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ARTIGO DE INVESTIGAÇÃO (ORIGINAL) Disponível em: https://doi.org/10.12707/RIV19002

RESEARCH PAPER (ORIGINAL)

Grupo de gestão autónoma da medicação num centro de


atenção psicossocial: experiência de usuários
Autonomous medication management group in a psychosocial care center:
participants’ experience
Grupo de gestión autónoma de la medicación en un centro de atención psicosocial:
experiencia de los usuarios
Caroline Poletto Favero* ; Jeferson Rodrigues** ; Ingrid Pires Silva*** ;
Deivisson Vianna Dantas dos Santos**** ; Tereza Maria Mendes Diniz de Andrade Barroso***** ;
Sarah Soares Barbosa****** ; Sabrina Stefanello*******
Resumo
Enquadramento: Grupo de gestão autónoma da medicação (GGAM) é uma abordagem em grupo com usuários de
medicação psiquiátrica que partilham experiências, no qual o usuário é protagonista e corresponsável pelas decisões
relacionadas com o seu tratamento.
Objetivo: Descrever a experiência dos usuários participantes do GGAM de um Centro de atenção psicossocial no Brasil.
Metodologia: O estudo é qualitativo, exploratório e descritivo, com recurso à entrevista semiestruturada em que a
análise seguiu o referencial teórico proposto por Minayo. Foram indicados 6 usuários pela equipa multiprofissional
que possuem transtorno mental com prescrição de psicofármacos há mais de 6 meses e que participaram no GGAM.
Resultados: Emergiram como categorias o Contexto, a Experiência e os Efeitos da vivência dos usuários no GGAM.
A descrição das experiências dos usuários mostrou o reconhecimento do grupo como um espaço de fala e escuta.
Conclusão: A participação no GGAM proporcionou ampliação do conhecimento relativo à medicação psiquiátrica,
à sua relação com o tratamento, fortalecimento das relações, do protagonismo e autonomia e contribuição na apro-
priação sobre o projeto terapêutico singular.
Palavras-chave: saúde mental; autonomia pessoal; serviços de saúde mental; psicotrópicos
Abstract Resumen
Background: Autonomous Medication Management Marco contextual: El grupo de gestión autónoma de la
Group (GGAM) is a group approach for users of psy- medicación (GGAM) es un enfoque en grupo con usua-
chiatric drugs to share experiences so that they can be rios de medicación psiquiátrica que comparten experien-
protagonists and co-responsible for the decisions relat- cias y en el cual el usuario es protagonista y correspon-
ing to their treatment. sable de las decisiones relacionadas con su tratamiento.
Objective: To describe the experience of the participants Objetivo: Describir la experiencia de los usuarios que
of the GGAM in a psychosocial care center in Brazil. participan en el GGAM de un centro de atención psi-
Methodology: The study is qualitative, exploratory, cosocial en Brasil.
and descriptive, using the structured interview method Metodología: El estudio es cualitativo, exploratorio y
whose analysis followed the theoretical framework pro- descriptivo, se recurrió a la entrevista semiestructurada
posed by Minayo. The multidisciplinary team indicat- y el análisis siguió el referente teórico propuesto por
ed 6 users with a mental disorder, who were prescribed Minayo. El equipo multiprofesional indicó 6 usuarios
psychotropic drugs for more than 6 months and who que tienen trastorno mental con prescripción de psico-
participated in the GGAM. fármacos hace más de 6 meses y que participaron en el
Results: Categories emerged such as Context, Experi- GGAM.
ence, and Effects of the experience of participants in the Resultados: Surgieron como categorías el contexto, la
GGAM. The description of their experiences showed that experiencia y los efectos de la experiencia de los usuarios
the group is regarded as a space for talking and listening. en el GGAM. La descripción de las experiencias de los
Conclusion: The participation in the GGAM provided usuarios mostró el reconocimiento del grupo como un
increased knowledge about psychiatric medication, help espacio para hablar y escuchar.
in dealing with treatment, strengthened relationships, Conclusión: La participación en el GGAM amplió el
protagonism and autonomy, and contribution to the ap- conocimiento relativo a la medicación psiquiátrica, a su
propriateness of the singular therapeutic project. relación con el tratamiento, fortaleció las relaciones, el
Keywords: mental health; personal autonomy; mental protagonismo y la autonomía, y contribuyó a la apro-
health services; psychotropic substances piación sobre este proyecto terapéutico singular.
*Bel., Enfermeira, Universidade do Estado de Santa Catarina, 88036-700, Florianópo- Palabras clave: salud mental; autonomía personal; ser-
lis, Brasil [caarolfavero@gmail.com]. https://orcid.org/0000-0001-9046-3866. Con- vicios de salud mental; psicotrópicos
tribuição no artigo: autora principal da pesquisa. Morada para correspondência: Rua
Protenor Vidal, 73 – Pantanal, 88036-700, Florianópolis, Brasil.
**Ph.D., Enfermeiro, Universidade Federal de Santa Catarina, 88040-970, Florianópo-
lis, Brasil [jef_rod@hotmail.com]. https://orcid.org/0000-0002-8612-9088. Contri-
buição no artigo: orientação da pesquisa.
***Bel., Enfermeira, Centro de Atenção Psicossocial - CAPS II Ponta do Coral, 88010-
400, Florianópolis, Brasil [ingridzimbaps@hotmail.com]. https://orcid.org/0000-
0001-5237-0327. Contribuição no artigo: elaboração e análise dos dados.
****Ph.D., Médico, Universidade Federal do Paraná, 80060-240, Curitiba, Brasil [dei-
vianna@gmail.com]. https://orcid.org/0000-0002-1198-1890. Contribuição no arti-
go: coorientação da pesquisa.
*****Ph.D., Professora Adjunta, Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, 3046-
851 Coimbra, Portugal [tbarroso@esenfc.pt]. https://orcid.org/0000-0002-9411-
6113. Contribuição no artigo: elaboração e análise dos dados.
******Bel., Enfermeira, Universidade do Estado de Santa Catarina, 88036-700, Flo-
rianópolis, Brasil [sarah.b@globo.com]. https://orcid.org/0000-0002-6847-3942.
Contribuição no artigo: elaboração e análise dos dados.
*******Ph.D., Psiquiatra, Universidade Federal do Paraná, 80060-240, Curitiba, Brasil Recebido para publicação em: 11.12.18
[binastefanello@gmail.com]. https://orcid.org/0000-0002-9299-0405. Contribuição
no artigo: elaboração e análise dos dados. Aceite para publicação em: 26.03.19

Revista de Enfermagem Referência Série IV - n.º 21 - ABR./MAI./JUN. 2019

pp. 91 - 100
Introdução vos em Saúde Mental do Quebec, juntamente
com investigadores da Equipa de Pesquisa e
A gestão autónoma da medicação (GAM) sur- Ação em Saúde Mental e Cultura (ÉRASME)
giu da constatação de que os usuários partici- iniciaram um processo de pesquisa e experiência,
pam pouco nas decisões sobre o seu tratamento que procedeu à abertura de espaços para dialogar
de saúde, restringindo-se a sua atenção, por sobre o lugar que a medicação ocupa na vida das
vezes, somente sobre sintomas e mal-estar. Em pessoas, o seu papel nas práticas profissionais e
função deste baixo envolvimento, passam a o seu envolvimento no conjunto da sociedade
ter menor criticidade em relação às escolhas (Onocko Campos et al., 2008).
de tratamento e ao seu poder de negociação No Brasil, modificar o contexto da utilização dos
com os profissionais de saúde, o que faz com medicamentos psiquiátricos de forma pouco crí-
que somente estes tomem as decisões (Onocko tica constitui um desafio à reforma psiquiátrica.
Campos et al., 2008). Uma possibilidade para lidar com este entrave
Ademais, mesmo com os avanços de novos ar- será aumentar o poder de negociação do usuário
ranjos em saúde mental, vemos que prepondera sobre o seu tratamento, ao promover o diálogo
nos serviços de saúde a primazia do tratamento com os profissionais de saúde sobre o lugar que
farmacológico no conjunto de ações dos pro- o medicamento ocupa na sua vida ao tomar em
fissionais de saúde mental, a tal ponto que, por consideração neste processo o que deseja para o
vezes, o tratamento em saúde mental reduz-se seu tratamento (Onocko Campos et al., 2008).
apenas aos psicotrópicos. Barrio et al. (2014) Com este objetivo, a iniciativa de desenvolver
salientam que a medicalização se mantém como a GAM no Brasil teve como base a pesquisa
prática não reformada não só no Brasil, mas multicêntrica piloto que implantou os primei-
também em outros países desenvolvidos. A ros grupos em 2007, coordenada por diversas
hospitalização e a renovação de receitas sem universidades brasileiras (Onocko Campos et
a avaliação presencial dos usuários ainda são al., 2008).
respostas comuns diante das exigências que Por ser uma estratégia para ser praticada de for-
aportam ao sistema de saúde. Para além disso, ma coletiva, a GAM pressupõe que na partilha
os usuários deste sistema sentem-se sem voz de experiências em grupo emergem práticas
perante a decisão crucial de iniciar ou não um cogestivas que resultam em decisões conjun-
tratamento medicamentoso. Na direção de tas sobre o tratamento. A gestão autónoma
novas formas de cuidado, é fundamental consi- está empenhada em ampliar coletivamente as
derar a complexidade do processo saúde-doença possibilidades de cuidado, e quanto mais os
como norteador das práticas e a necessidade de usuários, familiares e equipa de saúde estive-
ultrapassar a conceção de que o medicamento rem conectados a uma rede de cuidados, mais
é o principal recurso do tratamento. Para isso, possibilidades existem para administrar ou gerir
torna-se necessário ampliar os diálogos dos a medicação de forma adequada. Através do
diferentes campos do saber, incorporar pro- diálogo entre usuário e profissional é possível
cessos de trabalho que aumentem o poder de avaliar conjuntamente em que medida o uso do
contratualidade do usuário e produzir relações medicamento está a melhorar a qualidade de
horizontais para efetivar a participação do su- vida, a reduzir o sofrimento que os sintomas da
jeito no seu tratamento (Yasui & Costa-Rosa, doença causam ou, em contraposição, a intensi-
2008). ficar este sofrimento com efeitos não desejados
(Onocko Campos et al., 2014). Neste contexto,
os grupos em saúde mental contribuem para a
Enquadramento reabilitação do sujeito em sofrimento, para o
seu autocuidado e com potencial para o auxiliar
No Canadá, nos anos 90, a realidade da baixa a lidar com os problemas vivenciados, como o
participação dos usuários na decisão dos seus convívio social diário, as funções e as práticas,
tratamentos medicamentosos foi confrontada prejudicadas por uma condição histórica de
a partir da criação de novas práticas de saúde sofrimento (Ribeiro, Marin, & Silva, 2014).
mental como a GAM, mas este processo ocorreu Sabe-se que a GAM é peculiar para cada local
por etapas. A Associação de Recursos Alternati- onde a atividade é exercida, pois o contexto

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sanitário, território, equipas, gestão administra- tico de transtorno mental e por fazerem uso de
tiva, cultura e relações sociais influenciam cada psicofármacos.
dinâmica estudada. A relevância de se estudar Os critérios de inclusão dos participantes da
a experiência de usuários que participaram da pesquisa foram: possuir diagnóstico de trans-
GAM consiste em aceder a um saber que per- torno mental ao qual tenha sido prescrito psico-
mite modificar práticas relacionais seja com a fármaco há mais de 6 meses, ter participado no
medicação seja com o quotidiano dos serviços. grupo GAM e estar em condições de responder
Assim, este trabalho tem como objetivo examinar às questões no momento da colheita de dados.
as perceções e efeitos da participação de usuários Os critérios de exclusão são usuários com menos
em grupos de GAM num centro de atenção de 18 anos, indicados por profissionais que não
psicossocial (CAPS) brasileiro. Pretende-se, pertençam ao serviço, estarem em crise psíquica.
assim, descrever as experiências e as barreiras Para a colheita de dados foi utilizada como
encontradas na vivência da equipa e do grupo técnica de pesquisa a entrevista semiestruturada,
GAM em si. com os temas: a) experiência em participar no
grupo de GAM e b) os efeitos do grupo na
experiência dos usuários. Por sua vez, para cada
Questões de Investigação objetivo o entrevistador delineou três ou mais
questões encadeadas sequencialmente, afim de
A estratégia GAM melhora o conhecimento adaptar o caminho da entrevista para responder
que os usuários têm acerca dos medicamen- às duas questões principais expostas acima. As
tos? A vivência grupal fortaleceu o processo de entrevistas ocorreram no período de dezembro
empoderamento destes usuários em relação às de 2016 a janeiro de 2017 e foram realizadas
decisões relacionadas com os seus tratamentos? individualmente, a partir de um agendamento
As equipas atuaram como facilitadoras ou di- prévio realizado por telefone e pessoalmente
ficultadores deste processo? com os usuários, no centro de atenção psicos-
social, com duração de aproximadamente 30
minutos cada entrevista, em sala silenciosa e
Metodologia adequada e seguiram-se os preceitos da Re-
solução 466/2012 do Conselho Nacional de
Tendo em vista que o objeto de estudo trata da Saúde do Brasil.
experiência de usuários quanto à sua participa- O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética
ção no grupo GAM, esta pesquisa revelou-se em Pesquisa, conforme o protocolo número
como um estudo de abordagem qualitativa, 1.808.019.
uma vez que se procurou conhecer os signifi- Os dados foram colhidos através de entrevistas,
cados da experiência da participação no grupo foram registados por meio de um gravador de
GAM. Trata-se de uma pesquisa do tipo explo- voz e, posteriormente, transcritos e analisados.
ratória e descritiva, com o intuito de conhecer Após a transcrição das entrevistas, os dados fo-
melhor e descrever o fenómeno apresentado. ram analisados através de interpretação crítica e
Este estudo foi desenvolvido no CAPS II Ponta reflexiva, bem como pela análise de conteúdo,
do Coral pertencente ao Município de Floria- seguindo as etapas recomendadas por Minayo
nópolis, estado de Santa Catarina, vinculado à (2008): ordenação dos dados; categorização
Secretaria Municipal de Saúde. Foi escolhido inicial; reordenação dos dados empíricos e
este serviço pelo facto de existir uma parce- análise final, em que os dados colhidos foram
ria já firmada com a universidade promotora articulados com a sustentação teórica e com a
da pesquisa, além deste CAPS ser um serviço resposta da questão de pesquisa com base nos
disponível para desenvolver estratégias de em- objetivos propostos. Os resultados foram dis-
poderamento de usuários. Os participantes cutidos e analisados com a sustentação teórica
foram seis usuários adultos do centro de atenção e a realidade prática.
psicossocial indicados no dercorrer da necessi- Os entrevistados foram identificados por códi-
dade da pesquisa pela equipa multiprofissional gos alfa-numéricos na ordem decrescente das
e que participaram no grupo de GAM. Estes entrevistas, conforme se apresenta na Tabela
participantes caracterizaram-se pelo diagonós- 1. Também foi preservado o anonimato à ins-

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tituição participante da pesquisa. da inclusão de novos participantes quando os
O número final de entrevistados foi definido dados obtidos passam a apresentar, na visão
por saturação, chegando-se portanto a 6 par- do pesquisador, redundância ou repetição, não
ticipantes. A metodologia de escolha de par- sendo relevante persistir na colheita de dados
ticipantes por saturação consiste na suspensão (Fontanella, Ricas, & Turato, 2008).

Tabela 1
Caracterização dos participantes da pesquisa
Tempo de
Estado
Identificação Sexo tratamento Atividades do PTS Medicamento utilizado
civil
no CAPS
Grupo multiprofissional;
Biperideno, haloperidol,
Consulta psiquiátrica;
1 ano e carbonato de lítio, car-
E1 Masculino Solteiro Espaço coletivo “Não
10 meses bamazepina, clorproma-
moro mais em mim”;
zina
Oficina Horta

Grupo multiprofissional;
Olanzapina, carbonato de
E2 Masculino 1 ano Solteiro Consulta psiquiátrica;
lítio, clorpromazina
Atendimento psicológico

Biperideno, haloperidol,
5 anos e Grupo multiprofissional;
E3 Feminino Solteira carbonato de lítio, prome-
3 meses Consulta psiquiátrica
tazina, clorpromazina

Grupo multiprofissional;
2 anos e Ácido valproico,
E4 Masculino Solteiro Atendimento psicológi-
3 meses haloperidol, biperideno
co; Oficina de desenho

Grupo multiprofissional;
Carbonato de lítio, ris-
2 anos e Consulta psiquiátrica;
E5 Feminino Casado peridona, biperideno,
11 meses Grupo Maria Bonita;
rohypnol
Grupo Cio da Terra

3 anos e Grupo multiprofissional;


E6 Feminino Casado Amitriptilina, diazepam
8 meses Consulta psiquiátrica

Nota. CAPS = Centro de Atenção Psicossocial; PTS = Projeto Terapêutico Singular.

Resultados e discussão medicamento no contexto da saúde mental e


revelaram os motivos que contribuíram para que
A partir da leitura e interpretação do conteúdo participassem no grupo, como a abertura para
das entrevistas com os participantes, realizou-se a fala, escuta mútua e respeito à singularidade
a análise dos dados. Na fase de exploração do das experiências que compartilharam.
material emergiram duas categorias,  a primeira O guia GAM-BR auxilia neste processo, como um
descreve o contexto da vivência dos usuários no instrumento concreto construído para favorecer a
grupo GAM e a segunda os efeitos do grupo aprendizagem sobre o uso de medicamentos e dos
na experiência dos usuários. seus efeitos no contexto de vida do usuário através
de temas e questões que contribuem para que a
Contexto da vivência dos usuários no grupo troca de experiências pessoais e coletivas acerca
de GAM do medicamento aconteça no grupo.
No grupo GAM, os usuários puderam com- Eu vou pra casa feliz da vida. Porque
partilhar experiências em torno da questão do se escuta a história de um, a história de

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outro. Como é que toma a medicação, mesmo no meu quarto lá, bem depri-
como é que não toma. Se toma, qual. mido lá, mesmo. (E4, janeiro, 2017)
Tu aprende muita coisa! Escuta um ao A relação do sujeito com a procura do saber
outro, entendesse? E isso é bom demais! envolve espaços que estimulam a curiosidade
. . . Que eu vinha pra aprender mais, como mola propulsora para a produção de
né? E, pelo menos, eu tô tentando bo- novos sentidos em que o usuário ocupa um
tar na minha cabeça que não adianta lugar de sujeito com vontade de saber-fazer.
fazer besteira. (E6, janeiro, 2017) No grupo GAM, como em outros espaços, o
A GAM compreende que o usuário possui sujeito possui um saber baseado na sua vida e
direito à informação e que a partir dela pode vivência do sofrimento, sobre os quais somente
adaptar o tratamento às suas necessidades e, ele pode falar. No entanto, este saber que popu-
por essa razão, utiliza o Guia como uma fer- larmente se denomina de senso comum precisa
ramenta que disponibiliza informação sobre os de ser transformado em saber que promova
medicamentos e incita o usuário a refletir sobre mudança no usuário e estimule a consciência
o tratamento e questões associadas. Com isto, crítica e criativa sobre as questões que envolvam
espera-se que este procure conhecer e tomar o seu tratamento e a sua constituição como
decisões de acordo com as suas necessidades sujeito de direitos.
e o que deseja em relação à medicação junto A vivência do sofrimento psíquico, circundada
dos profissionais de saúde que o acompanham por injunções e impasses da vida quotidiana
numa construção compartilhada de cuidado e da subjetividade, têm no sujeito o princi-
(Onocko Campos et al., 2014). pal produtor de sentidos e de participação na
O guia GAM-BR é dividido em duas partes produção da sua saúde psíquica. A abordagem
e seis passos que possuem questões variadas. grupal auxilia na escolha desses sentidos que
Na primeira parte, as questões são sobre a sua possibilitam a dimensão desejante, na qual a
qualidade de vida: a) conhecendo um pouco subjetividade tem na mediação da linguagem,
sobre si mesmo; b) observando a si mesmo; c) como campo simbólico, a construção ativa da
ampliando a sua autonomia; d) conversando entrada no campo humano e no convívio com
sobre os medicamentos psiquiátricos. Na parte os semelhantes (Costa-Rosa, 2013).
dois, indica um caminho para mudanças: e) por A dinâmica do grupo GAM, dialogada e com-
onde andamos; f) planeando as nossas ações. A partilhada, propicia aos usuários falar sobre a
abordagem destes temas permite o comparti- sua história, em torno da utilização do medi-
lhamento das experiências singulares, propícia camento psiquiátrico, o que remete para um
a reflexão, a ajuda mútua, facilita a procura de conjunto de enunciados e significados atribuí-
informações sobre medicamentos e direitos dos dos pelo sujeito à experiência, além de trazer à
usuários, permitindo a participação deles e o tona outros aspetos que envolvem a sua vida e
debate com os profissionais que os acompanham, tratamento. No excerto a seguir, o entrevistado
contribuindo assim para a retomada de decisões aborda a experiência no grupo quando fala
sobre aspetos que fazem parte do seu tratamento sobre o que sente ao tomar a medicação. Por
(Onocko Campos et al., 2013). meio da metáfora do robô, revela um ato que
No contexto de vivência do grupo, dentre os se naturaliza de forma programada: sintoma,
fatores que influenciaram a participação esti- diagnóstico, prescrição e, isto, deriva de um
veram a curiosidade e o lugar de alguém que círculo automático que pode remeter para uma
deseja aprender sobre o assunto. diminuição da autocrítica pelo entendimento
Porque eu tinha curiosidade. Por causa do medicamento como o recurso mais valioso
que eu sou um pouco curioso. E daí do tratamento.
quando eu tinha curiosidade, daí eu Eu pude falar bastante coisa do que eu
ficava em casa pensando Ah, se eu sair sentia em relação aos remédios. Que
de casa daí eu vou lá no grupo, daí eu eu falava . . . Que eu não aceitava, que
vou conversar e daí vou ficar sabendo. eu me sentia um robô. E é verdade.
Daí eu vinha. Por causa que daí foi Eu acho que nem todo caso é caso pra
muito bom também. Por causa que daí medicar. Tem casos que é uma . . . Uma
quando eu tava em casa, eu só ficava conversa. E não necessariamente ficar

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dopando o paciente. É complicado. De tão ruim que eu tava, entendesse?
Agora, se tu fala, aí é diferente né? Então foi um aprendizado pra mim.
Tem alguém te ouvindo. Que pode (E6, janeiro, 2017)
concordar, ou pode até discordar e Ao utilizar como fio condutor temas como a
dizer por que, né? Vai remontando. reflexão sobre si mesmo, o seu dia-a-dia, os seus
Organizando esses pensamentos. (E3, relacionamentos, os efeitos dos medicamentos
dezembro, 2016) na sua vida, a rede de apoio e direitos de quem
No dia-a-dia dos serviços de saúde, por vezes, faz o tratamento, a GAM abre espaço para
a conversa sobre a experiência com o uso de novas relações entre os usuários e a equipa de
medicamentos reduz-se a diálogos que incluem saúde, num reposicionamento subjetivo, entre
queixas convencionais por parte do usuário e estes, através do cuidado compartilhado e da
condutas terapêuticas medicamentosas pelo construção de uma autonomia coletiva. Desta
profissional, ou seja, fala-se o que se quer ouvir maneira, existe uma negociação entre saberes e
para ter o que interessa, o medicamento. O grupo visões do mundo diferentes, na rede de relações
contribui ao ampliar esta abordagem quando que cercam usuário e profissional de saúde,
instiga o usuário a falar da sua experiência, a que dependem de condições democráticas e
refletir sobre as decisões e a confiar mais nas políticas públicas, bem como do acesso dos
suas vivências, potencialidades e recursos para sujeitos à informação e da capacidade crítica
lidar com as situações que se depara no decorrer sobre a mesma (Santos, 2014; Passos, Otanari,
da vida. Emerich, & Guerini, 2013).
Em consonância com a fala do participante A GAM contribui para a democratização dos
acima, a GAM propõe colocar cuidadores e serviços de saúde e para uma melhor qualidade
sujeitos cuidados lado a lado, cogerindo os do atendimento na direção de uma educação em
processos de cuidado e coproduzindo-se mu- saúde que que permite uma ação reflexiva entre
tuamente e que, através do diálogo, possam usuários, profissionais e familiares (Onocko
tomar decisões sobre o tratamento que pro- Campos et al., 2014). Através do diálogo, con-
cedam de uma gestão conjunta ou cogestão. siderando o sujeito no seu discurso crítico, não
Assim, a cogestão pode ser entendida como como um objeto do seu próprio discurso, mas
uma estratégia de autonomização e protago- com capacidade de argumentação e compro-
nização dos diferentes sujeitos (trabalhadores, misso, implicado numa responsabilidade social,
gestores, usuários e familiares) implicados no política e empática, é possivel compreender
processo de produção de saúde, com efeito, as subjetividades e fortalecer a consciência da
quando colocada em ação, cria condições para pessoa sobre si mesma e sobre a sua realidade
diferentes expressões de autonomia (Passos, (Prado & Schmidt, 2016).
Palombini, et al., 2013). O grupo GAM estimulou um contexto que
Conversar sobre a experiência de tomar medi- instiga o sentido crítico do usuário, como no
camentos psiquiátricos mostrou-se relevante discurso a seguir quando surge a questão relativa
para os usuários no sentido de obter uma outra ao uso do medicamento como único recurso
relação com o seu tratamento e uso do medi- para lidar com o sofrimento e o reconheci-
camento psiquiátrico. mento da necessidade de outros dispositivos
Esse grupo tava sendo muito interes- terapêuticos neste processo.
sante pra mim. Às vezes eu não queria Tirei algumas dúvidas de alguns remé-
vim ou tinha uns compromissos . . . dios. Principalmente o haldol. Que era
Mas eu tinha necessidade de vim. Por- o que mais me prejudicava . . . Pra uns
que cada vez que eu vinha aqui, se eu é significativo . . . Faz a pessoa viver
aprendesse duas frasezinhas, pra mim bem. E pra outros não. E esses tem
já tava bom! Pra mim não voltar a fazer que prestar atenção. Pra outros não
o errado, entendesse? Tipo: ou tomar é a medicação, é a psicologia só. (E3,
medicação a mais, ou não tomar, ou dezembro, 2016)
tomar menos. Ou Ai, esse teu remédio Os usuários mencionam atitudes que são de-
aí não é bom, não! Esse que o doutor terminantes para a qualidade de vida além do
te deu. Toma esse aqui. E eu tomava. uso da medicação. Ao mesmo tempo, caracte-

Grupo de gestão autónoma da medicação num centro de atenção


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rizam um conceito de saúde que considera a Efeitos do grupo de gestão autónoma da
complexidade do ser humano e uma abordagem medicação na experiência dos usuários
integral e singular como capazes de melhorar Os participantes encontraram no grupo um
a saúde mental. espaço para falar sobre o que pensavam e sen-
Porque a medicação, eu sei que ela age tiam. A participação dos usuários no grupo teve
no teu organismo, ela vai te acalmar. um efeito na dinâmica e nas relações entre os
Eu tenho certeza. Dez anos tomando. usuários. Os participantes da pesquisa expres-
Realmente te acalma. Agora, ela não saram através das narrativas a importância de
cura e não é só com o remédio. Tem terem sido escutados, trocado experiências e
que ter alguém pra conversar! Tu tens terem sido reconhecidos na sua subjetividade.
que gritar, tu tens que tomar um ba- Só de ter a oportunidade de ser ou-
nho, tu tens que andar, tu tens que vido, de as pessoas se preocuparem,
fazer alguma coisa! (E6, janeiro, 2017)  de dar algum crédito para o que estás
A participação no grupo permitiu aos usuários dizendo, já é bastante válido. Como
compreender que o conhecimento sobre os eu falei anteriormente, é umas das
medicamentos não é somente um saber da- oportunidades que essas pessoas tem
quele que prescreve. Os relatos revelam que o ali de conversar, dizer alguma coisa.
grupo GAM permitiu que conhecessem outras (E2, dezembro, 2016) 
possibilidades para o tratamento, como a im- Os usuários sentiram mais abertura para falar,
portância de procurar informação para fazer uma vez que é comum lidarem com situações
escolhas que contribuam para o seu tratamento.   em que a sua opinião não é tida em conta.
Conforme se pode observar pelos discursos Quando se veem no lugar de louco, acabam
das entrevistas, a relação que os usuários es- por se prender a uma posição de sujeitos inca-
tabeleceram com os profissionais interferiram pazes ou em discursos que fazem com que se
na capacidade de negociação e no interesse em submetam às atribuições que a loucura carrega
conhecer e decidir pela medicação mais adequa- (Ramos, 2012). Por vezes, a dificuldade em falar
da. A seguir, os entrevistados relataram sobre as decorre do medo existente nas relações de que
condicionantes relacionadas com a experiência não haja compreensão entre os sujeitos. No
da toma do medicamento psiquiátrico, como a quotidiano das relações nos serviços de saúde,
dificuldade em lidar com os efeitos secundários, comumente a relação entre usuário e profissio-
além do estigma de transtorno mental que o nal configura-se em discursos que não se escutam e
seu uso acarreta. Estas situações dificultam o o ato de medicar pode ser tomado pelo usuário
diálogo sobre a toma da medicação seja por como o reconhecimento pelo seu sofrimento.
limitações físicas, psíquicas, históricas e sociais. Acontece que aquilo que deveria ser falado e
“Então, vê que o remédio, tudo o que tu sente escutado, torna-se refém de uma prática basea-
no teu corpo, toda essa coisa, não consegue da na medicação, associada à identificação de
escrever direito, não consegue falar o que tá sintomas que constroem um diagnóstico e não
pensando. Tudo isso prejudica.” (E3, dezem- valorizam o processo de viver do usuário com
bro, 2016). o sofrimento. Estas situações somente podem
Na questão do uso do medicamento, muitas ser superadas quando se criam espaços para um
vezes as vivências relacionadas com o psicofár- cuidado humanizado que não se limite, apenas,
maco foram diversas, envolvendo sonolência, ao tratamento medicamentoso, mesmo que
perceção alterada da realidade, lentificação psi- seja o que alguns usuários procurem, mas que
comotora, entre outras. Estas experiências, são possibilite uma maior participação do usuário,
interpretadas como algo muito assustador por contribuindo assim para a sua capacidade de
alguns entrevistados e enfrentar estes stressores negociação nas situações que envolvam a sua
em torno do uso do medicamento psiquiá- vida e o tratamento.
trico pode afetar mais os usuários do que os Reconhecer a dimensão singular do sujeito é
próprios efeitos secundários medicamentosos fundamental para acolher, escutar e desenvolver
em si (Jorge, Onocko Campos, Pinto, & Vas- processos subjetivos que incluem a “produção
concelos 2012). do sujeito na sua relação com o mundo, tor-
nando a realidade subjetiva, alimentando-se

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constantemente da experiência vivida, não só usuários considerassem o grupo como de ajuda
as ações do sujeito no momento atual, mas mútua.
também dos sentidos historicamente confi- Quando eu quiser fazer alguma coisa
gurados nesse sujeito” (Mori & Rey, 2012, p. referente à medicação, eu penso em
145). O coletivo, como é entendido, revela-se vocês e não deixa eu fazer, né? Eu acho
um elemento capaz de promover um tipo de que já foi uma autoajuda pra mim.
participação que, em vez de reforçar os sinais Pensar em vocês, no grupo, no próprio
de crescente individualismo numa sociedade livro, na medicação, tudo assim, né?
excludente, pode assegurar a possibilidade de Me ajuda de uma forma assim que . . .
qualquer indivíduo, em qualquer momento, Não deixa eu . . . Isso que eu não foquei
ser o primeiro a pronunciar-se protagonista muito, se eu focar de verdade vai me
(Costa & Paulon, 2012). ajudar muito mais. (E6, janeiro, 2017)
Na narrativa a seguir, o sentimento de sentir-se A experiência no grupo GAM revelou um
importante revela o empoderamento que o gru- efeito terapêutico de vínculo, o lugar que o
po GAM proporciona para o usuário. grupo pode ocupar na subjetividade da pessoa
Foi diferente. É. Foi uma etapa da mi- e atuar como um dispositivo de contingência
nha vida diferente. Por causa que daí em situações-limite. Este efeito aponta a ne-
eu aprendi coisa, e compartilhei coisa, cessidade de aprofundar situações que o grupo
diferente, que eu não sabia. Também pode atualizar no processo psíquico do usuário.
foi bom por causa que eu me senti Outro efeito foi que o grupo GAM instigou,
mais importante. Fiquei sabendo dos através das tarefas para casa, que a participação
remédios, o que que acontecia quando dos familiares e pessoas próximas no cuidado
eu tomava. O que os meus colegas fa- com o usuário passaram a se aproximar do
lavam e o que eu falava. Por causa que que estava a ocorrer. A seguir, o participante
nós expomos experiências que a gente relata uma vivência familiar com um cenário
passou. (E4, janeiro, 2017)  influenciado pela experiência no grupo.
A participação no grupo teve um efeito de au- Até ontem a minha filha pegou o livro
torreflexão sobre si e nas próprias decisões. A pra ler: Não vai mais, mãe? Tá faltando
GAM entende que os usuários ao falarem e muito. (risos). Ela já veio aqui. Per-
refletirem sobre o que falam iniciam processos guntou: Quem é que cuida deles?. Ela
de autonomia e o protagonismo do seu cuidado, achou na mochila (o guia GAM), aí ela
isto pode gerar desejo pela cidadania e direito leu. Daí ela falou: O que é isso, mãe?.
dos usuários em saúde mental (Passos, Palombi- Eu falei: É lá do Caps. Ela perguntou:
ni, et al., 2013). De todo modo, a participação O que é o GAM?, aí eu assim: Na real a
do usuário em espaços de negociação, já que mãe também não sabe muito o que que
a GAM visa conversar sobre o que acontece é o GAM (risos). Era no começo, ela
nas relações, requer um processo em que o tava sabendo já. Daí eu disse: É como
usuário se permita a pensar sobre seu lugar na lidar com os remédios que a mãe toma.
relação com os outros. O guia GAM estimula Ah, então vamos já ver pra mãe não
os usuários a falarem sobre a necessidade de um ficar mais doente. (E5, janeiro, 2017)
serviço de saúde mental, dos sintomas que cada Este facto revelou o potencial do guia GAM
um possui e como lida com estas exigências como um instrumento que sensibiliza outros
relacionando-as com um projeto de cuidado. que não estão diretamente envolvidos com a
A ligação entre história de vida, sofrimento, possibilidade de uma outra produção do cui-
doença e uso de medicamentos faz-se de uma dado. Assim o guia GAM funciona como um
forma singular no momento em que o usuário dispositivo que afeta e estimula diálogos a partir
fala (Marques, Palombini, & Campos, 2013). do momento que familiares ou cuidadores pas-
Apesar disso, percebe-se que a experiência no sam a entender, por outra perspetiva, a comple-
acesso à informação e conversar sobre os me- xidade que envolve a vida de uma pessoa que
dicamentos proporcionou perceções subjetivas realiza cuidado em saúde mental. As relações
e o reconhecimento sobre o que é da própria pessoais mais próximas com a família podem
responsabilidade e também permitiu que os melhorar, ou não, tendo em vista que a guia

Grupo de gestão autónoma da medicação num centro de atenção


Revista de Enfermagem Referência - IV - n.º 21 -2019 psicossocial: experiência de usuários

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GAM pode provocar empatia com quem tem e novas perceções sobre o tratamento e sobre si
acesso à leitura. mesmo. Os usuários classificaram a experiência
O vínculo entre as pessoas, no contexto da de falar acerca dos medicamantos psiquiátricos
saúde mental, seja usuário-usuário, usuário-pro- como marcante para o seu processo terapêutico,
fissional, usuário-profissional-família favorece e o uso e discussão das informações disponi-
novos sentidos para as relações de cuidado e bilizadas no Guia de GAM como importante
atenção, facilita a construção de autonomia para a sua aprendizagem e para um maior en-
baseada na responsabilização compartilhada e tendimento sobre o medicamento.
pactuada entre os envolvidos. Como limitações do estudo, no período ava-
É a amizade que o cara faz! Só isso liado da participação dos usuários nos grupos
é importante. A amizade. Nem que GAM não foi possível relacionar todas as mu-
fosse uma, já vale muito mais. Se for danças que ocorreram nas narrativas exclusi-
um monte, melhor ainda! Acho que vamente à vivencia da estratégia de GAM, já
quando as pessoas se reúnem em grupo, que muitos fatores de vida e do decorrer dos
a gente cria amizade. (E1, dezembro, seus tratamentos medicamentosos os afetaram
2016) simultaneamente no mesmo período. Além
O conceito de amizade encontra ressonância no disso, lembramos que se tratam de reflexões e
processo da GAM porque o grupo envolve um perceções na visão dos próprios usuários, não
encontro de pessoas que possibilita a construção tendo sido confrontadas estas perceções com
de um vínculo através do relato das histórias de a dos familiares ou dos trabalhadores que os
cada um. Nas relações que estabelecemos com acompanhavam.
as pessoas, que incluiu o respeito, a conversa e Desta forma, no cenário atual, onde os serviços
a escuta, abre-se a possibilidade para amenizar de saúde mantêm formatos de cuidado por vezes
aquilo que gera sofrimento e para ampliar a centrados em diagnósticos e medicamentos que
possibilidade de bem-estar, através de atitudes excluem o saber do usuário, a GAM surge como
conjuntas que estimulem o lado criativo da uma abordagem com potencial para efetivar
vida e a reconstrução de um quotidiano onde relações horizontalizadas que construam novas
se viva melhor. formas de cuidado, valorizem a via da escuta e
da palavra, da educação em saúde, apoio psi-
cossocial e vínculo. Reforça-se como prática
Conclusão para reformar o cuidado, para que as principais
preocupações deixem de ser o diagnóstico, a
Durante a vivência da experiência de GAM doença e a prescrição medicamentosa. Neste
os participantes confirmaram as características sentido, criam-se condições para o usuário, em
apontadas em diversos outros estudos sobre este vez de ocupar um lugar de dependência na rela-
formato de prática em saúde: que o grupo pro- ção com o serviço, tenha o serviço como espaço
porcionou uma experiência significativa como de retomada do seu lugar enquanto cidadão.
um espaço para falar sobre a experiência com
os medicamentos psiquiátricos, ser escutado,
escutar o outro e obter aprendizagem sobre o Referências bibliográficas
medicamento através de informações disponibili-
zadas no grupo e também com o auxílio do guia Barrio, L. R., Campos, R. O., Stefanello, S., Santos, D.
de GAM. Esta confirmação solidifica o campo V., Cyr, C., Benisty, L., & Otanari, T. C. (2014).
de saber que as práticas que colocam o usuário Human rights and the use of psychiatric medica-
no centro do processo são fundamentais para tion. Journal of Public Mental Health, 13(4), 179-
o empoderamento e melhoria da autonomia 188. doi:10.1108/JPMH-06-2013-0039
de pessoas que sofrem de problemas mentais. Costa, D. F., & Paulon, S. M. (2012). Participação social
Além disso, a estratégia GAM valorizou a emer- e protagonismo em saúde mental: A insurgência de
gência da subjetividade dos participantes, prio- um coletivo. Saúde em Debate, 36(95), 572-582.
rizou a participação e o protagonismo em cada doi:10.1590/S0103-11042012000400009 
discurso, incitou à reflexão crítica a partir do Costa-Rosa, A. (2013). Atenção psicossocial além da refor-
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