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MICROCONTOS

Tempo. Inesperadamente, inventei uma máquina do”


Alan Moore

“Olha, Pai, eu tentei, mas acho que não deu muito certo não…”
Antônio Prata

“Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida.”
Anton Tchekhov

“Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.”


Augusto Monterroso

“70 anos, algumas lágrimas, orelhas peludas.”


Bill Querengesser

“O suicida era tão meticuloso que teve que refazer diversas vezes o nó da corda para se
enforcar.”
Carlos Seabra

“Uma vida inteira pela frente. O tiro veio por trás.”


Cíntia Moscovich

“Quase uma vítima da minha família.”


Chuck Sangster

“A velha insônia tossiu três da manhã.”


Dalton Trevisan

“Conheceu a esposa em sua festa de despedida.”


Eddie Matz

“Vestiu os artefatos, beijou o filho com ternura e saiu pro último trabalho sobre a Terra.”
Edival Lourenço

“Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados.”


Ernest Hemingway

“Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.”


Franz Kafka

“2 de agosto: a Alemanha declarou guerra à Rússia. Natação à tarde.”


Franz Kafka

“Nascido no deserto, ainda com sede.”


Georgene Nunn

“Então você acredita em mim de qualquer maneira?”


James Frey
“O homem estava invisível, mas ninguém percebeu.”
José María Merino

“A mulher que amei se transformou em fantasma. Eu sou o lugar das aparições.”


Juan José Arreola

“Eu escolhi paixão. Agora sou pobre.”


Kathleen E. Whitlock

“Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada.”


Lygia Fagundes Telles

“Se Eu não acreditar em Mim, quem vai acreditar?”


Marcelino Freire

“Escrever sobre sexo, aprender sobre o amor.”


Martha Garvey

“Sem futuro, sem passado. Nada perdeu.”


Matt Brensilver

“Pegou o chapéu, embrulhou o sol, então nunca mais amanheceu.”


Menalton Braff

“Ouvi um barulho no portão, fui ver era a Lua nova.”


Nei Duclós

“Assistindo calmamente de cada moldura da porta.”


Nicole Resseguie

“Alzheimer: conhecer novas pessoas todos os dias.”


Phil Skversky

“Eu perguntei. Eles responderam. Eu escrevi.”


Sebastian Junger

“Eu ainda faço café para dois.”


Zak Nelson
MINICONTOS

01

Domingo inteiro em pijama, coça o umbigo. Diverte-se com os pequenos anúncios. Em sossego
na poltrona, entende as borbulhas do gelo no copo de bebida. Uma velhice tranqüila, regando
suas malvas à janela, em manga de camisa. Única dúvida: ganhará o concurso de palavras
cruzadas?

02

Rataplã é o gato siamês. Olho todo azul. Magro de tão libidinoso. Pior que um piá de mão no
bolso. Vive no colo, se esfrega e ronrona.

— Você não acredita. Se eu ralho, sai lágrima azul daquele olho.

Hora de sua volta do colégio, ele trepa na cadeira e salta na janela. Ali à espera, batendo o
rabinho na vidraça.

Doente incurável. O veterinário propõe sacrificá-lo. A moça deita-o no colo. Ela mesma enfia a
agulha na patinha. E ficam se olhando até o último suspiro nos seus braços. Nem quando o pai
se foi ela sentiu tanto.

03

Ao tirar a calcinha, ele rasga. Puxa com força e rasga. Vai por cima. Ó mãezinha, e agora?
Com falta de ar, afogueada, lavada de suor. Reza que fique por isso mesmo.

Chorando, suando, tremendo, o coração tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé — mil
asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo. Perdido nas
voltas de sua coxa, beija o umbiguinho.

Deita-se sobre ela — e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso na palma da
mão. Mas você pára? Nem ele.

04

Só de vê-la — ó doçura do quindim se derretendo sem morder — o arrepio lancinante no céu


da boca.

Dalton Trevisan
,,,,,,,,,,,,,,,,,,

Era uma vez um menino triste, magro e barrigudinho, do sertão de Pernambuco. Na soalheira
danada de meio-dia, ele estava sentado na poeira do caminho, imaginando bobagem, quando
passou um gordo vigário a cavalo:
– Você aí, menino, para onde vai essa estrada?
– Ela não vai não: nós é que vamos nela.
– Engraçadinho duma figa! Como se chama?
– Eu não me chamo não, os outros é que me chamam de Zé.”

(Paulo Mendes Campos. Crônica 1. São Paulo: Ática, 2002)


Banho na claridade

“À noite ele saía pelas ruas sem algo exato para fazer. Ao acordar, não se lembrava de nada.
Precisava de um banho, tirar o cheiro da pele, disfarçar a ausência de sua história mais recente
e voltar a ser uma pessoa entre as outras, deixando-se ver na claridade, respondendo,
perguntando. “Onde estarei depois de morto?” A pergunta arrebentou no núcleo de sua
demência. Comprou seu próprio caixão. Quando abriram o esquife, à beira da cova, não
precisou dos olhos para ver a filha grávida, olhando-o pela última vez. A filha distendeu as
pálpebras como se tentasse fixar as feições dele para sempre.”

Publicado em “Mínimos, Múltiplos, Comuns” João Gilberto Noll

Pequena Poética do Miniconto


Marcelo Spalding

Você certamente já leu um miniconto e possivelmente já escreveu um. Miniconto é um tipo de


conto muito pequeno, digamos que com no máximo uma página, ou um parágrafo. Alguns
dizem que ele é o primo mais novo do poema em prosa, outros apontam as fábulas chinesas
como origem, de certo é que desde meados do século XX o conto tem experimentado - com
sucesso - formas extremamente breves a partir de textos de gente como Cortázar, Borges,
Kafka, Arreola, Monterroso e Trevisan.

Nos últimos anos este tipo de ficção ganhou muito espaço na literatura de diversos países. Nos
Estados Unidos, antologias sucessivas foram lançadas com textos cada vez menores
culminando na chamada microfiction, cuja antologia inaugural reúne textos de até 300
palavras. A literatura latino-americana, responsável pela difusão inicial do gênero, tem não
apenas apresentado antologias como também estudos acadêmicos acerca do que eles
chamam de "microrelato". É de um hispano-americano, o guatemalteco Augusto Monterroso,
o micro mais famoso:

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.


E de outro latino-americano, o mexicano Juan José Arreola, o meu preferido:

"CONTO DE HORROR"
A mulher que amei se transformou em fantasma. Eu sou o lugar das aparições.

No Brasil, há uma grande quantidade de autores publicando livros com ou exclusivamente de


minicontos: o pioneiro Ah, é?, de Dalton Trevisan (1994), Contos Contidos, de Maria Lúcia
Simões (1996), O filantropo, de Rodrigo Naves (1998), Pérolas no decote, de Pólita Gonçalves
(1998), Passaporte, de Fernando Bonassi (2001), Coração aos pulos, de Carlos Herculano Lopes
(2001), Eles eram muitos cavalos, de Luiz Rufatto (2001), Mínimos Múltiplos Comuns, de João
Gilberto Noll (2003), Os cem menores contos brasileiros do século, organizado por Marcelino
Freire (2004), Ao homem que não me quis, de Ivana Arruda Leite (2005), Tentando entender
Monterroso, de Luiz Arraes (2005), A milésima segunda noite, de Fausto Wolff (2005), Contos
de Bolso e Contos de Bolsa, da Casa Verde (2005 e 2006), Curta-Metragem e Expresso 600, de
Edson Rossatto (2006), Entre Duas Mortes, organizado por Frederico Alberti (2006), entre
tantos outros. Há inclusive um livro de minicontos juvenis, do competente e criativo gaúcho
Leonardo Brasiliense, Adeus conto de fadas (2006), que ao testar esta estética com outro
público comprovou a flexibilidade do miniconto e a possibilidade de o tratarmos como um
gênero (da mesma forma que os poetas tratam como gênero o haicai).

Devido ao seu formato enxuto e de rápida leitura, o miniconto se tornou um gênero cultivado
não apenas pelos leitores como também pelos escritores das novas gerações, seduzidos pela
(aparente) facilidade de se escrever um bom miniconto. Só aparente. Aqui nesta pretensiosa
poética pretendo demonstrar como algumas regras são, se não fundamentais, bastante
indicadas para que um miniconto funcione.

Concisão

A velha insônia tossiu três da manhã.


Dalton Trevisan (Ah, É?, 1994)

Ser breve e ser conciso são coisas diferentes. O miniconto precisa ser conciso, mais do que
breve. Nesse sentido não deveríamos falar de um limite de número de letras, palavras ou
páginas para o miniconto, e sim num limite conceitual. A história que ele conta precisa caber
exatamente naquele pequeno tamanho, não mais, não menos. Não pode-se atrofiar uma
narrativa, tampouco espichá-la. Por isso nem todos os temas e enfoques podem ser
transformados em miniconto. Na verdade, raros o podem. Uma tosse às três da manhã pode
ser a superfície de um miniconto; a insônia, não.

Narratividade

Caiu da escada e foi para o andar de cima.


Adrienne Myrtes (Os cem menores..., 2004)

Se a brevidade originada pela concisão diferencia o mini do conto tradicional, é a narratividade


que primeiro diferencia o miniconto do haicai ou do poema em prosa (que não
necessariamente são narrativos, ainda que possam sê-lo). Ser narrativo significa, por óbvio,
narrar algo, contar a passagem de uma personagem de um estado a outro, implicitamente
(como no mini do Trevisan) ou explicitamente (como neste exemplo da Adrienne). Sem essa
narratividade, corre-se sempre o risco de fazer uma simples descrição de cena em vez de um
miniconto.

Efeito

"TV NO QUARTO"
E os pais na sala, assistindo a um documentário sobre os dramas da adolescência.
Leonardo Brasiliense (Adeus conto de fadas, 2006)

O grande mestre do conto moderno, Edgar Allan Poe, talvez tenha sido quem primeiro colocou
o efeito pretendido no topo dos objetivos do escritor. Ainda hoje é considerado um bom conto
aquele que consegue provocar algo no leitor, seja medo, compaixão ou reflexão. Quando
temos uma simples descrição, não chega a ocorrer no leitor este efeito, por menor que seja,
enquanto em uma narrativa como a do Leonardo Brasiliense o leitor não tem como não pensar
na sua adolescência ou na sua atitude com os próprios filhos.

Abertura

Um vida inteira pela frente. O tiro veio por trás.


Cíntia Moscovich (Os cem menores..., 2004)

Como pode um texto tão pequeno provocar efeito em quem lê? A resposta está no próprio
agente da questão: o leitor. À Cíntia coube contar a história de uma pessoa que morreu
assassinada numa representação contundente da banalização da vida. Mas se a vítima é um
homem, uma mulher, gorda, magra, nova, velha, se mora na cidade, no campo, noutro país, se
era bandido ou mocinho, amante ou amado, casto ou tarado, nada disso está dito, cabe ao
leitor preencher as lacunas a partir de seus conceitos e experiências. Muito possivelmente um
leitor urbano como nós verá aí uma ironia com a insegurança que ceifa a vida de tantos jovens.
Mas talvez um trabalhador suburbano veja a covardia de quem mata pelas costas, e não o
futuro perdido por quem morre. Essa abertura é uma das riquezas do conto potencializada no
miniconto.

Exatidão

"AVENTURA"
Nasceu.
Luís Dill (Contos de Bolso, 2005)

Tudo bem que a abertura do texto para o leitor seja aspecto fundamental do miniconto, mas é
importante que o autor seja suficientemente claro para criar o efeito desejado no leitor, e não
seu oposto, sob o risco de não ser compreendido. Para tanto a escolha de cada palavra em
cada posição é fundamental, quase como em um poema, pois disso depende o sucesso ou não
da narrativa. Se Cíntia Moscovich escrevesse "Teria sido um ótimo escritor, mas o tiro veio por
trás" o texto perderia seu recurso estético causado pela oposição frente/trás, vida/morte,
comprometendo até o efeito semântico. Mesma coisa, e mais ainda, no texto "Aventura", do
Dill. Não sei se existem outras duas palavras que se casem tão bem para formar uma narrativa
instigante, aberta e ao mesmo tempo repleta de significados como esta. São apenas duas
palavras, quinze caracteres tão bem dispostos que é difícil não sentirmos seu efeito. E
percebermos ali o cerne do conto e da literatura.

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