonita, desejável, que atrai os olhares masculinos. ser resolvida e envolve determinada concepção ou supo-
Conforme Benedetti (2005), se o hormônio é a feminili- sição de realidade, ainda que provisória. Não é possível
dade e a beleza, que confirma os resultados da feminili- se falar de método desvinculado do fenômeno de estudo
zação, o silicone é “a dor da beleza”. O corpo feito, todo (Furlan, 2008). Nesse sentido, nossa escolha traduz uma
“quebrado na plástica” é o sonho da maioria. Mas nem posição em termos epistemológicos e um método de ins-
sempre as aplicações de silicone podem ser realizadas em piração fenomenológica parece o mais adequado quando
clínicas de cirurgia plástica. Então, procura-se o caminho se pretende investigar e conhecer a experiência do outro,
tradicional, aquele que vem sendo usado pelas travestis no uma vez que o ato do sujeito de contar a sua experiência
Brasil há pelo menos 30 anos: o da “bombadeira”. Desde não se restringe a dar a conhecer os fatos e acontecimen-
então, são as “bombadeiras” que injetam silicone líquido tos da sua vida, mas significa, além de tudo, uma forma
no corpo das travestis. Elas são na sua maioria travestis de existir com-o-outro; significa com-partilhar o seu ser-
também e lhes cabe “fazer o corpo” de suas clientes atra- -com-o-outro.
vés da inoculação do líquido denso e viscoso – processo Por ser a fenomenologia um discurso esclarecedor, op-
doloroso, demorado e arriscado (Benedetti, 2005). tamos pela técnica da história de vida focal, guiada por
O silicone comprado pelas travestis tem o aspecto ole- uma questão única, simples e direta, numa linguagem
oso, grosso, incolor e inodoro; a viscosidade dificulta as comum à compreensão do fenômeno, como estratégia de
injeções no corpo humano. As “bombadeiras” costumam pesquisa para desvelarmos a vivência das travestis e o
usar agulhas veterinárias da espessura de uma ponta de processo de transformação de seus corpos.
lápis e é preciso usar toda a força para injetar o silicone É importante ressaltar que a história de vida focal é
no corpo daquelas que pagaram pelo serviço de “bombar”. uma modalidade da história oral em que o informante tem
São necessárias dezenas de perfurações, em dias segui- maior liberdade para dissertar livremente sobre suas ex-
dos, para se moldar o quadril, os seios ou as bochechas periências vividas, o que vai ao encontro do objetivo de
(Benedetti, 2005). Os orifícios deixados pela agulha são nossa pesquisa. Para Moreira (2004), o método da história
tapados com esmalte de unha ou cola. As aplicações e o de vida focal investiga a visão da pessoa acerca das suas
mau uso dos materiais podem levar a infecções nas par- experiências subjetivas de certas situações, inseridas em
tes enxertadas, migração do silicone para outras áreas, algum período de tempo de interesse, ou se refere a al-
dentre outras lesões. gum evento ou série de eventos que possa ter tido algum
Segundo as travestis, entrevistadas por Pelúcio (2009), significado para o respondente. O colaborador faz uma
Artigo - Relatos de Pesquisa

a aplicação do silicone feita sem anestesia provoca uma descrição de sua vida ou de alguma parte dela.
dor quase insuportável. No entanto, para elas, essa dor se
assemelha a uma ascese necessária para o renascimento à
sua maneira. A questão que fica é o risco que elas correm 2. Procedimentos
e o preço que decidem pagar para que possam recriar a
si mesmas. Será que a satisfação de ter um corpo “femi- Primeiramente, o projeto que embasa esta pesquisa foi
nino” se sobrepõe aos riscos inerentes a esse processo? encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa - CEP da
E ainda: a partir de quais critérios e influências elas re- FFCLRP/USP para sua devida aprovação. Após a emissão
solvem fazer as intervenções? A quem recorrer quando do parecer favorável ao início da investigação, entramos
acontecem os problemas? em contato com as colaboradoras, para quem foi entregue
Essas e outras questões perpassam o presente traba- uma carta apresentando o objetivo da pesquisa e solici-
lho. Nosso objetivo é compreender os significados que as tando o agendamento da entrevista. Esta foi precedida da

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 157-166, mai-ago, 2017 160
Para Ficar em cima do Salto: a Construção do Corpo Travesti na Perspectiva Merleau-Pontyana

assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclare- de significado, as quais são extraídas após a releitura de
cido, que autorizava sua gravação. Também foi aplicado cada depoimento, tendo em vista que não existem por si
um questionário socioeconômico para traçar o perfil das mesmas, mas somente em relação à interrogação que o
participantes. As entrevistas tiveram a duração média de pesquisador dirige ao fenômeno. O terceiro passo dife-
60 minutos. Para um maior aprofundamento da experi- rencia-se pelo seguinte aspecto: após a obtenção das uni-
ência pessoal das entrevistadas em relação ao fenômeno dades de significado, o pesquisador busca agrupá-las em
estudado, iniciamos com a questão orientadora: “Fale da temas ou categorias, que expressam o insight psicológico
sua vivência afetivo-sexual em relação ao processo de nelas contido, ou seja, é a transformação da linguagem
transformação de seu corpo durante a sua vida”. Os en- coloquial da entrevistada no discurso psicológico. Neste
contros foram realizados na sede de uma ONG de apoio momento cabe ao pesquisador escolher a abordagem te-
à população LGBT, localizada numa cidade do interior do órica que utilizará para analisar o fenômeno. O quarto e
Estado de Minas Gerais. último passo baseia-se na integração dos insights contidos
em todas as unidades de significado, as quais podem ser
agrupadas em temas ou categorias em função das conver-
3. Participantes gências e/ou divergências dos significados atribuídos pe-
las informantes e que constituem os aspectos essenciais
As colaboradoras desta pesquisa foram três travestis da estrutura compreensiva geral do fenômeno.
frequentadoras das reuniões da citada ONG de apoio à
população LGBT. Os critérios para a inclusão das parti-
cipantes na investigação foram: aceitar participar da pes- 5. Resultados
quisa e ser travesti que tenha passado pelo processo de
transformação corporal – seja pelo uso de hormônios e/ 5.1 Categorias de análise
ou pela aplicação de silicone.
A seguir, apresentamos o perfil socioeconômico das De posse dos depoimentos, a partir dos passos já apre-
colaboradoras. Antes, no entanto, é preciso esclarecer sentados anteriormente para o acesso ao fenômeno e da
que optamos pelo uso de pseudônimos a fim de preservar análise compreensiva que nos possibilitou o encontro das
nossas colaboradoras. Esclarecemos, ainda, que o moti- convergências e divergências presentes nos discursos, ele-
vo pelo qual nos dirigimos a elas no feminino se deve ao gemos as seguintes categorias:
fato de se sentirem e se definirem a partir deste gênero.
A primeira colaboradora entrevistada foi Adriana, uma Categoria 1 - Vivências iniciais: nesta categoria, as
travesti de 24 anos, com ensino médio completo, sem re- colaboradoras relataram os momentos e as maneiras co-
ligião e pertencente à classe D. Ela atua em uma ONG mo iniciaram suas primeiras experiências e vivências do
de apoio às travestis elaborando projetos de intervenção processo de transformação do corpo.
junto a esta população. A segunda, chamada Brenda, é Categoria 2 - Fazendo o corpo: nesta categoria, de-
uma travesti loira de 27 anos, sorridente e “toda feita”, paramo-nos com as experiências vividas pelas colabora-
conforme seu depoimento. Estudou até o quinto ano do doras durante o processo de transformação do corpo de
ensino fundamental, não possui religião, pertence à clas- maneira mais radical, com o uso de hormônios e silico-
se C e vive com um parceiro fixo. É uma profissional do ne. Temos, aqui, 02 subcategorias: Hormonização e Plas-
sexo. A terceira e última travesti entrevistada foi Jéssica, tificando o corpo.
de 25 anos, que veio do norte do Brasil. Tem a pele mo- Categoria 3 - O corpo desvelado na pista: nesta cate-
rena, não possui religião, pertence à classe D e cursou o goria, as colaboradoras revelam como o corpo também é
ensino médio. Atua como profissional do sexo desde os moldado na experiência da prostituição.
doze anos de idade e já morou em várias cidades do Brasil.
Artigo - Relatos de Pesquisa

5.2 Análise compreensiva


4. Momentos da análise
As entrevistas são analisadas conjuntamente, demons-
Tendo nas mãos os depoimentos ou descrições das trando as convergências e divergências dos depoimen-
colaboradoras, passamos à análise das entrevistas. Bruns tos, que formam as categorias de análise. Desse modo,
(2007) aponta quatro passos reflexivos para realização da passamos à discussão da primeira categoria: As vivên-
análise fenomenológica. O primeiro passo caracteriza-se cias iniciais.
pela transcrição dos depoimentos das colaboradoras e lei-
tura ampla de todas as entrevistas do início ao fim, com o Com dez anos então eu comecei a me vestir de mulher
objetivo de apreender o sentido geral do fenômeno estuda- e com doze eu comecei a vida na prostituição lá em
do. O segundo momento é marcado pela intenção de ca- B. num posto de gasolina. Então eu tive assim uma vi-
minhar para a elaboração da discriminação das unidades da de prostituição muito precoce, muito menininha.

161 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 157-166, mai-ago, 2017
Edmar H. D. & Maria A. T. B.

Na batalha [prostituição] você aprende de tudo, é uma travestis, quando são expulsas de casa ou rompem com
escola. Te ensinam a aquentar [esconder o pênis], fi- a família, passam a contar somente com suas forças para
car montada em cima do salto [bonita], te explica as se manterem. É dessa forma que o dinheiro da prostitui-
coisas dos bofes, das cafetinas, essas coisas de traves- ção aparece como uma primeira forma de sustento. Con-
ti, sabe? (Adriana) tudo, como profissional do sexo, não é somente o ganho
material que elas recebem.
Eu passei a virar travesti lá na minha cidade, S. L. Para Peres (2015), as jovens travestis se envolvem em
no M., que eu passei a virar mesmo travesti foi a par- relações sexuais muitas vezes sem a perspectiva de ga-
tir mesmo dos 20 anos. Eu tive muita dificuldade pra nhar dinheiro ou de ter prazer nestas relações. O que elas
estudar porque eu já queria ir pra escola de mulher- ganham, e isso é muito importante para elas, é o reco-
zinha, de botinha, de blusinha. Isso lá na quinta ou nhecimento de que são mulheres ou são femininas. Peres
sexta série eu já tinha essa tendência homossexual. (2015) ainda afirma que as travestis não obtêm sexo de
Não lembro direito. Aí tinha chacota de todo mundo, seus parceiros, mas sim gênero. Ao ser “cantada”, Jéssica
sabe? (Brenda) recebe a confirmação de sua feminilidade, de seu corpo
e do investimento neste corpo.
Eu gosto de me travesti mesmo desde a adolescência Para Merleau-Ponty (2006), o corpo é também uma
quando eu estudava. Com doze anos eu já me assu- forma de expressão e comunicação com o mundo que
mi como homossexual, já com doze anos eu já usava demarca o campo da linguagem a partir da percepção do
roupa de mulher. Lógico que meu pai se revoltou com sujeito, uma vez que atribuir sentidos ao mundo é tam-
isso e se separou da minha mãe. Me prostituo desde bém comunicá-los e a relação com o outro só ocorre à me-
os doze anos. Desde os doze anos quando eu comecei dida que se estabelece estratégias de compreensão. Ao se
a me vestir de mulher, os homens começaram a me travestirem e irem para a “batalha”, nossas colaboradoras
cantar. E a partir desse momento eu passei a cobrar comunicam aos homens sua disponibilidade para possí-
pelo meu sexo. (Jéssica) veis relações afetivo-sexuais e recebem deles, através dos
olhares, brincadeiras e galanteios, a confirmação do seu
No depoimento das colaboradoras, podemos observar aspecto feminino. Os elogios ou as críticas de outras tra-
que a vivência do travestir se inicia bem jovem, no começo vestis também representam uma forma de se observar a
da adolescência ou ainda no período da pré-adolescência. construção do feminino no corpo e do alcance ou não da
O começo da experiência travesti é marcado pela identi- meta de se passar por mulher. Merleau-Ponty (2006) diz
ficação com o feminino e características socialmente de- que eu só consigo apreender a intencionalidade do ou-
terminadas desse fenômeno (adereços, peças de roupa, tro – e sua atitude para comigo – porque através do meu
maquiagem, postura etc.). A idade do assumir-se travesti corpo posso torná-la minha.
depende, em muito, de condições como a relação com a A partir de seus relatos, observamos que o aprendi-
família, da cidade de residência, dos aspectos econômi- zado das colaboradoras demonstra a complexidade desse
cos, dentre outros (Kulick, 2008). processo que vai desde a preparação do corpo travesti
No caso de Adriana, observa-se a presença de ami- (se montar) até a maneira de lidar com os clientes na
gas que serviram como modelo de construção do femini- prostituição. Observa-se, além disso, o uso de uma lin-
no e como “tutoras” para elaboração do seu travestir-se. guagem específica utilizada no dia a dia das travestis.
Pelúcio (2009) afirma que muitas travestis orgulham-se A linguagem, como a rede de amizades, serve de pro-
de serem “mães” ou madrinhas, o que, por vezes, tem teção às travestis para se comunicarem, por exemplo,
o mesmo sentido. “Amadrinhar” geralmente se refere a diante de um freguês perigoso sem que ele perceba o
proteger e ensinar a viver como travesti, cabendo à cate- que está sendo dito ou até mesmo para avisar sobre a
goria de mãe a iniciação propriamente dita. A noção de chegada da polícia.
“mãe” entre as travestis está ligada, portanto, ao processo As travestis mais velhas são responsáveis pela inicia-
Artigo - Relatos de Pesquisa

de transformação. Muitas travestis saem de casa ainda ção das mais novas e as orientam durante o processo de
“gayzinhos”, denominação que indica que ela já assumiu “fazer o corpo”. Isso pode ser observado no depoimen-
sua orientação sexual para familiares e para a “socieda- to das colaboradoras sobre o começo da Hormonização:
de”, mas ainda não se vestem com roupas femininas ou
ingerem hormônios. Então eu comecei muito jovem mesmo já me traves-
O momento de se revelar homossexual e de se apre- tindo porque eu via as minhas amigas e queria ser
sentar aos outros como travesti depende de vários fato- igual a elas.E elas mesmas me davam hormônios an-
res como o tipo de discriminação que o indivíduo irá en- ticoncepcional nas cartelinhas, me mandavam bater
frentar e o apoio com o qual poderá contar. Brenda foi com vitamina, a gente fazia isso e tomava todo dia.
humilhada na escola e, no caso de Jéssica, observamos o E muita injeção com aqueles hormônios femininos.
preconceito de seu pai ao saber de sua orientação sexual. Pra ralear o sangue, pro chuchu [barba] ficar sem apa-
Mas não basta assumir-se. A partir desse momento, muitas recer. (Adriana)

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 157-166, mai-ago, 2017 162
Para Ficar em cima do Salto: a Construção do Corpo Travesti na Perspectiva Merleau-Pontyana

Pra assim, fugir dos tombos que a gente leva, eu resolvi Depois de um tempo eu bombei silicone no bumbum.
ser cabeleireiro. No salão ser mona é tranquilo. Tomar E com o passar do tempo, acho que tem uns dois anos
hormônio, cabelo grande. Eu vi que era o hormônio que que eu pus prótese no seio, acho que foi uma conquis-
separa a travesti do gayzinho. Porque modifica o corpo, ta. Porque as travestis quando não consegue por pró-
então eu queria ser travesti. Você conhece muita gente tese de silicone e tem que se submeter ao silicone in-
que te ensina a transformar. (Brenda) dustrial é o ó! [perigoso]. Pra nós é uma conquista. Eu
me considero uma vitoriosa por isso, de ter consegui-
Eu tomei hormônios até os dezessete anos. Quando eu do isso. Acho que é um primeiro passo, né. (Adriana)
viajei eu conheci o silicone industrial. (Jéssica)
Parei com o hormônio fui pra SP. Foi lá que comecei
Investigando o processo de construção corporal das a pôr silicone no meu corpo. Nas primeiras vezes eu
travestis, das drag-queens e das transformistas, Jaime morri de dor. Mas aí vai ficando duro e você passa a
(2010) observou que a ingestão de hormônios é um ar- aguentar. Na verdade dói só nas primeiras agulhadas,
tifício diferenciador entre as pessoas no universo trans. né. Tem que tomar remédio depois. Isso a bombadeira
Para as travestis, há a necessidade de ser mulher 24 ho- ensina. Mas como as meninas falam é a dor da bele-
ras por dia, nisso os hormônios têm uma importância za, né. Eu acho isso certo porque a mulher não passa
fundamental por que alteram o corpo, o humor, a voz, o dor pra ficar bonita? Então, a gente também sofre pra
desejo sexual, dentre outros aspectos. Transformistas e ficar em cima do salto [bonita], né. Hoje eu tenho uns
drag-queens geralmente vivenciam mudanças mais su- sete litros de silicone. Aí quando o repouso é feito cer-
perficiais por tempos limitados, como nas apresentações, tinho a tendência é só coisas boas. (Brenda)
e em ambientes específicos.
Observa-se entre as travestis uma diversidade de de- O começo do silicone foi complicado porque eu tive
nominações: os “travecões” salientam suas formas com problema. O meu primeiro silicone ele rejeitou. Eu ti-
o excesso de silicone, enquanto as “ninfetinhas” exage- ve de mandar drenar o silicone, entendeu? Foi uma
ram menos nos trejeitos e adereços. Por fim, as chamadas fase muito difícil, mas como travesti eu me fiz de no-
tops constroem seus corpos em clínicas especializadas em vo continuei fazendo pista, depois que sarou tudo.
estética. Nesse sentido, pesquisadores utilizam o termo E depois de alguns anos eu voltei a injetar novamen-
travesailidades para caracterizar a diversidade deste uni- te. Claro que eu trago marcas do primeiro defeito que
verso (Pelúcio, 2011). aconteceu, por pouco não teve que amputar a minha
A transformação do corpo travesti é impulsionada pe- perna. (Jéssica)
la ação dos hormônios. Sua eficácia simbólica de trazer
os aspectos do feminino para um corpo masculino pode Muitas travestis dizem que o silicone é algo “divino”
ser observada nos depoimentos das colaboradoras. Kuli- porque transforma o corpo rapidamente. Mas o desejo de
ck (2008), em pesquisa acerca das travestis de Salvador, ter um corpo feminino “bombado” se sobrepõe aos ris-
aponta que a fase dos hormônios é imprescindível porque cos implicados nessa construção. Como observou Sabi-
marca o inicio do processo de transformação mais profun- no (2004) em sua pesquisa entre fisiculturistas cariocas,
da do corpo. Elas começam a “se realizar” como travestis. antes de julgar esses procedimentos utilizados na busca
Muitas vezes por estarem já fora de casa e por precisarem de um corpo específico como ignorância ou irracionali-
de dinheiro para se manter, as travestis investem no uso dade, devemos observar o aspecto social que confere sig-
dos hormônios para se estabelecerem de vez na prostitui- nificado à tal prática. Esta, frequentemente, está imersa
ção. A forma arredondada dos corpos atrai os olhares e o em sistemas simbólicos com lógica própria, onde a dor e
crescimento dos seios transforma a silhueta de um corpo o sacrifício aparecem como preço a ser pago e possibili-
masculino em um protótipo do feminino. tam a aceitação em grupo restrito.
Travestis mais velhas e experientes costumam encora- Para Jéssica, que não conhecia o silicone industrial, o
Artigo - Relatos de Pesquisa

jar as jovens a tomar hormônios, sabendo que quanto mais processo de “bombar” representou sua entrada definitiva
cedo for iniciada a hormonização melhor será seu efeito. no mundo das travestis e com ele compactuar; inobstante
Os hormônios agem sobre os pelos, sobre a voz e sobre os riscos e danos que disso decorressem. Do depoimento
as formas da travesti, fazendo com que ela obtenha um de Adriana pode-se extrair que ter uma prótese no seio
corpo com a menor quantidade de atributos masculinos. colocada em uma clínica é uma conquista por que real-
Isso no mercado concorrido da prostituição se refletirá no mente poucas têm essa possibilidade. As travestis conhe-
número de programas, no dinheiro arrecadado e na sua cem vários casos infelizes de aplicação pelas “bombadei-
imagem frente às outras travestis (Pelúcio, 2011). Mas, a ras”: peitos que praticamente se fundiram por causa do
medida que os hormônios vão fazendo seu efeito, é pre- deslizamento do silicone, causando inchaço pronunciado
ciso dar um salto em busca de um corpo mais feminino: e indistinto, denominado por elas “peito de pomba”, ou
entra em cena o silicone. Nossas colaboradoras afirma- casos em que o silicone formou nódulos protuberantes
ram o seguinte sobre o momento de plastificar o corpo: bem acima do estômago (Pelúcio, 2009).

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Obter recursos para colocar a prótese, como nos relata Já trabalhei como cabeleireiro, mas eu gosto mais da
Adriana, “é uma conquista” para poucas. Isso se reflete no prostituição. E com o silicone você tem mais progra-
número de programas e no ganho diário. Podemos obser- ma. E também, os cliente acham que eu tenho pauzão
var também que essa valorização da prótese, que aumenta [risos]. E aí dou sorte. Sempre me escolhem. Porque o
e realça os seios deixando-os diferentes daqueles formados que eles querem é pauzão. (Brenda)
por hormônios, se deve a mudanças no padrão de beleza
das mulheres brasileiras nos últimos anos. Don Kulick, Eu preciso comer, me vestir, me calçar. E é muito fácil
nos anos de 1990, falava da valorização ainda presente um homem chegar pra mim e se oferecer, é muito mais
da bunda e dos quadris pelos brasileiros (Kulick, 2008). fácil um homem me oferecer sexo do que me oferecer
Hoje, se observa maior influência do modelo americano um prato de comida ou um copo de água. Sabia? É mais
que valoriza o busto (Pelúcio, 2011). Essa mudança tam- fácil ele querer me passar o sal do que ele querer me
bém se reflete na estética das travesti mais jovens que fa- ajudar. Se eu for pedir dinheiro pra passagem do ôni-
zem a linha ninfetinha, com a silueta mais clean e menos bus eles logo perguntam “o quê que você vai fazer pra
travecão, com excesso de hormônio e silicone, conforme mim? Não quer chupar aqui, não?” Entendeu? (Jéssica)
apurou Jayme (2010).
Sobre a relação das travestis com o silicone, seja in- Ao expor seu corpo no mundo da prostituição, as co-
dustrial ou em próteses, podemos pensar como Merleau- laboradoras nos revelam os riscos e perigos dessa vivên-
-Ponty (2004) quando discute nossa relação com os ob- cia. Para Merleau-Ponty (1975), o espaço, seja da escola
jetos e os significados que atribuímos a eles. O filósofo ou da casa onde moramos, é a delimitação concreta dos
afirma que os objetos e nossas preferências em relação a limites do corpo e se estabelece pelo contexto sociocul-
eles, que fazem parte do nosso mundo, são parte de nos- tural no qual a pessoa está inserida. Sob este aspecto, os
sas escolhas e provocam em nós reações boas e ruins que modos de interação do corpo com o mundo bem como o
acabam por refletir em nós mesmos. Pois ainda que haja modo como este será percebido, compreendido e signifi-
a tentativa de elaboração discursiva do que é o mundo, cado estão, também, delimitados pela lógica deste espa-
do que sou eu, concretamente o mundo só aparece na mi- ço, adquirindo os traços culturais, hábitos, práticas que
nha interação com ele, na minha vivência, me afetando e se tornam constituintes de nossa subjetividade e dão sig-
sendo afetado por mim. nificados e sentidos ao nosso lugar no mundo e ao existir.
A ausência de pesquisas específicas sobre essa rea-
lidade vivida pelas travestis impossibilita uma discus- O espaço é existencial; poderíamos dizer da mesma
são mais acurada sobre os efeitos do silicone industrial maneira que a existência é espacial, quer dizer, que por
aplicado em seus corpos, assim como, do uso abusivo uma necessidade interior ela se abre a um ‘fora’, a tal
e indevido de hormônios sem orientação, deixando-as ponto que se pode falar de um espaço mental e de um
à mercê de práticas nem sempre saudáveis e que nem ‘mundo das significações e dos objetos de pensamen-
sempre observam as condições de higiene necessárias to que nelas constituem. (Merleau-Ponty, 2004, p. 74)
a tais procedimentos (Benedetti, 2005). Algumas tera-
pias próprias da medicina autorizada, como o uso de Também é importante destacar que em momento al-
anestésicos, ingestão de antibióticos, são incorporadas gum se deve pensar que a prostituição e a travestilidade
a estes cuidados, mas, na maioria das vezes, são admi- sejam indissociáveis. Para Pelúcio (2009), entretanto, a op-
nistrados pela “bombadeira” ou por uma travesti mais ção por pensar a travestilidade recortada pela vivência na
experiente. prostituição é legítima, tanto mais quando se observa que
O processo de colocar o silicone constitui um dos pon- o universo das ruas (a pista) é fundamental na construção
tos da transformação travesti, mas é também na prostitui- da pessoa travesti; é onde ocorre, por exemplo, o proces-
ção que esse corpo se moldará. Desse modo, em relação so de amadrinhamento, que, como vimos acima, poten-
à categoria O corpo desvelado na pista, nossas colabora- cializa as transformações realizadas no fazer-se travesti.
Artigo - Relatos de Pesquisa

doras relataram que: Ainda conforme Pelúcio (2011), a prostituição no caso


das travestis pode ser entendida de diversas formas: (1)
E a prostituição / até hoje eu faço prostituição / ainda um trabalho, que gera renda e possibilita um ambiente de
vou pra rua porque infelizmente eu não tenho como sociabilidade; (2) um meio de ascender socialmente com
me sustentar. Porque com a prostituição a gente sabe a garantia de conquistas materiais e simbólicas; (3) uma
que fica muito exposta às DST, a AIDS, ao álcool, às atividade “desprestigiada”, em que estariam envolvidas
drogas. A saúde mental das travestis atualmente an- somente por necessidade financeira e da qual sairiam as-
da um pouco avariada porque a gente é muito grande sim que possível, dentre outras. É ainda importante ressal-
o uso e abuso das dependências químicas devido às tar que tais posicionamentos não são estanques e/ou defi-
circunstâncias, devido ao meio que a gente vive mes- nitivos e sim percepções que se entrecruzam e dialogam.
mo. (Adriana) Adriana procura outras formas de se sustentar atuan-
do como voluntária em uma ONG de apoio às travestis.

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Para Ficar em cima do Salto: a Construção do Corpo Travesti na Perspectiva Merleau-Pontyana

Brenda e Jéssica atuam como profissionais do sexo e pro- O que novamente leva as pessoas a esconderem sua inti-
curam trabalhar com dignidade e longe dos riscos – que midade, exigindo o direito à privacidade e à indiferença,
parecem ser muitos: drogas lícitas e ilícitas, violência, do- mas acabando, muitas vezes, no ostracismo social.
enças, entre outros. O corpo travesti é um corpo que tam-
bém se faz pela resistência aos perigos (Andrade, 2015).
O rol de dificuldades pelas quais passam as travestis Considerações finais
que estão “na pista”, é longo – repressão policial, assaltos,
brigas, ofensas proferidas pelos transeuntes. Até pegar a No ethos contemporâneo, o corpo é tomado como re-
“manha”, medo e insegurança são situações de ameaça ferente máximo do sujeito, ele constrói sua subjetivida-
enfrentadas pelas travestis que se prostituem. O corpo de, anexa adereços que indicam seu status social, suas
precisa aprender a suportar o frio, os longos períodos em preferências e gostos. Com as novas tecnologias ligadas à
pé, o sono e muitos outros desafios. No entanto, aquilo biomedicina, já é possível sonhar com um “novo corpo”,
que chama a atenção nos relatos das colaboradoras é o substituindo partes e utilizando próteses para potencia-
lugar de abjeção reservado ao seu corpo. lizar nosso funcionamento.
Para levar a cabo a construção desse corpo e desse gê- As diferenças e os limites entre os sexos passaram
nero, as travestis desenvolvem todo um “rebolado” para a ser questionadas por diferentes grupos, demonstran-
lidar com as constantes situações de discriminação a que do que a anatomia não é o destino. A mudança de sexo
estão submetidos os “abjetos”, “anormais” e “diferentes”. biológico já se tornou realidade para determinados seg-
Procuram manter-se “no salto” apesar dos muitos trope- mentos. E outros grupos marcham nesse sentido ques-
ços reservados para os que enfrentam as fronteiras de gê- tionando os determinantes de gênero. Essas mudanças
nero insistentemente demarcadas. Peres (2011) acredita caminham impulsionadas pelo mercado e pelo contexto
que esse processo de “degradação” das travestis ocorre social, que exigem de nós cada vez mais saúde e beleza,
por dois motivos. O primeiro consiste em que, estando magreza e juventude.
imersas numa sociedade machista, elas fogem do papel As travestis, influenciadas por estas questões, atuam
de macho, de provedor e, ao feminilizar seu corpo, este em seus corpos, adequando-os às demandas do mercado
perde seu status social, tornando-se uma“coisa abjeta”, do sexo; mas, principalmente, agem sobre sua corporei-
inexistente e não importante. Já no segundo desvio é que, dade na perspectiva de alcançar um ideal de beleza que
ao adentrarem na prostituição, tornam-se uma chaga so- as aproxime do feminino. Não sendo totalmente passivas
cial, uma praga que precisa ser extirpada. às demandas, elas criam dispositivos para transformarem
Nesse sentido, Merleau-Ponty (2006) afirma que o es- seus corpos utilizando saberes populares e práticas mé-
tabelecimento de julgamentos e estereótipos ao outro faz dicas na construção da corporeidade travesti. Rompendo
com que ele se transforme nesta realidade para o sujeito, barreiras de gênero, transformando práticas e ampliando
sem necessariamente haver uma reflexão sobre ele, sem o jogo da sedução, as travestis criam uma sintaxe erótica
amparar-se no aspecto fenomênico, devido à recorrência própria, ligada ao glamour e ao exótico.
das experiências. Ou seja, a frequente discriminação faz As histórias de vida das travestis nos ajudam a com-
com as travestis naturalizem a violência e o preconceito, preender os significados que elas atribuem a esse pro-
colocando-se como pessoas de segunda classe, à margem cesso de transformação. Uma travesti não se faz somente
da sociedade. com roupas e adereços femininos, mas também com hor-
É preciso lembrar que o homem é ser falante e que pela mônios para arredondar o corpo, com silicone para dar
sua fala visa as coisas enquanto elas estão ausentes. As- forma e volume aos seios e quadris. A dor durante este
sim, uma palavra é “um de nossos possíveis de meu corpo processo dá sentido às suas vivências e marca suas histó-
próprio” e por ela a “existência dar-se-á como coexistên- rias. Além disso, o ser travesti também se faz na pista, no
cia, como comunicação e diálogo” (Merleau-Ponty, 2004, contato com os clientes e cafetinas, madrinhas/mães – que
p. 164). Nessa perspectiva podemos perceber relações in- ora acolhem ora maltratam – e ensinam os caminhos da
Artigo - Relatos de Pesquisa

trínsecas entre a experiência vivida pelas travestis em su- noite no mercado sexo. A rivalidade e as amizades mar-
as trajetórias existenciais e os significados e valores que cam também a vivência travesti, pois, ali está o espelho
são atribuídos às figurações, aos discursos e aos desejos onde se deve olhar e onde são encontrados os modelos
que se processam em decorrência da própria experiência para subir e permanecer “em cima do salto.”
de vida, demarcando preconceitos e exclusões, analisados A violência e a exclusão ainda são relatadas com fre-
através de estruturas binárias, consideradas inerentes aos quência pelas travestis. E passam a constituir uma manei-
indivíduos. Para Estrada-Mesa e Báez-Silva (2009), existe ra de lidar com os outros e com elas mesmas. Ao verem
um círculo vicioso que afeta aquelas pessoas que se enga- seus corpos e seus desejos relegados ao segundo plano,
jam numa prática erótica dissidente: por não haver espaço acabam por adoecer e trilham caminhos “mais fáceis” pa-
de discussão da orientação sexual, opta-se pelo silêncio; ra suportar a dor do ostracismo. As drogas, as bebidas, o
noutro momento, quando se demonstra abertamente a “truque”, dentre outros são usados pelas travestis como
sexualidade, esta se torna elemento de escárnio público. mecanismos para amenizar seu sofrimento.

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Edmar H. D. & Maria A. T. B.

Além desses caminhos, há a tentativa de romper com Kulick, D. (2008). Travesti: prostituição, sexo, gênero e cultura
o universo da prostituição, abrindo novos espaços para no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.
o corpo travesti e novos significados para a sua atuação. Le Breton, D. (2011). Antropologia do corpo e modernidade.
Trabalhar em restaurantes, em salões de beleza, em ONGs Petrópolis: Vozes.
LGBT e em outros lugares, ainda que de forma limitada,
representam mudanças para as travestis que buscam re- Matthews, E. (2011). Compreender Merleau-Ponty. Petrópolis:
cuperar sua cidadania. A busca pelo fim da discriminação Vozes.
é um sonho comum relatado pelas travestis, que, desde Merleau-Ponty, M. (2004). Conversas – 1948. São Paulo: Mar-
sua infância, tiveram seus desejos cerceados a partir do tins Fontes.
momento que assumiram sua condição.
A vivência travesti se inscreve na perspectiva do de- Merleau-Ponty, M. (2006). Fenomenologia da percepção. Rio de
Janeiro: Martins Fontes.
sejo e do sonho colocados como motivadores da transfor-
mação resultando em um corpo ambíguo, “abjeto”, des- Moreira, D. (2004). O método fenomenológico na pesquisa. São
concertante. Dessa forma, as travestis surgem não apenas Paulo: Pioneira.
como grupo social a ser compreendido, mas como forma
Nóbrega, T. (2010). Uma fenomenologia do corpo. São Paulo:
de referendar a fugacidade e inconsistência dos corpos, Editora Livraria da Física.
apresentando-os como metáfora da transitividade inscri-
ta nas sexualidades contemporâneas. Ortega, F. (2008). O corpo incerto. Corporeidade, tecnologias mé-
Enquanto sujeitos de suas vidas, as travestis buscam dicas e cultura contemporânea. Rio de Janeiro: Garamond.
romper com determinadas situações a partir de seus es- Pelúcio, L. (2009). Abjeção e desejo. Uma etnografia travesti
forços. Criando novas relações e buscando diferentes es- sobre o modelo preventivo de AIDS. São Paulo: FAPESP.
paços, o corpo travesti é um nó de significações viventes
e aberto a novas compreensões e novos estilos. Essa nova Pelúcio, L. (2011). Desejos, brasilidades e segredos: o negó-
corporeidade trás desafios para a Psicologia que é chama- cio do sexo na relação entre clientela espanhola e travestis
brasileiras. Bagoas - Estudos Gays: Gêneros e Sexualidades,
da a dialogar com novos sujeitos sociais, com movimentos
5(6), 243-266.
progressistas e reacionários e questões inéditas inseridas
atualmente nas políticas de saúde como o abuso de medi- Peres, W. (2011). Travestis: corpos nômades, sexualidades múl-
camentos, a patologização das transexualidades, o aumen- tiplas e direitos políticos. Em: F. Souza & T. Sabatine (Eds.).
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Edmar Henrique Dairell Davi - Possui Graduação e Mestrado em Psi-
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Psicologia e Pesquisa Fenomenológica: reflexões e perspec- côncavo da Bahia. Endereço Institucional: Av. Carlos Amaral, 1015,
tivas (p. 24-39). São Paulo: Alínea. Cajueiro, Santo Antônio de Jesus, Bahia. CEP: 44.574-490. E-mail:
edmardavi@yahoo.com.br
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Maria Alves de Toledo Bruns - Docente e pesquisadora do Programa


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Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 157-166, mai-ago, 2017 166
Obesidade Infantil: Compreender para Melhor Intervir

Obesidade Infantil: Compreender para Melhor Intervir

Childhood Obesity: Understanding to Better Intervene

La obesidad Infantil: Entender Mejor a Intervenir

Luciana Gaudio Martins Frontzek


Luana Rodrigues Bernardes
Celina Maria Modena

Resumo: O artigo visa compreender a obesidade infantil a partir de quem vivencia o fenômeno, crianças e pais, para subsidiar
intervenções mais efetivas. A pesquisa foi realizada em Belo Horizonte com 10 famílias através de narrativas individuais e em
grupos na perspectiva da teoria da complexidade e da fenomenologia. Com base nas narrativas foram construídas cinco categorias
temáticas: o significado da comida – atrelado à visão biomédica e a elementos afetivos e psicológicos; a percepção social – predomina
o olhar pejorativo; a influência do sobrepeso infantil no cotidiano – há impactos negativos nos campos físico, emocional e social; a
relação com profissionais da saúde – marcada por cobranças, receios e incompreensões e; motivos para não adesão ao tratamento
– são implícitos e explícitos. Conclui-se que, para a compreensão da obesidade infantil e para se pensar em intervenções mais
eficazes deve-se considerar o sentido atribuído à obesidade, as relações familiares, as condições socioeconômicas e todos os
elementos que circundam a obesidade infantil.
Palavras-chave: Obesidade infantil; Relações familiares; Profissionais da saúde; Fenomenologia.

Abstract: The article aims to understand childhood obesity from the person who experiences, children and parents, to support
effective interventions. The survey was conducted in Belo Horizonte with 10 families through individual interviews and groups
from the perspective of complexity theory and phenomenology. Five thematic categories were built based on the narratives: the
meaning of food – linked to the biomedical vision and the emotional and psychological elements; the social perception – a pejora-
tive influence of childhood overweight prevails in everyday life – there are negative impacts in the fields of physical, emotional and
social relationship with healthcare professionals, marked by charges, fears and misunderstandings and reasons for non-adherence
to treatment – they are both implicit and explicit. We conclude that to understanding childhood obesity and to think of more ef-
fective interventions one must consider the meaning attributed to obesity, family relationships, socioeconomic conditions and all
the elements that surround childhood obesity.
Keywords: Childhood obesity; Family relationships; Healthcare professionals; Phenomenology.

Resumen: El artículo tiene como objetivo comprender la obesidad infantil de la persona que la experimenta, los niños y los pa-
dres, para apoyar las intervenciones eficaces. La encuesta se llevó a cabo en Belo Horizonte con 10 familias a través de las cuen-
tas individuales y grupos desde la perspectiva de la teoría de la complejidad y la fenomenología. Sobre la base de las narrativas
fueron construidas cinco categorías temáticas; el significado de comida – ligada a la visión biomédica y los elementos emociona-
les y psicológicos; la percepción social – prevalece la influencia peyorativa de sobrepeso infantil en la vida cotidiana – existen im-
pactos negativos en los campos de la relación física, emocional y social con los profesionales de la salud marcados por las cargas,
los miedos y los malos entendidos y las razones de la falta de adherencia al tratamiento – ambos están implícitos y explícitos.
Llegamos a la conclusión de que para la comprensión de la obesidad infantil y pensar en intervenciones más eficaces debemos
tener en cuenta el significado atribuido a la obesidad, las relaciones familiares, las condiciones socioeconómicas y todos los ele-
mentos que rodean la obesidad infantil.
Palabras-clave: Obesidad infantil; Relaciones familiares; Profesionales de la salud; Fenomenología.
Artigo - Relatos de Pesquisa

Introdução O Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso,


2015) mantém em seu site um mapa atualizado a partir
A Organização Mundial da Saúde (WHO, 1998) relata de informações oficiais, onde é possível ver por região a
crescimento da obesidade infantil em aproximadamente prevalência da obesidade.
40% nos países Europeus nos últimos 10 anos. No Bra- A obesidade é considerada atualmente uma doença
sil os últimos dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro crônica multifatorial e assim o tratamento deve ter tam-
de Geografia e Estatística (IBGE) são de 2008/2009 (Bra- bém uma perspectiva multidisciplinar. A obesidade evo-
sil, 2008). Na região sudeste o excesso de peso infantil ca muitos elementos que se relacionam de forma dinâ-
em crianças de 5-9 anos foi de 38.8% e nas idades de mica e simultânea, portanto qualquer tentativa fragmen-
10-19 foi de 22.8%. A Associação Brasileira para tada de lidar com o tema se mostrará menos eficaz. Para

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Luciana G. M. F.; Luana R. B. & Celina M. M.

ilustrar alguns destes elementos pode-se citar: a influên- de causalidade complexa, ou seja, causalidade mútua in-
cia midiática que estimula uma alimentação inadequada ter-relacionada (Morin, 1996). De forma complementar e
ao mesmo tempo em que se cobra um padrão ideal de dialógica, a ótica fenomenológica consiste em adotar uma
magreza, a economia/política que estimula o consumis- postura de abertura e flexibilidade, desatando definições
mo, os interesses da indústria da alimentação não saudá- consolidadas, o que possibilita análises e resultados me-
vel, a complexidade das relações familiares envolvidas, nos superficiais na investigação do fenômeno estudado.
a discriminação social sofrida, a dificuldades subjetivas Husserl, precursor da fenomenologia, ergueu uma ponte
de cada um, entre outros (Frontzek, 2015; Nunes, Appo- entre o abismo que existia entre a ação prática da ativi-
linario, Abuchai & Coutinho, 2006;). dade científica e a natureza reflexiva da filosofia. Ele evi-
É frequente na literatura sobre a obesidade informa- denciou os diferentes níveis de percepção da realidade
ções sobre o aumento crescente da obesidade infantil e pelo sujeito observador. Husserl nos remete a teoria da
adulta em todo mundo, sendo considerada uma epidemia. complexidade pela multiplicidade de enfoques e os ques-
(Freitas, 2014; Frontzek, 2015; Melo, Luft & Meyer, 2003, tionamentos aos fundamentos da ciência (Ribeiro, 2015).
Nunes, 2006,). Trata-se de um problema de saúde públi- Assim, a opção de ouvir as pessoas que vivenciam co-
ca, mas também de uma questão social, já que as pessoas tidianamente as consequências da obesidade infantil pro-
com sobrepeso são estigmatizadas. (Poulain, 2013). A vi- porciona um caminho mais próximo de suas realidades.
são da obesidade construída pela visão biomédica busca O tema poderá ser melhor tangenciado se consideramos
propor estratégias de controle e prevenção, através de pro- sua complexidade sem querer engessá-lo em conceitos
gramas prescritivos, verticais e culpabilizantes. Poulain previamente definidos. Desta forma, a teoria de Morin
(2013) propõe que, para serem mais efetivas as ações de (2007) evoca a complexidade e a fenomenologia a neces-
prevenção nesta área deveríamos evoluir para uma lógi- sidade de nos debruçarmos sobre fenômeno de maneira
ca de responsabilidade partilhada, já que as campanhas aberta e sem preconceitos.
de “combate” a obesidade extremamente prescritivas e No trabalho com pessoas obesas pode-se observar que
baseadas em controle social mostram-se até mesmo con- é significativo a frequência com que relatam dificuldades
traproducentes em muitos casos. Estes dados apontam a com o peso desde a infância. É possível perceber hábitos
importância de mais estudos na área. alimentares que levam a obesidade sendo repassados por
Portanto, o objetivo desta pesquisa foi compreender gerações (Frontzek, 2014). A seleção de alimentos é parte
a obesidade infantil pela perspectiva fenomenológica as- de um sistema comportamental complexo que na criança
sociada ao pensamento complexo para subsidiar inter- é determinado primeiro pelos pais (Savage, Fisher & Birch,
2007). Diante de tantas evidências é importante refletir
venções mais efetivas, já que este ponto de vista teórico
sobre o tema e pensar em formas efetivas de intervenção
parte diretamente do fenômeno e de tudo que o envolve.
além da prevenção. Para contribuir com este objetivo foi
A fenomenologia em diálogo com a teoria da comple-
realizada uma pesquisa em um Hospital Infantil em Belo
xidade proposta por Morin (1996) se mostrou pertinente
Horizonte com famílias compostas por crianças acima do
para a análise dos dados por apresentar uma perspectiva
peso. Antes do trabalho de campo realizou-se uma revi-
que abrange a complexidade dos fenômenos inter-rela-
são integrativa sobre a obesidade infantil (Frontzek, 2016)
cionais como o é a obesidade infantil.
que apontou a percepção distorcida dos pais em relação
O método fenomenológico não se restringe à pesqui-
ao sobrepeso dos seus filhos como um dos possíveis com-
sa qualitativa. Trata-se de um instrumento de análise ló- ponentes para a ineficiência dos tratamentos. A literatu-
gica e de confronto à realidade. Significa uma constante ra na área aponta que, intervenções que não envolva os
indagação ao que está posto. Nesse sentido, a descrição pais são menos eficazes (Camargo, Azevedo & Antonio,
fenomenológica poderá contar também como fonte de in- 2013; Melo et al, 2003).
formação a estatística (Decastro & Gomes, 2011). Assim A partir desta experiência pode-se perceber que é in-
a fenomenologia nos permite o movimento de ir e vir ao viável um trabalho na área da saúde para lidar com o so-
fenômeno. Paradoxalmente, esse movimento de ir e vir brepeso infantil que não contemple e intervenha no con-
Artigo - Relatos de Pesquisa

não denota instabilidade ou ausência de consistência e junto familiar que cerca a criança. Sendo assim, se torna
de rigor científico, mas um caráter de recursividade que necessário escutar os filhos e os pais e compreender as
torna o enfoque fenomenológico uma proposta de refle- relações existenciais estabelecidas, já que boa parte do
xão exaustiva e também uma vertente da epistemologia comportamento alimentar é aprendido.
da complexidade de Edgar Morin (conforme citado por Partindo destes pressupostos a pesquisa buscou com-
Ribeiro, 2015). preender a percepção social da obesidade infantil através
A complexidade por sua vez permite uma releitura das narrativas das crianças e das famílias, considerando
crítica da prática e dos pressupostos configuradores da sua complexidade e inacabamento. Narrar alguma coisa
abordagem fragmentadora da obesidade. Nesse aspecto, consiste na “faculdade de intercambiar experiências”,
ressalta-se a importância de um paradigma que se propõe a configurando-se naquilo que Eco chama de obra aberta,
buscar o desconhecido do conhecimento pelo seu próprio posição antecipada por Benjamin, na sua obra “O Narra-
inacabamento, baseando-se, por exemplo, no princípio dor”, (conforme citado por Dutra, 2002).

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Obesidade Infantil: Compreender para Melhor Intervir

1. Metodologia desordem não podem ser pensados separados, mas como


um par que na sua relação dialógica produz as infinitas
1.1 Delineamento do estudo configurações e modificações do real.

O estudo foi realizado na perspectiva da pesquisa qua- É comum se atribuir causas lineares para explicar a
litativa fenomenológica que busca aprofundar-se na com- obesidade; “engordou por causa da ansiedade”, por exem-
preensão dos sentidos, das experiências vividas, aspira- plo. A recursividade nos remete a multicausalidade da
ções, atitudes e na teoria da complexidade que aprofunda obesidade infantil, que não é linear. A multicausalidade
a dinâmica da coexistência e recursividade dos elementos nos mostra que existe uma rede complexa atuando em que
envolvidos. O referencial teórico foi o da Fenomenologia não é possível distinguir causa e efeito, pois o fenômeno
Existencial de Heidegger (2002) que busca descrever o fe- representa ambos; engordou por causa da ansiedade, mas
nômeno tal como ele ocorre, compreendendo aquilo que vemos que, por que engordou ficou ansioso e, além disto,
se mostra e seus significados. A fenomenologia, redefinida as relações familiares, as pressões sociais e os estímulos
por Heidegger têm como um dos seus pressupostos a má- midiáticos também vão influenciar no aparecimento da
xima Hursseliana de “ir às coisas mesmas”, isto é, como ansiedade e do engordar.
o sujeito vê, interpreta e vivencia determinada situação Ansiedade, então, é causa e consequência, ordem e
(Amatuzzi, 2009). Esta perspectiva tem sido considera- desordem que compõe um quadro composto por vários
da como um importante referencial nos estudos do cam- elementos que não podem ser dissociados na tentativa de
po da saúde, possibilitando que as pessoas e populações compreensão da obesidade infantil. Não existe obesida-
que vivenciam determinados fenômenos expressem seus de isolada e não é possível tratar “a obesidade” de forma
sentimentos e significados em relação ao processo saú-
descontextualizada.
de-doença (Martins Savassi, Almeida & Modena, 2012).
Devemos tentar compreender a vida da pessoa que
Entende-se que toda compreensão é parcial e inacaba-
apresenta este quadro vivencial no qual a obesidade é um
da, tanto a do nosso entrevistado, que tem um entendimen-
dos componentes do Dasein. Parte-se da referência do ou-
to contingente e incompleto de sua vida e de seu mundo,
tro como um ser-aí-no-mundo que seria o homem se re-
como a dos pesquisadores, pois também somos limitados
lacionando com as coisas (instrumentos), com os outros
no que compreendemos e interpretamos (Minayo, 2012).
(as demais presenças) e consigo mesmo. “Afirma-se isso
Sendo assim, para compreender a obesidade infantil
tendo em vista que, ao ocupar-se, que é o principal e pri-
a teoria da complexidade de Edgar Morin (1996) foi tam-
bém evocada porque visa contrapor o paradigma da sim- meiro modo da presença se projetar, ela o faz em relação
plificação que se pauta por raciocínios lineares, a busca a estes três “momentos” (coisas, outros, e a si mesmo)”,
da não-contradição e a dicotomia entre ordem e desordem (Ferreira & Ribeiro, 2007, p. 5).
sem conceber estes conceitos como complementares e si- Trata-se de ser capaz de pensar o real como um todo
multâneos. No entanto, não se trata de invalidar o para- e não de o reduzir arbitrariamente fragmentando-o. Desta
digma clássico, mas sim de reconduzi-lo aos seus limites forma, a obesidade dever ser vista com todas as contradi-
(Estrada, 2009). Já a fenomenologia busca compreender o ções, subjetividades, ordem e desordens que a compõe.
fenômeno a partir dele mesmo. A atitude fenomenológi- Os pensamentos complexos junto com a atitude fenome-
ca, na perspectiva complexa aponta uma opção pela mul- nológica se constituem em um exercício que se mostra
tiplicidade de tendências filosóficas que dialogam entre necessário para nos aproximarmos mais do fenômeno,
si (Masini, 1989). não o fragmentando e enxergando o fenômeno tal qual
O pensamento complexo proposto por Morin (2007) ele se apresenta em cada ser-no-mundo.
oferece recursos para ultrapassarmos a lógica reducionis- Todos os participantes da pesquisa foram esclarecidos
ta que pode ser uma das causas da ineficácia de alguns sobre os procedimentos da pesquisa e assinaram o Termo
programas propostos para combater a obesidade infantil. de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). As crian-
Desconsiderar a subjetividade e a complexidade envolvi- ças assinaram o termo de assentimento. Todo o padrão
Artigo - Relatos de Pesquisa

da torna limitado o potencial de compreensão do tema. ético estabelecido pela comunidade cientifica foi respei-
Algumas das ideias de Morin (2007) utilizadas para esta tado. O projeto foi aprovado pelo comitê de ética sob o nº
discussão são: CAAE: 47144615.8.0000.5091, submetido via plataforma
• Recursividade: Oposição ao princípio determinista Brasil em 14/07/2015.
da causalidade linear que acredita que todos os fenôme-
nos têm uma causa e são, por isso explicáveis em rela-
ções particulares de causa-efeito; A é causa de B. É pre- 2. Procedimentos
ciso pensar a recursividade ou, seja, a possibilidade de a
causa agir sobre o efeito e de o efeito agir sobre a causa. A pesquisa foi realizada no Hospital Infantil São Ca-
• Dialógica: Pensar dialogicamente é compreender milo. Trata-se de uma das principais instituições hospita-
que a realidade se constitui, modifica, destrói e rege- lares infantis privadas de Belo Horizonte. A pesquisa foi
nera a partir de princípios e forças contrárias. Ordem e realizada em grupos de intervenções multidisciplinares

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Luciana G. M. F.; Luana R. B. & Celina M. M.

que são realizados no hospital semestralmente com fa- condições de produção da palavra ocorridas na pesquisa.
mílias que vivenciam a obesidade infantil. Os grupos Construíram-se categorias temáticas conforme os temas
são quinzenais e possuem duração de 2 horas. A equipe que emergiram das narrativas. O objetivo foi, através da
é composta por nutricionista, pediatra e psicóloga. Foram leitura cuidadosa e exaustiva, encontrar um conjunto de
10 famílias participantes. significados em comum, embora não se perca de vista a
A idade das crianças foi estabelecida de acordo com singularidade da vivência de cada um. Utilizou-se a AC
o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que consi- enquanto ferramenta para organização temática das nar-
dera criança a pessoa até 12 anos de idade incompletos rativas para posterior compreensão na perspectiva feno-
(Brasil, 1994). As crianças participantes se situavam na menológica e complexa.
faixa etária de 9 a 12 anos (07 meninas e 03 meninos),
de qualquer cor e situação econômica. Todas as crianças
estavam acima do peso considerando a classificação pro- 4. Resultado e discussão
posta pelo IMC. As crianças já foram encaminhadas para
o grupo com esta classificação aferida pelos médicos do De forma geral, as falas das crianças não se distancia-
hospital onde foi realizado o estudo. Os pais das crianças ram muito das falas dos pais. Foi comum observar que
foram convidados sem distinção de idade, sexo, cor e si- algumas crianças, às vezes, utilizavam as mesmas ex-
tuação econômica. Foi convidada a família, podendo par- pressões dos pais.
ticipar todos que convivessem com a criança, pais, avós e A partir da interpretação dos dados coletados, nas en-
outros familiares. Mesmo insistindo na importância dos trevistas e nos encontros no grupo, foram construídas cin-
pais e de outros familiares que moram com a criança es- co categorias temáticas: O significado da comida, a percep-
tarem presentes houve adesão de apenas 3 pais. As mães ção social das pessoas acima do peso, a influência do so-
das 10 crianças participantes foram assíduas aos encon- brepeso infantil no cotidiano, a relação com profissionais
tros, totalizando 23 pessoas nos grupos. da saúde e os motivos para a não adesão ao tratamento.
Antes do início do grupo, os pais e as crianças foram Este resultado possibilita a reflexão sobre a importân-
convidados a narrar suas experiências, individualmente, cia da escuta para as práticas de saúde. A criação de es-
acerca da obesidade infantil através das seguintes ques- paços intersubjetivos que valorizem a relação profissio-
tões norteadoras: percepções em relação à obesidade, nal de saúde e pacientes como parceiros da construção
sentido da comida, limitações cotidianas e preconceitos da saúde deve se pautar no comportamento dialógico,
sociais. As crianças realizaram técnicas gráficas para con- que, para Buber (1982), consiste em uma relação em que
tar as suas vivências sobre os temas sugeridos, foi pedi- os membros se reconheçam para além da comunicação,
do a elas que desenhassem “como via comida em sua vi- buscando se compreender na busca pelo significado e pe-
da”, “como ela se via” e “como ela achava que os outros la interpretação das experiências vividas.
a viam”. Com os pais foi realizada entrevista utilizando O cuidado nas práticas em saúde deve refletir “Uma
os três temas como mote para a narrativa. atenção à saúde imediatamente interessada no sentido
Os grupos foram conduzidos pela equipe multidisci- existencial da experiência do adoecimento, físico ou men-
plinar com várias técnicas grupais, que abordaram temas tal” (Ayres, 2004).
relativos às vivências das famílias, comportamento e ali- O cuidado que se revela nas práticas em saúde de-
mentação. Refletiu-se sobre a pressão da mídia, a “corre- ve considerar a articulação da intervenção técnica com
ria” do dia-a-dia, as dificuldades da reeducação alimentar o sentido que esta tem para a pessoa. Tal articulação se-
e a afetividade que envolve a comida. Foram utilizadas rá possível a partir da escuta dos profissionais sobre o
colagens, rodas de conversa, jogos, entre outros. que as pessoas desejam como modo de vida. Assim, será
Em todos os encontros as famílias eram convidadas a possível adequar técnicas profissionais às demandas das
pensar sobre seus comportamentos e hábitos no cotidia- crianças acima do peso e de suas famílias.
no através de técnicas lúdicas e espaços para reflexões.
A participação no grupo nos permitiu observar, interagir
Artigo - Relatos de Pesquisa

e compreender melhor o fenômeno da obesidade infantil 5. Significado da comida


e toda complexidade que o cerca.
Percebe-se nesta temática o significado da comida di-
vidido em dois campos principais: prazer e necessidade.
3. Análise dos dados A percepção de pais e filhos foi análoga em alguns pontos.
As crianças trouxeram aspectos negativos que os pais não
As narrativas e as reuniões em grupo foram transcritas colocaram de forma tão clara, “É o que engorda”. Houve
e identificadas através de códigos numerados por ordem diferenças de nomenclatura também, pois enquanto os
de que foram entrevistados, preservando a identidade dos pais ser referem ao alimento como “necessidade”, “im-
participantes. Para organização e análise dos dados, foi prescindível”, “o corpo pede” as crianças em sua maio-
utilizada a Análise de Conteúdo (AC) de Bardin (1977), ria citaram como “fonte de energia” revelando um con-
escolhida pela possibilidade de adequação às diversas teúdo provável nos bancos escolares e nas falas sociais.

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Obesidade Infantil: Compreender para Melhor Intervir

Um argumento bastante usado para fazer as crianças co- elementos são necessários para implantar mudanças.
merem é citá-lo como uma fonte de energia para conse- E alguns não dependem unicamente da pessoa como, por
guir fazer suas atividades. Já em relação ao alimento co- exemplo, uma boa orientação profissional, condições am-
mo prazer as expressões utilizadas foram “tudo de bom”, bientais para executar as mudanças, condições econômi-
“relaxa”, “gostoso”, “prazeroso” entre outras. cas, emaranhados familiares que repercutem em conflitos
O sentido de prazer atribuído a alimentação apareceu psicológicos entre outros.
em falas associadas à preocupação com controle; “É muito Percebe-se que muitas pessoas acima do peso utilizam
bom comer, mas tem que controlar né?!” (EP1), “Sustenta argumentos como uma defesa antecipada aos preconceitos
a gente, mas não pode ser prioridade” (EP7), “Porque co- relatados. “Os outros acham que todas as pessoas gordas
mida gostosa sempre é a que engorda?” (EP1). Percebe-se comem muito, eu como pouco” (EP4), “Tenho problema
que prazer, necessidade e controle são instâncias confli- na tireóide por isto não emagreço” (EP10). Excetuando-se
tantes já que a liberdade existencial de realizar escolhas os casos de falta de compreensão, vê-se que a maioria
é cerceada pelas possibilidades e censuras sociais. tem acesso a informação que mostra que dificuldades
A comida enquanto “algo que relaxa” foi um signifi- hormonais não são suficientes para causar uma obesida-
cado atribuído ao ato de alimentar. A comida é colocada de mórbida. Porém, insistir neste tipo de crença pode ser
como uma solução para a tensão causada pela ansiedade, uma forma de amenizar e se defender de características
mas esta relação não é claramente percebida por muitos sociais tão negativas como “preguiça”, “relaxada”, “não
deles. É como se fossem elementos independentes um do faz porque não quer”, entre outros.
outro. A necessidade de construir pontes relacionais en- No relato das crianças em relação a como acham que
tre os diversos elementos existenciais ficou evidenciada os outros a vêem foi frequente utilizarem eufemismos pa-
pelas percepções no grupo. “O problema do meu filho é ra a expressão “gorda”. Ficou nítido que a palavra “gorda
ansiedade, ele engorda porque é ansioso” (EP9): neste tipo (o)” representa um xingamento, uma ofensa. Assim afir-
de afirmação nem sempre os pais percebem que o filho maram serem vistas como uma criança “um pouco gor-
engorda porque fica ansioso e come demais, e há oferta dinha (o)” (EC2, EC5, EC7, EC10), “uma menina forte”
alimentar excessiva, e quem compra o alimento calórico (EC8), “um menino grande” (EC6).
são eles, os pais, que provavelmente são ansiosos também
e por isto o filho aprende este comportamento.
7. Influência do sobrepeso infantil no cotidiano

6. Percepção social das pessoas acima do peso A única questão não abordada diretamente pelas crian-
ças foi à disposição física. Os pais apontaram várias situ-
Entendendo a criança como um ser-no-mundo, ela ações em que a criança se cansa muito rápido. Uma das
afeta e é afetada por seu meio. Quando este mundo es- mães relatou um episódio em que a filha participou de
tabelece critérios excludentes de padrão social torna-se uma trilha ecológica e que o grupo tinha que diminuir o
mais significativo à forma como são afetados. ritmo porque ela não conseguia caminhar na mesma ra-
Os pais relataram uma variedade de classificações pidez que eles, o que causou constrangimento a criança.
atribuídas as pessoas acima do peso nas suas narrativas A timidez e o preconceito social foram abordados de
individuais e em grupo. Algumas foram: “relaxadas”, “in- forma semelhante. Foram vários relatos de constrangimen-
capazes”, “preguiçosas”, “não faz porque não quer” e “re- tos em situações públicas: não caber ou quebrar cadeira,
jeitadas”. Os profissionais da área da saúde ao considerar pessoas rindo, apontando, utilizando vocabulário desres-
que a pessoa não praticou as orientações prescritas por- peitoso para se referir a eles, entre outros. Percebe-se que
que não quis, já que o “papel” profissional de informar os pais e os filhos, apesar de compartilharem percepções
foi realizado a contento, desconsideram os outros fatores semelhantes sobre o preconceito sofrido, nem sempre
envolvidos na questão e reforçam a visão estigmatizan- possuem diálogo sobre isto, “(...) não sei como minha fi-
te de preguiça e relaxamento atribuído a estas pessoas. lha vê esta questão” (EP2).
Artigo - Relatos de Pesquisa

No grupo, foi comum ouvir frases sobre isto: “Dr. Fulana A literatura mostra que crianças associam pessoas
vai me xingar demais quando voltar a consultar porque magras e gordas a qualidades negativas, enquanto indi-
não fiz o que ela mandou” (EP7). Oliveira (2008) em sua víduos de tamanho mediano foram associados a qualida-
pesquisa relata situações semelhantes, nas quais profis- des positivas. Os extremos são considerados ruins. Desta
sionais na tentativa de sensibilizar os pais para a impor- forma, a criança interioriza muito cedo que ter excesso
tância do tratamento do sobrepeso dos filhos, recorrem de peso é motivo de vergonha e embaraço. Tal percepção
até mesmo a ameaças, insinuando a possibilidade de pe- pode promover uma vivência depressiva por um baixo
dir a intervenção do conselho tutelar se eles não cumpri- autoconceito e autoestima, levando ao seu isolamento
rem as orientações. social (Simões & Meneses, 2007).
Chega a ser perversa a expressão usada socialmente Os pais apontam também o preconceito sofrido por
que é revestida como um incentivo “basta querer!”. Que- eles. Relatam a percepção de olhares que os culpabili-
rer é um passo importante, mas não basta. Muitos outros zam pelo sobrepeso do filho, como uma falta de cuidado.

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8. Relação com profissionais da saúde aqui?” (EC3), “Posso falar de outras coisas que eu queira
sem ser de alimentação saudável?” (EP6), “Devo ter umas
Das dez famílias entrevistadas, apenas uma não havia 4 dietas lá em casa, de nutricionista e ele já foi ao endo-
procurado, antes do grupo, algum profissional da saúde crinologista também, mas é terrível, é muito difícil fazer,
para intervir no sobrepeso do filho. Importante observar porque ele não tem pai, então eu saio para trabalhar e ele
que era uma criança que estava ganhando peso há pouco fica na casa do meu pai que não controla” (EP8). Daí a
tempo. Pode-se constatar que é frequente a procura pelo necessidade da compreensão do fenômeno no aqui-ago-
profissional para tratar sobrepeso e obesidade infantil. ra da pessoa que o vivencia muito mais do que genera-
Necessário se faz situar o conceito de saúde em que se lizar e buscar explicações que se pretendam universais.
apoiou a pesquisa para compreender melhor esta temática. Os pontos comuns das falas dos participantes propiciam
A construção social do fenômeno da obesidade, com elaborar questões e intervenções, porém sempre de forma
todos os interesses políticos, teóricos, econômicos, midi- inacabada, deixando espaço para o singular.
áticos e industriais envolvidos culmina na atual organi-
zação do conceito na área da saúde. Constata-se que em
nossa sociedade predomina conceitos de saúde pela vi- 9. Motivos para não adesão aos tratamentos
são biomédica que determina obesidade como doença e
a define por indicadores biológicos. Para exemplificar a Alguns dos motivos relatados pelos familiares para o
limitação deste enfoque pode-se citar o Índice de Massa não sucesso dos tratamentos anteriores foram:
Corporal (IMC) que é um dos indicadores mais utiliza- •• Trabalhar o dia todo e não controlar o que a criança
dos e apresenta inúmeras fragilidades, pois é importante come, já que quem toma conta dela não o faz.
que seus valores se correlacionem com outras medidas •• A não colaboração dos outros membros da família.
independentes de composição corporal, como percentu- •• A ansiedade do filho
al de gordura, medida antropométrica e nem sempre isto •• A compra de alimentos inadequados pela praticidade
é feito (Cervi Franceschini & Priore, 2005). que eles oferecem
Neste modelo biomédico o profissional da saúde as- •• A insistência da criança ao pedir alimentos
sume figura central e a intervenção é vertical, no qual ele •• Descontinuidade do tratamento pelo próprio usuário,
assume o “saber” e a postura de que detém “o caminho” pelo serviço de saúde ou ausência do profissional.
do tratamento, como se este fosse único. Assim, cobra e
culpabiliza o usuário que por sua vez deposita no profis- Durante a realização do grupo percebeu-se alguns
sional a expectativa da solução dos seus problemas pri- motivos implícitos para a não adesão ao tratamento pa-
vilegiando a via medicamentosa e prescritiva, tão incen- ra emagrecer:
tivada pela mídia e pela indústria farmacêutica. Desta •• A atitude de oferecer guloseimas como uma compen-
forma, os profissionais da saúde se deparam com a falta sação pela ausência ou recompensa mais fácil de dar
de adesão ao tratamento, que os deixa perplexos e os pa- pelo bom comportamento da criança.
cientes e familiares se ressentem deles que os julga e re- •• A “dó” que se sente da criança ao ter que proibi-la de
crimina. (Freitas, 2014). comer “as coisas gostosas” que ela quer.
Durante a realização do grupo percebeu-se sentimen- •• A pressão das outras pessoas que consomem o ali-
tos ambivalentes, ao mesmo tempo em que as pessoas mento, “Meu filho vai ficar vendo sem poder comer
ficam descrentes do tratamento, porque já foram em vá- também?” (EP8).
rios profissionais sem sucesso, elas se sentem “reféns” •• A ansiedade como um fator “acima” de toda prescrição.
do profissional da saúde, pois entende que é o caminho
mais seguro para reverter o quadro, a fonte mais confiá- Nos relatos dos familiares que atribuem a ansiedade
vel. Então atribuem a falta de sucesso ao fato de não ter como o principal impeditivo do emagrecimento da crian-
“dado sorte de pegar” um profissional bom, “que resolva ça vê-se como ponto comum uma desresponsabilização
o problema”. Alguns assumem sozinhos “a culpa”, “Fui familiar. Fala-se da ansiedade como se fosse algo fora do
Artigo - Relatos de Pesquisa

eu que não consegui seguir”. manejo da criança e da família, quase como uma “doen-
Este é outro aspecto que chama atenção, o raciocínio ça” que ele tem. E como doença precisa de intervenção
fragmentado, característico do paradigma clássico da sim- externa. O auxilio profissional é valioso, porém o que se
plificação abordado por Morin (2007). A busca de “culpa- observa é uma excessiva carga atribuída a ele. Muitos fa-
dos” é comum por parte dos usuários e dos profissionais. miliares não percebem que a criança está em um meio
Trata-se de uma postura reducionista que torna impro- onde ela aprende pela fala e pelo exemplo. Portanto, uma
dutiva uma reflexão que deve abranger os elementos que criança não fica ansiosa sozinha. É preciso considerar as
atuam na questão de forma inter-relacional identificando relações familiares que podem construir uma ansiedade
motivações e não culpados. patológica que, provavelmente atinge todos. Além disto,
Pode-se perceber nas narrativas o comportamento cul- a família, ao ter esta percepção pode rever hábitos e cons-
pabilizado e a ineficácia de tratamentos apenas prescriti- truir novos arranjos nas relações de modo a diminuir fa-
vos através de falas como: “Pode falar que não come fruta tores que causam ansiedade. A procura pelo profissional

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Obesidade Infantil: Compreender para Melhor Intervir

deveria ser no intuito de contribuir para a constituição O profissional da saúde ao assumir a posição de que
destas novas disposições. sabe o que é melhor para o usuário contribui para sua
Considerando o paradigma da complexidade é impor- falta de autonomia e para o subdesenvolvimento do seu
tante lembrar que a “não percepção” destes familiares acer- Dasein. Não é suficiente apenas transmitir orientações,
ca destas questões não é fortuita e que ela por si só é reve- é preciso se colocar como coadjuvante de um caminho
ladora de emaranhados psicológicos que vão além da capa- que só a pessoa pode construir. Para isto é preciso ouvir
cidade cognitiva de compreender e executar prescrições. e interagir com a realidade social e subjetiva da pessoa.
Tassara (2006) em sua pesquisa mostra que a vivência A falta de perspectiva multidisciplinar também se cons-
desofrimento dos familiares costuma se reeditar, velada- titui em um fator impeditivo para eficácia da prevenção
mente, na relação com seus filhos, e nessa indiferencia- e tratamento.
ção, as crianças sentem o sofrimento que faz parte das A teoria da complexidade e a perspectiva fenomenoló-
histórias dos familiares. gica marcam que, mesmo que o profissional se especialize
De acordo com a autora pode-se considerar que a ex- em uma única área, é fundamental que ele não perca de
pressão de passividade e de ansiedade, bem como o co- vista o diálogo com o “todo”. Em um contexto de especia-
mer excessivo dessas crianças representa “a ponta de um lizações, as ciências perdem a capacidade de comunica-
iceberg em que a parte submersa representa o sofrimen- ção entre si e os saberes que produzem não são agregados
to delas amalgamado ao das mães, que tenta emergir e em visões globais dos fenômenos humanos.
transparecer nos corpos obesos dessas crianças” (p. 44). As narrativas ouvidas pelas famílias participantes da
É importante citar outra observação feita nos grupos: pesquisa nos revelaram a complexidade dos fenômenos
todos os pais entrevistados estão ou já estiveram com so- que envolvem a obesidade infantil. Os sentidos atribuí-
brepeso. Duas mães do grupo realizaram cirurgia bariá- dos às significações sociais acerca do comportamento ali-
trica. Mesmo assim é comum apontarem o sobrepeso do mentar são muitos. O corpo é visto de forma dissociada
filho (a) como um problema isolado, como se a criança da mente ao se atribuir características de personalidade à
não quisesse comer direito e a “culpa” fosse dela e so- pessoa obesa como se elas fossem todas iguais. A fenome-
mente ela deve ser tratada. Nem sempre se relaciona ao nologia nos mostra o homem como um ser integral, não
sobrepeso o fato da alimentação ser comprada pelos pais
sendo possível fragmentá-lo e o pensamento complexo
e os primeiros hábitos serem ensinados por eles também.
revela todo o universo de possibilidades e multicausali-
Ampliar estas reflexões auxiliando os pais a compre-
dade que existem em cada ser-no-mundo.
enderem estas relações se mostra promissora para oca-
Portanto, para compreendera obesidade infantil e para
sionar mudanças conforme pôde ser observado no grupo.
se pensar em intervenções mais eficazes deve-se conside-
O auxílio que o profissional pode oferecer vai muito além
rar o sentido atribuído à obesidade, as relações familiares,
de orientações. Rogers acredita que todo ser humano tem
as condições socioeconômicas e todos os elementos que
um potencial de crescimento pessoal inato e que ocorrerá
circundam o fenômeno. Deve-se ainda enfocar a pessoa
desde que lhe sejam dadas as condições adequadas para
e não a obesidade. A criança deve ser vista de forma inte-
tal. Seu pensamento enfoca o homem como uma totali-
gral e repleta de possibilidades existenciais, se lhe forem
dade, um organismo em processo de integração (LEITÃO,
dadas condições adequadas para isto.
1986). Desta forma, o profissional da saúde pode contri-
buir para propiciar estas condições para facilitar melho-
res escolhas, considerando as motivações implícitas e
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Artigo - Relatos de Pesquisa

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Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 167-174, mai-ago, 2017 174
A rtigos
- Revisão Crítica de Literatura . .........
Daseinsanalyse e Psicoterapia no Brasil: uma Revisão Integrativa da Literatura

Daseinsanalyse e Psicoterapia no Brasil:


uma Revisão Integrativa da Literatura

Daseinsanalysis and Psychotherapy in Brazil: An Integrative Literature Review

Daseinsanalyse y Psicoterapia en Brasil: Una Revisión Integradora de la Literatura

Breno Augusto da Costa

Resumo: A daseinsanalyse é uma escola de psicoterapia desenvolvida por Medard Boss fundamentada no pensamento heideggeriano.
Considerando a demanda da caracterização da produção em psicoterapia existencial na Latino-América esse estudo foi desenvolvido
com o objetivo de elaborar um panorama geral da produção brasileira em daseinsanalyse. Trata-se de uma revisão integrativa da
literatura a partir da “Revista Daseinsanalyse”. Foram destacadas as influências teóricas, os objetivos da psicoterapia e a postura
do terapeuta. A produção brasileira em daseinsanalyse encontra no pensamento de Heidegger sua influencia principal, mas
também fundamenta-se em outros existencialistas. Os objetivos da psicoterapia apontam ao desvelamento de sentidos, uma nova
compreensão da afinação do paciente e promoção de liberdade existencial. As posturas do terapeuta envolvem acolhimento,
aproximação e aceitação em relação ao paciente. O terapeuta deve possuir uma perspectiva clínica e clarear as experiências do
paciente. A interpretação integradora indica uma dispersão de objetivos e posturas do terapeuta que convergem na direção do cuidado
do ser, sendo a daseinsanalyse uma prática de terapia no sentido primordial do termo. O artigo aponta como nova perspectiva a
possibilidade do pensamento daseinsanalítico fundamentar a prática da redução de danos.
Palavras-chave: Daseinsanalyse; Psicoterapia; Boss; Heidegger; Redução de danos.

Abstract: Daseinsanalysis is a psychotherapeutic school developed by Medard Boss grounded in the heideggerian thought. Con-
sidering the need for characterizing the Latin-American production in existential psychotherapy this study was developed aim-
ing to elaborate a general framework of the Brazilian production in daseinsanalysis. This is an integrative literature review from
the Brazilian journal “Revista Daseinsanalyse”. The theoretical influences, psychotherapy goals and the therapist’s attitudes were
highlighted. The Brazilian daseinsanalysis literature finds in the heideggerian thought its major influence but also is founded in
other existentialists. The psychotherapy goals points out to the unveiling of meanings, a new comprehension of the patient attun-
ement and the promotion of the patient’s existential freedom. The therapist posture includes embracement, proximity and accep-
tance towards the patient. The therapist must possess a clinical perspective and clarify the patient’s experiences. The integrative
interpretation shows a dispersion of goals and therapists attitudes converging towards the care of the being, as daseinsanalysis is
a therapeutic practice in the primordial meaning of the term. The paper shows as new perspective the possibility of the desein-
sanalitic thought to be a foundation to harm reduction.
Keywords: Daseinsanalysis; Psychotherapy; Boss; Heidegger; Harm reduction.

Resumen: El Daseinsanalyse es una escuela de psicoterapia desarrollada por Medard Boss fundada en el pensamiento de Heide-
gger. Teniendo en cuenta la demanda de la caracterización de la producción en psicoterapia existencial en América Latina este
estudio fue desarrollado con el objetivo de elaborar una visión general de la producción brasileña en Daseinsanalyse. Se trata de
una revisión integradora de la literatura de la “Revista Daseinsanalyse”. Fueran destacadas las influencias teóricas, los objetivos
de la psicoterapia y la postura del terapeuta. La producción brasileña en Daseinsanalyse encontró en pensamiento de Heidegger
sus principales influencias, pero también se basa en otros existencialistas. Los objetivos de la psicoterapia apuntan a la develación
de los sentidos, una nueva comprensión de los estados de ánimo del paciente y la promoción de la libertad existencial. La postura
del terapeuta implica acogida, aproximación y la aceptación del paciente. El terapeuta debe tener un punto de vista clínico y acla-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

rar las experiencias del paciente. La interpretación integradora señaló una dispersión de objetivos y las intenciones del terapeuta
pero que convergen hacia el cuidado del ser, siendo Daseinsanalyse una práctica de la terapia en el sentido primario. El artículo
señala cómo nueva perspectiva la posibilidad del pensamiento daseinsanalítico fundamentar la práctica de la reducción de daños.
Palabras-clave: Daseinsanalyse; Psicoterapia; Boss; Heidegger; Reducción de daños.

Introdução pensamento científico hegemônico de então (Boss & Con-


drau, 1976/1997; Holanda, 2014). No entanto, partir de
A Daseinsanalyse enquanto prática psicoterapêutica uma série de críticas realizadas pelo próprio Heidegger em
tem suas origens na apropriação pioneira realizada por torno da compreensão errônea de determinados pontos de
Ludwig Binswanger do pensamento de Martin Heidegger, sua filosofia, Binswanger afastou-se do pensamento heide-
especialmente as noções expressas na obra “Ser e Tempo” ggeriano, cabendo ao psiquiatra suíço Medard Boss a tarefa
(1927/2012). A proposta de Binswanger era encarar a clíni- de continuar empreendendo o desenvolvimento da dasein-
ca, a patologia e a realidade existencial do paciente a par- sanalyse, recebendo o suporte intelectual de direto Heide-
tir de uma perspectiva fenomenológica, destacando-se do gger (Boss & Condrau, 1976/1997, Heidegger, 1987/2001).

177 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 177-188, mai-ago, 2017
Breno A. da C.

A rigor a daseinsanalyse deve ser considerada uma daseinsanalítica de homem impregna o analista com um
terapia e não psico-terapia, pois prescinde de constru- respeito profundo por tudo por ele encontrado” (p. 235).
tos psíquicos conforme discutem diferentes pensadores. Dessa forma o psicoterapeuta deve também aceitar os di-
Apesar disso advertimos o leitor que utilizamos o termo versos modos de ser do paciente.
psicoterapia e psicoterapeuta neste trabalho apenas por Evangelista (2013) destaca a o interesse do daseinsana-
convenção acadêmica. lista em “conhecer os incidentes biográficos motivadores
O termo daseinsanalyse é composto por duas palavras que levaram o ser-no-mundo a restringir suas possibilida-
compreendidas de um modo bastante específico por Hei- des” (p. 155), como resultado da recusa da daseinsanaly-
degger. Levando-se em conta sua preocupação filosófica se em assumir o modelo causal. Pontua a situação do da-
fundamental, o problema do ser, o termo dasein é usado sein enquanto lançado em possibilidades de ser e aborda
como o substantivo designador do ente humano (Heide- a questão da culpa e limitação da existência. O encontro
gger, 1927/2012, p. 1185). Por outro lado, análise em Hei- entre psicoterapeuta e paciente, segundo o autor, é um
degger tem uma conotação diferente do processo carte- processo de cuidado de solicitude libertadora visando a
siano de fragmentação de um objeto para a realização do libertação da existência do paciente.
estudo individualizado de suas partes e, posteriormente, A entrada da daseinsanalyse no contexto brasileiro
a apreensão do todo. Heidegger (1987/2001) defende aná- ocorreu na década de 70 a partir dos contatos entre Solon
lise como um processo de libertar-se das algemas ou o te- Spanoudis e Medard Boss. A fundação da Associação Bra-
cer e destecer de uma trama. Dessa forma, nesse trabalho, sileira de Análise e Terapia Existencial - Daseinsanalyse
escolheu-se redigir daseinsanalyse com “y” para expressar (ABATED) em 1973 foi fundamental para o desenvolvi-
o sentido da análise a partir das reflexões heideggerianas. mento da daseinsanalyse no Brasil, pois servia como re-
Em “Ser e Tempo” (1927/2012) Heidegger utilizou o ferência em daseinsanalyse, além de congregar e formar
termo daseinsanalyse, restrito inicialmente ao âmbito da novos terapeutas nessa perspectiva, publicar a “Revista
ontologia; o termo foi usado com o intuito de designar a Daseinsanalyse” e propor discussões entre o pensamento
explicitação filosófica dos existenciais, ou seja, das ca- heideggeriano e suas interlocuções com outras discipli-
racterísticas ontológicas constituintes do existir huma- nas. Atualmente tal instituição é denominada Associação
no. A partir da apropriação pioneira de Binswanger e da Brasileira de Daseinsanalyse (ABD), tendo mantido os ob-
ulterior elaboração de Boss foi utilizado o termo dasein- jetivos iniciais (Associação Brasileira de Daseinsanalyse,
sanalyse clínica, ou simplesmente daseinsanalyse, para 2015; Evangelista, 2013). O estudo de Correia, Correia,
designar essa prática psicoterapêutica em discussão (Car- Cooper e Berdondini (2014), reconhece a ABD como a
dinalli, 2012). A insatisfação de Medard Boss com as ba- única instituição pertecente exclusivamente à perspecti-
ses do pensamento psicanalítico e psiquiátrico em voga va daseinsanalítica na Latino-América.
na sua época é considerada o móvel para a busca de uma Conforme apontado por Correia et al. (2014) a prática
fundamentação alternativa no pensamento heideggeriano de psicoterapia existencial na Latino-América é extrema-
(Boss & Condrau, 1976/1997; Evangelista, 2013; Giovanet- mente ativa, sendo este um dos centros mais dinâmicos
ti, 2012). No entanto a daseinsanalyse pode ser conside- no panorâma mundial. No entanto, com base na pou-
rada um desdobramento da psicanálise, mesmo modifi- ca referência que ela tem na literatura europeia e norte-
cando os pontos fundamentais da prática psicanalítica, -americana, os autores apontam a necessidade de maio-
tal como a associação livre e a interpretação dos sonhos. res estudos elaborando o perfil dessa produção, um vez
A compreensão de homem também é extremamente di- que não são conhecidos estudos elaborando suas princi-
ferente, uma vez que a metapsicologia freudiana é aban- pais características.
donada em prol de uma compreensão baseada na onto- Considerando a demanda elaborada por Correia et
logia heideggeriana, cujos existenciais ocupam lugar de al (2014) e a escassez de revisões sistemáticas acerca da
destaque. (Cardinalli, 2012; Boss, 1963). Os existenciais produção brasileira em daseinsanalyse, o objetivo desse
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

são possíveis modos de ser, e não categorias ou atributos; estudo foi elaborar um panorama geral da produção bra-
os existenciais possuem relevante papel na prática clínica sileira em daseinsanalyse, considerando as influências
daseinsanalítica e são: a temporalidade, a espacialidade, teóricas, os objetivos da psicoterapia e a postura do tera-
o ser-com-o-outro, a afinação, a compreensão, o cuidado, peuta segundo a literatura estudada.
a queda e o ser-mortal (Cardinalli, 2012).
Medard Boss (1963) pontua como atitude fundamental
do psicoterapeuta a “descrição e investigação de todos os 1. Método
modos de comportamento humano imediatamente obser-
váveis e de suas afinações subjacentes igualmente percep- Foi realizada uma revisão integrativa da literatura.
tíveis” (p. 233), evidenciando o trabalho com o conteúdo Tal método revisa, critica e sintetiza a literatura disponí-
manifestado no encontro terapêutico a partir do próprio vel permitindo um novo panorama integrado dos saberes
conteúdo, sem uma lente teórica por trás desse olhar clí- produzidos (Torraco, 2005). O autor afirma que a revisão
nico, assim instaura-se uma genuína relação de abertu- integrativa é endereçada a dois tipos de tópicos: os madu-
ra do psicoterapeuta ao paciente e seu modo de ser. Boss ros e os emergentes. No primeiro caso ela deve ser desen-
assinala também a atitude de aceitação em torno de toda volvida criticamente, empreendendo uma reconceituação
manifestação do paciente, uma vez que a “compreensão da temática e assim oferecer bases de conhecimento mais

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 177-188, mai-ago, 2017 178
Daseinsanalyse e Psicoterapia no Brasil: uma Revisão Integrativa da Literatura

diversificadas sobre aquele tema. Já no caso dos tópicos de textos possível, demonstrando um quadro abrangente
emergentes a revisão integrativa permite a conceituação ho- da produção da “Revista Daseinsanalyse”. No caso dos
lística e uma síntese da literatura produzida. Optou-se pelo volumes que não contavam com palavras-chave foi rea-
uso dessa metodologia com o intuito de fornecer uma visão lizada uma leitura flutuante dos artigos visando selecio-
geral da produção científica nacional em daseinsanalyse e nar aqueles que se encaixavam no objetivo da pesquisa.
elaborar uma estruturação da produção desse tópico atra- Após a realização desse procedimento de coleta de
vés da abordagem fundamentada na revisão integrativa. textos, foi realizada uma leitura atenciosa e a identifi-
Concebe-se a produção nacional em daseinsanalyse cação dos seguintes temas: (a) Pressupostos teóricos e
como madura em certos aspectos, porém marcada parado- influências filosóficas; (b) Objetivos da psicoterapia; e
xalmente pela falta de síntese e estruturação sistemática, (c) Posturas do psicoterapeuta. Em seguida foi realizada
em outros. Dessa forma, ao invés de classificar o tema de a leitura crítica e a interpretação sintética dos textos, vi-
estudo como maduro ou emergente, é empreendida a ta- sando apontar novos contextos de atuação a partir do re-
refa essencial da revisão integrativa, que de acordo com ferencial daseinsanalítico.
Torraco (2005) é oferecer um quadro sintetizado da lite-
ratura em uma estruturação conceitual que oferece novas
perspectivas sobre o tópico. 2. Resultados
Para a escolha dos artigos abordados foram realizados
os seguintes procedimentos: tomando como base de da- Os textos coletados a partir da pesquisa na “Revista
dos a “Revista Daseinsanalyse” foi realizada uma busca Daseinsanalyse” foram um total de 16. A Tabela 1 apre-
de textos a partir de três etapas: uma seleção de textos senta a quantidade de textos encontrados após a seleção
a partir das seguintes palavras-chave: “psicoterapia” ou com as palavras-chave, selecionados de acordo com o re-
“terapia” ou “daseinsanalyse” e em seguida a aplicação sumo e recuperados, após uma leitura atenciosa.
de critérios de inclusão e exclusão. Finalmente foram re-
cuperados apenas os textos relacionados ao objetivo da
pesquisa. Justifica-se a escolha desse periódico pelo sig- Tabela 1: Quantidade de textos encontrados após a seleção
nificado de periódico-referência na difusão de conheci- Revista Daseinsanalyse
mento e saberes no campo da daseinsanalyse no Brasil, Encontrados 27
trazendo contribuições originais e relatos dos formadores Selecionados 22
e terapeutas atuantes nessa abordagem. Recuperados 16
Os critérios de inclusão utilizados foram: textos rela-
cionados ao tema; textos cujo corpo aborda a questão da
psicoterapia daseinsanalítica. Já os critérios de exclusão Observa-se que dentre os artigos selecionados seis não
foram: textos escritos por autores estrangeiros; textos não foram recuperados. Verificou-se que tais trabalhos abor-
relacionados ao tema; textos que abordam a psicoterapia daram temas relevantes para a prática psicoterapêutica,
tangencialmente. Não houve restrição temporal na bus- porém só tangenciavam uma discussão sobre a psicotera-
ca pelos textos, além disso, o delineamento metodológi- pia. Os textos recuperados foram dispostos na Tabela 2,
co dos textos não impediu sua inclusão. Tais medidas fo- onde são apresentados seus títulos, autores, ano da pu-
ram tomadas com o intuito de abranger o maior número blicação e tipo de estudo:

Tabela 2: Títulos, autores, ano da publicação e tipo de estudo Artigo - Revisão Crítica de Literatura

nº Título do Texto Autores Ano Tipo de estudo


1 Psicoterapia: uma aproximação Daseinsanalítica David Cytrynowicz 1978 Teórico
2 Psicoterapia e Verdade João Pompéia 1978 Teórico
3 Relação Analista-Analisando: uma abordagem daseinsanalítica Maria Cytrynowicz 1997 Teórico (Palestra)
4 Daseinsanalyse e Psicoterapia Ida Cardinalli 2000 Teórico
5 Uma Caracterização da Psicoterapia João Pompéia 2000 Teórico (Palestra)
6 A História de Julia Fernanda Vianna 2001 Estudo de Caso (Palestra)
7 Relato de um Processo Terapêutico de uma Criança Institucionalizada Maurício Castejón Hermann 2001 Estudo de Caso (Palestra)
8 Uma História de Abandono Adriana Puzzilli 2001 Estudo de Caso (Palestra)
9 Descoberta de um Encontro Através do Brincar Sérgio Kuroda 2001 Estudo de Caso (Palestra)
10 Comentários Maria Cytrynowicz 2001 Teórico (Palestra)
11 Psicose e Psicoterapia João Pompéia 2002 Teórico (Palestra)
12 A Dependência de Drogas e a Fenomenologia Existencial Fabiano Sipahi & Fernanda Vianna 2002 Teórico
13 A História de Camila Fabiana Saffi 2002 Estudo de Caso
14 Aspectos Emocionais na Terapia Daseinsanalítica João Pompéia 2004 Teórico (Palestra)
15 A Contribuição das Noções de Ser-no-Mundo e Temporalidade para a Psicoterapia Daseinsanalítica Ida Cardinalli 2005 Teórico (Simpósio)
16 Daseinsanalyse e Liberdade Danielle de Freitas 2011 Teórico

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Observa-se uma grande presença de textos oriundos essa condição do encontrar-se. Maria Cytrynowicz (2000)
de palestras ou apresentados também em seminários. cita Heidegger para discutir o papel do jogo na existên-
Do total de 16 textos, 10 deles foram apresentados como cia humana e assim fundamenta o brincar como um estar
palestras ou em eventos científicos, tal como informado afinado. O brincar, segundo a autora, é o melhor caminho
em notas de rodapé nos textos. Por outro lado os artigos para a atuação do terapeuta com crianças.
podem ser divididos em dois grupos de acordo com o ti- Citando Heidegger (1927/2012) “a essência do Dasein
po de estudo: estudos teóricos e estudos de caso. Cinco reside em sua existência” (§9), os autores Sipahi e Vian-
dos estudos recuperados eram estudo de caso, concen- na (2002) realizam a leitura de que o homem não é cons-
trados especialmente na revista de número 10 (2001). tituído de antemão, mas sim se constitui se construindo,
A daseinsanalyse enquanto prática psicoterapêutica re- existindo e caminhando em direção ao futuro. Segundo
cebe grandes contribuições de estudos de caso, pois estes os autores, o homem existe lançado em um mundo e deve
trazem as experiências dos psicoterapeutas atuando. Já cuidar de sua existência, atentando para as possibilidades
os estudos teóricos são componentes enriquecedores da em seu horizonte. Dentre as possibilidades que o homem
compreensão do existir humano e dos fenômenos que são possui, a morte apresenta-se como possibilidade última,
tematizados e estudados. Na maioria dos estudos teóricos impondo um limite ao seu ser. Cerbone (2014) afirma que
foram encontrados diversos fragmentos de casos clínicos. a morte não pode ser superada, sendo assim é a possibili-
Em relação aos objetivos, alguns textos ao invés de dade mais própria do homem, uma vez que ele não pode
apresentar objetivos explícitos, propunham questões ou renunciá-la ou passa-la adiante. O autor também discute
problemáticas norteadoras das reflexões. Percebeu-se uma a relação ser-para-a-morte e autenticidade.
grande dispersão dos objetivos embora a palavra psicote- Maria Cytrynowicz (1997) cita a concepção heideg-
rapia estivesse presente na maior parte. geriana de ser-no-mundo, caracterizando o ser humano
fundamentalmente como um movimento junto a pessoas
ou coisas em um lugar qualquer, dando à existência um
3. Influências teóricas caráter de coexistir. Cardinalli (2000) endossa o uso da
noção ser-no-mundo na situação terapêutica apontando
Dentre as influências, Heidegger ocupa lugar central. que o modo de existir no mundo do paciente deve ser
O papel fundamentador de Heidegger é enfatizado a partir abordado. Em outro trabalho (2005) Cardinalli chega a
da obra Ser e Tempo (1927/2012) e sua proposta ontológi- afirmar que “o foco da situação terapêutica é a maneira
ca; David Cytrynowicz (1978/1997) cita a ontologia funda- como determinada pessoa está se relacionando consigo
mental de Martin Heidegger, expressa na obra Ser e Tempo mesma, com os outros e com tudo o que se apresenta em
(1927/2012), como o marco de referência da concepção de seu mundo” (p. 58). Nesse sentido é importante compre-
homem da daseinsanalyse. Ato contínuo à assimilação do ender que o ser do homem é um ser-no-mundo, esse “no”
pensamento de Heidegger, a daseinsanalyse aborda a na- não deve ser compreendido como dentro de determina-
tureza humana como sendo essencialmente abertura, um da cota de espaço no mundo, mas sim ser com o mundo
dos existenciais explicitados por Heidegger. David Cytry- (Boss, 1963, p. 33-34).
nowicz (1978/1997) destaca que esse existencial se refere A realização dos Seminários de Zollikon é destacada
à condição básica do existir humano enquanto poder-ser. como espaço articulador entre o pensamento de Heidegger
Sipahi e Vianna (2002) afirmam que “o ser humano en- e a psicoterapia. Cardinalli (2000) referencia os Seminários
contra-se sempre, de um modo mais aberto ou mais res- de Zollikon em seu trabalho para discutir a relação terapêu-
trito, em afinação com o que lhe vem ao encontro” (p. 88). tica com bases heideggerianas. Dessa forma os fenômenos
O dasein sempre encontra-se em um estado de humor, as- que surgem na relação do terapeuta e paciente devem ser
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sim o encontrar-se (Befindlichkeit) é cotidianamente trata- discutidos a partir do paciente concreto. Prado (2001) de-
do como estado de humor ou disposição afetiva (Heideg- senvolve um estudo que vista descrever o surgimento da
ger, 1927/2012). Segundo Gendlin (1978) o encontrar-se obra “Seminários de Zollikon” (1987/2001) assim como des-
denota como nos sentimos nas situações cotidianas, refe- crever os próprios seminários a partir de trechos da obra.
rindo tanto a algo interior quanto exterior, uma vez que o Ainda em torno da influência heideggeriana, Cardi-
homem vive enquanto ser-no-mundo, mas vivendo com o nalli (2000) afirma que as concepções do filósofo acerca
mundo. Freitas (2011) esclarece que as tonalidades afeti- da linguagem “permitem situar o entendimento dasein-
vas (Stimmung) “colorem não apenas o momento presen- sanalítico do falar no contexto terapêutico” (p. 15). Dessa
te, mas também ressignificam os fatos da história passada forma cita algumas colocações contidas no §12 de Ser e
e os projetos de futuro” (p. 69). Pompéia (2004) destaca a Tempo (1927/2012) para estabelecer as concepções heide-
imbricação entre a afinação e a clareira do ser (Lichtung) ggerianas do falar e discuti-las na psicoterapia.
afirmando que a afinação é uma luz que vigora na clareira, Pompéia (2000) também fundamenta a daseinsanaly-
iluminando todos os entes e acontecimentos que se mani- se em bases heideggerianas quando afirma que a psico-
festam nessa clareira. Assim a compreensão que o Dasein terapia acontece via poiesis, ou seja, via um trazer à luz
tem de si próprio e do mundo é sempre afinada devido a aquilo que se apresenta. O autor, ao propor o caminho da

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psicoterapia via linguagem poética, coloca a compreen- (p. 123). Em seguida o filósofo aponta a fenomenologia
são em evidência, uma vez que nessa via de linguagem o do Dasein como uma hermenêutica, ou seja, uma tarefa
interlocutor, ou terapeuta, é tocado pela fala do paciente de interpretação. Heidegger destaca o papel de Husserl e
de uma forma distinta da explicação racional. Em segui- seu pensamento como fundamento para a elaboração de
da para expressar aquilo que se manifesta na fala do pa- suas investigações, porém chega a pontuar uma concep-
ciente via linguagem poética o autor introduz a noção de ção de redução fenomenológica divergente de Husserl já
aletheia como explicitada por Heidegger, ou seja, aqui- no §5 de “Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia”
lo que se mostra desvelado. Em outro trabalho Pompéia (1975/2012). Cerbone (2014) aborda a distinção entre feno-
(1978/1997) aponta que o paciente longe de ser uma “col- menologia como concebida por Husserl e por Heidegger.
cha de retalhos, de eventos e problemas independentes, é Em outro trabalho Cardinalli (2000) afirma que a da-
uma totalidade [...] móvel e palpitante, própria, peculiar, seinsanalyse percorre um caminho fenomenológico e
nova a cada momento” (p. 75), dessa forma cita a con- justifica citando a concepção de fenômeno de Medard
cepção heideggeriana de aletheia como o subsídio para a Boss (1984/1997), ou seja, fenômeno enquanto um mos-
compreensão da verdade em psicoterapia, ou seja, da to- trar-se, tomado a partir da forma como se mostra para o
talidade que se apresenta no contexto terapêutico. O con- próprio paciente. Boss e Condrau (1976/1997) afirmam
ceito aletheia também foi tematizado por Pompéia (2004) que a abordagem daseinsanalítica é fenomenológica uma
e Freitas (2011), bem como outros autores. vez que visa, em sua essência, ver aquilo que se mostra a
Boss (1981) é citado por Pompéia na tematização da partir de si mesmo. Isso implica ver o fenômeno a partir
questão da angústia e culpa na psicoterapia. A concepção dele próprio e não a partir de teorias explicativas ou uma
de Boss é a de que a angústia é a expressão da assimilação metapsicologia de qualquer tipo.
da possibilidade de não mais poder ser, ou seja, da morte. Outro autor que cita a fenomenologia é Pompéia (2002,
A angústia é vista basicamente como medo da morte que 2004). O autor se fundamenta na pesquisa fenomenoló-
se apresenta ao Dasein como possibilidade, seja através de gica para justificar a posição do terapeuta de aceitar a
situações factuais ou do desamparo provocado pela falta experiência de realidade do paciente, uma vez que o te-
de amor (p. 26-28). Mas também Pompéia traz uma tese rapeuta não dispõe de recursos para demonstrar a reali-
original acerca da motivação da angústia afirmando que: dade ou não dessa experiência. Ele cita a suspensão de
julgamento enquanto uma redução fenomenológica para
a angústia existencial diz respeito ao desamparo tre- evitar a interferência das crenças e descrenças do pesqui-
mendo que o Dasein vive quando se apropria de si sador nos resultados da pesquisa. Concebemos que a da-
mesmo, isto é, quando se percebe, com maior ou me- seinsanalyse, de certa forma, pode ser interpretada como
nor clareza, aberto e lançado na indeterminação dos uma escola de psicoterapia fenomenológico existencial.
fatos do futuro, o que é profundamente aflitivo e as- Argumentamos que o empreendimento da daseinsanalyse
sustador. E não é só diante da indeterminação do fu- é similar ao da fenomenologia no sentido de ser reativo a
turo que ele vive. O significado dos fatos do passado um modelo naturalista vigente. Pretendemos abordar es-
também é indeterminado, pois o significado do vivi- sa temática em outro trabalho.
do pode mudar radicalmente à medida que as coisas Pompéia (2000) cita outro pensador existencialista,
vão acontecendo. E isso também é aflitivo e assusta- Sartre, para abordar a questão da liberdade, especial-
dor. Estar lançado nessa indeterminação é angustian- mente o incômodo motivado por ela e que é sentido pelo
te. (2004, p. 13) paciente na condução de sua existência. O autor cita a
interpretação de liberdade como um livrar-se de algo, as-
Assim, frente à sua liberdade, iluminado por uma to- sim quando o paciente exerce essa liberdade, enfrenta o
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nalidade afetiva, o homem enfrenta a angústia existencial abandono e desligamento. Além dessa interpretação cita
como a expressão genuína do seu poder-ser. Aberto, seu liberdade como relacionada a um sentido, uma forma de
futuro se apresenta cheio de possibilidades as quais ine- romper com um modo de ser anterior e assumir a dedica-
xoravelmente o homem deve escolher; algumas em detri- ção a um novo rumo. Em certos pontos o pensamento de
mento de outras. Toda escolha pressupõe a exclusão de Sartre é divergente do pensamento de Heidegger (Holan-
uma série de outras, e é a escolher que o homem é fadado. da, 2014, p. 146-148; Mondin, 2014, p. 227-228), porém
Maria Cytrynowicz (1997) afirma que a daseinsanaly- há diversos paralelos possíveis entre esses dois pensado-
se possui uma base fenomenológica, no entanto a autora res da fenomenologia existencial.
não dá mais explicações acerca dessa posição. Cardinalli Freitas (2011) tematiza o conceito liberdade e sua po-
(2005) aponta que a daseinsanalyse baseia-se na feno- sição fundamental na prática da psicoterapia tal como
menologia ou método fenomenológico tal como explici- caracterizada por Pompéia (2000). A autora cita as con-
tados por Heidegger (1987/2001). No §7 de Ser e Tempo cepções de Berlin e Tugendhat de liberdade e em seguida
(1927/2012) Heidegger afirma que o modo-de-tratamento tematiza a concepção heideggeriana, afirmando que esta
à pergunta do ser é o fenomenológico, uma vez que se- abrange as outras duas, mas também aponta para o fun-
gundo ele “a ontologia só é possível como fenomenologia” damento essencial da liberdade: ser um evento humano.

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Diferente dos outros seres, influenciados por relações Os conteúdos e o contexto de manifestação dessas
causais, o homem é um poder-ser, assim a liberdade dos restrições são diferentes, porém a autora afirma que em
homens é a abertura para as suas possibilidades existen- todos os casos é presente a impossibilidade de realizar
ciais. A autora afirma que “Dasein é jogado no mundo um viver mais pessoal. Já a disponibilidade para acom-
com a necessidade de cuidar de sua liberdade. Não nos panhar é a atitude do terapeuta que favorece a procura
é oferecida a escolha: esta tarefa nos é impelida” (p. 63). do paciente. Maria Cytrynowicz (1997) pontua também
Freitas também citou Hanna Arendt para discutir a ques- que a condição básica da terapia é a aproximação entre o
tão liberdade contradita pelo determinismo. Maria Cytry- terapeuta e paciente, gerando um espaço de intimidade
nowicz (2001) cita também Hanna Arendt para comentar e maior proximidade consigo mesmo, ou seja, o pacien-
uma série de estudos de caso de psicoterapia com crianças te deve acercar-se de “seus anseios, as suas dúvidas, os
institucionalizadas. A pensadora alemã, discípula de Hei- seus temores, certezas e incertezas” (p. 37). Tal aproxi-
degger, traz reflexões em torno da significação do mundo mação empreendida pelo paciente ocorre graças ao com-
público e do mundo privado, usadas por Maria Cytryno- partilhamento entre terapeuta e paciente (Freitas, 2011).
wicz como fundamentação na discussão do contexto de Pompéia (2000) concebe que na terapia o pacien-
uma criança institucionalizada. te deve reencontrar a expressão de seu modo de sentir,
É importante salientar a diferença entre uma influên- ou seja, re-cordar, especialmente as coisas que já foram
cia teórica central na daseinsanalyse, Heidegger, e outros caras. O autor apresenta a origem do termo recordar,
autores usados na compreensão de diversos aspectos da apontando o radical cor-cordis, que significa coração e
existência e experiência humana. o prefixo re, indicando uma repetição. Assim re-cordar
é trazer novamente ao coração. Em uma articulação com
o pensamento heideggeriano vale por em consideração
4. Objetivos da psicoterapia o encontrar-se, especialmente sua manifestação ôntica
através dos estados de ânimo; Freitas (2011) coloca co-
David Cytrynowicz (1978/1997) afirma que “a psico- mo fundamental na prática psicoterápica a escuta dos
terapia deve apontar para a liberdade do homem” (p. 69), estados de ânimo.
desvelando os sentidos que fundamentam a compreensão Saffi (2002) afirma que “a função da psicoterapia não
da sua própria existência. Freitas (2011) traz uma defini- é retirar a pedra que atrapalha o caminho, mas sim, for-
ção similar, concebendo a liberdade como “o horizonte necer subsídios para o que o cliente possa transpô-la ou
mais próprio do percurso da psicoterapia” (p. 56). Em desviar-se dela” (p. 104). Assim as metas da psicotera-
seguida a autora cita Boss, que estabelece que o objetivo pia, na perspectiva do terapeuta, não devem ser eliminar
da psicoterapia é “favorecer a liberdade existencial dos os sintomas, tal como já apontado por Pompéia (2002) e
pacientes” (p. 57). Sipahi e Vianna (2002) também colo- David Cytrynowicz (1978/1997), mas sim o cuidado do
cam a liberdade como o ponto orientador da psicoterapia, próprio paciente. Ainda segundo Saffi (2002), conside-
concebendo liberdade a partir de uma articulação com a rando que ”os fatos não mudam e o que muda é o sentido
abertura. Os autores apresentam, portanto, um desdobra- dados a eles, o trabalho da psicoterapia é tentar mudar
mento da concepção de homem enquanto um ser existen- o seu sentido” (p. 104). Tal concepção, que a autora traz
te que se constrói a partir de suas escolhas. fundamentando-se em um curso ministrado por Pom-
Pompéia (1978/1997) inicia o texto citando Spanou- péia, permite ao psicoterapeuta agir de forma a desvelar
dis (1976/1997): “Conseguir a autenticidade esclarecida novos sentidos.
da própria existência humana, eis o que a se tenta no en- Cardinalli (2000) afirma que a daseinsanalyse, funda-
contro psicoterápico” (p. 53). Considerando o referencial mentando-se na fenomenologia, tem o papel de “priori-
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heideggeriano empregado na daseinsanalyse, autentici- zar o entendimento do paciente a partir dele mesmo na
dade vincula-se à condição de finitude do homem, mas maneira como ele vive” (p. 12). Em outro trabalho (2005)
também vincula-se à relação do indivíduo com a-gente concebe que o objeto de intervenção da psicoterapia não
(das Man) (Cerbone, 2014). Maria Cytrynowicz (1997) é a doença, mas sim o paciente com o seu próprio exis-
afirma que “são justamente procura e disponibilidade pa- tir. Assim “o foco do trabalho psicoterápico é favorecer a
ra a acompanhar a destinação e significação da terapia” aproximação e a compreensão do paciente da sua própria
(p. 33-34). Procura quer dizer a busca por uma saída de experiência” (2005, p. 59). A experiência é uma totalida-
qualquer restrição de possibilidades experienciada pelo de de relações significativas que constituem o mundo do
paciente. Logo depois a autora sustenta a existência de ser. A autora afirma que o ponto de partida da terapia é a
diversos modos de manifestação dessa restrição: “(...) vi- maneira como o paciente é naquela situação; seja imatu-
vências de falta, como a insegurança, a desconfiança, o ro, seja dependente, o inicio da terapia se dá a partir do
temor e a inferioridade, até as de excesso e avidez, como modo de ser do paciente; assim, em certos casos, o pri-
as da pessoa ansiosa que quer tudo e rapidamente, ou meiro objetivo terapêutico é elaborar um contexto onde
daquela que sempre desafia e que em tudo percebe uma o paciente se aceite e admita tal como é, apropriando-se
ocasião para competir e se pôr à prova” (p. 36). de seus sofrimentos e limitações.

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5. Postura do psicoterapeuta como está afinado (disposto) em relação a tudo que vi-
vencia’” (p. 13). Assim a postulação de Cardinalli, fun-
David Cytrynowicz (1978/1997), em conformidade damentada em Spanoudis, sustenta que o terapeuta deve
com o existencial “abertura”, propõe que o psicoterapeuta acompanhar o paciente no processo de elucidar as suas
deve “auxiliar o paciente a desvelar suas próprias possi- escolhas e referências em modo de ser. Sipahi e Vianna
bilidades e fortalecê-lo com o resguardo que lhe dê a sufi- (2002) apresentam posição similar nas suas considerações
ciente segurança, confiança e coragem para assumir o ris- em torno da psicoterapia com pessoas com dependência.
co e as incertezas inerentes à sua condição de ser-aberto” Os autores afirmam que o terapeuta deve “buscar a com-
(p. 67). O terapeuta, ainda segundo o autor, age como um preensão de como a pessoa vivencia o acontecimento de
jardineiro, determinando as condições adequadas para o estar no mundo, atentando para como se apresenta sua
desabrochar da riqueza humana, ou seja, o desvelamento dependência” (p. 91).
do poder-ser do paciente. Assim a daseinsanalyse abre ao Cardinalli (2000) afirma que o terapeuta, ao compreen-
paciente seu próprio existir, seu horizonte de possibili- der o paciente a partir de seu próprio existir, fomenta no
dades. Porém cabe ao paciente a tarefa de cuidar da sua paciente a percepção de o que e como está vivendo. As-
própria existência, realizar as escolhas de forma respon- sim ele aproxima-se de si mesmo e de seu modo de viver,
sável, sendo o terapeuta incumbido de lembrar o paciente podendo viver a situação terapêutica de forma autêntica.
de que ele é guardião do próprio destino. Para isso, a autora cita, o terapeuta deve dispor a situação
Pompéia (1978/1997) pontua que o terapeuta deve terapêutica de tal forma que o paciente se sinta aceito.
abordar a vivência pessoal do paciente, ou seja, sua expe- A partir dessa vivência de aceitação e a possibilidade ofe-
riência, uma vez que o psicoterapeuta se presta a “compre- recida pelo contexto clínico de compreender-se, ocorre a
ender o problema que se apresentava de fato” (p. 72). Esse mudança terapêutica. A autora também salienta a neces-
abordar a vivência pode ser melhor feito através da descri- sidade do terapeuta de estar disponível ao cliente, uma
ção das experiências do paciente; Cardinalli (2000) afir- vez que existe a busca pela mudança na terapia, porém a
ma que o terapeuta deve solicitar “que o próprio paciente mudança gera temor. Em outro trabalho (2005) a autora
perceba o que e como está vivendo” (p. 13), essa descrição também destaca a necessidade do terapeuta aceitar o pa-
da experiência favorece a aproximação do paciente de si ciente inteiramente, com todas as suas belezas e feiuras.
mesmo e do seu modo de viver. Maria Cytrynowicz (1997) Em suma, Maria Cytrynowicz e Cardinalli estabelecem
aponta que o terapeuta deve acompanhar com disponi- em comum, como atribuições do terapeuta, acompanhar
bilidade a procura empreendida pelo paciente na busca o paciente em seu modo de ser, aceita-lo em suas manifes-
de uma saída para as restrições enfrentadas na sua vida. tações, e experienciar com ele seu mundo de referências.
Para tanto o terapeuta deve ser capaz de experienciar um Vianna, Hermann, Puzzilli, Kuroda e Maria Cytryno-
mundo comum com ele, um mundo constituído por uma wicz publicaram em 2001 cinco artigos agrupados em um
totalidade referências do futuro longínquo ou mesmo do eixo comum de psicoterapia com crianças instituciona-
passado remoto, todos presentificados na fala do paciente. lizadas. Esses textos são frutos de uma palestra proferi-
Além disso, segundo a autora, o terapeuta deve aceitar o da na Associação Brasileira de Daseinsanalyse em 2000.
paciente e as suas diferenças e particularidades manifes- Pompéia (2004) afirma que o terapeuta tem como tarefa
tadas em seu mundo de referências. Além de oferecer um aproximar-se do paciente, posição em conformidade com
ambiente acolhedor, manejar o silêncio e a espera, saber Vianna (2001), que estabelece que o terapeuta deve ela-
lidar com o recolhimento, o terapeuta deve, segundo a au- borar uma relação de proximidade com o paciente e além
tora, não esquecer as gargalhadas, que favorecem a inti- disso olhar à individualidade deste e acompanha-lo. Vian-
midade. Destacamos que o terapeuta deve acompanhar o na (2001) afirma que a psicoterapia “tem um olhar voltado
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paciente no seu processo, experienciar o seu mundo com para sua [do paciente] individualidade, cuidando de suas
ele e aceitar o paciente nas suas manifestações. necessidades mais particulares” (p. 93). Outro texto que
O texto de Cardinalli (2000) traz diversas contribui- abordou a individualidade ou singularidade do paciente
ções em torno da proposta da psicoterapia daseinsanalíti- em terapia foi o de Freitas (2011). O olhar atento à indi-
ca, da postura do terapeuta e procedimentos terapêuticos vidualidade é uma medida de compreensão da existência
nessa perspectiva. O terapeuta, segundo a autora, deve do paciente a partir dela própria, tal como destacado por
atentar-se ao modo como o paciente lida ou se ocupa em Cardinalli (2000). Nesse ponto enfatizamos a relevância
relação àquilo com o que vive e traz no ambiente clínico. do conceito das Man tal como abordado por Heidegger
O terapeuta deve compreender o paciente a partir do pró- (1927/2012), uma vez que, como aponta Cerbone (2014),
prio existir do paciente. Na sua relação com o paciente, o o Dasein cotidiano está sob o jugo do das Man (a-gente),
terapeuta deve olhar ao paciente em sua concretude exis- uma autoridade anônima, que faz o homem alinhar-se aos
tencial. Em seguida a autora cita Spanoudis (1978/1997) outros. Embora em um grupo o homem seja um indivíduo
para postular que o terapeuta deve “clarear e tornar com- entre os vários indivíduos no sentido numérico, há uma
preensível para o paciente ‘como ele se relaciona com perda da individualidade uma vez que a autodetermina-
tudo o que encontra, como se comunica com o próximo, ção se limitou devido ao deixar-se levar pelo normativo

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do das Man. De acordo com Pompéia (2004), o Dasein, Concebemos que a escuta e olhar terapêuticos que
ao enfrentar angústia, busca abrigo; o das Man promove permitem acesso a esses novos modos possíveis de ser e
esse abrigo, conforto e libertação do Dasein da indeter- que norteiam as atitudes gerais do terapeuta foram expli-
minação assustadora que deve enfrentar. citadas por Maria Cytrynowicz (1997). Acompanhar o pa-
Hermann (2001) caracteriza o processo terapêutico co- ciente no seu processo permite experienciar o seu mundo
mo um processo vivencial e emocional, divergindo, des- com ele e aceitar o paciente nas suas manifestações. Na
sa forma, de uma concepção pedagógica de psicoterapia. verdade, esse acompanhamento só pode ser feito através
O autor afirma que o brincar “sustenta e revela o modo da aceitação, por parte do terapeuta, das manifestações
particular da criança diante do terapeuta, pois a experi- do paciente, ou seja, do modo de ser do paciente.
ência viva do brincar introduz, para a criança, um leque Pompéia (2004) afirma que o trabalho do terapeuta é
de novas possibilidades” (p. 97). Em seu relato há tanto a acolher tudo que vem ao encontro na situação terapêu-
proposição de brincadeiras quanto o próprio brincar com tica. O autor aproxima acolhimento com receptividade,
a criança. Por outro lado, pontua que o terapeuta deve ou seja, um comprometimento com aquilo que está sendo
possuir um olhar psicoterapêutico, ou seja, se abster de acolhido no sentido de aceitar a manifestação como fa-
julgamentos morais. Cardinalli (2005) afirma que “todas zendo parte de um processo. Sendo parte de um processo
as possibilidades do paciente devem ter uma chance de a manifestação não é a condição final, mas sim o meio,
emergir e não devem considerar as ideias, desejos ou jul- que está em constante desenvoltura. O autor afirma que
gamentos pessoais do analista” (p. 61), assim o terapeuta “aceitar é fundamentalmente um aproximar. E além de
deve cuidar do paciente sem interferir a partir das suas aceitar é importante também poder acolher o que acon-
próprias referências e sentidos. tece. A diferença sutil entre aceitar e acolher talvez seja
Puzzilli (2001) lista as queixas iniciais em seu estudo esta: acolher supõe um movimento” (p. 17).
de caso e pontua que o terapeuta deve conhecer o pacien- Maria Cytrynowicz (2001) comenta os estudos de ca-
te em sua real condição, em detrimento de conhece-lo a so de Vianna, Hermann, Puzzilli e Kuroda e pontua que
partir da perspectiva de quem traz a queixa da criança. o terapeuta atua no sentido de libertar a criança para as
Relata que como psicoterapeuta se esforçava para apro- verdadeiras possibilidades de seu existir. O requisito
ximar-se do paciente e suas dificuldades e acompanha-lo fundamental para tal ação é evitar isolar a criança numa
durante a psicoterapia, tal como postulado por Cardinalli história com passado e futuro já demarcados. A tarefa do
(2000), Maria Cytrynowicz (1997) e Vianna (2001). No terapeuta, desse modo, é buscar as origens, em seguida a
texto de Kuroda (2001) também percebemos a presença autora esclarece afirmando que “a busca de origem quer
do acompanhamento e da proximidade através do dese- dizer buscar o sentido original, o modo próprio, o que é
nho. O autor relata que paciente e terapeuta realizavam mais próximo, encontrar a familiaridade com a própria
seus próprios desenhos e a partir disso eram comparti- vida, história pessoal e particular” (p. 122).
lhadas ideias, olhares e opiniões, ou seja, eram realizadas Pompéia (2002), abordando a psicoterapia com psicó-
descobertas. Freitas (2011) afirma que “o terapeuta deve ticos, pontua a necessidade do terapeuta suspender seus
acompanhar a experiência originária de errância de seu julgamentos acerca da veracidade da experiência do pa-
paciente e tornar-se testemunha das possibilidades de sig- ciente em seu contraste com a fatualidade daquilo que
nificado descobertas através desta jornada” (p. 80). Tam- vive. Assim cita o exemplo de um paciente que em delí-
bém Saffi (2002, p. 99-100) traz um estudo de caso onde rio pode afirmar estar sendo perseguido pela CIA; a per-
relata diversas passagens demonstrando a atitude básica seguição sendo realizada de fato ou não, não importa ao
do terapeuta de acompanhar o cliente. Esse acompanha- terapeuta, mas a experiência de estar sendo perseguido é
mento se demonstra pela receptividade ao modo de ser trabalhada pelo terapeuta.
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do paciente por parte da terapeuta, bem como a busca Pompéia (2002) destaca que “a referência para o psi-
por uma aproximação terapêutica. Outro texto em que o coterapeuta é o sentido da vida, é o significado” (p. 55),
acompanhamento está presente é o de Sipahi e Vianna uma vez que o autor defende a relevância que os homens
(2002) onde os autores defendem que depositam no sentido das coisas. O autor pontua que even-
tualmente um psicoterapeuta atuando junto a um pacien-
no estabelecimento da relação terapêutica o terapeu- te terminal deve auxiliar na busca pela preservação do
ta deve colocar-se a serviço do outro, oferecendo-se sentido até o fim; atuando junto a um paciente psicótico
como companhia, [...] [aproximando-se] de seus so- o psicólogo, ou seja, psicoterapeuta, deve “reintroduzir
frimentos, cuidando de acolher seus medos, incerte- na história do paciente a experiência tão intensa que ele
zas, vergonhas, com uma escuta e um olhar que lhe viveu no surto; é torna-la parte da vida dele e não um
permitam aproximar-se de si mesmo. Neste encontro, pedaço a ser jogado fora; é trazer o significado da expe-
a escuta e o olhar terapêuticos revelam as possibilida- riência psicótica para junto da vida normal” dessa forma
des que lhe estão veladas, mas que se fazem presentes é possível “que ele veja como as emoções vividas no sur-
e permitem acesso a novos modos possíveis de ser no to tinham e continuam a ter sentido na totalidade de sua
mundo. (p. 90) história” (p. 70). A partir dessa recuperação da estrutura

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 177-188, mai-ago, 2017 184
Daseinsanalyse e Psicoterapia no Brasil: uma Revisão Integrativa da Literatura

do sentido o paciente pode investir novamente nas su- Holanda (2011) tematiza o cuidado nas modalidades
as relações e no seu projeto. A partir de Sipahi e Viana médica e psicológica e assim aponta a diferenciação en-
(2002) destacamos que o terapeuta deve atuar de forma a tre o cuidado psiquiátrico e a psicoterapia. Herdados da
preservar o sentido da experiência humana, assim novas Grécia antiga, os conceitos de iatriké, cuidar do próprio
significações desdobram-se e torna-se possível novos mo- corpo, opõe-se à therapeia, cuidar do próprio ser, e fun-
dos de ser. Cardinalli (2005) afirma que o papel do tera- damentam ambas as modalidades de cuidado: o cuida-
peuta é buscar o desvelamento do sentido da experiência do psiquiátrico e a psicoterapia. O terapeuta oferece um
do paciente e esclarecer o horizonte no qual ele está vi- cuidado mediado pela palavra, que interpreta e desvela
vendo. Em seguida, fundamentando-se em Boss, a autora sentidos; a “cura” promovida por ele é mais do que a re-
afirma que a tarefa do terapeuta “é ajudar os pacientes a missão de sintomas, mas sim uma via de cuidar do pró-
se desenvolverem no sentido das próprias possibilidades prio ser e promoção do cuidado de si. Servindo-se da fala
de sua existência” (p. 60). o terapeuta, na modalidade psicoterapia, cuida do corpo
Percebemos que o termo sentido é usado diversas vezes e da alma através da alma, ou seja, através da própria
pelos diferentes autores citados, salientando a relevância manifestação daquele que está sendo cuidado. Por outro
dessa questão na prática psicoterápica daseinsanalítica. lado, como uma expressão da iatriké, o cuidado psiquiá-
A partir do pensamento de Heidegger (1927/2012), espe- trico oferece um cuidado do corpo e da alma através do
cialmente no §32 de “Ser e Tempo” “sentido é aquilo em corpo, ou seja, via medicações.
que a compreensibilidade de algo se mantém”, assim algo Psicoterapia, portanto, é um cuidado do corpo e da
só é compreendido como algo a partir do sentido. O senti- alma através da alma, sendo esta a mediadora desse cui-
do é relevante na prática psicoterápica na medida em que dado. Em outras palavras, a psicoterapia cuida do pró-
ele desvela as relações que o paciente tem com o mundo e prio ser através do compartilhamento entre terapeuta e
como ele as sustenta e é por elas sustentado (Jardim, 2013). paciente. Dessa forma, uma nova compreensão ou des-
Sipahi e Vianna (2002) colocam ênfase na ressignifi- velamento dos sentidos em que se fundamenta a existên-
cação do tempo no trabalho com pessoas com dependên- cia, promoção da liberdade existencial com acesso a no-
cia. Afirmam que o terapeuta deve ser capaz de propiciar vas possibilidades de ser e a promoção da resolutividade
ao paciente o acesso ao seu futuro como um poder-ser, na condução da própria existência se apresentam como
ou seja, é preciso trabalhar promovendo uma nova for- os eixos essenciais dos objetivos apresentados pelos di-
ma de relacionamento com o futuro. Nesse sentido o pró- ferentes autores. E todos eles apontam ao cuidado de si,
prio setting deve ser disposto de forma a colaborar com a promoção do cuidado de si. O desenvolvimento do ser,
a assimilação da temporalidade de uma outra forma pelo que promove o cuidado de si, é o polo onde convergem
paciente. Por outro lado citam como papel do terapeuta todos os esforços do terapeuta.
“auxiliar o cliente na construção de uma história mais Maria Cytrynowicz (1997) e Cardinalli (2005) conce-
propriamente sua, mesmo com as incertezas do futuro” bem que a relação paciente-terapeuta compõe o cerne do
(p. 92). Esse processo de construção de sua própria his- processo psicoterápico, já que este ocorre graças a um
tória, alertam os autores, envolve riscos, medos e aban- espaço comum entre essas duas figuras trabalhando no
donos, tal como o incômodo da solidão que a liberdade sentido de promover mudanças na vida do paciente. Tais
em se construir provoca, tal como expressa Sartre citado mudanças se expressam através de uma nova compreen-
por Pompéia (2000). são de sua vida, que se amplia; ou através de novos mo-
Cardinalli (2005) aponta, fundamentando-se em Boss, dos de ser, que são desvelados, porém cabe ao paciente a
que a prática psicoterápica deve evitar modos interventi- condução da própria vida. Portanto em todo processo de
vos de atuação, ou seja, o terapeuta deve evitar ocupar-se cuidado o terapeuta acompanha o paciente no seu em-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

daquilo que deve ser feito pelo próprio paciente: as es- preendimento; isso implica a necessidade de um olhar
colhas que conduzem sua existência. Assim o terapeuta clínico próprio à psicoterapia; a necessidade de aceitar o
deve oferecer um cuidado antecipativo. paciente nos seus modos de ser; esclarecer a tonalidade
afetiva que ilumina a clareira do ser e tempera a experi-
ência; aproximar-se do paciente e sua experiência, com-
6. Interpretação integradora: panorama da daseinsa- partilhando com o paciente.
nalyse no Brasil Conforme Pompéia (2014), fundamentando-se no
pensamento heideggeriano, o ente humano difere-se de
Percebemos uma dispersão entre as diversas concep- qualquer outro ente pela sua capacidade de sonhar, co-
ções de objetivos da psicoterapia e das posturas do tera- locar-se adiante, projetar-se no futuro. Assim ele afirma
peuta, e em nossa interpretação tal dispersão é engendra- que “a existência se situa na abertura do que ainda não
da a partir de uma orientação única da daseinsanalyse: é” (p. 18), ou seja, na possibilidade de ser. Esse poder-
o cuidado do próprio ser do paciente. Dessa forma a da- -ser é o que distingue o homem de qualquer outro ente.
seinsanalyse pode ser considerada uma terapia na com- Herdada de Husserl, e sua crítica da apropriação reali-
preensão primordial do termo. zada pela ciência naturalista da subjetividade humana,

185 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 177-188, mai-ago, 2017
Breno A. da C.

Heidegger desenvolve um novo olhar à experiência hu- será possível distinguir ouvir, como a mera percepção
mana e justamente esse olhar fundamenta a prática tera- dos sons, de escutar, um exercício de ouvir com atenção,
pêutica daseinsanalítica. desvelando sentidos e mantendo-se junto àquele que fala.
Pompéia (1978/1997a) afirma que ao longo do processo Assim será possível resgatar a própria direção e sentido
psicoterapêutico há a possibilidade do paciente enfrentar de terapia, o cuidado do próprio ser.
sensações de desconforto ou mal estar e que isso se deve
ao fato de que na psicoterapia revolve-se antes de se re-
solver. Porém o autor destaca que sua concepção de reso- 7. Novos contextos de atuação
lução é diferente de uma resolução de problemas como
um concerto mecânico; está mais próxima da concepção Pompéia (2000) ao definir terapia como “a procura,
de resolução como um modo de ser, ou seja, a clareza de via poiesis, pela verdade que liberta para a dedicação ao
propósito e firmeza que o paciente desenvolve na psico- sentido” (p. 29), abre um leque de possibilidades de atu-
terapia. Dessa forma justifica-se a necessidade do tera- ação em outros contextos, marcadas essencialmente pe-
peuta acompanhar o paciente no seu processo, tal como lo favorecimento do cuidado da própria existência. Esse
citado por diversos autores (Puzzilli, 2001; Cardinalli, cuidado, compreendido como manejo, ou lida, dá ao ser a
2000; Maria Cytrynowicz, 1997; Vianna, 2001; Kuroda, condição de agente na construção de si próprio, em detri-
2001; Freitas, 2011; Saffi, 2002 e Sipahi & Vianna, 2002) mento de posições geradoras de passividade ou privação
e agir tal como um jardineiro, como expresso por David existencial. Assim, terapia, como um cuidado do próprio
Cytrynowicz (1978/1997), oferecendo as condições para ser, ao invés de se restringir ao contexto do consultório
o paciente desenvolver o cuidado de si. Por outro lado, individual se abre a novas formas de cuidado.
Pompéia (2000) afirma que a psicoterapia se desenvolve David Cytrynowicz (1978/1997) estabelece a postura
via linguagem poética e que o terapeuta, ao compreen- do psicoterapeuta como a de auxiliar o paciente no pro-
der o paciente, é tocado por este, assim o autor fornece cesso de desvelamento de suas possibilidades. Concebe-
subsídios para a compreensão de como o terapeuta deve mos que tal auxílio, ou seja, promover as condições para
acompanhar o paciente, quais são os subsídios para esse que o paciente desvele suas possibilidades, também po-
acompanhamento. de estender-se a outros contextos. Combinando o ofereci-
Outra questão presente nos textos e que chamou nos- mento de um cuidado antecipativo, tal como abordado por
sa atenção foi a realização de estudos etimológicos. David Cardinalli (2005) e a postura de aceitação e acolhimento
Cytrynowicz (1978/1997) discute a questão da abertura por parte do terapeuta, tematizada por Maria Cytryno-
do ser na compreensão da psicoterapia e propõe que “as wicz (1997) e Pompéia (2004), propomos que a dasein-
palavras, mesmo as aparentemente óbvias, não podem sanalyse pode ser fundamento para a prática de redução
ser tomadas como autoevidentes se estivermos seriamen- de danos. A redução de danos enfatiza a criação de um
te empenhados numa compreensão mais primordial do espaço onde a própria pessoa alvo da redução de danos
que falamos” (p. 64). Spanoudis (1976/1997) em esforço seja prioridade no estabelecimento de programas ou me-
similar realiza um breve estudo do termo tédio. O autor tas de tratamento, e o redutor é quem cria esse espaço.
se justifica dizendo: “insistimos nas definições e etimo- O redutor, orientado pela perspectiva daseinsanalítica, ao
logia da palavra não por razões escolásticas, mas [para] favorecer esse espaço promove as condições para o des-
captar tanto o quanto é possível o que ela nos revela, nos velamento de possibilidades existenciais da pessoa alvo
comunica” (p. 50). Heidegger (1975/2012) também realiza da redução de danos (Marlatt, 1999).
estudos etimológicos, apontando que buscar a origem dos A perspectiva daseinsanalítica também é coerente
termos essentia e existentia elucida o horizonte de com- com a aceitação e empatia da redução de danos. Ao ex-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

preensão e interpretação daquilo indicado pelos dois con- perienciar o mundo com o paciente, tal como destacado
ceitos (§11). Assim o exercício etimológico é fundamental por Maria Cytrynowicz (1997) o terapeuta pode agir tal
no desvelamento de sentidos dos termos usados no nosso como um redutor, oferecendo um cuidado singular e hu-
cotidiano. Encontramos estudos etimológicos em Maria manizado à pessoa alvo da redução de danos. Além dis-
Cytrynowicz (2001) e Pompéia (2000) e outros autores. so, é importante evitar julgamentos morais, tal como foi
Enfatizamos a relevância da realização dos estudos tematizado por Hermann (2001) e Cardinalli (2005), tanto
etimológicos para o desvelamento do sentido primordial como uma forma de estabelecimento de vínculo, quanto
das palavras que empregamos, especialmente os terapeu- como caminho para o cuidado antecipativo visado pela
tas e estudiosos da existência humana. Esse desvelamento daseinsanalyse; tal cuidado é promotor do desvelamento
permite uma apropriação genuína da experiência desig- das possibilidades e consequente alteração do modo de
nada pelo termo, assim será possível distinguir a emoção ser por parte da pessoa alvo da redução de danos.
do sentimento, que não raro são enclausurados em um Cardinalli (2011) apresenta as contribuições da fe-
leito de Procusto que restringe ou amplia indevidamen- nomenologia existencial para a atuação do psicólogo em
te a manifestação desses dois estados de ânimo tratados contextos amplos, fundamentando-se no entendimento
como se fossem uma mesma modulação de afeto. Assim da daseinsanalyse de saúde e doença. A autora afirma

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 177-188, mai-ago, 2017 186
Daseinsanalyse e Psicoterapia no Brasil: uma Revisão Integrativa da Literatura

que o entendimento daseinsanalítico dessa questão ba- comunicação e divulgação científica, pois estabelecem
seia-se no poder-ser e na liberdade do homem, assim as um sentido comum a conceitos com várias interpreta-
experiências humanas são situadas em uma totalidade ções e entendimentos.
existencial específica. Nesse estudo não foram destacadas as concepções de
Nossa intenção, longe de visar patologizar o fenôme- psicoterapia e não foram apontadas as concepções de psi-
no do uso ou abuso de drogas, é maneja-lo a partir da copatologia, que são fundamentais para a elaboração de
experiência de restrição expressa pela própria pessoa um panorama mais elaborado da psicoterapia daseinsa-
alvo da redução de danos na relação com o redutor. As- nalítica no Brasil. Além disso, em vistas a um panorama
sim, nessa perspectiva centrada no cuidado a partir da mais elaborado, é preciso estender o processo de busca
demanda levantada pela pessoa, a existência e o hori- por artigos a todos os periódicos disponíveis.
zonte de possibilidades da pessoa alvo compõem o cer- A daseinsanalyse enquanto prática psicoterápica não
ne do estabelecimento de demandas e do oferecimento possui, propriamente dito, um modelo de homem; fecha-
de cuidado. do, encapsulado, olhado e abordado indiretamente atra-
Sipahi e Vianna (2002) realizaram um estudo teórico vés de construtos metapsicológicos. A daseinsanalyse se
onde abordaram o fenômeno da dependência de drogas funda em uma concepção de ser cuja essência é a exis-
a partir da fenomenologia existencial e traçaram alguns tência; o cuidado oferecido pelo terapeuta, dessa forma, é
apontamentos acerca do processo terapêutico de uma um cuidado do próprio ser, sendo a daseinsanalyse uma
pessoa com dependência. Os autores destacam a angustia therapeia no sentido grego antigo. A atribuição de acom-
frente ao futuro indeterminado como um motivador para o panhar o paciente, postulada por diversos autores, é jus-
uso de drogas, posição em conformidade com Boss (1981, tificada pela proposta de cuidar do próprio ser da thera-
p. 17); consideramos relevante levar em conta a tematiza- peia. Em outra ocasião defenderemos a tese de que todo
ção da angustia existencial realizada por Pompéia (2004). cuidado psicológico é uma prática de therapeia. No mo-
Sipahi e Vianna (2002) destacam que o uso de drogas, de- mento satisfazemo-nos em concluir: a daseinsanalyse, em
vido ao prazer imediato, promove uma ressignificação da detrimento de posições metapsicológicas ou encapsulan-
relação do homem com o tempo, uma vez que o ser expe- tes do ser humano, cuida do próprio ser da pessoa que se
rimenta um alívio da necessidade de cuidar do seu futu- apresenta em toda sua expressão existencial.
ro. Por outro lado, os autores afirmam que outras fontes
de prazer são negligenciadas, assim verifica-se a restrição
em suas existências. Destacamos algumas propostas para Referências
a psicoterapia nesse contexto apresentadas pelos autores,
tais como o desvelamento de sentidos, que favorece novos Associação Brasileira de Daseinsanalyse. (2015). Histórico. Aces-
modos de ser. Em contraponto à abstinência como única so em 25 de Dezembro de 2015, disponível em Site da As-
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via, os autores propõem a busca por liberdade, garantindo
sanalyse.org/page.php?id=17.
ao homem a possibilidade de realizar seu poder-ser. O te-
rapeuta deve acolher, aproximar-se e acompanhar a partir Boss, M. (1963). Psychoanalysis and Daseinsanalysis. New York:
da escuta e olhar terapêuticos. Finalmente estabelecem a Basic Books.
necessidade de proporcionar uma forma diferente de re-
Boss, M. (1981). Angústia, Culpa e Libertação Psicoterápica.
lacionar-se com o futuro, ampliando as possibilidades no São Paulo: Duas Cidades.
horizonte do ser. Concebemos que esse trabalho pode ser
considerado um fundamento para a prática de redução de Boss, M. & Condrau, G. (1976/1997). Análise Existencial-
danos devido às suas contribuições na compreensão do Daseinsanalyse. Daseinsanalyse - Revista da Associação Bra-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

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bem como a terapêutica proposta, que cuida do próprio Cardinalli, I. E. (2000). Daseinsanalyse e Psicoterapia. Dasein-
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se, especialmente acerca das atitudes e posicionamen- ra de Daseinsanalyse. 1, 2 e 4. 63-70 (Original publicado
tos do terapeuta. As definições operacionais favorecem a em 1978).

187 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 177-188, mai-ago, 2017
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Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 177-188, mai-ago, 2017 188
Psicologia Humanista de Abraham Maslow: Recepção e Circulação no Brasil

Psicologia Humanista de Abraham Maslow:


Recepção e Circulação no Brasil

Abraham Maslow’s Humanistic Psychology: Reception and Circulation in Brazil

Psicología Humanista de Abraham Maslow: Recepción y Circulación en Brasil

Paulo Coelho Castelo Branco


Luísa Xavier de Brito Silva

Resumo: Esta pesquisa objetiva refletir aspectos relacionados à biografia de Abraham Maslow, seu projeto de Psicologia Humanista
e o estado corrente de suas ideias no Brasil. Introduzimos, inicialmente, um esboço biográfico de Maslow. Depois, situamos
a participação dele no desenvolvimento da Psicologia Humanista nos EUA. Posteriormente, apresentamos três investigações
bibliográficas que analisam a recepção e a circulação das ideias de Maslow no Brasil: a primeira faz uma revisão narrativa em
duas bases de dados; a segunda examina os livros de e sobre Maslow publicados no Brasil; a terceira minuta as ideias de Maslow
em livros gerais de Psicologia e Administração. Evidenciamos que a vida e a obra de Maslow possibilitam uma articulação com a
Psicologia Humanista, para a qual ele tinha propósitos definidos antes, durante e depois de sua ascensão. A Psicologia de Maslow
é recebida parcialmente no Brasil e a circulação de suas ideias ocorre, hegemonicamente, em textos relacionados aos campos da
Administração e da Psicologia Organizacional. Finalmente, apontamos outras possibilidades de pesquisas para desenvolver o
legado de Maslow no cenário brasileiro.
Palavras-chaves: Abraham Maslow; Autorrealização; História da psicologia; Motivo de realização; Psicologia humanista.

Abstract: This research aims to reflect aspects about Abraham Maslow’s biography, his project of Humanistic Psychology and the
current status of his ideas in Brazil. We introduced, initially, a biographical sketch of Maslow. Then, we situated his participation
at the development of the Humanistic Psychology in EUA. Posteriorly, we presented three bibliographical investigations analyzing
the reception and the circulation of Maslow’s ideas in Brazil. The first is a narrative review in two databases; the second examines
the Maslow’s books and books mentioning Maslow published in Brazil; the third shows the Maslow’s ideas in general books of
Psychology and Management. We evidenced that the life and Maslow´s work allows an articulation with a Humanistic Psychol-
ogy, that for it he had defined purposes before, during and after of his ascension. The Maslow’s Psychology is partly received in
Brazil the circulation of his ideas occurs, hegemonically, in texts related of Management area and of the Organizational Psychol-
ogy. Finally, we point out other possibilities to develop the Maslow’s legacy in Brazil.
Keywords: Abraham Maslow; Self actualization; History of psychology; Achievement motivation; Humanistic psychology.

Resumen: Esta pesquisa pretende reflejar aspectos relacionados con la biografía de Abraham Maslow, su proyecto de Psicología
Humanista y el estado actual de sus ideas en Brasil. Introdujo inicialmente una semblanza de Maslow. Luego ponemos su partici-
pación en el desarrollo de la Psicología Humanista en el EE.UU. Adelante, se presentan tres investigaciones análisis bibliográficas
de la recepción y el movimiento de las ideas de Maslow en Brasil: la primera es una revisión narrativa en dos bases de datos; la
segunda examina los libros sobre Maslow publicado en Brasil; el tercer, las ideas de Maslow en los libros generales de Psicología
y Gestión. Hemos demostrado que la vida y la obra de Maslow permiten una articulación con la Psicología Humanística, por el
que había definido los propósitos antes, durante y después de su ascensión. La psicología de Maslow se recibe en parte en Brasil
y la circulación de ideas se produce hegemónicamente en los textos relacionados con el ámbito de la Administración y en la Psi-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

cología de las Organizaciones. En final, señalamos otras posibilidades de investigación para desarrollar el legado de Maslow en
la escena brasileña.
Palabras-clave: Abraham Maslow; Auto-realización; Historia de la psicología; Motivo de realización; Psicología humanista.

Introdução históricos e epistêmicos sobre o movimento humanista


na Psicologia, chama a atenção um psicólogo bastante ci-
São diversas as produções brasileiras que versaram a tado, porém, pouco estudado de modo exaustivo em re-
Psicologia Humanista (Justo, 1978; Boainain, 1998; Ama- lação aos outros expoentes humanistas, Abraham Harold
tuzzi, 2001; Castanõn, 2007; Feijoo & Mattar, 2009; Go- Maslow. Dele, certamente vieram muitas contribuições,
mes, 2010; Ponte & Sousa, 2011; Buys, 2011; Krüger, 2014; mas se ouve pouco sobre elas – o que o torna reconhecido,
Holanda, 2014) e a sua História no Brasil (Gomes, Holan- porém, pouco conhecido no cenário humanista brasilei-
da & Gauer, 2004a, 2004b). Conquanto elas apresentem ro, popularmente mais disseminado pelas contribuições
introduções, reflexões, críticas e apontamentos teóricos, da Abordagem Centrada na Pessoa e da Gestalt-Terapia.

189 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017
Paulo C. C. B. & Luísa X. de B. S.

O que contribuiu para tal esquecimento ou falta de co- No final da adolescência, os pais de Maslow o coagi-
nhecimento sobre Maslow no movimento humanista bra- ram a se tornar advogado. Cedendo à pressão, matricu-
sileiro? Na tentativa de responder a esse questionamento, lou-se, aos 17 anos, na Faculdade de Direito da Univer-
objetivamos refletir a respeito da Psicologia Humanista sidade de Nova Iorque, em 1926. Ao perceber que não
de Maslow, sua recepção e circulação no Brasil. Trata-se, conseguiria concluir o curso e agradar aos pais, ele pe-
pois, de um estudo de cunho histórico e reflexivo sobre diu transferência, no ano seguinte, para a Universidade
aspectos concernentes a biografia e obra de Maslow, seu de Cornell, em Ithaca, Nova Iorque, com a finalidade de
projeto de Psicologia Humanista e o status corrente de fazer um curso de Introdução à Psicologia (Hall, Lindzey
suas ideias no Brasil. & Campbell, 1957/2000). Em Cornell, Maslow estudou
Destarte, procedemos da seguinte lógica expositiva. com Edward Titchener, entretanto, suas experiências fo-
Inicialmente, apresentamos um breve esboço biográfi- ram de desânimo e desinteresse pela ciência psicológi-
co de Maslow. Posteriormente, refletimos a relação dele ca. Frustrado, o jovem estudante retornou para a cidade
com a Psicologia Humanista. Finalmente, introduzimos de Nova Iorque e matriculou-se novamente no curso de
as noções históricas de recepção e circulação de psico- Direito, cedendo, mais uma vez, aos interesses dos seus
logias, descrevendo três investigações bibliográficas que pais (Hall, 1968).
analisam a recepção e a circulação das ideias de Maslow Maslow era apaixonado, há tempos, por sua prima
no Brasil. de primeiro grau, Bertha Goodman, o que gerou muitas
intrigas familiares. Contra a vontade dos pais, ele, en-
tão com 20 anos, assumiu o relacionamento e se casou
1. Esboço biográfico de Abraham Maslow com ela, em 1928. O casal teve duas filhas, Ann e Ellen
(Hoffman, 2008). Casado e motivado, Maslow encontrou
Norteados pela ideia da confecção de uma narrativa forças para sair de perto dos seus pais. Em 1930, decidiu
biográfica sobre um expoente, como recurso útil ao enten- outra vez estudar Psicologia e mudou-se para Madison,
dimento dos fatores pessoais imbricados à construção de com o intento de se formar na Universidade de Wiscon-
uma ciência (Cruz, 2016), intencionamos oferecer supor- sin, onde ele obteve êxito com os títulos de bacharel, em
te ao entendimento do quanto à vida de Abraham Mas- 1930, mestre, em 1931, e doutor, em 1934. Paralelamen-
low está vinculada à sua obra e proposta de Psicologia. te à Psicologia Comportamental e Experimental, Maslow
O humanista tinha visão e pressuposição positivas sobre nutria um interesse pela Psicanálise de Alfred Adler.
a natureza humana e suas potencialidades de autorrea- O primeiro trabalho de graduação que o estudante de
lização em qualquer tipo de ambiente, seja ele sadio ou Psicologia escreveu em Wisconsin foi intitulado Psica-
não, desde que o seu comportamento esteja motivado e nálise e Higiene Mental como Filosofia Social do Status
regulado para satisfazer suas necessidades básicas (Hall Quo. Entretanto, ele não teve coragem de apresentá-lo
et al., 1957/2000). Com uma teoria que incluía as noções (Maslow, 1971/1975).
de estima e amor, geradas pelas necessidades, faltas ou Maslow foi aluno de doutorado de Harry Harlow, com
por valores do ser (que transcendem condicionalidades), quem fez diversas pesquisas experimentais sobre o com-
Maslow operacionalizou um modelo humanista de Psi- portamento de primatas (Hall et al., 1957/2000; Hoffman,
cologia que o levou a buscar formas de compartilhá-lo e 2008) e publicou o seu primeiro artigo, Delayed reaction
congregá-lo a outros trabalhos afins, segundo um espírito tests on primates from the lemur to the Orangutan, divul-
de cooperação entre psicólogos com semelhantes visões gado no Journal of Comparative Psychology, em 1932.
e pressuposições. Devido ao seu esmero, o recém-doutor foi convidado a
Maslow nasceu em 01 de abril de 1908, no bairro do permanecer como docente da Universidade de Wiscon-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

Brooklyn, em Nova Iorque. Foi o primogênito de sete fi- sin, onde chegou a se matricular como estudante na Fa-
lhos de pais imigrantes russos judeus, Samuel Maslow culdade de Medicina, tendo desistido por não ter tempo
e Rose Schilojsky. Maslow teve uma infância humilde, livre (Hoffman, 2008).
sem muitos amigos, devido ao fato de o seu bairro possuir Em 1935, Maslow se tornou resident fellow da Univer-
poucos judeus, o que lhe possibilitou bastante tempo pa- sidade de Columbia, onde trabalhou com Edward Thorn-
ra ler e estudar. Seu pai, frequentemente, desmerecia-o, dike e conheceu Kurt Goldstein. Thorndike aplicara um
chamando-o de feio. Sofrendo com isso, Maslow passou teste de inteligência em Maslow, que obteve um coeficien-
a evitar contato com as pessoas, chegando a esperar as te alto (QI 195). Esse acontecimento o fez acreditar mais
ruas e os metrôs ficarem vazios para transitar. Sua mãe em suas potencialidades (Hall, 1968). Sob a direção de
costumava privá-lo de comida, trancando a geladeira e Thorndike, ele realizou uma pesquisa sobre a sexualidade
abrindo-a conforme o seu humor. Certa vez ela descobriu feminina, publicando diversos artigos sobre o tema. Mas-
que o primogênito cuidava de dois gatos no porão de sua low, também, contatou e foi influenciado pela Antropolo-
casa e os matou a pauladas. Esse cotidiano de relações gia de Ruth Benedict e pela Psicologia da Gestalt, de Max
familiares tensas marcou a vida de Maslow (Hall, 1968; Wertheimer. Foi durante essa estada que o futuro expoente
Hoffman, 2008). humanista ratificou algumas ideias sobre autorrealização,

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017 190
Psicologia Humanista de Abraham Maslow: Recepção e Circulação no Brasil

consideradas pouco científicas (Hoffman, 2008). Incenti- Corporation, Maslow sofreu um ataque cardíaco enquanto
vado por um psicanalista amigo, Werner Wolff, Maslow se exercitava caminhando em Menlo Park, vindo a óbito.
publicou, em 1937, o seu primeiro trabalho considerado Conforme esse esboço biográfico, em suma, perce-
fora do contexto acadêmico à época, intitulado: Persona- bemos que Maslow iniciou a sua carreira na Psicologia
lity and Patterns of Culture, publicado no livro de Ross Experimental, com um interesse paralelo à Psicanálise
Stagner, Psychology of Personality (Maslow, 1971/1975). adleriana, à Psicologia da Gestalt e Organísmica e à An-
Após o término de sua residência em Columbia, em tropologia Cultural. Na década de 1950, em específico,
1937, Maslow regressou à Nova Iorque ao aceitar o con- Maslow (1971/1975) relatou ter dificuldades para publi-
vite para ocupar um cargo de docente no Departamento car as suas ideias e pesquisas sobre motivação, autorrea-
de Psicologia do Brooklyn College, onde lecionou duran- lização e necessidades básicas em periódicos acadêmicos
te quatorze anos. Neste ínterim, em 1947, ele sofreu um reconhecidos pela APA, em razão de suas ideias serem
ataque cardíaco, que o levou a tirar uma licença de um recusadas por diversos avaliadores. Possivelmente, o mo-
ano. Maslow e sua família aproveitaram para passar um tivo dessa dificuldade ocorreu por Maslow não continu-
tempo em Pleasanton, Califórnia, onde achava que iria ar nenhuma tradição de Psicologia Comportamental, da
descansar. No entanto, ele criou uma cooperativa de psi- Gestalt ou da Psicanálise. Com um histórico de superação
cólogos, assumindo nela um trabalho de liderança até re- diante das adversidades, e com um ímpeto organizador
tornar ao Brooklyn College nos anos seguintes (Hall, 1968; e cooperativo, o expoente humanista resolveu criar um
Hall et al., 1957/2000). contexto favorável à publicação e à divulgação de suas
Em 1951, Maslow recebeu o convite para trabalhar ideias e de outros psicólogos que se encontravam em se-
como presidente do Departamento de Psicologia da Uni- melhante situação. Em seguida, aprofundamos esse pon-
versidade de Brandeis, em Waltham, Massachusetts. Ao to na carreira de Maslow.
se mudar, resolveu submeter-se a uma psicoterapia ana-
lítica adleriana, empreendendo um trabalho pessoal para
lidar com a mágoa que tinha dos pais. Maslow chegou a 2. Relação de Abraham Maslow com a Psicologia
reconciliar-se com o seu pai, porém nunca conseguiu per- Humanista
doar à mãe pelos maus tratos (Hall, 1968). Em Brandeis,
ele desenvolveu estudos sobre motivação, personalidade Envolvido pela insatisfação, e com o intuito de criar
e autorrealização, os quais chamaram a atenção de Dou- uma proposta alternativa à Psicologia Comportamental
glas McGregor, um professor de Administração do Mas- e à Psicanálise, Abraham Maslow, em 1954, começou a
sachusetts Institute of Technology, que passou a divulgar compilar uma lista de correspondência que continha o
as ideias maslownianas no mundo dos negócios. Os dois contato de outros psicólogos, também, insatisfeitos com
se tornaram amigos e passaram a empreender trabalhos o contexto relacionado à Psicologia da época (Moss, 2001;
conjuntos sobre gerenciamento, trabalho autorrealizável, Castañon, 2007). A lista, posteriormente, batizada por
criatividade e liderança (Stephens, 1965/2003). Devido aos Maslow de Rede Eupsiquiana, tinha o objetivo de realizar
investimentos de John Rockefeller III, um magnata filan- a troca de trabalhos mimeografados entre os membros que
tropo, Maslow conseguiu uma fonte de aplicabilidade so- a compunham e de movimentar e divulgar artigos que as
bre os seus estudos no circuito empresarial e desenvolveu, revistas convencionais da American Psychological Asso-
na prática, sua teoria sobre a hierarquia das necessidades ciation (APA) rejeitavam (Holanda, 2014). Nessa lista ha-
básicas. Com a interveniência de Maslow e da Fundação via nomes como os de Carl Rogers, Gordon Allport, Kurt
Rockefeller, Kurt Goldstein chegou a trabalhar em Bran- Goldstein, Rollo May, Gardner Murphy, Anthony Sutich,
deis, em 1957-1958, e exerceu profunda influência sobre apenas para citar alguns. Ressaltamos que muitos deles,
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

o psicólogo interveniente que lhe dedicou a obra Toward a exemplo de Rogers e Allport, já gozavam de prestígio
a Psychology of Being (1962). Em 1966, Maslow foi eleito e reconhecimento no cenário estadunidense. Segundo
presidente da American Psychological Association (APA). Maslow (1962/1970), a Rede Eupsiquiana, conforme a sua
As sobrecargas do trabalho e da presidência da APA, conveniência, incluía apenas os nomes e contatos com os
somadas à saúde cardíaca debilitada, levaram Maslow a quais ele estava relacionado e se interessava. Não à toa,
se afastar da universidade e do meio acadêmico, em 1968. ele é reconhecido como o principal fundador da Psicolo-
Contudo, em 1969, ele aceitou o convite para ser resident gia Humanista (Moss, 2001).
fellow da Fundação Laughlin, em Menlo Park, Califórnia É importante destacar que a concepção da Rede Eup-
(Hall et al., 1957/2000), e montou um escritório em Sand siquiana advém da ideia contracultural de uma socieda-
Hill Road, lugar conhecido como o berço estadunidense de utópica chamada Eupsiquia,
das ideias empresariais criativas. Nesse local, o psicólo-
go humanista popularizou suas perspectivas sobre em- (...) that would hypothetically come into existence
presas e gestão de pessoas que foram difundidas no Vale when a thousand psychologically healthy families
do Silício (Stephens, 1965/2003). Em 1970, após aceitar migrated to a desert island. Although Maslow didn’t
um cargo superior de residência da Saga Administrative claim to know the specifics of what this would look

191 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017
Paulo C. C. B. & Luísa X. de B. S.

like, he knew a couple of things. The society would and to heal the fragmentary character of contemporary
be philosophically anarchistic, Taoistic but loving, psychology through an ever more comprehensive and
governed by tolerance and free choice, and lacking integrative approach (§ 4).2
in violence and control. It would succeed mainly be-
cause, when given the ability to choose, healthy in- Destarte, Maslow (1962/1970) apontou, segundo en-
dividuals would draw on their innate ability to make tendemos, quatro propósitos pertinentes ao desenvolvi-
the right choices. 1 (Grogan, 2013, p. 110) mento da Psicologia Humanista.
No primeiro propósito, Maslow (1962/1970) atentou
No final de 1957, após uma troca de correspondên- para a necessidade de utilizar a ciência dominante, ex-
cias entre Maslow e Sutich, ambos chegaram à conclusão pandindo-a aos interesses humanistas. Para ele os méto-
que a listagem havia alcançado seus objetivos e chegava dos científicos são fundamentais para validar a Psicologia
a hora de elaborar uma revista formal (Holanda, 2014). Humanista. Repudiar a ciência é um erro, mas, criticar
De modo específico, essa ideia foi concretizada, em 1961, o cientificismo ortodoxo é uma forma de “(...) ampliar
na cidade de Old Saybrook, Califórnia, com a criação do os métodos e a jurisdição da ciência, de modo a torná-la
Journal of Humanistic Psychology, com um conselho edi- mais capaz de assumir as tarefas das novas psicologias
torial composto por Abraham Maslow, Kurt Goldstein, pessoais e experienciais (...). Somente a ciência pode su-
Rollo May, Lewis Mumford, Clark Moustakas, Andras perar as diferenças caracterológicas no ser e no crer” (p.
Angyal e Erich Fromm. Em 1963, a Psicologia Humanista 18). Maslow (1971) argumentou que os interesses huma-
foi chancelada com o surgimento da American Associa- nistas, como os problemas do amor, dos valores, da re-
tion for Humanistic Psychology (Castanõn, 2007). Assim, alização, da criatividade, fossem estudados por meio de
a Psicologia Humanista se constituía dentro e à margem critérios científicos, ainda que não ortodoxos, para não
da APA, em razão dos resultados de suas pesquisas serem recair no senso comum do entendimento desses temas.
separados do campo hegemônico do pós-positivismo na Maslow (1966) defendeu, pois, a Psicologia Humanista
Psicologia. Intencionalmente, as reuniões da associação como uma ciência que deveria se valer do paradigma po-
humanista aconteciam paralelamente aos encontros da sitivista dominante ou desenvolver pesquisas com outros
APA, congregando, por vezes, mais psicólogos que ela modelos mais holísticos e fenomenológicos.
(Gendlin, 1992). Com efeito, diante do crescimento da No segundo propósito, Maslow (1962/1970, 1960/1980)
Psicologia Humanista, a APA instituiu, em 1971, a Divi- discutiu a aproximação da Psicologia com as filosofias fe-
sion of Humanistic Psychology, tendo designado, em 1986, nomenológicas e existenciais. Maslow (1962/1970), es-
um departamento de arquivos de Psicologia Humanista; pecificamente, advertiu as ressalvas e qualidades do uso
e, em 1989, oficializado a publicação do Journal of Hu- dessas filosofias na Psicologia. Conforme o autor,
manistic Psychology.
Conforme a divisão 32 da APA, na qual está alocada (...) incute grande ênfase a que se parta do conheci-
a Sociedade de Psicologia Humanista (Society for Huma- mento experimental, e não de conceitos ou categorias
nistic Psychology, 2016), esta abstratas ou apriorísticas. O existencialismo se assenta
na fenomenologia, isto é usa a experiência pessoal e
(...) seek to contribute to psychotherapy, education, subjetiva como fundação sobre a qual o pensamento
theory, research, epistemological diversity, cultural abstrato é construído (p. 36).
diversity, organization, management, social responsi- Os psicólogos americanos escutaram o apelo de All-
bility and change. In particular, we have been at the port para a formulação de uma Psicologia Idiográfica,
forefront in the development of qualitative research mas não fizeram muita coisa a respeito. Temos agora
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

methodologies (§ 2). um novo impulso nessa direção pelos fenomenologis-


(...) Humanistic Psychology aims to be faithful to the tas e existencialistas (...). Se o estudo da singularidade
full range of human experience. Its foundations inclu- do indivíduo não se ajusta ao que sabemos de ciência,
de philosophical humanism, existentialism and phe- então pior para esse conceito de ciência.
nomenology. In the science and profession of psycho- A fenomenologia tem uma história no pensamento
logy, humanistic psychology seeks to develop systema- psicológico americano, mas de um modo geral creio
tic and rigorous methods of studying human beings,
“(...) procura contribuir para a psicoterapia, educação, teoria, pes-
2

“(...) que, hipoteticamente, passaria a existir quando milhões de fa-


1
quisa, diversidade epistemológica, diversidade cultural, organiza-
mílias, psicologicamente saudáveis, migrassem pra uma ilha deser- ção, gestão, responsabilidade e mudança social. (§ 2). (...) A Psicolo-
ta. Embora Maslow não soubesse falar acerca das especificidades gia Humanista objetiva ser fiel a toda gama da experiência humana.
que a caracterizaria, ele sabia expressar um pouco da sua estrutura. Suas bases incluem o Humanismo filosófico, o Existencialismo e a
A sociedade seria filosoficamente anarquista, taoísta, mais amorosa, Fenomenologia. Na ciência e profissão da Psicologia, a Psicologia
governada pela tolerância e liberdade de escolha, e com falta de vio- Humanista busca desenvolver metodos rigorsos e sistemáticos para
lência e controle. Isso aconteceria porque, quando dada à habilidade estudar os seres humanos e para curar o carater fragmentario da Psi-
de escolha, os indivíduos saudáveis mostrariam sua habilidade inata cologia contemporânea, através de uma abordagem cada vez mais
de fazer certas escolhas” (Grogan, 2013, p. 110, tradução nossa). compreensiva e integradora (§ 4)” (Tradução dos autores).

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017 192
Psicologia Humanista de Abraham Maslow: Recepção e Circulação no Brasil

que definhou. Os fenomenologistas europeus (...) po- Maslow (1971) elaborou diversas significações para o ter-
dem reensinar-nos a melhor maneira de compreender mo transcendência, mas uma especificamente coadunou
outro ser humano (...). É claro, uma tal conclusão é com uma pressuposição transpessoal: transcendência não
rudimentar, à luz de qualquer Filosofia positivista da se refere ao alcance de um nível superior de uma pessoa
ciência (p. 40). sobre a outra, mas implica uma percepção holística da
consciência, do comportamento e da relação humana,
Nesse sentido, a Fenomenologia e o Existencialismo com uma finalidade de integrar a si mesmo com outras
confirmam, refinam e enfatizam as tendências já presen- pessoas, espécies, natureza e com o cosmo.
tes na Psicologia Humanista. Considerando um contexto No transcurso dessa exposição sobre a relação de Mas-
democrático em que ficou claro que sociedade não resol- low com a Psicologia Humanista, percebemos que ele ti-
ve todos os problemas do indivíduo, voltar-se para a ex- nha uma ideia clara a respeito da construção de Psicologia,
periência, o eu e os seus valores seria imperativo ao de- seja pela criação da Rede Eupsiquiana, pela organização e
senvolvimento humano. Assim, tais filosofias suprem o colaboração em favor da assunção da Psicologia Humanis-
que a Psicologia positivista não alcança. A contribuição ta ou pelo o apontamento de uma futura Psicologia Trans-
da Fenomenologia e do Existencialismo reside no apro- pessoal, que posteriormente se concretizou com a criação
fundamento de um paradigma voltado para a experiên- de um grupo de interesse dentro da Psicologia Humanista
cia e para a compreensão do outro como ser humano. (Society for Humanistic Psychology, 2016).
Contudo, Maslow rogou para que essas filosofias fossem
apropriadas sem que a Psicologia perdesse o seu caráter
experimental e empírico de fazer ciência. Possivelmente, 3. Recepção e circulação da Psicologia Humanista
esse propósito foi desenvolvido a partir dos contatos de de Abraham Maslow no Brasil: investigações e
Maslow com Adrian van Kaam (Muto & Martin, 2009), o reflexões
criador do método fenomenológico empírico, e Rollo May,
o tradutor dos textos dos Daseinanalistas europeus. Em Dissertado o breve percurso introdutório sobre
1958, Maslow participou da banca de doutorado de van Abraham Maslow e sua inserção e contribuição para a
Kaam (com a tese The experience of really felling unders- Psicologia Humanista, perfizemos três investigações bi-
tood by a person: a phenomenological study of the necessa- bliográficas que intencionaram analisar e discutir alguns
ry and sufficient constituents of this subjective experience movimentos de recepção e circulação das ideias dele no
as described by 365 subjects), que lhe substituiu durante Brasil. No campo da História da Psicologia (Castelo-Bran-
um afastamento sabático na Universidade de Brandeis, co, Rota, Miranda & Cirino, 2016), os termos recepção e
naquele ano. Em 1959, Maslow participou de um simpósio circulação servem de recursos conceituais que possibili-
sobre a Psicologia Existencial, organizado por May na con- tam o entendimento de como uma perspectiva de Psico-
venção anual da APA, em Cincinnati, com a sua palestra logia, no caso a Psicologia Humanista de Maslow, migrou
transcrita e publicada em um livro (Maslow, 1960/1980). de um país para outro. Tal visada estabelece um diálogo
No terceiro propósito, Maslow (1962/1970) enfatizou entre o caráter universal (global) e local (particular-con-
um programa individual e social na emergência da Psico- textual) de uma Psicologia (Pickren & Rutherford, 2012)
logia Humanista, reconhecendo-a como não puramente em suas dispersões pelo mundo (Brock, 2014).
acadêmica, mas como uma teleologia voltada para possi- A noção de recepção (Dagfal, 2004) expressa o ato
bilitar um modo de vida que afeta a pessoa e a sociedade. de migração de uma Psicologia que acontece conforme a
Maslow (1971) acreditou que as transformações sociais apropriação de suas ideias em um determinado local, si-
mais eficientes eram advindas de pessoas realizadas, daí tuando-a em um novo contexto social e científico, e evo-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

o seu interesse por indivíduos que propiciaram mudan- cando um horizonte de sentidos sobre ele, que dão conti-
ças sociais significativas, como John Kennedy, Mahatma nuidade, ou não, as suas contendas originais. A noção de
Gandhi e Madre Teresa de Calcutá. circulação (Grynzspan, 2012), em complemento ao pro-
Por fim, no quarto propósito, Maslow (1962/1970) as- cesso de recepção, refere-se aos movimentos que promo-
sumiu que a Psicologia Humanista devesse transcender vem a organização e a ordenação da Psicologia recebida,
para um novo sentido de humanismo, ultrapassando o a partir de algumas operações sociais que possibilitam o
humano. Em sua concepção, a Psicologia Humanista, ou seu fluxo e acesso em um dado espaço-tempo. Neste caso,
Terceira Força, seria transitória para uma “(...) Quarta Psi- consideramos que a cultura acadêmica de publicação de
cologia ainda ‘mais elevada’, transpessoal, transumana, artigos em periódicos, as traduções das obras de Maslow
centrada mais no cosmo do que nas necessidades e inte- para o português brasileiro e a produção de livros nacio-
resses humanos, indo além do humanismo, da identida- nais sobre Maslow constituem variadas fontes bibliográ-
de, da individuação3 e quejandos [semelhantes]” (p. 12). ficas profícuas ao entendimento da recepção e circulação
de sua Psicologia Humanista no Brasil. Para isso, estabe-
lecemos a seguir três investigações que discorrem sobre
Nessa obra, a dicção self-actualization se encontra traduzida como
3

individuação. esse entendimento.

193 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017
Paulo C. C. B. & Luísa X. de B. S.

Em um primeiro momento investigativo, analisamos o Dos 20 artigos compilados, 7 são teóricos e 13 empíricos.
tipo de circulação da Psicologia Humanista de Maslow em Notamos uma predominância de temas relacionados à
periódicos acadêmicos brasileiros. Para isso, com o intui- motivação e as necessidades básicas e salientamos que
to de averiguar a existência de publicações relacionadas esses resultados devem ser entendidos como parciais, em
a Maslow, realizamos uma revisão narrativa, inspirados razão dos limites do procedimento de revisão narrativa
pelos aportes metodológicos de Rother (2007) e Costa e e da restrição dos descritores e bancos utilizados. A des-
Zoltowski (2014), em dois bancos de dados virtuais brasi- peito disso, consideramos escassa a circulação das ideias
leiros, de acesso aberto, a saber, o Scientific Electronic Li- de Maslow em artigos publicados no Brasil, sobretudo, no
brary Online (SciELO) e o Portal de Periódicos Eletrônicos que concerne a divulgação de suas ideias em periódicos de
em Psicologia (PePSIC). No campo de todos os índices das Psicologia (total de 8 artigos publicados de 1990 até 2011).
duas bibliotecas virtuais buscamos e articulamos as pala- Na segunda investigação4 sobre a recepção da Psico-
vras descritoras Maslow, Motivação, Necessidades, Psico- logia Humanista de Maslow no Brasil, concentramo-nos
logia Humanista e Psicologia Humanística. Optamos por no exame dos livros de Maslow publicados nos EUA
analisar o título, o resumo e o texto completo dos artigos, e traduzidos para o português brasileiro, conforme a
para obter maiores informações sobre Maslow. Ressaltamos Tabela 1, apresentada a seguir.
que a coleta ocorreu nos meses de abril e maio de 2016.
Deste modo: o critério de inclusão foi o desenvolvimento
de algum aporte de Maslow no âmbito teórico ou empíri- Tabela 1: Livros de Maslow publicados e traduzidos para o por-
co; foram excluídos artigos repetidos nos dois bancos de tuguês brasileiro
dados; restringimos nossa busca a artigos publicados até
Livro (Ano de Tradução para o Português Brasileiro
2015, ano possível de verificar todas as edições lançadas. publicação original) (Ano da publicação)
No PePSIC foram obtidos 6 artigos resultantes da bus- Motivation and Personality 1954) –
ca, todos publicados em periódicos de Psicologia: 2 oriun- Toward a Psychology of Being (1962) Introdução à Psicologia do Ser (1970)
dos de filiações institucionais brasileiras (Pérez-Ramos, Religions, Values, and –
1990; Araújo & Vieira, 2005; Ferreira, Curvello & Monteiro, Peak Experiences (1964)
2009; Ponte & Sousa, 2011); e 2 de procedência mexicana Eupsychian Management (1965) Maslow no Gerenciamento (2000) /
Diário de Negócios de Maslow (2003)
(García-Cortés, Mendoza & Carmona, 2007; Hoffman &
The Psychology of Science: –
Ortiz, 2010). Dentre os artigos, 3 apresentam discussões a Reconnaissance (1966)
relacionadas à Psicologia do Trabalho, 2 expõem conten- The Farther Reaches of Human –
das clínicas que utilizam alguns aportes de Maslow e 1 Nature (1971)
situa Maslow na história da Psicologia Humanista. Future Visions: the Unpublished –
No SciELO foram computados 14 artigos, dos quais so- Papers of Abraham Maslow (1996)
Total de Traduções 2
mente um tem procedência de uma filiação institucional
estrangeira (Universidade de São Petersburgo - Rússia),
havendo variação nas áreas dos periódicos, dos quais fo-
ram publicados seis textos na Enfermagem, 3 na Admi- Ressaltamos que a obra Eupsychian Management, de
nistração, dois na Saúde Pública, um na Zootecnia e dois 1965, foi relançada, nos EUA, com dois outros títulos:
na Psicologia (Gouveia, 2003; Kotliarov, 2008). Desses Maslow on Management, em 1998; e The Maslow Busi-
artigos, seis abordaram o tema das necessidades básicas ness Reader, em 2000. Foram publicações póstumas as
em pesquisas no ambiente hospitalar; dois versaram o te- obras The Farther Reaches of Human Nature, de 1971, e
ma da motivação no campo da publicidade e propagan- Future Visions: The Unpublished Papers of Abraham Mas-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

da; dois apresentou os resultados de uma pesquisa sobre low, de 1996. Observamos que dos 7 livros publicados
os aspectos motivacionais envolvidos em praticantes de por Maslow nos EUA, somente 2 foram traduzidos para
inseminações artificiais em bovinos; um discutiu os as- o português brasileiro. A obra Introdução à Psicologia
pectos motivacionais de acompanhantes de crianças em do Ser, traduzida em 1970, está com a edição esgotada.
uma enfermaria pediátrica; um desenvolveu uma pesquisa O livro Maslow no Gerenciamento, traduzido em 2000,
sobre tipologias considerando a teoria da motivação; um teve a sua edição esgotada; posteriormente, em 2003, a
propõe um modelo matemático para explicar a teoria da obra foi relançada como Diário de Negócios de Maslow,
motivação; um analisa motivações para competitividade ainda com edição disponível, e apresenta uma organi-
no trabalho em seleções para atuar nas politicas públicas; zação de Deborah Stephens sobre os diversos ensaios
e um investiga os determinantes afetivos e cognitivos que e as cartas de Maslow que interessam ao campo da Ad-
influenciam o trabalho de profissionais que cuidam de ministração.
pessoas vivendo com o HIV. Além dessa análise, buscamos compilar outros livros
Com efeito, no que concerne a circulação das ideias que continham fontes textuais completas em capítulos
Maslow em periódicos acadêmicos, observamos que es- 4
Nesta investigação, o site oficial de Maslow (2015) foi fundamental,
sas fazem interface com diversas áreas do conhecimento. por apresentar o registro de todas as suas publicações.

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017 194
Psicologia Humanista de Abraham Maslow: Recepção e Circulação no Brasil

de Maslow, e não fragmentos-trechos, traduzidos para o 1965/2000). Constatamos, portanto, que, no que concer-
português brasileiro. Foram compiladas, pois, duas obras: ne a recepção das obras de Maslow no Brasil, há pouca
Psicologia Humanista: entrevistas com Maslow, Murphy e circulação do seu pensamento na Psicologia.
Rogers, lançada em 1971, traduzida em 1975, e atualmen- Após essa análise, buscamos compilar autores brasi-
te com edição esgotada. Trata-se de um capítulo que con- leiros que produziram livros, específicos, sobre Maslow.
tém uma entrevista transcrita, concedida por Maslow a Somente encontramos um livro, publicado em 2000, in-
Willard Frick; e Psicologia Existencial – o que há nela para titulado Saúde psicológica sob a perspectiva de Abraham
nós?, capítulo disponível no livro organizado por Rollo Maslow, de Tânia Stoltz (2000). A despeito das limita-
May, Psicologia Existencial, lançado em 1960 e traduzido ções desse tipo de busca, num período de seis meses de
em 1975, com edição atualmente esgotada. procura em diversos sebos e livrarias físicas e virtuais,
Com efeito, em termos de recepção das obras maslo- constatamos uma escassez de produções brasileiras de
wnianas no Brasil, constatamos a existência de um livro livros sobre Maslow.
(Maslow, 1962/1970), dois capítulos (Maslow, 1971/1975, Como resultado das duas investigações menciona-
1960/1980) e dois livros (Maslow, 1965/2000, 1965/2003) das, considerando os livros de Maslow traduzidos pa-
que congregam diversos opúsculos de Maslow fielmente ra o português brasileiro, o livro produzido sobre ele e
organizados por terceiros que o contataram. Ressaltamos os artigos publicados em periódicos de Psicologia, na
que apenas um livro se encontra atualmente em circula- Tabela 2, organizamos a distribuição ordenada, segundo
ção no mercado editorial brasileiro (Maslow, 1965/2003), o ano de lançamento no Brasil, das 14 publicações de e
com um título não sugestivo à Psicologia, Diário de ne- sobre Maslow no campo da Psicologia, ao longo dos anos.
gócios de Maslow; os outros quatro escritos não são mais Os textos tabelados estão referenciados no final des-
publicados (Maslow, 1962/1970, 1971/1975, 1960/1980, te artigo.

Tabela 2: Distribuição temporal de publicações de e sobre Maslow na psicologia brasileira

Referência (Ano de Publicação Original


Título da Publicação
/ Ano de Tradução)
1. Introdução à Psicologia do Ser Maslow (1962/1970)
2. Entrevista com o Dr. Abraham Maslow Maslow (1971/1975)
3. Psicologia Existencial – o que há nela para nós? Maslow (1960/1980)
4. Motivação no trabalho: abordagens teóricas Pérez-Ramos (1990)
5. Saúde psicológica sob a perspectiva de Abraham Maslow Stoltz (2000)
6. Maslow no gerenciamento Maslow (1965/2000)
7. Diário de negócios de Maslow Maslow (1965/2003)
8. A natureza motivacional dos valores humanos: evidências acerca de uma nova tipologia Gouveia (2003)
9. Necessidades de saúde psicológica em crianças com deficiência mental Araújo e Vieira (2005)
10. Conductas en el interior del transporte colectivo, conductores y semáforos García-Cortés, Mendoza e Carmona (2007)
11. Mathematical formalization of theories of motivation proposed by Maslow and Herzberg Kotliarov (2008)
12. Técnica de governo e práticas psicológicas: humanismo e empreendedorismo. Ferreira, Curvello & Monteiro (2009)
13. Experiencias cumbre en la consejería para las adicciones Hoffman & Ortiz (2010)
14. Reflexões críticas acerca da psicologia existencial de Rollo May Ponte & Sousa (2011)
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

Percebemos que não há uma constância de publica- mediante uma análise de livros na biblioteca de uma uni-
ções de e sobre Maslow no campo da Psicologia, sobre- versidade pública federal. Pesquisas em bibliotecas de-
tudo a Humanista. A década de 2000, foi o período mais monstram uma perspectiva proveitosa de estudos em His-
profícuo em termos de publicações que versaram a Psico- tória da Psicologia (Campos & Massimi, 1998) e ao modo
logia de Maslow, com 71,4% da produção. Considerando de investigar como uma Psicologia migrou de um lugar
os resultados das investigações ora apresentadas, os da- para outro (Brožek, 1998). Consideramos que a biblioteca
dos demonstram que as ideias de Maslow são recebidas universitária é um espaço de circulação de diversos co-
e circulam de uma forma restrita ao campo da Psicologia nhecimentos sobre uma Psicologia que apresentam alguns
no Brasil. Curiosamente, o primeiro indício bibliográfico indícios representativos da recepção dela em um lugar.
da recepção de Maslow no Brasil ocorreu no ano de sua Os materiais disponíveis e dispersos na biblioteca utiliza-
morte, em 1970. da constituíram, pois, fonte suplementar desta pesquisa.
A terceira e última investigação empreendida sobre a re- Assinalamos que não encontramos nenhum livro de
cepção e circulação das ideias de Maslow no Brasil ocorreu Maslow na biblioteca, contudo uma análise mais minuciosa

195 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017
Paulo C. C. B. & Luísa X. de B. S.

constatou diversos livros gerais de Psicologia e de Admi- Tabela 4: Ideias de Maslow disponíveis nos livros analisados
nistração que continham informações sobre ele. A despei-
Ideias de Maslow Frequência %
to disso, o nosso foco foi analisar os tipos de ideias mas- Natureza Humana 1 2,0
lownianas que estavam disponíveis em tais livros. Assim, Síndromes 1 2,0
adotamos a seguinte lógica de investigação, conforme as Autorrealização 4 8,2
etapas da pesquisa bibliográfica indicadas por Lima e Motivação 6 12,3
Mioto (2007). Inicialmente, foi feita uma leitura de reco- Fundação da Psicologia Humanista 5 10,3
nhecimento, ou seja, uma leitura rápida que visou eleger Biografia 3 6,3
o material bibliográfico na biblioteca que potencialmente Antecedentes Intelectuais 1 2,0
poderia ser pesquisado. Em seguida, realizou-se uma lei- Experiência Culminante 1 2,0
tura exploratória sobre o material eleito para verificar se Valores 1 2,0
as informações ali contidas se relacionavam com o foco Eupsiquia 1 2,0
dessa investigação. Nesses dois primeiros momentos, foi Psicologia Transpessoal 1 2,0
Crescimento 1 2,0
estabelecido, como critério, que a amostra bibliográfica
Self 1 2,0
que seria coletada e analisada deveria conter, pelo menos,
Personalidade 1 2,0
um capítulo, tópico ou subtópico que apresentasse algu-
Hierarquia das Necessidades Básicas 21 42,9
ma informação sobre Maslow e sua contribuição para a
Total 49 100
Psicologia e Administração.
Confirmado a pertinência no material, que perfez um
total de 29 livros, realizou-se uma leitura seletiva mais Percebemos que as ideias de Maslow mais trabalhadas
minuciosa e criteriosa sobre o texto, de modo a identificar nos livros analisados se referem à sua teoria da hierarquia
quais informações eram pertinentes à investigação. Foram
das necessidades básicas (42,9%), que contém a conheci-
rejeitados livros que apresentaram curtas menções a Mas-
da Pirâmide de Maslow, seguidas da teoria da motivação
low e que não especificaram ou destacaram suas ideias,
humana (12,3%) e da relação de Maslow com a fundação
especificamente, em um capítulo, tópico ou subtópico.
da Psicologia Humanista (10,3%). Esses dados coadunam
Nessa etapa sobressaíram as informações sobre o tipo de
com o que foi observado nos conteúdos dos artigos levan-
livro e as ideias de Maslow contidas no texto analisado.
tados na primeira investigação bibliográfica.
Com base nesse material, disposto na Tabela 3, foram or-
Embora a restrição da pesquisa a uma biblioteca evo-
ganizadas as seguintes informações sobre os livros que
que o questionamento sobre a sua representatividade –
possuíam textos a respeito de Maslow.
dado que a mesma pesquisa em outras bibliotecas geraria
outros resultados –, as informações aqui tabeladas e articu-
Tabela 3: Livros que apresentam informações sobre Maslow ladas com os resultados obtidos pelas duas investigações
anteriores possibilitam algumas discussões e inferências
Tipo de livro Frequência % ponderadas a seguir: Primeira. A Psicologia Humanista
Teorias da Personalidade 2 6,8 de Maslow foi recebida no Brasil de um modo parcial e
Processos Psicológicos Básicos 2 6,8
é incipiente a totalidade de sua obra, dado a carência de
História da Psicologia 3 10,3
traduções dos seus livros para o português brasileiro, a
Dicionário de Psicologia 1 3,4
falta de novas edições de suas obras já traduzidas e a pou-
Introdução à Psicologia 5 17,2
Psicologia Organizacional 1 3,4
ca produção e circulação de artigos e livros específicos
sobre ele no campo da Psicologia, sobretudo a Humanista.
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

Administração 15 51,7
Total 29 100 Segunda. Maslow é mais popular em um circuito
voltado para discussões relacionadas aos campos da Ad-
ministração e da Psicologia Organizacional. Existe, tam-
Notamos que os livros de Administração (51,7%) fo- bém, um reconhecimento dele como um dos fundadores
ram os que publicaram mais dados informacionais sobre da Psicologia Humanista e como um teórico da motiva-
as ideias de Maslow em seus capítulos, tópicos e subtó- ção e das necessidades básicas. Em relação a estas te-
picos. Em seguida, na Tabela 4, distribuímos os conteú- orias, ambas são vistas como ferramentas amplamente
dos das ideias de Maslow disponíveis em todos os textos buscadas, ou mencionadas, por gestores para aumentar
analisados. e direcionar a produtividade/satisfação de funcionários
no trabalho, o que torna Maslow uma referência básica
nesse tipo de discussão. A despeito disso, por um lado,
Spector (1996/2012) aponta que as pesquisas empíricas
sobre a teoria da hierarquia das necessidades básicas são
inconclusivas ante a dificuldade de Maslow em definir
o que é motivação e do argumento de que nem todas as

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017 196
Psicologia Humanista de Abraham Maslow: Recepção e Circulação no Brasil

necessidades básicas são motivadoras para certos tipos Esse esquema gráfico, possivelmente, popularizou e pro-
de pessoas. Por outro angulo, Sampaio (2009)5, em uma pagou a Psicologia Humanista de Maslow no Brasil, tor-
revisão crítica dos trabalhos de Maslow sobre motivação, nando-se ponto básico de menção em muitas disciplinas
argumenta que os cenários da Psicologia Organizacio- de Psicologia Organizacional, Gestão de Pessoas e Admi-
nal e da Administração reduziram e descaracterizaram nistração. Embora seja uma apresentação reduzida do
o pensamento do humanista, pois perderam o horizonte pensamento maslowniano, essa figura gera um acesso ao
de que os seus estudos “(...) tinham em vista o desenvol- seu conhecimento.
vimento de uma teoria que pudesse servir de base para Quarta e última. Maslow não visitou o Brasil, ao con-
a compreensão do homem inserido na sociedade, e não trário de outros psicólogos humanistas como Carl Rogers,
se aplica facilmente quando reduzida ao aspecto da vida Amedeo Giorgi, Rollo May, John Wood e Maureen O’Hara,
laboral” (p, 06). Essa afirmação faz sentido, consideran- nem encontramos registro de algum brasileiro que tenha
do a biografia de Maslow e de que, para Sampaio (2009), ido estudar com Maslow, nos EUA, e tenha retornado para
o expoente humanista sempre “(...) criticou a análise do divulgar as suas ideias. Não houve, ainda, nenhum notório
homem quando se acha reduzida a apensa uma de suas seguidor de Maslow que, de modo expressivo, tenha dado
dimensões, como o organismo, o inconsciente, o compor- continuidade ao seu trabalho, desenvolvendo-o e promo-
tamento ou os papeis sociais” (p. 06), o mesmo ocorrendo vendo-o, sobretudo no Brasil. Acrescentamos, ainda, que
com o mundo do trabalho. no cenário nacional não existe nenhum evento específico
Destarte, os estudos de Spector (1996/2012), Sampaio sobre Maslow. Indicamos, portanto, que todos esses fa-
(2009) e as três investigações bibliográficas empreendidas, tores inferidos enfraqueceram a recepção e a circulação
oferecem suporte para o entendimento sobre a recepção das ideias de Maslow na Psicologia Humanista brasileira.
e circulação parcial das ideias de Maslow no Brasil, da-
do que: (1) nem todos os psicólogos humanistas se inte-
ressam pelos campos da Administração e da Psicologia Considerações finais
Organizacional, ao passo que nem todos os psicólogos or-
Esta pesquisa refletiu o percurso biográfico de
ganizacionais e administradores se interessam pela Psi-
Abraham Maslow e sua relação com a Psicologia Huma-
cologia Humanista; (2) nos textos relacionados aos cam-
nista nos EUA, para em seguida analisar os movimentos
pos da Administração e da Psicologia Organizacional, por
de recepção e circulação de suas ideias no Brasil, com
questões didáticas ao cumprimento da apresentação de
base em três investigações bibliográficas. Constatamos
um conteúdo básico, o pensamento de Maslow é reduzi-
que a vida e a obra de Maslow se misturam e possibilitam
do teoricamente à dimensão do trabalho; (3) existem acu-
sua articulação com a Psicologia Humanista, para a qual
sações de que a teoria de Maslow não possui sustentação
ele tinha propósitos definidos antes, durante e depois da
empírica, conquanto sua classificação dos tipos de moti- sua emergência. Verificamos que a Psicologia Humanista
vos seja derivada de suas observações inspiradas na Psi- de Maslow chega parcialmente ao Brasil e a circulação
cologia Clínica e Psicanálise norte-americana; (4) existe de suas ideias, sobretudo a hierarquia das necessidades
uma falta de exposição integral de todos os trabalhos de básicas, ocorre hegemonicamente no campo da Adminis-
Maslow sobre motivação, que não concebia sua teoria co- tração e da Psicologia Organizacional, circuito em que o
mo suficiente para o sucesso das organizações, dado que expoente humanista é bastante mencionado, porém pou-
a autorrealização não está restrita apenas ao trabalho; (5) co aprofundado.
em muitos textos, não se incluem os desenvolvimentos Em relação à pergunta lançada na introdução, agora
de Maslow sobre as necessidades de sabedoria/entendi- com subsídios para respondê-la, ponderamos que o fator
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

mento e as necessidades estéticas, saúde psicológica, os que, possivelmente, gera uma falta de conhecimento ou
valores do Ser (S), as metanecessidades, ciência psicoló- esquecimento de Maslow no movimento humanista bra-
gica, sociedade e educação. Os dois últimos itens, pro- sileiro pode estar relacionado aos aspectos históricos de
vavelmente, ocorrem em função da falta de traduções e recepção e circulação de suas ideias em diversos meios
reedições das obras de Maslow. bibliográficos de propagação de informações acadêmicas.
Terceira. Ainda assim, a ideia de Maslow que mais Em uma medida contra o esquecimento, consideramos
circula nos ambientes universitários é a da hierarquia que as noções de recepção e circulação (Castelo-Branco
das necessidades básicas. Quando se menciona algo so- et al., 2016), longe de serem exercidas como mecanismos
bre ele é comum se lembrar de sua pirâmide e vice-versa. avaliativos de uma abordagem humanista em detrimento
de outra, implicam uma História contextual que entende
Elucidamos que, por uma questão de coerência e delimitação do mé-
5

todo de revisão narrativa, o artigo de Sampaio (2009) não entrou nos


os aspectos presentes em tal propagação e apropriação,
dados levantados e tabulados pela primeira investigação bibliográ- sejam eles esquecidos ou pouco conhecidos.
fica, em razão do periódico que o publicou somente ter lançado, no Ainda há muito para se conhecer sobre Maslow, ha-
SciELO, textos produzidos de 2011 até então. Não obstante, tomamos
vendo a necessidade de mais pesquisas que aprofun-
ciência do artigo e o indicamos como leitura para aprofundar a teoria
da motivação de Maslow. dem ou desenvolvam os seus aportes. Apontamos outras

197 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017
Paulo C. C. B. & Luísa X. de B. S.

possibilidades de estudos que contrabalancem essa ca- Cruz, R. (2016). A biografia na historiografia da psicologia: ques-
rência. Por exemplo, os arquivos de Maslow se encon- tões teóricas e metodológicas preliminares. Em R. Assis &
tram disponíveis no Museu de História da Psicologia, na S. Peres (Orgs.), História da Psicologia: tendências contem-
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pesquisas teóricas e críticas sobre os principais conceitos
Feijoo, A. & Mattar, C. (2009). Psicologia Humanista e Psicolo-
maslownianos possibilitariam a movimentação de dis-
gia Existencial. Em C. Tourinho & R. Sampaio (Orgs.), Es-
cussões sobre ele. Conquanto a teoria da hierarquia das tudos em psicologia: uma introdução (p. 139-160). Niterói,
necessidades básicas seja algo difundido, investigações RJ: Proclama.
empíricas que usem esse referencial, a partir da Psicologia
Humanista e suas concepções de pesquisa, ofereceriam Ferreira, A., Curvello, F. & Monteiro, G. (2009). Técnica de go-
verno e práticas psicológicas: humanismo e empreendedo-
outra forma de desenvolver o legado de Maslow.
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Concluímos que a Psicologia Humanista de Maslow
ainda é um campo aberto de estudos no Brasil. Caso este García-Cortés, H., Mendoza, J. & Carmona, M. (2007). Conductas
artigo contribua com a divulgação de quem foi Maslow e en el interior del transporte colectivo, conductores y semá-
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Artigo - Revisão Crítica de Literatura

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199 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 189-199, mai-ago, 2017
Kamilly S. V. & Adelma P.

Intervenções Psicossociais Aplicada a


Situações de Conflito Conjugal

Psychosocial Interventions Applied to Marital Conflict Situations

Intervenciones Psicosociales Aplicadas a Situaciones de Conflictos de Pareja

Kamilly Souza do Vale


Adelma Pimentel

Resumo: Este artigo analisa produções científicas que abordam as intervenções em situações de violência conjugal, realizadas em
serviços de atenção básica à saúde e de assistência psicossocial. Foi utilizada a pesquisa bibliográfica, através de levantamento virtual
de produções disponíveis no banco de teses da CAPES, entre os anos de 2010 a 2014, e de artigos acadêmicos na base de dados
SCIELO, no período de 2005 a 2015, visando compor uma revisão integrativa. Os descritores utilizados como critério de pesquisa
foram: violência Conjugal e saúde e Psicoterapia breve e saúde. Após leitura minuciosa do material, selecionou-se 46 obras, nas
quais se identificou as áreas de enfoques teóricos, filosóficos conceituais e as conclusões apontadas nos estudos. O levantamento
visa sistematizar um panorama das formas de compreensão do tema para subsidiar a formação de Psicólogos, que atuam no campo.
Conclui-se que a psicoterapia configura-se como um campo propício para fomentar desconstruções e romper introjetos sociais que
engessam as relações sociais num modo operativo de agir, pautado em normas e regras que geram a prática da violência conjugal.
Palavras-chave: Violência Conjugal; Psicoterapia; Saúde; Revisão.

Abstract: This paper analyzes scientific productions that address the interventions in domestic violence situations carried out
in primary health care service and psychosocial assistance. Bibliographical research was used through virtual survey of produc-
tions available on the bank of CAPES thesis between the years 2010-2015 and academic articles in SCIELO database in the period
2005-2015, aiming at building an integrative review. The keywords used as search criteria were: Conjugal violence and health and
brief psychotherapy and health. After careful reading of the material, they selected 46 works, in which they identified the areas
of the (remove) theoretical, conceptual and philosophical conclusions identified in the studies. The survey aimed to systematize
an overview of forms of theme understanding to support the training of psychologists working in the field. It is concluded that
psychotherapy is configured as a suitable field to foster deconstructions and social introjects immobilizing social relations in an
operating mode of action, based on norms and rules that generate the practice of conjugal violence.
Keywords: Conjugal Violence; Psychotherapy; Health; Review.

Resumen: Este artículo analiza las producciones científicas que se refierena las intervenciones en situacionesde violencia de pare-
jarealizadasen los servicios de atención primaria a la salud y de asistencia psicosocial. Se utilizó la búsqueda bibliográficaa través
de la recolección virtual de la producción disponible en el bancode tesis CAPES, entre los años 2010-2015, y de artículos acadé-
micos en la base de datos SCIELO, en el período 2005-2015, con el objetivo de construir una revisión integrativa. Los descriptores
utilizados como criterios de búsqueda fueron: violencia de pareja y salud y psicoterapia breve y salud. Después de lectura minu-
ciosa del material, fueron seleccionadas 46 obras, en las que se identificaran las áreas de enfoques teóricos, filosóficos y concep-
tuales identificadas en los estudios. El estudio tuvo como objetivo sistematizar una visión general de las formas de comprender el
tema para apoyar la formación de los psicólogos que trabajan en el campo. Se concluye que la psicoterapia se configura como un
campo adecuado para fomentar deconstrucciones y introyectos sociales que inmovilizan las relaciones sociales en un modo de
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

funcionamiento de la acción, basado en normas y reglas que generan la práctica de la violencia de pareja.
Palabras clave: Violencia de Pareja; Psicoterapia; Salud; Revisión.

Introdução O período da coleta foi de 2005 a 2015. Ressaltamos


que na base de dados Scielo foi possível manter a busca,
Quais as estratégias de intervenção psicoterápica de verificando a periodicidade de 10 anos; entretanto, no Por-
casais aplicada a situação de violência conjugal na aten- tal da CAPES nos limitamos a cinco anos, devido a dis-
ção básica de saúde é a questão deste texto, cuja resposta ponibilização da base de dados de dissertações e teses, a
foi composta a partir de um levantamento das produções partir do ano de 2010. O presente texto integra o projeto
acadêmicas no portal do banco de teses da CAPES (Coorde- de pesquisa, “Homens e mulheres em conflito: um estu-
nação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do acerca da violência conjugal a partir da psicoterapia
e de artigos científicos na base de dados SCIELO (Scien- na atenção básica de saúde”, financiado pela FAPESPA1,
tifc Electronic Library Online). 1
Edital 008/2014, coordenado pela Profa. Dra. Adelma Pimentel.

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 200-210, mai-ago, 2017 200
Intervenções Psicossociais Aplicada a Situações de Conflito Conjugal

e a proposta de tese para estudos doutorais, realizada na resultado dos jogos de normalização e marcação da iden-
Universidade Federal do Pará, no Programa de Pós-gra- tidade moderna” (Pimentel, 2012, p. 171).
duação em Psicologia.

2. Integralidade nas práticas clínicas na atenção


1. A psicoterapia aplicada básica

No contexto das ciências humanas e sociais, as pes- Compreendemos que a integralidade, princípio bá-
quisas e as ponderações, sobre a violência doméstica, ou sico do Sistema Único de Saúde (SUS), para a atenção
contra a mulher, ou conjugal, têm sido produzidas, des- integral à saúde visa atender o sujeito por meio de um
de as primeiras décadas do século XX pela Antropolo- conjunto de ações voltadas para o cuidado e a valori-
gia, Sociologia, Ciências Sociais. No que se refere à psi- zação da pessoa humana que busca atendimento e res-
cologia, destacam-se estudos no campo social, seguidos peito às suas demandas e necessidades. (Ministério da
pelas composições na psicologia clínica (Azevedo, 1985, Saúde, 2009).
Beauvoir, 1987, Costa et al, 2005, Hirigoyen, 2006, Sa- O Sistema Único de Saúde (SUS), através da Lei 8.080
fiotti, 2004, Engel, 2005; Tenório, 2012, Aun et al, 2012, de 1990, estabeleceu como princípios a descentralização
Farinha & Souza, 2016). Com a inserção dos Psicólogos dos serviços, privilegiando as intervenções de atenção
na equipe dos serviços básicos de saúde, a clínica foi in- básica, voltadas à prevenção nos territórios brasileiros,
terpelada a elaborar proposições que contribuíssem, ini- bem como as diretrizes de intervenção voltadas aos in-
cialmente, para a saúde psicológica e física das mulhe- divíduos e suas famílias, de maneira conjunta e inter-
res, e posteriormente dos casais. Nesta conjuntura, uma disciplinar. Atualmente, a política pública da clínica
ação reflexiva foi promovida pelo Conselho Federal de ampliada busca reconhecer as diversidades existenciais,
Psicologia (CFP), no ano de 2009, nomeado como o “Ano a necessidade de interlocução entre as ciências na atu-
da psicoterapia”. ação em uma demanda individual ou coletiva, além do
O sistema conselhos convidou aos Psicólogos exami- envolvimento das pessoas atendidas em todo o processo
nar os fazeres da psicologia clínica, organizando as teses de intervenção técnica, proporcionando a participação
produzidas em um livro contendo textos geradores sobre e a adesão do sujeito no seu projeto terapêutico (Brasil,
a mudança do contexto no qual a psicoterapia passou a 2009; Fundação Oswaldo Cruz [Fiocruz], 2012; Pimen-
ser realizada, os métodos propostos em suas abordagens, tel et al., 2010).
e a compreensão social dos sujeitos atendidos (Morei- Tal ponto de vista possibilita romper com uma pro-
ra, 2009). Posteriormente, a política pública da clínica posta determinante e essencialista acerca da concepção
ampliada foi um dos argumentos examinados na obra de saúde e de ser humano, compreendendo-o a partir da
“O campo das Psicoterapias: reflexões atuais”, organiza- sua complexidade (Morin, 2010, 2011). Moreira (2009)
da por Holanda (2012). Algumas provocações contidas propõe a categoria integralidade, como suporte concei-
no texto referem-se à fragilidade epistemológica da área tual para desenhar uma prática psicológica que viabilize
clínica, ilustrada pelas oscilações entre a transposição de a atenção integral à saúde. Por outro lado, no cenário na-
uma prática de consultório, e a ausência de parâmetros cional e internacional, a violência conjugal impõe desi-
epistêmicos para a prática no âmbito das instituições. gualdades, violações de direitos e situações de agressão
No cenário histórico, o autor refere-se ao objeto e aos no cotidiano de mulheres. Assim, são necessárias políticas
reptos implicados na atividade psicoterapêutica, entre públicas para atenção à saúde e programas de educação
outros a “formação sem regulamentação”. Critica ain- para homens e mulheres, cujos princípios incorporem as
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

da a tentativa de fluxos de configuração de uma clínica discussões sobre gênero, reivindicações dos movimentos
social que se viabiliza meramente a partir de discursos feministas e de organizações governamentais e não-gover-
ideológicos, cuja implicação é uma prática psicoterápi- namentais, para que se efetivem as diretrizes contidas na
ca que não atenta ao sofrimento psíquico, tampouco as Constituição de 1988 de democratização da sociedade bra-
mazelas sociais. sileira, garantindo igualdade de direitos (Acosta & Barker,
Neste texto, as intervenções psicossociais são o tema 2003; Andrade & Fonseca, 2008; Gomes, 2009; Minayo,
abordado, através da análise de produções científicas que 2006; Pimentel, 2011).
abordam as modalidades e as estratégias de atendimento
aplicadas às situações de violência conjugal, realizadas
em serviços de atenção básica à saúde e de assistência 3. Método
psicossocial. Quanto ao diálogo com os documentos sele-
cionados na revisão de literatura, uma das bases concei- Trata-se de uma revisão integrativa, que de acordo com
tuais usadas foi o conceito de clínica social engajada que Souza, Silva e Carvalho (2010) é “a mais ampla abordagem
“focaliza o desvelamento da dialética sujeito-sociedade, metodológica referente às revisões, permi­tindo a inclusão
em que a subjetividade é compreendida como produto e de estudos experimentais e não-experi­mentais, literatura

201 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 200-210, mai-ago, 2017
Kamilly S. V. & Adelma P.

teórica e empírica, definição de conceitos, revisão de te- restantes são: um da área de odontologia e outro da área
orias e evidên­cias, e análise de problemas metodológicos de assistência social. Para o descritor “Psicoterapia breve
de um tópico particular” (p. 103). O objeto é a análise das e saúde”, o resultado da busca apontou sete artigos, no
produções científicas que abordam intervenções em psi- entanto, nenhum dos referidos eram relacionados ao te-
cologia, desenvolvidas nos serviços de atenção básica de ma e encaixavam-se no critério de exclusão.
saúde em situações de violência conjugal.
O levantamento bibliográfico foi realizado no portal
do banco de teses da CAPES, contemplando as produ- 4. Resultados e discussão
ções acadêmicas entre 2010 a 2014, e na base de dados
SCIELO, no período de 2005 a 2015, utilizando os des- através da leitura minuciosa dos resumos das disser-
critores: 1) violência Conjugal e saúde; e 2) Psicoterapia tações, teses e artigos selecionados, identificamos as se-
breve e saúde. Do material selecionado, foi realizada uma guintes categorias: “áreas de atuação”, “tipos de método”,
leitura crítica buscando-se identificar textos relacionados “enfoques conceituais”, e “principais conclusões”.
aos objetivos da pesquisa. Os critérios de exclusão para
seleção dos resumos das produções acadêmicas foram:
não utilizar títulos que relacionassem violência conju- 4.1 Áreas de atuação
gal a tentativa de suicídio; temas referentes a violência
contra crianças e adolescentes como: abuso sexual, pre- No que se refere às áreas de atuação para a composi-
juízos escolares e educação especial; pesquisas voltadas ção do artigo, elencou-se 17 produções da saúde pública
para o impacto da violência conjugal na gravidez precoce, e saúde coletiva; 15 da área de enfermagem; 10 da psi-
pós-parto, dificuldades para engravidar, saúde mental e cologia; um da odontologia; dois da medicina; e um da
relacionamento mãe x bebê; temas relacionados apenas assistência social, totalizando 46 pesquisas para análise,
a área médica, teorias biológicas e naturalistas, depres- as quais 38 foram publicadas em revistas brasileiras, seis
são, mulheres dependentes químicas, práticas voltadas em colombianas e um no México. Observa-se nos acha-
exclusivamente para a área de enfermagem e produções dos que a maioria do referencial encontrado é da área de
repetidas. Os critérios de inclusão foram: abordar a te- saúde pública e coletiva, seguido da área de enfermagem.
mática violência conjugal e saúde, temas referentes à si- Em psicologia, soma-se apenas 10 produções do total le-
tuação de conflito conjugal, impactos a saúde do homem vantado, o que nos permite visualizar que no Brasil ain-
e da mulher e estudos em locais que prestam serviços de da são escassos os trabalhos voltados para esta temática,
atendimento em saúde, jurídico e social. o que valida a necessidade de pesquisas que suscitem
Na consulta ao banco de teses da CAPES para os des- reflexões e gerem uma abertura para uma compreensão
critores “Violência conjugal e saúde”, obtiveram-se 29 re- subjetiva e psicológica da dinâmica conjugal violenta,
gistros. Destes, 13 títulos eram da área de enfermagem; repercutindo em intervenções pautadas numa perspec-
oito da área de psicologia; cinco da área de saúde coletiva; tiva relacional do fenômeno, em que o casal possa ser
dois da área de ginecologia e obstetrícia; e um da área de contemplado e atendido para além do viés mecanicista,
educação especial. Para os descritores “Psicoterapia breve culturalmente instituído e que não leva em consideração
e saúde” apenas nove registros foram encontrados, sete os estudos de gênero.
da área de psicologia, um da área de saúde e biologia e As publicações analisadas destacaram-se na área de
um da área de neurobiologia. Foram selecionadas 32 dis- Enfermagem, ou seja, alguns programas que atendem
sertações de mestrado acadêmico, duas dissertações do mulheres, por exemplo, pré-natal e planejamento fami-
mestrado profissional e cinco teses de doutorado. Assim, liar coordenados por enfermeiras fazem um primeiro re-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

foram excluídas 24 dissertações de mestrado acadêmico, conhecimento daquelas submetidas à violência conjugal
três teses de doutorado e duas dissertações de mestrado (Gomes, Diniz, Camargo et al., 2012; Gomes, Garcia et
profissional que se encaixavam nos critérios de exclusão. al., 2012; Gomes, Erdmann, Bettinelli et al., 2013; Gue-
Portanto, para análise refinada do material foram utiliza- des, Silva e Fonseca, 2009; Paixão, Gomes, Diniz, Couto
das 10 obras: sete dissertações de mestrado e três teses et al., 2014; G. Oliveira, 2011). Outra observação é que
de doutorado. os atendimentos descritos nos textos demonstraram que
No levantamento realizado na base de dados SCIELO, a atenção em saúde era organizada na forma Psicossocial,
foram encontrados 75 artigos para o descritor “Violência em que é conjunta a prática da psicóloga, da assistente so-
conjugal e saúde”. Sendo que destes, 18 foram excluídos cial e de áreas afins (Alvim e Souza, 2005; Cortez, 2012;
por estarem repetidos no portal e 21 estavam dentro do Cortez e Souza,2013; Cortez, Cruz e Souza, 2013; Hana-
critério de exclusão, restando 36 artigos dentro dos cri- da et al., 2010; Leiva, 2015; Machado et al., 2009; Miran-
térios de inclusão proposto. Para compor a revisão inte- da, 2011; Nukui, 2012; Ocampo, Otálvaro e Amar, 2011).
grativa, foi analisado o total de 46 obras. Destas, apenas Abaixo apresentamos a Tabela 1 para melhor visualiza-
10 são da área de psicologia, 15 da área de enfermagem, ção do levantamento.
17 da área de saúde pública, dois de medicina e os dois

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 200-210, mai-ago, 2017 202
Intervenções Psicossociais Aplicada a Situações de Conflito Conjugal

Tabela 1: Áreas de atuação

Área Referências Qtde


Enfermagem Acosta, Gomes, Fonseca e Gomes (2015); A. Dutra (2011); Duarte et al. (2015); G. Oliveira (2011); 15
Gomes e Erdmann (2014); Gomes, Diniz, Camargo et al. (2012); Gomes, Diniz, Reis et al. (2015);
Gomes, Erdmann, Bettinelli et al. (2013); Gomes, Erdmann, Stulp et al. (2014); Gomes, Garcia et al. (2012);
Gomes, Silveira et al. (2013); Pacheco (2012); Paixão, Gomes, Diniz, Couto et al. (2014);
Paixão, Gomes, Diniz, Lira et al. (2015); Vargas (2012)
Psicologia Alvim e Souza (2005); Cortez (2012); Cortez e Souza (2013); Cortez, Cruz e Souza (2013); Hanada et al. (2010); 10
Leiva (2015); Machado et al. (2009); Miranda (2011); Nukui (2012); Ocampo Otálvaro e Amar (2011)
Saúde Pública Agoff, Rajsbaum e Herrera (2006); Bruschi, De Paula e Bordin (2006); Dantas-Berger e Giffin (2005); 17
/ Coletiva Dourado e Noronha (2015); F. Oliveira (2011); Garcia et al. (2008); Guedes et al. (2009); Lamoglia e Minayo (2009);
M. Dutra (2011); Nascimento et al. (2014); Oliveira e Gomes (2011); Pazo e Aguiar (2012);
Ramírez-Rodríguez e Ariza-Sosa (2015); Rosa et al. (2008); Silva (2012); Silva, Coelho e Njaine (2014);
Vieira, Perdonal e Santos (2011)
Medicina D’Oliveira et al. (2009); Gómez, Godoy, García e León-Sarmiento (2009) 2
Assistência Social Gomes, Erdmann, Rebouças-Gomes et al. (2015) 1
Odontologia Dourado e Noronha (2014) 1

4.2 Tipos de método tos, sendo predominante o procedimento de tratamentos


de dados através da análise de discurso.
Nesta categoria, elencamos cinco subcategorias para Foram identificadas oito pesquisas com metodologia
facilitar a visualização das metodologias realizadas nas quanti-qualitativa, três revisões de literatura, um estudo
produções acadêmicas. Verificamos que a pesquisa qua- de caso e apenas uma pesquisa com enfoque quantitati-
litativa foi utilizada em 33 obras, incluindo pesquisas de vo, conforme se pode ver na Tabela 2.
campo, utilização de entrevistas e análise de documen-

Tabela 2: Tipos de método

Tipos de Métodos Referências Qtde


Métodos qualitativos A. Dutra (2011); Acosta, Gomes, Fonseca e Gomes (2015); Agoff, Rajsbaum e Herrera (2006); Alvim e Souza (2005); 33
Cortez (2012); Cortez e Souza (2013); Dantas-Berger e Giffin (2005); Dourado e Noronha (2014); F. Oliveira (2011);
G. Oliveira (2011); Gomes e Erdmann, (2014); Gomes, Diniz, Reis et al. (2015); Gomes, Erdmann, Bettinelli et al. (2013);
Gomes, Erdmann, Rebouças-Gomes et al. (2015); Gomes, Erdmann, Stulp et al. (2014); Gomes, Garcia et al. (2012);
Gomes, Silveira et al. (2013); Gómez, Godoy, García e León-Sarmiento (2009); Guedes et al. (2009); Hanada et al. (2010);
Leiva (2015); M. Dutra (2011); Miranda (2011); Nascimento et al. (2014); Nukui (2012); Oliveira e Gomes (2011);
Pacheco (2012); Paixão, Gomes, Diniz, Couto et al. (2014); Paixão, Gomes, Diniz, Lira et al. (2015); Pazo e Aguiar (2012); Rosa
et al. (2008); Silva (2012); Vargas (2012);
Métodos Quantitativos Gomes, Diniz, Camargo et al. (2012) 1
Métodos quantiqualitativos Bruschi et al. (2006); D’Oliveira et al (2009); Dourado e Noronha (2015); Garcia et al. (2008); Lamoglia e Minayo (2009); 8
Machado et al. (2009); Silva et al. (2014); Vieira et al. (2011)
Revisão de literatura Duarte et al. (2015); Ocampo Otálvaro e Amar (2011); Ramírez-Rodríguez e Ariza-Sosa (2015); 3
Estudo de caso Cortez, Cruz et al. (2013). 1
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

A partir destes dados foi possível observar a preva- 4.3. Enfoques conceituais
lência à realização de pesquisas de caráter qualitativo,
sendo as entrevistas dirigidas e semidirigidas os instru- Acerca dos Enfoques conceituais identificamos as
mentos de coleta de dados mais usados com o objetivo seguintes subcategorias como temas abordados nas pro-
de apresentar os sentidos dos profissionais de saúde, de duções acadêmicas: Agravos e Impactos a mulher em
homens ou mulheres em relação à violência de gênero. situação de conflito conjugal; Perspectiva relacional da
Tal fato também é justificado em virtude de que as pes- violência conjugal; Intervenções em saúde e violência
quisas selecionadas, em sua maioria, possuem um enfo- conjugal; Estudos direcionados ao Homem e Atuação
que fenomenológico, priorizando os aspectos subjetivos do psicólogo.
que envolvem tal temática e gerando uma compreensão
mais integrativa do mesmo.

203 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 200-210, mai-ago, 2017
Kamilly S. V. & Adelma P.

Tabela 3: Enfoques conceituais

Enfoques Autores/Ano
Agravos e Impactos a A. Dutra (2011); Agoff, Rajsbaum e Herrera (2006); Bruschi et al. (2006); Cortez e Souza (2013); Dourado e Noronha (2014);
mulher em situação de Dourado e Noronha (2015); Duarte et al. (2015); F. Oliveira (2011); G. Oliveira (2011); Garcia et al. (2008); Gomes, Diniz, Reis et al. (2015);
conflito conjugal Gomes, Erdmann, Stulp et al. (2014); Gomes, Garcia et al. (2012); Guedes et al. (2009); Miranda (2011); Pacheco (2012);
Paixão, Gomes, Diniz, Couto et al. (2014); Paixão, Gomes, Diniz, Lira et al. (2015); Pazo e Aguiar (2012)
Perspectiva relacional Alvim e Souza (2005); Cortez (2012); Cortez, Cruz et al. (2013); D’Oliveira et al. (2009); Dantas-Berger e Giffin (2005);
da violência conjugal Gomes, Diniz, Camargo et al. (2012); Hanada et al. (2010); Lamoglia e Minayo (2009); Ocampo Otálvaro e Amar (2011);
Ramírez-Rodríguez e Ariza-Sosa (2015); Silva (2012); Silva et al. (2014)
Violência conjugal e Acosta, Gomes, Fonseca e Gomes (2015); Gomes e Erdmann (2014); Gomes, Erdmann, Bettinelli et al. (2013);
Intervenções em saúde Gomes, Erdmann, Rebouças-Gomes et al. (2015); Gomes, Silveira et al. (2013); Gómez, Godoy, García e León-Sarmiento (2009);
Leiva (2015); M. Dutra (2011); Machado et al. (2009); Nascimento et al. (2014); Nukui, (2012); Vargas (2012); Vieira et al. (2011)
Estudos direcionados Oliveira e Gomes (2011); Rosa et al. (2008)
ao Homem

Verificamos que a maioria das produções acadêmicas O caráter invasivo das agressões gera marcas físicas e
dá ênfase a temas relacionados aos estudos exclusivamen- emocionais que repercutem, a curto e longo prazo, na vi-
te com a mulher vista como vítima ou que se volta para o da das mulheres, já que impacta o sentimento de identi-
cuidado das mulheres não incluindo os homens nas re- dade e a depreciação da autoimagem gerando sofrimento
flexões, quando os incluem, estes são considerados me- psíquico e danos à autoestima. Em alguns casos, a mulher
ramente agressores (A. Dutra, 2011; Agoff, Rajsbaum & na tentativa desesperada de romper com o ciclo de vio-
Herrera, 2006; Bruschi et al., 2006; Cortez & Souza, 2013; lência, tende a cometer violência autoinfligida (A. Dutra,
Dourado & Noronha, 2014; Dourado & Noronha, 2015; 2011; Dourado & Noronha, 2014; Gomes, Diniz, Reis et
Duarte et al., 2015; F. Oliveira, 2011; G. Oliveira, 2011; al., 2015; Guedes et al., 2009; Paixão, Gomes, Diniz, Lira
Garcia et al., 2008; Gomes, Diniz, Reis et al., 2015; Go- et al., 2015). Deste modo, considera-se fundamental que
mes, Garcia et al., 2012; Miranda, 2011; Pacheco, 2012; a violência conjugal seja reconhecida como um fenôme-
Paixão, Gomes, Diniz, Couto et al., 2014; Paixão, Gomes, no multifacetado e diretamente ligado à saúde, já que re-
Diniz, Lira et al., 2015; Pazo & Aguiar, 2012). sulta em prejuízos no processo saúde-doença dos sujei-
Acerca dos agravos e impactos gerados na vida da tos (Grossi, 2004).
mulher em situação de violência conjugal, os estudos Faz-se necessário atentar para os limites no modelo
chamam a atenção para as consequências na saúde, de atenção biomédico, que ainda é predominante nos
no trabalho e na família da mulher agredida e conclui serviços de saúde o que gera barreiras para lidar com a
que estes diminuem a capacidade da vítima de buscar complexidade que envolve o tema, pois os profissionais
socorro e dificultam a interrupção do ciclo da violên- de saúde suspeitam da violência privada diante apenas
cia já que a vergonha e o medo de represália por parte das sequelas físicas, o que denota uma formação tecnicis-
do companheiro obstaculizam o acesso desta mulher à ta e de valorização essencialmente de aspectos clínicos
assistência médica (Cortez & Souza, 2013; Dourado & (Alvim & Souza, 2005; Dourado & Noronha, 2014; Gue-
Noronha, 2014; Miranda, 2011; Paixão, Gomes, Diniz, des et al., 2009).
Couto et al., 2014) No banco de teses do Portal da Capes, apenas duas
Gomes, Garcia et al., (2012) revelam que além dos produções (Cortez, 2012; Silva, 2012) consideram a pers-
agravos visíveis decorrentes da violência física, a vio- pectiva relacional da dinâmica de violência, através de
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

lência conjugal está relacionada com aspectos da saúde estudos com o casal e não apenas voltado para a uma con-
mental e com o aborto provocado, dentre outras seque- cepção binária essencialista em que os sujeitos são pen-
las que geram danos físicos e psicológicos às mulheres. sados em polos estáticos, ressaltando a dicotomia vítima
Sobre este ponto, Alvim e Souza (2005) afirmam que há x agressor. Na base de dados SCIELO, dos 36 artigos se-
uma série de comprometimentos na saúde em decorrên- lecionados, apenas nove abordam a dinâmica relacional
cia deste tipo de violência. do casal como a possibilidade de análise do fenômeno.
Os dados encontrados advertem que as repercus- Os estudos admitem articular a compreensão do tema a
sões podem apresentar-se desde alterações no peso, estratégias de atuação e cuidado aos sujeitos envolvidos
reações corporais no momento da agressão, impactos na situação de violência, o que configura uma perspecti-
na vida sexual, até sequelas psicológicas mais graves, va integradora (Alvim & Souza, 2005; Diniz, Camargo &
podendo chegar à internação psiquiátrica. Apontam Silva, 2012; Lamoglia & Minayo, 2009; Nascimento et al.,
também os danos psicológicos causados aos filhos que 2014; Silva et al., 2014).
vivenciam os conflitos do casal e revelam a possibili- Corroborando com tal perspectiva, nos artigos sele-
dade de tentativa de suicídio entre os cônjuges (Alvim cionados, verificou-se que a cultura patriarcal presen-
& Souza, 2005). te socialmente é um fator presente na construção das

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Intervenções Psicossociais Aplicada a Situações de Conflito Conjugal

interações estabelecidas entre os pares, legitimando o po- têm foco na escuta da mulher agredida. No levantamento
der masculino sobre as mulheres, na repetição e multipli- de dados realizado, apenas três produções configuram-se
cação de crenças que culpabilizam a vítima, impedindo-a como Estudos direcionados ao Homem. As pesquisas apon-
de procurar ajuda ou realizar mudanças em sua vida. Esta tam para a necessidade de ações que promovam à saúde e
visão acerca da violência conjugal parece estar alicerçada compreendam a violência conjugal como um problema,
sobre a concepção de que este é um fenômeno exclusiva- cuja magnitude impõe estratégias de enfrentamento que
mente privado às casas das famílias, dificultando, assim, ultrapassem o limite do mero encaminhamento legal (F.
a ampliação e compreensão das relações violentas consi- Oliveira, 2011; Oliveira & Gomes, 2011; Rosa et al., 2008).
derando os diversos contextos que envolvem a situação Confirmando tal perspectiva, M. Dutra (2011) reve-
(Dourado & Noronha, 2014; Lamoglia & Minayo, 2009; la que as instituições e os profissionais podem exercer
Machado et al., 2009; Silva et al., 2014). um papel fundamental para que a mulher saia do ciclo
Sobre a busca de ajuda, Oliveira (2011) revela que a de violência, à medida que estes se articulem em uma
possibilidade de denunciar o agressor e identificar uma rede em que o fluxo possibilite o compartilhamento da
nova dimensão do existir no mundo transforma o pro- oferta de serviços e conhecimentos, pois identificou-se
cesso de decisão da denúncia numa vivência permeada que o cotidiano das mulheres é constituído de inúmeras
por vivências e sentimentos diversos, empoderando esta estratégias para superação e enfrentamento das situações
mulher e consequentemente favorecendo a ruptura com de ameaça e violência.
o clico de violência instalado na cotidianidade. Cortez (2012) concluiu através da apreciação dos da-
Considerando a importância da denúncia e a neces- dos que há a necessidade de investimentos que alcancem
sidade de também ouvir os agressores para uma com- mais do que o viés criminalizante da Lei, uma vez que
preensão mais aprofundada do tema, Silva et al. (2014) nela e também em outras políticas há pontos voltados à
apresentam a análise das motivações da violência conju- educação, saúde e prevenção, os quais ignorados impe-
gal a partir do depoimento do casal e/ou dos envolvidos. dem que medidas mais adequadas sejam tomadas para
Os resultados indicaram que existem diferentes percep- o enfrentamento da violência contra a mulher. Sobre es-
ções do homem diante da situação em que foi acusado, tes aspectos, Silva et al. (2014) afirmam que é pela ine-
dentre elas: a negação do ato violento, a culpabilização da xistência de políticas públicas que ofereçam uma aten-
mulher e a sua desqualificação. Estes dados demonstram ção à violência conjugal, incluindo homens e mulheres
que há uma banalização da violência quando não há um no atendimento, é que se incumbe às delegacias o papel
reconhecimento do agressor de que o ato cometido por de punir e coibir as agressões. Este fato permite refletir
ele é um ato violento. o papel fundamental de outros setores e instituições, por
Segundo Couto e Schraiber (2005), em saúde pública, exemplo, o da saúde, na mudança desse tipo de contexto.
a temática da violência masculina no espaço privado só Deste modo, é fundamental pensar nas intervenções
repercutiu efetivamente após as mudanças de perspecti- em saúde e violência conjugal, pois os profissionais desta
vas no que se refere à morbimortalidade entre homens e área primam pelo atendimento curativo e medicamentoso,
mulheres. No entanto, “apesar das conquistas alcançadas não questionando a mulher vítima de violência acerca do
pelo movimento de mulheres, a violência conjugal ainda fator que ocasionou a lesão. Indicando uma assistência
hoje se apresenta como prolongamento dos processos de fragmentada, pois a lesão física denota uma pequena mos-
exclusão sofridos por essa categoria em nossa sociedade” tra da complexidade de sequelas geradas pela violência
(Cortez, Souza & Queiróz, 2010, p. 229). conjugal, sendo necessária a ruptura com o modelo he-
Os achados indicam que foi através da perspectiva fe- gemônico de assistência à saúde e a inclusão das esferas
minista relacional e das análises sobre a violência mas- política, ideológica, cultural e social na compreensão des-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

culina na vida pública que surgiram questões voltadas a te fenômeno para que assim seja possível alcançar trans-
ambos os cônjuges na produção do convívio violento, me- formações. (Gomes & Erdmann, 2014; Gomes, Erdmann,
diadas pelas construções sociais de gênero, possibilitando Bettinelli et al., 2013; Guedes et al., 2009).
assim a compreensão de que homens e mulheres, ainda Outro aspecto importante, é que não há um reconhe-
que de diferentes formas, vivenciam intenso sofrimento cimento da sociedade de que os profissionais de saúde
psíquico, prejuízos na qualidade de vida e problemas de sejam referência para o suporte em situações de violência
saúde decorrentes da violência (Dantas-Berger & Giffin, conjugal. Bruschi et al. (2006), em pesquisa realizada com
2005; Gomes, Diniz, Camargo et al., 2012; Nascimento et mulheres que vivenciaram a violência na conjugalidade,
al., 2014; Oliveira & Gomes, 2011; Paixão, Gomes, Diniz, concluem que “os profissionais de saúde não foram reco-
Couto et al., 2014; Rosa et al., 2008; Vieira et al., 2011). nhecidos pela comunidade como possível fonte de ajuda
Deste modo, é fundamental investimentos em aspectos ou orientação em questões de violência conjugal” (p. 263).
culturais que considerem as questões de gênero para pro- Portanto, é primordial a criação de ações preventivas pa-
mover a desnaturalização da violência. ra modificar essa realidade, conscientizando a sociedade
Como já mencionado, os trabalhos que abordam os ato- do papel dos centros de saúde e tornando-o um lugar de
res envolvidos na violência contra a mulher usualmente acolhimento a esta demanda.

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Kamilly S. V. & Adelma P.

Gomes, Erdmann, Stulp et al. (2014) revelam que a 4.4 Principais conclusões
maior dificuldade está no fato dos profissionais não re-
conhecerem as mulheres que vivenciam situações de As publicações analisadas apontaram como conclu-
violência conjugal, sendo que o trabalho em rede ainda sões: Limites no modelo de atenção biomédico; Questões
é desafiador para o enfrentamento do fenômeno. Outro de gênero; Violação de direitos; Necessidade de ações pre-
ponto mencionado pela pesquisa é a forma naturalizada, ventivas para a desnaturalização da violência; e Práticas
pelo simples fato de serem homens, como as mulheres do psicólogo. Destacaram-se os estudos na área de Enfer-
vítimas de violência referem-se ao agressor ou até mesmo magem e de Saúde Coletiva, cujas pesquisas demonstra-
a agressão física, justificando tais atos como sendo ques- ram que os profissionais não compreendem a violência
tões relacionadas ao ciúme, ao consumo de bebidas, ao conjugal como uma questão de saúde, apontando assim
estilo da personalidade, ou até mesmo, como algo banal para os limites no modelo de atenção biomédico que ain-
e cotidiano, o que dificulta a identificação do caso como da é predominante nos serviços. Os dados indicam que
oriundo da violência conjugal. os profissionais de saúde suspeitam de violência domés-
É consenso entre os autores que a não identificação tica apenas diante das sequelas físicas, o que permeia a
do fenômeno pelos profissionais de saúde ocorre em fun- formação tecnicista de va­lorização dos aspectos clínicos
ção da carência de disciplinas relacionadas ao tema nas (Dourado & Noronha, 2014; Gomes, Garcia et al., 2012;
grades curriculares dos cursos, por não considerarem a Garcia et al, 2008; Vieira et al., 2011)
violência conjugal como um objeto de estudo da área da Faz-se necessário incluir a discussão sobre a temática
saúde (Diniz et al., 2004; Gomes, Erdmann, Bettinelli et da violência conjugal contra a mulher e sobre as questões
al., 2013; Vieira et al., 2011). Observa-se também que as de gênero durante a formação do profissional de saúde,
crenças destes profissionais podem limitar a percepção já que para o enfrentamento da violência é necessário o
durante o atendimento de um quadro que envolva a vio- reconhecimento de que este é um problema de Saúde
lência, já que geralmente são permeadas pela perspectiva Coletiva que perpassa todas as dimensões das relações
cultural patriarcal (Machado et al., 2009). Vale pontuar sociais, cujas origens encontram-se na violação de direi-
que esta perspectiva é corroborada pelos estudos em paí- tos e nas desigualdades de gênero (Guedes et al., 2009;
ses como a Colômbia, México e Angola (Agoff, Rajsbaum Silva et al., 2014).
& Herrera, 2006; Leiva, 2015; Ocampo Otálvaro & Amar, Os dados indicam que questões culturais de gênero e
2011; Ramirez-Rodrigues & Ariza-Sosa, 2015). socioeconômicas estão relacionadas a este tipo de violên-
Em pesquisa desenvolvida em Angola, Nascimento et cia, demonstrando que os homens não reconhecem suas
al. (2014) descrevem detalhadamente os desafios para a atitudes como violentas, banalizando na maioria das vezes
rede de serviços na atenção à saúde no referido País, que as consequências dessa violência. Pela ausência de políti-
envolve, dentre outros: a necessidade de sensibilização cas públicas que possam oferecer uma atenção à violência
dos gestores e formação dos profissionais sobre o tema; conjugal, que inclua homens e mulheres no atendimen-
inclusão dos agressores e a garantia de profissionais ca- to, pelas poucas intervenções setoriais neste contexto, na
pacitados e suficientes para orientar e ajudar os casais a maioria das vezes, resta o viés criminalizante para coibir
solucionarem seus conflitos sem recorrerem à violência; essas agressões (Gomes, Diniz, Camargo et al., 2012; Ma-
a promoção de mudanças nas concepções e práticas dos chado et al., 2009; Silva et al., 2014).
profissionais de saúde, a fim de desnaturalizar valores Tal fato chama a atenção para necessidade de ações
culturais relativos à mulher e à violência, promover uma preventivas para a desnaturalização da violência e de
atenção de saúde em que as usuárias dos serviços possam articulação das várias áreas de atuação que tangenciam
ter um atendimento qualificado e humanizado. esse fenômeno como questões fundamentais para trans-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

Apesar de no Brasil já termos alcançados muitos avan- formação desses contextos e na redução de morbidade e
ços teóricos acerca da rede de atenção básica à saúde da mortalidade por violência que acometem homens e mu-
mulher, em situação de violência conjugal, considera- lheres nas relações de intimidade (Cortez, 2012; Duarte
-se que os desafios citados na pesquisa acima, ainda são et al., 2015; Gomes, Diniz, Reis et al., 2015; Gomes, Erd-
pertinentes à realidade brasileira. Já contamos com a Lei mann, Rebouças-Gomes et al., 2015; Paixão, Gomes, Di-
10.778, que estabelece a notificação compulsória, com a niz, Couto et al., 2014; Paixão, Gomes, Diniz, Lira et al.,
Lei Maria da Penha, que é uma política pública voltada à 2015; Pazo & Aguiar, 2012; Silva, 2012).
mulher em situação de violência. No entanto, na prática, Vale ressaltar a importância de campanhas de cons-
ainda é necessário muito para avançar, principalmente cientização e esclarecimento do papel dos serviços de
ao que se refere à desnaturalização da violência conjugal. atenção básica a saúde para que sejam reconhecidos pe-
Recentes pesquisas (Dourado & Noronha, 2014; Gomes, la sociedade como uma opção de acolhimento em casos
Silveira et al., 2013; Machado et al., 2009) acerca do cui- de violência conjugal. Considera-se o comprometimento
dado à mulher em situação de violência conjugal confir- de uma atualização da prática clínica dos psicólogos, e a
mam tal preposição. ampliação da pesquisa e da psicoterapia, como estratégias
interventivas relacionadas à violência conjugal (objeto

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Intervenções Psicossociais Aplicada a Situações de Conflito Conjugal

deste estudo) em virtude de ainda ser crescente o núme- metimentos relacionados à saúde mental, associados a
ro de situações conflitivas e violentas que envolvem os prejuízos a autoestima. A pesquisa revela que os profis-
casais (Alvim & Souza, 2005; Gomes, Erdmann, Stulp et sionais de saúde referenciam para o psicólogo os casos
al., 2014; Hanada et al., 2010). em que suspeitam ou reconhecem como uma situação de
Para Gomes, Erdmann, Stulp et al. (2014) a atuação do violência conjugal e que o excesso de demanda gera difi-
psicólogo, no cuidado à mulher em situação de violên- culdades para realizar os atendimentos, bem como para
cia conjugal no âmbito da Estratégia de Saúde da Família favorecer ações de promoção e de prevenção como pre-
(ESF), justifica-se pela necessidade de respostas e apoio coniza as premissas da ESF, necessitando assim de um
à demanda oriunda deste fenômeno e apresenta compro- maior número de profissionais envolvidos.

Tabela 4: Principais conclusões

Conclusões Referências
Limites no modelo de atenção Acosta, Gomes, Fonseca e Gomes (2015); Bruschi et al. (2006); Dourado e Noronha (2014); Dourado e Noronha (2015);
biomédico G. Oliveira (2011); Garcia et al. (2008); Gomes e Erdmann (2014); Gomes, Erdmann, Bettinelli et al. (2013);
Gomes, Garcia et al. (2012); Gomes, Silveira et al. (2013); Gómez, Godoy, García e León-Sarmiento (2009);
Guedes et al. (2009); M. Dutra (2011); Pacheco (2012); Vargas (2012); Vieira et al. (2011);
Questões de gênero A. Dutra (2011); Berger e Giffin (2005); Cortez e Souza (2013); D’Oliveira et al. (2009); Lamoglia e Minayo (2009);
Leiva (2015); Oliveira e Gomes (2011); Ocampo Otálvaro e Amar (2011);
Violação de direito Agoff, Rajsbaum e Herrera (2006); Cortez, Cruz et al. (2013); F. Oliveira (2011); Gomes, Diniz, Camargo et al. (2012);
Machado et al (2009); Miranda (2011); Nascimento et al. (2014); Ramírez-Rodríguez e Ariza-Sosa (2015);
Rosa et al. (2008); Silva et al. (2014);
Necessidade de ações preventivas Cortez (2012); Dantas-Berger e Giffin (2005); Duarte et al. (2015); Gomes, Diniz, Reis et al. (2015);
para a desnaturalização da violência Gomes, Erdmann, Rebouças-Gomes et al. (2015); Paixão, Gomes, Diniz, Couto et al. (2014);
Paixão, Gomes, Diniz, Lira et al. (2015); Pazo e Aguiar (2012); Silva (2012);
Prática do psicólogo Alvim e Souza (2005); Gomes, Erdmann, Stulp et al. (2014); Hanada et al. (2010); Nukui (2012)

Considerações finais relação aos homens, os dados apontam que esta porcen-
tagem cai pela metade (Waiselfisz, 2012). No referencial
A atenção a situações de violência conjugal é premen- levantado, verificou-se que ao relacionar os descritores
te, pois segundo a atualização do Mapa da Violência de violência conjugal e saúde e psicoterapia e saúde, as pro-
2012: Homicídio de mulheres no Brasil, o país encontra-se duções encontradas dão ênfase a estudos relacionados
em 7º lugar na posição de violência contra mulheres, ao cuidado a mulher em situação de violência conjugal,
sendo que o estado do Pará está em 4º lugar ao que se sendo o cuidado ao homem ainda incipiente diante da
refere a mortes de mulheres por situações de violência demanda e, como já mencionado, ainda utilizam da di-
(Waiselfisz, 2012). mensão vítima e agressor.
Dos casos notificados pelo Sistema de Informação de No outro polo, é perceptível em todos os achados a
Agravos de Notificação (SINAN)2, 65,4% referem-se a vio- utilização das teorias de gênero como um fator primor-
lência doméstica, sexual e/ou outras violências. Tais da- dial para a construção do entendimento da temática e de
dos revelam que 106.030 mulheres vítimas de violência estratégias de prevenção e enfrentamento. Este fato gera
foram atendidas pelo SUS em 2012, alcançando número indagações, dentre elas: Como avançar na prática se na
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

de 107 por 100 mil mulheres, ou seja, a cada cem mulhe- teoria, apesar de considerar a perspectiva relacional de
res, uma foi violentada e buscou atendimento médico. gênero fundamental, ainda se trabalha com a dicotomia
De acordo com o levantamento dos casos, 42,5% das vítima x agressor? Como realizar a desconstrução de es-
agressões são cometidas pelos cônjuges, ex-cônjuges, na- tigmas e estereótipos voltados a homens e mulheres se
morados e ex-namorados; e em mulheres na faixa-etária não os incluímos na dinâmica relacional enquanto ca-
de 20 a 49 anos este número aumenta para 65%. Com sal? E o cuidado da saúde do Homem? Quais sentimen-
tos são vivenciados por estes quando comentem o ato
violento? Tais questionamentos ainda requerem estudos
Em 2003, foi sancionada a Lei nº 10.778, de 24 de novembro, que
2

estabelece a notificação compulsória, no território nacional, em ca- voltados para a compreensão de ambos que compõe a
sos de violência contra a mulher atendidos em serviços de saúde pú- relação conjugal.
blicos ou privados; e mais recentemente a Portaria nº 104, de 25 de Outro fator observado é a necessidade de articulações
janeiro de 2011, que define as terminologias adotadas em legislação
nacional, a relação de doenças, agravos e eventos (incluindo a vio- com a Psicologia, no sentido de favorecer estudos dire-
lência nas suas formas: física, psicológica e sexual) em saúde pública cionados a compreensão do campo afetivo de homens e
de notificação compulsória em todo o território nacional e estabelece mulheres que vivenciam a situação de violência conju-
fluxo, critérios, responsabilidades e atribuições aos profissionais e
serviços de saúde. gal, principalmente relatos que validem a fala dos que

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Kamilly S. V. & Adelma P.

praticam o ato violento, na tentativa de dar espaço para violência contra a mulher que for atendida em serviços de
que expressem e lidem com seus sentimentos, bem como saúde públicos ou privados. Diário Oficial da República Fe-
refletir sobre a dimensão de reconhecimento de si e do derativa do Brasil, Brasília: DF.
outro como um sujeito de direitos. Brasil. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos
Assim, a psicoterapia configura-se como um campo para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.
propício para fomentar desconstruções e romper introje- Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília: DF.
tos sociais que engessam a sociedade num modo opera-
Brasil. Portaria nº 104, de 25 de janeiro de 2011. Define as ter-
tivo de agir, pautado em normas e regras, como a pers- minologias adotadas em legislação nacional, conforme o
pectiva heteronormativa, por exemplo, que legitima pa- disposto no Regulamento Sanitário Internacional 2005 (RSI
drões culturais, como a família tradicional, o casamento 2005), a relação de doenças, agravos e eventos em saúde pú-
e a desigualdade de gêneros, fatores estes que geram a blica de notificação compulsória em todo o território nacio-
prática da violência. nal e estabelece fluxo, critérios, responsabilidades e atribui-
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Artigo - Revisão Crítica de Literatura

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na, L. A. C. & Santos, S. M. P. (2014). Situações que Preci- da Amazônia (UNAMA), Mestre e Doutoranda em Psicologia pela Uni-
pitam Conflitos na Relação Conjugal: o Discurso de Mu- versidade Federal do Pará (PPGP-UFPA). Pesquisadora do Núcleo de
Pesquisas Fenomenológicas (NUFEN). Email: k.millyvale@gmail.com
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org/10.1590/0104-07072014003290013. Adelma Pimentel - Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Universidade Federal do Pará (PPGP-UFPA). Doutora em
Paixão, G. P. N., Gomes, N. P., Diniz, N. M. F., Lira, M. O. S. C.,
Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
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Pazo, C. G. & Aguiar, A. C. (2012). Sentidos da violência con-


jugal: análise do banco de dados de um serviço telefônico
anônimo. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 22(1), 253-273. Recebido em 20.09.2016
https://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312012000100014. Primeira Decisão Editorial em 23.02.2017
Aceito em 05.04.2017

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 200-210, mai-ago, 2017 210
Psicoterapia e Espiritualidade: da Gestalt-Terapia à Pesquisa Contemporânea

Psicoterapia e Espiritualidade:
da Gestalt-Terapia à Pesquisa Contemporânea

Psychotherapy and Spirituality: from Gestalt Therapy to Contemporary Research

Psicoterapia y Espiritualidad: de la Terapia de Gestalt a la Investigación Contemporánea

Aline Ferreira Campos


Jorge Ponciano Ribeiro

Resumo: O presente artigo investiga de como o processo psicoterapêutico pode ser beneficiado com a inclusão de conteúdos de
espiritualidade, partindo da Gestalt-terapia para fazer pontes com pesquisas no campo da psicologia contemporânea. O objetivo
foi descrever esses benefícios, incluindo os modos como a espiritualidade manifesta-se na clínica, recursos e métodos utilizados
por psicoterapeutas e os impactos da sua prática espiritual. Foi feita uma revisão da literatura com artigos do PsychINFO, SciELO,
PePSIC e textos de Gestalt-terapia. O tema da religiosidade surgiu em muitos artigos e foi incluído. Resultados confirmam a
prevalência e a importância de trabalhar os temas em terapia, pois favorecem a eficácia; descrevem métodos utilizados, como
meditação e oração; enfatizam questões éticas e o treinamento adequado de terapeutas.
Palavras-chave: Espiritualidade; Psicoterapia; Religiosidade; Gestalt-terapia.

Abstract: The present article investigates how the inclusion of spirituality can benefit the therapy process, bridging Gestalt Ther-
apy with contemporary psychology research. The goal of this study is to describe these benefits, including how spirituality can
manifest in the methods, resources, and clinic used by psychotherapists; as well as the impact of their personal spiritual prac-
tice. A literature review was conducted with articles from PsychINFO, SciELO, PePSIC, and Getatlt Therapy texts. The religiosity
theme was present in many articles and included in the review. Results confirm the prevalence and importance of working on
these themes in therapy, as they facilitate efficacy; describe methods utilized such as mediation and prayer; and emphasize ethi-
cal issues and the proper training of therapists.
Keywords: Spirituality; Psychotherapy; Religiousness; Gestalt therapy.

Resumen: Este artículo explora como el proceso psicoterapéutico puede beneficiarse al incluir la espiritualidad a través de la
Terapia de Gestalt en investigaciones realizadas en el campo de la Psicologia contemporánea. El propósito de esta investigación
es describir la manera en que la espiritualidad se manifiesta en psicoterapia, los beneficios de esta, los recursos y métodos apli-
cados por psicoterapeutas y el impacto del uso de la espiritualidad en la práctica psicológica. El método utilizado fue a través
de una revisión de literatura utilizando las siguientes bases de datos: PsychINFO, SciELO, PePSIC. También se incluyó literatura
de la Terapia de Gestalt y palabras claves de temas relacionados con religiosidad. Los resultados confirmaron la importancia de
incluir aspectos de espiritualidad o religiosidad en el proceso terapéutico. Algunos métodos identificados en la literatura fue-
ron el uso de la meditación y la oración. La inclusión de espiritualidad estan relacionados con un aumento en la eficacia de la
intervención terapéutica.
Keywords: Espiritualidad; Psicoterapia; Religiosidad; Terapia de Gestalt.
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

Introdução na clínica psicoterápica (Ribeiro, 2009), para fazer uma


integração com pesquisas contemporâneas sobre o tema,
O ser humano sempre buscou um sentido para sua no campo geral da Psicologia. O objetivo foi descrever
existência e a cura para muitas das suas formas de sofri- de que modo o processo psicoterapêutico pode ser bene-
mento. A psicoterapia e as vivências com a espirituali- ficiado com a inclusão de conteúdos de espiritualidade,
dade têm sido caminhos percorridos nessa busca, porém, através de uma pesquisa em artigos contemporâneos, o
ainda estamos no processo de compreender como podem que resultou na definição de quatro eixos temáticos: (a) os
influenciar um ao outro (Vandenberghe, Costa Prado & De modos como a espiritualidade manifesta-se na clínica; (b)
Camargo, 2012); especificamente, como o processo psico- os recursos e métodos da espiritualidade utilizados pelo
terapêutico pode ser beneficiado pela inclusão de temas psicoterapeuta com seus clientes; (c) o impacto da prática
relacionados à espiritualidade. espiritual do psicoterapeuta sobre o processo de ajuda ao
Este artigo partiu da Gestalt-terapia, uma abordagem cliente; (d) as questões éticas e de formação de terapeutas
holística, para a qual a espiritualidade é descrita como para lidarem com o tema. Por fim, propôs-se a fazer pon-
uma das dimensões do humano, válida de ser abordada tes entre a visão gestáltica e pesquisas contemporâneas.

211 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 211-218, mai-ago, 2017
Aline F. C. & Jorge P. R.

Apesar de sua importância na vida das pessoas (Hook, a busca de publicações, utilizou-se o Portal de Periódicos
Worthington Jr. & Davis, 2012; Peres, Simão & Nasello, CAPES na íntegra, e a base PsychINFO, para publicações
2007), o tópico da espiritualidade foi evitado em pesqui- em inglês, e as bases SciELO e PePSIC, para aquelas em
sas sobre a psicoterapia até o final do século passado, português, com os descritores spirituality/espiritualidade,
por não ter sido considerado como relevante à clínica, e psychoterapy/psychoterapeutic/psicoterapia. Foram bus-
ou passível de ser estudado por um método científico cados livros online e artigos completos, publicados entre
(Barnett, 2016; Henning-Geronasso & Moré, 2015). Hyc- 2016 e 2011, com a inclusão eventual de artigos anterio-
ner (1993) pontua que o homem moderno tem buscado res considerados pertinentes. De 99 artigos em inglês, e
ser visto como um ser racional, e, como consequência, 11 em português, foram selecionados 18 que discutiam a
há uma repressão da dimensão espiritual da existência. inclusão de temas e metodologias da espiritualidade na
A relação entre psicoterapia e espiritualidade, portan- prática psicoterapêutica e na saúde mental de forma mais
to, tornou-se difícil, desde posições de autores pionei- pertinente aos objetivos deste trabalho.
ros, que associavam a prática religiosa à psicopatologia
(Barnett & Johnson, 2011).
A partir do início deste século, entretanto, a ciência 2. Espiritualidade e Gestalt-terapia
parece demonstrar um maior interesse em investigar o
papel da espiritualidade na clínica psicoterápica, prin- Alguns autores, na abordagem gestáltica, já vêm in-
cipalmente em pesquisas internacionais (Barnett, 2016;
tegrando o conceito de espiritualidade à prática psicote-
Bonelli & Koenig, 2013). Esta mudança se deve a diver-
rapêutica. Ginger e Ginger (1995, p. 115) descreveram a
sos fatores, como o crescente reconhecimento do valor da
dimensão espiritual como “lugar e sentido do homem no
espiritualidade na saúde física e mental de pacientes, o
meio cósmico e no ecossitema global”. Naranjo (1990) ad-
acolhimento de tendências multiculturais (Barnett & Jo-
voga que há uma relevância espiritual na psicoterapia, e
hnson, 2011) e o desenvolvimento de metodologias que
que a espiritualidade é terapêutica. Ingersoll (2005) des-
buscam operacionalizar os recursos espirituais. No Bra-
creve temas que são compartilhados pela espiritualida-
sil, apesar da grande prevalência de pessoas com inclina-
de e pela psicoterapia gestáltica: confiança na natureza,
ções espirituais e religiosas, observam-se, ainda, poucos
estudos voltados à análise e compreensão do tema em sua orientação para o aqui-agora, direcionamento e transcen-
interface com a clínica (Peres et al., 2007). dência de polaridades.
Espiritualidade é um conceito que não contempla uma Juliano (1999) descreve o processo psicoterapêutico
definição universal; na literatura encontram-se diversos como incluindo cinco etapas: hospedar o cliente, liberar a
sentidos: uma forma de encontrar propósito e significado expressão, restaurar o diálogo, reconstruir a história pes-
à vida (Pinto, 2009); um sentimento de pertencimento e soal e buscar a história humana, passando pelo território
ligação ao universo, ou a um todo maior, e uma conexão do sagrado. Para a autora, nesta última e importante eta-
com o sagrado e o transcendente (Ribeiro, 2009). Distin- pa do processo, o cliente toca em temas que pertencem à
gue-se dos conceitos de religião ou religiosidade, que fo- dimensão do humano, não só à história pessoal. Hycner
calizam crenças, práticas e rituais que auxiliam o contato (1993) afirma que a busca de autoconhecimento através
do indivíduo com o sagrado e o transcendente (Panzini, da psicoterapia abre as portas para que questões últimas
Rocha, Bandeira & Fleck, 2007). Para Barnett e Johnson e de sentido da vida sejam integradas. Este autor sugere
(2011, p. 148), enquanto espiritualidade é frequentemente ser possível ampliar o processo psicoterapêutico para se
relacionada a uma busca pessoal por sentido e transcen- reconhecer o sagrado na vida, promovendo uma integra-
dência, e religiosidade mais associada a dogmas e ritu- ção pessoa-mundo como forma do existir.
ais, muitos buscam e experienciam a espiritualidade em Segundo Ribeiro (2009, p. 16) muitos dos problemas
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

um contexto religioso, relativizando a diferença entre os humanos, materiais ou não, passam pelo seu desconheci-
dois conceitos. Por outro lado, Barnett (2016) e outros es- mento de pertencer a um todo maior. Esta separatividade
tudiosos do tema optam por não enfatizar as diferenças experienciada em relação ao mundo é promotora do so-
entre espiritualidade e religiosidade e utilizam os concei- frimento psíquico, uma vez que deixa a pessoa com um
tos indistintamente. Com isso, fez-se a opção de utilizar vazio de sentido e uma sensação de isolamento e desam-
os conceitos sem distinção de modo a incluir trabalhos paro. Ribeiro (2009) também afirma que muitos dos pro-
considerados relevantes. blemas presentes nos consultórios indicam “uma procu-
ra velada pelo espiritual” (p. 16), e que cabe ao terapeuta
perceber esta necessidade, oculta nas queixas e sintomas
1. Metodologia do cliente. O terapeuta não precisa ser um praticante, mas
estar presente para perceber quando a queixa do cliente
Trata-se de uma revisão de literatura que analisou tex- representa uma possível e até provável busca do sagrado.
tos da literatura da Gestalt-terapia e artigos contemporâ- O autor também descreve instrumentos da espiritualida-
neos no campo geral da psicologia, voltados ao tema da de que o terapeuta pode usar com seus clientes: oração e
espiritualidade em sua relação com a psicoterapia. Para meditação, dentre outros.

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 211-218, mai-ago, 2017 212
Psicoterapia e Espiritualidade: da Gestalt-Terapia à Pesquisa Contemporânea

3. Espiritualidade e clínica contemporânea cotidianas na clínica (Barnett, 2016; Henning-Geronasso


& Moré, 2015; Peres et al., 2007). Em uma pesquisa quan-
Dos 18 artigos revisados, dez relacionavam-se a revi- titativa e transversal, com uma população de 895 psico-
sões sistemáticas de literatura, ou a pesquisas empíricas, terapeutas, Hoffman & Wallach (2011) descreveram que
qualitativas e quantitativas (ver tabela 1). Todos esses ar- 22% de pacientes discutem temas religiosos e espirituais
tigos apresentaram resultados favoráveis à inclusão de te- durante o curso da sua terapia e que a orientação religiosa
mas espirituais e religiosos em psicoterapia, descrevendo e espiritual são fatores significativos nas vidas de um em
métodos e sugerindo benefícios para clientes, terapeutas cada quatro clientes. Brown, Elkonin, e Naicker (2013),
ou a relação terapêutica. A seguir serão discutidos os mo- em uma pesquisa com quinze psicólogos e conselheiros,
dos e processos de integração da espiritualidade à clínica. indicaram que todos os participantes engajavam em dis-
cussões de temas espirituais com seus clientes, enfati-
zando o seu valor.
4. Como o tema se manifesta na clínica

4.1 Prevalência 4.2 “Momentos sagrados”

Um grande número de clientes, em torno de 70%, se A espiritualidade também se apresenta na clínica em


consideram espirituais ou religiosos e querem falar sobre momentos importantes do processo terapêutico, conside-
isso em terapia, tornando-se importante que terapeutas de- rados por clientes e terapeutas como “momentos sagrados”
senvolvam competências nesta área (Hoffman & Wallace, (Pargament, Lomax, McGee & Fang, 2014). Estes foram
2011; Hook et al., 2012; Post & Wade, 2009). Além disso, definidos como breve momentos, na relação terapêutica,
as queixas gerais trazidas pelos clientes podem ter rela- quando clientes e terapeutas experienciam as qualidades
ção com, ou evocar, questões espirituais (Barnett & John- de transcendência, sentimento último, falta de fronteiras,
son, 2011). Por exemplo, ao questionar as crenças gerais interconexão e sentimentos espirituais (Lomax, Kripal &
de um cliente, o terapeuta pode acessar valores espiri- Pargament, 2011, p. 16). Esses são considerados como fa-
tuais e religiosos associados (Hoffman & Wallace, 2011). tores importantes para a aliança terapêutica e podem pro-
Ou ainda, ao lidar com os problemas seculares de seus mover resiliência, saúde mental, e bem-estar de clientes
clientes, o terapeuta pode ficar atento a contextos religio- e provedores. Uma outra pesquisa (Henning-Geronasso
sos que podem ajudá-lo na compreensão dessas dificul- & Moré, 2015) também sugere que o terapeuta, através
dades (Vandenberghe et al., 2012). dos processos psicoterápicos, pode facilitar a religação da
A espiritualidade e religiosidade, portanto, por sua pessoa consigo mesma e o contato com o sagrado, consi-
importância na vida dos clientes, tornam-se questões derado como um dos aspectos do humano.

Tabela 1: Resumo de pesquisas empíricas e revisões sistemáticas

Autor/ano Objetivo Método / Participantes Resultados


Anderson et al. Comprovar a eficácia clínica de tratamentos Revisão sistemática e metanálise de ensaios TCC adaptada à fé traz benefícios significantes. Porém
(2015) psicológicos tradicionais adaptados à fé, controlados randomizados, para acessar limitações dos estudos reduzem a força dos resultados e
para problemas como a depressão e a adaptações baseadas na fé, de terapias não permitem generalizações.
ansiedade. Comparar com tratamentos- psicológicas convencionais para depressão e
padrão, e grupos de controle. ansiedade. 16 estudos incluídos.
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

Bonelli e Koenig Investigar qual a ligação entre Revisão sistemática de 43 pesquisas baseadas Há uma correlação positiva entre envolvimento religioso
(2013) espiritualidade/religião e transtornos em evidências, sobre transtornos mentais e e saúde mental.
mentais. religião/espiritualidade, entre 2010 e 1990.
Brown et al. Explorar a disponibilidade dos psicólogos Pesquisa qualitativa com estudos de caso Participantes acolhem temas espirituais respeitando
(2013) para integrar religião e espiritualidade múltiplos. Os dados foram coletados em as crenças dos clientes. Em vezes podem até orar e ler
em terapia, e os fatores que agem como grupos focais através de entrevistas, escrituras durante as sessões, ou apenas discutir o tema.
barreiras e catalisadores na integração englobando quinze casos (nove conselheiros, Crenças dos clientes podem também limitar o processo.
desses conceitos em terapia. cinco psicólogos clínicos, um psicólogo Enfatizaram a importância da formação e da ética.
educacional).
Gill et al. Explorar o papel da prática pessoal do Pesquisa qualitativa com sete psicoterapeutas O prática espiritual do terapeuta pode ajudar-lhe a
(2014) psicoterapeuta com a meditação, e a que praticam mindfulness em um viés desenvolver habilidades clínicas importantes, como
influência desta prática para seu trabalho espiritual, e utilizam técnicas de mindfulness presença e não-julgamento. Pode ensinar a meditação
como clínico. em um viés secular com seus clientes. mindfulness a seus clientes, como uma técnica secular,
fomentando a redução de sintomas clínicos.
Gonçalves et al. Investigar o impacto de intervenções Revisão sistemática de literatura e metanálise A utilização de RSIs tem efeitos significantes na redução
(2015) religiosas e espirituais (RSI) na saúde de ensaios controlados randomizados sobre o de sintomas de ansiedade. RSIs também diminuem
mental, e avaliar a qualidade metodológica tema das intervenções espirituais clínicas na estresse, alcoolismo e depressão.
desses artigos. saúde mental.

213 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 211-218, mai-ago, 2017
Aline F. C. & Jorge P. R.

Autor/ano Objetivo Método / Participantes Resultados


Henning- Caracterizar as ações dos profissionais de Pesquisa qualitativa. Participantes utilizavam estratégias terapêuticas para
Geronasso e Moré Psicologia em relação à espiritualidade e Entrevista semi-estruturada com dez trabalhar conteúdo espiritual, e a espritualidade/
(2015) religiosidade no contexto terapêutico. psicólogos clínicos. religiosidade dos clientes podiam tornar-se recursos
clínicos. Enfatizaram a importância da formação.
Hoffman e Investigar o papel da espiritualidade e da Pesquisa quantitativa e qualitativa com Participantes sugeriram que a espiritualidade é
Wallace (2011) religiosidade na prática psicoterapêutica, psicoterapeutas de diversas abordagens. importante para psicoterapeutas, e relevante para suas
e a influência da orientação teórica do Pesquisa principal com 895 questionários práticas. Terapeutas de abordagens humanistas dão mais
terapeuta. respondidos. importância ao tema que os da tcc ou psicanálise.
Pargament Explorar momentos sagrados na relação Duas pesquisas quantitativas, com A espiritualidade manifesta-se através de momentos
et al. (2014) terapeuta-cliente. questionários, avaliaram momentos sagrados terapêuticos considerados como sagrados por clientes
na perspectiva de 58 provedores de saúde, e e terapeutas. Momentos sagrados podem promover
na perspectiva de 519 pacientes. resiliência, saúde mental e bem-estar de clientes e
provedores.
Post e Wade Compreender as implicações clínicas Revisão de pesquisas sobre religião e Terapeutas estão abertos ao tema da espiritualidade, e
(2009) de estudos empíricos sobre religião espiritualidade em psicoterapia, de 2007 a os clientes querem discutir essas questões em terapia.
e espiritualidade em psicoterapia, 1997. Selecionaram metanálises, revisões As intervenções religiosas e espirituais podem ser um
descrevendo como e quando usar. narrativas, e artigos empíricos. Focaram em elemento adjunto eficaz às intervenções tradicionais.
terapeutas, clientes e intervenções.
Vandenberghe Descrever as interfaces do trablah clínico Pesquisa qualitativa através de entrevistas não Terapeutas usavam a religião e a espiritualdade do cliente
et al. (2014) com a religião e espiritualidade. estruturadas com vinte e sete psicoterapeutas. como apoio à terapia, e respeitavam suas crenças. A
espiritualidade do terapeuta promovia sua capacidade
para fazer intervençoes e lidar com situações clínicas.

5. Recursos e métodos utilizados pelo psicoterapeuta crenças religiosas. Portanto, terapeutas de orientação se-
com seus clientes cular também podem praticar intervenções espirituais,
se isso for ajudar o cliente.
5.1 Estratégias clínicas Barnett (2016) sugere que o terapeuta, além de co-
nhecer, deve respeitar as crenças espirituais e religiosas
Devido à prevalência de clientes que se dizem espiri- dos clientes, sendo que isso favorece sua adesão à terapia
tuais e religiosos, terapeutas necessitam desenvolver com- (Peres et al. 2007). Em uma pesquisa qualitativa com dez
petências nessa área. Precisam de ter consciência dos seus psicólogos clínicos de abordagens diferentes, Henning-
próprios valores espirituais e buscar conhecer as crenças Geronasso & Moré (2015) descreveram algumas estraté-
dos clientes, além de desenvolver habilidades para traba- gias empreendidas por psicoterapeutas para lidarem com
lhar com elas (Hook et al., 2012; Vandenberghe, 2014). Em a espiritualidade do cliente. Segundo eles, o terapeuta de-
uma revisão de literatura acerca da relação entre espiritu- ve acolher e respeitar as crenças dos clientes, sem tentar
alidade, religiosidade e psicoterapia, Post e Wade (2009) confrontá-los ou convertê-los. Ao mesmo tempo, pode
sugeriram que terapeutas devem avaliar as necessidades buscar flexibilizar a forma como o cliente lida com suas
e opiniões dos clientes sobre o tema, e sempre pedir seu crenças religiosas, quando estas podem estar contribuindo
consentimento antes de usar intervenções espirituais, co- para a manutenção do sintoma, por exemplo, aumentan-
mo orar durante a sessão. O terapeuta não deve assumir do seu sentimento de culpa. Neste caso, o terapeuta de-
que clientes religiosos ou espirituais vão estar abertos pa- ve manter-se neutro em relação à crença religiosa, ques-
ra qualquer intervenção deste cunho, e podem pedir aos tionando apenas o uso (ou mau uso) que o cliente faz da
clientes que avaliem a relação entre suas queixas clínicas mesma. Brown et al. (2013) também descreveram quan-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

e suas vivências espirituais. Os autores também postu- do as crenças espirituais dos clientes podem agir como
laram que clientes preferem trazer gradualmente o tema barreiras ao seu crescimento, por exemplo, quando estes
da espiritualidade à terapia, na medida em que passam a mantêm-se cegamente obedientes, ou usam seus dogmas
confiar na abertura do terapeuta. para justificar comportamentos disfuncionais, como ma-
Hook et al. (2013) descreveram modos como um tera- tar, e passividade diante de situações difíceis.
peuta pode integrar a espiritualidade ao processo de acon- Enfim, terapeutas podem incentivar clientes a expres-
selhamento. Sugeriram que o terapeuta deve permitir ao sarem seus conteúdos espirituais, fazendo uso terapêuti-
cliente falar sobre suas crenças e dar sentido às próprias co dos mesmos. Henning-Geronasso e Moré (2015) suge-
experiências espirituais, para então alinhar o tratamento riram que terapeutas podem utilizar métodos, como por
aos valores do cliente, e usar suas crenças e atividades es- exemplo os projetivos, para incentivarem clientes a ex-
pirituais como soluções para problemas clínicos. Segundo pressarem seus viéses religiosos. Ressaltam, porém, que
Post e Wade (2009), a eficácia de intervenções religiosas terapeutas devem procurar conhecer as diversas formas
e espirituais depende mais de serem congruentes com os de espiritualidade e trabalhar esses temas baseando-se em
compromissos religiosos dos clientes do que à possibili- teorias e técnicas profissionais, e não em conceitos pes-
dade de cliente e terapeuta compartilharem as mesmas soais ou dogmas religiosos. Os autores ainda pontuaram

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 211-218, mai-ago, 2017 214
Psicoterapia e Espiritualidade: da Gestalt-Terapia à Pesquisa Contemporânea

que o terapeuta pode ajudar o cliente a perceber e valo- encontrado mais comunalidades que diferenças. Já o es-
rizar o papel da espiritualidade em suas vidas, quando tudo de Brown et al. (2013) indicou que abordagens co-
eles mesmos trazem o assunto à tona. mo a centrada na pessoa e a terapia narrativa facilitam
a inclusão da espiritualidade e religiosidade na clínica.
A empatia, um dos elementos essenciais da clínica
5.2 Psicoterapias adaptadas à fé humanística, significa “atitude de compreender o outro
pelo ponto de vista da própria pessoa” (Tassinari e Du-
Uma forma de incluir a espiritualidade em terapia são range, 2014, p. 54). O terapeuta, através de sua prática
as psicoterapias adaptadas à fé. Estas mantêm os compo- de escutar atentamente o cliente e entrar em seu mun-
nentes básicos das abordagens seculares, e fazem modi- do, aumenta sua compreensão empática, a ponto desta
ficações para acomodar espiritualidade e religiosidade tornar-se uma experiência de consciência ampliada, se-
(Hook et al. 2013). Em uma revisão sistemática e meta- melhante ao conceito compaixão descrito pelo budismo.
nálise, Anderson et al. (2015) tentaram estabelecer se a Sendo assim, a empatia, atitude muito vinculada às abor-
terapia comportamental cognitiva (tcc) adaptada à fé seria dagens humanistas, pode firmar-se como um recurso pa-
mais eficaz que a tcc padrão, ou grupos de controle, para ra acolhimento da espiritualidade.
tratar pacientes com depressão e ansiedade. Os métodos
utilizados para integrar a fé aos tratamentos tradicionais
foram uma combinação de discussão de ensinamentos 5.4 Instrumentos e recursos espirituais
religiosos e das escrituras para contestar crenças irracio-
nais ou dar suporte para mudança cognitiva ou compor- Alguns estudos descreveram instrumentos da espiri-
tamental; utilizar estratégias de enfrentamento religioso, tualidade utilizados em psicoterapia, aplicados em sua
como ensinamentos das escrituras para lidar com senti- forma original ou adaptados como métodos seculares.
mentos como medo, culpa, vergonha, desespero, raiva; Henning-Geronasso e Moré (2015), por exemplo, descre-
promoção de sistemas de crenças e valores que trazem veram o uso clínico de metáforas e parábolas, relativas às
ajuda, ou o uso de valores compartilhados para fortalecer crenças espirituais de seus clientes. A pesquisa de Brown
a relação terapêutica; incorporar práticas religiosas como et al. (2013) descreveu que sete dos quinze terapeutas par-
a oração. A pesquisa sugeriu que a tcc adaptada à fé pode ticipantes faziam uso explícito de instrumentos espirituais
ser eficaz no tratamento de depressão e ansiedade, com como orar e discutir escrituras com clientes nas sessões.
alguma sugestão de que pode ser superior ao tratamento Quase todos reportaram trabalhar o tema implicitamente,
padrão para depressão. Os autores não puderam, entre- discutindo os conceitos e crenças em terapia, mas sem se
tanto, fazer afirmações categóricas sobre a superioridade envolverem em práticas religiosas nas sessões.
quanto a tratamentos padrão, por conta de dificuldades Um estudo de Gonçalves, Lucchetti, Menezes & Valla-
metodológicas. da (2015) analisou os impactos da utilização de instru-
Ainda não é possível, portanto, generalizar a superio- mentos religiosos e espirituais (RSIs) à saúde mental de
ridade de tratamentos adaptados à espiritualidade e reli- pessoas saudáveis e com transtornos. Tratou-se de uma
giosidade em relação aos tradicionais. Hook et al. (2012) revisão sistemática e metanálise que avaliou atividades
afirmaram, entretanto, que os primeiros possibilitam ao como a psicoterapia, meditação, serviços pastorais e re-
cliente benefícios ligados à espiritualidade, por exemplo, cursos audiovisuais que exploram temas como valores
bem-estar espiritual e melhora da relação com Deus, que morais, crença em um poder superior, enfrentamento e
não são enfatizados pelos tratamentos seculares. Sendo transcendência. Resultados indicaram uma redução sig-
assim, sugeriram que para as pessoas que valorizam os nificante de níveis de ansiedade e uma tendência a me-
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

resultados espirituais, os tratamentos adaptados à fé po- lhora na depressão com o uso desses recursos, sendo que
dem ser preferidos. a prática da meditação e a psicoterapia favoreciam a re-
dução de sintomas de ansiedade, e a psicoterapia e apli-
cação de recursos visuais tendiam a melhorar de quadros
5.3 Abordagens da psicologia de depressão.
Outros estudos corroboram com o uso de recursos
Alguns estudos indicaram que as abordagens de psi- espirituais em psicoterapia: oração, ensino de meditação
cologia adotadas pelos terapeutas podem facilitar ou di- mindfulness, e discutir temas religiosos (Post & Wade,
ficultar a evocação de temas espirituais na clínica. A pes- 2009); prece, contemplação, meditação (Peres et al., 2007);
quisa de Hoffmann e Wallace (2011) demonstrou que te- oração, meditação, apoio para busca de suporte na comu-
rapeutas de linhas integrativas e humanistas (Abordagem nidade (Barnett, 2016). Para que as técnicas tragam bons
Centrada na Pessoa e Gestalt-terapia) consideram os temas resultados, o terapeuta não precisa ser religioso nem espi-
religiosos e espirituais mais importantes à prática clínica ritual, mas deve acessar quais são as necessidades espiritu-
e ao treinamento que terapeutas de linhas psicanalíticas ais e religiosas dos clientes, respeitar suas crenças, pedir-
e cognitivo-comportamentais padrão, embora tenham -lhes premissão para usar os recursos, e ser bem treinado

215 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 211-218, mai-ago, 2017
Aline F. C. & Jorge P. R.

(Barnett, 2016). Post e Wade (2009) afirmaram que o tera- preciosas à clínica. Na pesquisa de Gill et al. (2015), psi-
peuta pode orar na sessão com o cliente, quando esta for coterapeutas praticantes de meditação em um contexto
uma necessidade do último, e caso se sinta confortável de espiritualidade afirmaram que essa prática os tornou
em fazê-lo. Senão, é melhor fazer um encaminhamento mais compassivos e não julgadores, mais capazes de resi-
a uma pessoa religiosa (terapeuta espiritual ou clérigo). liência e aceitação de sentimentos e experiências difíceis,
Dentre os métodos acima citados, destaca-se a práti- mais conscientes das experiências internas e externas,
ca da meditação, que é oriunda de de sistemas espiritu- mais presentes na relação e mais capazes de acreditar na
ais e religiosos como o huduísmo e o budismo, e que tem bondade inerente de cada pessoa. Segundo os mesmos,
se afirmado como um recurso para a promoção da saúde todos esses itens favoreceram sua eficácia como terapeu-
física e mental, em um modo secular (Menezes & Bizar- tas. Vendenbergue et al. (2014) também enfatizaram que
ro, 2015). A pesquisa de Gill, Waltz, Suhrbier e Robert a espiritualidade do terapeuta pode favorecer sua capa-
(2015), com terapeutas praticantes de meditação, sugere cidade em fazer intervenções clínicas e lidar com as di-
que estes podem ensinar a técnica em sua prática, sem a ficuldades do ofício.
conotação espiritual e ajustada às necessidades de cada
cliente, com bons resultados na diminuição de sintomas
clínicos. Os autores afirmaram também que, longe de tor- 7. Eficácia
nar-se um instrumento reduzido ou apenas um método
para resolver problemas, a prática de meditação em mo- Estudos indicam que a espiritualidade pode ser um
do secular pode, inclusive, levar o cliente a indagações fator de promoção de saúde quando integrada como ins-
sobre questões espirituais, como o sentido da vida. Post e trumento na metodologia terapêutica. Segundo Barnett
Wade (2009) também confirmaram o valor da a meditação (2016), e Post e Wade (2009), para os clientes que se sen-
mindfulness, que pode ser usada para tratar um grande tem confortáveis em falar de espiritualidade ou que estão
número de problemas psicológicos como depressão, adi- buscando este componente em terapia, as intervenções
ção, abuso sexual, transtornos alimentares. espirituais e religiosas podem ser muito produtivas em
resolver situações clínicas.
A espiritualidade também pode ser um fator da saúde
6. A espiritualidade do terapeuta e seu impacto quando faz parte da vida das pessoas. Bonelli e Koenig
(2014), em uma revisão sistemática de 43 estudos basea-
As crenças espirituais dos terapeutas têm influência dos em evidências, no campo da psiquiatria, concluíram
em sua prática. Psicólogos e terapeutas tendem a ser me- que em 72% dos casos há uma correlação positiva entre
nos religiosos ou espirituais que seus clientes, por isso envolvimento religioso e saúde mental. Todos os estu-
devem desenvolver consciência sobre suas próprias cren- dos sobre demência, suicídio e transtornos relaciona-
ças e preconceitos, pois estes podem interferir em seu tra- dos ao estresse indicavam uma associação positiva com
balho clínico. Mesmo aqueles que professam uma aber- o envolvimento em questões espirituais, assim como 79
tura a temas da fé podem ter dificuldades em lidar com e 67% dos artigos sobre depressão e abuso de substân-
clientes fundamentalistas ou de orientação diferente da cia, respectivamente (p. 657). Entretanto, a pesquisa não
sua (Hook et al., 2012). Brown et al. (2013) retrataram que comprovou se o envolvimento religioso ajuda a prevenir
quando as crenças de terapeutas e clientes são comuns, a doença mental, ou afeta a resposta ao tratamento, ou se
o trabalho com as mesmas é facilitado, enfatizando que é simplesmente um marco para bons resultados, como
terapeutas devem ficar atentos a questões de contratrans- gênero e personalidade.
ferência e julgamento.
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

Hoffman e Wallace (2011) descreveram que dois terços


dos terapeutas que participaram de sua pesquisa conside- 8. A questão ética e de treinamento dos terapeutas
ravam temas da espiritualidade em suas vidas, enquanto
30% se diziam religiosos. Em uma análise de regressão A união entre a espiritualidade e a psicoterapia só po-
múltipla, indicaram que a importância que o terapeuta dá de produzir bons resultados quando respeitados valores
a temas de espiritualidade e religiosidade em sua própria éticos, como o respeito à autonomia do cliente (Barnett,
vida pode ser um preditor de que o cliente trará esses te- 2016; Peres et al., 2007). A ética é um fator de grande im-
mas para a psicoterapia. Sugerem que o fato do terapeuta portância, especialmente no que tange a competência do
sentir-se mais confortável com esses temas acabam facili- terapeuta em lidar com questões espirituais (Brown et
tando ao cliente expressá-los em seu discurso. Brown et al. al., 2013). O terapeuta precisa conhecer as práticas espi-
(2013) também relataram que terapeutas cujas vivências rituais e religiosas de seus clientes, para poder identifi-
religiosas e espirituais são bem desenvolvidas têm maior car quando estão fazendo interpretações errôneas sobre
facilidade em discutir esses temas com seus clientes. as crenças; e deve estar bem treinado para aplicar recur-
O terapeuta que desenvolve a própria espiritualida- sos e técnicas espirituais, nunca fazendo uso de impro-
de também parece construir algumas qualidades que são visação (Barnett, 2016).

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 211-218, mai-ago, 2017 216
Psicoterapia e Espiritualidade: da Gestalt-Terapia à Pesquisa Contemporânea

A maioria dos trabalhos examinados indicaram que, Discutiram ainda que algumas abordagens teóricas, como
durante sua formação, psicólogos têm pouco contato com as humanistas, apresentam-se mais favoráveis a esta incor-
temas da religiosidade e espiritualidade, e muito menos poração de dimensão espiritual, embora atualmente, atra-
com o aprendizado de suas pontes com a clínica. Na pes- vés dos resultados das pesquisas e experiências clínicas,
quisa de Henning-Geronaso e Moré (2015), por exemplo, escolas como a terapia cognitivo-comportamental estão se
alguns participantes expressaram que o aprendizado sobre abrindo para a espiritualidade em psicoterapia. Um outro
religião e espritualidade na formação de psicólogos é escas- ponto estudado foi que a prática pessoal do psicoterapeuta
so ou impreciso. Só algumas disciplinas contemplam esse com a espiritualidade pode ajudá-lo a estar mais disponível
conteúdo, de forma superficial. Outros participantes ainda à discussão desses temas com seu cliente e a desenvolver
colocaram que não tiveram nenhum contato com o tema em habilidades essenciais à clínica, como a resiliência, pre-
toda sua formação. Muitos também aprenderam a associar a sença, compaixão e autoconsciência.
religião e espiritualidade à patologia. Portanto, torna-se im- Um aspecto relevante advindo das pesquisas é a ne-
portante que psicólogos busquem treinamento, educação e cessidade de treinamento de psicoterapeutas para estarem
supervisão nesta área da prática clínica (Hook et al., 2012). preparados para lidar com o tema da espiritualidade. Mui-
tos terapeutas não sabem como compreender seus clien-
tes quando estes trazem suas experiências espirituais,
Considerações finais nem reconhecer o sagrado quando este se manifesta na
relação terapêutica. Esta qustão do treinamento também
Desde sua fundação a Gestalt apresenta o holismo co-
toca em questões éticas, pois psicoterapeutas não treina-
mo um de seus conceitos básicos, enfatizando a visão de
dos podem prejudicar seus clientes quando não reconhe-
ser humano como um todo que inclui várias partes (Perls,
cem a validade de suas vivências espirituais, assim como
1973). Autores da Gestalt-terapia foram pioneiros em des-
quando tentam impor seus valores seculares aos mesmos.
crever a espiritualidade como uma das dimensões desta
As pesquisas sobre o tema da espiritualidade em psi-
totalidade humana (Ginger & Ginger, 1995) e em ressaltar
coterapia têm demonstrado resultados favoráveis à inte-
sua conexão e importância à psicoterapia (Hycner, 1993;
Naranjo, 1990; Ribeiro, 2009). Muitos desses temas dis- gração das mesmas, porém, ainda há problemas metodo-
cutidos por gestaltistas fazem-se presentes em pesquisas lógicos a serem resolvidos, como a multiplicidade de de-
atuais no campo geral da psicologia: a espiritualidade, fnições do espiritual e de critérios de sucesso na clínica.
por exemplo, é apresentada como um tópico relevante Nos últimos vinte anos tem havido um crescimento de
para clientes e também para terapeutas, e que não deve pesquisas internacionais e um chamado para colabora-
ser deixado de fora em um processo psicoterapêutico. ção mundial em novos trabalhos sobre espiritualidade
Autores gestálticos (Hycner, 1993; Juliano, 1999) já (Richards, Sanders, Lea, McBride & Allen, 2015), indican-
descreviam a importância de momentos sagrados em psi- do a necessidade de validar sua contribuição à clínica e
coterapia como fatores de cura, fator pesquisado e reco- de reduzir as dificuldades com a metodologia.
nhecido em pesquisas atuais. Gestaltistas indicaram ha- Esta convocação serve como incentivo para que pes-
bilidades e atitudes do terapeuta, como a empatia, pre- quisadores desenvolvam trabalhos, especialmente no Bra-
sença, não-julgamento e capacidade de abordar respeito- sil, onde ainda há uma acentuada escassez de produções.
samente as crenças dos clientes (Hycner, 1993), mesmo Pois, apesar do crescente número de artigos relevantes
quando não estão em consonância com as suas, assim sobre o tema em publicações internacionais, poucos, en-
como em trabalhos estudados. Por fim, gestaltistas fazem tretanto, foram encontrados em periódicos brasileiros. Há
uso de diversos recursos terapêuticos, como a meditação também uma escassez de trabalhos de Gestalt-terapia so-
(Naranjo, 1990) e oração (Ribeiro, 2009), também adota- bre espiritualidade na clínica. Sugerimos, portanto, que
Artigo - Revisão Crítica de Literatura

dos por abordagens que incorporaram a espiritualidade. em futuros estudos desenvolvam-se pesquisas empíricas
Esses estudos atuais são importantes para validar esses sobre espiritualidade e Gestalt-terapia no Brasil, incluin-
recursos ligados à espiritualidade e promover uma maior do ainda, nas revisões de literatura, uma maior presença
aceitação dos mesmos. E os resultados enfatizam um cres- de livros e trabalhos acadêmicos.
cente reconhecimento de que a dimensão espiritual pode
e deve fazer parte de um trabalho psicoterapêutico, não
só para a abordagem gestáltica. Referências
Os estudos revisados no presente artigo descreveram
métodos, participantes, intervenções e definições de es- Anderson, N., Heywood-Everett, S., Siddiqi, N., Wright, J.,
piritualidade diferentes. Quase todos sugeriram que uma Meredith, J. & McMillan, D. (2015). Faith-adapted psycho-
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Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 211-218, mai-ago, 2017 218
A rtigos
- E studos Teóricos ou Históricos ........
Peter Schmid e a Alteridade Radical: Retomando o Diálogo entre Rogers e Lévinas

Peter Schmid e a Alteridade Radical:


Retomando o Diálogo entre Rogers e Lévinas

Peter Schmid And Radical Alterity: Reapproaching the Dialogue Between Rogers and Lévinas

Peter Schmid y la Alteridad Radical: Retomando el Diálogo entre Rogers y Lévinas

Iago Cavalcante Araújo


José Célio Freire

Resumo: A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), fundada por Carl Rogers, só pode ser justificada a partir de uma ética e não
como aplicação de técnicas e conhecimentos. Entretanto, a ACP, a princípio, negligencia a alteridade radical postulada por Lévinas.
Este Outro não é figura tão cara às psicologias como aparenta ser. O Outro levinasiano precede e transcende ao Eu, não sendo
totalizável nem inteiramente compreensível, ele apresenta a dimensão do estranho na experiência psicológica. Peter Schmid, no
entanto, concebe a ética como primeira questão a ser pensada quando se trata da ACP, quer de sua teoria, quer de sua prática e
estabelece um profícuo diálogo com a filosofia levinasiana. Este trabalho apresenta as contribuições de Peter Schmid à Psicologia
rogeriana. Concluiu-se que, ao fazer releituras dos principais conceitos da ACP, Schmid apresenta uma nova forma de lidar com
a alteridade no arcabouço da ACP.
Palavras-Chaves: Abordagem centrada na pessoa; Ética; Peter Schmid; Emmanuel Lévinas.

Abstract: The Person Centered Approach (PCA), founded by Carl Rogers, can only be justified by ethics and not as an application
of skills and knowledge. However, PCA, at first, neglects the radical alterity postulated by Lévinas. This Other is not an expressive
figure to psychologies as seems to be. The Levinasian Other is precedent and transcendent to the I; not being possible to totalize
and understand it fully; it shows the dimension of the strange in the psychological experience. On the other hand, Peter Schmid
conceives that ethics is the first issue to be considered when it comes to PCA, either its theory or its practice; establishes a fruit-
ful dialogue with the Levinasian philosophy. This paper presents the contributions of Peter Schmid to the Rogerian psychology.
It was found that Schmid shows a new way of dealing with the alterity within the framework of the Rogerian approach.
Keywords: Person centred approach; Ethics; Peter Schmid; Emmanuel Lévinas.

Resumen: El abordaje centrado en la persona (ACP), fundado por Carl Rogers, solo puede ser justificado a partir de una ética y
no como aplicación de técnicas y conocimientos. Sin embargo, la ACP abandona, en principio, a la alteridad radical postulada
por Lévinas. Este Otro no es una figura tan cara a las psicologías como aparenta ser. El Otro levinasiano precede y trasciende al
yo, no siendo totalizable ni enteramente comprensible; él, representa la dimensión de lo extraño en la experiencia psicológica.
Por otro lado, Peter Schmid, concibe a la ética como primera cuestión a ser pensada cuando se trata del ACP, tanto con su teoría
como con su práctica, estableciendo un fructífero diálogo con la filosofía levinasiana. Este trabajo presenta las contribuciones de
Peter Schimid a la Psicologia Rogeriana. Se concluye que, al hacer relecturas de los principales conceptos del ACP, Schmid pre-
senta una nueva forma de relacionarse con la alteridad en las bases teóricas fundamentales del ACP.
Palabras claves: Abordaje centrado en la persona; Ética; Peter Schmid; Emmanuel Lévinas.
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

Introdução subjetividade humana, que foi considerada como dejeto


expurgado pela ciência moderna. Desde então, o trabalho
Desde os seus primeiros anos, entre o fim do século psicológico tratou de ajustar comportamentos que eram
XIX e o começo do século XX, a Psicologia surgiu como considerados desviantes destes padrões.
uma prática de cuidado e controle sobre os indivíduos. Como contraponto às práticas de ajustamento e centra-
A Modernidade, que constituiu a demanda de um controle das no problema, as psicologias humanistas, que compu-
cada vez mais íntimo das pessoas, também foi a respon- seram – junto às psicologias fenomenológicas, existenciais
sável pela criação do sujeito psicológico e, consequen- e experienciais – a terceira força da Psicologia, surgiram
temente, da própria Psicologia (Figueiredo, 1996). Este dando destaque ao que é propriamente humano, isto é, à
indivíduo psicológico surgiu a partir da falha do projeto sua capacidade de significar e ressignificar o mundo da
epistemológico da modernidade, quando o humano não vida em que está inserido, sendo capaz de superar qual-
é capaz de autoconhecer-se suficientemente para daí co- quer determinismo. Estas psicologias, em contraposição
nhecer o mundo. A ciência psicológica tornou-se, então, ao objetivismo e racionalismo empregado pelas práticas
responsável pelo cuidado com essa dimensão estranha da referidas acima, trabalham com sensações e sentidos

221 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 221-230, mai-ago, 2017
Iago C. A. & José C. F.

vividos e atribuídos pelo humano, aceitando que o sujei- pois, nela, há a predominância do eu (self), do mesmo
to é linguagem, um ser capaz de dar sentido ao corpo de e do idêntico em detrimento do Outramente-que-ser, do
experiências que vive na relação com o mundo e as pes- estranho e da diferença. Mesmo que Rogers se refira ao
soas (Amatuzzi, 2001). outro, ele está sempre a serviço e ao alcance do Eu, para
Apesar do caráter sedutor de tal empreitada, no senti- ser compreendido, totalizado e equiparado: é ainda um
do da possibilidade de ter para si o domínio da vida, Freire alter-ego, um outro eu (Freire, 2002). A ética da ACP, em
(2002), ao discutir sobre a ética impregnada nas psicolo- sua relação com a ética levinasiana, foi novamente con-
gias, postula que estas ainda estão vinculadas a um mo- templada nas leituras críticas de Vieira e Freire (2006), que
delo de controle e poder, pois, configuram-se como forma procuraram apontar possíveis aberturas da abordagem à
de usurpação do lugar do Outro, daquilo que há de estra- alteridade radical trazida por Lévinas (1961/2008). Mes-
nho e indomável na vida humana. Mais especificamen- mo ali, o texto apontou para limitações encontradas na
te, no que tange à Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), obra de Rogers que poderiam ser rediscutidas em busca
proposta por Carl Rogers, forjada no contexto do início da de uma relação menos alérgica com o Outro levinasiano.
Psicologia estadunidense, caracterizada pelo tecnicismo e O desenvolvimento de tais estudos, que procuram
racionalismo, recoloca-se no indivíduo o centro avaliati- reconsiderar a ética desta abordagem, apresentou-nos a
vo de todo o processo psicoterápico, preconizando a sua obra de Peter F. Schmid, psicólogo austríaco professor da
liberdade e autonomia. Nesse referencial, proporcionou- Sigmund Freud Private Universität Wien, que tem traba-
-se maior participação do paciente (agora cliente) em seu lhado acerca da alteridade na ACP, estabelecendo diálogos
processo terapêutico e também um novo valor para ele, entre a teoria de Rogers e as filosofias dialógicas, onde ele
dentro e fora do setting psicoterapêutico; ele, então, pode- “enquadra” o trabalho de Emmanuel Lévinas (1961/2008).
ria ser quem verdadeiramente é, tornando-se plenamente Em uma rápida pesquisa sobre a bibliografia de Peter
uma pessoa (Rogers, 1961/2009). Além disso, a proposta Schmid, é possível observar que aponta grande interes-
rogeriana procurou dar novo valor à pessoa dentro da re- se pela Psicologia, a Teologia e as Artes. O austríaco tem
lação terapêutica, enfatizando, também, o terapeuta co- vasta formação no campo da Teologia, principalmente
mo ser humano no contexto da terapia. Isto implica que católica, com graduação e pós-graduação (mestrado e
o profissional deve utilizar-se de seu referencial teórico e doutorado) na área, além de formação em Psicologia e
valorativo para fomentar a autonomia e responsabilidade Sociologia. Ao mesmo tempo, Schmid apresenta uma
do cliente na relação psicoterapêutica e, a partir desta, em importante atuação na clínica da Abordagem Centrada
sua experiência no mundo. O psicoterapeuta deve buscar na Pessoa e, ao longo do tempo, vem desenvolvendo um
desfazer-se de qualquer pretenso domínio sobre o outro, trabalho com parceiros ao redor do mundo, com os quais
mesmo que isto lhe seja requerido pelo próprio cliente. apresentou publicações decorrentes destas parcerias. Foi
Quem melhor sabe sobre o cliente é ele mesmo (Rogers, também fundador, junto a outros psicólogos da aborda-
1951/1975). Rogers postulou a importância das relações gem, de importantes organizações e associações da ACP,
pessoais para o desenvolvimento do ser humano, che- como a Person Centered Association (PAC), a Network of
gando a formular uma teoria das relações humanas (Ro- the European Associations for Person-Centered and Expe-
gers & Kinget, 1959/1977). Tais concepções alastraram-se riential Psychotherapy and Counselling (NEAPCEPC) e a
também por outros campos de atuação, fazendo com que World Association for Person-Centered and Experiential
as contribuições de Carl Rogers ficassem famosas na área Psychotherapy and Counselling (WAPCEPC). Tem impor-
educacional, organizacional, (da Psicologia) de Grupos, tante participação como editor de revistas acadêmicas de
da mediação de conflitos, entre outras. A respeito destas divulgação mundial, como a revista Person Centered and
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

contribuições, Amatuzzi (2010) argumenta que são de or- Experiential Psychotherapy, da WAPCEPC, o British Jour-
dem eminentemente ética, muito mais do que técnica, de nal of Guidance & Counselling, de Londres e a A Pessoa
forma que a ACP apenas pode ser justificada a partir de como Centro, revista de estudos rogerianos de Lisboa.
um conjunto de valores e de uma ética, e não como uma Teve Carl Rogers como importante parceiro de traba-
aplicação de técnicas e de conhecimentos. lho nos anos de 1981 e 1984, de forma que Schmid con-
A proposta ética da ACP foi considerada e criticada viveu com um Rogers diferente daquele que se pode con-
por Freire (1989) a partir de um viés materialista históri- templar em algumas sistematizações e artigos do início e
co e dialético. Naquele momento, ele afirmou que o ho- meio de sua trajetória, se considerarmos as fases de seu
mem rogeriano não é um ser moral por estar apartado da pensamento (Cury, 1987; Moreira, 2007, 2010a; Holan-
consciência histórica da necessidade e transformação da da, 1998; Castelo Branco, 2010). Mesmo que não se possa
realidade. Mais adiante, a ACP foi novamente criticada dizer que é um Carl Rogers totalmente diferente daque-
por Freire (2002), a partir da ética da alteridade radical, le do início de seus trabalhos, é preciso afirmar que, na
de Emmanuel Lévinas. Ele postulou não haver lugar para década de 1980, ele estava voltado principalmente para
a alteridade radical levinasiana na ACP, bem como em ou- o trabalho com grandes grupos, afastado dos trabalhos
tras três perspectivas em psicologia (Daseinsanalyse, Psi- acadêmicos e mais próximo de experiências místicas
cogenética e Análise Experimental do Comportamento), (Rogers, 1980/1983).

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 221-230, mai-ago, 2017 222
Peter Schmid e a Alteridade Radical: Retomando o Diálogo entre Rogers e Lévinas

Para Schmid (1998b), ainda, Emmanuel Lévinas é um Em sua separação do Outro, este Eu vive para além de
pensador de muita importância, que ainda está para ser uma relação dual, em que ele possa se identificar por opo-
descoberto pela ACP. Schmid considera que a mudança sição. A relação que o Mesmo e o Outro mantém não é de
feita por Lévinas no campo da Filosofia se equipara àquela reciprocidade nem de dualidade. Se assim fosse, ambos
feita por Rogers na Psicologia. Assim, a ACP mantém im- estariam novamente inseridos em uma totalidade. O Eu,
portantes portas de diálogo com a filosofia de Emmnuel em sua existência, mantém-se como autossuficiente, um
Lévinas (1961/2008). Segundo Vieira & Freire (2006), Viei- Eu que Lévinas (1961/2008) chama ateu1. Liga todas as coi-
ra (2009) e Schmid (1998a), desde o início de sua obra, sas a si mesmo e, a cada segundo, está a (re)encontrar-se
Carl Rogers estabeleceu uma virada de paradigma, colo- nas coisas, um ser intransitivo, como esclarece Santos
cando a pessoa do cliente como prioridade no tratamento (2007, p. 32): “[...] ele descobre sua intransitividade radi-
psicológico, em detrimento de preconcepções nosológicas, cal: pois, se pode realizar todos os intercâmbios possíveis
por exemplo. Desta forma, Schmid (1998a) afirma que o com o outro, o eu não pode trocar de ser com o outro; não
Outro, em sua alteridade, é a verdadeira questão para a pode ser outro, e vice-versa. Sob a vigência do verbo ser,
ACP, não a teorização ou a prática da abordagem. Schmid o eu faz a experiência de sua solidão [...]”.
(2001a) considera que Carl Rogers teria preparado diver- Portanto, está também preso a si mesmo, e por mais
sos caminhos em direção a uma saída da egologia rumo distante que possa ir, acaba levando-se a todos os lugares.
a uma dimensão alteritária e muitos deles ainda estão à Outra característica do ser, em sua pureza, é a impessoali-
espera de serem concretizados. dade ou indiferença, sua não escolha em ser: “Ser não me
A partir de uma leitura de Schmid (1998a, 2001a; encontra, ‘choca-se’ comigo. Ser é achar-se lançado por
2006; 2008), compreendemos que a obra rogeriana apre- ninguém para cumprir a pena perpétua de ser si mesmo”
senta certa ambiguidade na lida com a diferença e com o (Santos, 2007, p. 35, grifos do autor). Estas característi-
Outro, porque, se, por um lado, busca atender à experi- cas colocam o ser, por si mesmo, em um mal de ser. Esta
ência humana em seu caráter singular e à pessoa entre- angústia empurra-o, desde o princípio, para fora, em uma
laçada nas relações sociais, por outro, a abordagem roge- evasão. É preciso que ele venha ao encontro com o mundo
riana também tem sido responsável por submeter todo o e com o Outro, como uma espécie de salvação deste mal.
corpo de experiências com a alteridade ao crivo do sujeito A subjetividade encontrada em Lévinas não ocorre se-
autocentrado. Nesse sentido, a figura de Schmid (2001a)
gundo uma soberania por parte do sujeito; seria melhor
surge como elemento importante para repensar a postura
que a considerássemos como sujeitada às relações que
da ACP no trato com a alteridade, pois ele tanto reconhe-
mantém com o mundo. É uma subjetividade traumáti-
ce limitações no texto rogeriano quanto oferece, também,
ca porque se dá no encontro e rompimentos que o Outro
alternativas a este, possibilitando outro modo de lidar
produz sobre esta. Desta feita,
com o Outro e aproximando a ACP da ética levinasiana.
A subjetividade pode ser vista como contínua relação
de vir a ser, mas que nunca pára no ser, relação que
1. A Ética Levinasiana
não cessa com o seu devir, relação que pode fazer com
que a subjetividade se torne substituição, substituição
Lévinas é um pensador franco-lituano que fez da ex-
que não é termo, mas processo sem fim de exposição
periência do holocausto judeu, na Segunda Guerra Mun-
dial, o mote para compor todo um pensamento crítico à ao próximo. (Pivatto, 2003, p. 191)
filosofia ocidental (Haddock-Lobo, 2006). Como judeu,
Lévinas perdeu boa parte de sua família no holocausto: Lévinas (1982/2007) afirma, ainda, que o movimento Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

sua esposa e os filhos só sobreviveram por terem se es- do Eu em direção ao Outro pode ser descrito como a ca-
condido na casa de amigos. Ele mesmo escapou porque rícia, que toca sem tocar, como um gesto nunca satisfei-
atuou, como intérprete e tradutor, nos campos de concen- to e que se alimenta da própria fome. É um caminho in-
tração, pois era alguém que poderia ser “melhor aprovei- finito. Assim é a compreensão de Lévinas: o movimento
tado” (Poirié, 2007). que vai do Eu a Outrem é fundamentado em um desejo
A filosofia de Lévinas concebe que a ética, isto é, a que, ao contrário do que comumente se compreende, não
relação com o Outro como ente, é anterior à ontologia, provém de uma falta ou necessidade do sujeito, mas da
já que esta resume a alteridade ao mesmo, ao ser. Assim, altura e do excesso do Outro em relação a este. Para Lé-
Lévinas (1961/2008) concebe que a relação com o Outro vinas (1961/2008), a relação Eu-Tu, de Buber (1979), se
precede a concepção do Eu, que se forma, justamente, encontra no âmbito do eros, uma relação que é intimida-
como resistência à exterioridade. A subjetividade é se- de, mas, também, distanciamento. Entretanto, para Lévi-
paração que permite, também, uma forma de lidar com o nas, esta forma de relação com o outro ainda guarda sua
Outro, na qual “o papel principal do psiquismo não con-
siste de facto em refletir apenas o ser. É já uma maneira O termo aqui não adquire conotação de descrença em uma divinda-
1

de, mas se refere ao modo como o sujeito se mantém no mundo, de


de ser, a resistência à totalidade” (Lévinas, 1961/2008, maneira independente, não mantendo qualquer compromisso apa-
p. 41, grifos do autor). rente com os Outros que mantém a sua vida.

223 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 221-230, mai-ago, 2017
Iago C. A. & José C. F.

reciprocidade, no sentido de que o Eu se encontra ainda humanidade como um todo e traz à tona a justiça porque
ligado ao prazer de amar outrem. o Terceiro é um Outro para o Outro e, por isso, não pode
O outro levinasiano é de uma natureza diferente da ser desmerecido frente a ele. Instaura-se a igualdade entre
minha, não faz par comigo, não posso tocá-lo, nem temati- ambos. Portanto, a relação para com outrem guarda, tam-
zá-lo sem que, assim, perca a sua alteridade de vista. Não bém, as relações que este mantém com o mundo e seus
se trata de um outro Eu, imagem e semelhança deste, mas Outros, de forma que a responsabilidade é radicalizada e
algo de uma ordem que transcende a minha, escapando a extrapolada para além da relação dual.
qualquer tentativa de pensamento sobre ele. Para tanto, A Filosofia de Lévinas nos apresentou um sujeito trau-
Lévinas (1982/2007) utiliza-se da ideia de infinito como matizado, não por sua relação sincrônica e cúmplice para
uma forma de referir-se à aproximação entre o Mesmo e com o Outro, mas por se caracterizar como uma subjeti-
o Outro. Nela, aquilo que é pensado será sempre maior vidade que é sempre resposta incessível a outrem. Sua
que o pensamento. A ideia de infinito obra nos apresenta outra maneira de lidar com o Outro
e(m) sua alteridade, figura que deveria ser tão cara às psi-
[...] vem, assim, romper com aquela de totalidade. Nes- cologias, como profissão de cuidado com o ser humano
ta reina o pensamento do igual, com a busca de que (Freire, 2002). Veremos agora que Schmid utiliza-se de
o Outro se torne o Mesmo, e há um saber e verdade diversos dos elementos da teorização de Lévinas, alguns
absolutos. Naquela implica-se o pensado do desigual de modo sutil, outros com clara referência ao filósofo li-
e o excesso no ato de pensar, que contém e não-con- tuano, oferecendo, assim, uma outra abordagem da alte-
tem paradoxalmente, a presença do Infinito. (Miran- ridade no campo da ACP.
da, 2011, p. 17)

A relação que o finito pode manter com o infinito, 2. A ACP aos olhos de Peter Schmid
ou melhor, a expressão do infinito sobre o finito se dá
como desejo. Este é resultado de um excesso e não de Peter Schmid desenvolveu importantes contribuições
uma falta por parte do mesmo, pois, se assim o fosse, a para a teoria e a prática da Abordagem Centrada na Pes-
relação continuaria sob o domínio da ontologia e do eu. soa, fazendo críticas internas à ACP, sem perder o diálo-
O desejo é sequela da alteridade sobre a subjetividade; go com outros campos do conhecimento, como a Arte,
refere-se, excepcionalmente, à altitude daquela. A subje- a Religião e a Filosofia. Sua tentativa é de utilizar-se de
tividade configura-se, assim, sempre, como uma respos- caminhos incompletos oferecidos pelo próprio Rogers e
ta a esta diferença. A relação ética para com o Outro se trazer implicações de outros pensadores para contribuir
consuma como responsabilidade, de forma que Lévinas no desenvolvimento da ACP. Trata-se de uma forma de
(1991/2005) afirma que ser responsável pelo próximo é trabalhar a disseminação do trabalho de Rogers e da filo-
outro modo, mais grave, de amá-lo; um amor sem eros, sofia dialógica, percebendo como esta pode oferecer im-
sem concupiscência. O próximo, aqui, não deve ser en- plicações ao modelo de Psicologia rogeriano. Entre estas
tendido como espacialmente perto, mas como aquele de implicações, podemos citar a importância da alteridade
quem devo me aproximar por responsabilidade. Santos na constituição e transformação da subjetividade.
(2007, p. 191) afirma que esta aproximação ocorre por Schmid (2000) parte da compreensão de que, pa-
meio da vulnerabilidade. ra muitos rogerianos, a Abordagem Centrada na Pessoa
Na responsabilidade, e somente nela, a distância torna- (ACP) parece ter perdido o seu caráter revolucionário e
-se proximidade. Aproximar-se de outrem não é negar a que parece, até agora, “sobreviver” como uma abordagem
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

distância, mas deixar que este fale e revele-se a partir de complementar a intervenções terapêuticas mais focadas
sua altura. Portanto, não se trata também de uma desco- em técnicas (arte-terapia e acupuntura, por exemplo) ou
berta do Outro por parte do Eu, um desvelamento, como ao lado de abordagens influenciadas pela Gestalt-Terapia,
uma atitude de retirar o mistério que há na alteridade, como tem-se visto. Possivelmente, por ter sido parceiro de
mas de uma constante revelação por parte de outrem, um Rogers nos anos 1980, Schmid se apropriou principalmen-
constante enigma a ser revelado e, assim, uma responsa- te de uma perspectiva mais relacional e coletiva da ACP,
bilidade sempre por se concretizar. Isto instaura um devir de forma que chega a propor que os trabalhos com grupos
sobre a relação e a própria subjetividade. devam ser o foco principal da abordagem. Para ele, toda
Além disto, o Outro não se apresenta somente como demanda de tratamento, assim como qualquer transfor-
um Tu, mas como um Ele, distante. No rosto de outem, mação psicoterapêutica necessária, se dá principalmente
apresenta-se também o terceiro e, com este, toda a huma- por meio das relações interpessoais, dos grupos em que
nidade. Lévinas (1961/2008, p. 208) afirma: “A epifania estamos inseridos. Assim, por considerar o ser humano
do rosto como rosto abre a humanidade. O rosto na sua como radicalmente social, a ACP deve assumir que este
nudez apresenta-me a penúria do pobre e do estrangeiro é o principal campo de sua terapêutica. Schmid (2000)
[...]”. O Terceiro, o outro do Outro, quebra a dualidade afirma, ainda, que o essencial da ACP ainda não foi nem
que poderia existir entre o Eu e outrem. Ele apresenta a mesmo sondado em seu radicalismo, enquanto proposta

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 221-230, mai-ago, 2017 224
Peter Schmid e a Alteridade Radical: Retomando o Diálogo entre Rogers e Lévinas

de emancipação humana. O autor, assim, qualifica a pro- 3. A (re)leitura ético-dialógica da ACP feita por Peter
posta de Rogers como dotada de um humanismo radical. Schmid
O motivo de Schmid (2000) assim caracterizar a ACP
não está bem explicitado nos textos que compuseram os Schmid (2003) compreende que a abordagem roge-
nossos estudos, que se centraram em artigos em língua riana entrou em uma fase profundamente relacional, em
inglesa de autoria do referido autor. Ao que nos parece, que a ética se torna imprescindível (Worsley, 2006). Ele,
Schmid utiliza-se do termo “radical” para enfatizar o po- então, analisa os elementos já trabalhados pela ACP a
sicionamento que o humanismo toma sobre a pessoa a partir das pesquisas e atividades realizadas na última fa-
ser ajudada: naquele momento, não há nada de mais im- se do trabalho de Rogers e de outros desenvolvimentos
portante do que a pessoa. É também uma indicação de recentes acerca da ACP. Schmid (2003) apoia-se nas filo-
quem ainda quer apostar neste referencial: fortalecer e sofias de Lévinas e Buber, concebendo a ética como ele-
radicalizar o humanismo rogeriano. Schmid toma esta mento importante para a atualidade das psicologias e da
postura ao considerar que é a radicalização da ACP, seu ACP, mais especificamente. De acordo com uma série de
aprofundamento, que possibilitará seu desenvolvimento, autores (Holanda, 1998; Moreira, 2010a; Vieira & Freire,
não uma atitude de fuga às críticas levantadas, ou mesmo 2006; Miranda, 2012; Bezerra & Bezerra, 2012), é possí-
a mesclagem dela com outras abordagens. Além do mais, vel distinguir elementos fenomenológicos, existenciais e
supomos que o uso do termo seja uma tentativa de apro- dialógicos ao longo de toda teoria e prática da Abordagem
ximar-se dos termos usados por Lévinas quando este trata Centrada na Pessoa e é no rastro destes possíveis desen-
da “Alteridade Radical” (Lévinas, 1982/2007). volvimentos que se encaixa a leitura que Schmid (2003)
Desta forma, por meio do contato que o austríaco man- faz acerca da ACP.
teve com Rogers nos anos 1980, fase que Holanda (1998) Para Schmid (2001a), ao trabalhar com a ideia de
nomeia de coletiva ou inter-humana, Schmid (2000) en- pessoa, Rogers não percebeu o potencial inscrito nas for-
tende que é preciso reler e redizer os conceitos básicos mulações que ele mesmo propôs, haja vista as diversas
da ACP a partir dos desenvolvimentos das últimas fases, surpresas que o psicólogo estadunidense encontrou no
que agregam características mais relacionais à proposta decurso de sua trajetória. De fato, ao longo de sua pro-
rogeriana. A ACP, então, apresenta um caminho de possi- dução, Rogers se referiu a descobertas em que se sentia
bilidades ainda não exploradas que podem oferecer novas surpreso com os alcances de sua teoria e prática. Como
perspectivas para a sua ação no mundo. A sua preocupação exemplo disto, podemos indicar: a descoberta de seu mo-
é buscar certa unidade e identidade, a fim de proporcio- delo de atendimento se tratar de algo completamente novo
nar diálogos honestos tanto interna quanto externamente (Rogers, 1942/1974); a aplicação de seus princípios tera-
(Schmid, 2003). Para Schmid, assim como o próprio nome pêuticos a outras áreas de atuação, como organizações
da ACP indica, a noção de Pessoa é elemento fundamen- e escolas, formando a Abordagem Centrada na Pessoa
tal em sua leitura da Psicologia rogeriana. Schmid leva (Rogers, 1977); e a descoberta do caráter político de sua
este elemento às últimas consequências, de forma que, perspectiva (Rogers, 1970/2001). O texto (a teoria, no ca-
muitas vezes, mesmo utilizando palavras de Rogers, ele so) sempre diz mais do que aquilo que quer e pode dizer.
parece tratar de algo que não está posto nas letras rogeria- Desta forma, o psicólogo austríaco, de sua parte, recorre a
nas. Exemplo disto é a sua afirmativa de que Rogers não uma antropologia da pessoa para efetuar desenvolvimen-
percebeu todo o potencial daquilo que ele mesmo estava tos das noções da abordagem rogeriana.
propondo (Schmid, 1998a). A tentativa do psicólogo aus- Schmid (1998a) se apropria do termo “pessoa”, uti-
tríaco é justamente a de desenvolver tais potenciais que lizado por Rogers, para estabelecer um vínculo entre a Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos
ele constata no trabalho de Rogers, de fazer um desenvol- ACP e as filosofias do diálogo. Segundo Schmid, Rogers
vimento posterior a Rogers. Isto pode ser percebido co- não se utilizou da referida palavra em vão. A definição
mo uma forma de dar vazão às demandas e evocação que de pessoa implica em um sujeito que tem um caráter
as palavras rogerianas fazem ao leitor contemporâneo. tanto substancial quanto relacional; portanto, segundo
Ao possibilitarmo-nos fazer outras perguntas ao texto de Schmid (2000), ao axioma da tendência atualizante, de-
Rogers, Schmid promove o contato com a alteridade do ve ser, também, adicionado o da interconectividade, que
texto rogeriano, isto é, com a atualidade de seu discurso. é um conceito que proporciona, justamente, a dimensão
Tendo trabalhado alguns elementos gerais, gostaría- da alteridade na constituição subjetiva, como já mencio-
mos, agora, de apresentar a apropriação que Schmid faz namos anteriormente e explicitaremos melhor no decor-
da teoria de Carl Rogers e da ética de Emmanuel Lévinas, rer deste trabalho.
dois principais fundamentos de seus estudos. Além des- Contudo, não é bem esta a noção de sujeito que en-
tes, o trabalho de Schmid está fundamentado na Filosofia contramos em Rogers (1951/1975). Sua concepção está
Dialógica de Martin Buber. Este, entretanto, será tratado mais vinculada ao pragmatismo e à ideia de organismo.
somente na medida que se mostrar importante para apro- Entretanto, a noção de Schmid possui influência, prin-
fundar o entendimento das articulações teóricas feitas por cipalmente, da fenomenologia e da filosofia dialógica,
Schmid entre as teorias de Rogers e Lévinas. perspectivas que são mais afins à fase experiencial da

225 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 221-230, mai-ago, 2017
Iago C. A. & José C. F.

obra Rogers, de acordo com a sistematização exposta por escritos de Schmid (2012), quando, ao discutir política,
Moreira (2007; 2010a), o que justifica tal aproximação. concebe as relações sociais apenas como relações pesso-
Com tal compreensão de pessoa, a tendência atualizante ais (face a face).
não é mais o único axioma da ACP, mas também a rela- Entretanto, de forma paradoxal, é, justamente, este
cionalidade/interconectividade (Schmid, 2000; 2008). Isso conceito que possibilita fazer uma releitura da obra ro-
faz com que se considere na ACP uma tendência passiva geriana, compreendendo, de modo mais profícuo, a par-
e certa vulnerabilidade originária à presença do outro. ticipação do Outro na constituição da subjetividade hu-
Para ele, este aspecto, que foi trabalhado por Rogers de mana. Se, em Rogers (1961/2009), vemos uma hiperboli-
forma quase sutil, precisa ser melhor articulado em um zação da autonomia no sujeito, observamos em Schmid
novo conceito, da mesma forma como é necessário fazer (2001a, 2005, 2006) uma ênfase nos aspectos relacionais
com as atitudes facilitadoras. Como Rogers (1980/1983) de forma a contrabalancear esta díade. Assim, se para
não teorizou o suficiente na “fase coletiva” de sua obra, Rogers (1957/1994) a relação psicoterapêutica é conce-
é preciso, agora, pôr esta dimensão coletiva de forma evi- bida, principalmente, como um elemento clínico e com
dente em toda a teoria rogeriana. Isso se constitui como consequências, sobretudo, para a outra pessoa, o cliente,
uma aufhebung, isto é, uma superação por meio da con- para Schmid a autorrealização do Eu está diretamente vin-
servação, ou seja, uma transcendência (Schmid, 2001a). culada à realização do Outro: “Diálogo não é consequên-
Nas palavras de Schmid, a “Presença pode ser entendi- cia de uma experiência, não é cognição, a descoberta da
da como uma ‘Aufhebung’ das atitudes básicas: elas são socialidade. Ao contrário, diálogo é fato primário na con-
preservadas assim como dissolvidas ao ser superadas e dição humana, uma ocorrência original3” (Schmid, 2006,
transcendidas” (Schmid, 2001a, p. 224, tradução nossa2). p. 247, tradução nossa). São concepções como esta que
A questão é que, em alguns momentos, isso parece ser fei- embasarão as afirmações de Schmid de que a tendência
to por Schmid, sufocando o Rogers histórico e suas con- atualizante não pode ser o único axioma para a transfor-
cepções individualistas; nestes momentos, quando, por mação psicoterapêutica, mas que a ela deve-se adicionar
exemplo, equipara o outro rogeriano ao outro levinasiano a interconectividade como fator de constituição da pes-
sem apresentar as devidas justificativas, sua teoria parece soa. Trataremos mais acerca disto adiante, quando apro-
dar um salto sem oferecer bases teóricas que o justifiquem. fundarmo-nos nas bases teóricas de Schmid.
Para Schmid (2003), Rogers desde o início de sua Assim, Schmid (1998a) concebe que o Outro é a ver-
obra, estabeleceu uma virada de paradigma, colocando dadeira questão para a ACP. Carl Rogers teria preparado
a pessoa do cliente como prioridade no tratamento psi- diversos caminhos em direção a uma saída da egologia
cológico, em detrimento de preconcepções nosológicas, e muitos deles ainda estão à espera de serem concretiza-
por exemplo. Rogers priorizou o relacionamento com o dos (Schmid, 2000). Por conta desta última afirmação, é
cliente, em vez de técnicas preconcebidas. De fato, apesar possível dizer que o “uso” que Schmid faz da obra de Ro-
de enfatizar os aspectos individuais, Rogers (1942/1974; gers é paradoxal, pois ora parte do reconhecimento desta
1957/1994; 1970/2001; 1961/2009) denotou a importân- limitação, ainda que poucas vezes o diga, ora avança em
cia das relações interpessoais na transformação pessoal, direção às filosofias de Buber e Lévinas, parecendo igno-
de tal forma que se pode afirmar que a ACP representou rar qualquer diferença. Este último aspecto pode se evi-
uma ética social, muito mais do que um método de tra- denciar em afirmações como: “Uma relação terapêutica,
balho psicoterapêutico, como afirmou Amatuzzi (2010). então, como definida por Carl Rogers, é provavelmente
Para a mudança de perspectiva que Schmid quer efe- a melhor descrição de uma relação de encontro deste ti-
tuar, a sua maneira de conceber a ACP faz todo sentido. po na literatura4” (Schmid, 2001a, p. 223, tradução nos-
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

Entretanto, convém destacar, não é esta a forma como sa), referindo-se à concepção de encontro, de Buber. Em
está posta em Rogers. Este (Rogers, 1951/1975) focou seu nossa leitura dos seus textos, sentimos falta de maiores
trabalho, principalmente, na mudança da personalida- justificativas para tais desenvolvimentos e, em nossa
de. Schmid (1998a), no entanto, é responsável por vin- perspectiva, isto pode desconsiderar diferenças concei-
cular todas as características da ACP a um conceito, ou tuais e teóricas que podem acarretar incoerências tam-
melhor, a uma ontologia, mesmo que o faça para tentar bém na prática da ACP. Portanto, trata-se, agora, de focar
abandonar uma egologia que foi alvo de críticas a Rogers na perspectiva do Outro, ou em uma nova abordagem da
(Freire, 2002). Em nossa perspectiva, se Schmid (1998b) alteridade na ACP. Neste momento, a figura de Lévinas
vai a Buber e Lévinas (1961/2008) em busca de uma saí- (1982/2007; 1961/2008) surge como um pensador muito
da do ego e de um novo modo de lidar com a alteridade, importante. Com Lévinas, toda atividade humana é, em
ao propor outra forma de conceber a pessoa, ele também
centraliza toda a sua teorização neste conceito. O engo- 3
“Dialogue is not a consequence of an experience, not the cognition,
do deste artifício pode ser contemplado até mesmo nos the discovery of sociality. On the contrary, dialogue is a primary fact
in the human condition, an original occurrence.”
“‘presence’ can be understood as an ‘Aufhebung’ of the basic attitu-
2 4
“A therapeutic relationship, then, as defined by Carl Rogers, is pro-
des: they are preserved as well as dissolved by being superseded and bably the best description of an encounter relationship of this kind
transcended.” in the literature.”

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 221-230, mai-ago, 2017 226
Peter Schmid e a Alteridade Radical: Retomando o Diálogo entre Rogers e Lévinas

si mesma, uma resposta ao Outro, toda ação é dotada de É preciso que a interioridade [...] produza um ser ab-
responsabilidade, como veremos no próximo item. solutamente fechado sobre si próprio, que não tira
dialeticamente o seu isolamento da sua oposição a
Outrem[...] É preciso, pois, que o encerramento do ser
4. Alteridade radical e ACP na proposta de Peter separado seja suficientemente ambíguo para que, por
Schmid um lado, a interioridade necessária à ideia do infinito
permaneça real e não apenas aparente, que o destino
Quando tratamos das articulações teóricas formu- do ser interior prossiga num ateísmo egoísta que não
ladas por Schmid (1998b; 2005) a respeito de Lévinas é contradito por nada de exterior, e que prossiga sem
(1982/2007; 1961/2008), é preciso que estejamos aten- que o ser, a todos os movimentos de descida na in-
tos para o modo como Schmid o faz, pois é com certa terioridade e ao descer em si, se refira, por um puro
raridade que encontramos citações de trechos da obra jogo da dialética e sob forma de correlação abstracta,
de Emanuel Lévinas e, quando ocorrem, são frases cur- à exterioridade. Mas é preciso, por outro lado que na
tas de textos pouco expressivos do trabalho do filósofo. própria interioridade que a fruição escava, se produ-
Apesar disto, Schmid faz referências a Lévinas em todos za uma heteronomia que incite a um outro destino
os seus artigos de língua inglesa a que tivemos acesso. diverso do da complacência animal em si. (Lévinas,
Corroboramos com Worsley (2006) quando ele aponta a 1961/2008, p. 141-142)
importância do trabalho de Schmid em relação à obra
de Lévinas, mas também, alerta para a necessidade de Para Schmid (2005), a subjetividade é comunidade
uma leitura mais profunda da ética da alteridade radi- desde o seu nascimento; ela é sempre resposta a outrem.
cal e uma melhor compreensão das implicações delas Entretanto, apesar de reiterar a primazia do Outro sobre
em relação à ACP. a constituição da subjetividade, como psicólogo clínico
Primeiramente, parece-nos que Schmid (1998b) parte mantém o seu olhar nas características da subjetividade.
das críticas feitas por Buber a Rogers, quando do diálo- Schmid utiliza uma compreensão levinasiana da subje-
go entre os dois (Rogers & Buber, 2008). Buber afirmou tividade que o ajuda a promover uma saída de uma ego-
que um diálogo, tal como propunha a sua teoria, era in- logia, entretanto ele o faz para conceber uma outra noção
concebível à abordagem rogeriana porque ela trabalha- de homem, a pessoa.
va segundo uma relação que não é recíproca, pois am- Ainda com referência à primazia da ética sobre a on-
bos, cliente e psicoterapeuta, estão na psicoterapia para tologia, é preciso que tragamos à tona uma afirmação de
tratar do primeiro. Schmid (1998b), então, levando em Schmid (2001b), ao apresentar Lévinas, segundo a qual
consideração o conhecimento da ACP e a resposta e o o filósofo franco-lituano apresentou ideias radicais, “[...]
trabalho de Rogers, propõe que se trabalhe uma relação efetuando, de algum modo, uma mudança paradigmática
psicoterapêutica dialógica em que se leve em conside- similar à de Rogers – propagando profundamente a ideia
ração justamente o caráter diacrônico da relação. Des- da primazia do Outro5” (p. 8, tradução nossa). A referi-
tarte, Schmid (1998b) vai à busca das implicações da da frase pede atenção, pois, a princípio, equipara duas
filosofia dialógica de Emmanuel Lévinas para pensar a áreas diferentes do saber (Filosofia e Psicologia), além
psicoterapia como encontro e a terapêutica decorrente de apontar Rogers sob um aspecto diferente daquele que
deste. Portanto, não é do intuito do psicólogo austríaco Freire (2002) nos apresentou. Se o que Schmid quer é
transpor integralmente os pensamentos levinasianos pa- apontar para o ineditismo de Rogers nesta virada para-
ra o campo da Psicologia. Schmid (2001a) faz toda uma digmática, é necessário entender que ela se deu, princi- Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos
reconceitualização da noção de homem que estava em palmente, na Psicologia norte-americana e não constou
Rogers (1951/1975] 1961/2009; 1980/1983), ainda que se em uma mudança paradigmática para a ciência psicoló-
aproveitando de elementos rogerianos, e o faz de acor- gica como um todo.
do com uma perspectiva dialógica. Na sua concepção de Todavia, a Psicologia rogeriana se caracterizou, real-
sujeito, como uma pessoa, é possível descrever um ser mente, como um rompimento com uma prática que esta-
ambíguo em sua relação com o mundo; singular e sobe- va centrada nos métodos e no saber do profissional. Ro-
rano sobre o mundo, até mesmo autônomo e autossufi- gers (1942/1974) deu primazia ao cliente a quem atendia,
ciente e ao mesmo tempo radicalmente e inteiramente possibilitando-lhe o controle e a responsabilidade pelo
comprometido com o mundo (no sentido de estar sujei- processo psicoterapêutico. O trabalho do psicoterapeu-
to a ele). A relacionalidade encontrada em Schmid, tal ta consistia, justamente, em compreender o campo fe-
como a abertura referida em Lévinas (1961/2008), não é nomenológico do cliente de tal forma que ele se sentisse
negatividade para a subjetividade, mas suplemento ao livre para ser si mesmo. No caso de Lévinas (1961/2008),
mesmo tempo intrínseco a ela. Não é à toa que o filósofo, o filósofo deu um salto em direção ao Outro, procurando
em sua obra Totalidade e Infinito, trata, primeiramente
da separação para, então, apontar a relação com o infi-
“[...] in some ways executing a similar paradigm change as Rogers –
5

nito. Neste livro, Lévinas afirma que profoundly carries forward the idea of the priority of the Other.”

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Iago C. A. & José C. F.

escapar à ontologia. Como nos referimos anteriormente, conceito formulado por Lévinas (1982/2007). Quando
não era mais o ser que interessava à filosofia levinasiana, trata do terceiro homem, o filósofo chega a incluir toda
mas a alteridade e a relação com ela. Entretanto, e aqui a humanidade nele, requerendo do Eu uma atitude não
destacamos o perigo da afirmação de Schmid (2001b), somente ética, mas política, que visa à justiça não ape-
o Outro a quem Lévinas (1961/2008) se referia não é al- nas do Outro, mas de todos os seus Outros e dos Outros
guém palpável e capaz de ser compreendido. Ainda que destes. O mais próximo que Schmid (2012) chega disso é
ambos deem primazia a outra pessoa, eles não estão tra- quando considera a psicoterapia eminentemente política,
tando do mesmo elemento quando se referem à alterida- entretanto aqui ainda fala de relações grupais e pessoais,
de. A frase torna-se emblemática da forma como Schmid não atingindo ainda o âmbito da sociedade como um to-
(2001a, 2001b, 2001c, 2005) lida com as diferenças entre do, com suas relações institucionais. Em Schmid, ao que
Lévinas e Rogers. Em alguns momentos, parece que Sch- nos parece, o terceiro se manifesta, principalmente, para
mid se aproveita das palavras de Rogers para ir além do promover relações pessoais em grupos e, assim, dar no-
que ele poderia ter dito. Entretanto, o psicólogo austríaco va possibilidade ao trabalho grupal, de sorte que, para
justifica: faz questão de ultrapassar o que Rogers possa Schmid (2000), a psicoterapia de grupo deve tornar-se o
ter compreendido quando formulou sua abordagem. Há carro-chefe da Abordagem Centrada na Pessoa. Aqui, a
uma grande distância entre alteridade referida por Rogers ideia de terceiro se expressa como um suplemento ainda
e aquela indicada pela filosofia levinasiana (Freire, 2002), não explorado em sua potencialidade.
extensão que não precisa ser percorrida para o bem da
ACP, mas que lhe apresenta contribuições importantes.
Esta diferença precisa ser mais bem esclarecida nos tex- Considerações finais
tos de Schmid a fim de que não se corrompa a alteridade
dos textos levinasianos e rogerianos. Apesar disso, Sch- Apresentar uma teoria é sempre tarefa complexa, prin-
mid (2001a, 2005, 2006) utiliza bastante a ideia de alte- cipalmente de um ponto de vista acadêmico, pois este se
ridade de Lévinas. pretende sempre coerente e sem desvios desnecessários.
Para Schmid (2005), é preciso que o Eu não esteja alie- Como expressão de seu autor, por outro lado, a obra é ri-
nado do outro como verdadeiramente Outro para que ele ca em contradições e falhas, que funcionam como portas
seja pessoa em sua plenitude. A alteridade de que Schmid abertas e caminhos por serem ainda trilhados, possibili-
trata, na maioria das vezes, é um outro inalcançável, que tando novas vias de desenvolvimento do conhecimen-
não precisa ser compreendido, mas reconhecido em sua to. Apresentar a proposta teórica de Peter Schmid (2000;
potencialidade. Entretanto, é preciso apontar, também, 2003) é também apontar caminhos inacabados e que se
que Schmid fundamenta muitas de suas ideias na filoso- apresentam a nós como provocação, estradas que seguem
fia dialógica de Buber (1979), como a própria noção de os vestígios já lançados por Rogers (1951/1975; 1961/2009)
reconhecimento e confirmação do Outro, enquanto que, e também por Lévinas (1982/2007; 1961/2008).
levinasianamente, seria interessante trabalhar com a con- O trabalho de Schmid (2001a; 2008; 2012) deve ser
cepção de infinição em vez de confirmação. Isto significa considerado como um esforço em direção ao Outro ver-
ir em direção à diferença que há no outro e oferecer em- dadeiramente outro, como trata o psicólogo austríaco. Há
patia, possibilitando que o cliente também caminhe nes- impasses a serem superados, mas há também os que de-
ta direção, o que não é uma necessária confirmação do vem ser mantidos. Schmid ainda opera uma vinculação
que ele é. Pode ser, até mesmo, uma negação. É um risco tênue entre as ideias de Buber e as de Lévinas e, vez por
necessário na transformação de personalidade (Worsley, outra, observamos o psicólogo estabelecer uma relação de
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

2006). Além disso, Schmid também opera com ideias co- cooperação e de reciprocidade entre o Eu e o Outro; per-
mo as de cooperação e colaboração entre psicoterapeuta cebemos também que, na busca por enfatizar os elemen-
e cliente. Todavia, é preciso considerar que tais afirma- tos relacionais de Rogers (1961/2009), Schmid esquiva-
ções não ocorrem a fim de estabelecer um controle por -se do diálogo com as noções individualistas que há em
parte do profissional, mas procuram dar ênfase à relação Rogers (1951/1975; 1977/2001), inclusive omitindo-se de
psicoterapêutica. lhes fazer críticas.
Schmid (1998b) destaca que Lévinas se diferencia de Como já apontamos, assim como Schmid (1998b) vê
Buber, também, por apresentar a figura do terceiro, ou do em Rogers (1961/2009) caminhos por serem trilhados,
Outro do Outro, quebrando certa sincronia, dualidade e encontramos, ainda, elementos que podem e merecem
totalização que seria possível em uma relação a dois. Para ser melhor trabalhados a partir da obra de Schmid. Su-
Schmid, o terceiro nos apresenta um nós, o grupo, pois o as considerações acerca do processo de personalização e
Outro tem seus Outros e é responsável por eles. Assim, a a interconectividade abrem espaços para a discussão de
psicoterapia não pode ser uma redoma que aparta o su- como a sociedade reconhece e lida com a alteridade das
jeito do mundo, mas uma forma de ajudá-lo a lidar com pessoas, desde que se compreenda que esta comunidade
estas alteridades. Contudo, percebemos que a figura do não opera somente por meio de relações pessoais (face-
terceiro ainda é pouco utilizada em todo o potencial do -a-face), mas também por instituições sociais impessoais.

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 221-230, mai-ago, 2017 228
Peter Schmid e a Alteridade Radical: Retomando o Diálogo entre Rogers e Lévinas

Feitas estas considerações, é importante não repro- Miranda, C. S. N. (2012). Ética Radical e Psicoterapia Centrada
var a proposta de Schmid por sua inadequação integral na Pessoa: A Abertura à Alteridade Radical na Relação Te-
ao pensamento levinasiano, pois se tratam de campos rapêutica a Partir de Discursos de Psicoterapeutas sobre o
Inusitado em sua Prática Clínica. Dissertação de Mestrado.
de saber diferentes. Não seria coerente transpor as pa-
Universidade Federal do Ceará.
lavras de um campo a outro e nem é o que o psicólogo
intentou. O interessante é perceber como Peter Schmid Moreira, V. (2007). De Carl Rogers a Merleau-Ponty: A Pessoa
busca na filosofia de Emmanuel Lévinas fundamentos e Mundana em Psicoterapia. São Paulo: Annablume.
implicações para oferecer uma outra forma de lidar com
Moreira, V. (2010a). Revisitando as Fases da Abordagem Centrada
a alteridade na teoria e na prática da ACP. Quanto a isto, na Pessoa. Estudos de Psicologia (Campinas), 27(4), 537-544.
consideramos que as portas e as janelas foram abertas e
outras ainda estão por ser; ainda há um rastro a seguir, Pivatto, P. S. (2003). A Questão de Subjetividade nas Filoso-
não necessariamente em direção à filosofia levinasiana, fias do Diálogo: O Exemplo de Levinas. Veritas: Revista
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul,
mas rumo a uma relação que considere, cada vez mais, o
48(2), p. 187-196.
Outro em sua plenitude, e não somente o eu.
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Iago C. A. & José C. F.

Schmid, P. F. (2000). ‘Encountering a Human Being Means


Iago Cavalcante Araújo - Mestre em Psicologia pela Universidade Fe-
Being Kept Alive by an Enigma’ (E. Levinas). Prospects on deral do Ceará, Professor do Curso de Psicologia da Faculdade Metro-
Further Developments in the Person-Centered Approach. politana da Grande Fortaleza (FAMETRO) e do Curso de Psicologia da
In J. Marques-Teixeira & S. Antunes, S. (Ed) Client-Cente- Faculdade de Tecnologia Intensiva (FATECI). E-mail: iagopsi@gmail.com
red and Experiential Psychotherapy (p. 11-33). Linda a Ve-
lha: Vale & Vale. José Célio Freire - Psicólogo, Mestre e Doutor em Psicologia, Professor
Titular do Curso de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psi-
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Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 221-230, mai-ago, 2017 230
A Fenomenologia do Asco de Aurel Kolnai: Contribuições para o Esclarecimento Fenomenológico dos Afetos

A Fenomenologia do Asco de Aurel Kolnai:


Contribuições para o Esclarecimento
Fenomenológico dos Afetos

Aurel Kolnai’s Phenomenology of Disgust:


Contributions to the Phenomenological Clarification of Emotions

La Fenomenología del Asco de Aurel Kolnai:


Contribuciones a la Clarificación Fenomenológica de las Afectos

Yuri Amaral de Paula


Tommy Akira Goto

Resumo: Historicamente, o movimento fenomenológico esteve marcado por uma grande variedade de investigações dirigidas à
elucidação da afetividade e de vivências afetivas particulares. Os primeiros fenomenólogos foram responsáveis por um conjunto
amplo de análises sobre as vivências afetivas. Muitas dessas análises foram negligenciadas e continuam sendo pouco discutidas.
Compartilhando o mesmo posicionamento conceitual e metodológico desses autores, temos o trabalho de Aurel Kolnai sobre
os sentimentos hostis, escritos na década de 1930. Sendo assim, objetivamos reconstituir a análise fenomenológica do asco de
Aurel Kolnai presente em seu ensaio denominado “O Asco” de 1929. Para isso, nos baseamos nos critérios e procedimentos
metodológicos sistemáticos da pesquisa bibliográfica, partindo da análise do mesmo texto em duas traduções distintas. Com isso,
apresentamos um breve resumo da trajetória biográfica e intelectual do autor e os diferentes momentos e análises específicas
contidas em seu ensaio, incluindo: a delimitação do asco e seus possíveis pontos de vista de análise, a análise fenomenológica
da angústia e do asco, os tipos de asqueriosidade física e moral, sua relação com os sentidos, com a vida e a morte. Concluímos
que a descrição fenomenológica dos sentimentos hostis possui utilidade e relevância para o cenário de debates fundamentais
ligado ao campo psi.
Palavras-chave: Fenomenologia; Afetividade; Afetos; Emoções.

Abstract: Historically, the phenomenological movement was marked by a great variety of investigations directed to the eluci-
dation of affectivity and of particular affective experiences. The first phenomenologists were responsible for a wide set of ana-
lyzes on the affective experiences. Many of these analyzes have been neglected and remain little discussed. Sharing the same
conceptual and methodological positioning of these authors, we have Aurel Kolnai’s work on the hostile feelings written in the
1930s. Thus, we aim to reconstitute Aurel Kolnai’s phenomenological analysis of disgust present in his essay entitled “Disgust”
from 1929. For this, we base ourselves on the systematic methodological procedures and criteria of the bibliographic research,
starting from the analysis of the same text in two different translations. With this, we present a brief summary of the biographi-
cal and intellectual trajectory of the author and the different moments and specific analyzes contained in his essay, including:
the delimitation of disgust and the possible points of view of analysis, the phenomenological analysis of anxiety and disgust,
the kinds of physical and moral disgustingness, their relation to the senses, to life and death. We conclude that the phenom-
enological description of hostile feelings has utility and relevance for the scenario of fundamental debates related to the psy- Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos
chological related areas.
Keywords: Phenomenology; Affectivity; Affects; Emotions.

Resumen: Históricamente, el movimiento fenomenológico estuvo marcado por una gran variedad de investigaciones dirigidas a
la elucidación de la afectividad y de las experiencias afectivas particulares. Los primeros fenomenólogos fueron los responsables
de un amplio conjunto de análisis sobre las experiencias afectivas. Muchos de estos análisis han sido descuidados y siguen sien-
do poco discutidos. Compartiendo el mismo posicionamiento conceptual y metodológico de estos autores, tenemos el trabajo de
Aurel Kolnai sobre los sentimientos hostiles escritos en los años treinta. Así, pretendemos reconstituir el análisis fenomenológico
del asco de Aurel Kolnai, presente en su ensayo titulado “El Asco” de 1929. Para ello, nos basamos en los procedimientos y crite-
rios metodológicos sistemáticos de la investigación bibliográfica, a partir del análisis del mismo texto en dos traducciones dife-
rentes. Con esto presentamos un breve resumen de la trayectoria biográfica e intelectual del autor y de los diferentes momentos y
análisis específicos contenidos en su ensayo, entre los que se incluyen: la delimitación del asco y los posibles puntos de vista del
análisis, el análisis fenomenológico de la angustia y el asco, los tipos de asquerosidad física y moral, su relación con los sentidos,
con la vida y con la muerte. Concluimos que la descripción fenomenológica de los sentimientos hostiles tiene utilidad y relevan-
cia para el escenario de debates fundamentales relacionados con las áreas psicológicas.
Palabras-clave: Fenomenología; Afectividad; Afectos; Emociones.

231 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 231-244, mai-ago, 2017
Yuri A. de P. & Tommy A. G.

Introdução mostra como valioso em nossa experiência. Cabe desta-


car ainda que essas três últimas posições foram herdadas
Desde seu surgimento ao desdobramento posterior, e revisadas por Husserl a partir do trabalho originário de
o movimento fenomenológico esteve marcado por uma seu mestre e amigo, o filósofo psicologista, Franz Brenta-
grande variedade de investigações dirigidas à elucidação no (1838-1917) (Ferran, 2013, 2015).
da afetividade e de vivências afetivas particulares. His- Ainda, nesse contexto de coesão metodológica e temá-
toricamente, isso é possível observar desde as obras fun- tica, destacam-se também o trabalho de outros três auto-
dacionais de Edmund Husserl (1859-1938), com os dois res, sendo eles Dietrich von Hildebrand (1889-1977), José
volumes de suas Investigações Lógicas de 1900 e 1901, Ortega y Gasset (1883-1955) e Aurel Kolnai (1900-1973),
em que se destaca o §15 da Quinta investigação, sobre os que, embora tenham desenvolvido e publicado suas pró-
sentimentos (Ferran, 2015; Goto, Telles & Paula, 2016), ou prias investigações fenomenológicas em momento pos-
pelo estudo de Alexander Pfänder (1870-1941), denomi- terior à dissolução dessa formação original do grupo de
nado Fenomenologia da vontade de 1900 (Ferran, 2015). autores do primeiro período do movimento fenomenoló-
Nesse cenário, temos também os trabalhos posteriores co- gico, também podem ser considerados como parte desse
mo a fundamentação ontológica de base existencial das grupo por terem produzido análises sobre a esfera afetiva
tonalidades afetivas na obra de Martin Heidegger (1889- na mesma linha, compartilhado dos mesmos posiciona-
1976), bem como os primeiros trabalhos de Jean-Paul Sar- mentos citados (Ferran, 2015).
tre (1905-1980) sobre as emoções, escritos no interesse de Com isso, diante do vasto panorama de contribuições
formular uma psicologia fenomenológica (Calhoun & So- clássicas de autores da fenomenologia capazes de nos
lomon, 1996; Casanova, 2010; Sartre, 2008). oferecer compreensões sobre os múltiplos aspectos das
Entretanto, é impar destacar os trabalhos de toda uma chamadas vivências afetivas e considerando a possibili-
variedade de autores do “primeiro período do movimento dade de minimizar em parte esta lacuna de divulgação e
fenomenológico”, cuja contribuição original para a des- discussão, elegemos nesse estudo nos concentrar na con-
crição das experiências concretas inclui uma ampla e va- tribuição de Aurel Kolnai, cuja obra, significativamente
riada gama de análises complexas e detalhadas a respeito desconhecida no cenário brasileiro, contempla uma pe-
da vida afetiva, que, por múltiplas razões, acabaram sen- culiar atenção em relação aos chamados “sentimentos
do largamente negligenciadas e ofuscadas, de modo que, hostis”, isto é, às manifestações afetivas de ordem defen-
por consequência disso, continuam sendo pouco discu- siva que nos mostram a possibilidade cortar nossos laços
tidas, com raras exceções, em publicações referentes ao positivos com o mundo e seus objetos, tais como o asco,
campo da fenomenologia (Ferran, 2015, p. 329). Assim, a soberba, o ódio, o medo etc. (Ferran, 2013). O estudo
entre esses estudiosos considerados “largamente desco- sobre essa contribuição pontual também se justifica pela
nhecidos, apesar de suas detalhadas análises da vida afe- consideração de estudiosos especializados neste campo
tiva efetuadas nesse período”, escritas entre 1905 e 1925, a respeito da validade e rigor que as respectivas análises
cujos trabalhos defendiam todos, ao seu próprio modo, a descritivas possuem no interior do debate contemporâneo
“primordialidade da esfera afetiva e seu domínio próprio acerca dos afetos (Ferran, 2015; Quepons, 2014), também
de evidência”, temos: Alexander Pfänder (1870-1941), em função do possível esclarecimento para o campo da
Max Scheler (1874-1928), Edith Stein (1891-1942), Mo- investigação da psicologia acerca dos processos psicoló-
ritz Geiger (1880-1937), Carl Stumpf (1848-1936), Willy gicos básicos (Goto, Telles & Paula, 2016).
Hass (1883-1956) e Gerda Walther (1897-1977) (Ferran, Desse modo, o presente artigo tem por objetivo recons-
2015, p. 330-331). tituir a análise fenomenológica do asco de Aurel Kolnai
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

Esses “primeiros fenomenológos” (early phenomeno- presente em seu ensaio denominado O Asco, publicado
logists) se constituíram como um “grupo heterogêneo de originalmente em 1929, explicitando, em linhas gerais,
pensadores ativos durante esse primeiro período do mo- a sua estrutura de exposição bem como os distintos mo-
vimento fenomenológico”, que compartilharam, além de mentos a partir dos quais o referido autor discute no tex-
um período histórico e contexto geográfico comum em to os aspectos essenciais referentes às vivências afetivas
torno do “mestre” Husserl: 1) uma atitude metodológica, por ele analisadas. Contudo, neste artigo, deixaremos de
a saber, a redução eidética, concebida como via realista, lado por hora a exposição e discussão da última parte do
inspirada na fenomenologia de Husserl com as suas In- ensaio dedicada à tematização ética do asco, porque esta
vestigações Lógicas, 2) a consideração sobre o caráter es- parte escapa momentaneamente ao nosso interesse ligado
sencialmente intencional da consciência, incluindo as ao esclarecimento dos aspectos fenomenológico-psicoló-
próprias vivências afetivas, 3) a concepção e análise da gicos do asco. Assim, na efetivação do nosso percurso re-
fundamentação das vivências afetivas, consideradas como construtivo, nos baseamos nos critérios e procedimentos
atos não objetivantes, sobre atos objetivantes, 4) a con- metodológicos sistemáticos da pesquisa bibliográfica, tal
cepção a respeito da relevância do estudo das vivências como definida por Lima e Mioto (2007) e Salvador (1986),
afetivas para a fundamentação da ética por sua correlação de modo que nos propomos a reconstituir estritamente
essencial com os valores, isto é, com tudo aquilo que se as ideias presentes no texto a partir da análise do mesmo

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 231-244, mai-ago, 2017 232
A Fenomenologia do Asco de Aurel Kolnai: Contribuições para o Esclarecimento Fenomenológico dos Afetos

em duas traduções publicadas, nos idiomas inglês (Kol- ligado à atitude fenomenológica ou método, considerado
nai, 2004) e espanhol (Kolnai, 2013). no sentido amplo, da “redução eidética”, concebida en-
quanto procedimento de “analisar um fenômeno da expe-
riência, identificando suas características essenciais fren-
1. Breve trajetória biográfica e intelectual de Aurel te a fenômenos similares, descrevendo-os e estudando-os
Kolnai até chegar a captar os momentos constitutivos do mesmo”
(Ferran, 2013, p. 09), possibilitando, assim, “elaborar taxo-
Nascido em 1900 em Budapeste, à época parte do nomias e tipologias” que correspondessem rigorosamente
Império Austro-Húngaro, no seio de uma família judia ao modo de se manifestar à consciência dos fenômenos
secular e acomodada, Aurel Thomas Stein ao completar da esfera afetiva, analisados “até suas últimas consequ-
dezoito anos mudou seu sobrenome para Kolnai com ob- ências” (p. 13). Então, no marco desse pertencimento à
jetivo de obscurecer a sua origem judia, a fim de evitar a corrente filosófica da fenomenologia, “em torno da déca-
possibilidade de se tornar alvo ideológico no estado hún- da de 30, escreve Kolnai uma série de ensaios sobre os
garo de outrora. Com esse acontecimento, sinaliza, segun- sentimentos hostis” nos quais sistematicamente trata os
do Ferran (2013, p. 07), “uma constante ao longo de sua temas do asco, soberba e ódio.
vida: o vínculo íntimo entre seu devir vital e intelectual Com a mudança da situação sociopolítica na Europa
e os acontecimentos históricos mais agitados do século durante os anos 30, como afirma Ferran (2013), Kolnai
passado”. Tendo vivido as duas Guerras Mundiais, mo- transita para outra fase de seu pensamento precipitada
rado em vários países europeus, antes de se emigrar para pela “sombra do fascismo” especialmente sentida “na
os Estados Unidos da América, e, posteriormente, retor- Áustria, onde o partido nacionalsocialista [nazista] ob-
nado à Europa em meados dos anos 50, sua vida e traba- tém seus primeiros êxitos” (p. 14). Dessa maneira, “sob
lho intelectual estiveram decisivamente marcadas pelos a influência de pensadores sociais e políticos, ante a
acontecimentos de seu tempo. Sua extensa obra, aparen- iminente Segunda Guerra Mundial e a conseguinte emi-
temente heterogênea, à primeira vista, permite denotar gração à América do Norte” (p. 08), seguindo a tendên-
como “fio condutor o interesse do autor por questões mo- cia de sua precoce compreensão a respeito da seriedade
rais e sua preocupação pelo acontecer sociopolítico do sé- do momento sociopolítico em que vivia, passa o autor
culo XX”, bem como sua capacidade de se movimentar a se dedicar à escrita de uma série de artigos periodísti-
por “diferentes estilos e correntes filosóficas, de escrever cos e de livros voltados à denúncia, crítica e problema-
em vários idiomas – húngaro, alemão, inglês, francês e tização das questões políticas, sociológicas e culturais
espanhol – e de sobreviver a vários ecossistemas intelec- de seu tempo.
tuais, sem perder a agudeza intelectual e a originalidade Por fim, tendo-se mudado para o Reino Unido, encon-
própria dos grandes pensadores”. Assim, temos que Kol- trando um novo “ambiente dominado fortemente pela
nai expressou em sua obra uma evolução notável que se filosofia analítica”, Kolnai mais uma vez “deixa que sua
subdivide em quatro etapas principais. obra se imbua do espírito do tempo que lhe tem tocado
A primeira etapa de sua trajetória intelectual foi mar- viver”. No entanto, “apesar de que introduza elementos
cada pela psicanálise quando, aos 19 anos, esteve próximo próprios da nova corrente, não pode ser considerado co-
de figuras importantes do movimento psicanalítico como mo um representante do novo movimento”, mas que, se-
Sándor Ferenczi, na Hungría, e com Otto Rank e Sigmund gundo ele mesmo, permaneceu até o fim de sua carreira
Freud, em Viena. Interessado particularmente por suas como discípulo do movimento fenomenológico que de-
implicações culturais, escreveu uma série de textos que clarou ter marcado todo seu trabalho de modo significa- Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos
apresentavam considerações sociológicas desde a psica- tivo e contínuo (Ferran, 2013, p. 16-17).
nálise. Contudo, em função de um paulatino e definitivo Kolnai falece em 1973, deixando um conjunto amplo
desinvestimento em relação à psicanálise, em grande par- de obras publicadas em vida e também póstumas, sen-
te em função das descobertas seguintes ao longo de sua do estas em grande parte organizadas e publicadas por
continuada formação intelectual, denota Ferran (2013, seus colegas londrinos, encarregados da difusão de seus
p. 9), o autor encontrou “um marco conceitual muito mais textos. Entre elas, destacamos as principais: os ensaios
adequado para o desenvolvimento de seus interesses in- psicanalíticos denominados “A significação da psicaná-
telectuais”, que caracterizou a segunda etapa de seu pen- lise para a sociologia” (Die Bedeutung der Psychoanalyse
samento interessado pelo estudo e desenvolvimento de für die Soziologie) e “Psicologia do anarcocomunismo”
trabalhos ligados à fenomenologia. (Psychologie des Anarcho-Kommunismus); o livro de 1920
Motivado pelo mesmo projeto que os primeiros fe- denominado “Psicanálise e Sociologia. Sobre a psicologia
nomenólogos (embora, como vimos, não pertença a esse das massas e a sociedade” (Psychoanalyse und Soziologie.
grupo por razões de tempo e geografia), dirigido ao es- Zur Psychologie von Masse und Gesellschaft); o texto que
clarecimento de tipo realista a respeito dos problemas marca a transição da psicanálise para a fenomenologia
filosóficos ligados à ética dos valores, a partir do estudo publicado na revista Imago em 1925, denominado “Críti-
dos atos afetivos, se apropriou do mesmo embasamento ca e elogio da teoria freudiana da libido de Max Scheler”

233 Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica - XXIII(2): 231-244, mai-ago, 2017
Yuri A. de P. & Tommy A. G.

(Max Schelers Kritik und Würdigung der Freudschen Libi- maneira própria, unívoca e característica, e, por sua vez,
dolehre); seu estudo de doutorado “O valor ético e a rea- tão difícil de aclarar por meio de conceitos”.
lidade” (Der ethische Wert und die Wirklichkeit); seu livro Por essa razão, fica justificada para Kolnai (2013, p.
sobre o tema da sexualidade do ponto de vista do catoli- 34) a adequação de uma “verdadeira investigação feno-
cismo, ética e poder político de 1930 “Ética sexual: sen- menológica”, considerada capaz de delimitar a especifi-
tido e fundamentos da moral sexual” (Sexualethik: Sinn cidade acentuada do asco frente a outras vivências bem
und Grundlagen der Geschlechtermoral), seus ensaios da como a ampla extensão de seus objetos próprios. Assim,
década de 1930 sobre os sentimentos hostis, organizados antecipa uma distinção que irá descrever ao longo de seu
na obra “Asco, soberba, ódio. A fenomenologia dos senti- ensaio entre a esfera física (ou psicológica) e a moral (ou
mentos hostis” (Ekel, Hochmut, Haß. Zur Phänomenologie espiritual) em que “podemos encontrar, com leis diferen-
feinlicher Gefühle); seu livro publicado contra o nacional ciais de matiz, o mesmo asco”, de modo que a qualida-
socialismo, de 1938, que o lançou para a fama, denomi- de de asco correlacionada, o caráter de ser “asqueroso”,
nado “A Guerra contra o Ocidente” (The War against the propriamente dito, pode ser encontrado em ambas as
West), entre outros textos sociopolíticos como “Os Três esferas de modo “quase igual”, em função de uma iden-
Cavaleiros do Apocalipse: Comunismo, Nazismo e Demo- tidade essencial de conteúdo. Deste modo, compreende
cracia Progressiva” (The Tree Riders of Apocalypse: Com- o autor que existem traços dominantes do asco que se
munism, Naziism and Progressive Democracy); por fim, mantêm, apesar da distinção existente entre as esferas
o texto póstumo “Os modos de aversão comuns: Medo, particulares nas quais este se expressa, bem como diante
Asco e Ódio” (The Standard Modes of Aversion: Fear, Dis- da considerável amplitude de objetos próprios capazes
gust, and Hatred), que retomam as teses sobre os senti- de suscitá-lo e em relação aos quais se encontra a cada
mentos hostis formuladas durante os anos trinta (Ferran, momento referido.
2013, p. 08-17). Dessa forma, considera o autor que para atingir o ob-
jetivo de “delimitar rigorosamente o aspecto puramente
fenomenológico do asco” sua pesquisa deve guiar-se pelo
2. A fenomenologia do asco de Aurel Kolnai propósito metodológico de buscar captar, intuitiva e com-
preensivelmente, “a essência, a significação, a intenção
Como breve contextualização do ensaio O Asco (Der do asco e, por assim dizer, as leis que unem o mundo de
Ekel) de Kolnai (2013), temos que foi escrito em 1927 e seus objetos”. Ainda, antecipa que buscará concretizar es-
publicado no décimo volume do Anuário Jahrbuch für te objetivo a partir da comparação com outras vivências
Philosophie und phänomenologische Forschung, em 1929, afetivas como, em especial, a angústia e que irá discutir,
e atribui-se que tenha despertado estranhamento e curio- embora brevemente, “a importância e significação do as-
sidade em Husserl devido a sua temática. Precedendo ao co na ética” (Kolnai, 2013, p. 34).
texto de Kolnai (2013) encontramos uma nota publica-
da dos editores em que apresentam este trabalho como
exemplo exitoso da chamada corrente fenomenológica, 2.1 A delimitação do asco e seus pontos de vista de
inaugurada por Edmund Husserl com a publicação de sua análise
obra Investigações Lógicas de 1900 e 1901, em produzir
descrições a respeito dos sentimentos humanos. Ainda, Kolnai inicia a primeira seção do ensaio voltada à de-
consideram esses editores comentadores que, por meio da limitação do asco apresentando-o como vivência afetiva
análise fenomenológica do asco apresentada pelo referido pertencente à categoria das chamadas “reações de defe-
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

autor, ficaria indicado “de que maneira a fenomenologia sa” ou, segundo o autor, dito de modo mais delicado, dos
descobre valores e leis objetivas determináveis cientifica- “sentimentos de repulsa” (Kolnai, 2013, p. 34). Ou ain-
mente no que, como os sentimentos, parecia vago, flutu- da, em acordo com a expressão alternativa encontrada na
ante, subjetivo, caprichoso”, dessa forma, demonstrando tradução inglesa deste segundo termo (Kolnai, 2004, p.
sua capacidade de explicitar rigorosamente algo “tão in- 30), pertence aos “modos de aversão” (modes of aversion).
descritível a primeira vista” (p. 33). Dessa maneira, destacando outros afetos que fazem parte
Kolnai (2013, p. 33-34) introduz em seu ensaio o asco desta categoria ao lado do asco, como desprazer, desgosto,
como fenômeno relativamente pouco estudado em con- ódio, horror, angústia, medo etc., o autor nos apresenta os
traste com “interesse psicológico e metafísico” por outros “múltiplos pontos de vista” a partir dos quais “a investi-
afetos como ódio e angústia. Com isso, destaca que o pro- gação das diferenças entre uns e outros pode ser acometi-
blema do asco “oferece à investigação um território com- da”. Assim, considera ao todo, sete pontos de vista, “sem
pletamente novo, ainda que constitua uma parte essen- negar que entre alguns existe uma íntima relação e que
cial, diária e muito acusada de nossa vida sentimental”. tampouco são os únicos possíveis” (Kolnai, 2013, p. 34).
Descaracterizado por vezes com definições que não se Começando pelo primeiro ponto de vista denomi-
atentam ao conteúdo intuitivo particular desta vivência, nado como “esfera dos objetos” (intencionais), expõe o
denota o autor que o asco “possui uma qualidade de tal autor que o asco nunca se relaciona, com exceção da

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A Fenomenologia do Asco de Aurel Kolnai: Contribuições para o Esclarecimento Fenomenológico dos Afetos

sujeira, “com o inorgânico, o desprovido de vida”. Essa asco, pois “o asco, sem ter que conter a angústia, alude
delimitação, nos descreve, não está presente como condi- de alguma maneira à angústia, e, se bem erroneamente
ção em outras vivências tais como na angústia e no desa- – ainda que não por completo sem fundamento –, se o
grado. Considerando o segundo ponto de vista, referente considera às vezes como subespécie da angústia”. Con-
à “intencionalidade”, interpretada em termos de uma va- siderando este ponto de vista, apresenta também que “o
riação gradativa em escala qualitativa relativa à presen- desprezo, pelo menos na maior parte de suas formas,
ça bem definida até outra mais indefinida de um objeto assinala indiscutivelmente o asco” (Kolnai, 2013, p. 36,
presente à vivência, denota que tal presença bem delimi- grifos do autor).
tada de objeto “ocupa o primeiro plano no ódio e no des- Na sequência, com respeito ao ponto de vista da “cor-
prezo; se marca menos no asco; descende ao mínimo no poralidade”, denota que o asco está mais ligado ao corpo
mal humor e desaparece na incomodidade”. Ainda sob do que o ódio e a cólera. Ainda, sobre esta última, indica
esse ponto de vista ou categoria de análise, descreve tam- que “apesar da vivacidade dos fenômenos corporais que
bém: “uma maior flutuação do grau de intencionalidade acompanham a cólera, intervêm com papel mais essen-
encontramos na pena (uma ‘autêntica’ falta de ‘intencio- cial no asco as impressões sensíveis e o presságio de uma
nalidade’ é possível para o simples desprazer) e, estru- reação corporal (vômito), muito mais específica e concre-
turada de maneira muito distinta, na angústia” (Kolnai, ta” que os gestos expressivos da cólera como o golpear e
2013, p. 35, grifos do autor). arremessar algo. Contudo, alerta que o asco não deve ser
O terceiro ponto de vista de análise, chamado “cará- confundido com a própria náusea. E, denota que a an-
ter de ‘estado” ou, como encontrado no texto da tradu- gústia está mais ligada ao corpo do que o asco por conter
ção inglesa, “condition [Zuständlichkeit] of the subject” uma intrínseca direcionalidade intencional “ao próprio
(Kolnai, 2004, p. 31), remete ao traço gradativo ligado às corpo como tal, a sua integridade” (Kolnai, 2013, p. 36,
vivências afetivas enquanto “modalidade de toda a dis- grifos do autor).
posição atual do ânimo da pessoa”. Em outros termos, Por fim, temos o último ponto de vista destacado que
com esta categoria de análise busca determinar o grau diz respeito ao “caráter de resposta”, que remete ao traço
em que as vivências afetivas envolvem a totalidade da reativo de certas vivências afetivas que se caracterizam
disposição de ânimo (enquanto estado afetivo global) da como “verdadeiras ‘reações’, respostas adequadas, adap-
pessoa quando vividas de modo atual. Assim, sob esse tadas a impressões perturbadoras”, tais como o caso do
ponto de vista, analisa que “o ódio é mais ‘estado’ que asco e da angústia. Assim, tais vivências se mostram em
o desprezo, o asco mais que o ódio, a cólera mais que o contraste com outras marcadas pelo traço de maior “es-
asco”, sendo que “a cólera é, por assim dizer, plenamen- pontaneidade”, oposto ao sentido do “caráter de resposta”,
te ‘estado’; não menos que o mau humor” (Kolnai, 2013, como o ódio e o mal estar, que, segundo o autor, embora
p. 35, grifos do autor). tenham graus de intencionalidade distintos – o primeiro
Em seguida, realiza a análise do grau de “imediatidade “altamente intencional” e o segundo “apenas (...) inten-
ou primordialidade”, que remete ao traço de maior depen- cional” –, demonstram ambos uma maior espontaneida-
dência em relação à impressão sensível e, em relação in- de: “um buscando, escolhendo, perseguindo [seu objeto];
versa, uma menor relação com a apercepção da situação o outro, por assim dizer, crescendo, potencializando-se”.
objetiva como estado de coisas assim como menor deter- Dessa forma, em referência aos exemplos apresentados,
minação pelo conhecimento prévio e atitudes estimativas considera ainda o autor que enquanto o asqueroso e o te-
pré-estabelecidas da pessoa. Dessa maneira, estabelece mível, como qualidade intencional objetiva do asco e da
que o asco, assim como mais intencional, é mais imedia- angústia, respectivamente, as suscitam como reações es- Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos
to e sensivelmente determinado do que a cólera, assim pecíficas ao valor assim manifesto, o ódio flui, de forma
como em relação à aversão, sendo “que esta, por essência, mais imediata e direta, em direção ao odioso – que, se-
supõe, em grau maior, uma base consciente e supõe mais gundo o autor, tem algumas de suas objetivações possíveis
do que (...) [o asco] uma fundamentação consciente, uma na forma do inimigo, do mal ou mesmo do estranho –,
aquisição deliberada (aversão à moscas como portadoras caracterizando assim o sentido de maior espontaneidade
de enfermidades)”, dependendo de conhecimento adi- do ódio em contraposição à reatividade do asco e da an-
cional sobre o objeto, traço menos determinante no asco gústia (Kolnai, 2013, p. 37, grifos do autor).
(Kolnai, 2013, p. 36, grifos do autor).
Apresenta o ponto de vista relativo à “independên-
cia”, que, em sua perspectiva, caracteriza a “oposição 2.2 O contraste fenonomenológico do asco e da an-
ou resistência a fundar-se em outras reações mais am- gústia
plas de defesa”, isto é, compreende o traço de certas
vivências afetivas de serem independentes, no sentido Mostra-se relevante a essa altura explicitarmos a con-
de não se mostrarem acompanhadas de outras, sejam cepção de “angústia” (Angst) utilizada por Kolnai (2013).
associadas, fundadas ou contidas na mesma. Com isso Para o filósofo húngaro, trata-se a angústia (assim como
apresenta que a angústia é mais independente do que o o asco) de uma vivência intencional, ou seja, que contém

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Yuri A. de P. & Tommy A. G.

essencialmente uma referência objetiva em relação a qual Que se trate de algo próximo a minha existência, meu
a vivência de sentimento está dirigida, ainda quando na interesse ou saúde de minha alma ou de um interes-
forma de um objeto indeterminado, ou seja, “inclusive se alheio e que, mesmo assim, me seja caro, é coisa
quando às vezes se utiliza essa noção para referir-se a um completamente indiferente para essa propriedade da
sentimento imotivado e em aparência sem relação com intenção de dirigir-se a algo; enquanto que, sem dúvi-
nada” (Quepons, 2014, p. 180-181), “isto não muda o ca- da, não é indiferente que o estado mais típico de medo
ráter essencial de toda angústia: segue sendo angústia de seja o egoísta, o que se refere a si mesmo (uno mismo);
‘algo’ que produz angústia” (Kolnai, 2013, p. 37). Dessa enquanto que o medo por uma pessoa querida, por um
forma, segundo o autor: eu alheio, representa já uma espécie mais complicada
de sentimento. (Kolnai, 2013, p. 41)
A denominação “angústia” não deve aqui indicar uma
rigorosa diferenciação entre medo e angústia, excluin- Dessa maneira, compreende Kolnai (2013, p. 42) que o
do, portanto, de nosso estudo o medo ante os objetos conceito de angústia (ou medo), “em todos os casos, alu-
realmente perigosos. É certo que sob o nome de “an- de ao próprio bem ou ao próprio dano”, sendo, portanto,
gústia”, em sentido estrito, pode compreender-se o es- “inseparável do conceito de ameaça, perigo, necessidade
tado de medo imotivado, que não se relaciona estreita- de salvar-se ou de socorro”, ou seja, indica o interesse de
mente com nenhum objeto determinado e que flutua alcançar alguma forma de proteção frente ao que põe em
mais ou menos livremente; mas usamos a palavra em risco, pelo teor ameaçador ou perigoso presente no seu
seu amplo sentido, e a preferimos ao termo “medo”, objeto, o eu ameaçado. Ainda, dada essa essencial corre-
para conservar a representação do sentimento redun- lação da experiência de angústia com algo que se mostra
dante, pleno, de medo (pavor), a diferença do medo como ameaça ou perigo, denota o filósofo um componente
como simples “preocupação” ante a possibilidade de potencial que dela emerge: “a fuga ante um perigo” que
um fato indesejável ou a presunção de um perigo (ti- contém uma “intenção rigorosamente teleológica”, sen-
mor). Em geral, nos referimos à angústia “normal” – do “o membro final ou conclusão, a descarga impulsiva,
objetiva, ainda que seja desproporcional com o objeto impetuosa, da angústia”.
– “ante algo”. (Kolnai, 2013, p. 41)
Kolnai (2013, p. 42) indica também que “se nos sabe-
mos em completa segurança ante algo que por si mesmo
Com isso, a concepção de angústia de Kolnai (2013)
é perigoso, ameaçador, então a angústia descende ao pla-
se particulariza – “um pouco à contracorrente do exem-
no de um leve estremecimento (que já não é, em verdade,
plo predileto de Heidegger” (Quepons, 2014, p. 180) – por
nem ‘angústia débil’)”. Dessa forma, aponta a possibili-
considerar os referidos modos de presentificação como
dade de se dominar (até certo ponto) a estrita reatividade
parte de uma mesma vivência afetiva: seja como vivên-
contida como elemento instintivo na angústia ou medo
cia com objeto intencional explícito de modo consciente
diante de alguma objetividade real ou potencialmente
ou no modo de manifestação afetiva “sem motivo cons-
perigosa em função da “consciência da situação”, isto é,
ciente” (Kolnai, 2013, p. 37) e “que não se relaciona es-
da “convicção real de que nesta ocasião tem desapareci-
treitamente com nenhum objeto determinado e que flutua
do todo perigo”. Experiencialmente, exemplifica Kolnai
mais ou menos livremente” (p. 41). Tendo isso em consi-
(2013, p. 42), isto “se adverte na maneira de comportar-
deração, adentramos na exposição da segunda seção do
-se o homem – quase sempre isenta de todo rastro de an-
ensaio sobre o asco em que o autor realiza uma detalhada
elucidação da essência do asco a partir de sua peculiar gústia – ante às feras enjauladas”.
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

comparação com a angústia considerada como fenômeno Quanto à dupla intenção da angústia em se dirigir ao
intencional, explicitando a especificidade de cada afeto a objeto que a suscita e ao eu que se vê ameaçado pelo ob-
partir da descrição de seu modo intencional. jeto, considera o autor que essa está presente “ainda em
Sendo assim, em relação ao modo intencional da an- certos casos limites pouco claros; por exemplo: quando
gústia, descreve Kolnai (2013, p. 41) que é dupla, ou seja, eu tenho angústia ‘de mim mesmo’”. Neste caso, reflete o
“se refere, simultaneamente, a dois objetos completamente autor que estamos diante de uma patentização da “cisão
independentes: o objeto que produz a angústia e a pessoa intencional do próprio eu”, na qual o “eu material, real,
ou sujeito que a sofre”. Esclarece assim que na angústia eficiente” se divide em dois, “no qual a parte voluntária,
se vive em face de uma “ameaça de perigo, à ideia dela”, que está acima, ancorada no próprio interesse moral ou
mas que não se dá de modo deslocado e sem referência ao material, se vê ameaçada pela outra; por exemplo, pela
eu, “mas, evidendentemente, somente em atenção a mim impulsiva e passional”. Caso semelhante desta “cisão in-
mesmo, a minha pessoa”. Entrementes, essa referência a tencional do próprio eu” acontece, também, de acordo
si mesmo não impede que se viva também angústia ou com Kolnai, no “desprezo de si mesmo”, onde o proces-
medo a partir da ameaça a algo distinto da própria pes- so de divisão e referência intencional do eu para com si
soa, mas que está de alguma maneira relacionado a ela. mesmo se dá entre “um eu ideal ou formal e um eu ma-
Sobre isto, considera: terial ou essencial” (Kolnai, 2013, p. 42).

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A Fenomenologia do Asco de Aurel Kolnai: Contribuições para o Esclarecimento Fenomenológico dos Afetos

Da mesma forma, a dupla intencionalidade também se desvanece a potente e profunda corrente regressiva da
está presente no caso “angústia ‘imotivada’”, isto é, sem intenção até o sujeito, que temos observado na angústia”.
objetividade clara e que flutua livremente. Neste tipo de No asco, em relação ao seu objeto “ou também ao modo
estado afetivo, destaca Kolnai (2013, p. 43), “a referência como objeto se dá e oferece”, não temos essencialmente
ou retroversão ao próprio eu está psiquicamente reforça- uma relação objetiva com a própria existência do sujei-
da, potencializada”, expressa um papel mais dominante to, como temos na angústia; diferentemente, o essencial
na consciência atual, pois “o que ameaça, o estranho [o no objeto do asco é a sua constituição mesma ou, melhor
alheio], é vivido tanto mais profundamente, quanto mais dito, sua maneira de ser (Sosein). Com o propósito de ex-
é ‘desconhecido’, não indentificável, unicamente presu- plicar esta distinção, descreve:
mido ou suspeitado”. Contudo, reforçando sua posição
a respeito do caráter essencialmente intencional da an- Para compreender inteiramente esta diferença, repre-
gústia, nos diz que, “indubitavelmente, a intenção pode sentemo-nos o curso típico de um estado de angústia
dirigir-se até algo indeterminável – se bem somente em e de um estado de asco. No primeiro caso, o objeto,
raríssimos casos completamente indefinido”. uma vez “visto”, permanece intencionalmente igual,
Ainda sobre a intenção da angústia, explicita Kolnai e o sentimento se alça, cresce e aprofunda no pró-
(2013, p. 43-44) que esta se caracteriza pelo teor abstra- prio eu, seus estados, sua futura sorte: o objeto ame-
to de seu objeto, isto é, pelo sentido de certa indiferença açador forma o fundo constante, e a própria pessoa
à natureza intrínseca do objeto, a sua essência: “o peri- a agitada cena da intencionalidade. No caso do asco,
goso se pensa então somente como ‘perigo’ em geral, e a ocorre inversamente: enquanto existe, real ou inten-
própria pessoa somente como ‘unidade de existência’”. cionalmente, o estremecimento, a aversão, a gana de
Com isso, o autor pretende indicar que “a angústia nun- vomitar, intensifique-se ou debilite-se a presença do
ca destaca, em primeiro lugar, certo círculo de interes- objeto asqueroso, ainda assim, a ponta da intenção
ses da própria pessoa”, pois “o que está em questão é a se crava no objeto, por assim dizer, o analisa, se mete
totalidade, ou, melhor dito, a existência do eu”, invaria- em seu movimento e duração, apesar de que contra
velmente, independente de qual dimensão da vida total isso se produz uma rebelião que, às vezes, pode levar
da pessoa esteja ameaçada, seja sua sobrevivência física, ao rompimento brusco do contato e a desaparição do
seus meios de sua subsistência, sua posição social, sua asco. (Kolnai, 2013, p. 44-45)
liberdade etc. Sendo assim, mesmo em casos em que a
angústia se mostra mais fraca, “como consequência da Assim, por este seu momento analítico, Kolnai (2013)
distância ou da eficácia improvável do agente que a pro- descreve que “possui o asco uma função cognoscitiva”,
duz (...), sua referência está sempre, de algum modo, di- isto é, carrega em si a capacidade de “proporcionar ime-
rigida aos últimos e grandes interesses vitais” que apa- diatamente um conhecimento parcial de seu objeto, que
recem como ameaçados. Entretanto, por mais que o giro inclusive pode ser uma intuição exata” (p. 45), de modo
intencional que a angústia promove em direção ao próprio que “apreende o objeto de modo mais minucioso e pleno”
sujeito seja a sua marca essencial, Kolnai nos alerta que (p. 44) do que a angústia, que pode conduzir só posterior-
“nunca lhe falta, mesmo assim, certa apreensão intuitiva mente ao conhecimento do objeto. Ademais, se refere ao
do objeto” e ainda: “o que produz a angústia não são as sentido mais unitário de sua intencionalidade, como já
situações em si – ainda que possam ser algo misterioso, vimos, onde não existem dois polos, como na angústia,
insuportável, aflitivo –, senão objetos, imagens, estados, mas apenas um: o do próprio “objeto em sua plenitude
acontecimentos, em sua relação objetiva com o sujeito”. sensível”, que, ao ser referido pela intenção (aguda, por Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos
Conclui, assim, denotando, mais uma vez, a excepcional assim dizer) do asco, “pertence ao contorno do sujeito
possibilidade de suprimir a “descarga atual da angústia” que se pressupõe ao fundo” (p. 45).
a partir do “conhecimento da situação”. Encontramos assim o problema da “proximidade do
Concluída esta passagem do texto destinada à carac- objeto”, motivo este que ocupa um lugar central no asco,
terização fenomenológica da angústia, Kolnai (2013, p. segundo Kolnai (2013, p. 45-46, grifos do autor): “a pro-
44) passa a analisar o modo intencional do asco tomando ximidade não é somente motivo ou ocasião para o asco,
em consideração para isso a sua distinção com a angús- senão por sua vez um co-objeto do sentimento de asco.
tia e outros afetos análogos. Dessa forma, descreve com Constitui, como relação, a ponte entre a coisa que excita
relação à intencionalidade do asco uma direção distinta: o asco e a pessoa-sujeito que o experimenta”. Reforçando
enquanto na angústia, como vimos, encontramos uma in- também a ideia da proximidade presente no objeto asque-
tenção que está duplamente dirigida, simultaneamente, roso, destaca que “até as sensações de asco imaginárias
para o objeto que a produz e para sujeito que sofre a ação ou sem causa objetiva – sejam devidas à obsessão, sejam
do objeto, no asco temos uma direção que está marcada- provocadas voluntariamente – situam [e] supõem o ob-
mente “dirigida para fora”, determinando uma adesão ao jeto asqueroso imaginário, até onde seja possível, mui-
objeto que o suscita. Quanto a isso, denota também que to nas proximidades do sujeito, na esfera mais imediata
“apesar do efeito fisiológico, fortemente acusado, do asco, de seus sentidos”. Destaca-se, com isso, mais uma vez, a

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constituição mais intimamente ligada do asco aos con- que, como o asco, também “contém uma tendência es-
teúdos sensíveis da situação objetiva ao qual se dirige. pontânea (...) a seguir e escrutar seu objeto”. Ainda, em
Também relacionado à questão da pertença do objeto ao distinção com a angústia, em que “o objeto que a provo-
contorno do sujeito, descreve o autor: ca aparece ante ao sujeito como algo ameaçador, ‘mais
forte do que eu mesmo’ – ainda que no caso de crer-me
(...) o sentimento de asco, ao contrário da angústia, é capaz de rechaçar o ataque e inclusive vencer o agressor”,
um sentimento periférico, isto é, que se refere à pessoa declara, “o asco contém certa intenção depreciativa pa-
do sujeito, por assim dizer, em sua superfície, em seu ra o objeto, um sentimento de superioridade sobre este”.
tegumento, em seu sensório, de outra forma – talvez Desta forma, descreve o objeto apreendido pelo asco
como intenção secundária – ao trato digestivo supe- é algo que, essencialmente, não ameaça, mas perturba,
rior, cum grano salis, ao coração, mas não à existên- “se bem que uma simples perturbação por si mesma não
cia, ao estado total da pessoa. O estrato mais exterior produz asco por muito que se intensifique”. Por esse mo-
da pessoa-sujeito e o objeto asqueroso se mesclam as- tivo, “sempre temos por asquerosas coisas que não con-
sim, pois, “harmonicamente”, seja dito no mal senti- sideramos plenas e importantes, coisas que não há ne-
do. (Kolnai, 2013, p. 46) cessidade de destruir, nem das quais se foge, senão que,
mais bem, apartamos simplesmente de nosso caminho”.
Ainda, em relação à proximidade do objeto asquero- Ainda, dito de outro modo, “enquanto a angústia me obri-
so, descreve Kolnai que, além de determinar, “em grande ga a retirar-me e fugir do que me circunda, de minha si-
medida, sua ação (...), ademais, entra no caráter asque- tuação atual, o asco me leva simplesmente a limpar ou
roso do objeto – ainda que nunca somente – como uma escardear meu ambiente, meus arredores”. Com isso, te-
tendência a estar próximo, a querer acercar-se, pegar-se, mos também que, este movimento de retirar do espaço
não separar-se (...), como um oferecer-se descarada e de- circundante aquilo que afeta como asqueroso “implica já
senvoltadamente”. Em continuação, descreve, a partir de um voltar-se até fora, um ocupar-se do objeto, colhe-lo”
uma metáfora antropomórfica acerca da maneira própria (Kolnai, 2013, p. 48).
de afetar-nos do asqueroso, que este “nos sorri sarcástica- Também associado ao caráter paradoxal da intenção
mente, nos olha fixadamente” (Kolnai, 2013, p. 46), como do asco, descreve Kolnai (2013, p. 48), a respeito do “ma-
se falasse maldades e ofensas contra nós. tiz de desafio ou provocação, latente no asco”, que este
De maneira mais restrita do que o ódio, compara Kol- carrega também, “como elemento parcial algo semelhan-
nai (2013, p. 47), “o asco se produz, geralmente, como te ao convite, à insinuação, poderia-se dizer como uma
uma única reação possível que o objeto provoca de mo- isca” ou ainda como uma espécie de incitação sarcástica
do imediato”, sendo o objeto asqueroso “provocativo” e do nosso apetite pelo objeto. Sobre este momento de sua
se manifesta como mais próximo de nós do que o odioso. análise descritiva, afirma também que poderia parecer
Sendo assim, pelo caráter de provocação que contém, ma- que nos removemos ao modo fenomenológico de inves-
nifesta o objeto do asco “uma intenção dirigida ao sujei- tigação e passado ao psicanalítico. Entretanto, considera
to afetado, como se se preocupasse dele” (Kolnai, 2013, que ainda temos nos conservado “dentro da esfera feno-
p. 47), mas, alerta o autor, de modo distinto daquela da menológica”, porque se pode confirmar claramente “que
perseguição ou ameaça por parte do objeto da angústia, é peculiar do asco um afastamento, não somente do ob-
que é, como vimos, a sua motivação básica. jeto asqueroso, senão de uma suposta atração do sujeito
Kolnai (2013, p. 47) ao tomar em consideração o “modo pelo objeto”. Sobre isso, apresenta que:
como se aproxima de nós ‘o asqueroso’”, descreve aqui-
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

lo que nomeou como “o paradoxo do asco” que consiste (...) assim como o desejo de fugir, no medo, pressupõe
em ser um sentimento de defesa do sujeito “a algo que a possibilidade evidentemente que o objeto temido
lhe afeta univocamente, e que, por assim dizer, tem uma possa chegar perto de mim ou alcançar-me com seu
tendência até ele, escruta [e] investiga o objeto em toda efeito e lastimar-me, assim a gana de vomitar pressu-
sua essencialidade, em lugar de desdobrar-se até o esta- põe também a possibilidade de que o objeto asqueroso
do da pessoa da pessoa do sujeito”. Assim, este parado- chegue, de algum modo, ao meu estômago, sobretudo
xo do asco consiste em possuir uma tendência de se em- a minha boca e assim o estremecimento do asco – que
brenhar, de se ligar intimamente ao mesmo objeto que, aparentemente está menos condicionado fisiológica
teleologicamente, enquanto sentimento de defesa, tende e corporalmente e por isso é mais intencional que o
a buscar um afastamento. estremecimento da angústia – pressupõe um possível
O asco, tal como considera Kolnai (2013, p. 47), se situa contato, uma aproximação que não seria devida ao ob-
em uma posição intermediária entre a angústia e o ódio, jeto asqueroso aproximando-se, senão a mim mesmo
considerando que a angústia “tende a soltar-se e despren- ao sentir certa atração até ele. (Kolnai, 2013, p. 49)
der-se do objeto que lhe provoca” e que o ódio constitui
um querer “aniquilar seu objeto ou, ao menos, debilitá-lo Assim, pode-se notar no asco que “em sua lógica interna
ou transformá-lo em um sentido parecido ao aniquilamento”, está contida a possibilidade de uma apreensão positiva do

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A Fenomenologia do Asco de Aurel Kolnai: Contribuições para o Esclarecimento Fenomenológico dos Afetos

objeto – seja apalpar-lhe ou consumir-lhe ou colher-lhe”, especial” (Kolnai, 2013, p. 53). Na continuidade, afirma
de modo que se poderia falar “nos termos psicanalíticos: o autor que, precisamente, “muitos objetos asquerosos
o asco é mais originariamente ambivalente que a angús- são daninhos ou perigosos, sem conter, contudo, esse
tia”, pois pressupõe por definição algo como “a fruição, gesto franco e aberto de ameaça, próprio dos objetos ‘te-
reprimida, do objeto que o provoca”. Todavia, não se pre- míveis’ em sentido estrito”, sendo que “temível” seria a
tende indicar que “o asco seja, em absoluto, expressão ou propriedade objetiva essencial e intrínseca da angústia,
consequência dessa repressão ou nada mais que aquele segundo sua compreensão. Dessa forma, especifica que
prazer mesmo”, mas apenas que essa ambivalência carac- existe uma “entonação sentimental” bastante notável na
teriza uma de suas facetas. Por fim, cabe notar que essa angústia que se expressa “ante aos perigos ocultos, furti-
mesma ambiguidade, “ajuda a explicar a peculiaridade vos, imprecisos, que não se assemelha em nada ao asco”
do asco, que é produzido pelo objeto como defesa contra e também que, inversamente, “a produção do asco exi-
ele e, sem embargo, se dirige intencionalmente ao ser do ge fatores muito distintos que o de uma ameaça pérfida,
objeto asqueroso e não a própria existência e ‘salvação’ a qual pode faltar completamente na presença do objeto
do sujeito” (Kolnai, 2013, p. 50, grifos do autor). asqueroso” (Kolnai, 2013, p. 53).
Com isso, resulta clara a diferença de que, enquanto Kolnai explicita também que o objeto asqueroso guar-
a angústia contém uma intenção preponderantemente di- da em seu modo de aparecer “tanto um declive até o re-
rigida a existência do sujeito, que “enche, invade incom- côndito, oculto, dissimulado, impenetrável e suspeito
paravelmente mais a pessoa, se apodera mais do estado como o descaramento, a importunidade, a intrusão, a in-
total da alma que o asco”, no asco se observa como o pri- citação ou tentação”, “ao mesmo tempo algo chocante e
mariamente determinante “o inteiro conteúdo de ser do misterioso” (Kolnai, 2013, p. 53). Em seguida, destaca que
objeto”, ou ainda, a maneira de ser do objeto, sua cons- o asco se mostra como perturbação derivada da “proxi-
tituição mesma, “condicionada pelo fator existencial da midade forçada que brota da maneira de ser do objeto”,
proximidade, da periferia do sujeito dado” e que “se rela- carregando, “ao mesmo tempo, um matiz secundário de
ciona com uma ‘seção’ qualquer da existência”, possuin- reserva, de espreita” em relação ao objeto e, com isso,
do, por outro lado, um fundo existencial mais impreciso, por este “matiz defensivo”, fica expresso seu modo espe-
“pois ‘perturbação’ supõe referência à própria existência, cífico de referência à existência, “acaso não muito vaga e
se bem no asco não é primária e determinante”, nem di- geral”, tendo em vista que não está em absoluto isento de
rigida a sua totalidade, como na angústia. Assim, embo- uma preocupação com a própria existência (Kolnai, 2013,
ra ambos tenham seu foco em um objeto exterior, apenas p. 53-54). Contudo, importa precisar “somente que esta
o asco “se detém nele, se ocupa dele e de sua essência”, referência intencional à existência não se dirige à situa-
enquanto a angústia primordialmente “se ocupa da exis- ção própria (ao estado próprio!), sob a eficácia do objeto,
tência do sujeito sob a ação do objeto perigoso”. Por essa senão à proximidade do objeto, tomada no sentido de per-
característica, o asco também se parece com o ódio “em ceptibilidade sensível, ‘palpabilidade’, possibilidade de
sua tendência a penetrar e internar-se no objeto” (Kolnai, uma relação funcional, intimidade e comunidade” (Kol-
2013, p. 51-53). nai, 2013, p. 89-90).
Analisando a relativa demora em decidir-se entre uma
tomada de posição positiva ou negativa a respeito de seu
objeto, em função dessa latente ambivalência relativa ao 2.3 Os tipos de asquerosidade e a relação do asco
objeto asqueroso, considera Kolnai que isso se encontra com os sentidos, a vida e a morte
em dependência “de que o núcleo central do sentimen- Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos
to de asco está constituído pela percepção e a vivência Na terceira seção de seu ensaio denominada “O as-
da maneira de ser do objeto”, que configura um “sentir- queroso”, Kolnai (2013) dirige sua atenção mais uma vez
-se atraído, apesar de tudo, pelo objeto”, por onde “se à qualidade objetiva constituída pelo asco, dessa vez pas-
insinua uma sombra de intenção de reunir-se com ele”, sando pela explicitação de sua relação com os sentidos,
mas que o sujeito asqueado também sente, simultânea passando também por uma extensa descrição dos princi-
e consequentemente, como repulsivo, isto é, como algo pais tipos experienciais de objetividades asquerosas1 na
que tende a querer afastar de seu ambiente imediato. De esfera física e moral tal como opera em sua delimitação.
modo distinto, na angústia se observa algo que “parte da Por fim, apresenta sua análise reflexiva a respeito da re-
inquietude pela própria existência, a respeito da qual o lação do asco com a vida e a morte.
ser estranho se anuncia e manifesta, imediatamente, já in
statu nascendi como algo ameaçador que devemos evitar” 1
Em função do nosso objetivo meramente reconstitutivo, citaremos
apenas um exemplo de cada esfera de asquerosidade, física e moral.
(Kolnai, 2013, p. 52-53). Não contemplamos neste trabalho todas as análises particulares dos
Assim sendo, Kolnai critica a concepção que consi- objetos típicos citados pelo autor em função de sua quantidade e de-
dera o asco seria uma simples variante da angústia, que talhamento que escapa à dimensão circunscrita de nossa exposição,
porém convidamos o leitor após essa introdução a entrar em contato
denota: “ante o asqueroso experimentamos angústia, só
com a sua obra para constatar e resgatar, em toda sua riqueza e rigor,
que uma angústia a que se acrescenta uma qualidade as suas análises sobre a variadade de objetos asquerosos.

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Tomando em consideração a relação do asco com os e, embora todos eles (visão, tato, olfato) apresentem uma
sentidos da esfera perceptiva (ou sentidos sensoriais2), limitação insuperável dentro de sua própria esfera per-
denotando sua característica fundamentalmente estética, ceptiva isolada, todos possuem “uma maior imediatidade
Kolnai destaca que “os principais condutores da sensa- que a audição não conhece” (Kolnai, 2013, p. 55). Sendo
ção do asco são o olfato, o tato e a visão”. Esclarece, de assim, “a figura, a cor, a superfície e a consistência, o odor
modo geral, a sua concepção de que o paladar é redutível e o sabor pertencem muito mais constitutivamente ao ob-
ao olfato, “sempre que se prescinda dos quatro sabores jeto percebido que sua ‘voz’ ou que o ruído que produz”,
fundamentais” (a saber, azedo, amargo, doce e salgado). que, consequentemente, “por assim dizer, somente toma
Com isso, explicita que “não existe [...] sabor asqueroso do objeto sua ‘origem’, e forma em seguida um ‘ente’ pe-
que não seja redutível claramente ao correspondente odor culiar e independente, inclusive um ‘mundo’ peculiar”.
asqueroso, se bem não pode negar-se que o matiz amargo, Dessa maneira, o autor declara que, “em geral, o asco não
adocicado, azedo do objeto especializam algo mais a sen- pode ser transmitido pela audição [...] posto que a audi-
sação de asco correspondente” (Kolnai, 2013, p. 54). Dessa ção nunca presenta por modo imediato ‘uma maneira de
forma, expõe que os sentidos sensoriais do olfato e paladar ser’ alheia, nem se aproxima do sujeito”. Por fim, deno-
ta que “todo asco auditivo é, em boa parte, asco moral;
(...) estão unidos muito intimamente e – deixando de pressupõe um número suficiente de relações associadas
lado as razões fisiológicas – o sabor se reduz mais ao ao objeto, que se dão secundária e não imediatamente”,
odor do que o inverso, porque o olfato – puramente com raras exceções (Kolnai, 2013, p. 55-56).
empírico – abarca uma classe de objetos muito mais Com isso, Kolnai (2013) adentra na descrição dos prin-
ampla e em geral merece com mais razão o nome de cipais sentidos sensoriais que formam suportes do asco,
“sentido”, em sua acepção estrita, porque desempe- embora não tenham todos a mesma força de suscitação.
nha melhor a função de descobrir objetos. (Kolnai, Inicialmente, apresenta o olfato – “compreendendo nele
2013, p. 54-55) também o paladar, em parte como reforço, em parte co-
mo estreitamento” – como “o verdadeiro assentamento do
Assim sendo, antes de adentrar a especificidade de ca- asco”, visto que ambos afetam “o trato digestivo superior
da um dos sentidos sensoriais apresentados como princi- de maneira imediatíssima”, suscitando com maior facili-
pais condutores do asco, considera brevemente a “relação dade a “gana de vomitar” ou a “náusea do asco” (“a qual,
peculiar entre o asco e o ‘doce’” como “um asco de ‘ordem por sua vez, alude à intenção de comer”, o que dimensio-
superior’”, que correspondente ao tipo de asquerosidade na a característica de ambivalência do objeto asqueroso).
moral despertado pela saciedade, pois o asco que pode Igualmente, denota que “os tipos asquerosos de odor são
ser produzido pelo sabor em questão “depende, por com- dados mais primários e intensos que quaisquer das outras
pleto, das circunstâncias especiais em que se saboreia e formas do asqueroso e necessitam muito menos o comple-
dos elementos associados ao sabor”. Dessa forma, denota mento de ideias ou percepções associadas”. Dessa manei-
que não é possível dizer, seguindo nossa intuição, que o ra, temos no sentido do olfato uma efetivação completa
doce seja asqueroso “por si mesmo” nem que ele “esteja da dimensão exigida da proximidade, devido ao “caráter
representado em maior medida entre os objetos asquero- íntimo desta modalidade sensível”, o que justifica a “sua
sos ao paladar que os demais sabores fundamentais”, po- importância primária para o asco” (p. 57).
rém concorda, contudo, que “talvez isto poderia dizer-se Kolnai (2013) posiciona o tato em segundo lugar na
mais bem do amargo” (Kolnai, 2013, p. 55). correspondente hierarquia dos sentidos sensoriais em sua
Na continuidade, Kolnai (2013) considera a impos- vinculação com o asco. Destaca, comparativamente, que
Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos

sibilidade de representarmos o asco a partir da audição. o tato é “também mais íntimo do que a visão e em certo
Segundo sua análise, isto se deve “não somente pela rela- sentido – ainda que não sugere nunca uma proximidade
tiva ‘incorporeidade’ da audição, senão também, em geral, tão íntima – acentua mais o fator de proximidade que o
porque lhe falta referência intencional ao objeto, conexão próprio olfato”. Em relação a isso, expõe essa semelhan-
direta com o objeto”. Sendo assim, nos explicita que “os ça do tato apontando para o “fator de contato, nessa ten-
sons e os ruídos unicamente nos ‘revelam’, nos dão notí- dência a apertar-se” que guarda a intenção do asqueroso,
cia de objetos, mas não nos ‘presentam’ no mesmo sentido distinguindo-o (p. 58). Do mesmo modo, podemos di-
que a visão, o tato e o olfato”, que podem captar e apreen- zer que mesmo a dimensão da proximidade de, maneira
der “os objetos materiais por distintos lados e aspectos” muito intrínseca em seus graus de apresentação, implica
de maneira importante o tato, pois o que toca e se adere
O autor não emprega especificamente o adjetivo “sensorial” em sua
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na periferia do sujeito se explicita primariamente a par-
terminologia a respeito dos sentidos referentes aos modos de sensi-
bilidade da esfera perceptiva. Todavia, tomamos a liberdade de em-
tir desse sentido mesmo. Kolnai (2013, p. 57-58) ressalta
pregar esse adjetivo para evitar as possíveis ambiguidades contidas ainda que na esfera do tato não se dão aquelas entona-
na palavra “sentido”, tomando em consideração a diversidade im- ções, por assim dizer, tão cruas, intensas e inequívocas
plícita de sentidos possíveis que a palavra guarda, quando tomada
como as “que existem nos odores”. Ainda assim, expõe a
de modo isolado, especialmente quando empregada no contexto da
fenomenologia. possibilidade de “sentir asco, por regra geral, ao receber

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A Fenomenologia do Asco de Aurel Kolnai: Contribuições para o Esclarecimento Fenomenológico dos Afetos

a impressão tátil do flácido, mucilaginoso, pastoso e, em ‘fervilhar’ e ‘pulular’” (tipicamente atrelado à germinação
certo sentido, do mole em geral”, assim como o pegajo- de insetos na matéria viva em decomposição), mas que
so, tíbio, viscoso, ceroso. Apesar disso, ainda explica que não se dão da mesma forma “tão acusada e inequívoca”
tais qualidades sensíveis do tato não são por si mesmas como os odores e, inclusive, nas sensações táteis susci-
asquerosas, “senão que estão melhor ‘predispostas’ que tadoras de asco (Kolnai, 2013, p. 59-60).
outras para realizar valores asquerosos”, denotando, com Deste modo, no asco visual, os elementos associados
isso, que no asco tátil, mais do que as sensações em si, se ao conjunto total do objeto visto, os aspectos contextuais
faz necessária a intervenção de outros elementos adicio- e, inclusive, aqueles ligados ao pensamento, tem uma par-
nais determinantes. ticipação muito maior na sua determinação, dependendo
Para ilustrar isso, o autor destaca o “podre” que para assim de modo primordial “da constituição mais prolixa”
ele parece ser “o protótipo do asqueroso”. Então, convoca- e particular de seu objeto, do que o asco tátil e olfativo.
-nos a pensar “no asco que sentimos ao tocar (eliminado Reconhece ainda que “a visão fornece uma compreensão
o odor) pus, supurações, carne fétida e decomposta” e, de tal sorte ampla do objeto que, apesar da falta de ‘inti-
expõe que há um odor muito próprio, específico e pesa- midade imediata’ nela, todavia é capaz de transmitir uma
do correspondente à putrefação, mas no que diz respeito qualidade autêntica, sui generis, do asco”, que “alude à
ao tato, “o asco se produz por virtude de certas proprie- qualidade olfativa do asqueroso, mais imediata e primi-
dades táteis de consistência, intermediárias, se bem que gênea” (Kolnai, 2013, p. 60).
muito características”. Enfim, remetendo ao “fator de con- Seguindo sua análise, adentra Kolnai (2013, p. 60) em
tato” presente no asco tátil, destaca “outra forma princi- um exame dos objetos típicos do asco físico, isto é, aque-
pal de união íntima, que ocupa o segundo lugar ao lado le tipo de asco “produzido, principalmente, por impres-
da recepção de alimentos”: “a esfera da sexualidade, que sões sensíveis”, descritos “sobre a base de um método
também proporciona um grande número de motivos de de divisão puramente empírica”, a saber: a putrefação,
asco”, apesar de que sua relação com este seja conside- os excrementos, as secreções corporais, a sujeira, certos
rada “mais frouxa, ou, pelo menos, menos típica e exem- animais (os insetos, principalmente), certos alimentos, o
plar” que a esfera dos alimentos. De toda forma, descre- corpo humano (em função de sua proximidade – real ou
ve “o motivo do ‘íntimo contato com uma matéria viva aludida –, deformação, enfermidade ou ainda por uma
estranha’” como central na sexualidade, sendo, também aproximação sexual indesejada), e também certo tipo re-
por isso, uma esfera potencialmente suscitadora do asco lacionado à chamada “fecundidade excessiva”.
(Kolnai, 2013, p. 58). Destes objetos fisicamente asquerosos, analisados por
Por fim, a respeito da relação dos sentidos sensoriais Kolnai (2013, p. 60-61), destacamos a putrefação, em que
com o asco, expõe Kolnai (2013) o lugar da visão, con- “estão incluídos: a decomposição de um corpo vivente, a
siderando que esta “nos presenta o objeto de um modo corrupção, a desintegração, o odor cadavérico, e, em geral,
distinto do tato e do olfato”, pois o sentido visual “é ca- o trânsito da matéria viva ao estado de matéria morta”.
paz de nos fornecer uma imagem do objeto mais variada, Com isso, explicita que “não é este último estado o que
mais ampla e mais ‘adequada’ – ‘ver’ algo quer dizer ‘co- propriamente produz o asco”, pois “o inorgânico, com efei-
nhecê-lo’ em um sentido muito distinto que ‘cheirar’ ou to, não produz asco” (com exceção da sujeira, como dito).
‘tocar algo’”. Contudo, estabelece a distinção a respeito Assim sendo, “a nota de asquerosidade reside especial-
da “impressão visual” declarando que ela não é capaz de mente no processo da putrefação e na coisa que a sofre”,
nos conduzir como o tato e o olfato “a uma região essen- de modo que “o morto, quando se presente simplesmen-
cial do objeto”. Em semelhança à “relação estreita entre te como algo vivo que tem deixado de funcionar, nunca é Artigo - Estudos Teóricos ou Históricos
o ver e o conhecer discursivamente”, destaca Kolnai que asqueroso”, pois “é necessária, para produzir asco, uma
se pode constatar uma relação “entre o cheirar ou apal- dissolução substancial, um processo duradouro, ao me-
par e esse advertir, perceber, ‘sentir’, que pode ser surdo, nos intencionalmente, que, por assim dizer, deve ser, por
unilateral, ‘irresponsável’ frente ao objeto, mas que, ape- sua vez, uma ‘manifestação de vida’”. Dessa forma, expli-
sar disso, pode penetrar muito profundamente no obje- cita “a relação do asco com o vital positivamente, com o
to” (p. 58-59). animado”, dado que “indubitavelmente, à dissolução da
Neste sentido específico, na análise de Kolnai, o tato vida, que há na putrefação, está associado também um
se aproxima mais da visão do que o olfato, porque expli- certo – muito notável – aumento de vida, uma patentiza-
ca que “a sensação visual nos procura o objeto somente ção acusada de que algo vivente ‘existe ali’”.
– ou, pelo menos, conforme a sua função mais sobressa- Ao analisar o asco moral, Kolnai (2013) explica que
lente – em sua estrutura e forma, com suas cores, linhas, pelo termo “moral” não compreende, rigorosamente, o
perspectivas, ou, pelo menos, algumas delas”. Ainda, mesmo que “ético”, “senão algo assim como ‘espiritual’
observa que há “uma verdadeira qualidade total e, por- – desde logo, também mais ou menos referido ao ético –,
tanto, um autêntico asco visual”, como se pode consta- em oposição ao “físico”. Dessa maneira, parte em uma
tar nas “cores e, em geral, ‘qualidades visíveis’ próprias tentativa de classificar “os matizes objetivos do asco” da
da putrefação”, também no caso da “impressão visual do esfera moral, embora considere que não poder aspirar a

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Yuri A. de P. & Tommy A. G.

mesma evidência e clara delimitação que aquela obser- tipo de vida superior, segundo o autor, ligada à dimensão
vada na classificação dos objetos fiscamente asquerosos. do espírito: a vida controlada, delimitada, individuada.
Sendo assim, entre os típicos objetos moralmente asque- Com isso, denota que “a vida inferior é mais propensa à
rosos, destaca: a “uniformidade pesada” (característica proliferação ilimitada, irreprimível, que para nada tem em
do asco por saciedade), a “vitalidade exagerada ou que conta a qualidade”, por isso “é, de certo modo, vida mais
se desenrola em lugar inadequado” (como a “sexualidade desnuda; é mais mero-viver”, no sentido de que mostra
desordenada”, a intelectualidade ou hiperrefinamento es- uma “hipertrofia desordenada, por assim dizer preten-
téreo, extravagante, fora de lugar e/ou sem finalidade), a ciosa”, com intenção de ser indefinida. Como ilustração
mentira (e, ainda, a mendacidade, falsidade, infidelidade, nos oferece a mescla indiferenciada, que “nos suscita a
traição etc.) e a “moleza” moral (p. 72-81). imagem da putrefação com sua tendência a extender-se
Em relação ao asqueroso moral, destacamos o exem- indefinidamente e a homogeneizar o todo”, também “a
plo da “sensação de desagrado produzida por uma uni- umidade, a pastosidade e pegajosidade que são elemen-
formidade pesada” (Kolnai, 2013, p. 72) – ou ainda, como tos do asco” (p. 83-84).
traduzido na edição inglesa, pela “monotonia fatigante” Kolnai (2013, p. 84-85) descreve que o sentido desta
(tiresome monotony) (Kolnai, 2004, p. 63) – a qual “pode vitalidade exagerada remete ao movimento de “borrar os
adquirir um matiz parecido ao asco”, que se manifesta limites e penetrar todo o que rodeia, em completa contra-
“quando aquela vivência constante é prazerosa, origi- posição com a forma e o isolamento que caracterizam o
nariamente ou por si”, de modo que não o objeto, mas o indivíduo”, voltado à homogeneidade e comunidade no
prazer mesmo, pelo “fenômeno de sua persistência inde- sentido “de um derreter-se, de um liquefazer-se – total e
finida”, se faz asqueroso e suscita no eu uma reação de parcialmente (...) – de cada ser”. Por conseguinte, remete
defesa correlativa. Desse modo, o autor denota que o as