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Sigmund Freud

NEUROSES DE ~

TRANSFERENCIA: ~~*EsE

MANUSCRITO RECÉM-DESCOBERTO
Com Ensaio de ILSE GRU BRICH-SIMIT IS e
Posfácio à Ed. Brasileira de ABRAM J. EKSTERMAN

IMAGO
CIP·Braail. Catalopçio-na·fonte.
Sindicato Nlcional dos Editores de Livros, RJ.

Freud, Slpnund, 1&56-1939.


F942n Neuroae1 de cransfer!nda: uma síntese (manuscrito recém.<Jes.
coberto) I Sigmund Freud; organização, notas e ensaio complemen-
tar llac Grubricb-Simítis; pos(Kio A ediçlo brasileira e tradução
do alemio Abram Ebterman. - Rio de Janeiro: Jmago, 1987.

Traduçlo de: Obenicht der Obertragungsneurosen.


Bibliosrafia .

. 1. Pe.iooneuroeet. 2. P&icanmae. 3. Transferência ( Psicanmse).


I. Grubricb-Simltia, lbc 11. Ebtennan, Abram lli. Título. · IV.
Strie.

·87..()456 CDD-616.852
CDU-616.8S
SIGMUND FREUD

NEUROSES DE TRANSFElU:NCIA:
UMA SlNTESE
(Manuscrito Recém-Descoberto)

Organização, Notas e Ensaio Complementar:


Ilse Grubrich-Simítis

Série Analytica

Direç&J
JAYME SALOMÃO

Tradução e Posfâcio à Edição Brasil~ira


Abram Eksterman

IMAGO EDITORA LTDA.


Rio de Janeiro
Título original alemão
Obersicht der Obertragúngsneurosen

Copyright © 1985 Sigmund Freud Copyrights, Ltd., Colche!ter and


Ilse Grubrich-Simitis, Konigstein, 1985 for her essay
· and editorial matter.

Produção editorial: Celso Fernandes


Copidesque: Carlos Alberto Pavanelli

Revisão: Ricardo Cruz e


Regina Célia de Araújo Ferreira
Capa: Perez ZambeUi

Direitos adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA.


Rua Santos Rodrigues, 201-A - Estácio
CEP 20250- Rio de Janeiro- RJ
Tels.: 293·1098- 293·1092

Todos os direitos de reprodução, divulgação e tradução são reservados.


Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida por fotocópia,
microfilme ou outro processo fotomeclnico.

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
SUMARIO

Nota Preliminar 7

Sigmund Freud
Neuroses de Transferência: uma Síntese
Rascunho do décimo segundo ensaio metapsicológico de 1915

Fac-símile e Transcrição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
A Versão Editada • . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63

Use Grubrich.Simitis
Metapsicologia e Metabiologia
Para o rascunho de Sigmund Freud sobre
"Neuroses de Transferência: uma Síntese" . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81

Abram Ekstennan
A Metapsicologia de Freud
Posfácio à edição brasileira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121

Bibliografia . . . . . • . • . . . • • . • • . . . . . . . . . • . • . . . . • . . . . . . . . . . . . • 135
Nota Preliminar

Sigmund Freud trabalhou de novembro de 1914 até o verão de 1915


adentro numa série de ensaios, os quais ele pretendeu inicialmente pu-
blicar como livro sob o título Subsídios à Preparação de uma Metapsi-
cologia. Ele mesmo formulou o objetivo dos trabalhos numa anotação
em um desses textos ·aparecidos em 1917, a saber, "Suplemento Meta-
psicológico à Teoria dos Sonhos" (l917d 119151). onde escreve: "f. a
intenção desta série o esclarecimento e o aprofundamento das suposições
teóricas que se poderiam colocar como a base do sistema psicanalítico
(p. 179). Também pertence a essa série "Luto e Melancolia" (1917e
119151), publicado pela primeira vez em 1917. Em contrapartida, os três
outros trabalhos, escritos durante a guerra, nos primeiros meses do ano
de 1915, foram publicados antes, em números sucessivos da /nternatíona·
len Zeitschrifr für iirztliche Psychoanalyse,l mais precisamente no ano de
seu nascimento. Trata-se dos clássicos escritos psicanalíticos básicos:
"Pulsões e os Destinos das Pulsões" (1915c); "A Repressão" (l9l5d) e
"O Inconsciente" (191Se). James Strachey (1957b, p. 121) simplesmen·
te classificou os cinco ensaios como os trabalhos teóricos mais importan-
tes de Freud.
Por sua correspondência, ficamos sahendo2 que Freud, além dos
cinco textos mencionados, tinha mais ou menos terminado, até meados
daquele ano, mais sete estudos metapsicológicos, os quais deveriam arre-

1 V. 3. cadernos 2 a 5.
2 Isso já foi reconstruído por Ernest fones (1962CI, p. 223 c: seg.), o qual
examinou, para sua biografia de Freud, pehs primeira vez a corr~pondência na·
quele tempo ainda não publicada em sua maior parte. Cp. também J. Strachcy
(1957a).

7
dondar o número de trabalhos da série para formar um livro com doze
capítulos. Ele, porém, nunca publicou esse livro. Como os sete manus-
critos desapareceram sem deixar vestfgios, supõe-se hoje que Freud os
teria destruído mais tarde. Ainda uma vez, de acordo com }ames Strachey,
"nÓs mal podemos avaliar que grande perda nos foi causada pelo desa-
parecimento desses ensaios. Naquele tempo em que Freud os escreveu,
existia uma conjunção única de fatores favoráveis. A grande apresentação
teórica anterior de Freud (o Capítulo 7 da Interpretação dos Sonhos
!I900aj) tinha sido escrita quinze anos antes, portanto numa fase relati·
vamente precoce de seus estudos psicológicos. Agora, porém, já em 191 5,
passara por vinte e cinco anos de experiência psicanalítica, nos quais ele
podia basear suas construções teóricas, ao mesmo tempo. que se encon·
trava no zênite de sua força intelectual." (1957a, p. 72)
Quando eu, no ano passado, em Londres - em conexão com os
preparativos para a publicação da correspondência entre Sigmund Freud
e seu discipulo e colaborador húngaro Sándor Ferenczi - . passei em
revista uma velha mala com papéis, entre os quais algumas folhas que
foram dadas ao psicanalista Michael Balint, também de origem húngara,
por seu professor e amigo Ferenczi, encontrei, surpresa, um manuscrito
do próprio punho de Freud, o qual pelo título e pelo conteúdo não con·
segui ligar a nenhuma de suas obras publicadas. Com a ajuda de uma
pequena carta, escrita por Freud no verso da última folha do manuscrito,
tornou-se patente para mim· que se tratava do rascunho! do décimo se-
gundo ensaio metapsicológico. A carta diz:2

1 Seu aparecimento possibilitou-me uma modificação nas observações feitas


por mim ( 1977, p. 40) na edição (ac-similada do ensalo de Freud sobre ''0 Tema da
Escolha do Escrínio" · c:om relaçio 10 seu processo de escrever, a saber. que ele
pouco corrigia seus manuscritos, tendo o costume de imediatamente escrever a
versão definitiva. üsas arirmações basearam-se em informações de Anna Freud e
na revisão dos manuscritos de Freud, conservados desde 1914. Esses manuscritos
são· red:~ções pa$$8d4S a limpo. Possivelmente CJCiltiram também para a maioria
deles rascunhos que Freud nio guardou. Finalmente, ele também não guardou o
rascunho encontrado a11ora . Ao contr,rio, deixou a critério de Ferenczi. no bilhete
reproduzido em :.eguida, jcgá·lo Cora ou guatdá·lo com ele. Como Ferenczi o
guardou , sabemos agora que Frcud escrevia rascunhos e, como demonstra espe-
cialmente a segunda parte, podiam tomar quase a forma definitiva, tendo poucas
correções.
2 Adiante, nll p. 61, em (ac-sfmlle. A reproduçlo segue as regras aplicadas
nQ versiio editada de todo o manusc.r it.o, explicadas na "nota ~ versão editada",
p. 63.

8
28.7.15

Caro amigo,

Envio ao senhor, aqui, o rascunho do )ensaioI XII, o qual cer-


tamente irá lhe interessar. Pode jogar fora ou guardar. O texto
passado a Limpo o segue fraSe por !rase e dele se afasta muito
pouco. Juntei as páginas 21 a 23 depois de sua carta, a qual
aguardava. Seu reparo excelente havia por sorte sido previsto.!
Agora vou fazer uma pausa, antes de elaborar definitivamente
o Cs !Consciente! e Angústia. Estou sofrendo muito de inc~
modos de Karlsbad.2

Cordiais saudações,

Freud.

A carta possibilita identificar com segurança o manuscrito.l Não é


a única correspondência regular do ano de 1915 entre Freud e Ferenczi
sobre o projeto de uma metapsicologia. Desta, como de outras correspon-
dências, podemos extrair algo sob1·e os temas dos sete capítulos perdidos,
entre eles consciência, angústia, ou seja, histeria de r.ngústia - o tra·
balho desses dois textos é expressamente mencionado na carta citada que
acompanhou a remes.>a - e, ainda, histeria de conversão, neurose obses·
siva, como também uma síntese das neuroses de transferência.• E agora
tomamos conhecimento pela primeira vez do conteúdo dessa síntese,
através da forma do rascunho de Neuroses de Transferência: uma Síntese.

Para mais pormenores, veja adiante, p. 9 1.


2 Doenças do intestino.
3 Mais argumentos para este asp«to no tópico adiante "O Contexto Biográ-
fico". p. 89 e segs. . .
• [Designação que inspirou o título em português, efetivamente mau condi·
zcnte com o conteúdo. A tradução literal do título deveria ser "Vista Geral das
Neuroses de Transferência" ou "Sinopse das Neuroses de Transferência''. J. Stra-
chc,·, em sua introdução à Metapsicologia. menciona um trab&lho metapsicológico
perdido que deveria ter o título de "Neuroses de TransCer~ncia em Geral". (N.
do T.JI

9
Gostaria de agradecer a lngeborg Meyer-Palmedo, Frankfurt-sobre-
o-Meno, pelo apoio incansável no preparo da publicação, especialmente
no trabalho de transcrição literalmente fiel. A Eníd Balint, Londres,
que tornou possível o manuscrito original ser copiado, prestando louvá-
vel ajuda.

Novembro de 1984
llse Grubrich-Simitis

Adendo à edição brasileira: Gostaria de agradecer ao prof. Abram


Eksterman, responsável pela cuidadosa tradução para o português, e ao
editor Jayme Salomão por seus extraordinários méritos pela presente
edição.

Janeiro de 1987
I.G.-S.

10
SIGMUND FREUD

Neuroses de Transferência:
uma Síntese

!Rascunho do décimo segundo ensaio metapsicoló~co


de 19151
Fac-símile e Transcrição

Nota para o fac -símile

Dentro do envelope, endereçado a Sándor Ferenczi com a nota "regis-


trado" e uma etiqueta adesiva correspondente, estava o manuscrito,
dobrado pelo meio da folha e que em seguida também foi fac-similado.
O canto com o &elo foi arrancado e falta o selo. Com isso, algumas
letra& de alguma inscrição também foram rasgadas. Do restante, pelo
fac-símile reconhecível. poderíamos concluir que Freud quis ante:; entre-
gar o escrito a um portador que pretendia visitar Ferenczi (à primeira
vista, poderíamos pensar em " Miss Do j ••• j", a poeta americana Hilda
Doolittle, com a qual, no entanto, Freud naquela époc3 ainda não tinha
contato). Não é claro o sentido dos demais rabiscos no envelope.
O manuscrito do rascunho consiste em folhas escritas a tinta no
verso e anverso, em papel de formato de 21,3 por 33,7 centímetros,
portanto diminuído no fac-símile. Freud anotou a numeração das pá-
ginas com lápis de cor marrom-avermelhada. As linhas diagonais com
as quais os blocos do texto aparecem rabiscados estão no original também
em cor marrom-avermelhada. Freud provavelmente marcou dessa maneira
as partes que sucessivamente foram passadas a limpo, textos estes, como
ele frisa na carta que acompanhou o manuscrito para Ferenczi (no ver-
so da última folha reproduzida no fac-símile), em que ~guiu o rascunho
"frase por frase". As palavras, letras ou abreviaturas impressas em tipo
lineal encontram-se no manuscrito em letras latinas.

J.G.-S.

13
Sb.dor Ferenczt e ·sJ,mtmd Freud no verlo de J9t7
dUJ'Inte uma e.tacüa no Tatn. '
A Versão Editada

Nota para a versão editada


O manuscrito está cheio de abreviaturas, especialmente com relação
às desinências das palavras, como m<lstram o fac-símile e a transcrição
literal. Elas foram transcritas por extenso na versão editada do texto, no
interesse da legibilidade, sem maiores explicações. (Salvo nos · lugares
onde pudesse haver dúvidas, as formas por extenso se acham identifica-
dns entre barras, como acréscimo da editoração.) Foram mantidas apenas
as abrevinturas particularmente características de Freud, como " ics"
(inconsciente) e "pcs" (pré-consciente), "cs" (consciente), " ipA" (Psica-
nálise). Contudo, não pretendemos desfazer o estilo em palavras-chave
do original, através de acréscimos editoriais, sobretudo na primeira parte,
que trata da sistemntização, pois afinal trata-se de um rascunho e não
de um texto passado a limpo. Apenas em uns poucos lugares tentei
intercalar a)kumas escassas palavras para facilitar a compreensão, mar·
cadas entre barras como acréscimos da editoração, entre outras coisas
porque nem sempre tive certeza de estar correta. Com relação à or·
tografia e à pontuação, foi feita uma Adaptação cautelosa aos costu-
mes modernos sem qualquer justificativa. Chamamos a atenção para
algumns particularidades do originnl cssinaladas em notas de rodapé
editoriais, que pedem dessa forma ser localizadas pelo leitor no fac-símile,
sem grandes esforços.

I.G.-S.

63
XII Neuroses de Transferência : uma Síntese

Preparação

Após exame pormenorizado, tentar resumir caracteres, delimitá-los com


relação aos outros e comparar cada um dos elementos. Os elementos
são os seguintes: repressão, contra-investimento,t formação de subs·
titutos e sintomas, a relação com a função sexual, regressão e disposição.
Restringir aos três tipos: histeria de angústia, i1isteria de conversão e
neurose obsessiva.

a) A repre$$áo ocorre em todos os três tipos de neuiQ$e, no limiar dos


sistemas ics e pcs. Consiste na subtração ou ~gação !doi investimento
pcs, e é as~gurada por uma espécie de contra-investimento. Em estado
mais avançado da neurose obsessiva o contra-investimento se desloca
para o limiar do pcs com o cs.
Observar-se-á que a repressão no grupo seguinte2 tem um significado
diferente, quando seu · conceito se amplia para o de divisão.

jOriginlriamente "contra-investimento" fiCIIva no terceiro lugar destA enu·


meração; através do sinal de inversão Frcud posteriormente colocou a palavra na
segunda pasição. Cp. o fac-símile do manuscrito (f. t, linhas 6 e 7).1
2 lOuer se referir certamente às psicoses que foram abordadliS na segunda
parte do rascunho, ou seja, às neuroses narcisistas, na terminologia üc Freud.
Entretanto, nio as descreveu pormenorizadamente com relação aos processoa
específicos de defesa: talvez possamos citar uma passagem no "Suplemento Me14·
psicológico l Teoria dos Sonhos" (19J7d (191S(, p. 190 e segs.).(

65
O ponto de vista tópico nio deve ser superestimado no sentido de
que qualquer trAnsito eventual e~tre os dois sistemas seja por ela inter·
rompido. Dessa forma, é mais essencial destacar em que elementos essa
barreira está sendo introduzida.
O :~ucesso e o término estão vinculados, de modo que o insucesso
obriga a novos esforços. O sucesso varia conforme as três neuroses e de·
acordo com cada um de seus estágios.
Na histeria de angústia, o sucesso da repressão é menor e se res-
tringe ao fato de que não se realiza nenhuma rel'resentação pcs (e cs).
Mais tarde, em lugar da idéia repulsiva, um substituto !representação!
toma-se pcs e cs. Por fim, o sucesso alcança seu objetivo na formação
de fobias, inibindo o afeto do desprazer através de intensa renúncia e
!toda umal tentativa de fuga. A intenção da repressão é sempre evitar
o desprazer. O destino da representação limita-se a ser apenas um sinal
do processo. A aparente dissecçãol em representação e afeto (repre-
sentação e fator quantitativo)" do acontecimento que deve ser rejeitado
resulta exatamente do fato de que a repressão consiste na den~gação da
apresentação da palavra, ou seja, !nol caráter tópico da repressã~.
O sucesso da repressão na neurose obsessiva é inicialmente com·
pleto, mas não é permanente. O processo está ainda menos concluído.
Ele continua, após uma primeira fase bem-sucedida, através de mais
duas fases. A primeira (repressão secundárial:l2 formação de idéias ob·
sessivas, luta contra idéias obsessivas) contenta-se com a substituição
da representação, da mesma forma !que aj histeria de tngú.stia. IAI
lfasel
seguinte <!repressão! terciária) produz renúncias e limitaçõelsl correspon·
dentes a fobia, mas, d iferentemente, trabalha com recursos lógicos.
Contra11tando com isso, o sucesso da repressão na histeria de con-
versão é sempre completo, desde o começo,l conquanto seja alcançado
_graças à intensa formação de substitutos. O processo de cada ato da
repressão é terminal.

1 INe!lc lugar encontrHC interpOlado entre a terceira e a quarta linhas


no manuscrito (f. 2), decifrável com dificuldade: ''descritivo em vez de sistJema·
ticamentcj". formulações que Freud também usa em "O Inconsciente" (1915e,
p. 131).J
2 JOs d emab itens, especificados at6 o final dos parênteses, estio no manus-
crito ({. 2) no fim do parágraro antes de b, colocados evidentemente depois. porém
através de uma linha claramente assinalada -no lugar acima indicado.!
3 JNo manuscrito (f. 2. 1. 20), por engano,· ·'ein".l IN. do T .: Que tira o
sentido da e:ocpressão von An/ang an, pois ein signirica "dentro", "para dentro", e
an _significa "em diante'', "para diante".J ·

66
b) Contra-investimento: I
10 contra-investimento! está primeiramente ausente na histeria de :tn~ús­
tial-1 Trata-se de uma pura tentativa de fuga c que se l tnça, em segutda,
para a formação de idéias substitutivas. Especialmente numa terceira
fase, nas proximidades dessas mesmas idéias. utiliza a2 vigilância e a
atenção para assegurar que seja contida a liberação do desprazer. Repre-
senta à participação do !investimento! pcs, isto é, a aplicação que a
neurose gasta.
Na neurose obsessiva, que desde o início é uma defesa contra um
impulso ambivalente, o contra-investimento fornece a primeira repressão
bem-sucedida; em seguida, graças à ambivalência, produz formação rea-
tiva; finalmente, na fase terciária, lelel dá a atenção, que é caractcrísti·
ca da idéia obsessiva, fornece o trabalho lógico. Portanto, a segunda e a
terceira fases são idênticas às da histeria de angústia. A diferença existe
na primeira fase, na qual lo contra-investimento! nada faz na histeria de
angústia e tudo realiza na neurose obsessiva.
10 contra-investimento!• sempre assegura làl repressão lal resplectivaj
participação do pcs. Na histeria Ide conversão,! o carát~r mais favorávell
é possibilitado pelo fato de que o contra-investimento, desde o começo
procurando um encontro com o investimento da pulsão, une·se com
ele numa solução de compromisso, o que determina n escolha da re·
presentação.

c) Forrrwção de substitutos e sintomas:


Corresponde à volta !doi reprimido, quer dizer, à repressão mal-sucedida.
Por pouco tempo !são ambas! separáveis, depois ]as formações de subs-
titutos e de sintomas! confluem.
Essa confluência é mais perfeita na histeria de conversão: substitu·
to -::: sintoma. Nada mais resta separado.

1 JAq_ui está no manuscrito (f. 2. I. 24), risca~o~ "form~ção de substitutos


e sintomas". ·Evidentemente, freud decidiu oeste ponto d:~ mmuta tratar do e!~
mento contra-investimento antes da fom1ação de substitutos e sintomas. Veja a
mudança d~ colocação correspondente na enumeração no começo do ensaio.!_ .
2 !Esta paJavra (a/s) não é decifrável com segurança. Compare o fac.stmile
do man~rito (f. 2, I. 30).1
• Acréscimo do Tradutor.
3 !Também esta palavra (glücklicher) não é decifrável com segurança, Cp. o
(ac-srmíle do manuscrito (l. 3, J. 6).J

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Dn mesma forma, na histeria de angústia, a formação de substitutos
permite ao reprimido seu primeiro retomo.
Na neurqse obsessiva, separam-se com nitidez la formação de substi·
tutos da formação de sintomas,! sendo a primeita formação de substitutos
fornecida 'Ipelo! repressor mediante contra-investimento, não sendo con-
siderada sintoma. Ao passo que los! sintomas tardios da neurose obsessi-
va são com freqüência preponderantemente o retorno do reprimido, sendo
menor neles a participação do repressor.
A formação de sintomas, da qual parte o nosso estudo, coincide
sempre c.Om o retomo do reprimido e ocorre com a ajuda da regressão
e das fixações determinantes. Uma lei geral afirma que a regressão re~
troccde até a fixação e de lá se impõe ao retorno do reprimido.

d) Relação com a função sexual:


Para esse !elemento!,* continua válido o dito de que o impulso ativo
reprimido é sempre libidinoso, pertence à vida sexual, enquanto ~
repressão derivada do eu se dá por vários motivos, que podem ser resu-
midos em um não-p<ider (devido a uma força superior) oJ a um não-
querer. Este último remonta a uma incompatibilidade com os ideais do
eu ou a uma outra temida lesão do eu. O não-poder também corresponde
a uma lesão.
Esse fato fundamental é ocultado por dois elementos: em primeiro
lugar, parece que freqüentemente a repressão é estimulada pelo conflito
de duas manifestações. ambas libidinosas. Esse conflito se desfaz pela
ponderação de que uma das manifestações é ego-sintônica e no conflito
pode apelar pela ajuda da repressão derivada do eu. Em segundo lugar,
por serem muitas vezes e com evidência significativa encontradas no
reprimido não somente aspirações libidinosas, mas tliJllbém aspirações
do eu em estado prolongado e avançado da neurose. Por fim, isso rea-
liza-se pela manifestação libidinosa reprimida, que tenta se impor por
um atalho através das !aspirações do eu! . e, dessa forma, a libido, em·
prestando ao eu um componente ao qual transferiu e"'rgia, arrasta utna
parte do eu para a repressão, o que pode .~rrer em grande escala.
Com isso, nada se altera no quadro geral daqu~la tese. Compreende-se
a exigência por que se devem extrair conhecimentos dos estágios iniciais
das neuroses.

• Acréscimo do Tradutor.

68
É evidente que, na histeria e na neurose obsessiva, a repressão se
dirige contra ai função sexual em· sua forma definitiva, na qual ele2
representa seu direito à procriação. Enquanto esse processo é nítido
na histeria de conversão, porque não tem complicações, ele é precedido .
pela regressão na neurose obsessiva. Entretanto, não exageremos esse
relacionamento, supondo que a repressão seja apenas efetiva nesse estágio
da libido. A neurose obsessiva mostra, ao contrário, que a repressão é
um processo geral não dependente da libido, dirigido ccntra estados pre-
coces. Da mesma forma, a repressão é exigida contra as manifestações
perversas no curso do desenvolvimento. Pergunta-se: Por que a rept·essão
nesse caso tem êxito e nos outros não? Na natur:za, as aspirações
libidinosas são facilm.:nte s ubstituíveis, de modo que, reprimindo-se as
aspirações nonnais, ficam fortalecidas as perversas, e vice-versa. A t'e-
pressão não ltemj com o função sexual nenhum outro relacionamento,
senão ser instalada para repeli-la, da mesma forma como a regressão e
outros destinos dos impulsos.
O relacionamento com a função sexual é menos claro na angústia,
pelas razões que surgiram quando tratamos desta. Parece que a histeria
de angústia compreende aqueles casos nos quais a exigência do impulso
sexual é considerada muito grande e dessa forma iél'repelido como amea-
ça. Não . há nenhuma condição especial na organização da libido.

e) Regressão;
11 o elemento e o d~st ino d<.'s impulsos mais interessantes. Da pers-
pectiva da histeria de engústia, não existe motivo para decifrações.
Poderia dizer que neste contexto não cabe cogitar da regressão porque
talvez qualquer histeria de angústia tardia claramente rcgride a uma
histeria infantil (o modelo de disposição a neurose) e porque esta surge
tão cedo na vida. Ao contrário, as duas outras Jneuroses de transferên-
cia! são os mais belos exemplos de regressão, a qual, porém, desempenha·
luml papel diferente na estrutura da neurose. Essa regressão é, na histeria

I !Primeiro esteve neste lugar das ( ... daR sich Verdrãngung gegen das .. . )
(Talve-z Freud quisesse escrever da~ Sexuallebl!n - " a vida sexual".) A pahtvra
está riscadá e substituída por die - "a''. Cp. o fac-símile do manuscrito (f. 4,
I. 33).1
2 !No original (f. 4, I. J4) está escrito aqui es (in der es Anspruch der
Fortpfanzung rcprãsenJiert). Cp. a nata de rodapé anterior.! IN. do T .: es, pro-
nome peuoal correspondente l com.binaçiio de prepo3içio com artigo definido
"daa"~

69
de conversão, uma poderosa regressão do eu. voltando a uma fase onde
não há separações entre pcs e ics, portanto sem linguagem e sem cen·
sura. A regressão serve, entretanto, à formação de sintomas e ao retorno
do reprimido. As manifestações da pulsão que não !são! aceitas pelo
eu atual recorrem a um eu anterior, de onde elas são repelidas então
de maneira diferente. Já foi mencionado que nisso ocorre virtualmente
uma espécie de regressão da libido. Na neurose obs~siva é düerente.
A regressão é uma regressão da libido que não serve ao retorno jdo
reprimido! mas à repressão possibilitada por uma intensa fixação cons-
titucional ou por um desenvolvimento incompleto. De fato, cabe aqui
à regressão o primeiro passo da defesa c se tratai mais de regressão
que de desenvolvimento, assim como a organização libidinosa regressiva
subjaz apenas a uma t: típica regressão, a qual contudo fica sem suces·
so. Uma parte da regressão !doj eu é imposta pela libido, ou deriva do de-
senvolvimento incompleto do eu, o qual está interligado à fase do
desenvolvimento da libido (dissociação e ambivalência).

f) !Disposição]:
Atrás da regressão, estão encobertos os problemas de ftxação e de
disposição. Podemos afirmar de uma maneira geral que a regressão
retrocede até um ponto de fixação do desenvolvimento do eu ou da
libido. Isso representa a disposição.2 t:. portanto, o elemento mais in·
fluente que intervém na decisão sobre jal escolha da neurose. Por isso
vale a pena demorar-se neste aspecto. A fixação é produzida pela fase
do desenvolvimentc que foi tão demasiadamente marcada, ou talvez
detida por um tempo excessivamente longo para que possa passar toda
para a fase seguinte. Melhor não exigir idéias mais claras em que, ou
em cujas mudanças, consiste a fixação. Mas podemos dizer alguma
coisa a respeito de sua origem . Tanto pode haver a possibilida4e de
que tal fixação simplesmente 1sejaj congênita, como produzida por im·
pressões precoces e, finalmente, de que ambos os fatores estejam as-

I jEsta p<me obscura da frase parece ter melhor sentido com outra posição de
seus elementos verbais.! IN. do T.: A organizadoro, llse Grubrich-Simitis, sugere
n seguinte modiricoçiio d:1 frase em alemão, o que nãc altera signWcativamente o
tex to em portUJ!uês: do original 'wb 1:s sicli m.:l!r um Regressíon uls auf Ent-
wickltmgsilenmumg lrunddt". para ''1110 es sidt um mehr ais Regressíon auf
Eniwickltmgsfu:muumg lrandclt" . .. j
2 !Em "A Disposição à Neurose Obsessiva" (19 !3i, p. 110), Freu d esclarece
com franqueza: "As~im, nossas disposiçoes siío inibições de desenvolvimento."!

70
sociados. Tanto mais porque, pode-se afirmar, ambos os fatores são
efetivamente ubíquos, já que, !POt um lado,) existe m na constituição da
criança todas as disposições e, pelo outro; as impressõe.; eficazes atingem
igualmente a muitíssimas crianças. Trata-se, portanto, dr um pouco mais
disso ou daquilo, além de um encontro mais eficaz. Como ninguém está
inclinado !a! negar os elementos constitucionais, compete à 'PA defender
o direito às aquisições infantis precoces. Deve ser admitido que, na
neurose obsessiva. o fator constitucional é mais claramen te identificado
que o fator acidental· na histeria de conversão. Ainda persistem dúvidas
sobre as minúcias de distribuição.
Onde se leva em consideração o elemento constitucional de fixação
não isel afasta o adquirido: retroage para um passado ainda mais re·
mo.to~ já que se pode justamente afirmar que disposições herdadas são
restos das aquisições dos antepassados. Com isso , ch~!ga·se ao problema
da disposição filogenética atrás da individual, ou ontogenética, e não
há contradiçãol quando o indivíduo adiciona às suas disposições herda-
das, baseadas em vivência anterior. as disposições \'ecentes derivadas de
vivências próprias. Por que haveria de se desvanecei.· justamente no
indivíduo cuja neurose examinamos o processo que cria disposições
baseadas em vivências? Ou por que não haveria jesse indivíduo!, que
cria disposições para seus descendentes, de adquiri-las para si próprio?
Parece muito mais uma complementação necessária.
Ainda é imprevisível até que ponto a disposição filogenética pode
contribuir para a2 compreensão daisl neuroselsl. Para tanto, seria também
necessário que a reflexão ultrapassasse o domínio estreito das neuroses de
transferência. Além disso, a mais importante característica discriminativa
das neuroses de transferência não pode ser considerada nesta síntese
porque, não se salientando no conjunto, só se destacaria> por contraste
com as neuroses narcisistas. Com essa ampliação do horizonte, chegaria
!ao! primeiro plano o relacionamento do eu com o objeto - o apego

1 !No meio dl! palavra, Freud escre\'cu (p. 7, L 32) em vez de p primeiro
um r - talvez pretendendo a palavra "resistência", corrigindo-se depois.! IN. do T.:
Widerspruch - "Contradição" e Widerstand - ''resist~ncia".l
2 !No manuscrito {f. 8, I. 9): "Wie weit die phy/ogcmetischc Disposition :zum
Verstiíndnis der N curose(n) ... " está em vez de :um ("para a"), das (''a">-1
3 !Aqui seguem no manuscrito (f. 8. I. 18-20) duas partes de frases riscadas:
"Ela estA no apego d" objeto. Relacionamento do cu com o objeto".! IN. do T.:
As frases em alemão são: "Er liegt in der Festhaltung des Objekts. Verhiiltnis
des Ich zum Objekt". O sujeito na primeira frase, er, refere-se à palavra "carac·
terfstica".J
.71
do objeto apareceria como o elemento discritninador comum. Vale aqui
uma elaboração preliminar.
Espero que o leitor, tendo notado pela forma maçante de muitos
parágrafos como as observa'Yões foram montadas de maneira penosa e
feitas com muito cuidado, seja tolerante, permitindo que a crítica ceda
lugar à fantasia na apresentação de coisas incertas, embora estimulantes,
o que justifico, na medida em que se pode, assim, abrir novas perspec-
tivas.
Ainda é legítimo su!Xlr que também as neuroses têm de prestar seu
testemunho sobre a história do desenvolvimento da alma humana. ·Acre-
dito agora ter demonstrado, no ensaio (Sobre os Dois Princípiosl), que
devemos atribuir aos impulsos sexuais do ser humano um desenvolvi-
mento diferente dos impulsos do eu. A razão dessa diferença baseia-se
essencialmente no fato ck! que os primeiros podem, durante um bom
tempo, ser satisfeitos auto-eroticamente, enquanto os impulsos do eu não
podem, desde o começo, prescindir do objeto e, com isso, da realidade.
Creio termos aprendido em linhas gerais qual é o desenvolvimento da2
vida sexual do ser humano (Três Ensaios sobre a Teoria Sexual, lt905dl).
E mais dífícH perscrutar o desenvolvimento , do eu humano,' isto é,
das funljóes de autopreservação bem como das_formações derivadas delas.
Conheço somente a tentativa única de Ferenczi,3 que aproveita para
essa fimilidade a experiência da 'I'A. Naturalmente, nossa tarefa de com-
preender as neuroses ficaria muito facilitada se a história do desenvolvi-
mento do eu partisse de outra fónte, em vez de tomarmós direção inversà
como precisamos proceder' agora, Fica-se com a impressão · de que a

r· Formulações sobre os Dois Prindpios do Processo Mental", jt9llbj JN.


do T.: Veja o título original em alemio: Formulierungen iíber N z:wei Prinzipint
des psychischen Oeschehens.l
• 2 !No manuscrito (f. 9, I. t O) der; Freud primeiro quis aupostamente escrever
~da sexualidade humana"1 IN. do T .: dn- é o artiao definido feminino ,enitivo;
corresponderia , segundo a 5ugestão da orianizadora, a· der menschlicMn Sex~»o
litat em vez de dtf menschlichen SexlliJlkben:, como ficou no texto editldo.!
·3 ISándor Ferenczi (1913).1
4 !Certamente o sentido é: "NO$Sa tarefa de compreender as neuroses ficaria
muito facili tada se no6 foslit dada a história da evolução do eu a partir de outro
lugar, em vez de termos de proceder agora na direção inversa" (isto é, tirando
conclusões da pesquisa das neuroses para a história elo dHetlvolvimento do eu).
Possivelmente, Freud interpelou a pane da frase "çomprecndcr as neurosea•t
posteriormente no texto corrido, como era de seu costume, ·porém deixou ·de
acrescentar um sinal de inversão.!

72
história do desenvclvimento da libido repete uma parte do desenvolvi-
mento lfilogenéticoj bem mais antiga do que o do eu, o primeiro talvez
repetindo as condições dos animais vertebrados, enquanto o último de-
pende da história da e~pécie humana. Existe uma série à qual pode-
mos atar vát·ias idéias de longo alcance. Essa série aparece quando
colocamos as 'l'ncuroses (nãç somente as neuroses de transferência) .
numa ordem de acordo com o momento! em que costumam se apre-
sentar nà vida indiviJual. Nesse caso, temos como a mais precoce a
neu rose de angústia, a ~,~uase incondicional; segue-se-lhe a histeria de
conversão (mais ou menos a partir do quarto ano); e ainda um pouco
mais tarde, na pré-puberdade (9- 10 ano~). aparece,. nas crianças, a neu-
rose obsessiva. Não há neuroses narcisistas na infância. Destas, a de-
mência precoce, em sua forma mais clássica, é lumal doença da puber-
dade; a paranóia aproxima-se dos anos de maturidade como também a
melancolia-mania. Não há precisão além desses casos.
Portanto, a seqüência é a seguinte:
Histeria de angústia - Histeria de conversão - Neurose
obsessiva - Demência precoce - Paranóia - Melancolia-
Mania.
As fixações inerentes às disposições dessas enfermidades também
parecem organizar-se numa seqüência em que, no entanto, correm em
sentido contrário,2 especialmente quando é considerada a dis!XlSi'tão li-
bidinosa. Em conseqü€ncia, quanto mais tarde a neurose se apresentar,
tanto mais a libido regridirá para uma fase mais precoce. Este aspecto é
válido apenas em traços gerais. Sem dúvida, a histeria de conversão
orienta-se contra o primado dos genitais; a neurose obsessiva, contra a
fase anterior sádica; todas as três neuroses de transferência, contra o ple-
no dese~volvimento da libido. As neuroses narcisistas, por sua vez, re-
trocedem às fases anteriores ao encontro do objeto: a demência precoce
regride até o aut~rotismo; a paranóia, até a escolha homossexual e nar-
cisista de objeto; a melancolia baseia-se na identificação narcisista com o

1 INo manuscrito (1. 9, I. 10) ae lê der, pois Freud esc~ prim~l~


"depois do tempo" c adicionou posteriormente punkt entre 111 hnbas c omutu
a modificação do artigo!. IN. do T .: o trecho assinalado c:m alemão ~: "nac~
dem Zeitpunkt". Der rerere-se ao artigo definido no cuo dativo feminm~: Ze~t
t "tcmpc" e composto com punkt transrorma-se em. "momento". A modtftcaçio
do anigo foi para Mlvar a concordâneia.f
2 !Neste lugar encontra-t~e no manuscrito (f. 10, I. lS) um CHullich cllli"ll"
mente riscado.!

73
objeto. As diferenças consistem em que, sem dúvida, a demência aparece
mais cedo que a paranóia, embora sua disposição libidinosa retroceda a
estádios mais primitivos, enquanto que a melancolia-mania não permite
uma classificação temporal segura. Não se pode, portanto, sustentar que
a série cronológica, seguramente existente, das 1'neuroses seja somente
determinada pelo desenvolvimento da libido. Até onde isso for proce-
dente, poderíamos acentuar a relação inversa entre !imbas. T ambém é
conhecido o fato de que, com o avanço da idade, a histeria ou a neurose
obsessiva podem se transformar em demência, mas nunca ocorre o con-
trário.
Pode-se, no entanto, estabelecer uma outra seqüência, esta filoge-
nética, que ocorre realmente em paralelo com a seqüência cronológica
das neuroses. Apenas, para isso, é necessário divagar, bastando-se alguns
elos hipotéticos.
Foi o Dr. Wittelst quem primeiro enunciou a idéia de que o pri-
mata teria passado sua existência num am biente exhemamente rico,
satisfazendo todas as suas necessidades. O eco dessa situação temos no
mito do paraíso original. lá, ele pode ter superado a periodicidade da
libido, que é ainda inerente aos mamíferos. Ferenczi,2 naquele trabalho
mencionado, rico de pensamentos, expôs que o desenvolvimento ulterior
desse homem pri mitivo realizou-se sob a influência dos destinos geoló-
gicos da Terra e especialmente as agruras dos tempos glàciais teriam
exercido o estímulo para o seu desenvolvimento cul turaL Pois é ampla-
mente admitido que a espécie humana já existia na era glacial, tendo
experimentado sua influência.
Apresentando a idéia de Ferenczi, fica-se tentado a reconhecer,3
nas três disposições para a histeria de angústia, a histeria de conversão
e a neurose obsessiva, regressões a fases pelas quais toda a espécie huma·
na teve que passar do começo ao fim dos tempos glaciais. Assim como na-
quela época todos os homens passavam por essa experiência, hoje so-
mente uma parcela passa em virtude da predisposição herdada acionada
por novas experiências. Os quadros não podem naturalmente ser super-
poníveis, porque a neurose contém mais do que a regressão traz consigo.

1 IFritz Wit tels (1912). Cp. cspeciolmentc a introdução, p. 1-19.f


2 INo manuscrito (L I I, I. 22), o nome ~ sublinhado neste ·lugar. Nas reda-
çlie$ passadas a limpo, que »<:rviam como modelo para a composição. Frcud
costumava destacar os nomes, sublinhand<>-Os, para o compositor gráfico.!
3 !No manuscritc (f. I I. I. 38) está antes de "reconhecer" um ''ver" riscado.[

74
Ela é também a expressão da resistência contra essa r-:gressão, um con-
promisso entre as coisas antigas dos tempos primitivos e a exigência do
culturalmente novo. Essa diferenç!l c:unhar-se-á de maneira mais intensa
na neurose obsessiva, a qual, como nenhuma outra, fica sob o signo da
contradição interna. A neurose deve resgata r o quadro primitivo até onde
o reprimido nela conseguiu vencer.
jl.)j Como primeira colocação, afirmaria, portanto, que sob a in-
fluência das privações impostas pelo desencadeamento da era glacial a
humanjdade em geral tornou-se angustiada. O mundo externo, que era
até então preponderantemente amistoso, propiciando qualquer satisfação,
transformou·sc num acúmulo de riscos iminentes. Havia toda razão para
a angústia real diante de qualquer fato novo. A libido sexual, contudo,
não perdeu de imediato seus objetos, sabidamente humanos, porém com-
preende-se que o eu ameaçado na sua existência acabaria desistindo, até
certo ponto,! do investimento objetai. Mantendo a libido no eu, trans-
formou em angústia real o que antes havia sido libido objetai. Vemos,
pois, na angústia infantil, que a criança, no caso de ausência de satis-
fação, nüo só transforma a libido objetai em angústia real diante ele algo
estranho, como também tende em geral a angustiar-se diante de qualqut! r
coisa nova. Temos sustentado uma· longa discussão n respeito de qual é
a primeira: a angústia real ou a angústia nostálgica. Se a criança trans-
formar sua libido em angústia real, é porque para Jcla j sua libido é
demasiadamente grande, perigosa, chegando assim à representação do
perigo; ou. ao contrário, cede a uma angústia de n~turcza mais geral
e por esta aprende a temer sua libido insatisfeita. Inclinamo-nos a aceitar
a primeira, antepondo a angústia nostálgica, mas para isso falta-nos uma
disposição especial. Teríamos de explicá-la como uma inclinação infantil
geral. Contudo, a consideração filogcnética parece reconciliar esta dis-
cussão em favor da angústia real c faz-nos supor que um·a parcela das
crianças traz consigo aquele temor primitivo da era glacial , o que agorn
induz a tratar a libido insatisfeita como um perigo externo. O excesso
relativo de libido proviria da mesma base, possibilit:mdo novas aquisi-
ções à angús tia. Pelo menos, a discussão sobre a histeria de angús tia
falaria u favor da preponderância da disposição filogenética sobre todos
os demais fatores.

1 !Neste lugar não há no manuscrito H. tJ. I. t) uma vírgula, porém um •


risc~do.[

75
2) Com a continuação dos tempos difíceis, o homem primitivo,
ameaçado em sua existência, precisou resignar-se diante do conflito entre
a autopreservação e o prazer de procriar, o que encontra expressão na
maioria dos casos típicos! de histeria. Os gêneros alimentícios não eram
suficientes para pennitir um aumento das hordas humanas, e as forças
individuais et;"am insuficientes para manter vivos os desamparados. A
matança dos recém-nascidos certamente encontrou resistência no amor,
particulannente das mães narcisistas) Daí, a limitação da procriação
tomou-se um dever social. As satisfações perversas, que não levam à
procriação; escaparam às proibições, o q ue promove~ uma certa regres-
são para a fa se de libido anterior ao primado dos genitais. A limitação
tinha> de afetar às mulheres mais duramente que aos homens, estes
menos preocupados com a conseqüência da relação sexual. Essa situação
toda corresponde evidentemente às condições da histeria de conversão.
Da sintomatologia da mesma deduzimos que ô homem ainda não possuía
a fala, quando, vencido pela necessidade, se impôs não procriar, portanto
ainda não havia erguido o sistema pcs acima do ics. Sob a influência
das proibições regridem para a histeria de conversão os que estiverem
com essa disposição, especialmente a mulher. Essas proibições preten-
dem desligar a função genital, enquanto impressões precoces, muito es·
timulantes, pressionam para a atividade genital.
3) O desenvolvimento seguinte é fácil de construir. Refere-se prirr
cipalmente ao homem. Depois de ter aprendido a poupar sua libido e .a
reduzir sua atividade sexual através da regressão a uma fase anterior, a
inteligência ganhou para ele o papel principal. Aprendeu a pesquisar,
a entender de alguma maneira o mundo adverso4 e a assegurar para si
através das invenções um primeiro domínio sobre esse mundo. Desen-
volveu-se oob o signo da energia, formava os princípios da linguagem e
precisava prestar grande importância às novas conquistas. A linguagem
era para ele magia; seus pensamentos pareciam-lhe onipotentes; com-
,
I jEsra palavra c~ntra·se no manuscrito (f 14, I. 7) depois da palaVT'a
Fallen ("casos"), porém foi colocada no lugar certo através do sinal de inversão.!
2 !Também aqui esta palavra "narcisistas" consta no manusccilo (f. 14, I. 15)
da forma escr;ta na nota anterior, colocada em posposiÇão ~
J )Neste lugar encontra-se no manuscrito (r. 14,: entre as I. 22 e 23) a
palavra "abstinência".!
4 IA<wi no original está ((. 15, I. 1I c 12) "mundo hostil", b to· é, de novo
Frcud colocou o adjetivo depois do substantivo, sem assinalar a inversllo.l IN. do
T .: co ntra riando exigência da gr3mátka alemã (Welt feíndliclre ao invés de
/eindliclte W eltl .l

76
preendia o mundo através de seu próprio eu. E a época i1a concepção
anímica do mundo e de sua técnica mágica. Como recompensa pelo seu
poder de proporcionar proteção de vida o tantos desamparados, arroga-
va-se domínio ilimitado sobre eles, defendendo, através de sua persona-
lidade, as duas primeiras normas: sua inviolabilidade e que não pudesse
ser negado a ele dispor das mulheres. No fim dessa época, a humani-
dade era dividida em hordas isoladas. as quais eram dominadas por
um homem sábio,! forte e brutal, como pai. E possível que a natu-
reza desconsiderada, ciumenta e egoísta,2 que as ponderações da psicolo-
gi~ popular atribuem ao pai primitivo da horda humana, não existisse
desde o começo, senão que, adaptando-se às necessidades , moldaram-se
no percurso dos difíceis tempos glaciais.
Ora, a neurose obsessiva repete as características dessa fase da
humanidade, uma parte da mesma de forma negativa já que a neurose,
jna configuração! da formação3 de jsuasl reações, também representa a
resistência contra esse retorno. São traços não modificados: acentuação
exagerada do pensar; a energia gigantesca, retornando na4 compulsão;
a onipotência do pensamento; a tendência para leis5 invioláveis. Porém,
contra os impulsos brutais. os quais querem substituir a vida sexl.lal;
opõe-se a resistência de desenvolvimentos posteriores. Estes partem do
conflito libidinoso, paralisam a energia vital do indivíduo e consentem
apenas naqueles restos de impulsos através da obsessividade, deslocados
para insignificâncias. Assim como o tipo grandioso do pai primitivo, que

1 IFreud acrescentou no manuscrito (f. 15, I. 33) "sábio" {weisen), na


margem, e assinalou que essa palavra deveria ficar antes d11 palavra " brutal•
(brutalen).l
2 ICf. uina passagem em Psicologia de Grupo e a Análise do E-go (192Jc.
p. 115),. em que Freud diz do pai da horda primcva "que seu ego po5suía po~
vínculos libidinais; ele não amava ninguém. a não ser a si próprio, ou a outraS
pessoas, na medida em que atendiam a suas necessidades".!
3 !No manuscrito (f. 16, I. 9), t'Stá a Cllpressão "formação de tellções" (Reak·
tionsbildungen) escrita acima e de forma enviesada no começo da linha sobre
diese W iederkehr {"este retorno"), Entretanto, Freud não indicou em que lugar
essa palavra deveria !.er interpCJSta.l
4 IFreud escreveu H. 16, I. 11) primeiro als ("como"), palavra que ele
riscou e substituiu por im ("na").l
5 !Lembrou-se Freud. um pol1co mai~ tarde. do quarto elemento desta
enumeração: "a inclinação para leis invioláveis". Conforme seu hábito, regi&trotH>
então no texto corrente depois de "l'voluções", srifou-o e o situou no lugar certo
com um traço. Compare o fac.símile do manuscrito (f. 16, 1. 12-17).1

T1
realmente sucumbiu nas relações familiares criadas por ele próprio, res-
suscita depois como divindade, assim também sucumbe esse tipo humano,
o mais valioso para o desenvolvimento da cultura, em seu retorno, diante
das exigências da vida sexual.
4) Chegamos até este ponto na reaJização do programa previsto
por Ferenczi de "colocar em harmonia os tipos neuróticos regressivos
com a história do gênero humano" ,1 talvez sem nos perdermos em espe-
culações demasiadamente ousadas. Mas para as demais neuroses narcisis-
tas, que surgem ainda mais tarde, faltaria, porém, uma ligação. Preci-
saríamos recorrer à hipótese de que a disposição para elas é adquirida
de uma segunda geração, cujo desenvolvimento nos transporta para uma
nova fase da cultura humana.
Essa segunda geração começa com os filhos, aos quais o pai primi-
tivo, ciumento, nada permite. Expusemos, em outro lugar (TeT),2 que
~h: os expulsa quando chegam à idade púbere, em substituição a essa
solução. A experiência da IJIA nos adverte, porém, sobre uma outra,
ainda mais cruel, isto é, a de que ele os despoja de sua virilidade, dessa
forma podendo permanecer na horda como inofensivos trabalhadores
auxiliares. Podemos certamente imaginar o efeito da castração naquele
tempo primitivo como uma extinção de libido e uma parada no de-
senvolvimento individual. A demência precoce parece repetir esse es-
tado de coisas, e, principalmente na forma hebefrênica, leva à de-
sistência de qualquer objeto de amor, involução de todas as sublimações
e volta ao auto-erotismo. O jovem comporta·se como se tivesse sofrido·
a castração; na verdade, não são raras as autocastrações reais nessa
afecção. Os outros aspectos da doença, como as alterações da fala, os
surtos alucinatórios, não devem ser referidos ao quadro filogenético,
pois correspopdem à tentativa de cura, aos diversos esforços para re-
cuperar o objeto. os quais, durante ialgumj tempo,3 no quadro sintomá-
tico da doença, quase se destacam mais que os fenômenos da regressão.
Há uma questão ligada a tal tratamento dispensado aos filhos que
deve ser respondida de passagem. Como ocorreriam a sucessão e a substi-

I !S. Ferenczi, 1913, p. 161. O tr~ho citado é um pouco diferente: "Pro-


vavelmente conseguiremos um dia colocar em paralelo cada uma das etapas
da evolução do eu e os tipos neuróticos regressivos com as etapas filogenéticas da
humanidade'".[ ·
2 l1"otem e Tabu (1912·13).1
3 ~ Esta palavra está no original (f. 17, I. 37) acrescentada na margem. Não
é claramente visível, no manuscrito, onde Freud a quis interpor.!

78
tuição dos pais primitivos, caso se livrassem dos filhos dessa mane~ra?t
Já Atkinson 119031 mostrou o camiJ;lhO, destacundo que somente os fllh~s
mais velho~ tinham de temer as perseguições do pai: Enquanto o mats
jovem - de maneira esquemática - graças à intercessão da mãe e,
antes de mais nada, pelo envelhecimento do pai e de seu conseqüente
desamparo, tinha a chance de escapar a esse destino e tornar-se sucessor
do pai. Esta preferência pelo mais jovem foi basicamente afa~tada na
estrutura social subseqüente e substituída pelo privilégio do ma1s velho.
No mito e no conto de fadas, contudo, permanece ainda bem reconhe-
cível.
5.) O passo seguinte poderia consistir apenas na fuga dos filhos
ameaçados de castração, aprendendo a assumir juntos a luta pela vida;
Essa convivência tinha de produzir losl sentimentos sociais e podia
estar edificada na base de satisfações homossexuais. ~ bem possível
que nos deparemos com a tão procurada disposição hereditária à h<:
mossexualidade na transmissão das condições dessa fase . Os senti·
mentos sociais. assim produzidos na sublimação da homosexualidade,
tornam-se mais tarde p.ropriedade permanente da humanidade e a base
de toda sociedade futura .. A paranóia recupera visivelmente as condições
dl;!ssa fase; melhor dito, a paranóia defende-se contra o retorno da mes-
ma, na· qual·não faltam alianças secretas e o persegu1dor representa um
magnífico papel. A paranóia tenta repelir a homossexualidade, que e.ra
a base dessa fraternidade e, ao mesmo -tempo, tem de expulsar da socie·
dade o acometido de homossexualidade e2 destruir suas sublimações
sociais.
6.) A classificação da melancolia-mania nesSe contexto esbarra com ·
a dificuldade de que não é possível determinar com certeza a época
normal para o aparecimento individual desses sofrimentos neuróticos.J
Mas, seguramente, é mais na idade adulta que na infância. Se observar-
mos bem a mudança característica da depressão para :~. euforia, é difícil

1 IA isso refere-se a indicação de Freud na cana que acompanhou o ma-


nuscrito (atrás, p. 9) onde o reparo de Ferenczi teria sido acolhido. Para mais
pormenot'CS compare o trabalho .. Metapsicologia c Melabiologia'' a ~guir, P· 85.!
2 IEslc "e"' (und) está oo manuscrito (f. 19.. l. 10) r.o fim. do pa:ágrafo.
Suposlamentc Frcud quis interpolá-lo no lugar 81:1ma; falta porem o smal de
inversão.j
3 r·Ncurótico·• neste lugar é evidentememe usado no sentido de psiconeu·
cose e não de nturose de transferência.!

79
nãol nos lembrarmos da sucessão semelhante de triunfo e luto que for-
ma o conteúdo regular das festividades religiosas. Luto pela morte de
Deus; alegria triunfal na sua ressutTeição. Conclufmos, a partir do que
afirma a psicologia dos povos, que esse cerimonial apenas repete na
direção inversa o comportamento da fraternidade, após terem dominado2
e matado o pai primitivo; triunfo ~obre sua morte c em seguida luto,
pois todos o admiravam como tipo ideal. Assim, esse grande aconteci·
mento da história da humanidade, que pôs fim à horda primitiva e a
substituiu pela fraternidade vitoriosa, daria origem às predisposições da
peculiar sucessão de estado de ânimo que reconhecemos como partícula·
res afecções narcisistas ao lado das parafrenias. O luto pclo3 pai primi·
tivo emana da identificação com ele, e tal identificação provamos ser a
condição do niecanismo da melancolia.4
Resumindo, podemos dizer o seguinte: se as disposições para as
três neuroses de transferência foram adquiridas na luta contra as neces-
sidades dos tempos glacillis, então as fixações, nas quais se baseiam as
neuroses narcisistas, originaram-se da opressão do pai, o qual, após o
término da era glacial assume, continua, por assim dizer,S tal papel con-
tra a segunda geração. Da mesma forma como a primeira luta leva para a
fase cultural patl'Íarcal. a segunda leva à social. Ambas, contudo, pro·
duzem as fixações, as quais, em seu retorno, após milênios, transformam·
se nas disposições dos dois grupos de neurose. Portao1t0, neste sentido,
a neurose .! também uma aquisição cultural. Se o paralelo aqui esboçado
não é mais que uma comparação lúdica na medida em que 1íào consegue
iluminar o enigma das neuroses, deve ceder o esclurecimento às futuras
pesquisas e novas experiências.6

I JNo original (p. 19, I. 20) "em niio" (an nic!tt); Fn:ud não acrescentou
~eu sinal do inversão.[
2 jFreud escreveu aqui (f. 19, I. l2l, primeiro überfullen ("as:lllltado"), riscou
fallen e a substituiu por wiilrigt (produzindo assim "vencido", "dominado'').[
3 IFreud escreveu antu (f. 20, I. 6) em lugar de um (''pelo"), über
(usobre '').[
4 !Em "Luto e Melancolia" (1917e !19151). um outro 1taball10 metapsicol6-
gico de 1915, que já estava encerrado quando Freud escreveu o presente rascunho.[
5 lEste "por assim dizer" (gleichsum) foi evidentemente anotado depois, na
margem esquerda da folha do manuscrito (p. 20, I. 19). Nlio é claramente íden·
tific:ávcl onde Freud quis lnterpolá-lo.J
6 INo manuscrito (f. 20, I. 35) estí aqui em longo lriiÇo horizontal, sinal
de Freud para indicar o fim do manuscrito. O que se ~eaue, qora, é o acrésdmo

80 .
· Agora é o momento de se pensar jnumal série de objeções, lem-
brando que não devemos superestimar as deduções às quais chegamos.
Antes de tudo, qualquer um pode lse darl conta de que a segunda Krie
de disposição ligada à segunda geração só de homens (como filhos) nlo
poderi11 procriar, enquanto a demência precoce, a paranóia e a melan-
colia, da mesma forma, poderiam ser produzidas por mulheres. As mu-
lheres viveram nos tempos primitivos em condições ainda mais desiguais
que hoje. Dessa forma, há nessas disposições uma dificuldade da qual
as ldoj primeiro grupo est~o livres: elas parecem ser adquiridas em con-
dições que excluem a hereditariedade. t evidente que os filhos c:astradoa
e intimidados não chegam a procriar e, portanto, não podem propagar
sua disposição (dem~ncia precoce). Tampouco pode o estado lJI dos filhos
expulsos, ligados entre si pela homossexualidade, influenciar as gerações
subS"...qüentes, pois, enquanto não triunfarem scbre o pai, extinguem-se
como ramos colaterais inférteis da família. Havendo essr triunfo, deverá
ser uma experiência de uma geração, na medida em que se tornará
forçoso impedir a multiplicação ilimitada.
Como podemos facilmente imaginar, não precisamos ficar intimi·
dados por esse beco escuro. No fundo, a dificuldade coincide com uma
outra já levantada anteriormente, ou seja, como esse pai ciumento da
era glacial teve continuidade uma vez que, obviamente, não era imortal
como sua cópia divina. Mais uma vez, apresentai-sei o filho .mais jovem
que virá a se tomar pai, e, embora não tenha sido caslrado, conhece o
destino dos irmãos mais velhos e o teme para si próprio. Da mesma
forma deve ter enfrentado a tentação, renunciando à mulher, ou fugindo
como 'seus irmãos mais velhos. Assim, ficava ao ·lado dos homens decaí-
dos e inférteis uma outra cadeia, a qual, constitufda por indivíduos que,
mesmo passando pelo destino dos homens, podiam legar esse destino,
bem como a disposição. Continua válido o ponto de vista de que, para
ele lo filho mais jovemj, fica substituída a penúria da época pela opressão
paterna.
O triunfo sobre o pai deve ter sido fantasiado e planejado através
de gerações, antes de sua realização. Estender à mulher as disposlçõea
produzidas pela opressão paterna parece criar ainda maiores dificulda-
des. Os destinos da mulher naqueles tempos primitivos ocul1am-se para
nós num mistério especial. Assim queremos levar em consideração con·

enunciado na carta que acompanhou o manuscri10 {p. 9), uma reação l earta de
Ferenczi. Para 11\&iores detalhes. compare outra vez, adiante, p. gq

81
dições de vida que não conhecemos. Mas a mais gro1seira dificuldade
é-nos ensoberbada pela observação de que não devemos esquecer a bis-
sexualidade da humanidade. :e. assim que a mulher pode herdar as dis-
posições adquiridas pelo homem, assumi-las e mostrá-las nela mesma.
Entretanto, fique evidente que com esses esclam:imentos não conse-
guiremos senão salvar nossas fantasias científicas da censura de que &ão
absurdas. Em todo caso, elas mantêm seu valor como desilusão sau-
dável,· se, indo por lesse! caminho, pusermos a disposição filogenérica
acima de tudo. As coisas nãol se passam de maneira a que as constitui-
ções arcaicas retomem hoje em indivíduos, por exemplo, em proporções
pré-estabelecidas, empurrando-os para a neurose atrav~ do conflito com
as exigências atuais. Há lugar para novas aquisições e novas influê~
cias, as quais não conhecemos. Contudo, não alcançamos um ponto final;
antes, estamos no princípio de uma compreen&ão desses fatores ruo-
genéticos.

1 INo mUIUiaito (f. 22, l. 37) ate Hnio" (llicht) foi talvez maia · tardá
çoloc:ado anta do começo da llnha.J

82
ILSE GRUBRICH-SIMITIS

Metapsícologia e M etabíologia

Para o rascunho de Sigmund Freud sobre


"Neuroses de Transferência: uma Síntese"
Um texto de Sigmund Freud, até agora desconhecido, de uma de suas
fases .de criação mais produtivas, será certamente, em pouco tempo.
objeto de cuidadosa exegese, apesar de tratar-se apenas de um rascunho
fragmentário e não do texto passado a limpo do perdido décimo segundo
trabalho metapsioológico de 1915. Para facilitar a compreensão c o
acomJ!anhainento desta primeira publioaçio, vou esboçar o contexto
em três níveis parcialmente sobrepostos: o contexto biográfico; o con·
texto da própria obra e o contexto histórico-científico.

O contexto biográfico

A primeira guerra mundial durava ·j á alguns meses, quando Freud, no


fmal de 1914, fez menção pela primeira vez, em cartas dirigidas a seus
colaboradores e discípulos, de seu projeto de uma ~rie de trabalhos
sobre metapsicologia, os quais havia começado a escrever após o ténuino
do ~tudo sobre· narcisismo (1914c) e do caso clínico do homem dos
lobos (1918b ll914j). A Lou Andreas-Salomé menciona vagamente ainda
em 25 de novembro: "Eu trabalho em segredo em coisas avultadas e
possivelmente substanciosas" (1 966a, p. 2~). Mal se passara um m4!s,
e já se encontra em uma carta dirigida a Karl Abraham um quadro
conciso dos assuntos ctntrais do plano da metapsicologia: " Recentemente
obtive um conceito dos dois sistemas, conscientes (cs) e inconsciente
(ics), tornandcros quase palpáveis e com cuja ajuda penso que encontrei
uma solução simples para a relação da demência precoce com a reall·
dade. Todos os investimentos em coisas formem o sistema ics, enquanto
a ligação dessas representações ics com as representações de palavras
traz a possibilidade de torná-las cs. A repressão nas neuroses de trans-
ferência consiste na retração da libido do sistema cs, isto é, na separaçlo
das representações de coisas das representações de palavras. A repressão

85
nas neuroses narcisistas, pela subtração da libido das representações de
coisas ics, apresenta, naturalmente, uma perturbação muito mais pro-
funda. Por isso, a demência precoce altera em primeiro lugar a lingua-
gem e trata a totalidade das representações de palavra como a histeria
trata as re presentações de coisas, ou seja, submetendo-as ao processo
primário através da condensação, deslocamento, descarga, etc ... " Resu·
mindo e anteci pando o resultado final, continua: " Uma teoria das neu-
roses com capítulos sobre os destinos da pulsão e da regressão e sobre o
ics poderia ser levada a cabo se o prazer de trabalhar não for vencido
pelo mau humor." (1965a, p. 198).
De fato, Freud julgava, durante essa fase, sua capacidade de tra-
balho permanentemente ameaçada pelo mau humor. Suas ligações inter-
nacionais minguaram ou romperam-se completamente. A maioria de seus
colaboradores foi chamada para o serviço militar. Confessou a Lou
And reas-Salomé que se sentia "freqüentemente tão só como nos pri·
mciros dez anos, quando havia um dese rto ao me u redor, embora es-
tivesse mais jovem e ainda dotado de infinita energia e perseverança"
(1966a, p . 35). E numa carta para Emest Jones de 25 de dezembro de
1914, diagnosticou: " Para mim está bem claro que o tempo de floresci·
mento de nossa ciência foi, agora, bruscamente interrompido e estamos
indo ao encontro de um mau período no qual nada mais nos resta,
senão manter as brasas em algumas lareiras isoladas até que um vento
mais favorável permita reacendê-las numa grande fogueira." Na mesma
carta, Freud se queixa sobre uma outra razão para o seu mau humor,
isto.é, sobre o drástico recesso de seu consultório analítico: "Como pode
imaginar, meu trabalho como médico reduziu-se para um tempo dimi·
nulo de duas a três horas diárias I· .. 1Suporto essa restrição com a
máxima dificuldade, uma vez que há vinte anos acostumei-me a trabalhar
abundantemente e não me é possível utilizar mais do que uma fração
de meu tempo para a produção científica."! Finalmente, uma terceira
razão para estar tão " casmurro": pela falta de novos manuscritos, Freud
temia pela sobrevivência das revist~s especializadas em psicanálise, como
a Intemationalen Zeitschri/1 jür iirztliche Psychoanalyse e a / mago:

1 Devemos gradecer a Sigmund Freud Copyrights Ltd., Cok:hester. pela


permissão do exame desta carta, parcialmente ainda não publicada. (A ortografia
e a pontuação {oram ajustadas eom cuidado aos costumes modernos; as abrevia·
turas foram. na maioria dos casos, escritas por extenso; os acrésc;imos editoriais
foram colocados entre barras. Isso vale também para todas as demais citaçOeJ.)

86
"Ambas devem suas vidas à misericórdia de um editor honrado, embora
instável" (1966a, p . 38 e seg.). Começando no final de 1914 a escrever
a série de seus trobalhos metapsicológicos, Freud combateu, ao mesmo
tempo, as várias causas de seu mau humor. Com tanta ênfase, que ele
mencionav;~ de forma autocrítica que ''todos esses trabalhos padecem
sob a falta de meu bom humor e de sua função de auto-atordoamento"
(íb. , p. 39).
Apesar de o vestígio dessa fadiga se encontrar na maior parte de
sua correspondência, em lugar algum ela está tão profundamente gravada
como nas cartas que Freud trocara naquele tempo com o psicanalista
húngaro Sándor Ferenczi. Em 3 1 de julho de 1915, logo após enviar
a Ferenczi seu rascunho sobre Neuroses de Transferência: uma Síntese,
comenta Freud:· "O senhor é o único que ainda trabalha ao meu lado."
Os extratos da correspondência inédita, indispensáveis para a compreen-
são do texto descoberto, mostram em que grande escala Ferenczi, por
sua maneira de pensar e sua formação cultural, estava predestinado a
sei' o interlocutor indispensável de Freud, especialmente nas reflexões
sobre o tópicc da filogenética do manuscrito.l
Na mesma data da já referida carta a Lou Andreas-Salomé, Freud
mencionou a Ferenczi seu novo projeto com um misto de prazer e mis·
tério, algo que "estaria se formando e sobre o que ~inda não se poderia
falar" •· Apenas quero lhe confidenciar que, finalmente, por caminhos
há muito batidos, encontrei a decifração do enigma do tempo e do es·
paço e do mecanismo há tanto procurado do desencadeamento da an-
gústia." Entretanto, poucos dias depois, em 2 de dezembro de 1914,
teve de admitir: " Aconteceu comigo algo parecido com o que aconteceu
aos alemães na guerra. Os primeiros sucessos foram SU1preendentemente
grandes c fáceis, seduzindo-me para continuar o avanço. Agora cheguei
a coisas tão duras e opacas que não tenho certeza se vou ultrapassá-las."
Contudo, logo poderemos ler, em 15 de novembro, que seu trabalho
volta a progredir, com mais otimismo, retomando aquela metáfora bé-
lica com certa alegria que hoje nos soaria estranha, dizendo que " vou
novamente bem com o trabalho". " Vivo, como meu irmão diz, em mí·
nhas trincheiras particulares. Refletindo e escrevendo, rompi com êxito,
após duras lutas, a primeira linha de enigmas e dificuldades. A angústia,

1 Devemos agradecer a Sigmund Freud Copyrights, Colcheater; Enid Balint,


Londres. e à Sra. Judi!h Dupont, Paris. pela permissão de citar a transcrição (uma
rcvisiio de seu texto literal com as cartas originais não foi possível).

87
a histeria e a paranóia capitularam. Vamos ver até onde poderemos
levar os êxitos. Com ,isso, muita coisa bonita apareceu: a escolha da
neurose, as regressões comple.tamente elaboradas I·. ·I·"
Pelo ano-novo de 1915, Ferenczi convidou Freud "para variar
]... ] nestes tempos op_ressivos e difÍceis" para uma visita a Budapeste.
Freud declinou telegraficamente e justificou-se numa carta de t t de
janeiro, dizendo que "subitamente irrompeu uma erupção de idéias I· .. 1
depois de umo longa pausa, de conteúdo tão significativo que fiquei ao
primeiro instante ofuscado. Tratava-se nada menos que da metapsico-
logia da consciência I· .. 1. Quando, dois dias depois, pus mãos à obra,
veio a desilusão. O assunto era tão refratário a qualquer exposição e
mostrava tantas lacunas c dificuldades que desisti ] .. ·I"·
No dia 18 de fevereiro, Freud enviou a Ferenczi uma "página sobre
melancolia", pelo visto um rascunho dos pensamentos que mais tarde
foram elaborados em "Luto e Melancolia" {l917e jl915j) e, no dia 8
de abril, se lê o seguinte: "Terminei ] ... i o segundo artigo de minha
série sintética. Trata da repressão (19I5d). O primeiro foi 'Pulsões e
os Destinos das Pulsões' (l915c), mas o que mais terá minha afeição
será o terceiro, onde se trata'do inconsciente" (l915e)." J.á em 23 de abril,
segue a notícia: " A série: pulsrío, repressão e inconsciente está pronta.
A primeira peça que já foi composta pela Zeitschrijt está em suas mãos;
as outras duas estio na pasta da redação. A introdução sobre 'pulsões'
não é lá muito tentadora, mas em continuação vem muita coisa. Tornou-
se necessário um quarto trabalho, que já está esboçado, no qual com-
para-se o sonho cum a demência precoce.! Vai junto com a metapsi-
cologia. A revista está por mim abastecida por um ano. Vivant Sequen-
tes."• Mal dois meses se passaram e Freud, em 21 de junho, pôde
anunciar mais uma expansio da série: " Dez dos doze ensaios estão
prontos, dois dos quais (consciência e angústia), entretanto, precisam de
um remanejo. Acabo de terminar a histeria de conversão, faltando ainda
a neurose obsessiva e a sínt~ das neuroses de transferência. Embora
tenha certas peculiaridades, há qualquer coisa aí, mas não o acabamento
certo." Em carta de 10 de julho, pôde Freud constatar que somente
onze dos doze ensaios estavam terminados - "ou mais ou menos isso".
Dois dias mais tard~. pela primeira vez ele se estende detalhada-
mente sobre o décimo segundo ensaio. Para possibilitar a comparação

"Suplemento Melapaicol6Jico para a Teoria dos Sonhos" (1917d I19JSj).


• IEm latim: "Que vinm OI sesuintes" (N. do T.).j

88
do texto com o rascunho e para facilitar a compreensão do contexto da
discussão que se &egue, essa carta será aqui reproduzida em seu pleno
teor.l

12 de julho de 1915

Caro amigo

No preparo de Neuroses de Transferência: uma Síntese, tenho


me ocupado com fantasias que me perturb~m e que dificilmente
resultarão em algo para o público. Portanto, cbserve: disposta
em ordem cronológica de aparecimentÇJ, existe uma seqüência
relacionada com doentes singulares, cujo percurso é o seguinte:

Histeria de angústia - Histeria de conversão - Neurose


obsessiva - Demência precoce - Paranóia - Melan-
colia-Mania.

As respectivas disposições libidinosas correm, em geral, na


direção inversa, isto é, nas primeiras, a fixação localiza-se nas
fases tardias do desenvolvimento; e nas últimas, em fases pre-
coces, o que não ocorre de forma irrepreensível.
Em contrapartida, parece que essa seqüência repete filogene-
ticamente um desenrolar histórico. O que hoje são neuroses
eram fases do estado âa humanidade.
Com o advento das privações da era glacial, os homens toma-
ram-se angustiados, uma vez que tinham motivos de sobra
para transformarem libido em angústia.
Quando aprenderam que a procriação era agora íriimiga da
manutenção e que precisavam se limitar, tornaram-se - ainda
sem linguagem - histéri~s.
Depois de terem desenvolvido fala e inteligência na dura es-
cola dás eras glaciais - essenc'ialmente os homens - forma·
ram a horda primeva com as duas proibições do pai primitivo,
enquanto a vida libidinosa tinha de continuar agressiv~goís-

1 Ela la cartal já foi anteriormente impressa no v. 3 da bloarafia de Freud.


de Ernest Joncs (1962b, p. 385 e segs.), contudo dentro de uma apresentaçiO
unitateral do papel de Ferenczi como colaborador, nessa época.

89
tica. Contra esse retorno defende-se a neurose obsessiva. As
neuroses seguintes pertencem à era nova e foram adquiridas
pelos filhos.
Foram, em primeiro lugar, coagidos sobretudo a renunciar ao
mesmo objeto sexual, eventualmente através da castração, pri-
vados de toda libido: demência precoce.
Expulsos pelo pai, aprenderam a se organizar em base ho-
mossexual. Contra isso, se defende a paranóia. Finalmente
subjugaram o pai, superardm-no pela identificação, triunfaram
sobre ele e ficaram enlutados por ele: melancolia-mania.
Pessoalment.:, além disso, nada tenho de novo.
Seus direitos autorais, no acima exposto, são evidentes,

Cumprimento-o cordialmente,
Freud

Três dias mais tarde, Ferenczi mencionava em sua carta-resposta o


"maravilhoso encadeamento de todos os tipos de neurose, pensadas como
fases do desenvolvimento da humanidade", de Frcud. Em tão poucas
palavras, demonstrando que Freud não havia ficado satisfeito, exorta o
amigo, em 18 de julho: " tet·ia gostado de ouvir mais sobre sua opinião
a respeito da fantasia filogenética." A reação de Ferenczi vem pronta·
mente em 24 de julho: "Sua observação de que teria gostado de ouvir
mais sobre o plano de trabalho que o senhor chama fantasia filogenétic.a é
justa. Limitava-me a expressar minha alegria quanto a que minhas fan-
tasias ontogenéticast ganharam tão rapidamente uma irmã filogenética.
Também por ora não posso dizer muito mais, mas acho que a analogia
entre as supostas fases da situação da humanidade e2 as neuroses é ex-
traordinariamen te sedutora." Tecendo, adiante, a fantasia filogenética de
Freud, com a missão secularizante da psicanálise, esboça na verdade a
form de uma utopia iluminista : " A fase de angústia, a fase de histeria

I Refere-se ao trabalho de Fcrenczi sobre "Etapas do Desenvolvimento do


Sentido da Realidade" (1913), indicado por Freud anteriormente no rascunho para
Neuroses dc Trunsfcr~ucla: 111110 Sintcse (p. 73 e p. 78 e segs.) e lllmbém 30$ estu·
dos "bioanalíticos'' de uma teoria do coito, os quais muito o ocuparam naquela
época, rcfcrindo·se à Freud ocasionalmente nas cartas desse tempo. Esses estudos,
por~m . foram somen te publicados em 1924 no Eusoio sobre uma Teoria Oeuitaf.
Ver ndiante na porte intitulada "Sobre o Contexto da Obra".
2 Na tranl>Criçlio neste luaar está: mit ("com").

90
e a fase obsessiva - aliás já supostas na criança - pareceram-me im~
diatamente evidentes. Inteiramente nova e surpreendente é a colocação
em paralelo da luta contra o pai com os tipos de neurose mais tardios. A
fase religiosa da humanidade (na qual ela ainda se encontra metida), com
a consciência exagerada do pecado, parece-me ser a última ramificação
da melancolia. A psicanálise significa o começo da convalescença da
humanidade, sua libertação da religião, da autoridade (injustificada) e
da revolta exagerada contra a mesma, portanto, o começo da fase .cientí-
fica (objetiva).'~
Em seguida, ele Ionnula uma objeção,l assim como alguns elemen·
tos complementares: "Apenas a analogia entre a demência precoce e a
castração não me parece evidente. Os castrados, claro, não podem ter-se
reproduzido e seu estado ter-se fixado filogeneticamente. Certamente, o·
senhor se refere ao medo da castração. Pois a perda da mãe pode ter
causado nos filhos expulsos completa perplexidade e regressão para o
narcisismo. Pergunta-se, porém, como essa fase poderia ter-se fixado
filogeneticamente, assim como fica enigmática a fixação .da homossexua-
lidade se não se presumir que alguns homossexuais continuaram bisse·
xuais e conseguiram procriar. Ou então poderia ser que cada uma dessas
fases tenha criado alguns 'criminosos', os quais, sem entrarem pela ten-
dência da época, copulavam com a mulher (mãe) livremente. (~dípo ,
rapto das Sabinas.)"2
Freud agradeceu brevemente em 27 de julho: "Seu depoimento,
muito aguardado, sobre a seqü~ncia filogenética, ·roi muito bem-vindo e
adiantou ainda mais o assunto." No outro dia, ele enviou a Ferenczi
o rascunho. E no dia 31 de julho,· encontramo-lo encerrando o assunto:
" A resposta a sua crítica da seqüência filogenética o senhor encontrará
no rascunho que lhe envio." Ferenczi visivelmente reagiu a isso com
uma carta longa e interessante, pedindo a Freud que a devolvesse, pois
nela constavam pensamentos que ele pretendia desenvolver em estudos
próprios. Freud atendeu a esse pedido em 9 de agosto: " A contrago~to
:devolvo ao senhor sua carta cheia de conteúdo, na qual reconheço a ma-

1 J1 o reparo que Freud, em &ua pequena carta no vel'$0 ela última folha do
rascunho (p . 9), designa como: " Por $0rte sido previsto".
2 Freud tentou desfazer essas dúvidas com uma 16&ica por vezes um pouco
sofisticada, acrescentando uma nova parte ao seu rascunho, mais precisamente
as folhas 21 e 23 do manuscrito (como Freud indica na carta que acompanhou
as remessas). Essas folhas correspondem às passagen.s nas p. 81-2, a partir de
"Agora é o momento ... " até o fim do texto.

91
triz de alguns trabalhos importantes."! Laconicamente lê-se então no
fim: "Os doze ensaios est.ã o prontos, por, assim dizerJ• '
Depois, cresce na correspondência o silêncio sobre os escritos me-
tapsicológicos. Em 31 de outubro, quando Freud sugere a Ferenczi " meter
no próximo tomo anual" seus planejados trabalhos bicanalíticos no sen-
t~do de que o mesmo possa ser completado e assim editado, não men-
ctona _qualquer palavra sobre seus próprios ensaios ainda não publicados.
~o d1a 6 de dezembro, entretanto, dá notícia de "um grande sucesso
dtplomático", pois teria convencido seu editor Hugo Heller "a aceitar
meus dois livros e com isso manter à Zeitschri/t". Relativamente aos
dois livros, referia-se às Conferências Introdutórias sobre Psicanálise
(1916-17 lt915-17j), nas quais Freud tinha começado a trabalhar no
segundo semestre de 1915, assim como à metapsicologia. Entretanto
em relação ao último, acrescenta que Heller " pret:nde editá-lo depoi~
de algum tempo".
A discussão sobre metapsicologia deve ter continuado oraln1ente
entre os d~is amigos. Pois, em 24 de março do ano seguinte, Freud pede
<: _Ferenczt que lhe devolva, por ocasião de uma visita a Viena, manus-
cr~tos de.. trabalhos não publicados que ele lhe havia entregado para
Jenura:. Penso em largar o trabalho sobre o cs e subsiítuí-lo por
um ma1s adequado, por exemplo, 'Os Três Pontos de Vista da M'i''
(Meta.psicologia)." Portanto, não era s6 o editor que hesitava, mas '0
ptópno Freud também estava insatisfeito, Com disposição sombria _
às vezes "preciso lutar por longo tempo até que recupere minha supe-
rioridade" - , cheio de pensamentos de morte, comunica-se com Ferenczi
um ano mais tarde, em 20 de novembro de 1917: "Num certo impulso
de arrumar_~ ca~a entreguei dois trabalhos sobre metapsicologia ('Luto
e Melancoha e Suplemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos') ao
Sachs, para o último caderno da revista (sobre o resto prefiro silenciar)."
Nessa posição de Freud com relação ao " resto" nada veio a mudar
Nos últimos meses d~: guerra, em 17 de março de 1918 informand~
a Fe~nczi a respeito de seus mais novos planos de pubÍicações, não
menc1onou a metapsicologia. E mais, quando Lou Andreas-Salomé, em
18 de março de 1919, insiste mais uma vez em indagar, declara, sur-

não 1 Ap~~ttmente Ferenczi mais tarde a jo11ou fora, pois, pelo menos. ela
consta ma1s na transcrição da correspond~ncia de Freud com Ferenczí.

92
prendendo à primeira vista:l "Onde está minha metapsicoiogia? Por
enquanto continua a não ser escrita" (l966a, p. 103). O que significa
que, após o fim da guerra, considerava o estabelecido nos sete escritos
não publicados não mais como uma síntese feliz de suas percepçõea
teóricas, desistindo do plano do livro.
Podemos especular sobre alguns motivos dessa mudança de inten-
ções. De menor peso deve ter sido o fato de que os textos não foram
em parte definitivamente redigidos e não foram colocados em concor-
dância uns aos outros, o que deixou de satisfazer :as altas exigências
formais do escritor Freud. Essa deficiência poderia ser facilmente re-
mediada se outras razões, de maior peso, não houvessem falado contra
a publicação.
Ainda que Freud em todas as suas fases criativas sempre houvesse
sido um grande e intrépido sistematizador e sintetizador, não deu a esse
traço intelectual de seu temperamento muito valor. tendo-o aparente-
mente até repudiado. Preferia destacar seu modo empfrico e indutivo
de proceder. Ainda enquanto escrevia seus ensaios metapsicológicos, fez
notar a James J. Putnam, em uma carta de 7 de junho de 1913, sua
"limitação ao mais imediato, ao mais palpável e mesmo ao meis mes-
quinho I- •. j a grande insegurança me assusta; sou antes medroso que
audaz e gosto de fazer sacrifícios em troca de estar em terra finne"
(1971a 11906-161, p. 375). Várias vezes, Freud explicou a Lou Andreas·
Salomé como estava trabalhando " passo a passo", como se lê em uma
carta de 13 de julho de 1917, "sem necessidade íntima de terminar,
sempre sob a pressão de um problema bem presente, esforçando-me
penosamente para respeftar cada uma das instâncias". Naquela carta
posterior, já citada, de 2 de abril de 1919, na qual declara francamente
a metapsicologia como "não escrita", continua, como para se justificar:
"Não me é possível o trabalho sistemático nesse assunto: a natureza
fragmentária de minhas experiência e o caráter esporádico de minhas
idéias não o permitem."
Entre os sete ensaios não publicados .e posteriot'tnente perdidos,
considerando ser o décimo segundo o rascunho, deve ter sido este o que,

r Comunicou-lhe em carta de 25 de maio de 1916: ''um livro, que consiatc


em doze redações deste tipo, niío poderá ser impresso antes do fim da guerra.
E quem sabe por quanto tempo mais após esse momento tio ansioumentc espe·
rado."

93
na sua segunda parte, mais se distanciou das experiências c1ínicas.1
Desde o ·começo, Freud reconhecia o caráter especulativo de seus pen-
samentos filogenéticos, como ele próprio os designava. Não apenas nas
cartas a Ferenczi. Nesse sentido, no próprio rascunho, ao qual o texto
passado a limpo seguiu "frase por frase", está acentuado que o leitor,
quanto à argumentação do autor, "aceite certas hipóteses inte_nnediárias"
e que se trata de "fantasias científicas".
Na carta de 12 de julho de 1915, transcrita acima em seu pleno
teor, na qual Freud esboça para Ferenczi, pela primeira vez, o conteúdo
do seu Neuroses de Transferência: uma Síntese, iê·se logo no começo
que ele teria de se haver com fantasias que o perturbaram - podería-
mos acrescentar: perturbaram a quem com sacrifício tinha aprendido
a "domar inclinações especulativas" (1914d, p. 60) justamente porque se
tratava de fantasias. Assim, num outro contexto - mas de um modo
como se quisesse chamar indiretamente a atenção a si mesmo sobre o
manuscrito do rascunho - , afirma numa carta enviada a Ferenczi três
dias após a remessa de Neuroses de Transferência: uma Síntese: "Sus-
tento que não se devam fab ricar mais teorias - elas precisam entrar em
nossas casas como visitantes não convidados, enquanto se está ocupado
na pesquisa de pormenores 1- .. [."Alguns meses antes, em 8 de abril de
1915, em meio à tarefa de seus 'ensaios metapsicológicos, Freud descre-
veu a ferenczi o "mecanismo" da. criatividade dentífica, de forma pre.
cisa e preciosa, como "uma seqüência entrç o jogo audacioso da fantasia
e a crítica implacável da realidade". Podemos supor que o jogo audaz -
d~masiadamente audaz - da fantasia da segunda parte do décimo se-
gundo ensaio metapsicológico não resistiu, em seqüência, à crítica im·
placável da realidade.
Porém, o que o levou também finalmente a condenar outros textos,
provavelmente muito menos especulativos? Depois da guerra, quando
pôde por fim publicar seu livro introdutório à metapsicologia, Freud já
estava ocupado com pensamentos teóricos bem diferentes, e teria . sido
necessária uma revisão completa dos capítulos, nessa altura ultrapassa·

I Isto é confinnável, pelo menos em relação aO& demais texto.s, cujos temas
são mencionados por Freud em suas cartas, ou seja, consciente, an~stla, histeria
de o:onversão c neurose obsessiva. James Strachey (1957a, p. 72) supõe que os
outros dois trabalhos tenham tratado da sublimação c da projeção (ou paranóiah
tam~m. portanto, de problema& clínicos.

94
dos. Pcsde março de 1919, já trabalhava num primeiro esboço do
Além do Prindpw do Prazer (1920g), no qual ele introduziu o novo
dualismo das pulsões de vida c de morte, enquanto os ensaios metap$i-
cológicos ainda partem da classificação anterjor - pulsio sexual e do
eu. Do pano de fundo de sua compreensão interna do (uncion&meQto
inconsciente dos mecanismos de defesa, começaram a se cristalizar as
formas de sua teoria estrutural e da psicologia do eu, não sendo po~
tanto de admirar que Freud ficasse insatisfeito especialmente com o
capitulo sobre o consciente. Mal-estar semelhante deve ter sentido com
relação a.o ensaio sobre angústia, pois deve ter-se ainda baseado ampla-
mente em sua primeira teoria toxicológica da angústia. O que nós po-
demos deduzir, através das exposições sobre angústia contidas no ras-
cunho de Neuroses de Transferência: uma Síntese, que agora chega ao
nosso conhecimento.!

Sobre o Contexto da Obra

Que ele se movia "em caminhos multo batidos" Freud já havia adver-
tido a Ferenczi na carta de 25 de novembro de 1914, dando-lhe conta
de seus ensaios metapsicológicos. Sem querer reconstruir aqui as várias
etapas do desenvolvimento da metapsicologia de Freud,2 queremos re·
lembrar que a expressão aparece pela primeira vez nas cartas para
Wilhelm Fliess, mais precisamente numa carta de 13 de fevereiro de
1896, depois pormenorizadamente comentada numa carta de 10 de março
de 1898, onde se lê no contexto de uma observação ao livro dos sonhos
(1900a): " Parece-me que, com a teoria da realização dos desejos, é ofe-
recida somente uma soluçio psicológica, não biológica, ou J:llelhor, me-
tapsíquica (aliás eu te perguntaria seriamente se eu posso usar para
a minha psicologia que conduz para trás do consciente o nome de Me·
.tapsicologia)." (l950a 1'1887-19021, p. 211.} Que ele tinha a intençí'io
consciente, com a escolha do nome, de traçar um paralelo com a me·
tafísica, deixou Frcud claro em sua A Psicopatologia da Vida Cotidiana
(J901b): "Acredito realmente que uma grande parte do conceito mito-

I Entretanto, em "O Inconsciente" (1915e, p. 1"2). o ooneeilo ~ tcdU%ido.


insinu11do então como sinal de desenvolvimento de angústia utilizável.
2 Çp., por exemplo, H . Naaera (197"), p. 337 c sep.

95
lógico do mundo, que avança até penetrar nas mais modernas religiões,
outra coisa não é senão psicologia projetada no mundo exterior. O
conhecimento obscuro (por assim dizer, percepção endopsíquica) de
fatores e relações psíquicas do inconsciente reflete-se ( ... ) na construção
de uma realidade sobrenatural, a qual deverá ser transformada pela
ciência em psicologia do inconsciente. Poderíamos nos atrever · a 'tramo·
crever os mitos do paraíso e do pecado original, de Deus, do bem ~
do mal, da imortalidade, e coisas tais, e converter a metafísica em meta·
psicologia" (p. 287 e segs.).
O que a metapsicologia deveria exatamente significar, Freud so-
mente definiu em 1915 no ensaio metapsicológico central sobre "O
Inconsciente" (1915e) , de !JID modo que cQntinua válido para a Psica·
nálise: "Proponho que uma apresentação seja denominada metapsico-
lógiC!', quando conseguirmos descrever um processo psíquico segundo
suas relações dinâmicas, tópicas e econômicas" (p. 140). Certamente,
mesmo assim, nem todas as obras nas quais Freud descreveu processos
psíquicos desse modo podem ser denominadas metapsicológicas. Pelo
contrário, tornou-se hoje usual só incluir nas principais obras metapsi-
cológicas aqueles escritos nos quais ele, explícita, exclusiva e minucio-
samente - com "a perfeição da pesquisa psicanalítica" (ib.) - des·
dobra, no mais alto grau de abstração,. suas idéias teóricas. São os
seguintes: "Esboço de uma Psicologia" (1950a 11887-1902!), o qual
pertence ainda ao período p_ré·analítico, o sétimo capítulo da A Inter-
pretação dos Sonhos (1900a), " Formulação dos Dois Princípios do Pro·
cesso Mental" (l911b), "Sobre Narcisismo: uma Introdução" (1914c),
os cinco ensaios metapsicológicos publicados, de 1913, Além do Prin-
cípio do Prazer (1920g), e O Ego e o ld (1923b).l
Se nos perguntarmos onde o Neuroses de Transferência: uma Sfn·
tese deveria ser urdido no tecido de sua obra integral, e se, quando
Freud definitivamente a desaprovou, largou para sempre os fios ou os
recolheu mais tarde em outros escritos, então a resposta logo após o
ressurgimento do rascunho não pode nos levar senão a especulações
sobre alguns conj untos temáticos.

1 Evidentemente, pode•se ampliar o conceito como, por exemplo, o fizeram


os editores da Studienausgabe fcdiçio para estudo[, os quais incluem na mctapsi-
cologia também outros escritos de Freud que C$lão no v. J da Edição Gesarnmelte
Sr:hriften lcoleçiio de obra~.

96
A estrutura do texto demonstra uma marcada divisão em duas
partes. Ela sugere prosseguir em dois passos, submetendo a questão
primeiro para uma e depois para a outra parte. A primeira parte abrange
comparação sistemática dos seis elementos ativos nas três neuroses de
transferência. 1! o que o título do décimo segundo ensaio promete,
procedendo indutivamente e erguendo constatações sobre a base de
"observações atentas e laboriosas" e estreitamente limitadas ao plano
ontogenético. Freud achava ter de atestar a esse· trecho o atributo "tédio",
talvez como uma ressonância à sua própria condição psíquica durante
a redação. A partir da página 70, com o· sexto elemento, o da parti·
cipação da disposição herdada· na etiologia das neuroses, como que se
arremessa, continuando então com a segunda parte relativa à reconstru·
ção filogenética, o que forçou a abrangente "chamada para a inclusão das
neuroses narcisistas", rompendo o título do trabalho. Pele menos, no
instante em que escreveu, permitiu-se Freud, como ele mesmo constata,
"deixar a crítica por trás da fantasia" e trazer adiante "coisas não asse-
guradas", obtidas por dedução. . .
De fato, na primeira parte, a grande quanhdade de palavras omt·
tidas e o uso de abreviaturas indicam que ele se movimentava em
solo completamente familiar, estando bem mais nitidamente redigida
que a segunda, com palavras-chave.! e
como Freud diz, começand~ o
rascunho, que era seu objetivo resumir e comparar, antecedendo a 1s~
" um exame pormenorizado". Como já foi mencionado nos outros se1s
~nsaios metapsicológicos perdidos, foram estudadas a histeria de an·
gústia, a histeria de conversão e a neurose obsessiva. de modo que
Freud, na Síntese, podia se limitar a lembrar ao leitor cada um dos
elementos através da descrição breve das características de cada ele-
mento. Mesmo sem conhecer os textos perdidos, não há grandes difi·
culdades em seguir os caminhos do pensamento de Freud. Repressão,
contra-investimento, formação de substitutos e sintomas, função· sexual,
regressão, fixação e disposição - esses &eis elementos são como fios
do tear no tecido da obra completa, jamais abandonados e quando

1 Isto é muito mais evidente no manuscrito (veja o fac-símile) e na trans-


crição ao pé da letra do que na versão editada IN. do T.: Ver_siio esta que
aqui só se encontra na tradução em portuguêsf. na qual as abreviaturas ~oram
simplesmenh:: eliminadas no interesse da legibilidade. Na redação passa~a a limpo,
elaborad11 portanto, as proporções entre u duu partes poderiam ser dJ[erentes. A
p~imeira parte, que corresponde ao titulo do ensaio, deveria ter sido mais vo-
lumosa.

97
muito completados, variando no percurso das decisivas inovações con-
ceituais.l Romperia os limites das presentes ponderações seguir o rastro
dessas mudanças nas obras de Freud, nascidas ap~ximadamente ao me&-
mo tempo, como nas Conferêncitn lntrodutória3 robre Psicoruílise (1916-
1917j1915-17j), onde se encontram formulaç9es semelhantes até na esco-
lha das palavras do rascunho, como também em seus escritos mais tardios,
por exemplo, Inibição, Sintoma e Angústia (1926d), onde J:reud compara
outra vez as três ncltroses de transforé!nca, relativamente a cada um dos
elemeQtos entre si, de uma maneira bem parécida com a da Sfntese.2
Quem incluir os cinco ensaios metapsicológicos publicados em
1915 poderá fazer uma idéia melhor, separando os assuntos, de qual
o contexto em que a Síntese entra na formação teórica de Freud. Além
disso, em "Repressão" (J915d) e em "O Inconsciente" (1915e), cinco
desses seis clementes, de uma fonna ou de outra, já são mais ou menos
examinados em pormenores. Em "Repressão", encontra·se no final até
um estudo comparativo do processo de repressão nas três neuroses de
transferência,3 como mais tarde na Síntese as questões sobre suces~o c
insucesso, a relação da formação de sinsomas e substitutos, a ligação
com o destino das pulsões da regressão são consideradas em conjunto.
Na verdade, no parágrafo final de "Repressão", lê-se, como se fora uma
previsão para alguns dos sete ensaios perdidos, especialmente para a

I A~$im n~ tem~. na Smt~u. pera m<:ncionar um ~ <:xemplo, de lidar


ainda com o conceito amplo de reprQ$io, no sentido geral de defesa. Só mais
tarde (1916d), Freud o limitou tendo em vista os mecanismos de defesa espe-
dfico5 da hi$teria. Entretanto, já se encontra em "Repressão" (1915d, p. 114)
uma rderência a essa diferenciaçAo.
2 Por exemplo, num dos aditamentos relativos ao contra·iovestimento (p.
29~ e segs.) ou no Capitulo 5, relativo à fonnação de sintomas. Lá se encontram
também, como na Síntese, a indicaçlo de uma seqüência Cl'Onológica do apare:
cimento das três afecções na infilncia, assim como no contexto dualíatico da
cronologia da vida sexual humana com as considerações filogen~tícas. Tudo indica
que Freud, anos mais tarde, tivesse conscientemente aproveitado muítos pen~A­
mentos da primeira parte do rejeitado décimo segundo ensaio metapslcológico,
enriquecidos pelos conceitos da teoria estrutural, conquistada nCSK meio-tempo,
retomendo-os e elaborando-os como materi al para desdobrar sua segunda teoria
da anXústia em Inibição, Sinioma c Angústia. Seria até posaívcl pensar que esse
aproveitamento de algo antigo oos d! uma explicação para a estranha disparidade
desse livro, criticada com multa juuiça por James Strachey (1959, p. 229).
3 Verifique-se também uma tentativa de comparação semelhante no final da
Seção 4 sobre "tópica c dinãmica da represaão" em "O Inconsciente" (l9t5e,
p. 140 e sess.).

98
primeira parte comparativa do décimo segundo: "O extraordinário en·
trelaçamento de todos os elementos que têm que ser considerados deixa·
nos somente um caminho livre para a exposição. Precisamos eScolher
ol'a um, ora outro ponto de vista e o perseguir através do material, en-
quanto sua aplicação parece fazer efeito. Em si, cada um desses traba-
lhos ficará incompleto, sem poder evitar falta de clareza onde eles
atingirem zonas intocadas; porém, podemos ter a esperança de que a sín-
tese final levará a uma boa compreensão." Mesmo nos faltando o texto
passado a límpo da "composição final" na forma da primeira parte de
Neuroses de Transferência: uma Síntese, pode-se presumir, com alguma
segurança, com base no rascunho e tendo em vista o conteúdo dos cinco
textos de metapsicologia publicados de 1915, que pensamentos teóricos
fundamentalmente novos não foram perdidos de vez pela perda das sete
peças. I
Aquele dos seis elementos, parcamente mencionado nos ensaios me·
tapsicológicos de 1915, é por Freud referido em último lugar na primeira
parte do rascunho. Trata-se da disposição, "o elemento mais importante
que contribui para a decisão sobre a escolha da neurose." Ele menciona
de passagem em " Pulsões e Destinos das Pulsões" (1915c, p. 84) que
movimentos musculares que demonstram ser adequados para vencer es-
tímulos externos tornar·se·iam "disposições hereditárias"; mas os "estí-
mulos de pulsões originadas no interior do organismo não podem ser
resolvidos dessa maneira." Todavia, "nada nos impede supor que as

1 De interesse particular parecem ser - no capítulo especial sobre n>


gressão - algumas breves observações sobre a regressãu do eu na histeria de
conversãc, mais precisamente na diseussão mais recente sobr~ histeria (cp., po.r
exemplo, as idéias defendidas no painel sobre histeria no XXVIJI Congresso da
lntemational Psychoanalytical Association, ocorrido em Peri$ em 1973, ou as tc;$Cs
de Masud R. Kllan de 1974). Alguns desses autores ligam-5e expressamente ao
conceito anterior de histeria de Freud. Quando, em seu rascunho, Freud fala na
volta a um nível psíquico "sem separação de. pcs e ics, portanto sem linguagem
nem censura", ele $C refere a modalidades da função do eu relativas à época
pré-verbal da díade mãe-filho (justificando, no entanto, essa regressão de ~:~ma
maneira diferente daquela dos autores citados, ou seja, pela di!)imica dos im-
pulsos, a serviçc do retomo do reprimido). Khan, por exemplo, transfere para
essa r~se do desenvolvimento precoce do eu a causa do udoec:er histérico. El~
a vê como uma insuficiêncin da mãe em reconhecer e satisfau:r es necessidades
do eu da c riança. Além disso, vê·a como uma tentativa da me$ma para superar
as necessidades psíquicas ou psicofísicas provoc~ pela sexualizaçio precoce, ou
seja. através de uma intenslficaçlo das experiências do eu corporal. no lugar
do desenvolvimento das funções mentais do eu.

99
pulsões mesmas fossem, pelo menos em parte, precipitadas dos efeitos
de estímulos externos, os quais no percurso da filogênese atuam sobre a
substância viva, modificando-a." Umas poucas páginas adiante (p. 94),
continua com mais uma frase sobre a vida das pulsões nos " tempos
primitivos", relacionando-a ao que Freud chamou de "partilha arcaica".
Em "Luto e Melancolia" (19 17e . 1191 51), menciona-se ainda como con-
clusão exigida "pela teoria", à qual ainda faltava entretanto a confir-
mação empírica, que " a disposição para o adoecer melancólico" deve
estar na perspectiva da "predominância do tipo narcisista de escolha
objetai" (p. 204). No parágrafo seguin te, fala-se de passagem também da
"disposição para a neurose obsessiva".! Em ambas as vezes no sentido
ontogenético. Mas, poucas linhas adiante, atribui-se ao conflito da am·
bivalência "ora uma origem mais real, ora mais constitutiva" (p. 205).
"Constitutivo" ou "constitucional" (p. 210) aqui significam apenas que
se trata, em determinado indivíduo vivendo normalmente, de uma incli-
:tação nol'malmente existente para o conflito. No entanto, em " O Incons-
ciente" (t915e, p. 154), lê·se: ' 'pode-se comparar o conteúdo do in-
consciente com uma população psíquica primitiva. Se houver no homem
fom1ações psíquicas herdadas, algo análogo ao instinto dos animais, en·
tão isso representa o núcleo do ics."• Essa é a única referência de relevo
nos cinco ensaios metapsicológicos publicados de 1915, indicativa da-
quela dimensão filogenética profunda, na qual Freud st: dispôs a pene-
trar na segunda parte do décimo segundo ensaio.
Com ·o segundo e o terceiro parágrafos da Seção O. ele está como
que preparando o palco para o breve e envolvente drama filogenéti-
co que se desenrola nos primórdios de nossa genealogia, em dois atos e
seis cenas, como poderíamos parafrasear essa segunda parte da Síntese,
tão diferente, capaz de nos tirar o fôlego com sua ''ampliação de hori-
zontes". No prim~iro ato, desencadeia-se, transposto o antigo tempo
paradisíaco, a " luta com a calamidade dos tempos glaciais", que leva
à "época cultural patriarcal". Nessàs três cenas narram-se, com a força de
uma pintura, aco ntecimentos, bem como suas fases, as quais se sedimen-

1 Trata.se de um ec:o do título do tra balho de FIWd do mesmo no me


ed itado dois anos antes (191Ji). o qual, como diz o subtítulo, já oferec:e "um.:
contribuição ao problema d a escolha da neurose", que já ocupava Freud desde 0$
anos 90. visto por ele desde o c:omeço por uma perspectiva biológic;o.evoluc ionista.
• lO trecho é encontrado na Standard Edition inglesa, v. 14, p. 195, e na
brasileira, v. 14, p. 223. Há uma importante nota de rodapé do editor assinalando
que neste lugar Freud usa em alemão a palavra Jnstinkt c niio a forma usual
Trieb (N. do T .).l
100
taram hereditariamente na disposição para as três neuroses de trans·
ferência (histeria de angústia, histeria de conversão e neurose obsessiva).
O tema das· três cenas seguintes do segundo ato é o aparecimento dra-
mático das fixações, base filogenética das três neuroses narcisistas (de-
mência precoce, paranóia, melancolia-mania). Desenrola-se, após o de--
curso dos tempos glaciais, na fase da opressão produzida pelo pai pri·
mitivo que se toma tirânico e narra o desenvolvimento da época sócio-
cultural que vem substituir a patriarcal.
Ao contrário da primeira parte do rascunho, Freud deu na segunda
algumas indicações para o contexto da obra. Ele menciona três de seus
escritos.
Primeiramente, o escrito sobre "Os Dois Princípios do Processo
Mental" (191Ib). Precisamente no contexto onde constata que· as inten-
ções sexuais .do homem devem ser atribuídas a um desenvolvimento
diferente das tendências do eu. De fato, fala-se nas passagens corres-
pondentes, assim como no rascunho, de disposição e escolha de neurose,
porém novamente no sentido ontogenético.
I! diretamente esclarecedor, para o contexto da obra, que Freud
cite Totem e Tabu (1912-1913), sua primeira grande contribuição teó-
rico-cultural. Essa indicação bibliográfica não é feita por acaso no lugar
onde o rascunho fala dos filhos, " aos quais o . pai ciumento nada per·
mite". Trata-se do que se tornou pela primeira ve:z; conhecido em Totem
e Tabu como o "grande acontecimento, com o qual começou a cultura,
e que desde então não deu mais sossego à humanidade" (1912-13,
p . 429)! da "tragédia primitiva" (p. 439), que ele desdobra no rascunho.
Lá, Freud estubelece no quarto ensaio a ligação entre as fobias das crian-
ças por animais e os motivos da origem do totemismo e fa:z:, então,
referências à tese de Darwin (1871) sobre o estado primitivo da so-
ciedade, sobre a humanidade remota, que vivia em pequenas hordas,
para finalmente chegar às pegadas de }ames Jasper Atkinson (1903)1 e
de sua suposição aparentemente monstruosa da subjugação e do assassi·
nato do pai tirânico pela união dos filhos expulsos", suposição logo
calorosamente debatida (p. 246, nota 2) e na qual insiste teimosanÍente
du rante toda a sua vida2 como se fora um depoimento básico sobre a

1 Cp. especificamente c:om o segundo e o terceiro capítulos .onde se fala


de parricidal crimtr, p. 22S. Veja tamb6m adiante a nota 3 da p. 115.
2 Cp., por exemplo, 192lc, p. 114 e segs., p. 126 e sega.; 19l0a, p. 230,
p. 257 e seg.; 1939<1 11934-381. p. 575 e seg. Na última obra citada (p. 576),
enc:onua-se um comentário Ull'dio para 6ua recusa de modUicar qualquer c:oisa

101
agressividade humana. Em Totem e Tabu ele, entretatno, leva, em al-
guns lugares, para o campo de disputa, escrúpulos metodológicos e admi-
te que essa hipótese poderia "parecer fantástica" (p. 425); acentua clara-
mente "as inseguranças de nossas pressuposições" (p. 440), onde também
ele se ocupa da transmissão hereditá ria do sentimênto de culpa resul-
tante do assássinato. "Condescendemos em primeiro lugar em que a cons-
ciência de culpa por um feito sobreviveu por muitos milênios e continuou
operativa em gerações que nenhum conhecimento tiveram desse feito.
Condescendemos em que um processo emocional, como o que se desen-
volveu em gerações de filhos que foram maltratados por seus pais ho-
mens, propagou-se para as novas gerações que estavam livres desse
tratamento pela simples razão de que seus pais haviam sido elimina-
dos. j .• ·I Levantam-se assim duas 1... 1 perguntas: o qua nto podemos
atribuir à continuidade psíquica na seqüência de gerações e quais são
os meios e os caminhos que uma geração usa para transferir seus estados
mentais para a próxima. Não vou afirmar que esses problemas estejam
bem esclarecidos ou que a comunicação direta e a tradição - que são
as primeiras coisas que nos ocorrem - são suficientes para atender à
exigência. 1... 1 Uma parte dessa tarefa parece ser resolvida peta· trans·
missão hereditária de disposições psíquicas, as quais, entretanto, preci-
sam de um certo ímpeto da vida do indivíduo para que se reativem"
(p. 440 e seg.). De fato, podemos ler nos fundamentos dessas formula·
ções a fantasia filogenética de Neuroses de Transfer~ncia: uma Síntese,
como uma variação do grande tema abordado em Totem e Tabu.
A terceira obra pessoal mencionada por Freud é Três Ensaios sobre
a Teoria da Sexualidade (1905d). Refere-se ela, laconicamente, ligado
à constatação: " Acreditamos ter aprendido, grosso modo, qual é o de-
senvolvimento d·a vida sexual humana." Numa carta ~ Ferenczt de 2 de
dezembro de 1914, assinal:!va sem mais nem menos o trabalho nos
escritos· metapsicológicos há:pouco éomeçados como " prosseguimento dos
problemas nos quais me detive na teoria da sexualidade". A obrà revo-
lucionária deve ler estado muito presente a Freud ao redigir o "ras-
cunho", principalmente porque ele preparara, ao mesmo tempo, a terceira
edição, profundamente revista, dos Três Ensaios. Do prefácio para a

nas hipóteses desenvolvidu em Totem e.Tabu, de acordo com os resultados mais


recl!mes da pe$quisa antropológii»CUltural. Para uma aprerentação ampla dessas
tomadas de posiçio ~rlticas relativas a essas hipóteses, dentro c fora da antro-
pologia cultural. dc6dc o aparecimento do livro até agora, veja E. R. Wallace
0983), especialmente o quarto e o quinto capítulos.

102
nova edição de 1915: "Em todo lugar j . •. I os elementos acidentais no
primeiro plano, os disposiclonais são deixados no fundo e o desenvolvi·
mento ontogenéúco é considerado antes do filogenético. O acidental faz
na análise o papel principal é e por ela quase completamente vencido: o
disposicional .aparece só em sua retaguarda como algo que é despertado
pela vivência. I· ..1Algo parecido domina a relação entre a onto e a filo-
gênese. I· .. j A ontogênese pode ser vista como uma repetição da filoge.
nese. 1... 1 Mas, no fundo, a disposição é o precipitado de uma vivência
anterior desse tipo, ao qual se junta a vivência mais nova do individÚO
como soma dos elementos acidentais." (p. 44)1 Essas reflexões sobre a
história de nossos antepas&~dos, realizadas com os trabalhos metapsicoló-
gicos, deixaram vestígios impossíveis de não serem notados, não somente
no prefácio da nova edição dos Três Ensaios, mas igualmente em alguns
complementos do próprio texto, por exemplo na parte final (p. 142).
Também aparecem nas cartas trocadas por Freud com Ferenczi
nClS anos de guerra, repetidamente, os Três Ensaios. Mais precisa-
mente, não só dentro do contexto do trabalho de revisão para a ter·
ceira edição. Ferenczi, prestando serviço militar, desde outono de 1914
no quartel da pequena ci,dade húngara de P'pa, traduzia então o livro
para o idioma húngaro, o que o estimulava para novas e entusias-
madas leituras, desencadeando uma tempestade de idéias que convergiam
para a biologia. Vendo melhor a segunda parte do rascunho, percebemos
que Freud ·não apenas dá indicações ao contexto de sua própria obr!l.
Ele também o·faz em relação a contextos alheios, notadamente, em duas
vezes, refere-se à pesquisa de Ferenczi sobre ''Etapas do Desenvolvimento
do Sentido de Realidade" (1913), trabalho este em que, de fato, esse au-
tor argumenta no plano ontológico, apesar de, mesmo assim, incluir refe-
rências a "Transferências de Rastros de Memória da História das Raças
para o Individuo" (p. 152), e, no final, ousar uma ·•profecia científica"
(p. 161), dizendo que " as mudanças geológicas da supérfície da· Terra
com suas conseqüências catastróficas para os ancestrais da humanidade
impeliram hábitos muito estimados para a repressão e para o 'desenvol-
vimento'. T ais catástrofes podem ter sido os lugare& da repressão na
história do desenvolvimento racial e a localização temporal e a intensi·
dade de tais catástrofes poderiam ter decidido sobre o caráter e as neu-
roses das raças" (p. 162). Essas formulações nos fazem entender por que

I Sobre algo parecido, FmJd. j6 se estendera numa carta para Else Voigt·
lander, de t.• de outubro de 1911 (1960a, p. 299 c ses .).

103
Freud, na carta já citada por extenso, enviada a Ferenczi em 12 de
julho de 1915, concluindo o primeiro esb<iç~ de sua fantasia filogenética,
acrescentou a frase: "Seus direitos autorais, no acima exposto, são evi-.
dentes." ·
Já se mencionaram a intensidade e o modo como colaboraram os
dois amigos, na época do nascimento do décimo segundo ensaio meta-
psicológico. Todavia, a cooperação ia além desse único projeto. Não é em
correlação com o desfecho dessa discussão sobre questões básicas da bio-
logia (ou, para usar a expressão de Ferenczi, "metabiologia") que por fim
Freud o abandona. Graças à corresJrondência não publia:da entre ambos,
puderam-se reconstruir, na discussão, as ponderações para o contexto his-
tórico-científico que vão aparecer na .segunda seção do rascunho e cons-
tituem parte das peças evolutivo-biológicas da metapsicologia de Freud.
Enquanto Freud trabalhava ainda nos primeiros ensaios metapsico-
lógicos, Ferenczi queixou-se a ele em 2 de fevereiro de 1915: " ... aferrei-
me em problemas biológicos e não consigo encontrar o caminho de volta
à psicologia! . . . ! interessante notar ~om que grande regularidade ex-
terna-se nos dois a inatividade imposta peta guerra. Dá para entender
agora os biólogos e filósofos especulativos, os quais, movendo-se sempre
longe da realidade, pretendem edificar o universo todo em cima de uns
poucos fatos que conhecem." Estimulado por seu trabalho de tradução
dos Três Ensaios, Ferenczi ocupava-se com reflexões -teóricas, as quais
participou a Freud em 18 de março de 1915 dizendo "que se trata de
uma nova teoria do coito, a qual me parece capaz de reunir, numa
unidade, todos (quase todos) os tópicos de sua teona da sexualidade.
Assim que ponha mais ou menos em ordem as anotações, por enquanto
soltas, irei mais uma vez a Viena para lhe apresentar o assunto."
Como se vê, Freud sentia-se tão estimulado . por essa troca de opi-
niões que escreveu a Ferenczi em 20 de julho de 1915, poucos dias
após haver enviado sua carta-esboço (p. 89 e seg.): " Pensava somente
fazer uma referência breve à seqüência filogenética, indicando seu tra-
balho com a merecida recomendação sobre suas idéias férteis e origiJtais
a respeito da influência dos destinos geol6gicos. Agora, porém, desper-
tou-me a vontade de tentar uma apresentação do assunto com mais
pormenores, o que pretendo mostrar-lhe, antes que eu me decida .a pu-
blicá-la." Entrementes, Ferenczi desenvolvia "seu plano, formalmente
apoiado na metapsicologia de Freud, de uma série de trabalhos 110b o
título Ensaios Bioanalllicos; estes deveriam chegar a mais ou menos
quinze a vinte, os quais poderiam finalmente completar um livro. O

104
primeiro trabalho versaria, de uma maneira geral, sobre a justüicativa
do pon to de vosta psicanalítico no contexto da ciência biológica e fun·
damentaria o modo natural e necessãrio de observação metapsicológica
e metabiológica." (26 de outubro de 1915)
Assim ç_omo o projeto do livro de Freud, também o plano da
metabiologia de Ferenczi logo estacou. Porém, os pensamentos filogenéti-
cos continuaram a ser perseguidos por vias indiretas. ~ assim que Freud
escreve em 6 de janeiro de 1916: "Será que nós já não conhecemos
duas condições da inclinação artística? Em primeiro lugar, a riqueza de
material filogeneticamente transmitido, como no neurótico; em segundo,
um bom resto da antiga técnica de modificar a si próprio em vez do
mundo externo (ver Lamarck, etc.)." Portanto, aqui vem, por fim, o
nome daquele naturalista, cujos conceitos, especialmente em suas exten-
sões psicolamarckistas, já obviamente tinham configurado, de forma in-
direta, a fantasia filogenética. ·
De agora em diante, por um certo tempo e com freqüência cres-
cente, Lamarck é mencionado na correspondência. Nos raros encontros
dos dois amigos, ganha forma a idéia de escrever em conjunto algo.
sobre lamarckismo e psicanãlise.l No fim do ano, em 22 de dezembro
de 1916, lê-se numa carta de Freud que ele teria pedido "o Lamarck"
na biblioteca da universidade: "Desocupado não consigo sentir-me bem,
e eis que nosso pretendido trabalho 'L c a PsA'* veio·me súbito à mente
como algo promissor e rico de conteúdo J . . . J" . Poucos dias depois, em
28 de dezembro, Ferenczi confirma "o plano comum de trabalho". No
primeiro dia do ano de 1917 Freud já enviava um esboço para o
trabalho Lamarck,2 relatando já haver iniciado a leitura da Filosofia
Zoológica (1909 J1809J), aquela obra que abre o desenvolvimento de
uma teoria científica da origem das espécies. Segue-se uma incessante
troca de. cartas combinando procedimentos para conseguir bibliografia,
assim como sobre a divisão de trabalho. Notas e sugestões de reda.ção
são enviadas nas duas direções.
Porém, o ímpeto inicial logo começou a diminuir. De um lado,
em vista do período de guerra, surgiram dificuldades em conseguir bi-
bliografia. De outro lado, o que foi obtido e lido antes parece ter
levado à desilusão. "Tenho a impressão - admite Freud em 28 de ja-

Cp. também E. fones (1962a), p. 234 e seg.


• !Refere-se a lAmarckismo e Psícandlise iN. do T.).l
2 Esse trabalho aparentemente não foi guardado.

105
neiro de 1917 - de que acompanhamos os psicolamarckistas, como por
exemplo Pauly, e que pouco de novo teremos realmente para dizer.
Seja como for, a PsA • entregou seu cartão de visitas à biologia." Fi-
nalmente, o agravamento da situação de escassez externa deve ter criado
obstáculos: Freud, numa carta de 2 de março de 1917, esforça-se em
sossegar as' auto-acusações de ~erenczi , assegurando "que você não pre-
cisa se preocupar com o desleixo de nosso trabalho Lamarck. Eu também
não avancei mais nessas semanas de frio e escuridão, desacostumando-me
do trabalho noturno. Desde então não voltei a ele." E, em 29 de maio
de 1917, lê-se: ''Não estou nem um pouco disposto para fazer, no verão,
o trabalho Lamarck; o que eu mais gostaria era de ceder tudo isso a
você."!
De fato isso acabou acontecendo. No final do ano, em 27 de de-
zembro, Freud m~nifcsta-se mais uma vez de modo semelhante sobre
o assunto: "Não consigo me animar para o trabalho Lamarck. Talvez
esteja acon.tecendo conosco neste momento o que se passou com os dois
nobres poloneses na hora de págar. 'Como nenhum admitiu que o outro
pagasse por ele, nenhum deles acabou pagando'.''2 Em 18 de maio de
1918, Ferenczi insistiu uma última vez: "Seria bom se neste verão o
trabalho Lamarck tomasse corpo." Fr<!ud deu a entender que se retirava.
Pouco antes do fím da guerra, em 16 de outubro, esclareceu: "Não
estou animado para o trabalho 1- . -I; meu grande interesse está no
desfecho do drama mundial."
A seguir separaram-se os interesses dos dois escritores. Na prima-
vera de 1919, Freud se reporta a novos trabalhos: "Uma Criança Está
Sendo Espancad_a" (l9 19e) e, com interesse crescente, :~o Além do Prin-
cípio do Prazer (1920g). De uma carta de Ferenczi de 18 de março de
1919 pode-se deduzir que nele também vinham all).adurecendo planos
próprios, " por exemplo, a realização final das especulações paleobioló-
gicas"; Mesmo Ferenczi precisava ainda de alguns anos antes de poder

• IA " Psicanálise" (N. do T .).!


1 Que Freud considerava Ferenczi como o biólogo ma is competente entre
os seus colaboradores, ele já lhe havia aasegurado, em 29 de abril de 19 16, num
outro contexto: "continuo afirmando que este é efe tivamente seu campo de
trabalho, no qual o senhor niio terá concorrência."
2 Alusão <lO poema de Heinrich Heine, "Zwei Ritter ("Dois Cavaleiros''),
Romanzero, Livro Primeiro. - Talvez influísse no fracii$SO do projeto Lamarck,
em um aspcct? que não vamos examinar aqui, o fato de que f erenczl naqueles
anos tentava em vão recomeça.- com freud sua análise didática inacabada.

106
tomar a decisão de publicar seu Ensaio sobre uma Teoria Genital
(1924).1 lsso não sem antes, em 25 de julho de 1923: hav_e r cons~ltado
Freud: "Permita-me dizer que eu 1- . . 1 lOa parte btclógtca) reftro-me
às hipóteses construídas em Pápa ou em algum outro lugar sobre la-
marckismo, etc ... ". Em muitos outros trechos da redação publicada do
ensaio, poderemos reconhecer influências disso, por exemplo, onde fe.
renczi interpreta os símbolos "como vest(gos historicamente importantes
de fatos biológicos 'reprimidos' " (p. 393) ou onde ele, no sentido de uma
" biologia profunda" (p. 390), tenta "infiltrar um no~o tipo de ~:<>­
ria da evolução, no qual seriam simplesmente transfendas a experten·
cia e as hipóteses psicanalíticas dos processos de desenvolvimento, do
contexto psíquico para o ambiente biológico" (p. 394): ou, finalinent~,
onde ele explicitamente declara: "não temos qualquer base para conclutr
que 1- .. 1não haja a possibilidade de os efeitos das tendências dos desejos
exercerem-se também fora do contexto psíquico, ou seja, no inconsciente
biológico, e estamos convenéidos de que, somente apoiando-se no desejo
como fator do desenvolvimento, a teoria Jamarckista d<l adaptação toma-
se inteligível. do que nos podemos vangloriar juntamt.nte com Freud"
(p. '396).
0 Ensaio sobre uma Teoria Genital é, portanto , uma espécie de
herdeiro do projeto Lc:marck abandonado e, de certo modo, também da
" fan tasia Hlogenética" condenada. Com essa, compartilha a beleza da
aventura peles vôos especulativos da mente, a reconstrução genial de um
drama pré-histórico da humanidade, a insólita mistura de matéria-prima

1 .10. claro que existe, entre .Além do Princ:ipio do Prazer e o Ensaio sobre
uma Teoria Genital uma quantidade de interligações implfcitas explícitas. Freud
não duvidava de q~e o princípio especulativo do pensamento das discuss&:s ~o~
f erenczi durante os anos de guerra continuasse atuando em A/Jm do Prmcrpro
do Prazer (especialmente p. 267 c segs.; cp. também C. Paningua. 1982). Pers-
pectivas bogenéticas Jamarckistus ainda continuam igualmcnto em O Ego e o ld
(1923b, na parte 3, no contexto sobre as reflexões da origem do superego);
apesar de frcud salientar que co ntinuava conduzindo a seqüência de pen~mento~
iniciados em Além do Principio do Prazer, "'não fazia novos empréstimos a
biologia, razão pela qual está redigido mais próximo da psicanálise do que o
outro, e que ele leva 'antes o caráter de uma síntese do que o de u~a es~­
culação' " (p. 282). Cp., além disso, nessa obra (p. 302) COI)1 uma a~usao .tardia
à importância da era glacial para a evolução da cultura. Para a con~muaçao dns
idéias b1ogenéticas e filogenéticas de f reud·F<!rencz.i, poucos anos ma•s tarde, cp.
M. Balint (1930).

107
cientffica com o trabalho literário.! Antiga fascinação de Freud pelas
excursões metapsicológjco-metabiológicas do pensamento dos anos de
guerra ainda ressoa em 1933, no necrológio para Ferenczi, em outros
pontos antes discordantes. Lá pode-se perceber que, na medida em que
considera o Ensaio uma "obra-prima", realiza ao mesmo tempo um
necrol6gio para a pr6pria fantasia filogenética: "I ·. -I talvez a aplicação
mais audaciosa da análise, antes jamais experimentada I· .. 1encontramo·
nos enriquecido~ com idéias que prometem conhecimentos profundos em
amplas partes da biologia. Em vão tenta·se hoje separar o que é con·
siderado conhecimento aceitável daquilo que tenta adivinhar conhccimen·
tos futuros através de uma fantasia científica" (1933c, p. 268 e segs.).2
Não obstante, seria errado supor que Freud teria, por assim dizer,
" cedido" a Ferenczi todo o complexo de pensamentos de sua fantasia
filogenética não publicada. Da mesma forma, como surgem não pela
primeira vez alguns assuntos na segunda parte do rasc•.mho de Neuroses
de Transferência: uma Síntese, também .aparecem lá alguns assuntos não
em definitivo. Mencionam06 brevemente - como um estímulo para a
leitura, sobretudo nos dias atuais - uma coisa: as referências para
as diferenças entre sexos. t verdade que depois de não se deixou
mais levar .a tais exngeros, como o de afirmar terem sido predominan-
t~men te dos homens realizações ~ fundadoras da cultura - tais como
o começo do domfnio sobre a natureza, do direito, da pesquisa, do
pensamen to e até da fala. Certos depoimentos posteriores, porém, sobre

1 Uma fo rma de apresentação que, alib, naquele -tempo nllo era rara. Está
caracterizada ainda mais radicalmente, por e'xemplo, no trabalho de Fritz Wittels
(1912), também citado P<>r Freud no rasçunho, o qual tem como subtítulo sim-
plesmente "Poema do Mundo Primitivo".
2 De fato, podc·se também, pela leitura desse livro extraordinário, ainda
hoje imaginar que os biólogos do futuro poderiam algum dia redescobrir o
Ensaio sobre uma Teoria Genital, como uma, por assim dizer, :1r1ística anteci-
pação genial e abstrusa de conceitos biológicos revolucionários. Conceitos sobre
os quais - é verdade - ainda quase nada se tem esboçado. Pos~ivehnente,
deverão tornar a discussão lamarckismo/darwinísmo antiquada, evidenciando o
erro de seu questionamento. quando, ao serem estruturados, for possível alcançar
um nível teórico completamente novo em relaçllo ao entendimento dos processos
de vida. Isso significaria que Freud e Fel'l!nczi, com suas tspeeulações metabio-
lógico-metaps.icológicas estavam muito mais adiante da biologia daquele tempo
do que a psicanálise em seu signif icado estrito, Crente à psicologia da mesma
~poca.

108
as diferenças sexuais específicas da estrutura do supcregot seguem,
com variações mais ou menos moderadas, o que foi traçado no "ras-
cunho". A acentuada preponderância das declarações sobre o desenvol-
vimento do homem do sexo masculino caracteriza os escritos posteriores
sobre esse tema; até mesmo ao formular sobre "os deslinos da mulher
nesses tempos primitivos", parece-nos "para nós encoberto por um estra-
nho mistério", lembrando até na escolha das palavras dark continent•
( 1926e, p. 303). ~assim que a sexualidade feminina aparecia a Freud até
o fim de sua vida, mesmo sob as condições de seu tempo. Estes, porém,
não são apenas assuntos singulares, comparáveis em seus textos anteriores
e posteriores. O que há de novo, como fios em cadeia que perpassam o te-
cido de toda o obra, são as idéias básicas biogenético-lamarckistas, entre
elas a idéia da herança dos extratos arcaicos do mundo simbólico.

Contexto Histórico-Científico

Já nas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1916-17 11915-17])


nascidas na mesma época, Freud continuou a trabalhar no mesmo enca·
deamento,2 como se vê, por exemplo, quando concisamente d6Clara a
respeito dos traços arcaicos do sonho: " Assim me parece por exemplo
a ligação do símbolo, jamais aprendido pelo indivíduo, merecendo ser
considerado herança filogenética" (p. 204). Ou quando persegue a via
de formação de sintomas e descreve as fantasias primitivas como per·
tencendo ao domínio filogenético: "Nelas, o indivíduo transcende sua
própria vivência para a vivência do passado J . . . j" (p. 362) .3 Finalmente,
soa como uma relembrança da fantasia filogenética abandonada, quando

Por exemplo: 1923b, p. 3()4; t925í, P- 265 e seg.; l9lla, p. 564.


• !Em inglês, no original ("continente ne&ro') (N. do T .).l
2 Podemos 5egui-lo até o princípio da obra. Cp., por exemplo, o manus-
crito B. de 8 de fevereiro de 1893, das cartas para Wilhelm Flicss (freud
1950a 11887·19021. p. 67).
3 Em Totem e Tabu ( t9t2.H), Freud ainda se expressou bem mais caute-
loso: "As proibições mantiveram-se entiio de geração para geração, tão-some~ te
talvez por conta da tradição da autoridade paterna e rocial. Porém, nas gcraçoes
posteriores. é pOSslvel que tenham conseguido se organizar !XJIDO um c_le~e~to
das propriedades psíquicas herdadas. Quem poder' decidir se foram as uns 1dé~as
inatas - se é que elas existem -. por si ou com a participação da educaçao.
que estabeleceram o Tabu?" (p. 323); na Edição para Estudo, como tambtm em

109
ele resume: " Várias vezes chegamos a suspeitar de que n psicologia das
neuroses preservou mais dos fatos antigos do desenvolvimento humano
que todas as outras fontes" (ib.). Pensamentos parecidos Freud expressou
num adendo posterionnente incluído no caso clínico do "homem dos
lobos" (l9 18b ll914J), p. 210 e em O Ego e o l d (l923b), p. 305.
Não obstante toda a crítica que a teoria de Lamarck sofreu nesse
meio-tempo, Freud aferrou-se a ela até o f101. Continuou insistindo,
tanto no texto póstumo Esboço de Psicanálise (1940 119381) como no
livro sobre Moisés (1939a 11934-381). "que a herança arcaica do homem
não somente abrange disposições como conteúdos, vestígios de lembran-
ças e vivências de gerações anteriores" (p. 546). Não que lhes tivesse
escapado essa crítica: I ''Com exame mais preciso somos obrigados a
confessar que há muitc tempo comportamo-nos como se não fosse ques·
tionável a herança uerestos das memórias vividas peles ancestrais, ind~:­
pendente da comunicação direta e da influência através da educação pelo
exemplo 1... 1. Entretanto, nossa posiçãc é dificultada pela si tuação atual
da ciência biológica que nada quer saber da herança de caracteres ad-

todas as edições anteriores~ por engano, ein lugar de "gerações posteriores", l~·se
"organl:!:ações posteriores". Na Standard Edition , v. 13, p. 31, a tradução de
Strachey diz generations). De passagem, quero relembrar aqui um modo de trans-
missão, discutido por Freud na mesma obra, e que deixou de ser mencionadÓ
mais tarde: "A psicanálise nos ensinou I·. ·I que cada pessoa em sua atividade
mental inconsciente possui um aparelho que lhe permite interpretar as reaçõe~
dos outrOs seres humanos, istc. é, anular distorções que o outro aplicou na\
manifestações dos selU sentimentos. Através do entendim.::nto incopsciente de
todos e~ses costumes, cerimônias e normas, que foram ligados pelo relacionamento
original com o pai primitivo, h gerações posteriores podem ter conseguido a posse
dessa herança efetiva" (p. 441).
1 Apesar de não se encontrar na obra de Freud nenhuma alusão a isso,
parece bastante improvável que Freud não tivesse acompanhado pela margem "
agitada discussão sobre as experiências do biólogo vienense Paul .Kemmerer.
Kammerer, nos prime1ros decênios do século, tinha realizado experiências com
sapos e lagartos, as quais foram entendidas como tentativas de provar 1 herança
de característicéls adquirídh, mesmo que isso niio tivesse sido sua intenção. J.c,.
vantou·se sobre essas tli.perí~ncias a suspeita de falsificação. Arthur Koestler
(1972) narrou 11 história de Kammerer. Freud citou Kammerer urna vez com
simpatia (191911, p. 261), sobretudo seu livro especulativo A Lei da Série (1919).
Que a discussão darwinista-lamarckist!l foi acompanhada pelo grupo de colabo-
radores vienenses de Freud provam·no, não em definitivo, as reflexões de Fritz
Winels mencionadas no projet.o (1912, principalmente p. 1·19).

110
quiridos para os descendentes" (p. 546). Apesar disso, com impressio-
nante teimosia, ele insistiu em "não dispensar esse fato no desenvolvi·
mento biológico".
Por qu~t não abrir mão disso? Ele mesmo deixou transparecer al-
gumas razões. Evidentemente não conseguiu "conceber, senão através de
mecanismos biológicos e heredogenéticos, o ímpeto, o terror patogênico
da ameaça da castração, a intensidade inexorável e imperecível do com·
plexo de ~dipo e do respectivo sentimento de culpa, ativo novamente
em cada geração, portanto no "rastro da memória filog:mética dos tempos
primitivos da família pré-histórica, quando o pai ciumento realmente
extirpava os genitais do filho, na medida em que este o incomodasse
como rival na disputa pela mulher" (1940a 119381, p. 117n). A expe-
ri!ncia traumática real, exposta como a etiologia da histeria na primeira
fase de Freud, aparece na teoria psicanalítica plenamente desenvolvida
ao ser transportada para trás, aos tempos da horda primitiva, trans-
ferindo a dimensão ontogenética para a filogenética. Visto assim , as
partes da teoria psicolamarckista da metapsicologia sãc como um elo
entre as duas fases do desenvolvimento da doutrinn de Freud. Re-
nunciar a ela provavelmente seria como tornar a psicanálise ingênua,
ou pelo menos questionável na sua pretensão de afinnar com energia
o valor universal de fundamentos antropológico-transculturais. Uma ou-
tra razão: tal postulado não só ajudou Freud a transpor "o abismo
entre a psicologia individual e a das massas", mas também o abis-
mo que "em tempos anteriores a presunção humana rnsgou entre o ser
humano e o animal" (1939a jl 934 até 1938J, p. 547), pois ele viu na
herança arcaica do homo sapiens o análogo do equipamento instinti-
vo dos animais. Atrás disso, e não definitivamente, deve estar a espe-
rança de superar mais um outro abismo. Aquele que há entre as ciências
naturais e culturais (incluindo a contradição correspondente na própria
identidade acadêmica dele) mediante uma psicanálise alicerçada meta-
psicológica e metabiologicamente. t

1 Pode-se supor que deve ter havido gt'llvca motivos inconscientes para
Frcud ter teimado na hipótese do drama primitivo da famflia p~·hist6rica. Porém,
nada se percebe com certeza. Poderiamos somente especular, sem fundamentos,
sobre, por exemplo, o fato de que estava prestes l ruptura com C. G. Jun&.
quando ele trabalhava em Totem e Tabu , ou que Freud, oo pensar no décimo
segundo ens11io metapsicológíco, na solidio imposta pela guerra, poderia ter-se
sentido como o pai primitivo da pSÍcan6li$C, abandonado por $Cus filhos-colabora·
doru.

111
A teimosia de Freud em fechnr-se a todas as dúvidas sobre a exis-
tência de uma forma laman:kista de hereditariedade, ainda dos meados
ao fim dos anos trinta, t já demonstra traços de idiossincrasia, conside-
rando que as revolucionárias descobertas genético-mol~culares com rela-
ção à natu reza da substância hereditária e aos mecanismos do processo
hereditário só começariam nos anos quarenta. Mas isso não se pode
dizer quanto à sua posição evolucionista básica, na época da redação
de seu rascunho Neuroses de ·Transferência: uma Síntese. Além de Sándor
Ferenczi, partilhou essa posição básica com muitos de seus colabora-
dores, como Karl Abraham e, por fim, mas não em definitivo, C. G .
Jung, que comparava seus arquétipos com os instintos dos animais
e os considerava heredogeneticamente fixados . Freud, como todos esses
cientistas, formados em ciências naturais no terço final do século XIX
e no começo do século XX, e mais tarde ocupados com a pesquisa da
alma, encontrava-se numa tradição científica estritamente evolucionista
que, na virada do século, havia atingido também a psicologia.
Embora tivesse expressamente mostrado que em sua juventude "a
então atual doutrina de Darwin" muito o atraía (1925d !1924), p. 34),
essa influência evolucionista, por sua envergadura, força criadora c
abrangência, vem só muito recentemente à tona, reforçando o interesse
científico dos primeiros tempos de Freud. Foi frank J. Sulloway (1982)
que, depois dos trabalhos de Lucille B. Ritvo, forneceu2 a reconstrução
mais detalhada até agÕra feita daquele pano de fundo lamarckista-
darwinista, o qual transparece de forma tão manifesta no rascunho até
agora desconhecido do décimo segundo ensaio metapsicológico. De acor-
do com a concepção de Sulloway, essas foram as raízes biológicas espe-
cíficas da psicanálise, de modo algum bastante consideradas, levando-se
em conta que Freud não se referia a elas de for.l113 . ininterrupta em
suas obras. Longe de querer ocultar uma linha mestra de suas origens
intelectuais, agia assim porque naqueles tempos pensava-se despercebi-
damente de forma evolucionista, dando-a como evidente, no sentido
mais amplo do darwinismo, algo parecido como nós hoje estruturamos
certos campos da realidade de acordo com as categorias freudianas.

I. Foi no tempo em que T. D. Lysenko, na União Soviética, começou a


cnvidar esforços no sentido de conseguir uma base científico-natur~l para 11 teoria
social marxista, mediante modelos de herança neolamarckista~.
2 Isso continua válido, mesmo sendo justa entrementes a critica feita a ~
reducionismo ps icobiológico, a suas deduções do conhecimento wciológico c a
seu julgamento d• originalidade de Freud.

112
Ao esboçar o contexto histórico-científico, precisamos recordar que
os conceitos explicativos lamarckistas e darwinistas não foram no co-
meço considerados antagônicos.l Na ascensão do darwinismo, ns pes·
quisas de Jean-Baptiste Lamarck foram redescobertns como notáveis
pioneirismos no caminho para uma teoria científica da evolução. Assim
é a idéia vitalista segundo a qual a causa para a efetivação das adap-
tações deveria ser procurada num impulso de aperfeiçoamento inerente
ao organismo, como a concepção, prefigurada no mito e na Bíblia,
pela qual o ambiente pode provocar mutações hereditárias por influên-
cia dire ta nos organismos. Esta última concepção foi oompartilhada por
Darwin , e tanto ele como outros cientistas de sua época empenharam-se
por idéias teóricas que justificassem essa forma de herança. Nela, ele
percebeu um cumprimento dos mecanismos da evolução postulados por
ele próprio: por um lado, nas variações hereditárias sem finalidade dos
organismos e, por outro, na seleção natural, que favorece aquelas va-
riantes através de maiores chances de procriação, que garantem a me-
lhor adaptação, sob as condições específicas de vida do referido tipo
de organismo.
A moderna genética da evolução tem confirmado a teoria de Dar-
win em seus traços fundamentais. Ela trouxe especialmente um esclare-
cimento abrangente sobre a microestrutura das variações hereditárias,
através das. quais é mantida a variabilidade e, portanto, a capacidade
evolutiva dos organismos de se transformarem. Invarivelmente, a seleção
na tural é um dos mecarúsmos decisivos da evolução. Da hipótese de
Lamarck, ao contrário, diante dos conhecimentos atuais, pode-se susten-
tar que o ambiente realmente influencia variações no organismo, mas que
têm apenas o caráter de modifícações. Mudam somente os fenótipos, per·
manecendo os genótipos intocados, portanto mudanças não hereditárias.
Apesar de seu desenvolvimento impetuoso dos úlúmos anos e déca-
das, considera-se a teoria da evolução antes de mais nada incompleta.
Gerhardt Vollmer (1984) , num ensaio que descreve seu estado atual,
acentuando a carência de complementação, através de contra-argumentos
críticos, mencionou a verificação de que, mediante os mecanismos de

1 L. B. Ritvo (1 972, p. 281) comprovou a.inda essa coe.Jcistência na obra de


Carl Claus, professor de zoologia na Universidade de Vi«la, em cujos cursos
Freud se matriculare já em ~eu segundo semestre (S. Bemfeld, 1951, p. 178) e
que moldara de forma decisiva as idéias biológico-evolucion istas de Freud, como
Ritvo demonstra.

113
Darwin, não poderiam ser explicados, por exemplo, o nascimento dos
primeiros seres vivos, o das novas espécies, o do homem, o dos co~ple•
xos sistemas de órgãos como o olho humano, ou do cérebro, e também da
fala e da lógica. Desde então, especialmente para esclarecer tais processos
"macroevolutivos", numerosos outros fatores da evolução foram designa-
dos. Alguns, representando o dar"'!inismo moderno, alinham-se hoje com
igual dignidade ao lado dos fatores clássicos de Darwin.t Ao contrário,
não receberam confirmação aqueles pesquisadores que tentaram encaixar
conceitos neolamarckistas nas lacunas que ainda persistem na construção
da doutrina explicativo-causal da evolução. e verdade que diminuiu o
encarniçado fanatismo, comum ainda na .época de Freud, contra qual-
quer avanço do pensamento neolamarckista. Porém, enquanto não hou-
ver demons tração convincente da influência direta do ambiente sobre o
genoma, não vale a hipótese,: de que "a memória genética trabalha exata·
mente como a memória cerebral",2 que ela aprende, logo que é infundada
qualquer forma de teoria de aprendizagem segundo a qual informações
do ambiente poderiam passar diretàmente para dentro do ADN. Isso não
fecha a questão no sentido de que o estado das cols~ não possa ser
revisto.3
O que significará isso, não somente para o décimo segundo ensaio
metapsicológico, como enfim para a metapsicologia de Freud? Há anos
vem-se advertindo que um de seus principais pilares - o princípio de
constância de Fechner - não resiste aos mais recentes conhecimentos
científicos. Foi provado que a concepção, segundo a qual o Qrganismo
tenderia a manter o nível predominante de excitação tão baixo quanto
possível, ou eliminar completamente os estímulos, carece de fundamento
biológico.4 Vários autÇ>res mostraram quais os efeitos inibidores que este
princípio psicobiológico, oriundo do século XIX, exerceu na metapsico-
logia de Freud, como por exemplo, dificultar o desenvolvimento de uma
diferenciada teoria dos afetos conectada à clínica.5 O p&óprio Preud não
teve. ilusões quanto à falta de clareza e à condição de provisório de seus
relevantes conceitos energéticos da metapsicologia. Acentuou "que nada
sabemos sobre a natureza dos processos excitatórios nos elementos do

I Cp., pOr exemplo, Vollmer (1984) p. 288-90, ou A. Rtmane e outros


(1980), p. 152-82.
2 F. Jacob (1983). p. 28.
3 Cp. H. Weiner (1965), p. 15.
4 Cp. R. R. Holt (1965), p. 108 e sep.
S Cp. A . Modell (19S4), p. 218.

114
sistema psíquico e não nos sentimos cam o direito de fazer suposições a
respeito. Portanto, estamos sempre operando com um grande X o qual
retomamos, além, em cada nova fórmula" (1920g, p. 240 ). Em relação
a esse ceticismo, faltam depoimentos semelhantes no tocante às idéias
psicolamarckistas, sobretudo nas obras posteriores. T ambém, dentro do
ambiente psicanalítico pós-freudiano, o debate métapsicológico sobre e:;.
ses elementos antiquados de sua percepção da evolução biológica parece
não ter alcançado profundidade semelhante, nem revisto esses elementos
na medida dos conhcimentos mais recentes relativos à herança fisicalísta
e às concepções energéticas da netiropsicologia.l
Mas não somente certos aspectos da teoria ressaltam na leitura do
rascunho do décimo segundo ensaio metapsicológico como antiquados.
O que deve também parecer ao leitor como fora de época, embora a
graça estética da segunda parte também esteja ligada a isso de manei-
ra mais intensa, é a inclinção para o esboço te6rico portentoso, para
a reconstrução, do mes mo estilo e ainda violentamente simplificador, da
história da formação de traços fundamentais da condição humana, como,
· por exemplo, da fata.2 Ainda mais: na forma de encadear acontecimentos
a partir de uma concepção cronológica e linear, nos dramas primitivos,
enfim, idéias genialmente reducionistas, as quais hoje parecem-se na
verdade mais com modelos de mi~osJ do que com teoria científica.

Por exemplo, K. H . Prib111m t M. M. Gill (1976).


2 Sobre os modcroos e complexos aCCSSO$ para o problema da evoluçio da
fala, cp., por exemplo, I. Schwidetzky {1973).
3 Freud naturalmente sabia que as pa55agens de um para outro são fluidas,
tanto que uma vez falou do "mito científico da horda primitiva" (1921c, p. 126)
e na Autobiografia {1925d 119241, p. 93) ele até chamou sua hipótese relativa ao
assa!isinato do pai primitivo de "a visão". Os primeiros psica!UIIistas não eram os
únicos representantes desse tipc, de teoria. Ela era, em tempos passados, ampla-
mente divulgada em escritos biológicos·, etnológiços e sociológicos. Cp., por exem-
plo, os autores evolucionistas orientados pela antropologia cuJtural, mendonados
pOr Freud no quarto ensaio de T otem e Tabu (1912-13), cujas teses universalistas,
entretanto, já estavam sob fogo cerrado ao tempo de sua redação. Especialmente os
construtoo de J. J. Atkinson relativos ao estado primitivo da convivência hu-
mana, a bloody tragedy (1903, p. 231), 110 o/d world drama (p. 232), ~rtanto
sobre o assassinato dos filhos no solitary paternal tyrant (p. 228) e o relat1vo ao
papel do amor da mãe no estabelecimento das primeiras normas quanto ao ci~me_
mortal entre pais e filhos IFreud refere-se a filhos homens (Sohne). dislingumdo
d e filhas (Tõclller) (N. do T .)l c no o~poio pela unidade familiar atravts. da exo-
gamia, lembram o fluxo nrgumcntalivo hipotétko de Totem a Tabu.

115
Poderiamos argutamente perguntar se o rascunho para Neuroses
de Tr~nsfer~ncia: uma Síntese, com sua segunda parte filogenética, acres-
centana mats um argumento para a anulação da metapsicologia de Freud.
Essa é uma exigência que é feita de uns anos para cá - com outras
justificativas, porém - por representantes de várias escolas entre as
quais os hermeneutas, estruturalistas, seguidores da action lang'uage; por-
tanto por aqueles que estão em primeiro plano interessados no aspecto
da f~la .do p~sso de interpretação, na Filosofia da Linguagem e na
LíngufstJca, ex1gência cujas conseqüências levariam a estabelecer a Psi-
can~lise .como ciência cultural, como o são a História, a Lingüística e a
Soetolog1a, declarando a tentativa freudiána de fixar a Psicanálise nas
ciências naturais, como um anist6rico "auto-engano ckntífico",l e levan-
tar a âncora somatobiológica. Conquanto trata-!le, na metapsicologia,
de formulação de teses do mais alto grau de generalidade basicamente de
descrição e explicação de características próprias da espé~ie, tem-se de fa-
lar necessariamente, e não definitivamente, também de fenômnos bio-
lógicos, portanto do corpo. ·
Certamente, o presente exame do contexto relati vo ao rascunho do
d~cimo_segundo ensaio metapsicol6gico não ~ o lugar para o apreço dessa
d1scussao. Recentemente Arnold H . Modell (1984) advogou numa síntese
crítica a cori~ra-abolição e uma revisão da metapsicologia.2 ~ possível
que nesse meto-tempo tenham sido superados tópicos centrais - embora
c~ntinuem atuais suas funções heurísticas, tanto para o psicanalista teó-
n co quanto para o clínico - , funções submetidas a uma análise cuida-
dosa por A . H. Modell, a qual acaba redundando na frase: ''Sem mc-
tapsicologia não pcdemos começar a pensar" (p. 223). Dessa forma re-
toma .o dito tardio de Freud: "Sem especul.ações e teorizações metapsi-
col6gtcas - quase poderia dizer fantasias - não vamos aqui um passo
adiante" (1937c, p. 366).3 .

I J. Habcnnas (1968), p. 300 e segs.


2 C~. R. R. Holt (1981) para uma outra apresentação abrangente, na qual
des!aca a Importância dos princípios teóricos da teoria dos sistemas visando a uma
revtsio da metapsicologia.
l . Este .~ ,.o fa~ lugar no qual Freud, na frese anterior, fala da "bru;u
M etapstcolog~a , IIS30CJada à citação do Fausto: "So mu ll denn doch die Hexe
dran." E ~osslvel ainda que nessa metáfora ande ironicamen te o fantasma da
bmxa Caiuzares do "Diálogo dos Cachorras" de Cervantes (1963 ]1613] p. 612 e
:gs.). Naqu~le d_iálogo das Novelas Exemplares, o cochorro Bttgam:a reÍata como
bruxa o dJverba com uma teologia de grande alcance, fundamentada em pares

116
Já alguns anos antes, não muito tempo após o trabalho no rascunho
de seu Neuroses de Transferência: uma Síntese, Freud havia constatado
em Além do Principi o do Prazer (1920g), "com relação a nossa espe-
culação sobre impulsos de vida e de morte", sem ilusões e com cla-
rividência: "em contrapartida, queremos que fique bem claro que a
incerteza de nossa especulação foi aumentada em muito pela necessidade
de tomar empréstimos da ciência biológica. A biologia é deveras um
reino de possibilidades ilimitadas, do qual temos de esperar cs esclare-
cimentos mais surpreendentes, sem poder adivinhar que respostas nos
dará às perguntas que fizermos a ela alguns decênios mais tarde. Talvez
exatamente aquelas que, num sopro, derrubem toda a nossa construção ar-
tificial de hipóteses" (p. 268 e seg.). Ninguém negará que a biologia, no
interregno dos decênios passados, realmente revelou-se como um "reino
de possibilidades ilimitadas". Mais precisamente, não só por causa das
inovações revolucionárias na biologia molecular e genética, mas também
em relação ao desenvolvimento no campo da teoria da cognição.l Em
toda parte observam-se os começos de um enredamento teórico moderno
da psique e soma,2 que aos poucos levam paulatinamente à superação
dos tradicionais cismas cartesianos corpo/alma, cérebro/espirito, ciên-
cias naturais/ciências culturais. Como também parecem possibilitar a
atenuação da dicotomia sujeit<Hlbjeto.
Somente quando a reivindicação metapsico16gica, e com ela a liga-
ção com a biologia, puder ser mantida dentro da psicanálise, poderão os

de opostos, tais e<>mo pecado/moral, luxúria/absti~cia, realidade/fantasia. Nio


somente a metapsicologia é igualmente construlda ao capricho da realidade, como
Freud a seu amigo de adolescência Eduard Silberstein haviam se identificado du-
rante os anos de gín!sio, de brincadeira, com os dois cachorros falantes (veja as
cartas de Freud para Silberstein, cuja publicação em alemio está sendo atualmente
preparada).
l Como ilustração, podem·se mencionar duas publicações desse tipo, a saber :
de Jean Piaget, a Biologia e Cogn(Çiio: ~bre o relacionamento entre as regula.
ções orgânicas e processos cogíritivos {1974): e os trabalhos de H umberto Matu-
rana sobre "Epistemologia Biológica" (1982), nos quais esboça uma nova teoria,
além dos tradicionais modelos do homem como máquina, de sistemas vivos, e
da depcndêftcia biologicamente estabelecida do processo cognitivo do sujeito.
2 Novamente dois exemplos: os escritos reunidos em O 6 iogranw (1970, do
antropólogo c zoólogo Earl W. Coun t e a buscar por Thure von Uedüll de um
paradi&ma da medicina psicossomática, operando, entre outros, com os conceitos
de círculo situacional, gestolt de ~poca, realidade individual, programa, sistema ou
sinais '(1979, cap. 1 at6 S, em colaboração com W. Wesiack, 1980, p. 63 e :segs.).

117
psicanalistas manter abertas suas percepções para esses desenvolvimentos
e evitar o isolamento da herança freudiana no discurso das ciências vi·
zinhas. Mesmo que apenas poucos possam tomar parte ativa em tais
pesquisas, .podemos imaginar as boas perguntas que poderiam ser por
eles apresentadas aos representantes de outras matérias, perguntas que es-
pecialmente salientam a dimensão do inconsciente, deduzidas do modo
especial de conhecer na situação psicanalítica, daquele oscilar entre a
intersubjetividade intuitiva e vivencial e a objetividad~ observadora, re·
flexiva, o qual caracteriza o método psicanalítico, independente dos tó·
picos teóricos metapsicológicos antiquados. Isso significaria abrir passa·
gem à posição epistemológica de Freud, inteiramente inédita naquela
época entre as ciências naturais e humanas. Pois ele era radical em duas
direções diferentes: no ímpeto de sua crítica social e religiosa, ao fazer
sua análise da cultura, como na sua tardia insistência inexorável na
ancoragem de todo comportamento humario ao substrato mortal orgâ·
nico-biológico, responsável pelo prazer.! Podar a psicanálise de sua di·
mensãó metapsicológica significaria, epistemologicamente, regredir um
passo no avanço do pensamento revolucionário de Freud, portanto
um novo revisionismo. Isso implicaria, também, não facilitar a com·
preensão dos fenômenos que estão geneticamente ligados aos processos
psíquicos ou psicofísicos estruturantes, aqueles que aparecem mais cedo
na vida, que resultam da matriz orgânica.

Voltando ao rascunho do décimo segundo ensaio metapsicol6gico


de 1915. Acentue-se uma última vez que Freud não deixou o texto
passado a limpo chegar a público por motivos muito bem ponderados.
Se agora o rascunho vem a ser publicado, mesmo contra a vontade do
autor, assim como antes um outro documento de uma frustração, ou
seja, o fundamental "Esboço de Psicànálise" de 1895; redescoberto junto
com as cartas dirigidas a Wilhelm Fliess, seja-nos permitido relacionar
algumas razões para isso.
O texto e a discussão com Sándor Ferenczi, esta reconstruída atra·
vés da correspondência, transmitem uma imediata e rara impressãó da

1 Certamente não é por acaso que as inteligências progressistas c.ntrc seus


colaboradores. como Sándor Ferenczi e Siegfried BernJeld, perceberam esse duplo
radicalismo e tentaram em suas obras dar continuidade a ele, mesmo que estudos
bioanalít.icos de Ferenc~i e os libídométricos de Berrifeld não passassem de espe-
culação ou &e equivocas5em completamente porque faltava a ~sse~ pesquisadores
os adequadO$ instrumentos conceituais.

118
naturalidade do momento lúdico do processo criativo de Freud, ou mesmo
da importância da imaginação na criatividade científica em geral - tal-
vez precisamente porque não mantivesse o produto no fim; porque sua
"fantasia ousadamente lúdica", depois de lhe ter dado rédeas soltas,
tinha sido superada mais tarde na medida de sua ''crítica real e ímpia·
cável" - , aliás um movimento que já transparece no último parágrafo
do rascunho. Relaxamento, curiosidade infanto-juvenil, capacidade para
maravilhar-se, para entusiasmar-se, para tolerarem-se mútua e amigavel·
mente, animando-se redprocamente, bem como corrigindo-se de forma
incondicional, objetiva, enfim a cultura humana e dialética, característica
dessa fase de amizade Freud-Ferenczi, sugere-nos um exemplo de cola·
boração científica.
Até onde ele traz à tona seus elementos radical e notoriamente neo-
lamarckistas, o rascunho poderia ensejar o impulso para uma crítica
produtiva da metapsicologia, na medida em que o peso dessas problemá·
ticas peças teóricas não passaria despercebido promovendo-se uma mo-
demização.l
Evidentemente, entre os sete ensaios metapsicológícos rejeitados, o
décimo segundo tem um lugar especial na estima de Freud. O que o
fascinava era sua segunda parte, pois não se estendeu de forma tão de·
talhada e comprometida sobre nenhuma outra passagem dos sete textos .
perdidos nas cartas dos tempos de guerra. ~ certo que mesmo ainda hoje
chegam a nos convencer algumas respostas buscadas com esforço n<?
rascunho. Outras, porém, que posteriormente Freud não mais manipu·
lou continuam plenamente atuais: uma delas, a idéia quantó a saber
se aquilo que hoje se impõe como mórbido no neurótico e no psicótico,
limitando a vida, poderia ser na origem de seu desenvolvimento a reação
adaptativa necessária para a sobrevivência da espécie, diante das modi·
ficações ameaçadoras das condições ambientes e diante de acontecimen·
tos traumáticos. Portanto, o esboço não é para ser lido exclusivamente
como curiosidade histórica.
O que Havelock Ellis (1910, p. 523) constatou em uma crítica
precoce do estudo ·de Freud sobre Leonardo (1910) parece combinar
bem com o até agora desconhecido rascunho de Neurose de Transferên-
cia: uma Sintese, considerando-se quantos conhecimentos há a detalhar

1 Uma tentativa desse tipo foi feíta, há vinte anos, nos E.U.A., numa
conferência interdisciplinar. Veja N. S. Greenfilu e W. C. Lewis (1%5).

119
e a serem expostos sobre as díívidas relacion~das ao modelo da herança
lamarckista e as mudanças derivadas da moderna teoria pluralística do
conhecimento. Pois Ellis acha que Freud, mesmo quando usa em suas
hipóteses um fio muito fino, quase nunca perde a oportunidade de
enfiar nele pérolas, e estas mantêm seu valor independentemente do fato
de o fio resistir ou se romper.

120
ABRAM EKSTERMAN

A Metapsicologia de Freud

Posfácio à Edição Brasileira


Não será pela última vez que um manuscrito desconhecido estimula a
curiosidade, especialmente tratando-se de texto inédito de um dos mais
influentes criadores do século XX. Aliás, a t.arefa de pesquisar os se-
gredos de Freud nestes últimos anos só deve ter sido superada pelos
segredos que o próprio Freud pesquisou. Já conhecemos bem o vínculo
do tipo hegeliano que mantém o segredo e a curiosidllde. Desde tempos
imemoriais, acredita-se que a verdade está além dos objetos, do visto e do
pronunciado, guardada em arcanos acessíveis apenas a uma minoria
de eleitos. De fato, aprendemos justamente com Freud que as palavras,
além de informar, desorientam: além de revelar, ocultam; c que preci-
samos estar atentos ao subentendido, ao trocadilho, ao enigma, à metá-
fora, para tomarmos contato mais autêntico com a verdade de cada um.
De Tirésias a F~õeud, passando por Kant, aprendemos a não confiar em
nossos sentidos e em nossas palavras.
De Freud, foi desengavetado o "projeto" de 1895; recuperamos
centenas de cartas, desde as mah íntimas à noiva Martha, até aquelas
dirigidas a eminentes discfpulos e intelectuais da época. Procuramos, nas
cartas a Fliess, as origens da psicanálise e lamentamos não encontrar as
respostas do próprio Fliess. Vez por outra, anuncia-s~ algo a ser reve·
lado, que deverá reestruturar o edifício freudiano: Sempre há alguém
pesquisando a entrelinha de um rodapé desprezado, na busca de um elo
perdido, descontente com a vasta bibliografia contida nos 23 volumes
da Edição Standard, cujo estudo atento de seus 231 títulos dificilmente
levaria menos de dez dedicados anos. Para o estudo básico da obra de
Freud, na formação psicanalítica do Inslituto da Sociedade Brasileira de
Psicanálise, salientamos tradicionalmente cinqüenta e quatro trabalhos,
cujo estudo é desenvolvido durante quatro anos, tempo que tem se mos-
trado insuficiente para integrar a enorme massa de informações contidas
neles. Mesmo assim, ao longo dos anos, o atrativo pela descoberta re-
cente continua interrompendo a disciplina regular. ~ o caso desse recém-
encontrado manuscrito do décimo segundo ensaio metapsicológico, em

~23
meio aos papéis deixados por M. Balint e guardadas por Enid Balint.
Se o documento por si faz afirmações encontráveis em outros trabalhos
e não foge do desenvolvimento das idéias de Freud, ·, contudo, um
poderoso estímulo para a releitura e a reavaliação das idéias psicológicas
de Freud, as quais ele batizou de metapsicologia.
Quats as características da psif,:Ologia exposta por Freud, portanto
de sua metapsicologia? E como adendo cabe a pergunta: quais de seus
trabalhos tratam de metapsicologia?
Começando com a segunda resposta, podemos percorrer o mesmo
raciocínio da organizadora, Ilse-Grubrich-Simitis, desenvolvido em seu
ensaio "Metapsicologia e Metabiologia", que, junto com o texto de
Freud, completa este volume, tornando-o um livro da mais alta impor-
tância "para os estudiosos de psicanálise. Com efeito, reunindo farta do-
cumentação, especialmente as cartas trocadas entre Frcud e Ferenczi, a
psicanalista alemã brindou-nos, através de uma minuciosa reflexão, com ·
um magnífico exemplo de estudo crítico dos elementos básicos da meta·
psicologia face à época em que foram desenvolvidos, bem c.omo ao
contexto científico atual. Com ela concordamos quando amplia os estu-
dos metapsicológicos de Freud, de acordo com a tendência moderna, para
"Esboço para uma Psicologia" (1950a), o Capítulo 7 d~ A Interpretação
dos Sonhos (1900a), "Formulação sobre os Dois Princípios do Processo
Mental" (191 t b). "Sobre Narcisismo: uma Introdução" (1914c), Além
do Princípio do Prazer (1920g), O Ego e o Id (1923b), e os cinco ensaios·
metapsicológicos de 191 5: "Pulsões e o Destino das Pulsões" (1915c),
" Repressão" (1915a), "O Inconsciente" (l915e), "Suplemento Metapsi·
cológico à Teoria dos Sonhos" (1917d) e "Luto e Melancolia" (1917e).
Pela correspondência de Freud trocada com Ferenczi, temos de mencio-
nar outros quatro trabalhos desse conjunto, a saber, "Consciência", "An-
gústia" ou "Histeria de Angústia", " H isteria de Conversão" e "Neurose
Obsessiva". De J. Strachey, sabemos por sua introdução aos trabalhos
metapsicológicos de 1915, onde, além de citar esses lftulos, afirma que
deveriam existir ain~a um trabalho sobre "Sublimação" e talvez outro
sobre "Projeção" (Standard Edition, v. 14, 106). O próprio Strochey,
nessa introdução, lembra ainda o Capítulo 6 do livro sobre chistes e a
terceira parte da análise sobre Schreber.
Diferentemente da organizadora, contudo, creio que podemos am-
pliar ainda mais o conceito para incluir toda a exposição teórico-psicoló-
gica de Freud, a começar por seu trabalho de 1891 sobre afasias. A par·
tir desse trabalho, Freud desenvolve sua reflexão fundamental so~re o

124
significado, fornecendo-nos subsídios para compreender o que ele cha-
mou de "afasia agnósica", concepção sua de um distúrbio funcional da
linguagem que compromete o vínculo associativo entre Dingvorstellung
(representação de coisa ou objeto) e a Wortvorstellung (representação de
palavra). A representação de coisa é aberta a novas impressões, enquanto
a de palavra é fechada, não admite impressões subseqüentes. A percepção
de objeto - da realidade exterior - fica, portanto, sempre aberta a no-
vas impressões. Obtém-se o significado de algo através dessa complexa
associação: da représentação de coisa com a representação de palavra; e
perde-se o significado, mediante a dissociação entre essas duas represen-
tações, produzindo "afasia agnósica". Não nos é diHcil reconhecer que
essa associação das duas representações produz "consciência" (Bewusst-
sein) e sua dissociação produz "inconsciência" (Umbewusstsein). Além
disso, o mecanismo psicológico funcional que produz essa dissociação,
como será aplicitado claramente em 19 15, e aqui no manuscrito, Neu-
roses de Transjerência: uma Síntese, é o de repressão (Verdrangung), ou
seja, a dissociação entre as duas representações, produzindo inconsciência
por ausência de signjficado. ~ bom ter em mente que o significado
correto de Bewusstsein está ligado a "conhecer" e não à idéia neurológica
de "vigilância", que é proporcionada pela atenção. Conhecer ou não
conhecer (consciência ou inconsciência) é a questão usencial da psica-
nálise e não, como é comum nas discussões sobre metapsicologia, o
problema da distribuição de energia em seus aspetos clinâmicos e eco-
nômicos. Antes de examinarmos este último tópico, gostaria de sublinhar
mais uma vez a questão do conhecer ou do desconhecer como a matriz de
toda discussão psicanalítica. ~ ela, como vimos, que está na intimidade
do problema da consciência e da inconsciência. Tornar o inconsciente
consciente é o objeto terapêutio e o tema central da técnica; discriminar
o consciente do inconsciente, saber como um se transforma em outro, co·
nhecer suas propriedades, funções e conteúdos é assunto da nova psico-
logia de Freud : a metapsicologia. A metapsicologia é, portanto, o campo
especifico da ciência psicanalítica dedicada ao conhecimento do territó-
rio mental do inconsciente e de suas relações com a consciência, com a
unidade biológica que o produz e com a estrutura físico-social dentro
da qual subsiste. Este é o conhecido tema topográfico da metapsicologia,
que pode ser definido como um espaço conceitual, situado entre o bio-
lógico e o físice>-social, mantendo com este último tênue membrana de
consciência. Note-se que entramos em formulações teóricas, onde são
expostos construtos e não descrições da realidade fatual. Estamos em

125
pleno território formal. Com es~~ esclarecimento voltamos aos outros
dois elementos definidores da metapsicologia, conforme está no texto
sobre "O. Inconsciente" (19t~e, Standard Edition, v. 19, 181). Diz Freud:
" Proponho que uma apresentação seja denominada metapsicológica q uan-
do conseguirmos descrever um processo psíquico segundo sua~ relações
dinâmicas, t6picas e econômicas." O aspecto dinâmico dessa constru~~~ .
teórica serve como instrumento compreensivo para as relações do sistema
inconsciente com a consciência, para as relações dos compon~tes e
conteúdos desse sistema c em suas relações com o ambiente físico-social.
São afirmaçóe:l inspiradas na observação clínica e pretendem configurar
relações dinâmicas, portanto, de forças em operação, que podem se asso-
ciar, confluir, divergir e conflitar. Tais operações tomam compreensíveis
uma série de fenômenos psíquicos, normais e patológicos, especialmente
um, ligado à patologia mental, qual seja o conflito psíquico, cujas nuan-
ças estariam na origem das variadas manifestações da patologia. Essas
forças em operação, por sua vez, são fornecidas pela ~imensão biológica
e foram descritas como instintos, ou mais precisamente, Trieb, cuja tra-
dução mais correta é "pulsão", cuja característica, conforme o sentido
da própria palavra alemã, é de impulsionar para um objeto,. segundo um
objetivo. Por ter características imperativas, guarda analogia com a ex·
pressão "instinto", utmzada na versão inglesa de T. Strachey, embora
ele próprio tivesse feito várias ressalvas a respeito. A quantidade de
energia disponível da pulsão define o aspecto econômico, portanto as
relações do sistema inconsciente com a dimensão biológica, a qual é a
única fornecedora de energia para as múltiplas ope rações mentais. Te-
mos assim um esboço dos conteúdos da definição de Freud para a me·
tapsicologia. Fascinado pelo aspecto energético e pelo discurso neurobio-
lógico, apoiado no princípio de constância de Fechner, Freud estendeu-se
de tal forma pelos tópicos dinâmico e econômico que o topográfico
aparece reduzido como o lugar de operação dessas forças. Na verdade,
o topográfico é o elemento definidor da metapsicologia, pois ele justa·
mente contém o conceito de inconsciente, cuja distinção básica 'd e outras
formulações 11nteriores (e posteriores) não é só porque contém a quali·
ficação dinâmica (ou seja, do que é mantido inconsciente), mas porque
é o produtor mesmo da representação inconsciente, que para se tornar
consciet1te precisa associar-se à palavra. Por essa razão - primária,
portanto de toda atividade mental - é que Freud c-Jnsidera o incons-
ciente "a verdadeira realídade psíquica" (Edição Standard Brasileira, v.
5, 65 1, Imago). Vale acrescentar o trecho grifado por Freud que conti-

126
nua a frase fundamental na teoria psicanalítica: "em $U4 tuJtureza mai3
Intima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo exterior
e é tão incompletamente apresentado pelos dados diz consciência quanto
o é o mundo externo pelas comunicações de nosso órgão dos sentidos"
(ib.). ê secundário, para entender o inconsciente, saber se é uma qua-
lidade psíquiCa, uma deacriçlo de conteúdos que são inconlcientes, se
é aquilo que es~ além da censura ou da repressão, se é fonnado peló
reprimido ou pela herança filogenétlca. Tais aspectos são condicionados
por nossa perspectiva que ainda percebe o fenômeno mental como equi·
valente a conteúdos da consciSncia. Queremos saber, olhando do ângulo
da oonsciSncia, o que é inconsciente ou inconsciancia e assim produzir-
mos qualidades, oonfundindo essas qualidades com a própria natureza
substantiva do fenômeno. A natureza substantiva do inconsciente é a
pr6pria realidade psíquica, da qual a própria consciência é apenas um
atributo. ·Trata-se de uma reformulação tão completa de nossa concepção
do psiquismo, que podemos aqui aplicar a noção de "corte epistemo-
lógico" proposta por Gaston Bachelard. Com efeito, todas ·as noções
psicológicas anteriores ficam completamente transformadas, e nenhuma
concêssão conceitual pode M:r feita sem corrermos o risco ~e perder a
penpectiva aberta por Freud . Tudo, tuJ mente, em p.rincípio, é inrons-
ciência. Nosso problema, portanto, não é saber como se produz a
inconsciência, mas como se produz a consciência. Essa pergunta pare-
c»me a central do ·objeto psicánalítico da investigação da mente, e
igualmente central em sua proposta terapêutica. Não há nenhuma no-
vidade nisso. A fórmula de Freud, exposta em O Ego e o Jd (t923d),
continua absolutamente válida: "Wo Es war, sollen lch weren." (Onde
era id, seja ego.)
A questão metapsicológica, do ponto de vista teórico, é a da des-
.criçio do psiquismo tendo como seu eixo o inconsciente; do ponto de
vista prático, ou clínico, a transformação psíquica do inconsciente para
o consciente. A tarefa é tomar consciente. Duas ofirmações aparecem
como corolários: a primeira é a de que toda a obra de Freud é um enorme
texto metapsicológico, e não apenas alguns de seus trabalhos selecionados;
a segunda é de que o tema central da metapsicologia refere-se especifi·
camente à representaçio (Vorste/lung). Para tornar mais clara minha
afirmação de que toda a obra de Freud é um texto sobre metapsicología,
devo encontrar os argumentos na segunda afirmação que sublinha a
representaçãó como o centro do universo metapsicológico.

127
A palavra Vorstellung tem um s!gniricado bastante claro para quem
pensa e se comunica em alemão. Quando se diz: " Konnen Sie sicll das
vorstellen.:." pretende-se dizer, simplesmente, que " O ~enhor pode
imaginar isso ... " Esse imaginar, no entanto, tem algumas características
.e
distintivas: algo que se apresenta na mente, na ausência do objeto
sensorial, percebido do mundo exterior. Trata-se de uma fantasia ou de
um fantasiar. b d iferente da Wahrnehmung, ou percepção, ond~ o ob-
jeto sensorial está presente. Dentro do uso correto da palavra Vorste/lung,
não faz sentido falar em Vorstellung inconsciente, pois, por definição, ela
é um conteúdo da consciência. Voltando ao dito "Konnen Sie sich das
vorstellen . .. " estou dizendo que " O senhor pode imaginar ... " cons-
cientemente. A ninguém passaria a idéia de que se está imaginando, ou
tendo. idéias, de forma inconsciente. Freud conseguiu conceber isso, o
que lingüistkamente não faz sentido, mas para ele fez todo o sentido.
Ê por isso que discute, no primeiro capítulo de O Ego e o ld, demora-
damente essa ques tão, dialogando, como costumava f~zer, com oposito·
res eventuais (Edição Standard Brasileira, v. 19, p . 25 e seg.). O psica-
nalista,. que concebe imaginar inconscientemente, na verdade dedica-se
a dialogar com as fantasias inconscientes de seus analisandos. Sem a
nova perspectiva conceitual de Freud, a atividade psicanalítica pareceria
uma arrematada loucura.
Assim, a impressão sensorial produz, como primeiro passo para se
tornar mental, um rastro .çle Vorstellung - " representação", criação
mental de um objeto ausente. A impressão sensorial lanto pode advir do;
caminhos exteroceptivos, da realidade externa, como proprioceptivos, da
realidade interna. Ambas produzem representações, fcm ecendo .as pri-
meiras matrizes simbólicas que produzem as informações necessárias
para gerar orientação para os mecanismos adaptativos. Se o aparelho
mental humano ficasse restrito a esse nivel de produção de informações,
não se distinguiria do de um outro mamífero superior. O que o toma difo-
ren te é que essa representação primi tiva transforma-se em consciência, ou
seja, em saber, na verdade em saber consciente, revolucionando a con·
duta, na medida em que de orientação adaptativa inconsciente, quase
automática, abre através da consciência uma nova e criativa gama de
possibilidades. E atribui à palavra esse papel de tom ar consciente. A
representação primitiva é a linguagem do processo primário de pen sar, c
a representação ligada à palavra é a do processo secundário de pensar, se-
gundo a conhecida classificação de Freud, desde o Capítulo 7 de A
I nterpretaçüo dos Sonhos (1 900a). A representação primitiva é o subs-

128
trato igualmente doa sonho.. que toma de cmprátlmo elementos verbaia
da conaci&nc.ia. Esta se diferencia juatamente quando a atençfio se desvia
de seus conteúdos e a toma pr&.consciente, a qual guarda uma relaçlo
abr;oluta com • c:onaci~ncia e só guarda com o inconsciente a qualidade
psíquica de seus conteúdo5 nio serem conac:ientes. ~ assim que o tema
topogrjfico ~ menos uma questio de espaço .q ue de colitcúdo ver~.
o verbo ou a palavra t que distinp o que ~ consciente do que t to-
consciente.
~ claro que hoje podemos abat'(ar o panorama gera\ do pensamento
de FreÜd sem as limitações da tpoca, tanto suas, na medida de um
discurso penosamente desenvolvido atrav6s de achados clfoicos precaria~
mente conclusivos, e da linguagem de um contexto ainda nio modificado
pela própria psicanálise, assim como da adversidade de uma cultura que
resistia a uma transformação tio radical .propi~da por easa nova psi-
cologia. E dessa maneira que fica mais complexo compreenderem-se os
textos metapsicol6gicos, como foram redigidos nessas cireunstincias. Pois
eles partiram da consciência pata mostrar a incoDKI~nc:ía~ e o c:ami·
nho expositivo era mostrar como algo se tortUIVa incotncrente. Dessa
forma, a defesa e, em seguida, a repressão• tomaram-se o tópico oni·
presente da metapsicologia. Nesse sentido, e partindo da cUnica, era
necessário mosttar nio só como algo se tomava inconsciente. mas como
algo se mantinh4 inconsciertte. A resposta veio 6bvi~: tomava-se incons-
ciente pela repressio e mantinha·se inconsciente pela resistencia descrita
como úma es~ic de forÇa quo conservava algo incon~eiente, a despeito
da tentativas do -.naliata de franqueir o acesso l consc:iertcia. Da{ para
estabelecer a equival~ncia entre a repressio e a força repulsiva foi um
passo. A idéia de reprcssió transformou-~ num conceito hidráulico, sobre
0 que, aliú, quase todas aa criticas à metapsicolosia convergem. Acho
que devemos retomar o sentido original, que, contudo, nio exclui cu&
id~ia de força, mas· que em sua versio completa fica bastante diferente.
A pàlavra Verdrangung quer dizer literalmente " abrir espaço para algo",

• Contlnud uundo a palavra repnuiJo, consqiada pelo uto. Nlo M vant.J,o


aem em IC empreaar a venlo {raDC:CA ~c:~J~tW~tto, que patec:e ainda menos apro-
priada. Calc;ar em portui'Jb ainda t mú opraai\'o, no ~ntido de f~rça, que a
palavra np1esMo. Esta llltima tem a vantaaem ~ tndaçlo, a qual pode~•
utilizar mantendo o ICntido em alemlo. Buta aubstltulnnoa a ld61t de uma pRAao
no Kntido vertical por uma no ~CJ~tido horiulfttal. Ficam sem ICntido, delta forma,
as expRII6ce no Jundo, ,.icologia · pro/ut~dt~ • outru t imUill'CI.

129
como alguém que, numa multidão, abre espaço com os cotovelos para
si próprio. O sentido, portanto, é abrir -espaço para si, ou, completando
o ~;ignificado, abrir esp~ço para o eu, distinguindo-o do que não é eu.
O Verdrangung é um modelo .de dissociação: llepara do "cu" o que o
sujeito não quer mais que seja considerado como "eu". O reprimido,
portanto, é um " não-eu". Isso é conseguido pela dissociação entre a re-
presentação de coisa (Ding(Sache)Vorstellung) e a representação de pa-
lavra (Wortvorstellung); em outros termos, a coisa fica sem palavra,
portanto sem sentido, e algo sem sentido é não-<:onsciente ou inconsciente.
Mas o reprimido associado à idéia de força estimula a se pensar que
devemos procurar esse reprimido dentro do sujeito, como se ele "esti-
vesse escondendo algo", o que traz curiosas e desagradáveis conseqüên-
cias na técnica psicanalÍtica. O reprimido é tido pelo próprio sujeito
como algo que não tem nada a ver ~ ele. Um outro. O que · não
·significa para o observador externei que esse reprimido não possa ser
reconhecido como fazendo parte do sujeito. ~ o que permite, como pri-
meiro pas~. a reconstituição psíquica dentro da análise. Podemos en-
tender, assim, que a repressão que produz o reprimido, configurado como
não-eu, é a essência do meca~ismo de projeção e a matriz de todos os
mecanismos de defesa.
Continuando com a pergunta de como algo se faz consciente, en-
tendemos agora o que significa levantar o· reprimido. Significa reassociar
ou associar a palavra a uma representação de coisa, ou vice-versa, pois
que .ambas pqdem ficar incon.stientes, bastando para isso retirar~lhes o
significado: a ·palavra de seu objeto, e o objeto de sua palavra. Tal é
.a função da interpr!:tação do analista, ou simplesmente a palavra tran:1~
formadora. Um outro acontecimento de. maior importância é descrito.
Refere-se a . em. q~e ~mpo mental a representação se oferece à cons-
ciência. No território do processo primário de pensar; oonfigur~ um ob-
jeto intrapsiquico, concreto, dotado de vida independente, cujas carac-
terísticas vão se atenuando à medida que se ap~ntam no campo do
processo secundário onde n representação adquire a forma de pénsamen-
to abstrato, quando os objetos se transformam em memórias, podendo se
distinguir de fantasias.
Fica o problema de energia que é o eló entre o psíquico e o bio-
lógico. Aqui se insere ·a questão psicossomática. Na verdade, a energia
só se faz operativa através da representação. O que funciona no espaço
mental são símbolos, mais ou menos concretos, criações .muito particula-
res da realidade biológica, e:tpressa através de seus impulsos, ou da

130
realidade físico-social, introduzida pelas sensopercepções. Do ponto de
vis~ tópico, o que não se representa, ou seja, o que não é Vorstellung,
simplesmente não existe. Nesse sentido, a representação do impulso não
é idêntica ao próprio impulso, como a percepção nio é idêntica à sen-
sação. A realidade psfquica não é uma realidade sensorial, é antes uma
recriação do mundo extérno e interno. Trieb é a força motriz da repre·
sentação do impulso biológico. ~ o que a distingue do instinto, conceito
esse mais comprometido com impulso biológico. A essa última afirmação ·
poderíamos objetar com a concepção expressa por Freud de que o impul-
so de morte não tem representação, ao que poderíamos contra-objetar
que utiliza, portanto, as representações de eros. A idéia de repreSentação
do impulso é conferir força e direção a objetos l'síquicos, bem como
qualidades. Em seu p6lo mais primitivo, ao nfvel do processo primário
de pensar, é afeto ou sentimento; e no pólo mais evoluído, ao nfvel do
processo secundário de pensar, é a palavra. ~ assim que a metapsicologia,
em última análise, é psicologia afetivista, e somente egora, em seu de-
senvolvimento mais maduro, vemos a metapsicologia transfigurar-se de
uma sociologia monopessoal, para a psicolosia bi e multipessoal das re-
lações objetais e, portanto, dos vínculos· afetivos, que em sua primeira
fase constituem a essência do estudo da transferência.
A metapsicologia apresenta-se pois como a teoria das transforma-.
ções psíquicas: do biólogo para o mental inconscientê, através da re-
presentação, e do inconsciente para a consciência, mediante a apresenta·
ção da palavra, e, portanto, produzindo significado. Por um lado, penni-
tindo a visão psicodinâmica do fenômeno psicossomático, por outro, da
humanização do animal-homem pela palavra e pelo significado. Numa
face, psicologia; na outra, semiologia. Duas perspectivas interligádas e
indissociáveis, sob o risco de, separando-as, reduzirmos a questão à psi·
cofisiologia ou à lingüística. Poderia acrescentar à reflexão da organiza-
dora, llse Grubrich-Simitis, em seu ensaio conclusivo deste livro, a pon-
deração de que justamente a metapsicologia é o território conceitual
atualmente disponível de encontro das ciências naturais com as ciências
histórico-culturais.
Se considerarmos a inetapsicologia como o texto total da obra de
Freud, como sugeri antes, a aventura de síntese que pretendi nestas
linhas adicionais à tradução brasileira teve apenas a apoiá-la o inten·
to de sublinhar algumas questões básicas, pretendendo colaborar com
aqueles que consideram a discussão em tomo da validade ou não
da metapsicologia Iatu sensu como fora de propósito. Não diria o mesmo

131
quanto a algu ns de seus tópicos e muitas formas de expressá-los. Com os
desenvolvimentos científicos. e com os recursos conceituais modernos,
ampliou-se de tal forma a possibilidade de reorganizar a estrutura me-
tapsícológica que, possivelmente, em breve, poderemos assistir a uma
retomada da reflexão metapsicológica no sentido de emprestar-lhe roupa
nova, de acordo com o padrão da época presente. Contudo, dificilmente
a essência Óa questãP. levantada por Freud será abandonada. Essa parece
ser uma aquisição permanente da cultura, no sentido de garantir funda-
mentos à pesquisa da parte mais sensível da exp.!riência humana, a qual
se revela no mito, na poesia, na arte em geral. Pois a metapsicologia
está para a psicologia, assim como a metafísica está para a filosofia .e
o que acentua a psicanalista llse Grubrich-Sirnitis. Com efeito, o texto
extenso da representação mental é um mito, o próprio mito original da
criação - da criação do sfmbolo. O sonho, a fantasia, o conteúdo de
nossa mente, são mitos, instrumentos primitivos com os quais pretende-
mos inicar a longa trajetória de revelação da verdade da natureza, da
vida e de nós mesmos. Mitos que nos são caros e que mantemos como
engastes preciosos indispensáveis, os quais perdemos não sem sofrimento.
E assiin é a psicanálise definida por Freud como instrumento desilusió-
nante, como desmitificador.
Entre a representação primitiva e o símbolo verbal, estende-se a
longa elaboração perpassada de desilusões, lutos e sofrimentos. Não é
por acaso que a própria psicanálise de Freud começou desfazendo os
mitos sintomáticos com Brcuer no caso de Anna O., e terminou na
grande tarefa de desilusionar a ba~ da cultura ocidental em Moisés e a
Religião Monoteísta. D~sa forma, podemos ~ntender a segunda parte do
Neurose~ de Transferência: uma Síntese, na qual Freud 5e ~tende por
umà "fantasia filogenética". Certamente é mais que uma fantasia. Ali
encontramos o ímpeto desilusionante de Freud, seguindo as pegadas de
Lamarck e Darwin, procurando fazer no plano mental o que esses auto-
res fizeram no plano heredobiológico. Com Freud, indo além de Darwin,
ficamos privados não só da nossa criação biológica divina, mas de nossa
própria alma, como concebida dentro do mito religioso. Descobrimo-nos
humanos, herdeiros de impressões arcaicas e dominadas ainda por im-
pulsos sedimentados ao longo de milênios. Nossa alma, transfigurada num
vasto território de mitos arcaicos, legitima-se nas malhas dessa hipótese
filogené tica não mais no sopro divino, mas nas duras experiências das
hordas primitivas da época glacial. Se não obtiver sanção da antropo-

132
logia, terá pelo menos o aval da heurística. Sem dúvida acabamos menos
divinos, como também menos animais, mas profundam~nte mais humpnos,

Desejo ressaltar, nas palavras finais deste posfácio, algumas des-


culpas e alguns agradecimentos. Desculpo-me com os leitores pelo fato
de não ser um tradutor profissional, apenas um estudioso de Freud que
teve no alemão uma espécie de segunda língua materna, por conta de
uns tantos tropeços em sua experiência infantil. Ot!vindo durante quase.
oito anos o alemão como língua doméstica, familiarizei-me com o som,
com a construção das frases e com o sentido das palavras. Depois ficou
tudo num canto qualquer da memória, nem sempre relembrada com
prazer. Passaram-se anos e, viajando pela Áustria e pela Alemanha, perce-
bi que entendia o alemão muito mais do que eu podia imaginar. Foi assim
que, encontrando recém-publicado o livro motivo desta tradução, com-
prei-o e o trouxe para o Brasil pensando em estudá-lo e traduzi-lo para
os alunos do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de
Janeiro. Jayme Salomão, companheiro da Sociedade e Diretor·Presidente
da Imago, resolveu adotar a idéia de uma tradução para o público da
língua portuguesa em geral. Meus agradecimentos iniCiais a Jayme
Salomão, em seu papel de editor, por ter confiado em mim, sempre
me empurrando para terminar a tarefa com o seu costumeiro entusiasmo
e amizade. Quando retornei da Alemanha, resolvi voltar à língua de
Goethe e encontrei no professor Ferdinand Reis um guia inseparável.
l! possível que mais uns quantos anos esteja tão familiarizado com a
língua alemã como me senti na remota infância. Com ele, o Prof. Reis,
realizei a aventura da tradução. Ele não conhecia a obra de Freud e..
eu titubeava no alemão. Ele, muito culto em ciências humanas, formado
pela Universidade de Viena, tendo vivido n~sa cidade com Freud até
1938, colegial adiantado, ouvia muito falar de Freud, popular naquela
época nos meios estudantis. Aprendeu comigo a gostar de Freud e a
compreendê-lo. Assim trocamos algumas coisas. Mas a ele não poderei
devolver a experiência de tl'aduzinnos este livro, frase por frase, palavra
por· palavra, discutindo o âmago de significados, alguns incompreensíveis
para mim até essa convivência. Não poderei devolver senão com a gra-
tidão. E também devo a revisão do texto em português a minha amiga,
Prof.• Sylvia Perlingeiro Paixão, e a revisão final a Carlos Alberto Pa-
vanelli. E em especial, nós todos devemos à organizadora, Use Grubrich-
Simitis, a descoberta e a laboriosa versão editada do manuscrito do
décimo segundo ensaio metapsicológico Neuroses de Transferência: uma

133
Sínt~se. A comunidade psicanalítica tem seu débito com essa dedicada
cientista que, num rasgo de pura poesia, termina seu ensaio lembrando
Havelock Ellis em seu dito sobre Freud de que este sempre compunha
suas idéias como pérolas as quais permaneciam apesar de os fios even-
tualmente se romperem. Se, em outras épocas, esses fios se romperam,
Ilse Grubrich-Simítà acabou de. refazer a enfiada de pérolas, certamente
com um fio muito mais resistente.

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1969-75) foram, como regra, aqui indicados, porque contêm amplos comentários
editoriais (org. por A. Mítscherlich, A. Richards, J. Strachey; cQoOrganiz:~dora do
volume complementar: llse Grubrich-Simiti5). Somente quando a obra referida
não fizer parte da " cdiçio para estudos" foi indicada a Oesammelte Werke
(C. W., "coleção de obras", o rgani:z:11da por A . Freud, E. Bibring, W. Hoffer, E. Kris,
~· lsakower), v. 1-17, London, 1941).52, v. 18, Frankfurt om Main, 1968; a edi·
çao toda , desde 1960, Frankfurt am Main. As letras minúsculas em grifo. apól' os
anos. referem-se à bibliografia completa oficial de F~;eud, cuja redação alemã
consta d:1 b~chura Sigmund Freud·Konkordanz:. und -Gewmtbibliographie, Frank-
furt. IIJl! Mam, 197S (ediçio de bolso atualizada, 1982). lOs comentários editoriais
~q~1 <;•t~dos estilo também presentes na Ediçlio Standard Rrasileira das Obras
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143
Dos doze ensaios fundamentais de Sigmund Freud,
redigidos em 1915. para estabelecer as bases
teóricas de Psicanálise, chegaram ao público somente
cinco, entre os quais os textos clássicos "O inconsciente",
assim como "Luto e melancolia". Os sete trabalhos
restantes são considerados perdidos. Surpreendentemente
foi descoberto agora o rascunho do décimo segundo ensaio
metapsicológico. Esse manuscrito aqui impresso como
fac-símile contém, entre outras coisas (na forma
de uma audaciosa "fantasia filogenética" sobre as
origens evolutivas da neurose e da psicose} uma
continuação das hipóteses antropológico-culturais
desenvolvidas em Totem e Tabu sobre o assassinato do
pai primitivo e a origem do sentimento de culpa.