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Amar é uma conexão discada


Saulo Dourado
Ilustrações: Mike Sam Chagas

FB Publicações Ltda.

1ª edição

Salvador, Bahia

2017

Amar é uma conexão discada | Saulo Dourado


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Coordenação editorial e edição

Fernando Oberlaender

Ilustrações internas e da capa

Mike Sam Chagas

Capa: Fernando Oberlaender e Neilton Oliveira

Diagramação

Neilton Oliveira

Produção Editorial: FB Publicações Ltda.

Tel: (71) 3233 - 7675 / 3019-3061

e-mail: epppublicidade@hotmail.com

Impressão e acabamento

Graphium Gráfica e fotolito

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Para meu pai, que diz ter comprado o segundo computador de Irecê, minha cidade
natal.

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O diretor do Escritório de Patentes do governo estadunidense chegou para seus superiores,


colocou o chapéu na mesa e pediu demissão. Ninguém compreendeu. “Mas ficar para quê em
um emprego que patenteia novas coisas?”, respondeu ele. “Está claro que em nosso tempo já
inventaram tudo”.
(Washington, ano de 1857)

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Sumário
Prefácio
Prólogo
1. Quero um orelhão só pra mim - 10
2. Agora sem pai no meio - 14
3. Nunca te vi, mas se você quiser - 18
4. Coragem! - 23
5. Apagando tudo - 28
6. O World Wide Web dá voltas! - 34
7. Você tem certeza de que deseja sair? - 40

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Mark Zuckerberg é daltônico. Não distingue entre o vermelho e o verde. Por essa razão, o
Facebook é azul. Feito o céu, embora o céu não tenha cor. Azul é a onda mais curta a atravessar
o prisma formado pela atmosfera. De brinde, vêm as nuvens, as estrelas... A raça humana tem
uma Capela Sistina sobre a cabeça. O mar tampouco é azul. A luz o define. A mesma que
acende quando aciono a tela. Nesta novela sobre amor e evolução tecnológica, que caminham
de mãos dadas desde a época das conexões discadas, do ICQ ao Orkut, Saulo Dourado, que
escreve maravilhosamente – e ainda toca ukelele – conecta-nos a uma época anterior à chegada
dos computadores ultravelozes. Seus personagens, meu caro leitor, bem poderiam ser eu e
você...
Kátia Borges

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Estávamos nós dois, minha namorada e eu, sentados na grama do morro do Farol da Barra
durante o pôr-do-sol. Enquanto o sol pegava embalo no horizonte e parecia mergulhar na ilha à
frente, alaranjando o mar calmo, ouvíamos cliques de foto ao lado, em botões de smartphone.
- Será que avisaram aos fotógrafos de plantão que amanhã tem fim de tarde de novo e eles
podem vir mais uma vez assistir ao pôr-do-sol? - sussurrou ela para mim, com seu risinho de
deboche.
- Não, eles todos acharam no Google alguma teoria de um maluco sobre a terra ser plana e
acreditaram - respondi. - Devem achar que o sol só retorna ano que vem.
No meu bolso, o smartphone apitou. “Ah, claro depois eu olho...”, pensei. Apitou de novo. “É...
depois eu... o que deve ser, hein?” Sobre a bermuda, coloquei os dedos abaixo do aparelho e o
fui deslizando até conseguir ver o topo do visor, em uma olhada discreta de canto de olho.
- Ei! – protestou a namorada – Você está desobedecendo a regra! Nada de celular agora!
- Ah, é – falei, no susto – Só fui olhar que horas são!
- Caio, não me faça de besta. É o pôr-do-sol!
- Desculpe, meu bem... – e eu a abracei.
Descemos o Farol na direção da pista e lá estava um banheiro químico. Parei na frente para
poder entrar.
- Mas você tem horror a banheiros químicos! – disse a moça.
- Bebemos muita água de coco...
- Certo – e sorriu com ironia – Então deixa eu segurar suas coisas, para que nada caia no nosso
belo vaso comunitário.
- Não precisa, querida, não vou te dar esse trabalho
- Caio! Olhe logo essa porcaria de celular!
Puxei o smartphone no mesmo minuto de meu bolso, por ímpeto, mas o empurrei de volta para
o fundo da bermuda antes que eu causasse uma explosão de rancores na minha pequena. “Minha
pequena”, quem usa ainda uma expressão assim? Aproveitei o pensamento de velho para
desculpar-me com ela.
- Perdoe este homem viciado em conexões, entrei na Internet quando ainda era tudo mato...
- Eu também, e ao mesmo tempo que você, senhor Mark Zuckerberg das quebradas.
Eu a abracei de frente para dizer:
- E não foi assim que nós nos conhecemos?
O smartphone apitou de novo, e eu apertei muito mais a moça para me segurar. Mas juro, caro
leitor, que eu não sou viciado nessa maquininha maravilhosa que faz tudo. Uso smartphone da
hora em que eu acordo até a hora em que eu durmo, todos os dias, mas não tenho qualquer
dependência. E nem mesmo você, tenho cá as minhas certezas.
A notificação no fim daquela tarde, intuía eu, trazia mensagens que abririam uma caixa de
memórias. Era Júlio, que me encaminhava três e-mails. Ele escrevia no cabeçalho do primeiro:

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“Cara, encontrei um aplicativo que recuperou a senha do meu primeiro e-mail, ainda no Yahoo!
E é bom você recuperar a senha do seu Internet Banking, que você insiste em não desbloquear
na agência porque “banco presencial é muito início dos anos 2000”, pois todo seu dinheiro virá
para mim, só por chantagens. Tenho todos os seus textos antigos! Ou você pensa que só a linda
adolescência de agora deixou escapar seus anos de inocência na rede mundial de computadores?
Seguem as provas concretas, ou melhor, os textos de Calion, o Caio da Bahia”
Reli tudo no ato, ora colocando as mãos no rosto, ora pulando minhas besteiras de menino, ora
gargalhando e me animando sinceramente pelo garoto que eu já fui. Dentre os textos, havia uma
corrente de e-mail da época, respondida por mim, em que alguém enviava 50 perguntas para
você e para mais dez, com a condição que você também as respondesse e enviasse para mais
dez. A desobediência à corrente acarretaria punições graves, como sete anos de azar, sem beijar
ninguém.
Idade: 14
Que roupa está usando? Uma camisa dos Beatles e um short com mancha de água sanitária.
Última música que você ouviu: The Zephyr Song – Red Hot Chili Peppers. Quero escutar essa
música pra sempre!
Última coisa que você comeu: Pizza brotinho de milho. Dez por sete reais!
Se você fosse um lápis de cor, de que cor seria? Eu seria preto, para poder escrever bastante.
Onde e com quem você gostaria de passar o resto da sua vida?
Com minha família aqui mesmo em Salvador. (meus pensamentos são simplórios)
Última conversa telefônica foi com...? Vitória, na quarta-feira.
Qual é a primeira coisa que você nota no sexo oposto? O papo interessante, hihi.
Você gosta da pessoa que te mandou isso? Yes, sir.
Como você se sente neste momento? Ocioso.
Esporte favorito: 1km de pensamentos (é que eu faço indo para a escola; D)
Onde está a sua felicidade? Longe... E perto. Dá pra entender? Não sou dos mais fáceis de
entender, hehe.
Despedida é? Suportável.
Amar é? Uma conexão discada, rs.
Uma mensagem pra quem vai receber esse mail: Tenham paciência com esse
pobre garoto. Ele não sabe o que faz...;)
Sim, estas são minhas palavras, minhas próprias palavras. Se no início do século XX um
escritor francês chamado Marcel Proust custou sete livros e muito exercício de memória para
escrever com detalhes seus anos passados, no Em busca do tempo perdido, no início do século
XXI um rapaz baiano pode resgatar todos os seus acontecimentos salvos na memória da rede
virtual em download de anexos e de históricos, sem qualquer alteração da imaginação. Mas
perder a imaginação será mesmo possível?
Foi a “recuperação de dados” daqueles meus momentos de antes que passou, nos dias seguintes,
a me interessar. Quis compreender mesmo o miolo dessa minha vida até então, ali dos 14 aos 15

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anos, quando conheci gente e me embalei por situações que mudaram o meu caminho, ao
mesmo tempo que a tecnologia mudava a vida de todos. Ainda há rastros desses tempos em
postagens e comentários de blogs, em arquivos de Word que migraram de um HD para outro,
em sites de compartilhamento que sobreviveram. Contudo, mais do que isso, dependerá do
mesmo empenho de antigamente: lembranças, sentimentos e interpretação dos acasos mais
loucos.
- Ei, amor - ouvi o chamado lá da cozinha – Sobrou um resto de tabule com frango pro jantar.
Posso comer todo?
- Pode! – gritei de volta – E adivinha? A corrente que Júlio me enviou trouxe inspirações.
- Oh, saudades dele! Mande um beijo.
- Sim... – disse, me levantando e me espreguiçando - E vou escrever todas aquelas histórias! Ele
me convenceu!
- Sério? Não é você que não gosta de escrever sobre você?
- É, mas não vai ter problema! – eu ri - Todo mundo vai achar as partes com as coincidências
pura mentira mesmo... Fica como ficção.
Sentei de novo na cadeira da escrivaninha, com o notebook aberto.
- E quer saber de uma coisa? Todo mundo tem que criar suas piadas sobre si mesmo. Vou seguir
com as minhas.

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1. Quero um orelhão só pra mim

Já houve um tempo em que, para eu me comunicar com os colegas de sala, eu precisava ter
seus números de telefone fixo no fundo da agenda da escola. Eu decorava uns oito contatos e
ligava, às vezes, para outros três amigos só para conseguir o número de um novo colega,
entre telefonemas ocupados e linhas mudas. Em último caso, sabendo o sobrenome de um
dos colegas procurados, eu conseguia investigar o contato na Lista Telefônica, uma
Enciclopédia de folha de papel jornal com os números de todas as pessoas cadastradas da
cidade, e descobrir o contato da casa, qual um detetive vitorioso...
Vitória mesmo, porém, era arranjar o telefone da pessoa de quem se gostava. Aqueles
números pareciam brilhar no papel. O problema mesmo seria ligar, é claro! Além de se
discar trêmulo, havia todo o suspense de esperar pelo pior do outro lado da linha, pois podia
atender o avô, a mãe, o vizinho, a polícia federal, menos a própria pessoa!
Eu ainda tinha um problema para ligar da minha casa, onde moravam minha mãe e meu
irmão mais velho. Se ele me visse ao telefone e desconfiasse se tratar de alguma espécie de
conversa romântica, começava as cócegas nas minhas costelas e umas vozes fininhas de
deboche. Eu tinha que falar sem rir, ou rir sem falar, usar técnicas avançadas de
autodomínio.
Saía eu discretamente de casa, então, seguia para o orelhão na esquina e... Ah, para quem
não sabe mais o que é um “orelhão”, é uma espécie de caixa oca de plástico que guarda um
telefone público, no qual se pode encaixar um cartão telefônico com créditos e ligar para
qualquer outro telefone. Pelo tempo que durasse o cartão, incríveis e longuíssimos minutos
(mentira!), você tagarelava à vontade ou, pelo menos, até descobrir que já falava há horas
com a ligação cortada.
Pois bem, saía eu para o tal orelhão e parava em frente, esperando só o vento da coragem
passar e me tomar. Eu ficava andando em círculos em volta do telefone. Acho que os
cachorros da rua, ao me verem neste momento, imaginavam um competidor de xixi em
poste. Eu respirava aquele vento e apertava os dígitos, ouvindo os sons estranhos da
discagem, com o coração mais barulhento ainda.
- Alô, quem é? – do outro lado, perguntava uma voz aguda.
Eu me aliviava: Ufa! pelo menos não é o pai... E eu dizia meu nome tranquilamente.
- Hummm, vou chamar! – continuava a voz fina já aos berros - Camilaaa, acho que é um
namorado seu! Hihi, namorando, hein?
Droga, era o irmão mais novo, um dos piores obstáculos da vida de um homem. Eu já queria
jogar o gancho fora quando, enfim, Camila aparecia.
- Que é, Caio?! - dizia ela nervosa.
- Eu... eu... só queria... as páginas da tarefa de Matemática... É que eu não anotei.

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A pior estratégia. Sim, com trinta e cinco alunos na sala, eu ligava justo para ela a fim de
descobrir a anotação da agenda de casa! Nada suspeito de minha parte. Garotos são sempre
“gênios” de estratégia, seja com orelhões, seja com smartphones nas mãos.
Minha história é mesmo de um garoto, no meio do caminho e desse tempo, logo ali no
começo dos anos 2000, quando o mundo abandonou as tantas tranqueiras eletrônicas e
aderiu ao mundo virtual...
Meu nome é Caio, nasci entre os anos 80 e 90. Ainda vejo, hoje, marcas de espinhas no meu
rosto, mas juro ainda ter testemunhado o tempo de jogar videogame Antares e Megadrive, de
alugar fitas VHS na locadora para ver filmes e rebobiná-las para a devolução, de gravar
música na rádio com fita para tomar posse e escutar depois... Cheguei a fazer provas
xerocadas no mimeógrafo, com aquele cheirinho de álcool na tinta, e a ter CDs para ouvi-los
no cobiçado discman! Não é que eu queira parecer velho, juro também: esse mundo é que
me deixa velho rápido demais.
Para entrar na minha história, é preciso lembrar ou saber que logo depois do tempo do
orelhão – e do celular, é claro – veio, enfim, o computador. Um computador de
verdade, para usar em casa! Era preciso comprar uma escrivaninha completa para
colocar o monitor, o gabinete e um mouse, mas quem se importava? Era pura alegria.
Eu já conseguia gravar meus trabalhos de escola em um disquete, onde cabia um imenso
e único documento de texto. O disquete era uma espécie de pen drive, um quadrado
preto de plástico que podia realmente ser confundido com um brinquedo de cachorro.
Foi a única vez que eu não menti ao dizer para a professora que um cão tinha comido
minha tarefa.
Veio o computador e veio a quase sobrenatural Internet. Eu me lembro que, para conectar,
era preciso usar o telefone. Ainda ouço ecos da frase clássica de minha mãe: “Sai do
computador aí um pouquinho, vou precisar fazer uma ligação.”
Hoje é tão estranho como falar: “Pare de preparar sanduíche aí que eu vou tomar banho”.
Usar o telefone deixava a internet ocupada e vice-versa, o que em época sem celulares era
uma guerra de gregos e troianos... Nós chamávamos de conexão discada. Ela mesma: uma
conexão a partir do pulso entre o telefone e o provedor de internet, como se fosse uma
ligação. São até bonitas as palavras, perto daquelas que eu usava toda vez que a ligação não
funcionava!
Além de ter a paciência de esperar familiares papearem na linha, era preciso exercitar a
virtude de conectar-se apenas aos sábados, depois das 14h, e aos domingos e feriados,
ou em dias de semana, entre a meia-noite e as seis da manhã, quando o pulso do
telefone ficava barato. Quero dizer, isso quando realmente conectava, pois, às vezes, a
qualquer chuva, ou mesmo sol de verão, era preciso tirar e colocar cabos, fazer a dança
do milagre, promessa, implorar, até tudo piscar em um ícone de computadorzinho no
canto da tela.
A fim de exercitar bastante a calma nesses confrontos e tempos de espera, eu lia até a
internet voltar. Eu pegava um livro atrás do outro. Certo dia, em uma tarde de sábado,
terminei um livro de aventuras escritas por uma garota de 14 anos (uau!), minha idade,
Nathalia. Tinha até uma foto dela na orelha do livro... Ela morava em São Paulo, mas meu
coração pularia fácil, fácil até lá. Fui ao orelhão:

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- Bom dia, é da editora? Quem fala é Caio, de Salvador, Bahia. Eu sou um leitor muito
apaixonado, quer dizer, muito aficionado, e gostaria de conseguir o contato da autora
Nathalia para fins literários. Pode ser?
- Só um minuto.
Eu já me imaginei de braços dados com a moça em uma grande avenida de prédios altos, ela
dando autógrafo a quem passasse, eu mordendo um picolé de limão. Daí a gente se olhava e
se recitava um poema rimando “que coisa louca” com “a tua boca”.
- Desculpe a demora, senhor. Olha, não temos. Mas se o senhor gosta tanto de leitura, temos
o e-mail de um jovem escritor que mora inclusive na sua cidade. Não é interessante?
Não, não é. Que decepção! Que atendimento péssimo!
- Ah, ok, nem sabia... Eu posso anotar – disse eu, resignado.
Copiei e, uma vez copiado, fui escrever um e-mail para o autor conterrâneo:
“Caro Júlio de Almeida,
Moramos na mesma cidade. Gosto muito de seu trabalho, conheço seus livros desde o início
de sua carreira. Parabéns! Você teria também o contato de Nathalia, a autora da série
Aventuras no Jardim Botânico?
Obrigado,
Caio”.
Depois pensei que esse Júlio poderia ser também interessado em Nathalia e não iria gostar de
me ajudar. Ou pior, até já namoraria a moça, dois colegas de ofício, de editora, assuntos em
comum, um com 16 anos, outra com 14, e aquela história, e me impediria qualquer investida
futura... Por precaução, reescrevi o parágrafo do meio: “Você teria dicas de leitura? Algo
tipo os seus livros e a série Aventuras no Jardim Botânico da autora Nathalia?” Jogada de
mestre, assim ele me liberaria a informação crucial lá para a terceira mensagem,
naturalmente.
Até o domingo, Júlio não tinha respondido ainda. Precisei acordar à meia-noite na segunda
só para checar a caixa de entrada. E esfregando os olhos de sono, vi lá:
“E aí, Caio, tudo bem?
Fico muito feliz, ter leitores é o sentido dessa boa brincadeira ‘séria’ que é escrever.
Moramos na mesma cidade? Ótimo! Podemos marcar um papo no ICQ, que tal? Anota aí
meu nome de usuário: julinhobaiano16.
Lá trocamos dicas de livros.
Um abraço,
Júlio”.
Ei, cadê Nathalia? O que é ICQ? Quanto à primeira pergunta, ele só foi responder um mês
depois: Nathalia era a filha do diretor-geral da editora e que foi morar um tempo na

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Inglaterra. Sem chances. Quanto à segunda... Bom, a descoberta do que seria ICQ inicia para
valer minha jornada.

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2. Agora sem pai no meio

Quando eu me sentei ao computador, descobri que o ICQ era um programa de


mensagens instantâneas que pesquisava pessoas por interesses em comum, com o
símbolo de uma flor vermelha e verde. Sem fotos de perfil, só apelidos escolhidos em
uma caixa colorida, eu adicionaria as pessoas com quem eu gostaria de conversar e, a
cada vez que abrisse o programa, poderia clicar em seus nomes para recomeçar o
papo.
- E aí, está gostando? - perguntou Júlio no chat.
- É... Não encontrei ninguém ainda...
Estava me habituando. Três semanas depois, eu já sabia do programa, ainda mais
de Júlio. Inclusive tínhamos nos enviado duas fotos cada um! O envio de uma foto
era sinal de confiança, e só assim nos descobríamos. Júlio era negro, com o cabelo
bem encaracolado e solto, de óculos de aro grande, 1,75m de altura. Em uma
imagem, ele estava sentado na balaustrada da orla, olhando para o lado e com o
mar ao fundo. Na outra, sorria no meio de um gramado.
As minhas únicas fotos eram: 1) uma escaneada e recortada, em que eu jantava
com a família e falava alguma coisa, com um garfo na mão, e 2) outra em que eu
vestia uma camisa de rock folgada e preta, e fazia uma careta de muito louco, com
meu rosto “moreno-oleoso”.
- Agora que você é um conversador virtual profissional, vai ter que investir! –
interviu Júlio - Conhece alguém que tenha câmera digital?
Sim, já existiam celulares, mas eles tinham a velhíssima função de ligar e receber
chamadas. O aparelho mais avançado e cobiçado era um com o jogo das
cobrinhas, o que só minha mãe tinha.
Eu queria encontrar gente. Primeiro, pesquisei, nas palavras-chaves, por Pessoas
que Assistem a Filme de Terror. Encontrei algumas, uma delas me chamou para
passear no cemitério, e eu preferi deixar a conversa para outra vida... Depois
pesquisei por Pessoas que Moram na Mesma Cidade que Eu. Encontrei uma garota
linda, parecida com atriz de filme, que tinha os mesmos gostos que eu tenho, que
conhecia os mesmos lugares que eu, e quando enviei minha foto, uma já
padronizada e assessorada por Júlio, recebi a resposta:
- É você, Caio?? Aqui é Lucas da 5ª série! Caiu no meu fake, hein, otário? Haha!
Infeliz. Naquele dia, fui para a minha estante de livros curar minha raiva. Lá
estavam as velhas parcerias: os autores Luis Fernando Veríssimo, Fernando
Sabino, Ana Maria Machado, Stephen King... Voltei ao computador e digitei o
nome de um deles nas palavras-chave de áreas de interesses + sexo feminino.
Apareceram seis nomes. Dei “oi” nos seis. E fui ler de volta minhas páginas de
livro. Um capítulo, outro capítulo...

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Um apito no ar me deu um susto. Era um alarme no computador. Vinha do


programa, e era alguém que me respondia. “Oi, td bom?”, teclava a pessoa. Era
uma tal de Vitória Granger.
calion_ : tudo certo e com vc? Vi q vc curte ler...
vitoriagranger: olha, eh a primeira pessoa q me procura por isso.
calion_: mas vc ñ eh professora ñ eh? haha
vitoriagranger: nem, haha calion_: “to be or not to be thes es the question...” haha
vitoriagranger:??? calion_: nada... gostei muito de seu nome. Eh o mesmo de um
time aqui da minha terra.
vitoriagranger: por aqui eh ainda melhor, eh o nome de uma planta enorme.
calion_: vitória-régia?
Foi assim que iniciamos uma conversa que se prolongaria por toda a tarde. E aqui
vai um pequeno teste: se ela morava na terra da vitória-régia, de onde ela era?
Não vale pesquisar em um clique. Eu precisei fazer a busca naquele dia e demorou
mais vinte minutos para abrir no meu navegador com conexão a 32kbps – isto é,
mais lento hoje que uma navegação de celular no meio da estrada - enquanto eu
fingia que sabia onde ficavam as vitórias-régias. E no meio da conversa já sobre
outro assunto, eu gritei no quarto:
- Amazônia?!
Meu irmão que estava por perto riu:
- O que foi, Caio? Tá teclando com uma índia? - e fez um barulho batendo na boca
- Mim quer tc! Uh-hu!
Mandei ele se danar. E era ela mesmo de Manaus, Amazonas! Diferente de tudo
na minha imaginação.
Júlio, ao descobrir a origem da menina, achou maravilhoso: “Uau! Só recebi um e-
mail de leitor uma vez de lá.” Eu estava inconformado: “Pois é, só que Manaus fica
longe, hein?” O meu amigo riu: “Já quer ver a menina Vitória, é? Que apressado!
Pelo menos pediu foto, então?” Engoli em seco: “Calma, calma, ainda não, vamos
nos conhecendo mais...”
É, eu não tinha pedido, não apareceu o pretexto, não tive coragem. Fiquei
fantasiando à noite: como seria ela? Pareceria mesmo uma índia? Mas seria gorda
ou magra? E se ela tivesse uma verruga no meio do nariz, seria ainda atraente? E
se, na verdade, ela tivesse uma cicatriz estilo Jason, de uma ponta a outra do
rosto? Eu continuaria falando que o importante é ela ser legal?
Só havia um jeito de saber.
calion_: vc tem foto? – perguntei, no outro dia.
Suei, bebi um gole da água no copo ao lado, estalei os dedos, estiquei os braços
e... nenhuma resposta. Um minuto, dois minutos, três minutos.

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calion_: desculpa se ñ quiser enviar tudo bem...


Nada.
calion_: desculpa mesmo, olha nem eh uma coisa tão importante assim, pra mim
esse lance de aparência ñ vale, eh a essência que importa...
E de repente, escuto uma conversa vindo da sala. Sigo até lá e me deparo com o
horror: minha mãe segurando o telefone e falando, falando com a mão na cintura.
- Mas, mãe, você me desconectou!
- Ah, menino, eu precisava ligar pra sua avó!
Agora seria a semana inteira sem conexão. Como pode, justo na melhor hora! É
injusto, é incompreensível, é fora de tom. Restava apenas escutar os barulhos da
TV no fim do domingo e esperar a chatíssima segunda-feira...
No colégio, aconteciam as mesmas coisas de sempre: chamada, tarefa de classe,
tarefa em grupo, tarefa pra casa, bolinha de papel, e copiar quadro ainda em lápis
e papel. Pelo menos, naquela mesma tarde, eu encontrei Júlio pessoalmente.
Enfim!
Ele me esperava em uma livraria, sentado em uma seção de dicionários. Tinha os
cabelos um pouco menores, os óculos também, mas o sorriso era igual, até com
mais pixels.
- Poxa, cara, então você não vive de camisa dos Beatles? – disse ele.
- Nossa, e você vive, existe, tem pele – respondi.
- Pois sim, já vá treinando quando for encontrar Vitória!
Eu gelei e sorri.
- Calma – riu ele - Eu juro que ela não está atrás dessa pilastra.
Conversamos durante umas boas horas, entre taças de sorvete e sanduíches de
queijo, e depois, seguimos ao cinema. Ao final, Júlio me estendeu um folheto: “III
Concurso de Contos de Jovens Escritores”. Eu o encarei intrigado.
- Não se preocupe, você não concorreria comigo – e sorriu zombeteiro.
Eu continuei olhando para ele, que me perguntou:
- Que foi? Você acha que não vai escrever também um dia?
Juro que não tinha pensado nisso. E completei na minha cabeça: e quem sabe eu
não possa assim contribuir com a cultura de meu país! OK, não foi bem isso que
eu pensei, imaginei coisas curiosas, e ainda mais com a frase final de Júlio: “O
prêmio é remunerado”.
Eu já tinha um blog na época, comentava situações, ideias e sonhos que me
surgiam, mas nunca procurei criar nada. Qual história eu contaria? Alguma que já
tivesse acontecido comigo? Ou com minha mãe, com meu irmão? Alguma fantasia
cheia de dragões, algum terror com um fantasma atrás da porta, alguma aventura

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com excursões na Floresta Amazônica? Ah, Floresta Amazônica! Vitória... Eu


acabava por pensar nela toda vez que começava a pensar sobre qualquer coisa.
Para apaixonados, basta uma cama, um teto para mirar, dois braços para apoiar a
cabeça e música. No meu caso, Beatles no som, e na imaginação, Vitória e eu,
juntos a tentar cantarolar os versos de You really got a hold on me. E na
sequência, veio outra música em cheio, um refrão que me lembrou a minha espera
pela conexão discada e um bate-papo a tarde toda: *“Wait, oh, yes, wait a minute,
Mr. Postman. Mister postman look and see, oh yeah, If there’s a letter in the bag
for me...”. Coitado, o sujeito da canção ficava implorando ao Sr. Carteiro para ver
na bolsa se tinha uma carta da namorada! Era eu querendo uma mensagenzinha...
Veio o estalo! Eu faria uma versão livre a partir da história da música. Demorei
três dias para escrever o conto, todo à mão, em um caderno de capa mole. Quando
passei para o computador, só tinham duas páginas. Céus, escrever é como
descongelar um frango, sempre encolhe. Insisti, fiz a segunda versão, e já que
eram 2h da manhã, aproveitei para me conectar à Internet. Enviei o conto para
Júlio, por e-mail, antes de imprimir e enviar para o concurso. Aproveitei para
abrir o ICQ.
Tinha uma mensagem de Vitória, desde o domingo!
- Oi, você caiu? – perguntava ela - Pelo visto sim... Segue uma foto minha para
quando você voltar.
Segurei a respiração do pulmão até o fígado na hora de clicar na imagem.
Carregou por longuíssimos três minutos.
Aos poucos, tiras da foto se abriam, primeiro o topo da cabeça de Vitória, com
seus cabelos bem escuros e lisos, com alguns fios soltos, sua testa cor de mel. E
logo vieram os olhos pretos, o nariz e o sorriso aberto, nas bochechas cheias.
Fiquei bobo! Senti que no meu sangue haviam marinheiros navegando e gritando:
“Tempestade! Tempestade! Homens ao mar!”.
Tentei não acordar meu irmão durante a doce insônia daquela noite.

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3. Nunca te vi, mas se você quiser...

No sábado, às 14h03, estava eu conectado ao mundo das mil possibilidades. “Nada há


que seja verdadeiramente livre nem suficientemente democrático. Não tenhamos
ilusões, a internet não veio para salvar o mundo”, disse o escritor José Saramago. Mas
quer sensação de maior liberdade e salvação de uma tarde do que se saber dentro de
uma pracinha do tamanho do mundo, que é a internet? Ualá!
No mIRC, eu entrava nos canais do colégio, de livros, de batalhas e... Ah, sim, mIRC
era uma plataforma de bate-papo, com salas específicas de assuntos ou de lugares, e
pessoas com nicknames. Você podia puxar assunto com qualquer pessoa ou marcar com
algumas em especial, em determinada hora. No ICQ, eu entrava e abria duas abas, a do
caríssimo Júlio, e a de Vitória que recebia, naquele dia, uma foto minha.
vitoriagranger Legal, vc parece com um amigo meu.
calion_ Haha, muita gente diz q eu pareço com alguém... E vc gosta desse amigo?
vitoriagranger Muito!
calion_ Então tá tudo certo :-)
Assim durante três fins de semana, ela e eu falávamos de tudo. O assunto podia ser um
sanduíche amazonense, um tal pão com tucumã que ela adorava, ou a diferença entre
axé e pagode no carnaval da Bahia. Fazíamos pequenos questionários para o outro,
como se brincássemos de jornalistas de programa ao vivo: “Me diga: Um filme. Uma
fruta. Um mico que você já passou.”
Com tantas informações, eu já tinha um perfil quase completo sobre Vitória: ela se
chamava Vitória Salgado, tinha 14 anos e nove meses, dois meses a menos do que eu,
gostava de Ciências e de Artes, comprava videogames baratos por conta da Zona Franca
de Manaus e gostava do jogo Mario Bros, assistia a muitos programas do canal MTV e
ouvia Avril Lavigne e Nirvana. Tinha medo de água e não sabia nadar, já tinha viajado
para Brasília, torcia para o boi-bumbá Boi Caprichoso de Parintins, e pintava as unhas
de azul, às vezes. Desenhava, saía com amigas para o shopping e comia de tudo.
Sonhava em conhecer a escritora J.K. Rowling e gostava de algumas coisas árabes por
conta de uma amiga de infância, amiga esta que até lhe falava da Bahia. Vitória morava
com o pai que muito viajava.
vitoriagranger que bom que eu posso conversar contigo. Às vezes eu passava os fins de
semana bem sozinha...
calion_ E seus amigos?
vitoriagranger Ñ eh sempre que dá pra sair. Eu moro em casa, numa rua cheia de gente
antiga, e aqui é tudo longe.... Meu pai viaja muito. Vem minha tia, mas ñ eh a mesma
coisa. Ela ñ me leva pra canto algum, claro.
calion_ Que pena!
vitoriagranger Vc q pode devia era sair!

Amar é uma conexão discada | Saulo Dourado


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calion_ Vc quer que eu saia? Haha


vitoriagranger Nops! ;-)
Quem não gostava dessa história era minha mãe. Ela tentava me levar mesmo para sair:
arrastar para casa de avó, de tia, de primos, me carregar para escolher camisa em shopping,
escolher tênis, para ir à praia, para ir ao supermercado, mandava eu ligar para o meu pai,
para o departamento de cartão de crédito e esperar. Eu, de tanta má vontade, ouvi minha mãe
falar na hora do almoço de domingo:
- O que é que esse menino tem? Só quer saber de computador! Computador não dá
dinheiro não, viu? Só tira... A conta de telefone não está boa. Esse ‘mais barato’ de
vocês aí é só fachada.
- Eu entro pouco, mãe, não sou donzelo que nem esse Caio – disse meu irmão - Ele só
quer saber de índia, de “mim quer tc”.
- Que história é essa? – perguntou minha mãe.
- Cala a boca! – eu gritava para meu irmão.
- O menino aí quer vestir toga e rezar pra Tupã – insistia ele.
- Você é idiota! – exclamei.
- Podem parar vocês? – interrompeu minha mãe.
- Caiozinho está conversando com uma garota de Manaus – debochou meu irmão.
- Manaus? – ela se surpreendeu - A terra de Claudinho.
Uma lâmpada imaginária se acendeu na minha frente. Minha raiva parou na hora.
- Qual Claudinho? – perguntei.
- Um primo meu. É mais velho. Quando vocês ficaram maiores, ele já tinha ido para lá,
trabalhar com soja, algo assim. Às vezes, ele me manda e-mail com correntes,
mensagens.
- Você... – falei – e a senhora tem o e-mail dele?
- Ih! – riu meu irmão - O rapazote aí já quer queixar uma hospedagem. É longe, viu,
painho? Pra Manaus não vai de ferry não...
À noite, mandei um oi para Claudio, perguntei mais sobre a cidade, sobre o que ele
gostava e não gostava. Foi assim o início de uma troca de mensagens que durou alguns
quatro e-mails. Ele era muito entusiasmado: “Você ia amar essa cidade!!!! Só um
calorzinho difícil mesmo, huahuahuauhahuahua!” Assim passei a fazer parte de seus
contatos para correntes com Power Points, mensagens de autoajuda e sons de cachoeira.
Enquanto isso, Júlio era convidado para a Bienal de Livros de São Paulo. Mandou fotos
abraçado com escritores e, claro, com Nathalia, da série de aventuras.
- Quer que eu pegue um autógrafo para você? Ou melhor, o e-mail? - ele me escreveu.
- Não precisa mais...

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- Mas como você está fiel! Então já é namoro, não é? Já pediu a mão da manauara? –
provocou Júlio.
Engoli em seco.
- Os meios mudaram, mas o jeito ainda é o mesmo: abra a boca e peça – continuou ele,
meio divertido, meio sério - Vocês já se telefonaram? Já ouviram a voz um do outro?
Tem uns chips novos aí de celular que dão um jeito... E antes que você saia que nem um
louco até uma loja, considere, rapaz, a possibilidade de comprar uma webcam.
Minha missão da segunda, à tarde, foi conseguir um chip que ligava barato, em uma
promoção dessas de lojas grandes. O celular eu tinha, sobrou um velho de meu irmão.
Encaixei e testei a ligação com o próprio Júlio.
- Sabia que você seria mais rápido do que o carteiro de seu conto! – riu ele.
O drama então seria ligar para Vitória e me declarar, enfim. Deu a noite, deu terça, e
mandei alguns torpedos engraçados apenas. Deu quarta-feira. Pensei: “Se eu levar um
fora, terá tempo suficiente para a gente esquecer mais e conversar numa boa no
sábado... Mas se eu levar um fora, a gente vai conversar numa boa? E se não conversar
mais, eu terei estragado tudo, inclusive o tempo que haveria de tudo se encaixar e dar
certo pra uma coisa além da amizade? Mas se eu não pedir logo, será que eu posso
perder o tempo certo, a hora exata antes de as conversas ficarem repetidas ou amigáveis
demais, puro friend zone? Ou seja, que é que eu faço?”
Liguei para um colega e perguntei de uma maneira genérica. “Depende”, ele me disse, e
eu dei razão a ele. Liguei para um amigo do bairro, e ele me sentenciou: “Depende”.
Também dei razão. Liguei, por fim, para uma prima um pouco mais velha, entendida de
assuntos do coração.
- Ah, sei lá, liga logo! Pelo menos isso é fazer alguma coisa!
Respirei fundo e disquei o número de Vitória. Nessa brincadeira, tinham-me acabado os
créditos. Um sinal divino?
Quinta-feira. Economizo o dinheiro do lanche e uso para comprar alguns reais de
ligação. Em casa, paro na sala, e não ligo, paro no quarto, e receio que meu irmão
chegue a qualquer momento. Para onde eu vou? Claro! Para debaixo do orelhão! Sim, o
único cara que vai ligar de um celular debaixo do orelhão sou eu. Meu vizinho me vê
assim e acena, resignado. Que é que se vai fazer com essa juventude, não é mesmo?
- Alô, Vitória, e aí, tudo bom? Tava estudando? Legal... Eu também ia fazer dever, mas
tenho os livros didáticos de meu irmão, as tarefas de Matemática já estão feitas. Juro
que um dia eu apago. Então... eh... Seu pai viajou? – eu só dizia coisas desconexas -
Que bom, ele deve ser uma boa companhia. Pais são assim, são uma parte im-por-tan-te
de nós. O que eu estou dizendo? Na verdade, Vitória, eu gosto de você.
Silêncio.
- Eu também gosto de você – ela respondeu.
Meu coração, ah, meu coração...

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Assim, eu e Vitória, vitoriagranger e calion, começamos na flutuação do mundo do


amor. Viva a Amazônia! Viva a árvore, viva o lagartinho! O Brasil é nosso! Nós não
chamávamos de namoro, por ser complicado chamar de namoro algo sem toque, sem
visitas... Ou será que poderia ser o tal namoro virtual? Trocávamos mensagens bonitas,
contávamos segredos, e na companhia de um telefone, até dizíamos coisas que nos
levavam para longe. “Haha!”, gritava meu irmão para cortar o clima.
- Namorar é a parte obrigatória de conseguir o que se quer. E esse meu irmão lerdo quer
namorar sério por vontade própria sem ganhar um beijo! Quando é que você vai ver
essa menina?
Meu irmão era um brucutu de verdade. Mas ele tinha um tanto de razão: namorar sem
ter um beijo... Mesmo sendo a favor dos novos tempos, da tecnologia e das interações
globais, eu também me exigia uma presença, um contato. Estávamos separados por
2.610 km de distância reta, quase a mesma lonjura entre Paris, na França, e Moscou, na
Rússia! De toda sorte, eu já me sentia um cara sortudo por ter aquela garota, tão
inteligente e bonita, todos os dias na minha cola.
Em meu aniversário de 15 anos, reunimos família, colegas de sala e amigos do prédio e
da rua em uma pizzaria. Vitória pediu que o telefone ficasse ligado na hora dos
Parabéns. Que alegria! Toda a família e alguns amigos tiraram uma foto fazendo um V
com os dedos, que depois eu pude enviar a ela.
Na caixa de presentes, entre CDs e livros, estava lá a caixa quadrada com a webcam!
Fui instalar imediatamente, agora, aquele namoro ganharia cores reais e ao vivo. Testei,
em frente ao computador, uma pose, outra, pulei, plantei bananeira, fingi que era o
morto muito louco, e aquela maquininha transformava mesmo em vídeo direto para o
computador, uma espécie de cinema em casa feito em casa.
- E agora que você evoluiu, larga desse ICQ – disse Júlio, no dia seguinte - para
conversar com vídeo mesmo tem que ser MSN. Design avançado, tudo avançado. É um
programa melhor.
MSN seria uma versão melhorada, com foto de perfil e todo tipo de trocas de mídias. E
nesse mundo de conexões, não podíamos também estar melhor: já ouvíamos notícias de
banda larga nessas bandas do mundo, uma internet rápida que poderia funcionar todos
os dias da semana (impossível! Sério? Sério!)... Tambores, por favor, pois eu vou
repetir: uma internet rápida que poderia funcionar todos os dias da semana. Havia
quem conseguisse até baixar filmes inteiros. Aqueles que conseguiam chamavam outros
para ver, e sempre havia alguém mais rico que já tinha tudo isso, inclusive, com mais
alguns jogos pesados de rodar em meu mediano computador.
O MSN era colorido e dava para enviar figurinhas que se mexiam ou mesmo arquivos.
Mas, o melhor mesmo, era poder falar com vídeo, ainda que travando, com o áudio
atrasado, com meu irmão aparecendo atrás para imitar um siri:
- E aí, como é ter quinze anos? Muda muita coisa? – perguntava Vitória do outro lado,
com o cabelo preso. Linda!
- Não dancei valsa! – ri.

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- Ah, no meu vai ter sim, eu acho fofo, ora!


- E quem vai ser seu par? – perguntei, mexendo as sobrancelhas.
- Meu pai né! Quem mais seria? – as bochechas dela ficavam melhores em
movimento, virando, às vezes, quadrados de pixel na tela.
E com a câmera, ela me mostrou a casa, o gato no pátio, um gafanhoto estranho branco
e preto que estava na cadeira da sala naquele momento, e a biblioteca do pai. Era um
pedacinho de outro lugar, fora de minha órbita.
- Poxa, assim deu vontade de estar aí... – eu disse.
- Besta. Mas sabe que eu até gosto de nós dois assim? É tão diferente, tão mágico!
- Mas você não sente falta...? – falei, como quem não quer nada - Você não quer me
conhecer ao vivo?
- Eu prefiro não ter essa ansiedade, prefiro viver o que é possível, sabe? Não vou
ficar louca como o cara da música Mr. Postman.
Eu não pensava o mesmo. Cada dia era um sonho acordado, uma vontade de vê-la, uma
vontade de sentir o contato do corpo, o calor. Pensava nos lugares onde levaria Vitória,
caso ela aparecesse em Salvador, o que nós faríamos em um fim de semana juntos,
como seria bom apresentá-la a Júlio para um papo antes do cinema, da praia...
Um mês depois, recebo a ligação: “É o senhor Caio?” A voz tinha um sotaque
diferente... Era da organização do concurso literário. A respiração parou à espera da
euforia: meu conto tinha recebido o segundo lugar! Eu ganharia uma premiação
remunerada. Júlio ficou com o terceiro lugar na categoria dele, e saímos os dois para
comemorar e esbanjarmos tigelas e tigelas de açaí, como grandes milionários.
- Somos o futuro da literatura nacional! – exclamei, e brindamos colher de plástico com
colher de plástico.
Júlio sorriu e disse:
- Não pense que eu não sei o que você quer fazer com o seu montante, salafrário!
- O quê? – fiquei vermelho, fingindo-me de desentendido – Ah... Eu nem...
- Você vai fazer uma surpresa a Vitória, não é? – perguntou Júlio.
- É sério que você também pensa que eu possa...?
- “O que a vida pede da gente é coragem... Carece de ter coragem!” – disse ele - E pede
mais uma tigela de açaí nessa mesa que hoje eu quero me esbaldar!

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4. Coragem!

Eu nunca tinha entrado em um avião. As minhas únicas lembranças a respeito dessa linda
máquina confinadora de muitas toneladas que voa a 800km por hora, a 10.000 metros do
chão, a mais segura do mundo, é claro, remetiam a explosões em filmes. Meu pai dizia:
“Se você está viajando em um carro, pode cair em um buraco. Com o avião, o problema é
que, onde você vai, o buraco vai embaixo...”
Naquele dia, com a passagem comprada para Manaus e escala em Brasília, eu já suava
com a aeronave ainda em solo. “E eu nem avisei nada a Vitória, que surpresa maldita,
onde é que fui me meter, o que é que estou fazendo aqui? Meu Deus, e eles nem abrem
uma janelinha! Culpa de Júlio! Para que eu fico ouvindo toda sugestão dele?” E vinha a
voz de meu amigo em pensamento: “Coragem... coragem...” E também a voz de meu
irmão: “Não vá comer feijão antes, viu? Não vá comer feijão... Vai girar na barriga.”
- Atenção, tripulação, voo autorizado. Peço a todos os passageiros que afivelem os cintos
para a decolagem.
O avião começou a se mover na pista. A meu lado, havia só uma senhora que já encostava a
cabeça para dormir. No mais, crianças berrando, comissária sorrindo e encenando coisas
terríveis: “Em caso de pouso na água...” Que agouro é esse? Eu vim aqui voar, não foi para
nadar não. “Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão...” Olhei para a janela
a fim de não pensar em máscaras. Na asa esquerda, tinha uma fita tape. “Meu Deus, colaram
a asa com fita!”
Subia o “grande pássaro” e parecia que perdia força para trás. “Que lindo!”, alguém dizia.
“Olha Salvador lá embaixo!” Quem tinha o autocontrole de dizer uma coisa dessas em um
momento tão anormal? Ver os prédios minúsculos lá embaixo era a lembrança de que
estávamos no ar. E com isso minha boca secava, minhas mãos formigavam, minha
garganta tinha uma bola dentro. “Era brincadeira, eu gosto mesmo é de Rebeca lá da sala,
me desçam daqui”, eu gritava em pensamento. E uma voz vinha de dentro: “Calma, cante
uma música...” É o novo som de Salvador, é o novo som de Salvador, paquerei,
paquerou... Isso, acalme-se. Cabelo raspadinho, estilo Ronaldinho, cabelo pintado ou
V.O...
Ao chegar em altitude de cruzeiro, soou o aviso de desafivelar os cintos. Pedi à comissária uma
água e um chá. “Só tem chá preto, senhor”, ela me respondeu. Como é chá, deve acalmar...
Aceitei e bebi de um gole só. Na outra fileira, uma criancinha brincava com o pai. E eu não
acreditava, como é possível? Fechei os olhos e fui interrompido em minhas tentativas de
meditação pelo serviço de bordo.
- Eu também fico apreensiva – disse uma senhora, ao meu lado - Sacode, sacode, mas
chega.
Eu tentei sorrir e falar algo motivacional:
- É porque é a minha primeira vez. Depois eu me acostumo.
Ela moveu a mão pelo ar, como uma boa senhorinha:

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- Acostuma nada. Às vezes, até piora.


Agradeci, e pensei: ¬ ¬
- Atenção, passageiros – disse o comandante pelo sistema de som – Peço a todos que
afivelem os cintos. Vamos atravessar uma área de turbulência.
Meu queixo já entrou em turbulência antes. Primeiro, veio um solavanco que me fez
rodopiar dentro da cabeça. Em seguida, o avião pareceu cair três segundos e voltar.
Depois mais cinco segundos e subir outros dez. Pela janela, se via o cinza das nuvens
passando a mil. “Quem é o idiota que está pilotando isso?”, pensei desesperado. “Por que
ele se mete logo dentro da nuvem?” E logo eu emendava, rezando nervoso: “Desculpe,
meu Deus, idiota não é ninguém, bendito seja vós entre as mulheres, amém!”
Apertei a mão da senhora ao lado. Ela suava também, mas estávamos juntos, unidos, em
um grande enfrentamento. “Assim na Terra como no Céu!”, eu continuava na minha
oração fora de ordem. “O senhor é convosco.” Já não tinha eu mais sangue nenhum nas
mãos. “Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se atire com fior à piedade divina,
sempre me regue, me aguarde, amém.” Aliás, não me aguarde agora não!
Nesse momento, o aviso de afivelar os cintos se apagaram. O avião estava de novo
estável, se é que podemos chamá-lo assim em algum momento de sua existência. Larguei
a mão da senhora. “Obrigado”, eu disse. E ela sorriu um meio sorriso: “Você é forte,
hein?” Acho que eu havia ganhando uma concorrente para Vitória.
Com mais chá preto, que estranhamente estava me deixando agitado e com vontade
danada de ir ao banheiro, descemos em Brasília. Mandei uma mensagem para minha mãe,
bem carinhosa, falando bem da vida, do céu e das estrelas. Duas horas depois,
embarcávamos de novo em uma nova aeronave com destino, enfim, a Manaus. A paixão
sobrevivia.
Dessa vez, estavam dois homens vestidos de terno e gravata a meu lado. “Coragem...
coragem...”, eu me dizia e prometia: “Não vou apertar a mão deles”. Antes da decolagem,
até respirei mais fundo e fiquei mais solto para conversar. Papo sai, papo chega, e um deles
me pergunta como foi o voo de Salvador. Tentei até me gabar:
- Ah, teve até uma turbulência incrível no meio!
Os dois riram, e um deles disse:
- Manaus fica em uma zona equatorial tropical, com muita formação de chuva.
Turbulência boa vai ser agora.
Vinte sacudidas depois, eu era um soldado caído em campo de batalha. Vinha a voz do
alto-falante outra vez e eu confundia com a de Deus nos portões do Céu, mas, por sorte,
era o comandante para anunciar:
- Senhores passageiros, estamos iniciando nosso procedimento de descida e, em breve,
aterrissaremos no Aeroporto Internacional de Manaus. Na capital amazonense faz um
belo dia de sol com uma temperatura média de 35 graus. Desejo a todos uma excelente
estadia e agradeço a preferência em nome da empresa.

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Pela primeira vez, consegui olhar para a janela do avião. As árvores imensas, o rio de cor
marrom que se alargava como um mar, a vegetação mergulhando ali feito gente se
banhando. Parecia um mundo inteiro entre águas e plantas, de todas as pontas do
horizonte, com um sol que se harmonizava. Eis uma beleza fora de todos os meus
padrões. Logo apareciam os prédios, as avenidas, as inúmeras casas, os navios ancorados
no porto. Era a cidade.
No saguão de desembarque, estava lá meu primo Cláudio, de óculos escuros, botas e
cabelos bem pintados, para me resgatar da batalha:
- Primo!! Como você está um tremendo rapaz!! – gritou ele, rindo cheio de dentes. Ele
falava igual à forma como digitava – Como está sua mãe?! Como estão as coisas por lá?!
No caminho de carro até à casa, observei as pessoas, o jeito de ser que já era diferente
daquele que eu via todos os dias em meu próprio lugar. A umidade do ar era uma
presença forte. O calor vinha na orelha.
- Aqui chove todo dia. E na mesma hora. Tanto que a gente diz, “te encontro depois da
chuva” – disse Cláudio.
Gostei dos carrinhos com vitaminas de guaraná. Tinham todos os ingredientes possíveis
para deixar uma pessoa acordada por um ano, parecia. Cláudio parou e pediu uma
completa para nós: amendoim torrado, guaraná em pó, mirantã, marapuama, castanha de
caju, aveia em flocos e xarope de guaraná. “Essa é pai d’égua*!”, disse meu primo
esfregando as mãos.
Na primeira golada, já esbugalhei os olhos, sentindo alguma mistura com o chá preto.
“Rapaz, eu vim parar do outro lado do Brasil por mulher!”, gritou uma voz interior.
Passadas as turbulências de nuvens, agora vinham as acelerações cardíacas movidas a
estimulante amazonense e a ficha caída: eu tinha feito a viagem, eu atravessei os cabos da
conexão discada e parei no mundo real!
Estava prestes a conhecer Vitória e, pior, de surpresa. Como ela reagiria? Primeiro, liguei
para Júlio:
- Ela nunca mais vai se esquecer – dizia ele - Quem fez uma ação assim por ela um dia e
quem um dia ainda vai fazer? Romantismo puro, senhoras e senhores, em plena era da
terceira revolução industrial e da sociedade do espetáculo! Bravo, bravo! Parabéns pela
empreitada, meu caro!
Animado, esperei ficar no quarto de hóspedes da casa de meu primo para, enfim, falar
com minha namorada (que estranho!) Da janela, só barulhos de bichos no cair da tarde.
Dessa vez, eu ligaria para alguém sentado na cama, com o travesseiro nas costas, olhando
para cá e para lá. E começou a cair a chuva, a chuva programada de todos os dias! Que
incrível! Era um sinal dos céus para a minha discagem no celular.
- Alô, Vitória?
- Oi, estava aqui fazendo brigadeiro...! – respondeu ela - Tudo certinho por aí, baiano?
- Tudo sim, só que eu não estou na Bahia... – disse eu, enigmático.
- É? E viajou pra onde assim?

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- Então, moça... – sorri - Vamos nos encontrar depois da chuva?


- Ah, tá! Até parece...
Coloquei o celular perto da janela, para ela escutar o barulho.
- Chove forte aqui em Manaus, hein? – eu falei.
- Não brinca assim.
- Onde mais eu veria uma venda de vitamina de guaraná com as palavras mirantã,
marapuama? Acho que nem em site de busca eu encontraria algo assim.
Vitória ficou em silêncio.
- Onde nos vemos depois da chuva? – perguntei, feliz.
- Eu não acredito... Eu não acredito... – repetia ela.
- Surpresa de 15 anos!
Tu tu tu. Telefone desligado. “Caiu a ligação logo agora”, pensei. Disquei de novo os
números do celular. Chamava, chamava, e não atendia. Na terceira tentativa, escutei o aviso
do outro lado: “Este telefone encontra-se desligado ou temporariamente fora de serviço.”
Pedi a meu primo o uso do fixo. O mesmo aviso.
- Você tem o telefone fixo da menina? - ele me perguntou.
Eu nunca nem tinha pensado nisso. Fui direto para o computador. Tentei conectar ICQ,
MSN, e-mail, tudo o que pudesse. Mandei mensagens para todos eles. Sentei no sofá.
- Ela não te deu um endereço daqui? Como assim, homem?! – questionou Cláudio.
- Eu sei o bairro, eu sei como é a casa, mas por dentro...
- Então, você só tem os contatos dela por internet?!
- E isso é só?! – falei exaltado - Teria jeito de alguém desaparecer assim? Estamos mais
conectados do que ninguém antes na História!
- É, mano, eu sei, também tenho essas geringonças, não se esqueça – falou meu primo,
olhando seriamente para mim - mas ainda bastaria desligar o computador e o telefone... e
pronto! Eu sumiria.
Senti um arrepio. Não, Vitória não poderia fazer uma coisa dessas. Não é possível, não é do
estilo dela. Desde o primeiro papo, Vitória sempre foi gentil, receptiva, gostou até mesmo de
minha primeira foto. Nós nos conhecemos por vídeo, por áudio, sabemos várias histórias um
do outro, nós nos conhecemos demais! Ela nunca se atrasou em me responder, apenas
quando a internet caía, se estragava, quebrava... Mas sumir por ela mesma? Jamais! Jamais!
De hora em hora, eu conectava tudo de novo, ligava mais uma vez, para receber algum sinal.
Nenhum. Com a ajuda do guaraná, não preguei os olhos noite adentro, e continuei a verificar
onde Vitória estaria. Ainda culpava as perdas de sinais na Floresta Amazônica, o acaso, o
azar... Apenas no segundo dia e no terceiro, por fim, eu coloquei as mãos na cabeça e me
convenci: sim, as pessoas ainda podiam desaparecer. Mas por quê? O que eu havia feito de
errado?

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Não tinha respostas, só sentia uma amargura imensa. Eu mesmo, um dia antes de minha
volta para Salvador, no computador de meu primo, apaguei todas as minhas contas.
Meu coração estava na lixeira.

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5. Apagando tudo

Desativei minhas contas de bate-papo. Só frequentava o chat do site da UOL em tardes


de tristeza, para me esconder em algum apelido estrambólico e rir de desconhecidos.
Desinstalei o ICQ, apaguei o ícone da área de trabalho, manualmente, fiz questão de
dar-lhe um sumiço na lixeira e, se pudesse, deletava a lixeira da lixeira da lixeira. No
MSN, deixei a frase de status em meu nome, para ficar como um fantasma no histórico
de quem um dia comigo conversara: “But I’m a creep/ I’m a weirdo/ What the hell am I
doing here?/ I don’t belong here”
O próprio Júlio se tornou para mim alguém distante. Talvez eu o culpasse de alguma
forma. Às vezes, trocávamos e-mails, mas eu me esquivava dos encontros presenciais.
Nem fazia questão de disputar o computador com meu irmão, e mesmo as brincadeiras
idiotas deles sobre eu estar com “febre amarela” depois de voltar da Amazônia ficaram
vazias. Eu me olhei no espelho e disse:
- Você agora é um cara sério.
E eu, por não fazer a mínima ideia do que significava ser alguém sério, imaginei que
seria tornar-se aquilo que as mãos querem que a gente se torne, então, fui fazer o que
minha mãe gostava de ver: estudar.
Quanto mais eu via pipocar espinha em minha cara e me tornar um monstrengo, mais eu
tinha vontade de entender Matemática. Quanto mais eu via os valentões da série de cima
darem-se bem com as meninas de minha sala, mais eu entendia que o meu lugar no
mundo era fazer valer alguma inteligência. Os bonitos e os espertos que ficassem com
os prazeres, pois mereciam, os feios e os desajustados deveriam ficar com o dever e o
esforço. Assim seria a justiça!
Passou-se o resto do ano nesse sentimento. Minhas notas subiam e faziam ultrapassar
todas as expectativas que tinham de mim. Os professores mesmo elogiavam, contavam
comigo na primeira fila, viam-me jogar bolinhas de papel no lixo e olhar de cara feia
para o fundo da sala, ouviam-me dar opiniões que extrapolavam o assunto, citar
referências para temas diferentes. E assim eu ganhava meu “salariozinho” de estudante-
modelo, que eram boas notas e bons conceitos no conselho de classe, enquanto, em
casa, eu variava entre livros, tédios e clipes da MTV na televisão.
MTV era o único canal que eu assistia, aliás. Em outros, havia surpresas desagradáveis
como propagandas com Rio Amazonas, documentários sobre preservação ambiental da
Floresta Amazônica.
- Ei, menino, eu quero ver isso! Passa assim não! - dizia minha mãe ao ver meu fervor
no controle remoto, ao presenciar a mata verde, e mudar o canal.
Eu me zangava. Ela não gostava:
- Tá estudando tanto pra virar grosso, é?
Era assim que eu saía de frente da televisão, para não me enervar quando a garota da
meteorologia dizia que Manaus teria 38º de temperatura ou quando a trilha sonora da

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reportagem era Banda Carrapicho. “É nessa dança que meu boi balança, e o povo de
fora se põe a dançar...”
Eu me sentei, então, no computador para jogar. O plano de fundo da tela mudava a
imagem automaticamente de 30 em 30 minutos. Enfeites da Microsoft para te entreter e
te fazer esquecer das travadas cruéis que nem o Ctrl + Alt + Del resolvia. Uma tartaruga
voadora apareceu no quadro ao fundo, e logo sumiu, com a inicialização do programa
do jogo.
No jogo, eu já não fazia ideia para onde ir entre corredores. Caminhava a esmo sem
saber como passar de fase. Senti uma solidão tremenda e fechei a página, irritado. O
plano de fundo de tela do computador havia mudado: era agora um conjunto de vitórias-
régias!
- Eu não acredito! Eu não acredito! – eu berrava, enquanto batia o mouse na
escrivaninha.
Minha mãe veio da sala direto para o quarto gritar com a voz mais alta do que a minha:
- Quem não acredita nisso sou eu! Vou cortar seu computador! Você vai ficar sem
aparelho nenhum por um mês pra ver se vira gente de novo.
Castigo cumprido. Assim que se iniciaram as férias da escola, no fim de novembro,
minha mãe me embarcou com ela para a Ilha de Itaparica, em uma casa de sua colega de
trabalho. Duas semanas inteiras no mato e no mar. Seria a minha cura e não tinha
conversa, nem discussão contrária. Em plenos quinze anos de idade, outra vez eu seguia
a passar férias com a mamãe.
Na casa, os outros hóspedes também tinham mais de 40 anos e só pensavam em fazer
churrasco sem camisa e beber. Eu, também sem camisa, ficava ali respondendo
perguntas estranhas e vendo meu copo de guaraná ser pouso de moscas. Na trilha sonora
ao fundo, pagodes dos anos 90, e quando a anfitriã queria me agradar, ela dizia: “Agora
vou botar uma música que você gosta!” E colocava uma balada dos anos 80. Um coroa
me cutucava: “Veja aí, que solo de teclado!”
No quarto dia, acompanhei a trupe na praia. Pela ressaca, saíram todos de casa às 10h da
manhã e não às 7h, quando nem eu e nem o deus do sono os acompanharíamos de jeito
nenhum. Foi assim que fiz uma descoberta: existia vida da minha idade para além da
casa. Os outros filhos de anfitriões no condomínio desciam também àquela hora, com
pranchas de body board, biquínis & maiôs coloridos.
Era um grupo fechado, que pelo visto se conhecia de muitos veraneios de férias na
praia. Eu fiquei sentado ali na areia, com as mãos contra o joelho, como o Buda da Baía
de Todos os Santos, esperando alguém me chamar para um papo e, ao mesmo tempo,
fingindo orgulho e independência emocional. Não funcionou: precisei ir para a água
mesmo, fria, fria, fria. Aguentei sereno a primeira pancada de onda no abdômen,
enfrentei o medo de ultrapassar dois metros na água para ficar onde é possível surfar ou
nadar deslizando.

Amar é uma conexão discada | Saulo Dourado


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- Olha só esse jacaré! – falou um rapaz de cabelo pintado de loiro, não sei se para mim,
não sei se para todo mundo, e eu fui com ele em uma onda grande surfar de braços
limpos.
Mas foi forte: no meio, a maré me levou, e eu tomei um caldo de me embolar na areia.
A meu lado, já estava o rapaz em pé, vitorioso. Tirei o sal dos olhos e fui de novo. Sem
trocar uma palavra, ficamos cúmplices das ondas, e logo, de braçada em braçada, eu
conseguia chegar até a praia com dignidade. Ao fim, alguém me gritou que era hora do
almoço (o que era uma mentira, pois iam fritar entradinhas até às 16h, quando, enfim,
serviriam algo melhor), e eu já ia seguir, quando me despedi do rapaz.
- Pô, você é novo aqui? Apareça lá na esquina de noite que a galera vai estar lá.
Às 18h30, com os ombros ardendo, fui feliz e de banho tomado percorrer sozinho as
ruas de areia e mal iluminadas do condomínio. Avistei um poste e aquele rapaz sentado,
com mais outros dois. “Colé, pivete”, disseram eles. “O pessoal já está vindo”. Soube
que o rapaz do jacaré se chamava Neneco. E era verdade que o pessoal estava chegando.
Logo veio gente, um violão, um pandeiro, e eu fiquei sentado no meio-fio
acompanhando as letras. O mais velho tocava e era o único que ninguém pirraçava. Era
visível que duas ou três garotas gostavam dele, e uma, provavelmente, já estava saindo
com ele. Só no segundo dia é que eu fui saber quem estava com quem ou quem estava
quase com quem. E só no segundo dia apareceu uma garota que chamou mesmo minha
atenção.
- Safira. E o seu? – respondeu ela, quando eu lhe perguntei o nome.
Ela tinha a pele cor de mel, os olhos bem escuros, o cabelo até os ombros e repicados
nas pontas. Magrinha, seguia para a praia de short e não tirava nem para entrar na água.
Era tranquila, quase distraída, e tinha um sotaque forte de onde vinha:
- Sou do interior do Rio, lá de Macaé. Meu pai trabalha meio lá, meio cá, essas coisas
de petróleo - me explicou ela em uma noite, quando faziam só barulho com o violão na
esquina.
- Seu pai é daqui então? - eu perguntei. Ela sorria um sorriso bonito:
- Nada, a gente não é de nenhum dos dois, eu me mudei criança ainda por conta desse
emprego dele. Mas foi a primeira casa de praia que ele comprou, era um sonho do meu
pai... Nas férias vem pra cá.
No dia seguinte, Neneco envolveu o braço no meu pescoço.
- E aí, vai ficar com Safira? Vi que ontem vocês estavam em um papo maravilhoso...
- Ela é gente boa – respondi. - não quer dizer que queira algo comigo.
- Então você quer, não é, brother? – e riu – No veraneio passado, ela ficou com Lucas,
mas o lance morreu mesmo.
- Safira ficou com Lucas? – era o rapaz do violão. Pensei: “Então não só eu noto o
charme de Safira...” Poxa, pensava que só eu notava e fiquei mordido.
- Mas já foi. Vá em frente – disse ele.

Amar é uma conexão discada | Saulo Dourado


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Não fui. À noite, eu não apareci na esquina. Aproveitei o pretexto de jogar cartas com
minha mãe e os amigos dela. Até me diverti e me senti um tanto superior em não
participar daquelas picuinhas de garotos mais novos. Afinal, eu estava em um
condomínio por acaso, de uma pessoa casual que eu mal conhecia, amiga de minha mãe,
e me relacionaria com uma menina que morava no interior do Rio? Não, chega de
distâncias.
Na praia do outro dia, Safira estava sentada na areia. Ela apenas me cumprimentou com
a cabeça. Estaria brava comigo? Criara expectativas que eu não correspondi? Sou uma
besta mesmo! Sentei a seu lado direito, e as meninas ao lado esquerdo riram e se
levantaram para o mar. Na água, o restante do pessoal nadava e parecia atento a tudo o
que acontecia na areia. Fiquei ainda mais vermelho do que aqueles dias de sol
permitiam e com um calor no rosto, constrangido, a ponto de me levantar também.
- O pessoal aqui é assim – disse Safira, olhando para o horizonte - só pensa em uma
coisa. Não fique assombrado, relaxe.
Eu respirei aliviado.
- Acho que não é o pessoal só aqui... Parece que todo mundo só tem um assunto.
- A vida tem muitas outras coisas! – falou ela - Se a gente olha para o mar, por exemplo,
se pergunta: como é possível?
- Aquecimento da terra seguido de chuva intensa em tempos primordiais? – ri.
- Pode até ser, mas continua sendo um mistério.
À noite, continuamos a falar da vida e de música. Safira já gostava de Nação Zumbi e
de System of a Down, e eu me surpreendi. “Eles são super cabeça, politizados e fazem
um som forte”, disse ela. Eu me interessava, mas preferia algo mais limpo e psicodélico.
“O vocalista do System viveu e se refugiou do Líbano... que nem meu bisavô.” Eu me
intriguei ainda mais. Ela prometeu que me convenceria da música do System of a
Down, estava com alguns mp3 no computador do pai.
- Você está com a internet aqui na Ilha? – perguntei eu, já tremendo os dedos do vício.
- Conexão discada, mas tá valendo.
- Claro que está!
Safira me convidou para ir à casa dela na outra tarde. Tremi de ansiedade, respirei fundo
e repeti a frase dela na praia: “Relaxe.” Uma hora depois, eu esfregava as mãos de novo:
“Relaxe.” Outra hora depois, eu... “Relaxe. Relaxe.” Assim fiquei até duas da manhã,
sentindo o calor dos deuses no quarto, e me entretendo com o barulho forte da onda a
quebrar contra as pedras. O som parecia invadir toda a casa. Da janela era possível ver
as luzes de Salvador, e só assim adormeci.
Almocei pouco: para um encontro bom assim, é importante não ficar com gases. No
caminho, forcei para soltar todos que houvesse, no vento de mormaço contra as
palmeiras. E lá estava a casa de Safira, de madeira, com uma rede na varanda. Na
parede, havia uma tanga pendurada com palavras em caligrafia lá das arábias. Ela me
viu da janela e pediu para eu entrar. O pai estava na sala, consertando um ventilador

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com a caixa de ferramentas e me cumprimentou com toda a naturalidade. A mãe dormia


em uma esteira no chão. “É, acho que é mesmo para eu relaxar...”
O computador estava em um cômodo à parte dos quartos. Ao ver a cadeira e o monitor,
fui atraído por um magnetismo. Sentei de vez.
- Deixa eu só ver a pasta onde pus os mp3.. - disse Safira, aproximando-se para mexer
no mouse.
Eu fui me levantar de vez. Nós nos encontramos no ar, frente a frente. O rosto dela
ficou muito perto do meu. Estávamos sob a brisa de Itaparica ou qualquer coisa que
aquela casa de madeira me tomou: de súbito, me movimentei para frente, envolvi meus
braços naquela pele macia, e dei nela o meu maior beijo. Senti uma energia percorrer
todo meu corpo, e uma vontade intensa de estar ainda mais vivo.
Ela, no início, correspondeu, mas logo parou. Eu beijei de novo seus lábios. Safira
apertou minha mão e virou o rosto para o computador.
- Então, Caio... – e balançou a cabeça – Nós precisamos conversar.
Eu me recompus, enquanto a encarava à espera de alguma indicação.
- Puxa uma cadeira para você aqui no computador que eu vou te mostrar – disse ela.
- Pois sim, System of a Down... – eu falava, vago - É, System of a Down...
Safira segurou o mouse e olhou para a tela.
- Ontem, fiquei batendo papo até tarde, sabe... – e sorriu, com estranheza – Olha, se
aquilo que eu vou te contar estivesse em um livro ou um filme, eu não acreditaria, mas é
pura verdade. É o seguinte... – e ajeitou os cabelos, antes de dizer de forma reta - Caio,
eu fico entre o Rio de Janeiro e a Bahia, mas minha família é toda de Manaus.
Eu senti vertigem, boca seca, coração acelerado, saliva na garganta, sim, tudo aquilo
que se sente, e, com os lábios entreabertos, olhei para a tela do computador.
- Eu fui criada lá, meu pai depois que se mudou a trabalho. Ainda tive tempo de fazer
algumas amizades que ficaram. E dentre elas... – Safira abriu o MSN, em um chat que
eu conhecia em cada cor, no itálico do nickname, nos símbolos ao lado do nome, e que
ali me causava uma explosão de emoções em vê-lo em outro lugar que não no meu
quarto – e dentre elas, Vitória.
Eu me levantei. Pregavam uma peça? Quem era o gênio que estava fazendo aquilo
comigo?
- Nós duas também não acreditamos... Às vezes jogamos conversa fora, e ontem à noite,
quando eu voltei lá da esquina, ela estava on-line, e eu falei de você, que te achei um
cara legal... E fomos ligando os pontos... Qual é a chance de algo assim acontecer? Me
diz, é um mistério!
Eu fui para a janela ver o mar.

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6. O World Wide Web dá voltas!

A Internet é uma conexão invisível entre todas as redes interligadas e disponíveis em


aparelhos eletrônicos. Em ligações com satélites que disparam e respondem raios da
órbita da Terra, mensagens, arquivos e links são trocadas instantaneamente. É mágico! Se
qualquer viajante do passado desembarcasse em nossos tempos e visse uma mera troca de
e-mails, acreditaria estarmos em uma era sobrenatural. Seria a rede digital uma parte da
realização das utopias dos magos do passado?
Minha vida, por exemplo, se ligou um pouco à vida de Orkut Büyükkökten, um turco
programador do Google que queria tomar conta do mercado norte-americano. A ideia dele
seria criar um site que funcionasse como uma rede de pessoas, com perfis, fotos e
interesses em comum numa grande teia de comunidades. Ele o batizou com o próprio
nome (ainda bem que o primeiro, e não o segundo...). Para seu azar, o site não fez tanto
sucesso nos EUA, mas, para sua sorte e um pouco da minha também, foi estourar mesmo
no Brasil.
Criar uma conta no Orkut foi a segunda coisa que eu fiz ao retornar a Salvador,
depois daqueles dias assombrosos na Ilha. A primeira coisa mesmo que fiz foi ligar
para Júlio, depois de muito tempo: “Cara...”, foi o que ele respondeu durante todo
um minuto, quando eu contei a história das coincidências. “Eu invento histórias
para quê? A realidade é muito mais criativa...”, disse ele, para, enfim, se recobrar:
- Não te parece um destino? Não seria hora de você procurar de novo Vitória, entender o
que houve?
Assim, eu me cadastrei no Orkut, com um atraso maior do que a maioria de meus colegas
de sala, de bairro, de cidade. Deixei um alô como scrap para o próprio Júlio, que me
devolveu com uma carinha de ânimo. Ele me indicou suas comunidades favoritas para eu
entrar e me tranquilizar antes do grande momento. De fato, foi muito curioso conhecer
espaços virtuais, como “Eu odeio acordar cedo”, com a foto de Garfield mal-humorado
em um lençol, ou “Não fui eu, foi meu eu lírico” e “Pensei que era sorvete, mas era
feijão”.
No botão de pesquisar, escrevi Vitória Granger. Em um minuto de barra de rolagem,
encontrei a mesma foto que ela usava em outro tempo, com um olho bem aberto no close
e os cabelos de sua franja. Abri o perfil e, na descrição de si mesma, estava lá a frase: “♪
Num retrato-falado eu fichado, exposto em diagnóstico, especialistas analisam e
sentenciam: deixa ser como será, tudo posto em seu lugar, então tentar prever serviu pra
eu me enganar... ♪” Entre as fotos públicas, estava uma dela fazendo cosplay de Harry
Potter em alguma pré-estreia de filme, outra com colegas vestidos de uniforme da escola
e, uma terceira, no cais de Manaus, à beira do rio.
Agora seria a hora de eu escrever uma mensagem. “Oi, Vitória, tudo bom?”, cheguei a
digitar. Não, não, parecia muito formal. “E aí, Vitória?”, também não, parece que é muito
colega. “Olá!”, não sei, alguém já me fez piada por conta do Olá ser muito coisa de velho.
“Ei. Como vai? E não é que ouvi falar de você em uma ilha?” Pronto, era essa a
mensagem, e apertei Enter. Fiquei na dúvida se colocaria uma carinha piscando ou não.

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Não coloquei. Também não era para ser tão camarada, tão disponível, afinal, não era para
facilitar.
Dez minutos depois quem me escreveu foi Safira, logo abaixo da minha mensagem, para
dar um sorrisinho, cúmplice daquele momento. No mesmo instante, Safira ficou entre as
minhas amizades, com suas fotos de pôr do sol, perfis em preto e branco, e sorrisos com
legendas de músicas. Por fim, estava entre as minhas amizades, a própria Vitória. Ela me
respondeu:
Aqueles que somem estão geralmente em uma ilha... Não é assim nas histórias de
náufrago? Bom receber sua mensagem.
Tive uma euforia. Mas pensei de novo: aliás, quer saber de uma coisa? Isto não vai dar
certo. Ela continua e continuará a morar em Manaus. Eu não vou ganhar outro prêmio tão
cedo e nem quero pegar aquela turbulência de novo... Então, seríamos bons amigos, e a
vida segue, sim, a vida segue mesmo que suas fotos liberadas para amigos sejam lindas, e
que ela tenha ficado ainda mais bonita depois desse meio ano, mesmo que ela misture tão
bem esse ar de fascínio com a vida, inteligência e tranquilidade. OK? OK? Basta
encontrar outra pessoa como ela. Está na mesma rua, às vezes, é só procurar...
Fui provar minha tese da facilidade para se encontrar outras pessoas. Abri de novo a
comunidade da sala e abri perfil a perfil. Uma colega era só amiga, outra não fazia o tipo,
outra já tinha namorado, outra ficava sempre com gente mais velha, outra nunca ouviu a
segunda fase dos Beatles, outra achava ler um saco, outra, provavelmente, me achava
horroroso, outra já me escutou na aula de Biologia fazer a piada de que minha mãe
também é “autótrofa” porque ela sabe fazer a própria comida, e etc. Abri a comunidade de
minha série. Selecionei algumas meninas que eu sempre quis conversar e nunca
conversei. Três dias depois, só duas responderam meu “Olá!”. Eu tinha que parar com
aquele Olá.
- Júlio, então, a gente não consegue escolher o amor? – perguntei a ele por vídeo no
Skype - Que negócio difícil é esse?
- Cara, a gente escolhe e não escolhe. Vitória veio até você e está bem amorosa sim
porque eu tenho lido seus recados...
- Mas é só isso! Esse amor seria só tela! 1200 caracteres!
- A dificuldade maior é encontrar a pessoa que se encaixa contigo, ou estou mentindo? O
mundo dá a ideia, o seu esforço é conquistar ou manter essa ideia...
- É bonita a ideia... E eu gostei de seu black power! – respondi.
- Está fazendo sucesso aqui em São Paulo.
- Você aí de novo?
- Escritor tem que circular, rapaz. E você, pense mais nisso também...
Nesse tempo, foi anunciado o concurso de redação da cidade. Tema: “As redes sociais
estão mudando as relações de afeto?” Sorri. Era um tema que eu entendia, e ainda mais
porque eu podia agora, de conexão banda, receber e mandar mensagens todos os dias, não
mais só no sábado, nem no domingo, mas todos os dias, em plenas férias, para comprovar

Amar é uma conexão discada | Saulo Dourado


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todas as ideias boas que eu tinha. Quando a nova conexão chegou em casa, meu irmão e
eu nos abraçamos como há muito tempo não acontecia: nos demos cascudos e comemos
um pote de sorvete para comemorar. Alegria que durou até dividirmos o computador com
modem, mas tudo bem... Alegria!
Antes de pensar em escrever a redação para o concurso, quis escrever de novo para
Vitória. Postei um recado sem ares de desconfiança, sem pesos, sem pensar nas palavras,
e com carinhas. Ela me mandou de volta vários braços levantados, uma conversa bonita
sobre o Natal e um link com uma música que gostara, o clipe de “12:51” da banda The
Strokes. Por certo, era um sinal!
Comi ansioso cada uma das partes da canção, ouvindo a letra e pesquisando a tradução, a
me perguntar se aquele recado era de Vitória para mim, se ela queria me mandar uma
mensagem cifrada. Vejamos:

Talk to me now I’m older


Your friend told you ‘cause I told her
Friday nights have been lonely
Change your plans and then phone me.*

Será que Vitória está dizendo que agora está mais madura, e, assim, gostaria que eu
voltasse a falar tanto com ela? “Your friend” deve ser Safira, que realmente conversou
com ela, e fez tudo isso voltar! Vitória está feliz por meu retorno porque está sozinha nas
sextas-feiras, à noite, ou seja, em dias de badalação, de conhecer gente nova, ela se sente
com muita carência... Maravilha! “Mude seus planos e me telefone.” É isso!
Fora que o clipe se passa dentro de uma realidade virtual. Os integrantes parecem chegar
em um portal de holograma, com detalhes futuristas ao fundo. Vitória está vendo assim a
nossa realidade, e vai além: “O mundo está parando... para nós”. E continua: “Estávamos
tensos, mas estávamos confiantes.” Foi o que aconteceu.
“Kiss me now that I’m older, I won’t try to control you.” Beije-me agora. Sorri. É isso, aí
está a chave! Agora eu não tenho dúvidas. “Kiss me” é forte, é imperativo, não tem outra.
E ainda mais com esse final: “Eu estarei lá”. Ou seja, da última vez, eu estive onde ela
estava, mas ela não apareceu, contudo, agora ela estará lá e nós nos encontraremos sim,
nos encontraremos e nos beijaremos.
Montei uma surpresa. No dia seguinte, para deixar nas entrelinhas que captei todas as
referências da música e abrilhantar um ar encantado, esperei dar exatamente 12:51 no
relógio e liguei.
- Oi... oi, Caio! – disse ela - É, nossa, quanto tempo...Estou almoçando agora. Posso te
ligar daqui a pouco?
Tudo bem, nem sempre tudo é tão perfeito.

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Ela me ligou mais tarde e conversamos sobre tudo um pouco: a recuperação dela em
Física, o inverno amazônico, um filhote de cachorro, e as expectativas para o ano novo.
- Vai passar o réveillon onde? - eu perguntei.
- Meu pai vai me levar a um clube daqui. Aff, nem sei o que vai ser... E você?
Dei de ombros:
- Na praia mesmo, vendo os fogos do Farol da Barra.
Ela quase deu um grito:
- Você é muito sortudo, como pode dizer assim com pouco caso?
Aproveitei a brecha:
- As portas estão abertas, tem colchão aqui se você quiser viver a grande emoção do
réveillon de Salvador...
- Vou acompanhar suas fotos! – riu ela - Poste todas, viu? Sem essa pose de intelectual, só
com foto olhando pro chão...
Postei, no dia 28, uma foto olhando para cima e com os braços abertos. Vitória comentou
com comemorações. Aproveitei aqueles dias em aberto para tomar açaí e para escrever a
redação do concurso. “Muitos dizem que as redes sociais isolam as pessoas em seus
próprios mundos. Eu penso o contrário: há um número cada vez maior de pessoas a se
interligarem e trocarem experiências, discursos, afetos.” Recebi o elogio de Júlio pelo
mote e deixei marcado um encontro pessoal com ele para depois do ano novo quando o
jovem escritor voltasse de São Paulo.
Enfim, Réveillon. No monte de grama do Morro do Cristo, estava toda a minha família
reunida com champanhes baratos prontos para estourar. Meu irmão tinha levado uma
namoradinha só para beijar à meia-noite e não correr o risco de passar o ano na seca... Já
eu estava de branco, mas havia colocado uma cueca vermelha sem contar a ninguém, é
claro. Até escrever é vergonhoso. Seria um ano de amores, ora! Sorri e mentalizei para a
virada. “3...2..1...Feliz Ano Novo!” Espuma para tudo o que é lado. Minha mãe me
abraçou de vez, e eu já com a vista para os fogos, fazia meu pedido.
Passei todas as fotos da câmera digital para o computador já no dia primeiro, ao meio-dia.
Criei o álbum “Retratos de mim enquanto eu ou Chega mais, ano novo” e deixei carregar
para publicação. Escrevi depois uma mensagem de felicitações para Vitória e um aviso
para meu novo momento de aparição pública. Não contente, me senti inspirado para criar
um depoimento, misturando pequenas piadas internas entre nós, um desejo de felicidades
no ano que vinha, com algumas pitadas de “abertura para amores”, que se fechava com
uma metáfora sobre vitórias-régias. Jogada de mestre!
Fui almoçar e jantar restos de ceia no dia primeiro, mas em nenhuma rede havia qualquer
sinal de Vitória. Respirei fundo: um dos princípios do bom usuário com uma conquista a
ser feita é não enviar mais de três informações para outro usuário, sem que antes tenha
havido alguma resposta. É preciso mostrar que você não precisa desesperadamente,
ansiosamente da outra pessoa, mesmo que você aguarde desesperadamente, ansiosamente
qualquer sinal de luz.

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Só às 14h do dia 2 de Janeiro, ela publicou as primeiras fotos de um álbum de Réveillon.


Na primeira, está abraçada com o pai e com os primos. Na segunda, está com o pai e o
melhor amigo do pai. Da terceira em diante, sorri com uma taça na mão, sorrindo com
cada um dos primos. Na vigésima, está com o melhor amigo do pai e um rapaz de camisa
azul, forte nos braços, branco, de cabelos penteados para o lado, relógio no pulso e uma
fina corrente de prata. Chamou-me a atenção, mas há de ser o filho do melhor amigo... Na
outra foto, Vitória e ele se abraçam. Depois fotos de farra e de danças, e por duas vezes,
em imagens de dança, os dois formavam um par.
Ela publicou as fotos e não me respondeu nenhuma mensagem. Fiquei remoendo e escutando
músicas com os meus CDs gravados de mp3. Um em especial, escrito de hidrocor na estampa
branca, SAD SONGS ;(. Meu irmão me jogou uma almofada por querer transformar a casa em
um velório logo depois do ano novo. “Isso dá azar, besta! Sabe o que é isso? É falta de
mulher, ou acha que mulher é uma estátua de cristal... Bota aí na sua listinha de ano novo
– ‘É preciso fazer mulher ter carne e osso!’” Eu nem respondi. Mas meu irmão ogro não
estava tão descompensado assim.
À noite, fui ver mais uma vez o perfil de Vitória. Entre os recados, estava o do rapaz
bailante e mui belo de camisa azul: “E aí, blz? Que festa chibata! Ainda tô com as pernas
doendo do forró, huahua. As fotos ficaram lindas d+! Um bjo” Aproveitei para clicar no
perfil do moçoilo. Uma foto de sorriso enorme, o nome “Victor Julião” e uma frase de O
Pequeno Príncipe na descrição. Entre as fotos, uma na academia, uma na piscina com os
amigos fazendo V de bíceps crescido, e outro desbravando alguma área da floresta, com
equipamentos de trilha. Em seus depoimentos, meninas chamavam-no de fofo, de
companheiro, cheio de corações.
Ao entrar na página dos recados dele, uma surpresa. Já havia a resposta de Vitória: “Oii
Victor. Festa boa é festa assim, maceta. Vc eh bom mesmo de forró. Adorei ;) Bjo”
Passaram-se vinte e cinco minutos, e ela não tinha dito nada do que eu escrevi, postei,
revelei. Para ele sim, em menos de cinco minutos de resposta.
- Mas eu sou muito trouxa mesmo!
[Nota de rodapé: Chibata e maceta são gírias de Manaus, que designam coisas muito
grandes e positivas]
- É sim – berrou minha mãe da sala – Vá lavar o tapete na área de serviço, que ainda está
sujo de farofa. Tomar sol pra pegar vitamina D é bom. Criar muque, vamos!
- Nem me fale em muque, mãe...
Esfreguei o tapete com uma força que há tempos não empregava em nada. Era uma
escovada, um trincar de dentes, e um olho cheio de água por dentro: “Eu mereço! É isso,
eu mereço!” Na volta, já de banho tomado, vi que em minha página do Orkut estava lá
escrito: “Caio, amei as fotos e o depoimento! Feliz ano novo ;)” E só. E só! Seria a
mesma resposta que viria de alguma celebridade ao ler um recado de fã, sendo educada e
mantendo a simpatia, sem retirar, no entanto, nenhuma distância.
Escrevi um e-mail longo para Júlio, desses que você bate as teclas e envia. Fiquei na
cadeira olhando para o teto. Ele me respondeu quinze minutos depois. Desculpe por eu

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ter lhe incentivado, meu velho. Tudo isso parece mesmo a lenda da Vitória-Régia.
Pensando no que você escreveu, fui buscar a história. Está na hora de você ler também.
“Em uma aldeia, havia uma guerreira muito bonita que se apaixonou pela Lua e sonhava
em alcança-la no céu. Toda noite, a jovem subia as colinas para aguardar a Lua. Quando
vinha, imensa, ou minguante e amarela, a jovem esticava os braços, mas a Lua continuava
distante e não parecia notar aquela paixão.
Em uma dessas noites, a guerreira viu a Lua refletida nas águas de um lago e pensou que
era o próprio astro que ali se banhava. Emocionada, a jovem se atirou no lago, no mesmo
lugar do reflexo. Afundou para não mais voltar...
Ao ver o destino trágico da guerreira, a Lua, enfim, a notou e se comoveu. Recompensou,
então, a alma da jovem e a transformou em uma estrela sobre a água. Eis a vitória-régia,
cujas flores são brancas à noite e se tornam rosadas com o amanhecer.”
Não espere se atirar na água, Caio. Vitória tem um coração tão bom quanto à Lua, mas
não para te oferecer. Seu destino em tanta distância, física e não física, agora seria ver
só um reflexo na água...

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7. Você tem certeza de que deseja sair?

Sim, tudo passa rápido. Eu já escutei um computador conectar com barulhos cibernéticos
que pareciam uma panela de pressão chiando, e hoje, consigo Wi Fi no restaurante da
esquina. Tudo passa rápido demais. Em Manaus também. Só demoraram dez dias para
Victor e Vitória terem mais de uma foto em comum, primeiro os dois, lado a lado em uma
balada, depois de pés juntos em algum parque. Estava feito. E eu não apaguei conta
nenhuma, não a tirei de minhas amizades de qualquer uma das redes. Ali nos mantivemos,
longe e perto.
Meu irmão me encontrou sentado no chão do quarto.
- Um sol bonito desses lá fora e você aí que nem o morcego da meia-noite. Vamos à
praia, rapaz!
Eu coloquei as mãos na testa, fingindo me esconder.
- Tá achando que as coisas vão melhorar com você aí comendo a própria cabeça? –
continuou ele.
- Comendo a própria cabeça? – perguntei com estranheza.
- É isso mesmo. Você sabe por que eu jogo bola, saio com a broderagem, vou à praia?
Porque a cabeça, a mente é uma boca que quer comer... Se a gente não dá ação mesmo,
coisas reais para a cabeça, ela se alimenta de si mesma! É isso, meu velho!
- Onde é que você aprendeu isso?
- Tá achando que eu só sou grosseria, é? – riu meu irmão.
- Poxa... É verdade – me levantei e virei para ele – Talvez não seja tão grosso assim...
- Andei lendo – e me deu um tapa no peito – Quero pegar uma estudante de Psicologia
aí! Filé demais, haha! O inconsciente aqui está animado que só, parceiro!
- Ah tá... Retire o que eu falei!
Júlio ligou mais tarde, em sua missão de me animar. “Estou com um grupo aqui de um
curso estrangeiro... Vou fazer o passeio com eles em nome da editora e tem uma vaga a
mais na van. Venha. Pegue o ônibus agora aqui pro centro. Que férias são essas as suas
afinal?” Segui até o ponto de encontro e, em cinco minutos, estava eu no carro largo,
num cruzamento de pessoas com frases em inglês.
Júlio respondia e sorria, apontava para a paisagem. Eles riam.
- A garota aqui ao lado disse que gostou de você - riu Júlio.
- Mentira, eu escutei também, ela estava falando do Mercado Modelo. – falei eu
mostrando a língua.
- É que ela falou que queria conhecer esse modelo que é você.

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40

Seguimos por um tempo a olhar o mar, onde abstraí tudo e pensei um bocado nos
últimos acontecimentos. Passamos por árvores, ruas, arquiteturas, estátuas, faróis, até
mesmo um corredor de bambus... “Eu conheço isso...”, pensei, e em um só tempo me
veio o alarme.
- É o aeroporto! – estranhei e questionei - Vamos buscar alguém?
- Não, vamos melhorar o passeio! – respondeu Júlio.
O coração subiu e entendeu de imediato.
- Motorista, agradeço a carona – disse eu, já alarmado - aqui mesmo tem um fim de
linha de ônibus de volta pro centro... Tá ótimo!
- Liga não, motorista – respondeu Júlio – Ele vai ver o Centro de cima agora e está
assim emocionado!
E de fato, a menina ao lado sorriu para mim. Devo ficar mais bonito em pânico e
segurando a maçaneta de um carro em movimento.
- Você era meu amigo, Júlio! Por que está fazendo isso comigo? Passeio aéreo, Júlio?
Para quê?!
Já havia três aviões de pequeno porte à nossa espera no hangar. Sentei em uma cadeira e
disse que preferiria apreciar o voo dali do chão mesmo. A piloto de óculos escuros e
sorriso largo me pegou pelo braço e disse que seria maravilhoso. Era mesmo um
complô. Os turistas me davam tapas nas costas, e entravam um a um nas poltronas de
couro das pequenas aeronaves. Júlio me colocou a seu lado.
- Você não ri com O Analista de Bagé, do Luís Fernando Veríssimo? – perguntou meu
“ex-amigo” no momento – Então, é isto a “terapia do joelhaço”. Nada como tomar um
bom susto, às vezes, para a vida poder circular!
O monomotor era menor do que um carro 1.0 e parecia ter sido fabricado antes de
minha mãe nascer. As hélices começaram a girar com velocidade incrível. E eu não
tinha mais saliva, minha mão estava sem sangue, meus dedos pareciam ser mordidos
por um cardume de piabas. A piloto acelerava na pista livre para então puxar o manche
para subir.
É olhando o céu de um vidro de monomotor, com um vento que parece te jogar para trás
enquanto sobe, que você se pergunta: “Quem eu sou? Para onde eu vou? De onde eu
vim?” O efeito do susto era real.
Fechei os olhos e agarrei a mão de Júlio. Ele encostou bem no meu ouvido, com o
barulho forte do avião no ar, e me gritou: “Obrigado, mas eu já estou namorando!” Na
hora, eu nem entendi o teor de revelação da frase. Só respirava fundo. Ele me cutucou
de novo e apontou para baixo. Estava lá a lagoa escura do Abaeté, a areia branca das
dunas, a mata atlântica escondida nos miolos da cidade, e logo depois o imenso mar. E
foi um impacto de beleza tamanho.
Planávamos pela orla, e os turistas se impactavam com a vista do Farol, com os
edifícios. Os prédios altos, as favelas, os tufos de verde, o Elevador, os navios, e o azul.
Júlio tirava fotos com sua câmera digital. O monomotor mal se mexia, apenas seguia, e

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a imensidão era um mistério. E mal eu compreendia aquela novidade, o avião já dava a


volta. Eu poderia até dizer que estava tranquilo, e a piloto perguntou: “Quem quer
emoção agora?”. Esbugalhei os olhos: “No! No!”, berrei, mas ela não escutou com seus
fones imensos. Não quero nem lembrar daqueles dois minutos de sacudidas propositais.
Em solo, depois que eu troquei pernas por um longo minuto enquanto caminhava para a
recepção da Escola de Aviação, Júlio me pegou no ombro.
- E aí, calion, já tem o que contar na redação sobre as férias?
Eu dei nele um murro de leve:
- Você... Você...
E ele riu:
- Você vai me perdoar.
- Só se você me contar que namoro é esse. Eu não me esqueci.
Ele mudou a expressão do rosto.
- O que a gente não conta em momentos de consolo para amigos? – disse ele, enquanto
sacava a máquina digital.
Ao abrir as opções de fotos, ele antes me alertou:
- É segredo de Estado. O pai dela não pode saber. Além de sogro, é meu patrão.
Eu já abria a boca para me manifestar, quando vi na pequena tela eletrônica a
confirmação. Nathalia, de cabelo bem cacheado e sorriso grande, ao lado de Júlio no
vão do Museu de Artes de São Paulo.
- E você escondeu esse segredo maravilhoso esse tempo todo? – perguntei.
- Não, aconteceu desde minhas viagens a São Paulo. E eu tenho que agradecer a você.
- A mim?
- Eu não tinha notado tanto Nathalia antes de suas fantasias! – sorriu ele - E ainda usei
seu caso para quebrar o gelo e conversar...
Eu gargalhei e bati no ombro dele, xingando-o da maneira mais amigável possível.
- Ah, era por isso que você defendia namoros à distância... – disse, e logo meu sorriso
caiu - Pena que no meu caso, não foi tão bom assim...
- Nem continue – disse Júlio, me interrompendo - Nem tudo é na mesma hora,
camarada.
E nos piscamos o olho.
- E Nathalia vem a Salvador? - eu perguntei.
- Semana que vem.

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No mesmo dia em que Nathalia desembarcou na cidade, saiu o resultado do concurso de


redações do município. Não fiquei nem entre os dez primeiros. Ainda assim, Júlio,
Nathalia e eu sentamos e comemoramos o mundo das letras, em uma lanchonete do
Centro Histórico. Cada um dos dois tinha um par de livros publicados e mais um na
gráfica para o próximo ano. Eu estava pelo menos em boa companhia.
- Isso de você perder no concurso, relaxa, é um sinal de que você não deve mais
escrever apenas quando te mandam - disse Nathalia, ali em minha frente, para provar
mais uma vez as voltas que o mundo dá - escrever será primeiro uma vontade sua de
contar histórias.
Ganhei exemplares autografados de Aventuras no Jardim Botânico e tirei foto do casal
de escritores. Foi uma tarde mesmo para saudar toda aquela história que havia
começado quase dois anos atrás. Aproveitei para escrever essas ideias sobre as graças da
vida em meu blog e compartilhar em páginas de leitores nas comunidades do Orkut.
Não sei das taxas de visitas, mas meu irmão comentou e disse que enviou para a
estudante de Psicologia, para mostrar o grau de inteligência da família. Deu certo para
ele.
O tempo assim passou até o retorno das aulas, com aquele cheiro de caderno novo, as
canetas catadas em casa, a mochila que já foi de um primo, com os livros didáticos que
já foram de meu irmão. Em minha companhia, um romance novo, para espiar já nas
primeiras horas de morrinha de algum professor. Na sala, as carteiras cheias de caras de
sempre: quem é que troca de escola em pleno 2º ano? Estavam lá Alfredinho,
Guilherme, Juca, Joana...
- Salve, salve, pessoal! – cumprimentou a professora de Biologia com rosto de japonesa
– Saibam que o tema da vida é nossa aventura mais uma vez este ano. Parece um tema
antigo, mas cada vez mais a gente vai se perguntar o que é orgânico e o que não é,
quando tudo ao nosso redor parece ganhar vida por elétrons e sinais, em telas e
mensagens. Como pudemos ter evoluído tão rápido? Nossos olhos são de caçadores e de
catadores de frutas e já vão se acostumar com a telinha de um computador... E vocês
sabiam que em breve haverá aparelhos que vão carregar todas as redes sociais, que vão
ter o espaço inteiro de um computador de hoje, que vão poder fazer operações de
bancos, comprar serviços etc.?
- Não brinca, professora, aí é ficção científica! Vai ser quando isso... em 2030?
Nesse instante, uma moça abriu a porta e pediu licença à professora para se sentar. Eu
olhei uma vez, olhei uma segunda vez, até entender e acreditar. Perdi a conversa da
professora sobre testes de smartphone e de carros que poderiam dirigir-se sozinhos, para
pensar em como há coincidências incríveis que continuam a ligar nossas vidas, com fio
ou sem fio. Senti um momento completo de paz, de vontade de andar em círculos pela
sala...
A moça nova na sala, que chegava discretamente para os outros, de modo eufórico para
mim, era Safira, com seu rosto bronzeado do veraneio, o olhar sereno, as pulseiras de
pano coloridas. Parecia ser uma luz entre os colegas já em sombras. Foi uma alegria
imensa apenas vê-la.
No intervalo das aulas, nós nos vimos, e ela me abraçou com bonita surpresa.

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- Você não acredita, meu pai quer se mudar em definitivo para a ilha... Vai pedir a
aposentadoria de uma vez. Deixou logo a gente aqui em Salvador, enquanto providencia
os papéis todos...
- Nossa, Macaé, Amazonas, Ilha de Itaparica... Que giro! E agora você aqui – eu disse.
- Muitas conexões – riu ela.
- Muitas conexões.
Assim conversamos naquele dia a cada brecha de sinal da escola. Entre nossos papos,
nem precisamos tocar no nome de Vitória: já nos entendíamos partes de uma história
longa e éramos cúmplices. Preferi apenas contar que vi a Ilha de Itaparica do alto,
sobrevoando em um monomotor, o que ela achou incrível.
- Prometo te levar um dia - deixei escapar.
Mais tarde, liguei o computador e abri o Orkut. Em minha página de recados, lá já
estava Safira, em uma foto de perfil, com o rosto meio de lado, achando graça em algo.
Ela assim me escrevia:
Ei, vc anotou a tarefa de Matemática? :)

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Glossário

CD – sigla de Compact Disc, é a mídia em forma de disco que executa músicas em geral e serve
de armazenamento de programas e documentos.
Cosplay - é um termo em inglês, formado pela junção das fantasia e brincadeira ou encenação.
É uma prática de adotar as mesmas vestimentas do que heróis ou personagens de filmes, séries,
animes etc.
Discman – é o aparelho eletrônico portátil capaz de executar as faixas de músicas do CD.
Fake – Vindo do inglês, “falso”, significa na internet todo perfil que se finge de outro para
enganar usuários.
Friend zone “Zona amiga”, é quando uma pessoa se torna apenas amiga de outra, sem chances
de evolução para uma interação amorosa.
ICQ - Um dos primeiros programas de mensagem instantânea na Internet. Instalado no
computador, permite que o usuário, quando conectado, encontre outros usuários igualmente
cadastrados. Foi um sucesso principalmente no início dos anos 2000.
Kbps - É a velocidade de uma conexão de internet, medida pelo volume de dados em
transmissões, e significa “kilo bits”. Hoje em dia, com o avanço da internet, tornou-se uma
medida mais anacrônica, pois a maioria das transmissões já se mede por Mbps (Megabits) e
gigabits.
Mp3 - Trata-se de uma abreviação de MPEG Layer 3, um formato de compreensão de áudio
digital que torna as músicas compatíveis com a execução em computadores e aparelhos
direcionados.
MSN – Um programa de mensagem instantânea oferecido pela Microsoft, com recursos de
multimídia e com listas de usuários cadastrados para bate-papo. Foi um dos primeiros a permitir
grupos inteiros de conversas e videochamadas.
Nickname – É o apelido que um usuário escolhe para entrar em programas de bate-papo.
Orkut – É uma rede social via site com o objetivo de interagir contatos em comum, com grupos
de interesses, perfis, recados e fóruns. Fez sucesso especialmente nos anos de 2004, 2005 e
2006 no Brasil.
Pixel - Ponto luminoso do monitor de qualquer aparelho eletrônico que forma as imagens na
tela. Qualquer problema na velocidade de conexão pode “borrar” a aparição dos pixels.
VHS - É um tipo de mídia de vídeo com gravação analógica, em fitas de videoteipe,
reproduzível em videocassete. É a mídia anterior ao DVD na execução de filmes.
Webcam - É uma câmara para computadores que capta imagens e as transfere diretamente para
o sistema de dados da máquina. Hoje, os notebooks e os smartphones já possuem uma câmera
embutida, mas ainda há utilização de webcam para videoconferências e produções de vídeo.
WWW ou World Wide Web: Em quase todos os sites, digitamos antes a sigla que se refere a
hipermídia de conexão de rede, isto é, liga as conexões da internet, como uma “teia do mundo
inteiro”.

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Impresso no dia 17 de setembro de 2017 na Graphium Gráfica e Fotolito Ltda. Com miolo em papel
Polen Soft de 80g; editorado com fonte Minion Pró corpo 12, numa tiragem de 1000 exemplares.

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