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Revista da Conservação do Património Arquitectónico

e da Reabilitação do Edificado
Ano X - Nº38 Abril/Maio/Junho 2008 - Publicação Trimestral - Preço € 4,48 (IVA incluído)

Património Religioso
e Lugares Sagrados

Antigos conventos, novas funções


Tema de Capa:
Património Religioso e Lugares Sagrados

Ficha Técnica EDITORIAL 2 PROJECTOS & ESTALEIROS 25


Reconhecida pelo Ministério Sinagoga de Castelo de Vide
da Cultura como “publicação quadro de honra 3 (Susana Bicho, Alberto Cruz, Francisco Buxo)
de manifesto interesse cultural”,
ao abrigo da Lei do Mecenato.
Património Religioso 4 28
N.º 38 - Abril / Maio / Junho 2008
Igreja da Santíssima Trindade
Espaços sagrados do Santuário de Fátima
Propriedade e edição: Imperialismo na Lusitânia (José Mota Freitas, Eugénio Maia,
GECoRPA – Grémio das Empresas de Conser- (Rodrigo Banha da Silva) Miguel Guimarães)
vação e Restauro do Património Arquitectónico
Rua Pedro Nunes, n.º 27, 1.º Esq.
1050 - 170 Lisboa
6 CARTAS & CONVENÇÕES 32
Tel.: 213 542 336, Fax: 213 157 996 O Ribāt al-Rihana de Ibn Qasī (Aljezur) Carta de Villa Vigoni
http://www.gecorpa.pt Uma sacralidade efémera,
E-mail: info@gecorpa.pt Sobre a protecção dos
Nipc: 503 980 820
em meados do séc. XII Bens Culturais da Igreja
Director: Vítor Cóias (Mário Varela Gomes, Rosa Varela Gomes) (Flávio Lopes, Miguel Brito Correia)
Coordenação: Joana Gil Morão /Miguel Brito
Correia
Conselho redactorial: João Appleton,
NOTAS HISTÓRICAS 8 as leis do património 34
João Mascarenhas Mateus, José Aguiar, Eremitismo O Código dos Contratos Públicos
Miguel Brito Correia, Teresa de Campos Coelho Os espaços da solidão O preço base e a valorização dos
Secretariado: Elsa Fonseca (João Luís Fontes)
Colaboram neste número: trabalhos de suprimento
A. Jaime Martins, Albertina Rodrigues,
Alberto Cruz, Ana Gomes Cravinho, Ana
10 de erros e omissões
(A. Jaime Martins)
Sampaio e Castro, António Pereira Coutinho, Arquitectura Monástica
Artur Correia da Silva, Estela Cameirão,
Esther Mucznik, Eugénio Maia, Fátima
e Espaços Sagrados
(Francisco Teixeira)
DIVULGAÇÃO 35
Fonseca, Flávio Lopes, Francisco Buxo, Mesquita Central de Lisboa
Francisco Teixeira, Isabel brito Correia,
Joana Marques, João Luís Fontes, José Faria, REFLEXÕES 12 (Sheikh Munir)
João Seabra Gomes, José Mota Freitas, Luís
Sebastian, Mário Varela Gomes, Miguel Brito
Reutilização de igrejas antigas 37
Correia, Miguel Guimarães, Nuno Teotónio (Estela Cameirão) Museu do Regimento
de Sapadores Bombeiros
Pereira, Paulo Varela Gomes, Regis de Souza
Barbosa, Rodrigo Banha da Silva, Rosa Varela 14 (José Faria)
Gomes, Sheikh Munir, Susana Bicho, Tiago Antigos conventos, novas funções
Costa Luís
Design gráfico e produção:
Vicissitudes de antigos espaços ISTO TAMBÉM É PATRIMÓNIO 39
Canto Redondo – Edição e Produção, Ld.ª
religiosos da Baixa e Chiado
(Fátima Fonseca, Tiago Costa Luís)
Miniatura de Pagode Chinês
Calçadinha de Santo Estêvão, 7 - 3.º
(Isabel Brito Correia)
1100 - 502 Lisboa
E-mail: canto.redondo@gmail.com
Publicidade:
estudo de caso 16 NOTÍCIAS 40
GECoRPA – Grémio das Empresas de Conser- O projecto de investigação arqueológica
vação e Restauro do Património Arquitectónico no Mosteiro de S. João de Tarouca:
Rua Pedro Nunes, n.º 27, 1.º Esq. 1998-2008 AGENDA 44
1050-170 Lisboa
(Luís Sebastian, Ana Sampaio e Castro)
Tel.: 213 542 336, Fax. 213 157 996
http://www.gecorpa.pt vida associativa 45
E-mail: info@gecorpa.pt 18
Impressão: Gráfica Europam, Ld.ª
Rua Francisco Lyon de Castro, 2
Capela do Monte, Velha Goa
(Paulo Varela Gomes)
e-pedra e cal 46
2725 – 397 Mem Martins
Distribuição: VASP, S. A.
O aquário

Depósito legal: 128444/98


22 (António Pereira Coutinho)

Registo no ERC: 122549


ISSN: 1645-4863
A Sinagoga portuguesa Shaaré-Tikvá
(Esther Mucznik, João Seabra Gomes, Albertina
livraria 47
Tiragem: 2500 exemplares Rodrigues, Artur Correia da Silva)
Associados gecorpa 49

Capa
Perspectivas 52
Sinagoga Shaaré Tikvá, em Lisboa.
Património religioso e não só
Imagem da parede onde se encontra O caso exemplar da diocese de Beja
a arca sagrada da sinagoga de Lisboa. (Nuno Teotónio Pereira)
Inaugurada em 1904, foi tratan-
do-se da primeira sinagoga con-
struída em Portugal desde a extin-
ção do culto oficial judaico, em 1497.

Pedra Pedra
& Cal n.º 37 Janeiro
& Cal . Fevereiro
n.º 38 Abril . Maio..Março
Junho 2008 
EDITORIAL

Património Religioso e
Lugares Sagrados
O tema escolhido pelo ICOMOS, este ano, para o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios (18 de Abril) abor-
da a área do património que agrupa, provavelmente, o maior número de imóveis classificados em todo
o mundo. Em Portugal, o número de imóveis de cariz religioso que está classificado representa cerca de metade
do total. O património religioso abrange, ainda, os mais antigos vestígios do génio construtivo humano que ainda
permanecem, pois o tempo fez desaparecer as primeiras arquitecturas que se destinavam a usos mais efémeros.

O património religioso e os lugares sagrados fazem apelo à transcendência, à referência ao divino, que talvez seja
a única característica do Homem que não tem paralelo em nenhuma espécie animal. Na sua busca do divino, o
Homem escolheu lugares e neles construiu espaços aos quais atribuiu significado sagrado. Sendo sagrados, esses luga-
res destinavam-se a resistir ao desgaste do tempo e, por isso, neles aplicou alguns dos materiais mais resistentes que
encontrou na natureza ou que soube inventar. O segredo da preservação de tanto património religioso, por contras-
te com as duas outras grandes áreas tradicionais do património (o militar e o civil), poderá estar nesta sábia utiliza-
ção de materiais duráveis e na atribuição de um significado que inspire respeito, congregue os homens e eleve a alma.

A importância do património religioso para a história da arte advém do espírito criativo daqueles que o ergue-
ram, pois nas igrejas, nas mesquitas, nas sinagogas, nos templos das mais variadas religiões, apresentam-se algu-
mas das tendências mais audaciosas, elaboradas e vanguardistas da arquitectura de cada época. Em muitas povo-
ações do mundo o único edifício com algum mérito arquitectónico é o templo. Frequentemente, de todos os edi-
fícios antigos, o templo é o que menos alterações sofreu ao longo dos tempos e o que está mais bem preservado.

Faço votos para que cada geração se empenhe em cuidar desta nobre herança!


Miguel Brito Correia

 Pedra & Cal


Cal n.º
n.º 37
38 Janeiro . Fevereiro
Abril . Maio . Março
. Junho 2008 2008
GECoRPA

Quadro de Honra

Do número apreciável de empresas que têm manifestado interesse na conservação do património


arquitectónico português e nas actividades do GECoRPA, foi seleccionado um grupo restrito de
patrocinadores da revista Pedra & Cal.
Para distinguir essas empresas, particularmente empenhadas no sucesso da revista, foi criado o
presente Quadro de Honra.

A Direcção do GECoRPA

Pedra & Cal n.º 37 Janeiro . Fevereiro . Março 2008 


PATRIMÓNIO RELIGIOSO
Tema de Capa

Espaços sagrados
do Imperialismo
na Lusitânia
Os territórios que se encontraram Roman arts have, on the whole, had a bad deal from friend and foe alike.
sob o domínio de Roma mostram
um conjunto de ruínas de templos On one hand, fallacious comparisons with Hellenic or Hellenistic artis-
em cuja arquitectura reconhecemos try have distorted their proper values; on the other, tendentious scho-
um “ar de família”. São escassos os
conhecimentos sobre a Arquitectura larship has abstracted them from their context (Mortimer Wheeler,
da Antiguidade que permitem recons- Roman Art and Architecture, 1964).
truir mentalmente os traços essenciais
dos edifícios e a sua volumetria. E,
nesse sentido, experimenta-se o que
de unidade e formatação encerrou o
Império Romano.
A realidade romana é, porém, bem
mais rica e complexa, e nem todos
os espaços sagrados se conforma-
ram à monumentalidade clássica do
edifício erguido sobre pódio, ornado
de colunata e frontão, que podemos
visitar da costa atlântica ao Médio
Oriente. Contrastantes com estes são
os santuários dedicados a fontes e
bosques, os mistéricos centros de
culto ao oriental Mitras, ou a mística
e rupestre Panóias (Vila Real). Como
também a obra-prima da arquitectura
sagrada romana ainda sobrevivente,
o Panteão de Roma (edificado no
tempo de Augusto e restaurado em
126 d. C., a mandado de Adriano),
com a sua cúpula inspiradora dos
modelos posteriores, feito apenas
ultrapassado séculos mais tarde, em
Templo de Diana, Mérida
Hagia Sophia (Istambul).
Os espaços sagrados romanos alber-
gam, portanto, uma grande variabili- rância religiosa lata. Da mesma forma A sua organização assentava em
dade formal, sob a capa de uma apa- esperava, por parte das comunidades colégios sacerdotais (compostos por
rente similitude à escala-mundo, o autóctones, o respeito e cumprimento flâmines, augustais e sêxviros) de
que espelha bem o que representou o dos cultos que mais directamente se carácter local e provincial. Na prática,
Império Romano: um fenómeno inte- conectavam com o Estado. De entre acabou por funcionar para os perso-
grador, que abrigou sob uma mesma estes emerge, a partir do período nagens das várias regiões do Império
entidade política uma vasta parte do imperial, o Culto Imperial. como palco político paralelo às carrei-
Mundo Antigo, pontuada de entida- Originado ainda em época de Augusto ras administrativas. E para notáveis
des tópicas, divindades regionais e (27 a. C.-14 d. C.), e fortemente fomen- aos quais estava vedado o acesso
outras mais ou menos “universais”, tado no principado seguinte (Tibério, às magistraturas civis, exemplo dos
geradoras de distintas expressões 14-37 d. C.), viria a constituir-se como libertos (i.e., ex-escravos), como veí-
arquitectónicas do sagrado. a principal manifestação pública de culo eventual para a sua afirmação
Roma demonstrou, enquanto con- fidelidade colectiva e individual para social. E a par deste nível oficial sur-
quistadora e imperialista, uma tole- com o Estado. giram também, de forma espontânea,

4 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


PATRIMÓNIO RELIGIOSO
Tema de Capa

associações de indivíduos dedicados Mérida, e o municipal, em Évora), corresponde ao templo capitolino de


ao culto, documentados sobretudo na devotados ao Culto Imperial. Luni, o que deverá traduzir influên-
metade oriental do Império. De um ponto de vista formal, o seu cia itálica.
Fundamental para a consolidação tipo de templo, onde a cella (espaço Mas que significado encerram estas
política do novo regime criado por onde se encontrava a representação intricadas análises “finas” de edifí-
Augusto, poderoso veículo de pro- da divindade e à qual apenas tinham cios aparentemente similares? Fun-
paganda, foi um dos elementos mais acesso os sacerdotes) era cercada por damentalmente dois. O primeiro,
activos que serviram para forjar uma colunata hexástila e períptera (de 6x11 que a monotonia formal com que
ideia de unidade e de identidades colunas), corresponde a um modelo levianamente olhamos este tipo de
provinciais, agregando indivíduos e muito específico, de que apenas se monumentos é apenas ilusória. O
comunidades outrora apartadas entre conhece mais um exemplo contem- segundo, porventura mais apelati-
si pela geografia e pelo distinto fundo porâneo ou anterior a ocidente da vo, de que aquela análise permite
cultural autóctone. Esta construção Itália, em Barcelona. Na realidade, o descortinar reprodução de modelos,
de identidade, promovida pela forma modelo denota inspiração helenística entrever origens e influências, de que
singular do imperialismo romano, anterior, e só viria a ser retomado as características “antigas” (helenísti-
assumiu expressão arquitectónica nos no ocidente no século II d. C., com o cas e itálicas) dos templos lusitanos
principais templos das capitalidades. Imperador Adriano, muito por via do citados constituem exemplo.
O santuário da capital integrou o
plano urbanístico promovido directa-
mente pelo Imperador. A monumen-
talidade do templo (40,75m x 21,90m,
com pódio de 3,23m de altura) terá
impressionado o imaginário dos pro-
vinciais. Recorde-se que em Mérida
tinha lugar uma reunião anual de
representantes de todas as cidades
capitais da província, o concilium, rea-
lizada no fórum coroado pelo mag-
nificente templo. Pelo menos nestas
ocasiões, muito concorridas, terão os
eborenses tido a oportunidade de o
admirar. E seriam as elites eboren-
ses, poucas décadas mais tarde, a
promover e custear uma construção
nela inspirada, de menor dimensão
(24m x 15m, pódio de 3m de altura),
coroando o fórum municipal da sua
cidade.
O insuficiente conhecimento arque-
ológico de outras ruínas análogas
da Lusitânia Ocidental, como as dos
templos já atestados em Faro, Ammaia
Templo de Diana, Évora
(Marvão), Beja, Lisboa ou Idanha-
-a-Velha, não nos permite saber se
E é, justamente, essa identidade entre filo-orientalismo deste princeps e de o modelo da capital da Lusitânia
os espaços que reconhecemos e sen- Apolodoro de Damasco, seu princi- inspirou outros templos. Mas todos
timos ao olhar os restos dos gran- pal arquitecto. eles comprovam, como também os de
des templos provinciais, clássicos e Os templos lusitanos mostram outras Conimbriga, Coimbra e outros, que
monumentais, como os de Mérida e afinidades. Ao invés do mais vulgar ao longo do século I d. C. se ergue-
Évora. acesso por escadaria frontal, neles ram locais de culto ao Imperador
Afinidades estreitas, aliás, ligam os o acesso ao pódio fazia-se por duas promovidos pelos autóctones, numa
dois edifícios: deixando de parte o escadarias laterais conectadas a um demonstração de vontade de perten-
seu “baptismo antiquarista”, que patim central. Como eram, também, ça ao Império Romano.
por coincidência os atribuiu à deusa cercados por tanques aquáticos: dois
Diana, ambos dominaram de forma laterais em Mérida, um só, envolven-
cenográfica o topo das praças dos do a cabeceira, no eborense. Para este RODRIGO BANHA DA SILVA,
principais centros cívicos das respec- último, o paralelo mais próximo data Arqueólogo
tivas cidades (o fórum provincial, em dos finais do período republicano, e

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 5


PATRIMÓNIO RELIGIOSO
Tema de Capa

O Ribāt al-Rihana de
Ibn Qasī (Aljezur)
Uma sacralidade efémera, em meados do século XII
A paisagem onde se integra a península da Ponta da Atalaia, na zona da Arrifana, é magnífica pelo
isolamento e largueza do horizonte, dominado pela presença da enorme massa de água atlântica.
Pela manhã e em dias de chuva aquela ponta avançada de terra sobre o mar, que constantemente
assedia as suas altas falésias, é envolvida por densas neblinas que ainda mais a isolam do Mundo
e lhe conferem o misticismo próprio dos lugares sagrados, capazes de nos despertarem emoções e
que, como qualquer experiência religiosa, é sentida de modo diferente por cada um de nós.

Além das características físicas parti-


culares que tornaram alguns lugares
em cenários propícios ao desenvol-
vimento de práticas sócio-religiosas
ou, até, em paisagens rituais, a larga
diacronia com que a maioria deles foi
frequentada é quase uma constante.
M. V. Gomes

M. V. Gomes

Alguns daqueles parecem, mesmo,


emergir da longínqua noite dos tem-
pos, com ascendentes nas primeiras
comunidades de H. Sapiens Sapiens Ponta da Atalaia. Vista de norte Ruínas de mesquita e seus anexos (sector 2)
que, de modo decisivo, manipularam
símbolos, criaram rituais e conceptu- Ibn Qasī, natural de Silves e oriundo palavra do Profeta, aprofundando os
alizaram o transcendente. de antiga e abastada família cristã, fundamentos da doutrina islâmica,
Todavia, ao longo dos séculos, mui- foi educado por grandes mestres de o ascetismo e o conhecimento de
tos outros sítios foram sacralizados, Niebla, Sevilha e Silves, teve vida Deus, procurando o seu encontro.
nasceram, funcionaram durante mais algo dissoluta em jovem, cultivando O enorme sucesso da sua palavra e
ou menos anos e desapareceram, o a boémia e a poesia, embora depois o seu carisma pessoal, tornaram-no
mesmo tendo acontecido aos seus desempenhasse cargos administrati- rapidamente não só em líder espiri-
xamãs, sacerdotes e acólitos ou às vos importantes, naquela última cida- tual muito prestigiado mas, também,
multidões de crentes, pelo que os de, então florescente capital do Gharb. em chefe político e militar, podendo
seus testemunhos quase não chega- Talvez aquando da morte dos pais, segundo julgamos, o seu ribāt ser
ram até nós, tendo sido como que resolveu enveredar pela vida religio- considerado a capital de estado teo-
apagados pela história. sa, na vertente ascética, renunciando crático, nascido entre reinos cristãos
Recentemente identificado e objecto aos bens terrenos e tendo abraça- e os domínios almorávida e depois
de escavações arqueológicas, o con- do o sufismo, seguindo a lição de almoada, chegando a abranger todo
vento de monges-guerreiros (murā- grandes mestres. Depois de visitar o actual Sul de Portugal, de Lisboa
bitūn) fundado por Ibn Qasī (Abūl comunidades sufis do Oriente do ao Algarve e boa parte da Andaluzia
– Qāsim Ahmad Ibn al – Husayn Ibn Al-Andalus e nomeadamente Ibn Ocidental.
Qasī), na península hoje denomina- al-Arīf, em Almería, fundou comu- A paisagem onde se integra a penín-
da Ponta da Atalaia, na Arrifana de nidade religiosa (tarīqa) preparada sula da Ponta da Atalaia, na zona da
Aljezur, era conhecido, até àquela para a djihād, ou guerra santa, contra Arrifana, é magnífica pelo isolamento
data, apenas através de escassas refe- quantos fossem inimigos da fé islâmi- e largueza do horizonte, dominado
rências bibliográficas, subsequentes ca verdadeira, muçulmanos, cristãos pela presença da enorme massa de
ao desaparecimento daquele mestre ou judeus. E cerca de 1130 mandou água atlântica. Pela manhã e em dias
sufi1 e líder político, em meados do erguer o convento (ribāt) da Arrifana, de chuva aquela ponta avançada de
século XII. ali difundindo a sua interpretação da terra sobre o mar, que constante-

6 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


PATRIMÓNIO RELIGIOSO
Tema de Capa

nado em 1151, tendo então os seus


correligionários, tal como a sua obra,
sido perseguidos e o ribāt da Arrifana
abandonado, talvez amaldiçoado,
mergulhando a sua localização pre-
cisa no esquecimento, até ser identifi-
cado 850 anos depois de protagonizar
inolvidáveis acontecimentos.

As ruínas do ribāt al-Rihāna podem


ser visitadas, na hoje Ponta da
Atalaia, no Vale da Telha, concelho
de Aljezur.

Planta da Ponta da Atalaia, com as estruturas Reconstituição de duas mesquitas (sector 1) (seg.
exumadas do ribāt (seg. R. e M.V. Gomes) R. e M. V. Gomes)

mente assedia as suas altas falésias, e, talvez, uma das primeiras constru- NOTA
é envolvida por densas neblinas que ções do ribāt. 1
O sufismo é uma corrente religiosa islâmica,
ainda mais a isolam do Mundo e Naquele lugar sacralizado, pela pre- de carácter místico, que acredita na unicidade
divina, procura realizar a vontade de Deus e
lhe conferem o misticismo próprio sença do mestre, capaz dos mais diver- o encontro ou a união com aquele, opondo-se
dos lugares sagrados, capazes de nos sos prodígios e possuindo aura de às interpretações correntes da doutrina lega-
despertarem emoções e que, como santidade, sendo reconhecido como da por Maomé e à ritualização da prática reli-
qualquer experiência religiosa, é sen- imām (suprema autoridade política e giosa. O sufismo, tal como algumas correntes
tida de modo diferente por cada um religiosa) e aclamado mahdī (enviado cristãs ascéticas, radica-se no monaquismo
egípcio, fundado em finais do século III, por
de nós. de Deus), mas também pelas mesqui- Paulo de Tebas, Santo António (251-356) e
Aquele espaço encontrava-se simbo- tas e oratórios, irrepreensivelmente Pachomius (286-346). Ibn Qasī criou o sufis-
licamente hierarquizado, através das dirigidos para Meca, como ainda dos mo muridínico, voltado para a contemplação
diferentes estruturas do complexo monges-guerreiros, que voluntaria- e especulação metafísica, mas possuindo
edificado, por certo planeado pelo mente ofereciam a Deus a sua vida braço armado, preparado para a guerra santa,
cujo apelo é atribuído a Maomé.
mestre sufi. À entrada na penínsu- em combate, como supremo sacrifí-
la, construção provida de enorme cio, procurava-se a compreensão e a
pátio, possivelmente escola corânica, união com aquele.
recebia os iniciados e viajantes que Longe dos centros de poder de então, BIBLIOGRAFIA
demandavam o ribāt. Depois encon- a finis terrae da Arrifana correspon- Gomes, R. V., e Gomes, M. V. (coord.) (2007)
– Ribāt da Arrifana. Cultura Material e Espi-
tram-se quatro mesquitas, de não dia à necessidade de solidão, de iso-
ritualidade, Associação de Defesa do Patri-
muito grandes dimensões e comple- lamento, tendo em vista a reflexão mónio Histórico e Arqueológico de Aljezur e
xo de estruturas onde habitavam e se metafísica, como à procura de aban- Município de Aljezur, Aljezur.
preparavam, física e psicologicamen- dono do mundo material, de Ibn Qasī Gomes, M. V. (2006) – Ibn Qasī – Memórias,
te, os murābitūn para a guerra santa. e dos seus seguidores, que ali tinham do pensamento e acção do mestre sufi da
Arrifana, Al–Rihana, Aljezur, n.º 2, pp. 17-44.
Estas construções isolam o espaço o mar como deserto, uma espécie
Alves, A. (2001) – As Sandálias do Mestre. Em
interior do ribāt, onde uma mesquita de terra vazia, adimensional, capaz torno do Sufismo de Ibn Qasī nos Começos de
e seus anexos ocupa proeminência de exacerbar os sentidos e conduzir Portugal, Hugin Editores, Ld.ª, Lisboa.
sobranceira à falésia sul e, na extremi- à exaltação mística. Ali se uniam a
dade da península, mesquita melhor Terra, a Água e o Ar, elementos pri- MÁRIO VARELA GOMES,
edificada, debruçada sobre o Oceano mordiais com os quais se podiam Membro da Academia Portuguesa da
imenso, deve corresponder ao local identificar a unicidade divina, um História e da Academia Nacional de
onde o mestre e talvez os seus mais dos princípios do sufismo. Belas-Artes, docente do Departamento de
directos seguidores residiam. Perto A incomodidade do pensamento e História da FCSH, da UNL
encontrámos as ruínas de minarete, acção de Ibn Qasī perante o domínio mv.gomes@fcsh.unl.pt
com planta circular, de onde se cha- almoada do Al-Andalus e a estraté- ROSA VARELA GOMES,
mavam cinco vezes ao dia os fiéis gica cordialidade das suas relações Docente na Licenciatura em Arqueologia,
para as orações e, também, restos de com D. Afonso Henriques, levaram da FCSH, da UNL, de que é coordenadora
rv.gomes@fcsh.unl.pt
muro de orações, edificado em taipa a que fosse cobardemente assassi-

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 7


NOTAS HISTÓRICAS
Tema de Capa

Eremitismo
Os espaços da solidão
O eremitismo permaneceu como uma forma de vida alternativa, resistente ao enquadramento
numa comunidade religiosa sujeita a uma Regra ou à direcção de um superior. Os testemunhos
documentais são, por vezes, fugidios e parcos de informações, e mesmo os vestígios materiais rela-
tivos a este tipo de experiências debatem-se com o carácter precário destes grupos, que acabam,
muitas vezes, por ser absorvidos por novos movimentos religiosos ou que se extinguem após a
morte do respectivo fundador.

A vida eremítica sempre surgiu, aos excelência deste modo de vida mas
olhos do homem medieval, como o também das suas exigências, ao deter-
modelo por excelência de uma vida minar que o monge pudesse solicitar
radicalmente entregue à busca e ao ao abade do seu mosteiro a necessária
encontro com Deus. Figuras como permissão para o ingresso na vida
Antão, Paulo de Tebas, Macário ou eremítica, sempre sob a vigilância
Hilarião, são repetidamente propos- deste e apenas após um tempo, mais
tas como ideal dessa experiência inte- ou menos longo, de vida em comu-
gral, intensa, de Deus, obtida pelo nidade.
afastamento do bulício do mundo e Contudo, o eremitismo permaneceu
através de uma vida austera, de luta também como uma forma de vida
interior contra o mal, que se prolonga alternativa, resistente ao enquadra-
www.monumentos.pt

necessariamente no confronto exte- mento numa comunidade religiosa


rior com um meio adverso e hostil. sujeita a uma Regra ou à direcção de
Desde a segunda metade do século um superior. Os testemunhos docu-
III, quando estes homens se insta- mentais são, por vezes, fugidios e
lam nos desertos do Egipto e muitos parcos de informações, e mesmo os Vista do actual convento de S. Paulo da Serra
outros se juntam a eles, desejosos vestígios materiais relativos a este de Ossa
de imitar o seu modo de vida sob a tipo de experiências debatem-se com
sua direcção espiritual, o eremitis- o carácter precário destes grupos, que deste tipo de experiências, muitas
mo configura-se nessa tensão per- acabam, muitas vezes, por ser absor- das quais de curta existência e ou-
manente entre a procura da solidão vidos por novos movimentos religio- tras paulatinamente absorvidas pelas
e os tempos necessários de vida em sos ou que se extinguem após a morte novas ordens religiosas entretanto
comunidade e de abertura ao mundo, do respectivo fundador. Ainda assim, surgidas (Cister, Premonstratenses,
do qual se afastara mas para o qual se encontramos, já no âmbito do chama- Cónegos Regrantes de Santa Cruz de
dirige o seu testemunho como apelo do monaquismo hispânico, anterior Coimbra). Da sua análise sobressaem,
e denúncia. à época de expansão da Regra de contudo, alguns aspectos respeitantes
A difusão, no Ocidente, dos textos S. Bento ou da de Santo Agostinho à relação entre os eremitas e o espaço
que perpetuavam a memória dos como textos normativos obrigatórios que se manterão, em grande parte,
ditos e feitos destes homens do deser- (séc. XI), alguns testemunhos arqueo- válidos para o período posterior.
to, fará despoletar uma diversidade lógicos da existência de comunidades Com efeito, a sua busca de solidão,
grande de experiências, onde a vida eremíticas no actual território portu- se os leva a procurar espaços menos
eremítica se mistura, nos percursos guês, nas margens do Rio Minho e no povoados e afastados dos principais
individuais, com a experiência comu- entre Lima e Minho. núcleos habitados, exige também que
nitária, ora antecedendo a fundação Do mesmo modo, José Mattoso pôde deles não se distanciem em exces-
de novas ordens ou famílias religio- recensear, para os séculos XII e XIII, so. A necessidade de visibilidade do
sas, ora surgindo como o culminar numa época de crescimento demo- seu modo de vida, como testemu-
da vida monástica. Assim o previa a gráfico e de expansão territorial dos nho de radicalidade na vivência do
Regra de S. Bento, bem consciente da reinos cristãos para sul, o proliferar Evangelho e na renúncia aos bens

8 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


NOTAS HISTÓRICAS
Tema de Capa

materiais e ao poder social ou políti- habitantes, junto à qual se encontram


co, a sua dependência face à prodiga- com frequência algumas terras de
lidade dos diferentes corpos sociais vinha, mais exigentes dos cuidados
e a sua actividade em prol dos mais do homem, ou mesmo de pão, sem-
necessitados, por meio da hospita- pre ponteadas por árvores de fruto.

www.monumentos.pt
lidade concedida aos mais pobres, O inculto facultava também aos ere-
aos viandantes e peregrinos, leva-os mitas alguns recursos importantes,
a instalarem-se perto das principais desde o mel à madeira e ao mato,
vias de comunicação. Uma solidão necessário ao pascigo do gado. Mas,
que se torna, assim, relativa ou, pelo na sua localização, o ermitério tinha
menos, não absoluta. sempre em conta um factor funda- Painel de azulejos do convento de S. Paulo da
O mesmo veremos acontecer mais mental: a proximidade de um curso Serra de Ossa, do séc. XVIII, com S. Paulo
tarde, já nos séculos finais da Idade de água, indispensável para os seus Primeiro Eremita
Média, quando um novo surto eremí- habitantes, para as suas culturas e
tico, documentado a partir de 1360, para o gado. 1433). A necessidade de assegurar o
leva a uma rápida expansão de comu- Mas, tal como para os eremitas do seu modo de vida leva-as a congrega-
nidades de anacoretas por todo o século XII, também estes homens da rem--se numa irmandade, cerca de
Nordeste alentejano e pela península pobre vida necessitam da proximida- 1460, em torno da prestigiada casa da
de Setúbal, estendendo-se mesmo à de das vilas e cidades, onde se deslo- Serra de Ossa (conc. Redondo). Só no
Estremadura (Óbidos e Alenquer) e cam para adquirir alguns bens de que século XVI se submeterão a uma Regra
ao Algarve (Tavira). Estamos já num precisam ou para colocar à venda, escrita e autorizada pela Igreja (a de
contexto diferente, onde a longa crise através de intermediários, os bens Santo Agostinho) e se transformarão,
dos séculos XIV e XV, as conturbações resultantes do seu trabalho manu- já em 1578, numa Congregação autó-
políticas que atravessam os reinos al, sejam os frutos da terra, algum noma filiada na Ordem dos Eremitas
peninsulares e a grave crise que afec- gado ou mesmo alguma produção de S. Paulo Primeiro Eremita (os cha-
ta toda a Cristandade, com o Papado artesanal – sobretudo as colheres de mados Paulistas). Esta transformação
dividido, durante várias décadas, madeira, amplamente referidas na marcará uma progressiva alteração
entre Roma e Avinhão, geram um documentação. E também nas suas no seu modo de vida, com uma cle-
profundo desejo de reforma também casas acolhem peregrinos e viandan- ricalização dos seus membros, uma
ao nível religioso. tes, exercendo para com eles a hospi- maior importância dada aos estudos
Ditos a si próprios como «homens talidade. e à formação letrada e uma maior
da pobre vida», estes eremitas esco- Do espaço para as suas orações e para preocupação em aproximarem-se
lherão lugares afastados dos núcle- as celebrações litúrgicas, pouco sabe- das cidades e vilas, onde constroem
os populacionais, nos vastos ter- mos. É certo que alguns ermitérios novos conventos.
mos rurais que envolviam as vilas e têm, nas suas imediações, pequenas Isto levará a um maciço abandono, a
as cidades do sul do país, dedican- capelas rurais. Mas também desde partir dos finais do século XVI, dos
do-se a uma vida que aliava a oração, cedo o despojamento a que se votam antigos ermitérios medievais, deixan-
à qual os seus benfeitores se confiam, leva-os a optar por outras alternativas, do-os, até hoje, à espera de um efec-
ao trabalho manual nas terras que, nomeadamente a obtenção de licença tivo levantamento dos vestígios que
pelas suas próprias mãos, retiravam para a posse de altares portáteis, que deles sobreviveram e que nos possam
ao inculto. Doadas por particulares permitiam a celebração da Eucaristia falar um pouco mais do quotidiano
ou pelos concelhos, estas terras levam fora de espaços especificamente con- destes primeiros eremitas e do modo
os ermitérios a adquirir uma con- sagrados ao culto divino. como deixaram vincado, no espaço, a
figuração particular. Habitados por Surgidas a partir de uma iniciativa sua procura de solidão.
pequenos grupos de anacoretas – os individual ou de pequenos grupos de
solitários depressa atraem discípu- eremitas, estas comunidades da pobre
los… – os ermitérios apresentam-se, vida obterão desde cedo a protecção JOÃO LUÍS FONTES,
Instituto de Estudos Medievais,
em regra, delimitados por uma cerca, régia e dos concelhos, sobretudo a
FCSH-UNL
que preservava a solidão dos seus partir do reinado de João I (1385-

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 9


NOTAS HISTÓRICAS
Tema de Capa

Arquitectura Monástica
e Espaços Sagrados
Os mosteiros partilham de várias características dos lugares que possuem a qualidade da sacralidade.
Em primeiro lugar, a diferenciação em relação ao espaço profano envolvente. Vários aspectos permi-
tem esta característica: a participação dos lugares na História sagrada (como em Roma ou no Próximo
Oriente), a transformação de um espaço em lugar do divino, nomeadamente pelo aparecimento de
imagens milagrosas, ou a presença de corpos santos e de relíquias.

Os mosteiros constituem, na arquitec- mente no território da Suíça. É nesta à organização planimétrica anterior,
tura europeia, espaços sagrados com representação da arquitectura que se difundida, em primeiro lugar, pelos
uma longa e complexa história arqui- encontram estabelecidos e estrutura- Beneditinos e pelos Cistercienses.
tectónica. A sua origem encontra-se dos os diferentes espaços arquitectó- Os mosteiros partilham de várias
no desejo de grupos de crentes segui- nicos, destacando-se a igreja e, junto características dos lugares que pos-
rem uma vida religiosa em comum, a ela, o claustro, à volta do qual se suem a qualidade da sacralidade. Em
afastando-se do mundo profano. Daí organizam os diferentes lugares refe- primeiro lugar, a diferenciação em
que se compreenda a necessidade e ridos na Regra dos Beneditinos. Desta relação ao espaço profano envolvente.
o aparecimento de regras para regu- forma surge um programa arquitec- Vários aspectos permitem esta carac-
larem o dia-a-dia desse conjunto de tónico que constitui uma matriz da terística: a participação dos lugares na
homens ou de mulheres. A criação tipologia arquitectónica religiosa até História sagrada (como em Roma ou
da Regra de S. Bento, por Bento de ao século XXI. no Próximo Oriente), a transformação
Núrsia, no século V, marca uma etapa No século XIII, quando surgem as cha- de um espaço em lugar do divino,
fundamental para o futuro dessa via madas Ordens Mendicantes, nomea- nomeadamente pelo aparecimento de
da vida religiosa conjunta. damente Franciscanos e Dominicanos, imagens milagrosas, ou a presença
Embora contemplando as diferentes estes Irmãos vão ter em conta, na de corpos santos e de relíquias. Para
necessidades da vida quotidiana, e construção dos seus Conventos, a separação, material e simbólica, do
equilibrada nas suas exigências, este tipologia da arquitectura monástica, espaço envolvente os Mosteiros pos-
escrito não determina qualquer tipo já com séculos de experimentação e de suíam um muro de clausura, impor-
de tipologia arquitectónica. É apenas realizações arquitectónicas por todo o tante também por razões de defesa. O
na época de Carlos Magno, no prin- espaço europeu. Mesmo quando o espaço do Mosteiro também se distin-
cípio do século IX, que é elaborado o plano organizado pelos Beneditinos gue pela sua orientação, já que a igreja
que tem sido considerado o projecto for particularmente transformado, se orienta de Oriente para Ocidente,
ideal para um mosteiro. Esse primeiro como se verificará séculos mais tarde tradição que se vai subverter, por
projecto de composição arquitectó- com algumas casas de Carmelitas, vezes, a partir do século XVI, por exi-
nica surge num célebre pergaminho com a posição da Igreja no interior gência de construção de casas religio-
do Mosteiro de Saint Gall, actual- do claustro, é patente a referência sas integradas na malha urbana.

10 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


Planta base: CML – Unidade de Projecto Baixa Chiado

NOTAS HISTÓRICAS
Tema de Capa

Mosteiro de Santa Maria de Almoster: o espaço monástico Mosteiro de Santa Maria de Almoster: igreja e claustro

Se um sítio é porventura, pelas suas de do edificado, nomeadamente as pendo pelo espaço natural transfor-
características, revelador da sacralida- cruzes de consagração, vulgarmente mado pelo cultivo de espécies simbó-
de de um lugar, os mosteiros erigidos, distribuídas ao longo das naves dos licas, ou pela construção de pequenas
desde os primeiros tempos da Idade templos. capelas, como se verificará por vezes
Média, no seio de sociedades em que No interior dos templos monásticos com os Franciscanos e Carmelitas nos
os gestos e os símbolos são especial- importa destacar a presença das relí- tempos posteriores à Idade Média.
mente valorizados, exigem uma ceri- quias, passíveis de aí existirem pela Embora as várias ordens religiosas
mónia de consagração, ritual neces- ideal pureza dos seus habitantes. Para apresentem diferenças na sua arqui-
sário para o espaço arquitectónico se isso concorre também estarmos em tectura de país para país, em que
tornar verdadeiramente sagrado. presença de espaços de silêncio e de contam, como sempre, as tradições
A oposição espacial em relação ao oração, organizados segundo o ritmo arquitectónicas e a experiência dos
mundo profano é também sublinhada do dia e em que o som dos sinos, por materiais, a história da sua arquitectu-
por símbolos esculpidos na pedra, ou contraste, desempenhava um papel ra só pode ser entendida perante um
por meio de frases protectoras e ame- anunciador e mágico. legado comum de vivência religiosa
açadoras para quem não respeite o Por ser sagrado, o mosteiro guarda de cada ordem, a par do entendimen-
espaço do sagrado, nomeadamente as o corpo dos defuntos religiosos e, to de influências recíprocas.
igrejas monásticas, o espaço sagrado cada vez mais, o dos seus fundado-
por excelência. Esta simbologia, que res no interior da própria igreja. Este
utiliza diferentes suportes arquitectó- poder protector estende-se ao exte-
nicos, privilegia a zona do portal das rior, sendo tanto mais forte quanto
igrejas, sempre simbolicamente signi- mais próximo dos muros do templo. É
ficativo por estabelecer a ligação entre assim que se compreende, ainda hoje,
o interior e o exterior da arquitectura na tradição medieval, a presença de FRANCISCO TEIXEIRA,
sagrada. Para além dessa zona, o inte- cemitérios contíguos às antigas igrejas Historiador da Arte,
rior dos templos é necessariamente monásticas. Por vezes, esse desejo de Departamento de História, Arqueologia e
utilizado, inscrevendo-se sinais que sacralização do espaço estende-se ao Património da Universidade do Algarve
visualmente marcam essa sacralida- exterior do espaço edificado, irrom-

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 11


reflexões
Tema de Capa

Reutilização de igrejas antigas


O tema da reutilização do património arquitectónico religioso é conhecido em Portugal desde o sécu-
lo XIX, tendo sido, no entanto, durante o século XX, que se encetaram acções de adaptação a igrejas,
capelas e ermidas, que constituem grande parte do património religioso, em múltiplos usos. Alguns
destes espaços, de carácter litúrgico e sagrado, têm conhecido funções que não lhes são as mais adap-
tadas, provocando na maioria dos casos a perda da sua identidade arquitectónica e espiritual.

dequação da organização espacial


do espaço sagrado face às reformas
litúrgicas, por alteração dos hábitos
e ritos devocionais, por perda de
tradições religiosas ou simplesmente
pela extinção das suas comunidades,
que fazem aumentar o número de
espaços de culto destituídos da sua
função inicial, levantando a questão
sobre o novo uso.
A igreja do Salvador de Évora é um
exemplo paradigmático desta ques-
tão em torno da reconversão do patri-
mónio arquitectónico religioso que,
desafecto do culto e destituído de
uso, armazena também um rico espó-
lio de bens culturais móveis, projecta
a reutilização cultural como acção
que concorre, sobremaneira, para a
recuperação do seu espaço sagrado
Praça do Sertório, entre a Praça do Giraldo e a Sé de Évora, onde se encontra a Igreja do Salvador e a Torre e revitalização do conjunto ímpar
do Salvador, que pertenciam ao extinto e demolido Convento do Salvador
que constitui este património cultural
e artístico de matriz cristã. A igreja
Como reutilizar as igrejas antigas? mas a um espaço que através da lin- localizada no centro histórico da cida-
É uma questão complexa, na medida guagem arquitectónica comunica o de de Évora, contígua à torre roma-
em que intervém um conjunto varia- mistério, celebra a liturgia e anuncia na defensiva da cidade medieval (a
do de condicionantes, que por sim- a presença do Sagrado. Torre do Salvador), constitui um dos
ples desconhecimento ou desprezo de Tantas igrejas antigas que por aí há! elementos marcantes da imagem da
algumas delas, levam a opções irre- Nos centros históricos das cidades, cidade. Pertencente ao extinto e ine-
versíveis para a recuperação e valo- nos lugares, nas povoações e pai- xistente Convento do Salvador de
rização deste património religioso. A sagens rurais descobrem-se igrejas, Évora, o espaço da igreja, com seus
reutilização de uma igreja antiga não capelas e ermidas, importantes exem- espaços anexos e a torre, escaparam
pode ser encarada como uma simples plares do nosso património arquitec- ilesos às sucessivas ocupações após a
reutilização de um edifício antigo, tónico religioso, que foram perdendo extinção, em 1886, com a morte da sua
pois não se refere apenas ao aspecto o seu uso inicial e que se encontram última religiosa clarissa de hábito.
funcional de um qualquer edifício, encerradas, desafectas do culto, por A função litúrgica da igreja ficou
mesmo em ordem à sua reabilitação, motivos de ordem histórica, por desa- garantida pela confraria fundada no

12 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


reflexões
Tema de Capa

Espaço da única e ampla nave da igreja com vista para o coro-alto, lugar destinado às reli- Acesso à capela-mor desde o coro-baixo, destacando-se o altar-
giosas mais novas, onde rezavam o Ofício Divino, e de onde assistiam à missa -mor sobre os três degraus litúrgicos

convento, a Confraria dos Sagrados cultural da igreja do Salvador e espa- originais, recorrendo a uma interven-
Corações de Jesus e Maria, a partir ços anexos, que assenta na alteração ção cenográfica da vivência litúrgica
de 1911, deixou de servir aos cerimo- do uso de um edifício projectado em e devocional conforme a época e a
niais litúrgicos com a frequência que função dos cerimoniais litúrgicos e da comunidade de origem, conducente
conhecera, servindo esporadicamente vida conventual em espaço museológico. à sua defesa e valorização.
como capela mortuária, mas já há A reutilização museológica de uma Reutilizar é uma medida de reabilita-
muito que a igreja parece ter-se vota- igreja representa um interessante ção. Por um lado, o natural seria que
do à clausura. desafio em termos de arquitectura as igrejas continuassem a ser usufruí-
A guarda da igreja e dos seus bens e de museologia, uma vez que na das para o fim para a qual foram cria-
móveis foi concedida à Irmandade adaptabilidade do espaço sagrado à das, a função litúrgica, por outro lado
de Santa Marta (integrada na actual nova função, acresce a missão de a reconversão a um novo uso, aten-
Fraternidade Sacerdotal) por decreto intervir sem o negligenciar, sem o dendo à “Presença” que materializa,
desde 1908, conforme o documen- adulterar, em favor de qualquer fun- o espírito do lugar, é uma actuação
to encontrado no Arquivo da Torre ção, mas sim tê-lo como prioritário arrojada e profética que possibilita o
do Tombo pertencente ao Arquivo na sua descodificação, capacitação e usufruto do património religioso na
Histórico do Ministério das Finanças. comunicação. plenitude das formas da arquitectura
Tendo a Arquidiocese de Évora reco- A opção museológica proposta para a que se superam, que a tornam incon-
nhecido a importância do património igreja do Salvador incide na memória dicionada e ilimitada na sua interpre-
cultural e artístico como um instru- da funcionalidade litúrgica e conven- tação na contemplação.
mento privilegiado dinamizador de tual com a integração na exposição
cultura, tanto no território regional de todos os elementos decorativos,
como nacional, na sua conservação, a disposição de algumas das peças
ESTELA CAMEIRÃO,
valorização e divulgação, incitou à no seu “ambiente natural”, a repo-
Arquitecta
concepção do projecto de reutilização sição de acessibilidades e percursos

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 13


REFLEXÕES
Tema de Capa

Antigos conventos,
novas funções
Vicissitudes de antigos espaços
religiosos da Baixa e Chiado
Elementos marcantes do urbanismo da Reconstrução Pombalina, O Convento de São Domingos, re-
montando a 1214, recebeu vastas
os espaços religiosos da Baixa e Chiado partilharam duas datas obras em torno dos terramotos de
determinantes na sua história: o Terramoto de 1755 e a extinção 1531 e 1755, integrando as estru-
turas remanescentes. Após 1834, a
das Ordens Religiosas em 1834. O Plano Pombalino determinou Paróquia de Santa Justa é para aqui
rígidas normas urbanísticas, obrigando a uma nova implantação transferida e Domingos Lima compra
as divisões conventuais. Procede-se
dos edifícios na malha urbana. à abertura de arruamentos que cor-
Por sua vez, a extinção das Ordens Religiosas possibilitou uma tam antigas dependências. As remi-
niscentes são loteadas para edifícios
profunda regeneração dos usos e do próprio urbanismo, afec- de habitação e comércio. Hoje ainda
tando essencialmente antigos conventos. são perceptíveis estruturas do antigo
claustro e compartimentos anexos,
integradas em espaços comerciais.
O Convento de São Francisco, fun-
dado em 1217, sofre grandes danos
com o Terramoto. Após 1834 vê
as suas dependências utilizadas
como Biblioteca Nacional (até 1968),
Academia e Escola de Belas Artes,
Governo Civil e actual Museu do
Chiado. Em 1839 procede-se à de-
molição da igreja, sendo as colunas
desta reutilizadas na fachada do
Teatro Nacional D. Maria II. Parte
das estruturas conventuais são
ainda identificáveis, embora desgas-
tadas pelo uso e constantes adapta-
ções, ressentindo-se principalmente
a fachada do Largo cujo projecto de
valorização nunca foi executado.
Próximo ficava o Convento do San-
to Espírito da Pedreira, no actual
edifício dos Armazéns do Chiado.
Fundado em 1279, era composto
por hospital, dependências conven-
tuais e igreja, situando-se esta no
local da actual entrada principal. O
Terramoto deixa o edifício em ruína,
nunca chegando a ser reconstruído
Antigo Convento do Corpus Christi como convento. Após 1834 passa a

14 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


REFLEXÕES
Tema de Capa

adaptação a tribunal. No ano seguin-


te desiste-se do projecto, os terrenos
são loteados e procede-se à abertu-
ra da Rua Nova da Trindade. Um
dos principais promotores, Manuel
Moreira Garcia, constrói diversos
edifícios que aproveitam pré-exis-
tências conventuais (como um dos
claustros, dependências anexas,
refeitório e capelas) assim como ma-
teriais diversos. Actualmente, gran-
de parte do conjunto encontra-se
degradado e com algumas ocupa-
ções que descaracterizam as escas-
sas reminiscências conventuais.
No Convento do Carmo, edificado
Antigo Convento do Corpus Christi: fachada da
antiga igreja
em 1389 por ordem de D. Nuno 1 - São Domingos; 2 - São Francisco; 3 - Santo
Alvares Pereira, também vítima do Espírito da Pedreira; 4 - Boa Hora; 5 - Trindade;
cataclismo de 1755, a reconstrução 6 - Carmo; 7 - Corpus Christi; 8 - São Camilo
palácio, altura em que sofre obras procedeu-se a um ritmo lento. A de Lélis.
de adaptação. Foi sucessivamente igreja nunca viria a ser concluída, Cartografia actual sobre planta de João Nunes
arrendado, recebendo hotéis e espa- assumindo-se hoje como o prin- Tinoco (1650). Planta base: CML – Unidade de
ços comerciais até à instalação dos cipal testemunho do Terramoto, Projecto Baixa Chiado
Grandes Armazéns do Chiado, em sendo cedida em 1864 à Associação
1894, que desaparece com o incên- dos Arqueólogos Portugueses. Em igreja. Esta, de planta centralizada
dio de 1988. O actual edifício res- 1835 o espaço conventual é adap- e revestida a mármores, foi seccio-
peita o desenho da antiga fachada, tado para as instalações da Guarda nada em diversos pisos (cujas mar-
mantendo a memória de dois pátios Municipal, actual Guarda Nacional cas são ainda visíveis), adaptada a
interiores. Republicana, e em 1902 sofre obras armazéns, comércio e habitação.
Na Rua Nova do Almada ficava o profundas, das quais resulta a actual No quarteirão do Poço do Borratém
Convento da Boa Hora. Fundado fachada do Largo do Carmo. ficava o Convento de São Camilo de
em 1633, foi ocupado por diversas Na confluência das Ruas de São Lélis. Fundado em 1778 por ordem
Ordens. Com o Terramoto viu a sua Nicolau e dos Fanqueiros encon- de D. José, abrigava os cónegos que
reconstrução condicionada ao plano tramos as fachadas do que foi o davam apoio ao Hospital de S. José.
de Eugénio dos Santos. Após 1834 é Convento de Corpus Christi. O edifí- Após 1834 o conjunto foi também
ocupado por vários serviços, dando cio primitivo data de 1648, mandado loteado. Os novos edifícios de habi-
lugar em 1843 aos Tribunais Civis e erigir por D. Luísa de Gusmão. Do tação, comércio e serviços escondem
Criminais de Lisboa, que ainda se Terramoto restou parte da estrutura ainda vestígios conventuais como a
mantêm. da igreja, cuja planta foi adaptada escadaria, galerias, cisterna e arca-
Subindo a colina encontraríamos o ao Plano Pombalino, ocupando todo das.
Convento da Santíssima Trindade, o quarteirão e integrando claustro e
edificado entre 1289 e 1325. Vítima pátio. Após 1834 o conjunto foi frac-
de catástrofes diversas sofre várias cionado e vendido em lotes, adul- FÁTIMA FONSECA e
obras de reconstrução e ampliação. terando profundamente os espaços TIAGO COSTA LUÍS,
Após 1834 é entregue à Prefeitura conventuais. Restam apenas algu- Núcleo Antigo, Reabilitação Urbana, Ld.ª
da Província da Estremadura para mas galerias, escadarias e a antiga

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 15


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

O projecto de investigação
arqueológica no Mosteiro de
S. João de Tarouca: 1998-20081

O Mosteiro de S. João de Tarouca disciplinar, em que se destaca o res-


localiza-se no distrito de Viseu, con- tauro quase completo do património
celho de Tarouca, freguesia de S. integrado da igreja, a componente
João de Tarouca. Sendo ainda por arqueológica assume contudo uma
muitos apontado como a primeira clara preponderância, como resposta
fundação da Ordem de Cister em ao elevado nível de destruição do imóvel.
território nacional, à sua lendária Sem nunca deixar de ter presente
fundação ex nihil têm vindo a opor- o enquadramento da intervenção
-se diversos estudos que apontam Reconstituição a nível de base do complexo arqueológica – estratégia de salva-
monástico medieval
a anterior existência no local de guarda e valorização do imóvel – os
uma comunidade religiosa eremíti- seus objectivos imediatos defini-
ca. Provada fica a sua existência a ram-se pela compreensão da evo-
partir de 1140, com a atribuição do lução arquitectónica do complexo
seu couto monástico por D. Afonso monástico, da fundação ao momen-
Henriques, sabendo-se por certo que to de abandono, e o estudo da cul-
a sua construção se iniciou apenas tura material associada, permitindo
em 1154, segundo inscrição come- novas perspectivas e conhecimen-
morativa preservada no tímpano da tos, não só do universo cenobita e
porta dos monges. religioso em Portugal, mas indirec-
Respeitando a estratégia de implan- tamente do conjunto social em que
tação da Ordem Cisterciense, a ele- este fenómeno se inseriu.
vação do complexo monástico dá-se Assim, abrangendo todo o interior
em vale, por oposição a locais eleva- da cerca de clausura com especial
dos como os elegidos pela Ordem incidência na área correspondente
Beneditina ou de Cluny, neste caso à construção original, amplamente
concreto da Serra de Leomil, no alargada nos séculos XVII e XVIII,
cruzamento de duas linhas de água a intervenção arqueológica atingiu,
afluentes do Rio Varosa. Planta geral da área de escavação arqueológica entre 1998 e 2007, os 3225 m2 de área,
(H. Pereira)
Em 1834, com a extinção das ordens aos quais se juntam um número total de
religiosas pelo regime liberal, o 19 sondagens em profundidade.
Mosteiro de S. João de Tarouca é Cultural (IPPC), Instituto Português do A recuperação total da planta ori-
vendido em hasta pública e des- Património Arquitectónico (IPPAR) e, ginal do mosteiro permite hoje
mantelado para reaproveitamento a partir de 2007, à Direcção Regional afirmar estarmos perante o melhor
da pedra, conservando-se apenas de Cultura do Norte. Em 1998 é exemplar de arquitectura cistercien-
o templo, reconvertido em igreja inserido pelo IPPAR num abran- se em território nacional, ao nível
paroquial, após o qual o espaço gente plano de recuperação e valo- do mais característico estilo cister-
resultante foi aterrado e transforma- rização de complexos monásticos ciense-borgonhês que caracterizou o
do em área agrícola. cistercienses, por altura dos 900 anos chamado movimento arquitectónico
Tendo a sua igreja sido classificada da Ordem de Cister, ficando as suas Bernardino no século XII – ascetis-
Monumento Nacional em 1956, clas- linhas orientadoras de salvaguar- mo, simplicidade, pureza de formas,
sificação alargada à restante área da, recuperação e valorização do contenção decorativa e proporcional
monástica em 1978, foi sucessivamen- Património Cisterciense nacional – para o qual o mosteiro de Fontenay
te afecto à Direcção Geral de Edifícios definidas na Carta de Alcobaça2. se viria a tornar o símbolo máxi-
e Monumentos Nacionais (DGEMN), Tendo vindo desde então a ser inter- mo, com envolvimento pessoal de
Instituto Português do Património vencionado numa perspectiva inter- S. Bernardo na sua concepção, jun-

16 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

Aspecto do estudo arqueológico-arquitectónico aplicado à fachada da igreja Reconstitução da fachada medieval da igreja (H. Pereira, L. Sebastian)
(H. Pereira, L. Sebastian)

Referências Bibliográficas
1
Este texto enuncia de forma sucinta a informação
desenvolvida em publicações como:
Castro, A. S.; Sebastian, L. (2006) – A intervenção
arqueológica no Mosteiro de S. João de Tarouca:
1998 - 2006. In Actas do Seminário Internacional
Tarouca e Cister – Homenagem a Leite de Vasconce-
los. Tarouca: Câmara Municipal, p. 125-166.
Sebastian, L.; Castro, A. S. (2007) – Uma primei-
ra proposta de reconstituição arquitectónica do
Reconstituição do mosteiro medieval de S. João de Tarouca - ala dos monges, calefactório, claustro e igreja Mosteiro cisterciense de S. João de Tarouca. In
(H. Pereira, L. Sebastian) Revista de História da Arte. Lisboa: Departamento
de História da Universidade Nova de Lisboa. N.º
4, p. 142-171.
Castro, A. S.; Sebastian, L. (2005) – Les marques lapi-
tando-se ao núcleo tradicionalmente hasta pública após a extinção das
daires du monastère cistercien de S. João de Tarouca
apontado dos mosteiros de Silvanés, ordens monásticas em Portugal, (Portugal). In Actes du XIVe Colloque International
Le Thoronet, Silvacane, Fontfroide, tendo sido desmanteladas para de Glyptographie de Chambord. Braine-le-Château:
Sénanque, Fontmorigny e de Flaran. reaproveitamento da pedra, per- Centre International de Recherches Glyptographi-
ques/Editions de la Taille d’Aulme, p. 399-422.
A esta revelação de destaque junta- mite hoje, através do processo de
Castro, A. S.; Sebastian, L. (2005) – Dados para o
-se o facto de, do conjunto de mos- escavação arqueológica, uma leitu- estudo da estratégia de implantação do Mosteiro
teiros românicos inicialmente exis- ra impossível em edifícios conser- de S. João de Tarouca. In Estudos/Património.
tentes em território nacional, vários vados, permitindo decompor, em Lisboa: IPPAR – Departamento de Estudos. N.º 8,
p. 203-211.
terem desaparecido fisicamente e, certos aspectos mais facilmente, as
Castro, A. S.; Sebastian, L. (2002) – Mosteiro de S.
sobretudo, a maioria ter sido pro- diversas fases construtivas. João de Tarouca: 700 anos de História da cerâmica.
fundamente alterada nos períodos Em fase de conclusão, a interpreta- In Estudos/Património. Lisboa: IPPAR – Departa-
maneirista e barroco, inclusive com ção dos dados reunidos pelas esca- mento de Estudos. N.º 3, p. 165-177.
Castro, A. S.; Sebastian, L. (2002) – A intervenção
o desmantelamento de todos os vações arqueológicas realizadas sob arqueológica no mosteiro de S. João de Tarouca:
claustros românicos. a égide do IPPAR permitirão, num 1998-2001. In Estudos/Património. Lisboa: IPPAR
Pela timidez das alterações feitas futuro breve, juntar à reconstituição – Departamento de Estudos. N.º 2, p. 33-42.
à igreja original do Mosteiro de S. dos edifícios originais o estudo de 2
In Actas do Colóquio Internacional Cister – Espa-
ços, Territórios, Paisagens. Lisboa: IPPAR – Depar-
João de Tarouca, nos séculos XVII e grande parte do espólio, de entre o
tamento de Estudos. Vol. I. 2000, p. 15-17.
XVIII, esta permite-se ser, se sujeita qual se destaca a cerâmica, com cerca
a um trabalho de análise cuidada, de 300 000 fragmentos recolhidos,
decomposta nas suas diversas fases ao qual se juntam dados de origem LUÍS SEBASTIAN,
construtivas, após a eliminação das arqueozoológica, arqueobiológica e Arqueólogo,
quais podemos isolar a construção antropológica, versando áreas como Direcção Regional de Cultura do Norte
original e observar, pela primeira a da alimentação, doenças, técnicas ANA SAMPAIO E CASTRO,
vez, a mais plena construção bernar- de exploração agrícola, estratégias Arqueóloga,
dina em território português. de exploração territorial, técnicas Direcção da intervenção arqueológica do
Ironicamente, o facto de as dependên- construtivas, transacções comerciais Mosteiro de S. João de Tarouca
cias monásticas terem sido vendidas em e práticas cultuais.

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 17


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

Capela do Monte, Velha Goa


A intervenção na igreja de Nossa Senhora do Monte em Goa conduzida pela Fundação Oriente é a
mais importante obra de reabilitação arquitectónica e restauro até hoje levada a cabo por institui-
ções portuguesas no sul da Ásia em matéria de dimensões, custos e importância simbólica.
Paulo Varela Gomes

Paulo Varela Gomes

A Capela do Monte hoje: vista do sul A Capela do Monte hoje: interior, vendo-se dois
dos tirantes de aço

O projecto e a obra desenrolaram-se ao antigo centro urbano. Localiza-se O projecto de intervenção foi definido
entre 1997 e 2002 e o custo total foi no alto de uma colina, a fachada vira- logo de início, nas suas linhas essen-
de cerca de 400 mil euros a preços da da a poente, com uma vista esplêndi- ciais. Depois, no decurso da obra, foi
época. As decisões projectuais que da sobre o que resta da antiga capital. sendo ajustado à medida que novos
orientaram a intervenção pertence- O culto de Nossa Senhora mante- problemas iam sendo encontrados.
ram ao arquitecto Luís Marreiros do ve-se na igreja, talvez por causa da Luís Marreiros descreveu assim as
quadro do IGESPAR (então IPPAR) força paisagística e simbólica da sua medidas de carácter estrutural que
e na obra intervieram muitos espe- localização – e esse culto manifesta foram tomadas:
cialistas de firmas sedeadas em até um certo sincretismo traduzido “- colocação de 4 tirantes em aço ino-
Bombaim (Mumbai) e Goa. na devoção de muitos hindus. É pos- xidável com 2cm de diâmetro [estes
O edifício, embora seja conhecido sível que isto tenha salvo a igreja de tirantes agarram as paredes da igreja
como Capela do Monte, é uma igreja ser demolida no século XIX como uma à outra atravessando lateral-
de considerável dimensão com uma sucedeu a dezenas de outras igrejas, mente o vão da nave ao nível do
nave única de 21 metros de com- conventos e capelas de Velha Goa. arranque da abóbada];
primento e 14 de largura em medi- A Capela do Monte chegou ao fim do - reposição, através de colocação das
das actuais, coberta de abóbada de século XX em grave risco estrutural: pedras em falta e injecção de arga-
berço com 9 metros de vão erguida a a abóbada de berço apresentava frac- massas em juntas, de um carrego da
cerca de 15 metros de altura, capela- turas longitudinais que mostravam abóbada constituído por uma “sand-
-mor também coberta de abóbada de que as paredes estavam a afastar-se. wich” de argamassas bastardas, de
berço, com 5.5 metros de vão. Uma varanda ou loggia encostada ao geotêxtil e de fibra de vidro;
A presente forma da igreja data do flanco norte da igreja deformava a - ancoragem da parede sul às paredes
final do século XVI. Contrariamente parede desse lado e estava ela pró- nascente e poente, e da abóbada às
ao que sucedeu a muitas outras edi- pria a desmontar-se. O telhado muito paredes limítrofes, por meio de colo-
ficações da velha cidade de Goa, a danificado, permitia a infiltração de cação de gatos em aço inoxidável;
igreja do Monte não foi muito altera- enormes quantidades de água aquan- - ancoragem do pavimento superior
da desde essa época devido à posição do das chuvas torrenciais da monção da loggia à parede norte da cape-
excêntrica que ocupa relativamente de sudoeste (Junho a Outubro). la (no decurso dos trabalhos verifi-

18 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

Registos fotográficos antes e depois da intervenção (cedidos por Adelino Rodrigues da Costa)

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 19


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

Registos fotográficos antes e depois da intervenção (cedidos por Adelino Rodrigues da Costa)

cou-se ser igualmente necessário importância assinalável no quadro panhado pela recuperação da sua
colocar barras metálicas no intrador- da Índia como um todo, onde era vida: ao serviço do culto religioso, da
so das abóbadas de arestas da loggia hábito recorrer-se a cintas e sapatas cultura, do turismo cultural.
para reforçar arcos instáveis); de betão armado para prevenir ou
- reforço das fundações da parede sul remediar problemas como aqueles
BIBLIOGRAFIA
e dos contrafortes do lado norte; que se verificavam no Monte. Noronha, Percival de, e Varela Gomes, Paulo, “A
- reparação dos contrafortes da pare- Concluída a obra há seis anos, a Capela de Nossa Senhora do Monte em Velha Goa /
de norte”. Capela do Monte foi devolvida ao The Chapel of Nossa Senhora do Monte in Old Goa”.
Oriente, 1(2001), pp. 61-71.
Além destas medidas, houve subs- culto católico. Infelizmente, a sua
Costa, Adelino Rodrigues da (ed.), Capela de Nossa
tituição do telhado, reparação dos localização magnífica e excêntrica – Senhora do Monte, a recuperação patrimonial de 4 séculos
rebocos, caiação, reparação e substi- que a terá salvo da demolição – impe- de história, Fundação Oriente, 2001 (por publicar).
tuição de portas e janelas, restauro de de o pleno florescimento desse culto. http://www.saveheritage.com/goa/lady/lady.
htm.
altares de talha, pinturas e esgrafitos, A sua utilização como palco anual
colocação de lajes de pedra no adro e do Festival do Monte, um Festival de
no interior. música clássica ocidental e indiana
O contraste entre a “leveza” da inter- organizado pela Fundação Oriente
venção, caracterizada essencialmente e o Hotel Cidade de Goa, procura
pela colocação de peças metálicas de obviar a uma excessiva desocupação
consolidação estrutural, e a gravi- do lugar. PAULO VARELA GOMES,
dade dos problemas que o edifício Não basta, porém. O esforço de recu- Historiador da Arquitectura
apresentava, constituiu um marco de peração do edifício tem que ser acom-

20 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

A Sinagoga portuguesa Sh
Portas da Esperança
Há cem anos os judeus de Lisboa con- comunidade florescente e numerosa criação do Estado de Israel; nela tam-
cretizavam um sonho: a construção de que tanto contribuiu do ponto de vista bém se pediu o fim da guerra colonial
uma sinagoga que reatasse com o pas- científico, económico e cultural para o e se chorou a morte de Meir Kopejka
sado da presença judaica em Portugal, desenvolvimento de Portugal. em Angola.
antes da expulsão, abrindo simultane- Nela se viveu o 25 de Abril e se acolheu
amente uma porta de esperança para Mário Soares, o primeiro Presidente da
o futuro. República a entrar na Sinagoga, segui-
A 23 de Agosto de 1901 foi assinada a do por Jorge Sampaio e mais recente-
escritura de compra de um terreno na mente por Aníbal Cavaco Silva; nela
rua Alexandre Herculano, onde actu- se homenageou Aristides de Sousa
almente se situa a sinagoga. Por impe- Mendes, como testemunho da eterna
dimento legal, a escritura de compra gratidão dos judeus, pela sua cora-
do terreno foi feita em nome particular josa acção de salvamento, durante a
de algumas pessoas, sendo este poste- Segunda Guerra.
riormente doado à Comunidade. Nos seus muros se evocaram os 500
O projecto da sinagoga foi da autoria Parede onde se integra a Aron há - Kodesh (arca anos do Édito de Expulsão, de 1496,
de um dos maiores arquitectos da sagrada) e se orou em memória das vítimas da
época, Miguel Ventura Terra. Teve, no Inquisição.
entanto de ficar tapado por um muro Na nossa sinagoga esteve Itzhak
exterior dado que não era permitida Rabin, o homem que acreditou na Paz
a construção com fachada para a via entre os povos de Israel e da Palestina
pública de um de templo que não e por ela se orou com a presença, pela
fosse da religião oficial do Estado. primeira vez na história da sinagoga,
Finalmente, a 25 de Maio de 1902 é co- de representantes da Igreja Católica e
locada por Abraham E. Levy a Pedra da Comunidade Islâmica.
Fundamental, nela ficando gravada a Espelho do século, a Sinagoga Shaaré-
inscrição seguinte: -Tikvá tem sido também o ponto de
encontro dos judeus de Lisboa, a nossa
“Colónia Israelita de Lisboa” Muros com o Memorial de 100 anos da sinagoga “casa”: nascimentos, maioridade reli-
Esta Pedra Fundamental da Sinagoga giosa, casamentos, morte, tudo o que
Portuguesa Cem anos numa vida é muito. Em faz parte do ciclo de vida judaico reúne
SHAARÉ TIKVÁ história nem tanto. Mas a Sinagoga de a comunidade no seu seio, assim como
Foi collocada em 18 de Yiar de 5662 Lisboa poderia contar muitas histó- a celebração de todas as festividades
25 de Maio de 1902 rias: histórias tristes e histórias alegres, do calendário religioso e em primeiro
por Abraham E. Levy mas acima de tudo ela é o espelho do lugar do Shabat.
Sendo Presidente do Comité Leão século, com os seus momentos trági- Ao longo de todo o século XX, a
Amzalak cos mas, também, de esperança. Sinagoga Shaaré-Tikvá tem sido o
Presidente da secção de edificação Nela se assistiu ao nascimento da ponto de unidade da Comunidade
A.Anahory República e se orou pelo fim da Israelita de Lisboa, o símbolo da sua
e thesoureiro da Colónia Salomão de M. Primeira Grande Guerra; nela se presença e continuidade.
Sequerra implorou o fim do calvário dos judeus A comemoração do centenário da
da Europa às mãos de Hitler: os seus sinagoga restaurada e renovada cons-
Arquitecto Ventura Terra muros são testemunho da dor, do tituiu a nossa homenagem aos seus
desespero e também da esperança de fundadores, dedicando-a aos nossos
Inaugurada dois anos depois, a 18 milhares de refugiados, sobreviventes filhos e netos.
de Maio de 1904, a Sinagoga Shaaré- do Holocausto, que por aqui passa-
-Tikvá é a primeira sinagoga construí- ram e que a comunidade acolheu e
da de raiz, desde as conversões força- confortou. ESTHER MUCZNIK,
das e da destruição oficial do judaísmo Na Sinagoga de Lisboa se deram gra- Vice-Presidente da Comunidade
português, em 1497, que liquidou uma ças e se regozijaram os judeus pela Israelita de Lisboa

22 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

sa Shaaré-Tikvá
As sucessivas intervenções arquitectónicas na sinagoga Shaaré Tikvá, de autorias respeitáveis e reconhecidas,
emprestam simultaneamente, um sentido de responsabilidade e de comunhão (partilha) a quem se propõe intervir
neste edifício centenário, no ano de 2002/2004 em mais uma das suas metamorfoses. Depois de Ventura Terra, a
quem se deve o desenho original, proposto e construído de modo mais ou menos oculto (guardado no interior de um
quarteirão), tal como obrigavam as vicissitudes da época, e depois do mestre Carlos Ramos ser chamado a ampliar
o edifício, dando resposta à afluência religiosa, que marcou o período do pós-guerra, eis que a Comunidade Israelita
de Lisboa, envolta no espírito que a comemoração do centenário da sua sinagoga lhe suscita, decide reformular o
edifício e seus espaços exteriores, introduzindo um novo programa, que antes de mais, quer promover a relação entre
a comunidade religiosa que representa e a comunidade urbana onde se insere!
Ricardo Bak Gordon, 2005

A Sinagoga Portuguesa Shaaré Tikvá “peso” da idade e o conservadorismo


(Imóvel de Interesse Publico desde histórico faz com que a vetustez e clas-
Abril de 1997) inscreve-se num con- sicismo académico imponham o seu
junto de obras do arquitecto Miguel dogma sobre significativas peças do
Ventura Terra que marcaram as pri- património edificado desde finais do
meiras décadas do século XX em oitocentos até aos nossos dias.
Lisboa, muito influenciadas pelos O processo de recuperação não foi
contactos com outras realidades euro- simples nem isento de tensões. Chuvas
peias, nomeadamente a Francesa. anormalmente fortes e persistentes
Este belo e austero exemplar da arqui- dificultaram a recuperação das cober-
tectura do período da Arte Nova, não Entrada Principal e Pátio Murado
turas e fachadas, onde se ensaiavam
sendo a obra mais notável do seu acabamentos que caíram em desuso
autor, é contudo uma peça que impor- há quase um século; os acontecimen-
ta preservar, pela sua singularidade tos internacionais implicaram preocu-
mas também pela importância simbó- pações suplementares no acesso à obra
lica para a comunidade judaica resi- e controlo do estaleiro; a conciliação
dente em Portugal. da obra com os rituais religiosos da
A partir de Abril de 1999, na sequência comunidade implicou diversos con-
de diversos contactos entre a Comu- dicionamentos na obra, exigindo uma
nidade Israelita de Lisboa e a Direcção complexa gestão das empreitadas.
Geral dos Edifícios e Monumentos Em boa hora se classificou a Sinagoga
Nacionais (DGEMN), foram lançadas de Lisboa e se reuniram sinergias para
duas empreitadas de construção refe- Fachada Principal da Sinagoga de Lisboa a recuperar, esperemos que deste
rentes à beneficiação do imóvel e uma esforço resulte uma melhor, mais plu-
de conservação e restauro. As obras integrados no corpo poente, segundo ral e eclética divulgação do patrimó-
tiveram início em Setembro de 2000 projecto do Arq.º Ricardo Bak Gordon, nio religioso nacional.
tendo sido finalizadas em Setembro de modo a melhor servirem as necessi-
de 2004, coincidindo com a reabertura dades actuais da Comunidade.
do templo para a comemoração do A futura recuperação e moderniza-
seu centenário. ção do corpo Nascente, acrescentado
Para além da recuperação das facha- em 1954, poderá permitir a instalação JOÃO SEABRA GOMES e
das, caixilharias exteriores e cober- do Museu Judaico da Comunidade ALBERTINA RODRIGUES,
turas, o programa de intervenção Israelita de Lisboa. Direcção Geral dos Edifícios e
consagrou a recuperação/restauro A recuperação de um imóvel classifi- Monumentos Nacionais,
do espaço do templo mas também a cado construído no século XX é ainda Direcção Regional de Monumentos de
valorização e adaptação dos espaços uma experiência rara. Em Portugal o Lisboa

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 23


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

A Sinagoga portuguesa
Shaaré-Tikvá Obras de Restauro
plástica. Efectuou-se a substituição do
sub-céu (clarabóia interior) com vidros
laminados transparentes.
A Ala Poente, que se desenvolve por
três pisos, foi objecto de profundas
remodelações e beneficiações, exe-
cutando-se reforços dos tectos com
estrutura mista metálica e madeira,
reconstruídas as treliças em madeira
para suporte da cobertura existente,
ficando esta zona com um tecto falso
Conjunto de cadeiras após restauro Vista panorâmica do Templo, após recuperação
em placas de gesso cartonado acom-
panhando as inclinações das diversas
A Sinagoga de Lisboa, designada por este no centro do espaço a ele desti- águas da cobertura. Procedeu-se ao
Shaaré-Tikvá (Portas da Esperança), nado. A execução de um novo por- restauro dos tectos com ornamentos,
situa-se na Rua Alexandre Herculano, tão metálico com zona envidraçada, bem como à execução de tecto em
numa zona de quintal pois assim o deu uma renovada leitura do Templo estafe com linhagens e moldes em
exigia a legislação monárquica em quando observado do exterior. estuque iguais aos existentes de modo
relação a todos os templos não católi- Na zona dos banhos rituais (Mikváh), a dar continuidade na leitura.
cos, não permitindo que se pudessem situada na cave, foi reforçado o tecto No exterior, procedeu-se à demolição
ver da via pública. com estrutura metálica, demolido o da portaria existente, com a posterior
A MIU teve a seu cargo as recen- tanque actual, com execução de um execução de uma nova, beneficiação
tes obras de restauro no interior do novo e zona de balneários. de muros exteriores com pintura e
Templo, nomeadamente através de No Templo, desenvolvido por três execução de novo pavimento com
novas pinturas em paredes e tectos, pisos, procedeu-se ao restauro dos pedra de calçada, bem como à ilumi-
restauro dos cadeirais e pavimentos. pavimentos em madeira com poste- nação exterior.
No exterior, com a demolição da torre rior afagamento, envernizamento e O restauro dos cadeirais foi totalmente
anexa em estrutura de betão, portanto recuperação de todos os balaústres. A executado pelo nosso Departamento
mais recente, permitiu a circulação nível das paredes e tectos foram repa- de Conservação e Restauro de Madeira
total em redor do edifício, recolocando rados os estuques e pintados a tinta e Mobiliário. Este trabalho consistiu na
remoção dos estofos velhos, colagem
de peças soltas em madeira e à exe-
cução de novos elementos em falta
com as características das existentes.
Seguidamente, procedeu-se à limpeza
geral com remoção de toda a sujidade
e resíduos de vernizes e ceras antigas.
Após este trabalho, foi efectuado o
tratamento, conservação e acabamen-
to das madeiras com produtos à base
de anilinas e goma laca. Finalmente
foram aplicados novos estofos respei-
tando as características originais com
utilização de novas precintas, galões
e pregos velhos a condizer com os
estofos.
ARTUR CORREIA DA SILVA,
Engenheiro,
MIU - Gabinete Técnico de
Aspecto final da estrutura da cobertura da biblio- Vista do Templo apresentando os três níveis
Engenharia, Ld.ª
teca

24 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


Projectos & Estaleiros
Tema de Capa

Sinagoga de Castelo de Vide


O projecto arquitectónico da intervenção
A sua imagem é simples, semelhante às construções vizinhas, negando qualquer monumentalida-
de que do nome lhe poderia advir. É feita de salas pequenas e desniveladas entre si e de tectos bai-
xos com barrotes à vista; de paredes caiadas e irregulares marcadas, ocasionalmente, por antigos
vãos e por elementos pontuais, como uma cantareira, um fumeiro e o tabernáculo; de pavimentos
em lajes irregulares de granito sob os quais se escavaram silos…

Vista do espaço onde foi introduzida a nova Salas dos silos musealizados, com pavimento em Pormenor do alçado principal
escada vidro

Sendo certo que guarda na sua memó- cas tradicionais – a preexistência, sal- suporta o piso de vidro sobre os silos,
ria mais longínqua uma vivência de vaguardando o seu carácter e auten- agora desentulhados e musealizados.
cunho marcadamente hebraico, a sina- ticidade e valorizando-a enquanto No entanto, na prática, a intervenção
goga possuiu, desde então, variadas conteúdo expositivo; por outro lado, não deixa de reflectir as ambiguida-
ocupações, nomeadamente habitacio- introduzem-se novos elementos arqui- des de captar essa espessura temporal
nal, com acrescentos aqui, abertura e tectónicos – contentores de infra-estru- dum espaço sucessivamente ocupa-
encerramento de vãos acolá, ou outras turas e funções inerentes à adaptação do de formas diversas (com muitas
alterações puramente funcionais. a núcleo museológico, – nos espaços memórias, portanto), obrigando con-
Dada a importância histórica e sim- passíveis de uma maior interferência. tinuamente a justificar ou repensar
bólica do edifício, a intervenção pro- Por oposição à materialidade maci- opções projectuais (em projecto e
cura respeitá-lo e enaltecê-lo, pois o ça da construção permanente, os em obra) ao nível do pormenor, ten-
seu valor reside precisamente na sua novos elementos, com estruturas tando valorizar-se a leitura do todo.
autenticidade, enquanto expressãoda leves, têm um carácter mais eféme- O que se mantém, o que se sacrifi-
íntima relação entre a forma constru- ro e reversível, enquanto respos- ca, a que é que se dá visibilidade?
ída e a cultura específica de um lugar. ta num dado momento histórico A nova espacialidade será feita de tudo
Clarificou-se o que é preexistente aos novos usos agora requeridos. isto, de uma atmosfera simbólica, de
e o que é introduzido actualmente, Utilizam-se as estruturas de madei- um questionamento sempre latente, de
com dois tipos de intervenção física ra de uma forma mais generalizada, muitas identidades, de formas e mate-
e linguagens formais distintas: por revestidas com apainelados de con- riais antigos, convivendo com outros
um lado, restaura-se – ou pelo menos traplacado marítimo, e mais pontual- que, esperemos, farão memória.
recupera-se com os materiais e técni- mente, o metal, como na estrutura que

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 25


Projectos & Estaleiros
Tema de Capa

Sinagoga de Castelo de Vide _ Núcleo Museológico

SUSANA BICHO e
ALBERTO CRUZ,
Arquitectos,
N Planos Arquitectura Ld.ª

26 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


Projectos & Estaleiros
Tema de Capa

A intervenção

Aspecto da parede exterior (piso superior) Aspecto interior antes da intervenção

O estado geral do edificado existente preconizadas que poderiam levar ao isolamento térmico, executado em
era muito precário, havendo necessida- seu colapso, tendo a nova parede sido placas de poliestireno extrudido.
de de proceder, com alguma urgência, executada com utilização de materiais Recorreu-se também à utilização de
aos trabalhos de reforço e consolidação. idênticos aos existentes, nomeadamen- subtelha, sobre a qual foram colo-
As intervenções levadas a cabo, neste te alvenaria de pedra aglutinada com cadas as telhas de canudo argamas-
âmbito, passaram pela execução de argamassas bastardas de cimento, cal e sadas, tendo sido reutilizada 25 por
injecção de caldas à base de cal, fura- areia, ligada às paredes existentes que cento da telha existente, sendo a
ção e colocação de tirantes e prega- se mantiveram através de pregagens. restante telha nova, com as mesmas
gens, colocação de alvenaria de pedra, Foi necessário proceder à remoção de características das reaproveitadas.
de modo a colmatar as lacunas existen- todos os elementos de betão arma- A cobertura do novo corpo tem como
tes, e execução de novos rebocos, com do existentes no edificado, mormente base de apoio ao revestimento painéis
revestimento final a cal, reconduzindo as estruturas existentes na habitação compósitos de madeira e betão, sendo
a estrutura ao seu monolitismo inicial. contígua que passou a fazer parte a envolvente revestida com uma
Além do edificado existente, foi integrante da existente, que apresenta- membrana e a cobertura final execu-
construído um corpo novo, sendo va lajes em betão, e pavimentos cerâ- tada em chapa de zinco-titânio, recor-
todos os elementos estruturais, viga- micos recentes, assentes em betoni- rendo ao sistema de “junta agrafada”.
mentos, frechais e frontais, executa- lhas e escadas de acesso ao 1.º piso. A maior dificuldade na execução dos
dos em madeira de casquinha ver- A cobertura do edifício existente, na trabalhos foi o espaço exíguo das divi-
melha, com o devido tratamento. sua grande parte, já não cumpria a fun- sões do edificado, assim como dos
Todo o reboco existente foi remo- ção de protecção, apresentando a sua acessos exteriores ao mesmo, tendo o
vido de modo a colocar à vista o estrutura de suporte graves anomalias, estaleiro ficado algumas dezenas de
suporte, podendo assim ter-se uma tendo todos os elementos seus consti- metros afastado da frente de trabalho,
avaliação mais completa deste. tuintes sido removidos, excepção feita não sendo possível recorrer à utili-
Para além disso, o reboco apresen- a duas madres existentes que manti- zação de meios mecânicos, em espe-
tava-se com zonas de destaque nham o seu estado em boas condições cial de elevação e de transporte.
bastantes grandes e na maioria da de utilização, que foram reaproveita-
sua área apresentava já uma pulve- das depois de devidamente tratadas.
rulência bastante avançada, devido Como solução para a nova cobertura da
à elevada presença de humidade. zona existente, foram utilizados toros
Após análise das paredes existentes, de madeira de castanho e, entre estes,
verificou-se a necessidade de des- foram colocadas tijoleiras artesanais. FRANCISCO BUXO,
montar uma delas, pois a mesma não Por cima dos barrotes foram colo- Engenheiro Técnico Civil,
Stap, S. A.
demonstrava resistência suficiente para cados painéis de MDF que servi-
suportar as medidas de consolidação riam de base para colocação do

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 27


Projectos & Estaleiros
Tema de Capa

Igreja da Santíssima Trindade


Santuário de Fátima
BREVE HISTÓRIA
A nova Igreja da Santíssima Trindade Igreja
situa-se no topo sudoeste do recinto Basílica
do Santuário de Fátima e tem uma
área de intervenção com cerca de
230x155m2.
A estrutura da Igreja, com capacidade
para cerca de 9 000 lugares sentados,
é constituída por uma parede cilín- Capelinha Centro
Pastoral
drica de betão armado atravessada na Paulo VI
zona central por 2 vigas salientes de
grande altura (VPE) que dão apoio à
cobertura.
Para além da Igreja foram ainda exe-
cutadas, em cave, zonas para capelas,
foyer, instalações sanitárias, confes-
sionários e respectivas áreas técnicas
de apoio.
A elevada durabilidade pretendi-
da, superior a 100 anos, levou a que
fossem tomados cuidados especiais
na concepção, projecto, selecção dos
materiais, sua produção e controlo,
bem como na adopção de medidas
especiais de execução.

SOLUÇÃO ESTRUTURAL
Escavação / Fundações Sheds
A grande heterogeneidade dos solos Metálicas
de fundação obrigou à utilização
de vários processos de escavação,
incluindo desmonte com recurso a Entrada

explosivos.
Vigas
O maciço calcário de fundação encon- Zona técnica betão
tra-se a profundidades variáveis, des- em cave branco
de praticamente aflorante até cerca de (VPE)

20m, com enchimentos de materiais


argilosos. Espelhos
de água
Os trabalhos tiveram de ser executa-
dos garantindo o funcionamento de
todos os serviços religiosos e o respeito Capelas
em cave
pela elevada concentração de pessoas
que, por motivos turísticos/religiosos, Implantação e Vista Geral
procuram diariamente o sossego do
recinto.
Procurou-se que as fundações fos- no maciço calcário) obrigando à uti- Igreja
sem sempre no maciço calcário para lização de estacas com molde metá- A parede do contorno exterior da
evitar o risco de assentamentos dife- lico perdido. Na transição entre as Igreja (com 125m de diâmetro e 15m
renciais. Isso obrigou à utilização zonas de fundação directa e indirecta de altura média) é isolada termica-
quer de fundações directas quer de foram executados enchimentos com mente e revestida a pedra, tendo
estacas. Houve mesmo locais em betão simples até à cota do maciço sido concebida sem juntas de dila-
que apareceram algares (cavernas rochoso. tação.

28 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


PROJECTOS & ESTALEIROS
Tema de Capa

as acções de exploração corrente


quer para os sismos.
As Vigas Principais (VPE), de betão
branco armado pré esforçado, são
elementos de relevo quanto ao par-
tido arquitectónico pretendido.
Encontram-se afastadas entre si de
10m, são parcialmente aparentes
(nomeadamente no exterior do edifí-
Escavação / Fundações cio) e apresentam uma altura signifi-
cativa que varia linearmente de 14m
a 4m; constituem um elo de ligação
visual entre o espaço da Grande
Assembleia que envolvem e as cape-
las onde mergulham, destacando-se
Fundações de quaisquer outros elementos do
edifício. Vigas VPE (fase construtiva)
A minimização dos efeitos da São elementos de grande compri-
retracção do betão mereceu cuida- mento (cerca de 182m) e altura. A
dos especiais, tendo sido utilizados sua secção transversal, com 2m de
betões de baixa retracção (εt = -100 largura, é vazada, em caixão, o que
x 10-6), e bandas intercalares de permite um aligeiramento signifi-
betonagem em 2.ª fase, que permiti- cativo a par de um elevado desem-
ram a dissipação de uma parcela penho estrutural. Este vazamento VPE – Alçado e corte
significativa dos efeitos da retracção é ainda aproveitado para facultar
durante a fase inicial da construção. acessos à cobertura e colocar equipa- O maior vence a quase totalidade do
A estrutura da cobertura é composta mentos e instalações técnicas. espaço correspondente à Assembleia
por sheds (metálicas) cujas vigas, Os 3 pilares de apoio, em cada vi- (com cerca de 80m), recebendo as
com 4,45m de altura total, são dis- ga, são lâminas de betão armado acções provenientes da cobertura; o
postas perpendicularmente às vigas de grande dimensão longitudinal, menor, menos carregado, funciona
VPE atrás referidas, apoiando-se definindo vigas contínuas de 2 tramos. como tramo de equilíbrio e pro-
nelas e nas paredes cilíndricas de longa-se até às capelas.
betão. Os vãos dessas vigas são vari- Os efeitos acumulados das variações
áveis com um máximo de 55,65m. de temperatura e da retracção do
O banzo inferior de cada viga liga- betão, associados à elevada rigidez
-se ao banzo superior de uma das das paredes de apoio no plano das
vigas contíguas por meio de perfis vigas, levou a que se adoptassem
inclinados que constituem o apoio juntas de dilatação horizontais nos
das lajes da cobertura. As vigas são apoios extremos.
revestidas exteriormente com vidro, Os esforços verticais e transver-
permitindo o aproveitamento con- sais são transmitidos a aparelhos de
trolado da luz solar. apoios que, por permitirem deslo-
Nas lajes da cobertura pretendia-se camentos longitudinais e rotações,
simultaneamente massa (por razões Igreja reduzem os efeitos dos deslocamen-
acústicas) e aligeiramento (para não tos impedidos e permitem a apli-
sobrecarregar a estrutura), tendo-se cação eficaz do pré-esforço.
por isso optado pela utilização de As duas vigas VPE são solidarizadas
lajes alveoladas de betão, prefabri- entre si por intermédio de uma laje
cadas e pré-esforçadas. e um conjunto de septos, constitu-
A forma da cobertura permite que indo uma única viga horizontal de
funcione como um “harmónio” lon- grande rigidez.
gitudinal acomodando, sem grandes A execução dos elementos de betão
esforços ou concentração de defor- branco impôs a utilização de medi-
mações nos apoios, as alterações das especiais quer na produção,
dimensionais das VPE. quer na aplicação e cura. Realça-se
A parede e as vigas centrais são ele- a execução de protótipos à escala
mentos fundamentais no suporte e real, os cuidados com a cofragem,
travamento da cobertura, quer para Cobertura Metálica com o estudo do cimbre, a criteriosa

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 29


Projectos & Estaleiros
Tema de Capa

trumentação in-loco nos troços das condicionou o nível de pré-esforço


peças com maior volumetria, obser- adoptado.
vando-se bons resultados mesmo no
período estival. Corpos Anexos e Obras Acessórias
Os betões, de elevada resistência e O edifício é constituído ainda por
compacidade, baixa permeabilidade alguns corpos que desempenham
e retracção controlada, foram ainda funções complementares: capelas,
dotados com agentes de protecção foyer, zonas técnica e diversas gale-
anticorrosiva, com efeitos nas reac- rias de acesso e técnicas.
ções catódica e anódica do processo Estes corpos são construídos em
electroquímico da corrosão. A com- cave, com a cobertura na continui-
posição, produção e aplicação do dade do pavimento do recinto exis-
betão foram sendo ajustadas com tente. A sua estrutura foi realizada
a execução de ensaios e protótipos com paredes de betão armado que
à escala real, de forma a garantir a dão apoio a lajes prefabricadas (tipo
obtenção das características especifi- TT), com vãos entre 9m e 20m.
cadas no projecto.
Foram também adoptados critérios
Vigas VPE mais exigentes do que os habitual-
mente considerados, com destaque
sequência de execução e a utilização
para a verificação dos estados-limi-
de meios especiais para controlo da
te associados à fendilhação, o que
temperatura de aplicação do betão,
incluindo o arrefecimento do betão
com azoto líquido à saída da central
de produção.
O recurso ao azoto líquido para con-
trolo da temperatura do betão em
massa traduz-se em benefícios tanto
na retracção como na durabilidade,
precavendo os perigos do futuro
desenvolvimento de reacções álcalis
Aplicação de Azoto Líquido
agregados expansivas e reduzindo a
probabilidade de fendilhação devi-
da à retracção inicial. Decorreu da Quadro 1 - Materiais e quantidades principais
imposição do projecto a limitação de
Área de Construção 40 000m2
20 º como temperatura de aplicação
do betão, para ter em conta o eleva- Volume de Escavação 245 000m3
do calor de hidratação do cimento
branco e a volumetria das peças. Comprimento total de estacas 5 300 ml
A eficácia deste processo foi sendo Betão Cinzento (C25/35) 45 000m3
aferida durante a execução, com ins-
Betão Branco (C35/45) 7 000m3
Estruturas das portas e suspensão do Cristo
Moldes para Betão Cinzento 120 000m2

Moldes para Betão Branco 25 000m2 Para além dos edifícios foram ainda
dimensionadas algumas estruturas
Aços Passivos (A400NR) 7 000 ton. singulares, como sejam a suspen-
Aços para Pré-esforço são do Cristo de bronze (3 ton.) no
(de baixa relaxação, 150 ton. Presbitério, o apoio e estrutura das
com fpuk ≥ 1860 MPa) portas da entrada principal (4 x 3,5
ton.), paredes móveis no interior da
Aço para Estrutura Metálica 950 ton.
Igreja e entivações provisórias para
Contenções Provisórias 1700 m2 a salvaguarda das árvores de grande
porte adjacentes à escavação.
Quadro 2 - Prazos

Projecto 2000-2003
jOSÉ mOTA FREITAS, EUGÉNIO
Execução MAIA, mIGUEL gUIMARÃES
Fundações e Estruturas 2004-2006 EngenheiroS,
Instalações e Acabamentos 2006-2007 ETEC, Ld.ª
Apoios das Vigas VPE

30 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


L N RIBEIRO.qxp 04-08-2007 2:39 Page 1
CARTAS & CONVENÇÕES
Tema de Capa

Carta de Villa Vigoni


Sobre a protecção dos Bens Culturais da Igreja

Nos dias 27 e 28 de Fevereiro e 1 de Março de 1994 rea- 3. O Estado e a Igreja, no âmbito das respectivas com-
lizou-se, na Villa Vigoni (Lago de Como), um encontro petências, devem colaborar na defesa e conservação dos
promovido pelo Secretariado da Conferência Episcopal bens culturais da Igreja. As entidades privadas também
Alemã e pela Comissão Pontifícia para os Bens Culturais podem dar um contributo importante para este fim.
da Igreja, sobre o tema “A protecção do património cul-
tural como dever do Estado e da Igreja”. 4. A Igreja Católica, em particular, deve considerar os
Os especialistas alemães e italianos participantes neste bens culturais da Igreja como recurso essencial e ins-
encontro aprovaram a seguinte recomendação, designa- trumento importante da sua actividade pastoral para a
da por “Carta de Villa Vigoni”: re-evangelização do mundo contemporâneo.

1. Os bens culturais da Igreja constituem uma das 5. Os esforços da Igreja para a protecção e valorização
expressões mais elevadas da tradição cristã vivida por dos bens culturais religiosos móveis e imóveis são par-
inúmeras gerações de crentes e representam uma parte ticularmente importantes no momento histórico actual,
essencial da herança cultural da Humanidade. Com quer para contrariar os processos de secularização, de
efeito, esses bens culturais são manifestações de Deus ao dispersão e de profanação que os ameaçam, quer para
Homem e aspirações do Homem para Deus, e constituem responder aos anseios de recuperação da sacralidade, da
testemunhos da identidade e da tradição dos povos. identidade e da continuidade da herança histórica dos
povos.
2. A Igreja e a sociedade devem ter consciência da sua
enorme responsabilidade que é conhecer, proteger, valo- 6. À luz destas considerações, todas as dioceses devem
rizar e transmitir às gerações futuras este valioso patri- proceder, em primeiro lugar, à elaboração de catálogos
mónio que lhes está temporariamente confiado. e inventários dos seus bens culturais, de acordo com
normas técnicas uniformes e segundo metodologias
científicas avançadas. O inventário proporciona a base
científica indispensável à protecção e à valorização efi-
cazes desses bens culturais.
Comissão Pontifícia para os 7. A continuidade de uso na função original constitui a
Bens Culturais da Igreja melhor garantia para a conservação dos bens culturais
da Igreja. Uma eventual alteração de uso, mesmo que
seja inevitável, deve ser sempre compatível com o carác-
Criada em 1988 e reorganizada cinco anos ter religioso do bem cultural.
depois, esta Comissão da Cúria Romana tute-
la o vasto património histórico e artístico da 8. A conservação constante do bem cultural deve ser
Igreja Católica e colabora com as dioceses na considerada como uma obrigação, concreta, da maior
conservação dos bens culturais nelas existen- importância em cada comunidade responsável pela sua
tes. A Comissão estabelece ainda a relação protecção.
entre o Vaticano e outras organizações ligadas
ao património (Unesco, Conselho da Europa, 9. Os restauros considerados necessários devem respei-
ICOMOS, etc.) e tem publicado orientações tar escrupulosamente a substância cultural dos bens e o
sobre inventariação, museus, bibliotecas, seu carácter religioso, e devem ser confiados a especia-
arquivos, conventos e igrejas. listas de reconhecida experiência. Cada restauro deve
MBC ser realizado após estudos e projectos aprofundados e
deverá ser acompanhado da adequada documentação
sobre as diversas fases da intervenção.

32 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


E 2.
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10. O ensino e a formação dos responsáveis pelos bens Ediçõ 26-10-
2007
16:42:
56

culturais religiosos, assim como dos colaboradores cien-


tíficos e técnicos, devem ser considerados uma função
específica das administrações do Estado e da Igreja.
Neste âmbito, é particularmente importante a formação
dos párocos. Climatização
11. A protecção dos bens culturais da Igreja deve ter em
concepção, instalação
especial atenção as diversas formas de poluição e de
degradação ambientais. Esta protecção deve estender-se e condução de sistemas
também aos conjuntos arquitectónicos e aos seus espa-
ços envolventes, recorrendo aos diversos instrumentos luis Roriz
alexandre Gonçalves
jurídicos existentes. carlos soares
Fernando lourenço
12. Cada diocese deve contratar um conservador, ido- João B. Barreto
João Jesus
neamente preparado, bem como outros especialistas, e lázaro Vazquez
deve criar um serviço para a protecção dos bens cultu- luis malheiro
rais que seja dotado de meios financeiros adequados.
Neste livro é feita uma abordagem dos sistemas de
Loveno di Menaggio, 1 de Março de 1994 AVAC tendo sido seguida a sequência natural do
que terá lugar ao longo da vida de uma instalação.
Nele estão contidas informações teóricas e práticas
necessárias aos profissionais que trabalham no
domínio das instalações de AVAC. Sequencialmente
são tratados os aspectos gerais associados aos
sistemas de AVAC necessários a ter em conta no
projecto de um sistema de climatização, por forma
a que possa ser instalado o sistema adequado ao
fim em vista: a concepção do sistema, a escolha
das caracteristicas do equipamento a instalar, a
escolha e a utilização de programas de simulação
quer para o dimensionamento do sistema de AVAC
quer para a previsão do consumo energético, os
cuidados a ter na execução da obra e os princípios
a seguir na condução e manutenção dos sistemas.
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(da contracapa)
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FLÁVIO LOPES E MIGUEL BRITO CORREIA, E r gét ifíciO e ract icO d
En Ed ca m
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Património Arquitectónico e Arqueológico,
n t O d EntO E) 200
Cartas, Recomendações e Convenções Internacionais, mE tam cct
Eg ula mpOr iOs (r
Lisboa, Livros Horizonte, 2004, pp. 245-246. r cO Edifíc
dE

à venda na livraria
virtual do GeCorpa
As leis do património

O Código dos
Contratos Públicos
O preço base e a valorização dos trabalhos de
suprimento de erros e omissões
Abordámos no anterior número da ção das propostas, os concorrentes Ora, nos termos do n.º 1 do art.º 47.º
Pedra & Cal o tema dos erros e devem apresentar ao órgão compe- (“preço base”) do CCP, o preço base
omissões do caderno de encargos tente para a decisão de contratar uma é o preço máximo pelo qual a entida-
no Código dos Contratos Públicos lista na qual identifiquem, expressa e de pública está disposta a adjudicar
(de agora em diante CCP), aprovado inequivocamente, os erros e as omis- a obra. Se atentarmos na al. d) do n.º
pelo Decreto-lei n.º 18/2008, de 29 sões do caderno de encargos por 2 do art.º 70.º (“Análise das propos-
de Janeiro, já rectificado através da eles detectados e que digam respeito tas”) do mesmo diploma, verifica-
Declaração de Rectificação n.º 18- a: a) Aspectos ou a dados que se reve- mos, no entanto, que são excluídas
A/2008. lem desconformes com a realidade; as propostas cujo preço seja superior
Tal matéria de “erros e omissões” ou b) Espécie ou a quantidade de ao preço base.
encontra-se regulada nas seguintes prestações estritamente necessárias à Nesta situação, detectando os con-
disposições do CCP: a) artigo 61.º integral execução do objecto do con- correntes que o preço base para a
com a epígrafe “erros e omissões trato a celebrar; ou, às c) Condições adjudicação da obra não chega para
do caderno de encargos”; b) artigo técnicas de execução do objecto do “albergar” o preço da sua execução
376.º com a epígrafe “Obrigação de somado ao preço dos trabalhos de
execução de trabalhos de suprimen- supressão dos erros e omissões, das
to de erros e omissões”; c) artigo duas uma: a) Ou não apresenta pro-
377.º com a epígrafe “Preço e prazo de posta; b) Ou, pretendendo apresentá-
execução dos trabalhos de suprimen- -la, deve o concorrente optar por não
to de erros e omissões”; d) artigo 378. denunciar qualquer erro ou omissão.
º com a epígrafe “Responsabilidade Na opção b), o concorrente ao qual a
pelos erros e omissões”. obra seja adjudicada, dirimirá depois
Ali se referiu que, são estabelecidos com a entidade pública, se tinha ou
dois momentos para que o interessa- não a obrigação de detectar os erros
do/concorrente denuncie os erros e em causa na fase da apresentação das
omissões do projecto: a) Até ao 5/6 propostas. Terá, pelos menos, dois
do prazo para a apresentação das argumentos de “peso”: 1. A entidade
propostas quando lhe fosse objecti- adjudicante lançou o procedimento
vamente exigível em face das circuns- sem os detectar; 2. Nenhum dos con-
tâncias concretas que os detectasse correntes os detectou. É claro que,
nessa fase; b) Na fase de execução para que se chegue aqui, é necessário
do contrato quando, não lhe sendo que todos os concorrentes cheguem
exigível que os tivesse detectado na contrato a celebrar que o concorrente à conclusão da insuficiência do preço
fase da apresentação das propostas, não considere exequíveis.”. base para “albergar” os trabalhos e os
os denuncie no prazo de 30 dias a Admitidos os erros e omissões recla- suprimentos. Pois, basta que um dos
contar da data em lhe fosse possível mados por qualquer dos concorren- concorrentes os denuncie que, uma
a sua detecção. tes, as propostas de todos devem vez aceites pela entidade pública,
Deixando a análise da denúncia dos identificar, expressa e inequivoca- todos têm de apresentar preço para
defeitos na fase de execução contratu- mente o valor atribuído a cada um esses trabalhos. Por vezes, o silêncio
al, cingimo-nos aqui ao ónus (dever) dos trabalhos de suprimento dos é de ouro!
de denúncia na fase de apresentação erros e omissões.
das propostas. Nos termos do artigo Como devem o(s) concorrente(s) pro- A. JAIME MARTINS,
61.º do CCP (“erros e omissões do ceder se verificar(em) que o preço da Advogado-sócio de ATMJ – Sociedade
caderno de encargos”) prescreve-se sua proposta originária somada ao de Advogados; RL
que “até ao termo do quinto sexto preço dos trabalhos de suprimento a.jaimemartins@atmj.pt
do prazo fixado para a apresenta- supera o preço base?

34 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


DIVULGAÇÃO
Tema de Capa

Mesquita Central de
Lisboa
Bem vindos!

Al Masjid, que significa, literalmen-


te, o local onde se prostra, vem
da palavra Sajdah. A oração é um
dos pilares do Islão e, é na oração
que nos prostramos, é o gesto mais
sublime.
Uma das preocupações que qualquer
comunidade islâmica tem, é a de ter
um espaço para as orações, para
a convivência entre os seus mem-
bros e, foi o que fez a Comunidade
islâmica de Lisboa. Fundada em
1968, nos finais dos anos setenta,
iniciou-se a construção da Mesquita
de Lisboa, no terreno que foi cedido
pela câmara municipal de Lisboa e
com o apoio dos países Islâmicos.
A palavra mesquita também é usada
para se referir a todos os tipos de
edifícios dedicados a orações, embo-
ra em árabe seja feita uma distinção
entre as mesquitas de dimensões
menores e as mesquitas de maior
dimensão, que possuem estruturas
sociais. Estas últimas são denomina-
das como masjid jami. A de Lisboa é
designada como Masjid Jami.
O objectivo principal da mesquita é o
de servir como local onde os muçul-
manos se possam encontrar para
orar, como referi anteriormente. No
entanto, as mesquitas são também
conhecidas pelo seu papel comu-
nitário e por serem as formas mais
expressivas da arquitectura islâmica.
Elas evoluíram, significativamente,
desde os espaços ao ar livre, de que
são exemplos a Mesquita Quba e o
Masjid al-Nabawi (A Mesquita do
Profeta, em Medina) do século VII d.
C.. Hoje em dia, a maioria das mes-
quitas possuem cúpulas, minaretes

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 35


DIVULGAÇÃO
Tema de Capa

Quadro 1 - Composição do Edifício e salas de oração que podem assu-


mir formas elaboradas. Surgidas
Sala de Culto das mulheres; Zona de abluções; Sanitários; Salas polivalen- na Península Arábica, as mesquitas
Piso 4 podem ser encontradas em todos os
tes; Residência do “Imam” Ministro de Culto.
continentes onde existem comuni-
dades muçulmanas. Não são apenas
Entrada principal; Secretaria; Pátio principal; Sala de culto de homens; locais para o culto e a oração, mas
Piso 3 Zona de abluções; Pátio interior; Biblioteca; Sala de aulas; Sala de confe- também locais onde se pode apren-
rência; Área de apoio funeral.
der sobre o Islão e conviver com
outros crentes.
Ao projectar a Mesquita de Lisboa,
Piso 2 Refeitório; Cozinha industrial; Sanitários. Salão Polivalente. pensou-se também nas outras prá-
ticas que estão relacionadas com o
Islão. Não esquecendo a dimensão
cultural da própria comunidade,
Entrada; Foyer; Cafetaria; Salão de festas polivalente; Pavilhão desportivo;
Piso 1
Zona de balneários; Zona de apoio a diversas actividades; Sanitários. não se poderia deixar de fora os
aspectos culturais e tradicionais.
O lançamento da primeira pedra foi
em Janeiro de 1979. A primeira fase
Cave 1 Actividades de lazer e jogos de salão. da construção foi inaugurada em 29
de Março de 1985 e incluía: Entrada
principal; Pátio; Sala de Culto de
homens e de mulheres; Zona de
Cave 2 Arrumos. abluções; Secretaria; Sanitários.
A Mesquita central de Lisboa aco-
lhe não só os muçulmanos, os não
muçulmanos também a podem
A área do terreno é de: 2.760 m2 e a área construída é de 10.600 m2 (4 piso + 2 caves).
visitar e partilhar das suas ideias
e crenças. Hoje é conhecida como
um local de referência: diariamente
temos visitas de estudo, estudantes
que querem apresentar trabalhos,
instituições e indivíduos estão sem-
pre a visitar a Mesquita de Lisboa.
Sendo sexta-feira o dia sagrado para
os muçulmanos, é a partir das 12h
que a mesquita começa a ter mais
adesão, os muçulmanos vão che-
gando e preparam-se para as suas
orações, fazendo as abluções, e aos
poucos vão entrando na sala de
culto… alguns ficam no pátio a fina-
lizar a conversa. Quando começa a
oração, estão todos juntos, ombro a
ombro a acompanhar a oração presi-
dida pelo Imã da Mesquita. A seguir
à oração há um convívio no pátio da
mesquita e aos poucos regressam às
suas actividades.

SHEIKH MUNIR

36 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


DIVULGAÇÃO

Museu do Regimento de
Sapadores Bombeiros
O Museu do Regimento de Sapadores Bombeiros está instalado desde 2004 num edifício de cons-
trução e arquitectura moderna, em Carnide, junto ao Centro Comercial Colombo. Edificado em
alvenaria, betão e ferro, cobre uma área de aproximadamente 7200m2, dividindo-se por quatro
pisos, congregando uma nave principal de exposições, mezzanino, sala de exposições temporárias,
auditório, espaço de animação infantil-juvenil, centro de documentação e reservas.

dios em Portugal, onde D. João I


confirma medidas concretas para a
prevenção e combate a incêndios na
Capital. Nos séculos XVI e XVII sur-
gem novas medidas, como a contra-
tação de fiscais para verificarem se
o lume era apagado à noite. Mais
tarde dá-se o apetrechamento com
materiais e equipamentos e a contra-
tação de oficiais assalariados. Nesta
sequência de feitos de adaptação e
reformas do serviço de incêndios,
adquirem-se, por esta altura, as pri-
meiras bombas-tanque que deram
Vista panorâmica do edifício do Museu do Regimento de Sapadores Bombeiros. Perspectiva de Sul
origem, quiçá pela primeira vez, ao
A História é o nosso maior patrimó- rem durante as situações de socorro, termo “bombeiro”.
nio. Sem descurar qualquer item que face à motorização e mecanização No período de 1852 até ao ano de
integre o nosso tão vasto património, destas novas viaturas que doravante 1930, o Serviço de incêndios sofreu
bens materiais, imateriais, identida- estariam disponíveis. profundas adaptações estruturais e
de, cultura, valores, conceitos, dou- O acervo do Museu é hoje constitu- organizacionais, através da criação
trina e linguagem, é duma identida- ído por uma brilhante e valiosíssi- de novas regulamentações e de nor-
de e de um património cultural que ma colecção de carros de combate mas disciplinares. Incutiram-se, de
iremos realçar nesta abordagem. a incêndios, de diferentes períodos igual forma, políticas de incentivo
A criação do Museu remonta ao ano temporais, como veículos de trac- à criatividade e motivação para a
de 1929 aquando do processo de rees- ção braçal, hipomóvel, motorizada, construção de utensílios e engenhos
truturação do Corpo de Bombeiros rebocáveis e transportáveis, diver-
Municipais de Lisboa e da passagem sos tipos de maquetas, miniaturas
a Batalhão de Sapadores Bombeiros. dos veículos de combate a incêndios,
Neste processo, grande número de aparelhos, bombinhas e extintores,
viaturas de tracção braçal e hipo- aparelhos e sistemas de comunica-
móvel, que serviam os bombeiros ções, fardamentos, materiais e ferra-
da Cidade, foram substituídas por mentas e muitos outros objectos que
novas viaturas de tracção motori- foram parte integrante dos bombei-
zada, apresentando-se mais rápidas ros e da sua história.
Miniatura de Carrinho de Mangueiras com
nas deslocações para os locais dos Remonta ao ano de 1395 o primeiro Escadas de molas – Construída na oficina de cas-
incêndios e exigindo menor número documento que se conhece e que quinheiro do Corpo de Bombeiros Municipais de
de pessoal bombeiro para as opera- refere a génese do serviço de incên- Lisboa em 1929, pelo Bombeiro Alberto Lourenço

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 37


DIVULGAÇÃO

OS QUARTÉIS DO REGIMENTO DE SAPADORES BOMBEIROS

O Quartel “Sede” da 1.ª Companhia (S. Bento), na Avenida D. Carlos I, foi construído entre 1899 e 1901, em terrenos do
antigo Mosteiro da Esperança e alberga, para além de equipas de intervenção na vertente do socorro, o Comando Geral
e um conjunto de serviços e oficinas de apoio. O Quartel “Estação” da 1.ª Companhia (Rossio) está situado no largo do
Regedor e apresenta uma arquitectura do princípio do século, de enormes cantarias.
A “Sede” da 2.ª Companhia situa-se no Alto de Santo Amaro, Rua Filinto Elísio e data do princípio do século XX. A
“Estação” desta companhia é de meados do século XX e apresenta uma construção moderna.
A 3.ª Companhia tem a sua “Sede” em Alvalade, Avenida Rio de Janeiro, cuja construção data dos finais dos anos 50,
com traços de modernidade apresentando boa versatilidade e funcionalidade. O Quartel estação desta companhia esta
sedeado em Carnide, junto ao Centro Comercial Colombo, sendo construído em 2003. Para além de uma companhia de
intervenção aloja o Museu do RSB.
A Sede da 4.ª Companhia fica situada no Largo da Graça e foi construído no início do século XX. Em Arroios, na Av.
Defensores de Chaves, fica situada a estação desta companhia, sendo o edifício construído por volta de 1920, com toque
de fachada requintada por cantarias, denominada por caserna Carlos José Barreiros.
A Companhia de Intervenção Especial tem a sua Sede em Chelas, na Rua Dr. José Espírito Santo, cuja construção data
de meados dos anos 70. Na última década têm vindo a ser criados novos edifícios, Escola do Regimento de Sapadores
Bombeiros, Destacamento de Intervenção em Catástrofes, Pavilhão de Conservação e Restauro Museu, Galeria de
Treinos, entre outros. A Estação desta Companhia situa-se na Av. de Berlim, Encarnação, e foi construída em meados do século XX.

Carro de Escadas n.º 11 Magirus, Ulm. Pormenor: Hall Principal no piso 0 do Museu. Deste acede-se Carro de Material – 1929. Destinava-se a trans-
Lanterna para iluminação ao piso 1 e -1, mezzanino e à sala de Exposições portar diversas ferramentas para o local de incên-
Temporárias. Auto 2.º Socorro n.º 1 FIAT – 1914 dio, como desforradeiras, croques, machados, pica-
retas, escadas e outros

de combate aos incêndios. A exem- que permitiu a dispensa de grande no que se refere ao levantamento
plo de alguns destes equipamentos parte dos veículos de tracção braçal do seu espólio, acondicionamento,
construídos nas oficinas do Corpo e hipomóvel e a sua integração no recuperação, reparação, conservação
de Bombeiros temos a viatura escada espólio para o Museu. O Ajudante e restauro, desenvolvida e acarinha-
Fernandes, primeiro modelo deste João Baptista Ribeiro assumiu a da por uma equipa de técnicos que
género, inventada e construída pelo função de primeiro conservador do permitiu hoje apresentar ao público
1.º Patrão João Fernandes, em 1871, Museu. o acervo do Museu.
o Aparelho Telefónico construído em Parte do acervo do Museu, objec- O Regimento de Sapadores Bom-
1922, para melhorar o serviço de tos e utensílios de diferentes épocas, beiros, actualmente, apresenta-se à
comunicações, entre muitos outros. estiveram longos anos dispersos por Cidade de Lisboa distribuído em 10
No ano de 1905 foi adquirida pelo diferentes locais, em mau estado de quartéis direccionados para a primei-
Corpo de Bombeiros Municipais conservação, pedindo a sua aglome- ra intervenção na vertente do socorro
a primeira viatura motorizada, de ração e beneficiação. e um Museu.
marca Richard-Brazier, veículo que A Recuperação e Valorização do Patri-
integra hoje o acervo do Museu. mónio do Museu do Regimento de
Em 1931 chegam a Lisboa as últimas Sapadores Bombeiros compreendeu JOSÉ FARIA,
24 de um total de 29 viaturas adqui- nestes últimos anos, uma abrangente Coordenador do Museu
ridas à Carl Metz / Mercedes-Benz, o intervenção de vertente museológica,

38 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


ISTO TAMBÉM É PATRIMÓNIO
Tema de Capa

Miniatura de Pagode Chinês


Os Pagodes são templos com andares sobrepostos inspirados no modelo original das Stupas
– monumento Budista onde se guardam relíquias de um Buda, de santos ou bodhisattvas, de textos,
estatuetas e outros objectos sagrados.
Normalmente os pagodes têm forma Nas entradas de alguns dos módu- Podemos ver nesta miniatura que
quadrangular, hexagonal ou octo- los podemos encontrar placas escri- a partir das stupas budistas india-
gonal, compostos quase sempre por tas com evocações e pequenas áreas nas desenvolveu-se um tipo de cons-
um número ímpar de andares, cada reservadas às oferendas. trução constituído por um conjunto
andar é marcado por um telhado pro- O desenho original dos pagodes de pavilhões dispostos à volta de
jectado de forma recurvada criando parece ter surgido entre os Newaris pátios interiores, que é uma solução
uma sensação de elevação. O andar do Vale de Katmandu no Nepal. A arquitectónica característica das casas
superior é rematado por uma flecha partir de então, a estrutura arquitec- tradicionais chinesas. Quanto mais
com discos sobrepostos lembrando tónica espalhou-se pela Ásia central, elevado era o estatuto social maior
os “guarda-sóis” dos Stupas, símbolo China (séc. V) e a partir daí chegou era o número de pátios, tendo como
real que recorda as origens de Buda, ao Japão, adquirindo diversas formas paradigma o complexo do Palácio
na maior parte dos casos a flecha é à medida que detalhes específicos de Imperial em Beijing também ele mar-
rematada por duas esferas. cada região iam sendo incorporados, cado por influências budistas.
Na China o pilar central constitui uma alterando o modelo original. Apesar de muitos dos pagodes terem
caixa de escada que contém estátuas e A sociedade chinesa, tal como adap- sido construídos com propósitos reli-
objectos sagrados. A escada permi- tou o budismo às suas tradições reli- giosos, alguns perderam esta função
te aos fiéis circular em procissão, giosas ancestrais, também integrou e tornaram-se simplesmente marcos
enquanto recitam mantras (fórmulas na construção dos pagodes princípios ou ornamentos da paisagem.
de sílabas sagradas que protegem a confucionistas e taoistas. A procedência da palavra “pago-
mente), meditam e fazem oferendas. de” é incerta, com diferentes fon-
Tal como os Stupas originais, onde o tes afirmando diferentes derivações.
eixo central simboliza o Monte Meru Possíveis raízes podem ser do dravi-
(centro do Universo na cosmologia diano pagodi ou pagavadi, de um dos
Budista), a base quadrada o mundo nomes de Kali derivado do sânscrito
do desejo, a cúpula o mundo da bhagavati (“deusa”), e do persa (“tem-
forma e os “guarda-sóis” o mundo plo”).
sem-forma, também os vários anda- Os primeiros pagodes encontrados
res dos pagodes simbolizam os dife- na China remontam ao séc. III e V d.
rentes níveis dos domínios munda- C. mas desapareceram. O mais anti-
nos e supramundanos em torno do go pagode ainda intacto é Sangyue
eixo do mundo e as etapas do desen- Pagoda do séc. VI, no distrito de
volvimento espiritual. Dengfeng. Perto do mosteiro de
Os pagodes de secção octogonal sim- Shaolin, há também um complexo
bolizam os oitos raios da roda do raro: Tatlin, a Floresta de Pagodes,
Dharma – o caminho óctuplo. As com mais de 200 pagodes em pedras
duas torres, aqui apresentadas em funerárias. Outras estruturas antigas
secção hexagonal, poderão eventual- Pagode miniatura da China, dinastia Qing, perío-
incluem os pagodes provavelmente
mente representar as seis Paramitas ou do Qianlong (1736-1795). mais conhecidos na China: os dois
Perfeições – Generosidade, Disciplina, Marfim e osso semipolicromado, madeira, vidro pagodes do Ganso Selvagem em
Paciência, Diligência, Concentração e e metal. Xi’an do séc. VII.
Sabedoria. 192 x 34 x 29 cm (miniatura)
240 x 195 x 121 cm (maquete) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Os “dawe”, peixes-dragões com bocas Esta maquete de pagode terá sido oferecida, em Dictionaire Encyclopédique du Bhouddhisme;
bem abertas, que encontramos nas 1809, pelo Leal Senado de Macau ao Príncipe Philippe Cornu; Seuil.
extremidades da curvatura do telha- regente D. João por iniciativa do ouvidor geral The Art of East Asia; Gabriele Fahr-Becker;
do, têm simultaneamente uma função Miguel de Arriaga Brum da Silveira. Konemann.
ornamental e funcional, protegendo Catálogo da exposição Presença Portuguesa
na Ásia, Museu da Fundação Oriente, Lisboa,
o templo de espíritos e influências 2008, p. 238 (peça n.º 246, empréstimo do Palácio
ISABEL BRITO CORREIA,
malignas. Nacional de Sintra - IMC, n.º 475). Escultora

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 39


NOTÍCIAS

Igreja da Santíssima Trindade


galardoada com o Prémio Secil
Civil 2007. O projecto de estruturas o emprego de betão cinzento e betão
foi concebido pelo engenheiro José branco numa obra que transparece
Fonseca da Mota Freitas, sócio geren- uma verdadeira amálgama entre a
te da empresa ETEC, Ld.ª e professor engenharia e a arquitectura.
catedrático convidado da Faculdade O prémio Secil de Engenharia Civil
de Engenharia da Universidade do é um dos prémios mais prestigiados
Porto. no âmbito da engenharia civil. De
Além da ETEC, Ld.ª, a constru- periodicidade bienal, conta com o
ção contou com a colaboração da Alto Patrocínio de Sua Excelência o
Somague Engenharia, empreiteira Presidente da República, Professor
A Igreja da Santíssima Trindade do geral, e com a FASE, S. A., responsá- Doutor Aníbal Cavaco Silva.
Santuário de Fátima foi a vencedo- vel pela fiscalização da obra. Entre as
ra do Prémio Secil de Engenharia particularidades da igreja destaca-se RSB

Palácio de Belém recebe medalha


do Prémio Europa Nostra 2008
No dia 12 de Junho decorreu, na nageia o trabalho minucioso de
catedral de Durham (Reino Unido), estudo dos interiores do Palácio e
a cerimónia de entrega dos prémios da sua colecção de obras de arte
Europa Nostra e património cultural e mobiliário. A medalha também
da União Europeia. Este ano, entre os premeia o esforço de tornar acessí-
6 premiados e 21 medalhados, encon- vel ao público o Palácio de Belém,
tram-se a publicação e a exposição que foi propriedade dos Condes de
“Do Palácio de Belém” organizadas Aveiras e depois de 1726 do rei
em 2005 pelo Museu da Presidência D. João V, sendo residência oficial do
da República, em Lisboa. A medalha Presidente da República desde 1911.
atribuída ao Museu enquadra-se na
categoria 2 – Investigação – e home- MBC

Prémio BEL de “Reabilitação de Estruturas” e


“Conservação e Restauro do Património Arquitectónico”
actua na conservação e restauro de universitários ou recém-licenciados
monumentos, sendo casos exempla- das áreas de engenharia, arquitec-
res as acções no Convento de Cristo, tura, restauro, ciências, história da
em Tomar, nas Sé de Viseu e de arte e arqueologia. As inscrições
Coimbra, e no Castelo de São Jorge, podem ser feitas até o dia 28 de
em Lisboa. Além disto, a BEL conta Julho de 2008, sendo o prémio de
A BEL, Engenharia e Reabilitação com uma componente de investiga- € 5.000,00 para os primeiros luga-
de Estruturas, S. A. é a mais antiga ção, dispondo de quatro patentes res de ambas as categorias. A ceri-
empresa no sector da reabilitação de próprias. A fim de comemorar o seu mónia de entrega do prémio será
estruturas, tendo sido fundada no cinquentenário promove o Prémio realizada no Auditório do Centro
ano de 1958, em Lisboa. Inúmeros BEL, que irá distinguir estudos em de Congressos do Lagoas Park, em
foram os trabalhos realizados no duas categorias, “Reabilitação de Es- Porto Salvo, no dia 9 de Outubro de
âmbito do reforço de estruturas, dos truturas” e “Conservação e Restauro 2008, durante a sessão comemorati-
quais podemos destacar as interven- do Património Arquitectónico”. O va dos “50 anos da BEL”. Para mais
ções nas pontes da Arrábida e 25 de objectivo do prémio é incentivar a informações consultar www.bel.pt.
Abril, e na Central Termoeléctrica qualidade técnica do trabalho aca- 41
do Carregado. A empresa também démico e destina-se a estudantes RSB

40 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


NOTÍCIAS

Regime extraordinário de apoio à reabilitação urbana


O Orçamento de Estado do cor- ritmo de reabilitação, de maneira servação, a tributação de IRS ou IRC
rente ano introduz novos incentivos a integrar apoios de índole finan- com a taxa especial de 10%, entre
à reabilitação urbana. Trata-se do ceira e de origem fiscal. Neste sen- outros incentivos. As intervenções
“Regime Extraordinário de Apoio tido, o regime introduzido contem- que podem vir a beneficiar das referi-
à Reabilitação Urbana”, que prevê pla a isenção do imposto municipal das condições devem ter início entre
apoios fiscais às acções neste âmb- sobre imóveis (IMI), a tributação 1 de Janeiro de 2008 e 31 de Dezembro
ito. Segundo o governo, o actual reduzida de IVA de empreitadas de 2010, necessitando estar concluí-
cenário exige uma aceleração do de construção, reconstrução e con- das até 31 de Dezembro de 2012.

RSB

Formação da Comissão Coordenadora


do HERITY Portugal
envolvidas – visitantes, organismos Tomar. Também foi iniciado o pro-
de financiamento, decisores, ope- cesso de certificação da qualidade de
radores de turismo, entre outros gestão de alguns bens culturais por-
– dar o seu contributo à avaliação. tugueses, nomeadamente do Museu
No dia 11 de Março, em Mação, de Arte Pré-Histórica de Mação; do
foi criada uma estrutura nacional Castelo de Abrantes; da Biblioteca
do HERITY, coordenada por Jorge Municipal de Abrantes; do Centro
Rodrigues, assim como uma equipa Cultural de Vila Nova da Barquinha
Castelo de Abrantes de acompanhamento dos processos e do Centro de Interpretação de
Conforme noticiámos no último de certificação em Portugal, dirigida Arqueologia do Alto Ribatejo. A
número da Pedra & Cal, o HERITY por Vítor Teixeira. Além disto, foi iniciativa destes processos de certi-
é um sistema de classificação do inaugurada a Secretaria Nacional ficação foi das Câmaras Municipais
património adoptado à escala mun- do HERITY Portugal, sedeada no de Mação, Abrantes e Vila Nova da
dial, que permite a todas as partes CEIPHAR/Instituto Politécnico de Barquinha.
RSB

Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos celebra


protocolo com a Câmara Municipal de Arraiolos
Foi assinado no passado dia 2 de cício da profissão de arquitecto. Está Agenda XXI. Na cerimónia de cele-
Maio, no edifício dos Paços do inserida num ciclo de colaborações bração da parceria estiveram presen-
Concelho, o protocolo de coopera- entre a OASRS e as autarquias, que tes a presidente da Secção Regional
ção entre a Câmara Municipal de visa estreitar os laços entre estas Sul da Ordem dos Arquitectos,
Arraiolos e a Secção Regional Sul da instituições, tendo em vista a pre- arquitecta Leonor Cintra Gomes, o
Ordem dos Arquitectos (OASRS). servação do património, o plane- presidente da Câmara de Arraiolos,
A referida acção tem por objectivo amento do território, entre outras Jerónimo José Correia dos Lóios, e o
a sensibilização do cidadão para a áreas. Ressalta-se o compromisso presidente da Assembleia Municipal,
arquitectura, a promoção da política com o desenvolvimento sustentável, Joaquim António Páscoa.
municipal de arquitectura e o exer- nomeadamente no cumprimento da RSB

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 41


NOTÍCIAS

Dia Nacional dos Moinhos 2008


A Rede Portuguesa de Moinhos, dos nossos moinhos tradicionais”
dinamizada pelo molinólogo Jorge de vento, de água e de maré, os
Augusto Miranda, realizou em 6 e 7 proprietários de moinhos são con-
de Abril a iniciativa Moinhos Abertos vidados a mostrá-los por ocasião
2008 que permitiu o acesso do públi- do Dia Nacional dos Moinhos (que
co a 102 moinhos localizados em 13 se celebra anualmente a 7 de Abril).
distritos do Continente e também Para mais informações, consulte
nos Açores. Com “o objectivo de www.moinhosdeportugal.org.
chamar a atenção dos portugueses
para o inestimável valor patrimonial MBC

Arquivo da Associação Portuguesa


de Amigos dos Moinhos
A Associação Portuguesa de Amigos Após o falecimento do último em 1964-65, ao conjunto notável de
dos Moinhos (APAM) foi funda- Presidente da Direcção, em 2004, fichas de inventário de moinhos,
da em 1964 e desenvolveu profí- foram reunidos os materiais que ao conjunto de fotocópias de publi-
cua actividade em defesa dos moi- compunham o Arquivo da APAM cações que referem moinhos, e às
nhos e dos moleiros tradicionais e organizados com vista à sua pastas temáticas (moinhos de maré,
até finais da década de 1980. Foram doação a uma instituição ligada à Moinhos de Santana em Lisboa, etc.).
seus fundadores João Miguel dos molinologia que, simultaneamente, Sendo o Museu Nacional de Etno-
Santos Simões (1907-1973), alguns tivesse a capacidade de o dispo- logia (MNE) a instituição herdeira
membros do Centro de Estudos nibilizar para consulta pública. O do Centro de Estudos de Etnologia,
de Etnologia (Fernando Galhano Arquivo reveste-se de interesse para que foi pioneiro na investigação dos
e Ernesto Veiga de Oliveira) e os estudiosos da molinologia, espe- sistemas tradicionais de moagem
outras personalidades empenha- cialmente devido à bibliografia que em Portugal, e tendo o MNE a capa-
das na salvaguarda dos moinhos contém, aos documentos sobre a cidade de disponibilizar o Arquivo
de vento, de água, de maré, etc.. própria APAM, ao conjunto assi- da APAM para consulta pública, foi
A APAM organizou o 1.º Simpósio nalável de fotografias, ao inquéri- o Arquivo doado a esta instituição.
Internacional de Molinologia, reali- to enviado às Câmaras Municipais
zado em Lisboa e Cascais em 1965, MBC
e foi uma das instituições funda-
doras da Sociedade Internacional
de Molinologia (TIMS) que, desde
então, se tem dedicado ao estudo e
divulgação da molinologia em todo
o mundo. A APAM promoveu a rea-
bilitação dos Moinhos de Santana,
em Lisboa, e utilizou-os durante
anos para divulgar as técnicas tra-
dicionais de moagem de cereais.
Iniciou o inventário fotográfico dos
moinhos do continente, Açores e
Madeira, e editou, além de suces-
sivos boletins informativos, o livro
“Moinhos e Azenhas de Portugal”.
Promoveu numerosas iniciativas de
divulgação e preservação dos moi-
nhos, numa altura em que cada vez
mais esses engenhos eram abando-
nados ou a sua função transformada.

42 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


NOTÍCIAS

Fotografia e património arquitectónico:


memória e documento
No passado dia 9 de Maio, na gueses dos séculos XIX e XX enquan- cuja relevância importa documentar,
Fundação Calouste de Gulbenkian, to fonte documental para o estudo ou até mesmo como ensaio da reali-
em Lisboa, decorreu a conferência do património arquitectónico, diri- dade virtual e por fim, a fotografia
sob o tema: “Fotografia e património gindo-se a todos os profissionais e como forma de “propaganda”, de
arquitectónico: memória e documen- estudantes nas áreas da recuperação, transmissão de uma determinada
to”. Esta conferência enquadra-se valorização e gestão do património, mensagem cultural e política.
no ciclo “Património I Contextos” do planeamento e gestão territorial.
que aborda outras temáticas de Foram apresentadas várias interven- AGC
âmbito, escala e alcance diferencia- ções, algumas focaram a importância
dos, numa vertente essencialmente do registo da imagem como veículo
técnica, organizado pelo IGESPAR de informação/comunicação, inspi-
(Instituto de Gestão do Património ração e mesmo influência para a
Arquitectónico e Arqueológico). evolução da Arte, outras abordaram
A conferência teve como objectivo a questão da fotografia enquanto
promover o conhecimento e a divul- documento científico, de materiali-
gação de espólios fotográficos portu- zação e registo de objectos e acções

Terra 2008 no Mali


Leslie Rainer

Vila de Songho, Dogon Mesquita de Timbuctu Mesquita de Djenne

A 10.ª Conferência internacional Conservation Institute (EUA) e pelo o rico mas ameaçado património
sobre o estudo e conservação da Ministério da Cultura do Mali, em em terra da África sub-sahariana.
arquitectura de terra (“Terra 2008”) colaboração com o ICCROM, o Mereceu particular interesse a arqui-
realizou-se de 1 a 5 de Fevereiro, na Centro do Património Mundial e o tectura, por vezes majestosa, mas
cidade africana de Bamako, capi- ICOMOS, esta conferência debru- sempre surpreendente de Timbuctu,
tal do Mali. Organizada pelo Getty çou-se com especial atenção sobre de Djenné e da região de Dogon.

MBC

PARTICIPE!
Envie-nos a sua opinião ou comentário para:
Rua Pedro Nunes, n.º 27, 1.º Esq., 1050-170 Lisboa

ou via e-mail: info@gecorpa.pt

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 43


agenda

Pós-Graduação em Património
Religioso e Bens Culturais 5.º Congresso Luso-
-Moçambicano de
A partir do próximo ano lectivo a exten-
Engenharia
são de Lisboa da Escola das Artes da
Universidade Católica Portuguesa abri- Terá lugar entre os dias 2 e 4 de Setembro, em
rá dois novos cursos de Pós-Graduação Maputo, o “5.º Congresso Luso-Moçambicano de
na área do património. Os cursos Engenharia”, que tem como título “A Engenharia no
de “Iconografia Cristã” e “Têxteis e Combate à Pobreza, pelo Desenvolvimento e
Paramentaria” destinam-se sobretudo a Competitividade”. Diversos serão os temas aborda-
profissionais ligados à museologia, his- dos, incluindo diferentes campos da engenharia.
tória da arte, conservação e restauro, e Trata-se de uma iniciativa da Faculdade de Engenharia
contam com a possibilidade de estágios da Universidade do Porto, da Faculdade de
em diversas entidades que têm protoco- Engenharia da Universidade Eduardo Mondlane, da
los com a UCP. Ordem dos Engenheiros de Portugal e da Ordem dos
Engenheiros de Moçambique.
Informações:
Ed. Biblioteca, 5.º piso, Informações:
Palma de Cima Nuno T. Santos
1639 - 023 Lisboa Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
Tel.: 217 214 018 Rua Dr. Roberto Frias, s/n,
Fax: 217 214 287 4200 - 465 Porto, Portugal
E-mail: artes@ea.lisboa.ucp.pt http://paginas.fe.up.pt/clme/2008/
www.ea.lisboa.ucp.pt

9th International Congress Congresso Colours 2008


on Heritage and Building
Conservation Irá realizar-se, entre os dias 10 e 12 de Julho, no Colégio
do Espírito de Santo em Évora o Congresso “Colours
Ocorrerá entre os dias 9 e 12 de Julho, em Sevilha, o 2008”. Inserido no projecto “Pigmentos e práticas histó-
“9th International Congress on Heritage and Building ricas da Pintura Mural: caracterização dos materiais e
Conservation”. Terá como temas o património cultural e tecnologia da cor”, o congresso aborda a temática das
a inovação, e abordará questões como a inovação tecno- cores num âmbito multidisciplinar. A iniciativa é do
lógica e a multidisciplinaridade. Além disso, terão lugar Instituto de Museus e da Conservação (IMC) em con-
workshops e seminários. A organização do evento é da junto com a Universidade de Évora (UE), o Centro de
CICOP, do Instituto Andaluz do Património Histórico, Física Atómica da Universidade de Lisboa (CFAUL) e
do Patronato del Real Alcazar de Sevilla e do fórum a Faculdade de Arquitectura (FAUTL).
UNESCO - Universidade e Património (FUUP).
Informações:
Informações: http://www.ciul.ul.pt/~colour/
E-mail: congresso@cicop.com
http://www.cicop.com/congreso_08/home_eng.html

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 44


vida associativa

Assembleia Geral da
AEERPA em Lisboa
uma visita ao Palácio Nacional de
Mafra.
No que diz respeito à comunicação
proferida no dia 6, o presidente do
GECoRPA deu a conhecer o sistema
de qualificação de empresas e pro-
fissionais do sector. Assumindo a
especificidade da área de restauro e
Teve lugar, a 6 de Junho, no Ho- conservação do património, expôs- Visita ao Palácio de Mafra
tel Real Palácio, em Lisboa, a -se o malefício que empresas sem o
Assembleia Geral da AEERPA, devido conhecimento e experiência a conhecer as especialidades que
Association Européenne des podem causar ao património arqui- possuem. Além disto, o sistema
Emtreprises de Restauration du tectónico. Destarte, foi mostrada permite que novas empresas insi-
Patrimoine Arquitectural. uma sistematização que tem em ram os seus dados, tendo em vista
Nesta edição foi orador o presiden- conta os diferentes campos de actu- uma análise por parte da entidade
te do GECoRPA, Eng.º Vítor Cóias, ação dentro da área do património, certificadora, a fim de obter o reco-
que apresentou uma comunicação devendo as empresas estar especia- nhecimento das suas competências.
sobre o sistema de qualificação dos lizadas. É neste sentido que ressalta No fim da apresentação, a sessão
profissionais e das empresas para a o papel fundamental dos trabalha- foi aberta a intervenções da assis-
conservação do património arqui- dores, já que os recursos humanos tência. Assim, a comunicação foi
tectónico. A sessão pública abriu necessitam estar devidamente qua- enriquecida com um debate sobre
com a intervenção da arquitecta lificados para que as empresas pos- o livre mercado e a necessidade de
Andreia Galvão, vice-directora sam ter competências para actuar qualificação das empresas. Chegou-
do IGESPAR, I.P. e professora da em determinada área. -se à conclusão de que ambas não
Universidade Lusíada, que deu as A partir daí é possível criar um são excludentes, devendo a concor-
boas vindas aos convidados e res- sistema informático, disponível via rência pautar-se também em aspec-
saltou a importância da reabilita- Internet, com informação acerca das tos qualitativos.
ção urbana e do encontro. No dia competências das empresas e refe-
seguinte, os participantes fizeram rente aos trabalhadores, de maneira RSB

Prémio GECoRPA 2008


O prazo de entrega de candidatu-
ras para o prémio GECoRPA ter- GECoRPA nos Média
minou no passado dia 31 de Maio,
tendo sido recebidas 17 candida-
turas. Conforme referimos na edi-
ção anterior, o “Prémio GECoRPA
de Conservação e Restauro do
Património Arquitectónico” é desti-
nado a empresas com sede ou que
exerçam actividade em território
português, que sejam membros do
GECoRPA ou tenham experiência
relevante na área da conservação do
património arquitectónico. O objecti-
vo é promover a qualidade nas inter-
venções no âmbito da reabilitação e
restauro, respeitando as directrizes
da “Carta de Veneza” e da decla-
ração de princípios do GECoRPA.
in Revista “Materiais de Construção”,
RSB n.º 136, Março-Abril, 2008

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 45


e-pedra e cal
Tema de Capa

O aquário

Nos dias que correm, entende-se servação de edifícios, segundo o (http://en.wikipedia.org/wiki/


por lugar sagrado o objecto do conceito ocidental versus o orien- Image:The_Great_Wave_off_Kana-
nosso respeito, mas sem o “maça- tal. Desde logo nos apercebemos gawa.jpg) que foi de resto contem-
dor” peso cultural. Ou por outras da constante renovação, através da porâneo de Malhoa. Recentemente,
palavras: sem contexto e sem dra- substituição integral de peças enve- a propósito da passagem pelo Japão
mas. As massas definem os concei- lhecidas ou danificadas, por outra da tocha olímpica, a caminho de
tos e ao fazê-lo, empobrecem ainda novas, rigorosamente iguais na qua- Pequim, assistimos à recusa dos
mais os grandes pilares da indepen- lidade, dimensionamento e técnica monges budistas do templo Zenkoji,
dência intelectual. A cada ano que de construção, em oposição aos res- em sediar o início do revezamento
passa perdemos a guerra do léxico tauros ortodoxos que caracterizam da chama olímpica, em apoio dos
(a única que verdadeiramente se as boas intervenções Ocidentais. protestos tibetanos contra a China.
trava na obscuridade da ignorância Nos templos japoneses a ortodoxia Quando um objecto como um tem-
colectiva) e, mais invisual é aquele está na metodologia “guerreira” de plo budista se integra tão comple-
que não quer ver que o politicamente inspiração Sun Tsu, que teve tam- tamente na natureza que o rodeia,
correcto é precisamente a derradeira bém grande influência no Japão. A sem ter que recorrer aos estafados
arma anti-civilizacional. mística não se encontra na perso- rótulos da arquitectura bioclimática,
Tudo é igual ao seu contrário. A nalidade “animista” de cada peça/ é justo considerar integrado o supor-
ver: Fátima é um lugar sagrado, relíquia integrante do conjunto mas te integrante: a natureza funde-se
a Liberdade é um “lugar” sagra- no conjunto em si, que se perpetua com o edifício que a integra, porque
do e o estádio do “glorioso” é um em infinitos ciclos de rejuvenesci- estão em sintonia. Poderemos então
lugar sagrado. Todos são sagrados mento. É um conceito de reabilita- verdadeiramente considerar o nosso
na justa medida da fé que um povo ção muito interessante e diferente planeta azul como um único lugar
inteiro põe no Euro 2008, para miti- do nosso. É também riquíssimo em sagrado a conservar enquanto é
gar a sua desesperança no futuro. tradições. Sustenta orgulhosamente tempo… porque a Terra não é reabi-
Dei meia volta ao Mundo (pela net) técnicas de conservação ancestrais litável (pelo menos no nosso tempo).
à procura de um lugar sagrado que e como não necessita de justificar Termino parafraseando Adriana
se pudesse considerar como patri- qualquer tipo de actualização tecno- Jurczyk Duarte (Jornal “Expresso”
mónio edificado sagrado e reabilitá- lógica, ganha com o tempo a riqueza de 31 de Maio de 2008, p. 45) que,
vel. Encontrei (nas antípodas) luga- cultural que só o passar de milénios citando Lech Walesa, afirmava ser
res sagrados definidos ainda pelo empresta à arte. mais fácil fazer uma sopa de peixe
rigor oriental. Os templos budistas José Malhoa (http://www1.ci.uc.pt/ de um aquário, do que fazer um
e xintoístas japoneses encontram- artes/6spp/imagens/malhoa-praia_ aquário de uma sopa de peixe.
-se entre os mais sagrados signos, das_macas-1a.jpg) herdou uma cul-
representantes do equilíbrio e refle- tura poética “Zen”, formada a partir
xo da harmonia na terra e no céu da moda estabilizada pelos séculos
(http://madeinjapan.uol.com.br/- – Eco (em italiano: eis) o acne juve-
2006/01/03/viagem-aos-templos- nil de uma civilização. O Tempo…
japoneses/). onde está hoje em dia o nosso Monte
ANTÓNIO PEREIRA COUTINHO,
É interessante comparar a aborda- Fuji, magistralmente dissimulado na
Arquitecto
gem geral da reabilitação e con- Grande Onda de Hokusai? Hokusai

46 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


LIVRARIA

Outros títulos à venda


novidades na Livraria GECoRPA
Climatização. Concepção, instalação e condução de sistemas

Autor: Luis Roriz Reabilitação Estrutural de Edifícios


Neste livro é feita uma abordagem dos sistemas de AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Antigos - Técnicas Pouco Intrusivas
Condicionado) tendo sido seguida a sequência natural do que terá lugar ao longo da vida de uma
instalação. Nele estão contidas informações teóricas e práticas necessárias aos profissionais que traba- Autor: Vítor Cóias
lham no domínio das instalações de AVAC. Sequencialmente são tratados os aspectos gerais associa- Edição: GECoRPA /
dos aos sistemas de AVAC necessários a ter em conta no projecto de um sistema de climatização, por Argumentum
forma a que possa ser instalado o sistema adequado ao fim em vista: a concepção do sistema, a escolha Preço: € 45,00
das características do equipamento a instalar, a escolha e a utilização de programas de simulação quer 10 % desconto – € 40,50
para o dimensionamento do sistema de AVAC quer para a previsão do consumo energético, os cuida- Código: GE.M.2
dos a ter na execução da obra e os princípios a seguir na condução e manutenção dos sistemas.
Complementarmente, este livro serve de guia aos que pretendem iniciar os seus conhecimentos sobre os sistemas, equipa-
mentos e acessórios que constituem as instalações de AVAC. O livro inclui uma breve revisão dos conceitos e dos princípios
básicos da termodinâmica e da transmissão de calor necessários na actividade técnica em AVAC bem como a descrição dos
principais ciclos frigoríficos de compressão de vapor e de absorção e a descrição das evoluções psicrométricas que têm lugar
nos sistemas de AVAC.
O livro inclui ainda informação complementar, necessária ao ar condicionado, relativa aos fluidos frigorigéneos, à iluminação
e seus efeitos na climatização, bem como normas e legislação aplicáveis ao AVAC, tal como a recente regulamentação sobre Avaliação do Património
edifícios, publicada em 2006, anotada, de forma a permitir ao leitor uma melhor compreensão do texto desses regulamen-
tos. Autor: António Cipriano
Além de experiência no ensino destas matérias, os autores deste livro possuem uma larga experiência profissional cobrindo Afonso Pinheiro
os diferentes aspectos compreendidos no sector de AVAC: selecção/importação de equipamento, projecto, instalação, con- Edição: Edições Sílabo
dução e manutenção. Preço: € 16.30
Código: SIL.E.2
Edição: Edições Orion
Preço: € 40.00
Código: OR.E.4

Ordens Religiosas em Portugal. Das Origens a Trento


Sais solúveis em argamassas de edifícios
Autor: Bernardo Vasconcelos e Sousa antigos. Danos, processos e soluções
“Consciente da importância que as ordens religiosas tiveram nos mais variados aspectos da história
medieval de Portugal, não posso deixar de me regozijar pela publicação deste Guia. Estou firmemente
convencido que prestará serviços inestimáveis tanto a historiadores como a investigadores interessa- Autor: Vários Autores
dos na conservação do património e no estudo da história local. Trata-se de um Guia que reúne infor- Edição: LNEC
mações de base com indicações do que o leitor, desejoso de saber mais, precisa de ter em conta para Preço: € 25.00
avançar com segurança nas suas pesquisas. Também estou em condições privilegiadas para poder Código: LN.E.17
recomendar uma obra cujos méritos sei apreciar com objectividade, porque conheço as numerosas
dificuldades que os seus autores tiveram de vencer e posso garantir as suas qualidades de rigor e de
crítica, no trabalho que têm vindo a desenvolver”. José Mattoso

Edição: Livros Horizonte


Preço: € 39.90
Código: HT.G.2

A Baixa Pombalina - Passado e Futuro


Rio Côa - A Arte da Água e da Pedra
Autor: Maria Helena Ribeiro
Autor: Nuno de Mendonça dos Santos
O livro documenta uma viagem de investigação realizada a pé, ao longo do rio, pelo pro- Edição: Livros Horizonte
fessor Nuno de Mendoça e os seus alunos de Arquitectura Paisagista. Este primeiro volume Preço: € 19.90
que agora é dado a conhecer ao público cobre o troço da nascente ao Moinho da Ervaginha, Código: HT.E.27
a poente de Vale de Espinho.
É um livro que respira do melhor que pode existir no espírito académico, movido pelo desejo de sair para o terreno ao encon-
tro dos sinais da presença humana de outrora, nos vales e no leito do rio. Sustentando-se numa metodologia criteriosa de
observação e análise somos apresentados a uma paisagem notável onde se foram estabelecendo os sinais da acção do homem,
num diálogo com uma ruralidade carregada de saber arcaico. A viagem leva-nos a descobrir antigas presas, muros, diques,
registados com fotografias e um denso trabalho de desenho de grande qualidade artística e conteúdo interpretativo.
O relato da jornada é cheio de surpresas. Entre avanços e paragens descobrimos pequenos povoados e aldeias, documentan-
do-se a sua relação com o rio; o casario na meia encosta abrigada dos ventos, o moinho mais abaixo e as áreas mais férteis Manual de Segurança - Construção,
junto ao leito. Por vezes laboriosos sistemas de rega desenham a paisagem; noutras somos confrontados com um cuidadoso Conservação e Restauro de Edifícios
trabalho de arte da pedra usado na consolidação das margens.
O relato da jornada faz-se acompanhar de observações e registos de diálogo com as gentes locais. Confronta-nos por vezes
com reflexões sobre o território percorrido e as transformações que vem sofrendo; o fino balanço entre a natureza e a introdu- Autor: Abel Pinto
ção abrupta de processos que lhe são hostis. É também um livro sobre a perda de uma memória e a urgência de a recuperar, Edição: Edições Sílabo
em prejuízo de formas de património menos fáceis de classificar mas profundamente entranhadas no saber que conduziu a Preço: € 29,90
nossa acção durante séculos. Código: SIL.M.1

Edição: Casa do Sul Editora / Centro de História da Arte da Universidade de Évora


Preço: € 14.00
Código: CS.E.4

Lisboa: o que o turista deve ver

Autor: Fernando Pessoa Sobre as origens da perspectiva em Portugal


A publicação deste inédito de Fernando Pessoa revela um texto que, ao contrário da maior parte dos
seus inéditos, estava completo, dactilografado e pronto para ser publicado. Trata-se de um guia de Autor: João Pedro Xavier
Lisboa, o Universo fundamental de Pessoa a que chama o seu “lar”, escrito em inglês, propositada- Edição: FAUP
mente turístico, despojado de retórica, onde se percorre todo o património importante da cidade, seja
Preço cartonado: € 59,00
ele arquitectónico, artístico, intelectual ou de puro lazer.
É um prazer renovado visitar Lisboa pela mão do grande poeta e verificar que, apesar dos anos que Preço brochado: € 37,50
passaram e de todas as alterações urbanas, ainda podemos desfrutar esse prazer de passear pelas ruas Código: FAUP.EN.1
melancólicas da cidade branca e reconhecer os locais de que ele fala. Este guia, provavelmente datado
de 1925, inseria-se num amplo projecto de publicações a editar por Pessoa para dignificar Portugal, que ele considerava
“descategorizado” face à civilização europeia e, no caso presente, dignificar a sua capital.

Edição: Livros Horizonte


Preço: € 10.37
Código: HT.G.1

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Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 47


LIVRARIA

CD-ROM
Pedra & Cal
5 Anos (1998 - 2003)

Assinatura
anual da
Pedra & Cal
N.º 34, Abr./Mai./Jun. 2007 N.º 35, Julho/Ago./Set. 2007 N.º 36, Out./Nov./Dez. 2007 N.º 37, Jan./Fev./Mar. 2008
Preço: € 4,48 Preço: € 4,48 Preço: € 4,48 Preço: € 4,48
Código: P&C.34 Código: P&C.35 Código: P&C.36 Código: P&C.37

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de 4 números
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N.º 23, Julho/Ago./Set. 2004
Preço: € 4,48
N.º 24, Out./Nov./Dez. 2004
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N.º 25, Jan./Fev./Mar. 2005
Preço: € 4,48
N.º 28, Out./Nov./Dez. 2005
Preço: € 4,48
à sua escolha
Código: P&C.23 Código: P&C.24 Código: P&C.25 Código: P&C.28

Nota: Os números 0, 1, 2, 4, 5, 6, 7 e 13 da Pedra & Cal encontram-se esgotados, contudo informamos que se encontram reunidos no
CD-ROM Pedra & Cal - 5 Anos (1998-2003), à venda na Livraria GECoRPA. Os números 25, 26 e 27 estão de momento indisponíveis.

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(**) Ao valor de cada livro deverão ser acrescentados € 3,64 para portes de correio. Por cada livro adicional deverá somar-se a quantia de € 0,70.
Quanto aos números da Pedra&Cal já publicados, os portes de correio fixam-se em € 1,20. Para mais informações, consulte as Condições de Venda na Livraria Virtual.
FORMA DE PAGAMENTO: o pagamento deverá ser efectuado através de cheque à ordem de GECoRPA, enviado juntamente com a nota
de encomenda para Rua Pedro Nunes , n.º 27, 1.º Esq.º 1050-170 Lisboa.

48 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


ASSOCIADOS GECoRPA

Grupo I
A. da Costa Lima, Fernando Ho,
Projecto, Francisco Lobo e Pedro Araújo Betar – Estudos e Projectos
– Arquitectos Associados, Ld.ª de Estabilidade, Ld.ª LEB – Projectistas, Designers
fiscalização Projectos de conservação e restauro Projectos de estruturas e fundações e Consultores em Reabilitação
do património arquitectónico. para reabilitação, recuperação de Construções, Ld.ª
e consultoria Projectos de reabilitação, recuperação e renovação de construções Projecto, consultoria e fiscalização
e renovação de construções antigas. antigas e conservação e restauro na área da reabilitação
Estudos especiais do património arquitectónico. do património construído.

PENGEST – Planeamento,
Engenharia e Gestão, S. A.
Projectos de conservação e restauro
do património arquitectónico.
Projectos de reabilitação,
recuperação e renovação de
construções antigas. Gestão,
Consultadoria e Fiscalização.

Grupo II
Levantamentos,
ERA – Arqueologia - Conservação
inspecções e Gestão do Património, S. A. OZ – Diagnóstico, Levantamento
Conservação e restauro de estruturas e Controlo de Qualidade
e ensaios arqueológicas e do património de Estruturas e Fundações, Ld.ª
arquitectónico. Inspecções e ensaios. Levantamentos. Inspecções e ensaios
Levantamentos. não destrutivos. Estudo e diagnóstico.

Grupo III
Execução
A. Ludgero Castro, Ld.ª
dos trabalhos Consolidação estrutural.
Construção e reabilitação de edifícios.
Empreiteiros Conservação e restauro de bens Alfredo & Carvalhido, Ld.ª Alvenobra – Sociedade
artísticos e artes decorativas: de Construções, Ld.ª
e Subempreiteiros estuques, talha, azulejaria,
Conservação e restauro do património
arquitectónico. Conservação Reabilitação, recuperação e renovação
douramentos e policromias murais. e reabilitação de construções antigas. de construções antigas.

BEL – Engenharia e Reabilitação


Amador – Construção Civil Augusto de Oliveira de Estruturas, S. A.
e Obras Públicas, Ld.ª Ferreira & Cª., Ld.ª Conservação e restauro do PA. Construções Borges & Cantante, Ld.ª
Conservação , restauro e reabilitação Conservação reabilitação de edifícios. Reabilitação, recuperação Construção de edifícios.
do património construído Cantarias e alvenarias. Pinturas. e renovação de CA. Instalações Conservação e reabilitação
e instalações especiais. Carpintarias. especiais em PA e CA. de construções antigas.

Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008 49


ASSOCIADOS GECoRPA

Cruzeta – Escultura e Cantarias,


COPC – Construção Civil, Ld.ª Restauro, Ld.ª CVF – Construtora
Construção de edifícios. Conservação e reabilitação de Vila Franca, Ld.ª
Conservação e reabilitação de construções antigas. Limpeza Conservação de rebocos e estuques. Edifer Reabilitação, S. A.
de construções antigas. Recuperação e restauro de cantarias, alvenarias Consolidação estrutural. Carpintarias. Construção, conservação
e consolidação estrutural. e estruturas. Reparação de coberturas. e reabilitação de edifícios.

MIU – Gabinete Técnico


de Engenharia, Ld.ª Monumenta – Conservação
Empripar – Obras Públicas Construção, conservação e Restauro do Património
e Privadas, S. A. e reabilitação de edifícios. Arquitectónico, Ld.ª
Conservação e restauro do PA. Conservação e reabilitação Conservação e reabilitação
Reabilitação, recuperação e L.N. Ribeiro Construções, Ld.ª de património arquitectónico. de edifícios. Consolidação estrutural.
renovação de CA. Instalações Construção e reabilitação. Conservação de rebocos Conservação de cantarias
especiais em PA e CA. Construção para venda. e estuques e pinturas. e alvenarias.

NaEsteira – Sociedade de
Urbanização e Construções, Ld.ª
Conservação e restauro do PA. Quinagre – Construções, S. A. Somafre – Construções, Ld.ª
Reabilitação, recuperação Poliobra – Construções Civis, Ld.ª Construção de edifícios. Construção, conservação
e renovação de CA. Instalações Construção e reabilitação de Reabilitação. Consolidação e reabilitação de edifícios.
especiais em PA e CA. edifícios. Serralharias e pinturas. estrutural. Serralharias. Carpintarias. Pinturas.

STAP – Reparação, Consolidação


e Modificação de Estruturas, S. A.
Somague – Engenharia S. A. Reabilitação de estruturas de
Serviço de Engenharia Global betão. Consolidação de fundações.
– Obras Públicas e Construção Civil. Consolidação estrutural.

50 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008


ASSOCIADOS GECoRPA

Grupo IV
Fabrico e/ou
distribuição
de produtos ONDULINE – Materiais Tintas Robbialac, S. A. Tecnocrete – Materiais e Tecnologias
de Construção, S. A. Produção e comercialização para a Reabilitação Estrutural, Ld.ª
e materiais Produção e comercialização de produtos de base inorgânica Produção e comercialização
de materiais para construção. para aplicações não estruturais. de materiais para a reabilitação.

Para mais informações acerca dos associados GECoRPA, das suas actividades e dos seus contactos,
visite a rubrica “associados” no nosso sítio www.gecorpa.pt

Pedra & Cal n.º 37 Janeiro . Fevereiro . Março 2008 51


PERSPECTIVAS
Tema de Capa

Património religioso e não só


O caso exemplar da diocese de Beja

DHADB tem feito sentir a sua acção Com as perspectivas assim abertas
por todo o Baixo Alentejo, num tra- pela nova Associação, a experiência
balho exemplar de natureza muito e a idoneidade que caracterizam o
diversificada. Aliando uma elevada trabalho do DHADB pode alargar-se a
competência técnica e artística a uma outros concelhos, contribuindo pode-
pertinaz atenção a todos os problemas rosamente para a preservação e rea-
que afectam o património religioso, bilitação do muitas vezes esquecido,
esse trabalho tem já servido de estí- ou mesmo abandonado, património
mulo a outras dioceses, onde acções do Alentejo.
semelhantes começaram a ter lugar. Aqui fica um exemplo do muito que
O Departamento, que tem à sua conta se pode fazer, no domínio da preser-
cerca de 500 igrejas históricas e coor- vação, recuperação e valorização do
dena uma rede de 7 museus dioce- património, despertando a sociedade
sanos, levou a cabo o inventário do civil para assumir uma acção suple-
património cultural religioso do Baixo tiva relativamente ao Estado. E isto,
Alentejo, abrangendo mais de 200 mil tanto ao nível dos órgãos da adminis-
obras de arte, ainda hoje conservadas tração central, como do poder local.
em igrejas, mosteiros e conventos. De facto, criou-se no nosso país uma
Por todo este meritório trabalho, foi- cultura que faz defender toda essa
lhe atribuída a medalha do prémio responsabilidade dos recursos públi-
Europa Nostra 2004 na categoria de cos, os quais, como tem sucedido em
Ao longo dos últimos anos, notícias “contributo exemplar para a preserva- várias épocas, de que a actualidade é
veiculadas pelos órgãos de informa- ção do património”. um gritante exemplo, são muito limi-
ção, têm dado conta da notória acti- Recentemente, alargou ainda a sua tados. Constantemente, temos notí-
vidade exercida pelo Departamento actividade, ao criar, em parceria cias de que obras que foram iniciadas
Histórico e Artístico da Diocese de com a Câmara Municipal de Beja, a encontram-se suspensas e de que até
Beja1 na preservação do rico patri- Associação Portas do Território. Esta monumentos de grande importância
mónio religioso da região. Este orga- associação destina-se a promover, por têm as portas fechadas ao público.
nismo, criado em 1984 por iniciativa um lado, obras de preservação e recu- A acção da diocese de Beja fica aqui
do antigo bispo D. Manuel Falcão e peração em vários edifícios na área do registada, exactamente para mostrar
dirigido pelo arquitecto José António município e, por outro, a criar condi- como tais limitações podiam ser supe-
Falcão, tem-se desdobrado numa ções para abrir ao público alguns que, radas com uma tomada de consciên-
série de acções da maior importância por limitações financeiras, têm estado cia do conjunto da sociedade relati-
na defesa de um património muito encerrados. vamente a um património que é de
disperso e com frequência votado ao Ao referir-se a esta iniciativa, o res- todos.
abandono. ponsável pelo Departamento acen-
NOTA
Desde iniciativas destinadas a sal- tuou que a nova associação está aberta 1
www.diocese-beja.pt
vaguardar imagens e interiores de a outros organismos e entidades liga-
pequenas capelas rurais que eram das às várias vertentes do património
alvo de roubos e depredações, até histórico e religioso, e até ao sector
NUNO TEOTÓNIO PEREIRA,
intervenções de natureza construti- privado, nomeadamente os proprietá-
Arquitecto
va para preservação dos edifícios, o rios de antigas casas senhoriais.

52 Pedra & Cal n.º 38 Abril . Maio . Junho 2008