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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

Núcleo de Apoio à Educação à Distância - NAPEAD UFRGS


Curso de Extensão em Karate-Dō UFRGS
Professor Mestre Tiago Oviedo Frosi - 3º Dan JKS - CREF 16973-G/RS

SHIN GI TAI
A Fórmula Tradicional de Treinamento do Budō

Shin Gi Tai significa literalmente “Mente, Técnica, Corpo”. É a tradicional fórmula através da qual a pedagogia do Budō
está baseada. Shin (Kokoro) é a mente, a consciência ou o coração. Representa os aspectos internos da arte e do
desenvolvimento do Budoka. Gi é o termo para técnica. Representa a dimensão prática os movimentos que são cada
vez mais polidos pelos Kata e aplicados no Kumite. Tai é o desenvolvimento das habilidades e capacidades corporais.
Entre elas estão elencadas a capacidade cardiovascular, a resistência e força muscular, velocidade de reação e potência,
flexibilidade e equilíbrio, entre outros atributos físicos.
Essa fórmula, porém, não se limita a lembrar-nos que essas três dimensões são importantes, mas sim de nos lembrar qual
a quantidade de esforço e tempo deve-se dedicar para cada uma dessas dimensões. Tradicionalmente, acredita-se que
há uma hierarquia de importância dessas três dimensões, que são sintetizadas no antigo ditame: “A técnica vence a força,
mas o espírito vence a técnica”. Sendo assim, agrupava-se essas dimensões em três grupos de treinamentos, que se
representados por uma pirâmide resultavam na seguinte distribuição:

Essa antiga concepção, portanto, explicava que era muito treinamento, transformando-o numa jornada (Shugyo).
importante treinar a mente, e não apenas as técnicas ou Outro desafio é aquele lançado para o instrutor: como
as capacidades corporais. O grande desafio para cada ensinar Shin? O exercício corporal e a técnica são
Budoka é, afinal, entender como seguir essa fórmula bem conhecidos no Ocidente, mas a forma de meditar,
e desenvolver adequadamente cada dimensão do seu educar-se, fortalecer e acalmara mente não são tão bem
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Curso de Extensão em Karate-Dō UFRGS
Professor Mestre Tiago Oviedo Frosi - 3º Dan JKS - CREF 16973-G/RS

conhecidos. Para ajudar na reflexão desse tópico lançamos mão de uma importante citação que aborda o tema:

“[ ... ] Eu acredito que, quando praticamos Kata, estamos de alguma forma tocando
a ancestralidade guerreira de toda humanidade. Na pintura, escultura, afrescos e
manufaturas, batalhas rituais foram retratadas, não apenas no Japão e na China, mas
por todo o mundo. De todas as formas de treino no Karate, nenhuma é mais vigorosa,
cansativa e encorajadora do que uma sincera performance de Kata.
Takagi Masatomo sensei me observou uma manhã e criticou minha performance:
‘Onde está seu inimigo, Nicol? Enquanto pratica o Kata você só pensa em si mesmo.
Não está projetando sua mente para visualizar o ataque desferido contra você. Olhe
na direção dos seus movimentos! Veja o inimigo! Se você treinar duro vai desenvolver
uma mente calma como a água parada. Karate é Zen em movimento, e é o estado Zen
que você deve buscar.’
Ele nunca tentou explicar o que seria um estado Zen, mas muito, muito depois,
depois de tentar “ver” os inimigos, comecei a entender. Através da concentração o
aperfeiçoamento da mente e uma grande calma, enquanto o corpo se movia, eram
alcançadas. A prática do Kata era o melhor caminho para conhecer a calma Zen.
Uma década depois li sobre pesquisas de padrões de ondas cerebrais. Descobriu-se
que iogues e monges Zen exibiam ondas alfa em meditação. Também se descobriu
que karateka também exibiam essas ondas nos estágios de “espera” ou “prontidão”
(Zanshin) de combate, e nas pausas dos Kata. Kata é aperfeiçoamento e realização.
Mas como a maioria dos iniciantes, eu não estava preocupado em alcançar o estado
Zen com a prática do Kata. Estava preocupado em conseguir lutar. E como todos os
iniciantes, comecei a fazer comparações. Como o Karate se sairia contra o Judo? Ou
Boxe? Ou Wrestling? A forma de chutar do Karate é tão forte quanto dos lutadores
de Muay Thai? Sei agora que comparações são tolices, e desviam da inteireza do
treino diligente. Se um karateka for desafiado por um boxeador e ganhar, isso não
comprovará a superioridade do Karate e nem mesmo que esse karateka em particular
é melhor que esse boxeador em particular. Um estudo estatístico daria uma
resposta melhor, se você disputasse cem ou mil desafios até a morte. Mas quem
seria voluntário para isso? E qual país permitiria tal derramamento de sangue? E, de
qualquer modo, em que benesse tudo isso resultaria?”

Trecho do livro “Moving Zen: Karate as a way to gentleness” de C. W. Nicol, editora P. H. Crompton, 1981 (p.47-48).

No livro, o autor relata seu treinamento no Dōjō da Nihon Karate Kyokai (Japan Karate Association) na época em que era
chefiada pela diretoria original (Isao Obata, Kichinosuke Saigo, Takagi Masatomo e Masatoshi Nakayama).
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REFERÊNCIAS

FROSI, Tiago Oviedo. Introdução ao Karate Shotokan. Porto Alegre: Ufrgs, 2015. 165 p.

JAPAN KARATE SHOTOFEDERATION BRAZIL. JKS: MANUAL DE INSTRUTORES. Porto Alegre, 2015-2017.
52 p.

FROSI, Tiago Oviedo. Uma história do karate-do no Rio Grande do Sul: de arte marcial a prática
esportiva. 2012. 224 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Programa de Pós-graduação em Ciências do
Movimento Humano., Escola de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.

FROSI, Tiago Oviedo; LOPES FILHO, Brandel José Pacheco; MAZO, Janice Zarpellon. Kata de karate: a
cultura nos shiteigata da World Karate Federation. Efdeportes: REVISTA DIGITAL, Buenos Aires, n. 158,
p.1-1, jun. 2011. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/efd158/kata-de-karate-a-cultura-nos-shiteigata.
htm>. Acesso em: 08 out. 2017

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