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A subjetividade como produto: a máquina capitalística e a


axiomatização dos uxos – por Esquizogra as
Junho 9, 2018 por Anderson dos Santos

                                                                                                     Surreal. Artista: Tiago Hoisel.

O produto mais importante da máquina capitalística é a


subjetividade
Diferentemente do que pensam muitos, o produto mais relevante das máquinas
capitalísticas não é o capital e sim a subjetividade.
De já, é preciso demarcar que a concepção de subjetividade adotada aqui é pensada
por autores como Foucault, Deleuze e Guattari que recusam todas noções
encapsuladas, substancializadas e estruturadas de subjetividade, que tomam esta
como sinônimo de identidade, interioridade e apontam a noção de subjetivação
enquanto processo constituído por agenciamentos coletivos de enunciação.

Há máquinas por todos os lados, dizem Deleuze e Guattari no Anti-Édipo, somos todos
bricolagens, fluxos que se atravessam, se encontram,  composições, decomposições,
cortes em um inconsciente (indústria) que tem no desejo a pura produção de
intensidades e realteridades e não a falta e a representação do teatro edipiano.

Há que se pensar que a subjetivação é produzida incessantemente através de


encontros, de agenciamentos, produzidos por vetores de ordem plural sejam os de
ordem molar (as linhas de segmentaridade dura), as moleculares (as linhas de
segmentaridade maleável) e as linhas de fuga. Longe de qualquer dicotomização, essas
linhas se atravessam, se torcem, apagam, cortam, ligam-se na constituição ininterrupta
dos processos de subjetivação.

Não há um sujeito interiorizado, intrapsíquico, formatado… Há somente fluxos por


todos os lados, o desejo não cessa de efetuá-los, as máquinas não cessam de cortá-
los, acoplá-los… Não há, por exemplo, como pensar a máquina desejante dissociada
das máquinas sociais, nem uma subjetividade dissociada de processos políticos,
econômicos, sociais. Os estados operam relações diretas com os fluxos dos corpos,
diz-nos o Anti-Édipo. No que diz respeito ao Capitalismo, podemos perceber que
máquinas capitalísticas operam uma relação direta com os fluxos ora descodificando-
os (produzindo desterritorializações) ora produzindo axiomatizações, tal qual as
máquinas despóticas produziram codificações dos fluxos descodificados. A
axiomática capitalista funciona nesse duplo movimento  desterritorializando os fluxos
sociais codificados, reterritorializando-os na forma da axiomática capitalística: lógica
privada, individualizada, individualista, visão de lucro, competitividade. O Estado é a
expressão maior do aparelho de captura, que produz desorganizações programadas
para que a reorganização seja a favor dos seus interesses, dos seus moldes. A lembrar
do CAOS produzido com interesses de reforçar o status quo, da ideia de crise, da
austeridade, para que os movimentos aberrantes se sintam culpados por sua
resistência, para que a massa deseje o status quo, ou até mesmo o fascismo.

No que diz respeito aos movimentos aberrantes, vale lembrar dos fluxos esquizo que
fogem aos limites do capital, que não se curvam às lógicas familialistas psicanalíticas
que consideram o desejo como falta e prendem o desejo à triangulação edipiana. O
esquizo ri da cara do Édipo Rei, levanta do divã e passeia, torce linhas, costura fluxos
ziguezagueando caosmoticamente. Os fluxos descodificados são capazes de fazer ruir
as máquinas capitalísticas, por sua crueldade, por sua criatividade e maleabilidade de
fugas diante dos limites.

Nesse sentido, é válido lembrar da História da Loucura do Foucault e a forma que o


Estado Burguês agiu diante dos insanos, dos vagabundos, pedintes, andarilhos (tudo
que fugia aos axiomas capitalistas e não operavam em sua lógica do lucro, do
consumo, do capital): ENCLAUSURAMENTO.

A Psiquiatria transformou a loucura em Doença Mental a ser corrigida, curada,


excluída, violentada… O platonismo e o mundo ideal, a igreja e o céu-inferno, o
iluminismo e a criação do homem da razão e seu oposto: o insano, o positivismo e a
norma atuaram utilizando de suas máquinas de natureza plural para negar
determinados modos de vida em favor de uma lógica superior, numa perspectiva
moral: o ideal, o fiel, o homem racional, o normal: como diria de forma inventiva a Suely
Rolnik: o Cis-AntropoFaloEgoLogoCêntrico.

Desde muito tempo os agenciamentos de poder utilizam de suas máquinas para fazer
os corpos se distanciarem do que podem em favor de um território circunscrito, de
acordo com determinadas configurações, normas, lógicas. Concomitantemente, faz
com que a ordem do mesmo, o status quo, o acontecido em nós seja desejável. A
saber, substituindo a lógica da codificação típica do Estado Despótico, a máquina
capitalística opera por uma máxima/matriz/fórmula do capitalismo operar: o axioma.
Axiomatizar é fazer qualquer fluxo funcionar a favor do capitalismo, como forma de
controle dos fluxos seja de maneira ostensiva, seja de maneira manipulatória a partir
da lógica de atender os direitos, onde os corpos assujeitados creem que são livres.

Dessa maneira, os Estados produzem agenciamentos visando a produção de uma


subjetividade serializada, controlada, identitária, visto que é mais fácil de controlar os
corpos-rebanho que têm suas máquinas desejantes operando um modo estratificado
de funcionamento a favor do capital. O corpo aqui é afastado de sua potência,
capturado por um organismo que o enche de órgãos, funções, definições, formas,
sujeito-fôrma.

Há que se distinguir os fluxos descodificados produzidos pelas máquinas desejantes,


que operam modos esquizopoiéticos de produzir reAlteridades e não cessam de criar
intensidades, de criar Corpos sem Órgãos, agenciadas por linhas de fuga plurais e
intensivas; e as descodificações produzidas pela máquina capitalística que
desorganizam com o intuito de reterritorializar dentro dos seus ditames. Aqui cabe
falar sobre o desejo de fascismo na atualidade, faz parte da produção de subjetividade
os agenciamentos de poder produzirem nos corpos o desejo por sua própria
repressão, como nos diria Reich, e ao contrário do que se pensa de serem alienados.
Como Amauri Ferreira nos lembra do contexto histórico e econômico da Alemanha
quando a massa desejou o nazismo de Hitler, a lembrar do nosso contexto histórico e
econômico na atualidade quando as pessoas vão às ruas pedindo intervenção militar
ou pedem por Bolsonaro em 2018.

Há que se apostar em outras temporalidades, instalar-se sobre os estratos e


experimentar fissuras que nos permitam criar CsO’s potentes, torcem linhas de
segmentaridade duras que nos permitam rupturas a favor de linhas de fuga,
experimentar a partir dos axiomas a criar de fluxos esquizo descodificados que se
façam máquina de guerra ao Estado e suas capturas. Sobretudo é necessário audácia,
ousadia para que se possam apostar nas produções das máquinas desejantes numa
tarefa positiva, para que se possa desfazer, destruir, desfalicilizar, o fascismo em nós,
o poder, o Édipo à luz de uma implicação ético-estético-política e prudência para que
as linhas de fuga não se tornem linhas de destruição. A aposta não é na
territorialização, institucionalização da resistência, pois estas já são capturadas pelo
estado e axiomatizadas porque não conseguem fazer seus fluxos correrem livremente,
mas sim nas revoluções moleculares, nos devires minoritários que criam
microguerrilhas no âmbito do desejo e produzem outras possibilidades de existir,
sentir, atuar, outras temporalidades, outras linhas.

A máquina capitalística investe na produção de subjetividade, pois neste produto


reside sua possibilidade de agir de forma absurda no consumo, na produção de lucro,
no controle dos corpos.

Os fluxos esquizo que nos passeiam e nos constituem e onde residem uma
possibilidade de criação de outras possibilidades de existir seguem sendo temidos,
controlados, axiomatizados, reprimidos pela máquina capitalística em suas marionetes
(ciência, mídia, polícia)…

Já pensou quão nocivo é para o capitalismo um corpo potente, com uma força
esquizopoiética dos devires minoritários, um corpo que não estivesse afastado de sua
potência.

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