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Filhos da Pistoleira

Ana Beatriz Magno e José Varella


31 de agosto de 2005
Correio Braziliense

Eles escutam os gemidos das madrugadas nos cortiços do faroeste

brasileiro. Crescem nos confins de Mato Grosso do Sul. Descobrem que

homens malvados gargalham de prazer e mães berram de dor.

Moram na divisa do Brasil com o Paraguai e a Bolívia, 44 pequenos

municípios, duas cidades importantes, Corumbá e Ponta Porã, 1.517

quilômetros de extensão, porteira de drogas, armas e muambas que

abastecem as metrópoles do país e que embrutecem as mulheres da fronteira.

Elas vendem o que o diabo compra. Algumas negociam o rebolado das

filhas com uma pistola na cintura. Disparam se o cliente abusa. Não se acham

devassas nem contraditórias. Dizem-se realistas.

Outras se desesperam com a fome das crianças, dormem com bandidos

e acordam cobertas de sangue, como Luiza Rodrigues, 21 anos e 17

navalhadas espalhadas pelo corpo maltratado nos becos e motéis de Corumbá.

A rua plantou quatro brasileiros no ventre de Luiza. Cada um de um pai

diferente, quatro homens que não educam, não sustentam nem vêem os filhos.

“Por isso eu dei a Sarah. Ela pelo menos vai ter uma vida diferente da

minha e dos irmãos dela. Vai ter um pai, uma casa e tudo que um filho tem que

ter. Dei ela para um velho amigo”.

Sarah, um ano e oito meses, olhos amendoados, cresce na casa dos

sonhos de Luiza. Tem berço, geladeira cheia e a proteção de Roberson Souza

das Neves, 25 anos, policial federal que não resistiu quando a menina chegou
aos seus braços. Estava enrolada num pano, tinha dois meses de vida e sofria

com uma forte pneumonia. Roberson jurou acolhê-la para sempre. “Agora

minha vida é a Sarah”, derrete-se o rapaz, um raro exemplo de que os homens

são capazes de ser muito mais do que mães. São capazes de ser mães e pais

adotivos.

“Não acredito que a prostituição esteja no sangue e acho que vou

conseguir educá-la longe do mundo onde foi concebida”, planeja e diz que no

que depender dele Sarah estará livre do pesadelo que a mãe carrega nas

costas há oito anos: uma frase escrita pelo punhal de um cliente – “a vingança

do satanás não tardará”.

Maria Aparecida Paes não espera o demo. Vinga-se antes. Levanta a

blusa, mostra o trabuco na cintura e anuncia o strip-tease mais aguardado da

noite. “Ninguém pode encostar na dançarina. Quem desobedecer, toma bala”.

Os clientes obedecem. Já viram a cafetina atirar para defender as curvas

de sua herdeira. Karina Gabriela, 18 anos, morena que trocou o colégio pela

fantasia sexy de colegial, arranca uivos dos admiradores.

Termina nua e suada. Agradece e vai para casa. Mora com a família nos

fundos do cabaré mais tradicional de Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia

com 75 mil habitantes separados do Brasil por uma única rua de terra com 15

metros de largura. Do outro lado está Ponta Porã (MS), onde Karina faz aulas

de dança e compra as roupas de seus shows:

“Minha mãe escolhe as fantasias. Ela não me deixa fazer programa com

ninguém. Só posso dançar, adoro dançar. O ambiente da boate não me

assusta. Estou acostumada. É minha casa. Meu mundo”.


O mundo da fronteira é o submundo. E essa é a história de uma terra

sombria, onde os limites da moral, da lei e das nações são tão frágeis quanto o

corpo da menina que rebola diante do olhar orgulhoso da pistoleira que a pariu

no fim do Brasil e no começo do Paraguai.

Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. 347 quilômetros de Campo Grande

Um caminho de caminhões, um atrás do outro numa estrada cercada por

fazendas e mais fazendas de soja, muitos acampamentos de sem-terra,

algumas aldeias indígenas e poucos carros. Seguem no rumo do pôr-do-sol

que encharca de vermelho a fronteira sul do Mato Grosso do Sul. Um Brasil já

quase Paraguai, com ruas sujas e mulheres tristes que vendem o corpo em

três línguas diferentes – português, espanhol e guarani.

Os prostíbulos não têm placa nem luz vermelha na porta. São

identificados pelas cores do muro ou pelo apelido das donas – Mansão Rosa.

Mansão Lilás. Casa da Tia Maria.

“Antes eu era dona Maria. Hoje sou Tia Maria. Eu era uma mulher

decente. Hoje vivo na zona”, desabafa Maria Alda Valdez, viúva que virou a

vida do avesso quando o marido foi assassinado há sete anos dentro de uma

igreja em Rondônia.

Trocou o faroeste do Norte pelo do Centro-Oeste. Mudou com as filhas

pequenas para o Mato Grosso do Sul, não encontrou empregou e terminou

num cortiço. Hoje é dona de seu próprio negócio, agencia meninas, tem um bar

e uma família. Moram num prédio de dois andares com um botequim na frente

e uma cozinha nos fundos, com fruteira, pano de prato e velocípede.


“Me esforço muito para separar as coisas, mas reconheço que é muito

difícil. Para elas e para mim”, diz Maria, 38 anos de idade, mãe de Francielle e

de Priscila e avó da pequena Maria Fernanda. “Por mais que eu saia dessa

vida, essa vida não sai de mim. Vai ficar na minha neta e nas minhas filhas”,

diz.

A mais nova das Valdez tem um ano e oito meses de vida e já conhece a

força do estigma da profissão da avó. O pai de Maria Fernanda não assumiu a

paternidade da criança. Alega que a menina é filha da zona.

Francielle aprendeu a recusar ofertas tentadoras. Jura que jamais fez

sexo por dinheiro e sabe que mesmo que tivesse feito a legislação brasileira

não faria o parceiro cumprir com as obrigações de pai. Mesmo assim,

Francielle prefere capitular. Não discute o assunto com o ex-namorado. Teme

que as brigas sequem o leite de seu peito. Aprendeu com a mãe a proteger a

cria:

“É péssimo crescer na zona. Essa foi uma das razões de eu abandonar

a escola. Não suportava mais as brincadeirinhas, neguinho gritando, “olha lá a

filha da puta, qual teu preço, já fiz isso e aquilo com a tua mãe.” Já recebi um

monte de proposta. Tem homem que já quis me pagar US$ 5 mil. Nunca aceitei

porque não quero isso para mim. Não tenho nada contra as prostitutas, mas

meu sonho é me casar, me formar em veterinária e tirar minha mãe daqui”.

A família Valdez é um exemplo de que a prostituição pode conviver com

uma maternidade responsável. Os especialistas ensinam que não há profissão

própria ou imprópria para a maternidade: advogadas, médicas, jornalistas ou

prostitutas podem ser boas ou más mães.


“O importante é o zelo e zelo não é dinheiro nem casa luxuosa. Zelo é

tempo e atenção”, ensina a psicóloga Cida Martins, 54 anos, há duas décadas

trabalhando com profissionais do sexo. “Conheço muita prostituta que trata os

filhos com o maior carinho. Conheço filhos de prostitutas que têm a maior

admiração pela mãe.”

O segredo do respeito mútuo é saber separar as coisas. O ambiente de

trabalho do de casa, explica a psicóloga. “Isso vale para todo mundo. Não faz

sentido uma policial carregar o filho para caçar bandidos na rua. Tampouco

uma médica deve levar seu bebê para plantões em hospitais cheios de

doença”.

Terra de Ninguém entre Brasil e Paraguai

Ponta Porã e Pedro Juan Caballero são gêmeas siamesas unidas pela

miséria humana e separadas por uma rua apelidada de Terra de Ninguém. A

faixa de fronteira ocupa uma longa avenida com 15 metros de largura, onde um

formigueiro de personagens da informalidade comercializam pechinchas sem

nota fiscal. De dia, oferecem aparelhos de DVD por R$ 150, câmeras digitais

por R$ 300, casacos de couro por R$ 30. À noite, barganham sexo malfeito por

R$ 1,99 em barracas de madeirite.

O valor está diretamente relacionado com a fórmula que as mulheres do

baixo meretrício encontraram para suportar o ofício. Se drogam. Usam a

chamada base. A porção custa R$1. É a pior parte da cocaína, o lixo, o que

sobra após o refino e que tem um rápido efeito estimulante – age no organismo

em menos de cinco minutos.


Jane de Oliveira deu três filhos e ficou com o vício. As crianças moram

com um casal de evangélicos, lhe chamam de tia e ficam envergonhadas

quando a mãe vai vê-las aos domingos. “Eu choro muito. Eles têm vergonha de

mim e com razão. Sou um lixo, olha pra mim drogada, fedida. Acho que foi

melhor abandonar minhas meninas. Minha vida é de pecado. Não é para

criança. Criança é santa”.

Filhos de prostitutas não são santos nem pecadores. São meninos e

meninas vitimados pelo estigma social e por enfermidades herdadas da

pobreza. A região de Pedro Juan Caballero e Ponta Porã tem 300 profissionais

do sexo nas ruas, 30% delas com menos de 18 anos e 70% com sífilis,

segundo pesquisa realizada com 67 prostitutas entre fevereiro e maio passado.

“É um perigo. A sífilis passa de mãe para filho”, diz Margareth Aguirre,

autora do estudo e coordenadora do Programa de Combate às Doenças

Sexualmente Transmissíveis, o DST-Aids. “Fiz a pesquisa porque percebi

muitos bebês nascendo doentes. O efeito multiplicador é o que mais nos

preocupa. Já temos 720 casos registrados na cidade”, contabiliza Margareth.

A sífilis persegue prostitutas desde o século XV quando a Europa

registrou as primeiras epidemias, responsabilizou as meretrizes e combateu o

mal com a maldade. A Alemanha expulsou as messalinas de quatro cidades.

Os ingleses preferiram os castigos corporais. Marcaram o rosto das doentes

com ferro quente.

“Hoje é uma patologia de fácil tratamento e baixo risco de transmissão

para os bebês desde que gestantes tomem a medicação durante o pré-natal.”

Corumbá-Puerto Quijaro. Brasil e Bolívia no inferno do turismo sexual


Aqui o cenário é de belezas naturais e pecados humanos. De maio a

setembro, a temporada de pesca no Pantanal atrai hordas de turistas

brasileiros e estrangeiros, homens que viajam com outros homens, dizem que

estão em excursões de pescaria e se lambuzam no que o folclore

corumbaense chama de biscatearia. Eles compram uma espécie de pacote que

inclui isca, barco, noitadas em motéis flutuantes e uma rápida passagem na

Bolívia para comprar Viagra a R$ 10 antes do começo do passeio.

Puerto Quijaro a 15 quilômetros do centro de Corumbá é uma cidade

muito pobre, sem ruas asfaltadas, cheias de pedintes e com algumas lojas

especializadas no gosto brasileiro. “Pílulas para homens. Viagra a R$ 10 e

camisinha a R$ 0, 10”, anuncia o feirante.

O turismo sexual só é uma farra para quem está do outro lado do balcão,

como os donos do hotel Nacional, o melhor da cidade, vans de 10 em 10

minutos para o prostíbulo mais badalado da região, a boate Babilônia.

“Esses homens não vêm ao Pantanal para fazer pescaria. Vem para

biscatearia. Mas são nossos hóspedes, o que eu posso fazer?”, admite Luiza

Martins, casada, dona do Hotel Nacional, depois de ser questionada sobre o

intenso bate-porta nos corredores durante a madrugada anterior. “Olha que já

diminuiu muito. Contratamos essas vans para estimulá-los a fazer essa

porqueira longe daqui”.

A Babilônia não é longe dali. Em menos de dez minutos, os hóspedes

chegam na boate, administrada por um senhor e dois filhos com passagem

pela carceragem do Carandiru, em São Paulo, por tráfico de drogas. Assim que

saíram da cadeia, os três resolveram montar um presídio sexual em Corumbá.


São 40 mulheres num alojamento com 15 quartos, cada um com três

beliches, sem televisão e uma grade na entrada “Chamamos Carandiru”,

resume Manuela Monteiro, 22 anos, escrava do sexo e devota de Jesus. “A

Bíblia é o meu exemplo”.

Manuela cresceu sem modelos. Aos nove anos, foi estuprada por um tio

na sala de casa. Aos 12, cansou de ser desrespeitada de graça. Foi se vender

na calçada, em bares, em barcos para turistas. “O abuso na infância é

devastador da auto-estima. Crianças abusadas costumam acreditar que, se as

pessoas que deveriam protegê-las as desrespeitam, então todos podem

desrespeitá-las”, resume Beatriz Gisele Ramos, coordenadora do Programa

Sentinela que, desde 2001 já atendeu 757 crianças destruídas pelo abuso ou

pela exploração sexual em Corumbá. “Não podemos julgar essas meninas. São

reféns de uma dor que não calculamos”.

Manuela é refém em prostíbulos de luxo. Requebra horas por noite na

Babilônia. Paga multa se chega atrasada no salão ou se agenda programas

fora da contabilidade do gigolô. Não pode usar calça comprida nem sandália

baixa. Já viu abortos no alojamento, brigas de faca e casos de amor entre as

colegas. Uma vez por mês tem alforria para abraçar sua pequena Natália, de

três anos. Relata cenas de horror, mas se constrange quando alguém pergunta

o que lhe impede de ir embora:

“Tenho que sustentar minha filha de três anos. A boate só me libera para

vê-la de 30 em 30 dias. Minha filha é linda. Fica com minha mãe. Minha mãe

finge que não sabe o que eu faço. Eu jamais conseguiria num emprego normal

uma renda igual à que eu tenho aqui. Os turistas são ricos. Tem noite que eu

ganho mais de R$ 1.000”.


Mato Grosso do Sul

Área: 357.125 km2

Vegetação: Pantanal e Cerrado

Capital: Campo Grande

População Total: 2.230.702 habitantes

Índice de Desenvolvimento Humano: 0,778

Mortalidade Infantil: 19,2 por mil nascidos vivos

Onde Funciona o Mercado do Corpo

Temporadas de pesca

Turismo sexual náutico (barcos, hotéis, agências de viagem, taxistas, boates)

Fronteira com a Bolívia

Conexão com o tráfico de drogas

Boates de luxo

Baixo meretrício nas áreas urbanas

Estradas

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