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OS E CONOMISTAS

MAX WEBER
T EXTOS SELECIONADOS

Traduções de Ma uríc io Tra gtenberg, W a ltensi r Du tr a ,


Calógeras A. Pajuaba, M. Irene de Q. F. Szmrecsányi,
Ta má s J . M. K . S zmrec sá nyi
R evi são de Cássio Gomes (Parlamentarismo e Governo)
Fundador
VICTOR CIVITA
(1907 - 1990)

Editora Nova Cultural Ltda.

Copyright © desta edi çã o 1997, C í rculo do Livro Ltda.

Rua Paes Leme, 524 - 10 º andar


C E P 05424-010 - S ã o Paulo - SP

Tí tulo srcinal:
Parlament und r egi er ung i n N euor dneten D eutschland
( Cap. IV de Parlament und Deutschland); The “R elati ons of the
R ur al communi ty to Other B r anches of S oci al S ci ence” (Congress of
Ar ts and S ci ence, U ni ver sal E xposi ti on, S t. L oui s, 1904);
“Wahrecht und Demokratie in Deutschland.
Textos publicados sob licen ça de:
Dunker & Humblot, Berlim

Direitos exclusivos sobre as tradu çõ es deste volume:


C í rculo do Livro Ltda.

Impress ã o e acabamento:
DONNELLEY COCHRANE GR ÁFICA E EDITORA BRASIL LTDA.
DIVIS ÃO C Í RCULO - FONE (55 11) 4191-4633

I S B N 85-351-0916-1
APRESENTAÇÃO
Maurício Tragtenberg

Pondo-se de lado alguns trabalhos precursores, como os de Ma-


quiavel (1469-1527) e Montesquieu (1689-1755), o estudo cient í fico dos
fatos humanos somente come çou a se constituir em meados do s é culo
XIX. Nessa é poca, assistia-se ao triunfo dos m é todos das ci ê ncias na-
tura is , c onc reti za da s na s ra di ca is tra nsfo rma es da vida material do
homem, o pe ra da s pe la Revo lu çã o Industr ial. D ian çõ te dessa compro va çã o
inequ í voca da fecundidade do caminho metodol ógic o a pont a do por G a -
lileu ( 1564-1642) e out ros, a lgun s pensa dores q ue procura va m conhecer
cientificamente os fatos humanos passaram a abord á -los segundo as
coordenadas das ci ê ncias naturais. Outros, ao contr á rio, afirmando a
peculiaridade do fato humano e a conseq ü ente necessidade de uma
metodologia pr ó pria. Essa metodologia deveria levar em considera çã o
o fato de que o conhecimento dos fen ômenos naturais é um conheci-
ment o de a lgo ex t erno a o pr ópri o ho mem, enqua nt o na s c i ê nci a s soc ia is
o que se procura conhecer é a pr ópria ex pe ri ê nc ia hum a na . De aco rdo
com a distin çã o entre experi ê ncia externa e experi ê ncia interna, po-
der-se-ia
dois grupos distinguir
de ci uma s As écirie êde
ê ncias. contrastes
ncias metodol da observa
exatas partiriam ógicos entre os çã o
sens í vel e seriam experimentais, procurando obter dados mensur á veis
e regularidades estat í sticas que conduzissem à formula çã o de leis de
ca r á ter matem á tico.
As ci ê ncias humanas, ao contr á rio, dizendo respeito à pr ópria
experi ê nci a huma na , se ria m introsp ectiva s, utili za ndo a intui çã o diret a
dos fatos, e procurariam atingir n ã o generalidades de car á ter mate-
m á tico, mas descri çõ es qualitativas de tipos e formas fundamentais
da vida do esp í rito.
Os positivistas (como eram chamados os te óricos da identidade
fundamental entre as ci ê ncias exatas e as ci ê ncias humanas) tinham
suas srcens sobretudo na tradi çã o empirista inglesa que remonta a
Francis Bacon (1561-1626) e encontrou express ã o em David Hume
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OS ECONOMISTAS

(1711-1776), nos utilitaristas do s é culo XIX e outros. Nessa linha me-


todol ógica de abordagem dos fatos humanos se colocariam Augusto
Comte (1798-1857) e É mile Durkheim (1858-1917), este considerado
por muitos o fundador da sociologia como disciplina cient í fica. Os an-
tipositivistas, adeptos da distin çã o entre ci ê ncias humanas e ci ê ncias
naturais, foram sobretudo os alem ã es, vinculados ao idealismo dos fi-
l ó sofos da é poca do Romantismo, principalmente Hegel (1770-1831) e
S chleierma cher ( 1768-1834). Os principa is represent a nt es dessa orie n-
t a çã o foram os neokantianos Wilhelm Dilthey (1833-1911), Wilhelm
Windelband (1848-1915) e Heinrich Rickert (1863-1936). Dilthey esta-
beleceu uma distin çã o que fez fortuna: entre explicação (erkl är en) e
compreensão (ver stehen). O modo explicativo seria caracter í stico das
ci ê ncias naturais, que procuram o relacionamento causal entre os fe-
n ô menos. A compreens ã o seria o modo t í pico de proceder das ci ê ncias
humanas, que n ã o estudam fatos que possam ser expli cados propria-
ment e, ma s visam a os pro cesso s pe rm a nent emente vivo s da ex pe ri ê ncia
humana e procuram extrair deles seu sentido ( S i nn ). Os sentidos (ou
significados) s ã o dados, segundo Dilthey, na pr ópria experi ê ncia do
investigador, e poderiam ser empaticamente apreendidos na experi ên -
cia dos outros.
Dilthey (como Windelband e Rickert), contudo, foi sobretudo fi-
l ósofo e historiador e n ã o, propriamente, cientista social, no sentido
que a express ã o ganharia no s é culo XX. Outros levaram o m é todo da
compreens ã o ao estudo de fatos humanos particulares, constituindo
diversas disciplinas compreensi vas. Na sociologia, a tarefa ficaria re-
servada a Max Weber.

Uma educação humanista apurada

Max Weber nasceu e teve sua forma çã o intelectual no per í od o


em que a s prime ira s disp ut a s so bre a metodo logia da s c i ê nci a s soc ia is
come çavam a surgir na Europa, sobretudo em seu pa í s, a Alemanha.
Filho de uma
casa uma fam intelectualmente
atmosfera í lia da alta classeestimulante.
m é dia, Seu
Weber
pai encontrou
era um em sua
conhecido advogado e desde cedo orientou-o no sentido das humani-
dades. Weber recebeu excelente educa çã o secund á ria em l í nguas, his-
t ória e literatura cl á ssica. Em 1882, come çou os estudos superiores
em Heidelberg, continuando-os em G öttingen e Berlim, em cujas uni-
versidades dedicou-se simultaneamente à economia, à hist ória, à filo-
sofia e ao direito. Conclu í do o curso, trabalhou na Universidade de
Berlim, na qualidade de livre-docente, ao mesmo tempo que servia
como assessor do governo. Em 1893, casou-se e, no ano seguinte, tor-
nou-se professor de economia na Universidade de Freiburg, da qual
se transferiu para a de Heidelberg, em 1896. Dois anos depois, sofreu
s é rias perturba çõ es nervosas, que o levaram a deixar os trabalhos do-
centes, s ó vol ta ndo à atividade em 1903, na qualidade de co-editor do

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WEBER

Ar qui vo de C i ênci as S oci ai s (Ar chi v für S ozialwi ssenschaft ), publica çã o


ex t rema ment e impo rt a nt e no dese nvol viment o do s est udos so ciol ógicos
na Alemanha. A partir dessa é poca, Weber somente deu aulas parti-
culares, salvo em algumas ocasi ões, em que proferiu confer ê ncias nas
universida des de Vie na e Munique, no s a nos que p rec ede ra m sua morte,
em 1920.

ão e explicação
Compreens

Dentro das coordenadas metodol ógicas que se opunham à assi-


mila çã o da s ci ê nci a s so ciais a os qua dro s t e órico s da s ci ê nc ias na tura is,
Webe r concebe o objeto da soc iologia como, fun da ment a lment e, “ a ca p-
t a çã o da rela çã o de sentido ” da a çã o humana. Em outras palavras,
conhecer um fen ô meno social seria extrair o conte ú do simb ólico da
a çã o ou a çõ es que o configura m. P or a çã o, Weber entende “ a quela cuj o
sentido pensado pelo sujeito ou sujeitos é referido ao comportamento
dos outros, orientando-se por ele o seu comportamento ” . Ta l coloca çã o
do problema de como se abordar o fato significa que n ã o é poss í vel
propriamente explicá-lo como resultado de um relacionamento de cau-
sas e efeitos (procedimento das ci ê ncias naturais), mas compreendê-lo
como fato carregado de sentido, isto , como algo que aponta para
outros fatos e somente em fun é poderia ser conhecido em
çã o dos quais
toda a sua amplitude.
O m é todo compreensivo, defendido por Weber, consiste em en-
tender o sentido que as a çõ es de um indiv í duo cont ê m e n ã o apenas
o aspecto exterior dessas mesmas a çõ es. Se, por exemplo, uma pessoa
d á a outra um peda ço de papel, esse fato, em si mesmo, é irrelevante
par a o cie nt ista so cial. Somente qua ndo se sa be que a pri mei ra pe sso a
deu o papel para a outra como forma de saldar uma d í vida (o peda ço
de papel é um cheque) é que se est á diante de um fato propriamente
huma no , o u sej a , de uma a çã o ca rrega da de se nt ido . O fat o em quest ã o
n ã o se esgota em si mesmo e aponta para todo um complexo de sig-

nifica
buem çõaoes sociais,
peda ço na
demedida
papel aem
funque çã
as oduas
de pessoas envolvidas
servir como meio atri-
de troca ou
paga mento ; a l é m d isso , essa fun çã o é rec onh ecida por um a comun ida de
maior de pessoas.
Segundo Weber, a capta çã o desses sentidos contidos nas a çõ es
humana s n ã o p oderia ser rea lizada por meio , exc lusivam ente, dos pro -
cedimentos metodol ógico s da s ci ê nci a s na tur a is, embo ra a rigo ro sa ob-
serva çã o dos fatos (como nas ci ê ncias naturais) seja essencial para o
cientista social. Contudo, Weber n ã o pretende cavar um abismo entre
os dois grupos de ci ê ncias. Segundo ele, a considera çã o de que os fe-
n ô menos obedecem a uma regularidade causal envolve refer ê ncia a
um m es mo e squema l ógic o de p rova, t a nt o na s ci ê nc ias natura is qua nto
nas humanas. Entretanto, se a l ógica da explica çã o causal é id ê ntica,
o mesm o n ã o se p oderia dizer dos tipo s de l eis gera is a serem formula dos

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OS ECONOMISTAS

pa ra ca da um do s doi s gr upo s de disc ipl ina s. A s lei s soc ia is, par a Webe r,
estabelecem rela çõ es causais em termos de regras de probabilidades,
segun do as q ua is a det ermin a dos p roc esso s devem seguir- se, o u ocorr er
simultaneamente, outros. Essas leis referem-se a constru çõ es de “ com-
port a ment o com sent ido ” e serve m pa ra ex pl ica r proc esso s pa rt icula res.
Para que isso seja poss í vel, Weber defende a utiliza çã o dos chamados
“ tipos ideais ” , que representam o primeiro n í vel de generaliza çã o de
conceitos abstratos e, correspondendo à s exig ê ncias l ógicas da prova,
es t ã o intimamente ligados à realidade concreta particular.
O legal e o ítpico

O conceito de tipo ideal corresponde, no pensamento weberiano,


a um processo de conceitua çã o que abstrai de fen ômenos concretos o
que existe de particular, constituindo assim um conceito individuali-
zante ou, nas palavras do pr óprio Weber, um “ conceito hist órico-con-
creto ” . A ê nfa se na ca ra cteriz a çã o sistem á t ica do s padr ões individuais
concretos (caracter í stica das ci ê ncias humanas) op õe a conceitua çã o
t í pico-ideal à conceitua çã o generalizadora, tal como esta é conhecida
nas ci ê nc ias na tura is.
A conceitua o generalizadora, como revela a pr pria ex press o,
retira do fen ômeno çã concreto aquilo que ele tem de geral, óisto é , ãa s
uniformidades e regularidades observadas em diferentes fen ômenos
const itut ivo s de uma mesma cla sse. A rela çã o ent re o co nceit o gen é rico
e o fen ômeno concreto é de natureza tal que permite classificar cada
fen ômeno particular de acordo com os tra ços gerais apresentados pelo
mesmo, considerando acidental tudo o que n ã o se enquadre dentro da
generalidade. Al é m disso, a conceitua çã o generalizadora considera o
fen ômeno particular um caso cujas caracter í sticas gerais podem ser
deduzidas de uma lei.
A conceitua çã o t í pi co-ideal chega a resulta do s diferentes da con-
ceitua çã o ge nera li za do ra . O tipo ideal, segundo Weber, exp õ e como se

desenvolveria
nalmente em direuma forma
çã o aparticular
um fim e des ea f osse orie
çã ontsocial sef oorma
a da de fizesse
a aracio-
tingir
um e somente um fim. Assim, o tipo ideal n ã o descreveria um curso
concreto de a çã o, ma s um des envo lvi mento norma tiva mente ideal, isto
é , um curso de a çã o “ objetiva men t e poss í vel ” . O tipo idea l é um conceito
va zio de c ont e ú do real: ele dep ura a s prop rieda des do s fen ômenos rea is
desencarnando-os pela an á lise, para depois reconstru í -los. Quando se
trata de tipos complexos (formados por v á rias propriedades), essa re-
constru çã o a ssume a fo rma de s í ntese, que n ã o recupera os fen ômenos
em sua real concre çã o, mas que os idealiza em uma articula çã o signi-
ficativa de abstra çõ es. Desse modo, se constitui uma “ pauta de con-
trasta çã o” , que pe rm ite situa r os fen ômeno s reais em sua rel a tividade.
P or co ns eguint e, o t ipo idea l n ã o const itui nem um a hip ótese ne m um a
proposi çã o e, assim, n ã o pode se r fa lso nem verda deiro , ma s v á lido ou

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WEBER

n ã o-v á lido, de acordo com sua utilidade para a compreens ã o significa-


tiva dos acontecimentos estudados pelo investigador.
No que se refere à aplica çã o do tipo ideal no tratamento da rea-
lidade, ela se d á de dois modos. O primeiro é um processo de contras-
t a çã o conce itua l que permit e simpl esmente a pree nder os fa t os segundo
sua ma ior ou meno r a pro xi ma çã o ao tipo ideal. O segundo consiste na
formula çã o de hip óteses explicativas. Por exemplo: para a explica çã o
de um p â nico na bolsa de valores, seria poss í vel, em primeiro lugar,
supor como se desenvolveria o fen ômeno na aus ê ncia de quaisquer
sentim ent os irra ciona is; so ment e de pois se poderia int roduzir ta is se n-
timentos como fatores de perturba çã o. Da mesma forma se poderia
proceder para a explica çã o de uma a çã o militar ou pol í tica. Primeiro
se fi xa ria , hipo t etic a ment e, c omo se teria dese nvol vido a a çã o se toda s
as inten çõ es dos participantes fossem conhecidas e se a escolha dos
meios por parte dos mesmos tivesse sido orientada de maneira rigo-
rosamente racional em rela çã o a certo fim. Somente assim se poderia
atribuir os desvios aos fatores irracionais.
Nos e xemplo s a cima é pa t ent e a dic ot omia esta bel ecida por Webe r
entre o racional e o irracional, ambos conceitos fundamentais de sua
metodologia. Para Weber, uma a çã o é racional quando cumpre duas
condi çõ es . Em pri mei ro l uga r, uma a çã o é ra ciona l na medi da em que
é orientada para um objetivo claramente formulado, ou para um con-
junto de valores, tamb é m claramente formulados e logicamente con-
sistentes. Em segundo lugar, uma a çã o é racional quando os meios
escolhidos para se atingir o objetivo s ã o os mais adequados.
Uma vez de posse desses instrumentos anal í ticos, formulados
para a explica çã o da realidade social concreta ou, mais exatamente,
de uma por çã o dessa realidade, Weber elabora um sistema compreen-
sivo de conceitos, estabelecendo uma terminologia precisa como tarefa
pre liminar para a a n á lise da s int er-rela çõ es ent re os fe n ômen os soc ia is.
De acordo com o vocabul á rio weberiano, s ã o quatro os tipos de a çã o
que
a çã ocumpre
racionaldistinguir
em rela claramente: a
çã o a valores, a çãçãooracional
afetiva eema rela çã o a fins,
çã o tradicional.
Esta ú ltima, baseada no h á bito, est á na fronteira do que pode ser
considerado a çã o e faz Weber chamar a aten çã o para o problema de
fluidez dos limites, isto é , para a virtual impossibilidade de se encon-
trarem “ a çõ es puras ” . Em outros termos, segundo Weber, muito rara-
mente a a çã o social orienta-se exclusivamente conforme um ou outro
dos quatro tipos. Do mesmo modo, essas formas de orienta çã o n ã o
podem ser consideradas exaustivas. Seriam tipos puramente concei-
tuais, constru í dos para fins de an á lise sociol ógica, jamais encontran-
do-se na realidade em toda a sua pureza; na maior parte dos casos,
os qu a t ro tipo s de a çã o enc ont ra m-se mistur a do s. Soment e os resulta do s
que com eles se obtenham na an lise da realidade social podem dar
a medida de sua conveni ê ncia. Paraá qualquer um desses tipos tanto

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OS ECONOMISTAS

seria poss í vel encontrar fen ômenos sociais que poderiam ser inclu í dos
neles, quanto se poderia tamb é m deparar com fatos lim í trofes entre
um e outro tipo. Entretanto, observa Weber, essa fluidez s ó pode ser
clar a mente perc eb ida qua ndo o s pr óprios conceitos tipol ógicos n ã o s ã o
flui dos e e st a bel ecem front ei ra s r í gidas entre um e outro. Um conceito
bem definido estabelece nitidamente propriedades cuja presen ça nos
fen ômenos sociais permite diferenciar um fen ômeno de outro; estes,
contudo, raramente podem ser classificados de forma r í gida.
O sistema de tipos ideais

Na primeira parte de E conomia e S oci edade, Max Weber exp õe


seu sistema de tipos ideais, entre os quais os de lei, democracia, ca-
pitalismo, feudalismo, sociedade, burocracia, patrimonialismo, sulta-
nismo. Todos esses tipos ideais s ã o apresentados pelo autor como con-
ceitos definidos conforme crit é rios pessoais, isto é , trata-se de concei-
t ua çõ es do que ele entende pelo termo empregado, de forma a que o
le itor pe rce ba cla ra ment e do que el e est á fa lan do . O i mpo rt a nt e ne ssa
tipologia reside no meticuloso cuidado com que Weber articula suas
defini ções e na maneira sistem á tica com que esses conceitos s ã o relacio-
na dos uns a os out ros. A pa rt ir dos conce itos ma is gera is do compo rt a ment o
social e das rela ções sociais, Weber formula novos conceitos mais espec í-
ficos, pormenorizando cada vez mais as caracter í sticas concretas.
Sua abordagem em termos de tipos ideais coloca-se em oposi çã o,
por um lado, à explica çã o estrutural dos fen ômenos, e, por outro, à
perspectiva que v ê os fen ômenos como entidades qualitativamente di-
ferentes. Para Weber, as singularidades hist óricas resultam de com-
bina çõ es espec í ficas de fatores gerais que, se isolados, s ã o quantific á -
veis, de tal modo que os mesmos elementos podem ser vistos numa
s é rie de outras combina çõ es singulares. Tudo aquilo que se afirma de
uma a çã o concreta , se us gra us de a dequa çã o de sent ido , sua exp lic a çã o
compreensiva e c a usa l, seria m h ip ót eses susce t í veis de ver ific a çã o. Pa ra
Weber, a interpreta çã o causal correta de uma a çã o concreta significa
que “ o desenvolvimento externo e o motivo da a çã o foram conhecidos
de modo certo e, ao mesmo tempo, compreendidos com sentido em sua
rela çã o ” . Por outro lado, a interpreta çã o causal correta de uma a çã o
t í pica significa que o acontecimento considerado t í pico se oferece com
adequa çã o de sentido e pode ser comprovado como causalmente ade-
quado, pelo menos em algum grau.

O capitalismoé protestante?

As s olu çõ es e nco nt ra da s po r Webe r pa ra os int rinca do s pro ble ma s


metodol ó gic os que o cupar a m a a ten çã o do s ci ent ist a s soc ia is do c ome ço
do s é culo XX permit ira m-lhe la n ça r n ova s luze s so bre v á rios probl ema s
sociais e hist óricos, e fazer contribui çõ es extremamente importantes

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WEBER

para as ci ências sociais. Particularmente relevantes nesse sentido foram


seus estudos sobre a sociologia da religi ã o, mais exatamente suas inter-
preta ções sobre as rela ções entre as id éias e atitudes religiosas, por um
lado, e as atividades e organiza çã o econ ôm ica corr esp ond entes, por out ro.
Esses estudos de Weber, embora incompletos, foram publicados
nos tr ê s volumes de sua S oci ologi a da R eli gi ão. A linha mestra dessa
obra é c onst itu í da pe lo ex a me do s a spe ct os ma is i mpo rt a nt es da ordem
social e econ ô mica do mundo ocidental, nas v á rias etapas de seu de-
senvolvi men t o hist órico . E sse pro blema j á se tinha coloca do pa ra out ros
pensa dores a nt erio res a Webe r, den t re os qua is Ka rl Ma rx ( 1818-1883),
cuj a obra , a l é m de seu c a r á ter te órico , co nst itu í a ele mento fundamenta l
para a luta econ ômica e po l í t ica dos p a rt ido s op er á rios, por ele mesmo
criados. Por essas raz ões, a pergunta que os soci ólogos alem ã es se
faziam era se o materialismo hist óric o f orm ula do p or Ma rx era ou n ã o
o verdadeiro, ao transformar o fator econ ômico no elemento determi-
nante de todas as estruturas sociais e culturais, inclusive a religi ã o.
I n ú meros trabalhos foram escritos para resolver o problema, substi-
tuindo-se o fator econ ômico como dominante por outros fatores, tais
como ra ça, clima, topografia, id é ias filos óficas, poder pol í tico. Alguns
a ut ores, co mo W hilh elm D ilt hey , E rn st Troelts ch ( 1865-1923) e Wern er
Sombart (1863-1941), j á se tinham orientado no sentido de ressaltar
a influ ê ncia das id é ias e das convic çõ es é ticas como fatores determi-
nantes, e chegaram à conclus ã o de que o moderno capitalismo n ão
poderia ter surgido sem uma mudan ça espiritual b á sica, como aquela
que ocorreu nos fins da Idade M é dia. Contudo, somente com os tra-
ba lhos d e Weber foi poss í ve l el a bora r uma ve rda dei ra teo ria gera l ca paz
de confrontar-se com a de Marx.
A primeira id é ia qu e ocorreu a Webe r n a el a bora çã o de ssa t eoria
foi a de que, para conhecer corretamente a causa ou causas do surgi-
ment o do ca pi t a lismo , era nec ess á rio fa ze r um es tudo c ompa ra tivo e nt re
a s v á rias sociedades do mundo ocidental ( ú nico lugar em que o capi-
talismo, como um
pri nci palment e a tipo ideal,
s do O rie nttinha surgido)
e, o nde na dae de
as se
outras
mel haciviliza çõ es ,
nt e a o ca pi ta li smo
ocide nt a l tinha a par ecido . Depo is de ex a ustiva s a n á lises nesse se nt ido ,
Weber foi conduzido à tese de que a explica çã o par a o fa to de ve ria se r
enc ontra da na í nt ima vinc ula çã o do ca pita li smo c om o protesta nt ismo :
“ Qualquer observa çã o da estat í stica ocupacional de um pa í s de com-
posi çã o rel igi osa mista tr a z à luz, com n ot á vel freq üê nci a , um fen ômeno
que j á tem provocado repetidas discuss ões na imprensa e literatura
ca t ó licas e em congressos cat ólicos na Alemanha: o fato de os l í deres
do mun do do s neg ócios e propriet á rios do ca pita l, a ssim co mo o s n í veis
ma is altos de m ã o-de-obra q ua lific a da , princi pa lment e o pesso a l t é cnico
e comercialmente especializado das modernas empresas, serem pre-
ponderantemente protestantes .
A partir dessa afirma çã o,” Weber coloca uma s é rie de hip óteses

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OS ECONOMISTAS

referentes a fatores que poderiam explicar o fato. Analisando detida-


mente esses fatores, Weber elimina-os, um a um, mediante exemplos
hist órico s, e chega à conclus ã o fina l de qu e os pro t esta nt es, t a nt o como
classe dirigente, quanto como classe dirigida, seja como maioria, seja
como minoria, sempre teriam demonstrado tend ê ncia espec í fica para
o racionalismo econ ô mico. A raz ã o desse fato deveria, portanto, ser
busc a da no ca r á ter i nt r í nsec o e p erma nent e de sua s c ren ças religiosas
e n ã o apenas em suas tempor á rias situa çõ es externas na hist ória e
na pol í tica.
Uma vez indicado o papel que as cren ça s reli gio sa s t eri a m exe r-
cido na g ê nese do esp í rito capitalista, Weber prop õe-se a investigar
quais os elementos dessas cren ça s que a tua ra m n o se nt id o indi ca do e
procura definir o que entende por “ es p í rito do capitalismo ” . Este é
ent end ido p or Weber co mo c onst it u í do fundamenta lme nte po r uma é tica
peculiar, que pode ser exemplificada muito nitidamente por trechos
de discursos de Benjamin Franklin (1706-1790), um dos l í deres da
independ ê ncia dos Estados Unidos. Benjamin Franklin, representante
t í pico da mentalidade dos colonos americanos e do esp í rito pequeno-
burgu ê s, afirma em seus discursos que “ ganhar dinheiro dentro da
ordem econ ômica moderna é , enquanto isso for feito legalmente, o re-
sultado e a express ã o da virtude e da efici ê ncia de uma voca çã o” . Se-
gundo a interpre ta çã o da da por Webe r a esse t ex t o, B enj a min F ra nklin
ex pressa um u t ili t a rismo, ma s um ut ili t a rismo com fo rt e cont e ú do é tico,
na medida em que o aumento de capital é considerado um fim em si
mesmo e, sobretudo, um dever do indiv í duo. O aspecto mais interes-
sante desse utilitarismo residiria no fato de que a é tica de obten çã o
de mais e mais dinheiro é combinada com o estrito afastamento de
todo gozo espont â neo da vida.
A quest ã o seguinte colocada por Weber diz respeito aos fatores
que teriam levado a transformar-se em voca çã o uma atividade que,
a nt eri orment e ao a dve nt o do ca pi ta li smo , e ra , na mel ho r da s hip óteses,

apenas
mento do tolerada.
dever O conceito
dentro das de voca
profiss çã oseculares
ões como valoriza çã o do cumpri-
Weber encontra ex-
presso nos escritos de Martinho Lutero (1483-1546), a partir do qual
esse conceito se tornou o dogma central de todos os ramos do protes-
t a nt ismo. Em Lu t ero, cont udo, o conc eito de voc a çã o t eria perma nec ido
em sua forma tr a dic iona l, i sto é , algo aceito como ordem divina à qual
cada indiv í duo deveria adaptar-se. Nesse caso, o resultado é tico, se-
gundo Weber, é inteiramente negativo, levando à submiss ã o. O lute-
ranismo, portanto, n ã o p oderi a ter sido a ra z ã o explicativa do esp í rito
do capitalismo.
Weber volta-se ent ã o para outras formas de protestantismo di-
versas do luteranismo, em especial para o calvinismo e outras seitas,
cuj o ele men t o b á sico era o profundo isolamento espiritual do indiv í du o
em rela çã o a seu Deus, o que, na pr á tica, significava a racionaliza çã o

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WEBER

do mundo e a elimina çã o do pe nsa ment o m á gico como m eio de sa lva çã o.


S egundo o ca lvinismo , so ment e uma vida guia da pe la r efl ex ã o con t í n ua
poderia obter vit ória sobre o estado natural, e foi essa racionaliza çã o
que deu à f é reformada uma tend ê ncia asc é tica.
Com o objetivo de relacionar as id é ias religiosas fundamentais
do protestantismo com as m á xi ma s da vida econ ômica capitalista, We-
ber analisa alguns pontos fundamentais da é tica calvinista, como a
afirma çã o de que “ o tra balho constitui, ant es de mais na da , a pr ópria
finalidade da vida ” . Outra id é ia no mesmo sentido estaria contida na
m á xima dos puritanos, segundo a qual “ a vida profissional do homem
é que lhe d á uma prova de seu estado de gra ça para sua consci ê ncia,
que se expressa no zelo e no m é todo, fazendo com que ele consiga
cumprir sua voca çã o ” . Por meio desses exemplos, Weber mostra que
o ascetismo secular do protestantismo “ libertava psicologicamente a
aquisi çã o de bens da é tica tradicional, rompendo os grilh ões da â nsia
de lucro, co m o qu e n ã o apena s a le ga li zo u, c omo ta mb é m a considerou
diretamente desejada por Deus ” . Em s í ntese, a tese de Weber afirma
que a considera çã o do trabalho (entendido como voca çã o constante e
sistem á tica) como o mais alto instrumento de ascese e o mais seguro
meio de preserva çã o da reden çã o da f é e do homem deve ter sido a
mais poderosa alavanca da express ã o dessa concep çã o de vida consti-
t u í da pelo esp í rito do capitalismo.
É n ecess á rio , cont udo, sa li ent a r q ue W ebe r em n enhum moment o
consider a o esp í rit o do ca pi t a lismo uma pura conseq üê nci a da Ref orma
protestante. O sentido que norteia sua an á lise é antes uma proposta
de i nvestigar em que medi da a s infl u ê nci a s rel igi osa s par tic ip a ra m da
mo ldagem qua li ta tiva do e sp í rit o do ca pi t a lis mo. P erc orrend o o ca minh o
inverso, Weber prop õ e-se tamb é m a compreender melhor o sentido do
protestantismo, mediante o estudo dos aspectos fundamentais do sis-
t ema econ ômic o ca pi t a li st a . Tendo em vista a gra nde c onfus ã o e xistent e
no campo das influ ê ncias entre as bases materiais, as formas de or-
ganiza çã o soc ia l e pol í t ica e os co nt e ú do s espi rit ua is da Refo rm a , Webe r
salientou que essas influ ê ncias s ó poderiam ser confirmadas por meio
de e xa ustiva s inve stiga çõ es dos pontos em que realmente teriam ocor-
rido correla çõ es entre o movimento religioso e a é t ica vo ca ciona l. Com
isso “ se poder á avaliar ” — diz o pr óprio Weber — “ em que medida os
fen ômenos culturais contempor â neos se srcinam historicamente em
motivos religiosos e em que medida podem ser relacionados com eles ”.
Autoridade e legitimidade

A a plica çã o da metodo logia compreensiva à a n á lise dos fen ômenos


hist óricos e sociais, por parte de Weber, n ã o se limitou à s rela çõ es
entre o protestantismo e o sistema capitalista. In ú meros foram seus
trabalhos de investiga çã o emp í rica sobreAassuntos econ ômicos e pol í -
ticos. Entre os primeiros, salientam-se S i tuação dos Trabalhadores
13
OS ECONOMISTAS

Agr í colas no E lba e A Psi cofi si ologi a do T r abalho I ndustr i al. Entre os
segundos, devem ser ressaltadas suas an á lises cr í ticas da sele çã o bu-
rocr á tica dos l í deres pol í ticos na Alemanha dos Kaiser Guilherme I e
II e da despolitiza çã o levada a cabo com a hegemonia dos burocratas.
Para a teoria pol í tica em geral, contudo, foram mais importantes os
conceitos e categorias interpretativas que formulou e que se tornaram
cl á ssicos nas ci ê ncias sociais.
Weber dis t ing ue n o conce it o de po l í tic a dua s a cep çõ es, u ma ge ra l
e outra restrita. No sentido mais amplo, pol í tica é entendida por ele
como “ qualquer tipo de lideran ça independente em a çã o” . No sentido
restrito, pol í tica seria lideran ça de um tipo de associa çã o espec í fica;
em outra s pala vra s, tra ta r-se -ia da li de ra n ça do E sta do . Est e, por sua
vez, é defendido por Weber como “ uma comunidade humana que pre-
t ende o mono p ólio do us o leg í t imo da for ça f í sic a dentro de de termina do
territ ór io” . Definidos esses conceitos b á sicos, W eber é conduzido a des-
dobrar a natureza dos elementos essenciais que constituem o Estado
e assim chega ao conceito de autoridade e de legitimidade. Para que
um E st a do ex ista , diz W ebe r, é n ecess á rio que um conjunt o de pe ssoa s
(toda a sua popula çã o) obede ça à autoridade alegada pelos detentores
do poder no referido Estado. Por outro lado, para que os dominados
obede ça m é necess á rio que os detentores do poder possuam uma au-
toridade reconhecida como leg í tima.
A autoridade pode ser distinguida segundo tr ê s tipos b á sicos: a
racional-legal, a tradicional e a carism á tica. Esses tr ê s tipos de auto-
ridade correspondem a tr ê s tipos de legitimidade: a racional, a pura-
mente afetiva e a utilitarista. O tipo racional-legal tem como funda-
mento a do mina çã o em virtu de da cren ça na validade do esta tut o le ga l
e da compet ê nci a func iona l, ba se a da , p or sua ve z, e m regra s ra ciona l-
mente criadas. A autoridade desse tipo mant é m-se, assim, segundo
uma ordem impesso a l e universa lista , e o s limites de seus p oderes s ã o
determinados pelas esferas de compet ê ncia, defendidas pela pr ópria
ordem.
tra tivo Quando a autoridade
orga nizado , to ma aracional-legal envolve
forma de e strut ura um corpo
buro cr áadminis-
tic a , a mpl a mente
analisada por Weber.
A autoridade tradicional é imposta por procedimentos conside-
rados leg í timos porque sempre teria existido, e é aceita em nome de
uma tradi çã o reconhecida como v á lida. O exerc í cio da autoridade nos
Estados desse tipo é definido por um sistema de status, cujos poderes
s ã o de t ermina do s, em primeiro luga r, po r presc ri çõ es concretas da or-
dem tr a dic iona l e, em seg undo l uga r, pe la a ut orida de de o utr a s pe sso a s
que est ã o acima de um status particular no sistema hier á rq uic o e sta -
belec ido. Os poder es s ã o ta mb é m determ ina do s pe la ex ist ê nci a de uma
esf era a rbi tr á ria de gr aça, aberta a crit é rio s va ria do s, c omo o s de ra z ã o
de Estado, justi ça substantiva, considera çõ es de utilidade e outros.
P ont o i mpo rta nt e é a inexist ê ncia de separa çã o n í tida entre a esfera

14
WEBER

da autoridade e a compet ê ncia privada do indiv í duo, fora de sua au-


toridade. Seu status é total, na medida em que seus v á rios pap é is
es t ã o muito mais integrados do que no caso de um ofí ci o no Estado
racional-legal. Em rela çã o ao tipo de autoridade tradicional, Weber
apresenta uma subclassifica çã o em termos do desenvolvimento e do
papel do corpo administrativo: gerontocracia e patriarcalismo. Ambos
s ã o tipos em que nem um indiv í duo, nem um grupo, segundo o caso,
ocupam posi çã o de autoridade independentemente do controle de um
corpo administrativo, cujo status e cujas fun çõ es s ã o tr a dic iona lme nt e
fixados. No tipo patrimonialista de autoridade, as prerrogativas pes-
soais do “ chefe ” s ã o muito mais extensas e parte consider á vel da es-
trutura da autoridade tende a se emancipar do controle da tradi çã o.
A domin a çã o carism á tica é um t ipo de a pel o que se o p õ e à s ba se s
de legitimidade da ordem estabelecida e institucionalizada. O l í der
carism á tico, em certo sentido, é sempre revolucion á rio, na medida em
que se coloca em oposi çã o consciente a algum aspecto estabelecido da
sociedade em que atua. Para que se estabele ça uma autoridade desse
tipo, é necess á rio que o apelo do l í der seja considerado leg í timo por
seus seguidores, os quais estabelecem com ele uma lealdade de tipo
pessoal. Fen ômeno excepcional, a domina çã o ca rism á tic a n ã o pode es-
tabilizar-se sem sofrer profundas mudan ças estruturais, tornando-se,
de acordo com os padr ões de sucess ã o que adotar e com a evolu çã o do
corpo administrativo ou racional-legal ou tradicional, em algumas de
suas configura çõ es b á sicas.

15
C RONOLOGIA

1864— M ax Weber nasce em E r fur t, T ur í ngia, em 21 de abril.


1869— M uda-se par a B er li m com a famí lia.
1882— Conclui seus estudos pr é-universit ários e matricula-se na Fa-
culdade de D i r ei to de H ei delber g.
1883— Transfere-se para Estrasburgo, ondepresta um anode serviço militar.
1884— R ei ni ci a os estudos uni ver si t ários.
ç
— C onclui seus estudos e come a a trabalhar nos tribunais de
1888Berlim.
1889— E screve sua tese de doutor amento sobre a hi stória das com-
panhi as de comér ci o dur ante a I dade M édia.
1891— E screve uma tese, Hist ória das Institui çõ es Agr á rias.
1893— Casa-se com M ari anne S chni tger .
1894— E xer ce a cátedr a de economia na U ni ver si dade de F r ei bur g.
1896— A cei ta uma cátedr a em H ei delber g.
1898— C onsegue uma li cença r emuner ada na uni ver si dade, por moti vo
de saúde.
1899— É internado numa casa de saú de para doentes mentais, onde
per manece algumas semanas.
— Participa,publica
1903destacadas junto çõ
com Sombart,
es de ciênciasda çãoAlemanha.
dire da
sociais de uma das mais
1904— Publica ensaios sobr e os problemas econômicos das proprieda-
des dos J unker , sobr e a objeti vi dade nas ci ênci as soci ais e a pr i -
meira parte de A É tica Protestante e o Esp í rito do Ca pi ta li smo .
1905— Parte par a os E stados U ni dos, onde pronuncia confer ências e
recolhe material para a continuação de A É tica Protestante e o
E sp í rito do Capitalismo.
1906— R edi ge doi s ensaios sobr e a R ússi a: A Sit ua çã o da D emo cra cia
Burguesa na R ú ssia e A Transi çã o da R ú ssia para o Constitu-
cionalismo de Fachada.
1914 — I n í cio da Primeira Guerra Mundial. Weber, no posto de
capit ão, é encarregado de organizar e administrar nove hospi-
tai s em H ei delber g.
17
OS ECONOMISTAS

1918— Transfere-se para Viena, onde dá um curso sob o tí tulo de


Uma Cr í tica Positiva da Concep çã o Materialista da Hist ória.
1919— Pronuncia confer ências em Munique, que serão publicadas sob
o tí tulo de Hist ória Econ ômica Geral.
1920— F alece em conseqüência de uma pneumonia aguda.

18
BIBLIOGRAFIA

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sophy of S ci ence, edita do p or H erbe rt Feigl e M a y B rodbe ck, A p-
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Research, vol. XI, n º 1,e of
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ZNANIECKI, F.: T he M ethod of S ociology, Farrar & Rinehart, Nova
York, 1934.

19
P ARLAMENTARISMO
NUMA E GOVERNO
ALEMANHA R ECONSTRU Í DA*

(UMA C ONTRIBUI Ç ÃO À CR Í TICA POL Í TICA DO


F UNCIONALISMO E DA POL Í TICA PARTID ÁR I A)

Tradu ção de Maur í cio Tragtenberg

Revis ão de C á ssio Gomes

* Traduzido de: “ Parlament und Regierung im neugeordneten Deutschland ” , in Max Weber,


G esammelte poli tische S chri ften, J . C. B . Mo hr (Pa ul Siebe ck ), T ü bingen, 1958, 2 ª ed i çã o,
prep a ra da por J ohannes W inc kel ma nn, p á gs. 294-394.
PR E F ÁC I O

E ste tr a ba lho pol í tico é uma rev is ã o e uma a mpl ia çã o de a rt igo s


publicados no F r ank fur ter Zei tung dura nt e o ve r ã o de 1917. 1 O ensaio
n ã o prop orc iona nova s informa çõ es p a ra es pe cialista s em co nst itui çõ es
e tamb é m n ã o pretende ter autoridade cient í fica, pois as decis ões ú l-
timas da vontade n ã o podem ser tomadas por meios cient í ficos. Os
argumentos aqui representados n ã o podem influenciar aqueles para
quem as tarefas hist óricas da na çã o alem ã n ã o se colocam acima de
qua lquer c ont ro v é rsia de na tu reza const ituci ona l, o u a quele s q ue c on-
sideram essas tarefas de maneira radicalmente diferente. Nossos ar-
gumentos t ê m certas pressuposi çõ es, a partir das quais ditos argu-
mentos s ã o di rigido s co nt ra a qu el es que co nsidera m m esmo os t empo s
a tua is a pro pri a do s p a ra de sa cred ita r o s is tema parla menta r em favo r
de outros poderes pol í ticos. Infelizmente, esse tipo de cr í tica tem exis-
tido nos ú ltimos quarenta anos nos grandes c í rculos de escritores de
dent ro e de fo ra do me io a ca d ê mic o, tendo cont inua do dura nt e a guerra .
Muito freq ü entemente ta l cr í tic a tem sido emp ree ndida da forma ma is
arrogante e extravagante, com desdenhosa virul ê nci a e se m n enhuma
boa vontade para compreender as condi çõ es para a exist ê ncia de um

1 Este s e nsai os fo ram pu bl icado s p or Max W ebe r, G esammelte poli ti sche S chri ften, ed. J o-
hannes Winckelmann (2 ª ed.; T ü bingen: Mohr, 1958), 294-394. Os ensaios foram pela pri-
meira vez publicados em conjunto na s é rie Die innere Politik, organizados por Siegmund
Helmann (M ü nchen e Leipzig: Duncker & Humblot, 1918). Em certas passagens Weber
serviu-se da segunda parte de Wirtschaft und Gesellschaft, que naquela é poca n ã o tinha
ainda sido publicado. Por isso, o leitor encontrar á certas repeti çõ es nas exposi ções que
Weber fa z do governo de dignit á rios e de democ ra ta s, ma s a o mesmo tempo o lei tor observar á
a conex ã o entre as opini ões pol í ticas de Weber e sua percep çã o erudita das mudan ça s
seculares. Entretanto, como o pr óprio Weber frisa no pref á cio, ele n ã o rei vindic a a utoridade
cient í fica em suas opini ões pol í ticas. Al é m disso, o leitor n ã o deve esquecer que o ensaio
teve srcem em artigos jornal í sticos que repetiam os t ópicos principais com persist ê ncia
propagand í stica. “ A Pol í tica como Voca çã o” reenceta alguns dos temas de seus escritos do
tempo da guerra. É rea lmente a so ma de sua perspec tiva pol í tica; por é m, em sua concis ã o,
é um trabalho ainda mais ocasional do que seus escritos pol í ticos anteriores e, conseq ü en -
temente, necessita de explana çõ es ma is desenvol vida s e co ncreta s, co mo o e nsa io p resente.
Nos ú ltimos anos a pol í tica de Weber tem recebido grande aten çã o. A sele çã o que se segue
é ú til como leitura de fundo para a compreens ã o de seus escritos pol í tico s; ta mb é m cont é m
muitas refer ê ncias a outros assuntos pertinentes.

23
OS ECONOMISTAS

parlamento eficiente. É ve rda de que a s realiza ções pol í tic a s do s par -


lamentos alem ã es s ã o pa ss í veis de cr í tic a . Ma s o q ue h á de ve rda de
com refer ê nc ia a o Re ic hsta g t a mb é m é v á li do pa ra outra s insti t ui çõ es
pol í ticas, à s qu a is es se s esc ritores s empre tra ta ra m co m gra nde c on-
sidera çã o e freq ü ent e a dul a çã o. Se ta is di le ta ntes a ssi m se c ompra -
ze m em a ta ca r o p a rl a menta ri smo , p a rec e b a sta nt e apro pri a do exa -
minar sua vi s ã o pol í t ica sem muita conside ra çã o po r seus sent imen-
to s. Seri a a grad á vel travar combate com advers á rios imparciais —
qu e sem d ú vida existem —, ma s se ria cont r á rio à integridad e ale m ã
mostrar respeito por certos c í rculos pelos quais este autor e muitos
outros t ê m sido freq ü entemente rotulados “ demagogos ” , “ anti-ale-
m ã es ” ou “ agentes estrangeiros ” . Sem d ú vi da , a ma io ria do s “ escri-
tores ” em quest ã o foram ing ê nuos, ma s é este talvez o aspecto mais
vergonhoso de tais excessos.
J á fo i dito qu e ag ora n ã o é a oca si ã o par a se de ba terem quest ões
de pol í tica interna, porque n ós estamos ocupados com coisas mais im-
portantes. “ N ós?” — Quem? Isso deve referir-se aos que ficaram em
ca sa . E o que é que de ve ria ma nt ê -los t ã o ocupa dos? A a çã o de invec t iva r
contra os inimigos? As guerras n ã o s ã o ganhas dessa maneira. Os
soldados no fr ontnan ãraz
que se avolumam o f a zem
ã odisc ursos
direta da cdist
ont raâ oncia
inimigo , e ta is insultos,
das trincheiras, s ão
indignos de uma na çã o orgulhosa. Ou dever í amos fazer discursos e
tomar resolu çõ es a respeito do que “ n ós ” devemos anexar antes que
“ n ós ” possamos concluir a paz? A esse respeito é necess á rio que se
diga, em princ í pio, o seguinte: Se o ex é rcito, que trava as batalhas
alem ã s, a ssumisse o pont o de vista de que “ o qu e quer q ue n ós tenha mo s
conquistado com nosso sangue deve permanecer sob controle alem ã o” ,
n ó s, que n ã o nos ausentamos de casa, ter í amos o direito de dizer:
“ C onsiderei qu e, politic a ment e, essa a t itud e poderia n ã o ser prudent e ” .
Contudo, se o ex é rcito insistisse, n ó s ter í amos que nos calar. Mas se
“ n ós ” n ã o temos escr ú pulos em envenenar o orgulho dos soldados em
suas realiza çõ es bradando-lhes, como j á aconteceu antes repetidas ve-
zes: “ S e ta l e t a l objetivo de gue rra qu e idea lizam os n ã o f orem a t ingido s,
tereis morrido em v ã o” — en t ã o isso me parece simplesmente intole-
r á vel de um ponto de vista puramente humano, e nada mais do que
prejudicial à vontade de resistir. Em vez disso, seria melhor ficar re-
petindo apenas uma coisa: que a Alemanha luta pela vida contra um
ex é rcito no qual africanos gurcas e todos os tipos de outros b á rbaros
dos mais remotos cantos do mundo est ã o nas fronteiras prontos para
devastar nosso pa í s. Isso é um fato que todos podem compreender. É
um fa t o qu e teria de merec er una nimida de. Em vez disso , os esc rit ores
ocupam-se na elucubra çã o de v á rias “ id é ia s ” , pelas quais os soldados
devem derramar seu sangue e morrer. N ã o acredito que esses atos
v ã os tenham facilitado ao m í nimo o cumprimento do dif í cil dever por

24
WEBER

nosso s sol da dos; e sses a t os v ã os sem d ú vida pre judic a va m gra ndemente
as possibilidades de uma discuss ã o pol í tica objetiva.
P a rec e-me q ue nossa t a refa primo rdia l e m casa consiste e m tornar
poss í vel para os soldados que regressam a reconstru çã o da Alemanha
que eles salvaram — com o voto em suas m ã os e atrav é s de seus
representantes eleitos. Assim precisamos eliminar os obst á culos l eva n-
tados pelas condi çõ es atuais, a fim de que os soldados possam dar
in í cio à reconstru çã o logo ap ós o t é rmino da guerra, em vez de ter de
se envolve r em co nt rov é rsias es t é reis. Nenhum sofisma pode esconder
o f a t o de qu e o sufr á gio imparcial e o governo parlamentar s ã o o ú nico
meio para esse objetivo. Insincera e sem-vergonha é a queixa de se
estar considerando uma reforma — “ sem que os soldados fossem con-
sultados ” — quando, de fato, s ó a reforma lhes daria a oportunidade
de participarem decisivamente de assuntos pol í ticos.
Diz-se, al é m disso, que toda cr í tica à nossa forma de governo
proporcionaria muni çã o a nossos inimigos. Durante vinte anos esse
argumento foi usado para nos fazer calar. Agora é muito tarde. Que
podemo s a go ra pe rder fora do p a í s co m essa cr í t ica ? Os inimigos po dem
se parabenizar se os antigos danos persistirem. Especialmente agora,
que a grande guerra atingiu o est á gio em que a diplomacia come ça a
entra r em a çã o nova ment e, é c hegada a ho ra de f a ze r t udo para imp edi r
a repeti çã o dos velhos erros. Por enquanto as perspectivas s ã o infeliz-
mente muito limitadas. Mas os inimigos sabem, ou vir ã o a saber, que
a demo cra cia a le m ã n ã o pode c oncluir um a pa z desfa vor á vel se pretend e
ter algum futuro.
O indiv í duo cujas cren ças supremas colocam toda forma de go-
ve rno a utorit á rio acima de todos os interesses pol í tic os da na çã o pode
defender essas suas id é ias. N ã o é poss í vel discutir com ele. Contudo,
n ã o nos venha com conversa v ã sobre o contraste entre as concep çõ es
de Estado da “ Europa Ocidental ” e “ da Alemanha ” . Estamos lidando
aqui com simples quest ões de t é cnicas (constitucionais) para a formu-
la
um çã no úde pol li
mero í ticas
mitanacionais. Para um
do de alterna Estado
tivas. de um
P a ra massas
po l existe
í t ico apenas
ra ciona l a forma
de governo adequada, em qualquer é poca, é uma quest ã o objetiva que
depende das tarefas pol í tic a s da n a çã o. É meramente uma falta de f é
na s po tenc iali da de s da Ale ma nha qua ndo a fi rma m q ue a germa nic id a de
estaria sendo posta em risco se compartilh á ssemos t é cnicas e institui-
çõ es ú t ei s de go verno com outr os po vo s. Ma is a inda , o pa rla ment a rismo
nunca foi estranho à hist ória alem ã , e nenhum dos sistemas contras-
ta ntes, ca ra cter í st ico da Ale ma nh a so ment e. Circunst â nci a s pl ena men-
te ob riga t ória s e objetiva s fa r ã o com q ue um E sta do a le m ã o com govern o
parlamentarista seja diferente de qualquer outro. N ã o seria uma po-
l í tic a equil ib ra da , ma s sim a o estilo do s li tera tos se e ssa quest ã o fosse
transformada num objeto de vaidade nacional. N ã o sabemos hoje se
uma rec onst ru çã o p a rla menta r positiva ocorrer á na Ale ma nha . Ta l re -

25
OS ECONOMISTAS

constru çã o poder á ser frustrada pela direita ou ser impedida pela es-
que rda. E ss a ú ltima hip ó tese tamb é m é poss í vel. Os interesses vitais
da na çã o colocam-se, é claro, acima da democracia e do parlamenta-
rismo. Mas se o parlamento fracassasse e o velho sistema voltasse,
isso teria sem d ú vida conseq üê ncias de longo alcance. Mesmo ent ão
poder-se-ia dar gra ças ao destino por sermos alem ã es. Mas ter-se-ia
que a ban do na r para se mpre qua is quer gra ndes esp eran ça s pe lo fut uro
da Alemanha, independente do tipo de paz que ter í amos.
O a ut or, q ue vo t ou pel o pa rt ido conserva dor h á qua se tr ê s d é cadas
e mais tarde votou pelo partido democr á tico, e foi ent ã o convidado a
esc reve r pa ra o K r euzzei tung e escreve agora para jornais liberais, n ão
é pol í tico ativo e nem pretende s ê -lo. A t í tulo de precau çã o, deve-se
aduzir que ele n ã o tem liga çõ es de natureza alguma com nenhum
importante pol í tico alem ã o. Tem boas raz ões para crer que nenhum
partido, nem mesmo a esquerda, se identificar á com o que ele tem a
dizer. Isso se aplica particularmente ao que lhe é mais importante
pessoalmente (se ç. IV, abaixo), e esse é um assunto sobre o qual os
par tido s n ã o t ê m opini ões dive rgent es. O a ut or opto u po r su a s op ini ões
pol í ticas porque os acontecimentos das ú ltimas d é cadas h á muito o
convenceram de que toda pol tica alem , independente de seus obje-
t ivo s, est á c ondena da a o fra ca sso í , em vis tãa da es t rut ura const ituc iona l
e da natureza de nossa m á quina pol í tica, e de que essa situa çã o per-
durar á se a s c ondi çõ es n ã o muda rem. Mais a inda , e le conside ra muito
improv á vel que sempre exi st ir ã o l í deres milita res, a o pre ço de enorm es
sacrif í cios de vidas.
Mudan ç a s t é cnicas na forma de governo por si mesmas n ão
faze m uma na çã o vig oro sa , ou fe liz, o u va lio sa . E la s po dem somente
el imina r o bst á culos t é cnicos e s ã o, a ssi m, mera mente um m ei o pa ra
determinado fim. É lament á vel talvez que tais assuntos burgueses
e prosaicos, que aqui discutiremos com deliberada autolimita çã o e
com exclus ã o de todas as grandes quest õ es culturais essenciais que
se nos defrontem, possam ser de fato importantes. Mas assim s ão
a s co isa s. T em sido p rovad o p el os a contec iment os im po rt a nt es e t ri-
via is: pe la evo lu çã o pol í tic a da s d é ca da s rec entes , mas t a mb é m muito
recentemente pelo malogro total da lideran ç a pol í tica na pessoa de
um burocrata excepcionalmente capaz e decente (Georg Michaelis)
— foi uma esp é cie de te ste p a ra a a n á lise a pre se nt a da po uc o a ntes
do acontecimento nos artigos aqui republicados. 1

1 As se çõ es I a III tinham sido srcinalmente publicadas no Frankfurter Zeitung de 27 de


maio, 5 e 6 de junho e 24 de junho de 1917, sob o t í tulo “ Parlamentarismo Alem ã o no
P a ssado e no Futuro ” . Confo rme a bibli ogra fia em M ax Weber — Wer k und P er son organizada
por Edward Baumgarten (T ü bingen: Mohr, 1964), 711: tamb é m a introdu çã o de Winckel-
mann a GP S, 2 ª ed., XXXV. Sobre a queda do Chanceler Bethmann-Hollweg a 14 de julho
de 1917 e o breve mandato do Chanceler Michaelis (at é 30 de outubro de 1917), ver notas
27 e 29, abaixo.

26
WEBER

Quem quer que n ã o esteja convencido por esses acontecimentos


n ã o se sa tisfa r á c om nenhum a pro va . Em quest ões de t é cnic a de Est a do ,
o pol í t ico cont a com a s gera çõ es v indo ura s. Mas es te pre sente tr a ba lho ,
oca sio na l, p retende simple sment e cont ribuir pa ra o deba t e de qu est ões
contempor â neas. A longa demora at é chegar a esta publica çã o, ali á s
sugerida por amigos que pensam como o autor, deve-se a outras pre-
ocupa çõ es , e ta mb é m, d esde nove mbr o, à s co st umeira s dific ulda des t é c-
nicas do impressor.

27
I

O L EGADO DE BISMARCK

A atual condi çã o de nossa vida parlamentar é um legado da


longa domina çã o do pr í nc ip e Bisma rc k e da a titude da na çã o pa ra com
ele desde a ú ltima d é ca da de se u c a rgo de c ha nce le r. E ssa a tit ude n ã o
tem paralelo no posicionamento de nenhum outro grande povo com
res pe ito a um e sta di sta de ta l e nve rga dura . Em nenhuma outra part e
do mundo, mesmo a mais desenfreada admira çã o pela personalidade
de um pol í tico conseguiu fazer uma na çã o orgulhosa sacrificar suas
convic çõ es essenciais t ã o comple t a ment e. P or outr o la do , uma oposi çã o
objetiva mui raramente provocou ódio t ã o gra nde c ontr a um esta di sta
de t ã o gigantescas dimens ões como a que na ocasi ã o irrompeu contra
B isma rc k no se io da ex t rema es querda e no p a rt ido (ca t ólico ) de cent r o.
Quais as raz ões?
Acontecimentos memor á veis tais como os de 1866 e de 1870,
como ocorre freq ü entemente, tiveram seu maior impacto na gera çã o
para a qual as guerras vitoriosas constitu í ram indel é vel experi ê ncia
de
da sua juve tens
s graves nt ude,
õesma
i nts erna
es sa sgera
do paçãí so que
n ã o atinha uma hanvam
compan í t idaessas
compreens ão
gue rra s.
B is ma rc k s ó se tra nsfo rmo u numa le nda qua ndo essa ge ra çã o se tornou
adulta. A gera çã o de escritores pol í ticos que ingressaram na vida p ú-
blica a partir de 1878 dividiu-se em dois segmentos desiguais. O grupo
maior admirava n ã o a grandeza do intelecto sofisticado e imponente
de Bismarck, mas exclusivamente a mescla de viol ê ncia e ast ú cia, a
brutalidade aparente ou real de sua atividade pol í tica. O outro grupo
rea giu a isso com d é bi l ress entimento e de sa par eceu ra pi da mente a p ós
a morte do chanceler. Assim, o primeiro tem sido cultivado mais e
ma is . H á j á ba sta nt e temp o que e ssa a titude do mina nte ve m mol da ndo
n ã o apenas a lenda hist órica de pol í ticos conservadores, mas tamb ém
a do s esc ritore s genuina mente ent usi á sticos e, é claro, a daqueles ple-
beus intelectuais que, imitando os gestos de Bismarck, buscam legiti-

29
OS ECONOMISTAS

mar-se como se partilhassem de seu esp í rito. Sabemos que Bismarck


t inha o ma ior dos de sprezo s po r esse grupo muit o influe nt e, a inda qu e
n ã o fosse contr á rio a tirar proveitos pol í ticos desses cortes ã os, como o
fez com o Sr. Bus ch e sua l aia. !1 Àma rgemdeummemo ra ndoqueho je
chamar í a mo s de P a nge rm â n ico ( alldeutsch), el e cert a vez a not ou: “ Bom-
b á stico no conte ú do e pueril na forma ” . Referiam-se essas observa-
çõ es a um ma nusc rito que e le ha vi a so li cita do como a mo str a de um
homem que diferia dos representantes de hoje deste tipo por ter
servido à n a çã o corajosamente, n ã o apenas declamando palavras.
O que Bismarck pensava de seus pares conservadores ele anotava
em suas mem ó rias.
B is ma rc k ti nha ra z õ es de so bra par a ter seus p a res e m t ã o baixa
estima.
Pois que foi que lhe aconteceu quando foi for çado a afastar-se
do poder em 1890? Honestamente, n ã o podia esperar simpatia do Par-
tid o do Ce ntro , ao qual tin ha te nta do ligar o a ss a ss ino Kul lmann; !2 dos
sociais-democratas, a quem ele tinha perseguido com o par á grafo de
banimento (local) da legisla çã o anti-socialista; dos progressistas ( Frei-
si nni ge), a quem ele estigmatizara como “ inimigos do Reich ” . Mas os
out ro s, que tinh a m a pl a udido es se s a tos e strondo sa mente, que fi zeram ?
Lacaios conservadores ocupavam as cadeiras dos ministros prussianos
e eram membros dos minist é rios federais. Que fizeram? Aguardaram
os acontecimentos. “ Simplesmente um novo superior ” — foi esse o fim
da quest ã o. Pol í ticos conservadores sentavam-se nas cadeiras presi-
denciais dos parlamentos do Imp é rio e da Pr ú ssia. Que palavras de
simpatia ofereceram ao criador do Reich demission á rio? N ã o pronun-
cia ram uma palavra.
Qual dos grandes partidos de seus seguidores exigiu alguma ex-
plica çã o das ra z õ es de sua ex onera çã o? Ne m sequer se m overa m, sim-
plesmente voltaram-se para o novo sol. Esse acontecimento n ã o tem
paralelo nos anais de nenhum outro povo orgulhoso. Mas o desprezo
que esse acontecimento merece s ó pode ser real çado por aquele entu-

1 Mo ritz B usc h (1821-1899) foi o princ ip a l agente de publ icidade e p a negiri sta oficial de
B is ma rc k. Suas mem órias, B i smar ck: A lgumas P ági nas S ecretas de S ua H i stór i a (Londres:
Macmill a n, 18 98), fo ra m primei ra mente publi cada s na Ingla terra , devi do a restri çõ es legais
vigentes na Alemanha.
2 Ap ós a s medida s inic ia is do esfo r ço de Bismarck para control ar a Igrej a Ca t ólic a (o cha ma do
Kult urka mpf, 18 72-1887, soli da ment e a poia do pel os par tidos liberais), o correu um a tent a do
contra sua vida perpetrado por certo Kullmann, tanoeiro desempregado, cat ólico, em Bad
Kiss ingen , em j ulho de 1 874. Como oc orreu nova ment e em 1 878, qu a ndo os so cial- democra ta s
foram responsabilizados pelos atentados de Hodel e de Nobiling contra a vida do velho
imperador, Bismarck imediatamente tentou tirar vantagem pol í tica deste incidente em seu
conflito com o Partido do Centro. “ Podeis repudiar este assassino quanto o quiserdes ”,
exclamou ele (estando bem vivo) durante o debate do or çamento seguinte, “ mas ele se
agarra firmemente à aba de vossos casacos; sois v ós quem ele considera seu partido. ” Ver
Karl Bachen, Vorgeschichte und Politik der deutschen Zentrumspartei, III (K öln: Bachen,
1927); 219s.

30
WEBER

siasmo por Bismarck, do qual os mesmos partidos mais tarde fizeram


um arrendamento heredit á rio. H á meio s é culo , os c onser va dores prus-
sianos n ão t ê m conseguido mostrar nenhum “ ca r á t er ” em seu compro-
metimento com grandes objetivos pol í ticos ou com quaisquer outros
idea is, co mo os po ssu í am, à sua ma nei ra , ho mens c omo St a hl e G erl a ch
e os membros do velho movimento crist ã o-so cial. !1
Soment e qua ndo seus interesses fi na nce iro s, o mono p ólio dos be-
n ef í cios de seu cargo, seu patronato de cargos p ú blicos ou — e o que
é a mesma coisa — seus privil é gios eleitorais estavam em jogo, s ó
en t ã o é que sua m á quina de vota çã o governamental entrava em fun-
cionamento, mesmo contra o rei.
E n t ã o todo o triste mecanismo de palavr ório “ crist ã o” , “ m on á r -
quico ” e “ nacional ” era posto em m oviment o — o mesmo tipo de frases
fe ita s q ue a quele s cava lhe iro s a go ra condena m como j a rg ã o pro fissio na l
nos pol í ticos anglo-sax õ es. Quando, v á rios anos ap ó s a exonera çã o de
Bismarck, os interesses materiais desses pol í ticos foram afetados, es-
pecialmente por quest ões tarif á rias, s ó en t ã o lembraram-se de Bis-
marck como o seu homem, e s ó desde aquela é poca t ê m eles represen-
ta do com m uita se rie da de se rem o s gua rdi ões d a tra di çã o do c ha ncel er.
H á bo a s raz ões para supor que Bismarck n ã o tinha sen ã o menosprezo
por t a is movi ment os. Isso é pro va do por a firma çõ es co nfidencia is. Quem
pode culp á -lo por isso? Mas a vergonha sobre a caricatura da maturi-
da de po l í t ica pro porci ona da pe la na çã o em 1890 n ã o deve t urva r nosso
reconhecimento do fato de que, mediante esse comportamento indeco-
roso de seus par t id á rios, Bismarck tragicamente colheu o que semeou;
pois el e tinh a desej a do — e de lib era da ment e consum ou — a impo t ê ncia
pol í tica do parlamento e dos l í deres partid á rios. Nenhum estadista
que assumiu o poder sem responsabilidade parlamentar j á teve um
a lia do pa rl a me nta r t ã o coope ra t ivo com t a nt os t a le nt os po l í ticos como
o teve Bismarck (nos liberais-nacionais) entre 1867 e 1878. É perfei-
tamente poss í vel discordar das opini ões pol í ticas dos l í deres liberais-
nacionais
marck no daquela
que se refereé poca. É claro
a habilidade que n ã o se
diplom pode
á tic a e compar á -los actBis-
e nergia intele ua l;
ao lado de Bismarck emergem, no m á ximo, pol í ticos do tipo m é dio,
mas isso é verdadeiro tamb é m com rela çã o a todos os outros pol í ticos
alem ã es e muito s estra ngei ro s. U m g ê nio apa rec e no m á ximo uma vez
em v á rios s é culos. Mas poder í amos agradecer ao destino se nosso go-

1 Friede ric h J uli us S ta hl ( 1802-1861) e Ludwig von G erlack ( 1795-1877), a mbos c onselhe iro s
do rom â nt ico rei prussia no Frederico G uilherme IV, era m l í deres do c onserva dorismo agr á r io
protestante na Pr ú ssia da metade do s é culo. Stahl, um dos mais eficientes porta-vozes do
Direito Divino dos Reis ap ós a revolu çã o de 1848, foi de grande influ ê ncia na formula çã o
em diretrizes conservadoras da Constitui çã o prussiana de 1850. Gerlack, co-fundador do
Kreuzzeitung, op ôs-se a Bismarck at é o fim, chegando mesmo a ser membro dos delegados
do Partido do Centro do Reichstag depois de 1870. Sobre o mais antigo movimento cris-
t ã o-social em geral, ver W. O. Shanahan, G er man Pr otestants F ace the S ocial Questi on:
The Conservative Phase, 1815-1871 (Notre Dame: University of Notre-Dame Press, 1954).

31
OS ECONOMISTAS

verno estivesse agora, e se estiver no futuro, nas m ã os de pol í ticos de


tal gabarito. É , na realidade, uma das mais deslavadas distor çõ es da
verdade os escritores pol í ticos fazerem a na çã o acreditar que, at é o
mo mento, o par lam ento a le m ã o n ã o conseguiu pro duzir gr a ndes t a le n-
t os po l í ticos. É ultra ja nt e que a a tua l onda de cr í t icos m ed í ocres negu e
a ca tego ria de re pre se nt a nt es do “ Geist a le mã o” a l í de re s parla menta res
tais como Bennigsen, Stauffenberg e V ölk, ou a democratas como o
pa t rio t a pru ssia no Wa ldec k; a fi na l de cont a s, o “ es p í rit o a le m ã o” esteve
1

n o m í nimo t ã o vigoroso na igreja de S ã o Paulo (em Frankfurt, em


1848) como tem estado na burocracia, e, sem d ú vida, ma is do que nos
tinteiros desses cavalheiros.
E sses homens do pe r í odo inic ial do Rei chst a g tinha m uma gra nde
va nt a gem: conhec iam sua s p r ópri a s li mita çõ es e rec onh ecia m s eus erros
passa do s e a t reme nda supe rio rida de i nt el ectua l de B isma rck . Em ne-
nhum outro lugar, mesmo entre os que posteriormente se tornaram
separatistas (liberais da ala esquerda), tinha Bismarck admiradores
pessoais mais ardentes do que nesses c í rculos. Um fato em particular
é prova de sua envergadura pessoal. Eram totalmente destitu í dos de
ressentimentos contra a superioridade de Bismarck. Quem os tenha

conhecido absolver á todas as maiores figuras dentre eles dessa acusa-


çã o. A todos os indiv í duos bem informados da é poca, a suspeita de
Bismarck de que esses homens pudessem pensar em derrub á -lo devia
pa re cer t oca r a s ra ia s da pa ra n ó ia. V á rias vezes ouvi de seus l í deres 2
qu e e st es c onsidera ria m o c esar ismo — governo exercido por um g ê n io
— a mel hor o rga niza çã o pol í tic a par a a Ale ma nha , se se mpre surgisse
um nov o B isma rc k. E sta era sua convic çã o sincera. É c lar o que tinha m
duelado vigorosamente com ele no passado. Por essa mesma raz ão
conhec iam ta mb é m a s l imi ta çõ es do c ha ncele r e n ã o esta va m dispo st os
a fazer nenhum sacrif í cio intelectual degradante. É verdade que se

1 Rudo lf v on B en nig se n ( 1824-1902), J ose ph V ölk ( 1819-1882) e Fra nz Augu st Fr eikerr S chenk
von Stauffenberg (1834-1901) eram l í deres do Partido Nacional Liberal. Bennigsen chefiou
o par tido de 186 6 a 1898; recusou uma cadeira no governo de 18 77 e a fa stou- se do reichsta g
durante 1883-1887, pois sentia n ã o mais poder cooperar com Bismarck. O direitista V ölk
deixou o partido na primeira discuss ã o sobre legisla çã o tarif á ria em 1878; Stauffenberg,
do sul da Alemanha, foi um dos l í deres do Sezession esquerdista de 1881. Benedikt Franz
Le o Wa ld eck (180 2-1870) era o l í der da esquerda democr á tica na Assembl é ia Nacional
Prussiana de 1848 e novamente na Dieta prussiana durante o conflito constitucional de
1861-1869.
2 O p a i d e Web er d es emp enho u pape l s igni fi ca tivo no P a rtido Nacio na l Li be ral de Berl im
da era bismarckina. Foi magistrado municipal delegado na Dieta prussiana e delegado no
Reichstag. Bennigsen, Miquel e outros l í deres do partido eram h óspedes freq ü entes em
sua casa, e “ já se permitiam aos filhos mais crescidos... ouvir as discuss ões pol í ticas e
a bsorver aq uilo que pudessem co mpreender ” . (Maria nne We ber, M ax Weber : E i n Lebensbild,
Tü bingen , Mohr , 19 26, 42 .) Ainda qu e Weber s ó t ivesse c a torze a nos em 18 78, os interesses
do menino prec oce penetra va m profunda ment e em a ssunt os p ol í tico s (cf. a s cart a s do menino
de catorze e quinze anos reeditadas na obra de Baumgarten, Max Weber , op. cit. , 6-13);
conseq ü entemente, esta afirma çã o e as seguintes podem realmente ser baseadas em suas
pr óprias mem órias daquele per í odo.

32
WEBER

inclinavam a comprometer-se com ele at é a a bne ga çã o, a fim de evitar


um r ompiment o; rea lment e, ia m m uito ma is lo nge do que c onsidera çõ es
t á ticas para com os eleitores (que os amea çavam repudiar por essa
r a z ã o) teriam permitido. Os l í deres nacionais-liberais esquivavam-se
de uma luta em prol de maiores direitos parlamentares, n ã o apenas
porque anteviam o partido do centro como benefici á rio de ssa lu ta , ma s
tamb é m po rq ue c ompree ndia m q ue ta l confli to p a ra li sa ria dura nt e mui-
t o t empo a pol í tic a de B isma rc k, a ssi m co mo o tr a ba lho do par lam ento.
“ Nada mais logra ê xito ” — era esta a queixa habitual da d é cada de
1880. O prop ósito supremo desses l í deres, freq ü entemente expresso
em seus c í rculos í ntimos, era, durante o governo dessa imponente fi-
gura, conservar intactas aquelas institui çõ es das quais dependia a
continuidade da pol í tica do Reich ap ó s uma adapta çã o a pol í ticos
de qu a lif ic a çõ es mais c omuns. E nt re e sta s i nst itui çõ es inclu í a m ele s
o parlamento — um parlamento capaz de participar ativamente no
governo e de atrair grandes talentos pol í ticos; eles tamb é m deseja-
vam partidos fortes.
Esses l í deres nacionais-liberais sabiam que a consecu çã o desse
objetivo n ã o dependia s ó deles. Freq ü entemente os ouvi declararem
em seu meio, durante a grande viravolta de Bismarck em 1878: “Nã o
s ã o necess á ria s gra ndes ha bi li da des pol í tic a s para de struir o u mut il a r
um partido que se encontre em uma posi çã o prec á ria como a nossa.
Ma s, se isso a cont ecer, o ut ro gra nde pa rt ido int eressado em co ope ra çã o
ra ciona l n ã o poder á ser c ria do em seu luga r; seria nec ess á rio o govern o
apelar para grupos de interesse e recorrer ao sistema de patronato
pol í t ico de subo rn o, e mesmo a ssim o correria m a s ma is gra ves rupt ura s
pol í ticas. Como dissemos acima, pode-se discordar de alguns itens da
pol í t ica desse pa rt ido , ma s fo i po r sua inic ia t iva qu e o post o de c ha nce le r
do Reic h foi cria do na Const itui çã o (mo çã o de B enn igsen) , qu e o c ódigo
civil foi unificado em escala nacional (mo çã o de Lasker), que o Reichs-
bank
partido foia fundado (mo dasçãgrandes
maior parte o de Bamberger);
institui com çõ efeito,
es dodevemos a esse
Reich, que ainda
es t ã o provando seu valor. Depois do fato, é f á cil criticar sua t á tica, a
qual sempre tinha que contar com sua dif í cil posi çã o em face de Bis-
ma rck. P ode -se expl ica r o dec l í nio desse pa rt ido mostra ndo, ent re o ut ros
fa tore s, a s na tu ra is di fi culda des de um pa rt ido de o rie nt a çã o pura mente
pol í tic a e, a l é m disso, so brec a rrega do p el a a des ã o e dogma s eco n ômicos
obsoletos referentes a quest ões econ ômic a s e so cia is da é poca; cont udo,
sob todos estes aspectos, os partidos conservadores n ã o fazem maior
progresso. As id é ias sobre reforma constitucional do Partido Nacional-
Liberal chocaram-se contra os objetivos de Bismarck depois de 1866,
n ã o por falta de vis ã o, como tem sido afirmado com freq üê ncia, mas
por causa de ideais “ unit á rios ” í nterim,
— bemem no sentido de Treitschke —í -,
ideais que abandonamos nesse parte por raz ões n ã o-pol

33
OS ECONOMISTAS

ticas. De qua lquer ma neira , os a cont eciment os po st erio res justi fi caram
1

completamenteas premissas pol í ticas b á sic a s do s na ciona is-lib era is.


Os nacionais-liberais, n ã o podendo cumprir as tarefas pol í ticas
que tinham escolhido, desintegraram-se, em ú ltima ins t â ncia, n ã o por
causa de quaisquer raz ões essenciais, mas porque Bismarck n ã o tole-
rava nenhum poder aut ônomo, isto é , que agisse por pr ópria respon-
sabilidade — nem dentro dos minist é rios, nem dentro do parlamento.
É verdade que ele ofereceu minist é rio s a v á rios l í de res p a rlamenta res ,
mas todos eles descobriram que de antem ã o Bismarck fizera prepara-
tivos astutos que lhe permitiriam derrubar o novo colega a qualquer
momento, desacredita ndo- o pera nt e a opi ni ã o p ú blic a por mot ivo s pes-
soais. Em ú ltima a n á lise, isso foi tudo que levou Bennigsen a recusar
t a l ofer t a (em 187 7). A pol í tica nacional de Bismarck pretendia ex-
clusivamente impedir a consolida çã o de qualquer partido forte e
independente. Seus meios imediatos foram o or çamento militar e a
legisla çã o a n t i-socia list a (de 187 8-1890); a l é m dis so , ma nipulou c om
total delibera çã o e dest reza o ch oq ue de int eresses ec on ô mi cos sobre
a pol í tica tarif á ria.
Em assuntos militares, a posi çã o b á sica dos pol í ticos nacionais-
liberais era, no que me consta, a seguinte: estes estavam dispostos a
manter o efetivo do ex é rcito ao m á ximo do que parecia ser necess á rio,
e por essa raz ã o apenas consideravam o assunto uma quest ã o mera-
mente técnica. Dess a ma nei ra , as vel ha s cont ro v é rsia s do co nflit o cons-
titucional prussiano (de 1862-1866) seriam enterradas e pelo menos
essa fonte de agita çã o demag ógica seria eliminada para benef í cio do
Reich. A simples determina
2 çã o de efetivo de acordo com os projetos
de dota çã o anuais era tudo que se fazia necess á rio. Nenhum desses
l í deres jamais duvidou de que, dessa forma, a necess á ria amplia çã o
do ex é rcito ocorreria sem dist ú rbios e repercuss ões nacionais e inter-
na ciona is; p a rt icula rment e o s m il ita res po deri a m so li cita r do ta çõ es bem
maiores, de maneira muito menos dram á tica do que se esse problema
t é cnico fosse c onfun dido co m os int eresses d o poder n a cio n a l (dom é stico)
da burocracia com o resultado de que, ao t é rmino de cada sete anos,
as quest ões militares explodiriam numa sensa çã o pol í tica com conse-
q üê nc ias c a ta str ófi ca s par a a es ta bi li da de na ciona l, e e xp lodiri a m a inda

1 Bis marc k f un do u o Re ich c omo um a Fed era çã o das dinastias reinantes, as quais eram
repre senta da s no B undesra t (Co nselho Federal) ; co ntrolava m formalmente t oda a le gisl a çã o
e “ governavam ” atrav é s de seu presidente, o chanceler, que era indicado pelo imperador
e que normalmente era tamb é m o primeiro-ministro da Pr ú ssia. O Reichstag era a ú nica
institui çã o “ unit á r ia ” , isto é , representa nt e do p ovo a lem ã o como um todo, ma s tinha a pe na s
poderes deliberativos e or çament á rios e nenhum controle sobre o governo federal. Muitas
fun çõ es estatais — as igrejas, a educa çã o, as ferrovias, os correios, e no caso da Bav á r ia
a t é o ex é rcito — permaneciam sob a jurisdi çã o dos Estados individuais. As institui çõ es
centrais que existiam de fato eram dominadas pela Pr ú ssia.
2 Sob re o s bastido res do Conf li to Cons tituc iona l P russi ano, que l ev ou Bismarck ao p oder,
ver The S oci al and P oli tical C onfli ct i n P r ussia: 1848-18 64, de Eu gene N. A nd erson ( Lin coln:
The University of Nebraska Press, 1954).

34
WEBER

numa tumultuosa campanha eleitoral sob o lema: “ E x é rcito do Kaiser


ou ex é rcito do parlamento ” . Era este um lema altamente enganador,
pois o ex é rcito com uma dota çã o de um ano teria sido uma institui çã o
ma is par lam enta r do que o se ria com uma do ta çã o de s ete a nos. T a nt o
mais porque, de resto, a dota çã o de sete anos permanecia em grande
pa rt e f ict í cia . E m 1887 o Reic hst a g foi disso lvido t ã o-somen t e po r ca usa
da quest ã o do efetivo militar autorizado, na qual todos os partidos
bürgerlichen (civis) concordavam. Deveria o efetivo ser determinado
cada tr ê s o u c a da qua tr o a nos ? A do ta çã o pa ra tr ê s anos foi declarada
“ uma agress ã o” aos privil é gios da Coroa. Mas tr ê s anos mais tarde,
em 1890, um novo projeto sobre efetivo militar foi apresentado ao par-
lamento. Windthorst (l í de r d o P arti do do Ce ntr o) !1 n ã odeixou der e-
preender seus advers á rios por essa inconsist ê ncia. F ê -lo com desd é m ,
mas com total justeza. Dessa maneira, as velhas e sepultadas contro-
v é rsias militares do conflito constitucional prussiano passaram para
a á rea da pol í tica do Reich, e o papel do ex é rcito tornou-se sujeito à
pol í tica dos partidos. N ã o se deve deixar de reconhecer que era esta
precisamente a inten çã o de Bismarck: naquele lema demag ógico, ele
divi so u um mei o de fa ze r co m q ue o impe ra do r, que t inha a tr a ve ssa do
o conflito constitucional, suspeitasse que o Reichstag e os partidos li-
berais eram hostis ao ex é rcito. Ao mesmo tempo que antevia tamb ém
uma form a de de sa credita r os na ciona is-lib era is j unt o a seus e le itores,
como traidores de direitos or çament á rios parlamentares, desde que
tinham aceito a dota çã o de sete anos ( S eptennat). P ode- se dizer exa -
tamente o mesmo com refer ê ncia à legisla çã o anti-socialista. Os na-
cionais-liberais estavam dispostos a fazer ampl í ssimas concess ões a
Bismarck, e mesmo os progressistas concordavam que se tomassem
medidas no sentido de que se constitu í sse em delito comum o que eles
deno mina va m de “ incita çã o a o ódio de c la sses ” . !2 MasBismarck desejava
legisla çã o de emerg ê ncia. Durante o furor popular provocado pelo se-
gundo atentado contra a vida do imperador (em 1878), Bismarck dis-
so lve u o Rei chst a g se m fa ze r nenhum a tent a tiva no s entido de ajus t a r
suas diferen ça s co m el e, si mple sment e po rq ue pe rce bia uma oport uni-
dade demag ógica de destruir o ú nico partido poderoso da é poca.
B isma rc k tr iunfo u. E a s c onseq üê ncias? Em vez de chegar a um
acordo com o partido par lamentar que lhe era í ntimo a despeito de
toda a oposi çã o, e que tinha cooperado com ele desde a funda çã o do
Reich, Bismarck tornou-se permanentemente dependente do Partido

1 Ludwig W indtho rst ( 1812-1891), a ntigo mini stro ha no ve riano da J usti ça, era o l í der do
Partido Cat ólico do Centro, e como tal era o maior advers á rio parlamentar de Bismarck,
ainda que à s vezes cooperasse durante toda a gest ã o deste.
2 So bre Bi s ma rc k e a l eg is la çã o anti-socialista, ver Guenther Roth, T he S ocial D emocr ats
i n I mper i al G er many (Totowa , N.Y.: T he B edminst er P ress, 196 3) ch. II I; Vernon L.
Lidtke, T he Owtlawed P arty: S oci al D emocr acy i n G er many, 187 8-1890 ( P rincet on U ni-
versit y P ress, 19 66).

35
OS ECONOMISTAS

(cat ólico) do Centro, o qual n ã o obstante o odiou at é o dia de sua


mo rt e. E sse par tido tinha uma se de de p oder for a do pa rla ment o, i nex-
pugn á vel ao ataque de Bismarck. Quando este mais tarde pronunciou
seu famoso discurso sobre o t é rmino da primavera dos povos ( V ölker-
fr ühling ), Windt horst r ep lic ou sa rca st ica ment e, ma s out ra vez c om exa -
t id ã o, que ele pr óprio tinha destru í do o grande partido que o apoiara
no passa do . Qua ndo o s na ciona is-li bera is fi zera m prop ost a s esp ec í ficas
par a sa lvagua rda r o dire ito do Rei chst a g de el ev a r a s rec ei ta s, Bisma rc k
as rejeitara com a alega çã o de que conduziriam a “ dom í nio parlamen-
t a r ” , mas foi eventualmente for çado a conceder a mesma coisa ao Par-
tido do Centro na pior forma poss í vel — no par á grafo das gorjetas a
chamada cl á usula Franckenstein, à qual, na Pr ú ssia se aditou algo
ainda pior, a lei de Huene. (Esta mais tarde foi eliminada novamente,
ma s com gra ndes dif iculda des.) 1 Ma s, ainda , B is ma rc k teve que to le ra r
(como parte do pre ço por essas rec ei t a s) a gra ve derro t a da a ut orida de
do Esta do na luta contra a Igre ja Ca t ólica, o K ultur kampf, a qual ele
tinha combatido com armas totalmente inadequadas e por cujo acon-
tecimento negava responsabilidade, em v ã o e com pouca honestidade.
Por outro lado, em suas leis anti-socialistas, ele oferecia a mais es-

pl
Serê ndida bandeira
convertida em eleitoral
demagogiaaos(esociais-democratas
p pela pr diga-se) ófoi
é ssima demagogia, pria causa.
tam-
b é m o destino da legisla çã o da previd ê ncia social do Reich nas m ã os
de Bismarck, por mais valiosa que se possa considerar essa legisla çã o
em si mesma . B isma rc k rej ei t a va a le gisl a çã o tra balhis ta de p ro te çã o,
a qual, afinal de contas, era indispens á vel à preserva çã o da for ça da
n a çã o. Rej ei t a va -a a cusa ndo- a , em pa rt e com a rgum ent os inc rivel ment e
superficiais, de interferir nos direitos do patr ã o. Pela mesma raz ã o,
Bismarck utilizou-se das disposi çõ es da legisla çã o antisocialista para
fazer a pol í cia destruir os sindicatos, os ú nicos poss í veis portadores
de uma rep rese nt a çã o objetiva de int eresses da cla sse o per á ria . Assim,
compeliu os membros dos sindicatos ao mais extremo radicalismo de
pura pol í tica partid á ria . P or outro l a do , imi ta ndo c erta s pr á tic a s a me-
ricanas, Bismarck acreditava poder criar uma atitude positiva para

1 Qu ando Bis marc k, em 1 879, q ui s e levar as tarif as alf ande g á rias a fim de tornar o Reich
menos dependente das contribui ções financei ra s dos Est a dos- membro s, o P a rtido do Centro
pa rt icula rista (ma s protec ionista ), de c ujo s votos e le p reci sa va , insistiu que q ua lquer exc esso
a cima de c ento e trint a milh ões de marcos nas novas rendas fosse transferido aos Estados;
se o Reich quisesse qualquer parcela de tais somas, a quest ã o seria novamente remitida
ao parlamento, o qual votava as contribui çõ es de inscri çã o anuais. Georg von Und zu
Fr a nckenst ein (1 825-1890), preemin ent e mem bro b á varo do partido, foi o autor desta cl á u-
sula. Na Pr ú ssia ela foi complementada pelo projeto Huene (1885-1893), obra do delegado
do Centro e latifundi á rio silesiano Karl Huene Baron von Hoiningen (1837-1900); esse
projeto exigia que o Estado prussiano passasse quase quinze milh ões de marcos do legado
Fra ncke nstein a os co nda dos e munici palidades, “ a fim de e li mina r um est í mulo para gast os
insalubres do or çamento do Estado Prussiano ” . Cf. Ernst Rodolp Huber, D eutsche V er fas-
sung sgeschichte sei t 1789, III (Stu tt ga rt : Kohl- ha mmer, 19 63), 951; Ba chen, Z entr umspa rt ei,
op. cit., III, 394 ff.

36
WEBER

com o Esta do , uma gra tid ã o pol í tic a , atra v é s da concess ã o de benef í cios
so ciais a par tir de fundos p ú blic os ou d e fun dos priva dos co mpuls órios.
Grave erro pol í tico: toda pol í tica, que j á tenha contado com gratid ão
pol í tica, fracassou. Tamb é m para a pr á tica pol í tica das boas obras,
vale o ditado: “ Perderam seu sal á r io” . Obtivemos benef í cios para os
enfermos, para os inv á lidos, para os veteranos e para os velhos. Al-
m ej á vamos isso, sem d ú vida. Mas n ã o conseguimos as garantias ne-
cess á rias para preservar a sa ú de f í sica e mental, e para propiciar,
para a sa ú de f í sica e ps í qu ica , a defe sa de seus int eresse s co m so brie-
dade e dignidade; em outras palavras, precisamente a parte poli ti ca-
mente r elevante da popula çã o oper á ria foi deixada de lado. Como no
K ultur kampf, B isma rc k a qui pa sso u po r ci ma de todas a s c onside ra çõ es
psicol ógicas importantes. Acima de tudo, na quest ã o dos sindicatos,
um detalhe passou despercebido, detalhe esse que mesmo hoje alguns
pol í ticos ainda n ã o entendem. Um E sta do que dese ja ba se a r o e sp í rito
da s ma ssa s de se u po vo na honra e na sol idar ie da de n ã o pode esquecer
que, na vi da di á ria e na s luta s e con ômica s d os ope r á rios, os sent iment os
de honra e solidariedade s ã o as ú nicas for ças morais decisivas para a
educa çã o das massas, e que por essa raz ã o deve-se deixar que esses
sentimentos se desenvolvam livremente. Isso, sim, significa, sob o as-
pe ct o pura ment e po l í tico, praticar “ demo cra cia so cia l ” numa é poca qu e
inevitavelmente ainda permanecer á capi ta li sta dura nte muito temp o.
E sta mos aind a hoj e so frendo a s conseq üê nci a s dessa pol í tic a . B is ma rc k
havia criado em torno de si uma atmosfera pol í tica que, em 1890,
deixava-lhe apenas a alternativa de rendi çã o incondicional a Windt-
horst ou de um coup d’état, se ele q uisesse perma nece r n o poder. A ssim,
n ã o foi acidental que a na çã o tivesse reagido com total indiferen ça à
sua ren ú ncia.
Em vi sta da ha bi tua l gl orif ica çã o n ã o cr í tica, n ã o diferen çada , e
pri nci palment e de gra da nt e da po l í tic a de Bisma rc k, p a rec ia j á n ã o sem
temp o, p a ra variar, c ha ma r a a ten çã o para esse lado da quest ã o. Pois
aescrita
parte para
mais ainfluente
mesa dedaNatal
literatura popular
do filisteu (istosobre Bismarck tem sido
é , burgu ê s de esp í rito
vulga r e e st reito) , que p refe re a form a t ot a lment e apol í tic a de adora çã o
de her ói tornada t ã o comum entre n ós. A literatura sobre Bismarck
nesse es tilo sa tisfa z a t a l se nt ime nt a li smo e toma a li be rda de de se rvir
seu her ói oculta ndo sua s li mit a çõ es e dif a ma ndo s eus advers á rio s. Ma s
n ã o se pode educar dessa maneira a na çã o no sentido de que ela de-
senvolva h á bitos de pensamento pol í tico independente.
N ã o diminui a estatura gigante de Bismarck o ser justo para
com seus a dvers á rios, salientar sem disfarces as conseq üê ncias de sua
misantropia e assinalar o fato de que, desde 1878, a na çã o est á desa-
costumada a participar, mediante seus representantes eleitos, da re-
solu çã o de seus assuntos pol í ticos. Tal participa çã o, afinal de contas,
é a precondi çã o para desenvolver o discernimento pol í tico.

37
OS ECONOMISTAS

Qua l fo i, ent ã o, o legado de Bismarck no que aqui nos interessa?


Ele deixou atr á s de si uma na çã o sem nenhuma educação polí tica ,
bem abaixo do n í vel que, a esse respeito, tinha alcan çado vinte anos
antes (isto é , em 1870). Principalmente, Bismarck deixou atr á s de si
uma na çã o sem nenhuma vontade pol í tica pr ópri a, acostumada que
estava à id é ia de que o grande estadista ao leme tomaria as decis ões
pol í t ica s n ecess á rias. Mais, ainda, deixou atr á s de si uma na çã o acos-
tumada à toler â nc ia fa ta li sta di a nte de to da s a s de cis õ es tomada s em
nome do “ governo mon á rquico ” , porque ele tinha se servido dos senti-
ment os mon á rq uico s co mo de um pret exto p a ra seus int eresses de poder
na luta do s p a rtido s, uma na çã o des pre par a da par a julgar cri tic a mente
a s qua li fi ca çõ es da quel es que se a sse nta ra m na poltro na que B is ma rc k
dei xa ra des ocupada e c om surpre ende nt e falt a de c onst ra ngimento to-
maram as r é deas do poder em suas m ã os. Nesse particular, decidida-
mente, consumou-se o mais grave preju í zo. O grande estadista não
de ix ou nenhuma tra di çã o pol í t ica . Ele n ã o a tra í a e ne m m es mo to le ra va
cabe ças independentemente pol í ticas, para n ã o mencionar personali-
da des fo rt es po litic a ment e. A l é m disso t udo, c onst ituiu info rt ú nio par a
a n a çã o o fato de que ele nutria intensa desconfian ça para com todos
os seus vagamente poss í veisexcessivamente
sucessores, e, ainda, de que tinha um
filho cujos talentos pol í ticos med í ocres Bismarck su-
perestimava. 1 U m pa rla mento c omple ta mente impo t ente fo i o resul ta do
puramente negativo de seu tremendo prest í gio. É sa bi do que, a p ós ter
deixado o cargo e experimentado pessoalmente a conseq üê ncia dessa
condi çã o, Bismarck acusou-se de ter cometido um erro. Contudo, essa
impot ê ncia do parlamento significava tamb é m que o n í vel intelectual
de seus componentes estava reduzido grandemente. A ing ê nua lenda
moralizadora de nossos cr í ticos apol í ticos inverte a rela çã o de causa
e assegura que o parlamento permaneceu merecidamente impotente
devido ao baixo n í vel da vida parlamentar. Mas fatos e considera çõ es
simples revelam o estado real das coisas, que ali á s é evidente a toda
pessoa que raciocina. O n í vel do parlamento depende da condi çã o de
que este n ã o simplesmente debata grandes quest ões, mas de que as
solucione decisivamente; em outras palavras, sua qualidade depende
da seguinte alternativa: o que ocorre no parlamento tem realmente
import â ncia ou o parlamento n ã o passa de um mal tolerado boi de
pres é pio de uma burocracia dominante.

1 Herbe rt vo n Bismarck (1849-1904) foi sec ret á rio de Estado para Assuntos Estrangeiros no
governo de seu pai de 1886 at é a queda deste, em 1890.

38
II

BUROCRACIA E L IDERAN Ç A
POL Í TICA
1. B ur ocr aci a e Pol í tica

E m um Estado moderno, o verdadeiro poder est á necess á ria e


inevitavelmente nas m ã os da burocracia, e n ã o se exerce por meio de
disc urso s p a rla menta res ne m po r fa las de mo na rc a s, ma s si m, medi a nt e
a condu çã o da a dmini stra çã o, na rotina do di a -a -dia . Isso é e xato ta nto
com refer ê ncia ao funcionalismo militar quanto ao civil. Pois é a part ir
de seu gabinete que oficiais superiores comandam at é batalhas. Tal
como o assim chamado avan ço em dire çã o ao capitalismo tem sido o
inequ í voco crit é rio para a moderniza çã o da economia, desde é pocas
medievais, assim tamb é m o progresso em rela çã o ao funcionalismo
burocr á t ico ca ra ct eriza do pe lo form a lismo de e mprego , sa l á rio, pens ã o,
promo çã o, treinamento especializado e divis ã o funcional do trabalho,
reas bem definidas
áperordena çã o hier de
á rqjurisdi çã o, processos
uic a s tem sido document
o igua lment á rios,
e inco nfun subpa
d í vel e su-
dr ã o
para a moderniza çã o do Estado, quer mon á rquico, quer democr á tico,
pe lo menos no qu e se refe re a um E st a do compo st o de gra ndes ma ssa s
de povo, e n ã o a um pequeno cant ã o com administra çã o rotativa. O
Estado democr á tico, assim como o Estado absoluto, elimina a admi-
nistra çã o feudal, patrimonial, patr í cia, ou de outros dignit á rios que
exercem o poder de forma honor á ria ou heredit á ria, e a substitui por
funcion á rios civis. S ã o estes que tomam as decis ões sobre todos os
nossos problemas e necessidades di á rios. A esse respeito, o oficial mi-
litar investido de poder n ã o difere do funcion á rio civil. O moderno
ex é rcito de massa tamb é m é um ex é rcito burocr á tico, e o oficial é u m
tipo especial de funcion á rio, distinto do cavaleiro, do condottiere (cau-
dilho), do chefe tribal, ou do her ói hom é rico. A efici ê ncia militar ba-

39
OS ECONOMISTAS

seia-se na disciplina burocr á tica. O avan ço do burocratismo na admi-


nistra çã o mu nicip a l dife re po uco do de senvolviment o gera l; e sse a va n ço
é tanto mais r á pido quanto maior for a comunidade, ou quanto mais
essa co mun ida de p erc a a ut onomia loca l e m fa vo r de a sso cia çõ es t é cnicas
e econ ô mic a s. Na Igrej a , o ma is i mpo rt a nt e res ulta do ( do Co nc í lio Va-
ticano) de 1870 n ã o foi o mui debatido dogma da infantibilidade, mas
o episcopado universal (do papa) que criou a burocracia eclesi á stica
(K aplanokr ati e) e transformou o bispo e o p á roco, em contraste com a
Ida de M é dia , em meros funcio n á rio s do p oder c ent ra l, a C ú ri a ro mana .
A mesma tend ê ncia burocr á tica predomina nas grandes empresas pri-
vadas de nossa é poca, na raz ã o direta de seu tamanho, isto é , quant o
maior for a empresa, maior ser á a burocracia que a envolve. Funcio-
n á rios assalariados segundo as estat í sticas aumentam mais depressa
que os oper á rios.
É simplesmente rid í culo que os novos cr í ticos acreditem que o
trabalho feito nos escrit órios seja diferente do trabalho realizado em
uma rep a rti çã o p ú bl ica , a inda que a dif ere n ça ima gi na da sej a m í nima.
Ambos s ã o basicamente id ê nticos. Sociologicamente falando, o Estado
moderno é uma “ empresa ” (Betrieb ) id ê ntic a a uma f á brica: esta, exa-
tamente, é sua peculiaridade hist órica. Aqui como l á , as rela çõ es de
a uto ridade t ê m a s me smas ra í zes. A rela t iva indepe nd ê nci a do a rt es ã o,
do do no da ind ú str ia ca se ira , do ca mpo n ê s senhoria l, do comenda t á rio,
do cavaleiro e do vassalo baseava-se em sua propriedade das ferra-
mentas, suprimentos, finan ças e armas, com os quais exerciam suas
fu n çõ es econ ômicas, pol í ticas e militares, e se mantinham. Em con-
tra ste, a de pe nd ê ncia hier á rquica do trabalhador assalariado, do fun-
cion á rio a dministra tivo e t é cnico , do a ssistent e no inst itut o a ca d ê mico,
assim como do servidor p ú blico e do soldado, deve-se ao fato de que,
em seu caso, os meios indispens á veis para a consecu çã o da empresa
e para o ganho da subsist ê ncia est ã o nas m ã os do empres á rio, ou
mandat á rio pol í tico. A maioria dos soldados russos, por exemplo, n ão
queria
pois ta continuar a guerra
nt o os meio (em 1917).
s de destr ui çã o Mas eles
quanto os nde manuten ã o tinham escolha,
çã o eram con-
trolados por indiv í duos que usavam esses meios para compelir os sol-
da do s a ire m para a s trinc hei ra s, da mes ma ma nei ra que o ca pi ta li sta
que possui os meios de produ çã o for ça os oper á rios a irem para as
f á bricas e minas. Esse fato econ ômico de extrema import â ncia: a “ se-
para çã o” entre o trabalhador e o meio material de produ çã o, de des-
trui çã o, de administra çã o, de pesquisa acad ê mica, e de finan ças, em
geral, é a base comum do Estado moderno, em suas esferas pol í ticas,
cultura l, mili ta r, e da econo mia pri va da ca pi ta li sta . Em a mbo s o s c a so s,
a a ut orida de so bre e sses meio s a cha -se na s m ã os da qu el e p oder a qu em
o aparelho burocr á tico (de ju í zes, funcion á rios, oficiais, supervisores,
escriv ã es e sub-oficiais) obedece diretamente ou a quem est á sempre
dispon í vel , em caso de nec essi da de. Esse a pa relho é hoj e e m d ia igua l-

40
WEBER

mente t í pico de todas essas organiza çõ es; sua exist ê ncia e sua fun çã o
s ã o inseparavelmente causa e efeito dessa concentra çã o dos meios de
produ çã o — de fato, o aparelho é sua pr ópria forma. A crescente “ so-
cializa çã o” na esfera econ ômica, hoje, significa um inevit á vel aumento
na buro cra tiza çã o.
O “ progresso ” em dire çã o ao Estado burocr á tico que julga e ad-
minist ra segundo o di reito e pre cei t os r a ciona lment e esta bel ecido s t em
hoje em dia estreitas rela çõ es com o desenvolvimento capitalista mo-
derno . A mode rna emp resa ca pi ta li sta ba se ia- se f unda menta lme nt e no
cá lculo e pressup õe um sistema administrativo e legal cujo funciona-
mento pode ser racionalmente calculado, em princ í pio pelo menos, em
virtude de suas normas gerais fixas, exatamente como o desempenho
previs í vel de uma m á quina. A moderna empresa capitalista n ã o pode
aceitar o que é popularmente denominado “ justi ça de c á di ” : julgar,
segundo o senso de eq ü idade do juiz, determinada causa ou segundo
out ros meio s e princ í pio s irra ciona is de a plic a çã o ju r í dic a que ex istira m
em toda parte no passado e ainda existem no Oriente.
A emp resa m oderna ta mb é m a cha inc ompat í veis os go vern os teo-
cr á ticos ou patrimoniais da Ásia e de nosso pr óprio passado, cujas
administra çõ es f unci ona va m de ma nei ra pat ria rc a l se gundo s eu p r óprio
crit é rio individual e, de resto, segundo a tradi çã o inviolavelmente sa-
gra da , ma s irraci ona l. O fat o de que a “ justi ça de c á di ” e a correspon-
de nt e a dmini stra çã o s ã o freq ü entemente venais, precisamente em fun-
çã o de seu car á ter irracional, permitiu o desenvolvimento, e ami ú de
a exuberante prosperidade, do capitalismo de negociantes e fornece-
dores do governo, e de todos os tipos pr é -racionais de capitalismo co-
nh ecido s dura nt e qua t ro mil a nos, esp ecia lment e o ca pi t a lismo do a ven-
tureiro e do buscador de pilhagem, que viviam da pol í tica, da guerra
e da administra çã o. Contudo, as caracter í sticas espec í ficas do capita-
lismo moderno, ist o é , a orga niza çã o do tr a ba lho rigo ro sa mente r a ciona l,
imp lant a da na tec no logi a ra ciona l, e m co nt ra ste c om a s fo rma s a ntiga s

de aquisi
tados çã o capitalista,
irracionalmente n
e nunca o se desenvolveram
ãpoderiam em nenhum
ter neles aparecido, desses Es-
porque
essas organiza çõ es modernas, com seu capital fixo e c á lculos precisos,
s ã o por dema is vulner á ve is a irra ciona li da des le ga is e a dministra tiva s.
Somente poderiam ter se manifestado em circunst â ncias tais como: 1)
na Inglaterra, onde o desenvolvimento da jurisprud ê ncia estava pra-
ticamente nas m ã os dos advogados, que, a servi ço de seus clientes
capitalistas, inventaram formas apropriadas para a transa çã o de ne-
g ócios, e de cujo meio eram recrutados os ju í zes, rigo rosam ent e li ga do s
a casos precedentes, isto é , a esquemas previs í veis; 2) onde o juiz,
como no Estado burocr á tico com suas leis racionais, é mais ou menos
um aut ô mato cumpridor de par á grafos: os documentos legais, junta-
mente com as custas e emolumentos, s ã o colocados na entrada na
esperan ça de que a dec is ã o eme rj a na sa í da junta mente c om a rgume n-

41
OS ECONOMISTAS

tos mais ou menos v á lidos, ou seja, trata-se de uma m á quina, cujo


funcionamento, de modo geral, é calcul á vel ou prognosticado. 1

2. As R eali dades da Pol í tica Partid ária e a


F aláci a do E stado C or por ati vo

Dentro dos partidos pol í ticos, a burocratiza çã o se desenvolve da


mesma forma que na economia e na administra çã o p ú blica.
A exist ê ncia dos partidos n ã o é reconhecida por nenhuma Cons-
titui çã o, ou, pelo menos na Alemanha, por nenhuma lei, ainda que os
pa rt ido s sej a m hoj e os ma is i mpo rt a nt es v e í culos pol í tic os para a quele s
que s ã o governados pela burocracia — os cidad ã os. Os partidos s ã o
essencialmente organiza çõ es volunt á rias baseadas no recrutamento
sempre renovado, n ã o importando quantos meios se empreguem para
pre nder sua cli entel a pe rma nentemente. Isso o s distingue de todas as
organiza çõ es que po ssuem um qu a dro de assoc ia do s defi nido e inst itu í do
por lei o u por co nt ra t o. H oje, o o bjetivo dos pa rt ido s é sempre a obten çã o
de votos numa elei çã o para cargos pol í ticos ou um col é gio eleitoral.
U m n ú cleo permanente de membros interessados é dirigido por um
l í der ou por um grupo de pessoas eminentes; esse n ú cleo difere gran-
demente no grau de sua organiza çã o hier á rquica, contudo é hoje em
dia freq ü entemente burocratizado; ele cuida das finan ças do partido
com o apoio de patrocinadores ricos, de interesses econ ômicos, de in-
div í duos que buscam cargos p ú blicos ou de associados contribuintes.
Na ma ior pa rt e dos ca so s, utilizam -se v á ria s dess a s fo nt es . Esse n ú cleo
tamb é m define programas e t á ticas e seleciona os candidatos. Mesmo
em par tido s de ma ssa com co nst itui çõ es mu it o demo cr á tic a s, o s vo ta nt es
e a maioria dos membros comuns n ã o participam (ou s ó o fazem for-
ma lme nt e) da esquema tiza çã o do pro gra ma e da sele çã o dos ca ndida t os,
pois por sua pr ó pria natureza tais partidos desenvolvem um funcio-
nalismo assalariado. Os votantes exercem influ ê ncia somente no que
diz re spe ito a a da pta çã o e sele çã o de pro gra ma s e c a ndida tos, de aco rdo
com as possibilidades destes receberem apoio eleitoral.

1 Aid é ia de que o Direito Romano fomentou o capitalismo é parte do anedot á rio dos cr í ticos
amadores: todo estudante deve saber que todos os princ í pios elementares legais caracte-
r í sticos do capitalismo moderno (desde a a çã o, o deb ê nture, a hipoteca moderna, a letra
de c â mbio e todo s os tipos de tra nsa çã o, a t é as forma s ca pi ta li sta s de a sso cia çã o na ind ú stria,
na mine ra çã o e no com é rcio) eram completamente desconhecidos no Direito Romano e s ão
de o rigem medieval, e em part e germ â nicos. Al é m disso, o Direito Roma no nunca conseguiu
se firmar na Inglaterra, onde o capitalismo moderno se srcinou. A aceita çã o do Direito
Romano na Alemanha tornou-se poss í vel devido à a us ê ncia das grandes associa çõ es nacio-
na is de a dvo ga dos que na I nglat erra se o puse ra m a esta evo lu çã o, e devido à buroc ra tiza çã o
do direito e da administra çã o. O capitalismo moderno, em seus in í cios, n ã o se srcinou
nos burocr á ticos Estados-modelo, onde a burocracia era um produto do racionalismo do
Estado. O capitalismo avan çado, tamb é m, a princ í pio n ã o se limitou a esses pa í ses; de
fato, nem se localizou neles em primeiro lugar; apareceu onde os ju í zes eram recrutados
das fileiras de advogados. Hoje, contudo, o capitalismo e a burocracia se encontraram e
formaram í ntima uni ã o. (Nota de rodap é de Weber.)

42
WEBER

Nenhum protesto mo ra lizad or refe rent e à na ture za de ca mpanha s


pol í ticas e ao inevit á vel controle das minorias sobre programas e can-
didatos consegue eliminar os partidos como tais, ou mudar sua estru-
tura e seus m é todos mais do que superficialmente. As condi çõ es para
que se estabele ça um n ú cleo ativo do partido (como para o estabele-
cimen t o do s sin dica t os, por exe mplo ) e a s “ regra s de guerra ” no c a mpo
de batalha eleitoral podem ser regulamentadas por lei, como ocorreu
diversas vezes nos Estados Unidos. Mas é imposs í vel eliminar de an-
t em ã o a luta dos partidos, se uma representa çã o parlamentar ativa é
o objetivo a atingir. Contudo, alguns cr í ticos com freq üê ncia concebem
a confusa id é ia de que isso é poss í vel ou deveria ser feito. Essa id é ia ,
consciente ou inconscientemente, inspira as muitas propostas para de-
salojar os parlamentos baseados no (igual ou graduado) sufr á gio uni-
versal substituindo-os por col é gios eleitorais de natureza profissional,
ou colocando-os lado a lado com os grupos profissionais corporativos
servindo ao mesmo tempo como assembl é ias eleitorais para o parla-
mento. Em primei ro luga r, e sta é uma proposi çã o insustent á vel numa
é poca em que a identifica çã o profissional formal — que numa lei elei-
toral teria que se fiar em crit é rios externos — n ã o revela quase nada
a respeito da fun çã o econ ômica e social, quando cada descoberta tec-
n ol ógica, cada mudan ça econ ômica e cada novo setor mudam essas
fu n çõ es e conseq ü entemente o significado de trabalhos formalmente
id ê nticos, assim como as rela çõ es num é ricas. É claro que essa id é ia é
tamb é m inadequada para seu intencionado prop ósito. Ainda que fosse
poss í vel re prese nt a r t odo s os vo t a nt es po r m ei o de ó r g ã os pr ofissio na is,
como as atuais c â maras de com é rcio e c â ma ra s de a gri cultura , a s c on-
seq üê ncias obviamente seriam as seguintes:
1) ao lado dessas organiza çõ es unidas por v í nculos legais, conti-
nuariam a existir os grupos de interesse volunt á rios, como a B und der
Landwirte (Liga dos Agricultores) e as diversas associa çõ es de empre-
gadores paralelas à s câ ma ra s de com é rci o e de a gric ultu ra . Al é m d isso ,
os pa rtem
sariam idodesaparecer,
s po l í t icos, ta
mas mbsimplesmente
é m ba sea dosajustariam
no li vre rec
suasrut
t a ment o, n áãticaso pen-à
nova condi çã o. Essa mudan ça n ã o seria para melhor. A influ ê nc ia das
elei çõ es nessas organiza çõ es profissionais corporativas atrav é s de fi-
nanciadores e atrav é s da explora çã o de depend ê nci a s c a pi ta li sta s c on-
tinuaria pelo menos t ã o sem controle como antes;
2) a solu çã o d a s ta ref a s imp orta nt es des sa s o rga niza çõ es profis-
sionais seriam arrastadas para o redemoinho do poder pol í tico e que-
rel a s p a rtid á rias agora que a composi çã o dessas organiza çõ es influen-
ciar ia m a s e le i çõ es p a rla menta res e a co nce ss ã o de c a rgos; a ssim, es sa s
organiza çõ es se encheriam de representantes partid á rios, em vez de
t é cnicos competentes;
3) o par lam ento se tr a nsfo rma ria em mero merc a do par a a cordo s
entre interesses puramente econ ômicos, sem nenhuma orienta çã o po-

43
OS ECONOMISTAS

l í tic a para intere sse s ge ra is . P a ra a buro cra cia, iss o a ume nt a ria a opor-
tunidade e a tenta çã o de aproveitar-se dos interesses econ ômicos di-
vergentes e de expandir o sistema de ajuda pol í tica m ú tua pela con-
cess ã o de cargos e contratos, a fim de preservar seu pr óprio poder.
Qua lquer co nt rol e p ú blic o exe rcido sobre a a dm inist ra çã o seria ilus ório,
pois as medidas e os acordos decisivos dos grupos interessados seriam
realizados atr á s das portas fechadas das associa çõ es n ã o p ú blicas e
seriam ainda menos control á veis do que antes. No parlamento, seria
o homem de neg ócios astuto e n ã o o l í der pol í tico quem colheria as
vantagens dessa situa çã o: um ór g ã o “ representativo ” dessa natureza
seria o menos adequado imagin á vel para a solu çã o de problemas po-
l í ticos de acordo com crit é rios verdadeiramente pol í ticos. Tudo isso é
evidente para quem compreende esses assuntos. Tamb é m é óbvio que
tais medidas n ã o conseguiriam diminuir a influ ê ncia capitalista nos
partidos e no parlamento, ou mesmo eliminar, ou pelo menos sanar a
agita çã o dos partidos. Sucederia o oposto. O fato de que os partidos
ope ra m n o princ í pio de l ivre re crut a ment o impe de sua r egulam enta çã o
pelo Estado; isso escapa ao discernimento daqueles cr í ticos que gosta-
ria m de reco nh ecer so ment e orga niza çõ es estabelecidas por direito p ú-
blico, n ã o as que se es ta be le cem no c a mpo de bat a lha da ordem so cial
de hoje.
No s E st a do s m odernos, o s pa rt ido s po l í t icos po dem ba sea r-se fun-
da menta lme nt e e m do is p rinc í pios intr í nsec os distin t os. P odem os p a r-
tidos ser essencialmente organiza çõ es para concess ã o de cargos, como
o t ê m sido nos Estados Unidos desde o fim das grandes controv é rsias
sobre a interpreta çã o da Constitui çã o. Nesse caso est ã o os partidos
meramente interessados em colocar seu l í der na posi çã o m á xima, a
fim de que este possa transferir cargos estatais a seus seguidores, ou
seja, aos membros dos staffs ativos e de campanha do partido.
Desde que os partidos n ã o t ê m princ í pios expl í citos, eles compe-
tem um contra o outro, incluindo em seus programas as exig ê ncias
das quais
muito esperam nos
pronunciada o maior impacto.
Estados Unidos Essa caracter
devido à a uí stica partid
s ê ncia ria é
de umásis-
tema par lam enta r; o pre side nt e da fe dera çã o, eleito pelo povo, controla
— juntamente com os senadores eleitos pelos Estados — a concess ã o
do vasto n ú mero de cargos federais. Apesar da corrup çã o resultante,
esse sistema era popular, pois impedia o aparecimento de uma casta
burocr á tica. Tecnicamente era exeq üí vel, porquanto mesmo a pior ad-
ministra çã o, conduzida por diletantes, podia ser tolerada em vista da
ilimitada abund â ncia de oportunidades econ ômicas. A crescente neces-
sida de de subst itu ir o inexpe rient e protegido pe lo pa rt ido e funcio n á rios
oportunistas pelo funcion á rio e spe cia lizado, tecnic a ment e tr ei na do, re -
duz progressi va ment e os benef í cios do pa rt ido e re sulta inevi t a vel ment e
numa burocracia de tipo europeu.
Ou, ent ã o, os partidos se baseiam sobretudo em uma ideologia

44
WEBER

partid á ria e querem dedicar-se à concretiza çã o de ideais pol í ticos que


lhe s ã o inerentes. De forma relativamente pura, esse tipo era repre-
sentado na Alemanha pelo Partido Cat ólico do Centro da d é cada de
1870 e pe los soc ia is-demo cra t a s a nt es de se b uroc ra t iza rem. D e ma neira
geral, os partidos combinam ambos os tipos. T ê m objetivos expl í citos
que s ã o determina do s p el a tr a di çã o, e po r isso esses obje t ivos s ó podem
ser modificados pouco a pouco. Al é m disso, querem controlar tamb ém
a concess ã o de c a rgos. E m prim eiro luga r, obj etiva m co locar seus l í deres
nos principais postos pol í ticos. Se obt ê m ê xito na luta eleitoral, os
l í deres e funcion á rios podem proporcionar a seus adeptos cargos esta-
tais seguros durante o per í odo de preponder â ncia do partido. Esta é
a reg ra em E sta do s parla menta ris ta s; p orta nto, o s part id os ide ol ógicos
tamb é m seguiram esse caminho. Em Estados n ã o-parlamentaristas
(como a Alemanha Imperial), os partidos n ã o controlam a concess ã o
dos c a rgos m á ximo s, ma s os p a rt ido s ma is i nfluent es podem gera lment e
pressionar a burocracia dominante no sentido de conceder cargos apo-
l í ticos a seus protegidos, ao lado dos candidatos recomendados por
liga çõ es com funcion á rios efetivos; logo, esses partidos podem exercer
concess ã o “ subalterna ” .
Durante a racionaliza çã o de t é cnicas de campanha pol í tica nas
d é cadas passadas, todos os partidos tomaram provid ê ncias no sentido
de se organizarem burocraticamente. Cada partido atingiu um est á gio
dife rent e nesse dese nvol viment o, ma s pe lo menos no s E st a do s de gra n-
de s ma ss a s a tend ê ncia geral é óbvia. A “ panelinha ” de J ose ph Cha m-
be rlain na Inglat erra, o apa re cime nto da “ m á quina ” , como é significa-
tivamente chamada nos Estados Unidos, e a crescente import â ncia do
funcionalismo partid á rio em toda parte, inclusive na Alemanha, s ão
todos est á gio s desse p roc esso . Na Ale ma nh a el e pro gride ma is ra pi da -
mente no Partido Social-Democr á tico — o que é muito natural, pois é
o partido mais democr á tico. Para o Partido do Centro funciona o apa-
relho eclesi á stico, a burocracia eclesi á stica ( K aplanokr ati e), e para o
P a rtido Co nse rvado r na P r ú ssia , desde o minist é rio P ut t ka mer ( 1881-
88), o mecanismo governamental local e do condado do Landrat e do
Amt svo rst eha r, indep endendo de qu ã o a be rt a ou dis simulada mente te-
nha sido conduzido. O poder dos partidos repousa fundamentalmente
na efi ci ê ncia orga niza ciona l de ssa s buro cra cia s. A s hos t ili da des m ú tuas
das m á quinas eleitorais partid á rias, muito mais do que as diferen ça s
program á tic a s, s ã o respons á vei s pe la s difi culda des da fus ã o de pa rt ido s.
O fa t o de que o s doi s dele ga do s do Re ichst a g, E ugen Richter e H ei nr ich
Rickert, conservaram cada qual sua organiza çã o local do Partido Pro-
gressista prenunciou a eventual cis ã o do partido. 1

1 S obr e o S ezessi on e sua fus ã o com o Partido Progressista, ver acima, parte II, cap. XIV,
n º 9. Sobre a organiza çã o em geral dos partidos alem ã es durante o Imp é rio, ver Thomas
Nipperdey, Die Organization der deutschen Parteien vor 1918 (D ü sseldorf: Droste, 1961).

45
OS ECONOMISTAS

3. B ur ocr atização e a I ngenui dade dos C r í ticos


Naturalmente h á muitas diferen ças entre as v á rias esp é cies de
buro cra cia: e nt re a a dministra çã o milita r e c ivi l, ent re Est a do e pa rt ido ,
entre comunidade, igreja, banco, cartel, cooperativa de produtores, f á-
brica e grupo de interesse (como associa çõ es de empregadores ou a
Liga dos Agricultores). O grau de participa çã o de dignit á rios n ã o-re-
munerados e de grupos de interesse tamb é m va ria muit o. Ne m o chefe
de partido nem os membros do conselho de uma sociedade an ônima
por a çõ es s ã o burocratas. Sob as v á rias formas do denominado “ auto-
governo ” , dignit á rios ou representantes eleitos dos governados ou con-
t ribuin t es po dem, como gr upo c orpora t ivo o u como ór g ã os individua is,
se associar à burocracia de forma subordinada ou de dom í nio, e ter
fu n çõ es co-determinantes, supervisoras, consultivas, e, à s vezes, exe-
cutivas. A ú ltima dessas modalidades ocorre particularmente nas ad-
ministra çõ es municipais. Contudo, n ã o nos i nt ere ssa m a qui essas ins-
titui çõ es, ainda que n ã o sejam sem significado pr á tico. (Assim, n ã o
disc utimos aq ui numero sa s institui çõ es da s qu a is p odemo s nos orgulh a r
na Alemanha e algumas das quais s ã o realmente exemplares. Mas é
erro crasso dos cr í ticos imaginarem que o governo de um grande pa ís
é ba sic a mente id ê nt ico a o a utogo ve rno de qua lquer c idade de ta ma nho
m é dio. Pol í t ica signifi ca conflito) . E m nossa s circ unst â ncias, é decisivo
que na administra çã o de associa çõ es de massas os funcion á rios espe-
cializados sempre componham o n ú cleo do mecanismo, pois sua disci-
plina é a precondi çã o absoluta do ê xito. Isso é tanto mais verdadeiro
quanto maior for a associa çã o, quanto mais complicadas forem suas
ta ref a s e, a cima de tudo , qua nt o ma is s ua exi st ê ncia depe nd er do po der
— quer se tra te de uma luta pe lo poder no merc a do , na a rena el ei tora l
ou no c a mpo de bat a lha . Isso é especialmente ver í dico com rela çã o a os
partidos pol í ticos. Est á condenado o sistema de administra çã o parti-
d á ria local por dignit á rios, sistema que ainda existe na Fran ça, cuja

se dèár etamb
mis pa rlaémenta r deve -senaà Alemanha.
m parcialmente a u s ê nci a de
Napart
IdadeidoMs buroc raétiza
dia, do s. Isso
a admi-
nistra çã o exercida por dignit á rios locais dominava todas as formas de
associa çõ es ; a inda pre do mina em c omunida des pe quena s e de ta ma nho
m é dio, mas hoje em dia “ os cidad ã os respeit á veis ” , “ pree minent es h o-
mens de ci ê ncia ” , ou qualquer que seja seu r ótulo, s ã o usados mera-
mente como propaganda, n ã o como executores das rotinas decisivas.
P ela me sma ra z ã o, v á rios dignit á rios dec ora t ivo s figura m n os conselhos
da s so cie da des a n ô nima s po r a çõ es; pr í ncipes da Igreja s ã o ostentados
nos c ong ressos do la ica t o ca t ólic o; a ut ê nt icos e pseudo- a rist ocra t a s com-
parecem à s reuni ões da Liga dos Agricultores, e dignos historiadores,
bi ólogos e e spec ia lista s do g ê nero, gera lment e inexp erie nt es e m a ssun-
t os po l í t ico s, s ã o a tra í do s p a ra a a gi ta çã o do s pala dinos pa ngerm â nicos,
ansiosos de proveitos de guerra e privil é gio s ele itora is. O tra ba lho p ro-

46
WEBER

priamente, em todas as organiza çõ es, é realizado cada vez mais por


empregados assalariados e por funcion á rios de todos os tipos. O resto
é apar ê ncia e ostenta çã o.
Assim como os italianos e, depois deles, os ingleses magistral-
mente dese nvo lve ra m a s mo derna s fo rma s c a pi ta li sta s de o rga niza çã o
econ ô mica, assim os bizantinos, depois os italianos, depois os Estados
territo riais da é poca a bso lutista , a ce nt ra li za çã o rev olucio n á ria fra nce sa
e, finalmente, superando a todos eles, os alem ã es consumaram a or-
ganiza çã o burocr á tica racional, funcional e especializada de todas as
form a s de do mina çã o, da f á bric a a o ex é rcito e à administra çã o p ú blica.
P or enqua nt o, os a le m ã es s ó fo ra m su pe ra do s no qu e se re fe re à t é cnica
de organiza çã o partid á ria por algumas na çõ es, especialmente pelos
a meric a no s. A a tua l gue rra mundia l si gnifi ca o tr iunfo unive rsa l de ssa
forma de vida, que ali á s já es ta va em a ndam ento . J á a ntes da gue rra ,
as universidades, escolas polit é cnicas e comerciais, escolas profissio-
na is, a ca demi a s mili ta res e es colas es pe cializada s de to da s a s esp é cies
imagin á veis (at é de jornalismo) agitaram-se com exig ê ncias urgentes
movidas pelos interesses de aliciamento de estudantes para as escolas
e pela obsess ã o dos diplomados por sinecuras: o exame profissional
deveria ser a precondi çã o para todos os cargos bem remunerados e
principalmente seguros nas burocracias p ú blica e privada; o diploma
deveria ser a base de todas as pretens ões de prest í gio social (de con-
nubium e commer cium social com os c í rculos que se consideram a si
mesmos como “ sociedade ” ); o “ sa l á r io ” , socialmente adequado e garan-
tido, sucedido por uma aposentadoria deveria ser a forma de remune-
r a çã o; finalmente, os aumentos salariais e as promo çõ es deveriam de-
pender do tempo de servi ço. Os efeitos podem ser observados dentro
e fora das institui çõ es governamentais, mas aqui s ó estamos interes-
sados nas conseq üê ncias para a vida pol í tica. É esse fato s óbrio de
burocratiza çã o universa l que se enc ont ra por t r á s das c hama das “ id é ia s
alem ã s de 1914", ou seja, por tr á s do que os cr í ticos eufemisticamente
denominam
organizada ” , ”“socialismo
econo mia do futuro",t iva
coopera por” , tr s dos
e todasá as lemas
frases de “ sociedade
semelhantes da
atualidade. Mesmo que busquem o oposto, sempre promovem o apa-
recimento da burocracia. É verdade que a burocracia n ã o é decidida-
mente a ú nica forma moderna de organiza çã o, assim como a f á brica
tamb é m decididamente n ã o é a ú nica forma de empresa comercial,
mas ambas marcam o car á ter da é poca atual e do futuro previs í vel.
O fut uro pe rt enc e à buroc ra t iza çã o, e é evidente que, nesse particular,
os cr í ticos obedecem a voca çã o de proporcionar sua salva de palmas
à s pot ê nc ia s pro misso ra s, da m es ma ma nei ra como o fi zeram na é poca
do laissez-faire , em ambas as vezes com a mesma ingenuidade.
A buroc ra cia distingu e-se da s o ut ra s influ ê nci a s hist órica s do mo -
derno si st ema ra ciona l de vida por ser muit o ma is p ersistent e e porq ue
dela n ã o se pode fugir. A Hist ória nos mostra que onde quer que a

47
OS ECONOMISTAS

burocracia tenha triunfado, como na China, no Egito, e, em menor


gra u, no Imp é rio Ro ma no po st erio r e em B iz â ncio , ela n ã o de sa pa rec eu
mais, a n ã o ser por ocasi ã o do colapso total da respectiva cultura.
Contudo, essas eram ainda, relativamente falando, formas de burocra-
cia a lta mente i rra ciona is: “ buro cra cias pat rimo nia is ” . E m co nt ra ste c om
essas fo rma s ma is a ntiga s, a buro cra cia mode rna tem uma ca ra cter í s-
tic a que to rna sua na tureza m ui to mais e xp l í cita: especializa çã o e tr ei-
namento racionais.
O mandarim chin ê s n ã o era um especialista, mas sim um gen-
tleman dota do de educa çã o lit er á ri a e huma n í stica. O funcion á rio eg í p-
cio , o fu n cio n á rio ro ma no do imp é rio dos ú lt imos t empos e o fun cion á r io
bizantino eram muito mais burocratas, em nosso sentido da palavra.
Mas, comparadas à s tarefas modernas, as deles eram infinitamente
simples e limitadas; suas atitudes eram em parte presas à tradi çã o,
em parte orientadas patriarcalmente, isto é , irracionalmente. Como o
homem de neg ócios do passado, ele era um emp í rico genu í no. O fun-
cion á rio mo derno rec ebe t reina ment o prof issio na l qu e inev ita vel ment e
aumenta em propor çã o com a tecnologia racional da vida moderna.
Todas as burocracias do mundo seguem esse mesmo caminho. Nossa
superioridade nesse particular deve-se ao fato de que, antes da guerra,
a burocracia em outros pa í ses n ã o tinha progredido tanto. O velho
funcion á rio americano patrocinador de empregos para os partid á rios,
por exemplo, era um “ especialista ” em campanhas pol í ticas, com a
pr á xis apropriada, mas, de modo algum, era ele um funcion á rio pro-
ficientemente treinado. N ã o a democracia como tal, conforme afirmam
nossos cr í ticos, mas a falta de treinamento profissional, constituiu a
font e da co rru p çã o, que ta nt o é es tr a nha a o func iona li smo p ú blico com
instru çã o universit á ria ora emergente co mo é e stranha à mode rna bu-
rocracia inglesa, a qual cada vez mais substitui o autogoverno de dig-
n it á rios ( gentleman). Onde quer que o funcion á rio especializado mo-
derno ve nha a pre do mina r, sua for ça se revela praticamente indestru-

telementares
í vel , po is toda orgafoi
da vida, niza çã o, mesmo
adaptada da s provid
a seu modo de operaê ncias pelas çãcoisas maiseli-
o. Uma
mina çã o p rogressi va do c a pi t a lismo priva do é t eorica men t e conc eb í vel,
a inda q ue certa mente n ã o seja t ã o f á cil como o fazem supor os sonhos
de alguns cr í ticos que desconhecem o assunto. Essa elimina çã o, com
toda a certeza, n ã o ser á uma das conseq üê ncias desta guerra. Mas
supo nh a mos que, no fut uro, o ca pi t a lismo priva do sej a el imina do . Qua l
seria o resulta do pr á tico? A destrui çã o da es trut ura de a ço do tra balho
indust ria l mo derno? N ã o! A a boli çã o do ca pi t a lismo priva do signif ica ria
simplesmente que tamb é m a alta administra çã o das empresas nacio-
nalizadas ou socializadas tornar-se-ia burocr á t ica . As co nd i çõ es de tra -
balho di á rio dos empregados assalariados e dos oper á rios nas minas
e estradas de ferro estatais, na Pr ú ssia, ser ã o acaso perceptivelmente
dif ere nt es , na rea li da de, da s c ondi çõ es na s gra ndes e mpres a s de ca pi ta l

48
WEBER

privado? É verdade que h á ainda menos liberdade, desde que toda


luta pe lo poder c ont ra uma buro cra cia es ta ta l é sem e spe ra n ça e de sde
que n ã o h á a pe la çã o a um ór g ã o que, po r q uest ã o de princ í pio, estivesse
interessado em limitar o poder empregador, como ocorre no caso de
uma empresa privada. Essa seria toda a diferen ça .
A burocracia estatal reinaria absoluta se o capitalismo privado
fosse e limina do . As buroc ra cia s priva da e p ú bl ica , que a go ra func iona m
lado a lado, e potenci a lme nt e uma cont ra a outr a , res tr ingindo -se assim
mutuamente at é certo ponto, fundir-se-iam numa ú nica hierarquia.
Esse Estado seria ent ã o semelhante à situa çã o observada no Egito
Antigo, mas ocorreria de uma forma muito mais racional e por isso
indestrut í vel.
Uma m á qui na inanimada é a inteli g ê nci a concre tiza da . S omente
esse fat o prop orcio na à m á q uina o poder de fo r ça r os ho mens a ope r á -la,
e o poder de do mina r sua s vidas de t ra ba lho di á rio t ã o comple t a ment e
como ocorre em realidade na f á brica. A intelig ê ncia concretizada é
tamb é m uma m á quina animada, a da organiza çã o burocr á tica, com
sua esp ecia li za çã o no trei na mento de apt id õ es pro fissi ona is, sua divis ã o
de compet ê ncia, seus regulamentos e rela çõ es hier á rquicas de autori-
dade. J unta me nte c om a m á quina ina nimada , a intel ig ê ncia concreti-
zada ocupa-se em construir o casulo da servid ã o que os homens ser ã o
talvez for çados a habitar algum dia, t ã o impotentes quanto os fel ás
do Egito Antigo. Isso poderia ocorrer, se uma administra çã o tecnica-
ment e supe rio r chega sse a ser o va lor su premo e ú nico na organiza çã o
do s a fa ze res do s home ns, o que signi fi ca : uma a dministra çã o burocr á -
tica racional com a correspondente benefic ê ncia social, pois essa bu-
rocracia pode operar muito melhor do que qualquer outra estrutura
de domina çã o. Esse casulo de servid ã o, que nossos incautos cr í ticos
ta nt o l ouva m, po deri a ta lve z ser refo r ça do pre ndendo- se c a da indiv í du o
a seu trabalho (atente-se para os come ços disso j á aparecerem nas
“ disposi çõ es do bem-estar social ” ), à sua classe (mediante a crescente
rigi
de mdez da sesritua
é todo tr utuisra
dedasa pro
t isf pri
a zeedade)
r a s ex ,ige taê ncias
lve z doàEst
sua apro
do ,fiss
o quã eo signific
(por meioa:
sobrecarregar associa çõ es profissionais com fun çõ es estatais). Tal Es-
tado seria ainda mais indestrut í vel se na esfera social se anexasse à
burocracia (na verdade, se subordinasse a ela) uma organiza çã o de
categoria civil de governados. Surgiria, ent ã o, como nos Estados de
trabalhos for çados do passado, uma estratifica çã o social “ or g â nica ” se-
melhante à eg í pcio-orient a l ma s, e m co nt ra st e com est a , se ria t ã o a us-
teramente racional como uma m á quina. Quem iria querer negar que
tal potencialidade est á nas entranhas do futuro? Na realidade, isso j á
foi expressado freq ü entemente, e a pr ópria antevis ã o confusa do fato
já projeta sua sombra nas produ çõ es de nossos cr í ticos. Suponhamos,
por ora , que a concretiza çã o dessa possibilida de fo sse “ inevit á vel ” : Quem
n ã o riria, ent ã o, do temor de nossos cr í ticos de que o desenvolvimento

49
OS ECONOMISTAS

pol í tico e social poder-nos-ia trazer “ individualismo ” ou “ democracia ”


em demasia ou outras coisas semelhantes, e quem n ã o riria tamb é m
de sua antevis ã o de que a “ verdadeira liberdade ” s ó se manifestar á
quando a atual “ anarquia ” da produ çã o econ ômica e as “ maquina çõ es
partid á rias ” de no sso s pa rla ment os fo rem a boli da s em fa vo r de “ ordem ”
social e “ estratifica çã o org â nica ” — isto é , em favor do pacifismo da
impot ê ncia social sob a tutela do ú nico poder a que realmente n ã o se
pode escapar: a burocracia instalada no Estado e na economia.

4. As L i mi ta ções Polí ticas da Burocracia 1

Devido ao fato b á sico do avan ço irresist í ve l da buro cra tiza çã o, a


pergunta sobre as formas futuras de organiza çã o pol í tica s ó pode ser
formulada do seguinte modo:
1. C omo se poder á p rese rva r qua lquer re squ í cio de libe rd a de “ in -
dividualista ” , em qualquer sentido? Afinal de contas, é uma ilus ã o
flagrante acreditar que, sem as conquistas da é poca dos Direitos do
Homem, qualquer um de n ós, a t é mesmo dos mais conservadores, po-
der á viver hoje sua vida. Mas n ã o nos detere mos a qui nesta pe rgunt a ,
pois h á outra:
2. Em vista da cresc ente i ndisp ensa bi li da de da buroc ra cia esta ta l
e de seu co rr espo nd ent e a um ent o de po der, co mo po der á ha ve r qua lque r
ga ra ntia de que pe rma nec er ã o em exist ê ncia for ça s q ue po ssa m co nt er
e cont ro lar ef ica zmente a tr eme nda infl u ê ncia desse segmento? Mesmo
nesse sentido, como ser á a demo cra cia de t odo p oss í vel? Contudo, esta
tamb é m n ã o é a ú nica pergunta que nos diz respeito aqui.
3. Uma terceira pergunta, e a mais importante de todas, levan-
ta-se em face de considera çõ es sobre as limita çõ es inerentes à buro-
cracia propriamente dita. Pode-se notar facilmente que a efici ê ncia da
buro cra cia tem li mita çõ es de finida s em n í vel p ú bli co e go verna ment a l,
assim como na economia privada. “ A ment e dirige nt e ” e “ o esp í rito em
movimento ” — do empres á rio e do pol í t ico respe ct iva ment e — diferem
substa nci a lme nt e da m enta li da de do func ion á rio da a dmini stra çã o p ú -
blica. É fato que o empres á rio trabalha num escrit ório, da mesma
ma nei ra que o coma nda nt e do ex é rci t o, que fo rma lment e n ã o é dife rent e
de outros oficiais. Se o presidente de uma grande empresa é um em-
pre ga do a ssa lar iado de uma so cie da de an ônima por a çõ es, é le ga lme nt e
um funcion á rio como outros. Na vida p ú blica o mesmo é ver í dico com
rela çã o ao chefe de um ór g ã o pol í tico. O ministro em exerc í cio é for-
ma lme nt e um func ion á rio assalariado com direito a aposentadoria. O
fato de que, segundo todas as Constitui çõ es, ele pode ser exonerado

1 Veja t a m b é m o coment á rio de Weber na conven çã o de “ Verein f ü r Sozialpolitik ” em Viena,


em 1909, no qual ele comparou a gera çã o mais velha de membros que tinham levado a
efei to a su perio rida de da bur ocra cia em rela çã o ao “ manchesterismo ” , rei mpresso em G ra zss,
412 ss.

50
WEBER

ou renunciar a qualquer momento torna sua posi çã o diferente da de


muitos, ma s n ã o da de t odos o s fun cion á rio s. Muito ma is surpree ndent e
é o fato de que ele e s ó ele n ã o tem necessidade de provar possuir
forma çã o profissional. Isso indica que o significado de sua posi çã o o
distingue, afinal de contas, de outros funcion á rios, como distingue o
empres á rio e o presidente da companhia na economia privada. Real-
mente, é mais exato dizer-se que ele deve ser algo diferente. E assim
é de fato. Se um homem numa posi çã o de comando mostra ser um
“ funcion á r io” no esp í rito de seu desempenho, isto é , seja um homem
que, n ã o importa qu ã o qualificado seja, tem o h á bito de trabalhar di-
lige nt e e honra da ment e obede cendo a regula ment os e inst ru çõ es, ent ã o
ele é t ã o ineficaz no leme de uma empresa privada como no de um
governo. Infelizmente, nosso pr óprio governo demonstrou a validade
desse argumento. A diferen ça est á apenas em parte na esp é cie de de-
sempenho esperado. Tomadas de decis ã o independentes e aptid ã o or-
ganizacional imaginativa em pormenores s ã o ge ra lme nt e ta mb é m exi-
gidas do burocrata e muito freq ü entemente esperadas mesmo em as-
sunt os de ma ior enve rga dura . Que o buro cra ta é a bso rvido pe la rotina
subalterna e que somente o “ diretor ” executa as tarefas interessantes
e intel ect ua lme nt e e stimula nt es é uma id é ia preconcebida dos cr í ticos
e s ó é poss í vel num pa í s que n ã o tem compreens ã o da maneira pela
qual seus assuntos e o trabalho de seu funcionalismo s ã o geridos. A
diferen ça a cha -se, an t es, no tipo de resp onsa bil ida de, e é isso qu e rea l-
mente determina os diferentes pr é -requisitos para ambas as esp é cies
de c a rgos. Um funci on á rio qu e rec ebe uma diretr iz a qu a l e le considera
er r ô nea pode e de ve o bjeta r a el a . S e se u superio r insist ir na ex ecu çã o
de ta l di retriz, é dever d o fun cio n á rio e a t é mot ivo de o rg ulh o exec ut á -la
como se isso co rr espo nd esse à sua convic çã o ma is í ntima , de mo nstra ndo
a ssi m que sua consc i ê ncia do deve r co loca -se a cima de sua s prefer ê ncias
pesso a is. N ã o imp orta se a orde m ema na de uma “ autoridade ” , de uma
“ companhia ” ou de uma “ assembl é ia ” . Esta é a é tica profissional. Um
lqíüder pol í ticoser
entemente que áagisse
for çadessa
do a famaneira mereceria
zer c once desprezo.
ss ões, ist o é , sa Ele
crificfre-
a r o menos
importante ao mais importante. Se ele n ã o tiver ê xito em exigir de
seu patr ã o, seja este um monarca ou o povo: “ Ou obtenho de v ós a
autoriza çã o que agora necessito, ou renuncio ” , ele ser á um miser á vel
pegajoso — como denominou Bismarck este tipo — e n ã o l í der. “ Estar
acima dos partidos ” — de fato, permanecer fora da luta pelo poder —
é o pa pel do fun cio n á rio , enq ua nt o luta pe lo poder pe sso a l e a resulta nt e
respo nsa bil ida de pe sso a l pe la pr ópri a ca usa s ã o os pr inc í pio s essenci a is
do pol í tico assim como do empres á rio.
Desde a ren ú ncia do pr í ncipe Bismarck, a Alemanha tem sido
go ve rna da por “ burocratas ” (no melhor sentido da palavra) porque ele
eliminou todo talento pol í tico. A Alemanha continuou a manter uma
burocracia militar e civil superior a todas as outras no mundo em

51
OS ECONOMISTAS

termos de integridade, educa çã o, escrupulosidade e intelig ê ncia. O de-


sempe nh o a le m ã o na guerra , ta nt o no ex terio r qu a nt o dentro das fro n-
teiras, demonstrou o que estes meios podem atingir. Mas que dizer
sobre a dire çã o da pol í tica alem ã (nacional e exterior) durante as d é-
cadas recentes? O que de mais ben é volo se dizia a esse respeito era
que “ as vit órias dos ex é rcitos alem ã es compensavam as derrotas de
tal pol í tica ” . Faremos sil ê ncio a respeito dos sacrif í cios envolvidos e
indagaremos, em vez disso, sobre as raz ões desses fracassos.
No exterior imagina-se que a “ autocracia ” alem ã seja o erro.
Enquanto na Alemanha, gra ça s à s infantis fantasias hist ó ricas de
nossos cr í ticos, sup õ e-se freq ü entemente o contr á rio: uma conspira-
çã o da “ democracia ” internacional provocou a artificial coliga çã o
mundial c ontr a n ó s. U sa -se no e xterior a h ip ó crit a ex press ã o “ liber-
tar os alem ã es da autocracia ” . Na Alemanha, os interessados no
sistema vigente at é o momento (ainda chegaremos a conhec ê -los)
empregam o palavr ório i gua lme nt e hip ó crita da necessidade de pro-
teger o “ es p í rito alem ã o ” da contamina çã o pela “ democracia ” , ou
procuram outros bodes expiat órios.
Tornou-se costumeiro, por exemplo, criticar a diplomacia alem ã,
o que é po ssivelment e inj ust ific á ve l. P ro va ve lme nt e e la era , e m m é dia,
t ã o boa qua nt o a de o utr os pa í ses. H á uma confus ã o a í . O que f a lta va
era que o Estado fosse dirigido por um pol í tico — n ã o por um g ê n io
pol í tico, o que se espera ocorra uma vez a cada s é culo, nem mesmo
por um grande talento pol í tico, mas simplesmente por um pol í tico.
5. O Papel L i mitado do M onar ca
Isso nos leva diretamente à discuss ã o dos dois ú nicos poderes
que podem ser for ças controladoras e dirigentes no Estado constitu-
cional moderno, ao lado do onipotente funcionalismo: o monarca e o
parlamento.
A posi çã o da s di na stias a le m ã s sair á in cólume da guerra , a menos

que haja muita


do passado. Quemimprud ncia etido
quer queêtenha nadaa tenha sido aprendido
oportunidade dos erros
de conversar
com o s soc ia is-democ ra t a s a lem ã es poder á t ê -los le va do a a dmitir q ua se
sempre, depois de intensa discuss ã o, que “ em si mesma ” a mo na rqui a
constitucional era a forma apropriada de governo para a Alemanha,
em vista de sua singular situa çã o internacional. As coisas assim se
apresentavam muito antes de 4 de agosto de 1914, e n ã o me refiro
aqui a “ revisionistas ” , delegados parlamentares ou membros de sindi-
ca tos, ma s a func ion á rios comuns do partido, em parte muito radicais.
B a sta a pena s atenta r, um mo me nto , pa ra a R ú ssia a fim de c ompreen-
de r que a t ra nsi çã o para a mo na rquia parla menta r, c omo o de se ja va m
os pol í ticos liberais, teria conservado a dinastia, teria destru í do o do-
m í nio descarado da burocracia, e no final teria fortalecido o pa s ta nto
quanto ele agora se acha enfraquecido pela presente rep ú blicaí de in-

52
WEBER

telectuais, abstraindo do idealismo dos l í der es desta . !1 N aInglaterra


subentende-se que a for ça do parla menta ris mo b rit â nico reside no fato
de que o mais elevado cargo do pa í s é ocupado de uma vez por todas.
N ã o podemos discutir aqui nem as raz ões da import â ncia da mera
exist ê ncia de um monarca, nem a quest ã o de se somente um monarca
pode desempenhar esse papel. No que concerne à Alemanha, pelo me-
nos, de vemo s lev a r em cont a a posi çã o do mona rca . N ã o podemo s a nsia r
por uma é poca de guerras entre pretendentes e uma era de contra-re-
volu çõ es; nossa posi çã o interna ciona l é por demais fr á gil para isso.
Contudo, no Estado moderno o monarca n ã o pode em lugar ne-
nhum constituir-se numa for ça em oposi çã o ao poder dos burocratas
que tu do pe rva de. O mo na rc a n ã o pode supervisionar a administra çã o,
porque ela requer forma çã o profissional, e o monarca moderno nunca
é um especialista, a n ã o ser talvez em quest ões militares. Acima de
tudo, o mo na rca nu nca é um pol í tico com treinamento efetuado dentro
da m á quina dos partidos ou da diplomacia. N ã o apenas sua educa çã o
ma s princ ip a lme nt e sua posi çã o constitucional n ã o condizem com isso.
Ele n ã o conquista sua coroa pela disputa partid á ria, e a luta pelo
poder n ã o é seu meio natural, como o é para o pol í tico. Ele n ã o sente
pe sso a lme nt e a s á rdua s re a li da de s da vida part id á ria desc endo à a re na
pol í tica, pelo contr á rio, seus privil é gios o apartam delas. H á pol í ticos
natos, mas s ã o raros. O monarca que for um destes torna-se uma
amea ça a seus pr ó pri os interesse s e a os do Est a do s e tent a r gov erna r
por si mesmo, como o fez o Tzar, ou exercer influ ê ncia por expedientes
pol í ticos — por meio de “ demagogia ” no sentido mais lato da palavra
—, em disc ursos e p or esc rito, c om a fina lida de de p rop a ga r sua s id é ia s
ou de pro jeta r sua pe rsona lida de. Ele e nt ã o coloca em per igo n ã o a pe na s
sua coroa — o que seria seu assunto pessoal —, mas a sobreviv ê ncia
do Estado. Contudo, essa tenta çã o — ou melhor, necessidade — surge
inevitavelmente para um monarca moderno se ele for confrontado so-
mente por burocratas, isto é , se o p a rla ment o f or im pot ent e, c omo tem
ocorrido na Alemanha durante d é cadas. Mesmo de um ponto de vista

1 Co mo fontes russ as me afi rmara m que o Sr. Ke re nsk i se teri a util izado de sta passagem
extra í da do Frankfurter Zeitung em com í cios p ú blicos para mostrar a necessidade de sua
ofensiva como uma prova de “ for ça ” , permitiam-me aqui dirigir-me explicitamente a este
coveiro da jovem liberdade da R ú ssia: uma ofensiva s ó pode ser lan çada por algu é m que
disponha dos necess á rios recursos — por exemplo, artilharia suficiente para reter a infan-
ta ria inimi ga em sua s tr inc heiras, e sufic ientes meio s de tra nspo rte e de suprime ntos para
deixar os pr óprios soldados em suas trincheiras sentirem sua depend ê ncia desse algu é m
para a obten çã o de alimento. A “ fraqueza ” do chamado governo “ social-revolucion á r io ” d o
Sr. Kerenski, contudo, estava em sua falta de cr é dito, como j á vimos, como j á foi explicado
alhures (Cf. “ Russlands Ü bergang zur Scheindemokratie ” , em Die Hilfe, 26 de abril de
1917, reimpresso em GPS, 192-210), e na necessidade de negar seu pr óprio idealismo, de
concluir uma alian ça com a “ Entente ” imperialista burguesa, e assim sacrificar centenas
de milhares de seus pr óprios compatriotas como mercen á rios para interesses alien í genas
a fim de conseguir cr é di to p ara a manuten çã o de sua pr ópria domi na çã o na p á tria. Creio
que infelizmente tinha raz ã o quanto a esta previs ã o, como quanto a outras que fiz em
outro lugar a respeito da atitude da R ú ssia . (N ã o vejo raz ã o para modificar esta passagem,
escrita h á muitos meses.) (N. de rodap é de Weber.)

53
OS ECONOMISTAS

puramente t é cnico, isso tem graves desvantagens. Se n ã o existir par-


lamento eficaz, o monarca torna-se dependente do relat ório de funcio-
n á rio s par a a supe rvis ã o do t ra ba lho de o ut ros func ion á rios. Iss o é u m
cí rculo vicioso. A cont í nua guerra rec í proca entre v á rios minist é rios,
como era t í pico na R ú ss ia e tamb é m a t é certo ponto na Alemanha at é
o presente, é a conseq üê ncia natural de pretensos governos “ m on á r -
quicos ” sem um l í der pol í tico. Esse conflito de “ s á trapas ” compreende
qua se se mpre n ã o apenas diferen ças sobre assuntos objetivos, mas ri-
validades pessoais; os choques entre os minist é rios servem a seus ti-
tulares como meios na competi çã o par a os po stos mini steria is, qua ndo
forem considerados simplesmente benef í cios burocr á ticos. Ser ã o a s in-
trigas da corte e n ã o raz ões importantes ou qualidades de lideran ça
pol í tica que ir ã o determinar a posse de um cargo. É do conhecimento
gera l qu e luta s pesso a is pe lo poder s ã o comun s e m E sta do s par lam en-
taristas. O erro est á em supor-se que as monarquias s ã o diferentes
nesse particular. Na realidade estas t ê m um problema adicional. O
monarca acredita que ele sozinho governa, quando na verdade, por
t r á s desse biombo, a burocracia goza do privil é gio de agir sem peias
e sem ser respons á vel perante nenhuma autoridade. Aduladores en-
volvem o monarca com o halo rom â ntico do poder porque ele pode
substituir o ministro em exerc í cio à sua discri çã o. Contudo, monarcas
como Eduardo VII da Inglaterra e Leopoldo II da B é lgica, que n ã o
era m c erta ment e pe rsona lidad es pree minent es, ex erc ia m um po der rea l
muito maior, ainda que e porque reinavam em estilo rigorosamente
parlamentar e nunca desempenharam um papel p ú blico saliente, ou
pelo menos nunca apareceram em p ú blico sob outro manto que n ão o
parlamentar. Constitui pura ignor â ncia chamar tais monarcas de “ si-
mulacros de reis ” na fraseologia dos intelectuais e é estupidez destes
tr a nsfo rma r os boa tos mo ra li za nt es de burgues es re tr ógrados sobre os
monarcas num crit é rio para julgamento pol í tico. A Hist ória julgar á de
maneira diferente, ainda que os programas pol í ticos desses monarcas
venham a fracassar eventualmente — a ssi m co mo ta nt os gra ndes p ro -
jetos fracassam. Um desses dois monarcas viu-se mesmo for çado a
substituir seus funcion á rios da corte, segundo a constela çã o do poder
parlamentar, mas conseguiu realizar uma alian ça mundial; o outro
tinha por reino um pequeno Estado, mas formou um imenso imp é r io
colonial (se comparado com nossos fragmentos coloniais). Quem quer
que queira liderar em pol í tica, seja ele monarca ou ministro, deve
saber como usar os modernos instrumentos do poder. O sistema par-
lamentar elimina apenas o monarca politicamente incompetente —
pa ra o bem do pa í s. Ser á este um “ E sta do vi gi a no turno ” 1 (N achtw äch-
terstaat) que conseguiu incorporar a si mesmo, a despeito de sua di-

1 N achtwächterstaat era o ep í teto comumente aplicado ao Estado liberal com sua redu çã o
de fun çõ es, pelos cr í ticos da doutrina do laissez-faire . A refer ê ncia, é claro, se endere ça à
Inglaterra manchesteriana.

54
WEBER

minuta popula çã o, as melhores partes de todos os continentes? Que


vulgar é aquela express ã o que tem t ã o forte sabor de ressentimento
de s ú dito.
Passemos agora ao parlamento.

6. P arlamentos F r acos e F or tes, P olí ti ca N egati va e Posi ti va


Os parlamentos modernos s ã o primeiramente ór g ã os represen-
tativos dos indiv í duos governados por meios burocr á ticos. Afinal de
contas, um m í nimo de consentimento da parte dos governados, pelo
menos das camadas socialmente importantes, é a condi çã o pr é via da
durabilidade de toda domina çã o, inclusive da mais bem organizada.
Os parlamentos s ã o hoje o meio de manifestar esse consentimento
m í nimo. Para certos atos dos poderes p ú blicos, por lei é obrigat ório o
consenso do parlamento, ap ós pr é via delibera çã o; nisso se inclui, es-
pecialmente, o or çamento. O controle sobre a arrecada çã o da receita
— o direito sobre o or çamento — é o instrumento de poder decisivo
do parlamento, como sempre tem sido desde que os privil é gios corpo-
ra t ivo s da s cla sses pol í t ica s co me ça ra m a ex is tir. En treta nt o, na medi da
em que um par lam ento s ó po ssa a poiar a s queix a s do s c ida d ã os c ont ra
a administra o apenas rejeitando dota es e projetos de lei e apre-
se nta ndo no çõçães desc a bida s, esse pa rla ment çõ o se ex clui de p a rt icip a çã o
positiva na dire çã o de assuntos pol í ticos. Esse parlamento s ó poder á
desenvolver uma “ pol í tica negativa ” , isto é , enfrentar os chefes admi-
nistrativos como se o parlamento fosse um poder hostil; nessas condi-
çõ es o parlamento receber á apenas o m í nimo indispens á vel de infor-
m a çõ es e ser á considerado um simples freio, um conglomerado de cr í-
ticos impotentes e sabich ões. Por sua vez, a burocracia facilmente pa-
recer á ao parlamento e aos eleitores deste como sendo uma casta de
carreiristas e apaziguados que submetem o povo a suas atividades
inoportunas e, em grande parte, sup é rfluas.
As co isa s s ã o di fe rentes qua ndo o par lam ento i mp õ e qu e os chefes

da a dmi nisdito)
priamente tra çã o se
ou, ja m tãira
ent o, dos
que,depara ei o ( si stema
se usemmanterem par lamentar
em seus cargos, pro-
precisam do voto expresso e declarado de confian ça da maioria, ou, ao
menos, que n ã o sejam objeto do voto de desconfian ça (seleção parla-
mentar dos l í deres) e, por essa raz ã o, devem prestar contas absolutas
de seus atos à revis ã o do parlamento ou de suas comiss ões (r esponsa-
bilidade parlamentar dos l í deres) e dever ã o, ainda, conduzir a admi-
nistra çã o de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo parlamento
(controle administrativo do parlamento). Ent ã o os l í deres dos partidos
dominantes t ê m uma part icip a çã o positiva no go verno, e o pa rla ment o
converte-se num fator de pol í tica positiva, ao lado do monarca que
a go ra go rve rna n ã o ma is e m virt ude de se us direitos fo rm a is da coroa
— pelo men os n ã o exclusivamente —, ma s em vi rt ude de sua infl u ê ncia
pessoal, influ ê ncia que permanece grande de qualquer maneira, mas

55
OS ECONOMISTAS

varia de acordo com seu grau de prud ê ncia e energia pol í tica. Isso é
o que significa Volksstaat (Estado do povo), independente de o termo
ser apropriado ou n ã o; em contraposi çã o, um parlamento de gover-
na do s que s ó recorre à p ol í tica negativa em face de uma burocracia
dominante representa uma vers ã o do Obrigkeitsstaat (E sta do de au-
toridades). Aqui estamos interessados nas conseq ü ê ncias concretas
da posi çã o do parlamento.
Quer amando, quer odiando a pol í tic a pa rl a me nta r — n ã o pode-
mos afast á -la. Quando muito, o parlamento pode ser reduzido à im -
pot ê ncia pol í tica, como fez Bismarck com o Reichstag. Al é m das con-
seq üê nc ias gerais da “ pol í tic a neg a tiva ” , a fraq ue za do parla mento tem
outros resultados (que podem ser mais bem compreendidos se primei-
ra ment e nos le mbra rm os do pa pe l de um pa rla ment o fo rt e). Todo c on-
flito no parlamento implica n ã o somente numa luta por quest ões im-
portantes mas tamb é m numa luta pelo poder pessoal. Onde quer que
o par lam ento se ja t ã o f ort e que, via de regra , o mona rca confie o go verno
ao porta-voz de uma maioria bem definida, a luta dos partidos pelo
poder ser á uma disputa pelo mais alto posto executivo. A luta é en t ã o
conduzida por homens que t ê m fortes instintos de poder pol í tico e
qua li da des a lta mente dese nvo lvi da s de li dera n ça pol í t ica , e c onseq ü en -
temente a possibilidade de assumir as posi çõ es mais elevadas; pois a
sobreviv ê ncia do partido fora do parlamento, e incont á veis interesses
de natureza ideol ógica e parcialmente bem material, estreitamente li-
ga dos a o pa rt ido , e xige m q ue l í deres c a pa zes c heguem a posi çõ es-chave.
S oment e so b semel ha nt es c ondi çõ es p odem homens co m t empe ra ment o
e talento pol í ticos ser motivados a se sujeitarem a essa esp é cie de
sele çã o pela competi çã o.
As coisas s ã o completamente diferentes se, sob o r ótulo de “ go-
verno mon á rquico ” , a indica çã o a posi çõ es-chave for conseq üê ncia de
autopromo çã o de burocratas ou devida a uma acidental amizade in-
flue nt e (da cort e), e se um pa rla ment o impo t ent e p rec isa r se submet er

aà tal
parforma çã ot de
te de ques õesgoverno.
imp ort aTamb é m mpe
nt es, dese nesse caso
nha as ambi
m na ntes
t ura lmeçõ pessoais,
e um papel
e dire çõ es de formas subalternas muito diferentes, e dire çõ es como as
que t ê m sido seguida s n a Ale ma nh a desde 1 890. Al é m de rep rese nt a r
os interesses econ ô micos locais de leitores influentes, a concess ã o de
ca rgos suba ltern os t orn a -se o princ ip a l int eresse do s pa rt ido s. O c hoque
entre o Chanceler B ü low e o Partido do Centro (em 1906) n ã o foi
motivado por diferen ças pol í ticas, mas essencialmente pela tentativa
do chanceler de ab-rogar o direito de concess ões de cargos do partido
que a inda hoj e ca ra cteriza m a compo si çã o do c orpo de pesso a l de a lgun s
ór g ã os centrais do Reich. O Partido do Centro n ã o é o ú nico nesse
par tic ula r. Os pa rt ido s c onserva do res ma nt ê m seu monop ó lio de cargo
na Pr ú ssia e procuram atemorizar o monarca com o espectro de r e-
volu çã o” sempre que esses benef í cios se encontrem em perigo. Os par- “

56
WEBER

tidos que se encontram em exclus ã o permanente esfor çam-se por se


compensarem cuidando das administra çõ es municipais e dos fundos
de se guro da sa ú de p ú bl ica , e adota r n o par lam ento, como c ostum a va m
fazer os sociais-democratas, pol í ticas hostis ao governo ou alienadas
do Est a do . Isso é muito natural, pois todo partido luta pelo poder, isto
é , por uma participa çã o na administra çã o e, conseq ü entemente, no
preenchimento de cargos. No que diz respeito a este ú ltimo fen ômeno,
nossas classes governantes n ã o s ã o superadas por nenhuma outra,
mas n ã o podem ser responsabilizadas por isso, pois a procura e a
concess ã o de cargos ocorrem nos bastidores e implicam posi çõ es su-
bordinadas que n ã o s ã o respons á veis pela composi çã o do pessoal do
fun ciona lismo p ú blic o. Nossa bur ocra cia , po r su a vez, benefic ia -se desse
esta do de c oisa s, dispo ndo de sua pa rt e de fo rm a pe sso a l e se m co nt rol e,
que se ja m pa ga s a os part ido s do mina nt es a s nec es s á rias “ gratifica çõ es ”
em forma de insignificantes benef í cios. Isso é o resultado natural do
fato de que o partido (ou a coaliza çã o partid á ria) que realmente se
constitui em maioria pr ó ou contra o governo n ã o é chamado oficial-
mente para preencher o cargo pol í tico m á ximo.
P or outr o l a do , ess e sis tema pe rmit e que buro cra ta s q ua li fi ca do s,
que todavia n ã o possuem vest í gios de talento pol í tico, conservem-se
em importantes postos pol í ticos at é que alguma intriga os substitua
em favor de personagens semelhantes. Assim nossa institui çã o parti-
d á ria de distribui çã o de cargos é id ê ntica em grau à de outros pa í ses,
ma s a no ssa se apre se nt a de so nes ta mente di sf a r ça da, e de uma ma ne ir a
que sempre favorece certas perspectivas sect á rias aceit á veis na corte.
Contudo, e ssa par cialida de e st á lo ng e de ser o pio r a spec t o do a ssun t o.
S eria poli t ica ment e tol er á ve l se a institui çã o par t id á ria de di stribui çã o
de cargos partid á rios propiciasse pelo menos uma oportunidade para
recrut a r, dess es part ido s da cort e, l í deres c a pa zes de dirigi r a na çã o. Con-
t udo, n ã o é o q ue a cont ece. Isso s ó seria poss í ve l num sis tema parlamenta r,
ou pelo menos num sistema que torne os cargos-chave dispon í veis à dis-
tribui çã o parlamentar de cargos. Aqui encontramos um obst á culo pura-
mente formal que a atual Constitui çã o do Reich lhe op õe.
7. A s F r aquezas C onsti tuci onai s do R ei chstag e o
Problema da Lideran ça
O artigo 9 da Constitui çã o do Reich (de 1871) declara que “ nin-
gu é m po de se r simulta nea mente membro do B undesra t e do Rei chst a g ” .
Conseq ü entemente, enquanto em outros sistemas parlamentares con-
sidera-se absolutamente necess á rio que os l í deres do governo sejam
membros do parlamento, isso é legalmente imposs í vel na Alemanha.
O c ha nce le r impe ria l, um ministro rep rese nt a ndo se u E sta do no B un-
desrat, ou um secret á rio imperial de Estado, podem ser membros de
um par lamento de um E sta do em pa rtic ular — por exemplo, da Dieta
prussiana — e podem ali influenciar ou mesmo liderar seu partido,

57
OS ECONOMISTAS

mas n ã o podem sent a r-se no Re ichst a g. E ssa cl á usula foi simpl esmente
uma imita çã o mec â nica da exclus ã o dos pares brit â nicos da C â mara
dos Comuns (e provavelmente trasladada da Constitui çã o prussiana).
Conseq ü entemente, foi um ato de irreflex ã o, e essa cl á usula precisa
agora ser eliminada. Por si mesmo, isso n ã o ser á equivalente à intro-
du çã o do si stema parla menta r o u do pat ro na to p a rlamenta r, ma s c riar á
a oportunidade para que um parlamentar politicamente competente
sej a a o mesmo t empo membro impo rt a nt e do go verno i mperia l. É d if í cil
compree nder po r q ue um dep ut a do que se mo stra a dequa do par a uma
posi çã o-chave deva ser for çado a abandonar sua base pol í tica antes
que possa assumir seu posto.
Se Bennigsen tivesse ingressado no governo na é poca (1877/78)
e tivesse deixado o Reichstag, Bismarck teria transformado um im-
portante l í der pol í tico num funcion á rio administrativo sem apoio par-
lamentar, e o partido (nacional-liberal) teria sido dominado por sua
ala esquerda ou teria se desintegrado — e este talvez fosse o objetivo
de Bismarck. Hoje o deputado (nacional-liberal) Schiffer perdeu sua
influ ê ncia no partido unindo-se ao governo e entregando-o, assim, à
ala do big business. 1 Dessa maneira, os partidos s ã o “ decapitados ” , e,
em vez de pol í ticos eficientes, o governo ganha funcion á rios sem trei-
na mento pro fi ssi ona l numa ca rrei ra buro cr á tic a e se m a infl u ê ncia de
um parlamentar. Isso resulta no mais baixo modo conceb í vel de “ su-
bornar ” os partidos. O parlamento se transforma num degrau para a
carreira de talentosos aspirantes a secret á rios de Estado: essa id é ia
tipicamente burocr á tica é defendida por cr í ticos em pol í tica e direito,
que assim consideram o problema do parlamentarismo alem ã o solu-
cionado de uma maneira especificamente “ alem ã ” ! Esses mesmos c í r -
culo s zo mba m da pr á tic a da pro cura de c a rgo s, que a el es se a pre se nt a
como um fen ômeno exc lusivam ente “ europe u ocident a l ” e “ democr á tico ” .
Nunca compreender ã o que os l í deres parlamentares buscam cargos
n ã o motivados por sal á rio ou posi çã o, mas para alcan çar o poder e a
responsabilidade que dele dimana, e que esses l í deres s ó podem ter
bom ê xito se tiverem um s é quito parlamentar; tamb é m nunca com-
preender ã o esses c í rculos que h á uma diferen ça entre fazer do parla-
mento uma se çã o de recrutamento para l í deres ou trampolim para
carreiristas burocr á ticos. Durante d é cadas os mesmos grupos ridicu-
larizara m o s p a rlamentos ale m ã es e seus pa rt idos p or verem n o gove rn o
algo como um inimigo natural. Mas em nada os perturba o fato de
qu e, devi do a restr i çõ es — dirigi da s e xclusivam ent e cont ra o Reic hst a g
— do artigo 9, o Bundesrat e o Reichstag s ã o tratados por lei como
for ças hostis que s ó podem estabelecer rela çõ es entre si atrav é s de
declara çõ es da tribuna do segundo e da mesa de confer ê ncias do pri-

1 E ugen S chi ffer (1 860-1954), deput a do na ciona l-libera l, foi nomea do sub secret á rio de Esta do
no tesouro Imperial em 1917.

58
WEBER

meiro. Deve ser deixada à considera çã o conscienciosa de um pol í tico,


do go vern o q ue o empo ssa , e de seus leitores, a q uest ã o da possibi lida de
de o mencionado pol í tico combinar com seu cargo um mandato parla-
menta r, uma li de ra n ça pa rti d á ria ou, de qua lquer fo rma , a par tic ip a çã o
num partido e a quest ã o de as instru çõ es segundo as quais ele vota
no Bundesrat serem compat í veis com suas pr óprias convic çõ es, pelas
quai s e le se apr ese nta no Re ichs ta g. !1 Ohomem que é respons á vel pela
instru çã o do voto “ que preside ” (isto é , o prussiano) no Bundesrat —
o chanceler imperial e ministro do Exterior prussiano — dever á ser
liv re par a ex erc er sua influ ê ncia como membro do pa rt ido no Rei chst a g,
a l é m de presidir o Bundesrat sob a supervis ã o dos representantes de
outros Estados. Atualmente, sem d ú vida, é considerado “ nobre ” u m
pol í tico conservar-se afastado dos partidos. O conde Posadowsky acre-
ditava mesmo que tinha uma obriga çã o para com seu cargo anterior
(secret á rio do Interior de 1897 a 1907) de permanecer dissociado de
qualquer partido, isto é , de fazer mau uso do Reichstag no papel de
um o ra do r a ca d ê mico ineficaz. Por que ineficaz? Devido ao modo como
o parlamento conduz seus assuntos.
Os discursos dos deputados hoje j á n ã o s ã o manifesta çõ es de
ca r á ter pe sso a l, a inda meno s tent a tiva s p a ra converter o s a dve rs á rios.
S ã o declara çõ es oficiais do partido dirigidas ao pa í s de forma p ú blica
e ma nife sta . Depo is que o s repre se nt a nt es de to do s o s pa rt ido s t enha m
falado uma ou duas vezes a seu turno, o debate no Reichstag é encer-
ra do. O s discurso s s ã o submetidos de a nt em ã o à reuni ã o do s d ele ga dos
do partido ou, ent ã o, ali se procura um consenso quanto à s partes
principais. Nessa reuni ã o ta mb é m se de termina quem fala r á pelo par-
tido. Os partidos t ê m peritos para todos os assuntos, tal como a bu-
rocracia. É verdade que, al é m de suas abelhas oper á rias, eles t ê m
zang ões que s ã o ú teis como fogos-de-artif í cio ret óricos, quando usados
com caut ela. E m gra nde p a rte, e ntr eta nto, o s que reali za m o tra balho
tamb é m t ê m a influ ê ncia. Seu trabalho é realizado por tr á s dos bas-
tidores nas reuni ões dos comit ê s e dos delegados do partido, e espe-
cialmente nos escrit órios particulares dos delegados mais diligentes.
Por exemplo, a posi çã o de Eugen Richter era inexpugn á ve l, a inda que
ele fosse mu it o impopula r em seu pr ó prio pa rt ido (progressist a ), devido

1 É engra çado que, logo no (ultraconservador) K r euzzei tung , um escritor an ônimo deduza a
incompatibilidade das duas posi çõ es da considera çã o jur í dica formal de que os deputados
parla menta res deve m vota r de a cordo c om sua s co nvic ções, mas os membro s do Bundesra t
de acordo com instru çõ es. O K r euzzei tung n ã o se incomoda com o fato de que numerosos
Landr ä te, que desde os tempos de Puttkamer t ê m sido respons á veis pela “ representa çã o
da linha pol í tica do governo ” , tenham assento na Dieta prussiana; nem é o K r euzzei tung
perturbado por secret á rios imperiais de Estado que, como delegados na Dieta prussiana,
como seria de se esperar, criticassem as instru çõ es recebidas, como membros do Bundesrat,
do governo respons á vel perante esta Dieta. Se um l í der partid á rio, que é tamb é m um
membro do B undesrat , n ã o pode conseguir instru çõ es que co rresponda m à s sua s co nvic çõ es ,
deve renunciar. De fato, isso deveria ser feito por todo pol í tico. Voltaremos a isso mais
abaixo. (N. de rodap é de Weber.)

59
OS ECONOMISTAS

a sua gra nde c a pac idade de tra balho e a se u insup er á vel c onh eciment o
sobre o or çamento. Ele foi certamente o ú ltimo delegado a ser capaz
de verificar o destino que o Minist é ri o da G ue rra dava a ca da ce nta vo
gasto a t é n a ma is remo ta ca nt ina . Ape sa r de a borrec ido s, func ion á rios
do Minist é rio da G uerra em di ve rsa s o ca si ões expressaram a mim sua
admira çã o com refer ê ncia à capacidade de entendimento que Richter
demonstrava ter desses assuntos. Presentemente, a eminente posi çã o
de Matthias Erzberger, do Partido do Centro, reside em sua atividade
fren é tica, sem a qual a influ ê ncia desse pol í tico, cujo talento pol í tico
é bastante limitado, mal seria compreens í vel. 1
Contudo, a atividade n ã o qualifica um homem para a lideran ça
no governo nem em um partido — duas coisas que de modo algum
s ã o t ã o diferentes quanto o sup õem nossos rom â nticos cr í ticos. Que eu
saiba, todos os partidos alem ã es tiveram no passado homens com ta-
le nt o de li dera n ça pol í t ica : Von B ennigsen; V on Miq uel, Von S t a uffen-
berg, V ölk e outros, entre os nacionais-liberais; Von Mallinckrodt e
Windhorst , do P a rt ido do Cent ro; V on B eth usy- H uc, V on Minnigero de,
Von Manteuffel, entre os conservadores; Von Saucken-Tarputschen,
entre os progressistas; e Von Vollmar, entre os sociais-democratas.
Todos eles faleceram ou se retiraram do parlamento, como Bennigsen
n a d é cada de 1880, porque n ã o podiam ingressar no governo como
l í deres partid á rios. Se delegados tornam-se de fato ministros, como
Von Miquel e M ö ller, t ê m que abandonar seus compromissos pol í ticos
anteriores a fim de se ajustarem aos minist é rios puramente burocr á-
ticos. (Na ocasi ã o, M öller disse encontrar-se na desagrad á vel situa çã o
de ter tornado p ú blicas suas opini õ es particulares em seus antigos
discursos quando ainda era deputado!) Contudo, restam muito l í deres
na tos na Ale ma nha . Mas onde se enc ont ra m? A resp osta a go ra é f á cil.
P a ra cita r um ex empl o, refi ro-me a um h omem cuj a s o pi ni ões e at itudes
pol í ticas em rela çã o a reformas sociais s ã o radicalmente opostas às
minhas. Por acaso acredita algu é m que o atual diretor da Krupp, an-
tàerio
s frorm ent eori
nt eiras um ent
funci
a ison á riovap de
, e sta ú blic o, ele
stina do amen t o a tstra
a dmini ivo na pol ior
r a ma í tica
emprelativa
res a
industria l da Ale ma nha , e m vez de diri gir um minist é rio-chave ou um
podero so par tido p a rla menta r? 2 P or qu e ent ã o preenche ele a primeira
fu n çã o e, presumivelmente, sob as atuais condi çõ es, recusaria a se-
gunda ? P a ra ga nha r ma is dinhei ro ? Supo nho, em ve z di sso , uma r a z ã o

1 Mat thias E rzbe rger ( 1875-1921) foi o ma is p ree mine nte memb ro d o P a rtido do Centro
dura nte o pe r í odo da guerra. L í der da a la esquerda demo cr á tica , desempenhou pa pel -cha ve
no processo de parlamentariza çã o e nos primeiros tempos do governo de p ós-guerra; foi
assassinado por fan á ticos nacionalistas em 1921. Cf. Klaus Epstein, M atthias E r zber ger
and the D i lemma of G er man Democracy (Princeton: Princeton University Press, 1959).
2 Ap ós 1918, Alfred Hugenberg realmente tornou-se ambas as coisas: de sua base propagan-
d í stica no jornalismo e na ind ú stria cinematogr á fica ele prosseguiu para chefiar o Deutsch-
Na tiona le Pa rt ei direitista em 1 928 e ingr esso u no primei ro gabinet e de Hit ler c omo ministr o
da Economia em 1933, na esperan ça completamente err ônea de poder manipular Hitler.

60
WEBER

mais simples: ou seja, em vista da impot ê ncia do parlamento e do


res ul ta nt e ca r á ter burocr á tico dos postos ministeriais, um homem pos-
suido r de fo rt e i mpuls o par a o p oder e das qua li da des que a compa nha m
es se i mpuls o teria que ser to lo par a se aventur a r nessa teia mise r á vel
de m ú tuo ressentimento e caminhar no terreno escorregadio das in-
trigas pol í ticas, enquanto seus talentos e energias podem ser canali-
zados para atividades como a das ind ú strias gigantes, a dos cart é is,
a dos bancos e a do com é rcio atacadista. Pessoas desse porte preferem
fi na nc iar jo rna is p a nge rma nis ta s e f ra nque á -los a o pa la vrea do do s cr í -
ticos. Nosso assim dito governo mon á rquico nada mais é do que esse
processo de sele çã o nega t iva , ou, em term os ma is si mple s, de svia t odo s
os gra ndes ta le nt os para o se rvi ço do s interesses ca pita li st a s. P ois a pe -
na s no terr eno do c a pi t a lismo priva do e xiste hoj e a lgo qu e se a pro xima
de uma se le çã o de homens co m t a le nt os de lide ra n ça . Po r qu ê ? Porque
a G emü tlichkeit (comodidade, conforto) — neste caso, a ret órica dos
cr í ticos — chega ao fim, logo que interesses econ ômicos envolvendo
milh ões e bilh ões de marcos e dezenas e centenas de milhares de tra-
balhadores s ã o a fe ta do s. 1 E por que n ã o existe tal sele çã o no governo?
Porque um dos piores legados de Bismarck foi o fato de que ele con-
siderava necess á rio a seu regime cesarista buscar abrigo atr á s da le-
gitimidade do monarca. Seus sucessores, que n ã o eram c é sares mas
a ustero s buroc ra ta s, imita ra m-no fi el mente. A na çã o politica men t e sem
instru çã o aceitou a ret órica de Bismarck em seu valor aparente, e os
cr í ticos forneceram o aplauso costumeiro. Isso é l ógico, pois eles exa-
minam os futuros funcion á rios e consideram-se funcion á rios e pais de
funcion á rios. Seu ressentimento dirige-se contra todos que buscam e
ganham o poder sem se legitimarem por um diploma. Desde que Bis-
ma rc k tinha desabitua do a na çã o de se preo cupa r a respe ito de a ssunt os
p ú blicos e especialmente de pol í tica exterior, ela se deu ao luxo de se
dei xa r convence r a a cei t a r como sendo “ governo mon á rquico ” o que na
rea li da de e ra o do m í nio irrestrito da burocracia. Sob tal sistema, qua-

lidades de lideran ça Nossa


pol í tic a nunc a a parec era m e frutif ica ra m em ne-
nhum lugar do mundo. administra çã o p ú blica realmente possui
homens c om qu a li da des de lide ra n ça ; c erta mente n ã o seria n osso desejo
n eg á -lo aqui. Contudo, as conven çõ es e as peculiaridades internas da
hierarquia burocr á tica impedem rigorosamente as oportunidades de
carreira precisamente desses talentos, e a natureza total do funciona-
lismo moderno é excessivamente desfavor á vel ao desenvolvimento da
autonomia pol í tica (que precisa ser distinguida da liberdade interior
do indiv í duo). A ess ê ncia da pol í tica — como teremos que salientar
freq ü entemente — é luta , a li cia mento de a dep tos e a li a do s vo lunt á rios;

1 I sso é uma refe r ê nci a a um pro v é rbio muito usad o: “ Em assuntos monet á rios G emütlichkeit
encontra seus limites ” ; diz-se que foi formulado pela primeira vez pelo industrial e l í der
liberal David Nansemann na Dieta prussiana em 8 de junho de 1847.

61
OS ECONOMISTAS

so b o sistema de c a rreira do Obrigkeitsstaat , é imposs í ve l o tr ei na mento


nessa dif í cil arte. É bem conhecido que a escola de Bismarck era a
Die ta Fede ra l d e Fran kf urt. 1 No ex é rci t o, o t reina ment o é dir igido co m
vistas ao combate, e isso pode produzir l í de res mil ita re s. E nt re ta nt o,
para o pol í tico moderno a escola de lutas apropriada é o parlamento
e a s disp ut a s do s par tido s pe ra nt e o p ú blico geral; nem a concorr ê ncia
pela promo çã o burocr á tica nem qualquer outra coisa se constituir á
num substituto adequado. Evidentemente, isso s ó é verdadeiro com
rela çã o a um parlamento cujo l í der pode assumir o governo.
P or que ra z ã o homens c om q ua lida des de lide ra n ça dev eri a m ser
atra í dos por um partido que na melhor das hip óteses pode alterar
alguns itens do or çamento de acordo com os interesses dos eleitores e
proporcionar alguns benef í cios secund á rios ou protegidos dos figur ões
desse partido? Que oportunidades pode o partido oferecer a l í deres em
potencial? A tend ê ncia em rela çã o à pol í tica simplesmente negativa
de nosso parlamento reflete-se hoje nos menores detalhes da agenda
e das conven çõ es do Reichstag e dos partidos. Conhe ço muitos casos
nos qua is j ovens t a le nt os po l í ticos foram simplesmente supressos pela
velha guarda de dignit á rios locais e figur ões partid á rios cobertos de
m é ritos. Isso acontece em todas as associa çõ es e é muito na tura l num
par la mento imp otent e res tr ito à pol í tic a neg a tiva, po is numa ins titui çã o
dessa esp é cie predominam exclusivamente os instintos de associa çã o.
Um partido orientado no sentido de participar do poder e da respon-
sabilidade governamentais jamais poderia se dar a esse luxo; todos os
membros saberiam que a sobreviv ê ncia do partido e de todos os inte-
resses qu e os prendem a o pa rt ido depe ndem da subo rdina çã o do pa rt ido
a l í deres capazes. Em nenhum lugar do mundo, nem mesmo na In-
glat erra , po de o c orpo par lam enta r const itu í do de muita s c a be ça s c omo
tal governar e determinar pol í ticas. A grande massa de deputados
funciona somente como um s é quito do l í der ou dos poucos l í deres que
form a m o go verno, e e ssa ma ssa segue seus l í dere s cegam ente e nq ua nt o

eles tiverem ê xito. É assim que deve ser. A a o pol tica é sempre
determina da pe lo “ princ í pio de n ú meros pequenos çã” , isto í é , a ma no bra-
bilidade pol í tica superior de pequenos grupos l í deres. Em Estados de
massas, esse elemento cesarista é inextirp á vel.
Contudo, esse elemento sozinho garante que a responsabilidade
para com o p ú blico, que se dissiparia dentro de uma assembl é ia cons-
titu í da de muitas cabe ças a governar, est á a cargo de pessoas clara-
mente identific á veis. Iss o é especialmente ver í dico de uma democracia
propriamente dita. Funcion á rios eleitos diretamente pelo povo revela-
ram-se em duas situa çõ es: primeiramente, nos cant ões locais, onde os

1 Bismarc k f oi mi ni str o pruss iano d a mal o rgani zada Die ta F ederal e m Frankf urt, n a qual a
Áustria ainda desempenhava papel dominante, de 1851 a 1859. Cf. Oskar Meyer, Bismarcks
K ampft mit Ö sterrei ch am Bundestag zu F r ankfurt (1851-1859) (B erl in : K oebl er, 1927).

62
WEBER

membros de uma popula çã o est á vel conhecem-se uns aos outros pes-
soalmente, e as elei çõ es podem ser determinadas pela reputa çã o de
uma pessoa na comunidade. O segundo caso, que é v á lido somente
com v á ria s re se rva s, é a el ei çã o a o ma is a lto c a rgo p ol í tic o num E sta do
de massas. Rara me nte é o ho mem ma is p ro emi nente, ma s geralment e
um l í der pol í t ico a pro pria do , que a t inge o poder supremo dessa m a neira .
Contudo, para a massa de funcion á rios de escal ã o intermedi á rio, es-
pecialmente os que necessitam de um treinamento especializado, a
elei çã o popular, via de regra, fracassa completamente, e por raz ões
compreens í vei s. No s E st a do s U nidos , o s ju í zes indica dos pe lo president e
elevam-se acima daqueles eleitos pelo povo, em termos de capacidade
e integridade. O homem que os indicava era, afinal de contas, respon-
s á vel p el a qu a lif ica çã o do funcion á rio e o pa rt ido go verna nt e era o qu e
so fria, se gra ndes a buso s oc orresse m m a is ta rde. No s E sta do s U nido s
o sufr á gio imparcial tem resultado freq ü entemente na elei çã o de um
homem de confian ça para o cargo de prefeito, com ampla liberdade
pa ra cri a r sua pr ó pri a a dmini stra çã o munic ip a l. O si stema par la menta r
ingl ê s igualmente tende para o desenvolvimento de tais configura çõ es
cesar ista s. O primei ro-minist ro gan ha uma cresc ent e posi çã o do mina nt e
em rela çã o ao parlamento, do qual ele saiu.
Exa ta mente c omo qualquer o utra orga niza çã o huma na , a sel e çã o
de l í deres pol í ticos atrav é s dos partidos tem suas falhas, mas com
respeito a estas os cr í ticos alem ã es discorreram ad nauseam durante
a s ú ltimas d é cadas. Claro est á que o sistema parlamentar tamb ém
esp era do i ndiv í duo que este se subo rdine a l í deres que freq ü entemente
s ó po dem s er a ceit os co mo um “ ma l meno r ” . Ma s o Obrigkeitsstaat n ã o
lhe d á nenhuma escolha e lhe imp õe burocratas em vez de l í deres, o
que c om ce rt ez a fa z uma pe quena dif ere n ça . Ainda ma is, a pl utoc ra cia
floresce na Alemanha tanto quanto em outros pa í ses, ainda que de
forma um pouco diferente. Os cr í ticos pintam os grandes poderes ca-
pi t a lista s na s c ores ma is so mbria s, e note- se, n ã o obsta nt e, se m n enhum

conh
mesmos eciment o. Hque
poderes, á a conhecem
lgumas s óseus
lidaspr
raz õesóprios
por tr interesses
á s do f a tbem
o de que estes
melhor
do que aqueles te óricos de gabinete, colocam-se com unanimidade do
lado do burocr á tico Obrigkeitsstaat e contra a democracia e o parla-
mentarismo; isso é especialmente ver í dico com rela çã o à in d ú stria pe-
sada, o mais impiedoso desses poderes capitalistas, mas essas raz ões
permanecem fora do conhecimento dos filisteus liter á rios. À sua ma-
nei ra moraliza nt e, es tes a ssi na lam o fa to de que o s l í dere s par tid á rios
s ã o motivados pela vontade de poder e seus seguidores por interesse
eg oí sta na busca de cargos — como se os aspirantes burocr á ticos n ã o
tivessem igualmente seu pensamento polarizado pelo bin ômio carrei-
r a /sa l á rio , ma s fo ssem inspira dos p el os m ot ivo s m a is desi nt eressad os.
O papel da demagogia na luta pelo poder demonstrado a todos pela
atual (janeiro 1918) campanha jornal í sticaé a respeito de quem de-

63
OS ECONOMISTAS

veria ser o ministro do Exterior alem ã o, campanha essa estimulada


por cert os c í rculos oficiais. 1 Isso p rov a que um gove rno a le ga da mente
m on á rquico facilita o mais pernicioso abuso da imprensa na busca
de c a rgo s e de riv a li da de s int erdep a rta menta is . E sse esta do de c ois a s
n ã o poderia ter sido pior, em qualquer sistema parlamentar que
tivesse partidos poderosos.
Os motivos do procedimento pessoal no seio do partido n ã o sã o
meramente mais idealistas do que o s ã o os costumeiros interesses fi-
listeus dos co mpet idores bur ocr á ticos em promo çõ es e benef í cios. Aqui
como l á , interesses pessoais est ã o geralmente em jogo (mesmo que se
tra te da muito elogi a da “ so lida rieda de c orpo ra t iva ” do E sta do do futuro
propalado pelos cr í ticos). É de suma import â ncia, contudo, que essas
fragilidades humanas universais pelo menos n ã o impe çam a sele çã o
de l í deres capazes. Mas num partido isso s ó é poss í vel se os l í deres
souberem que, em caso de vit ória, eles ter ã o os poderes e as respon-
sabilidades do governo. S ó en t ã o se torna poss í vel essa sele çã o, mas
mesmo assim ela n ã o pode ser assegurada. Pois s ó um parlamento
a t ivo , e n ã o um pa rla mento o nde a pe na s se p ro nunci a m a renga s, p ode
proporcionar o terreno para o crescimento e a ascens ã o seletiva de
l í deres genu í nos, e n ã o meros talentos demag ógicos. Um parlamento
ativo, entretanto, é um parlamento que supervisiona a administra çã o
participando continuamente do trabalho desta. Isso n ã o era poss í vel
na Alemanha antes da guerra, mas dever á s ê -lo depois, ou teremos a
velha misèr e. Este é o nosso pr óximo t ópico.

1 Ric ha rd vo n Kuhlmann (1 873-1948), di pl omat a de c arreira, no meado s ecret á rio de Estado


em agosto de 1917, tinha irritado o ex é rcito (Ludendorff) atrav é s de uma posi çã o relati-
vamente conciliat ória em algumas quest ões processuais nas negocia çõ es de paz de Best-
Litovsk em fins de dezembro; isso resultou numa campanha da imprensa e em outras
press ões diri gidas pelo G ra nde Qua rtel- G eneral visando à exonera çã o desse homem — um
objetivo que Ludendorff s ó conseguiu atingir em julho de 1918, quando Kuhlmann foi
obrigado a renunci a r, tendo sido sub stitu í do por um almirante, Paul von Hintze. Cf. Erich
Matthias e Rudolf Morsey (eds.) D er I nter fr akti onelle Ausschuss 1917/ 18 (2 vols.) Quellen
zur G eschichte des Parlamentari smus und der poli ti schen Partei en, primeira s é rie, vols.
I-II; D ü sseldorf: Droste, 1959, I, 77 ss.

64
III

O DIREITO A I NQUÉ RITO


P ARLAMENTAR E O
R ECRUTAMENTO DE L Í DERES
P OL Í TICOS

T oda a es trut ura do parla mento a le m ã o se orie nt a par a a pol í tica


negativa: cr í tica e queixa, a delibera çã o, a modifica çã o e a aprova çã o
de projetos de lei. Todos os usos e costumes parlamentares ajustam-se
a es sa condi çã o. D evido a o desint eresse p ú blic o, in feli zmen t e n ã o temos,
a par dos bons tratados jur í dicos sobre a regulamenta çã o do modus
procedendi dos neg ócios, ne nhum a a n á lise pol í tic a da s ve rda dei ra s o pe -
r a çõ es do Rei chst a g, c omo e xi stem pa ra par lam entos e stra ngei ro s. E n-
tretanto, se se tentar discutir com um parlamentar qualquer forma
desej á vel de orga niza çã o interna do parla mento e da ro tina de tra balho ,
imediatamente se é confrontado por numerosos usos e costumes que
existem
conceitosapenas para odignit
de fatigados conforto, as vaidades,
á rios as exig e impedem
parlamentares ê ncias e os pre-
qualquer
efic á cia pol í tica do parlamento. Desse modo, at é a simples tarefa de
supervis ã o administrativa cont í nua sobre a burocracia é prejudicada.
S er á su p é rflua essa supervis ã o?
No sso funci ona lismo t em sido brilha nt e onde qu er que tenh a t ido
de provar seu senso de dever, sua imparcialidade e dom í nio de pro-
blemas de organiza çã o à vista de tarefas oficiais e claramente formu-
ladas, de natureza especializada. Este escritor, que prov é m de uma
fa m í lia do funcionalismo p ú blico, seria o ú ltimo a permitir que essa
tradi çã o fosse ma cula da . Ma s o que a qui nos i nt ere ssa s ã o rea li za çõ es
pol í ticas n ã o-burocr á ticas, e os pr ó prios fatos proclamam ao mundo o
veredito que n ã o pode ser negado por quem quer seja amante da ver-
dade: que a burocracia fracassou completamente sempre que devia

65
OS ECONOMISTAS

lidar com problemas pol í ticos. Isso n ã o é a cid ent a l; a nt es se ria esp a n-
toso se capacidades intrinsecamente t ã o estranhas umas à s outras
eme rgisse m dentr o da mesma estrut ura pol í t ica . Como j á a ssi na lamos ,
n ã o é do dever do funcion á rio p ú blico entrar na arena pol í tic a comba -
t endo p or sua s co nvic çõ es pr óprias, e nesse sentido engajar-se na luta
pol í t ica . Ao cont r á rio, seu orgulh o est á em c onservar a imp a rc ialida de
pol í tica, e, conseq ü entemente, em passar por cima de suas pr óprias
inclina çõ es e opini ões, a fim de aderir consciente e judiciosamente a
um regulamento geral assim como a uma diretriz especial, mesmo e
particularmente se estas n ã o correspondem a suas pr óprias atitudes
pol í ticas. Mas os chefes da burocracia precisam continuamente solu-
cionar problemas pol í ticos — problemas de M achtpoli ti k assim como
de K ultur poli tik . A pri mei ra ta ref a do par lam ento é su pe rvisio na r esse s
chefes da burocracia. Entretanto, n ã o apenas as tarefas designadas
a os a lto s esc a l ões da buro cra cia ma s ta mb é m c a da de ta lhe t é cnico dos
n í vei s a dminist ra t ivo s inferio res po dem t orn a r-se po litic a ment e impo r-
tantes e sua solu çã o pode depender de crit é rios pol í ticos. Os pol í ticos
deve m ser a for ça de e quil í brio cont ra a do mina çã o burocr á tica. A isso,
entretanto, resistem os interesses de poder dos setores dirigentes de
uma mera burocracia, que querem ter m á xima isen çã o de supervis ã o
e estabelecer um monop ólio em cargos de gabinete.
1. Supervis ão E fi caz e a B ase de Poder da B ur ocr aci a
A supervis ã o efic a z sobre o fun ciona lismo dep ende de ce rt a s pr é -
condi çõ es. Independentemente de ter suas ra í zes na divis ã o adminis-
t ra t iva de tr a ba lho , o poder de todo s o s buroc ra t a s reside em do is tipo s
de co nh eciment o: prim eiro , co nh eciment o t é cnic o no s ent ido ma is a mplo
do termo, adquirido mediante treinamento especializado. Quer esse
tipo de conhecimento seja tamb é m representado no parlamento, quer
os deputados possam, em car á ter particular, consultar especialistas
em determinado caso, é incidental e é um assunto pessoal. Para su-
pervisionar
ra menta daa) deadministra
p eri tos p eraçãntoe numa
ã o hcomiss
á o que ãsubstitua a acarea
o parla menta r, na preçãseo n(ju-
ça
de funcion á rios convocados dos respectivos departamentos. Essa aca-
r ea çã o garante, por si mesma, o controle e a imparcialidade do in-
terrogat ó rio. Hoje o Reichstag simplesmente carece do direito de
proceder dessa forma: a Constitui çã o o condena a uma ignor â ncia
pr ó pria de amador.
E nt reta nt o, o c onh eciment o e spe cia lizad o p or si s ó n ã o explica o
poder da burocracia. Al é m disso, o burocrata tem informa çõ es oficiais
que s ó s ã o consegui da s median te can a is a dministra tivo s e que lhe fo r-
necem os dados nos quais ele pode fundamentar suas a çõ es. S ó quem
consegue ter acesso a esses dados, independentemente da boa vontade
dos funcion á rios, pode supervisionar eficazmente a administra o. De
acordo com as circunst â ncias, os meios apropriados s ã o a inspe çãçã o de

66
WEBER

documentos, inqu é rito no local e, em casos extremos, a acarea çã o do


funcion á rio sob juramento perante uma comiss ã o parlamentar. Tam-
b é m esse direito é negado ao Reichstag, ao qual se negou deliberada-
mente a possibilidade da obten çã o das informa çõ es necess á rias. Con-
seq ü entemente, al é m do diletantismo, o Reichstag foi sentenciado à
ignor â ncia — es t á claro que n ã o por raz õ es t é cnicas, mas exclusiva-
ment e p orq ue o supremo inst rum ent o do p oder da buroc ra cia é a tra ns -
forma çã o das informa çõ es oficiais em material sigiloso atrav é s do con-
ceito not ório do “ servi ço secreto ” . Em ú ltima an á lise, isso nada mais
é do que um meio de proteger a administra çã o contra a supervis ã o.
Enquanto os n í veis inferiores da hierarquia burocr á tica s ã o supervi-
sio na dos e c rit ica dos pe los esc a l ões mais altos, todos os controles, quer
t é cnicos, quer pol í ticos, sobre esses escal ões que se ocupam com a po-
l í tica fracassaram completamente. A maneira pela qual os chefes ad-
ministra tivo s resp ondem a pe rgunt a s e c r í tic a s do Re ichst a g é freq ü en -
temente vergonhosa para um povo consciente de si mesmo; isso s ó se
t orn ou poss í vel porq ue o pa rla ment o n ã o pode a prove ita r, pelo “ direito
de inqu é rito ” (E nqueter echt), os dados e pontos de vista t é cnicos, cujo
conh ecimen t o por si s ó permit iria firm e coopera çã o com a a dministra çã o
e influ ê ncia sobre a mesma. Primeiramente, isso deve ser mudado. É
evidente que n ã o se espera que os comit ê s do Reichstag mergulhem
em amplos estudos e publiquem grossos volumes — isso de qualquer
maneira n ã o acontecer á , pois o Reichstag est á muito ocupado com ou-
tr os a ssunt os. O di rei to p a rla menta r de inqu é rit o deve ria ser um meio
a uxil ia r e, de resto, um chic ot e, c uj a mera ex ist ê ncia coagiria os chefes
a dministra t iv os a resp onsa bi li za rem- se p or seus a tos de ta l fo rma que
o uso do dit o chicote n ã o se fizesse n ecess á rio. A s m elho res r ea liza çõ es
do parlamento brit â nico devem-se ao uso judicioso desse direito. A
integridade do funcionalismo brit â nico e o alto n í vel de sofistica çã o
pol í tica do p ú blico s ã o grandemente baseados nele; tem sido freq ü en -
temente sa li enta do que o me lho r indic a do r da ma tur idade po l í t ica est á

na
pelamaneira pelabrit
imprensa qual os tr e seus
â nica â mites das comiss
leitores. ões s ã oreflete-se
Essa maturidade acompanhados
n ã o em votos de n ã o-confian ça, nem em acusa çõ es de ministros e se-
melhantes espet á culos do desorganizado parlamentarismo franco-ita-
liano, mas no fato de que a na çã o se mant é m informada da conduta
de seus neg ó cios pela burocracia, e a supervisiona continuamente. S ó
as comiss ões de um parlamento poderoso podem ser o ve í culo para o
exerc í cio dessa salutar influ ê ncia pedag ógica. Em ú ltima an á lise, a
buroc ra cia s ó pode lucrar com esse desenvolvimento. O relacionamento
do p ú blico com a burocracia raramente mostrou tanta falta de com-
preens ã o como na Alemanha, pelo menos em compara çã o com pa í ses
que possuem tradi çõ es parlamentares. Isso n ã o espanta. Em nosso
pa í s, os fun cio n á rios t ê m q ue l ida r co m pro bl ema s que em pa rt e a lguma
se tornam vis í ve is p a ra n ós. As realiza çõ es desses funcion á rios nunca

67
OS ECONOMISTAS

podem ser entendidas e apreciadas. As est é reis queixas sobre “S ã o


Burocr á cio” — em vez da cr í tica positiva — n ã o podem ser retiradas
enqua nto pe rsi stir a a tua l c ondi çã o da domina çã o burocr á tica descon-
trolada. Mais ainda, o poder do funcionalismo n ã o enfraquece onde
ocupa o lugar que lhe é pr óprio. Em assuntos ministeriais, o subse-
cret á rio permanente ( Geheimrat ) que se especializou em determinado
campo leva a vantagem sobre seu ministro, ainda que esse ministro
seja funcion á rio de carreira; isso é verdade tanto com refer ê ncia à
Inglaterra como à Alemanha. Isso deve ser assim mesmo, pois hoje
em dia o treinamento especializado é condi çã o pr é via indispens á vel
para o conhecimento dos meios t é cnicos necess á rios à conquista de
objetivos pol í ticos. Mas o estabelecimento de objetivos pol í ticos n ão é
um assunto t é cnico, e, conseq ü entemente, a pol í tica n ã o é da al ça da
do funcion á rio p ú blico profissional.

2. O Parlamento como Campo de Pr ovas par a L í der es Polí ti cos


A altera çã o a parenteme nt e b a sta nt e mo de sta que se te ria intro -
duzido, entre n ó s, por meio de um controle cont í nuo e mediante a
colabora çã o da comiss ã o parlamentar auxiliada pela administra çã o e
em
é a co nfr ont
condi çã oo com elab, e,
pr é via á sica la épar
m disso
a toda, gas ra
a sntrefo
ida rma
pe los direito
po sterioderes
i nqque
u oé rito,
b-
jetivam uma a mpl ia çã o da a çã o p ositiva do p a rla ment o como ó r g ã o de
go ve rno. E ssa m uda n ça é tamb é m a pre missa indis pe ns á ve l par a fa ze r
do par lam ento um ce nt ro de rec rut a mento de l í deres pol í t ico s. A fa la çã o
de moda de nossos cr í ticos gosta de desacreditar parlamentos taxan-
do -os de a rena s pa ra “ meros p ronun cia men t os de disc ur sos ” . Da m esma
maneira, se bem que com muito mais esp í rito, Carlyle havia trovejado
contra o parlamento brit â nico tr ê s gera çõ es antes, e contudo o parla-
mento tornou-se o fator decisivo do poder brit â nico mundial. Hoje os
l í deres pol í t ico s (e milit a res) n ã o ma is b ra ndem a es pada , ma s re correm
a onda s so no ra s e ra bis cos de tint a ba sta nt e pro sa icos: p a la vra s e sc rita s

evontade
faladas.f Oé rrea
que eimporta
a experi êéncia quesensata
a intelig ê ncia e essas
determinem o conhecimento,
palavras, a
quer sejam elas ordens ou discursos de campanha pol í tica, notas di-
plom á ticas ou pronunciamentos oficiais no parlamento. Entretanto, a
demagogia ignorante ou a impot ê nc ia to rna da ro tina — ou ambas —,
triunfam num parlamento que s ó faz criticar, sem conseguir acesso
aos fatos, e cujos l í deres nunca s ã o colocados numa situa çã o em que
sejam for çados a provar seu brio. É parte daquela lament á vel hist ór ia
de imaturidade pol í tica, que uma é poca tota lme nt e a pol í tica produziu
em nosso pa í s, ou seja, que o filisteu alem ã o contempla institui çõ es
pol í ticas tais como o parlamento ingl ê s com os olhos cegos por seu
pr óprio ambiente; cr ê ele assim que pode pretensiosamente olhar com
desprezo para tais institui çõ es do alto de sua pr ópria âimpot ê ncia po-
l í tica, deixando de reconhecer que o parlamento brit nico tornou-se,

68
WEBER

afinal de contas, o campo de provas para aqueles l í deres pol í ticos que
consegui ra m co loca r um qua rt o da huma nida de so b o do m í nio de uma
diminuta mas politicamente prudente minoria. Atente-se a um impor-
tante pormenor: uma parte, de certa forma digna de considera çã o, se
rende u vo lunta ria mente a es se do m í nio. Onde est ã o os resu lta dos c om-
pa r á veis do extremamente elogiado Obrigkeitsstaat alem ã o? A prepa-
r a çã o pol í tica para tais realiza çõ es n ã o se consegue, evidentemente,
media nt e disc ursos o st ent oso s e dec ora t ivo s pe ra nt e o pa rla ment o, ma s
somente pelo trabalho constante e ativo numa carreira parlamentar.
Nenhum dos importantes l í deres ingleses alcan çou uma alta posi çã o
sem ter adquirido experi ê ncia nas comiss ões, e freq ü entemente em
v á rios ór g ã os gove rna menta is. Some nt e um tr ei na mento int ensi vo , pe lo
qual é n ecess á rio q ue o po l í t ico p a sse na s co miss ões de um parla mento
en é rgic o e a tivo , tra nsfo rma ta l assembl é ia n um c a mpo de re crut a mento
n ã o par a mero s dema go go s, ma s par a pol í t icos de pa rt icipa çã o posit iva .
At é hoje o parlamento brit â nico tem sido inigual á vel a este respeito
(ningu é m pode honestamente neg á -lo). Somente tal coopera çã o entre
funcion á rios p ú blicos e pol í ticos pode garantir a supervis ã o cont í n ua
da a dmi nis tra çã o, e com ela a educa çã o pol í tic a de l í deres e liderados.
P ubl icidade da a dmini stra çã o, impo st a pe la vigil â nc ia pa rlam enta r ef i-
caz, deve ser exigida como pr é -condi çã o para qualquer trabalho par-
lamentar e educa çã o pol í tica fecundos. N ós tamb é m come çamos a tri-
lhar por essa estrada.

3. A I mpor tância das Comiss ões P arlamentar es na G uer r a e na P az

As exig ê ncias do per í odo de guerra, que deram fim a muitos


slogans conservadores, srcinaram a Comiss ã o Principal ( H auptaus-
schuss ) do Reichstag; 1 suas opera çõ es ainda deixam muito a desejar,
mas pelo menos é um pa sso na di re çã o de um parlamento eficaz. Sua
insufici ê nci a , de um po nt o de vi st a pol í t ico , d eve- se à forma perniciosa
e desorganizada pela qual se deu publicidade a problemas muito de-
licados; as discuss ões ocorreram entre um c í rculo muito grande de
deputados, e por isso eles n ã o podem deixar de ser tratados de forma
emocional. O fato de centenas de pessoas terem tido conhecimento de
a ssunt os mili t a res e dipl om á t ico s s ecret os ( vej a -se, por exem plo , o ca so
da guerra submarina) foi simplesmente uma perigosa tolice; como re-
sultado, essa informa çã o foi passada adiante secretamente ou acabou
chegando à imprensa, incorretamente ou em forma sensacionalista. As
delibera çõ es at ua is de pol í tica exterior e militar devem estar restritas

1 A Ha up ta uss chuss foi f ormada em o utub ro de 1916. Era realme nte a Co mi ss ã o Or çamen-
t á ria, com o poder de se reunir mesmo quando o Reichstag n ã o estava em sess ã o, com o
prop ósito espec í fico de debater quest ões estrangeiras e assuntos de guerra; compreendia
representantes de todos os partidos numa base proporcional. Cf. Matthias e Morsey (eds.),
op. cit., I, XIV ss.

69
OS ECONOMISTAS

a um pequeno c í rculo de rep resenta nt es acredita do s do s pa rt ido s. V isto


qu e a po l í tica é sempre conduzida por um pequeno n ú mero de pe ssoa s,
os partidos tamb é m devem ser organizados para as quest ões pol í ticas
vitais n ã o à maneira de associa çõ es, mas à maneira de grupos de
sequazes. Seus porta-vozes devem ser “ l í deres ” , isto é , devem ter ili-
mita da a utori da de para tomar dec is ões importantes (ou dever ã o poder
conseguir essa autoridade, no espa ço de algumas horas, de comiss ões
que possam ser reunidas a qualquer momento). Nomeada para um
objetivo ú nico , a C omiss ã o do s Set e do Reic hst a g fo i um a pa rent e pa sso
nessa dire çã o. 1 Levou-se em considera çã o a vaidade dos chefes da ad-
ministra çã o, q ua lifi ca nd o-se de “ provis ó r io” esse ór g ã o e p rocura nd o-se
n ã o tr a ta r o s parla menta res c omo re pre se nt a nt es de s eu p a rt ido s, numa
tentativa que teria destru í do a significa çã o pol í tica da comiss ã o, mas
que felizmente n ã o vingou. Havia boas raz ões t é cnicas para reunir
esses sete representantes partid á rios com representantes do governo,
ma s, em vez do s sete plenipo t enci á rios do Bundesrat , t eria sido melho r
recorrer a apenas tr ê s ou quatro delegados dos maiores Estados n ã o-
prussia nos e , de resto, convoc a r os qua t ro o u ci nco ma is a ltos mili t a res
ou seus delegados. De qualquer maneira, s ó um pequeno grupo de
homens
pol í tic a sque
e m ssitua
ã o obrigados a sermuito
çõ es pol í ticas discretos podem
tensas. preparar decis
Em condi çõ es de per í odõeso
de guerra talvez fosse apropriado estabelecer uma comiss ã o mista,
unindo os representantes do governo com os de todos os grandes par-
tidos. Em tempos de paz, um acordo que reunisse representantes par-
t id á rio s numa ba se semel ha nt e poderia r eve la r-se igua lment e ú til p a ra
a delibera çã o de quest ões pol í ticas delicadas, particularmente de po-
l í tica externa. De resto, contudo, esse sistema tem utilidade limitada,
n ã o é nem um substituto para a genu í na reforma parlamentar, nem
um meio par a a cria çã o de pol í tic a s go ve rna menta is c oere nt es . Se essa s
pol í ticas devem ser apoiadas por diversos partidos, o acordo poderia
ser estabelecido em reuni ões interpartid á ria s do s l í deres do governo e
do s rep re se nt a ntes da ma ioria parla menta r. U ma comis s ã o na qua l se
r e ú nam socialistas independentes e conservadores n ã o poder á absolu-
tamente cumprir essa fun çã o de formular uma decis ã o pol í tica. Isso
seria um absurdo pol í tico. As estruturas partid á rias acima mencionadas
nada podem produzir para uma orienta çã o coerente da pol í tica.
Em contraposi çã o, para a supervis ã o da burocracia durante a

1 Ap ós a queda do chanceler Bethmann-Hollweg (ver abaixo, n. 29), uma comiss ã o consultiva


de sete parlamentares foi imposta pelo apreensivo Reichstag ao novo chanceler, Georg
Michaelis, para com ele deliberar a respeito da resposta alem ã à nota papal de paz de
agosto de 1917. Era esta a primeira vez que o parlamento participava explicitamente da
formula çã o da pol í tica externa, constituindo-se assim a ocasi ã o num importante passo em
dire çã o à parlamentariza çã o. Cf. Epstein, Erzberger, op. cit., 216 ss.; tamb é m Matthias e
Morsey (eds.), op. cit. I, 119-213, onde a pr é -hist ória e o curso das negocia çõ es s ã o ampla-
mente documentados em protocolos de sess ões de comiss ã o.

70
WEBER

é poca de paz, comiss ões mistas especializadas, seguindo as pegadas


da H auptausschuss , poderiam revelar-se apropriadas, desde que o p ú-
blico seja mantido informado e desde que se criem medidas eficazes,
a s qua is p ossa m prese rva r a coer ê nci a dian te do a ssunto es pe cializa do
tra ta do nas v á ria s subco miss ões; esta s se compo ria m de rep resenta nt es
do Bundesrat e dos minist é rios. A poss í vel efic á cia pol í tica de tal dis-
posi çã o depe nd er á , é cl a ro, c omple t a ment e do fut uro papel do Reic hst a g
e da es tr utu ra de se us par t ido s. Se a s c oisas perma nec ere m no e sta do
a t ua l, se o obst á culo mec â nico do A rt igo 9 da Const itui çã o for ma nt ido ,
e se o parlamento continuar a se limitar à “ pol í tica negativa ” — e a
burocracia tem por objetivo claro essa perpetua çã o —, a í en t ã o os par-
tidos provavelmente conceder ã o mandatos insignificantes a seus re-
pre se nt a nt es na s c omiss ões; e, de qua lquer fo rm a , n ã o lhes conceder ã o
mandato plenipotenci á rio de l í der; mais ainda, cada partido seguir á
seu c a minh o busc a ndo va nt a gens esp ecia is par a seus pro t egi do s. Todo
esse dispositivo se tornaria ent ã o um estorvo in ú til e um desperd í cio
de tempo para administra çã o, e n ã o um meio de treinamento pol í tico
e de coopera çã o prof í cua. O resultado positivo seria nesse caso, na
mel ho r da s hip ót es es , a lgo seme lha nt e a o p a tr ona to pro porc iona l pra -
ticado em certos cant ões su íços: os partidos individuais dividem paci-
fi ca mente sua infl u ê nci a so bre a a dministra çã o, e i sso a bra nda o conflito
entre eles. (Contudo, é extrema ment e duvido so que mesmo e sse resul-
tado relativamente negativo possa ser obtido num Estado de massa
que se ve ja emp enha do em gra ndes ta ref a s po l í ticas. Que eu saiba, os
su íços t ê m opini ões divergent es co m respeito a os efeitos po sit ivo s dessa
pr á tica, e estas precisam certamente ser avaliadas de maneira muito
diferente num grande Estado.) Incertas como sejam essas perspectivas
id í licas, elas satisfar ã o à quele s que ma is p rezam a el imi na çã o do con-
flito partid á rio; e a burocracia esperaria dessa pr á tica a perpetua çã o
de seu poder pela continuidade do sistema de pequenas gratifica çõ es .
Se, al é m disso, os cargos burocr á ticos fossem divididos propor-
cionalmente
f á cil mo t iva entre osrec
r o a pa v imentá rioso de
partidos
“ ca raaceitos
s fe li zenas po
corte, seria
r t oda paratte ” . Contu
é maisdo ,
tal redistribui çã o pac í fica de benef í cios na administra çã o interna da
P r ú ssia é muito improv á vel, devido ao monop ólio do Partido Conser-
vador nos postos de conselheiros do Land e de presidente do governo
e de presidente supremo. Al é m disso, em termos puramente pol í ticos,
pouco mais adviria da í do que benef í cios pa ra buro cra t a s do s pa rt ido s,
em lugar de poder pol í tico e responsabilidade para l í dere s par tid á rios.
Este n ã o seria certamente um meio apropriado para elevar o n í vel
pol í tic o do p a rla mento. Fic a ria pe ndente a quest ã o de se sa ber se dessa
maneira a supervis ã o p ú blica da administra çã o e a necess á ria matu-
ridade p ú blica aumentariam ou n ã o.
De qua lquer ma nei ra , me smo os ma is s impl es a ssunt os a dminis-
trativos n ã o podem ser discutidos adequadamente numa comiss ã o as-

71
OS ECONOMISTAS

sim burocratizada, a menos que se garanta o direito dessa comiss ão


de conseguir, a qualquer tempo, as informa çõ es a dmini stra tivas e t é c-
nicas necess á rias. Os interesses de status da burocracia, ou, mais de-
claradamente, suas vaidades e seu desejo de perpetuar a aus ê ncia de
controles, s ã o os ú nicos obst á culos no caminho dessa exig ê ncia — a
qual, al é m do mais, nem mesmo sup õe a introdu çã o de governo par-
lamentar, mas simplesmente uma das pr é -condi çõ es t é cnicas de seu
funcionamento.
A ú nica obje çã o essencialmente relevante que os especialistas
em direito constitucional geralmente op õem ao direito de inqu é rito é
que o Reichstag é completamente aut ônomo com refer ê ncia a seu re-
gimen t o int erno, e conseq ü entemente a resp ectiva ma ioria poderi a uni-
lat era lme nt e re pe li r uma inve stiga çã o ou influenci á -la de molde a im-
possibilitar a descoberta de fatos desagrad á veis. Sem d ú vida, a auto-
nomia do regimento interno (Art. 27 da Constitui çã o do Reich), trans-
posta (indiretamente) sem reparos da teoria inglesa, n ã o é adequada
àqueledireito. O direito de inq u é rit o de ve se r ga ra nt ido por d ispo sitivo s
le ga is; pa rt icula rm ente, deve ser est a bel ecido i nco ndici ona lment e c omo
um direito da minoria — digamos, de forma que cem delegados sejam
suficientes para exigir um inqu é rito, e que tal minoria deva tamb ém ,
é claro, ter o direito de ser representada em comiss ões, para fazer
perguntas e p ôr por escrito opini ões discordantes. Em primeiro lugar,
isso é necess á rio a fim de proporcionar um poder compensador de pu-
bl icidade c ont ra qua lquer ma ioria pa rla menta r a busi va e se us no t órios
perigos, um contrapeso que n ã o existe em outros Estados e at é agora
tem sido eficiente na Inglaterra apenas em virtude da cortesia m ú t ua
dos partidos. Contudo, exigem-se ainda outras garantias. Enquanto
houver co mpet i çã o entre a s ind ú st ria s, e spe cia lment e ent re a s de pa í ses
diferentes, ser á impe ra t ivo pro t ege r a dequa da ment e seus s egredo s tec -
n ol ógicos contra publicidade tendenciosa. A mesma prote çã o deve ser
estendida à tecnologia militar e tamb é m a quest ões pendentes de po-
l í tica exterior, as quais, antes de chegarem a uma decis ã o Édefinitiva,
devem ser discutidas apenas perante um pequeno grupo. um erro
de alguns cr í ticos, particularmente russos, afirmar que assuntos de
pol í tica exterior — como a conclus ã o de uma paz entre na çõ es em
guerra — podem ser conduzidos com ê xi to, qua ndo uma na çã o excede
a outra em manifesta çõ es p ú blicas de “ princ í pios ” gerais; dever-se-ia
em vez disso recorrer a delibera çõ es sensatas em busca do melhor
acordo poss í vel entre os interesses nacionais inevitavelmente antag ô-
nicos que se ocultam por tr á s desses alegados “ princ í pios ” . 1 Os fatos
atuais puseram a mencionada opini ã o na berlinda. Certamente, os

1 Ent re de zemb ro de 1917 e mar ço de 1918, Trotsky negociou com representantes alem ã es
diplom á ticos e militares em Brest-Litovsk. Os Catorze Pontos de Wilson datam de janeiro
de 1918.

72
WEBER

mei os pe los qua is a s fa lta s de no sso passa do dev em se r repar a da s s ã o


bem diferentes dessas id é ias amador í sticas dos cr í ticos de pol í tica. A
opini ã o largamente aceita em c í rculos democr á ticos de que a publi ci-
dade se ja uma pa na c é ia para a diplomacia — e sempre trabalha para
a paz — é , nessa forma generalizada, uma no çã o falsa. Ela tem certa
conveni ê ncia para decis ões finais que antes j á foram deliberadas, mas
enquanto existirem Estados rivais, n ã o tem valor para o processo de
delibera çã o; o mesmo é v á lido, naturalmente, para ind ú strias rivais.
E m co nt ra posi çã o à s quest ões de a dministra çã o interna , a pub li cidade
pode prej udic a r gra vemente, n esse e st á gio , a objetivida de e a a us ê ncia
de preconceitos com rela çã o à s delibera çõ es em curso e pode p ôr em
franco perigo ou impedir a paz. As experi ê nc ia s tidas na a tua l g ue rra
demonstraram-no clarissimamente. Contudo, discutiremos pol í tica ex-
terna numa se çã o à parte. (Cf. se ç. IV, abaixo.)

4. C r i ses I nter nas e F alta de L i der an ça Parlamentar

Neste ponto gostar í amos de acrescentar meramente algumas ob-


serva çõ es qua nto à ma nei ra pe la q ua l ho je e m dia a falta de l id eran ça
parlamentar se revela em crises internas. Os acontecimentos do mo-
vimento (de paz) de Erzberger em julho (1917) e das duas crises sub-
seq ü entes fo ra m inst rut ivo s no toc a nt e a iss o. 1 Todas as tr ê s ocasi ões
mostraram claramente as conseq üê ncias de uma situa çã o na qual: 1)
governo e parlamento defrontam-se como ór g ã os divididos, sendo o ú l-
timo uma “ mera ” representa çã o dos governados e, portanto, orientado
para “ a pol í tica negativa ” ; 2) os partidos s ã o ó r g ã os do tipo de associ-
a çõ es, visto que os l í deres pol í ticos n ã o podem encontrar sua voca çã o
no parlamento e, conseq ü entemente, n ã o podem encontrar lugar nos

1 A 6 de j ulho de 1 917, Erzbe rger, em se nsaci ona l di sc urso , re ve lou na Ha uptaussc huss o
fracasso da campanha submarina sem limites e, com o apoio de uma nova coaliza çã o
parlamentar (Weber geralmente se referia a ela como os “ partidos de maioria ” ), exigiu
uma resolu çã o de paz do Reichstag e r á pida reforma parlamentar. Com a ajuda das au-
toridades militares, que faziam seu pr óprio jogo, esses lances resultaram na queda do
chanceler Bethmann-Hollweg alguns dias mais tarde. Contudo, o parlamento n ã o teve
influ ê ncias na sele çã o do novo chanceler, o administrador da Alimenta çã o prussiano Dr.
Georg Michaelis; mesmo com rela çã o à pr ópria f órmula amb í gua do parlamento de “ pa z
se m a quisi ções territoriais vio le nta s ” , este s ó obteve sua ades ã o relutante com a ressalva
“ como eu a interpreto ” . Conseq ü entemente, o Reichstag n ã o tinha confian ça no no vo c ha n-
celer e uma segunda crise irrompeu em agosto, por ocasi ã o da nota papal de paz, que
resultou na cria çã o da C omiss ã o do s Sete par a supe rvisi onar a reda çã o da resposta alem ã.
Fina lmente, e m outubro, ap ós o go verno ter an unci a do sua inten çã o de suprimir o Partido
Socialista Independente, de esquerda, por causa de sua suposta (mas mal documentada)
instiga çã o de um motim naval, a comiss ã o conjunta dos partidos da maioria (a Interfrak-
tionelle Ausschuss) exigiu e conseguiu a exonera çã o de Michaelis. Nas negocia ções que se
seguiram, o Reichstag insistiu, com ê xito, que o idoso e irresoluto sucessor, o primei-
ro-ministro b á varo, conde Hertling, um membro conservador do Partido do Centro e
ele pr ó prio antigo delegado do Reichstag, chegasse a um acordo com este a respeito de
diretrizes pol í ticas e assuntos de pessoal antes de assumir o cargo em novembro. Para
um op ortuno sum á rio dessa s evol u çõ es “ parlamentarizantes ” em 1 917, ver E pstein, Ma tt -
hias Er zbe rge r, op. cit. , caps. VIII-IX.

73
OS ECONOMISTAS

partidos; 3) o Executivo est á nas m ã os de burocratas que n ã o sã o


l í dere s par tid á rios, n ã o est ã o em contato permanente com os partidos,
prejudicam as quest ões pendentes, mas, em vez disso, est ã o à ma rge m
dos partidos, ou, para usar de um modismo convencional, colocam-se
“ acima deles ” — e, conseq ü entemente, n ã o podem lider á -los. Quando
uma poderosa maioria parlamentar insistiu numa decis ã o positiva da
parte do governo, o sistema fracassou imediatamente. O governo, per-
pl ex o, teve que l a rga r a s r é dea s, po is n ã o tinh a a poio na s o rga niza çõ es
partid á rias. O Re ichsta g a pre se nta va um es ta do de to ta l ana rquia por-
que os (denominados) l í deres partid á rios nunca tinham tido posi çõ es
ex ecutiva s e ta mb é m na é poca n ã o era m co nside ra do s par a se to rna rem
fut uros c hefes de go verno. Os par t ido s se defro nt a va m co m um a t a refa
compl eta mente no va para a qua l ne m sua orga niz a çã o nem seu pesso a l
estavam à a ltura — a forma çã o de um gov erno a par tir de suas fi le ira s.
Evidentemente, revelaram-se totalmente incapazes de cumprir essa
tarefa, e realmente nem o tentaram, pois nenhum deles, da extrema
direita à extrema esquerda, possu í a um homem que fosse um l í der
reconhecido; o mesmo se dava com a burocracia.
Durante quarenta anos todos os partidos operavam na suposi çã o
de que o Reichstag tinha mera fun çã o de “ pol í tic a neg a tiva ” . A “ incli-
n a çã o à impot ê ncia ” à qual Bismarck os condenou apareceu de forma
chocante e manifesta (em julho de 1917). Nem mesmo participaram
da escolha de novos l í deres da na çã o, a vaidade da burocracia n ão
qu is sequer t ole ra r isso nesse mo ment o cr í tic o, a inda que a ma is si mple s
prud ê ncia o recomendasse. Ao inv é s de propor aos partidos a quest ão
ca pciosa de quem gosta ria m estes de a pre se nt a r co mo c a ndida t os, o u,
ma is p ra tic a mente, c omo ava li a va m ele s o s v á rios poss í ve is c a ndida tos,
a burocracia n ã o se afastou de sua opini ã o, ditada pelo prest í gio, de
que a forma çã o do governo n ã o era da al çada do Reichstag. For ça s
estranhas ao parlamento (em particular, o General Ludendorff) inter-
vie ra m e i nst itu í ra m o novo go verno, o qu a l po r su a vez n ã o apresent ou

aumao Rei chst a g clara,


resposta uma de pro posta“ sim
def” inida
ou “co
n ãm
o ” um a exsitua
a essa ig ê ncia
çã categ
o. Como órica por
todos
recordam, o novo chanceler (Dr. Georg Michaelis) foi obrigado a fazer
diversas declara çõ es contradit ória s so bre o pormeno r m a is imp ort a nt e
(A Resolu çã o de Paz dos partidos da maioria), e teve de aceitar a
supervis ã o da Comiss ã o dos Sete numa negocia çã o de assuntos de po-
l í tica exterior (a resposta alem ã à nota papal sobre a paz, de agosto
de 19 17) sim plesmen t e po rq ue ele n ã o tinha a confi a n ça do parla mento .
N ã o é preciso dizer que esse espet á culo desagrad á vel, que era inevi-
t á vel, empanou o prest í gio da Alemanha e refor çou a confortante con-
vicçã o dos cr í ticos de que o parlamentarismo era “ imposs í vel ” na Ale-
manha; n ã o para va m de fala r do “ fracasso ” do par lam ento . Na verda de,
o que falhou foi algo bem diferente: a tentativa de a burocracia ma-
nipular o parlamento, o pr óprio sistema que durante d é cadas tinha

74
WEBER

estado a funcionar, com o aplauso dos cr í ticos para impedir o parla-


mento de f a ze r q ua isquer c ont ribui çõ es pol í ticas positivas, tudo no in-
teresse da independ ê ncia da burocracia. A situa çã o teria sido comple-
tamente diferente em qualquer outra forma do governo na qual a res-
ponsabilidade repousasse solidamente, ou, pelo menos, significativa-
mente, nos ombros dos l í deres partid á rios; isso teria oferecido uma
oport unida de de o s t a le nt os po l í tic os a juda rem a da r fo rma a os de stinos
do pa í s a part ir do parla mento . Ent ã o, os partidos n ã o poderia m t er-se
pe rmitido uma orga niza çã o pequeno- burguesa na form a de a sso cia çã o,
como a que ora predomina no Reichstag. Eles teriam sido compelidos
a se sub ordinarem a l í deres em vez de a diligent es funcio n á rios p ú blicos,
que pre do mina va m espe cia lme nt e no P a rt ido do Centro, que c ostum a -
va m perde r a cora ge m n o mo mento e m q ue de viam mo str a r capa cidade
de lideran ça. Em tais crises os l í dere s t eri a m sido obrigados a forma r
uma coaliz ã o, a qual teria proposto ao monarca um programa cons-
trutivo e os homens capazes de execut á -lo. Contudo, sob as referidas
circunst â ncias, nada foi poss í vel exceto uma pol í tic a ne gat iva.
O novo chanceler (Michaelis) escolhido de fora do parlamento
(em julho de 1917) viu-se a bra ços com uma situa çã o ca ótica que logo
resultou da situa çã o anterior. De fato, um grupo de parlamentares
muito capazes ascendeu a altos cargos governamentais, mas, devido
a o a rtigo 9 da Cons titui çã o, eles perderam influ ê nci a em seus pr óprios
partidos, que assim se viram ac é falos e se desorientaram. 1 O mesmo

ocorreu nas crises de agosto e outubro (1917). Novamente o governo


fra ca sso u por co mple t o p orq ue os home ns investido s da lide ra n ça a pe-
garam-se com persist ê ncia à opini ã o de que n ã o de ve ria m ma nt er c on-
ta to c ont í nu o com os l í deres do s pa rt ido s e ne m ent a bula r co nversa çõ es
prel imina res co m repre sent a nt es desse s pa rt ido s cuj o a poio dese ja va m
ou esperavam conseguir. S ó o fato de o novo chanceler indicado em
novembro (1917, Conde Hertling) ter entrado em contato com os par-
tidos da maioria antes de assumir o cargo e o fato ainda de que todos

os minist experimentados
mentares é rios puramentetornaram
pol í ticos
poss estavamí ve
agora nas m
l, afina os de ona
l, f a ze rãfunci parla-
ra
m á quina da pol í tica dom é stica com razo á vel desenvoltura, ainda que
o artigo 9, al í nea 2, continuasse a mostrar seus efeitos perniciosos. 2

A crise de janeiro (1918) provou, at é mesmo para a mais obscura das


mentes, que o parlamento n ã o é a srcem de nossas dificuldades in-

1 Em a go sto de 1917, d ois im portantes p arlamentares ing re ssaram no m in is t é rio de Micha elis.
Paul von Krause, delegado nacional na Dieta prussiana, foi nomeado secret á rio imperial
da Justi ça, e Peter Spahn, l í der do Partido do Centro do Reichstag, tornou-se ministro
prus siano da J usti ça. Em outubro, o delegado nacional-liberal, Eugen Schiffer, foi nomeado
subsecret á rio de Estado do Tesouro Imperial.
2 No go ve rno Hertl in g, o s p arlamentares o bti ve ram pe la pri me ir a ve z p osi ções de cria çã o d e
diretrizes pol í ticas. O l í der do Partido Progressista do Reichstag, Friedrich von Dayer,
recebeu a vice-chancelaria imperial, e o nacional-liberal de esquerda Robert Friedberg foi
empossado vice-primeiro ministro na Pr ú ssia.

75
OS ECONOMISTAS

t erna s; a nt es, essa s difi culda des o rigina m-se de dua s fo nt es: 1) o a ba n-
dono do p rin c í pio r í gido de B isma rck de que o s genera is deve m co ndu zir
a guerra de acordo com a l ógica militar, mas o chefe do governo deve
concluir a paz de acordo com considera çõ es pol í ticas (das quais as
considera çõ es estrat é gic a s c onst ituem a pe na s um fa tor) ; 2 ) a inda ma is
importante, o fato de que alguns cortes ã os subalternos julgaram ú t il
e compat í vel com um governo alegadamente “ m on á rquico ” fornecer à
imprensa del ibe ra çõ es de a lta pol í t ica , a fim de favorec er c ertos par t ido s
pol í ticos. 1
Nossas condi çõ es p odem esc la rec er a qu a lquer um qu e o go verno
exercido por funcion á rios de carreira n ã o é equivalente à a us ê ncia de
governo de partidos. Um Landrat tem que ser um conservador na
P r ú ssia , e desde 1878, qua ndo termin a ra m os o nze a nos ma is p rof í cuos
de tr a ba lho par lam enta r na Ale ma nha , no sso pse udo -par lam enta rismo
repousou no axioma cultivado por membros interessados de partidos
de que todo governo e seus representantes precisam ser “ conservado-
r es ” , com apenas algumas concess ões ao patronato da burguesia prus-
siana e do Partido do Centro. Isso e nada mais é que significa o “ su-
prapartidarismo ” da burocracia. Esse estado de coisas n ã o foi modifi-
cado pela li çã o que a guerra ensinou em todos os outros pa ses: que
todos os partidos participantes do governo tornam-se “ da na íçã o” . Os
interesses sect á rios da burocracia conservadora e de seus grupos de
interesse aliados dominam o governo. Defrontamo-nos agora com as
conseq üê ncias inevit á veis dessa hipocrisia, e continuaremos a enfren-
t á -las na é poca de paz. N ã o o parlamento sozinho mas todo o sistema
go ve rna menta l t er á de pagar por isso.

5. Pr ofi ssi onali smo Parlamentar e D i r ei tos Adqui r i dos


A pe rgun t a dec isi va so bre o f ut uro da ordem pol í tic a da Ale ma nha
precisa ser: como tornar o parlamento apto para governar? Qualquer
outra forma de se colocar a pergunta é simplesmente errada, e tudo
o mais é secund á rio.
Deve -se entender c la ra mente que a r ef orma par lam enta r n ã o de-
pende meramente dessas extens ões da jurisdi çã o parlamentar, apa-
rentemente banais, todavia praticamente importantes; tamb ém n ã o
depende da remo çã o do obst á culo mec â nico apresentado pelo Artigo 9,
assim como n ã o depende de certas mudan ças significativas nos pro-
cessos e atuais usos e costumes do Reichstag; a reforma parlamentar
depende principalmente do desenvolvimento de um corpo apropriado
de parlamentares profissionais.

1 A cris e de ja nei ro de 1918 teve sua ori gem em dis putas entre as li de ra n ças civil e militar
a respeito da conduta das negocia çõ es de paz de Brest-Litovsk com a R ú ssia. Cf. tamb é m
a nota 24 acima.

76
WEBER

O parlamentar profissional é um homem para quem o mandato


do Reic hst a g n ã o é uma ocupa çã o de m eio per í odo , ma s si m sua gra nde
voca çã o; por essa raz ã o, necessita de um escrit ório eficiente com o
pesso a l n ecess á rio e de acesso a informa çõ es. Podemos amar ou odiar
essa figura — ela é tecnicamente indispens á vel, e portanto j á existe.
Contudo, mesmo os mais prestigiosos profissionais s ã o (na Ale ma nh a ),
de certo modo, uma esp é cie subalterna, operando por tr á s dos basti-
do res, po r ca usa da posi çã o s ubo rdinada do parla mento e d a s li mita da s
oport unida des de c a rreira . O po l í t ico p rofi ssio na l po de viver mera ment e
de pol í tic a e s ua a z á fama ca ra cter í stica, ou pode viver para a pol í tica.
S ó no segundo caso é que pode se tornar um pol í tico de grande en-
vergadura. Claro est á que tanto mais facilmente ter á ê xito, quanto
mais independente for financeiramente, e, conseq ü entemente, “ dispo-
n í vel ” e sem v í nculo emprega t í cio, ma s que vi va de alguma renda. Da s
classes sujeitas a v í nculo empregat í cio, s ó os advogados s ã o “ dispon í -
veis ” e a dequa do s a se guir a ca rrei ra pol í tic a . U ma ex clusi va do mina çã o
de a dvo ga do s seria certa mente indese j á ve l, ma s é uma to la tend ê ncia
de nossos cr í ticos denegrir a utilidade do treinamento forense para a
lideran ça pol í tica. Numa é poca governada por juristas, o grande ad-
vogado é o ú nico que, em contraste com o funcion á rio p ú bli co treina do
juridicamente, foi ensinado a lutar por determinada causa e a repre-
sent á -la ef icie nt emente; g ost a r í amos que os pronunciamentos p ú blicos
de no sso go ve rno mo str a sse m em m a ior gra u a ha bi li da de do a dvo ga do
no melhor sentido da palavra. Entretanto, somente se o parlamento
puder o fere cer o port unida des p a ra a lide ra n ça pol í t ica , qu a lquer pe sso a
independente poder á desejar viver para a pol í tica, e n ã o apenas ad-
vogados talentosos e capazes. De outra maneira, somente funcion á rios
assalariados do partido e representantes de grupos de interesse que-
r er ã o esses cargos.
O ressentimento do funcion á rio t í pico de partido contra l í deres
pol í ticos genu í nos afeta poderosamente a atitude de alguns partidos
com rela çã o à int ro du çã o do go verno p a rla ment a r e, c onseq ü entemente,
o rec rut a ment o de l í dere s no par lam ento. E ssa t end ê ncia é , sem d ú vida,
muito compat í vel com os interesses da burocracia, que alimenta os
mesmos sentimentos, pois o delegado profissional é um espinho no
fla nco do s chefe s da buroc ra cia , po r ser um supe rviso r inc ô modo e por
a sp ira r a um qui nh ã o no exerc í cio do p oder. Isso c erta ment e se agr a va
quando ele surge como um poss í vel rival visando posi çõ es superiores
no governo (uma amea ça n ã o apresentada por meros representantes
de interesses espec í ficos). Dessa maneira, podemos tamb é m explicar
a luta da buro cra cia para conse rva r o p a rlamento na ig no r â ncia, pois
somente parlamentares profissionais habilidosos, que passaram pela
escola de intenso trabalho de comiss ões, podem tornar-se l í deres res-
77
OS ECONOMISTAS

pons á veis, e n ã o me ro s dema go go s e dil eta nt es . O pa rla mento tem que


ser completamente reorganizado a fim de produzir tais l í deres e ga-
rantir sua efici ê ncia; à sua pr ó pria maneira, o parlamento brit â nico e
seus partidos, h á muito, t ê m tido ê xito neste particular. É verdade
que os usos e costumes brit â nicos n ã o podem ser simplesmente assi-
milados, mas a estrutura b á sica pode muito bem ser adaptada. N ão
no s intere ssam a qui o s de ta lhe s da s muda n ças necess á rias nos proce-
dimentos e usos e costumes do Reichstag; eles se dar ã o logo que os
pa rt idos forem for ça do s a bus ca r uma pol í t ica respo ns á vel e n ã o a pe na s
uma pol í tic a nega tiva . Co nt udo , de ve mo s c onside ra r a qui ma is um s é r io
impe dime nt o a o go ve rno p a rla menta r, que tem sua s ra í zes no sistema
partid á rio alem ã o, uma dificuldade que tem sido freq ü entemente dis-
cutida, mas geralmente de forma err ô nea.
N ã o h á d ú vida de que o governo parlamentar funciona mais de-
sembara ça da mente nu m sistema de do is p a rt ido s, ta l c omo o que exi stia
a t é h á bem pouco na Inglaterra (embora j á tenha havido sens í veis
exce çõ es). Entretanto, tal sistema n ã o é indispens á vel, e em todos os
pa í ses, inclusive na Inglaterra, formam-se press ões para a forma çã o
de c oa liz ões par tid á rias. Ma is i mpo rta nt e é outra difi culda de: o go verno
parlamentar é exeq üí vel somente quando os maiores partidos est ã o,
em princ í pi o, disp ostos a a ssumir a s respo nsa bil ida des do go verno. Na
Alemanha n ã o era esse o caso de maneira alguma. O maior partido,
a social-democracia, n ã o tinha a menor inten çã o de participar de ne-
nhum a coa li z ã o, so b nenh uma condi çã o, vi sto que a credi ta va em c erta s
teorias evolucionistas e se atinha a usos e costumes pseudo-revolucio-
n á rios herdados do per í odo da legisla çã o anti-socialista (1878-90) —
por exemplo, recusava-se a enviar membros a cerim ônias na corte.
Mesmo qu a ndo po deria t er a ssumido o go verno num d os menores p rin-
cip a do s, e m virt ude de uma ma ioria t empo r á ria , esse p a rt ido s e rec usou
a faz ê -lo. Contudo, muito mais importante do que essas ansiedades
t e ó ric a s t em sido a preo cupa çã o genu í na de que o partido pudesse ser
repudiado por seus pr óprios membros com consci ê ncia de classe se o
partido se unisse inevitavelmente a um governo limitado pelas condi-
çõ es de uma sociedade e de uma economia que permaneceriam capi-
ta li sta s po r ce rt o tempo . Essa situa çã o motivou os l í de res a ma nt erem
o partido, durante d é cadas, numa esp é cie de gueto pol í tico, a fim de
evitar qualquer contato contagioso com as atividades de um Estado
burgu ê s. Apesar de tudo, eles ainda agem assim. O sindicalismo —a
apol í tic a e an tipo l í tica é tic a her ó ica da frat erni da de — est á crescendo,
e os l í deres temem um rompimento da solidariedade de classe, que
mais tarde prejudicaria a efic á cia da classe oper á ria em suas lutas
econ ô micas. Considere-se que os l í deres n ã o podem ter a certeza de
que as atitudes tradicionais da burocracia n ã o tornar ã o a surgir no-
78
WEBER

vamente ap ós a guerra. Nosso futuro depender á grandemente da ati-


t ude do pa rt ido nos an os vindo uros: se sua determin a çã o pa ra a lca n ça r
o poder governamental prevalecer á , ou se a é tica apol í tica da frater-
nidade prolet á ria e do sindicalismo, os quais certamente proliferar ão
depois da guerra, sair á triunfante.
P or raz ões um tanto diferentes, o segundo maior partido alem ã o,
o de centro (cat ólico), tem sido at é agora c é tico quanto ao parlamen-
tarismo. Certa afinidade eletiva entre sua pr ópria mentalidade auto-
r it á ria e o Obrigkeitsstaat tem trabalhado a favor dos interesses da
buro cra cia. Ma s h á o ut ro f a t or de ma ior r el ev â nci a . V isto que o P a rt ido
de Centro é por natureza um partido de minoria, ele teme que, sob
um re gi me parla menta r, ta mb é m se ja uma mino ria pa rlam enta r e que
sua posi çã o de poder e habilidade de representar sua clientela sejam
colocados em perigo. Seu poder reside principalmente em meios extra-
parlamentares: o controle do clero sobre as atitudes pol í ticas dos fi é is.
Dentro do Reichstag, o sistema de pol í tica negativa proporcionou ao
par tido uma oport unida de p a ra servi r a os interes se s ma teria is de se us
membros. Depo is qu e o pa rt ido t inha a t ingido aq uele s obj etivo s cl eric a is
que pe lo meno s po dem ser pe rma nentemente m a nt ido s na Ale ma nha ,
ele se transformou, de um partido ideol ógico que era, mais e mais
num ve í culo de patronato para candidatos cat ólicos a cargos eletivos
e outros interesses de cat ólicos que t ê m se sentido v í timas de parcia-
li da de de sde a é poca do K ultur kampf (1871-188...) — se e ssa impress ã o
é a inda justif ica da , é aqui irrelevante. Hoje a for ça do partido repousa
amplamente nessa fun çã o. Seu controle sobre a balan ça de poder nos
parlamentos permitiu ao partido promover os interesses privados de
se us pro t eg ido s. A buro cra cia podia a quiesc er e a inda a ssi m sa lvar a s
apar ê nci a s, p ois e ste pa tr ona to e ra “ oficioso ” . Cont udo, o s int eressad os
do p a rt ido , interess a do s no pat ro na to, n ã o est ã o so men t e preo cupa dos
com que a parlamentariza çã o e a democratiza çã o reduzam suas opor-
tun idades em pe r í odos nos quais o Centro seria parte da minoria; eles
temem a lgo ma is. So b o at ua l si stema , o Centro tem co nsegui do e vi t a r
a qu el a respo nsa bil ida de que so bre e le t eria r eca í do se seu l í der fizesse
parte do governo, e essa responsabilidade nem sempre teria sido con-
venie nt e. A inda qu e ho je o P a rt ido do Cent ro disp onh a de c erto n ú mero
de talentos pol í ticos, h á indiv í duos t ã o incompetentes entre os funcio-
n á rios promovidos por ele que um partido que estivesse no governo e
fosse respons á vel di fic il ment e lhes c onfia ria a lgum ca rgo. T a is homens
podem fazer progressos somente se seus patrocinadores os promovem
irresponsavelmente. Se o partido fosse parte do governo, teria que
rec ruta r can di da tos ma is c a pazes .
O patronato oficioso é , po is, a pivisto
or fo rma de p a tr ona to parla men-
tar — a que favorece a mediocridade, que ningu é m pode ser

79
OS ECONOMISTAS

responsabilizado. É uma conseq üê ncia de nosso governo exercido por


uma burocracia conservadora, um governo cuja perpetua çã o se funda
nesse sistema de gratifica çõ es (Trinkgeldersystem ). N ã o é de admirar
que o Partido Conservador e a ala do big business do Partido Nacio-
nal-Liberal sintam-se à vontade sob essas condi çõ es. Pois, afinal de
contas, o patronato sob esse sistema n ã o se encontra nas m ã os de
pol í ticos e partidos, que poderiam ser responsabilizados pelo p ú blico;
ele funciona, sim, atrav é s de canais particulares que v ã o desde as
important í ssimas liga çõ es de gr ê mios estudantis à s formas mais
grosseiras ou mais requintadas de “ recomenda çõ es ” capitalistas. O
big business, que a t ola ignor â ncia de n ossos i de ó lo go s suspeita q ue
mantenha conluio com o reprov á vel parlamentarismo, sabe muito
be m po r qu e a p ó ia , se m restri çõ es, a cons erva çã o de uma buroc ra cia
n ã o-supervisionada.
Este é o e st a do de coisa s q ue é c a lorosa e fe rrenh a ment e defe ndido
com slogans de cr í ticos da pol í tica contra o car á ter corrupto e anti-
alem ã o da responsabilidade dos partidos pelo patronato de empregos.
Na verdade, n ã o é o “ es p í rito alem ã o ” , mas poderosos interesses ma-
t eria is po r benef í cios, unidos à s explora çõ es c a pi ta li sta s da s “ liga çõ es ” ,
que s ã o lan çados contra a cess ã o do patronato ao parlamento. N ão
pode haver d ú vida de que somente circunst â ncias pol í ticas absoluta-
mente coercivas poder ã o mudar alguma coisa de fato a esse respeito.
O governo parlamentar jamais chegar á por si mesmo a isso. Os mais
poderosos grupos trabalham contra isso, com certeza. De fato, todos
os partidos mencionados t ê m ide ólogos e pol í ticos sensatos, al é m da-
queles solicitadores subalternos de cargos e parlamentares de rotina,
mas os ú ltimos t ê m o predom í nio. Se o sistema de peti t patr onage
(pe qu eno pa t rona t o) fosse e st endido a out ros p a rt ido s, a t end ê nc ia gera l
seria simplesmente refor çada.
Finalmente os beneficiados pelo status quo, e aqueles ing ê nuos
cr í ticos que confiantemente declamam seus slogans, gostam de assi-
nalar triunfantemente
monstrar o cara impossibilidade
conclusivamente á ter federal da
da implanta
Alemanha, a fim deçãde-o de um
go ve rno p a rla menta r em ba se s pura mente fo rma is. Veja mos p rimei ra -
ment e o aspec t o l ega l desse p robl ema , dent ro do â mbito de nossa C ons-
titui çã o: donde poderemos compreender como essa afirma çã o é real-
ment e i ncr í vel . D e a cordo c om o a rt igo 18 da C onst itui çã o, o impera dor
nomeia e exonera o chanceler e todos os funcion á rios imperiais por
sua conta, sem interfer ê ncia do Bundesrat (o Conselho Federal, uma
representa çã o dos governos dos Estados individuais); somente a ele
devem obedi ê nci a , dentro do s limi t es da s le is fe dera is. Enq ua nt o e ste
for o caso, qualquer obje çã o constitucional por motivos “ federais ” é
destitu í da de fundamento. Segundo a Constitui çã o, ningu é m pode im-
pedir o imperador de entregar o governo do Reich ao l í derououdeaos
l í deres da maioria parlamentar e de envi á -los ao Bundesrat;

80
WEBER

exoner á -los, se uma n í tida maioria do Bundesrat votar contra eles; ou


simplesmente de consultar os partidos sobre a forma çã o do governo.
Nenhuma ma ioria no B undesra t tem o di rei to de de rruba r o c ha nce le r
ou de simplesmente insistir com ele para que forne ça uma explica çã o
de suas diretrizes pol í ticas, como a inconteste interpreta çã o do artigo
17, pa r á grafo 2, exige-lhe que fa ça pe ra nt e o Rei chst a g. Rec entemente
foi proposto que o chanceler seja respons á vel n ã o apenas perante o
Reichstag, mas tamb é m perante o Bundesrat; essa proposta merece
ser examinada quanto à sua exeq ü ibilidade pol í tica (e ser discutida
mais tarde), mas seria uma inova çã o constitucional n ã o menos que a
elimina çã o do artigo 9, par á grafo 2, o que propusemos acima. Preci-
samos mais tarde tratar do fato de que os verdadeiros problemas da
parlamentariza çã o do governo e da Constitui çã o do imp é rio em geral
t ê m suas ra í zes menos nos direit os const it ucio na is do s out ros membr os
da Federa çã o do que na rela çã o daqueles Estados com o hegem ônico
Estado prussiano. Contudo, antes que procedamos a isso, deveremos
examina r a ma nei ra pe la q ua l o a tua l si stema tem func iona do no ca mpo
da pol í tica externa. É aqui que o governo conduzido por meros buro-
cratas revela os limites inerentes de sua efic á cia, assim como o pre ço
terr í vel que tivemos de pagar para toler á -lo.

81
IV

BUROCRACIA E P OL Í TICA
E XTERNA
1. O F r acasso do G over no em não R efr ear D eclar ações
Prejudiciais do Monarca

Na Ale ma nha , a a dmi nis tra çã o i nterna é do mina da por um con-


ceito espec ia lment e bur ocr á tico de discri çã o adminis tra tiva, o “ servi ço
secreto ” (Dienstgeheimnis ). É esp a nt oso observa r a dife ren ça no do m í n io
da pol í tic a exte rna : a li , uma s é rie dos mais variados atos foi empreen-
dida com dram á t ica publi cida de — e, ainda mais, uma publicidade de
ca r á ter singul a r.
Durante mais de uma d é cada, do telegrama de Kr ü ger à crise
de Marrocos, 1 tivemos que conviver com o fato de que declara çõ es pri-
va d í ssimas do monarca sobre assuntos de pol í tica externa foram tor-
nadas p ú blicas por diligentes funcion á rios da corte ou por servi ços de
n ot í cias, com a toler â ncia ou mesmo com a participa çã o do governo.
Trata-se de acontecimentos que foram da mais capital import â nc ia na
formula çã o de nossa pol í tica mundial e especialmente no surgimento
da coaliz ã o mundial contra n ós. Esclare çamos que o que aqui nos in-

1 Nocom e ço de janeiro de 1896, Guilherme II enviou um telegrama ao presidente do Trans-


vaal, Paul Kr ü ger, congratulando-se com ele por ter recha çado o a ta que de J a mes on, o
qua l tinha sido a poia do p or Cec il Rhodes. O impera dor agia sob a reco menda çã o do secret á r io
de Esta do , bar ã o Marchall von Bieberstein, que esperava assim impedi-lo de praticar uma
interven çã o imprude nte. A ma nobra era pa rte de uma tenta tiva a le m ã de iso lar a Inglaterra
diplomaticamente, mas na verdade aumentou o isolamento da Alemanha. — Durante a
primeira crise do Ma rr ocos de 1905/6, o governo a lem ã o tent ou se op or a os pl a nos co lonia is
franceses no Marrocos. Guilherme II visitou Tangier, mas a subseq ü ente confer ê ncia in-
tern a cional em A lgec ira s terminou em gra ve derrota d ipl om á tic a para a Ale manha . Durante
a segunda crise do Marrocos, em 1911, a canhoneira alem ã Panther foi enviada para
Agadir, mas ao final a Alemanha perdera outro round diplom á tico.

83
OS ECONOMISTAS

teressa n ã o é saber se as declara çõ es do monarca eram corretas e


just ifi ca da s, ma s sim, a pe na s, o compo rt a ment o do s funci on á rio s. E ste
escritor, que est á convencido com toda certeza da utilidade das insti-
t ui çõ es mon á rquic a s em gra ndes E sta do s, a bster- se -ia de qua lquer po -
l ê mic a furtiv a contr a o mo na rc a ta nt o qua nt o da a dul a çã o pseudo-mo-
n á rquica ou da sentimental fraseologia subalterna de interessados e
de filisteus. Contudo, um monarca que faz declara çõ es pessoais, mas
p ú blicas, de natureza à s vezes extremamente agressiva, deve estar
preparado para suportar uma cr í tica igualmente agressiva. Pois con-
front a mo-nos co m o fa t o de que esse m é t odo de c onduzir nossa pol í tica,
mediante a publica çã o de declara çõ es mon á rquicas, foi tolerado fre-
q ü entemente. Se esse m é todo foi um grave erro pol í tico (como acredi-
tamos que foi), ent ã o a toler â ncia das diversas repeti çõ es desse pro-
cedimento prova, no que se refere à responsabilidade pessoal do mo-
na rc a , a nec es sidade de a cei ta r pa rec ere s so mente da li dera n ça pol í tica,
e de excluir todos os outros grupos — cortes ã os, militares ou sejam
qua is fo rem — de se imiscu í rem em a ssunt os po li tic a mente impo rt a n-
tes. Entretanto, se n ã o se dessem garantias concretas para tal proce-
dimento uma cr í tica totalmente franca feita ao pr óprio monarca se
tornaria um dever pol í tico. É claro que tal cr í tica p ú blica ao monarca
seria politic a ment e indese j á vel. É sa bedo ria pol í tica secular, e n ã o u m
costume antiquado, evitar que o monarca seja arrastado demagogica-
mente pe ra nt e o p ú blico, como j á a cont eceu v á ria s ve ze s na Ale ma nha .
E xige m-se fo rm a li da des ritu a is e c ondi çõ es p a ra suas apa ri çõ es p ú blicas
e possibilitando assim que ele seja mantido pessoalmente fora das
di sp uta s p ú bli ca s da pol í tic a part id á ria . P rec isam ente po r causa diss o,
pode ele intervir com muito maior efici ê ncia, em per í odos de crise na-
cional. Esclare çamos, ent ã o, que n ã o discutimos aqui poss í veis erros
do monarca, mas, antes, o fato bem diferente de que o governo utili-
zou-se de suas apari çõ es em p ú blico ou da publica çã o de suas opini ões
como um meio diplom á tico — pelo menos em um caso, apesar das
1
d ú vidas pessoais do monarca, e de que os l í deres do governo supor-
taram, sem renunciar imediatamente, a publica çã o das opini ões do
monarca por fontes irrespons á veis que passaram por cima da autori-
dade desses l í deres.
É claro que o monarca tem liberdade para assumir a posi çã o
pol í tica que desejar. Mas deve caber aos l í deres politicamente respon-
s á veis decidir se, ou de que maneira essencial ou formal, as opini ões
dele devem ser tornadas p ú blicas, e tamb é m os l í deres devem avaliar
o impacto presum í vel dessas opini õ es. Conseq ü ent emente, o cha nce le r
dev e se r so li cita do a da r seu par ecer a nt es de o mo na rc a se ma nife sta r

1 C om r ela çã o à s d ú vidas de Guilherme II sobre a conveni ê ncia de uma viagem a Tangier


em 1905, a qual ele ent ã o empreendeu contre coeur (contra a vontade), ver E r ei gni sse und
G estalten 1878-1918 , de sua autoria (Leipzig: Koehler, 1922), p. 90 s.

84
WEBER

publ ica ment e e so bre qua lquer a ssunt o de gra nde impo rt â ncia pol í tica,
e o parecer do primeiro deve ser aceito enquanto ele estiver exercendo
seu cargo. Este e seus colegas faltam a seus deveres se permanecem
no cargo depois de essa regra ter sido violada mesmo uma s ó vez. Por
t r á s de toda a arenga de que “ a n a çã o n ã o quer uma sombra como
r ei ” , e f ra ses se melha nt es, esse s homens n ã o esc ondem sen ã o seu desejo
de p erma nec er e m seus c a rgos de ix a ndo de renun cia r a el es. Isso na da
tem a ve r direta mente co m o c a so do go ve rno parla menta r; é simples-
mente uma quest ã o de integridade pol í tica. A esse respeito, nosso go-
verno tem falhado vezes sem conta da mais miser á vel das maneiras.
Esses fracassos devem-se à nossa estrutura pol í tica defeituosa, que
coloca homens de mentalidade burocr á tica em postos de lideran ça po-
l í tica. A quest ã o do governo parlamentar torna-se altamente signifi-
cativa, j á porque sob determinadas condi çõ es n ã o h á outro meio para
re a lizar e gara ntir as muda n ça s nec ess á ria s. A fi m de evi t a rmos qua l-
quer mal-entendido sobre nossa posi çã o, deve mos a cresc ent a r q ue, em
quase todos os casos, as declara çõ es do monarca foram n ã o somente
subjetivamente compreens í veis, mas à s vezes tamb é m politicamente
justificadas — na medida em que fo i p oss í vel disce rn i-lo nessa oca si ã o.
Mais ainda, em alguns casos foi provavelmente ú til transmitir as in-
tensas re a çõ es pe sso a is do mona rc a a tr a v é s de c a na is dip lom á t icos a os
gove rn os em qu est ã o. Ma s a publi ca çã o de ta is de cla ra çõ es se const itu iu
num ato politicamente irrespons á vel, e nesse caso a responsabilidade
recaiu sobre a lideran ça pol í tica, por t ê -la tolerado ou instigado.
Na Ale ma nh a pa rec e t er si do esquec ido qu e ex iste uma t remenda
diferen ça entre um pol í tico (o primeiro-ministro ou mesmo presidente
de uma rep ú blica) fazer uma declara çã o no parlamento, por exemplo,
n ã o importa qu ã o de sa gra d á vel seja ela, e esse mesmo pol í tic o to rna r
p ú blica uma declara çã o pessoal do monarca e depois “ assumir a res-
ponsabilidade ” por essa declara çã o por meio de um gesto dram á tico
mas vulgar. Uma declara çã o p ú bl ica do mona rc a n ã o pode de fato ser
liv
querement
se servee crit
delaicapara
da no p a objetivo,
esse í s; co n seqcontra
ü entemente,
uma cre la pro tege
í ticaodireta
es ta dista
das ,
pr óprias a çõ es desse estadista. No estrangeiro, entretanto, essas res-
t r i çõ es n ã o existem e a cr í tica centra-se no monarca. Um pol í tico pode
e deve renunciar se as condi çõ es mudam e novas diretrizes pol í ticas
se tornam necess á rias contra as quais ele j á tenha se pronunciado,
mas o monarca deve permanecer, e com ele suas palavras. Uma vez
que este tenha se comprometido publicamente, n ã o pode retirar suas
palavras, ainda que tente faz ê -lo dentro de uma situa çã o nova. Sus-
cita m-se pa ix ões e sentim ent os de honra , p ois apoi a r o mona rca é u m a
quest ã o de honra nacional — e os cr í ticos ignorantes tais como os
pangerm â nicos (e seus editores) prosperam grandemente. Na p á tri a e
no es tr a ngei ro , as pa lavra s do mona rc a s ã o le va da s a s é rio e a sit ua çã o
se radicaliza. Este foi realmente o padr ã o em todos esses casos. Exa-

85
OS ECONOMISTAS

minemos alguns deles à fria luz da l ógica, a fim de sabermos como o


erro pol í tico foi cometido.
Primeiramente, o telegrama de Kr ü ger. A indigna çã o contra o
a ta que de J a meso n fo i justifi ca da e compa rt il ha da em todo o mundo,
a t é mes mo na Inglat erra. É bem poss í vel qu e en é rgicas representa çõ es
diplom á t ica s em Londr es (q ue po deria m t er-se refe rido à intensa re a çã o
do monarca) poderiam ter provocado declara çõ es formais do gabinete
brit â nic o, a s qua is ta lve z n ã o pudesse m ser desc onsidera da s com t a nt a
fa cil ida de ma is ta rde. A l é m disso, um acordo geral referente aos inte-
resses de ambos os lados na África ter-se-ia tornado mais prov á vel;
Cecil Rhodes, por exemplo, era bastante acess í vel a esse respeito, 1 e
isso e ra nece ss á rio se q uis é sse mo s ter c a rt a bra nca no O rie nt e e ma nt er
a I t á lia na ali a n ça. Mas a publica çã o do tel egra ma teve na tura lme nt e
o efeito de uma bofetada no rosto, impossibilitando qualquer conver-
sa çã o ra ciona l. 2 A q uest ã o torn ou-se, ent ã o, a ssunt o de ho nra na ciona l,
e int eresses po l í t icos ra ciona is fo ra m postos de l a do . E m co nseq üê ncia,
quando posteriormente — a ntes , d urant e e a p ós a Guerra dos B ôeres
— fizeram-se tentativas no sentido de se chegar a um entendimento
sobre a África ou sobre as rela çõ es globais entre a Inglaterra e a Ale-
ma nha , o p ú blico desses dois pa í ses, cuj o sent iment o de ho nr a na ciona l
tinha agora sido provocado, n ã o deu boa acolhida a essas tentativas,
ainda que ambos os lados pudessem ter atingido seus objetivos mate-
riais por meio de entendimentos diplom á ticos. O resultado dessas ten-
tativas de aproxima çã o foi fazer da Alemanha a v í tima defraudada
depois da Guerra dos B ôeres. Afinal de contas, em 1895 n ós simples-
mente n ã o t í nha mo s rec urso s mili ta res suf icie nt es p a ra a poiar qua lquer
prot est o com efic á cia. P a sse mos e m sil ê ncio o ve rgonh oso fi na l, a recusa
em receber o presidente exilado: pois o ponto capital foi que os b ôeres
n ã o pude ra m ser auxili a do s, apes a r da s p a la vra s do mo na rc a . Em co n-
seq üê nc ia, o G eneral B otha p ôde de clara r no p a rlamento da Áfric a do
Sul, em 1914, que foi o comportamento da Alemanha que conduziu à
perda da independ
G ra ê ncia
nde f oi o esp dosnab Ale
a nto ôeres.
ma nha qua ndo o J a p ã o lhe declarou
guerra em agosto de 1914, fazendo a China a mesma coisa em agosto
de 1917. A primeira atitude é sempre explicada pela bem conhecida
interven çã o de 1895 em conex ã o com Port Arthur, 3 a segunda pelas
press õ es americanas, e ambos os casos se atribuem tamb é m ao opor-

1 S obr e um di á logo algo conciliador entre Rhodes e Guilherme II, ver op. cit., p. 72 s.
2 S obr e a ver s ã o do imperador acerca de sua oposi çã o ao telegrama e sua antevis ã o do
protesto p ú blico ingl ê s, ver op. cit., p. 69 s.
3 Na é poca, a R ú ssi a, a Fran ça e a Alemanha — que se c onfe ssava m a larma das em face do
Perigo Amarelo — imp edi ram o J a p ã o de anexar a pen í nsula Liaotung no rastro de seu
triunfo militar sobre a China (Tratado de Shimonoseki, abril de 1895). Com rela çã o aos
aspectos alem ã es dessas negocia ções, cf. a autobiografia do Imperador Guilherme II, op.
cit. , p. 6 8, e J oha nnes Ziekursch, D as Zei talter Wi lhelms I I , vol . III de Politische Geschichte
des neuen deutschen K aiser r ei ches (Frankfurt: Sozeitatsverlag 1930), p. 92 ss.

86
WEBER

tunismo. N ã o importa quanta verdade haja nisto, h á outro fator im-


port a nt e que dev e se r a cresc enta do . Fora , a fi na l de c ont a s, o mona rc a
alem ã o quem, verbal e metaforicamente, advertiu de p ú blico sobre o
“ Perigo Amarelo ” e co ncla mou à “ preserva çã o do s ma is sagra do s be ns ”
(das na çõ es europ é ias): h á algu é m entre n ós que realmente creia que
chineses e japoneses cultos tenham esquecido isso? 1 Em pol í tica inter-

nacional, os problemas raciais pertencem à es p é cie mais dif í cil, pois


s ã o complicados pelos choques de interesses entre as na çõ es de ra ça
bran ca . S ó se po de a prova r o esfo r ço de o mona rc a forma r um a opi ni ã o
a esse respe ito. Mas q ue interesse a le m ã o poderia ser fa vo rec ido qu a ndo
o monarca tornou p ú blicas suas opini ões daquela maneira? Isso era
concili á vel com qualquer interesse alem ã o no Extremo Oriente? Que
recursos de poder havia por tr á s de tais declara çõ es? Aos interesses
de quem iri a m essas dec lar a çõ es se rvir n o fina l? Ma is a inda , que ob jetos
pol í t icos fora m servidos public a nd o-se o s discursos do impera dor à é poca
da miss ã o do Conde Waldersee, ou suas alocu çõ es navais, as quais
ta lve z p udess em ter si do ba sta nt e a pro pri a da s num c í rculo de o fici a is? 2
O resultado das diretrizes pol í ticas alem ã s s ó relativas à China con-
trastavam de forma embara çosa e, devemos acrescentar, de maneira
a lg uma a cid ent a l, com t a l re t órica, e isso revelou-se altamente preju-
dicial a nosso prest í gio. Ainda uma vez, omitiremos um epis ódio ver-
gonhoso, o tratamento dispensado à “ miss ã o expiat ór ia ” (do Pr í ncipe
Chun em 1901, para desculpar-se pelo assassinato do Ministro Von
Ketteler durante a Rebeli ã o Boxer) e as discuss ões, novamente em
p ú blico, que a acompanharam. É simplesmente imposs í vel imaginar

1 O p rese nte de Nat a l d o imp erador para o Tzar Nic ho las em 1 895 foi um d es enho aleg órico
executado conforme seu esbo ço pelo pintor Knackfus, mas apresentado como trabalho do
pr óprio imperador. Retratava o Arcanjo Miguel reunindo uma corte de damas blindadas,
ide ntific a da s po r seus bra s ões como Germ â nia, Brit â nia, R ú ssi a e outra s, p ara uma cruzada
cont ra o P erigo A ma relo , representa do c omo um Molo ch sa nguin á rio paira ndo numa nu vem
so bre as pa c í fic a s ci da des da Eur opa . O prese nte e seu t í tulo, “ Na ções da Eur opa , pro tej a m
seus bens mais sagrados ” , cedo se tornaram conhecidos e alvo de ridiculariza çã o, mas o
impe ra do r a cre ditou ter a lca n ça do uma vi t ória diplo m á tica q ua ndo seu embaixador info rmou
que o infe li z rece ptor tinha emo ldurado e pendura do a ob ra de a rte: “ Realmente funci ona !
Como é sat is fat ór io ” , escreveu ele à margem do relat ório. Cf. Erich Eych, D as per sönlichem
R egi ment Wi lhelms I I . (Zü rich: Reutsch, 1948), 119; Emil Ludwig, K ai ser Wilhelm I I , tra-
duzido por Ethel C. Mayne (Londres: Putnam, 1926), p. 223 s.
2 Em 27 de j ul ho d e 1900, Guil he rme II p ro fe ri u se u abo mi n á vel discurso “ Huno ” , do qual
derivou o ep í tet o comument e aplic a do aos so lda dos alem ã es nos pa í ses a nglo- sa x ões durant e
a Primeira Guerra Mundial. Ao despachar as tropas que iriam participar da sufoca çã o da
rebeli ã o Boxer, com o conde Waldersee como comandante-em-chefe nominal da for ça ex-
pedicion á ria internacional de tropas russas, japonesas e inglesas, Guilherme disse entre
outras coisas: “ N ã o se dar á perd ã o, n ã o se far ã o prisioneiros. Quem quer que caia em
vossas m ã os estar á à vossa merc ê . Assim como os hunos sob Átila tornaram famoso o
nome de sua ra ça h á mil anos , que ainda nos assomb ra em tradi ções e l enda s, v ós imprimireis
o nome dos alem ã es sobre a China por mil anos vindouros, de forma que nenhum chin ês
jamais ousar á levantar novamente o mesmo olhar vesgo a um alem ã o” — um p é ssimo
troc a dil ho, si gnifi cando um m a u olhar em um olhar de ol hos ra sga dos . E m seus discurso s
navais, Guilherme empregava termos como o do “ punho de ferro ” que a Alemanha queria
aplicar ao mundo. Cf. Eyck, op. cit., p. 200, 272.

87
OS ECONOMISTAS

os fins pol í ticos concretos que o Chanceler B ü low poderia ter desejado
promover quando tolerou tal romantismo pol í tico, que desnecessaria-
mente ofendeu o senso de honra dos chineses. Se teve o discernimento
necess á rio para perceber a inutilidade pol í tica e o malef í cio de todos
esses acontecimentos e contudo sentiu que tinha de considerar as con-
di çõ es que exigiam que se tolerassem os mesmos, ele devia ter renun-
ciado no interesse do monarca bem como da na çã o.
H á s é ri a s d ú vida s so bre se a public a çã o do disc ur so do impera dor
em Damasco (perante o t ú mulo de Saladino, em 8 de novembro, 1898)
foi ú t il e m n ossa s rela çõ es c om a R ú ssi a . No ssa s si mpa tia s pe la cul tu ra
isl â mica e nosso s int eresses po l í tic os na integrida de territori a l da Tur-
quia eram bem conhecidos no exterior e n ã o nec essi ta vam de ta ma nha
ostenta çã o e spalha fa tosa. Contudo, inde pe ndentement e da const el a çã o
pol í tic a pre do mina nt e na é poca , teria sido melho r evita r a s impress ões
criadas por esse gesto p ú blico. Aqui, tamb é m , é f á cil perceber quem
sairia beneficiado em seus planos.
Se ainda pu d é ssemo s t er d ú vida s sob re o e xe mplo a cima , a s co isa s
s ã o por é m perfeitamente claras no que diz respeito à alocu çã o p ú blica
que o imperador pronunciou em T â nger n o in í cio da crise de Ma rr ocos.
Mesmo elementos neutros aprovaram a posi çã o da Alemanha, mas
a inda um a ve z fo i um s é rio e q u í vo co utili za r o mo na rca pa ra um gesto
p ú blico. Ainda n ã o sabemos que ofertas fez a Fran ça, ap ós a queda
de Delcass é (seu ministro do Exterior), mas muitas coisas estavam
claras ent ã o: ou a Alemanha se decidia a entrar em guerra pela in-
depend ê ncia marroquina, ou o assunto teria que ser decidido pronta-
mente de uma forma que levasse em considera çã o os interesses e o
senso de honra de ambos os lados, oferecendo a Fran ça algumas com-
pensa çõ es. Isso poderia ter tido conseq üê ncias de longo alcance em
nossas rela çõ es com a Fran ça. Por que n ã o foi feito? A palavra do
monarca, como se sabe, tinha empenhado a honra da na çã o em favor
do sult ã o do Ma rr ocos, e port a nt o n ã o pod í a mo s aba ndo n á -lo. Cont ud o,

o governo
result n tã o
a do de tinha
udo foi orealmente
cola pso adeinten s, oseguido
A lgec ira çã de entrar em sguerra.
do epi ódio O“ Pan-
ther ” e fi na lment e o a ba ndono do Ma rroc os; a o mesmo tempo , a t ens ã o
intermin á vel provoc ou a disposi çã o pa ra a gu erra na Fran ça , f a cil ita ndo
a ssi m a pol í t ica inglesa de envo lvi ment o. D ese nvol veu- se par a le la ment e
a impress ã o de que a Alemanha sempre cederia, apesar das palavras
do imperador. Isso tudo aconteceu sem que nenhuma compensa çã o
pol í tica fosse proporcionada à Alemanha.
Os objetivos da pol í tica exterior alem ã , especialmente de al é m -
mar, eram extremamente limitados, se comparados aos de outras na-
çõ es, e os resultados dessa pol í tica foram insignificantes. Contudo, ela
produziu tens õ es e viva agita çã o como as de nenhum outro pa í s, e
freq ü entemente essas sensa çõ es, totalmente in ú teis e prejudiciais, fo-
ra m criada s pe la pub li ca çã o de dec la ra çõ es do impe ra do r. E sse m é todo

88
WEBER

revelou-se nocivo a n ós n ã o apenas em pa í ses hostis ou neutros. Ap ós


a confer ê ncia de Algeciras, o imperador sentiu a necessidade de ex-
pressar seus agradecimentos ao Conde Goluchowski, e, em vez de uti-
lizar os canais competentes, publicou-se o c é lebre telegrama. A queda
do destinat á rio foi pronta e embara çosa para n ós: demonstrou tardia-
mente que nenhum governo permite a seus estadistas dirigentes re-
ceberem publicamente “ uma boa no ta ” de out ro gove rn o — nem mesmo
do governo de um aliado í nt im o. !1
No panorama dom é stico cometeram-se os mesmos erros. Os de-
nominados “ D isc ursos de P enitenci á r ia ” , qu e o impe ra do r profe riu n um
momento de c óle ra (em 18 98), t inha m a ca so que ser da do s à public ida de
quando apareceram como um programa pol í tico? Que deve pensar do
fato de que a burocracia se sentia agora na obriga çã o de inventar um
pa r á grafo correspondente para inclus ã o no projeto de lei antigreve,
simplesmente porque o imperador tinha mencionado puni çã o em pe-
nitenci á ria para grevistas? Somente os assombrosos acontecimentos
de 1914 e a atual (P á scoa, 1917) promessa de igual direito de voto
conseguiram neutralizar o impacto dessa despropositada publica çã o
nos oper á rios dotados de amor-pr óprio. Estava a dinastia interessada
na publi ca çã o? Ou qu e out ros o bjetivos po litica ment e a ceit á veis poderia
a publica çã o ter tido?
Contudo, queremos nos limitar aqui à pol í tica externa, e conse-
q ü entemente gostar í amos de fazer a pergunta pertinente: em todas
essas ocasi õ es, onde estavam aqueles partidos do Reichstag que pode-
riam ter sido a defesa decisiva da pol í tica do governo, mas que mais
tarde preferiram censurar o Chanceler Von Bethmann Hollweg pelos
fra ca sso s de uma pol í tic a que tra nsfo rmou “ o mun do int eiro em n ossos
inimigos ” , a a cusa r o dito c ha nce le r de se oculta r po r t r á s do mo na rca?
Que f ize ra m os t a is p a rt ido s e m t odo s e sses c a so s? E le s tira ra m prov ei t o
dos ataques da extrema esquerda a fim de denunciar a atitude “ anti-
m on á rquica ” desta! Devemos declarar com ê nfase que s ó levantaram
obje
assimçõates ép úoblicas
pontoquando
em quej seus
á era muito tarde.
interesses ego Mesmoí stasent ã o s ó agiram
n ã o fossem envol-
vidos. N ã o vamos entrar em detalhes acerca dos acontecimentos ul-
t ra divulga dos de 1 908 (o ca so D aily T elegr aph ). C ont udo, devemos nos
lembrar de que o Partido Conservador, em contraste com o protesto
indubitavelmente impressionante de seus l í deres perante o monarca,

1 Em 13 de a bri l d e 1906, Guil herme II env iou um te legrama a o mini stro do Exterio r da
Áustria, conde A. Goluchowski, no qual dizia: “ Vós demonstra stes ser um perfei to padrinho
no duelo e podeis ter a certeza de que retribuirei em caso de necessidade ” . Isso contribuiu
para a queda de Goluchowski alguns meses mais tarde. O embaixador alem ã o em Paris,
pr í ncipe Radolin, queixava-se numa carta a Friedrich von Holstein (8 de maio de 1906):
“ E sta mos, afina l de c onta s, c ompl eta ment e iso la dos no mun do, e todos no s odei a m, incl usive
a Áustria, que est á absolutamente furiosa por causa do telegrama a Goluchowski ” . Ver
Norma n R ich e M. H . Fischer (e ds.) , T he H olstei n P aper s, IV ( Ca mbridge : At the U nive rsity
P res s, 1913 ), p. 421, s.

89
OS ECONOMISTAS

posteriormente abandonou abertamente o Pr í ncipe B ü low e, como de


costume, lembrou seu pseudomasoquismo, quando seus pr óprios inte-
resses materiais foram afetados. A prop ósito, o pr óprio monarca deve
ter sido tomado de grande surpresa ao descobrir que esse chanceler,
que pe lo meno s uma ve z o aco nsel ha ra numa es pe t a cular interve n çã o
pessoal contra suas pr óprias obje çõ es , 1 vol ta va -se subi ta mente co nt ra
ele sob a press ã o de uma opini ã o p ú blica excitada.
E que, finalmente, fizeram nossos cr ít icos em t odos esses inci den t es?
Apla udira m publi ca ment e ou cont inua ra m t a ga relan do s obre c omo o s a le-
m ã es n ã o gostam de uma monarquia do tipo ingl ês — da mesma forma
que a imprensa da ala direita ainda continua fazendo. Adulando os mais
l ú gubres instintos filisteus, atribu í ram os fracassos aos diplomatas e n ão
se deram ao trabalho de perguntar sequer uma vez como podiam estes
trabalhar em tais condi ções. C á , entre n ós, isso seria uma longa hist ória
e pouco honrosa para esses agitadores que t ã o bravamente vociferam
contra a maioria por exigir uma “ paz de fome ” .2
Em todos esses casos, o comportamento de nosso governo foi ir-
respons á ve l, se m pa ra le lo em nenhum outro gra nde Est a do . U ma con-
fronta çã o p ú blica s ó era permiss í vel se o governo estivesse disposto a
fazer um acordo completo e sem demora. Mas n ã o era no ssa inten çã o,
realmente, pegar em armas a favor dos b ô eres ou contra os “ mong óis ” ,
ou a inda a fa vo r do sult ã o de Mar roc os; a l é m d o ma is, nos do is primeiros
ca so s na da no s dizi a resp ei to, e ta mb é m n ã o t í nh a mos poderio sufici ent e
para empreender uma interven çã o armada. N ã o obstante, os l í deres
do governo permitiram que se desenvolvesse uma situa çã o na qual o
mona rca se c omprometeu public a ment e, e is so i mpo ssibi lito u q ua lquer
a cordo ra ciona l com a In gla t erra so bre no sso s int eresse s sul- a fric a nos,
e com a Fran ça sobre interesses no norte da África. Nossa posi çã o
par ecia primei ra mente se r uma quest ã o de ho nr a , ma s fo i de pois a ba n-
do na da , n ã o obsta nt e. O resul t a do inesc a p á vel foi uma s é rie de de rrota s
diplom á ticas profundamente embara çosas a todos os alem ã es e que
trouxeram danos permanentes a nossos interesses. Aqui se achava a
raiz da perigos í ssima impress ã o de que a Alemanha sempre bateria

1 Ver ac ima, no ta 3 2. So br e o caso Daily Telegraph, ver Wilhelm Schussler, Die Daily-Tele-
gr aph-A ffai r e. Fu rst B ullo w , Ka iser W ilhel m un d die Kr ise des Zweiter Reiches 1 908 (G öt -
ting en: Mu sterschm idt, 1912).
2 Aparenteme nte um termo pejorat iv o para a ma ioria do s p ro gres si sta s, ma ioria so cial- de-
mocrata e membros do Partido de Centro que no ver ã o de 1917 adotaram uma resolu çã o
de paz sem amplia çã o territorial e explora çã o pol í tica, econ ômica ou financeira. — Numa
cart a esc rita em 19 17, o del egado na cional- li beral G usta v S treseman n, que iri a ser o pre e-
minent e ministro do e xterior da Rep ú blic a de Weimar , ma s que foi um en é rgico a nexio nista
durante quase toda a guerra, proporciona um exemplo da esp é cie de duplicidade da qual
Weber zomba aqui: “ Se hoje at é secret á rios de Estado conservadores nos dizem atr á s de
porta s fec ha das que des eja m a parlamenta riz a çã o porque temem que a a dministra çã o pes-
soal da pol í tica pelo impe ra dor po ssa causa r da nos ime nsur á veis à A le ma nha , ent ã o pode-se
falar sobre isso em c í rculos confidenciais, mas, como um homem de monarquia, n ã o nos é
poss í vel levar perante o p ú blico essa ser í ssima justifica çã o para a parlamentariza çã o” . Cf.
Matthias e Morsey (eds.), D er I nter fr akti onelle Ausschuss, op. ci t. , I, 157, n º 10.

90
WEBER

em retirada depois de muito esbravejar, e parece que essa cren ça foi


um dos fatores que determinaram as diretrizes pol í ticas inglesas em
fins de julho de 1914. A desnatural coaliz ã o mundial contra n ós foi
em grande parte devida a esses incr í veis erros crassos que ainda nos
afetam. A atual mistifica çã o no es t ra ngeiro s obre a “ autocracia ” a le m ã
é simple sment e isso : impo st ura — ma s po li tic a mente n ã o é imposs í vel
que isso possa ocorrer. Quem tornou poss í vel aos nossos inimigos, que
acreditam tanto nisso como em outros contos de fadas sobre a Alema-
nh a , promove r co m ê xito e ssa impostur a ? Quem direcio nou o t remen do,
e po litic a ment e t ã o eficaz, ódio do mundo int ei ro so bre a ca be ça desse
mona rca prec isa ment e, cuj a a t itud e foi por dive rsa s ve zes notoria ment e
decisiva na manuten çã o da paz, mesmo em momentos nos quais a
guerra teria sido mais oportuna para n ós, do ponto de vista da R eal-
poli ti k ? Quem possibilitou à s massas no estrangeiro acreditar seria-
mente que a Ale ma nha des eja se r “ libertada ” e que esse desejo achar á
eventualmente uma sa í da se a guerra puder ser suficientemente pro-
longada? Quem tornou poss í vel o absurdo inaudito da atual situa çã o?
Enquanto tais acontecimentos forem pass í veis de repeti çã o, a na çã o
n ã o p ode esquec er q ue fo i a buroc ra cia conserva do ra a respo ns á vel por
esse estado de coisas: em momentos decisivos ela colocou burocratas

nos pontos-chaves
ocupados por pol do governo,
í ticos os quais
— homens deviam, contrariamente,
experimentados em pesar osser efeitos
de declara çõ es p ú blicas, homens com o senso de responsabilidade do
pol í tico e n ã o com o sentido de dever e de subordina çã o do buro cra ta ,
que é adequado em seu lugar, mas pernicioso em pol í tica.
Aqui nota-se claramente o abismo que separa o burocrata do
pol í tico. O funcion á rio p ú blico deve sacrificar suas convic çõ es à s exi-
g ê ncias da obedi ê ncia; o pol í tico deve rejeitar publicamente a respon-
sabilidade por a çõ es pol í ticas que se chocam com suas convic çõ es e
deve sa crific a r seu car go a essa s c onvic çõ es. Mas isso nunca a cont eceu
na Alemanha. O pior aspecto do assunto n ã o foi ainda revelado. É
sabido com certeza que quase todos os homens que estavam encarre-
gados de nossa pol í tica naquela d é cada desastrosa, em car á ter confi-
dencia l, e n ã o apena s o ca sio na lme nt e, ma s rep etida s veze s, de cli na ra m
de dar uma resposta material à s publica çõ es de car á ter decisivo pelos
quais aceitaram responsabilidade formal. Se algu é m perguntasse com
es pan to p or q ue um es ta dista pe rma nec ia em se u c a rgo se e ra inc a paz
de evitar a publica çã o de uma dec lar a çã o question á vel, a resposta ha-
bitual era que “ algu é m outro seria encontrado ” para autorizar essa
publica çã o. Isso pode bem ser verdade, mas tamb é m indica a falha
decisiva do sistema. Algu é m o ut ro seri a enc ont ra do ta mb é m se o chefe
do governo tivesse de tomar a responsabilidade como o deposit á rio de
um departamento eficaz?

2. R estr i ções P arlamentar es e L egais


Neste ponto decisivo, podemos observar a import â ncia de um

91
OS ECONOMISTAS

parlamento perante o qual a burocracia seja verdadeiramente respon-


s á vel. Simplesmente n ã o h á substituto para isso. Ou haver á ? Essa
pe rgun t a deve ser resp ondida por t odo s qua nt os a inda estej a m co nvic t os
de que t ê m o direito de injuriar o parlamentarismo. Torna-se perfei-
tamente ó bvio, justamente no mesmo ponto, que o senso de responsa-
bilidade do funcion á rio p ú blico e do pol í tico s ã o apropriados cada qual
em sua esfera — e em nenhum outro lugar. Pois n ã o se tra ta a qui d e
funcion á rios p ú bli cos e diplo ma t a s inco mpetent es e inex pe rientes, m a s
em par te de indiv í duos pro eminen t es, q ue c ont udo n ã o t ive ra m c ora gem
pol í tica, algo que é bem diferente de integridade pessoal. Entretanto,
n ã o é que n ã o a tives se m po r um a quest ã o a cide nt a l, ma s, an tes, p orqu e
n ã o tinham utilidade para a estrutura pol í tica do Estado. Que dizer
de um esta do de coisa s — estra nho e m q ua lque r ou tra gra nde p ot ê ncia
— no qual o gabinete pessoal do monarca, os cortes ã os ou ag ê ncias
de not í cias d ã o publicidade a acontecimentos que s ã o de import â ncia
capital para a pol í tica internacional, com o resultado de paralisar e
a tra vancar nos sa pol í tic a ex terna dura nte d é ca da s, um esta do de coisas
em que, al é m do mais, o chefe do governo d á de ombros a esses inci-
dent es e os t ole ra dep ois de e nce na r a lguns gest os fingida ment e no bres?
Tud o isso num pa í s, p a ra cuj a a dmini stra çã o interna o “ servi ço secret o ”
é (no interesse de poder de seus chefes) a j óia dos servi ços do funcio-
nalismo p ú blico! É óbvio que essa aparente contradi çã o somente pode
ser explicada pelo interesse dos burocratas em manter seus cargos
a fa sta do s de qua lquer supe rvis ã o. Que dizer de um sist ema qu e permit e
a pol í ticos permanecerem no poder quando fecham os olhos a graves
erros que se chocam com suas melhores convic çõ es? E, finalmente,
como a cei t a r o fat o de que, a desp ei t o da evi d ê nci a dos a cont eciment os,
ainda existam cr í ticos que n ã o hesitam em afirmar que um Estado
que funciona assim nos mais importantes aspectos pol í ticos n ã o deve
temer apresentar-se como “ aprovado brilhantemente ” ? Sem d ú vida, o
desempenho dos funcion á rios e servidores p ú blicos foi brilhante, em

sua pr ópria
somente falhaesfera.
h á Contudo,
v á rias d no dom masí tamb
é cadas, nio do pol
é mí tico, a burocracia
projetou n
no monarca ão
a odiosidade de seu pr óprio comportamento desorientado, a fim de se
esconder atr á s desse mesmo monarca. Dessa maneira, a burocracia
ajudou a ocasionar numa coliga çã o mundial contra n ós, por cuja a çã o
o monarca poderia ter perdido sua coroa e a Alemanha todo o seu
futuro pol í t ico , n ã o fosse pelo magn í fico desem penh o de nosso ex é rcito.
No interesse da na çã o e da mo na rquia , to da a lte rna tiva constituc iona l
que evita tais ocorr ê ncias é melhor que este estado de coisas. Conse-
q ü entemente, o estado atual deve ter fim, custe o que custar. N ã o há
d ú vida (e prova-se facilmente) de que n ã o h á diferen ças de opini ã o
partid á ria sobre esses acontecimentos seriamente prejudiciais. Contu-
do, os pol í tic os da a la direi ta ou n ã o po ss u í a m sufic ie nt e ca r á t er po l í tico
ou tinham demasiados interesses pessoais de forma a n ã o externar

92
WEBER

publicamente opini ões, ali á s ex pre ssa s em pa rt icula r co m extrema ru-


de z. P elas mes ma s ra z ões mo stra ra m-se re lu ta nt es em tira r q ua is quer
conclus ões concretas. Mas, sem garantias reais, n ã o pode ocorrer ne-
nhuma mudan ça decisiva. Isso foi demonstrado pelo fato de que os
cí rculos da corte, respons á veis por essas publica çõ es, se tenham reve-
lado a bso luta mente inc orrig í veis. A introdu çã o de tais salvaguardas é
politicamente muito mais importante do que todas as outras quest ões
pol í ticas, inclusive a reforma parlamentar e eleitoral. Para n ós, a pa r-
lamentariza çã o é primeiramente meio indispens á vel para estabelecer
es sa s salva gua rda s concre ta s. P ois n ã o se pode duvida r d e que somente
um parlamento eficaz e a verdadeira responsabilidade parlamentar do
go ve rno p odem c onst ituir- se numa ga ra nt ia cont ra a rep eti çã o de tais
acontecimentos.
E nt reta nt o, tendo a s c oisa s segui do seu c urso, se m impedime nt o,
durante d é cadas, decorrer ã o v á rios anos at é que se possa criar uma
lideran ça parlamentar realmente eficiente. Que pode ser feito nesse
meio t empo , enq ua nt o essa r efo rm a n ã o t ive r sido c omple t a da ou a inda
n ã o estiver dando resultados?
Uma coisa é evidente: em toda parte, e particularmente numa
democracia, as grandes decis ões na pol í tica externa s ã o tomadas por
um pequeno grupo de pessoas. No momento, os Estados Unidos e a
R ú ssia s ã o os melhores exemplos disso e nenhuma deblatera çã o dos
cr í ticos pode alterar os fatos. Toda tentativa nesse sentido reduziria
a gravidade da responsabilidade, quando a quest ã o é precisamente
aument á -la. Conseq ü entemente, as prerrogativas imperiais do artigo
11 da Constitui çã o, que realmente devem ser exercidas sob a respon-
sabilidade efetiva do chanceler do Reich, permanecer ã o inalteradas.
Contudo, devem-se exigir obst á culos legais e imediatos contra os pe-
rigoso s ma les que c ort es ã os e j orn a lista s irrespo ns á veis e d esco nh ecidos
conseguiram perpetrar, mediante a publica çã o de declara çõ es pesso a is
do mo na rc a , na á rea da pol í tic a ex terna . U ma le i e spe cial deve am ea ça r ,

com
insultopenalidades
deliberado,severas, inclusive
qualquer indiv penalidades
í duo quecriminais
colocar em casosões
opini de mon á rqui-
cas perante o p ú blico da na çã o ou do estrangeiro sem previamente
submet ê -las à s autoridades competentes para que se procurem todas
a s gara ntia s a de qua da s a o ca so . Em co nc ord â nci a com su a s o briga çõ es
constitucionais, o chanceler deve assumir pr é via responsabilidade por
t a is publ ica çõ es. Isso é impo rta nt í ssimo. É a pe na s re t óri ca vazia qua ndo
mais tarde, no parlamento, o chanceler reage a protestos afirmando
que se responsabiliza pela publica çã o. Ainda que isso seja feito, uma
declara çã o do monarca n ã o pode ser criticada com franqueza sem co-
locar seu prest í gio pol í tico em perigo. Acima de tudo, entretanto, tal
afirma çã o do cha ncele r n ã o é soment e sem pro p ó sito, ma s p olitic a ment e
uma mentira se o chanceler n
ésimplesment ã o foi consultado antecipadamente e
e se deixo u leva r. S e ele n ã o foi rea lment e cons ult a do c om

93
OS ECONOMISTAS

antecipa çã o, sua dec la ra çã o si mple sment e indic a qu e, a desp ei t o de ssa


publica çã o, ele n ã o se se nt e disp ost o a ser destit u í do e prefere, em vez
disso, permanecer em seu cargo. Al é m da puni çã o dos respons á veis
pelas divulga çõ es das declara çõ es do monarca dever á ser constitucio-
na lme nt e po ss í vel “ denunciar ” o chanceler por aprovar ou tolerar tais
divulga çõ es ; ta l “ den ú ncia ” , qu e p refe rivel ment e ocorreria pe ra nt e uma
comiss ã o parlamentar, teria o prop ósito de exoner á -lo ou de declar á -lo
permanentemente incompetente para cargo pol í tico. Uma estipula çã o
legal dessa ordem exerceria a necess á ria press ã o sobre o chanceler a
fim de que procedesse com a maior cautela.
Toda manifesta çã o do monarca deveria ser aprovada pelo chan-
celer s ó depois de uma ampla delibera çã o com homens experientes.
Portanto, seria oportuno que um ór g ã o consultivo pudesse fazer co-
ment á rios so bre a conven i ê nci a da publ ica çã o (pois ess a é a ú nic a ques-
t ã o). Se n ã o puder ser constitu í da uma comiss ã o parlamentar, outro
ór g ã o poderia exercer a mesma fun çã o.
At é o presente, a Comiss ã o para Assuntos Estrangeiros do Bun-
desrat, que é composta de representantes dos reinos n ã o prussianos
(Sax ônia, W ü rttemberg e Bav á ria), foi uma esp é cie de gracejo consti-
tucional de mau gosto, meramente decorativo, sem poderes formais e
influ ê ncia real. Pois o chanceler n ã o é obrigado a apresentar a essa
comiss ã o um relat ó rio de sua pol í tica; na verdade, é explicitamente
dispensado desse dever pelo artigo 11. N ã o h á necessidade de que ele
v á a l é m de aceitar passivamente uma express ã o de opini ã o. Ser á cor-
tesia de sua par te se e le a pre se nt a r (a es se ór g ã o) um rela t ório f orm a l,
tal como é de pr á tica comum no parlamento, para esclarecimento do
p ú blico. Este parece ter sido o costume comum ainda que, no c í rculo
mais í ntimo, se pudessem muito bem discutir os m é ritos da s diretrize s
pol í ticas. Durante a guerra, a import â ncia da comiss ã o parece ter au-
mentado ligeiramente e isso tamb é m n ã o foi de maneira acidental.
E la pode ria pe rfe ita mente ter a s a tribui çõ es de uma fun çã o cons ult iva

atantntesesda
imppub
li cali ca o depol
çãna
çõ es uma
í tic adec
ex lar a çã. Seria
terna o do amoinda
na rca
melquhoe rtivesse impo r-
se a comiss ão
pudesse ser transformada num Conselho da Coroa Imperial, o qual,
juntamente com os chefes departamentais respons á veis e alguns esta-
distas mais antigos, poderia discutir importantes alternativas da po-
l í tica externa antes da decis ã o e, se poss í vel , na prese n ça do mo na rc a .
Na aus ê ncia de um ór g ã o desse tipo no n í vel do Reich, o Conselho
P russian o da Coro a a go ra ex erc e com freq üê nci a es sa fun çã o, n ã o ape-
nas em assuntos prussianos mas tamb é m em assuntos politicamente
importantes com refer ê ncia ao Reich como um todo (e conseq ü ente-
mente tamb é m aos Estados-membros n ã o-prussianos). Formalmente,
essa atividade s ó pode ser consultiva, visto que a responsabilidade
constitucional do chanceler n ã o pode ser reduzida e tampouco o papel
const itucio na l do impe ra dor em r ep resenta r o Rei ch no ex t erio r. L ogi-

94
WEBER

camente, qualquer proposta dessa natureza é desacreditada de in í cio


se — como é infeli zment e h á bi to da buro cra cia — se fazem tentativas
pa ra us á -la com a finalidade de excluir ou enfraquecer a influ ê ncia do
parlamento. Contudo, poder-se-ia estatuir expressamente uma “ res-
ponsabilidade ” do c ha nce le r do Reic h em fa ce do Bu ndesra t com r el a çã o
ao dever de prestar contas. Da rela çã o entre esse ór g ã o consultivo e
a s co miss ões parla menta res es pe ciais po deri a a dvir um pro bl ema , prin-
cip a lme nte se p a rlamenta res ta mb é m fize ssem par t e da co miss ã o. Vol-
taremos a essa quest ã o mais tarde.
Independente da concretiza çã o dessa proposta, nunca mais de-
ver ã o ser toleradas situa çõ es como as que foram descritas anterior-
ment e. P ort a nt o, p rec isa mos esta bel ecer c om t oda cla reza qu e a le genda
pseudomon á rq uic a a lta mente insinc era com a qua l e sse s a cont ecime n-
t os fo ra m d efe ndidos fo i uma inven çã o do P a rt ido Conse rva do r ba se a da
na demagogia de Bismarck. Interesses partid á rios puramente dom é s-
t icos oc ulta va m-se em t empo s a nt erio res po r t r á s dessa legenda, como
agora, por tr á s da frente de combate. Essa legenda dominada por in-
teresse servia a muitas finalidades: preservar postos oficiais — desde
o Landrat a t é o ministro — como benef í cios conservadores, usar a
burocracia estatal como a m á quina eleitoral do Partido Conservador,
pe rpetua ndo a ssim o s privi l é gio s sufra gista s prussia nos (isto é , sufr á gio
das tr ê s cla sses) e de sa credita r e e nfra qu ecer o Reic hst a g, o qu a l, a pe sa r
de tudo, é ainda o melhor dos parlamentos alem ã es. Hoje, depois que
as conseq üê ncias pol í ticas se tornaram claras, quando se fazem exi-
g ê ncias para fortalecer o parlamento como ór g ã o de supervis ã o admi-
nistrativa e de recrutamento de l í deres capazes, conhecemos de ante-
m ã o o slogan que os benefici á rio s da buroc ra cia sem c ont rol e ost ent a m
prontamente: “ A monarquia est á em perigo ” . Mas o fu turo da mo na r-
quia se r á duvidoso se esses bajuladores ego í sta s c ont inuarem a pri var
da aten çã o do monarca. Enfrentar o espantalho da democracia cabe
à s pr óprias dinastias — n ã o a n ós.

95
V

GOVERNO P ARLAMENTAR E
DEMOCRATIZA Ç ÃO
1. Sufr ági o Uni ver sal e Parlamentar i smo

Nã o estamos interessados aqui na quest ã o da democratiza çã o


na esfera social, mas somente na quest ã o do sufr á gio democr á tico —
isto é , igualit á rio — em sua rela çã o com o parlamentarismo. Tamb ém
n ã o discutiremos se na ocasi ã o (1871) foi a cons elh á vel sob o ponto de
vista de pol í tica de Estado ao Reich alem ã o introduzir o direito ao
voto igualit á rio sob a extrema press ã o de Bismarck. Antes, n ós acei-
tamos esse direito ao voto naturalmente, como um fato que n ã o pode
ser desfe ito sem q ue o corra m gra ves rep erc uss ões. Queremos sim ple s-
mente inve stiga r o rel a ciona mento e nt re p a rla menta riza çã o e esse t ipo
de sufr á gio democr á tico.
A parla menta riz a çã o e a demo cra t iza çã o n ã o s ã o ne ces sa ria mente

intercambi á veis, mas


temente, depara-se comfreq
a crenü entemente se opsejam
ça de que õem at umaé necessariamente
à outra. Recen-
conceitos opostos. Afirma-se que o genu í no p a rlamenta ris mo s ó é pos-
s í vel num sistema de dois partidos (bipartid á rio) e, mesmo assim, s ó
no caso de os partidos serem dominados por dignit á rio s a ris toc ra ta s.
Na Inglaterra, o velho parlamentarismo n ã o era efetivamente, como
condiz co m sua origem feuda l, realm ent e “ democr á tico ” n o se nt ido c on-
tinental europeu, mesmo depois do R efor m B i ll (Projeto de Lei de Re-
form a ) e at é a (a tua l) guerra . Um a vis ta de o lho s no sis tema de s ufr á gio
ba st a pa ra esc la rec er isso . A cla ssifi ca çã o do s cida d ã os pelo crit é rio do
tamanho de sua propriedade e os direitos efetivos da maioria tinham
tal alcance que, fossem eles transportados para a Alemanha, prova-
ve lme nt e rec onhec eri a m a pe na s a meta de do s a tu a is so cial- demo cra ta s
e ta mb é m permitiriam conside ra ve lme nt e meno s dep uta do s do P a rt ido

97
OS ECONOMISTAS

Central do Reichstag. (Na Alemanha, entretanto, n ã o h á equivalente


ao papel do irland ê s no parlamento ingl ê s). At é o advento do sistema
de “ panelinha ” de Chamberlain, os dois partidos eram claramente do-
minados por clubes de aristocratas. Se a exig ê ncia “ um homem, um
voto ” , pela primeira vez exteriorizada pelos leveller s (niveladores) no
ex é rci t o de Cromw el l, tive sse si do a t endida junt a ment e com a ex ig ê ncia
(inicialmente limitada) do sufr á gio feminino, o car á ter do parlamento
ingl ê s sofreria significativa mudan ça. O sistema bipartid á rio, j á debi-
lita do pel os irla nd eses, prosse guir á em sua des integra çã o com o a va n ço
do s so cia lista s, e a buroc ra t iza çã o do s pa rt ido s c ont inua r á . — O cé lebre
si stema bi part id á rio esp a nh ol, basea do no t á cit o a cordo do s dign it á rios
do partido em usar o voto para uma altera çã o peri ódica dos preten-
dentes a cargos no poder parece, no momento, estar sucumbindo à
primeira tentativa de realizar elei çõ es s é rias. — Mas tais mudan ça s
eliminar ã o o pa rla ment a rismo? A ex ist ê nci a e o poder fo rm a l do s pa r-
lam entos n ã o s ã o a mea ça dos pe lo sufr á gio democr á t ico. Ist o é demons-
trado pela Fran ça e outros pa í ses com sufr á gio igualit á rio, onde os
minist é rios s ã o comumente recrutados do parlamento e contam com
maiorias parlamentares. Claro que o esp í rito do parlamento franc ês é
bem diferente do ingl ê s. Todavia, a Fran ça n ã o é um pa í s adequado
para um estudo das conseq üê ncias tí picas da democracia sobre o par-
lam enta rismo . O ca r á t er f ortem ent e pequeno- bur gu ê s e p rincip a lment e
pequeno-rendeiro de sua popula çã o est á vel cria condi çõ es para uma
especial forma de mando exercida por dignit á rio de partidos, e para
uma influ ê ncia singular da haute finance, que n ã o t ê m similares em
Estados predominantemente industriais. A estrutura francesa de par-
tido é inconceb í vel em tais pa í se s, ma s ta mb é m o é o hist ó rico sist ema
bipartid á rio da Inglaterra.
Sistemas bipartid á rios n ã o s ã o poss íveis em pa íses industr ia liza dos,
já por causa da divis ã o da s mode rna s ca ma da s ec on ômic a s em burguesi a
e pro leta ria do e por ca usa do si gnific a do do socia lis m o como um eva ngelho
das massas. Isso cria, por assim dizer, barreiras “ confessionais ” na Ale-
manha. Al ém do mais, a organiza çã o do catolicismo alem ã o como um
partido para a prote çã o de uma mino ria , resulta do de c ircunst â ncia s con-
fessionais, dificilmente ser á eliminada, ainda que o Partido do Centro
de va seu at ua l n ú mero d e de puta dos mera ment e à dis posi çã o dos d istr itos
eleitorais. Pelo menos quatro, e provavelmente cinco, grandes partidos
coexistir ã o permanentemente, portanto, na Alemanha; governos de coa-
liz ã o continuar ã o a ser necess á rios e o poder de uma monarquia pruden-
temente atuante n ã o deixar á de ter sua import â ncia.

2. O I mpacto da D emocr atização da Organiza ção e


Lideran ça dos Partidos

E nt reta nt o, o ma ndo do s di gnit á rio s dent ro do s pa rt ido s é insus-


tent á vel fora de qualquer á rea agr á ria isolada com bens de raiz pa-

98
WEBER

tr iar ca is, porque a mode rna pro paga nda de ma ssa torna o suc ess o el ei -
tora l de pe ndente da ra ciona li za çã o da empresa do p a rt ido : o f uncio n á r io
do partido, a disciplina do partido, a imprensa do partido e a propa-
ganda do partido. Os partidos s ã o organizados com rigor sempre cres-
cente. Esfor çam-se por conseguir a ades ã o a t é mesmo de adolescentes
a suas fileiras. A m á quina clerical faz isso automaticamente para o
P a rt ido do C ent ro, o a mbient e so cia l o fa z par a os conserva dore s. Outr os
partidos t ê m suas pr óprias organiza çõ es juvenis, tais como a “ J uv en-
tude Nacional-Liberal ” e os grupos juvenis dos social-democratas. Da
mesma maneira, os partidos utilizam-se de todos os interesses econ ô-
micos. Eles organizam cooperativas e sindicatos de produtores e con-
sum idores, e c olocam mem bros de co nfia n ça com o fun cio n á rios n os po s-
tos do partido assim criados. Eles fundam escolas de orat ória p ú blica
e de treinamento de agitadores, de redatores e de empregados admi-
nistrativos, em parte amparadas por fundos milion á rios. Surge uma
vasta lite ra tura pa rtid á ria fina nciada pe los mesmo s ca pi t a is p rovi ndos
da contribui çã o por grupos de interesses e utilizados na compra de
jornais, no estabelecimento de escrit órios de publicidade e empresas
similares. Os or ça ment os do pa rt ido cresc em ra pi da ment e, pois o cust o
das elei çõ es e o n ú mero dos agitadores na folha de pagamento aumen-
ta m. J á n ã o é poss í ve l c onq uista r u m distrito ma is a mplo , fe ro zmente
disputado, sem gastar pelo menos vinte mil marcos. (No momento,
homens de neg ócios com interesses pol í ticos investem seus lucros de
guerra, em vasta escala, nos chamados jornais patri ótic os de toda s a s
es p é cies, preparando-se para as primeiras elei çõ es do p ós-guerra.) A
m á quina do partido cresce em import â ncia e, proporcionalmente, de-
clina a influ ê ncia dos dignit á rios.
As c oisas a inda se aprese nt a m inst á veis. A organiza çã o dos par-
tidos burgueses, que difere grandemente no grau de coordena çã o in-
t erna , como j á fo i assina lado ant es , a pre se nt a a pro xi ma da mente o qua -
dro seguinte. As atividades locais s ã o geralmente executadas “ extra-
ocupacionalmente ” pelos sdignit
gra ndes c idades. Diretore á rios,
de j orna is o ue apor
dvofuncion rios,
ga do s cheá fi a m somente nas
a s a g ê ncias,
em c omunida des de ta ma nho m é dio . Soment e os distr itos ma is a mplo s
t ê m sec ret á rio s a ssala riado s que v iaj a m para c á e pa ra l á . Associa çõ es
loca is e re gio na is c oope ra m, de dife rent es ma neira s, na sel e çã o de ca n-
dida t os e na esc olha de slogans ele itora is. A pa rt icipa çã o das a sso cia çõ es
regionais é determina da par tic ula rment e pe la nec es sidade de c oa li z ões
el ei t ora is e de a cordos de dese mpa t e. Os l í dere s da s o rga niza çõ es lo ca is
recrutam os membros permanentes de cada local por meio de uma
var ie da de d e man eiras, e ntr e as qua is as a sse mbl é ias p ú blicas desem-
pe nha m um papel de gra nde impo rt â ncia. As atividades dos membros
s ã o muito limitadas; geralmente n ã o fazem mais que pagar suas con-
tribui çõ es, assinar o jornal do partido, comparecer com certa regula-
ridade à s assembl é ias em que se apresentam oradores do partido, e

99
OS ECONOMISTAS

oferecer voluntariamente uma cota moderada de trabalho à é poca da s


elei çõ es. Em troca, obt ê m participa çã o, pelo menos formal, na elei çã o
do Executivo local do partido e dos conselheiros e, dependendo do ta-
manho da localidade, obt ê m tamb é m o direito de opinar direta ou in-
diretamente na sele çã o dos representantes à s conven çõ es do partido.
Por via de regra, entretanto, todos os candidatos s ã o designados pelo
n ú cleo composto de l í deres permanentes e burocratas; as mais das
vezes esses candidatos s ã o ta mb é m recrutados de entre estes ú ltimos,
suplementados por alguns dignit á rios que s ã o ú teis e merit órios em
virtude de seus nomes bem conhecidos, influ ê ncia social pessoal ou
sua dispo si çã o em fa zer c ont ribui çõ es f ina nce ira s. A ssim, a pa rt icip a çã o
da quela se gunda classe de me mbro s é li mitada à colabora çã o e vota çã o
durante as elei çõ es, que ocorrem a intervalos relativamente longos, e
à discuss ã o de resolu çõ es cujo s efeit os s ã o sempre c ont rol a dos e m gr a n-
de escala pelos l í deres. Uma substitui çã o completa dos l í deres e fun-
cion á rios distritais locais é ra ra e qua se se mpre é o resultado de uma
revolta interna que, as mais das vezes, implica em quest ões pessoais.
O ele itor co mu m, q ue n ã o pe rt enc e a nenhuma orga niza çã o e é c ort eja do
pelos partidos, é completamente inativo; os partidos o levam em con-
sidera çã o principalmente durante as elei çõ es, e, de rest o, soment e pel a
propaganda a ele dirigida.
A orga niza çã o do Partido Social-Democrata, que tem sido decan-
tada com freq üê ncia, é bem mais rigorosa (do que a dos partidos bur-
gueses) e tamb é m compreende uma porcentagem maior dos eleitores
de voz ativa; dentro de formas democr á ticas, ela é estritamente disci-
plinada e centralizada. Os partidos de direita costumavam ser de or-
ganiza çã o meno s rigoro sa e fi a va m-se ma is nos dignit á rio s lo ca is, ma s,
a seu lado, milita agora uma organiza çã o de massas muito bem es-
trut ura da , re pre se nt a da pe la Liga do s Fa ze ndei ro s ( B und der L anwir -
te). No Partido do Centro, o centralismo e a lideran ça autorit á ria s ã o
formalmente mais desenvolvidos, o poder do clero tem seus limites em

todos os assuntos n
acontecimentos. ã o-eclesi á sticos, como o provam repetidamente os
O atual est á gio do desenvolvimento acabou definitivamente com
o antigo estado de coisas, quando as elei çõ es costumavam ocorrer na
base de id é ias e slogans que eram formulados por ide ólogos e ent ã o
propagados e discutidos na imprensa e em com í cios; quando os candi-
da tos eram a pre se nt a do s po r co miss ões ad hoc e, se eleitos, uniam-se
para formar partidos que permaneciam flex í veis em sua composi çã o;
quando, finalmente, esses grupos parlamentares constitu í am as lide-
r a n ças de pessoas de igual opini ã o em todo o pa í s — principalmente
a li de ra n ça que f ormulava a s que st ões par a a s e le i çõ es seguint es. Agora ,
em c ont ra posi çã o, o fu n cio n á rio do pa rt ido est á surgindo em toda pa rt e,
ainda que num ritmo desigual, como o elemento din â mico da t á tica
partid á ria . Simulta nea mente c om el e, a a rrec a da çã o orga niza da de fun-

100
WEBER

dos torna-se importante. As permanentes dificuldades financeiras exi-


gem contribui çõ es regulares, que naturalmente desempenham o prin-
cipal papel em organiza çõ es de massa que t ê m por base determinada
classe, como, por exemplo, o Partido Social-Democr á tico; entretanto,
essas contribui çõ es tamb é m com freq üê ncia revigoram a posi çã o dos
pat ro cina do res do par tido que c ont inua va a se r predo mina nt e e m outros
tempos. Mesmo no Partido Social-Democr á tico nunca estiveram com-
pletamente ausentes. No Partido do Centro, um ú nico patrocinador,
Sr. August Thyssen, mant é m agora uma posi çã o social equivalente
pelo menos à de um arcebispo. Entre os partidos burgueses, os finan-
ciadores s ã o moderadamente importantes como fonte de renda na es-
querda , ma s muito ma is i mpo rt a nt es na dire ita . De a cordo com a ordem
na tu ra l da s co isas, o papel de sse s fina nci a do res é imp orta nt í ssimo nos
partidos de porte m é dio tais como o dos nacionais-liberais e o dos
a nt igo s livre- conserva dore s, de fo rm a qu e o a t ua l po der efe t ivo desse s
partidos burgueses quase se constitui numa medida aproximada da
import â ncia do dinheiro como tal, isto é , de fundos proporcionados por
patrocinadores individuais, em elei çõ es baseadas no sufr á gio i gua li t á -
rio. Mas, mesmo no caso desses partidos, n ã o se poderia dizer que o
a poio de fi na nci a do res, ain da qu e se ja indispe ns á vel p a ra el es, p roduza
o vo to. Os p a rt ido s vive m, a nt es , e m virt ude de um singul a r casa mento
misto e nt re o s po dere s fina nce iro s e a quela va sta ca ma da do s int el ec-
tuais, incluindo em particular os professores acad ê micos e n ã o-acad ê -
micos, que se prendem emocionalmente a reminisc ê ncias da era de
Bismarck. Comparada ao n ú mero de votos desses partidos, uma parte
des pro porc iona lme nt e gra nde da imp rensa burgues a é imi t a da de forma
atenuada pela imprensa comercial completamente oportunista, visto
que isso é conveniente a c í rculos governamentais e de neg ócios.
Aqu i como e m t oda pa rt e, a buroc ra t iza çã o e o or ça mento naci ona l
s ã o fen ômenos concomitantes à democratiza çã o, por mais acentuada
que seja a diferen ça dos partidos alem ã es em sua estrutura social
interna.
vigorosa,Isso torna
muito indispens
mais ve l ouma
acentuada doáque foraa ngaria çã à éopoca
de votos cont ípar-
dos velhos nu a e
t ido s de dignit á rios. O n ú mero de disc ursos e le itora is que um c a ndida t o
precisa proferir hoje em dia, enquanto poss í vel em todas as pequenas
a lde ias de se u dis tr ito , aum enta cont inua mente, assim c omo a umenta m
sua s visi t a s lo ca is e seus rel a t ório s, e ta mb é m a ex ig ê nci a da impre nsa
do par tido rel a tiva a se rvi ços de in form a çã o e ma t é ria corriqueira pa ra
publica çã o, e para publicidade de toda esp é cie. O mesm o pode se r dit o
com refer ê ncia à dureza e à implacabilidade dos m é todos de combate
pol í tico. Isso tem sido freq ü entemente deplorado e imputado aos par-
t ido s co mo se ndo uma de sua s pec ulia rida des. T oda via , n ã o apenas as
organiza çõ es partid á rias recorrem a essas medidas, mas tamb ém a
m á quina do governo. A imprensa de Bismarck, financiada pelo assim
chamado “ Fun do Guelf o ” , supero u t udo, e spec ia lment e a pa rt ir de 1 878,

101
OS ECONOMISTAS

no que diz respeito a meios inescrupulosos e falta de bom-tom. As


tentativas de criar uma imprensa local que fosse completamente de-
pe ndente da m á quina go ve rna menta l do mina nt e nunca ces sa ra . A ex is-
t ê ncia e qualidade desses m é todos de combate nada t ê m a ver com o
grau de parlamentariza çã o nem com o grau de direito ao voto de su-
fr á gio ; a nt es, e sses m é todo s resul t a m pura mente da s el ei çõ es de ma ssa,
sem levar em conta se os organismos eleitorais s ã o o setor de escolha
dos l í deres politicamente respons á veis ou se apenas podem exercer
uma pol í tica voltada para interesses e benef í cios, como é o caso na
Aleman ha. !1 Nase gu nd ahi p ótes ea luta pa rtid á riaa ssume forma sp a r-
ticularmente secund á rias, pois é motivada por interesses puramente
materiais e pessoais. É poss í vel e necess á rio utilizar os meios propor-
cionados pelo direito criminal para lutar contra os ataques pol í ticos
dirigidos contra a honra pessoal e vida particular de um advers á rio e
contra a inescrupulosa dissemina çã o de inverdades sensacionalistas.
Todavia, a ess ê ncia da luta pol í tica como tal n ã o poder á ser alterada
enqu a nt o ex istirem o rga nismos el ei t ora is que t oma m dec is ões a r esp ei t o
de interesses materiais. Menos ainda poder á ela ser alterada pela re-
du çã o da import â ncia e do n í vel do parlamento. Tudo isso deve ser
simplesmente aceito. Toda forma de desd m est tico ou moralizante
é co mple t a ment e e st é ril, co m r efer ê ncia à q ues é tã o daé ref orma da pol í tica
na ciona l. A int erroga çã o pol í tica é simplesmente de se saber quais s ão
as conseq üê ncias dessa democratiza çã o progressiva dos meios e das
form a s o rga niza ciona is do comba t e pol í tic o para a es trut ura da empre sa
pol í tic a dentro e fo ra do p a rla mento. Os de senvo lvi mentos que a ca ba -
mos de descrever est ã o intimamente relacionados com a gest ã o dos
assuntos parlamentares que discutimos anteriormente.
Dentro e fora do parlamento, é necess á ria uma figura caracte-
r í st ica , o po l í tico profissional, um homem que, pelo menos idealmente,
mas quase sempre materialmente, considera a pol í tica partid á ria o
cerne de sua vida. Essa figura, quer a amemos ou a odiemos, é , em
sua atual forma, o produto inevit á vel da racionaliza çã o e da especia-
liza çã o de atividades partid á rias baseadas na elei çã o de massa. Aqui,
novamente, n ã o faz diferen ça qual o grau de influ ê ncia pol í tica e de
responsabilidade que cabe aos partidos em virtude do avan ço do par-
lamenta ris mo . H á dua s cl a sses de p ol í t ico s pr ofissio na is (c omo vim os):
aqueles que vivem materialmente à custa do partido e de atividades
pol í ticas; na Am é rica do Norte s ã o estes os grandes e pequenos em-

1 Em fi ns d e 1917, jornai s adqui ri do s p elo big business acusaram o Frankfurter Zeitung e


um delegado do Reichstag de terem sido subornados com dinheiro ingl ê s. Meu nome e o
de um colega nacional-liberal foram igualmente ligados a subornos de Lloyd George. E
cí rculos intelectuais acreditaram nessas afirma çõ es! Esse fato é rea lmente sufi ciente pa ra
julgar da maturidade pol í tica dessa camada. Os atos desses parasitas provam que, na
Alemanha, demagogia sem parlamentarismo e sem democracia funciona totalmente ao
n í vel franc ê s. (N. de Weber.)

102
WEBER

preit eiros po l í t ico s, os chef ões , e no p a no ra ma a le m ã o s ã o os “ oper á rios ”


pol í ticos, os funcion á rios assalariados do partido. Em segundo lugar,
h á a qu el es que vi vem “ para ” a pol í t ica , possuem recursos independent es
e s ã o impelidos por suas convic çõ es; a pol í tica torna-se o centro de
sua s vida s, c omo, p or exe mplo , P a ul S inger, ent re o s soc ia l-demo cra t a s,
qu e e ra a o mesmo tempo um fina nci a dor do pa rt ido no e st ilo cl á ssico. 1
Deve ficar claro aqui que n ã o negamos o idealismo do funcionalismo
do partido. Pelo menos na esquerda, encontra-se grande n ú mero de
personalidades pol í ticas irrepreens í veis entre os funcion á rios, o que
n ã o seria f á cil encontrar em outras camadas. Entretanto, ainda que o
idealismo esteja longe de ser uma fun çã o de situa çã o financeira de
uma pe sso a , vi ver “ para ” a pol í tica é ma is bar a to para o memb ro a bas-
tado do partido. É esse elemento precisamente — pessoas economica-
mente independentes de todos quantos a rodeiam — o mais desej á vel
pa ra a vida do pa rt ido e, como se esp era , n ã o desapa rec er á por complet o,
em especial dos partidos radicais. Claro que a empresa do partido
propriamente, hoje em dia, n ã o pode ser acionada s ó por eles — o
grosso do trabalho a ser realizado fora do parlamento ser á sempre
executado pelos burocratas do partido. Todavia, por causa de sua pr ó-
pria preocupa çã o com a opera çã o da empresa, esses funcion á rios de
ma nei ra a lg uma pode r ã o se r sempre os c a ndida tos ma is adequa do s a o
pa rla ment o. Os so cia l-demo cra t a s s ã o a ú nic a gra nde e xce çã o. Na ma io-
ria dos p a rt ido s burg ueses, c ont udo, o sec ret á rio do p a rt ido , restr ingido
por seu cargo, n ã o se constitui no melhor candidato. Dentro do parla-
mento, um predom í nio exclusivo do funcionalismo do partido, n ã o im-
porta qu ã o desej á vel e ú til sej a sua rep rese nt a çã o, n ã o teria um efeito
favor á vel. Mas tal predom í nio n ã o existe nem mesmo dentro do mais
buroc ra t iza do p a rt ido , o do s soc ia l-demo cra t a s. D e fa t o, o f uncio na lis mo
do partido constitui relativamente o menor perigo de provocar uma
domina çã o do “ es p í rito burocr á tico ” em detrimento de l í deres verda-
deiros. Esse perigo deriva, em grau bem maior, da necessidade de
levar em considera çã o modernas organiza çõ es de interesses com a fi-
nalidade de se obterem votos; isso leva à entrada for çada de seus
emp rega do s na li sta de c a ndida tos do par tido , num fen ômen o q ue c res-
ceria consideravelmente se fosse adotado um sistema proporcional de
elei çõ es, exigindo a vota çã o por listas. 2 Um parlamento composto de
tais empregados seria politicamente est é ril. É verdade, contudo, que
o esp í rito dos empregados de organiza çõ es, tais como os pr óprios par-
t ido s e o s sindic a t os, devi do a seu t reina ment o em lida r co m o p ú blico,
é essencialmente diferente do esp í rito do funcionalismo p ú blico, que

1 P a ul Si nger ( 1844-1911), i ndustrial de B erl im, era membro imp orta nte do P a rtido Soc ial-
Democr á tico, cuja delega çã o ao Reichstag chefiou de 1885 em diante.
2 É isso exatamente que ocorreu mais tarde na Rep ú blica de Weimar, onde a representa çã o
proporcional tamb é m levou a uma prolifera çã o de partidos baseados puramente na repre-
senta çã o de interesses de grupos espec í ficos.

103
OS ECONOMISTAS

tr a ba lha se rena mente no mei o de a rquivo s. Espe cialment e no s pa rt ido s


radicais e principalmente no Partido Social-Democrata, o perigo apre-
sentado pelo esp í rito burocr á tico seria relativamente o menor, visto
que a veem ê ncia do combate pol í tico neutraliza as tend ê ncias (consi-
der á veis mesmo l á ) para a cristaliza çã o numa camada de possuidores
de benef í cios. N ã o obstante, nesses partidos apenas uma parte dos
l í deres propriamente ditos eram burocratas do partido.
Em todos os parlamentos e partidos democr á tic os, a s a tu a is e xi -
g ê nci a s fe ita s à empresa pol í tic a resul ta m na el ev a çã o de uma profi ss ã o
a um papel especialmente importante no recrutamento de parlamen-
tares: a dos advogados. Al é m do conhecimento da lei e, o que mais
impo rt a , da pre par a çã o par a comba ter um a dve rs á rio q ue essa profi ss ã o
proporciona, em contraste com o cargo dos juristas empregados, um
elemento puramente material é decisivo: a posse de um escrit ório par-
ticular — hoje uma necessidade absoluta para o pol í tico profissional.
Enquanto todos os outros empres á rios livres s ã o impedidos, devido ao
a cú mulo de servi ço em suas pr óprias empresas, de fazer face à s cres-
centes exig ê nci a s da a tividade po l í tic a reg ular, e te riam que aba ndo na r
suas ocupa çõ es a fim de se tornarem pol í ticos profissionais, é relati-
vamente f á cil para o advogado efetuar uma mudan ça, dadas as bases
t é cnica s e psico l ógic a s de sua s a tivida des . O pre do m í nio do s a dvo ga do s
numa democracia parlamentar, t ã o freq ü ente e t ã o erroneamente de-
plorado, é oc a sio na do p el o f a to de a tua lme nt e os pa rla mentos a le m ã es
deixarem de oferecer a seus membros escrit órios adequados, servi ços
de informa çã o e pessoas de escrit ório. 1 Toda via , n ã o queremos discutir
aqui os aspectos t é cnicos do funcionamento de um parlamento. Em
vez disso, perguntaremos em que dire çã o se desenvolve a lideran ça do
partido sob a press ã o da democratiza çã o e da crescente import â ncia
de pol í t icos profi ssio na is, fu ncio n á rio s do p a rt ido e e mprega do s de gru-
pos de int eresse, e que r epe rcuss õ es i sso tem p a ra a vi da parla menta r.

3. D emocr atização e D emagogi a

A opini ã o popular dos cr í ticos alem ã es responde levianamente à


quest ã o concernente ao efeito da democratiza çã o: o demagogo ascende
a a lta posi çã o, e o demagogo bem-sucedido é a quele que ma is i nesc ru-
pul oso se mos tr a a o cort eja r a s ma ssa s. Um a ide a li za çã o da s realidades
da vi da se ria um in ú t il a t o de i ludir- se a si mesmo. A a firma çã o sobre
a crescente import â ncia do demagogo n ã o raramente mostrou-se ati-
nente, e o é de fato, no bom sentido da palavra. No sentido negativo

1 Re centeme nte, em 1967, d ois de legado s no Bundes tag da Re p ú blic a Federa l Alem ã tive ra m
que p art il har uma ú nic a sa le ta ; os qua dros de pe sso a l de pe squisa da s fac çõ es p a rlamentares
eram pequenos demais e estavam completamente sobrecarregados. Ainda era dif í cil para
o P a rlam ento e os part ido s individuais recruta r pesso a l co nvenc iona l e espe cia l, da ma neira
como s ã o recruta dos o s qua dros de p esso a l das comiss ões co ngressio na is nos E sta dos U nido s.

104
WEBER

é t ã o ver í dic o na demo cra cia q ua nt o o foi, par a a a tu a çã o da mo na rqui a ,


a observa çã o que h á algumas d é cadas um famoso general fez a um
monarca autocr á tico: “ Vossa Majestade, muito breve, estar á rodeado
ex clusiva ment e de pa t ife s ” . U ma conside ra çã o pr á tica sobre sele çã o de
lideran ça democr á tica sempre incluir á uma compara çã o com outras
organiza çõ es e seus sistemas de sele çã o. Uma olhada à s quest ões de
pe sso a l da s o rga niza çõ es bur ocr á t ica s, i ncl uindo as m el hores unida des
de oficiais do ex é rcito, é suficiente para esclarecer o seguinte: o reco-
nhecimento convicto da parte dos subordinados de que um superior
“ merece ” sua posi çã o n ã o é a regra mas a exce çã o, particularmente
em se tratando de novos superiores que progridam rapidamente. Um
pro fundo c etic ismo do mina a s a tit udes da gra nde ma ioria do s indiv í duos
sinc ero s que a tu a m n o interio r da s o rga niza çõ es — a bstr a indo- se c om-
pletamente de todo boato mesquinho. Refere-se esse ceticismo ao cri-
t é rio de nomea çõ es, tanto no que diz respeito à s raz ões de quem as
fa z, qua nt o a os meio s emp regados p or a quele s que t ive ra m a ex tr ema
ventura de se verem empossados em seus cargos. Mas essa cr í tica,
gera lment e sil enc iosa , n ã o é percebida pelo p ú blico , q ue n ã o tem, a ssi m,
a mais vaga no çã o de sua exist ê ncia. Experi ê ncias sem conta, que
qualquer indiv í duo pode realizar à sua volta, ensinam que o atributo
que melhor garante a promo çã é certa medida de flexibilidade em
o
rela çã o à organiza çã o, o grau de “ conveni ê ncia ” que o subordinado
apresenta para seu superior. A sele çã o, com toda certeza, n ã o é , em
m é dia, uma sele çã o de l í deres natos.
Os indiv í duos que atuam no interior da organiza çã o mostram o
mesmo ceticismo em muitos casos com respeito a nomea çõ es a ca d ê m i-
cas, ainda que o controle p ú blico se possa exercer aqui de maneira
mais eficiente, em vista do car á ter p ú blico dos atos realizados, coisa
que geralmente n ã o se d á no caso de funcion á rios. Todavia, o pol í tico,
e principalmente o l í de r pa rtid á rio que subiu ao poder p ú blico, encon-
t ra -se e xpo st o a um m inucio so exa me p ú blic o leva do a ca bo p ela cr í tica

dos
contradvers
a sua peá rios
sso ae , competidores e pode
a s ra z ões e os meioster
de certeza de que,
como subiu na lutaã o impla-
sofrer
cá vel publicidade. Uma observa çã o objetiva, portanto, dever á mo stra r
qu e, de modo gera l, a sel e çã o dent ro da dema go gia do pa rt ido se ve rific a
segundo um crit é rio de modo algum menos funcional do que para a
sele çã o rea li za da a port a s fe cha da s no do m í nio da buroc ra cia . E xe mplo s
contr á rios s ã o proporcionados somente por pa í ses novos, tais como os
Est a do s U nido s, ma s uma contesta çã o dessa observa çã o seria simples-
mente insustent á vel com refer ê ncia aos Estados alem ã es, na Europa.
Al é m disso, se mesm o um chefe de E st a do-Ma ior (H elmut h von Mol t ke)
comple t a ment e inco mpetent e, a o come ço da G ue rra Mundi a l, n ã o deva
ser um argumento contra a habilidade da monarquia para recrutar
l í deres, ent ã o tamb é m é inadmiss í vel que se assaquem contra as de-
mocracias esses erros de recrutamento.

105
OS ECONOMISTAS

Todavia, n ã o desejamos prosseguir nessas compara çõ es e recri-


mina çõ es politicamente est é reis. O detalhe decisivo é que , p a ra a s ta-
ref a s de li dera n ça na ciona l, s ó es t ã o preparados os homens que foram
selecionados no curso da luta pol í tica, pois a ess ê ncia de toda pol í tica
é a luta. É simpl esme nt e um fa to que t a l p rep a ro é , em m é dia, levado
a cabo com mais efic á cia pelo mui difamado “ of í cio de demagogos ” do
que por um escrit ó rio burocr á tico, o qual por sua vez prov ê um trei-
namento infinitamente superior para a administra çã o eficiente.
É cl a ro que a dema go gia pol í t ica pode c ondu zir a a buso s impres-
sio na nt es. P ode a cont ecer que um indiv í duo do t a do de simples ret ó rica,
destitu í do de intelecto superior e de car á ter pol í tico, atinja uma alta
posi çã o de poder. Mas essa descri çã o n ã o se aplicaria a um August
Bebel, 1 pois ele tinha car á ter, ainda que n ã o possu í sse uma mente
superior. O per í odo de persegui çã o em que viveu (na d é cada de 1870)
e a ca sua li da de de ter sido um d os primei ros l í deres (social-democrata),
mas tamb é m a quela q ua li da de, conq uista ra m-lhe a confian ça irre strita
das massas, que membros do partido superior n ã o conseguiram dissi-
par -lhe . Eugen Ric ht er, E rnst Lie be r, Ma tt hia s E rzbe rger — t odo s eles
pertencem a um tipo de compat í vel qualidade. 2 Estes foram “ demago-
gos ” bem-sucedidos, em contraste com intelectuais muito superiores,
que n ã o conseguiram conquistar o poder em seus partidos, a despeito
de seus triunfos de ret órica perante as massas. Isso n ã o é acidental
— e contudo n ã o é uma conseq üê ncia da democratiza çã o —; resulta,
antes, do fato de se limitarem à “ pol í tica negativa ” .
Democratiza çã o e demagogia andam juntas, mas — repetimo-lo
— independentemente da esp é cie de Constitui çã o, na medida em que
as massas n ã o possam ser tratadas como objetos de administra çã o
puramente passivos, isto é , na medida em que suas atitudes tenham
alguma import â ncia ativa. Afinal de contas, o caminho da demagogia
tamb é m foi esc olhido, à sua ma nei ra , p elas mo na rquia s mo de rna s. Es-
tas se servem de discursos, telegramas e recursos propagand í sticos de
to da pa rte p a ra a pro mo çã o de seu prest í gio; ningu é m pode pretender
que esse tipo de propaganda pol í tica mostrou-se menos perigoso para
o interesse nacional do que a mais veemente demagogia (dos l í deres
partid á ri os) em é poca de elei çõ es. Muito a o cont r á rio . Em ple na guerra ,
deparamo-nos agora at é com o fen ômeno de um almirante envolver-se
em dema go gia . As co nt enda s sob re á rea de influ ê ncia entre o ex-chan-
celer (Bethmann-Hollweg) e o almirante Von Tirpitz foram trazidas a
p ú blico numa campanha tumultuosa realizada pelos seguidores do al-
mirante (e com sua toler â ncia, conforme foi com raz ã o salientado no

1 Augu st B eb el (1840-1913) foi o l í der do Partido Social-Democr á tico desde sua funda çã o,
em 1869.
2 C om r ela çã o a Richter e E rzberger, ver n ota s a nt erio res. E rnst Lieber ( 1838-1902), membro
li beral do P a rtido do Centro, di rigiu a del ega çã o p a rlamentar de se u part ido a p ós a morte
de Windthors em 1891.

106
WEBER

Reichstag); interesses de pol í tica externa entraram na refrega do lado


do almirante, de forma que uma quest ã o militar e diplom á tica, que
somente poderia ser decidida com o mais profundo conhecimento dos
fa t os (ist o é , a ques t ã o da guerra subma rina ili mit a da ), torno u-se objeto
de um demagogismo sem paralelo entre as massas, que nesse caso
eram realmente “ n ã o-cr í ticas ” , isto é , destitu í das de quaisquer meios
de ju í zo cr í tico. Conseq ü entemente, a ningu é m é dado afirmar que a
“ demagogia ” é uma caracter í stica de um Estado constitucionalmente
democr á tico. As revoltantes batalhas de s á trapas e as intrigas dos
candidatos pela posse de um minist é rio, em janeiro de 1918, tamb ém
fora m le va da s à imprensa e a com í cios. Essas atividades demag ógicas
pro duzira m a lgum impacto . Na Ale ma nha temo s dema go gia e p ress ã o
populista sem democracia, ou antes, devido à a us ê ncia de uma demo-
cra cia disc ip li na da .
En t reta nt o, quere mos dis cutir a qui a pena s a verda dei ra impo rt â ncia
da demagogia para a estrutura da lideran ça pol í tica; assim, queremos
suscitar a quest ã o da rela çã o entre democracia e parlamentarismo.

4. Lideran ça Plebiscit ária e Controle Parlamentar

nã o é A democratiza
o mais o ativa deporque
çã candidato
proclamado massa demonstrou
significa queseuo lvalor numí der pol í tico
cí rculo de dignit á rios, tendo-se tornado um l í der por causa de suas
pro ez a s par lam enta res, ma s signif ica , si m, que el e a dquire a confian ça
e a f é qu e a s ma ssa s depo sita m n el e conq uista ndo o poder pe los meio s
da demagogia de massa. Em ess ê ncia, isso significa uma mudan ça
cesarista de sele çã o de l í deres. Na verdade, toda democracia propende
nessa dire çã o. Afinal de contas, a t é cnica especificamente cesarista é
o plebiscito. N ã o é um vot o ou um a el ei çã o comum , ma s uma pro fiss ã o
de f é na voca çã o a l í der daquele que recorre a essas aclama çõ es. O
l í der cesarista aparece à moda militar como Napole ã o I, ditador que
teve sua posi çã o confirmada por um plebiscito, ou ent ã o aparece à
ma
cia nei rax burgues
do E é rci t o, dea :um
me adiareivi
nt endica
confirma
çã o ação opoder,
plebiscit
da pa á ria
rt e, cde
omuma quiesc ên -
po l í tico
n ã o-militar, como Napole ã o III. Ambas as abordagens s ã o t ã o antag ô-
nicas ao princ í pio parlamentar como o s ã o (naturalmente) ao legiti-
mismo da mo na rqu ia heredi t á ria . Toda esp é cie de elei çã o p opula r d ireta
do mandat á rio supremo e, mais, toda esp é cie de poder pol í tico que se
a p óia na confian ça das massas e n ã o na do parlamento — inclui-se
aqui tamb é m a posi çã o de um h er ói popula r guerr eiro como Hin denbu rg
— est á no caminho que conduz a essas formas “ puras ” de aclama çã o
cesarista. Isso é particularmente ver í dico com respeito à posi çã o do
presidente dos Estados Unidos, cuja superioridade sobre o parlamento
deriva de sua escolha e elei çã o (formalmente) democr á ticas. As espe-
r a n ças que uma figura cesarista como Bismarck atribu í a ao sufr á égio
universal e a maneira de sua demagogia antiparlamentar tamb m

107
OS ECONOMISTAS

apontam na mesma dire çã o, ainda que tivessem sido adaptadas, na


formula çã o e na fraseologia, à s condi çõ es legitimistas espec í ficas de
sua posi çã o min ist eria l. As circunst â nc ias do a fast a mento de Bisma rc k
demonstram a maneira pela qual o legitimismo heredit á rio das mo-
na rq uias rea ge c ont ra es se s po dere s ce sa rista s. T oda demo cra cia par -
lamentar busca intencionalmente eliminar os m é todos plebiscit á rios
de sele çã o de l í deres, pois tais m é todos s ã o perigosos ao poder parla-
mentar. Um exemplo digno de nota encontra-se na atual Constitui çã o
francesa e no direito eleitoral franc ê s que a boli u a s “ Lis ta s E le ito ra is ”
(em 1889) devido ao perigo bulangista. Todavia, a democracia parla-
mentar francesa pagou por isso com aquela falta de autoridade dos
supremos poderes junto à s massas, que é t í pica na Fran ça e t ã o ca-
ra cteristic a mente dife rente da posi çã o do presidente dos Estados Uni-
dos. Em contraposi çã o, nas monarquias heredit á rias democratizadas,
o elemento cesarista plebiscit á rio é sempre muito atenuado, se bem
que n ã o seja inexistente. Na realidade, a posi çã o do atual primeiro-
ministro brit â nico (Lloyd George) n ã o est á baseada absolutamente na
confian ça do parla mento e d os p a rtido s, ma s na da s ma ssas na p á tria
e na do ex é rcito no campo de batalha. O parlamento concorda (com
bastante relut â ncia interna) com essa situa çã o.
Assim, o contraste entre as sele çõ es plebiscit á ri a e pa rl a me nta r
de l í deres é bem rea l. Toda via , nem por isso a exi st ê nc ia do parla mento
é in ú til, na verdade. Em face do representante cesarista efetivo das
massas, o parlamento da Inglaterra garante: 1) a continuidade; 2) a
supervis ã o da posi çã o de poder desse representante; 3) a preserva çã o
dos direitos civis; 4) um campo de provas pol í tico apropriado para
cortejar a confian ça das massas e 5) a elimina çã o pac í fica do ditador
cesarista quando este tenha perdido a confian ça da s ma ssas. T oda vi a ,
visto que as grandes decis ões pol í ticas, mesmo e principalmente numa
demo cra cia , s ã o inevita vel ment e toma da s po r po uco s homens, a demo -
cra cia de ma ssa s, de sde o t empo de P é ricles, tem comprado seus ê xitos
com con cess municipalidades
Nas grandes ões i mpo rt a nt es ao pri nc ípor
americanas, pi o cesa rist a ade
exemplo, sel e çã o de l í deres.
corrup çã o
s ó tem sido debelada por ditadores municipais plebiscit á rios a quem
a confian ça das massas concedeu o direito de estabelecerem suas pr ó-
prias ag ê ncias administrativas. E onde quer que partidos de massa
democr á ticos se viram a bra ços com grande tarefas, tiveram que se
submeter mais ou menos incondicionalmente a l í deres que detinham
a confian ça das massas.
Servimo-nos do exemplo brit â nico para ilustrar a import â ncia
que, nessa circunst â ncia, o parlamento conserva numa democracia de
massa. Todavia, n ã o existem apenas “ socialistas ” subjetivamente sin-
ceros, mas tamb é m democratas subjetivamente sinceros que odeiam a
empresa parlamentar a tal ponto que pregam “ o socialismo sem par-
lamento ” , ou “ a de mo cra cia se m parla mento ” . Claro est á que ningu é m

108
WEBER

pode “ refutar ” avers õ es irresistivelmente intensas. Mas é necess á r io


esclarecer qual seria a conseq üê ncia pr á tica desses sentimentos num
Estado com nossa Constitui çã o mon á rquica. Que seria, ent ã o, uma
democracia sem nenhum parlamentarismo na ordem pol í tica alem ã
com sua buro cra cia a utorit á ria ? Ta l demo cra t iza çã o mera mente pa ssi va
seria uma forma totalmente pura de domina çã o burocr á tica n ã o-con-
trolada, t ã o nos sa fa mili a r, que se de nomi na ria “ regiment o mo n á rqui-
co ” . Ou, se relacionarmos essa democratiza çã o com a organiza çã o eco-
n ô mic a que é a esp era n ça desses “ socialistas ” , ter í a mo s uma mo de rna
r é pl ica ra ciona l do an tigo Est a do l it ú rgico. Grupos de interesse legiti-
mados e (segundo se afirma) controlados pela burocracia seriam ati-
va mente o s agent es da a uto- a dministra çã o corpo ra tiva , e passiva mente
seriam os portadores dos encargos p ú blicos. Os funcion á rios p ú blicos
seriam ent ã o supervisionados por essas associa çõ es sindicalizadas de
fi na li da de l uc ra tiva , e n ã o pe lo mona rc a , que se ria tota lme nt e i ncapa z
de realiz á -lo, nem pelo cidad ã o, q ue n ã o teria n enhuma rep rese nt a çã o.
E xa minemo s, e m ma iores de ta lhe s, e ssa vis ã o do futuro. Tal de-
mocratiza çã o passiva n ã o cond uziria , em fut ur o previs í vel, à eli min a çã o
do empres á rio privado, ainda que houvesse nacionaliza çõ es de amplas
conseq üê ncias; antes, isso implicaria numa sindicaliza çã o de grandes
e pequenos capitalistas, pequenos produtores e assalariados sem pro-
pri eda de s, e at ra v é s dessa sindicaliza çã o as oportunidades econ ômicas
de c a da ca tego ria se riam de alguma forma re gul a da s e — aqui est á o
ponto crucial — seriam monopolisticamente garantidas. Isto seria “ so-
cialismo ” do mesmo padr ã o que o do “ Novo Reino ” do Egito Antigo.
S ó seri a demo cra cia se f osse m t oma da s medi da s vis a ndo dar à vo nt a de
das ma ss a s uma infl u ê ncia decisiva na administra çã o dessa economia
sindicalizada. É inconceb í vel c omo isso pudesse ser rea liza do sem um a
representa çã o que protegesse o poder das massas e controlasse conti-
nuamente os sindicatos: isto é , se m um par lam ento de mo cra tiza do ca -
paz de intervir nas quest ões essenciais e relativas ao pessoal dessa
administra çã o. Sem poderia
economia sindicalizada uma representa çã o popular
levar a um sistema do tipo
de guildas atual, uma
(asso-
cia çõ es de mutualidade) com a finalidade de proteger a subsist ê ncia
de todos e assim deslocar-se na dire çã o de uma economia esta cion á r ia
e da elimina çã o de qualquer interesse na racionaliza çã o econ ômica.
Pois, em toda parte, a preocupa çã o com uma garantia corporativa foi
sempre decisiva para grupos econ ômico s co m pouc o ou n enh um capit a l
t ã o logo se organizaram monopolisticamente. Quem quiser considerar
isso o ideal de um futuro “ democr á tico ” ou “ socialista ” , pode faz ê -lo.
Mas o superficial diletantismo dos cr í ticos confunde a carteliza çã o de
interesses de lucro e de sal á rios com o ideal, t ã o freq ü entemente di-
fundido atualmente, de acordo com o qual a produ çã o de mercadorias
se ja a da pta da , no futuro , à s necessidades, e n ã o a interesses de lucro,
como na atualidade — uma confus ã o que se verifica repetidamente.

109
OS ECONOMISTAS

P ois , p a ra a re a li za çã o deste ú ltimo ide a l, se ria obvia ment e nec ess á r io


pa rtir n ã o de uma ca rt el iza çã o e monopoliza çã o de int eresses de lucro,
ma s ex a ta mente do oposto: a orga niza çã o do s int eresses do c onsu midor.
A organiza çã o econ ô mica do futuro teria que ser estabelecida n ão à
ma nei ra de ca rt é is, a ssoc ia çõ es e sindica t os co mpuls ó rios de pro dut ores,
controlados pelo Estado, mas à maneira de uma imensa cooperativa
de consumidores, compuls ória e controlada pelo Estado; essa coopera-
tiva, por sua vez, regularia a produ çã o de acordo com a demanda,
como j á o fa zem a lguma s co ope ra t iva s de co nsum ido res ( pe la pro du çã o
pr ópria). Ainda uma vez, n ã o se pode imaginar como os interesses
“ democr á ticos ” — aqueles da massa dos consumidores — possam ser
protegidos de outra maneira que n ã o por meio de um parlamento que
tamb é m possa controlar continuamente a produ çã o nacional.
Mas chega de planos futuristas. A aboli çã o total do parlamento
a inda n ã o foi seriamente exigida por nenhum democrata, n ã o importa
quanto ele se oponha à forma atual dessa institui çã o. Provavelmente
todo democrata gostaria de manter o parlamento como o meio de fazer
cumprir o controle p ú blico da administra çã o, para determinar o or ça -
mento e, finalmente, para deliberar e aprovar leis — fu n çõ es p a ra a s
quais os parlamentos s ã o realmente insubstitu í veis em todas as de-
mocracias. A oposi çã o sinceramente democr á t ica , e n ã o, como freq ü en -
temente a cont ece, uma m á sc a ra enga na do ra par a interess es de podere s
burocr á ticos, deseja essencialmente duas coisas: 1) que as leis fossem
feitas n ã o por meio de decis ã o parlamentar, mas por voto popular
obrigat ó rio; 2) que o sistema parlamentar n ã o existisse, isto é , que os
parla mento s n ã o fossem locais de recrutamento para os l í deres nacio-
nais e que o voto parlamentar de confian ça n ã o fosse decisivo para
que esses l í deres se mantivessem nos cargos. Como se sabe, esta é a
regra estabelecida na democracia americana; ela deriva parcialmente
da elei çã o popular direta do chefe de Estado e de outros funcion á rios,
e, em parte, deriva tamb é m do chamado princ í pio da “ separa çã o dos
poderes
ciente, que ” . Contudo,
a eliminaa democracia americana ensina,dessa
çã o do parlamentarismo, com maneira,
clareza sufi-
n ã o se
constitui numa garantia de administra çã o mais imparcial e incorrup-
t í vel do qu e o pr ópri o si stema parla menta r; d á -se ex a t a men t e o opost o.
É verdade que, de forma geral, a elei çã o popular do chefe de Estado
n ã o tem se revelado frustradora. O n ú mero de presidentes realmente
inadequados pelo menos n ã o foi maior, nas ú ltimas d é cadas, do que o
n ú mero de mo na rc a s inc ompe tent es na s mona rquia s heredi t á rias. To-
davia, com o princ í pio da elei çã o popular dos funcion á rios p ú blicos, os
pr óprios americanos se acham muito pouco satisfeitos. Esse princ í pio,
se aplicado de forma geral, elimina n ã o apenas o que tecnicamente
dist ingu e o meca nism o bur ocr á tico, isto é , a disc ip lina buroc r á tic a , ma s
tamb é m n ã o proporciona nenhuma garantia quanto à qualidade dos
funcion á rios num grande pa í s moderno. Esse mesmo princ í pio coloca

110
WEBER

a inda a se le çã o de candidatos nas m ã os de c í rculo s in vis í veis que, em


compara çã o com os partidos parlamentares e seus l í deres, s ã o extre-
ma mente irresp ons á vei s dia nt e do p ú bli co. Os ca ndida t os s ã o apresen-
tados a eleitores destitu í dos de capacidade de cr í tica t é cnica. É essa
forma por demais inconveniente de se preencherem posi çõ es adminis-
tra tivas que ex ig em t re inam ent o t é cnico especializado. É prec isam ente
com rela çã o à s fun çõ es administrativas mais recentes e avan çadas,
mas tamb é m com rela çã o à s ma gistra tu ra s j udic ia is, que o s func ion á rios
treinados, nomeados pelo chefe de Estado eleito, nos Estados Unidos,
s ã o t é cnic a e inc ompa ra vel ment e supe rio res morment e no que diz res-
peito à corrup çã o. Afinal de contas, a sele çã o de funcion á rios p ú blicos
tr ei na do s e a se le çã o de l í deres pol í ticos s ã o duas coisas distintas. Em
contraste, a desconfian ça contra os parlamentos impotentes e conse-
q ü entemente corruptos de Estados americanos individuais a uma ex-
pans ã o da legisla çã o popular direta.
O plebiscito, como uma forma de elei çã o assim como tamb é m de
legisla çã o, tem limita çõ es t é cnicas inerentes, pois s ó responde “ sim ”
ou “ n ã o” . Em nenhum Estado de massas ele assume a fun çã o mais
imp orta nt e do parla mento , a da de termina çã o do or çamento. Em tais

casos, o plebiscito tamb é mum o bstruiria gra ve mente a passa gem de todo s
os projetos que resultam de compromisso entre interesses confli-
ta nt es , pois ra z õ es as ma is di ve rsa s po dem c onduzir a um “ n ã o” quando
n ã o h á um meio de conciliar interesses opostos, mediante negocia çõ es .
O referendum desco nh ece o compr omisso so bre o q ua l se ba seia a ma io-
ria das leis em todo Estado de massas, com pronunciadas divis ões
regionais, sociais, religiosas e outras. É dif í cil imaginar como num
E sta do de massa s c om gra ve s tens ões de classe possam ser adotadas,
pelo voto popular, medidas tais como leis tribut á rias que n ã o sejam
taxa çã o sobre a renda progressiva, confisco de propriedades e “ nacio-
naliza çõ es ” . Essas dificuldades talvez n ã o impressionassem um socia-
lista. Entretanto, n ã o conhecemos nenhum exemplo de mecanismo es-
tatal que, exposto à s press ões de um referendum, tenha efetivamente
institu í do ta is impo st os t erritoria is, nomina lment e ex cessi vo s co m fre-
q üê ncia, e pa rci a lment e co nfisc a do res; isso é t ã o ver í dico c om r efer ê ncia
aos Estados Unidos quanto o é com rela çã o aos Cant ões su íços onde
as condi çõ es s ã o muito favor á veis, visto que a popula çã o, por for ça da
ve lha tra di çã o, ra ciocina em t ermos obj etivos e é m uito be m poli tiza da .
Al é m do mais, os princ í pios plebiscit á rios enfraquecem o papel aut ô-
nom o do l í der do pa rt ido e a respo nsa bil ida de do s fun cion á rios p ú blicos.
Uma rejei çã o dos funcion á rios dirigentes por meio de um plebiscito
que desaprova suas propostas n ã o obriga e nem pode obrigar estes a
renunciarem, como o pode conseguir um voto de n ã o-confian ça em Es-
tados parlamentares; pois o voto negativo n ã o identifica suas raz ões
de ser e n ã o obriga a ma ssa que vo ta nega tiva mente, c omo obriga um a

111
OS ECONOMISTAS

maioria parlamentar que vota contra o governo, a substituir os fun-


cion á rios rejeitados pelos seus pr óprios l í deres respons á veis.
Finalmente, quanto mais crescesse a administra çã o direta dos
empreendimentos econ ômicos feita pela burocracia estatal, mais fatal
seria a falta de um ór g ã o de controle independente, com o poder, à
maneira dos parlamentos, de exigir publicamente informa çõ es do s fun -
cion á rios t odo -poder oso s e d e cha m á -los à pre st a çã o de c ont a s. Os meios
espec í ficos da democracia puramente plebiscit á ria, elei çõ es diretas e
r efer enda e ainda o instrumento de cassa çã o de mandato pelo voto
popular, s ã o totalmente inadequados no Estado de massas para a se-
le çã o de funcion á rios treinados e para a cr í tica de sua atua çã o. Visto
que a import â ncia do capital dos interessados n ã o é desprez í vel para
a s c a mpa nha s do s par tido s mesmo em e le i çõ es parlamentares, o poder
desse c a pi t a l e o impulso do mec a nismo dema g ógico amparado por ele
aumentaria imensamente se, num Estado de massas, as elei çõ es po-
pulares e os referenda viessem a predominar completamente.
É verda de, sem d ú vi da , que a vo ta çã o obrigat ória e o referendum
const ituem o o post o ra dic a l da situa çã o t ã o freq ü entemente dep lora da ,
ou sej a , qu e o cida d ã o no E sta do parla menta r n ã o cumpre o ut ra fun çã o
pol í tic a que n ã o a de c oloca r dentr o de uma urna uma c é dula eleitoral,
forn ecida j á preparada pelos partidos, a cada determinado n ú mero de
anos. A validade disso como meio de educa çã o pol í tica tem sido posta
em d ú vida. Com toda certeza, este é um meio de educa çã o pol í tica
v á lido, se realizado sob as condi çõ es discutidas anteriormente, de in-
vestiga çã o p ú blica e de controle da administra çã o que habitue os ci-
da d ã os a observar continuamente a administra çã o de seus assuntos.
Todavia, o referendum obrigat ó rio pode chamar o cidad ã o à s urnas
dezenas de vezes em poucos meses, a fim de se pronunciar sobre leis;
a elei çã o obrigat ória lhe apresenta para a vota çã o longas listas de
candidatos que lhe s ã o completamente desconhecidos e cujas qualifi-
ca çõ es t é cnicas para o cargo ele n ã o sabe avaliar. É verdade que a
apossu
us ê ncia
i) nde
ã oqu
é , e amlisificme
a çõ es t, éum
sma cnicas (que o pro cont
a rgument ópriraoamo na rc
el ei çãaotadem
mbocr
é má tica
nã o
dos fun cio n á rio s. Sem d ú vi da , n ã o é prec iso ser sa pa t ei ro p a ra verifi ca r
se um sa pat o corresp onde e xa ta mente a determina do p é . Cont udo, n ã o
a pe na s o pe rigo de c resc ente a pa t ia é e xtre ma mente gra nde, ma s ta m-
b é m o perigo de identifica çã o err ônea dos respons á veis por abusos,
quando funcion á rios especializados s ã o eleitos pelo voto popular, en-
quanto, num sistema parlamentar, o eleitor responsabiliza os l í deres
do partido pelo desempenho dos funcion á rios nomeados. E no que diz
respeito a leis tecnicamente complicadas, o referendum pode muito
facilmente colocar o resultado em m ã os de interessados h á beis, mas
a cobe rt a do s. E m rel a çã o a esse pormenor, as condi çõ es nos pa í ses eu-
ropeus, com seu funcionalismo treinado, altamente desenvolvido, s ão
essencialmente diferentes das condi çõ es nos Estados Unidos, onde o

112
WEBER

referendum é considerado ú nico corretivo contra a corrup çã o da s legi s-


lat ura s ine vi ta ve lme nt e s ubalterna s.
Esses argumentos n ã o s ã o dirigidos contra o uso do referendum,
como ultima ratio , em casos apropriados, ainda que as condi çõ es em
Estados de massas difiram daquelas da Su íça (onde esse m é todo é
a pli ca do). Ma s o ple bisc ito n ã o to rn a os pa rla ment os po dero so s desne-
cess á rio s em gra ndes Est a do s. Co mo um ór g ã o de controle p ú blico dos
funcion á rios e de administra çã o realmente “ p ú blica ” , como um meio
para eliminar funcion á rios de alta posi çã o, mas incompetentes, como
um local para estipular o or çamento e para concertar acordos entre
partidos, o parlamento permanece indispens á vel na s democ ra cia s ele i-
torais. Em monarquias heredit á rias é ainda mais indispens á vel, pois
o monarca n ã o pode simplesmente agir com o funcion á rio eleito popu-
la rm ent e, nem, c a so e sses funci on á rio s sej a m por el e nomead os, t oma r
partido, para que sua fun çã o nacional n ã o seja comprometida: isto é,
possibilitar uma solu çã o sem conflito quando n ã o houver clareza no
resultado de um sufr á gio pol í tico e em uma situa çã o de poder. Al é m
de ser um controle aos l í deres “ cesaristas ” , o poder parlamentar é
necess á rio em monarquias heredit á rias, porque podem ocorrer largos
per í odos nos qua is ningu é m pa rec e ter a m í nima confian ça da s m a ss a s.
O pro ble ma da suce ss ã o t em sido , e m t oda pa rt e, o ca lca nh a r de A qu ile s
da domina çã o puramente cesarista. O aparecimento, a neutraliza çã o
e a elimina çã o de um l í der cesarista ocorrem mais facilmente sem o
perigo de uma cat á strofe nacional, quando a co-domina çã o eficaz de
poderosos ór g ã os representativos preserva a continuidade pol í tic a e a s
garantias constitucionais da ordem civil.
O detalhe que realmente ofende os democratas hostis ao parla-
mento é manifestamente o car á ter grandemente voluntarista da ati-
vi da de p a rtid á ria da pol í t ica e conseq ü ent emente ta mb é m dos pa rt ido s
parla menta res . Como j á vimos, o s pa rt icip a nt es po l í ticos “ ativos ” e “ pas-
sivos ” realmente se colocam em p ólos opostos sob esse sistema.
O empreendimento
ter essadas pol í ticoà quelas
. (N ã o nos referimos é um pessoas
empree interessadas
ndiment o de p esso a s i n-
material-
mente que influenciam a pol í tica em todas as formas de Estado, mas
à queles homens politicamente interessados que lutam para conseguir
o po der pol í t ico e a r esp onsa bil ida de, a fim de c oncretiza r ce rt a s id é ia s
pol í ticas.) É justamente essa busca de interesses a parte essencial do
a ssunto. P ois n ã o é a “ massa ” po litic a ment e p a ssiva qu e p roduz o l í der
de seu meio, mas é o l í der pol í tico que recruta seus seguidores e con-
quista a massa pela “ demagogia ” . Isso se verifica mesmo sob as mais
democr á ticas formas de Estado. Portanto, a pergunta oposta é muito
mais pertinente: numa democracia de massas, plenamente desenvol-
vida, permitem os partidos a ascens ã o de homem com capacidade de
lideran ç a ? S ã o eles capazes de absorver novas id é ias? Pois sucum-
bem à buro cra tiza çã o exatamente como o mecanismo estatal. A fun-

113
OS ECONOMISTAS

da çã o de novos pa rt idos, c om o s necess á rio s mec a nismos orga niza ciona l


e jornal í stico, exige hoje em dia tamanho investimento de fundos e
m ã o-de-obra, e é t ã o dif í cil em vista do poder adquirido da imprensa
existente, que est á praticamente fora de quest ã o. (Somente a pluto-
cracia dos traficantes de guerra, sob as condi çõ es muito especiais da
guerra, obteve ê xito a esse respeito, com a funda çã o do “ Partido da
P á tria ” .)
Os partidos existentes s ã o estereotipados. Seus postos burocr á-
ticos prov ê em à “ manuten çã o” de seu titulares. Seu cabedal de id é ia s
es t á a mpl a mente e xp res so na li tera tura de p ro paga nda e na imp rens a
do partido. Os interesses materiais dos editores e autores resistem à
desvaloriza çã o de ssa ma ssa de l ite ra tura med iant e a re mo de la çã o das
id é ias. Afinal o pol í tico profissional, que precisa viver “à custa ” do
partido, é qu em menos de sej a ver seu e qu ip a ment o int el ect ua l de id é ia s
e slogans fora de moda. Conseq ü entemente, o acolhimento de novas
id é ias ocorre com relativa rapidez somente onde partidos totalmente
destitu í dos de princ í pio s e vol t a dos t ã o-somente à distribui çã o de c a rgos
acrescem a suas plataformas quaisquer “ t á buas de salva çã o” que se-
gundo eles lhes atrair ã o maior n ú mero de votos.
O aparecimento de novos l í deres parece ser ainda mais dif í cil.
Durante muito tempo, os mesmos l í de res ma nt ê m seus postos ao leme
dos partidos alem ã es, e na maioria dos casos esses l í deres merecem a
mais alta considera çã o pessoal, mas tamb é m, de maneira geral, n ão
se distinguem nem intelectualmente, nem em vigor de temperamento
pol í t ico . J á men ciona mos o t í pic o preco nceit o de gr upos fec h a dos c ont ra
os novatos — é natural que assim seja. Tamb é m com rela çã o a isso,
as condi çõ es s ã o parcialmente diferentes em partidos tais como os que
existem entre os americanos. L á s ã o os administradores dos partidos,
os chef õ es, que t ê m uma posi çã o estabil í ssima. N ã o desejam honra
nem responsabilidade, s ó poder. A fim de salvaguardar seu pr óprio
poder, n ã o se exp õem aos caprichos de uma candidatura, o que con-

duziria a uma discuss


assim comprometer ã o p ú blica do
as possibilidades departido.
suas prPoráisso,
ticas freq
pol í ticas, podendo
ü ente-
mente apresentam, ainda que de maneira relutante, “ novos homens ”
como c a ndida t os. N ã o se impo rt a m co m isso, desde q ue po ssa m “ confiar ”
nesses candidatos de acordo com um crit é rio todo seu. Esses homens
s ã o apresentados a contragosto, mas obrigatoriamente quando pos-
suem, em virtude de seu “ ineditismo ” , um potencial de obten çã o de
votos; conseq ü entemente, em virtude de algum feito espetacular, sua
ca ndida tur a par ece nec es s á ria segundo o int eresse da vit ória el ei tora l.
Essas pr á ticas, que passaram a existir sob as condi çõ es da elei çã o
direta, n ã o s ã o de modo algum transfer í veis para a Alemanha e difi-
cilmente s ã o desej á vei s a qu i. Ta mpo uco t ra nsfer í veis s ã o as condi çõ es
da Fran ça e da It á lia , em co ns eq üê nc ia da estrutura pa rtid á ria nesse s
pa í ses, na qual um n ú mero bastante limitado de personalidades pol í-

114
WEBER

ticas consideradas adequadas para um cargo ministerial, ocasional-


mente com a introdu çã o de homens novos, reveza-se nos postos-chave
em combina çõ es sempre diferentes.
As condi çõ es inglesas s ã o bem diferentes. Homens com tempe-
ramento pol í tico e qualifica çõ es de lideran ça l á apareceram e se pro-
jetaram em grande n ú mero dentro da carreira parlamentar (que n ão
podemo s desc reve r a qu i) e t a mb é m dentro dos partidos, que s ã o estri-
tamente organizados mediante o sistema de “ panelinha ” . P or um la do ,
a carreira parlamentar oferece ótimas oportunidades a homens com
ambi çã o pol í tica e desejo de poder e de responsabilidade; por outro
lado, os partidos s ã o compelidos, pela caracter í stica “ cesarista ” da de-
mocracia de massas, a submeter-se a homens com temperamento e
talento pol í ticos, desde o momento em que estes provem que podem
conquistar a confian ça das massas. A probabilidade de um l í der em
potencial chegar ao cume é uma fun çã o, como ocorre freq ü entemente,
das probabilidades de poder dos partidos. Nem o car á ter cesarista e
a dema go gia de ma ssa do s p a rt ido s e nem sua buro cra tiza çã o e ima gem
es tereo tipa da s ã o, e m si mesmo s, uma ba rreira r í gi da pa ra a a sc ens ã o
de l í dere s. P rinc ip a lme nt e o s pa rt ido s bem organ izados, que realment e
querem exercer poder estatal, devem subordinar-se à queles que t ê m
a confian ça das massas, se esses homens possuem habilidades de li-
deran ça ; e m co nt ra ste, o s par tid á rio s de sa gregados no par lam ento f ra n-
cê s, todos o sabem, s ã o o verdadeiro foco das intrigas parlamentares.
Por sua vez, entretanto, a s ólida organiza çã o do partido, e, principal-
mente, a necessidade que o l í der tem de escolar-se e demonstrar seu
valor por meio de participa çã o convencionalmente bem regulamentada
em trabalho de comiss ã o parlamentar proporcionam um alto grau de
garantia de que esses deposit á rios cesaristas de massas respeitem os
acordos constitucionalmente estabelecidos e de que n ã o sejam sele-
cionados de acordo com um crit é rio puramente emocional, isto é,
si mple smente segu ndo qua li da des demag ó gicas no sentido negativo
da palavra. Particularmente nas condi çõ es atuais de sele çã o, um
pa rl a me nt o e n é rgico e partidos parlamentares respons á veis, com a
fu n çã o de serem ó r g ã os de rec rut a ment o e de c omprova çã o de l í deres
de ma ssas co mo esta dista s, s ã o cond i çõ es b á si cas para a ma nuten çã o
de uma pol í tica est á vel.

5. A Per specti va da L i der ança E fi caz na Alemanha de P ós-G uer r a


O perigo pol í tico que a democracia de massas representa para o
Estado est á primeiramente na possibilidade de elementos emocionais
virem a predominar na pol í tica. A “ massa ” como tal (independente-
mente da s c a ma da s so ciais que a comp õ em e m qu a lquer c a so par t icula r)
s ó é capaz de pensar a curto prazo. Pois, como a experi ê ncia mostra,
ela est á sempre exposta a influ ê ncias diretas puramente emocionais
e irracionais. (A prop ósito, tem isso em comum com a moderna mo-

115
OS ECONOMISTAS

narquia aut ônoma qu e pro duz os mesmos fe n ômenos.) Uma mente fria
e clara — e é disso , a fina l de c ont a s, qu e dep ende o suc esso na pol í tica,
esp ecia lment e na pol í tica democr á tica — pre domina de f orma t ã o ma is
acentuada numa tomada de decis ã o respons á vel 1) quanto menor for
o n ú mero dos que tomam essa decis ã o, e 2) quanto mais claras forem
as responsabilidades para cada qual deles e para aqueles a quem li-
deram. A superioridade do senado americano sobre a c â mara dos de-
putados, por exemplo, é em grande parte devida ao menor n ú mero de
senadores; as melhores realiza çõ es pol í ticas do parlamento ingl ês s ã o
produtos de uma responsabilidade inequ í voca. Onde quer que tal cla-
reza de resp onsa bi li da de se ja negl ige nci a da , o si stema par tid á rio fra-
cassa como qualquer outro. Do ponto de vista do interesse nacional,
a utilidade pol í tica dos grupos de interesses solidamente organizados
assenta-se na mesma base. Completamente irracional é a “ massa ” de-
sorganizada, a democracia das ruas. Existe em maior intensidade em
pa í ses o nde o pa rla ment o é impo t ent e ou é po litic a ment e desa credita do ,
isto é , principalmente em pa í ses sem partidos organizados racional-
mente. Na Alemanha, independentemente da aus ê nc ia da “ filo sof ia de
botequim ” e da prese n ça de um tempe ra mento ma is c a lmo , orga niza çõ es
como os sindicatos, mas tamb é m como o Partido Social-Democr á tico,
const ituem um a for ça de e quil í brio muit o impo rt a nt e cont ra o “ dom í n io
da t urb a ” , direto e i rra ciona l, t í pico de n a çõ es pura men t e ple bisc it á rias.
Desde a epidemia de c ólera de Hamburgo (em 1892) at é o pre-
sente, tem sido necess á rio apelar para essas organiza çõ es, repetida-
mente, e m busc a de aux í lio , sempre que o mec a nismo e st a t a l se mostrou
ina dequa do . Que isso n ã o sej a esqu ecido q ua nd o os tempos de pro va çã o
tiverem terminado.
Na A lema nha , ta mb é m, os dif í ceis primeiros anos do p ós-guerra
ser ã o um teste severo para a disciplina das massas. N ã o pode haver
d ú vidas de que os sindicatos, em particular, enfrentar ã o dificuldades
sem prec ede nt es. P ois a gera çã o de jove ns, que gan ha m a go ra sa l á rios

dez
sa gevezes
ira vidmais
a à elevados
vo nt a deque
queem tempos
nunca se redepepaz
tir eá gozam de uma
, est á sendo de pas-
sa costum a da
de qualquer senso de solidariedade, de utilidade e de qualquer capa-
cidade de a da pta çã o a o esfo r ço econ ô mic o orga niza do . Um “ sindicalismo
de imaturidade ” surgir á logo que essa juventude se defrontar com a
norma lida de do s tempos de p a z. É c erto que enc ont ra remo s a bunda nt e
“ radicalismo ” puramente emocional dessa esp é cie. Nos centros popu-
losos ser ã o bem poss í ve is tenta tivas de putsch (" go lp e de Est a do") sin-
dicalista. Haver á um vigoroso e r á pido desenvolvimento da opini ão
pol í tica, em vista da grave situa çã o econ ômica, do estado de esp í rito
pol í tico representado pelo grupo Liebknecht. Devemos indagar se as
massas persistir ã o no previsto negativismo est é ril para com o Estado.
É uma quest ã o de histeria. Isso depender á primeiramente de o orgu-
lhoso a forism o “ O a pel o a o medo n ã o encont ra eco n os c ora çõ es a le m ã es ”

116
WEBER

verif ica r-se ta mb é m n os tr onos. A l é m disso, dep ender á da possibi lida de


de ta is ex plo s ões provocarem novamente o conhecido temor das classes
a basta das, i sto é , da possibilidade de a a çã o igualmente emocional de
f ú ria cega das massas ter como conseq üê ncia a covardia igualmente
emocional e cega da burguesia, como o esperam os interessados da
burocracia sem controle.
Contra o putsch, a sabotagem, e semelhantes erup çõ es politica-
mente est é reis, que ocorrem em todos os pa í ses — ainda que com
menos freq üê ncia aqui do que em outras partes —, todos os governos,
mesm o os ma is democ r á t icos e os ma is so cia lis t a s, teria m q ue p roc la ma r
a lei marcial para n ã o se exporem à s conseq üê ncias atualmente rei-
nant es na R ú ss ia. Ne nhuma pa la vra ma is é n ecess á ria a esse respe ito.
Ma is : a s o rgul ho sa s tra di çõ es de povos que s ã o praticamente maduros
e imunes à c ova rdia se mpre se reve la ra m em t a is si tu a çõ es , nas q ua is
esses povos souberam conservar o sangue-frio e a calma, esmagaram
a for ça com a for ça, e depois tentaram solucionar serenamente as ten-
s ões que tinham levado à erup çã o, imediatamente restitu í ram as ga-
rantias das liberdades civis e, de forma geral, n ã o permitiram a in-
terfer ê nci a de ta is aco nt ecime nt os em sua t oma da de de cis ões pol í ticas.
Na Alemanha, contudo, pode-se ter toda a certeza de que os benefi-
ci á rios da velha ordem e da burocracia sem controle exploraram toda
erup çã o de golpismo sindicalista, n ã o importa qu ã o insignificante, a
fim de apavorar nossa burguesia filist é ia, a qual, infelizmente, ainda
se a ssusta com muit a fa cil idade. En tr e as ma is v ergo nhosas exp eri ê n -
cias dura nt e o pe r í odo do C ha nce le r Micha el is, deve mos nota r a esp e-
cula çã o sobre a covardia da burguesia que constituiu a tentativa de
ex pl ora r, de form a sensa ciona lista e com fina li da de p ura ment e sec t á ria,
o compo rt a mento de a lguma s deze na s de fan á t icos pa cifi st a s, se m leva r
em considera çã o o efeito em nossos inimigos — e tamb é m em nossos
aliados. Ap ós a gue rra , intrig a s se mel ha ntes se r ã o repe t ida s em ma ior
escala. A na çã o alem ã , ent ã o, mediante sua rea çã o, ir á demo nstra r se
jfuturo
á atingiu
pol a ímaturidade polmaquina
tico, se essas í tica. Dever í amos desesperar-nos
çõ es triunfassem; dealgu-
infelizmente, nosso
mas experi ê ncias fazem com que isso pare ça poss í vel.
Na Alemanha, a democratiza çã o dos partidos da esquerda e da
direita é um fato que n ã o pode ser invalidado — os da direita tomam
a forma de uma dema go gia ine sc rupul osa se m equiva le nt es ne m mesmo
na Fran ça. Contudo, a democratiza çã o do sufr á gio é uma exig ê ncia
compuls ória do momento, que j á n ã o pode ser adiada, principalmente
no Est a do hege m ônico a lem ã o (P r ú ssi a ). Abstra indo de to da s a s o ut ra s
considera çõ es, raz ões de Estado exigem: 1) que a igualdade de direito
ao voto é hoje o ú nico meio de acabar com as contendas sufragistas,
e que sua perpetua çã o est é ril, que conduziu a t ã o profundo rancor,
precisa ser eliminada da cena pol í t ica a nt es que o çã
s so lda do s regresse m
do campo de batalha para a tarefa de reconstru o do Estado; 2) que

117
OS ECONOMISTAS

sej a considera do po li t ica ment e ina cei t á vel colocar os soldados, que re-
gressam da guerra, numa desvantagem eleitoral em rela çã o à quelas
camadas que mantiveram ou ainda melhoraram sua posi çã o social,
propriedade e clientela durante o per í odo em que os soldados no fr ont
davam suas vidas em favor daqueles que ficaram em casa. É claro
que a obstru çã o dessa necessidade pol í tica é poss í vel, mas teria con-
seq üê ncias terr í veis. Nunca mais estaria a na çã o t ã o solid á ri a di a nte
de uma a me a ça ex t erna como o esteve e m a go st o de 1914. E st a r í amos
condena do s a perma nec er num pa í s pequen o e conser va dor, t a lvez c om
uma razo á vel administra çã o p ú blica em assuntos puramente t é cnicos,
ma s, de qua lquer ma nei ra , um po vo pro vinc ial sem a oport unida de de
ser levado em conta na arena da pol í tica mundial — e tamb é m sem
nenhum direito moral nesse sentido. 1

1 Ase çã o VI do ensaio, i ntitula da “ A P arla mentariza çã o e o Pa pe l do s Est a dos ” (G P S , 394-431),


n ã o foi inclu í da nesta tradu çã o por causa de seu car á ter mais t é cnico. (N. do T.)

118
C APITALISMO SOCIEDADE
ELEMANHA
R URAL NA A *

Tradu ção da ver são inglesa por Waltensir Dutra

* Traduzido da sexta impress ã o (G a laxy B ook, 19 63) da edi çã o publicada em 1946 pela Oxford
University Press, Inc.: F r om Max Weber : E ssays i n S oci ology (translated, edited and with
an Introduction by H. H. Gerth and C. Wright Mills).
C APITALISMO E SOCIEDADE
R URAL NA ALEMANHA 1

De todas as comunidades, a constitui çã o social dos distritos ru-


rais é a mais individual e a que mant é m rela çã o mais í ntima com
determinados fatos hist óricos. N ã o seria razo á vel falarmos coletiva-
mente das condi çõ es rurais da R ú ssia, Irlanda, Sic í lia, Hungria e a
Fa ixa Ne gra. 2 Mesmo que eu me limite aos distritos com culturas ca-
pi ta li sta s dese nvo lvi da s, n ã o ser á poss í ve l tra ta r o assunt o de um p ont o
de vista comum, pois n ã o existe uma sociedade rural separada da co-
munidade urbana social, no presente, em grande parte do mundo ci-
vilizado. J á n ã o ex iste na In glat erra , e xceto , ta lve z, na ima gina çã o dos
sonhadores. O propriet á rio constante do solo, o dono da terra, n ão é
um agricultor, mas um arrendador; e o dono tempor á rio de uma pro-
pri edade, o a rrenda t á rio o u oc upa nt e, é um empres á rio , um ca pi ta li sta
como qualquer outro. Os trabalhadores s ã o parcialmente tempor á rios
e migrantes; o resto s ã o trabalhadores exatamente da mesma classe
dos outros prolet á rios; re ú nem-se durante algum tempo e em seguida
se dispersam novamente. Se h á um problema social rural espec í fico,
ele é apenas o seguinte: se, e como, a comunidade rural ou sociedade,
que j á existe, pode surgir novamente de modo a ser forte e duradoura.
Nos Estados Unidos, pelo menos nas enormes á reas produtoras
de cereais, o que poderia ser chamado de “ sociedade rural ” n ã o existe
hoje. A velha cidade da Nova Inglaterra, a aldeia mexicana e a antiga
planta çã o escravista n ã o mais determinam a fisionomia do interior.
As condi çõ es peculiares dos primeiros aldeamentos nas florestas pri-
mevas, n os pra do s, des a par ecera m. O fa ze ndei ro a meric a no é um em-
pres á rio como qualquer outro. Sem d ú vida, s ã o numerosos os seus

1 Adap t ad o de um a t r ad u çã o (para o ingl ê s) de C. W. Seidenadel. “ The Relations of the


Rural Community to other Branches of Social Science ” , Congress of Arts and Science,
U ni ver sal E xposi tion, St. L oui s (Boston e Nova York, Houghton-Mifflin, 1906), vol. VII,
pp. 725-46.
2 O s ul do s Es tado s Uni do s. (N. do T.)

121
OS ECONOMISTAS

problemas, principalmente os de car á ter t é cnico ou relacionados com


o transporte, que tiveram seu papel na pol í tica e foram examinados,
de fo rm a exc ele nt e, p elo s estu dio sos a merica nos. Ma s n ã o ex istem a inda
na Am é ric a pro ble ma s so cia is rura is e spe c í fic os, e na verda de n ã o exis-
tiu t a l p ro bl ema des de a a bo li çã o da escravid ã o e a solu çã o da quest ã o
de aproveitar e dispor de uma á rea imensa que estava nas m ã os da
U n i ã o. Os presentes e dif í ceis problemas sociais do sul, tamb é m nos
distritos rurais, s ã o essencialmente é tnicos, e n ã o econ ômicos. N ã o
podemos estabelecer uma teoria da comunidade rural como uma for-
m a çã o social caracter í stica à base de quest ões relacionadas com a ir-
riga çã o, ta rifas fe rrov i á ria s, l ei s so bre terra s etc. , p or ma is i mpo rt a nt es
que t a is assunt os se ja m. A situa çã o pode modificar-se no futuro. Mas,
se h á a lg uma ca ra cter í stica das condi çõ es rurais dos grandes Estados
produtores de trigo da Am é rica, ela é — falando em termos gerais —
o individualismo econ ômico absoluto do agricultor, a sua qualidade
como simples homem de neg ócios.
Talvez seja proveitoso explicar, rapidamente, sob que aspectos e
por q ue ra z õ es t udo isso é diferent e no c ont inent e europ eu. A diferen ça
é provocada pelos efeitos espec í ficos do capitalismo nos velhos pa í ses
civilizados, com popula çõ es densas.
Se uma na çã o como a Alemanha mant é m seus habitantes, cujo
n ú mero é apenas um pouco menor do que a popula çã o branca dos
E sta do s U nido s, num esp a ço territorial menor que o Estado do Texas;
se ela fundou e est á dis posta a ma nter sua posi çã o pol í tic a e a imp or-
t â ncia de sua cultura para o mundo nessa base estreita, limitada —
en t ã o a forma pela qua l a t erra é distribu í da torna-se de import â ncia
decisiva para a diferencia çã o da sociedade e para todas as condi çõ es
econ ô micas e pol í ticas do pa í s. Devido à maior aglomera çã o dos habi-
ta nt es e meno r va loriza çã o da for ça de tra balho b ruta , a possi bi li da de
de adquirir rapidamente propriedades que n ã o foram herdadas é li-
mitada. Assim, a diferencia çã o so cia l torna -se nec essa ria ment e fi xa —
eTadesse destino
l de stino aumosenta
Estados Unidos
o poder da est
tr a di çã oã ohist
come çando
órica, que a se
é naaproximar.
turalme nte
grande na produ çã o agr í cola.
A import â ncia das revolu çõ es t é cnicas na produ çã o agr í cola é
reduzida pela chamada “ lei da produtividade decrescente da terra ”,
pelos limites e condi çõ es naturais de produ çã o, que s ã o mais fortes, e
pela limita çã o mais constante da qualidade e quantidade dos meios
de produ çã o. Apesar do progresso t é cnico, a produ çã o rural pode ser
revolucionada pela divis ã o e combina çã o puramente racionais do tra-
ba lho , pe la a cel era çã o da mov ime nt a çã o do capital e pela coloca çã o de
m a t é rias-primas inorg â nicas e meios mec â nicos de produ çã o em lugar
das mat é rias-primas org â nicas e da for ça de tra balho . O p ode r da tra -
di çã o pre do mina , i nevi ta ve lme nt e, na a gric ultura ; cria e ma nt é m tipos
de popula çã o rural no continente europeu que j á n ã o existem num

122
WEBER

pa í s novo , como o s E st a dos U nidos; a esses tipo s pert ence , em primeiro


lugar, o campon ê s europeu.
Ele é tota lme nt e di fe rente do a gric ulto r da Ingla terra ou da Am é -
rica. O primeiro é hoje, por vezes, um empres á rio e produtor not á vel
par a o merc a do ; qua se s emp re a lugo u a sua pro pri edade. O fazendei ro
americano é um agricultor que habitualmente adquiriu, pela compra
ou po r ser o primeiro c oloniza dor, a t erra como sua prop rieda de pe ssoa l;
ma s po r vez es a a luga. Na Am é ric a , o a gric ultor pro duz pa ra o merca do .
O mercado é ma is a nt igo do que el e na Am é ric a . O c a mpo n ê s europeu
do tipo antigo era um homem que, na maioria dos casos, herdou a
terra e produzia principalmente para atender à s suas pr óprias neces-
sidades. Na E urop a , o merc a do é mais novo do que o produtor. É c lar o
que dura nt e muito s a nos o ca mpo n ê s vendeu seus produt os e xcedent es
e, embora tecesse e fiasse, n ã o podia satisfazer suas necessidades com
o seu pr ó pri o tra ba lho . Os ú ltimos do is mil a nos n ã o trei na ra m o c a m-
pon ê s para produzir visando ao lucro.
At é a é poca da Revolu çã o Francesa, o campon ê s europeu era
considerado apenas o meio de manuten çã o de certas classes dominan-
tes. Seu primeiro dever era proporcionar, o mais barato poss í vel, ali-
mento à cidade vizinha. Na medida do poss í vel, a cidade proibia o
com é rcio rural e a exporta çã o de cereais enquanto seus pr óprios cida-
d ã os n ã o e st ive ssem a ba steci do s. A si t ua çã o pe rdur ou a t é fins d o s é culo
XVII I. A ma nut en çã o artificial das cidades, a expensas do interior, foi
tamb é m um princ í pio seguido pelos pr í ncipes, que desejavam ter di-
nh eiro em seus respec t ivo s pa í ses e gra ndes rec ei t a s de t ribut os. A l é m
disso, pelos seus servi ços e pelo pagamento dos impostos, o campon ês
es ta va condena do a ma nt er o do no da t erra , que p ossu í a a pro pri edade
superior da terra e com freq üê ncia tamb é m o direito de explorar o
corpo do campon ê s. Essa situa çã o existiu at é as revolu çõ es de 1789 e
1848. Os deveres dos camponeses inclu í am o pagamento de tributos
so bre a pro prie da de a o se nh or pol í t ico. O c a va le iro e st a va ise nt o di sso .

O campon
quais ê s tamb
as cidades é m tisentas.
estavam inha de aba condi
Essas stec er o s e x é rcitos com recrutas,
çõ es vigoraram at dosé que
os privil é gios tribut á rios foram extintos e o servi ço militar tornou-se
compuls ório para todos, no s é culo XIX. Finalmente, o campon ê s de-
pendia da comunidade produtiva em que a coloniza çã o semicomunista
o havia colocado, dois mil anos antes. N ã o podia fazer o que queria,
mas o que a primitiva rota çã o das colheitas determinava, condi çõ es
que continuaram a existir at é que esses la ços semicomunistas se dis-
solveram. Mesmo depois da aboli çã o de toda essa depend ê ncia legal,
o campon ê s n ã o se p ôde tornar um pequeno agricultor que produzia
ra ciona lment e, c omo oc orr eu, po r exe mplo, c om o seu c olega a merica no.
Numero sa s rel í quia s das a nt ig a s c ondi çõ es comunistas de flores-
tas, á gua, pastos e at é mesmo terra cultiv á vel, que uniram os campo-
neses e o s prendera m à s f orma s de a dministra çã o que lhe s fo ra m t ra ns-

123
OS ECONOMISTAS

mitidas, sobreviveram à sua liberta çã o. A aldeia, com os contrastes


caracter í st icos c om a colon iza çã o individua l do s fa zendei ros a meric a nos,
tamb é m s obreviveu. A essa s r el í quia s do passa do , que a Am é ric a ja ma is
conheceu, certos fatores foram acrescentados hoje. Os Estados Unidos
experimentar ã o tamb é m, algum dia, os efeitos de tais fatores — os
efeitos do capitalismo moderno sob as condi çõ es dos velhos pa í ses ci-
vil iza dos , c omple t a ment e coloniza do s. Na E urop a , o territ ório l imita do
provoca uma valoriza çã o social espec í fica da propriedade da terra, e
a tend ê ncia a conserv á -la, por legado, na fam í lia. A superabund â ncia
da for ça de trabalho diminui o desejo de poupar a m ã o-de-obra com o
uso de m á quinas. Em virtude da migra çã o para as cidades e pa í ses
es tr a ngei ro s, a for ça de tra balho na E uro pa t orno u-se li mita da e c a ra .
P or outr o la do , o a lto p re ço da t erra , pro vo ca do p el a s co mpra s co nt í nuas
e pelas divis ões heredit á rias, diminui o capital do comprador. N ão é
poss í vel ganhar, hoje, uma fortuna na agricultura, na Europa. E o
per í odo em que isso vem sendo poss í vel nos Est a do s U nidos est á a go ra
se aproximando do seu t é rm ino . N ã o devemos esquecer que a fermen-
t a çã o d a cultura ca pi ta li sta mo de rna es t á ligada a o consumo inc es sa nt e
dos recursos naturais, para os quais n ã o h á substitutos. É dif í cil de-
terminar por quanto tempo durar á o atual suprimento de carv ão e
m in é rio. A utiliza çã o de novas terras agr á rias ter á atingido, sem de-
mora, um fim na Am é rica; na Europa, j á n ã o existe. O agricultor n ão
pode e spe ra r ga nha r ma is do que um equiva le nt e mo des to de s eu tra -
balho como administrador. Ele est á , na Europa e tamb é m em grande
parte neste pa í s, exclu í do da participa çã o nas grandes oportunidades
abertas ao talento comercial especulativo.
O í mpeto da moderna competi çã o capitalista choca-se com uma
corrente conservadora adversa na agricultura, sendo exatamente o ca-
pitalismo ascendente que aumenta essa contracorrente nos velhos pa í-
ses civilizados. O uso da terra como investimento de capital, e a taxa
decrescente de juro, juntamente com a valoriza çã o social tradicional
da sfonds
au terra sper
rura
duis,
, ouelseja
ev a m
, coo mo
se u entr
pre éçeo, co
a ta
mol altura
um pa que e le oéppa
ga ment el ogo se mpre
i ngr esso
nessa camada social. Assim, aumentando o capital necess á rio à s ope-
r a çõ es agr í colas, o capitalismo provoca um aumento no n ú mero de
a rrendado re s de terra que s ã o ocioso s. D essa forma , produzem -se efei t os
cont ra sta nt es p eculi a res a o ca pi ta li smo , que d ã o a o int erio r da E urop a
a a par ê nc ia de uma “ sociedade rural ” à par te. Na s c ondi çõ es dos velh os
pa í ses civilizados, as diferen ças provocadas pelo capitalismo adquirem
o ca r á ter de uma lu ta cul tura l. Dua s tend ê nc ias so ciais fundam enta da s
em bases totalmente heterog ê neas lutam uma com a outra.
A velha ordem econ ômica indagava: como posso proporcionar,
nesse peda ço de terra, trabalho e manuten çã o para o maior n ú mero
poss í vel de homens? O capitalismo pergunta: desse peda ço de terra,
como po sso produzir o ma ior n ú mer o po ss í vel de c olh eita s, co m o menor

124
WEBER

n ú mero de tra ba lha do res? D o pont o de vis ta t é cnico-econ ô mico, os ve-


lhos aldeamentos rurais da regi ã o s ã o, portanto, considerados super-
povoados. O capitalismo arranca o produto de sua terra, das minas,
fundi çõ es e ind ú strias de m á quinas. Os milhares de anos do passado
lutam contra a invas ã o do esp í rito c a pi ta li sta .
Essa luta assume, pelo menos em parte, a forma de um per í od o
de transforma çã o pac í fico. Em certos pontos de produ çã o agr í cola, o
pequeno campon ê s, se so uber c omo li berta r-se da s c a deias d e tr a di çã o,
pode a da pta r-se à s nova s co ndi çõ es de a dministra çã o. O a ument o cons-
tante do arrendamento, nas vizinhan ças das cidades, a eleva çã o dos
pr e ços da carne, latic í nios, verduras, bem como o cuidado intensivo do
gado novo, poss í ve l a o p eque no a gric ulto r q ue tra ba lha por co nt a pr ó-
pria, e as despesas maiores com a contrata çã o de homens — esses
fa tore s ha bitua lme nt e c onst ituem op ort unida des muito f a vo r á vei s par a
o pe queno a gric ulto r q ue tra ba lha se m a uxi li a res c ont ra ta do s pr ó ximo
dos centros industriais abastados. Isso ocorreu sempre que o processo
de produ çã o se desenvolveu na dire çã o de uma crescente intensidade
do trabalho, e n ã o do capital.
O a nt igo ca mpo n ê s é , assi m, tra nsfo rma do num tr a balha do r que
é dono de seus pr óprios meios de produ çã o, como podemos ver na
Fran ça e no sudo es te da Ale ma nha . Man t é m sua inde pe nd ê nci a devi do
à intensi da de e a lta qua li da de de se u t ra balho , que é aumentado pelo
se u int ere sse p riva do nel e e sua a da pta bi li da de à s exig ê ncias do mer-
cado local. Esses fatores lhe d ã o uma superioridade econ ômica, que
continua, mesmo quando a agricultura em grande escala poderia pre-
dominar tecnicamente.
O grande ê xito da forma çã o de cooperativas entre os pequenos
a gric ulto res da E uro pa cont ine nt a l de ve s er a tr ib u í do a essas van ta ge ns
peculiares que, em certos ramos de produ çã o, o pequeno agricultor
respons á vel possui em rela çã o ao trabalhador contratado do grande
fa zendei ro. Essa s c oope ra t iva s revel a ra m-se c omo o meio ma is influe nt e

par a educ a r oagr


comunidades c a mpo n ê sque
í colas, na aunem
gric ulostura . Atra v é se del
camponeses a s, c ria
dirigem seuraracio-
m-se nova s
cí nio e seu sentimento econ ômico numa dire çã o contr á ria à forma in-
dividualista que a luta econ ômica pela exist ê ncia toma na ind ú stria,
sob a press ã o da concorr ê ncia. E isso s ó é poss í vel devido à grande
import â ncia das condi çõ es naturais de produ çã o na agricultura — o
fa to de e sta r presa a o lugar , a o tempo e a os meio s o rg â nic os de tra ba lho
— e à visibilidade social de todas as opera çõ es agr í colas que enfra-
quecem a efici ê ncia da concorr ê ncia entre os agricultores.
Quando n ã o existem as condi çõ es de superioridade econ ômica
espec í fica da pequena agricultura, por ser a import â ncia qualitativa
do trabalho feito pelo pr óprio dono substitu í da pela import â ncia do
capit a l, o velho ca mpon ê s luta pe la sua ex ist ê nc ia como um a ssala riado
do capital. É a alta valoriza çã o social do dono da terra que faz dele

125
OS ECONOMISTAS

um s ú dito do capital e o prende psicologicamente à gleba. Devido à


diferencia çã o econ ômica e social mais forte de um pa í s antigo e civi-
lizado, a perda da propriedade significa degrada çã o para o campon ê s.
A sua luta pela exist ê ncia torna-se, com freq üê ncia, uma sele çã o eco-
n ô mic a em fa vor do ma is fruga l, o qu e si gnific a a esc olha do s el ementos
mais carentes em cultura. A press ã o da concorr ê ncia agr í cola n ã o é
sentida pe los q ue usa m seus pro dut os, no c onsum o p esso a l, e n ã o como
obj et os de com é rci o; ve ndem a pe na s a lguns de se us pro dut os e port a nt o
s ó podem comprar uns poucos produtos feitos por terceiros. Por vezes
ocorre um retrocesso parcial para uma agricultura de subsist ê ncia.
Somente com o “ sistema de dois filhos ” fr a nc ê s pode o campon ê s man-
ter-se durante gera çõ es como pequeno propriet á rio de terra herdada.
Os obst á culos que enfrenta o campon ê s que deseja tornar-se um agri-
cultor moderno levam à separa çã o entre a propriedade e a adminis-
t r a çã o. O dono da terra pode manter seu capital em opera çã o, ou re-
t ir á -lo. Em algumas á rea s, o go verno p roc ura cria r um equil í brio ent re
a propriedade e o arrendamento. Mas, devido à valoriza çã o da terra,
o campon ê s n ã o pode permanecer como campon ê s nem tornar-se um
dono de terras capitalista.
N ã o é poss í ve l f a lar de uma “ luta ” verdadeira entre o ca pi ta li smo
e o poder d a influ ê nci a hist órica, neste caso de conflito crescente entre
o capital e a propriedade da terra. Trata-se, em parte, de um processo
de sele çã o e em parte de um processo de corrup çã o. Predominam con-
di çõ es muito diferentes n ã o s ó onde uma multid ã o n ã o-organizada de
cam poneses se v ê i mpo tent e na s ca dei a s das entida des fi na nce ira s das
cid a de s, ma s ta mb é m qua ndo h á uma ca ma da a ri sto cr á tica acima dos
camponeses, que n ã o luta apenas pela sua exist ê ncia econ ômica, mas
tamb é m pela posi çã o social que, durante s é culos, lhe foi concedida.
Isso acontece especialmente onde essa aristocracia n ã o est á presa ao
pa í s por interesses exclusivamente financeiros, como o dono de terras
ingl ê s, o u a pe na s pe los int eresse s rec rea t ivo s e e spo rt ivo s, ma s qu a ndo

os seus
econ representantes
ômico e t ê m ligaestçã o í ntima
ã o envol
comvidos,
o pa c íomo
s. Osa efeitos
gricult dissolventes
ores, n o conflit
do o
capitalismo s ã o, com isso, aumentados. Como a propriedade da terra
d á posi çã o social, os pre ços das grandes propriedades superam o valor
de s ua pro dutivida de. B yron p ergunta va do se nhor de terra s: “ P or que
Deus na sua ira o criou? ” . A resposta é : “ Rendas! Rendas! Rendas! ”.
E na ve rdade as rend a s s ã o a ba se ec on ômic a de to da s a s a ris toc ra cias
que necessitam de uma renda n ã o-pro ve nie nt e do tr a ba lho par a a sua
exist ê ncia. Mas precisamente porque o J unker prussiano despreza a
posse urbana do dinheiro, o capitalismo o transforma num devedor.
Uma tens ã o cada vez maior entre a cidade e o campo resulta dessa
situa çã o. O conflito entre o capitalismo e a tradi çã o tem agora cono-
t a çõ es pol í ticas, pois se o poder econ ômico e pol í tico passa definitiva-
mente para as m ã os do capitalista urbano surge a quest ã o de se os

126
WEBER

pe qu eno s ce nt ros rura is de i nforma çã o pol í tica, com sua cultura social
peculiar, entrar ã o em decad ê ncia, e as cidades, como as ú nicas depo-
sit á rias da cultura pol í tica, social e est é tica, ocupar ã o todo o campo
de batalha. Essa quest ã o é id ê ntica à quest ã o de se as pessoas que
foram capazes de viver para a pol í tica e o Estado, como por exemplo
a ve lha a ris toc ra cia a gr á ria econ ômic a indepe ndent e, se r ã o subst itu í da s
pelo dom í nio exclusivo dos pol í ticos profissionais que devem viver da
pol í tica e do Estado.
Nos Estados Unidos esse problema foi resolvido, pelo menos no
pre se nt e, por uma da s ma is s a ngrent a s guerra s do s tempo s mo derno s,
que terminou com a destrui çã o dos centros aristocr á ticos, sociais e
pol í t icos dos distrit os ru ra is. Me smo na Am é ric a , c om a s suas t ra di çõ es
democr á ticas vindas desde o puritanismo como um legado perene, a
vit ória sobre a aristocracia dos plantadores foi dif í cil e conquistada
com os maiores sacrif í cios sociais e pol í ticos. Mas, em pa í ses de civi-
liza çõ es antigas, a quest ã o se complica muito mais, pois ali a luta
entre o poder das no çõ es hist óricas e a press ã o dos interesses capita-
listas convoca certas for ças sociais à ba ta lha, co mo adve rs á rias do ca-
pi t a lismo burgu ê s. No s E st a do s U nidos, essas for ça s e ra m p a rc ialme nt e
desconhecidas, ou se colocavam em parte ao lado do norte. Devemos
fazer aqui algumas observa çõ es.
Nos pa í ses de civiliza çã o antiga e possibilidades limitadas de
expans ã o econ ômica, o interesse financeiro e seus representantes t êm
um papel social consideravelmente menor do que num pa í s novo. A
import â ncia da camada dos funcion á rio s esta ta is é , e deve ser, muito
maior na Europa do que nos Estados Unidos. A organiza çã o social
muito ma is c ompli ca da torna indis pe ns á ve l na Europ a um gra nde n ú -
mero de funcion á rios especializados, de cargo vital í cio. Nos Estados
Unidos, haver á u m n ú mero muito menor deles, mesmo depois que os
movimentos de reforma do servi ço p ú blico tenham alcan çado seus ob-
jetivos. O jurista e o funcion á rio a dmini stra tivo na Ale ma nha , a pe sar
de sua educa
versidade, tem çã o made
cerca is rtrinta
á pidae ecinco
mais anos
intensiva,
quandono preparo
seu per para a uni- í odo de
preparo e sua atividade n ã o-remunerada é conclu í da e ele consegue
um cargo lucrativo. Portanto, s ó pode sair dos c í rculos abastados; é
pre para do para um serv i ço n ã o-remun era do , o u m a l remun era do , e s ó
po de e nco nt ra r rec ompensa pe lo se u t ra ba lho na a lta po si çã o social
de sua voca çã o. Adquire, com isso, um car á ter que est á longe dos
interesses financeiros e que o coloca ao lado dos advers á rios do
d om í nio desses interesses. Se em velhos pa í ses civilizados, como a
Alemanha, surgir a necessidade de um ex é rcito forte para manter
a independ ê ncia, isto significar á , para as institui çõ es pol í ticas, o
apoio a uma dinastia heredit á ria.
O adepto resoluto das institui çõ es democr á ticas — como eu —
n ã o pode desejar afastar a dinastia, quando ela foi preservada. Nos

127
OS ECONOMISTAS

E sta do s mil ita res, se e la n ã o é a ú nic a forma histori ca mente endo ssa da
pe la qu a l o do m í nio ces a rista do s a rrivis t a s mili ta res po de se r evita do ,
ela ainda é a melhor forma. A Fran ça est á continuamente amea ça da
por esse dom í nio; as dinastias t ê m interesse pessoal na preserva çã o
do s direitos e de um gove rn o lega l. A mona rq uia heredit á ria — po dem os
julg á -la teoricamente, se desejarmos — a sse gura a o E sta do , que é for-
çado a ser um Estado militar, a maior liberdade para os cidad ã os —
t ã o grande quanto seja poss í vel numa monarquia — e, enquanto a
dinastia n ã o se degenera, ter á o apoio da maioria pol í tica do pa í s. O
parlamento ingl ê s sabia muito bem por que oferecia a Cromwell a
coroa, e o ex é rcito deste sabia igualmente bem por que o impediu de
aceit á -la. Essa dinastia heredit á ria, privilegiada, tem uma afinidade
com os detentores dos outros privil é gios sociais.
A Igreja pertence à s for ças conservadoras nos pa í ses europeus;
primeiro, a Igreja Cat ólica Romana, que, na Europa, devido mesmo
a o se u gra nde n ú mero de a dep t os, é um poder de import â nci a e ca r á t er
muito diferentes do que possui nos pa í ses anglo-sax ões; mas tamb é m
a Igre ja Luter a na . Ambas a p ó iam o campon ê s, com seu modo de vida
conservador, contra o dom í nio da cultura urbana racionalista. O mo-
vimento cooperativo rural tem, em acentuadas propor çõ es, a dire çã o
de cl é rigos, que s ã o os ú nico s capa zes de l idera n ça nos distritos rura is.
Os pontos de vista eclesi á stico, pol í tico e econ ômico est ã o, no caso,
combinados entre si. Na B é lgica, as cooperativas rurais s ã o um meio
que o partido clerical tem na luta contra os socialistas, apoiados pelas
un i ões dos consumidores e pelos sindicatos. Na It á lia, quase ningu é m
tem cr é dito em certas cooperativas se n ã o apresentar uma certid ã o de
religi ã o. Da mesma forma, uma aristocracia agr á ria encontra grande
apoio da Igreja embora a Igreja Cat ólica seja, nos aspectos sociais,
ma is demo cr á tica hoje do que antigamente. A Igreja v ê com satisfa çã o
as rela çõ es de trabalho patriarcais porque, ao contr á rio das rela çõ es
puramente comerciais criadas pelo capitalismo, elas t ê m um car á t er
pessoal
um servo, humano.
e n ãA Igreja
o as acredita
simples que as
condi relac omerci a is
çõ es çõcesriaentre
da s um
pel osenhor
merc ea do
de trabalho, podem ser desenvolvidas e dotadas de um elemento é tico.
Os contrastes profundos e condicionados historicamente, que sempre
sep a ra ra m o c a t olic ismo e o l ut era nismo do c a lvi nismo, fo rt a le cem essa
atitude anticapitalista das igrejas europ é ias.
Fina lme nt e, num vel ho pa í s ci vil iza do , a “ a ris toc ra cia da educ a -
çã o” , como gosta de ser chamada, constitui uma camada definida da
popula çã o, sem interesses pessoais na economia. V ê , por isso, a pro-
ciss ã o triun fa l do c a pi t a lismo com m a is c etic ismo e a cr í tic a com m a is
viol ê ncia do que acontece, natural e justamente, em pa í ses como os
Est a do s U nido s.
Qua ndo a educ a çã o intelectual e est é tic a se torna uma pro fi ss ã o,
seus representantes ligam-se, atrav é s de uma afinidade í ntima, com

128
WEBER

todos os portadores da velha cultura social, porque para eles, como


par a se us pro t ótipos, sua profiss ã o n ã o pode e n ã o deve ser uma fonte
de lucro imerecido. V ê em com desconfian ça a aboli çã o das condi çõ es
tradicionais da comunidade e a aniquila çã o de todos os numerosos
valores é ticos e est é ticos que se apegam a essas tradi çõ es. Duvidam
que o dom í nio do capital possa dar garantias melhores e mais dura-
douras do que a aristocracia do passado à liberdade pessoal e ao de-
senvolvimento da cultura intelectual, est é tica e social que eles repre-
sentam. S ó desejam ser governados pelas pessoas cuja cultura social
consideram equivalente à sua; preferem, portanto, o dom í nio da aris-
tocracia economicamente independente ao governo do pol í tico profis-
sional. Assim, ocorre hoje nos pa í ses civil iza dos — fat o s é rio, sob mais
de um aspecto, e peculiar — que os representantes dos mais altos
interesses da cultura voltam para tr á s o seu olhar e com profunda
antipatia se op õem à evolu çã o inevit á vel do capitalismo, recusam-se
a cooperar na cria çã o da estrutura do futuro. Al é m disso, as massas
disciplinadas de trabalhadores, criadas pelo capitalismo, inclinam-se
na tu ra lme nt e a unir- se num pa rt ido de c la sse , se j á n ã o houver novos
distritos para coloniza çã o e se o trabalhador tiver consci ê ncia de ser
for ça do a cont inua r ine vi t a ve lme nt e p ro le t á rio, enquanto viver, o que
ocorrer á ma is c edo ou ma is ta rde ta mb é m neste pa í s, ou j á aconteceu.
O progresso do capitalismo n ã o é retardado por isso; as possibilidades
que o trabalhador tem de conseguir poder pol í tico s ã o insignificantes.
N ã o obstante, elas enfraquecem o poder do burgu ê s e fortalecem o
poder dos advers á rios aristocr á ticos dos burgueses. A queda do libe-
ralismo burgu ês alem ã o baseia-se na efici ência desses motivo s co njunt os.
Assim, nos pa í ses antigos, onde existe uma comunidade rural
aristocraticamente diferenciada, surge um complexo de problemas so-
ciais e pol í ticos. O americano tem dificuldade em compreender a im-
port â ncia das quest õ es a gr á ria s n o cont inent e euro pe u, espe cia lment e
na Ale ma nha , e mesmo na pol í tic a a le m ã . Chegar á a conclus ões total-

mente
combinaerradas se n
çã o peculiar ãdeo motivos
tiver presentes esses grandes
se faz sentir nesses pa complexos.í sesUma
antigos e
explica o desvio entre as condi çõ es europ é ias e americanas. Al é m da
necessidade de forte preparo militar, h á essencialmente dois fatores:
primeiro, algo que n ã o existiu jamais na maior parte da Am é rica e
que pode ser designado como “ atraso ” , ou seja, a influ ê ncia de uma
forma mais antiga de sociedade rural, que est á desaparecendo gra-
dualmente. O segundo grupo de circunst â ncias que ainda n ã o se tor-
na ra m e fe tivas na Am é ric a , ma s à s qu a is e sse p a í s — t ã o entusia sma do
com cada milh ã o de aumento em sua popula çã o e com a ascens ã o do
valor da terra — estar á inevitavelmente exposto, exatamente como
ocorreu com a Europa, é a densidade da popula çã o, o alto valor da
terra , a ma is ac entua da di fe re nc ia çã o de ocupa çõ es e as condi çõ es pe-
culiares que disso resultam. Em todas essas condi çõ es, a comunidade

129
OS ECONOMISTAS

rural dos velhos pa í ses civilizados enfrenta o capitalismo, juntamente


com a influ ê ncia de grandes for ças pol í ticas e sociais s ó conhecidas
nos pa í ses antigos. Ainda hoje, sob essas circunst â ncias, o capitalismo
pro duz na E urop a efe itos que s ó ser ã o provo ca dos na Am é ric a no f ut uro.
E m conseq üê nci a de todas essa s infl u ê ncias, o capitalismo euro-
peu, pelo menos no continente, teve um car á ter autorit á rio peculiar,
que contrasta com a igualdade de direitos do cidad ã o e que é , habi-
tualmente, considerada de forma diferente pelos americanos. Essas
tend ê ncias autorit á rias e os sentimentos anticapitalistas de todos os
elementos da sociedade continental, que mencionei, encontram apoio
social no conflito entre a aristocracia agr á ria e a burguesia urbana.
Sob a influ ê ncia do capitalismo, a primeira sofre uma s é rie de trans-
forma çõ es internas, que lhe modificam totalmente o car á ter herdado
do passado. Gostaria de mostrar como isso ocorreu no passado e como
continua a ocorrer no presente, usando o exemplo da Alemanha.
H á co ntr a stes ace nt ua do s na estrut ura so cial rura l da Ale ma nha
qu e ne nh um via ja nt e de ixa de o bserva r: no oeste e no sul , o a ldeam ent o
rural torna-se mais denso, predominam os pequenos agricultores, e a
cultura torna-se mais dispersa e variada. Quanto mais para o leste
avan çamos, especialmente para o nordeste, tanto mais extensos s ão
os campos de cereais, beterrabas e batatas, tanto mais predomina o
cultivo intensivo e ta nt o ma is uma gra nde c lasse rura l de tr a ba lha do res
rur a is sem pro prie da des se o p õe à a ris toc ra cia a gr á ria . Essa dif ere n ça
é de grande import â ncia.
A cla sse d os propriet á rio s de t erra na Ale ma nha , const itu í da pri n-
cipalmente de nobres que residem na regi ã o leste do Elba, é a contro-
ladora pol í tic a do pri nci pal E sta do a le m ã o. A C â ma ra do s Lo rdes p rus-
siana representa esta classe, e o direito de elei çã o por classes tamb é m
lhe d á uma posi çã o dec isi va na C â ma ra do s Dep uta do s prus si a na . Esse s
J unker s transmitem seu car á ter ao corpo de oficiais, bem como aos
funcion á rios prussianos e à diplomacia alem ã , que est á quase exclu-
si va mente
vida dessas nas m ãnas
classes, os associa
dos nobres. Oçõ estudante alem das universidades.
es estudantis ã o adota o estilo
O de
“ oficial da reserva ” civil — uma parte cada vez maior dos alem ã es
mais bem-educados pertence a essa categoria — tamb é m sofre a sua
influ ê ncia. Suas simpatias e antipatias pol í ticas explicam muitas das
pressuposi çõ es mais importantes da pol í tica externa alem ã . Seu obs-
trucionismo impede o progresso da classe trabalhadora; as ind ú strias,
so zinha s, j a ma is se r ã o bastante fortes para se opor aos trabalhadores,
sob os direitos democr á ticos de eleger representantes para o Reichstag
alem ã o. Os J unker s s ã o os est eio s de um proteci onism o que a ind ú stria,
isolada, n ã o poderia realizar. Ap óiam a ortodoxia na Igreja oficial. O
estrangeiro v ê apenas o lado exterior da Alemanha e n ã o tem tempo
nem oportunidade de penetrar na ess ncia da cultura alem ã . Os re-
manescentes das condi çõ es autorit á riasê que lhes causam surpresa e

130
WEBER

provocam opini ões err ôneas, no estrangeiro, sobre a Alemanha, resul-


tam direta ou indiretamente da influ ê ncia dessas classes superiores.
Muitos dos mais importantes contrastes de nossa pol í tic a interna ba-
seiam-se nessa diferen ça entre as estruturas sociais rurais do leste e
do oeste. Como essa diferen ça nem sempre existiu, surge a pergunta:
como pode ser ela explicada historicamente?
H á cinco s é culo s, o s se nhores de t erra s do mina va m a est rut ura
social dos distritos rurais. Por mais variadas que tivessem sido as
condi çõ es de depend ê ncia do campon ê s, provocadas por essa situa-
çã o, e po r ma is c ompli ca da q ue fo sse a estrut ura da so cie da de rura l,
num aspecto predominou a harmonia nos s é culos XIII e XIV: as
possess õ es, ha bitua lmente eno rmes, do senhor f euda l n ã o estiveram
associadas, nem mesmo no leste, a um amplo cultivo da terra. Em-
bora o senhor de terras cultivasse parte de sua propriedade, essa
parte era apenas um pouco maior do que os campos cultivados dos
ca mpo neses. A ma io r pa rt e da r enda do se nh or depe ndia dos t ribut os
so bre o s cam po nese s. U ma da s qu est õ es mais imp orta nt es da his t ó r ia
social alem ã é como o acentuado contraste de hoje surgiu, partindo
dessa relativa uniformidade.
A propriedade exclusiva da terra foi revogada em princ í pios do
s é culo XIX, em parte devido à Revolu çã o Francesa ou à s id é ias por
ela disseminadas, e em parte devido à Revolu çã o de 1848. A divis ã o
dos direitos de propriedade da terra entre nobres e camponeses foi
abolida, os tributos e taxas sobre os camponeses foram revogados. As
brilhantes investiga çõ es do professor G. F. Knapp e sua escola mos-
traram como foi decisiva, para o tipo de constitui çã o agr á ria que se
srcinou ent ã o e ainda existe, a pergunta: como foi dividida a proprie-
da de, entr e o s a nt igo s senh ores e os c a mpo neses, de pois de desa pa rec ida
a comunidade senhorial? No oeste e sul, em sua maior parte a terra
passou à s m ã os dos camponeses (ou continuou em suas m ã os). Mas,
no leste, uma parte muito grande caiu nas m ã os dos a nt igo s senh ores
dos camponeses,
tensivo os senhores
com trabalhadores feudais,
livres. que foi
Mas isto estabeleceram o cultivo in-
apenas a conseq üê ncia
do fa to de que a unifo rmida de da so cie da de a gr á ria ha vi a de sapa rec ido
antes da emancipa çã o dos camponeses. A diferen ça entre o oeste e o
leste foi confirmada, mas n ã o criou tal processo. Em seus pontos prin-
cipais, a diferen ça existiu desde o s é culo XVI, tendo crescido constan-
temente a partir de ent ã o. A propriedade senhorial da terra sofrera
modifica çõ es internas antes da dissolu çã o da propriedade senhorial.
E m t oda pa rt e, no l este e o este, o esfo r ço dos senhores de terras
para aumentar suas rendas foi o fator motivante. Esse desejo surgira
da invas ã o do capitalismo, da crescente riqueza dos moradores da ci-
dade e da crescente oportunidade de vender produtos agr í colas. Algu-
mas das transforma çõ es realizadas no oeste e no sul datam do s é culo
XII I e, n o leste, do s é culo XV. Os se nh ores de terra s busc a ra m a lca n ça r

131
OS ECONOMISTAS

seus obj etivos de modo c a ra cter í st ico. No sul e o este, co nt inua ra m co mo


senhores de terra ( Grundherren ), isto é , aumentaram as taxas de ar-
renda ment o, juro e o s t ribut os dos c a mpo neses, ma s n ã o se dedicaram
a o cultivo . No le st e t orn a ra m-se senhore s ( Gutsherren ) que cultivavam
suas terras; apropriaram-se de partes da terra dos camponeses (os
enclaves) e, buscando assim maiores propriedades para si mesmos,
t orn a ra m-se agr icultores, usa ndo o s ca mpo neses como se rvos pa ra t ra -
balhar no seu pr ó prio solo. O cultivo intensivo existiu no leste — ma s
em pequenas propor çõ es e com o trabalho dos servos — antes mesmo
da ema nci pa çã o do s ca mpo neses; ma s n ã o no o est e. Ora , o que pr ovo cou
essa diferen ça ?
Quando essa quest ã o foi discutida, deu-se muita import â ncia à
cond ut a do po der pol í t ico; na verda de, esse poder fo i muito a ument a do
na forma çã o da sociedade agr á ria. Como o cavaleiro estava isento dos
tributos o campon ê s era o ú nico, no interior, que os pagava. Quando
se criaram os ex é rcitos permanentes, os camponeses forneceram os
rec rut a s. Isso, junt a ment e com a lguns po nt os de vi st a do comerci a lismo ,
induziu o Estado territorial a proibir os enclaves, por edito, ou seja,
a a pro pri a çã o da t erra dos c a mponeses p elo s senh ores, e, da í , a pro t ege r
as propriedades camponesas existentes. Quanto mais forte era o go-
vernante do pa í s, tanto maior o seu ê xito; quanto mais poderoso era
o no bre, ta nt o me nor o ê xito do governante. Assim sendo, as diferen ça s
da estrutura agr á ria no leste baseavam-se, em grande parte, nessas
condi çõ es do poder. Mas no oeste e sul vemos que, apesar da maior
fraqueza de muitos Estados e da indubit á vel possibilidade de apro-
priar-se da terra dos camponeses, o senhor nem mesmo tentou faz ê -lo.
N ã o revelou nenhuma tend ê ncia de privar o campon ê s de seus bens,
de c ultiva r a terra em gra ndes p ro por çõ es e to rna r-se a gric ulto r t a mb é m
ele. Tamb é m n ã o constituiu raz ã o decisiva a evolu çã o dos direitos do
campon ê s ao solo. No leste, grande n ú mero de camponeses que, srci-
nalmente, tinham bons t í tulos de propriedade da terra, desapareceu;
no oeste,
vados, os que
porque osdispunham deterras
senhores de t ní t ulo s m
ã oeno s fa vo r áafast
desejavam vei s foára-los.
m prese r-
A quest ã o decisiva é , portanto: como foi que o dono de terras do
sul e o este da Ale ma nha , embo ra tives se a mpla oport unida de de a pro -
priar-se das terras dos camponeses, n ã o o fez, enquanto os do leste
tomaram as terras dos camponeses, apesar da resist ê ncia do poder
estatal? Essa pergunta pode ser formulada de modo diverso. Quando
o senhor agr á rio do oeste renunciou à tomada das terras dos campo-
neses, n ã o renu ncio u à sua utili za çã o como font e de ren da . A diferen ça
ent re o l este e o oeste, qua nt o a isso , é simple sment e a de que o se nh or
do oeste usou os camponeses como contribuintes, enquanto o do leste,
tornando-se agricultor, come çou a us á -los como for ça de tra balho . Por-
tanto, devemos indagar: por que aconteceu uma coisa no leste e outra
no oeste?

132
WEBER

Tal como ocorreu com a maioria dos fatos hist óricos é pouco pro-
v á ve l que possa mos a tr ib uir a um a ú nic a ra z ã o a ca usa ex clusiva dessa
conduta diferente dos senhores de terras, pois nesse caso a ter í amos
encontrado em fontes documentadas. Entretanto, uma longa s é rie de
fatores causais foi acrescentada como explica çã o, principalmente pelo
pro fe sso r Vo n B el ow , num a investiga çã o cl á ssi ca , e m seu tra ba lho Ter-
ritorium und Stadt. A tarefa s ó pode ser a de amplia çã o dos pontos
de vista, especialmente pelas considera çõ es econ ômicas. Vejamos em
qu e po nt os a s co ndi çõ es do se nh or d e terr a s do le st e e do oeste dife rira m
qua ndo tent a ra m a rra ncar de se us c a mpo nese s ma is do que o s tributos
tradicionais.
O in í cio de opera çõ es amplas foi facilitado, para os senhores do
leste, pelo fato de que sua condi çã o de senhoria agr á ria, bem como a
patrimonializa çã o da s a utoridades p ú blic a s, c resce ra m n o sol o da velha
liberdade do povo. O leste, por outro lado, era um territ ório de colo-
niza çã o. A estrutura social patriarcal eslav ônica fora invadida pelo
clero alem ã o, em conseq üê ncia da sua educa çã o superior, pelos comer-
ciantes e artes ã os alem ã es em conseq üê ncia de sua habilidade t é cnica
e comerc ia l superior, pe los ca va lei ros a lem ã es em conseq üê nci a de seu

melho r co
do leste, a nh eciment
estrutura o da daa gric
social ultu ra .com
Alemanha, Al ésuas
m disso,
for à é poca da çasconquista
pol í ticas,
havia sido completamente feudalizada. A estrutura social do leste foi,
desd e o i n í cio, a da pta da à preemin ê ncia soc ia l do ca va le iro , e a inva s ã o
alem ã pouco modificou essa situa çã o. O campon ê s, mesmo nas mais
favor á veis condi çõ es de atividade, perdera o apoio que lhe fora dado
no per í odo feudal pelas tradi çõ es firmes, a velha prote çã o m ú tua, a
jurisdi çã o da comunidade no Weist ümer no oeste. O campesinato es-
1

la v ônico, habitualmente mais numeroso, n ã o conhecia tais tradi çõ es .


Al é m disso, no oeste os campos que constitu í am as propriedades dos
senhores eram, habitualmente, intercalados, pois haviam surgido em
terra srcinalmente livre. Esses campos cruzavam os direitos patrimo-
niais dos pequenos senhores territoriais em toda parte, e assim, pela
sua variedade e conflitos m ú tuos, asseguravam ao campon ê s a sua
tra balho sa ex is t ê ncia. Muito freq ü entemente, o campon ê s estava pol í -
tica, pessoal e economicamente sujeito a diferentes senhores. No leste,
a combina çã o da senhoria e direitos patrimoniais em toda uma aldeia
estava nas m ã os de um senhor; a forma çã o de uma “ propriedade se-
nhorial ” , no sentido ingl ê s, era facilitada regularmente porque, com
muito ma is f req üê ncia do que no oeste, e desde o in í cio, somente uma
corte se fundava na aldeia, ou j á havia sido criada pela estrutura
social eslav ônic a . E fi na lme nt e h á um fa t or impo rt a nt e, qu e o pro fe sso r
Von B el ow ressa lta : a s pro prie da des do s cam poneses no l este, e mbora

1 S en t en ças judiciais que serviam como precedentes no velho Direito alem ã o.

133
OS ECONOMISTAS

a pri nc í pio de pequenas propor çõ es na totalidade do territ ório de uma


aldeia, n ã o obstante eram muito maiores do que era costume no oeste.
Portanto, a amplia çã o da á rea cultivada de sua propriedade foi, para
o senhor, muito mais f á cil do que no oeste e tamb é m constituiu uma
id é ia muito menos remota. Assim, desde o in í cio existiu, no m é todo
de distribui çã o da terra, o primeiro elemento de diferencia çã o entre
leste e oeste. Mas a causa dessa diferen ça nas propor çõ es da proprie-
dade srcinal do senhor agr á rio relacionava-se com diferen ças entre
as condi çõ es econ ô micas do leste e as do oeste. At é mesmo na Idade
M é dia, condi çõ es de vida consideravelmente diferentes foram criadas
para as classes sociais dominantes.
O oeste era mais densamente povoado e, o que é decisivo em
nossa opini ã o, a comunica çã o local, a troca de bens dentro e entre as
menores comunidades locais foi indubitavelmente mais desenvolvida
do que no leste. Isso se evidenciou pelo fato de que o oeste contava
com n ú mero muito ma ior de c ida des. B a sea va -se, em pa rt e, no si mple s
fato hist ó rico de que a cultura do oeste era, sob todos os aspectos,
mais velha e, em parte, numa diferen ça geogr á fica, menos evidente,
mas importante: a maior variedade da divis ã o agr í cola do oeste em
compara çã o com o leste. De um ponto de vista puramente t é cnico, a
comunica çã o na s p lan í cie s a mpla s do l este a le m ã o deve t er enc ont ra do
menores dificuldades do que no territ ório muito mais acidentado do
oeste. N ã o obstante, essas possibilidades t é cnicas de comunica çã o n ã o
determinam o volume do com é rcio. Pelo contr á rio, no oeste e no sul,
os motivos econ ômicos do com é rcio e do desenvolvimento de uma co-
munica çã o relativamente intensiva foram muito mais fortes do que
nas plan í cies do leste. Isso ocorreu devido ao fato de que no oeste e
no sul as terras baixas, os vales de rios, os planaltos, se intercalam
— as condi çõ es clim á ticas e outras condi çõ es naturais de produ çã o de
merc a do ria s s ã o perceptivelmente diferentes dentro de distritos peque-
nos. No leste, por é m, as cidades vizinhas freq ü entemente nada t ê m a
trocar
gr á fic entre
a , prosiduzem
(mesmo
a shoje),
m esma porque, estando
s co isa nandi
s. A s co mesmaçõ essitua
hist óric a s e na o geo-
çãtura is
de um com é rcio local intensivo eram (e ainda s ã o), por essas raz ões ,
mais favor á veis no oeste.
Cabe ao professor Von Below o m é rito de ter assinalado o fato
de que na Idade M é dia a institui çã o da cavalaria n ã o se baseava ex-
clusivamente, nem mesmo predominantemente, na posse de terras.
Tributos, taxas sobre rios, rendas e impostos, que dependem de um
certo volume de tr á fico local, tiveram seu papel. Isso era, indubitavel-
mente, muito menos poss í vel no leste naquela é poca (bem como hoje).
Que m q uise sse le va r a li vida de c a va le iro tinh a de b a se a r sua ex ist ê ncia
numa re nda obtida com sua s pr ópri a s at iv id a de s a gr í cola s. A s gr a ndes
organiza çõ es p a ra a pro du çã o de merca do ria s e pa ra o com é rcio ext erior,
como as da “ Ord em A lem ã ” , s ã o a pe na s uma fa se di fe rente dess e mes mo

134
WEBER

fato. A homogeneidade da produ çã o oriental dirigia o transporte para


as regi ões mais distantes, e a economia monet á ria local continuava
sendo consideravelmente inferior à do o este, segun do todos o s ind í cios.
Se as ú nic a s e stima tiva s p oss í ve is, a inda ba sta nt e inc erta s, fora m pe lo
menos aproximadamente corretas, as condi çõ es de vida do campon ê s
no le st e e oeste devem t er sido muit o diferent es. É m uit o po uco pro v á vel
que o senhor tivesse mergulhado nas opera çõ es a gr í colas, com o risco,
trabalho e o contato pouco cavalheiresco com o mundo mercantil, que
elas provocam, se pudesse ter vivido t ã o b em no le st e qua nt o no oeste,
com os tr ibutos, ar renda ment os, ta xa s etc. , rec olhido s a os c a mpo neses.
Mas podemos perguntar por que n ã o era a mesma coisa poss í vel no
le st e e no o este. P a ra qu e isso ocorr esse , o s ca mpo neses teria m de ser
economicamente capazes de pagar tributos de volume consider á vel,
suficientes para as necessidades do senhor de terras, e n ã o h á in d í cios
de que eles tivessem condi çõ es para tanto. Isso pressup õe que o inte-
resse pesso a l do c a mpon ê s na pro dutivi da de d e s ua terra ha vi a cheg a do
a um certo grau, que ele pr óprio havia alcan çado certa margem de
educa çã o econ ô mic a . Mas n a da podia, n em p ode, substituir a infl u ê ncia
educativa que a forma çã o intensiva das comunidades urbanas exerce
sobre o campon ê s, co m a s co mu nica çõ es lo ca is bem desenvolvi da s, co m
a oportunidade e est í mulo de vender produtos rurais nos mercados o
mais pr óximos poss í vel. Essa grande diferen ça ainda pode ser vista
pe la compa ra çã o do campon ê s da pla n í cie d a B a d ê nia com o campon ê s
do leste.
N ã o s ã o as diferen ça s nat urais nas qua lid a de s f í sic a s e qu í micas
do solo, ou diferen ças no talento econ ômico das ra ças, mas o milieu
econ ô mico, estabelecido historicamente, que é o fator determinante na
diferen ça nos resultados da agricultura camponesa.
Um certo n ú mero de cidades, numa determinada á rea, era ne-
cess á rio pa ra inspira r a ma ssa de c a mpo neses com, pe lo menos, o gra u
de interesse na produ çã o necess á rio para que o senhor pudesse tirar
deles os meios
interesse ” . Quapara
ndo aessua subsist
ta va m a use nt esê ncia,
es sa ou us áê-los
s i nflu nc iascomo “ fundos, que
da cultura de
n ã o podem ser subst itu í da s nem mesmo p el o melho r t ra ba lho e a m el hor
vo nt a de, o ca mpo n ê s freq ü ent emente car ecia da possibi lidad e, e sempre
do incentivo, de elevar a produ çã o de sua terra al é m da medida tra-
dicional de suas pr óprias necessidades.
As cidades no leste eram muito menos numerosas, consideran-
do-se o tamanho das respectivas á reas, do que no oeste e sul. E o
des envo lvi mento da a gric ultura ex tensiva no le ste da ta ca ra cteristic a -
mente de uma é poca na qua l n ã o a a sc ens ã o ma s o dec l í nio da s c ida des,
e um decl í nio bastante percept í vel, é observado. Devido ao seu exce-
dente de trigo, o leste teve ent ã o a sua evolu çã o dirigida como um
territ ório de exporta çã o agr í cola, com todas as qualidades desses ter-
r it ório s. Essa dire çã o chegou a o a uge em n osso s é culo , depo is da a boli çã o

135
OS ECONOMISTAS

das leis de cereais inglesas. Por outro lado, mesmo no t é rmino da


Idade M é dia, v á rias partes do oeste alem ã o necessitaram de grandes
importa çõ es de alimentos, principalmente carne. O contraste entre o
leste e o oeste talvez se torne mais evidente na diferen ça de pre ços
de quase todos os seus produtos agr í colas em favor do segundo. Essa
diferen ça s ó desapareceu recentemente devido aos pr ê mios ocultos na
exporta çã o de cereal, que h á uma d é cada v ê m sendo concedidos. At é
mesmo as estradas de ferro reduziram um pouco essa diferen ça, que
apesar disso continuou, em meados do s é culo passado, a ser muito
gra nd e. A condi çã o inc erta da hist ória n umis m á tic a a le m ã , e ntr e mui ta s
outras dificuldades t é cnic a s, no s impe de de o bter uma qua nt idade su-
ficiente de dados fidedignos para a Idade M é dia, mas parece quase
imposs í ve l que t enha sido dif ere nt e, e m gera l, dura nt e a quele pe r í odo,
apesar das grandes flutua çõ es em casos particulares.
Se, portanto, o dono de terras desejasse fazer um uso mais in-
tensivo dos camponeses no leste, teria encontrado dificuldades muito
maiores, devido à falta tradicional de desenvolvimento do campon ê s,
à fra queza do s merc a do s lo ca is p a ra os pro dutos rura is e à co mu n ica çã o
menos intensa. Eu gostaria de atribuir a essa circunst â ncia uma im-
port â nci a muito ma ior — é c laro que a pe na s na forma de uma hip ó tese
ainda a ser comprovada pelas fontes — do que antes. Pelo que sei, o
dono de terra no leste preferia explorar sua propriedade agr í cola n ã o
porque a opera çã o em geral fosse tecnicamente mais racional — pois
isso tamb é m ocorria no oeste —, mas porque era, nas condi çõ es esta-
bel ecida s h istoric a ment e, o ú n ico meio eco n ôm ico poss í vel de obt er um a
renda maior. Tornou-se um dono de terra, e o campon ê s, cada vez
mais preso ao solo, tornou-se um servo com o dever de dar seus filhos
para o senhor, como servidores dom é sticos, ou fornecer seus cavalos e
carro ça s p a ra a a gri cul tura , ou a t é mesmo sua for ça de tra balho pa ra
toda s a s f orma s de a tivida de, dura nt e todo o a no, enqua nt o sua pr ópria
terra era considerada, cada vez mais, uma simples recompensa pelo

seu trabalho.a Apesar


ta ntemente terra da
queoposi o do Estado,
çãQua
c ulti va va. ndo , maoissenhor
ta rde expandia
, o correu acons-
eman-
cipa çã o dos camponeses, ela n ã o conseguiu, como o 4 de Agosto na
Fran ça, eliminar os senhores da estrutura agr á ria do leste alem ã o.
Um Estado sem dinheiro, com uma ind ú stri a a inda n ã o desenvolvida,
n ã o podia renunciar facilmente aos seus servi ços gratuitos na admi-
nistra çã o e no ex é rcito. A cima de t udo, o de creto revo ga nd o os dir eitos
feudais, pelos quais o senhor e os camponeses se viram numa comu-
nida de de p rodu çã o, n ã o solucionou o ponto mais importante: o destino
da terra, que foi considerada posse do senhor, e n ã o do campon ê s.
Declar á -la simplesmente propriedade camponesa — como se fez mais
ta rde na P ol ô nia russa, por motivos pol í ticos, a fim de arruinar a no-
breza polonesa — teria aniquilado cerca de vinte mil grandes proprie-
dades na Pr ú ssia, as ú nicas que o pa í s ent ã o possu í a . N ã o teria eli-

136
WEBER

minado uma simples classe de arrendadores, como ocorreu na Fran ça .


P ort a nt o, a pe na s uma par te da s pro pri edades do s c a mpo nese s, as ma io-
res, e s omente uma par te de s ua s terra s fo ra m po upada s do fe cha mento
pelos senhores: o restante foi por eles apropriado.
O leste continuou sendo, e da í em di a nt e ca da ve z ma is, o centro
do c a pi ta li smo agr á rio , a o pa sso que o ca pi t a lismo indust ria l se l oca li zo u
principalmente no oeste. Tal processo sustou-se na fronteira russa,
que isolava o interior. Uma grande ind ú stria, que poderia ter surgido
no lest e, desenv olveu- se ent ã o bem pr óxima da fronteira russo- polonesa
da Alemanha.
O senhor de terras prussiano do leste, que surgiu sob essas con-
di çõ es, foi um produto social muito diverso do senhor ingl ê s. Este é ,
geralmente, um arrendador da terra, n ã o um agricultor. Seus tribu-
t á rios n ã o s ã o camponeses, como na Idade M é dia, mas empresas ca-
pitalistas para cultivo da terra. É um monopolizador da terra. A pro-
prieda de em seu p oder é mantid a na fam í li a gra ça s a rec ursos j ur í dicos
artificiosos, que surgiram, como modernos monop ólios capitalistas,
numa luta constante com a legisla çã o; ele é mantido distante da co-
munica çã o, o br iga çã o e divis ã o pe la hera n ça . O do no da t erra es t á fora
da comunidade produtora rural. Ocasionalmente, ele ajuda o seu ar-
rendat á rio com empr é stimos de capital, mas sua exist ê ncia como ar-
rendador é intang í vel. Como produto social, ele é filho leg í timo do
capitalismo, crescido sob a press ã o dos efeitos contrastantes, mencio-
nados acima, que o capitalismo produz nos pa í ses bem povoados, com
uma estrutura social aristocr á tica. O aristocrata agr á rio deseja viver
como um cavalheiro, no lazer. Normalmente, ele busca rendas, e n ão
luc ro s. O ta ma nho tec nic a mente sufic ie nt e da pro pri edade e o ta ma nho
da propriedade necess á rio à sua manuten çã o n ã o se harmonizam de
forma alguma. Em algumas á reas da Alemanha, a opera çã o mais in-
tensiva, por exemplo, exige a diminui çã o da propriedade; ao passo que
o luxo crescente da classe aristocr á tica exige sua amplia çã o especial-
mente
pensa çã quando os pre ços onera
o de co-herdeiros, dos produtos caem. Toda
a propriedade compra, dtoda com-í vidas,
com enormes
enquanto sua opera çã o se to rna ma is se ns í vel à s fl ut ua çõ es de pre ços ,
na med id a em q ue é ma ior e ma is i ntensi va . So mente numa estrut ura
social agr á ria, como a inglesa, tal evolu çã o foi abolida. Isso, com a
crescente densidade de popula çã o e os crescentes valores da terra, é
o que p õe em risco em toda parte, hoje em dia, a exist ê ncia de uma
grande agricultura racional, e n ã o o monop ólio da terra pelo Estado,
exigido por muitos reformadores. Na verdade, o extremo oposto foi o
que ocorreu: monop ó lio privado da terra. Mas este produz, em certos
aspectos econ ô micos, efeitos semelhantes aos do monop óli o es ta ta l; re-
tira a terra do mercado e separa a administra çã o da propriedade que
podem, agora, seguir cada qual seu caminho. Os interesses do fazen-
deiro capitalista, lutando pelos lucros empresariais, e os interesses do

137
OS ECONOMISTAS

dono da terra em rendas e na preserva çã o de uma posi çã o social, que


recebeu como heran ça, correm lado a lado, sem estarem ligados entre
si, como oc orr e com os propr iet á rios- opera dores a gr í cola s. A significa çã o
pr á tica disso é que a flexibilidade da agricultura em face da crise
a gr í cola a ument a de fo rm a vigo rosa. O choque rec a i so bre do is o mbros
fortes: o monopolizador da terra e o dono de terra capitalista. A crise
res ul ta na di minui çã o da renda, pro vavel mente numa muda n ça de ar-
rendat á rio, numa diminui çã o gradual do solo cultivado, mas n ã o na
s ú bita destrui çã o de muitas propriedades ou em qualquer degrada çã o
social s ú bita de muitas fam í lias propriet á rias de terras.
As condi çõ es do J unker prussiano do leste s ã o muito diferentes.
Ele é um empre ga do r rur a l, um homem tota lme nt e do tipo ca pi ta li sta ,
valorizado segundo as propor çõ es de sua propriedade e renda. Dificil-
mente possuir á mais do que uma e meia a duas “ se çõ es ” dos Estados
Unidos, mas por tradi çã o mant é m uma vida faustosa e pretens ões
aristocr á ticas. É habitualmente o dono livre do solo que cultiva, que
é vendido e hipotecado, avaliado para legados e adquirido, pela com-
pensa çã o, aos co-herdeiros; da í estar sempre onerado pelos interesses
corr ent es. A ssim sendo, soment e o pro priet á rio est á exposto à s f lutua -
çõ es dos pre ços de mercado. O J unker es t á envolvido em todos os con-
flit os soc ia is e eco n ômic os, qu e a mea ça m dire ta mente a sua exi st ê ncia,
em todas a s é poca s. Enq ua nt o a ex port a çã o de c ereais p a ra a Ingla terra
floresce u, ele foi o ma is fort e defens or do livr e-com é rcio , o ma is fe rr enh o
advers á rio da jovem ind ú stria alem ã do o este, que n ecessi t a va de pro -
t e çã o; ma s, qua ndo a conco rr ê nc ia das t erra s mais no vas e mais b a ra ta s
o expulsou do mercado e finalmente o atacou em sua pr ópria p á tria,
ele se tornou o mais importante aliado daqueles industriais que, ao
contr á rio de outros ramos importantes da ind ú stria alem ã , exigiam
prote çã o; uniu-se a eles numa luta comum contra as exig ê ncias da
for ça de trabalho, pois nesse meio-tempo o capitalismo tamb é m se co-
locara contra o car á ter social do J unker e seus trabalhadores. Na pri-
meira metade agr
trabalhadores do úí colas, culo, o J de
ltimo so éagricultor unker
cuja eterra
ra umelep se
a tria rc aapro-
havia rura l. Seus
priado, n ã o eram de forma alguma prolet á rios. Em conseq üê ncia da
fa lta de fundo s do J unker , eles n ã o rec ebi a m sa l á ri os, mas uma ca bana ,
terra e o direito de pastagem para suas vacas; na é poca da colheita,
uma certa parte do cereal lhes era paga em trigo etc. Eram assim, em
pequena escala, agricultores com um interesse direto nas atividades
do se nh or. Ma s fo ra m expro pria do s pel a va loriza çã o cresc ente da terra ;
seu senhor retinha pastos e terra, guardava o cereal e, em vez dele,
da va -lhe s sa l á rio s. A ssim, a vel ha comun ida de de int eresse s dissol veu-
se e os agricultores se transformaram em prolet á rios. A agricultura
tornou-se uma opera çã o sazonal, limitada a alguns meses. O senhor
contratava trabalhadores migrantes, j á que a manuten çã o de m ã os
ociosas durante todo o ano seria um ônus demasiado pesado.

138
WEBER

Qu a nto mais a ind ú stria alem ã crescia no oeste, at é atingir seu


volume presente, tanto mais a popula çã o sofria uma enorme modifi-
ca çã o; a emigra çã o alcan çou seu auge no leste alem ã o, onde apenas
senhores e servos existiam em distritos demasiado amplos e dos quais
os trabalhadores agr í colas fugiam, buscando livrar-se do isolamento e
da dep end ê nci a pat ria rc a l, se ja a tr a ve ssa ndo o ocean o par a os Est a do s
Unidos, seja para o ar fumarento e poeirento, mas socialmente mais
liv re, da s f á bric a s a le m ã s. P or outro lad o, os do nos de t erra s impo rt a m
os tra ba lha do res que podem p a ra rea li za r o tr a ba lho : e slavo s de a l é m -
fro nt ei ra , qu e, c omo m ã o-de-obra ba ra ta , a ca ba m a fa sta ndo os alem ã es .
Hoje, o dono de terras age como qualquer homem de neg ócios e tem
de a gi r c omo ta l, ma s suas t ra di çõ es a rist ocr á tic a s c ontr a sta m c om t a l
a çã o. Ele gostaria de ser um senhor feudal, e n ã o obstante tem de se
tornar um empres á rio comercial e um capitalista. Outras for ças, al é m
do J unker , procuram roubar o papel do senhor de terras.
Os c a pi t a lista s indust ria is e comerci a is c ome ça m a a bso rve r, c a da
ve z ma is, a terra . Fa bric a nt es e c omerc ia nt es , que enriquec era m, c om-
pram as propriedades dos cavaleiros, associam a sua posse à fa m í lia
pelo usufruto e usam a propriedade como meio de invadir a classe
aristocr á tica. O fideicomisso do par venu é um dos produtos caracter ís -
ticos do capitalismo num pa í s antigo, com tradi çõ es aristocr á ticas e
uma monarquia militar. No leste alem ã o ocorre agora o mesmo que
vem ocorrendo na Inglaterra h á s é culos, at é que se consolidaram ali
as condi çõ es hoje existentes.
A Am é rica tamb é m experimentar á esse processo no futuro, em-
bora so ment e de pois que toda a t erra li vre se t ive r esgo t a do e a pulsa çã o
econ ô mica do pa í s tiver diminu í do. Ser á exato dizer que, por algum
tempo, o peso da tradi çã o hist órica n ã o esmaga os Estados Unidos e
que os problemas srcinados do poder da tradi çã o n ã o existem aqui;
n ã o obstante, os efeitos do poder do capitalismo s ã o mais fortes e,
ma is c edo ou ma is ta rde, e stimula r ã o o desen volvimen t o dos monop ólios

da
umaterra
certa. Qu a ndoqua
renda; o pre ndoçoadaa cumula
terra se elevar
çã o dao ssuficiente
gra nde spara garantir
fo rtuna s a lca n ça r
um ponto ainda mais alto que o de hoje, quando, ao mesmo tempo, a
possibilidade de ganhar lucros proporcionais pelos novos e constantes
investimentos no com é rcio e ind ú stria tiver baixa do a pont o de os “ ca -
pit ã es de ind ú stria ” , como o correu em t oda pa rt e no mun do, c ome çarem
a lutar pela preserva çã o heredit á ria de seus bens, ao inv é s de novos
investiment os qu e tr a zem t a nt o luc ro c omo risc o — en t ã o, na realida de,
o desejo das fam í lias capitalistas de formar uma “ nobreza ” surgir á ,
provavelmente n ã o na forma embora de fato. Os representantes do
ca pita li smo n ã o se c ont ent a r ã o m a is co m u m jo go t ã o ino fensivo qu a nt o
os estudos de á rvores geneal ógicas e os numerosos aspectos de exclu-
sivida de so cia l, t ã o surpre ende nt es p a ra o es tr a ngei ro . Some nt e qua ndo
o capital chegar a essa posi çã o e come çar a monopolizar a terra em

139
OS ECONOMISTAS

grandes propor çõ es surgir á nos Estados Unidos uma grande quest ão


social rural, que n ã o poder á ser solucionada com a espada, como a
quest ã o do s escra vos. Os m onop óli os e tr ustes industria is s ã o institui-
çõ es de dura çã o li mita da ; a s c ondi çõ es de produ çã o so fr em m odific a çõ es ,
e o mercado n ã o conhece avalia çõ es duradouras. Seu poder tamb ém
n ã o disp õe do c a r á ter a utori t á rio e da ma rc a pol í tic a da s a ris toc ra cias.
Mas os monop ólios da terra criam sempre uma aristocracia pol í tica.
No que se relaciona com a Alemanha, no leste j á se observa, em
conseq üê ncia de certas tend ê ncias, uma aproxima çã o das condi çõ es
inglesas; o sudoeste, por é m, evidencia semelhan ça s c om a Fra n ça , e m
sua estrut ura so cial rura l. Ma s em ge ra l a cria çã o intensiva de gado,
que se obse rva na Inglat erra, é imposs í vel no leste alem ã o, devido ao
cli ma . P orta nto, o ca pi ta l a bso rve ape na s a terra ma is f a vor á vel para
a agricultura. Mas enquanto os distritos inferiores na Inglaterra per-
ma nec em sem c ultivo, como p a st os pa ra ovel ha s, no l este da Ale ma nh a
s ã o colonizados pelos pequenos agricultores. Esse processo tem uma
caracter í stica peculiar, enquanto duas na çõ es, ge rm a nos e esl a vo s, lu-
tam entre si, economicamente. Os camponeses poloneses, que t ê m me-
nos necessidades do que os alem ã es, parecem estar vencendo.
Sob a press ã o dos ciclos econ ômico s o pe qu eno fa zendeiro esla vo,
que é frugal, ganha terra do alem ã o. O avan ço do cultivo na dire çã o
do leste, durante a Idade M é dia, baseado na superioridade do cultivo
mais antigo e superior, foi modificado sob o princ í pio capitalista da
“ m ã o-de-obra ” ma is bara ta . Se o s Esta do s U nid os ta mb é m e nfre nta r ã o
problemas semelhantes no futuro, ningu é m pode dizer. A diminui çã o
das opera çõ es agr í colas nos Estados produtores de trigo resulta, no
momento, da crescente intensidade da opera çã o e da divis ã o do tra-
balho. Tamb é m o n ú mero de fazendas de negros est á aumenta ndo , ta l
como a migra çã o do int erio r pa ra a s cida des. S e, com isso , a ca pa cida de
de e xpan s ã o da colon iza çã o a ng lo-sa x ã o-germ â nic a do s distritos rura is,
bem com o o n ú mero de fi lhos da velha popula çã o no rte- a meri ca na na ta ,

estiveram
de elementosdesaparecendo, e se, ao
do leste europeu mesmo
crescer, tempo, a enorme
poder á surgirimigra çã ,o
a li , se m demo ra
uma popula çã o rural que n ã o ser á assimilada pela cultura do pa í s,
tr a nsmitida histori ca mente. E ssa po pul a çã o poder á modific a r, de modo
decisivo, o padr ã o dos Estados Unidos e formar, gradualmente, uma
comunidade de tipo bastante diferente da grande cria çã o do esp í rito
anglo-sax ã o.
Para a Alemanha, todas as quest ões fat í dicas de pol í tica econ ô-
mica e social, e de interesses nacionais, est ã o intimamente ligadas a
esse contraste entre a sociedade rural do leste e a sociedade do oeste
com seu m a ior desenvolviment o. N ã o me par ece corret o considera r a qu i,
num pa í s estr a ngeiro , o s pro ble ma s pr á t icos qu e essa situa çã o provo ca .
O destino, que nos deu uma hist óçãriao densa
de milhares de anos, que nos
colocou num pa í s com uma popula e uma cultura intensiva,

140
WEBER

q ue nos for çou a ma nt er o es pl endo r de no ssa ve lha cultura num ca mpo


armado, por assim dizer, dentro de um mundo tamb é m armado, colo-
cou-nos diante desses problemas. E temos de resolv ê -los.
Os Estados Unidos ainda n ã o os conhecem. Este pa í s provavel-
mente jamais ter á de enfrentar alguns deles. N ã o t ê m aristocracia
antiga, da í n ã o existirem as tens ões causadas pelo contraste entre a
tradi çã o autorit á ria e o car á ter puramente comercial das condi çõ es
econ ô micas modernas. Considera com acerto a compra deste imenso
territ ório, em cujo centro estamos aqui, 1 como o selo hist
órico real
impre sso so bre a s sua s inst itui çõ es democr á ticas; sem essa aquisi çã o,
com vizinhos poderosos e belicistas, ele seria for çado a usar a cota de
armas como n ós, que constantemente mantemos na gaveta de nossas
mesas os nossos aparatos b é licos, para o caso de guerra. Por outro
lado, a maior parte dos problemas para cuja solu çã o estamos traba-
lhando agora s ó surgir á nos Estados Unidos dentro de algumas gera-
çõ es. A forma pela qual ser ã o solucionados determinar á o car á ter da
cul tura de ste c ontinente. J a ma is ter á sido t ã o f á cil, talvez, para uma
n a çã o tornar-se uma grande pot ê ncia civilizada, quanto o é para o
povo americano. N ã o obstante, de acordo com o c á lculo humano, tamb ém
é a ú ltima vez, por toda a dura çã o da hist ória da humanidade, que tais
condi ções de desenvo lvimento livre e gra nd e ser ã o prop orcio na da s; as á reas
de solo livre est ã o desaparecendo em toda parte do mundo.
U m dos me us c ole ga s c ito u a s pala vra s de Ca rlyle : “ Mil ha res de
anos passaram antes que pudesses ingressar na vida, e milhares de
a no s ter ã o de esperar em sil ê ncio o que queiras fazer desta tua vida ”.
N ã o sei se, como acreditava Carlyle, o homem possa ou queira colo-
ca r-se , e m seus a tos, dentro da ga ma des se s entimento. Ma s uma na çã o
deve fa z ê -lo, pa ra qu e sua ex ist ê nc ia na Hist ória tenha valo r dura do uro .

1 S t . L ouis.

141
O E OSÁ“
C AR ”*
R NACIONAL
TJE UNKERS

Tradu ção da ver são inglesa por Waltensir Dutra

* Traduzido da sexta impress ã o (G a laxy B ook, 19 63) da edi çã o publicada em 1946 pela Oxford
University Press, Inc.: F r om Max Weber : E ssays i n S oci ology (translated, edited and with
an Introduction by H. H. Gerth and C. Wright Mills).
O C ARÁT E R NACIONAL
E OS “J UNKERS ”1

C omo ve í culo da tradi çã o, treinamento e equil í brio pol í tico de


um Estado, n ã o h á d ú vi da de que u ma ca ma da de s enho res d e terras
é insubstitu í vel. Falamos dela tal como existiu na Inglaterra e que,
de forma semelhante, constituiu a ess ê ncia da nobreza senatorial da
Ro ma a ntig a.
Quantos aristocratas h á na Alemanha e especialmente na Pr ú s-
sia? Onde est á a sua tradi çã o pol í tica? Politicamente, os aristocratas
alem ã es, particularmente na Pr ú ssia, quase nada representam. E pa-
rece evidente que hoje uma estrutura estatal que pretenda alimentar
uma ca ma da de gra ndes a rrendado re s, d e ca r á ter a utentic a mente a ris -
tocr á tico, é imposs í vel.
Mesmo que ainda fosse poss í vel deixar que surgissem algumas
grandes propriedades aristocr á ticas nas á reas revestidas de bosques
— a ú nica terra que se qualificava, social e politicamente, para a for-
m a çã o de mo rga dias —; ainda assim seria imposs í vel obter quaisquer
resulta do s signific a t ivo s. Foi essa, p rec isa ment e, a deso nest ida de e nor-
me do projeto de lei sobre as morgadias, examinado na Pr ú ssia no
in í cio de 1917. O projeto visava a estender uma institui çã o jur í dica,
adequada à s prop rieda des a ristoc r á tic a s, a t é os propriet á rios de classe
m é dia, na propriedade m é dia do leste do Elba. Procurava fazer uma
“ aristocracia ” de um tipo que simplesmente n ã o é uma aristocracia e
jamais poder á ser transformado em tal.
Os J unker s do leste s ã o freq ü entemente criticados (e por vezes
inj ust a ment e); e s ã o com a mesma freq üê nci a (e ta mb é m inj usta mente)
tra nsfo rma do s em í dolo s. Qua lqu er pe ssoa q ue o s conh e ça pe sso a lme nt e
apreciar á , sem d ú vida, a sua companhia na ca ça, junto a um bom

1 "W ahl re cht un d De mo kr atie in De uts chl and", G esammelte Poli ti sche S chri ften (Munique,
Dreimaskenverlag, 1921). Compreende um trecho de um folheto que “ Die Halfe ” — o
departamento editorial de livros da pequena revista que Naumann dirigia — publicou em
dezembro de 1917.

145
OS ECONOMISTAS

copo, ou no jogo de cartas; e, em suas casas hospitaleiras, tudo é a u-


t ê ntico. Mas tudo se torna esp ú rio quando estilizamos essa camada
essencialmente “ burguesa ” de empres á rios para fazer dela uma “ aris-
tocracia ” . Economicamente, os J unker s dependem totalmente de sua
atividade como empres á rios agr í colas; est ã o empenhados na luta dos
interesses econ ômicos. Sua luta social e econ ômica é t ã o impiedosa
qua nt o a de qua lquer i ndust ria l. Dez minutos p a ssa do s e nt re e le s mo s-
tra m que s ã o ple beus. S ua s virtud es mesma s s ã o a s de na tu reza ple b é ia .
O ministro Von Miquel declarou certa vez (em particular!) que “ hoje
em dia uma propriedade feudal do leste alem ã o n ã o pode manter uma
fa m í li a a risto cr á tica ” , e tinha toda a raz ã o. Se tentarmos modelar tal
ca ma da numa a risto cra cia, c hei a de ges tos e pre tens ões fe uda is, ca ma da
es sa que h oje de pe nde do tra ba lho a dministra tivo ro tineiro de na tur ez a
capitalista, o ú nico resultado inevit á vel ser á a apar ência de um arri-
vista . Os tra ços de nossa conduta pol í tica e geral no mundo, que en-
cerram essa marca, s ã o determinados (embora n ã o exclusivamente)
pelo fato de termos alimentado pretens ões aristocr á tic a s e m c a ma das
que simplesmente n ã o disp õem de qualifica çõ es .
Os J unker s s ã o apenas um exemplo desse ponto. Entre n ós, a
aapenas
us ê nciaà de homens
fisio nomia de
doseduca
J unkerçãs, omas
cosmopolita
ta mb é m aéo, resul
decerto, devida
ta do do canr á tãero
“ pequeno-burgu ê s ” ,1 generalizado, de todas as camadas que foram re-
presentantes espec í fic os da estru t ura pol í tic a pruss ia na durant e a é po-
ca de sua ascend ê ncia empobrecida, mas gloriosa. As velhas fam í lias
de oficiais cultivam, ao seu modo altamente honor í fico, e em condi çõ es
econ ô mic a s e xtremamente mo de sta s, a t ra di çã o do velho ex é rcito prus-
siano. As fam í lias dos servidores p ú blicos seguem o mesmo exemplo.
N ã o importa se essas fam í lias s ã o, ou n ã o, de nascimento nobre; eco-
n ô mic a , so cia lment e e se gund o se u h orizo nt e, e la s co nst ituem um grupo
de classe m é dia burguesa. Em geral, as formas sociais do corpo de
oficiais alem ã o s ã o absolutamente adequadas à natureza, e em suas
caracter í stic a s dec isi va s a sse mel ha m-se c lar a mente à s c a ra cter í sticas
do corpo de oficiais das democracias (da Fran ça e tamb é m da It á lia).
Esses tra ços, por é m, to rna m-se ime diat a mente u ma ca ric a tura qua ndo
os cí rculos n ã o-milita res o s c onsidera m t a mb é m model o de sua condu t a .
Isso se aplica, acima de tudo, quando se fundem com as formas sociais
derivadas do “ penalismo ” das escolas de burocracia. Mas é isso o que
ocorre entre n ós.
Sa be-se be m q ue a s a sso cia çõ es e studa nt is c onst ituem a educ a çã o
social t í pica de aspirantes a postos n ã o militares, sinecuras e à s pro-
fiss õ es lib era is de a lta posi çã o soc ia l. A “ li be rda de a ca d ê mica ” de due lar ,
beber e faltar a aulas vem de um tempo em que as outras liberdades

1 B ürgerlichen.

146
WEBER

n ã o existiam na Alemanha e quando somente a camada de letrados e


candidatos a cargos p ú blicos tinha o privil é gio de desfrut á -las. A in-
flu ê ncia , po r é m, q ue essas conven çõ es tive ra m so bre a a par ê nc ia gera l
da classe dos homens que disp õem de um diploma acad ê mico na Ale-
manha n ã o pode ser eliminada, nem mesmo hoje. Esse tipo de homem
foi sempre importante entre n ós, e to rna -se c a da ve z ma is i mpo rt a nt e.
Mesmo que ele hipotecasse as associa çõ es estudantis e que a necessi-

da de de econ
talidade qu e osômica
a lunos p a gaassocia
dessas ssem o s juros
çõ es, ntal tipo
ã o cont ribu í ssedesapare-
dificilmente para a imo r-
ceria. Pelo contr á rio , o si stema de fra ternida des e studa nt is e xp a nde- se
cada vez mais, pois as liga çõ es sociais que hoje se criam nessas asso-
cia çõ es s ã o uma form a esp ec í fic a de selec iona r fu ncio n á rio s. E a pat ent e
de o fic ia l, que t em co mo requisit o p reli mina r a fil ia çã o a uma a sso cia çã o
duelista, garantida de forma vis í vel pelas fitas com as suas cores, d á
acesso à “ sociedade ” .
Na verdade, a press ã o em favor da be bida e a s t é cnicas de duelo
das associa çõ es estudantis ajustam-se cada vez mais à s necessidades
das constitui çõ es mais fracas dos aspirantes à quelas fi ta s, que, de vido
à s liga çõ es, se tornam cada vez mais numerosos. Ao que se diz, h á
a t é mesmo abst ê mios em alguns desses grupos duelistas. A fus ã o in-
telectual dessas associa çõ es, que tem aumentado continuamente nas
d é cadas recentes, é um fator decisivo. T ê m salas de leitura pr óprias
e publica çõ es especiais, que os alunos enchem exclusivamente de po-
l í tica “ patri ótica ” bem-intencionada de um car á ter indizivelmente pe-
queno-burgu ê s. O interc â mbio social com os companheiros de aula de
forma çã o social ou intelectual diferente é evitado ou pelo menos difi-
cultado. Com tudo isso, as liga çõ es das sociedades estudantis se ex-
pandem constantemente. Um vendedor que pretenda conseguir uma
patente de oficial, como condi çã o para casar-se na “ sociedade ” (parti-
cularmente, com a filha do patr ã o), matricular-se- á numa das facul-
da des de e conomia qu e s ã o freq ü enta da s p rinc ip a lme nt e pe la sua vida
associativa.
A medi da do moralista n ã o é a medida do pol í tico. Qualquer que
seja o julgamento que se possa fazer dessas associa çõ es per se, elas
certamente n ã o proporcionam educa çã o para uma personalidade cos-
mopolita. Pelo contr á rio, seu sistema cansativo e seu penalismo s ã o,
afinal, inegavelmente banais; e suas formas sociais subalternas cons-
tituem o oposto mesmo dessa educa çã o. O mais est ú pido clube anglo-
sa x ã o oferece uma educa çã o cosmopolita melhor, por mais vazios que
possamos julgar os esportes que constituem o objetivo do clube. Com
a sua sele çã o de membros freq ü entemente muito rigorosa, ele sempre
se baseia no princ í pio da rigorosa igualdade dos cavalheiros e n ã o no
princ í pio do “ penalismo ” , que a burocracia tanto valoriza como prepa-

147
OS ECONOMISTAS

r a çã o da disciplina no cargo. Cultivando esse penalismo, as fraterni-


da de s n ã o deix a m d e se rec omenda r a os “ do a lto ” . 1 D e qua lquer mo do ,
as conven çõ es formalistas e o penalismo dessa chamada “ liberdade
acad ê mica ” s ã o impostos ao aspirante ao cargo na Alemanha. Quanto
mais os candidatos se mostram como arrivistas, jactando-se de sua
carteira recheada — pelos pais —, como é inevit á vel quando as con-
di çõ es o permitem, tanto menos efetivas s ã o essas conven çõ es no pre-
paro dos homens aristocr á ticos do mundo. A menos que o jovem que
é levado a esse condicionamento seja de um car á ter excepcionalmente
independente, um esp í rito livre, os tra ços fatais do plebeu de verniz
se desenvolver ã o nele. Vemos esses plebeus, com muita freq üê ncia,
ent re homens q ue, so b outros a spe ct os, s ã o exc elent es, po is os int eresses
cultivados por essas associa çõ es s ã o totalmente plebeus e est ã o longe
de t odos o s int eresses “ aristocr á ticos ” , qua lquer que se ja o se nt ido da do
à express ã o. O p ont o sa lie nt e é , si mple smente, que uma vida estuda nt il
de ess ê ncia pleb é ia pode ter sido, anteriormente, inofensiva. Era sim-
plesmente a exuber â ncia ing ê nua, juvenil. Mas hoje em dia pretende
ser um meio de educa çã o a rist ocr á tica, que d á à s pessoas habilita çõ es
para a lideran ça no Estado. A contradi çã o simplesmente incr í vel que

1 No K or pszei tung alem ã o, n º 428, citado aqui de um artigo do professor A. Messer, no


Weserzeitung de 2 de junho de 1917, encontramos as seguintes observa ções de cr í tica à s
“ modernas ” propostas de reforma: “ As propostas n ã o levam absolutamente em conta a
modifica çã o material dos calouros e membros ativos das associa çõ es estudantis. Mencio-
nando apenas um item: a obriga çã o de beber deve ser abolida! N ã o deve haver obriga çã o
de esvaziar o copo! N ã o deve haver bebedeira! Experimentei, com freq üê ncia, entre v á rias
associa çõ es, esse tipo de K nei pen (festas das associa çõ es e studant is de stinada s à s liba çõ es
alco ólicas) sem essas reformas, por vezes durante semestres. E mais tarde passei noites
nas mesmas associa çõ es quando todos estavam b ê bados. Eram simplesmente homens di-
fere ntes, que acreditava m na beb ida. Com freq üê ncia, consideravam-na mesmo necess á ria.
E é necess á rio dar uma oportunidade para que bebam muito. Se calcularmos tais oportu-
nidades, qualquer calouro que seja um bom bebedor poder á embebedar os seus colegas
mais velhos na associa çã o, e a autoridade ter á desaparecido. Ou se abolirmos a obriga çã o
de honrar cada brinde, estaremos com isso abolindo a base da K nei pgemuetli chkei t (f esta s
nas tavernas). Se proibirmos o embebedamento de um membro, estaremos deitando fora
um meio de educa çã o! Pe ço que essas palavras n ã o sejam citadas fora de seu contexto.
Afinal de contas, nossa vida associativa estudantil deve constituir uma cadeia de medidas
educacionais: e todo membro de uma associa çã o duelista confirmar á que, em sua vida
depois da escola, jamais lhe disseram a verdade com tanta sinceridade, de forma t ã o in-
crivelmente franca quanto na associa çã o duelista. E como aceitava isso? Por mais rid í culo
que pare ça, a aceita çã o era produto do K nei pe. Para n ós, o K nei pe é o que o treinamento
do qua rtel e o p a sso de ganso, t ã o freq ü entemente criticados, s ã o para o soldado. Tal como
a ordem ” dobrar os joelhos" repetida centenas de vezes no campo de treinamento faz que
o homem supere a pregui ça, indiferen ça, teimosia, raiva, e cansa ço, e tal como essa ordem
faz a disc ip li na surgir do sentimento de ser tota lmente impo tente e comple ta mente destitu í do
de iniciativa diante de um superior — da mesma forma que a ordem ’beba tudo! ’ sempre
d á ao estudante mais velho a oportunidade de mostrar ao mais novo a sua superioridade
a bso luta . P ode punir, p ode ma nter dist â nc ia e a a tmosf era que é a bso luta mente nec ess á r ia
à empresa educacio na l da s a sso cia çõ es duel ista s — pois, do co nt r á rio , el a s se tra nsfo rma r ã o
em clubes! Naturalmente, a ordem ’beba tudo ’ nem sempre é aconselh á vel a todas as
pe sso a s, mas d eve constituir uma a mea ça iminente ao K nei pe tal como o ’dobrar os joelhos! ’
é no campo de treino. N ã o obstant e, e m a mbas a s situa çõ es, os homens podem divertir-se
muito". [M. W.]

148
WEBER

isso encerra é como um bumerangue no qual a marca fision ômica do


arrivista é o resultado.
Deve mo s ter c a utel a para n ã o a credi t a r q ue e sse s t ra ços a rriv is ta s
da fi sio no mia a le m ã sej a m poli t ica ment e irrele va nt es. V a mos c onside-
ra r ime diat a mente um e xe mpl o. Lan çar-se à s “ conq uista s mo ra is ” e ntr e
inimigos, ou seja, entre grupos de interesses opostos, é empresa v ã ,
que Bismarck ridicularizou com raz ã o. Mas ser á isso v á lido para os
aliados presentes ou futuros? N ós e nossos aliados austr í acos depen-
demos uns dos outros, politicamente, com muita freq üê ncia. E ambos
sabemos disso. A menos que sejam cometidas grandes loucuras, n ão
h á amea ças de um rompimento. A realiza çã o alem ã é aceita por eles
sem reservas ou ci ú mes — e mais aceita quanto menos nos gabarmos
dela. Nem sempre temos uma avalia çã o adequada das dificuldades
que os austr í acos t ê m e que foram poupadas à Alemanha. Da í n em
sempre apreciarmos a realiza çã o austr í aca. Mas podemos dizer aqui,
abertamente, aquilo que todos sabem. O que n ã o poderia ser tolerado
pelos austr í acos, ou por qualquer outra na çã o da qual desej á ssemos
ser amigos, s ã o as maneiras do par venu , como voltamos a evidenciar
recentemente e de forma intoler á vel. Tal apar ê ncia ser á recebida com
uma rejei çã o silenciosa e polida, mas decidida, por qualquer na çã o éde
boa e ant ig a forma çã o soc ia l, c omo p or exemplo os a ust r í a cos. Ningu m
quer ser governado por par venus mal-educados. Um passo al é m do
que é a bso luta mente indisp ens á ve l na s quest ões e xterna s, o u sej a , qua l-
quer coisa que pudesse ser da parte da “ Europa central ” (no sentido
interior da palavra), ou que pudesse ser desej á vel para a futura soli-
da rie da de de i nt ere sse s co m outra s na çõ es (n ã o i mpo rt a o que po ssa mos
sentir quanto à id é ia de uma aproxima çã o econ ômica) pode falhar po-
liticamente devido à determina çã o absoluta de n ã o permitir que lhe
seja imposto aquilo que recentemente, com um gesto jactancioso, foi
proclamado como o “ esp í rito prussiano ” . A “ democracia ” , ao que se
propala, p õe em risco o esp í rito prussiano, segundo as manifesta çõ es
verbais dos fazedores de frase pol í ticos. Como se sabe, as mesmas
declama çõ es foram ouvidas, com exce çã o, em toda fase de reforma in-
terna, durante os ú ltimos cento e dez anos.
O esp í rito p russia no a ut ê nt ic o p ert ence à s flora çõ es mais bel a s
da cultura alem ã . Tudo o que temos de Scharnhorst, Gneisenau,
Boyen, Moltke, foi inspirado por esse esp í rito, tal como os feitos e
as palavras dos grandes realizadores da reforma prussiana (muitos
dos quais, por é m , s ã o de srcem n ã o-prussiana). N ã o precisamos
mencion á -los aqui. O mesmo se aplica à eminente intelectualidade
de B isma rc k, ho je t ã o ma l c a ric a tu ra da pe lo s es t ú pidos e hip ó critas
rep res ent a nt es da R ealpoli ti k . Mas, oca sio na lment e, pa rec e que esse
velho esp í rito prussiano é hoje ãmais forte entre o funcionalismo de
outros Estados federais, que n o Berlim. O abuso da express ã o “ es -

149
OS ECONOMISTAS

p í rito prussiano ” pelos atuais demagogos conservadores é apenas um


abuso em rela çã o a esses grandes homens.
Rep etimo s: nenhuma a risto cra cia de pe so e tra di çã o pol í t icos su-
ficientes existe na Alemanha. Essa aristocracia pode, na melhor das
h ip óteses, ter tido um lugar no Partido Freikonservative e no Partido
do Centro — embora isso n ã o ocorra no momento —, mas n ã o o teve
no Partido Conservador.
É igualmente importante o fato de n ã o ter havido uma forma
so cia l de no breza a le m ã . A despei t o da s ja ct â ncias ocasionais de nossos
letrados, é completamente falso que exista na Alemanha o individua-
lismo no sentido de liberdade das conven çõ es, em contraste com as
conven çõ es do cavalheiro anglo-sax ã o ou do homem de sal ã o latino.
Em nenhum outro lugar h á conven çõ es mais r í gidas e mais pressio-
nantes do que as do “ homem de associa çã o” alem ã o. Elas controlam,
di reta e i ndire ta mente, uma part e t ã o gra nde da des cend ê nci a de no ssa s
ca ma da s p rinc ip a is qua nt o a s conven çõ es de qu a lquer outro pa í s. Sem-
pre qu e a s forma s do c orpo de o fic ia is n ã o preva lec em, essa s co nven çõ es
associativas constituem a “ forma alem ã ” ; os efeitos das associa çõ es
duelistas determinam, em grande parte, as formas e conven çõ es das
camadas dominantes da Alemanha: da burocracia e de todos os que
desejam ser aceitos “ em sociedade ” , onde a burocracia d á o tom. E
essas formas n ã o s ã o, certamente, requintadas.
De um ponto de vista pol í tico, é ainda mais importante que, em
contraste com as conven çõ es dos pa í ses latinos e anglo-sax ões, essas
forma s a le m ã s simple sment e n ã o sej a m a dequa da s c omo mo del os pa ra
to da a na çã o, at é a ca mada mais b a ixa . N ã o s ã o a de qua das para mo -
delar e unificar a na çã o em seu gesto como uma H er r envolk , segura
de si mesma , na s fo rma s pe las q ua is as co nven çõ es l a tina s e a nglo -sa x ã s
se firmaram.
É um grave erro acreditar que a “ r a ça ” é o fator decisivo na
surpreendente falta de gra ça e dignidade no comportamento ostensivo
do
a risa toc
lemraã cia
o. Oa cutompo rt a. ment
ê nt ica o dofalta
N ã o lhe ge rmmaesno-a
sa sust
quar lií aco foape
da deé s, rm asador da
p orraumçaa
id ê ntica, quaisquer que possam ser as suas fraquezas.
As formas que controlam o tipo latino de personalidade, at é as
camadas mais baixas, s ã o determinadas pela imita çã o do cavalheiro,
tal como evoluiu desde o s é culo XVI.
As conven çõ es anglo-sax ã s tamb é m moldam as personalidades,
a t é as camadas mais baixas. Nascem dos h á bitos sociais da camada
nobre, que deu o tom na Inglaterra, desde o s é culo XVII. A nobreza
surgiu e m fins da I da de M é dia, numa fus ã o peculia r d e not á ve is rura is
e urbanos, ou seja, os “ cavalheiros ” , que se torna ra m os p ort a do res do
“ governo aut ônomo ” .
Em todos esses casos, foi importante que as caracter sticas de-
cisivas das conven çõ es e gestos relevantes pudessem ser imitados íde

150
WEBER

forma f á cil e universal e com isso pudessem ser democratizados. Mas


as conven çõ es dos candidatos a cargos na Alemanha, academicamente
examinados, das camadas que eles influenciam e, acima de tudo, os
h á bi tos p a ra os qua is as a sso cia çõ es dueli st a s co ndici ona m seus homens
— foram e s ã o evidentemente inadequados à imita çã o pelos c í rculos
fora da s c a ma da s e xamina da s e certifi ca da s. Em par tic ular, n ã o podem
ser imitados pelas amplas massas do povo; n ã o podem ser democrati-
za do s, embo ra , ou a nt es pre cisa ment e p or isso , em ess ê ncia essas con-
ven çõ es n ã o sej a m de fo rm a a lguma cosmop olita s ou a ristoc r á t ica s so b
outros aspectos. S ã o de natureza totalmente pleb é ia .
O código de ho nr a neol a t ino, be m co mo o c ódigo ba sta nt e dif ere nt e
dos anglo-sax ões, foi adequado à democratiza çã o de longo alcance. A
concep çã o espe cific a men t e a lem ã da s qua li fi ca çõ es ex igi da s p a ra mem-
bro de uma a sso cia çã o duelist a , po r é m , n ã o se p resta à de moc ra t iza çã o,
como se pode ver facilmente. Esse conceito é de grande influ ê ncia po-
l í t ica , ma s o p ont o p ol í tic a e so cialment e imp ort a nt e n ã o é — como se
a fi rma fre q ü entemente — que um c ha ma do “ có digo de honra ” , no sen-
t ido limita do , ex ista no qua dro de o fic ia is. Ele e st á , a li , a bso luta mente
em se u luga r. O f a to de que uma Landrat 1 prussi a na dev a qua li fi ca r-se
para o duelo, no sentido do corpo de duelistas penalistas, a fim de se
manter em seu posto — é o que tem relev â ncia pol í tica. Isto tamb é m
ocorre com qualquer outro funcion á rio administrativo que seja facil-
me nte a fast á vel. Contrasta, por exemplo, com o Amtsr i chter ,2 que, em
virtude da lei, é “ independente ” , e que, devido a essa independ ê ncia,
é socialmente déclassé, em compara çã o com o Landrat . Como ocorre
com todas as outras conven çõ es e formas mantidas pela estrutura da
buroc ra cia e mo delada s dec isi va ment e pel a id é ia da ho nra do estudant e
alem ã o, de um pont o de vi st a form a l o c once ito da qu a li fic a çã o duelist a
constitui uma conven çã o de casta devido à sua natureza peculiar. Ne-
nhuma dessas formas pode ser democratizada. Em subst â ncia, por é m ,
n ã o s ã o de car á ter aristocr á tico, mas absolutamente plebeu, porque
falta m a tod a s e las a di gnid a de est é tica e o cultivo requintado. É essa
contradi çã o interior que convida ao rid í culo e tem efeitos pol í ticos t ã o
desfavor á veis.
A Alemanha é uma na çã o de plebeus. Ou, se isto parecer mais
agrad á vel, é uma na çã o de pessoas comuns. Somente tendo isto por
base pode crescer especificamente uma “ forma alem ã ” .
Soc ialment e, a demo cra tiza çã o provo ca da ou promovi da pel a nova
ordem pol í tica — e isso é o que deve ser discutido aqui — n ã o destr ói
o va lor da s fo rma s a risto cr á tic a s, j á que el a s n ã o ex ist em. Nem poderia
priva r t a is valores de sua exc lusivi da de e , e m seguida , p rop a g á -los por
toda a na çã o, como se fez com as formas das aristocracias latina e

1 Auto ri dade do cond ad o.


2 J uiz d e um tr ibunal inf eri or.

151
OS ECONOMISTAS

anglo-sax ã . Os valores formais do ca çador-de-posi çã o que se qualifica


pa ra os duelo s n ã o s ã o suficientemente cosmopolitas para manter uma
apar ê ncia pessoal, mesmo em sua pr ópria camada. Como o mostram
todos os ind í cios, essas formas nem sempre bastam at é mesmo para
ocul ta r a ins egura n ça rea l p era nt e um e str a ngei ro que se ja um homem
do mundo, educado. O esfor ço para disfar çar essa inseguran ça toma,
freq ü entemente, a forma de “ esperteza ” que, em geral, nasce do cons-
trangimento e parece ser uma m á educa çã o.
N ã o discutiremos se a “ democratiza çã o” pol í tica resultaria real-
mente numa democratiza çã o social. A “ democracia ” pol í tica ilimitada
na Am é rica , po r exemplo, n ã o impede o cresciment o de um a plut ocra cia
rude, ou mesmo um grupo de prest í gio “ aristocr á tico ” , que emerge len-
t a ment e. O cresc iment o dessa “ aristocracia ” é c ultura l e histo ric a mente
t ã o importante quanto o da plutocracia, embora habitualmente passe
despercebido.
O desenvolvimento de uma “ forma alem ã ” realmente culta, que
seja ao mesmo tempo adequado ao car á ter da camada socialmente
dominante dos plebeus, cabe ao futuro. O desenvolvimento incipiente
dessas conven çõ es civis nas cidades hanse á ticas n ã o continuou sob o
impacto das modifica çõ es pol í ticas e econ ômicas, desde 1870. E a pre-
sente guerra (P rimeira G uerra Mund ia l) nos p rop orci onou muitos par -
venus cujos filhos adotar ã o ardentemente as conven çõ es habituais dos
corpos duelistas nas universidades. Essas conven çõ es n ã o criam exi-
g ê ncias de uma tradi çã o culta; servem como um modo c ômodo de do-
mestic a r os ho mens pa ra que po ssa m mere cer a pat ente de o fi cial. D a í
n ã o haver, no momento, esperan ças de uma modifica çã o. De qua lquer
modo, isso é v á li do : p a ra que a “ democratiza çã o” resulte na el imina çã o
do prest í gio social dos homens que freq ü entaram as academias — o
que n ã o é de forma alguma certo e que n ã o pode ser discutido aqui
—, ent ã o ne nhum a forma so cial po li tic a mente va li osa se ria a boli da na
Alemanha. Como tais formas n ã o existem, n ã o podem ser eliminadas.
A democracia
vo lvi mento detalvez
formapudesse, ents a dequa
s va li osa ã o, da
liberar o caminho
s à noss a estrupara
t urao civi
desen-
l, so cia l
e econ ômica, que portanto seriam valores “ genu í n os ” e culturais. N ã o
podemos inventar tais valores, tal como n ã o podemos inventar um
estilo. Somente isto (de um modo essencialmente negativo e formal)
podemos dizer, e isso se aplica a todos os valores de tal natureza: tais
formas jamais podem ser desenvolvidas em qualquer outra base que
n ã o a de uma atitude de dist â ncia e reserva pessoais. Na Alemanha,
esse pr é -requisit o de toda dignida de pe sso a l fa ltou freq ü entemente en-
tre as altas e baixas camadas. Os letrados mais recentes com sua
impaci ê ncia em falar alto e publicar as suas “ experi ê ncias ” pessoais
— er óticas, religiosas ou quaisquer outras — s ã o os inimigos de toda
dignidade, qualquer que seja. A “ dist â ncia ” , “por é m , n ã o pode de modo
algum ser conquistada exclusivamente no coturno ” de uma posi çã o

152
WEBER

esnobativa de alheamento aos “ excessivamente demais ” , como o pre-


tendem as v á rias e err ôneas “ profecias ” que remontam a Nietzsche.
Pelo contr á rio, quando necessita hoje desse apoio interior, a dist â ncia
é sempre esp ú ria . Ta lve z a nec es sidade de ma nt er a dignidade pr ópria
em meio de um mundo democr á tico possa servir de prova da autenti-
cidade da dignidade.
O que dissemos acima mostra que nisto, como em muitos outros
aspectos, a p á tria alem ã n ã o é , e n ã o deve ser, a terra de seus pais,
mas a terra de seus filhos, como Alexander Herzen t ã o bem disse da
R ú ssia. E isso é particularmente v á lido para os problemas pol í ticos.
O “ es p í rito alem ã o” para a solu çã o dos problemas pol í ticos n ã o
pode se r dest ilad o da obra int el ect ua l de no sso pa ssa do , po r m a is va lio sa
que possa ser. Prestemos defer ê ncia à s sombras de nossos ancestrais
espirituais e usemos seu trabalho intelectual para todo treinamento
formal da mente. Nossos letrados, em seu conceito, reivindicam do
passado o t í tulo de governar o planejamento de nosso futuro pol í tico,
como mestres-escolas com uma vara, simplesmente porque é sua pro-
fiss ã o interp re ta r o passa do para a na çã o. Se ele s t enta rem est a bel ecer
a s lei s, deveremos e nt ã o la n ça r os ve lhos li vros a o desv ã o ma is p r óximo!

Nada podemos aprender com eles sobre o futuro. Os cl ssico s a lem es ,


ent re outra s co isa s, po dem ensina r-nos qu e po der í a mo ás se r uma na ãçã o
culta num per í odo de p obreza ma t eria l e impo t ê ncia pol í tica, e mesmo
de dom í nio estrangeiro. Mesmo quando se preocupam com pol í tica e
economia , sua s id é ias v ê m dess a é poca n ã o-pol í t ica . As no çõ es dos cl á s-
sicos alem ã es, inspira da s pe la disc uss ã o da Revol u çã o Fra nce sa , f ora m
proje çõ es numa situa çã o pol í tica e econ ômica à s quais faltou paix ão
popular. Mas, na medida em que qualquer paix ã o pol í tic a a s inspi ro u,
a l é m da irada rebeli ã o contra o dom í nio estrangeiro, foi o entusiasmo
cultural pelos imperativos morais. O que est á a t r á s disso s ã o id é ia s
filos ófic a s, que po demo s ut il iza r c omo um e st imula nt e pa ra defi nir nos-
sa posi çã o, segundo nossa realidade pol í tica e de acordo com as exi-
g ê ncias de nossa é poca, mas n ã o como guias. Os modernos problemas
do governo e democracia parlamentares, e a natureza essencial de
nosso Estado moderno em geral, est ã o completamente al é m do hori-
zonte dos cl á ssicos alem ã es .
H á pessoas que condenam o sufr á gio universal como a vit ór ia
de ins tintos d a ma ssa inc a paz de raz ã o, em co nt ra st e com a convic çã o
pol í tica judiciosa; afirmam que constitui uma vit ória da pol í tica emo-
cional sobre a pol í tica racional. Quanto a isso, devemos dizer que a
pol í tica externa da Alemanha é prova de que uma monarquia que
governa atrav é s de um sistema de sufr á gios de classe destaca-se pela
em o çã o exclusivamente pessoal e como uma forma de lideran ça irra-
cional. A Pr ú ssia tem a hegemonia e é sempre o fator decisivo na
pol í tic a a le m ã . P a ra pro v á -lo, ba sta compa ra r o c a minho zig uezaguea n-

153
OS ECONOMISTAS

te dessa pol í tic a bar ul henta , se m ê xito h á d é cadas, com a objetividade


calma, por exemplo, da pol í tica externa inglesa.
Quanto aos instintos da massa irracional, eles s ó governam a
pol í tica quando as massas s ã o compactas e exercem press ã o: na me-
t r ópole mo derna , pa rt icular mente n a s co ndi çõ es de formas de vida ur-
bana neolatinas. Ali, a civiliza çã o do caf é , bem como as condi çõ es cli-
m á ticas, permitem que a pol í tic a de “ r ua ” — c omo f oi a dequa da mente
chamada — domine o pa í s partindo de sua capital. Por outro lado, o
pa pel do “ ho mem da rua ” ingl ê s est á ligad o à s ca ra cter í st ica s espe c í ficas
da estrutura das ma ss a s urb a na s, to ta lme nte a use ntes na A lema nha .
A pol í tic a de rua da R ú ssia metropolitana est á li gada à s o rga niza çõ es
subterr â nea s qu e a li e xistem. T oda s essa s c ondi çõ es prel imina res est ã o
a use nt es na Ale ma nha , e a mo de ra çã o da vi da a le m ã t orna impro v á vel
que a Alemanha corra esse perigo ocasional — pois é ocasional em
cont ra st e com a qu ilo qu e, na Ale ma nh a impe ria l, influe ncio u a pol í tica
exterior como um perigo cr ônico. N ã o a m ã o-de-obra presa à s oficinas,
mas os ociosos e os intelectuais de caf é em Roma e Paris fabricaram a
pol í tic a gue rrei ra da s ruas — inc identa lme nte, apena s a servi ço do govern o
e somente na s propor ções em que o governo a desejou ou permitiu.
Na Fran ça e It á lia, faltava equil í brio a o p ro le ta ria do i ndust ria l.
Quando ele age com solidariedade, constitui, sem d ú vida, um poder
imenso, dominando a rua. Em compara çã o, por é m, com os elementos
totalmente irrespons á veis, é uma for ça capaz de, pelo menos, ordem
e l ide ra n ça orde nada , atra v é s de seus fun cion á rio s e , p ort a nt o, at ra v é s
de pol í ticos que pensam racionalmente. Do ponto de vista de nossa
pol í tica estatal, o importante é aumentar o poder desses l í deres, na
Alemanha dos l í deres sindicais, sobre as paix ões do momento. Al é m
disso, é necess á rio aumentar a import â ncia dos l í deres respons á veis,
a import â ncia da lideran ça pol í tica em si. Um dos argumentos mais
fortes em favor da cria çã o de uma orienta çã o ordenada e respons á vel
da pol í tica pela lideran ça pa rl a me nta r é que com isso a efici ê ncia dos
motivos puramente emocionais, “ do alto ” e “ de baixo ” , é enfraquecida
na medida do poss í vel. O “ dom í nio da rua ” nada tem a ver com o
sufr á gi o ig ua l; Ro ma e P a ris f ora m domi na da s pe la rua mes mo quan do
na It á li a a ma is p luto cr á tic a infl u ê nci a do mundo, e em P a ris Na pole ã o
III , go ve rna vam com um parla mento d e f a cha da . S omente a orie nt a çã o
ordenada das massas, pelos pol í ticos respons á veis, pode romper com
o dom í nio irre gul a r da rua e a li de ra n ça dos demagogos do momento.

154
R
MEUNDO
J E I Ç ÕE R ELIGIOSAS
E SSUAS DI R E Ç ÕEDO
S*

Tradu ção da ver são inglesa por Waltensir Dutra

* Tradu zi do da se xta im pre ss ã o (G a laxy B ook, 19 63) da edi çã o publicada em 1946 pela Oxford
University Press, Inc.: F r om Max Weber : E ssays i n S oci ology (translated, edited and with
an Introduction by H. H. Gerth and C. Wright Mills).
R E J E I Ç ÕE S R ELIGIOSAS DO
MUNDO E SUAS DI R E Ç ÕE S1

E m fo rt e cont ra ste c om o c a so da Ch ina , a rel igi osidade indian a ,


que v a mo s an a li sa r, é o ber ço da s é t ica s rel igio sa s que nega m o mun do ,
t e óric a e p ra t ica mente, e c om a ma ior int ensi da de. É tamb é m na Í ndia
que a “ t é cnica ” qu e corr esp onde a essa nega çã o melhor se desenvolveu.
O mona st icismo , be m co mo a s ma nipula çõ es a sc é tic a s e c ont emp lat ivas
t í picas, n ã o s ó se desenvolveram primeiro na Í ndia como ali se mani-
festaram de forma mais coerente. E foi talvez da Í ndia que essa ra-
cionaliza çã o iniciou seu caminho hist órico pelo mundo em geral.
1. M oti vos para a R ejei ção do M undo:
o Significado de sua Constru ção R aci onal
Antes de nos ocuparmos dessa religiosidade, talvez seja conve-
niente esclarecermos rapidamente, de modo esquem á tico e te órico, os
motivos dos quais se srcinou a é tica religiosa da nega çã o do mundo
e as dire çõ es que tomou. Dessa forma, talvez possamos esclarecer seu
“ significado ” prov á vel.

recer umO esquema constru


meio ideal t í dodeserve
í pico apenas,
orienta çã o. Néãclaro,
o nos ao objetivouma
transmite de ofe-
fi-
losofia pr ópria. Os tipos teoricamente constru í dos de “ ordens de vida ”
conflitantes servem, apenas, para mostrar que em certos pontos de-
t ermina do s c onflitos i nt ernos s ã o poss í veis e “ adequados ” . N ã o preten-
de m mos tra r q ue n ã o h á po nt o de vi st a do qua l o s co nflitos n ã o possa m
ser reso lvido s nu ma s í nt ese ma is e le va da . Como iremo s ver facil ment e,
as esferas individuais de valor est ã o preparadas com uma coer ê ncia
ra ciona l que rara mente se enc ontr a na reali da de . Mas podem ter essa
apar ê ncia na realidade e sob formas historicamente importantes, e
realmente a t ê m. Tais constru çõ es possibilitam determinar o local ti-

1 D e “ Zwischenbetrachtung ” . G esammelte Aufsaetze zur R eli gi onssoziologi e, vol. I, pp. 436-73.


Este ensaio foi publicado em novembro de 1915, no Ar chiv.

157
OS ECONOMISTAS

pol ó gico de um fen ô meno hist órico. Permitem-nos ver se, em tra ços
particulares ou em seu car á ter total, os fen ômenos se aproximam de
uma de nossas constru çõ es: determinar o grau de aproxima çã o do fe-
n ô meno hist órico e o tipo constru í do teoricamente. Sob esse aspecto,
a constru çã o é simplesmente um recurso t é cnico que facilita uma dis-
posi çã o e termin ologia ma is l ú cida s. N ã o obsta nt e, so b c erta s co ndi çõ es ,
uma constru çã o pode significar mais, pois a racionalidade, no sentido
de uma “ coer ê ncia ” l ó gica ou teleol ógica, de uma atitude intelectual-
t e órica ou pr á tico- é tica, tem, e sempre teve, poder sobre o homem, por
mais limitado e inst á vel que esse poder seja e tenha sido sempre em
face de outras for ças da vida hist órica.
As int erpreta çõ es rel igio sa s do mund o e a é tic a da s rel igi ões c ria -
das pelos intelectuais e que pretendem ser racionais estiveram muito
sujeitas ao imperativo da coer ê ncia. O efeito da r azão, especialmente
de uma dedu çã o teleol ógica de postulados pr á ticos, é percept í vel sob
certos aspectos, e com freq üê ncia muito claramente, entre todas as
é t ica s religi osa s. Isso o corre po r m eno s q ue a s int erpre t a çõ es reli gio sa s
do mundo, no caso individual, tenham concordado com a exig ê ncia de
coer ê ncia, e por mais que tenham integrado pontos de vista em seus
postulados é t icos q ue n ão po dia m ser deduzido s ra ciona lment e. A ssim,
pelas raz ões substantivas, podemos ter esperan ça de facilitar a apre-
senta çã o de um assunto que, de outro modo, seria multif á rio, atrav é s
de tipo s ra ciona is c onst ru í do s de forma a de qua da . P a ra ta nt o, de ve mo s
pre para r e ress a lta r a s fo rma s interi ormente ma is “ coerentes ” de con-
duta pr á tica, que podem ser deduzidas de pressupostos fixos e dados.
Acima de tudo, um ensaio assim sobre a sociologia da religi ão
visa, necessariamente, a contribuir para a tipologia e sociologia do
racionalismo. Este ensaio, portanto, parte das formas mais racionais
que a realidade pode assumir; procura ele descobrir at é que ponto
certas conclus ões ra ciona is, que po dem ser esta bel ecida s t eoric a ment e,
foram realmente formuladas. E talvez descubramos por que n ã o.

2. T i pologi a do Asceti smo e do Mi sti ci smo


A grande import â ncia da concep çã o do Deus e Criador supra-
mundano para a é tica religiosa j á foi comentada. 1 Tal concep çã o foi
especialmente importante para a dire çã o ativa e asc é tica da busca de
salva çã o. N ã o teve a mesma import â nc ia para a bus ca contempl a tiva
e m í stica, que tem afinidade interna com a despersonaliza çã o e ima-
n ê ncia do poder divino. Essa liga çã o í ntima, que E. Troeltsch repeti-
damente acentuou, com raz ã o, entre a concep çã o de um Deus supra-
mundano e o ascetismo ativo, n ã o é absoluta. O Deus supramundano
n ã o determinou, como Deus, a dire çã o do ascetismo ocidental, como

1 C f. C a p í tulo XI: “ A Psicologia Social das Religi ões Mundiais ” .

158
WEBER

iremos ver pelas observa çõ es que se seguem. A Trindade crist ã , com


seu Salvador encarnado e os santos, representava uma concep çã o de
Deus que e ra funda menta lme nt e meno s sup ra munda no do que o D eus
dos j udeus, espe cia lment e do j uda í sm o rece nt e, ou o A l á do isl a mismo.
Os judeus desenvolveram o misticismo, mas quase nenhum asce-
tismo do tipo ocidental. E o islamismo antigo repudiava diretamente o
ascetismo. A peculiaridade da religiosidade do dervixe vinha de fontes
bem diferentes que a rela çã o com um Deus e Criador supramundano.
Nascia das fontes m í sticas, ext á ticas, e em sua ess ência íntima estava
distante do ascetismo ocidental. Embora importante, a concep çã o de um
Deus supramundano, apesar de sua afinidade com a profecia emiss á ria
e o ascetismo ativo, evidentemente n ã o agia sozinha, mas sempre em
conjunto com outras circunst â ncias. A natureza das promessas religiosas
e os caminhos da salva çã o que determinaram destacam-se entre essas
circunst â ncias. A quest ã o ter á de ser analisada nos casos particulares.
Tivemos de usar repetidamente as palavras “ ascetismo ” e “ mis-
ticismo ” como conceitos polares. Para elucidar a terminologia, vamos
distinguir melhor essas express ões .
E m n ossos c omen t á rio s int rodut órios 1 c ont ra st a mos, como ren ú n -

cia
do sdevoto
do mundque o, oé ascetismo a de
instrumento t ivoDeus
, qu ee, por
é uma açã
outro o, desejada
lado, a porpossess
Deus, ão
contemplativa do sagrado, como existe no misticismo, que visa a um
es ta do de “ possess ã o” , n ã o a çã o, no qual o indiv í duo n ã o é um instru-
mento , ma s um “ recipiente ” do divino. A a çã o no mu nd o é vi sta , assim,
como um perigo para o estado irracional e outros estados religiosos
vo lta do s pa ra o out ro mundo. O a sc etismo at ivo ope ra dent ro do mun do ;
o a sc etismo ra ciona lment e a t ivo , a o do mina r o mun do , b usca domestic a r
o q ue é da cri a tura e ma ligno a tra v é s do tr a ba lho numa vo ca çã o “ mun-
dana ” ( a sc etismo do mundo) . Ta l a sc etismo c ont ra st a ra dic a lment e com
o misticismo, se este se inclina para a fuga do mundo (fuga contem-
plativa do mundo).
O contraste diminui, por é m, se o ascetismo ativo limitar-se a
contr olar e sup era r a ma li gnid a de da criat ura na pr ópri a na ture za do
agente. Nesse caso, ele fortalecer á a concentra çã o sobre as realiza çõ es
ativas e redentoras, firmemente estabelecidas e desejadas por Deus,
a ponto de evitar qualquer a çã o nas ordens do mundo (fuga asc é tica
do mundo). Com isso, o ascetismo ativo, em sua apar ê ncia externa,
aproxima-se da fuga contemplativa do mundo.
O contraste entre o ascetismo e o misticismo tamb é m é reduzido
se o m í stico contemplativo n ã o chega à conclus ã o de que deve fugir
ao mundo, mas como o asc é tico voltado para o mundo, permanece nas
ordens do mundo (misticismo voltado para o mundo).

1 C f. n ot a 59, p á g. anterior.

159
OS ECONOMISTAS

Em ambos os casos, o contraste pode desaparecer realmente na


pr á tica, e pode ocorrer uma certa combina çã o de ambas as formas de
busc a de salva çã o. O co nt ra st e po de, po r é m, c ontinua r a t é sob o disfa rce
de uma a parente se mel ha n ça ex terna . P a ra o ve rda de iro m í stico, con-
tinua sendo v á lido o princ í pio: a criatura deve estar calada, de modo
que Deus p ossa fa lar. E la “ es t á ” no mun do e se “ acomoda ” ex terna mente
à s suas ordens, mas apenas para adquirir a certeza do seu estado de
gr a ça em oposi çã o ao mundo, resistindo à tenta çã o de levar a s é rio os
seus processos. Como podemos ver com Lao-ts é , a atitude t í pica do
m í stico é de humildade espec í fica, uma minimiza çã o da a çã o, uma
es p é cie de exist ê ncia religiosa inc ógnita no mundo. Ele se coloca à
prova contra o mundo, contra sua a çã o no mundo. O ascetismo deste
mundo, pelo contr á rio, prova-se atrav és da a çã o. Para o asceta deste
mundo, a condut a do m í stico é um gozo indole nt e do eu; pa ra o m í stico,
a conduta do asceta (voltado para o mundo) é uma participa çã o nos
processos do mundo, combinada com uma hipocrisia complacente. Com
esse “ fan a tismo a be n çoado ” , ha bi tua lme nt e a tribu í do a o puri ta no t í pico,
o a sc etismo des t e mund o ex ecut a a s reso lu çõ es positivas e divinas cujo
sentido fi na l c ont inua oculto. O a sc etismo e xe cut a t a is reso lu çõ es como
dadas nas ordens racionais da criatura, ordenadas por Deus. Para o
m í stico, pelo contr á rio, o que importa para a sua salva çã o é apenas a
compreens ã o do signific a do ú ltimo e compl eta mente irra ciona l, at ra v é s
da experi ê ncia m í st ica . As fo rm a s pe la s q ua is a mbos o s modo s de c on-
duta fogem do mundo podem ser distinguidas atrav é s de confrontos
se mel ha nt es. Ma s res ervam os a sua disc uss ã o para uma a pre se nta çã o
monogr á fica.

3. D i r eções da R enúncia ao Mundo


Vamos, agora, examinar em detalhe as tens ões existentes entre
a rel igi ã o e o mun do . P a rt iremo s da s refl ex ões da intr odu çã o, da nd o-lhe,
por é m, um enfoque um pouco diferente.
Dissemos que esses modos de comportamento, uma vez evolu í dos
par a um modo de v ida m et ódic o, fo rm a va m o n ú cleo do ascetismo, bem
como do misticismo, e que surgiram srcinalmente de pressupostos
m á gicos. As pr á ticas m á gicas foram feitas para despertar qualidades
carism á tic a s o u pa ra imp edi r sortil é gios ma lignos. O primeiro c a so fo i,
é claro, mais importante para os fatos hist óricos. Mesmo no umbral
de seu aparecimento, o ascetismo j á rev elava a sua face de J a no : de
um lado, a ren ú ncia ao mundo, e, do outro, o dom í nio do mundo em
virtude de poderes m á gicos obtidos pela ren ú ncia.
O m á gico foi o precurs or h ist ó ric o do pro feta , do pro feta e sa lva do r
tanto exemplares como emiss á rios. Em geral, o profeta e salvador le-
gi tima ra m-se a tra v é s da posse de um c a risma m á gic o. P a ra el es, p or é m ,

160
WEBER

isto fo i a pe na s um meio de ga ra nt ir o re conh eciment o e conseguir a dep -


tos para a significa çã o exemplar, a miss ã o, da qualidade de salvador
de suas personalidades. A subst â ncia da profecia do mandamento do
salvador é dirigir o modo de vida para a busca de um valor sagrado.
Assim co mpreendida , a pro fe cia ou m a nda ment o si gnific a , pe lo menos
rel a tivam ent e, a si stema tiza çã o e ra ciona liza çã o do modo de vida, seja
em po nt os p a rt icula res o u no to do . Est a ú ltima signifi ca çã o t em oc orrid o
geralmente com todas as verdadeiras “ religi ões da salva çã o” , ou seja,
com todas as religi ões que prometem aos seus fi é is a liberta çã o do
sofrimento. Isso é ainda mais prov á vel quanto mais sublimada, mais
interior e mais baseada em princ í pio é a ess ê ncia do sofrimento, pois
en t ã o é importante colocar o seguidor num estado permanente que o
proteja intimamente contra o sofrimento. Formulado abstratamente,
o objetivo racional da religi ã o redentora tem sido assegurar ao que é
salvo um estado sagrado, e com isso o h á bito que garante a salva çã o.
Isto toma o lugar de um estado agudo e extraordin á rio, e com isso
sagrado, alcan çado transitoriamente por meio de orgias, ascetismo ou
contempla çã o.
Ora , se uma comun ida de re li gio sa surge na onda de uma pro fe cia

ou da pro paga nda de um sa lvador, o cont ro le da condut a regul a r cabe,


primei ro, a os suc esso res qua li fic a do s c a risma t ica ment e, a os a lunos, dis-
cí pulo s do p rof eta ou do sa lva do r. Ma is ta rde, so b c erta s co ndi çõ es que
se repetem regularmente, que n ã o focalizaremos aqui, essa tarefa ca-
ber á a uma hie ro cra cia sa cerdo ta l, heredi t á ria ou ofi cia l. N ã o obsta nt e,
como regr a , o prof eta ou s a lva dor co locou-se, pesso a lment e, em opo si çã o
aos poderes hierocr á ticos tradicionais dos m á gicos ou dos sacerdotes.
Colo cou seu c a risma pe sso a l cont ra a dignida de de le s, c onsa gra da pe la
tradi çã o a fim de romper seu poder ou coloc á -los a seu servi ço.
Na discuss ã o acima mencionada, tomamos como certo e pressu-
posto que uma grande fra çã o, especialmente importante para o desen-
volvimento hist órico, de todos os casos de religi ões prof é ticas e reden-
toras viveu n ã o s ó num estado agudo como permanente de tens ã o em
rela çã o com o mundo e suas ordens. Desnecess á rio mencionar este
aspecto, de acordo com a terminologia usada aqui. Quanto mais as
religi õ es tiverem sido verdadeiras religi ões da salva çã o, tanto maior
foi a sua tens ã o. Isso se segue do significa do da sa lva çã o e da subst â ncia
dos ensinamentos prof é ticos, t ã o logo eles evoluem para uma é tica. A
tens ã o ta mb é m fo i ma ior q ua nt o ma is ra ciona l fo i e m princ í pio a é tica
e qua nt o ma is e la se tenha orie nt a do para valo res s a gra do s interiores
como meios de salva çã o. Em linguagem comum, isto significa que a
tens ã o tem sido maior quanto mais a religi ã o se tenha sublimado do
ritualismo, no sentido do “ absolutismo religioso ” . Na verdade, quanto
mais a van çou a ra ciona li za çã o e sublim a çã o da posse exterior e int erio r
das “ coisas mundanas ” — no sentido mais amplo —, tanto mais forte

161
OS ECONOMISTAS

tornou-se a tens ã o, por parte da religi ã o, pois a racionaliza çã o e su-


blima çã o consciente das rela çõ es do homem com as v á rias esferas de
valores, exteriores e interiores, bem como religiosas e seculares, pres-
sio na ra m no se nt ido de torna r co nsc ie nt e a autonomia interior e l í cita
das esferas individuais, permitindo, com isso, que elas se inclinem
para as tens ões que permanecem ocultas na rela çã o, srcinalmente
in g ê nua , c om o mun do e xterio r. I sso re sulta , de modo gera l, da evo lu çã o
dos va lores do mun do i nt erio r e do mun do e xter ior n o sent ido do e sfor ço
consciente, e da sublima çã o pelo conhecimento. Esta conseq üê ncia é
muito importante para a hist ória da religi ã o. A fim de elucidar os
fen ômen os t í pic os que se r epe t em em rela çã o à s é t ica s rel igio sa s, muito
variadas, examinaremos uma s é rie desses valores.

Sempre que as profecias de salva çã o criaram comunidades reli-


giosas, a primeira for ça com a qual entraram em conflito foi o cl ã
natural, que temeu a sua desvaloriza çã o pela profecia. Os que n ão
podem ser hostis aos membros da casa, ao pai e à m ã e, n ã o podem
ser disc í pulo s de J esus. “ N ã o vi m t ra ze r a paz, ma s a esp a da ” (M t 10,
34), foi dito quanto a isto, e, devemos observar, exclusivamente em
rela çã o a isto. A maioria preponderante de todas as religi ões regula-
mentou, é claro, os la ços de piedade do mundo interior. N ã o obsta nt e,
qua nt o ma is a mpl a s e interi oriz a da s f ora m a s me ta s da sa lv a çã o, ta nto
ma is e la a cei t ou sem c r í tic a s a supo si çã o de que o fiel deve, em ú ltima
a n á lise, aproximar-se mais do salvador, do profeta, do sacerdote, do
padre confessor, do irm ã o em f é , do que dos parentes naturais e da
comunidade matrimonial.
A profecia criou uma nova comunidade social, particularmente
quando ela se tornou uma religi ã o soteriol ógica de congrega çõ es. Com
isso, as rela çõ es do cl ã e do matrim ônio foram, pelo menos relativa-
mente, des va loriza da s. Os la ços m á gico s e a exc lusivida de do c l ã fo ra m
a tingido s, e de nt ro da nov a comunida de a rel igi ã o prof é t ica desenvolve u

uma é t ica reli


pelo homem; s gio
ã osaos de caritas
princ í pios, osrcinais
amor ao dasofredor pere se, pelo épr
conduta social tic óaximo,
, que
a “ associa çã o dos vizin h os ” ha vi a cria do , fo sse a comunida de de alde ã es ,
mem bros do cl ã , da guil da , ou de a sso ciados na s emp resas m a r í timas,
ca ça e expe di çõ es de guerra . Essa s c omun ida des c onh ecera m doi s prin-
cí pios elementais: primeiro, o dualismo, da moral do nosso-grupo e do
grupo exterior; segundo, para a moral do nosso-grupo, simples reci-
procidade: “ O que me fizeres, eu te farei ” . Desses princ í pios resultou
o seguinte para a vida econ ômica: para a moral do nosso-grupo, a
obriga çã o, fundamentada em princ í pios, é prestar ajuda fraternal em
caso de dificuldade. Os ricos e nobres eram obrigados a emprestar,
se m n a da cobra r, be ns pa ra o uso do s n ã o-propriet á r ios, c onceder cr é dito
sem j uro e p rop orci ona r h ospi t a lida de e ajuda lib era l. Os ho mens era m
obrigados a prestar servi ços a pedido de seus vizinhos e, igualmente,

162
WEBER

na propriedade do senhor, sem outra remunera çã o que n ã o o mero


sustento. Tudo isso seguia o princ í pio: tua necessidade de hoje pode
ser a minha necessidade de amanh ã . Esse princ í pio n ã o foi, decerto,
pe sa do ra ciona lment e, ma s desempe nh ou seu pa pe l no se nt iment o. As-
sim, regatear nas situa çõ es de com é rcio e empr é stimo, bem como a
escraviza çã o permanente resultante, por exemplo, de d í vidas, eram
coisas limitadas à moral do grupo exterior e aplicadas exclusivamente
aos estranhos.
A religiosidade da congrega çã o transferiu essa antiga é tica eco-
n ô mica da vizinhan ça para as rela çõ es entre os irm ã os de f é . O que
fora a nt eri orment e a obri ga çã o do nobre e do ric o se tornou o impera t ivo
fundamenta l de tod a s a s rel ig i ões e t ica mente ra ciona li za da s do mundo :
a judar a s v i ú va s e ór f ã os em dificuldades, cuidar dos doentes e irm ã os
de f é empobrecidos, e dar esmolas. Estas eram exigidas especialmente
dos ricos, pois os menestr é is sagrados e os m á gicos, bem como os as-
cetas, eram economicamente dependentes dos ricos.
O princ í pio q ue c onst it u í a a s re la çõ es c omun a is e nt re a s pro fe cia s
de salva çã o era o sofrimento comum a todos os crentes. E isso ocorria
quer o sofrimento existisse realmente, quer fosse uma amea ça cons-
ta nt e; quer fo sse e xterio r, q uer interio r. Qua nt o ma is imp era tivo s sur-
gi a m da é tica de reciprocidade entre os vizinhos, mais racional se tor-
nava a concep çã o da salva çã o, e mais era sublimada numa é tica de
finalidades absolutas. Externamente, tais mandamentos chegaram ao
comunismo de uma fraternidade afetuosa; internamente, chegaram à
a titude de caritas , o a mor a o sofredo r per se, pelo pr óximo, pelo homem
e finalmente pelo inimigo. A barreira ao la ço da f é e a exist ê ncia de
ódio ante um mundo considerado o centro do sofrimento imerecido
par ecem ter r es ulta do das m es ma s impe rfe i çõ es da rea li da de e mp í rica
que causaram srcinalmente o sofrimento. Acima de tudo, a euforia
peculiar de todos os tipos de ê xtase religioso sublimado operou psico-
logicamente na mesma dire çã o geral. Os ê xtases, destinados a “ como-
ver ” e edificar
sempre o homem o sentimento
no sentido de
de comunh ã o di reta com
fluir para um acosmismo D eussem
do amor , inc li na ra m
objeto. Nas religi ões de salva çã o, a b ê n çã o profunda e tranq ü ila de
todos os her óis da benevo l ê nc ia a c ósmic a sempre se fundiu co m a com-
preens ã o ca rido sa da s impe rfei çõ es na tu ra is de todo s o s a t os huma no s,
inclusive os nossos. O tom psicol ógico bem como a interpreta çã o é tica
dessa atitude interior podem variar muito. Mas sua exig ê ncia é tica
tendeu sempre na dire çã o de uma fraternidade universalista que ul-
trapassa todas as barreiras das associa çõ es comunais, incluindo fre-
q ü entemente as de nossa pr ópria f é .
A religi ã o da fraternidade sempre se chocou com as ordens e
valores deste mundo, e quanto mais coerentemente suas exig ê ncias
foram levadas à pr á tica, tanto mais agudo foi o choque. A divis ão
tornou-se habitualmente mais ampla na medida em que os valores do

163
OS ECONOMISTAS

mundo foram racionalizados e sublimados em termos de suas pr óprias


leis. E é isso que importa, aqui.

4. A E sfer a E con ômica


A tens ã o entre a religi ã o fraternal e o mundo foi mais evidente
na esfera econ ômica.
Toda s a s fo rm a s m á gic a s ou mista g ó gic a s primevas de influenc ia r
os esp í ritos e divindades tiveram interesses especiais. Lutaram pela
riqueza, bem como pela vida, sa ú de, honra, descend ê ncia e, possivel-
mente, melhoria do destino no outro mundo. Os mist é rios eleusinos
pro metia m t udo i sso , ta l como a s reli gi õ es fen í cia s e v é dic a s, a r el igi ã o
popula r chinesa , o juda í smo an t igo e o isl a mismo a nt igo ; e t a l p romessa
foi ofertada ao leigo hindu e budista. As religi ões sublimadas da sal-
va çã o, por é m, tive ra m rela çõ es c a da ve z ma is tensa s c om a s ec onomi a s
racionalizadas.
Uma economia racional é uma organiza çã o funcional orientada
para os pre ços monet á rios que se srcinam nas lutas de interesses dos
homens no mercado. O cá lculo n ã o é poss í vel sem a estimativa em
pr e ços e m dinh eiro e, da í , se m lut a s no merc a do . O dinheiro é o e lement o
mais abstrato e impessoal que existe na vida humana. Quanto mais
o mundo da economia “ ” moderna segue suas pr
capitalista óprias leis
ima nentes, ta nt o meno s a ces s í vel é a qua lque r rel a çã o ima gin á vel com
uma é tica religiosa de fraternidade. Quanto mais racional, e portanto
impessoal, se torna o capitalismo, tanto mais ocorre isso. No passado,
foi poss í ve l re gulam enta r etic a mente a s re la çõ es pe sso a is ent re senhor
e escravo precisamente porque elas eram rela çõ es pessoais. Mas n ã o
é poss í ve l regul a menta r — pelo menos, n ã o no mesmo sentido, ou com
o mesm o ê xito — a s rel a çõ es e nt re o s va ri á veis detentores de hipotecas
e os vari á veis devedores dos bancos que concedem tais hipotecas: pois
neste ca so n ã o h á rela çõ es p esso a is de qua lquer t ipo . Se, n ã o obsta nt e,
tent á ssemos isso, os resultados seriam os mesmos que conhecemos na

Ch ina , ou sej aformal


a racionalidade , o sufoeca
a mento da raestavam
substantiva ciona liem
da de f orma l. P ois, na Ch ina ,
conflito.
Como j á vimos, as religi õ es da salva çã o tiveram uma tend ê ncia
a desp erso na li za r e o bjetiva r o a mor, no se nt ido singula r do a cosmismo.
N ã o obstante, essas mesmas religi ões observaram, com profunda des-
confian ça, o desdobramento das for ças econ ômicas que, num sentido
diferente, tamb é m foram impessoais, e por isso se opuseram especifi-
camente à fraternidade.
O D eo placer e non potest ca t ólico sempre foi a atitude caracte-
r í stica das religi õ es de salva çã o para com a economia de lucro; com
todos os m é todos racionais de salva çã o a s a dve rt ê nci a s c ont ra o a pe go
ao dinheiro e aos bens levaram-nos ao auge do tabu. A depend ê ncia
em que as pr ó prias comunidades religiosas, e sua propaganda e ma-
nuten çã o, estavam dos meios econ ômicos, e sua acomoda çã o à s neces-

164
WEBER

sidades c ultura is e a os int ere sse s co tidia nos da s ma ssa s, fo r çaram-nas


a concess ões das quais a hist óri a da inte rdi çã o de interesses é apenas
um exemplo. N ã o obstante, em ú ltima an á lise nenhuma religi ã o de
salva çã o aut ê ntica superou a tens ã o entre sua religiosidade e uma
economia racional.
Exteriormente a é tica dos virtuosos religiosos afetou essa rela çã o
tensa de modo mais radical: rejeitou a posse dos bens econ ômicos. O
monge a sc eta renun ciou a o mun do nega ndo- se a proprie da de i ndividua l;
sua exist ê ncia baseou-se totalmente em seu pr óprio trabalho. Acima
de tudo, suas necessidades foram correspondentemente limitadas ao
que era absolutamente indispens á vel. O paradoxo de todo o ascetismo
racional, que de forma id ê ntica fez trope çar os monges de todas as
é poca s, est á em q ue o p r óprio a sc etismo ra ciona l crio u a riqu eza m esma
que rejeitava. Templos e mosteiros, em toda parte, tornaram-se os
pr óprios centros de economias racionais.
A reclu s ã o cont empla t iva , como p rin c í pio, p ô de apena s e st a bel ecer
a norma de que os monges sem propriedades deveriam gozar apenas
o que a na tur ez a e os home ns lhes o fe rec es se m vol unt a ria mente: fruta s,
r a í zes e esmol a s espo nt â neas. O tra balho e ra a lg o que di stra í a o monge
da concentra çã o sobre os valores da salva çã o que ele desejava. N ã o
obsta nte, at é mesmo a reclus ã o cont empl a t iva fez sua s co nce ss ões, es-
tabelecendo distritos para a mendic â ncia, como na Í ndia.
H ouve apena s do is c a minh os coerentes par a fugir à s tens õ es e nt re
a religi ã o e o mundo econ ômico de um modo interior , baseado num
princ í pio: primeiro, o paradoxo da é tica puritana da “ voca çã o” . Como
uma religi ã o de virtuosos, o puritanismo renunciou ao universalismo
do a mor, e rotinizo u ra ciona lment e todo o t ra ba lho neste mu ndo, c omo
sendo um servi ço à vontade de Deus e uma comprova çã o do esta do de
gr a ça . A vont a de de Deus, e m seu sent ido ú ltimo, era incompreens í vel,
e n ã o obstante era a ú nica vontade positiva que podia ser conhecida.
Sob este aspecto, o puritanismo aceitou a rotiniza çã o do cosmo econ ô-
mico, que,e imperfe
cria t ura como a totalidade
ita . Esse edostamundo,
do de cdesvalorizou
oisa s par eciacomo coisa
ordena dodapor D eus,
e como material e dado para o cumprimento do dever de cada qual.
E m ú ltima a n á lise , isto signifi ca va em princ í pio a ren ú ncia à sa lv a çã o
como meta alcan çá vel pelo homem, ou seja, por todos. Significava a
r en ú ncia à salva çã o em favor da gra ça sem base e apenas particula-
rizada sempre. Na verdade, esse ponto de vista da n ã o-fraternidade
já n ã o era uma a ut ê ntica “ religi ã o da salva çã o” , a qual pode exagerar
a fraternidade at é o auge do acosmismo do amor do m í stico.
O misticismo é outro caminho coerente pelo qual a tens ã o entre
a economia e a religi ã o p ô de escapar. Essa forma é representada de
modo bastante puro na “ benevol ê ncia ” do m í stico, que n ã o indaga do
homem para quem, e a quem, ele sacrifica. Em ú ltima a n á lise, o mis-
ticismo n ã o se interessa pela sua pessoa. De uma vez por todas, o

165
OS ECONOMISTAS

m í stico benevolente d á a sua camisa quando qualquer pessoa que lhe


cruza acidentalmente o caminho lhe pede o palet ó — e simplesmente
porque lhe cruza o caminho. O misticismo é uma fuga singular deste
mundo, na forma de uma dedi ca çã o sem obj et o a t odo s, n ã o pel o homem ,
mas pela devo çã o s imp le smente, o u, na s pa lavr a s de B a udel a ire , pe la
“ prostitui çã o sagrada da a lma ” .
5. A E sfer a Pol í tica
As religi ões que sustentaram uma é tica da salva çã o fraternal-
mente co ere nt e so fre ra m um a tens ã o igualmente aguda em rela çã o à s
ordens pol í ticas do mundo. Este problema n ã o existiu para a religio-
sidade m á gica ou para a religi ã o das divindades funcionais. O antigo
deus da guerra bem como o deus que garantia a ordem legal eram
divindades funcionais que protegiam os valores indubit á ve is da ro tina
cot idian a . O s deuse s da loca lida de, t ribo e E st a do int eres sa va m-se a pe -
na s pe las sua s respe ctiva s a sso cia çõ es. Tinham de lutar contra outros
deuses como eles mesmos, tal como suas comunidades lutavam, e ti-
nham de provar seus poderes divinos nessa luta mesma.
O pro ble ma s ó surgiu qua ndo e ssa s ba rreiras de lo ca li da de, tr ib o
e Estado foram esmagadas pelas religi es universalistas, por uma re-
ligi ã o com u m D eus un ific a do de todo o mu õ nd o. E o probl ema s ó surgiu
com t odo o vigo r q ua ndo es se Deus era um D eus de “ amor ” . O problema
das tens õ es com a ordem pol í tica surgiu para as religi ões redentoras
com a exi g ê nci a b á si ca da frat ernidade. E na pol í t ica , co mo na economia ,
quanto mais racional se tornava a ordem pol í tica, tanto mais agudos
os problemas dessas tens ões se tornava.
O aparato burocr á tico estatal e o homo politicus racional inte-
gra do no Est a do a dmini stra m a s que st ões, i nclusi ve a puni çã o do ma l,
qua ndo re a li zam tra nsa çõ es no sentido mais ideal, segundo as regras
racionais da ordem estatal. Nisso, o homem pol í tico age exatamente
como o homem econ ô mico, de uma forma objetiva, “ sem preocupa çã o
da pessoa
virtude ” , sidespersonaliza
de sua ne i r a et studi oçã
, sem ódio, eburocr
o, o Estado portantoá sem
tico, amor. Em
sob aspectos
importantes, é menos acess í vel à moraliza çã o substantiva do que as
ordens patriarcais do passado, por mais que as apar ê ncias possam
indic a r o co nt r á rio . As o rdens pat ria rc a is do passa do ba se a va m-se na s
obriga çõ es pessoais da piedade, e os governantes patriarcais conside-
ravam o m é rito do caso concreto à parte, precisamente em “ rela çã o à
pessoa ” . Em ú ltima a n á li se , a pe sa r de todas a s “ pol í t ica s de bem- esta r
social ” , t odo o cur so da s fun çõ es pol í tic a s inte rna s do Esta do , da J usti ça
e administra çã o é regulado repetida e inevitavelmente pelo pragma-
tismo da s “ r a z ões de Est a do ” . O fim a bso luto do E st a do é salv a gu a rdar
(ou modificar) a distribui çã o externa e interna de poder; em ú ltima
a n á li se , e ssa fi na li da de de ve p a rec er inse nsa ta a qua lquer rel igi ã o uni-
versalista de salva çã o. Tal fato foi, e continua sendo, v á lido, e, ainda

166
WEBER

mais, para a pol í tica externa. É absolutamente essencial para qualquer


associa çã o pol í tica recorrer à viol ência bruta dos meios coercitivos em
fa ce de inimigos externos, be m como a os inim igos int erno s. S omen t e es se
recurso mesmo à viol ência é que constitui uma associa çã o pol ítica em
nossa terminologia. O Estado é uma associa çã o que pretende o monop ólio
do uso legí timo da violência, e n ã o pode ser definido de outra forma.
O Serm ã o da Mo nt a nha diz : “ N ã o res is ta s a o ma l ” . E m opo si çã o,
o Estado declara: “ D eves ajudar o direito a triunfar pelo uso da for ça,
pois se a ssim n ã o for t a mb é m ser á s respons á vel pel a injust i ça ” . Q ua ndo
ta l f a tor e st á a usent e, o “ Estado ” tamb é m est á a usent e; o “ anarquismo ”
do pacifista ter á nascido ent ã o. Segundo esse pragmatismo inevit á vel
de toda a a çã o, por é m, a for ça e a amea ça de for ça alimentam neces-
sariamente mais for ça. As “ r a z ões de Estado ” seguem, assim, suas
pr ópri a s le is e xterna s e i nt erna s. O ê xito mesmo da for ça , ou da a me a ça
de for ça, depende em ú ltima an á lise das rela çõ es de poder e n ã o do
“ direito ” é tico, mesmo que julg á ssemos poss í vel descobrir crit é rios ob-
jetivos para esse “ direito ” .
Em contraste com o hero í smo primitivo, ing ê nuo, é t í pico dos
sistemas estatais racionais que o grupo ou governantes se preparem
para o conflito violento acreditando, todos, estarem sinceramente “ cer-
t os ” . P a ra qua lque r ra ciona li za çã o reli gio sa coerent e, isto pa rece r á a pe -
na s um arremed o da é t ica . Al é m d isso, coloca r o nome do Sen hor n esse
viole nt o conflit o po l í t ico de ve ser co nsid era do um u so v ã o de S eu nome.
Diante de tudo isso, o caminho mais limpo, e o ú nico honesto, parece
ser a elimina çã o completa da é tica no racioc í nio pol í tic o. Qua nt o ma is
objetiva e c a lculista é a pol í tica, e quanto mais livre de emo çõ es a pai-
xonadas, de ira e de amor, tanto mais parecer á a uma é tica de fra-
ternidade estar ela distante da fraternidade.
A indiferen ça m ú tua entre religi ã o e pol í tic a , qua ndo s ã o a mbas
completamente racionalizadas, é ainda mais intensa porque, em con-
traste com a economia, a pol í tica pode entrar em concorr ê ncia direta
com a é ticaentre
consumada religiosa, em pontos
os Estados decisivos.
modernos, Como
a guerra criaamea
um ça de viol êencia
pathos um
sentim ent o de c omun ida de. A guerra pro move , p ort a nt o, uma comun h ã o
incondicionalmente dedicada e pronta ao sacrif í cio, entre os combaten-
t es, e libe ra uma compa ix ã o de ma ssa a tiva e um a mor p el os que e st ã o
sof ren do nec essida des. E , co mo fen ô meno de massa, esses sentimentos
de rrub a m t odas a s barrei ra s na tura is à a ssoc ia çã o. Em geral, a rel igi ã o
s ó pode mostrar realiza çõ es compar á veis nas comunidades her óicas
que professam uma é tica da fraternidade.
Al é m disso , a guerra tr a z a o guerre iro a lgo que, e m seu signif ica do
concreto, é excepcional: faz que ele experimente um significado consa-
grado da morte, caracter í stico apenas da morte na guerra. A comuni-
da de do ex é rci t o no c a mpo de bat a lha sente- se hoj e — como na s é pocas
dos “ seguidores ” do s senho res da guerra — co mo uma comunida de a t é

167
OS ECONOMISTAS

a morte e a maior do g ê nero. A morte no campo de batalha difere da


morte comum a todos. Como se trata de um destino a que todos est ão
sujeitos, ningu é m pode jamais dizer por que ela chega precisamente
a ele, e por que chega precisamente naquele momento. À medida que
se desdobram os valores da cultura e s ã o sublimados a alturas imen-
sur á vei s, essa morte ordin á ria ma rc a um fi m, qua ndo a pe na s um i n í cio
poderia fa zer se nt ido . A morte no c a mpo de bat a lha dife re de ssa morte
simplesmente inevit á vel pe lo fa t o de que na guerra , e somente na gue r-
ra, o indiv í duo pode acreditar que sabe estar morrendo “ por ” alguma
coisa. O porqu ê e o para qu ê enfrenta ele a morte podem, em geral,
ser-lhe t ã o indubit á veis que o problema do “ significado ” da morte nem
mesmo lhe ocorre. Pelo menos, pode n ã o haver pressupostos de apa-
recimento do problema em sua significa çã o universal, que é a forma
pela qual as religi ões da salva çã o s ã o levadas a se preocupar com o
sentido da morte. Somente os que perecem “ na sua voca çã o” es t ã o n a
mes ma si tua çã o do so ldado que e nfrenta a morte no ca mpo de b a ta lha .
E ssa loca li za çã o da morte de nt ro de uma s é rie de a cont eciment os
significativos e consagrados est á em ú ltima an á lise, na base de todos
os esfor ços para apoiar a dignidade aut ônoma da estrutura pol í tica
que se baseia na for ça . N ã o obstante, a forma pela qual a morte pode
ser concebida como significativa nesses esfor ços aponta em dire çõ es
que diferem radicalmente das dire çõ es em que a teodic é ia da morte,
numa religi ã o de fraternidade, pode apontar. A fraternidade de um
grupo de homens unidos na guerra deve parecer pouco valiosa para
essas religi ões frat erna is, s endo vis ta a pe na s co mo um refl ex o da bru-
ta li da de tec nic a mente re quinta da da luta . E a consa gra çã o interior da
morte na guerra deve pa rec er uma glo rific a çã o do fra t ric í di o. A pr ópria
qualidade extraordin á ria da fraternidade da guerra, e da morte na
guerra, partilha do carisma sagrado e da experi ê ncia da comunh ã o
com D eus, e e sse fa t o leva a competi çã o entre a fra ternida de da rel igi ã o
e a da comunidade guerreira ao auge. Como na economia, as duas

údonicas solu çõ es coerentes para essa tens


misticismo. ã o s ã o as do puritanismo e
O purita nismo , c om se u pa rt icula rismo da gra ça e se u a sc etismo
vocacional, acredita nos mandamentos fixos e revelados de um Deus
que, sob outros aspectos, é incompreens í vel. Interpreta a vontade de
Deus como significando que esses mandamentos devem ser impostos
ao mundo das criaturas pelos meios deste mundo, ou seja, a viol ê ncia
— pois o mundo est á sujeito à viol ê ncia e ao barbarismo é tico. E isto
significa, pelo menos, barreiras que resistem à obriga çã o de fraterni-
dade no interesse da “ causa ” de Deus.
Por outro lado, h á a solu çã o da atitude antipol í tica radical do
m í stico, sua busca de reden çã o com sua benevol ê ncia e fraternidade
a có smica. Com seu “ n ã o resistir ao mal ” e com sua m á xima “ voltar a
outra face ” , o misticismo é necessariamente carente de dignidade aos

168
WEBER

olho s da é tic a munda na do hero í smo. A lheia -se do estigm a da vio l ê ncia
de que nenhuma a çã o pol í tica pode fugir.
Todas as outras solu çõ es à s tens ões da pol í tica e religi ã o est ã o
cheias de concess ões ou de pressupostos que devem parecer necessa-
ria ment e deso nestos o u ina cei t á veis à é tic a da fraterni dade aut ê ntica.
Alguma s dessa s so lu çõ es s ã o, n ã o obsta nt e, interess a nt es e m princ í pio
e como tipos.
Toda organiza çã o da salva çã o por uma institui ção compuls ór ia
e uni ve rsa li sta da gra ça sente-se respons á ve l, p era nt e Deus, p el a s a l-
mas de todos, ou pelo menos de todos os homens a ela confiados. Essa
institui çã o se sentir á , portanto, com direito a opor-se, e com o dever
de opor-se, com a for ça impiedosa a qualquer perigo oriundo de uma
m á orienta çã o da f é . Sente-se obrigada a promover a difus ã o de seus
meios de gra ça salvadores.
Quan do a s a ris toc ra cias sa lv a do ra s es t ã o incumbida s, po r ordem
de seu Deus, de domar o mundo do pecado, para a Sua gl ória, d ã o
srcem ao “ cruzado ” . Foi o que ocorreu no calvinismo e, em forma
diferent e, no isla mism o. Ao mesmo t empo , po r é m, a s a ris toc ra cias sa l-
vadoras distinguem as guerras “ santas ” ou “ justas ” de outras, pura-
mente seculares, e portanto profundamente indignas. A guerra justa
é travada para a execu çã o dos mandamentos de Deus, ou pela defesa
da f é , o que de certa forma significa sempre uma guerra religiosa.
Portanto, as aristocracias salvadoras rejeitam a compuls ã o de partici-
parem das guerras das autoridades pol í ticas que n ã o se classificam
clar a mente co mo gue rra s sa nt a s, c orresp ondentes à vontade de Deus,
ou seja, guerras n ã o-afirmadas pela pr ópria consci ê ncia do crente. O
ex é rcito vitorioso dos Santos de Cromwell agiu dessa forma quando
tomou posi çã o cont ra o se rvi ço mi li ta r ob riga t ório. As aristocracias da
salva çã o preferem ex é rcitos m erce n á rios a o servi ço mili t a r compuls ório.
Caso os homens violem a vontade de Deus, especialmente em nome
da f é , os fi é is c hega m a conclus ões fa vo r á ve is a uma revo lu çã o religiosa

ativa,
do queem aovirtude
homem. da senten ça de que se deve obedecer antes a Deus
O luteranismo religioso, por exemplo, tomou a posi çã o contr á ria.
Rej ei t ou a cruza da e o direito à resist ê nc ia a tiva contr a qua lque r co a çã o
se cular em a ssuntos de f é ; considerou essa coa çã o uma a rbi tra rie da de ,
que emaranha a salva çã o no pragmatismo da viol ê ncia. Nesse campo,
o luteranismo s ó conhece a resist ê ncia passiva. Aceitou, por é m, a obe-
di ê ncia à autoridade secular como irrecus á vel, mesmo quando essa
a utoridade tenha da do ordem de gue rra , p orqu e a r es ponsa bil idade da
guerra cabe a ela, e n ã o ao indiv í duo, e porque sua autonomia é tica,
em contraste com a institui çã o universalista (cat ó lica) da gra ç era
a,
reconhecida. A inser çã o da reli gio sida de m í stic a pe culi a r a o cristia nis-
mo pessoal de Lutero parou pouco antes de tirar as conclus ões totais
do assunto.

169
OS ECONOMISTAS

A busc a ca rism á tica e verdadeiramente m í stica da salva çã o, por


pa rt e do s virtuoso s rel igio so s, fo i, na t ura lment e, em toda pa rt e apol í tica
ou antipol í tica, pela sua pr ópri a es s ê ncia. As buscas de salva çã o reco-
nheceram facilmente a autonomia da ordem temporal, mas o fizeram
apenas para deduzir, coerentemente, o seu car á ter diab ólico, ou pelo
menos para tomar o ponto de vista da indiferen ça absoluta em face
do mundo que foi expresso na frase: “ Dai a C é sar o que é de C é sa r ”
(pois que relev â ncia t ê m essas coisas para a salva çã o?).
As variadas posi çõ es emp í ricas que as religi ões hist óricas t ê m
tomado diante da a çã o pol í tica foram determinadas pela mistura das
organiza çõ es religio sa s co m os int eresses do p oder e a s lut a s pelo poder,
pelo colapso sempre inevit á vel at é mesmo dos mais altos estados de
tens ã o com o mundo, em favor de concess ões e relatividades, pela uti-
lidade e uso das organiza çõ es religiosas para a domestica çã o pol í tica
das massas e, especialmente, pela necessidade que as pretensas po-
t ê ncias t ê m da consa gra çã o religiosa de sua legitimidade. Como pode-
mos ver pela hist ória, quase todas as plataformas de organiza çõ es re-
ligiosas foram religiosamente relativas, no que se refere aos valores
sagrados, à ra ciona li da de é tic a e à a utono mia l í cita . Na pr á t ica , o t ipo
mais importante dessas formas relativas foram as é ticas sociais “ or -
g â nicas ” . Esse tipo difundiu-se em muitas formas e sua concep çã o da
obra vocacional foi, em princ í pio, o contraste mais importante com a
id é ia de “ voca çã o” , como se encontra no ascetismo interior.
A é tica social org â nica, quando subestruturada religiosamente,
enqua dra -se na “ fraternidade ” , ma s, e m co nt ra ste c om o a mor m í stico
e a cósmico, é dominada por uma exig ê ncia racional de fraternidade.
Seu ponto de partida é a experi ê ncia da desigualdade do carisma re-
ligioso. O simples fato de que o sagrado s ó deve ser acess í ve l a a lg uns,
e n ã o a todos, é intoler á vel à é tica org â nic a so cial. P ro cura , po rt a nt o,
sintetiza r essa des igualda de p el a s qua li fi ca çõ es c a rism á t ica s c om a es-
tratifica çã o secular por estamento, num cosmo de servi ços por orde-
n
a atodo
çã o indiv
de Deus, deefun
í duo o especializada.
grupoçãsegundo Certas
seu carisma tarefase sposi
pessoal ã o atribu í da s
çã o social
e econ ômic a , de termina da s pe lo des tino. E m gera l, es sa s ta ref a s es t ã o
a servi ço da realiza çã o de uma condi çã o que, apesar de sua natureza
de concess ã o, é agrad á vel a Deus. Essa condi çã o é interpretada como
sendo, ao mesmo tempo, utilit á ria, social e providencial. Ante a ma-
lignidade do mundo, ela facilita pelo menos uma sujei çã o relativa do
pecado e do sofrimento: a preserva çã o e salva çã o do maior n ú mero
poss í ve l de alma s par a o rei no de Deus é , com isso , fa cilita da . Veremos,
ma is a di a nte, uma t eodi c é ia de um pathos muito ma ior, que a do ut rina
indiana do Carma transmitiu à doutrina org â nica da sociedade, do
pont o de vis ta do p ra gma tismo rede nt or orie nt a do e xclusi va mente pa ra
os int eresses do indiv í duo. Sem esse elo mu ito espe cia l toda é t ica so cia l
or g â nic a rep rese nt a , ine vita ve lme nt e, uma a como da çã o a os int eresse s

170
WEBER

da camada privilegiada deste mundo. Pelo menos, é essa a opini ã o da


é tica radical e m í stica da fraternidade religiosa. Do ponto de vista do
ascetismo interior, à é tica org â nica falta um impulso interior para
uma racionaliza çã o é tica e completa da vida individual. Nessas ques-
t ões, n ã o h á pr ê mio s para a padro niza çã o racional e met ódica da vida
pessoal no interesse da pr ópria salva çã o individual.
O pragmatismo org â nico da salva çã o deve considerar a aristo-
cracia redentora do ascetismo interior-mundano, com sua despersona-
liza çã o ra ciona l da s o rdens da vida, co mo a forma ma is di f í cil de amor
e falta de fraternidade. Deve considerar o pragmatismo redentor do
misticismo como uma indulg ê ncia sublimada e, na verdade, n ã o-fra-
ternal, do pr óprio carisma do m í stico. O acosmismo n ã o-met ódico e
n ã o-pla nifica do do a mor é vist o como um sim ples meio ego í sta na bus ca
da pr ópria salva çã o do m í stico. Tanto o ascetismo como o misticismo
interior-mundano condenam, em ú ltima a n á lise, o mundo social à a b-
soluta falta de sentido, ou pelo menos sustentam que os objetivos de
Deus, em rela çã o ao mundo social, s ã o totalmente incompreens í veis.
O racionalismo das doutrinas religiosas e org â nicas da sociedade n ã o
pode resistir a tal id é ia, pois busca compreender o mundo como um
cosmo
mundo relativamente racional,
é cons idera do o port apesar
a dor de,depetoda a suaos,malignidade;
lo men t ra ços do plo a no divino
de salva çã o. Para o carisma absoluto da religiosidade virtuosa, esta
relativiza çã o é , na realidade, discut í vel e estranha ao sagrado.
Como a s a çõ es pol í t ica s, ec on ômic a s e ra ciona is segue m le is pr ó-
pri a s, tamb é m qua lque r o utra a çã o ra ciona l dentr o do mundo c ont inua
inevitavelmente ligada à s condi çõ es mundanas, distantes da fraterni-
dade e que devem servir como meios ou fins para a a çã o racional. Da í
toda a çã o racional colocar-se, de alguma forma, em tens ã o profunda,
pois parece n ã o ha ver meio de dec idir nem mesmo a primei ra qu est ã o:
ond e, no ca so individu a l, po de o va lor é t ico de um a t o ser de t ermina do ?
Em termos de ê xito ou em termos de algum valor intr í nseco do ato
per se? A quest ã o é se, e at é que ponto, a responsabilidade do agente
pelos resultados santifica os meios, ou se o valor da sua inten çã o jus-
tific a a sua rej ei çã o da resp onsa bil idade do resul ta do , se ja par a tr a ns-
feri-lo para Deus, ou para a maldade e idiotice do mundo permitidas
por Deus. A sublima çã o absolutista da é tica religiosa far á que os ho-
mens se inc li nem pe la segunda a lterna tiva : “ O crist ã o a ge bem e deixa
o ê xi to p a ra Deus ” . Nisso, por é m, a condut a do pr ópri o a gente, qua ndo
realmente coerente, e n ã o a autonomia l í cita do mundo, é condenada
como irra ciona l em seus efei t os. 1 Em fa ce di sso , uma busc a da sa lva çã o,
sublimada e completa, pode levar a um crescente acosmismo, a ponto
de re jei ta r a a çã o ra ciona l-objetiva per se, e, da í , to da a çã o em termos

1 Teori came nt e, isso é realizado com maior coer ê ncia no Bhagavad-Gita, como iremos ver.

171
OS ECONOMISTAS

de rela çõ es de meios-fins, pois considera-as ligadas à s coisas mun-


danas e, por isso, estranhas a Deus. Iremos ver como isso ocorreu
com uma coer ê ncia variada, desde a par á bola b í blica dos l í rios do
campo at é a formula çã o do budismo, por exemplo, que se baseia
mais em princ í pios.
A é tica org â nica da sociedade é , em toda parte, um poder emi-
nentemente conservador e hostil à revolu çã o. Dentro de certas condi-
çõ es, por é m, conseq üê ncias revolucion á rias podem seguir-se de uma
religiosidade virtuosa aut ê ntic a . Na tura lme nte, i sto s ó ocorre quando
o pragmatismo da for ça, exigindo mais for ça e levando simplesmente
a modifica çõ es no pessoal, ou na melhor das hip óteses a modifica çõ es
nos m é todos de governo pela for ça , n ã o é aceito como uma qualidade
permanente do mundo das criaturas. Segundo a colora çã o da religi ã o
do virtuoso, sua situa çã o revolucion á ria pode em princ í pio assumir
dua s fo rma s. U ma del a s na sc e do a sc etismo interio r-munda no, s emp re
que seja ele capaz de opor um “ direito natural ” absoluto e divino às
ordens criaturais, malignas e emp í ricas do mundo. Torna-se, ent ã o,
um dever religioso compreender esse direito natural, segundo a sen-
t en ça de que se deve obedecer a Deus, e n ã o a os h omens, q ue de c erta
forma se aplica a todas as religi ões racionais. As revolu çõ es puritanas
a ut ê nt ica s, cuj a s c ont ra par tida s p odem se r enc ont ra da s e m o utr a s p a r-
t es, s ã o t í pic a s. E ssa a t itud e corr esp onde de modo a bso luto à obriga çã o
de empreender cruzadas.
A quest ã o é diferente com o m í stico. A passagem psicol ógica da
posse de Deus pa ra a posse p or D eus é sempre poss í vel e com o m í stico
é consumada. Isso é significativo e poss í vel quando as expectativas
escatol ógicas de um in í cio imediato e do mil ê nio de fraternidade fla-
mejam, e, da í , quando desaparece a cren ça de que existe uma tens ão
duradoura entre o mundo e o reino metaf í sico irracional da salva çã o.
O m í st ico t ra nsforma -se e nt ã o num sa lvador e pro fe ta . O s ma nda men-
tos, por é m, que ele enuncia n ã o t ê m car á ter racional. Como produtos
do seu carisma, s ã o revela çõ es concretas e a rejei çã o radic a l do mundo
transforma-se, facilmente, num anomismo radical. Os mandamentos
do mundo n ã o s ã o v á lidos para o homem que tem certeza na sua
obsess ã o com Deus: pánta moi h éxesti n. Todo o quiliasma, at é a revo-
lu çã o dos anabatistas, baseou-se um pouco nessa subestrutura. Para
quem “ possui Deus ” e é portanto salvo, a forma de a çã o n ã o tem sig-
nifica çã o para a salva çã o. Veremos que estados semelhantes ocorrem
no caso do djivanmukhti indiano.

6. A E sfer a E st ética
A é tica religiosa da fraternidade situa-se em tens ã o din â mica
com q ua lquer co mpo rt a ment o consci ent e-ra ciona l que siga a s sua s pr ó-
prias leis. Em propor çõ es n ã oças
menores, essa tens ã o tamb é m ocorre
entre a é tica religiosa e as for de vida “ deste mundo ” , cujo car á t er

172
WEBER

é esse nci a lment e n ã o-ra ciona l, o u ba sic a ment e a nt i-ra ciona l. A cima de
tudo, h á tens ã o entre a é tica da fraternidade religiosa e as esferas da
vida est é tica e er ó tica.
A religiosidade m á gica est á numa rela çã o muito í ntima com a
esfera est é tica. Desde seu in í cio, a religi ã o tem sido uma fonte ines-
got á vel de oportunidades de cria çã o art í stica, de um lado, e de estili-
za çã o pela tradicionaliza çã o, do outro. Isso se evidencia em v á rios ob-
jetos e processos: í dolos, í cones e o ut ros a rt ef a t os religi oso s; na pa dro-
niza çã o das forma s co mpro va da s ma gic a mente, o que c onst itui um pri -
meiro passo na supera çã o do na tur a li smo p or um a fi xa çã o de “ estilo ” ;
n a m ú sica, como meio de ê xt a se, exo rcismo o u m á gica apotropaica; em
feiticeiros que eram cantores e dan çarinos m á gicos; em rela çõ es de
tom comprovadas magicamente e portanto magicamente padronizadas
— as primeiras fases preparat órias na evolu çã o dos sistemas tonais;
nos passos de dan ça magicamente provados como uma das fontes de
ritmo e como uma t é cnica de ê xtase; nos templos e igrejas, como as
maiores de todas as edifica çõ es, c om sua ta ref a a rquitet ônica estereo-
tipada (e, com isso, formando um estilo) como conseq üê ncia de finali-
dades estabelecidas de uma vez por todas, e com formas estruturais
que se tornam estereotipadas atrav é s da efici ê ncia m á gica; em para-
mentos e implementos de igreja de todos os tipos, que serviram como
objetos da arte aplicada. Todos esses processos e objetos foram classi-
ficados de acordo com a riqueza das igrejas e templos oriunda do zelo
religioso.
Para a é tic a rel igi osa da fra t ernidade, ta l como p a ra um rigo rismo
é tico a pr i or i , 1 a a rt e como v e í culo de efe it os m á gicos n ã o s ó t em pouc o
valor como é a t é mesmo suspeita. A sublima çã o da é tica religiosa e a
busca da salva çã o, por um lado, e a evolu çã o da l ógica inerente da
arte, por outro, tenderam a formar uma rela çã o cada vez mais tensa.
Todas as religi ões sublimadas da salva çã o focalizaram apenas o sig-
nificado, e n ã o a forma, das coisas e atos relevantes para a salva çã o.
As r eligi õ es salva do ra s desvalo riza ra m a forma como c ont inge nt e, c omo
algo da criatura e que a afastava do significado. Por parte da arte,
por é m, a ing ê nua rela çã o com a é tica religiosa da fraternidade pode
permanecer ininterrupta ou pode ser repetidamente restabelecida, en-
qua nt o e com a fre q üê nci a qu e o int eresse consci ent e do o bjeto da a rt e
es tej a inge nua mente ligado a o cont e ú do, e n ã o à fo rm a em si. A rela çã o
entre uma é tica religiosa e a arte continuar á harmoniosa no que diz
respeito à arte, e enquanto o artista criador considera seu trabalho
resultado seja do carisma ou da “ habilidade ” (srcinalmente m á gica),
seja do jogo espont â neo.

1 " R igor ism o é tico a priori “ , como aqui usamos, refere-se a uma f é nos princ í pios morais
baseados na ” lei natural", ou em imperativos categ óricos deduzidos da raz ã o. A é tica dos
es t óicos, ou o culto da raz ã o durante a Revolu çã o Francesa, ou o Kantismo, s ã o exemplos.

173
OS ECONOMISTAS

O dese nvol viment o do int el ect ua lismo e da ra ciona liza çã o da vida


modifica essa situa çã o. Nessas condi çõ es, a arte torna-se um cosmo de
valores independentes, percebidos de forma cada vez mais consciente,
que existem por si mesmos. A arte assume a fun çã o de uma salva çã o
neste mu ndo, n ã o impo rt a como isto po ssa ser int erpre t a do . P rop orci ona
uma salvação da s ro tina s da vida co tidia na , e es pe cialment e das cre s-
centes press ões do racionalismo te órico e pr á tico.
Com essa pretens ã o a uma fun çã o redentora, a arte come ça a
competir diretamente com a religi ã o salvadora. Toda é tica religiosa
racional deve voltar-se contra essa salva çã o int erio r-mun da na , i rra cio-
nal. Aos olhos da religi ã o, essa salva çã o é um reino de indulg ê ncia
irrespons á vel e um amor secreto. Na realidade, a recusa dos homens
mo derno s em a ssumir a resp onsa bi li da de do s j ulga mentos morais t ende
a transformar os julgamentos de inten çã o moral em julgamentos de
gosto ("de mau gosto", em vez de “ repreens í vel ” ). A inacessibilidade
do recurso aos julgamentos est é ticos exclui dissens ã o. Essa passagem
da ava lia çã o moral para a é tica, na conduta, é uma caracter í stica co-
mum das é pocas intelectualistas; resulta, em parte, das necessidades
subjetivistas e em parte do medo de parecer de mentalidade limitada
de um modo tradicionalista e filisteu.
A norma é tic a e s ua “ validade universal ” c ria m uma comunida de,
pelo menos na medida em que o indiv í duo poderia rejeitar o ato de
outro por alega çõ es morais e, ainda assim, enfrent á -lo e participar da
vida comum. Conhecendo a sua pr ópria fraqueza como criatura, o in-
div í duo coloca-se sob a norma comum. Em contraste com essa atitude
é tica, a fuga à necessidade de tomar uma posi çã o fundamentada em
r a z õ es racionais e é ticas recorrendo à s avalia çõ es est é ticas bem pode
ser considerada pela religi ã o salvadora uma forma muito mesquinha
de falta de frat ernidade. Pa ra o a rtista criado r, p or é m, bem como para
a mente esteticamente excitada e receptiva, a norma é tica, como tal,
pode parecer facilmente uma coa çã o à sua criatividade aut ê ntica e ao
mais íAntimo
form de seuiseu.
a ma irra ciona l do c ompo rt a ment o re ligi oso , a ex pe ri ê ncia
m í stica, é em sua mais í ntima ess ê ncia n ã o s ó e stranha mas ta mb é m
hostil a toda forma. A forma é info rt una da e i nex pre ss í vel ao m í stico,
porq ue e le a credita prec isa ment e na ex pe ri ê nci a de fa zer ex pl odir t oda s
as formas, e espera, com isso, ser absorvido pelo Uno, que est á a lém
de qualquer tipo de determina çã o e forma. Para ele, a afinidade psi-
col ógica indubit á vel das experi ê ncias profundamente comoventes na
arte e religi ã o s ó pode ser um sintoma da natureza diab ólica da arte.
E spe cialment e a m ú si ca , a ma is “ interior ” de todas a s a rt es , po de surgi r
em sua mais pura forma de m ú sica instrumental como um E r satz da
experi ê ncia religiosa direta. A l ógica interna da m ú sica instrumental
como um reino que n ã o vive “ de de nt ro ” parece à experi ê ncia religiosa
como uma pretens ã o enganosa. A posi çã o, bem conhecida, do Conc í lio

174
WEBER

de Trento pode, em parte, ter vindo desse sentimento. A arte torna-se


uma “ idolatria ” , uma for ça concorrente, e um embelezamento enganoso;
e as imagens e a alegoria dos assuntos religiosos surgem como blasf êmia.
Na reali da de e mp í ric a , hist óric a , e ssa a finida de ps icol ógic a entre
a arte e religi ã o levou a alian ças sempre renovadas, bastante signifi-
cativas para a evolu çã o da arte. A grande maioria das religi ões par-
tic ip ou, de a lguma forma , de ssa s a li a n ça s. Qua nt o ma is des eja va m se r
religi õ es universalistas de massa, e assim se voltavam para a propa-
ganda emocional e os apelos de massa, tanto mais sistem á ticas eram
a s s uas a lia n ça s c om a a rte. M a s tod a s a s re li gi ões virtuo sa s au t ê nticas
continuaram muito t í midas em face da arte, em conseq üê ncia da es-
trutura interior da contradi çã o entre a religi ã o e a arte. Isso ocorre
na rel igi osidade vi rt uo sa em sua m a nife sta çã o a sc é tic a a tiva , be m co mo
em sua manifesta çã o m í stica. Quanto mais a religi ã o ressaltou a su-
pramundanidade de seu Deus, ou a ultramundanidade da salva çã o,
tanto mais duramente rejeitada foi a arte.

7. A E sfer a E r ótica
A é tic a frat erna l da rel ig i ã o de sa lva çã o est á em tens ã o profund a
com a maior for a irracional da vida: o amor sexual. Quanto mais
ç
sublimada é a sexualidade, quanto mais baseada em princ í pio, e coe-
rente, é a é tic a de s a lva çã o da fraterni dade, ta nto mais aguda a tens ã o
entre o sexo e a religi ã o.
Origi na lme nt e, a rel a çã o entre o sexo e religi ã o foi muito í ntima.
As r ela çõ es se xua is fazia m, freq ü entement e, pa rt e do orgia st icismo m á -
gico ou eram o resultado n ã o-intencional da excita çã o orgi á stica. A
base da seita dos sk optsy (Castradores) na R ú ssia evoluiu de uma
tenta tiva de e li mina r o re sul ta do se xual da da n ça orgi á stica ( radjeny )
do Chlyst , considera da pe ca minosa . A pro st itui çã o sagrada nada tinh a
que ver c om um a supo sta “ pro misc uida de primit iva ” ; fo i, ha bitua lme n-
te, a sobreviv ê ncia do orgiasticismo m á gico no qual todo ê xtase era
considerado
como h omossexua“ sagrado ” . E oaanprostitui
l, é muit tiga e, com o profana
çãfreq üência,heterossexual, bem a da.
ba sta nt e sofistic
(O treinamento das tr í bades ocorre entre os chamados aborí gi nes.)
A transi çã o dessa prostitui çã o para o matrim ônio legalmente
constitu í do est á chei a de todo s o s t ip os de fo rm a s int ermedi á ria s. Con-
cep çõ es do matrim ônio como uma disposi çã o econ ômica para garantir
a seguran ça da esposa e a heran ça legal para o filho; como uma ins-
titui çã o importante (devido aos sacrif í cios mortais dos descendentes)
na vi da no al é m; e t ã o imp ort a nt es par a a pro cria çã o — essa s co ncep çõ es
do ca sa mento s ã o pr é -prof é ticas e universais. Nada t ê m, portanto com
o a sc etismo em si. E a vida se xua l, per se, teve seus fantasmas e seus
deuses como qualquer outra fun çã o.
Uma certa tens ã o entre a religi ã o e o sexo s ó se destacou com
o cult o t empor á rio da ca stidade do s sa cerdo tes. Essa ca stidade ba sta nt e

175
OS ECONOMISTAS

antiga nem pode ter sido determinada pelo fato de que, do ponto de
vista do ritual vigorosamente padronizado do culto da comunidade, a
sexualidade era facilmente considerada como especificamente domina-
da pel os dem ôn ios. A l é m d isso , n ã o era por a ca so qu e subse q ü entemente
as religi ões prof é ticas, bem como as ordens de vida controladas pelos
sacerdotes, regulamentavam, quase sem exce çã o importante, as rela-
çõ es sexuais em favor do matrim ôni o. O contraste de toda regulamen-
t a çã o racional da vida com o orgiasticismo m á gico e todos os tipos de
frenesis irracionais se expressa nesse fato.
A tens ã o entre religi ã o e sexo foi aumentada pelos fatores evo-
lucion á rios, de ambos os lados. No lado da sexualidade, a tens ã o levou
da sublima çã o ao “ erotismo ” , e com isso a uma esfera cultivada cons-
cientemente, e portanto n ã o-rotinizada. O sexo foi n ã o-rotinizado n ã o
s ó, ou nec essa ria ment e, no se nt ido de se r estr a nh o à s conven çõ es, pois
o ero tismo c ont ra sta com o na tu ra li smo s óbrio do campon ê s. E foi pre-
cisamente o erotismo que as conven çõ es da Cavalaria habitualmente
t oma va m c omo objeto de sua r egulam ent a çã o. E ssa s co nven çõ es, por é m ,
regulamentaram caracteristicamente o erotismo, disfar çando as bases
naturais e org â nicas da sexualidade.
A qualidade extraordin á ria do erotismo consistiu precisamente
num afastamento gradual do naturalismo ing ê nuo do sexo. A raz ã o e
significa çã o dessa evo lu çã o, por é m, envo lve m a ra ciona liza çã o universa l
e a intelectualiza çã o da cultura. Desejamos delinear, brevemente, as
fases dessa evolu çã o. Partiremos de exemplos do Ocidente.
O ser total do homem est á , agora, alienado do ciclo org â nico da
vida camponesa; a vida se tem enriquecido cada vez mais em seu
conte ú do cultural, seja esse conte ú do ava li a do i nt el ectua lme nt e, o u de
forma supra-individual. Tudo isso se operou, atrav é s do estrangula-
mento do valor da vida, em rela çã o ao que é simplesmente dado, no
sentido de um maior fortalecimento da posi çã o especial do erotismo.
Este foi elevado à esfera do gozo consciente (no sentido mais sublime
da express
pa re cia umaã o).
a beNrtura
ã o obstante,
pa ra a eess
na verdade devido
ê nci a ma is i rraa essa
cionaeleva
l, e p ort a nt çã o, ele
o ma is
real, da vida em compara çã o com os mecanismos da racionaliza çã o. O
grau e a forma pela q ual uma ê nfa se de va lor é colocada no erotismo,
como tal, variaram enormemente por toda a hist ória.
Para os sentimentos incontidos dos guerreiros, a posse das mu-
lheres e a lut a por elas t ive ra m o mesmo valor que a luta pe los teso uros
e conquista do poder. Na é poca do helenismo pr é -cl á ssico, no per í od o
do ro ma nce cavalheiresco, uma decep çã o er ó tica podia ser considerada
por Arqu í loco uma experi ê ncia significativa, de relev â ncia duradoura,
e a captura de uma mulher podia ser considerada um incidente in-
compar á vel numa guerra her óica.
Os tragedi ógrafos conheciam o amor sexual como um poder au-
t ê ntico do destino, e seu repert ório inclu í a ecos duradouros dos mitos.

176
WEBER

Uma mulher, por é m — Safo —, n ã o foi igualada pelo homem na ca-


pacidade de sentimento er ótico. O per í odo hel ê nico cl á ssico, o per í od o
do ex é rcito dos hoplitas, concebia as quest ões er óticas de uma forma
rela t iva e ex cep ciona lment e s óbria. C omo o pro va m t oda s a s sua s c on-
fiss õ es , e sse s home ns fo ra m a inda ma is s ó brios do que a camada edu-
cada dos chineses. N ã o obstante, n ã o é exato que esse per í odo n ã o
conhecesse a ansiedade mortal do amor sexual. O amor hel ê nico ca-
racterizou-se exatamente pelo oposto. Devemos lembrar-nos — apesar
de Asp á sia — do discurso de P é ric le s e fina lment e da conh ecida ora çã o
de Dem óstenes.
P a ra o ca r á ter exclusivamente masculino dessa é poca de “ demo-
cracia ” , o tratamento da experi ê ncia er ótica com mulheres como “ des-
tino da vida ” — para usar nosso vocabul á rio — teria parecido quase
que ing ê nuo e s entimenta l. O “ camarada ” , o ra pa z, era o objeto ex igido
com toda a cerim ônia do amor, e este fato ocupava precisamente o
centro da cultura hel ê nica. Assim, com toda a sua magnific ê ncia, o
eros de Plat ã o é , n ã o obstante, um sentimento muito controlado. A
be le za da paix ã o b á quic a n ã o era um componente oficial dessa rela çã o.
A possibilidade de problemas e de trag é dia tendo por base um
princ í pio surgiu na esfera er ótic a , a pri nc í pi o, at ra v é s de alguma s ex i-
g ê nci a s de respo nsa bil ida de que, no Oc idente, na sc em do c rist ia nismo.
A conota çã o de valor da sensa çã o er ótica, como tal, evoluiu por ém
primo rdia lment e e a nt es de t udo o ma is so b o condici ona ment o cultu ra l
das no çõ es feudais de honra. Isto aconteceu pela transfer ê ncia dos
s í mbolos da vassalagem cavalheiresca na rela çã o sexual eroticamente
sublimada. O erotismo recebeu uma conota çã o de valor mais freq ü en -
teme nte qua ndo , d ura nt e a fus ã o da va ssala ge m e da s rel a çõ es er óticas,
ocorreu uma combina çã o com a religiosidade cripto-er ótica, ou direta-
mente com o ascetismo como durante a Idade M é dia. O amor dos tro-
vadore s da Ida de M é dia crist ã foi um servi ço er ó t ico do s va ssa los. N ã o
se dirigia à s m oças, mas exclusivamente à s mulheres dos outros ho-
mens; envolvia
de deveres casu(teoricamente!)
í sta. Com issonoites
comede amor
çou abst
a “ prova çã êomias
” do ehomem,
um c n ódigoão
perante seus pares, mas diante do interesse er ótico da “ dama ” .
A concep çã o da “ dama ” foi constitu í da exclusiva e precisamente
em virtude da sua fun çã o de julgar. A masculinidade do helenismo
contrasta claramente com essa rela çã o entre o vassalo e a “ dama ” .
O c a r á t er espec ific a men t e sensa ciona l do e rotism o de senvolve u-se
ainda mais com a transi çã o das conven çõ es da Renascen ça para o in-
t el ect ua li smo cre sc entement e n ã o-mili ta r da cultura do s sa l ões. A pesa r
das grandes diferen ças entre as conven çõ es da Antiguidade e da Re-
nascen ça, estas ú ltimas eram essencialmente masculinas e de luta;
sob esse aspecto, aproximavam-se muito da Antiguidade. Isso se deve
a o fa t o de que, à é poca de Cortegia no e de Sh a kesp ea re, a s c onven çõ es
rena sc entista s ha vi a m a ca ba do com a ca stida de do s c a va le iro s crist ã os .

177
OS ECONOMISTAS

A cultu ra do s sa l ões baseia-se na convic çã o de qu e a conver sa çã o


intersexual é impo rt a nt e como fo r ça cria do ra . A se nsa çã o er ó tic a , c la ra
ou latente, e a comprova çã o do cavalheiro perante os olhos da dama
t orn a ra m-se meio indispe ns á vel de estimular essa conversa çã o. Desde
a s L ettr es Por tugai ses , os problemas amorosos reais das mulheres tor-
naram-se um valor de mercado intelectual e espec í fico, e a correspon-
d ê ncia amorosa feminina tornou-se “ literatura ” .
A ú ltima intensifica çã o da esfera er ótica ocorreu, em termos das
culturas intelectualistas, quando essa esfera colidiu com o tra ço ine-
vi ta ve lme nt e a sc é t ico do homem espe cia li st a vo ca ciona l. Sob essa t en-
s ã o entre a esfera er ótica e a vida cotidiana racional, a vida sexual
especificamente extraconjugal, que havia sido afastada das coisas co-
tidianas, p ôde surgir como o ú nico la ço que ainda ligava o homem à
fonte natural de toda vida. O homem emancipara-se totalmente do
ciclo da velha exist ê ncia simples e org â nica do campon ê s.
Uma tremenda ê nfase de valor sobre a sensa çã o espec í fica de
uma sa lva çã o int erio r em r ela çã o à racionaliza çã o fo i o result a do disso .
Uma alegre vit ória sobre a racionalidade correspondeu, em seu radi-
calismo, à rejei çã o inevit á vel, e igualmente radical, de uma é tica de
qualquer tipo de salva çã o no outro mundo, ou supramundana. Para
essa é tica, a vit ó ria do esp í rito sobre o corpo deveria encontrar seu
cl í ma x p rec isam ente a qui, e a vida sex ua l p oderi a a t é mesmo a dquirir
o car á ter de liga çã o ú nica e necess á ria com a animalidade. Mas essa
tens ã o entre uma salva çã o da racionalidade que se voltava para o
mundo interior e a que se voltava para o mundo exterior ser á mais
a guda e ma is i nev it á vel precisamente onde a esfera sexual é sis tema -
tic a mente pre para da pa ra uma se nsa çã o er ótic a muito v a loriz a da . Essa
sensa çã o reinterpreta e glorifica toda a animalidade pura da rela çã o,
ao passo que a religi ã o salvadora adquire o car á ter de uma religi ã o
de amor, fraternidade e amor pelo pr óximo.
Nessas condi çõ es, a rela çã o er ótica parece oferecer o auge insu-

per á vel
entre da realiza
si. Nessa o dolimite
çãsem
entrega desejo de amor é t ãna fus
o radical ã o direta
quanto possdas almas
í vel em
sua oposi çã o a toda funcionalidade, racionalidade e generalidade. É
citada aqui como o significado singular que uma criatura, sem sua
irracionalidade, tem para outra, e somente para essa outra espec í fica.
Do ponto de vista do erotismo, por é m, esse significado, e com ele o
conte ú do de valor da pr ópria rela çã o, baseia-se na possibilidade de
uma comunh ã o experimentada como uma unifica çã o completa, como
um desaparecimento do “ t u ” . É t ã o esmagadora que pode ser interpre-
tada “ simbolicamente ” : como um sacramento. O amante considera-se
preso à es s ê ncia da verdadeira vida, que é eternamente inacess í vel a
qualquer empresa racional. Sabe-se livre das frias m ã os ósseas das
ordens racionais, t ã o completamente quanto da banalidade da rotina
cotidiana. Essa consci ê ncia do amante baseia-se na indelebilidade e

178
WEBER

inexauribilidade de sua pr ópria ex pe ri ê nci a , que n ã o é comunic á vel e,


sob esse aspecto, equivale à “ posse ” do m í stico. Isso ocorre n ã o a pe na s
devido à intensidade da experi ê ncia do amante, mas à dedica çã o da
realidade possu í da. Sabendo que a “ pr ópria vida ” est á nele, o amante
coloca-se em oposi çã o ao que, para ele, é a experi ê ncia sem objetivo
do m í stico, como se enfrentasse a luz morti ça de uma esfera irreal.
Assim como o amor consciente do homem maduro est á para o
entusia smo apa ix ona do do jove m, a ssi m a a nsie da de mo rt a l des se e ro -
t ismo do i nt el ect ua lismo e st á para o amor cavaleiresco. Em contraste
com esse ú ltimo o a mor ma duro do intele ctua li smo reafirma a qua li da de
natural da esfera sexual, mas o faz de modo consciente, como uma
for ça cri a do ra ma teri a lizada .
A é tica da fraternidade religiosa op õe-se, radical e antagonica-
ment e, a t udo isso . Do p ont o de vi st a de ta l é tic a , e ssa se nsa çã o int erio r
e terre na da salva çã o p el o am or m a duro c ompe te, da forma ma is a guda
poss í vel, com a devo çã o a um deus supramundano, com a devo çã o a
uma ordem de Deus eticamente racional, ou com a dedica çã o de um
anseio m í stico de individua çã o, que s ó parece “ genu í n o ” à é tica da
fraternidade.
Certas inter-rela çõ es psicol ógicas das duas esferas aumentam a
tens ã o entre religi ã o e sexo. O erotismo mais elevado coloca-se psico-
l ó gica e fisiologicamente numa rela çã o mutuamente substitutiva com
de terminada s fo rma s subl imada s da pi eda de he r óica. Em oposi çã o a o
ascetismo racional, ativo, que rejeita o sexo como irracional, e que é
considerado pelo erotismo um inimigo poderoso e mortal, essa rela çã o
suced â nea é o rie nta da esp ecialme nte para a uni ã o m í stica com Deus.
Dela segue-se a constante amea ça de uma revanche mortalmente re-
quint a da da a nima li da de, ou de um desl izar inexo r á vel do rein o m í stico
de Deus pa ra o re ino do Dema siado- H uma no. Essa a fi nida de p sic ol ó gica
a umenta na tu ra lme nt e o a nt a go nismo do s si gnifi ca do s i nt eri ores e nt re
o erotismo e a religi ã o.

a rela Do
çã oponto de vista
er ó tica devedemanter-se
qualquer ligada, deé tica religiosa
forma mais da
oufraternidade,
menos
requintada, à brutalidade. Quanto mais sublimada for, tanto mais
brutal. Inevitavelmente, esta rela çã o é considerada de conflito. Tal
conflito n ã o é exclusivamente, nem mesmo predominantemente, o
ci ú me e a vontade de possess ã o, excluindo terceiros. É muito mais
do que a coa çã o mais í nt ima da a lma do c ompan hei ro me no s bruta l.
Essa coa çã o existe porque jamais é percebida pelos pr óprios parti-
cipantes. Pretendendo ser uma dedica çã o extremamente humana,
ela constitui o gozo sofisticado de si mesmo no outro. Nenhuma
comunh ã o er ó tica consumida sabe-se baseada em qualquer outra
coisa que n ã o uma destina ção misteriosa de um para o outro: o
destino , neste sentido mais elevado da palavra. Com isso, ela se
sabe “ legitimada ” (num sentido inteiramente amoral).

179
OS ECONOMISTAS

Mas, para a religi ã o da salva çã o, esse “ destino ” é apenas o in-


cê ndio pura mente fo rt uito da pa ix ã o. A obses s ã o pa t ol ógic a , a ssi m cri a -
da, a idiossincrasia e as varia çõ es de perspectivas e de toda justi ça
objetiva podem parecer, à religi ã o da salva çã o, como a mais completa
negativa de todo o amor fraternal e toda servid ã o de Deus. A euforia
do a ma nt e f el iz é co nside ra da “ boa ” ; t em a nec essi da de c ordia l de po e-
t iza r t odo o mun do com ca ra ct er í st ica s fe lize s, o u enc a nt a r t odo o mun do
num ent usiasmo i ng ê nuo para a di fus ã o da fel icida de. E enc ont ra sem-
pre a zombaria fria da é tica radical, e de base verdadeiramente reli-
giosa, da fraternidade. Os trechos psicologicamente mais completos
da s obra s de T olst ói p odem ser c ita do s, qua nt o a isso . 1 Aos olhos dessa
é tica, o mais sublime erotismo é o p ólo oposto de toda fraternidade,
orientada religiosamente nestes aspectos: deve, necessariamente, ser
exclusiva em sua ess ê ncia interior; deve ser subjetiva no mais alto
sentido imagin á vel; e deve ser absolutamente incomunic á vel.
Tudo isso est á , dec ert o, lo ng e do fa t o de qu e o car á ter a paix ona do
do erotismo, como tal, parece à religi ã o da fraternidade uma perda
indigna do autocontrole e da orienta çã o no sentido da racionalidade e
sabedoria das normas desejadas por Deus ou da “ posse m í stica ” da
sa nt idade.
o tipo de Pbeleza
a ra o, ero tismo,
e sua rejei por
çã oé m, a “ paix
é blasf ã o” a ut ê ntica, per se, const itui
ê mia.
Por motivos psicol ó gicos e de acordo com seu sentido, o del í r io
er ótico s ó es t á em un í ssono com a forma orgi á stica e carism á tica de
religio sida de, qu e, po r é m, n um sentido esp ecia l, é int erio riza da . A a cei -
t a çã o do a to do ma tr im ô nio, da copula carnalis, como “ sacramento ” da
Igre ja Ca t ólica, é uma concess ã o a esse sentimento. O erotismo entra
facilmente numa rela çã o inconsciente e inst á vel de substitui çã o ou
fu s ã o com o misticismo exterior e extraordin á rio. Isso ocorre com a
tens ã o interior muito forte entre erotismo e misticismo. Ocorre porque
s ã o psicologicamente substitutivos. Fora dessa fus ã o, o colapso no or-
giasticismo ocorre muito rapidamente.
O ascetismo voltado para o mundo interior e racional (ascetismo
voc a cio n a l) s ó po de ace ita r o ma tr im ô nio ra ciona lme nt e re gulam enta do .
Esse tipo de matrim ônio é aceito como uma das ordena çõ es divinas
dadas ao homem, como uma criatura inevitavelmente amaldi çoa da em
virtude de sua “ concupisc ê ncia ” . Dentro dessa ordem divina, é dado
ao homem viver de acordo com as finalidades racionais que ela imp õe
e so men t e de a cord o com el a s: proc ria r e educa r os fil hos, e e st imula r-se
mutua mente ao e sta do de g ra ça. Esse ascetismo racional interior deve
rejeitar a sofistica çã o do sexo transformado em erotismo, como uma

1 Es pecial m en te de Guerra e Paz . A posi çã o da religi ã o de salva çã o é fixada com bastante


clareza em Ascvagosha. Incidentalmente, a conhecida an á lise de Nietzsche, em A V ontade
de Poder , es t á , em subst â ncia, perfeitamente de acordo com isso, apesar — e precisamente
devido a eles — dos valores de transvaloriza çã o claramente admitidos.

180
WEBER

ido la t ria do pio r g ê nero. P or sua vez, esse a sc etismo re ú ne a se xuali da de


prim á ria, naturalista e não-subl ima da do c a mpo n ê s, t ra nsfo rma ndo- a
numa ordem racional do homem como criatura. Todos os elementos
da “ paix ã o ” , por é m , s ã o en t ã o cons idera dos res í duo s da Que da . Segundo
Lut ero , D eus, p a ra impe dir o p ior, é tole ra nt e pa ra com esse s el ementos
de paix ã o. O ascetismo racional voltado para o mundo exterior (asce-
tismo ativo do monge) tamb é m rejeita os elementos apaixonados, e
com eles toda a sexualidade, como um poder diab ólico que p õe em
risco a salva çã o. A é tica dos quacres (tal como se evidencia nas cartas
de William Penn à sua mulher) bem pode ter conseguido uma inter-
preta çã o a ut ent ica ment e huma na do s va lores i nt erio res e reli gio so s do
casamento. Sob tal aspecto, a é tica quacre foi al é m da interpreta çã o
luterana, um tanto grosseira, do significado do matrim ônio.
D e um po nt o de vi st a ex clusivam ent e i nt erio r, so ment e a liga çã o
do matrim ônio com o pensamento da responsabilidade é tica de um
pelo outro — da í uma categoria heterog ê nea à esfera exclusivamente
er ótica — pode encerrar o sentimento de que alguma coisa ú nica e
suprema poderia estar encerrada no matrim ônio; que ele poderia ser
a transforma çã o do sentimento de um amor consciente da responsa-
bilidade, atrav é s de todas as nuan ças do processo vital org â nico, “ a t é
o pian í ssimo da velhice ” , e uma ga rant ia m ú tua e uma d ú vida m ú t ua
(no sentido de Goethe). Raramente a vida oferece um valor em forma
pura . Aquele a quem é dado, pode falar da gra ça e fortuna do destino
— e n ã o do seu pr óprio “ m é rito ” .
8. A E sfer a I ntelectual
A rejei çã o de to da a rendi çã o ing ê nua a os modo s ma is i nt ensi vo s
de experimentar a exist ê ncia, art í stica e er ótica, é como tal apenas
uma atitude negativa. Mas é evidente que essa rejei çã o poderia au-
mentar a for ça com que as energias fluem para a realiza çã o racional,
tanto é tica quanto exclusivamente intelectual. Devemos notar, por ém ,
que
em aprinc
t ens í pios,
ã o, a ut oconsci
quando a ent e, da reli
religi gi ã o é a ama
ã o enfrenta ior e do
esfera mais f undamenta da
conhecimento
intelectual.
H á uma unidade no reino da m á gica e na imagem puramente
m á gica do mundo, como observamos no caso do pensamento chin ê s.
Um reconhecimento profundo e m ú tuo e nt re a rel igi ã o e a especula çã o
puramente metaf í si ca ta mb é m é poss í vel, embora em geral essa espe-
cula çã o leve facilmente ao ceticismo. A religi ã o, portanto, considera a
pe squ isa ex clusiva ment e emp í ric a , i nclusi ve a d a ci ê nci a na tur a l, como
mais concili á vel com os interesses religiosos do que a filosofia. Isso
ocorre, acima de tudo, com o protestantismo asc é tico.
A t ens ã o entr e a reli gi ã o e o conhecimento intelectual destaca-se
com clareza sempre que o conhecimento racional, emp rico, funcionou
coerentemente atrav é s do desencantamento do mundo e sua ítransfor-

181
OS ECONOMISTAS

m a çã o num mec a nismo c a usa l. A ci ê nci a enc ont ra , e nt ã o, a s pretens ões


do postulado é tico de que o mundo é um cosmo ordenado por Deus e,
portanto, si gni fi cativo e eticamente orientado. Em princ í pio, a vis ã o
do mundo, tanto emp í rica quanto matematicamente orientada, apre-
se nta ref uta çõ es a qua lquer aborda ge m intele ctu a l que, de a lguma for-
ma , e xi ja um “ significado ” par a a s o corr ê ncia s do mu nd o int erio r. T odo
a umento do raci ona li smo na ci ê nci a emp í ric a le va a rel igi ã o, cada vez
mais, do reino racional para o irracional; mas somente hoje a religi ão
se to rna o po der supra -hum a no irra ciona l o u a nt i-ra ciona l. A s prop or-
çõ es da consci ê ncia ou da coer ê ncia na experi ê ncia deste contraste,
por é m, var iam muito . Ata n á sio vence u co m a sua f ó rmula — to ta lme nt e
absurda quando vista racionalmente — em sua luta contra a maioria
dos fil ósofo s h el ê nico s da é poca ; n ã o pa rece inco n ceb í vel, co mo dis semos,
que entre outras raz ões ele realmente desejasse for çá -los, expressa-
mente, ao sacrif í cio intelectual e a fixar um limite para a discuss ão
racional. Pouco depois, por é m, a pr ópria Trindade foi racionalmente
posta em d ú vida e discutida.
Devido a essa tens ã o aparentemente inconcili á vel, as religi ões
prof é t ica s, be m co mo as sa cerdo ta is, ma nt ive ra m, rep etidam ente, uma
rela çã o í ntima com o intelectualismo racional. Quanto menos misticis-
m o m á gico ou meramente contemplativo, e quanto mais “ doutrina ”
uma religi ã o encerra, tanto maior é a sua necessidade de apolog é tica
racional. Os feiticeiros, em toda parte, foram os deposit á rios t í picos
dos mitos e sagas her óicos, porque participaram da educa çã o e trei-
namento dos jovens guerreiros a fim de despert á -los para o ê xtase
h er óico e a regenera çã o her óica. Para eles o sacrif í cio, como o ú nico
agente capaz de conservar a tradi çã o, substituiu o treina mento da ju-
ventu de na s lei s e, c om freq üê nc ia , ta mb é m na s tec no logias pura mente
a dministra t iv a s e , aci ma de tudo, na es crita e no c á lculo. Quanto mais
a rel igi ã o se torn ou livresca e dout rin á ria, ta nto ma is li ter á ria t orn ou-se
e mais eficiente foi no est í mulo ao pensamento leigo racional, livre do
controle
que eramsacerdotal.
hostis aos Dos pensadores
sacerdotes; bem leigos,
como os por
m é m, sa í ram
í sticos, que os profetas
buscavam
a salva çã o independentemente deles e dos sect á rios; e, finalmente, os
cé ticos e fil ósofos, que eram hostis à f é.
U ma ra ciona li za çã o da apolog é tic a sa cerdo ta l re a giu c ont ra es sa
evolu çã o. O ceticismo anti-religioso, per se, esteve presente na China,
Egito e nos Vedas, na literatura p ós-ex í lica dos judeus. Em princ í pio,
foi exatamente como é hoje; n ã o lhe foi acrescido quase nenhum ar-
gumento no vo . P ort a nt o, a quest ã o cent ra l do poder pa ra o clero pa ssou
a ser a monopoliza çã o da educa çã o dos jovens.
Com a cresc ente ra ciona li za çã o da a dmini stra çã o pol í t ica , o po der
do clero p ôde aumentar. Nos tempos antigos do Egito e Babil ônia,
so ment e o cle ro rec rut a va os esc riba s pa ra o E st a do . O mesmo a cont eceu
com o pr í ncipe medieval, quando a administra çã o baseada em docu-

182
WEBER

ment os t eve in í cio. D os gra ndes sist ema s de pedag ogia , so ment e o con-
fucionismo e o da Antiguidade do Mediterr â neo souberam como fugir
ao poder dos sacerdotes. O primeiro o conseguiu em virtude de sua
poderosa burocracia estatal, e o segundo pela falta absoluta de admi-
nistra çã o burocr á tic a . Com a el imina çã o dos p a dres no setor educ a t ivo ,
a pr ópria religi ã o sacerdotal foi eliminada nesses casos. Com essas
exce çõ es, por é m, os cleros forneceram e controlaram, regularmente, o
pessoal das escolas.
N ã o foram apenas os interesses genuinamente sacerdotais que
provocaram as sempre renovadas liga çõ es entre a religi ã o e o intelec-
tualismo. Foram, tamb é m, a compuls ã o interiorizante do car á ter ra-
cional da é tica religiosa e a busca especificamente intelectualista da
salva çã o. Na verdade, toda religi ã o em sua subestrutura psicol ógica e
int el ect ua l, e na s sua s concl us õ es pr á t ica s, tomo u uma posi çã o diferent e
em rela çã o a o i nt el ect ua lis mo, se m pe rm itir, por é m, que desa pa rec esse
a tens ã o interiorizante ú ltima, pois ela se baseia na disparidade ine-
vit á vel entre as formas ú ltimas das imagens do mundo.
N ã o h á , abso luta mente, ne nhum a rel igi ã o “ coerente ” , f uncio na ndo
como uma for ça vital que n ã o é compelida, em algum ponto, a exigir
o credo non quod, sed quia absurdum — o “ sacrif í cio do intelecto ” .
N ã o é necess á rio, e seria imposs í vel, tratar detalhadamente dos
es t á gios da tens ã o entre a religi ã o e o conhecimento intelectual. A
religi ã o redentora defende-se do ataque do intelecto auto-suficiente. E
a ssi m o fa z, de certo , rigo ro sa mente ba se a da em princ í pi os, fo rm ula ndo
a pretens ã o de que o conhecimento religioso se move numa esfera
dife rent e e que a na t ureza e signifi ca do do conh eciment o rel igio so s ã o
totalmente diferentes das realiza çõ es do intelecto. A religi ã o p retend e
oferecer uma posi çã o ú ltima em rela çã o ao mundo atrav é s de uma
percep çã o direta do “ significado ” do mundo. N ã o quer oferecer o co-
nhecimento intelectual relativo ao que é ou que deveria ser. Pretende
revel a r o sentido do mun do n ã o por meio do intelecto, mas em virtude

de um caos
mitido a ris
quema da iluso
fazem umina çã o. Esse
da respectiva t carisma, ao que
é cnic a e se
se ldiz, s m da
ib erta trans-
ó és subs-
titui çõ es e nga no sa s e e rr ô nea s, a prese nt a da s c omo c onh eciment o pe la s
impress ões confusas dos sentidos e as abstra çõ es vazias do intelecto.
A religi ã o acredita que elas s ã o, na verdade, irrelevantes para a sal-
va çã o. Libertando-se delas, o homem religioso prepara-se para a re-
cep çã o da percep çã o important í ssima do significado do mundo e de
sua pr ópria exist ê ncia. Em todas as tentativas da filosofia de tornar
demonstr á vel esse signific a do ú lt imo, e a posi çã o (pr á t ica ) qu e se se gue
da compreens ã o, a religi ã o redentora v ê apenas o desejo do intelecto
de escapar à sua pr ópria autonomia leg í tima. A mesma opini ã o se
mant é m em rela çã o à s tentativas filos óficas de conseguir o conheci-
mento intuitivo que, embora interessado no “ ser ” da s c oisas, t em uma
dignida de que dife re princ ipalment e da dignida de do conh eciment o re-

183
OS ECONOMISTAS

ligio so. A cima de t udo, a religi ã o v ê t udo isso c omo um produt o espec í fico
do ra ciona lis mo me smo, do qu a l o int el ect ua li smo, por essa s tent a t iva s,
desejaria muito escapar.
A religi ã o da salva çã o, por é m, vista de sua pr ópria posi çã o, deve
se r r es ponsa bi li za da por t ra nsgress õ es igua lment e inc oerentes, t ã o logo
ela abre m ã o da incomunicabilidade inexpugn á vel das experi ê ncias
m í sticas. Quando coerente, essa religi ã o s ó pode ter os meios de pro-
vocar experi ê ncias m í sticas como acontecimentos: n ã o tem meios de
comunic á -las e demonstr á -las de f orma a de qua da . Qu a lque r t enta tiva
de influenciar o mundo levar á a religi ã o m í stica a correr esse perigo,
t ã o logo a tenta tiva a ssuma o ca r á ter de pro paga nda . O mes mo é v á lido
para qualquer tentativa de interpretar o sentido do universo racional-
mente, embora a tentativa tivesse sido repetidamente feita.
Os po st ula dos reli gio sos po dem ent ra r em co nflit o com o “ mundo ”
de diferentes pontos de vista, e o ponto de vista em quest ã o é sempre
de gra nde impo rt â nc ia para a di re çã o e a forma pe las q ua is a “ salva çã o”
ser á buscada. Em todos os tempos e todos os lugares, a necessidade
de salva çã o — cultivada conscientemente como a subst â ncia da reli-
giosidade — resultou da tentativa de uma racionaliza çã o sistem á tica
e pr á tica das realidades da vida. Na verdade, essa conex ã o tem sido
ma nt ida co m gra us var iados de ev id ê nci a : nesse n í vel , toda s a s rel igi ões
exigiram, como pressuposto espec í fico, que o curso do mundo seja, de
a lg uma fo rma , si gni fi cativo, pe lo menos na medida em qu e se rela cione
com os interesses dos homens. Como j á vimos, essa pretens ã o surgiu
naturalmente como o problema habitual do sofrimento injusto, e, da í,
como o postulado de uma compensa çã o justa para a distribui çã o desi-
gual da felicidade individual no mundo. Da í , a pretens ã o tendeu a
progredir, passo a passo, no sentido de uma crescente desvaloriza çã o
do mun do . Qua nt o ma is i nt ensa ment e o pe nsa ment o ra ciona l ocupo u-se
do problema da compensa çã o justa e re tr ib ut iva, t a nt o meno s pa rec eu
poss í vel uma solu çã o totalmente interior e tanto menos prov á vel, ou
mesmoPelo significativa,
que mostramuma as
soluapar çã oê ncias,
exterior.
o curso atual do mundo n ão
teve mui ta rel a çã o com esse po st ula do da compensa çã o. A desigua lda de
etic a mente n ã o-motivada na distribui çã o da felicidade e mis é ria, para
a qual parecia conceb í vel uma compensa çã o, continuou irracional; o
mesmo ocorreu com a simples realidade da exist ê ncia do sofrimento,
pois a difus ã o universal do sofrimento s ó podia ser substitu í da por
outro problema, ainda mais irracional, a quest ã o da srcem do pecado
que, segundo o ensinamento dos profetas e sacerdotes, deve explicar
o sofrimento como um castigo ou um meio de disciplina. Um mundo
cria do pa ra o ex erc í cio do p eca do de ve par ecer a inda menos e t ica ment e
pe rfeito do qu e um m und o condena do a o so friment o. De q ua lquer m odo ,
a imperfei çã o absoluta deste mundo estabeleceu-se firmemente como
um postulado é tico. E a futilidade das coisas mundanas s ó pareceu

184
WEBER

significativa e justificada em termos dessa imperfei çã o. Essa justifica-


çã o, por é m, parecia adequada a uma desvaloriza çã o maior do mundo,
pois n ã o era apenas, e nem mesmo primordialmente, o indigno que se
mo stra va tra nsi t ó rio . O f a to de que a mo rt e e a ru í na , com seus efe itos
niveladores, superavam os bons homens e as boas obras, bem como as
m á s, p a rec ia uma dep rec ia çã o p rec isa ment e do s va lores supremos deste
mundo — uma vez concebida a id é ia de uma dura çã o perp é tua do
tempo, de um Deus eterno e de uma ordem eterna. Em face disso, os
valores — e precisamente os mais apreciados — foram consagrados
como sendo “ intemporalmente ” v á lidos. Da í a significa çã o de sua rea-
liza çã o na “ cultura ” ter sido considera da indepe ndent e da dura çã o t em-
poral de sua concre çã o. Com isso, a rejei çã o é tica do mundo emp í rico
p ôde ser intensificada, pois a essa altura poderia surgir no horizonte
religioso uma seq üê ncia de pensamentos de muito maior significa çã o
do que a imperfei çã o e futilidade das coisas mundanas, porque essas
coisas deviam denunciar precisamente os “ valores culturais ” que ha-
bitualmente se colocam mais alto.
Esses valores encerravam o estigma do pecado mortal, de uma
culpa inevit á vel e espec í fica. Mostraram-se condicionados ao carisma
da ment e ou do gosto . S eu c ultivo p a rec eu pressup or, inevita vel ment e,
modos da exist ê ncia que v ã o contra a exig ê ncia de fraternidade e que
s ó poderiam ser adaptados a esta exig ê ncia pelo auto-engano. As bar-
reiras da educa çã o e do cultivo est é tico s ã o as mais í ntimas e mais
insuper á veis de todas as diferen ças de estamento. A culpa religiosa
podia surgir, agora, n ã o s ó como uma concomitante ocasional, mas
como uma par te i nt egra l de toda a cultura , de toda co ndut a num mun do
civilizado e, finalmente, de toda a vida estruturada em geral. E com
isso os valores ú ltimos que este mundo oferecia pareceram onerar-se
da maior culpa.
Sempre que a ordem ex terna da comunida de so cial se tr a nsfo rmou
na cultura da comunidade do Estado, evidentemente ela s ó podia ser
mantida pela for e,çde
e ocasionalmente, a bruta, que modo,
qualquer s se interessava
ó apenas pelaem
na medida justi
que as ça nominal
r a z õ es de Estado permitiram. Essa for ça alimentou, inevitavelmente,
novos atos de viol ê ncia contra os inimigos externos e internos; al ém
disso , fo ment ou pretextos deso nest os par a t a is a t os. Da í ter signific a do
uma aus ê nci a de a mo r cl a ra ou, o que é pi or, fa risa ica mente disf a r çada.
O cosmo econ ô mico rotinizado, e assim a forma racionalmente mais
elevada de provis ã o dos bens materiais, indispens á veis para toda a
cultura mundana, foi uma estrutura a que a aus ê ncia de amor est á
ligada desde a raiz mesma. Todas as formas de atividade no mundo
estruturado pareceram envolver-se na mesma culpa.
A brutalidade velada e sublimada, a idiossincrasia hostil à fra-
ternidade, bem como as modifica çõ es ilusionistas de um senso de pro-
por çã o justo, acompanharam inevitavelmente o amor sexual. Quanto

185
OS ECONOMISTAS

mais poderosamente se desdobram as for ças do amor sexual, menos


el a s s ã o pe rce bida s pe los pa rt icip a nt es e ma is ve la da s s ã o de um modo
farisaico. A religiosidade é tica recorreu ao conhecimento racional, que
seguiu suas normas aut ônomas e interiores. Deu forma a um cosmo
de verdade que j á nada tinha a ver com os postulados sistem á ticos de
uma é tica religiosa racional; resultou disso que o mundo como um
cosmo deve sa t isfa zer à s exig ê nc ias de uma é t ica reli gio sa ou demons-
trar algum “ sentido ” . Pelo contr á rio, o conhecimento racional teve de
rej ei ta r es sa pre tens ã o, em princ í pio. O cosmo da causalidade natural
e o cosmo po st ula do da ca usa lida de é t ica , compensa t ó ri a , man tiv era m-
se em oposi çã o inconcili á vel.
A ci ê ncia criou esse cosmo da causalidade natural e pareceu
inc a paz de resp onder, co m cert eza , à quest ã o de sua s pressupo si çõ es
ú ltimas. N ã o obstante, ela, em nome da “ integridade intelectual ”,
arrogou-se a representa çã o da ú nica forma poss í vel de uma vis ã o
racional do mundo. O intelecto, como todos os valores culturais,
criou uma aristocracia baseada na posse da cultura racional e in-
dependente de todas as qualidades é ticas pessoais do homem. A
a rist ocra cia do int el ec to é , p orta nt o, uma a risto cra cia n ã o-fraternal.
O homem do mundo considera a posse da cultura o maior bem.
Al é m do peso da culpa é tica, por é m, alguma coisa mais acresceu-se
a esse valor cultural, que estava destinada a depreci á -lo de forma
ainda mais conclusiva, ou seja, a falta de senso — se julgarmos
esse valor cultural em termos de seus pr óprios padr õ es .
A perfei çã o puramente interior do eu de um homem de cultura,
e da í o valor ú ltimo a que a “ cultura ” parece ser redut í vel, n ã o tem
sentido p a ra o pe nsa ment o reli gio so . Isso se se gue, p a ra o pe nsa ment o
religioso, da evidente falta de sentido da morte, precisamente quando
enc a ra da do p ont o de vis ta do mundo i nt eri or. E , na s co ndi çõ es mesma s
de “ cultura ” , a morte absurda parece apenas deixar a marca decisiva
sobre o absurdo da pr ópria vida.

senhorOdecampon
terras e êos, her
como Abra ã o, podia
ói guerreiro morrer
feudais podiam“ saciado da vida ” . O
fazer o mesmo,
pois ambos cumpriam um ciclo de sua exist ê ncia, al é m do qual n ã o
alcan çavam. Cada qual, a seu modo, podia alcan çar a perfei çã o do
mundo interior em conseq üê nc ia da clareza ing ê nua da sub st â ncia de
sua vida. Ma s o home m “ culto ” , que l uta para se a pe rfe i çoa r, no sentido
de adq uirir o u c ria r “ valores culturais ” , n ã o pode fa zer isso. P ode “ can-
sar-se da vida ” , mas n ã o pode “ saciar-se da vida ” , no sentido de com-
pletar um ciclo. A possibilidade de aperfei çoamento do homem de cul-
t ura pro gride indefi nida ment e, ta l como o corre co m os va lores c ultu ra is.
E o segmento que o recipiente individual e passivo, ou o co-construtor
ativo, pode abarcar no curso de uma vida finita, se torna mais insig-
nificante na medida em que mais variados e m ú ltiplos se tornam os
valores culturais e as metas do auto-aperfei çoamento. Da í o condicio-

186
WEBER

namento do homem a este cosmo externo e interno de cultura tornar


menos prov á vel que o indiv í duo possa absorver a cultura como um
t odo ou a qu ilo qu e, em qua lquer sent ido , é “ essencial ” na cultura . Al é m
disso, n ã o h á crit é rio para julgar este ú ltimo, tornando-se assim cada
vez menos prov á vel que a “ cultura ” e a luta pela cultura possam ter
um significado do mundo interior para o indiv í duo.
A “ cultura ” do indiv í duo c erta mente n ã o consiste na quantidade
dos valores culturais que ele re ú ne , mas numa seleção desses valores.
Mas n ã o h á garantia de que ela tenha chegado ao fim que seria sig-
nificativo para o indiv í duo precisamente no momento “ acidental ” de
sua morte. Poderia mesmo voltar as costas à vida, com um ar de dis-
t in çã o: “ Tenho o bastante — a vida ofereceu-me (ou negou-me) tudo o
que tornava a exist ê ncia valiosa para mim” . Essa atitude orgulhosa
parece, à religi ã o de salva çã o, uma blasf ê mia desdenhosa dos modos
de vida e destinos ordenados por Deus. Nenhuma religi ã o redentora
aprova positivamente a “ morte pelas pr óprias m ã os ” , ou seja, a morte
que s ó foi consagrada pelas filosofias.
Vis ta de ssa forma , a “ cultura ” surge como a emancipa çã o do ho-
mem em r el a çã o ao c iclo da vida na t ura l, o rga nic a mente presc rito. P or

essa raz ã o mesma, cada passo à frente da cultura parece condenado


a levar a um absurdo ainda mais devastador. O progresso dos valores
culturais, por é m, parece tornar-se uma agita çã o insensata a servi ço
de fi na li da des indigna s e , ainda ma is, a utoc ont ra dit óri a s e mu tua me nte
antag ônic a s. O pro gresso dos va lores c ultur a is p a rec e aind a ma is inse nsa t o
quanto mais ele é tomado como uma tarefa sagrada, uma “ voca çã o” .
A cultura torna-se cada vez mais um centro absurdo de imper-
fei çã o, de injusti ça, de sofrimento, pecado, futilidade, pois é necessa-
ria ment e so brec a rrega da de c ulpa , e seu desdo bra ment o e dif erenc ia çã o
torna m-se a ssi m, nec es sa ria mente, ainda ma is inse nsa tos. De um po nt o
de vista puramente é tico, o mundo deve parecer fragment á rio e sem
va lor sempre q ue j ulga do à luz d o post ula do religio so de um “ significado ”
divino da exist ê ncia. Essa desvaloriza çã o resulta do conflito entre a
pretens ã o racional e a realidade, entre a é tica racional e os valores
em parte racionais e em parte irracionais. A toda constru çã o da na-
tur ez a es pe c í fic a de c a da esfe ra esp ecia l exi st ent e no mun do , esse c on-
flito parece destacar-se cada vez mais e de forma mais insol ú vel. A
necessidade de “ salva çã o” co rrespo nde a essa desva loriza çã o vo lta ndo-
se c a da ve z ma is p a ra o outro mundo , ma is ali enada de to da s a s fo rma s
estruturadas de vida, e, num paralelo exato, confinando-se à es s ê ncia
religiosa espec í fica. Essa rea çã o ser á tanto mais forte quanto mais
sistem á tico o pensamento sobre o “ significado ” do universo se torna,
e quanto mais racionalizada é a organiza çã o externa do mundo, tanto
mais é sublimada a experi ê ncia consciente do conte ú do irracional do
mundo. E n ã o s ó o p ensa mento te óric o, dese nca nt a ndo o mun do , le va va

187
OS ECONOMISTAS

a essa situa çã o, mas ta mb é m a pr ópria tentativa da é tica religiosa de


racionalizar pr á tica e eticamente o mundo.
As tentativas m í sticas e intelectuais espec í ficas de salva çã o em
face dessas tens ões sucumbiram por fim ao dom í nio mundial da n ã o-
fra ternida de. P or o utr o lado, s eu c a risma não é acess í vel a todos. Da í ,
em inten çã o, a salva çã o m í stic a signi fi ca , defi nida mente, a risto cra cia;
é uma religiosidade aristocr á tica da reden çã o. E em meio de uma cul-
tura que é ra ciona lme nte o rga nizada para uma vi da vo ca ciona l de tra -
ba lho c ot idia no, dif icilme nt e ha ver á lugar pa ra o cul tivo da frat erni da de
a có smica, a menos que seja entre as camadas economicamente des-
preocupadas. Sob as condi çõ es t é cnicas e sociais da cultura racional,
uma imita çã o da vi da de B uda , J esus o u S ã o Francisco parece conde-
nada por motivos exclusivamente externos.

9. As T r ês F or mas da T eodi céi a

As é ticas de reden çã o individual do passado que rejeitaram o


mundo a pl ica ra m essa rej ei çã o a pontos muito diferentes dessa escala
constru í da de fo rma pura mente ra ciona l. Isso dep ende u de num ero sa s
circunst â ncias concretas que n ã o podem ser verificadas por uma tipo-
logia te órica. Al é m dessas circunst â ncias, um elemento racional de-
sempenhou seu papel, ou seja, a estrutura de uma teodi céi a especial.
A nec essi da de meta f í sic a respo nd eu à co n sci ê nci a de tens ões exi st ent es
e insuper á ve is, e, a tr a v é s da teo dic é ia , e la t entou enc ont ra r um sentido
comum apesar de tudo.
En tre o s tr ê s t ipo s de t eodic é ia q ue j á 1 designa mos c omo a s ú nicas
coerentes, o dualismo bem poderia servir a tal necessidade. Afirma
ele que os poderes da luz e verdade, pureza e bondade coexistem e
entram em conflito, sempre, com os poderes das trevas e da falsidade,
imp ure za e ma l. Em ú ltima a n á lise, este dualismo é apenas uma sis-
tematiza çã o direta do p lura lismo m á gico dos esp í rit os, co m sua divis ã o
em esp í ritos bons ( ú t ei s) e ma us ( da ninh os), qu e rep resenta m est á gios
preliminares do antagonismo entre divindades e dem ônios.
O zoroastrismo foi a religiosidade prof é tica que mais coerente-
mente realizou essa concep çã o, e da í ter o dualismo principiado com
o contraste m á gico entre o “ puro ” e o “ impuro ” . Todas as virtudes e
v í cios estavam integrados neste contraste, que envolvia a ren ú ncia à
onipresen ça de um deus cujo poder estava, na verdade, limitado pela
exist ê ncia de um grande antagonista. Os seguidores contempor â neos
(os parses) na realidade abandonaram essa cren ça porq ue n ã o podiam
tolerar sua limita çã o do poder divino. Na escatologia mais coerente, o
mundo da pureza e o mundo da impureza, de cuja mistura emanou o
mundo emp í rico fragment á rio , sep a ra m-se rep etida ment e em do is rei-

1 C f. n ot a 5 9 ac im a.

188
WEBER

nos à parte. A esperan ça escatol ó gica mais moderna, por é m, faz que
o deus da pureza e da benevol ê ncia ven ça, tal como o cristianismo faz
qu e o S a lva do r t riunfe so bre o ma l. A form a ma is c oerente de dua lis mo
é a concep çã o popular mundial do c é u e inferno, que restabelece a
soberania de Deus sobre o esp í rito do mal, que é Sua criatura e com
isso a credita qu e a onipo t ê nci a divi na es t á sa lva. Ma s, c om r el ut â ncia,
deve ent ã o, abertamente ou n ã o, sacrificar parte de seu amor divino.
Se mantida a onisci ê ncia, a cria çã o de um poder de mal radical e a
admiss ã o do pecado, especialmente em comunh ã o com a eternidade
dos castigos do inferno para uma das pr óprias criaturas finitas de
Deus, e para pecados finitos, simplesmente n ã o corresponde ao amor di-
vino. Nesse caso, somente uma ren ú ncia da benevol ência tem coer ência.
A cren ça na predesti nação realiza essa ren ú ncia, de fato e com
plena coer ê nci a . A rec onh ecida inc a pa cida de do homem em esc rut iniza r
os caminhos de Deus significa que ele renuncia numa clareza sem
amor à acessibilidade do homem a qualquer significado do mundo.
Esta re n ú ncia encerrou todos os problemas desse tipo. Fora do c í rculo
de virtuosos eminentes, a f é nesta coer ê ncia n ã o teve dura çã o p erma -
nente. Isso ocorreu porque a f é na predestina çã o — em contraste com
a f é no poder irracional do “ destino ” — exige a suposi çã o de uma
destina çã o providencial, e portanto um pouco racional, do condenado,
n ã o s ó à desgra ça, mas ao mal, embora exigindo a “ puni çã o” do con-
denado e, com isso, a aplica çã o de uma categoria é tica.
Tratamos da significa çã o da f é na predestina çã o [em outro local]. 1
Mais t a rde e xam ina remo s o du a lismo z oroa stria no, e rapi da mente a penas
— porq ue o n ú mero de crentes é pequeno . P oderia ser t ota lme nt e omit ido,
se n ã o fosse a influ ência das id éias persas de ju í zo final, bem como a
doutrina dos dem ônios e anjos, at é o juda í smo recente. Devido a essas
influ ências, o zoroastrismo é de consider á vel significa çã o hist órica.
A terceira forma de teodic é ia que vamos discutir foi peculiar à
religiosidade dos intelectuais indianos. Destaca-se em virtude de sua
coer ê nci a , be m co mo p el a sua ex t ra ordin á ria rea li za çã o meta f í sic a : une
a auto-reden çã o do homem, semelhante à do virtuoso, com a acessibi-
li da de unive rsa l à salva çã o, a mais rigorosa rejei çã o do mundo com a
sua é tic a org â nica social, e a contempla çã o como o caminho mais des-
tacado para a salva çã o com uma é tica vocacional do mundo interior.

1 A É tica Pr otestante e o E spí rito do Capitalismo.

189
Í NDICE

WEBER — Apresenta çã o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
Cr onol ogia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
B ib li ogra fi a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

PARLAMENTARISMO E GOVERNO NUMA ALEMANHA


RECONSTRU Í DA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
á
Pref
I — Oci o . . .do. .de
le ga . . .B
. .is. .ma
. . .rc. .k. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .... .. . ..... . ... .. . ..... . . 23
29
I I — Burocracia e lideran ça pol í tic a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
1. B ur ocr aci a e pol í tica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
2. As r eali dades da polí tica partid ária e a fal áci a do E stado
Corporativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
3. B ur ocr atização e a ingenui dade dos crí ticos . . . . . . . . . . . . . 46
4. As limita ções polí ticas da burocracia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
5. O papel limitado do monarca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
6. Parlamentos fracos e fortes, polí tica negativa e positiva . .. 55
7. A s fr aquezas consti tucionai s do R ei chstag e o pr oblema
da lideran ça . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
III — O direitopol
l í deres a inqu
í tic os é. rito
. . . .parlamentar
. . . . . . . . . . . e. .o. .recrutamento
. . . . . . . . . . . . de
. . . . 65
1. S uper vi são efi caz e a base de poder de burocracia . . . . . . . 66
2. O parlamento como campo de provas para lí der es
polí ticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
3. A i mpor tância das comissões parlamentares na guerra
e na paz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
4. Crises internas e a falta de lideran ça parlamentar . . . . . . . 73
5. Pr ofi ssi onali smo parlamentar e di r ei tos adqui r i dos . . . . . . . 76
I V — Burocracia e pol í tic a exte rna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
1. O fr acasso do gover no em não refrear declarações
prejudi ci ais do monar ca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
2. R estr i ções parlamentares e legais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
V — Governo parlamentar e democratiza çã o . . . . . . . . . . . . . . . . 97

191
OS ECONOMISTAS

1. S ufr ági o uni ver sal e par lamentar i smo . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97


2. O impacto da democratização da organiza ção e li der ança
dos partid ários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
3. Democratização e demagogi a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104
4. Lideran ça plebiscitária e controle parlamentar . . . . . . . . . . 107
5. A per specti va da li der ança eficaz na Alemanha de
pós-guer r a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115

CA P ITALISMO E SOCIE DA DE RU RAL NA ALEMA NHA . . . . 119


O CAR ÁTER NACIONAL E OS “ JUNKERS ” . . . . . . . . . . . . . . . . 143

REJEI Ç Õ ES RELIGIOSAS DO MUNDO E SUAS


DIRE Ç Õ E S . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 155
1. M oti vos par a a r ejei ção do mundo: o significado de sua
constru ção racional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157
2. Tipologia do ascetismo e do misticismo . . . . . . . . . . . . . . . . . 158
3. Dire ções da renú ncia ao mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 160
4. A esfer a econ ômica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164
5. A esfer a pol í tica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 166
6. A esfer a estética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 172
7. A esfer a er ótica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 175
8. A esfer a i ntelectual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 181
9. A s tr ês for mas da teodi céi a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 188

192

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