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Cultura

“Os pesquisadores culturalistas contribuíram muito para eliminar as confusões


entre o que se refere à natureza (no homem) e o que se refere à cultura.

Eles foram muito atentos aos fenômenos de incorporação da cultura, no sentido


próprio do termo, mostrando que até o corpo é trabalhado pela cultura.
CUCHE, Denys
A noção de cultura
nas ciências sociais
Trad. Viviane Ribeiro Eles explicavam que a cultura 'interpreta' a natureza e a transforma”.
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p.
(CUCHE, 1999, p. 90)
Cultura
“Malinowski interpretava uma cultura como de ação
funcional exclusiva; conjunto material de equipamentos
destinados a satisfazer a necessidade humana.

Era uma soma de realidades instrumentais”.


CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas (CASCUDO, 2004, p.41)
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.
Cultura (I)
“Cultura, de cultum, supino de colere, trabalho da terra,
conjunto de operações próprias para obter do solo os vegetais cultivados.
Cultura de batatas. Cultura de milho. Sinônimo de agricultura, lavoura,
trabalho rural, cultura agri. Fundar cultura era plantar uma determinada
espécie ou aproveitar o terreno com um plantio apropriado.
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. Figuradamente, analogicamente, cultura das letras, das ciências, das belas-artes.
Sempre numa aplicação parcial, específica, localizada”.
(CASCUDO, 2004, p.39)
Cultura (II)
“Para fins primários de impressão poder-se-ia dizer que a cultura
é o conjunto de técnicas de produção, doutrinas e atos,
transmissível pela convivência e ensino, de geração em geração.

Compreende-se que exista processo lento ou rápido de


CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas modificações, supressões, mutilações parciais no terreno material
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. ou espiritual do coletivo sem que determine uma transformação
anuladora das permanências características”.
(CASCUDO, 2004, p.39)
Cultura (III)
“Era ainda o critério francês que o Larousse servia de porta-voz:
culture, étude, application de l'esprit à une chose.
La culture des beaux-arts, des sciences.
Développement que l'on donne, par des soins assídus,
à des facultés naturelles.
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas [cultura, estudo, aplicação da mente para uma coisa.
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. O cultivo das belas-artes, das ciências.
Desenvolvimento que é dado pelo cuidado assíduo,
às faculdades naturais]

Entende-se que a cultura era um exercício da inteligência aplicado


a um esforço para finalidade determinada e única.
Nunca o geral, o conjunto, a totalidade.
É um músculo, um órgão, um nervo. Jamais o organismo inteiro.
Um rio, uma árvore, uma montanha. Não a paisagem completa”.
(CASCUDO, 2004, p.39)
Concepção universalista
vs.concepção particularista

CUCHE, Denys
A noção de cultura
nas ciências sociais
Trad. Viviane Ribeiro
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p.
Iluminismo
“No século XVIII, ‘cultura’ é sempre empregada no singular,
o que reflete o universalismo e o humanismo dos filósofos:
a cultura é própria do Homem (com maiúscula),
além de toda distinção de povos ou de classes.

CUCHE, Denys ‘Cultura’ se inscreve então plenamente na ideologia do Iluminismo:


A noção de cultura
nas ciências sociais a palavra é associada às ideias de progresso, de evolução, de
Trad. Viviane Ribeiro
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p. educação, de razão que estão no centro do pensamento da época.
Se o movimento iluminista nasceu na Inglaterra, ele encontrou
sua língua e seu vocabulário na França; ele terá uma grande
repercussão em toda a Europa Ocidental, sobretudo nas grandes
metrópoles como Amsterdam, Berlim, Milão, Madri, Lisboa e até
São Petersburgo. A ideia de cultura participa do otimismo do
momento, baseado na confiança no futuro perfeito do ser humano.
O progresso nasce da instrução, isto é, da cultura,
cada vez mais abrangente”. (CUCHE, 1999, p.21)
Século XVIII
Para os intelectuais do
Iluminismo, haviam leis
universais de funcionamento
das sociedades e cultura.

CUCHE, Denys
A noção de cultura
E leis gerais que levavam
nas ciências sociais
Trad. Viviane Ribeiro à evolução da cultura.
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p.
(CUCHE, 1999, p.42)
O conceito alemão de Kultur
“Na Alemanha o euforismo depois da proclamação unitária do império
(no palácio de Luís XIV a 18 de janeiro de 1871) consagrou Kultur.
Espelhava personalismo, integração humana visível, uma vitalidade
impetuosa, comunicante, envolvedora, com um timbre arrogante
e sensível de predomínio deliberado.
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas Tornou-se a palavra-chave, derramada das cátedras universitárias.
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. Göttingen, Bonn, Königsberg, Berlim, sob as auras de Bismarck
e o vendaval do ministro Adalbert von Falk (1872-79).
Foi a fase de propaganda, de repercussão, de prestigiosa ressonância.

Os fundamentos germânicos autonomistas, nacionalistas, de Armínio a


Lutero, recuperaram seu momento de popularidade, recriação de um centro
de interesse popular histórico contra o catolicismo, e a bandeira sedutora
seria a soberania do espírito cultivado, senhor das técnicas, a Kultur.”
(CASCUDO, 2004, p.45)
“Os norte-americanos tiveram
culture do alemão Kultur”.

“É um germanismo, de Kultur, quando no sentido intelectual”.

“No Brasil não tivemos o vocábulo na acepção


presente vindo de nenhum país latino.
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas
e notas de etnografia geral
Recebemo-lo dos norte-americanos *...+”.
São Paulo: Global, 2004.
(CASCUDO, 2004, p.39)
Cultura
“Define Ralph Linton (1893-1953):
‘Como termo geral, cultura significa a herança social
e total da Humanidade;

como termo específico, uma cultura significa


CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas determinada variante da herança social.
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.

Assim, cultura, como um todo, compõe-se de grande


número de culturas, cada uma das quais é característica
de um certo grupo de indivíduos’
(O Homem, uma Introdução à Antropologia, São Paulo, 1943).

Visível o cuidado de evitar a palavra ‘civilização’, autenticamente


valendo aquela ‘herança social e total da Humanidade’.”
(CASCUDO, 2004, p.40)
Concepção universalista:
a Cultura (no singular)

Concepção particularista,
CUCHE, Denys
essencialista, relativista:
A noção de cultura
nas ciências sociais
Trad. Viviane Ribeiro
as culturas (no plural)
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p.
Claude Lévi-Strauss diz:
“Nós chamamos cultura todo conjunto etnográfico que
apresenta, em relação a outros, diferenças significativas,
do ponto de vista da pesquisa.

Se procurarmos determinar diferenças significativas entre a


América do Norte e a Europa, nós as trataremos como
culturas diferentes; mas, supondo que o interesse se volte
para as diferenças significativas entre – digamos – Paris e
Marselha, estes dois conjuntos urbanos poderão ser
provisoriamente vistos como duas unidades culturais. [...]

Uma mesma coleção de indivíduos, desde que ela seja


objetivamente dada no tempo e no espaço, depende
simultaneamente de vários sistemas de cultura: universal, Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
continental, nacional, provincial, local, etc. e familiar,
profissional, confessional, político, etc. *1958, p. 325+”.
(CUCHE, 1999, p.141)
Pierre Bourdieu (1930-2002)

“Bourdieu é considerado como


um dos principais representantes
da sociologia da cultura
(que adota a acepção restrita do termo), porque se dedica
à elucidação dos mecanismos sociais que dão origem à
CUCHE, Denys
A noção de cultura criação artística e dos que explicam os diferentes modos de
nas ciências sociais
Trad. Viviane Ribeiro consumo da cultura (no sentido restrito), segundo os grupos sociais”.
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p.
(CUCHE, 1999, p.170)
Pierre Bourdieu (1930-2002)

“Nas suas análises sobre as diferenças culturais que


opõem os grupos sociais, sejam as sociedades
industrializadas ou as chamadas sociedades tradicionais,
como a sociedade kabyla, por exemplo,
à qual Pierre Bourdieu dedica vários trabalhos, ele
usa raramente o conceito antropológico de cultura.

Em seus textos, a palavra ‘cultura’ é tomada


geralmente em um sentido mais restrito e mais
clássico, que remete às ‘obras culturais’,
isto é, aos produtos simbólicos socialmente
Pierre Bourdieu (1930-2002)
valorizados ligados ao domínio das artes e das letras”.
(CUCHE, 1999, p.170)
Cultura
“José Ferrater Mora explica:
‘sí la vida humana es continuamente una formación y
transformación de bienes culturales según su espontaneidad,
es también, al mismo tiempo, un vivir dentro de los bienes
transmitidos o reconocidos, un existir dentro de la continuidad
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas historica y de la tradición’ (Diccionario de Filosofia).
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.

Esse vivir dentro de los bienes transmitidos o reconocidos não será


apenas o uso material das utilidades que uma cultura fornece em
sua especialidade mas a plenitude do espírito que emana,
indispensavelmente, do seu conjunto organizado, com suas
orientações, distinções, restrições, exigências e finalidades
educativas, religiosas, políticas’.”
(CASCUDO, 2004, p.40)
O que não é cultura?
O conceito de Cultura
“Qualquer que seja o sentido preciso que possa ter sido
dado à palavra – e não faltaram definições de cultura –
sempre subsistiram desacordos sobre sua
aplicação a esta ou àquela realidade”.

CUCHE, Denys
A noção de cultura
nas ciências sociais
“O uso da noção de cultura leva
Trad. Viviane Ribeiro
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p. diretamente à ordem simbólica,
ao que se refere ao sentido,
isto é, ao ponto sobre o qual é
mais difícil de entrar em acordo”.
(CUCHE, 1999, p.11 e 12)
“Não seria possível, no contexto
desta obra, apresentar todos os usos
que foram feitos da noção de cultura
nas ciências humanas e sociais.

A sociologia e a antropologia foram então privilegiadas


mas, outras disciplinas recorrem também ao conceito de cultura:
CUCHE, Denys
A noção de cultura a psicologia e sobretudo a psicologia social, a psicanálise,
nas ciências sociais
Trad. Viviane Ribeiro a linguística, a história, a economia, etc.
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p.

Além das ciências sociais, a noção é igualmente utilizada,


em particular pelos filósofos.

Por não poder ser exaustivo, pareceu-me legítimo


concentrar o estudo sobre um certo número de aquisições
fundamentais da análise cultural”.
(CUCHE, 1999, p.15)
Cultura
Elementos simbólicos:
religiosos, ideológicos, etc.

Elementos não simbólicos:


CUCHE, Denys
técnicos e materiais.
A noção de cultura (CUCHE, 1999, p.119)
nas ciências sociais
Trad. Viviane Ribeiro
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p.
Cultura Traços culturais
Menor elemento componente da cultura
Construção humana
Material e simbólica
Complexo cultural
Cultivar = tempo
Combinação de traços culturais

Área cultural
País, estado, cidade, região etc.
Civilização
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.
Civilização
“A fórmula clássica, dogma ainda nas primeiras décadas do século XX
e constante em centenas de livros prestigiosos,

é a evolução esquemática pelos


estágios ou períodos culturais.
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas O domínio da biologia sobre o social o incluíra na mesma imagem organicista.
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.
A civilização, como um organismo natural, atravessava as fases ascensionais,
metabólicas e catabólicas, para a curva de decesso e aniquilamento.
Presentemente há o repúdio ao critério da marcha ou sucessão linear como
expressão lógica da dinâmica social no tempo. Os fatores externos, como as estrelas
na velha astrologia judiciária, predispõem mas não obrigam. Já não é mais crível
determinar-se uma forma de cultura no particular ou de civilização no geral (local,
regional, generalizada, no plano dos supersistemas sorokianos) pela ação
provocadora e modeladora de um implemento geográfico ou isoladamente cultural”.
(CASCUDO, 2004, p.50)
“Cultura é civilização?

Civis, cidadão, deu civilidade, civilização, civismo, cidade.

Está sempre ligado ao homem portador de direitos,


expoente de força disciplinadora, detentor das garantias ideais
de um patrimônio político (polis, cidade, polícia, polidez),
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas
e notas de etnografia geral
como ainda de urbs, cidade, urbanismo, urbanidade, urbano.
São Paulo: Global, 2004.

São vocábulos decorrentes de ação espiritual e doutrinária do próprio indivíduo,


conquistas do convívio, da aproximação, relações humanas
associadas ao plano do espírito, da projeção imanente da dignidade,
soberania e domínio da espécie”.
(CASCUDO, 2004, p.44)
Civilização
“Civilização, civitas-civitatis, ligava-se totalmente à ideia de Estado,
conjunto de cidadãos reunidos em sociedade,
realizando os fins da vida organizada nesse âmbito
(M. Block)”. (CASCUDO, 2004, p.39)

CASCUDO, Luís da Câmara


Civilização e Cultura: pesquisas
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.
Civilização
“Civilização foi vocábulo que se usou desde que a imagem
do conjunto moral e doutrinária dos valores humanos
impressionou à inteligência especulativa dos filósofos.

Assim em 1766 vale a civilization como o resumo da


CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas presença do homem haloada pela sua prioridade no
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. mundo e possuidor de um direito, direito natural,
decorrente da própria presença no mundo, componente
nova, real e de incomparável valimento ético, centro, figura,
razão de todas as coisas criadas e existentes”.
(CASCUDO, 2004, p.44)
Cultura e Civilização
“As culturas produzem ofícios, especialidades, castas, classes,
técnicas, métodos, processos, formulários, mas não aproximações
generalizadoras, compreensivas, ampliadoras do entendimento.
Dão um espírito-de-corpo mas não um espírito-da-espécie.

CASCUDO, Luís da Câmara


Civilização e Cultura: pesquisas As culturas são conteúdos e a civilização continente.
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.

O espírito social determina a cultura e não esta àquele.


Universalidade dos direitos humanos e não das tradições etnográficas”.
(CASCUDO, 2004, p.49)
Cultura e Civilização
“O que se transmite é a cultura.
Difunde-se pela migração, imitação, irradiação.

Uma técnica agrária, um sistema administrativo, um maquinário de


trabalho, uma cerimônia oficial, ritmo de dança, linha melódica, estilo
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas escultorico ou arquitetônico, pode comunicar-se de país a país, próximo ou
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. longínquo, sem que nele se inclua a civilização originária que o produziu.

[...] Os caraíbas, aruacos, tupi-guaranis sul-americanos, os indígenas do


leste, centro e oeste norte-americano tinham incontáveis padrões culturais
comuns e eram civilizações perfeitamente legítimas e distintas.
Mesmo depois da vinda dos espanhóis e portugueses receberam material
europeu que profundamente lhes alterou a organização tribal e a cultura
básica (cavalos, armas de fogo, ferro, cães, álcool, gado, aumento de
ornamentação pessoal etc.) mas a civilização se manteve e quase se
mantém em nossos dias, no geral, especificamente diferenciada,
identificável e típica uma das outras”. (CASCUDO, 2004, p.47)
Pirâmide em vidro
do Louvre, em Paris
J. M. Peie 1982-1989
Cultura e Civilização
“A transmissibilidade dos elementos culturais não é
sinônimo de transferência de civilização.

Pode um povo receber de outro parte vultosa de técnicas,


organização social, linguagem, possíveis permanentes ou
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas constantes antropológicas, sem que fique possuindo
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. características reais da civilização comunicada.
Canadá, Austrália, África do Sul — têm fisionomia própria
que não se confunde com a intensa aculturação inglesa.

A Suíça não parece com nenhum dos países formadores”.


(CASCUDO, 2004, p.46)
Cultura e Civilização

“Vende-se, dá-se, permuta-se um objeto ou uma doutrina, norma ou


técnica, mas nunca o espírito criador que é a medula da civilização.

No próprio processo imitativo, ao repetir-se o modelo estranho, o espírito


da inventiva local incide em pequeninas diferenças que são
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas inconscientemente a presença da força criadora nacional.
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.

A imitação quase sempre é uma humilde mas sensível recriação,


uma acomodação instintiva ao sabor, ao gosto, à visão regional.
A mesma estória desloca-se e viaja através de variantes que são outras
tantas fórmulas de adaptação, de fixação nacionalizante. Sem Mussolini não
haveria Hitler, mas nada menos parecidos que fascistas italianos e nazistas
alemães. O mesmo para os comunistas soviéticos e chineses. O negro do
Haiti e o da Libéria. A cultura bizantina foi uma das mais divulgadas e
influenciadoras e a sua civilização a mais enquistada e hermética”.
(CASCUDO, 2004, p.47)
Cultura e Civilização
“A fisionomia de cada civilização dificilmente dependerá
de uma determinada cultura componencial.

Pode a mesma atividade repetir-se noutras entidades


independentes sem impor a coincidência morfológica.
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. Todos têm coração mas o ritmo cardíaco não é o mesmo.

Cada pianista tem o seu Bach, o seu Beethoven, o seu Mozart.


A técnica determina o esplendor da execução.
A interpretação, presença do artista na obra do mestre,
é soma de sensibilidade, inteligência, intuição genial,
fatores eminentes da civilização que nele vive”
(CASCUDO, 2004, p.48)
Civilização
“O mestre J. Leite de Vasconcelos (1858-1941) escreveu:
‘Qualquer pessoa, ao entrar numa nação estranha, apesar de vizinha ou afim ou
da mesma linguagem, logo reconhece que passou a um ambiente que diverge do
seu próprio: outra aparência arquitetônica, outro trajar do vulgo, outra maneira
de entabular contatos sociais: está, sem dúvida, fora de casa!’
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. A existência de incontáveis padrões que se universalizam podia dar-lhe
a ilusão da continuidade. Mas tal não se verifica. Sente-se estrangeiro.
Cinema, esportes, modas femininas e masculinas, gesticulação protocolar
estereotipada, ambiente de hotéis, os eternos cardápios que são encontrados em
qualquer paragem do mundo, diversões sociais, recepções diplomáticas, desfiles,
nada disfarça a fisionomia emocional e nova de uma outra paisagem humana.

O agente provocador, mantenedor, explicador desse estado mental,


não é Cultura e sim Civilização”.
(CASCUDO, 2004, p.48)
Cultura e Civilização

“A essência da civilização é intransferível.

Sua conservação no tempo é surpreendente.

O Egito perdeu o idioma, a religião milenar, administração, dinamismo


CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas cultural típico. Manteve superstições e métodos primários rurais.
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. O clima mental é egípcio em suas soluções psicológicas populares.
Na mentalidade. Na literatura oral. Na defesa legítima do seu invisível
e eterno patrimônio.

Não é o egípcio turco, árabe, romano, ptolomaico, mas o


egresso das trinta dinastias faraônicas o que sentimos ainda.
Pode uma civilização esgotar-se mantendo população e continuidade
morfológica. A Pérsia, por exemplo, no plano clássico.
Mas muitos elementos resistem, sobrevivendo imutáveis”.
(CASCUDO, 2004, p.47)
Civilização
“Creio a civilização como uma força de gravidade unificando sem
fundir as unidades socioculturais.
Não uma placa de chumbo, indeformável, integrando os elementos
culturais como partículas de sua substância constitutiva.
Civilização é força como um princípio de gravidade e semelhará ao
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas que preside o sistema solar, mantendo a unidade orientada e em
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. movimento no espaço sideral sem influência mutiladora nas elipses
descritas pelos corpos submetidos à sua atração.

Sente-se a insistência do vocábulo ‘sistema’, mesmo em Pitirim A.


Sorokin, sistemas sociais (grupos organizados), sistemas culturais,
mesmo pensando diversamente mas cedendo à magia da palavra,
sistema, grupo, reunião, conjunto.
As culturas na civilização são autônomas e harmônicas.
Como os homens que, na mesma cidade, têm a multiplicidade das
obrigações e a unidade do horário”. (CASCUDO, 2004, p.49)
Cultura e Civilização
“Certo é que cada cultura possui uma missão
orgânica no complexo da civilização.

Toynbee, selecionando as suas civilizações, atendeu


aos elementos de permanência, fixando o panorama
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas de cada conjunto.
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.

São compostos culturais em que um espírito comum


unifica e lhes dá caráter diferencial”.
(CASCUDO, 2004, p.48)
Cultura e Civilização
“Como Dawson disse o habitat, diremos:
a cultura condiciona a civilização; não a cria.

O Japão industrial mudou de mentalidade?

CASCUDO, Luís da Câmara


Civilização e Cultura: pesquisas Ao domínio da sociologia pertence o debate sedutor da origem,
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004. desenvolvimento, esplendor, desintegração e fim das civilizações.
Cabe-lhe o exame expositivo e crítico de Spengler, Toynbee,
Berdiaeff, Schweitzer, Jaspers, Sorokin, Kroeber, dos
semi-esquecidos Danilevski, Schubart, Northrop, Keyserling”.
(CASCUDO, 2004, p.49)
Cultura e Civilização
“ ‘Cultura’ evoca principalmente
os progressos individuais,
‘civilização’, os progressos coletivos”.
(CUCHE, 1999, p.21 e 22)

CUCHE, Denys
A noção de cultura
nas ciências sociais
Trad. Viviane Ribeiro
Bauru: EDUSC, 1999. 256 p.
“Cultura naturalmente
não é sinônimo de civilização.

Cultura religiosa, cultura artística, cultura filosófica, cultura jurídica,


não é religião, arte, filosofia, direito.
É o exercício de sua produção, amplitude do equipamento,
melhoria, aperfeiçoamento, profundeza de sua aparelhagem.
CASCUDO, Luís da Câmara
Civilização e Cultura: pesquisas
e notas de etnografia geral
São Paulo: Global, 2004.
Herança de técnicas conquistadas pelas gerações anteriores, acresce-se na
incessante colaboração contemporânea em todos os ângulos da massa.

Valerá métodos, formas normativas, realizações, processos de


modificação, multiplicação, possibilitando o conhecimento através
dos meios físicos de elaboração continuada e do uso persistente”.
(CASCUDO, 2004, p.45)

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