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Muitas das informações sobre o passado

pré-colombiano se perderam durante a fase do


descobrimento europeu e da conquista.
Interesses sócio-políticos motivaram alguns
povos a destruir velhos documentos no afã de
reescrever em favor próprio a história do
México Central. Apesar deste ''apagamento
história)", recuperoU'Se, com grande trabalho,
parte desta documentação. Neste livro, um
painel em busca da história quase
perdida daquela época.

Brasiliense
•A
Copyright © Ciro Flamarion S. Cardoso

Capa:
127 (antigo 23)
Artistas Gráficos

Revisão:
Carlos E . Carvalho
José E . Andrade

ÍNDICE

Introdução 7
Sociedades pré-agrícolas 12
Sociedades agrícolaspré-urbanas .; 34
Agricultura intensiva e urbanização: as "altas
culturas"pré-colombianas 52
Reflexões finais 109
Indicações para leitura 115

J3 —
Editora Brasiliense S.A.
R. General J a r d i m , 160
01223 - São Paulo - S P
Fone (011)231-1422
INTRODUÇÃO

"A civilização romana n ã o morreu de morte


natural. Foi assassinada." Assim concluiu André Pi-
ganiol o seu livro sobre o Império Romano no século
lV~aepois de Cristo {L'empire chrétien 325-395, Pa-
ns, P. U . F . , 1947, p. 422). T a l afirmação, discutível
no caso romano, aplica-se perfeitamente às nume-
rosas sociedades indígenas existentes no continente
americano na fase do descobrimento europeu e da
conquista (fins do século X V e século X V I ; em certas
regiões, a conquista foi mais tardia). De tal fato
derivam-se muitos problemas de documentação e
mesmo de interpretação.
De documentação: os conquistadores destruí-
ram monumentos — grandes centros urbanos da
última fase pré-colombiana foram transformados em
cidades espanholas (México, Cusco) — e obras de
arte (fundidas quando confeccionadas com metais
preciosos), queimaram quase todos os códices (ma-
8 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 9

nuscritos pré-colombianos, encontrados principal- códices de outros povos no afã de "reescrever" a seu
monte na área que hoje corresponde ao México cen- favor a história do México central.
tro-meridional). Mais grave ainda, a conquista e as Podemos dividir em três grandes grupos os
primeiras fases da colonização significaram a des- documentos de que dispomos para o estudo da anti-
truição física da maioria absoluta dos índios, através guidade americana. O leitor constatará facilmente
de epidemias repetidas, escravidão e trabamos for-
que a região melhor aquinhoada é a que os arqueó-
çados diversos, confisco de terras, ruptura violenta
logos batizaram como "Meso-América" (boa parte
da organização social, familiar, religiosa, cultural.
do México, Guatemala, E l Salvador e porções de
Entre os milhões que morriam, desapareceram mui-
Honduras, Nicarágua e Costa Rica atuais).
tos sábios portadores da tradição de civilizações mo-
ribundas. Tudo isto limita muito a quantidade de Consideremos, em primem) lugar, as fontes dis-
informação que se pôde recolher sobre as últimas poníveispara toda a América. São os restos arqueo-
etapas da historia pré-colombiana. lógicos, os textos em línguas europeias redigidos por
conquistadores, cronistas, missionários, funcionários
problemas de^interpretação: nas regiões indí-
reais dos primeiros tempos da colonização; às vezes
genas e m e s t i ç a s da A m é r i c a , ^ t r a u m a M c w q u l s t a
também tomos obras de escritores indígenas e mes-
e da colonização se prolonga até hoje, expressaridõ-se
na oposição entre "hispanistas" e "indigenistas", tiços em línguas europeias e documentos legais (rela-
apologistas respectivamente da obra civilizadora ibé- tivos à terra, por exemplo) das colónias incipientes.
rica e do passado indígena. E m ambos os casos, são O próprio mapa linguístico da época da conquista,
posições unilaterais, distorcidas e idealizadas. E m quando é possível reconstituí-lo, torna-se fonte de
certos países, quase se teria a impressão de que polé- grande interesse.
micas coloniais — Sepúlveda versus L a s Casas, Sar- E m seguida, h á fontes disponíveis principal-
miento de Gamboa versus Garcilaso de la Vega — mente para a Meso-América e a zona andina central
ainda não terminaram... (Peru, Bolívia, partes do Equador, do Chile e da
Argentina). Referimo-nos a textos em línguas indí-
Ê verdade, no entanto, que a conquista não
genas, provenientes da tradição oral, fixados com
pode explicar tudo..Os tipos possíveis de testemu-
caracteres latinos depois da conquista. Merece men-
nhos variam também segundo os graus de evolução
ção especial, neste ponto, o imenso trabalho de Ber-
social do povos pré-colombianos de todas as épocas.
nardino de Sanagun no México.
Houve, enfim, destruições deliberadas de documen-
tos históricos, por razões políticas, antes da chegada Finalmente, temos as fontes só disponíveis para
dos europeus. Assim, os astecas destruíram velhos a Meso-América: códices ou "livros de pinturas",
dos quais s ó quarenta são pré-colombianos, e outros.
10 Ciro Flamarion S. América Prê-Colombiana 11

do século X V I , mas feitos segundo a tradição indí-


eliminar as deformações induzidas por uma docu-
gena; e inscrições, principalmente na zona maia,
mentação de origem europeia ou de europeus resi-
ainda não totalmente decifradas na atualidade.
dentes (criollos), nascidos na América. Apoia-se ao
Tendo em vista a natureza das fontes disponí- mesmo tempo em métodos históricos _e antropoló-
veis, que métodos podem ser aplicados ao estudo da gicos.
história pré-colombiana?
Por fim, para os séculos que precedem imediata-
O único método universalmente aplicável ao
mente a conquista, em certas regiões privilegiadas —
passado indígena da América é o arqueológico, mais
como é o caso do México central —, o método histó-
exatamente o da arqueologia pré-histórica. Trata-se rico no sentido tradicional ou estrito, baseado em
lia. reconstituição de culturas desaparecidas através documentos escritos que procedem do passado pré-
dos vestígios materiais por elas deixados (esqueletos colombiano ou da fixação da sua tradição oral, é pos-
dos homens, ou dos animais de que se alimentavam; sível, embora os historiadores tenham de se apoiar
restos de casas, túmulos, templos; artefatos e objetos igualmente nos resultados da arqueologia e da etno-
diversos: cerâmica, esculturas, instrumentos agríco- história.
las e outras ferramentas, etc), obtidos em muitos
Deve ficar claro, porém, n ã o ser possível para
casos através de escavações realizadas segundo mé- qualquer período pré-colombianõ ja construção de
todos sofisticados, e interpretados com apoio em um saber histórico comparável ao que possuímos
uma tecnologia avançada (datação pelo carbono 14, acerca da Grécia ou Roma antigas,, por exemplo, já
palinolõgia ou estudo dos pólens fósseis para recons- que estas são civilizações para as quais podemos
tituir floras desaparecidas, métodos estatísticos^ ete-*- dispor de multo mais documentação escrita, possibi-
e em algum sistema teórico acerca dos^aspectos dinar litando uma visão bem mais detalhada dos processos
micose^strutuiais_das^ e estruturas. Mutatis mutandis, a situação do conhe-
""^Outra metodologia muito importante para os cimento histórico acerca da América pré-colombiana
estudos pré-colombianos é a da etno-história. Esta se assemelha à do qtle.se refere à ÂWçaJSfegra pré-
foi, a princípio, uma espécie de etnografia descritiva, colonial, inclusive najdeformação produzida por uma
aplicada retrospectivamente às fontes da época da distribuição muito desigual dos trabalhos dos espe-
conquista e dos primeiros tempos da colonização. cialistas no tempo e no espaço: h á regiões e períodos
Hoje é algo bem mais sério e interessante: o uso muito frequentados, enquanto outros permanecem
critico de documentos diversos para a reconstrução quase desconhecidos.
jlas- estruturas económicas, sociais, políticas e mte-
lectuais dos diversos grupos indígenas, tratando de
América Pré-Colombiana 13

Q U A D R O 1 — Cronologia da última glaciação do Pleistoceno ou Qua-


ternário (Wlsconsln) na América, segundo Bosch Gimpem.

Tempo Fases mais Fases menos Fatos da pré-história americana


(anos a. C.) frias (ou frias
glaciares) (retiradas
glaciares)
50000-45000 Altoniense América provavelmente ainda
45000-40000 Scarborough despovoada.
40000-30000 Farmdale Início do povoamento da
30000-25000 Talbot América (?).
SOCIEDADES PRÉ-AGRICOLAS 25000-23000 Iowa Poucos sitios arqueológicos
23000-20000 Peoria datados, como TIapacoya, no
México e Pikimachay, no Peru.
20000-18000 Tazewell I
18000-16000 Hackensack

O povoamento da América 16000-15000 Tazewell I I


15000-14000 New Haven Entrada de caçadores superiores
14000-13500 Caryl por Bering/corredor do
Esteie uma questão que permanece sem solução Mackenzie (?). A ponta de
13500-13000 Springfield
cabal, em parte pela quantidade ainda insuficiente e projétiJ de Muaco (Venezuela)
foi datada entre 14400 a. C. i :
13000-12000 Caryll
pela grande dispersão dos achados arqueológicos de 400 e 12 300 a. C, ± 500.
12000-11000 Brattelboro
restos humanos e implementos anteriores ao século
1
X a. C . Tem início a difusão das pontas
11000-10000 Carylll
Talvez convenha resumir* antes de mais nada, de proj étil da tradição chamada
Plano.
os pontos sobre os quais há hoje um consenso geral,
Inicia-se a difusão das pontas de
pu quase geral. São elesj_ 1) a impossibilidade de 10000-9100 Two Creeks projétil da tradição chamada
u
HÍ5?JSy^ Ç.l2 autóctone do homem ter-se produzido Uano.

na América: todos os esqueletos humanos até agora 9100-8800 Valders


Apogeu do Paleolítico Superior
americano.
encontrados têm. quando muito algumas dezenas de
8800-6000 Grande reti- Transição do Paleolítico
rada: fim da Superior ao Mesolítico. Início
glaciação e da domesticação de plantas
(1) O sistema de datação mais usual hoje em dia é o que toma passagem (Meso-América, 7000 a. C ) .
como referência o nascimento de Cristo, diferenciando a partir dai as do Pleisto-
ceno ao Ho-
datas antes de Cristo (a. C . ou a. de J . C . ) e as datas depois de Cristo ( d .
loceno.
H d. de J . C , ou ainda a. D . , do latim anno Domini: " â n o d o Senhor").
——
QUADRO 2 — A s grandes etapas da pré-história (muito simplificado).
Características Cronologia no Cronologia na
Velho Mundo América
1?parte: Só a Africa é povoada; ao Ho-Do aparecimento do Homem
mo hábil is atribui-se a chamada Peb- (5 milhões de anos atrás, se-
ble culture, com seus toscos talhadores gundo R. Leakey) até um mi-
de pedra. O homem é caçador-coletor lhão de anos antes do presente;
nào-espeeializado e não conhece o fo- os vestígios se tornam mais
go. abundantes a partir de uns 2
rn^h^fff de anos atrás.
2? parte: O homem povoa a África, aDe um mUh&o de anos atrás
metade sul da Eurásia e a Indonésia. a 100000 anos antes do presen-
Ao Homo erectus, ou Pitecantropo, as- te» aproximadamente.
socia-se a fabricação de artefatos de pe-
dra com duas faces trabalhadas e, mais
tarde, de artefatos de lascas. Mais da-
dos a partir de meio milhão de anos
atrás, quando possivelmente surge o
controle do fogo.
Médio Ao Homo sapiens neanderthalensis e Na América, talvez a
De 100000 a 40000 anos atrás, partir de 40000 a. C ,
outros tipos humanos seus contempo- aproximadamente.
râneos atribui-se uma indústria lítica penetram caçadores-co-
letores não-especializa-
chamada Musteriense, mais. aperfei-
çoada e diversificada do que as do Pa- dos, com instrumental 3

i
leolítico Inferior. Têm início a caça di- lítico tosco, mas já per-
reta de animais grandes, ávida em ca- tencentes ao tipo Homo
vernas (com a glaciação), os enterros sapiens sapiens (que co-
organizados e o culto a crânios de ur- meça no Velho Mundo
sos. no máximo há uns50000

I3
anos).

f
Superior Ao Homo sapiens sapiens se associa De 40000 anos atrás a entre Aproximadamente entre
uma série de Indústrias líticas de alta 11000 e 9000 a, C. aproxima-
f 11000 a. C. (talvez bem
qualidade e diversificação, incluindo damente. antes: ponta de Muaco) e
postas de projétQ, e uma indústria de
g
8 800/6 000 a. C. i
osso e marfim (arpões, agulhas, etc).
Apogeu da grande caça especializada.
Primeira arte conheci da. 3
o*
, Meso- No Velho Mundo, aparecimento de mi- Começa entre 11000 e 9000 Na América, começa en-
Utico crolitos (instrumentos de pedra de di- a. C. aproximadamente, mas tre 8800 e 6000 a. C.
mensões muito reduzidas), difusão do sua cronologia é muito variável aproximadamente; tam-
arco eflecha,primeiras embarcações segundo as regiões, havendo bém neste caso a crono-
arqueologicamente comprovadas. Na até hoje grupos ainda mesolíti- logia é variável segundo
América as indústrias líticas são dife- cos no seu modo de vida. as regiões.
rentes. Mas o mais importante 6, no
mundo todo, uma diversificação dos
modos de vida, conduzindo em certos
casos aos primórdios da agricultura.

Neo- Difusão da vida agrícola e das aldeias. No antigo Oriente Próximo a- O surgimento de um mo-
Utico Aparecimento ou difusão da cerâmica, siático já havia aldeias plena- do de vida plenamente
da tecelagem e do polimento da pedra. mente neolíticas por volta de neolítico na América foi
Nos casos maisfavoráveis,os grupos 7000 a. C. muito gradual. Nas re-
humanos neolíticos se tornam sedentá- giões mais avançadas, a
rios (coisa rara entre os grupos caça- generalização das al-
dores, coletores ou pescadores). deias agrícolas sedentá-
rias se dá por volta de
2000 a. C.
16 Ciro Flamarion S. Cardos América Pré-Colombiana 17

milhares de anos, sendo do tipo totalmente atual


chay, no P e r u , 19600 ± 3000 anos atrás, entre
(I$Qmo sapiens sapiens), ao qual se atribui no Velho
outros sítios), e t a m b é m n a medida em que se esta-
Mundo u m a antiguidade de no m á x i m o cinquenta
belecem h i p ó t e s e s sobre a m i g r a ç ã o asiática vincu-
m i l anos, e por outro lado n ã o h á restos de grandes
ladas à s fases do ú l t i m o f e n ó m e n o glaciar do Q u a -
primatas fósseis no continente americano; 2) a rota 2
ternário ( g l a c i a ç ã o chamada de W ú r m no Velho
que conduz d a à s i a à A m é r i c a do Norte, seja pelo
M u n d o e de Wisconsin n a A m é r i c a ) , é hoje fre-
que é hoje o estreito de Bering, seja pelo, atual
quente achar nas sínteses interpretativas u m a anti-
a r q u i p é l a g o das Aleutas, é considerada o caminho
guidade m á x i m a p a r a o primeiro povoamento que
principal (para alguns, o ú n i c o ) e mais antigo das
varia entre 20 e 40000 anos atrás (contra os 5 0 0 0
m i g r a ç õ e s povoadoras da A m é r i c a ; 3) admite-se
anos apenas que admitia Hrdlicka). O escavador do
atualmente u m a antiguidade muito maior ao i n í c i o
sítio de O n i o n Portage, no A l a s c a ( D . D . Ander-
desse povoamento — aceita-se, em especial, que
son), atribui u m a antiguidade de no m á x i m o 15000
houve u m P a l e o l í t i c o americano — do que pensa-
anos ao complexo cultural mais antigo que desco-
v a m . no c o m e ç o deste s é c u l o , s á b i o s como Ales
briu ali, perto de Bering, mas isto n ã o é, como vere-
H r d l i c k a ou W i l l i a m H * Holmes; 4) embora neste
mos, u m a prova concludente, j á que, se a rota d a
aspecto o consenso seja menos geral, 'muitos espe-
primeira m i g r a ç ã o foi costeira e n ã o continental,
cialistas acreditam que o povoamento se fez em di-
seus restos e s t ã o hoje sob o m a r , cujo nível subiu
Versas ondas e no curso de longos p e r í o d o s , contra a
desde a fase final da ú l t i m a g l a c i a ç ã o .
ideia anterior d a entrada ú n i c a de u m grupo de
Acreditava-se, ao c o m e ç a r o s é c u l o , que os po-
migrantes racial e culturalmente h o m o g é n e o s .
voadores d a A m é r i c a tivessem vindo da à s i a pelo
Quanto à antiguidade m á x i m a do povoamento,
caminho de Bering, sendo todos pertencentes à r a ç a
a a p l i c a ç ã o do m é t o d o de d a t a ç ã o pelo carbono 14
m o n g o l ó i d e . Isto apesar de que P . W . L u n d havia
proporcionou datas seguras e numerosas p a r a o s é -
culo X a. C . T o d a s as datas mais antigas foram,
p o r é m , contestadas ou pelo menos postas em d ú v i d a
(2) As glaciações são fases da história de nosso planeta durante as
em maior ou menor grau. Pouco a pouco, contudo, quais, por razões ainda mal explicadas — as hipóteses a respeito são
n a medida em que algumas datas v ê m obtendo u m variadas -7-, atemperaturamédia baixa consideravelmente, provocando
consenso consideravelmente amplo (Tlapacoya, no nas altas latitudes continentais a acumulação de grandes geleiras, e nas
zonas tropicais o aumento das chuvas. Durante a era geológica chamada
M é x i c o , entre 21700 ± 500 e 24000 ± 4 0 0 0 anos Pleistoceno ou Quaternário, começada há uns dois milhões de anos,
atrás — a cifra depois do sinal i indica a margem houve quatro glaciações, separadas por períodos inter-glaciares quentes;
de erro possível p a r a mais ou p a r a menos; P i k i m a - o Holoceno, período geológico em que vivemos, segundo alguns não
passa de uma fase inter-glaciar.
18 Ciro Flamarion S. Cardoi
América Pré-Colombiana 19

descoberto (por volta de 1840) e S. Hansen estudado


continente americano ao começar a conquista euro-
(1888) o "homem de Lagoa Santa" (Minas Gerais),
peia. O esquema de Rivet foi substituído por outros,
relativamente antigo^atribui-se-lhe hoje uns dez mil
mais apoiados na arqueologia, baseados por exem-
anos), o qual nada tem de mongolóide. Agora, ao
plo nas m u d a n ç a s de tecnologia: é verdade que um
aceitar-se u m a antiguidade maior para o povoa- novo elemento técnico pode provir de invenção para-
mento do continente, é inclusive absurdo insistir na lela, do contato cultural ou comercial sem migra-
unidade mongolóide dos povoadores, j á que n ã o ção, ou da migração de grupos numericamente ínfi-
existiam mongolóides quando se iniciou a migração, mos. Parece bem estabelecida, através de numero-
mas apenas p r é ou proto-mongolóides, ou seja, um sos indícios culturais, a ocorrência de contatos através
estoque racial menos especializado, do qual mais do Pacífico: estes seriam tardios, posteriores a 3 000 a.
tarde evoluiriam os mongolóides atuais, (que pare- C , e talvez se tenham dado em diversas ocasiões,
cem constituir u m a especialização bastante recente até fins da era pré-colombiana.
às condições de frio extremo da Ásia Setentrional).
A América pode ser atingida pela região do
Os proto-mongolóides que passaram à América vi-
estreito >ée Bering, pelo Atlântico e pelo Pacífico
veram aí em condições de meio-ambiente muito va-
(para n ã o mencionar a hipótese antartica de Men-
riadas durante milénios, sendo altamente provável
des Correa). Sabe-se que os vikings colonizaram a
que tenham sofrido m u t a ç õ e s e variações genéticas, Groenlândia (séculos X - X V I d. C . ) e ¥tíngirartr~a
paralelas às que estavam ocorrendo na Ãsia. Por ou- América do_Norte, sem ter tido impacto discernível
tro lado, ondas mais recentes de povoamento asiá- sobre as culturas i n d í g e n a s / P r e t e n d e u - s e igualmen-
tico podem, sem dúvida, haver trazido à A m é r i c a te postular um povoamejnto pré-históricõ através da
mongolóides autênticos. navegação transatlântica_na época do Magdaleni-
A ideia de um povoamento heterogéneo em di- jgñse europeu (por volta de 12000 a. C ) , hipótese
versas ondas, defendida entre outros por Paul Rivet que repousa em bases muito frágeis, como t a m b é m a
(para quem tais ondas seriam: asiática, australiana, que menciona possíveis influxos negroides africanos.
melanésia e polinésia), recebe algum apoio de ele- Já vimos que os contatos transpacíficos são indubi-
mentos derivados do estudo linguístico. Parece difí- táveis, mas tardios: além disto, podem ter-se dado
cil, se se partir da ideia de u m único movimento tanto no sentido oeste-leste quanto no sentido con-
migratório h o m o g é n e o , explicar como, em poucas trário. Quanto ao caminho principal, o de Bering,
dezenas de milénios, se formaram as duas mil e como n ã o está provada a existência h á 40000 ou
seiscentas línguas, pertencentes a diversos grupos mesmo 20000 anos atrás de embarcações capazes de
linguísticos (alguns j á residuais), que existiam no atravessar o estreito, a maioria dos pesquisadores
20 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 21

vincula as primeiras migrações à última glaciação, passado à América: vários autores defendem corre-
quando a água retida nas geleiras continentais fez lações culturais segundo esta hipótese. Falta ainda,
baixar o nível do mar, aparecendo n a região do de fato, um estudo sistemático de tipo comparativo,
estreito e das ilhas Aleutas todo um subcontinente, e em grande escala, dos utensílios pré-históricos de
a "Beríngia". C . A . Chard, C . J . Heusser e P. ambos os lados do estreito de Bering (na linguagem
Bosch Gimpera sugerem que possivelmente devemos técnica da arqueologia, tratar-se-ia de uma análise e
distinguir duas rotas: uma, costeira e mais antiga correlação multivariável de artefatos e complexos).
(talvez durante a fase glaciar de Farmdale, entre
40000 e 30000 a. C ) , seguida por caçadores e pes-
cadores adaptados a um ambiente ártico de tundra,
que pelo sul da ponte de Bering ou pelas Aleutas Existiu na América uma etapa cultural
passaram ao sul do Alasca, contornando o que é anterior ao Paleolítico Superior?
hoje o litoral do Canadá e chegando ao oeste dos
atuais Estados Unidos; a outra, interior e posterior, Há muita discussão a respeito de saber se, an-
de caçadores avançados j á providos de projéteis com teriormente aos caçadores especializados de-grandes
ponta de pedra, numa fase de parcial retirada gla- animais, armados de projéteis com ponta de pedra,
ciar (talvez a de New Haven, entre 15000 e 14000 a AméjigajBMÜiejara uma etapa cultural cuias carac-
a. C.)» quando se abriu o corredor do Mackenzie, terísticas seriam : 1) o caráter tosco e não-especiali-
interrompendo localmente a barreira das geleiras z ã d o d o s utensílios (pedras talhadas por JoercussãcLe.
continentais: estes novos povoadores teriam avan- n ã o _ p M j ^ s s â o ) c o m a u s ê n c m d e p o n t a s deprojétil
i

çado do norte canadense ao centro dos Estados Uni- de pedra, e portanto da possibilidade de atacar
dos de hoje. Ê interessante notar que, na atuali- frontalmente osjgrajjdes mamíferos, furando a sua
dade, o estreito de Bering às vezes se congela e pode aura pele; 2) um modo de viò^baseado na coleta e
ser atravessado a pé. lu^çaça não-especializadas (subsistênciajdependente
A questão de determinar o nível cultural dos da_coleJa_de frutas, raízes, animais pequenos^iilho-
primeiros povoadores é objeto, j á o veremos, de tes, animais grandes doentes ou então.caçados por
grandes polémicas, complicadas pela insuficiência meios iridiretos, fazendo-os cair em armadilhas.
de conhecimentos sobre a pré-história da Sibéria a ãt5Sa^r?se~e^^ântànõs etc.); 3) uma densidade_de
t

leste do rio Lena. Ê verdade, aliás, que nada im- população muito bajxa, _devido ao nível primitivo
pede que grupos humanos do Sudeste Asiático e da ç ^ f o r ç a T ^ o ^ t r i r a s , o que se reflete, no registro
China, subindo pela costa da Ãsia, hajam também arqueológico, em um nújãero pequfinoJ[se compa-
22 Ciro Flamarion S. Cardosi América Pré-Colombiana

rado com o de fases seguintes) de sitios pré-histó- t ê n c i a dessa etapa cultural americana prévia ao P a -
r i c o s ^ u e possam ser atribuídos a esta etapa. leolítico Superior.
A s provas a r q u e o l ó g i c a s disponíveis para afir- Ao aceitar-se isto, surge de imediato outro pro-
m a r a e x i s t ê n c i a de tal etapa cultural sao a t é agora blema. N a E u r o p a , no Oriente P r ó x i m o e n a Africa,
mais numerosas n a A m é r i c a do S u l , mas t a m b é m as t é c n i c a s anteriores ao P a l e o l í t i c o Superior apa-
existem no que hoje s ã o o M é x i c o e os Estados U n i - 4
recem associadas a h o m i n í d e o s f ó s s e i s (Homo ha-
dos. A s d ú v i d a s permanecem devido a u m a série de
bilis, Homo erectus, o Homo sapiens neandertha-
fatores: 1 ) c e r t o s s í t í o s que_sfi-pretende atribuir a t a i
lensis e seus c o n t e m p o r â n e o s ) . O r a , j á vimos que n a
ç t a p a são__superficiais, impedindo u m a d a t a ç ã o con-
A m é r i c a n ã o h á qualquer sinal de tais h o m i n í d e o s
fiJyjeJ¿je^utao^mü^a_toram datados;.2) em certos
anteriores ao Homo sapiens sapiens. Ocorre, p o r é m ,
casos fez-se a d a t a ç ã o pelo carbono 14, que indicou
que a às i a meridional e oriental apresentava, no
grande antiguidade, mas tais dalas foram depois
P a l e o l í t i c o , u m caráter conservador na sua tecno-
revistas ou postas em dúvida; 3) ás vezes a d a t a ç ã o 5
logia l í t i c a : o Paleolítico Superior siberiano, por
do^lítio ~è segura, mas contesta-se que os artefatos
descpÍjertofo.SfiJ am
de fato: seriam apenas-forma- exemplo, s ó se desenvolveu em fase c r o n o l ó g i c a ab-
ç õ e s naturais 4e pedra, n ã o - d e v i d a s à f a b r i c a ç ã o soluta correspondente ao M e s o l í t i c o europeu. A s -
humana; 4) muitos sítios, s ã o t ã o pobres que n ã o é sim, teria havido simplesmente u m a t r a n s f e r ê n c i a à
p o s s í v e l afirmar a a u s ê n c i a de elementos do Paleolí- A m é r i c a de u m atraso t e c n o l ó g i c o (e no modo de
tico Superior (pontas de projétil, por exemplo) com vida) j á presente nas r e g i õ e s de origem dos primei-
qualquer certeza^ n ã o sendo representativa a amos- ros migrantes.
tra que proporcionam; 5) finalmente, grupos huma-
nos tecnicamente a v a n ç a d o s j ? o d e m _ f a b r i c a r , p a r a
certos fins^jitensííios ae a p a r ê n c i a tosca: n ã o s ã o
propriamente a r c a í s m o s , e - ^ i m ^ ^ s i f f i B o de que
necessidades semelhantes, ao voltarem a aparecer,
levaram a respostas t é c n i c a s parecidas. (4) Chamamos hominídeos a um grupo de mamíferos da ordem
dos Primatas que inclui o homem atual (Homo sapiens sapiens) e seus
No conjunto, p o r é m , o ceticismo tem dimi- predecessores fósseis em linha direta, além de alguns ramos colaterais
n u í d o , e cada vez mais especialistas aceitam a exis- extintos sem descendência, como os Australopitecus da Africa.
(5) Formas de fabricação de objetos ou utensílios de pedra. O
homem pré-histórico usava madeira e outras matérias-primas além da
>^(3) Sítio pré-histórico é uma localidade na qual foram encon- pedra, mas só esta se conservou no registro arqueológico na maioria dos
casos, sendo por tal razão tomada como critério de classificação dos
trados restos arqueológicos de assentamentos humanos da Pré-Histôria. grupos humanos da Pré-História.
24 Ciro Flamarion S. Cardoso

v O Paleolítico Superior
Se a fase precedente é objeto de controvérsia,
Jioie n i n g u é m duvida de que, durante vários m i l ê -
nios, principalmente entre T T 0 0 0 e 7 000 a. C, e m
varias partes do continente americano, grupos hu-
manos dotados de u m a tecnologia lítica que i n c l u í a
as pontas de projétil hajam c a ç a d o grandes animais
a t u a í m e n t e extintos, do V£noâo PleistocenoV-ma^
mutes: b i s õ e s , cavalos e camelos fósseis; megatérjos^
mastodontes, etc..
^ ^ _ e x ^ c n e d o s _ r e s t o s ^ r 4 u e o l ó g i c i ^ correspon-
dentes a este P a l e o l í t i c o Superior americano mostra
principalmente o seguinte: 1) a proliferação dos sij
tios^jnpUcarido maior densidade demogrârTca em
f u n ç ã o de u h j ã Tecnologia mais eficiente; 2) u m a
s u c e s s ã o de tipos de pontas de projétil e outros arte-
f a t o ^ ^ ^ ^ m ^ c í u m a diversidade ou r e g i o n a l i z a ç ã o
c a d a vez maior dos complexos t é c n i c o s ; 3) a persjs-
t ê n c i a j > a r a l e l a d a antiga t r a d i ç ã o l í t i c a j j g a d a à c a -
Ça. c coleta n ã o - e s p e c i à T i z a d a s _ d a etapa anterior,,
com m o d i f i c a ç õ e s .
Discute-se muito a q u e s t ã o d a origem das pon-
tas de projétil americanas: d i f u s ã o a partir d a à s i a
ou i n v e n ç ã o independente n a A m é r i c a ? A ú l t i m a
h i p ó t e s e parece mais provável, por r a z õ e s tipológi-
cas e c r o n o l ó g i c a s , em particular p a r a as pontas
altamente especializadas da tradição c h a m a d a Lla-
no (Clóvis, Folsom, Scottsbluff, e t c ) , podendo-se
admitir u m a origem asiática p a r a o tipo mais gene-
ralizado (ou seja, menos especializado) e aparente-
26 Ciro Flamarion S. Cardoso América Pré-Colombiana 27

mente mais antigo de pontas, ligado à tradição cha- modo de vida pode ser classificado como baseado
mada Plano. Porém, certos autores (Cruxent, Bren- sobretudo n a coleta de plantas e animais e n ã o n a
nan) postulam uma invenção sul-amerícana — n a caça especializada, embora o grupo ali residente dis-
atual Venezuela — das primeiras pontas de projétil pusesse de pontas de projétil e sem dúvida também
(sítio de Muaco, entre 14400 a. C . ± 400 e 12300 caçasse.
a. C . ± 500; fase contemporânea do sítio de C a -
Devemos, pois, imaginar dois conjuntos pan-
mare). Já as pontas Llano, mais aperfeiçoadas e
continentais de complexõ^Kticos, refletindo dois mo-
especializadas, t ê m o seu centro de difusão, a partir
dos de jjida básicos (caça e coleta generalizadas por
de aproximadamente 10000 a. C , n a região norte- ^um j^dò7~caça_es^e3al!jzada por outro lado), mas
americana que se estende do leste do Arizona até o evidentemente sob mútua influência. E m particular,
noroeste do Texas e o sul do Wyoming, daí pas- os grupos dedicados ao modo de vida menos especiali-
sando ao resto da América do Norte, ao M é x i c o e — zado — provavelmente mais antigo — em muitos
em forma modificada (com p e d ú n c u l o e à s vezes em casos adotaram u m a tecnologia mais avançada do
forma de "rabo de peixe") e em menor densidade — que aquela de que dispunham no passado.
chegando à extremidade meridional da América do
Sulf

^-Pesquisas como as de MacNeish e sua equipe no


vale mexicano de Tehuacan mostram que seria er- O Mesolítico
rado imaginar este período como se todos os habi-
tantes da América fossem principalmente caçadores C O _ j i m do_último período glaciar, marcando o
de animais grandes. E m certas áreas, os grandes início d a transição entre o Pleistoceno e o Holoceno
herbívoros pleistocenos parecem ter sido o ú n i c o re- ou período geológico atual, c o m e ç o u na América
curso natural amplamente disponível (para os que c õ m j l r a s o em relação à Europa, entre 8800 e 7 000
dispusessem das técnicas adequadas), ou pelo menos a. C . Por volta de 6000 a. C , complefôu-se a reti-
eram um recurso tão abundante que chegava a inibir rada das geleiras e abriu-se uma fase quente e seca
a exploração de outros tipos possíveis de alimentos, que se prolongou até 3000 a. C . Aproximadamente
devido à alta produtividade da caça especializada. em 2500 a. C , a situação climática se tornou muito
E m outras regiões americanas, porém, uma tal espe- semelhante à atual. O j j j x e L d a mar, com a retirada
cialização seria impossível ou pouco produtiva. As- das__grandes geleiras continentais, subiu gradual-
sim, em Tehuacan, durante a fase que os arqueó- mente a t é 3 0 0 0 a . C . , terminando 5 ^ c o b r i r á s plata-
logos chamaram "Ajuereado" (10000-7200 a. C . ) , o fórmas continentais, nas quais suB|iu um ambiente
28 Ciro Flamarion S. Cardoso América Pré-Colombiana 29

propício à multiplicação de moluscos, crustáceos e


anteriormente, e que se mantiveram em certas re-
peixes, em zonas marinhas mais rasas (antes, du-
giões, com modificações — coleta e caça generali-
rante o auge da glaciação, passava-se abruptamente
zadas; caça especializada — , outras v ê m juntar-se:
do litoral a grandes profundidades marinhas, es-
exploração especializada de moluscos e outros recur-
tando a plataforma continental a descoberto). A fau-
sos marinhos, pesca marinha ou fluvial, coleta vege-
na típica do Pleistoceno sofreu u m lento processo de
tal especializada, etc. Por outro lado, a n ã o ser o
extinção, posterior ao europeu. T a l processo j á i a
modelo ártico baseado na caça de mamíferos mari-
avançado por volta de 7 000 a. C . (embora na região nhos e na pesca, muito especializado por razões liga-
costeira do Rio Grande do Sul vivessem megatérios, das a um meio ambiente peculiar, os diversos modos
cavalos fósseis, mastodontes e outros mamíferos do de subsistir t a m b é m se misturaram em muitos casos
Pleistoceno em 5000 a. C , e por mais que ainda e em graus diversos.
houvesse mastodontes no Ohio, Michigan e Indiana
/ / O velho modo de vida baseado na caça e coleta
em 3500 a. C ) . A flora t a m b é m se modificou, lenta
generalizadas se manteve sobretudo em regiões de
mas radicalmente, em muitas regiões.
bosques. Tratava-se de combinar um grande n ú m e r o
Evidentemente, todas estas transfoxniações—te- de alimentos selvagens vegetais e animais, procu-
riam por forca Que suscitar m u d a n ç a s de peso_no rando a garantia de u m a dieta suficiente e equili-
mõdodevi^^ dos habi- brada ao longo das diversas estações do ano.' 1

l£hieíf<l<M^ A caça especializada desenvolveu-se nos planal-


foram r^pjentinaSjrnas^^ tos do Canadá, antes cobertos pelas geleiras, mas
«ertas~z«nas_da^Unériç4^ E m ter- agora por prados; continuou predominando até mais
mos globais, p o r é m , n ã o h á dúvida de que a grande ou menos 5 000 a. C . em vastas regiões canadenses e
caça especializada recuou entre 7000 e 3000 a. C , dos Estados Unidos e M é x i c o atuais, a t é que a deser-
em favor de uma diversificação e regionalização cres- tificação a tornou impossível no sudoeste norte-ame-
centes dos modos de vida e das culturas pré-histó- ricano e em partes do M é x i c o . Mas na Patagônia,
ricas, reveladas pelo registro arqueológico. Nisto o por exemplo, continuou existindo até a chegada dos
Mesolítico americano se parece com o da Europa, europeus.
embora o mesmo n ã o ocorra no plano das tipologias
/ / A exploração especializada de recursos aquá-
de artefatos (os "microlitos" típicos do Mesolítico
ticos deu lugar a modos de vida variados, baseados
europeu s ó apareceram, depois de 5000 a. C , nas
na pesca marinha e fluvial (pesca do salmão no rio
regiões árticas da América).
Colúmbia, pesca marinha n a costa do Peru e do
À s modalidades de subsistência que j á existiam r
Chile, etc.)} e na coleta de moluscos, responsável
30 Ciro Flamarion S. Cardoso América Pré-Colombiana 31

pela formação de "restos de cozinha'* que, amon- tas norte-americanos, adaptando o esquema de L . H .
toando-se, formaram os sambaquis em muitas re- Morgan para adequá-lo às descobertas da etnologia e
giões costeiras do Atlântico e do Pacífico, tanto na da arqueologia nos últimos cem anos, abandonaram
parte norte quanto na meridional do continente. A l - ,t
a noção d e ^ j o r d a pnmitiva j)ara a caracterização
guns sambaquis são bastante antigos, com 9000 anos dos grupos de caçadores e coletores, suJ>stituindo-a
ou mais, enquanto a pesca especializada parece ser pèTã~de"bando*'.
mais recente (estabelece-se entre 5 000 e 4 000 anos TJñTbando é sobretudo uma associação residen-
atrás, e às vezes bem mais tarde). cial de famílias nucleares ou restritas, segundo um
_
A coleta vegetal especializada caracterizou diver- sistemaexogâmicc^éviriíocaíHos homens 3eum ban-
sas partes do México e o sudoeste dos Estados Uni- do devem buscar esposas_em outros bandos, e estas
dos, além de uma porção da zona andina centro- vêm residir no bando dos maridos). O fundamento
meridional da América do Sul. E m certos casos, económico do bando é a divisão do trabalho segundo
p
surgem no registro arqueológico moendas de pedra e osexo, sendo a caça uma, atividade mascai" * (
também os indícios dos primórdios da agricultura. cooperativa) e a Cj3letar-uma-^jvid^e^mm4na.4e
Por fim, temos o modo de vida dos esquimós, ou imiividual). Os direitos de uso sobre os territórios de
ártico, baseado na caça do caribu e de mamíferos caça e coleta são coletivosi. O produto da caça sofre
marinhos e na pesca. um processo de redistribuição imediata, de circu-
A arqueologia reflete a grande variedade das lação instantânea, segundo regras de reciprocidade,
modalidades de subsistência — muitas das quais de tal forma que todo membro do bando se beneficia
continuaram vigentes em certas regiões americanas (em maior ou menor grau) com cada animal abatido
até a conquista ou mesmo até hoje — e também a e, no conjunto, cada família recebe uma quantidade
diversificação e regionalização j á mencionadas dos equivalente. Já o produto da coleta (vegetais, peque-
complexos líticos, sinal de uma crescente estabili- nos animais) se destina em princípio a cada família.
zação de dados grupos humanos em regiões deli- Os caçadores cooperam entre si. Notou-se que um
mitadas. bando gira, numericamente, ao redor de vinte e cinco
pessoas na maioria dos casos, o que significa de seis a
oito homens adultos formando um grupo de caça. Os
A organização social bandos correlacionados integram uma "tribo dia-
dos grupos humanos pré-agrícolas letal", com umas quinhentas pessoas: a quantidade
de indivíduos que, nesse nível técnico, podem manter
Os antropólogos e arqueólogos neo-evolucionis- uma identidade comum sem controle político institu-
32 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 33

cionalizado (que inexiste: os bandos são anarquias que pode ser útil; mas difícilmente pode servir de
no sentido etimológico do termo),_atravès de relações base p a r a , a construção de um modo de p r o d u ç ã o
pessoais diretas suficientemente intensas e íntimas. específico/(houve, porém, tentativas nesse sentido:
O nomadismo, implícito neste tipo de organização, cf. por exemplo Jean-Claude Willame, "Recherches
obriga~a -reduzir ao^mínimo os objetosJalDricados e sur les modes de production cynégétique et ligna-
usados. A Base social é o parentesco simples, sem o ger", in L 'Homme et la Société, n ? 19, janeiro-março
desenvolvimento de linhagens, genealogias longas e de 1971, pp. 101-119). Por outro lado, o esquema
•cujtô de antepassados. N ã o h á especialistas de tempo tradicional marxista, com sua "horda primitiva"' e
completo (já_cme todos os adultos se devem dedicar à seu "comunismo primitivo" (ou "comunidade primi-
.obtenção de alimentos), mas pode haver algum co- tiva"), que no fundo inclui sociedades profunda-
mércio entre bandos devido a uma distribuição desi- mente heterogéneas sob uma etiqueta única, exige
gual dos recursos naturais disponíveis para cada uma revisão urgente. A t é agora, porém, n ã o pode-
bando| Idade e sexo são os únicos elementos de dife- mos dizer que os resultados da discussão desenvol-
renciação social,j>ois o poder, baseado na influência e vida nas últimas décadas nesse sentido sejam satisfa-
no prestígio pessoais, n ã o traz privilégios, sendo tórios^
horizontal, ocasional e temporário nas suas formas casos favoráveis, guando a caça abundante
de existência (assim j3ode_-haver o chefe de u m a dw grandes animais ou a pesca ou coÍêta*espêciali-
caçada, um j m g i ã o que dirige o culto por conhecer zadas permitem o surgimento de um excedente eco-
melhoro ritual.» etc.). nômico acima do consumo imediato, é possível, mes-
"5jrà "arqueologia do Novo Mundo mostrou que, mo em sociedades pré-agrícolas, o surgimento da
como em outras partes do globo, o habitat dos caça- orgàmzacJojQibal, mais complexa do que a dos ban-
dores- coletores pré-históricos alterna com frequência dos. Como, no entanto, a generalização das socie-
a concentração em macrobandos, ocupando acampa- dades tribais se d á principalmente com a difusão da
mentos maiores, nos períodos do ano em que a sub- agricultura, deixaremos para mencionar adiante as
sistência, mais abundante, é obtida mais facilmente, características desta forma de organização social.
com a dispersão em microbandos durante os meses
mais d i f í c e i s ^ "
Que dizer sobre o modo de produçãouáojj^ça^_
dores-coletoresIÊA noção de "bando" satisfaz certos c
requisitos para u m a descrição empírica e uma classi-
ficação social em comparação com outros tipos, o
América Pré-Colombiana 35

surgimento de aldeias e da organização tribal avan-


çada, produção de um excedente além do consumo
imediato, etc.)/
Hoje, a noção de "revolução neolítica", sem ser
abandonadaTsofreu diversos ataques que pelo menos
areflativizar am. ~~Em primeiro lugar, tal expressão
1

pode dar a ideia deaTgó rápido e "explosivo", quan-


do na verdade se estendeu por milénios, coisa que é
ainda mais verdadeira na A m è n c a . ^ o r exemplo, em
SOCIEDADES Tamaulipas (nordeste do México atual), entre o V I I e
AGRICOLAS PRÊ-URBANAS o I milénio a. C , a proporção das plantas cultivadas
na alimentação passou de 5 para 5 0 % / E indubi-
tável, porém, que, se recolocarmos as transformações
neolíticas na perspectiva temporal global da pré-his-
tória humana, elas parecerão rapidíssimas compa-
A "revolução neolítica'' e sua difusão radas com os dois milhões de anos (pelo menos) do
' A noção de uma "revolução neolítica", enten- Paleolítico, muito menos ricos — salvo na sua fase
dida como um conjunto vinculado de invenções — terminal (Paleolítico Superior, Mesolítico) — em
domesticação de plantas e animais, cerâmica, poli- invenções e mudanças radicais do que os escassos
mento da pedra, tecelagem —, significando princi- milénios do Neolítico. Por oujxo__la_do, atualmente
palmente a transição de grupos humanos da situação está demonstrado pela arqueologia que não há vincu-
de predadores da natureza à de produtores, foi popu- lação necessária entre as invenções neolíticas (nem ao
larizada h á meio século pelo grande arqueólogo aus- nível de seu aparecimento, nem'He sua difusão a
traliano V , Cordon Childe (ver, por exemplo, O Ho- outros graposklembora seja verdade que os grupos
mem Faz-se a Si Próprio, Lisboa, E d . Cosmos, 1947, humanos que se^ desenvolveram mais foram os que as
pp. 97-142). te verdade que tal autor tinha plena reuniram todasjs. Assim, a cerâmica pode preceder a
consciência de que algumas dessas invenções pude- agricultura (como talvez haja acontecido em algumas
ram preceder o Neolítico pleno, embora só em tem- regiões costeiras do Mar dás Caraíbas); ou, pelo
pos neolíticos encontremos a sua vinculação coerente contrário, pode ocorrer uma longa fase agrícola pré-
num tipo dado de sociedade e em novas possibili- ceramica (como na Meso-América e^jajcosta do
dades abertas aos grupos humanos (sedentarismo, P e n i K ^ a região dos Grandes Lagos norte-ameri-
36 Ciro Flamarion S.
37

canos, grupos de caçadores usavam já instrumentos


de metal (cobre martelado) no I I milenio a. C . A volta de 7 000 a. C . O algodão americano, pertencente
presença de machadinhas de pedra polida está tam- a duas espécies distintas, parece resultar de hibri-
bém demonstrada entre grupos não agrícolas / M a s é dação de espécies selvagens americanas e do Velho
igualmente certo, por exemplo, que a cerâmica"so~se Mundo. E o amendoin, típico da agricultura ameri-
desenvolve plenamente entre grupos sedentarios, cana, também parece ter sido encontrado em sítios
sendo frágil demais para ser transportada constante- neolíticos da China.
mente sem perigo ou mcômodo; além do que, sendo No caso da América, adomesticação de, plantas
uma das suas utilidades básicas a de guardar coisas. ioi incomparavelmentemais rica do que a=de animajs_
>==r
^^gíro!qiie-sftjfl majfl titíl para_ j«j«ftriarie.s que dis: qfflgá*pela ausênciarrmrfauna holocena americana,
põem de estoques e excedentes para armazenar (coi- _ de_gr^^^es mamíferos domesticáveis._De maneira
i

sa muito mais frequente entre agricultores do que simplificada, podemõs3istmguir os seguintes focosdo
enfrejcáçadores, pescadores e coletores). Neolítico americano/l)}t'Meso-América, a partir de
~i Àcreditava-se no passado ter existido um só foco 7000 a. C . aproximadamente, e tendo como domesti-
de desenvolvimento da agricultura e da criação, cações principais o milho, o feijão, a pimenta, a caba-
situado no Oriente Próximo, do qual tais atividades ça, o cacau, uma espécie comestível de cão e o peru;
progressivamente se estenderam, ganhando outros 2) à Zona Andina Central (onde só a costa foi realmen-
ambientes aos quais se adaptaram através da domes- t e estudada quanto às origens agrícolas), a partir de
ticação de novas espécies vegetais e animais,/ Agora mais ou menos 5 000 a. C . , com a batata, a quinoa, a
acredita-se na pluralidade de focos da "revolução cabaça, o feijão, o lhama; 3) è m região e época ainda
neolítica . Ernjoarticular, é hoje bastante difundida não-determinadas (talvez no noroeste da América do
a opinião de ter ocorrido uma invenção da agricul- Sul), foi domesticada a mandioca. As possíveis rela-
tura na América, independentemente do Velho Mun- ções e permutas entre tais focos neolíticos n ã o são
do, embora haja alguns problemas ligados à origem conhecidas, embora haja especulações pouco funda-
botânica de certas plantas e à prioridade geográfica mentadas a respeito.
de sua domesticação. Assim, a mais antiga das espé- Sempre em forma simplificada, podemos dizer
cies vegetais domesticadas no continente americano, que o Neolítico americano, ao difundir-se a partir
a cãb^iÇ(Lagenaria siceraria), não tem um antepas- dos seus focos, originou duas grandes tradições agrí-
sado selvagem na América — ou ainda não foi desco- colas: uma baseada na semeadura, colheita e arma-
berto; além dó mais, era cultivada tanto na periferia zenamento de grãos de cereais e leguminosas (milho,
da Meso-América quanto no Sudeste Asiático por feijão, amaranto, quinoa); a outra, na plantação de
mudas, produzindo raízes e tubérculos (batata, man-
38 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana

dioca, aipim, batata-doce). A Fig. 2 mostra, por outro


lado, à distribuição dos três principais complexos
agrícolas americanos: o andino (no qual o milho teve
desenvolvimento maior só tàrEiamente, desempe-
nhandoji batata um grande p a p e l ã o do predomínio
do milho; e aquele em que predominava a mandioca..
Como a agricultura ganhou no continente americano
meios ambientes naturais e culturais variadíssimos,
deu origem^a sistemas agrários muito heterogéneos,
que se escalonavam desde uma agricultura primitiva
e itinerante, praticada como atividade subsidiária
extensiva de baixa tecnologia por grupos coletivistas
que continuavam sendo basicamente caçadores-cole-
tores, até uma agricultura sedentária, intensiva, tec-
nologicamente iftãis elaborada (por exemplo, utili-
zando a irrigação), e com um esboço ao menos do
desenvolvimento da propriedade privada sobre a
terra. Seja como for, a agricultura antiga do Novo
Mundo apresentava certas deficiências técnicas
quando comparada globalmente à do Velho Mundo:
uso exclusivo da enxada e de bastõe^jipnuffi^^Sura
semear, ausência do arado (talvez por faltarem gran-
des animais domésticos capazes de puxá-lo; o mesmo
fàtor explicaria também o não-súrgimento de_xeí-
culos com rodas); falta de uma associação intima
entre agriculturae criação de gado; não-desenvolvi-
m^to dojiso abundante de rn^ais Para^cOnfêcc3B*oy
instrumentos agrícolas (tal.desenvolvimento foi tar-
dio màTtmportante no Velho Mundo, sendo muitís-
simo menos discernível na América). Fig. 2 — Os complexos agrícolas pré-colombianos. (Fonte:
João Frank da Costa, Evolução Cultural da América Pré-
Partindo dos focos de__seu descobrimento, o Colombiana, Brasília, MEC, 1978, diante da p. 46.)
40 Ciro Flamarion S.

conhecimento da agricultura se difundiu a boa parte


do continente americano: 1) à partir da Meso-Amé- lidade cultural: o Neolítico seria simplesmente a cul-
minação de uma diferenciação e especialização cul-
rica, a porções não-meso-americanas do atual Mé-
turais crescentes dos grupos humanos a fins da pré-
xico e aos Estados Unidos — embora se discuta a
história, e de um conhecimento cada vez mais pro-
possibilidade de umOteolítico jnjfependeníe*__por
fundo das plantas e animais existentes no habitat de
exemplo, no vale do Mississipi; 2) a partir do ponto
cada um desses grupos. L . Binford preferiu buscar a
de origem da mandioca e da Zona Andina Central, à
resposta numa pressão demográfica causada por imi-
Amazonia e depois à região dos ríos Paraná e Para- gração, incidindo negativamente em certas regiões
guai;/^)a chamada "zona agrícola intermediária^', sobre a disponibilidade adequada de recursos pré-
que inclui as partes não-meso-americanas da América agrícolas, surgindo então a agricultura como solu-
Central, as Antilhas e porções da América do Sul, so- ção. Certos autores utilizam tal hipótese em forma
freu a influência conjugada de todos os focos iniciais. modificada, partindo de um crescimento vegetativo
E s t a difusão foi lenta: à bacia do Paraná-Paraguai, da população e não da imigração. Já K . Flannery
por exemplo, a agricultura só chegou na segunda me- considera a passagem da vida nómade de caçadores-
tade do I milenio de nossa era. O extremo meridional coletores à sedentária de agricultores estáveis como
da América do Sul n ã o chegou a conhecê-la em tem- um longo processo, marcado pelo fato de que certas
pos pré-colombianos. plantas não respondem às tentativas de domesticação
f A descrição da domesticação de plantas e ani- com qualquer efeito multiplicador drástico sobre os
mais, n ã o responde à difícil pergunta: por que foi recursos disponíveis para a alimentação, enquanto
empreendida? H á algumas décadas, quase todos os outras — como o milho — , ao serem domesticadas e
pré-historiadores tendiam, como Gordon Childe, a aos poucos aperfeiçoadas seletivãmente pela própria
ver os inícios agrícolas como uma resposta às drás- domesticação (no caso do milho isto provocou muito
ticas mudanças ecológicas e climáticas que marca- notável aumento das. espigas, por exemplo), permi-
ram a passagem do Pleistoceno ao Holoceno. Acon- tem finalmente uma verdadeira "explosão", um au-
tece, porém, que alguns dos focos neolíticos melhor mento espetacular e exponencial dos recursos dispo-
conhecidos — o Oriente Próximo e, na Meso-Amé- níveis. Para explicar o surgimento e desenvolvimento
da agricultura no vale de Tehuacan, J . T . Meyers
rica, o vale mexicano de Tehuacan — são justamente
fundiu as hipóteses de Braidwood, Binford e Flan-
regiões relativamente pouco afetadas por tais mu-
nery num modelo único. Porém, trabalhando sobre
danças. Assim, novas hipóteses se desenvolveram.
uma região muito diferente — a costa central do
U m dos principais escavadores do Neolítico do Ori-
Peru, onde os recursos terrestres eram complementa-
ente Próximo, R. Braidwood, acredita numa causa-
42 Ciro Flamarion S.
América Pré-Colombiana 43

dos por abundantes recursos marítimos, e que certa-


mente sofreu modificações mais graves ao terminar o A diversificação cultural
Pleistoceno —, T . C . Patterson mostrou que tal mo- dos grupos agrícolas pré-urbanos
delo não é aplicável, sendo necessário elaborar outro.
Assim, a questão das causas do surgimento da agri- Ao terminar a era pré-colombiana, em fins do
cultura talvez tenha de receber respostas variadas século X V de nossa era, Pierre Chaunu propõe dis-
segundo os casos, em função de circunstancias e tinguir, quanto à agricultura e ao povoamento, três
ambientes distintos. áreas no continente americano:
Outro tema muito debatido é o da origem da l)^AJma primeira região de pequena extensão (2
cerâmica no Novo Mundo. A mais antiga cerâmica 2
milhões de k m , 5% da superfície do continente) e
conhecida até agora no continente é a de Valdivia, na alta densidade demográfica (continha 90% da popu-
costa do Equador, de excelente qualidade e datada lação total da América pré-colombiana): a ilha hoje
de 3 200 a. C . ± 150. Os arqueólogos B . Meggers, J . partilhada pelo Haiti e pela República Dominicana,
C . Evans e E . Estrada, baseando-se na semelhança os planaltos centrais do México, talvez uma parte da
com a cerâmica do período Jomon médio do Japão, e zona maia, a região dos chibchas da Colômbia, o setor
em ser difícil explicar de outro modo o aparecimento quíchua-aimará dos Andes centrais. E s t a região
súbito de cerâmica de tão boa qualidade, defendem apresentava uma densidade média de 35 a 40 habi-
uma origem por contato asiático transpacífico, ponto 2
tantes por k m , permitida pela agricultura intensiva
dos mais discutidos. Cómo no caso da agricultura — dos tubérculos, na ilha; principalmente do milho na
mas sem paralelismo necessário com esta — , a difu- Meso-América; da batata e do milho, nos Andes,
são da cerâmica foi processo longo que n ã o chegou a incluindo as técnicas em certos casos, a irrigação e a
v
se completar em tempos pré-colombianos. Na Meso- cultura, em t e r r a ç o s . /
América a mais antiga cerâmica conhecida é da se-
, 2)y Outra região, também de uns 2 milhões de
gunda metade do I I I milénio a. C . (Puerto Marquez,
km , a das planícies e planaltos maias, com uma
2440 a. C ) . No Peru, a cerâmica é bem tardia: apro-
agricultura do milho baseada no sistema de coivara,
ximadamente 1750 a. C . No caso do que é hoje o 2
apresentava densidades de 2 a 5 habitantes por k m .
Brasil, a Amazónia a conheceu muito antes das
Certas porções do sudoeste norte-americano (Novo
regiões mais ao sul, onde a sua difusão ainda conti-
México, Arizona) haviam conhecido uma densidade
nuava na época do descobrimento.
comparável no passado, mas a partir de fins do sé-
culo X I I I d. C . as superfícies cultivadas diminuíram,
engolidas pelo deserto que avançava.
44 Ciro Flamarion S. América Prê-Colombiana 45

3) No resto do continente — 35 milhões de k m , 2 quização social e a existência de um artesanato espe-


ou 90% da superfície d a A m é r i c a — , a coleta, a c a ç a cializado de boa qualidade. A arqueologia permite
e a pesca, e quando muito u m a agricultura bem detectar tais traços através dos enterros — que mani-
primitiva, só permitiam densidades ínfimas e modos festam j á clara diferenciação social, por exemplo, n a
de vida n ó m a d e s . cultura aldeã de Tlatilco, no México central (I milé-
E s t a situação constitui o ponto terminal e a nio a. C . ) — e da presença de centros cerimoniais.
expressão de um longo processo de diferenciação Estes últimos são conjuntos de edifícios que serviam
cultural que podemos considerar definitivamente ini- de ponto de reunião, centro religioso e comercial,
ciado quando, talvez por volta de 2000 a. C . na permanente ou ocasionalmente, a um conjunto de
Meso-América, e de 1500 a. C . nos Andes centrais, aldeias dispersas, ligadas por algum tipo de confede-
generalizou-se o habitat baseado em aldeias seden- ração ou chefia, e que uniram seus esforços para
tárias, possibilitado por uma agricultura estável e construir o centro cerimonial. E m certas partes da
altamente produtiva. Foi-se formando, assim, a dife- América, este precedeu a cidade e pode tê-la prepa-.
rença entre o que os arqueólogos chamam de "área rado ( n ã o necessariamente, porém); em outras, re-
nuclear" (cultural e demograficamente) da América presentou o símbolo do ponto m á x i m o localmente
pré-colombiana, e as "culturas marginais": margi- atingido pela cultura em tempos pré-colombianos.
nais segundo o duplo critério de serem menos desen- Entre as numerosas sociedades, pré-urbanas da
volvidas técnica e economicamente (caracterizándo- América que já apresentavam considerável complexi-
se, devido a isto, por um peso demográfico muito dade cultural citemos como exemplos: as culturaspue-
menor) e de receberem por difusão muitos elementos Blqâo sudoeste dos atuais Estados Unidos, com apo-
culturais da "área nuclear" constituída pela Meso- geu entre 1100 e 1300 a . D . ; diversas culturas do no-
América e pelos Andes centrais. roeste argentino (Zona Andina Meridional), princi-
Deixaremos para o próximo capítulo a exposi- palmente na sua fase tardia (850-1480 a. D . ) ; diferen-
ção do processo que conduziu, n a Meso-América e tes grupos da parte da América Central não-perten-
na Zona Andina Central, às "altas culturas" ameri- cente à Meso-América (mencionemos o centro cerimo-
canas, com sua urbanização e seus Estados orga- nial de Guayabo de Turrialba, no que é hoje a Costa
nizados. Rica, cujo apogeu se deu entre 800 e 1300 a. D . ) ; as
Mencionaremos agora alguns exemplos de socie- culturas chibcha e de San Agustin (esta com sua fase
dades que, sem atingirem a etapa das cidades e dos final ou "epigonal" entre os séculos V I e X I I d. C . ) d a
Estados, mesmo assim exibiram complexos culturais atual Colômbia.
bastante avançados, com esboços j á claros de hierar- A cultura chibcha ou muísca quase n ã o deixou
46 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 47

restosarqueplógicos de tipo arquitetural, mas é rela-


diversas partes do continente. Porém, só aquelas pa-
tivamente bem conhecidã^poFtér sido descrita por
ra as quais, como é o caso dos chibchas, possuímos
cronistas espanhóis. Desenvolveu-se nas savanas dos
testemunhos escritos devido ao seu caráter tardio
rios Bogotá e Chicamocho, a mais de dois mil metros
(
podem ser conhecidas em algum detalhe, j á que a
de altura. E r a politicamente u m a confederação tribal
arqueologia n ã o permite descer a pormenores das
com dois chefes supremos, o Zipa de B o g o t á e o
.estruturas poli tico-sociais e intelectuais, pela própria
Zaque de Tunja. Havia chefes menores, constante-
natureza cfas fontes que pode descobrir.
mente em guerra uns com os outros. O Zipa e o
Zaque eram chefes de caráter político-sacerdotal,
hereditários segundo uma linha de sucessão matrili- A organização econômico-social
near (o herdeiro sendo o filho da irmã do chefe). A
agricultura, o artesanato e o comércio apresentavam
dos agricultores pré-urbanos
desenvolvimento considerável. Havia feiras nos po-
voados. Trocavam-se com os povos vizinhos as pro- Na tipologia neo-evolucionista, os grupos, agrí-
duções locais — tecidos de algodão, sal, esmeraldas colas pré-urbanos caracterizam dois tipos de organi-
=p por ouro e outros artigos. O trabalho dos metais zação social, a tribo e a chefia.
— ouro, cobre e a liga chamada tumbaga — era A s tribos s ã o sociedades segmentarias, ou seja,
bastante desenvolvido, em particular a ourivesaria. A subdivididas em unidades sociais cujo grau de inte-
religião ainda continha traços importantes dos cultos gração é tanto maior quanto menores sejam: grupos
tribais de fecundidade. Existiam templos a deuses multifamiliares (aldeias, linhagens), que exploram
como o criador (Chiminigágua), o Sol, a L u a , o deus uma área de recursos comuns e formam unidades
protetor dos comerciantes. O s mitos mencionavam residenciais, por sua vez compreendendo famílias
um herói civilizador, Bochica. O culto incluía a imo- nucleares (formadas por um casal e seus filhos soltei-
lação de adolescentes estrangeiros, que deviam atuar ros, embora possa haver t a m b é m formas de poli-
como intermediários entre os chibchas e o Sol, sendo gamia) que são as células fundamentais da estrutura
sacrificados com facas de bambu em lugares altos. social. As relações de parentesco t ê m um caráter
O s grupos sacerdotal e mercantil eram bem diferen- multifuncional, isto é, funcionam ao mesmo tempo
ciados. como relações económicas, políticas e ideológicas.
As sociedades tribais aldeãs conhecem a pro-
A cultura chibcha nada tem de excepcional: priedade coletiva sobre os meios de produção. U m ou
como ela, muitíssimas outras de traços similares e vários indivíduos são os depositários desta proprie-
nível comparável de desenvolvimento existiram em dade em nome do grupo. A redistribuição (que supõe
48 Ciro Flamarion S.
América Pré-Colombiana 49

a existência de excedentes) se d á através das presta-


ç õ e s de bens e serviços dos mais jovens aos mais corte, o que abre caminho a u m artesanato especiali-
velhos, e dos dons destes aos primeiros. Existe um zado de alta qualidade, ligado aos hábitos suntua-
poder permanente, n ã o de caráter pessoal, mas li- rios, à construção de edificações importantes, etc.
gado a funções exercidas, legitimado pela ideologia Algumas chefias incluem numerosas tribos e aldeias,
cujo núcleo é o culto dos antepassados. O s "mais formando às vezes confederações, no interior das
velhos" (chefes de linhagens, adultos iniciados q u é quais h á uma hierarquia que vai do chefe supremo
passaram por certas provas, etc.) detêm u m mono- aos chefes menores.
pólio sobre a apropriação do saber necessário à re- Acontece com as noções de tribo e chefia o mes-
p r o d u ç ã o do grupo e sobre certos bens aos quais se mo que j á havíamos notado para a de bando: s ã o
liga prestígio (escravos, artigos que servem à aqui- designações resultantes de uma comparação e m p í -
sição de esposas, etc.), os quais se trocam s ó entre rica entre sociedades no fundo muito heterogéneas,
iniciados. N ã o h á propriamente exploração, pois os havendo mais interesse, ao estabelecê-las, em ressal-
"mais jovens" terminam recebendo uma e s p o s a d a tar as semelhanças do que em explicar as diferenças.
iniciação que lhes permite libertar-se da tutela JÍQS Por isto, o seu valor é mais classificatório e descritivo
"mais velhos" e criar por sua vez u m a rede de depen- do que explicativo e teórico.
dentes. A l é m disto, para manter a sua autoridade, os A explicação marxista tradicional a respeito das
"mais velhos" às vezes devem praticar dons ostenta- sociedades tribais pré-urbanas baseia-se na n o ç ã o de
tórios, mostrar-se generosos, o que inclusive pode "comunidade primitiva". F o i elaborada em primeiro
levar a destruições rituais de bens (em banquetes, lugar por F . Engels, a partir dos trabalhos de L .
por exemplo). Embora n ã o exista exploração de Morgan. Segundo tal interpretação, à horda primi-
classe, certos autores (como C . Meillassoux) chamam tiva sucedeu o regime de clãs. A produtividade do
a atenção sobre a exploração dos jovens (passageira) trabalho, elevando-se, tornou possível a associação
e das mulheres (irrevogável) nas sociedades baseadas dos homens em grupos menores e mais estáveis do
em linhagens. que as hordas iniciais de que provinham. Tais gru-
pos, os clãs, permanecem, p o r é m , em contato com o
A s chefias surgem quando h á u m a hierarquia de
restante da coletividade maior de que procedem: os
prestígio entre linhagens, chegando a ser hereditário clãs derivados de u m a mesma horda consideram-se
numa delas o cargo de chefe. Ainda n ã o h á u m a aparentados. O casamento dentro do mesmo c l ã vem
estratificação em classes sociais e a sociedade ainda a ser proibido e os matrimónios passam a ser contraí-
se baseia no parentesco. Porém, o chefe, como redis- dos com membros de outros c l ã s derivados d a mesma
tribuidor dos bens que concentra, pode manter uma horda. O casamento, e x o g â m i c o no clã, mas e n d o g â -

i
50 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana SI

mico na tribo, n ã o é ainda individual, e sim por que mostraram sua fragilidade em muitos aspectos.
grupos (todas as mulheres de certos clãs são esposas Assim, e principalmente, o casamento de grupos, a
de todos os homens de outros). Nessa primeira etapa, noção de matriarcado, a ideia de uma anterioridade
o regime de clãs é matriarcal, baseado no parentesco da matrilocalidade sobre a patrilocalidade, etc. são
por linha materna (matrilinearidade). Isto porque, rejeitados decididamente, com base em sólida argu-
no casamento por grupos, a paternidade não pode mentação, pela grande maioria dos antropólogos
ser estabelecida e a criança pertence ao clã materno. não-pertencentes aos países socialistas. É também
A mulher e o homem são então perfeitamente iguais verdade que, apesar dos esforços e descobertas im-
do ponto de vista sócio-econômico. Com o início da portantes dos arqueólogos e etnólogos soviéticos, no
agricultura, ela atinge mesmo a supremacia, pois se domínio dá interpretação dos dados colhidos eles se
dedicava a esta e dirigia a comunidade (velhos, crian- prendiam até bem pouco tempe* de maneira excessiva
ças) enquanto o homem estava quase sempre au- aos escritos dos fundadores do marxismo, com gran-
sente, caçando ou guerreando. de risco de se tornarem estreitos e dogmáticos em
A transformação da agricultura e da criação nas suas posições.
atividades económicas principais, e do homem em Recentemente, várias tentativas foram feitas no
pastor e agricultor, dão a ele a primazia, relegando a sentido de construir um novo tipo de teoria destas
mulher a segundo plano na economia e na sociedade. sociedades. Para M . Godelier, elas constituem d é fato
O clã torna-se patrilinear (baseado no parentesco por um campo heterogéneo de estudos, onde vários mo-
linha paterna) e passa-se ao sistema do casamento dos de produção poderiam e deveriam ser detec-
patrilocal: a mulher, ao casar-se, passa a pertencer tados. Outros autores — M . Sahlins, C . Meillassoux
ao clã do marido, enquanto na fase anterior o casa- — propuseram o conceito de "modo de produção
mento era matrilocal. O casamento por grupos desa- doméstico", ou "modo de produção de linhagens"
parece, cedendo o lugar aos casais estáveis. (P.-P. Rey). A elaboração mais ¡acabada parece ser a
Finalmente, o progresso técnico, passando a de Meillassoux (ver Mujeres, graneros y capitales,
permitir que uma família restrita (o casal e seus México, Siglo X X I , 1977, pp. 13-127). Contudo, tais
filhos) assegure a sua subsistência apenas com o seu estudos ainda não chegaram a resultados plenamente
trabalho, abre, junto com outros fatores, o processo satisfatórios, sendo necessário o prosseguimento dos
de desagregação dos clãs, do surgimento da proprie- esforços teóricos e de pesquisa.
dade privada, das diferenças de classe e do Estado.
As críticas feitas à interpretação acima se avolu-
maram com descobertas etnológicas e arqueológicas
América Pré-Colombiana 53

plexas, internamente diversificadas e sofisticadas,


com altos graus de hierarquização e exploração so-
ciais (surgimento da sociedade, de classes), um E s -
tado estruturado fora e acima das relações de paren-
tesco e linhagem e dotado de um sistema de impostos
e meios de coação, a invenção de sistemas de côm-
puto (sem os quais não h á administração possível aci-
ma de certas dimensões do grupo social) e, em quase
todos os casos — as civilizações peruanas sendo notá-
AGRICULTURA INTENSIVA vel exceção —, o aparecimento da escrita.
E URBANIZAÇÃO: Segundo Gordon Childe, dez critérios permitem
distinguir uma cidade de uma aldeia ou povoado que
AS "ALTAS CULTURAS" não seja urbano:
PRÊ-COLOMBIANAS "*»1) o seu tamanho e população mais impor-
tantes;
2) o aparecimento de especialistas (adminis-
tradores, sacerdotes, artesãos, etc.);
A "revolução urbana" 3) a formação de um "capital efetivo" (origi-
nado pelos tributos impostos aos produtores agrí-
O surgimento das cidades — sendo a distinção colas);
cidade/campo, segundo K . Marx, a primeira grande 4) a construção de edifícios e obras públicas
divisão social do trabalho — exige previamente o em escala antes desconhecida;
desenvolvimento da concentração populacional. Esta 5) a formação de uma "classe governante";
se liga a uma agricultura eficiente, que ao começar a 6) a invenção e uso da e s c r i t a ^
urbanização seja capaz de alimentar a aglomeração 7) os começos das ciências exàtas baseadas na
urbana, permitindo pois uma divisão do trabalho predição: matemática, geometria, astronomia, ca-
entre produtores e não-produtores de alimentos,- A lendário;
"revolução urbana" — noção que também devemos 8) uma arte com estilos conceptualizados e so-
a Gordon Childe — constitui o núcleo do processo fisticados;
que conduz das culturas tribais aldeãs às verdadeiras É 9) o desenvolvimento do comércio exterior de
civilizações, ou seja, culturas extremamente com- objetos de luxo e matérias-primas;
54 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 55

10) os artesãos se tornam especialistas de tempo intelectuais, dotado das instituições corresponden-
completo, devido à disponibilidade contínua de ma- tes;
téria-prima. 7) heterogeneidade e diferenciação hierárqui-
Os sociólogos que trataram do fenómeno urbano ca da sociedade, com residência urbana dos grupos
insistiram em critérios variados de definição da ci- dirigentes;
dade: o mercado ( M . Weber), a heterogeneidade 8) um centro de economia urbana para a sua
social, as relações impessoais e o anonimato, a divi- é p o c a e região, cuja população dependesse até certo
são do trabalho... Para o historiador, "cidade" é um ponto da produção agrícola de pessoas que em forma
termo cujas conotações s ã o variáveis segundo os am- total ou parcial n ã o viviam na cidade;
bientes naturais e culturais, as sociedades e as é p o - 9) um centro de serviços para as localidades
cas. O fato urbano é dinâmico, evolui com o tempo, vizinhas, de irradiação de um esquema de urbani-
o lugar, o nível das forças produtivas, e se define por zação, e de difusão de progressos tecnológicos;
oposição a estruturas rurais que s ã o t a m b é m variá- 10) com uma forma urbana de vida distinta de
veis. uma forma de vida rural ou semi-rural para a sua
Jorge Hardoy afirma que, na América pré-co- época e região.
lombiana, u m a cidade era u m a aglomeração com as Se exigirmos a presença da totalidade destes
seguintes características e funções: critérios, foi Teotihuacan a primeira cidade meso-
1) extensa e bem povoada para sua é p o c a e americana, pelo menos a partir de 100 a. D . Nos
região; Andes centrais, o urbanismo surgiu primeiro em sua
2) um estabelecimento permanente; porção meridional (talvez no século I I a. C ) , antes
3) com uma densidade m í n i m a para sua é p o c a de generalizar-se ao conjunto dessa região cultural.
e região; E m suma: o fenómeno urbano se manifestou n a
4) com construções urbanas e um traçado ur- América vários milénios depois de haver surgido pio-
bano indicado por ruas e espaços urbanos reconhecí- neiramente no Oriente Próximo.
veis; Chamemos a atenção para o fato de que, exata-
5) um lugar onde as pessoas residiam e traba- mente como aconteceu no caso do Oriente P r ó x i m o ,
lhavam; as tentativas para vincular o surgimento de cidades e
Estados organizados n a América à agricultura de
6) possuindo u m m í n i m o de funções especifi-
regadio, devido a que a irrigação em alta escala
camente urbanas: ser um mercado e/ou um centro
exigiria u m poder forte e organizado que controlasse
militar e/ou u m centro político-administrativo e/ou
obras consideráveis como diques, canais, represas,
um centro religioso e/ou um centro de atividades
56 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 57

etc., n ã o deram bom resultado. U m exemplo são as mente primitiva mas adaptada à ecologia regional, e
pesquisas neste sentido levadas a cabo no M é x i c o por um clima marcado por secas longas, sendo dispersas
A . Palertn. N ã o apenas n ã o conseguiu descobrir ar- as fontes de abastecimento de água, n ã o bastando os
queologicamente sistemas realmente antigos de rega- meios elaborados pelos maias para armazená-la para
dio, como t a m b é m constatou que o sistema de con- sustentar núcleos muito extensos e concentrados de
trole sobre a irrigação, em tempos posteriores melhor população.
documentados, n ã o era de tipo concentrado, e sim de
organização local. Naturalmente, isto n ã o exclui que
a irrigação tenha sido elemento importante na conse-
cução de excedentes agrícolas para cidades e organi- Sequências histórico-culturais
zações estatais, mas enfraquece a hipótese causal na Meso-América
"hidráulica" derivada das ideias de K . Wittfogel.
Outro problema histórico muito discutido é o de
A Meso-América
saber se, no I milénio d. C , os maias — povo da
M e s o - A m é r i c a responsável por uma das mais bri-
Foi em meados do I I milénio a. C . que tomou
lhantes civilizações indígenas — construíram cidades
forma a zona cultural que chamamos M e s o - A m é r i c a .
(em período posterior, o mundo maia sofreu influên-
e que agora passaremos a delimitar e definir.
cia mexicana, e surgiram indubitavelmente centros
A s fronteiras méso-americanas foram variáveis
urbanos, embora n ã o muito extensos). Esta é a opi-
nião de S. Morley, que atribui caráter urbano às aglo- segundo as épocas. De uma maneira geral, podemos
merações maias, embora n ã o se concentrassem em considerar como meso-americanas as áreas de agri-
quarteirões apertados, e sim estivessem dispersas em cultura estável que ocupam a parte do M é x i c o si-
extensos subúrbios e numa série de pequenas gran- tuada ao sul dos desertos setentrionais, a Guatemala
jas. Os edifícios religiosos e públicos, por outro lado, e Belize, a parte oeste de Honduras, E l Salvador, a,
em lugar de se colocarem ao longo de ruas, forma- parte sudoeste da Nicarágua e a península de Nicoya
vam grupos em torno de praças e pátios. Outros na Costa R i c a . A fronteira norte foi particularmente
especialistas, como T . Proskouriakoff e E . Thomp- variável: por exemplo, em 900 a. D . avançaram os
son, negam que sejam cidades: tratar-se-ia simples- caçadores-coletores em detrimento da zona agrícola.
mente de centros cerimoniais que serviam a numero- A Meso-América apresentava as seguintes sub-
sas aldeias dispersas. U m a razão da falta de grandes regiões: 1) Noroeste: culturas de Colima, Jalisco e
aglomerações poderia ser uma agricultura relativa- Nayarit; 2) Planalto mexicano: culturas de Teoti-
huacan, tolteca e asteca; 3) Costa do Golfo do M é -
58 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 59

xico: culturas olmeca, totonaca e huasteca; 4) Zona


vegetação menor. Depois de u m período que varia
maia: Iucatã, Campeche, Tabasco, parte de Chiapas
segundo a qualidade do solo mas nunca é muito
e Quintana Roo (no M é x i c o ) , Guatemala, Belize,
longo, o rendimento c o m e ç a a diminuir, o que con-
Honduras ocidental; 5) México meridional (entre o
vale do M é x i c o e a zona maia): civilizações zapoteca duz ao abandono da terra plantada, para que se
e mis teca. reconstitua o bosque e se regenere o solo; u m a nova
clareira deve então ser conquistada à vegetação natu-
As principais características culturais geralmen-
ral. Este ciclo agrícola, característico das terras bai-
te atribuídas à M e s o - A m é r i c a sao: 1) a agricultura ba-
xas tropicais, funciona bem se as terras forem abun-
seada no b a s t ã o de semear e produzindo milho (pre-
parado de maneiras peculiares: tortillas, tamales, dantes e se se abrirem novas clareiras com regula-
etc.), cacau e maguei como plantas mais específicas; ridade. Ao aumentar demasiado a população, a pres-
2) a pirâmide escalonada ou em degraus, os pátios são sobre a terra pode ser solucionada pela migração
recobertos de estuque, os jogos rituais com bolas de ou pela redução do período de descanso e reconsti-
borracha; 3) o sistema numérico vigesimal, os meses tuição da floresta, mas isto provoca rendimentos
6

de vinte dias, o calendario duplo solar e litúrgico decrescentes. No sistema de pousio curto, as manei-
(lunar), os ciclos de 52 anos; 3) a existencia da escri- ras de preparar e cultivar a terra n ã o são diferentes,
ta: hieróglifos maias, glifos do México central (nu- mas nas regiões de que se trata agora — terras altas
merais, calendários, pictográficos, ideográficos e fo- temperadas ou subtropicais — é possível reduzir o
néticos, sendo estes últimos silábicos n a sua maioria período de descanso a dois ou três anos depois de
e apenas três alfabéticos; a "leitura" dos códices ou uma fase de cultura de igual duração. E m certos
"livros de pinturas" era complementada por textos casos, paralelamente à clareira plantada de milho,
memorizados em escolas especiais); 4) outros ele- cultiva-se uma horta de alto rendimento devido ao
mentos diversos, por exemplo, zarabatanas com pro- uso de adubos (folhas, excrementos, detritos d o m é s -
jéteis de argila. ticos, etc.). Este sistema abre a possibilidade de u m a
Do ponto de vista da história económica, é mais população mais densa e implica a sedentarização.
interessante a classificação dos sistemas agrícolas e Por último, o regadio; que permite culturas perma-
modalidades de povoamento proposta por Angel Pa- nentes pela eliminação do pousio e uma maior densi-
lerm. dade e concentração demográficas: na M e s o - A m é -
A coivara consiste em plantar os grãos com
ajuda do bastão de semear (huictli) numa clareira
(6) Chama-se pousio o sistema agrícola baseado em deixar des-
ganha à selva cortando as árvores e queimando a cansar uma certa porção das terras cultiváveis enquanto outra porção
é trabalhada, com ofitode permitir a recuperação da fertilidade.
60 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 61

rica existiram sistemas de irrigação por canais e por parte do ano bom n ú m e r o de pessoas se alimentasse
ilhas flutuantes chamadas chinampas. Estas, utili- sem cultivar a terra, j á que trabalhava em gran-
zadas nos lagos do M é x i c o central, permitiam rendi- des construções que exigiam supervisão, usando às
mentos prodigiosos (de 300 a 500% segundo López vezes materiais trazidos de longe. Apareceram nes-
de Gomara) ao usar plantas aquáticas, limo e excre- sa fase alguns dos traços essenciais d a cultura
mentos como fertilizantes. meso-americana: culto do jaguar (associado ao
A periodização habitual d a história meso-ame- deus da chuva e/ou da Terra), centros cerimoniais
ricana em pré-clássico ou formativo, clássico e p ó s - orientados, escrita e calendário, formas primitivas da
clássico, proposta entre outros por G . Willey e P . pirâmide escalonada, jogo ritual com bolas de bor-
Phillips, é inadequada por basear-se em um critério racha, etc.
esteticista duvidoso; como decidir, por exemplo, de O centro da cultura olmeca foi o sul de Veracruz
maneira objetiva, que a arte maia clássica é "me- e o norte de Tabasco, n a zona tropical do Golfo do
lhor" do que a asteca pós-clássica? Reconhecemos M é x i c o : tal área central tem uns 18000km e, se-2

em tal periodização o ciclo organicista de tipo nasci- gundo I . Bernal, na época do apogeu olmeca teria
mento-desenvolvimento-morte (ou decadencia). Para
uns 350000 habitantes. O termo "olmecas" é tradi-
a história económica-social, n ã o tem evidentemente
cional mas falso: originalmente designava u m grupo
qualquer sentido.
que vivia no sul de Veracruz em tempos históricos e
nada tinha a ver com os monumentos antigos.
A . Caso chama a essa região de " M e s o p o t â m i a
A cultura olmeca e outras culturas contemporâneas da Meso-América", por ser muito irrigada por diver-
(1200-1 a. C, aproximadamente) sos rios; é t a m b é m chuvosa. A dieta se compunha
sobretudo de milho, feijão e abóbora, produzidos
Este período viu os inícios de uma hierarqui- pela agricultura de coivara e ao longo das margens
zação social visível: representação de personagens dos rios, complementada possivelmente pela caça e
com signos distintivos na arte olmeca, enterros l u - pesca. O s trabalhos executados nos centros cerimo-
xuosos contrastando com outros simples em Kami- niais s u p õ e m uma organização social relativamente
naljuyu (Guatemala) e rio vale do México (Tlatilco), hierarquizada, no nível de chefias e confederações
etc. Inexistiam então, porém, verdadeiras cidades. tribais. A hipótese mais corrente é a do caráter sacer-
Surgiram os primeiros centros cerimoniais meso- dotal do grupo dominante, mas hoje alguns pensam
americanos, os quais de qualquer maneira s u p õ e m que se tratava de senhores leigos e que l a cultura
uma agricultura suficiente para que durante u m a olmeca se difundiu por meio de uma classe de merca-
62 Ciro Flamarion S. Cardoso
América Pré-Colombiana 63

dores armados que iam até a Costa Rica, principal-


("horizonte olmeca") foi diminuindo depois, em fa-
mente em busca de jade. O fato é que as construções
vor da proliferação de culturas locais mais ou menos
são todas religiosas e funerárias, como também o uso
autónomas. Não sabemos até que ponto puderam
que se fazia dos produtos vindos de outras regiões
dominar politicamente territórios situados fora do
(basalto, pedra serpentina, jade). No sítio principal,
seu núcleo; o certo é que foi a primeira grande cul-
L a Venta, construído numa ilha, calculou-se que tura que associou os recursos e tradições do planalto
viviam 150 pessoas (o grupo dirigente com os seus e da costa n a Meso-América. Pinturas olmecas foram
servidores), graças a uns 18000 camponeses depen- achadas no Estado mexicano de Guerrero (centro-sul
dentes disseminados nos arredores. Muita mão-de- do México). Alguns afirmam que tiveram verdadei-
obra seria necessária para transportar 5 000 tonela- ras "colónias" no vale do México. As suas rotas
das de serpentina e grandes quantidades de basalto comerciais, passando por Chiapas e pelo sul da Gua-
(pela navegação fluvial) vindas de 250 a 900 k m de temala, atingiam a Costa Rica. E m Oaxaca (México
distância, e para a construção e reconstrução dos meridional), a partir de 500 a. C , a fase Monte
centros cerimoniais. Alban I mostra influências olmecas (os relevos dos
Os centros olmecas mais importantes foram San "dançarinos" e posteriormente um edifício com gli-
Lorenzo (1200-900 a. C ) , L a Venta (1000-600 a. C . ) fos; é verdade, porém, que Monte Alban I conhece a
e posteriormente Tres Zapotes. No conjunto, pode- irrigação, uma arquitetura de pedra, escrita, calen-
mos datar a cultura olmeca entre 1200 a. C . e a época dário e religião mais desenvolvidos que os dos olme-
de Cristo. cas). A respeito da ampla influência olmeca, Miguel
V - Q s olmecas não conheciam os metais; o jade era Covarrubias disse que "o estilo olmeca está ligado,
o minério mais precioso, e vinha de zonas distantes. de longe, mas palpavelmente, com a arte teotihua-
Desenvolveram a escrita e o calendário, embora cana mais antiga, com o estilo chamado totonaca ( E l
pouco haja restado a respeito^ Sua cerâmica era de Tajín), com as formas mais antigas da arte maia e
m á qualidade, em contraste com a escultura monu- com os objetos zapotecas, os quais tendem a ser mais
mental de pedra, muito bem feita. Muitos restos olmecas na medida em que sejam mais antigos". D a í
arqueológicos procedem de oferendas rituais, inclu- que, para A . Caso, a cultura olmeca seja a "cultura-
indo figurinhas de jade e peças de cerâmica. Não m ã e " da civilização meso-americana.
construíam estradas, usando os rios e trilhas natu- Mencionaremos agora outras culturas contem-
rais. porâneas à olmeca.
A zona de influência da cultura olmeca foi ex- . Nos arredores da cidade do México, em Morelos
tensa. T a l influência, máxima entre 1200 e 900 a. C . e em Guerrero, e com influências que atingem Co-
64 Ciro Fiam arion S. Cai América Pré-Colombiana 65

lima, Jalisco e Nayarít, desenvolveu-se desde mais ou As civilizações do I milénio d. C.


menos 1000 a. C . o chamado estilo de Hatilco, com
uma cerâmica característica, figurinhas de mulher Este é o período que foi chamado "clássico" ou,
(cultos de fecundidade), máscaras de argila, forte com critério ainda mais duvidoso, "florescimento das
influência olmecóide (e, segundo alguns, t a m b é m cidades teocráticas". A sociedade tornou-se mais
asiática). Infelizmente é mal conhecido em detalhe. complexa e hierarquizada, acredita-se que a agricul-
Posteriormente, o vale do México conheceu outras tura fez grandes progressos, ampliou-se o comércio a
culturas que s ã o responsáveis pela base escalonada longa distância e enfim a M e s o - A m é r i c a entrou nos
de Tlapacoya e pela pirâmide escalonada circular inícios da urbanização./Para esta fase contrasta a
revestida de pedra e que tinha u m templo no topo, de suntuosidade do registro arqueológico com a carên-
Cuicuilco. Certos autores pretendem que o sítio de cia de fontes escritas, embora tenha ocorrido e n t ã o o
Cuicuilco n ã o pode explicar-se se n ã o houvesse j á desenvolvimento da escrita, da numeração e do ca-
uma agricultura altamente produtiva nas margens lendário, a l é m do de uma arte diversificada.
lacustres, ou através de chinampas. A primeira cidade meso-americana, Teotihua-
Na área maia, culturas formativas baseadas em. can, situada num vale do planalto central mexicano a
aldeias agrícolas e no milho surgiram entre 1500 a. nordeste da atual cidade do M é x i c o , surgiu a partir
C e a é p o c a de Cristo. E m Ocos, no litoral pacífico de quatro aldeias, entrando em fase claramente ur-
da Guatemala, alguns autores v ê e m influências asiá- bana por volta de 100 d. C . O arqueólogo René
ticas (cerâmica decorada com a impressão, de cor- Millón acredita que o seu apogeu populacional foi
das). Kaminafjuyu e L a s Charcas, no vale de Guate- atingido entre 450 e 650 a. í ) . (85000 habitantes), e
mala, apresentam uma cerâmica avançada e, como que a m á x i m a extensão do território urbanizado haja
Tlatilco, sinais de estratificação social. No século V 2
sido de uns 22 k m ; trata-se de cifras de peso para a
a. C . surgiu n a região guatemalteca de Peten a cerâ- época, n ã o só no referente à América, mas ao mun-
mica de Mamom. O sítio de T i k a l foi ocupado desde do/Constava de um centro urbano planificado, con-
600 a. C , e, entre 300 e 200 à. C , ali surgiram tendo u m imenso centro cerimonial com pirâmides e
templos de tijolos cobertos de gesso; n a mesma é p o c a outros edificios públicos, palácios, zonas artesanais
temos santuários em Uaxactun e Kaminaljuyu. O s com ruas dedicadas a atividades especializadas, blo-
princípios da civilização maia parecem haver rece- cos residenciais, tudo isto organizado num sistema
bido indiretamente a influência olmeca por intermé- de quarteirões quadrangulares ( s ó os blocos residen-
dio da cultura de Izapa (em Chiapas, no sul do ciais eram uns 4000), avenidas, ruas e praças, con-
México), situada ao longo da "rota do jade". trastando com o labirinto dós subúrbios, que n ã o
66 Ciro Flamarion S. América Prê-Colombiana 67

eram planificados/ Havia bairros de estrangeiros cado e com grupos profissionais especializados e
residentes (maias, zapotecas). organizados. F . Katz acha possível que j á então
' Varías hipóteses foram propostas para explicar tenham surgido todos os grupos dominantes de cuja
o surgimento e expansão de uma cidade de tais di- existência temos provas em é p o c a s posteriores: u m a
m e n s õ e s , cujo planejamento e sucessivas modifica- casta de guerreiros tendendo à aristocracia heredi-
ç õ e s exigiam um poder político forte e bem estrutu-
tária (o fato de serem pouco representados artistica-
rado. P . Armillas acredita que um sistema de agri-
mente não significa que n ã o existiam), uma aristo-
cultura de irrigação, utilizando as águas do rio San
cracia tribal, sacerdotes, mercadores (entre os quais
Juan e o armazenamento das chuvas, forneceu a base
se incluíam algumas mulheres) e talvez um e s b o ç o de
e c o n ó m i c a necessária, mas A . Palerm n ã o conseguiu
burocracia estatal em processo de formar-se como
detectar os seus restos arqueológicos. T . C . Patterson
grupo separado.
pretendeu explicar a prosperidade de Teotihuacan
airavés do controle do comércio e da transformação Teotihuacan necessitava obter matérias-primas
de uma matéria-prima, a obsidiana, o que é sim- inexistentes na sua região — algodão, cacau, plu-
plista demais. Outros autores preferem enfatizar o mas, jade — , e em troca exportava cerâmica e obje-
papel de capital religiosa e centro de peregrinações de tos de obsidiana. A cerâmica foi inclusive fabricada
que a cidade indubitavelmente desfrutou durante sé- em série, usando-se moldes. Exportava-se u m a cerâ-
culos. T a m b é m se defendeu a hipótese de que teria mica fina, que constratava com uma bem mais gros-
dominado politicamente um grande império meso- seira, n ã o vendida no exterior ou usada, cerimonial-
americano, sustentar!do-se com tributos. Isto se ba- mente, e sim no dia-a-dia. Na verdade, tanto na
seia em vínculos comerciais e estilísticos, arqueolo- cerâmica quanto nos magníficos afrescos policroma-
gicamente comprovados, com boa parte da Meso- dos e outras manifestações artísticas (arquitetura de
América (Veracruz, Guerrero, o istmo de Tehuante- pedra, esculturas, máscaras de pedra) podem ser
pec, a Guatemala), e é no fundo incompatível com a detectados vários estilos.
visão tradicional e idealizada de Teotihuacan como A religião contém todo o futuro p a n t e ã o mexi-
civilização sacerdotal e pacífica (visão que se tem cano, com exceção de Huitzilopochtli e Tezcatlipoca.
enfraquecido muito ultimamente). A cidade nunca Encontramos nas posições dominantes Quetzalcóatl,
foi fortificada, mas isto pode refletir simplesmente a serpente emplumada, e Tláloc, o deus-jaguar da
u m a confiança arrogante na própria força. chuva. Os mortos eram provavelmente cremados.
Teotihuacan foi destruída e incendiada por volta
A sociedade apresentava uma estratificação so-
de 750 a. D As hipóteses a respeito variam desde
cial avançada, com um grupo dominante diversifi-
revoltas camponesas internas até ataques externos,
68 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 69

mas a verdade é que não h á dados que apoiem qual- construída com pedras claras e contendo mais de
quer das explicações propostas. trezentos nichos. A arqueologia regional revelou
No México meridional (Oaxaca) desenvolveu-se também esculturas de formas peculiares, finamente
neste período a civilização zapoteca de Monte Alban, lavradas em pedra dura (chamadas "jugos", "ma-
sobre cuja natureza — centro cerimonial apenas ou chados" e "palmas"). Influências estilísticas toto-
também centro urbano — se discute. Sob influência nacas foram detectadas em Chiapas e na região do
de Teotihuacan, surgiram edifícios em talude e mu-
Pacífico, até Honduras. Também h á provas de rela-
rais polícromos. Estes últimos foram encontrados em
ções com Teotihuacan. Nesta região tropical, com
tumbas:, ao contrário da religião teotihuacana, a dos
sua agricultura de coivara, não se desenvolveu um
zapotecas e ^ ^ m j n a d a ~ p e l o culto funerário, com
núcleo urbano ao redor dos centros cerimoniais.
suas grandes urnas antropomórficas de cerâmica,
U m a das mais famosas civilizações meso-ameri-
muito decoradas. O sitio de Monte Alban se encon&a
em lugar alto, que domina três vales, e consta de canas foi a maia, que ora atinge o apogeu nos seus
plataformas e pirâmides organizadas em distintos principais centros de então: Tikal, Copan, Quiriguá,
níveis à volta de praças e esplanadas. Depois de 550 Piedras Negras, Uaxactun, Palenque, Yaxchilan,
a. D . , desaparece a influência de Teotihuacan. Cons- situados no sul do México (Chiapas, parte do Iuca-
tata-se então algum influxo cultural maia; na sua tã), na Guatemala e no oeste de Honduras. Os três
fase final, porém, a civilização zapoteca estava cada centros principais — Palenque, Tikal e Copan —
vez mais fechada e isolada. Monte Alban foi abando- formam o chamado "triângulo maia clássico", ao
nado por volta de 950 a. D . (embora a sua cerâmica qual se atribui o maior refinamento artístico e a
típica continuasse sendo fabricada por vários sécu- criação dos elementos mais característicos da civili-
los), ao ser Oaxaca invadida pelos mistecas. No caso zação dos maias.
da civilização zapoteca, a arqueologia revelou sem A base económica de tal civilização — a agricul-
lugar a dúvidas restos de obras para o regadio agrí- tura do milho pelo sistema de coivara — não permite
cola. grandes aglomerações, embora nas zonas mais secas
fossem usados depósitos naturais (cenotes) e artifi-
Na região costeira do norte de Veracruz, encori-
ciais de água. Aparentemente, nos centros cerimo-
travam-se os centros de E l Tajin e Tajin Chico (este
niais viviam o grupo dirigente e artesãos especiali-
posterior ao primeiro), pertencentes à cultura toto-
zados apenas, enquanto à volta se disseminavam al-
naca, cujo apogeu se deu entre 600 e 900 a. D . ,
deias não-permanentes (já que a agricultura era iti-
embora depois tenha continuado a existir até 1200 a.
nerante). Já vimos que se discute o caráter urbano ou
D . O edifício mais característico é uma pirâmide
não dos centros maias.
70 Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 71

N a interpretação mais antiga, t a m b é m no caso frada. A cerâmica, muito variada e de excepcional


maia se postulou o caráter pacífico e sacerdotal deste qualidade, incluía t a m b é m maravilhosas estatuetas
período. É verdade que o afresco de Bonampak de barro modelado à m ã o (como todos os outros
(Chiapas) representa uma batalha, mas se argu- povos pré-colombianos, os maias ignoravam o torno
menta que seria apenas uma escaramuça para cap- do oleiro), descobertas em Jaina, n a ilha de Campe-
turar prisioneiros que seriam depois sacrificados. O che.
sistema político era o de numerosas pequenas uni- A religião parece ter suas origens em cultos da
dades independentes. A s pedras esculpidas (esteias), natureza e da fertilidade, com deuses d a chuva
afrescos e certas figurinhas de barro representam (Chac), do vento e do milho. O velho deus do fogo,
personagens que, segundo as interpretações, seriam Itzamna, ocupava posição predominante. Havia
soberanos ou sacerdotes. Ê certo que a multipli- t a m b é m inúmeras divindades associadas aos pontos
cação de insígnias simbólicas em suas complicadas cardeais, à cosmologia e aos astros, aos meses, anos,
indumentárias pareceria indicar um poder de fun- dias e ciclos do calendário, etc. O s sacrifícios huma-
ç ã o , mais do que pessoal. nos existiam, mas parecem ter sido raros nesta fase.
O s centros religiosos tinham dimensões muito Ligadas à religião e ao calendário, a matemática e a
variáveis. O s menores constavam somente de u m a astronomia tiveram entre os maias um desenvolvi-
pirâmide e u m ou outro monumento adicional, e mento maior do que alhures.
eram tributários de outros maiores, e estes de u m A partir de 800 a. D . , os centros cerimoniais
grande centro como T i k a l ou Copan. E m todos os maias foram abandonados um a um, havendo em
centros cerimoniais achamos os mesmos elementos certos casos sinais de violência. A s hipóteses a res-
básicos — plataformas, pirâmides, pátios, calçadas, peito incluem o esgotamento do solo devido à pressão
canchas do jogo ritual com bolas de borracha, esteias demográfica e quiçá tributária sobre a primitiva agri-
— , mas o caráter descentralizado dessa civilização se cultura de coivara, provocando emigrações (porém, o
manifesta na grande variação de dimensões, execu- vale do Copan, por exemplo, continuou habitado
ção e decoração. No conjunto', a arquitetura maia mesmo depois do fim do centro cerimonial), e revol-
preocupava-se mais em distribuir grandes massas em tas camponesas.
espaços descobertos, desprezando o interior dos edi- A queda — ainda mal explicada — dos princi-
fícios: os templos que coroavam as pirâmides eram pais centros meso-americanos provocou o floresci-
pequenos, escuros, com cobertura de madeira ou em mento de centros cerimoniais secundários ou regio-
falsa abóbada. nais, como E l Tajin (Veracruz), Xochicalco (More-
A escrita hieroglífica s ó está parcialmente deci- los) e Cholula (perto da atual Puebla). Por outro
72 Ciro Flamarion S. Cardoso América Pré-Colombiana 73

lado, o vazio de poder criado pela destruição das como a coluna-serpente e a coluna-atlante, permi-
principais unidades políticas da região parece ter tem, pela primeira vez n a Meso-América, construir
acelerado um processo, talvez j á antigo, de infil- extensos espaços cobertos. Por fim, ocorrem então os
tração para o sul de n ó m a d e s setentrionais, cha- c o m e ç o s tardios da metalurgia meso-americana.
mados chichimecas na Meso-América. Mas a sua O início da civilização dos toltecas e s t á vincu-
chegada m a c i ç a é por demais tardia para poder ser lado à migração de grupos chichimecas vindos do
apresentada como causa da queda dos centros cha- norte, que fizeram irrupção violenta no planalto cen-
mados ' 'clássicos''. f tral mexicano a princípios do século X d. C , termi-
nando porém por sedentarizar-se, assimilando a he-
rança teotihuacana através do contato e mistura com
O último periodo da história pré-colombiana da povos locais. O mito liga tal processo à lenda de
Meso-América {aproximadamente 900-1519 a. D.) Quetzalcóatl, no qual seria i n g é n u o querer identi-
ficar um personagem histórico real, como demons-
E s t a fase se caracteriza, antes de mais nada, por trou A . López Austin. O império tolteca tinha como
dois grandes processos sócio-culturais. ?Em primeiro capital T u l a , situada 60 k m ao norte da atual cidade
lugar, o encontro, várias vezes repetido, entre dois do M é x i c o , numa região instável, onde entravam em
modos de vida, o dos agricultores sedentários e o dos contato a zona agrícola meso-americana e a zona
guerreiros n ó m a d e s , caçadores-coletores, provocan- setentrional, mais seca, onde se praticava a c a ç a e a
do confusão e conflito, mas t a m b é m mescTãTllrver- coleta. De fato, alguns autores acham que um resse-
sas; com o novo elemento vindo do norte, acentua-se camento climático a meados do século X I I I , atetando
o militarismo e o prestigio dos guerreiros, e penetram a fronteira agrícola, esteve ligado à queda do império
na região novas concepções religiosas. E m segundo tolteca. Este compreendia diversas regiões subme-
lugar, dá-se a fusão da h e r a n ç a de Teotihuacan, tidas a tributo: Michoacan, o norte de Veracruz, o
recomida em diversos centros menores e passada pos- V a l e do M é x i c o ; e, desde 1045 a. D . , o rei misteca
teriormente aos toltecas, com a mais recente tradição aceitou sua suserania. O s toltecas, cujo núcleo inicial
misteca-Puebla, com centro em Cholula, surgindo a havia sido no passado um grupo de n ó m a d e s do
partir disto novas concepções urbanísticas, arquite- norte, agora vigiavam as regiões setentrionais através
tónicas, artísticas, etc. E m particular, este período de postos fronteiriços, para evitar novas invasões,
assiste a grande progresso e difusão da urbanização, embora t a m b é m admitissem chichimecas nas suas
apoiada pelo menos em parte n a e x p a n s ã o da agri- tropas. Como anteriormente Teotihuacan, os toltecas
cultura de regadio. Na arquitetura, novos elementos, de T u l a comerciavam com o sul e o leste, importando
76 Ciro Flamarion S. Cardos* América Pré-Colombiana 77

Quanto à economia, o seu nível técnico man- telolco. Aliando-se primeiro aos tepanecas de Atzca-
teve-se baixo, com predomínio de instrumentos agrí- potzalco e depois às cidades de Texcoco e Tlacopan
colas de pedra e madeira, com a exceção do uso de ("Tríplice Aliança", 1434 a. D . ) , a sua posição se
machados de cobre para derrubar árvores. É possí- consolidou com o rei Moctezuma I (1440-1469 a.
vel, porém, que em certas regiões — como as terras D . ) , cujas conquistas abriram a fase do predomínio
altas da Guatemala — haja-se desenvolvido uma asteca, que continuava a se estender sob Moctezuma
agricultura mais eficiente, com terraços de cultura e I I quando chegaram os espanhóis em 1519. Nesta
irrigação. O s maias cultivavam o milho, o algodão, o data, o chamado "império" asteca — na verdade um
agave, o cacau, diversas frutas, e criavam cães caça- mosaico de alianças, confederações, relações tributá-
dores e outros que eram comestíveis, perus e abelhas. rias, implicando povos numerosos, heterogéneos e
As colheitas eram recolhidas a celeiros de madeira ou imperfeitamente submetidos — era um bloco com-
cavados no solo. A s atividades agrícolas eram com- plexo, pouco coerente e descontínuo (havia enclaves
plementadas pela caça, pesca e coleta. Produziam sal não-submetidos e hostis, como o reino tarasco e o
que, com têxteis de algodão, cacau, mel, escravos, senhorio de Tlaxcala). Expedições punitivas eram
plumas, jade e obsidiana, exportavam para outras frequentemente necessárias para manter o domínio e
regiões da Meso-América, por terra (construíram ca- o tributo e para garantir as rotas comerciais.
minhos pavimentados com pedra calcárea) ou por
A unidade social básica dos astecas ou mexicas
mar, havendo canoas que ligavam por cabotagem o
era o calpulli, comunidade residencial com direitos
enclave portuário asteca de Xicalango (Campeche)
comuns sobre a terra e uma organização interna de
com todo o Iucatã e com regiões mais a leste, as quais
tipo administrativo, judiciário, militar e fiscal. Sua
estavam sofrendo um processo de conquista progres-
interpretação como. um c l ã foi usual no passado, mas
siva pelos astecas.
não parece correta. Mesmo ao fundarem Tenochti-
D a dispersão em cidades-Estados independentes tlan, os astecas apresentavam, segundo parece, uma
e rivais que caracterizou o México central depois da organização tribal j á bem abalada, e a vida urbana, a
queda do império tolteca, emergiu finalmente — influência de outros povos do M é x i c o central e depois
depois de complicado processo que n ã o podemos as conquistas fortaleceram a hierarquização e a desi-
descrever aqui — a hegemonia de uma delas, Te- gualdade social, presente inclusive dentro de cada
nochtitlan, a cidade dos mexicas ou astecas, fundada calpulli. No nível político, porém, até o fim o rei
numa ilha do lago de Texcoco, no Vale do M é x i c o , (Huey Tlatoani) tinha direitos e funções que osci-
em 1325 a. D . , a qual viveu durante muito tempo, à lavam entre os de um chefe tribal e os de um chefe de
Estado, sendo o cargo eletivo numa mesma família.
sombra da poderosa cidade comercial vizinha de T l a -
74 Ciro Flamarion S. Cardos América Pré-Colombiana 75

cacau, jade, plumas e algodão e exportando artigos e viviam no México central (incluindo, por ultimo, os
de obsidiana. A sua cerâmica típica, alaranjada, cor- mexicas ou astecas). A lenda reflete esta influência
responde ao estilo chamado de Mazapán. A destrui- ná história da migração de Quetzalcóatl (Kukulkan
ção do império tolteca liga-se a novas ondas migra- para os maias), que teria deixado Tula por Chichen-
tórias do norte: T u l a foi tomada em 1168 a. D . e Itzá. O influxo mexicano se nota em novos estilos
depois totalmente destruída em 1224 a. D . , criándo- arquiteturais, em elementos religiosos (intensificação
se outra vez uma situação de vazio de poder no dos sacrifícios humanos, importância da serpente
México central, o que abriu caminho à proliferação emplumada) e no crescente militarismo. Os núcleos
de numerosas cidades-Estados em luta entre si. mais importantes da civilização maia nesta fase —
Os mistecas, que sucederam aos zapotecas em durante a qual o seu centro de gravidade se trans-
Oaxaca e depois tomaram Cholula (onde seus reis feriu para o norte da península de Iucatã e, mais
eram coroados), são, segundo J . Paddock, os pais do tarde, para a Guatemala — eram Chichen-Itzá, Ux-
urbanismo meso-americano em sua última fase. A mal, Tulum, Mayapan e Labná. Posteriormente ao
sua importância começa por volta do século X I I I d. período chamado maia-tolteca, deu-se o episódio da
C . Foram, com os tarascos do centro-oeste mexicano, Liga de Mayapan: esta. cidade venceu Chichen-Itzá e
o grupo que mais desenvolveu na Meso-América o impôs sua hegemonia entre 1200 e 1450 a. D . , quan-
trabalho dos metais, sendo grandes ourives; além do do foi destruída, seguindo-se uma fase de descentra-
ouro, trabalhavam a turquesa e o jade. Fabricavam lização.
rica cerâmica polícroma, mosaicos de turquesa, or-
namentos de cristal e recipientes de ónix. Além disto, Como é natural, é para este período tardio que
a maioria dos códices pré-colombianos que se conser- as fontes proporcionam mais informação sobre a
varam é misteca. Tinham arquitetura inspirada nos organização dos maias, como também dos.demais
antecedentes zapotecas, mas com inovações (mosai- povos meso-americanos. A unidade básica era ã
cos de pedra em relevo com motivos geométricos). Os cidade-Estado, com um rei, um Conselho de nobres e
sítios mais conhecidos desta civilização são o palácio sacerdotes, um chefe militar eleito por três anos e
de Mitla e as tumbas de Yagul; por outro lado, os submetido a proibições rituais e toda uma rede de
mistecas reutilizaram antigas tumbas zapotecas, co- funcionários, policiais e chefes de aldeias. A estru-
mo foi demonstrado por A . Caso. tura social manifestava restos de um regime de clãs
ou linhagens tribais e uma estratificação qué com-
No início deste período final pré-colombiano, os
preendia nobres, sacerdotes (cuja hierarquia interna
maias sofreram um profundo impacto tolteca e, em
era complicada), a massa do povo e "escravos" (cri-
geral, dos povos que falavam línguas do grupo nahua
minosos, prisioneiros de guerra).
78 Ciro Fiam arion S. América Prê-Colombiana 79

No apogeu do "império", a sociedade asteca era certas restrições, transmissível por herança; 3) diver-
complexa e muito estratificada, com uma nobreza sos tipos de propriedades públicas, cujos frutos iam
crescentemente hereditária (tlatoque), uma nobreza para a casa real, os templos, o abastecimento de
de função de origem militar (tecuhtli), comerciantes guerra e a administração. P. Carrasco afirma, po-
especializados residentes em Tlatelolco (pochtecas ou rém, que as diferentes formas de acesso às terras —
oztomecas), formando uma corporação especial, ar- incluindo as terras dos nobres que certos autores
tesãos reunidos em organizações profissionais, diver- apresentam como "propriedade privada" — eram
sas categorias populares urbanas e rurais, servidores concessões em troca do exercício de funções tributá-
que os espanhóis consideraram "escravos", etc. rias, militares, sacerdotais, burocráticas, etc., feitas
As plantas cultivadas eram muito numerosas, pelo Estado com caráter revogável e sob condição do
mas a base da alimentação eram o milho, o feijão e a cumprimento das obrigações a elas vinculadas.
pimenta. Como animais domésticos, havia o peru e o Quanto ao trabalho rural, existiam quatro tipos
cão; também se praticava a apicultura e se extraía básicos de trabalhadores: 1) os calpuleque ou mem-
um colorante vermelho da cochonilha. Certas plan- bros do calpulli, que trabalhavam as terras deste pára
tas, como o maguei, tinham usos industriais (fibras, suas próprias necessidades e para pagar o tributo,
fabricação de bebidas fermentadas). As produções além de estar permitido alugar partes do solo do
do vale do México se complementavam pelo comércio "bairro"; 2) os teccaleque eram também membros de
com as zonas tropicais. A tecnologia agrária, a não um calpulli, com a única diferença de que o resul-
ser pela irrigação (canais, chinampas ou ilhas flu- tado do seu trabalho servia para sustentar a corte,
tuantes dos lagos) era primitiva: como no caso dos além de suprir as próprias necessidades; 3) os arren-
maias, predominavam os instrumentos de pedra e datários, que lavravam terras alheias (de nobres ou
madeira, e a metalurgia teve pouca aplicação prá- de comunidades), dispondo ou n ã o do uso de outras
tica. parcelas a título pessoal; 4) os maye que, camada
Quanto à estrutura agrária, pode-se afirmar a inferior da população rural, igualmente arrendatá-
existência de diversas formas de propriedade, talvez rios (vitalícios): eram a mão-de-obra dependente que
redutíveis — segundo Manuel M . Moreno — a três trabalhava nas terras do rei, dos nobres e outros
modalidades principais: 1) propriedade comunal: as particulares. Algumas fontes mencionam também
terras do bairro ou calpulli, subdivididas em terras uma categoria que os espanhóis traduziam como "es-
de cada linhagem e terras realmente comunais; cravos".
2) propriedade dos nobres, em grande parte em ter- Tenochtitlan recebeu, ao longo de sua história,
ras conquistadas, individual, alienável entre eles com artesãos vindos" de diferentes áreas meso-americanas.
80 Ciro Flamarion S.

Devemos imaginar a cidade-capital dos astecas como


urna enorme a g l o m e r a ç ã o — talvez tivesse entre 200
e 300000 habitantes, o que a transformaria n u m a
das maiores cidades do mundo n a é p o c a — , con-
tendo u m imenso mercado bem regulamentado onde
intervinham como compradores ou vendedores uns
60 000 i n d i v í d u o s todos os dias, centros cerimoniais,
o n ú c l e o de u m c o m é r c i o de longa d i s t â n c i a estreita-
mente controlado pela casa real. Vale do M é x i c o
exportava escravos, roupagens, objetos de luxo, obsi-
diana trabalhada, ocre, cochonilha, peles de coelho,
e recebia — em especial d a costa do Golfo — plu-
mas, turquesas, jade, peles de jaguar, mantos de
plumas, cacau (usado t a m b é m como p a d r ã o mone-
tário), escravos.
Na religião, n a arte, em outras m a n i f e s t a ç õ e s
intelectuais ( c a l e n d á r i o , medicina etc.), a civilização
asteca c o n s t i t u í a u m a síntese de t r a d i ç õ e s meso-ame-
ricanas, com i n c o r p o r a ç ã o de alguns elementos se-
tentrionais. Emjiparticular, caracterizavam-na n o t á -
vel e inquietante escultura em pedra, a c e r â m i c a com
motivos negros sobre fundo alaranjado ou vermelho,
os mosaicos de pedra ou de conchas, a arte plumaria.
A arquitetura da capital foi d e s t r u í d a na sua parte
principal e é conhecida por bases de monumentos
que foram escavadas, por descrições 6 u m ou outro
resto de edifício; mas nos arredores da atual cidade
do MéxicojDç4eni_SCT vistos t e m p l o s _ s e c u n d á r i o s de
pedra bem conservados ( M á f í n ã l c o , Tenayuca). O
complicado p a n t e ã o era dominado pelo deus tribal
mexica, Huitzilopochtli, e o culto comportava nume-
82 Ciro Flamarion S. Cardoso América Pré-ColombianM.

rasíssimos sacrifícios humanos. Como entre os tol- rica em plâncton. atraLoeixes em abundância, os
tecas, nota-se uma certa tensão entre esta religião quais são alimento humano mas também de-aves
sangrenta e o ideal religioso mais espiritual de Quet- marinhas que habitam ilhotas costeiras onde o seu
zalcóatl, de derivação teotihuacana. Os astecas dis- excremento — o guano — , acumulado durante milê-
punham de um elaborado sistema de educação das imJSrja-era conhecido e usado em tempos pré-colom-
elites, e puderam ser recolhidos depois da conquista bianos como adubo: O deserto costeiro é interrom-
muitos textos literários de origem pré-colombiana em
pido por mais de quarenta vales, de rios grandes e
língua nahuatl, alguns de grande valor estético.
permanentes ou pequenos e ocasionais, os quais são
verdadeiros oásis fertilizados pelo limo que vem das
montanhas carregado pelos rios ou torrentes. De j u -
Sequências histórico-culturais nho a novembro, o tempo é nublado e ocorrem espes-
sos nevoeiros; de dezembro a maio é ensolarado e
na Zona Andina Central muito quente, Na parte norte da costa h á chuvas
ocasionais, porém mais ao sul quase nunca chove.
A Zona Andina Central Faltam árvores e a pedra é rara: as construções usa-
ram na sua maioria tijolos crus secos ao sol. A impor-
O seu núcleo fundamentai compreendia partes tância das marés levou ao culto lunar. O isolamento
dos atuais Peru e Bolívia; posteriormente, foram-lhe dos vales entre si favoreceu durante longo tempo
incorporadas pela conquista porções do Equador, do forte individualidade cultural de cada um deles.
Chile setentrional e da Argentina norte-ocidental. As terras altas, temperadas e frias — j á que a
Do ponto de vista geográfico e ecológico, é pre- altitude anula os efeitos da latitude tropical — com-
ciso distinguir na Zona Andina Central três faixas preendem as cordilheiras propriamente ditas (monta-
paralelas que se sucedem de oeste para leste. nhas cobertas de neve, não-habitadas), terras muito
E m primeiro lugar, um deserto costeiro ao longo altas com vegetação herbácea propícia ao pastoreio
do litoral pacífico, entre o mar e a Cordilheira dos de lhamas {punas) e vales ou bacias cercados de
Andes, com um comprimento norte-sul de 3 200 km e montanhas, de clima temperado, cobertos de bos-
uma largura que varia entre 1,5 e 40 k m . A corrente ques, com pastos e arroios. Este vales atraíam espe-
fria de Humboldt, que corre paralelamente à costa cialmente a ocupação humana. Os principais são, de
no sentido sul-norte, força precipitações atmosféricas norte a sul, Cajamarca, Callejôn de Huaylas, Huá-
sobre o mar, ao condensar a umidade dos ventos do
nuco, Mantaro, Cusco e Titicaca, todos a mais de
oeste: estes já chegam secos ao litoral. Esta corrente,
2000 é às vezes 3000 metros de altura. O lago Titi-
t
84 Ciro Flamarion S. Cardoso
América Pré-Colombiana 85

caca, a 3 812 metros de altura, é a superfície navegá-


vel mais alta do mundo. o culto ao complexo jaguar-pássaro-serpente. Acima
de tudo, porém, apresenta forte originalidade: entre
A~região amazônica começa em plena monta-
outros traços, um complexo agrícola próprio que
nha^ a 1900 metros de altura, devido aos alísios que
vêm do leste e, chocando-se com os Andes, provocam associou tardiamente o milho a plantas como a coca,
chuvas que alimentam nas encostas espessa floresta a batata e a quinoa e à domesticação do lhamã e seus
tropical, que cobre também a planície oriental. Esta congéneres; culto dos mortos, conservados em envol-
é uma região de vales cobertos de bosques (yungas), tórios (as "múmias" andinas); desenvolvimento mais
com rios largos da bacia amazônica, só parcialmente antigo e bem maior do que entre os povos meso-ame-
integrada à área cultural dos Andes centrais. ricanos do uso de metais (ouro, prata, cobre, bron-
Enquanto na Meso-América a complementari- ze); sistema numérico decimal e uso de quipus (pro-
dade ecológica das regiões foi origem de comércio cesso mnemónico e de cálculo baseado em cordões
inter-regional mais ou menos intenso,, na Zona A n - com nós).
dina Central a exploração de recursos ecológicos di- A periodização da história andina é particular-
ferenciados deu origem a uma solução peculiar, a mente difícil, devido à maior fragmentação cultural e
constituição do que John Murra chamou "arquipé- talvez a fases e processos realmente mais acidentados
lagos verticais" dos Andes: cada grupo étnico ou e complicados; por outro lado, a evolução meso-ame-
político tratava de aumentar a sua produtividade ricana está mais bem estudada em seus detalhes. No
controlando o máximo de "andares" e nichos ecoló- passado, proliferaram cronologias fantasiosas e até
gicos que pudesse, apoderando-se assim de recursos ridículas, que incluíam com aparente seriedade de-
variados. Este esforço incluía a constituição de coló- nominações como as dos períodos "cultista", "expe-
nias residenciais permanentes, longe do núcleo terri- rimental" e "dos mestres artífices"... Seguiremos
torial da etnia ou Estado, encarregadas do abasteci- aqui uma periodização adaptada da que propõe E .
mento de certos recursos não-disponíveis naquele nú- P. Lanning (Peru Be/ore the Incas, Englewood Cliffs,
cleo (houve também colónias multi-étnicas). Este pa- Prentice-Hall, 1967, cap. I I I ) , por ter maior base
drão de assentamento limitou muito, a não ser na arqueológica. As datas são, naturalmente, aproxi-
costa, as possibilidades de desenvolvimento comer- madas.
cial.
Do ponto de vista cultural, a Zona Andina Cen-
tral partilhava com a Meso-América certos elemen-
tos: pirâmides escalonadas, aspectos religiosos como
Ciro Flamarí&n S. Cardoso América Pré-Colombiana 87

Difusão das aldeias e surgimento dos primeiros mide de L a Florida (hoje na cidade de Lima), na
templos e centros cerimoniais (2500-900 a. C.) costa central, o de Las Haldas, t a m b é m na costa
(mais ao norte), e o de Kotosh, perto de H u á n u c o ,
Este período consta de duas partes. Na fase pré- nas terras altas, contendo o "templo das m ã o s cru-
cerâmica final (2500-1800 a. C ) , a agricultura e a zadas".
vida em aldeias sedentárias se espalharam por toda a A construção de estruturas consideráveis como
costa peruana, as e s p é c l è T ^ ^ estas exigiria um grau considerável de coordenação e
ram — espécies vegetais principalmente, mas tam- direção. Para explicá-lo, alguns autores pretendem
b é m a cobaia ou porquinho- da-índia — , e surgiram que já nesta fase do I I milénio a. C . existiram peque-
os primeiros templos, pirâmides e altares (bem mais nos Estados regionais compreendendo várias comu-
cedo, portanto, do q u é ^ ^ M e s o - A m e n c à , provavel- nidades aldeãs. Isto parece pouco provável, bastando.
mente devido à presença de recursos marítimos admitir u m sistema de chefias ou confederações tri-
abundantes a l é m dos terrestres, favorecendo uma bais, como no caso dos olmecas da Meso-América,
produtividade superior das economias pré-históricas; embora certamente com um e s b o ç o de grupo social-
na verdade, os recursos marinhos predominavam en- mente dominante em processo de diferenciação.
t ã o sobre os agrícolas na dieta). A p o p u l a ç ã o das
aldeias parece variar entre um m í n i m o de 50 e u m
m á x i m o de 1000 pessoas. A s culturas eram então A primeira cultura inter-regional (900-200 a. C.)
estritamente regionais. Entre os santuários desta fa-
se, mencionemos o templo construído no vale de Por volta de 900 a. C , pela primeira vez, certos
Chillon (costa central peruana), em Chuquitanta, elementos culturais de tipo artístico, religioso e ar-
compreendendo nove edifícios feitos com blocos na- quitetônico se expandiram fora de quadros estrita-
turais de pedra. mente regionais, ganhando toda a costa norte e cen-
A fase que se estende de 1800 a 900 a. C . viu a tral peruana e algumas regiões altas setentrionais^
difusão do assentamento em aldeias sedentárias tam- centrais. O e s t i l o e h t ã o d i f u n d í 3 õ é c h a m a d o C h a v i n ,
b é m nas terras altas dos Andes centrais, os inícios da do nome do sítio mais famoso do período, o templo
cerâmica e da tecelagem com tear, a domesticação do de Chavin de Huántar, situado num vale estreito das
lhama, o desenvolvimento por toda a região da cul- terras altas, próximo ao Callejón de Huaylas. O s
tura do milho e a adoção na costa da mandioca e do sítios mais notáveis da fase ou estilo de Chavin s ã o
amendoim. Deste período datam importantes cen- quatro. Cupinisque, na costa norte, se caracteriza
tros cerimoniais, como o que inclui a grande pirâ- por uma cerâmica com um motivo estilizado repre-
88 Ciro Flamarion S. Cardos> América Pré-Colombiana 89

sentando o jaguar, produzindo vasilhas com gargalo centros administrativos, quartéis para guarnições
em forma de estribo, por casas de pedra ou adobe, militares ou fortalezas. Por outro lado, a homogenei-
adornos de conchas e turquesas, enterros com ofe- zação cultural, onde ocorreu, foi somente parcial, e
rendas, sendo os ossos pintados de vermelho e mani- às vezes o estilo de Chavin e os estilos locais formados
festando-se deformações voluntárias dos crânios. anteriormente aparecem lado a lado. Seja como for,
Cerro Sechín, no vale de Casma (costa norte), apre- há indicios de que este período diminuiu a comparti-
senta lajes de pedra gravadas com figuras humanas, mentação cultural: houve comércio de artigos como
geométricas e de outros tipos; alguns atribuem este cerâmica cerimonial e ossos esculpidos entre regiões.
sítio a período anterior. O sítio de Chavin de Huân- T a m b é m se atribui a esta fase a difusão de um tipo
tar, provavelmente um centro de peregrinação reli- mais produtivo de milho, talvez de origem meso-
giosa, compreendia diversos edifícios, o mais impor- americana, possivelmente o começo da irrigação
tante sendo o templo de pedra chamado " E l Cas- (drenagem, canais) nos vales da costa, o desenvol-
tillo", decorado com cabeças em relevo, diversas re- vimento da tecelagem e os começos da metalurgia.
presentações estilizadas do felino e um monolito es-
culpido igualmente com o motivo do jaguar. Por fim,
Paracas Cavernas (sítio situado numa península da As primeiras cidades e o progresso dos Estados
costa sul peruana) apresenta tumbas com cerâmica organizados (200a. C.-600a. D.)
bastante peculiar, mas que manifesta algumas in-
fluências de Chavin: de fato n ã o parece pertencer
As características básicas ^deste período são: o
propriamente ao mesmo horizonte cultural, mesmo grande desenvolvimento tecnológico e artístico; o
estando sob seu influxo parcial. ^rfp*wft"Tfwip. Estãxfôs altamenfêP orgamjaofos e
O que significa realmente o estabelecimento do agressivos; o nascimento do urbanismo andino, em-
estilo de Chavin em numerosas regiões? A sua origem bora nesta fase limitado às terras altas dojguJL Nesta
se deu nas terras do centro-norte peruano, mas igno- última região surgiram as cidades de Tiahuanaco,
ramos se na costa ou nas montanhas. Sua rápida Pucara e Huari, cada uma delas com um núcleo
expansão sugeriu a certos especialistas a ideia da monumental provido de praças e edifícios públicos,
difusão de um culto religioso do felino, ao mesmo cercado de bairros residenciais, e agindo como foco
tempo por proselitismo e pela força das armas, for- de atração para numerosos povoados e aldeias cir-
mando uma unidade política que poderia ser cha- cunvizinhos (a população destas cidades poderia ser
mada de "império Chavin". N ã o h á , porém, bases de uns 10000 habitantes).
arqueológicas para afirmá-lo: n ã o foram descobertos Houve um indubitável desenvolvimento técnico
Ciro Flamarion S. América Prê-Colombiana 91

e e c o n ó m i c o . Nos vales da costa criaram-se ampios eram o milho (com duas colheitas anuais), a batata,
sistemas de irrigação; nas terras altas, terraços para a batata-doce, a mandioca, diversos tipos de feijão, a
cultivo e canais. Mesmo com teares primitivos, a lentilha, árvores frutíferas, etc.
tecelagem de algodão e de í â j a e alpaca atingiu u m A cerâmica, fabricada pelas mulheres, é consi-
apogeu nunca superado, produzindo bordados, tape-
derada a melhor de toda a história do Peru pré-
tes, brocados, malhas, tecidos, que conhecemos s ó
colombiano. A maioria dos vasos era produzida em
n a c o s t a s e c a , pois n ã o sg^bnsgryaram nas terras
moldes de4irgila, acrescentando-se depois gargalos,
altas (onde, porém, h á estátuas representadas vesti-
asas e adornos. As formas eram variadas e distin-
das e a^rqueõlogia j£y^lojdCH«os e p ^ a ^ ^ J e a j ç g s X ;
guia-se a cerâmica utilitária, simples, da cerimonial
À metalurgia — basicamente ornamental, mas entre
e funerária. Esta representava com grande realismo
os mochicas t a m b é m usada para instrumentos agrí-
cenas da vida quotidiana, personagens, atividades
colas e armas — deu um grande passo à frente,
trabalhando-se o ouro, a prata, o cobre e ligas destes guerreiras, divindades, etc.
metais, através de técnicas diversas (metal marte- Como n ã o dispomos de qualquer fonte escrita,
lado, forjado, trançado, m é t o d o da cera perdida). A o que se afirma acerca da estrutura social e política
cerâmica cerimonial t a m b é m se aperfeiçoou nota- dos mochicas é inferido da arqueologia, e sobretudo
velmente. da cerâmica tão gráfica que deixaram. Existem esta-
tuetas do que parecem ser reis e nobres e a presença
Na costa norte — vales de Chicama, Moche e
de forte estratificação social é clara. Pode-se deduzir
Viru, posteriormente anexando os vales de Chao,
das representações de castigos um sistema judiciário
Santa, N e p e ñ a e Casma — desenvolveu-se e n t ã o a
severo: amputação do nariz, do lábio superior, dos
cultura que chamamos mochica. j
pés; pena do cepo; pena de morte por lapidação ou
A base da economia mochica era agrícola, mas a por exposição do condenado, amarrado a um poste,
p e g c a / ^ utilizando botes de junco, ganchos e redes a aves de rapina. Hálttiuitas representações de guer-
— continuava sendo importante. JÖ maF" fornecia
ras e guerreiros: estes usavam capacetes e orelheiras
t a m b é m sal e usava-se o guano costeiro. A c a ç a tinha
para proteção, e combatiam com escudo, faca, ta-
caráter^omplementarj sendo talvez um esporte aris-
cape de ponta de cobre e fundas. Cães eram usados
tocrático. A arqueologia revela canais de irrigação de
nos combates. H á representação de prisioneiros de
barro pisado com até 130 km de extensão e um
guerra, que provavelmente eram sacrificados. A ad-
aqueduto do mesmo material em Chicama. Estas s ã o
ministração de um Estado de considerável dimensão
obras que s u p õ e m uma p o p u l a ç ã o numerosa e uma
levou à contrução de uma rede de caminhos, percor-
sólida organização estatal. Os cultivos principais
ridos por corredores com função dé correio oficial.
92 Ciro Flamarion S. Cardos América Pré-Colombiana 93

A arquitetura usava tijolos de barro cru. As tumbas que constam de um poço cilíndrico dando
construções eram grandes — incluindo templos, pa- acesso a uma câmara retangular ou em abóbada,
lácios, fortalezas — mas não houve verdadeira urba- consolidada às vezes com postes de madeira. Os
nização. No vale de Moche foram descobertas duas cadáveres eram envoltos em mantos, com os mem-
grandes pirâmides, chamadas "do Sol" e "da L u a " . bros flexionados, e enterrados com abundante cerâ-
Os mochicas eram bons ourives, usando turque- mica e outras oferendas. A cerâmica é às vezes estili-
sas, ametistas, lápis-lazúli, conchas, ouro e prata. zada, mas há também representações de felinos
Trabalhavam também o cobre. Quanto à tecelagem, coroados de serpentes e outros animais. Os tecidos
dispomos de poucos tecidos de cor creme. eram de algodão e de lã de lhama e vicunha. Apare-
A religião, tal como pode ser inferida da cerâ- cem objetos de ouro martelado e gravado.
mica. conhecia um felinõTiumanizado que-aparece Quanto a Paracas-Necr^pjples, suas tumbas são
voando montado em pássaros, associado a vários verdadeiras casas subterrâneas com espessas paredes
aniHTãis humanizados ou n ã o . e em luta com outros
S ê pedra e barro cobertas-com ramagenycostelas^íe
tipos de animais.com conotações demoníacas, A ce-
baleia è~courp. Foram achadas centenas de múmias,
râmica, através de representações realistas de doen-
preparadas através da extirpação dos órgãos internos
ças (lepra, bócio, paralisia, tumores, cegueira), mos-
jTde ressê^ãmento pela fumaça^ecolggadas em cestos
tra que tinham conhecimentos de medicina e prati-
depois de envoltas em tecidos. Muitas delas apre-
cavam inclusive a cirurgia (amputações, trepanação
do crânio) com instrumentos feitos às vezes de ossos sentam crânios deformados e trepanados. As m ú -
de tubarão. Havia curandeiros e curandeiras, prova- mias aparecem associadas a cerâmica, jóias, macha-
velmente conhecedores de plantas medicinais. A mú- dos de pedra, restos de plantas e animais. Os tecidos,
sica incluía trombetas, percussão e flautas. É pos- que chegam a ter 30 metros de comprimento, são
sível que existissem representações teatrais. mantos, ponchos e turbantes que envolviam as mú-
mias: suas decorações representam seres fantásticos
Na costa sul desenvolveram-se as culturas de e flutuantes, provavelmente figurações das almas dos
Nazca e de Paracas-Necrópoles. mortos assimiladas a astros. Foram achados instru-
E n i Nazca não foram achados restos arquitetô- mentos cirúrgicos: bisturis, facas de obsidiana, espá-
nicos. Existem, porém, figuras geométricas e repre- tulas de dentes de mamíferos marinhos, discos de
sentacõêiTdiversas, gigantescas, desenhadas sotyre~o~ algodão, fios de coser.
solo, ligadas talvez a algum culto astral ou a.juna Nos planaltos do sul desenvolveu-se a j á mencio-
"comunicação" ritual com deuses celestes. Cerâmica
nada civilização urbana. Tiahuanaco compreendia
e tecidos de alta qualidade foram encontrados em
um grande centro cerimonial com construções de
94 Ciro Flamarion S. Cardos América Pré-Colombiana s 95

pedra, situado em território hoje boliviano. A agri- Os primeiros impérios (600-1000 a. D.)
cultura (batata, quinoa) e o~pastoreio d e j h a m a s
eram a base económica desse elevado planalto do Neste período h á provas, inequívocas de con-
Titicaca. Como Chavin no passado, Tiahuanaco pa- quistas em alta_escala, formando impérios conside-
rece ter sido um centro de peregrinações religiosas. raveíslnas efémeros, que romperam o tradicional iso-
Situado entre a costa e a zona amazônica, pode f lamej^pjlasculturas an^n^s^e^izeram^rcular pêffs
t a m b é m ter constituído uma zona de passagem e e ideias na Zona Andina Central.
intercâmbio. Na chamada "Porta do Sol" está repre-
O inlperio dê Tiahuanaco compreendia a tota-
sentado um personagem central humano, associado
lidade da bacia do lago Titicaca e o sudoeste da
â cabeças de felinos e condores e a pequenas figuras
Bolívia, pequena parte do sul do Peru até o vale de
aladas: poderia, segundo alguns, tratar-se do deus
Majes e Arequipa, e a costa e zona montanhosa do
I S l a d c í V i r a c o c h a j f e n c o n t r a m - s e lá grandes estátuas
monolíticas e colunas com relevos./ U m a cerâmica Chile setentrional. Conhecemos mal este episódio,
típica de vasos polidos e polícromos assume às vezes o qual inclusive é negado por vários autores, que
forma de puma ou de lhama. A l é m das cidades maio- v ê e m na difusão da cerâmica e dos estilos artístico e
res — Tiahuanaco, Pucara, Huari — havia outras religioso de Tiahuanaco u m a expansão exclusiva-
menos consideráveis no planalto do sul do Peru, mente cultural, e n ã o político-militar.
Chakipampa, Acuchimay e Nawimpukyu, e m pro- Já no caso do império posterior de Huari, as
vável dependência e c o n ó m i c a de Huari. Presume-se pesquisas de D . Menzel permitiram uma ampliação
a presença de organizações estatais, mas nada sabe- dos nossos conhecimentos. Huari era um centro
mos a repeito. E m vales da costa meridional — Pis- urbano do vale do Mantaro, com longa tradição de
co, Ica>. Nazca e Acari — surgiram igualmente pe- vínculos culturais com Tiahuanaco — o estilo das
quenas cidades. Mais ao norte n ã o h á traços de duas culturas é virtualmente idêntico — e t a m b é m
urbanismo, mas sim de guerras que levaram à unifi- com os vales de Ica e Nazca. A e x p a n s ã o c o m e ç o u em
cação de cada vale, e mesmo à reunião de vários 650-700 a. D . , formando-se uma espécie de liga de
deles, como vimos no caso do Estado mochica. Su- cidades, e entre 700 e 800 a. D . Huari foi a capital de
põe-se que existiram Estados t a m b é m nas terras altas um vasto império que, no seu apogeu, incluía quase
centrais e setentrionais, mas faltam dados. todo o Peru, a t é Cajamarca. A e x p a n s ã o militar
acompanhou-se da difusão dos estilos artísticos e do
padrão urbanístico de Huari. T a l império, porém,
desintegrou-se rapidamente, sendo a capital inclu-
sive abandonada. Ã queda — por causas desconhe-
96 Oro Flamarion S. Cardoso
América Pré-Colombiana

cidas — deste império seguiu-se o abandono das


sob os chimus e incas. Por outro lado, h á indicios de
cidades do sul peruano e diversos séculos de eclipse
um aumento de população, conduzindo à extensão
da vida tabana.
dos sistemas de irrigação e à multiplicação, n a zona
Neste período desenvolverse o importante san-
serrana, dos terraços para cultivo.
tuario e cidade de Pachacamac, na costa central
O çeino chimu, cuja civilização parece ter resul-
peruana, com um estilo próprio em cerâmica e tape-
tado da fusão da cultura do vale setentrional de
çaria policromas representando águias, aparentado
Lambayeque com elementos mochicas e de Huari,
com o de Tiahuanaco, o qual predominou na costa
chegou a dominar a costa setentrional do Peru, de
central e influiu t a m b é m nos vales do norte e do sul.
Tumbes a Paramoya, e talvez uma parte do E q u a -
É possível que o prestígio de Pachacamac j á e n t ã o se
dor. Sua capital, Chan-Chan. cidade de adobe cons-
vinculasse ao seu oráculo, famoso centro de peregri-
truída no vale de Moche, foi o maior centro urbano
n a ç õ e s em etapa posterior, mas de cujá existência
da Zona A n d i n a Central. E r a uma cidade planifi-
nesta fase n ã o h á provas. cada, estruturada em blocos retangulares contíguos e
Do ponto de vista das técnicas e artes, este n ã o independentes, separados por muralhas. As_paredes
foi um período de grande progresso. A e x p a n s ã o do eram decoradas com arabescos antropomórficos, zoo-
urbanismo e do militarismo são sem dúvida os seus morfos ou geométricos, visivelmente derivados dos
traços mais marcantes. motivos usados nos tecidos. É possível que sua popu-
lação m á x i m a tenha sido de 80000 habitantes, em 17
2
a 22 k m de extensão urbanizada (comparável, pois,
O grande interregno e o império inca à muito anterior cidade meso-americana de Teoti-
(1000-1534 a. D.) huacan). O s chimus tinham pelo menos outras qua-
tro cidades, povoados com guarnições militares, e
A^ destruição do império-de-Huari- levou a que finalmente as aldeias, algumas t a m b é m planificadas.
durante vários séculos imperasse a descentralização e
existissem outra vez numerosos Estados regionais A economia agrícola baseava-se em vastas obras
de r e g a d i o q u é se estendianiltevezes de um vale ao
independentes. Do ponto de vista das técnicas, o
seguinte. O reino tinha um estrito sistema adminis-
cobre teve maior uso do que no passado em ferra-
trativo e tributário, inspirador do dos incas; estradas
mentas e armas e deu-se a invenção, ou pelo menos
uniam os vales, percorridas por mensageiros. Tudo
uma maior difusão, do bronze. Depois do eclipse que
indica uma sociedade diversificada, hierarquizada e
se seguiu à queda de Huari, deu-se uma nova inten-
de grande sofisticação.
sificação do urbanismo planificado, principalmente
Os chimus fabricavam uma cerâmica negra
9 8
C ^ & V « Ciro Hamarion S.Cardoso
América Pré-Colombiana 99 |

derivada dos estilos Lambayeque, mochica e Huari.


Sua metalurgia era avançada, como a produção de depois, em 1531 a. D . Caracterizou principalmente
tecidos. E n f t ò d a s estas atividades, porém, o traço os reinados dos imperadores, ou Incas, Pachakuti,
mldSImarcante era a produção em série, em grande Tupa Yupanki e Wayna Kápak.
quantidade mas pouca variedade. . Iniciando a exposição das características princi-
Sua religião — culto da Lua e das estrelas, de pais da civilização incaica, falaremos primeiramente
da sua estrutura económica de base agrária.
certas pedras associadas aos antepassados — incluía
A preparação da terra se fazia com um bastão
sacrifícios humanos de crianças e a consagração de
de semear reforçado, com apoio para o pé (taclla).ks
virgens à L u a . §uas_múmias eram enterradas sen-.
velceyifeiTOlmr^õ
tidas em fossas coletivas, com oferendas; às vezes
na^Tãpén^ perfurar como, também jrevolver o sòIõT
apresentam deformação tabular do crânio.
Depois que passavam os homens, "arando" com t a f
Relhos e culturas menores deste período foram:
instrumento, as mulheres quebravam os torrões com
Cuismancu, na costa central (vales de Chancay, An-
uma enxada (lampa). Os vales andinos são estreitos,
con, Rimac e Lurin), com as cidades de Cajamar-
e os terrenos planos pouco extensos, de modo que a
quilla e Pachacamac; o Estado chincha (vales de Ca-
construção de terraços para cultivo e a irrigação por
íiete, Chincha, Pisco, Ica e Nazca, na costa sul),
meio de canais (às vezes cortados na pedra) tiveram
menos urbanizado mas com fortificações; nas terras
sob os incas grande desenvolvimento. A expansão do
altas do sul, a cultura de Pukina, derivada da de
milho esteve muito ligada a estas técnicas^A base da
Tiahuanaco-Huari, estendendo-se de Arequipa até a
alimentação eram quatro plantas: a b^taia,JiJililhOj^
Bolívia e o norte do Chile.
a quinoa (um quenopódiõ) ê à oca (um tubérculo).
No vale do Cusco formou-se uma confederação
Arr^vêTHa desidratação da batata congelada, prepa-
inter-étnica que, dominada pelo grupo quíchua ou
rava-se um alimento que se conserva por longo tempo
inca, serviu de primeira base, em fase posterior, à
(chunu). O lhama, além de transporte e lã, fornecia
expansão militar que unificou a totalidade da Zona
couro e carne, seca ao sol (charque).
Andina Central, com acréscimos externos, no imenso
A base da agricultura andina, e de toda a vida
Tawantinsuyu ou império inca, que no seu apogeu se
social, era a aldeia, habitada por diversas famílias
estendia de norte a sul por mais de 4000 km, do
vinculadas pelo parentesco, formando uma comuni-
Equador ao norte do Chile. A expansão imperial
dade ou ayllu. Este n ã o era um clã, ou linhagem;
inca, que n ã o vamos descrever, foi fase tardia da
apresentava tendência à endogamia e um sistema de
historia andina, estendendo-se somente de 1438 a.
descendência paralela (linha masculina para os ho-
D . até a chegada dos espanhóis quase um século
mens, feminina para as mulheres). A família nuclear
100 Ciro Flamarion S. Cardo, América Pré-Colombiana

— um casal e seus filhos solteiros — era a unidade de


os homens comuns (puriq) e os poderosos ou privile-
consumo e de proáu^SõTCs^ntyllu tinha um chefe giados (kapa), e cada categoria era endogâmica em
(£urakq[, ojj£ atribuía o Usufruto de lotes de terra às princípio.
famílias, organizava os estõrços cóléTivos e arbitrava
Na história andina, formaram-se estruturas pi-
os contlitos. X t e l r a do ayllu (markd) incluía campos
ramidais em que um ayllu dominava outros. Ao tor-
cultivados e pastos coletivos, estes na puna fria, onde
narem-se mais vastas surgiram chefias, confedera-
crianças e jovens solteiros pastoreavam os lhamas e
ções tribais e por fim reinos, mas em todos estes ní-
alpacas. Ao contrário dos pastos indivisos, a terra
veis repetia-se tal qual o mecanismo das prestações
cultivadà^èrã dividida em lotes familiares calculados
e da redistribuição. O império inca era somente
segundo o tamanho de cada família, constituídos de
uma espécie de enorhle^cõnfederação de' confedêrã'-
terras situadas em diferentes altitudes, para que
ções, organizando em escala nunca vista nos Anc[es
cada família gozasse de recursos ecológicos diversos.
4âis^opéfaçôes e exigindo trabalho nas terras do Inca
O ciclo da vida agrícola estava baseado na ajuda
e^do Sol, espécies de super-kuraka e super-waka,
mútua (ayni), ou seja, em intercâmbios de trabalho
mas fiéis ao padrão usual. Nestas condições, o co-
entre as famílias para a semeadura e a colheita, bem
mércio não podia ter grande desenvolvimento, pois a
como para outros fins (construção de casas, por
circulação dos bens realizava-se de outra maneira.
exemplo). A divindade ou fetiche tutelar do ayllu, a
Por outro lado, germes de mudança estavam sur-
waka, e o chefe, ou kuraka, recebiam prestações de
gindo, na medida em que os incas aplicaram sistema-
trabalho da comunidade; não havia, porém, qual-
ticamente a política de transferir populações mal
quer forma de tributos in natura além das prestações
submetidas a regiões distantes da sua de origem (cor-
de trabalho. O Ã:Mrafeg.centralizava através de tais
T
tando assim os laços comunitários), de reduzir algu-
trabalhojjojyaa'oTímira), mais riqueza — represen-
mas pessoas a um estado de servidão fora das comu-
taria"~eni especial por bens raros como a coca, a
nidades (os yaha), de aproveitar o trabalho de fiação
bebida fermentada de milho .certos tipos de vesti-
e tecelagem das "mulheres escolhidas" que viviam
mentas, etc. — do que qualquer outro membro* do
nos conventos do Sol. Tais medidas estavam criando
ayllu, mas o costume o obrigava a uma redistribuição
um esboço de grupos explorados, separados do sis-
de seus bens, alimentando os que trabalhavam para
tema comunitário tradicional, mas este último ainda
ele, dando presentes, distribuindo alimentos quando
predominava muito claramente.
necessário devido a más colheitas, etc. Havia, porém,
limites à redistribuição dos bens do chefe e da divin- O império dividia-se em quatro grandes provín-
dade, e assim existia uma diferenciação social entre cias e a tradição burocrática via cada uma delas
como uma estrutura geometricamente organizada se-
Ciro Flamarion S. Cardoso América Prê-Colombiana / 103

gundo u m p r i n c í p i o decimal. E m b o r a isto seja u m a arte e religião, deixaram subsistir o substrato ante-
i d e a l i z a ç ã o simplificadora, é verdade que o i m p é r i o p o r em cada r e g i ã o , mas impuseram a a d o ç ã o para-
inca atingiu u m grau de i n t e g r a ç ã o e,.coerência j a - lela de seus p a d r õ e s . E m particular, o culto do Sol,
mais sonhado pelo " i m p é r i o " asteca.(Uma rede de deus dos incas e do i m p é r i o , era obrigatório em todo
estradas u n i a o essencial do território, com u m sis- o Tawantinsuyu. A religião, apesar de elaborada,
tema de correios p ú b l i c o s e de d e p ó s i t o s de alimen- dispondo de u m a rede de templos e de u m clero
tos, armas e roupas p a r a tropas e f u n c i o n á r i o s . U m altamente hierarquizado, tinha entre os incas sinais
sistema de contabilidade, cujo cerne eram os funcio- i n e q u í v o c o s de origens p r i m i t i v a ^ ^ ^ ^ ^ r o x l m a s !
nários chamados kipukamayoc, que operavam o sis- por exemplo, o culicTde fetiches variados, ou wakas,
tema c o n t á b i l e m n e m ó n i c o dos kipus, informava a que podiam ser rochas, m ú m i a s , fontes, cavernas,
t r i b u t a ç ã o (exclusivamente em trabalho) e o serviço edifícios, e t c , com f r e q u ê n c i a associados aos ante-
militarTjHavia u m a burocracia imperial, chefiada passados. A cultura intelectual baseava-se n a trans-
pelo I n c a ou Filho do Sol, e cujo exercício era reser- m i s s ã o oral. E m particular, as tradições m í t i c o - h i s t ó -
vado aos incas apenas; mas, subordinada a esta, ricas eram f u n ç ã o de especialistas hereditários ligados
persistia a burocracia tradicional dos kurakas regio- a cada linhagem real, os chamados amautasr-A-lm-
nais e das aldeias. gua q u í c h u a , antes estritamente local, do vale de
Cusco, a capital, e r a u m a cidade vasta e m a g n í - Cusco, com o i m p é r i o se difundiu por toda a Z o n a
fica, com templos e p a l á c i o s , mas pouco resta dela. A A n d i n a Central, onde, com o a i m a r á do Titicaca, a t é
arquitetura incaica, com seus grandes blocos poligo- hoje é o idioma mais importante.
nais de pedra, irregulares mas perfeitamente ajus-
tados sem cimento, seus tetos de p a l h a ou em falsa
a b ó b a d a , suas portas e janelas trapezoidais, é conhe-
cida principalmente através de outros sítios: T a m b o A organização económico-social
Colorado, Sacsahuaman, M a c h u Picchu, Ollantay- das "altas culturas" pré-colombianas
tambo. Como no caso de H u a r i , a a d m i n i s t r a ç ã o inca
se apoiou n a d i f u s ã o do urbanismo. Cidades como à primeira vista, pelo menos no que se refere à
T u m i p a m p a , C a j a m a r c a , H u á n u c o , Jauja, Huayta- ú l t i m a etapa — que por isto mesmo é a mais docu-
rá, V i l c a s h u a m á n , foram por ela planejadas e cons- mentada — da história p r é - c o l o m b i a n a , a compa-
truídas. r a ç ã o d a M e s o - A m é r i c a e d a Z o n a A n d i n a Central, e
E m c e r â m i c a e metalurgia, como em geral em mais especificamente do " i m p é r i o " asteca e do i m p é -
m a t é r i a de tecnologia, os incas n ã o inovaram. E m rio i n c a (já que o apogeu m a i a , sendo anterior, é por
104 Ciro Flamarion S. Cardosi América Pré-Colombiana

tal razão m a l iluminado pelas fontes), faz aparecer económico-sociali enfoques antes empregados para o
uma série de diferenças importantes. Sistema tribu- caso do Peru. Por sua vez, a ampliação da análises
tario in natura na Meso-América contra tributos sobre a costa peruana (no passado, para os últimos
exclusivamente em trabalho nos Andes; comércio séculos antes da conquista, predominaram os estu-
desenvolvido a longa distância no primeiro caso em dos acerca da serra) mostrou, emjcpntraste com a
oposição a u m sistema de reciprocidade/redistribui- economia serrana estudada por J . Murra, uma
ç ã o / c o n s t i t u i ç ã o de "arquipélagos verticais" andinos organização económica costeira que associava a agri-
no segundo; caráter amorfo e pouco consistente do cuhuxa_à exploração do mar e apresentava maior
"império" asteca em contraste com a sólida organi- desenvolvimento do artesanato especializado (inclu-
zação do Tawantinsuyu; enfim, maior campo aberto indo a produção em série), do comércio a longa
aos interesses, à iniciativa e talvez a u m esboço de distância e inclusive de um esboço de propriedade
propriedade de tipo individual ou privado na econo- privada, traços que a aparentam com a visão habi-
mia e sociedade meso-americanas, enquanto o esta- tual acerca da economia meso-americana.
tismo reinaria absoluto n a sociedade e economia Ao nível da interpretação, quase não h á forma
andinas. de organização econômico-social que, em algum mo-
D e fato, a evolução dos estudos conduziu, nestes mento, n ã o haja sido atribuída aos Estados pré-
últimos anos, d e j w n a oposição antes tacitamente colombianos (com a possível exceção do capitalis-
aceita das características das duas grandes áreas cul- mo). Assim, para os marxistas dogmáticos stalinistas
turais de "altas culturas" — as quais, aliás, aparen- ou pós-stalinistas, como se pode comprovar em cer-
temente se ignoravam nos últimos tempos pré-colom- tos manuais soviéticos bastante recentes, seriam so-
biancJ^Va uma confluência de tajs^característicaSja^ ciedade escravistas (interpretação que se choca fron-
Antes, «^oissemos, considerava-se a Meso-América talmente com os dados disponíveis). Outros autores
como u m a região que viu u m desenvolvimento do optaram pelo feudalismo. T a m b é m h á adeptos da
comércio e da economia "privada" muito mais c o n s i - / ideia de que, no fundo, tratava-se, mesmo-jias-casos.
derável do que no caso andmo^^^ta^&verctbe que mais brilhantes, de sociedades aindíLJiuiitp primi-
a circulação mercantil meso-americana foi exagerada tivas, que atravessavam a f a ^ j j e j b a n s i ç ã o da "co-
no seu volume e significado por diversos pesquisa- mujiidade primitiva" à sociedade de_ cjajsesjplena-
í o r e s ^ e se coloca para a Meso-América a possibili- mente constituída. Louis Baudin — por certo num
da^edeque sejam válidos conceitos como os de reci- contexto intelectual que nada tem a ver com o con-
pj^^^Q^jTr^istribuiçã^o^e um estudo^jmjgJteye em ceito de modo de produção — falou, mesmo, de u m
conta.o grande peso da organização estatal no campo "império socialista dos incas"...
Ciro Flamarion S. América Pré-Colombiana 107

E m anos recentes, certos desenvolvimentos ain- logia bem pouco avançada.


da incompletos, mas promissores, merecem menção. 2) A discussão acerca da organização econó-
1) Já vimos que a tecnologia das "altas cultu- mico-social das sociedades mais desenvolvidas da
ras" pré-colombianas apresenta sérias deficiências América pré-colombiana dos últimos séculos antes
em relação, por exemplo, à do antigo Oriente Pró- da conquista baseava-se, apesar do choque de opi-
ximo: ausência do arado, do torno do oleiro, de veí- niões muito divergentes, sempre nas mesmas fontes.
culos de rodas, de um uso amplo de metais para fins A maior mudança de direção interpretativa veio da
produtivos (ferramentas), escasso emprego de adu- descoberta e valorização, por John Murra, de outro
bos pela falta de associação agricultura/pecuária. tipo de fontes antes pouco utilizadas: as visitas, que
Vimos também que há certas razões lógicas que ex- são relatórios de funcionários espanhóis no Peru,
plicam várias destas deficiências. Ora, o conceito baseados em interrogatórios feitos em regiões recém-
marxista de forças produtivas, frequentemente redu- con quistadas, nas quais portanto se manifestava
zido só à tecnologia, na verdade inclui igualmente os ainda a organização indígena. Interpretando tais da-
homens que trabalham, vistos nas suas capacidades dos novos à luz de noções como "reciprocidade" e "re-
físicas e mentais (socialmente determinadas). A par- distribuição", derivadas de Karl Polanyi e em geral
tir daí, referindo-se à sociedade mexica ou asteca — da corrente da antropologia económica conhecida
mas a observação pode ser generalizada —, Victor como "substantivista", Murra provocou uma trans-
M . Castillo chamou a atenção para o fato de que, dos formação radical das concepções acerca da história
dois aspectos das forças produtivas, o tecnológico andina; mais recentemente, como já mencionamos,
permaneceu relativamente primitivo, mas paralela- tal transformação também começou a afetar a inter-
mente se deu um progresso considerável do outro pretação das altas culturas meso-americanas.
aspecto, o humano: o esforço das civilizações pré- 3) Desde princípios da década de 1960, reno-
colombianas se concentrou no aperfeiçoamento da
varam-se as discussões acerca de um conceito que
divisão social e técnica do trabalho e das formas de
aparece sem grande elaboração na obra dos mar-
controle e cooperação da mão-de-obra, o que é um
xistas clássicos, o de modo de produção asiático (al-
traço também discernível nas estruturas econômico-
guns preferem chamá-lo "despótico-tributário"), o
sociais da África Negra pré-colonial (cuja tecnologia,
qual havia sido esquecido durante longos anos. As
porém, 'era, no conjunto, mais adiantada do que a
pré-colombiana). Isto explicaria a possibilidade de características fundamentais deste tipo de sociedade
sociedades estratificadas e diversificadas e de bri- seriam: 1) a importância das grandes obras de irri-
lhantes desenvolvimentos culturais, à base de tecno- gação, e outras obras públicas consideráveis, reali-
zadas sob controle do Estado despótico; 2) o fraco
108 Ciro Flamarion S. Cardoi

desenvolvimento da propriedade privada; 3) a coexis-


tência de estruturas rurais ainda comunitárias com
uma classe dominante que, de certo modo, se en-
carna na estrutura estatal e submete as comunidades
aldeãs a uma exploração via elaborado sistema tribu-
tário. As tentativas de aplicar esta hipótese à Amé-
rica pré-colombiana deram resultados variados. Já
vimos que dificilmente se pode atribuir o surgimento
dos primeiros Estados e cidades da Meso-América e
do Peru à necessidade de controlar centralizada- REFLEXÕES FINAIS
mente grandes sistemas de irrigação, mesmo se pos-
teriormente, no reino chimu e no império inca, tais
sistemas foram sem dúvida consideráveis e objeto de
planificação global. Quanto à s outras características,
Por que interessar-nos, hoje, por essas remotas
são mais plausíveis, embora seja forte atualmente a
"culturas assassinadas", varridas da face da Terra
tendência a negar, com bons argumentos, o caráter
clânico e igualitário das comunidades pré-colombia- na época da conquista e dos inícios da colonização
nas do tipo ayllu ou calpulli (este último especial- europeia da América, ou por suas ainda mais remo-
mente). Certos autores, como Perry Anderson, pen- tas antecessoras? *
sam que já é tempo de "enterrar honrosamente" a U m a primeira forma de respondermos a esta
noção de modo de produção asiático, mas esta não pergunta poderia ser retomando — em outro con-
parece ser a opinião predominante na atualidade. texto — a frase famosa do personagem de Terêncio:
Homo sum, et humani nihil a me alienumputo ("Ho^
tnem sou, ejnada do que é humano-eonsidero estra-
nho a mim"). Isto é, podemos simplesmenteJnteresr
"sar-nos pêlo passado pré-colombiano por si mesmo,
como copioso feixe de variadas e interessantíssimas
éxperiêl^claThumanas. A curiosidade é unTTmp"uTso
humano dos mais legítimos e desconfiamos muito de
qualquer exagero do imediatismo pragmático quan-
do se trata de justificar uma dada atividade. Seja
como for, h á razões sem dúvida mais específicas e de
110 Ciro Flamarion S. Carde A m érica Prè-Colombiana 111

maior peso do que a simples curiosidade para que o ri que", in Cahiers de l'Institut des Hautes Etudes de
estudo da historia antiga da América nos interesse. l'Amérique Latine, n? 6,1964, p. 25):
Do ponto de_yista teórico, em primeiro lugar. O
método científico não pode basear-se na abordagem "... o contacto secular do índio com o meio
de casõs"òu processólTunicós e irrepetíveis, ou seja, geográfico da América constituiu um patrimô-
singulares, porque a generalização em tais circuns- nio de experiências, de recursos, de cultura, que
tâncias é impossível e sem ela não podem ser estabe- os recém-chegados [europeus] aproveitaram,
lecidas regularidades e leis. Para a construção de que eles assimilaram de maneira mais ampla do
uma teoria geral de como funcionam e mudam as que habitualmente se crê. É por isto que a his-
sociedades humanas, tem valor inestimável o fato de tória da América deve incluir de maneira orgâ-
se poder comparar a evolução pré e proto-histórica nica o vasto capítulo indígena..."
do Velho Mundo com a da América pré-colombiana,
que evoluiu, não em total, mas em relativo isola-
mento. E o mais interessante é que constataremos, Afinal, o milho, a batata e a mandioca, para
no continente americano, fases análogas (não-idên- citar só os elementos mais evidentes, são resultados
ticas, claro) em relação às etapas mais gerais j á de milénios de atividades e experiências do homem
conhecidas na Eurásia, em menor escala e com atra- pré-colombiano que se integraram ao nosso quoti-
so cronológico que têm várias explicações: uma defa- diano, na América e também em outras partes do
sagem cultural j á presente em tempos paleolíticos na mundo.
região de origem dos primeiros povoadores e que se A história da conquista, e a da colónia, foram
transferiu com eles para o novo habitat; o povoa- profundamente influenciadas pela história indígena
mento de um continente vasto por contingentes pro- anterior — por exemplo, pela distribuição diferencial
vavelmente reduzidos de migrantes que tiveram de da população pré-colombiana. As colónias escravis-
gastar longo tempo simplesmente adaptando-se a tas baseadas no tráfico africano se desenvolveram em
meios ambientes diversos e garantindo sua sobrevi- vazios demográficos relativos (a não ser nas Antilhas,
vência e multiplicação antes que se tornasse possível onde a população indígena era numerosa mas foi
dar novos passos decisivos na evolução social. (Ver a destruída em poucas décadas nos primeiros tempos
Figuran? 4.) da colonização), como o Brasil e o Sul do que hoje
são os Estados Unidos, e o mesmo podemos dizer das
Vejamos, agora, o que diz a respeito do tema zonas de imigração europeia maciça (Argentina,
que nos ocupa o historiador mexicano Silvio Zavala Nova Inglaterra, Canadá, etc.). Onde existia uma
("Indigènes et colonisateurs dans l'histoire d'Amé- densa população indígena, praticando uma agrieul-
112 Ciro Flamarion S. Cardóse
América Pré-Colombiana 113

tura estável e produtiva, mesmo com a catástrofe Anos


d e m o g r á f i c a dos s é c u l o s X V I e X V I I ( a t é 1650 apro-
ximadamente), a c o l o n i z a ç ã o se apoiou n a manu-
t e n ç ã o — modificada, como é evidente — d a comu-
nidade a l d e ã de raízes p r é - c o l o m b i a n a s e n a explo-
r a ç ã o da força de trabalho do indio dentro e fora das
comunidades, p o r mais que posteriormente a mesti-
ç a g e m e outros fatores viessem complicar o quadro
colonial. Outrossim, as violentas lutas de classes que
denominamos habitualmente "reformas liberais",
ESPAÇO ESPAÇO
travadas no s é c u l o X I X , e que deram origem as
estruturas c o n t e m p o r â n e a s dos p a í s e s d a I n d o - A m é -
Fig. 4 —Esquema tempo-espacial do surgimento e expan-
rica — M é x i c o , Guatemala, E l Salvador, Colombia,
são dos principais níveis culturais arqueológicos no Velho
E q u a d o r , Peru, B o l í v i a . . . — s ã o i n c o m p r e e n s í v e i s
Mundo e na América. Linha contínua externa: começo da
sem referência a u m elemento agrário i n d í g e n a e
agricultura de cereais ( VIII milénio a. C. Na Asia ociden-
m e s t i ç o que remete, em maior ou menor medida, a tal, trigo e cevada; V milénio no México, milho); linha de
realidades geradas no passado p r é - c o l o m b i a n o , em- traços: começo da cerâmica (6000 a. C. na Ásia, 3000-
bora depois tenham sido profundamente transfor- 2500 no noroeste sul-americano); linha pontilhada: Calco-
madas e à s vezes desfiguradas. lítico tardio da Asia (proto-literârio da Mesopotâmia,
3300 a. C), de nível similar ao formativo médio-tardio
A i n d a e m nosso s é c u l o , a p r e s e n ç a do passado
(proto-urbano) da América nuclear (800 a. C); linha con-
i n d í g e n a é algo quotidiano, evidente, em muitos paí-
tínua interna: culturas urbanas ou altas culturas (2800 a.
ses do continente. N a Bolívia, depois de um s é c u l o de C. no Egito e na Mesopotâmia, com bronze e escrita;
ataques impiedosos contra as estruturas c o m u n i t á - começos de nossa era no México e no Peru —fases clássi-
rias, o censo agrícola de 1950 revelou que ainda cas e pós-clássicas —, apenas parcialmente com escrita
existiam 3 7 7 9 comunidades i n d í g e n a s , controlando ligada ao culto e metalurgia). A linha horizontal inferior
26% das terras efetivamente cultivadas do p a í s . T r a - representa o momento da conquista, começos do século
ta-se de exemplo extremo, mas n ã o ú n i c o . Nesses XVI. (As datas são aproximadas, e além disto a passagem
p a í s e s , qualquer c o m p r e e n s ã o adequada do pre- de um nivel a outro nunca é tão taxativa quanto parece-
sente, e portanto qualquer planejamento do futuro, riam indicaros traços.) Fonte: Juan Schobinger, Prehis-
n ã o pode passar ao lado de u m a " q u e s t ã o indígena*' toria de Suramérica, Barcelona, Labor, 1969, p. 13. Obs.:
que tem algumas de suas raízes mergulhadas bem A cronologia adotada pelo autor não coincide totalmente
com a que usamos neste trabalho.
114 Ciro Flamarion S. Cardosm

antes de 1492 a. D . , e que afeta a muitos milhões de


pessoas. Nesses países — e em menor escala t a m b é m
em outros do continente, incluindo o nosso — seres
humanos que chamamos índios sofrem todos os dias,
diante de uma indiferença quase geral, processos de
exploração, discriminação, expropriação, marginali-
z a ç ã o , paternalismo mal informado e até genocídio,
que prolongam até nossos dias alguns dos aspectos
mais iníquos da época da conquista.