Você está na página 1de 26

“Eu sempre imaginei que aquilo aconteceria longe de mim.

Que eu nunca seria afetada.

Fui traída pelos meus próprios desejos.”


Prólogo:
Naquele momento, eu me vi andando dentro de um Templo em ruínas, com a minha máscara repleta
de sangue, que pelo que percebi, percorriam todo o meu corpo.
Eu estava solitária, chorando ao meio de corpos que me rodeavam. Rostos que eu não conhecia. Meu
outro eu não me encarava, ignorando minha presença em meio ao choque e descrença.
— O que houve? — eu perguntei a réplica de mim. Ela estava com um olhar tão vazio que tomou todo
o meu o ar de meus pulmões. Sabia que aquilo não era real, apenas um sonho, mas a dor que seu
apossou de mim era muito real.
Uma música ressoou naquele momento. Como se fossem anjos, que finalmente vieram me buscar. Vi-
me deitar ali e esperar por alguma misericórdia, mas ninguém veio me buscar.
Andei até ela, com as pernas fracas. De alguma maneira, estávamos conectadas. Pela dor e pela
destruição. Estaria eu, contemplando a minha morte?
Quando a toquei, seus olhos me encararam e eu acordei.

A manhã estava silenciosa. Minha noite havia sido abismal e a máscara parecia ainda mais pesada em
meu rosto. Habitualmente, eu sempre acordava girando de alegria, pronta para as minhas atividades e
para encher minhas mãos ainda mais de calos, mas não naquele dia.
— Você está bem, Vallen? — Perguntou minha irmã mais nova, Kathleen, enquanto arrumava os
lençóis. O que eu poderia dizer?
— Mas é claro. Só estou cansada. Os animais me deram um bocado de trabalho ontem — inventei. De
fato, um dos cavalos havia fugido, mas só estava a cinco minutos de distância. Não havia sido tão
desesperador, mas eu queria evitar perguntas.
— Eu também estou — reclamou Amarie. Ela estava tentando competir comigo logo de manhã? —
Os vestidos estão prontos para entrega em perfeito estado, ao menos. Além do mais, ainda preciso me
preocupar com o casamento. Não é algo para muitas, é um privilégio. Eu realmente amo fazer essas
coisas!
Fechei os olhos, ignorando a pontada em meu coração. Eu estava feliz por minha irmã, porém, ao
mesmo tempo, não estava. Odiava essa parte de mim, fraca e ignóbil, mas muitas vezes, que não me
deixava ser inteiramente feliz por ela.
Ela foi moldada por minha mãe, isso era algo que precisava me lembrar todos os dias. Amarie quando
era criança, possuía sonhos encantadores ao invés de ambições desmedidas.
Mas éramos todas crianças.
No entanto, meus sonhos não mudaram.
Terminei de cobrir minha cama com a coberta e desci com minhas irmãs para o café da manhã. Minha
mãe, como sempre, nos esperando em seu formal traje preto e o chapéu sob a cabeça. Ela usava isso
desde a morte de nosso pai, há cinco anos. Desde então, ela nunca mais foi a mesma. Vestia-se com a
mesma roupa todos os dias, independente do cheiro ou do que os outros iriam pensar. Sua máscara era
diferente da nossa, por ser uma matrona. Elas eram moldadas por um material diferente do nosso, mas
eu não sabia qual era. Ela nunca nos disse.
Eu sentia falta dela, mesmo ela estando ali à minha frente. Sua essência toda tinha se esvaído e tudo o
que o lhe sobrou foi uma casca vazia.
Vi que seus olhos foram diretamente para Amarie, e sabia que seria assim por muitos dias, desde que
ela anunciara que estava noiva. Ela se casaria com um artesão rico e finalmente teria a vida que
achava que merecia. Desde criança, ela lia livros e dizia que queria um príncipe belo para que a
resgatasse da pobreza e imundice. Eu nunca falava nada. Nunca sabia o que dizer. Gostava do meu lar
atual e tomava banho todos os dias.
— Eu gostaria de te mostrar como está ficando o seu vestido de noiva — mamãe começou e percebi
que seu tom estava altivo. Ela estava ansiosa com isso. Desejava que fossemos felizes, desde que
arranjássemos de alguma maneira, alguém que possuía alto valor monetário em seus bolsos.
Minha irmã riu com desdém. Kathleen correu para pegar pão fresco, ignorando totalmente o assunto.
Ela, tão cedo, batia o pé em relação a casamento. Não a julgava. Eu mesma não sabia o que sentir em
relação a isso.
— Mãe, isso não é necessário. Edwin já providenciou e quer que tudo seja perfeito. Ele tem grande
influência com o Rei, então, tem uma grande responsabilidade em mãos. Ele irá providenciar os
melhores vestidos para que eu escolha. Não se preocupe.
Fui pegar um pão, e ouvi minha mãe pigarrear.
— Bom, eu ia te dar o meu vestido, porém, mais elaborado...
— Já disse que ele vai me dar um vestido. A senhora deveria guardar o seu para si. Uma lembrança,
sabe?
Silêncio. Sabia que minha mãe não havia gostado nada disso. Ela queria mimar Amarie até ela se
sufocar.
— Sim, uma lembrança...
Kathleen, com a boca cheia de comida, virou-se para mim. Retirei a grade da boca da minha máscara
para que pudesse comer.
— Você sabe quando iremos conhecê-lo? Amarie ainda não disse nada...
— Em breve, eu creio. Ouvi que estavam planejando que fôssemos a casa dele para um chá.
— Isso parece maçante.
Sorri e fiz uma menção para que falasse mais baixo. Amarie se sentou ao meu lado e mamãe a minha
frente. Havíamos tido um bom começo de manhã, tranquilo e de poucas palavras, acalentando o meu
interior que desejava solidão.
Mesmo não admitindo, olhando para minha irmã, cujo o rosto eu nunca iria ver, no entanto eu
carregava o sentimento de amor comigo — o que era mais importante — não desejava que fosse
embora. Como mais velha, ainda me sentia responsável por ela, mesmo ela sempre negando tal coisa.
Iria vê-la indo embora sem nunca conseguir entendê-la.
Ajudei minha mãe com os afazeres de casa, enquanto Kathleen lia e Amarie bordava algo para sua
nova futura casa. Quando finalmente pude ter um momento de paz, apenas meu para repensar meu
sonho e outras coisas cujas partes estavam fragmentadas, ouvi as quatro baladas do sino. Tão alto e
tão próximo.
Uma morte de uma mulher.
Segurei a máscara com ainda mais força sobre o meu rosto, temendo que ela se soltasse.
Capítulo 2
A primeira vez que senti medo, eu fiquei no meu quarto, encolhida dentro do meu cobertor. Não
queria acordar ninguém, pois sabia que aquele medo não fazia sentido. Uma sombra fantasmagórica e
que apenas eu via. Minhas irmãs, dormiam ao meu lado e sabia que se tentasse acordá-las, nem uma
delas me daria atenção. Então, eu me concentrei em transformar aquela sombra em algo bonito. Uma
flor, talvez. Porém, a dor de cabeça me invadiu e logo eu dormi. Nunca saberei o que havia me
visitado.
Mais tarde, ressoam os sinos, fazendo com que meus pelos se arrepiem e minha mente entra em
pânico. Sentia que a qualquer momento, minha máscara poderia cair de meu rosto e eu seria a
próxima a ir enforcada.
E poderia machucar pessoas.
Naquele momento, desejei correr para minha mãe, mas ela não seria de grande ajuda. Da última vez
que fui pedir auxílio por não conseguir dormir, ela apenas me disse que mulheres não deveriam sentir
medo. Que podemos sentir tudo menos medo, pois sabemos que sempre algo ruim vai acontecer e o
medo só faz nos sentirmos pior.
Então eu me enrolei novamente no cobertor, esperando que os sons fossem embora da minha cabeça.
Apenas a mera visão minha, de machucar alguém, deixa-me enjoada. Mas não era só isso. Guardava
coisas em meu coração que estava se tornando uma bola de neve. Eu havia fugido uma vez. Fugido da
morte.
Quando eu completei dois anos de vida, colocaram a máscara como uma promessa de segurança, a
mim e a todos da minha família. Todas as mulheres eram obrigadas a usar, por seus corpos serem
considerados de alto perigo. Nunca me contaram o porquê, mas também nunca questionei. A máscara
era feita de aço e ela moldava ao meu rosto de acordo com meu crescimento.
Minha mãe não era uma mulher de conversa. Ela apenas dizia que era necessário e que devíamos
seguir as regras que nos foram impostas, então, eu me conformei. Com o passar dos anos, a máscara
não me incomodou mais. Até um tempo atrás em que decidi tirar, mas logo, arrependi-me.
Depois que descobri que mulheres morriam por conta de suas máscaras, a paranoia tomou conta de
mim. Achava que a qualquer momento alguém a arrancaria de mim ou eu mesma faria isso. No
entanto, uma pessoa me importava. E eu não sabia se ela estava morta ou não. Talvez, eu nunca saiba.
— Querendo dormir novamente? Bom, é melhor você ir se vestir. Edwin quer nos ver. Um cocheiro
acabou de chegar.
— Mas já? Por que não me avisou com antecedência? — Minha saiu alta e estrangulada. Queria ficar
completamente sozinha, mas isso parecia algo impossível.
— Bom, eu também não sabia, se isso a faz se sentir melhor. Ele simplesmente mandou o cocheiro
aqui e como ele é meu marido, é necessário que eu o obedeça.
-*-

— Ele faria o que você pedisse? — Soei tola.


— Não sei. São sempre os homens que mandam no casamento... — Ela parou para pensar e deu de
ombros e abanou as mãos para mim com veemência. — O que importa é que estarei cercada de luxo.
Poderia beijar seus pés se me pedisse. Agora, apresse-se. Vou esperar lá embaixo.
Fiquei apenas parada, esperando que aquilo fosse mentira. Poderia ter se passado segundos, mas
pareciam horas. Enquanto eu me esforçava em fazer meus membros funcionarem, escolhi um vestido
discreto, pois não deveria chamar muita atenção do noivo. Era proibido nessas épocas de junções de
famílias, qualquer mulher - além da que fosse se casar – chamasse atenção. Amarie devia ser única a
ser aclamada com os olhos.
Meus cabelos estavam presos e o meu vestido era sufocante. Desci e as encontrei falando com o
cocheiro. Entramos e fomos.
Ali, pude comtemplar minha cidade cinzenta, sentindo olhares sob nossa carruagem um tanto
extravagante. Poderia já anotar, mesmo que antecipadamente, uma nota sobre a personalidade de
Edwin. Ele gostava de ostentar.
Amarie não parava de tagarelar e Kathleen, surpreendentemente, dormia. Como sempre, eu estava
excluída da conversa, já que não tinha nada a acrescentar.
Quando chegamos, visualizei pedras no lugar de mato e areia. Havia feirinhas em alguns cantos
isolados, cavalos e pessoas cantarolando. Um universo desconhecido para mim, pois parecia um
pouco mais colorido. Havíamos atravessado uma estrada com algumas casinhas e de repente, um
mundo de pedras se abriu para nós, expandindo ainda mais o meu pequeno conhecimento sobre o
lugar que vivia.
Assim que chegamos a uma enorme residência robusta e antiga, bem no fim daquela pequena vila,
descemos. Eu me sentia nervosa e minhas mãos soavam, porém, quando eu fui limpá-las rapidamente
na minha roupa, vi o vestígio de sangue sobre elas. Escorrendo lentamente pelos meus dedos.
— Você está fazendo um escândalo! — Minha mãe segurou com força as minhas mãos; suas unhas
cravadas na minha carne.
Não percebi que estava gritando até então.
— Eu... Eu estava sangrando...
— Você está nos envergonhando! Oh, ai vem Edwin! — Minha irmã simplesmente correu para seu
futuro marido e minha mãe, deixando-me com um olhar de reprovação fulminante. Recuei, ainda
abalada pela visão que tive.
— O que você tem?
— N-nada... Eu acho que... — Não sabia mentir. As palavras estavam emboladas na minha cabeça e
eu de repente, comecei a chorar. Percebi que Amarie e mamãe chamavam Kathleen e a mim, mas
minha irmã caçula havia pedido para que esperassem.
— Se não entrarem agora, ficarão aí até a hora de ir embora!
Nenhuma de nós nos mexemos. Eu sabia que deveria deixar minha irmã ir, mas naquele momento,
não tinha forças nem para isso. Sentia que o peso disso viria à noite junto com as broncas de nossa
mãe. Algumas chibatadas, talvez. Fazia anos que ela não fazia tal coisa. Aliás, estava segura de que
ela não faria isso com sua filha mais nova e predileta, depois de Amarie. Kathleen estava a salvo.
Caminhei e sentei em uma rocha que estava em frente ao jardim, sentindo-me pior do que antes, pois
agora o casamento da minha irmã estava em risco. Mais lágrimas me faziam afogar naquela máscara e
eu senti uma vontade desesperadora de tirá-la.
— O que está acontecendo? — Ela simplesmente pergunta. Ela era observadora e provavelmente,
andava analisando o meu eu dos últimos dias.
Porém, não sabia como respondê-la. Era impossível, pois tudo estava voltando. A culpa, visões
desconhecidas... Sangue que nunca esteve ali. Será que estava enlouquecendo?
— Você anda com oscilações de humor, além de que... Não se alimenta como antes e sempre grita a
noite.
— Desculpe... Eu ando estressada e com muitos pensamentos. Pensamentos que não vão embora
nunca.
— Que tipo de pensamentos?
— Eu tenho medo... Amarie está seguindo com a vida dela, enquanto eu... Eu estou empacada e não
quero viver com mamãe até envelhecer... Quero ver cores! Como as que vi, as que estou vendo agora!
Porém, meu passado não vai me largar! Eu estou sofrendo consequências dos meus atos!
— Eu não entendo... — Ela parecia transtornada pelo meu tom de voz.
— Eu quero encontrar algum sentido... Eu ando tendo...
Não consegui terminar. Não podia.... O barulho do sino ressoava em minha mente, repetidamente. Eu
a amava demais e se a perdesse...
— Você está com aquele olhar de novo. Parece perdida.
Eu realmente estava. Perdida, ali, em frente da grande casa do noivo da minha irmã, conversando
sobre coisas que nem deveria, sentindo-me mais sozinha do que nunca.
De repente, uma borboleta, pequena e roxa pousou sobre o meu dedo. Não me assustei com sua
presença, pois foi até reconfortante. Não sabia o que ela significava, mas estando ali com minha
melhor amiga, reservei aquele momento no meu coração.
— Eu não consigo te entender, minha irmã, mas saiba que eu sei que você é forte com qualquer coisa.
Minha irmã sorria, por trás de sua máscara, eu conseguia ver um vestígio. Eu nunca veria seu rosto?
Eu não deveria pensar isso. Deveria ser grata por estar viva. Por tê-la ao meu lado.
— Por que acha isso?
— É um pressentimento bom que tenho em relação a você. Tem uma alma boa. Uma alma boa merece
boas experiências.
— Almas não existem. Não para mulheres — Sussurrei, exasperada com o rumo que a conversa
estava tomando. E se alguém nos ouvisse?
— Ah, mas não é o que eu acredito! — Ela sorriu simplesmente, dando de ombros. — Há algo mais
por detrás de nosso corpo. Dessa máscara. Mas nunca vão nos contar...
Decidi mudar de assunto. Os sons do sino me alertavam.
— Eu deveria ter entrado... Por Amarie. Por seu futuro.
— Ele não vai matá-la, relaxe. Talvez mamãe mate você depois, mas nada tão grave.
Eu sorri e a borboleta voou. Conseguia me sentir mais leve. Tudo ao lado de Kathleen era mais leve.
Ela era tão inocente e ao mesmo tempo, tão sábia.
— Bom, aí estão eles!
Eles caminhavam lentamente. Com seus olhares orgulhosos e felizes, avistei Edwin. Um homem
corpulento e com um rosto levemente corado e uma terrível cicatriz que ia desde testa até a boca. Um
de seus olhos eram de uma coloração diferente e sua vestimenta, impecável. Parecia ser
completamente intimidador. Não consegui ver nenhuma semelhança com o homem que minha irmã
sonhava quando criança. Ele parecia ruim, mas aquilo era só um pressentimento.
Eu havia jurado não fazer julgamentos precipitados, mas estava falhando miseravelmente.
— Bom, minhas irmãs são tímidas demais, ainda mais na presença de alguém notoriamente famoso
por aqui. Elas começam a tremer! — Amarie e minha mãe riram.
— É um prazer conhecê-las.
Fizemos uma reverência formal.
— O mesmo, Senhor.
Mesmo com o brilho estranho em seus olhos, ele parecia... adorar Amarie. Sorria com afeição a ela,
pelo menos, era o que aparentava ser.
Conversamos sobre o casamento e logo, estávamos na carruagem novamente. O calor logo me
abandonaria. Kathleen segurou minha mão e eu senti que ela apenas queria que eu me sentisse menos
sozinha. Sorri verdadeiramente para ela. Precisava ver as coisas pelo lado positivo. Minha irmã se
casaria, minha família iria se ascender novamente e talvez mais unidos do que nunca.
Não obstante, ainda podia sentir o olhar de Edwin queimar em mim assim que eu entrei na carruagem.
Algo que de longa demora.
Ignorei a aflição em meu peito e deixei a imaginação voltar a mim aos poucos, enquanto olhava para o
outro lado da cidade, esperando ser algum tipo de pássaro fora da gaiola.
Capítulo três
Eu passava os dias encarando a janela esperando por alguma mudança. De qualquer tipo. Meus
movimentos eram os mesmos, assim como os de minhas irmãs e mãe. Algo em minha mente se
agitava e eu me recusava a obedecer. Desde o dia em que conheci o noivo de minha irmã, não falamos
sobre o evento desde então. Aliás, eu não queria falar sobre ele. Não desde o que eu vi naquele dia.
Estávamos nos preparando para dormir e nunca tivemos vergonha de nos trocarmos uma na frente das
outras. Kathleen estava dormindo enquanto eu penteava o cabelo e Amarie vestia um vestido com
certa dificuldade.
— Precisa de ajuda? — Perguntei a ela, aproximando-me. Como se eu fosse algo contagioso, ela
recuou rapidamente e pigarreou, porém, eu já tinha visto. Manchas roxas grandes sobre seus braços.
Ela não era desastrada ao ponto de se machucar daquela maneira sozinha.
— Por que você está toda machucada? ̶ Eu estava assustada e falei mais alto do que pretendia.
Kathleen resmungou algo e voltou a dormir.
— Isso não é nada ̶ falou , cortante. Por mais que eu e ela tivéssemos nossas desavenças, aquilo era
algo muito mais sério.
— Alguém te agrediu? Ele te agrediu?
— Você acha que eu deixaria ele me agredir? Eu sou uma mulher perfeita! Ninguém nunca faria isso
comigo.
— Diga-me a verdade – pressionei-a. Meus dentes estavam rangendo e meu rosto doía por conta da
contração junto com a máscara apertada. Eu me sentia sufocada.
De repente, eu queria bater em todos.
— Ele me bateu, mas porque eu estava sendo desobediente – Ela falou, mas eu não conseguia definir
sua expressão olhando apenas para seus olhos lúcidos e sua boca com um sorriso irônico. ̶ Eu
merecia, irmãzinha. Fui muito mimada a minha vida inteira e agora é hora de aprender como
realmente agir como uma dama.
— Mamãe nos educou muito bem.
— Sim, exceto você. Eu lembro de suas saídas noturnas. Para onde você ia? Uma mulher respeitosa
não sai a noite para fazer coisas boas. E aquela família? Você se lembra que andava com os filhos de
uma família vergonhosa?
— Você...
— Não se meta em minha vida, assim como eu não me meto na sua! Está com inveja porque vou me
casar! Você nunca será nada se não crescer. Eu mesma deveria socá-la até perceber que é uma inútil...
Assim como Edwin fez comigo.
Eu parei de ouvir e falar qualquer coisa, pois estava tão entorpecida pelas suas palavras que fiquei
parada por bons minutos, enquanto escutava o barulho do seu corpo se ajeitando entre os lençóis ao
lado de Kathleen. Encarei a lua, pensando no porquê deu estar ali. O que eu havia feito para gerar
tanto ódio no coração dela?
E então, já se fazia cinco dias que não falávamos uma com a outra. Pensamentos enervantes
novamente vinham à tona e tudo o que eu queria era relaxar. Pelo menos por uma noite, eu precisava
escapar dali.
~*~

Todos dormiam. Eu lentamente tirava minha camisola e trocava por um vestido simples, tomando
cuidado para que ninguém acordasse. Sabia que corria o risco dessa vez de ser pega por Amarie.
Assim que desci as escadas, soltei um suspiro de alívio. Peguei minha chave reserva que estava
escondida em cima de um dos armários que minha mãe não utilizava e saí.
A lua, o som das cigarras e o sentimento de liberdade fizeram minhas pernas bambas. Sorri por
debaixo da máscara, imaginando como seria se eu pudesse ser simplesmente eu mesma ali. Eu amava
aquele lugar, mas odiava a maneira que ele me fazia sentir. Eu amava viver, mas não em uma gaiola.
Andei até o celeiro rapidamente para ver como estava a minha vaca. Empoleirada em um canto com
palha para todos os lados, apenas a acariciei e sussurrei em seu ouvido que estava feliz por aquela
noite. Feliz por que iria revê-la e que foram meus pensamentos acelerados que me levariam até ela.
— Eu sei que eu não deveria fazer isso. Muito menos conversar com uma vaca adormecida, mas não
consigo me conter. Sinto falta deles. Sinto falta dela.
Abandonando o celeiro, olhei para a estrada vazia. As pessoas que vivam naquela região raramente
andavam a noite por não ter nenhuma loja aberta e muitas vezes ser considerado perigoso. Outros não
gostavam da noite, pois significava mau agouro. É claro que havia suas lendas, mas eu nunca
acreditei. Sempre fui uma pessoa cética, por mais que tentasse.
Andei rapidamente, usando o capuz e mantendo a cabeça abaixada. Eu costumava ir pela pequena
floresta, mas estava tão escuro que...
Não. Quando eu era mais jovem, esse medo não existia. Mesmo que agora o som das badaladas
dominasse a minha mente, eu não podia deixar esse medo me paralisar. Eu já havia saído de casa,
graças a minha impulsividade; não iria dar a volta agora. Eu precisava encontrá-los, precisava me
desculpar. Porém, estariam vivos?
Entrei na floresta, sentindo meus sapatos finos rasparem nas folhas caídas. Eu andava rápido, sentindo
apenas o frio da noite sobre minhas mãos e o barulho dos pássaros noturnos. Meu coração retornava
ao seu ritmo mais lento e eu finalmente consegui sentir como eu me sentia antes. Eu não sabia como
ainda recordava o caminho, mas simplesmente continuava andando e andando... Havia anos que eu
não me sentia livre como estava agora.
Depois que eles se foram, eu vasculhei toda a floresta. Fiz um mapa apontando os lugares que havia
visitado e os que ainda não tinha verificado, como as tavernas.
O tempo era algo que não existia ali para mim. Eu não sabia quanto tempo andei, mas sabia que
deveria estar perto. Tinha que estar. Minha ansiedade gritava dentro de mim, mais do que o medo.
Então eu tropecei em algo e meus olhos se arregalaram. Limpei até encontrar um retângulo com a
palavra ASGAR. Não era possível... Uma taverna ilegal? Com a nossa senha secreta..., mas como?
Era para identificar nosso local de encontro. Soltei um soluço e meu pulmão ficou cheio. Senti minha
garganta se fechar e olhei para os lados, certificando-me de que não havia sido seguida. Sim, era ali
que costumava ficar, eu podia sentir. Ela devia estar perto, porém...
Eles estavam ali embaixo? Ela estava?
Com toda a força que eu pude, puxei a alavanca para cima e ela se abriu com dificuldade. Uma luz
azul escuro e uma escada era tudo o que eu tinha. Virei-me e desci lentamente com medo do que
poderia encontrar ou do que teria que enfrentar. Eu sabia que pessoas mudavam e esse era o meu
maior temor. Será que outra pessoa sabia nossa senha?
Um dos meus pés deslizaram e eu cai com um estrondo. Vozes e passos se aproximaram rapidamente
de mim e eu fechei os olhos com força. Não queria ver, não queria morrer.
Mas eu ia. Tinha tanta certeza e então, fui chutada com mais força.
Eu iria ser covarde no momento de minha morte? Não seria certo e nem digno. Porém, onde estavam
minhas forças?
Abri os olhos e tudo a minha volta parou. A pessoa que me encarava tinha os olhos e bocas costurados
de uma maneira dolorosa, além de várias cicatrizes. Seus cabelos eram revoltosos e a roupa
maltrapilha. Segurava uma tocha de fogo com firmeza nas mãos, bem próximas ao seu rosto
desfigurado.
Eu só não queria que aquilo fosse verdade. Voltar a fechar os olhos soava tão mais fácil novamente,
assim como ignorar a dor no meu coração. Por favor, não.
Um homem surgiu na frente dela. Eu me lembrava dele. Heitor. Costumava ser franzino, dócil, mas
agora... Parecia ser cercado de muros. Ele estava mais forte, a mesma cabeleira ruiva e a cicatriz no
pescoço. Eu desejava abraça-lo.
— Quem é você?
Claro, minha máscara.
Retirei lentamente um pingente que guardava, sentindo minhas mãos tremerem. Ela parecia tão frágil
que poderia se desfazer a qualquer hora. Estava escrito ASGAR em letras quase apagadas.
— Sou eu, Vallen.
Ali, haviam três pessoas. Eu não conseguia enxergar direito, pois a luz tremeluzia e era muito fraca.
— Por que está aqui? — Perguntou-me.
Eu não sabia o que responder.
— Eu precisava.
A mulher com o rosto costurado acenou para ele levemente com a cabeça e então, Heitor negou
veemente. Ele não me queria ali e eu não podia julgá-lo. Havia os abandonado havia muito tempo.
Mas ela só acenou novamente e notei que um de seus olhos não estavam costurados. Ela conseguia
me ver. Fez a menção para que eu fosse e eles começaram a andar, em silêncio. O que eu estava
fazendo ali? A alegria que sentia antes, achar que ela estava bem.... Não podia mais negar sua
existência. Aquilo era culpa minha. Eu não merecia estar ali.
Desabei sobre o chão e chorei. Minhas desculpas tanto para eles quanto para ela.
— Desculpe! — Sussurrei. — Desculpe, desculpe, desculpe...
Ela se virou para mim e tocou meus ombros trêmulos. Ela não podia me perdoar. Eu não merecia. O
choque havia me deixado e agora eu só tinha a culpa em meus ombros.
— Vão me matar? E-eu aceito...
— Não deveria entregar sua vida com tanta facilidade — disse outra voz. Uma outra mulher? — Por
que te mataríamos?
Não respondi, não havia forças em mim.
Senti braços sobre meu corpo. Heitor? Não, eu não enxergava. Minhas lágrimas embaçavam minha
visão e eu não queria abrir os olhos para a realidade. Eu continuei sussurrando...
— Desculpe, desculpe, desculpe...
Eu sempre fui uma covarde.
Capítulo quatro

Eu havia parado de chorar e me desculpar depois de alguns bons minutos. Encaravam-me, curiosos e
a vergonha dentro de mim se espalhava. Talvez, fosse por conta de todas as vezes que eu não chorei
quando deveria. Quando fugi, quando gritei enquanto meus passos corriam em direção contrária.

Ela me encarava agora, com uma máscara. Não de ferro como a minha, mas uma máscara branca de
porcelana. Era delicada e mostrava apenas metade de seu rosto, como se fosse à letra “s”. Cobria
boa parte de suas cicatrizes e seu rosto desfigurado.

Eu não merecia estar ali depois de tanto tempo, porém, minha solidão e culpa, ruíam em meu ser.
Eu tinha que fazer algo para liberar todo o peso do meu peito.

— Eu não sei o que aconteceu...

— Você está perdoada ─ disse Heitor, dando um passo à frente.

— Eu senti sua falta ─ uma voz na minha cabeça soou e eu quase cambaleei de tamanha surpresa.
Olhei para os lados e apenas escutei risadas. Envergonhada, perguntei do que eles riam. O que havia
sido aquilo?

— Ela está com saudades. Sempre mencionou você, mesmo depois de tudo. Nunca foi fácil esquecer
sua personalidade irritante, Vallen.

— Ela está se comunicando dentro da minha cabeça? Isso é loucura.

— Isso cabe a ela explicar.

Então ela realmente estava ali na minha frente. Anos e anos que me culpava por sua morte, mas ela
estava viva esse tempo todo..., mas seu rosto... O que aconteceu? Ah, Olivia!

— Depois que eu tirei a minha máscara de ferro, naquele dia e quase fui morta, consegui manipular
algumas pessoas para que me libertassem antes do enforcamento.

Todos aqueles anos e eu pensei que ela estava morta.

— Vocês ouviram isso? É impossível! ─ Sabia que soava idiota, mas eu não conseguia acreditar.

— Pare de ser tão cabeça dura! Você sabe que sou eu! Meu rosto... É o que você vê. O que eles
fizeram... Bem, você sabe que devia tomar cuidado ao sair depois da meia noite. Boas garotas não
duram muito tempo aqui.

Queria correr para abraçá-la. Eu sentia tanta a sua falta... Como eu poderia recompensar?

— Eu faço qualquer coisa! ─ Olhei para eles, em súplica de repente. Aquele fardo do meu peito
aumentara depois de vê-la.

— Não é culpa sua ─ ela disse novamente. ─ Eu irritei os guardas. Eles falaram que eu não era bonita
o suficiente sem máscara e que deveria morrer por ter quase tirado a minha. Então, eu os insultei por
raiva. Disse que queria eles mortos. Todos os homens mortos.

E ela continuou dizendo. Meu coração batia tão rápido que era difícil acompanhar. Os guardas
fizeram isso com ela? Como havia conseguido escapar?
— Então, uma noite, sem que ninguém estivesse por perto, eles me machucaram. Falaram que agora
sim, eu seria uma linda boneca. Um deles tinha em mãos uma boneca com o rosto desfigurado.
Disseram que minha morte seria como um circo, para a alegria de todos.

Sua voz em minha mente era desprovida de sentimentos. Ela me contava isso como se fosse uma
canção de ninar, e eu estava assustada. Não por sua aparência, mas pela calma com a qual contava
tudo. Com a calma perante a mim.

Será que ela deseja me matar? Eu não duvidava.

— Quando as servas enfaixaram meu rosto, eu matei duas delas. Eu não queria, mas estava com
tanta raiva. O que eu havia feito de mal? Elas não iam me ajudar a fugir... Entrei em suas mentes,
fracas e maleáveis... Elas gritaram... O mesmo aconteceu com os guardas... Eu só pedi por dor. Dor e
sofrimento para eles. Quando eu abri os olhos, eles estavam no chão, mortos. Naquele momento eu
fugi e encontrei por um refúgio. Comuniquei-me mentalmente com Heitor e ele veio até mim.

Eu tremia. Imaginava a mim mesma naquela situação. Ela me mataria. Não havia me perdoado.

— Eu procurei por você depois. Achei que havia a capturado por estar junto comigo, mas não... Você
havia fugido sem nem olhar para trás.

Eu era uma covarde. Eu sabia que aquelas palavras eram verdadeiras, mas não sabia a força que elas
tinham.

— Eu teria feito o mesmo.

Não respondi. Não sabia o que podia falar. Naquele momento, percebi o quão éramos falhas. Nosso
vinculo, a qual eu achava ser especial... Nunca foi. Nem para mim, nem para ela.

Naquela época, onde eu achava que havia finalmente alguém que me compreendesse. Mesmo
sendo diferente dos meus livros. Até que estraguei tudo.

Porque você não tem pretendente? Nenhum homem lhe interessa? Minha mãe havia perguntado.
Porém, eu havia fechado o meu coração, pois sabia que não era digna de nenhum amor. Eu havia me
fechado para todos.

O que eu havia feito foi horrível. Mas a nossa decisão seria a mesma no final.

Eu não sabia se meus sentimentos por ela eram os mesmos de cinco anos atrás. Tudo havia mudado.

— Você está muito calada.

— Eu não sei o que dizer. É muita coisa para processar.

— Você nunca foi de ficar quieta ─ disse Heitor, sorrindo, porém logo sumiu de seu rosto. ─ Por que
ficou tanto tempo sem nos contatar?

Olhei para a figura que estava atrás, calada. Era uma mulher com um machado. Eu nem havia
percebido sua presença de tão silenciosa que ela era. Heitor olhou para mim e para ela, observando
nossa interação. Quem seria ela? Quando costumávamos andar em bandos, éramos sempre nós
três.

— O nome dela é Ava. Ela se juntou a nós a dois anos.

— O que aconteceu com ela? Por que ela tem um machado? — Recuei um pouco.
— Não sei. Ela não o larga desde que encontramos ela.

Vire-me para ele.

— Como assim?

Ava grunhiu e eu vi que havia invadido seu espaço. Ela não havia questionado nada sobre mim e era
certo que eu fizesse o mesmo. Aliás, eu não sabia ali se era inimiga ou aliada. Só havia tido um
impulso, levado por anos de aprisionamento. Eu costumava me sentir livre quando estava com eles,
mesmo estando com a máscara. Ali ela não era uma prisão e eu era apenas... Eu.

Eu havia sentido falta deles.

Suspirei, olhando melhor em volta e aquilo parecia um bar abandonado. Costumava ter tabernas
antigamente, debaixo de árvores, mas como essa... Debaixo da terra, só podia ser uma taberna ilegal
que funcionava antigamente, para vender produtos a mulheres. Havia poucas mesas de madeira
espalhadas, o balcão atrás de mim tinha alguns pratos sujos e havia algumas marcas de sangue na
parede. Como se alguém quisesse escapar. Estremeci.

Olivia olhou para Heitor. Eles eram irmãos, então se comunicavam bem só com olhares. Eles
costumavam ser meus vizinhos, mas depois de tudo o que aconteceu, quando Olivia foi capturada
depois de eu ter a ideia de tirar as máscaras, a família dela, no dia seguinte – com vergonha –
decidiu se mudar dali. Só Heitor ficou, mas ele foi embora depois e eu nunca mais o vi. Não tive
coragem de perguntar a ele o estado de Olivia. Não sabia o que tinha acontecido depois disso.
Minha mãe não gostava de citar o nome deles em casa, pois acreditava que algo ruim poderia
acontecer e eu fui afundando cada vez mais isso em meu coração.

Acumulei todos os sentimentos possíveis desde aquele dia em que minha amiga foi capturada, até o
dia em que minha irmã anunciou o noivado. Eu me sentia tão aprisionada que senti que algo deveria
ser feito a respeito. Eu acreditava que as estrelas carregavam nosso destino. Que os Criadores
estavam lá em cima, guiando-nos a uma vida repleta de amor. Eu acreditei que um dia os veria
novamente e isso aconteceu.

Ou talvez fosse apenas delírios meus. Eu poderia ter apenas uma boa memória e uma boa
capacidade de raciocinar, pois além das florestas, eles não poderiam ir para outro lugar. Criar o
mapa também havia me ajudado. E uma taverna abandonada e ilegal era uma boa solução, já que
ninguém procurava por elas há anos.

— Você está muito quieta. Olivia quer falar com você um pouco. Eu e Ava a deixaremos a sós.

— Mas...

Eu não sabia como agir com Olivia. Era como se eu estivesse novamente naquele beco com ela. Eu e
minha imaturidade, querendo tirar a máscara. Ela, ainda mais rebelde, decide tirar ali. O primeiro
trinco estava solto, que conectava a parte da frente com a fita prensada atrás. Mais alguns passos e
eu podia ver seu rosto. Por dentro, algo em mim queimou pois isso seria intimo demais. De repente,
não gostei mais da minha ideia.

Alguém nos viu. Saímos de lá correndo. Gritos. Pessoas apavoradas. Um homem, um guarda agarrou
a mão dela e eu estava livre. Será que não me notaram? Meu coração batia tão forte que eu o sentia
em minha cabeça. Olhei pela última vez para Olivia, mas ela havia sido pega por três homens que a
levavam em direção a uma carruagem enferrujada que eles usavam para criminosos.

Mas ela não havia feito nada.


Tomada pelo medo da cabeça aos pés, corri em direção a minha casa, misturando-me no meio das
pessoas que corriam por motivo nenhum.

Mais tarde naquele dia, começou a chover forte. Uma semana com aquela chuva torrencial e
algumas casas haviam sido destruídas. Eu não ouvi os sinos naquela semana e só pude rezar para
que ela estivesse solta, mesmo que sua família não morasse mais ali.

Eu era tão ingênua e não sabia das consequências. Hoje vivo com o medo em excesso ao meu
encalço.

Agora, com o verdadeiro rosto de Olivia, encarando-me e lembrando do que eu havia pretendido
fazer... Por um segundo, pensei que poderia ser eu ali. Queria chorar por ela. Ela não merecia isso.
Ninguém!

— Eu sei que é estranho, mas logo você se acostuma.

Eu sorri amarelo, sem saber o que dizer.

— Vou ser rápida, pois você tem que voltar para casa.

— Eu gostaria de fazer algumas perguntas antes. Primeiro...

— Eu lamento, mas não posso responde-las. É perigoso demais. Apesar de tudo, eu me importo com
você.

— Você não pode falar dentro da minha cabeça e me deixar acreditar que isso é normal. O que eles
fizeram com você? Tinha alguma coisa sobrenatural lá?

— Eu disse que não posso dizer. Apenas me ouça.

— Isso é injusto!

— O que aconteceu comigo também é! Você quer que aconteça o mesmo com você?

Silenciei-me.

— Olivia, desculpe-me.

— Sou tão culpada quanto você. A diferença é que você é empática demais, mesmo sendo imatura.
Você quer tentar algo, mas tem medo. Eu não me arrependo das palavras e das coisas que fiz. Eles
mereceram. Já tive tudo o que desejo pago.

— Vocês estão vivendo aqui?

— Eu já disse que não vou responder suas perguntas! Eu só quero que você saiba que não precisa
mais se preocupar comigo, carregar essa culpa. Somos culpadas. O mundo é culpado. Você só precisa
seguir sua vida e ser feliz.

— Mas Olivia, agora poderemos voltar a sermos o mesmo grupo unido de antes! Eu, você e Heitor.
Livres.

— Você está limpa! Não foi marcada por eles. Você ainda pode se casar e ter filhos, como sempre
sonhou. Eu e Heitor não estamos livres. Estamos sobrevivendo a cada dia que passa. Sem ter uma
perspectiva de vida.

— Você sabe que só temos casamentos arranjados aqui. Isso nunca iria se realizar. Essa felicidade
seria uma mera ilusão. Eu prefiro então, não me casar.
— Isso cabe a você decidir, mas hoje, você é apenas uma desconhecida para nós. Quanto tempo já se
passou? Cinco anos? Eu estou fazendo isso por mim e por você. Continue assim, sem saber de nada e
por favor, esqueça-nos. Será melhor para você. Para todos.

Suas palavras me machucavam, mas elas parcialmente uma verdade. Não nos conhecíamos mais.
Havia tanto tempo e tanta coisa havia mudado. O que éramos agora? O que seríamos amanhã?

— Você deveria ir em eventos, bailes... Você ainda tem a sua máscara, você ainda tem sua voz.
Porém, fique longe de nós. Coisas boas não acontecem quando estamos por perto.

Ela parecia decidida e eu ficava cada vez mais confusa, sem saber que rumo tomar para minha vida.
Queria chorar por todas as emoções e ao mesmo tempo, rir incrédula. Por que ela estava falando de
bailes?

— Eu fico feliz por você estar bem. Era só isso que eu queria te dizer. A saída é por aquela porta e
assim que seguir pelo corredor estreito de madeiras, tome cuidado com os pregos. Logo você verá o
túnel e a escada. Boa sorte em sua jornada.

— Isso é uma despedida então? Não podemos ser amigos?

— Sim, isso é uma despedida. Eu disse as palavras completas. Está feliz agora?

Eu simplesmente entorpecida, assenti.

— Então... Eu não sei como fazer isso...

Eu nunca gostei de despedidas, então, fiz o melhor que sempre fazia. Fugi em direção ao corredor de
pregos.
Capítulo cinco
A semana havia se passado tão depressa, que eu mal havia notado. Estava no celeiro, ao lado da
minha vaca. Kathleen acariciava a crina de Arthur, nosso cavalo. Eu a observava, suspirando. O peso
que eu carregava há anos finalmente não estava ali me cutucando. Isso fazia com que eu observasse as
coisas por outras perspectivas.
Havia aceitado o convite de Annabelle para tomar chá na casa dela. Havia tempos que não nos
falávamos e eu sentia falta de estar na companhia de outra pessoa que não fosse da minha família. O
vestido estava passado em cima da cama e eu iria enfeitar os meus cabelos com algumas flores
pequenas para dar um ar um pouco mais feliz.
Piquei algumas frutas e me deliciei, sentindo que aquele dia seria bom. As palavras de Olivia as vezes
vinham para mim. Era claro que ela escondia algo de mim e não queria que eu me metesse em
alguma, porém, eu sentia vontade de ajuda-los.
Porém, isso não iria acontecer pois tínhamos perspectivas diferentes. Notei que a hora do chá estava
quase chegando, então decidi me arrumar o quanto antes para não chegar atrasada. Alisei o vestido
com as mãos e ajeitei as mangas um tanto bufante para o meu gosto.
Meu cabelo estava preso em um coque com as flores e finalizei colocando o cordão escrito ASGAR
debaixo da gola. Era o meu amuleto e já havia acostumado a usá-lo.
Levei para a casa de Annabelle uma cesta de pães que havia feito. Sua casa era praticamente uma
mansão e ela havia feito questão de enviar um cocheiro para me buscar. Fiquei contente e me aprumei
naquela poltrona macia, quase me afundando.
Quando cheguei, fui recepcionada por uma governanta afobada. Ela tagarelava sobre pães e doces
quentes e dizia que eu era muito magra e precisava comer bastante. Eu nunca havia ido a casa de
Annabelle antes, pois ela era de uma classe mais elevada que a minha e só com um convite especial
era possível entrar ali.
Nós nos conhecemos em um evento social a qual ela havia participado junto comigo como ajudante
de cozinha. No entanto, ela não sabia nada de cozinhar e quase que seu cabelo havia pegado fogo. No
final, as pessoas de rua ficaram satisfeitas com a nossa comida e desde então, criamos um vínculo.
Ela me esperava em sua biblioteca, com um livro em mãos. Fiz uma reverência ela riu.
— Tolinha, isso não é necessário! Eu detesto esse tipo de coisas!
Notei que sua máscara estava suja de tinta. Fiquei apreensiva.
— O que você fez com a sua máscara?
— Eu tentei fazer uma florzinha, mas não deu certo. Eu acho essas máscaras muito assustadoras. Toda
a noite em que me olho no espelho quase tenho um ataque do coração.
Eu não aguentei e comecei a rir. Não era possível.
— Não ria! É desrespeitoso rir das desgraças dos outros!
— É que ficaria realmente uma gracinha!
— A tinta não durou muito. Sabia que cúrcuma não iria servir!
— Obrigada pelo convite. Fazia tempo que não nos víamos.
— Eu sei! Estão planejando outro evento social e meus pais querem que eu vá. Eles acham... Plausível
eu ir. Dizem que eu deveria começar a ser boa em alguma coisa. Eu sempre digo que sou boa demais
em sonecas rápidas.
— Disso eu não duvido.
A governanta chegou com bolinhos e com os pães que eu havia trago. Atrás dela, uma empregada
trazia chás com leite e cubos de açúcar.
Olhei em volta da biblioteca imensa de Annabelle e me perdi no meio de tantos livros. Queria babar.
Aconcheguei-me mais para desfrutar a sensação, estando naquele mundo completamente novo.
— Eu queria tanto conversar com alguém, mas todas as meninas do meu círculo só conseguem em
falar do próximo evento que vai acontecer!
— Que evento?
— Não está sabendo? Ah, qual o nome mesmo...? Pelos Criadores!
Tirei a grade da boca da máscara e beberiquei o chá. Estava tão quente que quase cuspi.
— Lembrei! É chamado de A Emersão dos Chamados!
— Que nome extravagante. Sobre o que se trata?
— É muito famoso, mas eu nunca dei tanta atenção. Dizem que acontece a cada dez anos, algo do
gênero. São homens que nascem com uma gota do poder dos Criadores, voltados a ajudar ao Rei e os
que precisam! — Ela dramatizou, fazendo uma cena de espadas e lutas.
— Deveríamos ir também — mal sabia que aquelas palavras tinham saído da minha boca, mas eu
precisava de uma distração, além de que adorava participar de eventos. Era uma ótima pedida. Pelo
menos, era o que eu achava.
Ela me encarou.
— Tem certeza? E se for chato?
— Vamos embora cedo de se for, mas tenho certeza de que não será.
— Você acredita nessas coisas? Dos Criadores?
— Não sei. Acredito nas estrelas. Que elas nos guiam. Eu sou cética e ao mesmo tempo não sou. É
confuso — encarei minha xícara, pensando. Eu nunca havia ouvido falar dessa Imersão dos
Chamados. Será que seria algo parecido com circo? Uma atração para entreter?
— Bom, eu costumava acreditar, mas hoje não mais. Vi que meu destino não seria diferente de muitas
outras. Estou fadada a me casar.
Franzi o cenho.
— A se casar? Com quem?
— Meu pai quer que eu me case com Edwin. Não sei se você conhece, mas ele é um artesão muito
famoso e também um pintor de quadros! Sabe aquele da Rainha? O famoso? Foi ele quem pintou.
Meu ouvido zumbiu.
— Deve ser um mal-entendido. Edwin?
Mas esse nome não era comum por lá. E ele era o único que trabalha com o Rei.
— Sim, sua surda! Ele não é nada atraente... Eu preferia homens mais novos... Talvez consiga mudar
a cabeça do meu pai e a dele.
— Espera, ele quer se casar com você?
— Quem não iria querer se casar comigo? Ele sabe que tenho dotes e que sou linda por fora e por
dentro. Uma esposa perfeita.
Se ela era a esposa perfeita, o que seria a minha irmã?
Parei para pensar sobre isso depois. Precisava continuar tirando respostas de Annabelle, pelo bem de
Amarie.
— Vocês se conhecem? Ele é solteiro realmente?
— Não nos falamos muito. Tivemos apenas conversas formais na frente do meu pai. É por isso que te
chamei aqui hoje.
Congelei.
Ela pegou o bolinho e afundou no chá, dando uma mordida.
— Lembrei que você era a pessoa mais divertida que já conheci! Precisava de uma distração de tudo!
— Estou aqui para o que precisar.
— Eu sei. Quero convidá-la ao meu casamento, quando acontecer. Não se preocupe, meus pais não
vão nota-la. Direi que é filha de algum conde falecido.
Assenti lentamente, querendo vomitar.
— Sabe, essa Imersão... As pessoas dizem muito, mas ao mesmo tempo, é tudo muito confuso. Uma
pena eu ser apenas uma criança quando aconteceu da última vez... Estou começando a ficar curiosas,
sabe? Talvez não seja tudo mentira, afinal.
— Quando acontecerá? — Perguntei.
— Daqui a quinze dias.
— Seus pais a deixaram ir?
— Eu vou me comportar muito bem até lá. Eles terão tanto orgulho de mim que deixaram. Aliás, o
Rei iria gostar. A Princesa também, mesmo que ela não esteja muito bem. Bom, ela nunca está bem.
Só falei uma vez com ela e eu pensei que ela fosse desmaiar em cima de mim.
Sim, a Princesa vivia doente e ninguém sabia o porquê. A todo o momento, corria rumores de
curandeiros entrando e saindo do local. Ela não era muito vista e a última vez que falaram sobre ela,
diziam ser em relação ao término de noivado com alguém que eu não tinha ideia que fosse, contudo,
ele era altamente influente.
Conversamos, mesmo estando distraída. Minha irmã ou estava sendo enganada ou enganando a todos.
Tentei pensar em minha próxima saída com Annabelle, para me sentir um pouco mais animada, pois
não tinha culpa no turbilhão de coisas que acontecia na minha vida. Ela era como uma brisa de verão.
Um homem nos ouviu falando sobre a Imersão e eu supus que ele era mordomo. Aproximou-se de
nós, colocando água lentamente em dois copos, dizendo em voz baixa para que ninguém percebesse:
— Não é um bom lugar para damas como vocês irem.
— Como? — Questionei, um pouco revolta.
— Esse lugar... Vai ter coisas que damas não deveriam ver.
— Mas minhas amigas irão!
— Suas amigas não têm noção do que acontece em um lugar como esse. Elas podem até ir, mas sem
ter saber do que acontece. Eu, ao menos, estou avisando você. É perigoso.
— Mas haverá guardas.
— E também haverá sangue e luta. Ninguém sabe onde vai acontecer isso. As pessoas apenas supõem.
— E você sabe?
Ele não disse nada.
— Quer dizer que isso é algum segredinho sujo da alta sociedade? — Annabelle perguntou,
estupefata.
— Não. É apenas algo muito importante que acabou virando fofoca entre mocinhas.
— Eu já tenho vinte e um anos!
Os copos estavam cheios.
— Preciso ir. Perdoe a intromissão e por favor, sigam meu conselho.
Ele se foi e nós duas encarávamos sua saída.
— O que você acha disso tudo?
— Eu acho que devemos ir agora mais do que nunca. Estou me sentindo muito importante nesse
momento.
Olhei para ela.
— Mas é perigoso...
— Não mesmo. A Princesa vai estar lá. Minhas amigas também. Agora... Precisamos descobrir onde
fica...
Suspirei, sentindo-me incomodada. Eram tantas questões a pensar e só pude imaginar o quanto a noite
seria longa. Amarie me devia respostas.
— Vou conversar com Kimberly. Ela deve saber onde é!
Sorri. Eu também estava começando a me sentir importante.
Capítulo seis
Naquele dia, eu perambulei pelas ruas até as lojas fecharem. Não queria voltar para casa, queria
apenas parar de pensar, o que parecia impossível. Sentei-me na beira de um chafariz, tentando
organizar meus pensamentos. Primeiro, Annabelle e aquele evento. Eu tinha que admitir que estava
curiosa sobre aquilo tudo. Realmente era algo que se comentavam, porém, havia muitos boatos falsos
que acabavam atrapalhando tudo. Bom, será que o mordomo estava certo? Que poderia ser perigoso?
E ainda havia a minha irmã. O que ela era? Eu estava envergonhada, se era o que eu estava pensando.
Aquilo arrasaria nossa mãe e eu não queria vê-la magoada. Estava decepcionada, mas não surpresa.
Amarie faria tudo por dinheiro e um pouco de ilusão de poder. Eu não a julgava, mas também não
estava incomodada com nossa situação financeira a ponto de fazer tal coisa.
Quando cheguei em casa, Kathleen lia um livro perto da lareira, e minha mãe costurava alguma coisa.
— Você chegou tarde. O que você acha que vão pensar se você, uma mulher solteira chegar essa
hora?
— Quase não temos vizinhos, mãe.
— E isso interessa? As pessoas da cidade comentam, Vallen. Você deveria sentir vergonha!
— Não fiz nada de mal!
— Não quero saber! Apenas chegue em casa no horário. Não é pedir muito que me obedeça, é?
— Não... — Revirei os olhos.
— Bom, tem comida na mesa. Fiz uma sopa de legumes e um pouco de carneiro, que o Edwin
comprou.
— Não como carne, mãe. Eu já te disse.
— Pois devia. Está apenas ossos. Por isso você não casa, Vallen. A vergonha da família...
Eu queria chorar e bater no rosto dela. Sabia que minha genética era ser assim e não podia mudar
nada. Por que ela queria me humilhar? Seria mais fácil se me ignorasse.
Peguei a sopa e subi para o meu quarto. Amarie estava passando seus vestidos à ferro e não me
cumprimentou quando eu cheguei.
— Está ansiosa para o seu casamento de fachada? — Comecei e assoprei a sopa.
Ela parou e me encarou. Eu queria tanto, naquele momento, visualizar seu rosto verdadeiro. Tomado
pela vergonha, pelo ódio ou curiosidade, talvez. Sabia que Amarie era boa em esconder suas emoções
quando conversávamos, mas como seria se eu pudesse ver seu rosto?
— Irmã, do que você está falando?
— Ora, não se faça de desentendida. Você sabe muito bem que é apenas a amante de Edwin!
Naquele momento, o ferro queimava o vestido, deixando uma mancha preta perfeita. Eu sabia que ela
estava se controlando muito para não o jogar na minha cara. Sorri.
Por que eu estava sorrindo? Sentia-me feliz em saber que minha irmã não era nem um pouco melhor
do que eu? Erámos tão medíocre que deveríamos comparar nossas desgraças.
— Como você sabe?
— Annabelle.
— A vadia ruiva... Interessante, não sabia que ela era uma intrometida.
— Somos amigas. E ela está prometida a ele.
Minha irmã amassou o vestido e o jogou no chão. Nunca a vi tão desnorteada, como ali. Era como se
ela soubesse e tentasse esquecer desse pequeno detalhe. Senti uma súbita pena.
— Eu sei disso. Eu sei que ela está prometida a ele. Sei que ele está interessado na grande fortuna que
o traseiro dela carrega, mas é a mim que ele deseja toda a noite.
Eu não disse nada, mas não gostava do tom quando citava Annabelle. Ela era a vítima em toda essa
situação.
— Isso não muda o fato de que você é substituível.
— Todos nós somos, sua ingênua!
— Não quando se ama de verdade.
— Sua amiga te abandonou, lembra? Ela te arrastou para caminhos perigosos e quase prenderam você
por ter seguido ela.
É claro que ela não sabia da história completa, apenas dos boatos e deixei que acreditassem nisso. Eu
não queria responder a perguntas desconfortáveis e de algum jeito, fingir que não era culpada por
nada.
— Você deveria ter cuidado com suas amizades. Descobri que Annabelle pode ser um pouco...
Doente.
— O quê?
— Sim, dizem que ela é completamente descontrolada. Não sabe distinguir o certo do errado...
Deveria tomar cuidado — Presumi um sorriso por trás de sua máscara.
— Não deve sair por aí contando mentiras sobre ela — Naquele momento havia esquecido
completamente da sopa, que já havia esfriado.
— O que eu faço, irmã... É pelo bem de nossa família. Quero enviar Kathleen para a escola de
mulheres, quero colocar mamãe em uma casa melhor.... Quem sabe você pode também se beneficiar
disso?
— Não quero seu dinheiro sujo. Aliás, por que não mantém tudo isso em segredo? As pessoas sabem
que vai se casar. Mamãe já contou para metade da cidade.
— Vamos nos casar, mas ... Vamos nos separar depois. O casamento acontecerá bem longe daqui e
será secreto, por isso, apenas nós iremos e Edwin.
— Mas... Mamãe ficará arrasada!
— Mamãe só quer que levemos uma vida boa. Esse foi meu acordo com Edwin. Ele me teria e em
troca, eu queria um casamento falso para que minha família não saísse envergonhada. Junto, ele me
manteria com sua riqueza.
— Você se vendeu.
— Eu fiz o que tem que ser feito e isso não importa mais. Eu não me arrependo de minhas escolhas e
você não tem que me julgar.
Engoli em seco e me sentei. Encarei-me no espelho, sentindo-me estranha ali. Era como se eu não
pertencesse àquele lugar, àquelas ideias. Não era certo se aprisionar a um homem apenas para ter o
dinheiro dele. E quanto aos nossos direitos?
— Você está feliz com isso tudo?
— Pelos Criadores, Vallen! — Ela gritou. — Você vive em que mundo? Temos oportunidade de nos
sustentarmos sozinhas? Não! Você tem algum dinheiro sobrando para abrir uma loja? Acha que
alguém vai contratar alguém sem estudo como nós? Somos falidas! Ninguém quer uma mulher, ainda
mais como nós, trabalhando para eles. Acreditam que somos amaldiçoadas, irmã. Eu sei que nenhum
homem vai me desejar por completo, então eu fiz o que tinha que ser feito. Felicidade não importa
mais para mim, eu só quero sobreviver.
Não respondi. Comi a sopa fria, sentindo que a noite seria longa.
-*-
Não dormi. Fiquei encarando o teto e pensando nas palavras de minha irmã. Sim, mulheres não
tinham muitas oportunidades. Dos Criadores, fomos criadas a partir de Veneno e Siana, duas mulheres
que causaram destruição em massa no passado e que resultaram em nosso nascimento. Havia os
híbridos, que eram homem e mulher ao mesmo tempo – mas eram raros e especiais – e por último, os
homens. O que possuíam força, inteligência e habilidade, criados a partir de Seon, o irmão mais velho
de Siana.
Eu não sabia muito coisa, pois nunca procurei me aprofundar muito, mas algo coçava na minha
garganta. Não conseguia me aquietar e pensar nas possibilidades que eu teria tido se fosse homem, ou
híbrido.
Naquele momento, a máscara parecia ainda mais apertada no meu rosto e eu temia que ela fosse me
esmagar. Sentia-me impotente e não conseguia respirar. Percebi que estava arfando, quando Kathleen
me sacudiu, desesperada.
— O que você tem?
Continuei arfando, sem conseguir dizer nada. Meu peito doía, ardia e eu queria gritar. Amarie agora
olha para mim com olhos arregalados. Eu iria morrer então? Sim, eu iria. Deveria estar sendo punida
pelos meus pensamentos. Eu não queria morrer!
— Vou chamar a mamãe!
Meus olhos estavam fechados e meu rosto inteiro doía pela pressão com a máscara. Estava
machucando a mim mesma. Comecei a arranhar meu braço com a queimação que sentia pelo corpo.
Ouvi vozes de minha mãe, que logo foram diminuindo e diminuindo...
Quando eu finalmente voltei ao meu, sentia-me diferente. Estava fraca e minhas costas se
encontravam em um chão frio e duro, ao invés do meu colchão macio. Abri os olhos e a claridade
quase me cegou. O lugar ao meu redor era estonteante, com corredores vermelhos e um tapete que
deveria custar mais que minha casa.
Era o sonho mais real que já tive.
Até que ouvi vozes e me escondi. Mesmo sendo uma ilusão, o que eu sentia era real. Meu coração
batia rapidamente e então eu vi o Rei na minha frente, conversando com um homem que eu nunca vi
na vida.
E então, tudo ficou preto novamente.
Capítulo sete
Depois daquele dia, minha família começou a analisar cada movimento meu. Era como o nó em volta
de mim estivesse ainda mais apertado. Eu odiava me sentir assim.
— Não vai comer?
Percebi que estava encarando o meu café da manhã, sem tocá-lo. Comecei a comer.
— Está quieta demais — Kathleen começou. — Aconteceu alguma coisa?
— Eu estou só pensando sobre minha saída com Annabelle mais tarde.
Amarie naquele momento deixou a mesa. Ela me vigiava, mas não falava comigo. Eu não tentava.
Minha mãe estava alerta.
— Por que vai sair? Fique em casa conosco — Ela forçou um sorriso.

Annabelle havia me convidado para aquele evento que na verdade era conhecido como O Nascimento,
e não aquele nome ridículo que ela havia me dito. Sorri com a carta e feliz por ela não ter me
esquecido. Ela informara que uma carruagem iria me buscar até a sua residência, onde nos
aprontaríamos e iriamos juntas.
— Eu já escrevi outra carta confirmando. Ela se sente sozinha e gostaria que eu ficasse um pouco com
ela. Voltarei em segurança.
Ela não respondeu nada. Kathleen parecia feliz por eu ter uma amiga. Ela sabia que desde que Olivia
tinha ido embora. Eu não sabia se considerava Annabelle uma amiga, mas gostava de sua companhia.
-*-
Assim que havia terminado minha refeição, Kathleen veio ao meu encontro no quarto.
— Você anda muito quieta. O que aconteceu naquele dia?
— Não sei. Um pesadelo.
Não fora especificamente um pesadelo, mas as sensações que tive era como se fosse. Era como se
alguém tivesse apertado minha garganta com força.
— Pelos Criadores, Vallen! Você está bem?
Mal percebi que minha respiração estava falha. A mera lembrança me fazia mal.
— Desculpe. Foi muito real.
— Não falarei mais para que você não se sinta mal.
Sorri para ela. Eu amava Kathleen e desejava poder dar o melhor dos futuros para ela, mas não sabia
como. O único jeito era me casando com um homem rico.
Pensei em Amarie e em sua atual situação. Ela estava se garantindo..., Mas o que faria depois de tudo?
Ela não tinha medo de todos perceberem a farsa daquele casamento? Eu temia por ela.
— Então, onde irá com Annabelle hoje?
— Vamos fazer bolinhos. Ela tem reclamado que sente muito a minha falta e darei a honra de minha
presença hoje.
— Ela parece ser muito legal.
— Como está a escola?
— As meninas são legais. Começamos a aula de idiomas.
— Isso é ótimo! Estou feliz por você!
— Como era no seu tempo?
Eu detestava pensar no meu tempo de escola. Tinha uma horrenda dificuldade e sempre apanhava no
final da aula. Eu me certifico que o mesmo não aconteça a Kathleen, para que ela não leve tantos
traumas para o futuro.
Quando olho para a minha irmã, lembro-me de mim. Inocente, doce e sonhadora. As vezes o mundo
tira o melhor de nós, sem nem percebemos. Será que minha vida era tão infeliz assim? Não, eu tinha
que ser grata, pois estava viva. Tinha uma família e uma casa.
Mas o nó me apertava cada vez mais.
Ouvi passos na escada.
— Tem uma carruagem aqui, Vallen. Creio que vieram te buscar — Minha mãe falou, séria.
— Já estou indo.
Alisei meu vestido, apressada. Estava sentindo um misto de ansiedade e nervosismos. Já havia
mentido antes, mas dessa vez era como se eu estivesse revelando a mentira. Sentia que não devia e
devia fazer isso ao mesmo.
— Eu chego mais tarde — Olhei para Kathleen e sorri. — Trago bolinhos para você!
-*-
Quando eu cheguei com Annabelle, não havia nada. Estávamos escondidas