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■& SABERES MONOGRÁFICOS


o Coords.: A lic e B ia n c h in i ■ L u iz F lá v io G om es
VJ

LEI MARIA
DA PENHA
LEI N. 11.340/2006: ASPECTOS ASSISTENCIAIS,
PROTETIVOS E CRIMINAIS DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO
A L IC E B IA N C H IN I
Doutora em Direito Penal pela PUCSP.
Mestre em Direito pela UFSC. Cocditora do
Portal www.atualidadesdodireito.com.br

LEI MAFHA
DAPEN HA
LEI N. 11.340/2006: ASPECTOS AíiSISTENCIAIS,
PROTETIVOS E CRIMINAIS DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO

Coordenadores
A L IC E B IA N C H IN I
LUIZ FLÁVIO G O M ES

2- edição

2014
CO
o
z
<
Q f S araiva
Editora ISBN 9 7 8 -8 5 -0 2 -2 2 8 1 1 -5
l P S araiv a
Ruo Henrique Schoumonn, 27 0, Cerqueira Césor — São Poulo — SP
CEP 05413-909
PABX:(11 )3 6 1 3 3000 B ia n c h in i, A lic e
SAC: 0 8 00 011 7875
L e i M a ria d a P e n h a : L e i 1 1 .3 4 0 /2 0 0 6 : a sp e c to s
De 2 ' o 6«, dos 8 :3 0 òs 19:30 a s siste n c ia is, p ro te tiv o s e c r im in a is d a v io lê n c ia
wvw.ediforasflroivo.coni.bi/contoto d e g ê n e ro /A lic e B ia n c h in i. - 2. e d . - S ã o P a u lo :
S a ra iv a , 2014. - ( C o le ç ã o sa b e re s m o n o g rá fic o s )

1. M u lh e re s - A b u so - L eis e leg islaç ão -


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34:396.6(81)(094)
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d o m éstica e f a m ilia r : C o m b ate :
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Ano Cristina Gorcia (coords.)
Adriono Morio Cláudio
Arte e diogramoção LaisSoriono
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Ano Beotriz Frogo Moreira (coords.)


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p o r q u a lq u e r m e io o u fo rm a se m a p ré v ia a u to riz a ç ã o d a
Marílio Cordeiro E d ito ra S araiva.
Capa FstúdioBogon A v io la ç ã o d o s d ire ito s a u to ra is é c r im e e s ta b e le c id o na
L ei n . 9 .6 1 0 /9 8 c p u n id o p e lo artig o 184 d o C ó d ig o P e n a l.

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Àqueles que, quebrando regras estabelecidas em seus tempos,
propiciaram que aflorassem tratam entos igualitários
entre hom ens e m ulheres.
♦> SUMÁRIO

Nota dos coordenadores.................................................................................................... 11

P refác io ..................................................................................................................................... 13

Introdu ção................................................................................................................................ 17

PARTE OBJETIVO, OBJETO, CONTEXTO, FORMAS DE VIOLÊNCIA,


DESTINATÁRIOS, ATORES, INSTRUMENTOS E CARACTERÍSTICAS
DA LEI M A R IA DA PENHA
Com entários aos arts. 1a a 1 1 ,2 5 a 3 2 ,3 5 a 4 0

1. Qual o objetivo da Lei Maria da Penha? (arts. 12 e 55)......................... 29


2. Qual o objeto da Lei? (art. 5a, caput)..................................................... 31
3. Os três contextos da violência de gênero: doméstico, familiar ou
em uma relação íntima de afeto............................................................. 34
4. Formas de violência de gênero previstas na Lei Maria
da Penha - art. 7a.................................................................................... 46
5. Requisitos e consequências do conceito legal de violência
doméstica e familiar contra a m ulher................................................... 56
6. Para quem serve a Lei? Destinatários.................................................... 57
7. A violência doméstica e familiar contra a mulher em números 71
8. Políticas assistenciais voltadas à mulher em situação de violência
doméstica e familiar: parte instrumental da Lei (arts. 3a, § 12, 8a a 11).. 82
9. A Lei Maria da Penha é fruto de movimento politico-criminal
punitivista?............................................................................................... 116
10. Origem da Lei: instrumentos de proteção dos direitos fundamentais.... 120
8 Coleção Saberes Monográficos

11. Violência doméstica e familiar constitui uma das formas de violação


dos direitos humanos - art. 6e ............................................................. 129
12. Ação afirmativa: compromissos do Estado assumidos em tratados
e convenções internacionais................................................................. 133
13. Critérios específicos de hermenêutica: fins sociais e condições
peculiares das mulheres em situação de violência doméstica e
familiar (art. 4a) ...................................................................................... 137
14. Atores da Lei (arts. 3a, § 2a, e 27 a 3 2 )................................................ 158

PARTE II TEM AS CR IM IN A IS

Com entários aos arts. 1 0 ,1 2 a 2 4 e 33 a 46

1. Medidas protetivas de urgência (arts. 18 a 24)..................................... 175


2. Fase pré-processual: atuação destacada da autoridade policial
(arts. 10,12 e 20).................................................................................... 204
3. Rito processual....................................................................................... 209
4. Extensão das normas do CPC, do ECA e do IE ao processo,
julgamento e execução das causas cíveis e criminais (art. 13)........... 214
5. Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher:
competência, âmbito de criação e horário de funcionamento
(arts. 14 e 3 3 )......................................................................................... 215
6. Competência para os processos eiveis (art. 15)................................... 227
7. Representação nos crimes de violência doméstica e familiar contra
a mulher (arts. 1 6 ,1 2 ,1, e 41)................................................................ 228
8. Vedação de penas de cesta básica ou outras de prestação pecuniária
e de substituição de pena que implique o pagamento isolado de
multa (art. 1 7)......................................................................................... 233
9. Notificação da ofendida de todos os atos processuais relativos ao
agressor, especialmente dos pertinentes a sua saida e ingresso no
sistema prisional (art. 2 1 )...................................................................... 239
10. Proibição de entrega de notificação ao agressor pela mulher
(art. 21, parágrafo único)........................................................................ 240
11. Direito de preferência, nas varas criminais - art. 33, parágrafo único 242
12. Curadorias e serviço de assistência judiciária (art. 3 4 )....................... 243
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 9

13. Vedação do instituto da suspensão condicional do processo


(art. 41).................................................................................................... 243
14. Aumento da reprimenda penal em razão de violência doméstica
(arts. 43 e 4 4 )......................................................................................... 245
15. Comparecimento obrigatório a programas de recuperação e
reeducação (art. 45)............................................................................... 248
16. A aplicabilidade das imunidades penais nos casos de crimes
patrimoniais cometidos contra a mulher no âmbito doméstico e
familiar (CP, arts. 181 e182 versus art. 7B, IV).................................... 249
17. STF, ADC 19 e ADI 4.424: umimportante julgam ento......................... 252

Considerações fin a is ............................................................................................................ 259

R eferên cias.............................................................................................................................. 277


♦> NOTA DOS COORDENADORES

A inform ação é a m arca da atualidade. Q uando transform ada


em conhecim ento, serve de chave para o sucesso intelectual e/ou
profissional. Na área jurídica, não é diferente.
O operador do Direito, já no início de sua vida de estudos na
graduação, não pode abrir mão do constante aprim oram ento de
seu saber, para que m antenha atualizadas suas ferram entas de
intervenção intelectual no m ercado de trabalho.
A Coleção Saberes M onográficos, ao re u n ir estudos sig n ifi­
cativos e abrangentes, tem com o p rin cip al objetivo tra z e r in ­
form ações e ap ro fu n d ar o co n hecim ento acerca de tem as j u r í ­
dicos relevantes.
Inúm eros autores participarão deste projeto, buscando, nas
m ais diversas especialidades do Direito, esgotar suas nuances. O
conteúdo de cada obra, sem pre revisado pelos coordenadores, ofe­
rece ao estim ado leitor m aterial de excelência, que fará a diferen­
ça do estudante ou profissional. Também é preocupação propiciar
a devida conexão entre teoria e realidade.
Esperam os que todos desfrutem de cada u m dos livros que
com põem a Coleção.
♦> PREFÁCIO

Foi com m uita alegria que recebi o honroso convite da Pro­


fessora D outora Alice Bianchini para escrever o prefácio de seu
m ais recente livro, que versa sobre u m dos tem as m ais discutidos
na atualidade: o tratam ento da violência dom éstica no âm bito da
Lei Maria da Penha.
Trata-se de obra corajosa que reflete a m aturidade intelectual
da autora. A m aioria dos estudos jurídicos sobre violência dom és­
tica no Brasil aborda a m atéria de form a reducionista e fragm en­
tada. Tais estudos denotam o desconhecim ento dos fundam entos
da teoria fem inista nas ciências hum anas e, m ais especificam ente,
nas ciências jurídicas. Para ju stificar a tutela da m u lh er no caso de
violência doméstica, afirm a-se, superficialm ente, que decorre de
um a agressão relacionada com u m “m achism o” de corte patológi­
co (muitos sequer em pregam o term o científico “patriarcado” ou
“dom inação m asculina”) e que, por tal motivo, essa violência deve
ser reprim ida.
Se as análises são superficiais, as reflexões sobre a form a de
com bater essa violência serão tam bém m uito limitadas. Por isso
mesmo, as conclusões convergem para a ideia de que a intensifi­
cação do rem édio penal (mais pena) perm ite encontrar um a solu­
ção efetiva para esse problem a. D efinitivam ente, este não é o ca­
m inho tecido pela professora Alice, que com preende e explicita a
problem ática de gênero nas sociedades m odernas.
As análises acerca da violência de gênero no direito são con­
sequência de pesquisas iniciadas nos anos 1970 sobre as relações
entre direito e fem inism o. Em u m prim eiro m om ento, as teóricas
14 Coleção Saberes Monográficos

constataram a ambivalência do discurso jurídico em relação ao


gênero fem inino, que implicava na insuficiente, inefetiva e inade­
quada tutela de direitos fundam entais das m ulheres. Isto levou à
formação de um a feministjurisprudence.
As críticas então tecidas indicavam que o d ireito m oderno
apenas refletia u m a percepção m asculina das relações sociais,
relacionando-se com u m m odelo c u ltu ra l hegem ônico, d en o ­
m inado pelas diversas co rren tes da teo ria fem in ista de p a tria r-
cado enquanto form a de relacionam ento, de com unicação en tre
os gêneros caracterizada pela dom inação do gênero fem inino
pelo m asculino.
Esta relação de dom inação e de subordinação se reflete na
ordem jurídica, produzindo violações de direitos fundam entais
sejam civis e políticos ou sociais. A dom inação do gênero fem i­
n in o pelo m asculino é tam bém m arcada (e garantida) pela vio­
lência física e/ou psíquica, bem destaca a professora Alice em seu
texto introdutório, sendo as m ulheres desprovidas de m eios de
reação efetivos.
Os estudos desenvolvidos sob a ótica “generalista” da teoria
fem inista com batem a invisibilidade das m ulheres na história (e
nas ciências sociais) e sinalizam o fim de um a etapa de pesquisa
m arcada por u m discurso sobre o patriarcado destacadam ente po­
lítico e insuficientem ente relacionado com as outras instâncias da
realidade social que constroem os gêneros.
O traço característico das pesquisas fem inistas nas ciências
hum anas é a rejeição dos conceitos hegem ônicos m asculinos, en ­
quanto instrum entos homogeneizadores que ocultam a presença
das m ulheres e m antêm os espaços privado/público artificialm ente
separados. Sustenta-se, assim, a necessidade de elaborar análises
sobre a configuração e transform ação das identidades e relações
entre os gêneros, analisando o atual sistem a dicotômico e assimétrico
de relações de poder.
O corre aqui um a m udança de paradigm a no cam po das ciên­
cias sociais, incorporando a perspectiva de gênero na teoria. Além
da m encionada inadequação da tutela dos direitos das m ulheres, a
reflexão crítica m ostra como a prática do direito contribui para a
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 15

consolidação das identidades de gênero, reproduzindo a dom ina­


ção m asculina. Partindo dessa ótica, projeta-se o desenvolvimento
de um a teoria que supere as concepções tradicionais-androcên-
tricas sobre o sistem a jurídico. Neste contexto é que se difundem
estudos sobre a violência contra a m ulher.
O livro da professora Alice insere-se nesta visão de estudos
críticos que superam as concepções androcêntricas. A autora se
propõe, com um a linguagem acessível, a explicar o fenôm eno da
violência doméstica e de gênero a p a rtir de um a perspectiva m ul-
tidisciplinar. Por tal motivo, o livro é m uito útil tanto para os
operadores jurídicos que trabalham com essa tem ática como tam ­
bém para aqueles que desejam com preender a violência de gênero.
Apesar de se dedicar a u m tem a denso e complexo, a obra
proporciona um a leitura m uito agradável. Isto se deve ao dom ínio
da didática por parte da autora, que dialoga com o seu leitor fa­
zendo perguntas e suscitando dúvidas. Dessa form a, o texto ad­
quire vida própria.
O recurso às estatísticas é outro im portantíssim o diferencial
da obra. Estas tam bém são usadas de form a didática. Assim, o
leitor entra em contato com a realidade da violência contra a m u ­
lher, m uitas vezes subestim ada nos discursos da m ídia, sendo
“sensibilizado” para o tem a. Dessa forma, a Professora Alice se
contrapõe a u m discurso ju ríd ico discrim inatório, que visa, ainda
que inconscientem ente, a m anutenção da invisibilidade fem inina.
Um exemplo. Q uando a autora com enta a admissão da prisão
preventiva em fase de inquérito policial conform e a Lei M aria da
Penha, resgata os dados relativos à realidade social, com base em
estudos estatísticos que perm item com preender a gravidade e
complexidade do fenôm eno da violência doméstica.
Seguindo o raciocínio exposto pela autora (e parafraseando-a),
se 52% das violências praticadas pelos m aridos e com panheiros
são de risco de m orte e se o Brasil ocupa a 1- posição entre os
países com m aior núm ero de m ulheres assassinadas, pode-se
com preender m elhor as opções do legislador pátrio no que tange
a adm issão da prisão preventiva.
16 Coleção Saberes Monográficos

A m in h a satisfação em prefaciar u m a obra de tam anho valor


e atualidade é im ensa. As leitoras e leitores se sentirão, tal como
eu, “cúm plices” da autora. Este livro contribui para que m uitos
m itos e preconceitos que ainda existem em relação à m u lh er em
situação de violência sejam dissolvidos. O m ais im portante é a
“sem entinha” da igualdade de gênero que a Professora Alice -
com um a delicadeza ím par - planta, por meio desta obra, no co­
ração dos leitores.
A todas e a todos desejo um a excelente leitura!

Rio de Janeiro, setem bro de 2012.

Ana Lucia Sabadell


Professora titular de Teoria do D ireito da
U niversidade Federal do Rio de Janeiro.
♦> INTRODUÇÃO

Toda mulher gosta de apanhar.


O homem é que não gosta de bater.

Nelson Rodrigues

Como não cabe perscru tar as razões da arte, não cabe enten­
der o que fez o inconsciente do grande dram aturgo lançar de si a
frase acima. Fato é que seu conteúdo discursivo ainda se encontra
plasmado no im aginário popular, talvez pela dificuldade de a so­
ciedade entender os m otivos de m uitas m ulheres não rom perem
com a violência que vivenciam no seu (nada doce) lar.
Supõe-se que predom ine um a natureza, um a espécie perver­
sa de gosto natural. A com preensão do fenômeno, no entanto,
exige a análise do papel reservado à m u lh er nas relações sociais.
Facilmente se verificam sobras consistentes do sistem a patriarcal,
m arcado e garantido pelo em prego de violência. Tal dominação
propicia o surgim ento de condições para que o hom em sinta-se (e
reste) legitim ado a fazer uso da força (física ou psicológica) e para
com preender a inércia da m ulher vítim a da agressão com o coni­
vência, principalm ente no que tange às reconciliações com o
com panheiro. Pesquisa da Fundação Perseu Abramo realizada em
18 Coleção Saberes Monográficos

2010 conclui que é com um as m ulheres suportarem agressões fí­


sicas dos com panheiros por m ais de dez anos.1
Essas m ulheres vítim as m erecem ser ajudadas em reflexão
sobre sua situação no m undo e sua subjetividade. Elas precisam
com preender o processo de violência e, a p a rtir dessa consciência,
tom ar a sua decisão (m anter o relacionam ento agressivo, buscar
auxílio para superar o ciclo de violência, ou afastar-se, definitiva­
m ente, do agressor). Agora, isso não é um a questão de caráter
pessoal. Q ualquer opção deve ser efetivada com a m u lh er em si­
tuação de segurança de sua saúde, integridade física, psíquica,
moral, sexual e patrim onial, dentre outras. É neste aspecto que a
Lei Maria da Penha cum pre o seu m ais relevante papel: propor­
cionar instrum entos úteis à m u lh er em situação de violência do­
m éstica e fam iliar. Trata-se de “norm as de discrim inação positiva,
ou seja, m edidas especiais de caráter tem porário destinadas a ace­
lerar a igualdade de fato entre hom em e m u lh er”, conform e p re­
ceitua o art. 4Q, item 1, da Convenção de Belém do Pará, da qual o
Brasil é signatário.
Algumas dessas m edidas possuem caráter ju ríd ico (e foram
tratadas principalm ente na parte II da presente obra), outras não
têm esse caráter (vistas na parte I). D entre essas últim as, vale des­
tacar as Redes de Serviços, bem como as disposições dirigidas ao
agressor, no sentido de tam bém nele se investir em novas subje-
tividades, consoantes com práticas propiciadoras de relações igua­
litárias com o sexo fem inino. A igualdade de gênero, a fim de se
to rn a r realidade, exige que hom ens e m ulheres rom pam com as
heranças de costum es cuja atribuição de sentidos de vida já não
m ais se coaduna com o presente. Não pertence ao nosso tem po,
por exemplo, o caso ocorrido em maio de 2012, em que u m pas­
sageiro, já dentro do avião, recusou-se a viajar porque quem co­
m andava e pilotaria a aeronave era um a m ulher.2

1 Disponível em : http://w w w .fpa.org.br/sitcs/default/filcs/cap5.pdf. Acesso cm : 19-8-


2012 .
2 H omem reclam a de piloto m ulher c é expulso de avião. FSP, 23-5-2012, C3. Ainda con­
form e a m esm a reportagem , cm cinco anos houve u m aum ento de 318% no total de
licenças em itidas para pilotos m ulheres.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 19

Para que tais alterações ocorram , é necessário com preender


os m odos como a assim etria sexual se processa, afirm a-se e re-
produz-se em sociedades históricas concretas. Também é im por­
tante que se perceba que a diferença de tratam ento entre os sexos,
com a valorização de papéis atribuídos aos hom ens, nada m ais é
do que um a construção social; assim, ela pode (e deve) ser m odi­
ficada. Um bom cam inho a se traçar com vistas a alcançar tal de­
siderato: im plem ento de u m novo m odo de pensar e agir, com
valores outros sendo dissem inados, prestigiados e estabelecidos
por u m proselitism o com petente.
O m odelo ideal é o da livre escolha. Os indivíduos não devem
estar tolhidos a papéis sociais previam ente determ inados e im ­
postos sob pena de censura, castigo ou desprezo. O que se p reten ­
de é que cada u m dos m em bros da com unidade (homem ou m u ­
lher) possa optar por form a de participação - consciente, pessoal
e responsável - na sociedade, e que, em razão da escolha, não lhe
seja im presso o rótulo de desajustado (efeminado ou m asculiniza-
da). Aspira-se à liberdade dos jeitos de ser, requisito intrínseco
para se chegar à igualdade.
O que se constata, no entanto, é a predom inância, ainda, da
ideologia que põe em foro de natureza a desigualdade sexual e
oculta às próprias m ulheres o caráter político das relações entre
os sexos, tornando-as cúm plices de sua desvalorização. Tal assi­
m etria, todavia, tem com portado resistência. M ulheres e hom ens
vêm denunciando-a, dem onstrando a incoerência e a falta de fu n ­
damentação, seja lógica, seja jurídica, seja econômica, seja afetiva,
seja relacional, da exclusão fem inina do espaço público, reivindi­
cando e obtendo o alargam ento do lugar que as m ulheres ocupam
no interior das relações sociopolíticas.
As construções culturais elaboradas ao longo dos séculos a
respeito dos papéis sociais atribuídos às pessoas conform e sua
pertença a determ inado sexo biológico geraram m uitas vezes re ­
lações assim étricas e hierárquicas entre hom ens e m ulheres em
prejuízo destas últim as, fazendo su rg ir hodiernam ente a necessi­
dade de previsões legais que observem especificidades tan to no
sentido de superar diferenças, as quais, espera-se, u m dia não
m ais existam (caso das previsões legais especialm ente direciona-
20 Coleção Saberes Monográficos

das ao problem a da violência dom éstica contra a m ulher), como


tam bém no sentido de g aran tir que diferenças naturais de fato
existentes não se traduzam jam ais em redução ou m esm o aniqui­
lação de direitos.
Para que a m u lh er supere o passado histórico de assim etria
de poder em relação ao hom em e atinja u m status de igualdade
concreta (e não só na expressão legal), é necessário, para além de
um a profunda alteração no m odo de pensar e de agir social, o
erigir de u m aparato jurídico próprio, sensível às diferenças p ro ­
duzidas culturalm ente e capaz de neutralizá-las. É em resposta a
essa dem anda tecida pela situação histórica que surge a Lei n.
11.340/2006 - Lei M aria da Penha, cujos objetivos, objetos, con­
textos e form a de violência, destinatários, instrum entos e caracte­
rísticas são objeto de análise da parte I deste livro (itens 1 a 6).
A Lei M aria da Penha com pletou seis anos no dia 7 de agosto
de 2012. Passada m ais de meia década da sanção presidencial ao
prim eiro in stru m en to legislativo especificam ente direcionado ao
combate à violência doméstica, surge u m im portante questiona­
mento, o qual se constitui, em verdade, em reflexão e balanço: as
m ulheres estão sofrendo m enos violência após a edição da Lei?
No item 7 da parte I são desfilados vários núm eros, dentre
eles, os apresentados por Pesquisa realizada pelo Instituto Sangari
(Mapa da Violência 2012).3 Ela traz dados bastante preocupantes: a
cada 5 m inutos 2 m ulheres são vítim as de espancam ento no País.
Ainda de acordo com a m esm a pesquisa, 70% das m ulheres víti­
mas de agressão sofreram o crim e na própria residência, sendo
que em 65% das vítim as na faixa dos 20 aos 49 anos a agressão foi
praticada pelo parceiro ou ex-parceiro. Conforme a Central de
A tendim ento à M ulher - Disque 180, de jan eiro a ju lh o de 2012,
52% das violências com etidas pelos m aridos e com panheiros fo­
ram de risco de m orte para a m ulher.4 Tal risco foi reduzido para

3 Disponível cm : http://m apadaviolcncia.org.br/pdf2012/m apa2012_m ulhcr.pdf.


4 Relatório Central de Atendimento à Mulher - Disque 180, ja n . a ju l. dc 2012. D isponível
cm : http://w w w .spm .gov.br/publicacocs-tcstc/publicacocs/2012/balanco-scm cstral-
liguc-180-2012, p. 7.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 21

46,3% no prim eiro sem estre de 2013.5 Não é sem razão, pois, que
o Brasil ocupa a posição de 1- lugar entre os países que possuem o
m aior núm ero de m ulheres m ortas, num universo de 84 países.6
Esse Brasil quantificado vem de u m Brasil relapso, ou seja, é
u m quadro que decorre de um a condição específica, bem identifi­
cável. É por isso que, quando analisado o tem a sob a ótica da im ­
plementação de políticas, program as, planos e diretrizes da Lei,
observa-se que m uito pouco foi feito ao longo desses seis anos. O
núm ero de Delegacias e de Juizados de Violência Doméstica e Fa­
miliar, por exemplo, é bastante reduzido e, norm alm ente, concen­
trado nas grandes m etrópoles, conform e dados trazidos na parte I
(item 8).
A legislação brasileira, no que tange à questão de gênero, apre­
senta longo histórico de discriminação negativa, com exemplos de
textos legais, alguns relativam ente recentes, que previam expres­
sam ente tratam ento discrim inatório em relação à m ulher, a con­
firm ar que contexto social e cultural contribui para produzir e
reforçar a crença na diferença bem como a intolerância, fazendo-
-se refletir na norm a positivada. São exemplos: o Código Civil de
1916 (e que vigorou até 2002), que previa, em seu art. 219, inciso
IV, a possibilidade de o m arido anular o casam ento caso consta­
tasse que sua esposa fora deflorada anteriorm ente (inexistindo
qualquer previsão análoga para a m u lh er que descobrisse que seu
m arido m antivera relações sexuais antes do casamento); o Código
Penal de 1940 (ainda em vigor), que até 2005 trazia o conceito de
“m u lh er honesta”, para identificar aquela cuja conduta m oral e
sexual fosse considerada irrepreensível, característica (até então)
indispensável para assegurar proteção legal contra determ inados
crim es sexuais. Esse m esm o Código previa (tam bém até 2005) a
possibilidade de u m estuprador não ser condenado caso a m ulher
vítim a do estupro viesse a se casar com ele após o crim e, pois en­
tendia o legislador de então que a punição se to rn aria desnecessá-

5 Disponível cm : http://w w w .spm .gov.br/publicacocs-tcstc/publicacocs/2013/balanco-


liguc-180-janeiro-a-junho-2013.
6 Disponível cm : http://w w w .m apadaviolcncia.nct.br.
22 Coleção Saberes Monográficos

ria em face da “reparação do dano aos costum es”, que era o bem
ju ríd ico tutelado pela crim inalização do estupro.
Os exemplos m encionados representam o espírito de um a
época. Esse espírito tornou-se insustentável diante da construção
de novas form as de tratam entos interpessoais. A profunda m odi­
ficação das estru tu ras de pensam ento refletiu-se na produção le­
gislativa, tornando possível, atualm ente, m ostrar necessidade e
localizar exemplos de discriminação positiva da m ulher no orde­
nam ento jurídico brasileiro, como é o caso da Lei Maria da Penha,
símbolo da luta do m ovim ento de m ulheres pelo reconhecim ento
e garantia de um a vida digna e livre da violência como u m direito
fundam ental, assegurado, ademais, na órbita internacional. Além
de a Lei Maria da Penha ser produto de um paradigm ático caso de
litigância internacional de direitos hum anos, o próprio Fundo de
Desenvolvimento das Nações Unidas para a M ulher recentem ente
a reconheceu como um a das três m ais avançadas no m undo (ao
lado da lei que vige na Espanha e da que vige na Mongólia), dentre
90 legislações sobre o tem a.7
Q uando a questão da violência dom éstica e fam iliar é vista
sob a ótica da sociedade, as notícias são m ais alvissareiras. Pes­
quisas nos dão conta de que, não obstante a nação brasileira
ainda possuir substrato m achista, o seu o lh ar para o papel fem i­
nino, para o lugar da m u lh er nas relações sociais e, principal­
m ente, para a conivência e concordância com a violência p ra ti­
cada contra a m u lh er vem sofrendo p ro fu n d a e substanciosa
modificação. Pesquisa realizada em 2004 pelo Ibope/Instituto
Patrícia Galvão revelou que 19% dos entrevistados apontaram a
violência contra a m u lh e r d en tro de casa com o o tem a que m ais
preocupava a m u lh er brasileira. Em 2006 (antes da Lei M aria da
Penha), tal índice havia subido para 24% e, no ano de 2009,
registra-se u m crescim ento im pressionante, atingindo a m arca
de 56%. Esquem aticam ente:

7 Relatório da Unifcm , Progresso das mulheres no mundo - 2 0 0 8 f2 0 0 9 . ín teg ra do docu­


m ento disponível cm: http://w w w .unifcm .org.br/sitcs/700/710/00000395.pdf.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 23

IBOPE IBOPE
Violência doméstica como tema que IBOPE/AVON
Patrícia Galvão Patrícia Galvão
mais preocupa a mulher brasileira 2009
2004 2006

Homens/Mulheres 19% 24 % 56%

Ademais disso, na pesquisa realizada pelo Ipea em 2013, 73%


dos respondentes discordaram da afirm ação de que “a questão da
violência contra as m ulheres recebe m ais im portância do que m e­
rece” (gráfico 10).8
Não resta dúvida de que a saída deste assunto da esfera priva­
da e fam iliar para a do debate público, propiciado, em larga m edi­
da, pela entrada em vigor da Lei M aria da Penha, foi relevante
para a sociedade (entenda-se hom ens e m ulheres). Levantam ento
feito pelo DataSenado no ano de 2011 revelou que 98% das m u lh e­
res já ouviram falar na Lei M aria da Penha. A prim eira pesquisa
sobre o grau de conhecim ento da Lei M aria da Penha data de 2008
(Pesquisa IBOPE/Themis). Nela se constatou que, do total de e n tre­
vistados, 68% declararam conhecer a Lei Maria da Penha.
Desde que foi prom ulgada, portanto, a Lei Maria da Penha
torna-se cada vez m ais conhecida. Isso tem consequências positi­
vas, pois dizer que há o conhecim ento da Lei im plica dizer que o
conhecim ento da Lei assenta-se na sociedade e, principalm ente,
que as m ulheres apropriam -se desse conhecim ento, o que equiva­
le a tom arem conta de seus próprios direitos.
Toda m u lh er pode ser vítim a de violência doméstica, porém
o risco de sofrer tal violência não é distribuído igualm ente entre
as m ulheres. A principal determ inante para afastar o risco é a
form a como a m u lh er se relaciona consigo mesm a. A m u lh er deve
com preender-se como u m sujeito de direito, e não como objeto de
um a tradição que a subjuga. Esta é um a preocupação da Lei Maria
da Penha. Este é u m resultado que a Lei M aria da Penha vem

n
Sistem a de Indicadores da Percepção Social: Tolerância social à violência contra as
m ulheres (IPEA, 2014). D isponível cm: http://w w w .ipca.gov.br/portal/im agcs/sto-
rics/PDFs/SIPS/140327_sips_violcncia_m ulhcrcs.pdf.
24 Coleção Saberes Monográficos

construindo, pois ainda é frequente que vítim as de violência ín-


tim o-afetiva acreditem que há algo errado em si m esm as e ali­
m entam u m sentim ento de culpa pela violência que sofrem . O u­
tras características: creem que devem cuidar dos outros em d etri­
m ento de si mesmas; possuem baixa autoestim a, desconhecim ento
de seus recursos pessoais e de seus direitos; sentem -se inferiores
e destituídas de poder sobre suas próprias vidas (GUIMARÃES;
SILVA; MACIEL, 2007). Mas não é só à m u lh er que se volta o es­
forço civilizatório legal. A Lei tam bém se ocupa (e se preocupa)
com as subjetividades m asculinas (principalm ente as do agressor),
bem como traz inúm eros com andos dirigidos à preocupação com
os fam iliares e as testem unhas da violência dom éstica e fam iliar
contra a m ulher. Estudos dem onstram o quanto a violência do­
m éstica e fam iliar praticada contra a m ãe afeta o desenvolvimento
psicológico dos filhos, ainda que estes jam ais ten h am sido vítim as
diretas da m esm a violência.
O flagrante e absurdo desrespeito aos direitos básicos da m u ­
lher no am biente doméstico, com o o direito de um a vida sem
violência, justifica a criação de u m in stru m en to voltado a in sti­
tu ir condições de se reverter tal quadro. Há que se entender, no
entanto, que a Lei Maria da Penha, além de gestada por conta de
u m contexto internacional e de a violência dom éstica e fam iliar
contra a m ulher se constituir um a das form as de violação dos
direitos hum anos, é um a lei de ação afirm ativa, significando, com
isso, que seu caráter é transitório. Ela vigorará, portanto, enquan­
to for necessária para atingir os objetivos para os quais ela foi
criada: coibir e prevenir a violência de gênero, no contexto do­
méstico, fam iliar ou de um a relação íntim a de afeto. Para cu m p rir
com tal função, ela se vale de ferram entas jurídicas e não ju ríd i­
cas. Essas características da Lei Maria da Penha são analisadas nos
itens 10 a 12 da parte I.
Apesar de todo o in stru m en tal jurídico, a tônica da Lei são as
diretrizes, princípios, norm as e políticas públicas de proteção,
providências, procedim entos, medidas, planos, estratégias, in s­
tru m en to s e m ecanism os de caráter assistencial, protetivo e p re­
ventivo da violência de gênero. É por isso que se pode afastar a
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 25

ideia de que a LMP seja fruto de m ovim ento punitivista (item 9).
Não obstante toda a perspectiva crim inal prevista na Lei M aria da
Penha (e que foi objeto de estudo da parte II do presente livro),
consubstanciada, principalm ente, na vedação perem ptória de apli­
cação de diversos institutos benéficos ao réu (composição civil,
transação penal, representação para os crim es de lesão corporal
leve e suspensão condicional do processo), ela não possui n a tu re ­
za punitivista. Sua linha de condução foi politico-crim inal, basea­
da, inicialm ente, em recom endações de caráter internacional (tra­
tados e convenções) e, posteriorm ente, em análises crim inológicas
acerca do real efeito da aplicação dos Juizados Especiais Crim inais
no trato da questão.
Aliás, a Lei M aria da Penha, ao criar os Juizados de Violência
Doméstica e Fam iliar contra a M ulher, deu u m tratam ento total­
m ente diferenciado ao conflito, um a vez que dotou tais órgãos
judiciais de todo u m aparato preventivo e assistencial à vítim a e
ao agressor (como tam bém aos fam iliares e às testem unhas). Por
conta disso, a atuação dos Juizados difere em m uito daquela trad i­
cionalm ente legada à justiça crim inal, não se lim itando à aprecia­
ção das responsabilidades crim inais e à distribuição de castigos.
Além disso, deve ser registrado que os dispositivos rigorosos
previstos na Lei (como a prisão preventiva) são fruto da necessidade
de se estabelecer instrum entos, ferramentas e controles enérgicos,
capazes de, concretam ente, causar um a alteração no quadro dram á­
tico da violência, principalm ente considerando-se que dados recen­
tes m ostram que 52% das violências praticadas pelos m aridos e
com panheiros são de risco de m orte (Central de A tendim ento à
M ulher - Disque 180, jan. a ju l. de 2012). Tal risco foi reduzido para
46,3% no prim eiro sem estre de 2013.9 De toda forma, convém res­
saltar: o instrum ental trazido pela Lei há que ser usado com todo o
cuidado e só na m edida do estritam ente necessário, aplicando-se
aqui os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade.

9 Disponível cm : http://w w w .spm .gov.br/publicacoes-tcstc/publicacocs/2013/balanco-


-liguc-180-janeiro-a-junho-2013.
26 Coleção Saberes Monográficos

Merece destaque, ainda, a preocupação da Lei no tocante à


form a que ela deve ser interpretada: sem pre voltada para os seus
fins sociais e para as condições peculiares das m ulheres em situa­
ção de violência dom éstica e familiar. Como se verá no item 13 da
parte I, tal orientação não im plica em desconsiderar princípios,
direitos e garantias de cunho crim inal quando da aplicação de
seus preceitos, mas, sim, que o conjunto de aspectos incidentes
deve ser m uito bem sopesado.
Os atores que obraram na consecução de objetivo da Lei Ma­
ria da Penha, suas atribuições e suas novas capacitações foram
apresentados no item 14 da prim eira parte do livro. Esses opera­
dores podem ser jurídicos ou não, sendo que para os prim eiros se
atribuem , inclusive, papéis diversos daqueles que costum am de­
senvolver quando se trata de outras causas que não as referentes à
violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher. Isso aconteceu,
principalm ente, com o m agistrado, o prom otor de ju stiça e o de­
legado de polícia. Há u m a série de atribuições por eles desem pe­
nhadas e que são exclusivamente voltadas para a causa fem inina.
As questões crim inais da Lei Maria da Penha foram analisadas
na parte II, onde se tratou das medidas protetivas de urgência; da
fase pré-processual, processual e execucional; da aplicação de nor­
mas do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Estatuto do
Idoso para os casos de violência dom éstica e fam iliar contra a m u­
lher e vice-versa, ou seja, da aplicação das norm as da Lei Maria da
Penha para os casos de violência contra criança, adolescente e ido­
so; dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mu­
lher; da representação nos crim es de lesão corporal leve; da veda­
ção das penas de cesta básica e outras e da suspensão condicional
do processo; e, por fim, do julgam ento, pelo Supremo Tribunal
Federal, em 9 de fevereiro de 2012, em conjunto, da ADC 19 e da
ADI 4.424, que, dentre outros tem as, encerrou a questão que gira­
va em torno da constitucionalidade ou não da Lei Maria da Penha.
A segunda parte do livro é inaugurada com as discussões acer­
ca das medidas protetivas de urgência, em razão da im portância
delas e pelo fato de serem referidas em vários dispositivos ao lon­
go da Lei Maria da Penha, o que exige, portanto, um a com preen-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 27

são de sua definição, am plitude e consequências, a fim de que a


apresentação e as discussões pertinentes aos outros institutos,
instrum entos ou atribuições estudados possam ser m ais bem de­
senvolvidos e com preendidos.
A presente obra busca exam inar os tem as m ais relevantes que
envolvem a violência de gênero, ilustrando-os, sem pre que dispo­
níveis, com dados de pesquisas realizadas sobre os assuntos pers­
crutados, com o objetivo de auxiliar em esclarecim entos e nas
tom adas de decisão.
PARTE I

♦> OBJETIVO, OBJETO, CONTEXTO, FORMAS DE


VIOLÊNCIA, DESTINATÁRIOS, ATORES, INSTRUMENTOS
E CARACTERÍSTICAS DA LEI MARIA DA PENHA
Comentários aos arts. 1^ a 11, 25 a 32, 35 a 40

Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos


inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa
igualdade nos descaracteriza. D aí a necessidade de uma igualdade
que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza ,
alimente ou reproduza as desigualdades.

Boaventura de Souza Santos

1. Qual o objetivo da Lei Maria da Penha? (arts. 1? e 5?)


Art. Ia Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violên­
cia doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8a do
art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Elimina­
ção de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Conven­
ção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência
contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados
pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos
30 Coleção Saberes Monográficos

Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e


estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em si­
tuação de violência doméstica e familiar.

Art. 5a Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e


familiar contra a m ulher qualquer ação ou omissão baseada no
gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou
psicológico e dano moral ou patrimonial:
I - no âmbito da unidade doméstica [...];
II - no âmbito da família [...];
III - em qualquer relação íntim a de afeto [...].
Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo
independem de orientação sexual.

Objetivo da Lei: é coibir e prevenir a violência de gênero no


âm bito doméstico, fam iliar ou de u m a relação íntim a de afeto.
Já em seu art. 1-, a Lei Maria da Penha define o seu objetivo:
coibir e prevenir a violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher.
Tal preocupação encontra-se ancorada no § 8Qdo art. 226 da
Constituição Federal,10 na Convenção sobre a Eliminação de Todas as
Formas de Violência contra a Mulher , na Convenção Interamericanapara
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (ambas foram
objeto de análise do item 10) e em outros tratados internacionais
ratificados pela República Federativa do Brasil.
Apesar de o art. 1Qda Lei referir-se à “violência dom éstica e
fam iliar contra a m u lh er”, o seu art. 5- delim ita o objeto de inci­
dência, ao preceituar que “para os efeitos desta Lei, configura
violência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er qualquer ação ou
omissão baseada no gênero”. E não é só. Nos incisos do m esm o
dispositivo legal antes citado, a Lei m enciona o contexto em que a
violência de gênero deve ser praticada: no âmbito da unidade do­
méstica, da fam ília ou em um a relação íntim a de afeto. Por fim ,
em relação às form as de violência, não obstante o caput do art. 5-

10 A rt. 226. A fam ília, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. [...] § 8® O
Estado assegurará a assistência à fam ília na pessoa de cada u m dos que a integram ,
criando m ecanism os para coibir a violência no âm bito de suas relações.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 31

fazer m enção a cinco form as, o art. 72, que trata de defini-las,
deixa claro que elas são m eram ente exemplificativas, quando, ain­
da no caput, utiliza a expressão “entre outras”.
Detalhes sobre as form as de coibição e de prevenção da vio­
lência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er (objetivo da Lei Maria
da Penha), sobre o contexto de incidência da Lei e sobre as form as
de violência serão tem as do próxim o item.

2. Qual o objeto da Lei? (art. 5?, caput)


Art. 5fi Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e
familiar contra a m ulher qualquer ação ou omissão baseada no
gênero [...]:
I - no âmbito da unidade doméstica [...];
II - no âmbito da família [...];
III - em qualquer relação íntim a de afeto [...].

Objeto da Lei: é a violência contra a m ulher baseada no gêne­


ro, praticada no âm bito doméstico, fam iliar ou em u m a relação
íntim a de afeto.
A Lei Maria da Penha não trata de toda a violência contra a
m ulher, m as som ente daquela baseada no gênero (art. 59, caput).
Tal delimitação decorre da redação contida no dispositivo antes
mencionado, o qual estabelece que, “para os efeitos desta Lei [Lei
Maria da Penha], configura violência dom éstica e fam iliar contra
a m u lh er qualquer ação ou omissão baseada no gênero” (grifou-se).
Toda violência de gênero é um a violência contra a m ulher,
m as o inverso não é verdadeiro. Caso concreto: m u lh er é baleada
por seu com panheiro. Motivo: ela iria delatá-lo à polícia. Não se
aplica a Lei M aria da Penha, pois não há um a questão de gênero.
O que é, então, violência de gênero? Veremos em breve, mas,
antes de adentrar o tema, tente pensar sobre o assunto. Busque
elencar algum as características que lhe são inerentes. Conseguiu?
Vamos ver se elas coincidem com as definições trazidas a seguir.
A violência de gênero envolve um a determ inação social dos
papéis m asculino e fem inino. Toda sociedade pode (e talvez até
deva) atrib u ir diferentes papéis ao hom em e à m ulher. Até aí tudo
bem . O problema? O problem a é quando a tais papéis são atribuí-
32 Coleção Saberes Monográficos

dos pesos com im portâncias diferenciadas. No caso da nossa so­


ciedade, os papéis m asculinos são supervalorizados em d etrim en ­
to dos fem ininos.
Para Maria Amélia Teles e Mônica de Melo, a violência de gê­
nero representa “um a relação de poder de dom inação do hom em
e de subm issão da m ulher. D em onstra que os papéis im postos às
m ulheres e aos hom ens, consolidados ao longo da história e refor­
çados pelo patriarcado e sua ideologia, induzem relações violentas
entre os sexos”.11
Os estudos de gênero surgiram nas décadas de 1960/1970 do
século XX e tin h am com o objeto problem atizar os diferentes va­
lores culturalm ente atribuídos às m ulheres e aos hom ens, que
vêm definindo os com portam entos e as expectativas sobre o papel
de cada u m dos gêneros em nossa sociedade.
Quando se estabelecem diferenças, quem tem o poder de esta­
belecê-las tom a-se por referência neutra, e o diferente torna-se
objeto de controle, para ser elim inado ou inferiorizado, e sobre ele
incidirá a violência considerada eficiente para tal objetivo. Em se
tratando de controle da m ulher, essa violência incide quase como
controle total, dada a situação de afeto, intim idade, convivência
(em m uitos casos) e continuidade que caracteriza a relação de po­
der desigual decorrente do sistem a de desigualdade de gêneros.
Os papéis sociais atribuídos a hom ens e a m ulheres são acom ­
panhados de códigos de conduta introjetados pela educação dife­
renciada que atribui o controle das circunstâncias ao hom em , o
qual as adm inistra com a participação das m ulheres, o que tem
significado ditar-lhes rituais de entrega, contenção de vontades,
recato sexual, vida voltada a questões m eram ente domésticas, prio-
rização da m aternidade. Resta tão desproporcional o equilíbrio de
poder entre os sexos, que sobra um a aparência de que não há in ­
terdependência, m as hierarquia autoritária. Tal quadro cria con­
dições para que o hom em sinta-se (e reste) legitim ado a fazer uso
da violência e perm ite com preender o que leva a m u lh er vítim a
da agressão a ficar m uitas vezes in erte e, m esm o quando tom a

11 TELES, M aria A. dc Almeida. MELO, Mônica. O que é violência contra a mulher. São Pau­
lo: Brasilicnsc, 2002.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 33

algum tipo de atitude, a acabar por se reconciliar com o com pa­


n heiro agressor, após reiterados episódios de violência. Pesquisa
da Fundação Perseu Abramo conclui que é com um as m ulheres
sofrerem agressões físicas, por parte do com panheiro, por mais
de dez anos.12 Diversos estudos dem onstram que tal submissão
decorre de condições concretas (físicas, psicológicas, sociais e eco­
nômicas) a que a m u lh er encontra-se subm etida/enredada, exata­
m ente por conta do papel que lhe é atribuído socialmente.
Dos conceitos e definições acim a trazidos, destacam -se algu­
m as im portantes características da violência de gênero:
a) ela decorre de um a relação de poder de dom inação do h o ­
m em e de subm issão da m ulher;
b) esta relação de poder advém dos papéis im postos às m ulheres
e aos hom ens, reforçados pela ideologia patriarcal, os quais
induzem relações violentas entre os sexos, já que calcados em
um a hierarquia de poder;
c) a violência perpassa a relação pessoal entre hom em e m ulher,
podendo ser encontrada tam bém nas instituições, nas e stru ­
turas, nas práticas cotidianas, nos rituais, ou seja, em tudo
que constitui as relações sociais;
d) a relação afetivo-conjugal, a proxim idade entre vítim a e agres­
sor (relação doméstica, fam iliar ou íntim a de afeto) e a habi-
tualidade das situações de violência tornam as m ulheres ain­
da m ais vulneráveis dentro do sistem a de desigualdades de
gênero, quando com parado a outros sistem as de desigualdade
(classe, geração, etnia).
Há que se ressaltar, ainda, que a violência de gênero é um a
espécie de violência contra a m u lh er que, por sua vez, é um a es­
pécie de violência doméstica. Esquematizando:

12 Dc acordo com a pesquisa, e n tre 6% e 17% das entrevistadas que a firm aram te r so­
frido violência física disseram te r p erm anecido m ais de dez anos com seus com pa­
nheiros. Os p ercentuais das entrevistadas que m an tiv eram o relacionam ento com
o agressor variam dc acordo com o tipo dc violência relatada. C apítulo referente à
violência dom éstica, disponível cm : http://w w w .fpabram o.org.br/sites/dcfault/filcs/
cap5.pdf.
ín te g ra da pesq u isa d isponível cm : h ttp ://w w w .fp ab ram o .o rg .b r/g alcria/v io lcn cia-
dom cstica.
34 Coleção Saberes Monográficos

Há, no entanto, um a lim itação para a aplicação das norm as


contidas na Lei Maria da Penha. Elas se referem ao contexto em
que a violência dom éstica tenha ocorrido, conform e se detalhará
a seguir.

3. Os três contextos da violência de gênero: doméstico, familiar


ou em uma relação íntima de afeto
Além de a violência te r por base um a questão de gênero, há
ainda outra exigência para que a Lei Maria da Penha tenha inci­
dência: o contexto dom éstico ou fam iliar da ação ou a existência
de um a relação íntim a de afeto (art. 5Q).
A preocupação com a violência contra a m u lh er dentro do lar
cresce a cada pesquisa realizada. No ano de 2004, Ibope/Instituto
Galvão constatou que 19% dos entrevistados apontaram a violên­
cia contra a m u lh er com o o tem a m ais preocupante para a m ulher
brasileira. Antes da aprovação da Lei Maria da Penha, m as ainda
no ano de 2006 (ano em que a Lei M aria da Penha en tro u em vi­
gência), pesquisa realizada pelo referido instituto com provou a
elevação do percentual, passando para 24%. Após a vigência da Lei
Maria da Penha, o percentual chegou a 56% (Pesquisa Ibope/Avon,
2009), ou seja, a preocupação com a violência contra a m u lh er é
um a realidade sensível e crescente.
Além da m aior vulnerabilidade da m u lh er no lar, dada a sua
m aior exposição ao agressor e a distância das vistas do público
(invisibilidade do problem a - v. item 13.1), é com um que o agres­
sor prevaleça-se desse contexto de convivência para m an ter coa-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 35

gida a m ulher, desencorajando-a a noticiar a violência sofrida aos


familiares, aos amigos ou às autoridades. Essa situação fataliza o
quadro de violência, e a m ulher, sentindo-se sem m eios para in ­
terro m p er a relação, tom a-o por inevitável. Subm etida a u m lim i­
te sem pre cruel e não raro fatal, a m u lh er acaba aceitando o papel
de vítim a de violência doméstica.
O agressor conhece a condição privilegiada decorrente de
um a relação de convívio, intim idade e privacidade que m antém
ou tenha m antido com a vítima, aproveitando-se dela para perpe­
tra r suas atitudes violentas. De fato, seguro do controle do “seu”
território, dificilm ente exposto a testem unhas, o indivíduo vio­
lento aum enta seu potencial ofensivo, adquirindo a conformação
de u m assassino em potencial. Por essas especificidades, não se
pode tratar indistintam ente um delito que ten h a sido praticado
por um desconhecido e outro perpetrado por alguém de convi­
vência próxima.
Como se percebe pelas pesquisas trazidas no item 7, a violên­
cia contra a m u lh er ocorre predom inantem ente no lar, notada-
m ente em razão de agressões praticadas por m aridos e com pa­
nheiros, o que aum enta m uito o fator de risco, pois o agressor
tem um a enorm e proxim idade com a vítim a. Aliás, com o tam bém
se tratará no item já referido, m eios que exigem contato direto,
como objetos cortantes e penetrantes (15,1% para hom ens, 24,6%
para m ulheres), contundentes (5% para hom ens, 7,7% para m u ­
lheres), sufocação (0,9% para hom ens, 6,1% para m ulheres) etc.
são mais com uns quando se trata de violência contra a m u lh er
(Mapa da Violência 2012).
O art. 5Qda Lei Maria da Penha especifica as três situações de
incidência de suas norm as: no âm bito da unidade dom éstica (inc.
I), no âm bito da família (inc. II) e em decorrência de um a relação
íntim a de afeto (inc. III). Todas serão vistas a seguir:

3.1. No âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de


convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar; inclu­
sive as esporadicamente agregadas - art. 5 fl, /
Três destaques devem ser elaborados em relação ao dispositivo:
36 Coleção Saberes Monográficos

a) unidade doméstica: de acordo com a Lei, representa o espaço


de convívio perm anente de pessoas, não abrangendo, por
exemplo, a m u lh er que foi fazer um a visita (amiga de u m dos
familiares) ou fazer entrega dom iciliar de algum produto;
b) não se exige o vínculo fam iliar (tal exigência aparece no inci­
so seguinte);
c) abarca as pessoas esporadicam ente agregadas: incluem -se, as­
sim, as m ulheres tuteladas, curateladas, sobrinhas, enteadas e
irm ãs unilaterais. Para W ilson Lavorenti, estariam , ainda, in ­
cluídas aquelas situações em que “a m ulher perm anece ainda
que por u m único dia como diarista, babá, enferm eira etc.,
casos em que tem os o convívio ainda que precário, sendo
portanto esporadicam ente agregada, nos term os da redação
final do inciso. Nesse sentido, o convívio perm anente há de
ser entendido no ato de perm anecer de form a ininterrupta,
durável, e não em longevidade de dias” (2009: 237-238). In­
cluiria, assim, de acordo com o autor citado, tam bém a em ­
pregada doméstica. Tal tem a é bastante controvertido, con­
form e se exporá a seguir.

Empregada doméstica
A doutrina m ajoritária posiciona-se no sentido da aplicação
da Lei Maria da Penha quando houver violência em face de em ­
pregada doméstica. D entre outros, podem os citar: Rogério San-
ches C unha e Ronaldo Batista Pinto (2011: 46), M aria Berenice Dias
(2010: 59), Fabiane Sim ioni e Rúbia Abs da Cruz (2011:189), Milene
M oreira (2011: 85), W ilson Lavorenti (2009: 237-238), A ltam iro de
Araújo Lima Filho (2008: 35) e Bárbara M. Soares (2007).13
Não obstante o posicionam ento favorável, alguns autores
exigem a presença de determ inadas circunstâncias. É o caso de
Gustavo Octaviano Diniz Junqueira e Paulo H enrique Aranda
Fuller. Os autores fazem referência ao tem po de perm anência da
em pregada e à afinidade com a família. Para os autores, algum as
circunstâncias hão que se fazer presentes. Elas são relativas à

13 Disponível cm: http://www .m pdft.gov.br/portal/index.php?option=com _contcnt& task


=vicw&id=639&Itcmid=133. Acesso cm: 2-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 37

inserção da em pregada na vida fam iliar, como, por exemplo, ser


diarista (não aplica), não d o rm ir no em prego (depende da p a rti­
cipação dela na vida fam iliar) e d o rm ir no em prego (aplica a Lei
M aria da Penha).
A p a rtir de tais circunstâncias, algum as reflexões m erecem
destaque:
1) A perm anência da em pregada dom éstica no local de trabalho
é critério apto a subm eter eventual agressor às determ inações
da Lei M aria da Penha?
2) É necessário que a empregada se envolva, efetivamente, nas
questões familiares para que a Lei Maria da Penha seja aplicada?
3) O tem po que a em pregada perm anece na unidade doméstica
influi na aplicação da Lei M aria da Penha?
4) É possível fundam entar eventual aplicação da Lei M aria da
Penha apenas e tão som ente no fato de a m u lh er ser diarista
ou em pregada doméstica? Ou seja, à diarista não se aplicaria
a Lei e a em pregada dom éstica estaria incluída em seu âmbito
de proteção?
Stela Valéria Soares de Farias Cavalcanti entende que a em ­
pregada doméstica não estaria am parada pela Lei Maria da Penha.
Para a autora, “os legisladores ordinários não pensaram em prote­
ger a m u lh er enquanto desem penhando atividades laborais, para
tanto já existia a CLT e vasta jurisprudência sobre assédio m oral,
entre outras. O que se pretendeu foi proteger a fam ília vítim a da
violência doméstica, bem como a m ulher sujeito passivo dessa
form a de crim inalidade” (2010: 200).
Posicionamento da autora: as relações laborativas domésticas
não se encontram am paradas pela Lei M aria da Penha, sendo que
os casos de violência contra a em pregada dom éstica devem ser
resolvidos em sede de juízo crim inal e/ou trabalhista, já que as
características que ensejam u m especial tratam ento do tem a (por
exemplo, relação de afeto, dependência em ocional e/ou patrim o­
nial, ciclo da violência etc. - v. itens 13.5,13.6 e 13.7) não se encon­
tra m presentes.
38 Coleção Saberes Monográficos

3.2. No âmbito da família , compreendida como a comunidade formada


por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por
laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa - art. 5 Q
, II
Considera-se violência fam iliar a que seja praticada por um
ou m ais m em bros de um a família, assim considerada a com uni­
dade form ada por indivíduos que “são ou se consideram aparen­
tados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade
expressa” (inc. II).
A Lei Maria da Penha dedica especial proteção à m u lh er víti­
m a de violência no am biente dom éstico e familiar, ao passo que a
proteção conferida pela Convenção de Belém do Pará é m ais abran­
gente, ou seja, protege a m ulher de qualquer tipo de violência.14
Para que haja incidência da Lei Maria da Penha e sujeição do
agressor a todas as implicações que decorrem da Lei M aria da
Penha, é necessário que a m ulher pertença à família, ou seja, os­
tente estreita ligação com os dem ais m em bros da unidade dom és­
tica. Tal assertiva não exige que haja apenas ligação por laços na­
turais, sendo possível, nos term os do art. 5Q, inc. I, que seja por
afinidade ou vontade expressa. A Lei M aria da Penha exige, por­
tanto, ligação entre a m ulher ofendida e o agressor, razão pela qual
se a m ulher agredida não pertencer à unidade dom éstica (p. ex.,
representante com ercial agredida enquanto fornecia u m produto
à família) não há que se falar em aplicação da Lei Maria da Penha.
Da m esm a form a, se a esposa ou com panheira for agredida na rua
ou em u m estabelecim ento com ercial, por exemplo, haverá inci­
dência da Lei Maria da Penha em razão da ligação entre o agressor
e a m u lh er vítim a.
A fam ília pode ser form ada por vínculos de parentesco n atu ­
ral (pai, mãe, filha etc.) ou civil (marido, sogra, cunhada etc.), por
afinidade (primo, cunhado, tio) ou de afetividade (amigos que di­
videm o m esm o apartamento).

14 A Convenção dc Belém do Pará define o que é violência co n tra a m u lh e r e o âm bito


de ocorrência no art. 2 a, sendo taxativa ao d isp o r que a violência co n tra a m u lh e r
pode o co rrer no âm bito da fam ília ou da unidade dom éstica; na com unidade; e, cm
decorrência dc atos dos agentes do Estado, bem com o cm razão da tolerância dos
m esm os agentes.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 39

a) Cunhado que agride cunhada


Em relação ao cunhadio, no HC 172.634-DF, o STJ, por u n an i­
midade, decidiu pela incidência da Lei Maria da Penha em caso
cujo agressor era cunhado da vítim a.15
A doutrina reconhece que a Lei Maria da Penha deveria ser
aplicada na relação entre cunhados: Fabiane Sim ioni e Rúbia Abs
da Cruz (2011: 189), Eudes Q uintino de Oliveira Junior.16 A inda de
acordo com as prim eiras autoras, “o conceito de com unidade fa­
m iliar proposta pela Lei é amplo. Nele estão abarcados m aridos,
com panheiros, nam orados, am antes, filhos, pais, padrastos, ir ­
mãos, cunhados, tios e avós (com vínculos de consanguinidade, de
afinidade ou por vontade expressa). Este conceito abrange um a
variedade de laços de pertencim ento no âm bito dom éstico”.

b) Irmão que agride irmã


O STJ reconheceu (REsp 1.239.850-DF, Rei. Mi Laurita Vaz,
julgado em 16-2-2012) a com petência do Juizado de Violência Do­
m éstica e Fam iliar contra a M ulher para processar e ju lg ar o co­
m etim ento do crim e de ameaça (art. 147, CP) de u m irm ão contra
sua irm ã. Para praticar o crim e, o agressor se valeu da autoridade
de irm ão, causando a ela sofrim ento psicológico.
O acusado, de acordo com o que consta nos autos, utilizou-se
da superioridade cultural que o irm ão exerce sobre a irm ã
causando-lhe sofrim ento psicológico ao ameaçá-la.
Desde criança, o irm ão é ensinado e colocado na posição de
protetor da irm ã pelos pais e pela sociedade na m aior parte das
vezes; a irm ã, por seu tu rn o , é ensinada e colocada na posição de
aceitar essa posição de protegida, sendo que tal situação se p erp e­
tua, não raras vezes, tam bém , na adolescência, alcançando, inclu­
sive, a idade adulta, levando a que irm ãos se ju lg u em superiores e
venham a exigir de suas irm ãs que lhes prestem obediência.

15 Disponível cm: http://stj.jus.br/portal_stj/publicacao/cnginc.wsp?tmp.arca=398&tmp.


tcxto=105303. Acesso cm: 2-8-2012.
16 Disponível cm: http://atualidadcsdodireito.com .br/cudcsquintino/2012/04/16/aplica-
sc-a-lci-m aria-da-pcnha-quando-a-vitim a-for-a-cunhada/. Acesso cm: 17-4-2012.
40 Coleção Saberes Monográficos

Para a aplicação da Lei M aria da Penha, não é necessário que


haja coabitação entre o irm ão agressor e a irm ã agredida. Tal as­
sertiva vai ao encontro do fundam ento da Lei M aria da Penha e é
a interpretação m ais adequada e conform e a Constituição, pois
confere a plena e devida proteção à m u lh er e irm ã agredida e sub­
jugada pelo irm ão. Ademais, apesar de tal discussão não te r sido
tratada no julgado, entendem os que a referida coabitação não n e­
cessita, sequer, te r existido no passado.
Em todos os casos, entretanto, há necessidade, repita-se, de
verificar se a violência está baseada em um a questão de gênero, tal
qual se expressou o STJ (REsp 1.239.850-DF, Rei. Min. Laurita Vaz,
julgado em 16-2-2012).
No sentido de tam bém aplicar a Lei Maria da Penha no caso
de violência entre irmãos: STJ, 65 Turma, HC 184.990-RS, julgado
em 12-6-2012, Rei. Og Fernandes. Para o relator, ficou caracteri­
zada a relação íntim a de afeto, “em que os agressores, todos ir ­
mãos da vítim a, conviveram com a ofendida, inexistindo a exi­
gência de coabitação no tem po do crim e para a configuração da
violência dom éstica contra a m u lh er”.

c) Nora que agride sogra


O STF afastou a incidência da Lei Maria da Penha em caso de
suposto crim e de ameaça praticado pela nora contra sua sogra,
por considerar ausente, dentre outras circunstâncias, a motivação
de gênero. Confira-se a ementa:

D IR E IT O PR O C E SSU A L P E N A L . C O M P E T Ê N C IA PA R A P R O C E S ­
SA R E JU L G A R A Ç Ã O PE N A L R E F E R E N T E A S U P O S T O C R IM E
D E A M E A Ç A P R A T IC A D O P O R N O R A C O N T R A SU A S O G R A .
É do juizado especial crim inal - e não do juizado de violência
doméstica e familiar contra a m ulher - a competência para pro­
cessar e julgar ação penal referente a suposto crime de ameaça
(art. 147 do CP) praticado por nora contra sua sogra na hipótese
em que não estejam presentes os requisitos cumulativos de rela­
ção íntim a de afeto, motivação de gênero e situação de vulnera­
bilidade. Isso porque, para a incidência da Lei n. 11.340/2006,
exige-se a presença concomitante desses requisitos. De fato, se
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 41

assim não fosse, qualquer delito que envolvesse relação entre


parentes poderia dar ensejo à aplicação da referida lei. Nesse
contexto, deve ser conferida interpretação restritiva ao conceito
de violência doméstica e familiar, para que se não inviabilize a
aplicação da norma (HC 175.816-RS, Rei. Min. Marco Aurélio
Bellizze, julgado em 20-6-2013).17

3.3. Em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou


tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação
- art. 5Q, III
O STF, em 18-9-2012, decidiu no sentido de aplicar a Lei Ma­
ria da Penha para relações de nam oro:

RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. CONSTITUCIO­


NAL. PENAL. VIOLÊNCIA COMETIDA POR EX-NAMORADO.
IMPUTAÇÃO DA PRÁTICA DO DELITO PREVISTO NO ART. 129,
§ 9Q, DO CÓDIGO PENAL. APLICABILIDADE DA LEI MARIA DA
PENHA (LEI N. 11.430/2006). IMPOSSIBILIDADE DE JULGA­
MENTO PELO JUIZADO ESPECIAL. 1. Violência cometida por
ex-namorado; relacionamento afetivo com a vítima, hipossufi-
ciente; aplicação da Lei n. 11.340/2006. 2. Constitucionalidade da
Lei n. 11.340/2006 assentada pelo Plenário deste Supremo Tribu­
nal Federal: constitucionalidade do art. 41 da Lei n. 11.340/2006,
que afasta a aplicação da Lei n. 9.099/1995 aos processos referen­
tes a crimes de violência contra a mulher. 3. Impossibilidade de
reexame de fatos e provas em recurso ordinário em habeas cor-
pus. 4. Recurso ao qual se nega provimento (STF - RHC: 112698
DF, Relator: Min. CÁRMEN LÚCIA, Data de Julgamento: 18-09-
2012, Segunda Turma, Data de Publicação: DJe-193 DIVULG 01-
10-2012 PUBLIC 2-10-2012).18

17 C onsulte o in teiro teor: http://stj.jusbrasil.com .br/jurisprudcncia/23553475/habcas-


corpus-hc-175816-rs-2010-0105875-8-stj/inteiro-teor-23553476.
18 Disponível em : http://jurisprudcncia.s3.am azonaw s.com /STF/IT/RH C _112698_ DF_
1349190883068.pdf?Signaturc=Q FrK 8G E T W M zr3bD % 2B R D xw Y h2H U M % 3D &
Expires=1398611987&AW SAccessKeyId=AKIAIPM2XEMZACAXCMBA&rcsponse-
co n tcn t-ty p c= ap p licatio n /p d f.
42 Coleção Saberes Monográficos

Tal tem a durante algum tem po foi objeto de controvérsias no


STJ. Em decisão em blemática, tal Tribunal, no ano de 2008, en ­
tendeu, no julgam ento do Conflito de Com petência 91.980-MG,
que a Lei Maria da Penha não deveria ser aplicada em casos en ­
volvendo ex-nam orados (no m esm o sentido: CC 95.057-MG). Por
m aioria de voto, os M inistros da Terceira Seção decidiram que:

1. Tratando-se de relação entre ex-namorados - vítima e agressor


são ex-namorados - , tal não tem enquadramento no inciso III do
art. 5Qda Lei n. 11.340, de 2006. É que o relacionamento, no caso,
ficou apenas na fase de namoro, simples namoro, que, sabe-se, é
fugaz muitas das vezes.
2. Em casos dessa ordem, a m elhor das interpretações é a estrita,
de modo que a curiosidade despertada pela lei nova não a condu­
za a ser dissecada a ponto de vir a sucumbir ou a esvair-se. Não
foi para isso que se fez a Lei n. 11.340!

Com entando a decisão, a Deputada Elcione Barbalho asseve­


rou que “desafortunadam ente, o julgador não percebeu a realida­
de que cerca as m ulheres brasileiras”19 e, com o desígnio de con­
sagrar, textualm ente, a necessidade de aplicação da Lei M aria da
Penha aos casos envolvendo a prática de violência por nam orados
ou ex-nam orados contra as nam oradas e ex-nam oradas, apresen­
tou o Projeto de Lei n. 4.367/2008, que se encontra pendente de
análise pelo Senado Federal e que tem por objetivo acrescentar ao
art. 5S da Lei n. 11.340/2006 dispositivo para consagrar, “de modo
explícito, que o nam oro, atual ou findo, configura relação íntim a
de afeto para o objetivo de proteção da m ulher contra a violência
dom éstica e fam iliar”.20
Na casa de origem , a redação final do Projeto foi aprovada em
23-3-2011, por unanim idade, tendo sido, posteriorm ente, encam i­
nhado, o Projeto, ao Senado Federal. Lá recebeu o n. 16/2011.

19 D isponível cm: http://w w w .scnado.gov.br/atividadc/m atcria/dctalhcs.asp?p_cod_


m atc=99692. Acesso cm : 2-8-2012.
20 Disponível cm : http://w w w .cam ara.gov.br/proposicocsW cb/fichadctram itacao?idPro
posicao=417380. Acesso cm: 2-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 43

A tualm ente, o STJ tem se m anifestado no sentido de aplicar a


Lei Maria da Penha em situação de nam oro, citando-se, a título de
exemplo o seguinte julgado:

LEI MARIA DA PENHA - EX-NAMORADOS ROMPIMENTO -


RELAÇÃO AFETIVA - INCIDÊNCIA - AMEAÇA - PROVA - DE­
POIMENTO DA VÍTIMA - VALIDADE - CONDENAÇÃO - RECUR­
SO DEFENSIVO - PRELIMINARES REJEITADAS - PRETENSÃO
ABSOLUTÓRIA AFASTADA - AUTORIA E MATERIALIDADE
COMPROVADAS - DESPROVIMENTO DO RECURSO. Não há que
se falar em incompetência do Juízo pelo fato de o acusado ser ex-
-namorado da vítima, eis que o crime decorreu da relação íntima
decorrente da convivência anterior, sendo certo que o ordena­
mento jurídico exige apenas que o agressor tenha convivido com
a ofendida, independente de coabitação (Artigo 5Q, inciso III, da
Lei n. 11.340/2006). Da mesma forma, não há que se falar em nu­
lidade por falta de proposta de suspensão condicional do processo,
uma vez que o Plenário do Supremo Tribunal Federal, por unani­
midade, considerou constitucional o artigo 41 da Lei n. 11.340/2006
(HC 106212 - Julg. 24-3-2011), inobstante o entendimento doutri­
nário diverso do relator. De efeito, a Lei Maria da Penha foi criada
com o objetivo de coibir de forma mais rigorosa a violência come­
tida contra a m ulher em seu ambiente doméstico, familiar e afe­
tivo, a Lei Maria da Penha em seu artigo 41 expressamente afasta
a aplicabilidade dos institutos despenalizadores da Lei n. 9.099/95.
Tal opção legislativa não configura violação ao princípio da isono-
mia, estando a sociedade a reclamar uma maior proteção à m ulher
contra a violência no âmbito familiar e doméstico. Nesta linha, a
jurisprudência tem entendido que se aplica a lei especial na hipó­
tese também de ex-namorados, ainda que o relacionamento já te­
nha se encerrado, desde que haja nexo causal com a agressão. Nos
crimes envolvendo ex-namorados a palavra da vítima é decisiva,
apesar do cuidado que o juiz deve ter nestes casos, certo que em
regra tais infrações ocorrem na ausência de outras testemunhas,
geralmente no interior da residência. No caso concreto, verifica-se
nexo de causalidade entre a conduta criminosa e a relação de inti­
midade existente entre o acusado e vítima, que estaria sendo ame-
44 Coleção Saberes Monográficos

açada de morte após rompimento do namoro de 08 meses, situa­


ção apta a atrair a incidência da Lei n. 11.340/06. Desprovimento
do recurso. (TJ-RJ - APL: 00582543820128190002 RJ 0058254-
38.2012.8.19.0002, Relator: DES. MARCUS HENRIQUE PINTO
BASILIO, Data de Julgamento: 18-3-2014, PRIMEIRA CÂMARA
CRIMINAL, Data de Publicação: P-4-2014 13:01)

O STF ju lg o u no m esm o sentido: CC 96.532/MG, Rei. M inis­


tra Jane Silva - D esem bargadora Convocada do TJMG, Terceira
Seção, julgado em 5-12-2008, DJe 19-12-2008; CC 100.654/MG,
Rei. M inistra Laurita Vaz, Terceira Seção, julgado em 25-3-2009,
DJe 13-5-2009; HC 181.217/RS, Rei. M inistro Gilson Dipp, Q uinta
Turm a, julgado em 20-10-2011, DJe 4-11-2011; AgRg no AREsp
59.208/DF, Rei. M inistro Jorge Mussi, Q uinta Turm a, julgado em
26-2-2013, DJe 7-3-2013. RHC 43425 RS 2013/0403772-7, Rei.
M inistra Laurita Vaz, Data de Julgam ento: 11-3-2014, T5 - Q u in ­
ta Turma.
No ano de 2014 o STJ julgou o processo que envolvia Luana
Piovani, conhecida atriz de novelas e cinem a. Depois de o TJRJ te r
afastado a aplicação da Lei Maria da Penha, o STJ reform a a deci­
são para aplicá-la.21
Posicionamento da autora: havendo um a relação de nam ora­
dos, ex-nam orados, ainda que sem coabitação, aplica-se a Lei Ma­
ria da Penha. O m esm o se dá para a relação entre am antes. Nessas
situações, o que a Lei M aria da Penha exige é um a relação íntim a
de afeto (art. 5Q, III).

3.4. Contextos de violência de gênero não contemplados pela Lei Maria


da Penha
Não foram contemplados, portanto, outros contextos em que
a violência de gênero pode se m anifestar, como, por exemplo, no
trabalho, na escola ou no âm bito institucional, praticada nas ins-

21 Para conhecer os detalhes do caso e as razões de decidir do TJRJ c do STJ sobre o


caso, consultar: BIANCHINI, Alice. Luana Piovani: aplicação da Lei M aria da Penha?
Disponível cm : http://atualidadcsdodircito.com .br/aliccbianchini/2014/04/03/luana-
-piovani-aplicacao-da-lci-m aria-da-pcnha/. Acesso cm 15-4-2014.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 45

tituições prestadoras de serviços públicos, como hospitais, postos


de saúde, delegacias, prisões.
A situação de encarceram ento da população fem inina apre­
senta questões m arcantes de violência de gênero não relacionadas
à violência doméstica. Em relatório sobre a situação das m ulheres
encarceradas no Brasil (2007), produzido pela Associação Brasileira
de Defesa da M ulher e da Juventude,22 foram constatados diversos
problem as relacionados à discrim inação e à violência de gênero,
sendo o m ais im ediato a não priorização de construção de unida­
des prisionais fem ininas: “Quando se tom a como análise o campo
da formulação das políticas penitenciárias propriam ente ditas, é
certo que, não obstante sua precariedade - se voltam apenas a
propostas de expansão física do sistema - contem plam unicam en­
te os hom ens, não alcançando a m edida m ais prim ária que se refe­
re à dotação de vagas e à construção de estabelecimentos carcerá­
rios fem ininos”.23 Além das condições precárias, a falta crônica de
vagas m uitas vezes obriga ao encarceram ento m isto de hom ens e
m ulheres, ou de travestis, hom ossexuais m asculinos e adolescen­
tes com m ulheres, retirando-lhes qualquer m ínim a privacidade.24
Além disso, segundo esse m esm o levantam ento, as denúncias
de violência sexual são frequentes, inclusive com ocorrência de
casos de gravidez em presidiárias durante o período de reclusão,
nos locais onde os agentes penitenciários são do sexo masculino:
“Os funcionários, quando não são os responsáveis diretos e exclu­
sivos pelos abusos sexuais, com pactuam com eles, possibilitando
que aconteçam por m eio da delegação de privilégios como a posse
das chaves que abrem pátios e celas fem ininas. As m ulheres que
sofrem violência sexual ou trocam relações sexuais por benefícios
ou privilégios não denunciam os agressores por medo, um a vez

22 íntegra do docum ento disponível cm: http://www.asbrad.com.br/contc% C3% BAdo/


rclat%C3%B3rio_oca.pdf. Acesso cm : 13-8-2012.
23 Relatório sobre M ulheres Encarceradas no Brasil, 2007, p. 7. Disponível em: http://w w w .
asbrad.com.br/conte%C3%BAdo/rclat%C3%B3rio_oca.pdf. Acesso cm: 2-8-2012.
24 Relatório sobre M ulheres Encarceradas no Brasil, 2007, p. 25. Disponível em: http://
www.asbrad.com.br/contc%C3%BAdo/relat%C3%B3rio_oca.pdf. Acesso cm: 2-8-2012.
46 Coleção Saberes Monográficos

que vão seguir sob a tutela de seus algozes, ou ainda por não en­
tenderem que o sexo utilizado como m oeda de troca é um a viola­
ção grave com etida por u m agente público que usa o poder
intrínseco à sua posição para coagi-las em um a relação de poder
extrem am ente desfavorável a elas”.25
O utra grave violação de direitos das m u lh eres decorrente
de questões de gênero diz respeito ao acesso a produtos de h i­
giene: “A cirrando o quadro de extrem o desrespeito aos direitos
da m ulher, a m aioria das cadeias públicas não disponibiliza ab­
sorventes íntim os para as presas”.26 A pesquisa m encionada re ­
lata que em grande p arte dos estabelecim entos penitenciários
fem ininos, as detentas som ente têm acesso a estes produtos m e­
diante doações de igrejas e associações, ou p o r m eio de seus
poucos visitantes.
Destaca-se ainda a abstinência sexual forçada em presídios fe­
m ininos: “O direito à visita íntim a, há m ais de vinte anos, é garan­
tido de form a plena e inquestionável aos presos hom ens, enquanto
para as m ulheres o m esm o direito não é garantido na m aioria dos
estabelecim entos prisionais fem ininos. [...] Em um a comparação
histórica com as condições de encarceram ento m asculina, pode-se
depreender que há grande diferença, disparidade e discrim inação
na efetiva concessão do direito à visita íntim a às presas”.27

4. Formas de violência de gênero previstas na Lei Maria


da Penha - art. 7^
Art. 72 São formas de violência doméstica e familiar contra a
mulher, entre outras:
I - a violência física [...];
II - a violência psicológica [...];
III - a violência sexual [...];

25 Relatório sobre M ulheres Encarceradas no Brasil, 2007, p. 25-26. Disponível cm: http://
www.asbrad.com.br/contc%C3%BAdo/relat%C3%B3rio_oea.pdf. Acesso cm: 2-8-2012.
26 Relatório sobre M ulheres Encarceradas no Brasil, 2007, p. 26. Disponível cm: http://
www.asbrad.com.br/contc%C3%BAdo/relat%C3%B3rio_oca.pdf. Acesso cm: 2-8-2012.
27 Relatório sobre M ulheres Encarceradas no Brasil, 2007, p. 44. Disponível em: http://
www.asbrad.com.br/contc%C3%BAdo/relat%C3%B3rio_oca.pdf. Acesso cm: 2-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 47

IV - a violência patrimonial [...];


V - a violência moral [...].

Cinco são as form as de violência m encionadas expressam ente


na Lei: física, psicológica, sexual, patrim onial e moral. O rol é
m eram ente ilustrativo, visto que o dispositivo faz menção à ex­
pressão “entre outras”.
Nem todas elas, entretanto, constituem um a agressão à cons­
tituição física da pessoa. Percebe-se, então, que a Lei M aria da
Penha, ao m esm o tem po que restringe o conceito de violência do­
m éstica e fam iliar contra a m ulher, igualm ente o amplia. A restri­
ção decorre do fato de que nem toda violência contra a m ulher
encontra-se abrangida no âm bito de proteção da Lei Maria da Pe­
n h a (somente a baseada no gênero e desde que praticada no con­
texto dom éstico ou fam iliar ou em um a relação íntim a de afeto);
a ampliação, por seu lado, dá-se em relação ao sentido da palavra
violência , o qual é utilizado para além daquele estabelecido no
cam po do direito penal. É o que ocorre quando, por exemplo, a
Lei Maria da Penha elenca, como violência patrim onial, a d estru i­
ção de docum entos pessoais da m u lh er pelo agressor (art. 7e, IV).
De tal alargam ento, decorre que nem todas as condutas con­
sideradas violentas pela Lei possuem u m correspondente penal. É
por isso que se deve te r m uita atenção com o conceito de violência
lá trazido. Enquanto no direito penal a violência pode ser física ou
corporal (lesão corporal, p. ex.), moral (configurando grave ameaça)
ou imprópria (com preendendo todo meio capaz de anular a capaci­
dade de resistência - uso de estupefacientes, p. ex.), a Lei M aria da
Penha se vale do seu sentido sociológico; m ais do que isso, utiliza-
-se do conceito de violência de gênero, como visto anteriorm ente
(v. item 3). Um ex-cônjuge, por exemplo, que cause dano em ocio­
nal e dim inuição da autoestim a m ediante manipulação, nos te r­
mos da Lei Maria da Penha, está praticando um a violência psico­
lógica (art. 7e, II). Nesses casos, m esm o não havendo crim e, um a
gama de ações assistenciais e de prevenção pode ser prestada em
favor da m ulher, como, por exemplo, o “acesso prioritário à rem o ­
ção quando servidora pública” (art. 9-, § 2Q, I). O abalo psicológico
48 Coleção Saberes Monográficos

que a m u lh er sofre, por não poder, com a tranquilidade que lhe é


de direito, reco n stru ir a sua vida, justifica a intervenção.
As cinco form as de violência m encionadas no art. 7-, como
dito anteriorm ente, são m eram ente exem plificativas, podendo-
-se, portanto, in clu ir outras que não sejam m encionadas no m es­
m o artigo.
Como exemplo de form a de violência não expressam ente m en­
cionada pela Lei, pode ser citada a violência espiritual (destruir as
crenças culturais ou religiosas ou obrigar a que se aceite u m de­
term inado sistem a de crenças), sem pre que ela se basear em um a
questão de gênero. Exemplo clássico é o do m arido que exige que
a m u lh er professe determ inado credo, entendendo que ela, por
conta de sua situação de casada, não pode escolher a sua religião.
Também a violência política, quando baseada no gênero, deve
aqui ser lembrada. É o que acontece na situação do cônjuge que
não perm ite que sua esposa concorra a u m cargo político. Aliás,
sobre tal tem a, há um a passagem histórica que m erece ser regis­
trada, ocorrida por ocasião da discussão, na Assembleia Consti­
tu in te de 1891, sobre o sufrágio fem inino. D entre tantos discursos
contra o voto fem inino, destaca-se o seguinte:

Deixo a outros a glória de arrastarem para o turbilhão das pai­


xões políticas a parte serena e angélica do gênero humano. A
observação dos fenômenos afetivos, fisiológicos, psicológicos, so­
ciais e morais não me permite erigir em regra o que a história
consigna como simples, ainda que insignes, exceções. Pelo con­
trário, essa observação me persuade que a missão da m ulher é
mais doméstica do que pública, mais moral do que política. De­
mais, a m ulher não direi ideal e perfeita, mas simplesmente nor­
mal e típica, não é a que vai ao foro, nem a praça pública, nem às
assembleias políticas defender os direitos da coletividade, mas a
que fica no lar doméstico, exercendo as virtudes feminis, base da
tranquilidade da família, e por consequência da felicidade social
(Dep. Pedro Américo, Câmara dos Deputados, sessão de 27 de ja ­
neiro de 1891 - grifou-se).

Bem se vê que o então congressista destaca características


tidas por fem ininas para não conceder um direito à m ulher.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 49

As form as de violência expressam ente previstas na Lei Maria


da Penha são as seguintes (rol enum erativo - art. 79):

4.1. A violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda inte­
gridade ou saúde corporal - art. 7°, /
A violência física é o tipo de violência de gênero prevista na
Lei Maria da Penha com m aior incidência. Pesquisa DataSenado,
realizada no ano de 2013, aponta que a violência física predom ina
nos casos de violência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er (62%
dos casos).
Da m esm a form a, nos registros de recepções da Central de
A tendim ento à M ulher - Ligue 180 - do ano de 2011, dentre os
58.512 relatos de violência a agressão física ficou em prim eiro
lugar (61,33%), seguida da psicológica (23,95%) e da m oral (10,88%).
No ano de 2013 os núm eros não se alteram m uito (balanço sem es­
tral - jan eiro a junho/2013): os relatos de violência som aram
37.582; destes, 55,2% foram de violência física, seguidos de psico­
lógica (29,5%) e m oral (10,2%). A violência sexual alcançou 1,7 e a
patrim onial 1,9%.
A percepção da sociedade sobre violência física foi objeto de
estudo da pesquisa Instituto Avon, realizada no ano de 2011. Para
80% dos entrevistados, a violência física deve ser entendida como a
prática de socos e chutes. Para 3% dos entrevistados, a violência
física pode ser entendida até como a violência que acarreta a morte.
A violência física é toda ofensa à integridade física e corporal
praticada com o em prego de força, podendo abranger “socos, ta­
pas, pontapés, em purrões, arrem esso de objetos, queim aduras etc.,
visando, desse modo, ofender a integridade ou a saúde corporal da
vítima, deixando ou não m arcas aparentes, naquilo que se deno­
m ina, tradicionalm ente, vis corporalis” (CUNHA; PINTO, 2011: 58).
De conform idade com os dados trazidos no Parecer da Co­
missão de Direitos H um anos e Legislação Participativa, na relato-
ria da Senadora Fátima Cleide, “o Brasil é, entre as 54 nações ana­
lisadas em 2005 pela Sociedade M undial de Vitimologia, o país
onde as m ulheres m ais estão sujeitas à violência no âm bito fam i­
liar; [...] cerca de 40% dos casos de violência dom éstica redundam
50 Coleção Saberes Monográficos

em lesões corporais graves, como deform idade perm anente e p e r­


da de m em bro; [...] as pesquisas com m ulheres violentadas apon­
tam a prevalência de lesões na região da cabeça e do pescoço, so­
bretudo no rosto; [...] a m aioria das m ulheres portadoras das
sequelas déform antes não pode pagar por cirurgias plásticas repa­
radoras nem consegue a realização desse procedim ento nos servi­
ços públicos de saúde”.28
Pesquisa realizada no ano de 200229 aponta que agentes cor­
tantes são utilizados pelos agressores em num erosos casos de vio­
lência física perpetrados contra m ulheres (9,1% dos casos foram
praticados por instrum entos cortantes). Ademais, as regiões cor­
porais m ais afetadas quando da prática de atos de violência física
contra as m ulheres são a cabeça e o pescoço.

4.2. A violência psicológica, entendida como qualquer conduta que cause


dano emocional e diminuição da autoestima ou que prejudique e per-
turbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar
ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, cons­
trangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância cons­
tante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização,
exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio
que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação -
art. 7°, II
A preocupação com a violência psicológica é m uito im p o rtan ­
te. Pesquisas realizadas em 2010 e 2011 constataram que a violên­
cia psicológica é um a realidade na sociedade brasileira. Pesquisa
Perseu Abramo, realizada em 2010, com provou que a violência
psicológica representa 23% dos casos de violência contra a m u lh er
no am biente doméstico, ao passo que, no ano de 2011, Pesquisa
DataSenado constatou que a violência psicológica representou

28 Disponível cm: http://atualidadcsdodireito.com .br/aliccbianchini/2012/01/12/cirur-


g ia -p la s tic a -p e lo -s u sp a ra -rc p a ra rlc so c s -d c c o rrc n te s -d e -v io lc n c ia -d o m c s tic a -e -
fam iliar-contra-a-m ulhcr. Acesso cm: 2-8-2012.
29 Disponível cm : http://www.sciclo.br/sciclo.php?script=sci_arttcxt& pid=S0102-311X2
006001200007& lng=pt& nrm =iso& tlng=pt. Acesso cm: 2-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 51

38% dos casos de violência. Este últim o percentual é m antido na


pesquisa DataSenado de 2013.
Sete são as condutas elencadas no inciso e que podem causar
violência psicológica:
1) conduta que cause dano emocional e dim inuição da autoestima;
2) conduta que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento;
3) conduta que vise degradar suas ações;
4) conduta que vise controlar suas ações;
5) conduta que vise controlar seus com portam entos;
6) conduta que vise controlar suas crenças;
7) conduta que vise controlar suas decisões.
Todas elas precisam ser praticadas por um dos seguintes meios:
1) ameaça;
2) constrangim ento;
3) hum ilhação;
4) manipulação;
5) isolamento;
6) vigilância constante;
7) perseguição contumaz;
8) insulto;
9) chantagem;
10) ridicularização;
11) exploração;
12) lim itação do direito de ir e vir;
13) qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicoló­
gica e à autodeterm inação.
A violência psicológica, não obstante ser m uito com um , ca-
racteriza-se pelo fato de norm alm ente não ser reconhecida pelas
vítim as como algo injusto ou ilícito.
Em pesquisa realizada entre os anos de 2000 e 2001, a p a rtir
do atendim ento feito a vítim as de crim e no Centro de A tendim en­
to a Vítimas de Crim e (CEVIC), em Florianópolis-SC, constatou-se
que “as form as de violência psicológica dom éstica nem sem pre
são identificáveis pela vítim a. Elas podem aparecer diluídas, ou
52 Coleção Saberes Monográficos

seja, não ser reconhecidas como tal por estarem associadas a fe­
nôm enos em ocionais frequentem ente agravados por fatores tais
como: o álcool, a perda do emprego, problem as com os filhos,
sofrim ento ou m orte de fam iliares e outras situações de crise.”30
Verificou-se, ainda, que “a violência psicológica está presente
em todas as três categorias [de violência doméstica]. Vale destacar que
a categoria violência dom éstica física e psicológica foi criada m e­
diante o relato das vítim as, por meio do qual eram descritas, ao
profissional do CEVIC, além da violência física (tais como socos,
arranhões, puxões de cabelo, arrem esso de objetos, chutes, tapas e
beliscões), as hum ilhações, a desqualificação. Muitas vezes, a víti­
m a era m antida trancafiada dentro de casa, sendo ridicularizada
perante os amigos (dele), a fam ília (dele), e desautorizada perante
os filhos, bem como tam bém sofria diversas form as de ameaça”.

4.3. A violência sexuai, entendida como qualquer conduta que constran­


ja a presenciar; a manter ou a participar de relação sexual não de­
sejada, mediante intimidação, ameaça , coação ou uso da força; que
induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sexualida­
de, que impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que force
ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou ã prostituição, mediante
coação, chantagem , suborno ou manipulação; ou que limite ou anu­
le o exercício de direitos sexuais e reprodutivos - art. 7°, III
As form as de violência sexual baseadas no gênero são bastan­
te abrangentes, considerando como tal qualquer conduta que, pra­
ticada m ediante (a) intimidação; (b) ameaça; (c) coação ou (d) uso
da força, constranja a m ulher a:
1) presenciar relação sexual não desejada;
2) m an ter relação sexual não desejada;
3) participar de relação sexual não desejada.

30 CAPONI, Sandra Noemi Cucurullo dc; COELHO, Elza Bcrgcr Salema; SILVA, Lucia-
nc Lemos da. Violênda silenciosa: violência psicológica com o condição da violência
física doméstica. íntegra disponível cm: http://www.sciclo.br/sciclo.php?script=sci_
arttcxt&pid=SI4I4-3283 2007000100009&lng=cs&uscrID=-2#ql. Acesso cm: 13-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 53

Ainda, é considerada violência sexual qualquer conduta,


quando praticada m ediante (a) coação, (b) chantagem , (c) suborno
ou (d) m anipulação, que a:
4) induza a comercializar, de qualquer modo, a sua sexualidade;
5) induza a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade;
6) im peça de usar qualquer m étodo contraceptivo;
7) force ao m atrim ônio;
8) force à gravidez;
9) force ao aborto;
10) force à prostituição.
Por fim , tam bém constitui violência sexual qualquer conduta
que (11) lim ite ou (12) anule o exercício de seus direitos sexuais e
reprodutivos. Os direitos sexuais pressupõem a livre exploração
da orientação sexual, podendo a pessoa prom over a escolha do
parceiro(s) e exercitar a prática sexual de form a dissociada do ob­
jetivo reprodutivo. Deve ser assegurado o direito à prática sexual
protegida de doenças sexualm ente transm issíveis, além do neces­
sário respeito à integridade física e moral.
Já os direitos reprodutivos levam em conta a livre escolha do
núm ero de filhos que u m casal deseja ter, independentem ente de
casamento, sendo assegurado o direito ao m atrim ônio desde que
haja concordância plena de ambos.
O rol das doze condutas apresentadas não é taxativo. Havendo
um a situação análoga, há possibilidade de se enquadrar como vio­
lência sexual de gênero.

4.4 . A violência patrimonialentendida como qualquer conduta que confi­


gure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus obje­
tos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e
direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfa­
zer suas necessidades - art. 7°, IV
C onstitui violência patrim onial contra a m u lh er qualquer
conduta que configure:
1) retenção;
2) subtração;
3) destruição parcial ou total.
54 Coleção Saberes Monográficos

Tais ações, por sua vez, devem recair sobre os seus:


a) objetos;
b) instrum entos de trabalho;
c) docum entos pessoais;
d) bens;
e) valores;
f) direitos;
g) recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer
suas necessidades.
Tal dispositivo encontra correspondência no art. 5Q da Con­
venção de Belém do Pará.
É de sum a im portância tal preocupação, posto que a ausência
de autonom ia econôm ica e financeira da m u lh er contribui para
sua subordinação e/ou subm issão, ao enfraquecê-la, colocando-a
“em situação de vulnerabilidade, atingindo diretam ente a
segurança e dignidade, pela redução ou im pedim ento da capaci­
dade de tom ar decisões independentes e livres, podendo ainda
alim entar outras form as de dependência como a psicológica”
(FEIX, 2011: 208).
Algumas situações que configuram a violência patrim onial,
por caracterizar form as de retenção ou subtração de recursos fi­
nanceiros necessários para satisfação das necessidades da m ulher
(FEIX, 2011: 208):
abandono m aterial decorrente do não pagam ento de pensão
alimentícia;
^ prejuízo financeiro infligido como castigo pela iniciativa na
separação.
O em poderam ento econôm ico-profissional das m ulheres é
u m fenôm eno decorrente das necessidades e consequências da
Segunda G uerra M undial. Apesar do tem po transcorrido, a supe­
ração de interditos culturais, sociais e legais de adquirir bens e
deles livrem ente dispor, inclusive de rendim entos, não é, ainda,
batalha com pletam ente vencida. Grande parte da população con­
tin u a sendo educada vendo o hom em como provedor necessário
da família, daí justificando-se e até buscando-se a perm anência
dos hom ens na condição de chefes de família, adm inistrando e
controlando os recursos financeiros da com unidade familiar, o
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 55

que pode ser considerado um a form a de dom ínio e m esm o de


chantagem para a imposição da vontade m asculina e m anutenção
da relação desigual de poder entre gêneros.
Segundo dados divulgados pela Pesquisa Mensal de Emprego
do IBGE (PME),31 no ano de 2011, enquanto os salários dos hom ens,
em média, chegava a R$ 1.857,64, as m ulheres recebiam R$
1.343,81. A disparidade, portanto, é de aproxim adam ente 28%.
Esses valores indicam um a evolução no rendim ento em re ­
lação ao ano de 2003, quando a rem uneração m édia das m u lh e ­
res era de R$ 1.076,04, ou seja, 70,8% do que recebia, em m édia,
u m hom em .32
O utro dado im portante: em agosto de 2006, 2,7 m ilhões de
trabalhadoras eram as principais responsáveis nos seus domicílios
no total das seis regiões m etropolitanas investigadas pela Pesquisa
Mensal de Emprego, o que representava quase 30% da população
fem inina ocupada.33

4. 5. A violência m orai entendida como qualquer conduta que configure


calúnia, difamação ou injúria - art. 7Q, V
A Lei M aria da Penha traz a violência m oral contra a m u lh er
como um a das form as de violência. Aqui, tais form as reproduzem
os conceitos penais (calúnia, difamação e injúria).
A conduta do agente no crim e de calúnia consiste na im puta­
ção da prática de fato crim inoso que o sujeito ativo do crim e sabe
ser falso. Na difamação , há im putação da prática de fato desonroso,
fato este que atinge a reputação da vítim a, enquanto na injúria há
ofensa à vítim a devido à atribuição de “qualidades negativas”
(CUNHA; PINTO, 2011: 61).
Há um elo m uito estreito entre a violência m oral e a psicológica.

31 Disponível em: http://cconomia.cstadao.com .br/noticias/cconomia,m ulhcrcs-ganharam -


28-a-mcnos-do-que-os-homens-cm-2011,100662,0.htm . Acesso cm: 20-4-2012.
32 Disponível no site do IBGE: http://w w w .ibgc.gov.br/hom c/cstatistica/indicadorcs/
trabalhocrcndim cnto/pm e_nova/M ulhcr_M crcado_T rabalho_Pcrg_R csp_2012.pdf.
Acesso cm: 2-8-2012.
33 Disponível cm: http://w w w .ibgc.gov.br/hom e/estatistica/indicadorcs/trabalhocrendi-
m cnto/pm e_nova/trabalho_m ulhcr_rcsponsavcl.pdf. Acesso cm: 2-8-2012.
56 Coleção Saberes Monográficos

5. Requisitos e consequências do conceito legal de violência


doméstica e familiar contra a mulher
O conceito legal de violência dom éstica e fam iliar contra a
m ulher deve ser retirado da com binação entre os arts. 5Qe 7Qda
Lei M aria da Penha. Desta form a, exige-se a presença dos seguin­
tes requisitos (todos já analisados nos itens anteriores):

violência baseada em uma questão de gênero


art. 5a, caput

praticada contra a mulher em um contexto familiar,


doméstico ou em razão de relação íntima de afeto
art. 5a, caput e I a III

e que resulte, dentre outros, em morte, lesão, sofrimento /


físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial
arts. 5a, caput, e 7a, I a V

Ainda há que se entender que o conceito trazido pela Lei foi


sistematizado pela legislação internacional, precipuam ente, pelos
dois docum entos internacionais citados no preâmbulo e no art. 1-
da Lei M aria da Penha:
Convenção de Belém do Pará: no art. 1Qdefine violência con­
tra a m u lh er como “qualquer ato ou conduta baseada no gê­
nero, que cause m orte, dano ou sofrim ento físico, sexual ou
psicológico à m ulher, tanto na esfera pública com o na esfera
privada”.
Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discri­
minação Contra a Mulher: afirm a que “para fins da presente
Convenção, a expressão ‘discrim inação contra a m u lh er’ sig­
nificará toda distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo
e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o
reconhecim ento, gozo ou exercício pela m ulher, independen­
tem ente de seu estado civil, com base na igualdade do h o ­
m em e da m ulher, dos direitos hum anos e liberdades funda-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 57

m entais nos cam pos político, econômico, social, cultural e


civil ou em qualquer outro cam po”.
Como consequências do conceito legal, tem os que:
^ não se exige que vítim a e agressor convivam ou ten h am con­
vivido sob o m esm o teto (coabitação);
^ não abrange violência de gênero ocorrida no local do traba­
lho, na escola etc.

6. Para quem serve a Lei? Destinatários


O destinatário prim ordial da Lei Maria da Penha é a m u lh er
em situação de violência dom éstica e familiar. Porém, a Lei não se
lim ita a ela, trazendo em seu bojo um a série de dispositivos de
caráter assistencial e/ou protetivo direcionados aos fam iliares, às
testem unhas e ao agressor.

6.1. Vítimas
a) vítim a m ulher
A Lei Maria da Penha, em grande parte do seu texto, não faz
referência à m u lh er agredida com o vítim a, mas, sim, à “m u lh er
em situação de violência dom éstica e fam iliar”. Tal opção é propo­
sital e visa re tira r a carga vitim izatória do fenômeno.
Carm en H ein de Campos e Saio de Carvalho advertem para o
fato de que o term o m u lh er em situação de violência dom éstica e
fam iliar “indica a verdadeira complexidade da situação de violên­
cia doméstica, para além dos preceitos classificatórios e dicotôm i­
cos do direito penal ortodoxo (p. ex., sujeito ativo e passivo, autor
e vítim a)” (2011:146).
De fato, o term o é o que m elhor indica o caráter transitório
da condição da m u lh er que está sofrendo u m a violência dom és­
tica e fam iliar, já que, apesar de a m u lh er encontrar-se em um a
situação de vulnerabilidade, tal não significa que ela é m ais frá­
gil que o hom em . Trata-se de u m a vulnerabilidade situacional;
em outras circunstâncias, dentro de u m contexto diferente de
história de vida, essa m esm a m u lh er estaria em iguais condições
do hom em .
58 Coleção Saberes Monográficos

Uma questão controvertida refere-se à possibilidade, ou não,


de se estender a proteção prevista na Lei M aria da Penha para
outras situações análogas ou em que se encontrem outras classes
de hipossuficientes (criança, idoso, p. ex.). É o que se verá nos
próxim os itens.

b) vítim a transexual
De acordo com o art. 5Q, parágrafo único, a Lei n. 11.340/2006
deve ser aplicada, independentem ente de orientação sexual, razão
pela qual, na relação entre m ulheres hétero ou transexuais (sexo
biológico não corresponde à identidade de gênero; sexo m asculino
e identidade de gênero feminina), caso haja violência baseada no
gênero, deve haver incidência do referido diplom a legal.
A aplicação da Lei M aria da Penha para tran sex u al m asculi­
no foi reconhecida na decisão oriunda da l- Vara C rim inal da
Comarca de Anápolis, juíza Ana Cláudia Veloso Magalhães (Proc.
201.103.873.908, TJGO). Principais motivações trazidas pela m a­
gistrada para aplicar a Lei Maria da Penha:
^ em bora não ten h a havido alteração no seu registro civil, a
vítim a fora subm etida a um a cirurgia de redesignação sexual
há 17 anos, o que a to rn a pessoa do sexo fem inino, no que
tange ao seu “sexo social, ou seja, a identidade que a pessoa
assum e perante a sociedade”;
^ a não aplicação das m esm as regras elaboradas para proteção
da m ulher “transm uta-se no com etim ento de um terrível pre­
conceito e discrim inação inadm issível”;
os arts. 2- e 59, e seu parágrafo único, da Lei Maria da Penha
respaldam a possibilidade de aplicação da Lei:

Art. 22 Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia,


orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e reli­
gião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana,
sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver
sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfei­
çoamento moral, intelectual e social (grifou-se).
Art. 5QPara os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e
familiar contra a m ulher qualquer ação ou omissão baseada no
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 59

gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou


psicológico e dano moral ou patrimonial:
[...]
Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo
independem de orientação sexual (grifou-se).

o princípio da liberdade, que se desdobra em liberdade sexual,


“garante ao indivíduo, sujeito de direitos e obrigações, a livre
escolha por sua orientação”;
“o gênero é construído no decorrer da vida e se refere ao es­
tado psicológico”, de form a que “o transexual não se confun­
de com o hom ossexual, pois este não nega seu sexo, em bora
m antenha relações sexuais com pessoas do seu próprio sexo”;
^ “partindo da prem issa de que o que não é proibido é p erm i­
tido, do reconhecim ento da união hom oafetiva pelos trib u ­
nais e do conhecim ento de que, no ordenam ento jurídico, o
que prevalece são os princípios constitucionais, entende-se
que seria inconstitucional não proteger as lésbicas, os traves­
tis e os transexuais contra agressões praticadas pelos seus
com panheiros ou com panheiras”.
No que tange à inexistência de norm a legal específica, bem
como da divergência instalada na doutrina e na jurisprudência
sobre o tem a, entende a m agistrada que:
<$> “tais om issões e visões dicotôm icas não podem servir de óbi­
ce ao reconhecim ento de direitos erigidos a cláusulas pétreas
pelo ordenam ento ju ríd ico constitucional. Tais óbices não
podem cegar o aplicador da lei ao ponto de desproteger ofen­
didas como a identificada nestes autos de processo porque a
m esm a não se dirigiu ao Registro Civil de Pessoas N aturais”;
^ “o apego a form alidades, cada vez m ais em desuso no con­
fronto com as garantias que se sobrelevam àquelas, não pode
[...] im pedir de assegurar à ora vítim a TODAS as proteções e
TODAS as garantias esculpidas, com as tintas fortes da digni­
dade, no quadro m aravilhoso da Lei M aria da Penha.”
60 Coleção Saberes Monográficos

Posicionamento da autora: agiu bem a m agistrada ao p e rm i­


tir a aplicação da Lei M aria da Penha no caso p o r ela analisado,
pois houve violência, ela foi doméstica e se baseou em u m a ques­
tão de gênero.
Deve ser m encionado ainda que, para o am paro da Lei, não
se faz necessária a m udança de nom e, com alteração de registro
de identidade.

c) vítim a homossexual
A Lei M aria da Penha coloca u m considerável acento na ques­
tão da afetividade. Por conta disso, entra em cena a questão das
relações hom ossexuais entre hom ens.34
Ademais, o próprio art. 5Q, parágrafo único, estabelece que
“as relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação
sexual ” (grifou-se). Antes dele, o art. 2- já referia que “toda m u ­
lher, independentem ente de [...] orientação sexual, [...] goza dos
direitos fundam entais inerentes à pessoa hum ana, sendo-lhe as­
seguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violên­
cia, preservar sua saúde física e m ental e seu aperfeiçoam ento
m oral, intelectual e social”.
O ju iz de direito O sm ar de A guiar Pacheco, da com arca de
Rio Pardo-RS, concedeu, em 23-2-2011, com base na analogia, m e­
dida protetiva a u m hom em que alegou estar sendo ameaçado por
seu com panheiro em razão do térm in o do relacionam ento.35 De
conform idade com o magistrado:

[...] a vedação constitucional de qualquer discriminação e mesmo


a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da
República, insculpido no art. 1Q, III, da Carta Política, obrigam
que se reconheça a união homoafetiva como fenômeno social,

34 Em decisão proferida cm 5 de m aio de 2011 na A rguição de D cscum prim cnto de P re­


ceito F undam ental 132, o STF reconheceu a constitucionalidade das uniões estáveis
hom oafetivas. íntegra da decisão disponível cm: http://rcdir.stf.jus.br/paginadorpub/
paginador.jsp?docTP=AC&docID=628633. Acesso cm: 13-8-2012.
35 N úm ero do processo indisponível. A decisão pode ser encontrada no seguinte en d e­
reço: w w w .dircitohom oafctivo.com .br/ancxos/juris/1004.pdf. Acesso cm: 2-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 61

merecedor não só de respeito como de proteção efetiva com os


instrum entos contidos na legislação.
Nesse quadro, verifica-se com clareza que E. S. N., enquanto se-
dizente vítima de atos motivados por relacionamento recém-
-findo, ainda que de natureza homossexual, tem direito à prote­
ção pelo Estado prevista no direito positivo.

O STJ, entendendo que o Estado protege a fam ília por m eio do


casam ento e que essa proteção deve se estender a todos, indepen­
dentem ente da orientação sexual, considerou que a opção sexual
não pode ser fator determ inante para a concessão ou não de direi­
tos de natureza civil (REsp 1.183.378).36

d) outras vítim as hipossuficientes: idosos, crianças e adolescentes


Todas essas categorias possuem proteção constitucional espe­
cífica. A Constituição Federal estabelece como dever da família, da
sociedade e do Estado am parar as pessoas idosas (art. 230),37 assim
como crianças e adolescentes (art. 227).38 Para tanto, o legislador
elaborou, respectivam ente, a Lei n. 10.741/2003, Estatuto do Idoso
(EI), e a Lei n. 8.079/90, Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
No que tange ao EI, as m edidas protetivas estão previstas nos
arts. 44 e 45, in verbis:

Art. 44. As medidas de proteção ao idoso previstas nesta Lei po­


derão ser aplicadas, isolada ou cumulativamente, e levarão em
conta os fins sociais a que se destinam e o fortalecimento dos
vínculos familiares e comunitários.

36 Disponível cm : http://w w w .stj.jus.br/portal_stj/publicacao/cnginc.w sp?tm p.arca=3


98&tmp.tcxto=103683. Acesso cm : 2-8-2012.
37 Art. 230. A família, a sociedade c o Estado têm o dever dc am parar as pessoas idosas,
assegurando sua participação na com unidade, defendendo sua dignidade c bem -estar c
garantindo-lhes o direito à vida. § 1Q- Os program as dc am paro aos idosos serão exe­
cutados preferencialm ente cm seus lares. § 2° - Aos m aiores dc sessenta c cinco anos
é garantida a gratuidade dos transportes coletivos urbanos.
38 A rt. 227. É dever da fam ília, da sociedade c do Estado assegurar à criança, ao adoles­
cente c ao jovem , com absoluta prioridade, o d ireito à vida, à saúde, à alim entação, à
educação, ao lazer, à profissionalização, à cu ltu ra, à dignidade, ao respeito, à liberda­
de c à convivência fam iliar e com unitária, além dc colocá-los a salvo dc toda form a
dc negligência, discrim inação, exploração, violência, crueldade e opressão.
62 Coleção Saberes Monográficos

Art. 45. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 43, o


Ministério Público ou o Poder Judiciário, a requerimento daque­
le, poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas:
I - encaminhamento à família ou curador, mediante term o de
responsabilidade;
II - orientação, apoio e acompanhamento temporários;
III - requisição para tratamento de sua saúde, em regime ambu-
latorial, hospitalar ou domiciliar;
IV - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio,
orientação e tratamento a usuários dependentes de drogas lícitas
ou ilícitas, ao próprio idoso ou à pessoa de sua convivência que
lhe cause perturbação;
V - abrigo em entidade;
VI - abrigo temporário.

O ECA traz u m a relação bastante vasta de m edidas de prote­


ção. Elas estão previstas nos arts. 98 a 102. E são aplicáveis “sem ­
pre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou
violados” (art. 98).
De conform idade com o art. 100, parágrafo único, II, do ECA,
dentre os princípios que regem a aplicação das medidas, encontra-
-se o da proteção integral e prioritária, por m eio do qual a in ter­
pretação e aplicação de toda e qualquer norm a contida no ECA
deve ser voltada à proteção integral e prioritária dos direitos de
que crianças e adolescentes são titulares.
Apesar do esforço do Poder Legislativo em elaborar tão im ­
portantes estatutos, há vários dispositivos contidos na Lei Maria
da Penha que seriam de grande valia (medidas protetivas de u r ­
gência - arts. 22 a 24).
Diante deste quadro, é recom endável trazer-se à discussão o
seguinte: a especial proteção conferida pela Lei n. 11.340/2006 às
m ulheres vítim as de violência dom éstica e fam iliar deve ser es­
tendida, alcançando, inclusive, as crianças, os adolescentes e os
hom ens idosos subm etidos à violência dom éstica e fam iliar?
No que se refere ao idoso, o M inistério Público, no D istrito
Federal, solicitou que fossem aplicadas m edidas protetivas de u r-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 63

gência previstas na Lei M aria da Penha em favor de u m hom em


idoso, vítim a de violência doméstica e fam iliar.39
Nosso posicionamento: as m edidas protetivas de urgência p re­
vistas na Lei M aria da Penha podem ser concedidas, analogica-
m ente, a crianças, adolescentes e idosos, m esm o que sejam do
sexo m asculino.
Tal entendim ento decorre do m andam ento constitucional,
bem como da interpretação a ser dada à nova redação do art. 313,
inc. III, do CPP, o qual, após o advento da Lei n. 12.403/2011, prevê,
expressam ente, a possibilidade de decretação da prisão preventiva
(que é um a m edida protetiva de urgência prevista na Lei M aria da
Penha) “se o crim e envolver violência dom éstica e fam iliar contra
[...] criança, adolescente, idoso, [...] para g aran tir a execução das
m edidas protetivas de urgência”.
Ao prever a decretação da prisão preventiva para g aran tir a
execução de m edida protetiva de urgência se o crim e envolver
violência doméstica e fam iliar contra criança, adolescente e idoso,
a Lei n. 12.403/2006 am plia a aplicação de tais m edidas (previstas
única e exclusivamente na Lei Maria da Penha). Relembrando: a
Lei Maria da Penha fala em medidas protetivas de urgência , enquanto
o EI e o ECA fazem referência a medidas de proteção (arts. 44 e 45 e
98 a 102, respectivamente).
Agiu bem o legislador ao prever tal possibilidade, pois é im ­
prescindível socorrer-se dela para salvaguardar direitos de crian­
ças, adolescentes e idosos - m u lh er ou hom em - vítim as de vio­
lência dom éstica e familiar, desde que constatada situação de
vulnerabilidade no caso concreto, sob pena de in co rrer na viola­
ção ao princípio da proibição de proteção deficiente.40
Também no sentido de se am pliar a aplicação para idosos, têm -
-se os posicionamentos de Eduardo Cabete41 e de Eudes Q uintino.42

39 Disponível cm: http://gl.globo.com /distrito-fcdcral/noticia/2012/02/m p-do-df-pcrm ite-


aplicacao-da-lci-m aria-da-pcnha-em -favor-do-idoso.htm l. Acesso cm: 3-8-2012.
40 Sobre o princípio da proteção insuficiente, rccom cnda-sc a leitu ra do seguinte ju lg a ­
do: STF, HC 104.410-RS.
41 D isponível cm : http://atualidadcsdodircito.com .br/cduardocabcttc/2012/02/16/lci-
m aria-da-pcnha-aplicada-cm -favor-de-idoso/. Acesso cm : 2-8-2012.
42 Disponível cm: http://atualidadcsdodireito.com.br/cudcsquintino/2012/03/01/aplicacao-
da-lci-m aria-da-pcnha-cm -favor-dc-idosos/#m orc-318. Acesso cm: 2-8-2012.
64 Coleção Saberes Monográficos

e) vítim a homem
É fato que tam bém pode ocorrer violência da m ulher contra
o cônjuge, com panheiro ou nam orado etc., no âm bito dom éstico
e fam iliar (principalm ente as agressões psicológicas). Só que tal
violência distingue-se, em m uito, da praticada pelo hom em . As
principais diferenças são trazidas por Elena Larrauri: (a) m enor
intensidade: o dano produzido é m uito inferior; (b) sua finalidade:
age em defesa de sua integridade ou da dos filhos; (c) seus m oti­
vos: conflito é pontual e não se caracteriza por um a pretensão
global de intim idar ou castigar; (d) seu contexto: a violência da
m u lh er não tende a produzir um a sensação de tem or perdurável
(ameaça onipresente e onipotente).
É esse últim o aspecto que se consubstancia em principal pon­
to da questão: sensação de tem or contínuo a um a ameaça onipre­
sente e onipotente. Tal característica, m arca da violência de gêne­
ro, autoriza que m edidas m ais enérgicas e efetivas sejam utilizadas
exclusivamente para proteger a m u lh er em situação de violência
dom éstica e familiar.
Considerando-se que “o hom em m édio é m ais forte do que
99,9% das m ulheres”,43 e que a assim etria do poder representa sig­
nificativo obstáculo para se ultrapassarem as desigualdades esta­
belecidas entre os sexos, m edidas preventivas, inclusive aquelas
que restrinjam direitos do agressor, encontram -se m ais do que
justificadas.
Portanto, a aplicação da Lei Maria da Penha ao hom em vítim a
de violência praticada, por exemplo, pela esposa, é indevida, pois
são as especificidades da violência de gênero (não vislum bradas
quando o hom em é vítima) que devem servir de fundam ento para
a incidência da Lei. Faz-se necessário que exista violência discri­
m inatória (preconceituosa), o que não se verifica nos casos isola­
dos em que o hom em é vítim a deste tipo de violência.

Disponível cm: http://w w w l.folha.uol.com .br/cicncia/853746-fam a-dc-troglodita-


dos-hom cns-e-justificada-por-bioantropologo-am cricano.shtm l, FSP, 2-1-2011, Cl.
Acesso cm: 2-8-201z2.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 65

Não obstante as razões supracitadas, o Tribunal de Justiça do


Estado do Mato Grosso do Sul concedeu, em 16-9-2011, pedido de
lim in ar em agravo de in stru m en to no qual o m arido, que se en­
contra em processo de separação de sua esposa, requereu que ela
fosse proibida de se aproxim ar dele.44
As disposições da Lei M aria da Penha, no caso mencionado,
foram aplicadas por analogia e por via inversa, salientando, o rela­
tor, Des. Dorival Renato Pavan, que, “sem desconsiderar o fato de
que a referida Lei é destinada à proteção da m ulher diante dos
altos índices de violência dom éstica em que na grande m aioria dos
casos é ela a vítim a”, há que se aplicar o princípio da isonom ia nas
situações em que as agressões partem da esposa contra o marido.
Após verificar a existência de prova suficiente, ao m enos para
a fase processual em que o feito se encontra, de que a m u lh er vem
prom ovendo agressões físicas e psicológicas contra o m arido, che­
gando a ameaçá-lo de m orte, bem como prom ovendo com entários
e atitudes hum ilhantes contra ele, o Desem bargador trouxe, para
fundam entar o seu decisun) os seguintes argum entos:
a) “a inexistência de regra específica que preveja m edida prote-
tiva de não aproximação destinada ao resguardo dos direitos
dos hom ens (gênero masculino) não é justificativa plausível
ao indeferim ento de tal pleito, pois [...] o ordenam ento ju ríd i­
co deve ser interpretado como um todo indissociável e os
conflitos de interesses resolvidos através da aplicação de
princípios e da interpretação analógica de suas norm as”;
b) “situação de conflito fam iliar insustentável que afeta os direi­
tos fundam entais seus e de seu filho adolescente, todos afetos
à dignidade da pessoa hum ana”;
c) o livre direito de locomoção da esposa deve ser restringido, a
fim de obstaculizar práticas de atos atentatórios a valores re ­
levantes, como os da honra e da dignidade da pessoa hum ana;
d) “a restrição à liberdade de locomoção da agravada não é gené­
rica, m as específica, no sentido de tão som ente m an ter dis-

44 Disponível cm : http://w w w .tjm s.jus.br/noticias/m ateria.php?cod=20132. Acesso cm:


2 - 8 - 2012.
66 Coleção Saberes Monográficos

tância razoável do agravante, para evitar ao m enos dois fatos,


de extrem a gravidade, a saber: a) prim eiro, que a agravada
possa dar continuidade à prática dos atos agressivos e de h u ­
m ilhação a que subm ete o agravante perante sua própria fa­
m ília e colegas de trabalho, ofendendo, com tal ato, sua dig­
nidade; b) segundo, que é possível que o autor, sentindo-se
m enosprezado, hum ilhado e ofendido, possa revidar à agres­
são, com prejuízos incalculáveis para o casal e consequências
diretas no âm bito da fam ília”;
e) o m arido, “ao invés de usar da truculência ou da violência,
em revide aos ataques da m ulher, vem em juízo e postula
tutela jurisdicional condizente com a realidade dos fatos e da
situação de ameaça que vem sendo - ao que tudo indica -
praticada pela m u lh er”.
Vistas as fundam entações, adem ais delas, torna-se im p o rtan ­
te ressaltar que a agressão de m ulheres contra hom ens é tão des-
valorada quanto o seu contrário (o próprio CP pune ambas com a
m esm a pena). Não obstante, entendem os que a decisão acima não
encontra respaldo jurídico. Isso não significa que som ente a vio­
lência m asculina deva ser considerada, mas, sim , que são as espe-
cificidades da violência de gênero que justificam que direitos,
princípios, liberdades e garantias da pessoa acusada sejam lim ita­
dos e restringidos, tal qual se dá em inúm eros dispositivos da Lei
Maria da Penha, quando se vale de instrum entos m ais enérgicos,
que podem chegar, inclusive, à prisão preventiva. Tem aplicação,
aqui, o princípio da proporcionalidade.45
É aqui que reside o ponto fundam ental do que se discute: se,
por um lado, consegue-se, em razão das circunstâncias especiais
e da brutalidade dos núm eros da violência de gênero, ju stificar
u m tratam ento diferenciado, com o necessário alargam ento da
proteção à m u lh er nos casos de violência dom éstica e fam iliar,
por outro, há que se analisar se a situação que envolve a violência

45 Estudo detalhado sobre o princíp io da proporcionalidade nas m edidas cautclarcs p o ­


de ser encontrado cm: GOMES, Luiz Flávio. Prisão e medidas cautelares: com entários à
Lei n. 12.403, de 4 de m aio de 2011. São Paulo: RT, 2011, p. 57-59.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 67

da m u lh er contra o hom em encontra-se na m esm a ordem de


equivalência. As inform ações trazidas no item 7 (violência contra
a m u lh er em núm eros) dem ostram que as experiências vividas
em cada um a das situações (violência de hom em contra a m u lh er
e violência de m u lh er contra o homem) são, quase no total das
vezes, bastante diversas, m ostrando-se m uito m ais institucionali­
zadas, frequentes, reiteradas, intensas, perm anentes, intim idató-
rias, brutais e de consequências irreversíveis quando a vítim a é do
sexo fem inino.
Diferente, entretanto, é a discussão quando envolve criança,
adolescente ou idoso do sexo m asculino e que se encontre em
um a situação vulnerável, como bem se tratou no item 6.1(d).

6.2. Familiares
Em três m om entos distintos, a Lei M aria da Penha dirige-se
aos fam iliares da m u lh er em situação de violência doméstica e
familiar:
art. 19, § 3e: prevê a possibilidade de o juiz, a requerim ento do
M inistério Público ou a pedido da ofendida, conceder novas
m edidas protetivas de urgência ou rever aquelas já concedi­
das, se entender necessário à proteção de fam iliares da ofen­
dida, ouvido o M inistério Público;
art. 22, III, a e b : a m edida protetiva que proíbe o agressor de
se aproxim ar e m anter contato estende-se aos familiares;
art. 30: atribui à equipe de atendim ento m ultidisciplinar a
incum bência de desenvolver trabalhos de orientação, enca­
m inham ento, prevenção e outras medidas, voltados para os
fam iliares da m u lh er em situação de violência dom éstica e
fam iliar, com especial atenção às crianças e aos adolescentes.
Bem se vê que a Lei Maria da Penha confere elevado grau de
im portância aos fam iliares da vítim a, percebendo o quanto tam ­
bém eles são afetados pelo histórico de violência, principalm ente
quando se trata de filhos, sejam crianças ou adolescentes.

6.3. Testemunhas
A Lei M aria da Penha trata das testem u n h as em seu a rt. 22,
III, a e fe, para o fim de estender a elas as m edidas protetivas di-
68 Coleção Saberes Monográficos

rígidas ao agressor de proibição de aproxim ação e de proibição


de contato.
Tal previsão legal perm ite perceber o quanto a testem unha é
valorizada pela Lei M aria da Penha, o que decorre da consciência
acerca da dificuldade probatória que o tem a encerra. Como, no
geral, os fatos ocorrem dentro do lar (invisibilidade do problem a
- v. item 13.1) e longe de testem unhas, acaba que a palavra da ví­
tim a (além das m arcas do seu corpo, quando elas existem) n o r­
m alm ente é a única prova do fato.

6.4. Agressor
Centros de educação e reabilitação de agressores estão previs­
tos na Lei M aria da Penha, mas, tanto quanto os serviços especia­
lizados de atendim ento à m u lh er agredida, ainda são pouquíssi­
mos no País. Os esforços de criação ou m anutenção destes centros
sofrem com a resistência da sociedade, das entidades, do Judiciá­
rio e de alguns coletivos fem inistas, os quais não enxergam com
olhos com placentes as penas alternativas, em casos de violência
dom éstica contra a m ulher.
Pesquisas m ostram que a grande m aioria da sociedade civil
defende que hom ens agressores devem sofrer pena privativa de
liberdade. Todavia, quando questionados sobre as m elhores m edi­
das para se com bater a violência doméstica, a m aioria dos e n tre­
vistados cita opções não penais,46 o que evidencia um a contradi­
ção, ou, talvez, duas vontades, um a de castigar o agressor, outra de
reduzir (ou até evitar) a agressão.
Pode-se dessum ir dessas expressões de anseio um a concor­
dância com que não se invista, apenas, em política repressiva, para
enfrentar o dram a da violência doméstica contra as m ulheres.
É necessário aplicar tam bém em esforços preventivos, inclusive
os de alcance terciário, ou seja, voltados à contenção da reincidência.
É recom endável que sejam im plantados, portanto, program as
que articulem m ecanism os alternativos, em lugar de solicitar ex-

46 Disponível em: http://atualidadcsdodireito.com .br/aliccbianchini/2011/05/31/quais-


as-m elh o res-m c d id a s-p ara-se -c o m b atc r-a-v io lcn c ia -d o m c stica -c o m -a -p a la v ra -a -
socicdadc. Acesso cm: 2-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 69

clusivam ente a intervenção do sistem a legal, ou que se suavizem


e adm inistrem as consequências dessa intervenção. O sistema pe­
nal é estigm atizante e inaugura, m uitas vezes, por suas interfe­
rências excessivas ou m esm o inadequadas, carreiras crim inais; ou
seja, “a punição não tem ajudado na prevenção nem na com preen­
são da situação” (MEDRADO, 2008: 83).
Os centros de reflexão para hom ens agressores inserem -se no
grupo de program as de intervenção que pretendem produzir um
efeito ressocializador no condenado, utilizando técnicas como a psi-
coterapia (MEDRADO, 2008: 78-86). É sabido que muitos dos ho­
m ens agressores tam bém foram, eles próprios, vítimas de violência
quando crianças e tendem a reproduzir essa cultura da brutalidade.
O grande desafio desses centros é quebrar esse ciclo vicioso.
Há grande facilidade em acusar e se vitim izar; para o agres­
sor, é m uito difícil assum ir-se como pessoa violenta. A tendência,
principalm ente nos casos de violência doméstica, é a de o agressor
buscar m ecanism os de defesa do ego, neutralizando, justificando
e, então, legitim ando sua conduta, atribuindo a responsabilidade
p or ela à vítim a, sustentando, por exemplo, “que ela que provocou
a agressão” (GOMES; MOLINA, 2010: 382-383).
O tratam ento, se im posto por u m ju iz ou aceito pelo agressor
apenas para evitar u m m al maior, qual seja, a prisão, não é o ideal.
Os agressores podem se com portar nesses centros da m aneira
como eles im aginam que os outros esperam que eles se com por­
tem e dizer coisas que im aginam que os outros esperam que eles
digam. Se o com prom etim ento obtido dos agressores para com a
reflexão, em contrapartida, for real, e a assunção de responsabili­
dades subsistir à assunção de culpa, os resultados podem ser bas­
tante satisfatórios.
Um dos prim eiros grupos de reflexão destinados a hom ens
agressores se iniciou nos espaços do C entro Especial de O rienta­
ção à M ulher Zuzu Angel (CEOM), u m a ONG parceira da Prefei­
tu ra M unicipal de São Gonçalo, Estado do Rio. Criado ainda em
1999, sete anos antes da Lei M aria da Penha, o grupo pode ser
considerado um a referência. Desde aquele ano o Judiciário de São
70 Coleção Saberes Monográficos

Gonçalo propõe a participação em grupos como alternativa para


suspensão do processo ou m esm o do cum prim ento da pena.
Segundo os núm eros do Juizado de Violência Doméstica con­
tra a M ulher de São Gonçalo (RJ), referentes ao ano de 2009, m e­
nos de 2% dos hom ens que praticam violência contra a m u lh er e
participam de grupos de reflexão voltam a agredir suas com pa­
nheiras. Em Nova Iguaçu, na Baixada Flum inense, os reincidentes
eram m enos de 4% até 2009. Uma pesquisa feita na Vara Especial
de Violência Doméstica e Fam iliar contra a M ulher, de São Luiz,
no M aranhão, onde não havia grupos para hom ens até 2009, reve­
lou que 75% dos agressores eram reincidentes, u m núm ero supe­
rio r à taxa de reincidência no Estado de São Paulo, que era de 58%,
e no País, que era de 70%, em 2009.
Um grupo reflexivo voltado para hom ens agressores funciona
em São Caetano (ABC paulista) desde a aprovação da Lei M aria da
Penha, m as em caráter piloto e voluntário. Em 2009, 16 hom ens
participavam das reuniões, 12 deles enviados pela Justiça como
condição para suspender o processo e quatro voluntários que con­
cordaram em participar do grupo quando suas m ulheres retira­
ram a queixa diante do juiz. O grupo de reflexão registrou até
2009 u m único caso de reincidência (MEDRADO, 2008: 79).
Foi criado em São Paulo u m grupo (ONG) para colaborar na
reeducação de hom ens agressores. Com a direção do Professor de
Sociologia e Filosofia Sergio Barbosa, ele conta com a participação
de cerca de dez hom ens, recebendo, inclusive, agressores encam i­
nhados pela Vara Central da Violência Doméstica e Fam iliar con­
tra a M ulher de São Paulo. O grupo recebe lições sobre “Noções de
direitos hum anos e da Lei Maria da Penha”. “A ideia é acabar com
o sentim ento de im punidade. Q uestões de saúde sexual, como a
im portância do uso da cam isinha, tam bém são abordadas. ‘Tem
hom em que acha que m u lh er que carrega cam isinha na bolsa é
vagabunda’, afirm a Barbosa”.47

47 Disponível cm: http://w w w .estadao.com .br/noticias/im prcsso,ele-cnsina-os-m achocs-


-a-scrcm -bons-m aridos,849969,0.htm . Acesso cm: 14-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 71

Segundo reportagem do program a Profissão Repórter, da Re­


de Globo, exibido no dia 5 de ju lh o de 2011,48 nos centros de edu­
cação e reabilitação de agressores, os hom ens expõem as violên­
cias que com eteram e as que sofreram. O prim eiro e decisivo passo
para superar u m problem a é assum i-lo. Há grande facilidade em
acusar e se vitim izar; para o agressor é m uito difícil assum ir-se
como pessoa violenta. A tendência, principalm ente nos casos de
violência doméstica, é a de o agressor buscar m ecanism os de de­
fesa do ego, neutralizando, justificando e, então, legitim ando sua
conduta, atribuindo a responsabilidade por ela à vítim a, susten­
tando, por exemplo, “que ela que provocou a agressão” (GOMES;
MOLINA, 2010: 382-383).
Conform e dem onstrado por Medrado, ao citar o posiciona­
m ento de H eleieth Saffioti, “as pessoas envolvidas na relação vio­
lenta devem ter o desejo de m udar. É por esta razão que não se
acredita num a m udança radical de um a relação violenta, quando
se trabalha exclusivamente com a vítim a” (2008: 81).
M edrado assevera, ainda, “[...] que a lei, de certo m odo reco­
nhece que para in terv ir no contexto da violência dom éstica e fa­
m iliar contra as m ulheres, a p a rtir da perspectiva de gênero, é
preciso im plem entar ações que possam tam bém incluir os h o ­
m ens” (2008: 83).
As iniciativas supracitadas, quando vistas sob a ótica n u m éri­
ca, são m uito tím idas, mas, quando analisadas em term os percen­
tuais, dem onstram o quanto tais medidas são eficazes, além de
serem, obviamente, m uito m enos onerosas (custo social e econô­
mico) do que as de caráter penal.

7. A violência doméstica e familiar contra a mulher


em números
Várias são as particularidades que, por estarem presentes nos
casos de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher, ju stifi­
cam o tratam ento diferenciado e que representam fatores de alto

48 Disponível cm: http://www .youtubc.com /w atch?v=dlP0K ZyJ3Pg. Acesso cm: 2-8-


2012.
72 Coleção Saberes Monográficos

risco para a vida, a integridade física, m oral, sexual e psicológica,


dentre outras, da m u lh er em situação de violência dom éstica e
familiar. Tais circunstâncias serão analisadas a seguir, com os n ú ­
m eros que as representam .

7.1. Formas de agressão


^ o principal tipo de violência sofrido pelas m ulheres vítim as
de violência dom éstica e fam iliar é a física (63%), seguida da
m oral (39%) e da psicológica (38%) (DataSenado 2013);
^ nos registros de recepções da Central de A tendim ento à Mu­
lh e r - Ligue 180 - balanço sem estral de jan eiro a ju n h o de
2013, dentre os 37.582 relatos de violência, a agressão física
ficou em prim eiro lugar, seguida da psicológica e da moral;
^ a cada 2 m inutos, 5 m ulheres são espancadas (Pesquisa Fun­
dação Perseu Abramo/SESC 2010);49
meios que exigem contato direto, como objetos cortantes e
penetrantes (15,1% para hom ens, 24,6% para mulheres), con­
tundentes (5% para hom ens, 7,7% para m ulheres), sufocação
(0,9% para hom ens, 6,1% para m ulheres) etc. são m ais com uns
quando se trata de violência contra a m ulher (Mapa da Vio­
lência 2012);
os tipos de agressões registrados diferenciam -se segundo o
sexo da vítim a: a violência física caracterizada pelo espanca­
m ento aparece em 73,2% dos episódios envolvendo m ulheres,
contra 50,5% dos que se relacionam a hom ens (razão M:F 2,4)
(Sistema de Serviços Sentinelas de Vigilância de Violências e
Acidentes - VIVA);50

49 A pesquisa com pleta pode ser encontrada cm: http://ww w .fpabram o.org.br/sites/de-
fault/files/pcsquisaintcgra.pdf. Acesso cm: 2-8-2012.
50 O Sistem a de Serviços Sentinelas de Vigilância de Violências c Acidentes (VIVA) foi
im plantado pelo M inistério da Saúde no ano de 2006, com o objetivo de prom over a
coleta de dados acerca dos eventos violentos de c u n h o não fatal c prom over po sterio r
divulgação de inform ações, possibilitando fundam entos para a com preensão do fe­
nôm eno. O próprio sistem a VIVA analisa inform ações de casos envolvendo crianças
e adolescentes, idosos c m ulheres. O estudo foi realizado cm 34 cidades c no D istrito
Federal, tendo analisado 65 unidades de em ergência. Mais inform ações disponíveis
cm: http://portal.saudc.gov.br/portal/arquivos/pdf/rcvista_voll8_nl.pdf.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 73

^ a agressão física foi a form a de violência relativam ente mais


frequente entre as m ulheres, enquanto a arm a de fogo e os
objetos perfurocortantes predom inaram entre os hom ens
(Sistema de Serviços Sentinelas de Vigilância de Violências e
Acidentes - VIVA);51
^ de jan eiro a m arço de 2012, a Central de A tendim ento à Mu­
lh e r - Ligue 180 - registrou 303,14 ligações a cada 100 m il
m ulheres do D istrito Federal. Em seguida estão: Espírito San­
to (275,15), Pará (270,54), Mato Grosso do Sul (264,74) e Bahia
(264,03).52 No balanço sem estral de jan eiro a ju n h o de 2013
foram registrados 306.201 atendim entos, sendo que o D istrito
Federal m anteve a prim eira colocação (673,53 ligações a cada
100 m il m ulheres; em segundo lugar está o Pará (458,40/100
m il m ulheres) e, em terceiro, o estado do Rio de Janeiro
(431,50/100 m il m ulheres) As 27 Unidades da Federação apre­
sentaram a seguinte dem anda ao Ligue 180, no período de
jan eiro a m arço de 2012:

Registro de ligações para centrais de atendim ento à m ulher por estado53

Posição UF Ugações Posição UF Ligações

12 DF 303,14 155 MG 140,17

22 ES 275,15 16° GO 138,58

32 PA 270,54 172 SP 133,62

42 MS 264,74 182 RS 117,24

52 BA 264,03 192 MT 114,97

62 RJ 242,14 202 TO 112,18

72 SE 212,14 212 PB 105,86

51 http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/revista_voll8_nl.pdf, p. 25.
52 Disponível cm: http://ww w 2.cam ara.gov.br/a-cam ara/procuradoria-da-m ulhcr/liguc-
1 8 0 -d f-c o n tin u a - lid c r -n o -r a n k in g - n a c io n a l-c m -c h a m a d a s - p a r a -a -c c n tra l-d c -
atcndim cnto-a-m ulhcr. Acesso cm : 2-8-2012.
CO

Disponível cm: http://ww w 2.cam ara.gov.br/a-cam ara/procuradoria-da-m ulhcr/liguc-


1 8 0 -d f-c o n tin u a - lid c r -n o -r a n k in g - n a c io n a l-c m -c h a m a d a s - p a r a -a -c c n tra l-d c -
atcndim cnto-a-m ulhcr. Acesso cm: 2-8-2012.
74 Coleção Saberes Monográficos

s°- MA 191,68 225 AC 102,67

9 o- PI 191,27 235 RR 99,72

10- AL 172,75 245 CE 85,38

116 RN 166,01 255 SC 83,10

125 PE 156,78 265 RO 78,98

135 PR 146,31 275 AM 46,86

145 AP 142,95

7.2 . Homicídios de mulheres no Brasil


^ 52% das violências praticadas pelos m aridos e com panheiros
são de risco de m orte (Central de A tendim ento à M ulher -
Disque 180, jan . a ju l. de 2012);54 No prim eiro sem estre de
2013, tal núm ero foi reduzido para 46,3%.55
^ o Brasil ocupa a posição de 1- lugar entre os países que pos­
suem o m aior núm ero de m ulheres m ortas, n u m universo de
87 países (Mapa da Violência, 2012);
o Espírito Santo é o Estado brasileiro com o m aior percentual
de m ulheres vítim as de homicídio, ou seja, 9,8 vítim as de
hom icídio fem inino para cada 100 m il m ulheres.56 O Estado
do Piauí possui o m enor percentual: 2,5 m ulheres vítim as de
hom icídio a cada 100 m il m ulheres, segundo dados do Mapa
da Violência de 2012. Veja-se a posição das dem ais Unidades
da Federação:57

54 Relatório C entral de A tendim ento à M ulher - Disque 180, ja n . a ju l. de 2012. D ispo­


nível cm: http://w w w .spm .gov.br/publicacocs-testc/publicacocs/2012/balanco-sc-
m estral-liguc-180-2012, p. 7. Acesso cm : 2-8-2012.
55 Disponível cm : http://w w w .spm .gov.br/publicacocs-tcstc/publicacocs/2013/balanco-
-liguc-180-janeiro-a-junho-2013.
56 Disponível cm : http://w w w .m apadaviolcncia.nct.br/. Acesso cm : 2-8-2012.
57 Disponível cm: http://mapadaviolcncia.org.br/pdf2012/M apaViolcncia2012_atual_m u-
lhcres.pdf. Acesso cm: 9-9-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 75

Taxas de hom icídio de m ulheres (em 100 m il) por UF

UF Taxa Posição UF N* Taxa Posição

Espírito Santo 175 9,8 12 Rondônia 37 4,8 152

Alagoas 134 8,3 22 Amapá 16 4,8 162

Paraná 338 6,4 32 Rio Grande do Norte 71 4,4 172

Pará 230 6,1 42 Sergipe 45 4,2 182

Mato Grosso do Sul 75 6,1 52 Rio Grande do Sul 227 4,1 192

Bahia 433 6,1 62 Minas Gerais 405 4,1 202

Paraíba 117 6,0 72 Rio de Janeiro 339 4,1 212

Distrito Federal 78 5,8 82 Ceará 174 4,0 222

Goiás 172 5,7 92 Amazonas 66 3,8 232

Pernambuco 251 5,5 102 Maranhão 117 3,5 242

Mato Grosso 80 5,4 112 Santa Catarina 111 3,5 252

Tocantins 34 5,0 122 São Paulo 671 3,2 262

Roraima 11 5,0 132 Piauí 40 2,5 272

Acre 18 4,9 142 Brasil 4.465 4,6

Fonte: SIM/SVS/MS.

no Estado do Espírito Santo, em razão do núm ero elevado de


crim es de hom icídio contra m ulheres, foi criada a prim eira
delegacia de polícia do Brasil especializada em investigar, es­
pecificam ente, esse tipo de homicídio;58
o Mapa da Violência 2012 no Brasil aponta a evolução do n ú ­
m ero de hom icídios contra as m ulheres no período com preen­
dido entre os anos de 1980 e 2010. Em 1980, a taxa de hom i-

58 Disponível cm : http://globotv.globo.com /rcdc-globo/fantastico/t/cdicocs/v/entrc-87-


paiscs-brasil-e-o-7o-quc-m ais-m ata-m ulhcrcs/1935326/ Acesso cm: 2-8-2012.
76 Coleção Saberes Monográficos

cídios fem ininos para cada 100 m il m ulheres foi de 2,3; no


ano de 1996, a taxa sofreu sensível elevação, atingindo 4,6;
nos anos de 2006 e 2007, as taxas sofreram queda, regredin­
do para 4,2 e 3,9, respectivam ente; por derradeiro, no ano de
2010, a taxa foi de 4,459. Em term os percentuais, em 30 anos
(1980-2010) a taxa (em 100 m il m ulheres) de hom icídios fem i­
ninos dobrou (de 2,3 para 4,6).
no Brasil, 11,77 m ulheres são m ortas por dia (Mapa da Violên­
cia 2012).60

7 3 . Vínculo com o agressor


Pesquisas sobre a relação entre vítim a e agressor variam um
pouco em relação ao vínculo afetivo com a vítima. Veja as principais:
^ pesquisa DataSenado 2011: 78% dos agressores possuem ou
p o ssu íram vínculo afetivo ín tim o com a vítim a: 66% é o
m arido/com panheiro; 13%, ex-nam orado, ex-m arido ou ex-
-com panheiro; 4%, pai; 3%, nam orado; 3%, irm ão/cunhado;
2%, tio/prim o; 0%, filho/enteado; 0%, padrasto; 6% foram
agredidas p o r o u tras pessoas; e 4% não souberam ou não
responderam ; na m esm a pesquisa realizada no ano de
2009, 81% das agressões co n tra a m u lh e r foram praticadas
p o r m aridos, com panheiros ou nam orados, dem o n stran d o
que, p o rtan to , os n ú m ero s não sofreram praticam ente n e ­
n h u m a alteração;
Mapa da Violência 2012: 68% das m ulheres que procuraram o
Sistema Único de Saúde em 2011 para tratar ferim entos disse­
ram que conviviam com o agressor; em 60% dos casos, quem
espanca ou m ata é o nam orado, o m arido ou ex-marido; na
faixa dos 20 aos 49 anos, 65% das agressões tiveram autoria
do parceiro ou do ex;61

59 Disponível em : http://m apadaviolcncia.org.br/pdf2012/m apa2012_m ulhcr.pdf, p. 5.


Acesso cm: 2-8-2012.
60 D isponível cm : h ttp ://m ap a d a v io lc n cia .o rg .b r/p d f2 0 1 2 /m a p a2 0 1 2 _ m u lh er.p d f.
Dado estim ado a p a rtir do n ú m e ro dc m u lh e re s m o rtas no ano de 2010. Acesso cm:
2 - 8 - 2012.
61 Disponível cm: http://m apadaviolcncia.org.br/pdf2012/m apa2012_m ulhcr.pdf, p. 16-7.
Acesso cm: 2-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 77

^ Sistema de Serviços Sentinelas de Vigilância de Violências e


Acidentes (VIVA): no que tange à autoria da agressão, “quando
se tratava de violência (agressões e maus-tratos) contra a mu­
lher, o agressor era, na m aior parte das vezes, um familiar
(38,1%), seguido de indivíduo conhecido (31,1%) e desconheci­
do (18,3%)” (grifou-se). Por outro lado, em 41,4% dos casos
envolvendo hom ens a agressão era praticada por u m desco­
nhecido, contra som ente 18,3% dos que envolvem m ulheres
(razão: M: F 7,0);62
levantam ento realizado pela Central de A tendim ento à Mu­
lh e r - Ligue 180 (balanço sem estral - jan eiro a ju n h o de
2013) aponta que em 83,8% dos relatos de casos de violência
dom éstica o agressor m antém ou m anteve um a relação ín ti­
m a de afeto com a vítim a;63
^ 41,61% do total de m ulheres brasileiras agredidas foram vio­
lentadas no âm bito de suas relações domésticas, afetivas ou
fam iliares, pois o sujeito ativo da agressão foi o cônjuge, o
ex-cônjuge ou algum parente;64
^ de cada 100 m ulheres assassinadas no Brasil, 70 o são no âm ­
bito de suas relações domésticas;65
^ Pesquisa do M inistério Público de São Paulo m o stra que a
agressão à m u lh e r é m aio r após rom pim ento, chegando
a 57%.66

62 Disponível cm: http://portal.saudc.gov.br/portal/arquivos/pdf/rcvista_voll8_nl.pdf,


p. 22. Acesso cm: 2-8-2012. O VIVA foi im plantado pelo M inistério da Saúde no ano
dc 2006. O seu objetivo é prom over a coleta de dados acerca dos eventos violentos
de c u n h o não fatal c prom over p o sterio r divulgação dc inform ações, possibilitando
fundam entos para a com preensão do fenôm eno. O próprio sistem a VIVA analisa in ­
form ações dc casos envolvendo crianças c adolescentes, idosos e m ulheres. Sua gam a
dc interesses, portanto, é variada c m últipla.
63 Disponível cm: http://www.spm .gov.br/publicacocs-tcste/publicacoes/2012/balanco-
-liguc-180-janeiro-a-junho-2013.
64 h ttp ://w w w .co m p ro m isso catitu d c.o rg .b r/lci-m aria-d a-p cn h a-v aras-cx clu siv as-au -
m cntam -a-crcdibilidade-do-judiciario-e-cncorajam -a-dcnuncia/.
65 A m cricas W atch, C rim inal Injustice: Violcnce against W om cn in Brazil, 1992. D ispo­
nível cm: http://w w w .hrw .org/sitcs/dcfault/filcs/rcports/B RA ZIL910.PD F. Acesso cm
14-4-2014.
66 http://w w w .cstadao.com .br/noticias/gcral,ag rcssao -a-m u lh cr-e-m aio r-ap o s-ro m p i-
m cnto-diz-m inisterio-publico,1017492,0.htm .
78 Coleção Saberes Monográficos

7.4. Local da agressão


entre os hom ens, apenas 17% dos incidentes aconteceram na
residência ou habitação; entre as m ulheres, essa proporção se
eleva para p erto de 40% (Mapa da Violência, 2012);
<$> as m ulheres são assassinadas prim ordialm ente no am biente
familiar, isto é, em suas casas (no domicílio), ao passo que os
hom ens, em regra, são m ortos na rua, ou seja, em razão da
violência perpetrada por pessoas estranhas ao lar, sem víncu­
lo afetivo (Mapa da Violência, 2012);
^ ao todo, 68% das m ulheres que procuraram o Sistema Único
de Saúde em 2011 para tratar ferim entos disseram que o
agressor estava dentro de casa. Em 60% dos casos, quem es­
panca ou m ata é o nam orado, o m arido ou ex-marido,
do total de m ulheres que sofreram agressão física, 48% delas
foram violentadas na própria residência, enquanto o percen­
tu al de hom ens agredidos neste local totalizou 14%.67

7.5. Frequência da agressão


^ 16,7% sofrem violência todos os dias; 25%, sem analm ente; 0%,
quinzenalm ente; 8,3%, m ensalm ente; 41,7%, raram ente (de
vez em quando) (Pesquisa DataSenado 2013);
em outra pesquisa, agora de 2013 (Central de A tendim ento à
M ulher - Ligue 180 - balanço sem estral de jan eiro a ju n h o
de 2013), dados m ostram que quase a m etade (42,3%) das m u ­
lheres que sofrem violência são agredidas todos os dias.68

7.6. Tempo de duração da agressão


das entrevistadas que afirm aram te r sofrido violência física,
en tre 6% e 17% disseram te r perm anecido m ais de dez anos
com seus com panheiros. Os percentuais das entrevistadas
que m antiveram o relacionam ento com o agressor variam

57 h ttp ://w w w .co m p ro m isso catitu d c.o rg .b r/lci-m aria-d a-p cn h a-v aras-cx clu siv as-au -
m cntam -a-credibilidade-do-judiciario-e-cncorajam -a-dcnuncia/.
68 Disponível cm: http://www.spm .gov.br/publicacocs-tcste/publicacoes/2012/balanco-
-liguc-180-janeiro-a-junho-2013. Acesso cm: 27-4-2014.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 79

de acordo com o tipo de violência relatada (Perseu A bram o/


Sesc, 2010).69

7.7. Motivo da agressão


^ 28% das vítim as de violência responderam que o ciúm e m o­
tivou a agressão; tam bém com 25,4% aparece o uso de álcool;
6,5%, a traição conjugal; 6%, a separação; 2,6%, o uso de d ro ­
gas (Pesquisa DataSenado 2013);
^ No ano de 2011, pesquisa do Instituto Avon constatou que
48% das entrevistadas que declararam te r sido vítim as de
violência grave responderam que os ciúm es m otivaram a vio­
lência; 43%, problemas com bebidas ou alcoolismo; 26%, a
falta de respeito; 20%, a desconfiança; 20%, a traição; 19%,
desentendim entos do dia a dia; 18%, problem as econôm ico-
-financeiros; e 18%, o desequilíbrio emocional;
^ Ainda de acordo com a pesquisa do Instituto Avon (2011), 38%
dos entrevistados que adm itiram te r agredido gravem ente
um a m u lh er responderam que os ciúm es m otivaram a violên­
cia; 33%, problem as com bebidas ou alcoolismo; 21%, a tra i­
ção; 19%, provocações; 18%, problem as econôm ico-financeiros;
12%, a desconfiança; e 12% não tiveram motivo;
^ pesquisas realizadas no Brasil, desde 2001, sobre os motivos
da agressão, dem onstram que os ciúm es e o álcool sem pre
estiveram nas duas prim eiras posições nas respostas dadas
pela sociedade. Veja o quadro evolutivo:

Perseu Perseu Instituto


DataSenado DataSenado DataSenado
Abramo Abramo Avon
2007 2011 2013
2001 2010 2011

Ciúmes 21% 22,8% 32% 27% 38% 28%

Álcool 21% 45,5% 12% 27% 33% 25,4%

Total 42% 68,3% 44% 54% 71% 53,4%

CQ

Disponível cm: http://w w w .fpabram o.org.br/galcria/violencia-dom cstica. C apítulo


referente à violência dom éstica: http://w w w .fpabram o.org.br/sitcs/dcfault/filcs/cap5.
pdf. Acesso cm : 2-8-2012.
80 Coleção Saberes Monográficos

pelo que se depreende das informações acima, em vários perío­


dos houve m uita variação do percentual dos dois principais m o­
tivos apontados pelos entrevistados de um a pesquisa em relação
à outra. De toda a forma, observa-se um a tendência: ciúmes e
álcool sempre se m antiveram nas duas prim eiras posições;
dos assassinatos ocorridos no Estado do Rio Grande do Norte,
entre 1997 e 2007, em 49,15% dos casos de hom icídio de m u ­
lheres praticados por hom ens a motivação foi briga conjugal
ou discussão, ciúmes, fim de nam oro ou separação do casal
(Coordenadoria Estadual de Defesa das M ulheres e das M ino­
rias - CODIMM).

7.8. Cultura machista


^ 48% dos entrevistados têm am igo ou conhecido autor de vio­
lência doméstica; 25% possuem parentes que agridem as
com panheiras; 2% declararam que “tem m u lh er que só
aprende apanhando bastante” (Fundação Perseu Abramo
2010); no que tange ao últim o dado mencionado, há que se
considerar que 2% da população m asculina brasileira m aior
de 15 anos de idade correspondem a 1.400.809 hom ens. Para
com preender m elhor o resultado da pesquisa, é im portante
lem brar que u m núm ero de brasileiros equivalente à totalida­
de de hom ens m aiores de 15 anos de idade domiciliados no
Estado da Paraíba (1.339.206) defende que “tem m ulher que só
tom a jeito apanhando bastante”;
na m esm a pesquisa antes mencionada, apurou-se que 25%
dos hom ens com idade entre 18 e 24 anos consideram -se m a­
chistas, bem como 4% das m ulheres e 11% dos hom ens enten­
dem que se a m ulher tra ir é ju sto que o hom em bata nela.
Tais proporções se reduzem quanto m aior o nível de escola­
ridade do entrevistado;70
<$> apenas 51% dos hom ens que conhecem algum a vítim a de vio­
lência contra a m u lh er contribuíram de algum a form a para

70 Disponível cm: http://w w w .fpabram o.org.br/sitcs/dcfault/filcs/pcsquisaintcgra.pdf.


Acesso cm: 5-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 81

ela sair dessa situação. Do total de entrevistados, 28% alega­


ram que “não se deve interferir nessas situações” (Instituto
Avon/Ipsos, 2011);
^ a frase “m u lh er que trai até que m erece apanhar” foi rejeitada
p or 59% dos entrevistados e acolhida por 38%. Os graus de
escolaridade e de renda estão relacionados com essa atitude
m ais do que com qualquer outra variável (Ibope/Instituto Pa­
trícia Galvão, 2004); em cidades de até 20 m il habitantes, 21%
responderam que existem situações em que há a possibilida­
de de o hom em agredir sua m ulher; 78%, que não existem; e
1% não soube responder. Em cidades de 20 m il a 100 m il ha­
bitantes, 20% responderam que existem situações; 78%, que
não existem; e 2% não souberam responder. Em cidades de
m ais de 100 m il habitantes, 12% responderam que existem
situações; 85%, que não existem; e 3% não souberam respon­
der (Ibope/Instituto Patrícia Galvão, 2004).

7.9. Impacto da agressão sobre a vida da vítima e dos familiares


m erecem ainda destaque os estudos do VIVA acerca do im ­
pacto da violência sobre as m ulheres, precisam ente nos casos
de tentativa de suicídio e de m aus-tratos. Nestes dois casos,
“evidencia-se a violência de gênero, cuja natureza e padrões
se diferenciam de outras violências interpessoais, responsável
por to rn ar a m u lh er ainda m ais vulnerável ao desenvolvi­
m ento de problem as físicos (principalm ente quando se trata
de violência física ou sexual), fam iliares e sociais resultantes
da perm anente situação de estresse e da falta de esperança
em m udar sua condição de vítim a”.71

7.10. Custo econômico da violência doméstica e familiar contra a mulher


estudo do Banco Interam ericano de Desenvolvim ento (BID)
estim ou que só a violência dom éstica produz custos de 2% do
PIB dos países da Am érica Latina;72

71 Disponível cm: http://portal.saudc.gov.br/portal/arquivos/pdf/rcvista_voll8_nl.pdf.


Acesso cm: 5-8-2012.
72 Disponível cm: http://idbdocs.iadb.org/w sdocs/gctdocum cnt.aspx?docnum =35782864.
Acesso cm: 5-8-2012.
82 Coleção Saberes Monográficos

^ Ainda em conform idade com o BID, um a em cada cinco m u ­


lheres que faltam ao trabalho o fazem por terem sofrido agres­
são física, fazendo com que a violência dom éstica com prom e­
ta 14,6% do PIB da Am érica Latina (correspondente a US$ 170
bilhões). No Brasil, a violência dom éstica custa 10,5% do PIB
(PIOVESAN, 2014: 29).

8. Políticas assistenciais voltadas à mulher em situação de


violência doméstica e familiar: parte instrumental da Lei
(arts. 35, § 15,85 a 11)
Art. 3a [...]
§ l 2 O poder público desenvolverá políticas que visem garantir
os direitos humanos das mulheres no âmbito das relações do­
mésticas e familiares no sentido de resguardá-las de toda forma
de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade
e opressão.

Art. 8a A política pública que visa coibir a violência doméstica e


familiar contra a m ulher far-se-á por meio de um conjunto arti­
culado de ações da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios e de ações não governamentais, tendo por diretrizes:
I - a integração operacional do Poder Judiciário, do Ministério
Público e da Defensoria Pública com as áreas de segurança públi­
ca, assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação;
II - a promoção de estudos e pesquisas, estatísticas e outras in­
formações relevantes, com a perspectiva de gênero e de raça ou
etnia, concernentes às causas, às consequências e à frequência da
violência doméstica e familiar contra a mulher, para a sistemati­
zação de dados, a serem unificados nacionalmente, e a avaliação
periódica dos resultados das medidas adotadas;
III - o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores
éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis
estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência domésti­
ca e familiar, de acordo com o estabelecido no inciso III do art.
1Q, no inciso IV do art. 3Qe no inciso IV do art. 221 da Constitui­
ção Federal;
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 83

IV - a implementação de atendimento policial especializado para as


mulheres, em particular nas Delegacias de Atendimento à Mulher;
V - a promoção e a realização de campanhas educativas de pre­
venção da violência doméstica e familiar contra a mulher, voltadas
ao público escolar e à sociedade em geral, e a difusão desta Lei e
dos instrumentos de proteção aos direitos humanos das mulheres;
VI - a celebração de convênios, protocolos, ajustes, term os ou
outros instrum entos de promoção de parceria entre órgãos go­
vernamentais ou entre estes e entidades não governamentais,
tendo por objetivo a implementação de programas de erradica­
ção da violência doméstica e familiar contra a mulher;
VII - a capacitação permanente das Polícias Civil e Militar, da
Guarda Municipal, do Corpo de Bombeiros e dos profissionais
pertencentes aos órgãos e às áreas enunciados no inciso I quanto
às questões de gênero e de raça ou etnia;
VIII - a promoção de programas educacionais que disseminem
valores éticos de irrestrito respeito à dignidade da pessoa hum a­
na com a perspectiva de gênero e de raça ou etnia;
IX - o destaque, nos currículos escolares de todos os níveis de
ensino, para os conteúdos relativos aos direitos humanos, à equi­
dade de gênero e de raça ou etnia e ao problema da violência
doméstica e familiar contra a mulher.

Art. 9S A assistência à m ulher em situação de violência domésti­


ca e familiar será prestada de forma articulada e conforme os
princípios e as diretrizes previstos na Lei Orgânica da Assistên­
cia Social, no Sistema Único de Saúde, no Sistema Único de Se­
gurança Pública, entre outras normas e políticas públicas de pro­
teção, e emergencialmente quando for o caso.
§ ls O juiz determinará, por prazo certo, a inclusão da m ulher em
situação de violência doméstica e familiar no cadastro de progra­
mas assistenciais dos governos federal, estadual e municipal.
§ 2S O juiz assegurará à m ulher em situação de violência domés­
tica e familiar, para preservar sua integridade física e psicológica:
I - acesso prioritário à remoção quando servidora pública, inte­
grante da administração direta ou indireta;
84 Coleção Saberes Monográficos

II - manutenção do vínculo trabalhista, quando necessário o


afastamento do local de trabalho, por até seis meses.
§ 3QA assistência à m ulher em situação de violência doméstica e
familiar compreenderá o acesso aos benefícios decorrentes do
desenvolvimento científico e tecnológico, incluindo os serviços
de contracepção de emergência, a profilaxia das Doenças Sexual­
mente Transmissíveis (DST) e da Síndrome da Imunodeficiência
Adquirida (AIDS) e outros procedimentos médicos necessários e
cabíveis nos casos de violência sexual.

Art. 10. Na hipótese da iminência ou da prática de violência do­


méstica e familiar contra a mulher, a autoridade policial que
tom ar conhecimento da ocorrência adotará, de imediato, as pro­
vidências legais cabíveis.
Parágrafo único. Aplica-se o disposto no caput deste artigo ao
descumprimento de medida protetiva de urgência deferida.

A rt. 11. No atendim ento à m ulher em situação de violência


doméstica e familiar, a autoridade policial deverá, entre outras
providências:
I - garantir proteção policial, quando necessário, comunicando
de imediato ao Ministério Público e ao Poder Judiciário;
II - encam inhar a ofendida ao hospital ou posto de saúde e ao
Instituto Médico Legal;
III - fornecer transporte para a ofendida e seus dependentes
para abrigo ou local seguro, quando houver risco de vida;
IV - se necessário, acompanhar a ofendida para assegurar a
retirada de seus pertences do local da ocorrência ou do dom i­
cílio familiar;
V - inform ar à ofendida os direitos a ela conferidos nesta Lei e
os serviços disponíveis.

O objetivo da Lei, como já m encionado no item 1, é o de coibir


a violência de gênero, quando praticada em u m contexto dom és­
tico, fam iliar ou em um a relação íntim a de afeto, sendo tal violên­
cia física, psíquica, sexual, patrim onial ou moral, dentre outras.
Esse objetivo é perseguido pela Lei por m eio de estratégias extra-
penais e de estratégias penais.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 85

D entre as estratégias extrapenais, podem os encontrar a preo­


cupação da Lei Maria da Penha em dotar a m u lh er de in stru m e n ­
tos que perm itam o seu em poderam ento, para, a p a rtir dele, criar
condições de m ais igualdade entre os sexos, com vistas a que si­
tuações desfavoráveis, propiciadoras de violência e oriundas de
um a tradicional sociedade patriarcal possam ser am enizadas e,
até, quem sabe u m dia, equacionadas.
A política pública que visa coibir a violência dom éstica e fa­
m iliar contra a m ulher é form ada por u m conjunto articulado de
ações integradas de prevenção, envolvendo os poderes Executivo
e Judiciário, M inistério Público e sociedade civil - arts. 8Qe 9Q- e
o atendim ento pela autoridade policial73 - arts. 10 e 11.
Além do (a) sistema de prevenção, a Lei Maria da Penha tam bém
conta com o (b) sistema jurídico de combate e (c) o sistema jurídico
de repressão à violência doméstica e familiar. O prim eiro insere-se
nas estratégias extrapenais, enquanto os outros dois, nas estratégias
crim inais (que serão abordadas na parte II do presente livro).
A Lei é com posta por 46 artigos, sendo que são poucos os que
possuem natureza crim inal, destacando-se os seguintes:
art. 17: veda a aplicação de penas de cesta básica ou outras de
prestação pecuniária, bem como a substituição de pena que
im plique o pagam ento isolado de multa;
^ Art. 41: determ ina que aos crim es praticados com violência
dom éstica e fam iliar contra a m ulher, independentem ente da
pena prevista, não se aplica a Lei n. 9.099/95;
^ Art. 42: acrescentou ao art. 313 do CPP m ais um a hipótese de
prisão preventiva: “se o crim e envolver violência dom éstica e
fam iliar contra a m ulher, nos term os da lei específica, para
g aran tir a execução das m edidas protetivas de urgência” (IV).
Tal dispositivo sofreu nova modificação por conta da Lei n.
12.403/11, que am pliou a possibilidade de decretação de prisão

73 A expressão autoridade policial abarca tanto a polícia civil (na atuação após a ocorrência,
voltada para a investigação c para a elaboração dc procedim entos que visam subsi­
diar posterior ação penal, e, agora, por força da Lei M aria da Penha, cm sua atuação
relacionada às m edidas protetivas) quanto a polícia m ilitar (na atividade ostensiva, dc
prevenção) (BARBOSA; FOSCARINI, 2011: 252).
86 Coleção Saberes Monográficos

preventiva, passando a possibilitar, tam bém , a prisão, se a


violência for com etida contra criança, adolescente, idoso, en­
ferm o ou contra pessoa com deficiência;
^ Art. 43: alterou a redação do art. 61, II, f, do CP, para acrescen­
ta r às agravantes lá contidas a seguinte circunstância: “ou
com violência contra a m ulher na form a da lei específica”;
Art. 44: alterou a pena prevista no § 9Q ao art. 129 do CP74
(lesão corporal leve dom éstica - tipo penal criado pela Lei n.
10.886/2004, reduzindo a pena m ínim a de seis para três m e­
ses e aum entando a pena m áxim a de u m ano para três anos.
Cada um a das inovações acima será objeto de análise na parte
II da presente obra.
Todos os dem ais dispositivos legais da Lei M aria da Penha
ocupam -se da prevenção da violência de gênero (seja evitando que
o crim e aconteça, seja buscando instrum entos para que ele não se
repita). Sempre que temos, na norm a legal, esse tipo de preocupa­
ção, ela se caracteriza por ser de política crim inal. Relembrando:
a norm a penal incide quando o fato crim inoso já aconteceu (no
m ínim o, na form a tentada), ou seja, quando o bem ju ríd ico já so­
freu a lesão (ou o perigo de lesão).
Já em seu art. 3e, § 1-, a Lei M aria da Penha reconhece a obri­
gação do Poder Público (União, Estados, D istrito Federal e M uni­
cípios) de desenvolver políticas “que visem g aran tir os direitos
hum anos das m ulheres no âm bito das relações dom ésticas e fam i­
liares no sentido de resguardá-las de toda form a de negligência,
discrim inação, exploração, violência, crueldade e opressão”. Even­
tuais om issões do Estado possibilitam sanções e represálias o riu n ­
das da com unidade internacional.
As políticas m encionadas no art. 3Q consubstanciam -se por
meio de m edidas de assistência à m u lh er em situação de violência
dom éstica e fam iliar e são de três ordens: (1) m edidas integradas

74 CP, art. 129, § 98. Se a lesão for praticada co n tra ascendente, descendente, irm ão,
cônjuge ou com panheiro, ou com quem conviva ou te n h a convivido, ou, ainda,
prcvalccendo-se o agente das relações dom ésticas, de coabitação ou de hospitalidade:
Pena - detenção, de 3 (três) m eses a 3 (três) anos.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 87

de proteção (art. 8e); (2) m edidas de assistência à m u lh er (art. 99)


e (3) m edidas voltadas ao atendim ento pela autoridade policial
(arts. 10 a 12).
Dos três conjuntos de ações acima mencionados, o prim eiro
(medidas integradas de proteção) incide no m om ento anterior à
violência, contando, assim, com um a m aior efetividade na redu­
ção e/ou elim inação da violência contra a m ulher. O segundo
dirige-se à m ulher que já se encontra em situação de violência
dom éstica e fam iliar, trazendo u m rol de program as e ações assis-
tenciais; já o terceiro tam bém se dirige à m u lh er já vítim a de
violência, porém se volta para ações de atendim ento a ser realiza­
das pela autoridade policial.
Vejamos cada u m desses conjuntos de ações de assistência,
todos representados por estratégias extrapenais.

8.1. Medidas integradas de proteção - art. 8Q


Prevê o art. 89 da Lei Maria da Penha que a política pública
voltada à inibição da violência dom éstica e fam iliar contra a m u ­
lher será realizada “por meio de u m conjunto articulado de ações
da União, dos Estados, do D istrito Federal e dos M unicípios e de
ações não governam entais”.
A parceria Estado-sociedade é condição para o sucesso na coi-
bição da violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher. A respon­
sabilidade com partilhada cria sinergia, possibilitando um a m aior
efetividade às políticas im plem entadas.
O desafio de se estabelecer articulação entre as várias in stitu i­
ções (governamentais e não governamentais) que desenvolvem tra ­
balhos na área de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher
(organizando, coordenando, integrando e articulando as atividades
desenvolvidas) é enorm em ente facilitado pelo fato de a própria Lei,
em seu art. 8Q, trazer especificados os parâm etros de atuação de
tais entidades, ou seja, as diretrizes, conform e se verá a seguir:

a) Da integração operacional dos órgãos públicos


Na presente diretriz, preocupou-se o legislador com a com u­
nicação entre os setores governam entais (Judiciário, M inistério
88 Coleção Saberes Monográficos

Público e Defensoria) e suas interfaces com as áreas de segurança,


assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação, dem ons­
tran d o o quanto o tem a é transdisciplinar.

b) Da promoção de estudos e pesquisas


A prim eira im portante pesquisa sobre violência dom éstica e
fam iliar contra a m u lh er realizada no Brasil dem onstrou um a
realidade avassaladora: a cada 15 segundos um a m ulher era espan­
cada por u m hom em , sendo o principal autor pessoa com quem
ela m an tinha (ou manteve) um a relação íntim a de afeto (VENTU-
RI; RECAMÁN; OLIVEIRA, 2004).
Era possível im aginar um a situação m uito ru im , quando se
su p u n h am cifras sobre violência dom éstica e fam iliar contra a
m ulher, m as sem os estudos, pesquisas, levantam entos e discus­
sões realizados jam ais se te ria aprofundado o conhecim ento
acerca do tem a. Som ente com dados precisos foi e é possível
n o rte a r intervenções e políticas sobre o fenôm eno, inclusive
possibilitando estabelecer ou reo rd en ar estratégias m ais decisi­
vas em relação a pontos de m aior incidência dos crim es p rev is­
tos na Lei.
Depois de realizadas as estatísticas, preconiza o art. 38 da Lei
que elas “serão incluídas nas bases de dados dos órgãos oficiais do
Sistema de Justiça e Segurança a fim de subsidiar o sistem a nacio­
nal de dados e inform ações relativo às m ulheres” (caput) e que “as
Secretarias de Segurança Pública dos Estados e do D istrito Federal
poderão rem eter suas inform ações crim inais para a base de dados
do M inistério da Justiça” (parágrafo único).
A Lei ainda determ ina que o M inistério Público, sem prejuízo
de outras instituições, elabore o cadastram ento dos casos de vio­
lência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er (art. 26).

c) Dos meios de comunicação


Tanto a Convenção sobre a Elim inação de todas as Formas de
D iscrim inação contra a M ulher quanto a Convenção Interam eri-
cana para prevenir, p u n ir e erradicar a violência contra a m ulher
preocuparam -se com o tem a referente aos meios de comunicação.
Muito em bora nossa CF preveja a proibição de censura (art.
220, § 2Ô, e art. 5Ô, IX, da CF), eventual abuso ou excesso praticado
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 89

pela m ídia é objeto de preocupação tam bém no nível constitucio­


nal (art. 1Q, III,75 art. 3e, IV,76 e art. 22177).
Um equilíbrio entre os dispositivos constitucionais exigirá
que os m eios de com unicação (mídia escrita e falada) abstenham -
-se de apresentar m ulheres desem penhando papéis que as inferio­
rize (submissão, déficit intelectual, descontrole emocional, ridicu­
larização etc.).
Segundo relatório do Projeto Global de M onitoram ento de
Mídia de 2010:78

Quase metade (48%) de todas as matérias reforça estereótipos de


gênero, enquanto 8% das matérias questionam estereótipos de
gênero. As mulheres são identificadas nos noticiários por seus
relacionamentos familiares (esposa, mãe, filha), cinco vezes mais
que os homens.
Matérias apresentadas por mulheres têm consideravelmente mais
foco em temas femininos do que as matérias apresentadas por
homens, e questionam estereótipos de gênero quase duas vezes
mais do que matérias de repórteres homens.79
d) Do atendimento policial especializado
A fim de que se possa dar à m u lh er em situação de violência
dom éstica e fam iliar u m atendim ento policial especializado, fo­
ram criadas as Delegacias Especializadas de A tendim ento à Mu­
lher (DEAMs). Suas ações devem estar voltadas para prevenção,
apuração, investigação e enquadram ento legal.

75 A rt. I8. A República Federativa do Brasil, form ada pela un ião indissolúvel dos Estados
c M unicípios c do D istrito Federal, co n stitu i-se cm Estado D em ocrático de D ireito e
tem com o fundam entos: [...] III - a dignidade da pessoa hum ana;
76 A rt. 3® C onstituem objetivos fu ndam entais da República Federativa do Brasil: [...]
IV - prom over o bem de todos, sem preconceitos de origem , raça, sexo, cor, idade c
quaisquer outras form as de discrim inação.
77 Art. 221. A produção c a program ação das em issoras de rádio c televisão atenderão aos
seguintes princípios: (...) IV - respeito aos valores éticos c sociais da pessoa e da família.
78 A pesquisa, realizada cm nível m undial, tem o propósito de in cen tiv ar a rep resen ­
tação ju sta e equilibrada das m u lh eres na m ídia noticiosa. Foram pesquisados 42
países situados na África, Ásia, A m érica Latina, Caribe, Ilhas do Pacífico c Europa.
79 R epresentação de gênero na m ídia não é equilibrada. Disponível cm: h ttp ://w w w .
o b scrv ato rio d cg c n e ro .g o v .b r/m c n u /n o tic ia s/rc p rc sc n ta c a o -d e -g c n c ro -n a -m id ia -
nao-c-cquilibrada/?scarchtcrm =m % C3% A D dia. Acesso cm : 3-3-2011. Dados p relim i­
nares do estudo disponíveis cm : w w w .w hom akcsthcnew s.org.
90 Coleção Saberes Monográficos

Não obstante a im portância das DEAMs, dados do IBGE (2009)


revelam que, das 5.565 cidades brasileiras, apenas 395 têm dele­
gacias especializadas para o atendim ento eventualm ente buscado
(pelas m ulheres).80
As Delegacias Especializadas com põem a estru tu ra da Polícia
Civil. A seleção e a capacitação periódica de seus operadores re ­
presentam diretrizes que m uito podem co n trib u ir para que não
seja vivenciada pela m ulher u m a segunda vitimização, agora, pe­
los aparelhos do Estado.81
Conform e divulgado em reportagem exibida82 pela Rede Glo­
bo de Televisão, a Secretaria de Políticas para as M ulheres preten­
de expandir o núm ero de Delegacias Especializadas, visando atin­
gir 500 delegacias no País até o ano de 2014.
No que tange à seleção de seus integrantes, deve ser dada
preferência, quando da composição de seus quadros, a policiais do
sexo fem inino, em face do natural constrangim ento da m ulher
vítim a em relação aos fatos a serem narrados (violência sofrida,
m esm o que não ten h a sido de natureza sexual).83
A capacitação de tais profissionais (de preferência do sexo fe­
m inino) m erece cuidados especiais. Eduardo Mayr elenca algu­
mas atitudes que bem dem onstram o quanto eventual despreparo
no lidar com esse tipo de violência pode acarretar, começando
pelas indagações que são form uladas às vítim as: “Você tem sorte
de ainda estar viva, por que você estava andando sozinha naquele

80 Pesquisa na íntegra: http://www.agcnciapatriciagalvao.org.br/imagcs/storics/PDF/mu-


lhcrcs_dc_olho/m unic2009_ibge.pdf. Acesso cm: 12-8-2012.
81 A vitim ização secundária ou sobrevitim ização é causada pelas instâncias form ais dc
controle social no d eco rrer da investigação c rim in al ou do processo penal. Cf. GO­
MES, Luiz Flávio; MOLINA, A ntônio García-Pablos dc. Criminologia. Trad. Luiz Flávio
Gomes. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.
82 Disponível cm: http://gl.globo.com /jornal-hojc/noticia/2012/04m ulhcr-nao-prccisa-
lcvar-tcstcm unha-dclcgacia-para-dcnunciar-agrcssor.htm l. Acesso cm: 12-8-2012.
83 Portaria 11/97, do D elcgado-Gcral de Polícia do Estado dc São Paulo, cstabclccc que
Màs Delegacias dc Defesa da M ulher deverão ser designadas, preferencialm ente, poli­
ciais civis do sexo fem inino, principalm ente para o exercício das funções relaciona­
das ao atendim ento público”.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 91

local?, não sabe que não se pode sair à noite desse jeito?, por que
não gritou?”, e questionam entos desta ordem . Tudo isso acarreta à
vítim a um a intensa agonia psíquica,84 que só pode ser neutraliza­
da com a capacitação adequada dos agentes que atuam nas diver­
sas fases de apuração dos fatos.
Não se deu cum prim ento, portanto, a um a im portante d ire­
triz das políticas públicas que visam coibir a violência dom éstica
e fam iliar contra a m ulher, estabelecida no art. 8Q, IV, da Lei n.
11.340/2006 (Lei M aria da Penha), que prevê “a im plem entação de
atendim ento policial especializado para as m ulheres, em particu­
lar nas Delegacias de A tendim ento à M ulher”. E, pior, eventual
frustração e sensação de desam paro da vítim a frente à Justiça
deixa um a m argem ainda m aior para a anteriorm ente m enciona­
da vitimização secundária.85 Assim, à vitimização prim ária (causa­
da pelo acusado) se acrescenta a vitimização secundária (causada
pelo próprio aparelho policial/judicial estatal), aum entando ainda
m ais a (já tão intensa) violência contra a m ulher.

e) Das campanhas educativas


A valorização social da censurabilidade aos atos que integram
práticas de violência contra a m ulher é um a aquisição civilizacio-
nal recente. Foi a p a rtir da integração das m ulheres nos espaços
públicos e da (re)definição do seu papel nesses espaços, bem como
do (re)arranjo de suas funções no espaço privado, que se chegou à
percepção da não violência como com portam ento que se im pu­
nha, ainda que não o bastante, à prom oção da igualdade.
A equivalência de gênero, para se estabelecer como realida­
de, exigiu que hom ens e m ulheres superassem as heranças de
costum es cuja atribuição de sentidos de vida não se coadunavam
com a atualidade.

84 MAYR, Eduardo. Vitimologia c direitos hum anos. Revista Brasileira de Ciências Crimi­
nais, 21, p. 183, jan.-m ar. 1998.
85 Cf. OLIVEIRA, Ana Sofia Schm idt. A vítima e o direito penal. São Paulo: R evista dos
Tribunais, 1999, p. 113.
92 Coleção Saberes Monográficos

É necessário com preender as m aneiras como a assim etria se­


xual se estabelece e se reproduz em sociedades históricas concre­
tas. A diferença de tratam ento entre os sexos, com a valorização de
papéis atribuídos aos hom ens, é um a construção social; m odificá­
vel, portanto, por meio do im plem ento de novas form as de pensar
e agir, com valores outros sendo dissem inados, prestigiados e es­
tabelecidos por u m proselitism o com petente. É nessas circunstân­
cias e com esses objetivos que devem continuar entrando em cena
as cam panhas elucidativas, buscando a prevenção da violência do­
méstica e fam iliar de que trata o presente inciso sob comento.
D entro desta preocupação, insere-se a com em oração realiza­
da em 8 de m arço - Dia Internacional da M ulher. Ele é com em o­
rado desde 1975, por decisão das Nações Unidas. “D urante o Ano
Internacional da M ulher, as Nações Unidas com eçaram a celebrar
o Dia Internacional da M ulher em 8 de m arço. Dois anos depois,
em dezem bro de 1977, a Assembleia Geral aprovou um a resolução
proclam ando u m Dia das Nações Unidas para os Direitos da Mu­
lher e da Paz Internacional a ser observado em qualquer dia do
ano pelos Estados-M embros, de acordo com as suas tradições h is­
tóricas e nacionais. Ao aprovar a resolução, a Assembleia Geral
reconheceu o papel da m ulher nos esforços de paz e desenvolvi­
m ento e pediu o fim da discrim inação e u m aum ento do apoio à
participação plena e igualitária das m ulheres”.86
Há m uitas controvérsias acerca do fato que teria motivado
sua instituição, bem como sobre a escolha da data do seu festejo.
Os m otivos da instituição do dia e a indicação de u m a data para a
sua com emoração são im portantes, está bem . Todavia, m ais im ­
portante é não perder de vista o significado sociopolítico do dia,
evitando que esse tributo à m ulher se transform e em m om ento
de m ero afago dos afetos domésticos.
O dia, afinal, simboliza lutas por pertencim ento social e polí­
tico. Então, a oferta de um a flor, a gentil entrega de u m presente

86 Disponível cm: http://w w w .un.org/cn/evcnts/w om cnsday/history.shtm l. Acesso em:


12 - 8 - 2012 .
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 93

ou qualquer m anifestação carinhosa - que sem pre será bem -vin­


da para mães, amigas, nam oradas, com panheiras, esposas etc.,
não pode desvirtuar o foco da comemoração. O real sentido da
instituição do Dia Internacional da M ulher deve perm anecer vivo
na m em ória de todos e ser cum prido, ainda m ais quando não es­
tão encerradas as lutas de afirm ação das m ulheres nos lugares de
poder do m undo.
No dia 8 de m arço se com emora, pois, o respeito à dignidade
da m ulher, conquistado com luta. É, de toda sorte, u m dia de festa;
mas, antes de ser m om ento de hom enagens pessoais, é a evocação
cívica da m em ória das batalhas de m ulheres e de hom ens iguali-
taristas pelo necessário em poderam ento das m ulheres nos espaços
do m undo social, econômico, político e, por incrível que possa
parecer, no doméstico. É um a comemoração, pois, com flores e
regalos, se for possível e o que seria melhor, m as é, igualm ente,
u m m om ento de lem brança de que ainda há bastante por fazer.

f) Dos convênios e parcerias


Autonomia e ação em ancipadora são as finalidades dos p ro ­
gram as de erradicação da violência dom éstica e fam iliar contra a
m ulher, “a fim de que possam protagonizar a construção de u m
novo projeto de vida, agora, sem violência (prevenção da revitim a-
ção). Portanto, há necessidade de que eles se dirijam à proteção
das vítim as no sentido do seu em poderam ento e à dim inuição do
isolam ento em situações comprovadas de risco. A im plem entação
de estratégias de em poderam ento constitui um a intervenção in ­
dispensável para se rom per com o silêncio, quebrar o m edo que
paralisa vítim as e, sobretudo, para que se encontrem saídas não
violentas para pôr fim ao ciclo de violência que as enreda” (BIAN-
CHINI, 2011: 228-229).
Toda m u lh er pode ser vítim a de violência doméstica, porém
o risco de sofrer tal abuso não é distribuído igualm ente. A princi­
pal determ inante para afastar o risco é a form a como a m u lh er se
relaciona consigo mesm a. Ela deve se com preender como u m su­
jeito de direito, e não com o objeto de um a tradição que a subjuga.
É nessa questão, portanto, que se devem concentrar as políticas de
prevenção da violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher. Mas
94 Coleção Saberes Monográficos

não é só isso: há necessidade de se m elhorar as políticas públicas


de igualdade de gênero.
Nesse aspecto, m uito há que ser percorrido para que o Brasil
possa sair da vergonhosa 62s posição em um a lista de 134 países.87
Program as dirigidos não só à vítim a, m as tam bém ao agres­
sor, aos fam iliares e às testem unhas, são de enorm e relevância.
Também é im portante que eles alcancem m om entos posteriores
ao rom pim ento do casal, já que com o fim do relacionam ento os
riscos e a gravidade das agressões perm anecem . “Por conta disso,
as vítim as devem preparar a saída do relacionam ento, articuladas
com sistem as de proteção, ou seja, pedir apoio (da fam ília, dos
amigos, dos entes estatais, de ONGs, conform e a necessidade) e
tratar das ações relativas ao desfecho do relacionam ento, fazendo
uso, nos casos extrem os, dos m ecanism os de proteção de vítim as
e/ou controle de agressores colocados à sua disposição pela Lei
Maria da Penha” (BIANCHINI, 2011: 229).

g) Da capacitação permanente
A formação de agentes capacitados nas tem áticas de gênero,
raça e etnia é um a das apostas de m edida de prevenção à violência
dom éstica e fam iliar contra a m ulher, segundo previsto no inciso
VII do art. 8Q da Lei Maria da Penha. A capacitação perm anente
das Polícias Civil e Militar, da Guarda M unicipal,88 do Corpo de
Bombeiros e dos profissionais pertencentes aos órgãos e às áreas
de segurança pública, assistência social, saúde, educação, trabalho
e habitação é um a form a de garantir que aqueles que estão na

87 BIANCHINI, Alicc. Brasil perm anece na posição 62 no índice de igualdade de gêne­


ro. Disponível cm: http://atualidadcsdodircito.com.br/aliccbianchini/2013/10/27/brasil-
-pcrm anccc-na-posicao-62-no-indicc-dc-igualdadc-dc-gcncro/. Acesso cm: 27-4-2014.
O Fórum Econômico M undial divulgou o relatório c ranking 2013 do Global Gender Gap,
que mede o índice m undial dc desigualdade de gênero. Dos 136 países estudados, o Bra­
sil ocupa atualm ente o 62a lugar. Disponível cm: http://m onitoram cntoccdaw .com .br/
wp-contcnt/uploads/2013/08/bbc-rclat-igualdadc.pdf. Em 2010, estávamos cm 85® lugar
(Estudo sobre igualdade entre os sexos, Gender Gap, 2010).
88 Rogério Sanchcs C unha c Ronaldo Batista Pinto (2008: 74) ressaltam que, apesar da
“boa intenção” do legislador cm envolver a G uarda M unicipal no com bate à violência
contra a m ulher, esta tem , constitucionalm ente, a função dc proteção do patrim ônio
m unicipal, não sendo dc sua com petência o policiam ento ostensivo, p róprio da Polí­
cia M ilitar.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 95

ponta do atendim ento à sociedade estejam sensibilizados sobre a


questão e possam, de m aneira eficiente, agir para que situações de
violência não se concretizem ou perdurem . Profissionais que tra ­
balham no atendim ento a vítim as e agressores devem ser capaci­
tados nas tem áticas de gênero, raça e violência contra a m ulher
para lidar com situações de violência com o devido cuidado, evi­
tando em itir opiniões preconceituosas e juízos de valor que im pe­
çam o acolhim ento e o atendim ento qualificado necessários.
A dem anda p o r profissionais habilitados, capazes de com ­
p reender a violência dom éstica em sua complexidade, justifica a
previsão por capacitação continuada. De acordo com a N orm a
Técnica de Padronização das Delegacias Especializadas de Atendi­
m ento às M ulheres, o investim ento na form ação e valorização
profissional deve ser priorizado de m odo a resultar “num a cres­
cente com preensão do fenôm eno da violência, suas causas e in s­
tru m en to s de superação individual e coletiva”.89 A garantia de que
haverá atendim ento especializado nas DEAMs e fora delas depen­
de do investim ento em capacitação que deve ser

continuada, abrangente, de natureza técnica, operacional e ge­


rencial; universal, dirigida ao conjunto dos(as) profissionais e
deve incluir disciplinas específicas, tais como uso legal e pro­
gressivo da força e da arma de fogo, defesa pessoal, abordagem e
técnicas de investigação policial, dentre outras, que devem estar
integradas com os conteúdos humanísticos relativos a direitos
humanos, ética, cidadania e violência de gênero e de raça. (...) A
capacitação profissional deve estar pautada por uma metodologia
participativa, dialógica, interdisciplinar e holística e deve asse­
gurar conteúdos programáticos que reafirmem a condição de
sujeito de direitos da m ulher em situação de violência.90

89 N orm a Técnica dc Padronização das Delegacias Especializadas de A tendim ento às


M ulheres - DEAMs. Edição atualizada 2010, p. 54. D isponível em: http://w w w .rcdc-
saudc.org.br/portal/hom c/contcu d o /b ib lio tcca/b ib lio tcca/n o rm as-tccn icas/0 0 3 .p d f.
Acesso cm: 20-4-2012.
90 N orm a Técnica dc Padronização das Delegacias Especializadas dc A tendim ento às
M ulheres - DEAMs. Edição atualizada 2010, p. 54. D isponível cm : http://w w w .rcdc-
saudc.org.br/portal/hom c/contcu d o /b ib lio tcca/b ib lio tcca/n o rm as-tccn icas/0 0 3 .p d f.
Acesso cm: 20-4-2012.
96 Coleção Saberes Monográficos

É possível afirm ar que a Lei confia à capacitação continuada


a tarefa de proporcionar atendim ento hum anizado às vítim as de
violência doméstica. No entanto, apesar dos investim entos na for­
mação continuada de agentes, ainda há m uito a ser feito neste
sentido. Conform e ressaltado por PASINATO e SANTOS,

a Política Nacional para o Enfrentamento da Violência contra a


Mulher, o Plano Nacional de Políticas para Mulheres e o Pacto
Nacional preveem metas e recursos para a realização de capaci­
tação. Embora os esforços tenham sempre ocorrido de maneira
intensa e diversificada em todo o país, com a realização de cur­
sos, palestras, seminários, incorporação de disciplinas em cursos
de formação de policiais em alguns estados, seu alcance ainda é
pequeno e seu impacto não foi ainda avaliado de forma satisfató­
ria (2008: 23).

h) Da promoção de programas educacionais


A prom oção de program as educacionais que “dissem inem va­
lores éticos de irrestrito respeito à dignidade da pessoa hum ana
com a perspectiva de gênero e de raça ou etnia”, com especial
atenção aos currículos escolares de todos os níveis de ensino, está
igualm ente prevista na Lei M aria da Penha. São inúm eros os p ro ­
jetos de educação na área de direitos hum anos no Brasil realizados
tanto pela sociedade civil quanto pelo governo e voltados para
diferentes públicos, como o escolar, o universitário e o de lideran­
ças com unitárias.91
Especificam ente em relação à educação em direitos hum anos
das m ulheres, é am pla a gam a de projetos que trabalham com a
tem ática, em especial no âm bito da sociedade civil, sendo que al­
guns abordam questões raciais e étnicas. D entre eles, é possível
destacar os cursos de Prom otoras Legais Populares (PLPs) que tra ­
balham com capacitação legal de m ulheres em diferentes cidades

91 No site do Fórum Nacional de Educação em Direitos H um anos, é possível encontrar


um a base de dados de projetos de educação cm Direitos Humanos: http://ww w .foru-
mcdh.org.br/. No site D hnct (http://w w w .dhnct.org.br) tam bóm há bastante informação
sobre o tema.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 97

do Brasil. Inicialm ente im plem entado pelo grupo Them is - Asses-


soria e Estudos de Gênero,92 em 1993, e atualm ente difundido
entre inúm eras organizações fem inistas do País,93 de acordo com
Fernanda Castro Fernandes, os cursos de PLPs têm como objetivo
central a capacitação de m ulheres em:

noções de Direito, no funcionamento do Estado, na organização


das leis, na compreensão da construção social da exclusão e da
discriminação das mulheres a fim de que elas criem uma cons­
ciência de direitos e passem a lutar pela sua efetivação. O enfo­
que do curso é possibilitar que essas mulheres passem a ver os
seus direitos pela perspectiva dos direitos humanos e em espe­
cial dos direitos humanos das mulheres (2009: 22).94

O núm ero de cartilhas voltadas para diferentes públicos p ro ­


duzidas desde a prom ulgação da Lei Maria da Penha é alto. Apesar
de não haver um a sistematização do m aterial existente, é possível
mapear, em u m a simples busca na internet, inúm eras cartilhas
sobre a Lei e a tem ática da violência de gênero. D entre elas, pode­
mos destacar as publicações: “M ulher, vire a página” do Núcleo de
Combate à Violência Doméstica e Fam iliar contra a Mulher, C ir­
cunscrição de Itapecerica da Serra - M inistério Público - SP;95 “O
E nfrentam ento à Violência Doméstica e Fam iliar Contra a Mu­
lher: um a construção coletiva. Contribuições dos M inistérios Pú­
blicos Estaduais e da União para o Entendim ento da Lei M aria da

92 Disponível cm : http://thcm is.org.br. Acesso cm : 12-8-2012.


93 São exem plos dc organizações que m in istra m cursos de Prom otoras Legais Populares
(PLPs): U nião dc M ulheres dc São Paulo (http://w w w .uniaodcm ulhcrcs.org.br/hom e.
php c http://w w w .prom otoraslcgaispopulares.org.br), Gclcdés - In stitu to da M ulher
Negra (http://w w w .gclcdcs.org.br), Them is (http://thcm is.org.br). Ver tam bém : h ttp://
w w w .forum plp.org.br/. Dc acordo com o O bservatório Brasil dc Igualdade dc G êne­
ro, há, no Brasil, 24 entidades que prom ovem cursos dc capacitação para Prom otoras
Legais Populares, cm doze unidades da Federação.
94 FERNANDES, Fernanda Castro. Quando o direito encontra a rua: o cu rso de form ação
dc Prom otoras Legais Populares. Rio dc Janeiro: L um inária Academia, 2009.
95 Disponível cm: http://w w w .m p.sp.gov.br/portal/pagc/portal/C artilhas/V iolcnciaD o-
m cstica.pdf. Acesso em: 12-8-2012.
98 Coleção Saberes Monográficos

Penha”;96 e “E nfrentando a Violência Contra a M ulher - orienta­


ções práticas para profissionais e voluntários”,97 escrita por Barba­
ra M. Soares para a Secretaria Especial para M ulheres.

i) Dos currículos escolares


A pesar dos avanços, nossa sociedade perm anece m arcada
por herança de costum es patriarcais, na qual predom inam valo­
res estritam ente m asculinos, restos de im posição p o r condição
de poder. É por isso que a violência contra a m u lh er deve ser
coibida na sua origem e meio, ou seja, na própria sociedade. N es­
se sentido, é de extrem a valia a presença de discussões sobre ela
em todos os níveis educacionais, conform e prevê o presente in ­
ciso. Exemplo é a parceria en tre M inistério da Educação e a SPM,
para in clu ir o Program a G ênero e Diversidade na Escola (GDE)
no sistem a de oferta da Universidade A berta do Brasil (UAB) da
Capes/MEC.
O tem a tratado nos currículos escolares de todos os níveis de
ensino é de eficácia m uito elevada para a coibição da violência
dom éstica e fam iliar contra a m ulher, pois a transm issão de um
outro conhecim ento (voltado para a coibição da violência dom és­
tica e fam iliar contra a m ulher) e o cultivo de valores m ais liber­
tários do que aqueles advindos do senso com um pode alterar o
estado de coisas.
Em nível universitário, na D iretriz C urricular Nacional do
M inistério da Educação para o Curso de Direito, não há obrigato­
riedade de inclusão da disciplina Direitos H um anos na grade h o ­
rária da graduação. Assim, fica a critério das universidades sua
inclusão ou não.
Em relação a cursos de pós-graduação, a Associação N acio­
nal de D ireitos H um anos, Pesquisa e Pós-G raduação (Andhep)
aponta a existência de 25 cursos, tan to stricto sensu q u an to lato
sensu. No entanto, vale re g istra r que a m aioria dos program as

96 Disponível cm: http://w w w .m p.m t.gov.br/storagc/w cbdisco/2012/03/14/outros/afd5


2803a0f0c58a9fc8c22086c9c557.pdf. Acesso cm: 12-8-2012.
97 Disponível cm: http://w w w .css.ufrj.br/prcvencaoviolcnciascxual/dow nload/009cn-
frcntando.pdf. Acesso cm : 12-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 99

de pós-graduação no Brasil que se re p o rta a direitos hum anos


possui área de concentração em direitos hum anos, m as são
program as de o u tras grandes áreas (Direito, Ciências Sociais,
Educação etc.), sendo, p o rtan to , avaliados pela Capes segundo
critério s p e rtin e n te s a essas grandes áreas, ficando as especifi-
cidades relativas a direitos hum an o s em posição m arginal. Há
alguns poucos program as que se caracterizam com o in terd isci-
p lin ares e se definem com o de direitos hum anos, m as isto é
exceção, e não regra.

8.1.1. A criação de Coordenadorias das Mulheres em Situação de Violência


- Resolução n. 128 do CNJ
No m ês de m arço de 2011, o Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) publicou a Resolução n. 128, determ inando a criação, no
âm bito dos trib u n ais de ju stiça estaduais e do D istrito Federal,
de C oordenadorias Estaduais das M ulheres em Situação de Vio­
lência Dom éstica e Fam iliar. Com a função institucional de se­
rem órgãos perm anentes de assessoria da presidência do trib u ­
nal, as coordenadorias, de acordo com a resolução, devem
priorizar, dentre outros: I) o aprim oram ento da e stru tu ra do J u ­
diciário na área do com bate e prevenção à violência de gênero; II)
a m elhoria da prestação ju risd icio n al na área, p o r m eio do auxí­
lio aos m agistrados, servidores e equipes m ultiprofissionais, co­
laborando para a form ação destes; III) a articulação do poder
Judiciário com órgãos governam entais e não governam entais
que trabalham com a tem ática.
O CNJ, p o r m eio das coordenadorias, alm eja a m elhoria, a
continuidade e a am pliação das políticas de com bate à violência
dom éstica e fam iliar contra a m ulher, contribuindo, assim , para
a efetivação da Lei n. 11.340/2006. Nesse sentido, g a ra n tir o
aprim oram ento da prestação ju risd icio n al para a resolução de
conflitos envolvendo este tip o de violência é in v estir no prota-
gonism o do Judiciário com o órgão-chave na efetivação dos d i­
reitos hum anos das m ulheres, em especial daquelas que viven-
ciam a violência.
O CNJ, desde a promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006,
tem se m ostrado órgão com prom etido com a sensibilização de m a­
gistrados e funcionários do Judiciário acerca da violência de gêne-
100 Coleção Saberes Monográficos

ro, o que pode ser constatado pelas jornadas Lei Maria da Penha,98
evento que atualm ente está em sua sétim a edição. As ações de
capacitação visam rom per a m aneira negligente com a qual a vio­
lência doméstica e fam iliar é tratada no Brasil, m udando a ideolo­
gia e a prática institucional em relação ao tema.
Alguns tribunais possuem coordenadorias operantes, dentre
eles o de Minas Gerais, o do Rio Grande do Sul, o do Rio de Janei­
ro, o de Sergipe e o do Paraná (dados de ju lh o de 2012). No entan­
to, apesar de tribunais estaduais terem criado suas coordenado­
rias, algum as delas carecem de m aior apoio institucional para seu
funcionam ento, como disponibilização de servidores para o traba­
lho e viabilização de espaço físico.

8.2. Medidas de assistência à mulher (art. 9*)


O art. 9Qda Lei n. 11.340/2006 trata da assistência prestada à
m u lh er em situação de violência dom éstica e familiar, que deverá
ser articulada e realizada segundo os princípios e diretrizes do
Serviço de Assistência Social,99 do Sistema Único de Saúde (SUS),100
do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP)101 e de outras nor-

98 O rganizado pelo CNJ, objetiva d iscu tir políticas públicas do Poder Judiciário para a
aplicação da Lei n. 11.340/2006 c ações integradas com outros órgãos com prom etidos
no com bate à violência dom éstica c fam iliar co n tra a m ulher. Fonte: h ttp ://w w w .
cnj.jus.br/noticias/cnj/25754-cnj-prom ove-vii-jornada-da-lei-m aria-da-pcnha. Acesso
cm : 10-4-2014. Ver tam b ém as diferentes ações do CNJ cm relação à violência contra
a m ulher, disponíveis cm: http://w w w .cnj.jus.br/program as-dc-a-a-z/pj-lci-m aria-da-
-penha. Acesso cm: 15-7-2012.
99 Regido, principalm ente, pela Lei O rgânica da A ssistência Social (LOAS) n. 8.742/93.
100 São leis e stru tu ra n te s do SUS a C onstituição Federal 1988, Título VIII “Da O rdem
Social”, Seção II Da Saúde; a Lei O rgânica da Saúde n. 8.080, dc 19 dc setem bro de
1990; a Lei n. 8.142, dc 28 dc dezem bro dc 1990, que dispõe sobre a participação da
com unidade c transferências intergovernam entais;
101 Ainda não estabelecido cm Lei, o SUSP prevê a articulação dc ações federais, estaduais
e m unicipais na área de Segurança Pública. O 3® Program a N acional de D ireitos H u­
m anos, PNDH III, in stitu íd o pelo D ecreto n. 7.037/2009 além dc outros, tem , com o
eixo orientador, a “Segurança Pública, Acesso à Justiça c Combate à Violência”, o
qual prevê, cm sua prim eira d iretriz, a m odernização e dem ocratização do sistem a
dc segurança pública exercida, d en tre outros, p o r m eio da m odernização do m arco
norm ativo do sistem a dc segurança pública. Vale ressaltar que tal sistem a tem com o
u m dc seus objetivos estratégicos a “Redução da violência m otivada p o r diferenças
dc gênero, raça ou etnia, idade, orientação sexual e situação dc v u lnerabilidade”. Dis­
ponível cm: http://portal.m j.gov.br/sedh/pndh3/pndh3.pdf. Acesso cm: 2-5-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 101

mas e políticas públicas de proteção. Prevê, ainda em seu caput ,


que a assistência, quando for o caso, deverá ser prestada em ergen-
cialm ente. Tal artigo traduz a essência interdisciplinar do com ba­
te e prevenção à violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher,
conjugando áreas médicas, jurídicas e sociais. Trata este tipo de
violência como u m problem a social, não apenas vinculado à segu­
rança pública, mas, igualm ente, à saúde pública.102
Um dos eixos estru tu ran tes do Pacto Nacional pelo Enfrenta-
m ento da Violência contra as M ulheres (2010) é ju stam en te o for­
talecim ento da rede de atendim ento às m ulheres em situação de
violência dom éstica e fam iliar, u m a vez considerada “a m agnitu­
de e a m ultidim ensionalidade da questão”, integrando as diferen­
tes áreas envolvidas com a violência contra as m ulheres (em es­
pecial, a justiça, a segurança pública, a saúde e a assistência social)
(2010: 22).
Para que haja o fortalecim ento da rede, dentre outras m edi­
das, são previstas:
I) a ampliação dos serviços especializados da rede de atendi­
m ento à m ulher em situação de violência;103
II) a criação e aplicação de norm as técnicas nacionais para o fu n ­
cionam ento dos serviços de prevenção e assistência às m u lh e­
res em situação de violência;

1 D9
A associação da violência dc gênero à área da saúde é cronologicam ente m ais recen ­
te que sua associação à área ju ríd ica, especificam ente da segurança. Isso porque a
violência não é tradicionalm ente u m objeto do cam po da saúde. Segundo ressalta
Schraibcr, D’Oliveira c outras, foi principalm ente a p a rtir da década dc 1990, no Brasil,
que passou a haver u m envolvim ento cada vez m aior da saúde coletiva com a violên­
cia con tra a m ulher, por m eio da form ulação dc políticas específicas, propostas dc
pesquisa e program as dc intervenção. N este artigo, as autoras traçam u m detalhado
histórico da relação en tre a área da saúde, especificam ente da saúde coletiva, e a da
violência dc gênero. SCHRAIBER e t al. Violência dc gênero no cam po da saúde cole­
tiva: conquistas e desafios, Ciência e Saúde Coletiva, 14 (4): 1019-1027, 2009.
103 São eles, dc acordo com o PACTO (2010: 22): C entros Especializados dc A tendim ento
à M ulher cm situação dc violência (Centros de Referência dc A tendim ento à M ulher,
Núcleos dc A tendim ento à M ulher, C entros Integrados da M ulher), Casas Abrigo, Ca­
sas dc A colhim ento Provisório, Delegacias Especializadas dc A tendim ento à M ulher,
Núcleos da M ulher nas D efcnsorias Públicas, Prom otorias Especializadas, Juizados
Especiais dc Violência Dom éstica c F am iliar co n tra a M ulher, Posto dc A tendim ento
H um anizado nos aeroportos (tráfico dc pessoas).
102 Coleção Saberes Monográficos

III) prom oção do atendim ento qualificado às m ulheres em situ­


ação de violência nos Centros de Referência de Assistência
Social (CRAS) e nos Centros Especializados de Assistência
Social (CREAS); e
IV) a consolidação e ampliação da Central de A tendim ento à Mu­
lh e r - Ligue 180. Como principais resultados alcançados até
2010, o Pacto apresenta a construção/reform a e o reaparelha-
m ento de aproxim adam ente m il serviços de atendim ento; re ­
passe de recursos federais para as DEAMs; a criação, com o
apoio da Secretaria de Reforma do Judiciário-MJ, de 88 servi­
ços, como Juizados Especializados de Violência Doméstica e
Familiar, Defensorias Especializadas e Prom otorias/Núcleos
de Gênero no M inistério Público.
De acordo com Castilhos (2011: 235),104 as disposições do art.
9Qpodem ser classificadas em três grupos: (a) políticas públicas de
proteção, em especial de assistência social, de saúde e de seguran­
ça (§ 1Q); (b) norm as de proteção no trabalho (§ 2e); e (c) políticas
públicas especiais de proteção à saúde, relacionadas à violência
sexual (§ 3Q). Vejamos cada um a delas:105

a) políticas públicas de proteção, em especial de assistência so­


cial, de saúde e de segurança (§ 1-)
A inclusão da m u lh er em situação de violência dom éstica e
fam iliar no cadastro de program as assistenciais do governo fede­
ral, estadual e m unicipal é realizada pelo ju iz e visa garantir que
m ulheres de baixa renda em situação de violência recebam apoio
financeiro do governo. Trata-se de ação protetiva com o objetivo
de g aran tir a subsistência da agredida, possibilitando-lhe a ru p tu ­
ra com possível vínculo econôm ico que m antenha com o agres­
sor. A dependência financeira da m u lh er dificulta, por vezes, o
enfrentam ento da situação de violência que ela vivência.

104 CASTILHOS, Ela W iccko dc. Da A ssistência à m u lh e r cm situação dc violência do­


m éstica c fam iliar - art. 9®. In: CAMPOS, C arm en H cin dc (Org.). Lei Maria da Penha
comentada em uma perspectiva jurídico-feminista. Rio de Janeiro: L um en Ju ris, 2011.
105 O a rt. 9® é u m exem plo da priorização, pela Lei M aria da Penha, do enfoque dc e n ­
frentam ento à violência dom éstica e da adoção dc m edidas que não a m era punição
do agressor.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 103

Os programas assistenciais são desenvolvidos no âmbito do Mi­


nistério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Para se
ter acesso aos programas assistenciais do governo é necessário o
registro no Cadastro Único para Programas Sociais, que é o “ins­
trum ento de identificação e caracterização socioeconômica das
famílias brasileiras de baixa renda, a ser obrigatoriamente utili­
zado para seleção de beneficiários e integração de programas so­
ciais do Governo Federal voltados ao atendimento desse público”
(art. 2Q, Dec. 6.135/07). De acordo com Castilhos, não é necessá­
rio que haja ordem judicial para que a m ulher em situação de
violência doméstica seja cadastrada, uma vez que a própria Rede
de Atendimento de seu município poderá registrá-la. Apesar da
ordem judicial não poder desrespeitar as condições para recebi­
mento de benefícios assistenciais, esta poderá levar à superação
dos limites orçamentários para pagamento de benefícios (CASTI­
LHOS, 2011: 241).

Caso o ju iz entenda a necessidade de cadastro da m ulher co­


m o form a de d irim ir a situação de vulnerabilidade em que se en­
contra, poderá d eterm in ar o cadastro às autoridades responsáveis,
sendo, no entanto, necessário que a m u lh er cum pra certos req u i­
sitos para recebim ento do benefício, como fazer parte de família
com renda m ensal de até meio salário m ínim o por pessoa ou de
até três salários m ínim os no total.

b) Normas de proteção no trabalho (§ 2Q)


Com o objetivo de garantir a integridade física e psicológica
da m u lh er em situação de violência, o § 2Qprevê ações referentes
à proteção do trabalho em caso de necessidade de afastam ento
(trabalhadora) ou rem oção (servidora pública).
Na perspectiva dos direitos hum anos, o trabalho digno deve
ser considerado não m ero meio de subsistência, m as u m direito
inalienável a todo ser hum ano. Trata-se de u m direito social, ga­
rantido tanto na legislação nacional quanto em tratados e conven­
ções internacionais ratificados pelo Brasil. De acordo com o art. 11
da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discri­
m inação Contra a M ulher (CEDAW, 1979), ratificada pelo Brasil em
1984, por exemplo, garantir às m ulheres o direito ao trabalho é
104 Coleção Saberes Monográficos

u m a das form as de com bater a discrim inação entre os gêneros e


assegurar a equidade entre hom ens e m ulheres. Ora, assim, nada
m ais ju sto que, em um a legislação que visa coibir a violência do­
m éstica e fam iliar contra a m ulher, o trabalho esteja protegido.
Assim, p erm itir o afastam ento do trabalho, nesse caso, é medida
protetiva cautelar; e assegurar a vaga no período de afastam ento é
garantir u m direito social ameaçado em circunstâncias de vivên­
cia de violência.

b.l) Garantia de acesso prioritário à remoção quando servidora


pública (§ 2Q, I)
No inciso I, o legislador garante à servidora pública em situa­
ção de violência doméstica e fam iliar acesso prioritário à rem o ­
ção, ou seja, ao “deslocam ento do servidor, a pedido ou de ofício,
no âm bito do m esm o quadro, com ou sem m udança de sede”,
conform e art. 36 da Lei n. 8.112/90. A possibilidade de distanciar-
-se do am biente de trabalho sem, contudo, abrir mão de cargo
ocupado é um a m aneira encontrada pelo legislador de proteger a
funcionária pública vítim a de violência doméstica.
No entanto, algum as possíveis dificuldades de im plem enta­
ção foram encontradas por autores que analisam a Lei. D entre
elas, Rogério Cunha Sanches e Ronaldo Pinto (2011: 73) ressaltam
a quase im praticável aplicabilidade do inciso em casos de rem oção
de funcionária pública m unicipal, devido à im possibilidade de
obrigar u m m unicípio a cu m p rir ordem de juiz cuja com petência
não o atinja. Ainda nesse sentido, ressaltam a não obrigação de
u m m unicípio em receber servidora vinculada a outro, bem como
a possível violação do art. 37, II, da Constituição Federal, que p re­
ga a obrigatoriedade de concurso público como única form a de
acesso à adm inistração pública, caso u m m unicípio aceite alocar
funcionária oriunda de outra localidade (2011: 73).
A única alternativa viável, neste caso, de acordo com os auto­
res, seria a transferência da servidora entre setores da adm inistra­
ção do próprio m unicípio onde está lotada, o que funcionaria,
especialm ente, em cidades grandes.
Um segundo ponto de dificuldade m encionado pelos autores
diz respeito a qual seria o juízo com petente para d eterm in ar a
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 105

rem oção de servidora pública federal, u m a vez que, ao m esm o


tem po em que não seria possível u m juiz estadual determ inar a
rem oção de funcionária pública estadual, por ser com petência ex­
clusiva da justiça federal, ao ju iz federal não cabe ju lg a r questões
envolvendo violência dom éstica (vide CF, art. 109).106

b.2) Garantia de manutenção do vínculo trabalhista a funcionárias


(§ 2e, n)
A m anutenção do vínculo trabalhista a funcionárias é garan­
tida caso seja necessário o afastam ento da trabalhadora por até
seis meses, não especificando o regim e de trabalho, o que pressu­
põe que todas as m ulheres com trabalho formal, quando em situa­
ção de violência, podem requerer ao ju iz o afastam ento para p re­
servação de sua integridade física e psicológica.

Questão controvertida
A previsão da estabilidade da em pregada em caso de afasta­
m ento do emprego, no entanto, não vem acom panhada de qual­
quer referência relacionada à m anutenção do pagamento de salário
à afastada. Assim, restam dúvidas em relação à natureza jurídica
da interrupção da jornada de trabalho; se deve ou não haver a
m anutenção do pagam ento de salários nesse período e, em caso
positivo, quem arcaria com o ônus do pagamento: a previdência
social ou o empregador. O posicionam ento doutrinário acerca do
tem a não é unânim e. Vejamos:
Em relação à natureza jurídica do afastam ento, questiona-se
se seria a suspensão do contrato de trabalho - ou seja, o congela­
m ento das obrigações constantes no contrato, desonerando ambas
as partes contratuais do trabalho - ou a interrupção deste, o que
acarreta a necessidade de pagam ento, por parte do empregador, da
rem uneração devida à funcionária afastada. Cunha e Pinto (2007)
e Maria Berenice Dias (2007)107 com preendem que se trata de sus-

106 A não scr cm casos dc incidentes dc deslocam ento de com petência, previstos no art.
109 V-A da C onstituição Federal.
107 DIAS, M aria Berenice. A Lei Maria da Penha najustiça: a efetividade da Lei n. 11.340/2006
dc com bate à violência dom éstica e fam iliar co n tra a m ulher. São Paulo: R evista dos
Tribunais, 2007.
106 Coleção Saberes Monográficos

pensão do contrato, e que devem ser utilizadas as regras de au-


xílio-doença para casos de afastam ento laborai devido à violência
dom éstica e que, durante os prim eiros quinze dias consecutivos
ao do afastam ento da atividade, cabe ao em pregador pagar à em ­
pregada seu salário integral e, posteriorm ente, o encargo deverá
ficar a cargo da Previdência Social108 (art. 60, § 39, da Lei n.
8.213/91.109Já M artins (2007)110 e Porto (2012: 118)111 com preendem
que se trata de suspensão do contrato de trabalho, período no qual
não deverá haver o recebim ento de salário por parte da afastada.
Considerando que o afastam ento se dá não por m ero capricho
da afastada, m as por um a real necessidade, não faz sentido onerá-la
com o não recebim ento de seu salário regular. Tal atitude aum en­
taria a situação de vulnerabilidade na qual se encontra a vítim a de
violência, que ficaria privada do recebim ento de rem uneração. As­
sim, em consonância com a finalidade da Lei Maria da Penha, de
criar m ecanism os para coibir a violência doméstica e fam iliar con­
tra a m ulher, e com o art. 226, § 8Q, da Constituição Federal, se­
gundo o qual “o Estado assegurará a assistência à família na pessoa
de cada um dos que a integram , criando m ecanism os para coibir a
violência no âm bito de suas relações”, está a interpretação de que a
m ulher deverá receber, no período de suspensão do contrato de
trabalho, seus provim entos da Previdência Social.
Polêmica, igualm ente, é a questão do juízo com petente para
lidar com questões referentes ao afastam ento da em pregada em
situação de violência dom éstica e fam iliar: seria dos Juizados de
Violência Doméstica e Fam iliar contra a m u lh er ou da Justiça do
Trabalho? Para M aria Berenice Dias (2007), a com petência seria
dos Juizados, podendo a suspensão do contrato de trabalho ser

108 Como nos casos de liccnça-m atcrnidadc e/ou auxílio-docnça.


109 AMARAL, Carlos Eduardo Rios do. Da m anutenção do vínculo trabalhista à m u lh er
cm situação de violência dom éstica fam iliar. Disponível cm: http://jusvi.com /arti-
gos/38026. Acesso cm: 12-8-2012.
110 MARTINS, Sérgio Pinto. M anutenção do contrato dc trab alh o cm razão de violência
dom éstica. Carta Forense, São Paulo, n. 45, fev. 2007.
111 PORTO, Pedro Rui da Fontoura. Violência doméstica e fam iliar contra a mulher: Lei n.
11.340/2006, análise crítica c sistêm ica. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 107

feita de ofício. Porto (2012:118) ressalta que “cabe ao ju iz crim inal


reconhecer o enquadram ento na hipótese de violência doméstica,
com unicando a empresa. Não cum prida tal determ inação, o em ­
pregador estará sujeito a um a reclam atória trabalhista com pedi­
do de reintegração e reestabelecim ento do vínculo rom pido”, sen­
do, portanto, com petência subsidiária da Justiça do Trabalho. No
m esm o sentido é o entendim ento de Vieira (2009),112 para quem a
concessão da suspensão do contrato de trabalho som ente é possí­
vel se houver vínculo trabalhista e, para verificação da existência
desse vínculo, é com petente a Justiça do Trabalho, “vez que as
causas envolvendo a relação de trabalho, por expressa disposição
constitucional (CF, art. 111), são da sua com petência”. C unha e Pin­
to, tam bém , concordam que a com petência é exclusiva da Justiça
do Trabalho, dada a previsão constitucional das atribuições desta
Justiça (2011: 77).
Posicionamento da autora: a rem essa da causa da m u lh er em
situação de violência dom éstica e fam iliar para outro juízo sem ­
pre a prejudica, pois reflete na dem ora da resolução da dem anda
e em novos custos para ela. Por essas e outras razões, foram cria­
dos os Juizados de Violência Doméstica e Fam iliar contra a Mu­
lher. O corre que a própria Lei, em seu art. 14, restringe a com pe­
tência para os âm bitos cíveis e crim inais. Ademais disso, de fato,
questões que envolvem relações de trabalho são de com petência
da Justiça especializada (do Trabalho), por expressa determ inação
constitucional (CF, art. 111).
Vale m encionar ainda que a legislação tem u m lim ite claro,
que é o das m ulheres que vivem de trabalho inform al e que não
poderão receber os benefícios do afastam ento. Considerando que
parcela significativa das m ulheres que exercem atividade rem u ­
nerada trabalha inform alm ente, tal benefício não inclui boa parte
da população fem inina econom icam ente ativa. Dados de 2010 do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelam que, apesar
do crescim ento do núm ero de m ulheres no m ercado de trabalho
form al (de 41,5% em 1999 a 48,8% em 2010), entre as jovens de 16

112 VIEIRA, M arília Costa. A Lei Maria da Penha e a nova hipótese de manutenção do vínculo
trabalhista. Disponível cm: http://ww w .lfg.com .br. Acesso cm: 11-2-2009.
108 Coleção Saberes Monográficos

a 24 anos, 69,2% das ocupadas atuavam em trabalhos inform ais.


Já entre as m ulheres acim a de 60 anos, 82,2% estava no mercado
inform al. A inserção das m ulheres no mercado de trabalho se m os­
tro u desigual entre as raças: enquanto cerca de 44,0% de brancas
alegaram estar na inform alidade, 54,1% das pretas e 60,0% das
pardas o fizeram .113Assim, apesar dos m ecanism os de proteção do
trabalho previsto na Lei, não são todas as trabalhadoras beneficia­
das por ele, o que reforça a necessidade de inclusão de m ulheres
de baixa renda em program as de Assistência Social.

c) Políticas públicas especiais de proteção à saúde, relacionadas à


violência sexual (§ 3Q)
O terceiro parágrafo do art. 9Qprevê assistência de ponta em
saúde à m ulher em situação de violência dom éstica e familiar, em
especial à m u lh er vítim a de violência sexual. Isso porque, para
além do dano psíquico provocado pela violência sexual, a m ulher
corre risco de dano físico, como o contágio de doenças sexual­
m ente transm issíveis, ou m esm o de engravidar. Levando em con­
sideração essas possibilidades, o legislador foi feliz ao reforçar a
necessidade de atendim ento especial, previsto em legislações e
norm as técnicas voltadas à proteção e à prom oção da saúde inte­
gral e dos direitos sexuais e direitos reprodutivos das m ulheres, à
m ulher que sofre violências desse tipo.
Compõem este leque norm ativo: I) a Política Nacional de
Atenção Integral à Saúde da M ulher (PNAISM) de 2004; II) a Lei
de Planejam ento Fam iliar - 9.263/96; III) a N orm a Técnica de Pre­
venção e Tratam ento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual
contra M ulheres e Adolescentes, editada pelo M inistério da Saúde;
IV) a N orm a Técnica de Atenção H um anizada ao Abortam ento,
tam bém do M inistério da Saúde; V) o Plano Integrado de E nfren-
tam ento da Feminização da Epidemia do HIV/Aids e outras DSTs,
de 2007; VI) e a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da
População Negra, de 2007, que prevê m edidas de prevenção de

113 Síntese de Indicadores Sociais 2010. D isponível cm: http://w w w .ibge.gov.br/hom e/


prcsidcncia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=17I7& id_pagina=l. Acesso cm:
14-5-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 109

doenças prevalentes nas m ulheres negras.114 A rticuladas entre si,


essas políticas, norm as e planos visam garantir o respeito aos di­
reitos reprodutivos e direitos sexuais das m ulheres.
Em relação especificam ente aos casos de violência sexual, a
Norm a Técnica de Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da
Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes e a Norm a Técnica de
Atenção Humanizada ao Abortamento preveem ações pontuais para
redução dos danos:115 I) o apoio psicossocial hum anizado e com
garantia do sigilo; II) a anticoncepção de emergência;116 III) a profi­
laxia para DSTs não virais e virais; IV) o acom panham ento labora­
torial para auxiliar em diagnóstico e investigação das DSTs/HIV/
Hepatites. Já nos casos de gravidez decorrente de violência sexual,117
prevê-se que haja esclarecim entos sobre a possibilidade de in ter­
rupção ou de m anutenção da gestação, que deverá ser realizada
com o consentim ento da m ulher ou dos pais (quando m enores de
16 anos). É im portante ressaltar que a realização de aborto legal
não se condiciona a decisão judicial, não havendo exigência de al­
vará ou autorização, m as a presunção da veracidade da m u lh er e da
adolescente. Assim, não é necessária a realização e/ou apresentação
de boletim de ocorrência para que seja realizado o procedim ento.
Não obstante as im portantes ações previstas no art. 9Q, pes­
quisa realizada em 2007 em diferentes estabelecim entos de aten­
dim ento à m ulher em situação de violência dom éstica em São
Paulo (SCHRAIBER; D’OLIVEIRA, 2007) aponta a dificuldade de
diálogo apresentada entre os serviços que com põem a rede de
atendim ento, em especial quando são de áreas distintas, como os

114 Para m aior detalham ento de cada u m a dessas norm ativas, ver: http://w w w .rcdesau-
dc.org.br/portal/trilhas/docs/002.pdf. Acesso cm: 5-5-2012.
115 No endereço a seguir, é possível visualizar u m com pleto fluxogram a de atendim ento
à vítim a de violência sexual: http://static.atualidadcsdodircito.com .br/violcnciadcge-
ncro/filcs/2012/04/CLIQUE-AQUI8.pdf. Acesso cm : 8-5-2012.
116 M étodo anticonccptivo que previne a gravidez após a violência sexual, im pedindo ou
retardando a ovulação, c quando usado na segunda fase do ciclo m en stru al, im p e­
dindo a fecundação do óvulo pelo esperm atozóide.
117 Um dos casos de não punição do aborto no Brasil é aquele resultante de estupro,
conform e previsto no art. 128, II, do Código Penal pátrio. Trata-se do “aborto legal”
realizado cm hospitais públicos autorizados para tal cm todo o País, com o é o caso do
Hospital Pérola Byngton, cm São Paulo, referência no atendim ento a m ulheres.
110 Coleção Saberes Monográficos

serviços de assistência m édica e jurídica. As autoras apresentam a


dem arcação de dois grandes territórios de assistência às m u lh e­
res, ressaltando que, “apesar das diferenças entre seus discursos,
percebe-se, de u m lado, u m alinham ento entre assistências ju r í­
dica e policial e, de outro, assistências de orientações básicas e
psicossocial” (2007: 14). Assim, apesar dos avanços apresentados
no Pacto, a articulação entre as áreas precisa ser fortalecida, de
m odo a garantir a efetivação da Lei M aria da Penha em sua pers­
pectiva m ultidisciplinar.

8.3. Outras medidas assistenciais (art. 35)


Art. 35. A União, o Distrito Federal, os Estados e os Municípios
poderão criar e promover, no limite das respectivas competências:
I - centros de atendimento integral e multidisciplinar para m u­
lheres e respectivos dependentes em situação de violência do­
méstica e familiar;
II - casas-abrigos para mulheres e respectivos dependentes m e­
nores em situação de violência doméstica e familiar;
III - delegacias, núcleos de defensoria pública, serviços de saúde
e centros de perícia médico-legal especializados no atendimento
à m ulher em situação de violência doméstica e familiar;
IV - programas e campanhas de enfrentamento da violência do­
méstica e familiar;
V - centros de educação e de reabilitação para os agressores.

Além de todas as m edidas assistenciais m encionadas anterior­


m ente, o art. 35 elenca outras tam bém de grande im portância.
Elas são objeto de análise nos seguintes itens: 6.4, 8.2, e 14.3.5.

8.4. Diretrizes e princípios das medidas assistenciais (art. 36)


Art. 36. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios
promoverão a adaptação de seus órgãos e de seus programas às
diretrizes e aos princípios desta Lei.

O art. 36 estabelece deveres concorrentes à União, aos Esta­


dos, ao D istrito Federal e aos Municípios, obrigando os Poderes
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 111

Executivos de todos os entes da Federação a reorientar os objeti­


vos de seus órgãos e program as de m odo a contem plar todas as
especificidades das dem andas do com bate à violência doméstica.
O dispositivo legal possibilita não só um a atuação conjunta e
articulada, m as tam bém a descentralização de serviços assisten-
ciais conform e as com petências estabelecidas pela Constituição
Federal, de m odo a desburocratizar processos e superar obstácu­
los à im plem entação da Lei M aria da Penha.

8. 5. Defesa dos interesses e direitos transindividuais pode ser exercida


concorrentemente pelo MP e por associação com atuação na área
Art. 37. A defesa dos interesses e direitos transindividuais previs­
tos nesta Lei poderá ser exercida, concorrentemente, pelo Minis­
tério Público e por associação de atuação na área, regularmente
constituída há pelo menos um ano, nos termos da legislação civil.
Parágrafo único. O requisito da pré-constituição poderá ser dis­
pensado pelo juiz quando entender que não há outra entidade
com representatividade adequada para o ajuizamento da deman­
da coletiva.

Em consonância com o entendim ento contem porâneo sobre


a inadequação do modelo tradicional de divisão tem ática estanque
do direito público e do direito privado, a Lei M aria da Penha re ­
conhece a natureza transindividual de determ inados direitos, e, a
exemplo da Lei da Ação Civil Pública (Lei n. 7.347/85), confere ao
M inistério Público e a associações regularm ente constituídas a
legitim idade para dem andar na defesa de tais interesses. O pará­
grafo único deste artigo ainda confere ao juiz a possibilidade de
dispensar o requisito da pré-constituição quando o m agistrado,
ao exam inar o caso concreto, verificar que a defesa do direito
transindividual pode restar prejudicada por falta desta formalidade.

8 .5. Dotação orçamentária específica para a implementação das medidas


estabelecidas na Lei Maria da Penha
Art. 39. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios,
no limite de suas competências e nos term os das respectivas leis
de diretrizes orçamentárias, poderão estabelecer dotações orça-
112 Coleção Saberes Monográficos

mentárias específicas, em cada exercício financeiro, para a im ­


plementação das medidas estabelecidas nesta Lei.
Em harm onia com o disposto no já com entado art. 36, o art.
39 da Lei M aria da Penha busca alcançar a finalidade social da Lei,
que é fruto de com prom etim ento internacional do Estado brasi­
leiro com a im plem entação de políticas públicas de com bate à
violência doméstica. Neste sentido, observam Rogério Sanches
Cunha e Ronaldo Batista Pinto:

O Estado brasileiro, depois de ratificar os documentos interna­


cionais de proteção à mulher, assumiu obrigações no plano in­
ternacional, comprometendo-se a adotar medidas para garantir
os direitos humanos das mulheres no âmbito das relações do­
mésticas e familiares, resguardando-as de toda forma de negli­
gência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opres­
são. Para tanto, deve traçar políticas de prevenção, bem como
investigar diligentemente qualquer violação, assegurando recur­
sos para efetivar a finalidade desta lei. A omissão do Estado, em
qualquer das frentes, configura publicidade negativa na comuni­
dade internacional (2011: 40).

Ademais, vale ressaltar que a inclusão das diretrizes da Lei


Maria da Penha nas previsões orçam entárias faz com que se d ire­
cione obrigatoriam ente parte da receita para program as de p re­
venção à violência doméstica, trabalhos de definição de indicado­
res e dados estatísticos, dentre outros.118

8.7. Extensão de obrigações a outras decorrentes dos princípios adota­


dos pela Lei Maria da Penha
Art. 40. As obrigações previstas nesta Lei não excluem outras
decorrentes dos princípios por ela adotados.

118 D ocum ento produzido pelo C entro Fem inista de Estudos e Asscssoria (CFMEA), in ti­
tulado “Lei M aria da Penha: do papel à vida”, traz inform ações detalhadas a respeito
da destinação de recursos orçam entários para atender às d iretrizes da Lei M aria da
Penha. íntegra disponível cm http://w w w .assufba.org.br/lcgis/lcim ariadapcnha.pdf.
Acesso cm: 12-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 113

O art. 40 da Lei M aria da Penha deixa claro que deve ser ob­
servada a integralidade de proteção aos direitos garantidos pelas
obrigações im postas a todas as esferas do Poder Público, p erm i­
tindo a aplicação subsidiária de previsões legais constantes de di­
plomas diversos. No dizer de Westei Conde y M artin Junior, “(...)
tem -se em favor da dignidade das m ulheres u m plus de proteção
que não se esgota nas obrigações previstas na Lei n. 11.340/2006,
m as que encontra especial guarida nos direitos fundam entais
constitucionalm ente elencados e nos tratados de direitos hu m a­
nos já ratificados, im pondo ao Estado brasileiro o dever de obser­
var outras tantas obrigações de com portam ento não previstas na
sua legislação in tern a” (2011: 364).
Igual previsão pode ser encontrada no Estatuto da Criança e
do Adolescente (Lei n. 8.079/90, art. 72) bem com o no Estatuto do
Idoso (Lei n. 10.741/2003, art. 4e, § 2S).

8.8 . Medidas voltadas ao atendimento assistencial pela autoridade policial


(arts. 10 e 11)
A Lei Maria da Penha dedica u m capítulo especial (capítulo III
do Título III - Da assistência à m u lh er em situação de violência
dom éstica e familiar) para as providências a serem tom adas pela
autoridade policial. Elas são de duas ordens: m edidas assistenciais
(art. 11) e providências a serem tom adas após o registro de ocor­
rência (art. 12).
Pelo rol de atribuições previsto nos artigos antes m enciona­
dos, percebe-se que a atuação da autoridade policial é diferenciada
no âm bito de aplicação da Lei M aria da Penha, devendo dispensar
tratam ento m uito especial à m u lh er ofendida.
Além disso, a atuação da autoridade policial pode ocorrer em
três m om entos diferentes: (a) quando da ocorrência de violência
dom éstica e fam iliar contra a m u lh er (art. 10, caput); (b) quando
da sua im inência; (c) no caso de descum prim ento de m edida
protetiva deferida.
Os procedim entos previstos no art. 12 e que devem ser ado­
tados pela autoridade policial após o registro de ocorrência serão
objeto de análise na parte II deste livro, tendo em vista que se re ­
ferem diretam ente a questões processuais penais. O presente item
114 Coleção Saberes Monográficos

concentra-se na análise das m edidas assistenciais previstas no


art. 11 da Lei, por terem caráter extrapenal.
São m edidas assistenciais a serem realizadas pela autoridade
policial (art. 11):
g aran tir proteção policial para a ofendida se necessário (art.
11, inc. I): a m edida tem por objetivo resguardar a integridade
física, psicológica e m oral da vítim a prim ordialm ente;
^ com unicar de im ediato a concessão de m edida de proteção
policial tanto ao M inistério Público quanto ao Poder Judiciá­
rio (art. 11, inc. I, in fine): por m eio de tal medida, o MP pode,
eventualm ente, representar pela prisão preventiva do agres­
sor, bem como o ju iz concedê-la de ofício;
a m u lh er deve ser devidam ente encam inhada ao hospital ou
posto de saúde (art. 11, inc. II): a m edida visa m inim izar as
consequências da violência;
^ a m ulher deve ser devidam ente encam inhada ao Instituto Mé­
dico Legal (art. 11, inc. II, in fine): tem o propósito de buscar
elem entos para subsidiar fu tu ra ação penal, visto que os lau­
dos ou prontuários servem com o m eio de prova (art. 12, §
2S), bem com o pedido de m edidas protetivas de urgência
(arts. 18 e ss);
^ se necessário, ou seja, diante da existência de risco de vida,
deve a autoridade policial tran sp o rtar tanto a ofendida quan­
to os dependentes para abrigo ou local seguro (art. 11, inc. III);
garantir que a vítim a retire todos os seus pertences do local
em que ocorreu a violência, ou do dom icílio fam iliar, acompa­
nhando-a para tanto, se necessário (art. 11, inc. IV);
inform ar a m u lh er ofendida de todos os direitos conferidos
pela Lei M aria da Penha, bem como dos serviços disponibili­
zados (art. 11, inc. V).

8.9. A instalação da CPMI para investigar as agressões contra a mulher


no Brasil
Foi instalada, em 8-2-2012, no âm bito do Congresso Nacio­
nal, Comissão Parlam entar Mista de Inquérito (CPMI) para p ro ­
m over a apuração de situações de violência contra a m u lh er no
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 115

País. Composta por 12 m em bros do Senado Federal e 12 m em bros


da Câm ara dos Deputados.
A Presidência da Comissão esteve a cargo da Deputada Fede­
ral Jô Moraes; a Vice-Presidenta é a Deputada Federal Keiko Ota e
a relatoria com pete à Senadora Ana Rita.
A CPMI teve como objeto apurar eventual omissão do Poder
Público quando da aplicação da Lei M aria da Penha e de outros
instrum entos de combate à violência contra a m ulher, significan­
do dizer que o objeto não se restringe à violência que atinge o âm ­
bito dom éstico (preocupação estam pada na LMP), m as a toda e
qualquer violência praticada contra o sexo fem inino.
Na p rim eira reu n ião da Comissão, realizada em 28 de feve­
reiro de 2012, foram apresentados e aprovados 17 re q u e rim e n ­
tos, a m aioria com o propósito de solicitar a realização de audiên­
cias públicas.119
O Senado Federal aprovou, em 29 de agosto, quatro projetos
resultantes do trabalho da CPI m ista de Violência contra a Mulher,
instaurada em 8-2-2012. As propostas seguem para o exam e da
Câmara dos Deputados. São eles:
PLS 293/2013: altera o art. 1Qda Lei n. 9.455, de 7 de abril de
1997, para incluir a discrim inação de gênero e reconhecer como
to rtu ra a subm issão de alguém à situação de violência doméstica
e fam iliar, com em prego de violência ou grave ameaça, a intenso
sofrim ento físico ou m ental como form a de exercer domínio.
PLS 294/2013: altera o art. 20 da Lei n. 11.340, de 7 de agosto
de 2006, para estabelecer que o encam inham ento da ofendida ao
abrigam ento deverá ser com unicado em 24 (vinte e quatro) horas
ao juiz e ao M inistério Público, para análise im ediata dos requisi­
tos da prisão preventiva do agressor.
PLS 295/2013: altera o art. 7Qda Lei n. 8.080, de 19 de setem ­
bro de 1990, que dispõe sobre as condições para a promoção, p ro ­
teção e recuperação da saúde, a organização e o funcionam ento

119 O acom panham ento dos trab alh o s pode ser feito pelo seg u in te lin k : h ttp ://w w w .
scnado.gov.br/atividadc/com issocs/com issao.asp?com =l580& am p;origcm =C N .
116 Coleção Saberes Monográficos

dos serviços correspondentes e dá outras providências, para inse­


r ir entre os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde
(SUS) a atribuição de organizar serviços públicos específicos e es­
pecializados para atendim ento de m ulheres vítim as de violência
dom éstica em geral.
PLS 296/2013: altera a Lei n. 8.213, de 24 de ju lh o de 1991, que
dispõe sobre os Planos de Benefícios de Previdência Social, e a Lei
n. 11.340, de 7 de agosto de 2006, para in stitu ir o auxílio-transi-
tório decorrente de risco social provocado por situação de violên­
cia dom éstica e fam iliar contra a m ulher.
A CPMI foi encerrada em agosto de 2013, com apresentação de
extenso e importante relatório sobre a situação da m ulher nos es­
tados brasileiros.120

9. A Lei Maria da Penha é fruto de movimento político-criminal


punitivista?
As m udanças antes m encionadas, principalm ente o afasta­
m ento perem ptório de diversos institutos benéficos ao réu (com­
posição civil, transação penal, representação para os crim es de
lesão corporal leve e suspensão condicional do processo), não fo­
ram bem recepcionadas por parte da doutrina, principalm ente
por aqueles que defendem um a necessária contração do direito
penal (viés m inim alista). Para eles, a Lei Maria da Penha é, e rro ­
neam ente, detentora de posturas retribucionistas, que são aquelas
que investem na retribuição penal com o resposta punitiva a dano
com etido por determ inado agente. A função retributiva, com o o
próprio nom e diz, tem com o pressuposto a retribuição de u m m al
causado a quem o causou.
Os m ovim entos sociais estão, de acordo com BATISTA (2007:
11), assum indo, por vezes, tais posturas retribucionistas ao dem an­
dar penas altas àqueles que atentam contra sujeitos e objetos de sua
m ilitância. Ainda de acordo com o autor, a dem anda de represen­
tantes do m ovim ento fem inista pelo encarceram ento de agressores

120 Leia a íntegra do relatório da Comissão da CPMI da violência co n tra a m ulher: h ttp://
www.scnado.gov.br/atividadc/matcria/gctPDF.asp?t=132647&tp=l.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 117

de m ulheres é retribucionista, na m edida em que, para além da


agressão pontual cometida, as fem inistas reivindicam que seja
considerado o significado social da violência contra a m u lh er - daí
a necessidade de severa punição ao agente. Para ele, a Lei Maria da
Penha é u m exemplo atual da postura retribucionista-aflitiva do
m ovim ento fem inista, que encontra na punição exacerbada do
agressor form a possível de combate à violência doméstica.
As principais críticas feitas a estas posturas (retribucionistas)
são: I) que o fu ro r punitivo não leva em consideração a seletivida­
de do sistem a penal, voltado para determ inados grupos sociais,
que continuará encarcerando os socialm ente desprivilegiados; II)
que as soluções punitivas são priorizadas em detrim ento do uso
alternativo do direito, capaz de prom over m edidas educativas
m ais eficazes que a pena de prisão; III) que os m ovim entos não
rom pem com o ciclo de violência ao querer pagar com a violência
penal a violência dom éstica com etida.121
Posicionamento da autora: um a coisa são as opções privadas
da relação entre gêneros, outra é pretender que a violência de gê­
nero seja u m assunto privado. Ainda que a intervenção do estado-
-direito penal acarrete, sem pre, efeitos funestos para o indivíduo,
seus fam iliares e sociedade em geral, há que se te r em m ente que
o distanciam ento do Estado dos conflitos fam iliares, privatizan-
do-o, no caso, acarreta males ainda m ais graves. É que a ausência
da mão estatal, além de desproteger aquela m u lh er que se encon­
tra em situação vulnerável, transm ite um a m ensagem à sociedade
de que a violência dom éstica é tem a afeito à sociedade conjugal/
fam iliar e que não se deve ingerir sobre ele, rem etendo, portanto,
o problema, ao seu aspecto privatista, o que seria u m retrocesso.

121 BATISTA, Nilo. Só C arolina não viu. In: MELO, A driana (Org.). Comentários à Lei de
Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. Rio dc Janeiro: Lum cn Juris, 2007. Con­
tra ria m e n te à p o stu ra punitiva do m ovim ento fem inista, articu lad o r da Lei M aria
da Penha, posiciona-se o sociólogo Rodrigo G hiringhclli dc Azevedo, para qu em a
Lei M aria da Penha reco rreu “ao m ito da tu tela penal, neste caso ela própria um a
m anifestação da m esm a cu ltu ra que se p reten d e com bater” (2008: 133). AZEVEDO,
Rodrigo G hiringhclli de. Sistem a Penal e Violência de Gênero: análise sociojurídica
da Lei n. 11.340/2006. Sociedade e Estado, Brasília, v. 23,1, p. 113-135, jan./abr. 2008.
118 Coleção Saberes Monográficos

De fato, ambas as situações (intervenção do direito penal e


distanciam ento da intervenção punitiva) são problemáticas. O m á­
xim o que se pode fazer é ten tar analisar qual delas traria m enos
prejuízo à m ulher em situação de violência dom éstica e fam iliar e
aos fam iliares que, em bora não diretam ente, tam bém são vítim as
de tal violência - ver 13.8.
Antes de se avançar na discussão, convém lem brar que a Lei
Maria da Penha deu u m tratam ento totalm ente diferenciado ao
conflito, na m edida em que criou os Juizados de Violência Domés­
tica e Fam iliar contra a M ulher, com todo u m aparato preventivo
e assistencial à vítim a e ao agressor (como tam bém aos fam iliares
e às testem unhas). Por conta disso, a atuação dos Juizados deve
diferir daquela tradicionalm ente legada à justiça crim inal, não se
lim itando à apreciação das responsabilidades crim inais e à d istri­
buição de castigos.
Ademais disso, a Lei não proibiu a conversão em penas restri­
tivas de direito, m ostrando, com isso, que não se trata de Lei m e­
ram ente punitivista.
Posicionamento da autora: quanto à não aplicação da Lei dos
Juizados Especiais (n. 9.099/95), andou bem o legislador, pois, com
isso, afastou a ideia de que se trata de crim e de m enor potencial
ofensivo. Bastante válida, neste m om ento, a advertência de Lavig-
ne (2011: 67), quando se refere ao paradoxo do binôm io formado:
violação de direitos hum anos versus m enor potencial ofensivo.
Também discordando do entendim ento de que a Lei M aria da
Penha é u m ordenam ento ju ríd ico m eram ente punitivista, Lenio
Luiz Streck traz os seguintes argum entos, no intento de rebatê-lo:
a) a criação de m edidas protetivas de urgência é um a dem ons­
tração de que a Lei não é punitivista. Perceba-se que som ente
em 2011, por meio da Lei n. 12.403, é que m uitas dessas m e­
didas passaram a ser adm itidas para os dem ais crim es, por
exemplo a proibição de contato;
b) a própria prisão preventiva som ente é adm itida quando n e­
n h u m a das m edidas protetivas forem suficientes;
c) a lógica que m antém a violência exercida por hom ens contra
m ulheres no âm bito dom éstico representa um a prática típica
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 119

do poder patriarcal - portanto de ordem privada. “Desta for­


ma, a não utilização do direito penal não se fundam enta em
nenhum a m edida em um a justificativa crítica de desejo de
redução do alcance do poder punitivo, m as sim na com preen­
são de que esta form a de violência específica seria inerente à
esfera privada, o que já não m ais pode ser adm itido” (2011:
302). E, citando lição de Baratta (1999: 54), arrem ata o autor:

A não intervenção do sistema penal na esfera privada e sua abs­


tinência no confronto da violência masculina não podem ser
mais ser considerados, então, como um a tutela da esfera privada
por parte do aparelho estatal, mas sim como um a falta estrutural
de tutela das mulheres, vale dizer, a legitimação “pública” em si
do incondicionado poder patriarcal.

N outros term os, a discussão de fundo é a decisão de re tira r a


questão da violência dom éstica contra a m u lh er da circunscrição
privada e trazê-la à esfera pública. Esta realocação do problem a
im plicará o Estado, possibilitando e até obrigando-o a in terferir
para efetivar a necessária proteção, dispondo de instrum entos le­
gais. Isso não deve ser confundido com recom endar precipitada­
m ente o aprisionam ento, m as sim dar-lhe suporte legal quando se
conferir que é a form a m ais adequada de garantir o direito. A in ­
tenção final, portanto, não é “valorizar o poder punitivo e a in ter­
ferência penal m ais gravosa, m as sim destacar a existência de um a
seletividade penal com recorte de gênero” (LAVIGNE; PERLIN-
GEIRO, 2011: 302).
Aliás, a história da produção da Lei Maria da Penha, nacional
e internacional, não conduz a nenhum a vontade de m aior expan­
são do poder punitivo, não obstante a sem pre louvável preocupa­
ção com ím petos penalizadores. É verdade que não se econom iza
em discursos que atribuem ao direito penal, sobretudo à sua
m aior severidade, o encam inham ento do problem a das violências
sociais e privadas, incluindo a violência de gênero. A prerrogativa
de aprisionam ento em situações extrem as é in stru m en to de am ­
pla proteção da dignidade de u m bem tutelado, a integridade físi­
ca e m oral da m ulher, e não um a ferram enta construída para
perseguir apressadam ente o agressor. Meios, ainda que gravosos,
120 Coleção Saberes Monográficos

de proteger direitos fundam entais nem sem pre vêm na contra­


m ão do esforço de lim itação do poder punitivo.

10. Origem da Lei: instrumentos de proteção dos direitos


fundamentais122
Os com andos norm ativos nacionais acerca do direito à não
violência interagem com os docum entos internacionais sobre o
tem a, form ando u m todo integrado e harm ônico. Além da prote­
ção internacional dos direitos hum anos de caráter geral, desta-
cam -se os docum entos internacionais que especificam a proteção
a sujeitos determ inados,123 sendo a Convenção Interamericana para
Prevenir; Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher u m exemplo
dessa últim a.
A própria Lei M aria da Penha é fruto de im portante conquis­
ta galgada em nível internacional, já que na condenação sofrida
pelo Brasil na Comissão Interam ericana de Direitos H um anos,
dentre outras obrigações, coube ao país elaborar norm as de p ro ­
teção integral à m u lh er vítim a de violência dom éstica e fam iliar.
A condenação ocorreu em 2002, e som ente quatro anos depois a
Lei M aria da Penha en tro u em vigor. Trata-se de um a legislação
ocupada e preocupada com a não violência contra as m ulheres,
que decorre de com prom issos assum idos pelo Brasil na m edida
em que ratificou os dois m ais im portantes docum entos in tern a­
cionais de proteção das m ulheres (ambos citados já em seu p re ­
âmbulo):
Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discri­
m inação contra a M ulher (CEDAW) e
^ Convenção Interam ericana para Prevenir, P u n ir e Erradicar a
Violência Contra a M ulher - Belém do Pará.
Vejamos cada um a delas:

122 Não obstante a advertência de alguns autores, no sentido de d istin g u ir direitos h u ­


m anos e direitos fundam entais, na p resen te obra optou-se p o r considerá-los sin ô ­
nim os, na lin h a do que faz George Sarm ento, A lexandre M oraes, M anoel Gonçalves
Ferreira Filho, d en tre outros.
123 Cf. PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 12. ed. São
Paulo: Saraiva, 2011.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 121

10.1. A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discrimina­


ção contra a M ulher-CEDAW (1979)
Adotada pela Resolução n. 34/180 da Assembleia das Nações
Unidas, em 18 de dezem bro de 1979, por m eio do D ecreto Legisla­
tivo n. 93/83, a Convenção é fruto da I Conferência M undial sobre
a M ulher, realizada em 1975, no México.
Apesar de já te r sido ratificada pelo Brasil em 1984 e de te r
entrado em vigor no m esm o ano, foram estabelecidas reservas
quanto à parte relativa ao direito de fam ília.124 Somente em 1994,
o Governo brasileiro notificou o Secretário Geral das Nações Uni­
das acerca da elim inação das aludidas reservas, sendo que em
2002 houve a sua prom ulgação sem ressalvas.
Como bem m enciona Liliana Lyra Jubilut, “tal Convenção se
insere no advento da teoria de gênero e busca g aran tir proteção
específica às m ulheres, à qual devem se acrescer todos os direitos
hum anos assegurados de m odo geral. Trata-se, assim, de se aten­
ta r para as particularidades das m ulheres, e de sobretudo buscar
gerar igualdade real, e não apenas form al entre elas e os hom ens”.125
Seu art. 2e exalta a todas as Nações do Mundo, m em bros da
Organização das Nações Unidas, o que se segue:

Artigo II. Os Estados-Partes condenam a discriminação contra a


m ulher em todas as suas formas, concordam em seguir, por to ­
dos os meios apropriados e sem dilações, uma política destinada
a elim inar a discriminação contra a mulher, e com tal objetivo
se comprometem a:
a) Consagrar, se ainda não o tiverem feito, em suas constituições
nacionais ou em outra legislação apropriada o princípio da igual-

124 Aliás, tal docum ento foi o que teve o m aior núm ero de reservas. Elas podem ser encon­
tradas cm: http://treaties.un.org/Pagcs/VicwDctails.aspx?src=TREATY&mtdsg_no=IV-
-8&chaptcr=4&lang=cn. O Brasil apresentou reservas ao art. 15, § 4B, c ao art. 16, § 1®, a,
c, g c h da Convenção. O art. 15 assegura a hom ens c m ulheres o direito de livrem ente
escolher seu domicílio c residência. O art. 16 estabelece a igualdade de direitos entre
hom ens e m ulheres no casam ento e nas relações familiares.
125 JUBILUT, Liliana Lyra. O com bate à violência contra a m u lh e r no âm bito da ONU.
Disponível cm : http://atualidadcsdodircito.com .br/lilianajubilut/2012/12/02/o-com ba-
te-a-violencia-contra-a-m ulhcr-no-am bito-da-onu/.
122 Coleção Saberes Monográficos

dade do homem e da m ulher e assegurar por lei outros meios


apropriados a realização prática desse princípio;
b) Adotar medidas adequadas, legislativas e de outro caráter,
com as sanções cabíveis e que proíbam toda discriminação con­
tra a mulher;
c) Estabelecer a proteção jurídica dos direitos da m ulher
num a base de igualdade com os do hom em e garantir, por
meio dos tribunais nacionais com petentes e de outras in sti­
tuições públicas, a proteção efetiva da m u lh er contra todo ato
de discrim inação;
d) Abster-se de incorrer em todo ato ou prática de discrim ina­
ção contra a m ulher e zelar para que as autoridades e in stitu i­
ções públicas atuem em conform idade com esta obrigação;
e) Tomar as m edidas apropriadas para elim inar a discrim ina­
ção contra a m ulher praticada por qualquer pessoa, organiza­
ção ou empresa;
f) Adotar todas as medidas adequadas, inclusive de caráter le­
gislativo, para m odificar ou derrogar leis, regulam entos, usos
e práticas que constituam discrim inação contra a m ulher;
g) D errogar todas as disposições penais nacionais que consti­
tu am discrim inação contra a m ulher.

10.2. A Convenção Interamericana para Prevenir; Punir e Erradicar a Vio­


lência contra a M u lh e r- Convenção Belém do Pará (1994)
A Convenção foi adotada pela Assembleia Geral da Organiza­
ção dos Estados A m ericanos no dia 6 de ju n h o de 1994 e ratifica­
da, pelo Brasil, no dia 27 de novem bro de 1995. Trata-se do p ri­
m eiro tratado internacional de direitos hum anos que utilizou o
term o gênero, ainda que não o tenha definido.
D entre os direitos reconhecidos e protegidos destaca-se o di­
reito das m ulheres a um a vida sem violência, devendo os Estados
adotar políticas orientadas a prevenir, sancionar e erradicá-la.
O art. 6e da Convenção reconhece o direito de toda m u lh er a
um a vida livre de violência; seu art. 4 e estabelece o direito à igual
proteção perante a lei e da lei (letra f ) .
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 123

Um ponto de destaque da Convenção é o reconhecim ento da


relação existente entre violência de gênero e discrim inação: quan­
to m aior a segunda, tam bém m aior a prim eira. A violência contra
as m ulheres é decorrência de um a m anifestação de poder histo ri­
cam ente desigual entre hom ens e m ulheres, o qual foi, por tem ­
pos, legitim ado juridicam ente.
O direito das m ulheres a um a vida livre de violência inclui o
direito de serem livres de toda form a de discrim inação, valorizan­
do o papel que elas assum em na sociedade e afastando as visões
estereotipadas que tantos prejuízos trazem às m ulheres.
Os meios de com unicação encarregam -se de reforçar violên­
cias de gênero m ediante o uso da publicidade sexista, androcên-
trica e dom inante. Segundo relatório do Projeto Global de M oni­
toram ento de Mídia de 2010:126
^ Quase m etade (48%) de todas as m atérias reforça estereótipos
de gênero, enquanto 8% das m atérias questionam estereóti­
pos de gênero. As m ulheres são identificadas nos noticiários
por seus relacionam entos fam iliares (esposa, mãe, filha), cin­
co vezes m ais que os hom ens.
Matérias apresentadas por m ulheres têm consideravelm ente
m ais foco em tem as fem ininos do que as m atérias apresenta­
das por hom ens, e questionam estereótipos de gênero quase
duas vezes m ais do que m atérias de repórteres hom ens.127
A Convenção estabeleceu, dentre outros:

Capítulo III - Deveres dos Estados


Artigo 7Q Os Estados-Membros condenam todas as formas de
violência contra a m ulher e concordam em adotar, por todos os
meios apropriados e sem demora, políticas orientadas e prevenir,
punir e erradicar a dita violência e empenhar-se em:

126 A pesquisa, realizada cm nível m undial, tem o propósito de in cen tiv ar a rep resen ­
tação ju sta c equilibrada das m u lh eres na m ídia noticiosa. Foram pesquisados 42
países situados na África, Ásia, A m érica Latina, Caribe, Ilhas do Pacífico c Europa.
127 Representação de gênero na m ídia não é equilibrada. D isponível cm : h ttp ://w w w .
obscrvatoriodcgcncro.gov.br/m cnu/noticias/rcprcscntacao-de-gcncro-na-m idia-nao-
-e-cquilibrada/?scarchtcrm =m % C3% A D dia. Acesso cm: 3-3-2011. Dados p relim in a­
res do estudo podem ser encontrados em: w w w .w hom akcsthencw s.org
124 Coleção Saberes Monográficos

Parágrafo 1. Abster-se de qualquer ação ou prática de violência


contra a m ulher e velar para que as autoridades, seus funcioná­
rios, pessoal e agentes e instituições públicas se comportem con­
forme esta obrigação.
Parágrafo 2. Atuar com a devida diligência para prevenir, inves­
tigar e punir a violência contra a mulher.
Parágrafo 3. Incluir em sua legislação interna normas penais,
civis e administrativas, assim como as de outra natureza que
sejam necessárias para prevenir, punir e erradicar a violência
contra a m ulher e adotar as medidas administrativas apropriadas
que venham ao caso.

O Estado brasileiro, ao ratificar docum entos internacionais


de proteção à m ulher,128 assum iu, no plano internacional, o com ­
prom isso de adotar m edidas internas para garantir os direitos das
m ulheres no âmbito das relações domésticas e fam iliares. A fim
de cu m p rir com tal obrigação, planos, m etas e estratégias foram
estabelecidos, bem como, e principalm ente, foram im plem entadas
ações (políticas públicas).
A lém do fato de que m uito em term o s de ações, planos e
m etas deve ser im plem entado, no que tange à realização dos
direitos declarados na Convenção, um a especial preocupação é
dirigida aos atores jurídicos: poucos são os que conhecem e,
principalm ente, aplicam os docum entos internacionais dos
quais o Brasil é signatário. No que se refere à Convenção Belém
do Pará o prejuízo é bastante acentuado, exatam ente p o r ela re ­
p resen tar u m avanço de fu n d am en tal im portância na reconcei-
tuação dos direitos das m u lh eres à não violência. Ele é, atu al­
m ente, ao lado da Lei M aria da Penha, o principal in stru m e n to a
tra ta r da m atéria.
O Estado brasileiro, ao ratificar docum entos internacionais
de proteção à m ulher,129 assum iu, no plano internacional, o com-

128 O Brasil é signatário dc todos os in stru m e n to s internacionais sobre a m atéria no


âm bito do Sistem a Intcram ericano de D ireitos H um anos.
129 O Brasil é signatário dc todos os in stru m e n to s internacionais sobre a m atéria no âm ­
bito do Sistem a Intcram ericano dc D ireitos H um anos.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 125

prom isso de adotar m edidas internas para garantir os direitos das


m ulheres no âmbito das relações domésticas e fam iliares. A fim
de cu m p rir com tal obrigação, planos, m etas e estratégias foram
estabelecidos, bem como, e principalm ente, foram im plem entadas
ações (políticas públicas) - v. item 12.

10.3. Recomendação da Comissão Interamericana no caso n. 54/01 -


Maria da Penha Maia Fernandes
Maria da Penha Maia Fernandes ingressou, em 2001, ju n to à
Comissão Interam ericana de Direitos H um anos - sistema espe­
cial de proteção dos direitos hum anos - em busca do reconheci­
m ento da tolerância da República Federativa do Brasil em tom ar
as providências cabíveis no intuito de processar e p u n ir o seu
então esposo, por duas tentativas de hom icídio perpetradas contra
ela, que tin h a m ocorrido há m ais de 15 anos. As agressões sofridas
por ela ocasionaram , inclusive, paraplegia irreversível.
Em razão da tolerância do Brasil em prom over o processo dos
crim es praticados com violência dom éstica e fam iliar contra a
m ulher, o Centro pela Justiça pelo Direito Internacional (CEJIL) e
o Comitê Latino-A m ericano de Defesa dos Direitos da M ulher
(CLADEM), com a vítim a, form alizaram um a denúncia à Comis­
são Interam ericana de Direitos H um anos da Organização dos Es­
tados A m ericanos (OEA), que é u m órgão internacional responsá­
vel pela análise de violação de acordos internacionais.
A Comissão da OEA condenou o Estado brasileiro pela exces­
siva tolerância em prom over a persecução do crim e praticado
com violência à m u lh er e recom endou reform a no sistem a legis­
lativo com o desígnio de sim plificar os procedim entos existentes
bem com o in se rir novas form as para a resolução de conflitos
(Relatório n. 54/2001, Caso n. 12.051, de 4-4-2001 - M aria da Pe­
n h a Maia Fernandes).
A Comissão recom endou ao Brasil, dentre outras medidas,
“prosseguir e intensificar o processo de reform a que evite a tole­
rância estatal e o tratam ento discrim inatório com respeito à vio­
lência dom éstica contra m ulheres no país”, particularm ente, den­
tre outras: “sim plificar os procedim entos judiciais penais a fim de
126 Coleção Saberes Monográficos

que possa ser reduzido o tem po processual, sem afetar os direitos


e garantias do devido processo”.130

10.4. Outras iniciativas relevantes


Na década de 90, além da Convenção Interam ericana para
Prevenir, P u n ir e Erradicar a Violência contra a M ulher, m encio­
nada anteriorm ente, outras im portantes iniciativas internacionais
cham aram a atenção para o tem a violência de gênero:131

a) Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos - Declaração


e Plataforma de Ação de Viena (1993)
Foi o prim eiro docum ento a reconhecer que os direitos das
m ulheres são direitos hum anos e que a violência exercida contra
elas é u m problem a de direitos hum anos, instando os governos a
não só protegê-los como tam bém a promovê-los.

b) Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher


(1993)
Nascida a p a rtir da Assembleia Geral da ONU, foi o prim eiro
docum ento a se ocupar exclusivamente da violência contra a m u ­
lher. Estabeleceu com prom issos dos Estados no sentido de p re­
venção, sanção e erradicação da violência de gênero.

c) Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento


- Programa de Ação do Cairo (1994)
Realizada no Cairo, Egito, de 5 a 13 de setem bro de 1994, re u ­
n iu 179 países. Trata-se do prim eiro encontro global que tratou de
todos os aspectos da vida hum ana de form a abrangente, incluindo
a prom oção da igualdade de gênero, prom oção da igualdade de
acesso à educação para as m eninas e elim inação da violência con­
tra as m ulheres.

130 Para ver o relatório da Comissão Interam ericana de Direitos Hum anos, acesse: http://
w w w .cidh.oas.org/annualrcp/2000port/1205l.htm .
131 Cf. LLOVERAS, Nora; FRANCO PAPA, H crnán; MALDONADO, Gabriel et al. Violên­
cia in trafa m iliar y de género desde cl bloque de constitucionalidad federal. In: La
violênciayel género: análisis intcrdisciplinario. Córdoba, 2012, p. 30-32.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 127

O resultado da Conferência foi u m Plano de Ação,132 um a


agenda de com prom issos com uns para m elhorar a vida de todas
as pessoas por m eio da promoção dos direitos hum anos e da dig­
nidade, apoio ao planejam ento fam iliar, saúde sexual e reproduti­
va e direitos, prom oção da igualdade de gênero, prom oção da
igualdade de acesso à educação para as m eninas, elim inação da
violência contra as m ulheres, além de questões relativas à popu­
lação e proteção do m eio ambiente.

d) Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher - Declaração e


Plataforma de Ação de Beijing (1995)
Considerada a m aior de todas as conferências realizadas pela
ONU, contou com acalorados debates sobre tem as polêmicos
como aborto, opção sexual e outros.

e) ONU Mulher
Em 1994, a então Comissão de Direitos H um anos da ONU
(hoje Conselho de Direitos Humanos) decidiu estabelecer um a re-
latoria especial sobre a violência contra a m ulher. De acordo com
a relatoria, a violência contra a m u lh er enfraquece ou nulifica
seus direitos hum anos.133
Essa relatoria pode realizar inform es, receber denúncias e
iniciar investigação sobre violência contra m ulheres em todos os
países m em bros da ONU.
Por conta da resistência ou da falta de ações enérgicas de cer­
tos Estados no combate à violência de gênero, defendida m uitas
vezes a p a rtir de práticas culturais tradicionais, a ONU passou a
adotar ações específicas, criando para tanto vários órgãos que tra ­
tam do tema:

132 C onheça o Plano dc Ação da CIPD: versão não oficial cm p o rtu g u ês do Relatório
Final da C onferência Internacional sobre População c D esenvolvim ento - Plano dc
Ação do Cairo: http://w w w .unfpa.org.br/A rquivos/rclatorio-cairo.pdf. Tradução não
oficial cm p o rtu g u ês (*) do docum ento “S um ary o f th e Program m e of A ction of the
International C onference on Population and D evelopm ent”. Nações Unidas, com u m
su m ário do Plano dc Ação: http://w w w .unfpa.org.br/A rquivos/confcrencia.pdf.
133 Cf. JUBILUT, Liliana Lyra. O combate á violência contra a mulher no âmbito da ONU. Dis­
ponível cm : http://atualidadcsdodircito.com .br/lilianajubilut/2012/12/02/o-com bate-
-a-violcncia-contra-a-m ulhcr-no-am bito-da-onu/
128 Coleção Saberes Monográficos

1) Divisão para o Avanço das M ulheres (DAW);


2) Instituto Internacional de Pesquisa e Treinam ento para o
Avanço das M ulheres (INSTRAW);
3) Escritório do Consultor Especial para Questões de Gênero
e Avanço das M ulheres (OSAGI); e
4) Fundo da ONU para as M ulheres (UNIFEM).
De acordo com Liliana Lyra Jubilut, “essa m ultiplicidade de
órgãos foi condensada em 2010 com a criação da UNW omen, o
ente da ONU para a Igualdade de G ênero e o Em poderam ento
das M ulheres”.134

f) Corte Penal Internacional - Estatuto de Roma (1994)


O Estatuto incorpora a questão de gênero, entendendo como
a “que se refere aos dois sexos, m asculino e fem inino, no contexto
da sociedade”. Apesar das diversas críticas que a definição sofreu,
principalm ente por conta de sua limitação, “nela se enfatiza o
elem ento com um às diversas elaborações teóricas sobre o concei­
to de gênero: a construção social subjacente ao entendim ento da
fem inidade e m asculinidade em u m dado contexto”.135
Expressam ente enum era os tipos de violência sexual contra
as m ulheres em tem po de guerra.

g) Dia internacional pela Não Violência contra a Mulher


Desde o ano de 1991, no dia 25 de novem bro, celebra-se o dia
da “Não Violência contra a M ulher”. Trata-se de um a data escolhi­
da para lem brar as irm ãs Mirabal (Pátria, M inerva e M aria Teresa),
assassinadas, em tal dia do ano de 1960, pela ditadura de Leônidas
Trujillo na República Dominicana. Elas eram conhecidas como
Las Mariposas.
A data foi reconhecida pela ONU em 1999.

134 JUBILUT, Liliana Lyra. O com bate à violência contra a m u lh e r no âm bito da ONU.
Disponível em : http://atualidadcsdodircito.com .br/lilianajubilut/2012/12/02/o-com -
bate-a-violcncia-contra-a-m ulhcr-no-am bito-da-onu/
135 LLOVERAS, Nora; FRANCO PAPA, H crnán; MALDONADO, Gabriel ct al. Violência
in trafa m iliar y de gênero desde el bloque de constitucionalidad federal. In: La violên­
cia y e l género: análisis intcrdisciplinario. Córdoba, 2012, p. 33-34.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 129

11 . Violência doméstica e familiar constitui uma das formas


de violação dos direitos humanos - art. 6?
Tal previsão pode ser encontrada no art. 6- da Lei M aria da
Penha:

Art. 6ÖA violência doméstica e familiar contra a m ulher consti­


tui um a das formas de violação dos direitos humanos.

D entre os m uitos avanços representados pela Lei M aria da


Penha, talvez o m ais significativo seja o estabelecim ento definiti­
vo da discrim inação e da violência de gênero como form a de in ­
sulto aos direitos hum anos.
Os direitos das m ulheres são indissociáveis dos direitos h u ­
manos: não há que se falar em garantia universal de direitos sem
que as m ulheres, enquanto hum anas e cidadãs, ten h am seus di­
reitos específicos respeitados. Tal afirm ação é corolário do princí­
pio da igualdade, que determ ina não poder a Lei fazer qualquer
distinção entre indivíduos, o que inclui a distinção entre os sexos
ou entre os gêneros.
Não obstante, ao longo dos séculos, ao m enos no Ocidente, o
condicionam ento do corpo biológico a u m modelo de com porta­
m ento produziu um a série de estereótipos, levando a crenças cul­
turais de que pessoas pertencentes a cada u m dos sexos deveriam
ocupar lugares sociais predeterm inados: aos hom ens, o espaço
público; à m ulher, o espaço doméstico. Essa estereotipagem con­
trib u iu para a discrim inação e a intolerância, levando à violação
de direitos praticada em razão do gênero, como se verifica em
condutas m isóginas ou de violência. Como bem observa Ana Lu­
cia Sabadell, citando Francês Olsen, na civilização ocidental p re­
dom ina u m sistem a dualista de pensam ento: racional/irracional;
ativo/passivo; abstrato/concreto, sendo os prim eiros identificados
ao m asculino e os segundos, ao fem inino, significando “que se
atribuem às m ulheres características ‘inferiores’ como a irracio­
nalidade, o sentim entalism o, a passividade. Essa é um a form a de
organizar o pensam ento e, consequentem ente, as relações sociais
entre indivíduos de sexos diferentes, garantindo a suprem acia
130 Coleção Saberes Monográficos

m asculina” (2010: 270). É nesse contexto que surge o debate sobre


direitos especificam ente fem ininos.
Além de a Lei Maria da Penha ser produto de u m paradigm á­
tico caso de litigância internacional de direitos hum anos, o p ró ­
prio Fundo de Desenvolvim ento das Nações Unidas para a m u lh er
recentem ente a reconheceu com o um a das três136 m ais avançadas
no m undo, dentre 90 legislações sobre o tem a.137
Não obstante os avanços comentados, contudo, ainda é rele­
vante o tratam ento jurídico diferenciado para hom ens e m u lh e­
res, sobretudo em consequência dos m uitos anos de desigualdades
m ateriais e form ais. Enfim , o que se espera é que se consubstan­
cie, de fato, a incorporação de novos com portam entos e a co n stru ­
ção de outros contextos culturais nos quais seja desnecessária a
determ inação legal de respeito a direitos, sejam de m ulheres, se­
ja m de hom ens, e que a dignidade da pessoa não dependa de sexo,
gênero ou orientação sexual, m as que decorra, exatamente, da
igual condição hum ana.
Os direitos fundam entais, na lição de Canotilho, têm por ob­
jetivo a defesa dos cidadãos sob um a dupla perspectiva:
a) plano jurídico: im plicam norm as de com petência negativa pa­
ra os poderes públicos, proibindo-os, prioritariam ente, de
adentrar a esfera jurídica individual;
b) plano jurídico-subjetivo: constituem o poder de exercer posi­
tivam ente direitos fundam entais e de exigir om issões dos po­
deres públicos, de form a a evitar agressões lesivas por parte
deles (liberdade negativa) (apud CAVALCANTI, 2010: 86-87).
Foi na Conferência das Nações Unidas sobre Direitos H um a­
nos, ocorrida em Viena, 1993, que pela prim eira vez se utilizou a
expressão “os direitos das m ulheres são direitos hum anos”. Dois

136 Foram igualm ente reconhecidas en tre as m ais avançadas do m undo as legislações da
Espanha c da M ongólia, conform e o Relatório da U nifcm “Progresso das M ulheres
no m undo - 2 0 0 8/2009”. íntegra do docu m en to disponível cm: h ttp ://w w w .u n ifcm .
org.br/sitcs/700/710/00000395.pdf. Acesso em: 12-8-2012.
C onform e notícia veiculada pela revista Carta Forense. C onteúdo disponível em:
http://w w w .cartaforcnsc.com .br/contcudo/noticias/para-onu-lci-m aria-da-pcnha-e-
um a-das-m ais-avancadas-do-m undo/5353. Acesso cm: 12-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 131

anos depois, a Convenção Interam ericana para Prevenir, P u n ir e


Erradicar a Violência contra a M ulher (v. item 10) tam bém tratou
a violência contra a m u lh er da m esm a forma.
A realocação dos direitos das m ulheres, elevando-os à catego­
ria de direitos hum anos, redim ensiona o tema. “O equacionam en-
to da discrim inação das m ulheres em term os de problem ática da
violação dos seus direitos perm ite fazer exigências em term os que
a com unidade internacional já aceitava nom eadam ente para al­
guns grupos, por exemplo os grupos étnicos. Este enquadram ento
perm ite ainda encontrar um a plataform a com um para as exigên­
cias diversificadas das m ulheres nos vários pontos do globo, e
definir estratégias de m udança” (CAVALCANTI, 2010:116-7). A co­
m unidade internacional, por m eio de intelectuais, artistas, ONGs
e governos, tem feito pressão no sentido de estabelecer patam ares
civilizatórios em diversas questões, incluindo as ofensas contra as
m ulheres. C om preender a discrim inação de gênero como insulto
aos direitos hum anos im plica a possibilidade de os Estados torna-
rem -se atores atuantes na contenção desses abusos, bem com o de
responsabilizá-los, sejam eles perpetrados na esfera pública ou na
esfera privada. Ademais, perm ite que se tom em as contas dos go­
vernos acerca de m edidas preventivas para elidir as violações.
A m ulher, tanto no Brasil como em todas as outras partes do
m undo, ainda sofre m uita violência baseada no gênero. Para se te r
um a ideia da dim ensão do problem a, citam -se algum as situações
específicas, relatadas pela advogada iraniana e ativista de direitos
hum anos Shirin Ebadi:138
^ no Irã, até poucos anos atrás, a m u lh er não podia te r docu­
m ento de identidade. Mesmo com a perm issão para docu-
m entarem -se, as m ulheres seguem privadas de diversos di­
reitos políticos e sociais, com o o de d irig ir automóvel;
no Irã, as m ulheres têm direito ao voto e à participação no
parlam ento há m ais de 50 anos, m as a revolução de 1979 ge­
rou um a nova legislação que incentiva a discrim inação sexis-

138 Palestra proferida cm 14 de ju n h o de 2011, cm São Paulo, prom ovida p o r Fronteiras


do Pensam ento.
132 Coleção Saberes Monográficos

ta. Se u m hom em e um a m u lh er sofrem u m acidente de au­


tomóvel, o valor da indenização pago ao hom em é o dobro do
valor pago à m ulher. O testem unho de u m hom em em um
trib u n al só será invalidado se duas m ulheres o desm entirem .
O hom em pode se casar com quatro esposas e p ed ir o divór­
cio sem justificativas, sendo que pedidos de divórcio vindos
da m u lh er são quase sem pre negados. Para viajar, a m u lh er
precisa de autorização escrita do m arido. As leis, porém , são
anacrônicas à própria cultura. A M inistra da Saúde do Irã, por
exemplo, é um a m u lh er e, por decorrência de seu sexo, n e­
cessita de autorização de seu m arido para sair do País;
no Afeganistão, leis preveem a inserção das m ulheres na so­
ciedade, m as a cultura paternalista é m ais forte do que a le­
gislação. M ulheres são im pedidas de exporem suas ideias. O
Talibã, dentre inúm eros outros exemplos de coerções, quei­
m ou escolas para crianças do sexo fem inino e obriga as m u ­
lheres a usarem burca;
a liberdade da m ulher nos países islâmicos tem piorado propor­
cionalmente com o aum ento do poder dos fundam entalistas, o
qual, por sua vez, tem se fortalecido por efeito das intervenções
m ilitares ocidentais recentes, de m aneira que a situação das
m ulheres hoje no Iraque está pior do que na época de Saddam
Hussein. A ativista não culpa, porém, o Islã pela existência des­
tas leis discriminatórias, e sim um a particular interpretação
machista e equivocada do Islã, que se articula com um a cultura
paternalista tradicional dos locais. Além disso, a cultura m a­
chista é disseminada tam bém por m ulheres, as quais devem ser
inform adas sobre a necessidade de superá-la e como fazê-lo;
^ a discrim inação contra o sexo fem inino vai além da religião,
sendo um a realidade m undial que independe de país ou cul­
tura, ainda que varie em form a e intensidade. Nos Estados
Unidos, Canadá e Europa, por exemplo, as leis reconhecem a
igualdade dos gêneros, m as a cultura local prevê com prom is­
sos a serem assum idos pelas m ulheres, em casa e na socieda­
de, os quais im pedem que elas desfrutem m aterialm ente da
igualdade declarada, o que pode ser m edido pelo núm ero re ­
duzido de m ulheres em cargos de poder.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 133

Pode-se acrescentar, ainda, o seguinte episódio: em setem bro


de 2011, Shaima, na Arábia Saudita, foi condenada a dez chibatadas
pordirigirautom óvel (http://wwwl.folha.uol.com.br/mundo/981699-
m ulher-saudita-e-condenada-a-dez-chibatadas-por-dirigir.shtm l).
A condenação ocorreu logo após o rei Abdullah anunciar que as
m ulheres poderiam votar, o que deve acontecer pela prim eira vez
na história do País, nas eleições de 2015. Também foi o rei respon­
sável por suspender a pena, após inúm eras m anifestações de apoio
a Shaima ocorridas em todo o País.
C onstituindo-se a violência dom éstica e fam iliar contra a
m u lh er como um a das form as de violação dos direitos hum anos,
há possibilidade de ensejar o Deslocamento de Com petência (CF,
art. 109, V-A e § 5e).

12. Ação afirmativa: compromissos do Estado assumidos


em tratados e convenções internacionais
O art. 4Q da Convenção para Eliminação de Todas as Formas
de D iscrim inação sobre a M ulher (CEDAW), citada no preâm bulo
e no art. 1Qda Lei Maria da Penha, determ ina que:
m edidas especiais de caráter tem porário destinadas a acelerar
a igualdade de fato entre o hom em e a m u lh er não se consi­
derará discrim inação;
^ de n e n h u m a m a n eira a utilização de ta is m edidas esp e­
ciais im plicará, com o consequência, a m anutenção de nor­
m as desiguais;
<$> essas m edidas cessarão quando os objetivos de igualdade de
oportunidade e tratam ento forem alcançados.
A Lei Maria da Penha representa um a das medidas apresentadas
pelo Estado para perm itir que ocorra o aceleramento da igualdade de
fato entre o hom em e a mulher, circunscrita aos casos de violência
doméstica e familiar, já que o alcance da Lei é limitado (v. item 12).
Há outras ações afirm ativas previstas na legislação brasileira,
destacando-se a Lei de cotas políticas. De acordo com a Lei n.
9.504/97, 30% dos candidatos registrados devem pertencer a um
dos sexos. Muitas vezes, dado que o percentual não pode ser preen­
chido por hom ens, ainda que faltem m ulheres, elas são buscadas
com certo afinco “nem que seja para fazer legenda”.
134 Coleção Saberes Monográficos

Mesmo com o incentivo legal, o núm ero de m ulheres na polí­


tica perm anece bastante dim inuto. Também é grave o fato de que
vários partidos fazem inscrição de m ulheres, porém não prestam
colaboração às candidatas, por ocasião da cam panha.139 “Entre os 14
maiores partidos, as m ulheres representavam [em 2010] 19,7% das
candidaturas à Câmara, m as ficavam com apenas 8% dos recursos”.140
Tal dado reforça as conclusões a que chegaram M íriam Grossi e
Sonia Miguel,141 ao afirm arem que há um a resistência tam bém por
parte das m ulheres em se candidatar, gerada, no mais das vezes,
pela falta de apoio dos partidos políticos às candidaturas femininas.
De acordo com Alice Bianchini e Francisco Dirceu Barros,
“não se pode olvidar que a parcela dim inuta de participação da
m u lh er na política encontra-se intim am ente ligada a questões
culturais, não obstante todo o esforço e reconhecim ento da im ­
portância de tal participação, principalm ente a p a rtir da década
de 1990, quando se intensificaram m ovim entos e ações concretas
em prol da adoção das denom inadas leis de cotas em vários países
da Am érica Latina (até 2008, oito países latino-am ericanos possu­
íam leis de cotas: A rgentina, Bolívia, Brasil, Costa Rica, Equador,
México, Peru e República Dominicana)”.142
A m áxim a tratar os iguais de modo igual e os desiguais de modo
desigual representa u m reconhecim ento de que os indivíduos que
se estabeleceram no m undo em condições desiguais não podem ,
p or m era declaração de vontade, obter condição de vida equiva­
lente aos que gozam de vantagens, sejam elas quais forem . Daí a
necessidade de ações afirm ativas, ou discrim inações positivas ou
ações positivas, consubstanciadas em políticas públicas que obje-

139 Cf. Vida dc candidata. FSP, lfi-9-2002, Especial 10.


140 M ulheres recebem apenas 8% dos repasses dos partidos. FSP, 11-6-2012, A6.
141 GROSSI, M íriam Pillar, MIGUEL, Sônia Malhciros. Transform ando a diferença: as m u ­
lheres na política. Rev. Estud. Fem. [online], v. 9, n. 1, p. 167-206, 2001. Disponível em:
http://w w w .sciclo.br/sciclo.php?script=sci_arttcxt& pid=S0104-026X 2001000100010
& lng=cn&nrm=iso&tlng=pt. Acesso cm: l®-8-2012.
142 A causa de registrabilidade geral e compulsória: u m a form a eficaz para com bater o
m achism o político eleitoral. Disponível cm : http://atualidadcsdodircito.com .br/
a lic cb ia n c h in i/2 0 1 2 /0 6 /2 9 /a-cau sa-d c-reg istrab ilid ad c-g cral-c-co m p u lso ria-u m a-
form a-eficaz-para-com batcr-o-m achism o-politico-clcitoral/. Acesso cm: l°-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 135

tivem concretizar m aterialm ente o discurso relevante, porém va­


zio, de igualdade, com o objetivo de m itigar os efeitos das discri­
m inações que heranças de costum es passados insistem em m anter
no presente, sem n en h u m argum ento ético que as justifiquem .
As ações afirm ativas previstas na Lei Maria da Penha são des­
tinadas ao em poderam ento das m ulheres, a p a rtir da dim inuição
das desigualdades sociais, políticas e econômicas.
Por serem excepcionais e por preverem sérias restrições de
direitos (como é o caso da m aioria das m edidas protetivas previs­
tas na Lei M aria da Penha), a aplicação dos instrum entos de dis­
crim inação positiva só se justifica em situações m uito relevantes
(princípio da proporcionalidade). É que, ao m esm o tem po que de
u m lado se alargam garantias (em relação à vítim a: garantia da
vida, da integridade física e psicológica etc.), de outro se lim itam
direitos (concernentes ao réu: liberdade de ir e vir, presunção da
inocência, direito ao contraditório etc.).
É assentado o entendim ento de que “direitos, liberdades, po­
deres e garantias são passíveis de lim itação ou restrição. É preciso
não perder de vista, porém , que tais restrições são limitadas. [...]
Esses lim ites, que decorrem da própria Constituição, referem -se
tanto à necessidade de proteção de u m núcleo essencial do direito
fundam ental quanto à clareza, determ inação, generalidade e p ro ­
porcionalidade das restrições im postas”.143
A Lei Maria da Penha é, ao m esm o tem po, protetiva de direi­
tos de m ulheres e restritiva de direitos de agressores. D ecorrente-
m ente, sua aplicação som ente se justifica em razão das circuns­
tâncias m uito específicas que envolvem a violência de gênero:
brutalidade, institucionalização da violência, frequência, reitera­
ção, perm anência, intim idação e elevadíssimos índices.
Aplica-se, aqui, o princípio da proporcionalidade, já que o
com um , dram ático e de consequências gravosas é a violência do
hom em contra a m ulher. A m u lh er agredida não se encontra em

143 MENDES, G ilm ar; COELHO, Inocêncio M ártires; BRANCO, Paulo G ustavo G onet.
Curso de direito constitucional. São Paulo: Saraiva, 2007.
136 Coleção Saberes Monográficos

igualdade de condições com o agressor. Há um a vulnerabilidade,


m esm o que transitória, ou seja, enquanto d u rar o estado de agres­
são, ainda que im inente.
Para um a m elhor ideia da extensão do problem a, citam -se
dois relatórios. O prim eiro, publicado pela H um an Rights W atch ,
em abril de 2007, inform ando que a cada cem m ulheres assassi­
nadas setenta o são no âm bito de suas relações domésticas. O se­
gundo - Mapa da violência de 2011 - , analisando dados nacionais,
traz núm eros equivalentes (v. item 7).
No que tange à violência dom éstica e fam iliar, não se pode
esquecer que ela possui causa (consequência e reprodução) social,
decorrente, principalm ente, do papel reservado na sociedade às
representantes do sexo fem inino. Apesar de reconhecidos avan­
ços, ainda vivemos em um a sociedade com mossas patriarcais for­
tes, na qual predom inam valores estritam ente m asculinos, restos
de imposição por condição de poder. A dom inação do gênero fe­
m inino pelo m asculino é apanágio das relações sociais patriarcais,
que costum am ser m arcadas (e garantidas) pelo em prego de vio­
lência física e/ou psíquica. Aliás, nesse assunto, m uito há que ser
percorrido para que o Brasil possa sair da vexam inosa 85a posição
em um a lista de 134 países (Estudo sobre igualdade entre os sexos,
Gender Gap , 2010).
As peculiaridades da violência dom éstica e fam iliar contra
a m ulher, bem com o os nú m ero s absurdam ente elevados, cla­
m am pela utilização de in stru m en to s eficazes e enérgicos, m es­
m o que, para tanto, ten h am -se que se sacrificar direitos, g aran ­
tias e liberdades.
D entro desta perspectiva, som ente as vítim as de violência do­
m éstica e fam iliar baseada no gênero (art. 5Q) ou aqueles (homens
ou m ulheres) que estejam nas situações elencadas no inciso III do
art. 313 do CPP, com as alterações trazidas pela Lei n. 12.403/2011
(criança, adolescente, idoso, enferm o ou pessoa com deficiência),
ou nas condições m encionadas na Lei n. 9.807/99 (vítimas coagi­
das ou expostas à grave ameaça em razão de colaborarem com a
investigação ou processo crim inal) possuem am paro específico, já
que em relação a tais pessoas há motivações particulares que, por
conta de sua especial vulnerabilidade (vulnerabilidade situacio-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 137

nal), justificam u m tratam ento tam bém diferenciado, ainda que


com a consequência de restrin g ir direitos, garantias e liberdades
fundam entais do acusado.

12.1. Transitória/idade da Lei


O caráter da Lei é de transitorialidade. Ele advém da natureza
da Lei M aria da Penha: norm a de ação afirm ativa (v. item 12).
Recordam o que é um a lei excepcional? E lei temporária?
Ambas estão previstas no CP, em seu art. 3S. É excepcional
aquela que vigora enquanto as circunstâncias que d eterm i­
n aram a sua elaboração estiverem presentes (CP, art. 3Q), de­
vendo ser im ediatam ente revogada quando elas não m ais
sobrevierem . Não c o n fu n d ir com a lei temporária,144 que é
aquela que já possui em seu próprio texto o período de sua
vigência, nem com a lei penal especial (ou extravagante), que
são todas as leis de natureza crim in al encontradas fora do
Código Penal.
O caráter de excepcionalidade da Lei decorre da previsão
contida no art. 4Q da Convenção Belém do Pará (v. item 10), a
qual d eterm in a que as “m edidas especiais [...] destinadas a ace­
lerar a igualdade de fato e n tre hom em e a m u lh e r [...] cessarão
quando os objetivos de igualdade de oportu n id ad e e tratam en to
forem alcançados”.

13. Critérios específicos de hermenêutica: fins sociais


e condições peculiares das mulheres em situação
de violência doméstica e familiar (art. 4S)
Em seu art. 4 S, a Lei M aria da Penha estabelece que na in ter­
pretação desta Lei serão considerados:
a) os fins sociais a que ela se destina e, especialm ente;
b) as condições peculiares das m ulheres em situação de violên­
cia dom éstica e familiar.

144 A Lei G eral da Copa (Lei n. 12.663/2012) traz previsão de tipos penais tem porários
nos arts. 30 a 34. O art. 36 dispõe que estes tipos penais terão vigência até 31 de
dezem bro de 2014. A íntegra do texto legislativo pode ser acessada cm: h ttp ://w w w .
planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lci/L12663.htm.
138 Coleção Saberes Monográficos

A com eçar pelos seus fins sociais, não há dúvida de que a Lei
destina-se a d im in u ir a violência de gênero ocorrida no am biente
doméstico, fam iliar ou em um a relação íntim a de afeto.
A segunda parte do dispositivo refere-se às condições pecu­
liares das m ulheres em situação de violência e encontra-se asso­
ciada às características deste tipo de violência. São as especificida-
des desse tipo de violência que justificam um a proteção m ais
efetiva e enérgica, tal qual se estabeleceu (ao m enos em seu senti­
do formal) na Lei M aria da Penha. Contudo, não se fazem presen­
tes quando se trata de vítim a do sexo m asculino. D entre outras
especificidades, m erecem destaque as seguintes:

13.1. Invisibilidade do problema , já que acontece no interior do lar


A violência contra a m u lh er ocorre, norm alm ente, no interior
da própria casa onde vive a m ulher, prevalecendo-se, o agressor,
do am biente reservado. Cerca de 68,8% dos incidentes envolvendo
m ulheres ocorrem na residência ou habitação (Mapa da Violência
2012; Caderno Com plem entar 1: Homicídio contra mulheres).
Quando o tem a é homicídio, as m ulheres são assassinadas
prim ordialm ente no am biente familiar, enquanto os hom ens são
m ortos na rua (Mapa da Violência, 2012; Caderno Com plem entar
1: Homicídio contra mulheres).
Interessante observar que m eios que exigem contato direto,
como objetos cortantes e penetrantes, são m ais utilizados em vio­
lência contra a m ulher.145

13.2. Vínculo entre agressor e vítima


No ano de 2012, a Central de A tendim ento à M ulher - Ligue
180 - registrou 201.569 chamadas, sendo que 24.775 ligações tra ­
tavam de casos de violência. Ficou constatado que “o vínculo da
vítim a com agressor é o que m ais denota o crim e de poder. Nota-
-se que 98,9% dos registros identificados de casos de violência são
realizados por hom ens. Verifica-se que 69,7% dos casos são com e-

145 Mapa da Violência 2012: H om icídios dc m u lh eres no Brasil. C aderno com plem entar
1. D isponível cm : http://m apadaviolencia.org.br/pdf2012/m apa2012_m ulhcr.pdf, p.
16. Acesso cm : 12-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 139

tidos por com panheiros e cônjuges das vítim as e 2,4% são nam o­
rados das m esm as”.146
O relatório tam bém aponta que em quase 90% dos casos de vio­
lência doméstica e familiar contra mulher, os agressores são pessoas
que possuem algum tipo de vínculo afetivo com a m ulher vítima.

13.3. Frequência das agressões e idade em que elas acontecem pela 1a vez
Pesquisa DataSenado 2013 revelou que 18,6% das entrevista­
das que declararam ter sido vítim as de violência responderam
que ainda sofrem algum tipo de violência dom éstica e familiar.
16,7% delas sofrem violência todos os dias.
Desde a prim eira pesquisa sobre o assunto (2005) até a de
2011, o grupo m ais vulnerável em relação à violência doméstica
está concentrado na faixa etária de m ulheres entre 20 e 29 anos
de idade (ver tabela a seguir). Em todos esses anos, os percentuais
se m antiveram m uito próxim os, sugerindo que as ações preventi­
vas em relação à violência contra a m u lh er devam estar voltadas
principalm ente para atingir m ulheres de tais idades.

Idade em que as vítim as foram agredidas pela prim eira vez

DataSenado DataSenado DataSenado


2005 2007 2011
0 a 16 5,7% 11%
38% (0 a 19)
16 a 19 29,5% 18%
20 a 29 39% 42,6% 40%
30 a 39 14% 16,4% 17%
40 a 49 8% 2,5% 10%
50 a 59 1% 1,6% 0%
60 ou mais 1% - 1%

Os dados supram encionados, além de estarrecedores, indu­


zem a im portantes questionam entos: por qual m otivo as m u lh e­
res perm anecem em tal situação?; por que elas silenciam durante
anos? É o tem a do próxim o item.

146 Disponível cm: http://w w w .scpm .gov.br/noticias/docum cntos-l/rclatorio-trim cstral-


liguc-180-2012, p. 6. Acesso cm : 12-8-2012.
140 Coleção Saberes Monográficos

13A . Continuidade das agressões e motivos da não “denúncia” por parte


das mulheres
Coabitação e outras relações entre vítim a e agressor
Pesquisa DataSenado de 2007 revelou que 73,2% das mulheres
vítim as de violência afirmaram que não conviviam mais com o
agressor. Dois anos depois, houve um a pequena alteração nesse
percentual (Pesquisa DataSenado 2009), reduzindo-o para 70%.
Tal percentual sofreu nova redução em 2011 (Pesquisa DataSena­
do), chegando a 67% (32% ainda convivem). Na pesquisa de 2013,
praticam ente o quadro perm anece inalterado (69%). No grupo de
31% que continuam convivendo, 86,2% responderam que não so­
frem m ais violência dom éstica e fam iliar e 13,8%, que ainda so­
frem . Esquem aticamente:

DataSenado DataSenado DataSenado DataSenado


2007 2009 2011 2013

Ainda convivem com


26% 30% 32% 31%
o agressor

Não convivem mais


73,2% 70% 67% 69%
com o agressor

Dados colhidos pela Central de A tendim ento à M ulher - Li­


gue 180, da Secretaria de Políticas para as M ulheres (SPM), infor­
m am que das pessoas que entraram em contato com o serviço:

15 semestre 15 trimestre
2011148
de 2010147 de 2012149
Viviam junto com o agressor 72,1% Não consta Não consta
Estavam casadas ou em união estável 57,9% 72% 69%

147 Disponível cm: http://atualidadcsdodircito.com.br/aliccbianchini/2011/ll/29/violcncia-


dom cstica-e-rom pim cnto-dc-vinculo-afctivo-scric-novcla-fina-estam pa/#_ftn2. Aces­
so cm: 12-8-2012.
148 íntegra disponível cm: http://www.scpm.gov.br/noticias/ultimas_noticias/07-fcvcrciro-
rclatorio-180.
149 íntegra disponível cm: http://w w w .scpm .gov.br/publicacocs-tcste/publicacocs/2012/
balanco-scm cstral-ligue-180-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 141

Violência sofrida era exercida por ex-


14,7% 16,29% 17%
-namorado ou ex-companheiro
Sofriam violência doméstica desde o
39,6% 32,82% 31,6%
início da relação
Sofriam violência diariamente 57%, 58,64% 60%

40% (+5,26% em
Viviam com o agressor há mais de
38%, relação ao período 42,6%
dez anos
anterior)

(59%) (-15,35% em
Não dependiam financeiramente do
69,7%, relação ao primeiro 60%
agressor
semestre de 2010)

Expectativa social em relação à ação da m ulher vítim a de violência


doméstica e fam iliar
Uma pesquisa realizada em 2006 pelo Instituto Patrícia Gal-
vão apontava que a sociedade civil acreditava que as m ulheres
estavam denunciando m ais seus agressores, principalm ente em
v irtu d e de terem m ais inform ação e serem m ais independentes.150
Tal percepção sofreu um a drástica redução no ano de 2009: so­
m ente 4% das m ulheres entrevistadas acreditavam que as vítim as
costum avam denunciar a agressão às autoridades. O utras 45% dis­
seram que as vítim as denunciam “às vezes” (Pesquisa DataSena-
do). Em 2013, houve um a pequena recuperação, passando para
6,4% o percentual das entrevistadas que respondeu no sentido de
que as m ulheres que sofrem agressão denunciam o fato às autori­
dades na m aioria das vezes; 71,3% das entrevistadas responderam
que as m ulheres denunciam o fato na m inoria das vezes; 21,1%,
que não denunciam (Pesquisa DataSenado).

Natureza da ação penal (representação), expectativas sociais e da


vítim a
O im pacto da discussão acerca da natureza da ação penal (se
incondicionada ou condicionada à representação) foi m edido em
2009 pela Pesquisa DataSenado, ocasião em que 62% das entrevis­
tadas acreditavam que o fato de a m u lh er não poder m ais re tira r

150 Pesquisa IBOPE/Instituto Patrícia Galvão 2006. D isponível cm : http://w w w .agencia-


patriciagalvao.org.br/im agcs/storics/PD F/pesquisas/pcsq_ibopc_2006.pdf.
142 Coleção Saberes Monográficos

a “queixa” fazia com que ela desistisse de denunciar o agressor.


Em 2011, essa cifra aum entou para 64% (DataSenado) e em 2013,
caiu para 62,7%.1S1
Ainda sobre o tema, convém inform ar que, de acordo com pes­
quisa realizada pelo IPEA no final de 2010, a grande m aioria da
população brasileira (91%) entende que crim es de violência dom és­
tica contra a m ulher devem ser investigados independentem ente
da vontade da vítim a.152 Hom ens e m ulheres estão bastante concor­
des, com percentual equivalente (90,6% e 91,4%, respectivamente).153

Rede de apoio institucional à m ulher vítim a


O utra análise im portante para se entender o fenôm eno rela­
tivo à falta de com unicação pela m u lh er acerca da violência de
que é vitim a diz respeito ao apoio que ela deveria receber das
instituições públicas (e privadas, em alguns casos). Dados da Cen­
tral de A tendim ento à M ulher - Ligue 180 - m ostram que a re ­
clamação dos serviços da rede de atendim ento à m u lh er totaliza­
ram 5.302 registros, o que corresponde a um aum ento de 91,1%
quando com parados ao ano anterior (2.774). Dessas queixas, 85%
se referem à segurança pública (4.510). As Delegacias Com uns ti­
veram 2.308 registros, o que corresponde a 43,5% do total; as De­
legacias, Seções e Postos de A tendim ento Especializados da Mu­
lh e r tiveram 1.147 (21,6%) e o Disque 190, 1.055 registros (19,8%).
Os tipos de reclam ações m ais frequentes são: a falta de providên­
cias sobre o Boletim de O corrência (939 situações); a recusa em
registrar o Boletim de O corrência (925); a omissão (691); o atendi­
m ento inadequado (563); e o despreparo em casos de violência
dom éstica (536).154

151 O tem a relativo à natureza ju ríd ica da ação penal do crim e de lesão co rp o ral leve foi
definitivam ente decidido pelo STF, cm fevereiro de 2012, quando decidiu que não se
exigia representação.
152 Disponível cm: http://agcncia.ipca.gov.br/imagcs/stories/PDFs/sips_gcncro2010.pdf.
153 Tal tem a foi objeto de decisão, cm fcv. de 2012, pelo STF (ADC 19 c a ADI 4.424), que
entendeu que a Lei M aria da Penha não exige representação para os casos de lesão
corporal leve.
154 Disponível cm: http://atualidadcsdodircito.com.br/aliccbianchini/2011/10/04/por-quc-
a s -m u lh c rc s -n a o -d c n u n c ia m -s c u s -a g re s s o rc s -c o m -a -p a la v ra -a -v itim a /# _ ftn 2 .
Acesso em: 12-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 143

Ações praticadas pelas m ulheres vítim as de violência doméstica


e fam iliar
Antes da vigência da Lei Maria da Penha, pesquisa DataSena-
do 2005 havia constatado que 22% das entrevistadas que se decla­
raram vítim as de violência afirm aram que foram p rocurar ajuda
da fam ília após a últim a agressão; 22%, um a Delegacia da M ulher;
16%, um a delegacia com um ; 6%, a ajuda de amigos; 19% silencia­
ram; e 15% não responderam . Dois anos depois (Pesquisa DataSe-
nado 2007), tais dados m ostram -se m ais preocupantes: do total de
vítim as, 27,6% não fizeram nada; 22,8% denunciaram em delega­
cia com um ; 18,7% denunciaram em Delegacia da M ulher; 17,1%
procuraram ajuda da família; 8,1% procuraram ajuda dos amigos;
e 5,7% não responderam .155 Já em 2009 (Pesquisa DataSenado),
dentre as 160 entrevistadas que sofreram violência, 28% d en u n ­
ciaram o agressor.
Ainda sobre o m esm o tem a, pesquisa do ano de 2011 (DataSe­
nado) revelou que 11% das m ulheres que se declararam vítim as de
violência denunciaram em Delegacia da M ulher após a últim a
agressão; 17% denunciaram em delegacia com um; 5% procuraram
ajuda dos amigos; 16% procuraram ajuda da família; 5% procura­
ram Igreja; 22% escolheram outra opção; e 23% não fizeram nada.
36% das vítim as responderam que procuraram ajuda quando fo­
ram agredidas na prim eira vez; 5%, na segunda vez; 24%, na te r­
ceira vez ou mais; 29% não procuraram ajuda; e 5% não responde­
ram ou não souberam responder.
Na pesquisa realizada em 2013, houve u m pequeno au­
m ento em relação àqueles que co m u n icaram à delegacia da
m u lh e r ou a u m a delegacia com um (total: 34,5%). Veja esq u e­
m aticam ente:

155 Disponível em: http://atualidadcsdodircito.com .br/aliccbianchini/2011/10/04/por-quc-


as-m ulhcrcs-nao-dcnunciam -scus-agrcssores-com -a-palavra-a-vitim a/#_ftnl. Aces­
so cm : 12-8-2012.
144 Coleção Saberes Monográficos

Dati B- DataSena­ DataSe­ DataSe­


na do nado nado
2005 2009 2011 2013

Comunicou junto à
22% 18,7%& 28% 11% 14,7%
delegacia da mulher
(Delegacias
da mulher
Comunicou junto à
16% 2 2 , 8 %& e comum) 17% 19,8%
delegacia comum

Total 38% & 28% 28% 34,5%

Não fez nada 19% & Não consta 23% 14,7%

A nalisando os dados supra , constata-se que, com parativam en­


te ao ano de 2007, houve um a dim inuição dos casos de com unica­
ção da agressão à autoridade policial. Ao m esm o tem po, constata-
-se que a quantidade de m ulheres que se declaram vítim as de
agressão sofreu pequena variação de 17% (Pesquisa DataSenado
2005) para 18,5% (Pesquisa DataSenado 2013).

Motivos que levam à não comunicação da violência às instâncias


institucionais
As m ulheres em situação de violência dom éstica e fam iliar
têm m uita dificuldade de se desenredarem , por conta de m ecanis­
mos internos e externos que a com pelem à inércia. Falando-se dos
internos, podem ser citados: a baixa autoestim a; a crença de que a
violência irá cessar (geralm ente de que o parceiro mudará); a de­
pendência econômica do parceiro; o m edo de viver sozinha; a pe­
na do agressor ou a persistência do am or entre eles (SOUSA e
OLIVEIRA, 2002).
Pesquisa DataSenado 2013 perguntou às m ulheres vítim as de
violência dom éstica e fam iliar o que as levou a optar por não fazer
nada em relação à violência sofrida. As respostas podem ser en ­
contradas no quadro abaixo:

15 23,5% Medo de vingança do agressor

2° 11,8% Vergonha da agressão

35 11,8% Acreditarem que seria a última vez


Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 145

45 8,8% Preocupação com a criação dos filhos

5? 8,8% Dependência financeira

6? 0% Acreditarem que não existe punição

75 32,4% Escolheram outra opção

Interessante observar que, na pesquisa levada a cabo no ano


de 2011 (DataSenado)156 tam bém com vítim as de agressão dom és­
tica, a preocupação com a criação dos filhos aparecia disparada-
m ente em prim eiro lugar (com 31%), enquanto na de 2013 o p er­
centual despenca para 8,8%. Por outro lado, o m edo da vingança
do agressor, que na pesquisa de 2011 aparecia em 2Qlugar, na de
2013 surge em prim eiro. Veja a de 2011:

15 31% Preocupação com a criação dos filhos

25 20% Medo de vingança do agressor

35 12% Vergonha da agressão

45 12% Acreditarem que seria a última vez

55 5% Dependência financeira

65 3% Acreditarem que não existe punição

75 17% Escolheram outra opção

Q uando a m esm a pergunta é feita para a sociedade (O que


leva a m ulher a não denunciar um a agressão?), o m edo do agres­
sor tam bém aparece em prim eiro plano, com 74,4% das respostas.
Em outra pesquisa, tam bém de 2013 (pesquisa DataPopular/
Instituto Patrícia Galvão), verificou-se que 66% dos entrevistados
entendem que a vergonha representa o m otivo pelo qual a m u lh er
que sofre agressão não se separa do marido; o m edo de ser assas­
sinada se acabar com a relação aparece para 58% dos responden-

156 Disponível em http://atualidadcsdodircito.com .br/aliccbianchini/2011/ll/28/violcncia-


-c o n tra -a -m u lh c r-e-e n frcn ta m c n to -ju d ic ia ld o -a g rc sso r-sc ric -n o v c la -fin a l-c stam -
p a/#_ftnl. Acesso cm: 12-8-2012.
146 Coleção Saberes Monográficos

tes. No que tange aos filhos, 49% entende que “Ela pensa nos fi­
lhos e desiste da separação” e para 47% “Ela pensa nos filhos e
desiste da separação”.157
As motivações para a não com unicação apontadas pelas m u­
lheres que sofreram agressão (as vítimas) estão m uito próxim as à
percepção da sociedade em relação ao m esm o fenômeno. Confor­
m e Pesquisa realizada pelo Instituto Avon (2011),158 foram m encio­
nados pelos entrevistados como motivadores da passividade fem i­
nina diante do problem a da violência os seguintes fatores: m edo do
agressor; dependência financeira e afetiva em relação ao agressor;
não conhecer os seus direitos; não ter onde denunciar; percepção
de que nada acontece com o agressor quando denunciado; falta de
autoestima; preocupação com a criação dos filhos e em preservar
o casamento e a família; vergonha de se separar e de adm itir que
é agredida; acreditar que seria a últim a vez; ser aconselhada pela
família ou pelo delegado a não “denunciar”; não poder m ais retirar
a “queixa”.
Como se pode perceber, seis motivações são com uns tanto às
vítim as de agressão quanto à sociedade em geral. São elas: (1) medo
do agressor; (2) dependência financeira; (3) percepção de que nada
acontece com o agressor quando denunciado; (4) preocupação
com a criação dos filhos; (5) vergonha de se separar e de adm itir
que é agredida; e (6) acreditar que seria a últim a vez.
Sabemos os m otivos pelos quais as vítim as não com unicam a
agressão às autoridades policiais, m as não sabemos o que causou
u m a dim inuição em relação a tal comunicação. Uma possibilida­
de: descrédito na Lei, no sentido de ela não estar atendendo aos
anseios de proteção da vítim a, ou seja, falta de eficácia das m edi­
das protetivas de urgência.
Considerando que 72% das m ulheres agredidas convivem com
seus agressores (Pesquisa Ligue 180 - 2011) e que atualm ente o Bra-

157 Disponível cm: http://ww w .spm .gov.br/publicacocs-tcste/publicacocs/2013/livro_pcs-


quisa_violcncia.pdf. Acesso cm 27-4-2013.
158 Disponível cm: http://atualidadcsdodircito.com .br/aliccbianchini/2011/07/26/por-quc-
as-m ulhcrcs-nao-dcnunciam -scus-agrcssorcs-com -a-palavra-a-socicdadc-2/. Acesso
cm: 12-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 147

sil dispõe apenas de 71 casas-abrigo para m ulheres em situação


de violência dom éstica (Pesquisa Instituto Avon 2011), é necessá­
ria, além da construção de m ais instituições desta espécie, a efe­
tivação de m edidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha,
tais como o afastam ento do agressor do lar (art. 22, II) e a proibi­
ção de contato (art. 22, II, b), m edidas essas de cunho em inente­
m ente politico-crim inal.
Na m esm a linha de preocupação, é necessário que o m agis­
trado que analise o pedido de decretação de tais m edidas proteti­
vas decida com urgência, a fim de se evitar o constrangim ento e,
principalm ente, d im in u ir a situação de perigo a que a m u lh er
agredida está exposta, por conta da decisão de buscar rom per com
o ciclo de violência.

13.5. Vínculo afetivo entre as partes


Nos EUA, o fenôm eno da dependência am orosa é conhecido
como one-itis , no qual “o sufixo itis no português seria equivalen­
te ao ‘ite’ de rinite, bronquite etc. A relação afetiva para algum as
pessoas é como um a doença inflam atória que tom a todo o corpo
e n u m dado m om ento [torna-se crônica]. [...] Algumas pessoas,
m esm o sofrendo, apanhando, sendo hum ilhadas, não conseguem
se desvencilhar do parceiro por longos períodos. Q uando isso fi­
nalm ente ocorre, a sensação de perda é tão brutal que elas p e r­
dem o equilíbrio em ocional com pletam ente ou até m esm o a von­
tade de viver. Nas m ulheres o efeito é quase sem pre um a forte
depressão ou suicídio. Nos hom ens, desemboca na violência m o­
ral, física e/ou no homicídio, por vezes seguido de suicídio”.159
Em relação ao assassinato de m ulheres, dados de 2010 apon­
tam que 12 são m ortas por dia em nosso País (Datasus). Apesar das
inúm eras lacunas que os boletins de ocorrência apresentam , cin­
co em cada dez desses hom icídios são com etidos pelo esposo, na­
morado, noivo, com panheiro ou am ante. Se incluirm os ex-par-
ceiros, este núm ero cresce para sete de cada dez casos em que as
m ulheres são vítim as de hom ens com os quais tiveram algum

159 WHO. Violence against woman: an urgent public health priority. Disponível cm: http://
w w w .w ho.int/rcproductivchcalth/publications/violcncc/bullctin_88_12/cn/indcx.htm .
148 Coleção Saberes Monográficos

tipo de relacionam ento afetivo (BLAY, 2011). É m arcante a dificul­


dade que os hom ens têm para aceitar o rom pim ento do relaciona­
m ento por parte da m u lh er (cerca de dois em cada dez crim es são
com etidos por ex-parceiros) (BLAY, 2011).
Há, ainda, aquelas m ulheres que denunciam seus parceiros
inúm eras vezes, m as acabam desistindo do processo. Existe um a
conhecida trajetória feita pela m u lh er desde a com unicação do
fato na delegacia até a desistência do processo. No m om ento em
que faz a com unicação do fato, em geral a m u lh er está revoltada
com a violência sofrida, reagindo à agressão, m as posteriorm ente
acaba arrependendo-se por inúm eros m otivos ou é coagida (direta
ou indiretam ente) para que não prossiga com o processo. “O tem ­
po vivido, desde a agressão sofrida até a denúncia e a desistência,
é perpassado pela tensão entre defender-se e fazer valer sua auto­
nom ia e aceitar a situação de violência e m anter os valores fam i­
liares” (JONG; SALADA; TANAKA, 2008).160

13.6. 0 ciclo da violência


Loren Walker, em 1979, identificou que existem três fases dis­
tintas localizadas em u m ciclo de violência íntim o-afetiva: a cons­
trução da tensão, em conjunto com o aum ento da percepção de
perigo; o ápice de tensão, em que as agressões chegam ao inciden­
te m ais violento; e, por fim , a etapa do arrependim ento (2009: 91).
Há u m escalonam ento da intensidade e da frequência das agres­
sões, que depende das circunstâncias da vida do casal. Não obs­
tante as variáveis (circunstâncias da vida do casal), já se constatou
que a repetição cíclica das etapas tende a fazer com que a agressão
seja cada vez m ais grave e habitual. Veja-se cada um a delas:
construção da tensão
D urante a prim eira fase, há um a gradual escalada da tensão
acarretando aum ento dos atritos, como ofensas, outros com porta­
m entos intencionais significativos, ou até m esm o abuso físico. O
agressor expressa sua insatisfação e hostilidade, m as não de form a

160 Disponível cm : http://w w w .scielo.br/sciclo.php?pid= S0080-62342008000400018


& script=sci_arttcxt.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 149

extrem a, ou m áxima; a m ulher, por sua vez, tenta aplacar o agres­


sor fazendo o que ela acha que pode para agradá-lo, acalmá-lo ou,
ao menos, tentar não agravar a situação. Por vezes, a m ulher é bem -
-sucedida durante algum tem po, o que acaba por reforçar a cren ­
ça de que poderá controlar o parceiro.
tensão máxima
Sua característica é o aum ento da tensão, o medo da m ulher de
que inadvertidam ente dê início a um a explosão do agressor e de que
ela não seja capaz de continuar controlando o padrão de resposta
agressiva. Nesta fase, o espancamento agudo torna-se inevitável.
reconciliação
Na últim a fase, o agressor desculpa-se, dem onstra gentileza e
rem orso e oferece presentes ou promessas, sendo possível que o
próprio agressor acredite que não irá agredir a vítim a novam ente.
A m u lh er quer acreditar nele e logo passa a aum entar a esperança
de que haverá m udanças com portam entais no agressor.
Essa fase fornece o estím ulo positivo para perm anecer na
relação. Porém, após algum tem po, a prim eira etapa faz-se p re­
sente novam ente, reiniciando o ciclo.
Esse ciclo costum a m anifestar-se reiteradas vezes na vida
do casal, e as m u lh eres levam de 9 a 10 anos para rom pê-lo de­
finitivam ente.161
É possível que o hom em agressor se regenere? O psicólogo
Carlos Zuma, coordenador do Instituto de Pesquisas Sistêmicas e
Desenvolvimento de Redes Sociais (Instituto Noos), que oferece
atendim ento a vítim as de violência dom éstica e a quem as cometa,
afirm a “que acom panhou casos de modificação de atitude de m u i­
tos agressores”. Conform e relata, “esses hom ens pararam de pra­
ticar a violência doméstica, depois de analisar e com preender suas
reações e ponderar atitudes, em busca de u m a convivência m e­
lhor com suas parceiras”.162

161 Fundação Pcrscu Abramo. Pesquisa disponível cm: http://w w w .fpabram o.org.br/si-
tcs/dcfault/filcs/pcsquisaintcgra.pdf.
162 Disponível cm: http://cstilo.uol.com .br/com portam cnto/ultim as-noticias/2011/ll/24/
m arid o s-violcntos-com o-baltazar-p o d cm -sc-rcg cn crar-afirm am -csp ccialistas.h tm .
Acesso cm: 3-1-2012.
150 Coleção Saberes Monográficos

A fim de proporcionar m eios m ais eficazes para concretizar


tal alteração com portam ental, a Lei M aria da Penha prevê a exis­
tência de centros de educação e de reabilitação para os agressores
(art. 35, V - v. item 6.4), mas, infelizm ente, tais centros pratica­
m ente não existem , não obstante experiências isoladas terem sido
m uito bem -sucedidas.
De acordo com o psicólogo Giovani Rente Paulino, há sinais
que podem ser utilizados para identificar u m possível agressor.
D entre eles, com o não poderia deixar de ser, encontra-se o consu­
m o do álcool ou drogas, ou seja, vícios que causem desestabiliza-
ção emocional/psicológica.163
Ainda para o psicólogo, há outro sinal que pode ser facilm en­
te percebido no início do relacionam ento: sentim ento de poder
que o agressor possui sobre a vítim a e o seu desejo de posse. Pes­
soas que ostentam este perfil psicológico são propensas a com eter
atos de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher, ainda que
na m odalidade de violência psicológica. Tal tem a encontra-se in ti­
m am ente ligado com a característica a ser analisada a seguir.

13.7. Relação de dominação (cultura machista)


Eloá tin h a 15 anos quando, em 13 de outubro de 2008, foi
subm etida a cárcere privado, no seu próprio apartam ento, em
Santo A ndré (SP), por Lindemberg, seu ex-namorado, com quem
m anteve u m relacionam ento por três anos. Ele contava 22 anos e,
de acordo com amigos e fam iliares da vítim a, era acom etido de
ciúm es e sentim ento de posse em relação a Eloá.
O crim e estendeu-se até o dia 17 de outubro (mais de 100 ho­
ras), quando, após a invasão do apartam ento pelo GATE, houve um
trágico desfecho que incluiu a m orte da m enina no dia seguinte.
O caso rem ete a algum as im portantes reflexões:
“A verdadeira paixão am orosa não é exatam ente u m ‘bom
sentim ento’. O apaixonado acredita no objeto de am or (que,

163 Disponível em : http://atualidadcsdodircito.com .br/aliccbianchini/2012/01/10/o-rom -


p im c n to -d o -c ic lo -d c -v io lc n c ia -c -a -re g c n c ra c a o -d o -a g re s so r-sc ric -n o v c la -fin a -
cstam pa/#_ftn4. Acesso cm : 12-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 151

de fato, ele inventa), assim como, nos transtornos m ais graves,


u m indivíduo acredita em suas alucinações. Com um a dife­
rença: contrariam ente ao alucinado, o apaixonado não conse­
gue renunciar a um a visão que é para ele, às vezes, a prova
única e indiscutível de que ele não está só no m undo e de que
a vida e a m orte fazem sentido” (Contardo Calligaris. D or­
m indo com inim igos? ESP, 30-10-2008).
“Eloá m o rreu porque transgrediu a ‘ordem social’, quando se
recusou a continuar o nam oro com Lindemberg. A sua recu ­
sa, a sua escolha por não estar m ais com ele, a sua opção pelo
fim da relação, foram a sua sentença: o ‘lugar’ da jovem Eloá
na ordenação tácita da sociedade não é a de rechaçar o macho,
e, sim, o de, ao ser escolhida por ele, aceitá-lo, acatando sua
vontade” (Nilcéa Freire. Caso Eloá: o que deu errado? Correio
Braziliense , 3-11-2008).
^ Eloá foi m orta anunciadam ente por estar buscando desven-
cilhar-se de um a relação de poder e dominação. Eloá m orreu
por ser m u lh er e por ser vítim a de um a relação desigual,
baseada em um a cultura falocêntrica. Nos term os dessa visão
m achista e patriarcal de m undo, a m u lh er não pode ultrapas­
sar determ inadas fronteiras.
^ “Q uando há violência do hom em contra a m ulher não se tem
um a relação de afeto e, sim, u m a relação de poder” (M inistra
Cárm en Lúcia, STF, ADC 19 e ADI 4.424).
^ “Deve ser um a delícia ser objeto de desejo de u m apaixonado.
Os m om entos gozosos do ardor são extasiantes, os envolvidos
se entregam , se possuem , se bastam . Mas isso passa, e um a
das partes dá início a u m processo de se recolher novam ente
a si; o outro já não lhe sacia a fome de prazer. Se restar convi­
vência, é por outros motivos: com prom issos com uns, coexis­
tência fraternal, inércia, sentim ento de posse. Muitas vezes,
todavia, há dem andas de rom pim ento. Então brota o possessi­
vo que se consom e com a dor e a raiva da vontade de posse”.164

164 ANDRADE. Léo Rosa. M ulheres, vocês deveriam m udar. Disponível cm: http://atuali-
dadesdodireito.com .br/lcorosa/2011/12/05/m ulhcrcs-voccs-dcvcriam -m udar/).
152 Coleção Saberes Monográficos

Q uanto m aior a dificuldade criada, especialm ente por cons­


trangim entos socioculturais, para iniciar o processo de ru p tu ra
da união, m aiores serão as chances de violência nesse m om ento
final. Entretanto, o incentivo a que se busquem desde logo solu­
ções socialm ente legitim adas pode evitar que o conflito sofra um a
ru p tu ra fatal, com a m orte de u m dos parceiros, norm alm ente a
m ulher. Pesquisa realizada no ano de 2006, em Portugal, constata
que o hom icídio conjugal representa 16,4% dos hom icídios em
geral. A m aioria (88%) foi com etida por hom ens, e apenas 12%, por
m ulheres (PAIS, 2010: 277-8).
De acordo com a classificação trazida por Elza Pais, quatro
são os tipos de hom icídio quando praticados em u m contexto em
que agressor e vítim a m antêm um a relação de conjugalidade
(ainda que não formal): hom icídio “m aus-tratos”; hom icídio “vio-
lência-conflito”; hom icídio “abandono-paixão” e hom icídio “pos-
se-paixão”.
O prim eiro é exclusivamente praticado pela m u lh er contra o
m arido/esposo/am ante e, norm alm ente, precedido de diversas
tentativas de ru p tu ra (saída de casa, pedido de divórcio e até sui­
cídio tentado). Em Portugal, estim a-se que 58% das m ulheres que
com etem hom icídio fazem-no no seio da conjugalidade, encon­
trando-se, no caso dos hom ens, apenas 13% deles nestas circuns­
tâncias (PAIS, 2010: 228).
Já o hom icídio “violência-conflito” é exclusivamente pratica­
do pelo hom em contra a m ulher. N orm alm ente não é antecedido
de denúncia, pois a vítim a não reagiu às reiteradas agressões. O
quadro de valores da vítim a encontra-se tão arraigado à cultura
patriarcal que a m u lh er assim ila pacificam ente a agressão e a tem
como um a fatalidade, aceitando-a como se fosse u m fardo do qual
não se pode desvencilhar.
Homicídio “abandono-paixão” é u m crim e predom inantem en­
te m asculino. Nele, a vítim a é o objeto amado (mulher, ex-m ulher
ou amante) que desinvestiu na relação e a quer abandonar ou já a
abandonou afetivamente.
Por fim , tem -se o hom icídio “posse-paixão”, que pode ser co­
m etido por am bos os sexos. Envolve sem pre três personagens:
vítim a-agressor-outro, podendo ser form ado p o r dois tipos de
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 153

triângulo: (a) agressor é hom em ou m ulher; vítim a é quem impede


a ru p tu ra da conjugalidade; (b) agressor é hom em que m ata outro
hom em , num a situação de disputa da m ulher que ambos desejam.
Considerando-se que o hom em m édio é 99,9% m ais forte do
que a m ulher (FSP, 2-1-2011, C7), e que a assim etria do poder re ­
presenta um significativo obstáculo para se ultrapassar as desi­
gualdades criadas entre os sexos, medidas preventivas dirigidas aos
m om entos de ru p tu ras da conjugalidade são de extrem a im por­
tância para que o quadro de tragédias, representado pelas m ortes
geralm ente de m ulheres, torne-se m enos assustador.
De acordo com M aria Amélia Azevedo, o m achism o pode ser
conceituado como a “ideologia do sexo, ou seja, como u m sistema
de ideias e valores legitim ador de u m padrão não igualitário de
relações entre hom ens e m ulheres: o padrão da dom inação do
hom em sobre a m u lh er” (apud BAPTISTA; MARQUES, 2014: 93).

13.8. Consequências para a família (filhos e demais parentes) tanto em


relação à agressão quanto em relação a eventual consequência de
caráter penal do agressor
A violência contra a m ulher alcança toda a família, inclusive
aqueles que não sofrem suas consequências, mas que tão somente a
testem unham . A ameaça e o temor, fortes fatores de desestrutura-
ção psíquica, em m uitos casos, frequentam o cotidiano da família.
O norm al é que o dram a e a tragédia sejam suportados pela
vítim a, m as não se pode desconsiderar toda um a série de outras
consequências nefastas que a violência conjugal e a violência con­
tra criança, ocorridas no âm bito doméstico, podem acarretar, in ­
clusive, a pessoas totalm ente estranhas ao seio fam iliar. Dados da
C entral de A tendim ento à M ulher - Ligue 180 - (balanço sem es­
tral de janeiro a ju n h o de 2013165) apontam que em 66% dos casos
de agressão os filhos presenciam a m u lh er sendo agredida. E em
quase 19%, os filhos tam bém sofreram violência direta.
Em relação à violência contra a criança, estudo de Lúcia Ca-

165 Disponível cm : http://w w w .spm .gov.br/publicacoestcstc/publicacocs/2013/balanco-


-liguc-180-janeiro-a-junho-2013.
154 Coleção Saberes Monográficos

valcanti de A lbuquerque W illiam s e Ana Carina Stelko Pereira166


conclui, após longa investigação, que a violência fam iliar tem p ar­
cela de responsabilidade em relação à violência escolar, inclusive
em relação ao bullying.
O utros dados im portantes trazidos na pesquisa:
cerca de u m terço das fam ílias investigadas por m aus-tratos
contra crianças nos EUA têm como autores pais ou responsá­
veis tam bém vítim as de violência doméstica;
^ estudo de m eta-análise de 41 pesquisas, realizadas no p erío ­
do de 25 anos, conclui que crianças expostas à violência
dom éstica (ou seja, apenas a testem u n h am , não a sofrendo)
são propensas a problem as com portam entais e em ocionais
significativos.
Para Joviane M arcondelli Dias Maia e Lucia Cavalcanti de Al­
buquerque W illiams, a exposição à violência conjugal é conside­
rada form a de violência psicológica e fator de risco para crianças
e adolescentes, que apresentarão tendências de vivenciar a am bi­
valência das em oções e reações entre am or e ódio, além de outros
efeitos nocivos com o a agressão, uso de drogas e/ou álcool, d istú r­
bio de atenção, baixo rendim ento escolar, ansiedade, depressão,
Transtorno de Estresse Pós-Traumático e os problem as somáticos,
entre outros. “Para Sinclair (1985), um a criança que convive com
a violência ou ameaça do pai contra a m ãe é um a criança que p re­
cisa de proteção, pois tem risco de ser ela própria física e sexual­
m ente abusada. Para Holden et al. (1998), a m ulher agredida pode
descontar sua raiva e frustração na criança, a criança pode ma-
chucar-se acidentalm ente tentando p arar a violência ou proteger
sua m ãe e, finalm ente, a criança que testem unha a agressão con­
tra a própria m ãe poderá tornar-se u m m arido agressor ou um a
m ulher agredida” (MAIA; WILLIAMS, 2005).167

166 Disponível cm: http://atualidadcsdodircito.com .br/aliccbianchini/2011/10/25/% c2% 8


0% 9cm cnino-dc-novc-anos-m ata-o-padrasto-para-dcfcndcr-a-m ac% c2% 80% 9d/#_
ftn 2 . Acesso cm : 12-8-2012.
167 Disponível cm : http://pcpsic.bvsalud.org/sciclo.php?script=sci_arttcxt& pid=S1413-
-389X 2005000200002. Acesso cm : 19-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 155

Notícia veiculada em outubro de 2011 m ostra u m dram a fa­


m iliar irreversível: de acordo com a mãe, seu filho de nove anos
que m atou o padrasto com pelo m enos um a facada no abdome
era, com ela, agredido com frequência.168
Tendo em conta as inform ações acima, não há dúvida de que
“quem bate na m ulher m achuca a fam ília inteira” (Instituto Patrí­
cia Galvão), bem com o atinge, m uitas vezes, outros m em bros da
com unidade social.
Trata-se, aqui, da violência intergeracional, tem a do próxi­
m o item .

13.9. Caráter intergeracional da violência doméstica e familiar contra a


mulher
Pesquisa da Fundação Perseu Abramo/SESC de 2010 revelou
que pais e mães que nunca apanharam quando crianças pertencem
ao grupo que tem a m enor tendência de bater em seus filhos, en­
quanto pais e mães que apanharam quando crianças estão no g ru ­
po que tem a m aior tendência de agredir fisicamente seus filhos.
Para Ana Flávia Pires Lucas d’Oliveira, Lilia Blima Schraiber,
Heloisa Hanada e Julia D urand, do D epartam ento de Medicina Pre­
ventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo,
“[...] testem unhar violência entre os pais, na infância, ou sofrer vio­
lência quando criança é im portante fator de risco, tanto para m eni­
nos como para m eninas, para o envolvimento em situações de vio­
lência na vida adulta. Portanto, o cuidado aos casos pode proteger
as crianças e prevenir a transm issão intergeracional da violência,
ao m esm o tem po em que pode prevenir as constantes reiterações
dos episódios para a própria m ulher em situação de violência”.169
Q uinze por cento das m ulheres entrevistadas responderam ,
de form a estim ulada, que nunca levaram u m tapa; 49%, que de
vez em quando levavam tapas; 23%, que de vez em quando leva­
vam surra; e 12%, que levavam surras com frequência.

168 Disponível cm : http://w w w l.folha.uol.com .br/fsp/cotidian/ff2110201112.htm . Acesso


cm: 12-8-2012.
169 SCHRAIBER, Lilia Blima ct al. Violência dc gênero no cam po da saúde coletiva: con­
quistas c desafios. In: Ciência e Saúde Coletiva, 14 (4): 1019-1027, 2009.
156 Coleção Saberes Monográficos

Setenta e cinco por cento das m ulheres responderam , de for­


m a estimulada, que uns tapas de vez em quando nos filhos são
necessários (81% das que de vez em quando levavam tapas e 53%
das que nunca levaram u m tapa); 20%, que bater em criança é er­
rado em qualquer situação (41% das que nunca levaram um tapa, o
m aior porcentual); 2%, que tem criança que só tom a jeito apanhan­
do bastante (4% das que de vez em quando levavam surra, 4% das
que levavam surras com frequência, 1% das que de vez em quando
levavam tapas); 1% deu outras respostas e 1% não soube responder.
Q uinze por cento das entrevistadas responderam , de form a
estim ulada, que nunca deram um tapa em u m filho (42% das que
nunca levaram u m tapa, 10% das que de vez em quando levavam
tapas); 75%, que de vez em quando dão ou davam uns tapas (86%
das que de vez em quando levavam tapas, 50% das que nunca le­
varam u m tapa); 7%, que de vez em quando dão ou davam um a
surra (12% das que de vez em quando levavam surra, 2% das que
de vez em quando levavam tapas); 1%, que dão ou davam surras
com frequência (3% das que levavam surras com frequência, 0%
das que nunca levaram um tapa, 0% das que de vez em quando
levavam surra); 2% deram outras respostas e 1% não respondeu.
Entre os hom ens entrevistados, 13% responderam , de form a
estim ulada, que nunca levaram um tapa; 38%, que de vez em
quando levavam tapas; 32%, que de vez em quando levavam surra;
e 16%, que levavam surras com frequência.
Cinquenta e nove por cento responderam , de form a estim u­
lada, que u n s tapas de vez em quando são necessários (65% dos
que de vez em quando levavam tapas, 29% dos que nunca levaram
u m tapa); 38%, que bater em criança é errado em qualquer situa­
ção (68% dos que nunca levaram u m tapa, 33% dos que de vez em
quando levavam tapas e 33% dos que de vez em quando levavam
surras); 2%, que tem criança que só tom a jeito apanhando bastan­
te (4% dos que levavam su rra com frequência, 1% dos que nunca
levaram tapa e 1% dos que de vez em quando levavam tapas); e 1%
deu outras respostas.
Q uarenta e dois por cento dos hom ens entrevistados respon­
deram , de form a estim ulada, que nunca deram u m tapa em u m
filho (71% dos que nunca levaram u m tapa, 35% dos que de vez em
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 157

quando levavam surra); 52%, que de vez em quando dão ou davam


uns tapas (60% dos que de vez em quando levavam tapas, 27% dos
que nunca levaram u m tapa); 5%, que de vez em quando dão ou
davam um a su rra (11% dos que levavam su rra com frequência, 1%
dos que nunca levaram u m tapa); 0%, que dá ou dava surras com
frequência (1% dos que levavam surras com frequência); e 1% deu
outras respostas.
Com o objetivo de rom per o ciclo vicioso de violência que se
perpetua, o Projeto de Lei n. 2.654/2003 (apelidado de Lei da Pal­
mada), da Secretária Especial dos Direitos H um anos, M aria do
Rosário (PT/RS), visa m odificar a redação do art. 18 do Estatuto da
Criança e do Adolescente, bem como a do art. 1.634 do Código
Civil, e proibir qualquer form a de castigo corporal, m oderado ou
im oderado, sob a alegação de quaisquer propósitos, ainda que pe­
dagógicos, no lar, na escola ou em instituição de atendim ento pú­
blico ou privado, sob pena de os pais, professores ou responsáveis
ficarem sujeitos às m edidas previstas no art. 129, incisos I, III, IV
e VI do Estatuto da Criança e do Adolescente (encam inham ento a
program a oficial ou com unitário de proteção à família; encam i­
nham ento a tratam ento psicológico ou psiquiátrico; encam inha­
m ento a cursos ou program as de orientação; obrigação de encam i­
n h a r a criança ou o adolescente a tratam ento especializado).
De acordo com a justificativa do Projeto, a perm issão do uso
m oderado da violência contra crianças e adolescentes faz parte de
um a cu ltura da violência baseada em três classes de fatores: (1)
persiste no Brasil a percepção da criança e do adolescente como
grupos menorizados, isto é, como grupos inferiorizados da popu­
lação, frente aos quais é tolerado o uso da violência; (2) vigora
ainda u m modelo fam iliar pautado na valorização do espaço p ri­
vado e da e stru tu ra patriarcal, que, por estar m uitas vezes sub­
m erso em dificuldades socioeconômicas, propicia a eclosão da
violência; e (3) prevalece no Brasil o costum e de se reco rrer a al­
ternativas violentas de solução de conflitos, inclusive no que toca
a conflitos domésticos.
Não se trata, todavia, da crim inalização da violência m odera­
da, m as da explicitação de que essa conduta não condiz com o
direito. O projeto busca ainda assegurar um a m aior coerência ao
158 Coleção Saberes Monográficos

sistema de proteção da criança e do adolescente e ressaltar a re ­


levância desse direito específico, na m edida em que este passará
a fazer parte de um a lei paradigm ática, tanto nacional quanto
internacionalm ente.

14. Atores da Lei (arts. 3s, § 2°, e 27 a 32)


14.1. Capacitação dos atores
O trato da Lei M aria da Penha req u er dos profissionais envol­
vidos no tem a um a capacitação especial para que possam com ­
preender as especificidades da violência dom éstica e fam iliar ba­
seada no gênero, entendendo-a como resultado do exercício
historicam ente desigual de poder na relação entre hom ens e m u ­
lheres, bem como se dando conta das dificuldades enfrentadas
pelas m ulheres em situação de violência dom éstica e fam iliar, em
razão das características desse tipo de violência. Sensibilização do
problema, tratam ento hum anizado e form ação continuada são
três itens im prescindíveis.
Como bem destaca A driana Ramos de Mello, “a concepção
dom inante do valor do lar e da família, em geral, rem ete a um a
concepção de repetição do valor da fam ília como sinônim o de
‘privacidade’ e de ‘harm onia fam iliar’, m esm o onde há conflitos
graves com profundos efeitos na integridade corporal e da saúde
das m ulheres. Seria função do Judiciário contribuir para o inte­
resse social da preservação da ‘harm onia fam iliar”’ (2014:101).
Ainda de acordo com a autora, “esse bem jurídico está plena­
m ente presente na jurisprudência dos Códigos Penais Comentados
que servem ao ensino dos estudantes de direito no Brasil. Os ope­
radores de direito, ao refletir a tipicidade da situação doméstica,
pensam nesta suposta e abstrata ‘harm onia fam iliar’. As sentenças
se fazem explicitamente a favor desse bem jurídico abstrato da fa­
mília. M inim izam -se as lesões, e acredita-se que sentenças puniti­
vas podem estim ular os conflitos dos casais com que se defrontam .
Ou seja, as sentenças resultam na defesa dos agressores. Implícita,
mas m aterialm ente, se fazem contra a defesa do ‘bem jurídico da
integridade corporal e de saúde’ da ‘pessoa’ das m ulheres, que,
aliás, é o bem invocado quando se levou a acusação à justiça. Além da
repetida defesa do valor da ‘harm onia fam iliar’ contra a defesa dos
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 159

direitos individuais à integridade física, um a outra indagação básica


da lógica de juízes/as e promotores/as, que não é tão com um ente
explicitada, é a de se questionar sobre se com pete ou não à justiça
‘intervir na privacidade da família’” (2014:101).
Também Angélica de Maria Mello de Almeida entende que os
operadores jurídicos não estão acostum ados a atuar de conform i­
dade com o molde estabelecido pela Lei Maria da Penha (2014:107).
É por isso que a capacitação para lidar com as especificidades da
violência de gênero passa a te r um a im portância fundam ental.
A previsão da necessidade de capacitação pode ser encontrada
no disposto no art. 8-, VII, e foi objeto de análise do item 8.1(g).

14.2. Atores não jurídicos


A Lei Maria da Penha exige a participação da família, da so­
ciedade e do Poder Público no ato de criação das condições neces­
sárias para o exercício efetivo dos direitos das m ulheres (art. 3Q,
§ 2Q). Todos, portanto, são cham ados a colaborar.
Além disso, a Lei faz referência à equipe m ultidisciplinar que
deve atuar ju n to aos Juizados de Violência Doméstica e Fam iliar
contra a M ulher, conform e se verá em seguida.

14.2.1. Equipe multidisciplinar (art. 29 a 32)


Q uatro dos artigos da Lei Maria da Penha dedicam -se às equi­
pes m ultidisciplinares.

Art. 29. Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a


Mulher que vierem a ser criados poderão contar com uma equi­
pe de atendimento multidisciplinar, a ser integrada por profis­
sionais especializados nas áreas psicossocial, jurídica e de saúde.

Art. 30. Compete à equipe de atendimento multidisciplinar, en­


tre outras atribuições que lhe forem reservadas pela legislação
local, fornecer subsídios por escrito ao juiz, ao M inistério Pú­
blico e à Defensoria Pública, mediante laudos ou verbalmente
em audiência, e desenvolver trabalhos de orientação, encam i­
nham ento, prevenção e outras medidas, voltados para a ofendi­
da, o agressor e os familiares, com especial atenção às crianças
e aos adolescentes.
160 Coleção Saberes Monográficos

Art. 31. Quando a complexidade do caso exigir avaliação mais


aprofundada, o juiz poderá determ inar a manifestação de profis­
sional especializado, mediante a indicação da equipe de atendi­
mento multidisciplinar.

Art. 32. O Poder Judiciário, na elaboração de sua proposta orça­


mentária, poderá prever recursos para a criação e manutenção
da equipe de atendimento multidisciplinar, nos term os da Lei de
Diretrizes Orçamentárias.

A equipe m ultidisciplinar é form ada por u m grupo de profis­


sionais com formação diversificada (áreas psicossocial, jurídica e
de saúde - art. 29) que atuam em u m m esm o am biente de traba­
lho de m aneira independente, porém se inter-relacionando. Agem,
principalm ente, nas seguintes frentes:
a) dotando os operadores jurídicos de subsídios necessários para
um a m elhor com preensão do fenôm eno da violência dom és­
tica e de todas as suas implicações - art. 30;
b) desenvolvendo trabalhos de orientação, encam inham ento (ar­
ticulação entre os Juizados e a rede de serviços especializa­
dos), prevenção e outras medidas, voltados para a ofendida, o
agressor e os fam iliares, com especial atenção às crianças e
aos adolescentes - art. 30;
c) indicando ao juiz profissional especializado, sempre que a com ­
plexidade do caso exigir avaliação mais aprofundada - art. 31.
A prim eira previsão de atuação de um a equipe m ultidiscipli­
n a r deu-se por ocasião do ECA.
A composição das equipes está tam bém amparada em resolu­
ção do CNJ e nos Enunciados do Fórum Nacional de Juizes de Vio­
lência Doméstica e Familiar contra a M ulher (FONAVID), os quais
estabeleceram as atividades que deverão ser realizadas por essas
equipes, bem como suas atribuições e outras deliberações. São elas:

ENUNCIADO 13 - Poderá a Equipe Multidisciplinar do Juízo


proceder ao encaminhamento da vítima, do agressor e do núcleo
familiar e doméstico envolvido à rede social, independentemen­
te de decisão judicial.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 161

ENUNCIADO 14 - Os Juízos com competência para processar e


julgar os processos de violência doméstica e familiar contra a
m ulher deverão contar com Equipe Multidisciplinar.

ENUNCIADO 15 - A Equipe Multidisciplinar poderá elaborar


documentos técnicos solicitados pelo Ministério Público ou De-
fensoria Pública, mediante autorização do Poder Judiciário.

ENUNCIADO 16 - Constitui atribuição da Equipe Multidiscipli­


nar conhecer e contribuir com a articulação, mobilização e for­
talecimento da rede de serviços de atenção às mulheres, homens,
crianças e adolescentes envolvidos nos processos que versam so­
bre violência doméstica e familiar contra a mulher.

Quanto m ais estreito e perm anente for o diálogo entre os res­


pectivos técnicos e os operadores do direito (juiz, promotor, advo­
gado, defensor e autoridade policial) m elhor e m ais acertado será o
tratam ento dado às vítimas, que deve ser completo e humanizado.
De acordo com W ânia Pasinato, dentre os Juizados pesquisa­
dos “apenas 18 contavam com equipe m ultidisciplinar atuando
exclusivam ente nessa instância. [...] Em alguns Juizados, as equi­
pes funcionam precariam ente, com poucos profissionais, às ve­
zes apenas com atendim ento psicológico ou apenas de serviço
social. Além disso, nem todos os Tribunais de Justiça disponibili­
zaram profissionais de seus quadros para com por as equipes, o
que os leva a serem contratados de form a tem porária, fazendo
com que o fornecim ento do atendim ento se dê de m aneira des­
contínua e precariam ente organizada” (2011:137).170

14.2.2. Peritos judiciais


Também os peritos judiciais necessitam de um a específica ca­
pacitação de gênero, que os tornem aptos a fornecer laudos carac-
terizadores de delitos inscritos no âm bito da Lei Maria da Penha.
Na Espanha, visando prom over capacitação aos profissionais
atuantes no Sistema Nacional de Saúde, foi elaborado u m Protocolo

170 Disponível cm : http://w w w .cnj.jus.br/im agcs/cam panhas/m ariapcnha/aprcscntacocs/


aprcscntacao_vjornada_vcrsao_i.pdf. Acesso cm: 12-8-2012.
162 Coleção Saberes Monográficos

Conjunto para ações de saúde no âmbito da Violência de Gênero.171


O objetivo principal do docum ento é padronizar a atuação do Servi­
ço Nacional de Saúde, contribuindo, assim, para a detecção e avalia­
ção dos casos de violência de gênero, bem como oferecer orientação
para a equipe médica. Dentre os objetivos secundários do Protocolo,
destaca-se a necessidade de m ostrar ao público a gravidade do pro­
blema e encontrar soluções para os casos de violência de gênero.

14.3. Operadores jurídicos


Como dito anteriorm ente (item 8.1(g)), os profissionais que atu­
am nas causas que envolvem violência doméstica e fam iliar contra
a m ulher precisam de um a formação especializada e continuada, a
fim de que sejam apresentados às especificidades da violência do­
méstica e fam iliar baseada no gênero. De toda a gam a de atores, os
jurídicos são os que mais se ressentem de tal qualificação.
Se não bastasse a exigência de um a especial capacitação, há
ainda outra particular característica: m uitos dos papéis que a Lei
Maria da Penha passou a atribuir aos operadores jurídicos são in o ­
vadores, o que dificulta a sua apreensão e efetivação.
De acordo com o inform e da Relatora Especial de Violência
das Nações Unidas (Resolução da Assembleia Geral da ONU
48/104), “entre os fatores que dificultam o acesso à justiça pela
m u lh er em situação de violência se destacam: o preconceito dos
órgãos da justiça e dos juizes e juízas sobre o tem a violência de
gênero, legislativas e de m anutenção da ordem pública; assim
como a pobreza, a falta de autonom ia econôm ica da m ulher; o
analfabetism o jurídico; a exclusão da vida pública e política; o
m edo e as inibições que sofrem as m ulheres em suas dem andas
judiciais e a falta de grupos de prom oção poderosos que apoiem
as suas dem andas de justiça” (MELLO, 2014:100).

14.3.1. Advogado (art. 27)


A m u lh er em situação de violência dom éstica e fam iliar deve
estar acom panhada de advogado em todos os atos do processo, se-

171 Disponível cm: http://w w w .m sps.es/organizacion/sns/planC alidadSN S/pdf/cquidad/


protocoloC om un.pdf. Acesso cm: 19-4-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 163

ja nas causas cíveis ou crim inais, salvo por ocasião da medida


protetiva de urgência, que pode ser diretam ente requerida por ela
(art. 27), não se exigindo, assim, capacidade postulatória.
Tal exigência se dá pelo fato de que a ausência de assistência
jurídica to rn a a m u lh er ainda m ais vulnerável, o que dificulta o
exercício de seus direitos. A garantia de assistência de advogado à
m u lh er é ferram enta indispensável para que ela seja inform ada e
orientada sobre seus direitos. “A assistência jurídica voltada espe­
cialm ente à defesa dos interesses da m u lh er neste decisivo m o­
m ento é de grande relevo para que os pedidos estejam adequada­
m ente instruídos e reflitam com segurança as necessidades e a
expressão da vontade da ofendida” (BELLOQUE, 2011: 344).
Não é o caso, porém , de deixar a m ulher que necessite de m e­
didas legais a seu favor sob a necessidade, para postular, de in ter­
mediação de advogado. Se assim fosse, o direito à assistência ju r í­
dica poderia se converter em obstáculo ao acesso dos meios de
tutela de direitos.
E se houver o descumprimento de tal disposição? O ato prati­
cado é considerado irregular, podendo, inclusive, ser declarado
nulo, caso se comprove prejuízo à situação jurídica da vítima.

14.3.2. Defensor público (art. 28)


O bjetivando orientação e acesso a inform ações e orientações
essenciais à sua proteção, bem com o garantias aos seus direitos,
a Lei M aria da Penha previu a toda m u lh er em situação de vio­
lência dom éstica e fam iliar o adequado acesso aos serviços de
D efensoria Pública ou de Assistência Judiciária G ratuita em sede
policial e judicial, m ediante atendim ento específico e humanizado
(art. 28).
A tendim ento específico pede que a assistência judiciária seja
prestada: (a) de m odo individualizado, garantindo-se a intim idade
dos envolvidos; e (b) preferencialm ente por órgão que tenha a sua
atuação de form a especial voltada para casos dessa natureza, nos
quais haveria profissionais com capacitação e sensibilização para
a peculiar situação da m u lh er vítim a de violência.
164 Coleção Saberes Monográficos

O term o humanizado , por sua vez, pretende destacar a especí­


fica situação de vulnerabilidade em que se encontram as m u lh e­
res vítim as desta form a de violência.
A Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública (LC n. 80/94,
com as alterações prom ovidas pela LC n. 132/2009), prevê, em seu
art. 4e, que incum be à instituição “exercer a defesa dos interesses
individuais e coletivos [...] da m ulher vítim a de violência doméstica
e fam iliar” (inc. XI); atuar na preservação e reparação dos direitos
de pessoas vítimas de tortura , abusos sexuais , discriminação ou qualquer
outra form a de opressão ou violência, propiciando o acom panham ento
e o atendim ento interdisciplinar das vítim as (inc. XVIII); além de
representar aos sistem as internacionais de proteção dos direitos
hum anos, postulando perante seus órgãos (inc. VI).
A Lei Maria da Penha prevê o acesso à assistência jurídica gra­
tuita inclusive na fase policial. A orientação jurídica nesta fase é de
especial importância, já que é quando, normalmente, são adotadas as
medidas protetivas de urgência, ferram entas imprescindíveis para a
proteção da m ulher ou para evitar o seu agravamento da violência.
Uma m edida m uito salutar para que a disposição legal seja
concretizada refere-se à criação de Núcleos Especializados de De­
fensoria Pública que atuem exclusivamente nos Juizados de Vio­
lência Doméstica e Fam iliar contra a Mulher, o que já foi im ple­
m entado em algum as regiões, não obstante o núm ero ainda ser
m uito reduzido. De acordo com W ânia Pasinato, existem tais N ú­
cleos “em 15 capitais, m as a m aior parte lim ita sua intervenção às
ações cíveis e de fam ília e nem sem pre atendem exclusivamente
casos relacionados à vdf. Apenas em dez Juizados foram identifi­
cadas defensoras públicas que atuam exclusivamente ju n to aos
Juizados e acom panham as m ulheres nos pedidos de m edidas p ro ­
tetivas, nas audiências previstas no art. 16 da Lei M aria da Penha
(nos casos de retratação da representação crim inal) e nas audiên­
cias de instrução nos processos crim inais” (2011:139).
W ânia Pasinato aduz que a escassez do quadro da Defensoria
Pública é usada para ju stificar a lim itação destas intervenções. No
entanto, sublinha a autora, “aparentem ente, há tam bém u m obs­
táculo na form a com o os defensores entendem seu papel nos p ro ­
cessos crim inais. Tradicionalmente, a defesa atua nos processos
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 165

crim inais em favor dos réus, um a vez que os interesses das víti­
m as estão representados pelo M inistério Público. Dessa m aneira,
entendem que a presença do defensor público representando as
vítim as nas audiências crim inais criaria um a
ca que poderia ser prejudicial ao réu ” (2011: 140).
Tal crítica, entretanto, não prospera, pois como a própria au­
tora inform a a m edida está sendo interpretada sob um a ótica li­
m itada e tradicional de acesso à justiça. Se por um lado o acompa­
nham ento das m ulheres por defensores deve assegurar acesso a
inform ações e orientações acerca dos atos processuais e das con­
sequências das decisões que estão sendo tomadas, por outro lado
não é verdadeiro que os defensores ten h am que desem penhar
funções de assistentes de acusação, intervindo diretam ente na
elaboração e formalização de peças processuais (2011:140).
Ainda dentro da presente tem ática, destaca-se o art. 34, o
qual estabelece que a “instituição dos Juizados de Violência Do­
m éstica e Fam iliar contra a M ulher poderá ser acom panhada pela
im plantação [...] do serviço de assistência judiciária”.

14.3.3. Delegado de Polícia (arts. 10 a 12)


De conformidade com o art. 4Q do CPP, à polícia judiciária
com pete prom over a “apuração das infrações penais e da sua au­
toria”.172 As atribuições de cunho ju ríd ico (relativas à investigação
- art. 12) serão analisadas na parte II.
A Lei M aria da Penha atribui à autoridade policial um a espe­
cial atuação no que tange a ações protetivas e assistenciais, con­
form e se vê no elenco trazido pelos arts. 10 e 11 (v. item 8).

172 “Até então, a Polícia incum bida dessa tarefa era denom inada Polícia Judiciária. Toda­
via, a C onstituição Federal, no art. 144, § 4a, dispõe que: ‘Às polícias civis, dirigidas
por delegados de polícia de carreira, incum bem , ressalvada a com petência da União,
as funções de polícia judiciária c a apuração de infrações penais, exceto as m ilitares.’
A Polícia Civil tem , assim, po r finalidade investigar as infrações penais c ap u rar a
respectiva autoria, a fim de que o titu la r da ação penal disponha de elem entos para
ingressar em juízo. Ela desenvolve a p rim eira etapa, o prim eiro m om ento da atividade
repressiva do Estado” (TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo penal, v. 1, 32.
cd. São Paulo: Saraiva, 2010, v. 1, p. 237-238).
166 Coleção Saberes Monográficos

Percebe-se, assim, que a Lei atribui u m papel diferenciado no


tocante às atribuições da autoridade policial, o m esm o se dando em
relação ao papel do magistrado, conform e se verificará a seguir.

14.3.4. Magistrado (art. 9Q, §§ 1^ e 2o-, I, e art. 20)


No que tange ao m agistrado, seu protagonism o é manifesto.
Atua nas causas cíveis e crim inais relacionadas à ocorrência de
violência doméstica e fam iliar contra a m ulher, além de possuir
atribuições não jurídicas, de assistência à m u lh er em situação de
violência dom éstica e fam iliar, conform e se verifica do rol a se­
guir, trazido pelo art. 9Q:
a) inclusão da m ulher em situação de violência dom éstica e fa­
m iliar no cadastro de program as assistenciais do governo fe­
deral, estadual e m unicipal (§ 1Q);
b) acesso prioritário à remoção quando servidora pública (§ 2-, I);
c) m anutenção do vínculo trabalhista, quando necessário o
afastam ento do local de trabalho, por até seis m eses (§ 2Q, II);
D entro deste protagonism o, a Lei Maria da Penha concede ao
m agistrado a possibilidade de decretar, de ofício, a prisão preven­
tiva do agressor m esm o na fase de investigação (art. 20). Tal dis­
positivo é objeto de questionam ento por parte da doutrina, em
razão de lei posterior te r alterado o dispositivo do CPP que conti­
n h a a m esm a possibilidade (Lei n. 12.403/2011). Discute-se se a
reform a do CPP alcançou o dispositivo da Lei M aria da Penha ou,
por ser ela lei especial, pode tra ta r do tem a de modo diverso.
A busca da solução m ais acertada ao caso concreto exige do
julgador u m conhecim ento profundo das questões de gênero e
dos direitos da m ulher, bem com o dos instrum entos destinados
ao enfrentam ento dessa singular violência.

14.3.5. Ministério Público (arts. 25, 26 e 37)


A Lei Maria da Penha dedica todo u m capítulo ao M inistério
Público (Título II, Capítulo III - arts. 25 e 26), am pliando, bastan­
te, suas atribuições, tal qual fez em relação à autoridade policial e
ao m agistrado. Além disso, concede ao MP u m especial papel na
defesa dos interesses e direitos transindividuais previstos na Lei
Maria da Penha (art. 37).
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 167

De acordo com o art. 25, “o M inistério Público intervirá,


quando não for parte, nas causas cíveis e crim inais decorrentes da
violência doméstica e fam iliar contra a m u lh er”. No artigo se­
guinte (art. 26), a Lei Maria da Penha elenca algum as ações a se­
rem realizadas pelo M inistério Público, sem prejuízo de outras
tam bém consideradas necessárias:
a) requisitar força policial - art. 26, I: visando a proteção da
ofendida, o M inistério Público poderá requisitar força policial,
dirigindo-se diretam ente à autoridade policial, fazendo ju s à
integração operacional entre o M inistério Público e a área de
segurança pública, conform e previsto no art. 8e da Lei.
b) requisitar serviços públicos de saúde, de educação, de assistên­
cia social e de segurança, entre outros - art. 2 6 ,1: a Lei Maria
da Penha traz u m rol de direitos sociais da m u lh er em situa­
ção de violência dom éstica e fam iliar (art. 8Q). Havendo inob­
servância, o MP está autorizado a intervir, por m eio do inqué­
rito civil e da ação civil, nos term os da Lei n. 7.347/85. Essa
função é concorrente com as que podem ser realizadas por
associação de atuação na área de violência dom éstica e fam i­
liar contra a m ulher, conform e previsão contida no art. 37173
(v. item 8.5).
Rogério Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto criticam , cor­
retam ente, este inciso, pois consideram o texto “absolutam ente
incom preensível”. De acordo com os autores, a possibilidade de o
M inistério Público requisitar serviços públicos de saúde, de edu­
cação, de assistência social, de segurança entre outros, como quer
a Lei, é tarefa que lhe é estranha. “Pode até o Parquet, em tese,
ajuizar ação civil pública, a fim de com pelir o Estado, por exem ­
plo, a instalar os equipam entos sociais que a lei prevê, como ‘cen­
tro de atendim ento integral e m ultidisciplinar para m ulheres, ca-
sas-abrigos’ etc. (art. 35 da Lei). Mas jam ais ordenar ao Poder Público
que adote tais medidas, sob pena de indevida ingerência na esfera

17*3
Art. 37. A defesa dos interesses e direitos transindividuais previstos nesta Lei poderá
ser exercida, concorrcntcm cntc, pelo M inistério Público c p o r associação de atuação na
área, regularm ente constituída há pelo m enos u m ano, nos term os da legislação civil.
168 Coleção Saberes Monográficos

do Poder Executivo, capaz de subverter todo o sistem a no qual se


funda o pacto federativo. Trata-se, portanto, de dispositivo que
carece do m ínim o rigor lógico e sistem ático que se espera de um a
lei, fadado, por isso mesmo, a não gerar qualquer consequência de
ordem prática (CUNHA; PINTO, 2008:164-165).
Não obstante o alerta dos autores acima, não há dúvida de que
deve, o promotor, esgotar os meios dissuasórios possíveis (orienta­
ções, recomendação, term o de ajustam ento de conduta, audiências
públicas, parceria com instituições etc.), que poderão superar equí­
vocos, evitar a continuidade de ilegalidades ou dim in u ir danos.
Também o MP é cham ado a atuar nas situações em que “ine-
xista Assistência Judiciária ou Defensoria Pública, ou quando es­
tes órgãos se recusem a acolher a pessoa, dem orem para atendê-la
ou para tom ar as m edidas cabíveis, com o infelizm ente é a realida­
de em m uitas com arcas país afora, em razão da sua precariedade
e stru tu ra l” (LIMA, 2011: 332).
c) fiscalizar os estabelecimentos públicos e particulares de aten­
dim ento à m ulher em situação de violência doméstica e fam i­
liar: a Lei não especifica como será feita a fiscalização, tra ­
zendo, apenas, a previsão de que cabe ao M inistério Público
fiscalizar os estabelecim entos públicos e particulares de aten­
dim ento à m u lh er em situação de violência dom éstica e fam i­
liar. Tanto CUNHA e PINTO (2008: 165-166) quanto LIMA174
(2011: 334) entendem que é possível aplicar por analogia as
previsões de fiscalização presentes no Estatuto do Idoso (Lei
n. 10.741/2003) e no ECA (Lei n. 8.069/90), um a vez que a Lei
Maria da Penha, em seu art. 13, adm ite expressam ente o uso
de outras legislações com a ressalva de que não sejam confli­
tantes com o estabelecido em seu bojo.
Já os arts. 191 e seguintes do ECA tratam da fiscalização de es­
tabelecim entos voltados para crianças e adolescentes, que tam ­
bém , por analogia, podem ser aplicados à fiscalização do M inisté­
rio Público prevista na Lei M aria da Penha.

174 LIMA, Fausto Rodrigues de. Da atuação do M inistério Público - arts. 25 c 26. In:
CAMPOS, C arm en H ein de (Org.). Lei M aria da Penha com entada em um a perspectiva
jurídico-fem inista. Rio de Janeiro: Lum en Ju ris, 2011.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 169

d) adotar, de imediato, as medidas administrativas ou judiciais


cabíveis no tocante a quaisquer irregularidades constatadas
nos estabelecimentos públicos e particulares de atendimento à
m ulher em situação de violência doméstica e familiar: tendo
em vista o caráter subsidiário do Estatuto do Idoso e do ECA,
expressam ente previsto no art. 13,175 podem -se aplicar penali­
dades às entidades que não cum prem obrigações no acolhi­
m ento de m ulheres em situação de violência dom éstica e fa­
m iliar (art. 97 do ECA e art. 55 do Estatuto do Idoso). Preveem
os artigos mencionados, respectivam ente:

Estatuto da Criança e do Adolescente


Seção II
Da Fiscalização das Entidades
[...]
Art. 97. São medidas aplicáveis às entidades de atendimento que
descumprirem obrigação constante do art. 94, sem prejuízo da
responsabilidade civil e crim inal de seus dirigentes ou prepostos:
I - às entidades governamentais:
a) advertência;
b) afastamento provisório de seus dirigentes;
c) afastamento definitivo de seus dirigentes;
d) fechamento de unidade ou interdição de programa.
II - às entidades não governamentais:
a) advertência;
b) suspensão total ou parcial do repasse de verbas públicas;
c) interdição de unidades ou suspensão de programa;
d) cassação do registro.
§ 1QEm caso de reiteradas infrações cometidas por entidades de
atendimento, que coloquem em risco os direitos assegurados

175 Art. 13. Ao processo, ao julgam ento c à execução das causas cíveis e crim inais decorren­
tes da prática de violência dom éstica c fam iliar contra a m u lh er aplicar-se-ão as norm as
dos Códigos dc Processo Penal c Processo Civil c da legislação específica relativa à
criança, ao adolescente c ao idoso que não conflitarcm com o estabelecido nesta Lei.
170 Coleção Saberes Monográficos

nesta Lei, deverá ser o fato comunicado ao Ministério Público ou


representado perante autoridade judiciária competente para as
providências cabíveis, inclusive suspensão das atividades ou dis­
solução da entidade.
§ 2QAs pessoas jurídicas de direito público e as organizações não
governamentais responderão pelos danos que seus agentes causa­
rem às crianças e aos adolescentes, caracterizado o descumprimen-
to dos princípios norteadores das atividades de proteção específica.

Estatuto do Idoso
CAPÍTULO III
Da Fiscalização das Entidades de Atendimento
[...]
Art. 55. As entidades de atendimento que descumprirem as de­
terminações desta Lei ficarão sujeitas, sem prejuízo da responsa­
bilidade civil e crim inal de seus dirigentes ou prepostos, às se­
guintes penalidades, observado o devido processo legal:
I - as entidades governamentais:
a) advertência;
b) afastamento provisório de seus dirigentes;
c) afastamento definitivo de seus dirigentes;
d) fechamento de unidade ou interdição de programa;
II - as entidades não governamentais:
a) advertência;
b) multa;
c) suspensão parcial ou total do repasse de verbas públicas;
d) interdição de unidade ou suspensão de programa;
e) proibição de atendimento a idosos a bem do interesse público.
§ ls Havendo danos aos idosos abrigados ou qualquer tipo de
fraude em relação ao program a, caberá o afastam ento provi­
sório dos dirigentes ou a interdição da unidade e a suspensão
do program a.
§ 2QA suspensão parcial ou total do repasse de verbas públicas
ocorrerá quando verificada a má aplicação ou desvio de finalida­
de dos recursos.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 171

§ 3QNa ocorrência de infração por entidade de atendimento, que


coloque em risco os direitos assegurados nesta Lei, será o fato
comunicado ao Ministério Público, para as providências cabíveis,
inclusive para promover a suspensão das atividades ou dissolu­
ção da entidade, com a proibição de atendimento a idosos a bem
do interesse público, sem prejuízo das providências a serem to­
madas pela Vigilância Sanitária.
§ 4QNa aplicação das penalidades, serão consideradas a natureza
e a gravidade da infração cometida, os danos que dela provierem
para o idoso, as circunstâncias agravantes ou atenuantes e os an­
tecedentes da entidade.

O procedim ento para a apuração da irregularidade, por sua


vez, pode ser, por analogia, o previsto nos arts. 65 a 68 do Estatu­
to do Idoso:

Art. 65. O procedimento de apuração de irregularidade em enti­


dade governamental e não governamental de atendimento ao
idoso terá início mediante petição fundamentada de pessoa inte­
ressada ou iniciativa do Ministério Público.

Art. 66. Havendo motivo grave, poderá a autoridade judiciária,


ouvido o Ministério Público, decretar lim inarm ente o afastamen­
to provisório do dirigente da entidade ou outras medidas que
julgar adequadas, para evitar lesão aos direitos do idoso, median­
te decisão fundamentada.

Art. 67. O dirigente da entidade será citado para, no prazo de 10


(dez) dias, oferecer resposta escrita, podendo ju n tar documentos
e indicar as provas a produzir.

Art. 68. Apresentada a defesa, o juiz procederá na conformidade


do art. 69 ou, se necessário, designará audiência de instrução e
julgamento, deliberando sobre a necessidade de produção de ou­
tras provas.
§ 1QSalvo manifestação em audiência, as partes e o Ministério
Público terão 5 (cinco) dias para oferecer alegações finais, deci­
dindo a autoridade judiciária em igual prazo.
172 Coleção Saberes Monográficos

§ 2QEm se tratando de afastamento provisório ou definitivo de


dirigente de entidade governamental, a autoridade judiciária ofi­
ciará a autoridade administrativa imediatamente superior ao afas­
tado, fixando-lhe prazo de 24 (vinte e quatro) horas para proce­
der à substituição.
§ 3S Antes de aplicar qualquer das medidas, a autoridade judiciá­
ria poderá fixar prazo para a remoção das irregularidades verifi­
cadas. Satisfeitas as exigências, o processo será extinto, sem ju l­
gamento do mérito.
§ 4S A multa e a advertência serão impostas ao dirigente da en­
tidade ou ao responsável pelo programa de atendimento.

e) cadastrar os casos de violência doméstica e fam iliar contra a


m ulher (art. 26): a falta de estatísticas confiáveis dificulta a
im plem entação de um a política pública capaz de reverter o
quadro de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher.
Aliás, carência esta que caracteriza todas as dem ais espécies
de crim inalidade.
Além do disposto nos arts. 25 e 26, tam bém são encontradas
outras referências ao M inistério Público na Lei M aria da Penha. A
p a rtir do conjunto de dispositivos legais, podem -se vislum brar
três principais form as de atuação:
a) institucionais: decorrem da integração operacional que deve
existir entre MP e as dem ais entidades envolvidas na aplica­
ção da Lei M aria da Penha (art. 89 - v. item 14.3.5);
b) administrativas: cabe ao MP, dentre outras medidas, fiscalizar
os estabelecim entos públicos e particulares de atendim ento à
m u lh er em situação de violência dom éstica e fam iliar contra
a m ulher, realizar cadastros, levantam ento dos casos que che­
gam às Promotorias, a fim de com por as estatísticas (arts. 89,
n , 26 e 38 - v. item 14.3.5(d));
c) funcionais: intervirá nas causas cíveis e crim inais, quando
não for parte (art. 25), o que pode ocorrer de duas formas:
^ como custos legis: fiscalizará e zelará pela devida aplicação
da Lei, podendo, para tanto, requerer as providências que
entender necessárias. Pode e deve, igualm ente, interpor
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 173

os recursos judiciais cabíveis, na conformidade do art. 499


do CPC, quando em vista a regularidade do processo;
como parte: requererá m edidas protetivas individuais de
urgência em favor da m u lh er vítim a de agressão, com o
pedido da ofendida (art. 18, III, e 19, § 39, da Lei M aria da
Penha), bem com o poderá ajuizar ações civis públicas
para prom over direitos transindividuais das vítim as
(art. 37).
Ao M inistério Público é atribuída um a postura m ais ativa,
consoante sua incum bência de realizar a defesa da ordem jurídica,
do regim e dem ocrático e dos interesses sociais e individuais in ­
disponíveis (CF, art. 127). D ecorrentem ente, no que seja relativo à
violência contra a m ulher, no seu aspecto individual e ou no co­
letivo, esse últim o com evidente im pacto sociopolítico, é bem -
-vinda um a postura ativa do MP como defensor da legalidade e
fiscalizador da observância integral da Lei M aria da Penha.
A p ró p ria possibilidade de o M inistério Público re q u e re r
m edidas protetivas em favor da m u lh e r agredida (art. 19) re c o ­
m enda esse protagonism o. Assim , o M inistério Público não tem
que se q u ed ar passivo, aguardando a iniciativa da vítim a, d e­
vendo, inclusive, em casos extrem os, re q u e re r m edidas contra
a sua vontade. Aliás, esta é a preocupação p rincipal do disposi­
tivo, a possibilidade não rara de u m a m u lh e r agredida, dada a
sua vulnerabilidade, en co n trar-se im pedida de se opor aos(às)
agressores(as). A forte tradição dos valores dom ésticos, a p ró ­
pria vergonha, as consequências que recaem sobre os dem ais
m em bros da fam ília m uitas vezes faz com que haja u m a espera,
um a aposta em esperança, em in ú m ero s casos fatais. É p e rm i­
tid o e recom endado ao M inistério Público agir nessas situações,
objetivando a proteção das vítim as, pleiteando p o r m edidas
protetivas p o r elas relegadas ou até recusadas, quando houver
indícios de que sua inação leva a riscos evidentes ou sua vo n ta­
de não é livre ou espontânea.
Para m elhor desenvolver seu im portante papel, têm sido cria­
das, pelos M inistérios Públicos Estaduais e do D istrito Federal,
Prom otorias Especializadas para atuar exclusivamente ju n to aos
Juizados de Violência Doméstica e Fam iliar contra a Mulher.
174 Coleção Saberes Monográficos

Não obstante a im portância das Prom otorias Especializadas,


pesquisa realizada em 19 capitais identificou som ente 10 delas já
instaladas (cf. PASINATO, 2011: 138). Com um ente, essas Prom oto­
rias são com postas por u m prom otor de Justiça e estagiários, com
atuação em u m Juizado. Nas capitais onde não se criaram essas
instâncias especializadas, o prom otor de Justiça designado para o
Juizado acum ula esse trabalho com os de outras Varas ou Juizados
não especializados em violência dom éstica e fam iliar. Também há
casos de atuação do prom otor em m ais de um a comarca.
Na pesquisa antes mencionada, foram identificados apenas
dois Núcleos de Gênero: D istrito Federal e Salvador. Nas dem ais
capitais, as Prom otorias Especializadas acum ulam atividades, o
que leva, algum as vezes, a que as pautas de audiência restem p re­
judicadas pelo excesso de trabalho.
PARTE II

♦> TEMAS CRIMINAIS


Comentários aos arts. 10, 12 a 24 e 33 a 46

La emancipacidn de las mujeres es una exigencia de derechos,


de ju stic ia y una necesidad para el progreso y felicidad
de la humanidad.

Harriet Taylor Mill

1. Medidas protetivas de urgência (arts. 18 a 24)


Art. 18. Recebido o expediente com o pedido da ofendida, caberá
ao juiz, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas:
I - conhecer do expediente e do pedido e decidir sobre as medi­
das protetivas de urgência;
II - determ inar o encaminhamento da ofendida ao órgão de as­
sistência judiciária, quando for o caso;
III - comunicar ao Ministério Público para que adote as provi­
dências cabíveis.
Art. 19. As medidas protetivas de urgência poderão ser concedi­
das pelo juiz, a requerimento do Ministério Público ou a pedido
da ofendida.
176 Coleção Saberes Monográficos

§ 1QAs medidas protetivas de urgência poderão ser concedidas


de imediato, independentemente de audiência das partes e de
manifestação do Ministério Público, devendo este ser pronta­
mente comunicado.
§ 2QAs medidas protetivas de urgência serão aplicadas isolada ou
cumulativamente, e poderão ser substituídas a qualquer tempo
por outras de maior eficácia, sempre que os direitos reconheci­
dos nesta Lei forem ameaçados ou violados.
§ 3S Poderá o juiz, a requerimento do Ministério Público ou a
pedido da ofendida, conceder novas medidas protetivas de u r­
gência ou rever aquelas já concedidas, se entender necessário à
proteção da ofendida, de seus familiares e de seu patrimônio,
ouvido o Ministério Público.
Art. 20. Em qualquer fase do inquérito policial ou da instrução
criminal, caberá a prisão preventiva do agressor, decretada pelo
juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público ou median­
te representação da autoridade policial.
Parágrafo único. O juiz poderá revogar a prisão preventiva se,
no curso do processo, verificar a falta de motivo para que sub­
sista, bem como de novo decretá-la, se sobrevierem razões que
a justifiquem .
Art. 21. A ofendida deverá ser notificada dos atos processuais
relativos ao agressor, especialmente dos pertinentes ao ingresso
e à saída da prisão, sem prejuízo da intimação do advogado cons­
tituído ou do defensor público.
Parágrafo único. A ofendida não poderá entregar intimação ou
notificação ao agressor.

Seção II
Das Medidas Protetivas de Urgência que Obrigam o Agressor
Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar
contra a mulher, nos termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de
imediato, ao agressor, em conjunto ou separadamente, as seguin­
tes medidas protetivas de urgência, entre outras:
I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com co­
municação ao órgão competente, nos term os da Lei n. 10.826, de
22 de dezembro de 2003;
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 177

II - afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a


ofendida;
III - proibição de determinadas condutas, entre as quais:
a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas,
fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor;
b) contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por
qualquer meio de comunicação;
c) frequentação de determinados lugares a fim de preservar a
integridade física e psicológica da ofendida;
IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes m eno­
res, ouvida a equipe de atendimento m ultidisciplinar ou serviço
similar;
V - prestação de alimentos provisionais ou provisórios.
§ 1QAs medidas referidas neste artigo não impedem a aplicação
de outras previstas na legislação em vigor, sempre que a segu­
rança da ofendida ou as circunstâncias o exigirem, devendo a
providência ser comunicada ao Ministério Público.
§ 2Q Na hipótese de aplicação do inciso I, encontrando-se o
agressor nas condições mencionadas no caput e incisos do art.
6Qda Lei n. 10.826, de 22 de dezembro de 2003, o juiz com uni­
cará ao respectivo órgão, corporação ou instituição as medidas
protetivas de urgência concedidas e determ inará a restrição do
porte de armas, ficando o superior imediato do agressor res­
ponsável pelo cum prim ento da determinação judicial, sob pena
de incorrer nos crimes de prevaricação ou de desobediência,
conforme o caso.
§ 3QPara garantir a efetividade das medidas protetivas de urgên­
cia, poderá o juiz requisitar, a qualquer momento, auxílio da
força policial.
§ 4QAplica-se às hipóteses previstas neste artigo, no que couber,
o disposto no caput e nos §§ 5Qe 6Qdo art. 461 da Lei n. 5.869, de
11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil).

Seção III
Das Medidas Protetivas de Urgência à Ofendida
Art. 23. Poderá o juiz, quando necessário, sem prejuízo de ou­
tras medidas:
178 Coleção Saberes Monográficos

I - encam inhar a ofendida e seus dependentes a programa ofi­


cial ou comunitário de proteção ou de atendimento;
II - determ inar a recondução da ofendida e a de seus dependen­
tes ao respectivo domicílio, após afastamento do agressor;
III - determ inar o afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo
dos direitos relativos a bens, guarda dos filhos e alimentos;
IV - determ inar a separação de corpos.
Art. 24. Para a proteção patrim onial dos bens da sociedade
conjugal ou daqueles de propriedade particular da m ulher, o
juiz poderá determ inar, lim inarm ente, as seguintes medidas,
entre outras:
I - restituição de bens indevidamente subtraídos pelo agressor à
ofendida;
II - proibição temporária para a celebração de atos e contratos de
compra, venda e locação de propriedade em comum, salvo ex­
pressa autorização judicial;
III - suspensão das procurações conferidas pela ofendida ao
agressor;
IV - prestação de caução provisória, mediante depósito judicial,
por perdas e danos materiais decorrentes da prática de violência
doméstica e familiar contra a ofendida.
Parágrafo único. Deverá o juiz oficiar ao cartório competente
para os fins previstos nos incisos II e III deste artigo.

As medidas protetivas de urgência constituem a principal ino­


vação da Lei Maria da Penha ao lado da criação dos Juizados de
Violência Doméstica e Fam iliar contra a Mulher. Até então, o juiz,
nesses casos, encontrava-se m uito lim itado nas suas ações volta­
das à proteção da m ulher, sendo a m aioria das causas de com pe­
tência dos Juizados Especiais C rim inais, assunto que será tratado
nos itens 5.3 e 5.4.
Voltando para as m edidas protetivas, dada a sua im portância
e pelo fato de que vários dos dispositivos que analisarem os na
sequência a elas fazem referência, optou-se por com eçar esta p ar­
te II tratando das questões a elas pertinentes.
As m edidas protetivas p erm itiram não só alargar o espectro
de proteção da m ulher, aum entando o sistem a de prevenção e
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 179

combate à violência, com o tam bém dar ao m agistrado um a m a r­


gem de atuação para que possa decidir por um a ou outra medida
protetiva, de acordo com a necessidade exigida pela situação. Aliás,
é dado ao m agistrado utilizar-se de dispositivos de várias áreas do
direito, já que a Lei contem pla (na parte que trata das medidas
protetivas de urgência) instrum entos de caráter civil, trabalhista,
previdenciário, adm inistrativo, penal e processual. É por isso que
se diz que a Lei Maria da Penha é heterotópica, ou seja, prevê em
seu bojo dispositivos de diversas naturezas jurídicas.
Principais características das m edidas protetivas de urgência:
^ caráter prim ordial de urgência, sendo que o ju iz deverá deci­
d ir sobre o pedido de m edidas protetivas no prazo de 48 h o ­
ras - art. 18;
podem ser concedidas pelo juiz, a requerim ento do M inisté­
rio Público ou a pedido da ofendida - art. 19;
^ podem ser decretadas de ofício pelo ju iz (art. 20);
não há necessidade de audiência das partes, nem de m anifes­
tação prévia do M inistério Público, para a concessão da m edi­
da - art. 19, § 1Q;
podem ser aplicadas isolada ou cum ulativam ente - art. 19,
§ 2 9;
a substituição de um a m edida protetiva por outra (mais ou
m enos drástica) pode se dar a qualquer tem po, desde que ga­
rantida a sua eficácia - art. 19, § 22;
dividem -se em duas espécies: (a) as que obrigam o agressor
- art. 22 e (b) aquelas dirigidas à proteção da vítim a e seus
dependentes - arts. 23 e 24.
Dados do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro m ostram que,
de m arço de 2010 a m arço de 2011, 14.638 m edidas protetivas de
urgência foram deferidas e 12.697 foram indeferidas.176 Tais dados,
como bem ressaltam Rosane M. Reis Lavinge e Cecília Perlingei-
ro, “inform am um a realidade generalizada quando observados os

176 Fonte: DGJUR/DEIGE/DICOL apud LAVIGNE; PERLINGEIRO, 2011: 293.


180 Coleção Saberes Monográficos

dados com pilados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) relati­


vos à m atéria em nível nacional” (2011: 293).177

1.1. Espécies de medidas protetivas de urgência


Na elaboração do rol das m edidas protetivas que obrigam o
agressor, foi levado em consideração “o conhecim ento das atitu­
des com um ente em pregadas pelo autor da violência dom éstica e
fam iliar que paralisam a vítim a ou dificultam em dem asia a sua
atuação diante do cenário que se apresenta nesta form a de violên­
cia” (BELLOQUE, 2011: 308).
Elas podem ser assim classificadas:
a) m edidas que obrigam o agressor;
b) m edidas dirigidas à vítim a, de caráter pessoal;
c) m edidas dirigidas à vítim a, de caráter patrim onial;
d) m edidas dirigidas à vítim a nas relações de trabalho.

1.1.1. Medidas protetivas de urgência que obrigam o agressor


a) Afastamento do lar
Tal m edida já era largam ente aplicada pelos juízos da fam í­
lia quando de divórcio e separação judicial, ou dissolução de
união estável (CC, art. 1.562, e CPC, art. 888, VI). Ela era acom ­
panhada, en tretan to , de audiência de conciliação prévia à ado­
ção de tais m edidas.
O afastam ento do agressor do lar visa preservar a saúde física
e psicológica da m ulher, dim inuindo o risco im inente de agressão
(física e psicológica), já que o agressor não m ais estará dentro da
própria casa em que reside a vítima. O patrim ônio da ofendida
tam bém é preservado, um a vez que os objetos do lar não poderão
ser subtraídos ou destruídos. É bastante com um a destruição, por
parte do agressor, dos pertences da m ulher, inclusive de seus do­
cum entos pessoais, como form a de tolher sua liberdade, provocar-
-lhe baixa estim a e dim in u ir sua autodeterm inação, no intento de
que ela desista do prosseguim ento da persecução crim inal (BELLO-
QUE, 2011: 311).

177 Relatório anual CNJ, 2010, disponível cm : http://w w w .cnj.jus.br/im agcs/relatorios-


-anuais/cnj/rclatorio_anual_cnj_2010.pdf, p. 116.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 181

O afastam ento do lar para os casos de violência dom éstica foi


instituído pela Lei n. 10.455/2002, que deu nova redação ao art.
69, parágrafo único, da Lei n. 9.099/95 (Juizados Especiais):

Lei n. 9.099/95
Art. 69. Parágrafo único. Ao autor do fato que, após a lavratura
do termo, for imediatamente encaminhado ao juizado ou assu­
m ir o compromisso de a ele comparecer, não se imporá prisão
em flagrante, nem se exigirá fiança. Em caso de violência do­
méstica, o juiz poderá determinar, como medida de cautela, seu
afastamento do lar, domicílio ou local de convivência da vítima.

Se é verdade que o afastam ento preventivo do agressor já vi­


nha sendo aplicado por alguns juizes, com base no poder geral de
cautela e na própria Lei n. 9.099/95,178 o que se tem agora é um
em basam ento legal expresso, im possibilitando que (como ocorria
amiúde) elaborem discussões sobre a legitimidade dessa medida.
A retirada do agressor do interior do lar, ou a proibição de
que lá adentre, além de auxiliar no combate e na prevenção da
violência doméstica, pode e n cu rtar as distâncias entre vítim a e
Justiça. O risco de que a agressão seja potencializada após a de­
núncia d im inui quando se providencia para que o agressor deixe
a residência em com um ou fique sem acesso franqueado a ela. Por
sobre isso, evita o contato im ediato após a violência, propiciando
m enor hum ilhação e m aior tranquilidade ao lar, o que repercute,
inclusive, em relação aos filhos e dem ais fam iliares.
De acordo com dados colhidos pela Central de A tendim ento à
M ulher - Ligue 180, das pessoas que entraram em contato com o
serviço no prim eiro sem estre de 2010, 72,1% relataram que vi­
viam ju n to com o agressor. Cerca de 39,6% declararam que so­
friam violência dom éstica desde o início da relação; 38%, que vi­
viam com o agressor há m ais de dez anos.179

178 Tal m edida encontrava-se prevista cm u m dos enunciados (o de n ú m ero 30) ela­
borados pelos M agistrados Brasileiros C oordenadores de Juizados Especiais, o qual
determ inava que: “Havendo situação de perigo para a vítima mulher ou criança, poderá oju iz
do juizado especial criminal determinar o afastamento do agressor, com base nos arts. 69 ou 89,
II da Lei n. 9.099/95 ”.
179 Disponível em: http://atualidadcsdodireito.com .br/aliccbianchini/2011/ll/29/violcncia-
dom cstica-c-rom pim cnto-dc-vinculo-afctivo-scrie-novcla-fina-estam pa/. Acesso cm:
3-8-2012.
182 Coleção Saberes Monográficos

Por te r caráter de urgência e por depender de determ inação


judicial, enquanto não forem instalados e equipados plantões nos
Juizados Especiais, a eficácia da m edida não alcançará todo o seu
potencial.
Aliás, u m instru m en to para g aran tir ou pelo m enos dar mais
eficácia a tal m edida seria o m onitoram ento eletrônico, conform e
se exporá no item 1.3.1.

b) Proibição de aproximação
O art. 22, inciso III, alínea a, possibilita ao juiz proibir que o
agressor se aproxime da ofendida, seus familiares e de testem unhas,
podendo até mesmo fixar limite m ínim o de distância a manter. A
finalidade do legislador ao prever esta medida foi de preservar a
incolumidade física e psíquica da m ulher em situação de violência.
Esta m edida protetiva ganhou notoriedade e divulgação nos
meios de com unicação ao ser utilizada em conflito dom éstico
ocorrido entre os atores Dado Dollabela e Luana Piovani: em 2011,
Dado foi condenado por te r agredido em 2008 a então nam orada
Luana Piovani, quando o juiz determ inou que o ator m antivesse
distância m ínim a de 250 m etros dela. O caso continua a te r re ­
percussão midiática, pois ainda gera situações polêmicas, como a
noticiada pela revista Isto É, segundo a qual a atriz solicitou um a
viatura da polícia m ilitar para retirar Dado de um a pizzaria p ró ­
xim a ao restaurante onde ela pretendia jantar, suscitando a dis­
cussão sobre os lim ites da m edida protetiva.180

c) Proibição de contato
Atinge qualquer meio de com unicação, seja pessoal, direto,
telefônico, m ensagens eletrônicas, m ensagens de bate-papo etc.
No m esm o sentido da m edida de proibição de aproximação, a
proibição de contato visa resguardar especialm ente a integridade
psíquica da m ulher em situação de violência. O propósito é “evitar
que o agressor persiga a vítim a, seus fam iliares e as testem unhas
da causa penal, situação que evidentem ente prejudica a colheita da

180 Disponível cm : http://ww w.istoc.com .br/rcportagcns/127029_250+M ETROS+DE+


POLEMICA. Acesso cm: 3-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 183

prova na causa penal e gera grave risco às pessoas que dela p a rti­
cipam ou que têm relação fam iliar com a ofendida” (BELLOQUE,
2011: 312).

d) Proibição de frequentar determinados lugares


Tal proibição encontra-se principalm ente dirigida aos locais
de frequência com um da m u lh er e de seus fam iliares, evitando-se
constrangim entos, intim idações, escândalos, hum ilhações públi­
cas etc.
Juliana Garcia Belloque observa que “a Lei M aria da Penha
buscou proteger os espaços públicos nos quais a m u lh er vítim a de
violência desenvolve sua individualidade” (BELLOQUE, 2011: 312),
m as ressalta que na hipótese de proibição de frequência a locais
onde tam bém frequentem os filhos ou outros m em bros da fam í­
lia, aplicando-se restrição ou suspensão do direito de visitas p re­
vista no inciso IV do m esm o artigo, a equipe m ultidisciplinar de­
verá se m anifestar a respeito (BELLOQUE, 2011: 313), como será
abordado no tópico a seguir.

e) Restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ou­


vida a equipe de atendimento multidisciplinar ou serviço similar
Quando tal m edida é deferida, norm alm ente ela vem acompa­
nhada da proibição de frequentar espaços de convivência dos filhos.
Apesar de o artigo m encionar que a equipe de atendim ento
deve ser ouvida, o parecer técnico, nos casos em que há risco à
integridade da m u lh er ou de seus filhos, não precisa anteceder a
adoção da medida. Além disso, m esm o que o parecer ten h a sido
realizado, o juiz a ele não fica vinculado.
Em situações m uito especiais, o ju iz pode d eterm in ar que as
visitas ocorram de form a supervisionada por especialistas e/ou
em am bientes terapêuticos, de form a a preservar a integridade da
vítim a sem afetar a convivência do agressor com os filhos (BERE­
NICE DIAS, 2007: 86).

f) Prestação de alim entos provisionais ou provisórios


A prestação de alim entos provisionais ou provisórios deve se­
g u ir as determ inações do Código Civil (arts. 1.694 e ss.), obser-
184 Coleção Saberes Monográficos

vando-se o binôm io possibilidade do alim entante/necessidade do


alim entado, bem com o a dem onstração de relação de parentesco e
da relação de dependência econômica.

g) suspensão da posse ou restrição do porte de armas


A suspensão ou a restrição deve v ir acom panhada da com u­
nicação ao órgão com petente, nos term os da Lei n. 10.826/2003.
Na hipótese de aplicação da suspensão da posse ou restrição
do porte de arm as, encontrando-se o agressor nas condições m en­
cionadas no caput e incisos do art. 6Qda Lei n. 10.826/2003 (porte
legal de arma), determ ina a Lei Maria da Penha que o ju iz com u­
nique ao respectivo órgão, corporação ou instituição as medidas
protetivas de urgência concedidas, bem como determ ine a restri­
ção do porte de arm as, ficando o superior im ediato do agressor
responsável pelo cum prim ento da determ inação judicial, sob pena
de incorrer nos crim es de prevaricação ou de desobediência, con­
form e o caso (art. 22, § 2 Q, da Lei Maria da Penha).
Tais m edidas são de sum a im portância no sentido de evitar a
prática de um a violência ou a sua reiteração.
Conform e “Mapa de Violência 2013: m ortes m atadas por ar­
m as de fogo”, no ano de 2013 o M inistério da Justiça divulgou
um a série de pesquisas na coleção Pensando a Segurança Pública.
N um a delas são analisados Boletins de O corrência e Inquéritos
Policiais referentes a hom icídios dolosos de três cidades brasilei­
ras: Belém-PA e Maceió-AL, do prim eiro sem estre de 2010, e Gua-
rulhos-SP, de todo o ano de 2010. Concluíram que nas três cidades
u m a parte substancial deve-se a vinganças pessoais, violência do­
méstica, motivos banais. Também verificaram u m alto percentual
de crim es praticados com arm as de fogo em situações cotidianas
(brigas entre vizinhos, violência dom éstica etc.).181

1.1.2. Aplicação dos institutos da tutela inibitória (art. 22, § 4°-)


Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar
contra a mulher, nos termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de

181 Para ver a pesquisa com pleta, consultar: http://w w w .m apadaviolcncia.org.br/pdf


2013/M apaViolcncia2013_armas.pdf.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 185

imediato, ao agressor, em conjunto ou separadamente, as seguin­


tes medidas protetivas de urgência, entre outras:
[...]
§ 4S Aplica-se às hipóteses previstas neste artigo, no que couber,
o disposto no caput e nos §§ 5Qe 6Qdo art. 461 da Lei n. 5.869, de
11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil).

Código de Processo Civil


Art. 461. Na ação que tenha por objeto o cum prim ento de
obrigação de fazer ou não fazer, o juiz concederá a tutela espe­
cífica da obrigação ou, se procedente o pedido, determ inará
providências que assegurem o resultado prático equivalente
ao do adimplemento.
[...]
§ 5S Para a efetivação da tutela específica ou a obtenção do resul­
tado prático equivalente, poderá o juiz, de ofício ou a requeri­
mento, determ inar as medidas necessárias, tais como a imposi­
ção de multa por tempo de atraso, busca e apreensão, remoção de
pessoas e coisas, desfazimento de obras e impedimento de ativi­
dade nociva, se necessário com requisição de força policial.
§ 6QO juiz poderá, de ofício, modificar o valor ou a periodicidade
da multa, caso verifique que se tornou insuficiente ou excessiva.

O § 5Õ do art. 461 do CPC prevê as seguintes m edidas que


podem ser determ inadas pelo juiz, de ofício, ou a requerim ento:
imposição de m ulta por tem po de atraso;
busca e apreensão;
^ rem oção de pessoas e coisas;
desfazim ento de obras;
^ im pedim ento de atividade nociva, se necessário com requisi­
ção de força policial.
Todas as ações são im portantes para u m a m aior proteção à
m ulher em situação de violência dom éstica e familiar.

1.1.3. Medidas protetivas dirigidas à mulher


D entre as m edidas protetivas dirigidas à m ulher, nenhum a
delas possui natureza crim inal, podendo ser cum uladas, ou não,
186 Coleção Saberes Monográficos

com outras, a depender da complexidade e das peculiaridades do


caso concreto.
São m edidas protetivas dirigidas à proteção física e psicológi­
ca da ofendida, dentre outras:

a) Encaminhamento a programa de proteção ou de atendimento


É m edida de natureza cível, podendo ser requerido pela vítim a
por ocasião do registro de ocorrência, ou determ inada pelo juiz de
ofício, ou em razão de pedido do MP ou da Defensoria Pública.

b) Recondução ao dom icílio, após afastamento do agressor


Ela pode ser requerida diretam ente na esfera cível, por meio
da propositura de m edida cautelar de afastam ento tem porário de
u m dos cônjuges da m orada do casal (CPC, art. 888, VI), bem como
diretam ente no m om ento do registro de ocorrência ju n to à auto­
ridade policial, devendo o expediente ser direcionado pela Delega­
cia de Polícia à Vara Crim inal, no prazo de 48 horas (art. 12, III).

c) Afastamento da ofendida do lar


Tal m edida pode ser requerida diretam ente na esfera cível,
por m eio da propositura de m edida cautelar de afastam ento tem ­
porário, bem com o quando do contato da vítim a com a autorida­
de policial.

d) Separação de corpos
O Código Civil disciplina o tem a em seu art. 1.562:

Código Civil
Art. 1.562. Antes de mover a ação de nulidade do casamento, a de
anulação, a de separação judicial, a de divórcio direto ou a de
dissolução de união estável, poderá requerer a parte, compro­
vando sua necessidade, a separação de corpos, que será concedi­
da pelo juiz com a possível brevidade.

Tal medida protetiva, entretanto, pode ser requerida pela m u­


lher já no m om ento de seu contato com a autoridade policial, quan­
do da formalização da ocorrência, com vistas à celeridade do ato.
C onform e adverte W ilson Lavorenti, “a busca de efeitos ci­
vis, específicos deve ser pleiteada, p o r m eio da ação p rópria -
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 187

separação judicial, nulidade do casam ento, dissolução da socie­


dade de fato etc. - ju n to à vara de fam ília. O m agistrado do
JVDF som ente pode conceder separação de corpos quando os
fatos disserem respeito exclusivam ente à violência respectiva e
não a outras questões de natureza civil, sob pena de se esvaziar
a com petência da VF e se d istan ciar do objeto da lei em com en­
to ” (2009: 321).
Q uatro são as m edidas protetivas dirigidas à proteção patri­
m onial dos bens da sociedade conjugal ou daqueles de proprieda­
de particular da m ulher, porém o rol não é taxativo. Para a decre­
tação de qualquer um a delas, exige-se fundado receio de extravio
ou de dissipação de bens. São elas:

I) Restituição de bens
Recai sobre bens móveis que tenham sido indevidam ente sub­
traídos da vítim a pelo agressor ou estejam na im inência de sê-los.

II) Proibição temporária para a celebração de atos e contratos de


compra, venda e locação de propriedade em comum
Incide sobre bens móveis pertencentes ao patrim ônio com um
e possui caráter tem porário, o que significa que poderá ser revis­
ta pelo ju iz a qualquer tem po.
Deferida a medida, deverá o ju iz oficiar ao cartório com pe­
tente para a devida averbação (art. 24, parágrafo único).

III) Suspensão de procuração


A Lei Maria da Penha fala em suspensão da procuração, e não
em revogação. Este últim o caso deve ser buscado em ação própria
ju n to à vara cível.
Há, aqui, um a inovação legislativa, já que o Código Civil (art.
682) não prevê como causa de cessação do m andato determ inação
judicial. As hipóteses lá estabelecidas são (HEERDT, 2011: 323):
revogação ou renúncia;
^ m orte ou interdição de um a das partes;
m udança de estado que inabilite o m andante a conferir pode­
res, ou o m andatário para seu exercício; e
^ térm in o do prazo ou pela conclusão do negócio.
188 Coleção Saberes Monográficos

Havendo deferim ento da m edida, o ju iz oficiará ao cartório


com petente a devida averbação (art. 24, parágrafo único).

IV) Prestação de caução provisória, mediante depósito judicial, por


perdas e danos materiais decorrentes da prática de violência
doméstica e fam iliar contra a ofendida
Condutas físicas, como tam bém m orais e psicológicas, encon-
tram -se abrangidas pelo dispositivo.
Leda Maria H erm ann inclui nas perdas ou danos m ateriais
inclusive os lucros cessantes (apud HEERDT, 2011: 323).
Tal m edida visa acautelar a m ulher, futuram ente, garantindo
a satisfação de direito que venha a ser reconhecido em posterior
dem anda judicial.

1.2. Outras medidas protetivas que podem ser aplicadas à mulher em si­
tuação de violência doméstica e familiar
Como a própria Lei Maria da Penha prevê (art. 13),182 podem -
-se utilizar subsidiariam ente as regras do Estatuto do Idoso e do
Estatuto da Criança e do Adolescente. Em relação ao prim eiro, há
previsão das seguintes m edidas no art. 45, in verbis:

Art. 45. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 43, o


Ministério Público ou o Poder Judiciário, a requerimento daque­
le, poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas:
I - encaminhamento à família ou curador, mediante term o de
responsabilidade;
II - orientação, apoio e acompanhamento temporários;
III - requisição para tratamento de sua saúde, em regime ambu-
latorial, hospitalar ou domiciliar;
IV - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio,
orientação e tratamento a usuários dependentes de drogas lícitas

182 A rt. 13. Ao processo, ao ju lg am en to c à execução das causas cíveis c crim in ais de­
correntes da prática de violência dom éstica c fam iliar co n tra a m u lh e r aplicar-sc-ão
as norm as dos Códigos de Processo Penal c Processo Civil c da legislação específica
relativa à criança, ao adolescente e ao idoso que não co n flitarcm com o estabelecido
nesta Lei.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 189

ou ilícitas, ao próprio idoso ou à pessoa de sua convivência que


lhe cause perturbação;
V - abrigo em entidade;
VI - abrigo temporário.

0 ECA, por sua vez, traz o seguinte rol de medidas, em seu


art. 101:

Art. 101. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 98, a


autoridade competente poderá determinar, dentre outras, as se­
guintes medidas:
1 - encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo
de responsabilidade;
II - orientação, apoio e acompanhamento temporários;
III - matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento ofi­
cial de ensino fundamental;
IV - inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à
família, à criança e ao adolescente;
V - requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátri­
co, em regime hospitalar ou ambulatorial;
VI - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio,
orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos;
VII - acolhimento institucional;
VIII - inclusão em programa de acolhimento familiar;
IX - colocação em família substituta.

Além das m edidas elencadas na Lei Maria da Penha e das en­


contradas no EI e no ECA, outras, ainda, podem ser aplicadas pelo
juiz, inclusive as previstas na Lei n. 12.403/2011 (prisão e outras
m edidas cautelares), por exemplo o m onitoram ento eletrônico
(ver item 1.3.1).
As onze m edidas cautelares previstas na nova Lei podem ser
aplicadas aos casos de violência dom éstica e fam iliar contra a m u ­
lher, desde que necessárias, adequadas e proporcionais (proporcio­
nalidade em sentido estrito), inclusive, podendo ser aplicadas, em
conjunto, com m edidas protetivas de urgência estabelecidas na
Lei Maria da Penha.
190 Coleção Saberes Monográficos

1.3. Medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha e


medidas cautelares previstas no CPP
A Lei n. 12.403/2011 trouxe u m elenco bastante alargado de
m edidas cautelares (CPP, art. 319).
Todas elas podem ser aplicadas, desde que necessárias, ade­
quadas e proporcionais aos casos de violência dom éstica e fam i­
liar contra a m ulher. O destaque principal fica por conta do m o­
nitoram ento eletrônico (CPP, art. 319, IX), por se tratar de m edida
com significativa eficácia, conform e se discorrerá a seguir.

1.3.1 Monitoramento eletrônico aplicado a casos de violência doméstica


A Lei M aria da Penha prevê a aplicação, pelo juiz, de medidas
protetivas de urgência que obriguem o agressor, um a vez consta­
tada a prática de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher.
D entre elas estão aquelas que preveem o afastam ento físico entre
agressor, vítim a e testem unhas (art. 22, II e III). O investim ento
do legislador em m edidas protetivas desse tipo foi acertado, pois
adem ais de estim ular que o fato chegue ao conhecim ento das au­
toridades policiais, dada a previsão de proteção àqueles que tom a­
ram a iniciativa de com unicar o fato (vítima, testem unhas, pa­
rentes ou vizinhos), reduz as chances de que a vítim a continue
vivenciando a violência.
Uma questão de ordem prática, no entanto, m erece ser desta­
cada: de que m aneira fiscalizar o cum prim ento de tais m edidas,183
ou seja, como conferir se o agressor está cum prindo com a exi­
gência de m anter o lim ite m ínim o de distância da vítim a, ou dei­
xando de frequentar lugares estipulados pelo juiz? Não há, na
legislação brasileira, previsão legal para o m onitoram ento das m e­
didas de afastam ento. A lguns autores184 consideram a utilização de

183 Dc acordo com H crm ann, é com um a desobediência das m edidas ju d iciais de re s­
trição por p arte do agressor, bem com o o rccru d cscim cn to da vítim a, quando não
corretam ente atendida c orientada p o r profissionais com o psicólogos c assistentes
sociais (HERMANN, 2012:172).
184 Ver CUNHA; PINTO (2011:127-128); e ALMEIDA FILHO, José Carlos dc Araújo. Dife­
renças do m onitoram ento eletrônico cm Portugal. D isponível cm : http://w w w .con-
ju r.com .br/2012-fcv-08/funcion a-m o n ito ram cn to -clctro n ico -p o rtu g al-aq u i-p erd as-
ganhos. Acesso cm: 14-6-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 191

m onitoração eletrônica - prevista na legislação pátria185 como m e­


dida cautelar, de descarcerização e/ou de controle de condenados
- possibilidade viável para a fiscalização e garantia da decisão j u ­
dicial de afastam ento prevista na Lei Maria da Penha.
A utilização desta tecnologia, de acordo com Diane Rosenfeld,
advogada estadunidense que defende seu uso para casos de vio­
lência contra a m ulher, é form a eficaz de atentar aos sinais de
perigo que podem levar a novos episódios de violência, bem como
meio de responsabilizar o agressor, e não a vítim a, pelo afasta­
m ento.186 Além disso, seria positivo o seu uso, pois reforçaria a
necessidade de obediência à m edida por parte do agressor, evitan­
do sua prisão preventiva em caso de descum prim ento da im posi­
ção judicial (art. 20), ou m esm o que seja acusado de crim e de de­
sobediência (CP, art. 330).
Visando garantir a efetivação das medidas de afastam ento em
casos de violência doméstica, alguns países adotaram o m onitora­
m ento eletrônico. Por exemplo, nos Estados Unidos, 17 Estados o
preveem .187Também em Portugal há sua previsão, desde 2009, com
o devido consentim ento do agressor, como m edida específica de
afastam ento do acusado ou condenado em contexto de violência
doméstica.188 Vale ressaltar que, neste País, a vítim a tam bém pode-

185 São cias, a Lei n. 12.258/2010 - que adiciona à Lei de Execução Penal a possibilidade
de utilização de equipam ento de vigilância in d ireta pelo condenado em prisão d o m i­
ciliar ou nos casos de saída tem p o rária daqueles c u m p rin d o pena no regim e sem ia­
berto - e a Lei n. 12.403/2011, tam bém cham ada de Lei das Cautelares, que perm ite
a m onitoração eletrônica com o m edida cautelar alternativa à prisão provisória.
155 PÉCORA, Luísa. Com bate à violência co n tra a m u lh er: urgência m u n d ial - E ntrevis­
ta com Diane Rosenfeld. Revista Getúlio, ju L 2010. D isponível em : http://bibliotecadi-
gital.fgv.br/dspace/bitstream /handle/10438/7056/E d.% 2022% 20-% 20E ntrevista% 20
Diane% 20Rosenfcld%20-%20(Site).pdf?sequcnce=l. Acesso em : 12-6-2012.
187 D isponível em : http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream /handle/10438/7056/
Ed.%2022%20-%20Entrevista%20Diane%20Rosenfeld%20-%20(Site).pdf?sequence=l.
Acesso em: 12-6-2012.
1M Lei n. 112/2009, que estabelece regim e ju ríd ico aplicável à prevenção de violência
dom éstica (disponível em: http://www.sei.gov.pt/NR/rdonlyres/8ED52872-9417-48B2-
B839-0EDDC87A5D4F/0/Leill2_2009Viol%C3%AAnciaDomestica.pdf, acesso em:
12-6-2012) e Lei n. 33/2010, que regula o uso de m onitoram ento à distância (dispo­
nível em: http://dre.pt/pdflsdip/2010/09/17100/0385103856.pdf, acesso em: 12-6-2012).
Sobre o m onitoram ento eletrônico em Portugal, vale verificar: ALMEIDA FILHO,
José Carlos de Araújo. Diferenças do m onitoram ento eletrônico em Portugal. Disponí-
192 Coleção Saberes Monográficos

rá se sujeitar ao m onitoram ento, para prevenir encontros indeseja-


dos e perigosos, sendo igualm ente necessário o seu consentim ento.

1.4. Cumulação de medidas e possibilidade de substituição e capacidade


postulatória (art. 19, § 2?)
Art. 19. [...]
§ 2o As medidas protetivas de urgência serão aplicadas isolada ou
cumulativamente, e poderão ser substituídas a qualquer tempo
por outras de maior eficácia, sempre que os direitos reconheci­
dos nesta Lei forem ameaçados ou violados.

Para se atingir a integralidade de proteção, as medidas protetivas


que obrigam o agressor podem ser cumuladas com as dirigidas à
vítima, bem como com outras previstas em ordenam ento diverso (v.
itens 1.2 e 1.3). Elas tam bém podem ser substituídas, a qualquer tem ­
po, por outras, desde que de maior eficácia. Tildo depende da neces­
sidade, da adequação e da proporcionalidade em sentido estrito.
Deve-se te r em conta, quanto à aplicação das m edidas prote­
tivas, sua finalidade precípua, que é a de fazer cessar im ediata­
m ente a situação de violência e im pedir que se repita. E não há
que se falar em qualquer restrição à cum ulação de m edidas por­
que as previsões constantes em outros textos legislativos cuidam
igualm ente de situações de vulnerabilidade que, se sobrepostas
em determ inado caso concreto, ensejarão a utilização conjunta e
articulada dos dispositivos legais em comento.
A Lei Maria da Penha concede capacidade postulatória aos
dem ais atores envolvidos na judicialização do conflito doméstico:
o art. 19 prevê expressam ente que o delegado de polícia e o m em ­
bro do M inistério Público têm legitim idade para requerer as m e­
didas protetivas, bem com o poderá haver decretação de ofício
pelo ju iz (art. 20).
A previsão tem por finalidade assegurar que as m edidas pro­
tetivas poderão ser aplicadas, m esm o quando a ofendida não as

vcl cm : http://w w w .conjur.com .br/2012-fev-08/funciona-m onitoram ento-cletronico-


p o rtu g al-aq u i-p crd as ganhos. Acesso cm : 14-6-2012; c CUNHA; PINTO, 2011, p.
127-128.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 193

requerer, em bora necessite delas com urgência. À guisa de exem ­


plo, im agine-se um a m u lh er em situação de violência m antida em
cárcere privado por seu com panheiro e, portanto, impossibilitada
de pedir socorro: as legitimidades e capacidades postulatórias, bem
como a previsão de decretação de ofício de medidas, constantes do
art. 19 da Lei Maria da Penha, abrem a possibilidade de terceira
pessoa in terv ir e com unicar à autoridade responsável pela aplica­
ção das medidas protetivas de urgência.

7.5. A quem se dirigem as medidas protetivas de urgência? (art. 23)


Art. 23. Poderá o juiz, quando necessário, sem prejuízo de outras
medidas:
I - encam inhar a ofendida e seus dependentes a programa ofi­
cial ou comunitário de proteção ou de atendimento;
II - determ inar a recondução da ofendida e a de seus dependen­
tes ao respectivo domicílio, após afastamento do agressor,
III - determ inar o afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo
dos direitos relativos a bens, guarda dos filhos e alimentos;
[...)

Muito em bora a m u lh er em situação de violência dom éstica e


fam iliar seja a prim eira destinatária das m edidas protetivas, vá­
rias delas dirigem -se, tam bém , aos familiares.
O art. 23 prevê que, além da ofendida, seus dependentes tam ­
bém podem ser encam inhados a program a oficial ou com unitário
de proteção ou de atendim ento, assim como reconduzidos com ela
ao domicílio após o afastam ento do agressor. O m esm o dispositivo
assegura ainda que, se for determ inado o afastam ento da ofendida
do lar, não serão prejudicados seus direitos relativos à guarda dos
filhos, bens e alimentos.

1.6. Procedimento das medidas protetivas de urgência (art. 18)


Após o recebim ento do expediente da m edida protetiva, o juiz
decide de imediato, ressaltando-se que a Lei concede para tanto
prazo m áxim o e im prorrogável de 48 horas (art. 18). Posterior­
m ente, a ofendida é encam inhada à assistência jurídica. O § 1®do
194 Coleção Saberes Monográficos

art. 18 autoriza a concessão im ediata das medidas, independente­


m ente de oitiva do MP, que nesse caso tom a conhecim ento dos
fatos depois da decisão judicial.
Tal modificação procedim ental, apesar de ofender o princípio
da im parcialidade, é justificada sem pre que se esteja diante de
situação de urgência. Como bem ressaltam Rosane M. Reis Lavig-
ne e Cecília Perlingeiro, M a excepcionalidade à regra processual
com um se justifica pelos princípios da devida diligência do Esta­
do e da am pla proteção da m u lh er” (2011: 298).

7.7. Natureza jurídica das medidas protetivas de urgência


De acordo com Fausto Rodrigues de Lima (2011: 329), as m e­
didas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha:
♦> não são instrum entos para assegurar processos;
♦> têm por finalidade proteger direitos fundam entais, evitando
a continuidade da violência e das situações que a favorecem;
♦> não são, necessariamente, preparatórias de ação judicial; não
são acessórios de processos principais, nem se vinculam a eles;
♦> não visam processos, m as pessoas;
♦> “assem elham -se aos writs constitucionais que, como o hc ou o
m andado de segurança, não protegem processos, m as direitos
fundam entais do indivíduo”.
E em form a de conclusão, arrem ata o autor: “as m edidas pro­
tetivas são medidas cautelares inom inadas que visam g aran tir di­
reitos fundam entais e ‘coibir a violência' no âm bito das relações
fam iliares, conform e preconiza o art. 226, § 8o, da CF” (2011: 329).
Em 2014, o Superior Tribunal de Justiça adm itiu, pela prim ei­
ra vez, a aplicação de medidas protetivas da Lei Maria da Penha
(Lei n. 11.340/2006) em ação cível, ainda que inexistente inquérito
policial ou processo penal contra o suposto agressor, por conside­
ra r que elas possuem caráter cível (STJ, REsp 1.419.421).
De acordo com o relator, m inistro Luis Felipe Salomão, “pare­
ce claro que o intento de prevenção da violência dom éstica contra
a m ulher pode ser perseguido com medidas judiciais de natureza
não crim inal, m esm o porque a resposta penal estatal só é desen-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 195

cadcada depois que, concretam ente, o ilícito penal é cometido,


m uitas vezes com consequências irreversíveis, como no caso de
hom icídio ou de lesões corporais graves ou gravíssim as”.189
Nas razões de decidir, o m inistro Luis Felipe Salomão fez re­
ferência ao art. 461, § 5o, do Código de Processo Civil, citado tex­
tualm ente na Lei Maria da Penha.
A ação foi ajuizada por um a senhora contra u m de seus filhos
que não se conform ou com a divisão de bens que os pais fizeram
ainda em vida. A m ulher pediu aplicação das medidas protetivas
para que o filho fosse im pedido de se aproxim ar dela e dos irmãos.
O processo foi extinto de julgam ento do m érido em prim eira
instância, pelo fato de o m agistrado entender que as medidas pro­
tetivas são de natureza processual penal e, portanto, vinculadas a
um processo crim inal. O Tribunal de Justiça de Goiás - TJGO
reform ou a sentença e aplicou as medidas protetivas, por entender
que elas têm caráter civil. Houve recurso ao STJ, que confirm ou a
decisão do TJGO.
Da natureza jurídica da m edida protetiva de urgência depen­
de a discussão que se fará a seguir, qual seja, necessidade ou não
da instauração/perm anência do inquérito ou do processo penal
para a concessão/m anutenção da medida.

1.8. Prazo de vigência das medidas protetivas (a rt 19, § § 2 Qe 3°)


Art. 19. As medidas protetivas de urgência poderão ser concedi­
das pelo juiz, a requerimento do Ministério Público ou a pedido
da ofendida.
(...)
§ 2QAs medidas protetivas de urgência serão aplicadas isolada ou
cumulativamente, e poderão ser substituídas a qualquer tempo
por outras de maior eficácia, sempre que os direitos reconheci­
dos nesta Lei forem ameaçados ou violados.
§ 3Q Poderá o juiz, a requerim ento do Ministério Público ou a
pedido da ofendida, conceder novas medidas protetivas de u r­
gência ou rever aquelas já concedidas, se entender necessário à

119 Disponível em : http://w w w .stj.gov.br/portal_stj/publicacao/engine.w spT tm p.areas39


8& tm p.texto=l13231. Acesso em : 14-4-2014.
196 Coleção Saberes Monográficos

proteção da ofendida, de seus familiares e de seu patrimônio,


ouvido o Ministério Público.

As medidas protetivas possuem caráter provisório. Por conta


disso, podem ser revistas ou cassadas a qualquer tem po (art. 19,
§ 3®), ou substituídas por outra(s) de natureza diversa, sem pre que
a situação fática assim exigir (art. 19, § 2®).
Por não ostentar prazo determ inado, as medidas devem sub­
sistir enquanto d u rar a situação que m otivou a sua decretação,
podendo “p erd u rar até a decisão penal definitiva, isto é, até o
desfecho do processo crim inal, independentem ente de outras
ações no âm bito cível eventualm ente ajuizadas” (2011: 309).
Há um lim ite tem poral, entretanto, intransponível: térm ino
do processo crim inal. Tal não significa, entretanto, que havendo
interesse da vítim a e necessidade da m edida não se possa pleitear,
ju n to ao juízo cível (vara da família, se for o caso), decisão judicial
definitiva que venha a g aran tir a continuidade da proteção, ou
m esm o um a outra espécie de garantia.
De toda forma, com o bem adverte Fausto Rodrigues de Lima,
“é recom endável que o ju iz fixe um prazo razoável de vigência das
medidas protetivas, suficiente para evitar a continuidade da vio­
lência. Isso evita a etem ização de medidas, e suas reiterações des­
necessárias, principalm ente quando as partes podem resolver de­
finitivam ente seus conflitos através de um a eficaz ação na Vara de
Família” (2011: 329).

1.9. A prisão preventiva como espécie de medida protetiva de urgência


(art. 20)
Art. 20. Em qualquer fase do inquérito policial ou da instrução
criminal, caberá a prisão preventiva do agressor, decretada pelo
juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público ou median­
te representação da autoridade policial.
Parágrafo único. O juiz poderá revogar a prisão preventiva se,
no curso do processo, verificar a falta de motivo para que sub­
sista, bem como de novo decretá-la, se sobrevierem razões que
a justifiquem.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 197

Para a decretação da prisão preventiva nos casos de violência


dom éstica e fam iliar contra a m u lh er (ou contra a criança, adoles­
cente, idoso, enferm o ou pessoa portadora de necessidades espe­
ciais), não se exige que ao crim e doloso seja com inada pena priva­
tiva de liberdade m áxim a superior a 4 anos, diversam ente do que
é exigido para todos os dem ais casos (CPP, art. 313).
A prisão preventiva como m edida protetiva de urgência pode­
rá ser decretada sem pre que necessária, adequada e proporcional
(proporcionalidade em sentido estrito).190 Ela está prevista no art.
20 da Lei Maria da Penha, bem como no Código de Processo Penal
(arts. 282, § 4o, e 312, parágrafo único, 313, III) e constitui-se ex­
ceção, devendo ser im posta em circunstâncias m uito especiais.
De conform idade com Stela Valéria Soares de Farias Caval­
canti, a possibilidade de decretação da prisão preventiva “é provi­
dencial, constituindo-se em um im portante e útil instru m en to
para to m a r efetivas as m edidas de proteção preconizadas pela no­
vel legislação. Não houvesse essa modificação, a m aioria dos casos
de violência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er ficaria privada
do in stru m en to coercitivo da prisão preventiva por ausência de
sustentação nos motivos elencados no art. 312, do CPP, tradicio­
nalm ente e nos casos de cabim ento arrolados no art. 313, do CPP”
(2010: 226).

1.9.1. Decretação da prisão preventiva, de ofício, pelo juiz, na fase


de investigação
Continua valendo a regra contida na Lei Maria da Penha que
perm ite a decretação da prisão preventiva, pelo juiz, de ofício, na
fase do inquérito policial (art. 20)? Ou seja, aplica-se a nova regra
contida na Lei n. 12.403/2011, art. 311 (que não m ais adm ite tal
situação) ou, por ser, a Lei Maria da Penha, norm a especial, ela
deve prevalecer sobre a regra geral?
Posicionamento da autora: o segundo entendim ento é o m ais
correto, pois, não obstante ofender o sistem a acusatório (já que o

190 Estudo detalhado sobre o princípio da proporcionalidade nas m edidas cautclarcs pode
ser encontrado em : GOMES, Luiz Flávio. Prisão e medidas cautelares: com entários à Lei
n. 12.403, de 4 de m aio de 2011. Sâo Paulo: RT, 2011, p. 57-59.
198 Coleção Saberes Monográficos

ju iz acaba por perder a necessária posição equidistante), no m o­


m ento da ponderação de interesses, há que preponderar a norm a
de proteção integral à m u lh er em situação de risco (art. 4®).
Tal entendim ento é respaldado pelas estatísticas, as quais de­
m onstram o elevadíssimo índice de homicídios, dentre outros
atos violentos, praticados por hom ens cuja vítim a m u lh er m anti­
nha ou m anteve com ele um a relação íntim a de afeto. Eles foram
mencionados nos itens 7 e 13 da parte 1 e, resum idam ente, podem
ser assim apresentados:
♦> em 83,8% dos casos relatados de violência doméstica, o agres­
sor era com panheiro, cônjuge, nam orado ou “ex” da vítim a
(ou seja, pessoa com quem a vítim a m antém ou m anteve um a
relação íntim a de afeto) (Central de A tendim ento à M ulher -
Ligue 180, balanço sem estral: janeiro a ju n h o de 2013);
♦> 52% das violências praticadas pelos m aridos e com panheiros
são de risco de m orte (Central de A tendim ento à M ulher -
Ligue 180, jan eiro a ju lh o de 2012); no balanço sem estral de
jan eiro a ju n h o de 2013, tal percentual sofreu redução, alcan­
çando 46,3%;
♦> no Estado do Espírito Santo, em razão do núm ero elevado de
crim es de hom icídio contra m ulheres (9,4 vítim as de hom icí­
dio fem inino para cada 100 m il m ulheres), foi criada a p ri­
m eira delegacia de polícia do Brasil especializada em investi­
gar, especificam ente, esse tipo de homicídio;
♦> o Brasil ocupa a posição de 7® lugar entre os países que pos­
suem o m aior núm ero de m ulheres m ortas, num universo de
84 países (Mapa da Violência - Homicídios de M ulheres -
2012);
♦> 62,1% das violências dom ésticas sofridas pelas m ulheres víti­
mas são físicos (DataSenado 2013);
♦> a cada 2 m inutos 5 m ulheres são espancadas (Fundação Per-
seu Abramo/SESC 2010);
♦> 73,2% dos episódios de violência física caracterizada pelo es­
pancam ento envolve m ulheres (Serviços Sentinelas de Vigi­
lância de Violências e Acidentes - VIVA, 2009);
♦> 68,8% dos incidentes com vítim as m ulheres aconteceram na
residência ou habitação (Mapa da Violência, 2012);
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 199

♦> 24,6% dos crim es praticados por m eios que exigem contato
direto, com o objetos cortantes e penetrantes, vitim am m u­
lheres (Mapa da Violência, balanço sem estral de jan eiro a
ju n h o de 2013);
♦> 42,3% das m ulheres que sofrem violência são agredidas todos
os dias (Central de Atendimento à M ulher - Ligue 180, balanço
sem estral de jan eiro a ju n h o de 2013);
♦> 94% dos registros identificados de casos de violência têm
como agressores os hom ens, sendo 83,8% dos casos cometidos
por pessoas com quem a vítim a m antém ou m anteve um a
relação íntim a de afeto (Central de Atendim ento à M ulher -
Ligue 180, balanço sem estral de janeiro a ju n h o de 2013).
De toda form a, apesar de os núm eros supram encionados ju s ­
tificarem a drasticidade da ação, há que se resguardar tal in stru ­
m ento para situações m uito específicas, como no caso de tran sto r­
no visível e acentuado do agressor.
No mesmo sentido é o entendim ento de Rosane M. Reis Lavig-
ne e Cecília Perlingeiro. Para as autoras, “[...] o poder geral de cau­
tela aliado à proteção da integridade pessoal da m ulher autorizaria
o m agistrado a proceder dessa forma. A p artir desse pressuposto,
justifica-se a concessão de salvaguarda de m aior alcance para a re­
querente. A atuação proativa do juiz nessas hipóteses pode auxiliar
a vítim a a encontrar um a solução por ela não identificada, seja por
desconhecim ento técnico específico ou qualquer outro motivo que
lhe impeça vislum brar aquela possibilidade jurídica de m aior res­
guardo para ela ou pessoa a ela vinculada nos term os legais. [...]
Portanto, com preende-se o protagonism o que a lei concede expres­
sam ente ao juiz nesses casos, possibilitando à vítim a obter do Esta­
do resposta m ais adequada e precisa à sua situação fática. Justificá­
vel, então, repita-se, a concessão da m edida de ofício, por natureza
intrínseca ao princípio da devida diligência do Estado” (2011: 299).
N ovam ente e n tra em cena, para fu n d am en tar a discussão, o
princípio da proibição da proteção deficiente: isto im plica que
crim es que até então não sujeitavam os acusados à prisão p re­
ventiva passam a contar com a possibilidade de im posição de
m edida constritiva. São exem plos dessa hipótese os crim es de
am eaça e lesão corporal leve (frequentem ente praticados contra
a m u lh er no âm bito da convivência fam iliar e doméstica), que
200 Coleção Saberes Monográficos

em contextos diversos da violência dom éstica não são passíveis


de prisão preventiva.191
Ademais, é im prescindível te r em m ente que a Lei M aria da
Penha ainda se encontra em fase de im plem entação da infraes-
tru tu ra que prevê, o que pode gerar a necessidade de delegar
poderes - no caso, ao juiz, de decretação de prisão preventiva de
ofício em fase policial - com o fito de g aran tir a proteção in te ­
gral à m u lh er em situação de risco. Exemplo de situação que gera
esse tipo de dem anda foi com entado por W ânia Pasinato, em
análise de relatório de pesquisa realizada pelo O bservatório da
Lei M aria da Penha:192 “Nas 19 capitais pesquisadas, foram identi­
ficadas 10 Prom otorias Especializadas, com com petência exclusi­
va para trab alh ar nos Juizados. Em geral cada Prom otoria é com ­
posta por apenas u m prom otor de Justiça e estagiários, atuando
em apenas u m Juizado. Nas dem ais capitais, onde não foram cria­
das essas instâncias especializadas, o prom otor de Justiça desig­
nado para o Juizado tam bém acum ula o trabalho em outras Varas
ou Juizados não especializados em violência dom éstica e fam iliar.
Há tam bém casos em que o prom otor atua em diferentes com ar­
cas. Foram tam bém identificados apenas dois Núcleos de Gênero:
no D istrito Federal e em Salvador. Nas outras capitais, as Prom o­
torias Especializadas estão acum ulando todas as atividades, fa­
zendo com que algum as vezes as pautas de audiências acabem
prejudicadas pela sobrecarga de trabalho e pelo pequeno núm ero
de profissionais” (2011: 138).

1.10. Prova e medidas protetivas de urgência


Consoante com o próprio nome, as m edidas protetivas devem
ser decretadas de form a im ediata, sob pena de perder toda ou
parte de sua eficácia. É o que prevê o art. 19 (“As m edidas proteti-

191 Dc acordo com pesquisa realizada pela Fundação Pcrscu Abramo em 2010,12% das m u ­
lheres que relataram te r sofrido violência por parte de seus parceiros afirm aram que os
agressores as am eaçaram ou praticaram lesões distintas dc espancam entos com marcas
(como cortes c fraturas). íntegra da pesquisa disponível cm: http://www.fpa.org.br/sites/
dcfault/files/cap5.pdf. Acesso cm: 7-8-2012.
192 NEIM/UFBA - Núcleo dc Estudos Intcrdisciplinarcs sobre a M ulher. Relatório Final do
Observatório de Monitoramento da Lei Maria da Penha. Salvador: Observe, 2009.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 201

vas de urgência poderão ser concedidas pelo juiz, a requerim ento


do M inistério Público ou a pedido da ofendida”).
Para atender a tal necessidade, há que se flexibilizar, ainda
que com com edim ento, a m atéria relativa à prova. De acordo com
Stela Valéria Soares de Farias Cavalcanti, para o pedido das m edi­
das protetivas de urgência, “não há necessidade de ju n tad a de p ro ­
va robusta, bastando boletim de ocorrência em que consta a n a r­
rativa sucinta do fato delituoso, o pedido da vítim a relacionando
as m edidas solicitadas, um a breve justificativa dos motivos e o
depoim ento de duas testem unhas que ten h am conhecim ento da
prática do fato delituoso. Apesar de a lei não exigir a juntada de
depoim entos testem unhais nesta fase inicial, por m edida de cau­
tela, deverá a autoridade policial juntá-los ao pedido de aplicação
de m edida protetiva de urgência, possibilitando, assim, que o juiz
com petente decida com m ais segurança” (2011: 212).

1.11. Recurso cabível contra a decretação de medidas protetivas de ur-


gência (arts. 13 e 22)
Art. 13. Ao processo, ao julgamento e à execução das causas cí­
veis e crim inais decorrentes da prática de violência doméstica e
familiar contra a m ulher aplicar-se-ão as normas dos Códigos de
Processo Penal e Processo Civil e da legislação específica relativa
à criança, ao adolescente e ao idoso que não conflitarem com o
estabelecido nesta Lei.

Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar


contra a mulher, nos termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de
imediato, ao agressor, em conjunto ou separadamente, as seguin­
tes medidas protetivas de urgência, entre outras:
[...]
§ 4QAplica-se às hipóteses previstas neste artigo, no que couber,
o disposto no caput e nos §§ 5S e 6Qdo art. 461 da Lei n. 5.869, de
11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil).

Três são os posicionam entos acerca do recurso cabível contra


decisão que decreta m edida protetiva de urgência: (a) agravo de
instru m en to (Rogério e Pinto); (b) apelação crim inal (Agravo de
Instrum ento n. 445.069-9 - TJPR) e (c) para as m edidas protetivas
202 Coleção Saberes Monográficos

de natureza penal, é o recurso em sentido estrito; para as de na­


tureza cível seria o agravo de instrum ento, a ser interposto p eran ­
te a Câm ara de Família ou Câm ara Cível (Maria Berenice Dias).
Vejamos a fundam entação de cada u m deles:
a) Agravo de instrum ento
Rogério e Pinto baseiam seu entendim ento no § 4Qdo art. 22
da Lei M aria da Penha, o qual prevê que, para fins de assegurar a
aplicação das m edidas protetivas que obrigam o agressor, podem
ser utilizadas as m edidas previstas no caput e nos §§ 5e e 6e do
art. 461 do Código de Processo Civil. O dispositivo m encionado
prevê que:

Código de Processo Civil


Art. 461. Na ação que tenha por objeto o cum prim ento de obri­
gação de fazer ou não fazer, o juiz concederá a tutela específica
da obrigação ou, se procedente o pedido, determ inará provi­
dências que assegurem o resultado prático equivalente ao do
adimplemento.
[...]
§ 5QPara a efetivação da tutela específica ou a obtenção do re­
sultado prático equivalente, poderá o juiz, de ofício ou a reque­
rim ento, determ inar as medidas necessárias, tais como a im ­
posição de m ulta por tempo de atraso, busca e apreensão,
remoção de pessoas e coisas, desfazimento de obras e im pedi­
mento de atividade nociva, se necessário com requisição de
força policial.
§ 6QO juiz poderá, de ofício, modificar o valor ou a periodicidade
da multa, caso verifique que se tornou insuficiente ou excessiva.

Para os autores mencionados, o agravo de instrum ento, na


form a do CPC, deve ser dirigido a um a das Câmaras do Tribunal
de Justiça (2011:135).

b) Apelação crim inal


No julgam ento do Agravo de Instrum ento 445.069-9, o TJPR
entendeu, adotando o parecer do M inistério Público, que a com ­
petência para o julgam ento das m edidas protetivas “é da vara ou
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 203

Juízo crim inal e a m atéria tem natureza crim inal com os recursos
p ertinentes a esse in stitu to ”.193
No parecer do M inistério Público, ficou consignado que a
m atéria tratada é de cunho penal, razão pela qual “o recurso cabí­
vel é aquele previsto no art. 593, II, do CPP, ou até m esm o o recu r­
so em sentido estrito, para aqueles que entendem possível a in ter­
pretação extensiva às hipóteses contem pladas no art. 581, do CPP”.
Ademais, por se tra ta r de m atéria requerida em sede de inquérito
policial, reforçada está a tese supram encionada.
Salienta, ainda, que se trata de decisão definitiva, o que ense­
ja a interposição do recurso de apelação crim inal, nos term os do
art. 593, II, do CPP.

c) depende da natureza da medida


Maria Berenice Dias diferencia as m edidas protetivas de na­
tureza cível das de natureza crim inal. Para as cíveis, o recurso é
de agravo. De acordo com a autora, “havendo alegação de que a
decisão causou lesão grave e de difícil reparação, a decisão desafia
agravo de instrum ento, a ser interposto perante a Câm ara de Fa­
m ília ou Câmara Cível” (2007:187).
Já no caso de a m edida ser de caráter penal, “o eventual re ­
curso cabível é o recurso em sentido estrito, em face da taxativi-
dade do rol legal a ser encam inhado às Câmaras Crim inais dos
Tribunais de Justiça” (2007:188).
Considerando que o recurso cabível depende da natureza da
ação, tem -se o entendim ento do Conselho da M agistratura do Tri­
bunal de Justiça do Rio Grande do Sul (COM AG), que, por meio da
Resolução n. 562/2006, previu que:

Art. 3a
[...]
Parágrafo único. Os recursos contra as medidas protetivas lim i­
nares de natureza cível ou de família são os previstos no Código

193 Disponível cm: http://w w w .crim inal.caop.m p.pr.gov.br/m odulcs/contcudo/conteudo.


php?contcudo=114.
204 Coleção Saberes Monográficos

de Processo Civil, observada a competência recursal peculiar a


cada um; e os recursos das medidas de natureza crim inal serão
os previstos no Código de Processo Penal, observada a compe­
tência recursal peculiar a cada um.

Posicionamento da autora: para um m elhor desenvolvimento


do tema, convém voltar à discussão acerca da natureza jurídica das
m edidas protetivas de urgência. Conform e já se referiu no item
1.2, os arts. 22 a 24 estabelecem m edidas protetivas de urgência
de diversas naturezas: cível, adm inistrativa, trabalhista, previden-
ciária e penal. Isso significa que a presente discussão deve levar
em conta tal característica.
O art. 13 determ ina a aplicação subsidiária do Código de Pro­
cesso Penal e do Código de Processo Civil, bem como da legislação
específica relativa à criança e ao adolescente (ECA - Lei n.
8.069/90) e ao idoso (EI - Lei n. 10.741/2003), a todas as causas cí­
veis e crim inais que envolvam violência dom éstica e fam iliar con­
tra a m ulher. Não havendo colisão ou contradição da Lei M aria da
Penha com os referidos diplom as legais, perfeita e adequada será
a aplicação de tais dispositivos aos casos envolvendo violência do­
m éstica e fam iliar contra a m ulher.
Dessa forma, entendem os que o recurso cabível depende da
natureza da m edida protetiva que se está arrostando, devendo-se
observar a previsão recursal de cada u m dos ram os do direito
processual, bem como suas regras de com petência em relação ao
juízo ad quem .

2. Fase pré-processual: atuação destacada da autoridade


policial (arts. 10,12 e 20)
Art. 10. Na hipótese da iminência ou da prática de violência do­
méstica e familiar contra a mulher, a autoridade policial que
tom ar conhecimento da ocorrência adotará, de imediato, as pro­
vidências legais cabíveis.
Parágrafo único. Aplica-se o disposto no caput deste artigo ao
descumprimento de medida protetiva de urgência deferida.

Art. 12. Em todos os casos de violência doméstica e familiar con­


tra a mulher, feito o registro da ocorrência, deverá a autoridade
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 205

policial adotar, de imediato, os seguintes procedimentos, sem


prejuízo daqueles previstos no Código de Processo Penal:
I - ouvir a ofendida, lavrar o boletim de ocorrência e tom ar a
representação a termo, se apresentada;
II - colher todas as provas que servirem para o esclarecimento
do fato e de suas circunstâncias;
III - remeter, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, expediente
apartado ao juiz com o pedido da ofendida, para a concessão de
medidas protetivas de urgência;
IV - determ inar que se proceda ao exame de corpo de delito da
ofendida e requisitar outros exames periciais necessários;
V - ouvir o agressor e as testemunhas;
VI - ordenar a identificação do agressor e fazer juntar aos autos
sua folha de antecedentes criminais, indicando a existência de
mandado de prisão ou registro de outras ocorrências policiais
contra ele;
VII - remeter, no prazo legal, os autos do inquérito policial ao
juiz e ao Ministério Público.
§ 1QO pedido da ofendida será tomado a term o pela autoridade
policial e deverá conter:
I - qualificação da ofendida e do agressor;
II - nome e idade dos dependentes;
III - descrição sucinta do fato e das medidas protetivas solicita­
das pela ofendida.
§ 2QA autoridade policial deverá anexar ao documento referido
no § ls o boletim de ocorrência e cópia de todos os documentos
disponíveis em posse da ofendida.
§ 3S Serão admitidos como meios de prova os laudos ou prontuá­
rios médicos fornecidos por hospitais e postos de saúde.

Art. 20. Em qualquer fase do inquérito policial ou da instrução


criminal, caberá a prisão preventiva do agressor, decretada pelo
juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público ou median­
te representação da autoridade policial.
Parágrafo único. O juiz poderá revogar a prisão preventiva se,
no curso do processo, verificar a falta de motivo para que sub-
206 Coleção Saberes Monográficos

sista, bem como de novo decretá-la, se sobrevierem razões que


a justifiquem .

Todas as atividades incum bidas à autoridade policial estão


previstas nos arts. 10 a 12, os quais fazem parte do Capítulo que
trata “Da assistência à m u lh er em situação de violência doméstica
e fam iliar”. Além disso, tam bém prevê o art. 20 que ela pode re ­
presentar pela prisão preventiva do agressor.
O art. 10, da Lei M aria da Penha, d eterm in a que diante da
prática de violência dom éstica e fam iliar contra a m u lh e r ou na
im inência da ocorrência da violência deve a autoridade policial,194
im ediatam ente, adotar as providências cabíveis previstas na Lei.
Elas encontram -se elencadas nos arts. 11 (medidas de proteção e
assistenciais) e 12 (procedim entos a serem adotados após o re ­
gistro de ocorrência). Todas as ações a serem realizadas pela
autoridade policial estendem -se para as hipóteses de descum -
p rim en to de m edida protetiva de urgência deferida (art. 10, pa­
rágrafo único).
As ações previstas no art. 11 foram objeto de análise no item
8.4 da parte I, por representarem m edidas extrapenais. No p re­
sente m om ento, interessa-nos as atividades de natureza procedi­
m ental, as quais serão analisadas na sequência.

a) procedimentos a serem adotados pela autoridade policial após


registro da ocorrência, sem prejuízo daqueles previstos no Có­
digo de Processo Penal (art. 12):
^ ouvir a ofendida (art. 12, inc. I);
lavrar o boletim de ocorrência (art. 12, inc. I);
^ se for necessária a representação da vítim a (nas ações penais
públicas condicionas à representação), deve a autoridade poli­
cial to m ar a term o a representação, se a ofendida desejar re ­
presentar (art. 12, inc. I);

194 A expressão autoridade policial pode serv ir ta n to para a Polícia Civil (na atuação após
a ocorrência, voltada para a investigação e para os procedim entos subsidiários à ação
penal, e, agora, às m edidas protetivas) q u an to para a Polícia M ilitar (na atividade os­
tensiva, de prevenção).
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 207

^ prom over a colheita de todas as provas necessárias ao pleno


esclarecim ento dos fatos, bem como de todas as circu n stân ­
cias a ele relativas (art. 12, inc. II);
no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, deve a autoridade po­
licial encam inhar ao ju iz (em expediente apartado) o pedido
para a concessão de m edidas protetivas de urgência previstas
no Capítulo II, da Lei Maria da Penha (art. 12, inc. III);
^ determ in ar a realização do exam e de corpo de delito da ofen­
dida (art. 12, inc. IV): a m edida visa buscar elem entos para
subsidiar fu tu ra ação penal, e, mesm o, concessão de medidas
protetivas de urgência, visto que os laudos ou prontuários
servem com o meio de prova (art. 12, § 29);
^ requisitar exames que se revelem necessários (art. 12, inc. IV);
ouvir o agressor (art. 12, inc. V);
ouvir as testem unhas (art. 12, inc. V);
prom over a identificação do agressor, fazendo juntada da folha
de antecedentes crim inais. O objetivo da Lei Maria da Penha
em determ inar a identificação do agressor reside na necessida­
de de indicação da “existência de mandado de prisão ou registro
de outras ocorrências policiais contra ele” (art. 12, inc. VI);
por fim , no prazo legal, deve a autoridade policial rem eter os
autos do inquérito policial ao ju iz e ao M inistério Público
(art. 12, inc. VII).

b) caso a ofendida requeira a concessão de medidas protetivas de


urgência, a autoridade policial deverá (art. 12):
qualificar a ofendida (art. 12, § l9, inc. I);
^ qualificar o agressor (art. 12, § l9, inc. I);
in fo rm ar o nom e e a idade dos dependentes (art. 12, § l9,
inc. II);
descrever os fatos ocorridos (art. 12, § l 9, inc. III);
^ descrever as m edidas protetivas requeridas pela ofendida
(art. 12, § l 9, inc. I);
fazer ju n ta r ao pedido o boletim de ocorrência (art. 12, § 29);
^ fazer ju n ta r ao pedido cópia de todos os docum entos de que a
ofendida disponha (art. 12, § 29).
208 Coleção Saberes Monográficos

O art. 12, § 3S, afirm a serem admissíveis como m eio de prova


os laudos ou prontuários médicos que serão fornecidos tanto pe­
los hospitais quanto pelos postos de saúde, o que reforça a neces­
sidade de encam inham ento da ofendida a tais locais, nos term os
do art. 11, n.

c) representação pela prisão preventiva do agressor (art. 20):


Além dos procedim entos anteriores, que podem ser tomados
de ofício, a autoridade policial pode representar pela prisão p re­
ventiva do agressor (art. 20). Nesse caso, deve encam inhar a sua
representação para o Juiz o m ais breve possível.

d) pedido de outras medidas protetivas de urgência ou de m edi­


das cautelares
Medidas protetivas de urgência
Q uanto ao pedido de m edidas protetivas de urgência, à exce­
ção da prisão cautelar (art. 20), a Lei M aria da Penha em n en h u m
m om ento especifica expressam ente que a autoridade policial pos­
sa solicitá-las, m esm o que a vítim a não o ten h a feito. Contudo, de
acordo com Adilson José Paulo Barbosa e Leia Tatiana Foscarini,
“nada im pede, diante das circunstâncias e do estado da vítim a,
que pode, em choque, estar incapacitada para m anifestar-se, que
o Delegado, relatando os riscos à sua integridade, solicite ou sugi­
ra ao Juiz - que pode d eterm in ar de ofício - a concessão de MPU,
assim como m edidas restritivas de direito e da liberdade, previs­
tas na legislação processual” (2011: 258).
Há que se ter em m ente que a Lei Maria da Penha protege não
só a m ulher, m as tam bém seus dependentes e as testem unhas do
fato. Desta forma, nas hipóteses mencionadas por Adilson José Pau­
lo Barbosa e Leia Tatiana Foscarini, em que se verifica que o estado
da vítim a desaconselha que se deixe a ela a decisão de requerer ou
não medidas protetivas, e a depender da situação do agressor, “antes
da conclusão do inquérito pode e deve a autoridade policial enca­
m in h ar requerim ento ao Juiz com pedido de concessão de medida
protetiva de urgência para a vítim a e outros envolvidos” (2011: 259).
Ademais disso, “quando for o caso, o encam inham ento do in ­
quérito, ao Juiz e ao MP, poderá conter novos pedidos de MPU e
outras diligências, posto que durante as investigações outros fatos
e novas agressões [...] podem o correr” (2011: 260).
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 209

Por fim, há que se considerar que, se a autoridade policial pode


o mais (representar pela prisão preventiva, que é a m edida proteti-
va de urgência de m aior intensidade), tam bém haveria de poder o
menos (solicitar que fosse decretada outra das medidas protetivas).

3. Rito processual
3.1. Nos crimes decorrentes da prática de violência doméstica e familiar
contra a mulher (art. 13)
Art. 13. Ao processo, ao julgamento e à execução das causas cí­
veis e crim inais decorrentes da prática de violência doméstica e
familiar contra a m ulher aplicar-se-ão as normas dos Códigos de
Processo Penal e Processo Civil e da legislação específica relativa
à criança, ao adolescente e ao idoso que não conflitarem com o
estabelecido nesta Lei.

Considerando que o art. 13 da Lei M aria da Penha determ ina


a aplicação subsidiária do CPP, será necessário verificar, em cada
caso concreto, qual procedim ento será aplicável. Tendo sido ex­
cluída, pelo art. 41 da Lei M aria da Penha (v. item 5.4), a possibi­
lidade de aplicação do procedim ento estabelecido na Lei n.
9.099/95 (procedim ento sum aríssim o), restam tão som ente duas
possibilidades: procedim ento com um e procedim ento especial
(art. 394, CPP).
A definição do procedim ento seguirá a previsão do art. 394,
§ l e, incisos I e II.195 Aplica-se o procedim ento ordinário quando a
sanção m áxim a com inada ao crim e for igual ou superior a 4 (qua­
tro) anos de pena privativa de liberdade; e o procedim ento sum á­
rio, quando a sanção m áxim a com inada for inferior a 4 (quatro)
anos de pena privativa de liberdade.
No entanto, aplica-se tam bém o procedim ento especial aos
crim es com etidos com violência dom éstica e fam iliar contra a

195 § 1®O procedim ento com um será ordinário, sum ário ou sum aríssim o: I - ordinário,
quando tiv er po r objeto crim e cuja sanção m áxim a com inada fo r igual ou su p erio r a
4 (quatro) anos de pena privativa de liberdade; II - sum ário, quando tiver p o r objeto
crim e cuja sanção m áxim a com inada seja in ferio r a 4 (quatro) anos de pena privativa
de liberdade;
210 Coleção Saberes Monográficos

m ulher, razão pela qual, se com etido crim e nessa circunstância e


existente procedim ento especial previsto no CPP, há que se ob­
servar as regras do procedim ento especial. Ex.: processo para ju l­
gam ento do crim e de calúnia, injúria e difam ação (arts. 519 e ss.
do CPP).

3.2. Nas contravenções penais praticadas com violência doméstica e


familiar contra a mulher
Como dito anteriorm ente, o art. 41 da Lei Maria da Penha
determ inou o afastam ento da aplicação da Lei n. 9.099/95 para os
crimes que envolvessem violência dom éstica e fam iliar contra a
m ulher. N enhum a referência, no entanto, fez às contravenções pe­
nais. Veja-se a redação:

Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e fami­


liar contra a mulher, independentemente da pena prevista, não
se aplica a Lei n. 9.099, de 26 de setembro de 1995.

A questão ainda não pacificada é a seguinte: interpreta-se lite­


ralm ente o texto legal (excluindo, portanto, a restrição às contraven­
ções penais), ou a interpretação deve ser teleológica (com preocupa­
ções acerca do objetivo da Lei)? Neste últim o caso, as contravenções
seriam incluídas na restrição à aplicação da Lei n. 9.099/95, por
ser m ais condizente com a sua ratio legis (arts. 4Qe 5Q).
Implicações práticas da discussão: autuado o term o circun s­
tanciado de violência que caracteriza u m a contravenção penal, o
feito deve ser distribuído para um a vara crim inal ou para os Ju i­
zados Especiais (quando não há Juizados de Violência Doméstica e
Fam iliar contra a Mulher)?
Para o STF, “O preceito do artigo 41 da Lei n. 11.340/2006 al­
cança toda e qualquer prática delituosa contra a m ulher, até m es­
m o quando consubstancia contravenção penal, como é a relativa a
vias de fato”. Veja-se a ementa:

HC 106212, Relator: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, ju l­


gado em 24-3-2011, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-112 DIVULG
10-06-2011 PUBLIC 13-06-2011 RT v. 100, n. 910, 2011, p. 307-327)
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - ARTIGO 41 DA LEI N. 11.340/2006
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 211

- ALCANCE. O preceito do artigo 41 da Lei n. 11.340/2006 alcan­


ça toda e qualquer prática delituosa contra a mulher, até mesmo
quando consubstancia contravenção penal, como é a relativa a
vias de fato. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - ARTIGO 41 DA LEI N.
11.340/2006 - AFASTAMENTO DA LEI N. 9.099/95 - CONSTI-
TUCIONALIDADE. Ante a opção político-normativa prevista no
artigo 98, inciso I, e a proteção versada no artigo 226, § 8Q, am­
bos da Constituição Federal, surge harmônico com esta última o
afastamento peremptório da Lei n. 9.099/95 - mediante o artigo
41 da Lei n. 11.340/2006 - no processo-crime a revelar violência
contra a mulher.

No m esm o sentido é a doutrina de Lênio Luiz Streck. Para o


autor, um a interpretação condizente com os objetivos expressa­
m ente expostos nas disposições prelim inares e gerais (Títulos I e
II, respectivam ente) da Lei Maria da Penha conduziria ao entendi­
m ento de que as contravenções estariam incluídas na restrição.
Sintetizando seus bem traçados argum entos:
a) ao definir violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher, a
Lei Maria da Penha optou por abranger “qualquer ação ou
omissão” que cause violência dom éstica e fam iliar contra a
m ulher, dando, portanto, u m sentido m uito abrangente para
o term o violência, o que poderia, perfeitam ente, abarcar con­
travenções penais;
b) as condutas passíveis de configurar violência dom éstica e fa­
m iliar contra a m u lh er são m inuciosam ente elencadas no art.
7-. Nelas, podem ser encontradas, inclusive, condutas penal­
m ente atípicas;
c) “o art. 41 não se propõe a delim itar o âm bito de incidência da
Lei Maria da Penha - e nem soa razoável que o legislador
ten h a pretendido agastar em um a ou duas linhas toda a cons­
trução legal já realizada anteriorm ente na Lei - , mas, apenas,
a esclarecer um a questão pontual, qual seja, a de que, aos cri­
mes com etidos com violência contra a m ulher, independente
da pena prevista, não serão aplicadas as m edidas despenaliza-
doras previstas na Lei n. 9.099/95” (2011: 95).
d) “o art. 41, em m om ento algum , refere expressam ente a obri­
gatoriedade da aplicação da Lei n. 9.099/95 aos casos de con-
212 Coleção Saberes Monográficos

travenções penais praticadas com violência dom éstica e fam i­


liar contra a m ulher, de m odo que, neste caso, não se pode
tom ar a inclusão (afirmação) de um a, como a exclusão (nega­
ção) da outra” (2011: 95).
e) “não é a complexidade do tipo penal que delim ita a abrangên­
cia da Lei Maria da Penha, eis que, para todos os efeitos, os
crim es de m enor potencial ofensivo tam bém deveriam se res­
trin g ir à com petência dos JECRIMs. Neste sentido, deve-se
com preender que, com o advento da Lei Maria da Penha, con­
flitos que envolvam violência contra a m ulher não podem mais
ser considerados de ‘m enor potencial ofensivo’” (2011: 95).
f) o art. 41 está previsto na parte das disposições finais da Lei.
Seria improvável que “o legislador ten h a optado por definir a
m atéria que será abrangida na Lei apenas nas suas disposi­
ções finais, colocando-se em contradição com as disposições
prelim inares do Título I e gerais do Título II, do m esm o di­
ploma legal”.
g) “tam pouco há que se alegar interpretação am pliativa in malam
partem , um a vez que os elem entos norteadores da in terp reta­
ção da Lei Maria da Penha estão todos elencados de m aneira
expressa e clara no dispositivo legal, de m odo que não se tra ­
ta de nenhum a construção, isto é, não pode ser considerado
am pliativo o que já vem disposto” (2011: 97).
No sentido contrário, Stela Valéria Soares de Farias Cavalcan­
ti entende que para as contravenções penais praticadas com vio­
lência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er ainda se pode aplicar
a Lei n. 9.099/99.
Também Daniel D am m ski H ackbart entende que a Lei Maria
da Penha distinguiu as duas categorias de infração penal, vedan­
do, tão som ente, a aplicação do instituto aos crim es. De acordo
com o autor:

Tal diferenciação respeita os princípios de Direito Penal, em es­


pecial da proporcionalidade, na medida em que impede excessos
na análise de situações de baixa ou baixíssima periculosidade.
Isso porque a pena deverá guardar um a relação de proporciona­
lidade com o bem jurídico protegido.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 213

Diante disso, não pode haver dúvida quanto à diferenciação legal


entre os institutos mencionados.
O artigo 41 da Lei Maria da Penha prevê que “Aos crimes prati­
cados com violência doméstica e familiar contra a mulher, inde­
pendentemente da pena prevista, não se aplica a Lei n. 9.099, de
26 de setembro de 1995”.
Dessa maneira, fica claro que a lei, por mais que tenha a nobre
intenção de trazer a defesa dos interesses das mulheres vítimas
de violência doméstica e familiar, menciona claramente a pala­
vra “crimes”, em detrimento da expressão “infrações penais”.
Ora, é de conhecimento amplo entre os profissionais de direito a
máxima de que “não existem palavras inúteis na lei”. Isso porque
todas elas possuem um sentido próprio e adequado, devendo
cada uma ser entendida exatamente conforme escrita.
E no caso em análise, a palavra a ser entendida exatamente como
escrita é crime. Quis o legislador, portanto, dem onstrar clara­
mente que aos crimes praticados em situação de violência do­
méstica e familiar contra a m ulher não se aplicará a Lei dos
Juizados Especiais, e, por via de consequência, a suspensão con­
dicional dos processos.
Ocorre, justamente, que a decisão que ora se discute, advinda do
STF, decorria justam ente de caso de contravenção penal, no caso,
da infração de vias de fato.
De acordo com toda a argumentação acima, não pode haver dúvi­
da que, à menção textual da Lei Maria da Penha de exclusão da
aplicação da Lei dos Juizados Especiais para os crimes praticados
em violência doméstica e familiar contra a mulher, deixa de tratar
das contravenções praticadas nessas condições. E se a Lei optou
por tal linha, não há que se falar em inclusão por parte do Judici­
ário, a quem cabe interpretar e aplicar a lei. Caso fosse intenção
incluir no rol das infrações penais sobre as quais não se aplica a
Lei n. 9.099/95, teria o legislador mencionado expressamente as
contravenções, ou, de forma genérica, as infrações penais.
Assim, ante a escolha de palavras utilizadas na Lei Maria da Pe­
nha, apenas se pode concluir que, de fato, as contravenções pra­
ticadas em violência doméstica e familiar contra a m ulher são,
214 Coleção Saberes Monográficos

sim, passíveis de suspensão condicional do processo, ainda que


não deixem de ser passíveis de aplicação da referida lei (2012).

Posicionamento da autora: não obstante a decisão do STJ antes


m encionada e os bem -lançados argum entos de Lenio, o fato é que
se está diante de um a norm a processual penal com implicações
diretas e m arcantes para o réu, já que a opção pelo afastam ento da
Lei n. 9.099/95 tem como consequência a im possibilidade de se
cogitar sobre a aplicação de benefícios que lhe são m uito favorá­
veis: transação penal, composição civil e suspensão condicional
do processo.
Se por u m lado não se pode olvidar que a Lei tem caráter de
ação afirm ativa (v. item 12), seus com andos, quando de natureza
ou de implicação penal, hão que ser interpretados a p a rtir de exe­
gese própria de tal ram o do direito, não se adm itindo, portanto, a
interpretação extensiva. À m esm a conclusão se chegou quando da
discussão acerca do conceito de violência para fins de aplicação ou
afastam ento das escusas absolutórias e relativas (v. item 3).

4. Extensão das normas do CPC, do ECA e do IE ao processo,


julgamento e execução das causas cíveis e criminais (art. 13)
Art. 13. Ao processo, ao julgamento e à execução das causas cí­
veis e crim inais decorrentes da prática de violência doméstica e
familiar contra a m ulher aplicar-se-ão as normas dos Códigos de
Processo Penal e Processo Civil e da legislação específica relativa
à criança, ao adolescente e ao idoso que não conflitarem com o
estabelecido nesta Lei.

O art. 13 da Lei Maria da Penha traz, m ais um a vez, a diretriz


central do diplom a legal, que é o oferecim ento de proteção in te­
gral à m u lh er em situação de violência doméstica. O art. 14 - ob­
jeto de análise m ais detalhada no tópico seguinte - dispõe sobre
a criação e a com petência dos Juizados de Violência Doméstica e
Fam iliar contra a Mulher, estabelecendo sua abrangência às cau­
sas cíveis e crim inais decorrentes da prática de atos de violência
doméstica. Dessa form a, é absolutam ente correta a opção do legis­
lador em deixar expressa a possibilidade de aplicação subsidiária
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 215

dos Códigos de Processo Civil e Processo Penal, reduzindo assim


a probabilidade de ocorrência de situações concretas que não fos­
sem objeto de disposição específica na Lei Maria da Penha: à sua
falta, aplicam-se subsidiariam ente as regras processuais gerais.
Mas não é só: igualm ente justificada é a preocupação do legis­
lador em apontar tam bém a subsidiariedade do Estatuto da C rian­
ça e do Adolescente e do Estatuto do Idoso, dirim indo qualquer
dúvida sobre a aplicabilidade conjunta destes textos legais. Isto
porque se observa estatisticam ente que em m uitos casos há um a
sobreposição de vulnerabilidades sociais: a pessoa idosa do sexo
fem inino, a criança e a adolescente do sexo fem inino apresentam
especificidades nas dem andas de proteção, as quais som ente po­
dem ser satisfatoriam ente atendidas pela utilização com binada de
diplomas legais específicos.

5. Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra


a Mulher: competência, âmbito de criação e horário
de funcionamento (arts. 14 e 33)
Art. 14. Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a
Mulher, órgãos da Justiça Ordinária com competência cível e
criminal, poderão ser criados pela União, no Distrito Federal e
nos Territórios, e pelos Estados, para o processo, o julgamento e
a execução das causas decorrentes da prática de violência domés­
tica e familiar contra a mulher.
Parágrafo único. Os atos processuais poderão realizar-se em ho­
rário noturno, conforme dispuserem as normas de organização
judiciária.
Art. 33. Enquanto não estruturados os Juizados de Violência Do­
méstica e Familiar contra a Mulher, as varas criminais acumula­
rão as competências cível e crim inal para conhecer e julgar as
causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar
contra a mulher, observadas as previsões do Título IV desta Lei,
subsidiada pela legislação processual pertinente.

Prevê o art. 14 que “os Juizados de Violência Doméstica e Fa­


m iliar contra a M ulher, órgãos da Justiça O rdinária com com pe­
tência cível e crim inal, poderão ser criados pela União, no D istri-
216 Coleção Saberes Monográficos

to Federal e nos Territórios, e pelos Estados, para o processo, o


julgam ento e a execução das causas decorrentes da prática de vio­
lência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er”.
Conform e adverte W ânia Pasinato, os Juizados “deverão te r
um a atuação que difere da aplicação tradicional da justiça crim i­
nal - que se lim ita à apreciação das responsabilidades crim inais e
distribuição de penas - para operar em consonância com as con­
venções internacionais de proteção dos direitos da m ulher (CEDAW
e Convenção de Belém do Pará), com a Política Nacional de En-
frentam ento à Violência contra a M ulher e o Pacto Nacional de
E nfrentam ento à Violência contra a Mulher, que enfatizam a ado­
ção de m edidas para en fren tar a violência contra a m u lh er em
seus efeitos diretos e indiretos contra a autonom ia das m ulheres
e o exercício de seus direitos” (2011: 134).
Os Juizados representam u m dos m aiores avanços da Lei Ma­
ria da Penha. Por meio deles foi possível centralizar, num único
procedim ento judicial, todos os meios de garantia dos direitos da
m u lh er em situação de violência dom éstica e fam iliar, antes rele­
gado a diversos e diferentes órgãos jurisdicionais (vara crim inal,
cível, de família, da infância e da juventude etc.).
Ao preservar a conexão entre os litígios cíveis e crim inais, o
legislador p erm itiu que o m esm o juiz ju lg u e o pedido de separa­
ção conjugal, ação de alim entos, separação de corpos etc., e leve
em consideração os fatos envolvidos em tais ações no m om ento
em que for apreciar ações decorrentes das práticas violentas rela­
cionadas a estes conflitos fam iliares (que deram origem a proces­
sos crim inais).
A nteriorm ente à criação dos Juizados, a m ulher, que já se en ­
contrava em condição de especial vulnerabilidade, precisava bus­
car seus direitos e proteger-se da violência em diversos órgãos do
Poder Judiciário, o que lhe dificultava, sobrem aneira, o acesso à
justiça (por conta da dem ora, dos custos, de eventuais decisões
contraditórias elaboradas pelos diversos juizes envolvidos nas
causas cíveis e crim inais).
M ovimentos de m ulheres perceberam os problem as concre­
tos enfrentados por aquelas que se viam obrigadas a percorrer
juízos e esferas burocráticas diversas (com a fragm entação da
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 217

prestação jurisdicional), no intento de resolver problem as decor­


rentes de u m único fator desencadeante: a violência dom éstica e
familiar. A p a rtir de tal percepção, foi apresentada a sugestão de
criação de tais Juizados.
A reivindicação pelos Juizados de Violência Doméstica e Fa­
m iliar contra a M ulher “realizou u m choque de realidade no cam ­
po jurídico, im pondo que as form as e os conteúdos do direito te­
nham correspondência com a realidade dos problem as sofridos
pelas m ulheres. C ontrariam ente à tradição do pensam ento ju ríd i­
co, a p a rtir da reform a legal, é o sistem a jurídico que necessita se
adequar à realidade, e não o contrário. Especificam ente em rela­
ção à violência contra m ulheres, a possibilidade de que, na m esm a
esfera jurisdicional, de form a concentrada e com econom ia de
atos, possam ser resolvidas questões penais e de fam ília represen­
ta im portante inovação e, em term os pragm áticos, significa efeti­
vidade dos direitos” (CAMPOS; CARVALHO, 2011: 149).
W ânia Pasinato elenca três im portantes motivações para o
cúm ulo das ações cíveis e crim inais (2011:136):
a) “assegurar o acesso das m ulheres à justiça de form a m ais rá­
pida e m enos onerosa”;
b) “a não padronização de procedim entos fere o princípio da
universalização do acesso à justiça, criando oportunidades di­
ferentes para grupos de m ulheres que enfrentam situações
sem elhantes de desrespeito a seus direitos”;
c) “ainda que as varas de fam ília sejam especializadas para o tra ­
tam ento de questões relacionadas à guarda de filhos e à sepa­
ração conjugal, não é incom um que os problem as sejam re ­
duzidos ao pagam ento da pensão alim entícia, tratando como
um a disputa em torno de valores m onetários e que é resolvi­
da em setores de conciliação, por voluntários e pessoas sem
qualquer preparo para reconhecer a violência que está por
trás desses conflitos (PERRONE, 2010)”.
Mas, se por u m lado a criação dos Juizados foi m uito festeja­
da, por outro um a triste realidade aponta para o fato de que p er­
m anece, ainda, u m núm ero reduzido de Varas e Juizados especia-
218 Coleção Saberes Monográficos

lizados no País, conform e dados divulgados na V Jornada Lei


Maria da Penha, ocorrida em 22 de m arço de 2011 em Brasília.196
De acordo com o Mapa de Juizados e Varas Especializados,197
até m arço de 2011, nos Estados de Rondônia, Sergipe e Paraíba não
foram instalados Juizados; nos Estados do Acre, Amazonas, Rorai­
ma, Amapá, Piauí, Alagoas, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo,
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, há apenas u m Juizado
instalado em cada ente da Federação mencionado; nos Estados do
M aranhão, Ceará, Pernam buco, Bahia e M inas Gerais, há dois Ju i­
zados instalados em cada ente; nos Estados do Espírito Santo e
Tocantins, há três Juizados; no Estado do Mato Grosso, há quatro
Juizados; no Estado do Pará, há cinco Juizados; no Estado do Rio
de Janeiro, há sete Juizados instalados; e, por fim , no D istrito Fe­
deral há quatro Juizados instalados.
O utra pesquisa (Relatório Anual do CNJ - 2010)198 aponta que
no ano de 2010 existiam som ente 43 Juizados no Brasil. Neles
constavam 328.964 processos em andam ento, tendo sido proferi­
das 108.882 decisões judiciais desde a entrada em vigência da Lei.
Até ju lh o de 2012, o Brasil possuía 66 unidades judiciárias
exclusivas de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher. Ob-
servando-se o mapa nacional, verificou-se que a distribuição das
varas e Juizados exclusivos é significativam ente desproporcional
entre os tribunais brasileiros e não obedece a critérios populacio­
nais. Ademais, a grande m aioria das estru tu ras concentra-se nas
capitais e regiões m etropolitanas, sendo a interiorização ainda in ­
suficiente.199 Além da insuficiência de Juizados, observa-se tam ­
bém que a dupla com petência (civil e crim inal), em m uitos casos,

196 C onform e inform ado cm: http://w w w .obscrvatoriodcgcncro.gov.br/m cnu/noticias/


cnj-organiza-a-v-jornada-lci-m aria-da-pcnha/.
197 Dados obtidos cm: http://w w w .cnj.jus.br/im agcs/cam panhas/m ariapcnha/aprcscn-
tacocs/aprcscntacao_v_jornada_vcrsao_i.pdf. C onsultar tam bém : http://w w w .am b.
com.br/fonavid/Juizados_RELACAO_DE ^JUIZADOS.pdf.
198 Relatório do ano dc 2010, disponível cm : http://w w w .cnj.jus.br/im agcs/rclatorios-
-anuais/cnj/rclatorio_anual_cnj_2010.pdf, p. 116.
199 Inform ação retirad a do seguinte docum ento: http://w w w .com prom issocatitudc.org.
br/lci-m aria-da-pcnha-varas-cxclusivas-aum cntam -a-crcdibilidadc-do-judiciario-e-
-cncorajam -a-dcnuncia/. Acesso cm : 14-4-2014.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 219

não está sendo observada pelos juizes. “Em 10 Juizados a atuação


nos processos civis tem se lim itado às m edidas cautelares, aplica­
das no âm bito das m edidas protetivas, que contem plam as ações
provisórias de alim entos, de guarda de filhos, além do afastam en­
to do agressor da residência e a proibição de aproximação e con­
tato” (PASINATO, 2011:135).

5. 7. Horário de funcionamento
De conform idade com o parágrafo único do art. 14, “os atos
processuais poderão realizar-se em horário noturno, conform e
dispuserem as norm as de organização judiciária”.
Como já m encionado em outros tópicos, a violência dom ésti­
ca envolve especificidades por tra ta r da prática de atos de agressão
entre pessoas que m antêm ou m antiveram algum tipo de relacio­
nam ento (na esmagadora m aioria dos casos, a violência é p erp e­
trada pelo parceiro da mulher).
Desta forma, ao determ inar na redação do art. 14, parágrafo
único, que os atos processuais poderão ser realizados em horário
noturno, o legislador contou com a possibilidade de um a m ulher
ser vítim a de agressão e necessitar de providências como a im po­
sição de m edidas protetivas de urgência em período do dia em que
o acesso às autoridades com petentes seja m ais dificultoso. Ade­
mais, um a interpretação sistemática do ordenam ento jurídico bra­
sileiro perm ite concluir que o legislador considera que o período
no tu rn o pode atu ar com o fator de aum ento de vulnerabilidade
em razão de ser o m om ento em que a m aior parte das pessoas
repousa, gerando redução da vigilância, e quando m uitas rep arti­
ções públicas encontram -se fechadas.200

5.2 . Exceções à competência dos Juizados de Violência Doméstica e


Familiar contra a Mulher
A com petência para processar e ju lg a r a violência doméstica
e fam iliar contra a m u lh er é da Justiça Comum, com o se viu an-

200 M cncionc-se o exem plo da previsão de au m en to de pena para a prática do crim e de


fu rto no período n o tu rn o (art. 155, § 3®, CP) c a regra de inviolabilidade absoluta de
dom icílio por determ inação ju d icial no período n o tu rn o (art. 5®, IX, CF).
220 Coleção Saberes Monográficos

teriorm ente. Há, entretanto, exceções, contem pladas constitucio­


nalm ente, por exemplo crim es de com petência da Justiça Federal
ou M ilitar e crim es de com petência do Tribunal do Júri.
a) Crimes de competência da Justiça Federal ou Militar
A Justiça Federal será com petente para processar e julgar, por
exemplo, um a violência do m arido contra a m ulher dentro de um a
aeronave ou navio (CF, art. 109).
A Lei M aria da Penha não previu a criação dos Juizados de
Violência Doméstica e Fam iliar contra a M ulher no âm bito da
Justiça Federal, diferentem ente do que ocorreu com a Lei n.
9.099/95. Não obstante, não há dúvida de que as m edidas proteti-
vas de urgência podem ser aplicadas, já que em m atéria de violên­
cia dom éstica e fam iliar contra a m u lh er há que se dar ampla
aplicação ao art. 4-, que prevê que na interpretação da Lei Maria
da Penha “serão considerados os fins sociais a que ela se destina e,
especialm ente, as condições peculiares das m ulheres em situação
de violência dom éstica e fam iliar” (v. itens 1 e 2 da parte 1).

b) Crimes de competência do Tribunal do Júri


A Constituição Federal assegura ao Tribunal do Jú ri a com pe­
tência para o julgam ento dos crim es dolosos contra a vida (art. 5Q,
XXXVIII). Na hipótese da prática de u m crim e doloso contra a
vida de um a m ulher no contexto doméstico, fam iliar ou em um a
relação íntim a de afeto, o seu julgam ento com petirá ao Tribunal
do Jú ri ou ao Juizado de Violência Doméstica e Fam iliar contra a
M ulher (JVDFM)?
O procedim ento aplicado aos processos da com petência do
Tribunal do Jú ri é dividido em duas fases: judicium accusationis (for­
mação ou sum ário de culpa) e judicium causae (julgamento do caso).
No tocante ao julgam ento do caso (judicium causae), não há
dúvidas de que será realizado pelo Tribunal do Júri. Entretanto, há
discussões acerca da prim eira fase do procedim ento, ou seja, do
denom inado sum ário de culpa, havendo quem defenda que em tal
fase a tram itação deve ocorrer perante os Juizados de Violência
Doméstica e Fam iliar contra a Mulher.
Uma prim eira reflexão a ser feita sobre o tem a envolve a aná­
lise do art. 14, da Lei Maria da Penha, o qual determ ina que os
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 221

Juizados de Violência Doméstica e Fam iliar contra a M ulher “po­


derão ser criados pela União, no D istrito Federal e nos Territórios,
e pelos Estados, para o processo, o julgam ento e a execução das
causas decorrentes da prática de violência dom éstica e fam iliar
contra a m u lh er”. Uma rápida leitura do dispositivo leva a crer
que todo o processam ento deve ocorrer perante os Juizados de
Violência Doméstica e Fam iliar contra a Mulher.
Todavia, a análise do art. 5Q, inc. XXXVIII, da CF/88, pode con­
duzir a solução diversa, ou seja, o processam ento das duas fases
(judicium accusationis e judicium causae) serem prom ovidos pelo Tri­
bunal do Júri, excluindo-se, assim, a possibilidade do trâm ite do
sum ário de culpa perante os Juizados de Violência Doméstica e
Fam iliar contra a Mulher.
A resposta à questão exige que se agregue à discussão o dis­
posto no art. 96, I, a, da CF, que determ ina ser com petência dos
tribunais dispor “sobre a com petência e o funcionam ento dos res­
pectivos órgãos jurisdicionais e adm inistrativos”.
Assim, se as leis de organização judiciária atribuem aos Juiza­
dos de Violência Doméstica e Fam iliar contra a M ulher a com petên­
cia para a realização do sum ário de culpa, o trâm ite da prim eira
fase do procedim ento deverá se dar nos referidos Juizados, ao pas­
so que se a Lei atribuir a outro órgão, a exemplo das varas do Júri,
não há que se falar em realização do judicium accusationis perante os
Juizados de Violência Doméstica e Fam iliar contra a Mulher.
A conclusão acim a é apontada por Rogério Sanches C unha e
Ronaldo Batista Pinto: “com petente, se conclui, sem m aior difi­
culdade, será o ju iz apontado pelas respectivas leis de organização
judiciária como tal. Poderá ser o ju iz da vara exclusiva do Júri,
como ocorre na capital do Estado de São Paulo, a quem cabe a
condução de todo o procedim ento, desde o recebim ento da acu­
sação até o julgam ento em plenário. Naquelas onde não há vara
privativa do Júri, com petente será o ju iz de u m a vara crim in al”
(2011: 96).
Superada a definição da com petência para a concretização do
sum ário de culpa, é necessário verificar qual o m om ento em que
haverá rem essa dos autos do processo ao Tribunal do Júri, nas
hipóteses em que as leis de organização judiciária determ ine que
222 Coleção Saberes Monográficos

com pete aos Juizados de Violência Doméstica e Fam iliar contra a


M ulher o julgam ento do sum ário de culpa.
Maria Berenice Dias afirm a que “antes de pronunciado o réu,
é que o processo deve ser encam inhado à Vara do Jú ri para o ju l­
gam ento em plenário” (2010: 94). O STJ, no julgam ento do HC
73.161, tam bém aplicou tal solução. Entendendo de form a diversa,
Paulo H enrique A randa Fuller afirm a com petir aos Juizados de
Violência Doméstica e Fam iliar contra a M ulher “inclusive a pro-
lação da sua decisão de encerram ento (pronúncia, im pronúncia,
absolvição sum ária ou desclassificação)” (2010: 693). No m esm o
sentido é o entendim ento de Cunha e Batista (2011: 96).
Nosso posicionamento: entendem os com petir ao ju iz dos Ju i­
zados de Violência Doméstica e Fam iliar contra a M ulher (quando
as leis de organização judiciária nada dispuserem a respeito) p ro ­
ferir a decisão de pronúncia, já que esteve m ais próxim o da produ­
ção das provas, bem com o se encontra capacitado para com preen­
der as especificidades da violência dom éstica e fam iliar baseada
no gênero (ou pelo m enos assim determ ina a Lei M aria da Penha)
para decidir causas que envolvam o tem a. Após a preclusão desta
decisão, deve o ju iz dos Juizados de Violência Doméstica e Fam i­
liar contra a M ulher encam inhar os autos do processo ao juiz p re­
sidente do Tribunal do Júri, nos term os do art. 421 do CPP.201

5.3 . Competência das varas criminais enquanto não estruturados os Jui­


zados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (art. 33)
Art. 33. Enquanto não estruturados os Juizados de Violência Do­
méstica e Familiar contra a Mulher, as varas criminais acumula­
rão as competências cível e crim inal para conhecer e julgar as
causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar
contra a mulher, observadas as previsões do Título IV desta Lei,
subsidiada pela legislação processual pertinente.

Prevê o art. 33 da Lei Maria da Penha que, enquanto não esti­


verem estruturados os Juizados de Violência Doméstica e Fam iliar

201 CPP, art. 421. Prcclusa a decisão dc pronúncia, os autos serão encam inhados ao ju iz
presidente do Tribunal do Jú ri. [Alterado pela Lei n. 11.689-2008].
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 223

contra a Mulher, as varas crim inais podem acum ular as com pe­
tências cível e crim inal para conhecer e ju lg ar as causas decorren­
tes da prática de violência doméstica e fam iliar contra a m ulher.
A constitucionalidade de tal dispositivo foi objeto de questio­
nam ento na Ação Declaratória de Constitucionalidade 19, propos­
ta pela Presidência da República e julgada procedente, por u n an i­
midade, pelo STF.
Aqueles que entendiam ser inconstitucional o dispositivo evo­
cavam o teor dos arts. 125, § 1Q, e 96, II, d, am bos da Constituição
Federal.202 Alegava-se que o art. 33 da Lei M aria da Penha ofendia
a Carta, por tratar de m atéria relativa à organização judiciária,
quando a com petência para tal é estadual.
O STF decidiu, corretam ente, pela constitucionalidade do art.
33 da Lei Maria da Penha e entendeu que não há qualquer ofensa
à Constituição, pois o dispositivo legal não im põe aos Tribunais
Estaduais o dever de criar Juizados de Violência Doméstica e Fa­
m iliar contra a M ulher, ou seja, não há introm issão na com petên­
cia dos Estados. Há, tão som ente, um a indicação que pode ser
acatada, ou não (ver item 17).

5.4 . É possível ampliar da competência dos Juizados Especiais a fim de


abranger o processo e julgamento de crimes a que se refere a Lei
Maria da Penha? (arts. 33 e 41) A experiência do Estado de Goiás
A Lei Estadual n. 17.541/2012, que altera a Organização Judi­
ciária do Estado de Goiás, am pliou, em seu art. 12, a com petência
dos Juizados Especiais para abranger, privativam ente, o processa­
m ento e o julgam ento das causas decorrentes da prática de violên­
cia dom éstica e fam iliar contra a m ulher das com arcas de entrân-
cia inicial e interm ediária. Eis o texto legal:

Art. 12. Os Juizados Especiais Criminais e os Juizados Especiais


de com petência m ista (cível e crim inal) das Comarcas de En-

202 CF, art. 96. Com pete privativam ente: [...] II - ao Suprem o Tribunal Federal, aos Tribu­
nais Superiores e aos Tribunais de Justiça propor ao Poder Legislativo respectivo, ob­
servado o disposto no art. 169: [...] d) a alteração da organização c da divisão judiciárias.
CF, art. 125. Os Estados organizarão sua Justiça, observados os princípios estabelecidos
nesta Constituição. § 1®A com petência dos trib u n ais será definida na Constituição do
Estado, sendo a lei de organização ju d iciária de iniciativa do Tribunal de Justiça.
224 Coleção Saberes Monográficos

trância inicial e interm ediária têm suas competências amplia­


das para abranger, privativamente, o processamento e julga­
mento das causas decorrentes da prática de violência doméstica
e fam iliar contra a mulher, de que trata a Lei n. 11.340, de 7 de
agosto de 2006 (Lei Maria da Penha), observando nestes proce­
dimentos o rito previsto naquela Lei especial protetiva e a m es­
ma forma de distribuição utilizada para os feitos que tram itam
naqueles Juizados.

Enquanto os Juizados Especiais são com petentes para conci­


liação, julgam ento e execução das causas cíveis de m enor com ple­
xidade e das infrações penais de m enor potencial ofensivo (CF,
art. 98, I, e Lei n. 9.099/95), os Juizados de Violência Doméstica e
Fam iliar contra a M ulher possuem a atribuição de conhecer e
ju lg ar as causas decorrentes da prática de violência dom éstica e
fam iliar contra a m u lh er (art. 33).
Como em Goiás, nas com arcas de entrância inicial e in term e­
diária, ainda não foram instalados Juizados de Violência D om ésti­
ca e Fam iliar contra a M ulher (tal qual ocorre em tantos outros
Estados); era a Justiça com um quem detinha a com petência para o
processo e julgam ento dos crim es descritos na Lei M aria da Penha
até o advento da Lei Estadual, quando, então, os processos relati­
vos à Lei n. 11.340/2006 passaram a ser encam inhados para os
Juizados Especiais.
De acordo com Renato Brasileiro de Lima, “em v irtu d e das
inegáveis dificuldades financeiras e adm inistrativas suportadas
pelo Poder Judiciário, e da consequente carência de espaço físico
e de pessoal para a estruturação desses Juizados de Violência Do­
m éstica e Fam iliar contra a M ulher, alguns Estados da Federação
têm ampliado a com petência dos Juizados Especiais C rim inais
para tam bém abranger o processo de causas relativas à violência
dom éstica e fam iliar contra a m u lh er” (2011: 776-7).
A prim eira questão a ser enfrentada diz respeito à constitu-
cionalidade da Lei n. 17.541/2012, no que tange à ampliação da
com petência dos Juizados Especiais Crim inais. A Constituição Fe­
deral, ao criar os Juizados Especiais, dotou-os de com petência es­
pecífica, qual seja, “a conciliação, o julgam ento e a execução de
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 225

causas cíveis de m enor com plexidade e infrações penais de m enor


potencial ofensivo” (art. 9 8 ,1).203
Q uanto a este aspecto, a Lei Estadual, ao estabelecer, ainda no
seu art. 12, que se deve observar o rito previsto na Lei especial
protetiva (Lei Maria da Penha) e a m esm a form a de distribuição
utilizada para os feitos que tram itam nos Juizados de Violência
Doméstica e Fam iliar contra a M ulher, trato u de afastar qualquer
inconstitucionalidade.
Além disso, a ampliação da competência não se afigura contrária
a qualquer dispositivo da Carta Magna, já que a Lei Estadual tratou de
normas relativas à organização judiciária, e a Constituição Federal
confere aos Estados tal atribuição (arts. 125, § l2,204 e 96, D, d).203-206
Não se pode desconsiderar o inconveniente de que norm as
como a definida pelo Estado de Goiás acarretam em relação ao tem a
recurso. O juízo ad quem para processar e julgar recursos ou habeas
corpus interpostos contra decisão do Juizado de Violência Doméstica
e Familiar não pode ser as turm as recursais, pois a elas, conforme
determ inação constitucional (CF, art. 9 8 ,1), compete apenas o recur­
so de processo interposto contra um a decisão dos Juizados Especiais
Criminais no que tange a infrações de m enor potencial ofensivo.207
Bem se sabe que a Lei Maria da Penha afastou a aplicação da
Lei n. 9.099/95 para os casos que envolvam violência dom éstica e
fam iliar contra a m u lh er (art. 41), cuja constitucionalidade foi de­
clarada pelo STF (ADC 19 E ADI 4.424, julgam ento ocorrido em

203 C onstituição Federal, art. 98. A União, no D istrito Federal c nos Territórios, c os Es­
tados criarão: I - juizados especiais, providos p o r ju izes togados, ou togados e leigos,
com petentes para a conciliação, o ju lg am en to e a execução de causas cíveis de m en o r
com plexidade e infrações penais de m en o r potencial ofensivo, m ediante os procedi­
m entos oral e sum ariíssim o, perm itidos, nas hipóteses previstas em lei, a transação
c o ju lgam ento de recursos por tu rm a s de ju izes de p rim eiro grau;
204 A rt. 125. Os Estados organizarão sua Justiça, observados os princípios estabelecidos
nesta C onstituição. § 1® A com petência dos trib u n ais será definida na C onstituição
do Estado, sendo a lei de organização ju d iciária de iniciativa do Tribunal de Justiça.
205 A rt. 96. Com pete privativam ente: (...) II - ao Suprem o Tribunal Federal, aos Tribunais
Superiores c aos Tribunais de Justiça p ro p o r ao Poder Legislativo respectivo, observa­
do o disposto no art. 169: (...) d) a alteração da organização c da divisão ju d iciárias [...].
206 D ecidindo acerca da resolução do TJDFT antes m encionada, o STJ dcclarou-a co n sti­
tucional (Conflito de C om petência 97.456/DF e HC 187.098).
207 Neste sentido: STJ, 3a Seção, CC 110.530-RJ, Rcl. Og Fernandes, julgado cm: 26-5-2010.
226 Coleção Saberes Monográficos

9-2-2012). A opção legislativa deu-se em decorrência de ju sto e


elevado motivo: “com o é sabido, a aplicação dos institutos despe-
nalizadores da Lei n. 9.099/95 contribuiu gravem ente para o fenô­
m eno da violência contra a m u lh er com a adoção de práticas ba-
nalizadoras, que só reforçaram o sentim ento social de im punidade
em relação à violência perpetrada contra as m ulheres no contexto
dom éstico-fam iliar. A m udança de paradigm a trazida pela Lei n.
11.340/2006 abandona a noção de m enor potencial ofensivo da lei
anterior e reconhece a violência dom éstica e fam iliar contra a
m ulher como u m a form a de violação aos direitos hum anos (art.
6Q)” (MARTIN JUNIOR, 2011: 358).
Aliás, a preocupação em se afastar a aplicação da Lei n.
9.099/95 encontra-se presente desde A nteprojeto de Lei elaborado
por organizações fem inistas e debatido entre os anos 2002 e 2006.
Já na prim eira m inuta, o A nteprojeto de Lei apresentava tal m edi­
da.208 Quando, em 2004, foi elaborado o Decreto n. 5.030, que
in stitu iu o Grupo de Trabalho Interm inisterial com o propósito
de “elaborar proposta de m edida legislativa e outros instrum entos
para coibir a violência dom éstica contra a m u lh er”, novam ente,
dentre os pontos de convergência extraídos nas reuniões, surge a
recom endação de proibir a utilização da Lei n. 9.099/95, por conta
do fato de que “a pena, na prática, para os crim es de m enor poten­
cial ofensivo concretizava-se no pagam ento em cestas básicas”
(CALAZANS; CORTES, 2011: 45).
A Lei Maria da Penha “requer que o profissional que faz o
atendim ento seja treinado para com preender as especificidades da
violência dom éstica e fam iliar baseada no gênero, ou seja, como
resultado do exercício desigual de poder na relação entre hom ens
e m ulheres, e as dificuldades que são enfrentadas pelas m ulheres
no m om ento de denúncia” (PASINATO, 2011:125).

5. 5. Deslocamento de competência nos crimes com violação dos direitos


humanos (CF, a rt 109, V-A e § 5q, c/c art. 6q da Lei Maria da Penha)
Os crim es com etidos com violência dom éstica e fam iliar con­
tra a m u lh er são da com petência da Justiça Estadual (v. item 5). No

208 Disponível cm : w w w .ccpia.org.br/articulacao.htm . Acesso cm: l°-8-2012.


Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 227

entanto, por constituir, a violência dom éstica e fam iliar contra a


m ulher, um a das form as de violação dos direitos hum anos (art. 6-
- v. item 11 da parte 1), há possibilidade, preenchidos os requisitos
legais, de o Procurador-G eral da República suscitar o desloca­
m ento de com petência (CF, art. 109, V-A e § 5Q).
Com o advento da Emenda Constitucional 45/2004, o chefe
do M inistério Público da União poderá, na hipótese de ocorrência
de grave violação de direitos hum anos, suscitar deslocamento de
com petência para que os crim es com etidos com violência dom és­
tica e fam iliar contra a m u lh er sejam julgados pela Justiça Federal.
0 deslocamento deve ser suscitado pelo Procurador-Geral da
República perante o Superior Tribunal de Justiça e pode ocorrer tan ­
to no decurso do inquérito policial quanto da ação penal. O propósi­
to da medida é assegurar o pleno cum prim ento das obrigações exis­
tentes em tratados internacionais dos quais o Brasil seja signatário.
É possível, e até recomendável, que, diante da conjugação da
prática de violência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er com a
omissão do Poder Público em investigar e punir, desloque-se a
com petência para processar os crim es praticados.
De fato, som ente diante da “omissão ou inércia na condução
das investigações do crim e e sua efetiva punição pela grave viola­
ção dos direitos hum anos, em prejuízo ao princípio da autonom ia
federativa (EC n. 45/2004)”, é cabível o deslocam ento da com pe­
tência para a justiça federal (Informativo 2 5 0 do STJ, IDC 1-PA), in ­
clusive para evitar o risco de responsabilização internacional que
derive do não cum prim ento das obrigações constantes nos trata­
dos internacionais (Informativo 453 do STJ, IDC 2-DF).

6. Competência para os processos cíveis (art. 15)


Art. 15. É competente, por opção da ofendida, para os processos
cíveis regidos por esta Lei, o Juizado:
1 - do seu domicílio ou de sua residência;
II - do lugar do fato em que se baseou a demanda;
III - do domicílio do agressor.

A com petência para os processos cíveis é regida pelo art. 15


da Lei M aria da Penha, que faculta à ofendida optar pelo seu do-
228 Coleção Saberes Monográficos

micílio ou residência (inc. I); pelo lugar do fato em que a dem anda
é baseada (inc. II); ou com base no domicílio do agressor (inc. III).
A intenção da Lei é de privilegiar a vítima, por ser a parte mais
frágil da dem anda, e não se trata de m ero privilégio concedido
como benesse a alguém considerado inferior ou incapaz: os crité­
rios para determ inação de com petência são fixados pelo legislador
levando-se em conta os elem entos de um a dem anda, quais sejam,
as pessoas em litígio, o pedido, seus fatos e fundam entos jurídicos
(DINAMARCO; CINTRA; GRINOVER, 1998: 233). O direito proces­
sual contem porâneo contem pla situações em que se reconhece a
hipossuficiência de algum a das partes de postular em juízo e p ro ­
cura apresentar soluções que confiram o equilíbrio processual
exigido pela regra da isonomia. À guisa de exemplo - e tam bém
para dem onstrar que não se trata de previsão exclusiva da Lei Ma­
ria da Penha - cite-se o disposto no art. 93 do Código de Defesa
do Consum idor, que considera o consum idor a parte hipossufi-
ciente da relação consum erista e por isso lhe garante o direito de
escolher o foro com petente m ais conveniente.
Em outras palavras: se as partes do processo possuem carac­
terísticas específicas, necessita-se de regras específicas. A regra de
com petência prevista no art. 15 orienta-se ju stam en te pelo ele­
m ento das partes envolvidas na dem anda: a m u lh er agredida e seu
agressor. Ao oferecer três possíveis foros com petentes, o legisla­
dor m anifesta seu entendim ento a respeito da complexidade das
relações pessoais existentes entre as partes envolvidas na dem an­
da cível decorrente da prática de violência doméstica, com vistas
a reduzir tanto quanto possível as dificuldades práticas (como des­
locam ento até o foro de propositura da ação, localização de teste­
m unhas, produção de outras provas, etc.) para o ajuizam ento dos
processos cíveis, que já trazem em si tantos obstáculos pessoais a
serem superados pela m ulher agredida.

7. Representação nos crimes de violência doméstica e familiar


contra a mulher (arts. 1 6 ,1 2 ,1, e 41)
Art. 16. Nas ações penais públicas condicionadas à representação
da ofendida de que trata esta Lei, só será admitida a renúncia à
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 229

representação perante o juiz, em audiência especialmente desig­


nada com tal finalidade, antes do recebimento da denúncia e
ouvido o Ministério Público.

Art. 12. Em todos os casos de violência doméstica e familiar con­


tra a mulher, feito o registro da ocorrência, deverá a autoridade
policial adotar, de imediato, os seguintes procedimentos, sem
prejuízo daqueles previstos no Código de Processo Penal:
I - ouvir a ofendida, lavrar o boletim de ocorrência e tom ar a
representação a termo, se apresentada;
[- ]
Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e fami­
liar contra a mulher, independentemente da pena prevista, não
se aplica a Lei n. 9.099, de 26 de setembro de 1995.

Em 9 de fevereiro de 2012, o Plenário do Supremo Tribunal


Federal julgou procedente, por unanim idade, a Ação Declaratória
de Constitucionalidade 19 e, por m aioria (com u m voto contra,
M inistro Peluso), a Ação Declaratória de Inconstitucionalidade
4.424. Ambas tratavam de tem as vinculados à Lei Maria da Pe­
nha. De acordo com a PGR, a análise das norm as im pugnadas
possibilitava duas interpretações distintas a respeito da natureza
da ação penal relativa aos crim es de lesão corporal leve praticados
contra a m u lh er no am biente dom éstico e fam iliar: pública condi­
cionada à representação e pública incondicionada (posição defen­
dida pela PGR). Isso porque, a prevalecer o entendim ento de que
o art. 41 da Lei Maria da Penha afasta com pletam ente a aplicação
dos Juizados Especiais C rim inais (Lei n. 9.099/95) e, via de conse­
quência, faz desaparecer a necessidade de representação para os
crim es de lesão corporal leve (cuja exigência encontra-se insculpida
no seu art. 89),209 a Lei Maria da Penha não deveria fazer qualquer

209 Lei n. 9.099/95, art. 89. Nos crim es em que a pena m ín im a com inada for igual ou in ­
ferior a 1 (um) ano, abrangidas ou nâo por esta Lei, o M inistério Público, ao oferecer
a denúncia, poderá p ropor a suspensão do processo, p o r 2 (dois) a 4 (quatro) anos,
desde que o acusado nâo esteja sendo processado ou nâo te n h a sido condenado por
o u tro crim e, presentes os dem ais requisitos que autorizariam a suspensão condicio-
230 Coleção Saberes Monográficos

menção ao instituto da representação (o que ocorre nos dois outros


dispositivos im pugnados: arts. 1 2 ,1, e 16). Daí, a confusão.
Para o STF, entretanto, tal contradição era apenas aparente,
pois os arts. 1 2 ,1, e 16 da Lei Maria da Penha, que fazem referência
ao term o “representação”, continuam válidos para todos os crim es
que a exigem, por exemplo para a ameaça (art. 147, CP). Assim, há
crim es cuja ação penal ainda depende de representação, e, para
estes, são válidos os artigos da Lei Maria da Penha antes m encio­
nados (autoridade policial deve tom ar a representação da ofendida
quando do registro da ocorrência - art. 1 2 ,1; retratação da rep re­
sentação som ente será aceita perante o juiz, em audiência espe­
cialm ente designada com tal finalidade, antes do recebim ento da
denúncia e ouvido o M inistério Público - art. 16).
O STF, na ADI 4.424, ao decidir que o M inistério Público po­
de atuar nos casos de crim es de lesão corporal contra as m ulhe­
res, independentem ente da representação da vítima, dando in ter­
pretação conform e a Constituição aos arts. 1 2 ,1, e 16 da Lei Maria
da Penha, diverge do entendim ento preconizado pelo STJ, segun­
do o qual a ação penal é condicionada à representação da agredida
(dentre outros, HC 113.608-MG).
Para fundam entar a discussão, convém levar em consideração
pesquisa de vitimologia que aponta os motivos pelos quais as m u­
lheres não denunciam , conform e já m encionado na parte 1 do
presente livro (ver item 13.4). De acordo com os dados (Pesquisa
DataSenado 2013),210 o principal m otivo da inércia da m ulher é o
m edo de vingança do agressor (23,5%).
Apesar da decisão do STF, no sentido de que a Lei Maria da
Penha não exige representação para os crim es de lesão corporal
leve, tal instituto continua sendo requerido em face de outros
crim es, cuja ação penal seja pública condicionada à representação,
com o é o caso da ameaça (CP, art. 147).

nal da pena (art. 77, do Código Penal).


210 Disponível em: http://atualidadesdodireito.com.br/alicebianchini/2011/ll/28/violcncia-
-contra-a-m ulher-e-enfrentam ento-judicialdo-agressor-serie-novela-fina-estam pa/*__
ftn l. Acesso em: 12-8-2012.
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 231

Para tais situações, inicialm ente, é de se dizer que a Lei Maria


da Penha foi bastante benevolente com o agressor, ao prever o te r­
m o ad quem para a retratação da representação (erroneam ente re­
ferida como renúncia no art. 16), que pode ser realizada em juízo
até o recebim ento da denúncia, e não do seu oferecim ento, como
estabelece a regra geral contida no art. 25 do CPP. Im porta ressal­
ta r que o term o renúncia não poderia ser aplicado a um direito que
já se exerceu: trata-se antes de um a reconsideração a respeito do
pedido-autorização m anifestado pela vítima, do qual poderá, no
m áxim o, retratar-se (CUNHA; PINTO, 2011: 98).
Por outro lado, quando se trata da retratação da representa­
ção, a Lei Maria da Penha foi extrem am ente cautelosa, como se
poderá ver no item seguinte.

7.1. Retratação (erroneamente denominada renúncia pela Lei Maria da


Penha) da representação em audiência especialmente designada
para tal fim (art. 16)
Art. 16. Nas ações penais públicas condicionadas à representação
da ofendida de que trata esta Lei, só será admitida a renúncia à
representação perante o juiz, em audiência especialmente desig­
nada com tal finalidade, antes do recebimento da denúncia e
ouvido o Ministério Público.

Como em todos os crim es condicionados à representação,


tam bém a m u lh er em situação de violência doméstica e fam iliar
pode se retratar (m anifestando a sua intenção de não prosseguir
com o processo-crime).
Mas, para tanto, o art. 16 da Lei Maria da Penha exige que a
retratação (denominada erroneam ente de renúncia pelo legisla­
dor) há que seguir u m trâm ite especial: Io) ser realizada perante o
juiz, em audiência especialm ente designada com tal finalidade, 2o)
ocorrer antes do recebim ento da denúncia (o prazo norm al do
CPP, art. 25, é até o oferecim ento da denúncia) e 3o) ser ouvido o
M inistério Público.
A retratação da qual trata o art. 16 deve ser voluntariam ente
feita pela vítima, que necessita se m anifestar pela vontade de não
d ar prosseguim ento à ação penal. No entanto, não basta à vítim a
232 Coleção Saberes Monográficos

m anifestar-se, m as é preciso fazê-lo perante o juiz, pois este de­


verá verificar a real espontaneidade da retratação apresentada. Se­
gundo Porto (2012: 48), o legislador cuidou de estabelecer garantias
à vítim a quando esta decide retratar a representação, prevendo
que o M inistério Público deve ser previam ente ouvido e desig­
nando audiência específica para tal fim , obrigando-a, caso seja
esta a sua vontade, a desistir perante o juiz. Tal cuidado visa ga­
ra n tir que a ofendida não está sendo pressionada a retratar a re­
presentação, mas o está fazendo livrem ente (CUNHA; PINTO,
2011: 100).
Para que tal ato seja válido, a vítim a deve ter sido devidam en­
te orientada sobre as consequências jurídicas e práticas de sua de­
cisão, sendo passível de anulação a retratação feita por vítim a que
não estiver a par dos efeitos de seu ato. Assim, entende-se que é
fundam ental a presença de defensor nesta audiência, consideran-
do-se a situação de vulnerabilidade na qual se encontra a vítim a
de violência dom éstica e fam iliar (BELLOQUE, 2011: 339).
Apesar de a m aioria da doutrina211 concordar com a im por­
tância da audiência para retratação da representação em casos de
violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher, há posicionam en­
to contrário à sua previsão. Maria Lúcia Karam (2006), por exem ­
plo, considera desnecessária tal audiência, entendendo que pode
haver retratação sem a presença do ju iz e a oitiva do M inistério
Público. Para a autora, tal audiência é procedim ento discrim inató­
rio, que vitim iza ainda m ais a m ulher, um a vez que a Lei infanti-
liza a vítim a ao obrigá-la a fazer a retratação perante o juiz, para
que este possa aferir sua real intenção em abrir mão da represen­
tação. Já para Pedro Rui da Fontoura Porto, trata-se de dispositivo
acertado, que respeita o protagonism o da vítim a no processo pe­
nal, valorizando sua vontade, sem, contudo, excluir possível repa­
ração m oral no âm bito civil, por exemplo. Muitas das vezes, de
acordo com o autor, a vítim a não quer passar pelo desgaste do
processo penal, m as utiliza o sistem a de justiça até o lim ite do que
considera necessário para seus objetivos (2012: 52).

211 Além dos autores citados, fazem coro favorável à audiência: Leda Maria H erm ann
(2012:153-154) e Maria Berenice Dias (2010:146-150).
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 233

Porto pondera, ainda, que as medidas protetivas de urgência


previstas na Lei criam condições propícias para as vítimas que de­
las se beneficiam tomarem livremente a decisão de retratar a re­
presentação, uma vez que passam a contar com respaldo financeiro
e/ou psicológico para decidirem de forma mais livre (2012: 53).
Posicionamento da autora: a audiência prevista no art. 16, com
todas as formalidades que a cercam, é medida que se coaduna
com os objetivos da Lei Maria da Penha (v. item 7.1). Há que se
ponderar que a Lei Maria da Penha se aplica às mulheres em situ a­
ção de violência doméstica e familiar e que os estudos sobre o
tema demonstram o quanto quem é vítima dessa situação encon­
tra-se vulnerável e fragilizada, por conta do processo de violência
que ela vivência.

8. Vedação de penas de cesta básica ou outras de prestação


pecuniária e de substituição de pena que implique o
pagamento isolado de multa (art. 17)
Art. 17. É vedada a aplicação, nos casos de violência doméstica e
familiar contra a mulher, de penas de cesta básica ou outras de
prestação pecuniária, bem como a substituição de pena que im­
plique o pagamento isolado de multa.

8.1. Motivações da vedação


Antes da promulgação da Lei dos Juizados Especiais, Lei n.
9.099/95 - criada com o objetivo de tornar célere o processo de
resolução de conflitos de menor potencial ofensivo - os casos no­
tificados de violência contra a mulher eram encaminhados às Va­
ras Criminais Comuns. A partir de 1995, devido à maioria das
ocorrências do tipo se resumir a ameaças ou lesões corporais le­
ves (CHOUKR, 2011: 370), houve uma entrada considerável de ca­
sos envolvendo violência doméstica nos JECRIMs.212 Vale lembrar

212 Dc acordo com Cam pos (2003), na cidade de Porto Alegre, e n tre 1998 e 1999, os Juiza­
dos Especiais receberam m ais de 30.000 processos em que as vítim as eram m ulheres
que alegavam te r sido vítim a de algum tipo dc violência dom éstica. D cbert e Grcgori
(2008), ao analisarem 1.036 processos, de 2002, de audiência p re lim in a r no JECRIM
do Fórum de Itaquera, em São Paulo, con stataram que 76,6% das vítim as eram do
234 Coleção Saberes Monográficos

que episódios de violência bastante graves para a vítima são con­


siderados, penalmente, como lesão corporal leve. Uma violência,
por exemplo, que deixasse a pessoa internada por 30 dias, desde
que dela não decorresse nenhuma das hipóteses previstas nos §§ lô
ou 2° do CP, será considerada como leve. Um absurdo, portanto,
em termos do que a lesão significa para a pessoa vítima.
Grande parte desses conflitos era solucionada com base no art.
76 da Lei n. 9.099/95, que prevê a transação penal com aplicação
imediata de pena restritiva de direitos ou multa, ou no art. 89, que
prevê a suspensão condicional do processo para crimes com pena
mínima igual ou inferior a um ano. A proposta para estes casos se
resumia, principalmente, à obrigatoriedade da distribuição de cesta
básica em instituição de caridade ou ao pagamento de multa.213
A inépcia dos Juizados Especiais em proporcionar resposta
satisfatória às vítimas de violência doméstica sensibilizou organi­
zações feministas e outras entidades da sociedade civil envolvidas
no combate à violência, que passaram a denunciar a banalização
da violência doméstica por parte dos JECRIMs e a consequente
vulnerabilização da vítima. Afinal, a violência doméstica, grave
problema social de desrespeito aos direitos humanos das m ulhe­
res, era “solucionada” pelo Judiciário de forma nada educativa
para o agressor, que era oficialmente estimulado a desvalorizar,
ainda mais, a vítima, cuja dor (física e psicológica) era “compensa­
da” com algumas cestas básicas ou algum valor em dinheiro.
Para Flávia Piovesan, o grau de ineficácia da Lei n. 9.099/95
“revelava o paradoxo do Estado romper com a clássica dicotomia
público-privado, de forma a dar visibilidade a violações que ocor­
rem no domínio privado, para, então, devolvê-las a este mesmo
domínio, sob o manto da banalização, em que o agressor é conde­
nado a pagar à vítima uma cesta básica ou meio fogão ou meia
geladeira... Os casos de violência contra a mulher ora eram vistos
como mera ‘querela doméstica1, ora como reflexo de ato de ‘vin-

sexo fem inino, sendo que 80% destas m u lh eres sofreram delitos de lesâo corporal e
de am eaça por parte de m aridos ou com panheiros.
213 Sobre o tem a ver: BERALDO DE OLIVEIRA (2006) e LIMA (2011: 284).
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 235

gança ou implicância da vítima’, ora decorrentes da culpabilidade


da própria vítima, no perverso jogo de que a mulher teria mere­
cido, por seu comportamento, a resposta violenta. Isso culminava
com a consequente falta de credibilidade no aparato da justiça”
(2014: 31). Ainda de acordo com a mesma autora, somente 2% dos
acusados em casos de violência contra a mulher são condenados.
A banalização da violência doméstica por conta da forma de
tratamento dado ao tema pela Lei n. 9.099/95 foi objeto de algu­
mas pesquisas, destacando-se a seguinte: ARAÚJO, Alessandra
Nogueira. A atuação do Juizado Especial Criminal de Belo Hori­
zonte nos casos de violência contra a mulher: intervenções e pers­
pectivas. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Minas
Gerais, 2005.214 O art. 17 - que veda ua aplicação, nos casos de
violência doméstica e familiar contra a mulher, de penas de cesta
básica ou outras de prestação pecuniária, bem como a substitui­
ção de pena que implique o pagamento isolado de multa” - é re­
sultado direto das críticas à maneira como os JECRIMs lidaram
com casos de violência doméstica e da pressão social para altera­
ção desta conduta praxe na resolução de conflitos desta nature­
za.215 Ao vedar tais penas alternativas, a Lei Maria da Penha obriga
o Judiciário a punir de forma proporcional à sua gravidade crimes
deste mote, levando em consideração a vítima, sua necessidade e
coragem em denunciar o agressor e toda a complexidade própria
da violência de gênero.
Posicionamento da autora: apesar das inúmeras críticas que o
dispositivo sofreu e vem sofrendo desde a edição da Lei Maria da

214 Disponível em http://w w w .clam .org.br/bibliotccadigital/uploads/publicacoes/409_


1570_dissertvcm m g.pdf. Acesso em : 14-4-2014.
215 Pesquisa realizada pelo Núcleo de Pesquisa do In stitu to Brasileiro de Ciências C rim i­
nais em 2009, para o projeto Pensando o Direito, do M inistério da Justiça, constatou
que “(...) as Varas C rim inais que acum ulam com petência para ju lg a r casos de violência
dom éstica deixaram de p ropor a m edida de m ulta ou de cesta básica para os acusados
nos casos de violência dom éstica. No entanto, nos casos observados eles têm proposto
a transação penal nas audiências prelim inares. A prestação de serviços à com unidade
e a suspensão condicional do processo sâo com um ente propostas”. Disponível em:
http://portal.mj.gov.br/main.asp?ViewID=%7BBEB32F35-C277-4F82-B7DF-7CA5F61B
272F%7D&params=itemID=%7B391BB861-442C-46A3-8A28-4DD076DCE8F9%7D;&U
IPartUID=%7B2868BA3C-lC72-4347-BEll-A26F70F4CB26%7D. Acesso em: 2-8-2012.
236 Coleção Saberes Monográficos

Penha, entendemos que ele cumpre um importante papel, por re­


presentar a materialização de justas reivindicações de movimen­
tos de mulheres, pois a experiência demonstrou que a “prática
constante, nos Juizados Especiais, da aplicação de cestas básicas,
penas pecuniárias ou multa contribuía para a banalização e impu­
nidade dos casos de violência doméstica e familiar contra a mu­
lher” (BIANCHINI, 2011: 216).
Em verdade, fruto de aspiração de movimentos que lutam em
prol dos direitos da mulher, o legislador, de forma expressa, im ­
pediu a cominação de prestação pecuniária ou de doação de cesta
básica com o nítido propósito de evitar a “vulgarização das alter­
nativas à pena de natureza real” (CUNHA; PINTO, 2011:106).
O objetivo do legislador foi impedir que eventuais substitui­
ções de penas privativas de liberdade por penas restritivas de di­
reitos se resumissem ao pagamento em pecúnia ou em cestas bá­
sicas e, por conseguinte, deixassem de gerar efeitos na diminuição
da violência doméstica e familiar contra a mulher. Restava a ideia
de que a execranda violência era um mal a ser tarifado em termos
meramente econômicos. Assim, eventual substituição de pena
não pode ser em pccúnia (pena restritiva de direitos de prestação
pecuniária) ou com a cominação isolada de pena de multa, ambas
vedadas com o mesmo objetivo.

8.2. Extensão do vocábulo "pena” contído no art. 17


Outra crítica, agora procedente, em relação ao dispositivo em
análise [art. 17], refere-se à utilização do vocábulo “pena”, para
referir-se às cestas básicas, uma vez que a obrigação de doá-las
não constitui nenhuma espécie de pena em si.
Na acepção técnica, verifica-se que na Lei Maria da Penha o
vocábulo “pena” foi empregado de forma inapropriada pelo legis­
lador, tendo em vista que não se trata, a aplicação de doação de
cestas básicas, de sanção de caráter penal (CP, arts. 32 e ss.).
A aplicação de doação de cestas básicas, na verdade, originou-
-se de interpretação jurisprudencial feita do art. 45, § 2°, do Códi­
go Penal, o qual, por sua vez, sempre foi objeto de severas críticas
da doutrina por se tratar de uma pena inominada e prejudicada
quanto à sua constitucionalidade (BITENCOURT, 2010: 566): refe­
rido dispositivo legal estabelece que a pena alternativa de presta-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 237

ção pecuniária poderá consistir em prestação de “outra natureza”,


se o beneficiário assim anuir. Até o advento da Lei Maria da Pe­
nha, não havia vedação legal à utilização de penas dessa espécie
nos crimes que envolvessem violência doméstica, tornando recor­
rente que juizes determinassem doação de cestas básicas com fun­
damento na previsão de “prestações de outra natureza”, fosse na
substituição de penas privativas de liberdade, fosse em sede de
transação penal. Especificamente no tocante à transação penal
prevista no procedimento da Lei n. 9.099/95, Stela Valéria Soares
de Farias Cavalcanti (2010:180) observa que muitos casos de lesão
corporal praticada contra mulheres em situação de violência do­
méstica eram juridicamente considerados crimes de lesão corpo­
ral leve (ou seja, hipóteses residuais às dos §§ 1° e 2o do art. 129
do CP), ensejando sua classificação como infração de menor po­
tencial ofensivo e possibilitando a transação penal.

8.3 . Extensão da vedação de condenação ao pagamento de cestas básicas


ou de prestação pecuniária , quando da substituição de penas priva­
tivas de liberdade por restritivas de direitos
No que tange às penas restritivas de direitos (CP, art. 43), a
Lei Maria da Penha não estabelece qualquer proibição, podendo,
portanto, desde que cumpridos os requisitos legais, serem aplica­
das. Mais do que isso, como informam Rogério Sanches Cunha e
Ronaldo Batista Pinto, “a intenção é ver o agressor cumprir pena de
caráter pessoal, isto é, privativa de liberdade ou restritiva de di­
reitos (prestação de serviços à comunidade, limitação de fim de
semana ou interdição temporária de direitos), mais adequada ao
tipo de crime (e autor) em análise” (2011:106).
Só não é possível, está claro, estabelecer doação de cesta bási­
ca ou prestação pecuniária na condenação por crime ou contra­
venção (art. 17), nem mesmo fixá-las quando da substituição da
pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos. De
acordo com o magistério de Fausto Rodrigues de Lima (2011: 284),
as penas restritivas só podem “se constituir em perda de bens e
valores, prestação de serviço à comunidade ou a entidades públi­
cas, interdição temporária de direitos e/ou limitação de fim de
semana (CP, art. 43)”.
238 Coleção Saberes Monográficos

A Lei Maria da Penha, portanto, não permite a aplicação de


penas que impliquem somente o pagamento em dinheiro, tal
como sucede com a prestação pecuniária (pena restritiva de direi­
tos) e a multa isolada (CP, arts. 44, § 2o, 1* parte, e 60, § 2o), pois
unão se pode estimular o pagamento em dinheiro em troca de
agressões de toda ordem contra a mulher em casos de violência
doméstica ou familiar” (JUNQUEIRA; FULLER, 2010: 705).
Sintetizando toda a discussão acerca das vedações referentes
às penas a serem aplicadas nos casos de violência doméstica e fa­
miliar contra a mulher:

Encontram-se vedadas Encontram-se permitidas

Doação de cesta básica Prestação de serviço à comunidade ou a


entidades públicas (CP, art. 43. IV)

Penas de prestação pecuniária (multa)™ Interdição temporária de direitos (CP, art.


(CP, art. 43,1) 43. V)

Substituição de pena que implique Limitação de fim de semana (CP. art 43, VI)
o pagamento isolado de multa

Perda de bens e valores (CP. a rt 43. II)

8.4. As vedações atingem crimes e contravenções penais


Note-se que, aqui, as vedações se dirigem às duas categorias
de infração penal (crime e contravenção penal), já que a norma
legal (art. 17) utilizou-se da expressão licasos de violência dom éstica e
fa m ilia r contra a m u lh ern. Diferentemente foi o que ocorreu em re­
lação à vedação de aplicação da Lei n. 9.099/95, já que lá (art. 41) a
Lei expressamente utilizou-se do vocábulo crim e (v. item 3.2).
Esquematicamente:

Art. 17 da Lei María da Penha A rt 41 da Lei María da Penha

É vedada a aplicação nos casos de violência Aos crimes praticados com violência
doméstica e familiar contra a mulher, /a doméstica e familiar contra a mulher.

?16 Vale ressaltar que única m odalidade de pena p ecuniária prevista no Brasil é a pena
de m ulta (NUCCI, 2005: 264).
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 239

referência é genérica, abarcando crimes e [a referência é especifica, referindo-se,


contravenções penaisj óe penas de cesta exclusivamente, aos crimes, nào abarcando,
básica ou outras de prestação pecuniária, aqui, portanto, as contravenções penaisj
bem como a substituição de pena que independentemente da pena prevista, náo
implique o pagamento isolado de multa. se aplica a Lei n. 9.099, de 26 de setembro
de 1995.

9. Notificação da ofendida de todos os atos processuais


relativos ao agressor, especialmente dos pertinentes
a sua saída e ingresso no sistema prisional (art. 21)

Art. 21. A ofendida deverá ser notificada dos atos processuais


relativos ao agressor, especialmente dos pertinentes ao ingresso
e à saída da prisão, sem prejuízo da intimação do advogado cons­
tituído ou do defensor público.

Tanto a prisão do agressor quanto a sua liberdade interessam


aos envolvidos no drama familiar representado pela violência do­
méstica. Por conta disso, a Lei Maria da Penha (art. 21) determina,
corretamente, que a ofendida seja notificada dos atos processuais
relativos ao agressor, especialmente dos pertinentes ao ingresso e
à saída dele da prisão, sem prejuízo da intimação do advogado
constituído ou do defensor público que patrocine a causa.
Rosane M. Reis Lavigne e Cecília Perlingeiro lembram que “le­
var ao conhecimento da vítima a soltura ou prisão do seu agressor
compõe o rol de cuidados e da devida diligência do Estado, espe­
lhado no texto legal. Buscou-se, ao implicar a administração peni­
tenciária na rede de proteção à mulher, sob o princípio do dever
de diligência do Estado, reduzir riscos” (2011: 303).
Tal medida tem cunho preventivo, buscando evitar que a mu­
lher e os envolvidos na situação de violência doméstica e familiar
sejam surpreendidos, garantindo-lhes oportunidade de se precata­
rem, providenciando condições que elidam o máximo de chances
de o agressor vir, novamente, a fazê-los vítimas de infrações penais.
Essa determinação compatibiliza-se com a devida publicidade
dos atos processuais e confere-lhes eficácia, pois faz com que atos
que interessem à vítima sejam, imediatamente, levados ao seu co-
240 Coleção Saberes Monográficos

nhecimcnto, proporcionando-lhe tanto conforto psicológico, ao


tomar conhecimento do encarceramento do agressor, quanto físi­
co, dando-lhe oportunidade de antecipar ou aumentar cuidados, a
fim de evitar novas agressões.
O art. 201, § 3o, do Código de Processo Penal assevera que as
comunicações ao ofendido deverão ser realizadas diretamente no
endereço indicado. Com o advento da Lei n. 11.690/2008, que alte­
rou o CPP, é possível que a comunicação se dê por meio eletrôni­
co, ou seja, via e-mail, fac-símile, telefone etc., oportunizando-se
o uso dos avanços tecnológicos em plena ascensão. Tais recursos
facilitam e ampliam as formas de se providenciar a devida preser­
vação da incolumidade física, psicológica, sexual, patrimonial e
moral das vítimas.
Para Amini Haddad Campos e Lindinalva Rodrigues Correa,
a notificação da vítima acerca da soltura é condição prévia para a
liberação do réu, “significando que nenhum juiz ou tribunal po­
derá dar cumprimento a um alvará de soltura sem comunicar o
fato à vítima previamente, sob pena de estar incorrendo em om is­
são injustificável e ilegalidade expressa” (2007: 406).

10. Proibição de entrega de notificação ao agressor pela mulher


(art. 21, parágrafo único)
Art. 21. (...)
Parágrafo único. A ofendida não poderá entregar intimação ou
notificação ao agressor.

No parágrafo único do art. 21 da Lei Maria da Penha há a


proibição explícita de a ofendida poder entregar, ao agressor, inti­
mação ou notificação a ele destinada. Trata-se de medida que visa
proteger a mulher vítima de violência doméstica e familiar que
realizou denúncia contra seu agressor. Tal medida é fruto das rei­
vindicações dos grupos envolvidos na produção da Lei Maria da
Penha, em especial das feministas, preocupados com a vulnerabi­
lidade da mulher denunciante. Isso porque, antes da promulgação
da Lei n. 11.340/2006, era comum nas delegacias que à vítima
fosse requisitada a entrega ao agressor de notificação para compa-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 241

recimento perante a autoridade policial, fato que por si só poderia


gerar novas agressões.217
O legislador procedeu acertadamente ao prever tal proibição,
visto que é ilógico que a mulher seja o arauto da denúncia levada a
efeito. A barreira da denúncia é um dos principais problemas para
o enfrentamento da violência doméstica - seja pelo temor de nova
agressão, pela ameaça feita pelo autor da violência caso a vítima o
denuncie, por pena deste ou insegurança em acessar as instâncias
judiciais.218 Estimular a denúncia é forma de investir no enfrenta­
mento deste tipo de violência e na ruptura com o silêncio que a
circunda. Nesse cenário, políticas de proteção à denúncia, como a
proibição prevista no dispositivo legal em questão, não só tomam
as mulheres menos suscetíveis a reações agressivas como também
incitam que casos de violência saiam do âmbito doméstico.
Ao prever tal proibição, a Lei está implicitamente antecipan­
do que a notificação ou intimação seja feita pela polícia, em fase
pré-processual, ou por oficiais de justiça, uma vez já instaurado o
processo. De acordo com Cunha e Pinto, a falta de estrutura ma­
terial, em muitas localidades brasileiras, para cumprir estrita­
mente as determinações legais, facilita situações como a de “apro­
veitar a viagem” da vítima para notificar o agressor. Tal carência
deverá ser suprida, dentre outras, pela previsão, no art. 39 da Lei
Maria da Penha, de dotações orçamentárias para arcar com despe­
sas oriundas da implementação da Lei nos Municípios, Estados e
na União (2011:123).
De toda forma, a proibição prevista no parágrafo único do art.
21 deve ser acompanhada de medidas protetivas de urgência, pois,

217 Disponível em : http://w w w 6.ufrgs.br/nucleom ulher/leim ariadapenha.php. Acesso


em : 7-6-2012.
218 Em pesquisa de opinião pública nacional realizada pelo DataSenado, com aproxim ada­
m ente 800 m ulheres residentes em capitais brasileiras, ficou clara a dificuldade das
m ulheres vítim as de violência em denunciar seus parceiros. Segundo o relatório analí­
tico desta pesquisa, “as m ulheres agredidas no am biente fam iliar resistem em d e n u n ­
ciar seus agressores. Do total de vítim as, apenas 40% tom ou a iniciativa de registrar
um a denúncia nas delegacias com uns ou delegacias da m ulher. As restantes optaram
po r não tom ar nenhum a atitude ou p ro cu rar ajuda de fam iliares c am igos”. Disponível
em: http://www.senado.gov.br/noticias/datasenado/pdf/Relat%C3%B3rio%20anal%C3%
ADtico%20Viol%C3%AAncia%20Dom%C3%A9stica.pdf. Acesso em: 7-6-2012.
242 Coleção Saberes Monográficos

caso a mulher resida com o agressor - o que acontece na maioria


dos casos a notificação ou intimação feita por terceiro, como
autoridade policial ou oficial de justiça, poderá, igualmente, des­
pertar reação violenta no agressor.

11. Direito de preferência, nas varas criminais - art. 33,


parágrafo único
Art. 33.
(...)
Parágrafo único. Será garantido o direito de preferência, nas va­
ras criminais, para o processo e o julgamento das causas referi­
das no caput.

A Lei Maria da Penha garante o direito de preferência, nas


varas criminais, para o processo e o julgamento das causas decor­
rentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mu­
lher (art. 33, parágrafo único). Essa preferência não exclui outras
já definidas em Lei, por exemplo a presente no Estatuto do Idoso.
O juiz deve compatibilizar, quando da movimentação dos proces­
sos, todas essas causas.
Aqueles que criticam o direito de preferência argumentam
que os processos de réus presos, os quais impõem prioridade à
manifestação do Poder Judiciário (apreciação de prisões em fla­
grante, de habeas corpus e o julgamento das ações penais, cujos réus
encontram-se presos) é que deveriam ter seu impulso priorizado.
De acordo com Westei Conde y Martin Junior, é por essa ra­
zão que o tratamento preferencial previsto em Lei, por parte das
varas criminais, “não tem sido assegurado espontaneamente, co­
mo medida rotineira. Cabe à defesa das mulheres, nos casos con­
cretos, invocá-loM(2011: 360).
Nosso posicionamento: muito embora seja verdadeira e justi­
ficável a preocupação com os processos que envolvam réu preso,
é igualmente verdadeira e justificável a preocupação com os casos
que envolvem violência doméstica e familiar contra a mulher (v.
item 13 da parte 1), principalmente os que contêm ameaças em
relação à integridade física ou à vida da vítima. O juiz deve, em
todas essas circunstâncias, sopesar os bens em jogo e as espccifi-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 243

cidades dos processos/inquéritos para, só então, decidir qual deve


ser impulsionado preferencialmente.

12. Curadorias e serviço de assistência judiciária (art. 34)


Art. 34. A instituição dos Juizados de Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher poderá ser acompanhada pela im­
plantação das curadorias necessárias e do serviço de assistên­
cia judiciária.

Como já observado nos comentários de outros artigos da Lei


Maria da Penha, também o art. 34 revela a constante preocupação
do legislador em fazer cumprir o seu art. 4o, que estabelece os fins
sociais da Lei como principal diretriz.
Se a finalidade da Lei Maria da Penha é o combate, a erradica­
ção e a prevenção à violência doméstica contra a mulher, sua con­
secução passa, necessariamente, pelo aparei hamento adequado e
eficaz do Estado em todas as esferas da administração para assegu­
rar à mulher em situação de violência o acesso a uma ampla gama
de serviços e programas com destinação específica a essa questão.
Por isso a previsão da possibilidade de implantação de cura­
dorias com vistas a administrar políticas específicas de combate à
violência, bem como a menção expressa ao serviço de assistência
judiciária como forma de inclusão da população economicamente
hipossuficiente, viabilizando seu acesso à justiça.

13. Vedação do instituto da suspensão condicional do processo


(art. 41)
Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e fami­
liar contra a mulher, independentemente da pena prevista, não
se aplica a Lei n. 9.099, de 26 de setembro de 1995.

A Lei Maria da Penha, em seu art. 41, veda a aplicação da Lei


n. 9.099/95 aos crimes praticados com violência doméstica e fami­
liar contra a mulher, o que inclui, portanto, a possibilidade de
aplicação de institutos despenalizadores previstos naquela nor­
ma, a exemplo da suspensão condicional do processo (art. 89 da
Lei n. 9.099/96).
244 Coleção Saberes Monográficos

O entendimento supramencionado (vedação de aplicação do


instituto da suspensão condicional do processo) não era consen­
sual, havendo aqueles, a exemplo do STJ, que entendiam ser ele
aplicável. Fundamentando seu entendimento, o STJ menciona que
a aplicação da suspensão condicional do processo não ofende a
proteção da família, assim como não afronta o princípio da isono-
mia e a necessidade de se valorizar a dignidade da pessoa humana,
razão pela qual autorizada deve estar a possibilidade de suspensão
condicional do processo àqueles que cometem crimes com violên­
cia doméstica e familiar contra a mulher.
No julgamento do HC 185.930-MS, o STJ afirmou que:

[...] tendo em vista que o fim do processo penal, a inflição da re­


primenda, culminou na aplicação de mera restrição de direitos
(como, em regra, é o caso das persecuções por infrações penais
de médio potencial ofensivo), [...] não se mostra proporcional in­
viabilizar a incidência do art. 89, por uma interpretação amplia-
tiva do art. 41 da Lei n. 11.340/2006. Tal providência revelaria
uma opção dissonante da valorização da dignidade da pessoa hu­
mana, pedra fundamental do Estado Democrático de Direito, que
é um modelo antropologicamente amigo, no dizer de Canotilho.

Em outro julgado, HC 154.801-MS, o STJ também determinou


que fosse aplicada a suspensão condicional do processo na hipóte­
se de ocorrência de violência doméstica e familiar contra a mu­
lher. Como razão de decidir, foi dito que:

[...] é evidente que o art. 89, da Lei n. 9.099/95, que possibilita a


suspensão condicional do processo, não ofende os princípios da
isonomia e da proteção da família, pois estabelece uma regra pro­
cessual que não fragiliza a mulher no âmbito doméstico, nem pos­
sibilita que a conduta praticada pelo acusado resulte no pagamen­
to de cestas básicas ou em prestação de serviços à comunidade.

Até 9 de fevereiro de 2012 (data em que o STF julgou, em con­


junto, a ADC19 e a ADI 4.424 - ver item 17), o STJ e alguns tribunais
de justiça (TJRS e TJRJ, por exemplo) entendiam que a suspensão
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 245

condicional do processo era aplicável aos casos tratados pela Lei


Maria da Penha. As principais razões fundavam-se no argumento
de que a aplicação da suspensão condicional do processo não ofen­
dia a proteção da família, assim como não afrontava o princípio da
isonomia e a necessidade de se valorizar a dignidade da pessoa hu­
mana, no caso da mulher vítima de violência doméstica e familiar.
Já o STF sempre entendeu de não aplicar o instituto despena-
lizador aos casos que envolvessem violência doméstica e familiar
contra a mulher. No julgamento do HC 110.113-MS, afastou a apli­
cação da Lei n. 9.099/95 em razão da constitucionalidade do art. 41:

“EMENTA: HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL. VIOLÊNCIA


DOMÉSTICA. PEDIDO DE SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PRO­
CESSO. INAPLICABILIDADE DA LEI N. 9.099/1995. CONSTITU-
CIONALIDADE DA LEI N. 11.340/2006 (LEI MARIA DA PENHA).
PRECEDENTE. 1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal assen­
tou a constitucionalidade do art. 41 da Lei n. 11.340/2006, que
afasta a aplicação da Lei n. 9.099/1995 aos processos referentes a
crimes de violência contra a mulher. 2. Ordem denegada”.

A decisão mais importante sobre o assunto, no entanto, como


dito, data de 9 de fevereiro de 2012, quando o Plenário do STF
julgou procedente, por unanimidade, a Ação Declaratória de
Constitucionalidade 19, e, por maioria (com um voto contra, Mi­
nistro Peluso), a Ação Declaratória de Inconstitucionalidade 4.424.
Ambas tratavam de temas vinculados à Lei Maria da Penha (ver
item 17). Dentre os temas que foram debatidos, encontra-se a in­
terpretação dada ao art. 41. De acordo com o STF, tal dispositivo
afasta por completo a incidência dos Juizados Especiais Criminais
(Lei n. 9.099/95) aos casos de violência doméstica e familiar e, via
de consequência, tem o condão de não permitir a aplicação do
instituto da suspensão condicional do processo.

1 4 . Aumento da reprimenda penal em razão de violência


doméstica (arts. 43 e 44)
Art. 43. A a lín ea/d o inciso II do art. 61 do Decreto-lei n. 2.848,
de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), passa a vigorar com a
seguinte redação:
246 Coleção Saberes Monográficos

“Art. 61. (...)


II - (...)
f ) com abuso de autoridade ou prevalecendo-se de relações do­
mésticas, de coabitação ou de hospitalidade, ou com violência
contra a mulher na forma da lei específica;
[...]" (NR)

Art. 44. O art. 129 do Decreto-lei n. 2.848, de 7 de dezembro de


1940 (Código Penal), passa a vigorar com as seguintes alterações:
“Art. 129. (...)
§ 9o Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, ir­
mão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha
convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações do­
mésticas, de coabitação ou de hospitalidade:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos.
[...]
§ 11. Na hipótese do § 9o deste artigo, a pena será aumentada de
um terço se o crime for cometido contra pessoa portadora de
deficiência”.

A primeira referência penal à questão doméstica aparece com


a Lei n. 7.209/84, que reformou a Parte Especial do Código Penal
em vigor. Foi criada uma circunstância agravante, na hipótese de
crime praticado com prevalecimento das relações domésticas, de
coabitação ou de hospitalidade (CP, art. 61, II, J). A Lei Maria da
Penha (art. 43), por sua vez, acrescentou às hipóteses lá previstas
mais uma situação: “com violência contra a mulher na forma da
lei específica”.
Também a Lei Maria da Penha (em seu art. 44) alterou o pa­
tamar punitivo m ínim o previsto no § 9o do art. 129 do CP (lesão
corporal leve praticada contra ascendente, descendente, irmão,
cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convi­
vido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésti­
cas, de coabitação ou de hospitalidade). Tal dispositivo foi criado
pela Lei n. 10.886/2004. O q u a n tu m m ínim o foi aumentado de 3
para 6 meses e incide independentemente do sexo e da idade da
vítima. Esquematicamente:
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 247

Lesão corporal leve, nas


circunstâncias do § 9o Pena minima Pena máxima Previsão legal
do a rt 129 do CP

Antes da Lei n.
3 meses 1 ano CP, art. 129, caput
10.886/2004

Com o advento da Lei n. CP, art. 129, § 9°. incluído


6 meses 1 ano
10.886/2004 pela Lei n. 10.886/2004

Com o advento da Lei CP, art. 129, §95. alterado


3 meses 3 anos
Maria da Penha pela Lei n. 11.340/2006
.

Como se pode perceber, com o advento da Lei Maria da Penha


houve uma diminuição do patamar punitivo m ínim o (de 6 meses
passou para 3 meses) e um aumento do patamar máximo (de 1 ano
passou para 3 anos). A consequência prática de tal aumento em
relação à pena máxima é que o crime deixa de ser de menor po­
tencial ofensivo.
A existência de violência doméstica na lesão corporal (previs­
ta no § 9o, art. 129, CP) representa uma qualificadora da lesão
corporal leve (lesão corporal leve qualificada), o que significa que
a pena prevista não se estende para as demais modalidades (grave,
gravíssima ou com resultado morte - §§ Io a 3° do art. 129, res­
pectivamente).
Se houver violência doméstica, porém caracterizando-se
quaisquer das modalidades diversas da leve (lesão corporal gra­
ve, gravíssima ou com resultado morte), a consequência é que se
deve aplicar o disposto no § 10 do mesmo dispositivo legal, o
qual prevê um aumento em 1/3 da pena correspondente ao tipo
de lesão.
Se a lesão corporal leve qualificada (prevista no § 9o) for co­
metida contra pessoa portadora de deficiência, a pena é aumentada
em 1/3, conforme previsão contida no § 11.
Esquematicamente:

Crime praticado em situação


Dispositivo legal Pena
de violãncia doméstica

Lesão corporal leve qualificada A rt 129, § 9° 3 meses a 3 anos


Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 249

A inovação legislativa se coaduna com o espírito da Lei Maria


da Penha, notadamente no aspecto terapêutico da medida. Con­
forme menciona Leda Maria Hermann, “trata-se de dispositivo
voltado à otimização da execução da pena de limitação de fim de
semana pelo investimento na recuperação do agressor, através de
frequência e atendimento em programas específicos” (2008: 248).
Apesar de sua importância, centros de educação e reabilitação
de agressores ainda são em número muito reduzido no País. Os
esforços de criação ou manutenção desses centros sofrem com a
resistência da sociedade, das entidades, do Judiciário e de alguns
coletivos feministas, os quais não enxergam com olhos compla­
centes as penas alternativas, em casos de violência doméstica con­
tra a mulher, como visto no item 6.4 da parte 1.

16. A aplicabilidade das imunidades penais nos casos de crimes


patrimoniais cometidos contra a mulher no âmbito doméstico
e familiar (CP, arts. 181 e 182 versus art. 72, IV)
No título que trata dos crimes contra o patrimônio, o Código
Penal dispõe sobre as imunidades absolutas e relativas (arts. 181 e
182, respectivamente). As imunidades absolutas (também denomi­
nadas escusas absolutórias) isentam o agente de pena quando o
crime for praticado em prejuízo de cônjuge, na constância da so­
ciedade conjugal, ou em prejuízo de ascendente ou descendente,
seja o parentesco legítimo ou ilegítimo, seja civil ou natural.
Na imunidade relativa, impõe-se a necessidade de prévia
oferta de representação, caso ocorra a prática de um crime em
que figure como sujeito passivo o cônjuge desquitado ou judicial­
mente separado (inc. I); irmão, legítimo ou ilegítimo (inc. II); tio
ou sobrinho, com quem o agente coabita, para que haja ação penal
(inc. III). Nessas hipóteses, a ação penal é pública condicionada,
razão pela qual só poderá o Ministério Público promover a ação
penal se presente a condição de procedibilidade exigida.
Tais imunidades devem ser aplicadas a todos os crimes contra o
patrimônio indistintamente, salvo nos seguintes casos (CP, art. 183):

Código Penal
Art. 183. Não se aplica o disposto nos dois artigos anteriores:
250 Coleção Saberes Monográficos

I - se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, em geral, quando


haja emprego de grave ameaça ou violência à pessoa;
II - (...)
III - se o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou
superior a 60 (sessenta) anos. [hipótese acrescentada pelo Estatu­
to do Idoso - Lei n. 10.741/2003).

Diferentemente do que ocorreu em relação ao Estatuto do


Idoso (conforme visto no item III do artigo recém-transcrito - CP,
art. 183), a Lei Maria da Penha nada disciplinou sobre o assunto,
fazendo surgir dúvidas acerca do tema, principalmente pelo fato
de que seu art. 7®, IV, estabeleceu como uma das formas de vio­
lência doméstica e familiar contra a mulher a violência patrimo­
nial, descrevendo-a como “qualquer conduta que configure reten­
ção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos,
instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e
direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satis­
fazer suas necessidades”.
Por conta de tal dispositivo, há quem entenda que a Lei Maria
da Penha, ao dedicar especial proteção à mulher vítima de violên­
cia doméstica e familiar, afastou, ainda que implicitamente, o dis­
posto nos arts. 181 e 182, ambos do Código Penal. Neste sentido,
destaca-se o entendimento de Virginia Feix e de Maria Berenice
Dias. A primeira afirma que “é exatamente pelos pressupostos
teóricos e conceituais da violência de gênero, que não se pode
aceitar que a Lei Maria da Penha tenha recepcionado as imunida-
des previstas nos arts. 181 e 182 do CP” (2011: 209).
Fundamentando seu posicionamento, assevera Maria Bereni­
ce Dias (2010: 71) que “a partir da nova definição de violência
doméstica, que reconhece como tal também a violência patrimo­
nial, não se aplicam as imunidades absolutas ou relativas dos arts.
181 e 182 do Código Penal quando a vítima é mulher e mantém
com o autor da infração vínculo de natureza familiar. Não há
mais como admitir o injustificável afastamento da pena ao infra­
tor que pratica um crime contra sua esposa ou companheira, ou,
ainda, algum parente do sexo feminino. Aliás, o Estatuto do Ido­
so, além de dispensar a representação, expressamente prevê a não
250 Coleção Saberes Monográficos

I - se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, em geral, quando


haja emprego de grave ameaça ou violência à pessoa;
II - [...]
III - se o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou
superior a 60 (sessenta) anos. [hipótese acrescentada pelo Estatu­
to do Idoso - Lei n. 10.741/2003].

D iferentem ente do que ocorreu em relação ao Estatuto do


Idoso (conforme visto no item III do artigo recém -transcrito - CP,
art. 183), a Lei Maria da Penha nada disciplinou sobre o assunto,
fazendo surgir dúvidas acerca do tema, principalm ente pelo fato
de que seu art. 7Q, IV, estabeleceu como um a das form as de vio­
lência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er a violência patrim o­
nial, descrevendo-a como “qualquer conduta que configure reten ­
ção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos,
instrum entos de trabalho, docum entos pessoais, bens, valores e
direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satis­
fazer suas necessidades”.
Por conta de tal dispositivo, há quem entenda que a Lei Maria
da Penha, ao dedicar especial proteção à m ulher vítim a de violên­
cia dom éstica e fam iliar, afastou, ainda que im plicitam ente, o dis­
posto nos arts. 181 e 182, am bos do Código Penal. Neste sentido,
destaca-se o entendim ento de Virginia Feix e de Maria Berenice
Dias. A prim eira afirm a que “é exatam ente pelos pressupostos
teóricos e conceituais da violência de gênero, que não se pode
aceitar que a Lei Maria da Penha ten h a recepcionado as im unida-
des previstas nos arts. 181 e 182 do CP” (2011: 209).
Fundam entando seu posicionam ento, assevera M aria Bereni­
ce Dias (2010: 71) que “a p a rtir da nova definição de violência
doméstica, que reconhece com o tal tam bém a violência p atrim o ­
nial, não se aplicam as im unidades absolutas ou relativas dos arts.
181 e 182 do Código Penal quando a vítim a é m u lh er e m antém
com o autor da infração vínculo de natureza fam iliar. Não há
m ais como adm itir o injustificável afastam ento da pena ao in fra­
to r que pratica um crim e contra sua esposa ou com panheira, ou,
ainda, algum parente do sexo fem inino. Aliás, o Estatuto do Ido­
so, além de dispensar a representação, expressam ente prevê a não
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 251

aplicação desta causa de isenção de pena quando a vítim a tiver


m ais de 60 anos”.
Entretanto, há na doutrina quem discorde do referido posi­
cionam ento, entendendo que a Lei Maria da Penha não afastou as
im unidades absoluta e relativa previstas no Código Penal, razão
pela qual devem ser aplicadas. Para Rogério Sanches C unha e Ro­
naldo Batista Pinto (2011, p. 61), “som ente um a declaração expressa
contida na lei teria o condão de revogar os dispositivos do Código
Penal. E tal revogação não é vista, quer parcial quer totalm ente,
no estatuto em exam e [Lei Maria da Penha]”. Usando o m esm o
fundam ento, têm -se o entendim ento de W ilson Lavorenti (2009:
242) e o de Paulo H enrique A randa Fuller (2006: 672).
Posicionamento da autora: aplicam -se os arts. 181 e 182 do CP
aos crim es patrim oniais em que a vítim a seja m ulher em situação
de violência dom éstica e familiar.
Como já se viu no item 3 da parte 1, a ampliação do sentido
da palavra violência trazida pela Lei Maria da Penha tem seu cam ­
po de aplicabilidade restrito às m edidas protetivas e outras ações
de caráter não estritam ente penal, pois a interpretação extensiva,
quando prejudicial ao réu, não é perm itida no cam po do direito
penal (HC 164.467-AC: princípio da reserva legal - art. 5Q, XXXIX,
da CF), já que “é a vontade da lei que m anda (não a vontade do
legislador e m uito m enos a do intérprete). N enhum intérprete
pode am pliar o sentido do texto legal (para além do lim ite da von-
tade da lei)” (GOMES; GARCÍA-PABLOS DE MOLINA, 2010: 53).
Concluir no sentido de que a Lei Maria da Penha rechaçou a pos­
sibilidade de aplicação das im unidades na hipótese em questão
revela a existência de indevida interpretação extensiva, realizada
em total arrepio ao princípio da legalidade.
S uprim ir a possibilidade de aplicação das im unidades ao
agressor im plica estender a interpretação e o alcance da Lei Maria
da Penha, fazendo-se um a (in)autêntica interpretação extensiva
que só tem lugar quando é necessário am pliar o sentido ou alcan­
ce da Lei.
Para um a m elhor proteção da m u lh er nos casos de violência
patrim onial, os dem ais m ecanism os da Lei M aria da Penha previs-
252 Coleção Saberes Monográficos

tos para coibir a violência e resguardar o patrim ônio da ofendida,


a exemplo do disposto no art. 2 4 , 1, da Lei, poderão ser levados a
efeito. Assim, “para a proteção patrim onial dos bens da sociedade
conjugal ou daqueles de propriedade particular da m ulher, o juiz
poderá determ inar, lim inarm ente, a seguinte medida, entre ou­
tras: I - restituição de bens indevidam ente subtraídos pelo agres­
sor à ofendida”.
Andou bem a Lei Maria da Penha ao dispor, taxativamente, no
art. 7-, IV, que a violência patrim onial é um a das form as de vio­
lência doméstica e fam iliar contra a m ulher, todavia afirm ar que
tal definição legal é apta a afastar expressa disposição do Código
Penal não é m edida que se coaduna com a correta interpretação
das leis penais e, sobretudo, com o princípio da estrita legalidade
que norteia a aplicação da lei penal.
Caso o legislador, à sem elhança do que operou o Estatuto do
Idoso, afastando a incidência dos arts. 181 e 182 do CP, opte por
tam bém não p erm itir a incidência de tais dispositivos na ocorrên­
cia de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher, poderá
fazê-lo por interm édio do devido processo legislativo.

17. STF, ADC19 e ADI 4.424: um importante julgamento


Desde sua entrada em vigor, a Lei Maria da Penha foi objeto
de contestação por parte da doutrina e da jurisprudência quanto à
sua constitucionalidade. Diante deste fato, o Supremo Tribunal Fe­
deral foi instado a se pronunciar por meio da Ação Declaratória de
Constitucionalidade 19 (proposta em 2007, pelo então Presidente da
República Luiz Inácio Lula da Silva) e da Ação Direta de Inconstitu-
cionalidade 4.424 (proposta pela Procuradoria-Geral da República).
A ADC 19 visava d irim ir a controvérsia referente à suposta ofensa
ao princípio da igualdade (que decorreria da proteção exclusiva às
m ulheres vítim as de violência doméstica prevista no art. 1Qda Lei,
sem previsão análoga para os homens), além de ver declarados
constitucionais os arts. 33 e 41, enquanto a ADI 4.424 objetivava
fazer um a interpretação conform e a Constituição dos arts. 1 2 ,1,16
e 41, todos da Lei Maria da Penha. Em 9 de fevereiro de 2012, as
ações foram apreciadas, conjuntam ente, pelo Plenário do STF. A
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 253

ADC 19 foi julgada procedente por unanim idade e a ADI 4.424,


por m aioria (com u m voto contra, do Min. Peluso). Os artigos
m encionados possuem a seguinte redação:

Art. 1QEsta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violên­


cia doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8Qdo
art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Elimina­
ção de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Conven­
ção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência
contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados
pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos
Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e
estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em si­
tuação de violência doméstica e familiar.
Art. 12. Em todos os casos de violência doméstica e familiar con­
tra a mulher, feito o registro da ocorrência, deverá a autoridade
policial adotar, de imediato, os seguintes procedimentos, sem
prejuízo daqueles previstos no Código de Processo Penal:
I - ouvir a ofendida, lavrar o boletim de ocorrência e tom ar a
representação a termo, se apresentada.
Art. 16. Nas ações penais públicas condicionadas à representação
da ofendida de que trata esta Lei, só será admitida a renúncia à
representação perante o juiz, em audiência especialmente desig­
nada com tal finalidade, antes do recebimento da denúncia e
ouvido o Ministério Público.
Art. 33. Enquanto não estruturados os Juizados de Violência Do­
méstica e Familiar contra a Mulher, as varas criminais acumula­
rão as competências cível e crim inal para conhecer e julgar as
causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar
contra a mulher, observadas as previsões do Título IV desta Lei,
subsidiada pela legislação processual pertinente.
Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e fami­
liar contra a mulher, independentemente da pena prevista, não
se aplica a Lei n. 9.099, de 26 de setembro de 1995.

Confira-se o teor das decisões:


254 Coleção Saberes Monográficos

ADC19
Decisão: O Tribunal, por unanimidade e nos termos do voto do
Relator, julgou procedente a ação declaratória para declarar a
constitucionalidade dos arts. 1Q, 33 e 41 da Lei n. 11.340/2006 (Lei
Maria da Penha). Votou o Presidente, Ministro Cezar Peluso. Fa­
laram, pelo Ministério Público Federal (ADI 4.424), o Dr. Rober­
to Monteiro Gurgel Santos, Procurador-Geral da República; pela
Advocacia-Geral da União, a Dra. Grace Maria Fernandes Men­
donça, Secretária-Geral de Contencioso; pelo interessado (ADC
19), Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, o Dr.
Ophir Cavalcante Júnior e, pelo interessado (ADI 4.424), Con­
gresso Nacional, o Dr. Alberto Cascais, Advogado-Geral do Sena­
do. Plenário, 09.02.2012.
Dispositivos questionados: arts. 1Q, 33 e 41 da Lei Maria da Penha

ADI 4.424
Decisão: O Tribunal, por maioria e nos term os do voto do Rela­
tor, julgou procedente a ação direta para, dando interpretação
conforme aos arts. 12, inciso I, e 16, ambos da Lei n. 11.340/2006,
assentar a natureza incondicionada da ação penal em caso de
crime de lesão, pouco im portando a extensão desta, praticado
contra a m ulher no ambiente doméstico, contra o voto do Se­
nhor Ministro Cezar Peluso (Presidente). Falaram, pelo Ministé­
rio Público Federal (ADI 4.424), o Dr. Roberto Monteiro Gurgel
Santos, Procurador-Geral da República; pela Advocacia-Geral da
União, a Dra. Grace Maria Fernandes Mendonça, Secretária-Ge­
ral de Contencioso; pelo interessado (ADC 19), Conselho Federal
da Ordem dos Advogados do Brasil, o Dr. Ophir Cavalcante Jú­
nior e, pelo interessado (ADI 4.424), Congresso Nacional, o Dr.
Alberto Cascais, Advogado-Geral do Senado. Plenário, 09.02.2012.
Dispositivos questionados: arts. 12, I, 16 e 41 da Lei Maria da
Penha

Na ADI 4.424, a PGR instava o STF a pacificar o entendim en­


to relativo à necessidade de representação da ofendida nos crim es
de lesão corporal leve praticados em situação de violência do­
méstica: de acordo com a PGR, a análise das norm as im pugnadas
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 255

possibilitava duas interpretações distintas a respeito da natureza


da ação penal relativa aos crim es de lesão corporal leve pratica­
dos contra a m u lh er no am biente dom éstico e fam iliar: pública
condicionada à representação e pública incondicionada (posição
defendida pela PGR). Isso porque, a prevalecer o entendim ento
de que o art. 41 da LMP afasta com pletam ente a aplicação dos
Juizados Especiais C rim inais (Lei n. 9.099/95) e, via de consequên­
cia, faz desaparecer a necessidade de representação para os c ri­
m es de lesão corporal leve (cuja exigência encontra-se insculpida
no seu art. 89), a Lei M aria da Penha não deveria fazer qualquer
m enção ao in stitu to da representação (que é o que ocorre nos
dois outros dispositivos im pugnados: art. 12, I, e 16). Daí, a con­
fusão. Para o STF, tal contradição é apenas aparente, pois os arts.
1 2 ,1, e 16 da LMP, que fazem referência ao term o “representação”,
continuam válidos para todos os crim es que a exigem, por exem ­
plo, para a ameaça (art. 147, CP). Assim, há crim es cuja ação penal
ainda depende de representação, e, para estes, são válidos os a r­
tigos da LMP antes m encionados (autoridade policial deve to m ar
a representação da ofendida quando do registro da ocorrência -
art. 1 2 ,1; retratação da representação som ente será aceita p eran ­
te o juiz, em audiência especialmente designada com tal finalidade,
antes do recebim ento da denúncia e ouvido o M inistério Público
- art. 16).
O STF, na ADI 4.424, ao decidir que o M inistério Público
pode atuar nos casos de crim es de lesão corporal contra as m u lh e­
res independentem ente da representação da vítim a, dando in ter­
pretação conform e a Constituição aos arts. 1 2 ,1, e 16 da LMP, di­
verge do entendim ento preconizado pelo STJ, segundo o qual a
ação penal é condicionada à representação da agredida (dentre
outros, HC 113.608-MG).
Cuidado especial: a decisão, no sentido de que se trata de ação
penal pública incondicionada nos casos de lesão corporal leve,
aplica-se apenas aos crim es que envolvam violência dom éstica e
fam iliar contra a m u lh er (nos term os dos arts. 5- e 7e - ver item
7 da parte I), perm anecendo a exigência de representação, p o rtan ­
to, para todas as dem ais situações.
256 Coleção Saberes Monográficos

Na ADC 19, ao analisar o art. 1- da LMP, entendeu o STF que


ele é constitucional, frente ao princípio da igualdade m aterial
(art. 1Qda CF).
Uma consequência im ediata da decisão do STF, ao declarar
constitucional a Lei M aria da Penha (ADC 19), foi de ter pacificado
a discussão acerca da constitucionalidade, ou não, da possibilidade
de o juiz, de ofício, na fase policial, decretar a prisão preventiva.
Ora, se a Lei é constitucional, tam bém será o seu art. 20 (que p re­
vê a hipótese de prisão antes mencionada).
Em relação ao art. 33 (que perm ite que varas crim inais acu­
m ulem as com petências cível e crim inal para conhecer e ju lg ar as
causas decorrentes da prática de violência doméstica e fam iliar
contra a m ulher, enquanto não estiverem estruturados os Juizados
de Violência Doméstica e Fam iliar contra a Mulher) e à atribuição
constitucionalm ente conferida aos Estados para fixar a respectiva
organização judiciária - arts. 125, § 1Q, e 96, II, d, da CF - , o STF
entendeu, na ADC 19, que não há nenhum a inconstitucionalidade.
De acordo com o STF, o afastam ento, pelo art. 41 da LMP, da
com petência dos Juizados Especiais C rim inais, m esm o em relação
aos crim es de m enor potencial ofensivo, nos casos que envolvam
violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher, não é inconstitu­
cional, pois, não obstante o com ando constitucional (art. 98, I),220
este não é absoluto, podendo lei infraconstitucional tra ta r do tem a
de m aneira diversa, aliás, como se deu em relação à Justiça M ilitar
(cujos crim es, m esm o de m enor potencial ofensivo, tam bém estão
fora da com petência do JECRIM - art. 90-A).221
Repercussão: a decisão do STF afastando a aplicação da Lei n.
9.099/95 alcança o instituto da suspensão condicional do processo,

220 CF, art. 98. A União, no D istrito Federal c nos Territórios, c os Estados criarão: I -
juizados especiais, providos por ju izes togados, ou togados c leigos, com petentes para
a conciliação, o ju lg am en to c a execução de causas cíveis de m en o r com plexidade e
infrações penais de m en o r potencial ofensivo, m ediante os procedim entos oral c
sum ariíssim o, perm itidos, nas hipóteses previstas cm lei, a transação c o ju lg am en to
de recursos po r tu rm a s de ju izes de p rim eiro grau.
221 Lei n. 9.099/95, art. 90-A. As disposições desta Lei não se aplicam no âm bito da Ju s­
tiça M ilitar [artigo incluído pela Lei n. 9.839/99].
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 257

tam bém previsto no seu art. 89. Sobre tal assunto, o STF já havia
se pronunciado anteriorm ente (HC 106.212, julgado em 24-3-
2011), entendendo não ser aplicável tal instituto despenalizador
aos crim es que envolvam violência dom éstica e fam iliar contra a
m ulher. O m esm o se dá em relação à transação penal e à com po­
sição civil dos danos.
Não obstante o objetivo de harm onizar a interpretação dou­
trin ária e (principalmente) jurisprudencial de dispositivos legais,
as decisões prolatadas pelo STF parecem não te r ainda logrado
hom ogeneizar os entendim entos a respeito do tem a, especialm en­
te no tocante à questão da ação penal na lesão corporal leve e à
necessidade de representação. D entre as vozes discordantes, des-
tacam-se: M atheus Silveira Pupo (2012), Rômulo de A ndrade Mo­
reira (2012) e A ndré Luiz N icolitt (2012).
Todavia, o fato de o posicionam ento do STF ter sido pela
constitucionalidade da Lei, bem como pelo entendim ento de que
as infrações praticadas contra a m u lh er em situação de violência
dom éstica não configuram infrações de m enor potencial ofensi­
vo, e ainda de que a ação penal independe de representação da
vítim a, sinaliza para um a m udança de m entalidade. O M inistro
Marco Aurélio de Mello, relator das ações, m anifestou-se no se­
guinte sentido: “Penso que o valor m aior a ser resguardado é o
valor que direciona à proteção da m ulher e o Estado não a protege
quando exige que ela adote postura de antagonism o contra o que
já se revelou agressor.”222
No m esm o sentido é o voto do Min. Luz Fux, para quem :

O condicionamento da ação penal à representação da m ulher se


revela um obstáculo à efetivação do direito fundamental à prote­
ção da sua inviolabilidade física e moral, atingindo, em última
análise, a dignidade humana feminina. Tenha-se em mente que
a Carta Magna dirige a atuação do legislador na matéria, por in-

222 C onform e notícia veiculada no p o rtal de notícias da Agência Patrícia Galvão. íntegra
disponível cm: http://ww w .agcnciapatriciagalvao.org.br/indcx.php?option=com _con-
-tcnt&vicw=articlc&id=2694&catid=43. Acesso cm: 19-8-2012.
258 Coleção Saberes Monográficos

cidência do art. 5Q, XLI (“a lei punirá qualquer discriminação


atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”) e do art.
226, § 8Q(“O Estado assegurará a assistência à família na pessoa
de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir
a violência no âmbito de suas relações”).223

Im portante nesse tem a a lição de M aria Berenice Dias:

O STF ao reconhecer a constitucionalidade da Lei Maria disse o


óbvio. Os ministros ratificaram exatamente o que ela diz: que a
ação penal independe de representação da vítima e não cabe ser
julgada pelos Juizados Especiais. (...) Diante de um ato que configu­
ra violência física, sexual, moral, psicológica ou patrimonial cabe a
busca de medida protetiva. No entanto, quando algumas dessas
práticas tipificam delito que enseje o desencadeamento de ação pe­
nal pública incondicionada, não há como deixar ao exclusivo encar­
go da vítima a responsabilidade pela instalação da ação penal. É um
ônus que não cabe ser imposto a quem conseguiu romper a barrei­
ra do silêncio, venceu o medo e buscou a proteção estatal. Como os
delitos domésticos não podem ser considerados de pequeno poten­
cial ofensivo, impositivo que a tutela assegurada pela Lei se torne
efetiva, cabendo ao agente ministerial assumir a ação penal.224

Tendo em vista que a decisão foi proferida em sede de ADC e


de ADI, ela produz, nos term os do art. 102, § 2e, da CF, “eficácia
contra todos e efeito vinculante, relativam ente aos dem ais órgãos
do Poder Judiciário e à adm inistração pública direta e indireta,
nas esferas federal, estadual e m unicipal”.225

223 C onheça a íntegra do voto do M in istro Fux: http://atualidadesdodircito.com .br/alicc-


bianchini/2014/01/25/voto-do-m in-luiz-fux-na-adc-19-e-na-adi-4424-lci-m aria-da-
-penha/. Acesso cm : 14-4-2014.
224 Disponível cm: http://atualidadcsdodircito.com.br/mariabcrcniccdias/2012/02/12/maria-
da-pcnha-um a-lci-constitucional-e-incondicional/. Acesso cm: 19-8-2012.
225 CF, art. 102, § 2®. As dccisõcs definitivas dc m érito, proferidas pelo Suprem o Tri­
bunal Federal, nas ações diretas dc inconstitucionalidadc c nas ações dcclaratórias
dc constitucionalidade produzirão eficácia contra todos c efeito vinculante, relati­
vam ente aos dem ais órgãos do Poder Judiciário c à adm inistração pública d ireta e
indireta, nas esferas federal, estadual c m unicipal.
♦> CONSIDERAÇÕES FINAIS

^ o objetivo da Lei Maria da Penha é coibir e prevenir a violên­


cia dom éstica e fam iliar contra a m ulher, tendo como objeto
toda ação ou omissão baseada no gênero no âm bito da unida­
de doméstica, da fam ília ou em um a relação ín tim a de afeto;
a violência de gênero envolve um a determ inação social dos
papéis m asculino e fem inino. Tais papéis são acom panhados
de códigos de conduta introjetados pela educação diferencia­
da que atribui o controle das circunstâncias ao hom em , o qual
as adm inistra com a participação das m ulheres, o que tem
significado ditar-lhes rituais de entrega, contenção de vonta­
des, recato sexual, vida voltada a questões m eram ente dom és­
ticas, priorização da m aternidade;
im portantes características da violência de gênero: decorre de
um a relação de poder de dom inação do hom em e de subm is­
são da m ulher; esta relação de poder advém dos papéis im ­
postos às m ulheres e aos hom ens, reforçados pela ideologia
patriarcal, os quais induzem relações violentas entre os sexos,
já que calcados em um a hierarquia de poder; a violência de
gênero é um a espécie de violência contra a m u lh er que, por
sua vez, é um a espécie de violência doméstica;
a unidade doméstica representa o espaço de convívio perm a­
nente de pessoas, não abrangendo, assim, por exemplo, a m u ­
lher que foi fazer um a visita (amiga de u m dos familiares) ou
fazer entrega dom iciliar de algum produto; não se exige o
vínculo fam iliar; abarca as pessoas esporadicam ente agrega­
das (m ulheres tuteladas, curateladas, sobrinhas, enteadas e
irm ãs unilaterais);
260 Coleção Saberes Monográficos

^ considera-se violência familiar a que seja praticada por u m ou


m ais m em bros de um a família, assim considerada a com uni­
dade form ada por indivíduos que são ou se consideram apa­
rentados, unidos por laços naturais (pai, mãe, filha etc.) ou
civil (marido, sogra, cunhada etc.), por afinidade (primo, cu­
nhado, tio) ou por vontade expressa (amigos que dividem o
m esm o apartamento);
^ a relação de nam oro é protegida pela Lei M aria da Penha, por
co n stitu ir um a relação íntima de afeto. Não obstante decisões
anteriores em sentido contrário, o STJ tem entendido que a
relação de nam oro é protegida pela Lei M aria da Penha (5a
Turma, HC 181.217-RS, julgado em 2011 e 3a Seção CC 103.813-
MG, julgado em 2009);
não foram contemplados vários contextos em que a violência
de gênero pode se m anifestar, por exemplo, no trabalho, na
escola ou no âm bito institucional, praticada nas instituições
prestadoras de serviços públicos, como hospitais, postos de
saúde, delegacias, prisões;
o vocábulo violência é utilizado para além daquele estabelecido
no cam po do direito penal. É o que ocorre quando, por exem ­
plo, a Lei M aria da Penha elenca, como forma de violência, a
patrim onial, representada, dentre outras, pela destruição de
docum entos pessoais da m u lh er pelo agressor;
^ nem todas as condutas consideradas violentas pela Lei pos­
suem u m correspondente penal, ou seja, estão tipificadas, o
que significa que há condutas violentas que não constituem
crim e, mas, m esm o assim, vários institutos da Lei M aria da
Penha podem ser aplicados em relação a elas;
as cinco formas de violência trazidas expressam ente pela Lei
(física, moral, psicológica, sexual e patrim onial) são m era­
m ente exemplificativas, podendo-se incluir outras, como, a
violência espiritual (destruir as crenças culturais ou religio­
sas ou obrigar a que se aceite um determ inado sistem a de
crenças), sem pre que ela se basear em um a questão de gênero;
o destinatário primordial da Lei Maria da Penha é a m ulher
em situação de violência dom éstica e familiar. Dirige-se tam ­
bém aos fam iliares, às testem unhas e ao agressor;
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 261

^ a Lei M aria da Penha, em grande parte do seu texto, faz refe­


rência à m u lh er agredida com o “mulher em situação de vio­
lência doméstica e familiar”. Tal opção é proposital e visa re ­
tira r a carga vitim izatória do fenômeno. O term o é o que
m elhor indica o caráter transitório da condição da m u lh er
que está sofrendo um a violência dom éstica e familiar, já que
apesar de a m u lh er encontrar-se em um a situação de v u ln e­
rabilidade, tal não significa que ela é m ais frágil que o h o ­
mem . Trata-se de um a vulnerabilidade situacional, ou seja,
em outras circunstâncias, dentro de um contexto diferente
de história de vida, essa m esm a m ulher estaria em iguais
condições com o homem;
as medidas protetivas de urgência podem ser concedidas, ana-
logicamente, a crianças, adolescentes e idosos, m esm o que se­
ja m do sexo m asculino;
a aplicação da Lei Maria da Penha ao homem vítima de vio­
lência praticada, por exemplo, pela esposa, é indevida, pois
são as especificidades da violência de gênero (não vislum bra­
das quando o hom em é vítima) que devem servir de funda­
m ento para a incidência da Lei. Faz-se necessário que exista
violência discrim inatória (preconceituosa), o que não se veri­
fica nos casos em que o agressor é do sexo fem inino; as expe­
riências vividas em cada um a das situações (violência de h o ­
m em contra a m u lh er e violência de m u lh er contra o homem)
são, quase no total das vezes, bastante diversas, m ostrando-se
m uito m ais institucionalizadas, frequentes, reiteradas, in ten ­
sas, perm anentes, intim idatórias, brutais e de consequências
irreversíveis quando a vítim a é do sexo fem inino;
^ a Lei M aria da Penha confere elevado grau de im portância aos
familiares da vítima, percebendo o quanto tam bém eles são
afetados pelo histórico de violência, principalm ente quando
se trata de filhos, sejam crianças ou adolescentes;
^ a Lei Maria da Penha estende às testemunhas as m edidas p ro ­
tetivas dirigidas ao agressor de proibição de aproximação e de
proibição de contato, principalm ente pelo fato de que nos ca­
sos de violência dom éstica ameaças podem tam bém ser d iri­
gidas àqueles que testem unharam o fato;
262 Coleção Saberes Monográficos

^ é recom endável que sejam im plantados Centros de educação


e reabilitação de agressores bem como os serviços especializa­
dos de atendim ento à m u lh er agredida, em lugar de solicitar
exclusivamente a intervenção do sistema legal, ou que se sua­
vize e adm inistre as consequências dessa intervenção. Nas
hipóteses em que o com prom etim ento obtido dos agressores
para com a reflexão é real e a assunção de responsabilidades
subsiste à assunção de culpa, os resultados podem ser bastan­
te satisfatórios;
várias são as particularidades que, por estarem presentes nos
casos de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher, ju s ­
tificam o tratam ento diferenciado e que representam fatores
de alto risco para a vida, a integridade física, m oral, sexual e
psicológica, dentre outras, da m u lh er em situação de violên­
cia dom éstica e familiar:

• o principal tipo de violência sofrido pelas mulheres vítimas de violência doméstica e


familiar é a física (62,1%) (DataSenado 2013);
• o Brasil ocupa a posição de 75 lugar entre os países que possuem o maior número
de mulheres mortas, num universo de 87 países (Mapa da Violência, 2012);
• 78% dos agressores de mulheres possuem ou possuíram vínculo afetivo íntimo com
a vítima (DataSenado 2013);
• as mulheres são assassinadas primordialmente no ambiente familiar, isto é, em suas
casas (no domicílio), ao passo que os homens, em regra, são mortos na rua, ou
seja, em razão da violência perpetrada por pessoas estranhas ao lar, sem vínculo
afetivo (Mapa da Violência, 2012);
• quase metade (42,3%) das mulheres que sofrem violência são agredidas todos os
dias (Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180, balanço semestral de janeiro a
junho de 2013);
• o ciúme, seguido do uso de álcool, é apontado tanto pelas vítimas de violência
(Pesquisa DataSenado 2013; Pesquisa Avon, 2011) quanto pelos agressores
(Instituto Avon, 2011). Também para a sociedade esses são os principais fatores
desencadeantes da violência (Perseu Abramo, 2001; DataSenado 2007; Perseu
Abramo, 2010; DataSenado 2013 e Instituto Avon, 2011);
• 2% dos entrevistados homens com 14 anos ou mais entendem que “tem mulher que
só aprende apanhando bastante” (Fundação Perseu Abramo, 2010);
• a violência doméstica produz custos de 2% do PIB dos países da América Latina
(Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID - dados de 2009);
• no Brasil a violência doméstica custa 10,5% do PIB (PIOVESAN; PIMENTEL, 2011:110);

as medidas de assistência à mulher em situação de violência


dom éstica e fam iliar são de três ordens: (1) m edidas integra-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 263

das de proteção (prevenção): incidem no m om ento anterior à


violência, contando, assim, com um a m aior efetividade na re ­
dução e/ou elim inação da violência contra a m ulher; sua rea­
lização se dá por m eio de u m conjunto articulado de ações da
União, dos Estados, do D istrito Federal e dos M unicípios e de
ações não governam entais; (2) m edidas de assistência à m u ­
lher: devem ser prestadas em ergencialm ente e dirigem -se à
m u lh er que já se encontra em situação de violência dom éstica
e fam iliar. Elas são de três ordens: (a) políticas públicas de
proteção, em especial de assistência social, de saúde e de se­
gurança; (b) norm as de proteção no trabalho e (c) políticas
públicas especiais de proteção à saúde, relacionadas à violên­
cia sexual; (3) m edidas voltadas ao atendim ento pela autorida­
de policial: tam bém se dirige à m ulher já vítim a de violência,
porém se volta para ações de atendim ento a ser realizadas pe­
la autoridade policial;
u m dos m ais significativos avanços trazidos pela Lei M aria da
Penha é estabelecim ento definitivo da discrim inação e vio­
lência de gênero como form a de violação aos direitos huma­
nos. Não há que se falar em garantia universal de direitos
sem que as m ulheres, enquanto hum anas e cidadãs, tenham
seus direitos específicos respeitados. Tal afirm ação é corolá­
rio do princípio da igualdade, que determ ina não poder a Lei
fazer qualquer distinção entre indivíduos, o que inclui a dis­
tinção entre os sexos ou entre os gêneros;
com preender a discriminação de gênero como insulto aos direi­
tos humanos implica a possibilidade de os Estados tom arem -se
atores na contenção desses abusos, bem como de responsabilizá-
-los, sejam eles perpetrados na esfera pública ou na esfera pri­
vada. Ademais, perm ite que se tom em as contas dos governos
acerca de medidas preventivas para elidir as violações;
^ a Lei Maria da Penha representa um a das m edidas apresenta­
das pelo Estado para p erm itir que ocorra o aceleram ento da
igualdade de fato entre o hom em e a m ulher. Ela insere-se no
contexto das ações afirmativas, um a vez que as m edidas lá
estabelecidas são destinadas ao em poderam ento das m u lh e­
res, a p a rtir da dim inuição das desigualdades sociais, políti-
264 Coleção Saberes Monográficos

cas e econômicas. Daqui advém o caráter de transitoriedade


da Lei. Ela vigorará enquanto as circunstâncias que a ju stifi­
caram estiverem presentes;
^ por serem excepcionais e por preverem sérias restrições de
direitos (como é o caso da m aioria das m edidas protetivas
previstas na Lei M aria da Penha), a aplicação dos in stru m e n ­
tos de discrim inação positiva só se justifica em situações
m uito relevantes (princípio da proporcionalidade);
a Lei M aria da Penha é, ao m esm o tem po, protetiva de d i­
reitos de m u lh eres e restritiv a de direitos de agressores.
D ecorrentem ente, sua aplicação som ente se ju stifica em ra ­
zão das circunstâncias m uito específicas que envolvem a
violência de gênero: brutalidade, institucionalização da vio­
lência, frequência, reiteração, perm anência, intim idação e
elevadíssim os índices. Aplica-se, aqui, o princípio da pro­
porcionalidade, já que o com um , dram ático e de consequên­
cias gravosas é a violência do hom em contra a m ulher. A
m u lh e r agredida não se en co n tra em igualdade de condi­
ções com o agressor. Há um a vulnerabilidade, m esm o que
tran sitó ria, ou seja, enquanto d u ra r o estado de agressão,
ainda que im inente;
^ a violência dom éstica e fam iliar possui causa (consequência e
reprodução) social, decorrente, principalm ente, do papel re ­
servado na sociedade às representantes do sexo fem inino.
Apesar de reconhecidos avanços, ainda vivemos em um a so­
ciedade com mossas patriarcais fortes, na qual predom inam
valores estritam ente m asculinos (cultura machista), restos de
imposição por condição de poder. A dom inação do gênero
fem inino pelo m asculino é apanágio das relações sociais pa­
triarcais, que costum am ser m arcadas (e garantidas) pelo em ­
prego de violência física e/ou psíquica;
a Lei M aria da Penha estabelece critérios especiais de inter­
pretação, devendo-se levar em consideração os fins sociais a
que ela se destina (dim inuir a violência de gênero ocorrida no
am biente doméstico, fam iliar ou em um a relação íntim a de
afeto) e, especialm ente, as condições peculiares das m ulheres
em situação de violência dom éstica e fam iliar;
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 265

^ são as especificidades desse tipo de violência que justificam


um a proteção mais efetiva e enérgica, tal qual se estabeleceu
(ao m enos em seu sentido formal) na Lei M aria da Penha.
Todavia, elas não se fazem presentes quando se trata de víti­
m a do sexo m asculino;
^ a Lei Maria da Penha exige a participação da família, da socie­
dade e do Poder Público no ato de criação das condições n e­
cessárias para o exercício efetivo dos direitos das m ulheres.
Todos, portanto, são cham ados a colaborar;
^ o trato da Lei Maria da Penha requer dos profissionais envol­
vidos (equipe multidisciplinar, peritos judiciais, advogado, de­
fensor público, autoridade policial, magistrado, promotor de
justiça) no tem a um a capacitação especial para que possam
com preender as especificidades da violência dom éstica e fa­
m iliar baseada no gênero, entendendo-a como resultado do
exercício historicam ente desigual de poder na relação entre
hom ens e m ulheres, bem como se dando conta das dificulda­
des enfrentadas pelas m ulheres em situação de violência do­
m éstica e fam iliar, em razão das características desse tipo de
violência. Sensibilização do problem a, tratam ento hum aniza­
do e formação continuada são três itens im prescindíveis;
^ além da exigência de um a especial capacitação, há ainda outra
particular característica: m uitos dos papéis que a Lei Maria
da Penha passou a atrib u ir aos operadores jurídicos são ino­
vadores, o que, se de u m lado dificulta a sua apreensão e efe­
tivação, de outro dem onstra o grau de im portância que a Lei
deu a certos atores;
a mulher em situação de violência doméstica e familiar deve
estar acom panhada de advogado em todos os atos do proces­
so, seja nas causas cíveis ou crim inais, salvo por ocasião da
m edida protetiva de urgência, que pode ser diretam ente re ­
querida por ela, não se exigindo, assim, capacidade postulató-
ria. Não é o caso, porém , de deixar a m ulher que necessite de
m edidas legais a seu favor sob a necessidade, para postular, de
interm ediação de advogado. Se assim fosse, o direito à assis­
tência jurídica poderia se converter em obstáculo ao acesso
aos meios de tutela de direitos;
266 Coleção Saberes Monográficos

objetivando orientação e acesso a inform ações e orientações


essenciais à sua proteção, bem como garantias aos seus direi­
tos, a Lei Maria da Penha previu a toda m u lh er em situação
de violência dom éstica e fam iliar o adequado acesso aos ser­
viços de Defensoria Pública ou de Assistência Judiciária Gra­
tuita em sede policial e judicial, m ediante atendim ento espe­
cífico e humanizado ;
^ a Lei Maria da Penha atribui à autoridade policial um a espe­
cial atuação no que tange a ações protetivas e assistenciais;
^ referentem ente ao magistrado, seu protagonism o é m anifes­
to. Atua nas causas cíveis e crim inais relacionadas à ocorrên­
cia de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher, além
de possuir atribuições não jurídicas, de assistência à m ulher
em situação de violência dom éstica e fam iliar. D entro deste
protagonism o, a Lei Maria da Penha concede ao m agistrado a
possibilidade de decretar, de ofício, a prisão preventiva do
agressor m esm o na fase de investigação;
a Lei M aria da Penha dedica todo um capítulo ao Ministério
Público, am pliando, bastante, as suas atribuições, tal qual fez
em relação à autoridade policial e ao m agistrado. Além disso,
concede ao MP u m especial papel na defesa dos interesses e
direitos transindividuais previstos na Lei M aria da Penha;
^ o Ministério Público não tem que se quedar passivo, aguar­
dando a iniciativa da vítima, devendo, inclusive, em casos ex­
trem os, req u erer m edidas contra a sua vontade. Aliás, esta é
a preocupação principal do dispositivo, a possibilidade de
um a m u lh er agredida, dada a sua vulnerabilidade, encontrar-
-se im pedida de se opor aos(às) agressores(as). A forte trad i­
ção dos valores dom ésticos, a p ró p ria vergonha, as co n se­
quências que recaem sobre os dem ais m em bros da fam ília
m uitas vezes faz com que haja um a espera, um a aposta em
esperança, em inúm eros casos fatais. É perm itido e reco­
m endado ao M inistério Público agir nessas situações, objeti­
vando a proteção das vítim as, pleiteando por m edidas p ro te­
tivas por elas relegadas ou até recusadas, quando houver
indícios de que sua inação leva a riscos evidentes ou sua
vontade não é livre ou espontânea;
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 267

as medidas protetívas de urgência constituem a principal in o ­


vação da Lei M aria da Penha ao lado da criação dos Juizados
de Violência Doméstica e Fam iliar contra a Mulher. Até então,
o juiz, nesses casos, encontrava-se m uito lim itado nas suas
ações voltadas à proteção da m ulher;
^ as medidas protetívas p e rm itira m não só alargar o espectro
de proteção da m ulher, aum entando o sistem a de prevenção
e com bate à violência, com o tam bém dar ao m agistrado
um a m argem de atuação para que possa decidir p o r u m a ou
o u tra m edida protetiva, de acordo com a necessidade exigi­
da pela situação;
^ as medidas protetívas são de caráter civil, trabalhista, previ-
denciário, adm inistrativo, penal e processuais. É por isso que
se diz que a Lei Maria da Penha é heterotópica, ou seja, prevê
em seu bojo dispositivos de diversas naturezas jurídicas;
^ a medida de afastamento do lar visa preservar a saúde física e
psicológica da m ulher, dim inuindo o risco im inente de agres­
são (física e psicológica), já que o agressor não m ais estará
dentro da própria casa em que reside a vítim a. O patrim ônio
da ofendida tam bém é preservado, um a vez que os objetos do
lar não poderão ser subtraídos ou destruídos;
a retirada do agressor do interior do lar, ou a proibição de que
lá adentre, além de auxiliar no combate e na prevenção da
violência doméstica, pode e n cu rtar as distâncias entre vítim a
e Justiça. O risco de que a agressão seja potencializada após a
denúncia dim inui, quando se providencia para que o agressor
deixe, ou fique sem acesso franqueado à residência em co­
m um . Por sobre isso, evita o contato im ediato após a violên­
cia, propiciando m enor hum ilhação e m aior tranquilidade ao
lar, o que repercute, inclusive, em relação aos filhos e dem ais
fam iliares. Por te r caráter de urgência e por depender de de­
term inação judicial, enquanto não forem instalados e equipa­
dos plantões nos Juizados Especiais, a eficácia da m edida não
alcançará todo o seu potencial;
^ a proibição de aproximação estende-se aos fam iliares da víti­
m a e às testem unhas, podendo até m esm o fixar lim ite m ín i­
m o de distância a m anter. A finalidade do legislador ao prever
268 Coleção Saberes Monográficos

esta m edida foi de preservar a incolum idade física e psíquica


da m u lh er em situação de violência;
a proibição de contato atinge qualquer meio de comunicação,
seja pessoal, direta, telefônica, m ensagens eletrônicas, m en­
sagens de bate-papo etc., e visa resguardar especialm ente a
integridade psíquica da m ulher em situação de violência;
a proibição de frequentar determinados lugares encontra-se
principalm ente dirigida aos locais de frequência com um da
m u lh er e de seus fam iliares, evitando-se constrangim entos,
intim idações, escândalos, hum ilhações públicas etc.;
a restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores
deve ser precedida da ouvida da equipe de atendimento multi-
disciplinar ou serviço similar e normalmente, quando deferi­
da, vem acom panhada da proibição de frequentar espaços de
convivência dos filhos;
apesar da menção à equipe de atendimento, o parecer técnico,
nos casos em que há risco à integridade da m u lh er ou de seus
filhos, não precisa anteceder a adoção da medida. Além disso,
m esm o que o parecer tenha sido realizado, o ju iz a ele não
fica vinculado;
^ em situações m uito especiais, o juiz pode determ inar que as
visitas ocorram de form a supervisionada por especialistas e/ou
em ambientes terapêuticos, de form a a preservar a integridade
da vítim a sem afetar a convivência do agressor com os filhos;
dentre as medidas protetivas dirigidas à mulher, nenhum a
delas possui natureza crim inal, podendo ser cum uladas, ou
não, com outras, a depender da complexidade e das peculia­
ridades do caso concreto;
a Lei M aria da Penha estabelece a faculdade de se utilizar
subsidiariamente as regras do Estatuto do Idoso e do Estatuto
da Criança e do Adolescente; outras, ainda, podem ser aplica­
das pelo juiz, inclusive as previstas na Lei n. 12.403/2011 (pri­
são e outras m edidas cautelares);
^ para se atingir a integralidade de proteção, as medidas prote­
tivas que obrigam o agressor podem ser cumuladas com as
dirigidas à vítima, bem como com outras previstas em orde-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 269

nam ento diverso. Elas tam bém podem ser substituídas, a


qualquer tem po, por outras, desde que de m aior eficácia. Tu­
do depende da necessidade, da adequação e da proporcionali­
dade em sentido estrito;
o delegado de polícia e o membro do Ministério Público têm
legitim idade para requerer as m edidas protetivas, bem como
poderá haver decretação de ofício pelo juiz;
as medidas protetivas poderão ser aplicadas, mesmo quando a
ofendida não as requerer, em bora necessite delas com urgência;
^ a ofendida e seus dependentes podem ser encam inhados a
programa oficial ou comunitário de proteção ou de atendi­
mento, assim como reconduzidos ao dom icílio após o afasta­
m ento do agressor; se for determ inado o afastam ento da
ofendida do lar, não serão prejudicados seus direitos relativos
à guarda dos filhos, bens e alimentos;
há um a preocupação no sentido de que, após o recebim ento
do expediente da m edida protetiva, o juiz decida de imediato,
tendo o prazo m áxim o e im prorrogável de 48 horas; poste­
riorm ente, a ofendida é encam inhada à assistência jurídica;
o juiz pode autorizar a concessão imediata das medidas prote­
tivas de urgência, independentem ente de oitiva do MP, que
nesse caso tom a conhecim ento dos fatos depois da decisão
judicial. Tal modificação procedim ental, apesar de ofender o
princípio da im parcialidade, é justificada sem pre que se este­
ja diante de situação de urgência;
^ as m edidas protetivas de urgência diferem das cautelares pe­
nais (busca e apreensão, interceptação telefônica etc.), já que
estas têm por propósito provar a prática de u m crim e no âm ­
bito do processo penal;
as m edidas protetivas de urgência não se confundem com
prisão preventiva processual (ainda que um a das m edidas p ro ­
tetivas seja representada pela prisão preventiva);
^ em razão do prazo indeterminado, as m edidas devem subsis­
tir enquanto d u rar a situação que m otivou a sua decretação;
há um lim ite tem poral, entretanto, intransponível: térm ino
do processo crim inal. Tal não significa, todavia, que, havendo
270 Coleção Saberes Monográficos

interesse da vítim a e necessidade da m edida, não se possa


pleitear, ju n to ao juízo cível (vara da família, se for o caso),
decisão judicial definitiva que venha a garantir a continuida­
de da proteção, ou m esm o um a outra espécie de garantia;
para a decretação da prisão preventiva nos casos de violência
dom éstica e fam iliar contra a m ulher (ou contra a criança,
adolescente, idoso, enferm o ou pessoa portadora de necessi­
dades especiais), não se exige que ao crim e doloso seja com i­
nada pena privativa de liberdade m áxim a superior a 4 anos,
diversam ente do que é exigido para todos os dem ais casos
(CPP, art. 313); tal se dá pelo fato de que ela decorre da neces­
sidade de garantir proteção à vítim a, por isso, é indiferente a
pena com inada para o crim e de que a m ulher é vítim a (po­
dendo ser a ameaça, por exemplo, cuja pena é bem inferior);
continua válida a regra contida na Lei M aria da Penha que
perm ite a decretação da prisão preventiva, pelo juiz, de ofício,
na fase do inquérito policial, pois, não obstante ofender o sis­
tem a acusatório (já que o juiz acaba por perder a necessária
posição equidistante), no m om ento da ponderação de interes­
ses há que preponderar a norm a de proteção integral à m u ­
lher em situação de risco;
tal entendim ento é respaldado pelas estatísticas, as quais de­
m onstram o elevadíssimo índice de homicídios, dentre outros
atos violentos, praticados por hom ens cuja vítim a m ulher
m antinha ou m anteve com ele um a relação íntim a de afeto;
^ apesar de os núm eros relativos à violência contra a m ulher
justificarem a drasticidade da ação, há que se resguardar tal
instru m en to para situações m uito específicas, como no caso
de transtorno visível e acentuado do agressor;
o recurso cabível depende da natureza da m edida protetiva
que se está arrostando, devendo-se observar a previsão recur-
sal de cada u m dos ram os do direito processual, bem como
suas regras de com petência em relação ao juízo ad quem ;
^ diante da prática de violência dom éstica e fam iliar contra a
m u lh er ou na im inência da ocorrência da violência, deve a
autoridade policial, imediatamente, agir, podendo adotar m e-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 271

didas de proteção e assistenciais; todas as ações são realizadas


pela autoridade policial e estendem -se para as hipóteses de
descum prim ento de m edida protetiva de urgência deferida;
^ à exceção da prisão cautelar, a Lei M aria da Penha em n e­
n h u m m om ento especifica expressam ente que a autoridade
policial possa solicitar m edidas protetivas de urgência; tal
não im pede, diante das circunstâncias e do estado da vítima,
que haja representação da autoridade policial nesse sentido,
principalm ente por conta do fato de que a Lei Maria da Penha
protege não só a m ulher, m as tam bém seus dependentes e as
testem unhas do fato. Aliás, há que se considerar que, se a au­
toridade policial pode o m ais (representar pela prisão preven­
tiva, que é a m edida protetiva de urgência de m aior intensi­
dade), tam bém haveria de poder o m enos (solicitar que fosse
decretada outra das m edidas protetivas);
a Lei M aria da Penha determ ina a aplicação subsidiária do
CPP, aplicando-se o procedim ento ordinário quando a sanção
m áxim a com inada ao crim e for igual ou superior a 4 (quatro)
anos de pena privativa de liberdade e o procedim ento sum á­
rio quando a sanção m áxim a com inada for inferior a 4 (qua­
tro) anos de pena privativa de liberdade. Também se aplica o
procedim ento especial quando for o caso;
por m eio dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar con­
tra a Mulher foi possível centralizar, n u m único procedim en­
to judicial, todos os m eios de garantia dos direitos da m u lh er
em situação de violência dom éstica e fam iliar, antes relegado
a diversos e diferentes órgãos jurisdicionais (vara crim inal,
cível, de família, da infância e da juventude etc.);
ao preservar a conexão entre os litígios cíveis e criminais, o
legislador p erm itiu que o m esm o juiz julgue o pedido de se­
paração conjugal, ação de alim entos, separação de corpos etc.
e leve em consideração os fatos envolvidos em tais ações no
m om ento em que for apreciar ações decorrentes das práticas
violentas relacionadas a estes conflitos fam iliares (que deram
origem a processos criminais);
^ os atos processuais poderão ser realizados em horário notur­
no, podendo, a m ulher, contar com providências legais em
qualquer período do dia;
272 Coleção Saberes Monográficos

^ a competência para processar e julgar a violência dom éstica e


fam iliar contra a m u lh er é da Justiça Comum; há, entretanto,
exceções, contem pladas constitucionalm ente, por exemplo
crim es de com petência da Justiça Federal ou M ilitar e crim es
de com petência do Tribunal do Júri;
^ compete ao juiz dos Juizados de Violência Doméstica e Fam i­
liar contra a M ulher (quando as leis de organização judiciária
nada dispuserem a respeito) proferir a decisão de pronúncia,
já que esteve m ais próxim o da produção das provas, bem
como se encontra capacitado para com preender as especifici-
dades da violência dom éstica e fam iliar baseada no gênero (ou
pelo m enos assim determ ina a Lei M aria da Penha) para de­
cidir causas que envolvam o tema;
enquanto não estiverem estruturados os Juizados de Violência
Doméstica e Fam iliar contra a M ulher, as varas criminais po­
dem acumular as competências cível e criminal para conhecer
e ju lg ar as causas decorrentes da prática de violência dom és­
tica e fam iliar contra a m ulher; a constitucionalidade de tal
dispositivo foi objeto de questionam ento na Ação Declaratória
de Constitucionalidade 19, proposta pela Presidência da Repú­
blica e julgada procedente, por unanim idade, pelo STF;
por constituir, a violência dom éstica e fam iliar contra a m u ­
lher, um a das form as de violação dos direitos hum anos, há
possibilidade, preenchidos os requisitos legais, de se suscitar
o deslocamento de competência (CF, art. 109, V-A e § 5Q);
^ é facultado à ofendida optar pelo seu domicílio ou residência;
pelo lugar do fato em que a dem anda é baseada; ou com base
no dom icílio do agressor; a intenção da Lei é de privilegiar a
vítim a, por ser a parte m ais frágil da dem anda, e não se tra ­
ta de m ero privilégio concedido como benesse a alguém con­
siderado inferior ou incapaz: se as partes do processo pos­
suem características específicas, necessita-se de regras
específicas; ao oferecer três possíveis foros com petentes, o
legislador m anifesta seu entendim ento a respeito da com ple­
xidade das relações pessoais existentes entre as partes envol­
vidas na dem anda cível decorrente da prática de violência
dom éstica, com vistas a reduzir tanto quanto possível as di-
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 273

ficuldades práticas (como deslocam ento até o foro de propo-


situra da ação, localização de testem unhas, produção de ou­
tras provas etc.) para o ajuizam ento dos processos cíveis, que
já trazem em si tantos obstáculos pessoais a serem superados
pela m u lh er agredida;
^ a retratação deve ser voluntariam ente realizada pela vítim a,
que necessita se m anifestar pela vontade de não dar prosse­
guim ento à ação penal, perante o juiz, pois este deverá veri­
ficar a real espontaneidade da retratação apresentada; o legis­
lador cuidou de estabelecer garantias à vítim a quando esta
decide retratar a representação, prevendo que o M inistério
Público deve ser previam ente ouvido e designando audiência
específica para tal fim;
^ para que a retratação seja válida, a vítim a deve te r sido devi­
dam ente orientada sobre as consequências jurídicas e práticas
de sua decisão, sendo passível de anulação a retratação feita
por vítim a que não estiver a par dos efeitos de seu ato. Assim,
entende-se que é fundam ental a presença de defensor nesta
audiência, considerando-se a situação de vulnerabilidade na
qual se encontra a vítim a de violência dom éstica e fam iliar;
^ a inépcia dos Juizados Especiais em proporcionar resposta sa­
tisfatória às vítim as de violência dom éstica sensibilizou orga­
nizações fem inistas e outras entidades da sociedade civil en­
volvidas no com bate à violência, que passaram a denunciar a
banalização da violência dom éstica por parte dos JECRIMs e a
consequente vulnerabilização da vítim a; objetivo do legisla­
dor foi im pedir que eventuais substituições de penas privati­
vas de liberdade por penas restritivas de direitos se resum is­
sem ao pagam ento em pecúnia ou em cestas básicas e, por
conseguinte, deixassem de gerar efeitos na dim inuição da
violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher;
na acepção técnica, verifica-se que na Lei Maria da Penha o
vocábulo “pena” foi em pregado de form a inapropriada pelo
legislador, tendo em vista que não se trata, a aplicação de
doação de cestas básicas, de sanção de caráter penal (CP, arts.
32 e ss.);
274 Coleção Saberes Monográficos

a Lei Maria da Penha não traz qualquer restrição à aplicação


das penas restritivas de direitos, não sendo possível, en tretan ­
to, estabelecer doação de cesta básica ou prestação pecuniária
na condenação por crim e ou contravenção, nem m esm o fixá-
-las quando da substituição da pena privativa de liberdade
por penas restritivas de direitos, já que a Lei não perm ite a
aplicação de penas que im pliquem som ente o pagam ento em
dinheiro, tal como sucede com a prestação pecuniária (pena
restritiva de direitos) e a m ulta isolada;
as vedações supramencionadas se dirigem às duas categorias
de infração penal (crime e contravenção penal), já que a Lei
Maria da Penha utilizou-se da expressão “casos de violência do­
méstica efam iliar contra a mulher” (art. 17); diferentem ente foi o
que ocorreu em relação à vedação de aplicação da Lei n.
9.099/95, já que, em relação a tal tem a, a Lei expressam ente
utilizou-se do vocábulo crime (art. 41);
a ofendida deve ser notificada dos atos processuais relativos ao
agressor, especialmente dos pertinentes ao ingresso e à saída
dele da prisão, sem prejuízo da intim ação do advogado cons­
tituído ou do defensor público que patrocine a causa; tal m e­
dida tem cu n h o preventivo, buscando evitar que a m u lh er e
os envolvidos na situação de violência dom éstica e fam iliar
sejam surpreendidos, garantindo-lhes oportunidade de se
precatarem , providenciando condições que elidam o m áxim o
de chances de o agressor vir, novam ente, a fazê-los vítimas;
a ofendida não pode entregar, ao agressor, intimação ou notifi­
cação a ele destinada; tal m edida visa proteger a m u lh er víti­
m a de violência dom éstica e fam iliar que realizou denúncia
contra seu agressor; ela é fruto das reivindicações dos grupos
envolvidos na produção da Lei M aria da Penha, em especial
das fem inistas, preocupados com a vulnerabilidade da m ulher
denunciante. Isso porque, antes da promulgação da Lei n.
11.340/2006, era com um nas delegacias que à vítim a fosse re­
quisitada a entrega ao agressor de notificação para com pare-
cim ento perante a autoridade policial, fato que por si só pode­
ria gerar novas agressões; tal proibição é acertada, visto que é
ilógico que a m u lh er seja o arauto da denúncia levada a efeito;
Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006 275

^ a Lei Maria da Penha garante o direito de preferência, nas va­


ras crim inais, para o processo e o julgam ento das causas de­
correntes da prática de violência dom éstica e fam iliar contra
a m ulher; essa preferência não exclui outras já definidas em
Lei, por exemplo a presente no Estatuto do Idoso, devendo o
juiz, quando da m ovim entação dos processos, com patibilizar
todas essas causas; o juiz deve, em todas essas circunstâncias,
sopesar os bens em jogo e as especificidades dos processos/
inquéritos para, só então, decidir qual deve ser impulsionado
preferencialmente (o de réu preso, o que envolve idoso ou
criança etc.);
^ o combate, a erradicação e a prevenção da violência doméstica
contra a m u lh er passa, necessariam ente, pelo aparelhamento
adequado e eficaz do Estado em todas as esferas da adm inis­
tração, para assegurar à m ulher em situação de violência o
acesso a um a ampla gam a de serviços e program as com des-
tinação específica a essa questão (curadorias, serviço de assis­
tência judiciária etc.);
a vedação da aplicação da Lei n. 9.099/95 aos crim es pratica­
dos com violência dom éstica e fam iliar contra a m u lh er in ­
clui a possibilidade de aplicação de institutos despenalizadores
previstos naquela norm a, a exemplo da suspensão condicional
do processo (art. 89 da Lei n. 9.099/96);
<$> a existência de violência dom éstica na lesão corporal rep re­
senta um a qualifícadora da lesão corporal leve (lesão corporal
leve qualificada), o que significa que a pena prevista não se
estende para as dem ais modalidades (grave, gravíssim a ou
com resultado); se houver violência doméstica, porém carac-
terizando-se quaisquer das m odalidades diversas da leve (le­
são corporal grave, gravíssim a ou com resultado morte), a
consequência é que a pena será aum entada em 1/3; se a lesão
corporal leve qualificada for com etida contra pessoa portado­
ra de deficiência, a pena tam bém é aum entada em 1/3;
^ após o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, a
execução da pena im posta será regida pela Lei n. 7.210/1984,
a Lei de Execução Penal (LEP), com a seguinte alteração:
quando se tratar de execução de pena restritiva de direitos de
276 Coleção Saberes Monográficos

lim itação de final de semana, o ju iz poderá d eterm in ar o


comparecimento obrigatório do agressor a programas de recu­
peração e reeducação; apesar de sua im portância, centros de
educação e reabilitação de agressores ainda são em núm ero
m uito reduzido no País; os esforços de criação ou m anutenção
desses centros sofrem com a resistência da sociedade, das en­
tidades, do Judiciário e de alguns coletivos fem inistas, os
quais não enxergam com olhos com placentes as penas alter­
nativas, em casos de violência dom éstica contra a m ulher;
aplicam-se os arts. 181 e 182 do CP (imunidades penais) aos
crim es patrim oniais em que a vítim a seja m u lh er em situação
de violência doméstica e familiar; os com andos da Lei Maria
da Penha, quando de natureza ou de implicação penal, hão de
ser interpretados a p a rtir de exegese própria de tal ram o do
direito, não se adm itindo, portanto, a interpretação extensiva;
caso o legislador, à sem elhança do que operou o Estatuto do
Idoso, afastando a incidência dos arts. 181 e 182 do CP, opte por
tam bém não p erm itir a incidência de tais dispositivos na
ocorrência de violência dom éstica e fam iliar contra a m ulher,
poderá fazê-lo por interm édio do devido processo legislativo;
a decisão do STF (ADI 4.424), no sentido de que nos crimes de
lesão corporal leve a ação penal é pública incondicionada,
aplica-se apenas aos crim es que envolvam violência dom ésti­
ca e fam iliar contra a m ulher, perm anecendo a exigência de
representação, portanto, para todas as dem ais situações;
^ o STF, ao declarar constitucional a Lei M aria da Penha (ADC
19), pacificou a discussão acerca da constitucionalidade, ou
não, da possibilidade de o juiz, de ofício, na fase policial, de­
cretar a prisão preventiva;
^ a decisão proferida na ADC 19 produz “eficácia contra todos e
efeito vinculante, relativam ente aos dem ais órgãos do Poder
Judiciário e à adm inistração pública direta e indireta, nas es­
feras federal, estadual e m unicipal” (CF, art. 102, § 2Q).
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